Você está na página 1de 498

1

JUDEUS NO BRASIL: ESTUDOS E NOTAS


Nachman Falbel

Índice:

1. Introdução
2. A propósito da periodização da história dos judeus no Brasil
3. Judaica Pernambucensis
4. Menasseh ben Israel e o Brasil
5. Sobre a presença dos crisãos novos na capitania de São Vicente e a formação da
etnia paulista
6. Judeus em São Paulo: um pouco de sua história
7. Algumas questões concernentes a metodologia na pesquisa da história moderna dos
judeus e o conhecimento de suas fontes
8. O Marquês de Pombal e a Inquisição
9. A imigração israelita à Argentina e ao Brasil e a colonzação agrária
10. A contribuição dos imigrantes israelitas ao desenvolvimento brasileiro
11. A religião e a imigação israelita no Brasil
12. A Vós Meu Senhor, o Rei...
13. Uma imigação de judeus ao Brasil em 1891
14. Osvald Boxer e o projeto de colonização de judeus no Brasil
15. As muitas histórias do major Eliezer Levy
16. O primeiro Congresso Israelita n Brasil
17. Yehuda Wilensky e Leib Jaffe e o movimento sionista no Brasil, 1921-1923
18. Os Protocolos do Primeiro Congresso Sionista no Brasil (1922)
19. O sionismo e os judeus no Brasil
20. História oculta: como se lutou para a criação do Estado de Israel
21. Prefácio à brochura “Osvaldo Aranha”
22. Crônica do judaísmo paulista
23. A Escola Israelita Brasileira Talmud Thora Beth Jacob
24. O Macabi de São Paulo e sua evolução
25. José Nadelman e a história dos judeus em São Paulo
26. Uma colonização judaica no interior de São Paulo
27. Instituições comunitárias de ajuda e amparo ao imgrante israelita de São Paulo
28. Subsídios à história da educação judaica no Brasil
29. A presença israelita na Revolução de 1932
30. A visita de Albert Einstein à comunidade do Rio de Janeiro
31. Lasar Segall na imprensa iídiche
32. O mascate Adolfo
33. Uma carta do Rabino A. I.HaCohen Kook no epistolário do Rabino Jacob
Braverman
34. A imprensa iídiche como fonte para o estudo dos judeus no Brasil
35. Jacob Schneider e a comunidade judaica no Brasil
36. Identidade judaica, memória e a questão dos indesejáveis no Brasil
37. A correspondência de Leib Malach com Baruch Schulman
38. Uma carta de Jossef Halevi à Baruch Schulman
39. Jacob Nachbin, precursor da historiografia judaica no Brasil
2

40. Egon Wolff e a historiografia judaica no Brasil


41. Sigmar Kaufmann:um agricultor judeu em São Paulo [falta]
42. Isaias Raffalovich e a educação judaica no Brasil [falta]
43. Deus Absconditus: Yosel Rakover fala com Deus [falta]
44. Léxico dos ativistas sociais e culturais da coletividade israelita no Brasil
45. Apêndices:
Crônicas das comunidades no “Léxico” de Henrique Iussim
Rio de Janeiro
Belo Horizonte
Curitiba
Porto Alegre
Recife
Bahia
São Paulo
Visão do Ischuv de São Paulo – Meir Kucinski
Quarenta anos de imprensa judaica no Brasil-Itzhak S. Raizman
3

1. Introdução ao livro Judeus no Brasil: estudos e notas

Passaram-se mais de 20 anos desde que foram publicados os "Estudos sobre a comunidade
judaica no Brasil" e que de certa forma teve o mérito de abrir um novo campo de pesquisa e
estimular os estudos sobre a imigração contemporânea e a formação das comunidades
judaicas em território brasileiro. Pouco a pouco as nossas universidades encontraram
interesse e foram incorporando a temática. Teses acadêmicas passaram a revelar, através de
pesquisas científicas mais rigorosas, os múltiplos aspectos da vida comunitária judaica em
vários Estados e cidades do país, a política governamental em relação a essa imigração, a
participação de individuos e comunidades nos vários setores da vida social, econômica,
cultural e política da nação bem como a história particular de certas instituições de caráter
filantrópico, educacional, e de outra natureza, desfazendo mitos e eliminando, de uma vez
por todas, "histórias" que não tinham qualquer basamento documental, escrita ou de outra
natureza. A existência do Arquivo Histórico Judaico Brasileiro, com as suas seções
estaduais, foi um fator importante para desenvolver o interesse na história contemporânea
dos judeus no Brasil. A preocupação em reunir e preservar toda documentação concernente
a essa temática favoreceu àqueles estudiosos que ambicionavam trabalhar na área, além de
evitar que se perdesse as fontes para tais estudos. O Arquivo procurou valorizar e criar uma
nova mentalidade no seio da comunidade judio-brasileira orientando pessoas e famílias a
zelarem pelos seus papéis, cartas, fotografias e todo tipo de documento, que naturalmente
passava de uma geração a outra, não somente como elementos para seu auto-conhecimento
mas que, numa dimensão mais ampla, auxiliava na reconstituição da memória dessa
imigração. Algumas tentativas que antecederam o A.H.J.B. com o fito de reunir
documentos sobre a história dos judeus no Brasil remontam aos anos 20 quando o Instituto
Científico Judaico de Vilna (YIWO) fundado em 1925, e transferido mais tarde para Nova
York, dirigiu-se, em 1928, ao escritor Menashe Halpern para que se incubisse pessoalmente
da missão de juntar material para àquela instituição, o que de fato o levou a anunciar sua
missão, naquele mesmo ano, no jornal “Idische Folkstzeitung” (a Gazeta Israelita)
publicado no Rio de Janeiro. Quando nos anos 40 formou-se uma seção brasileira do
YIWO, agrupando ao redor de sí a intelectualidade judia de fala ídiche, entre os quais
destacava-se o premiado escritor Meir Kucinski, foi reunido um precioso material relativo
ao que se publicava no Brasil que foi enviado à sede central em Nova York. Ainda em
setembro de 1959 o Círculo de Amigos do YIWO no Rio de Janeiro relatava em carta
dirigida à revista Aonde Vamos? sobre doações recebidas pela entidade que era presidida
por Esther Schechtman e funcionava no local da Biblioteca Bialik. A existência de uma
seção do YIWO no Brasil foi importante para salvar uma rara documentação, em especial
os primeiros periódicos judaico-brasileiros, que anos mais tarde pude pessoalmente
consultar no imenso e notável acervo de cultura ídiche daquela extraordinária instituição.
A primeira intuição de que a história dos judeus no Brasil ainda estava por ser feita a teve o
dedicado historiador autor da obra Judeus no Brasil Colonial, Arnold Wiznitzer, que em 2
de outubro de 1952 publicava um artigo na revista Aonde Vamos? no qual propunha a
criação de uma Sociedade Brasileira de História Judaica. Efetivamente em 23 de dezembro
de 1952, sob sua iniciativa, fundou-se o Instituto Judaico Brasileiro de Pesquisa Histórica
no Rio de Janeiro. Os seus objetivos foram definidos do seguinte modo:a) realizar e
fomentar a pesquisa da história dos judeus do Brasil;b) organizar e manter uma biblioteca e
4

arquivo que deverá reunir, na medida do possível, originais ou cópias de todas as obras e
documentos publicados até a data, no país e no exterior, sobre a história dos judeus no
Brasil; c) colher , em original ou cópia, protocolos das sociedades israelitas, jornais,
documentos ou objetos que testemunhem as atividades transcendentais de judeus ou
entidades israelitas no Brasil; d) publicar semestralmente uma coletânea denominada
"Revista do Instituto Judaico Brasileiro de Pesquisa Histórica", que será editada em
português e hebraico; e) realizar , freqüentemente, conferências sobre a história dos judeus
no Brasil; f)manter um seminário - que deverá funcionar a partir de abril próximo- para
estudantes e estudiosos da história judaica. O Comitê de Iniciativa era composto de, além
de Arnold Wiznitzer, que deixou uma obra significativa como historiador, pessoas de certo
prestígio na comunidade que deram apoio ao empreendimento o representante diplomático
de Israel no Brasil, general David Shaltiel e seu conselheiro Mordechai Schneurson, rabinos
Y.Fink, H. Lemle. F. Pinkuss, M. Zinguerevitch, M. Kresch, na verdade apenas figuravam
sem qualquer participação mais ativa. Também o rabino e historiador I.S. Emmanuel e o
Prof. David José Perez, e outras figuras com certa projeção no cenário cultural da
comunidade, entre eles Fernando Levisky, Dr. Hans Klinghoffer, Dr. Isaac Izecksohn, o
cientista Dr. Fritz Feigl, a escritora Elisa Lispector, e ativistas como o Dr. Alfred
Hirschberg, José Marx, Yoshua Averbach e Aron Neumann estavam envolvidos com o
projeto da instituição, conforme podemos constatar na matéria publicada no Aonde Vamos?
número 500, de 15 de janeiro de 1953. Efetivamente a personalidade central do Instituto foi
Arnold Wiznitzer, que publicou uma longa série de artigos importantes na revista Aonde
Vamos? sob a direção de Aron Neumann, que seriam reunidos e reelaborados
posteriormente resultando no livro que publicaria em 1960, em inglês, e, em 1966, em
português, sob o título Judeus no Brasil Colonial. Dois estudos valiosos sobre os judeus
sob domínio Holandês, de autoria de I.S. Emmanuel, também saíram a lume no mesmo
periódico Aonde Vamos? O mesmo I.S. Emmanuel, que se destacou por seus trabalhos
sobre as comunidades caribenhas e sobre os judeus de Salônica, foi rabino da comunidade
sefaradita do Rio de Janeiro, desde maio de 1950 permanecendo no Brasil até os finais de
1953, período no qual dedicou-se ao estudo do judaismo brasileiro sob o domínio holandês.
Já em junho daquele ano o Instituto apresentava um relatório de suas atividades no qual se
enumerava os trabalhos de Wiznitzer publicados no periódico Aonde Vamos? bem como
sua receptividade de parte de estudiosos e historiadores do Brasil e do exterior. Sem dúvida,
é inegável o empenho pessoal de Wiznitzer no sentido de chamar a atenção para essa área
de estudos a que ele mesmo deu uma notável contribuição histórica. O Instituto continuou
existindo durante alguns anos e, conforme a Assembléia Geral de 21 de novembro de 1954,
foi eleita uma nova diretoria para 1955-1956 na qual figuravam como presidente e
professor de pesquisa Arnold Wiznitzer; vice-presidentes Prof. David J. Perez e Aron
Neumann; secretário geral Dr. Fernando Levisky; editor Dr. Isaac Izecksohn, tezoureiro
Prof. Mendel Kresch, secretário, Elisa Lispector. Wiznitzer, que nesse interim havia
pesquisado em arquivos de vários países, voltaria a lecionar nos Estados Unidos, o que
levaria a paralisação e o encerramento das atividades da instituição que fundara. Contudo,
interessante lembrar, que ainda nos anos 50 uma outra tentativa para se criar um Instituto de
Pesquisa e arquivo histórico judaico seria feita pelo historiador Isaías Golgher, em Belo
Horizonte, porém sem que pudesse estruturar seu projeto sendo, no entanto, uma espécie
de antecipação do futuro Instituto Histórico Judaico Mineiro criado muitos anos mais tarde.
Desde então abriu-se um grande hiato e passaram muitos anos até o surgimento, em 1976,
do Arquivo Histórico Judaico Brasileiro, fundado por um grupo de professores e alunos de
5

pós-graduação da Universidade de São Paulo, que retomou a preocupação central de


preservar a memória da imigração judaica no Brasil e definiu os seus objetivos, quase em
termos idênticos, aos da instituição de Wiznitzer lembrada anteriormente. Contudo os anos
prévios a formação do A.H.J. B. pesquisadores importantes ,entre eles Egon e Frieda Wolff,
davam continuidade ao interesse despertado pela história dos judeus no Brasil -concentrada
até então no período colonial e mais especificamente nos perseguidos e vítimas da
Inquisição- e publicavam os primeiros resultados de seus trabalhos na revista Aonde
Vamos? e no boletim da Policlínica do Rio de Janeiro, instituição na qual atuavam. Nos
anos 70, já em forma de livro, sairia a luz, na série de publicações do Centro de Estudos
Judaicos da Universidade de São Paulo, um levantamento extraordinário de dados sobre os
judeus do século XIX, sob o título" Os Judeus no Brasil Imperial", texto que, na época,
achei importante encaminhar ao saudoso Prof. Eurípedes Simões de Paula, diretor da
Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP para sua aprovação, pois estava
convicto que a pesquisa levantava pela primeira vez uma valiosa informação sobre a
presença judaica naquele século sobre a qual nada conhecíamos. Após essa publicação, de
1975, que abriria um novo segmento da pesquisa histórica sobre a presença judaica no país,
e já interessado em criar um Arquivo de Documentação, pudemos dar à luz outros trabalhos
dos mesmos pesquisadores que em sua metodologia de pesquisa incluíram levantamentos
em cemitérios a fim de coletar dados e informações que nos ajudariam a reconstituir as
etapas de um complexo processo imigratório ,realizado em várias fases, e cuja origem era
proveniente de múltiplos centros da diáspora judaica. Laços de amizade- que perduram até
hoje- me levariam a acompanhar de perto o trabalho de pesquisa do casal Wolff, que além
do mais participariam também na fundação do A.H.J.B. A historiografia judaica começava
a descobrir novos caminhos para a investigação das levas imigratórias que chegaram nos
primeiros anos do Brasil Independente. Pessoalmente vi a necessidade de criar modelos de
pesquisa e nesse sentido, por várias razões decidi-me, de início, faze-lo no âmbito da
imigração proveniente da Europa Oriental, falante da língua ídiche, idioma que nos anos 70
do século passado já não era conhecida pela geração nascida em solo brasileiro, o que de
certa forma era um grande obstáculo para esse estudo. Possivelmente isso explica, porque,
anos mais tarde, os novos pesquisadores não-judeus, mas também judeus, se dedicariam ao
estudo da política governamental em relação à "imigração semita", na assim denominada
era Vargas, ou ao anti-semitismo que grassava nos círculos oficiais e de grupos políticos,
tais como os integralistas, ou ainda o estudo da esquerda e os judeus- se bem que esses
temas não eximiriam inteiramente a consulta de fontes importantes existentes em ídiche - e
temas similares, já que as fontes em ídiche lhes eram, lamentavelmente, inassecíveis. Razão
pela qual boa parte de tais pesquisas são deficientes e se ressentem da inexistência de uma
ótica que abrangesse uma perspectiva da comunidade frente à essas questões, comunidade
essa que se expressava em seus orgãos de imprensa e publicações em sua própria língua de
origem. Optei, desse modo, em dar minha contribuição pessoal num segmento que poucos
poderiam trabalhar e provocar o interesse para o melhor conhecimento da imigração bem
como a formação de suas instituições, seja sob seu aspecto "interno", no contexto de uma
história que exigia uma leitura de todo tipo de fontes em ídiche, incluindo-se entre elas os
periódicos que foram publicados nessa língua durante os anos de 1915 e 1941, ano em que
se proibiu publicações em língua estrangeira. O resultado desse trabalho, como já o disse,
foi a coletânea publicada em 1984 seguindo-se, no ano seguinte, o livro sobre “Jacob
Nachbin” que focalizava entre outros aspectos a cultura do imigrante asquenazita. Desde
então continuei publicando artigos em vários periódicos científicos, revistas, bem como em
6

coletâneas, que abordavam novos aspectos referentes à essa imigração, mas que não se
restringiram tão somente a ela, senão que, por vezes, tocavam em temas concernentes à
presença de judeus e cristãos-novos no período colonial e sob o domínio holandês no
Brasil. Mas o difícil acesso a esses trabalhos, de parte do público mais amplo, excluindo-se
o pequeno grupo de pesquisadores interessados na área, publicados em forma de artigos
em livros, Anais de Congressos e periódicos tais como o Jornal do Imigrante, Shalom,
Herança Judaica, Boletim Informativo do Arquivo Histórico Judaico Brasileiro, Revista da
USP, American Jewish Archives e outros editados no país e no exterior, levou-me a
organizar o livro que a EDUSP ora oferece aos seus leitores. Um certo número de artigos
exigiu uma revisão de conteúdo que a distância do tempo e o conhecimento acumulado
obrigou-me a faze-lo afim de retificar dados e inserir novas informações que minhas
pesquisas levantaram nos últimos anos bem como adicionar novo material documental aos
mesmos. Devo também observar que certos conceitos, assim como minha visão sobre
várias questões, alteraram-se com o passar do tempo, o que pode ser apreendido no
confronto entre as publicações originais e os estudos atuais. Obviamente, por se tratar de
uma coletânea de artigos, inevitável é que certas informações possam, por vezes, parecer
repetitivas. Porém evitei, na medida do possível, que isso acontecesse, mantendo somente
as estritamente indispensáveis por razões de inteligibilidade e estrutura do texto em
questão. Creio que a presente coletânea, que inclui alguns poucos estudos sobre o período
colonial, somada aos livros “Jacob Nachbin” ( Nobel,1985), “Manasche: sua vida e seu
tempo” (Editora Perspectiva, 1996; edição em inglês, The Jerusalem Foundation,
Jerusalém, 1998) e mais recentemente “David José Pérez: uma biografia” (Garamond, Rio
de Janeiro, 2005) poderá, no seu conjunto, servir como instrumento auxiliar ao pesquisador
interessado na história contemporânea dos judeus no Brasil, acreditando que ainda estamos
dando os primeiros passos para o seu pleno conhecimento. Aproveitei o ensejo para dar aos
leitores, em forma de apêndice documental, as “Crônicas” das comunidades escritas entre
os anos de 1953 e 1959 para o “Léxico dos ativistas sociais e culturais da comunidade
israelita do Brasil”, projeto editorial de Henrique Iussim (Zvi Yatom), que, infelizmente,
não pode ser levado adiante, pois o material relativo às comunidades maiores, a de São
Paulo e Rio de Janeiro, além da pequena comunidade da Bahia, nunca chegou a ser
publicado. Na parte concernente à São Paulo acrescentei a original “Crônica da
comunidade paulista” do escritor Meier Kucinski que deveria integrar a brochura do
“Léxico” dedicada àquela comunidade. Por outro lado encontrei dentre esse material do
projeto de Iussim uma tradução ao português de algumas partes da obra de Isaac Raizman,
“ A fertl yohrhundert idische presse in Brazil” (Um quarto de século de imprensa judaica
no Brasil), até hoje o único trabalho abrangente sobre a história da imprensa judaica no
Brasil, para o qual julguei útil acrescentar mais alguns excertos traduzidos por mim do
original em ídiche a fim de incluí-lo como Apêndice à este livro. A importância desse
material, inédito em português, impeliu-me a publicá-lo na integra, já que no seu conjunto
reune uma preciosa informação histórica relativa à imigração e a formação dessas
comunidades. Finalmente devo observar que sem o auxílio dos arquivistas e bibliotecários
das instituições com as quais tive contato durante várias décadas para a realização de
minhas pesquisas no Brasil, em especial o Arquivo do Estado de São Paulo, o Arquivo
Nacional no Rio de Janeiro, o Arquivo do Museu da Imigração, o Arquivo Histórico
Judaico Brasileiro e outros, assim como os do exterior, tais como o Arquivo para a História
do Povo Judeu (Archion leToldot haAm haYehudi, junto à Universidade Hebraica de
Jerusalém; do Central Zionist Archives (HaArchion haZioni), de Jerusalém e o Instituto
7

Ciêntífico Judaico (YIWO) de Nova York, não teria realizado muitas de minhas hipóteses
de trabalho. A todas essas pessoas, cujas vidas estão voltadas à preservação da
documentação histórica, desejo agradecer pela sua dedicação e prestatividade sem as quais
seria impossível chegar a qualquer resultado científico-histórico. Ao mesmo tempo sou
muito grato às inúmeras pessoas, amigos e famílias que abriram seus acervos pessoais
colocando-os generosamente à minha disposição.
8

2. A propósito da periodização da história dos judeus no Brasil

É opinião comum entre os historiadores que a periodização adotada para o


estudo da história não deve ser compreendida como uma verdade rígida, pois as balizas
cronológicas que delimitam os períodos estão sujeitas às interpretações e aos enfoques do
investigador e da questão a ser investigada.
Não é necessário demonstrar aqui que toda periodização é uma segmentação
artificial do processo histórico da humanidade, resultado de uma intenção didático-racional
e que varia segundo o tipo de história que se estuda e se investiga. O suceder do processo
histórico é um continuum sem delimitações reais. Sob esse aspecto, a compreensão da
mentalidade ou o conceito que o historiador tem sobre a época permite a fixação dos termos
cronológicos.
No Brasil devemos observar, antes de tudo, que até agora não se estabeleceu
uma periodização da história dos judeus que facilitasse e permitisse sistematizar o seu
estudo. A única tentativa feita foi a do historiador Salomão Serebrenick em seu livro
“Breve história dos judeus no Brasil”1, chegando a propor a seguinte divisão:

1. 1500-1570 – FASE PACÍFICA DE CRESCENTE IMIGRAÇÃO e de ampla


integração dos judeus na vida econômica do país, compreendendo os três
subperíodos:

a) Primeiras explorações (1501-1515);


b) Primeira colonização (1515-1530);
c) Colonização sistemática (1530-1570).

2. 1570-1630 – FASE TUMULTUÁRIA, caracterizada pelo surgimento de


discriminações antijudaicas.
3. 1630-1654 – Período de EXUBERANTE DESENVOLVIMENTO, sob o domínio
holandês, verdadeiro apogeu da organização coletiva dos judeus do Brasil.
4. 1654-1700 – Período pós-holandês, FASE CRÍTICA na vida dos judeus brasileiros,
compreendendo exôdo em massa, desagregação da comunidade, dispersão e final
acomodação local.
5. 1700-1770 – Período das GRANDES PERSEGUIÇÕES promovidas pela
Inquisição portuguesa.
6. 1770-1824 – Período de LIBERALIZAÇÃO progressiva, queda da imigração
judaica e gradual assimilação dos judeus.

1
. Ed. Biblos, Rio de Janeiro, 1962, pp. 9-12.
9

7. 1824-1855 – Fase da ASSIMILAÇÃO PROFUNDA, subseqüente à cessação


completa da imigração judaica homogênea e à igualização total entre os judeus e
cristãos perante a lei.
8. 1835-1900 – PRÉ-IMIGRATÓRIO MODERNO, caracterizado pelas primeiras
levas de imigrantes judeus, oriundos sucessivamente da África do Norte, da Europa
Ocidental do Oriente Próximo e mesmo da Europa Oriental, precursores das
correntes caudalosas que, nas primeiras décadas do século XX, viriam gerar e
moldar a atual coletividade israelita do país.

O critério adotado por Serebrenick se assenta sobre uma posição historiográfica, conforme
ele mesmo o define na introdução de sua obra, de que “o estudo da história dos judeus no
Brasil não pode ater-se às fases e aos marcos gerais da evolução política e social do país,
senão orientar-se, ao revés, segundo os fatos e acontecimentos históricos que hajam
repercutido especificamente nas condições de vida individual e sobretudo coletiva dos
judeus”. Antes de discutirmos os critérios de Serebrenick, devemos ainda observar que a
sua periodização se estende até o ano de 1900, sendo que, na obra mencionada, encontra-se
um estudo de Elias Lipiner sobre “A nova imigração judaica no Brasil”, que trata do
período que se inicia em 1900 até a década de 60 aproximadamente, mas sem uma
definição cronológica exata.
Quanto ao critério estabelecido pelo nosso autor para a periodização
apresentada mais acima, julgamos que ele peca pela base ao tentar isolar a história dos
judeus no Brasil da própria história geral brasileira, do mesmo modo como consideramos
impossível isolá-la da história dos judeus como um todo .
Nesse sentido, nem o autor é fiel ao critério estabelecido por ele mesmo, pois
em boa parte acaba por aceitar balizas cronológicas que constituem marcos importantes na
história do Brasil como tal, a começar pela primeira fase, que se estende de 1500 a 1570,
onde se fala na “ampla integração dos judeus na vida econômica do país compreendendo os
três subperíodos”, etc. Além do mais, o autor, sob o aspecto intrínseco ou do conteúdo
histórico, atribuído a cada divisão demonstra desconhecer a própria história do Brasil,
assim como dessa imigração, pelo fato de não a ter pesquisado nos arquivos públicos e
particulares que preservam a sua documentação.
É verdade que a periodização da história do Brasil não deixa de ser
problemática, como toda periodização, mas desde Varnhagen, Capistrano de Abreu,
Oliveira Lima, Joaquim Nabuco e Gilberto Freyre, e poderiamos acrescentar muitos outros,
pelo menos segundo as opiniões abalizadas de José Honório Rodrigues e Sérgio Buarque de
Holanda, se estabeleceram pouco a pouco os critérios interpretativos para se fixarem os
períodos da história brasileira2.

2
Sobre a periodização da história do Brasil, a melhor síntese foi escrita por José Honório Rodrigues em sua
obra “Teoria da História do Brasil”, Companhia Editora Nacional, São Paulo, 1969, pp. 125-144.
10

Apesar da pequena diversificação relativa de balizas cronológicas dos


acontecimentos mais importantes para a delimitação dos períodos quanto à história dos
judeus, podemos adotar a divisão de três grandes períodos: colonial, imperial e republicano.
O primeiro período vai de 1500 até 1808, o segundo de 1808 até 1889 e o terceiro de 1889
até os nossos dias. Até aqui temos uma periodização quase convencional que se aplica a
toda a história do Brasil, mas que ainda não permite explicar o particular existente na
história dos judeus em nosso território. No caso particular é a história de uma comunidade
com religião própria e com uma trajetória histórica universal que implica no estudo do
processo como um todo, ou vinculado aos momentos da história geral dos judeus onde quer
que se encontrem, considerando-se em especial a extensa geografia que assinala a origem
dessa imigração ao Brasil que são os continentes: europeu, asiático e africano 33. Também a
história do Brasil, como um todo, não pode ser desvinculada da história européia quando
tratamos de entender certos processos políticos, econômicos e culturais.
Adotando as amplas divisões apresentadas acima, proporíamos as subdivisões
seguindo o critério de acontecimentos mais decisivos na vida dos judeus do Brasil, segundo
o seguinte esquema cronológico:
I – Período Colonial – 1500-1808
1 – 1500-1591/5 – compreendendo os inícios do estabelecimento dos cristãos-
novos até a Primeira Visitação da Inquisição no Brasil.
2 – 1591/5-1624 – compreendendo a Segunda Visitação da Inquisição no Brasil
(1618-1619) até os inícios da conquista holandesa.
3 – 1624-1654 – compreendendo o período do domínio holandês no Brasil que
permite a livre expressão da religião judaica nas regiões onde
os batavos dominaram e a criação das primeiras comunidades
judias em território nacional: Tzur Israel (Recife) e Magen
Abraham (Maurícia).
4 – 1654-1774 – compreendendo a expulsão do invasor holandês e a
conseqüente destruição das comunidades judias. Ao mesmo
tempo, a inauguração de uma grande atividade inquisitorial
de perseguição aos cristãos-novos em todo o território
brasileiro até a política do Marquês de Pombal em relação à
Inquisição.
II – Período Imperial – 1808-1889

3
José Honório Rodrigues, em sua obra já citada, diz, com inteira razão, que “uma história detalhada do
desenvolvimento de uma comunidade representa a mais legítima contribuição à história nacional”, p. 151. Ele
mesmo demonstrou interesse pela história dos judeus no período holandês e do período colonial ao comentar
a obra de Arnold Wiznitzer em um artigo intitulado “Os Judeus no Brasil” , publicado no “O Jornal”, de 30
de outubro de 1952 e republicado na revista Aonde Vamos?, em 6 de novembro de 1952, ele escrevia: “De
1773 até o prícipio do século XX, a história dos judeus no brasil, por efeito ou não da indistinção determinada
por lei ou por falta de pesquisa e conhecimento dos documentos, não é conhecida.”
11

1 – 1808-1822 – compreendendo a Abertura dos Portos e a conseqüente


liberdade religiosa, e no qual os primeiros judeus, no período
contemporâneo, começam a vir ao Brasil até o início da
grande imigração da África do Norte na região norte do
Brasil.
2 – 1822-1848 – dos primórdios da imigração judaica no século passado até a
formação da primeira comunidade organizada, a Associação
Israelita Shel Guemilut Hassadim no Rio de Janeiro.
3 – 1848-1889 – compreendendo a imigração dos países da Europa Ocidental e
Central devido às revoluções de 1848 e a decorrente da
guerra franco-prussiana até a Proclamação da República.
III – Período Republicano – 1889 até os nossos dias
1 – 1889-1904 – compreendendo a imigração de 1891 e os projetos de
colonização dos inícios da República, sem mencionar
anteriores, e os inícios da Jewish Colonization Association no
Rio Grande do Sul.
2 – 1904-1914 – compreendendo os inícios da colonização J.C.A., em 1904,
em Philippson; a colonização agrícola no interior promovida
pelo governo do Estado de São Paulo em Nova Odessa, Jorge
Tibiriçá e Campos Salles em 1905 e a imigração da Europa
Oriental.
3 – 1914-1933 – compreendendo a grande corrente imigratória da Europa
Oriental e a formação das instituições comunitárias
(religiosas, beneficentes, sociais, culturais, educacionais) nos
diversos Estados do país.
4 – 1933-1945 – compreendendo a imigração dos judeus dos países de Língua
Alemã (ascensão do nazismo)e da Itália fascista; as
transformações políticas internas do país e suas
conseqüências em relação aos judeus; a integração cultural da
segunda geração de imigrantes, etc.
5 – 1945-1957 – compreendendo a imigração de pós-guerra, a formação do
Estado de Israel e a nova imigração do Egito e Hungria
(decorrente da Guerra do Sinai em 1956 e o Levante da
Hungria). A modificação política interna com a queda da
ditadura de Getúlio Vargas; a ascensão econômico-social
com o desenvolvimento do país a partir da Segunda Guerra
Mundial.
6 – 1957 até hoje – a nova comunidade e o ingresso de novos imigrantes vindos
de países da América Latina e outros lugares e sua
caracterização.
12

Adotamos uma divisão de períodos evitando as interferências interpretativas


que as concepções do historiador naturalmente tendem a impor a um período ou outro por
dado fenômeno ou acontecimento, como podemos verificar no caso de Serebrenick, cuja
visível preocupação pela “assimilação” o leva a denominar vários períodos de acordo com
esse critério. Mas a “assimilação”, além de ser apenas um aspecto, não permite caracterizar
apenas um período em particular, pois o processo se manifesta em vários períodos, senão
em todos, quando se trata da história dos judeus no Brasil.
O nosso esforço foi o de procurar evitar a possível unilateralidade de enfoques,
e olhar a história dos judeus no Brasil com maior amplitude possível, oferecendo a
possibilidade de que se façam vários “tipos” de história, seja econômica, política, cultural,
institucional, jurídica, social, etc.
Guilherme Bauer, em sua Introdução ao Estudo da História44, afirma
corretamente que cada período deve ser deduzido de seu objeto, isto é, dos mesmos fatos
históricos ou das concepções da época que abarca, o que deixa uma margem individual
bastante elástica para o historiador estudar um período segundo a intenção e o escopo de
sua própria pesquisa e o problema a ser pesquisado. Foi justamente o nosso propósito ao
propormos a periodização acima.

4
Ed. espanhola, Barcelona, 1947, pp. 156-7.
13

3. JUDAICA PERNAMBUCENSIS
Alguns perfís de judeus e judaizantes em Pernambuco

Historiadores importantes, entre eles José A. Gonsalves de Mello, Hermann


Kellenbenz, Arnold Wiznitzer, I.S. Emmanuel, Elias Lipiner, Sônia A. Siqueira e
outros, já de há muito publicaram as pesquisas fundamentais sobre cristãos-novos,
judaizantes e judeus no período colonial bem como sobre o domínio holandês nas
“capitanias de cima”, privilegiada, por razões geográficas, econômicas e históricas
conhecidas, de ter abrigado uma considerável imigração de elementos pertencentes à
“nação hebréia”. Queremos lembrar, com este modesto artigo, alguns vultos
importantes que tomaram parte e registraram sua presença na história da região da
região de Pernambuco no período colonial. A necessidade de colonizar o novo
território recém descoberto ,assim como a oficialização e o estabelecimento em 1536
da Inquisição em Portugal, levou a que muitos cristãos-novos viessem a se instalar na
região nordestina do território brasileiro acompanhando os primeiros arrendatários e
os donatários que receberiam as extensas parcelas de terras que demandavam uma
política de colonização e povoamento. Portanto, degredados, perseguidos, fugitivos
por uma ou outra razão e em particular o temor da instituição inquisitorial estariam
entre os elementos que aportariam às costas brasileiras. Em razão do acontecimento
significativo da inauguração do espaço cultural no lugar onde existiu a antiga
sinagoga da comunidade Zur Israel do Recife nada mais oportuno do que lembrar
alguns dos personagens centrais que viveram nessa região do Nordeste brasileiro e
que se incorporaram definitivamente, de uma forma ou outra, à história da região e do
Brasil. O fato conhecido sobre a existência de uma “esnoga” em Camaragibe na qual
se destaca a figura extraordinária, e envolta em lendas e que inspirou peças literárias
através dos tempos, de Branca Dias, natural de Viana da Foz do Lima, e seu marido
Diogo Fernandes que obtivera a sesmaria de Camaragibe em 1542,5 ambos vítimas da
Inquisição. Supõe-se que Branca teria vindo como fugitiva da Inquisiçaõ, que a
proibiu sair do Reino, ao Brasil, enquanto Diogo teria vindo antes, talvez como
degredado, passando a morar mais tarde em Olinda, onde sua mulher também se
encontrava, o que aponta para uma presença de judaizantes naquela região. Branca
Dias foi presa em 13 de setembro de 1543 e era filha de Vicente e Violante Dias. O
casal teve sete filhos e boa parte de sua família esteve envolvida com a temível
instituição por praticarem costumes judaicos tal qual são definidos pelo Monitório, ou
seja a lista dos delitos contra fé, e que orientava o procurador e os familiares do Santo
Ofício para identificarem os judaizantes através de seus hábitos e costumes. 6 O
processo de Branca Dias revela um fundo dramático do ponto de vista familiar pois
suas testemunhas de acusação eram sua mãe e sua irmã Isabel ambas processadas pela
Inquisição como judaizantes, sabendo-se que Violante Dias se reconciliou com a

5
V. sobre eles Mello, José A. G. de, Gente da Nação, Ed. Massangana, Recife, 1989, pp.117-166; v. também
Almeida, Horácio de, História da Paraíba, Imprensa Universitária, João Pessoa, 1966, tomo I, pp.147-159. O
autor de Gente da Nação anotou 15 processos relativos a pessoas com o mesmo nome em Portugal nos anos
de 1542 a 1593.Por fim identificou Branca Dias com a personagem do processo da Inquisição de número
5.736 existente na Torre do Tombo.
6
Lipiner, E., Terror e linguagem, um dicionário da Santa Inquisição, Contexto Editora, Lisboa, 1998, pp.174-
176.
14

Igreja, e acabou por se livrar da pena que lhe havia sido imposta. Como bem
demonstrou José Antônio G. de Mello, a família de Branca Dias compõe quatro
gerações de processados pela Inquisição, a começar por sua avó Violante Dias. 7
Também pertence ao rol desses cristãos-novos a figura exótica do calceteiro Jorge
Dias Caia, que era visto como “sacerdote” dos judeus em Olinda, e é descrito na
denunciação de 1591 pela sua conduta de cripto-judeu que para avisar os judaizantes
que deveriam se reunir em Camaragibe e no Engenho São Martinho, e talvez em
outros lugares, ele se apresentava descalço com um pano atado num pé e com a
espada na cinta, o que não era de seu hábito cotidiano, indicando desse modo que
haveria um ajuntamento de seus irmãos de fé. Durante a Primeira Visitação do Santo
Ofício, entre 1591-1595, não somente eles foram denunciados como judaizantes mas
também seus filhos e parentes bem como muitos outros cristãos-novos que habitavam
a região de Pernambuco. Elias Lipiner lembra bem que o fato da legislação
portuguesa da época, destinada a impedir a saída dos cristãos-novos do reino sem
licença especial, embora confirmada e renovada sucessivamente a sua força de
observância, não era observada com absoluta inflexibilidade, continuando a
emigração clandestina dos cristãos-novos para o Brasil.8 A maior parte dessa
imigração concentrou-se na região do Nordeste por ser esta o principal polo da
atividade econômica na colônia daquele tempo e na qual, ao par da extração de
madeira e de produtos naturais, desenvolvia a atividade açucareira de vital
importância para a época, e muitas vezes como pioneiros como o foi no caso de
Diogo Fernandes e Pedro Álvares Madeira, conforme assinalou José Antônio G. de
Mello.9 Porém devemos observar que todas conjecturas referentes ao número de
cristãos-novos que viviam na região nordestina desde o século XVI e seguintes,
carecem de melhor fundamentação uma vez que as fontes centrais que os mencionam,
ou sejam, os processos inquisitoriais e os documentos relativos às duas Visitações, a
de 1591 e a de 1618, não nos permitem qualquer avaliação estatística segura sobre os
mesmos, excetuando os que efetivamente são denunciados como tais. Em geral os
poucos estudos demográficos sobre o período colonial são discordantes em suas
conclusões, como bem observa Tarcizio do Rêgo Quirino em seu livro Os habitantes
do Brasil no fim do século XVI, baseado em boa parte numa leitura apurada dos
documentos relativos às Visitações .10 O autor está convicto de que “mesmo somando
em uma só parcela todos os que têm alguma raça de cristão novo [ quer dizer,
incluindo meio cristão-novo] chegamos a um total de 12,5%, bastante pequeno para a
influência que lhes é atribuída”. Porém, comparativamente à Bahia, parece não haver
diferenças apreciáveis na composição da população das duas maiores capitanias, a
não ser de se revelar um número maior de “meios cristãos-novos” superior em
Pernambuco, o que torna maior a percentagem de pessoas de origem judaica (10,9%)
na Bahia e 14% em Pernambuco. Em números reais estamos falando em algumas
centenas de indivíduos que não atingiriam um total acima de um a dois milhares de
pessoas considerando o número da população branca ou “portuguesa” existente na
época. O que está muito longe das afirmações ou avaliações bizarras de certos

7
Vide Genealogia de Branca Dias, Mello, J. A.G. de, op. cit. ,entre pp. 134-135.
8
Lipiner, E., Os judaizantes nas capitanias de cima, Ed. Brasiliense, São Paulo, 1969, p.15.
9
Mello, J. A.G. de, Gente da Nação, ed. Massangana, Recife, 1990,p.8.
10
Instituto de Ciência do Homem-Univ. Fed. de Pernambuco, Recife, 1966, pp.14-15.
15

historiadores que lidam com a presença dos cristãos-novos no Brasil, sem que
diminua o fato de terem os cristãos-novos desempenhado um papel notável na
sociedade colonial em seu período decisivo de formação, assim como o foi na
economia predominante naquele tempo em que se fizeram representar como
destacados e bem sucedidos senhores de engenho, produtores e exportadores de
açúcar, quando este era um bem apreciado e sumamente valioso na atividade
mercantil da época. Nesse sentido, figura exemplar de homem bem sucedido
economicamente e de projeção social impar é o cristão-novo João Nunes, contratador,
mercador, senhor de engenhos, português nascido em Castro Daire, morador em
Olinda, e que fora preso durante a Primeira Visitação, com denúncias na Bahia e em
Pernambuco, porém sempre conseguindo habilmente livrar-se de suas malhas as
custas de seu poder financeiro e influência. 11 Porém outro tipo de cristão-novo
judaizante que não atua na esfera econômica mas se notabiliza como intelectual e
homem culto com o desejo de deixar seu nome gravado na memória dos homens
como literato é o não menos famoso Bento Teixeira, autor da Prosopopéia. Sobre ele
muito se escreveu, desde Barbosa Machado, em sua Biblioteca Lusitana, publicada
em 1741, até os nossos dias, visando-se identifica-lo como autor de certas obras, seja
por representar uma figura trágica de perseguido e processado pela Inquisição, ou
ainda pela sua trajetória de vida que o transformou em uxoricida acrescido ao fato de
figurar como um dos primeiros autores na história da literatura brasileira. A
descoberta de um exemplar de sua obra, em 1872, na Biblioteca Nacional de Lisboa,
por Varnhagen, logo seguido do achado de outro, no mesmo ano no Rio de Janeiro,
por B.F. Ramiz Galvão, que a publicaria em 1873, conseguiu dirimir a dúvida quanto
a autoria da Prosopopéia, mas não quanto a verdadeira identidade do seu autor. Isto
viria mais tarde por ocasião da publicação das Denunciações da Bahia, prefaciado por
Capistrano de Abreu, e as Denunciações de Pernambuco, por Rodolfo Garcia, em que
este último, associou o autor ao cristão-novo vítima da nefanda instituição. Nesse
sentido também a primeira edição da Prosopopéia, de Lisboa, 1601 editada por
Antônio Alvares e organizada pelo livreiro Antônio Ribeiro juntamente com outro
texto para o qual escrevera o prólogo, a saber o “Naufrágio que passou Jorge de
Albuquerque Coelho, capitão e governador de Pernambuco”, de autoria do piloto
conhecido por Afonso Luís Piloto e redação final de Antônio de Castro, “poeta e
sabedor do seu latim”, foi objeto de abundantes especulações até que se cristalizasse
uma opinião comum aceita pela maioria dos estudiosos. 12 Arnold Wiznitzer que
escreveu sobre o judaizante e procurou comprovar seu judaismo através da leitura das
estrofes 6, que se reporta aos quatro elementos: ar, fogo, água e terra, e 35 no qual se
lamenta a injustiça na qual o mau prospera e o justo é castigado pelo sofrimento, (em
hebraico “zadik verá lo rasha vetov lo) na Prosopopéia, bem como pela figura
impressa no final da última estrofe, que pensa ser uma Fênix, símbolo dos cristãos-
novos judaizantes adotada pela comunidade Neve Shalom de Amsterdão, o que seria,

11
V. Siqueira, S. A., O comerciante João Nunes, Separata dos Anais do V Simpósio Nacional dos Professores
de História, Campinas, 1971,pp.231-249; Mello, J.A.G. de , op. cit.,pp.51-79; Lipiner, E., op. cit., pp.194-203.
12
Souza, J. Galante de, Em torno do poeta Bento Teixeira, Instituto de Estudos Brasileiros-USP, São Paulo,
1972, dedica boa parte de seu conscencioso estudo ao esclarecimento da questão da autoria e identificação do
autor.
16

no seu entender, clara indicação do poema ser escrito por um judaizante. 13 A verdade
é que dificilmente poder-se-ia ver nessas estrofes qualquer sinal de judaismo pois seu
conteúdo é inteiramente universal e não caracterizam, em especial, um conteúdo
específico judaico. Por outro lado o símbolo da Fênix, que tem uma longa trajetória
mitológica no mundo grego, e penetrou no judaismo rabínico,14 também foi adotada
pelos cristãos-novos judaizantes devido seu significado simbólico da eternidade de
Israel e sua fé superior confirmada pelos mártires queimados pela Inquisição. J. Lúcio
de Azevedo publicou um soneto de David Jesurun dedicado ao famoso mártir vítima
da Inquisição, frei Diogo da Assumpção: “Foste ouro que estiveste soterrado/ Nas
minas da cruel Inquisição;/ Mas como o fogo tira a corrupção/ Quiseste nele ser
purificado.// Foste Fênix que aumenta seu estado/ Por não ter nele a morte jurisdição,/
E assim ardeste vivo em conclusão/ Que hás de nascer das cinzas renovado.// Anjo
que a Manoé apareceu,/ Vítima que oferece a Deus no fogo,/ Que ambos subis em
flama ao céu propício,// Lá rides de quem cá nos ofendeu,/ Sem querer que vos
chamem Frei Diogo,/ Mas áureo Fênix, anjo e sacrifício.//15 Uma vez que essa ave
mitológica vive 500 ou 1000 anos e é consumida pelo fogo para renascer das próprias
cinzas, ela também aparece na literatura rabínica, do mesmo modo que na Patrística
cristã, como prova da ressurreição dos mortos. 16 Mas a ave ou pássaro que vemos na
gravura da Prosopopéia não é uma Fênix. Ali encontramos uma ave com três filhotes
bicando seu próprio peito para alimentá-los, o que não condiz com a representação
conhecida da Fênix, sempre configurada envolta em chamas sob seu corpo, assim
como podemos verificar no símbolo adotado pela comunidade Talmud Torá de
Amsterdão, resultado da unificação das três anteriores.17 Daí a conclusão de Rubens
Borba de Moraes, em artigo sobre Bento Teixeira, afirmar que a ave é um pelicano,
que também possui um significado cristão, entre outros, o do Cristo que derrama seu
sangue para salvar a humanidade.18 Curiosamente a mesma ave se encontra no
13
“Bento Teixeira, autor da Prosopopéia”, in Aonde Vamos?, n. 502, 29 de janeiro de 1953, p.2. Duas
perguntas são inevitáveis em relação ao julgamento de Wiznitzer: a) como poderia ter visto uma Fenix ,
sempre representada com chamas, na figura da ave com seus filhotes da Prosopopéia? ;b) teria de fato visto o
símbolo da Fenix em algum documento relativo à comunidade Neve Shalom? Ou confundiu-a com a Talmud
Torá?
14
Sobre a Fenix, fazem referência vários dicionários sobre mitologia, entre os quais o Dicionário da mitologia
grega e latina de Pierre Grimal, Bertrand Brasil, Rio de Janeiro, 4ª ed., 2.000 e o Dicionário de mitos literários
de Pierre Brunel, UNB- J. Olympio Editora, Rio de Janeiro,1997. O mito no judaismo parte de uma
interpretação da palavra hebraica “hol”, que se encontra em Jó, 29:18 :“dias numerosos como “hol”, (que
significa “areia”), mas que, posteriormente, atribuiu-se um o significado adicional como sendo Fenix, que em
hebraico é denominada “Hul”. A literatura midráshico-rabiníca é rica em referências expressivas sobre a
Fenix tal como a encontramos no Bereshit Raba, 19, 5: “ ...com exceção de uma ave que se chama Hul, como
está escrito (Jó, 29:18)...vive mil anos e no final desse tempo um fogo sai de seu ninho e a queima, e resta
dela algo como um ovo que dele volta a crescer asas, e torna a viver.” V. Bereshit Raba, ed. Machberot
leSifrut,Tel Aviv, 1956, vol.1, p.134. A menção da Fenix, ou Hul, a encontramos na literatura apócrifa, no
Apocalipse grego de Baruque, cap.6, no qual a Fenix absorve com suas asas os poderosos raios do Sol e desse
modo evita que a vida na terra seja queimada. Também é mencionada a Fenix no Livro de Enoque, versão
eslava, cap. 6, numa descrição fantástica de sua forma. V. Kahana, A., Hasefarim hahitzonim (Os livros
apócrifos), Massada, Tel-Aviv, 1959, vol.1, pp. 109-110; 418.
15
História dos Cristãos Novos Portugueses, Livraria Clássica Editora, Lisboa, 2 ª ed., 1975, p.161.
16
V. Ginzburg, L., The Legends of the Jews, The JSPA, Philadelphia, 1967, vol.VII, p.51.
17
V. Encyclopaedia Judaica, Ktav Pub. House, Jerusalem, 1971-2, vol. 13, p.482.
18
Moraes, R. Borba de, Muitas perguntas e poucas respostas sobre o autor da “Prosopopéia”, in Comentário,
ano V, vol. 5, n.1, 1964, pp.78-88. O mesmo autor levanta vários e interessantes questionamentos sobre o
17

frontispício da edição do Os Lusiadas de Camões, como bem observa Borba de


Moraes, que procurará provar que a figura, que serve de “cul de lampe”, foi
selecionada e impressa porque era o que o tipógrafo tinha disponível em sua gráfica
para se adaptar ao espaço da página em questão. Razão meramente técnica senão
estética! O estudioso José Galante de Souza já havia observado que a Prosopopéia,
escrita pelo menos alguns anos antes da morte do autor em 1600 e impressa em 1601,
com o “nihil obstat” do Santo Ofício, não poderia ter um símbolo que atendesse a
vontade ou qualquer intenção velada do autor, pois este já era falecido ao legar o seu
manuscrito à Jorge de Albuquerque Coelho ou ao seu editor. O moto latino em volta
da figura, Fortis est ut mors dilectio, isto é, o amor é forte como a morte, é extraído
do Cântico dos Cânticos 8:6, no original hebraico “ki aza kamavet ahava”, cujo
conteúdo pode-se aplicar também à ave que dará a vida por amor aos seus filhotes.
Porém devemos observar que ao contemplarmos atentamente o pássaro da figura em
questão, bem como a do Os Lusiadas, vemos que em nada se parece a um pelicano,
ave tão bem caracterizada pelo seu bico alongado munido de uma bolsa para guardar
os peixes que porta para alimentar seus filhotes. Como explicar tal fato? Desleixo do
artista que ignorava seu significado cristológico? Contudo intrigante continua sendo o
versículo “aza kamavet ahava”, pois o encontramos em um pyut do cronista da
Segunda Cruzada, R’ Efraim ben Jacob de Bonn, um poema de amor e idelidade ao
Deus de Israel tendo como fundo a matança perpretada pelos cruzados nas
comunidades judias do Reno que levou ao fenômeno da auto-imolação ou Kidush
haShem para não cairem em mãos de seus algozes e serem batizados. 19 Voltemos,
porém, a Bento Teixeira. Filho de cristãos-novos, nasceu no Porto, em 1561, ainda
que outros autores admitem outras datas, e teria vindo, juntamente com sua família, à
Capitania do Espírito Santo aproximadamente em 1567, local onde estudou no
colégio dos Jesuítas. Mudou-se mais tarde para o Rio de Janeiro dando continuidade
aos seus estudos entre os inacianos os quais também o acolheriam como aluno na
Bahia, onde se presume ter chegado por volta de 1579. Protegido pelo bispo D.
Antônio Barreiros e do Ouvidor-geral Cosme Rangel viveu ali com parentes do lado
materno, uma vez que seus pais já eram falecidos. Casado com uma cristã-velha,
Filipa Raposa, sua vida matrimonial foi perturbada pela infidelidade da esposa ,que
segundo ele próprio confessara, disseminara entre conhecidos e pessoas com as quais
adulterara, sua condição judaica, que o levou a ser suspeito perante o tribunal do
Santo Ofício antes da Visitação de 1591. Anteriormente havia estado em Olinda em
busca de sua subsistência e para tanto abriu uma escola com auxílio da Câmara da
vila, e na qual também contava com a ajuda de sua esposa. Nessa primeira passagem
pela instituição inquisitorial ele foi absolvido graças a boa vontade do Ouvidor da
Vara Eclesiástica, Diogo do Couto que era suspeito de ser cristão-novo e ser
condescendente com os acusados de conduta suspeita. Ele ainda perambularia por

acréscimo do sobrenome Pinto ao de Bento Teixeira que se encontra em Barbosa Machado e no segundo
volume da História trágico marítima de Bernardo Gomes de Brito, de 1736, que reimprimiu o “Naufrágio”
atribuindo-o também ao autor da Prosopopéia; idem, Bibliografia brasileira do período colonial, IEB-USP,
São Paulo, pp. 376-7.
19
O pyut se encontra na coletânea de Masha Itzhaki e Michel Garel, Poésie hébraïque amoureuse, Somogy
Éditions D’Art-Musée d’art et d’histoire du judaisme, Paris, 2000, pp.177-181. A crônica de R’Efraim de
Bonn foi publicada por A.M. Habermann, Sefer Gzeirot Ashkenaz veTzorfat (Livro das perseguições na
Alemanha e França), Ofir, Jerusalém, 1971, 2ª edição.
18

vários lugares após voltar a Olinda e nesse lugar, por ocasião da visitação
inquisitorial faria sua confissão, em 21 de janeiro de 1594. Preliminarmente, tanto na
Bahia quanto em Pernambuco acumularam-se as denuncias sobre o cristão-novo
Bento Teixeira, “mestre de ensinar moços o latim e ler e escrever”, que se veria
forçado a se apresentar perante a mesa do Santo Ofício denunciando a outros e
confessando as suas próprias culpas. O processo 5.206, com sua confissão, o qual foi
objeto de estudo profundo do notável historiador José Antônio G. de Mello, revela as
atitudes e as manifestações “heréticas” do cristão-novo.20 Mas no confronto atento
entre as denunciações e a confissão permite-nos concluir o quanto ele se esforçou
com inteligência e sutileza intelectual a diminuir a gravidade das acusações ao opor
explicações sobre os mesmo fatos que comprometesse o menos possível a
necessidade de demonstrar sua fidelidade e apego ao cristianismo. Por outro lado a
fácil denúncia de pessoas e a declinação dos nomes de cristãos-novos revela certa
fragilidade em sua personalidade que não se propunha- como muitos outros o fizeram
na longa história do marranismo- a adotar uma postura que poderia levá-lo à morte na
fogueira. Contudo o auto que o tribunal mandou fazer sobre sua pessoa não lhe era
em nada favorável e ele seria preso por ordem do Visitador expedida em 19 de agosto
de 1595. Na mesma prisão de Olinda, antes de embarcar para Portugal ele se
encontraria com outro preso, Diogo Lopes, que vivera no Rio de Janeiro.21 Preso,
Bento Teixeira , apresentaria em 17 de setembro um longo requerimento em sua
defesa- que nos dá uma preciosa informação sobre sua vida- indicando várias
testemunhas que passaram a ser ouvidas. 22 Ele acabaria sendo levado a Lisboa, onde
permaneceria preso no Paço dos Estaus e ouvido em interrogatório a partir de 28 de
fevereiro de 1596, mostrando-se negativo durante todo o tempo em relação a qualquer
prática judaica. O processo inquisitorial que se realizou de acordo com os
procedimentos estabelecidos na rotina do tribunal do Santo Ofício acabou por se
prolongar também devido o fato de testemunhas no Brasil, que conheceram o réu,
deverem ser ouvidas. A um dado momento, Bento Teixeira, que se mantivera
insistentemente negativo, percebera que a balança de suas testemunhas lhe era
desfavorável e assim resolvera mudar de atitude, talvez com o receio de obter o
perdão do tribunal. Assim sendo decidira confessar que, sob a influência de sua mãe,
adepta da lei de Moisés, adotara desde adolescente os ritos judaicos, mas que
ultimamente se arrependera e por isso pensava em dizer a verdade, não o fazendo
antes por temor da infâmia e o temor das denuncias que deveria fazer sobre outras
pessoas. E de fato ele denunciou judaizantes que tivera contato em vários momentos e
lugares por onde passara e vivera. As confissões estenderam-se até meados de abril e
sua ratificação até 19 de outubro de 1598, onde aparecem novos detalhes de sua vida
e sobre sua esposa. No final o réu foi beneficiado por suas confissões e o parecer dos
inquisidores, de 3 de dezembro daquele mesmo ano foi condenado em cárcere e
hábito perpetuo, com confiscação de seus bens e excomunhão maior, e como pena e
penitência de suas culpas vá ao auto-da-fé e abjure publicamente seus heréticos erros

20
V. Mello, J. A.G. de, “Bento Teixeira e a Prosopopéia” , in Estudos Pernambucanos, Imprensa
Universitária, 1960, pp.5-43; idem, Gente da Nação, pp.81-116; Siqueira, Sônia A., O cristão-novo Bento
Teixeira, in Revista de História, USP, 89, 1972, pp.395-467.
21
Dines, A., Vínculos do Fogo, Companhia das Letras, São Paulo, 1992,pp.199-201.
22
Mello, J.A.G., Gente da Nação, pp.89-95.
19

em forma, sentença lida “no auto público da Santa Fé na sala desta Inquisição de
Lisboa”, em 31 de janeiro de 1599. Além de abjurar, ele passaria nos cárceres das
assim chamadas Escolas Gerais para ser instruído na doutrina cristã até outubro do
mesmo ano, quando se lhe deu o consentimento para soltá-lo. Não sabemos qual foi o
motivo que o levou novamente voltar à prisão, confirmado por um laudo médico de
abril de 1600, que dizia encontrar-se muito enfermo, vindo, pouco após, a falecer em
julho daquele ano. Entre as testemunhas de Bento Teixeira figurava o nome de
Ambrósio Fernandes Brandão autor do Diálogos das Grandezas do Brasil, uma das
mais importantes obras de informação sobre o Brasil, e em particular sobre o
Nordeste colonial. Ele também se veria às voltas com o Santo Ofício devido ser
denunciado como cristão-novo judaizante. O pouco que conhecemos de sua biografia
indica que viveu em Pernambuco para onde teria vindo de Portugal em 1583 como
feitor do cristão-novo e senhor do engenho de Camaragibe, Bento Dias Santiago. Ele
participou da expedição que foi organizada para a conquista da Paraíba por Martim
Leitão, como capitão de mercadores. De 1597 a 1607 residiu em Portugal e exerceu a
função de tesoureiro geral da Fazenda dos Defuntos e Ausentes. Em 1607 regressou a
Pernambuco seguindo mais tarde para a Paraíba, onde em 1613 já possuía dois
engenhos e conforme Horácio de Almeida estava montando um terceiro. 23 Foi na
Paraíba que escreveu, em 1618, a obra “enciclopédica” Diálogos das Grandezas do
Brasil, sobre a qual, durante muito tempo, foi questionada a verdadeira identidade de
seu autor até que Capistrano de Abreu, Rodolfo Garcia e José Antônio G. de Mello a
associassem ao nome de Ambrósio Fernandes Brandão.24 A leitura atenta de sua
obra, a qual se desenvolve através de um diálogo entre dois personagens, Brandônio,
entusiasta em relação à riqueza da terra e Alviano, reinól recém-chegado, crítico
pessimista da mesma, chamou a atenção de historiadores sobre a menção unilateral de
citações escriturísticas do Velho Testamento, e não do Novo, e para sua interessante
concepção- ainda que não fosse original - de que os povos indígenas do continente
seriam descendentes dos antigos hebreus.25 Creio que ainda falta uma leitura mais
atenta dos “Diálogos” no referente as citações do Velho Testamento e sua utilização
exemplar na literatura rabínica tradicional no sentido de se localizar tradições orais
que poderiam perfeitamente fazer parte do “judaismo” ibérico e seu marranismo. “A
vinha de Noé”, “os descendentes do perverso Cã” , “o santo profeta Rei Davi”, “o
profeta Daniel no lago [poço] dos leões”, são temas de uma exegese judaica
tradicional que merece, em seu contexto literário uma reflexão maior no sentido de
identificar o judaismo de seu autor. Mas pelo fato de nunca ter sido processado pela
Inquisição poucos elementos temos para saber sobre sua fé, senão pela denúncia que
foi feita ao Inquisidor Antônio Dias Cardoso, em 9 de novembro de 1606, em Lisboa,
por um “mourisco de nação” de nome Miguel Fernandes de Luna. Nela consta que o
denunciante servia a Ambrósio Fernandes Brandão, cristão-novo que mora na

23
Almeida, H., op. cit., p.210.
24
Vide o Prefácio de Leonardo Dantas Silva na edição dos Diálogos das Grandezas do Brasil,
ed.Massangana-Fundação Joaquim Nabuco, Recife, 1997, no qual faz a apreciação dos manuscritos e a
Introdução de José Antônio G. de Mello, que descreve os passos havidos para a identificação de seu autor.
25
Alberto Dines chama a atenção para a estrutura do “Diálogos” que são em número de seis ao longo de seis
dias com um intervalo do sétimo para reflexões, o que seria um indício de seu judaismo. V. Dines, A., A
presença judaica no Brasil, breve roteiro (II- A Inquisição na Colônia), in Morashá, ano VIII, n. 28, abril
2.000, p.34.
20

Calçada do Congro...para lhe consertar um jardim de uma horta... Além dele havia
ainda em serviço na dita horta, um “hortelão” de nome Antônio Álvares. Na casa
moravam Ana Brandoa-que parece ser a mulher de Ambrósio- Joana Batista, irmã
bastarda desta, Mícia Henriques e Duarte Brandão, filhos, de Ana Brandoa...que o
dito Ambrósio Fernandes em todos os dias de sábado se recolhe em um estudo seu e
nele está quase todo dia e não sai fora de casa, nem faz pagamento nem contrato no
dito dia com pessoa alguma, sendo recebedor do Consulado e tendo negócios na dita
casa.” O mesmo denunciante “viu a dita Ana Brandoa...estar lendo um livro, que não
sabe que livro é”, e a irmã bastarda desta, Joana Batista, possuía “um livro defeso” e
o filho, Duarte Brandão, era “letrado” .26 Conforme o autor do Gente da Nação a
última menção sobre sua pessoa data de 1623 27 sendo que seus filhos Luís Brandão,
Jorge Lopes Brandão e Francisco Camelo Brandão seriam os herdeiros dos engenhos
de sua propriedade que o tempo fez passar a outras mãos. Temos a possibilidade de
especular sobre os motivos que levou o suposto cristão-novo, ou judeu, a escrever o
“Diálogos das Grandezas do Brasil” no ano de 1618, ano da Segunda Visitação
inquisitorial ao Brasil sob a responsabilidade do licenciado Marcos Teixeira, que
sediada na Bahia, atuou desde 11 de setembro daquele ano até 26 de janeiro de 1619 e
na qual foram denunciados dezenas de judaizantes nessa região.28 Entre os
denunciados encontram-se aqueles que mantinham contato com o continente europeu,
com Flandres e a cidade de “Nostra Dama” (Amsterdão) e que evidencia uma
atividade econômica dos cristãos-novos brasileiros numa escala mundial, devido o
seu contato e ligações, mesmo de parentesco, com as comunidades de judeus
portugueses na Holanda, Hamburgo e outros lugares. A liberdade de movimento
outorgada aos cristãos-novos pelo decreto de 4 de abril de 1601, revogando a
proibição de sair de Portugal sem licença especial ou ainda venderem suas
propriedades a não ser com permissão, permitiu, esse desenvolvimento que levou a
prosperidade de muitos dos que se estabeleceram no Brasil. São anos em que a
política portuguesa em relação aos cristãos-novos oscila entre uma jurisdição que
concede uma relativa liberdade e a supervisão controladora das almas para que não
caiam na tentadora heresia, mas sem coerência e sujeita ao sabor de governantes que
ora pendem para um lado ora para outro.
O “Diálogos” é, assim nos parece, fruto de uma visão otimista sobre possibilidades e
potencialidades de enriquecimento que a colônia oferece àqueles que querem emigrar
e viver nessa terra. Esse otimismo espelha de fato uma fase de prosperidade e
crescimento da industria açucareira no Nordeste, atividade na qual o próprio autor
estava envolvido, e que acompanhou o aumento progressivo do número de engenhos
e o de sua produção. A cobiça dos holandeses em relação ao Nordeste brasileiro
decorrente de informações, também de holandeses e estrangeiros 29 que viviam em

26
Mello, J.A.G. de, Introdução ao Diálogos das Grandezas do Brasil, pp.XXI-XXII.
27
Mello, J.A.G. de, op. cit., p.27.
28
Livro das Denunciações que se fizerão na Visitação do Santo Officio à Cidade do Salvador da Bahia de
Todos os Santos do Estado do Brasil, no anno de 1618, Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro, 1936, com
introdução de Rodolfo Garcia e onde aparece a figura de um Melchior de Bragança, converso e terrível
denunciante que ensinara hebraico nas Universidades de Alcalá e Salamanca.
29
Mello, J.A.G. de, Dois relatórios holandeses, Sep. da Revista de História-USP, São Paulo, 1977, na qual
transcreve a Memória de Adriaen Verdonck, escrita em 20 de maio de 1630, brabantino que residia em
21

Pernambuco antes do empreendimento da conquista do território após a fundação da


Companhia das Índias Ocidentais, advinha da fama sobre as riquezas naturais da terra
e o fácil enriquecimento de seus habitantes. Entre os que poderiam informar com
conhecimento fundamentado sobre a vida e os recursos do território se encontravam
cristãos-novos em permanente contato com os seus conterrâneos na Europa.30
Os fatos sobre a conquista são conhecidos e os historiadores são unanimes em afirmar
o quanto os cristãos-novos judaizantes estavam ansiosos para que o estabelecimento
dos holandeses fosse bem sucedido, pois desse modo poderiam voltar à sua fé.
Segundo o cronista Duarte de Albuquerque Coelho, serviu de guia central para as
tropas que desembarcaram o judeu Antônio Dias, conhecido como Paparrobalos. A
expedição militar organizada em 1629, composta de mercenários de várias
nacionalidades, incluía uma unidade ou companhia composta de judeus que é
confirmado por um documento descoberto por Hermann Kellenbenz no Arquivo
Histórico Nacional de Madri, onde se lista 41 nomes sefaraditas e mais vinte judeus
da Alemanha, sem qualquer indicação nominal, todos liderados por Diego Peixoto,
aliás Mosen Coen, que era capitão.31 Curiosamente a lista não menciona os nomes de
Moysés (Moseh) Navarro, Antônio Manuel e David Testa, que A. Wiznitzer
considera os primeiros soldados judeus a chegarem na América. A figura de Moysés
Navarro, que chegara ao Brasil como cadete naval, “adelborst”, na companhia do
capitão Bonet, e passou à condição de “vrijelujden”, cidadão livre, isto é
economicamente independente, é das mais interessantes. Em 1635 ele recebeu licença
para comerciar com açucar e tabaco tornando-se mais tarde senhor de engenho em
Pernambuco. Prosperou ao ponto de se tornar um dos homens mais ricos e
importantes do Brasil Holandês e em 1648 ele se encontra entre os assinantes do
Livro da Congregação Zur Israel de Recife. Ele aparecerá como intérprete da
Comissão holandesa por ocasião da derrota do exército holandês na segunda batalha
de Guararapes, em 19 de fevereiro de 1649, quando o comandante Francisco Barreto
de Menezes concedeu aos holandeses o direito de enterrarem seus mortos. Navarro
voltará a Amsterdão em 1654, assim como seus irmãos Aaron e Jacob que passaram a
viver em Barbados.32 O papel desempenhado pelos judeus na defesa do domínio
holandês já foi objeto de estudo de Wiznitzer que se reporta à solicitação feita as
autoridades para que fiquem isentos de fazerem guarda aos sábados,- motivo de
queixas repetitivas por parte de cidadãos holandeses que nisso viam um privilégio
injusto outorgado aos judeus -mediante pagamento de multa, ao mesmo tempo que
enfatiza sua participação na defesa como podemos depreender do conhecido mapa de

Pernambuco desde 1618 ou 1620, e que forneceu informações valiosas aos invasores que ocuparam a vila de
Olinda em fevereiro de 1630.
30
Mello, J.A. G. de, Tempo dos Flamengos, Col. Pernambucana, Recife, 1978, p.38. O autor que observa que
uma das cópias do “Diálogos”, se encontrava na Biblioteca de Leyden indica o quanto os holandeses
procuravam obter um conhecimento sobre a região.
31
Kellenbenz, H., A participação da Companhia de Judeus na conquista holandesa de Pernambuco, Univ.
Fed. da Paraíba, 1966. Trata-se de um depoimento feito perante o arcebispo de Charcas, conselheiro da Santa
Inquisição, em março de 1633 por um capitão Estevan de Ares de Fonseca, natural de Coimbra, sobre um
Francisco de Brito que tomou parte na companhia dos Judeus, em 1629. O documento que se encontra na
Inquisição de Toledo.
32
Sobre Moysés Navarro vide o artigo de Wiznitzer, A., Soldados judeus no Brasil Holandês (1630-1654) in
Aonde Vamos?, n,733, 11 de julho, 1957; n.734, 18 de julho, 1957. Mello, Tempo dos Flamengos; Wiznitzer,
A., The Records of the Earliest Jewish Community in the New World, A. J. H. S., New York, 1954.
22

Recife e Olinda que se refere ao fortim dos judeus, excubiae Iudaeorum.33 Durante a
rebelião portuguesa de 1645, muitos deram suas vidas para impedir a expulsão dos
holandeses motivados, acima de tudo, pelo temor de que teriam de estar novamente
sujeitos às perseguições inquisitoriais e à vingança dos rebeldes. Nieuhof recorda que
a preocupação permanente dos judeus os levava a ficar atentos quanto as intenções
dos portugueses, e em 13 de outubro de 1644, certo judeu, Gaspar Francisco da
Cunha, e mais dois outros de destaque na colônia comunicaram ao Conselho que
haviam sido informados por alguns judeus do interior, com os quais mantinham
correspondência, que os portugueses estavam conspirando contra o Brasil Holandês. 34
O temor era plenamente justificado pois ao conquistarem Serinhaém e seu forte em
agosto de 1645 os lusos batizaram dois judeus, Jacques Franco e Isaac Navarro. 35 Frei
Manoel Calado menciona um judeu que estava catequizando e outros que foram
enviados a Portugal, além de outros mais.36 Ainda o mesmo Nieuhof é que nos revela
o estado de espírito dos judeus quanto a possibilidade dos holandeses virem a ser
derrotados: “Os judeus, mais que os outros, estavam em situação desesperadora, e,
por isso, optaram por morrer de espada na mão ao invés de enfrentar seu destino sob
o jugo português: a fogueira.” 37 Wiznitzer, calcula o número de judeus no Brasil
holandês não terem excedido a 1.450 almas numa população total de homens livres
de 2.899 pessoas, sendo que no ano de 1645, cerca de 350 judeus serviram as forças
armadas holandesas. Mas as discrepâncias numéricas entre os historiadores quanto a
questão relativa à população judaica sob domínio holandês ainda demanda um estudo
mais apurado.38 Além dos marranos anteriores à invasão, que voltaram abertamente
ao judaismo, e os judeus que tomaram parte na conquista acompanhando a armada
invasora, vieram judeus da Holanda, desde o estabelecimento do domínio batavo e
mais acentuadamente nos anos de prosperidade em que Maurício de Nassau foi
governador do Brasil Holandês, de janeiro de 1637 a 1644. Uma carta enviada à
Companhia das Indias Ocidentais, em 5 de dezembro de 1637 revela que a Câmara
dos Escabinos de Olinda queixava-se de que o território estava sendo inundado de
judeus que chegavam em todos os navios e pouco após a representação da Igreja da
Reforma no brasil queixava-se de que os judeus realizavam publicamente seus rituais
em dois lugares do Recife.39 As levas conhecidas de 1638 sob a chefia de Manoel
Mendes de Castro e a de 1641-2 liderada pelos Hahamim Isaac Aboab da Fonseca e
Moisés Raphael de Aguilar eram compostas de um número maior de pessoas. Com o
levante de 1645 obviamente o número de judeus irá decrescendo e com a derrota final
dos batavo e a capitulação calcula-se que cerca de 600 judeus saíram do Brasil para se

33
Wiznitzer, A., Soldados...p.4.
34
Joan Nieuhof, Memorável Viagem Marítima e Terrestre ao Brasil, ed. Itatiaia-Edusp, São Paulo, 1981, p.
124. Nieuhof esteve no Brasil de 1640 a 1649.
35
Idem, ibidem, p.216.
36
V. Nota de rodapé 281, p. 216, de José Honório Rodrigues, na edição citada da obra de Nieuhof.
37
Idem, ibidem, p.290.
38
Certos historiadores chegaram a adotar a absurda cifra de 5.000 judeus vivendo sob domínio holandês,
enquanto J. Lúcio de Azevedo se refere a 600, I. S. Emmanuel cerca de 1.000, Egon e Frieda Wolff, no
entanto dá para o ano de 1648, ano da assinatura dos Estatutos da comunidade de Recife e Maurícia, cerca de
350, em oposição a Wiznitzer que calcula , para o mesmo ano cerca de 720. Para essa questão vide Wolff, E.
e F., A Odisséia dos Judeus de Recife, C.E.J.-USP, São Paulo, 1979, pp. 274-6.
39
Wiznitzer, A., O número de judeus no Brasil Holandês (1630-1654), in Aonde Vamos? n.585, 9 de
setembro, 1954.
23

dirigirem a Amsterdão e alguns poucos a outros lugares.40 A trajetória de vida e o


papel que muitos dos membros das congregações Zur Israel e Magen Abraham, em
especial aqueles que ocuparam posições de responsabilidade no Mahamad,
desempenharam no Brasil Holandês e após a reconquista, em outros lugares,
mereceria uma atenção especial em um trabalho que pretende retratar o rico
panorama humano que se desenhou entre 1630 e 1654. Lamentavelmente, no espaço
limitado de nosso artigo não nos é possível faze-lo. Muitos dos que saíram do Brasil
Holandês estabeleceram-se novamente na Holanda, em particular em Amsterdão e
muitos outros dirigiram-se a outros lugares, desde Surinam, Curaçao, Martinica,
Barbados, Nova York, e outros centros de judeus portugueses. Mas o importante é
assinalar que o Brasil Holandês foi agraciado com um número de notáveis
personalidades que já haviam formado seu nome na vida judaica de Amsterdão, no
Velho Continente, a começar do Haham Isaac Aboab da Fonseca, descendente de
uma linhagem extraordinária de sábios pois era bisneto do último “Gaon de Castela”
que obteve de D.João II, rei de Portugal, a permissão dos exilados judeus da Espanha
passassem a fronteira e se estabelecessem no reino. Aboab da Fonseca, nasceu em
1605, em Castro Daire, de uma família de marranos, e seu nome era Simão da
Fonseca, filho de David Aboab e Isabela da Fonseca, sendo educado em St. Jean de
Luz, na França passando depois, em 1612 a Amsterdão. Foi aluno de rabi Isaac ben
Abraham Uziel, nascido em Fez e mais tarde professor do “beit hamidrash” em
Amsterdão, encontrando-se também entre seus alunos o notável Menasseh ben Israel,
que pretendeu vir ao Brasil, mas contingências pessoais impediram-no de faze-lo.
Ainda jovem, em 1626, Aboab foi indicado como Haham da congregação Beit Israel
e após a unificação das três comunidades em 1638 ele realizava os sermões
vespertinos da sinagoga, lecionava gramática hebraica e Talmud nas escolas de
iniciação da comunidade, e era assistente do Haham Saul Levi Morteira. 41 Em 1642,
ou 1641, como quer I.S. Emmanuel,42 ele viria ao Brasil, juntamente com o Haham
Moisés Raphael de Aguilar e muitos outros, variando seu número entre 200 a 600
pessoas, para ser o rabino da comunidade de Recife, com um salário elevado de 1.600
florins por ano, reduzido já em 1650 para 1.200 florins, com um adicional, a partir de
1653, de 150 florins “por assistir na escola de guemara” e servir como “Hatan Torá”.
Durante o levante de 1645, liderado por João Fernandes Vieira, quando a situação da
comunidade na cercada cidade Recife tornou-se calamitosa devido a terrível fome
provocada pela total escassez de víveres obrigando os cidadãos de comerem os
cavalos, gatos e ratos, ele, com sua autoridade espiritual, incentivou a resistência ao
inimigo e manteve a moral elevada dos seus irmãos de fé para continuarem
combatendo os seus inimigos. Em 22 de junho de 1646, que corresponde ao 9 de

40
Idem, ibidem, p.4. Wiznitzer se baseia na afirmação do famoso Haham Saul Levi Mortera, contemporâneo
dos acontecimentos, que em seu livro “Providencia de Dios com Yisrael, y verdad, y Eternidad de la Ley de
Moseh y Nulidad de las demas Leyes”, descreve o momento da capitulação e a generosidade do governador
Francisco Barreto de Menezes “que proibiu que as pessoas da nação hebraica fossem tocadas ou molestadas, e
estabeleceu severas penas contra os que violassem esta proibição. Além disso permitiu que os judeus
pudessem vender suas mercadorias e autorizou o embarque para a Holanda de mais de 600 pessoas de nosso
povo que estava lá.”
41
V. Encyclopaedia Judaica, Keter Pub. House, Jerusalem, 1971-2, vol. 2, p.95-6.
42
Emmanuel, I. S., Fortuna e Infortúnios dos Judeus no Brasil (1630-1654), in Aonde Vamos?, n.632, 4 de
agosto,1955.
24

Tamuz de 5406, chegaria o auxílio da Holanda, os dois navios, o Valk e o Elizabeth,


que anunciariam que estava a caminho várias naus carregadas de armas e alimentos,
para alívio de toda a população. Joan Nieuhof, testemunha o acontecimento ao
escrever: “Finalmente, quando já tínhamos atingido ao auge da penúria e devorado
todos os cavalos, gatos, cachorros e ratos, e um alqueire de farinha chegou a ser
negociado à razão de 80 e 100 florins cada um, sem que a quantidade total fosse
suficiente para mais que dois dias de consumo, finalmente, a 22 de junho (data que
jamais esqueceremos) avistamos dois navios desfraldando o pavilhão do Príncipe,
que rumavam para o Recife a todo pano.”43 Aboab da Fonseca fixaria o dia 9 de
Tamuz como um dia de Ação de Graças no qual os judeus do Brasil deveriam cantar
o Shirat haHaim, o Cântico de Moisés (Dt 3:23-6 ), e no qual se faria atos de caridade
aos pobres. No Livro de Atas (Pinkes), resultado da revisão dos regulamentos da
congregação que se reuniu em 1 de Kislev de 5409 (16 de novembro1648) e
promulgou 42 regulamentos, vemos que a ascamá (regulamento) de número 39
incorpora a orientação de Aboab nos termos que se seguem: “no dia anterior ao Rosh
Hodesh Tammuz, os senhores que quiserem poderão jejuar voluntariamente em
agradecimento pelo auxílio enviado por Deus. E no sábado seguinte, a Nedabah
(caridade) será feita e o Mi-Kamoha composto pelo senhor Haham Isaac Aboab será
recitado depois do Amidah (as assim denominadas 18 orações). E a nove do dito mês,
O Cântico de Moisés será cantado. E não haverá Rogativas e a Nedabah feita será
dividida entre os pobres.”44 A ascamá se refere aos acontecimentos que foram
rememorados no poema que o Haham escreveu na ocasião quando sucederam anos
antes, sob o título “Zecher assiti leniflaot El”45 (Erigi um memorial aos milagres de
Deus) que seria o primeiro poema hebraico escrito no Brasil e contém a descrição dos
sofrimentos passados pelos que viveram aqueles dias de angústia.46 O poema que
abre com as palavras “Erigi um memorial...”, que serve de introito explicativo,
expressa com termos fortes a situação presente que não escondem a profunda mágoa
e ressentimento de quem tem a consciência histórica do mal que Portugal (e seu
povo) causou aos judeus no passado, com a conversão forçada, a expulsão e a
instalação da Inquisição, e que agora, com o sítio da cidade do Recife, procura
novamente a sua destruição. Palavras que foram escritas a beira do abismo, para “que
sirva como memorial ao esplendor de Deus e à congregação Zur Israel” (Ihie
lezikaron lepeer Shem El leKahal edat El Ram veTzur Israel). A seguir ele acrescenta
um “hibur katan”, pequeno “piut” , como ele próprio o diz “pequeno como o valor de
seu autor”, em forma de “vidui” (confissão) que rezou, assim esclarece, no momento
de sua angústia, e após, na forma usual da poesia hebraica tradicional da Idade Média,
43
Nieuhof, J.,op. cit., p.290.
44
Wiznitzer, A., O Pinkes Brasil, in Aonde Vamos? n. 514, de 23 de abril, 1953 ao n. 529, de 6 de agosto,
1953.
45
O poema completo foi editado por M. Kayserling, no Hagoren, vol. 3, 1902, pp. 155-174, junto ao artigo
“Rabbi Yitzhak Aboab haShlishi”. O mesmo já havia tratado o tema no artigo “Isaac Aboab, the First Jewish
Author in America”, Publications of the American Jewish Historical Society, bol. V, 1897, pp.124-136. Mais
recentemente o poema completo foi reeditado na edição hebraica de Wiznitzer, A., Haiehudim beBrazil,
Magnes Press, Jerusalem, 1992, pp. 250-254, juntamente com a Confissão (Vidui) e a Tefilá (Oração) que
ordenou Aboab “para ser dita em agradecimento e louvor a Deus por ter nos salvo dos exércitos do rei de
Portugal.”, pp.254-256.
46
Wiznitzer, A., Chacham Yizhak Aboab da Fonseca, primeiro rabino no Brasil, in Aonde Vamos?, n.484, 25
de setembro, 1952.
25

na qual o autor é identificado pelo conjunto das letras iniciais de cada verso. A seguir
vem o longo e comovente poema de louvor a Deus, o “Mi Kamoha” ( Quem é como
Tu ?, pois não há como Tu, e quem se compara a Ti?, pois nada é semelhante a Ti),
elaborado, assim ele o diz, com o mesmo estilo e ritmo que se encontra no conjunto
de suas “pobres sacolas de poemas”, “amtahot shirai”, dividido em duas partes, sendo
a primeira em forma de “bakasha” (súplica a Deus para a salvação e ajuda) e uma
segunda parte, na qual estão embutidos os detalhes dos acontecimentos, nos quais o
“descendente de Amalek” visava a destruição do povo de Israel, porém Aquele que o
guarda e zela por ele não o abandonou. Novamente, nessa última parte, ele se
identifica como autor com as letras iniciais dos versos que formam seu nome “Isaac
Aboab ben David, hazak” (esta última palavra significa “fortifique”, no sentido de
força e coragem). Anexo ao poema encontra-se o “Vidui veTefilá” (Confissão e
Oração) que escreveu “e ordenou para que se rezasse em momentos de angústia e
perigo quando as tropas do rei de Portugal vieram para nos destruir e Deus nos salvou
de suas mãos”. Na verdade a leitura desses escritos, permeados de expressões bíblicas
e mishnaico-talmúdicas que caracteriza os diversos modelos e formas do “pyiut”, da
poética litúrgico-sinagogal, ou “shirat kodesh”, poesia sagrada, que atinge seu
momento alto na Idade Média,47 confirma a sólida cultura religiosa de Aboab da
Fonseca, que além de revelar elevada sensibilidade poética , quis deixar registrado
para a história não somente as “res gestae” dos homens, mas, acima de tudo as
“niflaot”, as maravilhas que operou o Deus de Israel. Aboab também escreveu-
supõe-se que ainda no Brasil- uma gramática hebraica, Melehet haDiqduq, e
Kayserling, faz referência a uma obra, desaparecida, De la conligacion (sic) de los 13
Articulos de la Fé, que afirma também ter sido escrita no Brasil, porém sem qualquer
certeza sobre a data. Ele esforçou-se para criar um clima de harmonia entre as duas
comunidades, a Zur Israel e a Magen Abraham, que por vezes disputavam entre si,
para propor finalmente uma unificação. Ao voltar para Amsterdão, com a derrota
holandesa em 1654, Aboab foi indicado como Haham , mestre no Talmud Torá,
diretor de ieshivá (academia de estudos talmúdicos), membro de beit din ( tribunal
rabínico) e nessa atribuição ele participou da decisão que levou a excomungar, em
1656, a Spinoza. Sua produção literária inclui sermões, elegias, um Vidui
(Confissão), um tratado sobre castigo e recompensa, sob o título de Nishmat Haim
(Espírito da Vida), uma tradução ao espanhol com comentário sobre o Pentateuco
intitulada Parafrasis Commentada sobre el Pentateuco, publicada em 1681, e a
tradução do espanhol ao hebraico das obras do cabalista Abraham Cohen de Herrera,
Beit Elohim (“Casa de Dios”) e Shaar haShamaim (“Puerta del Cielo”), publicadas
em 1655.48 Na introdução dessa obra ele lembra, novamente, a intervenção divina e o
milagre da salvação que libertou os judeus da “escaldante fornalha que era o Brasil,
um verdadeiro Egito”. Sábio, orador brilhante, foi seguidor do falso-messias Sabatai

47
Sobre isso temos em espanhol a clássica obra de José M. Millás Vallicrosa, La poesia sagrada
hebraicoespañola, ed. C.S.I.C., Madrid-Barcelona, 1948, 2ª ed., na qual a poética hebraica medieval é
estudada por um dos luminares dos estudos hebraicos na Espanha. A bibliografia fundamental encontra-se em
hebraico e reúne um extraordinário grupo de estudiosos das universidades de Israel, assim como de outros
centros de estudos, do quilate de um H. Y. Schirmann, Ezra Fleisher, e outros, que continuaram e ampliaram a
monumental obra de Leopold Zunz, no século XIX.
48
Sobre sua produção literária vide Kayserling, Meyer, Biblioteca Española-Portugueza-Judaica, Prol.Y.H.
Yerushalmi, ed. Ktav Pub. House, New York, 1971, pp.26-27.
26

Tzvi, que despertou e provocou um verdadeiro movimento místico-messiânico no


judaismo de seu tempo.49 Não poderíamos deixar de lembrar o conhecido dictum do
padre Antônio Vieira, que teve contato com Menasseh ben Israel,50 e provavelmente
ouvido sermões de Aboab, e com certeza admirador de ambos, usando de sua
proverbial e incomparável verve aliada à uma lúcida captação da natureza humana,
enunciou:” Menasseh diz o que sabe, Aboab sabe o que diz.”51
Aboab faleceu na provecta idade de 88 anos em 4 de abril de 1693, deixando dois
filhos, David, lapidador de diamantes, que era casado com Rachel Velosino, nascida
no Brasil, filha de Jehosuah Velosino, signatário da congregação Zur Israel e seu
hazzan (chantre) de 1649 a 1654. Uma filha, Judith casou-se com Daniel Belillos,
filho do cristão-novo Balthazar da Fonseca, encarregado da construção da ponte que
deveria ligar Maurícia com Recife, sobre o qual Frei Manoel Calado, o autor do
Valeroso Lucideno escreve, horrorizado, ter ele se circuncidado em público para
viver entre os seus.52 O companheiro de viagem de Aboab, o Haham Moisés Raphael
de Aguilar, que acabaria por se projetar como estudioso respeitado pelos seus
conhecimentos rabinícos, em Amsterdão, onde exercera em 1620 a função de
Tesoureiro da Terra Santa na Congregação Beit Israel, não figura entre os membros
da Zur Israel do Recife, o que leva a crer que ocupara uma posição, equivalente ao de
Aboab da Fonseca, na congregação Magen Abraham de Maurícia. Sabemos que dois
de seus irmãos também se encontravam no Brasil sendo que um deles, Jacob exercia a
função de hazzan e rabino. O notável poeta Daniel Levi de Barrios, no seu Triumpho
del Govierno Popular, diz:
”Duas sinagogas tem o Brasil, Uma em Recife, ilumina-se com Aboab; com Aguilar
prospera a outra, angélica no nome, e na doutrina.” 53 Outro indício de que Aguilar não
estava no Recife ,mas em Maurícia, é o fato de Aboab assinar com outro Haham, Aron
Sarfati ,ou de Pina, que vivia no Brasil com seu irmão Benjamin, que provavelmente
chegara antes dele, em 1636.54 Aguilar pertencia ao círculo dos judeus respeitados pela sua
erudição rabínica e de fato ao voltar a Amsterdão passou a ensinar na Academia de Talmud
Torá , Talmud e outras disciplinas juntamente com a gramática hebraica sobre a qual
publicou um método para uso escolar intitulado Epítome da Gramática Hebraica. Além
dessa obra publicou um tratado sobre as leis relativas ao exame e abate ou degola de
animais, sob o título Dinim de Sehita y Bedica, em 1681, e um Tratado da Imortalidade da
Alma .55Mendes dos Remédios enumera um número significativo de obras, incluindo
tratados, discursos, questionamentos, etc e uma Explicação do Capítulo 53 de Isaías “feito

49
Sobre esse movimento vide Scholem, G., Sabatai Tzvi, o messias místico, ed. Perspectiva, São Paulo, 1995.
50
V. Falbel, N., “Menasseh ben Israel e o Brasil, in O Brasil e os Holandeses, org. Paulo Herkenhoff,
Sextante, Rio de Janeiro, 1999, pp.160-175.
51
Antônio Ribeiro dos Santos em sua obra Memórias da literatura sagrada dos judeus portugueses no século
XVII, editada em Lisboa, em 1792, na Memória III, p. 300, cita a frase mas observa que “Wolffio, o autor da
Bibliotheca Hebraica, t, III, p.709, a ouvira dizer a hum Judeo Portuguez”. Por outro lado afirma que “o Padre
Antônio Vieira o ouviu [a Aboab] pregar muitas vezes, e se maravilhou de seu grande juízo.”
52
Sobre Aboab da Fonseca e seus laços familiares vide Wolff, E. e F., A Odisséia dos Judeus de Recife, CEJ-
USP, São Paulo, 122-133; Emmanuel, I.S., New Lights on early American Jewry, in American Jewish
Archives, 7, 1955, pp. 3-64.
53
Emmanuel, I.S., Fortuna e Infortúnios dos Judeus no Brasil, in Aonde Vamos?, n. 643, 20 de outubro, 1955.
Emmanuel adota o título da obra de Barrios como sendo “Triumpho del Gobierno Israelitico Theocratico.”
54
V. sobre eles e a numerosa família Sarfati (com diversas grafias) em Wolff, E. e F. op. cit., pp.63-69.
55
V. Kayserling, op. cit., p.31.
27

no Brasil”.56 Na sua condição de Haham Moisés Raphael de Aguilar ele substituiu a


Menasseh ben Israel no seminário Etz Haim da congregação, bem como era consultado em
questões atinentes a fé judaica, como o foi pela fascinante figura de marrano Isaac Orobio
de Castro, atormentado por dúvidas e questionamentos pela sua própria condição e
origem.57 Aguilar era tio, pelo lado materno, do jovem mártir da Inquisição, Isaac de
Castro Tartas ou José de Lis ou Tomás Luís, filho de Abraham e Bemvenida Castro,
queimado em 15 de dezembro de 1647 em Lisboa no auto-de-fé no qual se encontravam 70
penitenciados. Ele nasceu em Tartas, na Gasconha, aproximadamente em 1625 e estudou
filosofia e medicina em Bordéus e Paris, seguindo após para Amsterdão. Veio para o Brasil,
muito jovem, em 1641, provavelmente com seu tio Moisés Raphael de Aguilar, 58 vivendo
cerca de três anos no Recife bem como em outras localidades do Brasil Holandês, quando,
passou a partir de outubro 1644 a viver na Bahia. Em Salvador ele foi preso e reconhecido
como judaizante enquanto ele procurava provar que era judeu de nascimento. Na verdade
ele viera para converter cristão-novos ao judaismo, convicto de sua missão ao ponto de
estar disposto a arriscar sua própria vida. Culto e preparado no judaismo, ao ser preso,
interrogado e prestar seu primeiro depoimento frente ao bispo da Bahia tentou despistar os
verdadeiros motivos de sua presença naquela região confessando que era nascido judeu e
tinha a intenção de adotar o catolicismo como sua religião e por isso abandonara
Pernambuco.59 O argumento de ser judeu de nascença invalidava qualquer acusação de
apostasia em relação a fé cristã e ,portanto, neutralizava a autoridade inquisitorial para
processá-lo. Mas essa evasiva era conhecida dos familiares e dos inquisidores que usavam
de todos os meios para encurralar os denunciados ao Santo Ofício. Isaac de Castro Tartas,
em janeiro de 1645 foi levado a Lisboa e colocado nos cárceres da Inquisição. Apesar de
continuar a manter sua linha de defesa tentando convencer o tribunal inquisitorial que
nascera judeu pouco a pouco era envolvido a confessar a verdade sobre sua família e sua
pessoa. Quanto ao seu deslocamento da França para Amsterdão insinuava ter cometido um
delito naquele lugar e portanto fora obrigado a sair. Do mesmo modo declarara algo
próximo a essa justificativa quando dizia ter cometido um crime na Holanda o que
explicava a sua viagem ao Brasil. O argumento do homicídio é novamente utilizado em sua
defesa, por ele mesmo, para justificar sua saída de Pernambuco e se fixar na Bahia. 60 Mas
as testemunhas que vinham depor afirmavam que ele viera a Bahia com a intenção de
ensinar a crença judaica e as cerimonias da Lei, o que tornou sua situação insustentável,

56
Remedios, J. Mendes dos, Os judeus portugueses em amsterdam, F. França Amado, Coimbra, 1911, pp.61-
67.
57
V. o estudo definitivo sobre este personagem na obra do eminente Prof. Yosef Kaplan, Menatzrut
leyahadut, haiav upfealo shel haanus Itzhaq Orobio de Castro (Do cristianismo ao judaismo,vida e obra do
marrano Isaac Orobio de Castro), Magnes Press, The Hebrew University, Jerusalem, 1982, cap.6, pp.98- 108;
Mendes dos Remedios, op. cit., lista certos questionamentos de Isaac Orobio de Castro junto às obras de
Aguilar.
58
A data de sua vinda, 1641, juntamente com seu tio Aguilar, é indicada por ele mesmo durante o inquérito
inquisitorial. V. Lipiner, E., Izaque de Castro:o mancebo que veio preso do Brasil, Massangana, Recife, 1992,
pp.53 e 117-118. Se for verdadeira a informação de Isaac de Castro, teria razão I.S. Emmanuel, que afirma ser
a vinda de Aboab em 1641, sob o argumento que Menasseh ben Israel, o substituiu em sua atribuição na
congregação Talmud Torá de Amsterdão naquele ano, partindo do pressuposto que Aboab e Aguilar vieram
juntos.
59
Azevedo,J. Lúcio de, op. cit., pp.483-4, trás um pequeno extrato do processo 11.550 da Inquisição de
Lisboa no qual o réu afirma nunca ter sido batizado.
60
V. Lipiner, E., op. cit., pp. 48-50.
28

uma vez que o tribunal estava convicto que era cristão batizado. 61 Há um dado momento
Isaac de Castro tomou consciência de que não escaparia da extrema condenação, a fogueira,
a não ser que abjurasse de sua fé e abraçasse o cristianismo. A partir daí ele aceitou seu
destino e decidiu morrer como mártir, tal como outros o fizeram desde que o Tribunal do
Santo Ofício foi estabelecido na Península Ibérica passando a estender seus tentáculos nos
domínios de Espanha e Portugal nos quatro cantos do mundo. O “Kidush haShem”, o
morrer santificando o Nome, e não apostatar ou transgredir os princípios da fé, vinha de
uma longa tradição no judaismo, desde o domínio grego-romano na Palestina. Foi na Idade
Média, e em particular durante a passagem das Cruzadas pelas comunidades judias de
Ashkenaz (Alemanha), que o Kidush haShem se manifestou numa dimensão jamais vista
anteriormente. Mas desde o século XIV com os batismos forçados e com a instalação
oficial dos tribunais da Inquisição o martirológio, numa escala mais ampla, despertou como
postura admirada e cultuada entre os judaizantes da Diáspora ibérica, continuamente
supervisionados em sua fé ,onde quer que se encontrassem. Os tribunais da Inquisição
espanhola nos seus territórios coloniais, desde o México até o Perú, assim como os que
foram instalados nas colônias portuguesas incluindo-se as Visitações no Brasil, que levou
ao queimadeiro um número expressivo de vítimas, fortificou o sentimento de admiração e o
culto pelos mártires judeus.62 Com certeza o jovem Isaac de Castro conhecia bem a historia
passada-presente de seu povo e a presença próxima do martirológio que “santifica o
Nome”. As suas últimas confissões são de um judeu convicto que quer morrer na sua fé, e
que procura observar as festividades e os preceitos.63 Os esforços dos clérigos, durante o
tempo em que esteve encarcerado, para convertê-lo, foram em vão, e mesmo sob vigilância,
como era hábito e obrigação na meticulosa máquina do Santo Ofício, o prisioneiro em sue
calabouço não deixou as práticas judaicas, observando jejuns, sábados e as festividades
sagradas. Podemos imaginar as inúmeras discussões sobre os fundamentos da fé, que
lembra as polêmicas judaico-cristãs no período medieval que o moço teve que suportar com
a intenção misericordiosa de salvar sua alma, e seu corpo, ao mesmo tempo que ele se
mostrava irredutível em sua crença no Deus de Israel. O seu ilustrado tio Moisés Raphael
de Aguilar já o devia ter introduzido nesse mundo sutil da disputa teológica, pois ele
mesmo tinha entre seus escritos um comentário sobre o capítulo 53 de Isaias, um dos
capítulos polêmicos tirado diretamente da “auctoritas”. E quanto a salvação de sua alma o
jovem missionário estava seguro de que ela era imortal, assim como aprendera de seu tio
autor de um tratado sobre a questão sob a visão teológica da fé judaica, e mais ainda
quando ele caminhava para o martírio em nome do Deus de Israel. Em 17 de novembro de
1647, devido suas “falsas opiniões e heresias” o réu foi entregue à justiça secular, o que
significava a condenação à morte pela fogueira, “sem efusão de sangue”, como consta em
sua sentença, usual e cínico eufemismo usado no código semântico do Santo Ofício, para
quem vai morrer.64 O jovem Isaac de Castro tornou-se uma figura emblemática do

61
V. as pertinentes observações sobre Isaac de Castro em Dines, A., Vínculos do Fogo, Companhia das
Letras, São Paulo, 1992, pp.209, 211, 216, 220-223, e outras.
62
V. Roth, C., A History of the Marranos, Hermon Press, New York, 1974, pp.146-167.
63
Wiznitzer, A., Os Judeus no Brasil Colonial, ed. Pioneira-EDUSP, São Paulo, 1966, p.99.
64
Sem dúvida o melhor estudo sobre Isaac de Castro, que elenca as fontes e a bibliografia existente, ainda é
de Elias Lipiner que estudou meticulosamente o processo 11.550, além de outros relativos ao mesmo, que
resultou no trabalho intitulado citado acima.
29

mártirológio judaico ibérico e assim permaneceu na memória de seus correligionários em


seu tempo e nas gerações posteriores.65

65
Menasseh ben Israel, em sua obra Esperança de Israel, editada em 1650, se refere a ele no item LXV,
pp.99-100 de seu livro ao falar do martirológio: “ Ishak de Castro Tartas, conocido nuestro, y harto inteligente
en las letras Griegas y Latinas, no se por que furtuna, pasando daqui a Pernambuco, siendo alli captivo de los
Portuguezes, fue lo mismo que cercado de lobos carniceros. Embianle a Lixboa, donde tiranicamente preso,
de edad de 24 años, es quemado vivo...” Utilizei-me da edição Editorial Plata S. A., Chur. 1974.
30

4. Menasseh ben Israel e o Brasil

Muito se escreveu sobre Menasseh ben Israel66, aliás Manoel Dias Soeiro, uma
das personalidades mais marcantes da diáspora ibérica do século XVII, devido não somente
ao seu papel na comunidade judaica de Amsterdam e fora dela, mas também a sua múltipla
atuação como intelectual que soube se integrar na criatividade cultural da época a ponto de
angariar respeito geral no continente europeu, fora do âmbito judaico, Nascido em 1604 na
ilha da Madeira67, de uma longa linhagem de cristãos-novos, seu pai Gaspar Rodrigues
Nunes ou Joseph bem Israel, que vivenciara a perseguição inquisitorial, acabaria por se
estabelecer em La Rochelle e, logo em seguida, na Holanda, onde assumiria um nome
hebraico.

