Você está na página 1de 35

PROGRAMA DE EDUCAÇÃO CONTINUADA A DISTÂNCIA

Portal Educação

CURSO DE
FUNDAMENTOS SOBRE A
PSICANÁLISE LACANIANA

Aluno:

EaD - Educação a Distância Portal Educação

AN02FREV001/REV 4.0

1
CURSO DE
FUNDAMENTOS SOBRE A
PSICANÁLISE LACANIANA

MÓDULO I

Atenção: O material deste módulo está disponível apenas como parâmetro de estudos para este
Programa de Educação Continuada. É proibida qualquer forma de comercialização ou distribuição
do mesmo sem a autorização expressa do Portal Educação. Os créditos do conteúdo aqui contido
são dados aos seus respectivos autores descritos nas Referências Bibliográficas.

AN02FREV001/REV 4.0

2
PROGRAMA DE EDUCAÇÃO CONTINUADA A DISTÂNCIA

SUMÁRIO

MÓDULO I
1 INTRODUÇÃO À PSICANÁLISE
1.1 OBJETIVO E IMPORTÂNCIA DA PSICANÁLISE
1.2 NORMALIDADE E PATOLOGUA NA CONCEPÇÃO PSICANALÍTICA
1.3 APARELHO PSÍQUICO
1.3.1 Primeiro Tópico: Estrutura Psíquica
1.3.2 Segundo Tópico: Estrutura da Personalidade
1.3.3 O Superego e o Sentimento de Culpa
1.3.4 O Desenvolvimento Psicossexual
1.3.5 Processo Primário e Secundário
1.3.6 Ansiedade
1.3.7 Impulsos Sexuais e de Autoconservação
1.3.8 Os Principais Mecanismos de Defesa
1.3.9 Operações de Defesa
1.4 AS PRINCIPAIS TÉCNICAS UTILIZADAS NA ABORDAGEM PSICANALÍTICA
1.4.1 Associação Livre
1.4.2 Interpretação dos Sonhos
1.4.3 Simbologia dos Sonhos
1.4.4 Tipos de Sonho
1.4.5 Elementos do Sonho
1.4.6 Transferência
1.4.7 Tipos de Transferências
1.4.8 A Transferência e o Completo de Édipo
1.4.9 Contratransferência
1.4.10 Histórico da Hipnose
1.4.11 Conceito de Hipnose
1.4.12 A Hipnose na Aplicação Clínica
1.5 A PSICOTERAPIA PSICANALÍTICA

AN02FREV001/REV 4.0

3
1.5.1 Conceito de Psicoterapia Psicanalítica
1.5.2 Funcionamento da Psicoterapia
1.5.3 Benefícios
1.5.4 Confidencialidades na Psicoterapia
1.5.5 A Diferença entre a Formação do Psicoterapeuta e do Psicanalista

MÓDULO II
2 JACQUES LACAN
2.1 BIOGRAFIA (1901 – 1981)
2.2 AVANÇO OU CRÍTICA NAS CONCEPÇÕES FREUDIANAS?
2.3 OS PRINCIPAIS SEMINÁRIOS DE LACAN
3 FUNDAMENTOS DA TEORIA LACANIANA
3.1 A TEORIA DOS MATEMAS
3.2 OS REGISTROS PSÍQUICOS: SIMBÓLICO, IMAGINÁRIO E REAL
3.2.1 Críticas aos Conceitos de Lacan
3.2.2 Os Diferentes Modos de Gozo Segundo Lacan
3.2.3 O Gozo pelo Viés do Objeto “A”
3.2.4 O Desejo Lacaniano
3.2.5 A Relação entre Desejo e Pulsão na Abordagem Lacaniana
3.2.6 O Estádio do Espelho
3.2.7 As Fases da Primeira Infância
3.2.8 Alienação e Separação
3.2.9 O Enfraquecimento da Função Paterna
4 O SUJEITO DO INCONSCIENTE
4.1 O “OUTRO” NA PERSPECTIVA DO INCONSCIENTE
4.2 A RELAÇÃO TRANSFERENCIAL E O SUJEITO SUPOSTO SABER
4.3 O REGISTRO IMAGINÁRIO
4.4 A FANTASIA
4.5 METONÍMIA E METÁFORA
5 O CONCEITO DE A POSTERIORI
6 CONDENSAÇÃO E DESLOCAMENTO

AN02FREV001/REV 4.0

4
MÓDULO III
7 AS CLÍNICAS: ESTRUTURALISTA E BORROMEANA
7.1 A CLÍNICA ESTRUTURALISTA
7.2 A CLÍNICA BORROMEANA “O SINTOMA”
8 ESTRUTURAS CLÍNICAS: NEUROSE, PSICOSE E PERVERSÃO
8.1 CONCEITO DE NEUROSE
8.2 CLASSIFICAÇÃO DOS TRANSTORNOS NEURÓTICOS
8.2.1 Transtorno de Pânico
8.2.2 Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC)
8.2.3 Histeria
8.3 CONCEITO DE PSICOSE
8.3.1 Caraterísticas e Sintomas Típicos da Psicose
8.3.2 Classificação da Psicose
8.3.2.1 Paranoide
8.3.2.2 Esquizofrenia
8.3.2.3 Transtorno bipolar
8.3.2.4 Melancolia
8.3.2.5 Depressão
8.3.3 Perversão ou Perversidade
8.3.4 Caraterísticas e Sintomas da Perversão
8.3.5 Classificação da Perversão
8.3.5.1 Psicopatia
8.3.5.2 Toxicomania
8.4 O ANALISTA LACANIANO FRENTE À CLÍNICA DA PSICOSE
8.5 O PROCESSO PSICANALÍTICO LACANIANO
8.5.1 O Setting Psicanalítico
8.5.2 O Diagnóstico Estrutural
8.6 A TRANSFERÊNCIA NA CONCEPÇÃO LACANIANA
8.7 O MÉTODO PSICANALÍTICO LACANIANO

