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BOFF, Clodovis: Teoria do método teológico. Petrópolis: Vozes, 1998. 758 pp.

,
22,3 x 15,8 em. ISBN 85-326-1963-0.

O mínimo que se pode dizer é fico em função da relevância do tex-


de que se trata de uma obra to facilita a leitura.
monumental, que vai marcar a
história da teoria do método Não é um livro sobre teologias, ou
teológico. O que foi a obra de B. uma teologia em concreto, mas sobre
Lonergan com seu The Method (Nova a prática teológica, sua gramática,
Iorque: Herder and Herder, 1972) suas regras internas, sua
para o mundo europeu e saxônico, epistemologia para que se saiba arti-
será essa obra em nosso mundo e cular seus elementos fundamentais. O
para além dele. Pedra miliar. A. aponta doze: a Fé, a Sagrada
Doravante ela será ponto necessário Escritura, a Igreja, os fiéis, a Tradição,
de referência, como também sua o dogma, o Magistério, a prática,
obra sobre o método da teologia da outras teologias, a filosofia e as
libertação o foi na década de 70 ciências, a linguagem, a razão. Evi-
(Teologia e prática: teologia do político e dentemente esses elementos poderi-
suas mediações, 'Petrópolis: Vozes, am ser agrupados em menos fatores
1978). que, por sua vez, abarcariam outros,
como suas subdivisões. Para pessoas
Bem assentado na grande narra- da modemidade parece faltar entre os
tiva ocidental da acumulação de co- elementos fundamentais a palavra tão
nhecimentos, o A. condensa gigan- mágica hoje: a experiência. Aliás o A.
tesco universo de informação sobre a a recupera e fala ampla-mente dela,
metodologia teológica. Fruto de longos quando trata da fé. No entanto, julgo
anos de pesquisa e ensino. O que deveria ocupar um espaço próprio
esquema da obra é simples. Reflete a já que ela serve inclusive para iluminar
estrutura das introduções à teologia, conceitos como a prática, a
carregando, porém, as tintas na parte diversidade de teologias, etc. Nesse
dos princípios, processos e articu- caso, poderia ter ampliado a lista dos
lações da teologia. Questões menos doze.
importantes são também tratadas à
guisa de complementação. Muito pertinente e estimulante é
a quádrupla divisão do fazer teolo-
O cuidado e esmero didático gia: técnicas, método, epistemologia
merece relevo. O texto longo é se- e espírito. Faltou-lhe acrescentar um
guido de um resumo em forma de quinto, que, logo em seguida, ele
teses com leituras de páginas dos mesmo menciona, a saber, "a ótica"
clássicos da teologia. O jogo tipográ-
a modo de uma sensibilidade especí- do-lhe sua natureza (capítulo segun-
fica. Se o método participa da "high do) e objeto (capítulo terceiro), avan-
tech", o teólogo é afetado pela "high ça para dentro da espinhosa questão
touch", segundo o Iinguajar pós- da relação teologia e razão, fé e ra-
moderno. A ótica pertenceria a esse zão (capítulo quarto), tomada aguda
"toque" que tudo afeta. especialmente por causa das preten-
sões de absoluta autonomia da
Em obra anterior sobre a Teologia razão iluminista. O A. começa com
do Político, o A. distinguiu um regime uma crítica ao reducionismo que a
interno ou da autonomia referente ao razão iluminista faz da razão como
aspecto meto do lógico-epistemológico tal, identificando-a com sua dupla
e um regime externo ou da função demonstrativa e científica.
dependência dizendo respeito ao lugar BOFF propõe, por sua vez, um duplo
social do teólogo, onde se fazem as alargamento da razão pelas funções
opções. Lá como aqui ele decide pela discursiva e intuitiva. Nesse horizon-
"ótica da libertação", como um bom te de reflexão, introduz a distinção
teológico da nossa tradição latino- pertinente entre "intellectus fidei" e
americana que valoriza esse traço "ratio fidei", a primeira como origi-
genuíno da fé evangélica. Além desse nária e originante do pensar que atua
enfoque, reconhece outros como no campo da fé. A fé busca a "ra_
importantes hoje: feminista, étnico, zão", a teologia as "razões". Esta
inter-religioso e ecológico. São, no nasce do "intellectus fidei" para tor-
fundo, dimensões constitutivas e nar-se, em seguida, "ratio fidei".
transversais do ser humano com Distinção que dirime muito mal en-
emergências históricas. Necessitam tendido tanto racionalista como
ser articulados entre si, tendo a fideísta. Na teologia, está em jogo,
dimensão Iibertadora nítida de um lado, a autonomia da razão,
precedência.Nenhum desses enfoques mas, de outro, sua condição de sub-
substitui naturalmente o enfoque da fé, missão à fé. A razão teológica sofre
que garante a identidade e unidade dos do desmaio da vastidão de seus es-
diferentes discursos teológicos. paços, mas também usufrui da bele-
za de sua tarefa múltipla demonstra-
Ao apontar a fonte da teologia, tiva, defensiva e construtiva em rela-
CI. Boffune belamente a fé e o amor, ção à fé.
superando uma perspectiva pura-
mente intelectualista da teologia. A A racionalidade teológica assume
teologia é mais um discurso de Deus duas formas: razões de conveniência e
que sobre Deus. A fé é a seiva, a razões de necessidade. Na teologia
fonte, o fermento. O A. mostra-se mariana, usa-se muito a razão de con-
muito sensível ao toque místico, veniência, segundo a expressão lapi-
afetivo, iniciático, de experiência da dar de Duns Scotus e Santo Anselmo:
graça, da ação do Espírito no fazer e "potuit, decuit, ergo fecit". À guisa de
entender o que é teologia. São exemplo: Deus pôde fazer Maria
aspec-tos muito valorizados em imaculada, tal foi conveniente, logo a
nossos dias. Nem por isso, sucumbe fez. A razões necessárias são fruto de
ao emocionalismo barato, argumentos constringente.s Assim, a
mercadoria em alta. prova da existência da vontade hu-
mana de Jesus como conclusão lógi-
Depois de introduzir o leitor na ca, silogística, do fato de ele ser ver-
teologia (capítulo primeiro), definin- dadeiramente homem.
A razão teológica é sobretudo pio objetivo da construção da teologia
hermenêutica enquanto ela procura e a fé como princípio subjetivo. Com
interpretar a revelação para diferentes efeito, a Revelação e a fé são duas
contextos culturais. Nesse assunto, a faces diferentes de uma mesma
teologia alimentou-se muito do avanço realidade complexa. Deus só se re-
da hermenêutica moderna de vela, se existe fé que a acolhe. Só há
Schleiermacher a Ric<Eur. fé, se Deus se revela. No concreto,
apenas se distinguem. Quando fala-
o capítulo termina com um último mos revelação, denotamos Deus e
parágrafo dedicado à relação entre conotamos a recepção humana.
teologia e ciência. O A segue Quando falamos fé, denotamos a
rigorosamente o mesmo método de recepção humana e conotamos a
esclarecer os termos no contexto cul- Deus revelador. Talvez o A. tenha
tural geral para depois entendê-Ios em podido ter mostrado mais essa ínti-
relação à teologia. Traça rápido ma relação. Um leitor incauto pode
conspecto do significado de ciência, separar o que é distinção.
partindo dos antigos, passando pelas
ciências dedutivas, empírico-formais e O corte entre Palavra de Deus e
hermenêuticas para em segui-da realidade, Palavra de Deus e antro-
aplicá-Io à teologia. Detém-se em três pologia, também não pode ser extre-
características fundamentais da ciência mado, já que não há realidade hu-
na teologia: criticidade, sistematicidade mana senão empapada pelo Deus
e dinamicidade. A modo de excursus, o revelador e revelante, sempre atuan-
A. retoma a idéia da dimensão te. A teologia tem de andar com mui-
espiritual, pneumatológica da teologia. ta cautela nesse campo da relação
Acrescenta ainda uma reflexão sobre o entre Transcendência e imanência,
seu caráter de cruz, de "razão evitando o equívoco gigantesco do
crucificada". nefasto dualismo, sem sucumbir ao
canto da sereia pós-moderna do
Desde o início do livro, a teologia monismo panteísta. O A consegue
vem sendo relacionada com a fé. Em articular bastante bem esses pólos,
vários capítulos seguintes, concluindo embora tendendo a marcar a
essa primeira grande seção, o A diferença. Rejeitar sem mais a
dedica-se a aprofundar as três afirmação de que a teologia parta da
dimensões da fé: a fé-palavra (capítu- "experiência de fé da comunidade",
lo quinto), a fé-experiência (capítulo como faz o A, pode ser um pouco
sexto) e a fé-prática (capítulo sétimo). exagerado. Pois, a experiência de fé
da comunidade, em última análise, é
Incluído dentro da perspectiva do elemento de reconhecimento da
método, trata-se, na verdade, de pe- Palavra de Deus. Não há uma
queno tratado sobre a fé. A fé-pala- Palavra de Deus que paire fora da
vra, a fides quae, a fé positiva ou experiência de fé da comunidade
dogmática, é apresentada como que a acolhe, escreve, transmite de
princípio formal da teologia, o que maneira que outras comunidades a
lhe confere especificidade. É antes reconheçam como Palavra de Deus.
de tudo a palavra do testemunho, a Nada disso acontece sem ação
revelação de Deus, transmitida na e transcendental do Espírito.
pela Igreja. Só em momento ulterior
se converte em doutrina. O A dis- O A vê como problemático que a
tingue a Revelação enquanto princí- fé-experiência e a fé-práxts sejam
ponto de partida formal da teologia. didade em relação à vida, a sua rele-
São reflexões teóricas agudas. Será vância histórica. Aí há um primado da
que talvez ele não force demasiado prática. No nível teórico, a teologia tem
a distinção entre o princípio formal a ver, antes de tudo, com a Revelação,
objetivo e o princípio formal subjeti- que é síntese da teoria e prática
vo da teologia? Distinção natural- divinas. Se se pode falar de um
mente correta, mas que nem sempre primado em Deus, este é o da prática,
ilumina a prática teológica, em que do agir criador e salvador. Bem
os princípios se interpenetram. sintético, Cl. Boff diz: A fé-palavra julga
a prática da fé, mas esta julga a
No capítulo sexto, debruça-se teologia concreta. É nesse contexto
sobre a importância da fé-experiência que entra a questão do privilégio
como fonte da teologia, embora não epistemológico, hermenêutico do
lhe seja principio formal. Há belas pobre. O pobre oferece melhores
páginas da raiz mística, a "alma condições para conhecer a Revelação.
orante" de toda teologia. Teologia é Além disso, o sofrimento, que afeta de
sabedoria. Uma sabedoria entre a fi- modo tão especial os pobres, é o
losófica e a mística. Como conteúdo, caminho mais curto para a verdade.
toda teologia é sabedoria; na sua
forma, só a teologia sapiencial é sa- A segunda grande seção do livro
bedoria. Esse tipo de consideração aprofunda os processos da produção
corrige uma concepção fria e escolar teológica. A fé se ouve (auditlls fidei) .
da teologia, devolvendo-lhe o gosto A fé deixa-se penetrar pela inteligên-
espiritual. cia (intellectus fide i) e a fé se prática
(applicatio fidei). Temos aí a estrutura
No capítulo sétimo, o A. defron- fundamental que corresponde ao ver,
ta-se com um tema que já trabalhou julgar e agir ou à hermenêutica, à
longamente em outra obra sua, aci- especulação e à prática.
ma citada: a fé-prática. Trata-a sob o
aspecto de princípio cognitivo. Prin- O capítulo oitavo, nas suas duas
cípio subordinado e dependente do partes, consagra-se ao momento da
princípio principal e determinante, escuta da fé, conhecido na tradição
que é a fé-palavra. A prática lança como "auditus fidei". É a positividade
certa luz sobre a teologia, ajuda des- da fé. Fazer teologia é, antes de mais
velar o Deus revelado. A fé determi- nada, ouvir a Palavra de Deus. Na
na a prática e a prática sobre-deter- escuta da fé, há os testemunhos
mina a fé. De maneira arguta, o A. primários - a Escritura junto com a
introduz uma série de distinções, Tradição apostólica, testemunhos
que, de um lado, podem esclarecer o secundários (senso dos fiéis,
assunto, de outro, mostram enorme magistério, santos padres, teólogos) e
sutileza, não tão fácil de ser captada. testemunhos alheios (religiões não-
cristãs, filosofias, ciências, história,
O A. elabora com muita profun- sinais dos tempos). Trata-se de uma
didade o primado da prática, tanto escuta ativa e crítica em três momen-
no nível prático relativo à fecun- tos. Os dados devem ser descobertos
didade da fé quanto no teórico rela- (momento heurístico), interpretados
tivo à verdade da fé. A teologia não (momento hermenêutico) de uma
se pode limitar ao puro nível da maneira discernida (momento crítico).
verdade de suas afirmações, mas O A. avança uma reflexão tipicamente
deve atender também a sua fecun- da teologia fundamental, sob
o ângulo do método, elucidando as extra". Toda teologia tem uma face
tensões entre palavra e escritura, e voltada para a vida, para a prática,
