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Desejo Radiante

1º edição

L. R. Spector
Copyright © 2019

Esta é uma obra de ficção. Nomes, personagens, lugares e acontecimentos


descritos são produtos da imaginação do autor.

Qualquer semelhança com nomes, datas, e acontecimentos reais é mera


coincidência. Qualquer outra obra semelhante, como essa será considerado
plágio, como previsto em lei.

Grafia atualizada segundo o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de


1990, que entrou em vigor no Brasil em 2009.

Todos os direitos reservados. É proibido armazenamento e/ou reprodução


de qualquer parte dessa obra, através de quaisquer meios – tangível ou
intangível – sem o consentimento do autor. A violação dos direitos autorais é
crime estabelecido na lei nº 9.610/98 e punido pelo artigo 184 do Código
Penal.
Para todo mundo no Wattpad que me perguntou se haveria uma continuação. Desculpem pela
demora.
Sumário
Capítulo Um

Capítulo Dois

Capítulo Três

Capítulo Quatro

Capítulo Cinco

Capítulo Seis

Capítulo Sete

Capítulo Oito

Capítulo Nove

Capítulo Dez

Capítulo Onze

Capítulo Doze

Capítulo Treze

Capítulo Catorze

Capítulo Quinze

Capítulo Quinze

Capítulo Dezesseis

Capítulo Dezessete

Capítulo Dezoito
Epílogo.
Capítulo Um

Aquilo que mais lhe fazia falta acima de tudo era a luz do sol.

Espiando por uma pequena fresta entre a cortina repleta de poeira e o


vidro da janela embaçado ela observou com avidez os últimos resquícios da
luz do sol tingirem o horizonte. O céu parecia uma pintura, com seu vermelho
carmesim, e o dourado se fundindo com perfeição ao azul, até que ambos eles
se mesclassem num perfeito roxo purpura.

Ela sabia que não passava de uma tolice ficar ali enquanto a luz
lentamente desaparecia, mesmo assim Amy não conseguiu se conter
enquanto deixava a ponta de seus dedos tocarem o vidro da janela, sentindo o
restinho do calor que sobrara ali durante o dia. O verão se arrastava ao seu
redor, deixando para trás um mormaço que ela podia sentir como se fosse
uma espessa camada de névoa em todo ambiente que ela poderia cortar com
uma faca de pão. Seus braços estavam constantemente suados, e as pontas de
seu cabelo grudando ao redor de seu pescoço, enquanto ela passava o dia
inteiro rezando para que o antiquado aparelho de ar-condicionado fosse
consertado em seu quarto, e mesmo com tudo isso, ela sentia falta do sol em
sua pele, esquentando seu corpo, seu rosto até ela sentir aquele ardor tão
característico sobre suas bochechas, enquanto ela esticava seu corpo como
um gato preguiçoso ao lado de uma piscina.

Recobrando o que lhe sobrara de bom senso a garota se afastou da janela,


fechando por completo a cortina, se certificando que nada pudesse ficar à
vista através de uma fresta. O quarto ao seu redor, estava mergulhado numa
semiescuridão, e Amy não pode deixar de se sentir como um pequeno
ratinho, que furtivamente se esquivava para um buraco qualquer tentando se
manter afastado de seus predadores.

Embora ela não gostasse de admitir nem um pouco isso para si mesma,
nos últimos meses aquela era a realidade que sua vida havia se tornado.
Perdida em lembranças se deixou levar pela época quando trabalhara para
Bianchi durante as noites em sua boate exclusiva voltada para a máfia em
Nova York, ela sempre tentara encontrar um jeito de aproveitar ao máximo
seus dias.

Durante as manhãs quando tinha algum tempo livre, ela gostava de dar
um passeio despretensioso até o parque, enquanto pensava no que faria para
seu almoço. Ela podia se dar ao luxo de tomar um sorvete na volta do
supermercado, ou simplesmente aproveitar o clima ao redor. Quando no final
do mês algum dinheiro ainda sobrava por algum milagre em sua conta
bancaria, ela se dava ao luxo de ir ao cinema.

Sentar-se praticamente quase que solitária em meio a cadeiras vazias num


lugar escuro, com um saco de pipoca repleto de manteiga no colo, era um dos
poucos divertimentos que ela podia se proporcionar, por esse motivo que
tentava aproveitar aqueles momentos ao máximo, usando-os como uma
terapia. Mais de uma vez ela dissera a si mesma que enquanto pudesse ter
uma vida normal durante o dia, então seria capaz de suportar o fato de que ela
dançava para sobreviver à noite, vendendo sua imagem para criminosos com
as mãos repletas de sangue.

Naquele passado não tão distante assim ela havia justificado a si mesma
que todo aquele esforça, aquela loucura valia a pena desde que ela pudesse
ajudar seu irmão a sanar a dívida que ele contraria com a máfia italiana por
causa das drogas, mas agora depois de tudo o que havia acontecido. Depois
de tê-lo encontrado, Amy não podia ter mais tanta certeza.

Ela precisou se esforçar para enterrar as lembranças na parte mais funda


de sua mente, tentando com todas suas forças ignorar o terror e o medo que
elas sempre carregavam consigo.

Durante os últimos meses, as memórias estavam ali sempre presente,


rondando a parte mais rasa em seu cérebro. Ela podia estar fazendo qualquer
coisa, algo que fosse completamente inofensivo, e isso seria o suficiente para
que ela se lembrasse dele, da forma que ele a raptara, e então ela precisava
controlar o fôlego que parecia ficar preso em sua garganta, enquanto gotas de
suor pipocavam em sua testa, e sua boca se tornava seca como o deserto.

Quando esses episódios se tornaram cada vez mais frequentes, ela dissera
a si mesma, que em algum momento ela se acostumaria a eles, mas mesmo
agora enquanto repetia pra si mesma uma outra vez e mais outra que ela
ficaria bem, havia uma voz que parecia soar na parte de trás de sua cabeça
muito parecida com sua própria, lhe dizendo que ela não passava de uma
mentirosa.

Levantando-se de sua cama, a garota resolveu que o melhor que tinha a


fazer naquele momento, era simplesmente manter suas mãos ocupadas, dessa
forma ao menos talvez ela fosse capaz de enganar ligeiramente seu cérebro.

O quarto que ela alugara num motel qualquer à beira de estrada, era muito
parecido com todos os outros pelo qual ela havia passado nos últimos meses.
Todos eles de certa forma haviam se misturado em sua memória, criando um
único cômodo que sempre parecia possuir as mesmas características. O lugar
onde ela estava era pequeno, e mal iluminado, algo que embora ela detestasse
profundamente servia muito bem as suas necessidades. Na maior parte do
tempo, ela tentava ignorar a decadência, e a sujeira que se acumulava ao seu
redor, tentando não se importar com o cheiro de bolor que parecia sempre
emanar dos carpetes, ou dos horrendos papéis de parede que na maioria das
vezes descascavam nas paredes. As vezes embora fosse muito raro, ela
acabava alugando um lugar que possuía um ar-condicionado que realmente
estava funcionando, ou uma cama com um colchão decente, normalmente
esses lugares e suas pequenas regalias, eram os mais difíceis de serem
deixados para trás, mas ela nunca se sentia realmente tentada a ficar muito
tempo num único lugar obrigando a si mesma a se mexer, viajando sempre a
noite nunca ficando muito a vista, permanecendo no máximo dez dias na
mesma cidade, até encontrar um outro destino e cair na estrada, o medo
deixando seu estômago constantemente revirado, enquanto sua atenção
sempre parecia se voltar para suas costas.

Entrando no pequeno cubículo que era o banheiro de seu quarto, Amy


acendeu as luzes, embora ela precisasse cerrar seus olhos por um instante
para se acostumar com a luminosidade. O lugar era deprimente, e o vapor do
chuveiro parecia de alguma maneira ter se impregnado nas paredes
constantemente úmidas e malcheirosas. Ignorando tudo isso a garota parou
em frente ao pequeno espelho de parede, observando seu reflexo. Ela mal era
capaz de reconhecer a garota diante dela. Os cabelos haviam mudado de cor e
tamanho, e agora caiam em ondas curtas e desorganizadas ao redor de seus
lábios, as pontas estavam ressecadas e quebradiças e provavelmente muito
além de qualquer tipo de salvação, mas vaidade era exatamente o tipo de
sentimento que ela deixará para trás assim como sua antiga vida.

Os olhos azuis, pareciam enevoados quase translúcidos em seu rosto


pálido. A ausência do sol cobrara um preço em sua aparência, as olheiras
permanecentes agora em seu rosto lhe davam uma aparência doentia, e sua
palidez era do tipo cadavérica e nenhum um pouco bonita.

Ela estava quase irreconhecível, e embora de certa forma odiasse ver o


resultado do que havia se transformado, havia uma pequena parte de seu
coração, que se orgulhava daquele resultado. Se ela não tivesse se
transformado tanto, modificado sua aparência tão radicalmente então talvez
ele poderia tê-la encontrado mais cedo.

Pensar nele deixou os dedos de suas mãos trêmulos como sempre


acontecia. Como se um vento gelado tivesse percorrido seu corpo. Ignorando
o pensamento traiçoeiro, ela abriu a caixa de tinta para cabelos que havia
esquecido que até aquele momento estivera segurando. As raízes loiras de seu
cabelo despontavam sobre o castanho claro a última cor que ela havia
passado, tentando camuflar mais uma vez sua aparência.

Nos últimos meses, ela mudara a cor de seu cabelo com uma frequência
que praticamente havia o destruído. Do ruivo ao moreno, voltando ao loiro e
em alguns momentos experimentando até mesmo cores como azul ou rosa-
claro. Precisava admitir para si mesma que na maioria das vezes o resultado
não era o melhor possível, mas ao menos servia para dificultar seu
reconhecimento de alguma forma. Com a habilidade que adquirira com sua
experiência, Amy preparou a tinta num pote de plástico que estava sempre
com ela, um dos poucos itens assim como seu pincel, que ela carregava em
sua mochila que se transformara em tudo o que ela possuía no mundo.

Aplicou a tinta sobre seus cabelos tentando ignorar o cheiro forte e o


ardor de amônia que pinicavam seu nariz. A tinta que comprara na noite
anterior numa lojinha de conveniência qualquer era a mais barata possível,
ela sabia da necessidade que possuía de mudar sua aparência, e aquela era a
maneira mais barata de havia encontrado, pois simplesmente não podia se dar
ao luxo de comprar várias perucas para seus disfarces.

Dinheiro havia se tornando uma preocupação constante. Ela fugira de


Nova York, com a roupa do corpo, e pés descalços. Depois de rodar sem
destino pela cidade, ela encontrara uma caçamba para doações de roupas, ali
ela havia conseguido um par de tênis não muito maior do que o número que
ela usava, um casaco de frio que parecia realmente estar em boas condições, e
a mochila que usava até hoje.

Ela ainda não havia sido capaz ainda de se esquecer daquele primeiro dia
de liberdade. Da forma como o medo e a esperança pareciam se digladiar
dentro dela, até num ponto onde ela estivera rindo e chorando ao mesmo
tempo, como se tivesse perdido realmente sua sanidade.

Contra todas suas expectativas, ela havia se mostrado uma pessoa muito
mais adaptável as situações, do que jamais poderia ter imaginado. Quando a
noite chegara, ela havia entrado num bar de motoqueiros e conversara com o
gerente dizendo que poderia lhe oferecer um show para a plateia caso ele lhe
desse um único prato de comida.

Os olhos dele num primeiro momento pareciam desconfiados, mas no


final para sua surpresa ele acabara aceitando. Naquela noite ela cantara,
enquanto fazia uma performance tirando a parte de cima de sua roupa, por um
prato de comida, e cinquenta dólares, que algum homem que ela tentava
esquecer havia colocado no cós de suas calças.

A lembrança ainda deixava um gosto ácido no fundo da sua garganta, e


um rubor tolo que deslizava por suas bochechas. Ela não podia mais se dar ao
luxo de ser ingênua, ou manter algum tipo de orgulho enquanto um assassino
da máfia estivesse em seu encalço.

Ela tentava não se culpar demais, afirmando a si mesma que fizera aquilo
para sobreviver. O dono do bar no final havia cumprido sua palavra, dando-
lhe um prato de comida, e para sua surpresa até lhe dissera que se ela
estivesse disposta poderia continuar a fazer a mesma coisa na noite seguinte.
Amy havia agradecido com sinceridade, mas assim que seus dedos se
fecharam sobre o dinheiro que recebera ela simplesmente partira para a
rodoviária comprando a passagem para o lugar mais longe possível dali que
era capaz de pagar.

O silêncio retumbou em seus ouvidos, enquanto ela retirava as luvas de


suas mãos e deixava que seus dedos sentissem a frieza e rigidez da porcelana
da pia sob ela. Apenas alguns meses haviam se passado, mas as vezes ela
tinha a sensação que já estava fugindo uma vida inteira.

De lá pra cá tudo o que fizera, havia sido com o único objetivo de


sobreviver, todas as decisões que tomara, todo os lugares onde ela havia se
escondido. Ela tentava não planejar muito, ou mesmo tomar decisões a longo
prazo, cada dia que ela permanecia livre era uma vitória, um pequeno consolo
quando deitava a cabeça em seu travesseiro numa cidade, num estado
diferente. Desde que ela continuasse longe dele então todos os esforços
valeriam a pena. Ao menos era isso que ela continuava dizendo a si mesmo
mesma como um mantra, que se tornara quase uma oração.

Com a mente se revirando repleta de coisas, a garota entrou dentro da


antiga banheira para tomar seu banho, a água escaldante sobre sua pele quase
que numa temperatura insuportável era um dos únicos prazeres que ela
possuía naquele lugar. A tinta escura escorreu sobre seus olhos, seu rosto
ombros, até manchar completamente a porcelana da banheira sob seus pés de
uma forma que ela achou que nunca mais aquelas manchas negras seriam
apagadas.

O banho acabou mais cedo do que ela previra, e embora seu desejo fosse
permanecer ali até que todo o desconforto tivesse abandonado seus ombros,
ela sabia que não era possível. Se enxugou numa das toalhas que o motel
havia fornecido como um brinde pelo fato dela ter alugado aquele quarto
durante toda a semana. O material era quase áspero demais contra seu corpo,
mas ao menos estava limpa e aquilo por si só ela já considerava como uma
vantagem.

Parando em frente ao chuveiro, Amy enxugou os cabelos com agilidade,


tentando decidir se o trabalho que fizera havia tido um bom resultado. Dessa
vez a cor que escolhera havia sido o preto azulado, uma das únicas cores que
ela ainda não havia experimentado.

Mesmo com os cabelos molhados ela sabia que não teria como gostar do
resultado, a cor escura como as asas de um corvo em sua aparência apenas
ressaltava seus olhos fundos e bochechas encovadas, lábios ressecados e
descoloridos, definitivamente ela não combinava com aquela cor, mas talvez
isso fosse exatamente a melhor coisa que ela poderia esperar. Nunca estivera
tão diferente de si mesma quanto agora. Não somente em sua aparência física.

Os dedos dela se apertaram contra a porcelana fria da pia novamente,


como se ela precisasse de sua rigidez para se manter em pé. As vezes quando
o mundo ao seu redor parecia extremamente silencioso, e os pensamentos
dentro de seu cérebro altos demais, ela sentia como se sua sanidade
escorresse entre seus dedos como água, e o sentimento de impotência que
invadia seu coração era quase insuportável.

Quanto mais tempo ela precisaria continuar daquela forma? Quando ela
finalmente poderia parar de fugir?

As perguntas como sempre ricochetearam em sua mente sem resposta,


deixando as batidas de seu coração mais doloridas dentro de seu peito. A
incerteza que ela sentia sobre seu futuro, sobre suas decisões as vezes era
como um verme devorando seu interior deixando-a completamente exposta e
em carne viva.

Ela não tinha certeza se ele ainda a estava perseguindo. Uma parte dela,
dizia que em algum momento ele precisaria desistir. Ela sabia que não era
assim tão importante, mas depois de tudo o que havia acontecido entre eles,
depois do que ela fizera, ela simplesmente não conseguia conter seu medo.
No final ela continuava fugindo, porque de alguma forma aquela era a única
maneira que ela encontrara para conseguir ao menos um pouco de segurança.

O cansaço pesava sobre seus ombros como um cobertor de metal. Ela não
havia sido capaz de dormir muito nos últimos dias, e definitivamente aquilo
estava sendo cobrado a um preço. Ela gostaria de culpar o fato de ter
conseguido mais horas de trabalho, mas sabia que ao fazer aquilo estaria
apenas mentindo para si mesma.

Nas ultimas noites os sonhos com ele haviam se tornando mais


frequentes, e aquilo a deixara mais inquieta, incapaz de conseguir dormir
direito, enquanto os olhos dele pareciam observa-la da escuridão, a respiração
pesada sobre seu pescoço. Mais de uma vez ela acordara assustada, quase
certa de que ao abrir os olhos ele estaria deitado ao seu lado da cama, sua
proximidade tão ardente que por um momento ela achara que poderia se
queimar.

Ela sempre acordava assustada e sozinha, o medo se enrodilhando em sua


barriga como uma cobra, mas acima de tudo o que mais lhe assustava era a
ânsia inominada que parecia arder dentro dela, como se viesse de uma parte
obscura de sua alma.

Embora ela não quisesse, ou quem sabe não fosse capaz de admitir nem
para si mesma Amy sabia que alguma parte doentia dela sentia falta daquele
homem. O mesmo homem que havia a sequestrado e jurado matá-la, e que ela
não tinha coragem de nomear nem mesmo em seus pensamentos. O homem
com quem ela se deitara, apenas para descobrir que no final tudo o que ele
queria era encontrar uma forma de extrair uma informação que precisava e
depois traí-la. Mesmo depois de tudo isso, ela ainda era capaz de sentir falta
de sua presença de seu toque. E acima de tudo aquilo era o que mais lhe
assustava.

Ela fechou os olhos com força, evitando o reflexo diante dela, o som de
sua respiração alta e chiada encheu seus ouvidos, reverberando no pequeno
banheiro ao seu redor. Tentou de alguma forma conter a avalanche de
sentimentos que se acumulavam dentro de seu coração naquele momento.
Não podia se dar ao luxo de fraquejar agora, ela chegara longe demais para
simplesmente acabar cedendo por causa da exaustão.

Abrindo os olhos Amy encarou o próprio reflexo, absorvendo cada


mudança em sua aparência, aceitando-as da forma que ela podia naquele
momento. Ela continuaria fugindo de todas as formas que podia dele, mesmo
distante ela sabia muito bem que uma parte dele ainda havia permanecido
dentro de suas memorias, e ela simplesmente se recusava a aceitar esse fato.

Mesmo sem nenhuma certeza, sem saber para onde estava indo, ela
continuaria em frente era uma promessa que fizera a si mesma, enquanto
depositava a última pequena pontinha de esperança que havia lhe sobrado
num futuro, onde ela pudesse encarar novamente no espelho e se reconhecer.
Um futuro, onde ela finalmente poderia ser livre do perigoso sentimento que
ela sabia ainda existir dentro dela por um homem que nada mais era do que
seu inimigo.
CapÍtulo Dois

O salto alto de suas botas soou contra o chão enquanto Amy entrava na
parte detrás do bar onde estaria trabalhando aquela noite. O lugar que já havia
sido um depósito de bebidas, depois quarto temporário de Marcy a atual dona
do estabelecimento, havia se tornando um pequeno camarim, onde as garotas
que se exibiam ali durante a noite podiam se preparar.

Nada naquele lugar se comparava a opulência e elegância de Dionísio, o


lugar aonde ela trabalhara como dançarina para a máfia italiana em Nova
York. Não haviam ali milhares de vestidos, elegantes em todas as cores e
tamanhos expostos em cabides para serem usados pelas garotas, não havia
espelhos flores e acessórios como maquiagem e perfumes, ali qualquer ponto
de luz já era disputado como se fosse uma peça raríssima.

A iluminação terrível também era um dos motivos pelo qual para Amy
não fazia a menor diferença se ela se preparava ali, ou em seu quarto no
motel a beira da estrada que ficava apenas algumas quadras de distância.
Deixando que seu olhar corresse ao redor, a garota encontrou um espaço
vazio no velho sofá que ficava jogado no cômodo, que servia para ser usado
por uma das garotas que trabalhavam ali quando precisassem de um momento
para descansar, tirar um cochilo ou mesmo levar ali para atrás algum cliente
que elas estivessem dispostas a suportar pela noite, e dessa forma
aumentarem a gorjeta.

Duas garotas que ela conhecia apenas pelos nomes estavam sentadas
diante de uma penteadeira com perna quebrada e um espelho lascado,
dividindo a única lâmpada decente em todo o cômodo. Pela aparência de
ambas Amy duvidava que elas eram maiores de idade, mas ali aquilo era um
fato que não faria a menor diferença. Elas tinham seus segredos e motivos
para fazerem aquilo assim como ela própria, e Amy sabia muito bem que não
estava numa posição onde pudesse ajudar qualquer uma delas, então o
mínimo que podia fazer era não julga-las. As garotas conversavam em voz
baixa, não lançando nenhum olhar em sua direção, o típico comportamento
da maioria das garotas ali. Nenhuma delas faziam muitas perguntas,
principalmente pessoais, no final aquele era o tipo de informação que não
fazia muita diferença. A maioria das garotas assim como Amy não
permaneciam ali trabalhando muito tempo, e mesmo assim o bar continuava
funcionando com seus shows com uma frequência quase religiosa.

