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Nº 544 | Ano XIX | 4/11/2019

Revolução 4.0
Novas fronteiras para
a vida e a educação
Carlos Gadelha Paulo César Castro
Roseli Figaro Gaudêncio Frigotto
Daniel Viana da Cruz Gabriela Ribeiro dos Santos
Roberto Dias da Silva

Leia também
■ João Ladeira
EDITORIAL

Revolução 4.0. Novas fronteiras para a


vida e a educação

O
s avanços científicos e tecnológicos têm duação em Educação da Unisinos, vai para a re-
atravessado os mais variados aspectos alidade de sala de aula e faz um alerta: em nome
da vida. Diante dessa constatação, a da integração com a Revolução 4.0, os currícu-
sociedade não tem mais como recusar, dar às los das escolas têm dado muito mais ênfase às
costas aos saltos que a tecnologia tem dado na performances, fazendo com que a sala não se
chamada Revolução 4.0. constitua mais como um local de pensamento.
Seus possíveis impactos nas ciências, especial- Gaudêncio Frigotto, doutor em Educação:
mente biológicas, e na educação, são o tema em História, Política, Sociedade, professor na Uni-
debate nesta edição da revista IHU On-Line. versidade do Estado do Rio de Janeiro, alerta
Carlos Augusto Grabois Gadelha, doutor para o risco de como o avanço tecnológico pode
em Economia pelo Instituto de Economia da acabar servindo aos interesses de um grupo bem
Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ, pequeno que, além de explorar forças produti-
2 destaca que na Revolução 4.0 abrem-se inúme- vas, dificulta o acesso à formação e ao trabalho
ras possibilidades para o desenvolvimento de para os mais pobres.
tratamentos e cuidado das pessoas. Entretanto, Gabriela Ribeiro dos Santos, bióloga, ges-
alerta para o risco de todos esses avanços serem tora Técnica de Inovação do Centro de Inovação
acessíveis apenas a um pequeno grupo, aumen- Tecnológica do Instituto Central do Hospital
tando as desigualdades. das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP,
Roseli Aparecida Figaro Paulino, profes- também acredita que não se pode frear os avan-
sora, coordenadora do Programa de Pós-Gradu- ços da Revolução 4.0 e da biotecnologia. Para
ação em Ciências da Comunicação da Universi- ela, o caminho é discutir o emprego dessas tec-
dade de São Paulo, observa como o campo da nologias de forma ampla e responsável.
comunicação tem se transformado pela incidên- A edição ainda conta com o texto de João La-
cia das revoluções tecnológicas. Para ela, tais deira, em que analisa o filme Em Guerra, de
transformações acabam impactando também a Stéphane Brizé.
formação e a educação de novas gerações e, con-
A todas e a todos uma boa leitura e uma exce-
sequentemente, o mundo do trabalho.
lente semana!
Daniel Viana Abs da Cruz, mestre e doutor
em Psicologia, chama atenção de como a Revo-
lução 4.0 tem também mudado as relações so-
ciais, com efeitos muito sérios na saúde psíquica
dos trabalhadores.
Paulo César Castro, professor Associado
da Escola de Comunicação da UFRJ, debate
as potencialidades tecnológicas da Revolução
4.0, mas vai além: propõe uma formação cida-
dã nos usos dessas tecnologias. Segundo ele,
só com essa formação se é capaz de devolver
aos humanos a consciência sobre suas ações no
mundo digital.
Roberto Rafael Dias da Silva, doutor em Foto: Reproducao
Educação, professor do Programa de Pós-Gra- Proxismed

4 DE NOVEMBRO | 2019
REVISTA IHU ON-LINE

Sumário
4 ■ Temas em destaque
6 ■ Agenda
8 ■ Tema de capa | Carlos Augusto Grabois Gadelha: Os desafios de uma tecnologia que sirva ao
humano e não que se sirva do humano

16 Tema de capa | Roseli Aparecida Figaro Paulino: As reconfigurações da comunicação no
cenário da Revolução 4.0 e seus desdobramentos

21 Tema de capa | Daniel Viana Abs da Cruz: Incertezas e precarização são os efeitos mais
visíveis na saúde mental dos trabalhadores
24 ■ Tema de capa | Paulo César Castro: Um letramento tecnomidiático contra a cegueira da tec-
norreligião
31 ■ Tema de capa | Roberto Rafael Dias da Silva: Os riscos da “gourmetização” na Educação 4.0
40 ■ Tema de capa | Gaudêncio Frigotto: A Revolução 4.0 e a reedição das lógicas das revoluções
burguesas
47 ■ Tema de capa | Gabriela Ribeiro dos Santos: Impactos da biologia sintética na Revolução 4.0 e
na bioética
52 ■ XIX Simpósio Internacional IHU | Homo Digitalis. A escalada da algoritmização da vida
54 ■ Cinema | João Martins Ladeira: As Fronteiras da Guerra
58 ■ Publicações | Pedro Gilberto Gomes: A Universidade em busca de um novo tempo
59 ■ Outras edições 3

Diretor de Redação Patrícia Fachin, Cristina Guerini,


Inácio Neutzling Evlyn Zilch, Luana Ely Quintana, Wag-
(inacio@unisinos.br) ner Fernandes de Azevedo, Amanda
Bier e Fred Wichrowski.
Coordenador de Comunicação - IHU
Ricardo Machado – MTB 15.598/RS
(ricardom@unisinos.br)
Redação
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Wagner Fernandes de Azevedo
(wfazevedo@unisinos.br)
A IHU On-Line é a revista do Institu-
to Humanitas Unisinos - IHU. Esta Revisão Instituto Humanitas Unisinos - IHU
publicação pode ser acessada às segun- Carla Bigliardi
das-feiras no sítio www.ihu.unisinos.br e Av. Unisinos, 950 | São Leopoldo / RS
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Editoração
A versão impressa circula às terças-fei- Gustavo Guedes Weber
ras, a partir das 8 horas, na Unisinos. O Diretor: Inácio Neutzling
conteúdo da IHU On-Line é copyleft. Atualização diária do sítio Gerente Administrativo: Nestor Pilz
Inácio Neutzling, César Sanson, (nestor@unisinos.br)

EDIÇÃO 544
TEMAS EM DESTAQUE

Entrevistas completas em www.ihu.unisinos.br/maisnoticias/noticias


Confira algumas entrevistas publicadas no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU na última semana.

Óleo no litoral brasileiro: Brasil não está


preparado para gerir um plano de contingência
“Todas as condicionantes ambientais de ventos e correntes, caso houves-
se um vazamento lá [na Venezuela], não trariam o óleo para o Brasil, mui-
to menos para o Nordeste”.
David Zee, professor adjunto da Faculdade de Oceanografia da Universidade do Estado do Rio de
Janeiro - UERJ.

Novo Regime Climático requer o abandono


da excepcionalidade humana
“O clima, a atmosfera, os oceanos e mesmo as rochas não são obra
apenas da geologia; são também produto da agência dos seres vivos
sobre eles”.
Alyne de Castro Costa, mestra e doutora em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio
de Janeiro - PUC-Rio.

4 Bens e serviços públicos são os novos ativos


financeiros
“Nos anos 2000, aconteceu no Brasil algo que estava ocorrendo no mun-
do e na América Latina em geral, que é um processo acelerado de financei-
rização da economia brasileira”.
Denise Lobato Gentil, doutora em Economia pelo Instituto de Economia da Universidade Federal
do Rio de Janeiro - UFRJ, onde atualmente é professora.

Chile. A insurreição popular vem do subterrâneo


e perfura a máquina violenta e neoliberal
“A “estabilidade” foi o discurso usado pela oligarquia que, em termos
freudianos, terminou por matar Pinochet ao preço de reproduzi-lo em for-
ma “democrática”.
Rodrigo Karmy Bolton é doutor em Filosofia pela Universidade do Chile, onde leciona e é pesqui-
sador do Centro de Estudos Árabes da Faculdade de Filosofia e Humanidades.

“O interesse em hidrelétricas é a grande quanti-


dade de dinheiro que pode ser ganho nas obras”
“Os níveis baixíssimos de oxigênio na água saindo do reservatório, medi-
dos pela Politec (o órgão oficial para tais medidas), indicam uma falta de
oxigênio mais do que suficiente para matar os peixes”.
Philip M. Fearnside, doutor pelo Departamento de Ecologia e Biologia Evolucionária da Universida-
de de Michigan, EUA, e pesquisador titular do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia - Inpa,
em Manaus.

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Textos na íntegra em www.ihu.unisinos.br/maisnoticias/noticias


Confira algumas notícias públicas recentemente no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU

“O Sínodo foi um passo, Papa: os pobres são A era dos coletivos de


mas as discriminações ridicularizados ou solidão
não foram erradicadas” silenciados, até mesmo
na Igreja

A abertura dos bispos aos Francisco celebra a missa A dominação social des-
padres casados e o pedido de de encerramento do Sínodo te século só sobreviverá se
um ministério feminino ad em São Pedro e condena a criar novos sujeitos. Socie-
hoc, o de “dirigente de comu- “religião do eu” de que mui- dades, onde os diferentes se
nidade”, são “passos” enor- tos católicos também estão relacionam, precisam ser
mes. Mas, depois deste Síno- sujeitos e que se traduz em reduzidas a massas inertes
do, a Igreja não deve parar, desprezo e exploração dos de indivíduos-dados. Esta
mas sim continuar no cami- mais fracos: “Isso ocorre distopia é, também, o calca-
nho que leva à eliminação na Amazônia, terra de rosto nhar de aquiles do projeto.
das discriminações – “ainda desfigurado”. Disponível em http://bit.ly/2Nu7Tg4.
muito presentes” – contra as Disponível em http://bit.ly/34gO4zi.
mulheres.
Disponível em http://bit.ly/2r5BR2n.

“Não pode haver outras Vulnerabilidade global Mobilizações no Brasil


prioridades se caminhamos à elevação do nível ontem (2013) e no Chile
para a extinção pela crise do mar ameaça 300 hoje (2019)
climática” milhões de pessoas

Se algo distingue o econo- Novos dados de elevação “Um ponto importante: nos
mista e escritor de êxito Je- mostram que, em meados do dois casos, Chile e Brasil, as
remy Rifkin, é a feroz origi- século, as inundações costei- manifestações, num primei-
nalidade com que lida com ras frequentes aumentarão ro momento, surgiam sem
fenômenos visíveis a todos. mais do que as áreas que mediações. Eram movimen-
Os convencidos chamam isso atualmente abrigam cente- tos sociais, organizados ou
de audácia e os céticos, de te- nas de milhões de pessoas. A não, que faziam chegar suas
meridade. informação é publicada por demandas e urgências. Es-
Disponível em http://bit.ly/2oHiHz2. Climate Central’s Program sas deveriam ter sido reco-
on Sea Level Rise, e reprodu- lhidas pela esquerda no po-
zida por EcoDebate. der no Brasil, e na oposição
Disponível em http://bit.ly/2NtMmny. no Chile”, escreve Luiz Alber-
to Gomez de Souza.
Disponível em http://bit.ly/34mrrK6.

EDIÇÃO 544
AGENDA

Programação completa em ihu.unisinos.br/eventos

Cine-vídeo: O Saúde Pública, saúde Suicídio em


veneno está na mesa coletiva e a Revolução adolescentes e adultos
(48min57s) 4.0. Possibilidades e jovens hoje. Fatores
limites no Brasil (in)conscientes e
socioculturais

06/Nov 6/Nov 7/Nov


Horário Horário Horário
13h às 14h 19h30min às 22h 17h30min às 19h
Local Conferencista Conferencista
Corredor central em frente Prof. Dr. Carlos Augusto Renato Piltcher - Psiquia-
ao Instituto Humanitas Grabois Gadelha – Fiocruz tra do Hospital de Pronto
Unisinos – IHU Socorro de Porto Alegre
Campus Unisinos Local
São Leopoldo Sala Ignacio Ellacuría e Local
Companheiros – IHU Sala Ignacio Ellacuría e
Campus Unisinos Companheiros – IHU
São Leopoldo Campus Unisinos
São Leopoldo

6
A literatura de autoria Educação, Economia Civil e
indígena: o que nos tecnologias 4.0 e a equidade: análises e
ensinam as vozes estetização ilimitada perspectivas a partir de
ancestrais da vida Stefano Zamagni

11/Nov 12/Nov 13/Nov


Horário Horário Horário
19h30min às 22h 19h30min às 22h 12h às 14h
Palestrante Conferencista Conferencista
MS Julie Dorrico – PUCRS Prof. Dr. Roberto Rafael Prof. Dr. Guilherme Stein –
Dias da Silva – Unisinos Unisinos
Local
Sala Ignacio Ellacuría e Local Local
Companheiros – IHU Sala Ignacio Ellacuría e Andar B | Instituto
Campus Unisinos Companheiros – IHU Humanitas Unisinos – IHU
São Leopoldo Campus Unisinos Campus Unisinos
São Leopoldo Porto Alegre

4 DE NOVEMBRO | 2019
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Oficina Direito ao Exibição e debate “A violência contra


alimento e direitos do do filme Matrix as mulheres e a
consumidor (Direção: Lilly e Lana condição masculina na
Wachowski. EUA, 1999) contemporaneidade”

13/Nov 13/Nov 14/Nov


Horário Horário Horário
13h às 14h 19h30min às 22h 17h30min às 19h
Local Conferencista Conferencista
Corredor central em frente Profa. Dra. Adriana Amaral Prof. MS Júlio Sá -
ao Instituto Humanitas – Unisinos Presidente da OSC Ponto
Unisinos – IHU | Campus Gênero
Unisinos São Leopoldo Local
Sala Ignacio Ellacuría e Local
Companheiros – IHU Sala Ignacio Ellacuría e
Campus Unisinos Companheiros – IHU
São Leopoldo Campus Unisinos
São Leopoldo

7
A construção de uma Círculo Cultural O direito à moradia
sociedade convivial: em direção às cidades
perspectivas a partir de sustentáveis: uma
Kate Raworth e agenda para 2020 em
Ivan Illich São Leopoldo

18/Nov 20/Nov 22/Nov


Horário Horário Horário
17h às 19h 19h30min às 22h 13h30 às 20h30
Local Coordenação Local
Sala Ignacio Ellacuría e Prof. Dr. Telmo Adams – Sala Colaborativa
Companheiros – IHU PPG Educação – Unisinos da Biblioteca
Campus Unisinos Campus Unisinos
São Leopoldo Local São Leopoldo
Corredor central em frente
ao Instituto Humanitas
Unisinos – IHU
Campus Unisinos
São Leopoldo

EDIÇÃO 544
TEMA DE CAPA

Os desafios de uma tecnologia que sirva


ao humano e não que se sirva do humano
Carlos Gadelha vê na Revolução 4.0 possibilidades para o desenvolvimento
de tratamentos e cuidado das pessoas, mas alerta para o risco de aumento
das desigualdades se o acesso for restrito
João Vitor Santos

“ É
moral deixar alguém morrer de Um dos caminhos possíveis, para Ga-
fome na sociedade da quarta delha, é sempre reforçar o caráter hu-
revolução? É moral criar uma mano. “A ciência, tecnologia e inovação
iniquidade de conhecimentos, em que têm que ser subordinadas a um mode-
há uma grande massa de pessoas igno- lo de sociedade que seja humanizado,
rantes e conhecimento concentrado em pautado pela solidariedade e pela equi-
poucos países, em poucas pessoas, em dade. Senão, vamos criar um debate em
poucas empresas?”, questiona o eco- que inteligência artificial, big data e o
nomista Carlos Gadelha. A provocação padrão da quarta revolução tecnológi-
do pesquisador, que atua na área da ca serão entendidos por muito poucos”,
saúde, tensiona os efeitos da chamada indica. Para o pesquisador, é funda-
Revolução 4.0. “O padrão tecnológico mental discutir esses dilemas atuais,
da quarta revolução tem o potencial de “mas também as estratégias de futuro.
8 Faz parte de uma vida saudável termos
aumentar a qualidade de vida, talvez de
modo jamais visto, mas, por outro lado, projetos de futuro, retomar as ener-
traz o risco imenso da perda de uma vi- gias utópicas que estão tão abaladas no
são coletiva da saúde, da perda de uma mundo contemporâneo”.
visão de solidariedade e de que a saúde Carlos Augusto Grabois Gadelha
não pode ser tratada como se fosse um é doutor em Economia pelo Instituto
voo de avião estratificado em categorias de Economia da Universidade Federal
de classe”, observa, em entrevista con- do Rio de Janeiro - UFRJ. Coordena-
cedida por telefone à IHU On-Line. dor e líder do Grupo de pesquisa sobre
Ele teme que, além do risco de aces- desenvolvimento, complexo econômico
so restrito a esses avanços no campo industrial e inovação em saúde (GIS/
da saúde, todos os avanços em ciência, FIOCRUZ), é professor e pesquisador
tecnologia e inovação sejam apropria- do Departamento de Administração e
dos pelas lógicas do capital que não Planejamento em Saúde da Escola Na-
só restrinjam, mas ainda façam desses cional de Saúde Pública Sérgio Arouca
avanços uma nova forma de expropria- da Fundação Oswaldo Cruz – Fiocruz,
ção. “Se não houver cuidado, levaremos coordenador do Mestrado Profissional
uma grande massa da população pobre, em Política e Gestão de Ciência, Tecno-
excluída, a se relacionar com máquinas logia e Inovação em Saúde da Fiocruz
e com o grande risco de viés, parcialida- e coordenador das Ações de Prospecção
de, já que essas máquinas e algoritmos (Presidência/Fiocruz). Entre suas pu-
estão sendo formatados para atender blicações, destacamos “Saúde e desen-
a interesses econômicos”, diz. Lógicas volvimento no Brasil: avanços e desa-
que, para o pesquisador, estão no sen- fios” (Revista de Saúde Pública, v. 46,
tido contrário dos conceitos de saúde p. 13-20, 2012) e “A Dinâmica do Sis-
pública e coletiva. “Ciência, tecnologia tema Produtivo da Saúde. Inovação e
e inovação estão aí para servir as pes- Complexo Econômico-Industrial” (Rio
soas e não se servir das pessoas e isso é de Janeiro: Fiocruz, 2012).
muito importante”, chama atenção. Confira a entrevista.

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“O padrão tecnológico da quarta revolução


tem o potencial de aumentar a qualidade de
vida, mas, por outro lado, traz o risco imenso
da perda de uma visão coletiva da saúde,
da perda de uma visão de solidariedade”

IHU On-Line – Como a Re- a direção do progresso técnico e seu ciedade e do próprio planeta e num
volução 4.0 tem impactado os uso social. nível jamais imaginado, e se pode
campos da saúde pública e co- utilizar big data e inteligência artifi-
No campo da saúde, por exemplo,
letiva? cial para fazer essas ações.
de um lado se tem a possibilidade
Carlos Gadelha – A primeira única e extremamente relevante de
Envelhecimento e qualida-
abordagem que precisamos ter é que fazer prevenção num nível jamais
de de vida
a visão de saúde contemporânea e da imaginado. Estamos vivendo o gra-
tradição da saúde coletiva no Brasil, ve problema do aquecimento global Um outro exemplo: pode-se fazer
que criou o próprio Sistema Único de e, a partir da avaliação da mudança monitoramento também num nível
Saúde - SUS, é uma visão de saúde de 1 grau na temperatura, é possível muito elevado do envelhecimento
como qualidade de vida e não apenas dizer em quais municípios ou loca- populacional, pois hoje o envelheci-
ausência de doença. Isso também é lidades deverão emergir endemias mento é uma das grandes questões.
compatível e está na visão da Orga- ou doenças transmissíveis, como Mas precisamos ter em perspectiva 9
nização Mundial da Saúde, mas foi dengue, zika, chikungunya, malária, que o envelhecimento é bom, afinal
algo muito presente, tanto que, na febre amarela, e assim se pode atuar as pessoas estão vivendo mais. Acho
saúde como direito, se fala na con- preventivamente utilizando big data, que todo mundo quer viver mais. Te-
vergência de uma série de políticas grandes bases de dados, a territoria- mos que parar de tratar o envelhe-
econômicas e sociais e não apenas as lização dos dados e das informações. cimento da população, a mudança
políticas voltadas para o tratamento Assim, utilizando uma massa de da- demográfica, como se fosse um ma-
de saúde, voltando-se também para dos e realizando seu processamento, lefício. Isso é um benefício ao qual
uma vida saudável e uma sociedade é possível fazer ações de prevenção as políticas sociais e políticas cientí-
saudável. Então, é saúde como bem que associam mudanças climáticas ficas e tecnológicas devem servir. As
-estar e qualidade de vida. e emergências de doenças transmis- pessoas querem viver mais e melhor
síveis para que as políticas públicas com uma qualidade boa.
Isso dá uma abrangência muito
possam prevenir e evitar que surjam
maior para o tema da Revolução 4.0. Ao mesmo tempo, essa é uma opor-
endemias ou epidemias e que pes-
Mas é preciso ter sempre em mente tunidade de trabalhar a saúde pre-
soas adoeçam e morram. Também é
que na Revolução 4.0 há uma radi- ventiva como qualidade de vida. Não
possível, em outro exemplo, associar
calização, um aprofundamento e se pode tratar do idoso com uma me-
o impacto de uma mudança nas po-
uma generalização da digitalização ga-hospitalização. Primeiro porque
líticas sociais, como os efeitos que o
e da interconectividade da vida que isso vai trazer infelicidade para ele;
declínio ou não atendimento do Bol-
permite falarmos de uma quarta ninguém é feliz dentro do hospital.
sa Família pode gerar nas questões
revolução tecnológica e industrial. Com as novas tecnologias já se con-
de mortalidade infantil.
Isso também impacta barbaramen- segue fazer um monitoramento na
te as potencialidades e as condições Trago alguns exemplos para mos- residência do idoso, assim ele pode
de bem-estar da população. Vou dar trar que a quarta revolução tecnoló- ter os seus principais indicadores
um exemplo: a ciência, a tecnologia gica permite um tratamento popula- de saúde monitorados a distância.
e a inovação não são neutras. A dire- cional e coletivo da saúde com ações Já se sabe que a principal causa de
ção da inovação é dada pela socieda- de prevenção e uma vigilância epi- morte de idosos é a queda. Então, se
de, pelas mulheres e pelos homens. demiológica inteligente, não agindo temos uma atenção primária orga-
Então, não tem em si um mal ou um somente depois que o mosquito pica nizada, pelo tipo de queda do idoso
bem intrínseco. Ela pode gerar altos alguém. Com essa vigilância epide- se consegue saber se foi uma queda
benefícios, mas também pode gerar miológica é possível prevenir a partir causada por uma entorse ou por ou-
malefícios de acordo com o padrão e das condições da organização da so- tro motivo, a intensidade da queda,

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TEMA DE CAPA

além de se poder fazer contato com o Também se tem utilizado, a par- do que, lá na ponta, levar uma pes-
idoso por meio de tecnologias sofis- tir de diversos indicadores popula- soa doente a entrar num hospital e
ticadíssimas de integração de dados, cionais, a associação entre tabaco e ser tratada, é uma forma de sociabi-
que permitem dar certos padrões de câncer, além de relacionar certos es- lidade. Por isso, é tão importante o
queda, com o procedimento de inte- tilos de vida ao câncer e até mesmo enfoque da dimensão humana, que
ligência artificial, um algoritmo, que entrando na genômica para projetar não se reduz, mas aumenta com a
favoreça a leitura humana, a qual a possibilidade de desenvolvimento quarta revolução tecnológica. Com
sempre será imprescindível na saúde. da doença. Aliás, isso é totalmen- o mundo hiperdigital, com as pes-
te quarta revolução tecnológica e é soas se relacionando por redes ou
uma fusão, uma integração digital WhatsApp ou celular, chegamos à
“Temos entre o mundo biológico e o mundo
material.
“celularização da vida”, pois hoje
as pessoas lidam com seu aparelho
especialistas Assim, com as novas tecnologias, é celular e estão perdendo a sociabili-
dade. Há amigos que fazem grupos
em órgãos e possível tratar campos que até pou-
co tempo atrás eram incuráveis e de WhatsApp e não se veem há anos.

em partes de que agora estão elevando a qualida- Então, começamos a colocar algu-
de e a expectativa de vida de modo mas questões de hiperindividualiza-

pessoas, mas muito importante. Não sou ufanista


da quarta revolução industrial e das
ção e solidão em uma sociedade em
que nunca houve tanta conectivida-
não temos tecnologias, sou um ufanista da vi-
são humana da tecnologia. Se não
de, mas também nunca houve tanta
solidão. E qual é a grande epidemia
pessoas que tivermos isso claro o tempo inteiro,
o que pode ser um benefício pode se
do século XXI? A depressão. Assim,
a quarta revolução tecnológica pode
são formadas tornar monstruoso para a sociedade. significar uma fragmentação da vida,
a perda da visão coletiva da saúde e a
para tratar de Especificação de tratamen- perda da visão de saúde pública.
tos e isolamentos
10
pessoas” Voltando ao exemplo do trata-
É por isso que na própria Fundação
Oswaldo Cruz nós não utilizamos o
conceito e a noção de medicina ra-
mento do câncer, com a genômica
cionalizada apenas. Não é possível
é possível avançar e dar um trata-
IHU On-Line – Qual é o limite mento muito mais específico — ele
fazer um programa de vacinação
dessa tecnologia? Nem tudo se que não envolva a população, essa é
continua sendo coletivo, pois a saú-
resolve com a tecnologia, vai se a dimensão coletiva; não é possível
de é um bem coletivo. Se faz saúde
depender da interação huma- pública, por exemplo, fornecendo fazer um programa, por exemplo,
na, correto? um medicamento biológico, que é a para câncer que não envolva mudan-
nova fronteira do tratamento de cân- ças de hábitos e da cultura da popu-
Carlos Gadelha – Vou trazer só
cer, para aquela população em que o lação. Uma sociedade que se pauta
um terceiro exemplo que acho mui-
medicamento vai funcionar. Desse por uma visão de comer mais ham-
to interessante, dentro dos aspectos
modo, não jogamos recursos fora e búrguer, ter mais câncer e consumir
positivos, pois, como disse, a tecno-
não trazemos malefícios — efeitos mais produtos biotecnológicos não é
logia não traz um bem ou um mal em
colaterais — como, por exemplo, uma sociedade saudável.
si. No tratamento da zika, no caso
das crianças que tiveram microce- para os tratamentos de alguns tipos
de câncer de mama, em que algumas Sociabilidade humana e
falia, é possível também fazer mo- saúde
nitoramento com um chip colocado mulheres são sensíveis à medicação
na criança e pelo qual se pode prever e em outras mulheres o medicamen- Portanto, a saúde envolve a socia-
se ela vai ter convulsões. E convul- to só causa malefícios. Hoje, com o bilidade humana. Nunca o trata-
são em quem tem microcefalia não é estudo da genômica, é possível dizer mento do idoso ou da família pode-
somente uma, são várias convulsões para quais grupos populacionais de- rá ser dado por um robozinho, isso
sucessivas, que destroem os efeitos terminado medicamento vai trazer
seria um empobrecimento da vida.
de um tratamento de fisioterapia e benefícios e realizar o tratamento de
Tem certas questões de que os algo-
de outras terapias sociais realizadas forma mais adequada, elevando a ex-
ritmos não dão conta — eu até costu-
ao longo de um ano. Assim, preven- pectativa de vida ou mesmo curando
mo brincar: quem fez as fontes (na
e minimizando efeitos colaterais.
do que a criança vai ter convulsões, minha época chamávamos assim)?
se consegue evitar essa situação e O campo da saúde, visto como qua- Quem fez o algoritmo que diz que
com isso não se perde toda uma evo- lidade de vida, é um campo que en- para determinado problema você
lução da criança que já tem o sofri- volve necessariamente o cuidado e deveria tomar determinada decisão?
mento associado à microcefalia. a interação humana. É muito mais A interação do cuidador, na qual está

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o médico — mas não apenas ele, pois Então, a revolução tecnológica traz pegar alguns livros dele, como Di-
no programa de Saúde da Família, um risco. Talvez, mais do que nunca, reitos Humanos e Educação Liber-
por exemplo, existem os agentes co- seja necessária uma visão humana, tadora e Pedagogia da Tolerância.
munitários e outros profissionais —, senão teremos o risco de fragmentar Como não segmentar, tendo o grupo
é conversar com as pessoas, saber o tecido social que define uma socie- dos “sabidos”, cientistas, e a massa
quais são suas profissões etc. Por dade saudável, que no fundo é a defi- da sociedade sem acesso ao conheci-
exemplo, uma pessoa tem que ter a nição de saúde. mento e a possibilidade de interagir?
liberdade de dizer se ela vai querer Nesse sentido, há uma pobreza mui-
passar por um tratamento ultra-a- to grande nos cursos de saúde sobre

“Se não houver


gressivo para ter, talvez, um período a dimensão humana, a dimensão co-
muito curto de sobrevida ou se vai letiva e a organização dos sistemas
preferir usar o tempo de vida que
ela tem para estar com a família e cuidado, sociais de bem-estar.
Essa hipertecnificação do ensi-
ter tratamentos paliativos que não
sejam tão agressivos. Ou, ainda, se levaremos uma no quase se esquece de que do ou-
vão jogar a pessoa dentro do hospital
para começar a sofrer para viver um
grande massa tro lado há um ser humano, e isso
é possível com o enfoque de saúde
pouco mais. da população completamente desumanizado. Isso
coloca um desafio que é importan-
Isso tudo não envolve decisões
tecnológicas, é uma decisão huma- pobre, excluída, te. Por exemplo, a telemedicina. Ela
pode ser fantástica, pois possibilita
na. Então, o padrão tecnológico da
quarta revolução tem o potencial de a se relacionar um aconselhamento a distância ou
uma maior agilidade no tratamen-
aumentar a qualidade de vida, talvez
de modo jamais visto, mas, por outro
com máquinas” to em lugares remotos, mas não
pode substituir o atendimento pre-
lado, traz o risco imenso da perda de
sencial. Na China há uma empre-
uma visão coletiva da saúde, da per-
sa líder em telemedicina que criou
da de uma visão de solidariedade e IHU On-Line — Na prática,
11
quiosques onde a pessoa entra, uma
de que a saúde não pode ser tratada como as novas tecnologias em série de sensores são instalados por
como se fosse um voo de avião estra- saúde têm chegado ao sistema todo o corpo dela e em quatro mi-
tificado em categorias de classe. público, o SUS? Quais os desa- nutos ela sai com uma receita mé-
É inaceitável, eticamente, o uso fios do SUS no que diz respeito dica. Quem é que disse que aquela
da revolução tecnológica para que ao desenvolvimento educacio- receita é a correta? Quem é que fez o
algumas pessoas tenham acesso nal, científico e tecnológico a algoritmo? É um atendimento sem
a tratamento e prevenção e que serviço da saúde pública? diálogo, é uma ruptura com Paulo
tenham, por conta desse acesso, Carlos Gadelha — Do ponto de Freire, com uma visão humanista
expectativa de vida e qualidade di- vista do sistema educacional em saú- da educação.
ferentes. Eticamente é inaceitável de, está completamente desprepara-
que um pobre tenha sua expecta- Se não houver cuidado, levaremos
do e insuficiente para tratar dessas uma grande massa da população
tiva de vida baseada em seu nível questões que mencionei. Por exem-
de renda e que, por não ter acesso pobre, excluída, a se relacionar com
plo, na estrutura curricular dos cur-
à tecnologia, tenha 10 ou 15 anos máquinas e com o grande risco de
sos de medicina não há disciplinas
a menos de vida se comparado ao viés, parcialidade, já que essas má-
mais aprofundadas sobre organiza-
rico. Quem nasce na [favela] de Pa- quinas e algoritmos estão sendo for-
ções de sistemas de saúde. O conhe-
raisópolis ou no Morumbi [bairro matados para atender a interesses
cimento especializado está perdendo
nobre, ao lado da favela], em São econômicos. A pessoa pode sair da
a visão até de indivíduo e de coletivi-
Paulo, tem mais de 10 anos de dife- máquina para comprar o medica-
dade; temos especialistas em órgãos
rença de expectativa de vida. Acre- mento da moda ou o medicamento
e em partes de pessoas, mas não te-
dito que no Sul seja assim também, mos pessoas que são formadas para que é a novidade do momento e que
pois o mesmo vale para o Rio de Ja- tratar de pessoas. Há uma hiperes- não necessariamente vai atender as
neiro, para a Rocinha e São Conra- pecialização, que é outro risco da re- suas necessidades.
do, que são separadas por uma rua. volução tecnológica.
de Recife, obteve sucesso em programas de alfabetiza-
Dependendo do lado do muro em ção, depois adotados pelo governo federal (1963). Esteve
que você nasce, você vai ter carro É uma perda completa da dimen- exilado entre 1964 e 1971 e fundou o Instituto de Ação

personalizado, cidade inteligente, são educacional, por exemplo, que Cultural em Genebra, Suíça. Foi também professor da Uni-
camp (1979) e secretário de Educação da prefeitura de São
passa por Paulo Freire1 - podemos Paulo (1989-1993). É autor de A Pedagogia do Oprimido,
internet etc. E, do outro lado, terá entre outras obras. A edição 223 da revista IHU On-Line,
uma qualidade de vida péssima e de 11-06-2007, teve como título Paulo Freire: pedagogo
1 Paulo Freire (1921-1997): educador brasileiro. Como da esperança e está disponível em http://bit.ly/ihuon223.
viverá muito menos. diretor do Serviço de Extensão Cultural da Universidade (Nota da IHU On-Line)

