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SAMIZDAT

www.samizdat-pt.blogspot.com

7 agosto 2008
7
agosto
2008

ficinaSAMIZDAT www.samizdat-pt.blogspot.com 7 agosto 2008 TABACARIA a angústia da modernidade na voz de Álvaro de Campos

TABACARIA

a angústia da modernidade na voz de Álvaro de Campos

SAMIZDAT 7

agosto de 2008

Edição, Capa e Diagramação:

Henry Alfred Bugalho

Autores Alian Moroz Denis da Cruz Carlos Alberto Barros Giselle Natsu Sato Guilherme Rodrigues Henry Alfred Bugalho Joaquim Bispo José Espírito Santo Marcia Szajnbok Maria de Fátima Santos Pedro Faria Volmar Camargo Junior Zulmar Lopes

Autores Convidados Ana Mello

Textos de:

Álvaro de Campos Florbela Espanca Raymond Carver Yolanda Arroyo Pizarro

Imagem da capa:

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Obra Licenciada pela Atribuição-Uso Não-Comercial-Vedada a Criação de Obras Derivadas 2.5 Brasil Creative Commons.

Todas as imagens publicadas são de domínio público ou royalty free.

As idéias expressas e a revisão das obras são de inteira res- ponsabilidades de seus autores ou tradutores.

Editorial

Quatro novos autores passam a integrar a equipe da SAMIZDAT a partir desta sétima edição: Guilherme Rodrigues, Joaquim Lopes, Maria de Fátima Santos e Zulmar Lopes.

Além deste reforço, apresentamos também a tradução dum conto da autor porto-riquenha Yolanda Arroyo Pizarro, que, ao lado do entrevistado Santiago Nazarian, participou do Bogotá 39, que selecionou trinta e nove autores, com idade inferior a 39 anos, cujas produções representam os novos horizontes da produção literária latina-americana,

O Brasil, esta ilha de língua portuguesa em meio às nações

hispanas, historicamente optou por se isolar e ignorar o que

a seus vizinhos. Curiosamente, o boom latino-americano das décadas de 70 e 80 também optou por ignorar a literatura

brasileira. Esta é uma situação com a qual não podemos compactuar. A troca literária com estes países tão semelhan- tes cultural e socialmente ao Brasil é uma necessidade. E este

é um dos nossos objetivos.

Henry Alfred Bugalho

Sumário

Sumário Por quE Samizdat? 6 Henry Alfred Bugalho ENtrEViSta Santiago Nazarian 8 miCroCoNtoS
Sumário Por quE Samizdat? 6 Henry Alfred Bugalho ENtrEViSta Santiago Nazarian 8 miCroCoNtoS
Sumário Por quE Samizdat? 6 Henry Alfred Bugalho ENtrEViSta Santiago Nazarian 8 miCroCoNtoS
Sumário Por quE Samizdat? 6 Henry Alfred Bugalho ENtrEViSta Santiago Nazarian 8 miCroCoNtoS
Sumário Por quE Samizdat? 6 Henry Alfred Bugalho ENtrEViSta Santiago Nazarian 8 miCroCoNtoS

Por quE Samizdat?

6

Henry Alfred Bugalho

ENtrEViSta

Santiago Nazarian

8

miCroCoNtoS

Denis da Cruz

12

Guilherme Rodrigues

13

Henry Alfred Bugalho

14

José Espírito Santo

14

Marcia Szajnbok

16

Volmar Camargo Junior

16

rEComENdaÇÕES dE LEitura

a Língua de Eulália, de marcos Bagno

18

Guilherme Rodrigues

a Letra Escarlate, de Nathaniel Hawthorne 19

Henry Alfred Bugalho

autorES Em LÍNGua PortuGuESa tabacaria

20

 

Álvaro de Campos

mamã

28

Florbela Espanca

a

oferta do destino

29

Florbela Espanca

PaNorama LitErÁrio amadorize-se

32

Henry Alfred Bugalho

CoNtoS o Cego e o Psicopata 34 Carlos Alberto Barros o Ladrão de olhos 38
CoNtoS o Cego e o Psicopata 34 Carlos Alberto Barros o Ladrão de olhos 38
CoNtoS o Cego e o Psicopata 34 Carlos Alberto Barros o Ladrão de olhos 38
CoNtoS o Cego e o Psicopata 34 Carlos Alberto Barros o Ladrão de olhos 38
CoNtoS o Cego e o Psicopata 34 Carlos Alberto Barros o Ladrão de olhos 38

CoNtoS

o

Cego e o Psicopata

34

Carlos Alberto Barros

o

Ladrão de olhos

38

Volmar Camargo Junior

Síndrome de Caim

42

 

Henry Alfred Bugalho

o

Palco

46

José Espírito Santo

os ratos

48

 

Joaquim Bispo

Luandino

50

 

Maria de Fátima Santos

um desejo

54

Denis da Cruz

digressões do dia numa Estranha manhã do

Entardecer no outono da Primavera

57

Guilherme Rodrigues

Prelúdio de uma Saudade

58

Zulmar Lopes

traduÇÃo

as Baleias Cinzas

60

Yolanda Arroyo Pizarro

Pequenas Coisas

66

Raymond Carver

autora CoNVidada microcontos

68

Ana Mello

tEoria LitErÁria Enchendo Lingüística na Samizdat

70

Volmar Camargo Junior

CrÔNiCaS

Só os Pobres merecem Balas-perdidas

74

Henry Alfred Bugalho

 

Notícia do Fim do mundo

76

Volmar Camargo Junior

Volmar Camargo Junior

Contadora de Histórias

78

Giselle Sato

PoESia Soneto da Boa morte

80

Carlos Alberto Barros

Sonetos 81

Sonetos

81

Guilherme Rodrigues

Laboratório Póetico iii

82

Volmar Camargo Junior

Poesia Concreta

83

Volmar Camargo Junior

Capital

83

Pedro Faria

Brincando de Cole Porter 84

Brincando de Cole Porter

84

Marcia Szajnbok

Carta de amor

85

Marcia Szajnbok

 

86

LiNKS dESta EdiÇÃo SoBrE oS autorES da Samizdat

89

 

SEÇÃO DO LEITOR

 

Agora o leitor da SAMIZDAT também pode colaborar com a elaboração da revista.

Envie-nos suas sugestões, críticas e comentários. Você também pode propor ou enviar textos para as seguintes seções da revista: Rese-

nha Literária, Teoria Literária, Autores em Língua Portuguesa, Tradução e Autor Convi- dado. Escreva-nos para:

revistasamizdat@hotmail.com

Por que Samizdat? “Eu mesmo crio, edito, censuro, publico, distribuo e posso ser preso por
Por que Samizdat?
“Eu mesmo crio, edito, censuro, publico,
distribuo e posso ser preso por causa disto”
Vladimir Bukovsky
Henry Alfred Bugalho
inclusão e Exclusão
henrybugalho@hotmail.com
se converte em uma ditadu-
ra como qualquer outra. É a
microfísica do poder.
Nas relações humanas,
sempre há uma dinâmica de
inclusão e exclusão.
O
grupo dominante, pela
própria natureza restritiva
do poder, costuma excluir ou
ignorar tudo aquilo que não
pertença a seu projeto, ou
que esteja contra seus prin-
cípios.
Em reação, aqueles que
se acreditavam como livres-
pensadores, que não que-
riam, ou não conseguiram,
fazer parte da máquina
administrativa - que esti-
pulava como deveria ser a
cultura, a informação, a voz
do povo -, encontraram na
autopublicação clandestina
um meio de expressão.
Em regimes autoritários,
esta exclusão é muito eviden-
te, sob forma de perseguição,
censura, exílio. Qualquer um
que se interponha no cami-
nho dos dirigentes é afastado
Datilografando, mimeo-
grafando, ou simplesmente
manuscrevendo, tais autores
russos disseminavam suas
idéias. E ao leitor era incum-
e
ostracizado.
As razões disto são muito
bida a tarefa de continuar
esta cadeia, reproduzindo tais
obras e também as passando
simples de se compreender:
o
diferente, o dissidente é
perigoso, pois apresenta
alternativas, às vezes, muito
melhores do que o estabe-
lecido. Por isto, é necessário
suprirmir, esconder, banir.
adiante. Este processo foi
designado "samizdat", que
nada mais significa do que
"autopublicado", em oposição
às publicações oficiais do
regime soviético.
A
União Soviética não
foi muito diferente de de-
mais regimes autocráticos.
Origina-se como uma forma
de governo humanitária,
igualitária, mas
Foto: exenplo dum samizdat. Corte-
sia do Gulag Museum em Perm-36.
logo

6 SAMIZDAT agosto de 2008

6

E por que Samizdat?

A indústria cultural - e o

mercado literário faz parte dela - também realiza um processo de exclusão, base- ado no que se julga não ter valor mercadológico. Inex- plicavelmente, estabeleceu-se que contos, poemas, autores desconhecidos não podem ser comercializados, que não vale a pena investir neles, pois os gastos seriam maio- res do que o lucro.

A indústria deseja o pro-

duto pronto e com consumi- dores. Não basta qualidade, não basta competência; se houver quem compre, mes- mo o lixo possui prioridades na hora de ser absorvido pelo mercado.

E a autopublicação, como em qualquer regime exclu- dente, torna-se a via para produtores culturais atingi- rem o público.

Este é um processo soli- tário e gradativo. O autor precisa conquistar leitor a leitor. Não há grandes apa- ratos midiáticos - como TV,

revistas, jornais - onde ele possa divulgar seu trabalho.

O

único aspecto que conta é

o

prazer que a obra causa no

leitor.

Enquanto que este é um trabalho difícil, por outro lado, concede ao criador uma

liberdade e uma autonomia total: ele é dono de sua pala- vra, é o responsável pelo que diz, o culpado por seus erros,

é quem recebe os louros por seus acertos.

E, com a internet, os au-

tores possuem acesso direto

e imediato a seus leitores. A repercussão do que escreve (quando há) surge em ques- tão de minutos.

Ao serem obrigados a bur-

larem a indústria cultural, os autores conquistaram algo que jamais conseguiriam de outro modo, o contato qua-

se

pessoal com os leitores,

o

diálogo capaz de tornar a

obra melhor, a rede de conta-

tos que, se não é tão influen-

te quanto a da grande mídia,

faz do leitor um colaborador, um co-autor da obra que lê. Não há sucesso, não há gran-

des tiragens que substitua

o prazer de ouvir o respal-

do de leitores sinceros, que

não estão atrás de grandes autores populares, que não perseguem ansiosos os 10 mais vendidos.

Os autores que compõem este projeto não fazem parte de nenhum movimento literário organizado, não são modernistas, pós-

modernistas, vanguardistas ou qualquer outra definição que vise rotular e definir a

orientação dum grupo. São apenas escritores interessados

em trocar experiências e sofisticarem suas escritas. A qualidade deles não é uma orientação de estilo, mas sim

a heterogeneidade.

Enfim, “Samizdat” porque a internet é um meio de auto- publicação, mas “Samizdat” porque também é um modo

de contornar um processo

de exclusão e de atingir o objetivo fundamental da escrita: ser lido por alguém.

é um modo de contornar um processo de exclusão e de atingir o objetivo fundamental da

SAMIZDAT é uma revista eletrônica mensal, escrita, editada e publicada pelos integrantes da Oficina de Escritores e Teoria Literária. Diariamente são incluídos novos textos de autores consagrados e de jovens escritores amadores, entusiastas e profis- sionais. Contos, crônicas, poemas, resenhas literárias e muito mais.

www.samizdat-pt.blogspot.com

crônicas, poemas, resenhas literárias e muito mais. www.samizdat-pt.blogspot.com www.samizdat-pt.blogspot.com 7

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7

crônicas, poemas, resenhas literárias e muito mais. www.samizdat-pt.blogspot.com www.samizdat-pt.blogspot.com 7

http://www.piedepagina.com/numero12/images/Santiago-Nazarian.jpg

Entrevista

SaNtiaGo NazariaN

Entrevista SaNtiaGo NazariaN Santiago Nazarian é autor dos romances ‘Mastigando

Santiago Nazarian é autor dos romances ‘Mastigando Humanos’, ‘Feriado de Mim Mesmo’, ‘A Morte sem Nome’

e

‘Olívio’. Em 2003, recebeu

o

Prêmio Fundação Conrado

Wessel de Literatura, por seu romance de estréia. Em 2007, foi eleito um dos autores jovens mais importantes da América Latina, nas comemorações do Hay Festival em Bogotá, capital mundial do livro. Suas obras foram publicadas também na Europa e América Latina. Mora

em São Paulo e, além de escritor,

é tradutor, roteirista e colabora com diversos periódicos.

Santiago, você foi um dos quatro autores brasileiros convidados para o Bogotá 39 (encontro literário que

reuniu 39 escritores com

menos de 39 anos, repre- sentantes da nova lite- ratura latino-americana – denominada de boom- cito). Tendo participado do grupo, você identifica uma preocupação comum entre estes vários autores? Você se sente com uma responsabilidade maior

após este encontro? Como ele tem influenciado sua

visão da literatura?

Santiago Nazarian: Para mim, o encontro serviu para identificar a proxi- midade do Brasil com a América Latina de uma maneira mais geral, não apenas literária. Aliás, 2007 foi um ano em que eu estava descobrindo a Amé- rica Latina, viajando pelo continente, Chile, Argentina, Colômbia – antes disso eu conhecia muito melhor a Europa. Mas num encon- tro desses, com escritores de vários países vizinhos, você vê como somos muito mais próximos na ques- tão cultural, no humor, na afetividade e até mesmo na aparência física do que com os europeus. Claro, pode parecer uma constatação óbvia, mas serve também para nos lembrar o quan- to desprezamos os países vizinhos. Brasileiro viaja pra Argentina, Chile no máxi- mo, e acha que no resto dos países são todos cucarachas. Bom, cucarachas somos to- dos nós. É engraçado notar também que o oposto não é verdadeiro, os outros países têm uma relação mais pró- xima entre eles e até mes- mo com o Brasil. Um exem- plo é como havia jornalistas argentinos, uruguaios, cobrindo o Bogotá 39, mas não havia nenhum jorna- lista brasileiro. Os jornais daqui, inclusive, ignoraram totalmente o encontro – a

organização do evento, e

nós escritores, oferecemos

a pauta. Talvez se fosse um encontro em Paris, fosse

interessante para os jornais daqui, mas um encontro de escritores latino-americanos

em Bogotá

nem notinhas. Então acho

que foi isso, o evento ser- viu para eu me identificar como latino-americano, mas não mudou muito minha visão da literatura em si, ou da minha responsabili- dade, continuo encarando

a literatura como uma

trilha pessoal; tenho meus temas pessoais, minha visão particular e prefiro me ver assim do que encaixado

num movimento ou mesmo numa geração.

já que o português é tão pouco falado no mundo.