MÓDULO IV
9 COMPLEXO DE ÉDIPO

AN02FREV001/REV 4.0

5
9.1 ÉDIPO NA ENCRUZILHADA
9.2 O COMPLEXO DE ÉDIPO FREUDIANO
9.3 O IDEAL DE EGO
9.4 O SUPEREGO COMO HERDEIRO DO COMPLEXO DE ÉDIPO
9.5 TOTEM E TABU
9.6 A CASTRAÇÃO E O COMPLEXO DE ÉDIPO
9.7 A CASTRAÇÃO COMO UMA OPERAÇÃO SIMBÓLICA
9.8 O COMPLEXO DE ÉDIPO LACANIANO
9.9 O COMPLEXO DE ÉDIPO E A METÁFORA PATERNA
10 PERSPECTIVA SOBRE A NOÇÃO DE SUBJETIVIDADE
10.1 O SUJEITO FREUDIANO
10.2 O SUJEITO LACANIANO
10.3 O SUJEITO HISTÓRICO-SOCIAL
10.4 A PRODUÇÃO DE SENTIDOS
11 NARCISISMO
11.1 O DESENLACE TRÁGICO DE NARCISO
11.2 O AMOR A PARTIR DO NARCISISMO
11.3 O NARCISISMO PATOLÓGICO
11.4 CONCEITO DE NARCISISMO
11.5 O NARCISISMO FREUDIANO
11.6 NARCISISMO PRIMÁRIO E SECUNDÁRIO
1.7 O NARCISISMO LACANIANO
12 UMA PERCEPÇÃO LACANIANA SOBRE AS VICISSITUDES DO AMOR

MÓDULO V
13 O AUTISMO NA ABORDAGEM PSICANALÍTICA
13.1 CONCEITO DE AUTISMO
13.2 CARATERÍSTICAS LINGUÍSTICAS E COGNITIVAS
13.3 CARATERÍSTICAS COMPORTAMENTAIS
13.4 INCIDÊNCIAS DO AUTISMO
13.5 PROVÁVEIS CAUSAS
13.6 CRITÉRIOS DE DIAGNÓSTICO

AN02FREV001/REV 4.0

6
13.7 EQUIPE MULTIDISCIPLINAR
13.8 INTERVENÇÕES TERAPÊUTICAS
13.9 ESCALAS DE AVALIAÇÃO
14 CONHECENDO A METODOLOGIA TEACCH
15 A CLÍNICA PSICANALÍTICA INFANTIL
15.1 A FALHA NA RELAÇÃO MATERNA
15.2 O AUTISMO NA VISÃO PSICANALÍTICA
15.3 A DISTINÇÃO ENTRE PSICOSE E AUTISMO
15.4 O PROCESSO DE AJUDA
15.5 A CLÍNICA DO AUTISMO
15.6 A FUNÇÃO DO PSICANALISTA LACANIANO
16 OS PRINCIPAIS MÉTODOS UTILIZADOS NA TERAPIA INFANTIL E NO
CONTEXTO ESCOLAR
16.1 A LUDOTERAPIA
16.2 AS CONTRIBUIÇÕES DO LÚDICO PARA A APRENDIZAGEM
16.3 AS BRINCADEIRAS DE FAZ DE CONTA
16.4 O JOGO NO DESENVOLVIMENTO DA LINGUAGEM, SOCIABILIDADE E
APRENDIZAGEM
16.5 A MUSICOTERAPIA
17 O EDUCADOR E A PSICANÁLISE INFANTIL
17.1 O JOGO DE ESPELHO EM SALA DE AULA
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AN02FREV001/REV 4.0

7
MÓDULO I

1 INTRODUÇÃO À PSICANÁLISE

A Psicanálise é uma disciplina científica instituída por Sigmund Freud. A


teoria psicanalítica é, portanto, um conjunto de hipóteses a respeito do
funcionamento e do desenvolvimento da mente humana. A disciplina não é vista
como sendo parte da Psicologia, mas como uma ramificação do conhecimento.
O termo Psicanálise é usado para se referir à teoria, a um método de
investigação empírica e à prática psicoterapêutica. A teoria caracteriza-se por um
conjunto de conhecimentos sistematizados sobre o funcionamento da psique
humana. O método de investigação empírica refere-se aos conjuntos de significados
expressos por meio de ações, palavras e produções imaginárias, como: sonhos,
delírios, associação livre, atos falhos. A psicoterapia ou prática psicoterapêutica
refere-se à forma de tratamento, “a análise” que busca o autoconhecimento e o
autodesenvolvimento do sujeito.
O objetivo da Psicanálise é descobrir os elementos inconscientes antes
inacessíveis, de modo que se possa lidar com eles. Os elementos inconscientes só
podem ser compreendidos à medida que a energia do indivíduo é liberada. A
Psicanálise consiste, fundamentalmente, no emprego de dois tipos de análise: de
processo e de conteúdo. Vejamos:

1. Análise de processo: fornece informações sobre as atitudes e os


valores subjacentes do paciente.
2. Análise de conteúdo: usa as características superficiais da
comunicação interpessoal paciente-analista para inferir certas
determinantes subjacentes no comportamento manifesto.

Sigmund Freud desenvolveu várias técnicas psicoterapêuticas para tratar a


neurose. O objetivo era descobrir os conflitos inconscientes destes pacientes
utilizando-se de técnicas como: associação livre, análise de resistência,

AN02FREV001/REV 4.0

8
interpretação dos sonhos, transferência, hipnose. Estas técnicas serão apresentadas
ao longo do texto.
Todos os métodos psicanalíticos foram elaborados para auxiliar o paciente
na percepção do seu comportamento. O psicanalista ajuda o paciente a
compreender os tipos de insights e resolver os conflitos. À medida que as
resoluções ocorrem, padrões de comportamentos inaceitáveis vão sendo
substituídos por comportamentos e emoções mais adaptativos.
Estimular o insight e criar condições favoráveis ao bom vínculo terapêutico é
o principal modo pelo qual se provoca a mudança na terapia psicanalítica. Dessa
maneira, todas as psicoterapias incluídas na tradição psicanalítica enfatizam a
importância da relação terapeuta-paciente e, nesse contexto, tentam levar o
paciente a compreender seus próprios sentimentos.

1.1 OBJETIVO E IMPORTÂNCIA DA PSICANÁLISE

A psicanálise foi fundada no século XIX por Freud e este partiu da


importância das motivações na formação e no desenvolvimento da
personalidade. Sem dúvida, Freud foi o teórico mais influente no campo da
personalidade, visto que a sua teoria foi a primeira a ser formulada e, ainda
hoje, é considerada como a mais completa e original. (CASTELLÃO, 1993,
p. 26).