Como seu pai, os demais parentes, seguindo o costume dos marranos que
voltavam ao judaísmo, afirmavam a sua fé com os nomes bíblicos; e assim sua mãe passou
a ser Rachel68, sua irmã Esther (Hester) e seu irmão Ephraim. Em Amsterdam, ele
encontraria uma comunidade de fala luso-espanhola de alto nível e receberia uma educação
esmerada, tendo inicialmente freqüentado a escola local que lhe deu uma formação ampla
na literatura rabínica, encontrando-se entre seus primeiros mestres Isaac Uziel, rabi da
comunidade Neveh Shalom (Habitação da Paz), que acabaria deixando a função ao
brilhante discípulo, em 1622. Além de Isaac Uziel, do qual recebeu conhecimentos
talmúdicos e rabínicos, Menasseh teve a influência de homens como o controversialista
Saul Levi Morteira e Elias Montalto (Felipe Rodrigues de Castelo Branco), este último
famoso médico. Entre seus colegas incluiu-se uma plêiade de sábios que saíram da mesma
escola e se destacaram pela rica produção literária em todos os campos da cultura, desde os
estudos teológicos, a exegese bíblica, a literatura rabínica e homilética até a apologética ou
controversialista anticristã, sem excluir as ciências seculares como Matemática, a
Astronomia, a História e a Medicina numa Holanda que seria nesse tempo um verdadeiro
centro da ilustração européia. Dotado de um talento incomum para os estudos, ele
ingressaria aos 12 anos na Santa Irmandade de Talmud Tora e passaria a freqüentar as
Yeshivot ou Academias de estudo do Talmud, que eram naturalmente dirigidas para
estudantes mais velhos69. Com 17 anos, escreveu seu primeiro livro, Safah Berurah (Língua
Clara), sobre a gramática hebraica.

66
Recentemente foi editada uma bibliografia por J. H. Coppenhagen, Menasseh ben Israel, A Bibliography,
Misgav Yerushalaim (Institute for Research on the Sepharadi and Oriental Jewish Heritage, Jerusalém. 1990,
407 p. + 13 p. em hebraico).
67
Durante muito tempo o lugar de nascimento foi objeto de controvérsia. Meyer Kayserling, na Biblioteca
Espanhola-Portuguesa Judaica, Strasbourg, 1890, Ktav Pub. Soc., Nova York, 1917. p. 68, ainda refere ter
nascido em Lisboa, assim como José Amador de los Rios, Estudos Históricos Políticos y Literários sobre los
judios de la España, 2ª ed., Ed. Argentinas Solar, B. Aires, 1942, p. 512. Mas Maximiano Lemos, Zacuto
Lusitano, Porto, 1990, p. 360-61, trás o testemunho dos documentos inquisitoriais (apêndice de doc. 7 e 8) nos
quais se indica claramente a ilha da Madeira.
68
Ele casaria em 1623, também com Rachel, descendente da família Abravanel. Sobre os Abravanel, vide
Alberto Dines, O Baú de Abravanel, Companhia das Letras, SP, 1990, e J. H. Coppenhagen, op.cit., p. 38-46,
com as genealogias elaboradas po H. P. Salomon.
69
Antonio Ribeiro dos Santos, nas Memórias da Literatura Sagrada dos Judeus Portugueses no Século XVII,
p. 334-5, se refere a ele com as seguintes palavras: “Era dotado de hum grande engenho e penetração; tinha
31

Menasseh, além do mais, se ocuparia, para sobreviver, com a atividade de


impressor, sendo um dos pioneiros nessa profissão na comunidade judaica de Amsterdam.
A projeção que obteve no mundo cristão, por um lado, deu-se através de sua criatividade
literária, em particular com a obra Conciliador, editada em espanhol em 1632 e na qual
procura reconciliar as passagens bíblicas que apresentam certas discordâncias. O decorrente
prestígio o levaria a ser um verdadeiro representante da comunidade de Amsterdam frente a
autoridades civis e personalidades do continente. De certa forma ele representa bem o sábio
judeu sefaradita que, desde a Idade Média, estava aberto a todas as civilizações, tanto cristã
quanto muçulmana, permeável e livre para intercambiar com as mesmas a herança judaica
além dos limites acanhados da sua própria religião. Havia nele, e isso podemos verificar
pela ampla correspondência que manteve, a consciência de que a nação hebraica era
herdeira dos valores que ajudaram a moldar a civilização ocidental no passado e que
poderia continuar fazendo o mesmo no futuro. Daí o esforço pessoal de levar essa cultura
aos gentios não somente como um passo para o entendimento mútuo e a via para libertar o
mundo de preconceitos em relação ao povo de Israel, mas para adicionar os seus valores
humanos e éticos à comunidade universal. Isso também explica que boa parte de sua obra
foi escrita intencionalmente em latim, que continuava sendo a língua franca da
intelectualidade européia; e seus temas, mesmo partindo de uma preocupação interna
judaica, acabavam sendo mais importantes sob o ângulo de uma visão teológica de todas as
religiões monoteístas. Assim, o De Termino Vitae, de 1634, o De Creatione, de 1635, o De
Resurrectione Mortuorum, de 1636, o De Fragilitate Humana, de 1642, revelam esse
caráter e eram lidos igualmente por judeus e não-judeus. Na verdade, desde o século XVI a
Holanda, no processo de afirmação nacional em relação aos dominadores espanhóis,
encetou um programa que preencheria as necessidades intelectuais e espirituais que
levariam à fundação da Universidade de Leiden e à promoção do humanismo protestante,
ao mesmo tempo que ambicionava sua autonomia também no campo religioso. Leiden
atraiu os melhores estudiosos da época em todas as áreas científicas e humanas,
encontrando-se entre eles homens como Justus Livius (1547-1606), pensador político e
filósofo, e Joseph Justus Scalinger (1540-1609), historiador, jurista e fundador da filosofia
clássica. Por outro lado, o centro universitário vivia a fermentação religiosa provocada
pelas diversas correntes em disputa ao protestantismo (leia-se calvinísmo) que envolveu
Franciscus Junius (1545-1602), afamado como teólogo, Jacob Arminius (1560-1609), com
sua moderada postura heterodoxa, e Franciscus Gomarus (1561-1641), raivoso oponente
deste último em questões ligadas à graça e ao pecado, num debate que dividiu as opiniões
da época. Em contraposição ao catolicismo, e sua concepção conservadora anti-reformista,
a igreja protestante na Holanda inaugurava uma preocupação que, se de início teológica, ao
nosso ver poderia se deslocar para um plano universal, sobre a liberdade de consciência,
além da responsabilidade do homem perante a Deus e a universalidade da graça. A tais
questões também estavam associadas, ou derivavam diretamente delas, outras como a dos
direitos do poder temporal sobre os assuntos eclesiásticos e a do problema da tolerância,
que tangiam as raízes tanto do protestantismo quanto do humanismo 70. Essas disputas e a

hum juízo profundo, e apurado, e nenhum dos seus lhe levava vantagem no conhecimento das Línguas
Hebraica, Arabiga, Grega, Latina, Castelhana e Portugueza, pelas quaes havia adquirido hum longo cabedal
de erudição e doutrina. Com razão foi tido pelo Judeo mais douto, e sabio do seu seculo”.
70
Ver o importante estudo de KATCHEN, Aaron. L. Christian Hebraists and Dutch Rabbis (Seventeenth
Century Apologetics and the Study of Maimonides, Mishneh Torah). Harvard University Press, Cambridge-
Mass., 1984, pp. 16-7.
32

conseqüente fermentação de idéias não deixaram de ecoar no judaísmo holandês e


influenciar a sua elite intelectual, abrindo horizontes para idéias e concepções que
enriqueciam o próprio mundo espiritual judaico, o que nos lembra o passado mais
longínquo, quando o judaísmo entrou em contato com o helenismo, e mais tarde com o
pensamento islâmico, sabendo que ambos momentos foram importantes para fertilizá-lo
culturalmente. É preciso lembrar no entanto que o debate religioso teológico cristão
envolvia o conhecimento das Sagradas Escrituras, no que tradicionalmente era a auctoritas
que fundamentava toda e qualquer argumentação, e para tanto a leitura da Veritas hebraica
passava a ser indispensável. Do mesmo modo que ocorreu anteriormente, o conhecimento
do hebraico de parte dos cristãos devia servir para os propagandistas dos partidos religiosos
litigantes. Nesse sentido, o interesse da erudição humanista fez do hebraico um instrumento
cultural indispensável dos intelectuais calvinístas, que valorizavam o Velho Testamento.
Portanto, o contato entre as duas religiões, nesse nível, e o intercâmbio social e econômico
que se verificava entre as duas comunidades, numa Holanda que expandia seu poder
externo a todos os continentes e da qual os judeus sefarditas participavam ativamente, num
ambiente de relativa tolerância, é que permitiram a valorização da presença hebraica
naquele solo, especialmente nas relações entre a corrente mitigadora arminiana ou dos
remonstrantes, adeptos da idéia de que o homem deve ter uma parte ativa na aceitação da
graça, além de, nas relações entre Igreja e Estado, apoiar a supremacia dos interesses do
poder temporal sobre o poder civil ou eclesiástico. O período em questão é de
florescimento cultural e atrás dele encontra-se um processo de desenvolvimento que
abrange a totalidade da vida social apreendida sob os mais diversos ângulos do pensamento
humano.

Menasseh ben Israel também faz parte e é fruto desse movimento extraordinário
que pode ser visto como uma Idade de Ouro holandesa, pois esteve envolvido e manteve
um relacionamento com algumas de suas figuras mais exponenciais, a começar pelos
hebraístas Gerbrandus Anslo (1612-1643), o teólogo Constantin l’Empereur (1591-1664),
do qual teria sido professor de hebraico, a hebraísta Rainha Christina Augusta (1626-1689),
Jacob Alting (1618-1679), e chanceleres como o da rainha Christina da Suécia, Johan
Adler-Salvius (1590-1652), seu culto bibliotecário Isaac Vossius (1618-1689), o Professor
Christoph Arnold (1627-1685), de Nüremberg, o nosso filósofo Gaspar van Baerle (Barléu)
(1584-1648), os místicos Jacob Boehme (1575-1624), Paul Felgenhauer (1593-c.1680) e
Abraham Frankenberg (1593-1652), o teólogo Simon Episcopius (Bisschop) (1583-1643),
Samuel Sorbiere (1615-1670), o jurista e pioneiro do direito internacional Hugo Grotius
(1583-1645), Gerhard Johann Vossius (1577-1649) o polêmico filósofo Claude Salmasius
(1588-1653) e muitos outros, além do renomado Rembrandt71.

A ligação de Manasseh com o Brasil se dá naturalmente pelo seu interesse na


atividade mercantil que a Companhia das Índias Ocidentais mantinha com a colônia.
Muitos judeus sefarditas estavam diretamente ligados a esse comércio que se acentuou com
o próprio estabelecimento holandês no Brasil. Mas ele não era exatamente um homem de

71
Ele lembra ao leitor no Thezouro dos Dinim, terceira e última parte, (“Economica”), editada por ele mesmo
em 1647, que escreveu “mays de 300 Epístolas escritas a vários letrados e senhores, sobre as mui diversas e
difficultosas questoens”. Na segunda parte do Conciliador, “Amsterdam”, Nicolaus Ravensteyn, 1641, p. 8,
ele escreve: “Respondi tambien a mas de CL Epístolas de hombres doctos de toda Europa, sobre muchas
preclaras dudas y questiones...”
33

negócios e sua atividade como pregador com múltiplas responsabilidades comunitárias,


professor e editor, que começava pioneiramente em 1626, indicava que não era rico e lutava
para poder sobreviver. Já no lembrado documento inquisitorial o espia Duarte Guterres
Estoque testemunha que viu em Amsterdam Manoel Dias Soeiro e que este havia lhe
contado que mandara ao Brasil, assim como à Espanha, uma caixa de livros intitulados
Reconciliaçones de la Sagrada Escritura72. Tratava-se da obra que tanta repercussão deu ao
nome de Menasseh em toda a Europa: Conciliador. Considerando que a primeira parte do
Conciliador foi publicada dois anos após a instalação do domínio holandês, podemos
inferir que manteve de imediato contato com os seus correligionários que emigraram à nova
colônia. Possivelmente seu cunhado Jonas Abravanel e seu irmão Ephraim Soeiro se
associaram a ele em negócios com o Brasil, e sabemos que Ephraim viajou à colônia com
essa finalidade73. Era o período de prosperidade do domínio holandês, o que atraiu uma
imigração judaica da Holanda ao Brasil.

Pela correspondência entre Gerhard Johann Vossius e Hugo Grotius, ambos


amigos de Menasseh, sabemos de sua intenção de ir ao Brasil. Em 1 º de janeiro de 1640,
Vossius escreveria que “Menasseh está pensando em se transferir para o Brasil. Sem
dúvida, ele atuará ali como rabi. No entanto, ele se dispõe a se dedicar principalmente ao
comércio. Certamente ele é devotado aos seus estudos e aspira aumentar sua reputação.
Porém, como tenho dito a você, seus problemas domésticos o obrigam a dar esse passo,
pois ele está longe de se encontrar em boa situação”74. Hugo Grotius responderia em 2 de
fevereiro do mesmo ano: “Do fundo de minha alma desejo a Menasseh uma boa sorte. Eu
lamento, no entanto, que ele seja compelido por força das circunstâncias a se transferir para
tão longe de nós. Se pudesse compensá-lo pelos seus serviços eu o faria com a maior boa
vontade. Sempre pensei que os membros da sinagoga de Amsterdam fossem ricos e
liberais. Agora me dei conta que estava enganado. Porém me é difícil acreditar que eles
estejam escondendo a verdade com o intento de evitar inveja” 75. Um ano antes,
aproximadamente, ele dedicaria a sua obra De Termino Vitae à Companhia das Índias
Ocidentais, o que poderia ser interpretado como um sinal de estar pensando em mudar o
rumo de sua vida como outros fizeram em busca de novas oportunidades no novo
continente. Na leitura que fizemos da Segunda parte do Conciliador, a qual dedica aos
“Nobilissimos muy Prudentes, y Inclitos Señores del Consejo de las Índias Occidentales”,
fica patente que ele já estava decidido e preparado para encetar sua viagem. Assim ele
escreve: “Por lo qual Lector amigo, partiendome agora de la florentissima Batavia a tan
longínquas partes del Brazil jusgue a obligacion despedirme de los mios com este Tratado

72
LEMOS, M., op. Cit. P. 361.
73
ROTH, Cecil, A Life of Menasseh ben Israel, The Jewish Pub. Soc. of América. Philadelphia, 2ª edição,
1945, p.52-3. Aproveito o ensejo para agradecer a Alberto Dines, meu amigo e colega, que me forneceu de
sua preciosa biblioteca o exemplar de Roth, bem como outros textos, sem os quais não teria levado a efeito
este modesto estudo.
74
Vossii Epistolae, I. 345. Apud ROTH, C., op. Cit., p.59-60; Gerardi Joannis, Vossii et Clarorum ad cum
Epistolae Collectore Paulo Colomesio, Londini, Typis R. R. et M. C. Impensis Adielis Mill, 1690, p. 344-345,
in Coppenhagen, J. H., op. Cit., p. 158.
75
Grotii Epistolae, p. 696, apud ROTH, C., op. Cit. p. 60; Hugonis Grotii Epistolae, Amstelodami, Ex
Typographia, P. et I Blaev, 1687, v. XI, p. 60, in Coppenhagen, J. H., op. Cit., p. 109.
34

theologico... (g. n.).”76 Na Epístola Dedicatória, escreveria com entusiasmo de “Lusitano


com animo Bataveo” que “de cinco capitanias son ya V.S. Señores; ganada Tamarica,
ocupada Parahiba, Rio Grande e Siara, hasta del Rio Real e ultra, se estiende ya el limite de
su jurizdicion”.77

Porém, Manasseh acabaria por ficar em Amsterdam e nunca chegaria ao Brasil,


em seu lugar viria, em 1642, hacham, seu velho colega de estudos e rival igualmente
talentoso, da comunidade de Amsterdam, Isaac Aboab da Fonseca, para ser o primeiro
rabino do Brasil.78 Antônio Vieira, que esteve em Amsterdan, em 1646 e 1648, e travou
conhecimento com ambos, ao ser solicitado a emitir sua opinião sobre as suas qualidades,
assim se expressou: “Menasseh diz o que sabe, Aboab sabe o que diz.”79 Vieira preocupado
com a reabilitação econômica de Portugal, via nos judeus e nos cristãos-novos uma força
propulsora indispensável à recuperação do império que viveria dias melhores antes da
presença negativa da instituição inquisitorial estabelecer-se naquele reino. Daí, em 1643,
quando Portugal já se libertara da Espanha, o seu famoso relatório endereçado ao rei
propondo recorrer ao capital dos cristãos-novos e judeus emigrados para ajudar a resolver a
situação financeira pela qual o país passava naquele tempo, e para tanto seria preciso
cercear os excessos da Inquisição em relação aos mesmos. Mal sabia ele que tais idéias o
colocariam mais tarde sob a suspeição e como uma das vítimas da Inquisição. O historiador
Antônio Saraiva lembra que, pouco tempo depois, Vieira proporia também a criação de
duas companhias mercantis, uma para o Oriente e outra para o Brasil, ambas respaldadas
pelo capital judaico.80 O texto no Sermão de São Roque diz: “O remédio temido ou
chamado perigoso são duas companhias mercantis, oriental uma, e outra ocidental, cujas
frotas poderosamente armadas tragam seguras contra a Holanda as drogas da Índia e do
Brasil. E Portugal com as mesmas drogas tenha todos os anos os cabedais necessários para
sustentar a guerra interior de Castela, que não pode deixar de durar alguns. Este é o remédio
por todas as circunstâncias não só aprovado, mas admirado das nações mais políticas da
Europa, exceto entre a portuguesa, na qual a experiência de serem mal reputados na fé
alguns de seus comerciantes - não a união das pessoas, mas a mistura do dinheiro menos
cristão com o católico - faz suspeitoso todo o mesmo remédio, e por isso perigoso.” 81 No
Sermão de São Roque, pregado no aniversário do nascimento do Príncipe D. Afonso, em
1644, ele usa uma exegese notável aplicada às armas de Portugal: “Comporeis o escudo das
76
Conciliador, segunda parte, p. 2. Agradeço aqui o gentil atendimento das bibliotecárias da seção de Livros
Raros da Biblioteca Nacional, permitindo o uso destas obras originais nem sempre em bom estado de
conservação.
77
Na parte que trata do Livro dos Reis, ele insere uma epístola endereçada “aos mais nobres e magníficos
guardiães e membros da recém-formada congregação do Recife”, como bem lembra ROTH, C., op.cit., p. 58.
78
Ver sobre ele WIZNITZER, A., Os Judeus no Brasil Colonial, ed. Pioneira, SP, 1966, pp. 149-151.
79
ROTH, C., op. Cit., p. 164; WOLF, Joahann Christoph, Biblioteca Hebraece, Hamburg: Imprensis
Christiani Liebeszeit. 1715-1733, 4 v., v. III, p. 709: “Narrabat ille P. Vieiram... Menassem dicere quae sciat,
Aboabum autem scire, qua dicat...” in Coppenhagen, J. H., op. cit., p. 154.
80
SARAIVA, A. J., Antonio Vieria, Menasseh ben Israel et le cinquième empire, in Studia Rosenthaliana, v.
VI, no. 2, julho 1972, p. 25-57. Devo ao meu amigo estudioso dos judeus ibéricos na Holanda e da diáspora
sefardita Francisco Moreno de Carvalho a cópia desse importante artigo. Saraiva, que cita o Sermão de São
Roque, omite a fonte original que na verdade é a carta na qual lembra “o primeiro negócio que propus a sua
Majestade... foi que em Portugal, à imitação da Holanda, se levantassem duas companhias mercantis...”. Ver
VIEIRA, Cartas, ed. J. L. de Azevedo, Coimbra, 1925, v. III, p. 558-9. A idéia aparece esboçada no
conhecido memorial, que parece ser de 1641, dirigido ao Príncipe Regente.
81
In VIEIRA, Sermões, pref. e ver. Por P. Gonçalo Alves, Lello & Irmãos, Porto, 1959, v. III, t. VIII, p. 76-77
35

vossas armas, do preço com que eu comprei o generoso humano, que são as minhas cinco
chagas; e do preço do preço com que os judeus compraram a mim, que são os trinta
dinheiros de Judas... E se Deus compôs assim as armas de Portugal, se Deus não achou
inconveniente nesta união; que muito é que o imaginasse assim um homem?” 82 A
preocupação de Vieira, “patriótica e econômica”, como diz Saraiva, tem também como
fundo uma convicção religiosa profético-messiânica, de influência bandarrista, e portanto
judaico-cristã, que leva a crer na unificação de destinos de Israel, isto é, dos judeus e
Portugal.83 É interessante notar que Menasseh ben Israel via na independência de Portugal
da Espanha, em 1640, e na conquista holandesa “cessando o antigo ódio”, uma
possibilidade de conciliação entre os dois países, em que “seguirá a desejada paz”, ambos
tendo em comum o sentimento de rejeição para com a Espanha. 84 Vieira, no entanto,
prognosticando o destino de Portugal, falando da guerra de 24 anos no Brasil, descreve
como sendo um milagre da Providência o feito da frota mercantil do Brasil diante do
Recife, rendendo 17 fortes reais. E em espaço de três dias se recuperou o que se tinha
ganho em 24 anos e perdido para Nova Holanda.85 Vieira também tivera, em 1647, um
papel decisivo na mobilização de fundos, graças aos empréstimos de dois cristãos-novos,
Duarte da Silva86 e Antônio Rodrigues Marques - mais tarde perseguidos pela Inquisição -
que permitiram enviar ajuda militar ao Brasil.87 Mas sua concepção sobre a importância dos
judeus ou cristãos-novos para Portugal, assim como seu bandarrismo88 poderiam ter raízes
mais profundas, desde quando “portugueses” e “judeus”, para o restante do continente
europeu, eram tão sinônimos quanto na Idade Média o eram as palavras “mercator” e
“judaeus”. O fato é que o jesuíta que tanto fizera para o reino seria processado pela
Inquisição, em 1663, devido a um escrito de 1659 intitulado Esperanças de Portugal89,

82
Sermões, pref. e ver. Por P. Gonçalo Alves, Lello & Irmãos, Porto, 1959, v. III, t. VIII. p. 79.
83
SARAIVA, A. J., op. cit., p. 32.
84
Conciliador, segunda parte, “Epístola Dedicatória”.
85
Sermão de São Roque, de 1644, ibid. p . 82. Vieira procura mostrar o quanto a Companhia Ocidental foi
vital para restaurar o domínio português no Brasil, com a participação do capital judeu ou cristão-novo, com
uma exemplificação a sua notável exegese que o leva a concluir que “a bondade das obras está nos fins, não
está nos intrumentos”, assim como “Deus era Deus quando sustentava a Elias por ministério de corvos,
como... por ministério de anjos”.
86
Ver BAIÃO, A. , Episódios dramáticos da Inquisição Portuguesa, v. II, Seara Nova, Lisboa, 1953, p. 266-
386. Sobre a participação dele no comércio de Pernambuco, ver o importante estudo de Evaldo Cabral de
Mello, Olinda Restaurada (Guerra e Açúcar no Nordeste, 1630-1654), Ed. Forense-Universidade RJ,
EDUSP, SP. 1975, p. 103.
87
A reação positiva causada aos portugueses em 1645 pela tomada de Dunquerque, que se encontrava em
mãos espanholas, pelos franceses, não iludiu Vieira, que via no evento conseqüências desastrosas para
Portugal, pois os holandeses teriam desse modo liberado sua esquadra para incursionar no Norte do Brasil.
Além da narrativa de SOUTHEY, R., História do Brasil, ed. Obelisco, SP, 1965, v. III, ver também VIEIRA,
Cartas, v. III, p. 561-563, ed. J. L. d’Azevedo, Coimbra, 1925.
88
Sobre Bandarra e seu profetismo, vide LIPINER, E., O Sapateiro de Trancoso e o Alfaiate de Setúbal,
Imago, Rio de Janeiro, 1993; também Gonçalo Anes Bandarra e os Cristãos-Novos, Trancoso, 1966, onde se
encontra no anexo as trovas de Bandarra, editadas em Barcelona em 1809. Ver Azevedo, J. L., História de
Antônio Vieira, ed. A. M. Teixeira, Lisboa, 1918-20, 2 v., e do mesmo autor A Evolução do Sebastianismo, 2ª
ed., Lisboa, 1947.
89
O título completo é Esperanças de Portugal, Quinto Império do Mundo, Primeira e Segunda Vida de El Rei
D. João IV escritas por Gonçalo Eanes Bandarra, ver sobre ele AZEVEDO, J. L., História de Antônio Vieira,
ed. A. M. Teixeira, Lisboa, 1918-20, 2 v., e do mesmo autor A Evolução do Sebastianismo, 2ª ed., Lisboa,
1947.
36

sofrendo outras acusações pelas quais seria condenado em 1667.90 Mas não deixa de ser
notável o cruzamento de idéias que viria criar a suposta influência de Menasseh sobre
Vieira, acusado de judaísmo, quando ao se examiná-lo, em 29 de novembro de 1666, em
Coimbra, na Casa do Oratório da Santa Inquisição, lhe foi perguntado em que livro leu, ou
que razão tinha para saber que os judeus admitiam ou reconheciam a redenção espiritual
por Cristo, se não a seguiam eficazmente. Ele responderá que “não leu em livro algum o
conteúdo na pergunta e nem na resposta acima dada; nem o ouviu de outras pessoas, mas de
um judeu público, circuncidado, chamado Menassés ben Israel, português natural de
Lisboa, segundo dizia, morador na cidade de Amsterdam, Holanda, havia 18 ou 19 anos, o
qual ali ensinava publicamente o judaísmo debaixo do nome de teologia”. 91 Vieira ainda
dirá que estava ali numa estalagem provando a Menasseh a redenção espiritual de Cristo. 92
A propósito desse fato, Antônio Baião traz, em apêndice final ao se estudo sobre o processo
de Vieira, a transcrição de um manuscrito do século XVIII em que um clérigo dizia ter
ouvido através de alguns religiosos da Companhia de Jesus, contemporâneos do Padre
Vieira, que este, na Holanda convencera um insigne rabino que o Messias esperado por eles
era Cristo Senhor Nosso, cujo primeiro advento ou vinda ao mundo em carne mortal
confessavam os cristãos, porém que o rabino por sua vez convencera o padre que o mesmo
Cristo, antes do último advento ao juízo universal, havia de vir outra vez ou em própria
pessoa, ou na de um seu substituto, para tomar posse do domínio e império universal
temporal que há no mundo, como verdadeiro filho de Deus, rei e senhor não só no
espiritual, mas também no temporal.93 Vemos, desse modo, que o contato de Vieira com
Menasseh, que supomos ser o “insigne rabino”, se transformou num debate teológico como
dos muitos havidos entre cristãos e judeus no passado e que gerou no decorrer do tempo um
gênero literário próprio. Porém há algo de inusitado nesse texto singelo que de imediato nos
chama atenção, ou seja, que ambos contendores acabaram por aceitar parte de suas mútuas
e supostas verdades religiosas.

Curioso é que um dos livros centrais que revelam a visão messiânica de


Menasseh ben Israel, publicado em 1650, em Amsterdam, traz como Título Esperança de
Israel (em hebraico Miqve Israel e em latim Spes Israelis). Nele, Menasseh apresenta a
história de Antônio de Montezinos ou Aaron Levi de Montezinos, um mercador que em 19
de setembro de 1644 aportou em Amsterdam vindo das Índias Ocidentais. A sua relación
ou narrativa dizia que há dois anos e meio, saindo do porto de Honda, nas Índias
Ocidentais, para viajar para Papian, na província de Quito, e passando por várias peripécias
em Nova Granada, incluindo a prisão pela Inquisição, teve contato com os índios da região
que acabaram se identificando com os hebreus, assim como ele mesmo havia revelado ser
hebreu da tribo de Levi. 94 A intenção de nosso autor é mostrar que os judeus estão
90
O processo e suas circunstâncias é tratado por BAIÃO, A. , Episódios dramáticos da Inquisição
Portuguesa, 2ª ed., Seara Nova, Lisboa, 1936, v. I., p. 255-363. Recentemente os autos do processo de Vieira
na Inquisição foram publicados por Adma E. Muhana, ed. UNESP-FCEB, SP, 1995.
91
Processo de Vieira, ed. UNESP-FCEB, p. 201.
92
BARBOSA MACHADO, D., Biblioteca Lusitana, Lisboa, 1741-1752, v. I, p. 417, afirma que Vieira
intentou converter a Menasseh ben Israel.
93
BAIÃO, A. , Episódios dramáticos da Inquisição Portuguesa, Lisboa, 1936, v. I, p. 358.
94
Utilizei-me da edição fac-similada com o título Sobre el origen de los americanos da Editora Plata S/A.,
1974, da reimpressão de Madrid, 1881, de S. P. Junqueira, bem como da ed. Francesa, da Lib. Phil. J. Vrin,
Paris, 1979, com intr. trad. e notas de Henry Méchoulan e Gérard Nahon, que me foram cedidos por Alberto
Dines.
37

dispersos também no Mundus Novus, o que vai ao encontro da sua crença de que a
redenção messiânica ocorrerá quando o povo de Israel estiver espalhado pelos quatro cantos
do mundo. Daí seu esforço em convencer a Inglaterra de Cromwell, onde seu livro tivera
um eco formidável entre religiosos e visionários, em obter uma resolução do Parlamento
britânico para readmitir oficialmente a volta do judeus, após a expulsão em 1290, no tempo
de Eduardo I. Na interpretação de Menasseh, bem como na de outros exegetas que o
antecederam, entre eles Abraham ibn Ezra e o notável Isaac Abravanel, o nome do reino,
em francês “Angle-Terre”, era traduzido m hebraico por “Ktze-haaretz”, isto é, o fim da
terra, o que preencheria a expectativa messiânica segundo a profecia bíblica, apoiada em
Deut. 28:64 e em Daniel 12:7. Nesse sentido, os esforços de Menasseh foram coadjuvados
por um marrano, David Abravanel Dormido, cujos filhos viveram no Brasil e que, com a
reconquista de 1654, perderam seus bens e voltaram à Holanda. Dormido que vivia na
Holanda, transferiu-se para a Inglaterra e dirigiu ao governo inglês duas petições, numa das
quais narrava sua desventura pessoal solicitando a ajuda diplomática para recuperar o que
havia perdido no Brasil, e na outra descrevendo a opressiva atuação da Inquisição que
afugentava os marranos ao norte da Europa e portanto poderia beneficiar o país caso os
admitissem na Inglaterra.95 Mas não temos que confundir esse messianismo de Menasseh
com o que irá ocorrer nos anos 60 com o movimento messiânico de Sabetai Tzvi, fruto de
uma tradição proveniente da mística luriana (de Isaac Luria, 1534-1572) e dos círculos de
seus seguidores posteriores associados às reações ao crucial momento histórico das
perseguições de Bogdan Chmielnitzki, em 1648, na região da Europa Oriental. Por outro
lado, devemos considerar também o papel do quiliasmo cristão representado por Peter
Serrarius (1580-1669) e por Paul Felgenhauer (além de outros), autor do Bonum Nuntius
Israeli, em 1655, os quais fizeram parte do círculo de amigos de Menasseh. Muitos sábios
de Amsterdan, como de outros lugares da Europa, seriam contaminados pelo fervor
messiânico da época. Mesmo Isaac Aboab da Fonseca não escaparia ao fascínio que Sabetai
Tzvi iria exercer sobre esses homens, crendo que ele era o Messias tão esperado.96

Menasseh retoma em sua obra - daí a importância do testemunho de


Montezinos - o destino e a continuidade da existência da dez tribos perdidas de Israel,
destino que se incorporou ao messianismo judaico - desde o período do domínio romano na
Palestina e do Talmud97 atravessando a Idade Média – e em que o ato final da sua redenção
os levaria de volta à Terra Santa,98 o que daria o ensejo para o início do Quinto Império, ou

95
Ver ROTH, C., op. cit., p. 176-224 e 225-247, no qual me baseei.
96
Engana-se Saraiva, op. cit., p. 36, ao exagerar que o livro de Menasseh terá um papel importante na gênese
do movimento messiânico que desembocará na proclamação de Sabetai Tzvi como Messias, em Esmirna, em
1666. Para o conhecimento da sabataísmo indispensável se faz a leitura da obra de Scholem, G., Sabatai Tzvi,
o Messias Místico, Ed. Perspectiva, SP, 1995-1996, 3 v.
97
Sobre o messianismo medieval videl Falbel, N., Maimônides e o messianismo judaico medieval, in Anais
da IV Reunião da Soc. Bras. de Pesquisa Histórica, São Paulo, 1985, p. 153-158. Para uma visão geral do
messianismo judaico, vide as obras fundamentais de SILVER, A. H., A History of Messianic Speculation in
Israel, Beacon Press, Boston, 1959; SCHOLEM, G. The Messianic Idea in Judaism, N. Y., 1971,
SARACHEK, J., The Doctrine of the Messiah in Medieval Jewish Literature, 2ª ed., New York, 1968;
AESCOLY, A. Z., Hatnuot haMeshichiot be Israel (Os movimentos messiânicos em Israel), Jerusalém, 1956
(hebraico).
98
A literatura apócrifa e pseudo-epigráfica judaica, entre eles e o texto conhecido como Baruch ( Siriaco) e o
de Ezra IV, ambos escritos aproximadamente entre 70-80 e 90-100 de nossa era, isto é, após a destruição do
38

seja, o de Israel. Aqui confluem as idéias de Vieira inspiradas pelo profetismo bem anterior
de Bandarra e seu contemporâneo, o falso messias David Reubeni e seu arauto Schlomo
Molco (Diogo Pires), ambos vítimas da Inquisição, e as de Menasseh ben Israel. 99 No
Esperança de Israel, ele procurará provar que as dez tribos passaram ao continente pelo
estreito de Anian, ou pela China, e muitos são os testemunhos de que elas se encontram
espalhadas na imensidão do Novo Mundo. Ele surpreenderá o leitor ao mencionar que em
Pernambuco “ha poco mas de 40 años, oito tabajares” que se adentrarm naquele território,
após quatro meses de caminhada, encontraram, “una gente blanca, com barbas, de comercio
y policia...”.100 Podemos assim supor que a convicção messiânica nesse particular levantada
por Menasseh em seu livro era também compartilhada por membros da comunidade de
Pernambuco, independente da expectativa gerada pelos acontecimentos da época e pelo eco
que sua obra causara no mundo não-judeu. A idéia de que a população indígena americana
descendia das dez tribos perdidas de Israel não era nova, pois autores cristãos a adotaram,
porém a afirmação não da descendência, mas da existência das tribos originais com a língua
hebraica e a religião bíblica em várias partes do planeta 101 é que poderia causar impacto e
entusiasmo no livro Esperança de Israel. Nele encontramos todos os elementos centrais da
escatologia messiânica judaica tradicional como o embate final do Messias ben Yoseph, ou
Efraim, que lutará contra as forças do mal de Gog e Magog, que morrerá, e ao qual
sucederá o messias triunfante, o Messias ben David. No processo de Vieira, acusado de
judaísmo, fica patente o quanto essa visão messiânica em sua essência era diferente da
cristã102, o quanto o padre jesuíta era suspeito de estar sob influências das trovas de
Bandarra. Mas ao mesmo tempo enquanto na Holanda os dois representantes do Velho e do
Novo Testamento podiam, livremente, numa estalagem, intercambiar suas preocupações
espirituais e refletirem sobre a redenção da humanidade, ambos teriam que ter muita cautela
se quisessem faze-lo em Portugal, como bem provaria a experiência. Por mais paradoxal
que seja, o exílio, apesar da dolorosa nostalgia, compensava os seres humanos com a
prazerosa tolerância.103

Segundo Templo de Jerusalém, já se referem às 10 tribos. Ver KLAUSNER, J., Haraion hameshichi be Israel
(A idéia messiânica em Israel), ed. Massada, Tel-Aviv, 1950 (hebraico).
99
Para Vieira, o Quinto Império, apesar de universal, é o de Portugal, mas associado à idéia das duas nações,
a portuguesa e a judia, numa comunhão de destinos e sustentada na crença de que o messias anunciado por
Bandarra era D. João IV.
100
Esperança de Israel, p. 35-6. Além do mais usará de vasta literatura “geográfica” para apontar aqui e acolá
sinais e testemunhos da presença de Israel no continente americano e em outros. Sempre baseado em Daniel, a
exegese rabínica interpretará o primeiro império como sendo o da Babilônia, o segundo o Medo-Persia, o
terceiro o Grego e o quarto o de Roma. No Esperança de Israel, parágrafo XVII, p. 95-101, está implícita
essa exegese ao falar das imensas calamidades (profetizadas) sob as quatro monarquias, que inclui o tempo da
Inquisição e seus mártires, cujos nomes são lembrados.
101
Menasseh dedica boa parte de seu livro a demonstrar com testemunhos de viajantes que estiveram “nos
quatro cantos do mundo” e escreveram sobre a presença de tribos hebraicas nas paragens que visitaram.
102
No Processo de Vieira, ed. UNESP-FCEB, Anexos no. 46, p. 405-6, consta o seguinte: “A qualidade da
censura teológica provém da matéria da proposição, das provas e das refutações da mesma contra a fé e da
tendência para o erro contrário: portanto, a matéria desta proposição, as provas e a dedução são contra a fé
acerca da redenção espiritual de Jesus Cristo e tendem para o erro judaico contrário sobre a Redenção
temporal através do homem. Logo tornam àquele que alega, prova e deduz suspeito de judaísmo”. A lógica
aristotélica baseada no silogismo era uma arma eficiente nas mãos da Inquisição.
103
Gaspar Barléu (1584-1648), amigo de Menasseh, e autor do polêmico Epigrama dedicado a Menasseh ben
Israel em sua obra De Creatione Problemata (1635), em sua História dos Feitos Recentemente Praticados
39

Durante Oito Anos no Brasil, ed. Itatiaia, EDUSP, SO, 1974, p. 136, falando dos judeus no Brasil holandês,
se expressa desse modo: “A maioria do judeus foi da Holanda para o Brasil. Alguns de nacionalidade
portuguesa simularam a fé cristã sob o domínio do rei da Espanha. Agora, livres do rigor papista, associam-se
abertamente aos judeus, sob um dominador mais indulgente, prova evidente de que, pelo terror, se provoca a
hipocrisia e se criam adoradores da realeza, mas não de Deus”. Barléu escreveu a Cornélius van der Myle,
curador da Universidade de Leyden, uma carta de recomendação em 7 de setembro de 1633, em favor de
Menasseh, que desejava dedicar aos Estados da Holanda o seu Conciliador.
40

5. Sobre a presença dos cristãos-novos na capitania de São Vicente e a formação da


etnia paulista

A vinda dos cristãos-novos ao Brasil, que se deu efetivamente desde os


primeiros anos da colonização portuguesa, logo após a descoberta, foi estudada com certa
amplitude e riqueza graças aos processos inquisitoriais existentes no Arquivo da Torre de
Tombo, bem como os de outros acervos documentais.104 Porém, se fizermos uma avaliação
da pesquisa sobre o tema adotando um critério regional, veremos que poucos estudos se
referem à presença de cristãos-novos no litoral paulista e mais especificamente na Capitania
de São Vicente, excetuando-se os trabalhos fundamentais do historiador José Gonçalves
Salvador.105 Quais seriam os motivos para a ausência de pesquisa no tocante ao território,
importante para o desenvolvimento de São Paulo e porto de entrada para a colonização
interiorana do estado? À primeira vista nos parece que a resposta pode ser encontrada na
excessiva concentração dos pesquisadores na documentação inquisitorial, em cujos
processos referentes aos cristãos-novos são numericamente poucos os que tratam dos
judaizantes de São Vicente e da região paulista em comparação a outras localidades. Por
outro lado, sabemos que o acesso dos visitadores à região era complexo, assim como difícil
era separar a população litorânea do Planalto Paulista ou das terras de Piratininga que
efetivamente subiram a serra pelo Caminho do Mar para criar o núcleo de Santo André da
Borda do Campo. Devemos aceitar e concordar com os historiadores que afirmam a
imediata presença dos cristãos-novos que receberam a concessão de explorar
comercialmente o pau-brasil, como Fernando de Noronha, ou Noronha 106, e o papel que
desempenharam na cultura da cana-de-açúcar, que foi, de início, o principal produto da
economia colonial na faixa litorânea brasileira. Cristãos-novos, judaizantes ou não,
degredados ou não, passaram a ser um elemento colonizador de primeira importância na
terra de Santa Cruz, e quando se deu a Primeira Visitação do Santo Ofício nos anos de
1591-95, uma boa porcentagem dos denunciados aos esbirros da Inquisição era da progênie
judaica.
As denunciações da Bahia, da Primeira Visitação, mencionam cristãos-novos
da região de São Vicente e se especificam através da denúncia de uma Maria da Costa, na
qual se afirma que Francisco Mendes era cristão-novo, morador de São Vicente e “é da
geração de uns cristãos-novos que chamam os Valles”.107 Um Antônio do Vale, casado em
Portugal com Ana Garcia, homiziou-se no Brasil por crimes praticados no Reino e foi viver

104
A verdade é que a frota da descoberta de Cabral traz a figura extraordinária do judeu converso Gaspar da
Gama, objeto da monografia de Elias Lipiner: Gaspar da Gama, um Converso na frota de Cabral, RJ, Nova
Fronteira, 1987
105
Cristãos-Novos, Jesuítas e Inquisição, São Paulo, Pioneira, 1969; Os Cristãos-Novos: Povoamento e
Conquista do Solo Brasileiro: 1530-1680, São Paulo, Pioneira, 1976; Os Cristãos-Novos e o Comércio no
Atlântico Meridional, São Paulo, Pioneira, 1978.
106
Sobre ele ver J. G. Salvador, Os Cristãos-Novos e o Comércio no Atlântico Meridional, São Paulo,
Pioneira/MEC, 178, pp. 8, 38, 98, 166; Os Magnatas do Tráfico Negreiro, Séc. XVI e XVII, São Paulo,
Pioneira/Edusp, 1981, pp. 6, 20, 129.
107
Primeira Visitação do Santo Ofício: Denunciações da Bahia, p. 314.
41

em São Vicente, casando-se com a filha do capitão-mor, Jerônimo Leitão, e ele aparece nas
Denunciações do Santo Ofício relativas à Primeira Visitação ao Brasil.108
Quando teriam vindo? Difícil precisar, pois quando, em 1532, Martim Afonso de Souza
entrou no porto em São Vicente, dois anos após o estabelecimento das donatárias, já
encontrara habitantes europeus, que no dizer de Paulo Prado seriam “remanescentes de
naufrágios ou das viagens de 1501 ou 1503, das de d. Nuno Manuel, da nau Brêtoa, e de
Christovam Jacques, ou de outras anônimas...”.109 A figura controvertida e desconhecida do
Bacharel de Cananéia,110 com seu clã familiar que incluía Gonçalo da Costa, Antonio
Rodrigues, Mestre Cosme, Duarte Peres (ou Pires) e também a não menos controvertida
personalidade de João Ramalho. Este último, sobre o qual derramou-se muita tinta devido
ao suposto “kaf” de sua assinatura, é mencionado na carta de Tomé de Souza dirigida ao rei
d. João III, de 1º de junho de 1553, como natural de Coimbra e possuidor de uma prole
abundante com muitos descendentes.111 O fato é antes da chegada de Martim Afonso
encontramos núcleos de populações que as fontes lembram serem como náufragos,
desertores ou desterrados, além de viverem amancebados com mulheres índias, 112 sem
informar exatamente quando chegaram.
Basílio de Magalhães, na sua Expansão Geográfica do Brasil
113
Colonial, falando da prole de João Ramalho e da geração mameluca que começou a
nascer antes da chegada de Martim Afonso de Souza, localizada em Santo André, frisa
desde logo ser produto do ajuntamento dos primitivos povoadores de São Vicente, Santos,
São Paulo, Itanhaém, Iguape e Cananéia. O insigne historiador observa, com ironia, que
houve aqueles ,e lembra a J.J. Machado de Oliveira que no se Quadro Histórico da
Província de São Paulo,114 pretendia distinguir do nome de paulistas o “nome odioso” dos
mamelucos tendo-os na conta de “mescla híbrida e impura”, apenas capazes de “feitos anti-
abomináveis à semelhança do que também havia de escrever sobre os produtos miscigêneos
da América o etnólogo germânico Hellwald”. Basílio de Magalhães arrebata dizendo que
“aquele ilustre escritor não queria que se confundissem os paulistas com os seus
descendentes de sangue caboclo como se houvesse algum desdouro em aquele povo

108
Denunciações da Bahia, 1591-1593, São Paulo, P. Prado, 1925, p. 355. V. Costa Pôrto, Nos Tempos do
Visitador, Recife, UFP, 1968, pp. 162-3; v. Elias Lipiner, Os Judaizantes nas Capitanias de Cima, SP,
Brasiliense, 1969, pp. 26-8.
109
Paulística, Rio de Janeiro, Ariel, Rio de Janeiro, 1934, pp. 44-5.
110
Interessante é a tentativa de Augusto de Lima Júnior, no artigo “Mineiros e Paulistas de Origem Judaica”
(in Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais, vol V, 1958, pp. 146-58), artigo recheado de
incorreções e preconceito inconsciente, resultado visível do desconhecimento do judaísmo. Diz que Gonçalo
Costa ou Duarte Peres era judeu, ficando isso patente pelo nome Cananéia que dera ao seu pouso na nova
terra. Ele também adota o critério- errôneo- do nome para identificação de quem é judeu ou descendente de
judeu.
111
Idem, ibidem, p. 47. Provavelmente estabeleceu-se em Piratininga em 1513, vindo de São Vicente, e
fundou a povoação de Santo André da Borda do Campo. Ver o Livro de Tombo do Mosteiro de São Bento da
Cidade de São Paulo, editado por d. Martinho Johnson (São Paulo, 1977, p. 102), com as referências
bibliográficas, entre elas: A. de E. Taunay, “João Ramalho e Santo André da Borda do Campo”, in Rev.do
Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, vol. XXIX, 1932 (Conferências Comemorativas do IV
Centenário da Fundação de São Vicente), pp. 41-91.
112
Luís, Washington, em Na Capitania de São Vicente (São Paulo, Itatiaia/Edusp, 1980), desenvolve esse
aspecto com excelente conjunto de provas e documentação histórica.
113
3.ª ed., Rio de Janeiro, Epasa, 1944, pp. 92-3.
114
2.ª ed., São Paulo, 1897, p. 87.
42

originar-se do conúbio de aventureiros e criminosos de toda espécie com as mulheres


indígenas”.115 É curiosa a tentativa do frei Gaspar da Madre de Deus, em suas Memórias
para a História da Capitania de S. Vicente,116 retrucando a Charlevoix e negando o papel
dos foragidos e banidos de várias nações de terem fundado São Paulo, limitando a sua
fundação apenas ao índios e jesuítas, além de João Ramalho e sua prole. Concorda, no
entanto, “que os moradores da Capitania de São Vicente, principalmente os de serra acima,
se esqueceram algumas vezes das Leis Divinas e humanas, respectivas à inteira liberdade
dos índios”. A questão dos mamelucos, resultado da mescla de povoadores, estava
subjacente na história do beneditino, em sua tentativa de “limpar” a formação da Vila de
Piratininga.
A preocupação com “a constituição étnica do tipo paulista” parece ter ocupado
a historiografia brasileira dos anos 30, ocasião em que Paulo Prado escreveu sua Paulística,
a qual Oliveira Viana contestou, em artigo no Correio da Manhã, com o mesmo critério
historiográfico, sobre a importância do “sangue hebreu na formação antropológica de
Piratininga” como sendo inferior ao dos outros elementos europeus de tipo ariano. O
biologismo próprio da época que se mesclou com os ingredientes ideológicos nazi-fascistas
provavelmente teve seu papel nesse tipo de pesquisa histórica, que, consciente ou
inconscientemente, se manifestava ao se abordar a presença dos cristãos-novos no Brasil.

A um dado momento, essa “ciência” se refere à necessidade de “pesquisas


antropométricas sobre os despojos dos bandeirantes”117 para se fundamentar o
conhecimento histórico, além da consideração das “tendências raciais”, que acompanha a
crítica que Paulo Prado faz a Oliveira Viana, adepto das mensurações cranianas, que a
ciência confessa insuficientes para uma classificação científica dos grupos humanos. Esse
tipo de historiografia que procura limitar a antropologia biológica para explicar os
fenômenos históricos não é de todo isento de preconceitos em relação aos judeus, assim
como em relação a outras etnias ou povos. E novamente o texto em questão, de Paulo
Prado, nos explica “a contribuição judenga [que] trouxe para esse caldeamento o elemento
inteligente, voluntarioso, irrequieto e nômade que outras influências mal explicam, e,
sobretudo, a rediviva preocupação de enriquecimento tão peculiar ao judeu e que em toda
parte assinala como pioneiro de civilização e progresso” 118. Se levarmos em conta que o
livro foi escrito no final dos anos 20, podemos entender a insipiência de tal historiografia
que fala da “psique coletiva das tribos de Israel”, comparando-a com a do povo paulista

115
Idem, ibidem, p. 93. Em nota de rodapé, o historiador lembra Pierre François-Xavier de Charlevoix
(Histoire du Paraguay, Paris, 1761), que dizia: “(...) de ce mélange il sortit une génération perverse dons les
desordres en tout sens furent poussés si loin, que l’on donna à ces métis le nom de Mamelucs, à cause de leur
ressemblance avec ces anciens esclaves des Soudans d’Egypte”.
116
3.ª ed., São Paulo-Rio de Janeiro, Ed. Weiszflog Irmãos, 1920, pp. 229-37. O saudoso prof. Alfredo Ellis
Jr., em sua importante obra Os Primeiros Troncos Paulistas (CEN, col. Brasiliana, vol. 59, 1976), apesar da
impregnação antropologista e etnologista, típico da historiografia da época, demonstra com conhecimento
seguro dos fatos o papel histórico positivo do mameluco, resultado do cruzamento racial que marcou a
formação da população paulista.
117
Idem, ibidem, p. 95.
118
. Idem, ibidem, p. 96 (grifos nossos).
43

“devido a seus aspectos semelhantes, e entre esses aspectos encontra-se a perseverança, a


tenacidade e o resistente arrivismo” (no sentido menos pejorativo da expressão), como nos
diz o autor, além da notável faculdade de adaptação utilitária que, de caçador de índios,
mineiro, de povoador e conquistador, converteu o habitante do planalto no moderno
“grileiro e bugreiro”119. Por outro lado, o próprio conceito de raça, com o passar do tempo e
em nossos dias, sofreu radical transformação de conteúdo apoiado no próprio
desenvolvimento que as ciências humanas e biológicas tiveram até hoje. Mas, ainda na
década de 20, ao falar de São Paulo, Paulo Prado, ao mencionar a mescla de portugueses,
espanhóis, flamengos, franceses e italianos, frisava, ao mesmo tempo a “sensível dosagem
de sangue israelita” nela, concluindo que, mais do que em outro sítio da colônia, as
condições do meio e do isolamento perpetuaram essa endogamia tão importante para a
fortaleza biológica dos agrupamentos humanos. Mesmo décadas após, certos historiadores
não conseguiriam libertar-se da “miscigenação étnica” como elemento explicativo para as
características da população local.120
A verdade é que fazia parte da política colonizadora portuguesa fazer vista
grossa aos transgressores e malfeitores que, perseguidos pela justiça do reino, poderiam
optar por fugir a outras terras e se aventurar a ir viver na colônia para escapar da justiça.
Eram eles os que se aproveitavam do homizio junto aos que deliberadamente eram
degredados, como reza o alvará de 31 de maio de 1535, no qual “el-Rei ordenou que dali
em diante as pessoas que houvessem de ser degredadas para a ilha de São Tomé... fossem
degredadas para o Brasil”, assim como o alvará de 6 de maio de 1536, que condenava ao
exílio no Brasil “os moços vadios de Lisboa que andam na ribeira a furtar bolsas e fazer
outros delitos”121.
Nas denunciações da Bahia, e durante a Primeira Visitação, transparece
claramente o quanto os cristãos-novos sentiram-se à vontade para judaizar na colônia
distante da Inquisição continental e mais ainda os que se encontravam na longínqua
Capitania de São Vicente e na Vila de São Paulo. Pelo teor das denunciações depreendemos
o quanto se mostravam seguros a ponto de não trabalhar no sábado, vestindo-se com roupas
limpas, blasfemando e expondo suas crenças e praticando o seu culto nas “esnogas”. Já
nesse tempo o número de cristãos-novos no Brasil era significativo, pois a partir de 1536,
quando se decidiu a instalação do Santo Ofício em Portugal, estes procuraram as terras
mais longínquas, isto é, as colônias de ultramar, assim como os países europeus e outros
continentes que os acolhessem, num verdadeiro êxodo que irá alterar a história da diáspora
judaica desde a destruição do Segundo Templo de Jerusalém. Mesmo que a conversão e a
aceitação do cristianismo fosse honesta, eles, os cristãos-novos, viviam na sociedade
portuguesa sob permanente suspeita de judaizarem, o que se pode comprovar pelo número
de processos havidos contra os mesmos e pela literatura antijudaica da época, que

119
Idem, ibidem, pp. 96-7.
120
Ver J. G. Salvador, Os Cristãos-Novos: Povoamento e Conquista do Solo Brasileiro (1530-1680), São
Paulo, Pioneira, 1976, p. 7: “Que características revelaria então? Julgamos nós, à luz da história paulista, que
seriam traços fisionômicos (sic!) maior resistência biológica, mais adaptabilidade ao meio, amor à liberdade,
extraordinária mobilidade e destemor, enfim”.
121
Doc. para a História do Açúcar, pp. 25 e 31, apud Costa Porto, op. cit., p. 154.
44

acentuava o quanto para os conversos era impossível deixar a sua antiga fé 122. Séculos de
ódio teológico, associado a outros fatores, que afirmavam a caeccitas judaeorum e a
obstinação do povo de cerviz dura, contribuíram acentuadamente para gerar esse
permanente clima de desconfiança em relação aos cristãos-novos, mesmo que fossem fiéis
à nova religião. Por vezes a saída do reino lhes era vedada, já que eles constituíam-se num
fator importante da economia e da sociedade portuguesa, e isso tornar-se-á mais patente nos
inícios do século XVII, quando terão que comprar sua licença para sair livremente de
Portugal, ou quando terão de obter outras mercês com o perdão geral que lhes outorgou
Clemente VIII, em 1604123.
Portanto, não é de surpreender que na Segunda Visitação Inquisitorial ao
Brasil, do licenciado Marcos Teixeira, em 1618, se haja disseminado o pavor, não somente
entre os cristãos-novos na Bahia e adjacências, mas também entre os da região sulina, que
receberia um reforço dos foragidos do norte. Claro é que devemos distinguir na Capitania
de São Vicente as duas topográfias, isto é, da região litorânea e a do planalto, esta tendo
como barreira natural a Serra de Paranapiacaba, que devido a sua densa vegetação na época
dificultava o acesso aos lugarejos ou vilas que se encontravam em Piratininga. Mas o
intercâmbio entre os povoados do litoral e as terras do planalto era inevitável, constituindo-
se a Vila de São Paulo um lugar ideal para refúgio daqueles ameaçados continuamente
pelos membros do Santo Ofício. A fama dos cristãos-novos paulistas como implacáveis
predadores de índios, nesse tempo, estava estabelecida, e suas incursões provocavam
reações de parte dos clérigos e religiosos dos territórios vizinhos da região do Prata, que por
vezes solicitavam a instalação da Inquisição no Brasil, também devido a sua presença e ao
êxodo provocado pela visitação124. Obviamente, à época seus interesses econômicos eram
bem mais amplos e voltavam-se também para a região do Peru e das minas de Prata de
Potosi, cujos mandatários tinham a mesma preocupação em relação aos portugueses que
por lá andavam.
Boleslao Lewin, em seu El Judio en la Epoca Colonial, cita a “Ley de Indias”,
de 1625 (Libro IX, Titulo XXVI), que se refere a isso: “Porque desde el Brasil entram por
tierra en la Província del Paraguay, e pasan a las del Perú muchos Estrangeros
Flamencos, Franceses y de otras Naciones (...)”. Do mesmo modo chama a atenção a Real
Cédula de 17 de outubro de 1602, que ordena que se faça sair os portugueses e estrangeiros
que teriam entrado na região do Prata sem licença:

“(...) En los puertos y partes de essa probincia tantos estrangeros y


especialmente ay muchos portugueses que an entrado por el rio de la plata y otras partes
con los navios de los negros y cristianos nuebos y gente poco segura en las cosas de

122
. Ver N. Falbel, “Um argumento polêmico em Vicente da Costa Matos”, in Em Nome da Fé (Estudos in
memoriam de Elias Lipiner), São Paulo, Perspectiva, 1999, pp. 91-113. Por vezes, propor-se-á sua expulsão,
assim como ocorreu entre 1621 e 1623, e outras ocasiões.
123
J.G. Salvador, Os Cristãos-Novos e o Comércio..., op. cit., p. 12; J. Lúcio Azevedo, História dos Cristãos-
Novos, 2.ª ed., Lisboa, Liv. Clássica Editora, 1975, p. 162.
124
Lafuente Machaim, Los portugueses en Buenos Aires en el Siglo XVII, B. Aires, pp. 103-4.
45

nuestra santa fee Catholica Judaiçantes y que en los puertos de las indias ay mucha gente
desta Calidad (...)”125

De fato, a preocupação com os judaizantes nas capitanias do sul levou a que


um religioso, frei Diogo do Espírito Santo, vigário na Casa de Nossa Senhora do Carmo,
solicitasse que o Santo Ofício promovesse a vinda de um visitador. Efetivamente, chegaria
em 1627 o licenciado Luís Pires da Veiga 126, credenciado para visitar os reinos do Congo,
Angola e Brasil. Além da Bahia e Rio de Janeiro, um visitador da Inquisição chegaria pela
primeira vez à Capitania de São Vicente, e podemos imaginar que isso obrigou seus
habitantes cristãos-novos a procurar refúgio em outros lugares. Assim mesmo, sabemos que
em 1628 ele se encontrava em São Paulo ouvindo denunciantes e confitentes, assim como o
fizera no Rio de Janeiro, onde várias pessoas foram denunciadas, seguindo, depois, para o
Espírito Santo127.
A supervisão inquisitorial no sul continuaria com resultados, por vezes,
dramáticos para os judaizantes levados a julgamento em Lisboa, sofrendo os habituais
processos e procedimentos da maquiavélica e malévola instituição em Portugal. Contudo, o
papel econômico que os cristãos-novos desempenhavam, seja no reino ou nas colônias,
impedia, por vezes, a execução radical e persecutória da nefanda instituição, assumindo o
Estado uma atitude benevolente em relação aos cristãos-novos e fazendo vista grossa em
relação à heresia, quando se sobrepunham seus interesses imediatos. A história das relações
entre o poder secular e a Inquisição mostra o quanto elas oscilaram, em boa parte devido à
consciência – verdade é que despertada por alguns luminares – de que as restrições
impostas à “gente na nação” prejudicavam a sociedade e a economia portuguesa, mormente
quando, desde os inícios do século XVII, ela estava sofrendo a concorrência superior de
outros, e em particular do expansionismo mercantil holandês. Tanto no Oriente quanto no
Novo Mundo, a presença dos outros povos europeus se impunha apesar do pioneirismo
ibérico nas descobertas marítimas. E muitos foram os que viram na política persecutória aos
judeus e cristãos-novos de Portugal, e no conseqüente êxodo da península para outros
lugares a causa maior para a sua ruína, sem que pudessem impor o seu ponto de vista, a não
ser transitoriamente. A exclusão dos cristãos-novos da sociedade portuguesa como um
todo, restringindo sua participação em cargos públicos, impedindo a manifestação de seu
talento na administração em todos os seus aspectos, nas colônias e na metrópole, sem
dúvida teve um preço alto ao império colonial, pois a fuga de capitais importantes
esvaziava os cofres do tesouro real, além de outras conseqüências. Nesse sentido, a nobreza
reinol, que tinha naturalmente a dificuldade de se adaptar à nova mentalidade mercantilista
que acompanhava o ingresso da Europa na modernidade, deixando para trás o mundo
medieval que desdenhava a usura, a atividade mercantil e pecuária, prevaleceu na classe
dirigente do Estado Português até o século XVIII. Economistas do porte de Duarte Gomes
Solis, autor do tratado Alegación em Favor de la Compañia de la India Oriental, por volta
de 1621, propunha um plano para incrementar o comércio ultramarino, que na época se

125
B. Lewin, El Judio en la Epoca Colonial, B. Aires, Ed. Colégio de Estudos Superiores, 1939, pp. 51-2.
126
Ele não figura no Catálogo de frei Pedro Monteiro. Ver N. Falbel, O Catálogo dos Inquisidores de Frei
Pedro Monteiro e sua Complementação por um Autor Desconhecido, São Paulo, CEJ da USP, 1980.
127
ANTT, Inquisição de Lisboa, Contra os Cristãos-Novos, ms. n.º 24, apud J. G. Salvador, Cristãos-Novos,
Jesuítas e Inquisição, op. cit., pp. 108-9.
46

encontrava com entraves de toda natureza128, assim como o faria o padre Antonio Vieira.
Este último, profundo conhecedor da mentalidade portuguesa, tinha visão da importância
do ativismo econômico dos cristãos-novos para a manutenção das conquistas ibéricas, e ao
intentar demonstrar isso incorreu no pecado de defesa dos “heréticos judeus” e suspeita de
judaísmo, levando-o ainda a ser processado pela Inquisição129. Mas é preciso ainda lembrar
que o êxodo de judeus e cristãos-novos de Portugal não se restringiu apenas a homens de
negócio, pois abrangeu uma vasta gama de profissionais e artesãos que desempenhavam um
papel econômico importante na sociedade ibérica, ainda que a historiografia que trata do
assunto tenha por hábito focalizar os que exerciam uma atividade mercantil. Basta
examinar as profissões dos que foram processados pela Inquisição para se inteirar do
quanto elas abrangiam praticamente todos os ramos da atividade humana, das mais
humildes, entre elas a de curtidor, tecelão, alfaiate, sapateiro, ferreiro, coureiro, tratante e
outras, até as denominadas liberais, tais como professor universitário, médico ou físico,
advogado, além de clérigos e militares. A sociedade portuguesa, na metrópole e na colônia,
contava com a presença dos descendentes dos judeus conversos desde que foram obrigados
a aceitar o batismo, a partir de 1497. Era inevitável a penetração desse elemento
numericamente significativo em todos os aspectos da vida social ibérica, e do mesmo modo
que ocorreu na Espanha muito antes, devidos às conversões em massa no ano de 1391,
ocorreria posteriormente em Portugal, adicionado a um processo de mesclagem devido aos
casamentos entre famílias de cristãos-velhos e cristãos-novos, mesmo havendo de um lado
certo repúdio e de outro uma tendência endogâmica a fim de preservar sua identidade
religiosa. Porém, o repúdio se manifesta fundamentalmente a partir das restrições impostas
pelos estatutos de pureza de sangue, que limitavam a ascensão social daqueles que
possuíam “sangue infecto”. O famoso médico cristão-novo Ribeiro Sanches, em um
opúsculo escrito em 1735 intitulado “Origem da Denominação de Cristão-Velho e Cristão-
Novo em Portugal”, assim como d. Luís da Cunha no conhecido Testamento Político
dirigido a d. José, é de opinião que a instituição inquisitorial promove entre os perseguidos
cristãos-novos o judaísmo mais do que o refreia ou elimina130. Ele dirá que “foi mais
notória a diferença entre cristão-novo e cristão-velho depois que se estabeleceu o costume
de tirarem inquirições, de todos aqueles que queriam entrar no Estado Eclesiástico, ou
cargos honrosos da República”, sendo originado tal coisa do decreto da Sé de Toledo, feito
no ano de 1547131. Mas no distante Brasil a questão assumia proporções menos graves, e os
que aqui aportavam estavam dispostos desde o início a serem mais tolerantes e menos
preconceituosos, pois a realidade os impelia a seguir o impulso da vida e da sobrevivência,

128
Duarte Gomes Solis, Alegación em Favor de la Compañia de la India Oriental, ed. e pref. por Moisés
Bensabat Amzalak, Lisboa, 1955. Ver J. G. Salvador, Os Cristãos-Novos e o Comércio... (op. cit., pp. 16-7),
que chama a atenção ao fato de que Solis se referia ao Brasil, e não à Índia.
129
Ver Os Autos do Processo de Vieira na Inquisição (ed. transc., glossário e notas de Adma Muhana, São
Paulo, ed. UNESP-FCEB, (1995), e o seminal estudo de Alberto Dines, Vínculos do Fogo, I, (São Paulo,
Companhia das Letras, 1992), que se refere a Vieira com uma penetração original em seus escritos e
pensamentos; A. Baião, Episódios Dramáticos da Inquisição Portuguesa, I, Lisboa, 1936, pp. 205-316.

130
Christãos Novos e Christãos Velhos em Portugal, 2.ª ed, pref. de Raul Rego, Porto, ed. Paisagem, 1973.
131
Idem, ibidem, p. 36.
47

que o isolamento e a solidão do vasto território a ser colonizado acentuavam. Daí o


casamento com indígenas, bem como a bastardia com o elemento africano que começava a
se tornar mais presente à medida que a indústria açucareira ia se desenvolvendo e
assumindo um papel central na economia colonial132.
O que vai caracterizar a atividade dos cristãos-novos em território brasileiro no
processo de povoamento e colonização é a economia açucareira, que demandava a mão-de-
obra escrava, no que implicava também a participação dos mesmos no tráfico negreiro que
os portugueses vinham fazendo há muito tempo no continente africano.
A multiplicação de engenhos de açúcar se estende do norte ao sul do território e
faz da colônia um grande centro de produção e exportador para a metrópole e todas as
nações com as quais Portugal comercializava 133. Mas, por outro lado, apesar da sua
importância, precisamos lembrar que São Paulo era um reconhecido centro de irradiação de
sertanistas para exploração e busca de minerais preciosos e de expedições bandeirantes,
atraindo para cá indivíduos de todas os lugares 134. O incremento maior deu-se durante o
período do governador d. Francisco de Souza, ainda que aventureiros e forasteiros, na
capitania, assim como em outros lugares, representassem uma parcela da população
instável que se aproveitava, temporariamente, das oportunidades para amealhar certa
fortuna e logo desaparecer. As Atas da Câmara de São Paulo mencionam a estes e por
vezes os seus nomes aparecem em uma única menção para nunca mais serem lembrados. O
levantamento extraordinário de Pedro Taques de Almeida Paes Leme em sua Nobiliarquia
Paulistana Histórica e Genealógica31352 nos fornece uma quantidade
considerável de nomes e famílias de cristãos-novos, não mencionados em seu livro como
tais, porém identificados posteriormente como vítimas da Inquisição, que apesar de tudo
não cessou de supervisionar a religiosidade sempre suspeita dos habitantes da colônia até os
dias do Marquês de Pombal.

132
C. R. Boxer, em O Império Colonial Português, Lisboa, Ed. 70, 1969, pp. 279-303, dedica atenção à
questão da “Pureza de Sangue” em toda a extensão do Império português.
133
J. Lúcio de Azevedo, Épocas de Portugal Econômico, 3.ª ed., Lisboa, Livr. Clássica Editora, 1978, cap. “O
Império do Açúcar”, pp. 215-87. O caso de João Nunes, estudado por Sonia Aparecida Siqueira (Separata dos
Anais do V Simpósio Nacional dos Prof. Univ. de História, Campinas, 1971), é ilustrativo por se tratar de um
magnata do açúcar denunciado à Inquisição; ver E. de O. França, Engenhos, Colonização e Cristãos-Novos na
Bahia Colonial (Separata dos Anais do IV Simpósio Nacional dos Prof. Univ. de História, São Paulo, 1969).
Porém, para o estudo da presença dos cristãos-novos em Pernambuco, e sob o domínio holandês, e o papel
que tiveram na economia açucareira, são indispensáveis os trabalhos de José Antonio Gonsalves de Mello, a
começar do clássico Tempo dos Flamengos e a terminar com a obra Gente da Nação, Recife, Massangana,
1989.
134
Como bem demonstrou J. P. Calógeras, Formação Histórica do Brasil (Rio de Janeiro, Pimenta de Mello,
1930, p. 25), “S. Vicente e São Paulo, a antiga Piratininga, durante centenas de anos foram os postos
avançados donde irradiaram as expedições militares à procura da fronteira sulina (...) não somente em relação
aos hispanos, mas também em relação aos invasores franceses e holandeses”.
135
São Paulo, Itatiaia-USP, 1980.
48

6. Judeus em São Paulo: um pouco de sua história

A participação dos judeus cristãos-novos na colonização do território


descoberto por Portugal se deu desde o início, pois as perseguições ocorridas durante os
séculos XVI e XVII levaram a que abandonassem a península ibérica e, como um
verdadeiro “êxodo”, procurassem as terras do império colonial português, onde quer que se
encontrassem.
Sabemos que os cristãos-novos tiveram de imediato um papel econômico
importante no comércio da terra de Santa Cruz, e é conhecido o fato de terem sido eles os
primeiros a ser contratados para a exploração dos territórios descobertos, destacando-se
nesse sentido a figura de Fernando de Noronha, que desde os primeiros anos da descoberta
passou a mercadear com o pau-brasil, ainda que não temos qualquer prova segura de que
ele, pessoalmente, era cristão-novo. O mesmo estímulo foi dado a outros correligionários
seus, principalmente vindos de São Tomé e da Madeira, que constituíram em boa parte as
feitorias estabelecidas na costa brasileira.
Foi também esse elemento que desenvolveu a cultura da cana-de-açúcar em
nossa terra, e por ocasião da primeira visitação do Santo Ofício, em 1591, muitos entre os
cristãos-novos seriam apontados como judaizantes perante os representantes da terrível
instituição.
Nos primórdios da história de São Vicente, os cristãos-novos encontrarão um
lugar seguro e servirão à colonização inicial do território paulista. As atas da Câmara de
São Paulo, de 1578, 1582, fazem referência à presença de “judeus cristãos” vivendo dentre
a população da vila. E nas denunciações da Bahia, durante a visitação do Santo Ofício, de
1591-93, encontramos a menção de cristãos-novos de São Vicente, entre eles Francisco
Mendes, “que é da geração de uns cristãos-novos que chamam os Valles em São
Vicente”.136
Podemos, assim, supor que o Planalto Paulista constituía um lugar ideal para
abrigar e proteger aqueles que eram perseguidos pela Inquisição ibérica. O sertão denso e
bravio e a própria atitude de tolerância da Companhia de Jesus, que incluía em suas fileiras
também descendentes da estirpe judaica e que deram os primeiros passos para a fundação
do núcleo formador da futura metrópole paulista, dava a eles a segurança necessária para
viver com uma tranqüilidade maior do que em outros lugares.
Na história paulista, São Vicente, que já aparecia em mapas desde 1502,
tornou-se um ponto de tráfico de escravos indígenas e lá, por esse tempo, se agrupavam
doze ou quinze europeus, portugueses e espanhóis que constituíram um centro inicial de
povoamento que se estendia das praias da ilha de Santo Amaro até Cananéia. Eram o
célebre bacharel, ainda não identificado , seus genros, Gonçalo da Costa, Antonio
Rodrigues, João Ramalho, Mestre Cosme, Duarte Peres ou Pires, e outros náufragos sem
nome...”137
Entre esses a afigura, até hoje enigmática, de João Ramalho, sobressai como
um personagem realcionado com os índio tupiniquins e tapuias. Sobre ele escreveu Tomé
de souza ao rei D. João III em junho de 1553: “...ordenei outra vila no começo do campo

136
Primeira Visitação do Santo Ofício às partes do Brasil, Denunciações da Bahia (1591-1593), São Paulo,
ed. P. Prado, 1925, p.314.
137
Prado, P., Paulística, Rio de Janeiro, ed. Ariel, 1934, p. 45.
49

desta vila de São Vicente de moradores que estavam espalhados por ele e os fiz cercar e
juntar para se poderem aproveitar todas as povoações deste campo e se chama a vila de
Santo André, porque onde a sitiei estava uma ermida deste apóstolo e fiz dela a João
Ramalho natural do termos de Coimbra que Martim Afonso já achou nesta terra quando cá
veio. Tem tantos filhos e netos, bisnetos e descendentes dele o não ouso dizer a V.A., não
tem cã na cabeça nem no rosto e anda nove léguas a pé antes de jantar...” A verdade é que
pouco se sabe sobre ele, nem quando chegou ao Brasil e tão pouco seus antecedentes
ibéricos. Mesmo porque quando chegou o donatário Martim Afonso de Souza, em 1532, a
São Vicente, assim nos diz Washington Luís, o lugar “já era um porto conhecido, com lugar
marcado nos rudimentares mapas da época, uma espécie de pequena feitoria portuguesa, de
iniciativa particular, visitada por esquadras para o tráfico de escravos, onde se forneciam
vitualhas necessárias à navegação de longo curso, se construíam bergatins e se contratavam
línguas da terra.” 138 O próprio Martim Afonso que viera do sul e se deteve em São Vicente
elevano-a a vila e dando os primeiros passos administrativos da pequena povoação trouxera
consigo cristãos-novos para se estabelecerem na região ajuntando-se aos demais que já se
encontravam ali, tais como o bacharel, mestre Cosme, fernandes Melchior, Henrique
Montes e Francisco Chaves, conforme nos informa o historiador José Gonçalves
Salvador.139 Da aldeia de Santo André da Borda do Campo, núcleo onde viveu João
Ramalho, nasceria a cidade de São Paulo, pois em 1560 Mém de Sá transferiria seus
moradores para Piratininga, “lugar mais forte e mais defensável , e mais seguro assim dos
contrários como dos nossos índios...”, dessa forma se expressavam os moradores Jorge
Moreira e Joannes Alves em carta de 1561, dirigida à Regente D. Catarina. Os seus
descendentes seriam os mamelucos caçadores de índios, “peças” do comércio escravo e
caçadores de ouro e pedras preciosas. Esses cristãos-novos deram uma contribuição
decisiva para odesenvolvimento da vila de Piratininga e os seus nomes se encontram entre
as famílias que constituíram os seus núcleos dirigentes desde o século XVI, ou seja, dos
primórdios da fundação da vila. Com a descoberta das minas de ouro e prata do Perú, São
Paulo passou a ser uma via de acesso até aquele território que podia ser alcançado em uma
Segunda etapa através do Paraguai. Além do mais a industria açucareira em franco
desenvolvimento prometia riquezas a todos e estes fatores foram suficientes para atraírem
cristãos-novos que se aventuravam nessas regiões em busca de subsistência mas também , e
talvez acima de tudo, a liberdade que não usufruiam em outro lugar, contribuindo desse
modo à povoação do território.
Eram eles sertanistas, bandeirantes que desbravavam os sertões em busca de
minerais preciosos e que, devido às suas incursões em direção ao sul asseguravam aquelas
fronteiras de qualquer domínio espanhol. Somente assim podemos entender a relativa
tolerância das autoridades da época diante da destruição brutal das reduções jesuíticas
praticada por esses aventureiros impiedosos que apresavam os índios das missões. E não é
de estranhar que em vários documentos da época, escritos por jesuítas espanhóis, os
portugueses de São Paulo são vistos e identificados como hereges e judeus capazes de
cometerem as maiores barbaridades contra o gentio catequizado pelos inacianos.
Já em 1613, as atas da Câmara de São Paulo, se referem abertamente a
“cristãos-novos e homens da nação hebréia” mostrando, provavelmente, que havia não

138
Na Capitania de São vicente, São Paulo, ed. Itatiaia-Universidade de São Paulo, 1980, p. 65.
139
Cristãos-novos, Jesuítas e Inquisição, São Paulo, ed. Livraria Pioneira-Universidade de São Paulo, 1969,
p.187.
50

somente judeus batizados ou cristãos-novos, mas também aqueles que efetivamente


professavam a fé judaica.
O fato é que em 1625 o elemento cristão-novo no sul fazia notar a sua presença
ao ponto que um frade, Diogo do Espírito Santo, resolveu escrever à Inquisição a fim de
pedir sua interferência, o que levaria ao envio de um visitador , Pires da Veiga, a vir ao Rio
de Janeiro no ano de 1627.
Em suma, o povoamento das capitanias meridionais contou com uma presença
significativa de cristãos-novos e judeus, a começar do litoral, ou seja, São Vicente e Santos,
passando para o Planalto Paulista ou ao altiplano de Piratininga. Nesse mesmo contexto
temos de reconhecer o papel dos jesuítas na formação e povoação dos núcleos
populacionais paulistas, cabendo assinalar a presença de cristãos-novos entre os membros
da ordem, e em particular a figura do padre Leonardo Nunes, que fora à Bahia e enviado
posteriormente a São Vicente, subindo a seguir ao planalto. Foi ele o primeiro a pensar em
instalar na região entre o Tamanduateí e o Anhangabaú, no ponto onde se ergueria São
Paulo, a casa e o colégio da Companhia de Jesus, o que se concretizaria com Manuel da
Nóbrega, em 1554.
A expansão de São Paulo se deve, também, em boa parte ao incremento
mineralógico na época de d. Francisco de Souza, que atraiu uma população ávida de
riquezas que a fantasia e a imaginação dos homens encontrava nas florestas, nas montanhas
e nas águas dos infindáveis rios. Os que eram mais realistas preferiam continuar cultivando
as suas fazendas, que começaram a circundar a periferia da capital paulista, e entre esses
senhores não faltava o elemento cristão-novo. Tal expansão agropastoril foi acompanhada
de uma intensa busca de mão-de-obra indígena, permitindo, assim, a cobertura de novos
caminhos pelo interior. As sesmarias acabaram levando o povoamento em direção aos vales
do Paraíba e do Tietê, advindo daí a criação de cidades como Mogi das Cruzes, que ficava à
entrada do vale, e isso devido à iniciativa de d. Francisco de Souza. Mogi das Cruzes seria a
primeira povoação naquela região, e após 1630 se sucederiam outras, tais como Taubaté,
Guaratinguetá, Jacareí, e várias outras, que contaram com a participação do elemento
judaico ou cristão-novo.
Por outro lado, a expansão caminhava em direção ao sul numa área extensa que
chegara às fronteiras do Paraguai, numa ação contínua de desbravamento da selva e de
fixação de novos povoados e vilas. Santana do Parnaíba seria uma das primeiras dessa
região, elevada a vila em 1625. Seguir-se-iam outras, e entre elas Sorocaba e Itú, todas elas
servindo de vias de acesso ao Paraguai e às regiões do Prata.
Portanto o devassamento do “hinterland”, obra de pioneiros, de gente indômita,
valente e corajosa, sem receio da vastidão e das distâncias a percorrer contou com a
participação ativa dos cristãos-novos sulinos. A atração das riquezas minerais , o mito da
Sabaraboçu, a serra dourada, existente nas capitanias da região atraiu e motivou as
expedições dos sertanistas e bandeirantes que, ao par da busca do ouro e pedras preciosas,
também se ocupavam com o preamento dos indígenas. Mas a medida que os
descobrimentos auríferos foram se estendendo também foi aumentando o número do
elemento escravo africano. As conseqüências desse surto mineralógico se fizeram logo
sentir. Houve um aumento populacional considerável com a implícita modificação na vida
social, econômica e administrativa dos povoados sulinos. O crescimentos populacional se
revelava pela criação de novas vilas e povoados e a implementação de novos métodos
administrativos. Novos caminhos foram abertos e a ligação entre as capitanias sulinas bem
51

como com as do norte tornaram-se mais fáceis como no caso de Minas gerais e Bahia, que
se fazia também através do rio São Francisco.
O “rush” mineralógico atraiu o elemento cristão-novo e não é de se estranhar
que na luta entre paulistas e “emboabas” se encontrava Manuel Nunes Viana, um cristão-
novo. Além do mais é bem possível que o recrudescimento da atividade inquisitorail no Rio
de Janeiro, a partir de 1705, que levou a uma perseguição tenaz aos judaizantes naquela
região tenha uma relação direta com a prosperidade da região vizinha.
Desse modo, encontramos entre os estrangeiros que começavam a visitar o país
e nele se estabelecer também os que professavam a fé judaica. Podemos observar entre eles
judeus ingleses, alemães, e na segunda metade do século uma acentuada imigração vinda da
Alsacia-Lorena, que acabou se organizando como uma comunidade própria. Não somente
na cidade de São Paulo eles de encontravam presentes, mas também se instalaram em
cidades do interior paulista tais como Campinas, Jundiaí, Ribeirão Preto, Rio Claro, Franca
e outras.8 Sua presença individual pode ser observada nessas cidades no decorrer de todo o
século XIX, e em lugares como Campinas chegaram a formar uma colônia significativa do
ponto de vista numérico e de sua atuação econômico-social. A sua ocupação é a mais
diversificada, e podemos dizer que na São Paulo pouco desenvolvida das primeiras décadas
do século passado – que Auguste de Saint-Hilaire descreve como possuindo uma população
limitada, com cerca de 20.000 habitantes, mas com edifícios públicos bem conservados,
com ruas largas e praças públicas9 – tais imigrantes judeus vindos de vários países da
Europa introduziriam os hábitos de vida do Velho Continente, trazendo um aporte
civilizatório à província que recém saía de seu acanhamento colonial. E Saint-Hilaire nos
informa que “encontra-se na cidade uma profusão de lojas bem sortidas e bem instaladas,
onde se vê uma variedade tão grande de artigos quanto nas do Rio de Janeiro”, e,
profetizando, ainda dirá mais adiante: “o Brasil ainda deve continuar totalmente agrícola,
não tendo ainda alcançado a fase em que seria vantajoso instalarem-se nele grandes
indústrias. Entretanto, quando chegar essa época, é por São Paulo que se deve começar”.
Portanto, a cidade começava a atrair os imigrantes europeus que pouco a pouco introduziam
um comércio diversificado, que se assentava fundamentalmente sobre os produtos
importados da manufatura ou indústria européias.
Os judeus franceses trouxeram à cidade de São Paulo o bom gosto no vestir e
também o consumo do supérfluo, estabelecendo na capital paulista casas de jóias e afins.
Mas empreenderam a instalação de companhias de seguros, ateliês de fotografias, lojas de
calçados, fazendas e couros, etc. Outros eram importadores de alto vulto e acabaram
ascendendo na sociedade paulista pela sua riqueza e iniciativas sociais. É o caso do judeu
alemão Victor Nothmann, irmão de Maximilian Nothmann, que vivia no Rio de Janeiro,
bem como o de Frederico Glete, lembrados hoje pelos nomes dados a duas ruas da cidades.
Sobre os judeus alemães Glete e Nothmann, assim como seus confrades católicos ou
protestantes, nos relata Paulo Cursino de Moura no seu livro de evocações sobre São Paulo
de outrora:11 “Não foi ele (Glete) o primeiro germânico que teve a inspiração de contribuir
para o engrandecimento de São Paulo. Quando Glete se estabeleceu em São Paulo, a
colônia alemã aqui já era antiga e prestante. Mas, modorramente, ia acompanhando o andar
dos tempos e da civilização, como podia. De 1870 para cá, coincidindo com a vitória da
guerra Prussiana e com os primeiros arrancos do nosso progresso no governo provincial,
desse verdadeiro realizador – João Teodoro Xavier, de quem não nos cansamos de lembrar
–, o empreendimento alemão em terras paulistanas tomou vulto extraordinário. Em tudo e
por tudo. Em todos os ramos de atividade. Na administração e nas empresas particulares.
52

Pode-se dizer que os alemães foram desbravadores da rotina comercial em São Paulo. Até o
café deve sua assombrosa exportação de hoje a Theodor Wille, o extraordinário
comerciante alemão que em 1845 teve a glória de exportar diretamente para a Europa a
primeira saca de café da então província de São Paulo” (...) “As tentativas para o
abastecimento de água e para a rede de esgotos, obra de alemães. Arruamentos.
Calçamentos. Jardins Públicos. Em tudo, a experiência, o arrojo, a ambição do germânico
no São Paulo antigo.”
Da aldeia de Santo André da Borda do Campo, núcleo onde viveu João
Ramalho, nasceria a cidade de São Paulo, pois em 1560 Mem de Sá transferiria seus
moradores para Piratininga, “lugar mais forte e mais defensável, e mais seguro assim dos
contrários como dos nossos índios...”, assim diziam os moradores Jorge Moreira e Joannes
Alves em carta de 1561 dirigida à Regente d. Catarina. Os seus descendentes seriam os
mamelucos caçadores de índios, “peças” do comércio escravo e caçadores de ouro e pedras
preciosas.
Das filhas de João Ramalho várias casaram-se com cristãos-novos, entre eles
Lopo Dias, Pascoal Fernandes e Bartolomeu Camacho, e com as suas netas casaram-se
Manuel Fernandes e Cristóvão Dinis. Esses cristãos-novos deram uma contribuição
decisiva para o desenvolvimento da vila de Piratininga e os seus nomes se encontram entre
as famílias que constituíram seus núcleos dirigentes desde o século XVI, ou seja, dos
primórdios da fundação da vila. Com a descoberta das minas de ouro e prata do Peru, São
Paulo passou a ser uma via de acesso até aquele território, que podia ser alcançado em
segunda etapa através do Paraguai. Além do mais, a indústria açucareira em franco
desenvolvimento prometia riquezas a todos, e esses fatores foram suficientes para atrair
cristãos-novos que se aventuravam nessas regiões em busca de subsistência, mas também, e
talvez acima de tudo, da liberdade que não possuíam em outro lugar, contribuindo assim
para a povoação do território.
Eram eles sertanistas, bandeirantes que desbravavam os sertões em busca de
minerais preciosos, e que devido à penetração em direção ao Sul, asseguravam aquelas
fronteiras de qualquer domínio espanhol. Somente desse modo podemos entender a relativa
tolerância das autoridades da época perante as destruições selvagens das reduções jesuíticas
por parte desses aventureiros impiedosos que faziam o apresamento dos índios das missões.
E não é de se estranhar que em vários documentos da época, escritos por clérigos espanhóis
da ordem jesuítica, os portugueses de São Paulo sejam vistos e identificados como hereges
judeus capazes de cometerem as maiores barbaridades contra o gentio catequizado pelos
inacianos.
Já em 1613, as atas da Câmara de São Paulo se referem abertamente a
“cristãos-novos e homens da nação hebréia”, mostrando que havia não somente judeus
batizados ou cristãos-novos, mas também aqueles que não eram, ou seja, “homens da nação
hebréia”. O fato é que, em 1625, o elemento cristão-novo no Sul era tanto que um frade,
Diogo do Espírito Santo, resolveu escrever à Inquisição pedindo sua interferência direta, o
que levaria ao envio de um visitante daquela instituição, Pires da Veiga, a chegar ao Rio de
Janeiro em 1627.
A medicina, que foi uma ocupação judaica tradicional desde os tempos
medievais na península ibérica, assim como em outras regiões do continente europeu, teve
sua continuidade em terras brasileiras, e nas capitanias do Sul vamos encontrar cristãos-
novos exercendo a profissão de médicos. Alguns nomes que registram sua presença em São
Paulo são os do dr. José Serrão, genro de Fernão Dias Paes, dr. Antonio Vieira Bocarro,
53

Paulo Rodrigues Brandão e talvez outros que não conhecemos. Apesar de tudo, o Rio de
Janeiro, nessas primeiras décadas do século XVII, era mais favorecido por esses
profissionais, ao contrário de São Paulo, que ainda nesse tempo se ressentia pela falta de
médicos. Mas aqui e acolá, já na segunda metade daquele século, aparecem os esculápios
dr. João de Mongelos Garcez, Francisco Rodrigues Brandão, filho de Paulo Rodrigues
Brandão, dr. João Rodrigues de Abreu, Domingos Pereira da Gama e outros.
Também encontramos cristãos-novos, e em bom número, entre os que exerciam
a advocacia, assim como entre os funcionários da administração pública colonial, apesar de
nem sempre ser fácil sua identificação. O historiador José Gonçalves Salvador, em sua obra
já citada, afirma que eram cristãos-novos os advogados Antônio Camacho, o licenciado
Salvago, Geraldo de Medina, Belchior de Araujo e Luiz Fernandes Francês, todos eles
atuantes em São Paulo durante o século XVII.
A influência judaica em São Paulo ou a presença de cristãos-novos judaizantes
no planalto de Piratininga se faz sentir durante o século seguinte, isto é, no século XVIII,
pois muitos dos criptojudeus e seus descendentes aparecem nos processos da Inquisição
portuguesa nesse tempo, ainda que os mais antigos fossem os residentes no Rio de Janeiro e
adjacências.
A verdade é que, com o passar dos anos, os judeus ou os cristãos-novos
judaizantes de São Paulo foram perdendo o pouco da lembrança que possuíam a respeito do
judaísmo, uma vez que em certos momentos a fiscalização inquisitorial era extremamente
rigorosa no Brasil, e não poucos pagaram com a vida a temeridade de manter certos
costumes judaicos. As famílias se mesclavam com elementos cristãos-velhos. Aliás, desde
os inícios da colonização essa mescla se deu, e o sangue hebreu diluiu-se inteiramente na
composição populacional do planalto paulista ao ponto de podermos afirmar com segurança
que nos troncos paulistas tradicionais sempre podemos encontrar um vínculo com o
elemento cristão-novo. Nesse sentido, os trabalhos genealógicos de um Pedro Taques 6 ou
de M. E. de Azevedo Marques7 e outros historiadores permitem-nos acompanhar as
ramificações ocorridas com essas primeiras famílias e sua descendência posterior, ou seja,
até o tempo em que os autores mencionados escreveram suas obras. Mas seus rastros como
judeus ou judaizantes já se haviam apagado inteiramente por essa época.
A grande mudança quanto à política imigratória relativa a judeus no Brasil em
geral, e por conseqüência em São Paulo, dar-se-á com o estabelecimento da família
imperial portuguesa em nosso território, a partir de 1808. D. João VI proclamará, em 28 de
janeiro daquele ano, a Abertura dos Portos às Nações Amigas, e com isso abrir-se-ão as
portas para uma nova imigração, que após a assinatura do tratado comercial com a
Inglaterra, em 1810, favorecia e incentivava o ingresso do elemento estrangeiro ao Brasil.
Além do mais, o artigo 12 do tratado comercial assegurava aos súditos britânicos a
liberdade de religião em território nacional, e portanto ninguém poderia molestá-los sob
esse aspecto.
Na história paulista, São Vicente, que já aparecia em mapas desde 1502,
tornou-se um ponto de tráfico de escravos indígenas e lá, nessa época, se agrupavam “doze
ou quinze europeus, portugueses e espanhóis que constituíram um centro inicial de
povoamento, que se estendia das praias da ilha de Santo Amaro até Cananéia”. Eram o
célebre bacharel, ainda não-identificado, seus genros, Gonçalo da Costa, Antonio
Rodrigues, João Ramalho, Mestre Cosme, Duarte Peres ou Pires, e outros náufragos sem
nome.
54

Entre esses, a figura até hoje enigmática de João Ramalho sobressai como um
personagem relacionado com os índios tupiniquins e tapuias. Sobre ele escreveu Tomé de
Souza ao rei d. João III em junho de 1553: “Ordenei outra vila, no começo do campo de
São Vicente, de moradores que estavam espalhados por ali, e os fiz cercar e juntar para se
poderem aproveitar todas as povoações deste campo, que se chama vila de Santo André,
porque onde a sitiei estava uma ermida deste apóstolo e fiz dela a João Ramalho natural do
termo de Coimbra que Martim Afonso já achou nesta terra quando cá veio. Tem tantos
filhos e netos, bisnetos e descendentes dele que não ouso de dizer a V.A., não tem cã na
cabeça nem no rosto e anda nove léguas a pé antes de jantar...
Tudo indica que este patriarca era um cristão-novo, cuja ascendência judaica
pode ser comprovada pelo “kaf” em sua assinatura e que mereceu a atenção de tantos
historiadores interessados em provar sua origem. A verdade é que não se sabe quando ele
chegou ao Brasil e nem de seus antecedentes ibéricos. Mesmo porque, quando chegou o
donatário Martim Afonso de Souza, em 1532, a São Vicente, nos diz Washington Luís em
sua obra, o lugar “já era um porto conhecido, com lugar marcado nos rudimentares mapas
da época, uma espécie de pequena feitoria portuguesa, de iniciativa particular, visitada por
esquadras para o tráfico de escravos, onde se forneciam vitualhas necessárias à navegação
de longo curso, se construíam bergatins e se contratavam línguas da terra”. O próprio
Martim Afonso de Souza, que viera do Sul e se deteve em São Vicente, elevando-a a vila e
dando os primeiros passos administrativos da pequena povoação, trouxera consigo judeus
ou cristãos-novos para se estabelecerem na região, ajuntando-se aos demais que já se
encontravam ali, tais como o bacharel mestre Cosme Gernandes Melchior, Henrique
Montes e Francisco Chaves, conforme nos informa o historiador José Gonçalves Salvador.
Portanto, o devassamento do “hinterland”, obra de pioneiros, de gente
indômita, valente e corajosa, sem receio de distâncias e sem temores, conforme a expressão
de José Gonçalves Salvador, contou com a participação ativa dos cristãos-novos sulinos. A
fama das riquezas minerais, o mito da Sabaraboçu, a serra dourada existentes nas capitanias
do sul atraíram e motivaram as expedições dos sertanistas e bandeirantes, que ao par da
busca de ouro e pedras preciosas, também se ocupavam com o preamento dos indígenas.
Mas na medida que os descobrimentos auríferos foram se estendendo, foi se dando em
número cada vez maior a introdução do elemento escravo africano. E como já havíamos
dito, as conseqüências desse surto mineralógico se fizeram logo sentir. Houve um aumento
populacional considerável, com a implícita modificação na vida social, econômica e
administrativa dos povoados sulinos. O crescimento populacional se mostrava pela criação
de novas vilas e povoados e o aperfeiçoamento dos métodos administrativos. Novos
caminhos foram abertos, e a ligação entre as capitanias sulinas, como destas com as do
Norte tornaram-se mais fáceis, como no caso de Minas Gerais e Bahia, que também se fazia
via rio São Francisco.
O próprio “rush” mineralógico atraiu o elemento cristão-novo, e não é de se
estranhar que na luta entre paulistas e “emboabas” se encontrasse a figura de líder do
cristão-novo Manuel Nunes Viana. Além do mais, há uma suspeita de que o
recrudescimento da atividade da Inquisição no Rio de Janeiro, a partir de 1705, e que
acabou por perseguir com tenacidade os cristãos-novos nessa região, tinha muito a ver com
essa prosperidade econômico-social. No fundo, eles eram um excelente prato à ganância
dos perseguidores, pois eram muitos e se destacavam como senhores de engenhos,
mercadores, funcionários públicos, além de se ocuparem com a exploração das minas
recém-descobertas.
55

Politicamente, eles tiveram muito a ver com o recuo da linha de Tordesilhas,


que estabelecia a divisão de terras descobertas entre Portugal e Espanha. O famoso
cartógrafo Pedro Nunes, cristão-novo, era zeloso em relação às conquistas de seu reino, e
em seus mapas incluía o Amazonas e a bacia do Prata entre os territórios portugueses,
ultrapassando em muito os limites do conhecido tratado. Assim, os exploradores
portugueses justificavam suas expedições sulinas em busca de índios e minérios. A guerra
permanente contra as “reduções” jesuíticas no século XVII alargou os caminhos para o sul,
e sabemos que, entre 1637 e 1641, a província do Uruguai se encontrava praticamente nas
mãos dos paulistas, ocupando-se o Tape (centro do atual Rio Grande do Sul) e o Guaíra.
A fundação da Colônia do Sacramento dar-se-ia para estabelecer os limites
sulinos do domínio português no Sul e o resultado das expedições onde os cristãos-novos
tomaram parte ativa. Entre os que participaram na colonização do Sacramento estavam os
cristãos-novos Brás Rodrigues Arzão e Vasco Pires da Mota. A Espanha acabaria
reconhecendo, em 1681, os direitos de domínio de Portugal naquela região. Em última
instância, esse foi o resultado do bandeirismo paulista, que constituiu o estilo de vida
peculiar dos inícios da colonização portuguesa, dos reinóis cristãos-velhos e cristãos-novos
Devemos ainda lembrar que os cristãos-novos de São Paulo tiveram um papel
de destaque em outras profissões que exigiam um conhecimento especializado e habilidade,
tais como a de mestres de fazer açúcares, físicos, barbeiros, boticários, atividades essas que
se concentravam em boa parte em mãos dos judeus vindos ao Brasil. A medicina que foi
uma ocupação judaica tradicional , desde os tempos medievais, na Península Ibérica assim
como em outras regiões do continente europeu, teve a sua continuidade em terrras
brasileiras e nas capitanias do sul vamos encontrar cristãos-novos exercendo a profissão de
médicos. Alguns nomes que registraram sua presença em São Paulo são os do Dr.José
Serrão, genro de Fernão Dias Paes, Dr. Antonio Vieira Bocarro, Paulo rodrigues Brandão e
talvez outros que não deixaram registro de seus nomes. Apesar de tudo o Rio de Janeiro,
nessas primeiras décadas do século XVII era mais favorecido com profissionais, em
oposição a são Paulo que ainda, nesse tempo, se ressentia pela falta de médicos. Mas aqui e
acolá, já na Segunda metade daquele século aparecem os esculápios Dr. João de Mongelos
Garcez, Francisco Rodrigues Brandão, filho de Paulo Rodrigues Brandão, Dr. João
Rodrigues de Abreu, domingos Pereira da Gama e outros. Também encontramos cristãos-
novos, e em bom número, entre os que exerciam a advocacia além de funcionários da
administração pública colonial, apesar de nem sempre ser fácil a sua identificação. Alguns
nomes são identificados como cristãos-novos tais como os advogados Antônio Camacho,
Geraldo de Medina, Belchior de Araujo e Luiz Fernandes francês, todso eles atuantes em
São Paulo durante o século XVII.140
A presença de cristãos-novos em São Paulo continuou no século seguinte, pois
muitos dos criptojudeus e seus descendentes aparecem nos processos da Inquisição
portuguesa desse tempo, ainda que os mais atingidos fossem os residentes no Rio de
Janeiro e adjacências. Com o passar do tempo eles acabaram por se mesclar com elementos
das famílias de cristãos-velhos, processo esse que já havia se iniciado desde o início da
colonização sendo que o sangue hebreu veio a diluir-se inteiramente na composição
populacional do planalto paulista, a ponto de podermos afirmar que nos troncos tradicionais
de Piratininga sempre poderemos encontrar um vínculo com o elemento cristão-novo.

