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NUMINON – Instituto de Estudos Psicanalíticos e Ciências da Mente

Curso Livre de Formação em Psicanálise Aula -3 Módulo VI

João Ricard

2019
NUMINON – Instituto de Estudos Psicanalíticos

Esta apostila tem por objetivo ser um pequeno guia, um resumo das aulas, para auxiliar os
alunos do curso livre de formação em psicanálise do NUMINON a complementarem seus
estudos. Todos os temas aqui abordados poderão ser estudados com mais profundidade nas
obras indicadas como bibliografia recomendada ao final de cada aula.

É proibida a reprodução total ou parcial desta apostila, por quaisquer meio, sem prévia autorização por
escrita do autor. Sujeito as penas previstas em lei. Lei n 9610/98 art. 18. Copyright

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Sumário

A Clínica das Neuroses............................................................................................3

Fundamentos............................................................................................................5

A solidão e o Isolamento no Édipo ................................................................10


Solução Edipiana?..................................................................................................11

Características diagnósticas da neurose..................................................................12

Sugestões e direcionamentos para o trabalho clínico com as neuroses...................13

Bibliografia recomendada e Estudos complementares............................................14

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A Clínica das Neuroses

A virada de 1926 – Inibição, Sintoma e Ansiedade.

Após estabelecermos em aulas anteriores os conceitos fundamentais para a compreensão da clínica


Freudiana (transferência, contratransferência, resistência , projeção, idealização, identificação projetiva,
manejo clínico etc...) E também após apresentarmos as bases técnicas fundamentais como a livre associação,
atenção flutuante, abstinência e neutralidade poderemos seguir em frente para entrar na clinica psicanalítica
clássica com sua terapêutica e sua abordagem das neuroses. Após isso, com estes conhecimentos bem
estruturados avançaremos para outros aspectos da clinica psicanalítica, como as psicoses e principalmente os
estados neuróticos regredidos, os casos limítrofes (Borderlines), casos de depressão, distúrbios das
personalidades narcisistas, somatizações, traumas etc... Avançaremos para novos autores que abordaram estas
problemáticas e às concepções mais modernas referentes à clínica psicanalítica na atualidade.

Como já sabemos, o foco principal da clínica psicanalítica nos seus primórdios era a neurose. Lidar com
a agressividade e a afetividade humana não expressa, trazer para a consciência aspectos da personalidade os
quais foram recalcados gerando assim conflitos e sintomas era o trabalho do analista. Apesar do meio
sociocultural não ser mais o mesmo e por consequência o seu desfecho psíquico/clínico, a neurose ainda
permeia os consultórios e frequentemente o analista irá se deparar com ela. E é sobre ela que iremos falar
agora nesta aula.

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Freud como Homem da ciência que era, nunca deixou de atualizar e rever sua teoria conforme obtinha
dados clínicos relevantes que exigissem tal conduta. Durante sua obra percebemos reformulações teóricas
importantes como o abandono, do projeto para uma psicologia cientifica e a sua visão neuronal dos fenômenos
psíquicos, a reformulação da teoria da sedução a qual passou a incluir os aspectos da fantasia das crianças na
psicogênese das neuroses, o desenvolvimento da segunda tópica (teoria estrutural) do aparelho psíquico a qual
foi acrescentada a primeira tópica (teoria topográfica) que por si só não era suficiente para explicar fenômenos
complexos como por exemplo os fenômenos ligados ao narcisismo. As teorias sobre as pulsões que foram
constantemente reformuladas desde 1890 em “Projeto para uma psicologia científica” passando por 1905
“Três ensaios sobre a teoria da sexualidade” complementando em 1914 e 15 Sobre o narcisismo e “Pulsões e
suas vicissitudes”. Terminando em 1920 em “Além do princípio do prazer”

Outra grande reformulação feita por Freud foi em 1926 que remodelou sua visão referente aos
mecanismos da neurose e marcou uma virada fundamental na metapsicologia. Em seu artigo “Inibição sintoma
e ansiedade”. Aos 70 anos de idade Freud remodela o núcleo de sua teoria das neuroses. Este é um aspecto
muito, muito importante e pouco enfatizado. Vamos entender, pois este é um assunto de extrema importância
na clínica e é dele que vamos tratar agora.

Não me envergonho de mudar de ideia, pois não me envergonho de pensar.

S.Freud .

