Manuel de Barros

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Manuel de Barros

Manoel Wenceslau Leite de Barros nasceu em Cuiabá (MT) no Beco da Marinha, beira do Rio Cuiabá, em 19 de dezembro de 1916, filho de João Venceslau Barros, capataz com influência naquela região. Mudou-se para Corumbá (MS), onde se fixou de tal forma que chegou a ser considerado corumbaense. Atualmente mora em Campo Grande (MS). É advogado, fazendeiro e poeta. Tinha um ano de idade quando o pai decidiu fundar fazenda com a família no Pantanal: construir rancho, cercar terras, amansar gado selvagem. Nequinho, como era chamado carinhosamente pelos familiares, cresceu brincando no terreiro em frente à casa, pé no chão, entre os currais e as coisas "desimportantes" que marcariam sua obra para sempre. "Ali o que eu tinha era ver os movimentos, a atrapalhação das formigas, caramujos, lagartixas. Era o apogeu do chão e do pequeno." Com oito anos foi para o colégio interno em Campo Grande, e depois no Rio de Janeiro. Não gostava de estudar até descobrir os livros do padre Antônio Vieira: "A frase para ele era mais importante que a verdade, mais importante que a sua própria fé. O que importava era a estética, o alcance plástico. Foi quando percebi que o poeta não tem compromisso com a verdade, mas com a verossimilhança." Um bom exemplo disso está num verso de Manoel que afirma que "a quinze metros do arco-íris o sol é cheiroso." E quem pode garantir que não é? "Descobri que servia era pra aquilo: Ter orgasmo com as palavras." Dez anos de internato lhe ensinaram a disciplina e os clássicos a rebeldia da escrita. Mas o sentido total de liberdade veio com "Une Saison en Enfer" de Arthur Rimbaud (1854-1871), logo que deixou o colégio. Foi quando soube que o poeta podia misturar todos os sentidos. Conheceu pessoas engajadas na política, leu Marx e entrou para a Juventude Comunista. Seu primeiro livro, aos 18 anos, não foi publicado, mas salvou-o da prisão. Havia pichado "Viva o comunismo" numa estátua, e a polícia foi buscá-lo na pensão onde morava. A dona da pensão pediu para não levar o menino, que havia até escrito um livro. O policial pediu para ver, e viu o título: "Nossa Senhora de Minha Escuridão". Deixou o menino e levou a brochura, único exemplar que o poeta perdeu para ganhar a liberdade. Quando seu líder Luiz Carlos Prestes foi solto, depois de dez anos de prisão, Manoel esperava que ele tomasse uma atitude contra o que os jornais comunistas chamavam de "o governo assassino de Getúlio Vargas." Foi, ansioso, ouvi-lo no Largo do Machado, no Rio. E nunca mais se esqueceu: "Quando escutei o discurso apoiando Getúlio — o mesmo Getúlio que havia entregue sua mulher, Olga Benário, aos nazistas — não agüentei. Sentei na calçada e chorei. Saí andando sem rumo, desconsolado. Rompi definitivamente com o Partido e fui para o Pantanal". Mas a idéia de lá se fixar e se tornar fazendeiro ainda não havia se consolidado no poeta. Seu pai quis lhe arranjar um cartório, mas ele preferiu passar uns tempos na Bolívia e no Peru, "tomando pinga de milho". De lá foi direto para Nova York, onde morou um ano. Fez curso sobre cinema e sobre pintura no Museu de Arte Moderna. Pintores como Picasso, Chagall, Miró, Van Gogh, Braque reforçavam seu sentido de liberdade. Entendeu então que a arte moderna veio resgatar a diferença, permitindo que "uma árvore não seja mais apenas um retrato fiel da natureza: pode ser fustigada por vendavais ou exuberante como um sorriso de noiva" e percebeu que "os delírios são reais em Guernica, de Picasso". Sua poesia já se alimentava de imagens, de quadros e de filmes. Chaplin o encanta por sua despreocupação com a linearidade. Para Manoel, os poetas da imagem são Federico Fellini, Akira Kurosawa, Luis Buñuel ("no qual as evidências não interessam") e, entre os mais novos, o americano Jim Jarmusch. Até hoje se confessa um "...'vedor' de cinema. Mas numa tela grande, sala escura e gente