EDIÇÃO 544
TEMA DE CAPA

Empobrecimento da visão e pela equidade. Senão, vamos criar problema no joelho e, na interação
humanista X Programa Saú- um debate em que inteligência arti- com o médico, depois de ter feito
de da Família ficial, big data e o padrão da quarta ressonância magnética, de ter usado
revolução tecnológica serão entendi- toda a tecnologia, ele me perguntou:
Há uma hipertecnificação do en- dos por muito poucos. Isso será para “você é um atleta? Você quer correr?
sino e da educação em saúde que uma elite, para uma casta da popula- Você só caminha? Vamos aguardar
talvez esteja na raiz de um certo em- ção mundial, enquanto para os mais um pouco, porque talvez você não
pobrecimento da visão humanista pobres damos uma renda mínima. precise de cirurgia”. E até hoje meu
do cuidado, ou seja, a saúde se torna joelho está ótimo. Isto nenhuma má-
técnica e não uma relação social — e a Eu sou a favor da renda mínima,
não podemos deixar ninguém pas- quina vai dizer.
saúde é uma relação social. Não tem
nada mais bonito do que um progra- sar fome. Agora, não se pode criar
desigualdade de conhecimento na
Ampliando desigualdades e
ma de saúde da família em que há substituindo o humano
equipes que conhecem as pessoas quarta revolução tecnológica, não
pelo nome e que estão no nível local. se pode ter uma massa de pessoas Na quarta revolução tecnológica, é
Muitas vezes, a pessoa que está pre- totalmente desinformadas, sujei- muito grande o risco de se criar uma
cisando de atendimento já se sente tas à manipulação de informação enorme distância de conhecimentos
muito melhor a partir de um simples e que não têm nenhum tipo de entre aquela pequena elite que sabe
diálogo. A maioria dos problemas de informação do sistema de saúde, e os que não sabem. Os próprios
saúde são resolvidos na ponta, com como organizam sua vida, bom- médicos vão ser fantoches de quem
os Programas de Saúde da Família. bardeadas por lixo informacional e faz os algoritmos. Se não tomarmos
Muitas vezes o sofrimento de uma sem capacidade de formulação, de
cuidado, caímos no fetiche de que a
pessoa que está em solidão, que é compreensão para fazer perguntas.
tecnologia vai substituir o ser huma-
idosa, que está sozinha, doente, se É inaceitável termos de novo um
no. A questão das humanidades, da
dá também porque está triste. Não apartheid, que é o apartheid do
organização da vida em coletividade,
podemos culpabilizar uma pessoa conhecimento e da informação.
de entender a sociedade, como a So-
que está triste, pois ela está com um Isso é uma coisa muito grave, por- ciologia, Antropologia e outras disci-
12 problema de saúde. que a saúde, intrinsecamente, já plinas fazem, é fundamental.
Além disso, muitas vezes, o conta- tem uma diferenciação muito gran-
A própria Economia, que é trata-
to humano e uma intervenção pe- de entre as pessoas. Quando entra-
da de modo tão cruel, precisa ser
quena, como recomendar que a pes- mos no consultório, sentimos a falta
vista como uma ciência moral. O
soa se hidrate, faça um exercício, de paciência do médico para expli-
primeiro livro de economia políti-
vai aumentar a qualidade de vida car o problema, trocar ideia. Mas
ca foi de Adam Smith2, um liberal,
dela. E, ao mesmo tempo, tem o ar- também há muitos médicos que têm
chamado Teoria dos Sentimentos
senal da quarta revolução tecnoló- uma visão humanística que é fantás-
Morais. Ou seja, é moral deixar al-
gica, que poderá auxiliar o médico tica, que faz uma primeira consulta
guém morrer de fome na sociedade
de família ou agente de saúde, lá na de uma hora, que conversa, que tro-
da quarta revolução? É moral criar
ponta, se necessário. Com o apoio ca ideia. Se a sociedade não tomar
uma iniquidade de conhecimentos,
da telemedicina, por exemplo, po- cuidado com essa hipertecnificação,
vamos ter linhas de montagem de em que há uma grande massa de
derá ter acesso à inteligência artifi- pessoas ignorantes e conhecimento
cial para saber quais as alternativas tratamentos em que a capacidade
do diálogo, base da pedagogia da concentrado em poucos países, em
de tratamento que pode oferecer poucas pessoas, em poucas empre-
para as pessoas. Agora, não se pode tolerância, desaparecerá.
sas? Isso é imoral.
é retirar o coração da saúde, e esse A base dessa pedagogia é justa-
coração é o cuidado. mente esse diálogo, essa interação.
Eu não posso fazer um tratamento IHU On-Line – Quais são os
sem ouvir a pessoa. Por exemplo, riscos de que esse desenvolvi-
IHU On-Line – É usar essa tec-
posso chegar com uma análise hi- mento tecnológico se converta
nologia toda como uma espécie
persofisticada de que uma pessoa vai numa potência exclusivamen-
de acessório para qualificar a
ter problema ósseo e terá que colo-
interação humana? 2 Adam Smith (1723-1790): considerado o fundador
car uma prótese que vai lhe permitir da ciência econômica tradicional. A Riqueza das Nações,
Carlos Gadelha – A ciência, a caminhar adequadamente. Só que sua obra principal, de 1776, lançou as bases para o en-
tendimento das relações econômicas da sociedade sob
tecnologia e a inovação estão aí para aquilo envolve riscos, envolve uma a perspectiva liberal, superando os paradigmas do mer-
servir as pessoas, e não se servir das cirurgia. Mas qual a idade dessa pes- cantilismo. Sobre Adam Smith, veja a entrevista concedida
pela professora Ana Maria Bianchi, da Universidade de
pessoas e isso é muito importante. soa? Isso precisa ser considerado, São Paulo - USP, à IHU On-Line nº 133, de 21-03-2005,
disponível em http://bit.ly/ihuon133, e a edição 35 dos
Elas têm que ser subordinadas a um pois essa não é uma decisão técni- Cadernos IHU ideias, de 21-07-2005, intitulada Adam
modelo de sociedade que seja huma- ca, é uma decisão na interação com Smith: filósofo e economista, escrita por Ana Maria Bianchi
e Antônio Tiago Loureiro Araújo dos Santos, disponível em
nizado, pautado pela solidariedade o paciente. Eu mesmo já tive um http://bit.ly/ihuid35. (Nota da IHU On-Line)

4 DE NOVEMBRO | 2019
REVISTA IHU ON-LINE

te a serviço do capitalismo? É inaceitável uma visão antivacina. senvolvimento é determinado pela


Afinal, o senhor mesmo tem É inaceitável uma visão em que se transformação associada à inovação
estudos que revelam que a pró- coloque a própria perspectiva evo- tecnológica. Só que Celso Furtado
pria indústria farmacêutica se lucionista, biológica em xeque não enfatiza: desenvolvendo transfor-
usa de uma grande tecnologia, com argumentos científicos, mas mação social para atender necessi-
mas que pode aumentar as de- com ideologias. Nessa sociedade da dade humana. Muita gente esquece
sigualdades e permitir o acesso quarta revolução tecnológica, au- dessa parte. A inovação pela inova-
a novos produtos somente para menta a importância social do cien- ção não leva ao desenvolvimento;
uma parcela da população. tista de todas as áreas: biomédica, ela leva ao desenvolvimento se está
exatas, humanas; o cientista tem a associada, por exemplo, a um pro-
Carlos Gadelha – Nós lutamos
missão social de aumentar o escla- grama de Saúde da Família. Esse
contra dois moinhos no campo da
recimento da sociedade. Isso tem a programa hoje atende mais de 90%
ciência, da tecnologia e da inova-
ver com democracia. E democracia dos municípios brasileiros, cerca de
ção, e existe uma dialética no tra-
não é colocar o voto na urna, e sim 60% da população, e é a maior ino-
tamento destes dois grandes desa-
o fato de as pessoas terem conheci- vação institucional e técnica da área
fios. O primeiro desafio é que hoje
mento suficiente para saberem em da saúde no período recente.
há um movimento no Brasil, e até
que projeto estão votando. Se uma
mesmo global, de negação do valor A lógica mercantil invade todas as
sociedade está excluída do conheci-
da ciência. Temos que radicalizar esferas da vida, e na saúde hoje, até a
mento, há um empobrecimento da
a perspectiva de que somente a ci- atenção primária e a área de vacinas
democracia.
ência pode transformar dados em são contaminadas. Só a área de va-
informação e conhecimento. Há o Assim, compreendo que o primeiro cinas, por exemplo, é dominada por
risco de termos uma imensa massa grande desafio é valorizarmos a ciên- quatro empresas. Há um perfil de
de países que fornecem dados, mas cia e o conhecimento científico. Esse é pesquisa na área de vacinas em que
poucos países, poucas instituições um fator decisivo para uma sociedade estão sendo priorizadas as pesquisas
que conseguem transformar esses ter informação e conhecimento quali- de doenças com prevalência em paí-
dados em informação. A matéria ficado de forma acessível, para que as ses ricos. Se perguntarmos qual bem
-prima do futuro não é apenas o mi- pessoas possam tomar decisões cons- da saúde é mais público, com certe- 13
nério e a soja, também é o dado. A cientes, e não decisões por efeito ma- za vai se responder que é a vacina.
informação e o conhecimento são a nada por conta do lixo informacional Vacina e saúde da família, um é uma
fonte da riqueza e o poder do futu- que chega pelas redes sociais. organização e outro um produto.
ro, por isso temos que radicalizar o Então, produtos que na sua origem
apoio à ciência. É a ciência se con- Força a serviço do capital eram essencialmente públicos, fei-
trapondo às fake news, a ciência se tos por Pasteur4, pelas instituições
Existe uma tendência global da públicas, hoje estão dominados por
contrapondo ao lixo informacional.
própria ciência e tecnologia de se quatro empresas farmacêuticas. É
A ciência básica tem um valor tornarem força produtiva do capital. preciso colocar como situação estra-
imenso. Não tenho uma visão utili- Ou seja, é a tendência da mercanti- tégica da maior relevância o fortale-
tarista de que a ciência tem que ge- lização da vida. Essa lógica de tudo cimento da produção de vacinas, que
rar valor com seus processos, mas, ser mercadoria invadiu a ciência. E hoje é liderada pela Fiocruz e pelo
ao mesmo tempo, o cientista, como vamos a um exemplo: quem é que Butantan. Senão, o nosso próprio
ser humano, tem que sair da torre define as revistas científicas mais portfólio de vacinas vai ficar na de-
de marfim e ajudar a qualificar o co- importantes? Hoje, há um mercado pendência estratégica e competitiva
nhecimento da sociedade. Ele pode de revistas científicas muito concen- de quatro empresas.
fazer a ciência mais básica, entender trado também. Quem define o que é
o mecanismo fisiológico de determi- e o que não é ciência a partir de re- Se analisarmos toda biotecnologia
nada espécie, mas tem que dialogar, vistas científicas? Existe um merca- em saúde, 15 empresas detêm 60%
popularizar e ter a capacidade de do competitivo, capitalista, inclusive das patentes. E a biotecnologia é
tornar as pessoas mais esclarecidas nas publicações científicas, na orga- fronteira para o tratamento de do-
no diálogo, e não apenas na lógica de nização dessas publicações. É pensar enças crônicas como câncer, artrites,
que ele ensina e o outro aprende. também em quem define o financia-
nômico e da Superintendência do Desenvolvimento do
mento da pesquisa. Nordeste e membro da Academia Brasileira de Letras. Al-
Hoje mais do que nunca, porque gumas de suas obras são A economia brasileira (1954) e
há um ataque à ciência, precisamos Sou entusiasta da inovação, por- Formação econômica do Brasil (1959). Confira a edição 155
da IHU On-Line que aborda a obra de Furtado, disponível
defender a ciência para evitar que que a inovação está na raiz do de- em https://bit.ly/2MTgqeL. (Nota da IHU On-Line)
haja uma redução de 70 ou 80% dos senvolvimento como transformação. 4 Louis Pasteur (1822-1895): cientista francês. Suas
descobertas tiveram enorme importância na história da
recursos de financiamento. É inacei- É a visão de Celso Furtado3, o de- química e da medicina. É lembrado por suas notáveis
descobertas das causas e prevenções de doenças. Suas
tável corrermos o risco de quebrar descobertas reduziram a mortalidade de febre puerperal,
os sistemas científico e tecnológico 3 Celso Furtado (1920-2004): economista brasileiro,
membro do corpo permanente de economistas da ONU.
e ele criou a primeira vacina para a raiva. Seus experimen-
tos deram fundamento para a teoria microbiológica da
montados a tanto custo no Brasil. Foi diretor do Banco Nacional de Desenvolvimento Eco- doença. (Nota da IHU On-Line)

EDIÇÃO 544
TEMA DE CAPA

entre outras. Então se a estratégia que se acabam deturpando os valo- Se falar em cidade inteligente, por
competitiva dessas empresas é aten- res. Muitas vezes, um jovem cien- exemplo, vai envolver a qualidade de
der outros mercados e ter preços tista, quando entra na academia, já vida e saúde. Se falar em inteligência
inacessíveis, não se tem opção. Pre- não é mais o mesmo quando termina artificial, a área líder é a saúde. Se
cisamos desconcentrar o poder de seu doutorado, a sua cabeça já virou, pensar em uso de big data, uma das
monopólio. Isso é uma visão liberal porque a norma de valores, as revis- áreas mais impactadas é a da saúde.
de economia desenvolvimentista. tas que aceitam publicações, tudo Se falar em internet das coisas e em
Afinal, competição faz bem à saúde. isso empurra aquele jovem visioná- nanotecnologia, a saúde está pre-
Ter mais países fazendo produtos, rio a se tornar um mercador. sente. Se falar em genômica, é uma
ter mais empresas fazendo produtos área também liderada pela saúde. De
É preciso que as universidades outro lado, precisamos entender que
e ter menos monopólio é a saída. O
pensem em como colocar contrape- o SUS é o maior sistema universal
monopólio faz mal à saúde.
sos nesses valores. Por exemplo, fa- do mundo, não há nenhum sistema
Você tem toda razão quando diz zer uma crítica pesada na avaliação universal com 200 milhões de pes-
que hoje o padrão científico e tecno- da ciência. Mas precisa ser avaliada soas, embora tenhamos problemas
lógico é um padrão pautado pelo va- pelo mérito e pela relevância social, graves de financiamento e questões
lor de troca, ou seja, pela lógica mer- avaliar as revistas que nos avaliam. que precisam ser aperfeiçoadas em
cantil. Isso parece ser somente uma Eu, como cientista, falo isso: as re- termos de gestão.
frase de efeito, mas não é. Posso, por vistas que nos avaliam precisam ser
exemplo, ter um padrão tecnológico avaliadas. Quantos artigos que são Como a saúde lidera a quarta revo-
que tenha produtos muito caros e publicados e têm financiamento e lução tecnológica e o Brasil tem um
que estão quebrando os sistemas de interesses? Quantos artigos e dados, sistema universal mais abrangente
saúde de todo mundo. Veja que hoje que são negativos para os negócios, do mundo, a saúde, por termos o
mesmo a Suécia está com problemas são omitidos? Parece que há uma SUS, pode representar a porta de en-
em saúde, a Inglaterra está com pro- contradição nisso, mas é isso mes- trada do Brasil na quarta revolução
blemas também, os Estados Unidos mo. A vida é dialética, e não linear. tecnológica. Como estou dizendo,
não dão assistência a sua população. De um lado temos a defesa pela ra- essa revolução tem um risco imenso
14 Isso não é um problema brasileiro, dicalidade do conhecimento para de segmentar a sociedade e os pa-
é um problema global que gera um enfrentarmos o lixo informacional íses numa nova geopolítica do po-
padrão tecnológico em que se perde – e isso na saúde é decisivo, a deci- der, em que os países são excluídos
a dimensão humana e a dimensão são bem formada, a decisão qualifi- do conhecimento. E a saúde pode
de que eticamente é preciso garan- cada das pessoas, de quem cuida e ser uma porta de entrada para que
o Brasil não seja excluído da quar-
tir o acesso universal. É inaceitável de quem é cuidado – e de outro lado
ta revolução. Ele ficou para trás na
que se uma pessoa que tem uma do- discutir criticamente e estabelecer
terceira revolução e está se abrindo
ença rara for rica, ela vive e, se for mecanismos de incentivo e de estí-
uma janela de oportunidade e é aí
pobre, ela morre. Então, temos que mulo para que a ciência não perca
que precisamos ver como oportuni-
ter um padrão tecnológico que bus- sua natureza de bem público, que
dade o que costumamos ver como
que produtos com preços acessíveis, não seja apenas um bem privado.
problema.
que busque formas de tratamento
Assim, chegamos ao segundo desa-
que priorizem a prevenção e atenção A saúde mobiliza 9% do PIB, mo-
fio que proponho. O campo da saú-
primária. Senão, a besta fica solta e a biliza o trabalho direto e indireto de
de é todo um campo humano e essa
saúde vira um mercado, como aque- 20 milhões de pessoas. O Brasil está
humanidade da saúde está em risco
le avião que está estratificado em hoje com 32 milhões de desempre-
de ser perdida se não tivermos uma
categorias de classe; se estratifica a gados e desalentados, e só na área
visão crítica e uma ação social frente
população em categorias em que um da saúde da família há três milhões
à revolução tecnológica. de empregos. Então, quando se cria
vai viver 100 anos, outro vai viver 80
e o que estiver mais embaixo vai vi- o Programa de Saúde da Família –
ver 40 anos. IHU On-Line – Quanto da rea- até para tirar essa visão míope –,
lidade de saúde pública e cole- está se mobilizando pessoas, dando
O cientista, um visionário tiva do Brasil está para a Revo- cuidados ao idoso, gerando emprego
lução 4.0? Todos esses avanços e renda, e se pode estar usando big
E aí eu confio no cientista. Normal- data, inteligência artificial, telemedi-
tecnológicos estão mais próxi-
mente, o cientista é um visionário, cina para fazer uma saúde qualifica-
mos ou distantes da prática co-
a sua opção de vida é a investigação da. Esse programa foi criado no Mi-
tidiana no país?
dos fatos, é o conhecimento, não está nistério da Saúde em 2008 e adotou
pautado pelo interesse econômico. Carlos Gadelha – A saúde lidera um conceito, desenvolvido no início
Isso está na origem do cientista. O a quarta revolução tecnológica, jun- dos anos 2000, do complexo econô-
problema é que na sua formação está to com poucas áreas, como a defesa, mico da saúde, o qual coloca que se
uma visão acrítica da sociedade, em mas não com a mesma centralidade. tem um sistema produtivo potente e

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que é preciso usar o poder de com- tamos falando em utopia no sentido jogando fora o lixo informacional e
pra do Estado para nortear o padrão pré-iluminista, mas no sentido ilu- começando a ter pessoas, cidadãs e
tecnológico e desenvolver a produ- minista, de transformação da rea- cidadãos, que são mais bem infor-
ção nacional. lidade, e não como algo inatingível. mados, qualificados e sabem qual é
Estamos falando de algo concreto, o papel da ciência. Hoje 35% da ci-
O Brasil entrou no mundo da mo-
temos o SUS, temos compras pú- ência brasileira está na saúde. Olhe
derna biotecnologia por causa dessas
blicas, temos o sistema de ciência e o impacto disso, estamos falando de
parcerias, em que se tem uma insti-
tecnologia, temos a base produtiva 10% do PIB, 1/3 da pesquisa nacio-
tuição pública de ciência e tecnolo-
de serviço industrial e precisamos nal, da liderança de todas as tecno-
gia, como Fiocruz, Butantan - mas
colocar esse sistema para funcionar. logias da quarta revolução.
poderia ser a Unisinos -, uma insti-
tuição empresarial e o Ministério da Otimismo Espero discutir os dilemas da so-
Saúde comprando os produtos. Olha ciedade contemporânea, mas tam-
que interessante, com esse tipo de Estou dando uma visão otimista, bém as estratégias de futuro. Se não
modelo se está gerando renda, em- tão rara nesses temas. Mas temos temos estratégia de futuro, não te-
prego, dando estímulo para o setor que ter, pois a saúde pode repre- mos presente, não fazemos nada do
produtivo, mas também pautando sentar a entrada do Brasil na quarta presente, ficamos paralisados. Faz
o tema da tecnologia pela demanda revolução tecnológica, pode repre- parte de uma vida saudável termos
do SUS. Então, estou aproximando sentar a superação do novo colo- projetos de futuro, retomarmos as
a ciência e tecnologia da demanda nialismo do conhecimento e pode energias utópicas que estão tão aba-
social. Isso não é só sonho, não es- ajudar, inclusive, na democracia, ladas no mundo contemporâneo.■

15

EDIÇÃO 544
TEMA DE CAPA

As reconfigurações da comunicação
no cenário da Revolução 4.0 e seus
desdobramentos
Para Roseli Figaro, as mudanças tecnológicas impactam
os processos comunicacionais, gerando repercussões nos
campos de formação, educação e trabalho
João Vitor Santos

P
ela sua estreita relação com a É por isso que a professora defende
tecnologia, o campo da comuni- que uma saída possível é dar corpo e
cação é um dos mais impactados coração a uma experiência que, media-
pela Revolução 4.0. E no sentido mais da pelos avanços tecnológicos, pode ser
amplo, basta ver a forma como escreve- de fato transformadora. Ela acredita que
mos, ouvimos e falamos. Nesse contex- “é na educação, ou seja, no processo de
to, a informação da qual a comunicação formação que estamos escolhendo os
hipervalorizada deve ser veículo passa valores que vão pela sociedade, à me-
a assumir uma centralidade e qualquer dida que as novas gerações são orienta-
mudança na sua configuração afeta ou- das por tais valores”. Assim, sua aposta
tras áreas. No entanto, tal centralidade fundamental é na clara definição de que
16 pode ser efêmera e novas configurações valores devem inspirar novos processos
e sentidos, plenamente esvaziáveis. “A comunicacionais, de relações. “Vamos
informação só tem valor quando ela é continuar privilegiando a concorrên-
experienciada. A experiência permite e cia, o individualismo, consagrando o
promove a formação. Desse modo, a in- dinheiro e reduzindo o sucesso a esses
formação só se torna formação quando valores?”, questiona. E aponta: “os de-
é experienciada por uma comunidade safios vão muito além da introdução de
concreta, no cotidiano e em um proces- tecnologias nos espaços de formação
so histórico objetivo”, observa a pro- (educação formal, não formal e infor-
fessora Roseli Figaro. Para ela, “as ma- mal). Dizem respeito à compreensão de
ravilhas do mundo do conhecimento, que comunicação não é transmissão de
disponíveis na internet em incontáveis informação. Comunicação é atividade
bancos de dados, não transformam o humana complexa, capaz de identificar
conjunto da sociedade por si mesmas”. conflitos, fazer a gestão de nós mesmos
O problema é que se acredita que es- e dos outros em todas as instâncias da
sas transformações sejam possíveis e o vida social”.
resultado disso é uma espécie de preca- Roseli Aparecida Figaro Pau-
rização, como a que se vive nos campos lino é professora, coordenadora do
da educação e formação e até mesmo Programa de Pós-Graduação em Ciên-
nas novas relações de trabalhos atra- cias da Comunicação da Universidade
vessados pela Revolução 4.0. “Há que de São Paulo - USP e coordenadora do
existir um processo contextualizado de Centro de Pesquisa em Comunicação
experiência. Esse processo é chamado e Trabalho - CPCT. Ainda é professora
de formação por meio da educação”, de- convidada da Celsa - Sorbonne Uni-
fende Roseli, em entrevista concedida versité, diretora editorial da Revista
por e-mail à IHU On-Line. “Não é um Comunicação & Educação, coordena-
problema da tecnologia. É como se usa dora do Labidecom, Laboratório de
a tecnologia, como orientamos a criação Pesquisa em Educomunicação, pro-
de novos adventos e usos dos conheci- fessora visitante do Instituto Tecnoló-
mentos científicos para a continuada gico y de Estudios Superiores de Occi-
concentração de riquezas”, aponta. dente - Iteso, México. Possui estágio

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de pesquisa pós-doutoral no Centro e mestrado em Ciências da Comunica-


Internacional para Estudos Superio- ção pela USP e graduação em Jorna-
res de Comunicação para a América lismo pela Faculdade de Comunicação
Latina - Ciespal e na Universidade de Social Casper Líbero.
Provence, França, além de doutorado Confira a entrevista.

IHU On-Line – A área da co- XX, tivemos duas guerras mundiais, interessa às pessoas e que expressa
municação é uma das centrais além de centenas de outras guerras um acontecimento, uma ação.
quando se fala das transfor- regionais, que nada mais foram do
No entanto, para todas as áreas,
mações advindas da Revolução que guerras pelo reordenamento ge-
acho que é válido afirmar que a in-
4.0. Mas de que ordem é essa opolítico de interesses econômicos e
formação só tem valor quando ela
transformação? Como esses de poder.
é experienciada. A experiência per-
avanços tecnológicos têm re-
Dito isso, agora podemos entender mite e promove a formação. Des-
configurado o campo e os pro-
os enormes dilemas que vivemos no se modo, a informação só se torna
fissionais que atuam nesse
mundo do trabalho. No caso espe- formação quando é experienciada
meio?
cífico dos comunicadores, a imple- por uma comunidade concreta, no
Roseli Figaro – Em primeiro lu- mentação desses processos produ- cotidiano e em um processo histó-
gar, precisamos esclarecer do que
17
tivos, viabilizados pelas tecnologias rico objetivo. Tudo isso quer dizer
trata o termo Revolução 4.0. Tra- digitais de conexão, trouxeram a que todas as maravilhas do mundo
ta-se de alterações nos processos desestruturação do modelo de em- do conhecimento, disponíveis na
produtivos, devido a dois aspectos: presa que conhecemos no século internet em incontáveis bancos de
a) avanço científico tecnológico que XX; e trouxeram o trabalho viabili- dados, não transformam o conjunto
introduz meios de produção digitais zado pela convergência de platafor- da sociedade por si mesmas. Há que
conectados em rede, a partir de har- mas, linguagens e pela polivalência existir um processo contextualiza-
dware e software, os quais permitem e flexibilidade entre as funções e do de experiência. Esse processo é
conexão ilimitada entre pessoas, profissões. Decididamente, emerge chamado de formação por meio da
coisas e máquinas, e captura, arqui- um conjunto de outras funções que educação.
vo e tratamento de dados, transfor- não sei se poderemos chamá-las de
mando-os em produtos vendáveis, profissões, no sentido que o termo
ou seja, novas mercadorias; b) cons- adquiriu no século XX. IHU On-Line – Quais os desa-
tante processo de degeneração e re- fios para se conceber uma co-
generação de tudo que possa circular municação para formação num
e ser consumido, inclusive a própria IHU On-Line – Como a senho- tempo que somos atravessados
tecnologia. ra apreende os conceitos de in- pela Revolução 4.0?
formação e de formação? E em
Essa alteração dos processos pro- Roseli Figaro – Nós já temos
que medida esses conceitos se
dutivos traz mudanças profundas essa resposta há muito tempo, mes-
reconfiguram a partir da Revo-
nas instituições, na economia, na mo antes das tecnologias digitais.
lução 4.0?
cultura e, inclusive, implicam mu- A resposta é a formação em um
danças políticas que afetam o Estado Roseli Figaro – O conceito de processo social dialógico, voltada
de direito e, por conseguinte, o que informação é problemático: para a para a interação humana, focada
denominamos (aspiramos) como de- engenharia ou a matemática qual- em valores, no nosso caso defen-
mocracia. Todo momento histórico, quer sinal, seja um número, um demos os valores humanistas. Mas
de grande transformação dos pro- ponto, um feixe de luz ou um sopro a formação pode ser orientada por
cessos produtivos, causa instabili- de energia é informação; para a co- outros valores, como se faz em nos-
dade social e, devido às lógicas capi- municação, a informação é algo que sa sociedade hoje. Os processos de
talistas de acumulação de riquezas, faz sentido para alguém por meio de formação, com a tecnologia 4.0, ou
criam um ambiente contaminado qualquer tipo de signo. No jornalis- não, na atualidade, estão orientados
por excessos e violências. No século mo, informação é algo objetivo que pelos valores da concorrência, pelo

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TEMA DE CAPA

individualismo e pelo interesse no instituição com a missão de redimir Compreender essa “dobradinha”
dinheiro. Não é um problema da tec- a sociedade e o estado brasileiro de é potencializá-la com todas as lin-
nologia. É como se usa a tecnologia, todas as suas mazelas. Infelizmente, guagens da comunicação disponí-
como orientamos a criação de novos a escola não tem esse poder, sobre- veis à sociedade, para que as in-
adventos e usos dos conhecimentos tudo no Brasil, com tantas carências formações se tornem experiência
científicos para a continuada con- e desmandos. e daí conhecimento. Potencializar
centração de riquezas. os processos de formação por meio
A escola não pode resolver o pro-
da comunicação e suas diferentes
É na educação, ou seja, no processo blema da fome, a falta de trabalho,
estruturas de produção de sentidos
de formação que estamos escolhen- a falta de moradia, de saneamento é fazer com que as pessoas possam
do os valores que vão pela socieda- básico, de saúde etc. A escola pode desenvolver um pensamento críti-
de, à medida que as novas gerações ajudar a tratar da questão dos valo- co e com autonomia.
são orientadas por tais valores. Por- res sociais. Para isso, precisamos de
tanto, os desafios vão muito além uma população sadia, alimentada e As artes, a filosofia, a história são
da introdução de tecnologias nos com trabalho. Na falta dessas condi- bases do conhecimento que estão
espaços de formação (educação for- ções, tudo é paliativo, é um salve-se sendo trocadas por um engodo:
mal, não formal e informal). Dizem quem puder. É mais caridade e soli- de que precisamos de informações
respeito à compreensão de que co- dariedade do que formação nos ter- objetivas que coloquem os jovens
municação não é transmissão de in- mos da educação formal. Os projetos no mercado de trabalho, daí usar a
formação. Comunicação é atividade voltados ao treinamento da popu- tecnologia parece um caminho fá-
humana complexa, capaz de identi- lação para uso das tecnologias com cil para resolvermos o problema da
ficar conflitos, fazer a gestão de nós vistas à capacitação para o mercado educação. Esse pensamento é falso.
mesmos e dos outros em todas as de trabalho são políticas paliativas É um engodo. É trapaceiro, porque
instâncias da vida social. É definir- (necessárias), mas incapazes de diri- relega aos pobres o lugar de capa-
mos quais os valores que queremos mir o problema real. Sem distribui- chos, serviçais daqueles que contro-
fomentar para as novas gerações. ção de renda não há progresso social. lam o dinheiro e a política. A arte, a
Vamos continuar privilegiando a filosofia, a história e as outras dis-
18 concorrência, o individualismo, ciplinas das ciências humanas e so-
ciais são o arcabouço de informação
consagrando o dinheiro e reduzindo
o sucesso a esses valores? “A informação que permite o desenvolvimento da
autonomia e do pensamento críti-
só tem valor co, com potencial humanista. Dessa

quando ela é
IHU On-Line – A educação é forma, comunicação e educação não
outro campo que se transforma podem ser simplificadas como uso
drasticamente com a Revolu-
ção 4.0. Como a senhora com- experienciada. da tecnologia na escola. A revista
Comunicação & Educação2, funda-
preende essas mudanças na
educação?
A experiência da pela profa. Dra. Maria Aparecida
Baccega3, faz 25 anos em 2019, e em
Roseli Figaro – Aqui vamos falar permite e seu acervo de artigos defende a es-
cola como esse espaço necessário de
da educação formal, como já afirmei,
trata-se de ir muito além de trazer as promove a comunicação.