Deixando os dedos correrem por seu cabelo a garota ajeitou as madeixas


lisas ao redor de seu rosto, o penteado curto lhe dava um ar quase etéreo, o
que fazia um contraste gritante com as roupas de couro e botas acima dos
joelhos que ela usava. A maquiagem em seu rosto ajudava a apagar ao menos
momentaneamente sua aparência de cansaço, embora ela ainda pudesse sentir
o desgaste em seus ossos. Apenas mais uma noite repetiu ela em sua mente,
se tivesse sorte então poderia facilmente conseguir a quantia que precisava
para viajar até sua próxima parada. Ela não tinha ideia qual seria seu destino,
mas isso não importava. Contato que ela continuasse em movimento, o lugar
para onde estava indo não fazia a menor diferença.

- Garotas mais dez minutos e o palco vai estar pronto se alguém quiser
testa-lo. – A voz de Marcy viajou por todo o bar, alcançando-as por trás das
paredes finas do camarim improvisado. Levantando o rosto Amy observou a
icônica mulher surgir a sua frente, enquanto o primeiro sorriso de alegria que
ela dava aquele dia, repuxava em seus lábios.

- Ora vejam só o que o gato trouxe pra mim – disse Marcy se


aproximando dela, enquanto cruzava os braços de maneira teatral, enquanto
caminhavam em sua direção.

- Na verdade você está atrasada, o gato me trouxe de volta já fazem dois


dias – respondeu Amy de maneira sorridente e divertida.

- Bom Deus eu estava viajando, e deixei tudo nas costas de Jake, mas se
soubesse que a encontraria aqui de volta teria voltado mais cedo. Pensei que
nunca mais iria ver seu rosto de novo ‘ervilha’.

Amy riu abertamente, atraindo a atenção das garotas que continuavam a


se maquiar em frente ao espelho, o som de sua risada fez com que Marcy
também acabasse gargalhando e logo o coro do riso delas, parecia mais uma
sinfonia ensandecida. Um peso pareceu ser retirado de seus ombros por um
breve momento, e embora os cantos de seu rosto continuassem doloridos
como se tivessem perdido a pratica de rir, Amy sentiu-se mais uma humana
depois que as duas se acalmaram.

Parada a sua frente Marcy continuava a mesma de alguns meses atrás,


uma mulher que dificilmente passava despercebida em qualquer lugar. Alta e
de porte atlético, ela gostava de deixar bem claro, a qualquer um dos seus
clientes quem realmente mandava naquele lugar, e a maioria das pessoas
naquela região já sabiam isso de cor, embora uma vez ou outra um viajante
mais desavisado passava de seus limites e era lembrado por ela de forma
carinhosa, mas muito contundente como Amy já havia presenciado algumas
vezes. Ela era belíssima, a pele lustrosa e radiante como ébano polido, os
olhos castanhos tinham uma perspicácia quase ferina, a boca volumosa estava
sempre pintada de vermelho assim como suas unhas.

- Ao menos dessa vez, você não está verde – disse Macy sentando-se ao
lado de sua bolsa no sofá – Acho que podemos dizer que isso é um bom sinal.

Amy não pode deixar de sorrir novamente diante da lembrança. No


primeiro encontro de ambas ela havia aparecido ali de mãos abanando no
meio da madrugada ali no bar desejando usar o banheiro. Ela já havia se
preparado mentalmente para enfrentar algum tipo de homem completamente
chato e desagradável, mas quando havia dado de cara com Marcy, acabara
ficando sem palavras e agradecida demais por ter de lidar com uma mulher, o
que fizera com que ela acabasse vomitando no chão, o resultado de uma
péssima escolha que ela fizera sobre comida aquela noite estragando
completamente o serviço que a mulher a sua frente acabara de terminar.

Algumas horas mais tarde, quando o sol estava nascendo entre as árvores
lá fora, com as mãos cheirando desinfetante, e batizada com o novo apelido
de ‘ervilha’ por causa da cor de seu vômito, Marcy havia a ajudando a
encontrar um motel, onde ela pudesse descansar, lhe dizendo que se ela
estivesse disposta poderia usar seu bar para conseguir alguns trocados.

A oferta havia pego Amy desprevenida, ela não tinha conseguido comer
direito nos últimos dias e o dinheiro em sua carteira estava se tornando
rapidamente cada vez mais um item raro a ser encontrado ali dentro. Num
primeiro momento, sua mente soara com todos os alarmes possíveis, mas
logo o instinto de sobrevivência havia levado a melhor. Naquela mesma noite
ela havia se exibido para a pequena, mas ruidosa plateia do bar que Marcy
administrava e no final da noite finalmente ela, poderia deitar a cabeça em
seu travesseiro e dormir tranquilamente em um longo tempo.

Ela havia feito a mesma coisa em vários outros lugares, se exibindo em


outros bares em busca de alguns trocados, mas definitivamente aquele
administrado por uma mulher, havia sido o que ela mais se sentira bem-
vinda.

- Você cortou o cabelo também, e pintou de preto. – continuou Marcy


lançando lhe um olhar de cima a baixo, como se tivesse tendo certeza que
todos os pedaços estavam em seus devidos lugares – Espero que você não se
ofenda, mas ficou um desastre garota.

- É só cabelo de qualquer forma Marcy, não seja tão sentimental. Vou


pintar de vermelho da próxima vez em sua homenagem – respondeu Amy, se
referindo as mechas vermelho cereja que ela exibia em sua juba cacheada.

Os olhos castanhos se focaram nela atentos como se estivessem tentando


desvendar um enigma especialmente complicado.

- Pensei que não fosse mais vê-la de novo ervilha. Parece que você
continua na estrada.

Os olhos de Amy se desviaram para sua mochila parada de maneira


displicente ao lado de Marcy. Por um momento ela desejou manter uma
postura calma e descontraída, como se aquele fosse apenas mais um
comentário que ela ouvira, mas o sorriso que estivera apenas um minuto
presente em seu rosto desaparecera por completo.

- Ainda fugindo? – perguntou Marcy de maneira muito firme, enquanto


abaixava o tom de voz.

- Não estou fugindo – respondeu Amy, embora nem mesmo ela pudesse
confiar em como sua voz parecia falsa sob sua língua. Os olhos dela se
desviaram para as garotas que continuavam a se maquiar apenas alguns
metros a sua frente, como se elas soubessem de alguma coisa, ou estivessem
tramando algum plano por trás de tudo aquilo. A adrenalina viajou por seu
sangue, deixando seu corpo tenso como a corda um arco esticado, como se
ela precisasse se preparar para qualquer coisa, como se seus medos mais
enraizados fossem se manifestar fisicamente das sombras que rodeavam
aquele lugar.

- Você não precisa me lançar esse olhar repleto de paranoia. Eu tenho um


bar perto de uma estrada, já vi minha cota suficiente de adolescentes fugindo
de casa. Eu não costumo me envolver, não sou uma boa samaritana e na
maior parte do tempo tenho meus próprios problemas. Mas você não me
parece o tipo de garota que simplesmente foge de casa.

- Eu não achei que garotas assim tivessem um tipo – respondeu Amy, sem
conseguir conter o medo e o ressentimento em sua voz.

- Normalmente elas têm um padrão – respondeu Marcy dando de ombros


de maneira displicente, os olhos castanhos se focando num ponto acima de
seu rosto, como se ela estivesse visualizando algo com muita atenção em sua
mente – Elas costumam ser mais novas do que você. Parecem mais simples, e
são menos instruídas. Pode se ver isso do jeito que elas se vestem, ou mesmo
falam, a maioria só quer alguns trocados para sair daqui e ir para uma grande
cidade. Elas não costumam voltar.

Amy não conseguiu sustentar o olhar dela desviando-o deixando que ele
pousasse sobre o estofado esburacado onde ela estava sentada. Deixou que
sua atenção se fixasse ali, enquanto as palavras e os sentimentos pareciam
pedras gélidas em seu coração.

- Você é exatamente o contrário – continuou Marcy, como se


simplesmente não se importasse com o desconforto dela – Você me parece o
tipo de garota da cidade grande, andando com seus saltos finos e terninhos
elegantes e um latte nas mãos. Não é assim que vocês costumam chamar o
café por lá?

- E você acha que sabe alguma coisa a meu respeito, ou de onde eu


venho, por causa do jeito que eu ando e me visto?

- Tenho idade para ser sua mãe garota, embora não pareça. E você não me
engana se vestindo de stripper e recobrindo de couro como está fazendo
agora. Com um rosto como o seu, e essas mãos que nunca viram um dia de
trabalho pesado na vida, eu posso ter quase plena certeza que você é uma cria
da cidade grande.

- E isso faz alguma diferença? – perguntou Amy tentando conter a


amargura em seu tom de voz.

- Você está bastante encrencada não é mesmo?

O jeito como ela disse aquilo de maneira tão despreocupada fez com que
Amy levantasse seu rosto, encarando a mulher a sua frente. Ela detestou
encontrar piedade em seu olhar, mas a preocupação ali era verdadeira, e tocou
seu coração. Não conseguia se lembrar com clareza qual havia sido a última
pessoa que se importara com ela daquela forma.

- Eu poderia tentar ajuda-la de algum jeito – continuou Marcy – Se você


quiser me contar alguma coisa então quem sabe podemos encontrar uma
solução para seu problema. Nada é impossível de solucionar na vida garota
além da morte.

Pela primeira vez desde que tudo aquilo começara a tentação de contar
tudo o que havia lhe acontecido a outra pessoa tomou conta de seus sentidos.
Por um momento que lhe pareceu extremamente real, ela se imaginou
contanto todo seu segredo a Marcy, como se finalmente ela fosse capaz de
dividir aquele peso, as algemas que carregavam consigo mesma de maneira
invisível.

A tentação era quase insuportável, as palavras subiram por sua garganta


atropelando uma as outras como se estivessem desesperadas pela liberdade, e
Amy precisou manter os lábios cerrados a mandíbula travada enquanto o
medo nada em seu estomago como uma enguia escorregadia.

A parte racional em seu cérebro que havia sobrevivido sabia muito bem
que ela não podia correr o risco de dizer uma única palavra que fosse a
Marcy. A única coisa que lhe salvara até aquele momento havia sido seu
segredo. Ela não podia se dar ao luxo de confiar em ninguém, ou mesmo
depender de outra pessoa.
Os olhos dela se focaram em Marcy, na forma quase esnobe que ela lhe
sorria o jeito sarcástico que ela sempre parecia ter uma resposta na ponta da
língua. Os caminhos dela haviam se encontrado naquela vida por uma infeliz
coincidência, mas de certa forma no final de tudo Amy sentia-se feliz por tê-
la conhecido. Por mais estranho e bizarro fosse o laço convencional que se
formara entre elas, Amy o estimava, e simplesmente não era capaz de colocar
Marcy numa situação de perigo, mesmo que isso fosse algo que ela não
pudesse revelar. Na parte mais protegida de seu coração ela queria acreditar
que algo pudesse ser feito para protege-la do homem que a perseguia, mas
sabia que isso não passava de um desejo infantil e tolo de sua parte. Os fatos
não mudavam de acordo com sua vontade, e por fim nem ela nem Marcy
podiam fazer nada contra a máfia.

- Obrigada – respondeu Amy por fim, forçando-se a olhar de frente para a


mulher que lhe oferecia ajuda. As palavras pareciam pesadas em sua língua, e
ela desejou do fundo do coração que ela realmente pudesse compreender o
quanto aquele gesto significava para ela – De verdade Marcy, mas eu não
posso aceitar.

- Você tem certeza?

- Eu não quero soar como uma ingrata ou coisa do tipo, mas eu prefiro
simplesmente não arrasta-la para o meio das minhas confusões.

- É um homem não é mesmo? – perguntou a mulher a sua frente, depois


de um pequeno pausa um suspiro cansado deixando seus lábios.

A língua dela ficou presa atrás de seus dentes, enquanto ela desviava seu
olhar, mesmo depois de todos aqueles meses ela nem ao menos havia sido
capaz de pronunciar seu nome uma única vez. Até mesmo pensar a seu
respeito fazia com que ela se sentisse insegura. Como se de alguma forma
aquilo pudesse traze-lo ainda mais para perto.

- Você não precisa me responder, sua expressão já diz tudo por si só –


disse Marcy de maneira derrotada – De qualquer forma ervilha, minha oferta
ainda está de pé quando você estiver disposta a aceita-la. Agora é melhor
você começar a aquecer esse traseiro para o trabalho, a noite promete ser
bastante cumprida.
Amy sorriu de forma singela, enquanto observava a mulher que mesmo
com todas as adversidades havia se tornado uma amiga se levantar e voltar
em direção ao bar. Logo a voz dela encheu mais uma vez todo o ambiente
enquanto ordens eram gritadas a qualquer pessoa que estivesse ali dentro. O
desconforto deixou algo gélido e pegajoso se revirando em seu estômago e
ela tentou afastar os pensamentos que pareciam estarem emaranhados em sua
cabeça como linhas sem nenhuma coesão. A incerteza era como uma coceira
por dentro de seu corpo que simplesmente não era capaz de alcançar. Uma
parte dela queria ter aceito a oferta feita por Marcy, a parte egoísta em seu
cérebro desejava ao menos uma noite de tranquilidade, para que ela pudesse
se sentir livre do peso que carregava em suas costas, mas aquilo
simplesmente não era uma opção.

Quando as vozes dos primeiros clientes chegaram até o camarim


improvisado na parte detrás do bar Amy levantou-se tentando conter o tremor
que parecia pairar sobre seus membros. Ordenou a si mesma a se concentrar
em seu presente, ela trabalharia por mais uma noite, para garantir o dinheiro
que precisava para seu próximo destino. Todas suas outras dúvidas teriam de
ficar para mais tarde. Quanto ao amanhã ela pensaria sobre ele quando esse
estivesse à sua frente.

✽✽✽

Os membros dela estavam doloridos, e suas costas definitivamente já


tinham se encontrado em melhor condição. Cansada, Amy deixou que sua
mão corresse por sua testa suada, tentando afastar uma mecha de cabelo que
teimava em cair diante de seus olhos. Ela não precisava se olhar no espelho
para saber qual o estado de sua maquiagem, mas agora que todos os clientes
simplesmente haviam ido embora, ela podia se dar ao luxo de parecer uma
total bagunça.

Encostada contra o balcão, ela contou mais uma vez as notas amassadas
de dinheiro que recebera por seu show aquela noite. O valor não era alto e ela
tentou lutar contra o sentimento de desanimo que parecia pesar em seu
coração. Estava cansada, o estômago vazio parecia ter se grudado em suas
costas. As coisas iriam melhorar depois que ela tomasse banho, comesse algo
e tivesse um pouco de sono. Nada daquilo poderia resolver seus problemas,
mas ao menos tudo se tornaria mais suportável.

Ela já havia se despedido de Marcy que naquele momento estava nos


fundos do bar atrás do balcão fechando o caixa. Jake o único empregado do
bar que na maior parte do tempo ficava também como segurança das garotas
também estava ali empurrando algumas mesas para os cantos e empilhando
cadeiras. Cumprimentando-o com um aceno de cabeça Amy caminhou em
direção a saída dos fundos, tentando não se martirizar pela dor em seus pés
que suas botas lhe provocavam.

O vento gelado da madrugada acertou sua pele exposta assim que ela
abriu a porta, os cabelos curtos ficaram colados em sua nuca um pouco suada.
Dali até o pequeno motel de beira de estrada onde ela estava se hospedando
eram apenas algumas quadras, um caminho que ela já fizera alguma vezes e
se acostumara com a falta de luminosidade do lugar.

As ruas ao redor estavam desertas, o barulho de um carro atravessando a


estrada ali perto era o único som que preenchia a noite. Acima de sua cabeça
uma lua minguante prateada parecia estar pendurada de ponta cabeça, as
estrelas quase apagas ao seu redor.

Amy segurou as alças de sua bolsa com mais firmeza, e apressou seu
passo enquanto lançava um olhar por sobre seu ombro, quando ela avistou os
contornos das paredes do motel logo a sua frente sentiu o ritmo de seu
coração bater mais tranquilamente.

- Você gostou da gorjeta que eu te dei mais cedo. Se me deixar entrar no


seu quarto hoje à noite posso ser ainda mais generoso.

A voz do homem saindo da escuridão ao lado de uma das ruas paralelas


pego-a completamente desprevenida. Como uma corça surpreendida pelas
luzes do farol, ela estancou no lugar onde estava, as unhas se apertando com
força as alças de sua mochila.

O homem diante dela se aproximou deixando que as luzes alaranjadas que


rodeavam o estacionamento do motel iluminassem suas feições. Ela o
reconheceu de imediato como um dos homens que haviam se comportado de
maneira mais desagradável aquela noite, e ele não estava sozinho.

O coração de Amy batia em seu peito com força, mas o puro pânico que
percorrera suas veias apenas alguns segundos atrás agora parecia ter
desaparecido. Aqueles homens não era a matéria prima do seu pior pesadelo,
e embora ela soubesse que talvez não fosse segurar permanecer ali fora com
eles, não os considerava nada mais do que um estorvo particularmente
irritante. Forçando um sorriso em seus lábios, ela tentou passar por eles
dizendo:

- Obrigada pela atenção garotos, mas eu realmente estou cansada hoje e


precisando de uma boa noite de sono, vão precisar se divertir sem mim dessa
vez.

Ela não quis esperar que eles tivessem uma chance para responde-las,
contornando-os os dois Amy apressou seu passo, mas a mão de um dos
homens que estavam mais perto agarrou seu braço com brusquidão,
mantendo-a presa no mesmo lugar.

- Calma boneca eu ainda não terminei de conversar com você.

O sorriso morreu em seus lábios, ela sabia que seria apenas pior forçar
sua saída dali homens como aquele estavam sempre dispostos a recorrerem a
violência, quando queriam alguma coisa, e ela sabia que esse seria um
quesito onde sempre sairia perdendo. Para escapar de uma situação como
aquela, ela precisaria ser mais esperta.

- Você é ainda mais bonita de perto – disse o homem que a estava


agarrando, percorrendo com o polegar o alto de sua bochecha, fazendo com
que um calafrio de nojo escorresse por sua espinha – Não seja uma estraga
prazeres, eu e meu amigo adoraríamos passar a noite com você. Acredite em
mim o problema não é o dinheiro.

- Agradeço os elogios – respondeu Amy, torcendo para que os idiota ali


não notassem a aspereza em suas palavras que saiam por seus dentes
trincados – Mas, já estou fora do meu horário de serviço rapazes.
O aperto em seu pulso se tornou mais intenso, o desconhecido que a
agarrava atraiu seu corpo para perto, o hálito azedo de bebida acertou seu
nariz em cheio, enquanto ele arrastava o corpo dele para cima do seu dizendo:

- Vamos não seja uma estraga prazeres, eu sei que você precisa do
dinheiro, até uma hora atrás você estava mostrando seu corpo para metade
dos homens da cidade, porque simplesmente não deixa esse orgulho idiota de
lado e leva eu e meu amigo para seu quarto.

A raiva esquentou seu sangue deixando seus pensamentos caóticos,


usando sua força Amy empurrou o homem que a segurava com sua mão que
ainda estava livre, forçando-o a largar seu braço.

Ele não esperava por uma atitude daquelas, bêbado seu corpo se balançou
precariamente sobre os pés, até que ele se erguesse novamente o rosto
vermelho agora com uma expressão raivosa.

- Sua puta...

- Talvez você não tenha ouvido da primeira vez, mas eu vou repetir. Não
vou levar você, seu amigo ou qualquer outro cara pro meu quarto. O show
acabou!

A voz dela saiu alta e controlada na madrugada o corpo dela estava


tremulo devido a raiva que percorria suas veias, mas Amy fez questão de
erguer os ombros e empinar seu queixo. Numa situação como aquela tudo o
que podia fazer era parecer confiante e no controle da situação, esperando
que isso fosse o suficiente para afugentar aqueles idiotas.

Ela percebeu o olhar de incerteza que os dois desconhecidos trocaram, o


homem que não havia a agarrado pelo pulso não parecia estar bêbado, ele lhe
lançou um olhar cheio de desprezo e raiva, mas não deu um único passo em
sua direção.

- Talvez a gente devesse ir embora, ela já disse que não quer, vamos
encontrar outra garota.

- Cala a boca, eu já dei meu dinheiro pra essa vadia, eu quero o que eu
comprei – respondeu o homem que havia a agarrado.

O instinto de sobrevivência tomou conta de seu corpo, jogando a mochila


por sobre seus ombros Amy correu tentando percorrer os poucos metros que
a afastavam do seu quarto no motel, acreditando que seria capaz de alcança-
lo.

Ela forçou suas pernas ao máximo embora seus passos fossem precários e
lentos demais por causa de suas botas de saltos finos. Ouviu o homem atrás
de suas costas correndo de maneira desgovernada enquanto seu colega
parecia chamar seu nome.

Uma mão pesada puxou seu ombro para trás, fazendo com que ela
perdesse o equilíbrio, o corpo dela foi segurado com brusquidão.

- Me solta! – gritou Amy com toda a força que tinha em sua garganta,
tentando acertar o homem que a segurava.

O desconhecido parecia ter perdido completamente qualquer tipo de


racionalidade, ele arrancou a bolsa de seus ombros jogando-a no chão,
rasgando um pedaço de seu top de seda. Tentando se desvencilhar dele, Amy
se esticou para alcançar a alça de sua bolsa, se conseguisse poderia encontrar
o spray de pimenta que guardava ali dentro e se livrar daquele homem.

A mão dele voou para seu rosto, desconcertando-a por um minuto, o


corpo dela caiu no chão, os joelhos atingindo primeiro o cascalho sem que ela
pudesse fazer nada para impedir a queda. Os cabelos dela ficaram na frente
de seus olhos, desespero nadando em suas veias. Ela observou o agressor
desconhecido abaixar-se sobre seu corpo, e então a sombra de algo estava
sobre ele.