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O poeta foi agraciado com o “Prêmio Orlando Dantas” em 1960. Tenho por sua obra a mais alta admiração e muito amor. Outros fizeram o mesmo: Fausto Wolff. Os intelectuais iniciaram. e se chamou "Poemas concebidos sem pecado"." E Geraldo Carneiro afirma: "Viva Manoel violer d'amores violador da última flor do Laço inculta e bela. Antônio Houaiss. respondeu: "Exploro os mistérios irracionais dentro de uma toca que chamo 'lugar de ser inútil'. Voltando ao Brasil. (." E continuam apaixonados. sob o título de "Gramática expositiva do chão". Manoel. Anoto coisas em pequenos 3 Manuel de Barros . Seu primeiro livro foi publicado no Rio de Janeiro. ao ser perguntado sobre qual sua rotina de poeta. Stella já entendia a falta de senso prático do noivo poeta. naquela época. Descubro memórias fósseis. em suas colunas nas revistas Veja e Isto é e no Jornal do Brasil. sem fugir a um substrato ético muito profundo. Guimarães Rosa. Foi também comparado a São Francisco de Assis pelo filólogo Antonio Houaiss. Desde Guimarães Rosa a nossa língua não se submete a tamanha instabilidade semântica". o conhecimento dos poemas que a Editora Civilização Brasileira publicou. Em 1998. Como já foi dito. etc. de âmbito nacional. em 1949. logo se revelam muito reais. cidade onde residiu até terminar seu curso de Direito. morando em Campo Grande (MS). João e Marta (que fez a ilustração da capa da 2a. o advogado Manoel de Barros conheceu a mineira Stella no Rio de Janeiro e se casaram em três meses. o "Livro sobre nada” recebeu o Prêmio Nestlé. comparou os textos de Manoel a um "doce de coco". Faço escavações. concedido pelo Ministério da Cultura. inaugural. o tímido Nequinho. até hoje Manoel a chama de "guia de cego".. Millôr Fernandes começou a mostrar ao público. entre eles. saio ao meio-dia. numa tiragem de 20 exemplares e mais um. que fez a maior revolução na prosa brasileira. Entro às 7 horas. Por isso. mais tarde tornou-se fazendeiro e assumiu de vez o Pantanal. recebeu o Prêmio Cecília Meireles (literatura/poesia). Escreveu seu primeiro poema aos 19 anos.. em agosto de 1996. a poesia de Manoel vai além: "Tem a força de um estampido em surdina. a poesia de Manoel de Barros é de uma enorme racionalidade. Hoje o poeta é reconhecido nacional e internacionalmente como um dos mais originais do século e mais importantes do Brasil. em quase a sua totalidade. através de tanta recomendação. Mas." Segundo o escritor João Antônio. No começo do namoro a família dela — mineira — se preocupou com aquele rapaz cabeludo que vivia com um casaco enorme trazido de Nova York e que sempre se esquecia de trazer dinheiro no bolso. Suas visões. há mais de sessenta anos. no Rio de Janeiro." Millôr Fernandes afirmou que a obra do poeta é "'única. Carrega a alegria do choro. Exploro há 60 anos esses mistérios. Em 1969 recebeu o Prêmio da Fundação Cultural do Distrito Federal pela obra “Gramática expositiva do chão” e. apogeu do chão. que ficou com ele. Nos anos 80.) Sob a aparência surrealista. edição do "Livro das pré-coisas") e sete netos. se diz encabulado com os elogios que "agradam seu coração". Foi feito artesanalmente por 20 amigos. Numa entrevista concedida a José Castello. oníricas num primeiro instante. "na humildade diante das coisas. mas sua revelação poética ocorreu aos 13 anos de idade quando ainda estudava no Colégio São José dos Irmãos Maristas. Têm três filhos.quieta do meu lado". conferido pela Academia Brasileira de Letras ao livro “Compêndio para uso dos pássaros”. em 1997. Stella o desmente: "Ele sempre administrou muito bem o que recebeu. a poesia de Manoel de Barros. Pedro. do jornal "O Estado de São Paulo". Osso de urubu.