apresentando critérios de interpreta- para ação concreta, já que reflete
ção da Escritura. Na segunda parte sobre verdades orientadas à nossa
do capítulo, debruça-se sobre a Tra- salvação. O termo vida tem arco
dição. Conceito plural que recebe mais amplo que práxis, política. A
acurado tratamento. Em seguida, vida social merece destaque, tanto
detém-se em explicitar a natureza do sob a forma de cultura do tempo,
dogma e os caminhos de sua inter- como de realidade viva das pessoas.
pretação. Aborda com agudeza a Essa duplicação de níveis do A.
complicada questão da distinção en- pode parecer supérflua, desde que o
tre conteúdo e forma. Teria ajudado conceito cultura seja entendido num
o leitor se o A. tivesse distinguido os sentido mais abrangente.
dois universos hermenêuticos funda-
mentais, o clássico especular em Fechando essa substanciosa se-
que a verdade era vista na sua pura gunda seção, o A. trata no capítulo
realidade objetiva e o da undécimo a questão da linguagem
hermenêutica moderna em que se teológica. Inicia o capítulo limpando a
considera já a relevância do sujeito área lingüística dos riscos da
interpreta dor. O A. situa-se univocidade, do antropomorfismo, do
evidentemente nessa vertente superlativismo, da equivocidade, do
moderna, mas muitos leitores, desde agnosticismo, para entrar na ver-
uma perspectiva tradicional, podem dadeira linguagem teológica: a
ter dificuldade de entendê-lo. analógica. Prefere recorrer aos clás-
sicos que adentrar-se pela lingüística
O capítulo nono enfrenta o pro- moderna. Retoma o ensinamento
cesso de construção da teologia. En- escolástico sobre analogia. Em dado
tre as funções atribuídas por Santo momento, pode parecer que se faz um
Tomás à teologia, o A. concentra-se na corte demasiado grande entre o nível
explicativa. A teologia explica a fé. do conhecimento e ontológico. As
Para isso, analisa, sintetiza, cria; ou distinções facilitam a compreensão
compreende, sistematiza e avança. desde que não sugiram separações.
Este capítulo pareceu-me demasiado Como o A. tem uma linguagem, em
formal. Faltou-lhe recorrer talvez a geral, cortante e vigorosa, nas suas
novas categorias atuais como as de distinções, pode induzir a um menos
paradigma, modelo, que ajudam atilado ao equívoco da separação.
altamente o avanço da teologia. Alude Essa observação vale para muitos
simplesmente a outras lógicas que não momentos do livro. Além disso, talvez
ocidentais, mas sem nenhuma tenha descartado com severidade
explicitação como isso se poderia achegas úteis que pode-riam vir da
fazer. lingüística moderna, cujos resultados
não valoriza.
Fechando a trilogia da constru-
ção teológica, o capítulo décimo de- Se o livro de Cl. 80ft tivesse ter-
bate-se com o momento da prática minado com a segunda parte desse
na teologia: o confronto com a vida. capítulo onze, já se poderia
Fé e vida: tema predileto da teologia considerá-lo completo. As duas se-
da América Latina. Muito do que se ções estruturam uma obra, em si, já
disse atrás sobre a fé-prática vale acabada, quanto ao método teológi-
também aqui. Considera-se a fé "ad co. Julgo que se teriam alcançado
alguns efeitos positivos, caso tivesse sófica na exata medida em que ela
concluído aqui o livro. reflete a resposta divina à questão
humana sobre o sentido último da
O que se segue são antes vida e do mundo". A teologia deba-
scholion, para usar urna expressão te-se também com os sistemas
escolástica, com maior ou menor filosóficos, que revelam as
importância. Podia ter sido material concepções de vida reinantes num
para outros livros menores. Em todo dado momento da cultura.
caso, todo A. tem direito de
Esse capítulo é extremamente
conceber o edifício de sua obra
iluminador para a discussão atual a
numa unidade maior ou menor. respeito da importância da filosofia na
Sobre essa terceira seção e sobre formação teológica dos futuros
sacerdotes. Mutatis mutandis, vale
toda a segunda parte, farei referências
para a formação humana nas outras
mais rápidas, para simplesmente
áreas. O capítulo termina com a rá-
localizar o leitor. Alguns elementos já
pida alusão à mediação das outras
foram rapidamente tratados antes e ciências. Talvez tenha faltado aqui um
outros poderiam ter sido inseridos em pouco de "atualidade", incorporando a
parágrafos anteriores. Mas res- questão aguda da relação da teologia
peitando a estrutura do A., seguem-se com a física moderna, com nova
breves observações. cosmologia, etc. Isso se justifica da
parte do A. pela escolha de perma-
o capítulo doze discorre sobre a necer preferentemente nos aspectos
relação da teologia com a filosofia e as formais sem entrar tanto em questões
demais ciências. Questão clássica. concretas de diálogos específicos.
Mantém com as mesmas uma relação
O capítulo treze aprofunda a
exterior e interior. Na tradição clássica,
questão da relação entre teologia e
a teologia ocupava o lugar supremo do
vida, já esboçada em outros
saber humano por tratar de Deus, que momentos do livro. Sem perder de
é tanto o objeto mais sublime do vista a tarefa primordial da teologia
conhecimento quanto o objetivo maior no campo direto do conhecimento
da vida humana. Depois de mostrar de Deus, mostra com clareza uma
certa ambigüidade da relação da ampla gama de outras funções da
modernidade com a teologia, o A. entra teologia no mundo da vida do
mais diretamente na questão do indivíduo, da sociedade, da Igreja..
método. Analisa o quanto a teologia
No capítulo quatorze, a prática
necessita de outros saberes, teológica é situada no interior da Igreja
aproveitando o que eles lhe podem com suas diversas formas de
oferecer e descartando o que é magistério. A Igreja é o sujeito pri-
incompatível com a fé (código mário e geral também do carisma,
deontológico). serviço e missão da teologia. É o
mesmo sujeito que crê e reflete sobre
No trabalho de abelha, a teologia sua fé. E o faz na e em Igreja. No nível
recorre a mediações teóricas, vindas formal, a relação entre teologia e Igreja
tanto da filosofia como de outras ci- é absolutamente evidente e escorreita.
ências. Em relação à filosofia, "a te- Os fundamentos eclesiológicos saltam
ologia incorpora uma reflexão filo- aos olhos. Quanto
mais concreta é a relação, mais aborda temas diversos. Vai aqui rá-
conflituosa. O A discorre também pida menção. Estudar teologia é um
sobre os diversos encontros da teolo- ato do homem todo. Supõe tanto
gia com a Igreja: sensus fideiium, assumir atitudes básicas como as de
magistérios nas suas diversas expres- amor a esse estudo, de senso do
sões. Introduz uma categoria menos mistério, de compromisso com o
conhecida: magistério carismático dos povo como de superar preconceitos
santos, mártires, profetas e advindos de uma cultura pragmáti-
reformadores, monges, miraculados, ca, anti-intelectual, fideísta e de alie-
pequeninos, anciãos, mulheres, peri- nação.
tos, pobres e sofredores. Detém-se
mais longamente no magistério dos Já no início o A estudou o que é
pastores. Aí oferece elementos inte- teologia. Agora dedica um capítulo
ressantes e equilibrados de compre- para complementar o anteriormente
ensão do assunto. Os nove critérios de dito com breve elucidação da história
interpretação refletem posição madura do termo e suas lições. Em seguida,
e aberta diante da contribuição da pergunta-se pelo que há de teologia na
hermenêutica moderna. Bíblia. Questão que já aventara, ao
tratar da fé-palavra como fonte
Numa segunda parte desse mes- primeira e decisiva da teologia e como
mo capítulo, o A esmiúça ainda mais a momento primeiro da prática teológica.
relação entre teologia e magistério, Numa questão tipicamente de teologia
recorrendo ao instrumento didático do fundamental, avança a reflexão a
modelo. Equilíbrio e abertura caracte- respeito dos caminhos do
rizam esse percurso mais detalhado conhecimento de Deus: Razão pura,
dessa questão do duplo magistériodos as Religiões, a Revelação.
pastores e dos teólogos. Para um lei-
tor interessado nessa espinhosa ques- Na questão da linguagem, em
tão, uma posição um pouco mais crí- capítulo anterior, o A. concentrara-
tica, posto nos limites da fé eclesial, se na sua natureza analógica.
encontra-se na obra de J. L. González Complemenatndo, discorre sobre três
Faus (La autoridad de ia verdad : tipos de discursos teológicos: profis-
momentos oscuros dei magisterio ecle- sional, pastoral e popular. As divisões
siástico, Barcelona: Facultat de Teolo- da teologia e sua articulação situam o
gia de Catalunya, 1996). leitor diante de uma árvore frondosa
de muitos ramos. O A.dá conta tanto
Quase que a modo de conclusão do fenômeno do esgalhar-se da
dessa parte, o capítulo quinze desen- teologia como do da existência de
volve o tema do pluralismo religio-so. princípios que lhe permitem captar a
Outro discurso atual e delicado. Impõe- unidade primigênia. Faz, em capítulo
se como uma necessidade de uma fé seguinte, um percurso histórico,
transcendente e histórica. Hoje desocultando os modelos teológicos aí
percebido de modo mais agudo depois praticados. Para cada modelo, aponta
da revolução hermenêutica da filosofia o seu gênero, problemática,
moderna. Implica atitudes tanto destinatário, objetivo, mediação
intelectuais como psicológicas e ético- cultural, tipo de teologia e represen-
espirituais. tantes em um quadro didático e
esclarecedor. Uma cronologia da pro-
A última parte do livro sob o tí- dução teológica com nomes e obras
tulo de "Questões complementares" importantes oferece um primeiro
guia para os leitores. Naturalmente, floresta teológica. Pessoalmente apre-
muitos podem discordar de certas cio muito esse tipo de pensar. Enten-
escolhas e omissões. Mas "qui a le do que alguns leitores não participem
choix, a Ia croix". de meu entusiasmo, já que preferem a
poesia à didática, o passeio ao
Os dois últimos capítulos são conhecimento do caminho, o sabor do
bem práticos. Oferece subsídios para doce à exatidão da receita, o efeito ao
como estudar teologia conjugando a conhecimento das causas, a leitura de
aula magistral, o estudo privado, o belezas teológicas ao enfrentamento
trabalho em grupo e a pesquisa e com rigor metodológico.
como orientar-se no matagal das
obras teológicas e revistas. Termina
com uma bibliografia essencial e A linguagem do A. conjuga bem
acessível sobre o método teológico. a tecnicidade das lógicas formais ao
Desta sorte, terminamos a longa vigor criativo de palavras, imagens e
viagem pelas 758 páginas do livro. metáforas Mestersianas em belo
equilíbrio. Além dos clássicos, há
É realmente uma obra extraordi- abundância de citações diversas, in-
nária por muitos lados. Não conheço teressantes, pertinentes, atraentes,
nenhuma que ofereça uma visão tão divertidas.
ampla e complexiva do método teo-
lógico, conjugando arguta capacida- Apesar de ser um livro bem
de de distinção com um sopro de estruturado que procede preferen-
vida, místico, de beleza espiritual. temente de modo linear, contudo tem
Equilíbrio raro ao tratar de um tema algo de espiral. Temas importantes
tão árduo e técnico. O A. não sacri- voltam várias vezes em ondas de
ficou em nada a exatidão, o rigor maior profundidade. Destarte, marca
nas infinitas distinções. De vez em mais forte a presença de elementos
quando, faz correr uma aragem de fundamentais.
vida que anima a estrutura óssea
gigantesca do livro. Mais que uma obra para ser lida
de uma vez pode tomar-se, sem dú-
A obra está permeada de citações vida, um texto-base para consultas à
dos clássicos, mostrando a beleza medida que o leitor necessite recor-
dessas fontes originárias da fé. O A. dar ou informar-se de determinado
manifesta excelente manuseio dos ponto nele tratado. Abrange elemen-
clássicos da filosofia e da teologia, tos tanto estritamente ligados à teo-
enriquecendo seu texto com a pro- ria da metodologia teológica, como à
fundidade desses mestres do pensar. teologia fundamental e mesmo à
eclesiologia, tal é a sua riqueza.
Talvez o excesso de distinções Creio que nenhum Instituto teológico
possa cansar um leitor pós-moderno, pode hoje dispensar-se de adquiri-lo
afeito a ícones e não a conceitos. No entre os livros necessários de
entanto, cumpre o A. papel educador referência para o curso teológico.
na corrente contra-cultural. Um certo
rigor formalista não empobrece em
nada a obra, antes oferece um mapa
detalhado para passear pela
GONZÂLEZ FAUS, J. I., et alii: Religiones de Ia tierra y sacraIidad deZ pobre .
Aportación ai diálogo interreligioso, Barcelona/Santander: Cristianisme i
Justícia/Sal Terrae, 1997. 190 pp., 21,3 x 13,5 cm. Coleção Presencia Teológica,
90. ISBN 84-293-1247-1.