O corpo dele foi levantando como se não pesasse nada, o grito de dor dele
ecoou em seus ouvidos, quando ela percebeu o homem que a salvara
socando-o repetidamente no rosto.

No terceiro golpe, o corpo dele caiu desacordado no chão, mesmo assim o


homem que o atacara não se contentou com isso. Uma vez e mais outra ele
socou seu rosto até que seu nariz tivesse completamente ensanguentado e se
transformado numa massa de carne indistinta.

Numa parte muito afastada de seu cérebro ela compreendeu que aquele
homem iria mata-lo, a forma como ele se movia, o jeito que desferia cada um
de seus golpes nada mais do que a pura demonstração de violência sem
controle ou limites, então o agressor simplesmente parou seu ataque e focou o
olhar sobre ela. Um par de olhos dourados como o sol que assombravam suas
lembranças fizeram com que seu coração parasse de bater em seu peito. Ela
poderia reconhece-lo em qualquer lugar, ela jamais poderia esquecer aqueles
olhos e tudo o que eles representavam.

O corpo dela se moveu mais rápido do que seus pensamentos, colocando-


se de pé Amy tentou fugir dali, pois ela sabia que se ele a capturasse então
estaria morta. A dor explodiu atrás de sua nuca, os olhos dela rolaram para
trás de sua cabeça e o mundo foi engolido pela escuridão.
Capítulo Três

A dor viajou por seu braço, uma companheira extremamente conhecida


enquanto fechava seus punhos tentando conter a adrenalina que ainda viajava
por seu sangue. O corpo dele inteiro tremia, e parte dele ainda não era capaz
de acreditar em seus olhos. Talvez ele estivesse sonhando ainda? Ele não
podia ter certeza, e aquele simples fato era o suficiente para lançar a mente de
Cézare Fonnezi num caos completo.

Lentamente ele relaxou o aperto em suas mãos, enquanto percebia o ritmo


de seu coração começar a se normalizar. Uma gota de suor escorreu ao lado
de seu rosto se perdendo abaixo de sua mandíbula. Ele sabia que precisava se
mexer, continuar o que havia começado, mas era difícil dar o próximo passo
agora que ela estava a sua mercê.

Um raio prateado tímido da luz do luar, perfurou as cortinas que ele havia
fechado de qualquer maneira incidindo sobre o rosto dela que jazia deitada na
cama completamente adormecida, a simples visão dela daquela forma foi o
suficiente para lançar todo seu interior numa confusão ruidosa dentro dele.
Raiva, angustia, dor, medo, desejo, tudo parecia ter se misturado dentro de
seu peito formando uma bola de ferro que parecia pesar sobre ele, lentamente
levando-o a loucura porque não desejava ter de lidar com nada daquilo.

Os minutos se arrastaram ao seu redor, fazendo com que o suor esfriasse


sobre seu corpo. O quarto onde eles estavam era abafado, o cheiro de mofo e
coisa antiga pinicando a ponta de seu nariz. Deitada sobre a cama a mulher
que havia o traído permanecia alheia a sua presença, uma imagem que sua
mente ainda não era capaz de assimilar como real.

Nos últimos meses, sua vida se transformara numa caçada infinita atrás
daquela mulher. Algo que lentamente embora ele não fosse capaz de assumir
para si mesmo havia consumido pouco a pouco sua insanidade.

As lembranças inundaram sua mente, até o momento onde ele acordara


sozinho meses atrás a dor latejante em sua cabeça, o frio cobrindo sua pele e
a ausência dela pairando sobre ele, uma realidade da qual ele simplesmente
não havia sido capaz de aceitar.

O ódio o consumira primeiro quando ele finalmente se recuperara e


percebera que havia sido enganado. Ele havia sido manipulado por Amy,
acreditara em suas palavras suas ações, seus beijos, mas tudo aquilo não
passara de um disfarce, algo que ela usara para conseguir escapar sem nem
mesmo lançar um segundo olhar em sua direção.

Os dedos cavaram fundo em sua pele, a respiração dele enchendo seus


ouvidos enquanto seus pensamentos caminhavam por essa direção. A parte
racional de seu cérebro sabia que de certa forma, ele também possuía certa
culpa no que ela havia feito a ele. Desde o primeiro momento que colocara
seus olhos sobre ela a desejara, um tipo de sentimento que ele nunca havia
sentindo parecia ter dominado sua mente. Sabia que não era racional, que não
havia explicações; ele havia a desejado e embora soubesse que aquilo seria
impossível ele também havia almejado que ela também pudesse querer estar
ao seu lado.

Fechando os olhos Cézare tentou focar seus pensamentos, ele nunca havia
sido um homem descontrolado, mas de certa forma a fuga dela havia o
transformado numa outra pessoa. Ainda hoje quando se olhava no espelho ele
não era capaz de se reconhecer por completo. Os últimos meses nada mais
eram do que um borrão difuso em sua mente. Desde que ela havia fugira, a
única coisa que o motivara a continuar em frente tinha sido o desejo de
novamente colocar suas mãos sobre ela. Olhar em seus olhos tocar sua pele...
E agora ali estava ela, a mulher que causara tudo aquilo, ao alcance de seus
dedos.

A respiração dele ficou suspensa em seu peito, como se ele ainda não
pudesse acreditar naquela realidade. Lentamente ele percebeu sua mão se
erguer quase como se tivesse vida própria, os dedos dele tocando o tornozelo
sobre o tecido de couro de sua bota. Uma corrente elétrica percorreu seu
corpo, deixando cada um de seus sentidos aguçados. Aquilo não era um
sonho, ele não teria mais de acordar durante a noite chamando por seu nome,
a mão estendida em direção a cama vazia buscando algo que ele não era
capaz de alcançar. Depois de todos aqueles meses, ele estava ali, novamente
sob seu toque.
Ele deixou que seu olhar ficasse preso sobre ela devorando cada pequeno
centímetro exposto de sua pele, comparando cada uma de suas nuances com
as lembranças dela em sua mente.

Ela havia mudado sua aparência. Os longos e ondulantes cabelos


compridos dourados haviam sido substituídos por um corte cheio de ângulos
que lhe desciam até a altura de seu queixo, agora eles exibiam uma cor escura
como a noite, deixando seu tom de pele ainda mais pálido contra os lençóis
encardidos daquele lugar. Os dedos dele coçaram de vontade de toca-los,
como se precisasse se certificar da textura que ele uma vez havia sentindo,
um fantasma que havia o perseguido durante todo o tempo que ele não fora
capaz de estar ao seu lado.

Cézare notou que ela havia emagrecido, os lábios antes volumosos e


rosados agora pareciam pálidos demais, as maças de seu rosto estavam
realçadas sob sua pele assim como sua clavícula. Ele somente podia imaginar
o tipo de experiências que ela havia se sujeitado apenas para continuar
fugindo dele.

Raiva o invadiu quente como fogo, corroendo seus pensamentos enquanto


ele se lembrava dos homens que tentavam arrasta-la para seu quarto quando a
encontrara. As palavras dele ainda ecoavam em seus ouvidos, a forma como
o desgraçado se gabara de como havia observado seu corpo, como ele havia a
menosprezado dizendo que ela se mostrara para uma plateia inteira de
homens iguais a eles.... Tudo por alguns míseros trocados, tudo para que ela
pudesse continuar fugindo dele.

Ela deveria despreza-lo profundamente, para precisar se sujeitar aquilo e


Cézare se odiava ainda mais por não conseguir controlar o ciúme possessivo
que parecia corroer suas entranhas naquele momento. O corpo dela deveria
ser algo que apenas ele teria o direito de apreciar. Imaginar que outros
homens haviam a observado, tocado em algo que lhe pertencia fazia com que
ela tivesse vontade de assassinar todos eles a sangue frio.

A mão dele se fechou sobre seu tornozelo, os dedos apreciando o contato


o couro de sua bota era gelado contra sua pele, desviando os pensamentos em
sua mente. Ele não conseguia pensar direito agora que ela estava ao seu
alcance, uma parte dele ainda não era capaz de aceitar que ele finalmente
havia conseguido, que ele capturara sua presa. Aquele simples fato parecia ter
empurrado para fora de seu cérebro toda sua coerência.

Nos últimos meses ele sonhara com aquela cena tantas vezes apenas para
acordar sozinho ciente da distância que havia entre eles. Inúmeras vezes ele
se perguntara se um dia seria capaz de alcança-la, ela sempre parecia estar um
passo à sua frente, embora ele tivesse conseguido estar em seu encalço desde
o princípio, ela sempre havia conseguido encontrar uma maneira de escapar
dele, como água escorrendo por entre seus dedos.

O tempo havia transcorrido de maneira implacável, dias que se


transformaram sucessivamente até que o inverno fora consumido pelo verão,
mesmo assim ele havia seguido em frente em único objetivo em sua mente
que ele não podia se dar ao luxo de não conseguir alcançar.

As pálpebras dela se remexeram levemente, um murmúrio quase


inaudível deixando seus lábios entreabertos, ele havia a nocauteado de uma
maneira rápida para traze-la para dentro daquele quarto, mas logo sabia que
ela iria acordar então finalmente sua provação teria começado.

Seu cérebro ordenou seu corpo que se movesse, ele precisava se preparar
para quando ela acordasse. Olhando ao redor, ele agarrou o lençol puído que
estava aos pés dela, sabia que nem de longe aquilo era o ideal, mas no
momento teria de ser o suficiente. Cortando-o em tirar longas, ele as amarrou
juntas até que elas ficassem resistentes o suficiente para que ela não fosse
capaz de força-las para escapar. Sem perder tempo, ele amarrou os pedaços
do lençol entre seus tornozelos e seus pulsos juntos enquanto ela continuava
ainda adormecida.

As mãos dele formigaram ao tocar em sua pele, o aroma de seu perfume


alcançou seu nariz quando ele se inclinou em sua direção, e ele precisou usar
toda sua força de vontade para não afundar seu rosto no espaço exposto entre
seu pescoço e ombros. Precisava se lembrar que havia sido aquela mulher que
o enganara, usando sua atração para fazê-lo de idiota. Ele não iria cometer o
mesmo erro duas vezes.

Agora a única coisa que ele precisava decidir era o que fazer com ela....
As dúvidas se avolumaram em sua mente, até que tudo dentro das paredes de
seu crânio parecia não possuir coerência alguma.

Ele deveria matá-la... A ideia rodeou sua mente como uma cobra, um
pensamento que não lhe era estranho. Cézare imaginara aquela possibilidade
milhares de vezes. Ele era o Caronte, o assassino da família Fonnezi, se ele
desejasse matá-la então não haveria nada que ela pudesse fazer para evitar
esse destino. Havia sido dessa forma que ele a conhecera, a mulher diante
dele nada mais era do que uma tarefa que ele não havia sido capaz de
concluir.

Talvez ele realmente devesse matá-la de uma vez por todas, acabar com
aquilo e quem sabe por fim ele poderia ter qualquer ínfimo pedaço de
descanso. Ele poderia simplesmente se livrar dela, da tortura pela qual havia
passado nos últimos meses. Não era uma tarefa difícil, ele sabia muito bem
que ela não era uma adversaria a sua altura, ela não seria capaz de defender
principalmente agora... Então o que estava lhe segurando?

A respiração dela se tornou mais estável, os olhos sob suas pálpebras


fechadas se mexiam agora com mais força, logo ela iria recobrar a
consciência e ele ainda não conseguira decidir o que fazer com ela.

Os olhos dele se fixaram novamente em sua figura, o peso de seu destino


parecendo algo muito concreto nas palmas de sua mão.
Capítulo Quatro.
Amy soube que aquilo não era um pesadelo antes mesmo que seus olhos
se abrissem. O coração em seu peito explodiu quando suas pálpebras se
levantaram, puro horror escorrendo por suas veias junto com seu sangue,
enquanto o mundo ao seu redor entrava em foco.

As cortinas de seu quarto estavam fechadas deixando todo o ambiente


mergulhado numa penumbra cinzenta, impedindo que ela conseguisse
enxergar os cantos do cômodo, fazendo com que ela se sentisse ainda mais
nervosa. Virando o pescoço para a direita sentiu a dor viajar por seu corpo,
enquanto as lembranças invadiam sua mente. Mãos bruscas haviam arrastado
seu corpo, ela tentara lutar contra um homem desconhecido que queria leva-la
até seu quarto, e então ele havia a encontrado.

O medo deixou um gosto ácido em sua boca, enquanto ela começava a


sentir seu corpo tremer como se estivesse sido açoitado pelo frio do inverno,
um suspiro tremulo escapou de seus lábios quase como um lamento, quando
ela terminou de virar se corpo na cama, e encontrou o olhar do homem que
permeava seus pesadelos fixo em sua direção.

Ele havia arrastado uma de suas cadeiras para que ficasse ao lado da
cama, diminuindo o espaço entre eles e sua figura parecia preencher todo o
ambiente. Na penumbra densa da madrugada, a escuridão daquele quarto não
a deixava ser capaz de enxergar por completo sua expressão, as sombras
produzidas pelas cortinas escondiam suas faces, e a única coisa que ela podia
ver com clareza era o olhar dourado dele, que ela havia sido incapaz de
esquecer prendendo o seu.

Pavor puro e simples dominou seus movimentos, ela tentou num reflexo
tentar se erguer, embora sua cabeça estivesse zonza, e seus pensamentos
lentos e erráticos, movimentou o corpo com dificuldade, até finalmente ser
capaz de notar que seus pulsos assim como suas pernas estavam amarradas.
Ela havia sido capturada, uma presa extremamente frágil diante de seu
caçador.
O medo se enraizou dentro dela fazendo com que lágrimas subissem até
seus olhos fechando sua garganta, as pontas de suas unhas cavaram fundo na
carne de suas mãos, uma tentativa patética de conter o grito de puro terror
que parecia se avolumar dentro do seu peito.

Algo pareceu se quebrar dentro dele ao perceber o medo que ela não era
mais capaz de conter, atravessando o espaço que os separava num átimo de
segundo o homem que era como um de seus pesadelos encarnados empurrou
seu corpo com brusquidão contra a cabeceira de sua cama, a frieza de uma
lâmina que ela mal era capaz de enxergar foi empurrada contra sua garganta,
fazendo com que ela fosse obrigada a permanecer paralisada.

- Você acha que tem o direito de se desesperar? – perguntou o homem


diante dela num sussurro controlado apenas para seus ouvidos – Suas
lágrimas não tem valor algum. Você deveria saber que esse momento iria
chegar.

A respiração dele pairou sobre seu rosto ele estava tão próximo que ela
podia sentir calor irradiando de seu corpo. A voz dele, todo seu corpo sua
própria presença era igual as suas lembranças, as mesmas que ela havia
tentando desesperadamente esquecer em vão nos últimos meses. Durante toda
sua fuga sua mente havia sido inundada por pesadelos, seu sono
constantemente perturbado por imagens daquele homem. O medo havia
alimentado sua paranoia, deixando a beira de um colapso do qual ela sabia
muito bem que não seria capaz de suportar. Havia perdido as contas de
quantas noites acordara num sobressalto imaginando que ele estava a seu
lado, o peso de sua mão contra seu pescoço, o toque de sua pele sobre a sua
como uma queimadura. Ela nunca estivera sozinha durante toda a sua fuga, a
imagem dele sua presença havia a acompanhado constantemente. Uma parte
dela dissera a si mesma que embora odiasse profundamente sua mente por
não ser capaz de esquece-lo então ao menos isso poderia prepara-la caso
algum dia ela fosse obrigada a novamente ficar diante dele, agora ela
percebia que tudo aquilo não havia passado de uma ilusão, um desejo infantil
de sua parte. Nada do que ela tivesse feito poderia tê-la preparado para aquele
encontro.

- Cézare... – O nome dele soou pesado em sua boca, as letras deslizando


por sua língua vagarosamente enquanto o som de sua voz tremula ecoava em
seus ouvidos. Aquela era a primeira vez que ela dizia aquele nome em voz
alta após seis meses.

Os olhos dele se estreitaram, o dourado fulgurante tornando-se mais


intenso enquanto a ponta da lâmina que ele segurava contra sua garganta se
aprofundava em sua pele até ela sentir uma pequena picada ardente.

- Me dê um motivo, apenas uma única razão pela qual eu não deva abrir
sua garganta agora mesmo.

Amy tentou controlar o desespero que parecia suprimir qualquer


pensamento racional em seu cérebro, os pés dela se moveram na cama, os
calcanhares cavando de maneira desajeitada no colchão, buscando qualquer
pequeno espaço que ela pudesse encontrar para conseguir se afastar dele.

- O que você quer que eu diga? – perguntou ela, as palavras mal sendo
capazes de escapar de seus lábios trêmulos.

- Você fugiu! - disse Cézare num sibilo de voz que deixou todos os pelos
de seu corpo eriçados.

- O que você queria que eu fizesse? Você ia me matar...

A pressão da lâmina sobre seu pescoço diminuiu ao menos por um


momento, os olhos dele fixos em sua expressão como se ele não pudesse
acreditar em suas palavras.

- Eu nunca tive chance não é mesmo? – respondeu ele, um sorriso sem


nenhum humor se torcendo em seus lábios – Você conseguiu me enganar
completamente isso eu devo admitir, atuou como uma perfeita atriz, e depois
simplesmente me nocauteou e foi embora sem olhar uma vez para trás.

- Eu não enganei você – respondeu Amy em voz baixa, tentando controlar


os tremores que percorriam seu corpo. Uma lágrima escorreu por sua
bochecha se perdendo abaixo do seu queixo, e ela se odiou por se encontrar
novamente numa posição onde estava completamente desamparada
novamente em relação ao homem diante dela.
- Realmente espera que eu acredite nisso? Você não passa de uma
mentirosa.

Os dentes dela se cravaram em seu lábio inferior, a raiva fervendo seu


sangue, ele tinha a audácia de chama-la de mentirosa, como se ele
simplesmente não tivesse arquitetado um plano para engana-la para que ela
entregasse seu irmão, e depois simplesmente a descartasse como lixo.

- Você pode acreditar no que quiser, isso não faz diferença alguma pra
mim – disse Amy por fim.

A mão direita dele se infiltrou por seu cabelo, enquanto ele puxava seu
rosto em sua direção até que seus narizes estivessem se encostando, a
respiração dele estava acelerada, como se ele tivesse acabado de correr uma
maratona, a lâmina em seu pescoço tremeu por um breve momento. A parte
racional em seu cérebro lhe dizia que ela não deveria irritar aquele homem
que parecia completamente irracional, mas todo o bom senso parecia ter
deixado seu corpo naquele momento.

- Parece que os meses em que você esteve fugindo te fizeram muito mais
corajosa. – disse Cézare – Talvez você acredite que possa escapar novamente,
por isso está agindo com tanta valentia.

Amy não se sentia nem um pouco corajosa naquele momento, mas ela
lutou com todas suas forças contra o desespero que parecia arranhar seu
interior tentando encontrar uma forma para escapar. Seu pior pesadelo havia
se tornando verdade, e embora ela não soubesse como, precisava encontrar
uma maneira de escapar daquilo.

- Me solta! – exigiu a garota forçando os pulsos contra as amarras de


tecido em seu pulso, até que a carne deles estivesse irritada e ela conseguisse
ao menos que minimamente deixá-los mais livres.

A mão de Cézare pesou em seu pescoço, a lâmina em sua agarre forçando


ainda mais contra sua pele, até ela sentir um pequeno corte se formar em seu
pescoço, uma gota de sangue quente escorrendo até seu colo.

- Tente a menor gracinha, e você vai se arrepender – disse Cézare de


maneira fria, forçando-a a encarar seu olhar gélido.

- O que você vai fazer? – perguntou ela entre dentes o ódio queimando
em cada uma de suas palavras – Vai me matar? Então faça isso! Faça isso!

O grito dela escapou de seus lábios como um lamento um berro sem


sentindo, enquanto o desespero tomava conta dela. Ela jogou seu corpo para
frente tentando de qualquer forma o acertar, mas ele foi mais rápido, suas
costas escorregaram contra o travesseiro de maneira incomoda, as pernas
presas incapazes de realmente provocaram qualquer dano. Os braços tremiam
pelo esforço, as lágrimas turvando sua visão, o corpo dela ficou preso entre a
cama e a figura de Cézare os pulsos amarrados levantados contra sua cabeça,
a mão direita dele escorregou por sua garganta prendendo ali, a lâmina que
ele usara para ameaça-la perdida em algum lugar naquela confusão, embora
ela soubesse que ele não precisava daquela arma se realmente quisesse
machuca-la.

O silêncio parecia encher seus tímpanos, o coração descompassado


parecia ter subido para se alojar em sua garganta, as lágrimas ficaram presas
em seus cílios, ardendo em seu nariz fazendo com que ela se sentisse ainda
mais patética.

- Eu odeio você – murmurou Amy tão baixo sem saber se Cézare havia
sido capaz de ouvi-la.

- A reciproca é verdadeira...

O espanto tomou conta de suas feições, e ela não soube como disfarçá-lo.
Aquela era a primeira vez que ela ouvia ele dizer qualquer coisa a respeito de
como se sentia a seu respeito, e foi incapaz de não se sentir ofendida, não
havia sido ele quem ela ameaçara de morte, que o enganara. Ele não tinha
nenhum direito de se sentir dessa maneira.

- Você foi um erro – disse ele os olhos dourados completamente fixos em


seu semblante, uma raiva que ela desconhecia os motivos nadando ali dentro
direcionada especificamente a ela – Eu deveria ter terminado com você assim
que te vi pela primeira vez...
- Eu nunca fiz nada que pudesse machuca-lo de alguma maneira, você
não tem direito de me olhar desse jeito.