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FUNDAMENTOS

Na natureza o homem se distingue de outros mamíferos por algumas características muito específicas.
Talvez a principal destas características a qual permitiu ao ser humano um maior desenvolvimento psíquico e
intelectual (criativo) foi a de que ele não é biologicamente determinado como as outras espécies na natureza. É
certo dizer que qualitativamente temos os mesmos atributos que outras espécies (inteligência, instintos
sexuais, agressivos e de auto preservação) apesar de suas diferenças quantitativas, principalmente no que se
refere à inteligência, qualitativamente os atributos são os mesmos. A diferença fundamental é que enquanto a
inteligência dos outros mamíferos é determinada biologicamente, ou seja, sua inteligência e seus instintos
estão sob a primazia da biologia, o ser humano não. A inteligência, a sexualidade, a agressividade e os demais
instintos humanos não são totalmente determinados pela biologia, eles de certa forma se “descolaram” no
processo evolutivo. Foi isso que permitiu ao ser humano a criatividade, isso determina a principal diferença
entre o humano e os mamíferos comuns, é graças a este fator que o ser humano “se ergueu” “a cima” da
natureza puramente instintiva. Se pensarmos no João de barros, por exemplo, não podemos negar a sua
inteligência em construir a sua casa, ou a perfeição da dinâmica funcional de uma colmeia de abelhas. Mas se
olharmos mais de perto, apesar de ser algo muito complexo e extremamente inteligente não existe criatividade
no processo não existe mudança, criação, opção e flexibilidade, não existe liberdade. A colmeia de abelhas será
a mesma em qualquer lugar, e em qualquer época, a casinha do João de barros idem, pois a inteligência deles é
limitada aos aspectos biológicos, ela é biologicamente determinada, e eles não conseguem fazer nada diferente
disto. Isto acontece também com sua sexualidade (os períodos de cio com finalidade de reprodução) e a
agressividade voltada a defesa de territórios, a busca de comida, a proteção de si e de seu grupo. Ou seja, além
da inteligência tanto a sexualidade quanto a agressividade dos mamíferos, seu instinto de sobrevivência são
determinados biologicamente, eles não escolhem onde vão morar, o que vão comer, quando vão reproduzir,
quais serão seus inimigos, todas estas questões já são pré-determinadas biologicamente. Porém conosco não é
assim, e ao mesmo tempo em que isso é nosso maior dom (pois permite a criatividade ) também é a fonte dos

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mais variados problemas que encontramos apenas em nossa espécie. As guerras, a inveja, os absurdos que
vimos nos jornais todos os dias, a criação artística, o egoísmo ou a filantropia, quase tudo que fazemos,
fazemos por causa desta indeterminação biológica. Nossa inteligência e nossos instintos não são totalmente
determinados por elementos biológicos. E foi percebendo isso que Freud resolveu chamar de pulsão, pois
nossos instintos são impulsos direcionados para algo e não atos 100% determinados pela biologia, são apenas
uma forte insinuação, um apelo da natureza mas não uma determinação irrevogável. Quando vimos nos jornais
algumas atrocidades de guerra ou mesmo absurdos que ocorrem em ambiente “social civilizado” costumamos
pensar: Nossa isso é desumano! Ou quando vemos alguma obra literária ou artística pensamos nossa! Isso é
inspirado, sublime, divino! Porem não existe nada mais humano do que estas coisas, tanto o sublime o criativo
quanto o desumano são única e exclusivamente humano, nós somos os únicos na natureza capazes destas
coisas. Não existe nada mais humano que o dito desumano ou sublime, características únicas e exclusivas de
nossa espécie felizmente para o bem e infelizmente para o mal. Por nossa inteligência, sexualidade, e
agressividade não serem totalmente determinadas biologicamente é que é possível o diferente, a criação, a
construção, a destruição e em nível psíquico funcional a neurose. Não existe neurose no reino animal, entre os
animais que vivem livres na natureza, também não existe psicose, somatizações é prerrogativa necessária ser
humano para sofrer destas questões. Essas são questões humanas decorrentes da indeterminação biológica.
Quando entendemos claramente este ponto estamos aptos a entender como funciona o processo da neurose,
o complexo de Édipo, sua dinâmica e estrutura.

