Você está na página 1de 2

De joelhos – Pondé

Muitas vezes penso que chorar nos torna uma pessoa menos ridícula

A CULPA me encanta. Os olhos vidrados de dor, a alma torturada pela


terrível verdade sobre si mesma.
A literatura está cheia de exemplos nos quais o herói ou a heroína chora
de desespero pela consciência de sua responsabilidade no mal do mundo. Entre
os vários erros cometidos pela cultura moderna, um deles é tentar negar que a
culpa seja um instrumento essencial de humanização. Não existe experiência
moral sem culpa. Nelson Rodrigues dizia: "Tire a imortalidade do homem e ele
cai de quatro". Eu diria, seguindo sua maravilhosa intuição: tire a culpa e o
homem cai de quatro.
Hoje eu gostaria de oferecer ao leitor um comentário sobre uma peça
literária clássica na qual a culpa aparece em toda sua beleza. Ao contrário do
que falam os especialistas em desumanizar o homem (afirmando que o estão
libertando), a experiência da culpa é que tira o homem da banalidade do mal e o
devolve à ação transformadora de si mesmo e do mundo à sua volta.
Dostoiévski é um clássico. Não vou entrar no debate de se podemos ou não falar
de clássicos, no sentido de um conjunto de autores mais importantes para formar
um ser humano. Dostoiévski e Shakespeare são melhores do que quase tudo o
que a humanidade produziu em literatura. Quem nega isso, o faz por ignorância.
Diante da mera ignorância, afirma-se uma teoria relativista qualquer para soar
chique e esconder sua banalidade.
Enfim, lemos um clássico para saber quem somos. Enquanto você lê o
livro, o livro lê você. É com esse espírito que proponho a leitura do conto "Sonho
de um Homem Ridículo", de Dostoiévski, uma pérola da literatura moral.
Voltando ao Nelson Rodrigues, eu diria que esse conto é o tipo de obra que você
deve ler de joelhos. Nelson disse isso especificamente sobre sua peça "Senhora
dos Afogados" -em cartaz atualmente em São Paulo: é uma peça a que devemos
assistir de joelhos.
Estar de joelhos é a posição correta se quisermos pensar o humano na
sua condição mais profunda: seu medo, sua insegurança, sua capacidade de
amar ainda que seja um ser infinitamente efêmero diante da ordem indiferente
do mundo, enfim, sua natureza de respirar o mistério.
Muitas vezes penso que chorar nos torna uma pessoa menos ridícula. As
lágrimas colocam as coisas nos seus devidos lugares. Infelizmente, sistemas
objetivos para produção de humildade (que muitas igrejas tentaram) apenas
destroem a pessoa por meio da demanda desumana de obediência infinita.
Independentemente disso, como diria o escritor francês Bernanos (século 20),
"a humildade é sempre invencível".
O conto mostra um homem à beira do suicídio, como tantas outras figuras
na literatura de Dostoiévski, que busca no autoaniquilamento a afirmação de sua
liberdade para com um mundo horroroso. No caminho de casa, vê uma bela

1
estrela e decide que é aquela noite a grande noite de seu suicídio. Uma menina
pequena, em desespero, pede que a ajude com sua mãe doente, mas ele a
empurra para o lado e segue para o seu glorioso suicídio. Chegando à casa,
quando finalmente vai se matar, ele adormece e sonha. Em seu sonho, é levado
a um paraíso onde as pessoas vivem sem sofrimento, sem mentira, sem agonia.
De tamanha perfeição, elas nem falam, vivendo num eterno estado de torpor
feliz.
O que de início será um encantamento com toda aquela beleza sem
desespero logo se transformará num desespero pelo vazio que sente em si
mesmo diante de tanta plenitude. Nosso homem ridículo descobre que não há
amor onde não há sofrimento. Chora pela agonia do mundo (nosso mundo) e
percebe que sua vida só tem sentido na medida em que é parte dessa agonia.
Quando finalmente consegue trazer aqueles "perfeitos" para uma relação
consigo, invejas e ódios se instalam entre os "perfeitos do segundo paraíso" por
culpa de nosso herói ridículo e suicida, que passa a ser disputado como troféu.
Agora, finalmente, ele os amava.
Acorda. Olha em volta. O desejo de se matar desaparecera. Vasculha o
fundo da sua alma e já não é mais a mesma pessoa. O que havia mudado? O
que havia mudado era que agora tinha consciência de que fora ele que destruíra
aquele paraíso. Ele era a serpente. Nunca reconhecera sua face na narrativa
bíblica de sua conversa com Eva. Essa descoberta o lança de volta ao desejo
pelo mundo, em vez de paralisá-lo.
Levanta-se e, olhando nos seus olhos, leitor, ele afirma: vou continuar!
Abre a porta e sai de casa em busca da menina.