Até mesmo as traduções se tornam mais difíceis, à medida em que as editoras têm menos leitores de por- tuguês para avaliar as obras, traduzir, etc.

O site da revista piedepá- gina, edição nº 12, inclui o texto Literatura para despertar zumbis, de sua autoria. Nele, há um tre- cho com a seguinte frase:

Talvez com a maturidade literária, eu tenha apenas

me tornado realmente jovem, tenha aceitado minhas referências, meu universo, sem medo ou barreiras para expressar minha arte.

Você pode falar mais sobre que influências são essas? O que é influência na sua opinião e até que ponto um escritor é in- fluenciado?

S.N: Influência é a manifes- tação e transformação do repertório. Todos nós temos um vasto repertório, que incluiu literatura, música, moda, etc.

Não gerou

Qual é, na sua opinião, o maior desafio que o autor brasileiro tem de enfren- tar?

S.N: A falta de leitores. Isso se dá por questões cultu- rais, econômicas e sociais diversas. A falta de leitores é um mal que aflige cada vez mais a

literatura mundial, mas o Brasil, como um país subde- senvolvido, sente com especial

ênfase. Há

também

questões par-

ticulares que

dificultam a difusão da literatura brasileira, como a própria barreira da língua,

“A literatura tem de ir além da verdade oficial, da verdade permitida, a literatura tem de ir além da verdade, oferecer essa possibilidade além. Sua única barreira é a criação humana.”

Algumas ve- zes, informa- ções que ob- tivemos em determinado momento da vida se manifestam

inconscien-

temente na

nossa arte.

Já outras

vezes, essas

manifesta-

ções são conscientes, nos dão elementos, idéias, para

nossa própria arte. Na li- teratura, como arte elitista, convencionou-se a despre- zar a influência da cultura pop. Mas qualquer um que nasceu dos anos 60 para cá está mergulhado em cul- tura pop – filmes, música, TV – por mais que negue essa influência. Durante algum tempo eu tentei – conscientemente – abordar na minha literatura apenas os elementos da alta-arte, desprezar esse lado pop também, porque achava que ele poderia ralentar minha escrita. Com o tempo fui percebendo que a gran- de conquista poderia ser assumir essas influências e tentar trabalhá-las de uma forma genuinamente literá- ria. Essa tem sido umas das minhas principais preo- cupações, em matéria de estilo de uns quatro anos para cá.

Ainda no texto Literatura para despertar zumbis, encontra-se: Talvez, a cada romance que eu escre- va, bata um sino no meu inconsciente: “como posso fazer para ofender acadê- micos e perder prêmios?” Não sei desde quando – ao menos no Brasil – es- critores se aproximaram mais de professores do que de artistas. Escritores se tornaram aliados das instituições. Quero ser aliado dos transgressores

Isso soa muito bem, ten- do a arte como o cami- nho possível, dentro da civilização, para darmos um destino aos nossos

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impulsos transgressores,

mesmo perversos

ás, Elizabeth Roudinesco está lançando um livro na Flip, falando sobre essa questão da perversão e da perversidade.

Você concorda com essa idéia, de que a criação artística em geral, e a lite- rária em particular, já que trabalha com palavras, é a melhor das hipóteses para dar conta dos impulsos transgressores que temos dentro de nós?

S.N.: Eu acho que a litera- tura, como arte de uma minoria (e para uma mi- noria) pode e deve tratar de questões que não são tratadas em outros luga- res. E mais, por ser uma arte conteudista, não con- ceitual, tem o dever de se aprofundar nas discussões. Então, enquanto no campo jornalístico e no discurso demagógico se diz “criança

precisa estar na escola”, no campo literário pode-se ver

o outro lado da questão, o

quanto o modelo de ensino

atual é precário, o quanto

a posição do professor é

muitas vezes uma posição

hipócrita, o quanto o ensino pode ser mais uma forma de exercer poder do que de gerar discussão. Isso é só um exemplo, mas um exemplo real de uma das discussões eu ofereço nos meus livros. Enquanto o discurso demagógico diz:

todos os homens são iguais,

o discurso literário pode

dizer “não, as pessoas têm diferenças e essa sociedade não admite diferenças.” E a

Ali-

10

literatura de ficção deve se permitir ser politicamente incorreta, revelando precon- ceitos, perversões, porque não se pode fingir que essas coisas não existem, que não existem no mundo e que não existem na cabeça das pessoas; que uma dona de casa de meia-idade não pode querer torturar uma criança, por exemplo. Se passa na cabeça das pesso- as, se passa na cabeça do escritor, precisa ser coloca- do no papel, porque a arte é

a melhor ponte entre a vida

subjetiva de cada um, talvez

a única ponte entre essas

vidas internas. A literatura tem de ir além da verdade oficial, da verdade permi- tida, a literatura tem de ir além da verdade, oferecer essa possibilidade além. Sua única barreira é a criação humana.

Sobre seu romance Mas- tigando Humanos: o que você tem lido, ouvido, visto sobre ele? Você mes-

mo diz que ele é diferen- te dos três anteriores. O que o motivou para essa

mudança? E por que um jacaré?

SN: O romance foi escrito com essa consciência do meu papel de “jovem escri- tor”. Quero dizer, enquanto jovem, eu me sinto no dever de trazer algo novo, trazer novas referências, novas estéticas. Em “Mastigando Humanos” procurei fazer isso de forma bem radical,

todo o tom pop e bem hu- morado do livro vai nesse caminho. A escolha do ja- caré foi uma escolha afetiva

– já que eu sempre gostei e estudei répteis, e também por ser um pouco como eu vejo o adolescente: agressi- vo, com um enorme apetite, mas ainda com certa timi- dez, um pouco desajeitado. O livro trata basicamente da passagem da adolescên- cia para a idade adulta. Em geral, foi bem recebido, as críticas foram melhores do que eu esperava. Foi fina- lista do Portugal Telecom e afins.

eu esperava. Foi fina - lista do Portugal Telecom e afins. Tendo em vista sua par-

Tendo em vista sua par- ticipação em sites, in- cluindo seu blog Amor & Hemácias, como você percebe a influência da internet no mundo literá- rio?

SN: É uma forma de comu- nicação com o leitor, com outros autores, uma forma do escritor mostrar o que está fazendo, o que tem lido, etc. Para mim, serve apenas para isso. Já é o suficiente.

Em seu blog, você fala sobre comprar ou baixar um filme para ter e rever quando quiser. O mesmo que acontece às músicas que marcam certos mo- mentos de nossa vida. Quando você usa o ver- bo ter, significa ser uma espécie de co-autor com o artista? O que você pensa da obra artística depois que ela deixa as mãos de seu autor?

SN: Não, quando eu uso o verbo “ter” eu me refiro apenas ao objeto cultural, que pode até ser um objeto virtual, no caso de uma mú- sica ou um filme. Acho que a obra nunca pertence tanto ao público quanto ao artis- ta, e digo isso me colocando nos dois lados da questão. Como público, eu nunca me sinto tão “possuidor” de uma obra de arte, em identificação intensa com ela quanto com minha pró- pria obra. É como eu disse anteriormente, a obra de arte - a literatura - é uma ponte entre a vida subjetiva do artista e a vida do recep- tor, mas essa troca sempre é limitada. Você tem a ponte, pode chegar até lá, dar uma olhada, mas não vai residir naquele castelo, entende? É uma visita turística, limi- tada. Pode parecer pouco, mas não é, porque a cha- ve final estará sempre no autor. E se basta para ele, se responde às perguntas dele, é válido, responderá a perguntas diversas de várias outras pessoas.

Como é a relação com

seus romances enquanto estão no rascunho? Você é verborrágico ou meticu- loso? Planeja o texto todo antes ou deixa que as coi- sas vão acontecendo?

SN: Verborrágico, claro. Meus romances mais recen- tes eu até tive certo planeja- mento, criei os personagens, sabia exatamente onde queria chegar, como iria terminar, mas as frases vão surgindo espontaneamente, é como uma pintura em que vou pincelando por cima. Nada é apagado.

Em seus trabalhos de tra- dução, nota-se que você não os faz apenas por encomenda de editoras, mas também por prazer próprio. Isso reflete uma preocupação em apresen- tar, no Brasil, autores es- trangeiros que você julga de qualidade, mas que são ignorados por nossos edi- tores. Diante disso, qual sua opinião sobre a polí- tica editorial brasileira?

SN: Eu já sugeri algumas coisas para as editoras com que trabalho, já tentei em- placar algumas traduções, mas é muito raro eles acei- tarem as sugestões. Achava que isso era uma limitação que eu tinha, mas recente- mente vi o Paulo Henriques Britto dizendo que a Cia das Letras raramente aceita- va as sugestões dele tam- bém. Então eu faço mais trabalhos por encomenda. Até porque, tenho um gosto um pouco atípico. Grande parte dos autores estran-

geiros que gosto, sei que não seriam comercialmente viáveis no Brasil. É preciso saber separar, encarar com certo olhar mercadológico.

Pode nos adiantar algo sobre o enredo do seu novo romance O Prédio, o Tédio e o Menino Cego? Ele seguirá a linha psi- codélica de Mastigando Humanos?

SN: Sete meninos entrando na adolescência se apai- xonam por uma professo- ra, que é uma infanticida serial. É isso. Um pouco menos psicodélico do que o Mastigando Humanos, por- que não tem toda a alego- ria com animais e tal, mas ainda assim tem certa dose pop, certo humor negro, eu diria que é um romance existencialista bizarro.

negro, eu diria que é um romance existencialista bizarro. Coordenador da entrevista: Carlos Alberto Barros Perguntas

Coordenador da entrevista:

Carlos Alberto Barros

Perguntas feitas por:

Alian Moroz Carlos Alberto Barros Henry Alfred Bugalho Marcia Szajnbok Volmar Camargo Junior Zulmar Lopes

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11

11

microcontos

tempo

Denis da Cruz

Deco queria tempo para escrever. Naquele dia, se organizou. “Vou redigir pelo menos um conto”, pensou.

Trabalhou o dia todo, apressando cada um de seus afazeres e impondo-se um ritmo sobrenatural.

No fim da tarde, tudo encerrado.

Fechou a porta do escritório sem levar embaixo do braço qualquer trabalho

do escritório sem levar embaixo do braço qualquer trabalho trânsito Denis da Cruz - Barbeiro! –
do escritório sem levar embaixo do braço qualquer trabalho trânsito Denis da Cruz - Barbeiro! –

trânsito

Denis da Cruz

- Barbeiro! – Gritou Cirilo, colocando

cabeça para fora do carro e xingando

motorista que lhe dera uma fechada.

a

o

Enquanto energicamente esbravejava, atravessou o cruzamento e atropelou uma velhinha.

para terminar em casa.

Tão logo abriu a porta de seu “doce lar”, permitiu-se estirar ao sofá, “só pra descansar um pouquinho”.

Exausto, dormiu como uma criança. Acordou no outro dia, de cara inchada e terno amassado.

Para o conto? Não deu tempo.

Veloz

Denis da Cruz

Por aquelas redondezas, Matin era o mais rápido no gatilho.

Perdeu o título – e a vida - quando alguém o superou.

era o mais rápido no gatilho. Perdeu o título – e a vida - quando alguém

12 SAMIZDAT agosto de 2008
12

Na escuridão de meu quarto; é o momento de reflexão. Enxergo o que não vejo; ouço o que não escuto. Imagino o inima- ginável.

Olho para um lado; há um ser que chora suas mágoas e grita de dor. No canto havia uma criança medrosa e insegura e so- litária mas com vontade de viver. Noutro, há um jovem também medroso e inseguro que chora por

meu quarto

seus fracassos. Dum lado um homem reflete sobre seu insucesso. Doutro lado; há só escuridão e nada mais.

Na escuridão de meu quarto; é o momento de

alegria e de tristeza. Sinto

a glória de um rei e sua

nobreza, sinto a angústia

e agonia de um plebeu e sua pobreza.

No meio do quarto há uma cova onde são en-

Guilherme Rodrigues

terradas minhas alegrias, quando há, e jamais são lembradas. O coveiro também está por perto.

Os quadros dependu- rados mostram minhas tristezas que são lembra- das a cada minuto.

No quarto ecoam gritos de dor e vozes

angustiadas que me ator- mentam a cada instante. Ouço uma voz fria me chamar

tensão – o desabrochar de uma rosa

uma voz fria me chamar tensão – o desabrochar de uma rosa Guilherme Rodrigues Era sua

Guilherme Rodrigues

Era sua primeira vez.

A tremedeira aumentava

Ele suava, tremia e cada vez ficava mais nervoso. Ficou ali sentado, passava

cada instante. Ele se levantou e começou a andar pela sala de um

a

milhões de coisas pela sua cabeça. A dúvida ten-

lado para o outro. An- dou uns quinze minutos

cionava seus nervos tor-

e

voltou a se sentar no

nando seu corpo enrije- cido como pedra. O suor lavava todo o seu corpo e

sofá, onde estivera antes. Pensou mais um pouco. Deu uma longa inspirada

encharcou as suas roupas.

e

expirou vagarosamente

Os olhos arregalados e

e

num breve suspiro foi

avermelhados. Ele rangia os dentes, um barulhi- nho de causar arrepios.

com tudo, freneticamente. Sorriu aliviado; deitou e dormiu.

microcontos

Festa Surpresa

Henry Alfred Bugalho

-Desconfiava que a mulher o traía. Na cama, sempre encontrava pentelhos e manchas de porra.

Resolveu dar o flagrante. Se escondeu no armário; quando ouviu risinhos e gemidos, saltou para fora, atirando. Matou a empregada e um motoboy

qualquer.

A mulher, fidelíssima, estava há sema- nas preparando uma surpresa para sua festa de aniversário. Tardes inteiras na casa da amiga enchendo bexigas.

Tardes inteiras na casa da amiga enchendo bexigas. Palavra José Espírito Santo Filosofia José Espírito

Palavra

José Espírito Santo

Filosofia

José Espírito Santo

Fazia amor como quem filosofa. Sócrates e Pitágoras foram doces loucuras. Platão, a experiência pouco platónica. Com Heraclito… viraram o quarto às avessas. Chegou a vez de Kant e mudou de namora- da.

A palavra extensa, ocupava incompreensivelmente boa parte do conto.