Mesmo os críticos admitem que as teorias de Freud exerceram forte


influência na formação de outras linhas de pensamento. A maior contribuição de
Freud para o estudo da personalidade residiu no conceito de inconsciente. O
objetivo era explicar os processos inconscientes e criar uma teoria que elucidasse os
fenômenos advindos destes processos.

AN02FREV001/REV 4.0

9
1.2 NORMALIDADE E PATOLOGUA NA CONCEPÇÃO PSICANALÍTICA

A teoria psicanalítica se interessa tanto pelo funcionamento mental normal


como pelo patológico. A prática da Psicanálise consiste no tratamento de pessoas
portadoras de doenças mentais, mas as teorias psicanalíticas se referem tanto ao
normal quanto o anormal.
Normal e patológico, nessa perspectiva, são da mesma natureza e diferem
somente em termos quantitativos. Segundo Bock e Texeira (2001), todas as formas
de manifestação da neurose têm sua origem na vida infantil, mesmo quando se
manifestam mais tarde, desencadeadas por vivências, situações conflitivas, etc. A
neurose está associada aos conflitos de ordem sexual.
Na concepção freudiana, a doença psíquica pode ser entendida como uma
ruptura do equilíbrio emocional e o patológico como sendo uma perturbação
exagerada do indivíduo com relação à realidade. A Psicanálise freudiana
considerava a neurose ora como normalidade, ora como patologia grave. Quando os
sintomas apontavam um desequilíbrio emocional no indivíduo a neurose era
considerada patológica. E quando os sintomas apontavam para a sexualidade a
neurose era considerada normal.
Jacques Lacan (1955-1956) percebeu certa confusão entre os conceitos de
normalidade e patologia. Ao discernir a diferença entre as estruturas, desfez essa
dúvida sobre a neurose como patologia. Descreveu as categorias clínicas como:
neurose, psicose e perversão, que serão apresentadas no módulo III.
A clínica das estruturas é a primeira abordagem de Lacan, em que são
apresentadas: o simbólico, o outro e o desejo. Na sua segunda abordagem são
expostos o real e o gozo. Para Lacan, o pathos significa uma problemática com o
gozo, que o sintoma tenta controlar.

AN02FREV001/REV 4.0

10
FIGURA 1

FONTE: Banco de imagens da Microsoft Office, 2012.

1.3 APARELHO PSÍQUICO

O aparelho psíquico refere-se ao modelo concebido por Freud para explicar


a estrutura e o funcionamento da mente humana.

1.3.1 Primeiro Tópico: Estrutura Psíquica

A) Pré-consciente & Inconsciente

AN02FREV001/REV 4.0

11
FIGURA 2

FONTE: Banco de imagens da Microsoft Office, 2012.

Na base funcional, Freud (1913) estabeleceu a distinção entre pré-


consciente e inconsciente. Esses conteúdos e processos psíquicos ativamente
impedidos de entrar na consciência foram qualificados por Freud como sistemas
inconscientes.
O inconsciente refere-se aos elementos instintivos que não são acessíveis à
consciência. O pré-consciente alude aos elementos acessíveis à consciência,
embora não esteja em um determinado momento.

1.3.2 Segundo Tópico: Estrutura da Personalidade

B) Id, Ego e Superego

Freud (1913) dividiu a estrutura da personalidade em três vertentes,


vejamos:

A. O id é a parte mais primitiva e menos acessível à personalidade. Incluem os


instintos sexuais e agressivos. Busca a satisfação imediata, sem considerar a
realidade; age conforme Freud denominou como princípio do prazer.

AN02FREV001/REV 4.0

12
O ego consiste naquelas funções ligadas às relações do indivíduo com seu
ambiente. A principal função é compreender as percepções sensoriais do meio
externo e procurar satisfazer as exigências morais do superego. O ego é regido pelo
Princípio da Realidade. As principais atividades do ego são: percepção, memória,
sentimento e pensamento.
O superego abrange os preceitos morais e éticos, bem como os ideais. A
principal função do superego é procurar por meio do ego controlar o id. O superego
aspira à perfeição e tende a reprimir de forma severa as infrações à moralidade.
De acordo com Kusnetzoff (1982), o superego pode ser entendido como
uma instância fundamental para a compreensão do comportamento do indivíduo. O
superego pode ser anunciado de duas formas: prescritiva e valorativa. As duas
formas estabelecem a partir da vida do sujeito, o que ele deve ou não fazer e,
simultaneamente, o que ele deve preferir, desejar ou escolher.

1.3.3 O Superego e o Sentimento de Culpa

O sentimento de culpa é expresso por intermédio da tensão existente entre


superego e o ego. O sentimento de culpa é totalmente inconsciente. Assim, qualquer
tipo de conflito reconhecerá de maneira implícita a participação do superego em sua
gênese. Portanto, de modo variável, haverá na sintomatologia psicopatológica
sentimentos de culpa inconsciente.
Os sentimentos de culpa podem aparece em quadros clínicos como a
neurose obsessiva e a melancolia. Quase todos os quadros clínicos, exceto a
perversão, possuem o sentimento de culpa.

1.3.4 O Desenvolvimento Psicossexual

Freud (1905) distinguiu as cinco fases do desenvolvimento psicossexual,


desde o nascimento até a puberdade. Essas fases correspondem à localização de
zonas erógenas. As zonas erógenas se referem a algumas partes do corpo na qual

AN02FREV001/REV 4.0

13
a criança sente satisfação ou prazer. Essas três primeiras fases estão ligadas ao id,
vejamos:

 A fase oral corresponde ao primeiro ano de vida. O desejo e o prazer


localizam-se na boca. A descarga da libido é obtida pela sucção, pelo
contato com o seio materno.
 A fase anal corresponde ao segundo e terceiro anos de vida. O desejo e o
prazer localizam-se nas secreções e fezes. A satisfação pode ser
aumentada pelo controle dos esfíncteres.
 A fase fálica corresponde ao quarto e quinto ano de vida. O desejo e o
prazer localizam-se nos órgãos genitais. A satisfação libidinal é obtida
pela masturbação.

Segundo Bock e Teixeira (2001), a fase de latência pode ser caraterizada


com a diminuição das atividades sexuais, que se prolonga até a puberdade. Na fase
genital, o objeto de desejo não está no próprio corpo, mas em um objeto externo – o
outro.