Os membros da área teológica de desde suas primeiras vivencias


Cristianisme i Justícia se reuniram em juvenis nos anos pós-guerra (1946-
1994 para discutir a relação que pode 48) em Marrocos passando pelos
haver entre a questão do diálogo inter- encontros com muçulmanos em
religioso e a luta pela justiça na pers- Paris, no Cairo até os mais recen-
pectiva da opção pelos pobres. Um pri- tes na Argélia (1989-1991). Sua ex-
meiro resultado apareceu no livro periência mostra que lá onde as
"Universalidad de Cristo: Universalidad pessoas se envolviam mais na luta
deI pobre", publicado nessa mesma co- pela justiça o diálogo fluía com mais
leção. densidade. Um dos temas centrais
do diálogo islã-cristianismo é a
Prosseguindo tal tarefa resolveram relação entre o campo espiritual e
envolver representantes de outras tradi- temporal nas duas religiões. Os
ções religiosas. No caso, convidaram muçulmanos nos julgam demasiado
pessoas ligadas ao mundo do Islã, do espirituais e, na relação com o
Zen-budismo, da religiosidade atual, do Estado, clericalistas. Os cristãos os
Hinduísmo. O fruto desse diálogo apa- vêem teocratas. Há mais
rece em tal livro. solidariedade do lado cristão que
González-Faus prefacia-o, situando a islâmico. As minorias cristãs
iniciativa e reagindo às exposições e nalguns países sofrem discri-
discussões referidas no livro. Faz, logo de minação e recebem menos apoio do
início, uma primeira constatação. No lado muçulmano. Como pauta de
fundo, não dialogam religiões, mas cul- ação, o A. apresenta o diálogo a
turas. Porque não existem religiões des- respeito das concepções dos
prendidas das culturas. As culturas car- direitos humanos no Islã e no
regam as valências positivas e negativas Ocidente segundo a carta da ONU.
dos seres humanos que as construem, Há diferenças de interpretação.
facilitando ou dificultando o diálogo. Na Outro campo importante se refere
diversidade das experiências, apareceu ao estatuto da mulher e o respeito à
como elemento comum a relevância da pessoa humana. Um terceiro ponto
experiência do autodescentramento na é o código penal conforme a lei
origem da paz, da plenitude humana. muçulmana. Final-mente a questão
Outro ponto foi a evidência de que a da justiça, da ordem (ou desordem)
religiosidade tem muito a ver com a social entre as reivindicações
pobreza e riqueza. Finalmente, prossegue islâmicas. No campo mais
Faus constatando que as ex-pressões diretamente religioso, há a tensão
justiça, luta pela justiça remontam à entre a submissão a Deus e o
cultura ocidental. respeito ao ser humano.

Uma primeira exposição situou-se no A discussão, que se seguiu à


diálogo islã-cristão. O conferencista H. palestra, foi extremamente interes-
Tessier relata sua experiência pessoal sante onde emergiram duas ques-
tões básicas: o problema do funda- na experiência apofática, na dificul-
mentalismo na perspectiva da cons- dade com as mediações exteriores,
ciênciauniversal e da pluralidade das no abandono e confiança, no
religiões e o diálogo inter-religioso despertar da realidade profunda, no
como diálogo intercultural sentir e sofrer com, etc.
Um segundo texto, apresentado Marià Corbí desenvolve uma re-
por Ana M. Schlüter Rodés trabalha a flexão mais ampla. Pergunta-se qual
questão do despertar e da compaião seria uma espiritualidade mais con-
no Zen. Depois de elementos dizente com as condições sociais e
introdutórios sobre o que é o Zen, a culturas de uma sociedade industrial
semelhança da "natureza essencial" avançada. Estuda rapidamente a
com o Reino de Deus, ela estuda o dinâmica de três tipos de sociedade e
caminho do despertar do Zen e a sua cultura: as sociedades pré-in-
compaixão, expresso nos dez quadros dustriais e estáticas, as sociedades da
do boiadeiro, atribuído ao mestre Zen primeira industrialização com uma
chinês do século XII, Kakuan Zenji. Por cultura que ainda resiste às mudan-ças
meio desses quadros, faz-se o e as sociedades dinâmicas da segunda
percurso do próprio despertar que revolução industrial em contínuas e
termina no encontro com o outro. A rápidas mudanças. A A. analisa como
partir daí, a A. articula a relação entre as religiões se comportam nessas
o Ocidente e o Zen no campo da diferentes sociedades e culturas. Ela
justiça. O Zen insiste no binômio concentra sua atenção em esboçar os
sabedoria e amor, enquanto o Oci- traços de uma religiosidade que seja
dente na justiça e paz. O cristão fala viável nessas sociedade e cultura
muito de amor, o budismo sublinha dinâmicas e de inovação. Elas se
a compaixão, revelando as duas caracterizam pela lógica cultural do
facetas,uma mais ativa e a outra movimento, baseada na inovação e
mais passiva respectivamente. criação de ciência e tecnologia, cada
vez mais produzidas em equipe com
As discussões retomaram a ques- fluxo ágil de informação.
tão do diálogo inter-religioso e Conseqüentemente se modifica a
intercultural, o papel da experiência natureza do trabalho e da organização.
(Zen) e da doutrina (Ocidente), a luta Substitui-se a submissão pela coesão
pela justiça e opção pelos pobres livre de grupos criativos pela via da
(Ocidente) e a compaixão (Zen), ter- adesão voluntária.
minando com uma reflexão sobre a
kenosis espiritual e histórica. Cada vez Nesse sentido, pensa uma religi-
vai ficando mais clara a diferença entre osidade que abandone as formas de
esses dois mundos. O Cristianismo submissão, de domínio, de inculcação
coloca-se no pólo da justiça, do amor, doutrinal pela via da comunicação livre
da luta, da opção pelos pobres, da em todas direções, da criatividade.
transformação da realidade social, de Nada melhor do que resgatar o
uma linguagem dual, das mediações coração das religiões, superando o eu
exteriores, da alteridade divina, da como ser de necessidade e
doutrina. O Zen carrega as tintas na autocentrado para um eu que busca
sabedoria, na compaixão, na experimentar, conhecer e sentir
linguagem unitária, no monoteísmo gratuitamente. Para isso, é importante
radical tocando as raias do panteísmo voltar aos grandes mestres espirituais,
ou panenteísmo, místicos de todos os tem-
pos, onde se aprende tal nova religi- de e o sentido da vida com a ajuda
osidade. A A. exerce forte crítica a das outras experiências e intuições.
todo tipo de hierarquia, submissão,
inculcação doutrinal. Desoculta as Para muitos pensadores cristãos
duas antropologias subjacentes à re- existe uma justiça especificamente
ligiosidade antiga da submissão e à cristã, enquanto o A. julga que não.
nova da liberdade e criatividade. É uma leitura a partir do lado cris-
tão. O A. mostra a presença no
Talvez ela carregue as tintas de- hinduísmo de elementos julgados
mais, misturando maneiras opresso- como especificamente cristãos. A
ras e dominadoras de hierarquias e discussão que se seguiu procurou
maneiras respeitosas da dignidade encontrar os pontos de proximidade
humana. Seguiu-se uma discussão e distância entre Cristianismo e
em que se procurou matizar hinduísmo na compreensão da justi-
algumas afirmações rotundas da ça. De novo, ficou patente a diferen-
autora, embora em concordância ça entre o acento na interioridade
com as linhas gerais. Não parece (hinduísmo) e na exterioridade (Cris-
tão claro que se passa sem mais de tianismo).
uma sociedade da submissão para
uma da liberdade. Acenou-se ao fato As duas últimas exposições
de que estão surgindo também apresentam excelente retomada de
movimentos fundamentalistas, ainda maneira crítica e complementar do
mais rígidos. Perguntou-se pela conjunto dos elementos veiculados
importância do espaço antropológico ao longo do seminário. Assim J.
comum às diversas religiões para Martínez Gordo trabalha essas idéi-
um diálogo inter-religioso. as nas diferentes dimensões do diá-
logo: da vida, da ação, da experiên-
R. Pannikar aborda o tema da cia religiosa, do intercâmbio religio-
justiça no diálogo cristão-hindu. Logo so, permeando sua exposição com
de início,esclarece alguns pressupos- interessante série de pequenos con-
tos. Toda pergunta carrega tanto uma tos. Quase todos tirados dos escritos
certa violência quanto determina o de A. Mello.
quadro da resposta, dificultando um
diálogo amplo. No entanto, elas se Finalmente, María Dolors Oller
fazem necessárias. reage bem pessoalmente. Diz-se
cristã sem estudos teológicos
Num segundo momento, explica especiais, mas que mostrou enorme
que o hinduísmo não tem uma es- sensibilidade teológica e pertinência
sência, não tem uma doutrina, não é nas reflexões.
uma religião com um corpo estruturado
de ensinamento.s É antes uma atitude o conjunto do livro deixa-nos a
existencial. É uma existência e não impressão da grande diferença de
uma essência. Esclarece em seguida o sensibilidade entre a cultura cristã
conceito de justiça no contexto cultural ocidental e os interlocutores de outras
do hinduísmo, explicando vários tradições religiosas. Posto co-
conceitos aproximativos. E finalmente munguem nos mesmos ideais de jus-
aborda o tema do diálogo na tiça e de opção pelos pobres, reagem
perspectiva intra-religiosa que se de modo bem diverso. Interioridade e
estabelece no interior do coração exterioridade, contemplação e ação,
humano buscando a verda- compaixão e justiça, e outros
binômios retratam a diversidade de resumidas e organizadas de
sensibilidade. maneira que se pode ter uma boa
idéia do desenrolar do seminário.
o leitor aproveita muito da leitu-
ra, tanto das exposições como das
discussões. Estas estão muito bem

FORTMABNa,s de Gaay - GOLDEWIJBKe,rma Klein: God and the Goods. Global


Economy in a Civilizational Perspective . Geneva: WCC Publications, si d., 100
pp., 21,S x 13,5 em., ISBN 2-8254-1264-3.