- Você me usou para conseguir fugir!

- Eu queria viver! – respondeu Amy erguendo novamente seu tom de voz


deixando que sua raiva permeasse cada uma de suas palavras – Você não
pode me culpar por isso. Seu irmão me sequestrou ou você já se esqueceu
disso? Ele deu ordens para que você me matasse, a única coisa que eu fiz
desde que te conheci foi tentar sobreviver.

- Sim – respondeu Cézare deixando que seu corpo pairasse sobre o dela
ainda mais próximo, o aperto entre seus pulsos presos tornando –se quase
dolorido – Exatamente. Você fez isso enquanto me seduzia. Você me deixou
toca-la, se deitou comigo apenas para que dessa forma eu pudesse baixar
minha guarda.

As lembranças deles dois que ela durante todo aquele tempo havia
tentando com todas suas forças suprimir ressurgiram em sua mente de forma
tão vivida que ela foi incapaz de afasta-la para longe naquele momento. O
aroma dele pinicou em seu nariz forte e pungente nublando seus sentidos, o
toque dele sobre sua pele desnuda era firme as mãos calosas que ela
conhecera apenas por um instante, ardiam em sua pele, e embora seu corpo
tolo ansiasse completamente por aquele homem, ela tentou combater essa
atração, que ela sabia ser extremamente perigosa.

- Eu não seduzi você Cézare, mas não importa o que eu diga você não vai
acreditar em mim...

As palavras dela pairaram no ar entre o pequeno espaço que havia entre


eles, e por um instante ficou surpresa ao perceber como ela soara de forma
magoada, como se uma parte dela que até então ela realmente desconhecia
precisasse que ele acreditasse em suas palavras.

Ele permaneceu um longo tempo em silêncio apenas a encarando, a


descrença estampada em cada uma de suas feições. Ela imaginou que ele não
havia sido capaz de ouvi-la, mas então o aperto em seus pulsos diminuiu
quase que por completo até sobrar nada mais do que o contato de sua mão
contra sua pele.

- Você quer que eu acredite nisso Amy? Mesmo depois de você ter se
deitado comigo, me nocauteado e fugir? Quem me convence que esse não era
seu plano desde o começo?

- Eu não queria me deitar com você, eu não planejei isso. As coisas


aconteceram entre nós Cézare e ponto final.

- E mesmo assim você acabou decidindo escapar – respondeu ele,


enquanto sarcasmo tingia cada uma de suas palavras – Bem conveniente.

- Você não pode me culpar pode? Seu irmão me queria morta, ele queria
saber onde estavam os diamantes que meu irmão havia roubado e você disse
que iria cumprir sua tarefa...

- Eu também disse que não iria machuca-la...

As palavras dele a chocaram por completo, horror puro e simples


tomando conta de suas feições. Ela havia esquecido que ele lhe dissera isso,
mas agora as palavras dele voltaram a sua mente conjurando aquela memoria
que parecia ter se infiltrado na parte mais distante de sua mente.

As mãos de Cézare deixaram seus pulsos, o corpo dele se erguendo sobre


o seu enquanto se afastava, ela não conseguiu conter os tremores que
deixaram seus membros tensos. A confusão em sua mente se avolumava
deixando seus pensamentos completamente desorganizados. Ela havia temido
acima de tudo aquele encontro com o homem diante dela, mas de certa forma
sempre acreditara que sabia o que poderia esperar dele. Ele era seu carrasco,
o homem que havia sido designado para acabar com sua vida, não saber quais
eram seus planos ou suas intenções lhe deram o gosto de um novo tipo e mais
profundo de desespero.

Lentamente ela forçou seu corpo a se levantar, os braços tremiam


enquanto ela tentava de alguma forma mostrar uma aparência controlada,
embora tudo aquilo não passasse de uma fachada mal construída.

- O que você pretende fazer comigo? – perguntou Amy quebrando o


silêncio que pairava sobre eles, obrigando Cézare a olhar em sua direção.

A confusão por um momento pareceu nublar os olhos dele, e pela


primeira vez a raiva por trás de seus olhos dourados se tornou quase difusa,
mas logo a expressão dele se tornou fria e distante, o rosto se contorcendo em
algo que era completamente monstruoso. O medo deslizou por seu corpo
como uma segunda pele, ela sentiu como se uma cobra estivesse se
contorcendo em sua barriga.

Durante todos os meses em que estivera fugindo daquele homem, havia


guardado um único objetivo em sua mente. Sobreviver. Todas as decisões
que havia tomado, todas as escolhas que fizera tinham esse objetivo, mas
agora enquanto os olhos dourados de Cézare estavam fixos em seu rosto, pela
primeira vez desde que escapara de suas garras ela começava a se questionar
que no final das contas o destino que a esperava pudesse ser pior do que a
morte que ela tanto tentara evitar.
Capítulo Cinco

- Levante-se – ordenou Cézare, um timbre de voz autoritário


comprimindo cada uma de suas palavras enquanto, as mãos bruscas dele
agarravam seus braços colocando-a de pé.

- O que você está fazendo comigo? O que você quer? – perguntou Amy
assustada, incapaz de conter o pânico em sua voz.

Ele não pareceu ter nenhum interesse em lhe responder nenhuma de suas
perguntas, sem lançar um segundo olhar em sua direção, ela observou ele
recuperar a lâmina que havia caído sobre sua cama completamente esquecida
nos últimos minutos, apenas para se abaixar diante de suas pernas para cortar
os pedaços de tecidos que a prendiam.

Com um único movimento certeiro, ele a libertou de uma vez, mas Amy
não conseguiu dar nem um passo a mais antes que a mão dele estivesse de
volta em seu pescoço prendendo sua respiração.

- Eu vou sair daqui, mas você vem comigo, não tente nenhuma gracinha,
ou eu serei obrigado a nocauteá-la de novo.

- Pra onde você está me levando? – perguntou Amy confusa, embora ela
não tivesse nenhuma pretensão de acompanha-lo a lugar algum.

- Esse é o tipo de coisa que você não precisa saber. Agora fique quieta e
ande!

A mão dele pousou sobre seu ombro com força, empurrando-a em direção
a porta de seu quarto. Os pés dele ainda trôpegos tropeçaram em si mesmos
deixando seus passos vacilantes, o nervosismo se agitou dentro dela deixando
sua mente um turbilhão acelerado de pensamentos que parecia não conter
sentido algum. Ela precisava encontrar uma forma de escapar, mas naquele
momento a única coisa que conseguia fazer era obedece-lo embora soubesse
que isso era exatamente o que mais faria com que ela estivesse perdida.
Eles saíram juntos para a fora de seu quarto, no horizonte as primeiras
luzes do amanhecer tingiam o céu de um rosa pálido, embora algumas
estrelas tardias ainda pudessem serem vistas no céu azul acinzentado.

A mão de Cézare caiu sobre sua cintura, o corpo dele ladeando-a de tão
perto que ela podia sentir seus ombros tocarem seu peito. Para qualquer um
que os visse naquele instante talvez pudesse imaginar que eles não passavam
de um casal extremamente próximo e apaixonado, que não se importava de
demonstrar carinho em público, embora a realidade fosse o extremo o oposto
a isso.

Com o coração acelerado em seu peito Amy olhou ao redor tentando


encontrar qualquer coisa, qualquer pessoa que pudesse ajuda-la naquela
situação, enquanto tentava conter o pânico das lembranças que ressurgiam em
seu cérebro. Ela também havia sido levada contra sua vontade pelas ordens
do irmão do homem ao seu lado, para pagar por um crime que ela nunca
cometera. Havia sido nesse exato momento quando toda sua vida começara a
se transformar num pesadelo, e ela não podia impedir a incomoda sensação
de dejá vu que parecia consumi-la naquele instante de imaginar que tudo
estava se repetindo, e dessa vez talvez ela não tivesse tanta sorte assim em
conseguir fugir daquela situação.

Olhando por sobre seu ombro Amy deixou que seu olhar recaísse na rua
que cortava o motel onde ela se hospedara, àquela hora o lugar se encontrava
completamente deserto, uma luz solitária sobre o guichê indicando onde os
quartos podiam serem alugados estava acesa, mas ela tinha suas dúvidas se
poderia contar com a ajuda do senhor de meia-idade que tomava conta
daquele lugar.

A mão de Cézare pesava sobre sua cintura, forçando seus passos a


andarem mais rápido, Amy deixou que seu pensamento corresse em direção a
Marcy, o bar dela ficava apenas dois quarteirões dali se ela conseguisse
escapar dele e correr os poucos metros que a separavam daquele lugar então
talvez ela pudesse ter uma chance, por menor, mais mínima e insignificante
que ela aparentasse naquele momento.

Os olhos dela se desviaram em direção ao rosto de Cézare e ela se


surpreendeu ao notar que ela estava a observando atentamente, como uma
ave de rapina. Os dedos dele se cavaram mais fundos em sua cintura até que
ela pudesse sentir o contorno de cada um deles por cima de sua blusa. Era
como se aquele homem pudesse ler sua mente, e saber cada um dos
pensamentos que ela escondia em seu cérebro.

- Você pode tentar escapar – disse Cézare os olhos dourados brilhando


em sua direção como o sol que nascia ao leste – Mas, eu vou alcança-la de
qualquer forma, e se qualquer pessoa tentar ajuda-la o destino dela será bem
pior que o seu.

A respiração dela ficou presa em sua garganta, a pequena bolha de


esperança que ela havia acalentado explodindo em pequenas partículas no
centro do seu peito. Lembrou-se de Marcy e seu sorriso contagiante da forma
como ela havia lhe estendido a mão mais cedo na noite anterior, acima de
tudo o que ela mais desejava era se ver livre de Cézare, mas sabia que não
seria capaz de fazer nada que colocasse qualquer outra pessoa em perigo. As
decisões que tomara em sua vida já pesavam o suficiente sobre suas costas, e
sabia que remorso era algo que ela não gostaria de adicionar à lista.

Os ombros dela caíram enquanto seus passos se tornavam menos


cambaleantes, desviando o rosto de Cézare ela focou seu olhar adiante
embora realmente não estivesse prestando atenção em nada a sua frente. Ela
sabia muito bem que naquele momento não havia nada que pudesse fazer.

Cézare contornou o motel, até a parte de trás onde os quartos mais


afastados se localizavam, ali o barulho da estrada era mais presente já que
aquele lugar ficava mais próximo da rodovia. Sem perder tempo ele a fez
andar até o único carro estacionado ali, um conversível negro levemente
empoeirado que parecia completamente fora do lugar. Sem perder tempo, ele
a levou até a porta do passageiro, forçando-a a entrar ali dentro, e no minuto
após ele estava a seu lado.

- Você ao menos poderia soltar meus pulsos – disse Amy irritadiça,


enquanto ajeitava seu corpo sobre a poltrona de couro extremamente
confortável. – Você sabe muito bem que eu não vou conseguir fugir nessas
condições.

O olhar que Cézare lhe lançou de lado deixou seu estômago ainda mais
enjoado, ela observou em silêncio a forma como ele agarrava o volante a sua
frente, as juntas de seus dedos ficando brancas pelo esforço. Ele estava
usando todas suas forças para controlar seu temperamento.

- Eu prefiro não correr riscos com você – respondeu ele por fim, enquanto
ligava o veículo o som potente do motor inundando todo o ambiente ao seu
redor.

Amy abaixou seu olhar focando sua atenção nos pulsos amarrados em seu
colo. A raiva borbulhou muito próxima da superfície, mas ela sabia que
naquele momento aquilo era apenas uma sensação infantil. Ela poderia muito
bem odiar por completo o homem a seu lado, mas isso não a ajudaria a
escapar dali. Embora fosse completamente difícil, ela precisava conseguir
uma maneira de se manter no controle do seu temperamento.

- Você ao menos poderia ter me deixado pegar minhas coisas – disse


Amy, enquanto seu olhar recaia para fora das janelas do carro. Ao seu redor a
paisagem rural repleta de campos de milho enchiam sua visão, a estrada se
estendia diante dela quase como se fosse infinita, e ao seu lado Cézare
parecia estar mais do que disposto a quebrar qualquer limite de velocidade.

- Você não irá precisar de nada daquilo – respondeu ele, num murmúrio
aborrecido como se estivesse farto de toda uma conversa que realmente
nunca chegara a existir.

- Por que? – perguntou ela de maneira desafiante, embora por dentro seu
coração estivesse gelado pelo medo e a incerteza. – O que você pretende
fazer comigo?

O silêncio foi a única resposta que obteve, e aquilo apenas serviu para
deixa-la ainda mais indignada. O medo cravou as garras em seu corpo,
deixando seus membros trêmulos. Ela esfregou os pulsos mais uma vez
sentindo como a pele por debaixo das fitas de tecido estavam quentes e
doloridas. Claustrofobia encheu sua mente enquanto ela olhava em toda as
direções buscando algo que pudesse fazer para tira-la daquela situação, mas
para todos os lugares que olhava só encontrava o vazio de paisagens
desabitadas e estradas pouco movimentadas, ali fora ela estava sozinha com
aquele homem odiável.
- Há quanto tempo você está me seguindo? – a voz dela preencheu o
pequeno espaço entre eles. Tudo naquela situação parecia ser algo
completamente insano e Amy tinha plena consciência disso. Tentar puxar
assunto com o homem que apenas algumas horas atrás havia ameaça-lo matá-
la era exatamente o tipo de atitude que sua mente racional não era capaz de
compreender, mas o tempo para tomar atitudes coerentes parecia ter ficado
para trás.

Desviando seu olhar que continuava repousado nos pulsos amarrados em


seu colo, ela deixou que sua atenção se focasse em Cézare, ela só podia
enxerga-lo de perfil, mas como a atenção dele parecia estar completamente
voltada para a estrada ela se deu ao luxo de realmente observa-lo.

Na maior parte a imagem dele continuava igual a de suas lembranças,


mas havia uma certa rudeza que não estivera ali, ao menos não que ela fosse
capaz de se lembrar. O cabelo dele parecia maior, as pontas assimétricas
agora alcançavam o colarinho de sua camiseta, a barba por fazer fazia sombra
em suas feições, acentuando o tom de sua pele que parecia estar mais pálido.
Havia olheiras embaixo de seus olhos que ela simplesmente não havia
conseguido reparar antes. Ele parecia cansado, como se também não tivesse
tido muito tempo para descansar. As roupas que ele usava também eram um
reflexo de sua aparência. Diferente de seu irmão, ela havia notado quando
conhecera Cézare que ele parecia não gostar de usar nada muito requintado
como ternos, e roupas sociais. A calça jeans que parecia ser feita sob medida
abraçava gentilmente seu corpo, a regata cavada negra parecia confortável
embora estivesse amarrotada. Ele usava por cima de tudo um casaco de
moletom simples, também negro, o que poderia ter sido um exagero da cor
em outras pessoas, caia nele com perfeição, Cézare tinha uma aparência
perigosa, e deixava isso completamente evidente na forma como ele fazia
qualquer coisa, inclusive se vestir, ela sabia muito bem que um homem como
ele atrairia todos os tipos de olhares na rua, e a maioria iria preferir manter
sua distância dele.

Os olhos dourados estavam escondidos detrás da franja de seu cabelo,


Amy sabia que deveria desviar sua atenção dele, tentando focar-se em
qualquer outra coisa que não fosse o assassino sentado a seu lado, mas
simplesmente não tinha forças o suficiente para se obrigar a fazer isso.
Ela não tinha coragem de admitir para si mesma, mas uma parte dela
parecia admirar cada um de seus traços quase como se quisesse gravar cada
pequeno detalhe em sua mente com medo de que eles pudessem se apagar de
suas lembranças... Como se durante todo aquele tempo ela estivesse sentido
saudades de seu rosto, e agora tivesse a oportunidade de saciar esse
sentimento.

Aquele simples pensamento pego-a de surpresa, e Amy o empurrou para


a parte mais afastada de seu cérebro. Esse era exatamente o tipo de ideia que
ela precisava matar imediatamente em sua cabeça assim que começasse a
surgir. Ela não podia se dar ao luxo de se confundir novamente em relação
aquele homem. O que havia acontecido entre eles, a relação inominada que
eles haviam desenvolvido, não podia se repetir.

- Você ao menos poderia responder minhas perguntas – disse ela forçando


as palavras para fora de sua boca. Se ao menos ela continuasse falando então
sua mente seria obrigada a se concentrar em qualquer outra coisa que não
fosse o homem sentado a seu lado.

Os olhos dele desviaram por um único momento em sua direção, se


encontrando com seu olhar pelo espelho retrovisor. O amarelo dourado, agora
parecia mais claro quase vivido como os raios de sol que subiam o horizonte
no leste. Havia uma concentração profunda por trás dele como se sua mente
tivesse tentando resolver algo extremamente complexo, mas a loucura que ela
havia notado apenas algumas horas atrás ainda parecia rondar as bordas de
seu olhar.

- Eu estive em seu encalço desde o momento que acordei – respondeu


Cézare depois de um momento de silêncio, a voz profunda dele exatamente
como em suas lembranças destacando cada uma de suas vogais com seu
sotaque italiano – Se isso é algo tão importante para você saber.

- Eu nunca consegui me sentir segura – disse Amy encostando a cabeça


contra o encosto do banco, deixando que suas costas se esticassem de
maneira mais confortável ali. Havia uma dor persistente em sua nuca onde ele
havia lhe atingido e uma rigidez que ela tinha certeza que iria demorar a
desaparecer, mas ao menos naquele momento ela estava consciente - Eu
continuei fugindo, mas sempre tinha a sensação de que alguém me
perseguia... Mesmo depois de tanto tempo eu ainda não era capaz de
relaxar...

- Você não deveria ter fugido... – respondeu Cézare entre dentes, os dedos
de sua mão se apertando no volante – Eu iria atrás de você até o fim do
mundo se fosse preciso.

- Eu queria uma chance – disse a garota incapaz de conter a sinceridade


em suas palavras – Ao menos uma chance para tentar sobreviver...

- Sobreviver? É isso o que você chama o que estava fazendo? Dançando


em bares pra um bando de caipiras que só queriam encontrar a maneira mais
rápida de arrancar suas calas.

O rubor da vergonha subiu por seu pescoço até alcançar suas bochechas,
deixando-a desconcertada. Ela não era nenhum tipo de garota ingênua e sabia
exatamente a imagem que a maioria das pessoas teriam a seu respeito, se
soubessem que ela tirava a roupa em cima de um palco para sobreviver. Ela
não tinha exatamente orgulho sobre isso, mas ao menos ela não tinha sangue
de inocente em suas mãos.

- Sim Cézare eu estava sobrevivendo! Ao menos tentando. Era isso o que


eu costumava fazer em Nova York, eu também exibia meu corpo para um
bando de mafiosos que eram muito mais perigosos dos que os caipiras
bêbados que encontrei por aqui. Você acha que eu gosto disso? Eu só estava
fazendo o que era mais fácil enquanto tentava fugir de um assassino!

- Você deveria estar me agradecendo – respondeu ele latindo as palavras


tão rápidas e altas que Amy mal pode ser capaz de acompanha-las – Se não
fosse por mim você provavelmente teria acabado naquele quarto de motel,
com dois homens fazendo de você seu brinquedo particular.

- Como você ousa? – perguntou Amy deixando que sua voz se erguesse
soando de forma quase histérica dentro do carro – Nada disso teria
acontecido, se eu não estivesse fugindo de você! Você não me ajudou em
nada, a culpa de tudo de errado estar acontecendo na minha vida é sua
Cézare!
O coração dela batia completamente descompassado em sua garganta, as
batidas ecoando em seu ouvido, a raiva parecia ter nublado seus
pensamentos, deixando eles atordoados, as unhas haviam se cravado na parte
macia das palmas de suas mãos, mas ela nem mesmo era capaz de sentir a
picada de dor. Uma parte dela queria que ele revidasse de volta, embora ela
soubesse que não poderia vence-lo estava farta de aturar as loucuras daquele
homem, constantemente sendo encurralada num canto, tentando encontrar
uma maneira de se defender dele. As imagens da noite anterior invadiram sua
mente, e mesmo com os olhos abertos ela pode visualizar com clareza os dois
desconhecidos que haviam a atacado. Tudo aquilo parecia realmente ter
acontecido na noite anterior? Sentia quase como se anos tivessem
transcorridos desde então. Ela tivera tanto medo naquele instante, quando
havia pensado que teria de enfrentar aqueles homens sozinha, e mesmo assim
toda a situação só havia piorado com a chegada de Cézare. Ela não se
importava nem um pouco que ele de alguma forma tivesse a audácia de
pensar que havia a salvo de alguma maneira. Com todas as forças que haviam
em seu coração ela preferia jamais tê-lo encontrado ali.

O carro desviou para o acostamento num piscar de olhos, enquanto ao seu


lado Cézare virava todo o volante para a esquerda como se tivesse perdido a
direção. Amy sentiu o espanto tomar conta de seu corpo, o grito do medo
preso em sua garganta. O corpo dela deslizou pelo banco parando
bruscamente fazendo com que ela se arrependesse imediatamente de não usar
o cinto.

Antes que ela pudesse se dar conta do que havia acontecido o corpo dela
foi erguido pelos braços de Cézare, ele deslizou seu banco para trás fazendo
com que ela se sentasse em seu colo, com os braços presos ela tentou se
afastar dele, mas tudo o que conseguiu foi deixar sua respiração acelerada, o
coração martelando em seu peito o medo pinicando num sabor acre sua
língua.