dei tudo para os filhos. revê amigos. vou nascendo do meu vazio. Sempre acho que na ponta de meu lápis tem um nascimento. nem mandei um bilhete.cadernos de rascunho. Estou esperando até hoje". Ri de si mesmo e das glórias que não teve. mas a timidez parece cada vez mais diluída. fala. vivo de mesada. nem freqüentei rodas. Essas leituras me ajudam a explorar os mistérios irracionais. Não perdeu o orgulho. vaga-lumes driblam a treva. nunca procurei ninguém. sou um dependente". E gosto de ouvir e ler "Vozes da Origem"." O diretor Pedro Cezar filma "Só dez por cento é mentira". Os rios começam a dormir pela orla. Arrumo versos. Não sei guiar carro. Costuma passar dois meses por ano no Rio de Janeiro. Está no livro "Vozes da Origem". só narro meus nascimentos. conta. Sou metido. às vezes percorro séculos para descobrir o primeiro esgar de uma palavra. Só dez por cento é mentira". Uma vez pedi emprego a Carlos Drummond de Andrade no Ministério da Educação e ele anotou o meu nome. Leio a Bíblia. Não uso computador para escrever. ocasião em que vai ao cinema. da antropóloga Betty Mindlin. "Aliás. desenho bonecos. dicionários. frases. Obras publicadas no Brasil: 1937 — Poemas concebidos sem pecado 1942 — Face imóvel 1956 — Poesias 1960 — Compêndio para uso dos pássaros 1966 — Gramática expositiva do chão 1974 — Matéria de poesia 1982 — Arranjos para assobio 1985 — Livro de pré-coisas (Ilustração da capa: Martha Barros) 1989 — O guardador das águas 1990 — Poesia quase toda 1991 — Concerto a céu aberto para solos de aves 1993 — O livro das ignorãças 1996 — Livro sobre nada (Ilustrações de Wega Nery) 1998 — Retrato do artista quando coisa (Ilustrações de Millôr Fernandes) 1999 — Exercícios de ser criança 4 Manuel de Barros . lê e escreve livros. um documentário sobre a vida do poeta que deverá ser exibido em abril de 2007. Gosto de coisas que começam assim: "Antigamente. não tenho mais nada. Sou muito orgulhoso. o tatu era gente e namorou a mulher de outro homem". O título do filme refere-se a uma frase de Manoel de Barros: "Noventa por cento do que escrevo é invenção." Diz que o anonimato foi "por minha culpa mesmo. Meu olho ganhou dejetos.

com o livro "Exercício de ser criança" 2000 — Prêmio Academia Brasileira de Letras. com o livro "Gramática expositiva do chão" 1989 — Prêmio Jabuti de Literatura. com o livro "Gramática expositiva do chão" 1969 . como o livro "O guardador de águas" 1990 — Prêmio Jacaré de Prata da Secretaria de Cultura de Mato Grosso do Sul como melhor escritor do ano 1996 — Prêmio Alfonso Guimarães da Biblioteca Nacional. com "O fazedor de amanhecer" 2005 — Prêmio APCA 2004 de melhor poesia. com o livro "Livro sobre nada" 1998 — Prêmio Nacional de Literatura do Ministério da Cultura. com o livro "Exercício de ser criança" 2002 — Prêmio Jabuti de Literatura.Diário de Notícias. com o livro "Livro das ignorãças" 1997 — Prêmio Nestlé de Poesia. na categoria livro de ficção. com o livro "Poemas rupestres" Obras publicadas no exterior: 5 Manuel de Barros . com o livro "Compêndio para uso dos pássaros" 1966 — Prêmio Nacional de poesias. com o livro "Poemas rupestres" 2006 — Prêmio Nestlé de Literatura Brasileira.Prêmio da Fundação Cultural do Distrito Federal. na categoria Poesia.Fundação do Livro Infanto Juvenil. pelo conjunto da obra 2000 — Prêmio Odilo Costa Filho .2000 — Ensaios fotográficos 2001 — O fazedor de amanhecer (infantil) 2001 — Poeminhas pescados numa fala de João 2001 — Tratado geral das grandezas do ínfimo (Ilustrações de Martha Barros) 2003 — Memórias inventadas (A infância) (Ilustrações de Martha Barros) 2003 — Cantigas para um passarinho à toa 2004 — Poemas rupestres (Ilustrações de Martha Barros) 2005 — Memórias inventadas II (A segunda infância) (Ilustrações de Martha Barros) 2007 — Memórias inventadas III (A terceira infância) (Ilustrações de Martha Barros) Prêmios recebidos: 1960 — Prêmio Orlando Dantas .