tecnologias para o ambiente da es-


cola. Trata-se de se estabelecer um formação” IHU On-Line – Depois da edu-
processo comunicacional (diálogo) cação e da comunicação, é no
potencializado pelas tecnologias. mundo do trabalho que perce-
Paulo Freire1 não foi o primeiro a di- bemos grandes transformações
zer que a educação é um processo de IHU On-Line – Em que medida advindas dos avanços tecnoló-
comunicação. No entanto, ainda não a “dobradinha”, a articulação
foi ouvido. Mas a questão é que a es- entre comunicação e educação 2 Saiba mais em revistas.usp.br/comueduc. (Nota da IHU
On-Line)
cola passou a ser tratada como uma tem contribuído para compre- 3 Maria Aparecida Baccega: livre docente em Comu-
nicação pela Escola de Comunicações e Artes da USP;
endermos as transformações atualmente é docente, pesquisadora e orientadora do
1 Paulo Freire (1921-1997): educador brasileiro. Como de nosso tempo? Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Práticas
diretor do Serviço de Extensão Cultural da Universidade de Consumo da Escola Superior de Propaganda e Marke-
de Recife, obteve sucesso em programas de alfabetiza- ting SP, desde 2003, tendo sido coordenadora adjunta de
ção, depois adotados pelo governo federal (1963). Esteve Roseli Figaro – Essa “dobradi- 2003 a 2007. Como Decana do PPGCOM ESPM, leciona e
exilado entre 1964 e 1971 e fundou o Instituto de Ação nha” é fundamental. Aproximar o orienta trabalhos de mestrado e doutorado e coordena o
Cultural em Genebra, Suíça. Foi também professor da Uni- Grupo de Pesquisa certificado pelo CNPq “Comunicação,
camp (1979) e secretário de Educação da prefeitura de São campo da comunicação ao da edu- Educação e Consumo: as interfaces na teleficção”. Coor-
Paulo (1989-1993). É autor de A Pedagogia do Oprimido, dena a rede nacional OBITEL Brasil, que integra o OBITEL
entre outras obras. A edição 223 da revista IHU On-Line, cação é fazer valer o que todos nós (Observatório Iberoamericano de Ficção Televisiva), rede
de 11-06-2007, teve como título Paulo Freire: pedagogo
da esperança e está disponível em http://bit.ly/ihuon223.
já sabemos: não existe educação internacional de pesquisadores que congrega países da
América Latina, da Europa Ibérica e Itália. (Nota da IHU
(Nota da IHU On-Line) fora do processo comunicacional. On-Line)

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gicos. Como a senhora apreen- das plataformas com o trabalhador real das transformações da socieda-
de essas transformações? e seus direitos pelo trabalho realiza- de. A reestruturação produtiva, com
do. Sequer salário. Assim, segundo o discurso neoliberal da polivalên-
Roseli Figaro – A tecnologia não
Ricardo Antunes5, vivemos o privi- cia, flexibilização, do colaborador,
é fruto dela mesma. Ela é resultado
légio da servidão. Os juízes do Su- do empreendedor, deu um golpe
de um processo histórico e social,
premo Tribunal assim como os de- fatal no sindicalismo: usou a persu-
cuja potencialidade responde a ne-
putados e senadores deveriam ser asão discursiva para fazer crer que a
cessidades. Raymond Williams4 já
pagos e controlados por um sistema empresa estava interessada no bem
disse isso em um texto belíssimo
de plataforma. Vamos ver se eles -estar do trabalhador.
sobre a televisão nos anos de 1970.
A potencialidade da tecnologia para continuariam legislando e julgando Houve um deslumbramento com os
atender necessidades da sociedade os direitos (ou a falta de direitos) da comitês de fábrica, as conversas com
é apropriada em um contexto so- mesma maneira. o presidente, o café da manhã com
cioeconômico e político específico. o gerente, o diretor de representação
Com a internet nos prometeram a dos trabalhadores e outros mecanis-
aldeia global, a horizontalidade das
relações, a democratização, mas es-
“A informação mos que poderiam ser usados para
avançar a luta dos trabalhadores e
tamos recebendo outras coisas: a só se torna foram cooptados pelas empresas
desinformação, o golpe às democra-
cias, a formação de guetos (bolhas). formação para amenizar essas lutas. Quando a
reestruturação tecnológica avançou,
Por que isso? Devido à lógica da
concentração de recursos: hoje os
quando é as demissões, a mudança geracional,
a rotatividade, a terceirização etc.
dados são como o petróleo do sé-
culo XX. E é no mundo do trabalho
experienciada deram um golpe fatal na organiza-
ção sindical. Mas os sindicalistas es-
que a riqueza dos dados é produzi-
da. O mundo do trabalho foi açam-
por uma tavam conversando com o governo e
muito pouco com os trabalhadores.
barcado pelo controle dos dados,
ou seja, pelo controle de tudo o que
comunidade No futuro, os trabalhadores que es-
tão enfrentando a situação atual do 19
se produz, se planifica, se move, se concreta, no trabalho é que têm a tarefa de orga-
nizar novas formas de luta e de asso-
informa – voz, imagem, gesto, lo-
calização – sobre coisas e pessoas. cotidiano e em ciações, sejam elas parecidas com os
sindicatos que conhecemos ou não.
As empresas são, na verdade, sis-
temas conectados para produção, um processo
controle e circulação de produtos.
Não precisa ter um espaço físico, histórico IHU On-Line – Como analisa
as formas que essas mudanças
precisa existir no sentido institu-
cional. Também não precisa ter objetivo” no mundo do trabalho têm sido
reconstituídas pelos veículos
empregados, ela precisa de que for-
neçam trabalho. As caracterizações de comunicação? Em alguma
e as especificidades profissionais medida, a imprensa já com-
estão se alterando, não só em novas IHU On-Line – Se o mundo do preendeu a complexidade das
profissões, mas sobretudo em múl- trabalho mudou, podemos afir- transformações do trabalho no
tiplas funções, assumidas por uma mar que o sindicalismo tam- século XXI?
mesma pessoa. bém tem mudado? Por quê? Roseli Figaro – Acho que nos úl-
As tecnologias também estão sen- Roseli Figaro – Acho que o sindi- timos dois anos, as empresas de co-
do usadas para explorar ainda mais calismo mudou, e se perdeu, porque municação no Brasil deram passos
a força de trabalho em benefício de deixou de acompanhar o movimento definitivos para a mudança daquilo
poucos. O trabalho mediado e con- que conhecemos como empresas de
trolado por aplicativos de platafor- jornalismo. Hoje elas são empresas
5 Ricardo Antunes: graduado em Administração Pública,
mas é a expressão mais desumana é mestre e doutor em Ciências Sociais, é professor titular de negócios diversificados em ter-
de Sociologia no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas
do trabalho no capitalismo avança- da Unicamp. É autor de Adeus ao trabalho? Ensaio sobre as
mos de mídias e, sobretudo, estão
do. É tão brutal quanto o trabalha- metamorfoses e a centralidade do mundo do trabalho. 3ª em grande processo de experimen-
ed. São Paulo: Cortez, 1995 e Os sentidos do trabalho. En-
dor em situação similar a escravo. saio sobre a afirmação e a negação do trabalho. 6ª ed., São tação de caminhos possíveis. Elas
Paulo: Boitempo Editorial, 2003, entre outros. O IHU rea-
Não há qualquer responsabilidade lizou uma série de entrevistas com o professor. Entre elas
já entenderam que é por meio da
A crítica e subversão de Gorz ao capital, publicada na IHU metrificação dos dados que poderão
On-Line número 238, de 1-10-2007, disponível em http://
4 Raymond Williams (1921-1988): foi um acadêmico, crí- bit.ly/2pgWYfP; e “O governo Lula foi uma surpresa mui- voltar a ganhar muito dinheiro.
tico e novelista Galês. Seus escritos em política, cultura, to bem-sucedida para os grandes capitais”, publicada nas
literatura e cultura de massas refletiram seu pensamento
marxista. Foi uma figura influente dentro da Nova Esquer-
Notícias do Dia de 26-4-2014, no sítio do IHU, disponível
em http://bit.ly/2osU2b7. Confira mais em ihu.unisinos.br.
Metrificar, no caso do jornalismo,
da e na teoria cultural em geral. (Nota da IHU On-Line) (Nota da IHU On-Line) significa uma profunda mudança

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TEMA DE CAPA

no conceito de notícia, porque a re- trabalho de jornalistas em arranjos jornalista. Eles e elas inventam o seu
levância do fato é dada pelo número econômicos alternativos às corpo- trabalho. A precarização é uma mar-
de cliques, ou seja, a métrica que o rações de mídia7, de 2018. Nesses ca forte na maioria deles.
tema suscita. Por isso, a lógica da livros, temos estudos que mostram O jornalista do século XXI é jo-
campanha de Bolsonaro foi vence- as mudanças no trabalho do jorna- vem, é mulher e está sendo muito
dora. A campanha conseguiu pautar lista, a precarização, as demissões, demandada em termos de ritmo
a mídia, mesmo aqueles veículos que a pejotização, o freelancer fixo, o re- de trabalho e é mal paga, tem ex-
tinham posição mais democrática. baixamento salarial, em um ambien- pertise importante na escrita para
Outra coisa que se alterou profun- te de digitalização dos processos de os diferentes formatos e é pautada
damente é o processo produtivo no trabalho, virtualização das redações, pelas métricas comandadas pelos
jornalismo: a cadeia de produção redução do número de profissionais conglomerados Google, Amazon,
para uma notícia não comporta mais nas redações. Facebook, Apple, Microsoft. Para se
o trabalho de inúmeros profissio- O jornalista sai de uma realidade ter uma ideia do problema, é o Goo-
nais. Hoje essa cadeia foi substituída de fragmentação do processo de tra- gle que tem oferecido cursos para
por equipe multiplataforma mui- balho em diferentes funções: pautei- treinar jornalistas a escrever suas
to enxuta que trabalha apoiada em ro, repórter, redator, revisor, editor, matérias a partir da lógica algorít-
bancos de dados e produções que mica do Google. Essa situação com-
para assumir todas essas funções até
circulam nas redes sociais. Além de promete a prática jornalística para a
a publicação da notícia e, ainda, a
outros aspectos que dizem respeito a democracia.
publicação em texto, vídeo e áudio. A
outras lógicas de publicação e circu- edição pode ser em impresso, site na
lação das informações.
internet, nas redes sociais: facebook, IHU On-Line – Quais os desa-
twitter etc. São formatos diferentes fios para formar um jornalista,
IHU On-Line – Quem é o jor- que exigem produções direcionadas. ou alguém que trabalhe com
nalista do século XXI? E como O jornalista que não está na grande comunicação, no século XXI?
imagina que deveria ser? empresa de mídia, está trabalhando
Roseli Figaro – Manter o sonho
em diferentes empresas de agências
20 Roseli Figaro – Temos dois livros e assessorias de comunicação – den-
de que o jornalismo e a jornalista,
sobre esse assunto. As mudanças no com o seu trabalho, possam contri-
tro da mesma lógica acima descrita
mundo do trabalho do jornalista6, buir para que o cidadão tenha meios
– e até no que estou denominando
de 2013; e As relações de comunica- de se orientar com vistas à maior
de novos arranjos do trabalho do
ção e as condições de produção no participação e para a efetiva demo-
7 São Paulo: ECA-USP, 2018. A obra completa está disponí-
cratização das estruturas sociais,
6 São Paulo: Atlas, 2013. (Nota da IHU On-Line) vel em http://bit.ly/2Wcg0le. (Nota da IHU On-Line) econômicas e políticas.■

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Incertezas e precarização são os


efeitos mais visíveis na saúde
mental dos trabalhadores
Daniel Viana Abs da Cruz reflete sobre os impactos
da Revolução 4.0 nas relações sociais e na
saúde psíquica dos trabalhadores
João Vitor Santos | Edição: Patricia Fachin

A
s transformações geradas pela faz parte”. Todos esses elementos alte-
Revolução 4.0 no mundo do rados, menciona, “afetam o bem-estar
trabalho não têm como conse- e a saúde mental” e geram sofrimento.
quência apenas a diminuição de pos- Nos dias de hoje, assegura, “esse sofri-
tos de trabalho, mas também suscitam mento pode ser facilmente reconhecido
questões sobre a saúde mental tanto e nomeado como psicopatologias que
dos trabalhadores que já foram substi- circulam no contemporâneo, como a
tuídos por máquinas, quanto daqueles depressão e a ansiedade”.
que ainda nem ingressaram no merca- Na entrevista a seguir, concedida por
do, como jovens e adolescentes. “Como e-mail, Cruz ressalta que junto com o 21
se sente e se percebe um adolescente progresso tecnológico é “imputado”
hoje ao acessar um mundo do trabalho ao trabalhador “o imaginário de que
que constantemente diz que só há es- com muitos cursos e qualificações es-
paço para vencedores, e que o vence- tará seguro em seu emprego”. Diante
dor é o mais veloz, o mais conectado, o das transformações tecnológicas e no
mais empreendedor (com inglês fluen- mundo do trabalho, o psicólogo sugere
te, conhecimento em finanças, e big a adoção de uma postura mais positi-
data) e o mais hábil com suas emoções va. “Ao invés de buscarmos o que falta
(suporta a tudo e a todos, com felicida- de qualificação nos trabalhadores para
de, gentileza e gratidão)? Como é para ocuparem cargos e funções em empre-
um adolescente perceber um mundo sas, incentivar e sustentar o que eles já
do trabalho que gera um imaginário possuem como habilidades e potencia-
de riqueza aos 20 anos, mas que mui- lidades constituídas”, diz.
tas vezes só trabalhos precarizados,
Daniel Viana Abs da Cruz é gra-
quando existem, consegue oferecer?
duado e mestre em Psicologia pela
Penso que essas questões precisam ser
Universidade do Vale do Rio dos Sinos
feitas para atendermos melhor nossa
- Unisinos e doutor na mesma área pela
infância e adolescência hoje”, afirma o
Universidade Federal do Rio Gran-
psicólogo Daniel Viana Abs da Cruz à
de do Sul - UFRGS. É coordenador do
IHU On-Line.
Grupo de Pesquisa Contextos Digitais e
De acordo com ele, como o trabalho Desenvolvimento Humano e professor
tem um papel central na vida dos indi- adjunto na Escola de Administração da
víduos e um impacto sobre as demais UFRGS, na área de Gestão de Pessoas e
esferas da vida, “alterações nas formas Relações de Trabalho.
de trabalho, nas rotinas, nas garantias e A entrevista foi originalmente pu-
direitos, nas relações afetivas e sociais blicada nas Notícias do Dia de 22-10-
produzidas, tendem a alterar a relação 2019, no sítio do Instituto Humanitas
que se tem com a saúde física, com a Unisinos – IHU, disponível em http://
perspectiva de futuro, com a família e bit.ly/2qnRvFG.
amigos, com a segurança percebida no
ambiente, com a comunidade de que se Confira a entrevista.

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TEMA DE CAPA

IHU On-Line – Como a chama- ou hedônico, valoriza, além de as- sobre a infância e adolescência, e
da Revolução 4.0 tem impacta- pectos afetivos e emocionais, a sa- por consequência as formas de se
do a saúde mental das pessoas tisfação que temos com diferentes lidar com elas, são produzidos por
e as relações sociais em geral? âmbitos da nossa vida. No momen- adultos. Essa situação se agrava
to em que o trabalho é um desses no contexto atual, tipicamente do
Daniel Viana Abs da Cruz – É
aspectos e tem impacto sobre todos digital, caracterizado pela produ-
uma revolução caracterizada pela
os outros âmbitos de vida, altera- ção de novas formas de comparti-
conexão e integração de tecnologias
ções nas formas de trabalho, nas lhamento de emoções, de relações
digitais com sistemas físicos de pro-
rotinas, nas garantias e direitos, sociais e de perspectivas de futu-
dução e que altera como vamos com-
nas relações afetivas e sociais pro- ro. O acesso a informações insere
preender o trabalho e dar-lhe senti-
duzidas, tendem a alterar a rela- debates no cotidiano da infância e
do. Essas são peças-chave na saúde
ção que se tem com a saúde física, adolescência que talvez de outras
mental. Compreendo que é algo,
com a perspectiva de futuro, com a formas não existiriam, ensina a
apesar de anunciado por todos os
família e amigos, com a seguran- criticar, produz posicionamen-
meios, muito novo. Ainda estamos
ça percebida no ambiente, com a tos e faz enlaces emocionais para
percebendo como o mundo do traba-
comunidade de que se faz parte. além das fronteiras geográficas da
lho está se alterando e a forma como
Todos esses elementos, já altera- escola/parque/comunidade.
os trabalhadores estão reagindo às
dos, afetam o bem-estar e a saúde
diferentes expectativas, exigências, No entanto, coisas nem tão de-
mental, com maior ou menor in-
pressões e regulações do tempo e da sejáveis ocorrem. Como se sente e
tensidade. Estamos falando de um
vida. A promessa dessa revolução é se percebe um adolescente hoje ao
conjunto de elementos que estão
de um processo de trabalho segundo acessar um mundo do trabalho que
sendo alterados e que geram sofri-
o qual, pela automatização, inteli- constantemente diz que só há espaço
mento. Esse sofrimento pode ser
gência artificial e internet das coisas, para vencedores, e que o vencedor
facilmente reconhecido e nomeado
prescinde de muito menos humanos é o mais veloz, o mais conectado,
como psicopatologias que circulam
para seu funcionamento. o mais empreendedor (com inglês
no contemporâneo, como a depres-
As questões que esse futuro colo- são e a ansiedade. fluente, conhecimento em finanças,
22 ca, me parece, à saúde mental são: e big data) e o mais hábil com suas
qual o papel que é possível a mim emoções (suporta a tudo e a todos,
IHU On-Line – Como esses com felicidade, gentileza e grati-
(trabalhador) nesse cenário? Te-
contextos de sociedade em dão)? Como é para um adolescen-
nho condições (qualificações) para
rede, mundos digitais, têm in- te perceber um mundo do trabalho
existir nesse mundo do trabalho?
cidido sobre a formação de jo- que gera um imaginário de riqueza
Se não, há garantias ou direitos que
vens? E como esses jovens pas- aos 20 anos, mas que muitas vezes
me permitam sobreviver? Qual o
sam a apreender o mundo do só trabalhos precarizados, quando
custo desse trabalho à vida? Esta úl-
trabalho? existem, consegue oferecer? Penso
tima pergunta se refere ao trabalho,
quando aparece, que surge como Daniel Viana Abs da Cruz – que essas questões precisam ser fei-
oportunidade, mas se configura Entendo que apreendem o mundo tas para atendermos melhor nossa
como precário, tanto nas condições do trabalho de uma forma diver- infância e adolescência hoje.
da execução do trabalho quanto nas sa das gerações anteriores. E essa
formas que produz a subjetividade parece uma frase de fácil assimila- IHU On-Line – Entre os im-
do trabalhador. Essas incertezas e ção, mas na prática tem sido bas- pactos da Revolução 4.0 no
precarizações, a meu ver, se estabe- tante difícil aos adultos compre- mundo do trabalho está a dimi-
lecem atualmente como os efeitos ender o quão diferente as gerações nuição de postos de trabalho,
mais visíveis na saúde mental dos nativas digitais podem pensar, através da automação. Que tipo
trabalhadores. sentir e agir diferentemente das de sofrimento psíquico é gera-
anteriores. A reação mais comum
do nesses desempregados, víti-
é usar os parâmetros já existentes
IHU On-Line – Quais os im- mas da automatização?
para tentar compreender o que se
pactos da chamada Revolução
passa com eles, porém não creio Daniel Viana Abs da Cruz –
4.0 nas relações de trabalho?
que funciona. Há um conjunto Não estou seguro se há um sofri-
Em que medida esses impactos
de esforços de pesquisadores em mento específico da condição de
afetam a saúde mental e o bem
torno da infância e da adolescên- desempregado pela automatização.
-estar dos trabalhadores?
cia que se posicionam de forma a É uma boa questão para pesquisas
Daniel Viana Abs da Cruz criticar essa relação chamada de futuras. O que acompanhamos é um
– O bem-estar possui diferentes adultocêntrica. Nessa relação, que sofrimento específico da condição de
perspectivas e tradições de enten- é a que temos nas teorias e práti- desempregado, fruto da relação de
dimento. A que temos trabalhado, cas aprendidas e ensinadas corri- trabalho que existia, do comprome-
chamada de bem-estar psicológico queiramente, os conhecimentos timento do trabalhador com o seu

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espaço de trabalho e do espaço que cooperativas e associações é um bom dade de as comunidades e as favelas
o trabalho ocupava e ocupa em sua espaço para criar e inventivamente se verem no digital e existirem no di-
vida. Na condição de desempregado, sustentar novos espaços de trabalho gital? Não seria mais interessante e
como indica Bauman na sua obra frente a um mundo digitalizado. In- possível aprender e ter acesso a um
“Vidas Desperdiçadas”, o que ocorre venção e criação é um potencial da mundo que lhe faz sentido e faz refe-
é uma condição de redundância: há nossa sociedade e pode ser muito rências à sua cultura?
muitos iguais a mim. E esse esva- mais investido do que a “falta” de
ziamento do tempo e do sentido do algo que, mesmo que se tenha, não
IHU On-Line – O Brasil atual
trabalho é agravado quando o traba- garante trabalho.
possui um grande número de
lhador não sabe as reais condições
desempregados e um número
da sua demissão. Quando não é dito
IHU On-Line – Quais os maio- ainda maior de desalentados. O
a ele o motivo, seja por qual razão,
res desafios para assegurar a que leva ao desalento? Quais os
há um constante sofrimento.
saúde e bem-estar de trabalha- desafios para superar o sofri-
dores do mundo digital? mento psíquico de desempre-
IHU On-Line – Muitos pro- gados e evitar que caiam nesse
Daniel Viana Abs da Cruz –
fissionais são tensionados a desalento?
Parece-me que os temas da atuali-
investir na sua formação e
dade são a velocidade, o uso do tem- Daniel Viana Abs da Cruz –
qualificação para assegurar
po, a privacidade, a segurança e as Essa é uma questão de pesquisa a ser
sua permanência no mundo
relações sociais e afetivas. Esses são levada a sério, e de forma abrangente
do trabalho. Entretanto, em
desafios presentes no atual mundo e sistêmica. Estamos com um núme-
determinadas áreas, nem essa
digital pois fragilizam as condições ro elevado de desempregados em de-
qualificação garante e empre-
humanas de sustentar uma vivência salento, que significa o abandono da
gabilidade (vide o exemplo
saudável e com bem-estar. Desses procura de emprego. Para ser consi-
dos porteiros, vigilantes que
todos, o uso do tempo me parece derado desempregado, o trabalha-
são substituídos por siste-
o mais desafiador. Na crença de dor tem que estar fazendo pressão
mas de câmera e circuitos de
um mundo cada vez mais veloz, no no mercado de trabalho em busca de
monitoramento). Entretanto, 23
qual todos correm e competem, e no emprego. Ao desistir da busca, en-
mesmo que todos os porteiros
qual já se nasce em ‘falta’, é desafia- tra na condição de desalento. Nessa
se qualifiquem para operar
dor conseguir abrir espaços na vida condição, agrava-se o que no desem-
essas máquinas, não haverá
para ter tempos para criar, inven- prego já é considerado fator de risco
postos de trabalho para todos.
tar, desfrutar, sentir e ainda traba- para diferentes desfechos de saúde,
Quais os efeitos psicológicos
lhar. E isto sem sentir que está em como depressão, ansiedade, adições
dessa necessidade de constan-
dívida ou em falta com alguém ou de álcool e drogas etc. É um conjunto
te formação? E como superar
com o mundo. de condições que acompanham a si-
o desânimo de não encontrar
emprego mesmo com investi- tuação de desalento, e por isso temos
mento em qualificação? IHU On-Line – A exclusão di- diferentes desafios nessa questão.
gital gera que tipo de sofrimen- Penso que são questões que só
Daniel Viana Abs da Cruz –
to? Por quê? E como superá-lo? podem ter alguma solução com o
Parece-me que ao trabalhador é
imputado o imaginário de que com Daniel Viana Abs da Cruz – reinvestimento nas redes de apoio e
muitos cursos e qualificações estará Qualquer exclusão é geradora de so- suporte, para além das políticas de
seguro em seu emprego. Sou crítico frimento. A falta de acesso ao mun- geração de emprego e renda. Não
a esse discurso, justamente pelos do digital representa hoje também são problemas separados. É sintoma
efeitos de constante insatisfação e o cerceamento de acesso a recursos de uma condição de desamparo, não
frustração gerados, pois baseia-se na para a afirmação cidadã, para a parti- só de acesso ao trabalho, mas tam-
falta de algo, que, mesmo que o con- cipação social, para o acesso à infor- bém de precarização das políticas
siga, não lhe garante o trabalho. No mação. Mas não só. Ter acesso a um de saúde e do desmantelamento das
entanto, entendo que o cenário do mundo que não lhe faz sentido e não redes de proteção social. Não é uma
mundo do trabalho está se alterando o representa também é um proble- questão passível de análise a nível
radicalmente e deveríamos adotar ma. A exclusão também se apresenta individual, como uma fragilidade
uma postura um pouco mais positi- quando não vejo representados no psíquica de um contingente especí-
va: ao invés de buscarmos o que fal- mundo digital a comunidade, a cor, fico de pessoas. Entendo que é uma
ta de qualificação nos trabalhadores o jeito, os estilos de vida que povoam fragilidade do tecido social e das po-
para ocuparem cargos e funções em o mundo que vivo cotidianamente. líticas públicas que deveriam existir
empresas, incentivar e sustentar o A educação é ainda a melhor forma para o sustentar, e que se expressa
que eles já possuem como habilida- de operar e superar os processos de nesse contingente em profundo de-
des e potencialidades constituídas. exclusão, como genialmente Paulo samparo e que é visibilizado pelo in-
O trabalho com comunidades, com Freire nos indica. Qual a possibili- dicador de desalento. ■

EDIÇÃO 544
TEMA DE CAPA

Um letramento tecnomidiático contra


a cegueira da tecnorreligião
Paulo César Castro debate as potencialidades tecnológicas da
Revolução 4.0 e propõe uma formação cidadã capaz de devolver
aos humanos a consciência sobre suas ações no mundo digital
João Vitor Santos | Edição: Ricardo Machado

O
badalado escritor e professor com o advento da web 2.0, com as redes
Yuval Harari formulou a ideia sociais online e com os dispositivos mó-
de “dataísmo” para descrever veis. O uso de tais recursos resultou em
uma espécie de “tecnorreligião que tem momentos importantes, de maior ou me-
nos dados o seu objeto de adoração e nor monta, para a atuação política cidadã
para a qual o homem é visto como li- em vários lugares no mundo, e a internet
mitado, pois, dos volumosos fluxos de ainda se configura como a ferramenta
dados, não é mais capaz de obter as de- capaz de dar voz a segmentos sociais que
vidas informações, conhecimentos ou nunca tiveram, no modelo dos meios de
mesmo sabedoria, de modo a colocá-las comunicação de massa, a chance de se
a serviço da inteligência”, conforme ex- manifestar”, pondera.
plica o professor doutor Paulo César Entretanto, com o avanço exponencial
Castro, em entrevista por e-mail à
24 das notícias falsificadas e da circulação
IHU On-Line. Dentre as tantas con-
massiva de desinformação, a formação
sequências da religiosidade oriunda
cidadã exige, também, um letramento
dos dados, uma das mais recorrentes
tecnomidiático, sem o qual nos torna-
é certa naturalização, entre aspas, da
mos presas fáceis dos dispositivos digi-
interferência dos algoritmos na vida
tais. “O momento, portanto, exige uma
cotidiana. “Passamos a considerar nor-
formação cidadã, crítica, a respeito das
mal quando o algoritmo do Facebook
potencialidades mas também dos riscos
mostra em nossos news feed apenas
a que estamos expostos quando nossos
postagens de ‘amigos’ com as mesmas
dados são capturados por tecnologias
afinidades que as nossas, enclausuran-
digitais cujo funcionamento só é possí-
do-nos em verdadeiras bolhas ideológi-
vel com os algoritmos”, complementa.
cas”, aponta.
Paulo César Castro é professor As-
De outro lado, porém, para que não
caiamos em uma perspectiva tecnofóbi- sociado da Escola de Comunicação da
ca, é importante reconhecer os avanços UFRJ, onde ministra disciplinas para
provocados pelo desenvolvimento tecno- os cursos de Jornalismo e Produção
lógico, no que diz respeito à possibilidade Editorial e coordena o Programa de
de comunicação e de acesso à informa- Educação Tutorial - PET. É também
ção. “Desde que foi aberta à exploração vice-coordenador do Programa de Pós-
comercial e teve ampliado seu uso para Graduação em Ciência da Informação -
além das instituições militares e das uni- PPGCI do IBICT/ECO/UFRJ e um dos
versidades, a internet foi vista como um diretores do Centro Internacional de
espaço potencial de exercício da liberda- Semiótica e Comunicação - Ciseco.
de. Essa esperança aumentou mais ainda Confira a entrevista.