14 SAMIZDAT agosto de 2008
14

atraso

José Espírito Santo

A Caravela atrasou-se irremediavelmen- te. Quando, por fim, chegaram à Índia, o moço perguntou se tinham reservado a mesa, se iam querer “pão de alho”, se pretendiam acompanhar a comida com “Tika” ou “Cobra”…

acompanhar a comida com “Tika” ou “Cobra”… o Nome José Espírito Santo Sempre que lhe perguntavam

o Nome

José Espírito Santo

Sempre que lhe perguntavam o nome, respondia com uma longa história. Naquela noite, quando no bar do hotel, a loira lhe perguntou qual era a sua história, respondeu Manuel. Sem hesitar!

qual era a sua história, respondeu Manuel. Sem hesitar! Capuchinho, a verdadeira história José Espírito Santo

Capuchinho, a verdadeira história

José Espírito Santo

Capuchinho era uma menina prendada que, não obstante, foi indecentemente comida pelo Lobo. Entretanto, o Minis- tério Público vai formalizar a acusa- ção…

microcontos

Coisas de mulher

IV.

Marcia Szajnbok

VI.

Sentada no chão, o ouvido colado à porta do banheiro, a menina pergunta:

-Mãe, você está aí?

Lá de dentro, entre risos, vem a

resposta: - Não, não estou aqui

pela janela!

O pequeno corpo para sempre

dividido: a boca-razão sorri, o olhos- emoção lacrimejam.

fugi

dez Segundos

Volmar Camargo Junior

Mariana volta da festa. Em dez se- gundos vai estar morta. O pai está

dormindo com a tv ligada e não ouve

o

o

motorista do ônibus solta a fumaça do cigarro pela janela e só freou quando

sentiu o solavanco. Mariana já está morta.

celular. A mãe está no quarto com

namorado e não ouve o celular. O

Ansiedade, apreensão, expectativas. A primeira vez tinha de ser perfeita.

- Você não disse que era virgem? Como é que não sangrou?

Os corpos ainda juntos, as almas irrecuperavelmente apartadas.

O amor que tu me tinhas era vidro e se quebrou

V.

A festa foi ótima. Todos comeram,

beberam e se divertiram muito. Quando saíram os últimos amigos, desligou a musica, apagou as luzes.

Era madrugada. Era seu aniversário. E

os restos da casa cheia tornavam mais

consistente o vazio.

Ali mesmo, no chão da sala, chorou, chorou, até dormir cansada, como as crianças.

Ali mesmo, no chão da sala, chorou, chorou, até dormir cansada, como as crianças. 16 SAMIZDAT

16 SAMIZDAT agosto de 2008
16

autoridade

Volmar Camargo Junior

O pedinte encontrou uma nota de cinqüenta. O polí-

cia viu-o enfiando a nota no bolso.

— Passa pra cá!

— Não mesmo! Eu achei, é minha.

— É, mas quem tem o cassetete sou eu.

Eu achei, é minha. — É, mas quem tem o cassetete sou eu. mãe da Noiva

mãe da Noiva

a Última do Juca

Volmar Camargo Junior

— Ouvi dizer que o Juca foi abduzido.

— É mesmo? E quem contou?

— Aquela vizinha nova, que veio de Júpiter.

Volmar Camargo Junior

Costurou um vestido de noiva para a filha que não teve. Foi internada e pas-

sa bem.

para a filha que não teve. Foi internada e pas - sa bem. Estricnina Volmar Camargo

Estricnina

Volmar Camargo Junior

Era um problema na vizinhança. Cão ou gato que entrasse em seu quintal não voltava. Na primeira sexta-feira depois do Natal, encontraram-no morto dentro de casa. Havia indícios de vene- no até no suor de suas axilas.

www.samizdat-pt.blogspot.com

17

     
 

recomendações de Leitura

 

a Língua de Eulália,

uma Novela Sociolingüística

 
 
 

Livro: A Língua de Eulália, Uma Novela Sociolingüística

Autor: Marcos Bagno

Editora: Contexto

São Paulo, 2005.

Guilherme Rodrigues

a elas e mostra que o que a Eulália fala não são “erros”, mas uma variação lingüística do português. Um português diferente.

Neste livro, Marcos Bagno aborda a língua portuguesa com uma outra visão a fim de exterminar os mitos que assombram o ensino da nossa língua. Uma cultura errada que se criou. Ele mostra de uma maneira clara e científica que não há nada de errado (ou engraçado) na linguagem de pessoas menos favorecidas por uma educação deficiente

e um governo apático – e/

O livro conta a história de três amigas: Vera, Emília e Sílvia. Estudantes universitárias que vão passar as férias em Atibaia na chácara de Irene, tia de Vera. Lá conhecem Eulá- lia, uma empregada doméstica que mora na chácara. Ela fala um português diferente do das meninas e elas acham engra- çado os “erros” gramaticais cometidos por Eulália. Então, Irene professora de Língua Portuguesa, não acha nada en- graçadas as chacotas das me- ninas e aceita dar umas “aulas”

ou não tiveram oportunidades de estudar e, sim, variações lingüísticas. Para isso, ele vai buscar respostas e exemplos

na história do português, línguas originárias do latim e outras mais, comparando-as e nos mostrando que fenômenos semelhantes acontecem com todas elas. A língua evoluiu e o que foi “errado” um dia é o “certo” de hoje. Revelando-nos que por trás desses falares há grandes conhecimentos e se tornam preciosas poesias nas mãos de nossos compositores

 

e

poetas.

  e poetas.

18 SAMIZDAT agosto de 2008
18

 

recomendações de Leitura

   
 

A

primeira grande revira-

volta no enredo ocorre quan- do o médico Roger Chillin-

gworth surge diante de Hester. Na verdade, Chillingworth é

o

marido ultrajado de Hester

que decide

 

se

vingar do pai de Pearl,

descobrindo quem ele é e re- velando sua identidade para o escárnio público.

 

São estes os dois princi-

pais conflitos do romance: a contrição de Hester Prynne e ânsia por vingança de Roger

pais conflitos do romance: a contrição de Hester Prynne e

ânsia por vingança de Roger Chillingworth, que se volta contra o reverendo Arthur Dimmesdale, o mestre espi- ritual da comunidade, cuja moral é inquestionável.

a

 

A

prosa de Nathaniel Ha-

wthorne é poderosa, intrincada

bem articulada. A linguagem econômica e telegráfica com

e

a

qual os EUA nos habitou

a Letra Escarlate,

nas últimas décadas - estilo inagurado por Hemmingway, que trouxe para a literatura

a

linguagem jornalística - se

de Nathaniel Hawthorne

contrapõe ao estilo prolixo e sofisticado de Hawthorne.

 

No fundo, “A Letra Escar-

Henry Alfred Bugalho

é

lher condenada a carregar no peito a letra “A”, após ter sido acusada de adultério. Ao se recusar a revelar a identidade de quem a corrompeu, Hester toma para si toda a culpa pelo pecado. A trama é ambientada na Nova Inglaterra em meados do século XVII, auge da caça às bruxas nas cidades regidas pela administração puritana.

Hester Prynne, uma mu-

Deste adultério, Hester dá

luz à Pearl, uma criança que

representa a mácula do peca- do da mãe muito mais do que

a

late” é uma ousada crítica de Hawthorne à moral puritana, aos extremos que o radicalis- mo religioso pode conduzir. O autor não poupa Hester da necessária expiação pelo adultério, mas ele parece simpatizar com a protagonista, querer defender que, além da racionalidade, o animal ho- mem também é formado por instintos e paixões.

Um dos grandes clássicos da literatura americana tam-

bém é uma das grandes ex- posições das nossas fraquezas

“demasiado humanas”.

da literatura americana tam- bém é uma das grandes ex- posições das nossas fraquezas “demasiado humanas”.

henrybugalho@gmail.com

Nathaniel Hawthorne é um dos grandes autores canônicos dos EUA, comparável talvez a Machado de Assis no Brasil ou a Eça de Queirós em Portugal.

Sua obra principal, “A Letra Escarlate” foi um dos primei- ros fenômenos editoriais no país e é leitura obrigatória nas escolas. Na verdade, esta acolhida diz muito sobre o espírito norte-americano, até mais do que isto, diz muito sobre a moral protestante que, segundo Max Weber, está no cerne da expansão capitalista.

própria letra escarlate. Isola- das do convívio social, Hester

a

Pearl tornam-se cúmplices, companheiras no opróbrio.

e

 

A protagonista do romance

autor em Língua Portuguesa

taBaCaria

20 20

20

SAMIZDAT SAMIZDAT agosto agosto de de 2008 2008

autor em Língua Portuguesa taBaCaria 20 20 20 SAMIZDAT SAMIZDAT agosto agosto de de 2008 2008

Álvaro de Campos

autor em Língua Portuguesa taBaCaria 20 20 20 SAMIZDAT SAMIZDAT agosto agosto de de 2008 2008
autor em Língua Portuguesa taBaCaria 20 20 20 SAMIZDAT SAMIZDAT agosto agosto de de 2008 2008

http://farm2.static.flickr.com/1417/1233822084_c8d64470a5_o.jpg

Não sou nada. Nunca serei nada.

Não posso querer ser nada.

À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto, Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é (E se soubessem quem é, o que saberiam?), Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente, Para uma rua inacessível a todos os pensamentos, Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa, Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres, Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens, Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade. Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,

E não tivesse mais irmandade com as coisas

Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada De dentro da minha cabeça,

E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu. Estou hoje dividido entre a lealdade que devo

À

Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,

E

à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.

Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada. A aprendizagem que me deram, Desci dela pela janela das traseiras da casa. Fui até ao campo com grandes propósitos. Mas lá encontrei só ervas e árvores,

E quando havia gente era igual à outra.

Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?

www.samizdat-pt.blogspot.com

21

Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!

E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!

Gênio? Neste momento

Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,

E a história não marcará, quem sabe?, nem um,

Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.

Não, não creio em mim.

Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!

Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?

Não, nem em mim

Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo

Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?

Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -

Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,

E quem sabe se realizáveis,

Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?

O

mundo é para quem nasce para o conquistar

E

não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.

Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.

Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,

Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.

Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,

Ainda que não more nela;

Serei sempre o que não nasceu para isso;

Serei sempre só o que tinha qualidades;

Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,

E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,

E ouviu a voz de Deus num poço tapado.

Crer em mim? Não, nem em nada.

Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente

O

seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,

E

o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.

Escravos cardíacos das estrelas,

Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;

Mas acordamos e ele é opaco,

Levantamo-nos e ele é alheio,

Saímos de casa e ele é a terra inteira,

Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

22 SAMIZDAT agosto de 2008

22

(Come chocolates, pequena; Come chocolates! Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates. Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria. Come, pequena suja, come! Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes! Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho, Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei A caligrafia rápida destes versos, Pórtico partido para o Impossível.

Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas, Nobre ao menos no gesto largo com que atiro

A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,

E fico em casa sem camisa.

(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas, Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva, Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta, Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida, Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua, Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais, Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -

Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire! Meu coração é um balde despejado. Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco

A mim mesmo e não encontro nada.

Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.

Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam, Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam, Vejo os cães que também existem,

E

tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,

E

tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

Vivi, estudei, amei e até cri,

E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.

Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,

E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses

(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);

Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo

E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente

Fiz de mim o que não soube

E

o que podia fazer de mim não o fiz.

O

dominó que vesti era errado.

Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.

Quando quis tirar a máscara,

Estava pegada à cara.

Quando a tirei e me vi ao espelho,

Já tinha envelhecido.

Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.

Deitei fora a máscara e dormi no vestiário

Como um cão tolerado pela gerência

Por ser inofensivo

E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,

Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,

E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,

Calcando aos pés a consciência de estar existindo,

Como um tapete em que um bêbado tropeça

Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.

Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada

E com o desconforto da alma mal-entendendo.

Ele morrerá e eu morrerei.

Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.

A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.

Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,

E a língua em que foram escritos os versos.

Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.

Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente

Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,

24 SAMIZDAT agosto de 2008

24

Sempre uma coisa defronte da outra, Sempre uma coisa tão inútil como a outra, Sempre o impossível tão estúpido como o real, Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície, Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)

E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.

Semiergo-me enérgico, convencido, humano,

E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los

E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos. Sigo o fumo como uma rota própria,

E

gozo, num momento sensitivo e competente,

A

libertação de todas as especulações

E

a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira

E continuo fumando.

Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira Talvez fosse feliz.)

Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.

O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).

Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica. (O Dono da Tabacaria chegou à porta.) Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me. Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.

15-1-1928

Fonte: http://www.insite.com.br/art/pessoa/ficcoes/acampos/456.html

http://oglobo.globo.com/blogs/arquivos_upload/2008/02/216_2310-Fernando-Pessoa.jpg

autor em Língua Portuguesa

 
   

Álvaro de Campos

e a criação heteronímica de Fernando Pessoa

“A celebridade raras vezes acolhe os génios em vida, salvo se a vida é longa, e lhes chega no fim dela. Quase nunca acolhe aqueles gé- nios especiais, em quem o dom da criação se junta ao da novidade.”

chega no fim dela. Quase nunca acolhe aqueles gé- nios especiais, em quem o dom da

Henry Alfred Bugalho

Fernando Pessoa nasceu em Lisboa em 1888. Após ter vivido boa parte de sua infância na África do Sul, Fernando Pessoa retornou a Portugal em 1905, ingressou na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, mas desistiu antes de completar um ano. Com a herança de sua avó, fundou uma tipogra- fia em 1907, que mal chegou a funcionar. No ano seguinte, assumiu um cargo como tradutor comercial, profissão que exerceria por toda sua vida.

Apesar duma fervilhante vida literária desde cedo, o "dia triunfal", como o pró- prio Pessoa o denominava, foi o dia 8 de março de 1914, quando ele criou o heterônimo Alberto Caeiro e, duma só vez escreveu a obra "O Guardador de Rebanhos". Nesta mesma data, surgiram outros dois heterônimos fun- damentais na carreira poé- tica de Pessoa, Ricardo Reis e Álvaro de Campos, ambos discípulos direto da poesia de Alberto Caeiro.

henrybugalho@gmail.com

26 SAMIZDAT agosto de 2008

26

"(

)

acerquei-me de uma

o horóscopo para essa hora, está certo). Este, como sabe, é engenheiro naval (por Glas- gow), mas agora está aqui em Lisboa em inactividade.

) (

(1,75 in de altura, mais 2 cm

do que eu), magro e um pou- co tendente a curvar-se. ( ) Cara rapada todos (os heterô- nimos) – o Caeiro louro sem cor, olhos azuis; Reis de um vago moreno mate; Campos entre branco e moreno, tipo vagamente de judeu portu- guês, cabelo, porém, liso e normalmente apartado ao lado, mo-

cómoda alta, e tomando um papel, comecei a escrever, de pé, como escrevo sempre que posso. E escrevi trinta e tantos poemas a fio, numa espécie de êxtase cuja natureza não conseguirei definir. Foi o dia triunfal da minha vida e nun- ca poderei ter outro assim."