Os braços dele eram como correntes em volta de seu corpo, ele a trouxe
para perto até que o nariz dele estivesse enterrado na sua curva de seu
pescoço, os dedos cavaram fundo sua carne, e quando os lábios dele
pousaram exatamente onde ele podia sentir a loucura descompassada dos
batimentos de seu coração, ela ficou completamente imóvel.
Contra toda sua vontade seu corpo pareceu se aquietar nos braços dele, os
lábios de Cézare eram gentis em contraste com o aperto possessivo que ele
aplicava em seu corpo. Numa caricia intima eles subiram e desceram por sua
pele tão delicadamente quanto o bater de asas de uma mariposa, deixando que
uma corrente elétrica percorresse sua coluna.

Ele a beijou lentamente, enquanto aspirava seu aroma, as madeixas de seu


cabelo fizeram cócegas em seu busto quando ele deslizou para mais baixo até
alcançar sua clavícula deixando completamente tremula.

Ela não podia suportar aquilo, a forma como seu corpo reagia a ele, era
perturbadora como se uma outra parte dela que ela desconhecia simplesmente
tomasse conta de suas atitudes. Ela não era capaz de compreender como
podia sentir medo daquele homem ao mesmo tempo que ansiava por suas
caricias por seu toque, como se a falta que tivesse sentindo dele nos últimos
meses fosse insuportável. Não podia aceitar aquilo, na verdade não queria e
mesmo assim o corpo dela se rendeu a ele apreciando o contato e o calor
oferecido, estremecendo de desejo.

Diante dela Cézare parecia estar perdido, as mãos dele tremeram em suas
costas, a respiração descompassada um reflexo da sua brincando contra pele
sensível de seu pescoço. Na parte mais profunda de sua mente ela se
perguntou até onde ele iria beija-la, uma parte dela desejou que ele alcançasse
seus lábios enquanto suas mãos deslizavam por suas costas até alcançarem
seus cabelos. O anseio cresceu em seu interior desmedido se misturando as
lembranças do único momento que eles haviam compartilhado. Tudo parecia
fora de controle, ela havia passados os últimos meses desesperadamente
fugindo daquele homem, como poderia existir uma parte dele que ainda era
capaz de deseja-lo?

Os lábios dele tocaram delicadamente o pequeno corte que ele mesmo


havia feito na noite anterior, o gesto de gentileza deixou um frio estranho e
oco ecoando no fundo de seu estômago, dor e prazer se misturaram dentro
dela até um ponto que ela simplesmente não podia mais suportar.

- Me solte – pediu ela num sussurro, forçando as palavras para fora de sua
boca tentando controlar os tremores que assolavam seu corpo.
As mãos dele se apertaram ao redor de sua cintura, embora os lábios dele
tivessem ficado estáticos pairando sobre sua pele. Lentamente ele levantou o
rosto de seu pescoço, olhando a de frente, tão próximo que se desejasse ela
podia contar os cílios dourados que contornavam suas pálpebras, mas o olhar
que ele lhe lançava era gélido e distante. Até mesmo aquela pequena
demonstração de carinho, ou o que quer que aquilo fosse ele fizera com a
intenção de atingi-la.

- Você precisa entender Amy – disse Cézare deslizando uma de suas


mãos repousando em sua nuca, dessa forma a única coisa que ela podia fazer
era observa-lo por completo – Agora que eu a encontrei, não vou deixa-la
escapar de novo, não me importa qual a sua opinião a meu respeito.

Amy sentiu o desprezo deslizar por seu corpo como uma cobra, a raiva
que antes parecia como lava borbulhando em seu coração, havia esfriado
deixando seu corpo gélido. Seu corpo agora nada mais era do que um
amontado de sentimentos perdidos, tão confusos e desconexos que nem ao
menos pareciam lhe pertencer.

Ela não conseguiu suportar o peso do olhar dele, nem mesmo sua
proximidade que apenas alguns minutos atrás havia sido tudo o que ela mais
podia ter desejado. Engolindo em seco ela se afastou dele deslizando seu
próprio corpo sem nenhum cuidado até estar de volta a poltrona ao lado.

Uma parte dela desejava que ele protestasse, mantendo-a ali junto a si
enquanto outra simplesmente queria fechar seus olhos e fingir que nada
daquilo jamais tivesse acontecido. Um suspiro cansado perdurou entre elas, e
ela ficou surpresa ao perceber que ele havia escapado de Cézare, pelo espelho
do retrovisor, ela observou como ele remexeu em seu cabelo de maneira
insatisfeita antes de voltar seu banco a posição normal e ligar novamente o
carro.

Um manto pesado pareceu aprisionar seu corpo, Amy deixou que seu
olhar caísse novamente ao redor, os braços frouxos e presos descansando em
seu colo. Engolindo as lágrimas que queimavam em sua garganta, ela fechou
seus olhos e se permitiu se imaginar em outro lugar qualquer outro lugar que
não fosse ali naquele momento, onde tudo o mais assim como ela e seus
sentimentos pareciam serem mais simples.
Capítulo Seis
Os dedos dele se apertaram ao redor do copo, a bebida alcoólica ainda
queimando no fundo de sua garganta, ele sabia que naquele momento beber
talvez não fosse a melhor das ideias, mas estava próximo demais da borda
para se importar com qualquer coisa, e talvez quem sabe de alguma maneira
aquilo fosse o suficiente para acalma-lo ao menos que provisoriamente. E no
momento se acalmar era algo extremamente necessário.

Ele podia sentir a vibração constante do motor do avião ao seu redor, o


celular era um peso morto no bolso de sua calça jeans lembrando-lhe
constantemente que ele precisava ligar para seu irmão com seu relatório. A
notícia de que ele usara os contados de sua família nos Estados Unidos para
conseguir um voo fretado, para tirar em sigilo uma garota do país logo
chegaria a seus ouvidos, e ele não precisava ser um gênio para saber que
Pietro não ficaria nem um pouco satisfeito com aquilo. Era melhor que ele
fosse o primeiro a avisa-lo, Cézare sabia disso muito bem, mesmo assim não
conseguiu se obrigar a fazer a maldita ligação. Eles ainda tinham tempo até
chegarem em seu destino, mais algumas horas que ele poderia continuar
adiando aquela tarefa ingrata.

Fechando os olhos por um instante ele apertou as pálpebras com as pontas


de seus dedos, o sono parecia pesar sobre elas como uma tonelada mesmo
assim ainda não estava disposto a descansar. Forçando seu corpo até seus
limites, ele afirmou para si mesmo que poderia suportar mais algumas horas
acordado. Agora que tudo finalmente estava saindo de acordo com seu
desejo, ele não poderia se dar ao luxo de ser negligente. Antes de
desembarcar na Itália, sua decisão precisava ser tomada, aquilo não era algo
que poderia esperar mais tempo.

Os olhos dele se desviaram para a mulher profundamente adormecida a


sua frente. Ela parecia muito frágil sob as luzes baixas do interior do avião
sombras dançando perto de seus olhos fechados. Durante todo o tempo desde
que eles haviam embarcado, ele percebera que ela estivera lutando contra o
sono e o cansaço. Ela havia recusado comer, ou mesmo beber qualquer coisa,
e embora isso o irritasse profundamente ele decidiu que preferia não entrar
novamente em outro argumento com ela.

Lembrando-se do que acontecera nas ultimas dozes horas Cézare tentou


colocar seus pensamentos em ordem, ele costumava ser um homem frio e
racional, mas começava a perceber que quando o assunto era Amy, nenhuma
daquelas suas características parecia realmente estar presente quando ele
precisava.

Desde que ela havia fugido, ele usara todos os recursos de sua família,
para conseguir encontrar pistas sobre ela e seu paradeiro. Embora nem
sempre os resultados fossem rápido como ele esperava, Cézare sempre havia
sido capaz de seguir o rastro dela. Sempre havia alguém disposto a falar
sobre uma garota que misteriosamente aparecia no interior de uma cidade
sem sobrenome ou documentos. Ele havia a seguido desde o primeiro dia,
esperando encontra-la o mais rápido possível, mas logo o rastro dela havia
esfriado. Ele se lembrava que naqueles primeiros dias a ideia de não saber
onde ela estava o havia deixado muito próximo da loucura, em alguns
momentos ele fora obrigado a caçar alguns fugitivos em nome de sua família,
mas ele não era o melhor rastreador de seu clã, por isso quando as notícias a
respeito dela começaram a se tornar mais escassas ele achou que poderia tê-la
perdido para sempre.

Cézare ainda podia sentir o gosto quase metálico do fracasso em sua boca
enquanto aquelas lembranças fluíam por sua mente. Ele nunca havia falhado
em toda sua vida. Qualquer objetivo definido por sua família, era algo dado
como certo. Ele realizaria o trabalho sujo, cumpriria as ordens de seu capo
sem nenhum tipo de questionamento, esse era o tipo de soldado de seu clã
que ele era até a chegada dela.

Por Amy, ele havia desafiado as ordens de sua família e por fim isso o
levara ao desastre. Enganado, usado traído recupera-la, não era mais apenas
um trabalho que sua família havia o ordenado. Era o único desejo que
povoava sua mente.

Os dias haviam se transformado em semanas, incapaz de aceitar a


situação ele continuou a procura-la por todos os cantos mesmo quando seu
irmão Pietro voltara a Itália sozinho. Indo contra suas ordens explicitas ele
continuará sua caçada, até que seus dias se transformaram numa infinita
perseguição. Um repetir incessante dos mesmos atos. Ele viajara boa parte do
interior daquele pais, subornando pessoas comprando informações, acessando
dados policiais, qualquer coisa que pudesse lhe dar a menor pista do seu
paradeiro.

No final das contas ela se mostrara ser muito mais escorregadia do que
ele poderia ter imaginado. Mais uma vez ele a subestimara e aquilo apenas
somara mais um de seus erros em relação a Amy. Contra todas as
adversidades ela aprendera a se mover rapidamente de cidade em cidade, sem
usar nenhum documento ou permanecer muito tempo no mesmo lugar ela se
esgueirara como um rato pelas sombras, silencioso e furtivo e quase
impossível de ser alcançado.

Na maior parte do tempo em que a perseguia Cézare realmente não havia


pensando o que realmente faria com ela assim que a recuperasse. As ordens
de Pietro ainda não haviam sido revogadas, portanto no final do dia ele ainda
estava destinado a ser seu carrasco... Quando ele acordara deitado em seu
próprio sangue ele havia jurado a si mesmo que não cometeria o mesmo erro
novamente. Ele iria atrás de Amy e acabaria com ela de uma vez por todas...
Parecia ser a resposta mais certa, na verdade naquela época parecia ser a
única alternativa que lhe sobrara, mas agora que ela estava diante dele... O
que realmente havia mudado?

Uma parte dele ainda a detestava. Ele não podia afastar aqueles
sentimentos de crítica que rodeavam seu peito, como se estivessem
esmagando seu coração. Ele havia poupado sua vida e como ela o retribuirá?

Cézare fechou os olhos com força expirando ruidosamente pelo nariz


pensar dessa maneira era perigoso, ele sabia muito bem que não estava
conseguindo manter seu temperamento naquele momento, e se continuasse
dessa forma então muito em breve talvez ele pudesse se arrepender das
decisões que ele estava prestes a tomar.

Engolindo o resto de sua bebida, ela deixou que o liquido âmbar


queimasse em sua garganta escorrendo como ácido até seu estômago vazio.
Em outro momento ele iria se preocupar com seu sono, com sua fome e
qualquer outra necessidade que ele precisasse suprir naquele momento a
única coisa que ele desejava era permanecer exatamente ali onde ele estava,
observando-a.

Cézare se levantou os passos mal soando pelo solo acarpetado do avião.


Ela havia escolhido se sentar numa poltrona distante dele, depois de viajarem
em seu carro mais de uma hora em completo silêncio ela decidira que preferia
ficar o mais longe possível de sua presença. Ele havia lhe dado esse pequeno
gesto de compreensão embora uma parte dele quisesse força-la a ficar sentada
a seu lado. Os últimos meses tinham se transformado sua vida numa loucura
infinita e amarga e uma parte dele queria fazer com que ela experimentasse
essa mesma experiência.

Sentando-se na poltrona ao lado dela, ele esperou para perceber se havia


alguma reação de Amy. O peito dela subia e descia tranquilamente o rosto
completamente relaxado em seu sono. Ela aparentava estar exausta.

As lembranças o assaltaram novamente, invadindo sua mente sem serem


convidadas. Na noite anterior todo seu corpo havia se transformado em gelo
quando escutara seu grito perfurando a madrugada. Ele havia dirigido boa
horas sem nem mesmo um descanso, tentando alcançar uma pista de última
hora que ele recebera em seu celular. Alguns de seus homens haviam
avistado uma garota que batia com suas descrições, trabalhando como
stripper numa das cidades em que ele já havia estado. Num primeiro
momento Cézare se recusara a acreditar que aquela informação poderia leva-
lo até Amy, mas ele estava começando a ficar impaciente e o rastro dela se
tornando cada vez mais escasso.

O puro acaso havia o levado até o estacionamento daquele motel, mas


quando ele ouvira o grito dela sua voz ecoando pela noite, ele soubera que
havia a encontrado.

Lembrar dos homens que a haviam atacado fazia com que a fúria
percorresse seu corpo como um veneno. Ele deveria ter matado os dois
desgraçados, mas naquele momento a única preocupação em sua cabeça
havia sido recuperar a mulher diante dele.

Os dedos dele se ergueram retirando um dos seus cachos que caiam


contra sua testa. Cézare sentia-se como um viciado incontrolável. Toda vez
que estava diante dela, seu corpo ansiava por toca-la, o desejo crescia em seu
interior até se tornar quase insuportável. Ele continuava observando-a em
silêncio decorando cada um de seus traços como se dessa forma ele pudesse
se recuperar da abstinência da ausência dela nos últimos meses em sua vida.

Como ele poderia desprezar tanto uma pessoa na mesma proporção que a
desejava? Ele não conseguia compreender completamente a atração que
sentia por ela, mas tinha consciência que aquilo era perigoso. Ela já havia o
enganado uma vez, o que mais poderia fazer se ele permitisse que ela
continuasse viva?

Cézare fechou os olhos por um momento tentando conter todos os


pensamentos que pareciam estar em choque dentro de seu crânio naquele
momento. Ele sabia que precisava tomar uma decisão, e pela primeira vez em
sua vida a incerteza deslizou por seu peito cravando as garras em seu coração.
Talvez ele estivesse prestes a seguir por um caminho do qual poderia se
arrepender mais tarde... E aquilo era algo que atormentava sua mente.
Capítulo Sete

Amy acordou de repente com o trepidar do avião pousando. A cabeça


parecia muito leve sobre seu pescoço e embora ela tivesse a sensação de ter
dormido por horas, sentia-se ainda cansada.

O olhar dela recaiu sobre seu pulso, as tiras de pano que estiveram
prendendo-a haviam desaparecido como se nunca tivessem estado presente
ali. Em silêncio deixou que as pontas de seus dedos percorressem a pele
vermelha e irritada do lugar, apenas mais uma das ferida externa que ela
realmente não era capaz de se importar.

Sentado num silêncio sórdido a seu lado, ela observou Cézare pelo canto
de seus olhos, ele parecia perdido em pensamentos, uma linha de
preocupação cruzando sua testa. A proximidade dele, deixou-a muito ciente
do pequeno espaço onde eles estavam, Amy desejava profundamente ter
qualquer coisa que pudesse ocupar sua atenção além da existência do homem
sentado a seu lado, mas todas as janelas do avião onde ela estava estavam
fechadas, sem que ela pudesse ter nenhuma visão do lado de fora para
preencher seus pensamentos.

A voz masculina do piloto ecoou pelo lugar em italiano. Nos anos em que
havia trabalhado numa boate frequentada pela máfia, ela não havia sido capaz
de aprender o idioma por completo, mas ao menos agora sabia como
reconhece-lo.

As frases pareciam padronizadas ditas num tom de voz controlado e sem


emoção. Amy imaginou que ele estaria informando que o avião estava prestes
a pousar e aquilo fez com que o medo do desconhecido apertasse as garras
em volta de seu coração. Ela não sabia para onde Cézare a estava levando e
aquela incerteza pesava de maneira opressiva sobre seu coração.

Seis meses atrás quando fora sequestrada pelos homens de Pietro, ela
sabia de certa forma que havia tido sorte por terem a levado a um galpão
abandonado em Nova York. Embora sua fuga nem de longe tivesse sido algo
fácil de ser alcançado, ela tinha plena certeza de que só conseguira colocar
uma distância tão grande entre ela e Cézare naquele mesmo dia, porque
aquela era a cidade onde crescera. Mesmo, enquanto fugia desesperadamente
pelas ruas ainda descalça ela fora capaz de se locomover pelas ruas com
facilidade, reconhecendo a maioria de seus cantos buscando lugares onde
pudesse se esconder mesmo que momentaneamente. Mas, se realmente ele a
trouxera para um lugar novo e completamente desconhecido Amy sabia que
suas chances para escapar seriam bem menores.

O desespero deixou um gosto agridoce no fundo de sua língua. O fracasso


deixando seus membros pesados como se ela tivesse algemas em volta de
seus tornozelos e pulsos. O pensamento de desistir deslizou por sua mente
suave e quase pacifico. Estava cansada de lutar contra aquele homem, tentar
escapar daquela figura que parecia quase invencível. Não era a primeira vez
que algo como aquilo era sussurrado em sua mente. A dificuldade de sua
própria sobrevivência nos últimos meses pesava em suas costas, e embora na
maioria das vezes ele simplesmente continuasse em frente talvez por pura
teimosia ou mesmo um instinto de sobrevivência que ela não conhecia por
completo, em alguns momentos Amy não podia deixar de se perguntar por
que ela estava se esforçando tanto?

O futuro que antes ela tomava como algo completamente certo agora se
transformara num grande ponto de interrogação. Uma dúvida persistente algo
que ela talvez não pudesse alcançar. Os planos que ela realizava sempre
tinham a duração de curto prazo; o próximo dia, a próxima semana qualquer
coisa além disso era uma incógnita que ela nunca ousava tentar desvendar.

No começo aquele pensamento parecia ter sido o mais fácil de se lidar.


Ela não podia contar com planos a longo prazo já que provavelmente esses
teriam as maiores probabilidades de falhar, e com isso o tempo havia passado
por ela rápido como o vento, quando ela se dera conta meio ano havia ido
embora enquanto ela ainda continuava patinando na mesma situação.

Ela não queria imaginar que no próximo verão a única preocupação que
existia em sua mente seria o homem sentado a seu lado e como conseguiria
continuar fugindo dele; estava cansada daquela situação, das fugas, das noites
mal dormidas do medo constante de viver num presente expectante sem ter
certeza alguma de um amanhã. Nas raras ocasiões em que se dera ao luxo de
imaginar onde ela iria e o que estaria fazendo caso um dia ela conseguisse se
ver livre daquele homem, simplesmente não havia conseguido encontrar uma
resposta. Tudo o que existia antes em sua vida parecia há muito tempo ter
sido deixado para trás. Ela sabia que a essa altura provavelmente já não tinha
mais uma casa, ela desaparecera por completo sem deixar um único bilhete
ou explicação àquela altura sua casa já teria sido alugada para outra pessoa.

Ninguém sentiria sua falta, não ao ponto de realmente ir até a polícia para
que ela fosse encontrada. Se fosse extremamente sincera consigo mesmo
precisava admitir que não tinha para onde voltar, não havia ninguém lhe
esperando... No fundo desistir parecia ser a única opção que lhe restava.

Uma parte dela que se sentia completamente exausta principalmente


agora após ter sido capturada por Cézare desejava simplesmente que tudo
aquilo terminasse logo. Dessa forma assim talvez ela não precisasse mais se
preocupar com as dúvidas que rodeavam sua mente, ou com o medo que
parecia dia após dia devorar mais um pedaço de suas entranhas. Se ela
simplesmente desistisse, mesmo que isso significasse que no final de tudo ela
estaria morta, então ao menos ela poderia ter a certeza que iria descansar; seu
sofrimento teria um fim... Amy não podia negar que parecia haver uma lógica
por trás daquele raciocínio embora ela não pudesse ter certeza alguma de
nada... Então por que ela simplesmente continuava em frente de maneira tão
teimosa e obstinada?

Ela não sabia exatamente o que era aquilo que continuava a impulsionar
em frente. O sentimento que não a permitia desistir. Ela nunca havia se
considerado uma pessoa particularmente determinada. Na maior parte de sua
vida, ela fora arrastada pelas circunstâncias de um lado para outro muitas
vezes acabando por ser prejudicada. Havia sido assim com seu irmão Peter e
embora ela soubesse que em algum momento precisaria enfrenta-lo a hora
certa nunca parecia ter chegado.

Até o momento onde ela havia sido raptada e condenada a pagar por um
crime que seu irmão cometera Amy não se considerava uma pessoa forte. Ela
nunca havia se imaginado numa situação como aquela e de certa forma
existia uma parte dela que se sentia orgulhosa por tudo o que ela havia feito
até ali. Embora não tivesse sido o bastante ela conseguira chegar mais longe
do qualquer um poderia ter imaginado simplesmente pelo seu desejo de ser
livre e continuar vivendo... Talvez no fim das contas o que realmente fazia
com que ela simplesmente não desistisse de tudo fosse sua esperança. Aquele
pequenino sentimento que parecia praticamente invisível dentro de seu peito
rodeado por tanto medo. E Amy sabia que embora tudo naquele momento
estivesse contra ela, não havia simplesmente outra alternativa. O único
caminho que ela poderia percorrer era em frente.

As rodas do avião se chocando contra o chão fizeram com que os dentes


dela se chocassem contra sua boca, lentamente a aeronave deslizou pela pista
e logo Cézare estava ao seu lado escoltando-a para fora dali.