1.3.5 Processo Primário e Secundário

O funcionamento do aparelho psíquico está relacionado ao processo


primário e secundário. Vejamos cada um:

O processo primário refere-se a certo tipo de pensamento que é típico da


criança cujo ego ainda é imaturo. Acredita-se que a mobilidade catéxica seja
responsável por duas características marcantes no processo primário, a saber:

 Tendência à gratificação imediata ou descarga da catexia.


 Facilidade com que um método de descarga da catexia pode ser
substituído por outro.

AN02FREV001/REV 4.0

14
Segundo BRENNER (1987), a catexia é o processo pelo qual a energia
libidinal disponível na psique é vinculada ou investida na representação mental de
uma pessoa.

O processo secundário refere-se a um tipo de pensamento caraterístico do


ego maduro.

C) Sublimação

FIGURA 3

FONTE: Banco de imagens da Microsoft Office, 2012.

Segundo Roudinesco e Plon (1998), o termo sublimação refere-se a um tipo


particular de atividade humana (criação literária, artística, intelectual) que não tem
nenhuma relação aparente com a sexualidade, mas que extrai sua força da pulsão
sexual, na medida em que esta se desloca para um alvo não sexual, investindo
objetos socialmente valorizados.
Foi em 1905, em seus três ensaios sobre a teoria da sexualidade, que Freud
(1905) deu sua primeira definição da sublimação.

AN02FREV001/REV 4.0

15
Depois disso, em toda a sua obra, e especialmente nos textos reunidos sob
a categoria de psicanálise aplicada, a sublimação serviu para compreender
o fenômeno da criação intelectual. O conceito de sublimação quase não
sofreu modificações. (ROUDINESCO; PLON, 1998, p. 734).

Para CABRAL apud NICK (2007), em Psicanálise, o processo inconsciente é


aquele em que o impulso sexual é canalizado para atividades não sexuais,
motivação artística, lúdica, compensando a anterior tendência da libido.

1.3.6 Ansiedade

A ansiedade é uma advertência de que o ego está sendo ameaçado. Freud


(1976) descreveu três tipos de ansiedade: objetiva, neurótica e moral.
 A ansiedade objetiva se refere à sensação de medo do mundo externo.
 A ansiedade neurótica é o reconhecimento dos perigos potenciais
inerentes à gratificação instintual.
 A ansiedade moral advém da consciência moral.

As situações que causam ansiedade vêm da rejeição, fracasso,


desaprovação, medo, perda de prestigio, baixo estima e falta de atenção. O
psicanalista pode utilizar no tratamento da ansiedade duas estratégias: primeiro,
preparar o paciente para lidar com a situação de ansiedade, para que ele possa
resolver seus problemas e obstáculos; segundo, usar as técnicas psicoterapêuticas
para reduzir sintomas de ansiedade.

1.3.7 Impulsos Sexuais e de Autoconservação

Na abordagem psicanalítica, os impulsos são denominados também de


instintos. Os impulsos são constituintes psíquicos que causam excitação e tensão.
Essa excitação e tensão atrai o sujeito para a ação mental. A energia psíquica
constitui uma parte dos impulsos. Os impulsos podem ser divididos em: sexuais e de

AN02FREV001/REV 4.0

16
autoconservação. Os impulsos sexuais não necessitam de um objeto específico para
satisfazer-se, enquanto os de autoconservação precisam.
A libido consiste em uma energia que se manifesta na dinâmica do impulso
sexual. Esse termo “libido” é reservado às tendências sexuais e é unicamente nesse
sentido que ele é empregado. A libido tem a vantagem de traduzir a universalidade
da sexualidade. Nos três ensaios sobre a teoria da sexualidade, Freud (1905)
menciona as manifestações da sexualidade humana, que se distingue de toda
finalidade de procriação e de toda redução ao mero genital.
Freud (1913) opõe a libido, ligada aos impulsos de autoconservação do eu.
Segundo Valas (2001, p. 14), “na primeira definição conceitual sobre a libido feita
por Freud em ‘Três Ensaios Sobre a Teoria da Sexualidade’ (1905), ele desenvolve
um novo aspecto da teoria da libido: eu é o grande reservatório da libido”.

1.3.8 Os Principais Mecanismos de Defesa

O termo defesa refere-se ao conjunto de manifestações de proteção do eu


contra as agressões internas (de ordem pulsional) e externas, suscetíveis
de constituir fontes de excitação e, por conseguinte, de serem fatores de
desprazer. (ROUDINESCO; PLON, 1998, p. 141).

Os mecanismos de defesa são formas que a mente busca para se proteger.


Segundo Freud (1900), a defesa é a operação pela qual o ego exclui da consciência
os conteúdos indesejáveis, protegendo, desta forma, o aparelho psíquico. O ego
mobiliza estes mecanismos, que suprimem ou dissimulam a percepção do perigo
interno, em função de perigos reais ou imaginários localizados no mundo exterior.
Os principais mecanismos de defesa são: repressão, negação,
racionalização, formação reativa, isolamento, projeção e regressão1. A repressão
consiste em afastar da consciência eventos e ideias provocadoras de ansiedade.
Algumas doenças psicossomáticas podem estar relacionadas com a repressão.

1
BRENNER, Charles. Noções básicas de psicanálise: introdução à psicologia psicanalítica. Rio de
Janeiro: Imago; São Paulo, Editora da Universidade de São Paulo, 1987, p. 94.

AN02FREV001/REV 4.0

17
A negação refere-se aos fatos da realidade que são rejeitados e substituídos
por uma fantasia ou ação. A racionalização é o processo pelo qual o indivíduo
apresenta uma justificativa para uma ação inaceitável. A formação reativa consiste
em uma atitude ambivalente. Por exemplo, o ódio torna-se inconsciente e, assim,
permanece enquanto reacende o amor. Assim, o ódio é substituído pelo amor, a
crueldade pela gentileza, a obstinação pela submissão, etc.
O isolamento é o mecanismo de defesa muito raro. Trata-se de um processo
inconsciente pelo qual um pensamento é isolado de outros que o precederam. A
projeção trata-se de um mecanismo de defesa no qual o indivíduo atribui a outros
seus próprios desejos e impulso, dos quais, por lhes serem inaceitáveis, procuram
inconscientemente se livrar. A tendência é que o indivíduo repudie impulsos ou
comportamentos indesejáveis, atribuindo a outros.
A regressão é, sem dúvida, o mecanismo de defesa mais amplo. Refere-se
ao retorno a um nível de desenvolvimento anterior. Segundo Roudinesco e Plon
(1998), o mecanismo de defesa passa a adquirir forma de conversão na neurose
histérica, a de substituição na neurose obsessiva e, por fim, a de projeção na
paranoia. Sob esses aspectos ligados à entidade patológica, a defesa visa a um
mesmo objetivo: “separar, quando essa operação não mais pode efetuar-se
diretamente por meio da ab-reação, a representação perturbadora do afeto que lhe
esteve originalmente ligado”. (ROUDINESCO; PLON, 1998, p. 141).