Apesar da reverência que Pessoa e os heterônimos tinham por Alberto Caeiro, cada um deles desenvolve-

ria um estilo diverso. Dos três, Álvaro

de Campos é o poeta cujo estilo mais se assemelha ao de Fernando Pessoa, aliás, durante sua vida, Fernan-

do Pessoa por várias vezes se apresentava - brincadeira ou não - como Álvaro de Campos para seus conhecidos. Nos manuscritos do autor, há vários textos de autoria duvidosa, ora assina- dos pelo próprio Pessoa, ora como Álvaro de Campos.

O heterônimo é descrito desta maneira numa carta de Pessoa a Adolfo Casais Monteiro:

"Álvaro de Campos nas- ceu em Tavira, no dia 15 de Outubro de 1890 (às 1,30 da tarde, diz-me o Ferreira Go- mes; e é verdade, pois, feito

Para saber mais

Álvaro de Campos é alto

“Dos três (heterô– nimos), Álvaro de Campos é o poeta cujo estilo mais se assemelha ao de Fernando Pessoa

nóculo. ( ) Álvaro de Campos teve uma educa- ção vulgar de liceu; depois foi mandado para a Escó-

cia estudar engenharia, primeiro mecâ- nica e depois naval. Numas férias fez a viagem ao Orien- te de onde resultou o Opiá- rio. Ensinou-lhe latim um tio beirão que era padre."

Álvaro de Campos tam- bém foi o único dos três he- terônimos a passar por fases criativas distintas. Na pri- meira delas, conhecida como "decadentista", e da qual "Opiário" é um exemplo, o poeta expressa um cansaço, um tédio e um anseio por

novidades. A segunda fase,

"futurista", caracteriza-se pela influência de Walt Whitman

e pelo fascínio, pelo elogio à

civilização e ao mundo mo-

derno. É desta fase os poemas "Ode Triunfal" e "Ode Ma- rítima". Por fim, na terceira fase, "intimista", Álvaro de Campos retorna ao tema do cansaço, do pessimisto e da inquietação diante do incom- preensível. "Tabacaria" é o melhor exemplo deste último período criativo de Campos.

Fernando Pessoa faleceu em 1935 e, apesar de só ter publicado um único livro

e alguns textos em revis-

tas durante sua vida, já era reconhecido como o maior expoente da literatura por- tuguesa no século XX. Após sua morte, descobriu-se em seu quarto um baú onde Pessoa guardava seu imenso espólio literário, com mais de 18 mil obras, e que o confi- guraria como um dos mais importantes poetas portugue- ses - ao lado de Camões.

mais importantes poetas portugue- ses - ao lado de Camões. http://omj.no.sapo.pt/bio2.htm

http://omj.no.sapo.pt/bio2.htm

http://www.colegiosaofrancisco.com.br/alfa/fernando-pessoa/carta-adolfo.php

http://pt.wikipedia.org/wiki/Fernando_Pessoa

http://pt.wikipedia.org/wiki/%C3%81lvaro_de_Campos

http://www.flickr.com/photos/kton25/473611645/sizes/o/

autor em Língua Portuguesa

mamÃ
mamÃ

Florbela Espanca

Noite negra e tempestu- osa! No céu não luzia uma estrela, o vento soprava com violência, e flocos de neve envolviam, como em alva mortalha, a aldeia adorme- cida. Só ao longe milhares de luzes ardiam no sober- bo castelo. Perfumes, flores, sedas, rendas e cá fora, numa humilde choupana à beira da estrada, fome, miséria e lamentos. Vivia ali uma pobre camponesa com dois filhinhos. Magros, doentes, pediam esmola pelos casais. Agora choravam. Tinham fome e não tinham pão, os míseros pequeninos. No único aposento via-se apenas uma enxerga onde, com a ca- beça entre as mãos, a pobre mãe pensava, talvez, no futu- ro bem negro dos filhinhos.

A contrastar, porém, sin- gularmente com a miséria do

casebre, via-se um berço ele- gante e lindo. Envolviam-no rendas e arminhos. Dentro um pequeno gentil dormia, com a linda cabecita emol- durada nos anéis doirados do seu cabelo loiro. Nos lábios pairava-lhe um sorriso meigo de anjo dormente. Abre-se a porta de repente. Uma mu- lher divinalmente formosa, envolta em ondas de rendas

e sedas, arrastando altiva a

longa cauda, entra na chou- pana. A camponesa ergue-se admirada, enquanto a fidalga

adulada, invejada, que tinha

a seus pés um mundo de

adoradores, não receando amarrotar as renda caras do seu opulento vestido de baile, ajoelhou humilde ante o ber- cito do filho do crime, que tinha de beijar furtivamente;

inclinou a cabeça, e duas lá- grimas brilhantes como gotas de orvalho se desprenderam dos olhos, resvalando-lhe pe- las faces, que foram cair nas do pequenito que, a sorrir no seu sorriso de anjo, balbu- ciou mimoso:

- Mamã!

cair nas do pequenito que, a sorrir no seu sorriso de anjo, balbu- ciou mimoso: -

28 SAMIZDAT agosto de 2008

28

a oFErta do dEStiNo Florbela Espanca Um dia, o destino, trôpego velho de cabelos cor
a oFErta do dEStiNo
Florbela Espanca
Um dia, o destino, trôpego
velho de cabelos cor da neve,
deu-me uns sapatos e disse-
me:
fundos, a boca embriagante
e fatal que há-de prender-te
para todo o sempre!
- Aqui tens estes sapatos
de ferro, calça-os e caminha
Caminha sempre, sem des-
canso nem fadiga, vai sempre
Isto disse-me um dia o des-
tino, trôpego velho de cabelos
cor da neve.
Calcei os sapatos e cami-
nhei, O luar era profundo; às
vezes, cantavam nas matas os
rouxinóis
Outras vezes, ao
avante e não te detenhas, não
pares nunca!
A estrada da
vida tem trechos de céu e
paisagens infernais; não te as-
suste a escuridão, nem te des-
lumbres com a claridade; nem
um minuto sequer te detenhas
à beira da estrada; deixa florir
os malmequeres, deixa cantar
os rouxinóis. Quer seja lisa,
quer seja alcantilada a imensa
estrada, caminha, caminha
sempre! Não pares nunca!
Um dia, os sapatos hão-de
romper-se; deter-te-ás então. É
que terás encontrado, enfim,
os olhos perturbadores e pro-
sol ardente do meio-dia de-
sabrochavam as rosas, verme-
lhas como beijos de sangue;
as borboletas traziam nas asas,
finas como farrapos de seda,
os perfumes delirantes de
milhares de corolas! Outras
vezes ainda, nem uma estrela
no céu, nem um perfume na
terra, e eu ouvia a meus pés a
voz de algum imenso abismo.
Passei pelo reino do sonho,
pelo país da esperança e do
amor que, ao longe, banhado
pelo sol, dá a impressão duma
imensa esmeralda, e vi tam-
bém as terras tristes da sau-
dade, onde o luar chora noite
e dia! Não me detive nem
um só instante! O coração
ficou-me a pedaços dispersos
pelos caminhos que percorri,
mas eu caminhei sempre, sem
fraquejar um só momento!
Há muito tempo que ando,
tenho quase cem anos já, os
meus cabelos tomam-se da
cor do linho, e o meu frágil
corpo inclina-se suavemente
para a terra, como uma fraca
haste sacudida pela nortada.
Começo a sentir-me cansada,
os meus passos vão sendo
vagarosos na estrada imensa
da vida!
E os sapatos inda se não
romperam!
Onde estareis vós, ó olhos
perturbadores e profundos, ó
boca embriagante e fatal que
há-de prender-me para todo o
sempre?!
http://www.flickr.com/photos/tcatcarson/2272845428/sizes/o/

autor em Língua Portuguesa

A voz feminina de

FLorBELa ESPaNCa

Florbela Espanca nasceu no Alentejo, em Vila Viçosa, a 8 de Dezembro de 1894. Filha ilegítima de uma "criada de servir" falecida muito nova, foi registada como filha de pai incógnito, marca social ignominiosa que haveria de a marcar profundamente, apesar de ter sido educada pelo pai e pela madrasta, Mariana Espanca. Estudou em Évora, onde con- cluiu o curso dos liceus em 1917. Mais tarde vai estudar para Lisboa, frequentando a Faculdade de Direito. Colabo- rou no Notícias de Évora e foi, com Irene Lisboa, percursora do movimento de emancipa- ção da mulher. Os seus três casamentos falhados, assim como as de- silusões amorosas em geral e a morte do irmão, Apeles Es- panca, a quem era fortemente ligada, num acidente de avião, marcaram profundamente a sua vida e obra. Em Dezembro de 1930, agravados os problemas de saúde, sobretudo de ordem psicológica, Florbela pôs fim à própria vida a 8 de dezembro, em Matosinhos. O seu suicí- dio foi socialmente manipula- do e, oficialmente, apresenta- da como causa da morte, um «edema pulmonar». Embora sua notoriedade tenha vindo a partir de sua poesia, Florbela produziu também uma obra em prosa, composta por contos e por um diário que antecedeu sua

composta por contos e por um diário que antecedeu sua morte. Com a sua personalida- de

morte. Com a sua personalida- de de uma riqueza interior excepcional, escreveu os seus versos com uma perturbação ardente, revelando um ero- tismo feminino transcendido, pondo a nu a intimidade da

mulher, dando novos rumos à consciência literária nascida

de vivências femininas.

à consciência literária nascida de vivências femininas. fontes: http://www.vidaslusofonas.pt/florbela_espanca.htm

fontes:

http://www.vidaslusofonas.pt/florbela_espanca.htm

http://www.mulheres-ps20.ipp.pt/Florb-Espanca.htm

30 SAMIZDAT agosto de 2008

30

“Ai as almas dos poetas Não as entende ninguém; São almas de violetas Que são
“Ai as almas dos poetas
Não as entende ninguém;
São almas de violetas
Que são poetas também.”
Florbela Espanca
http://www.flickr.com/photos/tactus/2378761003/sizes/o/

http://www.bisbymac.com/HOMBRE%20VITRUVIANO-2.jpg

Panorama Literário

Durante a Renascença, o Homem era vista como um reflexo perfeito do Universo. Esta relação
Durante a Renascença, o
Homem era vista como um
reflexo perfeito do Universo.
Esta relação entre o macro-
cósmico e o microcósmico
se manifestava na ânsia por
desvendar o “O Livro do
Mundo”, através das Artes,
da Ciência e da Filosofia.
O homem pleno era aquele
que buscava o conhecimen-
to pleno.
amadoriz
E-SE
Henry Alfred Bugalho
henrybugalho@gmail.com

A grande luta dos preten-

sos escritores ou de autores em início de carreira é a profissionalização.

O que isto quer dizer

exatamente — se é uma padronização da remunera- ção da hora do escritor, se é

a criação de sindicatos (acho

que este é o suposto papel da UBE), ou qualquer outro tipo de normatização do ofício —

é um mistério que um dia

ainda desvendo. No entanto,

este movimento me parece

ser algo ultrapassado, uma mentalidade típica do século

XX.

Curiosamente, enquanto eu pensava em escrever este artigo, acabei me deparando

com um capítulo no livro que estou lendo — Blog! How the newest media revolution is changing politics, business, and culture — que trans- crevia exatamente o que se passava na minha cabeça. Em suma, durante boa par-

te do século XX, as atividades laborais tenderam à profissio- nalização, à regulamentação das práticas e normas de seus

ofícios. Isto incluiu a cria- ção de cursos tecnológicos, universitários, formação de sindicatos, salário-mínimo, entre várias outras conquistas do mercado de trabalho. Enquanto o homem re- nascentista se orgulhava por agregar várias atribuições — matemático, físico, pintor, en-

genheiro, filósofo, médico, etc. — o homem moderno passou a valorizar o “recorte”, a “es- pecialização”. Isto parece ter decorrido graças ao reconhe- cimento de como os saberes podem ser, individualmente, bastante vastos. No campo da Medicina, por exemplo, alguém pode passar a vida inteira estudando que não se obterá pleno conhecimento de todas as especialidades. Portanto, a especialização se tornou o signo da compe- tência. “Restrinjo a amplidão do meu saber”, diz o homem moderno, “mas me torno o melhor naquilo que sei”. O adjetivo “amador” se tor- nou algo demeritório. O ama- dor estaria a pelo menos um

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SAMIZDAT agosto de 2008

SAMIZDAT agosto de 2008

nível abaixo do “profissional”. Na hora de se contratar um serviço, busca-se um profis- sional; recorra a um amador

por sua conta e risco.

Por outro lado, o século

XXI tem apresentado um

panorama completamente distinto. Com o surgimento da internet, uma legião de amadores tomou conta do ciberespaço, mostrando seus trabalhos e surpreendendo, em muitos casos, pela quali- dade “profissional” deles.

Fotógrafos, ilustradores, músicos, cineastas, escritores, jornalistas, amadores que estavam à margem do mundo profissional, provavelmente exercendo profissões que nada tinham à ver com tais atividades paralelas, deram suas caras a tapa e provaram

que competência não residia

numa faculdade, num curso técnico ou sob a égide do

“profissionalismo”. E mais do

que isto, o amador demons-

trou ser muito mais criativo e ousado do que muitos profis- sionais.

Por quê? A razão é simples, a meu ver. Não trabalhamos por prazer. Em nossos dias, tra- balhamos por imposição da sociedade de consumo. Precisamos pagar as contas, alimentarmo-nos, adquirir bens de consumo, imóveis, roupas, e queremos também ostentar — jóias, automóveis, roupas de grife —, quer dizer, todos aqueles ingredientes que lubrificam as engrena- gens do capitalismo. O traba- lho faz parte desta estrutura de produção. Geralmente nosso momen- to de prazer é durante o ócio, em nosso tempo livre. Não duvido que muita gente, na

hora de escolher uma profis- são, o faça crente de que fará aquilo que lhe dá prazer. E isto até pode ser verdade em alguns casos em boa parte do tempo, mas o simples fato de sermos obrigados a realizar algo (e, no caso duma profis- são, provavelmente por toda

a nossa vida) já é um convite

à repulsa. Somos forçados

a trabalhar, mas não somos

forçados a termos um passa-

tempo. Nossos hobbies são ati-

vidades que nos dão prazer

e que realizamos em nosso

tempo livre. Na maioria das vezes, ninguém nos coage a isto. Escolhemos o que nos dá prazer, e o exercemos quan- do temos vontade. A própria palavra “amador” traz consigo este significado: aquele que ama.

O amador está livre das

normas que regulamentam uma profissão. Está liberto das amarras da doutrinação e do tecnicismo. Muitas vezes, peca pela ignorância, pelo desconhecimento, mas disto acaba surgindo a originalida- de.