140
V. Salvador, J.G., Os cristãos-novos, povoamento e conquista do solo brasileiro (1530-1680), São Paulo,
ed. Pioneira-Universidade de São Paulo, 1976, p.226.
56

Nesse sentido os trabalhos genealógicos de um Pedro Taques141 ou de M.E. de Azevedo


Marques,142 e outros historiadores, permitem-nos acompanhar as ramificações ocorridas
com essas famílias e sua descendência posterior, ou seja, até o tempo em que os autores
mencionados escreveram suas obras. Mas os rastros de sua origem já se haviam apagado
por esse tempo.
O estabelecimento da família real portuguesa no Brasil, a partir de 1808, abriria
uma nova etapa na história do país e ao se proclamar em 28 de janeiro a Abertura dos
Portos às Nações Amigas abrir-se-ia as portas para uma nova imigração, que após a
assinatura do tratado de Aliança e Amizade com a Inglaterra, em 1810, iria favorecer o
ingresso do elemento estrangeiro no brasil. O artigo 12 desse tratado assegurava aos súditos
britânicos a liberdade de religião em território nacional e, portanto, ninguém poderia
molestá-los em razão de sua fé, que não era católica.
E mais adiante o cronista de São Paulo lembra os franceses e sua contribuição a
São Paulo em “outro terreno: o da elegância, o da moda, o da ‘coquetterie’, o da arte, o das
belas-letras”. Mas sabemos que não foi somente nisso. Apesar de tudo “todo mundo
conheceu”, diz Paulo Cursino, “de 1865 a 1877, os afamados perfumistas, cabeleireiros e
empoadores de postiços mágicos para as noitadas líricas do São José, estabelecidos com
suas lojas na mesma rua Imperatriz, já naquele tempo a predileta em matéria de elegância.”
“E as modistas? Uma penca. Todas francesas. Em 1865 eram existentes, em várias ruas do
Ouvidor, da imperatriz e de São Bento”. “Na música, Henri Louis Levy. Até hoje seu nome
é, na moderna metrópole, o centro de irradiação da mais prestigiada casa musical. Este, o
maior elogio ao seu grande valor artístico”.
Os franceses organizaram suas sociedades, e dentre elas fundou-se, por volta de
1881, a Sociedade Francesa “14 Julliet”, contando-se entre os seus membros de elite Cahen
Levy. Na música, Henri Louis Levy,12 que era clarinetista de talento e havia chegado ao
Brasil em 1948, ao falecer, em 1896, deixara um filho de talento que consagraria o nome
musical da família. Era Alexandre Levy, nascido em São Paulo, em 1864. Alexandre Levy
chegou a tocar piano para o imperador d. Pedro II e era um compositor prolífero que na
verdade encontrou sua inspiração na música popular brasileira. Morreu prematuramente em
pleno caminho da glória, ao 27 anos de idade. Outros Levy também se destacaram na
música, a começar pelo próprio irmão de Alexandre, Louis, e a terminar com o maestro
Edgard Levy. Nas artes plásticas e já no final do século XIX surgia o nome da pintora Berta
Worms, que conquistou o público amante da arte por seus retratos e pinturas. A influência
dos judeus franceses se fazia não somente no plano da moda, mas das belas-letras, músicas
e artes plásticas.
Mas é preciso lembrar que entre os imigrantes judeus também houve aqueles
que fizeram nome como profissionais liberais, e entre eles se destaca a figura do dr. Samuel
Edouard da Costa Mesquita, que era casado com uma das “três graças”, Mary Roberta
Amzalak. Dr. Samuel Mesquita veio ao Brasil em 1860 e exerceu a profissão de cirurgião-
dentista, contando-se entre seus clientes o próprio Imperador d. Pedro II. Mais tarde
mudou-se para São Paulo e na qualidade de dentista atendeu também em Campinas. Sabe-
se que, na falta de um rabino para a comunidade israelita de São Paulo, o dr. Samuel de

141
Pedro Taques de Almeida Paes leme, Nobiliarquia Paulistana Histórica e Geográfica, São Paulo, ed.
Itatiaia-Universidade de São Paulo, 1980, 3vol.
142
Manuel Eufrásio de Azevedo Marques, Apontamentos Históricos, Geográficos, Biográficos, Estatísticos e
Noticiosos da Província de São Paulo, são Paulo, ed. Itatiaia-Universidade de são Paulo, 1980, 2vol.
57

Mesquita preencheu essa função, oficiando as rezas nas festividades judaicas. Ele, bem
como seus descendentes e parentes próximos falecidos, encontram-se enterrados no
Cemitério dos Protestantes, em São Paulo.
Por outro lado, a participação desses imigrantes no desenvolvimento industrial
de São Paulo ainda no século passado pode ser lembrada pela figura singular do Visconde
de Sapucaí, Luiz Matheus Maylasky, que chegou ao Brasil em 1860, dirigindo-se a
Sorocaba, onde passou a residir. Sua origem- judaica- ainda não está totalmente
esclarecida, mas seu papel no desenvolvimento e criação da Companhia de Sorocaba e a
estrada de ferro Sapucaí com o intuito de escoar a produção algodoeira até o porto de
Santos lhe valeram o título que passou a ostentar. Foi homem de grandes iniciativas
econômicas, e na volta do século mostraria uma São Paulo com novas ambições
empresariais. Ainda como exemplo de iniciativas econômicas significativas para a
economia paulista brasileira, que foram dadas no século passado, e o espírito pioneiro que
as animaram, devemos lembrar a pessoa de Maurício Klabin, que aqui chegara em 1887 e
fundaria um novo setor industrial, o de papel e celulose.
Para finalizar, devemos dizer que, a partir do século passado, a imigração
judaica ao Brasil aumentaria significativamente e o estudo de sua participação na economia
e sociedade brasileiras em geral, e na paulista em particular, permanece como um
verdadeiro desafio aos cientistas pela sua extensão e importância.
58

7. Algumas questões concernentes à metodologia na pesquisa da história moderna dos


judeus e o conhecimento de suas fontes

Ao avaliarmos a bibliografia143 existente sobre a história dos judeus no Brasil,


salta à vista, de imediato, o fato de que boa parte da mesma concentra-se no estudo do
período colonial. Nesse sentido, podemos afirmar que a história dos judeus no Brasil, a
partir do período imperial até os nossos dias, está por ser feita e que pouco conhecimento
temos da formação recente das comunidades existentes atualmente, com a exceção de
poucos trabalhos de real valor escritos nas últimas décadas. 144
Se, para o período colonial, o pesquisador da história dos judeus no Brasil
encontra as fontes que lhe interessam, em sua maior parte em arquivos europeus
conhecidos, mais especificamente os de Portugal e Holanda, no caso da história recente dos
judeus não encontramos arquivos organizados contendo o material específico vinculado a
esse período.
Ao contrário do que se passou na Argentina, onde o famoso YWO (Instituto
Científico Judaico145) organizou há muitos anos uma seção local que reuniu o acervo
valioso relativo à historia recente dos judeus na Argentina, no Brasil chegou-se só
recentemente a organizar um Arquivo Judaico, com a preocupação de reunir e preservar as
fontes ligadas à história dos judeus no Brasil.146 Nesse sentido, estamos apenas dando os
primeiros passos e, neste ínterim, o pesquisador interessado na área deve, em boa parte,
abrir seu caminho pessoal de acesso às fontes.

143
V. Margulies, M. – Iudaica Brasiliensis, Ed. Documentário, Rio de Janeiro, 1974. A Iudaica Brasiliensis
teve continuidade graças a dedicação de Hugo Schlesinger que durante muitos anos compilou os títulos
relativos à judeus e judaismo publicados em nosso país sendo a última edição datada de 1992. Antecedeu a
essa bibliografia a de Basseches, B., Bibliografia das Fontes de História dos Judeus no Brasil, Rio de Janeiro,
1961. Basseches começara o seu trabalho ainda em 1957, quando publicou em 19 de setembro daquele ano na
revista Aonde Vamos? o seu Achegas para uma bibliografia da História dos Judeus no Brasil.
144
Primeiro a se preocupar com a história mais recente ou moderna dos judeus no Brasil foi o historiador
Jacob Nachbin, que permaneceu até agora desconhecido devido ao fato de ter publicado seus trabalhos em
ídiche. Em seguida o trabalho de Loewenstamm, K., Vultos Judaicos no Brasil, Vol. II, Ed. Monte Scopus,
Rio de Janeiro, 1956, o de Lipiner, E., A Nova Imigração Judaica no Brasil, in Breve História dos Judeus no
Brasil, Ed. Biblos, Rio de Janeiro, 1962, e ultimamente o de Egon e Frieda Wolff, Judeus no Brasil Imperial,
Centro de Estudos Judaicos da USP, São Paulo, 1975, além de outros. Raizman, I., que havia publicado uma
História dos Israelitas no Brasil, São Paulo, 1937 , publicada antes em ídiche em 1935, dedicado ao período
colonial, extremamente pobre e pouco fundamentado, daria uma contribuição importante ao publicar o seu A
fertl yohrhundert ídische presse in Brazil (Um quarto de século de imprensa judaica no Brasil) ed. Muzeum
le-Omanut ha-Dfus, Safed, 1968. Também o seu livro Iidische sheferishkeit in portugalischen loschen
(Criatividade judaica em língua portuguesa), Safed, 1975, apresentaria um material interessante sobre a
imigração contemporânea referente a sua criatividade literária.
145
YWO (Idischer Wissenschaftlecher Institut) foi criado em Berlim em 1925, instalando-se em Vilna, na
Lituânia, onde desenvolveu uma atividade científica ímpar no ambito da cultura ídiche. Com a Segunda
Guerra Mundial, o instituto transferiu-se para os Estados Unidos, estando sediada em Nova York.
146
Trata-se do Arquivo Histórico Judaico Brasileiro, criado em dezembro de 1976.
59

O problema torna-se mais complexo quando constatamos que grande parte das
fontes necessárias ao historiador, além de raras e dispersas, encontram-se escritas em ídiche
e, às vezes, até mesmo em hebraico, quando não em outras línguas pouco estudadas entre
nós e que exigem um aprendizado especial por parte do historiador.
Desde já, devemos observar que a história recente ou moderna dos judeus no
Brasil nada tem em comum com o período colonial, pois os cristãos-novos, assim como os
judeus sob o domínio holandês com a restauração do poder português, a partir de 1654 147,
não deixaram comunidades organizadas que as novas ondas imigratórias, a partir de 1808,
pudessem receber e lhes dar continuidade. O fenômeno de criptojudaísmo continuou
existindo, sem dúvida, após o século XVII e se manifestou no século XVIII em nosso
território, como podemos constatar pelos processos inquisitoriais portugueses. Mas os
cristãos-novos, ou criptojudeus, não legaram absolutamente nada aos judeus que
começaram a vir a partir do século XIX, mesmo porque não teriam nenhuma possibilidade
histórica de fazê-lo. Daí encontrarmos um largo hiato histórico entre os dois períodos e
nenhuma ponte de contato entre eles, sob esse aspecto. Destarte, a hipótese de certos
historiadores, da reconversão de cristãos-novos por ocasião da Independência do domínio
português, ainda está por ser demonstrada e não encontra nenhum apoio em qualquer
documento da época ou posteriormente, limitando-se o fato à imaginação de seus
autores.148
Importante chamarmos a atenção que para o estudo da imigração
contemporânea e suas etapas de desenvolvimento, passa a ser muito útil ao pesquisador
brasileiro consultar o Arquivo do YWO em Nova York, o qual reúne fontes sobre o
judaísmo brasileiro, assim como o Arquivo Sionista (Archion-Ha-Tzioni) e o Arquivo para
a História do Povo Judeu (Archion le-Toldot Am Israel), ambos em Jerusalém.
Entretanto, se os arquivos mencionados acima tratam especificamente da
documentação judaica, nada impede ao pesquisador encontrar fontes muito úteis e
importantes em arquivos gerais, dependendo do problema que se quer pesquisar, e em
especial, quando se trata de questões que se referem à esfera das relações dos judeus com a
sociedade mais ampla ou com instituições não-judaicas. Assim, por exemplo, pode-se
encontrar muito mais fontes a respeito do anti-semitismo nos arquivos gerais do que
propriamente nos arquivos judaicos. É suficiente que lembremos o simples fato de que o
número de periódicos em Língua Portuguesa publicados desde o século passado e que
fazem referência aos judeus é incomparavelmente maior do que o de jornais judaicos
publicados no Brasil (em língua ídiche ou em português) a partir de 1915, ano em que foi
publicado o primeiro periódico judaico em Porto Alegre.149 A verdade é que esses jornais e
periódicos, até agora, não foram devidamente utilizados, ainda que constituam um
manancial inesgotável a ser explorado para o estudo da história dos judeus no Brasil. Os
jornais em ídiche da década de 20 e 30, assim como os de língua portuguesa, são raros ,
147
Sobre o período em questão vide Wiznitzer, A. – Os Judeus no Brasil Colonial, Liv. e Ed. Pioneira &
Universidade de São Paulo, 1966.
148
Entre eles, Cecil Roth, que na Standard Jewish Encyclopaedia, pp. 352-3, escreve que, “em 1822, com a
Proclamação da Independência do Brasil, alguns marranos se reconverteram para o judaísmo...”; não sabemos
em que se fundamenta para fazer tal afirmação.
149
Denominado “Di Menscheit” (A Humanidade).
60

pois ninguém se preocupou em colecioná-los. Vários fatores contribuíram para isso. Entre
eles, podemos mencionar a falta de preparo da comunidade judaico-brasileira,relativamente
nova e formada, em sua maioria, de imigrantes recém-chegados ao país, preocupados
essencialmente com seu sustento e sobrevivência centrada inicialmente na criação de
instituições de auxílio aos recém-chegados.150 Não havia ainda suficiente longitude
histórica para valorizar a documentação ligada à vida comunitária, o que explica a perda
irreparável de material histórico de incalculável importância.151
Um relato ilustrativo de causas que levaram à destruição de documentação foi
o que ouvimos de certo morador de Recife. Por ocasião da Segunda Guerra Mundial,
quando se pensava que as forças alemãs, vitoriosas no Norte da África, poderiam chegar ao
Norte do Brasil com muita facilidade, fez com que tal ameaça levasse a comunidade
judaica local a destruir todos os seus arquivos institucionais. Algo semelhante ocorreu
durante o governo de Getúlio Vargas, cuja posição xenófoba nesse período acarretou a
proibição da publicação de jornais em ídiche e criou certos receios quanto à manutenção de
documentação em língua estrangeira, o que levou, em parte, à destruição da mesma.152
Mas, outros fatores juntam-se ao que lembramos tais como a incúria de
secretários e diretores de instituições que jogaram fora material por ser apenas “papel
velho” e “ocupar espaço nos arquivos”, ou ainda calamidades inesperadas, tais como um
incêndio ou a interdição de prédios antigos que ao desabarem- como ocorreu no rio de
Janeiro- acabam soterrando arquivos institucionais comunitários, sem mencionar as perdas
resultantes de mudanças de sedes ou escritórios de entidades de um prédio para outro,
ocasião em que “não se perde tempo em transferir coisas sem valor”.
Resta saber ainda que, hoje em dia, uma nova ameaça à documentação em
língua ídiche advém do fato de que a nova geração nascida no Brasil não fala e nem lê a
língua de seus pais e avós e, portanto, em conseqüência de falecimentos, a tendência natural
é de se desfazer de coleções e bibliotecas particulares, que nem sempre são doadas a
instituições comunitárias para sua preservação. O mesmo pode ocorrer com os acervos de
certas entidades que encerraram suas atividades153 e não sabem o que fazer com seus
arquivos, pois o desenvolvimento sócio-econômico da comunidade fez com que
determinadas instituições se tornassem anacrônicas, acabando por desaparecer.154

150
Tais instituições foram criadas em São Paulo e no Rio de Janeiro e, em pequenas proporções, existiram em
outros núcleos comunitários judaicos no Brasil. Em São Paulo, em 1915, surgiu a Sociedade das Damas
Israelitas (OFIDAS) e, em 1916, a Ezra. No Rio de Janeiro, encontramos equivalentes aos mesmos propósitos
nas sociedades Relieff ou Hilfs Farein, que tiveram um papel primordial na ajuda aos imigrantes.
Infelizmente, até agora não se escreveu a história dessas instituições.
151
No Rio de Janeiro ocorreu o desabamento de um prédio onde se encontravam as sedes de várias entidades
da comunidade judia local, soterrando seus arquivos, que se perderam para sempre.
152
Em 18 de junho de 1939, o Ministério da Justiça baixou a portaria de n.º 2.277, exigindo que os jornais e
publicações em língua estrangeira publicassem sua matéria com a respectiva tradução em português, sendo
que, em 1941, ficou proibida a publicação de jornais em qualquer língua estrangeira.
153
É o caso dos “Landsmanschaften”, que congregavam os judeus oriundos de uma mesma cidade ou país.
Assim, tínhamos organizações de judeus da Bessarábia, da Polônia e outros lugares.
154
Como exemplo ilustrativo, podemos tomar a Cooperativa do Bom Retiro, em São Paulo, que foi criada em
1928.
61

Além dos arquivos gerais (federais, estaduais, municipais) e dos “acervos”


documentais comunitários (com as ressalvas feitas acima), devemos considerar a existência
de arquivos complementares importantes, tais como os da Polícia, da Alfândega, da
Imigração ou Registro de Estrangeiros e da Junta Comercial, cuja documentação mais
antiga se encontra no Arquivo Nacional do Rio de Janeiro. Por outro lado, os tabeliões e
cartórios civis constituem muitas vezes uma excelente fonte ao estudioso, principalmente
em cidades pequenas, onde o acesso a eles e a localização dos documentos registrados é
fácil.
Ainda em relação a jornais e periódicos, devemos lembrar que até agora não se
fez uma relação completa dos que foram publicados no Brasil e a importante obra de Isaac
Raizman “A fertel Iohrbundert idische presse in Brazil” (Um Quarto de Século de
Imprensa Judaica no Brasil) abrange apenas o período de 1915 a 1940, além de ser muito
incompleta, principalmente em relação aos jornais que foram publicados em português.
Seja como for, é a única no gênero relativa à imprensa judaica e serve de guia a quem
queira trabalhar com essas fontes.
O jornal judaico é rico em informações de toda ordem, pois espelha a vida da
comunidade sob todos os aspectos. Anúncios comerciais e profissionais, acontecimentos
sociais (noivados, casamentos, nascimentos, bar-mitzvot, aniversários), relatórios das
instituições comunitárias, eventos políticos, são normalmente noticiados, e não poucas
vezes encontramos elementos para a história de pequenas comunidades espalhadas pelo
interior do país, bem como para a história das comunidades de São Paulo, Rio de Janeiro,
Porto Alegre, Curitiba ou Recife. Além dos periódicos impressos ou autônomos, existiram
informativos vinculados a certas instituições, muitas vezes manuscritos ou mimeografados,
os quais servem de excelente material para o estudo de determinada entidade comunitária
pois ali encontramos particulares relativos às finanças, atividades culturais, comemorações
e personalidades centrais da instituição, seja ela uma sociedade beneficente, escola ou outra
instituição qualquer. Números comemorativos especiais foram publicados e constituem
pequenas histórias institucionais que, com o devido cuidado na seleção dos mesmos, podem
ajudar em muito aos pesquisadores e estudiosos. Ademais, podemos encontrar em jornais
de circulação nacional das décadas passadas, uma coluna ou seção dedicada à comunidade
israelita, como a do “Correio da Manhã” e outros.

No fundo, o método de pesquisa histórica tradicional obriga o historiador a


recorrer a essas fontes documentais que se encontram, por assim dizer, nos arquivos
convencionais acima citados. Mas, para o caso do estudo da história dos judeus, não é
suficiente percorrer os caminhos convencionais: por vezes, é necessário trilhar outros e até
mesmo improvisá-los, de certa forma. É o caso do método da entrevista gravada, adotado
na história oral, o qual penetrou pouco a pouco na metodologia da história contemporânea,
alcançando um nível elevado de desenvolvimento e sofisticação teórico-analítica para se
defrontar com os múltiplos e complexos aspectos da modernidade e da sociedade
contemporânea e seus eventos. Apesar das ressalvas que devem ser feitas e do cuidado
necessário na seleção dos dados resultantes de uma entrevista oral, em certos casos ela nos
fornece um material precioso e mesmo inédito, o qual, na medida em que for possível, deve
ser checado com a documentação existente ou outro tipo de fonte, vinculada direta ou
indiretamente com o assunto da pesquisa.
62

Ultimamente tem-se feito o levantamento dos cemitérios judeus espalhados no


Brasil, além das sepulturas de israelitas em cemitérios cristãos. Sabemos que a lápide
(“matzeivá”, em hebraico) contém dados informativos importantes sobre o indivíduo,
incluindo lugar de origem (país, cidade) e lugar de falecimento, e algumas vezes até a
profissão do falecido155, dados importantes para quem estuda a imigração judaica, sua
trajetória e seu estabelecimento em nosso território. A própria forma da lápide permite
diferenciar os judeus por sua origem sefaradita ou asquenazita156, assim como seus
símbolos distinguem um cohanita de um levita, supostamente descendentes da classe
sacerdotal e dos servidores do Templo de Jerusalém etc. Os dados contidos na lápide
ultrapassam muitas vezes o limite de uma informação individual, pois ela, freqüentemente,
serve para determinar ou confirmar um fenômeno coletivo ou global. Normalmente, no
Brasil, seja em cemitérios israelitas, seja em sepulturas em cemitérios cristãos, as lápides
contêm inscrições em hebraico e em português, não se restringindo somente a essas duas
línguas, pois as há também em ídiche ou, em francês 157, alemão158 e ladino.159 Daí a
necessidade do conhecimento do hebraico para quem trabalha no campo, ainda que seja
possível fazer um trabalho parcial apenas com o conhecimento do português e das línguas
europeias. Certas fórmulas tradicionais são usadas nas inscrições em hebraico, bem como
certas abreviaturas que vêm no final das inscrições das lápides. O estudo da fixação dos
judeus no interior de São Paulo e de outros Estados, em cidades onde não tinham
cemitérios, é facilitado pelo fato da lápide indicar o lugar de falecimento
independentemente do lugar em que se é sepultado. Como nas cidades interioranas não
havia cemitérios judeus, a não ser nas mais importantes,160 os judeus foram enterrados, em
sua maioria, nos cemitérios das capitais.
Apesar de tudo, quando pesquisamos, temos que contar com surpresas
inesperadas em “coleções” de papéis particulares, sobretudo naquelas pertencentes a
personalidades que tiveram um papel destacado na vida comunitária e nas suas instituições,
e que por esse mesmo motivo procuraram guardar documentos relativos à sua atuação e à
função que exerceram. É o caso de presidentes de sociedades, escritores ou rabinos, que
podem possuir documentos de valor histórico que ultrapassam os limites do judaísmo local.

155
A identificação torna-se possível pelos símbolos adotados para denotar a profissão do falecido, os quais
vêm esculpidos na própria lápide.
156
Os sefaraditas usam comumente a lápide horizontal e os asquenazitas a lápide vertical. O símbolo do
“cohen” (judeu da antiga linhagem sacerdotal) é o das mãos explanadas postas lado a lado, e o do levita
(descendente da tribo de Levi) é o jarro d’água.
157
As lápides dos judeus da imigração alsaciana têm inscrições em Francês, além do Hebraico.
158
As lápides dos judeus emigrados dos países da Europa Central costumam ter inscrições em língua alemã.
159
. O ladino é usado nas inscrições dos judeus sefaraditas, tais como os oriundos da África do Norte, como se
pode verificar nas lápides dos cemitérios judeus de Belém do Pará ou de Manaus, no Amazonas, onde essa
corrente imigratória se concentrou a partir do século XIX.
160
A guisa de exemplo temos as cidades de Franca e Campinas, no Estado de São Paulo, que podiam
construir e manter um cemitério judeu devido ao número de membros da comunidade judia local, além de
serem comunidades antigas.
63

Um exemplo ilustrativo do que estamos afirmando é a correspondência do Prof.David José


Perez, que se destacou como intelectual de projeção e respeitado na sociedade mais ampla .
Foi durante muitos anos um verdadeiro guia espiritual do judaismo brasileiro. 161 Há casos
em que personalidades importantes tiveram o bom hábito de escrever suas memórias, nas
quais revelam sua atividade pública e comunitária. Ainda que o material registrado nas
memórias tende a dar uma visão excessivamente subjetiva dos acontecimentos, temos, por
outro lado, uma descrição de detalhes e ações que retratam a atmosfera particular que os
envolve, a qual os documentos oficiais não apresentam devido ao sua própria natureza. Isso
se verifica quando lemos o livro de memórias do Rabino-Mor do Rio de Janeiro na década
de 20 e 30, Isaías Raffalovitch, que marcou um capítulo importante na vida comunitária
judaico-brasileira daquele tempo162, ou ainda os apontamentos das memórias de Jacob
Schneider, que fundou várias instituições comunitárias no Rio de Janeiro.163 No campo da
história cultural, certos livros de memórias organizados e publicados com uma intenção
didática em base da vivência particular de um ator ou de um teatrólogo, constituem
verdadeiros depoimentos sobre a vida cultural de determinadas instituições comunitárias e
dos judeus no Brasil. Um exemplo nesse sentido constitui a obra do ator e teatrólogo judeu
que viveu durante certo tempo no Recife e Rio de Janeiro, o notável Zygmunt Turkow.164
Do mesmo modo que reconhecemos a importância dos diários ou livros de viagens para o
conhecimento da história do Brasil, desde o período colonial, também na história dos
judeus temos uma importante literatura desse gênero, que possui, às vezes, um caráter não
somente descritivo, mas se detém em análises e avaliações de situações particulares e de
retratos psicológicos de personalidades importantes, registrando com cores variadas
homens e coisas. Boa parte desses viajantes são intelectuais, escritores ou literatos,
jornalistas e homens públicos do Velho Continente ou da América do Norte e outros
lugares, por vezes convidados e recebidos pelas comunidades e se detêm, durante certo
tempo, como hóspedes, para uma programação de caráter cultural ou de outra natureza
qualquer.
Esses viajantes, que lembram o incansável itinerante Benjamin de Tudela do
século XII, são excelentes observadores, que tomam conhecimento das coisas através do
contato direto com as questões e a vida dos judeus nos lugares que visitam, caracterizando
e comparando seus costumes e tradições locais sob uma visão de mundo , que transcende o
olhar limitado da própria comunidade. Essas impressões de viagens publicadas em forma
de livros ou artigos de imprensa em seus respectivos países, constitui material informativo
importante. Se fizermos um levantamento das personalidades que passaram por aqui, desde
os primeiros anos do século XX, ficaremos surpresos pelo número de jornalistas, artistas,
atores e diretores de teatro, poetas e escritores, cientistas, ativistas e diretores de entidades
internacionais, pensadores e representantes de correntes políticas de renome no mundo
161
O Prof. David José Perez, nascido no Brasil, era descendente de uma família de imigrantes de Tanger na
África do Norte
162
O livro de memórias do rabino I. Raffalovitch foi publicado em hebraico com o título “Tzíunim ve
Tamrurim” (Pontos e Sinais), em 1952, Tel-Aviv, Israel.
163
Jacob Schneider imigrou em 1903, e se destacou na criação de instituições importantes na comunidade do
Rio de Janeiro tendo desempenhado um papel primordial na organização do movimento sionista no Brasil.
164
Zygmunt Turkow, dedica sua obra “Schmusen vegn Theater” (Conversações sobre teatro), Ed. Unzer
Buch, B. Aires, 1950, ao grupo teatral com o qual conviveu no Brasil.
64

judaico, que de uma forma ou outra deixaram suas marcas na memória coletiva das
comunidades que visitaram, seja através de conferências ou outro modo de participação na
vida social e cultural local. A propósito, e em relação à história cultural, boa parte dos seus
rastros poderá ser seguida através das circulares, volantes e cartazes que divulgavam a
atividade de grupos teatrais e atores, conferencistas e músicos vindos de todas as partes do
mundo. Hoje, essa documentação é rara, pois poucos se preocuparam em colecioná-la;
contudo, ainda podemos encontrá-lo sob a forma de anúncios no jornais israelitas,
acompanhados freqüentemente de fotos dos atores, conferencistas ou músicos.
A partir da década de 20 surgiu uma literatura em língua ídiche que tinha como
tema central o encontro do imigrante com a terra brasileira e os conflitos individuais
decorrentes do processo de aculturação a uma nova sociedade. A bela natureza tropical, o
sol intenso e abrasador, a cidade grande, as cores e a multiplicidade de tipos humanos
foram motivo de deslumbramento do imigrante europeu, e ele expressou, em poesia e prosa
seus sentimentos e impressões na língua que lhe era familiar. Esse novo mundo que lhe
parecia encantado em comparação com seu lugar de origem o fazia esquecer as lembranças
amargas relativas à sua condição judaica daqueles países nos quais o anti-semitismo era
presente no seu cotidiano. Mas, a mesma literatura revela profunda solidão e o
desarraigamento do recém-chegado, assim como os esforços sobre-humanos para superar a
nostalgia motivada pela saudade do lar e dos familiares, pela quebra dos padrões
tradicionais e a incorporação de novos, a árdua luta pela sobrevivência em terra estranha, e
assim por diante.165 Assim sendo, apesar de se tratar de pura literatura ou ficção, ela não
deixa de ser uma fonte histórica que ajuda o pesquisador a desenhar contornos mais
precisos em relação a certos aspectos da vida do imigrante. Tal literatura não foi reunida e
nem sequer foi seriamente estudada pelo ângulo que apresentamos acima.166
A existência do Arquivo Histórico Judaico Brasileiro fez com que indivíduos e
instituições começassem a fazer doações; amiúde, em decorrência da iniciativa da equipe
responsável, foram localizados acervos importantes para a história dos judeus no Brasil,
entre os quais encontramos apenas a título de ilustração, os seguintes:
a) coleção de documentos relativos a Jewish Colonization Association
(J.C.A.), que constituiu o arquivo dessa instituição no Brasil, tendo sido
doado ao Arquivo Histórico Judaico Brasileiro por resolução oficial da
central da organização em Londres. Os primeiros documentos datam de
1904.
b) coleção da Cooperativa Israelita do Bom Retiro, que reúne livros dos
sócios desde 1928 até sua extinção; livros de protocolos, fichas de
sócios, livros de contabilidade, etc.
165
O primeiro autor que publicou um livro sobre essa temática foi Aldolfo Kichinovski, cuja obra “Naie
Heimen” (Novos Lares) saiu a lume em 1932, no Rio de Janeiro.
166
A primeira coletânea, ainda que incompleta, foi reunida e publicada em 1956 com o título
de “Unzer Beitrag” (Nossa contribuição), no Rio de Janeiro. Em 1973, foi publicada na Argentina uma nova
coletânea sob o título “Brasilianisch” (Brasileiro), como parte da grande coleção de literatura ídiche no
mundo e na América Latina que vinha sendo editada pelo Ateneu Literário do Instituto Científico Judaico, em
Buenos Aires, sob a responsabilidade do falecido Samuel Rollansky. Mais recentemente Jacó Guinsburg, em
sua obra “Aventuras de uma língua errante”, ed. Perspectiva, São Paulo, 1996, publicou uma listagem da
produção literária em língua ídiche no Brasil cedida por mim ao seu autor. A minha intenção na coleta desse
material foi a de reunir tudo o que se produziu no âmbito da literatura do imigrante de língua ídiche em nosso
país.
65

c) coleção de documentos de escolas israelitas de Santos e Sorocaba, bem


como da Escola Luís Fleitlich e da Escola Theodor Herzl, ambas de São
Paulo.
d) coleção de documentos da Associação dos Israelitas Poloneses de São
Paulo.
e) coleção de documentos OFIDAS-Ezra, sociedades de beneficência dos
israelitas de São Paulo.
f) coleções particulares: Dr. Alfredo Hirschberg167; Meyer Kucinski168 e
outras menores.

Além do mais, o Arquivo possui coleções de jornais e periódicos publicados


em língua ídiche e português, entre eles a revista “Aonde Vamos?”, que começou a ser
editada em 1943, no Rio de Janeiro e constitui uma fonte preciosa para o estudo da
comunidade judaica no Brasil.
A documentação do Arquivo, que com o passar do tempo enriqueceu-se com
um número considerável de fundos provenientes de outros Estados, estimulou a pesquisa da
história mais recente dos judeus em nosso território, e atualmente estão sendo elaboradas
teses sobre as diversas ondas imigratórias, a começar da marroquina ou norte-africana no
Pará e no Amazonas, e a imigração alsaciana no século passado. No entanto, resta ainda
muito a fazer nessa área de estudo e, à guisa de sugestão para futuros trabalhos e pesquisas,
antes de finalizar, aproveitamos a oportunidade para propor alguns temas que devem
merecer a atenção dos nossos estudiosos e historiadores para trabalhos ou monografias:
1) a história da imprensa judaica no Brasil, podendo ser estudada em separado a de
língua portuguesa e a em ídiche.
2) A história dos “landsmanschaften” (associações de imigrantes oriundos de um
mesmo lugar, cidade ou país). Tal pesquisa pode ser feita em separado nas diversas
cidades ou comunidades brasileiras.
3) história das sociedades de beneficência social e de ajuda aos imigrantes.
4) A história das comunidades israelitas interioranas, de cidades grandes e pequenas
nos vários estados.
5) israelitas e sua contribuição nos vários aspectos da vida brasileira (econômico,
científico, artístico-cultural, etc).
Parte dessas sugestões já foram aceitas e encaminhadas como projetos pessoais de pesquisa
de parte de estudantes interessados em desenvolver teses acadêmicas sobre tais temas.

167
Dr. Alfredo Hirschberg foi um destacado intelectual e ativista dos mais importantes da comunidade
israelita de São Paulo. Durante muitos anos foi editor da Crônica Israelita e participou na criação do Centro de
Estudos Judaicos da Universidade de São Paulo.
168
Meyer Kucinski foi considerado um dos escritores mais representativos da língua ídiche no Brasil, e uma
de suas obras, “Zishe Breitbart” foi premiada nos Estados Unidos. Dirigiu, durante muitos anos, a seção
brasileira da YWO em São Paulo e reuniu ao redor de si um grupo de idichistas que contribuíram para a
difusão da cultura judaica européia em nosso solo.
66

8. O Marquês de Pombal e a Inquisição

Há 200 anos, Sebastião José de Carvalho e Melo, mais conhecido como


Marquês de Pombal, morria dramaticamente, após exercer cerca de duas décadas e meia de
verdadeiro poder absoluto, durante o reinado de d. José I, Rei de Portugal. Seu nome está
ligado à história dos judeus da Península Ibérica por ter dado “o golpe de misericórdia” na
ação da Inquisição portuguesa, eliminando as barreiras que diferenciavam socialmente
cristãos-velhos dos cristãos-novos.
A Inquisição, apesar de ter sido estabelecida pela Monarquia portuguesa
visando fins políticos atinentes aos interesses do Estado, nem sempre esteve em inteira
harmonia com ele, chegando mesmo a chocar-se com a instituição temporal. Desse modo,
podemos compreender a ação do Marquês de Pombal ao afirmar a soberania e a
subordinação do poder espiritual à Monarquia, procurando fortalecer o poder absoluto da
realeza. O Marquês já havia demolido, com esse fito, a Companhia de Jesus, e agora
voltava-se para a instituição inquisitorial, que voava com asas bem abertas sobre o Império
Português sem que nada a detivesse em suas arbitrariedades e desmandos.
Antes de Pombal, vozes importantes haviam levantado a questão, e muito antes
do vigoroso estadista , a veemência do Padre Antônio Vieira voltou-se contra a Inquisição e
seu obscurantismo que prejudicava os interesse da Monarquia, desprestigiando-a perante as
nações esclarecidas do continente europeu. Vieira não foi o único nem seria o último, pois a
Europa do século XVIII começava a olhar para o seu passado medieval e suas instituições
com uma demolidora visão crítica. Tal atitude era fruto do racionalismo que despertava e
não perdoava a existência de um Santo Ofício, castradora de mentes e fechada a novas
concepções e idéias.
A imprensa que se difundia como veículo primordial de comunicação, como
bem lembra Lúcio de Azevedo, 169 passava a ser a inimiga terrível da Inquisição e dos
inquisidores. A divulgação dos execráveis espetáculos dos autos-de-fé e das perseguições
“religiosas” chocava profundamente a maioria das nações do continente, que procuravam se
apresentar como abertas ao Iluminismo, que despontara na sociedade européia. As
descrições sobre as perseguições foram cada vez mais sendo difundidas entre as nações e
as comunidades judaicas da Europa, e, em particular, na Holanda, Itália e Inglaterra onde
várias publicações saíram à luz relatando o que se passava na Península Ibérica . Na
Inglaterra divulgou-se, em 1722, a obra do judeu italiano David Neto, intitulada “Notícias
Recônditas e Póstumas do Procedimento das Inquisições de Espanha e Portugal com Seus
Presos”.170
Mas não somente autores judeus se ocuparam em difundir e criticar a nefasta
ação da instituição. Pensadores como Montesquieu,171 Voltaire172 e outros não a pouparam,
pois sua existência feria os ideais que tanto pregavam. A presença do Santo Ofício na

169
Azevedo, J. Lúcio, “História dos Cristãos Novos Portugueses”, Lisboa, 1975, p. 346.
170
Veja-se sobre ele em Kayserling, M., Biblioteca Española-Portugueza-Judaica, New York, 1971, pp. 98-
100.
171
No “Espírito das Leis”.
172
No “Cândido”.
67

Península Ibérica contrastava com as aspirações espirituais que surgiam no Velho


Continente.

POLÍTICA DEMOLIDORA

Contudo, não queremos crer que o duro e inflexível estadista tenha se guiado
por essas razões para dar início a sua política demolidora em relação ao Santo Ofício.
Razões outras o moveram a tal atitude, e, acima de tudo, as de ordem utilitária. É sabido
que sua posição perante a Inquisição era, em parte, de reconhecimento pelos serviços
prestados à religião, pois ele mesmo foi familiar do Santo Ofício, além de católico imbuído
de profunda religiosidade. Em edital da Mesa Sensória, de 12 de dezembro de 1769,
portanto, no período de sua administração, lêem-se palavras de elogio ao papel
desempenhado pela instituição inquisitorial: “Não havendo, entre todos os estabelecimentos
humanos, estabelecimento algum que tanto possa contribuir, e tenha efetivamente
contribuído, para defender e conservar ilibado, em toda a sua pureza, o sagrado depósito da
Fé e da Moral, que Cristo Nosso Redentor confiou a sua Igreja (...) É notório que os
apóstatas, e os demais réus de crimes capitais, em nenhum país são tratados com igual
benignidade depois de convencidos (...)”.173
O estudo da administração pombalina permite confirmar o quanto o marquês
soube usar a Inquisição em benefício de sua política e a do Estado. O caso mais ilustrativo é
o da luta que encetou contra a Companhia de Jesus, até que pôde levá-la à extinção em todo
o reino português, e que, na verdade, decorria do fato de os filhos de Ignácio de Loyola
constituírem um obstáculo a sua ação de estadista. Senão, vejamos o que ocorreu.
Em 1750, foi assinado o Tratado de Madrid entre Portugal e Espanha, no qual
se estabelecia a divisão política dos territórios descobertos e colonizados por ambos os
reinos. Pombal passou, de imediato, à execução de uma política para cumprir as cláusulas
do tratado e assegurar os interesses portugueses decorrentes do mesmo, e que, no julgar do
estadista, eram favorecidos pelo acordo. Nesse sentido, ele havia designado duas comissões
portuguesas para a demarcação das fronteiras, ficando a do Sul a cargo de Gomes Freire de
Andrade, futuro marquês de Bobadela, e a do Norte entregue a seu irmão, Francisco Xavier
de Mendonça Furtado, que tinha sido nomeado capitão-general do Grão-Pará. As instruções
recebidas por Mendonça Furtado incluíam dispositivos tendentes a assegurar a liberdade
absoluta dos índios e limitação do poder temporal dos missionários.
Essa orientação, de todo modo, deveria permanecer secreta, incluindo, também,
idêntica política em relação ao governo do Maranhão, que na época já se encontrava
subordinado ao governador-geral do Grão-Pará. Formou-se, com esse fim, a Companhia de
Comércio do Grão-Pará e Maranhão, legalizada por decreto de 6 de junho de 1755, sendo
que a política pombalina em relação ao Norte do Brasil se concentrou em três aspectos
principais: 1.º) Atuação da Companhia; 2.º) Secularização da Administração dos Índios;
3.º) Liberdade dos Silvícolas.1746
Uma vez estabelecida a Companhia de Comércio, foi lhe atribuído o monopólio
da navegação, do comércio exterior e do tráfico de escravos no Pará e no Maranhão, e, em
seguida, tomaram-se as providências para se fazer um levantamento das atividades

173
apud Lúcio de Azevedo, op. cit., p. 347.
174
Simonsen, Roberto C., “História Econômica do Brasil (1500-1820)”, São Paulo, 1967, pp. 333-341.
68

missionárias naquela região. Já em 1757, colocava-se em execução a política de liberdade


dos indígenas e a eliminação do poder temporal dos missionários que reagiram contra a
orientação impressa pelo marquês. Pombal não era homem de se intimidar diante de tais
obstáculos, e com seu reconhecido gênio truculento, começou a passar a corda ao redor do
pescoço dos jesuítas, a começar pela supressão de suas côngruas da Fazenda Real, em
1758, e o início de sua expulsão dos territórios das missões, a partir de novembro de 1759,
quando foram embarcados ao reino dez jesuítas e seis missionários de outras ordens
religiosas, exilados por terem infringido as ordens do governador. A dureza de seu caráter
revelou-se no seu castigo imposto às vítimas, pois foram encerradas, durante dezoito anos,
até sua libertação, em 1777, quando ascendeu ao trono de Portugal d. Maria I. O Papa
Benedito XIV deu apoio a Pombal, e em abril de 1758, sob influência das circunstâncias,
expediu breve comunicado, reformando a ordem e indicando o Cardeal Saldanha como
reformador em Portugal. Este, por seu lado, não relutou em executar, com fidelidade, a
orientação que recebera de Roma.

O CASO MALAGRIDA

Sistematicamente, desmantelava-se a Ordem jesuítica e não se escolhiam os


meios para tanto, e, mesmo quando necessário, o futuro cerceador da atividade inquisitorial
se utilizava do Santo Ofício ao lhe denunciar o obstinado jesuíta Malagrida, em 1760. No
fundo, quando se tratava da supremacia do poder real frente ao poder eclesiástico, velha
disputa que remontava aos primórdios da Idade Média cristã, o marquês não deixava
margem a dúvidas.
No mesmo ano do affaire Malagrida, ou seja, em 1760, uma nau da Companhia
do Comércio, “Nossa Senhora de Arrábida”, levaria a Portugal 126 jesuítas que ainda se
encontravam no Maranhão, e eram colocados em vários cárceres, logo que aportaram em
Lisboa. Não foi essa única nau que trouxe os jesuítas como prisioneiros, pois em todas as
colônias marítimas portuguesas os inacianos foram perseguidos e sofreram as
conseqüências da determinação ferrenha do ministro do rei D. José.175
Mas o climax da destruição da Companhia de Jesus – e o marquês desejava,
politicamente, criar um símbolo – se atingiu no processo aberto contra o jesuíta Gabriel
Malagrida. Homem chegado à Corte e possuidor de grande prestígio popular devido ao fato
de ser considerado vidente e fazedor de milagres, além de se mostrar como religioso de
ascetismo extremado, Malagrida seria o alvo ideal para os propósitos políticos do marquês
de Pombal. O processo movido contra o jesuíta, no fundo, derivava do ódio pessoal do
marquês contra aquele que, durante o terremoto de Lisboa, em 1755, pregara ao povo e
escrevera num opúsculo, “O Juízo da Verdadeira Causa do Terremoto”, que era um castigo
pelos pecados humanos, e, portanto, feria frontalmente o desejo de extirpar as superstições
e o obscurantismo que, no pensar do ministro era um dos grandes males de Portugal. E o
despotismo esclarecido do ministro estava disposto a empregar todos os meios para
eliminar a influência clerical no reino, ponto importante de seus projetos de reforma, como
podemos constatar em toda a extensão de sua política administrativa, no que tange à
educação e ao sistema de ensino de Portugal, campo no qual o ministro provocou

175
Cheke, Marcus, “O Ditador de Portugal – Marquês de Pombal”, Lisboa, 1946, p. 166.
69

modificações profundas, a ponto de se poder dizer que, sob esse aspecto, ele iniciou nova
etapa da vida da nação portuguesa.176
O processo de Malagrida, que se deu após seu aprisionamento, juntamente com
os demais jesuítas, e que se fundamentou juridicamente numa correspondência apreendida e
bastante comprometedora incluindo-se um escrito de exaltação mística, elaborado pelo
“santo” durante o período em que ficou confinado e cujo título era “Vida de Santa Ana”, foi
levado adiante, nada mais nada menos do que pelo Santo Ofício, ou seja, por uma
instituição da própria Igreja, que deveria condená-lo não somente como criminoso, mas
como herege. Por outro lado, como em todos os cargos estatais importantes, também nos
cargos eclesiásticos o marquês tratara de impor seus parentes e achegados, para assegurar
seu domínio absoluto, e, portanto, à testa da Inquisição encontrava-se seu irmão, Paulo de
Carvalho, assegurando, desse modo, a condenação do jesuíta Malagrida. Essa política anti-
jesuítica não cessou e, em 29 de março de 1765, como nos refere Baião: “Houve um
momento em que, de parceria com o sábio d. Francisco Manuel do Cenáculo, fizeram (o
marquês de Pombal e o citado) uma denúncia ao Santo Ofício”. O caso parece ter sido
pouco importante, pois, segundo nosso autor, não teve seguimento, “bem ao contrário do
papel tristemente feroz que havia assumido, em 1760, quando, rancorosamente, denunciou
o célebre jesuíta Malagrida, onde, porém, foi figura primordial e nos aparece com aquela
energia indomável, tanto de seu feitio”.177
A ironia histórica está no fato de que a Inquisição era manipulada pelo ministro
do rei de Portugal para condenar um jesuíta considerado herético, quando, na verdade, era
filho fidelíssimo da Igreja. Por outro lado, é sabido que a política pombalina em relação aos
jesuítas culminaria numa desagregação das missões religiosas e de seu trabalho secular
exercido com os indígenas no Brasil, assim como em outros lugares, pois ficariam expostos
às ambições dos colonizadores e sem a devida proteção social que a organização dos
inacianos assegurava, em seu trabalho de catequese. E o próprio papa Clemente XIV, pelo
breve de 1773, aboliria temporariamente a Ordem.

REFORMAS LIBERAIS

Após a eliminação de seus oponentes políticos dentre a nobreza, que levou à


cruel execução dos Távoras e os que eram relacionados a eles, bem como à expulsão dos
jesuítas do Império Português, Pombal passaria a executar uma série de reformas liberais,
que o levariam a alterar o poder da Inquisição. Entre essas reformas encontra-se a
decretação de que os escravos que entrassem em Portugal ou em território português
ficariam livres, incluindo, entre eles, os filhos de escravos que viviam então em solo
lusitano. Na mesma linha política, proibiu o casamento entre as famílias fidalgas
portuguesas, que se autodenominavam “puritanas” e que tinham por hábito casarem-se
entre si. Também preocupou-se em alterar a dolorosa situação social das viúvas, proibindo-
as de se enclausurar devido à morte dos maridos, uma vez que a sociedade portuguesa as
via de maneira preconceituosa.

176
A coletânea sob o título “Documentos da Reforma Pombalina”, publicada por M. Lopes d’Almeida, vol. I
(1772-1782), Coimbra, 1937, revela em detalhes a política de reforma educacional inspirada por Pombal.
177
Baião, A., “Episódios Dramáticos da Inquisição Portuguesa”, vol. 3, Várias, Lisboa, 1938, pp. 7-39.
70

Para a consecução de seus objetivos políticos em relação ao Santo Ofício, ele


criaria, em 1768, a Real Mesa Censória, que passaria a ser um tribunal secular, com plenos
poderes para autorizar e proibir a circulação de livros importados ou escritos em Portugal,
substituindo, assim, a censura outrora desempenhada pela Inquisição. Mesmo assim,
Pombal nem sempre foi coerente, ou melhor, inteiramente liberal em relação ao arejamento
intelectual a que se propunha, pois, se de um lado a Mesa Censória autorizou muitas obras
que se encontravam no “Index Expurgatorum” e se permitiu a leitura de Voltaire, e dos
Enciclopedistas, introduzindo-se, assim, o criticismo às instituições tradicionais, tão
corrente na época, por outro lado deparava-se com leis como a de 12 de dezembro de 1769,
em que se proibia a leitura de Bayle, Rousseau e La Metrie, “por serem iníquos e capazes
de seduzir e corromper não só a mocidade, mas os espíritos fracos e superficiais, inclinados
à novidade”.178 Mas não resta a menor dúvida de que a ele se deve a introdução de uma
literatura nova, e, por conseguinte, as novas concepções que abririam as portas do
Iluminismo a Portugal, até então estagnado culturalmente e socialmente orientado por um
espírito onde se associavam fanatismo, preconceito e modorra intelectual.
Em relação as cristãos-novos, seu primeiro passo – o de eliminar as diferenças
estabelecidas entre os conversos e seus descendentes e as consideradas famílias “puras” –
foi decisivo. Era, na verdade, acertar a luta contra o preconceito contra aqueles que
carregavam a pecha de suspeitos, mesmo que batizados há várias gerações, por terem
algum antepassado condenado pelos tribunais inquisitoriais. E num país, como diz o
escritor Latino Coelho em sua biografia sobre o marquês de Pombal, “onde, segundo
insuspeitas autoridades, entre elas Alexandre de Gusmão, a grande maioria dos habitantes
descendia de judeus, sem excetuar a própria dinastia de Bragança, a injuriosa distinção
entre os cristãos de raça pura e os de raça infecta era, nas mãos do obscuro fanatismo ou da
malquerença pessoal, um terrível instrumento de afronta e de vingança, como na época do
terror revolucionário, um meio funestíssimo de macular pessoas inofensivas e respeitáveis
com a tacha de suspeitas e indicadas à pública animadversão. Contra este abuso
escandaloso, arremate resoluto o legislador” 179. Assim, o alvará de 2 de maio de 1762
começará abolindo os róis das fintas dos cristãos-novos, que obrigavam aos descendentes
dos conversos a pagar tributos e donativos especiais e particulares, que não eram imputados
aos assim chamados cristãos-velhos. E, muitas vezes, não havia nenhum fundamento para
certas famílias estarem incluídas nas listas das fintas, uma vez que eram acusadas por
maledicência de falsários e denunciantes, assim como por aqueles que tinham o interesse de
diminuir a própria contribuição pela maior derrama de dinheiro e, ao mesmo tempo,
satisfazer seu maus sentimentos, aumentando o número dos que deviam carregar o signo
infamante de cristãos-novos. Em 1768, Pombal ordenou a destruição das cópias das
relações das fintas, apagando, desse modo, os vestígios formais que pesavam sobre pessoas
e famílias inteiras dos conversos, que viviam carregando uma velha e dolorosa mácula. O
zelo do legislador foi a tanto que ordenou submeter a exame os livros de genealogias e se
eliminarem deles “as notas de que resultasse dano ao crédito das famílias nobres”. 180 Era
uma forma de atacar as famílias “puritanas”, que evitavam toda e qualquer mescla com
outras que, aos seus olhos, eram consideradas impuras. Sabemos que o marquês impôs, por

178
Cheke, op. cit., p. 229.
179
Latino Coelho, J. M. “O Marquês de Pombal”, Lisboa, 1905, p. 244.
180
Lúcio de Azevedo, op. cit., p. 350.
71

decreto, sua miscigenação, no prazo de quatro meses, de modo que os filhos núbeis das
mesmas fossem obrigados a contrair casamento com aquelas que, até então, eram
excluídas.181
Na carta de lei de 25 de maio de 1773 ele historia a existente distinção entre
cristãos-velhos e cristãos-novos, dizendo que tal diferenciação foi introduzida em Portugal
pelos jesuítas – seu eterno “bode expiatório” – e com a finalidade de excluir do trono
português o pior do Crato, que diziam ser descendentes de judeus. Lembra bem o legislador
que os judeus foram protegidos e receberam favores dos reis de Portugal, desde os séculos
medievais, mencionando os nomes de judeus que privaram como conselheiros, tesoureiros
e médicos das Cortes de d. Fernando e d. João I. Lembra, também, que d. Manuel, que tanto
perseguiu os judeus e os forçou a se batizarem, em março de 1507 ordenou que os recém-
convertidos à fé católica fossem considerados, em tudo, cristãos-velhos, sem que sofressem
qualquer discriminação. Da mesma forma, o rei d. João III, que introduzira a Inquisição em
Portugal, também confirmou, pela lei de 16 de dezembro de 1524, as prescrições de seu
antecessor. E, após apologizar os judeus que continuam até hoje em sua fé, Pombal ordenou
que as leis de d. Manuel e d. João III continuassem vigorando, enquanto que as posteriores
fossem consideradas anuladas. Penas graves seriam impostas àqueles ousassem apodar as
pessoas de origem judaica com qualquer designação depreciativa ou renovar a ofensiva
distinção. Aos clérigos que não obedecessem à nova regulamentação, seria imposto o
castigo do extermínio ou exílio fora do reino; aos nobres, a perda dos ofícios e bens da
coroa e das ordens militares; e aos peões contraventores seriam impingidas as penas do
açoite e do degredo perpétuo para Angola.

RETOMADA DE DIREITOS

Já no ano seguinte, em 1774, Pombal cuidava de dar maior amplitude à lei que
abolia a diferenciação entre cristãos-velhos e os cristãos-novos, eliminando-se a infâmia
com que eram atingidos os que apostatavam, pois, pela nova lei, uma vez confessado o
delito, eles podiam se reconciliar no Santo Ofício e se tornavam capazes de exercer toda e
qualquer dignidade ou ofício, sem falar de seus descendentes. O novo Regimento da
Inquisição, aprovado pelo alvará de 1º de setembro de 1774, foi redigido e englobava as
novas disposições, sendo decretado em nome do Inquisidor Geral e Regedor das Justiças,
Cardeal da Cunha, arcebispo de Évora, sucessor do irmão do marquês de Pombal.
Novamente, na introdução do Regimento se acentua o papel maléfico e deturpador que os
jesuítas tiveram em relação ao Tribunal do Santo Ofício, “pois parece-nos impossível que
os Regimentos e disposições fundamentais, que tinham dado as normas para o Governo do
Santo Ofício, se conservassem na sua primitiva pureza, sem que deixassem de se

181
Pelo que nos informa o historiador Latino Coelho, op. cit., p. 247, “tinham os fidalgos, na igreja paroquial
de Santa Engracia, uma confraria do Santíssimo em que, segundo o compromisso e o costume, somente podia
ser admitido cristão-velho, sem nunca se entender o contrário... Assim era que poucas famílias da mais
soberba e poderosa fidalguia, a dos marqueses de Angeja, de Valença, dos condes de Vilar Maior do
Monteiro-mor do reino e outras mais, formavam entre si como uma cerrada congregação, fora da qual as
estirpes mais novas na aparência andavam apodadas com o nome injurioso de cristãos-novos”.
72

contaminar, pelo decurso do tempo, com os malignos influxos da sobredita (Sociedade de


Jesus)...”.182

No mesmo Regimento, ainda se faz sentir que a Inquisição, que fora criada pela
autoridade real ou por instância de D. João III e com bula de Paulo III, em 1536 – e
portanto, diz o texto, como um Tribunal da Coroa –, acabou com o tempo devido “ao
esforço da malignidade jesuítica, que tudo transfigurou e confundiu, fazendo crer, pelo
progresso de suas intrigas e maquinações, que aquele mesmo Tribunal, ereto e regimentado
pelos dois senhores reis, dom João III e dom Sebastião, era puramente eclesiástico”. 183
Novamente, o marquês fazia questão de mostrar a subordinação do poder espiritual ao
poder temporal, e assim definia claramente a instituição inquisitorial como instrumento do
Estado e a seu serviço, como, de fato, acabaria sendo doravante, a fim de evitar o “abuso
que se sustentou até o felicíssimo Governo del rei meu senhor (José II), que, pela nomeação
que em nós fez para a dignidade de Inquisidor Geral, reuniu e reivindicou aquela regalia
usurpada a sua real Coroa, havia quase dois séculos, na conformidade da dita carta, a nós
dirigida pelo mesmo senhor, em 15 de novembro de 1771.”184 Terminava, assim, a
autonomia daquela instituição que fora todo-poderosa no reino de Portugal, que inspirava
verdadeiro terror somente ao se pronunciar seu nome.
O historiador Lúcio de Azevedo traz, como exemplo ilustrativo dos novos
tempos, o fato de que um Antônio Soares de Mendonça, negociante que abjurou em forma
no auto público de 16 de outubro de 1746, apesar disso, foi agraciado em 8 de maio de
1775, ou seja, após a publicação do novo Regimento da Inquisição, com o hábito de
Cristo.185 Tal acontecimento dificilmente teria ocorrido em tempos anteriores.
Por outro lado, ainda que reconheçamos, desde o início, que o Marquês de
Pombal, acima de tudo, guiava-se pela Raison d’État para nortear sua política em relação à
Inquisição, não deixa de ser válido o questionamento sobre a verdadeira atitude pessoal, e
aqui frisamos o termo “pessoal”, frente aos judeus e cristãos-novos. Sabemos que não é
uma pergunta fácil de ser respondida, pois, na Inglaterra, onde chegara em missão
diplomática, em 1738 escrevia, em despacho a Marco Antonio de Azevedo Coutinho, a
quem sucedia, os seguintes termos: “posso dizer V. Exa. que é raro entre nós (em Portugal)
o homem da nação (hebréia) que não esteja com os olhos no caminho para estas partes
(Inglaterra e países de livre culto), e que somente se dilatam nos nossos domínios até
fazerem os grossos cabedais que nelas acumulam, se antes de os juntarem os não faz sair
desse reino o medo da fogueira. Tudo quanto ganham, ou antes extorquem, com artifícios
que eles têm por justos sendo detestáveis, vem nos paquetes, para ficar na Inglaterra e
passar à Holanda, assegurar-se nas mãos de seus depositários, amigos e parentes. Como
consideram a pátria onde gozam a liberdade, e o desterro onde têm o castigo ou a sujeição,
para estas terras, em que esperam estabelecer-se, procuram todas as vantagens e todos os
interesses, maquinando contra os países, seus adversos, toda a ruína, e não perdoando a

182
Regimento do Santo Ofício da Inquisição dos Reinos de Portugal, ordenado com o real beneplácito e régio
auxílio pelo eminentíssimo e reverendíssimo senhor Cardeal de Cunha, dos Conselhos do Estado e Gabinete
de Sua Majestade e Inquisidor Geral nestes Reinos e em todos os seus Domínios, Lisboa, 1774, p. 1. Todas as
citações do texto são feitas na ortografia atual.
183
ibid, p.3.
184
ibid, p. 5.
185
Lúcio de Azevedo, op. cit., p. 352.
73

meio algum de os dissipar e empobrecer, por injusto e ilícito que se considere. (...) Daqui
tem resultado a dificuldade de evitar o contrabando e os domínios de Espanha. São imensos
os cabedais, que, naquele negócio, têm ganhado os judeus destas partes. (...) Este foi um
dos meus grandes receios, desde que suspeitei o projeto de irem ao rio da Prata: saber eu o
muito que eles desejavam estabelecer-se nas vizinhanças do Brasil, onde asseguram que
hão de ter, em cada cristão-novo, um destro furão, desencovar a furto os interesses, que não
podem hoje prosseguir”.186
Verdade é que Pombal, nesse período, estava preocupado com a ameaça ao
comércio português nas possessões do império colonial lusitano, e, principalmente, pelo
contrabando que, a seu ver, era fator que poderia levá-lo à ruína e onde os judeus tinham
também certa participação.

186
2 de janeiro de 1741. Col. Pomb, Cód. 656, apud Lúcio de Azevedo, J., “O Marquês de Pombal e a Sua
Época”, Rio de Janeiro-Lisboa, 1922, pp. 22-23.
74

9. A imigração israelita à Argentina e ao Brasil e a colonização agrária

Ao traçarmos um esboço comparativo da imigração judia à Argentina e ao


Brasil, saltam à vista de imediato as profundas diferenças existentes entre ambas.
Desde que a Argentina declarou sua independência, em 9 de julho de 1816, ou
seja, três anos após a eliminação do Tribunal da Inquisição em seu solo, devido à resolução
da Assembléia Constituinte de 24 de março de 1813, tornou-se viável uma imigração
judaica àquele país. De fato, a presença israelita, aberta e declarada, remonta àqueles
mesmos anos, que com o passar do tempo formam um núcleo populacional considerável, ao
ponto de se organizar, já em 1862, uma Congregação Israelita de Buenos Aires com judeus
alemães, franceses, ingleses e sefaraditas.187
Porém, o grande surto imigratório, essencialmente proveniente da Europa
Oriental, começaria verdadeiramente nos anos 80 do século XIX. Na verdade, esse
processo imigratório judaico, que no plano universal da história dos judeus foi considerado
o maior, levou a um deslocamento de milhões de seres humanos que se dirigiram à Europa
Ocidental, à América do Norte e aos países latino-americanos, especialmente à Argentina.
A razão fundamental desse processo imigratório se encontrava na situação e condições dos
judeus que viviam na assim chamada Zona de Residência do Império Czarista,
caracterizada por uma grande concentração populacional sem meios de subsistência. O
judaísmo dos países da Europa Ocidental, sabedores do que se passava com seus irmãos
nos territórios da Rússia monárquica, mobilizaram-se para encontrar as soluções que as
circunstâncias ofereciam, considerando-se a imigração a países de população escassa que
demandavam uma mão-de-obra colonizadora como o melhor caminho para a salvação
daquela massa humana que vivia na mais extrema miséria. Quanto à Argentina, a partir de
1881, o seu governo demonstrou interesse e estava aberta para receber imigrantes e de fato
sua administração designou, em agosto daquele ano, um agente na Europa com essa
finalidade, estabelecendo “contato com pessoas importantes de São Petersburgo, para tratar
de induzir essa população a trasladar-se ao nosso país sob o amparo e a proteção de nossas
leis...”
Os incidentes antijudaicos de 1881 na Rússia estimularam essa atuação dos
agentes de imigração, que também receberam um apoio de personalidades e instituições,
entre as quais se encontrava a Alliance Israelite Universelle, fundada em 1860 com a
finalidade de incrementar a emancipação e o progresso dos israelitas e prestar ajuda aos
necessitados devido às perseguições anti-semitas onde quer que elas se manifestam.
Já em 1881/2, a Alliance teve um papel importante em orientar a imigração
judaica saída da Rússia “pogromista” aos Estados Unidos ao mesmo tempo em que se
ensaiava a formação de núcleos imigratórios à Argentina, o que de fato veio a ocorrer em
1884. Poucos anos após, em 1889, chegavam à província de Santa Fé cerca de oito famílias,
que se estabeleceram em um lugar denominado Monigotes-Vieja, para mais tarde se
estabelecerem como colonos na famosa colônia de Moises Ville, fundada pela Jewish
Colonization Association. O verdadeiro início da colonização judaica na Argentina se dá
efetivamente em Moises Ville com parte do grupo de famílias, cerca de 110, que saíram da

187
Klein, Alberto, Cinco siglos de historia: una crónica de la vida judía en la Argentina, C.J.A., Buenos Aires,
1976, p. 12.
75

Podolia, e após muitas aventuras e desventuras, conseguiram chegar àquele país para se
dedicar ao trabalho agrícola.188
O passo mais significativo para incrementar a colonização de judeus na
Argentina foi a criação da Jewish Colonization Association, em 24 de agosto de 1891, em
Londres, como uma sociedade anônima de caráter filantrópico e com um capital inicial de
dois milhões de libras esterlinas, doados em quase sua totalidade pelo Barão Hirsch. 189 Este
último, comovido pela situação em que se encontravam os judeus em vários países
europeus e asiáticos, assumiu boa parte da iniciativa da criação de uma entidade que
pudesse encaminhar os seus irmãos de fé ao trabalho da terra. De outro lado, em fins de
1889, o Dr. Guilherme Loewenthal, submeteu ao Barão Hirsch um projeto de colonização
judaica na Argentina, onde via a possibilidade de organizar anualmente uma imigração de
5.000 pessoas provenientes da Rússia, considerando ainda que essa colonização não deveria
possuir apenas caráter filantrópico, mas permitir que os colonos lutassem pela sua
independência econômica e chegassem a ela pelo árduo trabalho do campo.
Entre os artigos da J.C.A. consta que ela visa “facilitar a imigração dos
israelitas dos países da Europa e Ásia, onde são reprimidos por leis restritivas e estão
privados de direitos políticos, para outras regiões do mundo onde possam gozar desses e
demais direitos inerentes ao homem. Estabelecer para tanto colônias agrícolas em diversos
territórios da América do Norte e do Sul, bem como em outros lugares. Promover e
sustentar estabelecimentos de educação, adestramento e fomento que permitam melhorar as
condições materiais e morais dos judeus pobres e necessitados”.
O governo russo da época autorizou o funcionamento de um Comitê Central da
J.C.A. em São Petersburgo, bem como filiais nas províncias. De outro lado, o governo
argentino, em 1900, reconheceu a J.C.A. como uma “Associação civil com fins
filantrópicos”. A fim de se evitar uma saída desordenada de grandes massas e sem o devido
preparo para encaminhá-las a trabalhos produtivos, fez o Barão Hirsch publicar e difundir
uma circular pedindo que os interessados em emigrar se inscrevessem nos devidos comitês
estabelecidos para tanto, advertindo ao mesmo tempo que não poderia arcar com a
responsabilidade sobre aqueles que se aventurassem a imigrar por conta própria.
O projeto de colonização do dr. Guilherme Loewenthal foi bem aceito pelo
Barão Hirsch, que na ocasião resolvera enviar uma comissão de inquérito sob a chefia
daquele. A comissão, ao chegar em fins de 1890 a Moises Ville, lá encontrou 68 famílias,
que ocupavam 4.350 hectares de terra. O Dr. Loewenthal organizou no lugar uma
“Sociedade Cooperativa de Agricultores em Moises Ville”, a primeira entidade que usava o
nome “cooperativa”, o que caracterizaria a colonização agrária judaica na Argentina. Os
membros da sociedade constituída eram locais e ao mesmo tempo receberam o primeiro
apoio financeiro, de 15.000 francos, do Barão Hirsch. Em um relatório escrito pela
comissão sobre a situação da colônia consta que “os judeus russos são inteligentes e com
seu entendimento eles aprendem em pouco tempo e procuram ser auto-suficientes o mais
rápido possível”...190

188
Gabis, A. e Senderev, M. Moises Ville, Buenos Aires, 1964.
189
Baron Maurício de Hirsch, Museo Judío de Buenos Aires, B.A., 1974.
190
Sobre os inícios da colonização agrária judaica na Argentina, importante e indispensável é a leitura do
estudo de Pinchas Bizberg, Oif di schpuren fun iidicher vanderung in 1889-1902 (Nos rastros da imigração
judaica em 1889-1902) in “Argentiner Iwo Shriftn”, 2, B. Aires, 1942, pp. 7-46, e em particular o volume 9-
76

Nesse ínterim, o incremento e o estímulo dado à colonização dos judeus russos


na Argentina encontraram um apoio relativo no próprio governo russo, que permitiu uma
ação efetiva de propaganda, com o apoio de personalidades influentes do judaísmo local, e
a criação de comitês que se dispõem a mobilizar e selecionar o elemento humano disposto
ao trabalho agrícola. Por outro lado, a J.C.A., a partir de 1891, estabeleceu uma
representação em Buenos Aires, que se nos primeiros anos se revezou com certa
freqüência, a partir de 1893 se estabilizou com dois diretores que permaneceram em função
durante 10 anos contínuos, David Cazes e Samuel Hirsch. Ambos os diretores procuraram
amenizar as condições para o recebimento dos novos colonos, procurando planejar os
detalhes e o modo que deveria reger o estabelecimento dos grupos imigrantes antes mesmo
de chegarem ao país. Em 1894 começaram a chegar os primeiros grupos da nova imigração
que se organizou na Rússia, principalmente saídos das aldeias e da zona rural, com certa
experiência no trabalho da terra. Assim, em 1894 chegaram 286 almas, que fundaram a
colônia Lucienville, em Basavilbaso na província de Entre Rios. Com essas famílias se
encontrava também um representante de um grupo de judeus oriundos da Lituânia e que
deveria seguir logo após à Argentina para se estabelecer em Moises Ville. Seu nome era
Noah (Noé) Kaciovich191 e era a pessoa indicada, devido ao respeito que inspirava, para
exercer uma posição de incremento à colonização de judeus vindos de seu lugar de origem.
Com esse fim, ele viajou duas vezes à Europa, conseguindo trazer vários grupos
colonizadores formados com um elemento humano de primeira qualidade para o trabalho
agrícola, estabelecendo-se na região próxima a Moises Ville, que com vários colonos
passou de 91 famílias em 1896 a 250 em 1902. Nesse ínterim, foram fundadas colônias
agrícolas em outras regiões sob a orientação e ajuda direta da J.C.A. 192 Até o ano de 1925,
aproximadamente, a J.C.A. continuará criando novas colônias, desenvolvendo
paralelamente um trabalho social que permitirá estabelecer uma rede escolar para as
crianças, bibliotecas, sinagogas, clubes e organizações de juventude, dando assim a
possibilidade aos colonos de ter uma atividade cultural significativa na língua ídiche e em
espanhol.
A agropecuária constituiu-se na principal atividade econômica das colônias,
mas de início muitos exerciam, para poderem sobreviver, o trabalho remunerado como
assalariados dos fazendeiros, seja em trabalhos ligados ao cultivo da terra ou como
profissionais especializados em várias manufaturas.
As colônias agrícolas na Argentina, desde o início, tinham um planejamento de
unidades agrícolas familiares que variavam de 30 até 100 hectares, dependendo de sua
localização, composição humana e tipo de cultura adotada. Porém, o seu sucesso se deve,
em primeiro lugar, à adoção do cooperativismo que foi introduzido desde os primórdios da
colonização judaica, a começar da Sociedade Agrícola de Moises Ville, fundada em 1908,

10, 1964, da mesma coleção, dedicado ao 75.º aniversário da colonização judaica na Argentina e que reúne o
melhor material histórico sobre o tema.
191
Sobre ele e sua atuação, bem como sobre os primeiros grupos imigratórios em que teve uma participação
ativa, importante é o volume publicado pelo IWO das memórias de Noé Kaciovich com o título “Mozesviler
bereshis” (Os começos de Moises Ville), B. Aires, 1947.
192
A difícil e por vezes trágica situação das primeiras colônias argentinas foi descrita por Peretz
Hirschbein em seu livro ,verdadeiro documento sobre esssa colonização, Fun vaite lender:
Argentine, Brazil, Yuni, November, 1914, N.Y.,1916, reed.N.Y., Book Renaissance, 2012.
77

além de outras mais. Em 1925 constituiu-se a Fraternidad Agraria, que reunia sob seu teto
23 cooperativas agrícolas existentes nas colônias judias argentinas, e não é de surpreender
que dez anos mais tarde, em mais de 20 colônias da J.C.A., se cultivassem 650.000 hectares
de terra, o que representava 2% do total das terras cultivadas na Argentina. 193
A colonização agrícola judaica na Argentina conseguiu, desse modo,
sobreviver, apesar da atração que a vida urbana exercia e naturalmente levava muitos a
abandonar o campo que sempre exigiu sacrifícios daqueles que se dispunham à
colonização, como podemos constatar pela leitura do clássico de Alberto Gerchunoff, “Los
gauchos judíos”.
A contribuição judaica à agricultura Argentina foi significativa, pois, além de
se manifestar na organização cooperativa, introduziu cultivos que até então eram
desconhecidos naquele país, tais como o girassol e a alfafa, que devido ao seu sucesso
passaram a ser cultivados em larga escala.194 Também as cooperativas introduziram a
industrialização dos produtos agropecuários, tais como a manteiga e outros derivados do
leite, com o devido respaldo financeiro de instituições bancárias que se foram criando com
o tempo, entre elas o Banco Comercial Israelita, cuja central se encontrava em Rosário.
A mesma J.C.A., e pelos mesmos motivos, encetou uma colonização agrícola
judaica no sul do Brasil, no Rio Grande do Sul, com uma distância de tempo de 10 anos,
aproximadamente, após o da Argentina. É preciso dizer que, para o imigrante europeu
daquela época, o Brasil era menos conhecido do que a Argentina e não despertava tanto
interesse e tanta atração quanto aquele país. Por outro lado, o governo brasileiro, ao
contrário do argentino, não se dispôs a uma atividade propagandística para atrair o
elemento judeu da Europa à colonização agrícola.195
Portanto, o projeto de colonização da J.C.A. no Rio Grande do Sul ficou em
boa parte sob sua própria responsabilidade. Mesmo a comunidade judia local ou a brasileira
não teve, a partir de 1904, quando chegaram as primeiras famílias, qualquer participação
significativa no projeto, a não ser os poucos privilégios concedidos pelo governo do Estado.
A J.C.A. adquiriu de início cerca de 5.767 hectares de terra em Pinhal, na
região de Santa Maria, distante 25 km daquela cidade. Da Argentina viria o representante

193
Sobre o papel do cooperativismo na colonização agrária judaica da Argentina vide os vols. 2 e 9-10 dos
“Agentiner Iwo Shriftn”, mencionados na nota de rodapé 4 e o artigo de S. I. Horwitz, Di cooperatives in di
yidiche colonies in Argentine (As cooperativas nas colônias judaicas da Argentina) in “Argentiner Iwo
Shriftn”, 1, B. Aires, 1941, pp. 59-116.
194
Sobre a contribuição judaica à agricultura argentina, merece destaque o estudo valioso de José Lieberman,
Aportes de la colonización agraria judía a la economía nacional, C.J.A., Buenos Aires, 1976. O mesmo autor,
cientista de renome em nosso continente e membro do Instituto Nacional de Tecnologia Agropecuária (INTA)
da Argentina, também escreveu outras obras importantes sobre o tema acima, bem como sobre a colonização
judaica naquele país.
195
Nesse sentido, devemos observar que bem antes da atuação da J.C.A. houve tentativas e projetos de
colonização agrícola com imigrantes judeus no Brasil e houve, em 1891, o envio de um conhecido jornalista
europeu, Oswald Boxer, que em nome de uma entidade alemã trouxe um projeto ao governo brasileiro da
época, para que aceitassem imigrantes judeus dispostos ao trabalho da terra. Lamentavelmente, Boxer
contraiu febre amarela enquanto aguardava em S. Paulo qualquer manifestação oficial a respeito, vindo logo a
falecer sem poder realizar o seu intuito. Descobrimos após várias buscas que fora enterrado no Cemitério dos
Protestantes (ao lado da Consolação) e temos em nosso arquivo cópia de seu atestado de óbito.
78

da J.C.A., Dr. Eusébio Lapine, 196 engenheiro, que desde 1903 preparava as condições
materiais para o recebimento das 38 famílias vindas da Bessarábia, na época integrada à
Rússia, e que chegariam no ano seguinte à primeira colônia denominada Philippson. 197
Apesar da fertilidade da terra, as grandes e densas florestas constituíram um
sério obstáculo na formação e desenvolvimento da colônia, pois antes de tudo necessário se
fazia limpar o terreno para poder cultivá-lo.198
Como em outros lugares, a J.C.A. assumia as despesas de viagem e distribuía a
cada colono cerca de 25 a 30 hectares de terra,199 além de uma moradia, instrumentos de
trabalho agrícola, duas juntas de boi, duas vacas, um cavalo e um auxílio monetário
variável de acordo com o número de pessoas da família, durante o período em que não
pudessem ser autônomos. A importância investida em cada colono deveria ser devolvida
em um prazo variável de 10 a 20 anos, com juros, porém considerando-se que seu débito
deveria ser reduzido no caso de ser prejudicado por calamidades climáticas ou por
gafanhotos. De outro lado, a J.C.A. deveria arcar com todas as despesas referentes à
administração e serviços públicos, incluindo-se a educação das crianças da colônia.200

196
Eusébio Lapine foi considerado na Argentina um modelo de mau administrador pela sua conduta arbitrária
e pouco humana em relação aos colonos endividados, sendo, portanto, alvo de crítica acérrima por parte do
diretor do periódico “Di Folks Schtime” (A Voz do Povo) Abraham Vermont, que esteve à sua testa durante
os anos de 1898, quando foi fundado, até 1914, ano em que encerrou suas atividades. Sobre isso escreveu
Baruch Hochman, Materialen tzu der geschichte fun der idicher colonizatzie un agrar-cooperatzie in
Argentine (Documentos para a história da colonização e cooperativismo agrário israelita na Argentina) in
“Argentiner Iwo Shriftn”, 9-10, Buenos Aires, 1964, pp. 5-107. Sobre Vermont e seu jornal escreveu Pinhe
Katz no seu “Idische Jornalistik in Argentine”, (A imprensa judaica na Argentina) in Geklibene Shriftn,
volume V, pp. 39-58.
197
Em homenagem a Franz Philippson , na época vice-presidente da J.C.A., e banqueiro que presidia
companhias de estradas-de-ferro na Argentina e Rio Grande do Sul.
198
Pelo que apuramos no Livro Copiador n.º 1 (1903-1905), manuscrito que hoje se encontra no Arquivo
Histórico Judaico Brasileiro, Eusebio Lapine ficaria até fins de 1903 preparando as instalações para o
recebimento dos novos colonos, o que não incluía o desmatamento. Em janeiro de 1904, ele já se encontrava
em Buenos Aires, talvez por razões de doença, sendo substituídos por J. Bezchinsky e David Hassan, que no
entanto continuavam a escrever-lhe pedindo conselhos e orientação.
199
Em carta-relatório de 11 de junho de 1904, David Hassan escrevia a Lapine dizendo que
“desgraciadamente el plane no dice cuales lotes son de 25 H o 30 H. Como no tengo aviso todavía de la salida
de los colonos, creo que Va. tendrá tiempo de contestar, sino, haré como en Argentina, por sorteo, así opina
Sr. Behzhinsky”. Livro Copiador n.º 1, arquivo da J.C.A., p. 86, no A.H.J.B.
200
O primeiro professor seria o dr. León Back, que atuou como professor e subdiretor da “École Horticole et
Professionelle du Plessis-Piquet”, nos arredores de Paris. Chegou a Philippson em 5 de junho de 1908,
instalando ali uma escola mista. V. o artigo de sua autoria sobre a imigração judaica no Rio Grande do Sul, na
Enciclopédia Rio-grandense, 5.º volume. Importante é a consulta do livro de Eva Nicolaievsky, Israelitas no
Rio Grande do Sul, ed. Garatuja, P.A., 1975, que foi um dos primeiros trabalhos sobre a colonização judaica
no Rio Grande do Sul, ainda que tenha um caráter de homenagem e conservação da memória dos primeiros
judeus chegados naquele estado, e portanto não fundamentado em uma pesquisa científica sobre a
documentação disponível no Brasil ou em arquivos do exterior. Anos após surgiriam outros estudos,
abordando outros aspectos dessa colonização, que ainda está a espera de seu historiador. Entre os trabalhos
mais recentes se encontra o de Jeff Lesser , Jewish colonization in Rio Grande do Sul (1904-1925), Estudos
CEDHAL, n. 6, São Paulo, 1991.
79

As dificuldades iniciais se apresentaram com a qualidade da terra reservada


para o cultivo e que se revelou pouco fértil, obrigando os colonos a se empenharem em um
duro trabalho de desmatamento da cerrada floresta existente na região. Com muito trabalho
e sacrifício passaram a cultivar trigo, milho, feijão, amendoim, bem como hortaliças e
árvores frutíferas. Entre os cultivos, o sucesso maior foi o fumo, que os colonos
introduziram em Philipson com sementes trazidas da Bessarábia e que vingou muito bem
na região, a ponto de ser procurado por compradores de Porto Alegre e São Paulo, devido à
excelente qualidade do produto.Na verdade, os colonos de Philippson foram os primeiros
que introduziram o cultivo do trigo e do fumo (turco) em escala maior e que, mais tarde,
passaram a ser importantes na agricultura sulina, especialmente o primeiro.
Com o aparente sucesso da primeira colônia a J.C.A., em dezembro de 1909,
adquiriu uma fazenda denominada “Quatro Irmãos”, com uma extensão de 93.850 hectares
na região de Passo Fundo. Assim como foi feito com Philippson, os preparativos para o
recebimento de novo colonos foram iniciados com uma certa antecedência, e quando os
primeiros colonos chegaram, em 1911 a “Quatro Irmãos”, já encontraram os lotes divididos
e com moradias onde ficar. Alguns de seus primeiros colonos vieram da Argentina, onde
tinham passado por uma experiência agrícola como assalariados nas colônias daquele país,
e outros vieram da Bessarábia. Em 1913 receberam um grande reforço com a vinda de 150
famílias da Rússia. Já nessa segunda colônia cada família recebia um lote 150 hectares
além de moradia, galpão, 14 vacas, 4 bois, 1 touro, 2 cavalos, 1 carroça, 1 arado e outras
ferramentas para o trabalho agrícola. Os juros sobre o valor da terra eram baixos, 4% ao
ano, pagáveis em 20 anos, e o resto da aplicação de capital deveria ser pago em 13 anos. A
tendência dessa colônia era fundir o trabalho agrícola com a pecuária, daí o maior número
de cabeças de gado e, em particular, o leiteiro. Os primeiros anos de “Quatro Irmãos” foram
promissores, e às vésperas da Primeira Guerra Mundial ela contava com 350 famílias,
muitas delas vindas espontaneamente e por conta própria, para se dedicarem ao trabalho da
terra. Além do trigo, do milho e outro cereais, os colonos também empreenderam o cultivo
da mandioca, que puderam industrializar com ajuda da J.C.A.
Até 1923, “Quatro Irmãos” se apresentava como uma colônia progressista que
confirmava as possibilidades de uma colonização agrícola judaica no Brasil. Porém, nesse
mesmo ano estourou a revolução no estado sulino, o que provocou a verdadeira ruína do
empreendimento. A colônia ficou sujeita à arbitrariedade do banditismo local que se
infiltrava constantemente na região e atingia a propriedade, e os próprios colonos, ao ponto
de desanimarem e abandonarem as suas terras para procurar um lugar mais seguro nas
cidades ao redor e em Porto Alegre. Os roubos contínuos de gado, dinheiro, ferramentas e
objetos de casa acabaram arruinando a muitos que tinham investido anos e anos de
trabalho, sem que o governo local pudesse impedir com eficiência a penetração dos
bandidos.201 Tal situação perdurou durante o agitado ano de 1924, levando a J.C.A. a
fundar no Uruguai uma colônia com elementos saídos de “Quatro Irmãos” com o nome de
“19 de abril”, perto da cidade de Paissandu. A situação dos colonos em fins daquele ano de
1924, conforme telegrama recebido pelo representante da J.C.A. no Brasil, da sua
administração em Erebango e publicado no “Dos Idiche Vochenblat” (O Semanário
Israelita) de dezembro, era terrível, pois com a saída do exército os colonos foram

201
“Jewish Colonization Association” Rapport, Paris, 1926, pp. 56-87. O relatório trata dos anos de 1923 e
1924.
80

obrigados a fugir e nas condições mais difíceis, ocorrendo acidentes e encontrando-se sem
proteção alguma.
Apesar dos contratempos, a J.C.A. persistiu em seus projetos de colonização e
envidou esforços no sentido de renovar a imigração judaica à colônia “Quatro Irmãos”, que
na verdade era formada de quatro núcleos incluindo Quatro Irmãos, Baronesa Clara, Barão
Hirsh e Rio Padre. A vinda, em dezembro de 1923, de um representante da J.C.A., o
renomado rabino Isaías Raffalovich, que se instalou no Rio de Janeiro, propiciou a
continuidade do projeto de colonização, pois sua influência junto à comunidade, bem como
junto às instâncias governamentais e principalmente junto à direção da J.C.A. na Europa
permitiu a adoção de uma política de auxílio mais efetivo aos colonos. Sobre esse aspecto,
foi muito importante a iniciativa de fortificar a Sociedade de Beneficência para Amparo de
Imigrantes, Relief, existente no Rio de Janeiro, que passou a cuidar dos mesmos e
encaminhá-los às colônias do Sul. Raffalovich, com os fundos da J.C.A., preocupou-se
também em criar escolas, trazer professores para que os filhos dos colonos pudessem
receber uma educação adequada, ainda que vivessem no campo. Curiosamente, a J.C.A.
passou a ter um papel primordial no desenvolvimento de uma rede escolar judaica no
Brasil, pois as primeiras escolas, também dos centros urbanos, foram subsidiadas por ela.202
Em 1926, uma nova leva de imigrantes chegava aos núcleos de “Quatro
Irmãos”, dirigindo-se as primeiras 30 famílias ao núcleo Barão Hirsh, 203 após um período
de promoção e propaganda de colonização agrária do qual o jornal “Dos Idiche
Vochenblat” (O Semanário Israelita) era veículo único no Brasil, além dos esforços
fundamentais e decisivos que se faziam na Europa, em especial na Lituânia e Letônia 204. A
J.C.A. arcava novamente com todos os gastos e dessa vez reduzia a dívida dos colonos,
com um ônus de juros de 5% ao ano, dívida essa que deveria ser paga em 20 anos. Além do
mais, os colonos receberiam cinqüenta hectares de terra, dois hectares de meio de floresta já
cortada, dois cavalos, duas vacas, moradia de três quartos, estábulo e implementos
agrícolas. Durante um ano, o colono podaria um e meio hectare de floresta, podendo vender
a madeira no mercado de fora e ficar com o ingresso decorrente do negócio. Os núcleos
planejados em “Quatro Irmãos” deveriam conter uma escola, uma sinagoga, biblioteca, que
seriam mantidos pela J.C.A. durante os três primeiros anos, após os quais seriam de
responsabilidade dos colonos.
As sociedades filantrópicas judaicas, HIAS (Hebrew Immigration Aid Society),
com sede em Nova York, a J.C.A., com sede em Paris e Londres, e a EMIGDIREKT
(Emigrations-Direktion) de Berlim, coordenadas mais tarde com o nome de HICEM,
tiveram um papel importante no encaminhamento e no apoio aos novos imigrantes que se
dirigiam aos países da América do Sul, assim como a outros. Em Porto Alegre, sob a

202
V. a respeito nosso estudo “Subsídios à história da educação judaica no Brasil ”, in Herança Judaica, n.º
47, setembro de 1981, pp. 53-63.
203
. “Dos Idiche Vochenblat” de 23/05/1926 e 04/06/1926.
204
“Dos Idiche Vochenblat” de 06/11/1925. Já em 4 de setembro de 1925 o “Dos Idiche Vochenblat”
anunciava que chegaria ao Brasil o inspetor geral da J.C.A. na Argentina, dr. David Zvi, que havia
anteriormente passado um ano em Quatro Irmãos para preparar as condições para uma nova imigração. O
mesmo periódico de 9 de outubro do mesmo ano, em entrevista com Gregorio Yochpe, que esteve na Europa
durante cinco meses, acentuava “o início da segunda imigração em Quatro Irmãos”.
81

direção do dr. León Back, formou-se um “Comitê pró Imigrantes Israelitas”, em 1927,
vinculado ao HICEM e que se encarregava de receber os imigrantes a bordo dos navios,
hospedá-los e encaminhá-los para o trabalho produtivo, seja na cidade ou no campo. Em
toda a parte onde havia comunidades israelitas, nas grandes e pequenas cidades brasileiras,
organizaram-se comitês semelhantes para que pudessem enfrentar a grande onda
imigratória, que perdurou durante os anos 20 e parte nos anos 30.
A filosofia imigratória do HICEM referente ao Brasil foi definida em carta ao
dr. Raffalovich e publicada no “Brazilianer Idiche Presse” (Imprensa Israelita Brasileira),
periódico que surgira naquele mesmo ano em continuação ao Dos Idiche Vochenblat, e se
resumia em cinco pontos: a) os primeiros imigrantes a virem ao Brasil devem ser os que
possuem qualificação profissional e estão aptos à colonização agrícola; b) os que não
possuem profissões deverão ser preparados profissionalmente nas estações experimentais
que as associações criarão nos países de emigração e imigração; c) a fim de facilitar a
absorção do imigrante, serão criadas sociedades de empréstimo e também setores de
passagens de navios que possibilitem ao imigrante trazer sua família; d) criar-se-á os meios
para que o imigrante estude a língua do país, pela realização de cursos noturnos; e)
organizar-se-á em cada lugar um escritório ou agência de trabalho.205
Os resultados com a nova colonização mostravam-se promissores, e em fins de
1927 e inícios de 1928 informes otimistas diziam que a criação de uma cooperativa agrícola
no núcleo Baronesa Clara dera muito certo e que se levaria o empreendimento a outros
setores. Ao mesmo tempo, da estação de Erebango se informava que as 70 famílias do
Barão Hirsh e Baronesa Clara obtiveram uma compensadora safra agrícola, produzindo
1.500 sacos de trigo, exportando 8 vagões de milho no valor de 33 contos de réis e
possuindo todos os campos de alfafa, erva-mate, vinhedos e árvores frutíferas.206
Lamentavelmente, em relação à colônia “Quatro Irmãos” ocorreria uma nova
catástrofe, com a revolução de 1930 que provocou novas invasões de estranhos com graves
conseqüências, sendo os prejuízos materiais e morais dos seus moradores enormes. O
desânimo que desabou sobre os colonos provocou, mais uma vez, o abandono dos núcleos
agrícolas e a ida aos centros urbanos, que sempre constituíram, em potencial, um atrativo
que se revelava ainda mais forte em tempos difíceis e tempestuosos.
A política do Estado Novo em restringir a imigração de um modo geral, e a
judaica em particular, pois novos ventos de caráter anti-semita207 bafejavam em nosso país,
levou a que as colônias sofressem uma diminuição de sua população, e partes das glebas
foram passando a outros colonos não-judeus. A J.C.A. continuou zelando por seu programa
de colonização, mas os tempos não eram favoráveis a sua incrementação devido aos fatores
mencionados anteriormente. Uma última experiência faria a J.C.A. no Brasil ao tentar abrir

205
“Bazilianer Idiche Presse” de 10/06/1927. Durante todos os meses desse mesmo ano a propaganda da
J.C.A. dirigida aos interessados em se colonizar permaneceu ativa através desse órgão de imprensa.
206
“Idiche Folktzeitung” de 23/12/1927 e 28/02/1928.
207
O epígono do nazismo no Brasil, Gustavo Barroso, além de traduzir a “literatura” anti-semita européia ao
português, foi um autor prolífero de pasquins impregnados de sandices e ódio antijudaico, que envenenou
mentes e contribuiu para criar uma atmosfera até então desconhecida no país em relação aos imigrantes
judeus. Uma reação ao anti-semitismo se deu com a publicação do livro “Por que ser anti-semita?”, em 1933,
com a colaboração das melhores forças intelectuais de nosso país.
82

uma nova colonização, agora no Estado do Rio de Janeiro, em Rezende, quando em 1936
sugeriu ao governo brasileiro a formação de uma colônia agrícola de imigrantes judeus
oriundos da Alemanha. A razão do projeto obviamente se justificava pela perseguição que
os judeus estavam sofrendo na Alemanha nazista e que culminaria no Holocausto com o
extermínio de milhões de seres durante a Segunda Guerra Mundial. Procurava-se na época,
antes que a grande tempestade desabasse sobre o povo judeu, salvar aqueles que estavam
diretamente ameaçados pela besta nazista, que desde de sua ascensão ao poder mostrava
seus verdadeiros desígnios. O Brasil, assim como outros países sul-americanos, encontrava-
se na época indefinido quanto a sua política externa em relação ao Eixo, ou mais
propriamente em relação à Alemanha, que procurava exercer sua esfera de influência
também nessa parte do mundo. E não faltavam grupos que viam a Alemanha nazista com
certa simpatia. Por outro lado, tal situação se refletia na política imigratória brasileira, que
discriminava os judeus, como atestam vários documentos emanados diretamente de
gabinetes governamentais. Por um motivo ou outro, o governo acabou por aceitar o projeto
Rezende, mas sem qualquer participação no mesmo.
Porém, devemos, nesse ponto, nos deter com mais vagar para examinar de
perto a política imigratória brasileira dos anos 30 em relação aos judeus, e nesse sentido, as
mudanças havidas de uma década para outra foram radicais. Pela lei Epitácio Pessoa, de 6
de janeiro de 1921, que regulava a entrada de imigrantes, fazia-se referência aos
indesejáveis tais como doentes, velhos, criminosos, e a nova lei de 1925 passava a exigir
dos imigrantes uma documentação mais complexa. Além disso, ao entrarem no país ou na
cidade do Rio deveriam ser internados em quarentena na ilha das Flores. Mas apesar dessas
exigências e o critério de seleção adotado, podemos dizer que a imigração nesses anos era
livre e não continha elementos discriminatórios em relação à nacionalidade ou de outro tipo
qualquer. Mas nos fins de 1927 uma personalidade judaica da Argentina, M. Regalsky,
escritor e redator do “Dos Idiche Tzeitung” (O Jornal Israelita) de Buenos Aires, em visita
ao Ministro da Agricultura, em 28 de dezembro daquele ano para tratar de assuntos
relativos à imigração, ouviu de sua boca algo que prenunciava “novos tempos”. O Ministro
lhe declarou que o governo resolvera não organizar nenhum movimento de imigração e
tampouco contratar operários estrangeiros, “não devemos dar privilégio à imigração judaica
e nesse sentido não devemos tampouco considerar os pedidos da J.C.A., porém mantemos
uma atitude positiva em relação à livre imigração e não fazemos distinção entre
nacionalidades. Também não temos nenhuma instrução, em particular, para paralisar
qualquer ingresso de judeus ao Brasil”.208 A primeira parte da declaração do Ministro
orientaria, futuramente, a política imigratória do governo. Em 1934, novas resoluções
governamentais relativas à imigração instituíam o sistema das “cartas de chamada”, que se
aplicava em boa parte a trabalhadores rurais, profissionais contratados, proprietários de
terras capitalistas. Isso permitiu que boa parte dos judeus alemães, que procurava sair do
inferno nazista, entrasse em nosso país como turistas e conseguisse licença de permanência
no momento em que demonstrasse se enquadrar nas categorias previstas acima. Mas muitos
esgotavam os seus vistos de permanência e se viam obrigados a sair para outros países,
como Paraguai, Uruguai ou outro qualquer, a fim de regulamentar sua permanência
posteriormente, ou nunca mais. No mesmo ano de 1936, as “cartas de chamada” foram
substituídas pelas “cartas de autorização”. Mas a lei de 1934 incluía outros itens, entre eles

208
“Brazilianer Idiche Presse” (Imprensa Israelita Brasileira) de 16 de dezembro de 1927.
83

a proibição da entrada de analfabetos, mas o mais importante fixava a cota anual de entrada
de estrangeiros a 2 % do número total de cada nacionalidade ingressa no país durante os
últimos 50 anos. Getúlio Vargas, pelo visto, tinha a intenção de bloquear a imigração e
mesmo um projeto de Henrique Doria de Vasconcelos para abrir as portas e eliminar os
entraves existentes, em 1936, caiu por terra, pois no dia 10 de novembro de 1937 o
presidente fechava as portas do Congresso e começava a reinar abertamente um critério
anti-semita na seleção dos imigrantes ao nosso território. Tudo isso ficou claro quando, em
novembro de 1948, pouco mais de três anos após o término da Segunda Guerra Mundial,
começava-se a publicar no jornal “O Estado de São Paulo” uma longa série de artigos sobre
a questão imigratória com o título “A batalha contra a imigração”. No sexto artigo da série,
intitulado “A circular secreta contra os judeus”, punha-se à luz a circular secreta de n.º
1.249 que emanava do gabinete do Ministério de Relações Exteriores dirigida às missões
diplomáticas e consulados de carreira e às autoridades de imigração e policiais, cujo teor
transcrevemos na íntegra:

Ministério das Relações Exteriores


Rio de Janeiro
Circular secreta n.º 1.249
Às missões diplomáticas e consulados de carreira e às autoridades de imigração
e policiais.
S.P.
Entrada de israelitas em território nacional.
O Ministério das Relações Exteriores em vista do que foi decidido pelo
Conselho de Imigração e Colonização, resolve baixar novas instruções relativas
ao visto consular em passaportes de estrangeiros de origem semita, o qual
deverá ficar exclusivamente circunscrito aos seguintes casos e dentro das
normas abaixo estabelecidas:
a) portadores de licença de retorno em plena validade;
b) turistas e representantes de comércio. A autoridade consular verificará,
com a atenção devida ao ato, de que poderá vir a ser responsável, e
pelos meios que julgar mais próprios, a condição de verdadeiro turista
ou representante de comércio, cuja estada no Brasil em hipótese alguma
poderá ser superior a seis meses. Uma declaração neste sentido será
anotada no passaporte, junto ao visto, pela autoridade consular, a fim de
vedar a qualquer autoridade policial brasileira a alteração da
classificação do estrangeiro, prevista no artigo 163 do decreto n.º 3.010,
de 20 de agosto de 1938. Além disso, a autoridade consular não aporá
visto sem que o interessado tenha apresentado declaração oficial de que
poderá regressar dentro de um ano, sem impedimento algum, ao país
onde tenha residência.
c) até 31 de dezembro de 1938, cônjuge ou parentes consangüíneos, em
linha direta até o 2.º grau do estrangeiro que esteja residindo legalmente
em território nacional. A prova far-se-á perante a autoridade consular,
mediante atestados expedidos pelo “Serviço de Passaporte” do
Ministério das Relações Exteriores.
84

d) cientistas e artistas de reconhecido valor internacional, a critério da


autoridade consular, que justificará, no entanto, o visto, por ofício, à
Secretaria do Estado das Relações Exteriores.
e) técnicos requisitados oficialmente pelos governos dos estados para fins
exclusivamente de utilidade pública. Essa requisição deverá obedecer a
uma lista das diferentes profissões, a ser estabelecida pelo C.I.C., e só
será válida depois de visada pelo “Departamento de Imigração” e
“Serviço de Passaportes” do Ministério das Relações Exteriores.
f) capitalistas ou industriais que desejem fundar empresas ou sociedade no
Brasil. Deverão provar perante a autoridade consular a transferência de
um capital mínimo de 500.000$000 (quinhentos contos de réis) por
intermédio do Banco do Brasil. Ao visto deverá preceder consulta à
Secretaria de Estado das Relações Exteriores, com o comprovante
apresentado pelo interessado, de que se trata de fato de capital
estrangeiro existente no exterior. Os capitalistas ou industriais a que se
refere esta alínea deverão provar ao Serviço de Passaportes do
Ministério das Relações Exteriores, com o comprovante apresentado
pelo interessado valido, dentro do prazo de um ano, a contar da data de
sua entrada no País, que empregaram o capital referido nas empresas ou
nas sociedades em questão. Se esta exigência não for satisfeita, será
dado um prazo para as aludidas pessoas deixarem o território nacional.
1) Com exceção dos turistas e representantes de comércio (temporários),
bem como dos portadores de visto de retorno, todos os outros casos
deverão ser incluídos na cota dos 20 por cento, de que trata o artigo 11
do decreto n.º 3.010, de 20 de agosto de 1938.
2) As autoridades consulares enviarão à Secretaria de Estado das Relações
Exteriores, mensalmente, uma relação de todos os vistos concedidos a
estrangeiros de origem semita. Dessa relação constará o nome,
nacionalidade, idade, profissão, porto de destino e a qualidade do
pedido de concessão de visto.
3) Tanto os vistos como as anotações deverão ser assinados tão somente
pelos titulares efetivos do posto e selados com selo seco, consular, sem
exceção.
4) Além das obrigações já referidas, a autoridade consular, ao examinar
um pedido de visto em passaporte de origem semita, não se alheará ao
dever de selecionar e fiscalizar, nem dispensará a satisfação das demais
origens legais, previstas na lei de imigração e seu regulamento.
Fica revogada a circular secreta n.º 1.127 expedida pelo Ministério das
Relações Exteriores, em 7 de junho de 1937, somente naquilo em que
contrariar as disposições desta resolução.
Rio de Janeiro, em 27 de setembro de 1938.
a) Aranha
A.N.A.
M 3.714 – 29-9-38

A circular secreta de n.º 1.127 lembrada no final da que acabamos de


transcrever, expedida pelo Ministério das Relações Exteriores, de 7 de junho de 1937,
85

proibia a concessão de vistos em passaportes de indivíduos de origem semita, mas com a


ressalva de que, tratando-se de pessoas de destaque na sociedade e no mundo dos negócios,
os consulados deveriam consultar a Secretaria de Estado antes de recusar.209

Sobre esse período tenebroso da história da imigração judaica no Brasil temos ainda que
nos reportar a um desabafo de consciência do ministro Hélio Lobo em artigo que publicou
de Genebra em dezembro de 1947 no “Jornal do Comércio”, do Rio de Janeiro: “Não tinha
o abaixo-assinado (Hélio Lobo) boa lembrança do tempo em que, sentado pelo nosso país
na Comissão Intergovernamental de Londres, instituída pela Conferência de Evian, em
1938, se viu em posição de esquerda perante os seus colegas e perante o sentimento de
cooperação internacional, de que antes nunca abdicara o Brasil. Estávamos no início de um
regime que, num país de mistura de raças de que se orgulharia, inspira-se em preocupações
oriundas do nacional-socialismo alemão. De modo que, enquanto as instruções eram
negativas em relação aos israelitas expulsos pelo Reich, entravam estes às centenas no
Brasil, mediante o pagamento de dez mil cruzeiros por cabeça a intermediários pouco
escrupulosos”.210 Os que eram inaptos do ponto de vista financeiro tiveram que ficar sem
visto. Em um jornal israelita, o “San Pauler Idiche Tzeitung”, de 10 de agosto de 1938,
temos uma confirmação de desabafo tardio do ministro Hélio Lobo, mas agora apenas
como uma notícia que informava sobre a posição do Brasil, através de seu representante
(Hélio Lobo) na Conferência Internacional de Refugiados, onde se transcreviam suas
palavras: “Como resultados das condições de desemprego que se assinalaram em 1938, o
governo de meu país viu-se forçado a limitar a imigração e a proteger o mercado interno...
Foi em resultado de condições insustentáveis que o governo brasileiro resolveu, no ano de
1934, fixar a cota anual...” O mesmo periódico lembrava, meses antes, em seu número de 8
de maio de 1938, que entre exigências do consulado brasileiro em Berlim havia a definição
da religião e raça aos que se dirigiam a ele para solicitação de vistos. Também é ilustrativo
da linha adotada pelo governo do Estado Novo a posição manifesta do seu ministro da
Justiça, Francisco Campos, sobre a imigração israelita, publicada no mesmo periódico em
seu número de 21 de janeiro de 1938. A opinião pública, ou melhor, os que a manipulavam,
usava da imprensa para mostrar o quanto a imigração israelita era indesejável, tal como
podemos verificar em artigo publicado no Correio da Manhã, do Rio de Janeiro, em 29 de
janeiro de 1938, no qual o articulista se mostrava antagônico à imigração de israelitas da
Romênia. Tudo isso ocorreria em um tempo em que na Alemanha as Leis de Nuremberg
tinham sido declaradas como parte da nova ordem do Reich, a Kristallnacht vitimava
milhares de judeus material e espiritualmente, e se projetava a “Solução Final” dos judeus
na Europa e onde se pudesse alcançá-los, para a glória da raça ariana, seus seguidores e o
Fuhrer, que tanta admiração havia causado em alguns países sul-americanos.
É preciso dizer, também, que em 18 de abril de 1938, pelo artigo 3 do decreto
383, dava-se o prazo de 30 dias para que todas as instituições estrangeiras se legalizassem,
proibindo-se também o uso de qualquer outra língua que não o português nas escolas ou nas
atividades culturais. Xenofobia e anti-semitismo confundiam os judeus alemães com

209
V. Dines, Alberto, Morte no Paraíso, ed. Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1981, p. 228.
210
Cit. na série de artigos publicados em 1948 em “O Estado de São Paulo”, com o título “A batalha contra a
imigração”.
86

alemães adeptos ou simpatizantes do nazismo no Brasil, e não faltavam interessados em


confundi-los.
Houve outras facetas, não menos “interessantes”, relativas à imigração judaica
em outros países da América Latina, e não somente ao Brasil, tal como uma notícia de um
jornal norte-americano que informava sobre um acordo que seis países – Brasil, Uruguai,
Paraguai, Perú, São Salvador e Bolívia – fizeram com o Vaticano para permitir a imigração
de “conversos” aos seus respectivos territórios.211 Isso ocorreria em 1940, isto é, quando a
máquina de extermínio dos judeus na Europa já se encontrava bem acelerada. Um dos
países que assinaram esse acordo – a Bolívia – elaboraria, dois anos após, em 1942, um
plano único e inédito em nosso continente, o da expulsão dos judeus de seu território! E
novamente isso ocorria em um ano em que ninguém desconhecia ou tinha dúvidas sobre a
catástrofe que atingira o judaísmo europeu.