no livro "Inventário das Sombras". Quasi. Organização e seleção Walter Hugo Mãe. Paris: Éditions Jangada. 2000. Édition Bilingue. de José Castello. Tradução e apresentação Celso Libânio. Lleonard Muntaner. França: 2003 — La Parole sans Limites. Espanha: 2005 . Vila Nova de Famalicão. Une Didactique de lInvention [O Livro das Ignorãças]. 6 Manuel de Barros . Ilustração Cicero Dias. Catalã.Riba del dessemblat (Antologia Poética). no site da Fundação Manoel de Barros e em outros sites da Internet. Os dados acima foram obtidos em livros do autor. Editor.Portugal: 2000 — Encantador de Palavras. Ed.

Meu pai teve uma venda no Beco da Marinha. Me procurei a vida inteira e não me achei — pelo que fui salvo. Aprecio viver em lugares decadentes por gosto de estar entre pedras e lagartos. árvores e rios. Os bois me recriam. onde nasci. O Livro sobre Nada 7 Manuel de Barros . Me criei no Pantanal de Corumbá entre bichos do chão. Agora eu sou tão ocaso! Estou na categoria de sofrer do moral porque só faço coisas inúteis. Já publiquei 10 livros de poesia: ao publicá-los me sinto meio desonrado e fujo para o Pantanal onde sou abençoado a garças. Não estou na sarjeta porque herdei uma fazenda de gado. pessoas humildes.Auto-Retrato Falado Venho de um Cuiabá de garimpos e de ruelas entortadas. aves. No meu morrer tem uma dor de árvore.

* O artista é um erro da natureza. mas se não desejo contar nada. * Por pudor sou impuro. faço poesia. * Tudo que não invento é falso. * A terapia literária consiste em desarrumar a linguagem a ponto que ela expresse nossos mais fundos desejos. * Não pode haver ausência de boca nas palavras: nenhuma fique desamparada do ser que a revelou. 8 Manuel de Barros . * A inércia é o meu ato principal.* Com pedaços de mim eu monto um ser atônito. mas só a poesia é verdadeira. * Há histórias tão verdadeiras que às vezes parece que são inventadas. * É mais fácil fazer da tolice um regalo do que da sensatez. Beethoven foi um erro perfeito. * De tudo haveria de ficar para nós um sentimento longínquo de coisa esquecida na terra — Como um lápis numa península. * Há muitas maneiras sérias de não dizer nada. * Não preciso do fim para chegar. * Sempre que desejo contar alguma coisa. não faço nada. * Do lugar onde estou já fui embora. * Melhor jeito que achei para me conhecer foi fazendo o contrário. * Quero a palavra que sirva na boca dos passarinhos.

Nunca de ponta. São patrimônios inúteis da humanidade. No tempo do onça era assim. Difícil de mandar recado para ela. O pai era uma onça. Se a namorada respondesse pela mesma pedra Era uma glória! Mas por vezes o bilhete enganchava nos galhos da goiabeira E então era agonia.A namorada Havia um muro alto entre nossas casas. O homem passava o dia inteiro nessa função de catar pregos enferrujados. ou de joelhos no chão. Não havia e-mail. ou de lado. Assim eles não furam mais . 9 Manuel de Barros . A gente amarrava o bilhete numa pedra presa por um cordão E pinchava a pedra no quintal da casa dela. Ganharam o privilégio do abandono. O catador Um homem catava pregos no chão. Sempre os encontrava deitados de comprido. Eles não exercem mais a função de pregar.o homem pensava.

Poesia é a ocupação da palavra pela Imagem.nenhum caminho Nenhum caminho . .Acho que essa tarefa lhe dava algum estado.Poesia é a ocupação da Imagem pelo Ser. Por exemplo: .nenhum caminho Muitos caminhos . 10 Manuel de Barros . O que não sei fazer desconto nas palavras. ruídos.a maldição dos poetas. Retrato Quase Apagado em que se Pode Ver Perfeitamente Nada de "O Guardador de Águas" I Não tenho bens de acontecimentos. Estou sendo. . Ai frases de pensar! Pensar é uma pedreira. Poetas e tontos se compõem com palavras. II Todos os caminhos . retratos. Catar coisas inúteis garante a soberania do Ser. Entesouro frases.Imagens são palavras que nos faltaram. Garante a soberania de Ser mais do que Ter. Outras de palavras. Estado de pessoas que se enfeitam a trapos. Me acho em petição de lata (frase encontrada no lixo) Concluindo: há pessoas que se compõem de atos.