Pequeno livro sugestivo, claro, às custas das outras culturas. É o


conciso e atual. Os autores são liga- surgimento de uma nova cultura glo-
dos às Igrejas - Berma é holandesa bal que se torna mais ampla que to-
da Comissão Justitia et Pax -, Baas dos os contextos particulares, inclu-
de Gaay é professor de economia indo os do Ocidente.
política trabalhando num programa
Fala-se de uma segunda revolu-
do Conselho Mundial das Igrejas.
ção industrial. Na primeira substitu-
A pergunta central do livro é íram-se os músculos pela máquina. A
porque as igrejas, tendo ensina- segunda baseia-se na exploração da
mentos tão pertinentes no campo tecnologia de informação e comu-
social, têm tão pouca influência, quer nicação. Também baseada num pro-
sobre seus próprios membros, quer cesso de colonização, já não tanto
sobre a sociedade. Os AA. reconhe- geográfica, mas ocasionada sobretu-
cem uma certa paralisia do Cristia- do pela divisão entre os 20% que
nismo organizado. Constatam uma usufruem os benesses e os 80% que
dicotomia entre economia e civiliza- carregam com as duras cargas· do
ção numa perspectiva global. O livro trabalho. É sobretudo uma revolução
pretende oferecer análises e perspec- financeira, cujos efeitos temos perce-
tivas de futuro. bido com os sucessivos e gigantescos
abalos provocados pelos fluxos finan-
A crise atual caracteriza-se por ceiros em todo o mundo. Distingue-se
três traços: aprofundamento da po- da fase anterior do capitalismo, ao
breza, destruição ambiental e desin- tomar distanciar das normas que
tegração social. Tal problemática in- guiavam as reformas capitalistas da
sere-se numa perspectiva de primeira revolução industrial. Algumas
globalização. Fenômeno pelo qual "o características: mobilidade de fluxos
mundo é um único lugar" (Robertson.) econômicos, menos contratos
Atinge comércio e finanças, atividade coletivos, poder reduzido tanto dos
corporativa, um contexto sindicatos como dos governos cen-
estandartizado, cultura, ecologia e trais, fácil deslocamento das ativida-
uma consciência crescente do mundo des manufatureiras para novas regi-
como um único lugar. É mais que a ões e dimensões menores de cada
expansão da cultura ocidental estabelecimento. O "blitz capital" visa
mais a lucros a curto prazo do que to civilizacional onde se dá a identi-
um rendimento a longo termo. Ca- dade primigênia das pessoas.
minha-se para uma economia-24
horas em que o emprego nem de A tese de Hintington está aí pro-
longe é a maior preocupação admi- vocando reações críticas, mas é
nistrativa. desafiante. Ele vê as civilizações
chinesa e islâmica como as mais
Tal capitalismo está provocando desafiadoras para a ocidental.
novas crises. A primeira é o
aprofundamento da pobreza, cujos Em seguida, o livro aborda as
dados estarrecedores estão aí para respostas cristãs a um mundo em
provar. Outra é a violência no interior desordem econômica. Distingue três
dos Estados. Uma terceira é o cres- modelos: redenção secular, rejeição
cimento com desemprego. Finalmente radical e avaliação crítica. O primeiro
aumenta a destruição ambientaI. Os acredita no futuro do bem-estar
AA. concluem a análise da atual material nas pegadas da tese de
situação com a afirmação de que a Weber de que o calvinismo está na
civilização global está em perigo. origem do "espírito capitalista" na sua
Nesse momento, eles analisam as fase mais progressista. A segunda
teses de Huntington sobre o futuro das posição não vê salvação no capi-
seis maiores civilizações atuais talismo para as grandes maiorias da
(Ocidental européia e norte-america- humanidade. A terceira posição de
na, Rússia e países do Leste europeu, uma avaliação crítica da atual ordem
Islâmica, Hindu, Chinesa e finalmente a econômica corresponde à atitude
Japonesa.) A América do Sul e a África prevalecente no mundo da Igreja
subsaariana têm o potencial de tornar- Católica e do Conselho Mundial das
se civilizações distintas, mas não Igrejas. Os AA. apresentam em breves
possuem ainda as condições teses uma excelente síntese da
necessárias para ser qualificadas entre doutrina social da Igreja Católica, tanto
as maiores civilizações. Huntington nos seus aspectos positivos, como nos
defende que o confronto ideológico do críticos ao capitalismo. As críticas se
século XX está dando lugar para um centram nos seguintes pontos: a
confronto entre civilizações, para um ênfase dada pela atual ordem
deslocamento da identidade dos povos econômica capitalista na acumulação
já não a partir do Estado e da ideologia aquisitiva, as desigualdades, a posse
mas da civilização. Civilização é o irresponsável do poder econômico, a
agrupamento cultural mais alto e o frustração do sentido da vocação
mais amplo nível de identidade que as cristã. Analisando a sobrevivência do
pessoas possuem. Está acontecendo capitalismo, apesar das profecias de
tanto um reavivamento de tradições morte por parte de Marx, os AA.
antigas como uma assimilação de atendem à sua capacidade e agilidade
novos costumes da civilização global. de mudança, criando um forte Estado,
As religiões e culturas estão um Estado do bem-estar social,
despertando-se para novos modos de empresas responsáveis e uma coesão
ser, procurando novo espaço para social. Esses quatro pontos, que
existir precisamente em torno do que consolidaram então o capitalismo,
as fazem diferentes das outras. O estão agora sendo minados pela nova
conflito do pós-guerra fria detonará no fase do capitalismo globalizado a ponto
confron- de ser uma
ameaça a sua sobrevivência Em vez Face à busca de perspectivas
desses quatro pontos de estabiliza- civilizacionais, os AA. elencam várias
ção, a nova fase está gerando uma posturas básicas. Uns julgam que a
desordem política global, o cresci- combinação democracia liberal e
mento da insegurança ambienta!, uma economia de mercado promete futuro
desintegração social. Substitui o auspicioso. São os liberais otimistas.
Estado pelo mercado. Numa palavra, a Mesmo entre os liberais, há os
civilização global está numa encru- pessimistas, preocupados com as
zilhada. Há pesadas ameaças no raízes espirituais da crise global. As
horizonte. soluções, que o Norte encontrou para
seus problemas, são dificilmente
Os AA. estudam então as razões transferíveis para o Sul. Numa pers-
porque o Cristianismo se sente, de pectiva social, também há os otimis-
certo modo, paralisado diante dos tas e pessimistas. Todas são, porém,
temas morais globais. Antes de tudo,
atitudes passivas diante da crise.
por os ensinamentos sociais cristãos
parecerem muito abstratos, suspeitos Os cristãos são chamados a uma
de ideologia oculta. Em particular, os posição positiva, comprometida. Para
ensinamentos sociais da Igreja cató- isso, os AA. procuram desenvolver
lica tendem a ser fortemente associ- algumas visões que possam inspirar
ados à sua moral sexual, tão contro- novas estratégias em vista de uma
vertida, minando assim a credibilidade reforma institucional, como resposta à
no campo social. Os AA. referem-se atual crise global.
também à questão de se os
ensinamentos sociais seriam uma Essa visão parte dos direitos hu-
"terceira via" em relação ao capita- manos e da responsabilidade univer-
lismo e socialismo. Mais recentemente sal já que a crise é global. A base é a
o Papa João Paulo 11propõe em seus declaração da ONU em 1948 e os
textos um humanismo cristão. acordos posteriores que foram sendo
feitos onde direitos econômicos, so-
Outras dificuldades dos ensina- ciais e culturais são tão importantes
mentos sociais da Igreja católica lhe como os civis e políticos. Esta "se-
vêm do fato de ela não cumprir no seu gunda geração de direitos" vem senc
interior o que ensina para os outros. do negligenciada por falta de meca-
Falta-lhe também uma cooperação nismos judiciais que os urjam. Em
ecumênica na elaboração de uma ética termos internacionais, não houve
social.Mais:o caráter autoritativo dos progresso. Simplesmente publicam-se
ensinamentos da Igreja lhe dificulta os indicadores sócio-econômicos.
uma aplicação à sociedade. Uma
orientação global em base ética neces- Os direitos humanos da primeira
sita formas democráticas de coopera- como os da segunda geração só se
ção ecumênica e intercultural. implantaram por uma ação coletiva,
por lutas locais. O mesmo vale para o
Diante desse quadro: Qual o pa- contexto global. Uma consciência
pel das Igrejas? Dois: oferecer um universal da prática de tais direitos
horizonte mais amplo de valores e alimenta-se de um ethos baseado
procurar também mostrar sua viabi- numa cosmovisão. E o sujeito de luta
lidade concreta. Para responder a deve ser uma comunidade que aceita a
tais perguntas, os AA. dedicam os responsabilidade para a satisfação das
dois últimos capítulos. necessidades básicas de to-
das as pessoas. O ponto de partida relações inclusivas. E nesse movi-
para uma ação coletiva em vista de mento, amplia-se e radicaliza-se a
implementar os direitos econômicos espiritualidade. A ligação do ser
e sociais é a justiça social. Nesse humano com Deus é alimentada tan-
ponto, os AA. discutem os princípios to pela Bíblia quanto pelo encontro
de J. Rawls com sua teoria "não- com Deus no pobre e excluído ou
normativa", mostrando suas lacunas. por meio da história do sofrimento e
libertação dos povos.
Como base para a luta pelos di-
reitos humanos a noção de "decência" Em seguida, os AA. elencam três
pode ser útil. Numa sociedade tipos de resposta religiosa a esse
civilizada, os indivíduos não humilham processo globalizante: o fundamen-
uns aos outros; numa sociedade talismo, o sincretismo e o ecume-
"decente" as instituições não hu- nismo. Fundamentalismo assume
milham seus membros. A fonte da aqui dois sentidos bem diferentes. O
desumanização é tirar do povo o sentido mais comum de uma fé que
controle sobre suas vidas, tratando-os interpreta o livro sagrado literalmen-
como animais ou máquinas e ex- te. Mas também pode significar uma
cluindo-os ou de sociedades particu- convicção de lutar por valores fun-
lares ou até mesmo da raça humana. damentais contra o materialismo e
"Decência" é um conceito que pode secularismo. O livro explana esse
ajudar perceber quando as injustiças segundo aspecto que tem a ver com
são intoleráveis. Assim a "pobreza valores como: tradição, identidade,
absoluta" está abaixo de uma "de- lar, indigenismo, localismo, comuni-
cência humana". dade, nativismo, encontro de um
lugar no mundo como um todo. O
Há outros pontos que podem fundamentalismo é tanto uma reação
abrir-nos perspectivas globais alter- como um aspecto da globalização.
nativas. Os AA. abordam rapidamen-
te temas como sociedade civil, a vi- O sincretismo, como uma respos-
rada para as fontes espirituais origi- ta à globalização, reintegra elementos
nais, a liberdade, os bens, a felicida- de diversas tradições religiosas,
de e as estratégias conjugadas entre associando-os freqüentemente com
interesse público, justiça e paz. estilos de vida correntes numa flui-dez
de formas organizacionais. Fala-se de
Num último capítulo, os AA. pro- sincretismo não só para essa mistura
curam estratégias que combatam a de elementos religiosos, mas também
crise global do aprofundamento da culturais e ideológicos. Os AA.
pobreza, da destruição ambiental e da mostram também a proximidade desse
desintegração social. Isso envolve conceito com o de inculturação.
uma ação conjunta de todo o mundo
com os seus mais diversos atores. Aí a
religião tem um papel em geral e o O termo ecumenismo recebe aqui
Cristiansimo em particular. uma ampliação de horizonte para além
da relação entre as denominações
L. Boff é citado com seu projeto cristãs no sentido de uma busca de
de alternativa à forma ocidental de unidade e cooperação mundial. Uma
racionalidade moderna na linha da resposta ecumênica à globalização
inter-relação. O que existe, co-existe afirma a religião como parte dos
dentro de uma teia infindável de recursos atuais para com-
bater a pobreza mundial, a exclusão, recer suporte para ela. Os AA. dis-
a destruição do ambiente e as guer- cutem as dificuldades que tal proje-
ras civis. to tão ambicioso enfrenta. Há cami-
nhos para ir nessa direção, como o
No final do livro, os AA. defron- de resgatar o ethos do serviço públi-
tam mais concretamente com a per- co, abrir perspectivas de diversos
gunta: O corpo de ensinamentos so- novos compromissos para os cida-
ciais e éticos do Cristianismo é real- dãos.
mente uma força motivadora na bus-
ca de uma nova coesão social e glo- Finalmente, nessa tarefa tão com-
bal e uma nova consciência ecológi- plexa e difícil da transformação da
ca? sociedade faz-se necessário agir tan-
to no nível maior dos poderes naci-
Os Bispos dos EE. UU. e da In- onais e internacionais quanto no de
glaterra e País de Gales oferecem cada cidadão. As igrejas podem unir
subsídios admiráveis a respeito da suas forças com outras instituições e
necessidade de construir uma justiça povos trabalhando em direção a uma
básica comutativa, distributiva e social justiça pública em nível planetário.
para todos, uma ética do bem comum.
Baseando também em outros Este livro é extremamente
documentos de Igreja, os AA. desen- denso, rico, sugestivo. Merece uma
volvem amplamente o conceito de bem leitura atenta e oferece material para
comum e suas conseqüências para a excelentes debates. As críticas feitas
atual sociedade. ao Cristianismo são honestas,
objetivas, de quem está dentro e não
Para que se encontrem soluções
de quem joga pedra no adversário.
globais faz-se mister estabelecer uma Vale a pena conferir!
ética global. H. Küng batalha muito
nessa direção. Nesse sentido, convo-
cam-se as grandes religiões para ofe-
João B. Libanio

Léon-DUFOUR, Xavier. Leitura do Evangelho segundo João - IV. Capítulos


18-21. Tradução do francês de Johan Konings. São Paulo: Loyola, 1998
(Coleção Bíblica 16) 23x16cm. ISBN 85-15-01649-4.