A oposição entre amador

e profissional fundada em termos de mera remunera- ção me parece equivocada, sob esta perspectiva. É muito mais coerente pensarmos em “aquele que é obrigado a exercer um ofício” em oposi- ção àquele que “exerce uma atividade para deleite pró- prio”. Este clamor por “profis- sionalização” nas Letras me parece atingir e abalar o fundamental na escrita e na Arte — não se pode obrigar alguém a criar. Podemos até ter alguns ca- sos na História, como a famo-

sa imposição a Michelangelo para concluir a Capela Sisti- na, mas, em geral, o artista é aquele que cria independente dos resultados práticos de sua arte. Se fosse o contrá- rio, se a Arte e a Literatura estivessem submetida às leis do comércio, obras que levam

anos ou décadas para serem

concluídas, como Ulisses de

Joyce ou como as invendáveis pinturas de Van Gogh (que hoje valem milhões), seriam inconcebíveis, ou teriam de ser niveladas para cumprir

as exigências da produção em série. Um livro por ano, ou a cada seis meses, senão o escritor não paga suas contas. “Profissionalize-se” é nadar contra a corrente. No mundo contemporâneo, indivíduos muito competentes estão se reunindo e defendendo o ideal de que cultura e tecno- logia não devem ser exclu- dentes, que todos têm direito

a elas. Por isto, surgiram

projetos como a Wikipédia, sem dúvida a mais comple- ta enciclopédia no mundo, totalmente gratuita, escrita e revisada por pessoas comuns,

como eu e você, ou como os conceitos de Open Source, Copyleft, Creative Commons, que permitem aos criadores distribuírem gratuitamente seus trabalhos sem abrirem mão da autoria.

A marcha dos tempos aponta para uma direção oposta. Talvez tenhamos diante de nós novamente a

imagem do homem renascen- tista, que desfila por entre os saberes, por entre as práticas,

e as exerce livremente, para

seu próprio deleite e, quem

sabe, para o benefício da coletividade. Hoje, o lema deveria ser:

“amadorize-se”.

para seu próprio deleite e, quem sabe, para o benefício da coletividade. Hoje, o lema deveria

o CEGo

Contos

E o PS

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iCoPata

Carlos Alberto Barros
Carlos Alberto Barros

carloseducador@hotmail.com

http://www.flickr.com/photos/emdot/92365468/sizes/l/

O filho-da-puta me cegou! Eu não passo de uma porra de um cego agora, sem poder fazer nada! E ele ainda está aqui. Meu Deus, queria que não estivesse, mas o desgra- çado ainda está aqui.

que aconteça um milagre, que Deus exista. Os passos continuam, estão mais per- to. Tento lembrar como se reza um pai-nosso, penso na minha mãe, na minha espo- sa. Os passos estão aqui na

O

medo não me deixa

sentir dor. Enquanto a ponta da faca perfurava meus olhos e eu quase quebrava meus dentes forçando-os uns con- tra os outros, ainda a sentia. Mas, agora, esqueço dela. Só consigo pensar no desespero de viver como um cego – isso, se eu não morrer aqui.

cozinha. Cada centímetro do meu corpo treme, sinto-me gelado, pareço já estar mor- to. Ouço-os parar na minha frente.

Encontrei um brinquedi-

nho bem interessante – escu- to de uma voz cínica.

Filho-da-puta! O que você vai fazer?

Nossa! Depois que ficou

Há alguns minutos que fui amarrado numa cadeira da cozinha. Ouvi-o dizer que ia ao quarto dar um jeito na minha mulher. Miserável! Se fizer alguma coisa, eu o mato. Juro que mato!

Ouço seus passos densos percorrerem os cômodos da casa. O som vai se afastando, se transformando. O baru- lho do portão dos fundos é inconfundível: o maldito che- gou à casinha de ferramen-

tas. Por Cristo, o que ele quer

ceguinho virou macho? Calma aí, que, primeiro, vou conversar com sua querida esposa.

Pelo amor de Deus, dei- xa ela ir

– Já, já eu volto.

– Covarde! – grito – Se

encostar um dedo nela, você está perdido!

Pára de escândalo e fica

com os ouvidos bem abertos.

ali? Ah, não

Não deixe que encontre! Ele

não é esperto, não vai olhar

em cima do armário

um assassino burro, não vai procurar direito. Não deixe ele achar, Deus, por favor, não deixe ele achar.

Por favor, não

É só

Os passos de meu carrasco soam como uma marcha fú-

nebre. Cada um deles espeta-

me o coração profundamen- te. Ao todo, são 22 estocadas. Que fossem infinitas! Jesus Cristo, quisera eu que fossem infinitas a ter que percebê-las

O

armário está se abrindo.

Coisas são atiradas no chão, abrem-se gavetas. Ai, não parece que está arrastando

parando e ouvir o que ouço agora. Além de cego, faça-me também surdo. Eu imploro:

não me deixe ouvir.

Não

Eu supli-

Não! Não! Por favor,

uma cadeira co, não, não

Minhas únicas compa- nhias são a escuridão e o desespero, enquanto escuto os passos lentos retornarem. Desejo que o tempo pare,

não enfia isso em mim! – é minha esposa gritando, como quem vê algo pior que a face da morte.

Amarrado, impotente, ouvindo tudo, tento disfarçar meu desespero para acalmar

o dela:

– Vai ficar tudo bem! Eu te amo! Vai ficar tudo bem! – esperneio, ouço, choro, estre- meço.

– Meu amor, pede para ele parar! Não, não faz isso, pára! Aaaahh! Pede para ele parar!

Não consigo mais respon- der. Sinto-me o mais impres- tável dos homens. Inundado pelos gritos de agonia, aban- dono o pouco de esperança que eu ainda carregava e simplesmente peço que o meu fim venha logo.

Minutos passados, os gri-

tos de minha esposa tornam-

se sussurros mecânicos de

alguém em estado de choque.

Ouço a cama rangendo, ouço

os gemidos. Não agüento

mais! O que ele está fazendo?

O que o covarde está fazen-

do com a minha mulher?

Os sons param. Um breve silêncio tenta prevalecer. Surgem pequenos ruídos,

indecifráveis. O que o louco ainda está tramando? Ah,

não

não

Este barulho

Meu Deus, não

Por miseri-

córdia, não!

Histérica, minha mulher alfineta meus ouvidos com longos e agudos gritos. Será que ninguém mais escuta isso? Onde estão as pragas dos vizinhos curiosos? A

polícia?

Os gritos se extinguem, o barulho da morte continua. Escuto algo sendo cortado, faço uma prece, amaldiçôo

Deus. Os passos

sos, mais carregados do que

nunca, estão vindo para cá.

A cada um deles, imagino o

que me trarão. Minha espo-

sa

por favor. Mais um passo:

Os pas-

Esteja bem, meu amor,

por que está acontecendo isso com a gente? Outro pas- so: Deus, porque nos abando- nou? E outro: eu não quero morrer. Estão mais próximos, mais fortes. Não chegue aqui! Não chegue aqui! Cristo, estão já na cozinha! Parecem trazer todo o peso do mundo, sinto-os quebrar o piso. Pren- do a respiração. Os passos Pararam na minha frente.

– Ouviu como sua esposa

estava se divertindo? – ouço- os falarem.

Estremeço na cadeira. Ten- to, em vão, me levantar.

– Onde está minha mu-

lher, seu débil mental? O que

você fez?

– Calma. Ela está bem

aqui.

Sinto algo pesado cair

sobre meu colo. Um líquido viscoso e quente umedece

minha roupa. Não

to, não

conta de mim, agito-me, o que estava em meu colo vai ao chão. Sarcástica, ressurge a voz na minha frente:

Por Cris-

O desespero toma

– Seja mais carinhoso

Como é que você joga assim, no chão, a cabeça de sua mulher?

– Aaaaahhh!

Por quê? Por que tudo

isso? Não entendo. O que fi-

zemos de errado? Eu

Minha

mulher

A cabeça

Deus do

céu! Não suporto mais, entre- go os pontos.

– Por que não me mata

logo, seu maníaco? Vamos, me mata! – exijo, em prantos.

Aquele barulho

Ouço,

novamente, aquele barulho Eu tinha certeza. Em cima do

armário

ca portátil

Minha serra elétri-

Ele achou minha Usou lá no

serra elétrica

quarto e agora vai usar aqui. Sádico maldito! Vai usar em

mim!

– Não precisamos ter

pressa. Sempre te odiei, seu desgraçado. Faço questão de te matar bem devagar, peda- cinho por pedacinho – fala, enquanto eu escuto o ruído

da serra bem próximo ao meu ouvido.

– Mas, nem te conheço,

maluco!

– Você não me conhece,

mas eu te conheço.

Desde que fui amarra- do nesta cadeira, fiz várias

preces. E a única delas que achei que nunca seria atendi-

da, acontece agora: o milagre. Ouço sirenes se aproximan- do, várias delas. Percebo os passos em ação. Correm ligeiros, vão até a sala, vol- tam à cozinha. As sirenes mais próximas. Mais passos em direção ao quarto, de lá, saem abruptos, como que duplicados. Parecem estar de novo na sala, abrem a porta,

aceleram-se. Ouço-os distan-

tes

mais.

Mais longe

Não ouço

Junto com as sirenes, sons

de carros e freios parecem muito próximos. A cam- painha toca várias vezes. Eu peço socorro. Alguém grita dizendo que é da polícia e que está entrando. Eu peço socorro. Os passos invadem

a casa, montes deles. Graças

a Deus! Graças a Deus!

– O senhor está bem?

– ouço uma voz próxima

perguntando.

– O louco matou minha

esposa! Ele me cegou! Acabou

36 SAMIZDAT agosto de 2008

36

de fugir! ma de um de seus visinhos – Se acalme, senhor. Já temos uma
de fugir!
ma de um de seus visinhos
Se acalme, senhor. Já
temos uma equipe fazendo
busca. Vamos desamarrá-lo.
dizendo que o amante de
sua esposa entrou na casa
e, pouco depois, ouviram-se
de cachorro com o corpo
cortado. Parte dele está no
quarto. A outra, bem aqui na
sua frente.
muitos gritos.
– O quê?
Maníaco! Ele ia me
Amante? Que história é
essa?
cortar todo! Meu Deus, ia me
cortar!
Foi o que nos disseram.
Agora está tudo bem,
Ainda não apuramos as in-
senhor. Vamos ao hospital
cuidar desses ferimentos.
Depois faremos o boletim de
ocorrência e daremos baixa
na denúncia.
formações.
Mas
Minha mulher
Onde está o corpo de minha
mulher?
– Denúncia?
Não há mais ninguém
na casa, senhor. Só o que
– Recebemos um telefone-
encontramos foi este filhote
http://www.flickr.com/photos/solarider/1140046436/sizes/o/

http://www.flickr.com/photos/danihernanz/412783628/sizes/o/

Contos

o LadrÃo de o LHoS
o LadrÃo
de
o LHoS

Volmar Camargo Junior

v.camargo.junior@gmail.com

Patas-Fortes era um lobo jovem e solitário. Escolheu exilar-se de sua família para não ter de competir com o pai pela liderança da alca- téia. Nos últimos dias de um outono estranhamente curto, assolado por ventos sussur- rantes vindos do Oeste, Patas- Fortes avistou à distância um caribu desgarrado. A caça fugiu dele por muitos dias até o limite de sua exaustão. Levou sua presa a cair em uma ravina, de maneira que nem por um milagre escapa- ria.

Com o respeito devido, Patas-Fortes reverenciou-o. Embora velho e ferido, o ca- ribu mantinha o porte altivo, mantendo a cabeça ereta e o olhar distante, como se igno- rasse a presença de lobo.

— Por que não me olha nos olhos, caribu?

— Porque não o vejo.

Era verdade. No lugar dos olhos do grande cervídeo havia dois buracos escuros.

— Eu serei honrado em

extinguir sua dor. Seja meu alimento, porque tenho fome.

38 SAMIZDAT agosto de 2008

38

— Será uma grande honra

para mim também, predador. Mas não quero ser o causa- dor de sua desgraça.

— Por que diz isso? Não

há desgraça maior para um lobo que morrer à míngua.

— Certamente há. Se co-

mer de minha carne, cairá na escuridão como eu. E nada pode ser pior que um caça- dor cego.

Patas-Fortes ponderou por um instante.

O que devo fazer, en-

tão?

— É simples. Basta trazer meus olhos de volta.

— Isso é impossível, cari-

bu.

— Não, não é. Ao sul,

além da tundra há uma grande planície. Depois da planície há a floresta. No

meio da floresta há O Olmo,

a árvore mais velha do

mundo, tão alta que sua copa furou o céu, e cujas raízes jazem no mundo dos mortos. Em um oco do tronco des- sa árvore vive o Corvo. Foi Corvo, o ladrão que roubou meus olhos.

— Não tenho escolha?

— Ou isso, ou a míngua.

Dito isso, o venerável animal bateu com os cascos

no gelo, e uma neblina densa

e leitosa ergueu-se em toda

a ravina. Naquele momento,

Patas-Fortes entendeu que aquele não era uma presa qualquer. Era o Avô-Caribu. Ele sabia – como sabiam todos os lobos desde sem- pre – que não se pode negar um pedido do Avô-Caribu. Se contrariado, não haveria caça para os lobos por tantos verões quantas fossem as

estrelas do céu. Sem escolha,

o lobo partiu.

O disco do Sol, cada vez

que completava sua volta, ocultava-se mais e mais atrás do horizonte. Estava ficando escuro. O mundo começava

a vestir seu luto pelo Verão.

Patas-Fortes correu como louco para vencer a tundra. Sua fome era tanta que sentia suas entranhas devorarem- no. Quando o azul do céu despediu-se definitivamente,

o jovem lupino pisou na

planície.

Diante do deserto imenso, o lobo sentiu pela primeira

vez a solidão. Para espantá-

la, tão alto quanto podia,

Patas-Fortes uivou.

Então, uma surpresa. Vin- do de muito além da vasti-

dão cinzenta, ouviu a respos-

ta ao seu uivo. Era também

um lamento, mas, de alguma

forma, havia naquele outro uivo uma gota de gratidão. Precisava chegar à floresta. Precisava reaver os olhos do

Avô-Caribu. E a partir daque-

le instante, precisava também

encontrar o dono daquele uivo longínquo.

Em sua enorme agitação,

não percebeu que o mundo

estava mudando. O céu fica-

va cada vez mais baixo, o ar

mais pesado e duro. O seu trote rugia mais alto aos seus

ouvidos que o vento. Foi por

isso que, quando a nevasca tomou a planície, o lobo foi surpreendido. O Inverno ha- via chegado definitivamente.

