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Anais do VI Semana de Psicologia da UEM: Subjetividade e Arte

Maringá-UEM 06/10/2004 à 08/10/2004

A PSICOLOGIA DO TRABALHO E A PSICANÁLISE: RELAÇÕES POSSÍVEIS

Francisco Hashimoto∗

A Psicologia do Trabalho tem trilhado um longo caminho em busca da definição de seu objeto
de estudo. Ela nasceu da necessidade de atender as demandas dos administradores de empresas que
buscavam estabelecer um controle sobre o comportamento humano no trabalho. Desde os primeiros
estudos voltados à fadiga dos trabalhadores até o seu auge com a aplicação dos testes psicológicos em
seleção de pessoal essa preocupação permeava os trabalhos dos psicólogos.

No entanto, podemos notar que atualmente a Psicologia do Trabalho tem apresentado em seu processo
de desenvolvimento duas perspectivas: uma voltada às questões da Administração de Recursos
Humanos e a outra, pela leitura da Psicologia Social e da Saúde Coletiva. (SATO, 2001, p.93)

Na primeira perspectiva, a Psicologia, que teve como porta de entrada as demandas da


Administração e da Engenharia, continua utilizando-se do seu referencial teórico para atender as
necessidades da produção. A participação da Psicologia restringia-se a manutenção da força de
trabalho, por meio dos trabalhos de seleção de pessoal, treinamento, avaliação de desempenho entre
outros. Essa é uma das perspectivas da Psicologia, que é reconhecida e legitimada, devido a sua
aplicabilidade no mercado de trabalho.

A outra perspectiva refere-se à abordagem fundamentada na Psicologia Social e na Saúde


Coletiva. Em relação a Psicologia Social, onde a partir dos conceitos de identidade, interação social,
percepção, cognição e subjetividade, entre trabalhadores de segmentos populares, busca-se refletir os
momentos de produção e da reprodução do trabalho. (SATO, 2001, p.93) E ligada a essa possibilidade
está a Saúde Coletiva que tem como objeto de estudo a saúde do trabalhador e o direito à cidadania.

É exatamente nessa última possibilidade, a da Saúde Coletiva, que estamos desenvolvendo


nossos trabalhos, tendo como referencial teórico a Psicanálise. A opção em trabalhar com a Psicanálise
se deu em função dos dados que emergiam no contato com as pessoas que trabalham em empresas e
que necessitavam de um espaço para dar significado ao sofrimento. Quanto mais o contato avançava
mais as questões do mundo interno dos trabalhadores emergiam diante da impotência de tantas
situações adversas que enfrentavam no cotidiano.

Oferecer escuta para essas questões, concomitantemente à apreensão dos seus significados e a
sua associação com o mundo do trabalho, pareceu-nos um caminho para direcionar nosso trabalho. No
entanto, esse caminho também apresenta algumas dificuldades, mas sempre possíveis de serem
vencidas.

A ciência opera uma passagem do sensível para o inteligível, do visível


para o invisível, do que pode ser apreendido pela experiência imediata
dos sentidos para aquilo que pode ser comprovado pelo raciocínio


Professor Assistente Doutor dos Cursos de Graduação e Pós-Graduação em Psicologia da Unesp – Assis.
Anais do VI Semana de Psicologia da UEM: Subjetividade e Arte
Maringá-UEM 06/10/2004 à 08/10/2004

abstrato, que parte de premissas certas e chega a conclusões necessárias.


(Mezan, 2000, p.68)

A trajetória da Psicanálise assumiu um caráter que tende a considerar a pesquisa com uma forte
tendência a remeter-se à análise individual, quatro vezes por semana, num divã, o que denomina-se de
setting terapêutico. No entanto, Freud foi, além disso, tal como revela Silva (1993, p.20):

Esse método ele empregou muito à vontade fora do setting, e mesmo


quando estava em jogo não uma pessoa, mas um produto humano.
Assim ele analisou quadros, esculturas, livros, mitos, peças teatrais,
instituições, etc. Assim ele analisou, inclusive, seus próprios sonhos,
lapsos e dados biográficos. Hoje, mais realistas do que o rei, tende-se a
restringir o campo de pesquisa, nascido a ambição de abarcar toda a
experiência humana, às quatro paredes de um consultório.

Assim, uma outra justificativa quanto à escolha do referencial teórico refere-se a possibilidade
de trabalhar com a Psicanálise na categoria extramuros, tal como mostra Mezan (2002, p.428):

... na categoria extramuros cabem diversos tipos de trabalho, todos eles


tendo em comum a característica que apontei atrás; a da elucidação do
problema escolhido não visa diretamente uma intervenção terapêutica.
Variam os métodos de colher os dados – entrevistas, pesquisas em textos,
descrição de um fato social ou cultural – mas a partir de um certo ponto a
tarefa do autor é idêntica em todos os casos: construir com base em uma
análise do material que ainda não é psicanalítica, mas formal, uma
questão psicanalítica.

Aqui começa a delinear uma possibilidade de trabalho, ou por meio da pesquisa ou de


intervenções, oferecendo escuta aos membros de uma empresa que vivenciam situações de sofrimento
em contextos pessoais e de trabalho, considerando a busca por melhores condições de vida.
Entendendo que o sofrimento pode manifestar-se em qualquer espaço, considerando a situação em que
se encontra o indivíduo.