Dois anos depois de concluída a meiro volume francês (na edição bra-
publicação em francês, a Ed. Loyola sileira colocado no início, como guia
completa a edição brasileira da volu- de leitura) não corresponde totalmen-
mosa "leitura" do Quarto Evangelho te às divisões adotadas ulteriormente.
produzido pelo emérito professor X. Mas isso não tira o valor da obra como
Léon-Dufour, pela publicação do um todo (c. 1850 p. na edição
volume IV. Considerando a obra em francesa). É um exemplo único de
seu conjunto, percebem-se algumas "leitura" do Quarto Evangelho - leitura,
"correções de percurso". Inclusive, o e não apenas exegese ou explicação
esquema apresentado no fim do pri- do sentido verbal do texto.
Por isso, cada capítulo termina muito apropriado para iluminar essa
numa "abertura", uma "desclausura" abordagem. Oferece também ensejo
hermenêutica para nosso horizonte para aprofundar a intenção do autor
atual. (20,30-31.) Com sempre deve-se
observar o princípio da leitura em
Léon-Dufour cita amplamente a dois tempos, o tempo da narrativa e
literatura exegética sobre João, o tempo do leitor original, a ser com-
sobre-tudo a partir do comentário pletada com a perspectiva herme-
epocal de R. Bultmann (1941), nêutica, ou seja, a abertura de senti-
passando pelas obras de C.H. Dodd, do para nós hoje.
R. Schnackenburg e R. E. Brown.
Percebe-se sensibilidade especial "No fim de nossa leitura [... ]
pelo contexto semítico/hebraico do convém jogar um olhar no Liminar da
evangelho joaneu, de acordo com as obra" (p. 219). No "Posfácio", L.-D. olha
freqüentes citações dos estudos de para trás para esclarecer post factum
G. Reim e a obra mais recente de F. seu procedimento, anunciado no
Manns, e mostra-se influenciado "Liminar" que abria o primeiro volume.
tam-bém pela obra de M. Hengel Neste sentido, fornece uma visão de
sobre "a questão joanéia". conjunto sobre o personagem do
Discípulo Amado, as eventuais
o último volume, que temos diante influências do dualismo e do
dos olhos, trata de Jo 18-21. Entre as gnosticismo e a dimensão simbólica da
coisas que chamam a atenção: a leitura proposta. L.-D. realça que sua
divisão da história da Paixão: 18,1-27; leitura é fundamentalmente sincrônica,
18,18-19,22(não 19,16a,como em deixando de lado a investigação das
muitos comentários); e 19,23-42. Digno fontes e procurando re-conhecer a
de nota é também o senso de unidade estrutura dos significantes no texto
com que é tratado o capo20. O capo 21 como está diante de nós. Isso não
é chamado não apêndice, mas epílogo exclui a consideração das tradições
(cf. J. Zumstein), o que acentua o laço assumidas e reinterpretadas pelo autor
orgânico com os capítulos anteriores. do evangelho, nem das diversas
Quanto ao autor deste capítulo, é "retomadas" deste evangelho que se
lembrada a hipótese de uma "escola interpreta a si mesmo, por exemplo, no
joanina". Jo 21 mostra uma fase ulterior "segundo discurso de despedida" e nas
da reflexão da comunidade joanéia, já à freqüentes observações reflexivas do
luz do evangelho joaneu, sobre a próprio autor. De toda maneira, L.-D.
tradição e a identidade desta se mantém longe das análises de J.
comunidade no conjunto da "grande Becker, G. Richter ou M.-E. Boismard,
Igreja", representada pelo nome de para não falar do hipotético "evangelho
Pedro. dos sinais" de R. Fortna e outros! É
confesso defensor da unidade literária
Como nos volumes anteriores, é
do Quarto Evangelho.
realçada a leitura "simbólica": para
Léon-Dufour, a narrativa, mesma
quando baseada em informação his- "Outra opção fundamental é a lei-
tórica, mostra apenas uma parte, cer- tura simbólica do escrito joanino"(p.
tamente "significativa", do sentido. É 220). A sobredeterminação do senti-
preciso compreender mais do que se do, própria do simbolismo, tem di-
lê. O capo20, com suas referências à versos níveis. Pode ser contemporâ-
dialética de ver e crer (20,8.29), é nea do enunciado original, levando
em consideração os pressupostos gnosticismo", mas fazer depender
culturais (o simbolismo conhecido João da gnose é impossível; o con-
nas tradições judaicas); ou pode sur- trário, em parte, sim. Se João se
gir numa compreensão ulterior, por mostra sensível às aspirações à "sal-
exemplo, passando do tempo de Je- vação" vivas no seu ambiente pré-
sus para o tempo da comunidade gnóstico, sua resposta é bem
joanéia. Realista, Leon-Dufour reco- diferente da gnose.
nhece o entrelaçamento das duas
leituras simbólicas, por exemplo, no Este último volume da obra de
caso do pão da vida: "Não há duas Léon-Dufour é completada por um
leituras, mas uma só" (p. 221). O extenso índice temático (16p.).Abran-
assunto é depois aprofundado em gendo os quatro volumes, este índio ce
algumas páginas que valem a pena aumenta consideravelmente o valor e a
ler. manuseabilidade da obra, ao
proporcionar visão sintética dos temas
Outro assunto do Posfácio é a que, como numa fuga musical,
questão do Discípulo Amado e do aparecem, desaparecem e reaparecem
autor do evangelho. Inclina-se para no decorrer do evangelho, podendo ser
hipótese de que o Discípulo amado apreendidos apenas na sua evolução.
tenha sido o "presbítero" João men- O índice inclui também alguns tópicos
cionado por Papias (d. M. Hengel). mais objetivos (geográficos etc.) ou
Embora esse "Discípulo do Senhor" metodológicos.
seja apresentado em Jo 21,24como
o "autor" do evangelho, convém A edição brasileira acrescenta ao
interpretar que ele é o responsável último volume a leitura de "Jesus e a
pelo "testemunho" apresentado no adúltera" (Jo 7,53-8,12),que no origi-
nal francês tinha sido deslocada de
quarto Evangelho. Mas isso não
seu lugar canânico para o fim do
exclui a participação de sua
capo 8 (no vol. I). Creio que a opção
comunidade ("nós sabemos", 21,24). da edição brasileira é mais lógica,
Assim surge a seguinte genealogia: por se tratar de um texto não-joaneu,
o discípulo-testemunha, o inserido em diversos lugares do NT,
evangelista-escritor, o redator- conforme mostra a história do texto
compositor (sobretudo no capo 21). do Novo Testamento; a opção da
edição brasileira corresponde ao lu-
Outro tema do Posfácio é "João e gar que o texto ocupa no códex mio
a gnose", tratado com consideração núsculo 1 (do séc. XII).
dos "judaísmos diferentes" que se
manifestam, entre outros, nos escri-
tos de Qumran. De fato, as fronteiras
entre as tendências dualistas e os Johan Konings
judaísmos do primeiro século torna-
se menos radical. João pode ter co-
nhecido (e combatido) certo "pré-
KUSCHEL, karl-Josef: 1m Spiegel der Dichter. Mensch , Gott und Jesus in der
Literatur des 20. Jahrhunderts. Düsseldorf: Patmos, 1997. 460 pp. 21,3 x 13,6.
ISBN 3-491-72378-7.