O jovem lobo foi sendo aos

poucos vencido pela neve, pelo isolamento e pela fome. Perdeu a consciência.

Algum tempo depois, seu corpo foi invadido por uma

onda de calor aconchegante.

De olhos fechados, viu a cla- ridade amarela e quente que

o rodeava. Havia um cheiro

primaveril de terra, e em sua

língua o adocicado sabor de tutano.

— Devo ter morrido.

Uma voz antiga e afetuosa soprou em seus ouvidos.

— Ainda não, lobo. Aqui

não é a morte para você.

— Quem é? Onde estou?

— Aqui é para onde venho

quando Inverno chega. Oh, sim. Eu sou Urso.

— Por que me trouxe para

cá?

— Porque foi você quem

me trouxe para cá primeiro. Quando você e seus irmãos aprendiam a ser caçadores, tiraram minha vida.

Patas-Fortes ficou cons- ternado. Em outros tempos, quando ainda vivia com seus pares, aprendeu que um urso só é confiável se está san- grando no chão.

— E ainda assim ajudou-

me.

— Sou um Espírito agora.

É meu dever ensinar o que sei a quem precisa.

Finalmente, conseguiu

ver. Estava em uma toca sob

a

neve, protegido, aquecido

e

com vida – embora ainda

estivesse faminto. Patas-fortes aprendeu a hibernar. Contu- do, ainda era Inverno. O céu tornou a abrir, derramando sobre o mundo a luz das estrelas. O frio fora da toca era maior do que antes da Nevasca, mas uma agradável constatação fez com que o lobo o ignorasse por comple- to. Havia chegado à floresta.

Sem ter percebido o quanto caminhou durante

a tempestade, Patas-Fortes

não viu onde estava quan- do desfaleceu. Rejubilou-se quando avistou diante de si um formidável monte, bran- co pela neve como todo o mundo, mas que tinha seu dorso e seus pés cobertos de pinheiros. Patas-Fortes tinha uma lembrança distan- te daquela massa escura de caules compridos. Não era uma boa recordação, mes- mo sem entender o motivo. Mesmo assim, impulsionado pelo compromisso assumido quando Sol ainda pairava no céu, o lobo lançou-se contra a penumbra. A luz diminuiu de tal maneira que depois de não muitos passos, pôde orientar-se apenas pelo olfato. Assim, quando sen- tia o cheiro das cascas das árvores aproximarem-se o suficiente, desviava delas para seguir, mais e mais adentro na escuridão. E quanto mais denso ficava o negrume, mais parado o ar, mais confuso e labiríntico ficava o ca- minho. Só então, depois de estar completamente perdido, Patas-Fortes deu-se conta de que não sabia como chegar ao Olmo.

Sentiu outra vez o mal-

estar do isolamento. Com ele,

o peso do ar parado, a escu-

ridão quase palpável, a fome que voltou urrando dentro de si. Girou para todos os lados, bateu-se contra os troncos invisíveis dos pinhei- ros, resvalou no chão que ele próprio ajudou a deixar barrento. Como um último recurso para fugir ao deses- pero, ganiu, rosnou, latiu e, por fim, uivou.

E outra vez, foi surpreen- dido. Ao seu lado, outro lobo

uivou. Era o mesmo uivo que Patas-Fortes ouviu antes de atravessar a planície.

— Encontrei você! Enfim, encontrei o uivo que me responde.

— Sim. É grande a minha

alegria também. Mas sei que não fui eu quem o trouxe até aqui.

— É verdade. Vim para

reaver algo que foi roubado.

— Seus olhos.

— Não os meus, mas os

de alguém de quem foram

roubados. Como sabe?

— Porque é o que todos

querem aqui. Todos os que perderam a lembrança da última coisa que viram, vêm para cá. Ou pedem que al- guém o faça.

— Você sabe como posso

chegar ao Olmo, então?

— Ainda não percebeu?

Você está aos pés dele.

Patas-Fortes entendeu o que acontecia. Estava expe- rimentando o que seria seu destino pela eternidade se não cumprisse a missão. Buscando nas suas recor- dações, o lobo encontrou a que poderia ajudá-lo naquele momento: o cheiro de Avô-

Caribu.

O lobo ainda sentia frio, ainda estava amedrontado, ainda estava imerso no es- curo, e acima de tudo estava mortalmente faminto. Mas o compromisso o fez esquecer- se por um instante de si próprio. Pela segunda vez desde que levou um cervídeo velho para uma armadilha, Patas-Fortes esteve próximo da morte. Mas desta vez,

entretanto, era uma morte diferente. Permitiu-se ser levado pelo instinto mais antigo de sua raça, e seu focinho transformou todos os cheiros das coisas obscu- recidas em imagens dentro de sua cabeça. Diante dele, os cheiros fizeram surgir uma árvore tão grande que não se podia ver onde terminava. Era o Olmo.

— Quer encontrar o La-

drão? – perguntou o outro. Patas-Fortes, então, viu como ele se parecia. Era dono de uma altivez digna de um alfa, um chefe de alcatéia. Sentiu em sua presença a mesma sensação que perce-

beu quando encontrou Urso

e, antes dele, Avô-Caribu.

Estava diante de um Espírito. Aquele era Pai-Lobo.

— Sim. A hora é agora.

— Siga-me, então.

Pai-Lobo conduziu Patas- Fortes por um caminho se- creto. Circundando parte do tronco gigantesco do Olmo,

encontraram um buraco que levava às raízes da árvore. Desceram até onde era pos- sível. Em seguida, quando o buraco terminava, e o cheiro da terra mais antigo que já havia sentido, os dois puse- ram-se a cavar. E cavaram por um tempo incalculável, sempre indo para baixo. Já não era mais frio, mas não era quente. O aroma que o lobo sentia era apenas o seu

e de seu companheiro. A ter-

ra que cavavam não parecia com nada que conhecesse. Então, surgiu uma luz. Era uma luz desagradável e tris- te. Quando chegaram a luz, encontraram uma caverna nevoenta, onde parecia não haver nada. De cima, vinham

40 SAMIZDAT agosto de 2008

40

as grossas raízes do Olmo.

— Não olhe muito, filho. Aqui é o mundo dos mortos.

— Mas é assim tão feio e triste.

— Ninguém vê beleza na

morte até estar morto. Agora,

suba por ali.

Disse isto, indicando uma raiz diferente das outras. Patas-Fortes quis olhar seu ancestral com os olhos da carne. Mas quando se voltou para ele, já não estava mais lá.

Seguiu, pois, a orienta- ção de Pai-Lobo. Ali era a entrada do oco-da-árvore. Assim que entrou sentiu-se observado. Em pouco tempo, acostumou-se ao ambiente. Só então percebeu o quan- to era terrível o lugar onde estava. Por todos os lados, no chão de terra, nas paredes lenhosas do oco-da-árvore, nas raízes protuberantes, preenchendo todos os es- paços havia uma infinidade de olhos. Adiante, em uma raiz retorcida e coberta de olhos, dormia, empoleirado, o Corvo.

O aspecto do lugar causou em Patas-Fortes um grande desconforto. Porém, sem que pudesse conter, seu focinho apontou com segurança na direção de um nó de ma- deira coberto de olhos. Entre eles, um brilhante par de olhos negros. Eram os de Avô-Caribu.

— Lobo! – disse uma voz

aguda – Sequer, em tocá-los, pense.

— Você é que não vai me impedir, Ladrão!

— Eu esses olhos roubei.

Sobre eles direito tenho. As-

sim sempre foi. Assim sem- pre será.

— Pois sobre estes não

tem. Vou levá-los de volta.

— Eu o impedirei.

E voou. Como um raio, o pássaro negro caiu sobre a cabeça de Patas-Fortes. En- quanto batia as asas e ber- rava, Corvo enfiou as garras

nas pálpebras do lobo. Enlou- quecido, o lobo rosnava ten- tando esquivar-se, e agitava

a cabeça querendo livrar-se

das garras do Ladrão. Com violência, Patas-Fortes jogou- se contra as paredes cheias de olhos, e as raízes cheias de olhos. Num descuido, com uma bicada certeira, Corvo arrancou da órbita o olho direito de Patas-Fortes.

A dor era absurda. Pare-

ceu-lhe que toda a dor, toda

a exaustão, a fome, o frio, o

desespero, as mortes de que escapou e as mortes que trouxe para as criaturas que caçou, todo o sofrimento de sua existência foi sentido de uma única vez. Então, rolan- do no chão coberto de olhos, Patas-Fortes percebeu o que estava acontecendo.

desejo pelo outro olho, com um movimento rápido de caçador o lobo abocanhou seu algoz, engolindo-o sem

mastigar. E assim, tendo

devorado o Ladrão de Olhos,

o predador saciou sua fome

que durava desde o início do

inverno.

Tomou os olhos negros de Avô-Caribu entre os den- tes, com cuidado para não ofendê-los. De repente, um vento vindo da entrada do

oco-da-árvore agitou seus pê- los, e como se ele não pesas- se mais que uma folha caída, ergueu-o no ar. Era Chinook, um dos muitos ventos ami- gos de Pai-Lobo. Pelo céu negro do inverno, muito

acima da floresta, da vastidão da planície e da tundra, o

vento levou Patas-Fortes até

a ravina, onde estava o dono

dos olhos que ele portava.

Até hoje, o Espírito de um lobo caolho aparece para os jovens caçadores que enfren- tam o frio, a fome e a incer-

teza de seus destinos.

enfren- tam o frio, a fome e a incer- teza de seus destinos. À distância, em

À distância, em seu polei-

ro, o corvo convulsionava de tanto rir, segurando na garra esquerda seu novo troféu. Em uma atitude desesperada, ocorreu ao lobo uma idéia

absurda.

— Corvo! Você venceu.

Não consigo suportar ser um caçador com um olho só. Por favor, arranque o outro e beba minha última visão.

— Com prazer. – disse,

guloso, o pássaro ladrão.

Assim que Corvo pousou em seu focinho, louco de

Contos

Wilhelm Schröder (1881- 1947) dedicou grande parte de sua carreira médica ao estudo das patologias
Wilhelm Schröder (1881-
1947) dedicou grande parte
de sua carreira médica
ao estudo das patologias
psiquiátricas. Foi as-
sistente de Otto Loewi,
posteriormente passou a
investigar e compilar casos
para sua obra mais impor-
tante, Kompendium der
Psychopathologie.
A morte trágica, durante
sua internação num hospital
psiquiátrico, comoveu a
comunidade médica.
Síndrome de Caim
Henry Alfred Bugalho
henrybugalho@gmail.com

42 SAMIZDAT agosto de 2008

42

O psiquiatra bávaro

Wilhelm Schröder reali- zou, durante sua carreira, extraordinários avanços na área de psicopatologias. Foi um dos assistentes de Otto Loewi para a sintetização da acetilcolina, viajou por toda a Europa catalogando as patologias psiquiátricas e foi o primeiro a identificar a Síndrome de Caim, ao anali- sar mais de setecentos casos de fratricídio.

As características mais evi- dentes da Síndrome, segundo consta na obra que trouxe notoriedade a Schröder, Kom- pendium der Psychopatholo- gie, são:

a) extrema rivalidade

entre irmãos, de ambos os sexos, em busca de aprova- ção duma terceira parte: pai, mãe, grupo social, comunida- de, amigos;

b) o primogênito ou irmão

mais velho apresenta distúr- bios comportamentais, geral- mente de natureza agressiva e/ou destrutiva;

c) por ser uma psicopa-

tologia de difícil identifica- ção, ainda mais tendo-se em conta a natural inclinação da prole em disputar o afeto dos progenitores, só se constata a gravidade dela após ani- mosidade (violência física ou verbal) entre irmãos ou, nos casos mais extremos, fatricí-

dio, sendo o irmão mais novo objeto da agressão;

d) natureza crônica, comu-

mente desenvolvida durante

anos ou décadas de convi- vência conflituosa.

A repercussão das teorias

de Wilhelm Schröder foi imediata e elas foram acolhi- das pelos mais importantes

psiquiatras de sua época. Em seu diário, Schröder relata seu entusiasmo:

Os anos de trabalho árduo compensaram. Finalmente, aqueles senis doutores se curvam diante de mim, até Hermann (Keller) me escreveu congratulando-me. Como deve ter sido difícil para ele engolir seu orgulho!

No entanto, havia três casos específicos que intriga- ram Schröder.

O primeiro era de duas ir-

mãs adotivas austríacas: Lotte

e Gretchen K.

Gretchen havia sido trazi- da ao lar da família K. pouco

antes de atingir a puberdade

e o convívio com o novo

núcleo familiar foi harmo- nioso. Lotte, dois anos mais

velha, recebeu-a sem reservas,

o que facilitou a ambientação

de Gretchen.

Contudo, Gretchen pa- deceu duma desconhecida enfermidade, obrigando os pais adotivos a dispensar-lhe

atenção especial; de irmã, Lotte se transformou em enfermeira.

A doença da filha adoti- va se agravava sem razões aparentes, nenhum médico conseguia determinar suas causas. No entanto, a morte não adveio, como se espera- va, para Gretchen, e sim para Lotte, esfaqueada na garganta enquanto servia almoço à

irmã.

O brutal assassinato per-

petrado por uma adolescente foi capa de todos os jornais

europeus, e durante algum tempo, os índices de adoção

decresceram drasticamente.

Quando interrogaram

Gretchen sobe os motivos para ela ter matado aquela considerada como sua me- lhor amiga, Gretchen foi

assertiva:

— Ela estava me envene-

nando, desde o dia em que cheguei nesta casa.

E realmente, após a morte de Lotte, o estado de saú- de de Gretchen melhorou evidentemente. Mesmo assim, ela foi enviada a uma casa de correção, onde ficou confi- nada até os vinte e um anos, quando então não mais se teve notícias dela.

O segundo caso era ainda

mais curioso. Hans F. era o filho do primeiro casamento de Johann F. Quando enviu-

vou, Johann, com cinqüenta

e cinco anos, se casou no-

vamente com uma mulher muito mais nova do que ele,

Tatyana, descendente duma linhagem russa, apenas vinte anos de idade.

Tatyana logo engravidou

e deu a luz a Louise. Hans F.

estava em seus trinta e cinco anos quando do nascimento da irmã. Ele era um homem bem-sucedido, sócio duma exportadora de equipamentos industriais, proprietário de imóveis em Berlim e dum chalé na Basiléia, casado e

pai dum menino que ainda não havia completado um ano.

Antes do nascimento de Louise, o filho de Hans era quem ocupava o lugar cen- tral nos cuidados do avô, porém, ao nascer a filha temporã, naturalmente Jo- hann passou a se dedicar aos cuidados de Louise.