III Chove torto no vão das árvores. ao fóssil. Palavras têm espessuras várias: vou-lhes ao nu. Chove nos pássaros e nas pedras. Um tordo avisou que é março. ao ouro que trazem da boca do chão.. A casa tem um dono em letras.. Andei nas pedras negras de Alfama. Sob aqueles sobrados sujos vi os arcanos com flor! 11 Manuel de Barros .. Crianças fugindo das águas Se esconderam na casa. O rio ficou de pé e me olha pelos vidros. Só trolhas e andarilhos poderão achá-la.. Agora ele está pensando - no silêncio Iíquido com que as águas escurecem as pedras. Errante e preso por uma fonte recôndita. Alcanço com as mãos o cheiro dos telhados. Baratas passeiam nas formas de bolo. IV Alfama é uma palavra escura e de olhos baixos. Ela pode ser o germe de uma apagada existência.

Não existir mais rei nem regências. que empoema o sentido das palavras. VII O sentido normal das palavras não faz bem ao poema. Escurecer as relações entre os termos em vez de aclará-los. Há que se dar um gosto incasto aos termos.V Escrever nem uma coisa Nem outra A fim de dizer todas Ou. Assim. Haver com eles um relacionamento voluptuoso. 12 Manuel de Barros . Um subtexto se aloja. um inauguramento de falas Coisa tão velha como andar a pé Esses vareios do dizer. Talvez corrompê-los até a quimera. Instala-se uma agramaticalidade quase insana. corrompem-se nele os veios comuns do entendimento. Aflora uma linguagem de defloramentos. Uma certa luxúria com a liberdade convém. pelo menos. VI No que o homem se torne coisal. nenhumas. Ao poeta faz bem Desexplicar Tanto quanto escurecer acende os vaga-lumes.

Eu via a natureza como quem a veste. Aquele arame do horizonte Que separava o morro do céu estava rubro. Peguei umas idéias com as mãos . IX Eu sou o medo da lucidez Choveu na palavra onde eu estava. adâmica. em 240 fábulas. etc. Para voltar à infância. Nem era muito que eu me arrumasse por versos.Que os poetas aprenderiam desde que voltassem às crianças que foram às rãs que foram às pedras que foram.VII Nas Metamorfoses. os poetas precisariam também de reaprender a errar a língua.como a peixes. Nasceria uma linguagem madruguenta. 13 Manuel de Barros . pedral. Formigas vesúvias dormiam por baixo de trampas. inaugural . larval. edênica. Eu me fechava com espumas. Ovídio mostra seres humanos transformados em pedras vegetais bichos coisas Um novo estágio seria que os entes já transformados falassem um dialeto coisal. Mas esse é um convite à ignorância? A enfiar o idioma nos mosquitos? Seria uma demência peregrina.

Um rengo estacionou entre duas frases. Primeira: que arbusto de monturo agüenta mais formiga. 3 Tem 4 teorias de árvore que eu conheço. Segunda: que uma planta de borra produz frutos ardentes. No osso da fala dos loucos têm lírios. Ed. Se aparecem besouros nas folhagens. Civilização Brasileira. Uma descor Quase uma ilação do branco. 14 Manuel de Barros . Seis ou Treze Coisas que Aprendi Sozinho de "O Guardador de Águas". Quarta: que há nas árvores avulsas uma assimilação maior de horizontes. Terceira: nas plantas que vingam por rachaduras lavra um poder mais lúbrico de antros. O pato dejetava liquidamente ali. Fincando na sombra um prego ermo. Tinha um palor atormentado a hora. Poeta é um ente que lambe as palavras e depois se alucina. 1 Gravata de urubu não tem cor. ele nasce. Luar em cima de casa exorta cachorro. Besouros não ocupam asas para andar sobre fezes. 7 Uma chuva é íntima Se o homem a vê de uma parede umedecida de moscas. Em perna de mosca salobra as águas se cristalizam.