o livro, vigésimo quinto de Karl- caráter de revelação ou antecipação


Josef Kuschel, vem sintetizar sua presente na arte, ao qual atribui gran-
produção no campo da Teologia da de relevância teológica. As grandes
Cultura e firmar-se como obra de obras de arte, por seu caráter livre e
referência para trabalhos futuros que indeterminado, e por sua capacidade
pretendam dedicar-se ao complexo de representar a multiplicidade da
diálogo entre religião e literatura, tanto existência humana, podem colocar o
do ponto de vista da Teologia como homem em contato intenso com o que
das Letras. O A, professor de Teologia está para além dele. Na verdade
da Cultura e de Teologia do Diálogo instável e irredutível que essas obras
Inter-Religioso na Universidade de representam (a verdade de vidas
Tübingen, Alemanha, desenvolve, em humanas em sua graça e mistério), a
três partes distintas, uma Antropologia, verdade divina pode se fazer presen-
uma Teologia e uma Cristologia a te, sob a forma parcial que cabe ao
partir do diálogo com grandes homem apreender. E note-se aqui a
escritores, oriundos em maior parte possibilidade de a verdade divina se
dos países de língua alemã (Goethe, fazer presente: a acuidade teológica e
Heine, Thomas Mann, Dürrenmatt, a prudência crítica que norteiam o livro
Günter Grass, por exemplo), mas devem-se ao cuidado do A de não se
também de outras tradições literárias, apropriar dos textos literários e de não
como a russa (Tolstoi, Solchenítzin) e usá-los como mera ilustração de
a norte-americana (Faulkner); entre os convicções firmadas a priori. O A.
literatos da América Latina - por quem confronta-se com o que os escritores
o A. demonstra crescente interesse, têm a dizer, em um exercício
pois vem dedicando parte de sua anunciado e criterioso de teologia
atividade docente à análise de obras intercultura:l não pretende incorrer em
latino-americanas -, recebe atenção o uma falsa estetização da religião, nem
paraguaio Augusto Roa Bastos, com o em uma sacralização da arte. As
romance Hijo de hombr e. experiências religiosa e estética pre-
servam cada qual sua especificidade e
valor próprio, mas iluminam-se
O tom bastante pessoal do A, que reciprocamente, em uma relação nem
confere vida e humanidade à reflexão sempre pacífica de afirmação e crítica.
teórica, já se faz notar desde o
Prólogo. Aí, o percurso intelectual de
que o livro nasce é apresentado a A Primeira Parte defronta-se com
partir de experiências pessoais de o ser humano como enigma: como
leitura, no que elas têm de criatura que descobre a própria
enriquecedor e intrigante face às criaturalidade, percebe a própria cul-
perguntas e desafios impostos pela fé. pa histórica e pessoal e dá-se conta
O A. refere-se, entre outros, a Romano de si como potencial agente de amor
Guardini e Paul Tillich, para partilhar - mas também de destruição: do
com eles a convicção de um outro e da própria criação. O A
constata na literatura contemporânea o Mas em que se está diante d'Ele. A.,
papel central da descoberta do ser em seu diálogo, mostra-se capaz de
humano como ser insondável, em atender a um público leitor que em
constante situação de risco e de in- geral se vê frustrado por um dis-
certeza, por conta da própria liber- curso religioso teológico atenuador, o
dade. As atrocidades cometidas du- livro aborda com coragem o pro-
rante a Segunda Guerra Mundial, a blema do sofrimento humano e do
ameaça ao meio ambiente e à vida, a desespero diante de sua aparente
inexorável consciência em relação à absurdidade. Lembra de que forma o
culpa do gênero humano e à fragili-
sofrimento tornou-se um dos pilares
de especulações filosóficas ateístas,
dade da pátina de civilização que
impulsionadas, por exemplo, pelo
recobre nossas relações sociais, po-
estarrecimento provocado pelo
líticas e econômicas - eis aí os fatores
terremoto de Lisboa, já no século
que ensombrecem a dicção literária de
XVIII. E pondera que a atitude de-
nosso tempo. Sem esquivar-se a isso,
fensiva e incondicional por parte das
o A. empreende o caminho que lhe
igrejas teve como conseqüência
indicam os literatos. Mas pode concluir,
indesejada o cultivo da imagem de
com o olhar do teólogo, que ao fim
um Deus entronizado: intocável, se-
desse percurso resta muito mais que
vero e isento diante da história e da
misantropia e indiferença. A vida dos homens. Reconhece que a
negatividade assume valor heurístico, e teologia do amor de Deus e de Sua
não cabe entendê-Ia como ontologia da compaixão com a criatura vem reparar
negatividade. Afinal, mesmo o texto essa distância e trazer uma
literário mais cético é texto, e nasce da contribuição inestimável, não só para a
confiança na linguagem. A paisagem ação pastoral; atenta, por outro lado,
obscura delineada na Primeira Parte para o fato inegável de que ainda hoje,
diante de situações extremas e
serve, no fundo, para aguçar a
aparentemente absurdas de sofrimen-
pergunta sobre o sentido e legitimidade to injusto, a teologia do amor e da cruz
da própria idéia de Criação, em meio à fazem apenas aguçar o problema da
qual a criatura se depara consigo teodicéia, e não solucioná-lo de forma
mesma - e se amedronta. definitiva, tal como apregoam certas
posições. Se o sofrimento é
decorrência da liberdade da cri-atura, e
A Segunda Parte, propriamente se nessas situações o amor de Deus
teológica, traz como epígrafe uma se faz sentir de maneira mais intensa,
citação incisiva de Theodor Haecker, não se exclui que tal argumentação
que conclama o leitor a jamais sepa- soe cínica para quem sofre. A. se
rar-se de Deus, e a amá-lo; ou, caso o pergunta sobre a plausibilidade de falar
leitor não seja capaz de amá-lo, então no sofrimento vivido em Auschwitz
que ao menos, sob o signo de Jó,
como conseqüência do amor de Deus
"brigue com Ele, enfrente-O, moleste-
O, se puder fazê-Io - mas jamais e da liberdade que Ele concede à
abandone". Como na parte anterior, criatura. E lança aí sua dúvida diante
também agora o A. se de-fronta com de soluções que, levadas ao extremo,
escritores cuja relação com Deus nada colocariam Deus "em um nível ético in-
tem de tranqüila. São romances e ferior ao de qualquer pai ou mãe que
narrativas em que se chega ao limite respeitam a liberdade de seu filho,
da imprecação, da revolta e da recusa
diante de Deus.
mas que tudo fariam para livrá-Io de inefável. Trata-se aqui de uma
situações de infelicidade extrema". O conclamação aos teólogos, no senti-
A. procura um caminho alternativo, do de que seu dizer preserve o mis-
pelo qual se possa fugir às falácias tério de Deus, a irredutibilidade do
do ateísmo e de uma teologia Criador a fórmulas e normas pálidas.
indevidamente apaziguador.a Sua
reflexão permite-se enfrentar até Por fim, na Terceira Part e, o au-
mesmo problemas como o da atitude tor desenvolve também o esboço de
de protesto contra Deus - tema fre- uma cristopoética - algumas conclu-
qüente na literatura deste século. E sões quanto à dicção literária sobre
nos casos analisados, entende tal ati- Jesus no mundo contemporâneo.
tude como expressão de um respeito Conclui que para a maioria dos es-
último diante do Criador, como ex- critores do século XX o Nazareno é
pressão radical de clamor pela justi- representado como arquétipo de uma
ça divina, embasado na experiência humanidade inconformista, rebelde
histórica de fé e de confiança irrestrita e provocativa; Ele surge como ins-
em Deus, projetada para o futuro. tância reveladora da discrepância
entre o ideal utópico e a realidade
o esboço de uma "teopoética", de muitas vezes miserável. Em conso-
um "dizer bem" teológico, que en- nância com as partes anteriores, o A.
cerra a Segunda Parte, evoca a reco- conclui que a figura de Jesus não é
mendação de Karl Rahner quanto à "apreensível" de forma plena. Tam-
sensibilidade lingüística necessária bém o Nazareno escapa a toda re-
para o exercício de reflexão nesse presentação direta e redutora. A arte,
campo. (A referência aqui é ao dis- diante d'Ele, se retrai e desmascara
curso de Rahner por ocasião de seu como ilusão a idéia de que se pudes-
octogésimo aniversário, pouco tem- se representá-Lo de forma adequada
po antes de sua morte). Para se dar e definitiva no âmbito da própria
expressão à "silenciosa insonda- arte. A conclusão do A., voltada ao
bilidade" de Deus não há outro ins- amadurecimento do discurso
trumento para a teologia senão a lin- cristológico, vai no sentido de que a
guagem. E esse desafio, a teologia o consciência quanto a essa forma
tem em comum com a literatura "moderna" de representar Jesus con-
moderna: utilizar a linguagem para tribua para a análise mais perspicaz
conferir dicção à impossibilidade de da forma de Sua representação no
dizer plenamente. Teologia e litera- Novo Testamento. A análise dos re-
tura partilham a confiança na lingua- cursos "literários", por assim dizer,
gem - mas enquanto um instrumen- utilizados pelos evangelistas são de
to de articulação da consciência das profundo interesse para a reflexão
limitações dessa mesma linguagem. cristológica. As respostas dadas pelo
Eis o aprendizado que a teologia Novo Testamento às perguntas so-
pode intensificar em si a partir do bre quem é Jesus manifestam-se atra-
convívio com a literatura: como for- vés da remissão a um Outro, à Sua
mular a falta de ciência plena, fun- vontade e Seu Reino; são formula-
damento e resultado de toda a dic- das predominantemente com os re-
ção sobre Deus; como expressar o cursos dinâmicos e abertos da narra-
fato de que não se dispõe do "obje- tiva; e manifestam sua especificidade
to" de que se fala; como expressar que justamente na manutenção da viva-
aquilo de que se fala é, afinal, cidade das próprias perguntas. Jesus
Cristo, relido e novamente represen- humanização plena do homem, sob
tado pelos escritores modernos, con- o signo do Reino.
serva a força já presente nos Evange-
lhos. Incorpora como nenhum outro, o livro de Karl-Josef Kuschel
também na literatura, a dialética en-tre tem ainda o mérito de trazer muitas
impotência e força, fracasso e vitória, cita-ções dos escritores analisados e
derrota e grandeza. Os textos vári-as informações sobre as
recontextualizam o Nazareno como respectivas obras, o que o torna
expressão autêntica da cultura (veja-se uma espécie de antologia
a face tão latino-americana do comentada. É uma oferta generosa e
Crucificado, no romance de Roa Bas- convidativa do A. aos interessados
tos), mas demonstram, ao mesmo na continuidade do diálogo entre a
tempo, que cultura alguma pode tomá- Teologia e as Letras, e, em âmbito
Io "inofensivo", no sentido de calar as mais amplo, entre os universos
inquietações que Ele suscita. Essa acadêmicos secular e religioso.
resistência e irredutibilidade são de
grande relevância teológica e tornam Paulo Astor Soethe
legítima e densa a esperança na

CANOBBIO, Giacomo et aI.: Il vescovo e Ia sua chiesa. Brescia: Morcelliana,


1996.324 pp., 21 x 15 em. Coleção Quaderni teologici deI Seminario di
Brescia, 6. ISBN 88-372-1608-4.

Os professores do Seminário de A. reconhece uma evolução, de for-


Brescia oferecem este volume ao bis- ma que já se pode dizer que nas
po diocesano, por ocasião de seu Epístolas Pastorais vai emergindo a
jubileu de ouro sacerdotal. Reúne uma figura do "epíscopo" como cabeça
série de contribuições que dizem da comunidade.
respeito ao episcopado. Omitindo
Flavio DALLA VECCHIA traz
apreciação sobre temas muitos
uma interessante exegese do louvor
particulares da Igreja de Brescia, a
ao Sumo Sacerdote Simão, no final
presente recensão se deterá nos arti-
do livro do Eclesiástico (Sr 50,1-24)
gos que são de interesse universal.
a partir do texto hebraico (33-49). No
Felice MONTAGNINI, num primeiro final, abandonando o campo de sua
artigo, trata do surgimento do epis- especialidade (d. 321), se aventura a
copado no Novo Testamento (17-32): o
fazer uma transição pouco feliz para
bispo aparece em cena. Estuda bre- o ministério da Igreja.
vemente os diversos textos que men- Os dois artigos seguintes dedi-
cionam a figura do "epíscopo" e pro- cam-se a uma exegese do Vaticano 11.
cura interpretar sua função. Entre o Giacomo CANOBBIO interpreta LG 23,
episcopado como aparece no NT e o onde se afirma que o bispo é "o
monepiscopado de Inácio de Antioquia princípio visível e o fundamento da
vai um bom caminho. O unidade na sua Igreja particular" (51-
82). Analisa a posição do Concílio uma boa base comum para o diálo-
sobre três problemas que se punham go, pois supera a contra posição en-
na discussão teológica anterior ao tre afirmação e negação do
mesmo: a sacramentalidade do epis- episcopado. Entretanto, a questão
copado, a questão de se o bispo é crucial é o episcopado histórico, tão
antes membro do colégio episcopal sublinhado pela Igreja Anglicana.
ou cabeça da Igreja loca!, a função Este leva à discussão sobre a
petrina na constituição da Igreja par- sucessão apostólica. Por fim, o A.
ticular. O A. decide pela prioridade da aponta os "nós do debate".
pertença ao colégio sobre a presi-
dência da Igreja local, o que legitima Ovidio VEZZOfLaIz uma leitura da
a existência de bispos titulares (não prece de ordenação de um bispo,
residenciais.) Com isso, o Vaticano segundo o PontificaI Romano em sua
11 não teria desenvolvido uma verda- segunda edição típica, de 1990 (171-
deira teologia da Igreja particular, 202). Como se sabe, na reforma
apesar dos germes de eclesiologia litúrgica do Vaticano 11,foi assumida a
eucarística que se possam encontrar prece contida na "Tradição
nos textos. Apostólica", de Hipólito, um texto
eucológico venerável, de fins do séc.
Renato TONONaIborda a relação 11.O A. explica as razões da opção de
entre episcopado e presbiterado, per- abandonar a prece usada anteri-
guntando como entender a afirma-ção ormente e adotar o texto de Hipólito.
da paternidade dos bispos com relação Num segundo momento, analisa
aos presbíteros, em LG 28 (83-123). finamente a teologia do ministério
Havia quem pretendesse que a episcopal contida na prece. Compara o
"paternidade" proviria de que o epis- resultado do estudo com a teologia de
copado é a fonte do ministério outros textos eucológicos do Pontifica!,
presbiteral e este nada mais que par- concretamente a coleta, a oração
ticipação na plenitude episcopal. O A. sobre a oblação, o prefácio e a oração
faz um cuidadoso estudo da discussão depois da comunhão propostas no
conciliar, seguindo as atas sinodais, e Pontifical de 1990 para a missa da
conclui que a intenção do Concílio é ordenação de um bispo residencial.
ensinar que o episcopado é a plenitude
do sacramento da ordem e não deseja Num breve artigo de cunho espi-
especificar dogmaticamente a relação ritual, Tullo GOFA reflete sobre "o
entre episcopado e presbiterado. Em bispo como esposo da Igreja" (203-
todo o caso não deseja afirmar que o 213). Seu ponto de partida é a teologia
presbiterado provém da plenitude patrística do Cristo esposo,
episcopal. Artigo muito valioso, escrito qualificando o amor de Cristo como
com a acuidade de um pesquisador "caridade crística esponsal" (206), evo-
das fontes. cando a tradição mística cristã. Iden-
tifica então a missão episcopal como
uma missão esponsal e o Espírito
Angelo MAFFES estuda, a seguir, a conferido a ele na ordenação como o
questão da episkopé e do episcopado Espírito da "caridade crística esponsal",
na discussão ecumênica recente (125- simbolizada no anel episcopal. Para o
170), com uma análise exaustiva dos recenseador trata-se de uma reflexão
documentos resultantes de diversas um tanto rebuscada, sem grande
frentes de diálogo intereclesial.O con- transcendência teológica.
ceito de episkopé se apresenta como
No seguinte trabalho, Gianpaolo funções supradiocesanas,
MONTIN aIpresenta considerações so- participando de concílios, podendo
bre a renúncia do bispo diocesano ser eleito para sínodos etc.
(cân. 401 § 1) (215-249). Embora o
Vaticano 11 tenha sido o concílio que Devido à particularidade dos te-
mais ressaltou a figura do bispo, in- mas, o recenseador deixa de
troduz uma novidade de grave im- apresentar os dois últimos textos: um
portância quando o convida a renun- de Roberto LOMBARD soIbre o
ciar em determinadas circunstâncias. projeto catequético de Girolamo
Partindo do cânon em questão, o A Verzeri, bispo de Bresciano século
estuda suas fontes nos documentos passado (255-291); outro de Livio
conciliares e pós-conciliares e ROTA sobre as visitas pastorais de
compendia brevemente os argumen- Giacinto Gaggia, bispo de Brescia de
tos mais importantes que surgiram na 1913a 1933 (293-313).
aula conciliar contra e a favor da
Uma introdução (7-14) apresenta
inovação. No fundo há concepções
diversas do ministério episcopal, como
o conjunto dos trabalhos e os dedica
o A mostra através da citação de ao bispo homenageado, completan-
posicionamentos feitos na aula do-se com um "curriculum vitae" do
conciliar. O recenseador salienta a mesmo (15). No final há um sumário
diferença que resulta da concepção do em inglês de cada artigo (315-319).
bispo como pessoa particular ou como Em suma: um livro útil para
membro do colégio episcopal. No aprofundar a teologia do ministério
segundo caso, não haveria problema episcopal. Vale a pena lê-Ia.
com a renúncia que quereria apenas
propiciar mais eficiência no pastoreio
da diocese, enquanto o bispo emérito Francisco Taborda
continuaria a exercer suas

ARNOLDS,imón Pedro: Canversacianes baja Ia higuera. Lima: CEP, 1997. 335


pp., 20,5 x 14,5 cm.