1.3.9 Operações de Defesa

Na comunidade psicanalítica, a palavra “defesa”, no sentido que hoje lhe é


atribuído, exprime o conjunto de operações efetuadas pelo ego perante os perigos
advindos da realidade exterior. Segundo Kusnetzoff (1982), as defesas derivam de
um processo de abstração e generalização das condutas defensivas, que exprimem
a ideia de um sujeito em uma situação determinada.
As condutas defensivas não são necessariamente de exclusividade da
patologia. Elas intervêm, normalmente, no ajustamento, adaptação e equilíbrio da

AN02FREV001/REV 4.0

18
personalidade. Embora se estudem estruturas defensivas típicas de determinados
estilos ou estruturas psicopatológicas.
Seguindo essas considerações, poderíamos dizer que cada indivíduo
apresenta um desenvolvimento nas suas atividades defensivas, um repertório
defensivo. O indivíduo tem a capacidade de se defender das ameaças internas e
externas em quase todas as situações. Esta seleção apresenta-se como um modelo
muito subjetivo e caraterística de um.

1.4 AS PRINCIPAIS TÉCNICAS UTILIZADAS NA ABORDAGEM PSICANALÍTICA

1.4.1 Associação Livre

FIGURA 4

FONTE: Banco de imagens da Microsoft Office, 2012.

Freud (1892) enfatizou que as experiências na infância forneciam as bases


para o desenvolvimento posterior da personalidade. Quando as primeiras
experiências resultavam em conflitos não resolvidos e impulsos frustrados, essas
memórias emocionais eram reprimidas. Embora esses conflitos reprimidos
estivessem inconscientes, ainda continuavam a influenciar as ações das pessoas.

AN02FREV001/REV 4.0

19
Freud (1892) desenvolveu várias técnicas para identificar as memórias
reprimidas, impulsos e conflitos do paciente. Uma das técnicas mais conhecidas é a
associação livre, que implica no relato do paciente de todos os pensamentos,
imagens mentais e sentimentos. Nesta técnica, o analista faz perguntas no intuito de
incentivar o fluxo das associações e descobrir, por meio destas, a dinâmica da
personalidade ou mesmo do comportamento patológico do paciente.
O bloqueio na associação livre representa sinais de resistência. Resistência
refere-se à tentativa de bloquear o processo de revelar memórias. A resistência
pode ser considerada uma proteção contra o sofrimento emocional. Já a presença
da dor indica que o processo analítico está surtindo efeito.

1.4.2 Interpretação dos Sonhos

FIGURA 5

FONTE: Banco de imagens da Microsoft Office, 2012.

Para FADIMAN apud FRAGER (1986), quase todo sonho pode ser
compreendido como uma manifestação de um desejo. Sonhar é uma forma de
canalizar desejos não realizados por meio da consciência, sem despertar o corpo.

AN02FREV001/REV 4.0

20
(FADIMAN; FRAGER, 1986, p. 16). Sua intepretação é considerada uma técnica
importante, que descreve como os sonhos ajudam a psique a se proteger e se
satisfazer. Conforme a terminologia psicanalítica, o termo é frequentemente
empregado para designar sonho manifesto – pequenas recordações que a pessoa
tem. “Já os pensamentos e desejos inconscientes que ameaçam acordar o indivíduo
são denominados conteúdo latente do sonho”. (BRENNER, 1987, p. 162).
As operações mentais inconscientes, por meio das quais o conteúdo latente
do sonho se transforma em sonho manifesto, damos o nome de elaboração do
sonho. O sonho é um produto da atividade do inconsciente e que tem um sentido
intencional à tentativa de realização. Assim, o elemento revelado a partir dele
constituiu uma ferramenta para análise.
Estes fragmentos revelados a partir de um sonho podem ser úteis para o
analista no que se refere à identificação das patologias humanas, além de
demonstrar os conteúdos mentais, pensamentos, traumas, experiências recalcadas
ou reprimidas do indivíduo.
Na teoria freudiana, os conteúdos reprimidos no inconsciente se apresentam
como um “rebus” a ser decifrado pelo analista. Para tanto, essas manifestações se
dão por meio dos mecanismos de deslocamento e condensação, que serão
apresentados no módulo II.
Poderíamos enumerar uma lista de sonhos mais comuns. No entanto,
nenhum sonho pode ser interpretado da mesma forma para duas pessoas
diferentes, ainda que sejam relativamente iguais. É importante entender que o
ambiente, a cultura e a realidade de cada indivíduo exerce total influência nos
sonhos.
Atribuir aqui um significado específico para um tipo de sonho é apenas uma
forma de generalizar, tomando por base pontos em comum em relação a vários
pacientes. Contudo, o resultado final pode conter interpretações das mais variadas,
segundo a realidade e ambiência de cada um.

AN02FREV001/REV 4.0

21
1.4.3 Simbologia dos Sonhos

FIGURA 6

FONTE: Banco de imagens da Microsoft Office, 2012.

No livro “Interpretação dos Sonhos”, Freud (1900) ressalta a possibilidade de


analisar os conteúdos do sonho por meio da simbologia e da associação livre. No
entanto, por considerar as representações como universal, Freud (1900) tornou-se
alvo de críticas.
Jung (1909) seguidor de Freud, não admitia a possibilidade de decifrar o
sonho por meio da associação livre:

(...) o sonho não é, de modo algum, uma mistura confusa de associações


casuais e desprovidas de sentido, mas sim um produto autônomo e muito
importante da atividade psíquica, passível de uma análise sistemática.
(JUNG, 1909, p. 27).

Jung (1909) aceitava a ideia de que os sonhos poderiam ser uma ferramenta
importante para análise:

AN02FREV001/REV 4.0

22
(...) A análise de sonhos não é um exercício intelectual qualquer, mas a
descoberta e a conscientização de conteúdos até então inconscientes, de
grande interesse para a explicação ou tratamento de uma neurose. A
tentativa de analisar e interpretar os sonhos é, pois, um empreendimento
justificável do ponto de vista científico, (oferecendo-nos), de início, uma
compreensão crítica da estrutura da etiologia psíquica. (JUNG, 1909, p.11-
12).