IHU On-Line – Podemos afir- tecnológicos e científicos? Por Paulo César Castro – Certamen-
mar que vivemos uma revolução quê? Como o senhor compreen- te. É uma revolução cujas consequ-
no que diz respeito a avanços de o conceito de Revolução 4.0? ências, a meu ver, estão se fazendo

4 DE NOVEMBRO | 2019
REVISTA IHU ON-LINE

“Se a maioria das pessoas diz não se


importar com o uso de seus dados
pelas empresas ou pelos governos é
porque ainda não se conscientizou
sobre como estão sendo exploradas”

notar muito mais rapidamente e transmissão de informações que, a Lutero7 em 1517, se passaram quase
cujos alcance e consequências são exemplo da escrita e da imprensa, oito séculos. Hoje, os abalos sísmi-
mais globais do que todas as outras tiveram efeito cataclísmico sobre a cos causados pela internet, desde
anteriores. Na base dessa revolução sociedade. que deixou os laboratórios militares
está o que o historiador israelense e foi tornada pública, acontecem em
Se, no século XV, foi o alemão
Yuval Harari1 chama de “duas marés menos da metade do tempo, em ní-
Johannes Gutenberg4 o responsável
científicas”: uma baseada na biologia veis mundiais.
pelo aperfeiçoamento da tecnologia
de Charles Darwin2 e outra nos algo-
que ajudou a abalar as tradições e No bojo dessas transformações,
ritmos eletrônicos do matemático in-
instituições medievais, marco im- certamente que não ficaram de fora
glês Alan Turing3. A partir delas, ele
portante (mas não apenas ele) da a produção industrial e as relações
formula o que chama de “dataísmo”,
passagem à Modernidade, mais de que dela advêm. A história mostra
nome para uma tecnorreligião que
500 anos depois foi a vez de Timo- que as revoluções industriais têm
tem nos dados o seu objeto de ado-
thy Berners-Lee5. Com a criação da seus eixos baseados na busca, pelos 25
ração e para a qual o homem é visto
World Wide Web, o inglês deu a sua capitalistas, da eficácia produtiva
como limitado, pois, dos volumosos
contribuição para que a internet se (produzir mais com menos) e, con-
fluxos de dados, não é mais capaz
transformasse no que é hoje, e sobre sequentemente, do maior lucro pos-
de obter as devidas informações, co-
cujas consequências temos, e ainda sível. Substituir a produção manual
nhecimentos ou mesmo sabedoria,
teremos, muito a analisar, pesqui- por processos mecanizados tem sido
de modo a colocá-las a serviço da
sar, estudar. Desde a invenção dos a tônica que orienta a indústria des-
inteligência. Ainda que não devamos
tipos móveis e do prelo, em 1439, de que à força humana ou à tração
tomar a internet como a única causa
até a sua disseminação, na forma de animal foram associadas forças mo-
para as profundas transformações
oficinas de impressores, por todos os trizes advindas do vapor, da eletrici-
por que estamos passando atual-
centros municipais importantes da dade e da eletrônica. Se nas três pri-
mente, podemos listá-la na relação
Europa por volta de 1500, indo até meiras revoluções a força física do
de tecnologias de comunicação e
o início da Reforma Protestante6 de homem é que foi substituída, princi-
palmente nas operações repetitivas,
1 Yuval Noah Harari (1976): professor israelense de His-
tória e autor do best-seller internacional Sapiens: Uma 4 Johannes Gutenberg (1398-1468): inventor e gráfico
na Quarta Revolução Industrial (ou
breve história da humanidade e também do Homo Deus alemão que introduziu a forma moderna de impressão de também Indústria 4.0, Revolução
– Uma Breve História do Amanhã. Ele leciona no departa- livros – a prensa móvel –, que possibilitou a divulgação e
mento de História da Universidade Hebraica de Jerusalém. cópia muito mais rápida de livros e jornais. Sua invenção 4.0), o objetivo é suplantar também
(Nota da IHU On-Line) do tipo mecânico móvel para impressão começou a Revo- a capacidade cognitiva. O que ainda
2 Charles Darwin (Charles Robert Darwin, 1809-1882): lução da Imprensa e é amplamente considerado o evento
naturalista britânico, propositor da teoria da seleção natu- mais importante do período moderno. Teve um papel fun- restava de especificamente humano
ral e da base da teoria da evolução no livro A Origem das damental no desenvolvimento da Renascença, da Refor-
Espécies. Organizou suas principais ideias a partir de uma ma e da Revolução Científica. Lançou as bases materiais
– a faculdade do pensamento para,
visita ao arquipélago de Galápagos, quando percebeu que para a moderna economia baseada no conhecimento e na assim, levar à tomada de decisões
pássaros da mesma espécie possuíam características mor- disseminação da aprendizagem em massa. (Nota da IHU
fológicas diferentes, o que estava relacionado com o am- On-Line) baseada em informações – é trans-
biente em que viviam. Em 30-11-2005, a professora Anna 5 Timothy John Berners-Lee ou Tim Berners-Lee
Carolina Krebs Pereira Regner apresentou a palestra obra (1955): é um físico britânico, cientista da computação e
Sobre a origem das espécies através da seleção natural ou professor do MIT. É o criador da World Wide Web, tendo
a preservação de raças favorecidas na luta pela vida, de feito a primeira proposta para sua criação a 25 de março decorrência destes fatos, ocorreu a divisão da chamada
Charles Darwin, no evento Abrindo o Livro, do Instituto de 1989. Em 25 de dezembro de 1990, com a ajuda de Igreja do Ocidente entre os católicos romanos e os pro-
Humanitas Unisinos - IHU. Sobre o assunto, confira as edi- Robert Cailliau e um jovem estudante do CERN, imple- testantes. Confira a edição 280 da IHU On-Line, de 3-11-
ções 300 da IHU On-Line, de 13-7-2009, Evolução e fé. mentou a primeira comunicação bem-sucedida entre um 2008, intitulada Lutero. Reformador da Teologia, da Igreja
Ecos de Darwin, disponível em http://bit.ly/UsZlrR, e 306, cliente HTTP e o servidor através da internet. (Nota da e criador da língua alemã, disponível em http://bit.ly/2h-
de 31-8-2009, intitulada Ecos de Darwin, disponível em IHU On-Line) Q1FFc, e a edição 514, intitulada Lutero e a Reforma – 500
http://bit.ly/1tABfrH. De 9 a 12-9-2009, o IHU promoveu 6 Reforma Protestante: movimento reformista cristão li- anos depois. Um debate, disponível em http://bit.ly/2IC-
o IX Simpósio Internacional IHU: Ecos de Darwin. (Nota derado por Martinho Lutero, autor das 95 teses pregadas 2GPt. (Nota da IHU On-Line)
da IHU On-Line) na porta da Igreja do Castelo de Wittenberg, na Alemanha, 7 Martinho Lutero (1483-1546): teólogo alemão, consi-
3 Alan Mathison Turing (1912-1954): matemático inglês. em 31 de outubro de 1517, propondo uma reforma na derado o pai espiritual da Reforma Protestante. Foi o au-
Idealizou a “máquina de Turing”, antecessora dos compu- doutrina do catolicismo romano. Lutero foi apoiado por tor da primeira tradução da Bíblia para o alemão. Além
tadores, capaz de calcular qualquer função matemática vários religiosos e governantes europeus. Em resposta, a da qualidade da tradução, foi amplamente divulgada em
mediante um determinado conjunto de instruções. (Nota Igreja Católica Romana implementou a Contrarreforma decorrência da sua difusão por meio da imprensa, desen-
da IHU On-Line) ou Reforma Católica, iniciada no Concílio de Trento. Em volvida por Gutemberg em 1453. (Nota da IHU On-Line)

EDIÇÃO 544
TEMA DE CAPA

ferido para as máquinas, na busca no século XIX. Aos que só veem da- vida”? Por quê? Quais as conse-
da automatização total das fábricas dos positivos no cenário da Indús- quências?
e, em consequência, na diminuição tria 4.0, apostando que profissões
Paulo César Castro – O filóso-
máxima do custo representado pela emergentes compensarão os postos
fo francês Éric Sadin9 tem um livro
mão de obra humana. Nesse novo ce- de trabalho já, ou a serem, perdidos,
chamado La vie algorithmique ([A
nário, as máquinas são combinadas ficam algumas poucas perguntas: se
vida algorítmica] Le Kremlin Bicê-
com big data, inteligência artificial, a característica que distingue o hu-
tre: Echappée, 2015), no qual trata
nanotecnologia, neurotecnologia, mano da máquina poderá não ser
de um aspecto fundamental do ce-
biotecnologia, resultando em robôs, a mais importante na escolha para
nário permeado pelas tecnologias
drones e outros autômatos, para, de uma vaga de emprego, qual será en-
digitais em que vivemos cada vez
modo “inteligente”, exercerem a ca- tão a qualificação fundamental de
mais mergulhados: a de que os dis-
pacidade de tomar decisões descen- homens e mulheres no mercado de
positivos que usamos nas nossas
tralizadas e de cooperar entre elas e trabalho do século XXI? Quais são
mais banais atividades cotidianas,
com os poucos humanos que ainda as políticas efetivas de governos e
bem como em outras de muito maior
restarem nas fábricas. Não por acaso empresas para formar, desde já, os
complexidade, são quase todos base-
há previsões de que, até 2030, com trabalhadores, inclusive como cida-
ados na combinação de algoritmos
a adoção mais rápida da automação dãos, para as competências que os
e dados. O autor diz que a humani-
pelas empresas, 800 milhões de hu- novos tempos demandarão? Acon-
dade produz somente em dois dias
manos serão substituídos por robôs tecerá mais uma vez a busca desen-
uma quantidade de informação que
em todo o mundo. Dados do Fórum freada pelo lucro máximo a qualquer
não produziu em dois milhões de
Econômico Mundial, organização custo, às expensas da exploração de
anos. E o volume de dados dobra a
que reúne o crème de la crème do humanos vistos como limitados e
cada 18 meses, gerados por indiví-
capitalismo mundial, demonstram descartáveis? Mas sem a capacida-
duos (deliberada ou passivamente),
a crescente substituição do homem de de consumo dos humanos, como
empresas privadas, instituições go-
nas atividades produtivas dentro das esse modelo capitalista se sustenta-
vernamentais e não-governamentais
companhias: se, em 2018, o total de rá? Sob o dataísmo harariano, quem
e mesmo por outros organismos,
horas em tarefas desempenhadas ocupará os postos hierárquicos prin-
26 máquinas e objetos. Sobre esse big
pelos humanos era de 71%, frente a cipais, de mando, da nova religião, e
data, armazenado em bilhões de
29% pelas máquinas, esse número quem posará como rebanho?
repositórios, agem algoritmos cuja
cairá para 58% até 2022. E mesmo
ação é ampliada pela capacidade de
atividades que até agora permane-
processamento cada vez mais veloz
“‘Dataísmo’,
cem amplamente humanas – como
dos hardwares. Dessa combinação, o
comunicação e interação; coordena-
resultado para nós, pessoas físicas, e
ção, desenvolvimento, gerenciamen-
to e assessoramento; bem como ra- nome para uma para as instituições têm sido, por um
lado, a automatização de processos e
ciocínio e tomada de decisão – terão
a participação das máquinas amplia- tecnorreligião atividades, com a redução do tempo
e de recursos financeiros.
da no mesmo período em aproxima-
damente 10%. que tem nos Por outro lado, crescentemente te-
Nessas relações de produção capi- dados o seu mos delegado aos algoritmos ações que
antes estavam nas mãos de indivídu-
talista, em que a força de trabalho
está sendo dividida entre humanos objeto de os e instituições, como identificações,
avaliações, classificações, ordenações
adoração e
e máquinas, uma série de questões
e hierarquizações de pessoas, lugares,
vêm à tona – assim como nas de-
objetos, serviços e ideias. Como con-
senvolvidas e analisadas por Marx8
para a qual o sequência, estes novos gatekeepers
têm dividido espaço com outros tra-
8 Karl Marx (1818-1883): filósofo, cientista social, econo-
mista, historiador e revolucionário alemão, um dos pensa-
dores que exerceram maior influência sobre o pensamen-
homem é visto dicionais atores especializados, mas
ganhando terreno progressivamente,
to social e sobre os destinos da humanidade no século 20.
A edição 41 dos Cadernos IHU ideias, de autoria de Leda
Maria Paulani, tem como título A (anti)filosofia de Karl
como limitado” em um trabalho cultural importantís-
simo, resultando dele, muitas vezes,
Marx, disponível em http://bit.ly/173lFhO. Também sobre
o autor, a edição número 278 da revista IHU On-Line,
de 20-10-2008, é intitulada A financeirização do mundo
conselhos, sugestões, recomendações
e sua crise. Uma leitura a partir de Marx, disponível em ou admoestações individualizadas. Até
https://goo.gl/7aYkWZ. A entrevista Marx: os homens não
são o que pensam e desejam, mas o que fazem, concedida IHU On-Line – Estamos numa
por Pedro de Alcântara Figueira, foi publicada na edição
327 da IHU On-Line, de 3-5-2010, disponível em http://
“era de algoritmização da 9 Éric Sadin: escritor e filósofo francês. Fundou a revista
bit.ly/2p4vpGS. A IHU On-Line preparou uma edição es- éc/artS (1999-2003), dedicada a práticas artísticas e no-
pecial sobre desigualdade inspirada no livro de Thomas vas tecnologias. É professor regular do Sciences Po Paris
Piketty O Capital no Século XXI, que retoma o argumento ambiente fabril e o mundo neural de redes e conexões, em e trabalha em numerosas universidades e centros de pes-
central de O Capital, obra de Marx, disponível em http:// celebração aos 200 anos do nascimento do pensador, está quisa na Europa, América do Norte e Ásia. Foi professor
www.ihuonline.unisinos.br/edicao/449. A revista IHU On disponível em ihuonline.unisinos.br/edicao/525. (Nota da na escola de arte de Toulon e professor visitante na ECAL
-Line, edição 525, intitulada Karl Marx, 200 anos - Entre o IHU On-Line) Lausanne e IAMAS (Japão). (Nota da IHU On-Line)

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mesmo decisões têm sido tomadas por estamos cada vez mais imersos em as relações culturais e sociais, seja
esses dispositivos sem a intervenção uma cultura algorítmica, pois nossas numa perspectiva histórica de longo
ou a supervisão humana. Embaladas ações do dia a dia – relacionadas ao prazo como propõe Eliseo Verón10,
numa aura de eficiência e objetividade, trabalho, tarefas domésticas, rela- desde a primeira tecnologia que abo-
atributos da racionalidade matemá- ções sociais, política, comunicação, liu a presença de emissores e recep-
tica que está por trás dos algoritmos, educação, entretenimento, consu- tores sob o mesmo espaço físico e
tais operações têm sido, pelo senso mo, saúde, viagens, segurança, entre tempo para que houvesse comunica-
comum, muito pouco questionadas. muitas outras – têm sido crescente- ção, ou por uma visão de menor pra-
Assim, passamos a considerar nor- mente mediadas, aumentadas, pro- zo de Stig Hjarvard, que considera,
mal quando o algoritmo do Facebook duzidas e reguladas por dispositivos especialmente a partir dos últimos
mostra em nossos news feed apenas digitais operando sob os métodos de anos do século XX, o que chama de
postagens de “amigos” com as mesmas algoritmos empresariais e governa- novas mídias (como a internet e os
afinidades que as nossas, enclausuran- mentais. Com isso, novas racionali- telefones celulares) em contrapo-
do-nos em verdadeiras bolhas ideoló- dades, conhecimentos, protocolos, sição aos meios de comunicação de
gicas. Ou ainda, preocupados com os regras, saberes e, consequentemen- massa. Em ambos os casos, as lógi-
riscos de preconceitos e enviesamentos te, novos poderes estão ganhando cas das mídias – tomadas como uma
humanos, os substituímos pela “eficá- protagonismo, seja para desmontar instituição semi-independente pelo
cia”, “rigor”, “confiabilidade” e “impar- lógicas vigentes ou para reiterá-las, protagonismo que assumiram – pas-
cialidade” dos sistemas automatizados, embalados em verdadeiras caixas sam a ser elementos institucionali-
e acabamos não vendo – ou só desco- -pretas às quais a sociedade não tem zados e estruturantes das interações
brindo mais tarde – que, na verdade, qualquer acesso. dos atores individuais, dos coletivos
os algoritmos podem adotar prejulga- (agrupamentos identitários de ato-
mentos tanto quanto qualquer pessoa. res individuais articulados sob dife-
Um bom exemplo disso é o caso da rentes ordenamentos organizacio-
ferramenta que a Amazon usava para “Essa mesma nais da sociedade, como “cidadãos”,

potencialidade
selecionar candidatos a emprego. Em “consumidores”, “internautas” etc.)
2015, a empresa descobriu que o siste- e das instituições. Um bom exemplo
27
ma tinha um viés contra as mulheres,
dando preferência, na sua caça aos ta- de expressão, de midiatização recente são as es-
tratégias midiáticas acionadas pela
lentos, por candidatos do sexo mascu-
lino. Ainda que a gigante tecnológica até incentiva- Operação Lava Jato, como forma de
visibilização das ações de combate à
tenha anunciado o fim do programa de
recrutamento com machine learning, da, tem sido corrupção e a consequente busca de
apoio junto à opinião pública, reali-
muitas grandes empresas têm inves-
tido em processos automatizados na
crescentemen- zadas pelas instituições judiciárias
ou mesmo pelos atores individuais
hora de contratar seus funcionários. te capturada (juízes, procuradores, policiais).
Mas a complacência com os algorit-
mos não se restringe apenas ao pú- por projetos de No que diz respeito mais especifi-
camente aos atores individuais, vi-
blico geral. Até mesmo a imprensa,
muitas vezes, tem apenas exaltado, controle, seja vemos sob um ethos cada vez mais
participativo, com o qual se con-
acriticamente, os feitos da inteligên-
cia artificial. E os usuários, encanta- por empresas solida crescentemente o chamado
para estarmos o tempo todo online,
dos com os produtos e serviços gra-
tuitos que empresas como Google e
e governos” através, por exemplo, dos perfis nas
redes sociais online ou do uso de dis-
Facebook lhes fornecem, não per- positivos digitais, a partir dos quais
cebem adequadamente como têm são capturados todos os tipos de
estado a serviço delas ao produzir informação sobre nós. Os que estão
IHU On-Line – Como o pro-
o principal insumo de seus modelos
cesso de midiatização tem im-
de negócio e que as transformou em 10 Eliseo Verón (1935-2014): foi um semiótico, sociólogo
pactado os processos sociais? e filósofo argentino. Sua formação é de filósofo e sociólo-
corporações mastodônticas globais: go. Verón procurou elaborar uma síntese entre psicanálise,
De que ordem passam a ser as
dados. Mesmo para aquelas empre- marxismo e linguística estrutural. Estudou a comunicação
relações humanas mediadas associada a fatores políticos e discursos sociais nos meios
sas cujos serviços e produtos são co- de comunicação, e adotou uma interpretação ideológica
por máquinas? dos meios de comunicação. Da linguística, ele retirou os
brados, como Apple, Netflix e Ama- fundamentos para usar nas ciências sociais, sua referência
zon, os usuários continuam a ser Paulo César Castro – Muitas foi a obra de Ferdinand Saussure. Verón seguiu a trajetória
de seu professor Claude Lévi-Strauss. Com Carlos E. Sluzki,
verdadeiras engrenagens do capita- são as dimensões e vários são os fe- diretor do Centro de Pesquisas Psiquiátricas do serviço
de Neuropsiquiatria da Policlínica de Lánus, pesquisou os
lismo informacional do qual essas e nômenos pelos quais as tecnologias comportamentos e os sistemas de representação, relacio-
outras várias empresas são exempla- de comunicação e de transmissão nando a psicanálise com a teoria da comunicação. Verón
também abordou questões epistemológicas e a teoria de
res perfeitos. Por fim, eu diria que de informações têm transformado Weber e Parsons. (Nota da IHU On-Line)

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TEMA DE CAPA

integrados ao novo ethos, armados em tempo real, para que sejam fei- Já não é mais tão fácil saber onde co-
com seus dispositivos digitais, têm tos os ajustes com a rapidez que a meça uma esfera e termina a outra,
seus dados processados por algorit- necessidade requerer. Na medida a exemplo dos seus contornos que
mos que, como resultado, prome- em que empresários, governantes começaram a ser mais bem demar-
tem livrá-los dos spams, informá-los e representantes de outras institui- cados na passagem do século XVIII
que estão caminhando pouco e que ções atuarem para que os projetos para o XIX, como apontou Richard
precisam se exercitar, indicar-lhes o de empresas inteligentes sejam co- Sennett11. O ethos participativo que é
melhor caminho para fugir dos en- laborativos e abertos à participa- uma das características do momento
garrafamentos ou alçá-los ao olimpo ção da maior quantidade de atores, atual parece demandar uma exposi-
dos digital influencers. principalmente dos trabalhadores, ção constante do privado como mar-
penso que maiores serão as chances ca distintiva da ocupação dos espaços
de sucesso, inclusive de correção dos online. A intimidade, que, no século
IHU On-Line – Ainda nos vieses e erros em que os algoritmos XIX, era guardada nos espaços da
primórdios da internet, come- venham a incorrer, para prejuízo da casa, passa a ser exibida como trunfo
moram-se as possibilidades sociedade. Se a quarta revolução tem no ambiente público das redes, seja
de construções colaborativas, entre seus pilares a Internet das Coi- por puro diletantismo, manifesta-
abertas e sempre em constante sas, esta é, por si só, uma tecnologia ção política ou com fins comerciais.
atualização. Em que medida a na qual a ideia de colaboração, entre Em todas essas e outras possíveis
Revolução 4.0, e especialmen- os objetos, é fundamental. razões, o aplauso público do privado
te a tecnologia tão avançada de
é medido com likes, compartilha-
algoritmos, tem frustrado essa
mentos, comentários... Até mesmo
expectativa?
Paulo César Castro – O quadro “Não por acaso o trabalho, historicamente exercido
no espaço público das instituições
tecnológico atual pode ser medido
pela capacidade de atualização cons- há previsões de governamentais e empresariais, foi
impactado pelas possibilidades pro-
tante de diferentes cenários, já que a
coleta, tratamento e processamento
que, até 2030, dutivas criadas por ferramentas e
aplicativos digitais. O home office é
28 dos dados são atividades realizadas
concomitantemente e em tempo
com a adoção a expressão que demonstra como o
trabalho tem voltado cada vez mais
real. Uma exemplificação dessa si-
tuação pode ser vista com o funcio-
mais rápida a ser praticado nos lares. O oposto
disso, mas que reforça ainda mais a
namento do aplicativo Waze, que dá
dicas sobre a situação do trânsito e
da automação confusão atual entre público e pri-
vado, são as situações em que, para
das condições das ruas a partir da
colaboração dos seus usuários. Ape-
pelas o ambiente de trabalho, são levadas

empresas, 800
as atividades de lazer e de entrete-
nas com o aplicativo ligado em seus nimento que, antes, eram exercidas
dispositivos, os usuários concedem
os dados para que o algoritmo cal- milhões de nos momentos de privacidade.

humanos serão
cule a velocidade média dos carros,
meça o tempo entre uma via e outra IHU On-Line – Como os concei-
e aprenda o sentido das ruas, cola-
borando para que outros motoristas substituídos tos de liberdade e controle se re-
lacionam no ciberespaço hoje?
fujam de engarrafamentos e gastem
o menor tempo entre um ponto e por robôs em Paulo César Castro – Desde que
foi aberta à exploração comercial
outro. Os usuários podem ser mais
ativos publicando informações sobre todo o mundo” e teve ampliado seu uso para além
das instituições militares e das uni-
acidentes, buracos, bloqueios, blitze
versidades, a internet foi vista como
e outras intempéries.
um espaço potencial de exercício da
Não acho que a Revolução 4.0 frus- liberdade. Essa esperança aumentou
IHU On-Line – Que nexos são
tre, ou deva frustrar, a expectativa mais ainda com o advento da web
possíveis de estabelecer entre o
das construções colaborativas, até 2.0, com as redes sociais online e
público e o privado numa socie-
porque depende delas para que re- com os dispositivos móveis. O uso de
dade em rede?
almente seja eficaz em sua proposta, tais recursos resultou em momen-
devendo ser guiada por princípios Paulo César Castro – As tec-
como os colocados em prática pelo nologias digitais que propiciaram 11 Richard Sennett (1943): é um sociólogo e historiador
norte-americano, professor da London School of Econo-
Waze. Ou seja, para tomar decisões, as sociabilidades em rede foram as mics, do Massachusetts Institute of Technology e da New
as máquinas precisam de vastos mesmas que acentuaram o curto- York University. É também romancista e músico. Casado
com a socióloga Saskia Sassen, sua obra mais conhecida é
conjuntos de dados, de preferência circuito entre o público e o privado. O declínio do homem público. (Nota da IHU On-Line)

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tos importantes, de maior ou menor que as várias bases de dados sobre tar fugir dessa vigilância orwelliana,
monta, para a atuação política cida- nós forem cruzadas pelos diferentes mas estamos cada vez mais fadados
dã em vários lugares no mundo, e a atores empresarias e estatais, maior a não conseguir.
internet ainda se configura como a será o controle e a vigilância. Convi-
ferramenta capaz de dar voz a seg- do a um exercício de reflexão sobre
mentos sociais que nunca tiveram,
no modelo dos meios de comunica-
o que pode ser dito a nosso respeito,
como seremos classificados e ran-
“Se a quarta
ção de massa, a chance de se ma-
nifestar. Entretanto, essa mesma
queados, quando dados oriundos
do uso cotidiano de nossos celulares
revolução
potencialidade de expressão, até in-
centivada, tem sido crescentemente
e computadores, das informações
que fornecemos quando fazemos um
tem entre
capturada por projetos de controle,
seja por empresas ou governos. Um
cadastro, em busca de descontos, e
compramos em farmácias, postos de
seus pilares
bom exemplo é o sistema de pontua- combustíveis, hortifrútis, são cru- a Internet das
ção de crédito que o governo chinês zados com dados em programas de
pretende implementar, até 2020, milhagem, planos de saúde, seguros Coisas, esta é,
para toda sua população. Quando
em funcionamento, cada cidadão do
de automóveis, redes sociais e com
as nossas informações guardadas por si só, uma
país será rastreado e classificado a
partir de suas impressões digitais e
pelos órgãos públicos. É assustador
pensar que todas as nossas mínimas tecnologia na
outras características biométricas,
suas compras, passatempos, des-
ações cotidianas estão sendo rastre-
adas e podem vir a ser usadas para qual a ideia de
locamentos, uso de redes sociais,
numa combinação de dados de fon-
nos controlar.
colaboração,
tes públicas, mas também privadas,
o que resultará em um escore de cré- IHU On-Line – Quem são, ou o entre os
dito social individual. Esse é um dos
projetos de controle mais totalitários
que são, os agentes que captu-
ram dados nas redes?
objetos, é 29
de que já tomei conhecimento nos Paulo César Castro – Os agentes fundamental”
últimos tempos, ainda que, eviden- são todas as empresas com as quais
temente, existam muitos outros de mantemos qualquer tipo de relação,
menor porte em funcionamento sem seja através de uma conta de e-mail,
que a sociedade seja avisada. IHU On-Line – De que formas
um perfil de rede social, a assinatura as novas tecnologias e as ope-
de um serviço digital, mas também
rações em rede têm ressignifi-
quando fazemos uma consulta em
IHU On-Line – Quais os desa- cado as relações em clássicos
um mecanismo de busca, quando
fios para se compreender o que campos como o da Educação
usamos um aplicativo, um game.
significa controle e vigilância e da Saúde? E em quais ou-
Quando compramos um celular,
nas redes? Por que o mercado tros campos se percebe maior
um computador, um e-reader, uma
de dados passa a ser um verda- transformação?
smart tv – e não vai demorar muito,
deiro tesouro em nosso tempo? Paulo César Castro – O alcan-
com a Internet das Coisas, quando
Paulo César Castro – O controle adquirirmos qualquer produto –, ce das tecnologias digitais está tão
e a disciplina dependem fundamen- não realizamos mais apenas uma espraiado que será difícil encontrar
talmente da vigilância, e os disposi- mera transação comercial cuja con- um setor da vida cotidiana que não
tivos digitais que usamos têm sido sequência mais banal é levar o pro- tenha sido impactado por elas. O
explorados com esses objetivos, de duto para casa; na verdade, estabele- que podemos considerar é qual está
natureza comercial ou política. É a cemos um vínculo com as empresas, mais ou menos afetado. No que diz
partir deles que geramos os dados cujos termos de uso geralmente respeito aos campos da Educação e
que, armazenados e processados não lemos, no qual está implícito – da Saúde, a dificuldade será avaliar
por diferentes algoritmos, vão dizer ou mesmo explícito – que, dali em a partir de qual aspecto eles foram
quem somos, quais as nossas reputa- diante, alimentaremos com nossos mais transformados. Os casos da
ções, se somos perigosos ou inofen- dados as bases delas. Há situações educação a distância e da teleme-
sivos, se merecemos ou não o finan- em que, mesmo que não queiramos dicina podem ser tomados como os
ciamento pedido – e sob qual taxa de ser monitorados pelo produto que exemplos mais visíveis da aplicação
juros –, se seremos ou não aceitos compramos, as opções são draco- das tecnologias digitais sobre os
pela seguradora de saúde. Nesse ce- nianas: ou nos submetemos ou não dois campos, mas por causa delas
nário, portanto, os dados são, sim, usamos – como é o caso do sistema também têm sido transformadas as
um verdadeiro tesouro. E à medida operacional Windows. Devemos ten- relações entre professores e alunos,

EDIÇÃO 544
TEMA DE CAPA

médicos e pacientes, entre institui- projeto político de extrema direita nhecimento sobre as lógicas das
ções educacionais e de saúde com os com proposta de alcance mundial, tecnologias de nosso tempo?
profissionais e com a sociedade. A para eleição de dirigentes de vários
Paulo César Castro – Sem dúvida
partir das informações disponíveis países – ainda que baseado na re-
nenhuma. Eu diria que representará
na web, os alunos e os pacientes não valorização do nacionalismo como
quase que uma nova alfabetização. Se
são mais os mesmos na sala de aula forma de crítica à globalização e ao a maioria das pessoas diz não se im-
e no consultório e, evidentemente, o multilateralismo, na renovação do portar com o uso de seus dados pelas
mesmo pode se dizer dos profissio- apego aos valores conservadores empresas ou pelos governos é por-
nais das duas áreas. cristãos, dos discursos contrários que ainda não se conscientizou sobre
às minorias, entre outros aspec- como estão sendo exploradas. Claro
tos –, que tem como tática funda- que eles podem ser utilizados de modo
IHU On-Line – Que relação há
mental a desinformação. Um dos a nos proporcionar ganhos positivos,
entre as chamadas fake news e
principais ideólogos desse proje- facilidades no dia a dia, maior partici-
o controle e vigilância sobre o
to é o americano Steve Bannon 12, pação do debate público, mas podem
comportamento de usuários na
que foi coordenador de marketing também estar a serviço de projetos de
internet?
da campanha eleitoral de Donald poderes políticos e econômicos escu-
Paulo César Castro – O que Trump13, diretor do site de extre- sos, em que o controle e a vigilância
chamamos hoje de fake news não ma direita Breitbart e membro do poderão ser exercidos por empresas
é um fenômeno novo; o que há de conselho da Cambridge Analyti- e Estados com objetivos totalitários,
diferente é o seu impacto, já que ca 14, consultoria acusada de usar seja para aniquilar os adversários co-
as possibilidades de circulação de indevidamente os dados de milha- merciais e nos impor seus produtos e
informações falsas, fabricadas, de- res de usuários do Facebook para serviços, ou, como pretende o governo
turpadas ou cujos relatos ou dados enviar a eles fake news e, assim, chinês, para manter um olhar sempre
não se apoiam em fatos reais real- interferir nas eleições americanas atento sobre seus cidadãos e, assim,
mente é muito maior. Informações de 2016. dominá-los.
falsas sobre possíveis malefícios das
vacinas, que se transformam em Há cerca de duas semanas, o go-
30 verdadeiras campanhas antivacina, IHU On-Line – Houve um tem- verno Bolsonaro editou o decreto
de teor geralmente sensacionalista, po em que a informação era 10.046, no qual está previsto o
têm sido uma das faces mais preo- fundamental para a formação compartilhamento de informações
cupantes desse fenômeno que Clai- cidadã. Podemos considerar pessoais de todos os brasileiros
re Wardle e Hossein Derakhshan pelos órgãos da administração pú-
que, hoje, além da informação, a
chamam de desordem informacio- blica federal, inclusive biométri-
formação cidadã depende de co-
nal, no relatório para o Council of cos e genéticos. Pode ser uma boa
Europe. O campo da política tem 12 Steve Bannon (1953): é um assessor político estadu-
iniciativa, caso não precisemos
sido também um dos mais impac-
nidense que foi assistente do presidente e estrategista- mais de tantos documentos para
chefe da Casa Branca no governo Trump. Como tal, parti-
tados pelas campanhas deliberadas cipou regularmente do Comitê de Diretores do Conselho provar quem somos quando tiver-
de Segurança Nacional dos Estados Unidos, entre 28 de
de desinformação, inclusive sendo janeiro e 5 de abril de 2017, quando foi demitido. Antes
mos que nos identificar aos órgãos
usadas como estratégia de gover-
de assumir tal posição da Casa Branca, Bannon foi diretor estatais. O problema é que o proje-
executivo da campanha presidencial de Donald Trump, em
nantes, que, no geral, usam a ex- 2016. (Nota da IHU On-Line) to não prevê como o cidadão será
13 Donald Trump (1946): Donald John Trump é um em- informado quando seus dados fo-
pressão fake news para desqualifi- presário, ex-apresentador de reality show e atual pre-

car o trabalho da imprensa.


sidente dos Estados Unidos. Na eleição de 2016, Trump rem compartilhados e com quais
foi eleito o 45º presidente norte-americano pelo Partido
Republicano, ao derrotar a candidata democrata Hillary objetivos, e inclusive não leva em
O controle e a vigilância de usu- Clinton no número de delegados do colégio eleitoral; no conta devidamente a Lei Geral de
entanto, perdeu no voto popular. Entre suas bandeiras es-
ários na internet, através de algo- tão o protecionismo norte-americano, por onde passam Proteção de Dados aprovada em
questões econômicas e sociais, como a relação com imi-
ritmos, podem ser instrumentos grantes nos Estados Unidos. Trump é presidente do con- 2018. O momento, portanto, exi-
importantes da eficácia das falsas glomerado The Trump Organization e fundador da Trump ge uma formação cidadã, crítica, a
Entertainment Resorts. Sua carreira, exposição de marcas,
informações, na medida em que, vida pessoal, riqueza e modo de se pronunciar contribuí- respeito das potencialidades mas
ram para torná-lo famoso. (Nota da IHU On-Line)
com o conhecimento detalhado do 14 Cambridge Analytica: foi uma empresa privada que
também dos riscos a que estamos
comportamento dos internautas, combinava mineração e análise de dados com comu- expostos quando nossos dados são
nicação estratégica para o processo eleitoral. Foi criada
é possível dirigir a eles as men- em 2013, como um desdobramento de sua controladora capturados por tecnologias digi-
sagens que mais possam refor- britânica, a SCL Group para participar da política estaduni-
dense. Em 2014, a CA participou de 44 campanhas políti-
tais cujo funcionamento só é pos-
çar seus medos, insatisfações ou cas. A empresa é, em parte, de propriedade da família de sível com os algoritmos. Dentro
Robert Mercer, um estadunidense que gerencia fundos de
posições políticas extremadas e cobertura e que apoia muitas causas politicamente con- dessas verdadeiras caixas-pretas,
orientar suas decisões para os não servadoras. A empresa mantinha escritórios em Nova York,
Washington, DC e Londres. Em 2015, tornou-se conheci-
como os chama Frank Pasquale, é
declarados objetivos de alienação, da como a empresa de análise de dados que trabalhou que estão embutidas as lógicas ca-
inicialmente para campanha presidencial de Ted Cruz. Em
polarização, construção de bolhas 2016, após a derrota de Cruz, a CA trabalhou para a cam- pitalistas e de poder político, eco-
ideológicas e de câmaras de eco. panha presidencial de Donald Trump e também para a do nômico e cultural que pretendem
Brexit, visando a saída do Reino Unido da União Europeia.
A meu ver, há um bem pensado (Nota da IHU On-Line) nos capturar. ■

4 DE NOVEMBRO | 2019
REVISTA IHU ON-LINE

Os riscos da “gourmetização”
na Educação 4.0
Roberto Dias da Silva traz questionamentos sobre as transformações
que a Revolução 4.0 leva à Educação, reconfigurando a sala
de aula de um espaço de pensamento para um ‘quiz’
João Vitor Santos

O
mundo já não é mais como era, necessidade de preservar as possibili-
as crianças e jovens também dades de uma pauta formativa comum
não; logo, a escola precisa se e, mais que isso, posicionar o conhe-
transformar. Em si, não há problema cimento escolar (acessível a todos)
nessa afirmação. O problema está em como uma ferramenta de combate às
pensar no que consiste essa transforma- desigualdades”. Por isso, indica que
ção da escola. O professor Roberto Dias “as articulações entre educação e tec-
da Silva traz algumas provocações nesse nologias digitais, em termos curricu-
sentido. Segundo ele, a emergência de lares, implicam em seguir valorizando
trazer para a sala de aula um ambien- a escola como um espaço em que se
te revolucionário e tecnológico, típico aprende a pensar”. Afinal, como resu-
da Revolução 4.0, tem proporcionado me, “inovação metodológica desprovi-
algumas distorções. “Com a finalidade da de um debate sobre os propósitos 31
de formar os novos líderes globais, as- formativos resvala facilmente para
sistimos ao advento de novos dispositi- certo utilitarismo”.
vos de estetização pedagógica marcados Roberto Rafael Dias da Silva
pela personalização, pela customização é doutor em Educação, professor do
e pela gourmetização dos fazeres esco- Programa de Pós-Graduação em Edu-
lares”, aponta, na entrevista concedida cação da Universidade do Vale do Rio
por e-mail à IHU On-Line. dos Sinos - Unisinos, onde atua na
O maior problema, pontua o profes- linha de pesquisa “Formação de pro-
sor, é quando, na sala de aula, se relega fessores, currículo e práticas pedagó-
o espaço do pensar em prol de grandes gicas”. Recentemente, publicou os se-
performances educativas. Em muitos guintes textos: Curricular policies for
casos, como ele aponta, a preocupação Secondary Education in Latin Ame-
parece estar só na performance. “Em rica: Between capacities and oppor-
termos pedagógicos, tenho interroga- tunities (revista European Journal
do sobre o futuro da aula – não com of Curriculum Studies), Currículo e
uma atitude nostálgica –, mas procu- conhecimento escolar na sociedade
rando delinear possibilidades para as das capacitações: o Ensino Médio em
escolas e as universidades. O que fazer perspectiva (revista E-Curriculum) e
quando a aula deixa de ser um ‘espaço Investir, inovar e empreender: uma
de pensamento’ e se converte em um nova gramática curricular para o
‘quiz’?”, questiona. Ensino Médio brasileiro (revista Cur-
Para Roberto, “o desafio que preci- rículo sem Fronteiras).
samos tratar com cautela refere-se à Confira a entrevista.

