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Curso Medicina Legal

1- Introdução à medicina legal

A) Conceito e definição

- É a ciência de aplicação dos conhecimentos médico-biológicos aos interesses


do direito constituído, do direito constituendo e a fiscalização do exercício
médico-profissional (Odon Ramos Maranhão)

- É a ciência e a arte extrajurídica auxiliar alicerçada em um conjunto de


conhecimentos médicos, paramédicos e biológicos, destinados a defender os
direitos e os interesses dos homens e da sociedade (Delton Croce e Delton
Croce jr.)

- É uma ciência de largas proporções e de extraordinária importância no conjunto


dos interesses da coletividade, porque ela existe e se exercita em razão da
necessidade de ordem publica e social. É ciência e arte ao mesmo tempo.
Ciência porque sistematiza suas técnicas e seus métodos para um objetivo
determinado, exclusivamente seu, sem com isso formar uma consciência restrita
nem uma tendência especializada, mas exigindo uma cultura maior e
conhecimentos mais abrangentes do que em qualquer outro ramo da medicina.
E é uma arte também, porque, mesmo aplicando técnicas e métodos muito
exatos em busca de uma verdade reclamada, procura surpreender valores que
a outros facultativos podem passar sem reparar e colocar sua interpretação
numa sequência lógica ante o resultado dramático da lesão violenta. (Genival
Veloso da França)

- Medicina legal é a parte da medicina que auxilia a ciência do direito analisando


todas as causas de interesse jurídico, como as lesões e a morte. Ciência comum
a medicina e ao direito que tem ampla aplicação ao estudo das ciências jurídicas,
empregando os conhecimentos médicos e outros ligados a estes, como os
conhecimentos da química, física, biomedicina, entre outras diversas ciências
aplicadas para esclarecer a origem e a natureza das causas de uma lesão ou da
morte. (Ricardo Bina)

Resumo
-É a aplicação do conhecimento médico ao direito. Trata-se, na verdade, do
conjunto de conhecimentos médicos que, somados ao conjunto de
conhecimentos jurídicos, resultam na fusão e criação de um subconjunto que
apesenta conhecimentos comuns das áreas do direito e da medicina.

Ciências Médicas
Ciências Jurídicas

Direito
Medicina
Medicina Legal

Medicina Legal

É a fusão de ambas as áreas de conhecimento

MEDICINA DIREITO

Medicina Legal
Hoje, não e mais possível limitar o conceito de medicina legal apenas aos
conhecimentos afetos a medicina que possuem relação direta com o direito. Na ciência
moderna entram conhecimentos de outras ciências, como a física, química, biologia,
bioquímica, biomedicina etc.
Exemplos:

 Criminalística
 Entomologia
 Balística
B) Aplicação no Direito

A aplicação da medicina legal ao direito é muito mais ampla do que se imagina.


A primeira ideia que surge é de lesões, traumas, acidentes e morte, mas ela não
se restringe a isso. Por isso, é necessário mencionar a sua aplicação para cada
ramo do direito.

B.1) Civil e Processual Civil

 Responsabilidade civil que envolva acidentes e lesões

 Existência de vida para efeitos civis:


- O feto nasceu vivo ou morto? Depende da existência de ar nos pulmões, se
nunca respirou, é natimorto, e nenhum efeito civil lhe será assegurado, se
respirou a lei civil assegura alguns direitos.

 Momento da morte para fins sucessórios


- Morte concomitante de mais de uma pessoa da mesma família

 Diagnostico de doenças psiquiátricas para fins de declaração de incapacidade


para os atos da vida civil.

 Investigação de paternidade por DNA.

 Psicologia das testemunhas arroladas

B.2) Trabalhista

 Doenças do trabalho
 Doenças profissionais
 Acidentes de trabalho
 Prevenção de acidentes
 Insalubridades
 Higiene do trabalho
 Questões securitárias
 De responsabilidade do empregador

B.3) Previdenciário

 Concessão de benefícios sociais:


- Invalidez
- Pensão por morte
- Auxílio doença
B.3) Desportivo

 Doping
 Lesões nas disputas desportivas

B.4) Ciências Criminais

 É o ramo do direito que mais utiliza os conhecimentos da medicina legal, para


fins de averiguação da materialidade de crimes:

 Homicídio

 Infanticídio

 Aborto

 Lesão corporal

 Tortura

 Crimes sexuais

 Etc.

 O CPP possui capítulo especial destinado as perícias como um todo e, em


especial as médicas, exame cadavérico, constatação de lesões (Art. 158 a 184)

OBS. Tecnicamente, não se utiliza o termo “exame de corpo de delito” uma vez que o
mesmo não se restringe à pessoa humana, podendo englobar local ou coisa, pode até
haver a ausência de pessoa ou cadáver.