Mas voltemos a Rezende, que foi considerada a última experiência agrícola empreendida
pela J.C.A. em solo brasileiro. No álbum-mapa, feito em julho de 1936, do levantamento da
área adquirida pela J.C.A., lemos que ela possuía 400 alqueires geométricos e constituía um
conjunto de várias glebas de terra denominadas Fazenda Lambary, Castello, Santa Clara,
Barra e São Sebastião, de propriedade do coronel Abílio Marcondes de Godoy. A compra
custou à J.C.A. 1.100 contos de réis e o levantamento técnico-topográfico foi feito pelos
engenheiros Israel Max Roussine e D. Rosenblum, ambos sob as expensas da J.C.A. Temos
duas descrições da colônia, sendo a primeira decorrente da visita do interventor do estado
do Rio, o comandante Amaral Peixoto, em abril de 1938212, e a segunda feita, nada mais
nada menos, pelo Presidente da República, o sr. Getúlio Vargas, em junho do mesmo ano e
publicadas no “San Pauler Idiche Tzeitung”. Além do mais, em janeiro daquele mesmo ano,
publicava o jornal “A Tarde”, do Rio de Janeiro, um artigo acerca da colonização e do
projeto. Transcrevemos o relato das duas visitas mencionadas, uma vez que uma
complementa a outra: “A colônia é para 30 famílias, mas por enquanto tem apenas quinze.
Já estão prontas as restantes quinze casas com todos os apetrechos necessários e em
condições de receber habitantes. O governo não gastou ali um tostão, toda a instalação da
colônia foi feita por uma instituição judaica formada na Europa, com sede em Paris, que
comprou as terras, construiu pontes, saneou a zona, etc. Cada colono recebe, ao chegar,
além dos instrumentos necessários ao serviço da agricultura, sementes, galinhas e quinze
vacas leiteiras. Tudo está calculado matematicamente. No início a colônia dá déficit, no
segundo ano o déficit é menor, no terceiro a receita cobre as despesas e no quarto e quinto
anos o lucro deverá ser bastante para compensar o capital empregado. Trata-se de um plano
qüinqüenal cuja execução tem dado resultados em outros países. Passados os cinco anos, as
novas colônias serão instaladas, tudo de acordo com o plano traçado pela instituição acima
referida. Nessa colônia há uma escola onde o ensino é ministrado somente em Língua
Portuguesa. É chefiada por um engenheiro judeu alemão, tendo notado o interventor
Amaral Peixoto que o trabalho ali é admiravelmente disciplinado e que os colonos gozam
de todo o conforto. Aparecendo no local à hora do almoço, viu a alimentação do pessoal,
gabando o asseio que notou em nossa colônia. Ao retirar-se, prometeu interessar-se junto ao
211
“San Pauler Idiche Tzeitung” de 8 de abril de 1940.
212
“San Pauler Idiche Tzeitung” de 10 de abril de 1938.
87

ministro do Exterior no sentido de obter a permissão necessária à entrada das quinze


famílias que faltam para completar a colônia em apreço”. A segunda visita, a do presidente
da República, acompanhado pelo ministro da Agricultura, Fernando Costa, o interventor
Amaral Peixoto e outras pessoas é noticiada no S.P.I.Z. de 3 de junho, com uma nota que
diz que “o presidente foi recebido pelo administrador da colônia, I. Aizenberg. A colônia
foi fundada há dois anos e conta com 16 famílias. A sua capacidade é de 40 famílias”.
Posteriormente, no mesmo periódico, em 8 de agosto e em 26 de outubro, temos mais um
relato da visita do presidente que inicia com o título “Um exemplo de organização agrária,
a colônia agrícola Fazenda da Barra, em Rezende”. “O diretor da colônia é austríaco. Está
sendo redigido um relatório da colônia para ser apresentado à direção geral: cada família
que chega tem direito a um lote com uma casa, um pequeno estábulo, um galinheiro e
outras instalações, além dos instrumentos de uso individual na lavoura. As máquinas
maiores como arados, trator, etc. são cedidas a cada colono conforme as vão necessitando.
O lote assim distribuído é pago pelo colono em prazos dilatados e toda a produção é
calculada pelo agrônomo, de maneira que o colono não perde tempo com tentativas sujeitas
ao fracasso. A base da produção é o leite. O gado é meio-estábulo, de maneira a não exigir
muita terra de pasto e aumentar a produção de leite. Pequenos sítios conservam a forragem.
Outras atividades como horticultura, pomicultura, etc. são acessórias, sobretudo nos
primeiros tempos. Os colonos da Fazenda da Barra já são os maiores fornecedores de leite
do município. Quanto aos outros produtos, os fretes não causam prejuízos, porque eles
embarcam em caminhão e o caminhão traz os produtos diretamente ao mercado,
eliminando o atravessador. No primeiro ano foram plantados no conjunto dos lotes
colonizados 75,6 hectares de milho, 59,4 de mandioca, 36,2 de feijão, 18,4 de arroz, 0,5 de
batata doce, 2,2 de batata inglesa, 0,6 de amendoim, 14,9 de capim imperial. A forragem é
o que mais preocupa o colono. Resolvido esse problema, resta o da formiga, que absorve as
energias do colono”. O relato terminava dizendo que a colônia tinha 16 famílias e uma
escola primária brasileira, tendo a fazenda já medidos e demarcados lotes para mais de 80
famílias.
O que aconteceu com a colônia agrícola judaica de Rezende? A resposta não é
difícil de se dar. Os imigrantes judeus alemães que deveriam chegar para completar as 15
ou 16 famílias iniciais não vieram, e os lotes da J.C.A. acabaram passando a outras mãos.
Não era um tempo fácil para os imigrantes judeus entrarem no Brasil, como já havíamos
demonstrado longamente mais acima, e assim a última tentativa de colonização agrícola da
J.C.A. redundaria em fracasso, apesar de que no Rio Grande do Sul a colonização de
“Quatro Irmãos” subsistiria durante muito tempo e alguns de seus descendentes
continuaram a exercer uma atividade agrícola várias décadas após, mesmo até os nossos
dias.
Porém vejamos agora a imigração judaica ao Brasil e à Argentina sob o ângulo
estatístico a fim de termos uma idéia do movimento migratório, sua distribuição no tempo e
sua avaliação quantitativa, ainda que devemos observar que poucos são os estudos e poucas
as fontes que permitem a coleta de dados numéricos referentes a ambos os países.
Segundo a tabela demonstrativa sobre a imigração judaica no Brasil e
Argentina durante os anos de 1906-1918, publicada na Algemeine Enziclopedie,213 temos os
seguintes dados:

213
Algemeine Enziclopedie, vol. Yidn, Paris, 1939, pp. 441-482.
88

Ano Argentina Brasil Ano Argentina Brasil

1904 4.000 - 1921 4.095 -


1905 7.516 - 1922 7.198 -
1906 13.500 - 1923 13.700 -
1907 2.518 - 1924 7.800 -
1908 5.444 - 1925 6.920 2.624
1909 8.557 - 1926 7.534 3.906
1910 6.581 - 1927 5.584 5.167
1911 6.378 - 1928 6.812 4.055
1912 13.416 - 1929 5.986 5.610
1913 10.860 - 1930 7.805 3.558
1914 3.693 - 1931 3.553 1.940
1915 606 - 1932 1.801 2.049
1916 - - 1933 1.962 3.317
1917 - - 1934 2.215 4.010
1918 - - 1935 3.169 1.759
1919 280 - 1936 4.261 3.450
1920 2.071 - 1937 - -

Estes dados não são oficiais e foram tirados dos relatórios da J.C.A., HIAS ou
HICEM, entidades que cuidavam da imigração judaica em todo o mundo. Pinhe Katz, no
seu livro “Fuftzik yohr yidn in Argentine214 (50 anos de judaísmo argentino), repete a cifra
extraída da J.C.A., que mostra que, em 1904, entraram 4.000 imigrantes judeus, em 1905 –
7.516; 1906 – 13.500; em 1907 – 2.518, confirmando os dados da “Algemeine
Enziclopedie”. Segundo o relatório da J.C.A. publicado em 1908, calculava-se a população
judaica na Argentina entre 35.000 a 40.000 almas, das quais viviam em Buenos Aires cerca
de 15 a 16 mil, 13.000 nas colônias da J.C.A. e o restante em outras cidades daquele país.
Em um estudo de I. Dijour, Die Judische Auswanderung aus Polen215 (A
emigração judaica da Polônia), encontramos a seguinte estatística referente à imigração
judaica da Polônia à Argentina e ao Brasil:

No período de 1921 a 1925 em 1926 em 1927

Argentina 17.500 4.750 1.932


Brasil 2.000 1.376 676

No artigo “Di arbeit fun ‘HIAS-ICA-Emigdirekt’ in yohr 1928”216 (O trabalho


da HIAS-ICA-Emigdirekt no ano de 1928), vemos que a imigração de 1928 na Argentina
foi de 7.000, enquanto que ao Brasil chegaram 4.055, passando pelos representantes da
sociedade acima mencionada no Rio de janeiro, em Santos, Bahia e Pernambuco.

214
Geklibene Schriftn, vol. IV, B. Aires, 1946, p. 52.
215
In “Die jüdische Emigration”, Feb. Marz, Berlin, 1928, pp. 1-5.
216
in “Di Yidiche Emigratzie”, n.º 2, Berlin, 1929, pp. 106-111.
89

E ainda no artigo “Di algemeine un idishe emigratzie fun Poilen far di yohren
1927-1928”217 (A emigração geral e judaica da Polônia no ano 1927-1928), temos a
seguinte tabela comparativa da emigração polonesa:

em 1928 Argentina Brasil


Geral 22.007 4.402
Judaica 4.805 1.190

em 1927 Argentina Brasil


Geral 20.189 3.376
Judaica 4.113 1.095

Todos esses estudos permitem deduzir certa estatística sobre a emigração vinda
à Argentina e ao Brasil, já que a Polônia constituía a grande fonte emigratória a ambos os
países.
Na segunda metade de 1928, nota-se na Argentina a criação de certas
dificuldades para a aceitação de imigrantes. De início elas são dirigidas contra pequenos
comerciantes e também artesãos, com a finalidade de desviar a imigração da cidade de
Buenos Aires, que contava com 2 milhões e meio de habitantes, enquanto que o geral da
população em todo o território era de 10 milhões. Em seguida, criaram-se novos obstáculos
a livre imigração restringindo-a a aceitação apenas de trabalhadores rurais, ou daqueles
considerados necessários, ou ainda os que possuíssem 150 dólares além das despesas de
viagem.
Isso prejudicou a imigração judaica, ainda que o novo governo eleito
posteriormente trouxesse novas esperanças. Em todo caso, as limitações do governo
argentino, nesse ano, levaram a desviar a imigração ao Brasil.
Os relatórios do Relief no Rio de Janeiro, que se encarregava de receber,
orientar e ajudar os imigrantes israelitas que chegavam ao Brasil e que tinham agências
com as mesmas incumbências em outras cidades do território nacional, confirmam em boa
parte as cifras relativas ao ingresso de pessoas sob o seu cuidado e registro, o que
representava apenas uma parte dos imigrantes judeus entrados em nosso país, ou seja,
aquela parte que vinha sob a coordenação e arranjo dos órgãos internacionais, tais como
HIAS, a J.C.A. e a Emigdirekt. A estatística sobre essa imigração começa a ser publicada
pelo Relief a partir de 1925 e é divulgada na imprensa judaica, em língua ídiche, até 1926
no jornal “Dos Idiche Vochenblat” e em 1927 no jornal “Brazilianer Idiche Tzeitung”. Se
considerarmos que muitos imigrantes israelitas não imigravam ao Brasil via essas
instituições e tampouco eram recebidos e registrados no Relief, porém vinham por conta
própria, podemos deduzir que os números acima estão próximos da verdade. Os números
do Relief confirmam também que a maioria dos imigrantes da década de 20 vinha da
Polônia e Rússia. Senão vejamos: no relatório do Relief, referente ao ano de 1925,
encontramos que ingressaram em nosso país 312 judeus, dos quais 141 vindos da Polônia,
112 da Rússia e o restante de demais países (Romênia, Áustria, Checoslováquia, Hungria,
Alemanha, etc). Em 1925, a imigração registrada no Relief atingia uma média mensal de 55
para o primeiro semestre e 150 para o segundo semestre. Em 1927, a média mensal de

217
in “Di Yidiche Emigratzie”, n.º 2, Berlin, 1929, pp. 205-211; n.º 6-8, 1929, pp. 337-341.
90

ingresso de imigrantes seria de 45 almas. Lamentavelmente, não temos a continuação dessa


estatística, pois o B.I.P. deixaria de ser publicado no fim de 1929, e os demais jornais que
surgiram a partir de 1927 deixaram de publicar sistematicamente os dados relativos ao
Relief, ainda que aqui e acolá possamos colher alguma informação estatística sobre a
imigração judaica no Brasil.
Ainda sobre a imigração judaica no Brasil e Argentina, bem como sobre a
imigração judaica em geral, importante é o estudo de Jacob Lestchinsky, talvez a maior
autoridade no assunto, publicado em 1944 no Yivo Bletter,218 e onde se admite que de 1840
a 1924 entraram em nosso país 71.360 israelitas e na Argentina 223.540, segundo a
seguinte distribuição de tempo:

Argentina Brasil
1840-1880 2.000 500
1881-1900 25.000 1.000
1901-1914 87.614 8.750
1915-1920 3.503 2.000
1921-1925 39.713 7.139
1926-1930 33.721 22.296
1931-1935 12.700 13.075
1936-1939 14.789 10.600
1940-1942 4.500 6.000

Nesse período, ou seja, de 1840 a 1942, o movimento migratório de judeus a


todos os países foi de 3.916.988 almas, representando a imigração à Argentina 5,7 % do
total da imigração ao Brasil, 1,8 % em relação ao total. Os Estados Unidos representam
71,5 do total dessa imigração, que resultou no ingresso de 2.801.890 de judeus, em todo
aquele período, em território norte-americano.
Para concluirmos nosso estudo devemos resumir as causas do fracasso da
J.C.A, fracasso relativo, pois sabemos dos beneficiários significativos que a colonização
agrícola judaica trouxe tanto à Argentina quanto ao Brasil, porém no sentido de não haver
tido uma continuidade e expansão da obra que havia iniciado em ambos os territórios nos
finais do século XIX e nos inícios do século passado.
Sabemos que na Argentina a colonização agrícola trouxe resultados
satisfatórios sob o aspecto da produtivização dos judeus que imigraram àquele país, além
dos dourados benefícios que trouxe à agricultura e à economia de lá. Porém, no Brasil os
efeitos foram menores. Da colonização encetada no Rio Grande do Sul desenvolveram-se
posteriormente núcleos urbanos que se contam entre as cidades existentes naquela região.
O isolamento das duas colônias sulinas, devido à falta de estradas adequadas
que permitissem a comunicação com outros núcleos populacionais e favorecessem o

218
“Yidiche vanderungen in di letzte hundert yohr” (Migrações judaicas nos últimos cem
anos), in Yivo Bletter (Journal of the Yiddish Scientific Institute), New York, vol. XXIII, january-february,
1944, n.º 1, pp. 41-54. Para a imigração judaica à Argentina no século XIX encontram-se estimativas no
importante artigo de A. L. Schusheim, L’Toldot ha-ishuv haiehudi b’Argentina” (Para a história dos judeus na
Argentina), in Sefer Argentina, B.A., 1954, pp. 27-65.
91

escoamento dos produtos agrícolas até os mercados de consumo; a mata ou a floresta densa,
que exigia um grande emprego de mão-de-obra para desmatamento e abertura de clareiras
para obtenção de terras agrícolas; os graves distúrbios dos anos de 1923 e 1924, que
levaram os agricultores ao abandono das colônias em troca de lugares mais seguros; a
atração dos jovens pelas cidades; a falta de continuidade na imigração do elemento humano
disposto à atividade agrícola; e, posteriormente, a própria política imigratória adotada pelo
governo brasileiro, a partir da década de 30, foram fatores decisivos para a desagregação
das colônias. Também não podemos omitir, como causa importante e muitas vezes até
decisiva em relação ao abandono de colonos e sua decepção, a inclemência do clima, que
em certos momentos destruía tudo o que havia sido feito pelas mãos dos agricultores, e as
catástrofes provocadas por nuvens de gafanhotos, perante os quais o colono se mostrava
impotente e sem meios para combatê-los.219
Há que considerar que, ao contrário do que ocorreu, em parte, na Argentina, as
colônias brasileiras não tiveram nenhum respaldo governamental, necessário à atividade
agrícola de um modo geral, principalmente em períodos de calamidade. Por outro lado, no
estudo da colonização judaica encetada pela J.C.A. na Argentina e Brasil, fica patente que
apesar do “know-how” da empresa colonizadora e a disponibilidade de recursos a serem
aplicados nos projetos da entidade, nem sempre sua administração foi suficientemente
qualificada para enfrentar os problemas que o empreendimento requeria. Muitos de seus
administradores se mostraram pouco humanos e inábeis em lidar com os colonos, que
necessitavam de orientação técnico-agrícola e compreensão, o que nem sempre
encontraram entre aqueles que eram encarregados de fornecê-la. Na história da colonização
judaica, principalmente na Argentina, os choques entre a administração e os colonos
também tem o seu capítulo, e não podemos desconsiderá-lo como fator negativo no
desenvolvimento da colonização agrícola.220
Também em nossas colônias sulinas não faltaram atritos, justificados ou não,
entre colonos e a administração local da J.C.A. Sobre uma manifestação organizada dos
colonos logo nos primeiros tempos de Philippson, temos um relato literariamente delicioso
de Melech Reicher, que testemunhou o acontecimento como colono que era em Philippson.
Ele descreveu os sofrimentos e as terríveis dificuldades de adaptação, no início daquela
colônia agrícola, provocados também pela inércia administrativa ao ordenarem aos colonos
que cercassem seus hectares de terra com cercas feitas de madeira a ser extraída da floresta,
que ficava a certa distância das propriedades agrícolas e exigia um esforço descomunal de
homens e bois para abrir caminho até lá. E assim narra o que aconteceu: “Os mais
destacados entre os colonos convocaram uma assembléia geral na Sinagoga e lá tomaram
uma resolução: todos os participantes deveriam ir diretamente protestar frente a
administração. Naquele mesmo dia, com gritos e alardes, marcharam mais de 60 colonos no
largo caminho que levava da colônia até a linha de trem. Cavaleiros montados sobre seus

219
Um dos poucos e comoventes depoimentos humanos que retrata a vida dos colonos de Philippson
encontramos no livro de Frida Alexander, “Filipson”, Fulgor, São Paulo, 1967. O relato, escrito em ídiche por
M. Reicher, um ex-colono, foi publicado no “Velt-Spiegel” (Espelho do Mundo), 6-7, nov/dez, 1939; 8,
janeiro, 1940; 11, maio, 1940; 12, agosto, 1940; 14, dezembro, 1940.
220
Bizberg, P., “Konfliktn zvischn di yidiche colonistn in Argentine um der localer YCA-administratzie”
(Conflitos entre os colonos judeus e a administração local da J.C.A.), in Argentiner IWO Shriftn, n.º 4, 1947,
pp. 85-107.
92

cavalos que passavam pelo local paravam e observavam admirados e boquiabertos com a
curiosa procissão de idosos judeus, que marchavam com suas longas barbas e casacões
negros, armados com varas nas mãos. O edifício da administração ficava no ponto mais alto
da colônia, em cima de uma colina, e quando o administrador observou de longe o
numeroso grupo de manifestantes, de imediato cerrou as portas e janelas e enviou seus dois
capangas com cães policiais em sua direção. Os colonos, aquecidos com um pouco de
bebida alcoólica e também com a mágoa provocada por uma longa semana de espera,
daquela vez não se assustaram com os caboclos. Com altas vozes, brados e xingamentos,
começaram a bater com as varas nas portas fechadas, esperando que o administrador se
apresentasse, pois eles não queriam lhe fazer mal algum, uma vez que os judeus não eram
bandidos. Pálido e assustado, o administrador foi obrigado a sair para se mostrar aos
colonos acompanhado de seus dois guarda-costas e seus cachorros. Com as mãos trêmulas,
ele tirou da gaveta de sua enorme escrivaninha um papel com a rubrica do escritório central
de Paris, e com um sorriso açucarado, fez conhecer aos colonos que “justamente hoje” ele
recebera de Paris uma ordem para que desse a eles arame farpado para cercar as
propriedades, zinco para cobrir os telhados das casas recém-construídas e galpões, e
também aumentar para cada família o subsídio mensal. Nesse dia, os colonos voltaram a
suas casas com o espírito elevado, alegres, e relataram às mulheres sobre o corajoso
confronto e a vitória obtida”.221
Devido a todos os fatos mencionados anteriormente, vários setores da opinião
pública judaica assumiram uma atitude hostil contra a J.C.A., atitude essa que encontrou
forte expressão na imprensa judaica, tanto na geral quanto na do Brasil, mas que nem
sempre foi isenta de razões ideológicas correntes na época, e que por vezes via com
pessimismo projetos de colonização na Diáspora, ou ainda, em oposição a ela, depositava
maior fé na produtivização dos judeus nos centros urbanos, visando a formação de um
proletariado industrial para a “normalização” de sua estrutura social.
Contudo, todas essas críticas e pontos de vista, na devida distância do tempo,
empalidecem e se tornam pouco significativos frente à gigantesca obra social e humana
realizada por um casal de barões, que no seu extremado idealismo, substituiu o amor por
um filho prematuramente falecido pelo amor a todos os filhos de Israel.

221
In “Velt-Spiegel”, n.º 8, janeiro, 1940, pp. 6-7.
93

10. A Contribuição dos Imigrantes Israelitas ao Desenvolvimento Brasileiro.

A presença dos israelitas no Brasil se faz sentir desde o início da descoberta


portuguesa, pois os cristãos-novos – ou marranos – vindos da Península Ibérica tomaram
parte ativa no processo de colonização da terra brasileira. Sabemos, também, que no
período da dominação holandesa, entre 1630 e 1654, esses mesmos cristãos-novos, que até
então cultivavam um judaísmo às escondidas, passaram a comportar-se abertamente como
fiéis de sua religião, organizando-se em comunidades próprias e mantendo um contato
íntimo com seus correligionários da Holanda. Isso até que os exércitos portugueses
expulsaram o invasor holandês de nosso solo, fazendo com que os judeus abandonassem
Recife para não se sujeitarem novamente, às ameaças da Inquisição.
Com a saída dos holandeses, os judeus que permaneceram em solo brasileiro
tiveram que esconder novamente suas origens religiosas, acabando por se mesclar à
população local. Seus descendentes se encontram entre muitas famílias tradicionais
brasileiras, em cujas veias corre muito sangue daqueles israelitas dos tempos coloniais.
Após um hiato histórico de vários séculos e somente com a transferência da
corte portuguesa ao Brasil, em 1808, seguida da Abertura dos Portos às nações amigas e ao
Tratado de Aliança e Amizade de fevereiro de 1810, pelo qual se assegurava aos
estrangeiros residentes no Brasil liberdade de consciência e de culto religioso, é que
começamos a notar a presença de israelitas que se declaravam como tais, sem o temor da
perseguição inquisitorial.
Entre os primeiros que chegaram no início do século passado encontravam-se
israelitas de várias procedências: ingleses como os Nathan, os Samuel, e Leão Cohn, cujo
filho Francisco foi comandante das tropas do Rio de Janeiro na Guerra do Paraguai;
alemães como os Moretzsohn, e seus descendentes, como os Salomon e Wallerstein;
gibraltinos como a famosa família Amzalak, que conta hoje com uma descendência
ininterrupta de 150 anos, cujos filhos se destacaram em vários campos da atividade humana
ou seja social, econômica, militar e cultural.
Começava, assim, um novo capítulo na longa presença judaica no Brasil, pois já
nas primeiras décadas do século XIX iniciava-se uma verdadeira onda imigratória de judeus
vindos da África do Norte, de Tanger e Marrocos, que se estabeleceram no Norte do país,
ou seja, no Pará e no Amazonas. Esses israelitas, portadores de uma longa tradição religiosa
e espiritual, cujas raízes remontam à Península Ibérica, constituirão os núcleos pioneiros
que se embrenharão na selva amazônica, percorrendo os rios da grande bacia fluvial e
criando pequenas comunidades nos lugares mais longínquos daquela região, em Cametá,
em Itacoatiara, em Obidos, chegando até a fronteira do Peru. As comunidades de Belém e
Manaus cresceram e floresceram graças ao trabalho e à atividade daqueles imigrantes que
vieram contribuir decisivamente para o desenvolvimento daquela região. Os Benchimol, os
Bentes, os Levy, os Zagury, os Cohen, os Ben-Athar, os Perez, entre muitas outras
famílias, deram homens de destaque na vida econômica, política, militar, científica e
cultural da nação. Essa migração também chegou a outros Estados: ao Rio de Janeiro, a São
Paulo e outros lugares, participando no processo de aculturação notável que caracterizou o
melting-pot imigratório singular e proporcionou a formação da nação brasileira.
À corrente imigratória marroquina seguiu-se na segunda década do século XIX,
procedente do continente europeu, uma nova onda imigratória. Pois, em 1848, a Europa
94

vivia um grande movimento nacionalista, corretamente denominado Primavera dos Povos,


e cujo objetivo último era alcançar a emancipação dos povos que viviam sob o domínio de
outros. Em decorrência desses conflitos nacionalistas israelitas da França, da Áustria, da
Alemanha e outras regiões se dispuseram a deixar seus países. Eram seres que procuravam
a paz e a liberdade que não podiam usufruir em seus lugares, uma vez que o anti-semitismo
secular, em tempos de crise social, revelava habitualmente hedionda face , impelindo os
israelitas a procurar um lugar seguro e para sua sobrevivência.
A guerra Franco-Prussiana de 1871 motivou a que muitos israelitas das regiões da Alsácia e
Lorena, incorporadas à Prússia, se dirigissem ao Brasil, constituindo uma verdadeira
corrente imigratória, cuja contribuição cultural e econômica ainda está para ser avaliada.
Seus nomes estão, hoje, afixados em várias ruas de São Paulo, tais como os Netter, os
Burchard, os Nothmann e muitos outros que se destacaram como os empreendedores de
iniciativas econômicas e sociais de grande significado nacional, e que acabaram, eles e seus
descendentes, por se integrar na sociedade brasileira com extraordinária facilidade. Os
imigrantes alsacianos que se estabeleceram em São Paulo, no Rio de Janeiro, em Campinas
e outros lugares trouxeram o bom gosto e o refinamento no modo de trajar, introduzindo as
casas de modas e joalherias ao mesmo tempo que empreenderam projetos industriais em
setores que começavam a despontar em nosso país. Sua contribuição cultural não foi menos
importante nas artes plásticas, onde aparecem os nome de Gaston e Berta Worms, assim
como na música, na qual se destaca o nome de Alexandre Levy. Os alsacianos promoveram
o intercâmbio comercial com a Europa, exportando café e importando maquinarias para
indústria nascente em nosso território.
Uma nova corrente imigratória iniciar-se-ia no fim do século passado, devido às
perseguições que os judeus estavam sofrendo na Rússia, a partir do ano de 1881, e onde
vivia uma grande população de israelitas em péssimas condições econômicas e sociais.
Servindo de bode expiatório a um regime de desmandos de um império que estava se
deteriorando e que se caracterizava por um feroz anti-semitismo. Os judeus da Rússia,
Ucrânia, Bessarábia, Polônia, Lituânia, Galitzia, pressionados pelas circunstâncias, foram
abandonando aqueles territórios em busca de novas oportunidades na Europa ocidental e
nas Américas. Ao mesmo tempo, as comunidades judias dos países da Europa Central e
Ocidental começaram a procurar meios para amenizar o êxodo dos seus irmãos da Europa
Oriental no Brasil. Para tanto, foi enviado ao nosso país um jornalista alemão, Oswald
Boxer, para tratar das possibilidades de estabelecer colonos judeus no Brasil, mas não pôde
levar adiante seu projeto devido às circunstâncias políticas que reinavam em 1891, ano de
sua vinda ao Brasil. Quando ainda se encontrava na cidade de São Paulo, aguardando
melhores tempos para negociar o projeto de colonização, acabou morrendo de febre
amarela.
No mesmo ano de 1891, foi dado um passo muito importante no sentido de
encontrar uma solução para os sofrimentos dos judeus da Europa Oriental, com a criação da
Jewish Colonization Association (J.C.A.), sob a iniciativa do magnânimo benfeitor de seu
povo, o Barão Maurício de Hirsch, e a cooperação de alguns israelitas proeminentes da
França e da Inglaterra. A J.C.A. projetou uma colonização agrícola judaica na Argentina e
no Brasil, sendo que a partir de 1900 foi enviada uma comissão de estudos ao Rio Grande
do Sul a fim de verificar as condições ideais para a realização daquele projeto. De fato, a
comissão de estudos votou um parecer favorável, e já em 1901 viria um agrônomo, Dr.
Eusébio Lapine, para visitar várias zonas gaúchas e comprar terras em Pinhal, no município
de Santa Maria, onde em 1904 instalar-se-ia a primeira colônia agrícola israelita no Rio
95

Grande do Sul, com o nome de Philippson, em homenagem ao vice-presidente da J.C.A.


daquele tempo.
A J.C.A. pagava as despesas de viagem e entregava a cada colono um lote de 25
a 30 hectares de terra para cultivo, incluindo campo de pasto e mata, uma casa para
moradia, instrumentos de trabalho, 2 juntas de boi, 2 vacas e um cavalo. Enquanto não
pudessem viver do produto das colheitas, dava-lhes um suprimento em dinheiro, variável de
acordo com o número de pessoas da família. O colono devia reembolsar essa importância
dentro de um prazo de 10 a 20 anos, acrescida de juros módicos. As despesas com a
administração, escola, funcionalismo, serviços públicos, etc, eram feitas pela J.C.A. sem
nada debitar na conta dos colonos. Philippson não foi a única colônia agrícola fundada pela
J.C.A., pois devido ao sucesso da primeira, essa sociedade de colonização resolveu
comprar, em 1909, a fazenda “Quatro Irmãos”, com 93.850 hectares de terra, no município
de Passo Fundo. Os primeiros colonos israelitas chegaram entre 1911 e 1912, provenientes
da Argentina e outros lugares, principalmente da Bessarábia. Em 1913, chegou da Rússia
mais um grupo de 150 famílias. A colônia cresceu a ponto de, nas vésperas da Primeira
Guerra Mundial, atingir o número elevado de cerca de 350 famílias.
Os colonos dedicavam-se à criação de gado, ao cultivo de milho e de vários
cereais, principalmente o trigo, que até então era desconhecido na região. As dificuldades
não foram poucas, pois tanto o solo quanto o clima lhes eram estranhos. A densa floresta,
predominante na região, que implicava num desmatamento penoso, as pragas de
gafanhotos, o isolamento dos grandes centros, devido à falta de estradas, foram fatores que
levaram em boa parte ao abandono da terra. E, em 1923, o desastre sobreveio com a
revolução sulina, pois muitos assaltantes e ladrões, dizendo-se revolucionários, invadiram a
colônia Quatro Irmãos e arrebataram tudo o que a colônia possuía, desde o gado até objetos
de toda natureza. Apesar de tudo, o ânimo dos colonos não esmoreceu, e ainda que muitos
abandonassem o lugar, outros viriam da Europa para se instalar em Quatro Irmãos,
composta de vários núcleos colonizadores, a saber: o de Barão Hirsh, Baronesa Clara e Rio
Padre.
Da colonização sistemática de israelitas no Rio Grande do Sul surgiram as
comunidades judias das cidades de Porto Alegre, Santa Maria, Passo Fundo, Erexim, Cruz
Alta e outras menores, pois os colonos imigrantes de Philippson e Quatro Irmãos acabaram
juntando-se aos poucos israelitas que já viviam naqueles centros urbanos.
Desde os primeiros anos do século XX e as vésperas da Primeira Guerra
Mundial verificou-se um aumento gradativo da imigração judaica ao Brasil. Nas grandes
cidades do país, tais como Rio de Janeiro, São Paulo, Curitiba, Porto Alegre, Recife,
Salvador e outras, já às vésperas de 1914, organizavam-se as comunidades israelitas,
atendendo ao imperativo da corrente imigratória que começava a engrossar. Organizavam-
se as primeiras entidades de ajuda e beneficência para receber os imigrantes, procurando-se
ampará-los materialmente e espiritualmente e assegurando a sua integração à vida no país.
Paralelamente às instituições de ajuda mútua e beneficência de amparo aos
imigrantes, as comunidades israelitas fundaram escolas para seus filhos, sociedades
culturais, com o objetivo de facilitar a absorção dos recém-chegados e permitir seu
enraizamento no solo brasileiro. Ao mesmo tempo, desenvolviam uma atividade cultural
intensa, com a formação de bibliotecas, grupos de teatro, clubes literários, fundando,
também os primeiros periódicos, que atraíram poetas, escritores, jornalistas e artistas que
passaram a formar a “intelligentsia” local.
96

Nesse ínterim, principalmente entre as duas grandes guerras mundiais, a


população judaica no Brasil cresceu significativamente, acrescida da onda imigratória
procedente da Europa Central, de fala alemã, atemorizada pelo nazismo, que a partir de
1933 ascendia ao poder e dava início a uma política de confinamento e marginalização dos
judeus na Alemanha . Nessas décadas, as colônias israelitas de São Paulo, Rio de Janeiro e
de outras capitais de nosso território davam uma imensa contribuição ao progresso do país,
apresentando-se como um elemento criativo em vários setores, no comércio, na indústria, e
destacando-se em várias atividades profissionais, como médicos, engenheiros, professores,
pesquisadores e cientistas. As gerações já nascidas no Brasil, filhos daqueles imigrantes que
vieram sem outra coisa senão a esperança de reconstruírem suas vidas num solo benigno
que os acolheu de braços abertos, constituiu um elemento dinâmico que revelou talento e
aptidão em toda a extensão das atividades humanas num país que estava dando passos
importantes e decisivos em seu desenvolvimento.
As correntes imigratórias israelitas não cessaram com a Segunda Guerra
Mundial, pois com o término da catástrofe, que resultou no holocausto de milhões de almas
do povo judeu, muitos dos sobreviventes do inferno hitlerista procuravam lugares não
manchados com o seu sangue para esquecer o pesadelo pelo qual haviam passado. Ao
Brasil chegaram para reconstituírem suas vidas, num clima de liberdade, de humanidade,
sem discriminações de qualquer espécie, podendo, assim, através de uma atividade
produtiva intensa, provar do que eram capazes, beneficiando a nova pátria que haviam
encontrado em nosso território, fechando, na distância de vários séculos, o círculo que
havia se iniciado desde a descoberta em 1500, quando começaram a aportar nesses tempos
coloniais, os cristãos-novos perseguidos e degredados da Península Ibérica.

AJUDA DE BARÃO JUDEU

Em Viena, na ocasião em que exerceu uma missão diplomática, no ano de


1745, e onde iria encontrar sua esposa, Leonor Daun, ele, passando por sérias dificuldades
financeiras, seria socorrido pelo banqueiro judeu português, barão Diogo de Aguilar, que
fora para a Alemanha como foragido, por medo da fogueira, ou, como diziam ainda alguns,
por dilapidações da venda de tabaco, porquanto no reino exercera a atividade de contratante
desse produto. Diogo de Aguilar acabaria prestando os mesmos serviços ao imperador
Carlos VI, e, em retribuição, receberia o título de nobreza. E não é de se estranhar que o
relacionamento com o barão judeu português, assim como com outros residentes em
Londres que o auxiliaram eficientemente sob o aspecto financeiro, em suas missões
diplomáticas, tenha influído decisivamente para mudar suas opiniões a respeito dos filhos
de Israel e o tenha levado a retribuir, mais tarde, as benesses que recebera daqueles anos.
Mesmo antes de Pombal vir a Viena, o conde de Tarouca tomara, a serviço da
legação portuguesa, um outro foragido da terra portuguesa, o assim chamado Cavaleiro de
Oliveira. E, além do mais, não era raro que cristãos-novos ou judeus de seu tempo,
perseguidos no reino pelo Santo Ofício, acabassem servindo com seu talento, no
estrangeiro, as embaixadas portuguesas, tal como fizera Jacob de Castro Sarmento, médico
do ministro em Londres.
Pombal teria, ao sair da Península, entrando em contato com os países europeus
mais adiantados, visto e sentido o clima de tolerância e liberdade em relação aos judeus na
Inglaterra, na Holanda, no Império Austro-Húngaro e nos próprios Estados Papais, onde
gozavam de inteira liberdade. Tal situação era chocante e contrastava terrivelmente com o
97

que se passava em Espanha e Portugal, onde o Tribunal do Santo Ofício dominava e


supervisionava as mentes da nação. Também observava o quanto a instituição inquisitorial
prejudicava o reino, pois fácil era notar o papel positivo exercido pelos judeus, na Holanda
e na Inglaterra, na crescente atividade econômica daqueles países, enquanto que Portugal,
devido ao seu fanatismo, os perdia, juntamente com seus bens e riquezas. Possivelmente,
tudo isso o tenha levado a meditar sobre o caminho a seguir em relação ao Santo Ofício e às
perseguições constantes sofridas pelos cristãos-novos portugueses. Houve também aqueles
que explicaram a ação pombalina, e ainda em seu tempo, com calúnias tais como o de ter
recebido dos judeus cerca de 500 mil cruzados, acusações que eram lembradas em alguns
versos satíricos da época.
Porém, e acima de tudo, inegável era que o corajoso estadista dera “o golpe de
misericórdia” no monstro que atormentou o judaísmo peninsular, durante alguns séculos, e
o fez de tal modo que seus últimos estertores nem sequer foram mais ouvidos.
98

11. A Religião e a Imigração Israelita no Brasil

A história da Diáspora judaica tem como núcleo central a comunidade religiosa


organizada ao redor de sua instituição fundamental, isto é, a sinagoga.
Desde os primórdios a comunidade sinagogal foi condicionada por dois fatores
que atuaram simultaneamente, a saber: o fator externo, consistindo no meio ambiente ou a
sociedade mais ampla, onde os judeus viviam, e o fator interno, que expressava as
necessidades bem como o caráter particular de determinado agrupamento judaico onde quer
que se localizasse.
A literatura histórica sobre a vida e a organização comunitária judaica abrange a
diáspora desde a Antigüidade, incluindo-se os centros mesopotâmicos e da Ásia Menor,
bem como a imensa extensão geográfica sob os domínios grego e romano, passando pela
Idade Média (oriental e ocidental) e os períodos mais recentes, Moderno e Contemporâneo.
Ao estudarmos essa rica produção histórica, vemos que no seu conjunto “elas se
conjugam à semelhança de um mosaico, que esboça uma linha contínua de forças e
aspirações da nacionalidade judaica dirigida a si mesma, mesmo em condições de dispersão
e afastamento, dificílimas para manter-se unida e preservar tradições de autonomia
governamental”.222
Portanto, quando falamos em comunidade judaica temos a lembrar, antes de
tudo, que nos referimos a instituições que remontam, por vezes, desde a antigüidade, e são
herança de um passado histórico, criativo e sempre renovador, cujo eixo principal de
sustentação passa a ser a sinagoga.
A sinagoga não é apenas o lugar ou edifício para a realização do culto e do ciclo
anual litúrgico com os seus valores religiosos e espirituais, e que exige para tanto um
quorum mínimo de dez varões, acima dos treze anos de idade, para dar validade ao serviço
divino. Mais do que isso, a sinagoga, no passado, e ainda no presente, serviu, e serve, de
centro catalisador da vida comunal e pode ser o foro de expressão para todo tipo de
manifestação social da minoria judaica, onde quer que ela se encontra. Ao seu redor
organizaram-se os vários moldes e instituições da vida comunitária, procurando atender a
suas múltiplas necessidades, seja no campo educacional, beneficente, jurídico, cultural e os
demais.
Assim sendo, podemos compreender que o imigrante judeu no Brasil, assim
como em outros lugares, procurou assegurar em primeiro lugar o edifício onde pudesse
expressar seus anseios religiosos e encontrar o calor humano junto aos seus conterrâneos,
que o acolhiam e o orientavam no país onde se instalara. Boa parte dessas sinagogas, nas
primeiras etapas da imigração contemporânea, a partir do século XIX, eram casas ou salões
alugados ou improvisados, uma vez que a falta de recursos impedia a aquisição de edifícios.
Somente mais tarde, com a melhora e ascensão econômica das comunidades, é que se
passou a construir templos próprios, com a contribuição e o esforço coletivo dos membros
que as compunham.

222
A melhor coletânea sobre o tema, com ênfase no período medieval, foi organizada pelo saudoso professor
da Universidade Hebraica de Jerusalém, Haim Hilel Ben-Sasson, Há-Kehilá ha-Yehudit be-Yemei há-
Beinaim (A comunidade judaica na Idade Média), Soc. Histórica de Israel, Jerusalém, 1976.
99

Uma vez existindo a sinagoga, deveria haver uma autoridade religiosa, que às
vezes antecedia a construção do templo ou era providenciada posteriormente.
Na religião judaica não é obrigatório ser o ofício litúrgico conduzido por uma
autoridade religiosa qualificada formalmente, ou seja, um rabino, porém, qualquer membro
da comunidade que tenha o conhecimento suficiente da religião e da liturgia estará apto a
servir de chantre e condutor do serviço divino. E, de fato, sabemos que em boa parte, o
serviço religioso das comunidades judaicas recém-instaladas e espalhadas pelo território
nacional era conduzido por “leigos” inteirados das tradições e capazes de ler os textos
sagrados. O conhecimento das tradições e dos fundamentos da religião judaica deve ser
uma herança transmitida de pais a filhos e de geração a geração, pois é parte da formação
que a criança judia deve ter como futuro membro da comunidade. Porém, desde o início
os imigrantes das diversas levas imigratórias que aportaram ao Brasil, procuraram dar um
significado mais profundo e rico a sua vida espiritual, trazendo rabinos de outros países, da
Europa, do Oriente Médio, da África do Norte e mesmo da Argentina, que tinha uma
população judaica numericamente maior e mais desenvolvida sob o aspecto comunitário.
Esses rabinos, além de exercerem funções sinagogais, atendiam as necessidades do
cotidiano, no qual a sua presença se faz imprescindível, desde casamentos, circuncisões,
bar-mitzvot e em todos os atos que exigiam sua orientação religiosa.
Quem foram os primeiros rabinos no Brasil e quais foram as primeiras
sinagogas brasileiras? Não é uma pergunta fácil de se responder, pois se de um lado temos
alguns elementos, os poucos documentos que nos fornecem nomes e lugares ainda não são
suficientes para desvendar e desfazer as inúmeras dúvidas que pairam nesse segmento
particular da história da imigração judaica em nosso país.
No período colonial temos vários testemunhos de que os cristãos-novos
judaizantes faziam esnogas, e essa expressão denotava que eles se reuniam em algum lugar
para promover um culto judaico, que poderia ser motivado por qualquer uma das
festividades judaicas ou para rememorar tradições que os “marranos” e seus descendentes
costumavam observar, longe dos olhos daqueles que poderiam delatá-los aos esbirros da
Inquisição. Sabemos com certeza que havia lugares onde seguiam uma rotina estabelecida
ainda na Península Ibérica, em que certas casas de adeptos do judaísmo serviam de ponto
de encontro para a realização de cerimônias religiosas e para o estudo do judaísmo sob a
orientação de uma personalidade mais culta e esclarecida, que poderia ser denominada de
rabi. Essas esnogas clandestinas são lembradas nas denunciações durante a Primeira
Visitação do Santo Ofício às partes do Brasil, quando comparece à mesa da Visitação, na
Bahia, um cristão-velho de nome Manoel Braz, que testemunha ter conhecimento de que
“em casa de Diogo Lopes Ilhoa, cristão-novo, mercador nesta cidade, se fazia esnoga com
ajuntamento de judeus, e que quando uns estavam dentro fazendo a esnoga, outros andavam
de fora vigiando”223. Também em outro lugar se menciona que em casa de Antônio Tomas,
mercador, cristão-novo “se faziam muitos ajuntamentos de cristãos-novos como ele e
diziam que faziam esnogas”224. Nas denunciações da Primeira Visitação mencionam-se
também os lugares onde se faziam esnogas, e na Bahia a esnoga de Matoim é referida como
tendo existido “há vinte anos” na casa do cristão-novo Heitor Antunes “onde se ajuntavam
cristãos-novos e judaizavam e guardavam a lei judaica” 225. Em Camaragibe, em

223
Denunciações da Bahia, 1591-1593, Série Eduardo Prado, São Paulo, 1925, p.420.
224
Idem, Ibidem, p.489.
225
Idem, Ibidem, pp.277,382,392,475,537.
100

Pernambuco, é lembrado que teriam existido “há quarenta anos” e onde “havia esnoga onde
se juntavam os judeus desta terra e faziam sua cerimônia” 226. Além do mais, na Primeira
Visitação, temos menções de judaizantes, que devido ao seu preparo e conhecimento, se
destacam entre os cristãos-novos, tal como vemos em uma denúncia que se refere a João
Nunes, onde o denunciante “presumiu sempre mal do dito João Nunes e, geralmente, ouviu
dizer na dita capitania de Pernambuco que ele é o rabi da lei dos judeus que nela há” 227. Em
outro lugar das denunciações da Primeira Visitação encontramos que o padre Francisco
Pinto Doutel denuncia ao Visitador que “de vinte anos a esta parte é fama pública na dita
Vila de Olinda e Capitania de Pernambuco que Jorge Dias de Caja, cristão-novo calceteiro,
defunto que haverá dois anos é falecido, era o rabi e sacerdote dos judeus na dita
Capitania”228. O mesmo clérigo lembra ainda que certa vez os cristãos-novos do engenho
de São Martinho, por impedimento de Jorge Dias de Caja, se dirigiram a um João Dias
“para que lhes pregasse de sua lei judaica”229, fazendo o papel de rabi, mas este se recusou,
e por isso recebeu o devido castigo. Ainda em Pernambuco, Francisco Roiz Navarro
também é acusado de reunir às sextas-feiras membros de sua família e judaizantes para
fazerem esnoga230.
Nas denunciações da Bahia, também entre 1591 e 1593, lemos que em casa de
“Gomes Fernandes, o denarigado, se fazia esnoga depois que desta cidade se foi para
Lisboa Rui Teixeira, cristão-novo, em cuja casa se fazia a dita esnoga”231.
Em Salvador aparecem outras denúncias de se fazerem esnogas na casa de
Antônio Tomas e também na do boticário Dinis D’Andrade 232, conforme o texto da
Visitação de Heitor Furtado de Mendonça. Na Segunda Visitação, de Marcos Teixeira, em
1618, vemos o mesmo tipo de denúncia, agora contra o judaizante Gonçalo Nunes, que
reunia às sextas-feiras “alguns homens da nação em sua casa, que é na rua de trás da
cadeia”233.
Efetivamente, a existência de rabinos e edifícios construídos com a finalidade
de servir ao culto judaico e oficialmente reconhecidos pelas autoridades governamentais
deu-se no período do domínio holandês na região do nordeste brasileiro, onde se
constituíram, em Pernambuco, duas comunidades, a “Tzur Israel” no Recife e a “Maguen
Abraham” em Maurícia, e não é nenhum absurdo supor que espaços provisórios para o
culto judaico poderiam existir nas demais regiões ocupadas pelos batavos, como Paraíba
ou Itamaracá, na medida que tivessem pequenos núcleos israelitas.
Durante o domínio holandês vieram os notáveis rabinos Isaac Abuab da
Fonseca e Moisés Rafael de Aguilar234, que tinham uma formação religiosa adequada e

226
Denunciações de Pernambuco, 1593-1595, Série Eduardo Prado, São Paulo, 1929, p.75.
227
Denunciações da Bahia, p.449.
228
Idem, Ibidem, p.522.
229
Idem, Ibidem, p.522.
230
Denunciações de Pernambuco, p.481.
231
Denunciações da Bahia, p.292.
232
Idem, Ibidem, p.467.
233
Livro de Denunciações do Santo Ofício na Bahia no ano de 1618, Anais da Biblioteca Nacional, vol.
49,1927 (1936), p.97.
234
Sobre eles e sua atuação há uma vasta bibliografia de importantes autores, entre eles J. Mendes dos
Remédios , Os Judeus Portugueses em Amsterdam, Coimbra, 1911; A. Wiznitzer, Judeus no Brasil Colonial,
ed. Pioneira, São Paulo, 1966; J.Lúcio de Azevedo, História dos Cristãos Novos Portugueses, Liv. Clássica
Editora, Lisboa, 1975; M. Kayserling, Biblioteca Española-Portugueza-Judaica, Ktav Pub. House, N. York,
1971.
101

eram sábios de prestígio considerável entre os judeus de Amsterdão. O primeiro descendia


de uma verdadeira dinastia rabínica da Península Ibérica, todos eles sábios e eruditos que
deixaram seus nomes gravados na história religiosa dos judeus peninsulares.
A sinagoga do Recife235 parece ter sido construída a partir de 1637, ainda que
desde 1636 tenhamos notícias sobre a existência do culto sinagogal naquela região.
Em Maurícia sabemos que havia uma sinagoga na residência de um
correligionário daquela comunidade conhecido como Josua de Haro 236. Também temos
notícias sobre rabinos de outras comunidades, ainda que não existissem prédios
consagrados como sinagogas, mas tão-somente casas particulares adaptadas para esse fim.
Na Paraíba serviu de rabino Moisés Peixoto 237, que era capitão; em Itamaracá, o sábio
Jacob Lagarto238.
Com a expulsão dos holandeses, em 1654, e a conseqüente saída dos judeus que
viviam sob o seu domínio, supomos que os cristãos-novos espalhados em várias regiões do
território brasileiro deveriam continuar “fazendo esnogas” ou judaizando como antes, e o
maior indício dessa sua aderência ao judaísmo encontramos nos vários processos
inquisitoriais dos judeus brasileiros, onde é freqüente a denúncia de se reunirem para
judaizar, e isso até os meados do século XVIII.
Podemos dizer que o judaísmo, assim como foi praticado abertamente durante o
domínio holandês deixou de existir até os inícios do século XIX, quando com a vinda da
família real e a Abertura dos Portos às Nações Amigas inaugura-se uma nova fase da
imigração judaica no Brasil. A Inglaterra aproveitou-se dessa proclamação para estabelecer
um tratado comercial em 1810, onde se especificava na cláusula número 12 que aos súditos
britânicos dar-se-ia inteira liberdade religiosa, colocando-os, assim, numa situação de
imunidade em relação a qualquer tentativa de perseguição de parte do Santo Ofício
formalmente existindo em Portugal, ainda que decadente e pouco atuante. Foi o início para
a vinda de judeus, como viajantes, e seu estabelecimento como imigrantes em solo
brasileiro.
A partir desse início de século XIX encontramos duas correntes imigratórias
judaicas que se dirigiram uma em direção à região centro- sul, incluindo o Rio de Janeiro e
o Espírito Santo, compostas em sua grande maioria de elementos europeus
predominantemente ocidentais, e a que se dirigiu em direção ao norte, Pará, Amazonas e
adjacências, originária da África do Norte, que teria uma expressão numérica bem maior do
que a primeira que se caracterizava por seu caráter expontâneo em oposição a essa última,
premida pela força das circunstâncias. Portadora de um judaísmo extremamente
conservador e adstrito à “Torá”, construiu a sua primeira sinagoga Shaar Haschamaim
(Porta dos Céus), em Belém, onde se concentrava uma numerosa comunidade judaica 239.
Tudo indica ser esta a primeira sinagoga construída no Brasil após o período do domínio
holandês. Quem foi o seu rabino não podemos até o momento dizer com certeza. Mas

235
Wiznitzer, A., A Sinagoga do Recife Holandês (1630-1654), in revista Aonde Vamos?, 28 de maio de
1953, p.7; Lipiner, E., Reminiscências esculpidas em pedra, in Comentário, ano IX, v.9,n.3, 1968, pp.212-
220; Mello, J.A. Gonsalves de, A sinagoga do Recife holandês, in Revista do Instituto Histórico e Geográfico
Brasileiro, Rio de Janeiro, n.149 (358):1-121, jan.-mar.,1988, pp. 52-56; Dantas, L., A primeira sinagoga das
Américas, in D. O. Leitura, São Paulo, 136, 12 de setembro de 1993.
236
Wolff, E. e F., A Odisséia dos Judeus de Recife, C. E. J., São paulo, 1979, p.143.
237
Sobre ele vide Roth, C., A History of the Marranos, Hermon Press, N.York, pp. 287 e 335.
238
Idem, Ibidem, p.289.
239
Até agora não encontramos fontes que confirmam as diversas datas aceitas para sua fundação.
102

tratando-se de uma comunidade reconhecidamente ortodoxa sob o aspecto religioso, onde a


educação das crianças para a aquisição de uma formação religiosa era obrigatória, não lhes
faltariam membros preparados para oficiar os serviços religiosos, seja durante as
festividades ou casamentos, circuncisões, enterros, etc. As instituições comunitárias
estabelecidas no norte tinham seus modelos estratificados secularmente, no Marrocos, bem
como em outras regiões da África do Norte, e estavam impregnadas de um élan religioso
próprio daquele judaísmo.
Posteriormente construíram uma outra sinagoga, a Eshel-Abraham (Sicômoro
de Abraão), cuja data de edificação não deixa de ser controversa, assim como a da Shaar
Hashamaim, pois varia de 1826 a 1892, passando ainda por 1889 e outras datas.
Por outro lado, a imigração européia do Rio de Janeiro nas primeiras décadas
do século XIX, ao contrário do que aconteceu com os sefaraditas do norte, não tiveram a
possibilidade de construir uma sinagoga própria, e pelo que tudo indica, também não
possuíam rabino, bem como se ressentiam pela falta de elementos preparados para dirigir
qualquer ofício divino, pois eram originários de comunidades aculturadas à civilização
européia ocidental, onde o laicismo impregnou a vida comunitária judaica, o que não
ocorreu com o judaísmo tradicionalista da África do Norte, fechado em si e sem os atrativos
culturais imperantes no Velho Continente. Um documento interessante e comprobatório do
que se passava com os imigrantes europeus asquenazitas, sob o aspecto religioso, é uma
carta-resposta datada de 30 de junho de 1839 do rabino Salomon Hirschell, de Londres, a
Isey Levy, que havia solicitado orientação para a realização da cerimônia de casamento de
sua irmã, dispondo-se a ser o oficiante devido à inexistência de um rabino naquela
comunidade. Salomon Hirschell, em sua carta-resposta, dá um verdadeiro retrato da
situação religiosa no Rio de Janeiro ao dizer: “(...) ao mesmo tempo, como israelita e
professor de religião, não vejo com bons olhos o estado de coisas no Rio de Janeiro. O
senhor escreveu que não existe Kahal (a comunidade organizada) nem hazan (chantre), e
que os poucos Yehudim (judeus) no Rio não estão ainda em condições de formar uma
congregação. Pelo seu pedido de efetuar pessoalmente a cerimônia, devo deduzir que não
há sequer um Schochet (magarefe ritual), e, conseqüêntemente, sua comida é treifá (não-
pura, do ponto de vista religioso). Assim, por ocasião da festa de casamento, depois de ter
pronunciado as bênçãos prescritas e agradecendo ao Deus dos seus pais pela graça de ter-
nos dado os Mandamentos, irão sentar-se para saborear comida proibida pelos Seus
Mandamentos. Isso é uma flagrante violação da Lei, o que muito me doeria se fosse
inevitável. Mas, não sendo uma necessidade da qual não se possa escapar, sinto muito mais
o fato, e devo demonstrar o grande pecado que está sendo cometido, porque seria possível
mandar vir um Schochet que iria substituir, em alguns aspectos, o rabino do qual V. S. tanto
necessita”.
Mais adiante, o rabino instruiu Isey Levy como proceder em relação à
cerimônia de casamento, lembrando a necessidade de um minian (dez varões judeus) para
dar validade ao compromisso, o compromisso da Ketubá (certidão de casamento) e outros
detalhes240. As preocupações religiosas de Isey Levy repetir-se-ão no decorrer da história
da imigração judaica no século XIX e ainda em parte nas primeiras décadas de nosso
século, pois no momento em que as comunidades darem seus primeiros passos

240
Wolff, E. e F., Os Judeus no Brasil Imperial, C. E. J., São Paulo, 1975, pp. 52-55; Wiznitzer, A., Os
primeiros judeus no Brasil Império, in Aonde Vamos?, n. 730, 20 de junho de 1957, foi o primeiro a se referir
a essa carta.
103

institucionais, deverão recorrer inevitavelmente à ajuda externa no sentido de conseguir um


rabino, um mohel (pessoa autorizada para praticar a circuncisão) ou mesmo um shochet.
Somente com a intensificação da imigração é que essa situação seria sanada.
A criação de entidades comunitárias e sua organização possibilitou uma vida
religiosa mais completa e favoreceu a vinda de rabinos de fora.
No Rio de Janeiro temos a informação de que nos meados do século passado
formou-se a União Israelita Shel Guemilut Hassadim241, de início composta por judeus
marroquinos, porém passando mais tarde a aglomerar imigrantes asquenazitas europeus.
Podemos supor que logo após teriam aberto uma sinagoga, pelo que tudo indica, em um
salão alugado especialmente para o serviço religioso. Essa sociedade não foi a única
naquele tempo, pois temos conhecimento da União Israelita242, fundada em 1870 e que
tinha um caráter filantrópico, porém, não deixando de se preocupar com a vida religiosa dos
judeus residentes naquela cidade. Também no Rio de Janeiro do século passado existiu uma
Sociedade Israelita do Rito Português243, que é lembrada na imprensa carioca em 1888
devido a um protesto de seu presidente, Benjamin Benzaquen, que não aceitou “a eleição de
Solomon D’Abrahan Pariente para Rabbino da Synagoga”, e considerou “nulla essa
eleição, que só podia ser feita pela Escola Rabbinica, e só podia recair em quem a tivesse
cursado, pois assim dispõe o respectivo regulamento”, o que nos leva a supor que o tal
rabino não tinha a qualificação formal, a necessária smichá, para ser aceito pela
comunidade, e, portanto, diz o autor da comunicação, o verdadeiro “Rabbino é o sr.
Abrahão Hachuel, cidadão brasileiro naturalizado”. Por outro lado, essa querela interna
demonstra que nas últimas duas décadas, e talvez antes, tanto no norte do Brasil quanto no
Rio de Janeiro, já havia rabinos qualificados para orientar os imigrantes em sua vida
religiosa.
Em São Paulo a atuação era outra, pois o famoso dentista Samuel Eduard da
Costa Mesquita improvisou-se como rabino na pequena comunidade judaica existente então
na década de 1870. Somente em 1897, conforme notícia encontrada no periódico “Archives
Israelites” daquele ano, verificamos que os judeus imigrantes da Alsácia-Lorena e de outros
lugares constituíram-se em comunidade por iniciativa de um membro da família Worms,
que já decidira providenciar a vinda de um schochet da Hungria, de nome Salomão Klein,
que também exercia funções rabínicas, abrangendo a orientação sobre a pureza da
alimentação244.
Se considerarmos o aspecto legal das sinagogas existentes durante o período do
Império não vemos que elas possuíam um status jurídico pleno, pois a Constituição Oficial
do Estado de 1824, segundo seu artigo 5, na verdade permitia às outras religiões atuarem
em residências ou edifícios “sem a forma exterior de templo”, situação essa que mudaria
apenas com a República.
O crescimento paulatino da imigração judaica, a partir dos fins do século XIX e
inícios do atual, vinda principalmente dos países da Europa Oriental, se mostra
extremamente importante para o desenvolvimento de uma vida religiosa mais profunda e
estável entre os imigrantes. Devemos, nesse sentido, acentuar que os judeus da Polônia,

241
Wolff...pp.236-40.
242
Idem, Ibidem, pp.286-88.
243
Idem, Ibidem, pp.257-8.
244
Falbel, N., Crônica do Judaismo Paulista, in Estudos sobre a comunidade judaica no Brasil, F.I.E.S.P., São
Paulo, 1984, p. 107.
104

Romênia, Rússia, e da Europa Oriental como um todo, em particular nos pequenos centros
urbanos e nos pequenos lugarejos, mantiveram-se, durante séculos naquela região,
concentrados em núcleos populacionais com vida social própria e limitado contato com a
população cristã. O mundo espiritual-religioso judaico manteve-se intacto, principalmente
na região rural onde os judeus viviam em suas próprias aldeolas, o shtetl, disseminadas em
uma extensa área geográfica. De certa forma o movimento “hassídico” surgido nos meados
do século XVIII havia impregnado o judaísmo da Europa Oriental com uma religiosidade
popular e pouco formal, mas com uma intensidade emotiva ímpar, e nesse sentido o rabi
hassídico tinha um poder enorme sobre sua gente, fazendo com que a vida comunitária
estivesse, em boa parte, dependente de sua orientação. Portanto, os imigrantes que vieram
daquela região se preocuparam em estruturar sua existência no país para o qual imigraram,
mantendo sua identidade judaica através da religião, mesmo que houvesse grupos
influenciados por ideologias seculares, socialistas ou nacionalistas. Enquanto isso, a velha
imigração dos países da Europa Ocidental do século XIX se assimilara profundamente,
deixando poucos vestígios, e seus descendentes se converteram, com o passar do tempo, ao
cristianismo, ou permaneceram indiferentes à religião245.
O mesmo, ainda que em menor grau, e devido a outras causas, teria ocorrido
com a imigração judaica marroquina da região amazônica. Mas, esta última resistiu ao
poder dissolvente do tempo, apesar da grande miscigenação havida entre seus
descendentes, conseguindo subsistir como comunidade religiosa até os nossos dias.
Para um levantamento inicial das sinagogas e rabinos, a partir dos inícios do
século passado, mesmo tendo a certeza de que os dados apresentados não são exatos e estão
longe de serem completos, devemos considerar duas fontes, sendo a primeira fruto de
interesse jornalístico do talentoso João do Rio, cognome de Paulo Barreto, que publicou em
1904 um livro sob o título “As religiões no Rio”, onde inclui um capítulo interessante sobre
as sinagogas e a vida religiosa dos imigrantes judeus vivendo na capital da República. A
imprecisão e o desconhecimento da religião judaica levaram o autor a fazer um relato
duvidoso, mas parte do que ele nos conta pode ser aproveitado para uma primeira
referência sobre a questão na cidade do Rio de Janeiro. Ele lembra a composição da
comunidade segundo os lugares de origem dos imigrantes, tais como os judeus franceses,
quase todos vindos da Alsácia-Lorena, marroquinos, russos, ingleses, turcos, árabes e
também os “armênios”, que supomos serem “romenos”, além de outras.
João do Rio menciona duas sinagogas, uma na rua Luís de Camões, 59, e outra
na rua da Alfândega, 369. A primeira ele diz ser do “rito argânico” 246, “entra-se num
corredor sujo, onde crianças brincam. Aos fundos fica a residência da família. Na sala da
frente está o templo, que quase sempre tem camas e redes por todos os lados”. Esta
descrição revela de certa forma a pobreza do templo que não contrasta com o da rua da

245
Nas “Memórias” de Jacob Schneider, um dos veteranos ativistas comunitários que chegou no início do
século passado , se reporta ao fato significativo de que a primeira Torá recebida pela associação Centro
Israelita do Rio de Janeiro, fundada em 1 de outubro de 1910, com judeus de origem asquenazita, em sua
maiorria, foi ofertada por Herbert Moses e era oriunda de uma associação de judeus da Alsacia-Lorena.V.
Falbel, N., Jacob Schneider e a comunidade judaica no Brasil, in Herança Judaica, setembro, 1982, n. 50,
p.57.
246
Esse “rito” é desconhecido e ,sem dúvida, trata-se de uma provável “criação” do autor. Cremos que ele
deveria ter confundido com a palavra “ortodoxia”, ou “rabínico”, em contraposição à “karaíta”, seita judaica
que remonta ao século VIII e que rejeita a “tradição oral”. Utilizamos obra de João do Rio da edição da Ed.
Aguilar, Rio de janeiro, 1976.
105

Alfândega, que o autor diz ser “muito mais interessante” e “ocupa todo o sobrado do
prédio, que é vulgar e acanhado”.
Além do mais, o nosso autor lembra o nome dos respectivos rabinos ou
chazanim (chantres). O da primeira era David Hornstein, que “cursou a Universidade
Talmúdica, (certamente uma ieshivá, ou escola talmúdica) é poliglota, professor,
correspondente de vários jornais escritos em hebreu e rabino diplomado na religião
judaica”. O outro é lembrado apenas sob o nome de Moisés e dono de “uma face espanhola
e um ar bondoso”. A pobreza desse último leva o nosso jornalista a concluir o seu pequeno
relato com uma frase reveladora da situação e das condições em que vivia, no início do
século, a maioria da imigração judaica: “nós estávamos apenas numa sala estreita que fingia
de sinagoga, no fim da rua da Alfândega (...) Mas, nem por isso o fervor religioso era
diminuto, pois enquanto o chasan lia, com os pés juntos, sem mover sequer os olhos, com
uma voz ácida tremendo no ar, todos tinham nas faces sorrisos de satisfação”.
A Segunda fonte, digna de maior crédito, apesar das ressalvas que fazemos
adiante, encontra-se no periódico “A Columna”, fundado pelo professor David José Perez,
em 1916, em um artigo publicado sob o título de “O Mosaismo no Brasil” de autoria de
Justiniano de Meyrelles, importante funcionário da Diretoria de Estatísticas que forneceu os
dados levantados em relatório daquele departamento, apresentado ao ministro da
Agricultura, Indústria e Comércio, no ano de 1915247. Os quadros estatísticos publicados no

247
“A Columna”, n. 14, fevereiro de 1917, pp. 20-2; n. 15, março de 1917, pp.37-9. A melhor coletânea sobre
o tema, com ênfase no período medieval, foi organizada pelo saudoso professor da Universidade Hebraica de
Jerusalém, Haim Hilel Ben-Sasson, Há-Kehilá ha-Yehudit be-Yemei há-Beinaim (A comunidade judaica na
Idade Média), Soc. Histórica de Israel, Jerusalém, 1976.
247
Denunciações da Bahia, 1591-1593, Série Eduardo Prado, São Paulo, 1925, p.420.
247
Idem, Ibidem, p.489.
247
Idem, Ibidem, pp.277,382,392,475,537.
247
Denunciações de Pernambuco, 1593-1595, Série Eduardo Prado, São Paulo, 1929, p.75.
247
Denunciações da Bahia, p.449.
247
Idem, Ibidem, p.522.
247
Idem, Ibidem, p.522.
247
Denunciações de Pernambuco, p.481.
247
Denunciações da Bahia, p.292.
247
Idem, Ibidem, p.467.
247
Livro de Denunciações do Santo Ofício na Bahia no ano de 1618, Anais da Biblioteca Nacional, vol.
49,1927 (1936), p.97.
247
Sobre eles e sua atuação há uma vasta bibliografia de importantes autores, entre eles J. Mendes dos
Remédios , Os Judeus Portugueses em Amsterdam, Coimbra, 1911; A. Wiznitzer, Judeus no Brasil Colonial,
ed. Pioneira, São Paulo, 1966; J.Lúcio de Azevedo, História dos Cristãos Novos Portugueses, Liv. Clássica
Editora, Lisboa, 1975; M. Kayserling, Biblioteca Española-Portugueza-Judaica, Ktav Pub. House, N. York,
1971.
247
Wiznitzer, A., A Sinagoga do Recife Holandês (1630-1654), in revista Aonde Vamos?, 28 de maio de
1953, p.7; Lipiner, E., Reminiscências esculpidas em pedra, in Comentário, ano IX, v.9,n.3, 1968, pp.212-
220; Mello, J.A. Gonsalves de, A sinagoga do Recife holandês, in Revista do Instituto Histórico e Geográfico
Brasileiro, Rio de Janeiro, n.149 (358):1-121, jan.-mar.,1988, pp. 52-56; Dantas, L., A primeira sinagoga das
Américas, in D. O. Leitura, São Paulo, 136, 12 de setembro de 1993.
247
Wolff, E. e F., A Odisséia dos Judeus de Recife, C. E. J., São paulo, 1979, p.143.
247
Sobre ele vide Roth, C., A History of the Marranos, Hermon Press, N.York, pp. 287 e 335.
247
Idem, Ibidem, p.289.
247
Até agora não encontramos fontes que confirmam as diversas datas aceitas para sua fundação.
106

referido artigo dão uma idéia, senão exata, pelo menos aproximada da vida religiosa dos
judeus brasileiros na primeira década e meia do século.
Devemos, antes de tudo, chamar a atenção para o fato de os quadros estatísticos
também revelarem os números dos membros afiliados às várias comunidades espalhadas
pelo território nacional, batizados (na verdade, circuncisões), casamentos, cerimônias,
fúnebres, festividades e reuniões culturais, sem no entanto podermos daí inferir o
verdadeiro número da população judaica em cada lugar mencionado, uma vez que nem
todos estariam afiliados às sinagogas ou comunidades selecionadas. Também os dados
apresentados foram fornecidos através de informação oral, sem que seu autor pudesse fazer
uma verificação mais precisa em outras fontes.
Por outro lado, temos outras fontes com a mesma informação histórica que
apontam vários erros existentes nos dados que nos fornecem os quadros que publicamos
nestas páginas.
Antes e após a Primeira Guerra Mundial, a imigração judaica se intensificou,
fazendo com que as comunidades crescessem e se desenvolvessem significativamente. O
processo de ascensão econômica e o conseqüente aumento no nível de vida dos imigrantes,
que prosperaram devido a sua dedicação extraordinária ao trabalho, levou também à
construção de sinagogas mais adequadas e dignas ao culto religioso, ao mesmo tempo,
adequadas para centralizar os eventos da vida comunitária.

QUADRO A

SEDES Datas da
Estados e Cidades Sinagogas Fundação
Distrito Federal
Distrito Federal Rio de Janeiro Centro Israelita do Rio de Janeiro 1 Out. 1910
Centro Israelita Marroquino 24 Set. 1911
Pará Belém Sinagoga Dedicação de Abraham 1889

247
Wolff, E. e F., Os Judeus no Brasil Imperial, C. E. J., São Paulo, 1975, pp. 52-55; Wiznitzer, A., Os
primeiros judeus no Brasil Império, in Aonde Vamos?, n. 730, 20 de junho de 1957, foi o primeiro a se referir
a essa carta.
247
Wolff...pp.236-40.
247
Idem, Ibidem, pp.286-88.
247
Idem, Ibidem, pp.257-8.
247
Falbel, N., Crônica do Judaismo Paulista, in Estudos sobre a comunidade judaica no Brasil, F.I.E.S.P., São
Paulo, 1984, p. 107.
247
Nas “Memórias” de Jacob Schneider, um dos veteranos ativistas comunitários que chegou no início do
século passado , se reporta ao fato significativo de que a primeira Torá recebida pela associação Centro
Israelita do Rio de Janeiro, fundada em 1 de outubro de 1910, com judeus de origem asquenazita, em sua
maiorria, foi ofertada por Herbert Moses e era oriunda de uma associação de judeus da Alsacia-Lorena.V.
Falbel, N., Jacob Schneider e a comunidade judaica no Brasil, in Herança Judaica, setembro, 1982, n. 50,
p.57.
247
Esse “rito” é desconhecido e ,sem dúvida, trata-se de uma provável “criação” do autor. Cremos que ele
deveria ter confundido com a palavra “ortodoxia”, ou “rabínico”, em contraposição à “karaíta”, seita judaica
que remonta ao século VIII e que rejeita a “tradição oral”. Utilizamos obra de João do Rio da edição da Ed.
Aguilar, Rio de janeiro, 1976.
247
“A Columna”, n. 14, fevereiro de 1917,
107

Sinagoga Porto do Céu 1824


Rio Grande do Passo Fundo Centro Israelita 1912
Sul Porto Alegre Sociedade União Israelita 1 Out. 1910
Santa Maria da Centro Israelita 1905
Boca do Monte
São Paulo São Paulo Comunidade Israelita de São Paulo 21 Jan. 1912
108

QUADRO B – ANO DE 1911


SEDES Pessoas
Estados e Cidades Casamen Cerimôni Festi Reuniõe filiadas B
Distrito tos as - s à a
Federal Fúnebres vida- cultuais sinagog t
des a i
z
a
d
o
s
Distrito Rio de Janeiro - 1 - 11 104 80
Federal (1)
Rio de Janeiro 4 1 - 6 19 42
(2)
Pará Belém 17 8 15 18 (3) (4)
2.190 400
Rio Grande Porto Alegre 10 - 3 9 52 (5)
do Sul 50
Total 31 10 18 44 2.365 572

ANO DE 1912
SEDES Pessoas
Estados e Cidades Casamen Cerimôni Festi Reuniõe filiadas B
Distrito tos as - s à a
Federal Fúnebres vida- cultuais sinagog t
des a i
z
a
d
o
s
Distrito Rio de Janeiro - 1 - 11 104 80
Federal (1)
Rio de Janeiro 9 1 - 6 19 42
(2)
Pará Belém 17 8 15 18 (3) (4)
2.190 400
Rio Grande Porto Alegre 7 3 5 9 52 (5)
do Sul 50
São Paulo São Paulo (6) - - - 9 52 100
Total 34 16 22 69 2.456 705
109

Observações:

(1) Centro Israelita do Rio de Janeiro. O presidente declarou não lhe ser possível
informar sobre batizados e cerimônias fúnebres.
(2) Centro Israelita Marroquino.
(3) As sinagogas Dedicação de Abraham e Porta do Céu realizam diariamente três
reuniões culturais.
(4) Elevam-se a 650 as pessoas residentes em Belém que aceitam o monoteísmo judaico.
(5) Incluindo as pessoas que seguem o judaísmo, embora não filiadas à Sociedade União
Israelita, eleva-se o total de 244.
(6) Segundo declaração da Delegacia de Estatística em São Paulo, não foi possível obter-se
informações dos batizados, casamentos e cerimônias fúnebres, porque a comunidade
israelita ainda não estava inteiramente organizada.

Tal é o resultado da primeira tentativa feita pela 4ª Seção da Repartição de


Estatística para incluir na estatística religiosa o monoteísmo judaico.
Fazemos os melhores votos para que, desbravando o terreno as futuras publicações da
repartição a que servimos, possam apresentar dados completos sobre o judaísmo, e para
isto basta que as comunidades israelitas atendam ao apelo que cordialmente lhe fez a
Diretoria Geral de Estatística.

Já em 1916 notamos em São Paulo o lançamento da pedra de fundação de uma sinagoga


mais imponente e veremos que, com o correr dos anos, os templos erguidos para o culto
judaico são arquitetonicamente mais sofisticados, seguindo modelos europeus e com um
planejamento especial visando atender as necessidades da comunidade local.
Do mesmo modo , no Rio de Janeiro, também em 1916, será construída a sinagoga Beth
Yaacov, que na verdade era uma associação que visava entre outros fins construir uma nova
sinagoga , o que de fato ocorrerá posteriormente.
A década de 20 e as subseqüentes contratará com os modelos iniciais lembrados acima e se
destacará por uma preocupação cada vez maior em criar instituições de ensino ou escolas
com a finalidade de educar as novas gerações, nascidas no Brasil, nas tradições religiosas
judaicas para dar-lhe uma formação adequada, não poupando, nesse sentido, esforços e
meios para atingir esse escopo.
Para finalizar, devemos observar que a multiplicação de sinagogas, além de ser fruto do
crescimento natural da imigração, é resultado da tendência em se agrupar em comunidades
de origem. Assim, se explica o fenômeno do surgimento de “landsmanschaften” ou
associações de caráter socio-cultural e de auxílio mutuo que agrupam imigrantes oriundos
de mesma região, que procuram seguir os seus costumes e o seu ritual peculiar do lugar de
origem. Trata-se da conhecida inclinação do imigrante recolher-se entre os seus
conterrâneos como uma forma de sentir-se protegido frente um novo meio no qual deverá
se adaptar para sobreviver. Entre outras cousas a comunidade religiosa preenche o vácuo
inevitável que se forma pela ruptura com o passado vivido em outro lugar e o novo no qual
o imigrante veio a se fixar.
110

12. “A Vós, meu senhor, o Rei...”

Como já havíamos afirmado em outra oportunidade,248 o conhecimento de d.


Pedro II da Língua Hebraica havia despertado profunda admiração entre os judeus
europeus, e portanto, não causa estranhamento o fato de se encontrar no Arquivo do Museu
Imperial uma carta escrita em Hebraico, dirigida ao Imperador, a qual até agora
permaneceu desconhecida aos estudiosos da biografia do real hebraísta e sábio brasileiro. 249
O autor da carta, que data de 1880, era um professor de Hebraico da
Universidade de Pisa que escreveu em tom laudatório, comparando o nosso Imperador ao
rei Salomão, símbolo da sabedoria bíblico-judaica, e ofereceu a ele um livro de sua autoria
sobre o famoso poeta e filósofo medieval, Yehuda Halevi. 250 O professor de Pisa, ao
escrever a d. Pedro, firmara-se em Hebraico como Yehoshua Le-Beit (da casa de) Baruch, e
seu nome italiano era Salvatore De Benedetti. Dizia-se amigo do prof. Michele Ferrucci251
que, ao viajar ao Brasil, levara exemplares de seu livro ao Imperador. Dos conhecimentos
de Hebraico de d. Pedro II ele soube anteriormente através de um outro amigo, Pereira de
Leon, secretário do Museu do Cairo, que tivera contato com o imperador brasileiro por
ocasião da visita do mesmo ao Egito, fato que também foi mencionado na carta.
O interessante é que o autor da carta escrevia Hebraico cursivo, em escrita
“Raschi”, o que não torna fácil sua leitura, a não ser para alguém que domine bem a língua
e conheça esse tipo de alfabeto252, o que não cremos que fosse o caso particular de d. Pedro
II. A prova que temos, e que nos permite fazer tal afirmação, é um manuscrito, também
inédito, e pertencente ao Arquivo do Museu Imperial, sem data, o qual consiste de
apontamentos de termos hebraicos extraídos do Livro dos Salmos e do Gênesis, com as
respectivas traduções e observações em Inglês, Latim, bem como com termos comparativos
em Grego, utilizado, sem dúvida, para efeitos de estudo e de aprendizagem do Hebraico
pelo monarca.253
Os caracteres que d. Pedro traçou nesse manuscrito, a fim de transcrever as
palavras hebraicas, pertencem à chamada “escrita quadrada”, a qual, realmente, é mais fácil
para o estudioso dessa língua. Esse manuscrito constitui, na verdade, um glossário do
primeiro salmo do Livro dos Salmos e dos dois primeiros capítulos do Livro do Gênesis.
Não resta a menor dúvida de que o Imperador seguiu o “método tradicional” para o estudo
do Hebraico, o qual partia da leitura do Velho testamento e sua comparação ou
acompanhamento com traduções em outras línguas. Esse método justifica-se mais ainda em

248
No artigo intitulado “Uma Carta de um Rabino Francês ao Imperador d. Pedro II”, publicada na revista
“Herança Judaica”.
249
A carta, bem como os glossários dos Salmos e do Gênesis, me foram cedidas pelo casal de historiadores
Egon e Frieda Wolff, que os encontraram no Arquivo do Museu Imperial.
250
O poeta e filósofo Yehuda Halevi, que viveu na Espanha (1075-1141), escreveu o famoso tratado teológico
Ha-Kuzari, no qual narra a conversão do reino Cazaro ao judaísmo. Salvatore de Benedetti traduziu a obra
poética de Yehuda Halevi ao italiano, e esta foi remetida a d. Pedro II.
251
Sobre o prof. Michele Ferrucci, não conseguimos apurar algo que pudesse levar a sua identificação e
tampouco conseguimos saber qual fora sua missão no Brasil.
252
O alfabeto “Raschi” é assim chamado por ser o tipo de escrita adotado nas glosas tradicionais do Velho
Testamento, de autoria do notável exegeta R’ Schlomo Itzhaqi (cujo acróstico é Raschi), que viveu na França
no século XI.
253
V. os textos ilustrativos anexos a este estudo.
111

vista do fato de que d. Pedro era um leitor apaixonado da Bíblia,254 e tudo indica que o
manuscrito que contém o glossário dos capítulos do Gênesis e do Salmo I corresponde ao
estudo preparatório para as versões latinas que o Imperador faria de alguns livros do Velho
Testamento, entre os quais do próprio Livro dos Salmos.255
Na busca de elementos para identificar o autor da missiva ao Imperador, isto é,
prof. Salvatore de Benedetti, encontramos junto à Universidade Hebraica de Jerusalém um
periódico de caráter cultural, impresso na Itália no século passado, o qual nos proporcionou
dados importantes. Trata-se do “Il Vessillo Israelitico”, que começou a ser publicado em
Casale em meados do século XIX, mais precisamente em 1852, que a partir de 1877, pelo
menos, ou talvez antes, recebia a colaboração de nosso professor, conhecido na Itália de seu
tempo como um excelente orientalista.256
De fato, Salvatore de Benedetti aparece citado como um dos participantes de
um Congresso de Orientalistas, realizado em Florença na Itália em 1878, ao lado de nomes
de destaque nessa área. Pelos artigos por ele publicados no “Il Vessillo Israelitico”,
delineia-se como um estudioso profundo e um conhecedor erudito do judaísmo.257 Além do
mais, também é um homem voltado para as questões atuais, e sobretudo àquelas que
concernem à vida comunitária judaica na Itália.258
Em 1881, o professor de Hebraico e orientalista, recebeu do ministro da
Educação Pública o título de Cavaleiro da Coroa da Itália, conforme notícia divulgada no
“Il Vessillo Israelitico”, e que mereceu uma nota biográfica, a qual permite traçar o perfil
da surpreendente atividade intelectual de nosso missivista. 259
Conforme nos informa o autor da nota biográfica, De Benedetti foi reconhecido
como estudioso de Literatura Semítica e como notável literato italiano por escritores como
De Sanctis, Vanucci, e orientalistas como Renan, Steinschneider, Derenbourg, Dukes,
Neubauer e outros, todos eles nomes representativos em seu tempo, com os quais manteve
contato intelectual.
Já em 1852, De Benedetti publicou um Annuario Israelitico e encetou sua
tarefa como tradutor de obras hebraicas para o Italiano. Entre essas traduções encontram-se:
Cancioneiro Sacro de Yehuda Halevi, publicado em 1871, livro que remeteu a d. Pedro II;
História de Rabi José, filho de Levi, lenda talmúdica traduzida e publicada no Annuario
della Società Italiana per gli Studii Orientali, 1872; A Lenda Hebraica dos Dez Mártires,
publicada no mesmo Annuario em 1873; Vida e Morte de Moises, lenda hebraica, Pisa,
1879.
Além desses trabalhos, devemos lembrar que foi autor de inúmeros artigos e
comentários, bem como de resenhas bibliográficas que escreveu para o “Il Vessillo

254
V. a respeito a monografia de Loewenstamm, Kurt, O Hebraísta no Trono do Brasil: Imperador d. Pedro II,
Monte Scopus, Rio de Janeiro, 1956.
255
Conforme Loewenstamm na obra acima citada, p. 11.
256
No “Il Vessillo Israelitico”, 1877, pp. 66-67, aparece uma relação de “Cattedre di Lingua Ebraica e affini
nelle Università e negl’Instituti Superiori del Regno d’Italia”, onde se encontra, entre outras cátedras (na
Univ. de Florença, na de Pádua, na de Roma), a cátedra de Língua Hebraica na Univ. de Pisa, sob a orientação
do prof. De Benedetti.
257
Os temas de seus artigos no “Il Vessillo” versam sobre o Talmud e assuntos históricos, como por exemplo,
o artigo sobre o reino dos Cázaros, concernente à obra de Yehuda Halevi.
258
Pode-se observar esse seu traço de caráter pelos comentários e necrológios escritos para o “Il Vessillo
Israelitico”, 1879, pp. 176-178; 1880, pp. 208-210; pp. 239-242; pp. 273-275.
259
“Il Cav. prof. Salvatore De Benedetti”, in “Il Vessillo Israelitico”, 1881, pp. 309-310.
112

Israelitico”. Parece-nos que a beleza de suas traduções do Hebraico revelam um domínio


lingüístico tão notável que não é de se estranhar que nosso autor tenha chamado a atenção
dos literatos italianos de seu tempo, pois tudo indica que “pochi davvero sanno meneggiare
la bella lingua italiana com il De Benedetti”.260

A CARTA AO IMPERADOR

Ao
Imperador Rei Pedro de Alcântara
Paz e benção, prestígio e glória,

Não vos admireis, por obséquio, Meu Senhor, o Rei, se um anônimo


insignificante como eu, jamais conhecido por V. S., um homem que permanece na
obscuridade, sem luz e glória, tenha a ousadia de se apresentar diante de V. S. com um
regalo e oferte a V. S. o fruto de sua mente. Pois qualquer pessoa poderá repreender-me
dizendo: quem és tu para te apresentares a um Rei respeitado e glorificado em toda a Terra,
o qual chama a Sabedoria de minha irmã e é amigo da Inteligência e a convida e fá-la
sentar-se com ele em seu trono real? Acaso poderás tu entrar no palácio de um rei tão
grande como d. Pedro vestido de andrajos? Acaso não sabes que não se comparece diante
de um rei a não ser em traje suntuoso?
A Vós responderei, Meu Senhor, o Rei, que bem sei, Meu Senhor, o Rei, que a
Sabedoria, a Modéstia e a Justiça são irmãs, por conseguinte, confio intimamente que vossa
destra me apoiará e que vossa modéstia me favorecerá, e, também recordo as palavras dos
antigos sábios de Israel: “O amor ultrapassa as medidas”, e não ignoro que vosso amor
pelas ciências é infinito, e que entre as ciências que estudais e que apreciais sobremaneira
está a ciência da Língua Hebraica, na qual está escrito o Testemunho de Deus, que é fiel e
instrui o tolo, e que toda letra e sinal dele, seja muito ou pouco, seja elevado ou vil, valem
aos vossos olhos como uma preciosa dádiva, e nisso creio sem me envergonhar.
Lembrai-vos, Meu Senhor, o Rei, quando fostes ao Egito, há alguns anos, para
pesquisar as antigüidades daquela terra, falastes com um sábio italiano, um escritor da
sociedade dos estudiosos dos anais do Egito, Cav. Pereira de Leon, secretário do Museu
Egípcio, e ele, que me é muito caro, admirou-se ao ver o vosso grande conhecimento da
Língua Hebraica e dos livros dos sábios de Israel, e escreveu-me os seus pensamentos, e,
quando lhe enviei o meu livro sobre Yehuda Halevi, aconselhou-me dizendo: Manda-o ao
Imperador, Rei do Brasil, e ele realmente o apreciará, e então não tive a coragem de fazê-
lo, pois temi que isso seria considerado uma ousadia.
Porém, parece-me que hoje a vontade de Deus abriu-me uma porta, pois o meu
estimado e caro amigo, prof. Cav. Michele Ferrucci, foi ao vosso Reino a fim de realizar
um trabalho precioso e grandioso. Tomei a coragem e enviei-vos, Meu Senhor, o Rei, dois
livros, frutos da minha mente, a fim de honrar e glorificar-vos, como desejava.
E agora, Meu Senhor, o Rei, aceitai a minha saudação, que vos é levada, não a
desprezai, perscrutai o pensamento do jovem que a envia. Pois eu vos considero um rei

260
Assim se expressa o autor da nota biográfica sobre De Benedetti, mencionada acima.
113

igual ao Rei Salomão, pois seguis os caminhos dele e vos abençôo com todo o meu
coração. E ao meu Deus elevo a minha súplica dizendo: Abençoai – Vós, que dais ao
homem o saber e que ensinais ao homem o discernimento – o Rei d. Pedro de Alcântara,
que ama o Saber e busca a Inteligência, ajuda os sábios em seus feitos, e sob cujas asas
abrigam-se os doutos; Deus da Luz, abençoai-o Rei que ama a Luz, dai a ele e a sua esposa,
nascida em nossa terra, longa vida, e que vivam os seus anos em bem-aventurança.
Paz a Vós, d. Pedro, paz a vossa casa, paz ao vosso reino e a tudo o que é
vosso.
Com respeito do coração de vosso servo que se prostra diante de Vós.

Yehoshua da casa de Baruch


Professor de Língua Hebraica
Cognominado

Dia 12 do mês de schvat ano 5640


Della Maestá Vostra umilissimo devotissimo Salvatore de Benedetti, prof. Di
Lingua Ebraica nella R. Universitá di Pisa.