Seguindo nosso raciocínio, como o instinto humano não é determinado ele se apresenta como pulsão e
temos basicamente duas pulsões que é a pulsão sexual relacionada aos aspectos afetivos e a agressividade
relacionada ao processo de autopreservação do eu, e da veemência da energia do desejo. Como vimos, por
causa da indeterminação biológica os instintos agressivos de auto conservação em nós não aparecem como ato
instintivo (luta ou fuga), a sociedade necessitou criar um mecanismo de controle dos impulsos para poder
existir, logo estes impulsos podem aparecer para nós como perigosos como um sinal de perigo. Enquanto no
animal este impulso gera a motricidade de lutar ou fugir e independentemente de qual for sua escolha, esta
pulsão psíquica, esta energia se descarregará. Já no Humano não, ela aparece como pressão psíquica a qual
exige uma descarga e dependerá da decisão humana para realizar-se. Este impulso é percebido como um sinal

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de perigo e é sentido como ansiedade ou angústia. Importante gravarmos bem este ponto! O Impulso
agressivo, em decorrência dos mecanismos de controle dos impulsos é percebido como um sinal psíquico, um
sinal de perigo o qual é sentido como Ansiedade ou Angustia.

Com a sexualidade o mesmo ocorre. Existe uma flexibilidade libidinal, uma indeterminação biológica
que permite sua flexibilidade, os aspectos culturais e sociais influem na escolha de objeto libidinal graças a sua
flexibilidade parcial nos seres humanos o peso da cultura também é determinante de sua expressão.

Freud através das suas deduções teóricas e observações clínicas percebeu como a sexualidade humana
já nasce conosco e como ela permeia todo o corpo. O corpo humano é inteiro erótico, é todo permeado pela
sexualidade energizado pela libido desde a mais tenra infância. No decorrer do desenvolvimento psicossexual
parte da libido coloniza determinadas áreas do corpo em determinados momentos do desenvolvimento, não
que ela desvitalize o restante do corpo e se fixe apenas em um local, mas sim que determinados locais em
determinados momentos do desenvolvimento são colonizados por uma quantidade maior de libido. Logo
quando nasce, o bebê tem duas características fundamentais e universais. Ele é totalmente incapaz de
sobreviver sendo totalmente dependente de seu meio, e seus impulsos libidinais são parciais e anárquicos
satisfazendo-se em si mesmos de forma automática e inconsciente (não intencional) por isso o nome de
Autoerotismo. Esta etapa, bem no início do desenvolvimento até a cerca dos dois anos é conhecida como fase
auto erótica. No entanto estas pulsões parciais tendem a seguir um fluxo coerente no decorrer do
desenvolvimento psíquico. O primeiro contato que o bebe estabelece com o mundo é através da boca, o ato da
amamentação trás consigo além do alimento necessário a sobrevivência e o alivio da fome, todo conforto
ambiental proporcionado pela mãe e a estimulação oral. A mucosa da boca é uma zona erógena a qual
proporciona prazer, e a primeira área a ser colonizada pela libido. Portanto o ato de mamar não só alimenta
eliminando o desprazer da fome, como traz conforto, carinho e afeto da mãe e também prazer libidinal
erógeno. A oralidade representa tudo isto! Esta ligada a dependência/independência, sensação de completude,
segurança emocional a integração.

Logo após isso, em um momento um pouco mais avançado de desenvolvimento, aproximadamente dois
anos de idade, com a coordenação motora um pouco mais desenvolvida é esperado do bebê que largue as

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fraudas e que tenha autonomia para desenvolver a higiene própria. A intenção dos pais se volta a ensinar para
o bebê que ele deve ir ao peniquinho, as atenções dos pais e por consequência a da criança se volta a região
anal, e ela percebe que esta região também é uma região sensível, e a libido passa a concentrar-se parte lá.
Neste ponto outra coisa interessante também acontece, a criança começa a perceber mesmo que de forma
rudimentar que existe uma diferença entre si mesmo e o ambiente o qual a cerca, percebe também que ela
produz algo e que este algo (as fezes) tem valor social, graças as reações que causa no ambiente, mais
precisamente na mãe. É nesta fase que boa parte da autoestima da criança é alicerçada, nesta faze que ela
estrutura parte de sua personalidade relacionada ao dar, ao receber, a limpeza, parcimônia, organização,
mesquinhez solidariedade, auto estima etc...