Naquele Natal, estando to- dos reunidos à mesa da ceia,

Hans subiu ao quarto onde a irmãzinha dormia e a sufo- cou com um travesseiro.
Hans subiu ao quarto onde a
irmãzinha dormia e a sufo-
cou com um travesseiro.
A
morte do bebê foi con-
siderada por causas naturais.
Hans revelaria o assassinato
apenas alguns anos depois,
ao ser diagnosticado porta-
dor duma doença terminal.
Sob o peso da verdade, seu
pai o deserdou e sua esposa
o
abandonou.
Hans cometeu suicídio
com um tiro na cabeça, uma
foto de Louise repousava em
seu colo.
O
terceiro e mais sur-
preendente dos casos, que
influenciaria diretamente a
carreira do Dr. Schröder (o
que ele só descobriria poste-
riormente), dizia respeito a
um rumor, à boca pequena,
de que Gustav Schröder era
o
favorito para receber o
Prêmio Nobel de Fisiologia,
graças a suas pesquisas na
área cardiovascular.
Wilhelm Schröder era
mais velho e razoavelmente
conhecido por seus pares,
mas a notícia de que um
rapazola, recém-saído da
Universidade, estivesse sendo
cogitado para o mais impor-
tante prêmio na área médica,
foi demais para o primogê-
nito.
É inacreditável! Há uma
década que dou meu sangue por
meu trabalho e, com muito custo,
consegui um pouco de renome.
Mas meu irmão, sabe-se lá por
que cargas d’água, por um simples
trabalho acadêmico, está sendo
considerado como um gênio da
medicina.
todos terem se recolhido,
Wilhelm e Gustav sentaram-
se no quintal para fumar.
Na medida em que o dia
do anúncio do prêmio se
aproximava, os boatos se
tornavam mais freqüentes
Todos se achegam e me dão
tapinhas no ombro, congratulan-
do-me por ser irmão dum futuro
ganhador do Nobel. Tenho nojo
“Eu perguntei a Gustav
o que ele pensava de mim”,
conta-nos Willhelm Schröder
em seu diário, “e ele me res-
pondeu que eu era seu irmão
mais velho”.
e
consistentes — o nome de
deste povo ignorante.
— Digo profissionalmente,
Gustav. O que você pensa de
mim como médico?
Gustav Schröder se fortalecia.
— Você é ótimo, Wi-
Organizaram uma festa para
comemorar a indicação.
Naquela noite, brindaram
lhelm
— Gustav refletiu
à
saúde de Gustav parentes
— Tem um potencial que po-
No diário de Wilhelm, na
entrada escrita poucas horas
antes da festa, ele escreveu:
amigos, a premiação era
tomada como certa, todos
estavam inebriados.
e
No fim do jantar, após
deria ser melhor explorado,
talvez precise de um pouco
mais de ousadia, mas tem
tudo para ser reconhecido no
futuro.

44 SAMIZDAT agosto de 2008

44

Numa única sentença, Gustav disse três palavras proibidas no vocabulário de Wilhelm — potencial, ousa- dia e futuro. O irmão mais novo dizia ao mais velho que, em menos tempo, havia obtido mais do que o outro jamais conseguiria.

Wilhelm retirou do casaco

o

havia ensaiado uma vintena de vezes durante o jantar e o apontou para Gustav:

revólver, gesto que ele

te aquelas referentes à Sín- drome de Caim.

de morfina ministrada por Isolde, uma enfermeira com quem ele manteve um sigilo- so relacionamento amoroso naqueles anos de cárcere.

A última inscrição no diário de Dr. Schröder dizia o seguinte:

Sempre me questionei sobre como a posteridade se recordaria da minha passagem pelo mundo dos vivos.

Assim que foi publicada, Jacques Dubois enviou um exemplar da nova edição para Dr. Schröder no sanató- rio.

A princípio, Wilhelm Schröder se orgulhou pelo trabalho do discípulo, uma

revisão que tornou a obra mais completa e precisa, refinou alguns conceitos e desenvolveu estudos apenas esboçados por Schröder, no entanto, no capítulo desti- nado à Síndrome de Caim, Schröder se deparou com a descrição do próprio caso.

Ele já havia refletido sobre o ocorrido, sem nunca com- preender como um psiquia- tra renomado poderia ser vitimado pela patologia que descobriu e cujos sintomas estudou.

Encontraram Wilhelm Schröder morto em sua cela, após receber uma dose letal

 

Quem você acha que é

Lutei para conquistar meu espaço, realizei grandes obras e equívocos maiores ainda.

Mas de médico brilhante a caso psiquiátrico, isto jamais!

 

para falar deste jeito comigo?

Você me perguntou o

que eu pensava sobre você, meu irmão, apenas respondi com sinceridade.

— Você me perguntou o que eu pensava sobre você, meu irmão, apenas respondi com sinceridade.
 

Mas você é um rapa-

 

zinho muito do arrogante mesmo! Quando minhas pes- quisas já estavam circulando pelas mãos dos mais impor- tantes médicos da Europa, você era ainda um meninote

de calças curtas, tomado por acnes, se masturbando após ver Greta Garbo no cinema.

E

vem me falar de potencial!

 
Garbo no cinema. E vem me falar de potencial!   Wilhelm Schröder con- fessou que não

Wilhelm Schröder con- fessou que não tinha inten- ção de apertar o gatilho, no entanto, a poderosa rivali- dade inconsciente foi fator determinante (esta uma das características da Síndrome de Caim).

Wilhelm disparou três vezes contra o irmão.

Jacques Dubois preparou uma edição revisada e atua- lizada do Kompendium der Psychopathologie. Ele havia sido aluno do Dr. Schröder; posteriormente, discípulo

e

assistente. Mesmo após a

prisão do mestre, Dubois continuou investigando as psicopatologias, especialmen-

Contos

o PaLCo

46 SAMIZDAT agosto de 2008

46

José Espírito Santo

jjsanto@gmail.com

http://www.flickr.com/photos/nicksherman/2477710386/sizes/o/

 

Ele estava tenso

muito

tenso mesmo! De tal modo que seus músculos grandes e possantes, flectidos sob a pele escura, espelhavam com

precisão cirúrgica o que lhe

os com a vista enquanto os roubava por um momento ao seu quotidiano rotineiro medíocre e sempre igual,

aquele “sempre o mesmo fazer” das suas tarefas de su-

ia

na alma. Sua mente seguia

cesso. Sentia-se rei do mundo

pronta e solícita a lista de exigências e necessidades e as muitas regras de “tão bem fazer” que cuidadosamente lhe tinham sido transmiti- das por quem aprendera de quem aprendera, de quem aprendera. Falta de espaço

das passadas. “Black Power”.

e

Eterna exuberância negra! Talento, perfeição, capacidade

elevada a sua máxima po- tência. Tudo perfeito! Então olhou melhor, focou

Olhou para si mesmo

para a distracção, essa eterna banida e eterna mal querida daquele que está concentrado

e

do presente! Esqueceu por

para a dura realidade

e

em palco, no acto

Para

momentos o futuro que de

magnífica peça não menos magníficos executantes, essa era a regra!

Olhou. Mais uns segundos

impossível era incerto! Este palco em que actuava era do

tamanho do mundo e muito maior que outro qualquer palco e outro mundo! Ao contrário da do seu sonho,

e

a cortina abriria deixan-

a

sua coreografia actual era

do adiante apenas o palco nu e vazio para preencher. Preparou-se com todo o cuidado. A vista viu o pano vermelho fugir rapidamente para ambos os lados deixan- do à sua frente o horizonte aberto, escancarado, convi- dativo. Os primeiros acor- des chegaram exuberantes

parada, estática e silenciosa.

E

ele aparecia mostrando os

ossos salientes à flor da pele num corpo magro mal nutri- do, desprezado, escanzelado. Era seu único equipamento

o

ele feito de improviso e não de técnica, atenção ou qual-

ninguém lhe ligava. Nela

pedaço de pano roto, todo

e

cheios de energia a seus

ouvidos e desencadearam de imediato qual acto reflexo, qual mola invisível seu salto em frente e inicio dos passos previamente bem treinados.

quer cuidado. À sua frente, o prato mal disfarçado, vazio

chamava insistentemente pela comida que de lá longe não prometia sequer conseguir chegar.

O

fulgor da arte. A magia. A

dança!

Olhou para si mesmo com seus olhos de criança mais

Entre passos, olhava e via passar como num relâmpa- go as caras e atrás delas as expressões. E isso era o que lhe dava maior prazer! Sentir aquele hipnotismo forte que emanava e que permitia fazer acontecer. Acompanhava-

uma vez. Depois fechou os olhos deixando gradualmente

escuridão entrar e chutou

para longe aquele “ele” que este ele nunca teria a oportu- nidade de ser.

a

gradualmente escuridão entrar e chutou para longe aquele “ele” que este ele nunca teria a oportu-

Contos

Contos Joaquim Bispo oS ratoS 48 SAMIZDAT agosto de 2008 48

Joaquim Bispo

oS ratoS

48 SAMIZDAT agosto de 2008

48

http://www.flickr.com/photos/matthieu-aubry/440634859/sizes/o/

Pela Páscoa, encontrei um amigo da tropa, que já não via há uns quarenta anos. Estava entusiasmado com uma compra que tinha feito há pouco tempo; uma casa no campo que, segundo disse, era um elixir miraculoso para a pressão da vida na cidade. Satisfeito com o meu interesse, acabou por insis- tir em me emprestar a casa, para lá ir passar uns dias. Eu aceitei com agrado e muita curiosidade. Mas o meu ami- go avisou-me:

– Olha que é capaz de haver lá ratos! Da última vez que lá estive, havia.

Na manhã do sábado

seguinte, de espírito fresco e roupas leves, rumei às Bei- ras, com a minha mulher. Mas antes preveni-me. Fui

à drogaria e comprei uma

embalagem de pastilhas de

raticida.

Efectivamente, o sítio é lindíssimo: muito arborizado, junto ao espelho de água de uma barragem, com a som- bra azulada de uma serra, em fundo. Feito de encomen- da para um fim-de-semana romântico. E a vivenda tem

o encanto das casas tradicio-

nais: antiga, toda em granito, com lareira, e quartos forra- dos a madeira.

Mas, realmente, está in-

festada de ratos. Na cozinha, havia restos de embalagens que o meu amigo lá teria deixado – pacotes de sumos, garrafas plásticas de refri- gerantes, caixas de flocos

– tudo misturado com xixi

e caganitas. O aspecto da cozinha era desolador.

Foi uma tarde de sábado pouco romântica. Limpar toda aquela porcaria, provo- cou-nos sentimentos per- versos de vingança. À noite, antes de adormecer, distribuí uma meia dúzia de pasti- lhas, pelos cantos da cozinha, sentindo o rancor prestes a ser saciado. De noite, uma vez que acordei, apercebi-me, nitidamente, de um restolhar na cozinha. Virei-me para o outro lado, com um sorriso consolado.

Ao romper do dia, acordei sobressaltado. Ouviam-se guinchos, correrias, ruídos vários, vindos do forro da casa. Era um chinfrim enor- me. Como se um bando de gatos perseguisse os ratos, numa luta feroz e prolon- gada. Não se assemelhava

nada à débil agonia de dois ou três ratos envenenados. Parecia até que o reboliço aumentava.

A minha curiosidade não me deixou continuar na cama. Como havia um alçapão no tecto do quarto, fui buscar um escadote e, um pouco receoso, esprei-

tei. O que vi não pode ser completamente transmitido por palavras. Uma dezena de ratos copulava, frenetica- mente, num desespero aluci- nado. Corriam. Rebolavam. Saltavam. Trocavam continu- amente de parceiro. Forma- vam-se mesmo, molhos de três ou quatro, em tentativas de cópulas improváveis. No

soalho, jaziam já uns quatro,

mortos por exaustão.

Fiquei um minuto atónito,

a olhar para aquele cenário, sem compreender o que esta- va a acontecer. A perguntar- me, porque é que os ratos se estavam a comportar da- quela maneira. A explicação atingiu-me então como um soco. Fiquei branco. Devo ter feito um esgar de horror, ao tomar consciência da incrí- vel estupidez da minha troca de embalagens. Do alto do escadote, olhei para a mesa- de-cabeceira. Lá estava uma pastilha azul de raticida, que eu estive quase a tomar, se não fosse a enxaqueca provi-

dencial da minha mulher!

uma pastilha azul de raticida, que eu estive quase a tomar, se não fosse a enxaqueca

Contos

Contos Maria de Fátima Santos LuaNdi No 50 SAMIZDAT agosto de 2008 50
Contos Maria de Fátima Santos LuaNdi No 50 SAMIZDAT agosto de 2008 50

Maria de Fátima Santos

LuaNdi

No

50 SAMIZDAT agosto de 2008

50

http://www.flickr.com/photos/dhammza/378215127/sizes/o/

Luandino apalpava-lhe as mamas com dedos lassos. Dedos que lhe escorregavam nas axilas, frouxos. O côn- cavo da mão recusava-lhe os bicos. Afagava-a em medro- sos receios. Parecia-lhe a ela que ele afagava a testa suada de um velho.

E era sexo o que ela que- ria. Sem denguices e nem rodeios.

partida.

Ele debruçado nela. Os receios perdidos, pensava ela, muito branca e ruiva mesmo sem a luz da lua que ainda nasceria.

A dois passos, a sala de jantar. A luz de um cande- eiro recortou em negro o cachimbo e o fumo. E a voz que afagou o escuro, nem era um chamar, era um pedido.

- Júlia.

Encostou-se nele. Sentiu-o intenso sobre o vestido fino. Segurou-lhe as nádegas. Redondas, tensas. Roçou-se. Cabrita-montesa, pendurou- se-lhe no pescoço. Ganhou- lhe vantagem. Quebrou-lhe

Era o pai Antunes cha- mando para jantar.

Ela nem respondia. Ape- nas aparecia sentada na mesa

anca magra com as pernas,

a

nuas de saia. Desceu-se lenta. Desfez-lhe o cinto. O botão.

comprida da sala. Era assim há anos.

Não mais amanhã. E nem depois. Quem sabe, nunca mais.

O

fecho: de cima para baixo,

que é o jeito.

Mirou-o: quedo, surpreso decerto.

 

Virgem arrependida, ela beijou-lhe cada mamilo descoberto dos botões que abriu um a um, em pressas. Nem precisou mover-se: ele era alto e ela nem se cresceu mais que o metro e cinquen-

e quatro. Nem mais um

ta

Desprendeu-se do corpo dele que levara susto. Ela riu-se.