Ao renunciar ao interrogatório sistemático, deixando o discurso do


paciente percorrer todos os meandros associativos, o psicanalista
abandona a posição daquele que sabe para assumir a daquele que escuta,
coisa absolutamente diferente. O pressuposto deste gesto aparentemente
paradoxal – já que o paciente sabe o porquê de seus sofrimentos, e
também a maneira de livrá-lo deles – é que o paciente, embora ignore o
motivo de sua dor psíquica, nem por isto deixa de conhecê-lo: é um saber
sem saber, ou melhor, um saber excluído da consciência. (Mezan, 2000,
p.72)

É essa escuta que nos interessa, ouvir a voz que expressa o sofrimento, da maneira como é
possível de ser trazida para o consciente, independente do local onde esse sentimento possa aparecer.
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No entanto, todos os cuidados devem ser tomados para que essa voz possa aparecer, por meio de uma
relação de confiança e de compreensão dos objetivos do trabalho. Considerando que:

O objeto da psicanálise é o inconsciente, é a gama de significados


emocionais possíveis que se organizam segundo um fio condutor que
batizamos de desejo, com tendência a se manifestar à consciência e daí
ao ambiente. (Silva, 1993, p.20)

A escuta é a possibilidade do encontro do pesquisador ou psicólogo do trabalho com esse grupo


de trabalhadores. Escutar sem ter elaborado um conhecimento prévio, sem ter uma resposta prévia. A
ação se restringe em ouvir e facilitar o processo de falar sobre o seu passado, a situação atual e
perspectivas futuras, por meio da atenção flutuante – obtenção do material sem crítica ou intenção
anterior por parte do psicólogo. É possibilitar então um diálogo, uma troca, um crescimento na relação
que se estabelece.

Temos, então, apesar de tudo, um novo conhecimento emergindo. A


primeira providência é percebê-lo, o que não é fácil, geralmente
requerendo um misto de sensibilidade e de conhecimentos prévios. É
mister, a seguir, circunscrever a novidade, caracterizá-la, nomeá-la. Ou
seja, criar uma representação que não só possa se referir ao “fato” assim
identificado, mas também permitir sua comparação com eventos ainda
não ocorridos. Precisa também se articular com o corpo teórico da
disciplina em que se desenvolveu – no caso, a psicanálise. (Silva, 1993,
p.23)

Seguindo essas indicações metodológicas é possível desenvolver um trabalho para compreender


a questão do sofrimento que emerge nos relatos das situações de trabalho. Mezan complementa ainda
quando aponta a função de um psicanalista no trabalho de uma equipe multidisciplinar:

A função do psicanalista numa equipe multidisciplinar que opera em


âmbito institucional pode não ser idêntica à sua atividade no consultório,
mas guarda com esta relações bastante estreitas: é no fundo a mesma
escuta, o mesmo contato direto com o sofrimento psíquico, materializado
em pessoas de carne e osso com seus sintomas, defesas, fantasias e
transferências. (Mezan, 2002, p.419)

Desta forma podemos tomar como objetivo do trabalho, tendo como referência a Psicanálise,
compreender as vicissitudes que envolvem a relação homem e o contexto que o constrói e o envolve,
mais precisamente no mundo do trabalho. Tal como afirma Pellegrino (1987, p.201):

O trabalho é o elemento mediador fundamental, por cujo intermédio, nos


inserimos no circuito e intercâmbio social, e nos tornamos adultos – de
fato e de direito – sócios plenos da sociedade humana.
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O trabalho representa a possibilidade de ser aceito e de ser incluído na sociedade humana, pois
ele funciona como elemento mediador desse processo. A criança deve receber todos os instrumentos
necessários para constituir-se como sujeito humano, preparando-se para identificar-se e inserir-se na
sociedade a qual pertence.

Assim, o trabalho é a forma pela qual o sujeito confirma a sua renúncia pulsional, por meio da
aceitação do princípio da realidade. E a sociedade precisa respeitar e preservar o trabalhador, para
poder também, ser respeitada e preservada. Caso contrário, pode ocorrer uma cisão no processo
identificatório, provocando comprometimentos no âmbito da saúde.

A troca tem uma função primordial no processo de constituição do sujeito, pois, ao oferecer, por
meio do trabalho, a competência e a renúncia pulsional, o indivíduo espera receber o mínimo
necessário para a preservação dos aspectos físicos e psíquicos. Caso essa troca não se efetive de forma
satisfatória, pode ocorrer uma ruptura ao nível inconsciente, com o Pacto Edípico. Isso significa uma
destruição do mundo interno.

Apresentamos alguns elementos para reflexão que possam contribuir para a construção do
objeto da Psicologia do Trabalho, tendo como referência a Psicanálise, ampliando as possibilidades de
ação do profissional da área.

Referências:

MEZAN, R. Freud – a conquista do paraíso. São Paulo: Ateliê Editorial, 2000.


_________. Interfaces da Psicanálise. São Paulo: Cia das Letras, 2002.
PELLEGRINO, H. Pacto Edípico e Pacto Social. In: PY, L. A . e outros. Grupo sobre Grupos. Rio de
Janeiro: Rocco, 1987.
SATO, L. A construção do objeto da Psicologia do Trabalho a partir da leitura da Psicologia Social e
da Saúde Coletiva. In: Programa e Caderno de Resumos do VIII Colóquio Internacional de Sociologia
Clínica e Psicossociologia. Belo Horizonte, UFMG, 07/2001.
SILVA, M. E. L. Pensar em Psicanálise. In: SILVA, M. E. L. (coord.) Investigação e Psicanálise.
Campinas: Papirus, 1993.