O vento chicoteou seu cabelo assim que saiu do avião o cheiro de maresia
impregnando seu nariz. Ela desejou poder olhar ao redor e reconhecer
qualquer coisa por mais insignificante que fosse para poder ter um ponto de
referência, mas a paisagem diante dela era completamente inédita.

O aeroporto onde eles haviam aterrissado parecia privado, e naquele


momento completamente deserto além deles. Ao fundo uma cidade se erguia
sobre encostas montanhosas as pequenas luzes brilhavam desafiando a
escuridão e mais o fundo ela podia observar um pedaço do mar que se agitava
com as ondas.

Todo aquele ambiente era algo completamente diferente da visão caótica


e desorganizada que era Nova York. Onde ela poderia estar? Amy imaginara
que pelo tempo que haviam passado viajando provavelmente a essa altura ela
estaria num lugar muito distante de sua casa, mas agora a dúvida se infiltrava
por sua pele deixando um sentimento desconfortável de nervosismo
rastejando por seus membros. Eles ainda estariam em seu país, ou Cézare
havia sido louco o suficiente de leva-la para fora da fronteira sem nem
mesmo se preocupar com absolutamente nada.

A cabeça dela girava sobre seus ombros, os pensamentos completamente


bagunçados. A mão de Cézare pousou pesada sobre seus ombros enquanto
ele andava a seu lado fazendo com que ela descesse a escada até o chão.

Os olhos dela por um momento se encontraram com o do piloto do avião


que estava ali esperando em silêncio, mas logo ela percebeu como ele mudou
a direção de seu olhar como se estivesse tentando camuflar sua presença para
que ela não fosse notada. Aquele homem sabia que algo de errado estava
acontecendo ali, mas embora fosse cumplice simplesmente não queria algo
como a lembrança de seu rosto pesando sobre sua mente. Amy não pode
deixar de odiá-lo um pouco mais quando ela foi arrastada por Cézare para
longe dali, até o final da pista onde um conversível negro os esperava. Em
silêncio ela entrou no carro com o mafioso italiano a seu lado, e logo a
paisagem do aeroporto ficou para trás.

Em alta velocidade eles contornaram escarpas montanhosas cada vez


mais se distanciando da cidade que ficava logo abaixo próxima ao mar e Amy
desconhecia por completo. Uma parte dela não podia deixar de apreciar toda
a paisagem ao seu redor, o jeito que o mar parecia se estender por todos os
lados, as ondas negras iluminadas apenas pelo brilho prateado da lua. Havia
planaltos cobertos de árvores, casas a distância e quase nenhum prédio que
impedisse a vista. Definitivamente algo completamente diferente de Nova
York, e aquilo era o suficiente para que ela se sentisse como se estivesse
vivendo num pesadelo acordado. Nada daquilo parecia certo ou mesmo real,
e mesmo assim ela sabia com uma clareza assustadora que sua própria
realidade havia se transformado em algo mais insano do que qualquer loucura
que seu cérebro poderia conceber.

Ao seu lado Cézare permanecia num silêncio taciturno que a irritava.


Uma parte dela ainda desejava provoca-lo, qualquer coisa vinda dele, mesmo
suas ameaças deveriam ser melhor do que aquela ausência de sons, a espera
indefinida de um destino do qual ela não podia controlar. O rosto dele estava
parcialmente encoberto pelas sombras, e mesmo assim ela podia perceber
como seus olhos estavam ligeiramente avermelhados nos cantos, as olheiras
pareciam mais pronunciadas sobre sua pele pálida. A viagem havia também
cobrado seu preço sobre ele, e aquele era um dos pequenos consolos que ela
poderia ter naquele momento, os pequenos detalhes que deixavam claro que
embora imponente e implacável ao homem sentado a seu lado ainda era
humano e por isso poderia ser derrotado.

- Quase me sinto lisonjeada – disse Amy deixando que suas palavras se


assentassem ao redor diminuindo ainda mais o espaço entre eles sozinhos
naquele carro – Você ter me trazido tão longe apenas para acabar comigo.

Os olhos dourados dele se esgueiraram até o espelho retrovisor


encontrando-se com os seus. Ela estava o provocando, jogando uma isca que
ele se recusava a morder, mesmo assim ela podia notar pelo jeito que ele
segurava de maneira mais firme o volante e apertava sua mandíbula que
aquilo era o suficiente para irrita-lo.

Um suspiro cansado deixou seus lábios enquanto ela descansava sua


cabeça contra o vidro rígido do carro. A velocidade lá fora era quase
vertiginosa, agora eles estavam tão alto cruzando a encosta que por um
momento ela imaginou que se ele perdesse o controle do carro então ambos
estariam perdidos... Uma parte dela quase torcia para que esse pudesse ser
seu destino.

- Por que você não pode me dizer a verdade? – perguntou ela num
sussurro quase inaudível sem realmente esperar encontrar uma resposta – Se
realmente vai me matar por que continuar me torturando dessa maneira?
Estou a sua mercê. Quanto mais você me deseja ver sofrer?

O silêncio ecoava em seus ouvidos o cansaço pesando em seus ombros


como uma blusa de metal. Ela desviou sua atenção até Cézare desafiando sem
dizer uma única palavra. Ela já havia fugido dele de todas as formas possíveis
e no final ela falhara, agora encurralada a única alternativa que havia lhe
sobrado era encarar seu predador de frente.

- Cézare você vai me matar?

Amy não queria que suas palavras tivessem saído de seus lábios como
uma dúvida, parecia haver quase uma suplica ali contida que ela sabia muito
bem se tratar de um desejo tolo e infantil de sua parte. O mafioso italiano a
seu lado não era alguém que conhecia algo como misericórdia e depois de
tudo o que acontecera entre eles, ela tinha certeza que isso seria algo que ele
nunca lhe entregaria de boa vontade.

Os olhos dele se focaram nos seus e ela pode ver a chama da raiva
percorrer por sua cor dourada. Aquilo deveria ser o suficiente para lança-la
numa espiral de medo e pânico, mas agora tudo o que ela podia sentir era um
entorpecimento tomando conta de cada pequeno pedaço de seu corpo. Ela
havia lutado e perdido, sem saber o que fazer e para onde ir a única coisa que
havia lhe sobrado era tentar encarar seu futuro por pior que ele lhe reservasse
com o mínimo de dignidade possível.

- Eu farei o que quiser com você. Como e quando você vai morrer são
decisões que eu vou tomar, sem precisar te dar nenhum tipo de satisfação. –
respondeu Cézare os dentes trincados deixando que sua voz saísse ainda mais
pronunciada pela raiva – Mas, antes disso quero que você se encontre com
uma pessoa.

O nervosismo agitou em seu estômago os dentes trincados em sua boca.


Ela desviou o olhar dele deixando que sua atenção se focasse lá fora muito
longe dali nas ondas mais distantes que cruzavam o horizonte de fundindo
com o céu noturno. Ela não sabia sobre quem ele estava falando, quem ele
desejava que ela encontrasse uma última vez e aquilo foi o suficiente para
lançar seus pensamentos num caos agitado e confuso. Sobre o colo ela sentiu
a dor se afundar em seus pulsos quando notou que estava os pressionando em
punhos apertados.

Ela não deixaria que ele notasse o quanto a amedrontava, o quanto


detestava não poder quebrar o controle de ferro que ele exercia sobre sua
vida. Em silêncio pelo resto da viagem ela tentou controlar o medo que
ameaçava afogar todo o pensamento racional em seu cérebro, enquanto os
minutos se arrastavam como horas que podiam muito bem ser o último
resquício de tempo que ela disponha.

✽✽✽

Amy perdeu a noção do tempo enquanto observava a paisagem. A lua


minguante no céu permaneceu brilhando levemente enquanto nuvens
cinzentas pareciam se reunir no horizonte.

Ela não tinha ideia qual era o destino para onde Cézare a levava, mas logo
a cidade que avistara próxima ao aeroporto havia ficado completamente para
trás escondida atrás de umas das montanhas. A sua frente um vale rochoso se
estendia por quilômetros, dando espaço a falésias escarpadas e uma plantação
de árvores que a luz noturna ela não podia reconhecer.
Erguendo-se de forma imponente no meio de uma colina, uma imensa
construção se destacava, uma mansão em pedra branca tomava conta da
paisagem. Colunas sustentavam o teto como se fossem um templo romano,
enquanto árvores de copas densas formavam um telhado ladeando a estrada.

Um portão de ferro margeava a propriedade por inteiro e ao longe ela


observou a silhueta de figuras que andavam pelos jardins. Guardas.

A ansiedade criou um bolo azedo em seu estômago e ela se perguntou em


silêncio quanto mais poderia suportar daquele sentimento de expectativa que
mantinha seus nervos esticados como a corda de um arco retesado.

Ela não sabia porque Cézare tivera todo o trabalho até traze-la aquele
lugar, mas tinha a estranha sensação de que algo de muito errado estava
acontecendo.

Em silêncio ela observou o carro entrar na propriedade, muito bem


iluminada, incapaz de conter sua curiosidade Amy deixou que seu olhar
recaísse sobre as janelas que ladeavam toda a imensa construção daquela
mansão. Havia luzes por trás das janelas, e movimento, mas ela não era capaz
de enxergar nada com clareza devido a luz refletida nos vidros, e cortinas
diáfanas que se mantinham fechadas.

Ao seu lado desde a primeira vez que haviam se encontrado o rosto de


Cézare parecia mais relaxado e tranquilo, as mãos haviam perdido o agarre
que ele mantinha como ferro sobre o volante e Amy soube que aquilo não
podia ser um bom sinal para ela.

Olhando tudo ao redor, enquanto tentava absorver a maior quantidade


possível de detalhes, a garota reparou que a própria mansão ficava
consideravelmente afastada da entrada principal onde o imponente portão de
metal negro se erguia. Se ela realmente tivesse a oportunidade de fugir dali
aquela era a única rota de fuga que ela podia enxergar. Não tinha ideia de
como seria capaz de percorrer todo aquele caminho a pé, ou mesmo despistar
os seguranças que ela observava ladeando a propriedade. Um sorriso
debochado brincou em seus próprios lábios, aquele talvez fosse o exato tipo
de pensamento que ela não precisava se preocupar em ter. Agora que seu
futuro estava literalmente nas mãos de Cézare ela duvidava que realmente
encontraria uma outra oportunidade para fugir.

Cézare parou o carro de qualquer forma em frente a entrada da mansão,


ele deixou a porta aberta de seu lado e correu em direção aonde ela estava
fazendo com que ela saísse do carro quase que arrastada.

Os pés dela deslizaram por um momento nas pedras brancas que


decoravam o lugar, a mansão erguia acima dela de maneira imponente e
opressiva. Sem dizer uma única palavra, enquanto lançava um olhar gelado
em sua direção Cézare a arrastou em direção a casa, enquanto gritava algo em
italiano para um dos homens parado no jardim.

Ela tentou manter uma fachada fria, como se nada daquilo que estivesse
acontecendo ao seu redor lhe importasse embora gotas de suor brotassem em
suas temporas.

Os dedos de Cézare se apertaram em seu braço até ela sentir cada um


deles afundando em sua pele, os passos dele eram apressados ele parecia
conhecer aquele lugar profundamente e mais uma vez Amy não pode deixar
de se perguntar aonde ele havia lhe trazido.

O interior da casa era ainda mais exuberante do que sua aparência do lado
de fora. Atravessando portas duplas altas num tom quase negro de madeira,
eles atravessaram em direção a um hall de entrada imponente como de um
castelo. O teto acima de sua cabeça era alto como a cúpula de uma das
igrejas, duas escadas se abriam no centro dando acesso aos andares
superiores. As paredes possuíam um tom branco opulente um lustre de cristal
antigo e ferro descia em cascata no centro enquanto obras de arte com
aparência antiga e elegantes ocupavam estrategicamente espaços por todo o
ambiente.

Não havia ali nenhuma outra pessoa além dela e Cézare, embora ela
pudesse ouvir passos e o som fraco de conversa em outro ambiente. A
realidade de sua situação pesou sobre suas costas, a sensação incomoda de
estar num ambiente que era exatamente o oposto do que ela estava
acostumada. Tudo naquela casa gritava elegância, poder e dinheiro tudo
aquilo que ela não possuía. O contraste daquele lugar, com o pequeno quarto
de motel que ela passara os últimos meses se escondendo era gritante. Um
lembrete de como naquele mundo ela simplesmente não passava de um grão
de poeira insignificante.

Cézare a levou mansão a dentro, atravessando portas e corredores vazios.


Ninguém apareceu para questionar o que ele estava fazendo, e o mafioso
italiano andou pelo lugar como se aquela fosse sua casa.

Os dedos dele apertaram ainda mais seu braço quando ele a arrastou por
uma escada que dava acesso a um andar inferior. Todos seus instintos
gritavam para que ela não entrasse naquele lugar não desse mais um passo
adiante, mas as pernas dela pareciam feitas de geleia toda a energia drenada
de seu corpo, e o máximo que naquele momento ela era capaz de fazer era
tentar manter o que sobrara de suas forças para continuar andando sem
tropeçar e manter seu corpo erguido tentando reter o que sobrara de sua
dignidade.

Os passos dela soavam muito alto em seus ouvidos como estalos que ela
não era capaz de ignorar. Os pensamentos se embaralhavam em sua mente, a
necessidade de fugir daquele lugar, daquele homem deixando o fôlego preso
em seus pulmões. Uma parte dela queria acreditar que tudo aquilo era um
pesadelo interminável. Ela nunca havia conhecido Cézare ou seu irmão,
nunca fora sequestrada por nenhum deles e condenada a pagar por um crime
que não cometera. Ela ainda estava dormindo em sua cama, sonhando com
sorvete de baunilha e sua próxima folga.

Uma porta foi aberta a sua frente, seu corpo empurrado por ela sem
nenhum tipo de cuidado, Amy usou as mãos para amparar sua queda
encostando-se numa parede próxima a ela para manter-se em pé.

O som de uma porta se fechando com um tremendo estrondo ecoou em


seus ouvidos, a luz amarela que mal iluminava o pequeno quarto onde ela
estava se apagou sobre sua cabeça mergulhando-a numa escuridão quase
asfixiante. A claustrofobia prendeu o fôlego em sua garganta, erguendo as
mãos Amy tentou se locomover por ali embora não pudesse nem mesmo
enxergar a parede diante dela.

- O que você vai fazer comigo? Cézare!


As palavras dela ricochetearam a sua volta, sua voz ressoando com ódio e
medo que ela não era capaz de mensurar. Tudo desapareceu de sua mente
deixando apenas para trás o desespero e o desejo avassalador de escapar dali.

Ela tentou acalmar as batidas frenéticas do seu coração, buscando escutar


qualquer coisa fora dali que não fosse seu próprio desespero. Imaginou ter
ouvido passos e tropeços soando fora da pequena sala onde ela se encontrava,
mas não podia ter certeza. A dúvida parecia corroer suas entranhas, quando a
porta diante dela se abriu novamente e Cézare entrou ali empurrando ali
dentro sem nenhuma delicadeza assim como fizera com ela um homem que
usava em sua cabeça um saco de pano negro para esconder suas feições.

Piscando repetidamente para afastar as sombras que embaçavam sua


visão, Amy deu um passo para trás até sentir seus calcanhares baterem na
parede de tijolos a suas costas. Algo pareceu escorrer por suas veias como
gelo, um pressentimento tenebroso tomando conta de seus sentidos. Os olhos
dela se focaram no homem vestido de maneira elegante a seus pés, ela não
era capaz de conhece-lo mas havia algo em sua postura no jeito que ele
tentava endireitar seu corpo a ficar em pé, que lhe era estranhamente familiar.

Os olhos dela se focaram no mafioso italiano a sua frente, sua figura


imponente ocupando todo o pequeno cubículo, o rosto recortado em
cicatrizes uma máscara fria e distante, a sombra dele se erguia pela parede
num formato quase inumano, enquanto ela permanecia ali parada incapaz de
agir apenas uma testemunha de sua vida se esfacelando entre seus dedos.

Cézare retirou o capuz do homem a seus pés, e ela pode o reconhecer de


imediato a figura que ela mais ansiara encontrar nos últimos meses. O
coração dela pareceu se partir dentro de seu peito. Ela se preocupara tanto
com seu irmão, desde a última vez que o vira havia se transformado em sua
companheira constante em cada um de seus passos. Peter estaria bem: Estaria
vivo? Ela refazia milhares de vezes as mesmas perguntas uma vez após a
outra buscando encontrar uma maneira de encontra-lo, ter alguma notícia dele
qualquer coisa que pudesse ao menos tranquiliza-la por menor que fosse.

Ela havia tentando contata-lo algumas vezes embora soubesse que


enquanto estava sendo caçada ir atrás dele seria apenas leva-lo também em
direção ao perigo, mas nesse momento nenhum pensamento racional havia
sido capaz de dissuadi-la. Sabia que não seria capaz de descansar enquanto
não ouvisse sua voz, não colocasse os olhos sobre ele, não tivesse certeza que
a última família que lhe sobrara no mundo estava viva.

Aos seus pés Peter parecia confuso, o rosto barbeado e corado


completamente diferente de como ela o encontrara pela última vez. As roupas
largas e surradas haviam sido substituídas por novas, com uma aparência
elegante e moderna. Ele cortara o cabelo, e o rosto parecia descansado e sem
nenhum ferimento.

A imagem pegou Amy de surpresa, nos últimos meses a preocupação pela


vida de seu irmão havia mantido ela acordada noites seguidas, insone incapaz
de não pensar que ele poderia estar ferido ou precisando de sua ajuda, vê-lo
daquela maneira com tão boa aparência naquele lugar foi o suficiente para
calar qualquer pensamento que pudesse existir em sua mente naquele
momento.

- Peter... O que você está fazendo aqui? – A pergunta dela soou quase
ingênua, sua voz não mais do que um sussurro que ela julgou que apenas ela
pudesse ouvir.

O irmão dela parecia ainda não ter notado sua presença, olhando por
sobre seu pescoço enquanto se levantava uma expressão de confusão tomou
conta de suas feições antes que ele pudesse reconhece-la, então suas faces
ficaram brancas e lívidas como se ele estivesse vendo um fantasma.

- Amy... – respondeu ele de maneira confusa, um sorriso divertido


brincando em suas feições – Maninha, o que está fazendo aqui?

A risada de Peter explodiu nas paredes de tijolos ao seu redor,


completamente deslocada e por um momento a garota se perguntou se ela
finalmente havia perdido o que sobrara de sua sanidade. Ele cambaleou em
sua direção, tropeçando nos próprios pés até alcança-la num abraço
desajeitado e completamente sem propósito.

As mãos dela se fecharam sobre o corpo cambaleante de seu irmão, o


rosto dele sorridente e levemente desnorteado pairando próximo a sua face. O
cheiro de bebida alcoólica acertou sua face em cheio, e logo Amy entendeu
porque Peter estava se comportando daquela maneira.

- Amy? É mesmo você? – perguntou ela de maneira quase débil, os olhos


vitrificados fixos em algum ponto acima de sua cabeça – O que você fez com
seu cabelo? Onde esteve?

- Peter! Você está bem? – perguntou ela tentando amparar o corpo dele as
mãos suas e frias escorregando em seus antebraços – O que você está fazendo
aqui? Como eles conseguiram te pegar você fugiu... Os diamantes...

- Águas passadas, meu Deus isso já faz tanto tempo. Você não sabia? Eu
consegui acertar os problemas com os diamantes... Eu deveria ter te avisado
mais cedo mas acho que esqueci...

O riso de Peter ressoou em seus ouvidos, ele se desvencilhou dela


endireitando o corpo olhando ao redor de maneira confusa como se pela
primeira vez se desse conta que estava num lugar completamente diferente da
festa que parecia ocorrer dentro de sua cabeça.

Os olhos dela se ergueram até se encontrarem com Cézare, como uma


sombra ele permanecia parado em silêncio em frente a porta bloqueado
completamente sua saída daquele lugar. Calafrios escorreram por seu corpo,
como se um balde de água fria estivesse escorrendo por cima de sua cabeça.
Dando um passo adiante o medo deixando suas palavras tremulas, a garota
agarrou os braços do irmão dizendo:

- Peter você precisa me ouvir! Me escute! Você foi enganado, nada está
resolvido precisamos sair daqui!

A porta abriu com um estrondo, e um homem que ela não conseguiu


identificar entrou ali dentro e sem dizer uma única palavra retirou Peter de
seu agarre levando-o para fora. Choque deixou seus movimentos lentos
enquanto um branco tomava conta de sua mente, ela tentou agarrar uma das
mãos de seu irmão, que parecia não entender ou mesmo se importar com o
que estava acontecendo ali.
- Peter! Peter!

A voz dela ecoou em seus ouvidos até que o nome dele se transformou
num urro sem nenhum significado. A porta se fechou diante dela, deixando
todo o ambiente novamente em silêncio. Derrotada, amedrontada encurralada
naquele lugar, ela deixou que toda a raiva que sentia e desespero viessem a
tona enquanto se jogava na porta que se fechava diante dela tentando de
maneira inútil alcançar seu irmão.

Os braços de Cézare se fecharam sobre sua cintura, ela sentiu os pés


sendo levantados do chão, antes de seu corpo ser pressionado na parede
oposta, o corpo dele prendendo o céu enquanto sua mão direita segurando
uma arma repousava ao lado de seu rosto.

- Fique quieta – ordenou ele num chiado de voz – ou vou pedir para os
homens que estão cuidando do seu irmão serem o mínimo possível educados
com ele.

- Por que você está fazendo isso? O que você quer...? – As perguntas
deixaram seus lábios de maneira débeis, lágrimas haviam se acumulado em
seus olhos sem que ela tivesse notado, escorrendo de forma ardente por seu
rosto. Toda a compostura que ela havia tentando segurar de alguma forma até
aquele momento escorrendo por sua fachada destruída. – Meu irmão...