IHU On-Line – Como a Revo- Roberto Rafael Dias da Sil- tização pedagógica, aprendizagens
lução 4.0 impacta os processos va – Minhas investigações recentes ativas e práticas curriculares no Bra-
de ensino e aprendizagem? centram-se nas relações entre este- sil. Examino alguns relatos de expe-

EDIÇÃO 544
TEMA DE CAPA

riências exitosas, de práticas nome- para o Fórum Econômico Mundial, do mão de uma literatura crítica, de
adas como inovadoras e interativas, toma forma a perspectiva de que caráter heterodoxo, que me permite
e por meio deles procuro descrever “em sua escala, escopo e complexi- maior mobilidade analítica. As no-
e analisar suas implicações para dade, a quarta revolução industrial ções de “nova morfologia do traba-
a composição de uma agenda for- é algo que considero diferente de lho”, do brasileiro Ricardo Antunes3,
mativa no século XXI. Desenvolvo tudo aquilo que já foi experimentado de “cosmocapitalismo”, de Christian
uma leitura marcada pelas ambi- pela humanidade” (SCHWAB, 2016, Laval4 e Pierre Dardot5, de “novo ca-
valências, uma vez que questiono a p. 11). De acordo com o autor, a am- pitalismo” de Richard Sennett6 e de
incapacidade destas novas práticas plitude e a velocidade das mutações “estetização ilimitada do mundo” de
em produzir dispositivos de go- em curso produzem significativos Gilles Lipovetsky7, têm me ofertado
vernança escolar democrática e de impactos não apenas no mundo pro- novas ferramentas conceituais para
enfrentamento das desigualdades; dutivo, mas também nas formas de ampliar o diagnóstico acerca da edu-
mas, ao mesmo tempo, reconheço comunicação, nas tecnologias e em cação no contexto da nomeada quar-
sua potencialidade para produzir nossas subjetividades. Em suas pala- ta revolução industrial.
novos arranjos formativos, com de- vras, que têm adquirido ampla circu-
No que tange aos desdobramen-
sign inovador e capaz de mobilizar lação em nosso país, “as mudanças
tos para as questões do ensino e da
nossas subjetividades. Em minha são tão profundas que, na perspec-
aprendizagem, ainda careceremos
última obra, lançada pela editora tiva da história humana, nunca hou-
de estudos com maior profundidade,
Cortez no decorrer deste mês1, ar- ve um momento tão potencialmente
uma vez que ainda predomina uma
gumento em favor de novas formu- promissor ou perigoso” (p. 12).
linguagem pouco crítica e com pou-
lações pedagógicas, capazes de am-
Questões como a inteligência arti- cas incursões empíricas em milhares
pliar nossos horizontes de reflexão
ficial, a internet das coisas, a nano- de escolas espalhadas pelo país. Os
por meio da promoção de leituras
tecnologia, a robótica, dentre outras, arautos das pedagogias inovadoras,
críticas e criativas para as deman-
parecem induzir mudanças também com suas reconhecidas boas inten-
das emergentes deste nosso tempo.
nas instituições, nas empresas e na ções, fazem apologias a determi-
Foi neste contexto investigativo que
sociedade civil, promovendo (com nadas concepções que somente re-
acabei construindo uma aproxima-
32 velocidade) novas formas organiza-
ção ao conceito de Revolução 4.0
tivas e de produção de conhecimen- 3 Grundrisse der Kritik der politischen Ökonomie
que comentarei neste momento. (Elementos fundamentais para a crítica da econo-
to. Destaca Klaus Schwab (2016), mia política): conjunto de anotações e estudos re-
Quando nos propomos a um exer- acerca deste aspecto, que “o conhe- alizados por Karl Marx entre 1857 e 1858. Sobre o
tema, foi publicada a edição 381 da IHU On-Line,
cício de pensar sobre a Contempo- cimento compartilhado passa a ser de 21-11-2011, intitulada Os Grundrisse de Marx
raneidade, seja em termos políticos especialmente decisivo para moldar- em debate, disponível em http://bit.ly/1kBLhBN,
além das entrevistas com Ricardo Antunes - Os
e econômicos, seja em termos cul- mos um futuro coletivo que reflita “Grundrisse”: uma mina para ajudar a descortinar
o século XXI, disponível em http://bit.ly/1rDKF8w,
turais ou pedagógicos, certamente valores e objetivos comuns” (p. 12). Antoine Artous - O mundo do trabalho e o mar-
estaremos diante de uma grande Todavia, o autor privilegia compor xismo, disponível em http://bit.ly/1ua0Fx0, e Jorge
Paiva - “Grundrisse” de Marx. Um outro paradig-
variedade de desafios, perspectivas uma justificativa para explicar por ma teórico para os desafios contemporâneos, dis-
ponível em http://bit.ly/1mKnQJx. (Nota da IHU
e controvérsias. No que tange a tais que estaríamos diante de uma “quar- On-Line)
desafios, em termos econômicos ad- ta revolução industrial”, procurando 4 Christian Laval: pesquisador e professor de so-
ciologia da universidade Paris-Ouest Nanterre-La
quiriu relevância na última década a demonstrar que não se trata apenas Défense. É autor de L’Homme économique: Essai
sur les racines du néoliberalisme (Gallimard, 2007)
hipótese de que estaria emergindo de ufanismo tecnológico, mas a de- e também de um volume de história da sociolo-
uma “quarta revolução industrial”. marcação de uma efetiva coexistên- gia, L’ambition sociologique (Gallimard, 2012). Pu-
blicou no Brasil, juntamente com Pierre Dardot,
A partir dos escritos sistematiza- cia entre tecnologia e sociedade. o livro A nova razão do mundo (Boitempo, 2016).
dos por Klaus Schwab2, preparados (Nota da IHU On-Line)
5 Pierre Dardot: filósofo e pesquisador da uni-
Educação no contexto da versidade Paris-Ouest Nanterre-La Défense, espe-
cialista no pensamento de Marx e Hegel. Desde
1 SILVA, Roberto Rafael Dias da. Customização Revolução 4.0 2004, com Christian Laval, coordena o grupo de
curricular no Ensino Médio: elementos para uma estudos e pesquisa Question Marx, que procura
crítica pedagógica. São Paulo: Cortez, 2019. (Nota contribuir com a renovação do pensamento críti-
do entrevistado) O conceito de Revolução 4.0, ape- co. Publicou no Brasil, juntamente com Christian
2 SCHWAB, Klaus. A quarta revolução industrial. sar de sua potencialidade, na teoria Laval, o livro A nova razão do mundo (Boitempo,
São Paulo: Edipro, 2016. (Nota do entrevistado) 2016). (Nota da IHU On-Line)
Klaus Schwab (1938): engenheiro e economista social contemporânea tem se mos- 6 Richard Sennett (1943): é um sociólogo e his-
nascido na Alemanha, é fundador e presidente toriador norte-americano, professor da London
executivo do Fórum Econômico Mundial. Escre- trado insuficiente para explicar como School of Economics, do Massachusetts Institute
veu o livro A Quarta Revolução Industrial, lançado único princípio de inteligibilidade of Technology e da New York University. É tam-
no Brasil pela editora Edipro. Em 1971, Schwab bém romancista e músico. Casado com a soció-
lecionava Universidade de Genebra, Suíça, quan- as condições sociais emergentes em loga Saskia Sassen, sua obra mais conhecida é O
do convidou 444 executivos de empresas da Eu- nosso tempo. Para caracterizar as declínio do homem público. (Nota da IHU On-Line)
ropa Ocidental para o primeiro Simpósio Europeu 7 Gilles Lipovetsky (1944): filósofo francês, pro-
de Gestão. O evento foi realizado no Centro de mudanças em curso na escolarização fessor de filosofia da Universidade de Grenoble,
Convenções de Davos, então recentemente cons- teórico da hipermodernidade, autor dos livros
truído. O encontro teve patrocínio da Comissão juvenil, por exemplo, tenho lança- A Era do Vazio, O luxo eterno, O império do efê-
Europeia e das associações industriais do conti- mero, entre outros. Sobre o tema, confira a edi-
nente. O objetivo de Schwab era introduzir as ção 105 da revista IHU On-Line, edição 105, de
empresas europeias nas práticas de gestão dos ses de janeiro anualmente, líderes empresariais 14-6-2004, intitulada Moda. Luxo. Uma socie-
Estados Unidos. Para tanto, fundou o Fórum de europeus para Davos. O nome do fórum mudou dade cosmética, disponível para download em
Gestão Europeu, organização sem fins lucrativos para World Economic Forum em 1987. (Nota da http://www.ihuonline.unisinos.br/uploads/edico-
localizada em Genebra, convocando todos os me- IHU On-Line) es/1158262259.25pdf.pdf. (Nota da IHU On-Line)

4 DE NOVEMBRO | 2019
REVISTA IHU ON-LINE

percutem nas escolas privadas das Associa-se a este cenário o pro- povetsky e Serroy10, um capitalismo
principais regiões metropolitanas cesso de emergência de um novo artista favorece uma intensificação
brasileiras. agenciamento pedagógico, sugerin- das lógicas do estilo e do design em
do novas conexões entre os saberes favor de uma vida mais leve, lúdica
e a centralidade da aprendizagem. e interativa11. Em termos pedagógi-
IHU On-Line – No que consis- A referida reportagem, neste aspec- cos, tenho interrogado sobre o fu-
te a estetização pedagógica e to, lança mão de inúmeras peque- turo da aula – não com uma atitude
quais as influências da Revolu- nas entrevistas – incorporadas ao nostálgica –, mas procurando deli-
ção 4.0 nesta prática? texto – com consultores e diretores near possibilidades para as esco-
Roberto Rafael Dias da Silva – executivos de importantes grupos las e as universidades. O que fazer
Gostaria de começar a responder a esta educacionais privados. Exemplar quando a aula deixa de ser um “es-
pergunta por meio de outra indagação: nesta direção é o posicionamento de paço de pensamento” e se converte
você deseja que seus filhos cresçam e se um reconhecido consultor no campo em um “quiz”12? Paradoxalmente,
desenvolvam como líderes e cidadãos das tecnologias digitais em educação outras literaturas sinalizam as po-
globais? Por meio desta interrogação, o que afirma que “a escola não pode tencialidades formativas emergen-
editorial de uma importante revista do estar fechada em condomínios men- tes deste cenário.
mundo corporativo8 desafiava seus lei- tais”. Ou ainda, a fala da diretora
tores, em novembro do ano passado, a executiva de um sistema de ensino:
pensar sobre as possibilidades de uma
“educação 4.0”. Sob o título “Forman-
“queríamos oferecer uma escola que
rompesse definitivamente os para-
“As articulações
do os líderes do futuro”, o periódico,
por meio de uma longa reportagem,
digmas da dinâmica escolar atual ao
tirar o foco do ensino e colocá-lo na
entre educação
atribuía ênfase às proposições educa-
cionais das escolas de elite, aos gran-
aprendizagem”. e tecnologias
des empreendimentos no setor, aos Modernidade
em declínio?
Pedagógica digitais,
avanços tecnológicos, à necessidade de
inovações metodológicas e às novas po-
Distanciando-me da possibilidade
em termos 33
curriculares,
tencialidades emergentes da educação
de produzir discordâncias em torno
digital. O escopo argumentativo da re-
desta “doxa curricular contempo-
portagem sugeria que “as novas escolas
de elite se propõem a preparar os alu-
rânea”, hoje predominante como
explica José Augusto Pacheco9, mi-
implicam
nos desde cedo para serem cidadãos do
mundo, capazes de resolver problemas
nha intenção aqui – de forma bas-
tante modesta – sugere a constru-
em seguir
globais e de gerir seus próprios empre-
endimentos”.
ção de um campo de controvérsia valorizando a
em torno destas questões. Com tal
A nomeada “educação 4.0”, tal atitude, em minhas investigações escola como
como esboçada nos discursos peda-
um espaço em
pretendo aceitar os desafios advin-
gógicos contemporâneos, sugere a dos para as teorias curriculares;
proposição de novos modos de or-
ganização do trabalho escolar e, ao
porém, buscando delinear algumas
de suas principais lacunas. As cons- que se aprende
mesmo tempo, outros saberes e pers-
pectivas para a formação humana no
truções da Modernidade Pedagógi-
ca – como o ensino e a transmissão a pensar”
século XXI. Ainda de acordo com o cultural – entraram em declínio?
texto jornalístico mencionado, “flu-
Com a finalidade de formar os no-
ência digital, empreendedorismo, IHU On-Line – Num mundo
vos líderes globais, assistimos ao
sustentabilidade, autonomia e habili- regido pelo estímulo e pela in-
advento de novos dispositivos de
dade para enxergar a necessidade do teratividade, a que transfor-
estetização pedagógica marcados
outro hoje são matérias tão impor-
pela personalização, pela customi-
tantes na formação desse futuro líder
zação e pela gourmetização dos fa- 10 Jean Serroy: é professor da Universidade de
quanto os conhecimentos de ciências
zeres escolares. Como explicam Li- Grenoble, na França, e autor de várias obras sobre
e matemática”. Como podemos cons- a literatura do século XVII e sobre cinema, entre
eles Entre deux siècles: 20 ans de cinema contem-
tatar, parece projetar-se uma reor- porain. Com Gilles Lipovetsky, publicou também A
ganização dos currículos escolares tela global: mídias culturais e cinema na era hiper-
9 PACHECO, José Augusto. Educação, formação e moderna (Sulina). (Nota da IHU On-Line)
visando a formação de competências conhecimento. Porto: Porto Editora, 2014. (Nota 11 LIPOVETSKY, Gilles; SERROY, Jean. A Estetização
do entrevistado) José Augusto Pacheco: licen- do Mundo: viver na era do capitalismo artista. São
para estes novos líderes globais. ciado em História, doutorou-se, na Universidade Paulo: Companhia das Letras, 2015. (Nota do en-
do Minho, em Ciências da Educação, especialida- trevistado)
de em Desenvolvimento Curricular. Atualmente, 12 SILVA, Roberto Rafael Dias da. Estetização Pe-
concilia a Presidência do Instituto de Educação dagógica, Aprendizagens Ativas e Práticas Curri-
8 Revista Forbes, edição de novembro/2018. Aces- da UMinho, com a docência e pesquisa. (Nota da culares no Brasil.  Educação e Realidade, v. 43, n.
so: http://bit.ly/32HZbkB. (Nota do entrevistado) IHU On-Line) 2, p. 551-568, 2018. (Nota do entrevistado)

EDIÇÃO 544
TEMA DE CAPA

mações a relação entre aluno e obra “Polegarzinha16”, descreve com forme o autor, para a criação de uma
professor em sala de aula está certo entusiasmo as mudanças sub- “agitação intelectual permanente” –
submetida? jetivas que caracterizam as crianças modificando os fazeres pedagógicos,
e jovens de nosso tempo e, concomi- promovendo outros sentidos para a
Roberto Rafael Dias da Silva
tantemente, o advento de um novo aquisição de conhecimentos e o per-
– Para responder a esta indagação,
estatuto do saber. O excerto a seguir manente diálogo com o entorno da
de modo a expandir estes parado-
consegue evidenciar o entusiasmo escola (incluindo o virtual).
xos, vou percorrer o caminho das
do filósofo em relação a esta questão.
potencialidades da estetização pe- Nos termos da centralidade de uma
dagógica. Quando delineamos uma O espaço do auditório universi- cultura digital, Dussel18 interroga-se
proposta curricular com foco nas tário se esboçava, antigamente, acerca da autoridade cultural dos
articulações entre conhecimento, como um campo de forças, cujo currículos escolares. Em sua pers-
tecnologias e inovação, precisamos centro orquestral de gravida- pectiva, ainda que interpelado de
reconhecer a pertinência de pensar de se encontrava no estrado, diferentes modos pela cultura con-
no ponto focal da cátedra, um
as relações pedagógicas de outros temporânea, o currículo conserva
PowerPoint ao pé da letra. Ali se
modos13. Porém, para começar esta situava a densidade pesada do relevância enquanto um documento
conversa sempre é importante enal- saber, quase nula ao redor. Ago- público. Explica-nos a pesquisadora
tecer as diferenças entre a escola ra distribuído por todo lugar, o latino-americana:
e as indústrias criativas, ou ainda saber se espalha em um espaço
potencializar a perspectiva de que homogêneo, descentrado, de O currículo segue tendo um pa-
movimentação livre (SERRES, pel importante em ajudar a co-
esta instituição continua sendo um
2018, p. 49). locar em destaque essas relações
espaço para aprender a pensar. e histórias, em dar oportunida-
Novos modos de pensamento e ou- des para socializar em práticas
Pérez-Gómez14, em elaboração re-
tras formas de relação com o saber culturais que permitam abordar
cente, reitera que “as finalidades da
emergem neste tempo em que as ar- essa tarefa com confiança, com
escola devem concentrar-se no pro- desejo. Seria desejável que a te-
ticulações entre tecnologias e inova-
pósito de ajudar a cada aprendiz a oria curricular não abandonas-
ção perfazem os currículos escolares.
construir seu próprio projeto de vida se a busca por novos mapas que
O desafio que precisamos tratar com
34 (pessoal, social, acadêmico e profis- circulem e transportem saberes,
cautela refere-se à necessidade de que sejam a matéria e o objeto
sional), transitando em seu próprio
preservar as possibilidades de uma de disputa e que permitam si-
caminho da informação ao conheci-
pauta formativa comum e, mais que tuar-se em um território mais
mento e do conhecimento à sabedo-
isso, posicionar o conhecimento es- amplo (DUSSEL, 2014, p. 17-18).
ria” (p. 71).
colar (acessível a todos) como uma
Nas palavras do pesquisador, pre- ferramenta de combate às desigual- Escola: espaço em que se
cisamos reconhecer que a era digital dades. Em outras palavras, tende- aprende a pensar
requer da escola uma “nova ilustra- mos a nos distanciar de posiciona-
mentos pedagógicos que apregoam Assim sendo, reconhecemos a per-
ção”. Isto é, buscando superar “o
a “customização curricular”, como tinência de preservar em nossos
velho e dualista pensamento carte-
sinalizei em minha última obra. debates e em nossas propostas cur-
siano” (p. 69), levando em conside-
riculares os aspectos que fomos des-
ração a complexidade da vida con-
Aprofundando esta reflexão sobre a tacando ao longo desta resposta. As
temporânea e os novos modos de
ênfase na inovação, faz-se importan- articulações entre educação e tecno-
pensamento que emergem com os
te salientar que esta se movimenta logias digitais, em termos curricula-
estudantes do século XXI. O filóso-
por variados processos de melhoria res, implicam em seguir valorizando
fo Michel Serres15, em sua conhecida
e de transformação. No que tange à a escola como um espaço em que se
instituição escolar, explica-nos Car- aprende a pensar, em preservar as
13 VEIGA-NETO, Alfredo; LOPES, Maura. Para pen- bonell-Sebarroja17 que seria neces-
sar de outros modos a modernidade pedagógica. possibilidades de construção de uma
ETD Educação Temática Digital, v. 12, n.1, p. 147- sário mudar, a partir de “distintos pauta formativa comum e do en-
166, 2010. (Nota do entrevistado)
14 PÉREZ-GÓMEZ, Ángel. Aprender a pensar para graus de radicalidade”, envolvendo tendimento da inovação como uma
poder elegir: la urgencia de una nueva pedago- os conteúdos curriculares, os mo-
gía. In: SACRISTÁN, José Gimeno (Org.). Los con- ambiência de “agitação intelectual
tenidos: una reflexión necesaria. Madrid: Morata, dos de ensinar e aprender, a parti- permanente”.
2017, p. 67-75. (Nota do entrevistado)
15 Michel Serres (1930-2019): filósofo e histo- cipação da comunidade educativa,
riador das ciências francês. Escreveu entre ou- dentre outros aspectos. Os processos Atribuir ao currículo a autorida-
tras obras “O terceiro instruído” e “O contrato de cultural necessária às demandas
natural”. Atuou como professor visitante na USP. de inovação sinalizariam, ainda con-
Desde 1990 ele ocupa a poltrona 18 da Academia emergentes do século não significa
Francesa. Professor da Universidade de Stanford
e membro da Academia Francesa, escreveu inú- 16 SERRES, Michel. Polegarzinha. 3a ed. Rio de
abdicar das indispensáveis inova-
meros ensaios filosóficos e de história das ciên- Janeiro: Bertrand Brasil, 2018. (Nota do entrevis-
cias, entre os quais Os cinco sentidos, Notícias do tado)
mundo, Variações sobre o corpo, O incandescente, 17 CARNONELL-SEBARROJA, Jaume. Las pedago- 18 DUSSEL, Inés. ¿Es el curriculum escolar relevan-
Hominescências e Júlio Verne: A ciência e o ho- gías inovadoras y las visiones de los contenidos. te en la cultura digital? – debates y desafíos sobre
mem contemporâneo, todos títulos lançados no In: SACRISTÁN, José Gimeno (Org.). Los conte- la autoridad cultural contemporánea. Archivos
Brasil pela editora Bertrand Brasil. (Nota da IHU nidos: una reflexión necesaria. Madrid: Morata, Analíticos de Políticas Educativas, v. 22, n. 24, p.
On-Line) 2017, p. 77-82. (Nota do entrevistado) 1-22, 2014. (Nota do entrevistado)

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ções que a escola contemporânea conhecimento é central para a vez, podemos ponderar que o co-
pode engendrar. Mais que isso, a discussão de políticas sociais, nhecimento ocupa uma posição
nomeada “educação 4.0” – descri- econômicas, culturais e educati- central na organização da esco-
vas, não sendo possível alguém
ta na reportagem com que abrimos la e de seus currículos; todavia,
alhear-se, por um lado, da im-
esta conversa – pode adquirir signi- portância que as organizações importante reconhecer que este
ficativa relevância e potencialidade educativas assumem na comple- é derivado de uma escolha e que
pedagógica na medida em que esteja xa tarefa da produção e trans- tal processo precisa ser perma-
assentada em movimentos democrá- missão do conhecimento e, por nentemente revisitado. Supõe-se
ticos de escuta e negociação perma- outro lado, do lugar de destaque também que “a escola e a forma-
nente com as comunidades escolares do currículo, entendido, no sen- ção sejam perspectivadas como
tido lato, como um projeto de projetos que ultrapassam a mera
e fabrique mecanismos de formação formação, que traduz a organi-
humana que articulem os conheci- zação, seleção e transformação instrução” (p. 9). Nosso interes-
mentos historicamente elaborados do conhecimento em função de se, sob tal inspiração, requer uma
com estratégias criativas que auxi- um dado espaço, de um deter- crítica política dos processos de
liem no combate de nossas históri- minado tempo e de acordo com seleção do conhecimento escolar,
cas desigualdades. propósitos educacionais (PA- impulsionada por uma atitude es-
CHECO, 2014, p. 7). perançosa de aposta no potencial
Acerca deste projeto de formação, é formativo desta instituição.
IHU On-Line – Quais os desa- importante ressaltar que a definição Considero como desafio fun-
fios para desenvolver relações do que conta como conhecimento damental pensar o lugar peda-
de ensino e aprendizagem com na escola é sempre inscrita no cam- gógico a ser encontrado pelos
nativos digitais ou mesmo estu- po da controvérsia19 (SACRISTÁN, conhecimentos escolares na con-
dantes plenamente adaptados a 2013), visto que a validade do co- temporaneidade. Isto é, as escolas
um mundo em rede? nhecimento a ser ensinado deriva-se e as universidades, antes de focali-
Roberto Rafael Dias da Silva – das condições históricas de seu tem- zar quais dispositivos metodológi-
Quando nos propomos a analisar as po. Em outras palavras, o que conta cos colocarão em ação, precisarão
articulações entre educação, forma- como conhecimento escolar “é uma estabelecer uma discussão ampla
decisão que está em permanente de-
35
ção e conhecimento, ingressamos em sobre os processos de seleção dos
uma das questões mais emblemáti- bate, não sendo possível a existência conhecimentos. Inovação meto-
cas do pensamento curricular. Re- de soluções meramente ‘científicas’ dológica desprovida de um deba-
conhecemos, junto a Pacheco citado ou técnicas” (PACHECO, 2014, p. 8). te sobre os propósitos formativos
anteriormente, que a valorização do Aprender mais ou estudar menos, resvala facilmente para certo utili-
conhecimento não se constitui em por exemplo, são medidas difíceis de tarismo. Em direção otimista, por
uma novidade do nosso século – “a serem dimensionadas na contingên- outro lado, acredito que seja pos-
sociedade do conhecimento” –, mas cia dos fazeres escolares. As possibi- sível apostar no entrelaçamento
trata-se de uma intensificação das lidades de educação e formação, pela entre currículo, inovação e tecno-
construções pedagógicas erigidas na via do conhecimento, configuram- logias digitais visando aceitar seus
própria Modernidade. Afastando- se como incontornáveis20 campos desafios hodiernos, de maneira
nos de uma perspectiva estritamente de reflexão (GABRIEL; CASTRO, que não fragilizemos o processo
filosófica, importante ponderar que 2013). Disso deriva-se a pertinência formativo atinente à composição
o percurso do escolar “é a história de manter o currículo sob perma- de uma escola democrática.
desta operação em torno do conhe- nente tensão e afastar-se de determi-
cimento” (PACHECO, 2014, p. 7). nadas posturas que buscam retomar
a “velha” ordem da escola. IHU On-Line – Em seu atual
Será nesta instituição que os proces-
projeto de pesquisa, o senhor
sos em torno do conhecimento serão
reposicionados. Lugar pedagógico trabalha com experiências di-
tas “inovadoras” e “interati-
Diante desta condição, podería- Importante destacar que não vas” em sala de aula. O quanto
mos justificar a pertinência e a atu- defendo uma visão idealizada da de fato se fazem experiências
alidade do exame crítico das políti- escola como guardiã do conheci- inovadoras e interativas e o
cas que definem o que conta como mento produzido pela humani- quanto se repetem velhos mo-
conhecimento na escola. A citação dade. Junto a Pacheco, mais uma delos em novas roupagens?
que segue constrói um campo de vi-
19 SACRISTÁN, José Gimeno. O que significa o Roberto Rafael Dias da Silva
sibilidade para esta centralidade do currículo?. In: SACRISTÁN, José Gimeno (Org.). Sa- – Minhas pesquisas colocam o En-
conhecimento. beres e incertezas sobre o currículo. Porto Alegre:
Penso, 2013, p. 16-35. (Nota do entrevistado) sino Médio como foco privilegiado.
20 GABRIEL, Carmen; CASTRO, Marcela. Conheci-
Porque a escola define, cada vez mento escolar: objeto incontornável da agenda Assim sendo, quando examinamos
política educacional contemporânea. Educação atentamente as possibilidades de
mais, os percursos de formação em Questão, v. 45, n. 31, p. 82-110, 2013. (Nota
que são trilhados, a questão do do entrevistado) novos agenciamentos curriculares

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TEMA DE CAPA

para esta etapa da Educação Básica, O efeito da anomalia no metáfora para pensar as pedago-
merecem destaque duas estratégias mundo de iguais gias contemporâneas; sobretudo,
colocadas em ação. Tais estratégias, aquelas que se propõem a inovar a
importa destacar, acompanham a A construção desta problematiza- escolarização juvenil. Comentando
produção de reformas em nosso país ção permite, para ampliar o escopo a obra de Kaufman, o filósofo Byun-
ao longo das últimas duas décadas, de meu argumento, deslocarmos g-Chul Han22 (2017) provoca-nos a
variando em intensidade. nosso olhar para uma metáfora ex- pensar que a Contemporaneidade,
traída das narrativas cinematográfi- por variáveis diversas (sobretudo
A primeira delas refere-se à ne- cas. Michael Stone poderia ser con- econômicas) contribui para uma
cessidade de diversificação curri- siderado como uma celebridade no “expulsão do diferente”. Por meio
cular. Tal estratégia vincula-se ao mundo corporativo, devido a suas de seu excesso de positividade, a so-
desenvolvimento de ambientes de obras na área de atendimento ao ciedade contemporânea tem optado
aprendizagem com arquiteturas cliente. Na condição de ícone de uma por “atrações em série”, nas quais os
variadas, ao uso de tecnologias di- nova forma de gestão, Michael viaja indivíduos “curtem” por meio de seu
gitais (modelos híbridos) e à apos- para Cincinatti, nos Estados Unidos, repertório de escolhas individuais.
ta em possibilidades curriculares cidade em que preferiria uma pales- Todavia, em sua percepção, a indivi-
que considerem a atividade e a tra referente ao lançamento de uma dualização demasiada conduz à pa-
escolha dos estudantes. De outra de suas obras. É neste cenário que dronização, isto é, parece que “nosso
parte, diagnosticamos uma estra- o roteirista Charlie Kaufman21 situa horizonte de experiências se torna
tégia atrelada às possibilidades de sua animação “Anomalisa”, apresen- cada vez mais estreito” (HAN, 2017,
educação integral. Via de regra, tada ao público no ano de 2015. p. 12). Tal como o enredo da anima-
esta estratégia aposta em novas re- ção referida, argumenta o filósofo
lações entre escola e comunidade, Chama a atenção na narrativa
que se engendra uma “proliferação
na construção de uma identidade apresentada por Kaufman que seu
do igual” (p. 18).
institucional para o ensino médio e personagem principal não somen-
nas possibilidades de ampliação do te deixa de encontrar sentido no A animação de Kaufman permite-
repertório formativo dos estudan- que faz, como também, paradoxal- nos refletir sobre o contexto de imple-
36 tes, por meio de modelos holísticos mente, passa a notar que as vozes mentação das atuais políticas curricu-
de todas as pessoas tornaram-se lares para o Ensino Médio. Mapeando
(como as competências socioemo-
iguais. De seu filho aos atendentes práticas curriculares no Brasil e na
cionais, por exemplo).
do hotel, ou mesmo aqueles que se América Latina, minha constatação
Entretanto, a articulação entre a tornariam seu público, todos falam é que as propostas escolares estão
diversificação curricular e as pos- no mesmo tom. O que quebra o ar- cada vez mais parecidas, em especial
sibilidades de educação integral tificialismo da situação de Michael nas redes privadas. São os mesmos
merecem uma reflexão mais apri- Stone é a chegada de Lisa – tímida, laboratórios, os mesmos projetos, as
morada quando mobilizadas pe- desajeitada e com uma voz mais ações de dupla certificação, a ênfase
los diferentes sistemas de ensino estridente. Enfim, Lisa converte-se nos intercâmbios, as aulas de robóti-
públicos e privados. Quando ana- em uma anomalia em um mundo de ca, perfis formativos, modalidades de
lisamos as pautas formativas das iguais, por isso: “Anomalisa”. diversificação, mobilidade e platafor-
escolas brasileiras, reconhecemos mas complementares etc. Em nome
Não pretendo seguir contando a da inovação permanente, os currícu-
rapidamente que a educação das
história do filme até o seu desfe- los escolares tornam-se cada vez mais
juventudes tem sido conduzida por
cho, nem mesmo avaliar a qualida- semelhantes e, dessa forma, a história
princípios e procedimentos muito
de do seu enredo ou de sua edição. das instituições e os saberes e marcas
semelhantes. Isto é, há uma apos-
Também não interessa aqui exa- das comunidades ingressam em am-
ta consensual em modelos de cer-
minar criticamente o potencial do plo processo de declínio.
tificação internacional, em escolas
filme para pensar as subjetividades
multilíngues, em metodologias
contemporâneas. Considero “Ano- 22 HAN, Byung-Chul. La expulsión de lo distinto.
ativas, em modelos de escolha cur- Barcelona: Herder, 2017. (Nota do entrevistado)
malisa” – esta grande animação de Byung-Chul Han (1959): pensador sul-coreano,
ricular dos estudantes, em labora-
Charlie Kaufman – como uma boa teórico cultural e professor da Universidade de
tórios de robótica e em oficinas de Artes de Berlim. É o autor de dezesseis livros, dos
quais os mais recentes são tratados sobre o que
escrita criativa, dentre inúmeras 21 Charlie Kaufman (1958): roteirista estadu- ele chama de “sociedade do cansaço” (Müdigke-
possibilidades semelhantes a estas. nidense. Vencedor do Oscar é identificado pela itsgesellschaft), uma “sociedade da transparência”
revista Premiere como uma das 100 pessoas (Transparenzgesellschaft) e seu conceito neolo-
Não resta dúvidas de que tais pro- mais influentes de Hollywood. Charlie Kaufman gista de shanzhai, que procura identificar modos
cria com seus roteiros teses sobre a expansão do de desconstrução nas práticas contemporâneas
postas evidenciam um potencial consciente humano. Entre seus parceiros, figura do capitalismo chinês. O trabalho atual de Han
bastante interessante, porém po- Michel Gondry, autor de Brilho Eterno de uma se concentra na transparência como uma norma
Mente sem Lembranças. Numa indústria em que cultural criada pelas forças do mercado neoliberal,
deríamos interrogar: quais são os a noção de autoria concentra-se na figura do di- que ele entende como o impulso insaciável para
retor, Kaufman tornou-se uma exceção. A respeito a divulgação voluntária que beira o pornográfico.
nossos critérios para a diferencia- dessa questão, a professora da Universidade de Segundo Han, os ditames da transparência im-
ção das propostas curriculares na Kent Cecília Sayad escreve o ensaio O Jogo da põem um sistema totalitário de abertura à custa
Reinvenção (Alameda, 2008). (Nota da IHU On de outros valores sociais, como vergonha, sigilo e
atualidade? -Line) confiança. (Nota da IHU On-Line)