/===/

Devemos lembrar que D.Pedro II realizou uma viagem a Itália em 1877 quando teve a
oportunidade de entrar em contato com o tradutor da Divina Comédia ao hebraico, o sábio
judeu-italiano S.Formiggini, em 1869, que era um dos diretores do “Corriere Israelitico”,
editado em Trieste. No Arquivo Nacional no Rio de Janeiro encontra-se uma carta do
redator-chefe daquele periódico, S. Curiel, enviada ao Imperador em 22 de setembro de
1877 juntamente com o número do “Corriere Israelítico” que fazia referência à sua viagem
e a sua pessoa. A carta permaneceu inédita até 18 de maio de 1944, ocasião em que foi
publicada por Ernesto Feder, na revista Aonde Vamos?. Por revelar o contato de D. Pedro
II com personalidades do mundo judaico e seu interesse pela cultura hebraica reproduzimos
in totum essa interessante carta.
“Senhor!
O augusto e venerado nome de Vossa Majestade ressoa cercado de simpatia não só nas
terras que tem a ventura de estar sob seu cetro paternal mas em toda a parte onde há um
coração que sinta e um espírito que pense.
Em verdade o nome de Vossa Majestade Imperial significa amor e caridade, igualdade e
justiça, instrução e trabalho e portanto universal bem estar.
O “Corriere Israelitico” que há dezesseis anos se fundou em Trieste não é o último entre os
fervorosos admiradores de Vossa Majestade.
Ele tem acompanhado com o máximo interesse a recente viagem de Vossa Majestade e é
constante leitor dos seus atos magnânimos.
O devotadíssimo autor destas linhas, diretor do mencionado periódico, refratário a
encômios srvís, prometeu dedicar a Vossa majestade no último número um artigo em que
lhe manifesta a sua alta consideração.
Vossa Majestade, que já se dignou exprimir a sua bnevolência e indulgência a um dos
diretores do “Corriere Israelítico”, o Cavaleiro dr. Formiggini, autor da tradução hebraica
114

de Dante, não deixará certamente, na sua insigne bondade, de felicitar também ao subscritor
desta, dignando-se receber benignamente o exemplar anexo do seu jornal.
Invocando ao Deus Sebaot, glória, prosperidde e alegria para Vossa Majestade, para a
augusta Família Imperial e para todo o seu feliz Império, comovido repito:
Senhor, na tua força se alegrará o rei; E na tua salvação quão grande será o júbilo? O desejo
do seu coração lhe concedeste; E a petição dos seus lábios não lhe negaste.
Pois o premunes de bençãos excelentes; Pões-lhe na cabeça coroa de ouro fino; Pediu-te a
vida e lhe deste para todo o sempre.
Grande é a sua glória na tua salvação; Honra e magestade pões sobre ele.
E com isto protra-se aos pés do seu trono, Senhor, rendendo a Vossa Majestade todas as
homenagens do seu respeito.
Trieste, 22 de setembro de 1877
o atento servidor de Vossa Majestade
A. di S. Curiel
Redator-chefe do “Corriere Israelítico”

O Imperador respondeu a essa carta num ofício ao Visconde de Porto Seguro, que
representava o Brasil na Corte austriaca, que nada mais e nada menos era o nosso
historiador Varnhagen.
115

13. Uma imigração de judeus ao Brasil em 1891

Sabemos que o período que compreende o reinado de Alexandre III (1881-1894)


que ascendeu ao trono do Império Russo, logo após o assassinato de seu pai, foi em
particular difícil para a minoria judaica que vivia naquele território. A política
governamental autocrática do novo imperador na verdade não se diferenciou a de seu pai e
não fugiu a tradição anti-judaica que a caracterizou no passado. No entanto iniciativas para
impor reformas sociais conflitantes, propostas ainda no período anterior, continuaram e
parte delas ameaçavam os antigos privilégios da velha nobreza russa que se opunham às
novas medidas governamentais e procuravam explorá-las a seu favor. Porém outro aspecto
,dessa política governamental do novo imperador é sua perseguição aos grupos ou minorias
que representavam religiões diferentes incluindo-se entre elas as seitas existentes na Rússia,
tais como os Unitários, os Luteranos, nas províncias ocidentais, e os Lamaistas Kalmuques
e os Buriatos nas orientais. Mas, acima de tudo os judeus foram alvo de intensa
perseguição. A imprensa, assim como as organizações revolucionárias que despontaram
naquele período foram eliminadas e silenciadas. Ao mesmo tempo as terríveis condições
sociais revelaram-se durante a fome que grassou no ano de 1891, associada à profunda crise
agrária que atingiu aquele imenso território. A grave onda de pogroms que se seguiu ao
assassinato de Alexandre II em 1881, e anos seguintes, nos quais o judeu se transformou no
bode expiatório de todos os males da Rússia, repercutiu no período seguinte no qual o Czar
havia designado comissões para investigar as causas dos distúrbios, comissões que
chegaram a conclusão que tudo isso era devido a “exploração judaica”. Em 1882 eram
publicadas as “Leis Temporárias” que proibiam os judeus de viverem em aldeias e
restringiam os limites de residência em cidades maiores e menores. Também se restringia,
por uma lei de 1886 , à 10% o número de estudantes judeus nas escolas secundárias e nas
universidades situados na Zona de Residência e 3-5% fora dela. Impunha-se, desse modo, o
numerus clausus que atingia diretamente a educação e a formação profissional dos jovens
judeus que procuravam meios para estudar no exterior. Ao mesmo tempo , em 1891, os
judeus começaram a ser expulsos de Moscou e as leis discriminatórias não se restringiram
somente àquela cidade mas estendeu-se a outras causando um verdadeiro exôdo para outros
lugares. O clima anti-semita atingiu seu auge alimentado pela imprensa conservadora que
seguia a orientação política de Pobedonostsev , o chefe do “Santo Sínodo”, que
representava o corpo governamental da Igreja Ortodoxa russa. Sua esperança, tal qual ele a
formulou era que “um terço dos judeus se converteria, um terço morreria e um terço
abandonaria o país”. Efetivamente o abandono do país já havia começado.
A quase totalidade da emigração dirigiu-se aos países do Ocidente e em particular aos
Estados Unidos que recebeu a maior parte dessa imigração. Porém, pude constatar que o
Brasil também recebeu uma leva de cerca de 280 imigrantes vindos no ano de 1891, ano em
que a JCA (Jewish Colonization Association foi criada, pelo Barão Maurice de Hirsch, e
deu início à colonização de judeus russos na Argentina.
O nosso conhecimento sobre essa imigração ao Brasil era nulo, e se havia alguma
suposição sobre a vinda de judeus nesse tempo ela se restringia, possivelmente, a uma ou
outra família sem termos, no entanto, qualquer certeza ou elemento comprobatório. Em
busca de um ponto de partida para a pesquisa usei o nome da família Zlatopolsky, que sabia
ser uma família “antiga”, e de fato no computador do arquivo do Museu da Imigração,
116

surgiu o nome de Jacob Zlatopolsky, como imigrante vindo com o navio Ibéria ,via
Southampton, ao Rio de Janeiro, em 7 de junho de 1891 e chegou a São Paulo em 10 do
mesmo mês. De resto foi examinar o Livro de Matrícula dos Imigrantes entrados na
Hospedaria do Estado de São Paulo.261 Jacob, que na relação dos imigrantes é designado
como sendo alemão, chegou solteiro ,com 24 anos, e passado certo tempo ele aparece
como empresário bem sucedido juntamente com C. Manderbach como “fabricantes de
livros em branco, impressores e negociantes em papelaria e artigos de escritório... de ótima
reputação, não só no Estado de São Paulo, mas também nos Estados de Minas Gerais,
Paraná, Santa Catarina, Goiás e todo o norte do Brasil. Os seus estabelecimentos , onde
trabalham mais de 100 operários, encarregam-se de qualquer trabalho de impressão,
encadernação, fabricação de livros em branco, envelopes, blocos, etc. Importam papéis em
larga escala; são os únicos agentes no brasil das maquinas de escrever marca “Adler” e
únicos depositários no país dos tipos de impressão de fundição “Gentzsch & Heyse”, de
Hamburgo. O armazém e oficinas estão situados à rua de são bento, 31, num prédio cujos
fundos vão até à rua Libero Badaró, 54.A casa foi fundada em 1899.O Sr. Manderbach,
cidadão alemão, está no Brasil há 20 anos e há 16 se ocupa de impressão e papelaria. O Sr.
Zlatopolsky, nascido no sul da Rússia, há 22 anos se acha no Brasil; sempre se ocupou
deste ramo de negócio e desde o ano de 1908 faz parte da firma C. Manderbach & Cia.”262
Sabemos, porém, que em 25 de maio de 1909, ele escreveria a Central do Fundo Nacional
Judaico, sediado em Colônia, na Alemanha, uma carta com o timbre da empresa Klabin
Irmãos referente a atividade sionista em São Paulo, sobre a qual diz ser inexistente, exceto
as campanhas para o mencionado fundo.263 O nome de Jacob Zlatopolsky e sua família
aparece no periódico “A Columna” relatando um festival realizado em benefício dos
correligionários vítimas da Primeira Guerra Mundial.264 O navio Ibéria, pertencente a
Pacific Steam Navigation Company, viajou 24 dias, saindo de Liverpool, conforme os
dados que temos no registro do movimento na Repartição Central das Terras e
Colonisação.265 O número de passageiros judeus que desembarcou no Rio em 7 de junho,
para passar pela quarentena da Ilha das Flores é de 221, incluindo mulheres e crianças. Em
São Paulo, procedentes em sua maioria absoluta do Rio, viriam 218 pessoas, no dia 10 de
junho, contando com alguns poucos que vieram com o navio Argentina (família Levine
composta de 4 membros, chegada em 1/6/1891, procedente de Hamburgo) e com o navio
Strassburg (um casal e um passageiro). Comparando as relações de passageiros que
desceram no Rio de Janeiro e os que desceram em São Paulo, logo vemos que em sua
maioria eram os mesmos, havendo uma diferença de 52 nomes do Rio que não constavam
na lista de São Paulo e 61 nomes de São Paulo que não constavam na lista do Rio. Assim
sendo podemos calcular que chegaram, aproximadamente, cerca de 280 pessoas no total,

261
No Livro no. 23, correspondente ao período de 26 de maio a 29 de junho de 1891. Surpreendentemente
estão registrados 218 imigrantes que os identifiquei como judeus , sem designação religiosa específica, tal
qual encontramos nos Livros correspondentes à imigração de 1905.
262
Impressões do Brazil no Século XX, Lloyds Greater Britain Publishing Company Ltd., London, 1913, p.
700. Ele aparece na galeria de retratos dos empresários paulistas na p. 711.
263
Arquivo do Central Zionist Archives, Jerusalém, doc. KKL 1/18.
264
“A Columna” ,3 de novembro de 1916, p.186 e “A Columna”, 1 de dezembro de 1916, p.198, no qual a
redação assinala “os importantes serviços prestados pelo Sr. Jacob Zlatopolsky e sua Exma. Família,
ornamento da boa sociedade israelita de S.Paulo, por ocasião do festival pró-vítimas realizado a 15 de outubro
último. Podemos afirmar que em grande parte a ele e à sua Exma. Família se deve o bom êxito desse festival.”
265
RV 45, referente ao navio Ibéria, Arquivo Nacional, Rio de Janeiro.
117

ainda que alguns nomes parecem ser alterados em sua grafia original. A lista do Rio inclui
as profissões dos passageiros que ,como já dissemos, saíram de Liverpool, constando que
eram em sua maioria trabalhadores sem profissão definida, com exceções de alguns aos
quais se indica ser alfaiate, vidraceiro, sapateiro, comerciante, etc. A designação da
nacionalidade na lista dos imigrantes de São Paulo aponta como sendo a maioria de
alemães e poucos austríacos e poloneses, enquanto que na do Rio de Janeiro divide-se entre
russos e alemães e alguns poucos austríacos e romenos. Porém na lista de São Paulo parte
dos que aparecem como alemães são denominados russos na lista do Rio, o que nos leva a
concluir que efetivamente em sua maioria eram russos de origem e que teriam emigrado da
Rússia para a Alemanha266, seguindo daí para a Inglaterra. Na mesma data chegaria o navio
Strassburg ao Rio de Janeiro , via Bremen, Alemanha, no qual viria uma grande leva de
russos cristãos267 com destino para o Estado do Paraná, constituindo uma imigração
organizada com fins de colonização agrícola promovida pelo governo.
Qual teria sido o destino desses imigrantes? É uma questão permanente, que se levanta,
naturalmente, ao estudioso da imigração judaica no Brasil em relação às levas mais
antigas. Como sempre , não temos uma resposta segura para a mesma, pois, para tanto
temos de saber o quanto de descendentes deixaram, se permaneceram no país, ou se
aventuraram a outros lugares.
Somente uma pesquisa minuciosa sobre cada família poderá nos dar uma resposta. No
entanto há fortes indícios de que o processo de assimilação e aculturação das imigrações do
século passado XIX, abrangendo a dos judeus marroquinos, a dos alsacianos e as primeiras
levas provenientes da Europa Oriental, se deu numa escala bem maior, deixando poucos
traços de sua identidade de origem.
Porém tudo indica que a narrativa que encontramos na obra do famoso dramaturgo e
escritor de língua ídiche Peretz Hirschbein pode nos dar uma resposta ao enigma sobre essa
imigração. Transcrevo literalmente o que nos relata Hirschbein em seu livro “FunVaite
lender:Argentine, Brazil, Yuni,November 1914” , pp.177-8: “ No ano de 1890 agentes do
governo brasileiro começaram a difundir notícias entre os imigrantes judeus na Inglaterrra,
que no Brasil se recebe gratuitamente terra e para a terra dinheiro, moradias, animais e tudo
o necessário; que no Brasil corre leite e mel e por isso quem quizer viajar será levado para
lá com dignidade às custas do governo. Também informaram que é importante que tenham
uma grande família; quanto mais pessoas que alguém possua em sua casa mais terra
receberá.
A propaganda teve grande influência. Ainda no mesmo verão partiu do porto de Liverpool
o navio “Himbéria”(sic) levando acima de 1.000 almas judias. A maior parte era de alfiates,
tintureiros (passadores sw roupas). O que tinha pequena família emprestava, antes de viajar,
algumas filhas ou filçhos de algum bom amigo. Viajaram com a certeza de encontrarem sua
felicidade. Em 5 de julho chegou a primeira parate ao Brasil nacidade portuária de Santos e
de lá foram levados à São Paulo. Os levaram a grande Casa dos Imigrantes pertencente ao
governo, e os dias amargos tiverram início:
Na Casa dos Imigrantes encontraram um grupo de polacos que fugiram dos lugares nos
quais os judeus deveriam seer enviados. Uma que o governo indicou o lugar disponível e
selvagem:- Isto vocês recebem, e a partir daí vocês devem ajudar a si mesmos.

266
Alguns nomes sugerem que são famílias judias alemãs, ou russas que ficaram certo tempo na Alemanha,
assim como ocorreu com outros que viveram certo tempo na Inglaterra e acabaram adotando nomes ingleses.
267
Aparecem sob a designação de “católicos”, mas provavelmente são ortodoxos.
118

Mais do que terra eles não deram. Isso eles souberam por mrio dos poloneses que naquelas
terras que querem mandá-los predomina a febre amarela e pessoas falecem como moscas.
Entrementes chegou um segundo navio com imigrantes e logo após um terceiro. O
n´[úmero de judeus atingiu a cifra de 4.000 pessoas. As pessoas não queriam se deslocar da
Casa dos Imigrantes. Doenças começaram a surgir.Crianças faleceram. E quando os
responsáveis vieram e viram como as mães judias se encontram sentadas sobre o chão e
choram por suas pequenas crianças recaiu sobre eles um medo dos judeus e os temendo
expulsaram a todos eles da Casa dos Imigrantes.
O resultadfo logo ficou claro:
Uma parte que possuía meios voltou apressadamente para a Europa, outra continuou
viagem para a Argentina; uma parte se dirigiu a Santos para trabalhar no porto e morreram
de febre amarela. E uma parte se aproximou de um grupo de judeus ricos e estáveis que se
ocupavam com o tráfico de escravas brancas.Alguns foram trabalhar em plantações de café
e ali desapareceram seus rastros. Somente algumas dezenas encontraram de alguma forma
um caminho e hoje em dia ocupam um lugar respeitável na sociedade.” 268
Apesar da discrepância de data da vinda dessa imigração que para Hirschbein deu-se no ano
de 1890 e nossa documentação comprova que foi 1891, bem como a enorme diferença entre
o número de imigrantes, 4.000 para Hirschbein e o número bem menor que apuramos nas
fontes citadas em nosso trabalho, além da distorção do nome do navio que trouxe a primeira
leva, seguramente podemos concluir que trata-se da mesma imigração. Pena é que
Hirschbein não nos declina sua fonte de informação mas certamente ele a recebeu
oralmente de pessoas que estiveram envolvidas com essa ou tomaram parte nessa
imigração.

I- Lista do Livro de Matricula de Imigrantes (no. 23 de 26 de maio de 1891 a 29


de junho de 1891)- (Arquivo do Museu da Imigração- São Paulo), incluindo-se
os imigrantes que não constam na lista do Arquivo Nacional do Rio de Janeiro,
e II- os imigrantes desta cidade que não constam na lista de São Paulo.

268
Hirschbein,Fun vaite lender: Argentine,Brazil,Yuni,November,1914,N.York, 1916, red. Book
Renaissance,N.Y., s.d., pp.177-8.
119

I- Imigrantes de São Paulo

Família Nome Idade


p.97
Stein George 19
Harry 21
Sandberg Robin 38
Frida 28
Israel 12
Mania 9
Emilio 5
Tanaberg Maunci 41
Sarah 26
Wolf 2
Meyer 1
(?) Bethin Bethise 25
Golder Angel 25
Polly 22
Rosenzwig Isac 18
(?) Travwis Marko 26
Mania 24
Clara 6
Abrahamson Morris 30
Emily 30
Isac 1
Levin Salomon 24
Sarah 22
Morris 30
Lea 18
Jacob 21
Goldberg Salomon 22
Etty 23
Joseph 20
Spion Harris 30
Lillie 27
Adolf 24
Broun Harris 22
Edith 20

p.99
Goldberg Morris 18
Morris 20
irmão Captam 21
cunhado Simon 23
cunhado, Isaac 32
120

Abrahamson
cunhado Meyer 19
Truhpand Filipe 42
Gidle 35
Alter 8
cunhado, Baher Jacob 24
Harrison David 18
Levy Morris 34
Misja 32
Julius 17
Serlang ou Isaac 24
Seshansky
Sarah 20
cunhado Pinchos 20
Charles 20 ou
24
Lavetzky Abraam 36
Milli 28
Louis 13
Barikohansky Isaac 23
irmão Filippe 17
Fidler Harris 26
Deine 24
Lena 1
irmão Abraam 20
irmão Morris 20
Liberman Abraham 24
Sarah 22
Bernstein Samuel 22
Malkes Harris 26
Anna 26
Jacob 5
irmão Samuel 32
primo Benjamin 23
Mann Abraham 38
Ester 33
Rebecca 10
Max 5
Hyman 1
Marck 19
p.101
Harris Salomon 38
Rachel 35
Max 36
Katz Mendel 27
121

Rebecca 24
Harris Salomon 21
Leon Gabrielen 20
Zlatopolsky Jacob 24
Kenefsky Stroime 21
Herman Louis 23
Pagoda Joseph 26
Fanny 22
Salomon 3
Rebecca 1
irmão Natan 19
Popitz Isac 30
Belle 28
Pearl 8
Maier 7
Fegge 3
Izkovitsch Jacob 25
Zatz 31
Popitz Aaaron 23
mãe Haia 54
Glück Salomon 36
Hanna 37
Gretschen 12
David 14
Goldberg Jacob 26
Fanny 20
Julia 2
Isaac 1
Hornstein Harris 32
Esther 32
Sarah 12
Nathan 5
Irmão Simon 20
Zobolsky Israel 37
Becker Harris 19

p.102
Parresky Hyman 19
Anna 18
Bensky Malkes 22
Pagora Newton 19
Leah 18
Meyer Margolin 25
Blume 20
irmã Jenny 18
122

Schaye Henrich 27
Clara 25
Herman 2
Block Isaac 21
Mary 20
Lirvein Arron 26
Etha 21
irmão Max 24
irmão Nathan 18
Morritz, austríaco Benjamin 24
Fanny 20
irmão David 18
irmã Anna 19
David 4
Sarah 1
agregado Jacob 22
primo Heine 21
Freiman, polaco Abraam 24
eio com o
Strassbug

p.103
Harris Salomon 36
Rachel 34
imã May 32
Charles 14
Galinsky, polaco Rock 35
veio com o
Strassburg
10/6/1891
Julia 33
Weisbrod Zelick 43
Berry Jacob 22
Cohen Nathaniel 21
irmão Wolf 22
Barman Abraham 20
Goldstein Louis 24
Jenny 21
Elias 2
Rubin Max 24
Sarah 23

Imigrantes do Rio de Janeiro que não


123

constam na lista de São Paulo


Levine Marks 19
Danilovitch Barett 22
Mann Israel 5
Mandaley, inglês Israel 29
Levy Morrys 34
Sarah 32
Julius 17
Margoliz Meyer 25
Blume 20
Genny 18
Matiliski Samuel 20
Betsy 20
Libschitz Josef 30
Bekka 28
Abraham 10
Wolf 5
Luindios (?) Heinrick 26
Golefax Job 23
Barischansky Isaac 23
Philip 19
Baer (?) Emma 16
Fredericka 18
Bukovitch Louis 25
Limein (?) Harris 26
Elka 21
Maks 24
Sandburg Bethise 25
Gahulen Leon 20
Bronie Harris 22
Edith 22
Karanski Chaim 21
Schwarz Wolf 36
Rosa 26
Herman 3
Isaacson Simon 32
Max 21
Louis 22
Sandling Morritz 41
Sarah 26
Wolf 21
Meyer 2m
Josef 25
Reuben 34
Frieda 28
124

Israel 11
Max 8
Milly 5
Baschavsky Nathan 26
Anna 26
Makovsky Louis 25
Harriet 18
Alfred ?

14. Oswald Boxer e o projeto de colonização de judeus no Brasil

Entre os muitos projetos de colonização de judeus no Brasil, no século passado,


destaca-se o de iniciativa de uma associação alemã que se organizou com a participação dos
membros da comunidade judaica de Berlim e que se intitulou “Deutsches Central Komitée
fuer die Russischen Juden”, em 28 de maio de 1891. A nova associação visava coordenar e
organizar a ajuda prestada aos refugiados judeus da Rússia Czarista que na época
abandonavam o território sob seu domínio, devido a expulsões, discriminações e
impossibilidade de sobrevivência material. O grande movimento migratório de judeus
daquela região levou a que as comunidades dos países da Europa ocidental se
preocupassem com o destino de seus irmãos e se mobilizassem a fim de prestar a ajuda
necessária para que pudessem encontrar em outros lugares – especialmente em países com
programas de colonização – um modo de vida digno, e não se acotovelassem nas cidades e
capitais européias, vivendo apenas da ajuda e caridade dos demais.
Além da associação mencionada acima, criaram-se outras associações
importantes, tais como a “Baron Hirsch Fund”, em Nova York, e a “Jewish Colonization
Association”, fundada pelo Barão Maurício de Hirsch em 24 de agosto de 1891 e que teria
um papel primordial na colonização agrícola judaica na Argentina e no Brasil, assim como
em outros lugares.
O Brasil, desde o século XIX, foi visto como um país que poderia absorver
uma imigração considerável e, portanto, também as associações que tratavam de colonizar
judeus voltaram seus olhos nessa direção, aproveitando sugestões de entidades e pessoas
que tinham um bom conhecimento do lugar. Nesse ano de 1891, o “Brasilianische Bank für
Deutschland”, com a participação de uma companhia de investimentos financeiros, o
“Disconto Gasellschaft”, dirigiu-se a um comerciante judeu do Rio de Janeiro, Maximilian
Nothmann, para que preparasse um memorando sobre as possibilidades de colonizar judeus
no Brasil, uma vez que ele era uma pessoa respeitada e de confiança para aquelas entidades
alemãs com as quais mantinha contato, devido a sua ampla atividade econômica no Rio de
Janeiro, em São Paulo e também em Buenos Aires.269
O relatório de Maximilian Nothmann apresentava perspectivas otimistas de
investimento em qualquer projeto de colonização voltado ao nosso território, no qual previa
um desenvolvimento industrial em todos os ramos da atividade humana. Nothmann

269
Sobre Maximilian Nothmann foram levantados alguns dados pelo casal Egon e Frieda Wolff, no seu livro
“Judeus nos primórdios do Brasil República”, Rio de Janeiro, 1979.
125

propunha a criação de uma companhia de colonização sob o nome de “Kolonisation


Kompanie Europa-Amerika”, que deveria investir nos primeiros anos muito capital e
preparar as condições materiais para a absorção.
A previsão de Nothmann, caso se realizasse o projeto, era de que poderiam
entrar no primeiro ano cerca de 1.000 imigrantes por mês, no segundo 2.000 e no terceiro
até mesmo 4.000.
Para cumprir esse objetivo e estudar as condições locais a associação berlinense
enviou ao Brasil um jornalista – ainda que jovem, pois contava na ocasião apenas trinta e
um anos de idade – com certo prestígio e com bom relacionamento nos círculos políticos
europeus. Além do mais, ele era amigo de um outro jornalista, e escritor, que acabaria
sendo uma personalidade central do despertar nacionalista judaico do fim do século XIX,
ou seja, o fundador do sionismo político, Theodor Herzl. 270
Em 16 de setembro de 1891, a “Deutsches Central Komitée” designou uma
comissão de colonização (Kolonisation Komission) que viu o Brasil como um país mais
adequado para a realização de seus projetos devido aos fatores seguintes :
a) não havia anti-semitismo;
b) condições políticas estáveis e um país em desenvolvimento;
c) um clima favorável;
d) possibilidades de subsistência através da agricultura;
e) condições de trabalho apropriadas à resistência física dos colonos;
f) possibilidades de concretização sob o aspecto econômico.

De acordo com os relatórios enviados do Rio de Janeiro por Oswald Boxer,


sabemos que ele se encontrou com Maximilian Nothmann e outras pessoas interessadas em
sua missão, entre os quais os irmãos Haas, Isidore e Marx, donos de uma companhia de

270
Encontramos no “Central Zionist Archives de Jerusalém” (pasta HN VIII/110) uma carta em alemão
datada de 24 de novembro de 1892 dirigida a Theodor Herzl a qual transcrevemos abaixo. Ela revela uma
correspondência havida entre ambos, quando Boxer se encontrava no Brasil. A carta foi expedida do Rio de
Janeiro através do “Bank für Deutschland”:
“Caro Theodor,

Recebi hoje sua carta datada de 3 deste mês. Todas as suas anteriores chegaram às minhas mãos,
porém duvido que V. tenha recebido as minhas duas anteriores.
Recebi com alegria e orgulho a notícia de sua nomeação para o cargo de correspondente em Paris do
“Neue Freie Presse”, tão honrosa que compensa em muito a ti pelas mágoas que seu amor próprio
possa ter sofrido em várias ocasiões. Eu tive conhecimento da vaga, e pensei comigo: seria a coisa
certa para Theodor. Porém, não pensei que você fosse candidatar-se para o cargo, nem tampouco que
a “Neue Freie Presse” fosse levar a oferta a sua casa. É justamente nisso que vejo o reconhecimento
de teus serviços, e isso não pode ser subestimado. Você encontrará nesse terreno enormes
dificuldades, mas você pertence àquela raça que tudo pode, quando necessário. Eu poderia compor
um pequeno catecismo das minhas ricas experiências como correspondente, mas toda teoria é, em
tais situações de vida, muito pobre, e embora seja muito antiga e respeitável, é sempre ridicularizada
pela prática da vida e do momento. Confio em que você vencerá, ainda que seja uma batalha difícil, e
deve preparar-se para tanto. Escrever-lhe-ei sobre mim em uma outra ocasião! Eu também cheguei a
um ponto que é necessário mostrar que se sabe o que se quer. Mas quem não é homem, nunca o será,
e quem o é, resolve as coisas com facilidade. Pois, veremos. Tudo de bom, e escreva-me logo. Eu
também escreverei tantas vezes quantas puder.
Seu
O.”
126

importação, que também se preocupavam com questões ligadas à colonização, e estavam


em contato com a “Alliance Israèlite Universel”, uma das associações judaicas mais antigas
da Europa que cuidava de emigração e beneficência, onde quer que ela fosse solicitada,
além de múltiplos aspectos da vida judaica. Os irmãos Haas haviam conseguido do
Governador do Rio de Janeiro uma concessão de terras em Angra dos Reis sob a condição
de que a propriedade passaria às suas mãos mediante a colonização de pelo menos 500
famílias. Nesse sentido, eles já se encontravam em contato com a A.I.U., antes da vinda de
Boxer ao Brasil. Quando este chegou com seu projeto, eles, de início, sentiram que
poderiam sofrer certa concorrência, mas acabaram propondo ao enviado de Berlim que
comprasse por 500.000 francos os direitos que possuíam para empreender o projeto de
colonização local.
Boxer procurou entrar em contato com as autoridades governamentais, a fim de
expor seus planos, e nesse sentido encontrou-se com o Barão de Lucena, bem como com o
Ministro da Agricultura, Amaro Cavalcante, que prometeram o devido apoio ao seu projeto
de colonização. Além do mais, Boxer percebeu que deveria também levar sua missão aos
Governos Provinciais, que na Nova República tinham um poder autônomo decisivo nessas
questões, tanto no Rio de Janeiro quanto em São Paulo.271
Mas, a crise que começou a assolar o país com a dispersão do Parlamento por
Deodoro da Fonseca, em novembro de 1891, não parou, e a troca de ministros e
governadores que se sucedeu durante esses eventos interrompeu os contatos que já haviam
sido estabelecidos. Assim mesmo, ele continuou procurando por terras apropriadas à
colonização, viajando para Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo, quando a revolução
de 23 de novembro de 1891 o forçou a voltar ao Rio de Janeiro. Porém, em dezembro
daquele ano, Boxer voltaria a São Paulo para continuar com seus esforços de realização do
projeto. Em relatório enviado a Berlim e datado de 28 de dezembro, ele diz que aos judeus
colonos está assegurado o direito de exercer sua religião e a igualdade em todos os sentidos,
devido à Constituição da República, e dizia ter encontrado apoio para o mesmo em todas as
camadas. Boxer considerou que São Paulo deveria ser o lugar indicado para a colonização
de judeus, uma vez que havia notado e soubera de que outros imigrantes europeus, alemães
e escandinavos, tiveram muito sucesso naquele Estado. A proximidade dos mercados, a
fertilidade do solo, bem como a indústria e a manufatura seriam fatores que assegurariam o
sucesso do empreendimento. Ele recomendava, em seu projeto, que se iniciasse a
colonização com 200 famílias apenas, para evitar possíveis abandonos, sendo que 150
famílias deveriam dedicar-se à agricultura, à manufatura e à indústria, como trabalhadores,
enquanto as restantes deveriam trabalhar nas plantações de café de fazendeiros particulares,
como assalariados, ao par de um cultivo auxiliar adicional de auto-sustento, mantendo-se
sob a supervisão da companhia colonizadora, que os representaria perante seus
empregadores. Para Boxer, isso seria um teste que possibilitaria verificar se eles estavam
aptos a trabalharem nesse ramo da economia brasileira, e também provar a possibilidade de
absorção de uma significativa leva imigratória no país. Por ser uma imigração nova e para
evitar o fracasso, Boxer pedia que se fizesse uma seleção rigorosa do primeiro grupo,
271
Parte dos elementos relativos à missão colonizadora de Oswald Boxer devemos ao estudo do Prof. Haim
Avni, “Amerika Latinit uBaiatam shel Yehudei Russia b’Schnat 1891 – Schnat geirush Moskva” (América
Latina e o problema dos judeus na Rússia no ano de 1891 – ano da expulsão de Moscou), in Divrei ha-
Congress ha-Olami ha-Chamishi le-Madaei ha-Yahadut (Atas do Quinto Congresso de Ciências Judaicas),
vol. 2, Jerusalém, 1972.
127

levando-se em conta sua experiência agrícola e sua capacidade física. Ao mesmo tempo,
pedia que viessem quatro judeus russos, conhecedores da língua alemã, que pudessem
auxiliá-lo no momento em que tivesse de receber o primeiro grupo de colonos, tendo fixado
sua chegada para abril de 1892.
Mas, toda a missão de colonização de Oswald Boxer não levou a nenhum
resultado prático, pois a fatalidade quis que o jovem jornalista contraísse febre amarela,
vindo a falecer em 25 de janeiro de 1892, sendo enterrado no Cemitério dos Protestantes de
São Paulo272.
Sua morte deixou consternado o pequeno círculo de seus amigos e frustrou
todas aquelas autoridades governamentais que levaram a sério seu plano de colonização.
Em 26 de janeiro daquele ano, o Diário Popular de São Paulo expressava o sentimento geral
daqueles que o conheceram: “Vítima de febre amarela, infecção com a qual veio do Rio há
dias, faleceu ontem, nesta capital, o distinto cidadão austríaco Oswald Boxer. Enviado pelo
Comitê Central de Berlim que cuida da colocação dos israelitas russos, e pelo Barão de
Hirsch, o ilustrado jornalista que acaba de falecer, nos poucos dias que esteve entre nós,
captou gerais e dedicadas simpatias; a sua morte, que lamentamos profundamente, causou
sincero pesar no círculo de amigos, e vai, talvez, prejudicar muito São Paulo, que está a
ponto de perder sua corrente imigratória que para aqui caminhava. À sua família, em
Vienna d’Áustria, enviamos os nossos sinceros pêsames”.

272
Não se sabia o lugar e o cemitério onde fora enterrado até localizarmos o livro de registro de óbitos, Livro
C-3, folha 127, do Registro Civil de Santa Efigênia.Fora sepultado no Cemitério Protestante, ao lado do
Consolação. O registro de óbito diz que “aos 27 de janeiro de 1892, compareceu Emília Blattman e declarou
que à rua da Conceição número seis, às seis horas da tarde, faleceu no dia vinte e cinco do corrente Osvald
Boxer, natural da Áustria, com trinta e dois anos, agente de Imigração, solteiro, filho legítimo de Maurício
Boxer, de tifo amarelo”.
128

15. As muitas histórias do major Eliezer Levy

Uma das pessoas que mais se destacaram no judaísmo paraense como homem
voltado às questões sociais e comunitárias relativas à imigração israelita no norte do país
foi o major Eliezer Levy.

Nascido em 29 de novembro de 1877, Eliezer Levy descendia de uma


tradicional família sefaradita, que por parte da mãe incluía a dinastia rabínica dos Dabela
entre eles o rabi Eliezer Dabela, cognominado a Luz do Ocidente (Ner há-Maarabi).273
Viveram em Casablanca e em Rabat, Marrocos, antes de emigrarem para Belém do Pará,
em 1870.
Eliezer Levy fez seus primeiros estudos em Gurupá, onde seu pai, Moyses
Isaac Levy, atuava no comércio. Em 21 de março de 1900, casou-se em Cametá, com
Esther Levy Benoliel, filha de David e Belizia Benoliel, de família ilustre do Marrocos.
Ainda muito jovem, estabeleceu-se no comércio participando como titular da firma E. Levy
& Cia. – Comissões e Consignações, e, a partir de 1910, fez parte da diretoria da Maju
Ruber Company, presidida pelo Comodoro Benedit. Gerenciou ainda a firma italiana de
navegação C.B. Merlin.
Eliezer Levy ingressou na Guarda Nacional e chegou ao posto de coronel,
ainda que fosse sempre conhecido como major Levy. Advogado, foi ativo na política local,
sendo prefeito três vezes: do município de Macapá (que até 1943 esteve ligado ao Estado
do Pará), de Afuá (Pará) e novamente de Macapá (foi o primeiro prefeito da capital, onde
ficou de 1933 a 1947).
Entre 1918 e 1926, Eliezer Levy atuou como advogado no escritório de
Francisco Jucá Filho, Procurador-Geral da República, e Álvaro Adolfo da Silveira,
deputado estadual e chefe do Partido Conservador. Ainda que ele pertencesse ao Partido
Republicano Federal desde a sua fundação. Apesar das divergências políticas, sua amizade
com os colegas de trabalho teria futuramente importância decisiva na posição brasileira
durante a votação na ONU para a criação do Estado de Israel.
Segundo sua filha, a escritora Sultana Levy Rosenblatt, o jornal sionista que
Levy fundou em 1918, o “Kol Israel” (A Voz de Israel), assim como os serviços de
datilografia das instituições da comunidade judaica, eram realizados sempre naquele
movimentado escritório de advocacia, colocando, portanto, os problemas do nacionalismo
judaico e do movimento sionista na pauta das discussões daqueles advogados.

Oswaldo Aranha

Todos os partidos políticos foram extintos em 1937, mas pouco tempo depois
foi fundado o Partido Social Democrático, chefiado no Pará por Magalhães Barata. Eliezer
Levy ingressou no novo partido e passou a ter uma posição de destaque, tornando-se grande
amigo daquele líder, conseguindo ao mesmo tempo trazer seu velho companheiro, o

273
A referência sobre Eliezer Dabela encontra-se na obra de Abraham I. Laredo, Les noms des juifs du
Marroc, C. S. I.C.-Instituto B. Arias Montano, Madrid, 1978, p.483.
129

advogado Álvaro Adolfo da Silveira, ao mesmo partido. Este último seria eleito mais tarde
senador da República pelo PSD. Álvaro Adolfo foi designado para fazer parte da comitiva
que acompanharia Oswaldo Aranha à ONU, como seu assessor político.
Sultana Rosenblatt relata que “na hora da votação para o reconhecimento do
Estado de Israel, Álvaro Adolfo sentiu que conhecia minuciosamente o assunto, sem se
lembrar bem como e por quê. Após uma retrospectiva, passou por sua lembrança o
escritório da rua 13 de Maio, onde Eliezer trabalhava e onde se discutiam assuntos sobre a
criação de Israel. Álvaro Adolfo era coordenador da votação e conseguiu descobrir três
países que votariam contra: pediu a Oswaldo Aranha que suspendesse a sessão, e após
vários dias de trabalho na conquista dos adversários, conseguiu dobrá-los. Continuada a
votação, o resultado foi: “mais dois votos favoráveis e um em branco (...)”, o que levaria a
criar a maioria necessária para a formação de um Estado Judeu.
A narrativa dele é confirmada em um aparte na Câmara dos Deputados do Rio
de Janeiro, em 15 de maio de 1973, feito pelo Dr. João Menezes, sobrinho e filho de
criação de Álvaro Adolfo da Silveira e seu sucessor no escritório de advocacia e no Partido
Social Democrático. João Menezes, em seu aparte no discurso do deputado Rubem Medina,
disse que “o Pará tem ligação com a criação do Estado de Israel. Revelo o fato neste
instante, ao plenário da Câmara, para que faça parte do esplêndido discurso de V. Exa. O
Sr. Álvaro Adolfo da Silveira, ex-senador pelo Estado do Pará, foi o homem que, em
companhia de Oswaldo Aranha, e designado por ele, coordenou a votação da criação do
Estado de Israel. Há um fato interessante em tudo isso. Quando voltava das Nações Unidas,
Oswaldo Aranha, em trânsito em Belém do Pará, recebeu homenagem das mais carinhosas
da colônia israelita, que lhe ofereceu uma corbeille de flores em reconhecimento do
trabalho que havia feito. No discurso de agradecimento declarou aos israelitas do Pará que
cometiam grave erro: “aquela homenagem deveria ser tributada ao senador Álvaro Adolfo
da Silveira, o homem que havia coordenado tudo na ONU para a criação do Estado de
Israel. Este é o aparte que desejava dar, com as minhas homenagens àquele grande povo”.

Ajuda aos imigrantes

A atividade comunitária de Eliezer Levy correu paralelamente a sua


participação política. Desde cedo, teve a preocupação de ajudar os imigrantes judeus que
vinham do Marrocos que o procuravam para resolver seus problemas legais, assim como
dirimir desavenças pessoais (o major falava o dialeto “harbia”). Seu nome está ligado à
Sinagoga, ao Comitê Israelita do Pará e à Associação Beneficente Israelita.
Em 1918 fundou a associação sionista “Ahavat Sion” (Amor a Sião), que
constituiu-se na primeira organização do gênero na região do norte brasileiro.
Anteriormente, em maio de 1917, ele tentara criar uma entidade que propagasse as idéias
sionistas naquela lugar, mas sem sucesso, conforme relatou na carta a Chaim Weizmann,
em 20 de novembro de 1919.274
A diretoria do Comitê “Ahavat Sion” tomaria posse em 5 de outubro de 1918,
tendo como presidente A. Ribinik que se destacaria mais tarde como um ativista do
movimento sionista em Maceió; Menassés Bensimon, vice-presidente; Eliezer Levy,
secretário; José Bensimon, tesoureiro. O periódico “Kol Israel” descreve entusiasticamente

274
A carta a encontrei no Central Zionist Archives e faço referência ao seu conteúdo em outro lugar de meu
trabalho.
130

a noite da posse da diretoria, na qual se realizou uma “conferência de propaganda sionista


pelo rev.o sr. Isaac Wolfinson”. Usaram da palavra Menassés Bensimon e Eliezer Levy
“que em felizes improvisos, mostraram bem os deveres do cidadão perante a sociedade e a
necessidade de vermos um dia restaurada a pátria dos nossos maiores”. A nota do “Kol
Israel” informava, com a graça e o estilo da época, que na abertura e no encerramento da
sessão “um coro de 30 gentis senhoritas e meninos cantaram o Hino Nacional Sionista
acompanhado por uma orquestra composta dos srs. J. Nahmias, A. Benoliel e senhorita
Alita Levy”, esta última filha de Eliezer Levy.
A criação do Comitê “Ahavat Sion” coincidia com a proximidade do armistício
que seria assinado entre as nações beligerantes da Primeira Guerra Mundial em 11 de
novembro de 1918.

“Salve Palestina Livre”

Em 1º de dezembro do mesmo ano celebrava-se em Belém do Pará o grande


acontecimento, e entre outras solenidades organizava-se na capital paraense um cortejo de
carros alegóricos, onde a comunidade judaica expressaria seus sentimentos nacionalistas
com um carro que levava o nome “Palestina” que o “Kol Israel” descrevia estar decorado
com “uma bela ornamentação de festões de flores, levando ao centro, em suntuosa cadeira,
uma senhorita ricamente trajada como uma hebréia da antiga Jerusalém. Sobre sua cabeça
repousava uma coroa de louros e de seus braços pendiam algemas partidas, simbolizando a
Palestina livre. À destra empunhava uma riquíssima bandeira de seda, com as cores azul-
celeste e branco, e ao centro o escudo de David. Atrás do carro levando o estandarte,
grande número de sócios do Comitê “Ahavat Sion” e da “Associação Beneficente
Israelita”. Na histórica foto que assinala o evento, encontram-se o major Eliezer Levy,
Abraham Ribinik, veterano ativista comunitário, e Halia (Alita), sua filha mais velha. A
faixa que se encontra na frente do carro trazia a frase “Salve Palestina Livre.”
O “Kol Israel” se definia como “jornal independente de propaganda sionista”,
“órgão do Comitê Ahavat Sion” e foi outra das iniciativas de Eliezer Levy. Seu primeiro
número saiu em 8 de dezembro de 1918.
Por ser um periódico da comunidade judaica, o “Kol Israel” servia de
informativo social dos acontecimentos locais: viagens à Europa, noivados, casamentos,
nascimentos, bar-mizvot, circuncisões, aniversários, etc. Tudo isso ao lado de anúncios
comerciais e notícias do cotidiano da vida das comunidades do norte do Brasil. Tudo indica
que o jornal durou até o ano de 1926, ou, talvez, um pouco mais, apesar de encontrarmos
alguns números correspondentes apenas até o ano de 1924.
Elizer Levy se correspondia com David J. Perez com o qual manteve uma
longa amizade e a quem admirava. Talvez o encerramento das atividades do “A Columna”,
de David José Perez, em fins de 1917, tenha levado Eliezer Levy a criar seu periódico com
a finalidade de dar continuidade à divulgação dos ideais sionistas. A troca de cartas com
Perez confirma nossa convicção de que ele se propôs a continuar o trabalho interrompido,
devido as circunstâncias, do notável professor do Colégio Pedro II.

Ensino de Hebraico
131

Durante a presidência do major Levy, a Sociedade Beneficente Israelita criou o


Externato Misto, com curso primário completo e- além do programa oficial- aulas de
costura, prendas domésticas, bordados à mão e ensino da língua hebraica “pelos métodos
mais modernos adotados na Europa”. Aos alunos mais necessitados, a escola fornecia não
apenas o material escolar, como também roupas e calçados.
O Externato Misto Dr. Weizman (foi assim que se chamou) foi inaugurado em
15 de novembro de 1919, com a presença do governador Lauro Sodré. Informa o “Kol
Israel” que “recitaram belas poesias as meninas Amália e Stella Levy”. Sultana ainda
lembra da poesia de J. Eustáquio de Azevedo, “Salve Palestina!”, dedicada ao major Levy:
“A visão sacrossanta mal encobre/ o sonho de Israel/ E as pombas do Carmelo
alvissareiras/ Hão de levar-lhes lindas mensageiras/ Da vitória o laurel”.

Nova Geração

Preocupado com a educação da juventude, o major Levy fundou o Grêmio


Literário e Recreativo Theodoro Herzl, em 6 de dezembro de 1919. Finalidades do grêmio:
reunir a nova geração em torno de valores espirituais e permitir a aproximação mútua. Em
20 de agosto de 1923, fundou a Biblioteca Max Nordau. Em seu discurso de inauguração,
explicou que a entidade era “um lugar onde a mocidade poderá obter conhecimentos sobre
sua origem e orgulhar-se de pertencer a uma raça altiva e tenaz, que tem dado ao mundo
uma prova de civismo e que com seu profundo conhecimento nas ciências, artes e letras,
tem concorrido para o progresso da civilização”.
Seu envolvimento na política – prefeito de Macapá entre 1932 e 1947,
convenceu o presidente Getúlio Vargas a transformar o município em Território do Amapá.
Contudo ele não diminuiu sua atuação comunitária judaica. Em carta a Jacob Schneider de
19 de setembro de 1945, o sheliach da Organização Sionista Mundial, dr. Yuris, descrevia
Eliezer Levy como “um fervoroso sionista e o mais valioso ativista de Belém, destacado
judeu sefaradita, respeitado tanto pelos sefardim quanto pelos asquenazitas...e dos
veteranos nacionalistas de Belém, que há 20 ou 30 anos passados publicou um jornal
sionista.” Eliezer e Esther Levy tiveram 13 filhos. A primogênita Halia (Alita) morreu aos
25 anos. Outra filha, que tomou o mesmo nome, também morreu na infância. Os
descendentes, filhos e filhas, continuaram a tradição que dele herdaram – fidelidade a seu
povo, seus valores e honradez pessoal e maassim tovim, isto é altruísmo e caridade.
132

16. O 1.º Congresso Israelita no Brasil

Um dos momentos mais importantes para o movimento sionista mundial, e


também para o brasileiro, e que o levou, sem dúvida, a tomar um impulso considerável, foi
a Declaração Balfour em 2 de novembro de 1917. Alguns meses antes, o diretor da “A
Columna”, David J. Perez, em artigo publicado em agosto de 1917, sob o título “Em
Marcha”, imbuído de convicções sionistas, explicava a necessidade de se reunir um
Congresso Judaico no Brasil, cuja realização já era anunciada no mesmo periódico sob o
título de “1.º Congresso Israelita no Brasil”. Nessa notícia relatava-se que em 14 de julho
reuniram-se “vários membros da colônia israelita desta cidade para tratar de levar a efeito
uma grande manifestação de solidariedade nacional com seus irmãos de raça, que ora se
agitam em todo o mundo em prol da reconstituição definitiva e firme de sua histórica pátria
judaica no território da Palestina”. Essa reunião se realizou na sala da Biblioteca Scholem
Aleichem por iniciativa de Jacob Schneider, Júlio Lerner, Max Fineberg, Sinai Feingold e
outros. Visto que David Perez se encontrava enfermo, “A Columna” foi representada por
Álvaro de Castilho.275 “que foi aclamado pelos presentes, escolhido presidente da reunião e
encarregado de expor os motivos da sua convocação”. A abertura de Álvaro de Castilho e
sua análise sobre a situação do movimento sionista mostra o quanto ele estava imbuído dos
seus ideais, e, ao mesmo tempo, revela uma mente politicamente lúcida pela percepção do
momento histórico que o judaísmo estava vivendo naqueles dias. “A Columna” resume
suas palavras, dando ênfase às idéias que expôs na ocasião:
“O Sr. Álvaro de Castilho abordou primeiramente o estudo da situação da
Palestina perante a política internacional no presente momento, mostrando a concordância
que há entre as justas aspirações de Israel e as conveniências estratégicas e econômicas das
potências beligerantes, quer aliadas da Inglaterra, quer da Alemanha. Em seguida, ponderou
que, para a satisfação do nobre ideal do sionismo, não era bastante contarem as massas
judaicas com a simpatia e o apoio dos grandes estadistas nas cortes internacionais, que
brevemente terão de examinar e julgar os direitos dos povos, e sim que urgia manifestarem-
se essas mesmas massas coletivamente, como grandes parcelas de um todo considerável,
pelo órgão dos seus delegados mais competentes e esforçados. Este, a seu ver, era bem o
rumo que impunha ao movimento que se iniciava naquele dia e, se bem compreendera os
objetivos reais dos propugnadores da entusiástica assembléia ali reunida, não podia deixar
de exprimir o seu mais sincero apoio e a mais perfeita adesão à idéia da convocação de uma
outra assembléia, mais elevada e com plenos poderes perfeitamente definidos, para
manifestar pública e oficialmente o pensamento dos israelitas no Brasil acerca dos destinos
de sua raça a se constituir em estado na Palestina. Urgia, pois, de acordo com a opinião já
manifestada pela minoria, providenciar no sentido de se assentarem as bases para
organização e funcionamento do 1.º Congresso Israelita no Brasil.

275
Álvaro de Castilho nasceu em Paraíba do Sul em 29 de janeiro de 1878 e faleceu em 30 de outubro de
1947. Cursou o anexo da escola Politécnica do Rio de Janeiro até os dezesseis anos, vindo a trabalhar mais
tarde na Prefeitura e na Câmara Municipal do Distrito Federal. Exerceu o cargo de diretor do Patrimônio
Nacional a pedido e foi adepto da religião Nova Jerusalém até o dia de sua morte. Álvaro de Castilho foi
colaborador íntimo de David Perez e juntamente com ele fundou o periódico “A Columna”, podendo ser
considerado, devido a sua atuação em favor do sionismo e da comunidade judio-brasileira, como um dos
“hassidei umot ha-olam” em nosso país.
133

“As últimas palavras do Sr. Álvaro de Castilho foram cobertas por uma salva
de palmas. Fizeram-se ouvir ainda outros oradores dando expansão aos seus sentimentos
nacionalistas.
“Em seguida, sob a mesma presidência do Sr. Álvaro de Castilho, procedeu-se
à eleição do Comitê Organizador que tem de superintender os trabalhos preparatórios do
Congresso.276
“Foram eleitos por unanimidade de votos: presidente, Isidoro Kohn; vice-
presidente, Samuel Galper; primeiro-secretário, Ambrósio M. Ezagui; segundo-secretário,
Benjamin Snitkovsky; tesoureiro, Lázaro Duek; vice-tesoureiro, Marcos Nigri; membros do
conselho fiscal, Moysés Mussafir, Marcos Fineberg, Jacob Schneider e Sinai Fiengold.”

IDÉIA PREPARATÓRIA

A verdade é que o Congresso não chegou a ter uma atuação efetiva, mais serviu
como idéia preparatória para a criação de uma Organização Sionista mais ampla que
expressaria os sentimentos nacionalistas do judaísmo brasileiro. O comitê organizador do
1.º Congresso recebeu cartas de solidariedade de vários lugares e Estados como Bahia, São
Paulo, Araraquara, Curitiba, Pará, Amazonas, Pernambuco, Ceará e outros. Em Curitiba
fundou-se um comitê regional que deveria tratar dos assuntos relativos aos programas do
Congresso naquele local, sob a responsabilidade de Max Rosenmann, Baruch Schulman e
Júlio Stolzenberg. A imprensa brasileira não deixou de anunciar por várias vezes a intenção
de reunir o congresso e divulgou amplamente a idéia na sociedade brasileira. Em 11 de
novembro de 1917, a Tiferet Sion, no Rio de Janeiro, recebeu um telegrama assinado por
Sokolov e Weizman, que informava sobre o conteúdo da conhecida Declaração Balfour
cujo teor era o seguinte:
“O governo inglês fez a seguinte declaração:
“O governo de Sua Majestade vê com bons olhos o estabelecimento na
Palestina de um governo nacional para o povo israelita e empregará os seus melhores
empenhos para facilitar o cumprimento desse objetivo, ficando claramente entendido que
nada se fará que possa prejudicar os direitos civis e religiosos das comunidades não
israelitas na Palestina, ou os direitos políticos adquiridos pelos israelitas em outro país.
“É conveniente fazer pública esta declaração, na presente ocasião, de modo a
ficar bem divulgada. (Assinados) Sokolov-Weizmann.”
Sinai Feingold, que substituiu a Júlio Stolzenberg na presidência da Associação
em 1916, convocou uma assembléia presidida por David Perez. Nessa assembléia ficou
resolvido que se mandaria uma mensagem de agradecimento a Sua Majestade britânica, por
intermédio de seu ministro, e que seria apresentada a solidariedade da colônia israelita do
Brasil por uma comissão formada por David J. Perez, Isidoro Kohn e Jacob Schneider. A
mensagem era a seguinte:
“Exmo. Sr. Ministro de Sua Majestade Britânica no Brasil – Ao impulso de
poderosa ação emocionante causada pela comunicação oficial que os Leaders do Sionismo
276
Duas circulares foram publicadas, uma em português e outra em ídiche, esta última manuscrita pois não
havia tipografia com caracteres hebraicos no Rio de Janeiro daquele tempo. Pela carta do Comitê
Organizador, em ídiche, assinada por Benjamin Snitkovsky e dirigida ao Comitê Paranaense pró-Congresso
Israelita do Brasil, vemos que se formaram comitês de apoio em vários lugares.
134

se dignaram de nos fazer, comunicação essa que encerra a mais esperançosa das
promessas que têm alimentado o longo peregrinar do Povo Hebreu, nós os israelitas desta
capital, interpretando igualmente o sentimento dos do Brasil, vimos até V. Exa. apresentar-
vos o mais sincero agradecimento, hipotecando nossa inteira solidariedade ao governo de
S.M., solidariedade com que de há muito conta o governo britânico por ter sido sempre o
paladino dos povos oprimidos. É sabido que, depois da volta dos judeus à Inglaterra, sob a
égide de Manassé Ben Israel, no governo de Cromwell, nunca mais esse país deixou de nos
proteger e concorrer com sua poderosa ação para minorar os males que sofríamos em
outros países, quando não podia de todo eliminá-los. Finalmente, coroa a sua política, que
neste momento é a da maioria dos aliados, assegurando-nos a restauração da antiga Sião.
“A colônia israelita no Brasil não é grande e forte como a sua co-irmã dos
Estados Unidos, mas sente como essa o mesmo entusiasmo, e desvanecida apresenta ao
Magnânimo Monarca que está à frente dos destinos da Grã-Bretanha a sua humilde
dedicacão afeiçoada, assim como todo seu fraco esforço.
“Esperando que V. Exa. se dignará de transmitir a Sua Majestade Britânica e
ao seu governo as expressões deste nosso agradecimento, subscrevendo-nos com a mais
alta estima e consideração.
“Assinaram esta mensagem: o Presidente da Assembléia Sionista que
deliberou sobre a atitude a tomar, e mais os Presidentes da Tiferet Sion, do Comitê
Organizador do Primeiro Congresso Israelita no Brasil, da União Guemiluth Hassadim
(do Rio), do Comitê Pró-vítimas do Centro Israelita, da Beth Jacob, da Machziqué Hadath,
da Biblioteca Schalom Aleichem, da Hadat Israel, da Ezra Israel, da Israelita Syria,
representante da Guemiluth Hassadim de Itacoatiara – Amazonas, e dos indicados para
esse fim pelos israelitas de vários Estados”.277

277
“A Columna”, n.ºs 21, 22, 23, 24, set, out, nov, dez. de 1917.
135

VISITA AO EMBAIXADOR

“Em 3 de novembro de 1917 (ele se enganou, pois foi no dia 11) recebemos
telegrama de Londres assinado – Weizmann-Sokolov, comunicando a declaração Balfour,
pedindo que enviássemos agradecimentos ao Rei e, também, que fôssemos agradecer o
Embaixador da Inglaterra no Brasil. Esse telegrama nos causou grande alegria. Vimos nele
o começo da realização do sonho judaico, a profecia de Herzl. Também os não-sionistas
participavam dessa alegria. Preparamos um memorandum com assinaturas de 15
instituições (queríamos dar a impressão de grande coletividade) pedindo uma audiência ao
embaixador da Inglaterra, o qual pediu o nome das quinze, mas confirmou somente dois
nomes: do Dr. Perez e o meu nome. Lá chegando, fomos recebidos pelo próprio. Na
demorada visita citou os nomes de eminentes judeus ingleses: Disraeli, Montefiore e outros,
comentando a Declaração Balfour, afirmando que o povo inglês era muito amigo dos
judeus. Externamos nossa imensa satisfação em contar com tão bons amigos como os
ingleses e lhe entregamos um memorandum dirigido ao Rei. Também entregamos uma
cópia do mesmo a uma agência americana de notícias, que o publicou nos mais importantes
jornais do país.
“Neste mesmo dia, o Deputado Maurício Lacerda, no seu longo discurso na
Assembléia, comentou a Declaração Balfour – sendo calorosa e demoradamente aplaudido
por todos os deputados.
“No transcorrer da guerra, o exército inglês, sob o comando do General
Allenby, entrou em Israel (naquele tempo Palestina) tendo à frente uma Legião Judaica.
Isso foi um grande acontecimento e bastante alegria para os judeus do mundo todo.
Lacerda, na ocasião, numa das reuniões do Senado e da Câmara, propôs saudar a Inglaterra
pela vitória de Allenby e pela Declaração Balfour, cuja proposta foi aceita com
unanimidade. Isso, para nós, judeus brasileiros, foi um grande triunfo político, sobre isso
muito se comentou na imprensa judaica Argentina, criticando os dirigentes das
coletividades judaicas locais, que não estavam no nível, apesar de muito menor, da
coletividade judaica brasileira.”

IDEALISMO

A Declaração de Balfour ecoou com júbilo nas comunidades judio-brasileiras,


e em Curitiba, como já havíamos mencionado, formou-se uma nova associação sionista,
Shalom Sion, em assembléia de 2 de dezembro daquele ano. Na “A Columna” daquele mês
se relatava que a reunião foi aberta por Júlio Stolzenberg, que falou sobre a história do
sionismo e sobre o movimento atual, “mostrando que o grande ideal judaico está na véspera
de sua realização. Outrossim, leu o telegrama oficial do governo de Sua Majestade
britânica, transmitindo de Londres e endereçado à associação sionista Tiferet Sion no Rio
de Janeiro.”
A imprensa brasileira local, através do jornal “A República”, publicado em
Curitiba, difundiu a notícia da fundação da Shalom Sion. Também no norte do Brasil, no
Pará, surgia no ano seguinte, em outubro de 1918, uma organização sionista criada pelo
major Eliezer Levy com o nome de “Ahavat Sion”. Em carta dirigida diretamente ao Dr.
Ch. Weizmann, Eliezer Levy comunicava ao líder do sionismo mundial que, devido à
profunda admiração que sentia por sua pessoa e pelos ideais que representava, dera seu
136

nome a uma escola judaica que havia fundado naquele lugar. 2784 A partir de 8 de dezembro
de 1918 criava um periódico em língua portuguesa de orientação netamente sionista com o
nome de “Kol Israel”. Esse período, que durou vários anos, não deixara de representar as
idéias de seu fundador, um idealista com profunda sensibilidade para captar o momento
histórico que o povo judeu estava vivendo, ainda que isolado e solitário na vastidão daquele
território.

278
A carta do major Eliezer Levy e a resposta de Weizmann encontramos no Archion Ha-Tzioni (Central
Zionist Achives) em Jerusalém, pastas Z 3/785. Falta um estudo sobre a importante atuação que teve na
história do sionismo no Brasil e o papel ímpar que desempenhou nas comunidades judias da região da
Amazônia.
137

17. Yehuda Wilensky e Leib Jaffe e o Movimento Sionista no Brasil (1921-1923)

Os primeiros anos da década de 20 seriam decisivos na formação das


instituições judaicas no Brasil e também na consolidação de um movimento sionista que
havia encontrado sua liderança natural na pessoa de Jacob Schneider e de outros ativistas, e
que agora se dispunham a uma ação mais organizada e abrangente no judaísmo
brasileiro.279
Uma das causas principais para essa movimentação seria o esforço dispendido
para a instalação do Mandato Britânico na Palestina e a atuação da Organização Sionista
Mundial ao redor do mesmo, e que seria objeto da Conferência de San Remo. No Brasil, já
no ano de 1920, apresentavam-se várias organizações sionistas, a saber, a mais antiga, a
Tiferet Sion no Rio de Janeiro; a Shalom Sion em Curitiba, fundada em 1917; a Ahavat
Sion em São Paulo, fundada em 1916; a Ahavat Sion, no Pará, fundada pelo Major Eliezer
Levy,280 em 1918; e a Associação Sionista de Porto Alegre, provavelmente na mesma data.
A Central Sionista em Londres mantinha uma correspondência com essas
entidades, e tudo indica que a Shalom Sion de Curitiba, sob a direção de Júlio Stolzenberg e
Bernardo Schulman se mostrava mesmo disposta a liderar o movimento, chegando a
escrever nesse sentido, em 26 de janeiro de 1920, uma longa carta a Londres, que por sua
vez transmitiu seu conteúdo ao Fundo Nacional Judaico, em Haia. Entre outras coisas, ela
se propunha a ser reconhecida como a sede central de uma Federação Sionista no Brasil,
argumentando que era a única organização que atuava continuamente em prol do
movimento, uma vez que, assim se expressava o missivista, "a Tiferet Sion, no Rio de
Janeiro, se encontra inteiramente adormecida.”281 A Central de Londres, com tato
diplomático e habilidade, respondia que não poderiam julgar sobre a questão sem terem o
conhecimento dos detalhes sobre as organizações Tiferet Sion no Rio de Janeiro, Ahavat
Sion no Pará e outras existentes no Brasil, e que deveriam compor futuramente uma
Federação Sionista no país. Nesse ínterim, dizia a carta, é preciso preparar material sobre o
assunto, e assim, no devido tempo "podereis resolver, com o acordo de todas as
associações, qual é o centro mais apto para sediar a Federação.”282

279
Sobre os inícios do movimento sionista no Brasil que antecede os anos 20 tratamos em outros lugares, em
especial no artigo “Early Zionism in Brazil, the Founding Years, 1913-1922 in American Jewish Archives,
vol. XXXVIII, n. 2, nov. 1986, pp.123-136.
280
A Ahavat Sion compoz a sua primeira diretoria em 5 de outubro de 1918, figurando como presidente
A.Ribinik (que criará mais tarde com a visita do Dr. Wilensky ao norte do Brasil duas associações sionistas
em Maceió), Menassés Bensimon, vice-presidente, Eliezer Levy, secretário, José Bensimon, tesoureiro. O ato
de posse teve lugar na Associação Beneficente Israelita com a presença da colônia local e com uma
conferência de Isaac Wolfinson. Na ocasião usaram da palavra Menassés Bensimon, Eliezer Levy e A.
Ribinik. O noticiário do Kol Israel, número 8 de dezembro de 1918, acrescenta que tanto na abertura quanto
no encerramento “foi cantado por um coro de 30 gentis senhoritas e meninos o Hino Nacional Sionista
acompanhado por uma orquestra composta dos Snrs. J. Nahmias, A. Benoliel e senhorita Alita Levy.”
281
Ha-Archion há-Tzioni, doravante abreviado como A.Z., Z 4/2350, carta em ídiche de 26/1/1920.Como
parte do plano de se apresentar como o centro natural para uma Federação Sionista no Brasil foi publicado no
jornal Dos Idishe Folk, de Nova York, um artigo sobre a comunidade judaica do Paraná no qual se destacava
o papel de Júlio Stolzenberg em sua formação e na criação da entidade sionista local. V. A.Z. Z 4/2350, artigo
em ídiche.
282
A.Z., Z 4/2350, carta em hebraico de 18/3/1920. Em 17 de março de 1920 a Central de Londres escrevia ao
Bureau do Fundo Nacional, em Haia, sobre as pretensões da Shalom Sion mas observando que era “prematuro
e inoportuno o reconhecimento da mesma como Federação.” A.Z., Z 4/2350, carta em francês de 16/3/1920.
138

Também Maurício Klabin, que se encontrava nesse tempo em viagem pela


Inglaterra, entrava em contato com a Central em Londres interessado em obter ajuda e
orientação para o movimento que se mostrava bastante desperto.283
Em carta remetida pela Central de Londres vemos que em Porto Alegre havia
uma atividade sionista com a participação de Leib Bander, Simon Lerer, Lipe Valdman,
Tobias Krasner e outros.284
Apesar de tudo, essa correspondência revela o quão pouco se sabia sobre o
judaísmo brasileiro, e um exemplo ilustrativo encontramos em um relatório, pouco exato,
feito com base em uma entrevista com um comerciante conhecido do Rio de Janeiro,
Salomão Kastro, que se encontrava em Londres, em julho de 1920, e cujas informações
serviram ao Departamento de Comércio e Indústria do Executivo Sionista para obter dados
que lhe interessavam.285 Salomão Kastro, veterano morador no Rio de Janeiro, revelava aos
seus entrevistadores novidades que mostravam o quanto o judaísmo europeu estava pouco
informado sobre a comunidade brasileira.
A correspondência com a Central Sionista em Londres também revela que a
Tiferet Sion no Rio de Janeiro passou a ser considerada como a verdadeira força
organizadora do sionismo brasileiro, e em 1921 não havia mais dúvidas sobre a liderança
do grupo encabeçado por Jacob Schneider, o que levaria a preparar um programa de ação
visando unificar as diversas entidades estaduais em uma futura Federação nacional. 286
Com esse objetivo mais amplo Jacob Schneider, David Perez e Eduardo
Horowitz tomaram a iniciativa de criar um periódico em língua portuguesa que
denominaram "Correio Israelita", que deveria difundir as idéias sionistas, além de servir de
informativo à comunidade, que naquela ocasião não possuía um órgão de divulgação no
Rio de Janeiro. Em Belém do Pará e sob a iniciativa do major Eliezer Levy já saia a luz,
desde 1918, um orgão, em vernáculo, que difundia as idéias sionistas naquela região, bem
como em outros estados brasileiros, intitulado "Kol Israel" (A Voz de Israel).287 Eliezer
Levy redigiu o periódico durante vários anos e, com isso, plantou a semente do
nacionalismo judaico no Norte, lutando ao mesmo tempo contra a corrente de apatia que
levava ao isolamento daquelas comunidades das demais existentes no sul do país. Talvez
devido a esse mesmo isolamento e à distância geográfica, que na época tinha um
significado maior devido à dificuldade de comunicação de uma região a outra, é que se
resolveu criar o "Correio Israelita" no Rio de Janeiro, paralelamente à existência do "Kol
Israel".
Em 13 de março de 1921 Jacob Schneider escrevia um bilhete a David Perez
pedindo-lhe que preparasse um artigo para o jornal que deveria sair em 16 daquele mês. 288
O "Correio Israelita", sob a redação de David Perez e Eduardo Horowitz, perduraria até
1923, quando criar-se-ia, em novembro desse mesmo ano, o jornal "Dos Idiche
Vochenblat", (O Semanário Israelita) fundado por Aron Kaufman com o auxílio de um

283
A.Z., Z 4/2350, carta em ídiche escrita por Maurício Klabin, em 22/10/1920 e resposta em ídiche do
Executivo Sionista em Londres de 25/10/1920.
284
A.Z., Z 4/2350, carta em ídiche de 17/7/1920.
285
A.Z. Z 4/2350, relatório em inglês de 14/7/1920.
286
A.Z., Z4/2350, carta em hebraico de 23/10/1921; carta em hebraico de 26/10/1921; carta em inglês de
7/11/1921; carta em ídiche de 23/11/1921; carta em hebraico de 3/1/1922.
287
Sobre o major Eliezer Levy, vide nesta mesma coletânea o artigo “As muitas histórias do major Eliezer
Levy.”
288
Arquivo David J. Perez, microfilmes no acervo do autor.
139

grupo de ativistas do Rio de Janeiro. Eduardo Horowitz, dotado de espírito nobre, homem
culto, com uma boa experiência de tipógrafo, se atiraria de corpo e alma ao
empreendimento. Ele havia chegado ao Brasil em 1916, vindo dos Estados Unidos, com
uma excelente bagagem de conhecimentos da cultura tradicional judaica e universal e um
bom domínio do hebraico. Desde o início ele se ligou a Jacob Schneider movido pelos
ideais nacionalistas e passou a participar ativamente na vida comunitária judaica do Rio de
Janeiro, onde fixou residência. Eduardo Horowitz apareceria como mentor intelectual do
movimento ao lado de Jacob Schneider e serviria como secretário geral durante os anos de
estruturação da Federação Sionista do Brasil desde o seu surgimento, em 1922. Até quase o
fim de sua vida ele seria o modelo do ativista dedicado à causa que adotara durante sua
juventude, ainda que tivesse sofrido revezes pessoais e mesmo a injustiça de não ter sido
devidamente reconhecido como o mais qualificado para certos cargos de representação do
movimento no Brasil por ocasião do surgimento do Estado de Israel e da formação do seu
corpo diplomático.
Mas, em 1921, muitas transformações iriam ocorrer com o nacionalismo
judaico no Brasil, pois Jacob Schneider e os que estavam próximos a ele procuravam obter
o cumprimento nesse tempo de uma promessa da Central Sionista em Londres para o envio
de um scheliach a esse país. A ocasião para se conseguir tal intento chegou quando por aqui
passou o dr. Alexander Goldstein, que vinha de volta de uma viagem à Argentina e parou
no Rio de Janeiro por algumas horas para se encontrar com os líderes sionistas locais.
Alexander Goldstein se encontrava na América do Sul em missão do Keren Hayessod,
fundado recentemente, por resolução da Conferência de Londres, em 1920.
A importância da passagem do Dr. Alexander Goldstein pelo Brasil consistiu
no fato de ter provocado uma verdadeira euforia entre os ativistas sionistas e
fundamentalmente entre os membros da Associação Sionista do Rio de Janeiro, o que pode
ser constatado pela carta que Jacob Schneider e Eduardo Horowitz remeteram a Bernardo
Schulman em 10 de julho de 1921, isto é, pouco antes da chegada dessa personalidade ao
Brasil. Alexander Goldstein, que se encontrava naqueles dias na Argentina, deveria fazer,
de acordo com a carta, uma visita às grandes cidades do país, e desse modo sugeria a
formação de um comitê de recepção ao escritor e representante do movimento sionista
mundial.289 Porém, essa prometida visita a Curitiba e às grandes cidades não ocorreu,
conforme carta de Eduardo Horowitz de 19 de agosto, do mesmo ano, escrita a Schulman,
justificando essa falta pelo fato do visitante ter feito apenas uma pequena parada no Rio de
Janeiro, “pois sua presença no Congresso Sionista é muito importante”. Assim mesmo,
dizia Eduardo Horowitz, "temos considerado juntamente com ele a possibilidade de se fazer
uma viagem pelo Brasil em beneficio do Keren Hayessod, e temos esperança que, após o
Congresso, o próprio Dr. Goldstein ou uma outra personalidade faça uma visita especial ao
Brasil. Nós também o solicitaremos por telegrama ao Congresso". A carta lembrava que em
conversa com o Dr. Goldstein ficou acertado da necessidade do Brasil ser representado no
Congresso, sendo o nome do veterano ativista de Curitiba, Júlio Stolzenberg, cogitado para
esse encontro.
O fato é que a passagem do Dr. Goldstein pelo Brasil resultou na vinda do
primeiro scheliach (enviado) ao país, e tratava-se nada mais nada menos do que de uma
personalidade de destaque do judaísmo europeu e mundial, o Dr. Yehuda Wilensky. Em

289
Documentação de Bernardo Schulman, no acervo do autor.
140

carta de 26 de outubro de 1921290 a Organização Sionista Mundial comunicava ao grupo


sionista do Rio de Janeiro que dentro de poucos dias Wilensky viajaria ao Brasil. Ele tinha
atuado no sionismo da Ucrânia e da Rússia, fazendo parte do Comitê Central da
Organização Sionista. Um telegrama remetido à Organização Sionista do Brasil informava
que sua primeira escala seria a cidade do Recife, em Pernambuco. Jacob Schneider, que
havia promovido a vinda do Dr. Wilensky poucos meses antes, presidindo a Organização
Sionista do Brasil, conseguiria que o país fosse representado no 12º Congresso Sionista em
Karlsbad, enviando o delegado brasileiro lembrado acima, o dedicado ativista Júlio
Stolzenberg. Nesse sentido, uma carta assinada por Jacob Schneider e Eduardo Horowitz,
de 10 de agosto de 1921, dirigida à Central em Londres, anunciava seu nome como
representante do Brasil ao Congresso.13291 Era, portanto, um ano de grandes expectativas
para o judaísmo brasileiro. Nesse ínterim Eduardo Horowitz escrevia, em 19 do mesmo
mês, a Bernardo Schulman de Curitiba, relatando que os 1.000 shekalim necessários ao
mandato de Júlio Stolzenberg já haviam sido remetidos por intermédio do Dr. Alexander
Goldstein a Londres, e pedia o auxílio do Merkaz Israel do Paraná para ajudar a Associação
Sionista do Rio de Janeiro a resgatar os dois contos de reis que haviam desembolsado para
obterem o mandato ao Congresso de Karlsbad.
Os preparativos para a vinda do Dr. Wilensky começaram com maior
intensidade desde outubro, e Jacob Schneider, já em inícios de novembro, se encontrava em
Pernambuco, conforme podemos verificar em carta escrita por Eduardo Horowitz a ele em
9 de novembro, informando-o sobre o que se passava no Rio de Janeiro e na comissão de
recepção ao sheliach do Keren Hayessod. A carta confirmava também que os sefaraditas e
seus ativistas, em particular Jacques Behar e David Levy, se encontravam muito animados
e já tinham alugado uma sede na Av. Mem de Sá, 181, para a sua associação, servindo a
mesma para as reuniões da comissão preparatória. É preciso lembrar que a Associação
Sionista do Rio de Janeiro, herdeira da Tiferet Sion, se encontrava constituída como uma
nova entidade à rua Senador Euzébio, 117-121, e sua diretoria era encabeçada pelo Dr.
David J. Perez como presidente honorário e um Comitê Executivo constituído das seguintes
pessoas: Jacob Schneider presidente; Eduardo Horowitz, secretário geral; A. Blank e F.
Bergstein, auxiliares; S. Linetzky, secretário de finanças; e Efraim Schechter, tesoureiro. A
expectativa da chegada do Dr. Wilensky havia tomado conta dos ativistas e das associações
que ansiavam em se apresentar bem organizadas perante o sheliach. Eduardo Horowitz, na
carta citada acima, refere-se com satisfação ao fato de já terem adquirido uma máquina de
escrever com tipos em hebraico, pois até então suas cartas eram manuscritas.
Vejamos, porém, como Jacob Schneider descreve em suas "Memórias" a
chegada do dr. Yehuda Wilensky ao Brasil:

290
A.Z., Z 4/2350, carta em hebraico de 26/10/1921.
291
A.Z., Z 4/2350, carta em hebraico de 10/8/1921. Em 16 de agosto a Associação Sionista mandava
telegrama confirmando a remessa dos shekalim para a indicação de Júlio Stolzenberg ao Congresso, cujo
nome aparece nos Stenographisches Protokoll des XIII Zionisten-Kongresses in Karlsbad. Londres
confirmava o recebimento dos shekalim em carta resposta de 23 de outubro, e expressava a satisfação de
encontrar o representante brasileiro no Congresso. V. A.Z., Z 4/2350, carta em hebraico de 23/10/1921;
telegrama em inglês de 16/8/1921. Em 1/9/1921 Júlio Stolzenberg remetia um cartão postal a David J. Perez,
desde Karlsbad e diretamente do XIII Congresso Sionista com os dizeres: “Respeitosas saudações do XIII
Congresso Sionista. Meu mandato desde ontem reconhecido, o entusiasmo aqui é indescritível. Sahlom, Júlio
Stolzenberg.” O cartão se encontra no Arquivo de David J. Perez. Sobre isso vide o artigo “Sionistas, o
primeiro encontro” nesta coletânea.
141

"Ficamos intrigados por escolherem Recife como a primeira estância, visto que
sabíamos não existir lá uma organização sionista. Assim, fizemos uma reunião urgente da
diretoria e resolvemos que eu próprio iria a Recife caso houvesse um navio aqui no Rio que
chegasse ali um dia antes da data de chegada do Dr. Wilensky, para poder preparar uma
recepção digna. Por sorte, havia um navio, que após seis dias me deixou no local de
destino. Ali encontrei uma coletividade de 70 judeus, os quais reuni e exigi
peremptoriamente que organizassem uma calorosa acolhida àquele enviado. No dia
seguinte, todos nós, homens, mulheres e crianças, dirigimo-nos em barcos enfeitados com
bandeirolas ao navio, e quando Dr. Wilensky nos viu, ficou emocionado e chorou.
Desembarcou do navio, abraçamo-nos e nos beijamos, e em seguida o
acompanhamos a um confortável hotel. Estava muito satisfeito em encontrar-me no Recife.
Ele nos contou sobre a fundação do Keren Hayessod e os altos fins desse fundo, e insistiu
em que cada judeu se cotizasse nesse dízimo, isto é, uma décima parte de suas posses. Os
judeus do Recife estavam felizes. Sentindo essa atmosfera, eu disse a eles que primeiro
fossem almoçar e depois conversaríamos. Na reunião, regateei com eles e exigi que o
primeiro se manifestasse com uma soma mínima de três contos de reis. Mas o mais rico
deles quis contribuir com a metade, aumentando em seguida para a importância estipulada,
e os outros o acompanharam. Em seguida fomos à casa de outras pessoas da coletividade
que não haviam comparecido ao encontro. Dois dias trabalhei no local com a comissão.
Conversei pacientemente com cada um daqueles judeus e assim conseguimos, na primeira
campanha da Magbit (Fundo comunitário) do Brasil, 70 contos.
Do Recife fomos a Maceió, onde residiam nove judeus, e ali arrecadamos 15
contos. Dali a Salvador, Bahia, de onde saímos com mais 30 contos, e em seguida voltamos
ao Rio.
No Rio, um grande navio repleto de judeus veio recepcioná-lo, e na primeira
conferência eles contribuíram à altura. Reunimos vários grupos e fomos de casa em casa,
mas poucos me ajudaram nessa campanha. Em particular se destacou Eduardo Horowitz.
Eu tive o privilégio da maior contribuição, isto é, 8 contos.
Do Rio fomos a São Paulo, onde houve muita dificuldade, pois não havia
nenhuma organização sionista.292 A presidência do Keren Hayessod foi assumida pelo Dr.
Horácio Lafer. Andei alguns dias em São Paulo junto com a comissão a fim de realizar a
Magbit. Maurício Klabin, em nome da firma, deu 40 contos.
De São Paulo, o Dr. Wilensky foi a Curitiba, de onde seguiu para a Argentina.
Três meses fiquei ausente de casa e de meus negócios, que ficaram aos cuidados de meu
irmão e dos empregados. Nessas viagens fundamos várias organizações sionistas, e assim,
com essa visita do dr. Wilensky teve impulso o movimento sionista no Brasil. Atraímos
novos adeptos e ficamos em contato com todas as organizações que haviam sido fundadas
no país.”
Em Curitiba e no sul do país acompanhou o dr. Wilensky o ativista Júlio
Stolzenberg, que já tinha atrás de si uma significativa folha de serviços em prol do sionismo
no Brasil.
O Dr. Wilensky compreendeu que sua missão no Brasil não deveria se restringir
à coleta de fundos para o Keren Hayessod ( Fundo de Colonização) , mas impulsionar o
movimento com a criação de novas associações. Desse modo, e sempre acompanhado de

292
Já havia uma associação sionista em São Paulo, denominada Ahavat Sion, fundada em 25 de julho de
1916, conforme carta de Rafael Chachamovitz no Arquivo de David J. Perez.
142

Jacob Schneider, o Dr. Wilensky aproveitou sua passagem pelos estados nordestinos para
criar uma associação sionista denominada "Hertzlia" no Recife, a associação "Gueulá" em
Maceió, a associação "Max Nordau" na Bahia, que passaram a se corresponder com a
Central Sionista em Londres e se tornaram ativas nas campanhas levadas a efeito naqueles
lugares."293 A missão do Dr. Wilensky alcançou pleno sucesso e deixou uma profunda
impressão no judaísmo brasileiro, sendo lembrado posteriormente como um capítulo
decisivo na história do sionismo no Brasil. 0 estímulo devido a sua presença se manifestou
também na capital do país, pois foi nesse mesmo ano de 1921 que se formaria a Sociedade
Sionista Benei Herzl, composta inteiramente do elemento sefaradita da comunidade do Rio
de Janeiro.294 Efetivamente, o esforço de aproximar os sefardim se manifestou em carta de
25 de novembro daquele ano escrita por Eduardo Horowitz a David Perez, na qual
informava ao ilustre professor que acabava "de receber um telegrama do sr. Jacob
Schneider informando que o vapor "Pari", trazendo os nossos ilustres hóspedes, entrará no
porto do Rio amanhã de manhã, às 8 horas. A recepção já está organizada, tomando parte
nela toda a colônia israelita, inclusive os sefardim. O comparecimento do sr. ao
desembarque é indispensável e irrecusável. A comissão de recepção se reunirá amanhã de
manhã às 7 horas no Cais Pharoux, Praça 15 de Novembro, e esperarei o sr. no mesmo
lugar e na mesma hora. Saudações e abraços, E. Horowitz."295
No sul, como já dissemos, o Dr. Wilensky seria acompanhado por Júlio
Stolzenberg, pois a longa ausência de Jacob Schneider de seus negócios particulares e do
Rio de Janeiro tornou-se altamente custosa e difícil, sob todos os aspectos. Daí sua
insistência junto a Júlio Stolzenberg para que este aceitasse a missão de acompanhar o
scheliach em Curitiba e em Porto Alegre. Em carta de 1º de dezembro de 1921,296 escrita
por Stolzenberg e endereçada a Eduardo Horowitz, secretário geral da Organização
Sionista, ele se refere ao assunto negativamente, considerando que não é o momento
propício para a visita do representante do Keren Hayessod naquele Estado, e isso por várias
razões, as quais enumera: 1º) os negócios no local andam muito mal, e pior se tornou a
situação dos judeus, de tal modo "que cada pessoa anda com a cabeça cheia de
preocupações"; 2º) faleceu na comunidade local uma criança, e pelo fato de ser uma
comunidade pequena, toda a Kehilá se encontra em luto, e assim, é impossível realizar
qualquer atividade; 3º) os membros da comunidade estão empenhados na construção de um
templo e um cemitério que tiram muitas energias, trabalho e dinheiro, e portanto, para a
campanha não se pode esperar muito sucesso, uma vez que os "doadores" são sempre as
mesmas 10 ou 12 pessoas. Do ponto de vista administrativo, continua o líder curitibano
com certo orgulho, "é sabido que nós somos um modelo de organização exemplar (...) e

293
A.Z., Z 4/2350, carta em hebraico de 25/11/1921, da Bahia anunciando a criação , em 24/11/1921 a
Associação Sionista “Max Nordau” com a assinatura de A. Chachamovitz, e endereço rua Genipapeiro, 1,
Salvador; carta em hebraico de 6/2/1922 congratulando-se com a nova associação da bahia; carta em ídiche de
22/11/1921 assinada por A. Ribinik relatando que o Dr. Wilwnsky saiu de Pernambuco e chegou a Maceió
onde fundou uma associação sionista com o nome de “Geulá". Dos 23 judeus residentes na cidade (entre os
quais 6 marroquinos) 22 inscreveram-se como sócios; carta em hebraico de 17/1/1922 confirmando a
formação da entidade; cartas em ídiche de 1/1/1922 e 26/2/1922 sobre o mesmo assunto; carta em hebraico de
22/12/1921 informando a formação de uma associação sionista denominada “Herzlia” em Pernambuco no dia
16/11/1921 sediada na rua da Imperatriz, 131, com assinatura ilegível, cartas em hebraico de 25/1/1922 e
2/2/1922 sobre o mesmo assunto.
294
Ilustração Israelita, n.1, agosto, 1928.
295
Arquivo de David J. Perez.
296
Arquivo de Jacob Schneider, documentação no acervo do autor.
143

possuímos, felizmente, uma liderança que se encontra sempre atenta para explorar todo
momento em campanhas em benefício do sionismo. Assim, por exemplo, pudemos aqui em
alguns momentos coletar cerca de um conto de réis para o Fundo Nacional, cuja soma lhe
enviaremos. Sentimos, eu, bem como os outros, que o Dr. Wilensky não consiga nos
visitar, mas devemos considerar que o momento é muito inconveniente (...) Espero que os
companheiros entendam a situação e não nos culpem (...) Lembranças respeitosas ao amigo
Schneider e ao Dr. Wilensky. Em todo o sul, afora Porto Alegre, não podemos contar com
qualquer outra cidade, mas Porto Alegre é muito desorganizada (...) porém, talvez se possa
fazer algo em favor do K. H. e de sua organização interna. Para mim, é impossível ocupar-
me com o assunto, pois os negócios que possuo ficaram durante muito tempo abandonados,
e assim não me permitem o tempo livre necessário para tanto. Eu me permiti, meu amigo, a
excessivas concessões, e agora tenho que pagar o devido tributo".
Apesar de tudo, Júlio Stolzenberg acabaria por aceitar a missão em acompanhar
o Dr. Wilensky, e em carta de 13 de dezembro do mesmo ano 297 dirigida a Jacob Schneider,
após dizer que “estive respondendo somente agora porque me encontrava em viagem no
interior por razões comerciais”, ele agradece a "lição" que Jacob Schneider havia lhe dado
em carta anterior, do dia 9 daquele mês. A resposta de Stolzenberg, um tanto sensibilizado,
mostra que a missiva enviada pelo líder do sionismo brasileiro foi para pressioná-lo a
aceitar o encargo da recepção e acompanhamento do Dr. Wilensky, dando a entender que
ele havia tocado em seus sentimentos sionistas. Stolzenberg relata que para demonstrar sua
fidelidade para com o ideal nacional judaico voltou a Curitiba e encetou uma campanha de
propaganda entre os seus correligionários, acrescentando que Wilensky poderia vir, e
expressando que ficaria sumamente contente se viesse juntamente com ele". Mais ainda,
dizia ele em sua carta: "Não posso assegurar de antemão um grande sucesso material,
porém asseguro, sim, um sucesso cordial, caloroso e moral". Por fim, recomendava que o
Dr. Wilensky fosse após o dia 22 ou 23 daquele mês, pois ele se encontrava impossibilitado
de estar em Curitiba antes daquela data. Também Max Rosenmann, decano da comunidade,
se encontrava em viagem, e acrescenta que já havia estabelecido um comitê para tal
finalidade, sugerindo assim que Wilensky viajasse de Santos a Paranaguá, de navio, para
poder esperá-lo nesse porto a fim de seguir para Curitiba. Portanto, Stolzenberg acabara
aceitando a incumbência de guiar o Dr. Wilensky no sul do país, graças à firme orientação e
autoridade de Jacob Schneider. Lamentavelmente, não temos muitos elementos para saber
com exatidão sobre a permanência do sheliach no sul do país e a atividade exercida nas
comunidades de Curitiba e Porto Alegre, com exceção de uma carta de 23 de abril de 1922,
assinada por Leão Bonder e Jacob Becker, respectivamente presidente e secretário do
Keren Hayessod em Porto Alegre, carta essa dirigida a Jacob Schneider .298
Entre outras coisas, temos a menção e a confirmação que nessa data o jornal
Correio Israelita era enviado àquela cidade, pois o missivista lembra que ele conseguiu 25
assinantes para o mesmo, “(...) remeterá os endereços posteriormente ao pagamento, pois
conhecemos a nossa comunidade, e o Dr. Wilensky também a conheceu sob esse aspecto,
no pouco tempo em que esteve entre nós. E nós concordamos com a opinião que externou
sobre o judaísmo do Brasil, bem melhor e antes do protesto que vocês publicaram em seu
jornal contra ele, ainda que seja um jornal que possa ser lido por não-judeus, o que não é,
talvez, nada agradável a todos nós. Desculpe-me!”.

297
Arquivo Jacob Schneider, carta em ídiche.
298
Arquivo Jacob Schneider, carta em ídiche.
144

Assim, tudo indica que o Dr.Wilensky saiu do Brasil sem ter satisfeito suas
expectativas, que deveriam ser extremamente elevadas para as limitadas condições do
judaísmo brasileiro. O Dr. Wilensky voltaria anos mais tarde para uma segunda viagem ao
Brasil e passaria a se corresponder assiduamente com Jacob Schneider e a liderança sionista
em nosso país. Como prova de que houvera um quiproquó no final de sua desejada e
esperada schlichut, temos uma carta de Wilensky, agora já consul honorário do Chile em
Jerusalém, carta essa escrita de Santiago, em 28 de abril de 1927 dirigida a Jacob Schneider
e Eduardo Horowitz, e que se inicia com as seguintes palavras: “O tempo cura todas as
feridas e eu suponho que ela já curou e apagou a raiva que vocês carregaram em relação a
minha pessoa. Espero que vocês, durante esse tempo, tenham compreendido que eu não
podia deixar de fazer o que fiz”.299
A “raiva” não era tanta quanto aparentava ser, pois ainda em julho de 1922
Wilensky seria nomeado pela Organização Sionista do Brasil como delegado para o
Congresso Sionista daquele ano, conforme o mandato assinado por Jacob Schneider e
Eduardo Horowitz.300 E ainda que tivesse ocorrido algum desentendimento com o
representante do Keren Hayessod, o resultado final de sua missão foi muito bom, pois
constituiu um verdadeiro ponto de partida para um novo impulso do nacionalismo judaico
no Brasil.
O entusiasmo que a schlichut do Dr. Wilensky despertara no judaísmo
brasileiro e seu movimento sionista traria frutos. Reflexos de tal despertar, além do que já
dissemos, podem ser também vistos pela formação do Centro Sionista no Rio, sob a
iniciativa da Associação Sionista do Rio de Janeiro, inaugurado em 1º de abril de 1922, à
rua Senador Euzebio, 132.301
O mesmo espírito se revela na criação de um novo jornal, Haemet (A Verdade),
sobre o qual pouco sabemos, em Belém do Pará, por iniciativa de Pepe I. Larrat e Abraham
Benoliel, periódico esse que se propunha também à propaganda sionista, tal como o Kol
Israel do major Eliezer Levy. 302
Toda essa movimentação decorria também de um novo fato político associado
ao clima gerado pela perspectiva de instalação do mandato britânico na Palestina, que
apontara como alto comissário um judeu, isto é, Sir Herbert Samuel. Em 25 de maio de
1922, Jacob Schneider escrevia um bilhete a David Perez dizendo que “por motivo de
assunto político de alta importância e de muita urgência, o qual recebi agora de Londres,
devemos nos encontrar hoje para conferenciar. Peço marcar por escrito ou por telefone a
hora e o lugar de nosso encontro. Espero que o Sr. atenda ao pedido de Londres."303
Contudo, restava um grave problema após a criação de tantas organizações
locais ou estaduais, e esse era o de superar o isolamento das mesmas isoladas umas das
outras pelo extenso território nacional. O contato direto com a Central Sionista em Londres
não era suficiente para permitir um desenvolvimento normal e eficiente daquelas entidades
locais, e tampouco estimulava a criação de um movimento forte que pudesse ter uma
representatividade aceita no Brasil e no exterior. Além do mais, a liderança local nem
sempre captava e traduzia os verdadeiros anseios da comunidade, e, portanto, cisões ou

299
Arquivo Jacob Schneider, carta em ídiche.
300
A.Z., Z 4/2350, mandato em hebraico de 19/7/1922.
301
Arquivo David J. Perez. O convite de inauguração é assinado por Simão Dain.
302
Arquivo David J. Perez, carta de 14 de maio anunciando o envio do primeiro número do jornal.
303
Arquivo David J. Perez.
145

divisões poderiam enfraquecer as sementes que foram plantadas pelo Dr. Wilensky. Tal
situação ocorreu em Maceió, onde em curto prazo de tempo e devido a desentendimentos
formaram-se duas organizações em uma comunidade de vinte e nove pessoas. 304
Por outro lado, o contato direto da Central de Londres não agradava a ela
mesma, assim como significava um dispêndio de esforços que poderiam ser poupados com
a existência de uma organização central. Nesse aspecto, a Central de Londres procurava
assumir uma atitude encorajadora para se chegar a tanto no Brasil, como podemos
comprovar pela correspondência mantida com o Rio de Janeiro sobre a questão dos
shekalim, que, se de início procurou contato com as novas organizações, logo a seguir
insistiu em afirmar a responsabilidade das campanhas à “Federação Sionista do Brasil”, em
vias de formação, mesmo que esta passasse efetivamente a existir apenas após o Primeiro
Congresso Sionista, que se realizou em novembro de 1922, na cidade do Rio de Janeiro.
Mas, apesar de todos os avanços, após o impulso dado por Wilensky, o
Executivo Sionista se queixava da falta de assiduidade na correspondência, bem como na
prestação de contas dos shekalim remetidos ao Brasil,305 mal que caracterizou a
organização durante todos os seus anos de existência, com altos e baixos dependendo da
composição humana de seus órgão diretivos.
Tudo indicava que na época, isto é, no ano de 1922, as diversas agremiações
sionistas locais se mostrariam dispostas a manter contato entre si, e tudo levava a crer que o
melhor seria criar uma organização central que pudesse aglutinar as associações dos
diversos estados brasileiros.
Portanto, Jacob Schneider e outros começaram a pensar e planejar a realização
de um Congresso Sionista de amplitude nacional, sendo que a data marcada para o conclave
era o dia 15 de novembro de 1922, data significativa para o Brasil, pois comemora a
proclamação da República. Em 8 de novembro, J. Schneider telegrafou à Central Sionista
comunicando o acontecimento.306 Graças ao fato de termos encontrado os protocolos do
congresso no arquivo de Jacob Schneider pudemos reconstituir as sessões havidas naquele
conclave e o temário das discussões das mesmas, que mencionaremos apenas de passagem.
A abertura do Congresso, que teve a participação de 39 representantes de 13
Estados, que falariam em nome de 14 associações sionistas, realizou-se de forma solene.
Jacob Schneider, presidente do Comitê Organizador, abriu com um discurso, discorrendo
sobre a formação do movimento no Brasil e colocando como objetivo de primordial
importância a criação de uma Federação Sionista, que deveria se ocupar da coleta de fundo
para os israelitas, vítimas dos pogroms; para a criação de uma verdadeira escola judaico-
brasileira; para a criação de uma biblioteca sionista e para a difusão das idéias do
movimento através do país.
Na ocasião falaram também Eduardo Horowitz e Jacques Behar, representante
da associação Benei Herzl do Rio de Janeiro. Entre outras resoluções, ficou decidido que
seriam feitas campanhas do Keren Hayessod, do Keren Kayemet, e que seriam estimulados
todos os aspectos da vida judaica local – social, educativo e cultural. O Congresso foi um
verdadeiro chamado para a atividade sionista. O resultado imediato do encontro foi a
criação de uma Federação Sionista, cujo Comitê Central seria localizado no Rio de Janeiro,

304
O Centro Sionista Agudat Achim dividiu-se e formou a Associação Sionista Gueulá sob a presidência de
A.Ribinik. V. A.Z., Z 4/2350, carta em ídiche de 8/10/1922.
305
A.Z., Z 4/2350, cartas em hebraico de 20/4/1922; 10/7/1922; 8/8/1922.
306
A.Z., Z 4/2350, telegrama em inglês de 8/11/1922.
146

sendo eleitos: Presidente de Honra – Maurício Klabin; Presidente – Jacob Schneider; Vice-
Presidentes – Saadio Lozinski e David Levi; Primeiro-Secretário – Eduardo Horowitz;
Segundo-Secretário – Shalom Linetzki; Tesoureiro Geral – Efraim Schechter; Ajuda –
Boris Tendler; Keren Hayessod – Salomão Gorenstein; Conselheiros – Júlio Stolzenberg
(Curitiba) e Miguel Lafer (São Paulo), Conselho Fiscal – Simão Dain, M. Koslovski e A.
Harosh.307
Assim, com o surgimento da Federação Sionista como coordenadora das
atividades do movimento no país, inaugurava-se uma nova etapa da história do movimento
no Brasil.
Em abril de 1923 Jacob Schneider faria uma viagem à Palestina e ficaria encantado com o
país e o trabalho realizado pelos pioneiros judeus. 308 Em 13 de setembro daquele ano ele
escrevia uma carta a Baruch Schulman, na qual dizia: “voltei há dois meses de minha
viagem à Terra Santa, e sente-se de imediato que lá é o Lar Judeu, pois tão orgulhoso, tão
seguro, tão livre e tão bem se sente o judeu nesse belíssimo país, mesmo que não seja seu
cidadão. A viva língua hebraica, as aldeias judaicas, a bela cidade de Tel Aviv, a juventude
, os chalutzim (pioneiros) e as chalutzot (pioneiras) , com seu trabalho inigualável, são os
melhores de nossa intelligentsia e não evitam os trabalhos dos mais pesados (...)”.309 Era a
sua primeira visita à Palestina antes da formação do Estado de Israel, o qual ele,
futuramente, conheceria pelas viagens que realizaria durante os anos de atuação no
movimento sionista. Mas os sentimentos e as marcas profundas que a viagem de 1923
deixaram em sua pessoa podem ser detectados no “Diário” que escreveu sobre a mesma,
que passa a ser um documento pessoal interessante pela descrição que faz da colonização
judaica naqueles anos.

