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Fragmento de Melancolia:

Aproximações sobre a glosa de


“Verdade, Dúvida e Certeza” de
Carnelutti

Por Jornalista Externo 09/11/2002 16:30

“Não entres na caverna de Platão” Nietzche

Aproveito a sensação expressada pelo termo Melancolia indicado por Ernildo Stein(2) para tentar encontrar algumas pistas
do sentimento de Carnelutti após a leitura de “Ser e Tempo” de Heidegger.

A concepção platônica da verdade, dicotomizada entre essência/matéria, corpo/espírito deixa-se desnudar no lamento
lançado por Carnelutti, quando percebe que a linguagem não é mais esse terceiro que pode dar a ponte (segura) entre esses
dois mundos. Ao perceber a nitude do ser-aí, inexistem mais verdades eternas….

Tal rompimento, contudo, não se fez (e não se faz) sem ranhuras.

O conforto metafísico da verdade fundante, primeva, passível de ser alcançada/descoberta via métodos nos faz construir
prédios inteiros. Esses prédios, todavia, após a consciência do “cuidado” e da “ nitude” do “ser-aí”, balançam e são
desabitados. Não há mais estrutura sólida sustentadora do verdadeiro edifício da Verdade. Sobram opções de morada….

Ao desvelar não mais o “ser” como “ente” (a metafísica indaga o ente), mas percebendo o sentido do “ser”, desde sempre
incluído no mundo da linguagem, Heidegger acaba por matar a possibilidade do conhecimento fundante, no qual Carnelutti
acreditou….

De sorte que o que era seguro se move, agora, em terreno pantanoso; o pântano como tal, não dá a rmeza conferida pela
dicotomia essência/matéria. Exige mais. Exige a compreensão não mais sólida e rígida, mas volátil (na percepção
ontológica da verdade-em-si-mesma) da própria utilização do predicado verdade embrenhado desde sempre na e pela
Linguagem. Não há coisa alguma onde falta a palavra.

Ao esbarrar com a nitude proposta por Heidegger, Carneluti talvez teve o sentimento que indiquei no início dessa falação: a
melancolia e “o desejo de plenitude e de aniquilamento que habita a melancolia”(3). Desse des-velamento Carnelutti tinha
pelo menos duas saídas: A primeira era de trazer a linguagem para o centro da compreensão andando em terreno à época
árido, enjeitando tudo que havia construído….; a segunda opção clamava pelo preenchimento da Verdade verdadeira advinda
da razão por alguma outra coisa E como a Verdade é demais para nós: só Deus salva: ele é a verdade Esse recurso
da razão por alguma outra coisa. E como a Verdade é demais para nós: só Deus salva: ele é a verdade. Esse recurso
metafísico veio preencher o vácuo do registro do simbólico, plenamente exigível….. em alguma coisa ele precisava se
apegar….. e se apegou em Deus.

Não nos compete julgar a saída escolhida. Era uma das saídas dentre as variadas e Carnelutti, pelo seu trajeto (como deixou
evidenciado) não merece esse julgamento.

Creio que a principal contribuição desse fragmento melancólico de dor pela perda da segurança de antes não está nas suas
conclusões, as quais voltam-se à dicotomia platônica. Isso porque pretende se salvar desde dentro da divisão platônica,
obtendo, assim, um resultado metafísico: Deus (essência/matéria). Se deu conta do nó da questão, mas não soube se livrar
de suas pré-noções, pré-concepções ao elaborar a resposta.

Cabe invocar aqui Heidegger: “A interpretação de algo como algo funda-se, essencialmente, numa posição prévia, visão
prévia e concepção prévia. A interpretação nunca é a apreensão de um dado preliminar, isenta de pressuposições. Se a
concreção da interpretação, no sentido da interpretação textual exata, se compraz em se basear nisso que `está’ no texto,
aquilo que, de imediato, apresenta como estando no texto nada mais é do que a opinião prévia, indiscutida e supostamente
evidente, do intérprete. Em todo princípio de interpretação, ela se apresenta como sendo aquilo que a interpretação
necessariamente já `põe’, ou seja, que é preliminarmente dado na posição prévia, visão prévia e concepção prévia”(4).