Nesta percepção gradual do ambiente no qual a criança esta inserida e nas suas relações com a mãe e
os familiares (relação de objeto ou objetal) e na totalidade deste contexto o qual foi designado por J Lacan
como estádio de espelho ela começa a perceber o outro e por antítese a si própria. Isso da origem a uma nova
etapa no desenvolvimento a qual foi designada como Narcisismo. Neste momento a libido coloniza o próprio
ego da criança. Neste ponto para a criança quase tudo é permitido, ela vem de um período auto erótico no qual
se realizava sem grandes dificuldades e se bastava a si própria, as relações com os pais caso fossem
satisfatórias geraram na criança uma sensação de Onipotência. Seu Ego narcísico recém-nascido esta
concentrado de libido (pelo desejo único e exclusivo de autossatisfação). É aqui, neste momento que temos
que focar nossa atenção para entendermos as neuroses, como se estruturam, e como se formam. É no
narcisismo primário inserido no contexto do complexo de Édipo, mas agora com um novo elemento inserido
neste contexto que é o SINAL DE PERIGO que estudamos logo acima que toda a neurose infantil se estrutura. O
sinal de perigo ou ansiedade é ponto chave para a compreensão do fenômeno da neurose e da mudança sútil
porem importante de paradigma iniciada em 1926, e que levaremos em consideração a partir de agora sempre
quando pensarmos a neurose, tanto em teoria como em seus aspectos clínicos.

A próxima fase de desenvolvimento é a fase fálica que se inicia por volta dos 3 a 4 anos
aproximadamente. Esta fase refere-se tanto ao menino como a menina a libido coloniza-se nos órgãos sexuais
e também se direciona aos objetos externos, a libido deixa de investir-se no ego, no sujeito como acontecia no
Narcisismo e passa a investir no objeto (libido do ego x libido objetal). Tanto os impulsos agressivos quanto os

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impulsos eróticos (amor e ódio) se voltam geralmente aos progenitores sendo o desejo (Libido) ao objeto
incestuoso, e o ódio ao progenitor visto como rival do mesmo sexo (agressividade). Percebemos aqui ambos os
impulsos ligados, canalizados e sendo expressos. Claro que o Édipo pode se apresentar em outras
configurações, este aqui é apenas um exemplo de como funciona na forma clássica.

Agora, o que é muito importante de se notar aqui é que tanto o elemento relacionado à inibição dos
impulsos quanto o elemento relacionado aos alertas de perigo se encontram neste ponto do desenvolvimento.
A sociedade se viu na necessidade de criar um mecanismo que fizesse o papel da determinação biológica no ser
humano, o qual regulasse os instintos, os limitasse, direcionasse e educasse. É o Édipo este elemento
ordenador, o Édipo criado pela cultura faz o papel do determinante biológico. E é no Édipo que ocorre a
angustia de castração a qual é a união da inibição dos impulsos (castração) associada ao sinal de perigo
(angústia). A angústia de castração é o núcleo de todas as neuroses de desenvolvimento que se expressam
nos tipos clínicos da neurose = Fóbica, Histérica, Obsessiva.

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A solidão e o Isolamento no Édipo

Neste momento, inicio do Édipo, a criança entra no auge de sua onipotência, com seu narcisismo
intacto, seus impulsos vivos e sentidos com intensidade, mas aqui ocorre um choque. Um choque com a
cultura. É o “animalzinho humano” se chocando de frente com a cultura, sendo obrigado a se submeter. Este é
um período extremamente delicado o qual deixara suas marcas para o resto da vida. Esta é a hora em que a
criança deseja para si com toda a ênfase a realização de seus desejos afetivos imediatos, que deseja para si
mesma o responsável pela realização de seus desejos e vê como opositor todo aquele que tenta impedir esta
união. E no auge de sua Onipotência Narcísica ocorre o choque com a cultura, com a realidade. É o NÃO PODE
que aparece, é a lei, é o LIMITADOR e INIBIDOR DOS IMPULSOS, e o ALERTA DE PERIGO o SINAL DE ANGÚSTIA
que se apresenta para a criança.

O complexo de Édipo é o momento o qual a cultura age através dos progenitores da criança para
realizar a função a qual a natureza não se encarregou de realizar no ser humano. A função de ordenar, limitar e
direcionar os impulsos. Neste ponto de vista (limitador de impulsos) o complexo de Édipo é universal pois é
imprescindível para o desenvolvimento humano, se for insuficientemente exercidos pelos pais acabará por ser
exercido pela sociedade ou pela própria realidade natural.