A carta acima citada, escrita a Baruch Schulman, mostra-o animado com a presença do
scheliach da Organização Sionista Mundial, o escritor Leib Jaffe, que se encontrava no Rio
e, conforme a expressão do missivista, alcançara um grande sucesso em sua missão. Jacob
Schneider comunicava a Schulman que ele acompanharia o scheliach a São Paulo e de lá
Jaffe seguiria a Curitiba, esperando que a comunidade local o apoiasse ao mesmo tempo
que contava com a ajuda pessoal do ativista curitibano.
Na verdade, a vinda de Leib Jaffe ao Brasil partiu de uma resolução do 1º
Congresso Sionista no Brasil de 1922, o qual, conforme nos informa carta de Jacob
Schneider e Eduardo Horowitz dirigida à Central da Organização Sionista em Londres
datada de 11 de dezembro daquele ano, havia resolvido solicitar um sheliach para o período
de gestão da diretoria eleita, isto é, para o ano de 1923.310 A carta informava à Central que a
atividade para o Keren Hayessod deveria se dar no começo de 1923, como de costume, e
portanto se fazia necessária a sua vinda o mais rápido possível, para dar o apoio ao que
estava programado pelo movimento local. Os signatários da carta especificavam as
qualidades que deveria ter o enviado do movimento sionista, isto é, “um nome famoso no
mundo judaico, excelente orador de massas e que saiba línguas européias, em especial

307
O Comitê Central designado é mencionado no artigo de E. Horowitz “Vegen der Zionism in Brazil”
(Acerca do sionismo no Brasil) ,Dos Idiche Vochenblat (O Semanário Israelita), novembro de 1924.
308
Pelo Diário de viagem de Jacob Schneider, sabemos que a data de saída do navio do Rio foi em 10 de
abril, e a sua volta pelo porto de Alexandria foi em 25 de maio daquele mesmo ano. O Diário está escrito num
caderno de 150 páginas, manuscrito em ídiche, e se encontra entre sua documentação ou Arquivo.
309
Arquivo de Bernardo Schulman, carta em ídiche, no acervo do autor.
310
A.Z., Z 4/2350, carta em ídiche.
147

francês e espanhol, para que o scheliach possa aparecer perante assembléias de judeus
sefaraditas, cujo número é muito grande no Brasil, e sua maioria fala espanhol ou francês”.
Acrescentava-se ainda que o novo scheliach deveria seguir o roteiro do primeiro, ou seja, o
do dr. Wilensky, visistando em primeiro lugar o norte do Brasil, a começar de Pernambuco.
E já em 10 de março de 1923 Jacob Schneider escrevia a Baruch Schulman cobrando o
compromisso assumido durante a realização do 1º Congresso Sionista no Brasil por Júlio
Stolzenberg e Max Rosenmann de cumprirem com sua cota para a campanha do Keren
Hayessod, e na mesma carta informava que “em janeiro já esperávamos um novo sheliach
especial, mas precisamos esperar por L. Jaffe, que está visitando a Argentina. Também há
10 dias recebemos uma carta, onde se relata a terrível situação financeira do executivo e de
Eretz Israel e, portanto, resolvemos começar o trabalho para o ano de 1923. Nesse sentido,
organizamos uma noite de Purim e proclamamos a campanha para o Keren Hayessod para
o ano presente”.
Jacob Shneider apelava para a boa vontade de Shulman “juntamente com
Stolzenberg” para que empregassem a maior energia no trabalho e cumprissem sua
obrigação para com o povo judeu. Nessa mesma carta, ele notificava que em 10 de abril
partiria para a Romênia, onde deveria visitar seu pai, e seguiria para a Palestina, pedindo
que durante sua ausência se dirigisse a Eduardo Horowitz. 311
Efetivamente, Leib Jaffe deveria chegar em fins de junho, e nesse ínterim, o movimento
sionista no Brasil procurava cumprir suas obrigações de venda dos shekalim para terem um
representante no 13º Congresso Sionista, que deveria realizar-se em agosto do mesmo ano.
Nesse sentido, Saadio Lozinski, que substituía a Jacob Schneider na presidência da
Federação Sionista do Brasil, juntamente com E. Horowitz, escrevia em carta de 9 de maio
que esperavam a vinda de Leib Jaffe para que pudessem atingir a cota de shekalim imposta
pela Central Sionista em Londres.
O segundo sheliach do movimento sionista mundial ao Brasil, Leib Jaffe, era
um intelectual e conhecido homem de letras que atrairia, sob esse aspecto, também a
atenção do limitado número de intelectuais do judaísmo brasileiro e criaria laços de
amizade mais profundos com alguns deles, amizade que se revela na correspondência que
manteve após seu retorno ao velho continente e, mais tarde, à Palestina. Leib Jaffe, que
passara anteriormente pelo Chile, Argentina e Uruguai, seria recebido no Rio de Janeiro em
audiência especial pelo presidente Arthur Bernardes, obtendo um estrondoso sucesso na
capital carioca. O jornal do major Eliezer Levy, Kol Israel, 312 publicava uma nota sobre sua
presença no Brasil, informando que o sheliach visitara São Paulo, Bahia e Recife,
transcrevendo ao mesmo tempo dois artigos publicados na imprensa baiana sobre o
visitante, um no “Diário da Bahia” e outro no “A Tarde”.313
O sucesso de Leib Jaffe no Rio também é confirmado por uma carta pessoal de
15 de setembro de 1923 de Leon Schwartz, ativista comunitário, a Baruch Schulman, seu
amigo, que tece elogios entusiásticos à personalidade do scheliach, recomendando-o ao seu
amigo de Curitiba: “Parece-me que você conhece o meu ceticismo em relação à idéia
sionista, ainda que eu nunca tenha me recusado a dar qualquer apoio, uma vez que sou parte
do meu povo. Estive viajando na ocasião quando o senhor Jaffe chegou por aqui. Fui lhe

311
Arquivo de Bernardo Schulman, carta em ídiche.
312
Kol Israel, 17 de dezembro de 1923.
313
O artigo do A Tarde terminava comunicando que “Leib Jaffe faria uma conferência na Sociedade
Beneficente Israelita da Bahia sobre o tema “A nova Palestina”.
148

dar as boas-vindas como se deve fazê-lo a um talmid-chacham (estudioso e sábio) (ele é


um escritor em ídiche, russo e hebraico) logo que voltei para cá. Devo-lhe dizer a verdade:
saí muito feliz desse encontro com Jaffe. Encontrei-o várias vezes e todas as vezes me senti
feliz. Esse homem possui uma bela alma, é melancólico, não esfuziante e nem vulgar, com
boa formação, e realmente um idealista.
É desnecessário pedir-lhe, amigo Schulman uma atenção especial de nossos
amigos que amam nosso povo e se orgulham de suas melhores personalidades. Você
passará bons momentos com o senhor Jaffe e sentirá um verdadeiro prazer em ficar em sua
companhia”.314 Em cartão postal de 4 de outubro, Leib Jaffe agradecia a Schulman pelo
sucesso que alcançara em sua campanha em prol do Keren Hayessod na cidade de Curitiba,
e “pelo bom relacionamento para com a minha pessoa e a vossa hospitalidade”. 315 O
próprio Schulman confirmaria esse sucesso e a grande repercussão do trabalho de Jaffe em
Curitiba em carta que remetera a Leon Schwartz, em 26 de setembro do mesmo ano, e onde
confidenciava o quanto lhe agradara a personalidade de Jaffe e os excelentes resultados da
presença do scheliach no Paraná, ainda que a ele, Schulman, lhe tenha custado grandes
sacrifícios pessoais para preparar um comitê de recepção e programar sua estadia naquele
lugar.316
Também Jacob Schneider elogiava o trabalho de Schulman em carta de 12 de
outubro escrita a ele, e se mostrava satisfeito pelo sucesso obtido por Jaffe em Curitiba.
Ainda acrescentava que o sheliach havia melhorado sua saúde ao chegar ao Rio e que
partira para a Bahia no dia 3 daquele mês.317 Do mesmo modo, a Federação Sionista do
Brasil, em carta de 3 de novembro daquele mesmo ano, assinada por Jacob Schneider e E.
Horowitz, reconhecia oficialmente o grande serviço que ele havia prestado ao movimento,
“e nos deixou sumamente satisfeitos ao saber que não esperastes as nossas instruções e
tomastes a iniciativa dos preparos e tudo o necessário para que o sucesso de Jaffe e do
Keren Hayessod fosse garantido”.318
O Centro Israelita do Paraná era alvo dos maiores elogios pelo trabalho
desempenhado por seu presidente Baruch Schulman, mas apesar de tudo, sabia-se que
questiúnculas de caráter pessoal não deixavam saborear plenamente o sucesso alcançado. Já
em fevereiro de 1924, a Central do Keren Kayemet escrevia a Stolzenberg e Schulman
pedindo que as desavenças pessoais ou de grupos fossem evitadas, a fim de não prejudicar
o trabalho em favor daquela entidade e em nome da causa sionista, asseverando que tais
rumores que chegaram até seus ouvidos depunham contra a moral do movimento.319
Não somente dissidências locais ocorriam, mas também a própria central do Keren
Hayessod em Londres provocava situações ambíguas pela atuação direta e contato com as
sociedades sionistas dos diversos Estados, com a grave conseqüência de quebrar a unidade
e a disciplina da Federação Sionista do Brasil, o que levou a Jacob Schneider e E. Horowitz
a escreverem uma longa carta àquela entidade, na qual expunham a questão com toda a

314
Arquivo Bernardo Schulman, carta em ídiche.León Schvartz, nessa carta, promete visitar Curitiba dentro
de 18 a 20 dias, porém não sabemos se o fez.
315
Arquivo Bernardo Schulman, carta em ídiche.
316
Arquivo Bernardo Schulman. Por essa carta ficamos informados que Leib Jaffe ficou em Curitiba até as
vésperas do dia 26 de setembro quando partiu acompanhado por Schulman a Paranaguá para embarcar no
“Flandria” que zarparia em direção ao norte do país.
317
Arquivo Bernardo Schulman, carta em ídiche.
318
Arquivo bernardo Schulman, carta em ídiche de 3/11/1923.
319
Arquivo Bernardo Schulman, carta em hebraico de 13/2/1924.
149

clareza: “Meses atrás, nos comunicamos com o escritório Central da Organização Sionista
em Londres solicitando para que se escrevesse a todas as sociedades sionistas do Brasil
que, em matéria de atividades sionistas, fundos, etc., se comunicassem com o Comitê
Central da Federação Sionista do Brasil, que é o único foro autorizado a ser contatado e
cuja orientação deve ser acatada. Fomos obrigados a exigir isso da parte do escritório
Central devido ao fato de nosso Comitê Central ter tido grandes dificuldades, impedindo
que realizássemos um trabalho sistemático. Devido ao lamentável capricho ou outra
qualquer causa, uma certa sociedade se arvora ao direito de se dirigir diretamente a
Londres, e nos deixa inteiramente ignorantes do que se passa. Devido a esse estado de
coisas, o trabalho do Keren Hayessod foi prejudicado mais do que tudo, pois cada
sociedade ou comitê comunicou-se com o K.H. em Londres e remeteram a ela todas as suas
obrigações, enquanto o Comitê ignorava tudo o que se passava, mesmo que tenha tido o
papel principal em toda a campanha. Até agora nos é impossível controlar o trabalho das
diversas sociedades (...)A conseqüência de tudo isso é a plena desordem que prevalece
nessas sociedades. Nenhuma contabilidade existe e em alguns lugares é impossível
compilar sequer as listas dos contribuintes ao K.H. (...). A Central em Londres, em vez de
fortificar a autoridade da Federação e ajudar a disciplinar e sistematizar o trabalho para
termos o controle da situação e podermos ganhar a inteira confiança da população judaica
no Brasil, deu, recentemente, certos passos, talvez involuntariamente, que dificulta nosso
trabalho e que nos leva de volta à situação existente anteriormente. O telegrama que vocês
nos mandaram, bem como a Pernambuco e Bahia, a respeito da imediata remessa dos
valores coletados para o K.H., sem considerar o valor de câmbio, também prejudicaram o
nosso trabalho, pois as mencionadas sociedades não se sentem ligadas a nós inteiramente e
à nossa orientação, uma vez que possuem uma relação direta com o escritório em
Londres.”320 No final, os responsáveis pela Federação pediam à Central de Londres que
escrevessem novamente a todas as sociedades sionistas do Brasil com as quais ela havia se
comunicado anteriormente para que doravante se comunicassem somente com o Comitê
Central no Rio, seguindo sua orientação, e que as somas coletadas fossem remetidas
somente através dela.
Corria assim o ano de 1924 e Jacob Schneider encetaria uma viagem à Europa
no final daquele mesmo ano, encontrando-se em novembro em Londres, onde seria
entrevistado por elementos da Organização Sionista Mundial. O resumo da entrevista revela
que ele prestara informações gerais sobre a comunidade judio-brasileira, incluindo dados
estatísticos sobre a sua população, modo de atuação da Federação Sionista e suas
atividades, e uma rápida caracterização dos grupos políticos.321 Já nesse ano se encontrava
no Brasil o rabino Isaías Raffallovich, que havia desembarcado no Rio de Janeiro em
dezembro de 1923 como representante da J.C.A. (Jewish Colonization Association) em
nosso país e que desempenharia um papel importante na vida comunitária judaica, seja sob
o aspecto da criação de uma rede escolar, beneficência e amparo ao imigrante, seja em
relação à atividade sionista. Raffalovich vivera na Palestina durante muitos anos e viera
com seus pais ainda no século XIX, quando se davam os inícios da colonização com
imigrantes vindos da Rússia Czarista, naquela região e, portanto, estava imbuído de ideais
sionistas desde a sua juventude.322 No Brasil a preocupação em desenvolver uma

320
A.Z., Z 4/2350, carta em ídiche, com tradução ao inglês, de 21/12/1923.
321
A.Z., Z 4/2350, relatório em inglês sobre a entrevista feita em 2/11/1924.
322
Veja-se sua autobiografia com o título Ziunim veTamrurim (Marcos e Etapas), Tel-Aviv, 1952.
150

comunidade assentada em bases estáveis, dar o apoio aos imigrantes que chegavam em
número cada vez maior, também passou a ser uma preocupação do movimento sionista
local, que colocava suas forças e meios para acolher aqueles que necessitavam de ajuda.
Daí ser difícil separar, na época, idéias nacionalistas e a própria vida comunitária em
formação. Já nesses anos havia uma preocupação de se aproximar a nova geração da
atividade comunitária, assim como atraí-la ao movimento nacionalista, e, na verdade, o
primeiro apelo feito nesse sentido foi o de Leib Jaffe durante sua passagem em território
brasileiro, e que levou à criação de uma organização juvenil de nome Cadima.323
Outro aspecto dessa renovação do movimento sionista é a criação do Grupo
Ativo do Centro Sionista do Rio de Janeiro, que visava dar maior ímpeto à atividade
nacionalista judaica naquela cidade.324
Em suma, podemos considerar os primeiros anos da década de vinte como uma
etapa decisiva na fixação e no desenvolvimento do movimento sionista no Brasil, tendo
como causa principal a atividade exercida por Yehuda Wilensky e Leib Jaffe como
enviados da Organização Sionista Mundial.

323
Ilustração Israelita, n. 1, agosto, 1928. A Enciclopédia Judaica, ed. Tradição, Rio de Janeiro. 1967, verbete
Cadima, se equivocou ao atribuir a iniciativa a I. Juris.
324
Sobre o Grupo Ativo vide o artigo de E. Horowitz “Di grindung fun a Aktive Grupe” (A fundação de um
Grupo Ativo), no Dos Ìdiche Vochenblat, n. 44, 12 de setembro de 1924 e n. 45, de 19 de setembro do mesmo
ano. No programa do Grupo Ativo constam sete itens:1) organizar o elemento positivo do Rio ao redor do
sionismo; 2) despertar seus membros para sua identidade nacional; 3) posicionar-se frente a todas questões
atinentes à vida judaica; 4) atuar para o renascimento do lar nacional judaico em Eretz Israel; 5) contribuir
para a organização do judaismo brasileiro; 6) atuar no âmbito da cultura nacional judaica; 7) preocupar-se
com a educação da juventude.
151

18. Os Protocolos do Primeiro Congresso Sionista na Brasil (1922)

Entre os valiosos documentos do arquivo de Jacob Schneider, um dos


fundadores do movimento sionista brasileiro, encontramos os Protocolos referentes ao 1.º
Congresso Sionista no Brasil, cujo texto, lamentavelmente incompleto, consiste em 17
folhas, tamanho ofício, datilografadas em íidiche. Faltam ao maço de folhas numeradas as
de 1 a 3, as de 5 a 6 e uma ou duas folhas finais que corresponderiam à parte de
encerramento formal do Congresso. Portanto, o texto se encontra conservado quase na
íntegra, reproduzindo os debates havidos, de modo resumido, em todas as sessões
programadas naquele encontro.
Mas antes de entrarmos no conteúdo dos Protocolos devemos historiar o
desenvolvimento do sionismo pouco antes da realização do Congresso em 1922.
O sionismo no Brasil, que nesse tempo já contava com quatro organizações
atuantes: a Tiferet Sion, no Rio de Janeiro; a Shalom Sion, em Curitiba; a Ahavat Sion, em
São Paulo e a Ahavat Sion no Pará, foi assumindo cada vez mais papéis diretivos da vida
comunitária do judaísmo brasileiro. Tudo indica – e a documentação comprova – que a
Shalom Sion em Curitiba, Paraná, sob a direção de Júlio Stolzenberg e do escritor Baruch
Shulman, mostrou-se disposta a liderar o movimento nacionalista do país, chegando mesmo
a escrever nesse sentido, em 26 de janeiro de 1920, à Central-Sionista em Londres, que, por
sua vez, comunicou ao Bureau Central do Fundo Nacional Judaico em Haia. Entre outras
coisas, ela se propõe a ser reconhecida como centro de uma Federação Sionista no Brasil,
pois “nós somos atualmente a única organização sionista no Brasil que trabalha
continuamente para o sionismo sob todos os aspectos”, pois a “Tiferet Sion, no Rio de
Janeiro, ficou inteiramente adormecida”...
A resposta da Central de Londres foi bastante diplomática para não ferir a
sensibilidade da organização, ao mesmo tempo que visava harmonizar as diversas entidades
e principalmente a Tiferet Sion. Devemos também observar que na segunda metade de
1920 existia também uma organização sionista em Porto Alegre – que mantinha contato
com a Central de Londres – que iniciou suas atividades naquele mesmo ano.325
No ano de 1921, o movimento sionista no Brasil assinalava pela primeira vez
sua presença em um congresso sionista, o 13.º de Karlsbad, enviando um delegado em seu
nome, o já conhecido e respeitado ativista Júlio Stolzenberg. Em carta assinada por Jacob
Schneider e Eduardo Horowitz, de 10 de agosto de 1921, dirigida à Central da Organização
Sionista em Londres, comunicava-se o nome de Júlio Stolzenberg como delegado do Brasil
ao Congresso, bem como a venda de 1.000 shekalim, correspondentes ao seu mandato, que
foram entregues às mãos do dr. Alexander Goldstein, que se encontrava de passagem pelo
Rio de Janeiro.
No decorrer desse movimento positivo, o momento sionista no Brasil seria
beneficiado imensamente com a vinda, em 1921, de um sheliach de alto nível e profunda
experiência política, bem como dono de um magnetismo pessoal, homem de grande
presença e excelente orador: o Dr. Yehuda Wilensky.A shlichut do dr. Wilensky se deu

325
Há-Archion há-Tzioni (Central Zionist Archives), Z 4/2350, carta em hebraico de 17/7/1920 e carta
dirigida a Curitiba de 25/8/1920. Quanto aos fatos mencionados desta primeira parte de nosso estudo o leitor
poderá encontrar as fontes documentais citadas em nosso estudo sobre a missão de Yehuda Wilensky e Leib
Jaffe no Brasil, que faz parte da presente coletânea.
152

devido a um pedido feito ao dr. Alexander Goldstein, que vinha de volta de uma viagem à
Argentina e parou no Rio de Janeiro por algumas horas para se encontrar com os líderes
sionistas locais, e era uma missão em nome de Keren Yayessod, fundado por resolução da
Conferência de Londres, em 1920. Em carta de 26 de outubro de 1921, a Organização
Sionista comunicava ao Rio de Janeiro que dentro de poucos dias viajaria ao Brasil o Dr.
Wilensky. Ele era, também, um dos ativistas sionistas da Ucrânia e da Rússia e membro do
Comitê Central da Organização Sionista, com um passado rico em feitos em favor do
judaísmo russo. Antes de sua chegada, a Organização Sionista no Brasil tinha recebido um
telegrama sobre a sua vinda, que informava ser sua primeira escolha no país a cidade de
Recife, em Pernambuco. Ele percorreria o Brasil de norte a sul criando associações
sionistas nas comunidades menores nas quais ainda não havia nenhuma entidade
nacionalista. Conforme já descrevemos em outro lugar de nosso trabalho a estadia de
Wilensky no Brasil deu um grande estímulo aos adeptos do sionismo e permitiu dar um
novo passo em sua organização.
Tudo indicava que no ano de 1922 as diversas agremiações sionistas locais se
mostrariam dispostas a manter contato entre si, e tudo levava a crer que o melhor seria criar
uma organização central que pudesse aglutinar as associações dos diversos Estados
brasileiros.
Portanto, Jacob Schneider e outros da Tiferet Sion começaram a pensar e
planejar a realização de um Congresso Sionista de amplitude nacional, sendo que a data
marcada para o conclave era dia 15 de novembro de 1922, data significativa para o Brasil,
pois comemorava a Proclamação da República. Em 8 de novembro, J. Schneider telegrafou
à Central Sionista comunicando o acontecimento.
A abertura do Congresso, no qual participaram 39 representantes de 13 Estados
que falariam em nome de 14 associações sionistas realizou-se de forma solene. Jacob
Schneider, presidente do Comitê Organizador, abriu com um discurso, discorrendo sobre a
formação do movimento no Brasil e colocando como objetivo de primordial importância a
criação de uma Federação Sionista, que deveria se ocupar da coleta de fundos para os
israelitas, vítimas dos pogroms; para a criação de uma verdadeira escola judaico-brasileira;
para a criação de uma biblioteca sionista e para a difusão das idéias do movimento através
do país.
Na ocasião falaram também Eduardo Horowitz e Jacques Behar, representante
da associação Benei Herzl do Rio de Janeiro. Entre outras resoluções, ficou decidido que
seriam feitas campanhas do Keren Hayessod, do Keren Kayemet, e que seriam estimulados
todos os aspectos da vida judaica local – sociais, educativos e culturais. O Congresso foi
um verdadeiro chamado para a atividade sionista. O resultado imediato do encontro foi a
criação de uma Federação Sionista, cujo Comitê Central seria localizado no Rio de Janeiro,
sendo eleito como presidente de honra Maurício Klabin (São Paulo); presidente – Jacob
Schneider; vice-presidentes – Saadio Lozinski e David Levy; primeiro-secretário – Eduardo
Horowitz; segundo-secretário – Shalom Linetzki; tesoureiro-geral – Efraim Schechter;
ajuda – Boris Tendler; Keren Hayessod – Salomão Gorenstein; conselheiros – Júlio
Stolzenberg (Curitiba) e Miguel Lafer (São Paulo); conselho-fiscal – Simão Dain, M.
Koslovski e A. Harosh.
Assim, com o surgimento da Federação Sionista como coordenadora das
atividades do movimento no país inaugurava-se uma nova etapa da história do movimento
no Brasil. Vejamos agora o conteúdo dos protocolos do encontro que se realizou entre os
dias 15 e 21 de novembro de 1922.
153

Antes dos discursos de abertura do Congresso foi redigido um longo telegrama


dirigido ao presidente da República, no qual se agradecia ao Brasil e ao seu povo por terem
apoiado a Liga das Nações na resolução referente ao mandato britânico na Palestina, bem
como pela acolhida dada aos imigrantes judeus que tanto contribuíram para o progresso do
país desde os tempos coloniais até o ano em que se comemora o centenário de sua
independência. Assinaram o telegrama em nome da comunidade da Capital Federal,
Salomão Gorenstein; de São Paulo, Maurício Klabin; Paraná, Max Rosenmann; Porto
Alegre, Alter Weksler; Santa Catarina, José Margalith; Pernambuco, Jacob Schneider;
Bahia, José Diamante e Boris Tendler, Alagoas. Após a leitura do telegrama cantaram as
crianças da escola Maguen David o hino nacional, entusiasticamente aplaudidas pelo
público presente. Após o mencionado discurso de Jacob Schneider, o secretário do Comitê
Provisório. E Horowitz, relatou sobre os objetivos do sionismo e seus inícios no Brasil,
discurso importante pelo seu conteúdo histórico, uma vez que ele descreve os primórdios
do movimento e sua organização em terra brasileira. E, logo a seguir, deu-se a leitura do
relatório financeiro pelo senhor S. Linetzki, compreendendo as contribuições do Keren
Hayessod, e também do Keren Kayemet.
Em seguida, Jacob Schneider agradeceu o apoio de seus colegas de todas as
cidades em nome do Comitê Provisório e propôs que se fizessem de imediato as eleições
para o Presidium do Congresso. O senhor Grinberg pediu a palavra e propôs que o
Congresso expressasse um agradecimento ao Comitê Provisório pelo trabalho realizado, o
que foi aceito com aplausos pelo público presente.
Em seguida, o presidente do Comitê de Nomeações, o senhor Max Rosenmann,
leu a proposta de nomes para o Presidium do Congresso constituído de: presidentes: 1)
Maurício Klabin; 2) Júlio Stolzenberg; 3) Jacob Schneider; 4) Saadio Lozinski; vice-
presidentes: 1) Eduardo Horowitz; 2) Jacques Behar, cujos nomes foram aceitos pelos
delegados presentes.
Maurício Klabin abriu a sessão agradecendo a honra com que fora agraciado
juntamente com seus colegas de presidência, desejando sucesso ao Congresso.
O primeiro relator dessa sessão foi Júlio Stolzenberg, que falou sobre o
sionismo em Curitiba, dizendo que a atividade comunitária teve início em 1910, com a
participação do fundo eleitoral para a fundação de um Clube Sionista no Parlamento
Austríaco. Ele também nos diz que, em 1912, foi fundada a Shalom Sion326 e que após a
conferência de San Remo, em 1920, a comunidade viveu em festa e foram arrecadados 10
contos de reis para o Fundo Nacional. Ao terminar o seu relatório, o senhor Max
Rosenmann trouxe uma proposta da Comissão de Resoluções para que se considerasse
criada a Federação Sionista do Brasil, de modo que o Congresso já pudesse atuar como um
encontro da nova entidade, o que foi aceito pelos presentes. Ao se apresentar uma moção de
agradecimento ao senhor Ribinik pela sua atividade em Maceió, gerou-se um debate sobre
se caberia agradecer a um indivíduo ou não e, nessa ocasião, Jacob Schneider, pedindo o
uso da palavra, fez referências elogiosas ao senhor Ribinik, apoiando a moção proposta por
um grupo de delegados. Mas, por fim, ficou acertado, por proposta de Júlio Stolzenberg,
que a Comissão de Resoluções formulasse, como resolução geral do Congresso, o
agradecimento a todas as organizações que contribuíram para o trabalho sionista.
O presidente da sessão propôs um debate sobre o relatório do Comitê
Provisório, e ainda que o delegado Dain se tenha oposto a um debate crítico – alegando que

326
Júlio Stolzenberg diferenciará entre esta fundada em 1912 e a Shalom Sion fundada oficialmente em 1917.
154

até então a atividade sionista no Brasil baseara-se em iniciativas individuais e, portanto,


ninguém teria o direito de criticar essas pessoas –, acabou por prevalecer a opinião do
presidente do Comitê Provisório, Jacob Schneider, de que a crítica deveria ser feita.
Stolzenberg foi o primeiro a abrir o debate em tom crítico e colocou em dúvida
a autoridade do Comitê Provisório, “pois ele também tinha uma orientação clara de parte do
Executivo Sionista de organizar uma Federação sionista brasileira”, apesar – esclarece o
orador – de nos últimos tempos não ter podido estar próximo à atividade e, de todo modo,
merece o Comitê Provisório agradecimento pelo que realizou. Tomaram parte nesse debate
ainda os senhores Linetsky, Horowitz, Lozinski, Stolzenberg e Margalith, acusando o
último o Comitê Provisório de nada ter feito em relação à educação judaica. Jacob
Schneider foi o último a falar nesse debate, respondendo às críticas feitas e argumentando
que o maior problema de seu Comitê foi a falta de voluntários para as tarefas que tinham
pela frente, e que de nenhum modo procuraram tomar para si honrarias ou autoridade, pois
sempre estiveram dispostos a entregá-las a outros. Quanto à educação judaica, ainda o
movimento sionista era o mais ativo nas comunidades, onde quer que elas existissem. Com
isso, o debate geral foi encerrado, mas não antes de se aprovar uma moção de apoio ao
Comitê Provisório.

SHEKEL E SHEKEL-ZAHAV

Na mesma sessão, Eduardo Horowitz tratou da importância e papel do “shekel”


e do “shekel-zahav”, relatando o que foi feito durante esse tempo e o que se deveria fazer
futuramente a esse respeito. Tomaram ainda parte no debate vários delegados, até que se
aceitou levar as propostas de Eduardo Horowitz à Comissão de Resoluções. Nesse ínterim,
a Biblioteca Scholem Aleichem do Rio de Janeiro convidava os delegados da sessão a
participarem de um programa literário dedicado ao escritor Anski, autor do “Dibuk”. Outro
acontecimento curioso ocorrido nessa sessão foi o delegado Jacques Behar protestar pelo
fato de os debates se realizarem em ídiche, língua que ele e seus colegas sefaraditas não
entendiam e, portanto, era-lhes difícil acompanhar os temas em questão. O debate gerado
por essa última questão foi o suficiente para que se aprovasse uma resolução indicando o
delegado Miguel Lafer como tradutor, para resumir em português os assuntos tratados. A
sessão encerrou-se com uma proposição feita por Júlio Stolzenberg para que o Congresso
homenageasse o falecido Max Fineberg, que tanto lutara para o sionismo no Brasil. O
Congresso levantou-se em sua honra e às 12:00 horas encerrava-se a sua primeira sessão.
A segunda sessão teve início no sábado à noite, no dia 18 de novembro, e ela
teve por tema a questão do “shekel” e “shekel-zahav”. Foram tomadas as seguintes
resoluções sobre o “shekel”: 1) todo sionista, pertencente ou não a qualquer organização,
tinha por obrigação apoiar anualmente a campanha do “shekel”. 2) o preço do “shekel” no
Brasil para o ano de 1923 seria de 5 mil réis.
Sobre o “shekel-zahav” foi resolvido 1) que se desse apoio ao “shekel-zahav”,
uma vez que ele era importante para a organização sionista para cobrir suas despesas; 2) ele
tinha o valor de uma lira esterlina e era voluntário, e não dava a seu contribuinte nenhum
privilégio especial, assim como não liberava ninguém de contribuir com o “shekel” regular;
3) o Comitê Central da Federação Sionista do Brasil ficaria autorizado, após conhecer as
condições de cada lugar, a propor a cada organização sionista a obrigação de criar um
grupo de contribuintes para o “shekel-zahav.
155

Seguiu-se um debate a essas proposições com a participação dos senhores


Lozinski, Grinberg, Horowitz, Schneider, Dain e outros, até a aceitação das resoluções
propostas acima. O senhor Dain, em seguida, relatou sobre o Keren Hayessod e sua
atividade em Eretz Israel, ao mesmo tempo que resumiu o que foi feito nesse sentido no
Brasil, finalizando com uma série de recomendações a respeito.
A terceira sessão do Congresso teve início às duas horas no Domingo, dia 19
de novembro, sob a presidência de Júlio Stolzenberg, que pediu a Eduardo Horowitz para
apresentar as resoluções propostas sobre o Keren Hayessod. O senhor Dain acrescentou
uma resolução adicional às formuladas para que as entidades e comitês se apressassem em
terminar a cobrança das contribuições referentes ao ano de 1922 e para que o Comitê
Central pudesse receber relatórios exatos de cada lugar, possibilitando, assim, a
participação na reunião de diretoria do K.H., que deveria ter lugar ainda naquele ano.
Durante os debates, em que tomaram parte M. Klabin, J. Schneider, E. Horowitz, S.
Lozinski, S. Dain, Linetski e Fridman foram levantadas várias proposições, entre as quais a
de se convidar um sheliach para vir ao Brasil, e com esse fito o senhor Lozinski informou
que soubera da possibilidade de Shmariahu Levin327 ir à Argentina, podendo-se, nesse caso,
pedir que visitasse o Brasil. Após a intervenção de R. Horowitz, que não via nenhuma
possibilidade de uma pessoa vir e atuar nos dois países, o debate passou a uma fase mais
aguda quando J. Stolzenberg propôs que se consignasse em ata que a minoria se opôs a
convidar um sheliach de Londres. M. Rosenmann e outros investiram com veemência
contra tal proposição até que fosse retirada em nome de uma norma de disciplina de
sujeição natural de uma minoria, a vontade da maioria, que caracteriza toda instituição.
Logo a seguir, passou-se a um novo tema relatado pelo senhor M. Fridman, ou seja, a
campanha do Keren Kayemet, explicando seus objetivos e o que representaria na
reconstrução e na colonização agrária de Eretz Israel.
Vários foram os delegados que intervieram no debate, que girava ao redor da
“caixinha” (na qual se depositavam moedas para a instituição) do Keren Kayemet,
recomendada entusiasticamente por S. Lozinski e onde o senhor Tendler mostrou que o
fracasso anterior se devia às poucas famílias existentes no Brasil. O senhor Lafer apontou o
valor educativo da “caixinha” e o senhor Grinberg considerou que a “caixinha” era onerosa,
portanto se opôs a ela. M. Klabin achou importante trabalhar-se no Brasil para o “Yaar
Herzl”, para o qual ele próprio já fizera alguma coisa, e, acrescentando, disse ser vital o
reflorestamento em Eretz Israel, obra para a qual ele já deixara uma soma com a particular
intenção de se comprar terras para esse fim. Ele gostaria que os israelitas do Brasil
apoiassem e participassem de tal empreendimento. Nesse sentido, recebeu o apoio do
senhor Behar, que propôs que o “Yaar Herzl” fosse plantado, em nome da comunidade
brasileira, no sul de Eretz Israel, para que se ganhasse terreno no deserto. O senhor Klabin
esclareceu que o sul de Eretz Israel não possuía terras apropriadas para o plantio de árvores,
mas que a resolução ficasse postergada para outra oportunidade. Foram tomadas as
seguintes resoluções sobre Keren Kayemet naquela sessão: 1) o Congresso apelou para que
os judeus no Brasil apoiassem o K. K. em todas as ocasiões, seja em festas de caráter
particular ou coletivo; 2) recomendou ao C. Central organizar para todo o Brasil um Dia
das Flores em favor do K. K.; 3) recomendou ao C. Central estudar com o senhor Klabin a
questão de plantar no “Yaar Herzl” um bosque em nome dos israelitas do Brasil.

325 Schmariahu Levin (1867-1935) foi um dos ativistas dos inícios do movimento sionista e a partir de 1920
passou a representar o Keren Hayessod percorrendo vários países em sua função.
156

Ainda na mesma sessão foram discutidos assuntos concernentes ao orçamento


da Federação Sionista, dos estatutos da nova entidade cujo projeto foi lido por E. Horowitz,
e no final dessa sessão, os delegados do Congresso foram convidados a visitar no dia
seguinte pela manhã a única escola existente no Rio de Janeiro, a Maguen David.

EDUCAÇÃO JUDAICA

A quarta sessão deu-se na segunda-feira à tarde, sob a presidência de M. Klabin


e tinha como tema de debate “problemas gerais judaicos”. Em primeiro lugar, foi tratada a
questão de ajuda e beneficência social, tema que mereceu uma longa apreciação por parte
do senhor M. Koslovski, que se referiu à necessidade de dar ajuda aos israelitas de além-
mar; também falou dos sofrimentos dos judeus na Ucrânia, propondo que fossem enviados
pacotes com alimentos e vestimentas. Além disso, recomendou que se apoiasse a formação
de cozinhas para crianças famintas naquela região, tirando-se porcentagens de outros
fundos locais, e se criassem grupos femininos para todos esses fins.
O debate se estendeu a outros aspectos da vida judaica, com a participação de
um grande número de delegados, e entre os nomes que ainda não mencionamos
encontramos os do senhor Shapira, o senhor Gewertz, o senhor Letichevski e o senhor
Krell. Entre os aspectos abordados encontrava-se a participação dos sionistas no “Relief”
(Sociedade Beneficente de Amparo ao Imigrante) , a criação de uma Comissão Central de
Ajuda para todo o Rio de Janeiro e com a participação de todas as entidades existentes
naquela cidade. A opinião geral dos presentes em relação ao assunto em debate foi de que o
elemento sionista, por ser mais consciente, deveria, e de fato o fez até agora, tomar parte
das instituições de ajuda e beneficência social comunitárias, ainda que esse não fosse o
escopo da organização.
O Congresso Sionista de 1922 dedicou uma parte de seu temário à questão da
educação judaica no Brasil, e cremos ser um dos primeiros encontros, a nível nacional,
onde a questão mereceu um exame amplo, razão pela qual traduzimos o texto dos
protocolos, dessa parte, na íntegra.
“O senhor Lozinski 328 apresenta um relatório profundo sobre a educação
judaica em geral, e em particular sobre a educação judaica no Brasil. O orador é a favor de
uma educação judaica tradicional com o hebraico como única língua reconhecida nos
estudos judaicos.
“O senhor Stolzenberg recebe a palavra e apoia as recomendações do senhor
Lozinski e apresenta as seguintes resoluções:
“Uma vez que a questão da educação judaica é uma das mais importantes no
Brasil, resolve o Congresso Sionista recomendar à comunidade judio-brasileira criar
escolas, onde além de uma cultura universal, recebam as crianças judias uma educação
moderna nacional-hebraica e religiosa. A proposta recebe o apoio de outros.
“O senhor Behar é contra uma educação religiosa. É contra também o Ídiche e
somente quer uma educação nacional-hebraica.

328
Saadio Lozinski foi um dos primeiros professores no Brasil, senão o primeiro a lecionar numa escola
judaica, a Maguen David, excluindo-se os professores que lecionaram em Philipson desde que a colônia foi
implantada pela JCA, em 1904, e Júlio Itkis, em São Paulo, que lecionava num Talmud Torá, em 1916.
157

“O senhor Klabin interfere em favor da religião. O senhor Harosh fala sobre


educação nacional e ele é decididamente a favor do hebraico e contra o ídiche, propondo
uma resolução nesse sentido.
“O senhor Margalith dá inteiro apoio à educação religiosa. O senhor Gewertz
diz que a verdade sobre a educação judaica ainda não foi dita. A criança judia necessita de
meios para se ligar e unir com todo o judaísmo e esse meio é a língua ídiche. A educação da
criança judia deve assumir outras formas. A religião não tem mais lugar na educação.
Ídiche e educação social são os elementos fundamentais na formação da criança israelita. É
preciso preparar a criança judia para ser um membro útil da nova sociedade que está
surgindo.
“O senhor Horowitz é contra extremismos na questão da educação da criança
judia. Considera que a questão no Brasil ainda é muito delicada. Devem-se levar em conta
todos os elementos que possam ser úteis para uma educação nacional e racional.
“Propõe uma resolução para que o hebraico seja considerado como a língua
principal nos estudos judaicos, mas também o ídiche tenha o seu lugar na educação da
criança judia.
“O senhor Krell propõe que a resolução a ser tomada pelo Congresso formule
que é necessário uma escola judaica em geral, mas que se deixe a cada lugar definir o
caráter da escola.
“O senhor Dain, em um breve discurso, se refere aos problemas abordados e
manifesta o seu apoio ao reconhecimento do ídiche como um elemento da educação
nacional judaica.
“O senhor Rosenmann acentua a importância da educação religiosa no Brasil e
traz exemplos do interior, onde o elemento religioso salvou as crianças judias da
assimilação certa.
“O senhor Schechter demonstra que as crianças judias no Brasil falam o
português e não acha conveniente exigir um esforço adicional com o aprendizado do ídiche.
O hebraico deve ser ensinado, pois essa é a nossa língua nacional, mas o ídiche não tem
importância sob o aspecto nacional para que se sobrecarregue as crianças com o seu ensino.
“O senhor Schneider pede para que não se assustem com o assunto da educação
religiosa, pois é um elemento importante para determinarmos grupos, e quase todos os
nossos amigos receberam uma educação religiosa. É evidente que isso não os prejudicou.
Possivelmente, se não tivessem recebido essa educação que eles tanto temem hoje, não
estariam presentes como delegados desse Congresso. O orador também lembra que em
todos os novos países as crianças judias falam a língua da terra, e não é fácil fazê-las falar a
língua ídiche, e também não é conveniente. Todos os esforços devem ser feitos em relação
ao hebraico, a língua nacional de todos os judeus, em todas as gerações.
“O senhor Grinberg observa em relação ao discurso do senhor Schneider que
não a educação religiosa, mas a educação nacional é que trouxe os delegados ao Congresso.
“Os debates foram encerrados e passa-se às decisões. A maioria vota a favor da resolução
do senhor Stolzenberg. O representante da Biblioteca Sholem Aleichem declara que se
abstém de votar. Após as votações, o senhor Morgenstern apresenta uma petição da
comissão da Biblioteca, que se declara pronta para apoiar toda iniciativa para educação
judaica, mas que não se ocupará das outras questões que ela não considera de sua
competência.
“A sessão encerrou-se às 3:00 horas da manhã.”
158

UM ÚNICO JORNAL

A quinta sessão do Congresso teve início na terça-feira, às duas horas, e tinha


como tema assuntos gerais judaicos. Abriu a sessão M. Klabin, dando a palavra a E.
Horowitz, que se referiu à imprensa judaica no Brasil, cujo conteúdo é importante, pois ele
esboçou uma pequena história da imprensa judaico-brasileira. Ele lembrou a atividade de
Josef Halevi,329 insistindo para que todos os delegados se levantassem em sua homenagem,
e prestou esclarecimentos sobre o “Correio Israelita”, único jornal comunitário na época.
Durante os debates levantou-se a necessidade de se criar uma imprensa ídiche, apesar das
dificuldades materiais para tanto. A tendência geral do debate, que teve a participação de
um bom número de delegados, foi a criação de um jornal em duas línguas, ídiche e
português, o que na verdade representava uma proposta de conciliação das várias
tendências existentes no Congresso. Além do mais, foi resolvido reunir representantes das
instituições do Rio para se discutir sobre a criação de um periódico.
Na mesma sessão viu-se também a necessidade de recomendar a criação de
bibliotecas nas cidades onde havia comunidades judias, e vários outros assuntos
concernentes à vida judaica no Brasil.
No mesmo dia realizou-se a sessão de encerramento presidida por M. Klabin,
que em seu discurso transmitiu saudações de Eretz Israel, onde estivera recentemente em
visita. Suas palavras foram registradas nos protocolos do Congresso: “A terra é bela, é boa,
rejuvenesce, e seus filhos fazem tudo o que podem. E seus filhos em todo o mundo devem
lhes dar todo o apoio possível.”
O debate inicial dessa sessão girou ao redor do apoio que se devia dar ao Banco
Colonial como instituição financeira do movimento sionista e seus objetivos de colonização
da Palestina. As resoluções gerais adotadas nessa sessão de encerramento foram: 1) O I
Congresso Sionista no Brasil congratulou-se com a Liga das Nações na ratificação do
mandato sobre Eretz Israel, no qual vê o reconhecimento dos povos as aspirações nacionais
do povo judeu; 2) resolveu saudar o Executivo Sionista e em especial os Drs. Weizmann e
Sokolov, que através de esforços excepcionais e sacrifícios, impuseram a vitória das nossas
aspirações nacionais entre os povos; 3) agradeceu ao grande estadista Lord Artur Balfour
por seu inigualável serviço à causa judaica; 4) declarou-se solidária à proclamação do Vaad
Leumi, que representava a população judaica de Eretz Israel, no seu apelo aos árabes da
região para se unirem com seus irmãos judeus em sua reconstrução; 5) saudou o Fundo
Nacional Judaico por ocasião de seu 20.º aniversário e recomendou a todos os sionistas no
Brasil um trabalho com redobrado esforço para atingir seus fins; 6) solidarizou-se com a
resolução do Congresso a fim de unir todas as forças judaicas para o trabalho de
reconstrução de Eretz Israel; 7) agradeceu profundamente a todos aqueles que ajudaram até
então no progresso do movimento sionista no Brasil; 8) apelou para que todos os judeus do
Brasil unissem suas forças para o trabalho sagrado de reconstrução de Eretz Israel; 9)
exigiu que os judeus do Brasil ajudassem seus irmãos da Europa Oriental e Central, vítimas
da guerra e das hostilidades inumanas de parte de seus vizinhos, e não economizassem
meios para aliviar seus sofrimentos; 10) apelou a todos os judeus do Brasil para que dessem
a seus filhos, além de uma formação universal e brasileira, uma educação judaica; 11)

329
Foi o fundador do primeiro jornal judaico no Brasil, publicado em ídiche em Porto Alegre em 1915
denominado “Di Menscheit” (A Humanidade). A mençaõ do seu nome nesse ano de 1922 antecede a de Jacob
Nachbin ,feita em 1929. V. de minha autoria o livro “Jacob Nachbin”, Nobel, São Paulo, 1985.
159

apelou a todas as organizações judaicas e instituições no Brasil para coordenarem suas


atividades e criarem um judaísmo unificado.
Os Protocolos terminam com essas resoluções da sessão de encerramento, mas
as últimas frases, da página 22 (última dos Protocolos) indicam que o senhor Boris Tendler
leria algo- infelizmente não sabemos seu conteúdo- uma vez que não temos a continuidade
do texto em nossas mãos. Supomos que já se anunciava o encerramento formal do
Congresso.
O Primeiro Congresso Sionista no Brasil foi, sem dúvida, um grande evento
para a comunidade que começava a participar dos acontecimentos do movimento sionista
mundial, após a Declaração Balfour de 1917.
160

19. O Sionismo e os Judeus no Brasil


( Este artigo foi escrito em de 1980 e a visão que apresenta sobre a comunidade e a sociedade brasileira
corresponde ao que se passava naquela década.)

A participação dos judeus e dos cristãos-novos nos primórdios da História do


Brasil, ou seja, no período colonial, já foi suficientemente estudada na medida em que
muitos autores publicaram a documentação dos arquivos europeus, e principalmente aquela
existente em Portugal e na Holanda. Paradoxalmente, a história dos judeus do Brasil no
período mais recente, compreendendo a fase da Independência, do Império e da República,
em outros termos, do início do século XIX até os nossos dias, é relativamente pouco
conhecida. Sob o ponto de vista histórico, poucos trabalhos têm trazido contribuições
significativas para o conhecimento dessa História. Entre esses últimos devemos mencionar
os de Elias Lipiner330, que em numerosos artigos publicados em vários periódicos judaico-
brasileiros e estrangeiros tratou de múltiplos aspectos da vida e da história da comunidade
judio-brasileira. Outro autor que tratou do assunto é Isaac Raizman, cujo trabalho escrito
em ídiche sob o título “A Fertl Iorhundert Idische Presse in Brazil”,331 publicado em 1968,
levantou importantes elementos sobre a história mais recente da comunidade judia no
Brasil. Na década de 50, Kurt Loewenstamm,332 ainda que apresente muitos erros, teve o
mérito de se preocupar com a história dos judeus no período imperial, fazendo um estudo
sobre certos judeus que se destacaram na atividade política e econômica do país. Mas, ao
nosso ver, a contribuição mais significativa dos últimos anos para o conhecimento dos
judeus no período moderno foi feita pelo casal de historiadores Egon e Frieda Wolff, que
pela primeira vez fizeram um levantamento de fontes não levadas em consideração por
estudos anteriores. Esses dados permitiram que fosse revelada uma história, até o momento
desconhecida, dos judeus no período imperial, o qual se estende desde o início do século
XIX até os primórdios da República. O vasto material recolhido por esses incansáveis
pesquisadores durante vários anos de trabalho ainda está para ser elaborado pelos futuros
estudiosos da história dos judeus no Brasil. O ponto de partida de sua obra, que ainda está
sendo escrita, é o volume “Judeus no Brasil Imperial”, publicada pelo Centro de Estudos
Judaicos da Universidade de São Paulo, em 1977333.
Podemos fixar como marco cronológico do início da história dos judeus no
Brasil no período moderno a data de 28 de janeiro de 1808, quando d. João VI, ao
transferir-se com sua corte de Portugal para o Brasil, proclama a Abertura dos Portos às
Nações Amigas, ato cujo significado econômico fará com que muitos estrangeiros sejam
atraídos ao Brasil. Um dos primeiros países interessados em se aproveitar da nova política

330
Um trabalho mais extenso, com o título de “A Nova Imigração Judaica no Brasil” foi publicado por Elias
Lipiner no livro “Breve História dos Judeus no Brasil”, de Salomão Serebrenick, ed. Biblos, Rio de Janeiro,
1962.
331
Além desta obra, Raizman publicou um livro importante no qual se destaca a parte relativa à criatividade
literária dos judeus no Brasil, sob o título “Ídiche Shereshkeit in Lender fun Portugalischen loschen”,
Muzeum LeOmanut , Sfat, 1975.
332
Kurt Loewenstamm, “Vultos Judaicos no Brasil”, Monte Scopus, Rio de Janeiro, 1949-1956, 2 vol.
333
Egon e Frieda Wolff prepararam, em continuação a esse estudo, um trabalho sob o título “Judeus nos
Primórdios do Brasil- República”, compreendendo o período de 1889 a 1903, editado pela Biblioteca Israelita
H. N. Bialik, Rio de Janeiro, 1981 (a data não consta).
161

régia foi a Inglaterra, donde saíram os primeiros imigrantes, e entre eles também judeus. A
fim de favorecer esse processo, foi estabelecido um tratado de Aliança e Amizade, em
1810, no qual, entre outras coisas, garante-se aos estrangeiros e aos súditos ingleses a
liberdade de consciência e de culto. Tal artigo era necessário e ganhou importância, visto
que, durante séculos, a Inquisição havia incutido uma mentalidade própria e discriminatória
em relação àqueles que não exerciam a fé católica, e assim assegurava-se a anglicanos e
judeus a manifestação livre de suas crenças religiosas.
A partir dessa época podemos encontrar, entre os imigrantes ao Brasil, judeus,
que vinham isoladamente, e não somente da Inglaterra, mas também de outros lugares, tais
como a Alemanha, França, Prússia, Áustria, Hungria. E, por outro lado, encontramos a
significativa imigração marroquina e argelina.
Poderíamos estabelecer alguns marcos históricos importantes que causaram o
surgimento de certas ondas imigratórias judaicas no Brasil, ainda no século XIX, além da
imigração individual e esporádica do início daquele século. A turbulência na Europa de
1848, que vivia agitações revolucionárias, bem como a “Primavera dos Povos”, fez com
que muitos procurassem refúgio e depositassem esperanças no novo continente e nos países
que só então estavam começando a ingressar na história. Entre esses imigrantes
encontramos também muitos judeus da Alemanha, Áustria, Hungria, França, os quais,
cientes dos motivos políticos, também aspiravam encontrar meios de subsistência,
aparentemente mais fáceis do que os encontráveis em solo europeu. O mito da América já
se havia arraigado na época, e para os imigrantes judeus, assolados também pelo anti-
semitismo que tradicionalmente acompanhava os movimentos políticos e de emancipação
nacional na Europa, fez com que se encarasse o novo continente como a Terra Prometida.
Do mesmo modo, a Guerra Franco-Prussiana também deu motivos para que
muitos judeus partissem da França – principalmente da Alsácia-Lorena, cedidas à Prússia –
e viessem a se estabelecer no Brasil, no fundo não por motivos judaicos, mas antes pelo
fato de se sentirem patriotas franceses. Por outro lado, a formação de uma Alemanha
imperial e sua expansão econômico-comercial, associada a uma inversão de capitais no
exterior, fez com que essas firmas exportadoras instalassem filiais e enviassem agentes ou
representantes, entre eles muitos judeus, que vieram engrossar a população israelita
existente no Brasil.
O caso especial da imigração marroquina, que se iniciou realmente nas
primeiras décadas do século passado e que se instalou, em boa parte, no norte do Brasil, na
região do Pará e do Amazonas, está igualmente associado a acontecimentos locais
relacionados com o judaísmo da África do Norte, bem como à atração que o continente
desconhecido exercia para os estrangeiros.
A outra etapa importante da vinda dos judeus ao Brasil no período moderno está
associada ao grande processo imigratório gerado pelos acontecimentos na Europa Oriental,
mais especificamente na Rússia czarista de 1881, os quais motivaram a saída de dezenas de
milhares de judeus daquela região. Embora a maioria se dirigisse aos Estados Unidos,
muitos judeus também procuraram se estabelecer no Brasil. Também datam dessa época os
planos de colonização de judeus em território brasileiro, e entre esses devemos lembrar o da
sociedade alemã Deutches Central Komitee fuer die Russischen Juden, que em 1891,
enviou o jornalista Oswald Boxer, amigo de Theodor Herzl, para verificar in loco a
possibilidade de estabelecer uma imigração de judeus neste país. Ainda antes da missão de
Oswald Boxer, encontramos uma série de projetos de colonização de judeus no Brasil, a
162

partir das últimas décadas do século XIX, que antecipavam o projeto de colonização efetiva
da Jewish Colonization Association,.
Essa organização, fundada pelo Barão Hirsch, encetou um grande
empreendimento de colonização no sul do Brasil, a partir de 1904, e suas primeiras colônias
agrícolas foram Philippson,334 Quatro Irmãos, com seus núcleos Baronesa Clara, Barão
Hirsch no Rio Grande do Sul.
A partir da Primeira Guerra Mundial e logo após houve um aumento
significativo da imigração judaica ao Brasil, e podemos afirmar que os atuais centros de
vida comunitária judaica formaram-se tendo como origem essa última leva imigratória, seja
no Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre, Curitiba, ou outras cidades capitais dos mais
importantes estados brasileiros. Essa imigração provinha quase que inteiramente dos países
da Europa Oriental, porém, por outro lado, com a ascensão do nazismo, ela foi engrossada
pelos contingentes provenientes da Europa Ocidental, sobretudo dos países de fala alemã.
Essa imigração continuou ininterruptamente até a Segunda Guerra Mundial, não obstante a
política governamental brasileira na época da ditadura de Getúlio Vargas, que limitava e
restringia a entrada de judeus no Brasil por vários motivos, entre os quais a tendência a
nutrir simpatias políticas em relação ao Eixo.
A imigração mais recente, e que data dos anos que se seguiram à Segunda
Grande Guerra procedeu fundamentalmente da Europa e dos países do Oriente Médio, bem
como da África do Norte, esta última decorrente do conflito árabe-israelense e suas
conseqüências, desde que o Estado judeu foi proclamado, em 1948.
As origens da vida comunitária e seus elementos constitutivos – Costumava-
se pensar que os judeus vieram ao Brasil somente em nosso século e, ainda é muito comum
entre aqueles que lidam com o tema a falácia histórica de que a kehilá neste país teve
origem no mesmo período. A verdade é que, já na primeira metade do século passado,
encontramos entidades de caráter comunitário, tais como a União Shel Gemilut Hassadim,
fundada aproximadamente em 1846, e posteriormente a União Israelita do Brasil, fundada
em 1870, a qual reunia judeus das mais variadas origens, entre eles ingleses, alemães,
franceses, húngaros e outros da Europa Oriental. Porém, podemos considerar a formação
“atual” da comunidade judaica como datando da Primeira Guerra Mundial, quando a
maioria das suas instituições se definiram, seja aquelas de caráter cultural, filantrópico, de
ajuda mútua, assim como as religiosas e educativas. Boa parte dessas instituições
comunitárias originariamente procuravam imitar o caráter que aquelas possuíam na Europa,
pois seus fundadores, imigrantes do Velho Continente, somente podiam adotar moldes
organizacionais vivenciados e conhecidos por eles como eficientes em seu solo de origem,
os quais pouco a pouco iam sofrendo a influência da sociedade brasileira que os rodeava.
Em São Paulo conhecemos a fundação da Sociedade das Damas Israelitas, em
1916, e da Sociedade Ezra, fundada em 1915, como sociedades filantrópicas que tinham
por finalidade acolher os imigrantes europeus e fornecer-lhes os primeiros elementos de
subsistência e ajuda financeira, a fim de se adaptarem ao novo país. Tais sociedades, se
observarmos atentamente sua formação, foram criadas pelas famílias veteranas – algumas
no fim do século passado – que ascenderam economicamente dentro da sociedade brasileira
e procuravam ajudar seus irmãos que acabavam de se instalar no Novo Mundo. Ao lado

334
Sobre Philippson, temos o livro de memórias escrito de forma amena e no esstílo de uma narrativa pessoal
de Frida Alexander, “Filipson”, ed. Fulgor, São Paulo,1967. Outras memórias pessoais foram publicadas e
estudos acadêmicos estão sendo feitos sobre este mesmo tema.
163

dessas instituições de ajuda e de assistência social, formaram-se organizações de imigrantes


oriundos de um mesmo país ou de uma mesma cidade, tais como o Polisher Farband, o
Bessarabisher Farband e outras. Essas organizações, as “landsmanschaften”, tiveram um
papel importante não somente do ponto de vista de assistência social e financeira, mas
também no desenvolvimento da atividade cultural judaica, fundamentalmente em ídiche,
fato que ajudou a preservar os valores do judaísmo europeu e do schtetl através de círculos
de estudos literários, da formação de grupos teatrais, da organização de bibliotecas e outras
atividades.
Porém, à medida que a vida comunitária, com suas entidades e organizações,
se desenvolvia, e suas necessidades se completavam, foram penetrando, paralelamente, as
correntes de pensamento que se originaram no mundo europeu. Essas correntes também
penetraram nas comunidades brasileiras das grandes cidades como São Paulo, Rio de
Janeiro, Porto Alegre e outras, cujas populações judaicas, desde o início dessa imigração
após a Primeira Guerra Mundial, se concentravam, por razões práticas, em determinados
bairros, tais como Bom Retiro, Bonfim, a Praça Onze, e assim por diante. Sem dúvida, tal
concentração populacional em um bairro próprio permitia que fosse levada uma vida
judaica centrada nas instituições fundamentais, a começar pela proximidade da sinagoga,
da escola, e permitia, mais do que tudo, a convivência diária entre os que habitavam no
bairro e participavam dos eventos ligados à existência da comunidade.
Para resumirmos, dois elementos tiveram um papel determinante no
desenvolvimento da vida comunitária, sendo o primeiro o crescimento da população judaica
que se efetuava na medida em que a imigração, após a Primeira Guerra Mundial,
aumentava consideravelmente. O segundo elemento determinante situa-se na infra-estrutura
econômica da comunidade que inicialmente era formada por imigrantes que enfrentaram os
primeiros anos de pobreza dos recém-chegados a um país estranho e que, às custas de
esforços e da força de vontade, conseguiram ascender a posições econômicas mais elevadas
e estáveis, cujas conseqüências marcaram também o seu ser judaico e seu estilo de vida.
Nesse processo de ascensão econômico-social, pode-se observar aspectos positivos, como
também aspectos negativos do ponto de vista comunitário-judaico. Nesse sentido, enquanto
o imigrante ganhava o seu sustento como clienteltchik, vivendo modestamente sob o
aspecto econômico, apoiava-se em seu grupo social-religioso e se mantinha fechado dentro
do mesmo. Porém, após progredir economicamente e ter estabelecido sua própria casa
comercial ou sua indústria (os judeus, de modo geral, em sua fase inícial, se concentraram
no ramo têxtil) e começar a participar do processo de desenvolvimento econômico da
sociedade brasileira como um todo, já não sentia necessidade de se apoiar em seu próprio
grupo social-religioso, “emancipando-se” de sua tutela e aproximando-se mais dos valores
da sociedade mais ampla e do seu modo de vida. Por outro lado, a ascensão econômica dos
judeus permitiu a criação de instituições comunitárias mais ricas, partindo daquelas
estritamente necessárias para a sobrevivência (sociedades filantrópicas) para a criação de
clubes esportivos e sociais que nada tinham a perder em relação às melhores organizações
desse tipo do meio que os circundava. Da mesma forma, foram fundadas escolas judaicas
integrais, que procuravam proporcionar educação judaica e geral do nível mais elevado e
equiparado com as melhores instituições do país, seja do ponto de vista das condições
materiais e das instalações, seja do ponto de vista do conteúdo.
Porém, o preço da ascensão econômica foi maior no tocante à preservação dos
valores tradicionais judaicos e à preservação do estilo de vida que caracterizava a existência
dos judeus na Europa Oriental, mais especificamente a vida do schtetl. A mudança ou a
164

saída do judeu do seu “bairro” para viver em lugar melhor localizado e mais privilegiado,
ou em uma residência melhor ou mais suntuosa, também levou-o a se afastar do “habitat
original” dos seus primeiros anos de imigrante, dos comentários e mexericos do bairro
judeu, da língua ídiche falada nas ruas, do contato com os acontecimentos cotidianos de seu
grupo, diminuindo, portanto, o “elan” que o vinculava a ele. Então, seu judaísmo deveria
ser mantido através de um esforço consciente e pessoal, que em muitos deles nem sempre
era encontrado. Um dos aspectos desse esforço era o fato de mandar os filhos para uma
escola judaica, o que nem sempre ocorria em proporção desejável para a preservação do
judaísmo local.
Um fenômeno sintomático e ilustrativo desse processo, ao qual poderíamos
chamar de assimilacionista, porém não deliberado – ainda que nem sempre a ascensão
econômica levasse o judeu a deixar de sê-lo ou assimilar-se – foi o gradual abandono da
cultura ídiche pela segunda geração de imigrantes, ao mesmo tempo que os órgãos de
expressão dessa cultura, tais como jornais, livros e teatro desapareciam paulatinamente da
vida judaica brasileira. O primeiro jornal em ídiche, “Die Menscheit”, fundado em 1915 em
Porto Alegre, teve no seu rastro uma seqüência de periódicos em ídiche publicados no Rio
de Janeiro e São Paulo, os quais reuniam uma inteligentsia judaica ativa e irrequieta. Ao
redor de um jornal concentravam-se e formavam-se grupos culturais que muitas vezes
chegavam a produzir literatos, cujas obras foram escritas em ídiche, hoje esquecidos,
juntamente com os periódicos, as editoras e as gráficas que as publicaram.
De modo melancólico, esses jornais foram perdendo seus leitores e, em São
Paulo, o último desses periódicos deixou de sair no último ano, após quase três décadas de
existência. Com exceção daquelas existentes na cidade do Rio de Janeiro, que outrora
reuniu as instituições culturais mais significativas por ser a capital do país até a construção
de Brasília, e que mantém até hoje dois jornais em ídiche, assim como duas bibliotecas 335
com importantes acervos nessa língua (que não encontram mais leitores), as demais
fecharam e desapareceram sem deixar rastro.
Por outro lado, com o correr do tempo, as instituições comunitárias locais
passaram a se organizar em federações estaduais e confederações nacionais, principalmente
em decorrência da necessidade freqüente da comunidade judaica de ter que assumir
posições globais perante questões internas, bem como externas, imprescindíveis num país
onde a instabilidade política caracterizou seus governos em sua existência histórica.
Um dos traços marcantes das instituições comunitárias no Brasil, assim como
em outros lugares, foi o agrupamento de judeus ao redor delas, segundo suas afinidades
ideológicas que traduziam fielmente as ideologias que imperavam no judaísmo europeu.
Em outras palavras, poderíamos dizer que todas elas estavam representadas de uma forma e
de outra, e concentradas ao redor de uma ou de outra instituição, seja ela de caráter cultural
ou de outra índole qualquer. Bundistas e assimilacionistas, de direita ou de esquerda,
sionistas de todo os matizes, encontravam-se nas instituições comunitárias assumindo
posições “políticas”, de acordo com suas doutrinas e orientações, em relação às questões da
comunidade e frente aos problemas da vida judaica. Boa parte dessas correntes já estava
organizadas nas primeiras décadas do século XX por ocasião da vinda da grande leva
imigratória.
O sionismo no Brasil – Não podemos dizer exatamente quando e quem
formou os primeiros núcleos sionistas no Brasil, mas dos poucos dados obtidos em uma

335
A Biblioteca H.N.Bialik e a Bilioteca Scholem Aleichem.
165

pesquisa que ainda está dando seus passos iniciais, sabemos que no início do século, em
Belém do Pará, no norte do Brasil, o centro da imigração marroquina, se encontravam
sionistas que se correspondiam com outros da Europa, inclusive com Max Nordau, que teve
uma influência muito grande, como pensador e humanista, também sobre a intelectualidade
brasileira não-judia daquele tempo. Historicamente, sabemos do encontro mantido em casa
de Jacob Schneider, conhecido como um dos veteranos do movimento sionista no Brasil,
encontro que se realizou em março de 1913, no Rio de Janeiro, que visava organizar um
dos primeiros grupos sionistas naquela localidade. Ao redor do jornal “A Columna”,
publicado em Português em 1916, e orientado por um intelectual de prestígio – David José
Perez – agruparam-se também sionistas, que se identificaram com essa orientação dada ao
periódico por seu fundador.
No Rio de Janeiro, que na época polarizava a vida judaica no Brasil, fundou-se
um grupo de caráter sionista, que atuou em campanhas do Keren Kayemet (Fundo Nacional
Judaico) bem como participou, em 1916, na fundação do comitê brasileiro do American
Jewish Joint Distribution Comitee (JDC). Esse grupo de nome Tiferet Sion também se
beneficiou das campanhas, mostrando-se ativo na defesa da política sionista, em oposição a
outras correntes da comunidade e participando até mesmo de acontecimentos ligados ao
movimento sionista mundial.336
Tomamos conhecimento da existência, no mesmo ano, de uma escola judaica
sob a orientação de Saadio Lozinski, que era um ativista na Associação Scholem Aleichem,
fundada em 1915, mas tinha suas raízes na religiosidade do movimento Mizrachi. A partir
de 1921, começaram as campanhas do Keren Hayessod, com a vinda de um enviado
especial, Y. Wilensky.
A Federação Sionista do Brasil foi fundada em 1922 após um encontro de
delegados que representavam as várias organizações, sob a presidência de Maurício Kablin.
O primeiro presidente foi Jacob Schneider. Seu secretário Eduardo Horowitz, que fora um
dos fundadores do Tiferet Sion, destacou-se também como jornalista e colaborador de um
dos primeiros jornais em ídiche o “Dos Idische Vochenblat” (O Semanário Israelita),
fundado em 15 de novembro de 1923. No número comemorativo do primeiro ano de
existência desse jornal temos um artigo de Horowitz sobre o sionismo no Brasil, sob o
título, “Vegen Zionism in Brazil” (Acerca do sionismo no Brasil). Do mesmo modo,
podemos encontrar outros artigos sobre esse tema nos quais se revelam a existência e a
atuação de grupos sionistas em várias cidades do país.
Nesse período encontramos a comunidade claramente dividida em duas
tendências ideológicas que se debatiam e degladiavam: o sionismo e o “progressismo”. A
disputa não se realizava apenas no plano ideológico; visava, acima de tudo, conquistar
posições políticas de influência institucional dentro da comunidade. Algumas das
instituições que inicialmente não tinham nenhuma conexão com ideologias esquerdizantes
acabaram sendo tomadas pelos adeptos dessa linha, como ocorreu com a Biblioteca
Scholem Aleichem do Rio de Janeiro, na época. A luta político-partidária transcorria
intensamente também dentro do próprio movimento sionista, sendo que os partidos
encontravam seus líderes naturais entre os mais ativos recém-imigrados, bem como entre os
veteranos da comunidade. Sabemos que certos intelectuais judeus vindos da Argentina
haviam sido os primeiros a introduzir o conhecimento das correntes políticas dentro do
sionismo. Entre estes estava a figura de Aron Chachamovitz, que pertenceu ao movimento

336
Em São Paulo sabe-se da existência, na mesma época, de um Centro Sionista Ahavat Sion.
166

Poalei Zion da Argentina, e se instalou em Porto Alegre, combatendo e criticando certos


aspectos da atividade da JCA no Rio Grande do Sul.
O partido Poalei Zion foi fundado em inícios de 1927, em Porto Alegre, e logo
em seguida participou das demonstrações de 1º de Maio daquele ano, ao lado dos
socialistas italianos daquela cidade sulina. Podemos imaginar que tal atitude não tenha
agradado à maioria dos sionistas, que na época era representada pelos Sionistas Gerais. O
movimento Poalei Zion se propôs a fundar escolas judaicas onde se lecionaria em hebraico,
mesmo contra a vontade de certos pais de alunos, que eram favoráveis ao ensino do idioma
ídiche, fato que passou a ser um elemento de disputa entre sionistas e não-sionistas, ainda
que, a rigor, entre os primeiros também se encontrassem adeptos do ensino do língua
ídiche, ao lado do hebraico.
A vinda ao Brasil, em 1927, de Aaron Bergman, como enviado especial para o
Poalei Zion local, foi de grande importância para o desenvolvimento do movimento
sionista. Bergman fora secretário-geral do Poalei Zion na Polônia e se destacava por seus
dotes intelectuais. Ao chegar ao país, criou um Comitê Central do Poalei Zion no Rio de
Janeiro, transferindo o centro de atuação do partido para aquela cidade, ainda que possamos
encontrar em outros lugares alguns núcleos do mesmo. Esses, geralmente, eram formados
de poucos elementos mais intelectualizados vindos da Europa. Bergman teve a preocupação
de atrair e formar grupos de jovens, organizando seções juvenis de apoio à ação partidária
da Poalei Zion. Uma dessas organizações juvenis, talvez a primeira a ter um objetivo e uma
ideologia sionista definidos, formou-se em 1928, sob a orientação do Poalei Zion, no Rio
de Janeiro, com o nome de Hatchia. Desta organização saíram os primeiros chalutzim
(pioneiros) do Brasil, que emigraram à Palestina em 1934. O Hatchia havia se formado
como uma biblioteca independente, quando a tradicional Biblioteca Scholem Aleichem foi
se transformando num centro de atuação dos progressistas, acabando por cair em mãos
deles. Em 1924, antes do Hatchia, já existia no Rio de Janeiro uma organização juvenil de
nome Cadima, que tinha um caráter eminentemente sionista e que se dedicava a campanhas
em prol de fundos nacionais, bem como à atividades de caráter cultural. Essa organização
desapareceu em 1928, dando lugar a outras.
A divisão entre progressistas e sionistas na comunidade daquele tempo
suscitou, às vezes, experiências curiosas, como a de criar um partido de “centro”, como o
foi no caso da tentativa frustrada do Dr. Moisés Rabinovitch com o jornal “Mir um Zei”
(Nós e Eles), de 1930, que teve pouca duração.
Além do Poalei Zion existiram, na década de 30, vários partidos, que vão desde
o Linke Poalei Zion (Operários de Sião de esquerda, fruto de uma cisão havida no Poalei
Zion, em 1920) até o Brit Trumpeldor ou Revisionistas (representando a direita radical no
sionismo) , aliás, bastante ativos em assuntos comunitários e do movimento sionista. Uma
das primeiras manifestações de massa do sionismo no Brasil, com cerca de 2.000 pessoas,
foi realizada no Rio de Janeiro, em 1929, após os ataques árabes aos judeus da Palestina. O
intuito da manifestação era pedir a interferência do governo brasileiro junto à Inglaterra
para que esta tomasse uma posição ativa frente aos distúrbios que estavam ocorrendo na
região.337
No final da década de 30 e às vésperas da Segunda Grande Guerra,
encontramos a comunidade brasileira estruturada com suas organizações básicas prontas

337
A respeito desse acontecimento já escreveu Samuel Malamud no verbete “Zionism in Brazil”, na
Encyclopaedia of Zionism and Israel, vol. 1, Herzl Press and McGraw, N. York, 1971.
167

para atender às suas necessidades nos seus mais variados níveis e aspectos, sejam
econômicos, sociais, culturais e, em parte também políticos. Porém, a mudança política no
Brasil, ocorrida com a ditadura de Getúlio Vargas, provocou uma significativa interrupção
no seu processo de consolidação. Nos anos 1938-41, o governo de Vargas decretou o
encerramento de todas as atividades políticas de estrangeiros e proibiu a publicação de
jornais e revistas em línguas estrangeiras. 338 Esse foi um rude golpe para a vida cultural
judaica, bem como para as instituições comunitárias e em particular para o movimento
sionista. Tal situação perdurou até o fim da Segunda Guerra Mundial, quando em 1945, a
proibição contra as atividades sionistas foi revogada.
A comunidade judia após a Segunda Guerra Mundial – A Segunda Guerra
Mundial deu um grande impulso ao desenvolvimento econômico do Brasil, pois os esforços
de guerra dos aliados necessitavam da colaboração e da matéria-prima do país que, por sua
extensão territorial, era privilegiado em riquezas naturais e estava geograficamente afastado
dos campos de batalha. O grande surto industrial e comercial brasileiro, mais
particularmente o de São Paulo, fez com que os judeus participassem dessa prosperidade
material e se empenhassem ambiciosamente no processo de ascensão econômica.
Paralelamente ao processo de crescimento econômico e material, a comunidade
sofreria uma mudança espiritual profunda ao tomar conhecimento gradativo da tragédia que
havia atingido o judaísmo europeu durante os anos da guerra. O impacto do Holocausto
atingiu profundamente a todos, como indivíduos e como corpo coletivo, provocando uma
nova postura em relação à nacionalidade. O choque foi maior na medida em que o judaísmo
brasileiro- assim como em todo o mundo e em particular na América Latina- não estava
preparado para a enormidade da destruição e da catástrofe, devido à distância geográfica e à
escassez de informações sobre o que acontecera na Europa. Quando despertamos do
pesadelo, a realidade pareceu-nos incomensuravelmente pior do que poderíamos imaginar.
O significado do Holocausto levou anos para ser inteiramente compreendido e a ferida
aberta no corpo da nacionalidade judaica sangrava cada vez mais, desde o momento em que
se tomava ciência do que sucedera. A dor marcou aquela geração que ela própria não havia
passado pelo inferno europeu, e da dor nasceu a disposição pessoal de se entregar à causa
judaica e conseguir, a todo custo, criar um Estado Judeu, para que nunca mais se repetisse
aquela tragédia, única em suas dimensões na história milenar de nosso povo.
A partir de 1945, o sionismo renasceu com ímpeto nunca visto nas ruas
judaicas das cidades brasileiras e foi a mola-mestra na vida comunitária. Ao mesmo tempo,
a luta na Palestina contra o Mandato Britânico, naqueles anos de grande tensão espiritual e
nacional, indicava que grandes coisas estavam para acontecer, sendo impossível ficar
indiferente ao que se passava; ao contrário, era preciso participar ativamente, pois estavam
em jogo grandes decisões históricas que definiriam o destino do povo judeu para sempre.
Grande porcentagem da juventude judia alinhou-se ao redor dos movimentos
juvenis que surgiram em território brasileiro. Possuíam as mesmas características
ideológicas daqueles que existiram na Europa antes da guerra e estavam vinculados aos
corpos partidários que os representavam politicamente nos órgãos e instituições do
movimento sionista, em nível local e nacional. E, a parte da juventude judaica que não

338
A 18 de abril de 1938 foi baixado um decreto-lei que proibia aos estrangeiros qualquer atividade política
sob pena de deportação. No ano seguinte, em 18 de junho de 1939, foi baixado o decreto n. 2277 exigindo que
os jornais e publicações em línguas estrangeiras publicassem ao lado de cada artigo a resepctiva tradução ao
português.
168

estava afiliada aos movimentos juvenis sionistas encontrava-se vinculada a outros


movimentos, entre os quais aqueles de tendência progressista. A polêmica ideológica
interna entre os diversos movimentos juvenis, e entre estes e aqueles que não se
encontravam no campo sionista, naquele tempo, era acirrada pelos acontecimentos
decisivos que ocorriam na Palestina e refletiam a difícil busca de caminhos e as
encruzilhadas políticas que a mediná baderech (o Estado judeu prestes a surgir)
enfrentava, a fim de atingir o seu objetivo final. Viviam-se os dias de chevlei Maschiach,
(das dores de parto que preanunciavam a vinda do Messias) e cada grupo se julgava eleito e
único, legítimo predestinado a ser parteiro da história judia, quando não da história
universal.
Boa parte dos movimentos juvenis judaicos adotaram uma posição definida, e
ao mesmo tempo exigente, em relação à “chalutziut” (pioneirismo) e para tanto criaram
“hachsharot” (centros de preparação) no estilo dos movimentos chalutzianos europeus,
atendo-se estritamente a seus ideais educativos. Nesse tipo de movimento enquadravam-se
o Hashomer Hatzair, Gordónia, Dror-Hechalutz Hatzair. Todos eles surgiram logo após a
Segunda Guerra Mundial, ainda que o primeiro começou atuar ainda nos anos 30, com a
rígida exigência da “hagshamá atzmit” (isto é, a auto-realização), e visavam criar
“kibutzim” (colonias coletivas) próprios na Palestina, mais tarde Israel, para transformar
em realidade o seu sonho nacionalista. Mesmo movimentos como o Betar (Brit
Trumpeldor) daquela época adotaram uma linha chalutziana, embora não tivessem “elan”
ideológico para tanto.
Uma das conseqüências positivas desse renascimento sionista no Brasil foi o
despertar na juventude – filhos dos imigrantes que representavam a segunda geração, já
nascida no Brasil – o interesse intelectual pelo estudo do judaísmo em todas as suas
manifestações, a começar pelo estudo da língua hebraica, bastante estimulado pelo próprio
movimento. A influência desse despertar levou à modificação do currículo das escolas
judaicas tradicionais no sentido de dedicar maior número de horas ao estudo de matérias
judaicas, mudanças cujos resultados positivos seriam colhidos posteriormente. O hebraico
substituíra o ídiche definitivamente, e nas escolas, salvo aquelas dos progressistas, não se
ensinava mais esse idioma. Ao mesmo tempo surgiu uma literatura sobre assuntos judaicos,
escrita em português, língua que servia como veículo de expressão da nova geração, que
não conhecia outra, traduzindo-se obras históricas e literárias do ídiche e do hebraico.
O sucesso dos movimentos juvenis chalutzianos naquele tempo não se deveu
apenas ao fato deles coincidirem com movimentos históricos decisivos para o povo judeu,
mas também a outro fator que encontra sua explicação na situação da sociedade brasileira
em geral. Mais explicitamente, tratava-se da atitude crítica que o movimento juvenil e sua
ideologia sustentavam em relação à sociedade e seus valores, atitude essa que ia de
encontro à natural rebeldia da adolescência e da juventude e da sua sensibilidade em
relação aos problemas sociais que não poderiam deixar de ser percebidos no meio ambiente
em que viviam. Daí a grande atração que a ideologia sionista-socialista exercia sobre aquela
juventude, pois ela sintetizava os sentimentos e os ideais próprios daquela geração.
Nesse ínterim, em fins de 1945, os dois partidos sionistas mais influentes, o
Poalei Zion e os Sionistas Gerais, preparavam o caminho para fundar uma Organização
Sionista Unificada, tendo como base a afiliação individual e não somente a de grupos ou
organizações. Assim foram renovadas as Organizações Sionistas Unificadas nos diversos
estados brasileiros, sendo que, mais tarde, elas seriam representadas na Organização
Sionista do Brasil. Por volta de 1946 criou-se o Comitê Político, que tinha por finalidade
169

mobilizar a opinião pública brasileira em favor do sionismo e, nesse sentido, o Comitê


organizou demonstrações de massas com a participação de judeus e intelectuais brasileiros,
com a finalidade de chamar a atenção para o que se passava na Palestina e receber as
adesões da comunidade, bem como do público brasileiro. Como resultado de tal conjuntura,
organizou-se na época um Comitê Pró-Palestina, formado por intelectuais influentes e de
renome da sociedade brasileira, tais como prof. Ignácio Azevedo do Amaral, presidente do
Comitê. Um de seus membros importantes era o Senador Hamilton Nogueira, identificado
com a causa judaica e seu defensor, aclamado na época pelo discurso que fez no
Parlamento, sugerindo que o Brasil apoiasse a proposta do Presidente Truman para que
100.000 judeus refugiados fossem admitidos na Palestina.
Importante e decisiva foi a intervenção da Organização Sionista do Brasil no
debate que se dava nas Nações Unidas sobre a partilha da Palestina. Esta, através dos seus
membros, e com a ajuda do ministro Horácio Lafer, judeu e membro do governo, conseguiu
que fosse mantido um encontro com o Ministro do Exterior e uma delegação de
representantes dos vários partidos do Parlamento, para que o Brasil assumisse uma posição
favorável à partilha. Do mesmo modo, houve contatos com o representante do Brasil na
ONU, que na ocasião presidia sua Assembléia Geral, o Embaixador Oswaldo Aranha, cuja
atitude de simpatia para com os judeus foi importante para a decisão histórica da partilha.
Até hoje o papel desempenhado pelo representante brasileiro nas Nações Unidas é
lembrado como um gesto que marcou o destino das relações entre Brasil e Israel, ainda que
a realidade política atual seja bem diferente e o Brasil tenha votado, recentemente, junto
com outros países, a favor da moção condenando o sionismo como racismo.
Durante o período que transcorreu, desde 1945 até os dias de hoje, pode-se
dizer que o sionismo fortificou-se do ponto de vista de sua organização interna; que além
dos movimentos juvenis chalutzianos, que forneceram contingentes de imigrantes para
formar alguns kibutzim brasileiros em Israel, também cresceu com a formação de entidades
femininas como a WIZO e as Pioneiras (Pioneer Women), que desenvolveram uma
atividade sionista imensa na coletividade judaica durante todos esses anos. Além do mais,
o contato com Israel e sua cultura aprofundou-se com a presença de enviados daquele país
para auxiliar em vários setores da vida comunitária judaica, e em particular no setor da
educação e na rede escolar judaica. Mas apesar do seu desenvolvimento e das conquistas
realizadas na mobilização da opinião pública brasileira em favor do sionismo no Brasil
entre os anos que se sucederam ao fim da Segunda Guerra Mundial até a criação do Estado
de Israel, e seus primeiros anos de vida, o “período heróico”, o sionismo, posteriormente,
entraria em sua fase de estabilização.
O sionismo na realidade brasileira atual – Antes de analisarmos a situação
atual do sionismo no Brasil, em primeiro lugar cabe esclarecer uma questão que tem-se
levantado em discussões sobre o tema, em Israel ou em outros lugares: freqüentemente
costuma-se falar da América Latina como uma unidade do ponto de vista judaico-
comunitário. Porém, não há nada mais errôneo do que encarar o judaísmo daqueles países
sob um único prisma, tendo uma única história e uma única sociologia. Do ponto de vista
metodológico, toda pesquisa tão generalizadora tende a cometer sérios enganos quanto à
realidade na qual vive e atua o movimento sionista, assim como quanto às condições de
vida nas comunidades judaicas locais. Cremos que o Brasil apresenta características que o
diferenciam da Argentina, que por sua vez, diferencia-se do México ou de qualquer outro
país latino-americano. Pois, mesmo sob o aspecto histórico, em cada país encontramos
diversificantes sócio-econômicos, culturais e políticos. Grosso modo e de imediato,
170

podemos notar as diferenças entre a América Portuguesa (Brasil) e a América Espanhola,


ou ainda, entre a América do Sul e a América Central e suas pequenas repúblicas. Por outro
lado, o estudo da formação de cada comunidade, de seu processo de imigração e
aculturação local, leva-nos a concluir claramente que elas devem ser estudadas em separado
para um melhor conhecimento de sua natureza, assim como para a caracterização de seu
movimento sionista local.
Não é preciso dizer que, em suas origens, o sionismo nasceu no continente
europeu em decorrência de uma realidade judaica que não encontramos na América Latina,
e particularmente no Brasil. Mas, como vimos acima, o sionismo foi transportado, poder-
se-ia dizer, como uma herança cultural dos judeus imigrantes do Velho Continente e
também como parte da própria história moderna do nosso povo, a qual incorporou-se à
vivência do judeu identificado.
Se o sionismo encontrou um solo fértil e seu apelo foi atendido, ele o foi na
medida em que o judeu se identificava com o destino do seu povo e na medida em que a
própria história o levava a despertar para a procura de uma solução para a difícil situação
em que se encontrava como minoria nacional entre as nações. Assim sucedeu na Europa
em vários lugares e em vários tempos, até a grande catástrofe do Holocausto. Mas o
“sionismo catastrófico” pouco sentido tinha, e tem, num país como o Brasil, onde não
chegou a enraizar-se um movimento anti-semita e ameaçador, tanto no passado como no
presente, ainda que o anti-semitismo revele seu semblante, vez por outra, aqui e acolá. Está
claro que para aqueles que estudam a sociedade brasileira e o regime que a caracteriza,
nada impede que haja mudanças bruscas na sua aparente “estabilidade”, determinada em
boa parte pelo fato de haver um grande surto econômico, e por outro lado, pelo fato dela se
apoiar num regime politicamente forte. Se em outros lugares do continente ocorreram, por
vezes, mudanças bruscas e suas conseqüências fizeram-se sentir sobre as comunidades
judias, nada impede que o mesmo possa ocorrer no Brasil, pelo menos como uma hipótese
teórica que podemos aventar. Mas tal linguagem, muitas vezes empregada pelos
profissionais do movimento sionista no Brasil, não encontra muito eco nos corações dos
judeus locais, pois o cotidiano, com toda sua força, anula facilmente o efeito de tais
“profecias”. Até mesmo a lembrança do Holocausto apagou-se da memória da nova
geração e não tem para ela nenhum significado existencial mais profundo, além do
lamentável fato de muitos terem pouco conhecimento sobre o que se passou durante a
Segunda Guerra Mundial.
Portanto, as análises e os prognósticos feitos pelos adeptos do sionismo
“catastrófico” não podem servir como alimento ideológico para a nova geração judia, pela
simples razão que se sentem bastante integrados na sociedade brasileira, a ponto de repetir
os slogans tradicionais sobre a capacidade de “integração e assimilação dos estrangeiros”
na terra brasileira, que foi essencialmente formada por imigrantes, ou ainda outros sobre
sua “gente boa que é incapaz de um gesto discriminatório, seja em relação ao negro ou em
relação a outro indivíduo qualquer”, como costumamos ouvir.
Portanto, o chamado ao sionismo e do movimento sionista deve ser diferente
do acima mencionado. Além do mais, o período que atualmente o Brasil está vivendo é um
período de regime centralizador e, em boa parte, otimista em relação ao futuro da nação e
sua posição política no continente; fortifica-se, assim, o sentimento de que nada poderá
abalar a segurança dos judeus. O atual nacionalismo brasileiro é estimulado
deliberadamente pelo governo através de uma campanha intensa e sistemática, onde todos
os meios de comunicação são requisitados; esse nacionalismo não se mostra xenófobo em
171

relação às suas minorias nacionais, mas apela para uma participação ativa nos problemas do
país. Nesse sentido, o sionismo poderá ser encarado como uma questão de dupla fidelidade
por parte dos judeus e, ultimamente, algumas manifestações próximas a essa interpretação
apareceram na imprensa, ainda que expressas como opiniões individuais, ao se tratar da
questão da posição do Brasil frente ao conflito no Oriente Médio.
Nos últimos tempos, tais opiniões têm recebido o estímulo de uma política
governamental voltada ao mundo árabe. Obviamente isso se deve a interesses econômicos
que o país em desenvolvimento sustenta em relação a certos produtos de exportação,
alimentando a esperança de conquistar o mercado árabe, africano e do Terceiro Mundo em
geral. Por outro lado, a política petrolífera árabe em relação a um país que depende desse
produto para sua sobrevivência leva à submissão moral, que, embora criticável, é, na
realidade inevitável. Ademais, a propaganda árabe, que por vezes penetra por vias indiretas,
causou a divulgação de idéias antijudaicas e anti-sionistas, segundo modelos conhecidos em
outros lugares, mais precisamente na Argentina, que serve de centro estratégico para tais
atividades na América do Sul.
O anti-semitismo, que, normalmente, foi repudiado pelo brasileiro médio e
esclarecido, não deixou de existir isoladamente em grupos de direita e de esquerda, 339 e,
nesses últimos tempos, a “nova esquerda” mescla, consciente ou inconscientemente,
argumentos anti-semitas quando assume uma postura crítica e de condenação do sionismo e
de Israel, aliado aos estereótipos de ser reacionário e joguete do “imperialismo”. Essa
posição da “nova esquerda” caracteriza hoje, em geral, a visão assumida pela classe
estudantil e certa intelectualidade, que tende igualmente a encarar – em nível nacional – os
judeus como identificados com o regime dominante, devido a sua posição classista e ao seu
nível econômico- novamente um estereótipo que a realidade contradiz.
Sob esse aspecto, o movimento sionista no Brasil e a comunidade judaica em
geral enfrentam hoje uma situação em que o estudante universitário judeu, influenciado
pelo clima ideológico reinante nas universidades do país, acaba assimilando a mesma
convicção da esquerda sobre Israel e o nacionalismo judaico. Ultimamente, o abismo
existente entre o que essa juventude universitária judaica chama de “establishment
comunitário”, ou seja, a liderança sionista que está à testa das entidades ou instituições
comunitárias durante muitos anos sem se renovar, tem se aprofundado cada vez mais,
passando a ser um sério motivo de preocupação por parte daqueles que acompanham de
perto a vida comunitária.
Na verdade – e ainda que seja doloroso dizê-lo – o movimento sionista não
encontrou até agora o caminho certo para enfrentar o grande desafio da juventude
universitária, cuja crítica radical leva a encarar com suspeita e desprezo toda atividade
comunitária, como se fosse uma ocupação de “burgueses” alienados da realidade social
brasileira. Tais conceitos têm sido expressos em debates públicos organizados e dirigidos à
juventude judaica.
Assim sendo, podemos falar em dois tipos de assimilacionismo. O primeiro, já
mencionado acima, é aquele caracterizado pela vontade do judeu de integrar-se à sociedade
que o rodeia, tendo em vista uma ascensão econômica e social, que é facilitada pela quebra
de barreiras culturais e religiosas. Mas nesse caso não é obrigatório que a sua identidade

339
O movimento integralista no Brasil, que teve certa influência em certos círculos intelectuais e políticos na
década de 30, propagou idéias anti-semitas inspiradas no nazi-facismo europeu, através de seu porta-voz
Gustavo Barroso.
172

judaica desapareça pois não há nenhuma relação direta entre o nível socio-econômico de
que desfruta o judeu e sua identificação nacional-religiosa. O segundo, que a nosso ver é
mais perigoso e destrutivo, é aquele cuja base é a negação do judaísmo e de seus valores em
nome de pretensos ideais de transformações sociais universais, como se ambos fossem
excludentes. A história do sionismo já conheceu na Europa, há muito tempo, esse tipo de
formulação dicotômica, e sabemos muito bem que os teóricos do sionismo socialista
preocuparam-se em eliminar as contradições aparentes que atormentavam as gerações
anteriores.
Berl Katzenelson lembra, com muita ênfase, na sua história do movimento
obreiro judeu (volume 11 de seus escritos, na edição hebraica ), como parte de sua geração
acabou atirando-se nos braços da “Grande Revolução”, ou seja, a Revolução Russa, que por
sua vez, acabou atraindo muitos da “pequena revolução”, ou seja, o nacionalismo judaico
que aspirava criar um Estado próprio na Palestina. Aparentemente, estamos assistindo no
meio da juventude judaica o retorno da velha discussão que se traduz em uma postura
assimilacionista apoiada em ideologias de esquerda, mas que não se diferencia de outro
assimilacionismo qualquer.340 O fato é que o movimento juvenil judaico tradicional já não
possui a força de outrora, e o seu total esvaziamento leva o estudante judeu a procurar
satisfazer suas inquietudes em associações ou grêmios de caráter geral. É claro que o
contato entre jovens judeus e não-judeus, em um país onde não encontramos uma manifesta
discriminação ou preconceitos em relação às minorias nacionais ou religiosas, constituindo-
se numa sociedade multicultural e aberta, apresenta uma outra face, que é a do melting-pot
onde as diferenças de identidade nacional se anulam e na qual abre-se uma via para o
casamento misto, que cresce numa proporção assustadora entre os membros da nova
geração, perplexa e insegura frente a um mundo em mudança.
Sem pretendermos entrar a fundo na questão341, antes de finalizarmos devemos
fazer ainda algumas considerações em torno do sionismo como ideologia, assim como é
visto pela diáspora brasileira e por boa parte daqueles que se sentem identificados com o
movimento. Aos olhos da maioria, na verdade, o sionismo passou a significar mais um
movimento de identificação política e prática com o Estado de Israel e seus problemas
diários e, não mais a velha aspiração maximalista de solucionar a “questão judaica” através
da “redenção” (gueulá) resolvendo desse modo o problema de seu destino histórico-
nacional, tal como foi formulado por pensadores em seus primórdios. A atuação sionista
após a criação do Estado Judeu, no turbilhão dos problemas que se apresentam com sua
própria existência política , deixaram no esquecimento e ofuscaram as grandes causas, o
leitmotiv e as raízes ideológicas do movimento. Hoje, mais do que nunca, se faz necessário
lembrar, revelar e divulgar suas raízes e fundamentos, o que exige do próprio movimento a
criatividade indispensável para formar novos marcos educativos apropriados visando esse
objetivo. Em outros termos, se hoje nos encontramos diante da necessidade de uma revisão
espiritual e de uma adaptação dos valores do pensamento sionista tradicional, por outro
lado, temos a obrigação de transmitir fielmente a herança deixada pelos fundadores do

340
Ultimamente, com a abertura democrática, ocorrida um pouco antes e após as eleições de 1978, tais
discussões passaram a ser mais públicas e frequentes.
341
Uma das tentativas mais significativas para o estudo crítico da diáspora foi feita com a realização dos
seminários no Beit Hanassi (Casa Presidencial) sob a epígrafe de The Continuing Seminar on World Jewry
and the State of Israel, em jerusalém, sob a orientação do Prof. Moshe Davis. Também o judaismo latino-
americano foi estudado por especialistas interessados nessa área.
173

movimento, uma vez que, nas circunstâncias em que vivemos, precisamos, no que diz
respeito à nova geração, começar freqüentemente do próprio começo.342

342
Um passo positivo dado pela Organização Sionista Mundial foi a criação, nos últimos anos, dos
Seminários de liderança em alguns países da América Latina, inclusive o Brasil.
174

20. História Oculta: como se lutou para a criação do Estado de Israel

A década de 40 foi particularmente marcante para o povo judeu e, na vida das


nações contemporâneas, pelos acontecimentos que serviram de turning point em seu
destino e trajetória histórica. A Segunda Guerra Mundial e a conseqüente destruição das
comunidades judaicas da Europa fortaleceram a convicção e confirmaram a necessidade da
criação de um Estado judeu que o movimento sionista organizado vinha apregoando desde
o século XIX.
As vicissitudes do movimento nacionalista judeu, com derrotas e vitórias,
desde que adotou o caminho da luta política para o seu reconhecimento e para que sua
bandeira fulgurasse junto à das demais nações, constituiu-se numa saga sem precedentes
durante décadas, desde o Congresso de Basiléia de 1897. O sionismo tornou-se uma força
criativa e transformadora do espírito de um povo submisso às leis e à ordem de governos e
poderes que apenas toleravam – quando toleravam – os filhos de Israel. Aos poucos, e
simultaneamente com a colonização da terra de seus antepassados, o nacionalismo judaico
provocou o renascimento da língua hebraica, instituiu uma formidável rede educacional,
gerou uma nova literatura e tornou multidões produtivas, o que alterou, em boa parte, sua
própria estrutura social. A diáspora assumiu a consciência de sua transitoriedade e passou a
mobilizar-se para realizar o que até então era apenas “saudades de Sião”.
Os anos que antecederam a formação do Estado – e me refiro aos anos
cruciais da última grande guerra e seus trágicos resultados – foram decisivos na história
política sionista, pois exigiram uma grande estratégia que envolvia esforços em várias
frentes de combate.
De um lado, a grande tarefa de expulsar da Palestina o domínio britânico com
o seu Mandato, que, em dado momento, revelou sua face imoral em relação à imigração
“ilegal” dos sobreviventes da guerra na Europa. Além do político, esse esforço também se
expressou no plano militar, que recrudesceu enquanto teve que enfrentar o agressivo
nacionalismo árabe, cada vez mais inconformado com a visível perspectiva do surgimento
de um Estado judeu na região.
De outro lado, a hora exigia um grande esforço de arregimentação espiritual e
material, na Palestina e na diáspora, pois se sabia ser o momento singular para o retorno da
soberania perdida há dois mil anos. As comunidades judias fervilhavam ideologicamente e
os matizes do partidarismo judaico europeu, que haviam se definido muito tempo antes,
foram transportados também para as Américas. Dessa forma, a chamada “rua judaica” dos
centros urbanos do país, de norte a sul, vivenciava forte tensão frente a expectativa de se
cumprir um sonho milenar, expectativa essa que se repetia, em boa parte, nas comunidades
de outros continentes, refletindo correntes políticas que abrangiam concepções extremadas
de direita e esquerda, passando por posições moderadas, com todas as suas nuanças. Desde
as primeiras décadas do nosso século, o Brasil tinha um movimento sionista organizado.
O surgimento de associações sionistas assim como dos movimentos juvenis
judaicos, que representavam as alas jovens dos partidos políticos tradicionais, foram, em
boa parte, fruto dessa mesma expectativa naqueles anos. Dror, Haschomer, Hatzair, Betar,
Hanoar Hatzioni, Benei Akiva e outros agrupamentos estavam tomados pela atmosfera,
verdadeiramente messiânica, quanto ao desenlace que as ideologias sionistas previam para
aqueles anos. Além das tentativas feitas por certas personalidades em obter o apoio político
oficial do governo brasileiro à causa sionista, sobre a qual falaremos adiante, a participação
175

efetiva da comunidade brasileira se deu com o incentivo à imigração a Eretz Israel que os
agrupamentos juvenis chalutzianos empreenderam dirigindo-se para kibutzim e outras
formas de colonização agrícola. Verdade é que já em 1932, membros do movimento juvenil
“Hatchia”, existente no Rio de Janeiro e precursor do Dror, partiram para a Palestina e se
integraram à sua colonização agrícola.
Além do mais, as campanhas de ajuda à imigração dos sobreviventes do
Holocausto, ao futuro Estado judeu e para a compra de armas para a guerra, que
inevitavelmente eclodiria logo após a proclamação do Estado judeu, em maio de 1948,
encontraram eco favorável dentro das comunidades brasileiras, assim como em todo o
judaísmo mundial.
Essas campanhas promovidas por instituições locais tinham, de fato,
orientação e o estímulo de representantes do movimento sionista mundial, da Agência
Judaica e de organizações filantrópicas e assistênciais como o Joint e a Hias, que
desempenharam um papel vital no resgate, salvação e reconstrução da vida judaica onde se
fazia necessário.
Enviados especiais do movimento sionista, com sua retórica inflamada,
atraíam multidões ao Estádio do Pacaembu, em São Paulo. O mesmo ocorria nos salões das
principais cidades brasileiras. Escritores e intelectuais judeus da Argentina, entre eles
Alberto Gerchunoff, Leo Halpern, Moisés Senderey, bem como de outros países, visitavam
o Brasil numa campanha de esclarecimentos dos ideais nacionalistas entre os seus colegas
não-judeus.
As campanhas de defesa, em nome da Haganá, tiveram um efeito aglutinador
enorme ante a multiplicidade de partidos e associações com ideologias contrárias umas das
outras. Basta lembrar que o impacto causado na opinião pública pelo martirológio judaico
mundial ainda estava muito presente nas multidões que se reuniam nos grandes comícios
promovidos nas cidades brasileiras, em particular em São Paulo, Rio de Janeiro e Porto
Alegre, que aglutinavam verdadeiras multidões. Foi quando o “Poalei Sion” (Operários de
Sião), os “Alguemeine Zionistn” (Sionistas Gerais), o “Heirut”, e mesmo os assim
denominados “Progressistas” e outros grupos nem sempre exatamente definidos como
sionistas, mas com um orgulho judaico que o momento histórico despertava, estavam
irmanados pelas mesmas esperanças e aspirações de soberania política do povo judeu.
A vida partidária e a disputa ideológica haviam criado órgãos de imprensa que
serviam de veículo às concepções dos múltiplos agrupamentos judaicos, que tinham sido
silenciados oficialmente pelo governo brasileiro, em 1941, o qual proibira a publicação de
periódicos em língua estrangeira. Restaram, naqueles anos, poucos jornais judaicos em
língua portuguesa, que assumiram um papel importante na divulgação dos acontecimentos
internacionais e pela informação do que se passava nas diversas comunidades espalhadas
por todo o país.
Em São Paulo, sob a orientação do Dr. Alfred Hirscheg, tivemos a “Crônica
Israelita”, além de alguns boletins partidários incluindo-se entre eles o da Organização
Sionista Unificada. Após 1945, no Rio de Janeiro, impôs-se a revista “Aonde Vamos?”,
fundada em 1943 pelo combativo e incansável Aron Neumann, que soube colocá-la à
disposição de todos aqueles que atuavam nas associações comunitárias. Também em Porto
Alegre e Curitiba boletins locais serviam como informativos e formadores de opinião.
A imprensa brasileira, que naqueles anos estava pouco preparada para
entender o que se passava no Oriente Médio e a questão da Palestina, afundava num mar de
desinformação, confundindo seus leitores com uma avalanche de notícias desencontradas.
176

Essas eram muitas vezes manipuladas por mãos invisíveis, ou bem visíveis, dos partidários
da visão pró-árabe sobre a questão, o que tornava a imprensa judaica um instrumento vital
de informação para as comunidades.
Já em 1947 estabeleceu-se um “Comitê Pró-Haganá”, sob a orientação da
Organização Sionista Unificada do Brasil, que ressurgira em 1946, após a queda da
ditadura de Getúlio Vargas, período em que tivera de encerrar oficialmente suas atividades.
O Comitê reunia representantes de todos os partidos que se identificavam com o
nacionalismo da época. Formou-se também, em 1947, um Comitê Brasileiro Pró-Palestina,
para informar a opinião pública brasileira e obter o apoio do Brasil na votação da
Assembléia da ONU, que deveria aprovar a partilha da Palestina e a criação de um Estado
judeu, em 29 de novembro de 1947. O movimento sionista atuava junto aos governos dos
países-membros das Nações Unidas para conseguir obter os votos da maioria, o que iria
coroar décadas de luta política e de realização colonizadora na Palestina. Nesse sentido,
formou-se um Comitê Mundial Pró-Palestina. O Comitê brasileiro, afiliado ao Comitê
Mundial e em contato com outros dos países da América Latina com o mesmo objetivo, foi
decisivo na histórica sessão da Assembléia da ONU presidida por Oswaldo Aranha.
O Comitê Brasileiro Pró-Palestina era composto por homens ilustres, como o
prof. Inácio Azevedo do Amaral, reitor da Universidade do Brasil, o senador Hamilton
Nogueira, homem de destaque nos meios católicos; intelectuais, jornalistas e políticos,
como José Lins do Rego, Celina Padilha, Maria Luiza Azevedo Cruz, Flora Possolo, Eloi
Pontes, Ana Amélia de Queiroz Carneiro de Mendonça, Carlos Luiz de Andrade Neves,
Deputado Carlos Vergal, Tito Lívio de Santana e outros. O seleto grupo que o formava não
se limitou a discursos. Imbuído da importância de sua missão, passou a uma opção prática
de esclarecimento editando um boletim e ampliando o número de adesões para a causa
sionista em todo o país. Na ocasião, deveria realizar-se uma Conferência Interamericana
dos Ministros de Relações Exteriores, com a presença de representantes de todo o
continente, ocasião em que o Comitê Brasileiro poderia influir e prestar um serviço
relevante junto aos delegados presentes. Ao mesmo tempo, poucos meses antes de
novembro de 1947, procurava-se conquistar o apoio dos partidos políticos no governo e
compor uma delegação para dialogar com o Ministro do Exterior Raul Fernandes sobre a
posição brasileira em relação à questão palestina.
O resultado final da votação na ONU foi favorável à criação do Estado judeu.
A aprovação final lançou novos desafios ao povo judeu logo após o ato de proclamação de
sua independência e afirmação de sua soberania sobre o território que lhe coube na partilha,
em 14 de maio de 1948.
Porém iniciava-se uma nova fase devido a invasão e os atos bélicos encetados
pelos Estados árabes contra o seu novo vizinho, sendo que e as conseqüências dessa Guerra
de Independência mudariam significativamente o panorama político da região até os nossos
dias. Tratava-se de um duelo de vida e morte que decidiria a existência de Israel e que,
novamente, implicava a ajuda concreta de toda a diáspora e da comunidade judaico-
brasileira. Podemos afirmar, com segurança, que nesse capítulo pouco conhecido, e que, em
parte, permanece oculto para a história contemporânea, a comunidade não decepcionou. 343

343
O autor publicaria o livro “Manasche, sua vida e seu tempo, ed. Perspectiva, São Paulo, 1996, no qual
apontaria o papel da comunidade judio-brasileira na mobilização de fundos para defesa do Estado de Israel
durante a sua guerra de Independência.
177

21. Prefácio à brochura “Osvaldo Aranha”

Passados são muitos anos desde que a sessão histórica da Assembléia das
Nações Unidas, presidida pelo estadista Oswaldo Aranha, aprovou a resolução de criar de
um Estado Judeu na Palestina. A atuação do eminente brasileiro para que surgisse o atual
Estado de Israel gravou-se nos anais da história milenar do povo judeu e será lembrada
pelas gerações presentes e futuras com um eterno sentimento de gratidão. Sem dúvida,
Oswaldo Aranha já faz parte da história judaica e é personagem central de um de seus
capítulos decisivos, o que justifica plenamente a publicação de sua biografia pela Federação
Israelita do Estado de São Paulo, sob a iniciativa de seu presidente, Dr. José Knoplich.
A bem da verdade, ainda resta muito por fazer sob o aspecto da pesquisa
histórica relativa ao período de atuação de Oswaldo Aranha como Ministro do governo de
Getúlio Vargas, que adotou uma postura negativa em relação à imigração judaica no Brasil
no período do Estado Novo.
Sabemos que o todo-poderoso Presidente, naqueles anos sombrios, inclinava-
se claramente a um filogermanismo comum a muitos governos sul-americanos. O
militarismo alemão era muito apreciado e muitas vezes compartilhado com entusiasmo
pelos círculos militares em nosso continente e, portanto, não é de estranhar que também
assimilassem o vírus anti-semita apregoado pela ideologia nazista desde sua ascensão na
Alemanha, entre as duas guerras mundiais.
No Brasil, a introdução de idéias e preconceitos antijudaicos se intensificou
com a expansão do integralismo, que endossou conceitos do pensamento político
nazifascista europeu. A Alemanha chegou a dar o apoio direto e o estímulo, através de
agentes e organizações nazistas locais, à difusão do anti-semitismo em nosso país, assim
como em outras partes do continente. Nas colônias de fala alemã no sul do Brasil,
associações e partidos ostentavam abertamente sua identificação com a ideologia
nazifascista e sua aspiração de criar uma Nova Ordem. Por outro lado, enquanto o Brasil
não se definiu a favor dos Aliados durante a II Guerra Mundial, tais elementos recebiam o
apoio tático do governo getulista, que empregava em sua política a figura tétrica de Filinto
Müller, que perseguiu e entregou à Gestapo Olga Benário, cuja morte certa não seria difícil
de prever na sua condição de judia e comunista. Porém, quem se importaria naqueles
tempos por uma “judia comunista”, quando, logo após, o governo vedava o ingresso de
uma imigração judaica, ameaçada na Europa, através de circulares secretas assinadas e
emanadas do gabinete do Ministério de Relações Exteriores? O teor dessas circulares, que
publicamos em outro lugar344, não deixa margem a dúvidas sobre sua orientação
discriminatória quanto à imigração que ela deveria acolher. O nome Aranha assina esses
documentos, mas não podemos estabelecer com exatidão quem os inspirou, pois a
atmosfera xenófoba e pró-nazista vinha impregnando os círculos governamentais e aquele
Ministério, anos antes de o mesmo assumir sua direção, e na prática ela se fazia presente
desde a ascensão do ditador gaúcho ao poder.