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IHU On-Line – Quais os riscos Sem dúvida que a busca da leveza que não concordemos plenamen-
da estetização pedagógica? Em foi sendo concretizada ao longo dos te, traz implicações importantes
que medida o conteúdo pode últimos séculos e, atualmente, não para caracterizarmos as juventudes
ser preterido a dinâmicas inte- seria inteligente desprezá-la, consi- contemporâneas. A vida urbana, as
racionais e, supostamente, de derando as inúmeras potencialida- novas configurações familiares, o
construção coletiva de saberes? des que ela oferece para a vida neste contato com as diferenças, outras
tempo. A crítica de Lipovetsky, em expectativas de vida e a convivên-
Roberto Rafael Dias da Sil- cia com o mundo digital contri-
sua ambivalência, supõe nos auxiliar
va – Em sua última obra, traduzi- buem para um novo modo de cons-
a perceber os seus excessos. Supõe
da no Brasil sob o título Da leveza: tituição subjetiva.
o filósofo que “erigida como princí-
rumo a uma civilização sem peso23,
pio ou como ideal de vida, a leveza A “Polegarzinha”, de Serres, expe-
o filósofo Gilles Lipovetsky defende
é tão inaceitável quanto irresponsá- riencia outras relações com o tempo
que a leveza, enquanto mundo e en-
vel” (LIPOVETSKY, 2016, p. 31). Em e com o espaço. O contato com as
quanto cultura, tem se posicionado
termos educacionais esta afirmativa mídias, como sabemos, modificou a
como a lógica explicativa de nosso
possibilita significativas problemati- forma de atenção. Nas palavras do
tempo. Buscamos por objetos me-
zações, interrogações ou pelo menos filósofo, “nós, adultos, transforma-
nores, mais leves, mais sedutores,
alguns alertas. Todavia, cumpre tra- mos nossa sociedade do espetáculo
mais interativos e mais econômicos.
zer presente a ressalva apresentada em sociedade pedagógica, cuja con-
A leveza tem sido invocada como um
pelo filósofo francês: “a leveza é bela corrência esmagadora, orgulhosa-
princípio de bem-estar, de saúde, de
e desejável, mas não poderia ser es- mente inculta, ofusca a escola e a
moda, de design, de arquitetura e de
tabelecida como princípio supremo universidade” (SERRES, 2013, p.
economia. Nas palavras do filósofo,
que dirige a conduta do gênero hu- 18). Com outras formas de acesso
“a ligação com o imediato, o super-
mano” (p. 31). Penso que este seria ao conhecimento, assim como pelo
ficial e o leve não se reduz mais a
efetivamente o principal desafio éti- engendramento de outras formas de
uma atitude individual em relação à
co da estetização pedagógica como relações sociais, os jovens contem-
vida e aos outros. Ela agora se impõe
um princípio pedagógico, uma vez porâneos sentem-se desprotegidos,
como modo de funcionamento eco-
que nem sempre a leveza oferece- do que se deriva a necessária inven-
nômico e de cultura global” (LIPO- nos o melhor caminho para educar
37
ção de “novos laços”. Serres ainda
VETSKY, 2016, p. 21). A leveza pare- as novas gerações. realiza uma crítica aos adultos, qual
ce estabelecer-se como um princípio
seja: “a iniciativa generalizada de
civilizatório.
suspeitar, de criticar e de indignar-
Considerando a dinâmica social da IHU On-Line – Quem é o alu- se mais contribuiu para destruí-los
“hipermodernidade”, tal como no- no do século XXI? Quais os [laços sociais]?” (2013, p. 23).
meia o contemporâneo, o filósofo ar- desafios para a formação de
professores e a constituição de O que ensinar aos jovens contem-
gumenta que nossas vidas tornam-se porâneos? Como transmitir saberes
marcadas pela instabilidade e pelas currículos que deem conta das
necessidades desse aluno? para a “Polegarzinha”? Serres des-
mudanças permanentes. Diferen- creve a necessidade de mudanças no
temente dos valores que marcaram Roberto Rafael Dias da Silva pensamento pedagógico, atualizan-
as gerações anteriores, no Ocidente, – Em termos civilizacionais, pro- do-o a um tempo em que as funções
hoje “as pesadas imposições coleti- blematizações de outra ordem são cognitivas se transformaram.
vas deram lugar ao self-service gene- apresentadas por Michel Serres,
ralizado, à volatilidade das relações em sua obra Polegarzinha (2013). De fato, há algumas décadas, vejo
e dos engajamentos” (LIPOVETSKY, Em sua perspectiva as mudanças que vivemos um período compa-
2016, p. 22). Mudar de vida, comba- culturais ocorridas na transição do rável ao da aurora da paideia
– depois que os gregos aprende-
ter as desigualdades e a eliminação oral para o escrito, do escrito para ram a escrever e a demonstrar,
da fome, por exemplo, declinam do o impresso e, hoje, do impresso semelhante à Renascença, que
status de utopias coletivas, cedendo para o digital trazem em seu in- viu surgir a imprensa e ter início
espaço para um “momento detox” terior significativas mudanças de o reinado do livro. Mas, trata-
na qual visa-se estar bem com seu natureza política, social e, até mes- se de um período incomparável,
próprio “corpo e sua cabeça”. Insiste mo, cognitiva. Em um contexto de pois, ao mesmo tempo em que
essas técnicas se transformam, o
Lipovetsky que “a individualização crise, o filósofo busca descrever um corpo se metamorfoseia, o nasci-
extrema da relação com o mundo novo perfil subjetivo emergente mento e a morte mudam, assim
constitui a principal dinâmica social nestes tempos, uma problematiza- como o sofrimento e a cura, as
situada no coração da revolução do ção acerca da sociedade e da escola profissões, o espaço, os habitats,
leve” (2016, p. 22). na qual este sujeito será educado. A o ser no mundo (SERRES, 2013,
descrição da subjetividade da Pole- p. 28-29).
23 LIPOVETSKY, Gilles. Da leveza: rumo a uma ci- garzinha – esta criança/jovem que No que tange ao ensino, o dilema
vilização sem peso. Barueri: Manole, 2016. (Nota
do entrevistado) digita com os polegares – mesmo apresentado pelo filósofo é “inventar

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novidades inimagináveis”. Emer- aposta em práticas de cooperação – sino médio foi e é, há muito tempo,
gem novas formas de pensamentos informais e ilimitadas – como alter- a encruzilhada estrutural do sistema
e a ação do professor necessitaria nativas aos percursos profissionais educativo, o ponto no qual uns fatal-
ultrapassar, em sua perspectiva, a cada vez mais competitivos. Da mes- mente terminam e outros verdadei-
“tagarelice”. Em outras palavras, re- ma forma, em termos educacionais, ramente começam, no qual se jogam
comenda um reposicionamento do sugere que sejam fomentadas “re- os destinos individuais à medida que
papel dos professores para jogar luz lações abertas, narrativas de longo podem depender da educação, no
nas criações da Polegarzinha. prazo e o combate às desigualdades” qual se encontram ou se separam
(SILVA, 2015, p. 105). Com tais pre- – segundo as políticas públicas e as
Humanismo e a unidade na ocupações Sennett defende ainda o práticas profissionais – os distintos
diferença rótulo “humanista”, sendo compre- grupos sociais29” (ENGUITA, 2014,
endido como “um símbolo de honra, p. 10-11). Importa enaltecer que essa
Sob outro prisma, Richard Sen- e não a denominação de uma visão compreensão do ensino médio como
nett24, em algumas de suas produ- de mundo esvaziada” (2011, p. 30). uma “encruzilhada estrutural” traz
ções desta década, tem procurado A formação humana, dessa perspec- implicações significativas para os
caracterizar os sentidos do “huma- tiva, poderia ser reinscrita em novas variados sistemas de ensino.
nismo”. Na medida em que, atual- configurações.
mente, há um predomínio do curto Ao longo desta década tornaram-se
prazo e da competitividade exacer- Em síntese, acerca das inquietações recorrentes argumentos em torno de
bada, o sociólogo optou por retomar esboçadas nestas últimas perguntas, uma “crise” desta etapa da escolari-
o projeto humanista, tomando como poderíamos sinalizar que reconhe- zação, nomeada como “apagão”, “fa-
ponto de partida a obra renascentis- cemos os desafios apresentados por lência” ou “desengajamento juvenil”.
ta de Pico della Mirandola25. Através Michel Serres, em sua obra “Pole- Tal fenômeno tem sido amplamente
de uma releitura deste humanis- garzinha”, para pensar a formação examinado pela literatura brasilei-
mo renascentista, Sennett26 (2011) humana na contemporaneidade. ra e estrangeira, via de regra pelas
aponta a importância da questão da Todavia, escolhemos cotejá-la com suas dificuldades em dialogar com
“unidade na diferença”. duas outras leituras que nos permi- as demandas juvenis, com o mun-
38 tem uma ampliação deste diagnós- do da economia e com as expectati-
Em sua percepção, esta questão auxi- tico, quais sejam: a) com Lipovestky vas sociais. O que parece consenso,
lia-nos a valorizar a “voz” das narrativas vislumbramos os limites e as possi- de acordo com Sposito e Souza30,
individuais e a “diferença” que provém bilidades da emergência de uma “ci- é que “ao que tudo indica as refor-
da arte da convivência27 (SILVA, 2015). vilização da leveza”; b) com Sennett mas educacionais estão atrasadas,
A necessidade de estimular as pessoas relembramos que a construção do ou no mínimo descompassadas, em
a fortalecerem suas narrativas de vida, humanismo é uma obra inacabada e relação ao ritmo das demandas e do
associada ao “encontro de sua própria necessária para o século XXI. novo público que conquista o pro-
voz”, torna-se uma dimensão impor- longamento da escolaridade sem a
tante. Explica Silva (2015) que “a voz, resposta adequada a essa conquis-
então, apresenta-se como importante IHU On-Line – A reforma do ta” (p. 42). O que se desdobra deste
elemento para a busca pela unidade, Ensino Médio atende as de- entendimento seriam, pelo menos,
pela busca do distanciamento crítico mandas de preparação de jo- quatro indagações na direção de
em relação ao mundo e pela busca de vens para um mundo em trans- cotejar a reforma do Ensino Médio
nós mesmos” (p. 104). formação e atravessado pela com o contexto advindo da nomeada
Revolução 4.0? Por quê? Revolução 4.0:
Outro aspecto do humanismo sen-
nettiano consiste na valorização da Roberto Rafael Dias da Silva a) como podemos conhecer os no-
diferença. Para tanto, o sociólogo – Examinar academicamente e, ao vos públicos?; b) como podemos di-
mesmo tempo, pensar em possibi- versificar o tempo de permanência
lidades curriculares para o Ensino da escola?; c) como preencher os
24 Richard Sennett (1943): é um sociólogo e his- Médio não se constitui uma tarefa
toriador norte-americano, professor da London currículos escolares com perspecti-
School of Economics, do Massachusetts Institute fácil. Há uma proliferação de polí- vas/projetos de futuro?; d) que sen-
of Technology e da New York University. É tam-
bém romancista e músico. Casado com a soció- ticas em torno desta etapa da edu-
loga Saskia Sassen, sua obra mais conhecida é O cação básica e, concomitantemente,
declínio do homem público. (Nota da IHU On-Line) o Observatório Social de Castela e Leão (OSCYL) e
25 Giovanni Pico della Mirandola (1463-1491): novos conceitos e demandas forma- coordena o Grupo de Análises Sociológicas (GAS).
humanista italiano. Destacou-se pela precocida- (Nota da IHU On-Line)
de e pela extensão de seus conhecimentos, bem tivas têm emergido no debate peda- 29 ENGUITA, Mariano. A encruzilhada da institui-
como pela audácia das suas teses em filosofia e gógico contemporâneo. O sociólogo ção escolar. In: KRAWCZYK, Nora (org.). Sociologia
teologia: queria provar a convergência de todos do ensino médio: Crítica ao economicismo na polí-
os sistemas filosóficos e religiosos para o cristia- Mariano Enguita28 afirma que “o en- tica educacional. São Paulo: Cortez, 2014. p. 7-12.
nismo. (Nota da IHU On-Line) (Nota do entrevistado)
26 SENNETT, Richard. Humanism. The Hedgehog 30 SPOSITO, Marília; SOUZA, Raquel. Desafios da
Review, v. 12, n. 2, p. 21-30, 2011. (Nota do en- 28 Mariano Fernández Enguita: professor cate- reflexão sociológica para análise do Ensino Médio
trevistado) drático de Sociologia e diretor do Departamento no Brasil. In: KRAWCZYK, Nora (org.). Sociologia do
27 SILVA, Roberto Rafael Dias da. Sennett & a Edu- de Sociologia e Comunicação da Faculdade de ensino médio: Crítica ao economicismo na políti-
cação. Belo Horizonte: Autêntica, 2015. (Nota do Educação da Universidade de Salamanca, onde ca educacional. São Paulo: Cortez, 2014. p.33-62.
entrevistado) desenvolve uma vasta atividade científica. Dirige (Nota do entrevistado)

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tidos de qualidade as comunidades que privilegia as ambivalências, suspeitar, enquanto intelectuais da


atribuem ao trabalho que desenvol- isto é, ora consigo criticar a pouca nossa ação profissional, dessa nova
vemos com os jovens?; e) como bus- preocupação com os critérios de indústria educacional que apregoa
car maior aproximação do mundo do seleção de conhecimentos escola- a inevitabilidade da inovação. Pre-
trabalho e sintonizar com os novos res e com os propósitos educacio- cisamos avançar na direção de um
repertórios tecnológicos?; f) é pos- nais, ora consigo perceber os avan- novo conceito de inovação que in-
sível construir formas curriculares ços na composição de uma agenda tegre desenvolvimento econômico
inovadoras capazes de enfrentar as formativa sintonizada com as de- com novas formas de gestão do so-
históricas desigualdades na escolari- mandas do século XXI. Trata-se da cial – mais coletivas, negociadas e
zação juvenil? possibilidade de uma leitura crítica socialmente referenciadas.
IHU On-Line – Deseja acres- e criativa que aposta em modelos
A inovação, a partir da literatura
centar algo? de governança escolar democrática
que tenho trabalhado, necessita de
para os currículos e que seja capaz
Roberto Rafael Dias da Silva uma dimensão comunitária e isto
de enfrentar nossas históricas de-
– Como destaquei ao longo des- não se faz por obrigação ou pelos
sigualdades.
ta entrevista, minha investigação tentáculos sedutores do capitalismo
atual centra-se no delineamento de Precisamos lidar com maior cui- contemporâneo. Minhas investiga-
determinados dispositivos de este- dado analítico a questão da pro- ções ambicionam a composição de
tização pedagógica. Tais disposi- liferação de novas ferramentas e uma teorização curricular crítica que
tivos se proliferam no contexto de dispositivos pedagógicos que apre- nos permita ultrapassar os dilemas
novas tecnologias emergentes da goam a inovação a qualquer preço. entre as inovações permanentes e
Revolução 4.0. Entretanto, confor- Costumo dizer nas escolas que vi- nossa incapacidade para enfrentar
me destaquei, realizo uma leitura sito regularmente que é necessário as desigualdades crescentes.■

Leia mais 39

- No discurso de crises, a busca por uma educação utilitarista e neoliberal. Entrevista


especial com Roberto Dias da Silva, publicada nas Notícias do Dia de 13-7-2017, no sítio do
Instituto Humanitas Unisinos – IHU, disponível em http://bit.ly/2ADQP2U.
- A Base Curricular que reverencia a lógica da financeirização. Entrevista com Roberto
Dias da Silva, publicada na revista IHU On-Line nº 516, de 4-12-2017, disponível em http://
bit.ly/2MObtCg.

EDIÇÃO 544
TEMA DE CAPA

A Revolução 4.0 e a reedição das


lógicas das revoluções burguesas
Gaudêncio Frigotto analisa como o avanço tecnológico acaba servindo
aos interesses de um grupo bem pequeno que, além de explorar forças
produtivas, dificulta o acesso à formação e ao trabalho para os mais pobres
João Vitor Santos

A
s revoluções burguesas que ini- rexploração e expropriação de direitos
ciam no século XVII e seguem já conquistados”, chama a atenção.
até o século XIX varrem toda a
Assim, o campo da educação vai se
Europa e trazem um novo regime so-
moldando apenas para servir às lógicas
ciopolítico mundial. Caem os reis ab-
do mercado. “Disto resulta a mudança
solutistas, mas sobram os burgueses
do vocabulário pedagógico: não mais
liberais. E, se por um lado o Estado se
qualificação, mas competência; não
organiza em torno da universalidade e
mais emprego, mas empregabilidade;
da cidadania, com o tempo, percebe-se
não mais qualidade, mas qualidade to-
que esses avanços de fato não tocam a
tal. A culpa da exclusão, em última ins-
vida dos mais pobres. Para o professor
tância, passa a ser do trabalhador ex-
Gaudêncio Frigotto, o momento que vi- cluído”, detalha Frigotto. E acrescenta:
vemos, da chamada Revolução 4.0, tem
40 provocado uma espécie de atualização
“Esta realidade tem sido mais perversa
em nossa sociedade onde a burguesia
dessas desigualdades. “Trata-se de um local nunca se preocupou em construir
processo contínuo de substituição na uma nação, investir em ciência básica e
atividade produtiva do trabalho vivo universalizar um ensino básico (funda-
(força física e mental dos trabalhado- mental e médio) de qualidade de onde
res) em trabalho morto (máquinas, emergem os jovens cientistas. O cami-
computadores, robôs etc.). O que a his- nho escolhido por nossa burguesia foi
tória mostra é que aqueles capitalistas da cópia e de não desenvolver âmbitos
ou grupos que se valem de uma tecno- de conhecimento competitivos”.
logia que lhes permite, em menos tem-
po e com menos pessoal, produzir mais Para ele, “o desafio é superar a fragmen-
lhes dá vantagens na competição com tação e a perspectiva de adaptar o proces-
os demais capitalistas”, analisa. so educativo de forma unidimensional
Na entrevista a seguir, concedida por ao mercado”. “Talvez seja de ajudar os
e-mail à IHU On-Line, o professor jovens, em especial filhos e filhas da clas-
analisa como a Revolução 4.0 impacta se trabalhadora do campo e da cidade,
o mundo do trabalho que, por sua vez, a perceberem pela análise do processo
reverbera nos processos formativos e histórico que a sua geração e as novas
educacionais. “De modo crescente a gerações somente terão futuro previsível
tecnologia tem diminuído a atuação se a ciência, a terra, a água, as riquezas
direta da força humana na produção, do subsolo se tornarem um bem comum
da humanidade, e não apropriados para
destruindo empregos e não repondo
o lucro de poucos”, resume.
na mesma proporção e com os mesmos
direitos. As novas tecnologias, cada vez Gaudêncio Frigotto possui bachare-
mais concentradas em poucas corpora- lado em Filosofia pela hoje Unijuí - RS,
ções econômicas e financeiras ou por graduação em Pedagogia pela Unijuí,
indivíduos na área de serviços, destro- mestrado em Administração de Siste-
em e incorporam concorrentes aumen- mas Educacionais pela Fundação Ge-
tando a concentração e estabelecem tulio Vargas - FGV-RJ e doutorado em
uma concorrência entre os próprios Educação: História, Política, Sociedade,
trabalhadores, permitindo uma supe- pela Pontifícia Universidade Católica de

4 DE NOVEMBRO | 2019
REVISTA IHU ON-LINE

São Paulo - PUC-SP. Atualmente é pro- conferência em: http://bit.ly/2IYmvmg


fessor Associado da Universidade do Es-
A entrevista foi originalmente publi-
tado do Rio de Janeiro - Uerj.
cada nas Notícias do Dia de 21-10-2019,
No dia 17 de outubro, o professor es- no sítio do Instituto Humanitas Unisi-
teve no IHU, proferindo a palestra “Re- nos – IHU, disponível em http://bit.
volução 4.0, atividades científicas e os ly/2NgNnR3.
valores. Impactos nos processos de edu-
cação e formação”. Assista ao vídeo da Confira a entrevista.

IHU On-Line – Partindo do memente o tempo da jornada de tra- atingiam determinadas esferas da
pressuposto de que vivemos balho e assegurar vida digna a todos. vida, agora, como analisa o filósofo
uma crise do trabalho assalaria- István Mészáros2, a crise é univer-
Mas a ciência e a tecnologia, desde a
do, de que forma a Revolução sal no sentido que atinge todas as
primeira “Revolução” industrial foram
4.0 pode se converter tanto em esferas da vida − emprego, saúde,
se constituindo na força produtiva
causadora dessa crise como em educação, cultura, meio ambiente; é
fundamental na reprodução do capi-
possibilidade de indicar cami- global, no sentido que embora seus
tal. Trata-se de um processo contínuo
nhos que superem esse estado? efeitos sejam diversos em diferentes
de substituição na atividade produtiva
regiões, um problema numa região
Gaudêncio Frigotto – A com- do trabalho vivo (força física e mental
ou país se reflete nas demais regi-
preensão desta questão é central dos trabalhadores) em trabalho mor-
ões e países; e não mais é cíclica,
para a análise das demais, pois es- to (máquinas, computadores, robôs
mas continua e cada vez mais aguda.
tas dependem de como concebemos etc.). O que a história mostra é que
Para esse autor, isso leva a um “sis-
a ciência e a tecnologia na socieda- aqueles capitalistas ou grupos que se 41
tema de produção destrutivo” de di-
de. E o ponto de vista fundamental valem de uma tecnologia que lhes per-
reitos, do emprego, trabalho digno,
é entender a ciência e a tecnologia mite, em menos tempo e com menos
da saúde, da educação, da habitação,
como produtos das relações sociais pessoal, produzir mais lhes dá vanta-
da cultura, da ética e afeta as bases
e que desde a revolução burgue- gens na competição com os demais
da vida mediante a crise ambiental.
sa se trata de relações sociais sob o capitalistas e lhes permite instaurar
capitalismo. Vale dizer, relações de novas formas de organização e gestão De modo crescente a tecnologia tem
poder assimétricas entre os que de- do trabalho e aumentar seus lucros. A diminuído a atuação direta da força
têm privadamente os meios e instru- tendência dos demais competidores humana na produção, destruindo
mentos de produção com o objetivo privados é a de também galgar este empregos e não repondo na mesma
de acumular riqueza e a maioria de mesmo nível. proporção e com os mesmos direi-
trabalhadores que, para suprir suas tos. As novas tecnologias, cada vez
necessidades básicas (comer, beber, Destruição criadora mais concentradas em poucas cor-
ter um teto, vestir, locomover-se) e porações econômicas e financeiras
a partir daí as suas necessidades so- A esse processo o economista aus- ou por indivíduos na área de servi-
ciais e culturais, necessitam vender tríaco Joseph Schumpeter1 denomi- ços, destroem e incorporam concor-
a sua força de trabalho na forma de nou de “destruição criadora” propul- rentes aumentando a concentração e
emprego. sora do desenvolvimento. Todavia, estabelecem uma concorrência entre
se o capitalismo tem esta virtude, os próprios trabalhadores, permi-
De imediato, o que se tem deno- esta engendra contradições que o
minado de “Revolução 4.0” resulta tindo uma superexploração e expro-
conduzem a crises cada vez mais priação de direitos já conquistados.
de um novo salto tecnológico que agudas. A contradição fundamental
tem em sua base a microeletrônica A forma de manter essa realidade
se expressa pela sua incapacidade social tem sido o uso da violência e o
associada à informação apropriada orgânica de socializar a exponencial
por grandes corporações, grupos e ressurgimento de governos de direi-
capacidade de produzir mercadorias ta e extrema direita, como é o caso
indivíduos privados. Um salto que e serviços. E as crises, que eram cí-
permite acelerar o tempo e conden- atual no Brasil.
clicas, se localizavam num espaço e
sar o espaço, e que gera no mundo,
2 István Mészáros: filósofo húngaro, considerado um dos
não o fim do trabalho, mas a crise 1 Joseph Schumpeter (1883-1950): economista austríaco, mais importantes intelectuais marxistas da atualidade.
entusiasta da integração da Sociologia como uma forma Professor emérito da Universidade de Sussex, na Ingla-
estrutural do emprego. Se a ciência de entendimento de suas teorias econômicas. Seu pen- terra. Escreveu, entre outros, Para além do capital. Rumo
e a tecnologia fossem bens comuns samento esteve em debate no I Ciclo de Estudos Repen- a uma teoria da transição (Campinas-São Paulo: Editora
sando os Clássicos da Economia, promovido pelo IHU em da Unicamp – Boitempo, 2002) e Poder da ideologia (São
públicos, seria viável diminuir enor- 2005. (Nota da IHU On-Line) Paulo: Boitempo, 2004). (Nota da IHU On-Line)

EDIÇÃO 544
TEMA DE CAPA

A tecnologia 4.0, mais que no cam- marmos 12 milhões de desemprega- ção humana. Até a década de 1960, o
po industrial, tem sido a chave para dos, temos metade da força de traba- pensamento dominante sobre a edu-
tornar milionários na área de servi- lho precarizada. cação refletia o ideário iluminista da
ços e corporações de alimentos que revolução burguesa que tinha que
Assim, a ciência e a tecnologia, que
produzem um exército crescente de romper, ao mesmo tempo, com o Es-
poderiam ter efeitos extremamen-
trabalho precário, superexplorado tado absolutista, a doutrina da igreja
te positivos para a vida humana em
e sem regulamentação e, portanto, sobre riqueza e o regime escravocra-
todas as dimensões, se transformam
sem direitos e proteção. Exemplos ta sem o que as novas relações so-
numa das grandes ameaças por es-
como o da Amazon, que não tem ciais entre o capital e o trabalho não
tarem na mão da lógica do lucro a poderiam se estatuir. Assim a escola
base física e explora trabalho em
qualquer preço e não a serviço do era concebida como uma instituição
tbodo o mundo e faz com que Jeff
bem comum. A direção de dar po- social onde as crianças e os jovens se
Bezos3 detenha uma fortuna de 112
sitividade ampla à ciência e à tecno- apropriariam do conhecimento cien-
bilhões de dólares. A Apple tem valor
logia depende da capacidade social e tífico, cultural e filosófico e dos valo-
de mercado de mais de 90 bilhões.
política de democratizá-las radical- res e símbolos para, quando adultos,
Outros exemplos são a Uber e as cor-
mente. E isto supõe que esteja sob o atuarem na sociedade.
porações de Fast Food que criam o
controle efetivo da esfera pública.
trabalho intermitente em que o tra- Embora o que se materializou te-
balhador só é remunerado pelo tem- nha sido a escola dual – uma edu-
“A ciência e
po que é solicitado a trabalhar. Essa cação mais completa e integral para
tendência está contaminando todas quem se destinasse a ser dirigente
as áreas de serviços, como as áreas
da educação e da saúde. a tecnologia, ou ocupar funções do trabalho in-
telectual; e outra pragmática, frag-

Realidade brasileira desde a mentada e tecnicista para quem se


destinava ao trabalho manual, a
O sociólogo Ricardo Antunes4 em primeira referência era a sociedade. A escola
era, pois, entendida como um direito
42
livro deste ano – O privilégio da ser-
vidão, o novo proletariado de servi- Revolução social, e por isso deveria ser públi-
ca, universal, gratuita e laica, mes-
ços na era digital (2019)5 − analisa
esta realidade para o caso brasileiro.
industrial mo que desigual. Desta concepção
decorrem os termos de profissão,
Trata-se de uma realidade extrema-
da, em especial depois do golpe de
foram se qualificação e emprego dentro de
uma institucionalidade que garantia
Estado de 2016 e das políticas des-
trutivas de direitos do governo Bol-
constituindo na direitos e permitia programar a vida

força produtiva
a longo prazo.
sonaro. A tese cínica que se difunde
e se busca naturalizar é a da carteira A primeira regressão começa quan-
“verde e amarela” cuja máxima é: ou fundamental do os economistas entram em cena
para tentar explicar as razões da
o emprego ou o direito. De acordo
com o IBGE, com dados de 2019, o na reprodução desigualdade social entre nações
e indivíduos no contexto da Guer-
Brasil tem aproximadamente 105
milhões de trabalhadores na ati- do capital” ra Fria e expansão do socialismo
va, dos quais 38,6 milhões estão no no Leste Europeu após a Segunda
mercado informal. Isto representa Guerra Mundial sob a liderança da
41% das forças de trabalho. Se so- IHU On-Line – Se o trabalho é Rússia, formando a União Soviética.
impactado pela Revolução 4.0, O medo que se instalou é de que a
3 Jeffrey Preston, ou Jeff ‘Bezos (1964): é um empresário como esses novos cenários têm pobreza fosse campo fértil de influ-
estadunidense conhecido por fundar, ser o presidente e ência socialista. Foi neste contexto
CEO da Amazon, uma importante e famosa empresa de incidido sobre o campo da edu-
comércio eletrônico dos Estados Unidos. (Nota da IHU
cação e formação profissional? que Theodoro Schultz6 nos Estados
On-Line)
4 Ricardo Antunes: graduado em Administração Pública, Unidos, inicialmente, desenvolveu
é mestre e doutor em Ciências Sociais, professor titular de Gaudêncio Frigotto – A análise estudos sobre a relação entre desen-
Sociologia no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da
Unicamp. É autor de Adeus ao trabalho? Ensaio sobre as da questão acima indica que as rela- volvimento econômico e mobilidade
metamorfoses e a centralidade do mundo do trabalho. 3ª ções sociais capitalistas, em especial
ed. São Paulo: Cortez, 1995 e Os sentidos do trabalho. En-
saio sobre a afirmação e a negação do trabalho. 6ª ed., São nas últimas cinco décadas, foram 6 Theodore William Schultz (1902-1998): foi um econo-
Paulo: Boitempo Editorial, 2003, entre outros. O IHU rea- mista estadunidense. Schultz recebeu o Prêmio de Ciên-
lizou uma série de entrevistas com o professor. Entre elas crescentemente regressivas, anulan- cias Econômicas por seu trabalho sobre o desenvolvimen-
A crítica e subversão de Gorz ao capital, publicada na IHU do direitos conquistados, dilatando a to econômico, centrado na economia agrícola. Analisou
On-Line número 238, de 1-10-2007, disponível em http:// o papel da agricultura na economia e seu trabalho teve
bit.ly/2pgWYfP; e “O governo Lula foi uma surpresa mui- desigualdade em todo mundo, ainda profundas repercussões nas políticas de industrialização
to bem-sucedida para os grandes capitais”, publicada nas de vários países. No pós-guerra, pesquisou a rápida recu-
Notícias do Dia de 26-4-2014, no sítio do IHU, disponível que em proporções diversas. Esta re- peração da Alemanha e do Japão, comparando a situação
em http://bit.ly/2osU2b7. Confira mais em ihu.unisinos.br.
(Nota da IHU On-Line)
gressão se manifesta de forma clara desses países à do Reino Unido, onde ainda havia raciona-
mento de alimentos muito tempo depois da guerra. (Nota
5 São Paulo: Boitempo, 2018. (Nota da IHU On-Line) no campo da educação e da forma- da IHU On-Line)