A neurose ocorre quando a ansiedade, o sinal de perigo é ativado de forma automática e


inconsciente toda vez que impulsos humanos são despertados. Quando o neurótico toma consciência de seus
impulsos agressivos e/ou sexuais, poderá automaticamente se sentir angustiado, com medo dos próprios
impulsos de amor e ódio. Ele os vivência como perigosos. Esta angústia leva o Ego a se defender e a recalcar
gerando assim as Neuroses e seus sintomas. Os impulsos de amor e ódio assustam a criança porque neste
contexto Edipiano das relações com os pais (objetais) estas relações poderão ser abaladas. E isto é visto pela
criança como sinal de perigo. O perigo desperta a ansiedade ou angústia. Quando nos deparamos com um
perigo externo podemos lutar ou fugir. E quando nos deparamos com um “dito” perigo interno? Geralmente
recalcamos. E este é o problema da constituição psíquica. Aqui o isolamento a solidão a ansiedade
gradualmente substituem o narcisismo de antes. A criança tem de abrir mão de muito de seus desejos, abrir

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mão de seu objeto de amor, lidar com seus sentimentos ambivalentes em relação ao objeto rival. Porém estes
objetos de amor e ódio são os mesmos que cuidam e protegem a criança. Os proibidores e limitadores dos
impulsos são os mesmos que a protegem. Aqui entra a solidão, o desamparo e o isolamento. A criança se sente
excluída da relação a dois estabelecida por seus pais e é obrigada a encontrar um lugar para ela. Esta sensação
de desamparo gera medo, este medo ou angústia, que é despertado a cada vez que a criança é surpreendia por
impulsos de amor e ódio geram o alerta, a ansiedade e o recalque dos impulsos como defesa psíquica do ego.
Porém como já vimos a sexualidade e agressividade são as molas mestras do psiquismo humano. A libido, a
busca do que nos dá prazer é a motivação, o combustível por excelência do comportamento humano. A
agressividade é elemento crucial da personalidade. Sem agressividade não estudamos, não trabalhamos, se
quer lemos um livro. É muito comum ouvirmos dizer, Nossa devorei este livro ele é incrível! Ou é meu sonho
realizar tal projeto e farei o possível para alcançar tal resultado. Isso é agressividade, isso é libido, é força,
desejo, é combustível é motivação. Sem isso não funcionamos direito. O neurótico recalcou grande parte de
seus impulsos não despondo deles para a vida. E o pior, sentem medo, ansiedade na eminência daquilo que
eles mais necessitam (tomar contato com suas próprias energias psíquicas). A neurose em parte é uma
desvitalização do sujeito, e uma ansiedade crônica perante seus próprios impulsos vitais e desejos os quais são
fundamentais para a vida.

Então qual seria o melhor cenário da solução Edipiana, qual seria a melhor forma de trabalha-lo em clínica?

Sublimar e canalizar as pulsões (direciona-las) é a única forma eficiente e saudável de se lidar com elas.
Porém o que impede que isto aconteça ou é a rigidez Narcísica ou a rigidez do Super Ego. O narcisismo muitas
vezes aparece como ponto principal da personalidade. A falta de aceitação das limitações não permite a
flexibilidade pulsional que se fixa em determinados objetos por motivos narcísicos tornado inviável a
flexibilidade pulsional necessária para o funcionamento saudável da vida. Trabalhar os conteúdos rígidos do
super ego, e o narcisismo do individuo é conquistar uma maior flexibilidade do ego e do investimento
pulsional. É trazer para o ego uma maior autonomia perante o super ego e resgatar aspectos recalcados tão
necessários para o funcionamento saudável do psiquismo humano. É como se fosse uma represa, ali pode

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existir uma barragem ociosa que gera acumulo e tensão de água (Narcisismo exacerbado, super ego rígido) ou
uma represa a qual não da livre vasão a água, porem direciona ela para que esta possa gerar energia, trabalho,
criação e satisfação. Além de tudo o Édipo é elaborar o narcisismo, aceitar o nosso verdadeiro lugar para que a
partir dele possamos nos desenvolver verdadeiramente. Quanto menor a rigidez menor a angústia e maior a
flexibilidade para novas formas de investimento pulsionais. Elaborar o Édipo é isto, é elaborar o narcisimo, a
rigidez, a onipotência, a fixação da libido todos estes elementos essenciais e fundamentais da neurose. É na
quebra do narcisismo exacerbado no trabalho da onipotência e do desamparo que se elabora e trabalha a
neurose.