- Seu irmão é idiota asqueroso que acredita que pode enganar todo
mundo. Você conseguiu me dar muito mais trabalho para ser encontrada do
que ele. O desgraçado foi encontrado uma semana depois de ter fugido com
os diamantes do meu irmão, tentando trocar algumas pedras na rua. Ele
acredita que foi perdoado, porque durante todo esse tempo Pietro não fez
nada contra ele... Mas, isso é porque eu pedi que ele esperasse.

As palavras caíram sobre ela como pedras, o olhar dourado dele parecia
queimar devido a sua proximidade. O coração descontrolado em seu peito
deixava sua cabeça muito leve sobre seus ombros, enquanto um zunido
incomodo preenchia seus ouvidos.

- Você sabe o que eu estava esperando?


- Cézare, por favor... – pediu ela num sussurro assustado.

- Não diga a porra do meu nome! Responda minha pergunta!

- Eu... Você estava me esperando...

Amy fechou os lábios com força mordendo-os tentando conter os dentes


que se debatiam como castanholas em sua boca. Tudo havia se acumulado
dentro dela, agora a raiva e o medo que sentia pareciam pesar em seu coração
da mesma forma. Ela era incapaz de desviar seu olhar de Cézare que parecia
devora-la viva.

- Eu deveria estourar os miolos do seu irmão na sua frente, e depois fazer


a mesma coisa com você.

As palavras dele soaram categóricas contra o silêncio que parecia reinar


naquele ambiente, aspirando profundamente ela tentou recuperar o fôlego que
parecia preso em sua garganta, assim como seu choro. Um dia em algum
momento que agora parecia ter sido completamente estilhaçado em milhões
de pedaços, ela chegara a acreditar naquele homem diante dele. Havia achado
que poderia confiar nele, e que a atração que sentia por ele não era um erro.

As palavras dele doíam como se sua pele estivesse sendo açoitada em


carne viva, e ela sentiu-se uma idiota por ainda ser capaz de pensar daquela
forma.

- Por favor... – implorou Amy, precisando usar toda sua força para
expulsar as palavras de seus lábios – Apenas poupe meu irmão.

A mão de Cézare se infiltrou por seu cabelo caindo em sua nuca como
uma faixa feita de ferro, forçando-a a olhar em sua direção. Ela podia
enxergar pelo canto de seus olhos a arma em suas mãos, o perigo tão próximo
que era o suficiente para fazer com que o pânico arranhasse o interior do seu
estômago com suas garras afiadas.

- Você ainda tem coragem, depois de tudo o que me fez de implorar por
seu irmão algum tipo de clemencia?
- Ele errou eu sei disso... Peter é impulsivo e toma as decisões sem pensar
nas consequências... mas ele é meu irmão.

- Sim sem dúvida vocês são uma família de enganadores – respondeu


Cézare apertando sua nuca, até que seus narizes tivessem separados por
milímetros.

- Sua raiva é comigo, fui eu quem o enganei Cézare, por favor não
desconte no meu irmão.

- E você acha que eu me preocupo em ser justo?

As mãos dela se ergueram como se tivessem vida própria, se infiltrando


na camiseta dele, apertando o tecido macio entre seus dedos até que eles
estivessem completamente brancos.

- Por favor – pediu ela num sussurro uma lágrima escorrendo quente
como fogo por sua bochecha – Eu faço qualquer coisa...

- Essa é apenas mais uma das suas tentativas em tentar me enganar –


respondeu Cézare erguendo sua voz interrompendo suas palavras.

- Não. Eu juro eu não quero te enganar... Só quero tentar salvar meu


irmão. Eu faria qualquer coisa...

A ponta da arma de Cézare foi pressionada contra sua têmpora direita, ela
podia sentir o metal muito frio contra sua pele, o som de um gatilho sendo
puxado reverberou ao seu redor. Amy podia sentir toda sua vida, sua
existência pendurada por um fio diante de seus olhos.

Havia um vazio em sua mente, como se ela estivesse atordoada, nada de


imagens de seus pedaços ou flashes de lembranças que haviam acontecido
durante toda sua vida até aquele momento. Tudo o que havia diante dela era
Cézare e seu olhar gélido e enraivecido, que talvez fosse a única coisa que ela
pudesse enxergar nesse mundo.

- Qualquer coisa? – repetiu ele, as palavras ecoando em seus ouvidos, o


metal da arma apontado contra sua cabeça esquentando em contanto com sua
pele.

Amy não foi capaz de responder, as palavras haviam se transformado


num bolo em sua garganta indefinido pressionando sua língua para baixo.
Olhando em seus olhos, sem desviar sua atenção por um segundo que fosse
ela concordou num silencioso aceno de cabeça.

- Você morreria por seu irmão? – perguntou Cézare pressionando a arma


ainda mais em sua têmpora, deixando que os batimentos de seu coração se
tornassem descontrolados dentro do seu peito.

- Sim – murmurou ela, embora a verdade estivesse rasgando sua garganta


querendo chegar até a superfície... Ela não queria morrer ali em suas mãos
daquela forma, mas precisava acreditar que se fosse para salvar seu irmão
então ao menos que sua morte pudesse ter um sentido.

- Sim – respondeu Cézare sua voz ecoando suas palavras de um jeito que
um pressentimento terrível tomou conta de seus sentidos – Você faria
qualquer coisa para salva-lo. É por esse motivo que eu deveria mata-lo.

O horror tomou conta de suas feições, as lágrimas já haviam secado em


seu rosto deixando ardido e dolorido, ela não podia mais suportar produzi-las,
não havia sobrado mais nada dentro de seu peito para ser partido.

A arma que ele segurava contra sua têmpora foi afastada, até que ela
estivesse apontada diretamente pra ela. Seria tão fácil para ele terminar com
ela ali mesmo naquele momento. Ela se perguntou se iria perceber quanto
tudo terminara. O quanto poderia doer levar um tiro?

- Me implore por sua vida – disse ele a rouquidão em sua voz deixando
suas palavras mais ameaçadoras.

As mãos dela caíram ao lado de seu corpo, inúteis e frágeis exatamente


como ela se sentia naquele instante.

- Que diferença isso faria? – perguntou ela desviando pela primeira vez
seu olhar enquanto baixava sua cabeça. O homem diante dela não queria
apenas matá-la, mas destruir por completo sua existência, e ele estava
próximo demais de conseguir isso.

- Implore Amy!

O grito dele ecoou em seus ouvidos, ela se encolheu num canto tentando
se proteger de tudo o que acontecia ao seu redor, sentindo a firmeza gélida da
parede de tijolos contra suas costas. O choro voltou a sua garganta, fazendo
com que ela se engasgasse com seu próprio ar.

A sua frente Cézare parecia ter cruzado uma linha que não possuía mais
retorno, ele se aproximou dela seu corpo servindo como uma jaula da qual ela
não era capaz de escapar. A loucura estava estampada em sua face, deixando
pálido os olhos queimando com uma luz quase sobrenatural por eles, as
cicatrizes em seu rosto visíveis e prateadas como mercúrio liquido.

- Por favor – pediu ela implorando embora uma parte dela não tivesse
certeza se o homem a sua frente era realmente capaz de ouvi-la – Não
interessa o que você faça comigo não machuque meu irmão.

Ele se aproximou lentamente seus movimentos friamente calculados, a


ponta de suas botas tocando as suas até que o calor do corpo dele a envolvia
até ela respirar o mesmo ar que havia entre o pequeno espaço entre eles.

Cézare usou a ponta de sua arma para ergueu o queixo dela, obrigando-a
a olhar em sua direção. Um dia não muito tempo atrás seu coração havia
batido descompassado por aquele homem, seus sonhos sendo preenchidos por
sua figura. Agora aqueles sentimentos que um dia ela julgara ter sentindo não
passavam de frangalhos em decomposição dentro do seu peito.

- Você não vai morrer Amy – murmurou ela, cada palavra sendo dita
claramente como se ele quisesse ter certeza de que ela estava entendo o
significado de cada uma delas. – Não ainda... Mas, eu prometo que você vai
desejar isso muito em breve.

- Cézare...

A testa dele se encostou contra a sua, a respiração dele quente em seu


rosto. Ela não era capaz de desviar os olhos de seu olhar como as sombras
pareciam terem absorvidos por completo o dourado em seus olhos, mostrando
uma insanidade que ela não era capaz de compreender.

- Você disse que faria qualquer coisa, para manter seu irmão vivo –
respondeu ele – Então você fara exatamente isso.

- Como? – perguntou a garota, embora o medo de encontrar aquela


resposta escorresse por suas veias como veneno.

- Você irá ficar comigo. Até que eu esteja farto da sua presença. Se você
fugir, se você tentar fazer qualquer coisa comigo novamente. Eu vou atrás do
seu irmão.

Ela não percebeu que estava balançando sua cabeça numa negativa
inconsciente até a ponta da arma dele perfurar seu queixo, centralizando sua
cabeça.

- Você mudou de ideia? Prefere que eu acabe com tudo isso agora
mesmo?

- Por que? – perguntou Amy um murmúrio quase inaudível em sua voz.

O silêncio se prolongou entre eles até que ela imaginou que Cézare não
fosse lhe responder, sem nenhuma pressa no mundo ele se aproximou dela,
tão perto que ela podia sentir o calor emanando de sua pele, observar a
centelha dourados em seus olhos, contar cada pequena curva na pele de suas
cicatrizes.

- Porque você não deveria ter fugido de mim.

As palavras dele calaram fundo em seu peito fazendo com que seu
coração afundasse em seu peito como uma pedra fria gelando seu estômago.
Ela gostaria que houvesse qualquer outro motivo por trás de suas palavras,
qualquer outra verdade que não fosse aquela que ela simplesmente não era
capaz de combater.

- Você irá poupar meu irmão?

Cézare se afastou dela, apenas um passo de cada vez o suficiente para que
ela conseguisse enxergar com clareza novamente os contornos de seu rosto.
Amy podia enxergar os pensamentos agitados por trás de seus olhos
dourados, a forma como ele pensava em controla-la usando aquela vantagem,
chantageá-la para que ela não tivesse nenhuma outra saída.

- Enquanto você estiver comigo, ele fica vivo. – respondeu o mafioso


italiano.

A parte racional em seu cérebro estava petrificada de medo, ela sabia que
se aceitasse aquela condição, qualquer futuro livre do homem diante dela que
um dia ela imaginara poder alcançar se transformava em algo completamente
impossível. Estaria vendendo sua alma ao diabo, para conseguir a segurança
de seu irmão, e ela sabia que esse era um preço muito alto a ser pago, mesmo
assim qual sua alternativa?

Erguendo os olhos Amy deixou que seu olhar se focasse em Cézare, uma
parte dela sentiu-se aliviada quando ela abaixou seus braços guardando a
arma que continuava em suas mãos. Aquele era um sinal claro que ela ainda
permanecia viva, ao menos por mais uma noite, mas não havia nenhuma
espécie de alivio em seu peito ao se dar conta daquilo, havia apenas o vazio e
a consciência de que no final de todo seus esforços foram insuficientes.

Ela havia perdido, e agora o predador que ela tanto temera finalmente
fechara suas garras ao seu redor.
Capítulo Oito
Amy não reparou em nenhum detalhe do caminho que percorreu após sua
conversa com Cézare. Mergulhado num silêncio opressivo, ela sentiu as mãos
dele pousarem sobre seu braço e lembrava-se de ter uma leve sensação de ser
escoltada para algum lugar embora ela realmente no fundo não se importasse
com isso.

Seu cérebro parecia ter desligado por completo dentro das paredes de seu
crânio e por um momento a única coisa que ela era capaz de sentir era um
entorpecimento bem-vindo. Os pensamentos alvoraçados finalmente haviam
se calado dentro de sua cabeça, as garras do medo que pareciam dilacerar seu
corpo de dentro para fora se retraíram, deixando para trás apenas uma
sensação de vazio completo.

Ela se deixou ser conduzida ouvindo apenas o som repetido de seus saltos
sobre o chão. Deixou que seus olhos percorressem o lugar sem realmente
enxerga-lo. Em algum ponto de sua mente, num lugar que parecia muito
distante um pensamento de preocupação a respeito de seu irmão brotou, mas
logo ficou dissolvido em meio ao vazio dentro de sua mente.

Sentia-se cansada demais naquele momento, exausta num nível que o


cansaço parecia estar enraizado dentro de seus ossos. Ela havia sido
completamente destruída, e agora tudo o que restara de si mesma, era um
punhado de coisas que ela tentava segurar de forma inútil entre seus dedos.

Uma parte dela sentia que ela deveria estar chorando, ao menos que suas
lágrimas pudessem verter para fora de seus olhos numa demonstração sem
palavras de como ela sentia-se naquele momento, mas até mesmo essas
pareciam ter lhe abandonado. O choro do desespero havia secado sobre seu
rosto, deixando seus lábios com um leve gosto de sal que até mesmo agora
ela podia sentir na ponta de sua língua. Focando seu olhar nas costas de
Cézare na maneira com que ele caminhava altivamente a sua frente, ela soube
que chorar seria algo completamente inútil; o desperdício de uma energia que
ela não possuía naquele momento.
O som de uma porta se fechando a suas costas alcançou seus sentidos,
olhando ao redor agora tentando prestar alguma atenção ela percebeu que
havia entrado num quarto desconhecido.

Uma cama solitária e de solteiro estava encostada contra uma parede, a


luz da lua entrava por uma janela logo acima de sua cabeça, junto com uma
brisa que acariciou as mechas de seu cabelo. Olhando ao redor Amy percebeu
que estava sozinha naquele lugar, a presença de Cézare completamente longe
dela.

Um calafrio de desconforto escorreu por suas costas, virando-se no


mesmo lugar ela deixou que sua atenção ficasse completamente sobre a porta
fechada a sua frente. Onde ela estava?

A pergunta ecoou em sua mente e logo foi varrida para longe. Descobrir
onde ela estava naquele momento era algo completamente inútil.
Caminhando adiante, Amy deixou que seus passos ecoassem em seu ouvido.
Do outro lado daquela porta, ela podia enxergar uma luz acesa, embora ela
permanecesse mergulhada no escuro apenas com a lua como sua iluminação.

Sem pressa alguma os dedos dela subiram pela madeira lisa tocando a
maçaneta pesada, apenas uma única tentativa de move-la lhe mostrou que
estava trancada. O entorpecimento pareceu se expandir em seu peito, sugando
qualquer coisa que ainda pudesse haver em seu caminho. Ela imaginou por
um breve momento se algum dia iria se acostumar com o fato de que agora
para frente todas as portas que tentassem abrir provavelmente estariam
trancadas para ela.

Exausta, ferida Amy caminhou com passos vacilantes até a cama do outro
lado do cômodo. O colchão cedeu levemente sobre seu peso, não sentia frio,
naquele momento se fosse ser honesta consigo mesmo ela não achava que
fosse capaz de sentir absolutamente mais nada, mesmo assim empurrou o
edredom que encontrou aos pés da cama sobre seu corpo, uma tentativa inútil
de se proteger debaixo daquele casulo de tecido, uma barreira que fosse entre
ela e a terrível realidade ao seu redor. Os olhos pesaram em seu rosto, as
pálpebras se fechando contra sua vontade. Ela não queria adormecer, mesmo
assim o sono a levou dali.
✽✽✽

Amy acordou com alguém lhe chacoalhando pelos ombros. O toque não
era agressivo, mas insistente o suficiente para fazer com que lentamente sua
consciência voltasse a realidade. Uma parte dela, tentou fechar suas pálpebras
com mais força, apegando-se quase que com desespero a sonolência que
ainda pairava sobre sua mente.

A luz do sol infiltrou-se por suas pálpebras tingindo o mundo de um


laranja dourado fulgurante, abrindo apenas uma pequena fresta em seus
olhos, a garota observou o rosto de uma mulher desconhecida pairando sobre
ela. De repente todo o mundo pareceu entrar em foco, e ela se encolheu na
cama, afastando-se do toque dela tentando se esconder na parte mais afastada
da cama, longe daquela intrusa que ela não conhecia.

- Bom dia – respondeu a desconhecida olhando diretamente em seu rosto,


um sotaque forte preenchendo sua voz.

- Quem é você?

A sobrancelha da desconhecida se ergueram em confusão, ou talvez fosse


apenas descrença, com o sono pairando ainda de forma muito intenso sobre
sua cabeça Amy não era capaz de ter muita certeza. Os dedos dela estavam
apertados contra o edredom, que ela havia erguido diante de seu corpo como
se fosse um escudo. Ela não sabia quem era aquela mulher, mas o simples de
fato dela já era o suficiente para desagrada-la.

- Levante, eu não tenho muito tempo logo o cabelereiro vai estar aqui.
Não vou ser sua babá, e preciso estar na cidade antes do meio-dia.

Amy permaneceu no mesmo lugar, o rosto se transformando numa


máscara de irritação. A mulher a sua frente não pareceu contente com sua
atitude, embora seu rosto permanecesse casualmente sem nenhum tipo de
expressão.

Ela era bonita, o cabelo vermelho magenta num corte prático e elegante
faziam uma boa combinação com seu rosto comprido e olhos afiados. Sua
aparência era de ser profissional, usando um conjunto de terno social creme,
e sapatos de bico fino. Amy podia perceber que ela não era nenhuma jovem
inexperiente, mas sua idade estava estrategicamente escondida atrás de uma
maquiagem feita com capricho. Todo seu ser lhe dizia que por trás daquela
fachada, havia algo muito maior e complicado.

Sem se importar com o fato de que Amy estava lhe ignorando, Amy
observou a desconhecida, andar pelo quarto como se conhecesse por
completo aquele lugar. Sem perder tempo, ela recuperou uma bandeja de
madeira que estava sobre uma das cadeiras vazias ali levando em sua direção,
depositando-a perto de seus pés.

O cheiro fresco de café atingiu seus sentidos fazendo com que seu
estômago se contorcesse dentro de seu corpo. Ela estava sem comer a mais de
vinte e quatro horas e a fome era algo que simplesmente parecia ter sido
apagado de sua mente. Os olhos da garota se focaram sobre os pães de
aparência macia sobre um prato branco e sem adornos. Havia uma maça
levemente ressecada, e uma banana quase passada, mas ambas lhe pareciam
serem apetitosas com o nível de fome que ela se dava conta de sentir naquele
momento, embora ela não se permitisse esticar o braço e aplaca-la.

- Sei que a comida não tem a menor aparência possível – comentou a


estranha mulher enquanto puxava a cadeira e sentava diante dela na cama. –
Mas, isso foi tudo o que consegui em cima da hora. A proposito eu me chamo
Giorgina.

Amy continuou a não se mexer o sono agora havia desaparecido por


completo de seu sistema, deixando para trás apenas uma leve sensação de
confusão que ela tentava limpar de sua cabeça; quantas horas ela estava
dormindo? Onde ela realmente estava? Quem era a mulher a sua frente? As
perguntas se acumularam em sua mente, enquanto seus olhos vasculhavam
todo o quarto ao seu redor. O ambiente era simples, as paredes pintadas num
tom de bege desbotado não tinham nenhum adorno, quadro ou qualquer coisa
que as diferenciasse. Além da cama onde ela estava, uma pequena mesa de
cabeceira que ficava a seu lado, um armário antiquado de portas duplas ficava
encostado no canto mais distante, não havia mais nada ali que pudesse lhe
indicar qualquer pista sobre exatamente onde ela estava.
- Onde ele está? – perguntou Amy de forma desconfiada, desviando sua
atenção para a bandeja de comida a sua frente que parecia inofensiva – Onde
está Cézare?

Os olhos de Giorgina se estreitaram por um momento, o rosto dela


assumindo uma placidez treinada. Com cuidado Amy observou a mulher
estende-lhe a caneca de café ainda fumegante, ela aceitou dessa vez tentando
conter os protestos em seu estômago devido à ausência de comida. Se
preocupar com o fato daquela comida estar envenenada, era a última coisa
que passava por sua cabeça naquele momento.

- Cézare está conversando com o Capo, ele me pediu para ajudá-la a se


estabilizar aqui por enquanto.

O café queimou sua língua e Amy tentou conter a careta que tomou conta
de seu rosto. Estava forte demais, e quase que completamente sem açúcar o
exato oposto do que ela gostava quando se tratava daquela bebida, mesmo
assim ela se forçou a toma-la deixando que o gosto amargo se impregnasse
em sua língua, enquanto ela girava lentamente a resposta que a mulher a sua
frente lhe dera.

Amy acreditava que ela não estava mentindo, mas sabia que não podia ser
ingênua o suficiente para acreditar em tudo o que ela estava lhe dizendo.
Haviam camadas por trás de suas palavras, ela não estava lhe contanto uma
mentira descarada, mas com certeza também não estava lhe dizendo toda
verdade. Como se ela estivesse lhe omitindo os fatos com um proposito
especifico, apenas para observar qual seria sua reação.

- Você sabe o que ele pretende fazer comigo? – perguntou Amy, deixando
que sua atenção voltasse para os pãezinhos esquecidos diante dela.

- Não... Eu realmente não sei – respondeu Giorgina simplesmente,


enquanto alisava o tecido perfeitamente passado de sua calça.

- Não acredito que você me diria mesmo se soubesse.

- Você é uma garota esperta – respondeu a mulher italiana, um sorriso


sem nenhum tipo de humor brincando em seus lábios – Ao menos me parece
isso. Você está numa situação bastante delicada, por isso se quiser um
conselho meu, não faça tantas perguntas.

- Por que? – perguntou Amy, enquanto mordia um pedaço pequeno do


pão que estava em suas mãos, o gosto da farinha e do som deslizando sobre
sua língua como uma manjar – Isso pode me colocar em perigo?