4 DE NOVEMBRO | 2019
REVISTA IHU ON-LINE

social e educação. Suas pesquisas A exclusão é culpa do ex- econômica. A cidadania política im-
encontraram forte relação entre o cluído plica desenvolver nas novas gerações
Produto Interno Bruto - PIB (indi- a capacidade de uma leitura crítica e
cador de riqueza e desenvolvimen- A regressão da regressão efeti- autônoma da sociedade em que vi-
to) e a educação. Daí concluiu que o va-se a partir da década de 1980 vem e se constituírem em cidadãos
investimento em educação pelas na- na junção de dois fatos históri- ativos na defesa e na construção de
ções e privadamente pelas famílias cos. O fim do socialismo real e a sociedades democráticas, de igual-
geraria outra forma de capital: o “ca- apropriação por cada vez menos dade de direitos básicos, sociais e
pital humano”. Mediante este capital corporações e grupos empresa- subjetivos, mesmo dentro dos limi-
as nações poderiam sair da pobreza riais do avanço científico e tecno- tes da democracia sob o capitalismo.
lógico que produziu a “Revolução Isto implica apropriar-se dos conhe-
e os indivíduos pobres, igualmente,
4.0”. A conclusão implícita é que cimentos básicos das ciências so-
ascender socialmente. A educação
não há mais lugar para todos, só ciais e humanas (história, geografia,
seria uma espécie de “galinha dos
para aqueles que se adaptarem às sociologia, filosofia, literatura, arte,
ovos de ouro”.
políticas de ajustes ou da austeri- cultura). A cidadania econômica im-
Certamente uma educação de dade ditadas pelas políticas neoli- plica apropriar-se das bases de co-
qualidade tem efeitos positivos sob berais. No âmbito da educação há nhecimentos científicos e tecnológi-
todas as esferas da vida social dos lugar para aqueles que permanen- cos que estão na base dos processos
indivíduos e das nações. Todavia, o temente se ajustam às competên- produtivos em todas as esferas da
que Schultz e seus seguidores esque- cias (intelectuais, físicas, mentais vida. Estas bases o jovem as tem pela
ceram de se perguntar, por seu viés e socioemocionais) que o mercado matemática, física, química, biologia
positivista e de classe, é o seguinte: exigir. Disto resulta a mudança do e as derivações destes campos cien-
as nações pobres e os indivíduos po- vocabulário pedagógico: não mais tíficos. Ambas as cidadanias estão
bres assim o são porque têm pouca qualificação, mas competência; relacionadas, pois somos ao mesmo
escolaridade e de qualidade ruim não mais emprego, mas emprega- tempo um ser social e da natureza.
ou estas decorrem pelo fato de que bilidade; não mais qualidade, mas
É esta dupla cidadania que a classe
são pobres e não podem fazer este qualidade total. A culpa da exclu-
dominante brasileira, com DNA es- 43
investimento? Foi sob esta noção são, em última instância, passa a
cravocrata, colonizador, antinação
de capital humano que as ditaduras ser do trabalhador excluído.
e antipovo negou e continua negan-
da América Latina, particularmente Esta realidade tem sido mais do à maioria dos jovens brasileiros.
a ditadura empresarial militar no perversa em nossa sociedade Mais da metade dos jovens ou estão
Brasil, efetivaram reformas educati- onde a burguesia local nunca se fora da idade/série ou abandonaram
vas em todos os níveis de ensino. A preocupou em construir uma na- a escola. Cerca de 12 milhões de jo-
regressão que se estabelece é de que ção, investir em ciência básica e vens compõem o que erroneamente
não mais a sociedade é a referência universalizar um ensino básico se denomina de “geração nem-nem”.
da escola, mas o mercado. Note-se, (fundamental e médio) de quali- Jovens que nem estudam e nem tra-
porém, que se acreditava que pela dade de onde emergem os jovens balham. Que não estudam, sabemos,
educação todos poderiam ser inte- cientistas. O caminho escolhido mas fazem alguma coisa para viver.
grados na sociedade e no mercado por nossa burguesia foi da cópia Grande parte é atraída ao trabalho
de trabalho, e a desigualdade dimi- e de não desenvolver âmbitos de ilegal ou do crime e seu destino aca-
nuiria. Não foi isto que ocorreu. No conhecimento competitivos. Per- ba sendo a morte pela mão armada
livro O capital do Século XXI (2013)7 demos, assim, todos os avanços do Estado ou as prisões. Trata-se de
o economista Thomas Piketty8 mos- científicos e tecnológicos do sécu- uma tríplice violência que os torna víti-
tra, numa série histórica de cem lo passado e os atuais. mas da pobreza e do preconceito social
anos, que a pobreza cresceu em to- e racial, da violência do Estado que os
dos os países. mata e/ou a prisão.
IHU On-Line – Como o se-
nhor observa o papel do En- Uma proporção elevada destes jovens
7 São Paulo: Intrínseca, 2014. (Nota da IHU On-Line)
está ou em instituições que encarceram
8 Thomas Piketty (1971): economista francês, concentra sino Médio hoje na formação
seus estudos no acúmulo e desigualdade de renda. É di- menores infratores ou nos presídios
retor de pesquisas da École des hautes études en sciences dos jovens brasileiros? E, his-
sociales (EHESS) e professor da Escola de Economia de Pa- onde a maioria dos presos tem menos
ris. Seu livro best-seller, O Capital no Século XXI (São Pau- toricamente, como se deu essa
de 30 anos. Sem considerar as institui-
lo: Intrínseca, 2014), enfatiza as questões do acúmulo de relação entre os jovens, o en-
renda nos últimos 250 anos e argumenta que o acúmulo ções de menores infratores, 55% da po-
de capital cresce mais rápido que a economia, o que gera sino secundarista, o Estado e
desigualdade. A edição 449 da IHU On-Line, intitulada A pulação carcerária têm de 14 a 29 anos
desigualdade no século XXI. A desconstrução do mito da
desejos sociais?
meritocracia, inspira-se na obra O Capital no Século XXI
e vivem nas condições de desumanida-
e circulou meses antes de a obra ser publicada no Bra- Gaudêncio Frigotto – O Ensino de completa. A maioria absoluta não
sil. A edição está disponível em https://bit.ly/2LRSlQv. O
IHU realizou no segundo semestre de 2016 o “Ciclo de Médio nos padrões das nações de- concluiu o Ensino Fundamental. E o
Estudos do Livro O Capital no Século XXI - A Estrutura da
Desigualdade”. Detalhes em http://bit.ly/2c3JDyh. (Nota
senvolvidas é condição necessária que lhes promete o Estado Brasileiro?
da IHU On-Line) para a dupla cidadania: política e Mais cadeias para adultos e jovens in-

EDIÇÃO 544
TEMA DE CAPA

fratores e militarização das escolas. Há, dos jovens que frequentam a escola ca da realidade do Ensino Mé-
pois, não apenas a negação do Estado neste nível, só as encontramos na dio e profissionalizante no Bra-
ao direito constitucional do Ensino Mé- atual Rede de Educação Tecnológica sil com a realidade do Uruguai.
dio, mas políticas de Estado de traços e em algumas escolas ou fundações O que tem percebido desses
autoritários e neofascistas. nos estados como a Fundação Libe- movimentos? Quais as associa-
rato no Rio Grande do Sul. Mas esta ções e dissociações dessas duas
qualidade de ensino não atinge 10% realidades?

“O Ensino dos alunos inscritos no Ensino Mé-


dio público no Brasil e com desigual-
Gaudêncio Frigotto – Trata-se
de sociedades de dimensões mui-
Médio nos dades regionais profundas.
No âmbito das concepções, o desafio
to díspares. Temos uma população
45 vezes maior e numa dispersão
padrões é superar a fragmentação e a perspec- territorial enorme. Todavia, somos
tiva de adaptar o processo educativo
das nações
sociedades que temos em comum
de forma unidimensional ao merca- a colonização de aventureiros e es-

desenvolvidas
do. Trata-se de romper com a ideolo- cravocratas. O Brasil, colonizado
gia do capital humano e da derivação por portugueses, e o Uruguai, por

é condição da pedagogia das competências e da


empregabilidade. Desde 2004, com a
espanhóis. O Brasil, entretanto, foi
mais fortemente marcado pelo DNA
necessária aprovação do Decreto 5.154/04, hou-
ve avanços mediante a política do En-
escravocrata e colonizador. Fomos a
última sociedade ocidental a abolir
para a dupla sino Médio Integrado. Não por acaso
este avanço ocorreu nos Institutos de
formalmente a escravidão.

cidadania: Educação, Ciência e Tecnologia. A


integração implica a não hierarquia
No plano da tradição histórica, o
Uruguai expressa menos precon-

política e de disciplinas e um trabalho coletivo


marcado pela interdisciplinaridade.
ceito ao trabalho técnico. Também
não sofreram, ao longo do tempo,

44 econômica” A forma de integração pode dar-se


por meio de projetos, por eixos inte-
mudanças tão bruscas como as que
tivemos na ditadura empresarial
gradores, temas geradores etc. Isto militar de 1964; depois, na década
demanda tempo de trabalho conjun- de 1990, com a adoção do neolibe-
IHU On-Line – Quais os desa- to dos professores e disponibilidade ralismo e, em especial, com a atual
fios para se modernizar o Ensi- de, mesmo quando existe dissenso, contrarreforma do Ensino Médio.
no Médio e a educação profis- buscar os consensos possíveis. Pelo contrário, no Uruguai observa-
sionalizante, mas sem cair no mos que com os esforços dos últimos
tecnicismo, levando em conta Reforma do Ensino Médio doze anos a presença dos jovens de
a necessidade de investimen- 15 a 17 anos no Ensino Médio au-
to em formação integral? E o A reforma ou contrarreforma do mentou de 40,6% a 49,7%. Isso se
quanto a reforma do Ensino Ensino Médio atual se afasta na ve- deve a criações de centros educati-
Médio se afasta ou se aproxima locidade da luz da concepção de um vos e de programas para garantia de
dessa necessidade? Ensino Médio integrado, integral ou permanência, com diferentes inspi-
por inteiro, que desenvolva todas rações filosóficas, mas que combi-
Gaudêncio Frigotto – O que as dimensões da vida humana dos naram aspectos de políticas focais e
constitui o Ensino Médio de quali- jovens. Ela junta o que é de pior da universais. Aqui no Brasil, os Insti-
dade são as bases materiais neces- reforma do ensino secundário dos tutos Federais de Educação, Ciência
sárias e as concepções pedagógicas anos de ditadura empresarial mili- e Tecnologia representaram a mais
que orientam o processo educativo. tar, do Decreto 2208/97. Voltamos, abrangente política pública de inte-
As primeiras se definem pelo tempo com a imposição da “escolha” dos riorização do Ensino Médio de qua-
do professor na escola e numa só es- itinerários formativos pelo aluno lidade. Política que cinicamente vem
cola, e onde 50% desse tempo seja precocemente, à década de 1940 sendo anulada no governo de Jair
reservado para pesquisa, reuniões da não equivalência de diferentes Bolsonaro mediante os cortes absur-
de estudo, orientação de alunos etc.; ramos de ensino. As Bases Curri- dos no financiamento.
carreira docente e remuneração dig- culares Comuns Nacionais junto à
na; laboratórios para as diferentes contrarreforma do Ensino Médio li- No âmbito das concepções pe-
áreas de conhecimento, prédios es- quidam com a concepção e o direito dagógicas, ambos os países foram
colares com salas de aula adequadas da educação básica. marcados pela ideologia do capital
ao estudo, espaços para arte, cultura humano e, atualmente, rejuvenes-
e esporte; tempo do aluno na escola cida pelas noções de competências,
etc. Estas condições, no ensino pú- IHU On-Line – O senhor tem empregabilidade, qualidade total.
blico em que estudam mais de 80% aproximado sua pesquisa acer- Como no Brasil, também no Uruguai

4 DE NOVEMBRO | 2019
REVISTA IHU ON-LINE

a Pedagogia das Competências e da Outro uso negativo da tecnologia nosas; que busca silenciar e liquidar
Ideologia do Empreendedorismo se é justamente a perda de autonomia o pensamento crítico nas escolas e
entranharam no sistema educativo, docente e a imposição, por parte do nas Universidades mediante a pe-
o que, à primeira vista, representa Estado, daquilo que os governos de dagogia da ameaça, do medo e da
uma contradição entre o espírito pú- plantão e o mercado desejam. Este é violência. Imposição de reitores que
blico e democrático e o sistema edu- traço da cultura autoritária e de tra- sigam a ideologia do governo etc.
cativo daquele país: ou seja, em lu- ços fascistas que se espraiam a cada Acresce-se o culto às armas. Aqui se
gar de se lutar por uma educação que dia mais em nossa sociedade. A ex- deriva para a insanidade.
promova a formação do ser humano pressão mais acabada disto é o que
O fundamentalismo religioso, fi-
emancipado, tenta-se compatibilizar postula o Programa Escola sem Par-
nalmente, centrado especialmente
o sujeito livre com os profissionais tido. Na verdade, trata-se do partido
por denominações neopentecostais
“competentes” e “empreendedores” do pensamento único, da delação, e
que comandam o mercado reli-
requeridos pelo mercado. não do diálogo, mas do ódio ao di-
gioso dos vendilhões dos templos,
ferente e do pensamento crítico. Um
O intercâmbio que estamos efeti- mistura política com crença. Uma
movimento, portanto, próprio dos
vando busca uma superação crítica realidade cada dia mais visível en-
regimes fascistas. Quando se rompe
das concepções e práticas educati- tre nós é o processo em curso de
a relação de confiança entre profes-
vas reducionistas no Ensino Médio subordinar o conhecimento histó-
sor, aluno e sociedade, já não há pro-
e a aproximação das experiências rico e a ciência à crença. Uma cul-
cesso educativo e o convívio social
tura obscurantista, a de descrédito
de educação técnica e profissional está em risco.
da ciência e apelo à pós-verdade
na direção do que buscam os Ins-
O cenário atual não poderia ser mais e crendices como forma de gover-
titutos de Educação, Ciência e Tec-
preocupante. O que colho na reflexão no. A história nos mostra que este
nologia na ampliação do Ensino
crítica de muitos intelectuais, pesqui- fundamentalismo, junto aos dois
Médio Integrado. sadores é que o que nos domina é a anteriores, constitui-se no ovo de
junção da estupidez, da insensatez e serpente e na esfinge que nos ame-
IHU On-Line – No Brasil em da insanidade humana que se expres- aça. Tratemos de nos dar conta dos
que avança o uso da tecnologia sam, em grau maior ou menor, em riscos disso e reunir forças para al- 45
três fundamentalismos (econômico, terar este cenário.
na educação, especialmente no
político e religioso) que comandam a
Ensino a Distância, também
política do atual governo.
se discutem formas de contro- IHU On-Line – Quais os im-
le sobre o professor, como no pactos da Revolução 4.0 na
Deus mercado
caso do Escola sem Partido9. universidade? Como cursos
Como o senhor analisa esses O fundamentalismo econômico que tradicionais têm sido trans-
cenários? define o mercado como uma espécie formados pelas novas tecnolo-
de “deus” ou força extra-humana gias? E como alunos e professo-
Gaudêncio Frigotto – A tecno-
que tudo regula. A ordem é privati- res respondem a esse cenário?
logia certamente pode ter um papel
zar tudo: empresas estatais, bancos
positivo nos processos formativos. Gaudêncio Frigotto – O primei-
públicos, água, pré-sal, minérios e
Seu uso, porém, tem sido uma es- ro e mais amplo impacto é o comér-
agora terras para estrangeiros. No
tratégia de negócio pelo setor pri- cio da educação a distância, que se
plano da educação, o que comanda,
vado e uma forma de desonerar o generaliza em praticamente todas
num país de extrema desigualdade
Estado da educação presencial. as áreas de conhecimento. Como as-
social e cultural, é a ideologia da me-
Ambas têm deformado a educa- ritocracia. As políticas de inclusão sinalei acima, para o setor privado,
ção superior e, agora, adentrando de quilombolas, ribeirinhos, índios, um negócio rendoso. No caso dos
no Ensino Médio. Esta tendência filhos e filhas da classe popular para Estados, adotam as novas tecnolo-
se completa pela defesa do ensino esta visão significam quebrar com o gias dominantemente para diminuir
domiciliar. Escola é mais do que o mandamento da competição. custos e atender as políticas de aus-
conjunto de disciplinas. É espaço teridade para pagar juros a bancos.
de convívio humano com a diversi- Os danos de fundamenta- A Emenda Constitucional 95 é algo
dade social. lismos mundialmente sem precedentes.
Mas as mudanças tecnológicas tam-
9 Programa Escola sem Partido [ou apenas Escola sem O fundamentalismo político que bém trazem pontos positivos na Uni-
Partido]: é um movimento político criado em 2004 no
Brasil e divulgado em todo o país pelo advogado Miguel se pauta pela ideologia do ódio, da versidade, no campo da pesquisa, do
Nagib. Ele e os defensores do movimento afirmam repre-
sentar pais e estudantes contrários ao que chamam de
eliminação dos adversários e crimi- ensino e da extensão. No plano do
“doutrinação ideológica” nas escolas. Ganhou notorieda- nalização dos movimentos sociais ensino, o papel não é, sobretudo, de
de em 2015 desde que projetos de lei inspirados no mo-
vimento começaram a ser apresentados e debatidos em do campo e da cidade que lutam por fornecer informações. Estas o alu-
inúmeras câmaras municipais e assembleias legislativas direitos negados historicamente, no as tem em profusão. Trata-se de
pelo país, bem como no Congresso Nacional. (Nota da
IHU On-Line) cunhando-os de organizações crimi- construir as bases e critérios cien-

EDIÇÃO 544
TEMA DE CAPA

tíficos para selecionar e analisar as profissional, neste sentido, só pode- logo e da confiança, que é a base de
informações. ria ocorrer depois do Ensino Médio. qualquer processo educativo, vem
sendo quebrada pela pedagogia do
Um dos grandes problemas para o Num contexto de desemprego es-
ódio, da mordaça e da delação. Mui-
ensino e o conhecimento denso é que trutural, terão alguma chance de
to grave quando se usa das novas
as tecnologias da “Revolução 4.0” inserirem-se no mercado formal
tecnologias, que têm a possibilida-
estão, como indicamos acima, no do trabalho complexo aqueles que
de de estender membros e sentidos
mundo privado e cada vez mais con- tiverem uma excelente educação
humanos, para uso de técnicas fas-
centradas em poucas corporações, básica, domínio de línguas, está-
cistas que incitam não o debate, o
grupos ou famílias. As informações, gios no exterior etc. No Brasil e no
dissenso qualificado, pedras angu-
neste sentido, não obedecem à lógi- mundo são muito poucos os que
lares do conhecimento e do convívio
ca da construção do conhecimento, sacrificam sua juventude em nome
humano, mas a anulação do ou de
mas à lógica da mercadoria e do des- de um futuro questionado pelo pre-
abater o outro. Quando se defende
cartável, o tempo de um WhatsApp. sente. O grande desafio da educa-
que isto se torne lei, sobra pouco
Isso permite a emergência do que se ção talvez seja de ajudar os jovens,
para o convívio humano.
vem denominando de pós-verdade. em especial filhos e filhas da classe
Mas o conhecimento não lida com trabalhadora do campo e da cida- O que nos cabe é não cair na ar-
pós-verdade, pois esta regride ao re- de, a perceberem pela análise do madilha do medo, pois ele não só
lativismo absoluto em que a verdade processo histórico que a sua gera- nos anula, mas nos adoece. A for-
dos fatos e fenômenos é o que cada ção e as novas gerações somente ma de enfrentá-lo é o trabalho e a
um pensa. Uma mistura de senso co- terão futuro previsível se a ciência, reflexão coletiva. Este é um desafio
mum e crença. No plano da política a terra, a água, as riquezas do sub- que não pode ser adiado e que deve
criam-se as “universidades da men- solo se tornarem um bem comum ser assumido por todas as institui-
tira” para manipular as massas. da humanidade, e não apropriados ções científicas, culturais, religiosas
para o lucro de poucos. e políticas democráticas de nossa
sociedade para que tenhamos futu-
IHU On-Line – Quais os desa- ro previsível. Do grande pensador
46 fios da educação profissional IHU On-Line – Deseja acres- e educador Florestan Fernandes10
no Brasil do século XXI? Como centar algo? aprendemos que a história não se
preparar esses jovens e assegu- abre ou fecha por si mesma, mas
Gaudêncio Frigotto – Um
rar a sua empregabilidade? são os homens e mulheres em luta
grande desafio da educação pública
por seus direitos que abrem ou fe-
Gaudêncio Frigotto – O maior no presente no Brasil é enfrentar a
cham os círculos da história.■
desafio da educação profissional pedagogia da ameaça, do medo por
é que ela possa se realizar a partir setores da sociedade que têm, no
de uma excelente educação básica. magistério de todos os níveis, um
Como diz o termo, é a que dá base inimigo da sociedade, manipula- 10 Florestan Fernandes (1920-1995): sociólogo e político
brasileiro. Foi deputado federal pelo Partido dos Traba-
para o entendimento de como fun- dores de crianças e jovens. O Movi- lhadores - PT, tendo participado da Assembleia Nacional
Constituinte. Recebeu o Prêmio Jabuti em 1964 pelo livro
ciona a sociedade, a natureza e os mento Escola Sem Partido e a perda Corpo e alma do Brasil e foi agraciado postumamente, em
processos de produção. A educação da autonomia docente resultam da 1996, com o Prêmio Anísio Teixeira. O nome de Florestan
Fernandes está obrigatoriamente associado à pesquisa
básica é ela mesma parte substan- tríade de fundamentalismos acima sociológica no Brasil e na América Latina. Sociólogo e pro-
fessor universitário, com mais de 50 obras publicadas, ele
cial da educação profissional. O mencionados e que condensam a transformou o pensamento social no país e estabeleceu
Ensino Médio Integrado busca esta estupidez, a insensatez e a insani- um novo estilo de investigação sociológica, marcado pelo
rigor analítico e crítico, e um novo padrão de atuação in-
unidade diversa. A especialização dade humana. A pedagogia do diá- telectual. (Nota da IHU On-Line)

Leia mais
- ‘A educação está nocauteada’. Entrevista com Gaudêncio Frigotto, publicada nas Notícias
do Dia de 18-6-2018, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos - IHU, disponível em http://bit.
ly/2MtXFwW.
- “Houve avanço na educação, mas é insuficiente”. Entrevista com Gaudêncio Frigotto, pu-
blicada nas Notícias do Dia de 9-12-2014, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos - IHU,
disponível em http://bit.ly/2P1cdp9.

4 DE NOVEMBRO | 2019
REVISTA IHU ON-LINE

Impactos da biologia sintética


na Revolução 4.0 e na bioética
Gabriela dos Santos destaca que não se podem frear os avanços
da Revolução 4.0 e da biotecnologia. O caminho é discutir o
emprego dessas tecnologias de forma ampla e responsável
João Vitor Santos

S
empre que se fala em manipula- conta. E acrescenta: “além disso,
ção genética e biotecnologia há acredito que se perdermos o ‘caráter
um misto de euforia, pelo mun- humano’ não teremos soluções para
do de possibilidades que se abrem, e humanos”.
de medo, pelos riscos desses avanços
Assim, a pesquisadora defende que
ameaçarem a própria vida. Para a bió-
“a discussão sobre bioética no mundo
loga Gabriela Ribeiro dos Santos, esses
atual é extremamente importante. De-
riscos são reais, mas, segundo ela, não
bates como este devem ser estimulados
se pode perder de vista que essa é uma
em todos os níveis da educação formal
questão que sempre esteve associada
e da difusão sobre o conhecimento
aos avanços tecnológicos de socieda-
científico”. “Não me parece, portanto,
des humanas. “Muito antes da enge-
que impedir o avanço das tecnologias
nharia genética, já se usavam armas
químicas e biológicas com grande po-
de edição gênica e biologia sintéti- 47
ca garantiria segurança. A questão é
der destruidor. Não podemos ignorar
bem mais complexa e deve ser tratada
o poder letal do agente laranja empre-
com seriedade e profundidade”, acres-
gado na Guerra do Vietnã, do gás VX
centa. Para tanto, acredita que seja
usado em atos terroristas, assim como
fundamental a promoção de debates
de microrganismos naturais, como a
acerca da bioética não somente entre
bactéria Anthrax e o vírus Ebola. Estes
os pesquisadores, mas envolvendo to-
dois agentes biológicos, por exemplo,
dos “atores da cadeia de inovação: aca-
não sofreram qualquer alteração feita
demia, governo e setor produtivo”. “O
pelo homem e são mais letais do que
Brasil tem muito o que melhorar nesta
qualquer microrganismo ‘engenheira-
articulação”, sintetiza.
do’”, observa, na entrevista concedida
por e-mail à IHU On-Line. Gabriela Ribeiro dos Santos
É por isso que, com relação aos ris- é bióloga, formada na Universida-
cos, Gabriela chama atenção: “tenho de Estadual de Campinas - Unicamp,
minhas dúvidas se estaria mais as- concluiu mestrado em bioquímica no
sociado ao aparecimento das novas Instituto de Química da Universidade
tecnologias ou à natureza humana e de São Paulo - USP e desenvolveu seu
suas características culturais”. For- trabalho de doutorado em genética e
mulação que constrói a partir de sua biologia molecular de microrganismos
experiência na relação com pacientes na Universidade de Manchester, In-
e pesquisadores do Hospital das Clí- glaterra. Desde 2011, vem se especiali-
nicas da Faculdade de Medicina da zando e atuando na promoção e apoio
USP. “Tenho visto que pessoas cria- a pesquisa e inovação em Instituições
tivas, dotadas de senso de empatia, Científicas e Tecnológicas do Estado de
que trabalham com saúde assisten- São Paulo. Atualmente, é gestora Téc-
cial em nosso sistema público, que nica de Inovação do Centro de Inova-
enfrentam situações limites no dia ção Tecnológica do Instituto Central do
a dia, querem genuinamente melho- Hospital das Clínicas da Faculdade de
rar a interação com o paciente para Medicina da USP.
entregar um serviço de qualidade”, Confira a entrevista.

EDIÇÃO 544
TEMA DE CAPA

IHU On-Line – Podemos afir- anos. Na última década, a chamada dicos e de cuidados com os pa-
mar que a revolução tecnológi- “Crispr” mudou o padrão de possibi- cientes, mas quais os riscos de
ca, a chamada Revolução 4.0, lidades, facilitando e barateando em todo esse avanço se converter
tem elevado o campo científico muito a edição gênica (CHARPEN- em relações tecnicistas, desfi-
da saúde a um outro paradig- TIER, E.; DOUDNA, A. J. Biotech- gurando o caráter humano das
ma? Por quê? E o que isso re- nology: rewriting a genome. Natu- Ciências da Saúde?
presenta na prática? re, v. 495, 2013). Para citar um dos
Gabriela Ribeiro dos Santos
Gabriela Ribeiro dos Santos muitos exemplos da revolução 4.0, o
– O risco existe. Mas tenho minhas
– Sim, sem dúvida, podemos fazer trabalho de George Church1 e colabo-
dúvidas se estaria mais associado ao
a afirmação de que a Revolução 4.0 radores, da Harvard Medical School aparecimento das novas tecnologias
mudou o paradigma da saúde. As (CHURCH; GAO; KOSURI, 2012), ou à natureza humana e suas carac-
mudanças já são perceptíveis em to- aperfeiçoado por Goldman e cola- terísticas culturais. Falando da mi-
das as dimensões: (i) em processos boradores (GOLDMAN et al., 2013), nha própria experiência com pesso-
de gestão, (ii) na medicina preven- possibilitou a conversão da lingua- as que me procuram no Hospital das
tiva, (iii) assistiva, (iv) diagnóstica e gem binária (0s e 1s) usada em pro- Clínicas da Faculdade de Medicina
(v) terapêutica. A utilização de siste- gramas de computadores em código da USP, com ideias para solução de
mas de captação de dados, que vão genético composto pelos nucleotíde- problemas que impactam a saúde,
do prontuário eletrônico – com da- os As, Ts, Cs e Gs. posso afirmar que, na grande maio-
dos clínicos e laboratoriais – a dados Esses cientistas conseguiram co- ria das vezes, a motivação da ideia
coletados diretamente do indivíduo, dificar a informação de um texto foi um problema real, cuja solução
no decorrer de suas atividades diá- de William Shakespeare2 em forma traria significativo impacto e ganho
rias, pelos chamados “wearables”, de ácido nucleico, amplificá-la in social. Tenho visto que pessoas cria-
capazes de monitorar sinais vitais, vitro, sequenciá-la e convertê-la de tivas, dotadas de senso de empatia,
atividade física, hábitos alimentares que trabalham com saúde assisten-
volta em código binário, para então
etc., que podem ser integrados, pro- cial em nosso sistema público, que
recuperar o texto original. O mesmo
cessados e analisados, já é uma rea- enfrentam situações limites no dia a
processo foi feito in vivo, estocan-
48 lidade para um número significativo dia, querem genuinamente melhorar
do-se a informação em bactérias e
de pessoas no mundo. a interação com o paciente para en-
expressando imagem além de texto.
Esta infinidade de informações tem Estava criado o gravador biológico, tregar um serviço de qualidade.
retroalimentado a ciência de forma com uma capacidade de estocagem Além disso, acredito que se per-
sem precedentes. A ciência que é ca- um milhão de vezes maior do que a dermos o “caráter humano” não
paz de responder a questões e desafios de um disco rígido (veja este e outros teremos soluções para humanos. É
da saúde, cada vez mais complexos, exemplos em “Automação e Socieda- claro que não basta a boa intenção
tornou-se multidisciplinar e integra os de – quarta revolução industrial, um do profissional-criativo, que está
mundos físico, biológico e digital. olhar para o Brasil – Ferraz, Soares em contato direto com o problema,
e Ribeiro-dos-Santos, Cap. 8. Mun- mas de todos os atores da cadeia de
do Biológico, Brasport. 2018”). inovação: academia, governo e setor
IHU On-Line – E, mais espe-
cificamente, quais os efeitos da produtivo. O Brasil tem muito o que
Revolução 4.0 na biotecnologia? melhorar nesta articulação.
IHU On-Line – Não há dúvida
Gabriela Ribeiro dos Santos de que a tecnologia é uma gran-
– A biotecnologia tem testemunha- de aliada nos tratamentos mé- IHU On-Line – Como pode-
do um enorme avanço nas últimas mos compreender o que signi-
1 George McDonald Church (1954): é um geneticista e
décadas. Dentre muitos fatores, des- químico estadunidense. Desde 2015, é professor de Ge-
fica a revolução que se vive atu-
taco (i) o barateamento e aumento nética na Harvard Medical School e de Ciências da Saúde almente no campo da biologia
e Tecnologia em Harvard e MIT. Foi membro fundador do
da capacidade de sequenciamento Instituto Wyss de Engenharia Biologicamente Inspirada sintética? E, na prática, como
em Harvard. (Nota da IHU On-Line)
em larga escala, (ii) novas metodo- 2 William Shakespeare (1564-1616): dramaturgo inglês.
a manipulação precisa de sis-
logias de estudo de expressão gênica Considerado por muitos como o mais importante dos es- temas biológicos tem afetado a
critores de língua inglesa de todos os tempos. Escreveu
de forma exploratória, abrangendo algumas das mais marcantes tragédias da cultura oci- vida cotidiana?
dental, mas também algumas comédias. De suas obras,
todo o genoma, e não mais restrito incluindo aquelas em colaboração, restaram até os dias de Gabriela Ribeiro dos Santos –
a sequências e marcadores previa- hoje 38 peças, 154 sonetos, dois longos poemas narrativos
e mais alguns versos esparsos, cujas autorias, no entanto, Hoje temos exemplos reais no mun-
mente conhecidos, (iii) a bioinfor- são ainda disputadas. Suas peças foram traduzidas para
todas as principais línguas modernas e são mais encena- do, em que (i) animais de estimação
mática e a capacidade de análise de das que as de qualquer outro dramaturgo. Muitos de seus foram clonados sob encomenda,
dados em larga escala, e (iv) as novas textos e temas permanecem vivos até a atualidade, sendo
revisitados com frequência. Algumas de suas obras são as (ii) algumas crianças já nasceram
tecnologias de biologia sintética. tragédias Romeu e Julieta; Júlio César; Macbeth; Rei Lear;
Otelo, o Mouro de Veneza; Hamlet; e A Tempestade; e as de embriões editados geneticamen-
A biologia sintética, em seu senti- comédias Sonho de uma Noite de Verão; O Mercador de
Veneza; Noite de Reis; A Megera Domada; A Tempestade; e
te para serem resistentes ao HIV
do mais amplo, existe há mais de 40 As Alegres Comadres de Windsor. (Nota da IHU On-Line) (pelo menos à via predominante de