Dessa forma, os conteúdos que ainda não foram revelados por intermédio
da análise poderão aparecer nos sonhos. Embora muitos psicanalistas não admitam
que sonhos sejam decifrados pela associação livre, técnica, símbolos, e conteúdo
onírico, continuam sendo de extrema importância para a Psicanálise.

1.4.4 Tipos de Sonho

FIGURA 7

FONTE: Banco de imagens da Microsoft Office, 2012.

A princípio, qualquer sonho poderia ser trabalhado pela Psicanálise, mas a


experiência mostra que aqueles mais importantes para o indivíduo são basicamente
de três tipos:

 Os pesadelos são sonhos com intensa emoção, comumente assustadores


e que na maioria das vezes forçam o despertar.

AN02FREV001/REV 4.0

23
 Os sonhos repetitivos surgem iguais ou com leves modificações, muitas
vezes durante anos.
 Os sonhos focais são, na maioria das vezes, curtos e pobres em imagens,
mas sempre apresentam emoções fortes associadas, e o sonhador sente
uma necessidade premente de clarificá-los.

Dias (2002) descreve os principais conceitos sobre os sonhos de realização


e de constatação2. O sonho de realização se expressa por meio de um enredo, que
possibilita ao sonhador realizar uma vontade. O sentimento ou a intenção estão
claramente na esfera do consciente. É um sonho sem símbolo e não precisa de
decodificação ou interpretação. Os seus efeitos terapêuticos possibilitam uma
descarga de sentimentos, vontades ou sensações.
Numa visão mais ampla, os sonhos podem ser interpretados como uma
realização simbólica de vontades. Neste tipo, cabe ao terapeuta trabalhar as
alternativas adequadas que dão vazão às suas vontades do cliente. Já os sonhos de
constatação, como esclarece Dias (2002), expressa uma série de sentimentos,
vivências, pensamentos, intenção, percepções, dos quais o sonhador tem certa
consciência, mas não pode admitir claramente diante de si mesmo.
Esses sonhos fazem aflorar o material justificado, isto é, despertam um
conteúdo que está parcialmente conscientizado, mas encoberto por uma série de
justificativas. São sonhos em que o material onírico não está codificado ou então
existe alguma simbologia de fácil entendimento. Os sonhos de constatação não
precisam de interpretação nem de uma decodificação, mas apenas de clareamento.
A sua importância terapêutica é fazer com que o cliente constate, sem as
devidas justificativas, os verdadeiros conteúdos que estas acobertam e com isso
poder questionar e reformular seu conceito de identidade.

2
DIAS, Victor R. C. S. Sonhos e psicodrama interno na análise psicodramática. São Paulo:
Ágora, 1996.

AN02FREV001/REV 4.0

24
1.4.5 Elementos do Sonho

FIGURA 8

FONTE: Banco de imagens da Microsoft Office, 2012.

Dias (2006) considera que os elementos dos sonhos são todos os


componentes presentes nele. Dessa forma, pessoas, personagens, atitudes,
animais, objetos, locais, água, fogo, luz, terra, árvore, claro, escuro, frio, calor,
carros, casas, cômodos, etc. São elementos componentes do sonho. Da interação
entre os elementos do sonho surge o enredo do sonho e o clima afetivo do sonho.

1.4.6 Transferência

A transferência é a manifestação de afetos contemporizados durante o


processo analítico. O paciente transfere atitudes inaceitáveis para o analista, que
tendem a ser contidas. Por exemplo, uma paciente pode mostrar ciúmes de seu
terapeuta, mas reprimir desejos relacionados a ele. Os desejos reprimidos podem
estar relacionados com as figuras parentais. Outra situação, a paciente pode evitar
demonstrar suas vulnerabilidades e angústias. Inconscientemente exige o desejo de
ser amada pelo terapeuta, caracterizando-se com um pedido de amor incondicional.

AN02FREV001/REV 4.0

25
Em algumas fases da relação terapêutica os sentimentos podem surgir de
forma positiva, mesmo sendo sexuais, em sua natureza ou podem ser tornar
potencialmente negativos em relação ao terapeuta. Freud salienta que a repetição é
uma transferência do passado esquecido, não apenas para a figura do analista, mas
também para todos os outros aspectos da situação atual.
A resistência e a transferência são mecanismos de defesa. Uma aparece na
tentativa de se defender de lembranças dolorosas, a outra como a repetição de uma
relação objetal passada. (ROBERT, 2012). A transferência não é um obstáculo para
o tratamento. Pelo contrário, esse mecanismo psíquico é um indicador da direção do
processo analítico. É um facilitador que exige o posicionamento preciso da figura do
analista.
Dessa forma, o analista deve manejar a transferência para que o paciente
deixe de ficar somente repetindo sintomas e comece a prestar atenção nas suas
próprias queixas, isto é, a considerar que seus sintomas são dignos de uma
investigação.

1.4.7 Tipos de Transferências

A transferência pode se apresentar de três maneiras A transferência


positiva, conforme definiu Freud (1912), é constituída de sentimentos amorosos que
são admissíveis à consciência, e a negativa é composta de sentimentos hostis e
agressivos em relação ao terapeuta.
No caso da transferência erótica, o paciente projeta para o analista
sentimento de amor. Quando isso acontece, o paciente perde o interesse pela
análise e se volta completamente para a figura do analista. O foco nas sessões será
na afetividade que o paciente exige que seja retribuído. Ele coloca suas operações
defensivas em prática para não se lembrar ou admitir certas situações. (FREUD,
1912).
Destaca-se a transferência inicial, que não é reconhecida pelo paciente, mas
é perceptível aos olhos do terapeuta. É uma transferência que surge aos poucos na
análise. O paciente sempre compara algumas semelhanças físicas e emocionas do

AN02FREV001/REV 4.0

26
terapeuta com relação às semelhanças do marido, do namorado. A situação é a
mesma para o paciente do sexo masculino.
De acordo com Robert (2011), as transferências positivas e negativas
precisam coexistir. Esta é a condição para o tratamento psicanalítico. Na opinião da
autora, as neuroses, os sentimentos afetuosos e hostis, conscientes e inconscientes,
ocorrem lado a lado e são simultaneamente para a mesma pessoa. Assim, repetir,
resistir e elaborar são trabalhos que ocorrem neste espaço que engloba a dimensão
da ambivalência.