B.5) Legislação Especial

 Lei de transplante de órgãos (diagnostico de morte encefálica e aspectos


legais de autorização para doação e retirada dos órgãos)
9434/1997

 Lei de identificação criminal (identificação dactiloscópica, coleta e guarda de


material genético)
12.037/2009

 Lei de crime de tortura (demonstração de intenso sofrimento físico e mental)


9455/1997

 Lei de drogas (constatação da substância psicoativa e diagnostico de


dependência química (imputabilidade)

 Código de trânsito (Homicídio culposo, lesão corporal culposa, constatação de


embriaguez ao volante quando o agente se recusa a ser submetido aos testes
de álcool)

C) Relação com demais ciências

 Psicologia: vítimas de violência e condenados que sofrem de efeitos deletérios


da pena
 Psiquiatria: relação de doenças e distúrbios mentais com a aplicação da lei
 Outros ramos da medicina: patologia, ginecologia, obstetrícia, ortopedia,
traumatologia, radiologia, biologia, odontologia, entomologia, química etc.

Importância do Estudo da Medicina Legal

A medicina legal é a contribuição médica, técnica e biológica as questões


complementares dos institutos jurídicos e as questões de ordem pública ou
privada, quando do interesse da administração judiciaria. É a mais importante e
significativa das ciências subsidiarias do direito

Para os apreciadores do direito, a intimidade com as questões médico-legais


auxilia no trato das questões periciais e nas interpretações doutrinarias. Para o
juiz, influencia na apreciação de um critério exato, posto que forma consciência
dos fatos que constituem o problema jurídico. Para o advogado, trata-se de um
instrumento para crítica da prova.

D) Classificação da Medicina Legal

Levando em consideração o enfoque ou a sua destinação, a medicina legal pode


ser classificada sob os ângulos históricos, profissional, doutrinário, didático.

 Histórico: diz respeito as várias fases evolutivas desta ciência

 Profissional: diz respeito a forma como se exerce na prática essa atividade,


medicina legal, pericial, criminalística e antropologia médico-legal, exercidas
respectivamente pelo IML, IC, IIRGD.
 Doutrinaria; diz respeito as relações com os diversos ramos do direito.

 Didático: para fins didáticos, divide-se a medicina legal geral e especial

- Geral: também chamada de jurisprudência médica, trata-se das obrigações e


deveres (deontologia) e direitos dos médicos (diceologia), orientando-os no
exercício da profissão.

-Especial: dividida nos seguintes capítulos:

A) Antropologia médico-legal: que estuda a identidade e identificação


médico-legal e judiciaria

B) Traumatologia médico legal: trata das lesões corporais sob o ponto de


vista jurídico e das energias causadoras

C) Sexologia médico legal- vê a sexualidade do ponto de vista normal,


anormal e criminoso

D) Traumatologia médico legal- cuida do evento morte e do morto analisando


os diferentes conceitos de morte, direitos sobre o cadáver, seu destino,
diagnostico de morte, tempo aproximado da morte, morte súbita, necropsia,
exumação e embalsamento. Analisa a causa jurídica da morte e as lesões
inntac e post mortem.

E) Toxicologia médico-legal: ajuda os cáusticos e os venenos, e os


procedimentos periciais nos casos de envenenamento

F) Asfixiologia médico-legal: detalha os aspectos das asfixias de origem


violenta, como esganadura, enforcamento, afogamento, estrangulamento,
soterramento, sufocação direta e indireta, bem como as asfixias produzidas
por gases irrespiráveis.

G) Psicologia médico-legal: analisa o psiquismo normal e as causas que


podem deformar a capacidade de entendimento do indivíduo.

H) Psiquiatria médico-legal: estuda os transtornos mentais e da conduta, os


problemas da capacidade e da responsabilidade penal sob o ponto de vista
médico-forense
I) Genética médico-legal: especifica as questões voltadas do vínculo genético
da paternidade e maternidade, assim como outros assuntos ligados a
herança.

J) Criminalística: investiga tecnicamente os indícios materiais do crime, seu


valor e sua interpretação nos elementos constitutivos do corpo de delito.
K) Criminologia: preocupa-se com s mais diversos aspectos da natureza do
crime, do criminoso, da vítima e do ambiente.

L) Infortunística: estuda os acidentes e as doenças do trabalho e as doenças


profissionais, não apenas no que se refere a perícia, mas também a higiene
e a insalubridade laborativa

Antropologia Forense
Antropologia significa estudo do homem. É a ciência que tem por objeto de estudo o
homem e a humanidade.

Trata da história natural e física do homem e do seu processo evolutivo no


espaço e no tempo. É de uma ciência derivada da antropologia que a medicina
legal se utiliza para ter relevância jurídica. A antropometria, ou antropologia
forense, criou métodos e técnicas para individualizar cada pessoa por meio de
sinais ou características próprias e únicas de cada um, abrangendo sexo, raça
e outros caracteres gerais do indivíduo.

Identidade
É o conjunto de caracteres que individualizam uma pessoa ou coisa das demais,
tornando-a única e distinta.

 Subjetiva: sensação que cada individuo tem de que foi, é ou será ele mesmo, é
a consciência da sua própria vida (observada na psicologia e psiquiatria médico-
legal)

 Objetiva: aquela que permite afirmar tecnicamente que determinada pessoa é


ela mesma por apresentar um elenco de elementos positivos ou negativos que
a faz distinta das demais.