A principal idéia que se pode indicar é a de que a concepção de Verdade fundante se esboroou, foi-se. Contudo, apesar
desse atestado de óbito subscrito por Carnelutti, os atores jurídicos rejeitam os braços de Deus e retornam sempre ao
conforto metafísico da Verdade primeva. Ele é ressuscitado nas práticas forenses daqueles “metidos nos processos”
(Jacinto Nelson de Miranda Coutinho) como um a priori indiscutível e, ademais, condição de possibilidade para repetição,
repetição do prazer, impeditiva do gozo, da compreensão, do compreender, do des-velar. Ernildo Stein é enfático: “Revela
apenas a covardia diante da realidade, daqueles que fugiram da nitude, enganados (ou fascinados) pelo mal-entendido que
nos vem de Platão”(5).

Mas é preciso julgar. A Verdade então impossível, é substituída pela certeza, passível de ser obtida pelo estabelecimento de
uma tecnologia própria: o processo. E esse peso é transferido para os juízes que crêem, porque somente pode ser fé, que
mediante a Lei podem chegar e conceder (com as implicações do termo) a segurança jurídica.

Nesse pensar, juízes se sentem (e precisam se sentir) membros natos, guardiães da verdade ligada a certeza; substituição
cartesiana que veio preencher o vazio da Verdade verdadeira, mas que não rejeitou seu lugar fundante. Warat assinala: “Nos
diversos seminários de humanização da magistratura, trabalhamos os diversos efeitos perversos do lugar dos magistrados.
É um lugar vivido com uma força muito especial, já que existem magistrados que vivem o lugar como se fosse o templo de
alguma divindade. Este é vivido por muitos (mais do que democraticamente dever-se-ia esperar) como o Olimpo, um lugar
onde pode se sentir um agregado dos deuses gregos. Eles não sabem que os templos destinados aos deuses gregos
estavam sempre vazios em seu interior (inacessíveis para estranhos), nunca se encontrava nada, apenas era um culto ao
inacessível. A diferença está em que os deuses gregos tinham consciência desse vazio: nossos magistrados agregados não
a têm. O lugar enche os juízes de tristes arrogâncias, que se diluem na aposentadoria. Não existe maior tristeza que a de um
juiz aposentado que, em toda sua vida ativa, acreditava ser agregado do Olimpo e agora, tem de passar sua inércia vital
pelas gôndolas desertas de um supermercado, sendo às três da tarde um laborioso mártir.”(6)

Na linguagem de Heidegger essa compreensão da Verdade não mais fundante pode ser vista como uma clareira(7),
condição de possibilidade de des-velar a Floresta. E o enfrentamento desse dilema não pode se dar mais com base nos
sonhos dogmáticos, mormente em decorrência da viragem linguística contemporânea.

A melancolia de Carnelutti foi e é o sentimento de muitos de nós. A saída dele foi uma das possíveis….. resta-nos escolher….
entre a ingênua segurança da Verdade – quer preenchida por Deus ou pela Certeza – ou correr o risco de andar no o da
navalha da linguagem e dademocracia.

N
OTAS

(1) STEIN, Ernildo. Melancolia. Porto Alegre : Movimento, 1976, p. 12,


assevera: “A melancolia é um destes dinamismos do espírito que, pela sua
ambivalência e co-originária radicalidade, revela um parentesco com a
questão da nitude, do ponto de vista ontológico-existencial. Este o motivo
por que ela representará um subsídio importante para desenhar o horizonte
no qual enfoco a nitude como instância decisiva do pensamento ocidental.

(2) STEIN, Ernildo. Melancolia. Porto Alegre : Movimento, 1976, p. 14

(3) HEIDEGGER, Martin. Ser e Tempo. Petrópolis: Vozes, 1988, p.207.

(4) STEIN, Ernildo. Melancolia. Porto Alegre : Movimento, 1976, p. 10

(5) WARAT, Luis Alberto. O Ofício do Mediador. Habitus : Florianópolis, 2001,


p. 224/225.

(6) STRECK, Lênio Luiz. A Hermenêutica e(m) crise. Livraria do Advogado :


Porto Alegre, p. 265 e sgts.

Alexandre Morais da Rosa é doutorando (UFPR), mestre (UFSC) e juiz de


Direito (SC)

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