4 DE NOVEMBRO | 2019
REVISTA IHU ON-LINE

infecção pelo HIV), (iii) animais fo- foi sugerido um guia de cautela e tica. Pelo que discutimos acima, fica
ram gerados em úteros artificiais, (iv) critérios de segurança laboratorial, claro que a discussão sobre bioética
um coração foi literalmente impres- além de uma espécie de moratória, no mundo atual é extremamente im-
so a partir de células diferenciadas até que se tivesse um maior conheci- portante. Debates como este devem
em laboratório etc. Temos também mento e domínio do assunto. ser estimulados em todos os níveis
uma meia dúzia de drogas e agentes da educação formal e da difusão so-
Em retrospectiva, muitos cientistas
aprovados pela Food and Drug Admi- bre o conhecimento científico.
concordam que a iniciativa de Asi-
nistration - FDA para terapia gênica,
lomar foi um exemplo praticamente
porém o acesso a este tipo de terapia
único na história da biotecnologia. IHU On-Line – A bioética tem
é ainda muito restrito por várias bar-
De lá para cá, o desenvolvimento tec- conseguido acompanhar esses
reiras técnicas e pelo altíssimo custo3.
nológico foi incomparavelmente mais avanços dos últimos tempos?
De qualquer forma, esses exemplos amplo e profundo do que a discussão Por quê?
marcam o potencial incalculável da e alinhamento sobre os aspectos éti-
biologia sintética e da medicina de cos e de biossegurança, principal- Gabriela Ribeiro dos Santos –
precisão. Neste sentido, há um vasto mente no que se refere à manipula- Acredito que não. No caso da tecno-
campo de desenvolvimento de trata- ção de embriões humanos5. logia CRISPR, por exemplo, notícias
mentos de doenças crônicas e infeccio- de que cientistas haviam usado CRIS-
O risco, portanto, existe. Entretanto, PR-Cas9 para engenharia genética de
sas, como diferentes tipos de câncer,
muito antes da engenharia genética, já embriões humanos (LIANG et al.,
diabetes, hepatites, HIV/Aids, para
se usavam armas químicas e biológicas 2015), suscitou preocupação na clas-
os quais se consideram característi-
com grande poder destruidor. Não po- se científica no mundo todo, levan-
cas genéticas do indivíduo e do agente
demos ignorar o poder letal do agente do os governos dos Estados Unidos,
causador da doença. O grande desafio
laranja empregado na Guerra do Viet- Grã-Bretanha e China a estabelece-
é como tornar a medicina de precisão
nã, do gás VX usado em atos terroris- rem uma espécie de moratória refe-
acessível à maioria da população.
tas, assim como de microrganismos rente a experiências que causassem
naturais, como a bactéria Anthrax e o alterações permanentes no genoma
IHU On-line – Quais os riscos vírus Ebola. Estes dois agentes biológi- humano e modificações em células
desse enorme salto que temos cos, por exemplo, não sofreram qual- reprodutivas (BALTIMORE et al., 49
dado no campo da biologia, es- quer alteração feita pelo homem e são 2015). Isso não impediu que experi-
pecialmente na genética? mais letais do que qualquer microrga- ências continuassem em muitos la-
nismo “engenheirado”. Não me parece, boratórios do mundo. Tanto foi que,
Gabriela Ribeiro dos Santos portanto, que impedir o avanço das em 2017, uma equipe de cientistas,
– Quase 45 anos se passaram após tecnologias de edição gênica e biologia incluindo esses mesmos países, cor-
a famosa Conferência de Asilomar4, sintética garantiria segurança. A ques- rigiu uma mutação que causa cardio-
na Califórnia, que reuniu os maio- tão é bem mais complexa e deve ser tra- miopatia hipertrófica, responsável
res cientistas do mundo para dis- tada com seriedade e profundidade6. por mortes súbitas de jovens atletas.
cutir aspectos de segurança e ética
sobre a então nascente “tecnologia Neste experimento, gametas femi-
do DNA recombinante”, ou “enge- IHU On-Line – Como mensurar ninos tratados com CRISPR-Cas9 e
nharia genética”. O temor de que a importância da bioética num fertilizados com espermatozoide por-
as cepas transformadas da bactéria mundo de grandes transforma- tador da mutação da cardiomiopatia
Escherichia coli, principal veículo de ções tecnológicas e científicas? puderam gerar embriões com células
clonagem gênica da época, pudes- normais, sem a mutação deletéria e
Gabriela Ribeiro dos Santos
sem contaminar o ambiente e ou- sem alteração genética colateral de-
– A relação do homem com o com-
tros organismos, gerando quimeras tectável por sequenciamento genô-
putador pessoal (celular, tablets,
inesperadas e descontroladas, não mico (MA et al., 2017). Além desse e
relógios, pulseiras, óculos etc.), a co-
se concretizou. De qualquer forma, outros exemplos, há já anunciado o
municação entre os objetos, a com-
nascimento de crianças geneticamen-
putação em nuvem e a inteligência
3 Ver https://www.technologyreview.com/s/613576/gene- te modificadas para o receptor do
therapy-may-have-its-first-blockbuster. (Nota da entrevis- artificial já são atividades rotineiras
tada) vírus HIV, tornando-se resistente a
que impactam a ciência sem que
4 Conferência Asilomar sobre DNA Recombinante: foi esse vírus7. No entanto, esta interven-
uma conferência influente organizada por Paul Berg para haja, na mesma proporção, um con-
discutir os possíveis riscos biológicos e a regulamentação ção foi extremamente controversa e
da biotecnologia, realizada em fevereiro de 1975 em um trole ou domínio sobre suas conse-
centro de conferências em Asilomar State Beach. Um gru- suscitou alegações por parte da classe
quências e rumos no campo da bioé-
po de cerca de 140 profissionais (principalmente biólogos, científica de que pode estar associada
mas também incluindo advogados e médicos) participou
da conferência para elaborar diretrizes voluntárias para a efeitos colaterais graves8.
garantir a segurança do DNA recombinante. A conferência
também colocou a pesquisa científica em domínio públi- 5 Ver https://www.the-scientist.com/news/reconsidering
co e pode ser vista como uma aplicação do princípio da -asilomar-56062. (Nota da entrevistada) 7 Ver mais em https://www.sciencedaily.com/relea-
precaução. Os efeitos dessas diretrizes ainda estão sendo 6 Veja mais sobre o assunto em: Automação e Sociedade ses/2019/06/190603124709.htm. (Nota da entrevistada)
sentidos pela indústria da biotecnologia e pela participa- – quarta revolução industrial, um olhar para o Brasil – Fer- 8 Ver https://www.sciencedaily.com/releases/2019/06/
ção do público em geral no discurso científico. (Nota da raz, Soares e Ribeiro-dos-Santos, Cap. 8. Mundo Biológico, 190603124709.htm. Veja mais sobre o assunto em: Auto-
IHU On-Line) Brasport. 2018. (Nota da entrevistada) mação e Sociedade – quarta revolução industrial, um olhar

EDIÇÃO 544
TEMA DE CAPA

IHU On-Line – O que há de gênicas para doenças como HIV/Aids IHU On-Line – Como está o
mais avançado em termos de e os vários tipos de câncer cujos trata- Brasil em termos de investi-
estudos e pesquisas acerca do mentos atuais não curam suas causas. mentos tecnológicos para o
CRISPR-Cas9? O câncer possui várias etiologias que desenvolvimento da ciência?
têm em comum o crescimento celular Quais os principais avanços e
Gabriela Ribeiro dos Santos
desordenado. A tecnologia CRISPR- quais os maiores desafios?
– Resumidamente, o CRISPR é um
Cas9 abre um campo de possibilida-
mecanismo natural de defesa de vá- Gabriela Ribeiro dos Santos
des, que têm sido testadas para de-
rios tipos de bactérias, que passa pela – O Brasil é um país com muitas
sativar oncogenes virais e/ou induzir
incorporação de material genético desigualdades e isso se aplica tam-
a expressão de genes supressores de
de um organismo invasor, um vírus bém ao investimento em tecnologia
tumores, como o que codifica a pro-
bacteriófago, por exemplo, e poste- e ciência, o que põe em risco o de-
teína p53, por exemplo (XIAO-JIE et
rior formação do complexo CRISPR, senvolvimento tecnológico do país
al., 2017). No caso do vírus HIV, um
composto de sequências codificado- como um todo. O desenvolvimento
dos maiores desafios é a eliminação
ras para diferentes enzimas endonu- tecnológico e a Revolução 4.0 não
completa da forma integrada (laten-
cleases e um “RNA guia único” (sgR- vão acontecer de forma estanque e
te) do vírus, que não é atingida pelos
NA, do inglês “single guide RNA”). isolada. A infraestrutura de comu-
antirretrovirais clássicos.
Quando esta bactéria entra em conta- nicação em rede eletrônica tem que
to com o mesmo organismo invasor, Podemos citar o caso da eliminação ser robusta e abrangente; e ana-
cujo DNA está representado em seu do receptor CCR5 através do CRIS- listas reportam que o Brasil não
genoma, o complexo CRISPR trans- PR-Cas9, alterando a “fechadura” (re- implementou propriamente nem
crito, composto pela endonuclease ceptor celular) específica para a “cha- sequer a terceira revolução indus-
CAS9 e o sgRNA complementares ao ve” de entrada (proteína do envelope trial – a da informatização. Por-
do agente invasor, reconhece e des- viral) do HIV em embriões humanos tanto temos muito o que fazer se
trói o DNA do invasor. (XU et al., 2017). Entretanto, entre es- quisermos pegar o bonde da quarta
sas experiências e a disponibilização revolução.
No entanto, o sistema CRISPR foi
de um tratamento seguro e eficaz há
proposto como uma ferramenta de Por outro lado, estamos vivenciando
50 um longo caminho a percorrer12.
edição gênica, vários anos após ser um aumento da iniciativa da socieda-
conhecido como um sistema de de- de civil como agente transformador,
fesa das bactérias. Em 2012, Jennifer sem precedentes. A despeito do cha-
Doudna9 e Emmanuelle Charpen-
tier10 publicaram “A programmable
“Se perdermos mado “custo Brasil”, da burocracia,
da ineficiência das instâncias regula-
dual-RNA-guided DNA endonuclea-
se in adaptive bacterial immunity”11.
o caráter doras e fiscais, da corrupção sistêmi-
ca, e da falta de políticas alinhando os
humano setores acadêmico, público e privado,
o país testemunha hoje um boom nas
IHU On-Line – As terapias gêni-
cas, ou seja, a partir da manipu-
não teremos iniciativas de empreendedorismo de
base tecnológica – através das cha-
lação genética, já são uma reali-
dade no campo da saúde? Como
soluções para madas startups.

tem sido empregada? E quais as


barreiras para o emprego dessa
humanos” As startups consistem, hoje, talvez
na via mais prolífica no país de se
tecnologia em larga escala? transferir tecnologia da academia ao
setor produtivo e de se criar e mo-
Gabriela Ribeiro dos Santos – delar um novo negócio. No campo
Há muitas barreiras técnicas e éticas IHU On-Line – Além do campo da saúde, temos vários exemplos de
para o desenvolvimento de terapias da saúde, onde percebemos os startups que desenvolveram solu-
avanços da manipulação preci- ções de diagnósticos personalizados
sa de sistemas biológicos? e foram absorvidas por grandes la-
para o Brasil – Ferraz, Soares e Ribeiro-dos-Santos, Cap.
8. Mundo Biológico, Brasport. 2018. (Nota da entrevistada)
Gabriela Ribeiro dos Santos boratórios ou se tornaram grandes
9 Jennifer A. Doudna Cate (1964): é uma bioquímica e
bióloga molecular estadunidense. É professora da Univer- – A agropecuária tem sido enorme- prestadores de serviços nacionais e
sidade da Califórnia em Berkeley. (Nota da IHU On-Line)
10 Emmanuelle Marie Charpentier (1968): é professora e mente impactada pela biotecnologia, internacionais13.■
pesquisadora francesa em microbiologia, genética e bio- de forma mais abrangente e intensiva
química. Desde 2015, é diretora do Instituto Max Planck
de Biologia de Infecções, em Berlim, Alemanha. Em 2018, do que a saúde, pelo fato de ser um
ela fundou um instituto de pesquisa independente, a Uni-
dade Max Planck para a Ciência dos Patógenos. (Nota da setor menos regulado e com forte
IHU On-Line)
11 CHARPENTIER, E.; DOUDNA, A. J. Biotechnology: rewri-
apelo econômico. 13 Saiba mais em Revista Saúde Business, 2018 (https://
saudebusiness.com/empreendedorismo-saude/levan-
ting a genome. Nature, v. 495, p. 50-51, 07 mar. 2013. Veja tamento-mapeia-as-startups-brasileiras-que-trazem-i-
mais sobre o assunto em: Automação e Sociedade – quar- novacoes-para-saude/ e em http://www.fapesp.br/pipe/
ta revolução industrial, um olhar para o Brasil – Ferraz, programa_pesquisa_inovativa_em_pequenas_empre-
Soares e Ribeiro-dos-Santos, Cap. 8. Mundo Biológico, 12 Saiba mais em https://learn.genetics.utah.edu/content/ sa_da_fapesp_bate_5_recorde_consecutivo/84/. (Nota da
Brasport. 2018 (Nota da entrevistada) genetherapy/tools/. (Nota da entrevistada) entrevistada)

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Referências
(i) animais de estimação foram clonados sob encomenda, https://www.nature.com/articles/
s41598-017-15328-2 e https://www.smithsonianmag.com/science-nature/why-cloning-your-
dog-so-wrong-180968550/

(ii) algumas crianças já nasceram de embriões editados geneticamente para serem resistentes
ao HIV (pelo menos à via predominante de infecção pelo HIV), https://www.nature.com/
news/second-chinese-team-reports-gene-editing-in-human-embryos-1.19718; e https://www.
technologyreview.com/s/612458/exclusive-chinese-scientists-are-creating-crispr-babies/

(iii) animais foram gerados em úteros artificiais, https://link.springer.com/article/10.1007/s40778-


018-0120-1

(iv) um coração foi literalmente impresso a partir de células diferenciadas em laboratório etc.
https://www.nature.com/articles/pr2017252

LIANG et al., 2015


LIANG, P. et al. CRISPR/Cas9-mediated gene editing in human tripronuclear zygotes. Protein & Cell, v. 6,
n. 5, p. 363-372, May 2015. Disponível em: <https://link.springer.com/article/10.1007/s13238-015-0153-5>.

BALTIMORE et al., 2015.


BALTIMORE et al. A prudent path forward for genomic engineering and germline gene modification. 51
Science, v. 348, n. 6230, p. 36-38, 03 abr. 2015. Disponível em: <http://science.sciencemag.org/
content/348/6230/36>.

MA et al., 2017
MA, H. et al. Correction of a pathogenic gene mutation in human embryos. Nature, Article, v. 548, n.
7668, p. 413-418, 24 ago. 2017. Disponível em: <http://www.nature.com/nature/journal/v548/n7668/full/
nature23305.html>.

XIAO-JIE et al., 2017


XIAO-JIE, L. et al. CRISPR-Cas9: a new and promising player in gene therapy. Journal of Medical Genetics,
v. 52, n. 5, May 2015. Disponível em: <http://jmg.bmj.com/content/52/5/289>.

XU et al., 2017
XU, L. et al. CRISPR/Cas9-Mediated CCR5 Ablation in Human Hematopoietic Stem/Progenitor Cells
Confers HIV-1 Resistance In Vivo. Molecular Therapy, v. 25, n. 8, p. 1782-1789, 02 ago. 2017. Disponível
em: <http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S1525001617302137#>.

EDIÇÃO 544
TEMA
XIX SIMPÓSIO
DE CAPAINTERNACIONAL IHU

Homo Digitalis. A escalada da


algoritmização da vida
9 a 21 de outubro de 2020
Campus Unisinos Porto Alegre

Apresentação

A Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos, numa iniciativa do Instituto Humanitas Unisinos
– IHU, ao promover o XIX Simpósio Internacional IHU. Homo Digitalis. A escalada da algoritmização da
vida, tem como proposta debater transdisciplinarmente a digitalização como um modo de ser no mundo.
Hoje há um processo exponencial da digitalização da vida e da sociedade. Os algoritmos cada vez mais
dirigem a vida, as decisões e as ações humanas. A inteligência artificial está interferindo no modo de ser
no mundo, determinando o relacionamento humano, criando um tipo especial de presença. Como é um
fenômeno ainda recente, carece de discussão e aprofundamento, mormente no Brasil.
Tendo como missão “promover a formação integral da pessoa humana”, o que exige excelência técnica
e científica fundamentada em valores humanistas, a Unisinos coloca o tema da digitalização em pauta,
oportunizando que a sociedade tenha um espaço aberto para discutir esta realidade com toda sua carga
semântica e transformadora.
52 No desenvolvimento da reflexão, buscar-se-á debater, numa visão transdisciplinar, a digitalização como
um modo de ser no mundo, que cada vez mais se estabelecerá com força na estruturação social. Reco-
nhecendo esse dado da realidade, o Simpósio debruçar-se-á sobre as potencialidades, limites e riscos da
digitalização, identificando seus impactos na reprodução da vida humana e do Planeta.
Outros aspectos relevantes do tema são a cultura, a economia e a ética. Nesse sentido, qual o paradigma
cultural e a consequente mentalidade que sustentam a digitalização?
Que implicações traz a digitalização para os processos de subjetiva-
ção contemporâneos e no governo biopolítico da vida humana?
Igualmente, o processo da produção digital dos dados na economia
e no mundo do trabalho exige que se ponderem seus efeitos para a
vida social.
Tanto a digitalização como a algoritmização dos comportamentos e
das decisões morais trazem inúmeros desafios éticos que devem ser
analisados e cotejados num processo de reflexão.
Por último, frente às desigualdades sociais e à reprodução das iden-
tidades, quais são as implicações da inteligência artificial?
O processo de reflexão presente no projeto procura decifrar o que está
acontecendo e sua consequência no modo de viver na sociedade.

Objetivo Geral

Debater transdisciplinarmente a digitalização como um modo de


ser no mundo.

Objetivos Específicos

– Discutir as potencialidades, limites e riscos da digitalização, apontando os impactos na (re)produção


da vida humana e do Planeta.

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REVISTA IHU ON-LINE

– Descrever o paradigma cultural e a correspondente mentalidade que sustentam a digitalização.


– Debater as implicações da digitalização nos processos de subjetivação contemporâneos e no governo
biopolítico da vida humana.
– Refletir sobre os desafios éticos da digitalização e algoritmização dos comportamentos e das decisões
morais.
– Ponderar os efeitos da produção digital de dados na organização da economia e no mundo do trabalho.
– Analisar a inteligência artificial e a algoritmização na reprodução das identidades e das desigualdades.

Realização

Data: 19 a 21 de outubro de 2020 (segunda-feira a quarta-feira)


Teatro Unisinos | Campus Unisinos Porto Alegre

Leia mais
- A desindustrialização brasileira e a desigualdade social. Os 5% mais ricos detêm a mesma
fatia de renda que 95% da população. Entrevista especial com Márcio Pochmann, publicada nas
Notícias do Dia de 26-09-2019, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU, disponível em http://
bit.ly/2Njj5gw.
- “Agora, todos temos uma causa comum: estabelecer os direitos dos trabalhadores ‘fantas-
mas’”. Entrevista com Mary L. Gray, reproduzida nas Notícias do Dia de 03-10-2019, no sítio do Insti- 53
tuto Humanitas Unisinos – IHU, disponível em http://bit.ly/32faW0Y.
- Revolução sem corpo? Artigo de Constance Michelson, psicanalista e escritora, publicado por La
Tercera e reproduzido nas Notícias do Dia de 19-10-2019, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos –
IHU, disponível em http://bit.ly/2PLBnZk.
- A China e a Revolução 4.0. Uma nova hegemonia mundial? Entrevista especial com Bruno Hen-
dler, publicada nas Notícias do Dia de 24-10-2019, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU,
disponível em http://bit.ly/2PLBAvA.
- Brasil e China: uma relação comercial assimétrica. Entrevista especial com Celio Hiratuka, pu-
blicada nas Notícias do Dia de 05-11-2019, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU, disponível
em http://bit.ly/2rcZy8R.
- Revolução 4.0 e a lição de Marx. Artigo de Cesar Sanson, professor na área da sociologia do tra-
balho na Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN, publicado nas Notícias do Dia de
01-09-2017, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU, disponível em http://bit.ly/2oNuNqe.
- Revolução 4.0 - A revelação da “iconomia”: integração do conhecimento ao lado da terra, capi-
tal e trabalho na organização socioeconômica. Entrevista especial com Gilson Schwartz, publica-
da nas Notícias do Dia de 07-08-2017, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU, disponível em
http://bit.ly/2PQPQTY.
- Revolução 4.0. O mundo está mudando para melhor ou para pior? Artigo do acadêmico cana-
dense Vincent Mosco, autor de obras de referência como To the Cloud, publicado por El País e repro-
duzido nas Notícias do Dia de 04-04-2017, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU, disponível
em http://bit.ly/2PQQi4C.
- “Teremos que integrar os robôs em nós mesmos”. Entrevista com Andrés Ortega Klein, reprodu-
zida nas Notícias do Dia de 04-09-2019, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU, disponível em
http://bit.ly/2WMb6vK.
- Diante do tsunami tecnológico. Artigo de Silvia Ribeiro e Jim Thomas, diretores do Grupo ETC
(Erosão Tecnologia e Concentração), publicado por ALAI e reproduzida nas Notícias do Dia de 13-
09-2019, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU, disponível em http://bit.ly/34wnPoH.

EDIÇÃO 544
CINEMA

Cena do filme Em Guerra

54

As Fronteiras da Guerra
João Ladeira

“Em Guerra possui vários méritos: seu texto, atuação e ambientação. Mas sua principal quali-
dade reside no jogo visual com os corpos que nunca saem de cena”, escreve João Ladeira1.
Eis a resenha.

Há algo de notável no roteiro de Em Guerra (En Guerre, de 2018, de Stéphane Brizé). Um


texto menos preciso faria com que o filme fosse de um tédio insuportável, mas a fluidez com que
se desdobram as infinitas negociações entre Laurent Amédéo (Vincent Lindon), o delegado da
Confederação Geral do Trabalho (CGT), com patrões, burocratas de Estado e representantes de
industrias torna o filme marcante.
Soa natural. Pois, se a obra parece tão bem-informada sobre as entranhas de uma greve, isso
se deve ao fato de ter alguém como Xavier Mathieu entre seus roteiristas. Existem atores com
trajetórias curiosas, mas poucos talvez rivalizem com esse que dividiu a tarefa de escritor com a
de líder sindical, atuante em intervenções bem parecidas com as do filme, condenado a multas
de milhares de euros.
Existe algo de concreto nesse Em Guerra, uma sensação sustentada ao longo das duas horas
em que assistimos um microcosmo encenado. É a história da Whirlpool em Amiens; da Meta-
leurop em Noyelles-Godault; da Arcelor-Mittal em Florange; da Continental em Clairoix: um
retrato do desemprego que alcança a – pensávamos – inalcançável Europa.

1 João Martins Ladeira é professor na Universidade Federal do Paraná, possui doutorado em Sociologia pelo Iuperj, mestrado e graduação em Co-
municação pela UFF. (Nota da IHU On-Line)

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Não há vagas

Do Terceiro Mundo, nos sentimos em casa ao presenciar problemas semelhantes àqueles que
vemos do outro lado da rua – Ford e São Bernardo do Campo. Mas os filmes de Brizé não são
uma reportagem, por mais que este tente se aproximar disso. Parece difícil esquecer, mas tudo
que está na tela foi construído, embora o realismo seja uma pretensão.
Brizé tentou desta vez algo que tinha experimentado aqui e ali, mas nunca com esse ímpeto.
O Valor de um Homem (La Loi du Marché, 2015) flertava com o imediatismo que certo uso de
atores amadores concede. Existe algo de urgente nessas encenações com pretensão de esponta-
neidade, uma vivência de profunda identidade com o mundo.
Mas Mademoiselle Chambon (2009) se concentrava na energia de seus intérpretes, Sandrine
Kiberlain e Lindon; e a adaptação de Maupassant, A Vida de uma Mulher (Une Vie, 2016) era
planejada de modo meticuloso, não apenas na sua representação, mas também no caráter deli-
cado obtido pelo flerte com a passagem do tempo e a narrativa elíptica.
Olhos nos olhos

O cerne de Em Guerra está na pretensão de automatismo inscrito em sua imagem. A câmera,


sempre na altura dos olhos, filmando os personagens por trás dos ombros dos supostos envolvi-
dos nas discussões sindicais, produz a ilusão de que somos parte do processo. A sensação conce-
de força ao trabalho: mas é curiosa a pretensão dessa narrativa ficcional.
Pois não apenas do realismo Em Guerra retira sua energia, que não é absolutamente escassa.
“Filmes de sindicato” bem poderiam constituir um gênero, talvez uma fração do “filme de ques-
tão social”. De Pão e Rosas (Bread and Roses, 2000, de Ken Loach) a Como Era Verde o Meu
Vale (How Green Was My Valley, 1941, de John Ford), muitas visões de mundo se cruzam em
torno de uma única sensação.
Mas este drama moral da crise do trabalho contemporâneo seria mais frouxo, menos convin- 55
cente caso não tivesse sido catapultado por essas decisões cinematográficas. O impacto dos fatos
– negociar ou não negociar com o CEO alemão, aceitar ou não a compensação financeira, ocupar
ou não a fábrica – se diluiria.
Quadro a quadro

As informações dão credibilidade ao que assistimos, fazendo o tempo todo com que lembremos
e esqueçamos da dramatização. Mas, o que amarra esse resultado? O que concede a Em Guerra
esse engajamento? Para além das interpretações, do texto e dos dados contidos no filme, há um
detalhe cinematográfico: não há fora de quadro em todo o filme.
Tudo o que acontece ocorre dentro do espaço cênico
construído pela câmera, nos oferecendo a sensação de que
não há nada para além da imagem. Esse território se con-
centra todo o tempo em alguns poucos personagens. Não
existe universo para além das lutas que presenciamos.
Nossa única possibilidade para conhecer o mundo priva-
do desses trabalhadores está na cena em que Amédéo con-
versa com Mélanie (Mélanie Rover) que lhe conta sobre a
relação não muito boa com o marido. Outra exceção são os
interlúdios do sindicalista com sua filha, mas esses servem
muito mais para proporcionar a catarse do final.
Corpo a corpo

Alguns críticos acharam essa conclusão forçada, um tan-


to falsa, como se todo o drama fácil que o filme expulsou
pela porta da frente retornasse pelos fundos. Poderia ser
de outra maneira? Talvez: mas, para além dos dilemas nar-
rativos, há uma questão estética em jogo. Pois Brizé nunca
foi tão zeloso com essas fronteiras do enquadramento. Em Guerra (2018), de Stéphane Brizé

EDIÇÃO 544
CINEMA

Esse engajamento pontual com alguns poucos personagens repetidamente em cena faz com
que se dependa das atribuições concentradas em suas personas. Não poderia haver uma solução
que apontasse para o futuro, como no clímax de Pontecorvo para A Batalha de Argel (La Batta-
glia di Algeri, 1965). Tudo tinha que se resolver aqui e agora.
Se as tensões desse drama trabalhista se concentram nos corpos em quadro, não é gratuito que
a conclusão passe também por eles. Que a tragédia de Amédéo seja mostrada numa gravação de
celular alegoriza esse foco, fazendo com que o filme se distancie e se aproxime dele próprio, num
ato que ocorre fora, mas também dentro da projeção. ■

Ficha técnica
Título original: En Guerre
Ano: 2019
Direção: Stéphane Brizé
Gênero: Drama
Nacionalidade: França
Assista o trailer em: http://bit.ly/2qbECP4

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PUBLICAÇÕES

A Universidade em busca
de um novo tempo

O
número 290 dos Cadernos IHU ideias traz o artigo de Pedro Gilberto
Gomes, vice-reitor da Unisinos. No texto, intitulado “A Universida-
de em busca de um novo tempo”, o autor se propõe a analisar aspec-
tos que, segundo ele, “deixam transparecer a encruzilhada na qual se encon-
tra o ensino superior hoje e, por conseguinte, a instituição universitária: ou
acontece uma reinvenção do processo, ou a universidade perderá espaço na
formação das pessoas”. Gomes ainda
destaca que, hoje, a universidade “é
chamada a atuar com novas formas e
novos métodos, nos desafios que a ela
são postos. Enfim, precisa se reinven-
tar”. “Nessa perspectiva, apresento
aqui reflexões e opiniões expressadas
por mim em momentos específicos da
vida brasileira e que talvez possam
contribuir modestamente para a es-
truturação de uma nova instituição
58 universitária nacional”, acrescenta.
Pedro Gilberto Gomes possui
graduação em Filosofia pela Pontifícia
Universidade Católica do Rio Grande
do Sul, especialização em Teologia
pela Pontifícia Universidad Católica
de Santiago, mestrado em Ciências
da Comunicação pela Universidade
de São Paulo e doutorado em Ciências
da Comunicação pela Universidade
de São Paulo. Atualmente é professor
titular da Unisinos. Tem experiência
na área de Comunicação, com ênfase
em Jornalismo e Editoração, atuando
principalmente nos seguintes temas:
comunicação, comunicação cristã,
comunicação, cultura e mídia. Mem-
bro do Conselho de Ciência, Tecnolo-
gia e Inovação do Rio Grande do Sul,
Membro e Vice-Presidente do Conse-
lho Superior da FAPERGS (Fundação
de Amparo à Pesquisa do estado do
Rio Grande do Sul). Exerce o cargo de
Vice-Reitor da Unisinos e é diretor da Editora da mesma Universidade.
Acesse a versão completa do Caderno em http://bit.ly/2C3I29k.
Estas e outras edições dos Cadernos IHU ideias também podem ser obtidas
diretamente no Instituto Humanitas Unisinos - IHU, no campus São Leo-
poldo da Unisinos (Av. Unisinos, 950), ou solicitadas pelo endereço humani-
tas@unisinos.br. Informações pelo telefone (51) 3590-8213.

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Outras edições em www.ihuonline.unisinos.br/edicoes-anteriores

Biologia sintética. O redesenho da vida e a


criação de novas formas de existência
Edição 429 – Ano XIII – 15-10-2013
Revoluções tecnocientíficas, culturas, indivíduos e sociedades. A modela-
gem da vida, do conhecimento e dos processos produtivos na tecnociên-
cia contemporânea foi o tema do XIV Simpósio Internacional IHU a ser
realizado em outubro de 2014. Uma série de pré-eventos, entre os quais
três seminários semestrais, preparam para o evento. Em outubro de 2013,
foi amplamente debatido o Projeto Biologia Sintética com dois pesquisa-
dores que trabalham no Centro de Ciencias Humanas y Sociales - CSIC,
em Madri, Jordi Maiso Blasco e José Antonio Zamora Zaragoza, respec-
tivamente. Essa edição da revista IHU On-Line amplia o debate do tema.

As tecnociências e a modelagem da vida


59

Edição – 456 – Ano XIV – 20-10-2014

Por ocasião do XIV Simpósio Internacional IHU: Revoluções tecno-


científicas, culturas, indivíduos e sociedades. A modelagem da vida,
do conhecimento e dos processos produtivos na tecnociência contem-
porânea, promovido pelo Instituto Humanitas Unisinos - IHU, que foi
realizado nos dias 21 a 23 de outubro, a edição 456 da IHU On-Line de-
bate alguns dos impactos da tecnociência contemporânea. Contribuem
na discussão alguns dos pesquisadores nacionais e internacionais que
participaram do evento.

A ‘uberização’ e as encruzilhadas do mundo


do trabalho
Edição 503 – Ano XVII – 24-4-2017

A Revolução 4.0, a internet das coisas, a inteligência artificial e a im-


pressão 3D já impactam e cada vez mais abalarão os fundamentos da
organização do mundo do trabalho na contemporaneidade. Esta grande
mutação significará um avanço civilizatório ou radicalizará a barbárie?
A revista IHU On-Line, por ocasião do 1º de Maio, Dia dos Trabalhadores
e das Trabalhadoras, debate o tema no contexto das discussões que o In-
stituto Humanitas Unisinos – IHU tem promovido.

EDIÇÃO 544
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