. (essas coisas que acham os reveladores de arcanos mentais) Não. .Se as lagartixas se fixam nos espelhos. Eu tenho um gosto rasteiro de ir por reentrâncias 15 Manuel de Barros . 11 Que a palavra parede não seja símbolo de obstáculos à liberdade nem de desejos reprimidos nem de proibições na infância. 9 Em passar sua vagínula sobre as pobres coisas do chão. A lesma influi muito em meu desejo de gosmar sobre as palavras Neste coito com letras! Na áspera secura de uma pedra a lesma esfrega-se Na avidez de deserto que é a vida de uma pedra a lesma escorre. . Ela fode a pedra. a lesma deixa risquinhos líquidos. etc. Parede que me seduz é de tijolo. E o escuro se umedeça em nosso corpo. adobe preposto ao abdomen de uma casa. Ela precisa desse deserto para viver.. Se as cigarras se perdem de amor pelas árvores.

Em que os capins lhes entram. Onde os homens terão a força da indigência. Disse que precisa de não ser ninguém toda vida. aos homens.baixar em rachaduras de paredes por frinchas. Luares encontrarão só pedras mendigos cachorros. 12 Seu França não presta pra nada Só pra tocar violão. 13 Lugar em que há decadência. seres a dentro. E disse que o artista tem origem nesse ato suicida. casas portas a dentro. Não presta pra nada. Mesmo que dizer: . apropriados à indigência. E as ruínas darão frutos 16 Manuel de Barros . Em que as casas começam a morrer e são habitadas por morcegos. Terrenos sitiados pelo abandono. Sobre o tijolo ser um lábio cego. Em que os capins lhes subam pernas acima. De ser o nada desenvolvido.Povo que gosta de resto de sopa é mosca. De beber água no chapéu as formigas já sabem quem ele é. por gretas . Tal um verme que iluminasse.com lascívia de hera.

Tem um cago de ave no chapéu. E o cheiro azul do escaravelho.. Apanha um pouco de rio com as mãos e espreme nos vidros Até que as águas se ajoelhem Do tamanho de uma lagarta nos vidros. Bernardo da Mata. Civilização Brasileira.O Guardador de Águas de "O Guardador de Águas". Tentou encolher o horizonte No olho de um inseto . De pulo em pulo um ente abeira as pedras. Ele faz encurtamento de águas.) Correm águas agradecidas sobre latas. No falar com as águas rás o exercitam. quase coberto de limos Entram coaxos por ele dentro. I O aparelho de ser inútil estava jogado no chão. Crescem jacintos sobre palavras. tátil. II Esse é Bernardo..e obteve! 17 Manuel de Barros . Ed. O som do novilúnio sobre as latas será plano. Luar tem gula de seus trapos. (O rio funciona atrás de um jacinto. Apresento. Seria um idiota de estrada? Urubus se ajoelham pra ele.

Espraiado na tarde Como a foz de um rio . Porém. Até os caranguejos querem ele para chão. Passarinhos aveludam seus cantos quando o vêem.. Essas formigas pensavam em seu olho. Viu as formigas carreando na estrada 2 pernas de ocaso para dentro de um oco.. São donos de nadifúndios.Prende o silêncio com fivela. Sujeitos Que magnificam moscas . São vezeiros de brenhas e gravanhas.Bernardo se inventa. É homem percorrido de existências. O nada destes nadifúndios não alude ao infinito menor de ninguém. (Nadifúndio é lugar em que nadas Lugar em que osso de ovo E em que latas com vermes emprenhados na boca. São viventes de ermo. Estão favoráveis a ele os camaleões.e que oram Devante uma procissão de formigas. E nem mesmo ao que dizem os dicionários: 18 Manuel de Barros .. E deixou. Nem ao Néant de Sartre.. Lugarejos cobertos de limo o imitam... V Eles enverdam jia nas auroras.

o luar desova. E uma concha com olho de osso que chora. as palavras se esgarçam de lodo.. Em seixal de cor seca estrelas pousam despidas. XX Com 100 anos de escória uma lata aprende a rezar. Apreciam de ver as formigas correndo de um canto para o outro. Dizem eles que estão infantilizando as formigas. Pode ser.coisa que não existe. Aqui pardais descascam larvas. Aqui. 19 Manuel de Barros . Insetos levam mais de 100 anos para uma folha sê-los.. Vê-se um relógio com o tempo enferrujado dentro. maluquinhas. VIII Idiotas de estradas gostam de urinar em morrinhos de formigas. Uma pedra de arroio leva mais de 100 anos para ter murmúrios. Mariposas que pousam em osso de porco preferem melhor as cores tortas.. sem calças. Com 100 anos de escombros um sapo vira árvore e cresce por cima das pedras até dar leite. Aqui. Insetos umedecem couros E sapos batem palmas compridas. como crianças. O nada destes nadifúndios existe e se escreve com letra minúscula..) Se trata de um trastal.

