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Susan Sontag, “Contra a Interpretação”

« (...)
Assim, a interpretação não é (como muitos supõem) um valor absoluto, um gesto da mente
situado em quaisquer faculdades intemporais. A interpretação deve ela mesma ser avaliada no
interior de uma perspectiva histórica da consciência humana. Em alguns contextos culturais, a
interpretação é um acto libertador. É um modo de rever, trans-avaliar, de escapar a um
passado morto. Em outros contextos culturais, ela é reaccionária, despropositada, covarde,
asfixiante.

4.
Este é um tempo em que o projecto da interpretação é em larga medida reaccionário,
asfixiante. Tal como os gases dos automóveis e das indústrias pesadas poluem a atmosfera
urbana, a efusão de interpretações da arte actual envenena as nossas sensibilidades. Numa
cultura cujo já clássico dilema é o da hipertrofia do intelecto à custa da energia e das
faculdades sensoriais, a interpretação corresponde à vingança do intelecto sobre a arte.

Mais do que isso. É a vingança do intelecto sobre o mundo. (...)» 1

As obras de arte são realidades semânticas. Enquanto representações, são realidades potenciais
que necessitam de ser actualizadas, activadas como experiência efectiva. Mas esta activação
não se situa exclusivamente no plano semântico, na identificação do seu sentido. É, inclusive,
possível pensar que muitas obras não se realizam numa esfera predominantemente semântica.
Isto acontece mesmo nas obras de arte cuja activação está dependente de uma relação de
descodificação de um código complexo, como é o caso da literatura.

Não há nada na experiência humana que nos seja dado de forma imediata. Percepcionar o
mundo como coisa dotada de sentido significa percepcionar algo que é já o resultado de uma
organização cultural. Varia apenas, em função dos contextos, das formações e das
sensibilidades particulares, o modo como se efectua esta organização. Magia, religião, arte,
ciência, entre outras, todas se constituem como propostas de organização da experiência.
Algumas são claramente incompatíveis entre si, outras susceptíveis de coabitarem numa mesma
representação de mundo.
O que designamos por mundo é, enquanto coisa humana, o resultado de um permanente
processo de produção e activação de representações. Parte deste processo poderemos designá-
lo por interpretação. No que diz respeito a representações particularmente complexas, como
a arte ou a ciência, esta produção e activação de representações pode exigir o domínio de
linguagens igualmente complexas. Em larga medida, a realidade, a espessura, e a profundidade
das experiências respondem pela capacidade de domínio da linguagem em que elas se
produzem.
Se entendida como este princípio de activação de representações, a interpretação não é algo
exterior à arte, mas a sua condição. Mas ser condição não é ser objectivo, ponto de chegada
ou materialização do potencial da representação enquanto experiência.

Neste texto emblemático, Susan Sontag denuncia o risco de redução da experiência das obras
de arte a um exercício hermenêutico e semanticista de interpretação de sentidos; denuncia a
subordinação da arte a categorias estritas de raiz intelectual. Não se trata, evidentemente, de
recusar às experiências artísticas uma dimensão intelectual, mas de recusar a sua redução ao
plano unívoco das experiências intelectuais. Aquilo que está em causa não é a interpretação
enquanto constituição do mundo em coisa humana, mas a interpretação que reduz a arte a um
pretexto para um exercício de decifração de significados ocultos, a interpretação que reduz a
recepção à dimensão semântica.
Datado de 1966, este é um texto curiosamente contra o seu próprio tempo — não tanto ou não
apenas no plano das abordagens críticas, mas das tendências criativas prevalecentes ao longo
das décadas seguintes: a partir desta década, assistiremos a uma crescente conceptualização
das propostas artísticas, com a correspondente sobrevalorização da interpretação como relação
de recepção. Num mesmo processo, assistiremos por parte dos produtores a uma desvinculação
crescente entre a produção artística e o domínio de linguagens técnicas complexas, com o
favorecimento de linguagens operativamente menos exigentes e mais imediatamente capazes
de se constituírem como suportes semânticos.

Esta questão é talvez mais pertinente ao nível das artes plásticas do que da literatura: nesta,
parece evidente a interdependência entre a produção do texto como manipulação da linguagem
e a sua existência enquanto “coisa semântica”. Isto implica de forma clara a capacidade do
domínio específico da linguagem.
Em literatura não parece possível a desvalorização do “medium” operada nas artes plásticas ao
longo da segunda metade do século XX. Experiências de desvalorização da dimensão formal do
uso literário da linguagem ter-se-ão revelado particularmente incapazes de ultrapassarem o
estrito contexto da sua produção. As mais importantes formas de desconstrução do discurso
literário (Faulkner ou Beckett, por exemplo) operaram a partir de um extraordinário domínio
técnico da própria escrita, exigindo-o como condição.
Distintamente, na segunda metade do século XX, o devir-conceito das artes plásticas operou
por um processo de consciente desvalorização da dimensão técnica e sensível das linguagens,
e uma sobrevalorização da dimensão semântica. Esta sobrevalorização (que constitui apenas o
vector dominante de um processo extremamente plural) caminhou, de facto, em sentido
inverso ao proposto no texto de Susan Sontag.

Se é sobretudo a crítica de arte que é interpelada no texto “Contra a Interpretação”, falta


agora chamar a atenção para o outro pólo da relação: a dimensão da produção. Produzir arte
(texto, imagem, som, movimento, etc.) no pressuposto da sua existência como coisa semântica
é frequentemente descurar a sua existência enquanto coisa linguística; uma coisa construída
no interior de uma linguagem, e cuja riqueza potencial está indexada ao modo de manipulação
estilístico e formal dessa mesma linguagem.
Não se tratará de afirmar a predominância de qualquer dimensão formal sobre uma dimensão
semântica: trata-se de admitir que o sentido, a espessura e a riqueza daquilo que é dito são
sempre função do modo como isso é dito. A literatura, como qualquer arte, é a experiência do
modo de organizar a linguagem em mundo.