Luandino enterrando as mãos nos bolsos do casaco verde, roto nas mangas sobre as pulseiras e o relógio de pulso. Tudo em doirados como o anel que trazia no

dedo mindinho de cada mão.

centímetro que o andar de salto alto, até muitos anos passados sobre essa noite.

Júlia apegou-se a ele. Adengou-se ainda um peda- cinho. Quente animal em cio, passou-lhe a mão entre as vi- rilhas a sentir-lhe o membro. Apertou de leve num misto de raiva e em afago. Num desespero, pensaria, se fosse, ao momento, o caso. Se fosse

Ele depressa se desen- tendeu com os receios. Arrematou-os. Limpou-se de surpresas. Juntou-se a ela na

luta contra eles. Beijou-lhe a boca, sôfrego. Atabalhoado,

a

língua que lhe rebuscaria

mais tarde. Um dia.

interiores, nem eles ainda o

sabiam, dançou-lha por cada mamilo em redondos mo-

Na mesa coberta de linho bordado, os copos gorgo- lejavam ao cair dos sumos, dos vinhos, da água. Júlia

lhados. Ainda não cuspidos, isso a noite o ditaria, mais

o

desassossego da lua e da

comia o peito de galinha

com quiabos. Calados, ela e o pai. Silêncio só quebrado ao café. Era o hábito desde que lhe morrera a mulher fazia dezoito anos. Tantos quantos

a distância do dia em que

a pariu a ela, Júlia. Silêncio durante as refeições.

Só a voz de Joaquina.

- Quer que sirva a sobre- mesa, sinhá Maria?

Sempre se dirigindo a ela. Desde pequenina, ela era a mulher da casa. Sempre a chamava de sinhá Maria. Julinha, apenas quando se sentava na bordinha da cama contando estórias velhas: “do tempo em que a mãezinha era viva, antes da menina nascer”. Ou as coisas, que Joaquina dizia serem “para o paizinho não sofrer”.

- Não anda com Luandino,

Júlinha. Ele não presta. Seu pai não gosta. Vê, ele nem é homem de lhe merecer.

Júlia comia a talhada de manga, silenciosa. O sabor do corpo de Luandino mis- turava-se ao sabor da fruta. Sorriu-se. O tecido da blusa roçava-lhe, desusado, cada mama.

Bebeu, em goles lentos,

a bebida gostosa de pura

cafeína. Ouviu o pai falar da fazenda. Lembra-se bem: nes- sa noite, falou-lhe nas vacas

que aleitavam.

-Seca-lhes o leite ou este enfraquece. Já morreu um bezerro.

E ela, pensando em ma-

mas, sorriu para dentro da chávena onde aparecia, ténue,

a cara de uma chinesa: por-

celanas que a mãe levara de

enxoval.

Beijou-o de jeito calmo e terno que nisso nem preci- sava fazer esforço: ela gos- tava dele. Muito ela gostava daquele pai viúvo.

E foi dançando pelo cor-

redor. Abriu de par em par a porta da cozinha e saiu para

a

lua que alumiava, branca

e

amarela. A lua que fazia,

quase em oiro, a terra verme- lha das traseiras. Levou pela mão a bicicleta até chegar à estrada: uma língua de terra, batida a maço, mal coberta

de uma fita que já fora preta. Pedalou depressa. Cruzou-se com o jipe do tenente Ma- tias. Ía para a sanzala. Era

o seu costume. Ela sabia.

Acenou-lhe e riu sem muito bem perceber ao que achou piada. Sincopou, no para cima e para baixo, em redon-

do, o pisar do pedal.

Lembra-se que ia serena, no lusco-fusco, que a lua se fizera alta e as árvores aden- savam copas sobre a estrada.

Passou a casa do Chefe de Posto e contornou à esquer- da. Abriu o portão de ferro:

uma cancela ferrugenta. Encostou a bicicleta no muro baixo. Chamou sob a janela entreaberta.

- Luandino…

A lua iluminava o quarto sem mais móveis do que a esteira desdobrada no chão de cimento. Isso, e um pano de cores a servir de nada aos corpos deles, nus, ferventes, e ao quente da noite com lua.

Vagueavam chamares, ao longe, que ela não ouviu:

- Júlia.

Era o pai Antunes. Como ela adorava aquele pai viúvo.

Na vinda, trazia-se reno- vada. Doíam-lhe, ardendo, os bicos dos seios sob a blusa que trouxe desfraldada. A bi- cicleta enternecia-se aos seus pedalares. Era o finzinho da madrugada.

Na cozinha, havia pão

com doce de goiaba e um

copo de leite muito branco e ainda morno. Joaquina quem deixara. Sorriu-se um sorri- so que lhe enviou a ela que logo, logo ia acordar.

Dançou-se seminua na cozinha. Partia dentro em pouco. Nesse dia. Ía no jipe do tenente até ao aeroporto.

Nunca mais viu Luandino.

Num Maio, tão longín- quo que nessa noite nenhum deles sabe que existia, depa- rou-o.

Era Lisboa. Rossio. Ao fim da tarde.

Tanto ano passado sobre a noite de lua. Tanto estro- piado e tanto morrido. Tanto passado e tanto presente se fizera nela desde aquela noite.

Ele encostado ao ferro da boca do metro. O Luandino.

Preto retinto. A carapinha encanecida nas fontes. O Luandino dependurando doi- rados sob as mangas coçadas de um casaco.

Sob o vestido justo que trazia, os bicos dos seios adensaram-lhe recordados. Ela estranhou-se.

O homem reagiu ao seu

estar ali parada, olhando-o:

pediu-lhe dinheiro para o almoço. Estendeu-lhe a mão

52 SAMIZDAT agosto de 2008

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de dedos longos.

Os dedos dele: iguais, pal- pando, remexendo, exploran- do, na noite de lua, naquela noite grande.

E

ela com a nota esqueci-

da, perscrutava-lhe um vis- lumbre sob as lentes negras, de contrabando.

Ele agradeceu:

-

Deus a guarde, senhora.

Deus é grande. E dizem que

Alá, também.

riu um rir de um lugar sem onde.

E

Júlia seguiu pelo passeio. Desejou perder-se nas gentes.

Perder-se do seu eu cho-

rado.

rado.

http://www.flickr.com/photos/alexscarcella/1229526765/sizes/o/

Contos um d ESEJo Denis da Cruz http://www.flickr.com/photos/usarmymutt/2447953938/sizes/o/
Contos
um d
ESEJo
Denis da Cruz
http://www.flickr.com/photos/usarmymutt/2447953938/sizes/o/

54 SAMIZDAT agosto de 2008

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- Até a primeira, ou até

a última gota? – perguntou

Akan, parado no jardim de rosas amarelas. Sua armadu- ra prateada refletia o ouro

do sol e das flores, fundindo

os tons num alo brilhante.

- Até a última, meu ir-

mão – respondeu-lhe Akin, olhando mais ao longe, onde despontava um botão de rosa vermelha, como lágrima de sangue em meio a um cantei-

ro

de trigo a ser colhido.

Afastaram-se um do outro.

O

vento acariciava as rosas

e

estas retribuíam o carinho

nas pernas dos guerreiros que eram irmãos de sangue duas vezes, de ventre e de voto.

- Com ou sem a Arte? –

perguntou Akan enquanto

sua espada entoava a primei-

ra nota, chiando ao sair da

bainha.

- Não se pode usar a Arte

contra um Irmão – sorriu o outro.

- Há muitas coisas que

não podemos fazer contra um Irmão e, apesar disto, lutaremos até a morte.

Akin avançou. Sua espada cumprimentou em batalha a arma do germano. Compa- nheiros, amigos, fiéis devotos da Ordem de Sáah, agora empunhado armas como inimigos, a fim de resgatar o Botão Vermelho do Jardim de Nandra.

Atravessaram quase todo o continente, cada um por seu caminho. Akan venceu Mor-

go, a serpente do pântano e outros incontáveis desafios, mas quase pereceu no emba-

te com as Valkírias. Ele era

forte e a Arte ajudou a supe-

rar todos os obstáculos.

Akin viajou pelo oeste, o caminho onde apenas um homem de muita coragem poderia ousar. Ali enfrentou gigantes, as duas Jahis - que

queriam comer seu coração

enquanto pulsava – e a últi- ma barreira foi o Demônio chamado de Abadom.

Chegaram juntos à en- trada do jardim e contem- plaram o campo dourado.

Depois de muito caminhar, avistaram a rosa vermelha, o

Botão de Nandra.

No presente embate, a es- pada de Akin resvalou na ar- madura do oponente. Faíscas chisparam no prata como o sangue espirrando da carne.

Akan atacou uma, duas, três vezes, mas o irmão não arredou o pé; defendeu e contra-atacou. Os minutos da luta se transformaram em

horas e o sol estendeu um tapete de rubra luz para que

a lua viesse assistir a batalha.

Sob o brilho da Mãe No-

turna, os irmãos lutaram. Os golpes ficando mais fortes, arrancando partes das arma- duras. Ambos já lutavam sem

o peitoral e o elmo.

Nasceram juntos, eram gêmeos; cresceram na mesma casa e foram dedicados ao Sumo Guerreiro no mesmo dia. Mardan foi o mestre dos dois e ambos tinham o mes- mo nível na Ordem de Sáah.

Tanto eram iguais que

partiram em idêntica jornada

e tinham o mesmo motivo.

Um erro. Foi o único que Akan cometeu na luta que travavam. Sentiu o ferrão ardente atravessar-lhe logo acima do coração. A carne e

ossos cederam lugar à lâmi- na do irmão.

Deu dois passos para trás e dois outros golpes risca- ram-lhe o ventre. Caiu sobre o berço de flores e Akin prostrou um joelho em seu peito, encostando a ponta da espada no pescoço.

- Mate-me, Irmão – disse o derrotado.

- Não posso.

- Sim, você pode – sorriu

Akan, o suor se misturando ao sangue. – A coragem sem- pre foi maior em você.

Respiravam no mesmo rit- mo, mas Akin não conseguia despedir-se do irmão.

- Eu não teria forças para

ver vocês dois juntos – argu- mentou Akan – Ame-a, por nós dois. Ame-a, como se a estivesse amando por mim e por você. Colha o botão.

Os guerreiros fecharam os olhos e a espada de Akin en-

toou a última nota, rompen- do os ligamentos e atraves- sando o pescoço gorgolejante até mergulhar na terra fértil.

Akin beijou a face morta do irmão e caminhou pelo

jardim. Ajoelhou-se ao lado do botão e as mãos fortes seguraram-lhe o talo. O rompimento veio seguido de luzes que cintilaram e um brilho que acompanhou a rosa até ser deitada numa pequena caixa de marfim.

Andou pelo vale e subiu em seu cavalo. Retornou pelo

mesmo caminho, onde os maiores obstáculos já haviam sido suplantados.

Entrou em seu país e alcançou o Castelo de Nór. Uma miríade de guerrei-

ros completava todo átrio do palácio e sacerdotes lhe deram passagem pela imensa escadaria.

O peregrino entrou no salão real, enquanto oiten- ta guerreiros se curvaram. Ajoelhou-se diante do Impe-

rador e ergueu a caixa sobre

a cabeça; entreaberta, ela

mostrava a flor cintilante.

- Eis o Botão de Nandra,

meu Senhor – levantou a fronte. – Dê-me a prometida mão da minha princesa.

Há muitas coisas que

podem superar o amor entre irmãos, mas nenhuma delas

é mais forte que corações

fraternos desejando a mesma

dama.

Akin e Akan se apaixona- ram por Mirah, a única filha do rei, prometida ao guerrei- ro que trouxesse o Botão de Nandra.

Muitos peregrinaram às distantes terras do norte. Nunca se ouviu falar de alguém que houvesse retor- nado.

Mas os irmãos, mesmo sabendo do intento um do outro, partiram em busca da rosa.

Durante a jornada, deseja- vam intimamente ou morrer, ou que o outro perecesse no caminho. Mas nada dis- to ocorreu. A morte só os envolveria através do braço irmão, dando o último golpe.

- Claro – disse o impera-

dor levantando seu protu- berante corpo do trono. – A mão da princesa Mirah será sua – desceu os sete degraus – tão logo eu confira o que há em suas mãos.

Pegou a caixa de marfim e

voltou para seu trono. Pri- meiramente sorriu e depois

o som de sua gargalhada

reverberou pelas paredes do

salão.

- Matem-no! – sentenciou.

Os oitenta guerreiros avançaram de seus postos, enquanto Akin levantou-se

aturdido. O corpo do pere- grino respondia aos ataques

como um olho que fecha ao rufar de uma nuvem de poei-

ra. Reflexo. Flechas, espadas

e lanças eram desviadas ou aparadas.

Para cada defesa que fazia, retornava dois contra-

ataques; dois corpos inimigos dilacerados. Akin atacava com a espada, com o punho

e com a Arte – rajadas de

energia azul, que ora saiam da palma de sua mão esquer- da, ora riscavam junto ao fio de sua arma, rasgando corpos dos oponentes à frente.

Combatendo, Akin subiu os sete degraus do trono. Guerreiros protegiam o rei, que apertava no peito gordo a caixa de marfim.

Quando matou o último inimigo, a porta do salão se escancarou e uma infinidade de soldados, vestidos em seus trajes azulados, invadiu o local.

Akin virou-se num átimo

e apoiou o pé esquerdo no

trono, entre as pernas do imperador. A espada, ébria do sangue de oitenta vidas,

tingiu de vermelho o pescoço do rei, se afundando na ba- nha, sem cortar-lhe a carne.

- Fale! – gritou Akin

ouvindo o som dos arcos re- tesarem no outro extremo da sala. – Matei meu irmão por

amor. Não hesitaria em tirar sua vida por vingança.

O rei ofegava, seus dedos roliços correndo em cima da caixa, titubeando se toca-

va ou não a brilhante rosa. Antes de decidir, Akin bateu- lhe no punho, derrubando o botão. A Rosa de Nandra caiu ao sopé do trono, se misturando ao sangue dos corpos na escadaria.

- Fale! – gritou.

- Um Desejo – disse o im-

perador tartamudeando. – O botão de Nandra contém Um Desejo. E só um coração que desejasse o Amor poderia colhê-lo.

É impossível descrever o que sentiu Akin. Amou a

princesa e por ela se embre- nhou naquela viagem. Lutou contra a fúria do tempo, contra criaturas terríveis e travou a maior de suas bata- lhas, entregando à Morte o seu amado irmão.

Akan não foi o único a morrer em vão. Outros guer- reiros pereceram diante da artimanha do imperador, na busca de seu Um Desejo, a maior das magias existentes.

Ao degolar o imperador, passou a ter um sentimento de fácil descrição: justiça.

Virou-se para o salão infestado de soldados com