344
Estudos sobre a Comunidade Judaica no Brasil, ed. Fed. Israelita do Est. de São Paulo,
São Paulo, 1984, pp. 50-54.
178

O jornalista e escritor Fernando Morais, que publicou recentemente a


magnífica e comovente biografia de Olga Benário Prestes, retratará a atmosfera anti-semita
predominante no Ministério das Relações Exteriores, presidido pelo Ministro José Carlos
de Macedo Soares, e a descarada intimidade de seu embaixador em Berlim, José Joaquim
Moniz de Aragão, com o serviço secreto alemão e com a Gestapo, que lhe forneceram os
elementos de identificação de vários comunistas alemães que atuaram na intentona de 1935,
incluindo os de Olga, que na expressão do embaixador, “é de raça israelita”. No informe,
dirigido ao seu Ministro, o embaixador brasileiro faz questão de relatar que ele tem
“...procurado exercer uma severa vigilância no serviço de vistos em passaportes de
viajantes que se destinem a portos brasileiros. Na maioria, esses indivíduos são judeus e se
apresentam como turistas, exibindo passagens de 1.ª classe e certificados bancários, quase
todos concedidos pelo Iwria Bank, desta capital. Deve ser considerado que as aludidas
passagens são, na maioria dos casos, tomadas em vapores franceses, cujo custo é inferior
ao que cobram as companhias alemãs de navegação para a classe única ou mesmo de
segunda classe. É estranhável que certos indivíduos, mesmo sendo sapateiros, alfaiates,
marceneiros etc., se intitulem genericamente comerciantes e pretendam ser considerados
como turistas, e embora exibam passagens de ida e volta, não consta que nenhum deles
tenha regressado do Brasil. Nessas condições, tratei de saber exatamente detalhes sobre o
Iwria Bank, e pela investigação procedida posso afirmar que se trata de um banco israelita
bastante suspeito, pois parece se ocupar principalmente dos interesses financeiros dos
proprietários e profissionais israelitas que aqui residem. Não há dúvida de que esse banco
tem agido ilegalmente, facilitando a evasão de capitais de judeus para o estrangeiro, e há
fundada suposição de que também opere no sentido de transferir dinheiro para a
propaganda comunista, principalmente da Tchecoslováquia e possivelmente para outros
países.
Nessas condições, determinei, e espero merecer aprovação de Vossa
Excelência, que nosso Departamento Consular não mais aceite garantias bancárias
daquele estabelecimento. Rogo a Vossa Excelência levar o que precede ao conhecimento
de nossas autoridades competentes, salientando o caráter estritamente confidencial com o
qual me foram transmitidas as aludidas informações”.345 Nada mais eloqüente do que esse
documento para expressar o ranço anti-semita, naquele tempo definido pelo binômio “judeu
comunista”, que infestava toda a nação, atingindo também os órgãos de imprensa a favor ou
mesmo contra o governo do ditador Vargas, que não se importava de ter como auxiliares de
Filinto Müller torturadores nazistas, vindos da Alemanha para colaborar com a política
brasileira.
Era o tempo lúgubre da deportação de uma menina de 17 anos de nome Genny
Gleizer e também do fantasioso plano Cohen, que justificou a criação e os desmandos do
Estado Novo. “Judeus comunistas”, mesmo quando não eram, nem um e nem outro,
justificaram, ou melhor, deram o argumento para a torpe orientação governamental em
relação à política imigratória referente a judeus, que mostrava bem quão nefasta era a
influência do Mein Kampf em nosso meio.
Mas os tempos mudaram, ainda que jamais possamos esquecer a tragédia que
se abateu sobre o judaísmo europeu e a indiferença ou a frieza com que vários governos

345
Morais, F., Olga, Ed. Alfa-Omega, São Paulo, 1985, p. 173.
179

sul-americanos trataram o assunto da imigração judaica naqueles anos em que o destino de


milhões de seres humanos estavam selados. Quanto um gesto de humanidade poderia ter
salvo centenas ou milhares, sem a necessidade de comprarem a peso de ouro um salvo-
conduto para continuar vivendo.
O nome de Oswaldo Aranha, que foi a figura central na lembrada votação na
Assembléia das Nações Unidas, está associado ao membro da delegação brasileira que
participou naquele momento histórico da criação de um Estado Judeu: o senador Álvaro
Adolfo da Silveira, que, segundo vários testemunhos, foi particularmente ativo na
articulação do apoio de certos países latino-americanos à votação favorável às aspirações
do movimento sionista. Não será demais repetir o que já escrevemos em outro lugar ao
falarmos do major Eliezer Levy, que nas primeiras décadas de nosso século, difundiu entre
os judeus do norte os ideais sionistas, fundando associações e um jornal, em 1918, com o
nome de “Kol Israel” (A Voz de Israel), que era preparado no escritório de advocacia
compartilhado pelo major Francisco Jucá Filho, procurador geral da República, e Álvaro
Adolfo da Silveira, na cidade de Belém do Pará.
Segundo testemunhos que temos em mãos e o próprio depoimento do senador
aos filhos do major Eliezer Levy, que veio a falecer em janeiro de 1947, ele, na hora da
votação para o estabelecimento do Estado Judeu, sentiu que conhecia minuciosamente
aquele assunto, sem se lembrar como e por quê. Então, parou para refletir, fez uma
retrospectiva de onde provinha estar por dentro desse caso e, como em um filme, em sua
mente (palavras textuais de Álvaro Adolfo ditas aos filhos de Eliezer Levy) passou a
lembrança do seu escritório da rua 13 de Maio, onde Eliezer Levy trabalhava com ardor
patriótico e a convicção inabalável de ver concretizada a fundação do Lar Judaico. Álvaro
Adolfo aí enfrentou a luta com o mesmo entusiasmo do amigo daquela época, atirando-se
ao trabalho com mais intensidade, como coordenador que era da votação, e pôde, assim,
descobrir que três países iam votar contra; pediu a Oswaldo Aranha que suspendesse a
sessão e, após vários dias de trabalho na conquista dos adversários, conseguiu dobrá-los.
Continuada a votação, o resultado foi mais dois votos favoráveis e um em branco, o que
levaria a criar a maioria necessária para a formação do Estado Judeu.
A narrativa acima é confirmada em um aparte na Câmara dos Deputados do
Rio de Janeiro, em 15 de maio de 1973, feito pelo Dr. João Menezes, sobrinho e filho de
criação de Álvaro Adolfo da Silveira e seu sucessor no escritório de advocacia e no Partido
Social Democrático. João Menezes, em seu aparte no discurso do deputado Rubem Medina,
disse que “o Pará tem ligação com a criação do Estado de Israel. Revelo o fato neste
instante, ao plenário da Câmara, para que faça parte do esplêndido discurso de V. Exa. O sr.
Álvaro Adolfo da Silveira, ex-senador pelo Estado do Pará, foi o homem que, em
companhia de Oswaldo Aranha e designado por ele, coordenou a votação da criação do
Estado de Israel. Há um fato interessante em tudo isso. Quando voltava das Nações Unidas,
Oswaldo Aranha, em trânsito em Belém do Pará, recebeu homenagem das mais carinhosas
da colônia israelita, que lhe ofereceu uma corbeille de flores em reconhecimento do
trabalho que havia feito. No discurso de agradecimento declarou aos israelitas do Pará que
cometiam grave erro: aquela homenagem deveria ser tributada ao senador Álvaro Adolfo da
Silveira, o homem que havia coordenado tudo na ONU para a criação do Estado de Israel.
Este é o aparte que desejava dar, com as minhas homenagens àquele grande povo”. 346

346
Depoimento escrito fornecido ao autor pela escritora Sultana Levy Rosenblatt, residindo atualmente nos
Estados Unidos.
180

Contudo, e apesar de nossas observações, devemos destacar que o trabalho do


Dr. Moysés Eizerik passa a ter uma importância especial para a nova geração, que apenas
ouviu menções passageiras sobre Oswaldo Aranha e sua atuação política no âmbito
nacional e internacional, sem ter tido a oportunidade de conhecer mais de perto sua rica e,
ao mesmo tempo, controvertida personalidade histórica.
181

22. Crônica do Judaísmo Paulista

Até há bem pouco tempo, acreditava-se que a comunidade judaica de São


Paulo tivera início com a imigração vinda da Europa Oriental nas primeiras décadas de
nosso século347. Mas, à medida que se pesquisa e aprofunda os conhecimentos sobre a
história dos judeus no Brasil, verifica-se que a presença dos correligionários em terras
paulistanas, ainda que posterior à da comunidade do Rio de Janeiro, remonta também ao
século XIX.
Na verdade, pode-se falar em comunidade organizada, o que é bem diferente da
presença individual de judeus, em São Paulo, como algo já existente nos fins daquele
século, pois sabe-se, através de notícia publicada no periódico francês “Archives Israélites”,
de 1897, que os israelitas, imigrantes da Alsácia-Lorena e de outros lugares, constituíram-
se em comunidade por iniciativa do senhor Worms. 348 Além do mais, tal comunidade
providenciava a vinda – diz a notícia – de um schoichet (magarefe) da Hungria, de nome
Salomão Klein, que também exerceria funções rabínicas, incluindo a orientação sobre
cashrut (alimento de acordo com os preceitos judaicos) e o culto propriamente dito. Com
otimismo, o periódico comunicava, também, que já existia um açougue casher funcionando
ad hoc, e que as autoridades ou o presidente do Estado haviam autorizado a criação de um
cemitério particular para a comunidade judaica, que estava em franco desenvolvimento.
Lamentavelmente, nada se sabe desse cemitério, nem sequer onde se localizava. Por outro
lado, sabe-se que, a partir de 1870 aproximadamente, atuava na comunidade de São Paulo,
como rabino, Samuel da Costa Mesquita, cuja lápide encontra-se no Cemitério dos
Protestantes.349 Mas, da comunidade alsaciana do século passado, nada restou.

CHEGADA PELO INTERIOR

A atual estrutura comunitária de São Paulo, tal como a conhecemos hoje em


dia, com suas instituições de beneficência, culturais, esportivas e sociais, é fruto da
imigração deste século, seja ela provinda da Europa Oriental, dos países do Oriente Médio,
da África do Norte ou da Europa Central. Em parte, os imigrantes dos países da Europa
Oriental começaram a chegar em São Paulo via cidades do interior e, principalmente, de
Franca, onde, desde o fim do século XIX, encontravam-se famílias judias ali radicadas. São
essas as velhas famílias da comunidade paulista que desempenharam, ao lado dos
moradores que vieram diretamente à Capital, um papel primordial na formação das
primeiras instituições judaicas, assumindo responsabilidades de toda natureza para permitir
a acolhida decente dos seus irmãos que vinham em busca da sorte na nova pátria. Entre eles
estavam os Tabacow, os Klabin, os Nebel, os Soibel, os Teperman e vários outros.
Pioneiros também na vida econômica da futura grande metrópole, da megalópole

347
Mesmo estudiosos, como Meyer Kutchinsky, tinham noção errônea acerca da imigração moderna ao
Brasil, como se pode verificar em seu estudo “Dos literarische schafen fun yidin in Brazil”(A criação literária
dos judeus no Brasil) , Argentiner YWO Schriften, B.A., 1945, pp. 189-197.
348
Não sabemos exatamente de que membro da importante família Worms se trata.
349
A respeito dos cemitérios de São Paulo vide de Egon e Frieda Wolff, Sepulturas de Israelitas II, Cemitério
Comunal Israelita, Rio de Janeiro, 1983.
182

incontrolável, geraram, na sociedade brasileira local, atitude de respeito e dignidade em


relação ao nome “judeu” ou “israelita”, coisa que nem sempre aconteceu em outros lugares.
Jacob Schneider, que marcou capítulo fundamental na história do sionismo do
Brasil, narra, em suas “Zichroines” (Memórias), que, ao sair da Bessarábia, dirigiu-se
diretamente à cidade de Franca, onde sabia viverem judeus aparentados seus, e onde foi
calorosamente acolhido, isso em 1903, pela família Tabacow, da qual recebeu ajuda para
dar seus primeiros passos no país.350 Entre as poucas fontes que restaram para o estudo da
vida judaica nos primeiros anos ou décadas de nosso século, encontra-se o periódico “A
Columna”, publicado no Rio de Janeiro nos anos de 1916-1917 pelo eminente professor
David José Perez, e é ali que podemos encontrar notícias sobre a comunidade paulista, bem
como sobre suas instituições naqueles anos. Em artigo publicado no órgão acima
mencionado, em 1916, que leva o título “Impressões de São Paulo”, o carioca e presidente
da primeira Organização Sionista no Rio de Janeiro, Max Fineberg, falando da comunidade
judaica da cidade que acabara de visitar, disse: “Tenho para mim que as instituições que lá
encontrei, ainda que menos numerosas que as do Rio de Janeiro, são, ao menos na
aparência, melhores e mais belas” e “a vida israelita de lá é mais interessante do que aqui.
Os nossos correligionários não pretendem emigrar do país e, na maioria dos casos, levam
suas famílias para se fixar definitivamente em São Paulo e se incorporar como cidadãos da
Nação brasileira”. Continuando com suas impressões, Max Fineberg arremata: “Não
poucos deles encontrei gozando de consideráveis fortunas, satisfeitíssimos com a vida nessa
Capital, ao contrário da maioria dos que tenho encontrado no Rio de Janeiro, que, logo que
adquirem algum pecúlio, tratam só de voltar para os países de onde vieram”. Sem dúvida, o
senhor Max exagerava em suas apreciações, mas, de qualquer modo, temos impressão de
que em São Paulo havia uma comunidade estável, enraizada na sociedade local e
participante em sua vida.

SOCIEDADES REÚNEM A ELITE

Entre as instituições que são mencionadas e que desapareceram com o tempo,


encontram-se a Sociedade Philo Dramática, que reunia a gente culta da comunidade. “Os
seus sócios”, diz Fineberg, “em números de cem e pertencentes às classes mais inteligentes,
têm por objetivo a propaganda da boa literatura clássica, da música e do drama entre seus
correligionários, e organizam concertos e espetáculos dramáticos, cujos resultados têm
sido, até agora, os mais promissores de um belo futuro”. Além dessa Sociedade, menciona-
se a Biblioteca Israelita, que reúne um acervo em língua ídiche e hebraico com uma
freqüência significativa de leitores de todas as origens. A vida cultural de São Paulo pode
ser ilustrada pela notícia que lemos, em “A Columna”, de novembro de 1916, que se refere
à realização de “um brilhante concerto no salão do Conservatório de Música, em benefício
dos nossos correligionários de além-mar, que estão sendo sacrificados pelas condições de
guerra”, e cujo programa consistia:

350
Jacob Schneider relata, em suas “Zichroines” que, em 1903, “chegaram a Sokoron três judeus, que
moraram quatro anos no Brasil... Sabia que, no Brasil, numa pequena cidade de nome Franca, morava um seu
parente, Tabacow, e isso reforçou mais ainda sua decisão de imigrar ao Brasil”.
183

“I PARTE

1) SIMONETTI – Madrigal – srtas. Luiza Klabin e Vida Aschermann; srs. Horácio e


Jacob Lafer.
2) CHOPIN – 2 Estudos – sr. João de Souza Lima.
3) WAGNER – Lohengrin, Marcha nupcial – Quarteto – srta. Klabin; srs. Horácio e
Jacob Lafer.

II PARTE

4) Conferência pelo dr. David J. Perez (d’A Columna).

III PARTE

5) a) SAINT SAENS – Los sinos de las Palmas.


b) LISZT – Rhapsodia – srta. Ottilia Machado Campos.
6) DIAZ – Arioso da ópera Benvenuto Cellini – sr. Roger Mesquita.
7) BEETHOVEN – Concerto em cadência de Joaquim – sr. Prof. Carlos Aschermann.

Ao piano, o sr. Prof. Souza Lima.


Em seguida, passou-se à tômbola e leilão de objetos ofertados para o mesmo
fim humanitário.
Os bilhetes de ingresso foram vendidos ao preço de 10$000 cada um, por
distintas damas da nossa colônia nessa cidade, notando-se, entre elas, as exmas. sras. d.
Bertha Klabin e filhas, e d. Golda Tabacow. Auxiliaram-nas nesse trabalho os srs.
Fischman, Weissman e Alexandre Algranti, nosso dedicado correspondente nesse Estado.
Entre as pessoas presentes, notamos as famílias Klabin, Tabacow, Levy, Lichtenstein,
Worms, Zlatopolsky, Dranger, Gordon, Schneider, Lerner, Kaufman, Nebel e muitas outras
cujos nomes, infelizmente, não podemos nos recordar.
Dentre os que tomaram parte na acquisição de objectos por occasião do leilão,
lembramo-nos dos srs. Maurício Klabin, Isaac Tabacow, Hugo Lichtenstein, Salomão
Klabin, Miguel Lafer, Milman, J. Weissman, José Kaufman, Jacob Zlatopolsky, Nahum
Lerner, Nebel, Gersin Levy, R. Gordon, Fischman, Teperman, H. Kadicseviz, Muchnik,
Alexandre Algranti e Beresovski.”

Corriam os anos da Primeira Guerra Mundial e, em certas regiões da Europa


Oriental, desde a Romênia, até a Rússia, os judeus estavam sofrendo terrivelmente com o
conflito que destruiu aldeias e cidades, provocando enorme deslocamento populacional e de
graves conseqüências econômico-sociais. Nessas circunstâncias, as comunidades judaicas
de todo o mundo mobilizaram-se para prestar auxílio aos seus irmãos e, no Brasil, formou-
se, em fevereiro de 1916, um Comitê Brasileiro de Socorro aos Israelitas Vítimas da Guerra
(correspondendo ao americano Jewish Relief Committee), com representantes das
sociedades cariocas.
Em São Paulo, à semelhança do que foi organizado no Rio de Janeiro,
constituiu-se também um Comitê, sob a presidência de Bernardo Nebel, recaindo o cargo
de tesoureiro em Golda Tabacow. As instituições paulistas eram representadas no Comitê
da seguinte forma: pela Comunidade Israelita, Jacob Schneider e David Beresovski; pela
184

Sociedade Ezra, Isaac Ticker e Salomão Lerner; pelo Talmud-Torá, Isaac Weissmann e
Miguel Jaroslavsky; pela Biblioteca Israelita, Simão Gomievsky e Nakem Resnik; e pelo
Clube Philo Dramático Musical, Rodolfo Gutner e Maurício Levkovitch.
Pelo visto, eram essas as entidades comunitárias existentes na época em São
Paulo, faltando somente na relação acima a Sociedade Sionista Ahavat Sion, da qual temos
conhecimento através de várias notícias que o professor David J. Perez publicou em seu
periódico “A Columna”.
Em outubro de 1916, David Perez era convidado por Maurício Klabin,
“sustentáculo do sionismo no Brasil” – como é denominado no citado periódico – a
proferir conferência na capital paulista, sendo calorosamente recebido por todas as
sociedades e, entre elas, mencionava-se a Ahavat Sion, representada pelo ativista Rafael
Chachamovitz, seu secretário.

TEM INÍCIO A BENEFICÊNCIA

Das sociedades beneficentes em São Paulo, destaca-se, como primeira, a


Sociedade Beneficente das Damas Israelitas, fundada em 15 de junho de 1915, e tomando
parte na direção Clara Klabin, Berta Klabin, Olga Netter, Regina Bertman, Clara Ticker,
Esther Zippin, Nessel Lafer, Golda Nebel e Golda Tabacow, que abriram caminho para a
participação da mulher judia na vida comunitária e, como modelos de personalidades
femininas irrepreensíveis, seriam imitadas por suas descendentes e muitas outras. O
objetivo da Sociedade era “angariar donativos e promover meios de arrecadar auxílios para
socorrer pecuniariamente as famílias necessitadas, assim como proporcionar-lhes
assistência médica, em caso de doença”.
O primeiro clínico que a Sociedade empregou e que recebeu os maiores elogios
dos que o conheceram, pela integridade e competência profissional, foi o Dr. Walter Seng.
A essa Sociedade, seguir-se-ia a Sociedade Israelita “Amigos dos Pobres”, Ezra, fundada
em 20 de maio de 1916, que desempenhou papel fundamental na absorção da imigração
israelita, que cresceu com o término da Primeira Guerra Mundial. Nas relações dos
imigrantes recebidos pela Ezra, vê-se a grande diversidade de profissões dos recém-
chegados, apontando-se o lugar de origem e sua procedência social, encontrando-se, entre
eles, marceneiros, alfaiates, açougueiros, agricultores, vindos da Polônia, Romênia, Rússia,
Hungria, Lituânia e de todos os cantos da velha Europa. Durante décadas e décadas, e até
nossos dias, as sociedades beneficentes judaicas cumpriram fielmente seu papel, que
poderíamos definir como gerador de uma comunidade sã, auto-suficiente, digna e com uma
população enraizada no território brasileiro.
Entre os fundadores da Ezra, encontravam-se José Kauffmann, José Nadelman,
Salomão Lerner, David Berezovsky, Isaac Tabacow, Jonas Krasilchik, Bóris Wainberg,
Ramiro Tabacow, Isaac Ticker e muitos outros.
A vida religiosa da comunidade paulista desse tempo estava confinada a
algumas poucas sinagogas, que não passavam de casas improvisadas para a realização do
culto e, nesse sentido, é mencionada “a sinagoga da rua da Graça”, assim como outras, até a
construção do Templo Beth-El e o lançamento da pedra fundamental da sinagoga da rua
Capitão Matarazzo, n.º 18 (fundos com o Tocantins), no Bom Retiro, isso a 31 de dezembro
de 1916.
O Centro Israelita, que era a sociedade responsável pela iniciativa, convidava,
nessa data festiva para a comunidade paulista, o professor David J. Perez para ser o orador
185

principal da festa. Noemia Kutner, filha do primeiro vice-presidente da sinagoga, Nachum


Lerner, lembra-se até hoje, comovida, como declamou uma poesia em hebraico, ao lado da
figura magistral do redator de “A Columna”. Judeus e não-judeus acorreram ao Bom Retiro
para participar do evento, cuja iniciativa partia de um grupo de abnegados que formavam
sua diretoria: Luiz Rosenberg, presidente; Nachum Lerner, vice-presidente; Salomão
Lerner, tesoureiro; David Fridmann, vice-tesoureiro; Bóris Wainberg, secretário; Bóris
Schwartz, vice-secretário. Nesses anos de formação do judaísmo paulista, prestavam seus
serviços rabínicos à comunidade o Dr. Emílio Mesquita e o rabino Joseph Couriel, para os
sefaraditas, e para os asquenazitas, rabino Marcos (Mordechai) Guertzenstein, que marcou
época como guia espiritual da comunidade.
Mais tarde, seguir-se-iam outros, e na década de 30 atuariam entre nós o
inesquecível rabino Jacob Braverman, autor do “Chelek Yaacov”, e o rabino Zalmen Levin,
que tinha vindo de Jerusalém para desempenhar papel importante na vida religiosa de São
Paulo. Além da Sociedade Philo Dramática, a vida cultural judaica também foi animada por
grupos teatrais, formados por amadores que encenavam peças dos autores clássicos da
língua ídiche e que participavam dos eventos comunitários, dando sua contribuição
artística. Entre eles, encontramos o Grupo de Amadores “Scholem Aleichem”, que, na
fundação da Ezra, encenou “Dos Pintele Yid”, tomando parte do elenco, como “atores” e
“atrizes”, pessoas boas das famílias paulistanas, sob direção de Samuel Kleiman.

PRIMEIRAS ESCOLAS JUDAICAS

Desde o início da imigração, a preocupação dos chegados ao Brasil com o


futuro de seus filhos levou a que fundassem escolas judaicas e em São Paulo a primeira
escola foi fundada a 15 de fevereiro de 1916, com o nome de Talmud Torá, “com
freqüência, em abril daquele ano, de 23 alunos, 20 do sexo feminino e 3 do sexo
masculino”, sendo seu professor de hebraico, Júlio Itkis. 3515 Mais tarde, em 1922, surgiria a
Escola Renascença, que tinha uma visão pedagógica mais avançada e atrairia pela
qualidade do ensino e de seu corpo docente os filhos dos israelitas da nova imigração. A
Escola Renascença seria a grande incubadora do judaísmo paulista, pois por ela passaram
várias gerações que lá aprenderam a língua, a história, a literatura e receberam um cabedal
de conhecimentos sobre as tradições do povo de Israel. Foi de lá que saíram, também,
professores e educadores para outras instituições de ensino judaico da cidade, cuja
comunidade, de início concentrada no bairro do Bom Retiro, começava a se espalhar em
outras direções, exigindo, portanto, a criação de novas escolas.
Assim é que se originaram escolas judaicas de todos os níveis no Cambuci,
Brás, Vila Mariana e outros lugares da grande metrópole, constituindo, posteriormente,
uma verdadeira rede de ensino, com tendências diversas, desde ortodoxas a liberais, e que,
no seu conjunto, são motivo de orgulho do judaísmo local.
Com o sensível aumento da população judaica na cidade, começaram a se
formar os partidos que representavam as ideologias importadas do mundo europeu e que
encontram sua representação mais universal na própria sociedade brasileira, na qual
poderíamos encontrar os mesmos confrontos e concepções na busca de uma sociedade ideal
e de uma humanidade melhor. A “rua judaica” participa, também, desses conflitos,
351
Mencionado em “A Columna”, em vários lugares.
186

alinhando-se com adeptos das mais variadas tendências de esquerda e direita, mas sobre-
tudo o que vai caracterizar o seu partidarismo é a imitação do que existia nas comunidades
judaicas do Velho Continente. O imigrante, além da esperança, trazia também consigo o
“seu partido” ou a sua facção, seja ela do Bund, Poalei Zion, sionistas de todos os matizes
ou as ideologias de esquerda, não ligadas diretamente ao mundo judaico.

PARTIDOS POLÍTICOS

Era o “partido”, ao lado das organizações dos landsmanshaften, uma forma de


agremiação, de evitar o isolamento e a nostalgia do imigrante, e também uma possibilidade
para o ativismo cultural, necessário principalmente àqueles que eram inquietos e
intelectualmente preparados.
A existência das correntes políticas e ideológicas dentro da comunidade, se
nem sempre foi positiva para a unidade e desenvolvimento de suas instituições, era
inevitável e jogava um pouco de fermento ao cotidiano do clientelchik (mascate) , do
artesão, do pequeno comerciante, que tinha a oportunidade de se abstrair, no calor da
discussão e da polêmica, da luta pela sobrevivência diária. Foi esse o sal da vida do gueto
do Bom Retiro, das esquinas das ruas do bairro, onde sionistas e não-sionistas atracavam-
se, durante muitas horas em discussões, sem que pudessem chegar a algum acordo ou
alguma conclusão, e que terminavam sempre com a convicção íntima de que cada um dos
adversários tinha razão.

IMPRENSA EM ÍDICHE E PORTUGUÊS

Por outro lado, os “partidos” também preocupavam-se em traduzir os


pensadores judeus ao português para que as novas gerações se familiarizassem com a
literatura filosófico-política, o que serviu como fator de conhecimento e aproximação dos já
nascidos no Brasil à tradicional cultura judaica, bem como a sua expressão mais moderna.
Essas agremiações partidárias estimularam, ao mesmo tempo, o aparecimento, da imprensa
judaica da capital, em forma de jornais ou boletins. Capítulo pouco conhecido da vida
judaica paulista nas décadas de 20 e 30, é a atividade jornalística ou a imprensa em ídiche,
que procurava retratar os eventos mais importantes na comunidade e, servindo ao mesmo
tempo de órgão de expressão para as questões que a preocupavam, tanto em relação à
sociedade brasileira quanto em relação a si mesma. Isaac Raizman, que escreveu uma
história da imprensa judaica no Brasil, lembra que o primeiro periódico publicado em São
Paulo foi o “Idisher Gezelschaftlicher um Handels Buletin” (Boletim Social e Comercial
Judaico), em 1928, e foi financiado, em boa parte, por uma sociedade existente na época, de
nome “Agudat Achim”, que acabou, assim como o jornal, desaparecendo com o tempo.
No mesmo ano de 1928 surgia um outro periódico e, dessa vez, sob iniciativa
de Marcos Frankenthal, que tinha, nos primeiros anos da década de 20, estabelecido uma
tipografia denominada “Tipografia Palestina”, e, a partir do trabalho tipográfico, surgiu a
idéia de publicar um órgão ídiche que pudesse servir à comunidade. Nele figuravam como
redatores Yosef Rinski, Moisés Costa e Jacob Nebel, que, na época, representavam o
elemento culto e inteligente e, portanto, capacitado para tal objetivo. O seminário levava
como nome o pomposo título de “Idische Velt” (O Mundo Israelita), sendo que seu
conteúdo era atraente e variado, além de ser de bom nível. Lamentavelmente, também esse
periódico durou pouco tempo e foi substituído por uma folha em ídiche, que começou a sair
187

a partir de 1929, como anexo do jornal “Folha da Manhã”, que havia aberto o periódico à
publicação de seções em outras línguas faladas pelas diversas comunidades de imigrantes
residentes na metrópole paulista.
Marcos Frankenthal, em 1931, criaria um periódico, com a ajuda de Elias
Amstein e José Nadelman, que perduraria durante muitos anos, com o nome de “San Pauler
Idiche Tzeitung” (Jornal Israelita de São Paulo), com amplo noticiário sobre os
acontecimentos sociais da comunidade paulista e com bom corpo de colaboradores, que
viam naquele órgão uma oportunidade ímpar de se apresentarem como literatos e
jornalistas, e entre eles encontrava-se o historiador Isaac Raizman que atuou como redator
nos anos de 1933-1935. Raizman publicou em São Paulo, em 1935, sua “História dos
Israelitas no Brasil” (em ídiche sendo traduzida em 1937 ao português).
Pouco após a saída de Raizman da redação, viriam ocupar seu lugar Salomão
Steinberg e o conhecido historiador Elias Lipiner, além de contar com a colaboração de
Nelson Wainer, até encerrar suas atividades, devido à proibição de 1941, por parte do
Governo de Getúlio Vargas, de se editarem periódicos em língua estrangeira.
Claro está que o jornalismo judaico em São Paulo acabaria por se manifestar
também em português, e já em 1932 Fernando Levisky traria à luz o periódico “A
Civilização”, que contava com a participação do professor Silveira Bueno. Em seguida,
Nelson Wainer sairia com o “Páginas Israelitas”, e, em 1940, começaria a ser publicado o
periódico “Crônica Israelita”, que estava, de certo modo, ligado à Congregação Israelita
Paulista, fundada em 1936 pelos imigrantes da Europa Central, de fala alemã, cujo órgão
esteve sob a redação culta e inteligente do saudoso Dr. Alfred Hirschberg.
Em resumo, se olharmos para a comunidade, a partir do final dos anos 20,
veremos que, sob todos os aspectos, sejam eles religiosos, sociais, culturais ou econômicos,
a vida judaica local encontrava-se razoavelmente amparada por instituições. Mesmo o clube
esportivo Macabi e o já desaparecido Círculo Israelita, com seus tradicionais bailes (até de
Iom Kipur!), remontam àqueles anos, preenchendo os anseios e atendendo ao gosto e modo
de vida daquela geração. Muitas daquelas organizações ficaram obsoletas, e mesmo suas
funções anacrônicas, como foi o caso da “Laie SporCasse” (Caixa Econômica) , que, mais
tarde, seria a Cooperativa do Bom Retiro (fundada em 1928).

PREOCUPAÇÃO COM O NAZISMO

A grande mudança na atmosfera em que viviam os judeus dar-se-ia


gradativamente, com a penetração das idéias nazi-fascista no Brasil, onde, na sua versão
nacional, os judeus seriam vistos com suspeita pela sociedade ao redor, suspeita essa
estimulada, de um lado, por um governo que olhava com simpatia a política de conquista da
suástica e do fascismo no mundo, e, de outro, pela literatura anti-semita difundida por
elementos tais como Gustavo Barroso. Este fazia dos judeus o alvo fundamental de seus
ataques e via neles, imitando modelos europeus sobejamente conhecidos, os destruidores da
sociedade brasileira. Membros da comunidade paulista, para ele, eram os que manipulavam
a vida nacional, e é desse modo que, em sua imaginação doentia, os descreve nos livros “A
Sinagoga Paulista”, “A História Secreta do Brasil” e outros desse mesmo gênero. O anti-
semitismo entrava pelas portas dos fundos da sociedade brasileira, mas não deixava de
trazer novas preocupações à comunidade. Logo mais, viriam os anos sombrios da Segunda
Guerra Mundial, e o clima de luto que pairaria sobre o judaísmo mundial seria amenizado
188

apenas pelos ecos do que se passava no Oriente Médio, pelos esforços de tornar realidade a
criação de um Estado Judeu.
Esses últimos grandes e significativos eventos contribuíram decisivamente para
uma mobilização comunitária jamais conhecida anteriormente, o que explica o surgimento
de novas instituições nas décadas próximas a eles e que se manifestaram em todos os níveis
e camadas sociais, do mesmo modo que em toda as idades. Mas, a partir desse momento, a
comunidade passaria por transformações internas que merecem ser estudadas em uma
crônica referente aos nossos dias.
189

23. A Escola Israelita Brasileira Talmud Thora Beith Jacob (60 anos de
existência: 1933-1993)

Na história da educação judaica de São Paulo, o Talmud Torá foi a Segunda


escola, que perdurou até hoje, a ser fundada em nossa comunidade. Foi em julho de 1933,
que um punhado de judeus idealistas e impregnados de religiosidade tradicional resolveu
criar um estabelecimento que incutisse em seus alunos os valores espirituais e os preceitos
do judaísmo com os quais estavam familiarizados nas escolas da Europa Oriental. Entre
seus fundadores, encontravam-se Benjamin Rosset, Nataniel Vortsman, Pinchas Schleif,
Miguel Peiper, Samuel Z. Zilberstein, Simson Feffer, Israel Mandelbaum, além dos
saudosos Rabinos Jacob Braverman e Zalman Levin. Estabelecida de início na rua Newton
Prado com 47 alunos, sob o nome de Centro de Israel Talmud Torá Beth Jacob, contou de
imediato com a participação de pessoas que formaram suas primeiras diretorias e
preocuparam-se em reformar o velho casarão, adaptando-o às necessidade escolares.
De início, a escola possuía um programa escolar judaico que visava a
completar o currículo da escola oficial brasileira, mas, logo, após decidiu-se por um
currículo integral, ampliando, desse modo, o número de professores e atraindo mais alunos,
não somente do Bom Retiro, mas de outros bairros da cidade de São Paulo. Em 28 de
setembro de 1934, foi adquirido o imóvel da rua Tocantins, 296, onde foi construída a nova
escola, possibilitando, desse modo, a instituição ampliar seu programa de ensino e absorver
um número cada vez maior de alunos, que, na época, já se aproximava a 300.
Após alguns anos de trabalho e esforços de seus diretores, inaugurou-se, em
24 de janeiro de 1937, a nova sede, sob a direção de Tobias Grossman, Miguel Lafer,
Moisés Rechtman, Pinchas Schleif, Rabinos David Valt, Rabino Braverman, Rabino
Zalman Zinguerevitch, Miguel Citron, Marcos Fuks, Chaim Weitzberg, Julio Rubinstein,
Simon Feifer, Isaac Kleiman, Salomão Trajber, Benjamin Rosset, N. Voltzman e Majer
Zemel. A orientação do currículo judaico seguiu desde os primeiros anos a linha ortodoxa,
próxima ao programa “Yavne” do Hamizrachi, e, entre seus professores contavam-se Jacob
Levin, Zalman Lifpshitz, Chaim Epstein, Sheine Lifpshitz e Jona Levin, sob a direção do
Rabino Meier Szulim Oselka.
A Escola Talmud Torá esteve, sempre, sob a tutela da Sociedade Israelita
Brasileira de Ensino Talmud Torá, que em 1946, inauguraria sua Sinagoga à rua Tocantins.
Com o desenvolvimento da escola que, em 1957, compreendia três anos de
Jardim de Infância, quatro anos de Português e disciplinas gerais e ainda cinco classes de
ídiche e hebraico, concebeu-se a idéia de criar um ginásio que, de fato começou a ser
construído em 1963, passando a denominar-se Ginásio Israelita Brasileiro Talmud Torá.
O Talmud Torá formou centenas de alunos, e hoje comemora 60 anos de existência como
respeitável instituição de ensino e educação, sendo, sem dúvida, um dos orgulhos da
comunidade judaica de São Paulo, para a qual deu uma contribuição preciosa: homens e
mulheres identificados com seu passado, suas tradições e seus valores.
190

24. O Macabi de São Paulo e sua evolução


Antecedeu ao Macabi uma instituição esportiva com o nome de “Sport-Club”.
No ano de 1927, um de seus membros, Siegfried Weber, ousou entrar nesse clube com um
grande Maguen David no peito, e foi por causa disso expulso. Assim, ele resolveu,
juntamente com outros amigos, criar uma nova associação.
A fundação do Macabi em São Paulo, deu-se em 14 de dezembro daquele ano,
e entre seus iniciadores se encontravam o já citado Weber, Benjamin Flit, Adolfo Wolff,
Max Jagle, I. Raicher, P. Schuster e outros. O numero de sócios chegava a 80. A primeira
diretoria era constituída por Abraham Milstein, Israel Iampolski, Adolfo Wolff, Carlos
Weiss, Max Jagle, Siegfried Weber, Moisés Vainer, Dov Smaletz, Fernando Wolff, José
Timoner, Marcos Fankenthal, Saul Stracovski e Boris Skilnik.
O “Ídishe Folkstzaitung” (Jornal Popular Israelita), publicado no Rio de
Janeiro, em seu número de 13 de março de 1928, refere-se a uma concorrida assembléia
geral do clube que foi aberta por Max Jagle. A notícia resume o que se passou naquele
encontro informando que tomou a palavra o sr. Weber, que discursou sobre o tema “Turn
und Sport” (Ginástica e Esporte). O diretor Frankenthal criticou a comissão por levar a
língua alemã ao Macabi e manifestou seu protesto pessoal em razão de tal fato. O secretário
Wolff relatou em seguida as atividades da agremiação, havendo debates sobre o caráter
sionista que deveria imperar no clube, e com a participação dos srs. Smaletz e Waltz.
Afinal, foram eleitos Frankenthal e Yampolski como fiscais.
O Clube Esportivo Israelita-Brasileiro Macabi tinha sua sede no bairro do Bom
Retiro que, na época, passava a ser o centro residencial e comercial da imigração judaica
em São Paulo. Em seguida, foi adquirida a sede campestre da rua da Coroa (próxima ao
atual Shopping Center Norte). Seu espaço passou a ser o local preferido das entidades
comunitárias para a realização de eventos culturais e comemorações das festividades
tradicionais de Lag Baomer, que na verdade é uma festividade campestre, além de outras.
Elas atraíam multidões de pessoas e, em particular, os alunos das escolas judaicas e suas
famílias, que se deliciavam à sombra das árvores do clube.
Em 24 de março de 1928, houve ali uma festiva reunião com representantes de
todas as instituições: Círculo Israelita, Agudat Israel do Braz, Agudat Achim, Cadima,
Organização Sionista e os periódicos Ídishe Folkstzaitung e Brazilianisher Idishe Presse
(Imprensa Israelita-Brasileira) . Foi realizado na ocasião um desfile com acompanhamento
musical, atividades esportivas, a encenação de uma peça sob a direção de Max Jagle e
também um baile. Além dos 80 sócios, mais 25 se inscreveram naquela noite (conforme
notícia do Idishe Folkstzaitung de 30/3/1928).
As famílias dos bairros mais afastados – Brás, Lapa, Cambuci, Ipiranga, Penha
– cujas comunidades tinham, na época, vida própria ao redor de suas sinagogas, tiveram a
partir da fundação do clube, a oportunidade de se encontrar com amigos e parentes numa
singela atmosfera de confraternização. O Clube Macabi propiciava uma amálgama
espontânea de todas as pessoas que o freqüentavam, sócios e não-sócios, que de certa forma
voltavam para “o campo ou a vida campestre” de seus lugares de origem.
Aqueles dias felizes no campo do Macabi são inesquecíveis para todos aqueles
que os vivenciaram, em especial para as crianças e os escolares da época, hoje avós de
criaturas da mesma idade, que brincavam, corriam e faziam travessuras ao redor das toalhas
estendidas no chão, sobre as quais se encontravam os sanduíches e pratos que de vez em
191

quando vinham beliscar. Quem poderá esquecer os dias ensolarados e o cair da tarde na rua
da Coroa?
Em 1939, uma comissão formada por Raphael Markman, Zvi Yatom, Max
Jagle, Rodolpho Schraiber, L. Zitman e outros, ficaria incumbida de reestruturar o Macabi,
conforme notícia veiculada no “Velt-Spiegel”(Espelho do Mundo) n.º 8, de janeiro de
1940.
Mais tarde o Macabi ficaria ligado aos destinos do Círculo Israelita, fundado
em 1928, e ao Centro da Organização Sionista, que realizaria parte de suas atividades no
clube.
O Clube Macabi destacou-se em várias modalidades esportivas e participou de
campeonatos nacionais e internacionais, revelando um bom número de atletas da
comunidade judaica. Os valorosos defensores do Macabi compareceram nas Macabíadas
Pan-americanas e Mundiais, e em torneios em países da América Latina e Israel.
Ao adquirir a área de 36.000 metros quadrados à avenida Nova Cantareira, o
Macabi já se encontrava entre os clubes tradicionais da cidade de São Paulo, e além de
esportes, também dava atenção às atividades culturais, como fizera, efetivamente, desde os
primeiros anos quando Max Jagle era o “regisseur” de um grupo dramático de língua
ídiche.
Nesse ínterim, outro clube judaico já se fazia presente na vida comunitária, mesmo assim os
“macabeus”, como sempre, mantiveram-se fiéis ao nome e patrioticamente agüentaram as
venturas e desventuras de seu clube, que acima de tudo, escreveu as páginas mais belas da
história da coletividade israelita de São Paulo.
192

25. Jose Nadelman e a história dos judeus em São Paulo

A história dos judeus em São Paulo, assim como no Brasil, apesar dos avanços
obtidos nos últimos anos com o surgimento de excelentes pesquisadores, ainda oferece um
campo amplo e fértil de trabalho aos interessados na área. Pois há o que fazer, se
considerarmos os poucos trabalhos existentes sobre as sucessivas levas imigratórias desde
os inícios do Brasil Independente, que se radicaram na grande extensão do território
nacional.
Mas o trabalho científico realizado nas instituições universitárias, e fora delas,
por historiadores que receberam seu adestramento profissional nos bancos escolares, deve
muito aos “cronistas” que intuíram a importância de se registrar eventos, acontecimentos e
pessoas. Sem os memorialistas ou cronistas, muito do que hoje sabemos ter-se-ia perdido
para sempre, uma vez que o pouco zelo para preservar arquivos institucionais e pessoais
caracterizou, em boa parte, as primeiras décadas da imigração judaica contemporânea. Isso
se explica por dois motivos fundamentais, entre outros, que são:

a) A maioria absoluta dos imigrantes era pobre e precisava concentrar sua atenção na
sobrevivência diária.
b) Poucos tinham formação suficiente para dedicar-se a criar uma instituição ou
arquivo destinado tecnicamente a esse objetivo; isso viria a ocorrer bem mais tarde,
o que não significa que não tivessem interesses culturais mais amplos, que
efetivamente se manifestou com a fundação de bibliotecas, periódicos, grupos
teatrais, ou sociedades congêneres.

Em São Paulo, desempenhou um papel decisivo como memorialista da


comunidade judia José Nadelman, um dos seus dedicados ativistas que esteve ligado à
formação de várias de suas instituições. Do mesmo modo que elas acabaram por
desaparecer, também seu nome ficou esquecido para as gerações posteriores.
Em busca de elementos para uma biografia, obtive da Chevra Kadisha de São
Paulo alguns dados pessoais a seu respeito. Pelo registro de óbito, consta que veio a falecer
em 31 de janeiro de 1948, com 66 anos de idade, e era natural da Rússia, filho de Jacob e
Anna, casado com Dvora, deixando dois filhos, Jacob e Elisa. A informação é
testemunhada por uma outra personalidade conhecida na comunidade, Francisco Teperman.
A certidão foi atestada pelo Dr. Moysés Barmack, e o corpo sepultado no Cemitério
Israelita da Vila Mariana.
Os anos de pesquisa sobre a imigração judaica no Brasil levou-me a conhecer ,
além de anotar durante minha leitura dos periódicos notícias esporádicas que aqui e acolá
podia encontrar sobre sua atuação na vida comunitária daquele tempo. Sabemos que ele
tomou parte na diretoria da Kehilat Israel, em 1913, que foi a primeira comunidade dos
imigrantes da Europa Oriental organizada em São Paulo e fundada um ano antes. Também
figurava como membro da primeira comissão diretora da Ezra, no cargo de vice-presidente,
conforme a ata de fundação, que se deu em 20 de maio de 19163521. Durante a “gripe

352
“A História da Ezra”, p. 19. Seu nome aparece também no periódico fundado por David José Perez em
1916, “A Columna”, por várias vezes, no dois anos de sua existência.
193

espanhola” de 1918, quando se transformou a sinagoga Knesset Israel em hospital, ele


também foi um dos que ajudaram no cuidado dos internados3532.
Lamentavelmente, não pudemos obter dados sobre sua vinda ao Brasil, pois
ele não figura no “Léxico dos ativistas sociais e culturais” de Henrique Iusim, cujo projeto
era preservar a memória dos veteranos da imigração judaica e do qual, a parte concernente
a S. Paulo e Rio de Janeiro, nunca chegou a ser publicada.
Porém, o seu íntimo conhecimento dos inícios da comunidade paulista se revela
na descrição que nos faz sobre o assunto em um artigo publicado no periódico “Velt-
Spiegel” (Espelho do Mundo) sob o título, “Alte um naie zichroines”, (Velhas e Novas
Recordações)354. Ele nos narra que até 1910-12, a vida comunitária não passava de um
minian (o número de 10 pessoas necessárias para o culto sinagogal) nos dias de Rosh
Hashaná e Iom Kipur. Somente em 1913 registrou-se uma “Comunidade Israelita em São
Paulo”, que adquiriu uma casa na rua da Graça, para fundar uma sinagoga (Kehilat Israel).
Também foram criadas uma biblioteca e um clube social com um círculo filodramático, que
encenava peças teatrais com amadores e artistas profissionais que passavam pela cidade.
Na mesma sinagoga funcionava uma pequena escola. Mais tarde, construiu-se
uma outra sinagoga, pois a primeira ficara pequena. Havia necessidade de alugar-se
temporariamente um salão, onde os novos imigrantes ficariam apartados dos outros, os
mais ricos, que continuaram na rua da Graça. Assim, surgiu a “Knesset Israel”, na rua
Tocantins. Ele ainda nos informará que em 1914, nos inícios da guerra, veio a São Paulo o
dramaturgo Peretz Hirshbein, devido a que um dos líderes da época, Abraham Kaufman, já
se encontrava muito doente e veio a falecer logo após 355. Ficamos sabendo pelo mesmo
artigo que o dramaturgo hospedou-se na casa de Isaac Tabacow, à rua Três Rios 55, e todas
as noites ele era visitado por pessoas da comunidade, enquanto, durante o dia, percorria a
cidade. Deu duas conferências em São Paulo, uma das quais no Teatro Lira, no Largo
Paissandú. Quando deixou o Brasil, a caminho de Nova York, seu navio foi afundado por
um cruzador alemão. Ele foi salvo, com os demais passageiros, e levado para o Pará, de
onde seguiu viagem.
Nadelman ainda nos dará outros detalhes sobre o desenvolvimento da
comunidade nos anos seguintes. Sua atuação na Ezra foi duradoura e, na assembléia de 31
de agosto de 1930, ele seria eleito presidente, tomando parte posteriormente em várias
diretorias. Sua fidelidade a essa entidade de ajuda ao imigrante o levou a ser seu porta-voz,
enviando à imprensa local notícias sobre o que se passava na mesma356. Nadelman era
considerado uma pessoa culta para os imigrantes da época, e o historiador Isaac Raizman,
em sua obra “Vinte e cinco anos de imprensa judaica no Brasil” 357, confirma que ele era

353
Id., p. 35.
354
. “Velt-Spiegel”, nº 12, agosto, 1940, p. 16.
355
Peretz Hirshbein escreveria uma narrativa em seu livro “Fun Vaite Lender” (De terras longínquas) sobre a
morte de Abraham Kaufman.
356
Em artigo publicado no “San Pauler Idische Tzeitung”, de 21 de outubro de 1937, ele se refere, em um
artigo sob o título de “Di Ezra farzamlung” (A assembléia da Ezra), à disputa para a presidência entre José
Teperman e Benjamin Kulikovsky.
357
. “A Fertl-Iorhundert Idische Presse in Brazil”, ed. Muzeum le-Omanut há-Dfus, Safed, p. 150.
194

oriundo da Bessarábia e que emigrara aos Estados Unidos e passou a viver em Nova York,
trabalhando como cortador em uma oficina de roupas.
Encontramos Nadelman atuando em outro momento importante da vida judaica
na capital paulista ao participar da fundação, e servir como redator, do jornal “San Pauler
Idishe Tzaitung” (Gazeta Israelita de São Paulo), juntamente com Marcos Frankenthal, que
era seu diretor, e Elias Amstein, que ocupou o cargo de administrador do jornal. Sua
dedicação ao novo periódico, desde que começou a sair, em 22 de outubro de 1931, como
semanário, foi exemplar. Já em 1933, saía duas vezes por semana, e no final do mesmo ano,
quando Raizman passou a ser seu redator, devido à saída de Nadelman, o jornal já era
publicado três vezes por semana358.
Apesar do seu afastamento, Nadelman chegou a publicar alguns artigos, dentre
eles um necrológio de valor histórico sobre a pessoa de Isaac Tabacow por ocasião de dez
anos de seu falecimento, que ocorreu em 6 de julho de 1930. Aqui, temos mais um texto,
curto, mas rico de informações, com o qual o notável memorialista nos agracia ao descrever
a trajetória de vida daquela figura ímpar que foi Isaac Tabacow359. Porém, a maior
contribuição que Nadelman deu aos historiadores da imigração judaica de São Paulo foi a
“Gueshichte fun Ezra, 1916-1941” (História da Ezra), editada pela tipografia Frankenthal
em 1941, e com ela conseguiu salvar do esquecimento os primórdios da imigração israelita
em nosso Estado360. Porém, considerando o que vimos mais acima perceberemos que
Nadelman estava imbuído da importância de registrar a memória da imigração e era, de
fato, o homem talhado para escrever essa história.
A “História da Ezra” contém bem mais do que a história da instituição que teve
um papel decisivo e vital na ajuda e amparo aos que aportavam em busca de um novo
destino e um novo lar. Em suas 174 páginas, além das ilustrações, o nosso cronista retrata a
formação das primeiras organizações comunitárias e os passos gradativos que a
comunidade foi dando para atender a suas necessidades religiosas, econômicas, sociais e
culturais. Desfilam nesse livro os nomes das primeiras famílias de imigrantes da Europa
Oriental que serviram de alicerce às instituições que surgiram naqueles anos.

358
O “San Pauler Idische Tzeitung” continuou existindo, apesar das suas freqüentes mudanças em sua
redação, na qual se sucederam Salomão Steinberg, Elias Lipiner, Nelson Weiner, além de vários outros, e o
próprio Frankenthal. O jornal encerrou suas atividades no ano de 1941, por ocasião da proibição de
publicação de periódicos em língua estrangeira pelo governo Vargas.
359
. “San Pauler Idische Tzeitung”, 26 de julho de 1940. Nadelman relata que Isaac Tabacow veio pela
primeira vez ao Brasil em 1890, e aqui permaneceu por cinco anos, voltando ao seu país de origem, onde se
casou com Olga Tabacow, para voltar pela segunda vez em 1897. Ele teve que vender em Hamburgo os
presentes de casamento que ganhara para comprar as passagens. Ao desembarcar em Santos, com fome,
entraram em um restaurante português e quiseram deixar um sobretudo, e o dono acabou por lhe emprestar 40
mil réis. Em São Paulo, viajaram com alguma mercadoria ao interior, chegando a Franca, onde alugaram um
enorme estabelecimento, com um aluguel de 30 mil réis ao mês. Eram os únicos judeus da zona da Mogiana.
Em 1909, ele, sua esposa e dois filhos vieram morar em São Paulo. Os anos de 1909-1914 foram os de maior
imigração, nesse período que antecede a Primeira Guerra Mundial. Esses imigrantes, em sua maioria, vinham
da Bessarábia e a casa de Isaac os acolhia. Na prática, o ponto de referência dos imigrantes era a rua dos
Imigrantes 147, onde ficava a loja de Isaac Tabacow.
360
A idéia de elaborar a “História da Ezra” foi de Elias Amstein, um dos ativistas que participaram de sua
fundação, como parte dos eventos relativos à intenção de comemorar os 25 anos de existência da instituição,
que deveria: a) publicar um livro sobre a atuação da Ezra durante esse quarto de século; b) organizar um
banquete para a comunidade judaica (que, de fato, se realizou em 6 de julho de 1941) e cujo encerramento
seria um grande baile, bem adequado à vida social da época.
195

Quais foram as fontes das quais seu trabalho se serviu? Ele mesmo nos reporta
em um “esclarecimento importante”, que consta no livro, revelando as dificuldades com as
quais se deparou para realizar o seu intento: “os nomes, os documentos, datas e cifras
relativos à evolução histórica da comunidade judaica no Brasil em geral, e em particular em
São Paulo, nós os colhemos no arquivo da Ezra. Sabemos que nosso trabalho não está
completo, e com certeza omitimos fatos e acontecimentos, e é bem possível que muitos
participantes no desenvolvimento da comunidade não tenham sido, lamentavelmente,
lembrados. Mas isso é possível entender pelo fato de não existir em São Paulo nenhum
outro arquivo, com exceção do da Ezra, o qual, lamentavelmente, não foi bem cuidado em
seus primeiros anos de existência. E outras fontes que nos dessem maiores detalhes não
conseguimos encontrar. Sendo assim, certamente a comunidade nos desculpará” 361.
A verdade é que Nadelman, além do arquivo da Ezra, que se encontra hoje em
dia no Arquivo Histórico Judaico Brasileiro, pôde consultar e entrevistar boa parte dos
primeiros imigrantes judeus de São Paulo, ainda que alguns desses pioneiros já tivessem
falecido, tais como Isaac Tabacow e Maurício Klabin 36211. Mas o sucesso do seu trabalho se
deve à vivência pessoal e participação na vida comunitária, que lhe deu um conhecimento
íntimo da história que pretendeu narrar e o fez com honestidade e humildade, pois quase
nada falou de si mesmo e de sua atuação.
Poucos anos antes, em 1938, ele criticava, em artigo sob o título “Di Kultur
Konferenz”, publicado no San Pauler Idische Tzeitung, o representante do Brasil no
Congresso Mundial de Cultura Judaica, realizado em Paris de 17 a 21 de setembro de 1937,
que havia relatado inverdades sobre a comunidade brasileira, corrigindo-o e demonstrando
assim o quanto a conhecia36312. Em 1946, encontramos José Nadelman como secretário
administrativo do Lar dos Velhos de São Paulo, ocasião em que se lhe prestou uma
homenagem ao completar 65 anos de idade. Naquele evento o escritor Menashe Halpern
sugeriu que se plantassem árvores no Yaar Herzl, em Jerusalém, em seu nome36413. Tratava-
se de uma justa homenagem a uma pessoa que fizera muito pelo judaismo paulista ao
mesmo tempo que soube bem avaliar a importância da preservação de sua memória.

361
. “Gueshichte fun Ezra”, nota introdutória.
362
. Porém, veteranos das primeiras instituições puderam dar informações preciosas ao seu auxiliar Nelson
Weiner, um jovem jornalista que, por conhecer bem o português, tomou parte no projeto. Ele entrevistou
médicos e profissionais que não eram judeus, porém tinham atuado junto à Ezra e seu sanatório em São José
dos Campos, além de outras instituições comunitárias. Entre eles estavam os Drs. Jorge Zarur, Otávio Del
Nero, Oscar Tollens, Luís do Rego, Ribeiro da Luz, Caio Machado, Antonio Cândido Camargo, além do
professor Clemente Ferreira e do advogado Cristiano da Luz, do Departamento de Agricultura e Imigração.
Na época da publicação da “História da Ezra”, já havia falecido uma das personalidades benfeitoras da
comunidade judaica de São Paulo e que prestara serviços extraordinários como médico e diretor do hospital
Santa Catarina, o Dr. Walter Seng. Lembrado no livro em vários momentos da história da imigração, é a
quem José Nadelman homenageia com profundo sentimento de gratidão.
363

364
196

26. Uma colonização judaica no interior de São Paulo

Há alguns anos, encontrei um necrológio na revista Aonde Vamos? , n.152, de 14de março
de 1946, noticiando o falecimento de uma senhora que teria vivido em uma colônia no
interior de São Paulo denominada Nova Odessa. Tratava-se de Cecilia Karacik, viuva de
Jorge Karacik, um dos primeiros colonos judeus contratados pelo governo brasileiro para
uma colonização no interior do Estado de São Paulo. A notícia de falecimento ainda
informava que deixara os filhos Anita, casada com Estanislau Cherques, Dr. Raul e Dr.
Manoel Karacik. A notícia despertou certa curiosidade, pois, através de uma comunicação
feita em um congresso de história, realizado em 1980 na cidade de Franca 365, sabia que este
núcleo era formado por imigrantes russos. Nesse ínterim, outras leituras, não diretamente
relacionadas ao tema, fortificaram minha convicção de que o assunto deveria merecer uma
atenção maior, a fim de se constatar quais seriam esses imigrantes e sua origem. Passados
muitos anos, a idéia de proceder a uma verificação no arquivo do Museu da Imigração, me
levou a encontrar, para minha surpresa, uma longa lista de imigrantes judeus, que em levas
sucessivas, desde o ano de 1905 à 1906, se dirigem, não somente à colônia Nova Odessa,
mas a outras duas denominadas respectivamente Corumbatahy-Colônia Jorge Tibiriçá, na
região de Rio Claro, fundada em 1905 e Funil- Colônia Campos Salles, na região de
Campinas, fundada em 1897366.
Sabemos pela história contemporânea dos judeus, do surgimento, na Rússia Czarista do
século passado, de uma sociedade denominada Am Olam (O povo eterno), que tinha como
finalidade a formação de colônias agrícolas judaicas nos Estados Unidos. A sociedade
tomou seu nome do título de um ensaio, escrito em hebraico, do destacado escritor do
Iluminismo judaico da Europa oriental, Peretz Smolenskin. A sociedade foi fundada em
1881, no mesmo ano do assassinato de Alexandre II que resultou em diversos ataques aos
judeus, e no início da grande emigração de judeus russos em direção ao ocidente. Seus
líderes Monye Bokal e Moisés Herder, ambos residentes em Odessa, eram idealistas e
aspiravam a colonização, sob a forma de comunas socialistas, dos judeus na América. Ao
mesmo tempo, que o movimento dos Biluim se voltava para um projeto de colonização
judaica na Palestina, com um programa nacionalista de voltar à terra de seus antepassados,
o Am Olam enviava, na primavera de 1881, um contingente de 70 profissionais, artesãos e
estudantes oriundos de Yelizavetgrad para a América, ao qual se sucederam novos grupos
entre 1881-1882, com centenas de pessoas das cidades de Kiev, Kremenchug, Vilna e
Odessa.367 Muitos dos imigrantes permaneceram em Nova York, mas assim mesmo
365
El Murr, V. Namestnikov, A escassez de fontes para o estudo da imigração russa em São Paulo, in
Memória da II Semana da História, 24-28 de outubro, 1980, UNESP, Franca, pp.387-397.
366
No livro Impressões do Brazil no Século Vinte, “impresso na Inglaterra para circular nos Estados Unidos
do Brazil e outros paízes estrangeiros”, Lloyd’s Greater Britain Publishing Company, Ltd., London, 1913,
p.199, encontramos um relato que faz referência às colônias “que ainda se acham sob a administração do
Estado: “Campos Salles “, a 54kms. Da cidade de Campinas, servido pela E.F. Funilense, fundado em 1897
com 20 famílias suissas e alemãs, hoje dividido em 234 lotes e povoado por mais de 1200 pessôas, que se
dedicam ao cultivo dos cereaes, canna de assucar, algodão batatas, mandioca, vinhas, legumes, etc.; “Jorge
Tibiriçá” , a 28 kms. Da cidade de Rio Claro, pela E.F. Paulista, fundado em 1905, dividido em 136 lotes
ruares, colonisados pelo sistema de meyação; “Nova Odessa”, assim chamado por só receber colonos russos,
a 31 kms. Da cidade de Campinas, servido pela E.F. Paulista, fundado em 1904 (sic) e dividido em 93 lotes,
em que se cultivam cereaes, batatas, mandioca, etc....”
367
V. Encyclopaedia Judaica, Keter Pub. House, Jerusalém, 1971, vol. 2, pp.861-2. Conforme Menes, A. ,
The Am Oylom Movement, in YIVO Annual of Jewish Social Science, Yiddish Scientific Institute, New
197

chegaram a criar quatro colônias, na Louisiana, no sul da Dakota e a mais duradoura, de


caráter socialista, fundada perto de Portland, no Oregon, em 1882, liderada por Pavel
Kaplan e William Frey com o nome de New Odessa, que resistiu até 1887, quando por
dissensões internas e desmoralização acabou desagregando-se. Ainda que houvesse um
esforço de Kaplan dar continuidade ao empreendimento, em forma de comunas urbanas, já
em 1890 elas haviam se dispersado. Parte de seus membros, de alto nível intelectual, e
imbuídos de sua missão ideológica, tiveram um papel importante nos meios socialistas de
Nova York. Esse mesmo elemento humano também ingressou na vida intelectual daquela
cidade e alguns de seus membros participaram na formação do teatro iídiche em solo
americano.368
Mas, apesar da coincidência do nome Nova Odessa, não temos, até o momento, a
possibilidade de estabelecer que a imigração vinda da Rússia ao Brasil a partir de 1905 seja
um desdobramento do movimento iniciado pelo Am Olam em seu tempo, ou então que seu
vínculo consiste apenas na lembrança de um nome ligado a uma iniciativa que houve no
passado. A verdade é que os anos de reinado do czar Alexandre III, sucessor de Alexandre
II assassinado em 1881, se destacam como um dos períodos de maior perseguição anti-
judaica na Rússia. Os ataques aos judeus se sucedem dos anos 80 ao início dos 90,
acompanhados de novas leis restritivas àquelas já existentes anteriormente, decorrentes,
também, do fato dos estudantes judeus serem identificados com o jovem movimento
revolucionário, que nesse momento já se define como socialista-marxista, sendo alvo de
ataques cruéis e violentos que visam silenciá-lo, momentaneamente.
Nessa última década do século XIX, intensificou-se a grande emigração de judeus em
direção ao ocidente e às Américas, sem qualquer interrupção, uma vez que a ascensão do
czar Nicolau II, em 1894, não modificou a postura do governo em relação aos judeus. A
partir daqueles anos, muitos dos judeus da Rússia, estabeleceram-se nos países da Europa
Central e Ocidental, assim como na Inglaterra. A preocupação das comunidades judias,
tradicionais nos países que estavam recebendo uma enorme leva de judeus do leste europeu,
levou a criação de instituições de ajuda e planos de colonização para outras regiões que
demandassem mão de obra agrícola. A fundação da Jewish Colonization Association, em
1891, por inicíativa do Barão Hirsch, e outros magnatas da época, tinha como motivo
central a tentativa de encontrar uma solução para estes problemas. De fato quando a JCA
adquire terras no Rio Grande do Sul para estabelecer colônia judias com judeus oriundos da
Rússia, começando por Philipson, em 1904, o Governo de São Paulo, com novo ímpeto
também projeta a vinda de “russos”, em 1905, para renovar e criar novas colônias no
interior do Estado.
Creio que a imigração ao Brasil, entre 1905 e 1906, está diretamente associada, e tem como
causa, o fundo histórico lembrado acima acrescido da onda de pogroms deliberadamente

York, 1949, vol. IV, pp. 9-33, o primeiro grupo se organizou em Odessa logo após os pogroms de 3 a 5 de
maio de 1881 que ocorreram naquela cidade. Manes trás elementos que permite aventar a hipótese que o Am
Olam acreditava ser possível criar um estado Judeu nos Estados Unidos. V. também Frankel, J., The Roots of
“Jewish Socialism” (1881-1892): From “Populism” to “Cosmopolitanism” in Essencial Papers on Jews and
the Left, ed. Ezra Mendelsohn, New York University Press, New York-London, 1997, pp. 58-77.
368
V. Gorin ,B., Di geschichte fun idichen theater, Max N. Meisel, New York, 1918-1923, vol.II, pp. 10-11.
Gorin relata que os membros do Am Olam, ainda na Rússia , usavam os espetáculos teatrais para levantarem
fundos para o movimento, e que na medida em que passaram a viver na cidade de Nova York, como
trabalhadores das oficinas e dos sweatshops, revelavam seus talentos em momentos de descontração e
cantoria nos próprios locais de trabalho.
198

orquestrada pelo governo russo, devido ao seu fracasso na guerra contra o Japão, em 1904-
5, e à eclosão da revolução do ano de 1905, decorrente, assim como estimulada pelas
derrotas militares. Logo após abril de 1905, quando, entre outros lugares, se deu o pogrom
de Zhitomir, com trágico resultado para a comunidade judaica local, 369 chegariam ao Brasil
os primeiros judeus da Rússia para a nova colônia da Estação Vila Americana - Núcleo
Nova Odessa. 370 Oficialmente a colônia foi fundada pelo decreto 1286 de 24 de maio de
1905, baseado , no artigo 2 do decreto do Presidente do Estado de São Paulo, número 751,
de 15 de março de 1900. No artigo 1 deste decreto consta: “Fica creada na fazenda
“Pombal”, de propriedade do Estado, o Núcleo Colonial Nova Odessa, o qual poderá ser
exclusivamente destinado para localização de imigrantes russos, agricultores e constituídos
em famílias.” Na verdade o núcleo foi estabelecido em terras particulares compradas pelo
Governo, e alargado com a aquisição,ainda em março daquele ano, de uma fazenda anexa,
fazenda Pombal, situada à margem da Estrada de Ferro Paulista, e com terras adicionais
pertencentes a antiga fazenda Velha.371
Um levantamento dos nomes das famílias que chegaram, mostra que as primeiras levas de
colonos, em sua quase totalidade, eram formadas por judeus e que somente à partir do final
de 1905, isto é, dos últimos dias de dezembro daquele ano, começaram a chegar alemães,
austríacos, russos-letos, que professavam outras religiões. A colônia Funil-Campos Salles,
criada anteriormente, em 1897, teve como seus fundadores elemento humano não-judaico, e
segundo o Relatório da Secretaria da Agricultura, de 1903, encontravam-se no núcleo, entre
outras nacionalidades, 30 russos.372 Mas, em 1905, Corumbatahy-Colônia Jorge Tibiriçá e
Nova Odessa recebem os imigrantes judeus que chegam nos navios da Royal Mail Steam
Packet Company, especialmente contratada, em 3 de abril de 1905, pelo Governo do
Estado para trazer da Rússia, via Inglaterra, tais colonos. O fretamento dos navios, que
saem em sua absoluta maioria de Southampton e excepcionalmente de Cherbourg, com um
grande número de imigrantes que serão posteriormente levados às colônias, e também à
Capital, nos leva a crer que o governo do Estado, através de seus agentes, tinha ciência da
precária situação em que se encontravam os judeus da Rússia, situação esta que os impelia
à emigrar em direção ao ocidente na tentativa de se estabelecerem, sem que, em sua maioria
tivessem possibilidades de serem bem sucedidos, uma vez que não eram bem-vindos, seja
na Alemanha, Inglaterra ou outros lugares.373
O núcleo Dr. Jorge Tibiriçá foi criado pelo contrato datado de 25 de março de 1905,
estabelecido com a Companhia Pequena Propriedade, da qual o governo adquiriu a metade

369
Sobre esse pogrom, entre outras fontes, temos uma descrição fidedigna do líder do Bund Beinisch
Michalewich, no livro Beinisch Michalewich-Buch, ed.Kultur un Hilf u. n. Arthur Siguelbaum, Buenos
Aires, 1951, pp. 281-87.
370
Livro de Matricula de Imigrantes, no. 74, pp. 81-82, Arquivo do Museu do Imigrante, São Paulo. Os
imigrantes vieram com o navio “Magdalena” e deram entrada na Hospedaria dos Imigrantes em 8-9 de maio
de 1905.
371
Relatório da Secretaria da Agricultura de São Paulo de 1905 - AE, pp. 142-3. Vide o Apêndice “Decreto
N. 1286 de 24 de maio de 1905” que especifica os artigos referentes ao Núcleo Nova Odessa, seu
planejamento econômico-agrícola e demais detalhes.
372
Relatório da Secretaria da Agricultura de são Paulo de 1903 - AE, pp.76-78. O núcleo estava composto de
brasileiros, alemães, franceses ,austríacos, italianos, suíços, suecos, portugueses e outros, num total de 892
colonos.
373
A sucessão dos navios com suas datas de chegada bem como a lista dos passageiros encontra-se no anexo a
este estudo intitulado “Lista dos Imigrantes Judeus nas Colônias do Interior de São Paulo e na cidade de São
Paulo”.
199

das terras da fazenda “São José do Corumbatahy”, com o propósito de retalhá-la


conjuntamente, com a outra metade, que ficou pertencendo àquela empresa. Pelo decreto
1320 de 30 de setembro de 1905, foram estabelecidas as condições para a concessão dos
lotes pertencentes ao governo. Por outro decreto, o de numero 1300 de 22 de agosto, foram
anexadas terras doadas pela Arthur Nogueira & Comp. para a colonização em Campos
Salles 374 . O núcleo Jorge Tibiriçá adotou um sistema diverso ao de Nova Odessa, isto é, o
da parceria entre o governo e o proprietário das terras. O Estado pagou a metade das terras
de propriedade particular, dividindo-a em lotes que foram distribuídos, alternadamente,
entre o governo e o outro proprietário. 375
Podemos identificar na criação dos novos núcleos, neste ano de 1905, uma renovação da
política governamental de colonização e a abertura à imigração, após um período de
estagnação que vai de 1897 a 1904, ano em que é retomado o ímpeto para encetar um novo
processo de colonização, mesmo porque, a demanda de mão de obra se fazia sentir na
economia paulista, a começar da área agrícola cafeeira. No Relatório da Secretaria da
Agricultura do ano de 1904 se nota que “o serviço de colonização está iniciado com a
aquisição, para serem divididas em lotes, de duas fazendas, ambas à margem da Estrada de
Ferro Paulista, uma exclusivamente do governo e outra por meação ou parceria com seu
antigo proprietário... É apenas um início, no qual se está, por assim dizer fazendo o ensaio
de novos moldes para a adoção de um plano de ação, mediante o qual se obtenham
resultados mais prontos e seguros”.376 Além do mais, criava-se um fundo para a
colonização, que deveria prover recursos financeiros para a retomada da política
governamental de facilitar a vinda de imigrantes. Ao mesmo tempo, instituiu-se um
Comissariado do Estado de São Paulo em Antuérpia, para a fiscalização dessa imigração e
para propagar o seu desenvolvimento.377
Quando, a partir de maio de 1905, os imigrantes começaram a chegar, eles puderam optar
em se dirigir a um dos três núcleos coloniais assim como também para a capital do Estado.
Pelo levantamento que fizemos das listas de passageiros judeus, que vieram neste ano até
os inícios de 1906, incluindo-se as mulheres e as crianças, temos a seguinte distribuição:
Nova Odessa - 82; Corumbatahy-Dr. Jorge Tibiriçá - 244; Campos Salles – 155; Capital e
Porto Zootechnico – 223, além de outros 20 que se dirigiram para o Rio Grande do Sul,
perfazendo o total de 723 almas. Os navios da Royal Mail Steam Packet Comp.
transportaram-nos nas seguintes datas: Magdalena, 8-9/5/1905; Aragon, 2/8/1905; Danube,
30/8/1905; Clyde, 17/11/1905; Magdalena, 21/12/1905; Thames, 27/12/1905; Clyde,
18/1/1906; Nile, 1/2/1906. As duas maiores levas de imigrantes vieram em 2/8/1905
(Aragon) e 30/8/1905 (Danube). É interessante notar que parte dos filhos dos imigrantes
vinham com a cidadania inglesa, indicando que muitas dessas famílias já se encontravam na
Inglaterra há vários anos, isto é, desde o século passado. Por outro lado devemos observar
que o número de imigrantes pode ser maior pois na listas de nomes que constam na Folha

374
Relatório da Secretaria da Agricultura de São Paulo de 1905 - AE, p.126.
375
Relatório da Secretaria da Agricultura de São Paulo de 1907- AE, pp. XXIV-V. Neste relatório se informa
sobre o restabelecimento da administração do velho núcleo de Campos Salles núcleo, que, sob esse aspecto,
devia estar abandonado. O esforço do Governo do Estado se manifesta nas “Instruções para a localização de
imigrantes nos núcleos coloniais Nova Odessa e Jorge Tibiriçá” de 30 de setembro de 1905. Vide Apêndice
com este título.
376
Relatório da Secretaria da Agricultura de São Paulo de 1904 – AE, p.131.
377
Relatório da Secretaria da Agricultura de São Paulo de l907 - AE, pp. XXIV-V.
200

de Pagamento, de agosto e outubro de 1905 da colônia Nova Odessa, 378 aparecem nomes
que não constam nos Livros de Matricula de Imigrantes, pelo fato de serem registrados
somente os que se abrigavam na Hospedaria dos Imigrantes.
Porém, já no Relatório da Secretaria da Agricultura de 1905, publicado no ano seguinte, ao
se referir à Nova Odessa, encontramos expresso que “os primeiros imigrantes localizados
nesse núcleo não provaram bem. Eram das primeiras levas de imigrantes russos que não
dispunham de verdadeira aptidão para a lavoura (g.n...” 379 O mesmo ainda dirá que “
corrigidos os defeitos de angariamento dos primeiros imigrantes vindos com destino a esse
núcleo, as levas que foram chegando no corrente ano [de 1906] garantiram logo o rápido
povoamento do núcleo, que vai já bastante adiantado.” E no relatório da mesma secretaria
do ano de 1906 lemos que “com a vinda dos imigrantes russos-letos, que começaram a
chegar em junho, pode-se considerar iniciada a fase de definitivo povoamento do núcleo.
Estes imigrantes, todos camponeses, mostraram , desde o primeiro dia, a maior ansiedade
por voltarem à vida rural que haviam deixado em sua pátria. Mostram o maior interesse em
se instalarem bem e de modo definitivo.” 380 De fato, segundo os Livros de Matricula de
Imigrantes, correspondentes aos anos de 1906 e 1907, chegariam à Nova Odessa as famílias
de russos-letos, assim como alemães, austríacos e poloneses, além de russos-letos, em
Curumbatahy-Jorge Tibiriçá.381
Na documentação referente às colônias constatamos que a partir de junho de 1906 há uma
grande quantidade de solicitações de lotes de parte de russos-letos, lotes estes que
pertenceram antes aos primeiros colonos judeus. Assim, vemos uma solicitação de Carlos
Butkus, russo-leto, procedente de S. Catarina, recém-chegado, em cujo processo lemos que
“este lote já foi concedido a Abraham Aarons que o abandonou em 6 de junho do corrente
ano, e veio para São Paulo declarando ao Diretor do Núcleo não mais voltar por ser
negociante”382. Entre os russos-letos que vieram diretamente aos núcleos encontramos
aqueles que estiveram anteriormente em Santa Catarina, entre eles, Carlos Triemer,
originário de Novgorod, que solicita lote em Nova Odessa, e que era residente em
Massaranduba, Santa Catarina.383 Do mesmo modo, o intérprete da Agencia Oficial, Julio
Malves, pede para reservar três lotes para os seus parentes que se acham em Santa
Catarina.384
O abandono dos imigrantes judeus se deu em curto espaço de tempo, pois não estavam
habituados ao trabalho agrícola, e mesmo aqueles que eram agricultores na Rússia não
conseguiram se adaptar às condições que deveriam enfrentar nas colônias brasileiras.
Talvez, boa parte dos que declararam ao imigrarem que eram agricultores, de fato, não o

378
Documentação do Núcleo Nova Odessa, caixa 46, ordem 7197.
379
Relatório da secretaria da Agricultura de São Paulo de 1905 - AE, p.143.
380
Relatório da Secretaria da Agricultura de São Paulo de 1906 - AE, p.193.
15 Livros de Matricula de Imigrantes- IMI, 77, pp.38-42; 78, pp.101,125, 156, 208,247; 79, p.19.
382
Documentação do Núcleo Colonial Nova Odessa, 1906, caixa 46, ordem 7197, proc. No. 4, 8de setembro
de 1906 – AE.
383
Documentação do Núcleo Nova Odessa, caixa 46, ordem 7197, proc. no. 16, junho de 1906.
384
Documentação do Núcleo Nova Odessa, caixa 46, ordem 7197, proc. no. 29, 23 de setembro de 1906. É
curiosa a argumentação apresentada para esse pedido:”... quase todos me perguntam porque eu não tenho
chamado a minha gente para São Paulo e desconfiam o fato pensando que nós não temos intenção de comprar
terra em São Paulo e que nós se não voltamos para Rússia, vamos para a Argentina, onde eu tenho muito
conhecimento e alguns conhecidos. Se nós tiver aqui terra os imigrantes tinham muito mais confiança para
este país. E nós preferimos muito mais o Estado de São Paulo como a Republica Argentina...” Fiz a
transcrição do português exatamente como foi redigido no documento.
201

eram, o que pode ser verificado numa leitura das listas dos passageiros aos quais as
autoridades portuárias parecem atribuir aleatoriamente certas qualificações profissionais
sem que se as possa comprovar. Às dificuldades naturais do trabalho agrícola, associavam-
se os imprevistos climáticos como podemos verificar no relato do responsável pelo núcleo
Nova Odessa, Candido Albuquerque: “As chuvas tem concorrido também para impedir os
trabalhos assalariados por conta do núcleo, o que tem feito com que muito reduzida é a
quantia que cada colono recebe no fim do mês para a subsistência da família”. Outros
fatores também se associariam para provocar demandas e causar decepções, como as
ocorrências freqüentes de extravio de bagagem, como no caso de Shaia Hassik, sobre o
qual se relata ter feito “gravíssimas ameaças “ por estar sofrendo privações e grandes
prejuízos com a demora em receber suas bagagens, queixando-se contra o governo, que,
conforme ele próprio, propositalmente procura prejudicá-lo...”385 Pelo visto, ele não era o
único a reclamar, pois no despacho do mesmo processo, o funcionário responsável pelo
núcleo diz ter seguido para lá e tomado as providencias que o caso reclamava, “chamando a
ordem os turbulentos, explicando as causas da demora das bagagens reclamadas, fazendo o
pagamento dos dois meses passados e procurando satisfazer a alguns descontentes por
motivos privados, devido em parte a falta de conhecimento de nosso clima e sistema de
lavoura”. Contudo, é interessante observar que, ainda em inícios de 1906, alguns imigrantes
judeus, que de início se dirigiram à Capital, solicitaram lotes em Nova Odessa com a
intenção de lá se estabelecerem como colonos. Porém, são casos isolados.386 Outros
demonstraram sua intenção de trabalharem em suas profissões, como no caso de Marck
Schwarzman, concessionário do lote 31, que pede autorização para montar uma pequena
tenda de ferreiro junto a sua casa, ou no um lugar que mais convier à administração do
núcleo. Nas listas dos assalariados do núcleo encontramos vários imigrantes judeus
exercendo tarefas de toda ordem, vinculadas diretamente à administração de serviços de
atendimento aos colonos. 387
Certamente, a não adaptação dos colonos judeus naquelas colônias levou a um processo de
abandono dos lotes que haviam adquirido, e seu conseqüente exôdo para os centros urbanos
daquela região, bem como para São Paulo, cidade que havia recebido parte da mesma leva
imigratória do ano de 1905, e assim como para outros Estados do país. Os núcleos
populacionais judaicos de Rio Claro, de Limeira, Campinas, São Paulo, receberiam
imigrantes egressos daquelas colônias, como podemos verificar pela trajetória particular da
família de Benjamim Golovaty, que de Corumbatahy-Jorge Tibiriçá acabaria por se

385
Documentação do Núcleo Nova Odessa, caixa 46, ordem 7197, proc. No. 17, de 11 de março de 1906, em
nome do funcionário do Núcleo, Candido de Albuquerque - AE. Shaia Hassik havia solicitado novo lote
devido sua família ser composta por 6 pessoas, mas retiraria seu pedido por “não se sujeitar a pagar a casa
pelo seu preço, dizendo que se retirava do lote, digo do Núcleo, logo que termina a colheita dos cereais que
plantou, isto é, dentro de 30 dias mais ou menos”. Documentação do Núcleo Nova Odessa, caixa 46, ordem
7197, proc. No. 27, de 25 de maio de 1906.
386
Documentação do Núcleo Nova Odessa, caixa 46, ordem 7197, proc. No. 28, Simon Lerman de 9 de
janeiro de 1906; caixa 47, ordem 7198, proc. No. 15, Marck Shwarzman; proc. No. 16, Mendel Bendewsky;
proc. No. 17, Marck Pipman, todos de 8 de janeiro de 1906 e que tinham imigrado para a Capital. Mais tarde
encontramos que o lote 31 de Nova Odessa passará, a Johan Mastbracher, um russo-leto, que o solicitou em
22 de setembro de 1906, lote este “ocupado anteriormente por Marck Pipman que o abandonou há mais de
seis meses...” . Doc. do Núcleo Nova Odessa , caixa 47, ordem 7198, proc. No. 10, Johan Mastbracher de 22
de setembro de 1906.
387
Documentos do Núcleo Nova Odessa, caixa no. 46, ordem 7197, no. 1A.. ano 1906.
202

estabelecer em Rio Claro, vindo, mais tarde, seus descendentes à viver em São Paulo. 388 A
figura de Benjamim Golovaty é um exemplo comovente dessa imigração, que em sua
maioria absoluta aportou em Santos no decorrer do ano 1905, vindos da Rússia via
Inglaterra. Ele chegou com sua família no navio Danube, que saíra de Cherbourg, e entrou
em Santos em 30 de agosto de 1905, ficando hospedado na Hospedaria dos Imigrantes de
São Paulo, para ser encaminhado à colônia Jorge Tibiriçá.389 Pelo processo de 9 de agosto
de 1906, no qual ele pede permutar seu lote 68 por outro, de número 54, que pertencera a
Jacob Viener , sabemos que ele fora diretamente àquele Núcleo.390 Sua solicitação é
justificada pela dificuldade de ir ao local de trabalho naquele lote, por se encontrar muito
afastado, o que dificulta aos seus filhos, que são pequenos, chegarem até lá e ajudarem-no
no trabalho. Além do mais, ele pedia para morar ainda mais um ano na casa do Governo. O
pedido foi indeferido porque no parecer dos administradores Golovaty queria usufruir, com
a troca, o desconto que havia sido dado ao ex-proprietário do lote 54. No parecer do
secretário da agricultura, a razão para o indeferimento se prende ao fato “de nem um e nem
outro dos interessados ter sequer iniciado suas residências nos lotes, tendo ambos se
contentado em usufruir os favores do governo sem nada [...] no sentido da localização”. Ele
acrescentará em nota final, que dá margem a várias interpretações, que “a seção parece
ignorar a que se destina as casas da colônia, por quanto[ ...] sejam guardadas pela simples
habitação de vadios e especuladores (g.n.)”
Em 16 de outubro de 1906 Benjamim Golovaty escreveria uma carta ao Secretario da
Agricultura, Dr. Carlos Botelho, na qual relata sua odisséia pessoal como colono e que ao
meu ver é um documento notável pelo seu conteúdo, que além de revelar o que se passou
com os colonos judeus, aponta a imensa gratidão ao governo brasileiro por tê-los trazido ao
país:
“Núcleo Colonial “Jorge Tibiriçá” Seção Ferraz
Ilmo. Exmo. Sr. Dr. Carlos Botelho
DD. Secretário da Agricultura

Eu, abaixo assinado colono russo residente na seção Ferraz a um ano e meio, venho por
meio desta a presença de V.Excia. esclarecer o seguinte: Fui eu um dos primeiros colonos
que cheguei a Ferraz com quarenta famílias mais ou menos, 391 as quais fugiram, restando
apenas duas, sendo eu e Luiz Tamb.
Por infelicidade no ano passado não pude fazer plantação, devido ter ficado a minha família
toda doente e em estado grave. Lutei com todas as dificuldades, e afinal triunfei, achando-
se atualmente toda a minha família restabelecida, e gozando perfeita saúde. Durante este
período de um e meio ano, tive ocasião de estudar de perto este lugar, e fiquei satisfeito
388
Devo agradecer à D. Anna e seu filho Maurício Golovaty por esta informação sobre seu antepassado
Benjamim Golovaty. Maurício também doou gentilmente documentos relativos à sua família ao Arquivo
Histórico Judaico Brasileiro, enriquecendo desse modo o acervo existente em nossa instituição.
389
No registro do Livro de Matricula do Imigrante sua profissão consta como sendo alfaiate, e tendo 40 anos
de idade. Estava acompanhado de sua esposa Basse, 36 anos, o irmão Samuel, 22 anos, os filhos Joseph, 18
anos, Genne 11 anos, Chaike 1 ano, Simon, 7 anos, Feige 3 anos, Dweire 5 anos.
390
No respectivo processo, de no. 19, caixa 39, ordem 7190, de 9 de agosto de 1906, consta a frase “... do
qual desfruta a um ano sem nada ter pago ainda...”
391
Listei 244 judeus que se destinavam a colônia Jorge Tibiriçá de acordo com os Livros de Matricula de
Imigrantes. Possivelmente muitos desistiram antes e foram a outros lugares ou vieram para a capital de São
Paulo. Se considerarmos que o número médio de membros de uma família era composta de 4 filhos, além dos
pais, a cifra lembrada por Benjamin é perfeitamente correta.
203

porque conclui que estas terras da seção Ferraz são ubérrimas podendo afirmar que aqui
está o futuro do colono recém chegado, não exitando em escrever à minha terra natal a
Rússia fazendo ver o que é o Brasil. Desejando plantar este ano, e duplicar de ano para ano
a minha lavoura venho a presença de V.Excia. pedir de conceder-me o lote no, 54 da seção
Ferraz, o qual está vago, achando-me prevenido com a quantia de 150$ 000 para a primeira
plantação, digo prestação. Aguardo apenas a solução de V.Excia. para entregar já esta
quantia, e imediatamente iniciarei o serviço de preparar a terra para o plantio.
Toda e qualquer informação que V.Excia. deseje, estou pronto a prestar-lhe se quiser dar-
me a honra de interrogar-me.
A quantia de 150$000 é correspondente a decima parte do valor do terreno que é 1.500$000
e solicito de V.Excia. o despacho com urgência para evitar que passe o tempo do preparo da
terra.
Não devo terminar este requerimento sem primeiro prestar homenagem ao Governo
Brasileiro, representado na pessoa de V.Excia. por ter em tão boa hora nos retirado do
nosso país onde éramos oprimidos, colocando-nos neste pitoresco lugar, onde só vemos um
futuro risonho, e em um país de liberdade.
As famílias russas que abandonaram este lugar foram convencidos que aqui estava a ruína
do colono, e isto devido a não quererem plantar e esperar pelo resultado, o que não se deu
comigo que aqui estou a um ano e meio e tenho notado quanto é rico este solo.
Esperando ser atendido neste meu justo pedido, tenho a honra de me confessar de V.Excia.
um humilde admirador.
São Paulo, 16 de Outubro 1906
Benjamin Golovaty”392

Contudo, a carta enviada ao secretário da agricultura não surtiu o devido efeito, pois o
chefe responsável que recebeu o requerimento para o julgamento final o indeferiu nos
seguintes termos: “Já tendo sido indeferido a 10 de setembro último, idêntico pedido do
requerente, que segundo informação da Agência Oficial, em 23 de Agosto último, é judeu
russo da 1a. leva, nada fez como agricultor e viveu no núcleo como pensionista do Governo
do que como colono, parece não dever ser deferido o presente requerimento. Ferraz, Chefe
da 2a. 18. 10. 906.” Além do acôrdo dado a esse parecer pelo diretor geral da secretaria
da Agricultura, ainda encontramos um “informe” de que o pedido “poderá ser deferido se
não residir em casa do Governo, favor de que já usufruiu um ano.” Se lermos atentamente
este último parecer, perceberemos que o funcionário que o assina frisa que o requerente “é
judeu-russo da 1ª leva” , sendo que, na documentação compulsada por mim, é a primeira
vez que se faz referência à religião de um colono. Um outro aspecto digno de nota neste
parecer é a associação dessa designação à “1 ª leva”, que era de fato composta de judeus,
confirmando desse modo o que já sabíamos, porém com uma clara evidência depreciativa –
e sabemos porque- para não ser atendido o pedido do requerente. A primeira leva, isto é dos
judeus-russos, não se fixara no solo e causara gastos ao Estado. Daí a rude observação que
“nada fez como agricultor e viveu no núcleo como pensionista do Governo do que como
colono”, o que não corresponde inteiramente à verdade.