Freud teve a coragem de reconhecer em 1926 “Inibições, Sintoma e Ansiedade” que não é a sexualidade
reprimida que gera as angústias, mas sim o contrário. É a angustia, a ansiedade, o medo, o isolamento no
Édipo, o medo do abandono e da punição o desamparo que geram o recalque da sexualidade e da
agressividade. Freud em poucas palavras de forma sutil e brilhante reformulou sua teoria das neuroses.
Passando o foco principal da etiologia das neuroses que antes era atribuído a sexualidade para a angústia,
como elemento fundador. O efeito passou a ser a causa. Este passo leva a uma maior importância nos
aspectos das reações de objeto. Talvez neste texto se inaugure a psicanálise contemporânea com enfoque nas
relações de objeto a qual foi muito bem desenvolvida pela escola Inglesa por Melaine Klein, Winnicott, etc...
Quem sabe se Freud tivesse vivido mais um pouco também não partisse por este caminho o qual estava
inaugurando aos 70 anos de idade... E será nesta perspectiva que vamos pensar as neuroses de agora em
diante.

Características diagnósticas da Neurose.

Os distúrbios neuróticos se referem a qualquer transtorno mental que, embora cause tensão, sintomas e
desajustes sociais e familiares, não interferem com o pensamento racional ou com a capacidade funcional da
pessoa de forma significativa. Tipos de neuroses:

- Transtornos Fóbicos/Ansiosos (medos injustificados, persistentes).

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- Neurose de conversão (sintomas dos mais variados tipos sem ressonância com nenhuma causa orgânica
observável).

- Somatizações (sintomas físicos decorrentes de distúrbios orgânicos criados ou potencializados pelo fator
psíquico).

- Transtorno Obsessivo compulsivo. (ideias ou atitudes persistentes, recorrentes e intrusivas que causam
sofrimento).

- Casos leves e moderados de depressão.

-Neurastenia. ( Desânimo, perda do interesse, perda da libido, perda do animo para as atividades do dia a dia,
fadiga física e mental, pessimismo.)

- Hipocondria (mania de doença).

Sugestões e direcionamentos para o trabalho clínico com a neurose.

Através da livre associação, da interpretação dos sonhos da interpretação das resistências, dos
atos falhos, da neurose de transferência, e da dinâmica entre analista e paciente é necessário
elaborar o complexo de Édipo, auxiliar na aceitação da castração por parte do analisando
diminuindo as expectativas narcísicas. Auxiliar na aceitação e na elaboração das limitações,
elaborar a onipotência narcísica e a possível rigidez do superego. Minimizar as defesas egóicas
que não serão mais necessárias em uma maturidade psíquica maior, que poderá ser
constantemente buscada e trabalhada através do processo analítico, podendo com isso integrar
à personalidade adulta aspectos vitais reprimidos nas fases atuais ou infantis do processo de
desenvolvimento psíquico.

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BIBLIOGRAFÍA RECOMENDADA E ESTUDOS COMPLEMENTARES.

Laplanche J, Pontali JB. Vocabulário de psicanálise. 8. ed. São Paulo: Martins Fontes; 1985.

S. Freud: Inibição Sintoma e Ansiedade. In: Obras completas Cia das Letras Vol 17. São Paulo; 2014.

S. Freud: O futuro de uma Ilusão. In: Obras completas Cia das Letras Vol 17. São Paulo; 2014.

S. Freud: Totem e Tabu. In: Obras completas Cia das Letras Vol 11. São Paulo;

Seminário de Psicanálise contemporânea. Seminário Teórico- Psicanálise contemporânea e


criatividade técnica 2014 – CEP (não transcrito).

Einrich Racker - Estudos sobre a Técnica Psicanalítica. Art Med - 1986 – 3 ed.

David E. Zimerman – Manual da técnica psicanalítica. Art Med – 2008 – 4 ed

Eizirik .C.L, Wolf. R , Schestatsky. – Psicoterapia de Orientação Analítica. Art Med 3 edição 2015

*Todo material sugerido poderá ser encontrado na área do aluno e esta disponível pra consulta e/ou download..

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