O A, beneditino belga radicado no peruano. A relação entre os textos


Altiplano do Peru, próximo ao Lago de bíblicos saem de sua pena com um
Titicaca, reúne neste volume palestras frescor renovado que abre para o leitor
proferidas em diversas ocasiões para perspectivas novas, não suspeitadas
religiosos e religiosas de sua pátria de em nossas leituras habituais. São
adoção. São páginas de grande páginas que têm a força e a vitalidade
beleza espiritual, em que se retrata a dos escritos dos Padres da Igreja e
sensibilidade do A, seu conhecimento dos grandes autores da tradição
interno e sentido do texto evangélico, espiritual cristã. Quem tem o privilégio
fruto da contemplação de um genuíno de ter encontrado S. P. A, sente em
beneditino, sua capacidade de cada página palpitar seu coração e
empatia com o povo sua inteligência que tanto
impressionam a quem o conhece do no único desejo que dura: o desejo
pessoalmente. de Deus, de ver a Deus, de estar com
Deus" (49-50).Para isso é preciso
o livro está dividido em cinco entrar no próprio coração, não
partes. A primeira (11-38)convida a um dispersar-se. S. P. A. confessa: "falo
retorno às fontes da Vida Religiosa em como beneditino, como muitas outras
busca de um novo profetismo que nada vezes; peço desculpas, mas vocês
mais é que uma volta a "preferir a entenderão que não posso falar como
Jesus". "A loucura do Evangelho é jesuíta, apesar de admirá-Ios muito" ...
precisamente esta extra-ordinária (43).
pretensão de Jesus de ser 'mais'
amado" (18). O A. percorre a largos A terceira parte é dedicada a
traços a espiritualidade cristã que Nazaré (71-128),uma bela e sugestiva
apareceu através dos tempos no meditação sobre o lugar da vida oculta,
monaquismo, na experiência com leituras muitas vezes
franciscana, no Carmelo e na via surpreendentes por seu cunho de
inaciana. Quatro caminhos apenas, novidade, pelo caráter original, pela
entre os muitos que mereceriam ser relação com problemáticas atuais e
considerados, mas que, segundo o A., com situações concretas do Peru e da
"conduzem aos pontos cardeais da Vida Religiosa peruana. Infelizmente,
espiritualidade cristã de todos os não se sabe por quê, a ordem original
tempos e de todos os lugares e, neste das palestras foi trocada, como se
sentido, recolhem de certo modo o pode observar pela forma como uma
conjunto da história espiritual da Igreja" remete à outra. De repente o leitor
(19). Depois de apresentar brevemente encontra uma alusão a algo que já
estes caminhos, o A. sugere como se devia ter sido dito, mas só se
poderia relê-Ios diante da situação de encontrará depois, e vice-versa.
nosso mundo e, mesmo sob o risco de Numa tentativa de reconstrução,
parecer ingênuo e irritante (cf. 37), parece que seria preciso começar a
ousa propor um novo profetismo. ler pelo capítulo 2 (que inicia com
uma apresentação da experiência do
A. em sua visita a Nazaré, apresen-
A segunda parte (39-69)nos con- tada como o lugar de onde se "sai"),
vida a "refrescar a memória", com- continuar com o 4 (que começa di-
bater o esquecimento e voltar ao fres- zendo ser a segunda etapa da refle-
cor do primeiro chamado. A este xão), passar ao 3 (onde o A. conti-
encontro "fundacional" com o Senhor, nua a tratar o tema da família de
o A. volta sempre de novo. Mais Nazaré iniciado no capo 4), voltar ao
adiante, escreverá: "O desejo de ver a 1 (onde o A. diz que retoma a
Jesus é, na realidade, a principal temática da palestra introdutória: sair
condição para seguir a Jesus, a única de Nazaré, 74) e por fim ler o capí-
motivação duradoura para uma tulo 5 (que se apresenta como "últi-
vocação. Servir o povo é muito bonito, ma reflexão").
ser professor, ser enfermeira está bem,
mas isso não dura; o que dura sim é A quarta parte contempla "os
Jesus" (146). "Estamos legitimamente olhares de Jesus" (129-187).Começa
preocupados pelo povo, os pobres, o com uma meditação à primeira vista
compromisso etc. Mas tudo isso esfria, estranha ao tema: a exclamação de
entra em contradições e decepções, se Agar em Gn 16,7-14:"Vi aquele que
não está fundamenta- me vê". A reflexão permite conside-
rar como Deus nos olha e como, em tos, todos os pecados cabem na co-
resposta, podemos também nós olhar o munidade, exceto a mentira" (267).
Deus que nos olha. Com isso, o leitor é
de imediato jogado "numa atitude A sexta parte trata do discer-
profundamente contemplativa,mas que nimento e do acompanhamento es-
parte do olhar de Deus sobre nós" piritual (269-300), dois textos que
(131). Os textos subseqüentes tratam oferecem preciosas indicações práti-
de aprofundar, com a ajuda de cas para orientadores espirituais e
perícopes evangélicas, os olhares de formadores, que se reconhecem es-
Jesus: olhar de chamamento e de critas a partir da experiência do A.
misericórdia, olhares de admiração, Por fim a sétima e última parte está
cólera e tristeza, olhar afetivo. Textos dedicada a "São José, mestre do
luminosos para inspirar tempos de discipulado" (301-335.) São quatro
oração mais intensa. meditações que consideram José
como o homem que confia em Deus,
A quinta parte busca no tesouro da o mistério da adoção, o silêncio de
tradição beneditina inspiração para "um José, sua figura de peregrino. Dentro
novo seguimento" (189-267). O A. do melhor espírito da "estabilidade
propõe três dinâmicas ou caminhos beneditina" e a partir de sua experi-
espirituais característicos de São ência de inculturação, o A. faz a
Bento: a conversão, a contemplação e apologia da vizinhança, da proximi-
a ascese libertadora. Depois desta dade: "A vizinhança é ser fiel ao lugar
temática anunciada no primeiro capítulo onde vivemos, encarnar-se numa
desta parte, S. P. A. estende suas rede de relações", "falar a mesma
reflexões a outras dinâ-micas, sem língua e criar relações de re-
dúvida, não alheias ao carisma ciprocidade com a vizinhança" (328).
beneditino: a castidade, a misericórdia E faz uma observação pertinente
e a comunidade. No contexto deste para as comunidades religiosas: Não
último .tema, ressalte-se o que escreve basta dizer que "as pessoas mudam,
sobre o conflito que apresenta como mas a comunidade fica". "A relação
uma necessidade na comunidade cristã pessoal não se dá com uma
para podermos juntar as diferenças, congregação; dá-se com pessoas,
desde que temperado pela humildade, com José e não com a congregação
pois "só Cristo faz a unidade da de São José" (329)...
comunidade; só Cristo tem toda a
razão" (262). Seguem-se algumas Uma última palavra sobre o título
regras preciosas sobre como que se poderia traduzir em linguagem
administrar os conflitos: a referência a familiar: "Bate-papo debaixo da
Jesus na oração comum; "a difícil figueira". Que o A. o explique: "Na
articulação entre autoridade e literatura profética, a imagem da
liberdade" (265); reconhecer "mais figueira está relacionada com a Pala-
importante amar que ter razão" (266); vra de Deus (...]. Jesus retoma esta
"a coragem de manifestar as bela imagem com Natanael (...], fa-
discrepâncias e não escondê-Ias" zendo da figueira o lugar íntimo, quase
(266);e, por fim, "uma regra que secreto, do encontro pessoal. Por outra
esquecemos muito": a democracia parte, toda a Bíblia costuma apresentar
(267). Todas essas regras supõem algo a proteção amorosa de Deus como
fundamental que não pode faltar na uma árvore sob cuja sombra se
comunidade cristã: a sinceridade e a reúnem seus filhos para desfrutar de
verdade. "Todos os confli- suas visitas e partilhar o
pão de seu mistério (Mambré, a giosa nestas terras latino-
mamoneira de Jonas etc.). Mais tarde, americanas" (Prólogo, 9).
a tradição monástica e patrística
retomará essa experiência de intimi- Em suma, um livro delicioso que
dade divina e fraterna pela Palavra mereceria que a CRB traduzisse para
compartilhada na prática da lectio divina. que se tornasse acessível aos religio-
Trata-se de saborear o pão da Palavra sos e religiosas do Brasil. Mas a tra-
de Deus na mesa comum do amor dução deveria ter uma introdução ou,
fraterno, o banquete cotidiano da pelo menos, algumas notas
eucaristia e da oração. Nosso livro se explicativas que permitissem compre-
inscreve nesta tradição. [...] Sob a ender as muitas alusões, claras ou
figueira da Palavra de Deus [os irmãos veladas, à realidade concreta do Peru,
e irmãs da Conferência dos Religiosos pois é um livro profundamente en-
do Peru] compartilhamos durante anos raizado na pátria adotiva do A.
o sabor de nossa fé comum junto com
o alimento tão precioso da história de Francisco Taborda
nossa gente, de nossa Igreja, de nossa
Vida Reli-

SANGALLI, Idalgo José: O fim último do homem. Da Eudaimonia aristotélica à


Beatitudo agostiniana. Porto Alegre: EDIPUCRS, 1998. 21 x 14 em. 210 pp.
Coleção Filosofia 80. ISBN 85-7430-008-x.