. Mais alto que o escuro é o rumor dos peixes. 15 perdem o rumo das grotas. com menos de 100 anos. Um ente enfermo de árvore. quando chove. passa a fazer parte dos pássaros que a gorjeiam. 20 Manuel de Barros . se embutem até o latejo. Uma árvore bem gorjeada. Quando chove nos braços da formiga o horizonte diminui. enlanguescidos por estrelas. De cada 20 calangos. tinge de azul o seu coaxo. mas.como andar de costas. Aranha com olho de estame no lodo se despedra. O vôo do jaburu é mais encorpado do que o vôo das horas. com poucos segundos. A jia. perde o contorno das folhas. Os cardos que vivem nos pedrouços têm a mesma sintaxe que os escorpiões de areia. Lagartos empernam as pedras de preferência no inverno. A 15 metros do arco-íris o sol é cheiroso. nos brejos. Besouro só entra em amavios se encontra a fêmea dele vagando por escórias. Todas estas informações têm uma soberba desimportância científica . Nas brisas vem sempre um silêncio de garças. Quando a rã de cor palha está para ter .Com menos de 3 meses mosquitos completam a sua eternidade.. Caracóis não aplicam saliva em vidros.ela espicha os olhinhos para Deus.

Aqui. I O mundo meu é pequeno. Um dia encontrei Felisdônio comendo papel nas ruas de Corumbá.ed. Ele me coisa Ele me rã Ele me árvore. Todas as coisas deste lugar já estão comprometidas com aves. Senhor. de Ignácio Rayzama e de Rogaciano.Mundo Pequeno do livro "O Livro das Ignorãças" . Quando o rio está começando um peixe. Nos fundos do quintal há um menino e suas latas maravilhosas. Todos catavam pregos na beira do rio para enfiar no horizonte. Fui amigo do Bugre Felisdônio. II Conheço de palma os dementes de rio. De tarde um velho tocará sua flauta para inverter os ocasos. Formigas recortam roseiras da avó. Tem um rio e um pouco de árvores. Me disse que as coisas que não existem são mais 21 Manuel de Barros . os besouros pensam que estão no incêndio. se o horizonte enrubesce um pouco. Nossa casa foi feita de costas para o rio. Civilização Brasileira.

um meu Preceptor. Caminha sobre estratos de um mar extinto. Nascera engrandecido de nadezas." Conversava em Guató. mas a doença delas. de rãs entardecidas. Sombra-Boa entardece. Comuniquei ao Padre Ezequiel. e em Pássaro. VI Descobri aos 13 anos que o que me dava prazer nas leituras não era a beleza das frases. ele disse.bonitas. Certa vez encontrou uma voz sem boca. Sombra-Boa ainda ouve nestes lugares conversamentos de gaivotas. 22 Manuel de Barros . "Sonora voz de uma concha". Caminha sobre as conchas dos caracóis da terra. esse gosto esquisito." Foi sempre um ente abençoado a garças. Não tinha boca mesmo. em Português. nos barrancos. Me disse em Iíngua-pássaro: "Anhumas premunem mulheres grávidas. 3 dias antes do inturgescer". Sombra-Boa tem hora que entra em pura decomposição lírica: "Aromas de tomilhos dementam cigarras. carregados de lodo. E passam navios caranguejeiros por ele. Era uma voz pequena e azul. Eu pensava que fosse um sujeito escaleno. IV Caçador. Sombra-Boa ainda fala de suas descobertas: "Borboletas de franjas amarelas são fascinadas por dejectos.