1.4.8 A Transferência e o Completo de Édipo

Os estudos de Freud sobre a transferência estão intimamente ligados à


teoria do complexo de Édipo. Na transferência o analista é colocado no lugar das
figuras: pai, mãe e irmãos. À medida que a relação entre o complexo de Édipo e a
transferência é estabelecida, aparecem as vantagens e desvantagens do
tratamento.
Devemos considerar a possibilidade de que as emoções direcionadas ao
analista tendem a aumentar ou a diminuir, pois o mesmo é colocado no lugar das
figuras (pai, mãe e irmãos). As emoções do paciente em relação aos familiares
podem ser subjetivas. O analista, inserido na figura dos familiares, pode direcionar
melhor o tratamento do paciente e ter a oportunidade de corrigir erros. No entanto, é
importante advertir o analista sobre o seu direcionamento, que poderá criar
dependência emocional e expectativas no paciente.

1.4.9 Contratransferência

Em 1910, Freud conceitua a contratransferência como sendo uma reação do


analista provocada pela transferência do paciente, e, como tal, algo a ser superado

AN02FREV001/REV 4.0

27
ou ultrapassado para que o analista volte a trabalhar em condições adequadas.
(FREUD, 1910).
Para Racker (1982), a contratransferência consiste em:

Um conjunto de imagens, sentimentos e impulsos do terapeuta durante a


sessão e que poderia ocorrer de três formas: a) como um obstáculo; b)
como um instrumento terapêutico; e c) como um campo em que o paciente
pode realmente adquirir uma experiência viva e diferente da que teve
originalmente. (RACKER, 1982, p. 120).

Racker (1982) ainda descreve dois tipos de reações contratransferenciais:

A complementar, que seria quando o ego do terapeuta identifica-se com os


objetos internos do paciente e a concordante, que é quando a identificação
se faz entre aspectos da personalidade (ego, id e superego) do terapeuta
com os respectivos aspectos da personalidade do paciente. (RACKER,
1982, p. 120).

Dessa maneira, a contratransferência é uma reação inevitável causada pelo


terapeuta. É um conjunto de sentimentos do terapeuta em relação ao paciente.

AN02FREV001/REV 4.0

28
1.4.10 Histórico da Hipnose

FIGURA 9

FONTE: Banco de imagens da Microsoft Office, 2012.

No século XIX, o neurologista francês Jean-Martin Charcot (1882) atribuía a


hipnose a um estado patológico, produto da histeria. Já o médico francês Henry
Bernheim era contra as ideias de Charcot. Bernheim Henry (1886) considerava que
a hipnose nada tinha a ver com a doença, mas com o um estado psicodinâmico
normal, produzido pela sugestão.
No final do século XIX, o médico Sigmund Freud, após estagiar com
Charcot, na Salpetriere, e mais tarde com Bernheim, em Nancy, passou a usar a
hipnose como procedimento terapêutico. Freud (1891) demostrava que os pacientes
em estado hipnótico voltavam a reviver experiências traumáticas. E, assim, poderia
curá-los por meio da sugestividade.
No entanto, Freud (1892) notou que nem todos os pacientes eram induzidos
pela hipnose e passou a desenvolver outras técnicas, como: associação livre e
interpretação dos sonhos.

AN02FREV001/REV 4.0

29
O que não é a hipnose?
Não é sono.
Não é estar sob o poder de alguém.
Não é tratamento.
Não é um método.

1.4.11 Conceito de Hipnose

FIGURA 10

FONTE: Banco de imagens da Office Microsoft, 2012.

Refere-se ao estado mental de sugestividade, induzido artificialmente. Por


essa razão, o indivíduo hipnotizado demonstra uma receptividade extrema às
sugestões feitas pelo hipnotizador. A pessoa hipnotizada sempre está no controle de
suas ações, embora pareça estar “inconsciente”. Neste estado mental ela se sente
desinibida e relaxada.
O objeto de imaginação pode parecer real ao ponto de causar emoções.
Alguns especialistas classificam tais transes como forma de auto-hipnose. Para a
Associação Americana de Psicologia, Divisão de Hipnose Psicológica, a hipnose
consiste em:

AN02FREV001/REV 4.0

30
Um procedimento durante o qual um profissional de saúde ou pesquisador
sugere que um cliente, paciente ou um sujeito experimente mudanças de
sensações, percepções, pensamentos e comportamentos. O contexto
hipnótico é geralmente estabelecido por um procedimento de indução.
Embora haja muitas induções hipnóticas diferentes, a maioria inclui
sugestões de relaxamento, calma e bem-estar. Instruções para pensar
sobre experiências agradáveis são também comumente incluídas em
induções hipnóticas. (AMERICAN PSYCHOLOGICAL ASSOCIATION, 2004.
p. 7).

As pessoas respondem diferentemente à hipnose. Algumas descrevem sua


experiência como um estado alterado de consciência, outras, como estado de
atenção focada. A hipnose provoca reações e emoções diferentes. A utilização da
hipnose supera qualquer outro procedimento, porque atrai a atenção de forma
seletiva. Por meio da hipnose a pessoa é capaz de desenvolver a superação de
limites.
A hipnose está vinculada ao sistema límbico e ao hipotálamo (centros
cerebrais que regulam as emoções básicas), interagindo com todas as funções do
organismo por meio do sistema simpático e parassimpático. As pessoas
hipnotizadas mostram um aumento nas atividades no lado direito do córtex cerebral.
Os hipnotizadores são capazes de fazer as coisas mais bizarras. As pessoas
que concentram no objeto imaginado não filtram as informações do meio. Reagem
automaticamente a estes impulsos por intermédio da sugestividade. O
subconsciente controla as sensações corporais (paladar, tato, visão) e os
sentimentos. Quando a porta do subconsciente é aberta, o hipnotizador utiliza a
sugestividade para manipular as sensações do indivíduo.
O subconsciente é o armazém de todas as memórias. Sob hipnose pode
acessar eventos completamente esquecidos. Porém, há algumas situações em que
o analista não deve fazer uso da hipnose: na recuperação de memórias reprimidas
ou falsas. Esta técnica é utilizada em alguns casos clínicos de forma extrema para
recuperar memórias de vidas passadas.