392
A carta se encontra no processo, acima mencionado, em nome de Benjamim Golovaty. O nome Benjamim
ora parece com n final ora com m, do mesmo modo o nome Golovaty, aparece como Golovate e no Livro de
Matricula de Imigrantes como Golovatkin. Em todos os textos e citações dos documentos da época optei
transcreve-los com a grafia de nossos dias.
204

Podemos concluir, pela letra da redação dos indeferimentos, assim como pelas expressões
que encontramos no Relatório da Secretaria da Agricultura referente ao ano de 1906 e
outros indícios apresentados em nosso trabalho, que os imigrantes judeus trazidos pelo
governo do Estado de São Paulo, com a intenção de criar novos núcleos agrícolas e renovar
seu projeto de colonização, decepcionaram os seus planejadores, que viram neles um
elemento não apto ao trabalho agrícola, pois abandonaram, em relativo curto espaço de
tempo, aqueles lugares sendo substituídos por russos-letos e outras nacionalidades.
O fato surpreendente é que desconhecíamos inteiramente a existência dessa imigração,
numericamente significativa, no ano de 1905, vinda da Rússia e programada pelo governo
do Estado para uma colonização agrícola, o que nos leva a alterar nossa avaliação sobre a
presença dos judeus ashkenazitas em São Paulo, e também no Brasil, pois acresce uma
nova leva imigratória às muitas que já compõem a cronologia e o quadro histórico da
presença judaica no país no ano em que comemoramos os seus 500 anos. Se esses colonos
fracassaram como agricultores, certo é que não fracassaram, porém, como cidadãos que nos
centros urbanos, espalhados pelo território nacional, deram sua contribuição em outras
atividades econômicas, sociais e culturais, e se mantiveram, e assim foram vistos, como
comunidades exemplares aos olhos da ampla sociedade brasileira. *

* Este artigo representa a primeira etapa de um trabalho que deverá ter continuidade sob a
forma de um levantamento que deverá investigar o destino dos imigrantes que vieram nos
anos de 1905 e 1906, pesquisa que exige o emprego da metodologia da história oral.
Algumas questões são relevantes e entre elas a da aculturação e assimilação dessa leva
imigratória bem como a sua dispersão pelo território brasileiro e fixação em outros lugares.
205

Apêndice 1: LISTA DOS IMIGRANTES JUDEUS NAS COLÔNIAS DO


INTERIOR DE SÃO PAULO E NA CIDADE DE SÃO PAULO

1- Estação V. Americana – Núcleo Nova Odessa

Nome Idade Profissão Navio Data de Chegada

Chassik, Solomon Magdalena (Southampton-Santos) 8-


9/5/1905
Channe
Samuel
Henne
Shrage
Laibe
Karasik, Hirsh
Zipe
Anne
Plotkin, Leibe
[Fonte: Livro de Matricula de Imigrantes, 74, pp. 81-
82 – MI]
Grinberg(?),Pinches 27 agricultor Aragon (South.- Santos)
2/8/1905
(Gomberg)? Sheindel 24
Welver (f.) 6
Golde 4
Lea 2
Luiz 6m
Krians, Abram 42 agricultor
Basse 40
Chaim 17
Blume 12
Harry 8
Rosa 6
Cohen, Zelik 27 agricultor
Sarah 22
Braine 5
Melman(?), Abram 27 agricultor
Spivack, Mechmie 39 cigarreiro
Esther 39
Itzick 18
Nome Idade Profissão Navio Data de Chegada

Zelik 16
Ephraim 11
Rifka 2
206

Gordon, Harris 32 sapateiro


Chane 28
Beckie 12 (inglesa)
Rive 11
Braime 9
Sarah 8
Abbe 5
Gankel 3
Meische 2
Kaminsky, Morris 48 agricultor
Schiffre 42
Berel 8
Chaike 6
Gudel 23 escoveiro
Gold, Abram 29 maquinista
More 29
David 11
Basa 9
Morris 7
Fanny 5
Lewis
Trachtman, Wolf 27 agricultor
(irmão) Mordche 30 agricultor
Baraum, David 23 agricultor
Cohen, Louis 52 agricultor
Stelmach, Pincos 24 carpinteiro
[Fonte: Livro de Matricula de Imigrantes, 74, pp. 258-266
– AMI)

Aisik, Abram 45 sapateiro Danube (Cherbourg-Santos)


30/8/1905
Heiman 21
Neeri 20
Povlotzky, Benzion 40 carpinteiro
Abram 23
Nome Idade Profissão Navio Data de
Chegada

(cunhada)Pesse 23
Sapossnik, Jossel 24 pintor
Said, Baruk 41 alfaiate
Chaie 38
Basheva 15
Benjamin 13
Peisach 11
Leibe 9
Slatt 5
207

Beile 4
Zerkassky, Leiser 26 tipógrafo
Cohen, Barnet 48 cocheiro
Lea 46
Sarah 19
Katty 14
Harry 11
Izaac 10
Rachel 6

Weiner, Abraham 26 doméstico Danube (South. – Santos)


30/8/1905 (?)
(Obs. Aparece registrado em lugar separado)
[Fonte: Livro de Matricula de Imigrantes, 75, pp. 14-
19 – AMI]

2- Corumbatahy – Colônia Dr. Jorge Tibiriçá

Nome Idade Profissão Navio Data


de Chegada

Kapeloff, Nachan 24 agricultor Aragon (South. – Santos)


2/8/1905
Levcovitz, Lazar 30 agricultor
Spulansky, Nesske 24 agricultor
Krisensky, Janker 35 agricultor
Zelzer, Welvel 36 agricultor
Skolnik, Isaac 25 agricultor
Chaie 25
Nome Idade Profissão Navio Data de
Chegada

Zemo 4
Sruel 6m
Rustein, Maier 28 agricultor
(irmão) Beisen 20 agricultor
Shmulovitz, Meier 30 agricultor
Gerwitz, Abram 23 vidraceiro
David 25
Rissa 23
Morris 4
Dinerstern, Abbe 26 agricultor
Gutler, Josse 20 agricultor
Divenoff, Samuel 22 agricultor
Kashitsky, Shie 46 agricultor
208

Moske 22
Liser 12
Itto 19
Chone 17
Dhasse 14
Reichet, Hersher 28 negociante
Rinkof, Barnet 22 agricultor
Beile 22
Sore 1e 6m
Mirodznik, Mindel 28 agricultor
Codnash, Elie 28 tapeceiro
Meier 25 tapeceiro
Fayngold, Lazar 27 agricultor
Broner, Chaim 24 cocheiro
Fanny 22
Rigler, Jacob 24 (austríaco) agricultor
Hella 21 (russa)
Seiff, Joseph 19 agricultor
Migdan, Aaron 24 padeiro
Cohen, Feivel 19 agricultor
Cass, Simon 25 agricultor
Belinsky, Moshe 23 agricultor
Rincoff, Samuel 23 agricultor
Nome Idade Profissão Navio Data de
Chegada

Altshuller, Mike 24 quitandeiro


Hoshman, Jankel 28 agricultor
Sane 32
Itzkovitz, Jael 25 cocheiro
Bernstein, Samuel 28 agricultor
Pliskin, Sem 22 agricultor
Sternlicht, Sigmond 35 foguista
Weinstein, Leibe 24 agricultor
Gerschman, Harris 26 padeiro
Breiman, Mochke 21 agricultor
Gorin, Gersch, 25 agricultor
Weisman, Samuel 30 carregador
(mulher) Chaim(?) 24
Adler, Philip 24 agricultor
Pesse 24
Moses 4
Rose 3
(irmão)Hersch 20
Lea 22
Tulka, Phillip 26 agricultor
Rozenzveig, Hein 30 agricultor
209

Zaller, Duga 21 agricultor


Berman, Gudel 20 agricultor
Bliskin, David 25 agricultor
Tamb, Luis 27 agricultor
Estherman, Gdale 25 agricultor
Rincopf, Haim 21 padeiro
Thernafski, Harris 26 agricultor
Burstein, Abraham 20 agricultor
Abramowstzky, Jacob 23 (Romania) pintor
[Fonte: Livro de Matricula de Imigrantes, 74, pp.258-
266- AMI]

Anilewitz, Max 24 alfaiate Danube (Cherbourg-Santos)


30/8/1905
Eidel 35
Solomon 7
Chaim 6
Ila 4
Nome Idade Profissão Navio Data de
Chegada

Leie 12
Anilewitz, Gersh 29 cigarreiro
Esther 23
Annie 3
Rosa 1
Anilewitz, Samuel 32 cigarreiro
Annie 18
Apperbaum, Samuel 33 curtidor
Golde 26
Ganker 4
Leie 3
Leib 1
Bersner, Paul 23 sapateiro
Bebak, Gersh 25 alfaiate
Masche 22
Bernstein, Davies 30 sapateiro
Zile 27
Sruel 10
Gerah 6
Feige 4
Elie 1
Bernstein, Mimel 27 sapateiro
Chave 25
Bernstein, Joseph 20 pintor
Milli 22
Charak, Leiser 35 quitandeiro
210

Rachel 34
Nuchem 11
Chave 9
Aaaron 5
Rosemblum, Abraham tecelão
Chaimovitz, Itzik 41 agricultor
(irmão) Noech 22 agricultor
Erenbaum, Gersh 36 sapateiro
Esther 40
Gena 17
Nome Idade Profissão Navio Data de
Chegada

Jankel 16
Sore 10
Israel 7
Isaac 3
Bergstein, Sam 21 carpinteiro
Finkelstein, Gersh 28 agricultor
Feige 22
Ruben 1
Gottlieb, Joseph 36 funileiro
Marian 28
David 11
Nathan 1
Guttarz, Leiser 35 alfaiate
Mendel 3
( irmão) Welvel 21 alfaiate
Golovatkin, Benjamim 40 alfaiate
(Golovaty) Basse 36
(irmão) Samuel 22 alfaiate
Joseph 18
Genne 11
Chaike 1
Simon 7
Feige 3
Dweire 5
Cressman, Morris 38 negociante de fumo
Guide 34
Schlome 10 (ingleza)
Isaac 8 “
Fanny 5 “
Golde 3 “
Solomon, Louis 45 alfaiate
Jacobs, Abram 33 agricultor
Chave 34
Harry 13
211

Fanny 6
Aaron 5

Nome Idade Profissão Navio Data


de Chegada

Zallel 1
Heiman 10
Dora 8
Krassnapolsky, Harris 28 quitandeiro
Ette 25
Itte 5
Chane 1
Gaetzke, Abraham 34 cordoeiro
Zesskiss, Meier 35 cordoeiro
Kossanovffsky, Solomon 31 alfaiate
Kisseloff, Woolf 33 plantador de fumo
Sheindel 29
Esther 10
Genne 9
Rosa 7
Chana 2
(irmão)Simon 22
Gussenbuncunh(?), Manes 21 plantador de fumo
Lerman, Philip 44 agricultor
Lea 36
Malke 19
Sore 17
Chaim 16
Gersh 13
Perrel 5
Sisse 3
Kahanovitz, Chaim 30 refinador
Dweire 27
Ebli 3
Rahinovik, Lazar 20 mascate
Rubin, Joseph 18 mascate
Lublin, Luiz 28 alfaiate
Katte 22
Annie 1
Moropolsky, Morris 33 ferreiro
Nome Idade Profissão Navio
Data de Chegada

Pesse 30
Jankel 14
Gittel 13
212

Braim 10
Leizer 2
Feivel 1
Nelves, Meier 29 mascate
Becca 29
Rosa 13
Barnett 10
Chaie 6
Hersch 1
Paperman, Ginrik 46 agricultor
Dora
Chaver, Abraham 31 carpinteiro
Galka, Israel 18 carpinteiro
Rashkowitz, Philip 22 engomador
Rosa 23
Itte 1
Raicher, Zeller 28 (austriaco) engomador
Sure
Meier(?)
Starrashelsky, Morris 29 alfaiate
Gittel 28
Chaim 1
Sheibel, Max 40 agricultor
Mashe 38
Jane 13
Chaime 11
Feige 1
Speiler, Samuel 29 agricultor
Mashe 24
Nissem 5
Rivke 3
Perrel 2
Bolgwevitz, Mettel 26 fabricante de vinho
Nome Idade Profissão Navio
Data de chegada

Saliff, Izaac 26 trapeiro


Sara 23
Meier 3
Weisman, Sruel 36 carpinteiro
Esther 28
Mordke 9
Elie 6
Waldman, Zecharie 29 carpinteiro
Ruchle 27
Hirsh 4
Shiel 2
213

Moshe 1
Rosenthal, Israel 27 sapateiro
Bekker, Simche 21 carpinteiro
Reize 20
Bekker, Joseph 20 carpinteiro
Bekker, Moshek 23 chapeleiro

[Fonte: Livro de Matricula de Imigrantes, 75, pp.14-


19-AMI]

Viener, Perle 26 agricultor Nile(South.-santos)


1/2/1906
Ette(chefe) 37
Jotta 16
Fanny 14
Esther 9
Hyman 6
Mary 2
[Fonte: Livro de Matricula de Imigrantes, 76 , p.
148- AMI]

3 – Funil- Colônia Campos Salles

Kassin, Nochen 22 agricultor Aragon(South. –


Santos) 2/8/1905
Nome Idade Profissão Navio
Data de chegada

Wernik, Hersch 33 agricultor


Feige 22
Beile 3
Abram 2
Koslowsky, Mendel 23 agricultor
Fradikin, Joseph 21 negociante
Schreibman, Morris 21 agricultor
Hurwitz, Wolf 21 agricultor
Ginsberg, Nathan 20 agricultor
Golabowsky, Philip 21 agricultor
Banker, David 34 mascate
Zerne
Sure
Dweire
Welvel
214

Kempner, Aisik 39 alfaiate


Sara 36
Millie 19 (inglesa)
Michel 17 (inglesa)
Morris 15 (inglesa)
Beny 13 (inglesa)
Henny 11 (inglesa)
Doris 9 (inglesa)
Sammy 7 (inglesa)
Joe 1 (inglesa)
Brendan, Barnet 24 barbeiro
Sanitz, Meschke 26 agricultor
Feldman, Samuel 35 agricultor
Sarah 35
Meier 11
Pellie 15
Sophie 8
Isidore 7
Morris 5
David 3
Freedman, Hersch 18 sem profissão
Etuni, Chaine 21 agricultor
Nome Idade Profissão Navio
Data de Chegada

Masche 22
Inersokin, Berri 25 pedreiro
Buserky, Berri 25 agricultor
Perel(?) 18
Wasilews, Gankel 29 agricultor
Kaminisky, Ellik 22 relojoeiro
Kairshinevitz, Abram 22 agricultor
Weinstein, Abram 23 agricultor
Levy, Wolf 20 alfaiate
Pinkus 18 alfaiate
Karasik, Moske 22 agricultor
Portnoi, Meier 28 agricultor
Gorki, Marco 24 agricultor
Newman, Isaac 19 (austríaco) sem profissão
Nimerofsky, Schmuel 25 ferreiro
Frichtenzmey, Israel 32 carregador
Zipenak, Isaac 23 agricultor
Zimmerman, Chaim 23 sem profissão
Rebeca 22
Zernim, Heshe(?) 28 agricultor
Ziesser, Elie 22 chapeleiro
Reische, Feiwush 18 agricultor
215

Cass, Simon 25 agricultor


Kopss, Bernardo 17 (austríaco) caixeiro
(irmão) Abram 14 caixeiro
Brenner, Abram 36 vendedor
Chesse 28
Freide 16
Nancy 12
Samuel 9
Lea 7
Sonne 3
Joseph 6m
Berezovsky, Simon 40 jardineiro
Mary 37
Meier 15
Nome Idade Profissão Navio Data de
Chegada

Max 13
Polle 10
Jacob 8
Morris 3
Austrin, Salman 24 agricultor
Lipkin, Leibe 22 agricultor
Nachamovitz, Abram 22 agricultor
Chatz, Mordecai 21 agricultor
Zewill, Abram 29 agricultor
Karasik, Israel 22 cocheiro
Albert, Leibe 38 agricultor
Rabinovitz, Leibe 17 carniceiro
Fogel, Abraham 28 machinista
Leibe(?) 26
Masche 7 (inglesa)
Sarah 7 (inglesa)
Millie 3 (inglesa)
Rachel 2 (inglesa)
Keibel, Moshe 21 padeiro
Masch 21
Kushnir, Barnett 23 agricultor
Lackmovitz, (?)Mottel 29 agricultor
Karolinsky, Scholme 21 agricultor
Belenge, Chlone 28 agricultor
Kesler, Shlone 21 agricultor
Kanter, Meier 23 agricultor
Grabstein, Benjamin 33 (austríaco) tanoeiro
Blendel, Chaikel 34 agricultor
Iselberg, Welvel 38 agricultor
Rappeport, Max 35 mascate
216

Plotkin, Morris 25 agricultor


Rippin, Chone 27 agricultor
Obladsteine, Mosch 21 agricultor
Feldman, Benjamin 20 agricultor
Raffkuss, Mijchel 32 carregador
Press, Chainiss 21 mascate
Nome Idade Profissão Navio Data de
Chegada

Dron, Hissen 28 agricultor


Medovai, Solem 21 ferreiro
Karlinsky, Elik 23 tecelão
Medovai, Zoller 23 ferreiro
Lipschitz, Salman 22 agricultor
Berman, Davies 21 sapateiro
Traub, Leibe 33 agricultor
Plakowitzky, Morduch 33 agricultor
Shiffrin, Morris 21 padeiro
Kalvan, Arje 32 cocheiro
Siflin, Aisak 25 caixeiro
Veivitz, Leizer 31 funileiro
Sternheld, Leib 25 (austríaco) agricultor
Kavernak, Slame 21 cocheiro

[Fonte: Livro de Matricula de Imigrantes, 74, pp.258-


266- AMI]

Knussin, Solomon 43 agricultor B.G.Rezende- CCS Danube(Cherbourg-


Santos) 30/8/1905
Ronnik, Kalman 31 agricultor B.G. Rezende- CCS
Aisemberg, Chaim 31 agricultor B.G.Rezende-CCS
Boiarsky, Gersch 33 agricultor B.G. Rezende- CCS
Kaplan, Jankel 35 agricultor B.G. Rezende-CCS
Chaverman, Chone 32 agricultor B.G. Rezende- CCS
Estrin, Louis 32 carregador B.G. Rezende-CCS
Feingluss, David 24 agricultor B.G. Rezende- CCS
Zipol, Abraham 30 agricultor B.G.Rezende- CCS
Kalesnikoff, Sarah 35 alfaiate B.G.Rezende-CCS
Gersh 16
Simon 13
Rosa 10
Aaron 7
Leibe 4
Karasik, Gillel 32 sapateiro B.G. Rezende- CCS
Romilski, Morris 30 mascate B.G. Rezende- CCS
Michmovitz, Michel 31 ferreiro B.G. Rezende- CCS
Nuger, Eli 46 fabricante de carroça B.G. Rezende- CCS
217

Nome Idade Profissão Navio Data de


Chegada

Weisman, Smuel 25 sapateiro B.G. Rezende- CCS


Sobarnik, Hussiel 21 sapateiro B.G. Rezende –CCS

[Fonte: Livro de Matricula de Imigrantes, 75, pp. 14-19-


AMI]

4- Cidade de São Paulo- Capital e Posto Zootechnico

Wiener, Abraham 27 rabino Aragon (South.-Santos)


2/8/1905
Idovitz, Salman 24 rabino
Barkoff, Melamed 41 agricultor
Chaie 38
Berel 18
Chane 16
Gittel 14
Ossher 12
Woolf, Josef 20 (inglesa) carpinteiro
Weis, Izidor 32 (romena) pedreiro
Said, Gersoh 19 agricultor
Perrell, (?) Jacob 25 agricultor Posto Zootechnico
Annie 20
Slotnik, Abram 32 vidraceiro
Wegner, Elie 48 alfaiate Posto Zootechnico
Slate 48
Benny 12 (brasileira)
(Gressel)Nessel 7 (inglesa)
Rebecca 18
Blume 16
Wegner, Heyman 28 alfaiate Posto Zootechnico
Gittel 29
Annie 4
Nome Idade Profissão Navio Data
de Chegada

Itzchook 6m
Abrams, Louis 28 (inglesa) escriturário Posto Zootechnico
Rachel 28
Sarah 8
218

Max 7
Anny 4
Shlomovitz, Aisik 36 doméstico
Annie 34
Sore 15
Philip 13
Joe 10
Heyman 5
Fanie 2
Shapiro, Morris 23 cortador de lenha
Gellin (Yellin), Mendel 37 músico
Chais 40
Lea 11
Alter 8
Shimecke 8
Rozemberg, Israel 25 cocheiro Capital- Rodovalho Junior
Silverman, Jankel 24 tanoeiro
Freide 22
Pinkus 15
Golub, Abram 45 agricultor
Rachel 43
Simon 19 (inglesa)
Morris 17 (ingles)
Max 15 (inglesa)
Rubin 12 (inglesa)
Harry 4 (inglesa)
Guttmann, Mosche 19 encadernador Posto Zootechnico
Lapiz, Woolf 20 sem profissão Posto Zootechnico
Farb, Shie 23 marchante Posto Zootechnico
Elbaum, Manasche 23 comerciante
(irmão) Max 20
Dubov, Abraham 32 agricultor
Nome Idade Profissão Navio Data
de Chegada

Cohen, Nochen 24 caixeiro


Nochame 23
Magram, Lebi 28 agricultor
(irmã) Itzhe
Weksler, Moshe 29 agricultor
Katz, Kushil 23 padeiro
Mostovitz, Lazar 28 alfaiate
Pahuker, Rebecca 36 (austríaca) cozinheira
Baron, Chaim 17 (inglesa) cocheiro
Largman, Itzchok 27 agricultor
Sore 24
Gossel 6m
219

Brook, Leibe 32 agricultor


Alexandroff, Susse 24 agricultor
Slate 22
Simon, Louis 26 cocheiro
Kernim, Ruben 22 barbeiro
Messer, Wolf 23 copeiro
Zulink, Itzick 22 agricultor
Kulesh, Morris 32 curtidor
Glasserman, Hune 33 agricultor Posto Zootechnico
Peishachovitz, Morris 29 carpinteiro Posto Zootechnico
Asman, Iste 21 padeiro
Moldener, Estke 19 sem profissão
Sisshaltz, Feibel 20 sapateiro
Becke 19 sapateiro
Kipnes, Lezer 28 sem profissão
Dutman, Kalman 35 agricultor
Horin (Hann), Simon 32 agricultor
Elke 22
Hershel 5
Shendel 3 (inglesa)
Mendel 6m
Goldberg, Abraham 30 (romena) cozinheiro
Becke 24 (russa) cozinheiro
Fisch, Abraham 24 sapateiro
Nome Idade Profissão Navio Data
de Chegada

Merle 23
Needlman, Barnett 28 lavador de roupas
Ziniee 26
Anny 8
Morris 4
Nathan 3
Simon 1 e meio
Hengel, Mendel 26 mascate
Flanklin, Ruben 23 funileiro
Ette 20
Lea 1 e meio
Migdes, Samuel 27 agricultor
Needlman. David 26 lavador de roupas
Chaie 25
(cunhada)Fanny 24
Shulman, Nathan 22 sapateiro
Lea 22
Smarian, Abraham 24 acrobata
Sore 28
Scheindel 2
220

Smitts, Jacob 25 cozinheiro


Grutman, Leibe 28 ferreiro
Stern, Morris 27 agricultor
Lak, David 25 agricultor
Drunjinsky, Leib 22 serralheiro
Braustein, Nuchen 25 agricultor
Siber, Harris 20 carregador

[Fonte: Livro de Matricula de Imigrantes, 74, pp.258-266-


AMI]

Baranowitz, Louis 28 cocheiro Danube (Cherbourg-Santos)


30/8/1905
Becke 26
Jane 6
Grinspan, Jone 27 sem profissão
Sarah 21
Nome Idade Profissão Navio Data
de Chegada

Shazavsky, Morris 27 cocheiro


Sure 27
Silberman, Jankel 42 padeiro
Mirien 44
[Fonte: Livro de Matricula de Imigrantes, 75 ,pp.14-19 –
AMI]

Raschkovsky, Isaac 36 agricultor Clyde (South.- Santos)


17/11/1905
Tauba 28
Chaia 6
Feiga 2
Motel 3
Malka 7m
Bonder, Israel 56 agricultor
Menucha 50
Josef 19
David 17
Kowaliwker, Meer 30 agricultor
Chane 29
Ruchel 4
Saibel 3
Esther 2
Brane 7m
Dragum, Israel 28 sem profissão
Chawe 27
Zipa 2
221

Borl 7m
Stolerman, Chume 68 sem profissão
Idis 48
Frede 21
Nisen 20
Lisa 17
Moses 16
Samuel 28
Chaie 23
Wele 2 e meio
Brana 1 e meio
Nome Idade Profissão Navio Data de
Chegada

Leiser 6m
Berlin, Benjamin 30 sem profissão
Ruse 26
(irmão)Abram 20
Kuzi, Mendel 36 carpinteiro
Minza 28
Isaac 17
Masche 15
Blume 5
Sendor 1 e 5m
Seufer, Moses 19 carniceiro
Rose 19
Weintraub, Selick 35 fabricante de vinho
[Fonte: Livro de Matricula de Imigrantes, 75,
p.223 – AMI]

Selter, Salomon 47 agricultor Magdalena (South. -


Santos) 21/12/1905
(filha) Idel 22
Moses 19
Etel 16
Fuhrman, Elik 19 agricultor
Zwitel 20
Pipman, Benzion 23 agricultor
Bluma 23
Pipman, Mark 38 agricultor
Rebecca 36
Scheier 17
Zipre 15
Greschia 9
Jacob 6
Steinberg, Juda 44 agricultor
Feine 12
222

Israel 10
Anna 8
Lerman, Samson 33 agricultor
Debore 28
Josef 8

Nome Idade Profissão Navio Data


de Chegada
Ewgenia 5
Baruch 7m
Lerman, Samuel 26 agricultor
Bendersky, Mendel 38 agricultor
Itte 30
Baruch 10
Pine 7
Freida 1
(irmão) Nisen 30 agricultor
(irmão) Mordche 26 agricultor

[Fonte: Livro de Matricula de Imigrantes, 76, pp. 61-


62- AMI]

Kashitzky, Ishie 48 agricultor Thames (South.- Santos)


27/12/1905
Shloma 7
Schwarzman, Mark 42 agricultor
Feige 33
Ente 20
Rebecca 14
Moses 10
Maria 8
Burich 6
Gedalia 3 (obs. Esta última família aparece como católica, além
de outras, alemãs e austríacas, católicos que se dirigiram para as colônias Nova Odessa e
Corumbatahy)

[Fonte: Livro de Matricula de Imigrantes, 76, p. 68 –


AMI]

Obodowsky, Sara 43 agricultor Clyde (South.- Santos)


18/1/1906
Boris 23
(nora) Mindel 20
Molie 18
Leib 10
Steinberg, Dwose 38 agricultor
Sone 20
223

Rosa 6
[Fonte: Livro de Matricula de Imigrantes, 76, p.117 –
AMI]
Obs. O mesmo navio leva 3 famílias que se destinam ao Rio Grande do Sul:
Hoffman, Eduard 38 (alemão) agricultor conta própria
Paulina 36
Anna 16
Augusta 14
Hulda 5
Adalina 2
Wanda 6m (apesar dos nomes figuram como judeus)
Krieg, Daniel 40 (russa) agricultor conta própria
Bertha 35
Nome Idade Profissão Navio Data de
Chegada

Heinrich 12
Emilie 9
Hulda 7
Anna 2
Reinhold 1 (apesar dos nomes figuram como russos)
Winarsky, Jacob 51 agricultor conta
própria
Rachel 50
Chune 19
Rebecca 21
Breine 15
Esther
[Fonte: Livro de Matricula de Imigrantes, 76 ,p.117 –
AMI]

LISTA DOS IMIGRANTES JUDEUS NAS COLÔNIAS DO INTERIOR DE SÃO


PAULO
E NA CIDADE DE SÃO PAULO

1- Estação V. Americana – Núcleo Nova Odessa

Nome Idade Profissão Navio Data de Chegada

Chassik, Shrage 40
obs. : o nome aparece como sendo acatólico
Schendol 40
Chassik, Solomon 5 Magdalena (Southampton-Santos) 8-
9/5/1905
224

Channe 8
Samuel 19
Henne irmão 19
Shrage
Laibe
Karasik, Hirsh
Zipe
Anne
Plotkin, Leibe
[Fonte: Livro de Matricula de Imigrantes, 74, pp. 81-
82 – AMI]
Grinberg(?),Pinches 27 agricultor Aragon (South.- Santos)
2/8/1905
(Gomberg)? Sheindel 24
Welver (f.) 6
Golde 4
Lea 2
Luiz 6m
Krians, Abram 42 agricultor
Basse 40
Chaim 17
Blume 12
Harry 8
Rosa 6
Cohen, Zelik 27 agricultor
Sarah 22
Braine 5
Melman(?), Abram 27 agricultor
Spivack, Mechmie 39 cigarreiro
Esther 39
Itzick 18
Nome Idade Profissão Navio Data de Chegada

Zelik 16
Ephraim 11
Rifka 2
Gordon, Harris 32 sapateiro
Chane 28
Beckie 12 (ingleza)
Rive 11
Braime 9
Sarah 8
Abbe 5
Gankel 3
Meische 2
Kaminsky, Morris 48 agricultor
Schiffre 42
225

Berel 8
Chaike 6
Gudel 23 escoveiro
Gold, Abram 29 maquinista
More 29
David 11
Basa 9
Morris 7
Fanny 5
Lewis
Trachtman, Wolf 27 agricultor
(irmão) Mordche 30 agricultor
Baraum, David 23 agricultor
Cohen, Louis 52 agricultor
Stelmach, Pincos 24 carpinteiro
[Fonte: Livro de Matricula de Imigrantes, 74, pp.
258-266 – AMI)

Aisik, Abram 45 sapateiro Danube (Cherbourg-Santos)


30/8/1905
Heiman 21
Neeri 20
Povlotzky, Benzion 40 carpinteiro
Abram 23
Nome Idade Profissão Navio Data de
Chegada

(cunhada)Pesse 23
Sapossnik, Jossel 24 pintor
Said, Baruk 41 alfaiate
Chaie 38
Basheva 15
Benjamin 13
Peisach 11
Leibe 9
Slatt 5
Beile 4
Zerkassky, Leiser 26 tipografo
Cohen, Barnet 48 cocheiro
Lea 46
Sarah 19
Katty 14
Harry 11
Izaac 10
Rachel 6
226

Weiner, Abraham 26 doméstico Danube (South. – Santos)


30/8/1905 (?)
(Obs. Aparece registrado em lugar separado)
[Fonte: Livro de Matricula de Imigrantes, 75, pp.
14-19 – AMI]

2- Corumbatahy – Colônia Dr. Jorge Tibiriçá

Nome Idade Profissão Navio Data


de Chegada

Kapeloff, Nachan 24 agricultor Aragon (South. – Santos)


2/8/1905
Levcovitz, Lazar 30 agricultor
Spulansky, Nesske 24 agricultor
Krisensky, Janker 35 agricultor
Zelzer, Welvel 36 agricultor
Skolnik, Isaac 25 agricultor
Chaie 25
Nome Idade Profissão Navio Data de
Chegada

Zemo 4
Sruel 6m
Rustein, Maier 28 agricultor
(irmão) Beisen 20 agricultor
Shmulovitz, Meier 30 agricultor
Gerwitz, Abram 23 vidraceiro
David 25
Rissa 23
Morris 4
Dinerstern, Abbe 26 agricultor
Gutler, Josse 20 agricultor
Divenoff, Samuel 22 agricultor
Kashitsky, Shie 46 agricultor
Moske 22
Liser 12
Itto 19
Chone 17
Dhasse 14
Reichet, Hersher 28 negociante
Rinkof, Barnet 22 agricultor
Beile 22
Sore 1e 6m
Mirodznik, Mindel 28 agricultor
227

Codnash, Elie 28 tapeceiro


Meier 25 tapeceiro
Fayngold, Lazar 27 agricultor
Broner, Chaim 24 cocheiro
Fanny 22
Rigler, Jacob 24 (austriaco) agricultor
Hella 21 (russa)
Seiff, Joseph 19 agricultor
Migdan, Aaron 24 padeiro
Cohen, Feivel 19 agricultor
Cass, Simon 25 agricultor
Belinsky, Moshe 23 agricultor
Rincoff, Samuel 23 agricultor
Nome Idade Profissão Navio Data de
Chegada

Altshuller, Mike 24 quitandeiro


Hoshman, Jankel 28 agricultor
Sane 32
Itzkovitz, Jael 25 cocheiro
Bernstein, Samuel 28 agricultor
Pliskin, Sem 22 agricultor
Sternlicht, Sigmond 35 foguista
Weinstein, Leibe 24 agricultor
Gerschman, Harris 26 padeiro
Breiman, Mochke 21 agricultor
Gorin, Gersch, 25 agricultor
Weisman, Samuel 30 carregador
(mulher) Chaim(?) 24
Adler, Philip 24 agricultor
Pesse 24
Moses 4
Rose 3
(irmão)Hersch 20
Lea 22
Tulka, Phillip 26 agricultor
Rozenzveig, Hein 30 agricultor
Zaller, Duga 21 agricultor
Berman, Gudel 20 agricultor
Bliskin, David 25 agricultor
Tamb, Luis 27 agricultor
Estherman, Gdale 25 agricultor
Rincopf, Haim 21 padeiro
Thernafski, Harris 26 agricultor
Burstein, Abraham 20 agricultor
Abramowstzky, Jacob 23 (Romania) pintor
228

[Fonte: Livro de Matricula de Imigrantes, 74,


pp.258-266- IMI]

Anilewitz, Max 24 alfaiate Danube (Cherbourg-Santos)


30/8/1905
Eidel 35
Solomon 7
Chaim 6
Ila 4
Nome Idade Profissão Navio Data de
Chegada

Leie 12
Anilewitz, Gersh 29 cigarreiro
Esther 23
Annie 3
Rosa 1
Anilewitz, Samuel 32 cigarreiro
Annie 18
Apperbaum, Samuel 33 curtidor
Golde 26
Ganker 4
Leie 3
Leib 1
Bersner, Paul 23 sapateiro
Bebak, Gersh 25 alfaiate
Masche 22
Bernstein, Davies 30 sapateiro
Zile 27
Sruel 10
Gerah 6
Feige 4
Elie 1
Bernstein, Mimel 27 sapateiro
Chave 25
Bernstein, Joseph 20 pintor
Milli 22
Charak, Leiser 35 quitandeiro
Rachel 34
Nuchem 11
Chave 9
Aaaron 5
Rosemblum, Abraham tecelão
Chaimovitz, Itzik 41 agricultor
(irmão) Noech 22 agricultor
Erenbaum, Gersh 36 sapateiro
Esther 40
229

Gena 17
Nome Idade Profissão Navio Data de
Chegada

Jankel 16
Sore 10
Israel 7
Isaac 3
Bergstein, Sam 21 carpinteiro
Finkelstein, Gersh 28 agricultor
Feige 22
Ruben 1
Gottlieb, Joseph 36 funileiro
Marian 28
David 11
Nathan 1
Guttarz, Leiser 35 alfaiate
Mendel 3
( irmão) Welvel 21 alfaiate
Golovatkin, Benjamim 40 alfaiate
(Golovaty) Basse 36
(irmão) Samuel 22 alfaiate
Joseph 18
Genne 11
Chaike 1
Simon 7
Feige 3
Dweire 5
Cressman, Morris 38 negociante de fumo
Guide 34
Schlome 10 (ingleza)
Isaac 8 “
Fanny 5 “
Golde 3 “
Solomon, Louis 45 alfaiate
Jacobs, Abram 33 agricultor
Chave 34
Harry 13
Fanny 6
Aaron 5

Nome Idade Profissão Navio Data


de Chegada

Zallel 1
Heiman 10
Dora 8
230

Krassnapolsky, Harris 28 quitandeiro


Ette 25
Itte 5
Chane 1
Gaetzke, Abraham 34 cordoeiro
Zesskiss, Meier 35 cordoeiro
Kossanovffsky, Solomon 31 alfaiate
Kisseloff, Woolf 33 plantador de fumo
Sheindel 29
Esther 10
Genne 9
Rosa 7
Chana 2
(irmão)Simon 22
Gussenbuncunh(?), Manes 21 plantador de fumo
Lerman, Philip 44 agricultor
Lea 36
Malke 19
Sore 17
Chaim 16
Gersh 13
Perrel 5
Sisse 3
Kahanovitz, Chaim 30 refinador
Dweire 27
Ebli 3
Rahinovik, Lazar 20 mascate
Rubin, Joseph 18 mascate
Lublin, Luiz 28 alfaiate
Katte 22
Annie 1
Moropolsky, Morris 33 ferreiro
Nome Idade Profissão Navio
Data de Chegada

Pesse 30
Jankel 14
Gittel 13
Braim 10
Leizer 2
Feivel 1
Nelves, Meier 29 mascate
Becca 29
Rosa 13
Barnett 10
Chaie 6
Hersch 1
231

Paperman, Ginrik 46 agricultor


Dora
Chaver, Abraham 31 carpinteiro
Galka, Israel 18 carpinteiro
Rashkowitz, Philip 22 engomador
Rosa 23
Itte 1
Raicher, Zeller 28 (austriaco) engomador
Sure
Meier(?)
Starrashelsky, Morris 29 alfaiate
Gittel 28
Chaim 1
Sheibel, Max 40 agricultor
Mashe 38
Jane 13
Chaime 11
Feige 1
Speiler, Samuel 29 agricultor
Mashe 24
Nissem 5
Rivke 3
Perrel 2
Bolgwevitz, Mettel 26 fabricante de vinho
Nome Idade Profissão Navio
Data de chegada

Saliff, Izaac 26 trapeiro


Sara 23
Meier 3
Weisman, Sruel 36 carpinteiro
Esther 28
Mordke 9
Elie 6
Waldman, Zecharie 29 carpinteiro
Ruchle 27
Hirsh 4
Shiel 2
Moshe 1
Rosenthal, Israel 27 sapateiro
Bekker, Simche 21 carpinteiro
Reize 20
Bekker, Joseph 20 carpinteiro
Bekker, Moshek 23 chapeleiro

[Fonte: Livro de Matricula de Imigrantes, 75,


pp.14-19-IMI]
232

Viener, Perle 26 agricultor Nile(South.-santos)


1/2/1906
Ette(chefe) 37
Jotta 16
Fanny 14
Esther 9
Hyman 6
Mary 2
[Fonte: Livro de Matricula de Imigrantes, 76 ,
p. 148- IMI]

3 – Funil- Colônia Campos Salles

Kassin, Nochen 22 agricultor Aragon(South. –


Santos) 2/8/1905
Nome Idade Profissão Navio
Data de chegada

Wernik, Hersch 33 agricultor


Feige 22
Beile 3
Abram 2
Koslowsky, Mendel 23 agricultor
Fradikin, Joseph 21 negociante
Schreibman, Morris 21 agricultor
Hurwitz, Wolf 21 agricultor
Ginsberg, Nathan 20 agricultor
Golabowsky, Philip 21 agricultor
Banker, David 34 mascate
Zerne
Sure
Dweire
Welvel
Kempner, Aisik 39 alfaiate
Sara 36
Millie 19 (ingleza)
Michel 17 (ingleza)
Morris 15 (ingleza)
Beny 13 (ingleza)
Henny 11 (ingleza)
Doris 9 (ingleza)
Sammy 7 (ingleza)
233

Joe 1 (ingleza)
Brendan, Barnet 24 barbeiro
Sanitz, Meschke 26 agricultor
Feldman, Samuel 35 agricultor
Sarah 35
Meier 11
Pellie 15
Sophie 8
Isidore 7
Morris 5
David 3
Freedman, Hersch 18 sem profissão
Etuni, Chaine 21 agricultor
Nome Idade Profissão Navio
Data de Chegada

Masche 22
Inersokin, Berri 25 pedreiro
Buserky, Berri 25 agricultor
Perel(?) 18
Wasilews, Gankel 29 agricultor
Kaminisky, Ellik 22 relojoeiro
Kairshinevitz, Abram 22 agricultor
Weinstein, Abram 23 agricultor
Levy, Wolf 20 alfaiate
Pinkus 18 alfaiate
Karasik, Moske 22 agricultor
Portnoi, Meier 28 agricultor
Gorki, Marco 24 agricultor
Newman, Isaac 19 (austriaco) sem profissão
Nimerofsky, Schmuel 25 ferreiro
Frichtenzmey, Israel 32 carregador
Zipenak, Isaac 23 agricultor
Zimmerman, Chaim 23 sem profissão
Rebeca 22
Zernim, Heshe(?) 28 agricultor
Ziesser, Elie 22 chapeleiro
Reische, Feiwush 18 agricultor
Cass, Simon 25 agricultor
Kopss, Bernardo 17 (austriaco) caixeiro
(irmão) Abram 14 caixeiro
Brenner, Abram 36 vendedor
Chesse 28
Freide 16
Nancy 12
Samuel 9
Lea 7
234

Sonne 3
Joseph 6m
Berezovsky, Simon 40 jardineiro
Mary 37
Meier 15
Nome Idade Profissão Navio Data de
Chegada

Max 13
Polle 10
Jacob 8
Morris 3
Austrin, Salman 24 agricultor
Lipkin, Leibe 22 agricultor
Nachamovitz, Abram 22 agricultor
Chatz, Mordecai 21 agricultor
Zewill, Abram 29 agricultor
Karasik, Israel 22 cocheiro
Albert, Leibe 38 agricultor
Rabinovitz, Leibe 17 carniceiro
Fogel, Abraham 28 machinista
Leibe(?) 26
Masche 7 (ingleza)
Sarah 7 (ingleza)
Millie 3 (ingleza)
Rachel 2 (ingleza)
Keibel, Moshe 21 padeiro
Masch 21
Kushnir, Barnett 23 agricultor
Lackmovitz, (?)Mottel 29 agricultor
Karolinsky, Scholme 21 agricultor
Belenge, Chlone 28 agricultor
Kesler, Shlone 21 agricultor
Kanter, Meier 23 agricultor
Grabstein, Benjamin 33 (austriaco) tanoeiro
Blendel, Chaikel 34 agricultor
Iselberg, Welvel 38 agricultor
Rappeport, Max 35 mascate
Plotkin, Morris 25 agricultor
Rippin, Chone 27 agricultor
Obladsteine, Mosch 21 agricultor
Feldman, Benjamin 20 agricultor
Raffkuss, Mijchel 32 carregador
Press, Chainiss 21 mascate
Nome Idade Profissão Navio Data de
Chegada
235

Dron, Hissen 28 agricultor


Medovai, Solem 21 ferreiro
Karlinsky, Elik 23 tecelão
Medovai, Zoller 23 ferreiro
Lipschitz, Salman 22 agricultor
Berman, Davies 21 sapateiro
Traub, Leibe 33 agricultor
Plakowitzky, Morduch 33 agricultor
Shiffrin, Morris 21 padeiro
Kalvan, Arje 32 cocheiro
Siflin, Aisak 25 caixeiro
Veivitz, Leizer 31 funileiro
Sternheld, Leib 25 (austriaco) agricultor
Kavernak, Slame 21 cocheiro

[Fonte: Livro de Matricula de Imigrantes, 74,


pp.258-266- IMI]

Knussin, Solomon 43 agricultor B.G.Rezende- CCS Danube(Cherbourg-


Santos) 30/8/1905
Ronnik, Kalman 31 agricultor B.G. Rezende- CCS
Aisemberg, Chaim 31 agricultor B.G.Rezende-CCS
Boiarsky, Gersch 33 agricultor B.G. Rezende- CCS
Kaplan, Jankel 35 agricultor B.G. Rezende-CCS
Chaverman, Chone 32 agricultor B.G. Rezende- CCS
Estrin, Louis 32 carregador B.G. Rezende-CCS
Feingluss, David 24 agricultor B.G. Rezende- CCS
Zipol, Abraham 30 agricultor B.G.Rezende- CCS
Kalesnikoff, Sarah 35 alfaiate B.G.Rezende-CCS
Gersh 16
Simon 13
Rosa 10
Aaron 7
Leibe 4
Karasik, Gillel 32 sapateiro B.G. Rezende- CCS
Romilski, Morris 30 mascate B.G. Rezende- CCS
Michmovitz, Michel 31 ferreiro B.G. Rezende- CCS
Nuger, Eli 46 fabricante de carroça B.G. Rezende- CCS
Nome Idade Profissão Navio Data de
Chegada

Weisman, Smuel 25 sapateiro B.G. Rezende- CCS


Sobarnik, Hussiel 21 sapateiro B.G. Rezende –CCS

[Fonte: Livro de Matricula de Imigrantes, 75, pp. 14-19-


IMI]
236

4- Cidade de São Paulo- Capital e Posto Zootechnico

Wiener, Abraham 27 rabino Aragon (South.-Santos)


2/8/1905
Idovitz, Salman 24 rabino
Barkoff, Melamed 41 agricultor
Chaie 38
Berel 18
Chane 16
Gittel 14
Ossher 12
Woolf, Josef 20 (ingleza) carpinteiro
Weis, Izidor 32 (romena) pedreiro
Said, Gersoh 19 agricultor
Perrell, (?) Jacob 25 agricultor Posto Zootechnico
Annie 20
Slotnik, Abram 32 vidraceiro
Wegner, Elie 48 alfaiate Posto Zootechnico
Slate 48
Benny 12 (brasileira)
(Gressel)Nessel 7 (ingleza)
Rebecca 18
Blume 16
Wegner, Heyman 28 alfaiate Posto Zootechnico
Gittel 29
Annie 4
Nome Idade Profissão Navio Data
de Chegada

Itzchook 6m
Abrams, Louis 28 (ingleza) escriturario Posto Zootechnico
Rachel 28
Sarah 8
Max 7
Anny 4
Shlomovitz, Aisik 36 domestico
Annie 34
Sore 15
Philip 13
Joe 10
Heyman 5
Fanie 2
237

Shapiro, Morris 23 cortador de lenha


Gellin (Yellin), Mendel 37 músico
Chais 40
Lea 11
Alter 8
Shimecke 8
Rozemberg, Israel 25 cocheiro Capital- Rodovalho Junior
Silverman, Jankel 24 tanoeiro
Freide 22
Pinkus 15
Golub, Abram 45 agricultor
Rachel 43
Simon 19 (ingleza)
Morris 17 (ingleza)
Max 15 (ingleza)
Rubin 12 (ingleza)
Harry 4 (ingleza)
Guttmann, Mosche 19 encadernador Posto Zootechnico
Lapiz, Woolf 20 sem profissão Posto Zootechnico
Farb, Shie 23 marchante Posto Zootechnico
Elbaum, Manasche 23 comerciante
(irmão) Max 20
Dubov, Abraham 32 agricultor
Nome Idade Profissão Navio Data
de Chegada

Cohen, Nochen 24 caixeiro


Nochame 23
Magram, Lebi 28 agricultor
(irmã) Itzhe
Weksler, Moshe 29 agricultor
Katz, Kushil 23 padeiro
Mostovitz, Lazar 28 alfaiate
Pahuker, Rebecca 36 (austriaca) cozinheira
Baron, Chaim 17 (ingleza) cocheiro
Largman, Itzchok 27 agricultor
Sore 24
Gossel 6m
Brook, Leibe 32 agricultor
Alexandroff, Susse 24 agricultor
Slate 22
Simon, Louis 26 cocheiro
Kernim, Ruben 22 barbeiro
Messer, Wolf 23 copeiro
Zulink, Itzick 22 agricultor
Kulesh, Morris 32 curtidor
Glasserman, Hune 33 agricultor Posto Zootechnico
238

Peishachovitz, Morris 29 carpinteiro Posto Zootechnico


Asman, Iste 21 padeiro
Moldener, Estke 19 sem profissão
Sisshaltz, Feibel 20 sapateiro
Becke 19 sapateiro
Kipnes, Lezer 28 sem profissão
Dutman, Kalman 35 agricultor
Horin (Hann), Simon 32 agricultor
Elke 22
Hershel 5
Shendel 3 (ingleza)
Mendel 6m
Goldberg, Abraham 30 (romena) cozinheiro
Becke 24 (russa) cozinheiro
Fisch, Abraham 24 sapateiro
Nome Idade Profissão Navio Data
de Chegada

Merle 23
Needlman, Barnett 28 lavador de roupas
Ziniee 26
Anny 8
Morris 4
Nathan 3
Simon 1 e meio
Hengel, mendel 26 mascate
Flanklin, Ruben 23 funileiro
Ette 20
Lea 1 e meio
Migdes, Samuel 27 agricultor
Needlman. David 26 lavador de roupas
Chaie 25
(cunhada)Fanny 24
Shulman, Nathan 22 sapateiro
Lea 22
Smarian, Abraham 24 acrobata
Sore 28
Scheindel 2
Smitts, Jacob 25 cozinheiro
Grutman, Leibe 28 ferreiro
Stern, Morris 27 agricultor
Lak, David 25 agricultor
Drunjinsky, Leib 22 serralheiro
Braustein, Nuchen 25 agricultor
Siber, Harris 20 carregador
239

[Fonte: Livro de Matricula de Imigrantes, 74, pp.258-266-


IMI]

Baranowitz, Louis 28 cocheiro Danube (Cherbourg-Santos)


30/8/1905
Becke 26
Jane 6
Grinspan, Jone 27 sem profissão
Sarah 21
Nome Idade Profissão Navio Data
de Chegada

Shazavsky, Morris 27 cocheiro


Sure 27
Silberman, Jankel 42 padeiro
Mirien 44
[Fonte: Livro de Matricula de Imigrantes, 75 ,pp.14-19 –
IMI]

Raschkovsky, Isaac 36 agricultor Clyde (South.- Santos)


17/11/1905
Tauba 28
Chaia 6
Feiga 2
Motel 3
Malka 7m
Bonder, Israel 56 agricultor
Menucha 50
Josef 19
David 17
Kowaliwker, Meer 30 agricultor
Chane 29
Ruchel 4
Saibel 3
Esther 2
Brane 7m
Dragum, Israel 28 sem profissão
Chawe 27
Zipa 2
Borl 7m
Stolerman, Chume 68 sem profissão
Idis 48
Frede 21
Nisen 20
Lisa 17
Moses 16
Samuel 28
240

Chaie 23
Wele 2 e meio
Brana 1 e meio
Nome Idade Profissão Navio Data de
Chegada

Leiser 6m
Berlin, Benjamin 30 sem profissão
Ruse 26
(irmão)Abram 20
Kuzi, Mendel 36 carpinteiro
Minza 28
Isaac 17
Masche 15
Blume 5
Sendor 1 e 5m
Seufer, Moses 19 carniceiro
Rose 19
Weintraub, Selick 35 fabricante de vinho
[Fonte: Livro de Matricula de Imigrantes, 75,
p.223 – IMI]

Selter, Salomon 47 agricultor Magdalena (South. -


Santos) 21/12/1905
(filha) Idel 22
Moses 19
Etel 16
Fuhrman, Elik 19 agricultor
Zwitel 20
Pipman, Benzion 23 agricultor
Bluma 23
Pipman, Mark 38 agricultor
Rebecca 36
Scheier 17
Zipre 15
Greschia 9
Jacob 6
Steinberg, Juda 44 agricultor
Feine 12
Israel 10
Anna 8
Lerman, Samson 33 agricultor
Debore 28
Josef 8

Nome Idade Profissão Navio Data


de Chegada
241

Ewgenia 5
Baruch 7m
Lerman, Samuel 26 agricultor
Bendersky, Mendel 38 agricultor
Itte 30
Baruch 10
Pine 7
Freida 1
(irmão) Nisen 30 agricultor
(irmão) Mordche 26 agricultor

[Fonte: Livro de Matricula de Imigrantes, 76, pp. 61-


62- IMI]

Kashitzky, Ishie 48 agricultor Thames (South.- Santos)


27/12/1905
Shloma 7
Schwarzman, Mark 42 agricultor
Feige 33
Ente 20
Rebecca 14
Moses 10
Maria 8
Burich 6
Gedalia 3 (obs. Esta última família aparece como católica, além
de outras, alemãs e austriaca católicos que se dirigerm para as colônias Nova Odessa e
Corumbatahy)

[Fonte: Livro de Matricula de Imigrantes, 76, p. 68 –


IMI]

Obodowsky, Sara 43 agricultor Clyde (South.- Santos)


18/1/1906
Boris 23
(nora) Mindel 20
Molie 18
Leib 10
Steinberg, Dwose 38 agricultor
Sone 20
Rosa 6
[Fonte: Livro de Matricula de Imigrantes, 76, p.117 –
IMI]
Obs. O mesmo navio leva 3 famílias que se destinam ao Rio Grande do Sul:
Hoffman, Eduard 38 (alemão) agricultor conta própria
Paulina 36
Anna 16
Augusta 14
242

Hulda 5
Adalina 2
Wanda 6m (apesar dos nomes figuram como judeus)
Krieg, Daniel 40 (russa) agricultor conta própria
Bertha 35
Nome Idade Profissão Navio Data de
Chegada

Heinrich 12
Emilie 9
Hulda 7
Anna 2
Reinhold 1 (apesar dos nomes figuram como russos)
Winarsky, Jacob 51 agricultor conta
própria
Rachel 50
Chune 19
Rebecca 21
Breine 15
Esther
[Fonte: Livro de Matricula de Imigrantes, 76 ,p.117 –
IMI]
243

26. Instituições Comunitárias de ajuda e amparo ao imigrante


israelita em São Paulo:
Da Sociedade das Damas Israelitas a UNIBES

Um dos capítulos significativos da história judaica no Brasil, e que deve


merecer a atenção dos pesquisadores interessados nessa área de estudos, é a formação e a
atuação das sociedades que foram criadas para facilitar a absorção do imigrante judeu
vindo, em particular, do Velho Continente ao nosso país. Por via de regra, as comunidades
israelitas, no momento em que se organizavam ou institucionalizavam nos centros urbanos
mais importantes do nosso território, entre outras instituições (sinagogas, escolas e demais)
procuravam criar uma entidade que devesse ter como finalidade facilitar a vinda e a
adaptação do imigrante ao novo solo onde ele deveria se radicar. Por vezes, tais instituições
mantinham contato com entidades congêneres de caráter internacional com ramificações
nos grandes centros europeus e nos Estados Unidos. Mas nem sempre isso era possível, e
nesse caso elas atuavam isoladas contando com a boa vontade e a ajuda dos membros
componentes da própria comunidade local. Excepcionalmente, poderiam até contar com o
auxílio ou participação de pessoas ou sociedades que não fossem judias, mas tais situações
eram raras, recaindo o ônus e a responsabilidade de apoio ao recém-chegado sobre as
instituições criadas especialmente para esse objetivo.
Em São Paulo, em 15 de junho de 1915, fundou-se a Sociedade Beneficente
das Damas Israelitas, que tinha como objetivo prestar auxílio e ajuda social aos imigrantes
necessitados, que começavam a vir em número cada vez maior a partir dos anos que
marcaram a Primeira Guerra Mundial e aos que imediatamente se seguiram. Ainda que não
possuamos uma estatística exata sobre a presença de israelitas no Brasil naqueles anos
(1915-1916), calcula-se esse número por volta de 3.000, e se no Rio de Janeiro, capital da
República, em 1916, calculava-se a presença de 100 famílias, podemos supor que em São
Paulo viviam não mais que a metade desse número, por se tratar de uma cidade de menor
atração para os imigrantes.393 A iniciativa para a criação da Sociedade das Damas Israelitas
foi tomada pelas senhoras pertencentes às famílias mais antigas que já haviam atingido um
nível econômico-social que permitisse suportar o peso financeiro da nova entidade. Entre as
iniciadoras encontramos Clara Klabin, Regina Bortman, Olga Netter, Olga Nebel, Olga
Tabacow, Clara Ficker, Esther Zippin, Nesel Klabin, às quais se juntaram Berta Klabin,
Riva Berezowsky, Polly Anna Gorenstein, Fanny Mindlin, Rosita Gordon, Sonia Azariah,
Mania Costa, Luba Klabin e muitas outras senhoras e senhoritas que carregariam e
desenvolveriam a novel Sociedade, levando-a a uma ampla atividade beneficente em favor
do imigrante.394 A assistência médica ampla, com auxílio de maternidade, também visava
atender a não judeus ou a quem recorresse à instituição. Durante a Revolução
Constitucionalista de 1932, em São Paulo, a Sociedade das Damas Israelitas contribuiu com
sua parte ao lado de outras entidades da ampla sociedade paulista. 395 Entre os seus
primeiros médicos encontramos as personalidades altruístas do dr. Walter Seng e dr. L.

393
Essa avaliação estatística foi feita pelo redator de “A Columna”, Prof. David José Perez, no n. 6 de
2/6/1916.p.77.Outras fontes se aproximam a esses números, ainda que sejam pouco fundamentados.
Há indícios que levam a concluir que um número deveria ser maior.
394
“A Columna”, n.6 de 2/6/1916, p.78; n. 14 de 2/2/1917, p.27.
395
V. Falbel , N., Estudos sobre a comunidade judaica no Brasil, F.I.S.E.S.P., São Paulo, 1984, pp. 131-133.
244

Lorch, que acompanharam durante muitos anos as atividades da Sociedade. Em 1935, a


Sociedade procurava criar uma creche para crianças israelitas, procurando, assim, ampliar
suas responsabilidades e sua atividade humanitária frente a comunidade, que nesse tempo já
reunia uma população numericamente mais significativa e já contava com outras
instituições, que foram surgindo à medida que se intensificava a vinda dos grupos ou
correntes migratórias judaicas de diversas origens, entre elas, da Alemanha, que passou a se
organizar em moldes próprios. Tal fato levou a Sociedade das Damas Israelitas a se fundir,
em 10 de junho de 1940, com o Lar da Criança Israelita e a Gota de Leite da Associação
B’nai B’rith. O Lar da Criança Israelita foi fundado em 1939 pelas senhoras Luba Klabin,
Fanny Mindlin, Bassia Dreizin, Mina Gantman, Genny Zlatopolsky, Dora Deutsch, Polly
Saslavsky, Riva Berezowsky, Alice Krausz, Luiza K. Lorch, Vera Proushan, Anny Zausner
e Rosa Zlatopolsky, e tinha como finalidade amparar e dar abrigo a crianças de 3 a 7 anos
cujas mães necessitavam trabalhar. Luba Klabin promoveu uma campanha para a compra
de um terreno na rua Jorge Velho, o que permitiu a inauguração do Lar em 12 de abril
daquele ano. Mais tarde, tornar-se-ia o Jardim Maternal da Ofidas. Ainda no ano de 1932
foi criada a Gota de Leite da Associação B’nai B’rith, pelas senhoras Luiza K. Lorch, Alice
Krausz, Anny Zausner, Fanny Mindlin, entre outras, que cuidava de recém-nascidos
fornecendo leite, remédios, enxovais, e contava com a orientação pediátrica do Dr. Ângelo
Candia, bem como com o respaldo da Sociedade das Damas Israelitas. Assim, a Ofidas –
Organização Feminina Israelita de Assistência Social, ao surgir, englobaria os serviços
sociais prestados pelas entidades anteriores, que a formavam através da sua união. Sua
atividade abrangia, além da assistência social propriamente dita, setores de gabinete
dentário, higiene infantil, roupas usadas, orientação profissional, chegando a ter, durante
certo tempo, um curso vocacional. Durante sua existência, a Ofidas foi presidida por Luiza
Lorch, Rachel Bacaleinik, Berta Fleitlich, Rosa Aizenberg, Fanny T. Felmanas, além de sua
primeira presidente-fundadora Luba Klabin. A doação de terrenos de propriedade de Rosa
Hottinger e Luba Klabin na rua Rodolfo Miranda permitiu a contrução do novo prédio
próprio, que foi inaugurado em 1960. Quando em 1969 instalou-se o Serviço Social
Unificado, compreendendo a Ezra, a Congregação Mekor Haim, a Congregação Israelita
Paulista, a Sociedade Cemitério Israelita, a Sociedade Brasil-Bessarabia, a Ofidas passou a
integrá-la como uma de sua instituições.
Posteriormente, outras fusões ocorreram com sociedades paralelas, até o
surgimento de uma entidade única que congregasse toda a assistência social e a atividade de
beneficência ao imigrante, assim como ao menos favorecido, sob um único teto. 396
Por outro lado, a Ezra, ou a Sociedade Israelita Amigos dos Pobres – assim ela
se autodenominava na Ata número 1 da entidade – foi fundada em 20 de maio de 1916, e na
ata mencionada define seus objetivos como sendo “em especial, não deixar que peçam
esmola, auxiliar os pobres, doentes, e arranjar serviço aos que não têm, e ajudar também
materialmente, quando necessário”.397
Os fundadores novamente representam as famílias mais antigas de São Paulo,
sob a iniciativa de José Kauffmann, Benzion Zaduchliver, David Tridman, José Nadelman,
Isaac Tabacow, Israel Ticker, David Berezowsky, Salomão Lerner, Jona Krasilschik, Boris

396
Esses dados foram extraídos dos Livros de Atas da Sociedade Beneficente das Damas Israelitas do acervo
do Arquivo Histórico Judaico Brasileiro.
397
Livro de Atas da Ezra, no A.H.J.B.; periódico “A Columna, n. 6 de 2/6/1916, p. 78; n. 8 de 4/8/1916, p.
117; n. 14 de 2/2/1917,p. 27.
245

Weinberg, Jacob Schneider e vários outros ativistas da comunidade daquele tempo. O


princípio que regeu os inícios dessa sociedade era o mesmo da Sociedade das Damas
Israelitas, ou seja, o ônus financeiro recairia sobre os ombros dos sócios fundadores, além
da coleta entre membros da comunidade de São Paulo e outras cidades do interior. A
atividade e a coleta de fundos era realizada também com a organização e promoção de
eventos sociais, incluindo o teatro em ídiche, com a participação de artistas amadores, que
tinham, assim, a oportunidade de revelar seus talentos. 398
Na publicação “História da Ezra”, esses artistas são lembrados com um
sentimento de gratidão por terem permitido a angariação de fundos necessários para o bom
desempenho da nova entidade. Os amadores chegaram a formar um pequeno grupo teatral
com o nome de “Scholem Aleichem”, em homenagem ao clássico escritor da língua ídiche.
Entre os artistas amadores encontramos Benzion Zaduchliver, Samuel Kleimann, Isaac
Meir Bronstein, Marcos Bronstein, Michel Berezowsky, Anchel Krasilschik, David Becker,
Chava Ticker, Fridel Zaduchliver, Sofie Bronstein e Fany Feldman. 399
Poderíamos resumir dizendo que, nos primeiros anos de atividade da Ezra, ela
atingiu cinco objetivos, a saber: 1) ajudar pobres necessitados; 2) fornecer ajuda médica e
hospitalar a quem necessitava; 3) ajudar os imigrantes de passagem a chegar a seu destino;
4) fornecer empréstimos aos que se dirigiam à instituição; 5) visitar enfermos em suas casas
para ampará-los no que fosse necessário. Ao mesmo tempo, a Ezra passou a entrar em
contato com instituições internacionais que auxiliavam no encaminhamento da imigração
judaica em várias partes do mundo, tais como a J.C.A. (Jewish Colonization Association)
de Londres, a Emigdirekt na Alemanha e a Hias nos Estados Unidos. Mais tarde, essa
organizações se unificariam e coordenariam suas atividades sob uma única entidade, a
HICEM.
Em São Paulo, nos primeiros anos de existência, a Ezra pôde desincumbir-se de
suas responsabilidades de ajuda médico-hospitalar graças “a cooperação do Hospital Santa
Catarina, para onde encaminhavam as pessoas enfermas. Os tuberculosos eram orientados
para os sanatórios de São José dos Campos até que, mais tarde, fosse construído o sanatório
da Ezra, em 1935. Um dos momentos difíceis que a instituição teve que enfrentar foi a
ocorrência da “gripe espanhola”, que atingiu a população de São Paulo logo após o término
da Primeira Guerra Mundial e ceifou muitas vidas da população local. A Ezra mobilizou-se
para enfrentar a situação e transformou a sinagoga Knesset Israel, construída pouco antes,
em hospital e abrigo de enfermos. Médicos que serviam à Ezra e dois estudantes judeus da
Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, filhos do primeiro rabino de São Paulo
Mordechai Guertzenstein, Dr. Leão e Rebeca, ajudaram a salvar cerca de sessenta
enfermos, sendo elogiados por sua dedicação pelo próprio governador do Estado daquele
tempo, Altino Arantes, assinalando o papel importante desempenhado pela instituição de
beneficência e pela comunidade israelita para debelar a terrível epidemia.
Nos anos que se seguiram ao término da Primeira Guerra Mundial, a imigração
judaica no Brasil aumentou consideravelmente, devido também a restrições impostas por
outros países, entre eles a Argentina, que desde o século passado absorveu a maior parte da
imigração israelita que se dirigia à América do Sul, além dos Estados Unidos. Assim, a

398
“A Columna” n. 6 de 2/6/1916, no qual se menciona que foi levada à cena a opereta “Dos pintele yid” em
benefício da Ezra. Também em outros lugares do livro de Atas n. 1 da mesma entidade.
399
“História da Ezra e do Sanatório Ezra” (Geschichte fun Ezra un Sanatorie Ezra), São Paulo, 1941, pp.19-
20.
246

população judaica em nosso país foi crescendo, e a Ezra teve que se adaptar à nova
situação. Houve a necessidade de apressar o término de um salão da sinagoga Knesset
Israel para utilizá-lo como abrigo de imigrantes, que começavam a vir em maior número. O
término da guerra também permitiu que israelitas voltassem à Europa com o fim de trazer
suas famílias para a nova terra. A questão da imigração e da adaptação dos imigrantes
preocupava a todos, o que levou a comunidade a indicar condições para que procurassem
novos caminhos para a solução do problema. Desse modo, surge em 1924 uma Sociedade
Pró-imigrantes, sob a orientação do dr. Horácio Lafer e outros, que na verdade não poderia
arcar sozinha com os objetivos aos quais se propusera, e, portanto, teve que recorrer à Ezra.
Porém, com a chegada ao Brasil, no fim de 1923, do rabino Isaias Raffalovich, como
representante da J.C.A. entre nós, formulou-se, a partir daquele ano, uma política de
proteção e assistência ao imigrante que daria melhores frutos no futuro próximo e durante
os anos em que ela mais se intensificou. A própria Ezra mudaria seu nome para Sociedade
Israelita Beneficente e abarcaria uma gama múltipla de atividades comunitárias.
A atividade da Ezra estimulou a criação de uma Cooperativa de Crédito em
1928, ano em que também começou a atuar naquela organização o dinâmico empreendedor
Benjamin Kulikovski. A Cooperativa de Crédito visava fornecer os primeiros empréstimos
ao imigrante para permitir que se estabelecesse com algum negócio ou outro
empreendimento pessoal. Procurava-se, desse modo, criar para a imigração organismos
financeiros que pudessem ajudar aos que chegavam ao país a se enraizarem na sociedade
brasileira, impedir o seu fracasso e a conseqüente volta aos lugares de origem, como de fato
ocorria em anos e décadas anteriores. Nesse sentido, Raffalovich, em encontro em Paris,
no ano de 1928, procurou convencer a HICEM, recém-formada, a não abrir escritórios nas
grandes capitais ou centros de imigração, mas a aproveitar as entidades beneficentes e de
ajuda existentes para assumirem, com seu apoio, o papel orientador e executivo para a
absorção e encaminhamento do imigrante. A um dado momento, e graças ao contato com o
Ministério da Agricultura, a Ezra conseguiu, através do Dr. Cristiano da Luz, diretor do
Departamento de Fomento Agrícola e Colonização, que as passagens para o deslocamento
dos imigrantes fossem pagas pelo governo, o que representava uma soma respeitável para
os anos de grande imigração, durante a década de 20. Dr. Cristiano da Luz e seu filho e
médico Dr. Paulo Ribeiro da Luz colaboraram com a instituição israelita em sua atividade
imigratória, que havia aumentado, e a obrigou a mudar seu escritório (antes instalado em
uma sala da tradicional Escola Renascença) para um prédio que pudesse também abrigar
imigrantes, na rua Bandeirantes, 26, no Bom Retiro. Nesse tempo, em 1929, a Ezra também
alugou um armazém para guardar as bagagens dos imigrantes e providenciou a indicação de
um representante em Santos, que deveria acompanhar os que desembarcassem naquele
porto até São Paulo.
Um dos aspectos interessantes da ajuda prestada pela Ezra à absorção dos
imigrantes judeus foi o do ensino da língua portuguesa aos recem-chegados, cujos cursos
contavam com uma boa freqüência.400
A entidade procurou abrir novas oportunidades de trabalho, entrando em
contato com empresas e indústrias existentes na São Paulo daqueles tempos.
Desse modo, os imigrantes que chegavam podiam completar ou adquirir
conhecimentos profissionais e encontrar empregos mais rendosos. A própria Light and
Power Company, a Companhia Mecânica e outras empresas de vulto daqueles anos abriram

400
Livro de Registro dos Imigrantes da Ezra , no acervo do A.H.J.B.
247

suas portas para receber imigrantes que desejavam um aperfeiçoamento profissional e


emprego.
O ano de 1929 representou, em termos estatísticos, uma etapa de intensa
imigração, e exigiu uma especial arrecadação de fundos para que a Ezra pudesse atender a
suas finalidades. Para termos uma idéia do aumento sensível da imigração nesse ano e do
fardo financeiro que a entidade teve que carregar devemos nos deter no seguinte quadro
comparativo:

1928 1929
imigrantes registrados 680 1.611
imigrantes que receberam ajuda 270 1.065
imigrantes encaminhados 270 867
despesas com pensões 5.573$000 56.373$000
despesas gerais c/ imigrantes 3.742$000 20.044$000
despesas diversas 87.953$000 218.536$000
subsídios 27.632$000 114.060$000
ingressos de sócios 16.791$000 21.959$000
passagens grátis 80 224
cartas recebidas (p/ imig.) 476 4.873
cartas expedidas 513 1.073
receitas p/ imig. 120 294

No mesmo ano, em 15 de novembro, fundava-se uma outra instituição denominada


Linat Hatzedek, sob a iniciativa de Julio Kuperman, Simão Deutschman, Idel Tkatschuk,
Kuba Kuperman, Henrique Bidlovski, Bernardo Serson, Pierre e Max Schmiliver, Adolfo
Wolff e Leon Elinger. A finalidade da instituição, como seu nome o diz, era mobilizar
pessoas para pernoitar com enfermos e conseguir instrumentos e meios para que pudessem
levar uma vida normal. A família de Isaac Tabacow, em 1931, com a doação de um imóvel
na rua Ribeiro de Lima, permitiu que a instituição lá funcionasse até 1960. Posteriormente,
a Linat Hatzedek, que foi presidida por Salo Wissman, Adolfo Wolff e Samuel Mitelman,
transformar-se-ia na Policlínica, que acabaria por ser conhecida como a instituição médica
central da comunidade israelita de São Paulo e o braço auxiliar do trabalho de assistência
das Ezra até o ano de 1976, quando se incorporou à Ofidas.
A mudança da política imigratória brasileira com a ascensão de Getúlio Vargas no
cenário político nacional, a partir de 1930, que impôs as “cartas de chamada”, diminuiu o
número de imigrantes israelitas, ainda que não levasse a sua inteira estagnação.
Dificuldades bem maiores surgiriam com o Estado Novo e a política discriminatória
antijudaica do governo brasileiro durante aquele ano, compreendendo a Segunda Guerra
Mundial, e mesmo após o Holocausto.
Contudo, a atividade da Ezra não cessou durante aqueles anos, e a própria
instituição aperfeiçoou-se com a assessoria jurídica e orientação profissional do Dr. Oscar
Tollens, que teve um papel importante na legalização dos recém-vindos e nos
procedimentos para ajudar a fixação de vários imigrantes. A Ezra contou também com a
ajuda de uma sociedade de caráter cultural fundada em 1930 por Henrique Bidlovski, Max
Jagle, Mechel Zaltzman, Henrique Ostrovich, Max Altman e outros, sob o nome de
248

Associação dos Israelitas Poloneses, que na revolução daquele mesmo ano ajudou a mitigar
as necessidades dos mais pobres da população israelita de São Paulo, assim como o faria
em 1932.
A Ezra continuou sua atividade beneficente e de ajuda social em relação aos
imigrantes israelitas durante as décadas seguintes, antes e após a Segunda Guerra Mundial,
enfrentando os desafios de tempos difíceis e tormentosos para a humanidade em geral, e
para os judeus em particular, os quais, na sua longa trajetória histórica, se caracterizaram
como um povo migrante por excelência, encontrando, porém, no Brasil, uma instituição
humanitária impregnada de idealismo que não media esforços e sacrifícios para amparar
seus correligionários. Em 1976, formar-se-ia a UNIBES, União Brasileiro-Israelita do
Bem-estar Social, fruto da unificação das instituições Ofidas, Ezra e Linat Hatzedek, graças
à extraordinária visão comunitária de seus presidentes naquela época: Antonieta Bergamo,
Adolpho Berezin e Samuel Mitelman, alcançando-se, desse modo, a reunião total das
sociedades assistenciais da comunidade judaica de São Paulo. Desde a fusão, em 1976, a
UNIBES foi presidida por Antonieta Bergamo, Petronia Teperman e Anita Schwartz.
A UNIBES atende a todas as faixas etárias da população, desde crianças até idosos,
incluindo serviço social que visa reabilitação social e econômica, distribuição de alimentos
e roupas, o que também permite o funcionamento de um bazar permanente, cujo ingresso é
revertido em auxílio ao carente. A UNIBES possui um serviço de atendimento médico,
recebendo nesse aspecto a colaboração da FISESP, Federação Israelita do Estado de São
Paulo. Desse serviço médico faz parte a distribuição de remédios de sua farmácia e grupos
de apoio para terapia ocupacional de terceira idade e de atendimento psiquiátrico. A
preocupação e o zelo da instituição para com as crianças são expressos no trabalho
realizado pela creche Betty Lafer e os programas de complementação escolar que se
estendem até mesmo durante o período de férias escolares.
Ao fazermos um esboço histórico da beneficência social na comunidade judaica de
São Paulo, que completou seu 80o aniversário no ano de 1995, não podemos deixar de
expressar o sentimento que deve perpassar o coração e a mente de todos: de que as mãos
infatigáveis das mulheres e dos homens que a sustentaram e ampararam fizeram jus ao dito
talmúdico: “O mandamento de praticar a caridade pesa tanto quanto os outros todos
reunidos” (Baba Batra, 9b).
249

27. Subsídios à história da educação judaica no Brasil


Subsídios à História da Educação Judaica no Brasil

A história da educação judaica no Brasil ainda está por ser feita, uma vez que,
até agora, nenhuma pesquisa sistemática foi realizada, ainda que vários projetos nesse
sentido tenham sido propostos por instituições comunitárias e mesmo por indivíduos
interessados na questão, mas que, lamentavelmente, não chegaram a se concretizar.
Nossa intenção, além de voltar a chamar a atenção ao tema que permanece em
aberto aos pesquisadores, é dar pequena contribuição ao seu estudo, através de elementos
que colhemos fortuitamente na imprensa judaica e em outras fontes que mencionaremos em
nosso trabalho401.
Coube à J.C.A. (Jewish Colonization Association), ao dar início, em 1904, à
colonização de Philippson, no Rio Grande do Sul, a criação de uma primeira escola judaica
no Brasil.402 Mas, antes de tudo, devemos entender que a preocupação da J.C.A. era atender
à vontade e ao desejo dos colonos em transmitir aos seus filhos os conhecimentos judaicos
necessários para que a nova geração soubesse a língua de seus pais, bem como as tradições
de seus antepassados. Dessa forma, o termo “escola” deve ser entendido como
complementação de estudos judaicos, que deveriam estar associados a conhecimentos
gerais básicos. Porém a partir dos estudos complementares judaicos dos primeiros anos,
chegaram os colonos de Philippson a estabelecer, mais tarde, verdadeira escola local,
reconhecida e supervisionada pelos órgãos educacionais do Estado. No interessante livro de
memórias de Frida Alexander,403 encontramos elementos para seguir essa evolução da
escola em Philippson, assim como tomamos contato com seus primeiros professores,
permitindo-nos ter uma idéia de seu currículo. Por não ter tido a intenção de fazer um livro
histórico, Frida Alexander não se ateve às datas, tão importantes para o historiador, o que
dificulta, de certa maneira, precisar o desenvolvimento da escola local. No capítulo em que
relata a festa de inauguração da escola, construída de madeira, menciona a vinda de um
professor de português, León Back,404 mas, em outro lugar, indica que as aulas de ídiche e
hebraico eram ministradas num anexo do chill (sinagoga) pelo rebe Abrão Waissman.405
Porém, logo em seguida, na mesma página, a autora escreve que, “quando a nova escola foi
inaugurada, dispondo de amplas janelas, tendo como professor de português um eminente
pedagogo, León Back, a quem breve juntar-se-ia o professor Israel Becker, para lecionar o
ídiche e o hebraico”, leva-nos a concluir que, de início, a escola era anexa à sinagoga, no
estilo do beit-hamidrash europeu apenas para o ensino do ídiche e do hebraico, mas,

401
Impomos ao nosso trabalho uma limitação cronológica até a década de 20, uma vez que nossa intenção, no
momento, é o estudo do início da educação judaica no Brasil.
402
A razão pela qual começamos com a J.C.A. deve-se ao fato de não sabermos absolutamente nada sobre a
educação judaica no século XIX, apesar das correntes imigratórias judaicas terem aportado em nosso território
nas primeiras décadas daquele século e aumentado nas últimas, principalmente a partir da imigração
alsaciana, em 1871.
403
Alexandr, Frida, “Filipson”, ed. Fulgor, São Paulo, 1967.
404
Op. cit., p. 31.
405
Op. cit., p. 37.
250

posteriormente, foi concluído um edifício apropriado a esse fim com a intenção de ter um
currículo mais completo.
O livro de Frida Alexander ainda é muito importante para conhecermos os
professores que lecionaram em Philippson, e, além dos já mencionados, aparece a figura
trágica do “Rebale”, que acabou morrendo no anonimato na selva que rodeava a região 406 o
professor Idel Leib Averbuch, que exerceu também a função de bibliotecário da escola e
veio a morrer na flor da idade407; o professor Usher Steinbruch408, que lecionou ídiche e
hebraico como substituto do professor Becker; Marcos Frankenthal,409 que veio em um
momento em que a escola estava quase em abandono; e, por fim, o professor Abrão
Budin410, que permaneceu durante muitos anos como diretor da escola e parece ter sido seu
sustentáculo. Lamentavelmente, pouco sabemos desses professores, com exceção da figura
de Marcos Frankenthal, que veio mais tarde a São Paulo e estabeleceu-se com a Tipografia
Palestina e fundou, em 1931, o periódico “San Pauler Idische Tzeitung”, que exerceu papel
cultural e social importante na vida comunitária judaica. Quanto ao professor Abrão Budin,
encontramos duas cartas de seu punho, escritas em português, ao professor David J. Perez,
e seu nome é mencionado várias vezes no jornal “A Columna” (1916-1917). O conteúdo
das cartas relaciona-se ao próprio jornal, sendo que, na primeira, manifesta ele suas
congratulações com o aparecimento do periódico, escrita com verdadeiro entusiasmo411, e a
segunda trata de doação ao Comitê de Socorro aos Israelitas Vítimas da Guerra. 412

PROGRAMA COMPLETO

Eva Nicolaiewsky413, em seu livro “Israelitas no Rio Grande do Sul”, traz


algumas referências bibliográficas importantes sobre a escola judaica de Philippson, sendo
a primeira tirada da “Breve História dos Judeus no Brasil”, de S. Serebrenick e E. Lipiner,
onde se lê: “Em 1906, aproximadamente, foi organizada a primeira escola da Colônia
agrícola Philippson, com 50 alunos e 3 professores. Foi essa a primeira escola de ensino
judaico no Brasil”. Outra referência é extraída do artigo sobre a “Imigração Judaica no Rio

406
Op. cit., p. 102.
407
Op. Cit., d. 131-132. Uma foto do mesmo encontra-se no livro de Eva Nicolaiewsky, que mencionaremos
adiante em nosso trabalho. A atitude individual de um professor se revela nas palavras de Frida Alexander:
“O professor Idel Leib costumava reunir os alunos já prestes a terminar o curso, e com eles debater sobre os
livros e orientá-los na escolha de outros.”
408
Op. cit., p. 132-133.
409
Op. cit., p. 139 e 144.
410
Op. cit., p. 127 e seguintes. A autora descreve a personalidade do professor Abrão Budin nos seguintes
termos: “O professor Budin era impecável nas suas maneiras e no seu modo de trajar. Nunca se exaltava com
os alunos, ministrava as aulas com bondade e paciência. Quando algum aluno cometia alguma falta, as faces
do professor Budin se cobriam de rubor, um sorriso encabulado se esboçava no canto de sua boca, como se
fosse pedir desculpas à classe pela falta que não cometera”.
411
As cartas fazem parte da coleção de documentos microfilmados do arquivo do professor David José Perez,
cuja cópia nos foi cedida pelo Central Archives for the History of the Jewish People, em Jerusalém, graças à
atenção e gentileza do Prof. Haim Avni. As datas das cartas são 11/05/1916 e 03/07/1916.
412
Trata-se da instituição criada no Brasil em 1916, com a finalidade de atender às necessidades dos judeus
no continente europeu, que estavam sofrendo as agruras da Primeira Guerra Mundial.
413
Nicolaiewsky, E., “Israelitas no Rio Grande do Sul”, ed. Guaratuja, P.A., 1975.
251

Grande do Sul”, escrito pelo Dr. León Back414, para a Enciclopédia Rio-grandense que
testemunha sobre si mesmo como professor: “Foi enviado pela J.C.A., de Paris, onde era
professor e vice-diretor da École Horticole et Professionelle, para Lisboa, a fim de aprender
ali o português e, posteriormente, para Philippson, onde chegou a 5 de junho de 1908,
instalando uma escola. As aulas da manhã e da tarde eram freqüentadas por cerca de 60
alunos. Nas últimas horas da tarde, funcionava uma aula para uns 20 adultos”.
Conforme instruções da J.C.A., os alunos, quase todos nascidos na Europa,
deviam ser educados como brasileiros. Por isso, a escola seguia os programas e adotava os
livros dos estabelecimentos públicos. Nas escolas só era admitido o uso da língua
portuguesa, com exceção do hebraico, ensinado nas aulas de instrução religiosa. Sabemos
pelo livro de Frida Alexander que também o ídiche era ensinado na escola.
Eva Nicolaiewsky ainda traz duas importantes menções sobre a escola de
Philippson, a primeira extraída de Ernesto A. Lassance da Cunha, que em sua obra
publicada em 1908, portanto bem próxima dos primeiros anos da colônia, escreve, à página
153: “Os colonos de Philippson são todos de origem russa e, na maior parte, já falam nosso
idioma. Na própria colônia existe uma escola particular para adultos e crianças, onde são
ensinados os idiomas português e hebraico”. A segunda referência é extraída do livro de
Hemérito José Veloso da Silveira, com o título “As Missões Orientais e seus Antigos
Domínios”, publicado em 1910, onde, à página 606, se lê: “A população de Philippson,
embora espargida por seus diversos lotes coloniais, embora entregue aos trabalhos nas suas
terras e indústrias dos lacticínios e outras, os israelitas não têm descuidado da instrução de
seus filhos. Na sede da colônia há aulas de português e hebraico, sustentadas pelos próprios
colonos”.
Eva Nicolaiewsky lembra mais dos professores que lecionaram em Philippson.
São eles, Chaim Ber Verba e José Pontremoli e, com razão, a autora observa que,
“considerando que as colônias possuíam de 25 a 30 hectares cada uma e que as moradias
foram edificadas dentro dessa área, é fácil imaginar o longo percurso a que estavam sujeitos
os alunos, atravessando campos, córregos, matos e defendendo-se das cobras, até atingirem
a escola”.
Outro aspecto interessante da escola é a composição mista de seus alunos,
incluindo católicos entre os mesmos, o que pode ser confirmado pela fotografia de 1908 e a
relação dos nomes dos alunos, publicada no livro de Eva Nicolaiewsky, em página não
numerada.415
Ao que tudo indica, a orientação imprimida pela J.C.A. à escola deveria ser a
de uma instituição que pudesse facilitar a adaptação dos filhos dos colonos ao novo país e
com padrões do mundo ocidental, afastando-se da mentalidade do schtetl, típico da Europa
Oriental.416
O caráter oficial da escola, reconhecida pelas entidades públicas do Estado, é
novamente comprovado por uma passagem no livro de Frida Alexander, quando relata que
“um acontecimento importante deixou marcada em Philippson a passagem do professor
Budin. Foi no fim do ano, pleno de atividades, quando, a convite do administrador Pereira e

414
Trata-se do professor León Back, a quem mencionamos anteriormente.
415
A mesma fotografia encontra-se na “Enciclopédia Judaica”, ed. Tradição, Rio de Janeiro, 1967.
416
É Preciso lembrar que a J.C.A. foi orientada por uma administração saída do judaísmo da Europa Ocidental
e tinha uma visão do judaísmo diferente da do schtetl.
252

do próprio professor Budin, tivemos uma comissão de examinadores enviada pelo Governo
do Estado, entre os quais João da Silva Belém, um dos luminares da pedagogia do Rio
Grande do Sul, e Walter Jobim, quem veio a ser, mais tarde, presidente do Estado”.417

EM QUATRO IRMÃOS

Com a instalação da segunda colônia da J.C.A., Quatro Irmãos, a partir de


1912, podemos supor que uma escola tenha se instalado no novo núcleo colonizador. Mas,
os poucos dados que temos são insuficientes para estabelecer alguma comparação com a
escola de Philippson, que a antecedeu. Tampouco sabemos com exatidão em que ano teve
início e quais professores lecionaram durante seus primeiros anos de existência. A única
fonte de informações importantes que pudemos obter foi o depoimento oral do insigne
professor Jacob Levin, que tanto contribuiu para a educação judaica no Brasil, pois foi
professor nos núcleos que formavam a colônia de Quatro Irmãos, a partir de 1929, e em
1935 tornou-se um dos educadores de destaque na escola Talmud Torá, fundada dois anos
antes em São Paulo, imprimindo-lhe orientação que a transformou num estabelecimento de
ensino exemplar em nossa comunidade.
Segundo o professor Jacob Levin, havia várias escolas na região de colonização
de Quatro Irmãos, que tiveram início em 1912. A mais antiga seria a de Quatro Irmãos
propriamente dita, pois, segundo seu depoimento, certos professores que atuaram em
Philippson, tais como Marcos Frankenthal e León Becker, passaram a lecionar na nova
colônia. Porém, formaram-se escolas nos núcleos de Barão Hirsch, Baroneza Clara e
Pampa,418 sendo que, a partir de 1929, o professor Jacob Levin, além de lecionar as
matérias judaicas (ídiche, hebraico, história judaica, Escrituras Sagradas ), tinha a função de
supervisor das escolas nessas colônias. Explica-se a existência de uma escola para cada
núcleo devido à grande distância existente entre um e outro ponto de colonização. Lembra
bem o professor Levin que, por essas escolas, passaram professores que, mais tarde,
serviram também como educadores nas escolas judaicas de outros Estados e de outras
cidades do Rio Grande do Sul. Entre eles, são lembrados o professor Jacob Faingelernt 419 e
o professor Karolinsky, ambos conhecidos, pois tiveram atuação em outras escolas, assim
como os professores Aizik Matone, Blazer, Vitemberg, que não continuaram em seu mister
de mestres, voltando a seus lugares de origem ou passando a outras ocupações.
O significado dessas escolas para a educação judaica no Brasil ainda está por
ser avaliado, pois, como podemos depreender pelo depoimento do professor Jacob Levin,

417
Op. cit., p. 128.
418
Eva Nicolaiewsky, em seu livro, menciona também o núcleo de Rio Padre, mas não sabemos se havia
escola ou não nesse local.
419
Encontramos alguns traços semibiográficos no livro de Karakuschansky, S., “Aspektn funen idischen leben
in Brazil”(Aspectos da vida judaica no Brasil), ed. Monte Scopus, Rio de Janeiro, 1957, vol. II, pp. 66-67.
Lamentavelmente, o excessivo “literalismo” do autor, que acompanhou de perto a vida judaica do Rio de
Janeiro, a partir da década de 20, e portanto poderia nos dar excelente testemunho do período, prejudica em
muito o aspecto histórico de seu trabalho, que se torna difuso no tempo e no espaço, carente de objetividade e
mesclado de apreciações pessoais, nem sempre corretas, sobre as personalidades que nos apresenta. Professor
Faingelernt lecionou em Porto Alegre, Curitiba, Belo Horizonte e, por fim, no Rio de Janeiro. Devemos
lembrar, ainda, que o autor do livro acima citado dedica, no vol. I, um capítulo à educação judaica no Brasil.
253

elas serviram de incubadoras para a formação de professores para as escolas de outros


lugares e cidades do Brasil. O ensino, pelo visto, era eficiente, e o professor Jacob Levin
lembra com emoção daqueles pequenos lugarejos e de como as crianças falavam ídiche e
hebraico com fluência. A mesma observação ouvimos também no depoimento oral do
professor Abrão Kanas, que lecionou certo tempo nas colônias e, mais tarde, foi radicar-se
em Sorocaba. As escolas daqueles núcleos de Quatro Irmãos eram reconhecidas pelo
Estado e conferiam a seus alunos certificados com validade equivalente às demais.
As escolas tiveram apoio direto da J.C.A., seja sob aspecto material, seja sob
estímulo espiritual da parte de seu representante, o rabino Isaías Raffalovich, rabino-mor do
Rio de Janeiro,420 que aportou naquela cidade em dezembro de 1923. Seu interesse pessoal
na educação judaica o levou a viajar pelos Estados, criando escolas em vários lugares e
incentivando, com apoio material, seu funcionamento. Em especial, as escolas da J.C.A.
estavam sob sua responsabilidade, por força de sua função como representante daquela
instituição. Em seu livro “Tziunim ve-Tamrurim”421 ele retrata alguns aspectos relativos à
formação e orientação dada às escolas da época, em particular quanto à introdução do
estudo do hebraico ao lado do ídiche, que levou a que fosse atacado pelos “idichistas.” 422

OUTRAS ESCOLAS

Podemos supor que na região da Santa Maria, onde se encontrava a colônia


Philippson, tenha existido uma escola judaica com crianças das famílias que deixaram a
colônia, pois, em 1915, já havia uma comunidade organizada. Mas nenhuma notícia
documentada encontramos que comprove a existência de qualquer escola. Por outro lado,
temos uma notícia concreta a respeito de uma escola na cidade sulina de Pinhal, notícia essa
publicada em 1917 no jornal “A Columna”, e que nos informa: “Em Pinhal, os alunos e
alunas israelitas da escola do sr. Professor Max Rosenberg representaram a peça “O Rei
Lear”, do conhecido israelita Jacob Gordin, em quatro atos com música. O espetáculo foi
representado pelos alunos e alunas de idade de 8 a 12 anos. Os trabalhos foram tão bem
executados que o público, nas passagens graves do drama, sentiu-se profundamente
emocionado, havendo muitas pessoas que não contiveram as lágrimas. Como ato final,
levaram uma comédia que fez rir a todos os assistentes. Ao mesmo tempo, foi recolhida
pelo sr. Dionísio Steinberg a quantia de 97$000 para as vítimas israelitas da guerra.
Tomaram parte no espetáculo os seguintes artistas: Jacob Soltz, Rebeca Soltz, Isaac Wolf,
Fani Sibemberg, Rachel Sibemberg, Miguel Schneider, filho de ...”423
Em São Paulo, temos como primeira escola o Talmud Torá Bet-Sepher Yvri,
assim chamado em “A Columna”, que em vários de seus números publicou uma série de
notícias que tratam desde a fundação da escola até seus primeiros avanços. Em março de
1916, Alexandre Algranti, representante do periódico mencionado, em São Paulo, em
conferência proferida em benefício da Biblioteca Israelita de São Paulo, expressava seus
votos “para que, em breve, seja organizado um festival como este, com o fim de se fundar

420
O rabino Raffalovich vinha da Inglaterra, onde serviu durante muitos anos como guia espiritual de
Liverpool.
421
Editado em 1952.
422
Op. cit., p. 186.
423
“A Columna”, n.ºs de set., out., nov., dez., 1917, p. 155
254

uma escola israelita nesta cidade, que conta com elementos seguros de vida, em virtude da
prosperidade de sua colônia”.424 No número de maio do mesmo ano, noticiava-se que, “a 25
de fevereiro próximo passado, fundou-se, na capital de São Paulo, um Talmud Torá, o
primeiro no Sul do Brasil de que temos notícia. A freqüência em abril era de 23 alunos, 20
do sexo feminino e 3 do sexo masculino”.425
Ainda no mesmo número se noticia que “a Sinagoga da rua da Graça, em São
Paulo, esteve muito concorrida durante o tempo de Pessach, sendo grande o número de
nossos correligionários que ali foram fazer suas orações. Todos os que ali estiveram nesses
dias prontamente contribuíram no limite de suas posses para a manutenção do Talmud
Torá”.426 Já em junho do mesmo ano, ou seja, poucos meses após a fundação da escola,
noticiava-se que o Talmud Torá Bet-Sepher Yvri desta cidade (São Paulo) estava
melhorando. “Conta, atualmente, segundo informações de seu diretor, com 44 alunos
inscritos, sendo 20 do sexo masculino e 24 do sexo feminino”.427 Alguns viajantes do Rio
de Janeiro que vieram a São Paulo para visitar as instituições da comunidade também dão
testemunhos da escola recém fundada e, entre eles, temos o de Max Fineberg, presidente da
primeira sociedade sionista no Brasil, a Tiferet Sion, que assim escreve: “...o Talmud Torá,
recentemente fundado, que vai prestando o inestimável serviço de instruir os filhos de
nossos correligionários na língua dos profetas e educá-los propriamente para que sejam tão
bons israelitas como brasileiros”.428
O secretário de “A Columna”, Ambrosio M. Ezagui, em artigo sobre São
Paulo, refere-se a Talmud Torá “que tem uma freqüência regular de alunos, sendo a nossa
doce língua lecionada pelo sr. Júlio Itkis, com resultados satisfatórios, como notei quando
tive a felicidade de visitar esse estabelecimento de instrução, em outubro do ano
passado...”.429 Quanto ao caráter da escola, as notícias que temos não permitem chegar a
uma conclusão definitiva, mas, aparentemente, era uma escola complementar de estudos
judaicos, que não abrangia currículo completo em português. O entusiasmo com a nova
escola é visível numa deliciosa notícia de “A Columna”, que nos informa que, “a 12 de
agosto, realizou um festival infantil em benefício do Templo Israelita em construção.
Compareceram muitas famílias da melhor sociedade, que concorreram para abrilhantar a
festa. Tomaram parte as seguintes crianças, que, dirigidas pelo professor Elias Carseh,
desempenharam a contento seus papéis: N. Lerner, quem recitou “Hamitcan bamitbar”;
Faelle Zippin, Nita Batbah e ‘Al Aior Bemizraim”; N. Lerner (canto), “Ura Ben liyakir”.
Constituíram o coro M. Kauffman e L. Naslavsky. Depois, organizou-se uma passeata, da
qual tomaram parte muita crianças que ostentavam as bandeiras brasileira e israelita.
Escusado será dizer que deixou a mais agradável impressão a todos os que assistiram a esse
ato”.430
Curiosamente, no ano de 1917, em Belém do Pará, parece ter havido esforço
comunitário em suprir, de alguma forma, conhecimentos judaicos aos seus filhos, pois se
noticia que “o sr. Manoel A. de Castro, diretor do Colégio Pará e Amazonas, acaba de criar
424
“A Columna”, n.º de março, 1916, p. 41.
425
“A Columna”, n.º de maio, 1916, p. 72.
426
“A Columna”, n.º de maio, 1916, p. 74.
427
“A Columna”, n.º de junho, 1916, p. 90.
428
“A Columna”, n.º de agosto, 1916, p. 117.
429
“A Columna”, n.º de fevereiro, 1917, p. 27.
430
“A Columna”, n.ºs de set., out., nov., dez., 1917, p. 151.
255

a cadeira de Língua Hebraica no curso suplementar dessa casa de instrução, para o qual
nomeou o professor Isaac P. Melul. Contou-nos que o sr. Artur Pinto, diretor do Colégio
Progresso Paraense, pretende também criar essa cadeira no seu instituto de ensino”. 431

PROFESSOR EMINENTE

No Rio de Janeiro, ao que tudo indica, também existia uma escola do tipo
Talmud Torá de São Paulo, e talvez tenha mesmo sido criada anteriormente a daquela
cidade, ainda que não tenhamos nenhuma data que confirme tal suposição. Sabemos, sim,
que, em 1916, vivia no Rio de Janeiro um dos primeiros professores daquela comunidade;
este teria o papel decisivo na evolução do ensino judaico no Brasil: Saadio Lozinski. De
boa formação cultural, bem como de profunda erudição judaica e possuidor de élan
pedagógico, viera da Holanda para ser professor em nosso país. Não sabemos em que ano
chegou ao Rio de Janeiro, mas seu nome aparece no jornal “A Columna”, em relação à
primeira demonstração pública judaica, realizada no Rio de Janeiro em 1916, relatada por
Jacob Schneider em suas “Memórias”, nos seguintes termos: “Entre nós havia um
professor sionista – Saadio Lozinski, ao qual pedi que reunisse as crianças na Praça Onze
para que saíssem com bandeiras numa passeata. Convidei também os pais. Os
componentes do comitê do Joint tentaram impedir a realização da mesma e do pic-nic, mas
de nada adiantou. A juventude marchou da Praça Onze até a Quinta da Boa Vista e, com
eles, muita gente”.
Esse relato é confirmado pelo jornal “A Columna”, do qual citamos apenas um
trecho: “O dia 21 de maio (de 1916) foi, pois, um dia feliz à nossa gente. Mais de setenta
crianças israelitas, em formatura, partiram da Praça Onze de Junho, em debandada dos
automóveis, que as aguardavam um pouco abaixo, perto da Avenida do Mangue. As
bandeiras nacional e sionista, desfraldadas ao sopro da suave brisa, abriam o préstito. Às
duas horas da tarde, entraram na Quinta e, pouco a pouco, foram chegando carros e
automóveis conduzindo famílias e cavalheiros, até ser bem numerosa a concorrência, o que
tornou animadíssima a festa. Às quatro horas, pouco mais ou menos, principiou a execução
do programa. Os meninos cantaram o Hino à Bandeira, e, em seguida, o Hino Sionista, em
Hebraico”.432
Saadio Lozinski, de fato, era sionista convicto e tomou parte nos eventos
ligados ao início do sionismo no Brasil.433 Em sua correspondência com o professor David
J. Perez434 encontramos várias cartas em hebraico, mas sem qualquer relação com nosso
tema. Ele escreveu, em vários órgãos da imprensa judaica do Rio e São Paulo, inúmeros
artigos sobre educação, que, até agora, não foram reunidos, ainda que constituam material
excelente para o estudo da educação judaica no Brasil.

431
“A Columna”, n.º de março, 1917, p. 47.
432
“A Columna”, n.º de julho, 1916, p. 98.
433
Sua ligação com o primeiro grupo de sionistas do Rio de Janeiro é inegável, pois seu nome está vinculado
às primeiras associações, e em 1922, quando se formou a Federação Sionista do Brasil, ele foi seu primeiro
vice-presidente. Durante vários anos foi diretor da Escola Scholem Aleichem no Rio de Janeiro.
434
No microfilme do arquivo do professor David J. Perez, mencionado acima.
256

Experiência única relativa à educação judaica no país foi feita pelo major
Eliezer Levy, quem teve papel de destaque na criação do movimento sionista no Norte, 435
ao fundar, na cidade de Belém do Pará, em 15 de novembro de 1919, o “Externato Misto
Dr. Weizmann”. Em carta dirigida a Weizmann, datada de 20 de novembro de 1919, 436 ele
escreve “que não pode haver progresso sem instrução, e como nossa juventude é desprovida
dos mais rudimentares conhecimentos dos princípios de nossa religião, minha primeira
atitude (como presidente da Associação Beneficente Israelita) foi a de fundar uma escola
para crianças de ambos os sexos. O ensino da língua da terra e hebraico, e a orientação em
costura e bordado são inteiramente gratuitos, livros escolares e outros elementos
necessários ao ensino são também inteiramente gratuitos, assim como roupa e calçado para
os que necessitam realmente. A inauguração festiva da Escola teve lugar em 15 de
novembro. O governador do Estado presidiu a cerimônia e participaram em grande número
as famílias importantes e senhoras dos círculos sociais e comerciais mais proeminentes.
Essa escola profissional e geral tive a honra de denominá-la Externato Misto Dr. Weizmann
(Escola Dr. Weizmann para ambos os sexos), em homenagem ao senhor, pelos seus
esforços e imensa labuta em prol da causa do sionismo e da redenção de Israel. Estou certo
de que essa escola, sob os auspícios de um nome tão honrado e amado, terá futuro
brilhante, e nossos irmãos nela educados pronunciarão, diariamente, com alegria, seu nome,
e virão a reconhecer em sua pessoa o elemento mais forte na nova restauração de nossa
sagrada Eretz Israel. Ficarei imensamente recompensado pelos meus esforços se o senhor
aceitar essa homenagem e me enviar uma de suas fotografias mais recentes, de modo que
nossos alunos conheçam o patrono da Escola Dr. Weizmann, que honra a galeria dos
israelitas ilustres. Coloco à disposição meus modestos serviços nessa cidade, e aguardo a
honra de suas ordens. Com elevada estima e consideração, seu admirador e humilde servo,
Eliezer Levy”.437
Major Eliezer Levy, sionista convicto que era, havia fundado, em outubro de
1918, a organização sionista Ahavat Zion, em Belém do Pará, e, em 8 de dezembro do
mesmo ano, ele daria início à publicação de um periódico com o título de “Kol Israel”.
Nesse periódico encontramos mais elementos sobre o Externato Misto Dr. Weizmann, além
de algumas fotografias da escola reproduzidas naquele jornal. No número comemorativo do
segundo ano de existência do periódico, informava-se a inauguração da escola, “no dia 16
do mês passado (novembro)..., presidida pelo representante do exmo. Sr. Dr. Lauro Sodré,
governador do Estado, major Roberto Vasconcellos, ladeado pelo Dr. Heráclito Pinheiro,
inspetor escolar, representando o senador Paulo Maranhão, diretor do ensino primário; Dr.
Oscar de Carvalho, médico da Associação; Menasses Bensimon, presidente da Assembléia
Geral; Jacob A. Benchimol, presidente do Comitê Israelita; Raimundo Viana, delegado do
Grão-Mestre da Maçonaria; e major Eliezer Levy, presidente da Associação.
Recitaram belas poesias as meninas Preciada e Sultana Levy, o menino
Benjamin Sabá e as meninas Amália e Stella Levy”.

435
Fizemos em outro trabalho, ligado à história do sionismo no Brasil, uma avaliação do papel do major
Eliezer Levy na formação do nacionalismo judaico em nosso país.
436
Encontrada por nós no Central Zionist Archives (Ha-Archion Ha-Tzioni), em Jeruzalém, pasta Z 4/2350.
437
Weizmann estava ausente da Inglaterra, pois havia viajado à Palestina, tendo o editor do “Zionist Bulletin”,
M. Landa, respondido à carta, em 9 de março de 1920, conforme verificamos na pasta Z 4/2350 do Central
Zionist Archives.
257

Mais adiante, temos uma descrição do currículo escolar, onde se diz que “o
externato compõe-se de aulas e do curso primário, tendo anexo um curso de hebraico,
prendas manuais, bordados à mão e à máquina de costura, para cujos fins tem bem montada
sala, com cinco máquinas Singer, bastidores, mesa de corte e todos os demais objetos
necessários. O número de alunos matriculados é de 70, aos quais é ministrado o ensino de
todas as disciplinas gratuitamente, fornecendo-se, também gratuitamente, todo o material
escolar; aos reconhecidamente necessitados, o estabelecimento fornece roupa e calçado. O
corpo docente é composto de duas professoras normalistas e uma adjunta para a escola
primária, um professor de hebraico, uma professora de costura e bordados e uma de
bordados à máquina. A freqüência média do Externato é de 60 alunos, sendo já notável o
aproveitamento por todos revelado, quer nas disciplinas do curso, quer nos trabalhos
ma