Identificação: é o processo de individualização de determinação da identidade

 Antropológica: estudo das medidas do crânio, identificação do sexo, da idade


e da estatura pelos ossos, dentes, DNA etc.

 Policial ou judiciaria: se baseia na identificação pela análise de impressões


digitais (papiloscopia)
Os processos de identificação são diversos, possuindo métodos e
procedimentos específicos, mas que sempre devem obedecer a alguns
princípios, sem os quais serão falhos

Princípios da Identificação

1) Unicidade ou individualidade

 O método utilizado tem que permitir extrair caracteres únicos e exclusivos de


determinada pessoa ou coisa.

2) Imutabilidade

 Os caracteres extraídos devem ser imutáveis, não podendo sofrer alteração ao


longo do tempo, ou após doenças ou adversidades. Por isso, nem toda
característica permite um processo de individualização. O ser humano, mesmo
com o envelhecimento e modificação da aparência, mantem alguns caracteres
inalterados

3) Perenidade

 É diferente da imutabilidade. O imutável não sofre alteração de qualquer


natureza, enquanto o perene trata da inalterabilidade temporal
Exemplo: digitais- sofrem influência do avançar da idade, uso de produtos
químicos etc., mas permanecem.

4) Praticabilidade
 O método utilizado deve ser prático, manuseável, empregando técnicas simples
de fácil contenção, arquivamento e análise.

5) Classificabilidade

 O método deve ser classificável, estabelecendo parâmetros para separar


grupos, subgrupos, tipos e subtipos.

Identificação Antropológica
 Preocupa-se em criar elementos identificadores para o ser humano
 É realizada pelo perito médico ou médico- legista e, no caso de arcadas
dentarias, por odontologistas, sempre em laboratórios

 Requer a existência de banco de dados ou armazenagem de informações para


pesquisa e confrontos futuros
Critérios ou Caracteres Utilizados

a) Ossos, tamanho, formação, estrutura e idade


b) Arcada dentaria
c) Formação dos ossos do crânio
d) Sexo
e) Cor da pele
f) Raça
g) Cicatrizes
h) Tipos e fatores sanguíneos (a,b,o/ + ou -)
i) DNA
j) Papiloscopia
k) Tatuagens
l) Pavilhão auricular
m) Marcas de nascença
n) Deformidades físicas
o) Sequelas de acidentes ou cirurgias

Espécies
 Distinção entre pessoas e animais pelos ossos e características morfológicas e
estruturais das células sanguíneas, bem como dos canais de fragmentos de
ossos

Raça
Relação com origem, cor de pele, tipos de cabelos, olhos e estrutura física do
corpo

 Caucásico: homem branco comum, cabelos crespos ou lisos, de tonalidade


acastanhada ou loira, olhos claros ou castanhos, rosto ovalado com ângulo da
face reto e levemente prognata

 Mongólico: homem amarelo, cabelos lisos, face achatada, fronte larga e baixa,
nariz curto e largo, olhos amendoados, maxilares pequenos e salientes

 Negroide: homem de pele negra, cabelos crespos, crânio pequeno, prognatismo


acentuado, olhos castanhos, nariz pequeno e largo, achatado.

 Indiano: estatura alta, pele amarelo trigueiro, cabelos pretos e lisos, olhos
castanhos, orelhas pequenas, nariz saliente, estreito e longo, maxilar inferior
desenvolvido.

 Australóide: estatura alta, pele trigueira, nariz curto e largo, cabelos pretos,
ondulados e longos
As raças têm características morfológicas diversas no que diz respeito a forma
do crânio, índice cefálico (E x C), índice tíbio femoral e radio umeral, bem como
ângulo facial

Sexo

 Morfológico
 Cromossomial
 Gonadal
 Genitália
 Jesuítico

Em ossadas, corpos carbonizados ou em estágio avançado de putrefação,


analisa-se dimensões do crânio e ossos pélvicos

Idade

 Cabelos: presença, ausência ou embranquecimento


 Crânio: suturas nas crianças e jovens, que vão se solidificando ate a fase adulta
e desaparecem aos 65 anos
 Dentes: erupção da dentição provisória e definitiva, desgaste, quantidade
 Ossos: estrutura e desenvolvimento de cada osso em cada fase da idade

Importância: crimes praticados contra criança, adolescentes e maior de 60 anos,


casos de desaparecimentos

Arcada dentaria

 Necessita de material de comparação

Estatura

 Medição com régua


 Estimativa pelo tamanho dos ossos

Anomalias e características físicas

 Malformação
 Sinais profissionais
 Cicatrizes
 Tatuagens- gangues, facções, tipos de crime
 Autoplastia

DNA

 Necessita de material de comparação


 Método mais exato
 Obrigação de fornecer
 Impossibilidade de colher ou inviabilidade da amostra

Impressões digitais

 Dactiloscópica: dedos
 Quiroscopia: palma das mãos
 Pedoscopia: planta solares
 Pavilhão auricular
 Palatoscopia
 Queiloscopia