AN02FREV001/REV 4.0

31
1.4.12 A Hipnose na Aplicação Clínica

A hipnose clínica consiste em uma situação em que o terapeuta faz


sugestões de mudança na vida do paciente. Trata-se de uma ferramenta terapêutica
que pode ser um quadro de referência psicanalítica ou qualquer outra abordagem.
Sabemos, a partir dos estudos empíricos, que a hipnose aumenta a eficácia das
intervenções, ou seja, as pessoas experimentam ainda menos ansiedade quando a
técnica é apresentada como uma forma de relaxamento.
A hipnose tem sido usada em muitos contextos de doenças que envolvem a
dor. As pessoas mais sugestionáveis podem ser beneficiar do uso da hipnose no
tratamento de doenças como: obesidade, alcoolismo, porém há outras pessoas que
são pouco sugestionáveis, mas acreditam nos seus efeitos. Nestes casos é preciso
educar, preparar e acompanhar o paciente no início da sessão hipnoterapêutica.
É importante ressaltar que a hipnose é um processo em que o analista
ensina o paciente a se auto-hipnotizar. É uma técnica usada no contexto de análise.
O psicólogo clínico, o psiquiatra e os profissionais da área da saúde devem ter
formação em hipnose clínica e serem credenciados nas associações ligadas à
International Society of Hypnosis.

1.5 A PSICOTERAPIA PSICANALÍTICA

1.5.1 Conceito de Psicoterapia Psicanalítica

Roudinesco e Plon (1998) conceituam a psicoterapia da seguinte forma:

Método de tratamento psicológico das doenças psíquicas que utiliza como


meio terapêutico a relação entre o médico e o paciente, sob a forma de uma
relação ou de uma transferência. O hipnotismo, a sugestão, a catarse, a
psicanálise e todos os métodos terapêuticos próprios da história da
psiquiatria dinâmica estão incluídos na noção de psicoterapia.
(ROUDINESCO; PLON, 1998, p. 624).

AN02FREV001/REV 4.0

32
A psicoterapia psicanalítica é uma técnica especializada no tratamento de
doenças mentais e perturbações. É uma forma de ajuda profissional que atua
diretamente nos transtornos como: depressão, pânico, transtornos obsessivos e
esquizofrenia. O tratamento visa não apenas tratar o sintoma, mas resolver a causa
geradora do problema.
A psicoterapia tem como objetivo facilitar o processo de cura e reabilitação
dos pacientes. Os objetivos mudam conforme a demanda do paciente. Por exemplo,
se o paciente sofre em função de um quadro patológico grave, como a
esquizofrenia, então os objetivos de tratamento são mais abrangentes, enquanto
aquele que sofre de uma ansiedade, o recomendado é a terapia focal.
O analista e o paciente estabelecem uma relação de confiança e de
confidencialidade. E este vínculo terapêutico funciona como um processo de
mudança na vida deste. O analista tem um papel fundamental no processo de
tratamento, deve assumir uma postura de não julgamento e total aceitação daquilo
que o paciente expõe.

1.5.2 Funcionamento da Psicoterapia

As pessoas procuram ajuda por diversas razões como:

 Tratamento de transtornos psicológicos: síndrome de pânico, fobias,


TOC, transtorno bipolar, depressão, ansiedade patológica, anorexia e
bulimia.
 Tratamento de transtornos da personalidade: esquizofrenia, paranoide
e Borderline.
 Em situações que contribuem para o sofrimento psíquico: conflitos
pessoais, conjugais ou familiares.
 Em situações de perdas: luto, separação, desemprego.
 Em algumas situações como: conflito no trabalho ou dificuldade de
criar vínculo ou relacionamento com outras pessoas.

AN02FREV001/REV 4.0

33
A psicoterapia psicanalítica não é um processo de resultados imediatos. A
duração da terapia dependerá de diversos fatores: nível de sofrimento psicológico,
gravidade do problema, tipo de transtorno mental, objetivos da terapia, tipos de
tratamento, tipo de técnica utilizada, disponibilidade financeira e de tempo do
paciente.

1.5.3 Benefícios

A psicoterapia pode trazer enormes benefícios para o paciente: aumento da


autoestima, segurança nas decisões, desenvolvimento pessoal, autoconhecimento,
autonomia, motivação, tolerância à frustração, superação de conflitos internos e para
vencer traumas e abusos.
A psicoterapia é um espaço que permite ao paciente compreender seus
limites, potencialidades, ações e atitudes. Além de oferecer uma oportunidade do
paciente de modificar padrões de comportamento inapropriados que dificultam o
processo de desenvolvimento.

1.5.4 Confidencialidades na Psicoterapia

Todo assunto que é tratado na psicoterapia é estritamente confidencial. O


sigilo faz parte das normas éticas do psicólogo e do médico. O psicólogo, em seu
exercício profissional, deve seguir o disposto no artigo 9º do Código de Ética do
Psicólogo:
Art. 9º - É dever do psicólogo respeitar o sigilo profissional a fim de proteger,
por meio da confidencialidade, a intimidade das pessoas, grupos ou
organizações, a que tenha acesso no exercício profissional. (CONSELHO
FEDERAL DE PSICOLOGIA, 2005, p. 13).

AN02FREV001/REV 4.0

34
1.5.5 A Diferença entre a Formação do Psicoterapeuta e do Psicanalista

a) Psicoterapeuta

Os psicólogos e médicos devem passar por uma formação especializada em


psicoterapia e se integrarem a Associação Brasileira de Psicoterapia (ABRAP). Na
especialização o indivíduo deverá passar por uma formação teórica e estágio
supervisionado, não é exigido do psicoterapeuta sessões de análise, como no caso
da Psicanálise.

b) Psicanalista

As instituições ligadas à Internation Psychoanalytical Association (IPA)


exigem que o psicanalista faça análise. Se o indivíduo vai fazer uma formação
lacaniana ou junguiana, é necessário que seja realizada com um analista lacaniano
ou junguiano. A formação teórica também é essencial à prática supervisionada. A
formação em Psicanálise tem duração maior do que a Psicoterapia. Os psicanalistas
podem ser psicólogos ou médicos psiquiatras. Uma das funções do psicanalista é
compreender a causa do sofrimento mental.

FIM DO MÓDULO I

AN02FREV001/REV 4.0

35