. Não sei se isso é uma repetição das paredes ou de mim. O Padre falou ainda: Manoel. Estico a timidez da minha lesma até gozar na pedra. 23 Manuel de Barros . Penso que dentro de minha casca não tem um bicho: Tem um silêncio feroz.ele continuou.Gostar de fazer defeitos na frase é muito saudável. Não sei se isso é uma repetição de mim ou das lesmas. E se riu. isso não é doença. Veja que bugre só pega por desvios. o Padre me disse. Estarei incluído nas lesmas ou nas paredes? Parece que lesma só é uma divulgação de mim. VI Toda vez que encontro uma parede ela me entrega às suas lesmas. Ele fez um limpamento em meus receios. Esse Padre Ezequiel foi o meu primeiro professor de gramática. Você não é de bugre? . Que sim. pode muito que você carregue para o resto da vida um certo gosto por nadas. eu respondi. Há que apenas saber errar bem o seu idioma. não anda em estradas Pois é nos desvios que encontra as melhores surpresas e os ariticuns maduros...

IV No Tratado das Grandezas do Ínfimo estava escrito: Poesia é quando a tarde está competente para Dálias.Uma Didática da Invenção do "O Livro das Ignorãnças" ed. Desaprender 8 horas por dia ensina os princípios. tem salvação e) Que um rio que flui entre 2 jacintos carrega mais ternura que um rio que flui entre 2 lagartos f) Como pegar na voz de um peixe g) Qual o lado da noite que umedece primeiro. I Para apalpar as intimidades do mundo é preciso saber: a) Que o esplendor da manhã não se abre com faca b) 0 modo como as violetas preparam o dia para morrer c) Por que é que as borboletas de tarjas vermelhas têm devoção por túmulos d) Se o homem que toca de tarde sua existência num fagote. etc. Etc. etc. É quando 24 Manuel de Barros . Civilização Brasileira.

Em 2 anos a inércia e o mato vão crescer em nossa boca. IX O rio que fazia uma volta atrás de nossa casa era a imagem de um vidro mole que fazia uma volta atrás de casa. Hoje eu desenho o cheiro das árvores. 25 Manuel de Barros . Quando o homem faz sua primeira lagartixa É quando um trevo assume a noite E um sapo engole as auroras IX Para entrar em estado de árvore é preciso partir de um torpor animal de lagarto às 3 horas da tarde. Era uma enseada. Não era mais a imagem de uma cobra de vidro que fazia uma volta atrás de casa. Sofreremos alguma decomposição lírica até o mato sair na voz. Passou um homem depois e disse: Essa volta que o rio faz por trás de sua casa se chama enseada. no mês de agosto. Acho que o nome empobreceu a imagem.Ao lado de um pardal o dia dorme antes.

Pra mim é uma coisa que serve de nada o poema Enquanto vida houver Ninguém é pai de um poema sem morrer ARRANJOS PARA ASSOBIO. Faz bem uma janela aberta. Há quem se jogue debaixo de carro nos primeiros instantes. Hora de iniciar algum convém se vestir roupa de trapo. 1982. Editora Civilização Brasileira. in Gramática Expositiva do Chão.Sabiá com Trevas IX O poema é antes de tudo um inutensílio. Retrato quase apagado em que se pode ver perfeitamente nada 26 Manuel de Barros . 1990. Uma veia aberta.

Imagens são palavras que nos faltaram. Outras de palavras. (.. Estou sendo. Me acho em petição de lata (frase encontrada no lixo) Concluindo: há pessoas que se compõem de atos. Assim. Ai frases de pensar! Pensar é uma pedreira. O que não sei fazer desconto nas palavras..) V Escrever nem uma coisa Nem outra A fim de dizer todas Ou. Por exemplo: . retratos.Poesia é a ocupação da palavra pela Imagem. Poetas e tontos se compõem com palavras. nenhumas. .I Não tenho bens de acontecimentos. Ao poeta faz bem Desexplicar Tanto quanto escurecer acende os vagalumes. pelo menos. ruídos. . Entesouro frases. 27 Manuel de Barros .Poesia é a ocupação da Imagem pelo Ser.

) VII O sentido normal das palavras não faz bem ao poema. ©Protegido pela Lei do Direito Autoral LEI Nº 9.. Escurecer as relações entre os termos em vez de aclará-los.Este material pode ser redistribuído livremente. modificado e que as informações sejam mantidas.(.610. Talvez corrompê-los até a quimera. Não existir mais rei nem regências. Haver com eles um relacionamento voluptuoso. DE 19 DE FEVEREIRO DE 1998Permitido o uso apenas para fins educacionais. Há que se dar um gosto incasto aos termos.. 28 Manuel de Barros . Uma certa liberdade com a luxúria convém. desde que não seja alterado.

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