Trabalho cuidadoso, matizado, Nessas filosofias estudadas o


que estuda o tema da felicidade na ser humano é visto na sua dimensão
tradição clássica aristotélica, intelectual, de virtude e de graça,
passando pela filosofia estóica de enquanto hoje a corporeidade, a
Sêneca e neo-platônica de Plotino sensibilidade, o hedonismo, o
para desembocar na posição cristã experiencial predominam.
de S. Agostinho. É um itinerário
interessante que o A. percorre com Ao longo do livro aparece um
inteligência, concisão e clareza. dado comum nos autores pesquisa-
dos, a saber a convicção de que a
o leitor moderno deve espantar-se felicidade é, de certo modo, o bem
da diferença entre a concepção de supremo para o ser humano. As di-
felicidade desse mundo clássico gre- ferenças e distâncias vão por conta
go, romano e cristão e a visão atual. da conceituação desse bem em rela-
Sem fazer nenhuma comparação, no ção ao ser humano e da maneira de
sentido estrito, o livro propicia con- consegui-lo.
clusões interessantes para além das
tecnicamente obtidas pela pesquisa o livro estrutura-se de maneira
para compreender o distanciamento da simples, linear. A pesquisa visa a
modernidade de todo esse universo responder a uma tríplice pergunta:
antigo. que é a "beatitudo" para Agostinho?
Provocou ele uma guinada no con- tém praticando o bem e evitando o
ceito de felicidade em relação à posi- mal. Pode-se dizer que na concepção
ção aristotélica? Existem relações de ética está o fato de o ser humano
entre ambas as concepções? Para buscar o seu fim, a sua felicidade e,
responder a essas perguntas, o A. jul- por sua vez, esta busca só é verdadei-
gou necessário recuperar o fio con- ra quando feita pela prática ética -
dutor da história. Por isso, além de virtude e contemplação da verdade.
analisar a Ética a Nicômaco, recor-reu
ao estudo de dois outros autores: Esse aspecto formal corresponde
Sêneca e Piotino, como uma espécie a todos autores estudados que vão,
de ponte para entender Agostinho. porém, distinguir-se na qualificação,
Pois, não podem ser desconsideradas na natureza desse bem e o tipo de
as influências do neoplatonismo e vida correspondente.
estoicismo em Agostinho. A pesquisa
Na configuração desse fim supre-
gira unicamente sobre o tema da
mo, a felicidade, mesmo os autores
felicidade. Daí o estudo ficar restrito a
pagãos, naturalistas, desconhecendo a
algumas obras dos autores revelação, admitem um forte traço
diretamente relacionadas com ele. religioso. Há um elemento divino
presente no homem, na natureza.
Então se entende a estrutura do Santo Agostinho, naturalmente, com
livro em três capítulos. O primeiro a revelação cristã, vai resumir a feli-
capítulo é todo dedicado à cidade como "frui Deo".
"eudaimonia", palavra grega para Segundo Aristóteles, no modo de
felicidade, na Ética a Nicômaco de caminhar para esse fim, o papel da
Aristóteles. O segundo estuda a virtude e o da contemplação da ver-
"beatitudo", palavra latina para feli- dade são fundamentai.s A boa con-
cidade, no filósofo estóico romano duta, o agir bem na prática das vir-
Sêneca e, de novo, a "eudaimonia" tudes e a atividade intelectual para
em Plotino, ponto alto do neopla- os conhecimentos superiores permi-
tonismo. E o terceiro capítulo, tem certa oscilação na interpretação,
desaguadouro das filosofias anterio- ora mais intelectual, ora mais ética
res, mas em patamar superior pela da felicidade.
perspectiva cristã, concentra-se no
estudo da "beatitudo" no gênio filo- A concepção estóica de Sêneca
sóficoe teológicode Santo Agostinho. entende a felicidade como um viver
Aí o A. responde matizada-mente as segundo a natureza. Uma natureza,
perguntas que se propusera. naturalmente, que tem um "logos",
que é fonte da lei. Lei natural e uni-
Tanto mais importante é essa re- versal, imanente à natureza huma-
flexão para o momento atual quanto na. Viver em conformidade com ela
mais a felicidade é vista numa pers- nos faz felizes. No fundo, é uma
pectiva ética. Com efeito, o ideal de natureza divina, em que Deus está
uma vida perfeita é a busca de seu imanente. Por isso, não se precisa
próprio "telos " o seu "finis sair dela para encontrar a felicidade.
bonorum", o fim de todos os bens.
Nesse momento, defrontamo-nos Em Plotino, a felicidade adquire
com uma ética teleológica. Os ho- uma marca místico-religios.a O ho-
mens almejam a felicidade, isto é. mem alcança-a ao assemelhar-se com
realizar seu fim supremo. Ele se ob- o Uno (Deus) por um processo de
purificação. É possível obter tal feli- gua original - grego e latim -, mas
cidade desde que o ser humano se nem sempre seguida de tradução ou
liberte das amarras do corpo e das apresentada uma única vez. O rigor
demais coisas materiais. Há todo um terminológico pode soar algo árido
itinerário de ascensão ao Uno que para ouvidos familiarizados com um
passa por um mergulho da alma em pensamento mais existencialista e,
si mesma. O momento máximo de por isso, causar dificuldade de
co-presença com o divino está no intelecção.
estado de pura intuição ou de êxta-
se. Um ponto importante crítico dessa
visão clássica em relação à ética
Santo Agostinho se aproxima hedonista reinante é ela partir do fato
desse pensamento, mas introduz de que o ser humano só procura a
novidades fundamentais. A verdadei- felicidade, ou porque vive numa con-
ra felicidade é deslocada lentamente dição de infelicidade ou experimenta
para um gozar de Deus depois dessa momentos (aparentes) de felicidade.
vida. O fator graça adquire papel Esta está reservada para a obtenção
preponderante de maneira que a do fim último, que para Santo
obtenção da felicidade definitiva es- Agostinho será a fruição de Deus
capa das puras possibilidades huma- depois da morte. Desmascara-se a ilu-
nas. É graça de Deus. são de felicidades puramente
hedonistas, tão vendidas pela mídia.
Vale a pena esse encontro com o Os clássicos nos oferecem lições anti-
pensamento clássico sobre a felicida- gas no tempo, mas atuais no sentido.
de num livro claro, conciso e escrito
com esmero. Exige do leitor um mÍ-
nimo de familiaridade com a filosofia
clássica. O A. conserva a termino- J. B. Libanio
logia, em muitos momentos, na lín-

MEEKS, Wayne A.: As origens da moralidade cristã. Os dois primeiros


séculos. Tradução do inglês por Adaury Fiorotti. S. Paulo: Paulus, 1997. 253
pp., 23 X 16 cm. ISBN 85-349-0952-0.

Wayne Meeks pesquisa a sensi- denominamos moralidade cristã. Visto


bilidade ética dos primeiros cristãos. superficialmente a obra pode ser
Já foram publicados dois outros li- confundida com o gênero usualmente
vros da sua autoria pela editora chamado de "ética do Novo Testa-
Paulus, tratando do mesmo assunto: mento", mas se trata de uma pers-
Os primeiros cristãos urbanos e O pectiva diversa. Não elabora a res-
mundo moral dos primeiros cristãos. posta dos primeiros cristãos a certos
A obra em questão esboça os inícios problemas que hoje estão em pauta
do processo pelo qual emergiu o como aborto, homossexualismo, vio-
intrincado tecido de sensibilidades - lência etc., nem tenta descobrir os
percepções, crenças e práticas - que princípios centrais em que se baseia
o sistema ético dos primeiros cristãos. no sentido de educar para as virtu-
Trata-se mais de uma exploração das des e condenar os vícios.
noções morais que configuraram a
sensibilidade ética dos primeiros cris- A tradição judaica representa
tãos. A finalidade é tentar construir uma fonte importante na criação do
uma espécie de etnografia moral dos sentir moral dos primórdios da fé
primórdios cristãos. Nesse sentido, a cristã. O Antigo Testamento é inter-
obra tem mais uma perspectiva an- pretado alegoricamente como relato
tropológico-cultural do que teológico- moral na linha de Fílon, filósofo ju-
moral. Aí reside a originalidade da deu de Alexandria. A primitiva Igreja
pesquisa de Meeks. Apresenta uma surgiu a partir e em meio a sina-
chave de leitura que não segue os goga e as escrituras judaicas servi-
cânones tradicionais de interpretação ram de referencial para a sua auto-
da ética neo-testamentária. compreensão. A sensibilidade ética
veiculada principalmente pelos ju-
Para construir essa etnografia deus da diáspora foi importante na
moral, o conhecimento do contexto configuração das diretrizes morais
sócio-cultural desempenha um papel da nascente cristandade.
fundamental. Meeks explora a sensi-
bilidade ética dos primeiros cristãos Mas, entre todos os fatores, o
em confronto com as noções e os modo de ser e agir da primitiva co-
códigos morais vigentes no ambien- munidade eclesial desempenha um
te greco-romano no qual eles vivi- papel primordial na formação da
am. Um primeiro elemento importan- compreensão ética dos primeiros cris-
te, destacado por Meeks, na configu- tãos. Era composta de pessoas con-
ração da ética foi o contexto urbano vertidas que aderiram a Cristo e ao seu
no qual viveram os primeiros cris- evangelho. A conversão significava
tãos. A cultura e a sensibilidade ur- uma total renovação e mudança de
banas das cidades da bacia mediter- vida com implicações ao nível ético.
rânea onde se desenvolveram as Assim a conversão ocupa um lugar
nascentes primeiras comunidades central nas fontes da moralidade cristã.
cristãs influenciaram fortemente o Trata-se de uma moral de convertidos.
seu sentir moral. A comunidade representava uma
ressocialização do indivíduo a partir de
Outro elemento que ajudou a for- um novo referencial de sentido para a
mular a gramática da prática cristã vida e, portanto, de um novo horizonte
foram os discursos e as obras de de compreensão ética. Criar princípios
exortação ética elaborados por vários éticos e organizar comunidade são um
filósofos pagãos da época. Os códigos processo único e dialético. A
de virtudes e vícios utilizados pelos moralidade cristã significava a arga-
cristãos são homônimos aos usados massa de constituição da comunida-
pelos pregadores greco-romanos. de. Por isso, a configuração das duas
Nesse sentido, Meeks ressalta a realidades é simultânea. Essa relação
grande semelhança no modo de ava- entre a formação da primitiva comu-
liar o comportamento moral por parte nidade eclesial e o surgimento de uma
dos cristãos e pagãos. Os primeiros sensibilidade ética correspondente é
cristãos apresentavam-se e que-riam uma contribuição valiosa da pesquisa
ser bons cidadãos do império romano de Meeks.
e lutavam ao lado de outros
Se, por um lado, a leitura etno- aparece pouco a perspectiva da
gráfica de Meeks é interessante e liberdade cristã proposta por Paulo
aponta para aspectos muitas vezes na Carta aos Gálatas e Romanos e o
esquecidos pelas tradicionais éticas protagonismo do discernimento
do Novo Testamento; por outro, tem como categorias centrais da ética
o perigo de esquecer a novidade éti- paulina e, portanto, dinamismos atu-
ca do Reino de Deus e reduzir a antes na sensibilidade ética dos pri-
moralidade cristã ao âmbito meiros cristãos.
categoria!, isto é, aos puros conteú-
dos, partilhados também por outros J. R. Junges
participantes do contexto sócio-cul-
tural greco-romano. Por exemplo,

BARREIRO, Álvaro: A parábola do Pai misericordioso. São Paulo: Loyola, 1998.


143 p., 21 x 13,5 cm. ISBN 85-15-01844-6.

"Você já se sentiu alguma vez Contudo, é essa a questão. Numa


uma dracma perdida?" Esta pergun- milenar leitura penitencialista, as
ta, colhida num roteiro homilético- parábolas da ovelha e do filho foram
catequético sobre Lucas 15, revela lidas do ponto de vista do que esta-va
muita coisa. Não apenas que a mai- perdido. E a finalidade da leitura era
oria das pessoas nem sabem o que provocar arrependimento e penitência.
é uma dracma. Você pode substituir Isso, evidentemente, não funciona com
"dracma" por "dólar" ou "real", a uma moeda, Chame-se ela dracma,
reação do interpelado continuará a dólar ou real! Portanto, a parábola da
mesma ... Ou talvez responda: "Eu dracma sumiu da pregação. Mas a
me sinto um perdido real". A per- leitura correta dessas parábolas é a
gunta mostra sobretudo que as pará- feita a partir do ponto de vista de quem
bolas de Lucas 15 são lidas, geral- encontra: o pastor, a dona de casa, o
mente, sob o ângulo errado. pai. O assunto é a alegria da
misericórdia que encontra quem a
Lucas 15 é composto de três pa- aceita e por isso faz loucura: deixar um
rábolas: a da ovelha perdida, a da rebanho sem proteção, chamar as
dracma perdida e a do filho perdido, vizinhas por causa de uma moeda,
geralmente qualificado de "pródigo". oferecer um churrasco pela volta de
Duas dessas parábolas estão receben- um vagabundo.
do, na catequese e homilética recen-
tes, outros títulos: "0 bom pastor" e "0 O livro de Álvaro Barreiro acen-
Pai misericordioso." A parábola tua exatamente esta ótica, inspiran-
intermediária, da dracma, não rece-be do-se na obra de Henri Nouwen e do
novo nome. Ficaria difícil dizer "a exegeta-pintor cristão-novo pro-
parábola da mulher feliz" ou algo testante Rembrandt, do século áureo
assim? Parece inusitado pensar Deus holandês (século XVIII). Rembrandt
como mulher varrendo a casa! retratou como nenhum outro o "pai
misericordioso", dando-lhe inclusive Do ponto de vista do exegeta,
traços da mãe de ternura: a mão di- sublinho que este livro nos convida a
reita, de dedos finos e alongados, a não mais ler a parábola (e muitas
afagar as costas do filho, a posição outras coisas) na ótica moralista; afi-
materna que dá a impressão de que nal, a ovelha e a dracma não podem
o filho renasce de seu seio... fazer penitência porque se perderam,
e o filho pródigo na parábola não faz
Numa ótica bem inaciana, o livro penitência. Convida-nos a ler esta
medita sobre Lucas 15 como a livre "mais bela das parábolas" na ótica do
oferta do amor de Deus ao pecador verdadeiro sujeito, o Pai miseri-
que livremente o quiser aceitar. cordioso, o Deus da vida.
Nada de pagamento. O pensamento
justiceiro do filho mais velho está Quanto ao aspecto gráfico, só lou-
total-mente fora de foco. Estamos vores: formato prático, belas repro-o
para lá da prestação de contas. duçães da obra de Rembrandt, recor-
Lucas é o evangelho da graça, da tadas em função da meditação pro-
gratuidade. A misericórdia é a oferta gressiva. Um livro que alegrará a você
de uma nova chance de vida. e aos seus amigos. Os depoimentos
narrados no próprio livro mostram o
Por isso, o livro não é intitulado "O efeito regenerador do encontro com o
filho pródigo" e sim, "O Pai mi- Pai misericordioso.
sericordioso". Neste sentido seguem-
se os três pontos da meditação: a J. Konings
história do filho pródigo, a história do
filho mais velho e o ponto principal,
mais amplamente desenvolvido: a
figura do Pai misericordioso.