- Você tem coragem garota preciso admitir isso, mas sua ironia não vai
faze-la chegar muito longe aqui.

- Aqui? – perguntou Amy, o pão em sua boca fazendo com que suas
palavras saíssem de forma engraçadas – Eu não tenho a mínima ideia de onde
estou.

- Sicília, Itália minha querida – respondeu Giorgina, enquanto ajeitava


sobre seu colo a elegante bolsa que estivera pendurada em sua cadeira. O
logo de uma famosa marca italiana estava refletido no fecho, deixando bem
claro o status que aquela mulher tão discretamente exibia. – Espero que você
fique o suficiente na cidade, para que eu possa te mostrar alguns pontos
turísticos. Tenho certeza que você iria adorar.

- Claro – respondeu Amy, engolindo o que sobrara do pão junto com o


ultimo gole de café amargo deixando que o sarcasmo preenchesse sua voz –
Vou pensar no seu convite, caso Cézare não acabe comigo primeiro.

- Oh mia cara, eu não acredito que ele vá acabar com você... Ao menos
não por enquanto.

Amy sentiu os pelos de seu braço se eriçarem, enquanto ela deixava que
as palavras daquela mulher que ela não conhecia assentassem por sua
consciência.

- Você sabe mais do que está me contando...

- Você não me pareceu interessada nos meus conselhos antes garota...

- Se você tiver qualquer coisa, alguma dica que poderia me ajudar a me


manter viva, eu adoraria ouvir.
Os olhos de Giorgina se estreitaram, por um momento ela pareceu se
retrair em pensamentos, como se estivesse avaliando em sua mente se Amy
realmente valia o risco. O gosto do café amargo ainda pairava sobre sua
língua, o conteúdo de seu estômago se remexendo de forma desconfortável
embora a fome ainda arranhasse o fundo de sua garganta. Ela imaginou se em
algum momento depois de toda aquela loucura, ela poderia voltar a aproveitar
uma única refeição que fosse com tranquilidade.

- Ele parece gostar de você... – disse Gorgina por fim, ao final de sua
avaliação. Seu corpo delgado se ajeitando na cadeira, como se ela estivesse se
preparando para lidar com algo desagradável – E digamos que isso é algo
bastante raro em se tratando do Caronte.

- Ele me ameaçou de morte várias vezes, me sequestrou, perseguiu ele...


É isso que você chama de gostar?

- Cézare Fonezzi é um maffiosi. Um mafioso como as pessoas chamam


em seu país. Não tenho pretensão de saber como sua mente funciona. Mas,
posso te assegurar de uma coisa, ele não é o tipo de pessoa que está
acostumado a receber um não.

Amy sentiu o maxilar se retesar em seu rosto, a raiva borbulhando em seu


sangue, deixando seus pensamentos mais agitados. Pelo visto toda aquela
conversa com aquela mulher não passava de um beco sem saída.

- Dito isso – continuou a misteriosa italiana – Espero que você possa


entender que na atual situação, sua situação é bem delicada, e para ser bem
sincera você não tem muitas escolhas.

- Eu não tenho escolha alguma – respondeu Amy puxando suas pernas


mais próximas de seu corpo repousando o queixo contra seus joelhos
enquanto ressentimento puro pontilhava suas palavras – Eu nunca tive em se
tratando dele... Você quer dizer que eu posso sair daqui? Sair desse quarto a
qualquer hora que eu quiser? Você me deixaria fazer isso.

Algo como compreensão passou dos olhos daquela mulher desconhecida,


mas logo foi ocultado por sua fachada fria e distante. Um suspiro exasperado
escapou de seus lábios e logo frases dita em italiano completo que Amy não
conseguiu compreender de forma alguma encheram seus ouvidos.

- Você tem uma escolha garota – respondeu Giorgina, as unhas compridas


e bem-feitas deslizando caprichosamente por seu cabelo curto, deixando as
mechas levemente bagunçadas – Mas, pelo que vejo agora talvez você ainda
não esteja preparada para toma-la.

- O que você quer dizer com isso?

- Ele quer você – respondeu a italiana simplesmente, olhando-a


diretamente em seus olhos, sem desviar um segundo que fosse sua atenção –
Dê isso a ele.

- Você não sabe o que está dizendo – respondeu Amy, num sussurro
irritado, os dedos de sua mão doloridos pela forma que ela agarrava o
edredom cobrindo suas pernas.

- Não? Talvez você esteja certa, mas de qualquer forma de fora da


situação onde estou, esse me parece o caminho mais seguro pra você nesse
momento.

- Você ouviu todas as coisas que eu disse que ele fez comigo – perguntou
Amy, sentindo o desespero deixar sua voz estridente – Como pode achar que
eu seria capaz de fazer algo assim?

- As pessoas fazem coisas mais inacreditáveis quando estão dispostas a


sobreviverem a qualquer custo. E você mesma me disse que o seu desejo é
sobreviver.

Amy não conseguiu suportar o olhar que Giorgina lhe lançava. As


palavras dela ricochetearam dentro do seu cérebro, ecoando lembranças que
traziam uma sensação de incômodo e peso em seu coração. Havia sido um
pensamento similar aquele que fizera com que ela se aproximara de Cézare
pela primeira vez, ela acreditara que de alguma forma poderia convence-lo a
não machucá-la, havia apostado em sua capacidade de manipula-lo de alguma
maneira. Agora ela percebia que de certa forma havia sido aquela atitude que
a colocara naquela situação. Talvez se ela nunca tivesse se aproximado dele,
se nunca tivesse se rendido a estranha compulsão que sentira por aquele
homem então ela não estaria naquela situação. Talvez pensou Amy deixando
os pensamentos correrem soltos por sua mente, ela estivesse morta há muito
tempo e embora aquele fosse um pensamento assustador uma parte dela não
se perguntava se no final das contas aquele não poderia ter sido melhor.

Forçando seus dedos a soltarem lentamente o tecido macio do edredom


que ela apertava como se fosse sua tábua de salvação, ela deixou seu olhar se
concentrar na xicara vazia de café que deixara sobre a bandeja. Poderia tomar
mais uma daquelas, mesmo com o gosto amargo, apenas para sentir algo
quente em seu estômago, apenas para que ela pudesse ter por mais alguns
instantes que fosse a sensação de normalidade que havia lhe sido tirada.

- Eu não posso fazer isso – murmurou a garota, sem saber se estava


dizendo aquilo em voz alta como uma tentativa de se convencer de suas
palavras – Não posso fazer isso de novo.

Amy esperou que de alguma forma Giorgina lhe criticasse, ela esperou
palavras agressivas, mas quando apenas o silêncio encheu seus ouvidos, ela
teve coragem de erguer seu olhar e encarar a mulher a sua frente.

Ela não sabia dizer qual tipo de expressão havia na face da misteriosa
mulher italiana naquele momento, mas a garota acreditou que havia algo
quase como compreensão no fundo de seus olhos e um pouco de respeito.

- Fiz tudo o que eu podia por você garota – respondeu a mulher enquanto
se levantava – No momento, esse é todo o conselho que eu posso te oferecer.
De qualquer forma eu te desejo boa sorte.

Amy tentou conter a frustração e a decepção que rastejaram por seu


coração. Aquela era a primeira vez que ela conversava com qualquer outra
pessoa a respeito de Cézare, e toda a questão que os envolvia. Até aquele
momento ela não podia imaginar como aquilo lhe parecia um segredo pesado.
Um fardo que ela fora obrigada a carregar nos últimos meses. Uma parte dela
sentia-se traída por aquela desconhecida, sentindo-se completamente perdida
de certa forma Amy havia esperado que ela pudesse lhe ajudar de alguma
maneira além de conselhos que não pareciam serem muito complicados e
qualquer pessoa podia chegar aquelas conclusões.
Uma parte dela ainda se apegava numa ilusão infantil e perigosa que
alguém poderia ser capaz de salva-la dali, daquele homem, mas ela sabia que
aquele era apenas seu interminável sentimento de negação pairando sobre
seus pensamentos. A sua realidade não iria mudar apenas com sua força de
vontade.

Afastando aqueles pensamentos como moscas que perturbavam sua


atenção Amy se concentrou na mulher diante dela enquanto tentava se
preparar para o desconhecido aterrorizante a sua frente.
Capítulo Nove

Um cabelereiro italiano e seus assistentes chegaram logo no início da


manhã, e embora Amy estivesse completamente constrangida de conhecer
pessoas naquela situação ainda usando suas roupas de boate, ela precisava
admitir que Giorgina lidou com toda aquela situação da melhor maneira
possível.

Eles transformaram o pequeno quarto onde ela estava ficando num salão
de beleza que não deixava nada a desejar a qualquer outro lugar. Sua cama
ficou coberta de produtos como shampoos e condicionadores além de
máscaras que cheiraram divinamente bem, um espelho de tamanho médio foi
colocado sobre a mesa que ficava ao lado de sua cama, e Amy obrigada a
ficar sentada ali enquanto aqueles desconhecidos discutiam num alegre
italiano e cuidavam de sua aparência.

Toda a situação parecia ser algo completamente fora de lógica, e na maior


parte do tempo a garota se retrair para dentro de seus pensamentos sem se
importar muito com o que estava acontecendo ao seu redor.

Ela tentou evitar seu próprio reflexo no espelho, embora aquilo fosse algo
difícil de se fazer quando as horas se arrastavam e ela continuava ali tendo a
sua frente apenas a si própria como paisagem.

Sua aparência naquele momento era um reflexo de como ela sentia-se por
dentro. Os cabelos ressecados e amassados, o rosto abatido lábios ressecados
e descoloridos, ela havia dormido a noite inteira, mas seus olhos ainda
exibiam olheiras num leve tom de lavanda. Ela parecia cansada, o rosto sem
nenhuma expressão como se sua derrotada pudesse ser lida em cada
expressão em seu rosto.

Ela podia enxergar o olhar atento de Giorgina sobre ela, olhando por
sobre seus ombros, deixando que seus dedos tocassem seu cabelo como se
elas fossem amigas antigas e aquele não passasse de um dia de beleza que
elas haviam decidido aproveitarem juntas. Amy sabia que não fazia sentido
algum detestar aquela mulher afinal ela só estava seguindo as ordens de
Cézare e sua família, mas era difícil manter sua mente racional e sem nenhum
tipo de ressentimento naquele momento. Uma parte de seu coração rangia
dentro de seu peito e todo o mundo parecia um lugar horrível e desprezível.

Seu cabelo foi cortado com precisão as ondas caiando agora sobre seu
rosto com suavidade, o profissional italiano trabalho com afinco concertando
o estrago que ela mesma havia feito em sua aparência, e uma parte dela
gostou bastante do resultado. Eles tingiram seu cabelo várias vezes até o
preto azulado que ela aplicara sair completamente, deixando para trás um
cabelo loiro muito claro, uma nova cor foi aplicada por cima um dourado que
lembrava o trigo um tom que se aproximava muito com deu seu cabelo de
verdade.

- Ele pediu isso? – perguntou Amy deixando que seu olhar recaísse sobre
Georgina que parada as suas costas observava o resultado de sua
transformação.

A mulher olho-a por um longo momento, como se ponderasse se deveria


lhe responder, por fim um suspiro cansado saiu de seus lábios enquanto ela
desviava seu rosto dizendo:

- Sim, foi uma das coisas que ele me pediu para consertar. Aparentemente
ele gosta da cor original do seu cabelo.

- Você acertou com precisão assustadora – comentou Amy, um sorriso


sarcástico brincando em seus lábios – Meu cabelo realmente é muito parecido
com essa cor.

- Cézare me mostrou uma foto sua – respondeu a mulher, por um


momento a garota imaginou que sua voz quase soava culpada.

- Como...? Onde ele conseguiu uma foto minha?

- Você vai precisar perguntar isso pra ele – respondeu Giorgina, de um


jeito muito decisivo. Como se aquilo fosse a única coisa que ela pudesse lhe
dizer a respeito.
As palavras dela deixaram um vazio incômodo em seu estômago
enquanto se agitavam desconfortavelmente. O quanto mais aquele homem
iria controla-la? Amy havia tentando não pensar nele até aquele momento,
mas enquanto as horas se arrastavam ela sabia que logo o encontro entre eles
seria inevitável.

Ela ainda não era capaz de entender completamente como se sentia.


Assim como os pensamentos emaranhados em sua cabeça, os sentimentos em
seu coração também pareciam uma bagunça. Haviam tantos e eram tão
diferentes um do outro, e acima de tudo uma camada de medo e raiva parecia
que parecia deixar tudo ainda mais complexo.

Não queria encara-lo. No fundo desejava nunca mais vê-lo em sua frente,
mas sabia que aquilo era impossível. Ela havia tentando fugir de Cézare
Fonezi, e aquela decisão era o que a trouxera até ali.

A verdade era que Amy não sabia como lidar com aqueles sentimentos,
ou mesmo a situação em que se encontrava. No fundo talvez ela precisasse
admitir a si mesma que não desejava ter de lidar com aquilo, mas sabia que
pensar daquela forma era apenas uma saída infantil e tola que no final não
seria nada de concreto.

As horas se arrastaram diante dela, enquanto a luz do sol se mexia pelo


quarto tingindo as paredes de bege em variados tons mais claros. No final
Giorgina parecia estar se divertindo com todo aquele processo; durante o
almoço ela saíra por algum tempo apenas para retornar em seguida com os
braços repletos de sacolas com nomes e logos de grifes estampados e comida
dessa vez fresca para ela, os cabeleireiros e Amy.

A atmosfera se transformara em algo quase divertido descontraído, e


embora a garota não pudesse compreender por completo as conversas a sua
volta, ela podia reconhecer uma ou outra palavra aqui e ali, enquanto tentava
montar um contexto a sua volta.

O cabeleireiro que cuidava de seu cabelo a olhava pelo espelho sempre


com um sorriso nos lábios, mas a garota podia sentir que havia uma reserva
em suas atitudes. Quase como se ele não quisesse lidar com ela, ou mesmo
fosse o tipo de pessoa que tentava ser o mais profissional possível. Amy se
perguntava em silêncio o que haviam contado aquele homem, e se realmente
havia alguma coisa sido dita a ele. Na maior parte do tempo em que estivera
em Nova York, ela se acostumara com a máfia agindo de maneira sorrateira
pela cidade, o poder sendo ostentado apenas em lugares específicos onde eles
se sentiam seguros o suficiente para isso, ali ela se perguntava se as regras
que aprendera ainda seriam validas.

No meio da tarde quando o sol finalmente começava a perder sua força o


trabalho havia finalmente terminado. Sem querer admitir em voz alta, os
olhos de Amy se prenderam no espelho a sua frente, o italiano que cuidara de
seu cabelo havia praticamente feito um milagre. As longas madeixas que ela
havia usado por tanto tempo haviam sido completamente substituídas por um
corte versátil e romântico, ondas que caiam de forma graciosa emoldurando
seu queixo, a franja sobre seus olhos parecia um pouco mais curva deixando-
os mais abertos e chamativos. O negro que lhe deixara completamente pálida
havia desaparecido, agora ela podia se reconhecer naquela imagem diante
dela na cor dourada de seus cabelos. Sentia-se mais consigo mesma embora
por dentro ela ainda não conseguisse admitir ou mesmo entender as
mudanças que sofrera.

As unhas roídas de suas mãos também haviam sido feitas e pintadas num
tom de rosa suave assim como as de seus pés. Seu rosto que fora lavado,
esfoliado e hidratado parecia mais vistoso, as olheiras quase desaparecendo,
um suave tom de rosa brincava em seus lábios e suas bochechas.

Ela parecia quase bonita, e definitivamente mais saudável, mas enquanto


se observava no espelho aquele reflexo conhecido não despertou nenhum
sorriso em seu rosto. Aquela era uma imagem muito semelhante a que ela
exibia quando conhecera Cézare, e aquilo foi o suficiente para que um gosto
agridoce se espalhasse pelo fundo de sua língua.

Ao menos Giorgina e o cabeleireiro pareciam bastante contentes com o


resultado. Mais de uma vez ele ajeito suas madeixas chamando-a de bela
embora Amy realmente no final das contas não se sentisse daquela forma de
maneira alguma.

Giorgina se encarregou no final da tarde de se despedir do cabelereiro e


seu assistente, em silêncio Amy observou contar as notas do dinheiro
estrangeiro que ela desconhecia, cumprimenta-la com dois beijos em sua
bochecha e depois ir embora sem nem mesmo lançar um segundo olhar em
sua direção. Assim como em Nova York ela notara, as transações da máfia
sempre eram realizadas em dinheiro vivo, sem recibos sem comprovantes, ela
não tinha dúvidas que aquela mulher inclusive deveria ter lhe pago uma
quantia ainda maior para manter sua boca fechada. Pelo que ela podia
perceber ninguém iria descobrir que ela estava sendo mantida presa dentro
daquela casa.

Com a luz alaranjada se infiltrado pela janela oval que ficava logo acima
de sua cama, Amy observou a mulher italiana andar pelo quarto enquanto
falava ao celular de maneira rápida e ríspida, ela não parecia muito feliz com
o que estava escutando e Amy sentiu a curiosidade e o nervosismo se
infiltrarem por seu sistema.

- Fiz o que pude por você hoje garota – disse a italiana assim guardando o
celular em sua bolsa – Sei que você ainda precisa de várias coisas mas
prometo trazer amanhã mais roupas e um travesseiro descente.

- Você poderia deixar a porta aberta quando fosse embora – comentou


Amy sem realmente acreditar que ela fosse fazer isso ou lançar um olhar em
sua direção – Eu ficaria grata.

- Você é esperta sabe que eu não posso fazer isso.

- Não... é diferente. Você não quer fazer isso.

Com os olhos se estreitando a mulher lançou um olhar avaliador em sua


direção, colocando a bolsa sobre seus ombros ela se encaminhou pela porta
parando apenas para lançar um último olhar em sua direção dizendo:

- Lembra-se do que eu te disse, mesmo que não goste, sua melhor chance
agora é se adaptar.

Amy não se deu ao trabalho de responder, mordendo as palavras para que


elas continuassem presas atrás dos seus dentes a garota observou a italiana ir
embora. Os sons de seus saltos altos ecoaram pelo corredor, levantando-se a
garota caminhou até a porta o olhar fixo sobre a maçaneta redonda. Sua mão
pousou sobre ela sentindo a rigidez do metal por baixo, ela o girou com
cautela apenas para ouvir o som de uma tranca sendo acionado.

Um suspiro pesaroso escapou de seus lábios enquanto ela encostava a


testa sobre a madeira, os olhos fechados em frustração.

Naquele momento a única coisa que ela podia desejar era estar em
qualquer outro lugar que não fosse aquele quarto.

✽✽✽

Amy não queria ter adormecido. Depois que Giorgina a deixara sozinha
no quarto, ela passara os próximos minutos andando pelo lugar, tentando
registrar cada pequeno detalhe em sua mente. O lugar era muito mais simples
do que ela havia imaginado, mas ao abrir uma porta que ficava ao lado do
pequeno armário, descobrira que ali ficava um pequeno banheiro. A luz se
infiltrava pelo lugar refletindo nos azulejos brancos sem nenhum adereço. O
lugar estava limpo, mas além de uma toalha azul marinha e um sabonete
sobre a pia parecia completamente abandonado. Com o silêncio permeando
todo o ambiente Amy aproveitara aquele tempo para tomar um banho, a água
caindo por sua pele pareceu por um momento acalmar os músculos retesados
em suas costas, antes mesmo que o sol tivesse desaparecido completamente
no céu ela havia terminado.

Usando algumas roupas que Giorgina trouxera para ela como um


empréstimo na hora do almoço, Amy descartou suas antigas, jogando-as para
debaixo da cama, sem ter o que fazer e sentindo o tédio agitando seus
pensamentos ela comeu o que sobrara dos lanches, aproveitando para
finalmente saciar seu estômago.

Sua cabeça parecia muito leve ainda sobre seu pescoço, os cabelos com
suas delicadas mechas tinham um cheiro agradável que permeava em seu
nariz. Amy deitou-se na cama, enquanto fitava o teto branco acima de sua
cabeça, sem nem ao menos perceber o que estava acontecendo o sono havia a
engolfado.
Agora o pesadelo se desenrolava a sua frente, as batidas de seu coração
eram uma pulsação frenética em sua caixa torácica, a floresta ao seu redor era
escura fazendo com que ela se sentisse completamente desnorteada. Ela
corria o vento cantando em suas orelhas enquanto o próprio oxigênio não
parecia o suficiente para encher seus pulmões, os pés pareciam se emaranhar
em folhas galhos e outras coisas que ela não era capaz de reconhecer, e
embora nenhuma vez ela tivesse olhado em suas costas sabiam que estava
sendo perseguida... Sabia que ele estava atrás dela.

Medo nadou em sua corrente sanguínea enquanto ela se esforçava para se


adiantar, mas o sonho era seu inimigo e embora ela estivesse se desesperando
sentia como se não fosse mais capaz de sair do lugar. Era o mundo que
passava numa velocidade absurda ao seu redor, enquanto ela continuava ali
petrificada em pânico.

Ela queria que todo aquele pesadelo terminasse, mas apenas uma parte de
si mesma parecia estar consciente, lutando contra um inimigo invisível.
Mesmo sem enxerga-lo ela sabia que ele se aproximava, a presença dele
pairava por todos os lados, deixando sua pele eletrificada.

A respiração ficou presa em sua garganta, o medo deixando seu corpo


gelado... Ela podia sentir ele atrás de suas costas, prestes a toca-la o
movimento de seus gestos tão próximo que deixaram uma trilha de calafrios
em sua nuca, e então ela estava acordada;

O som de sua respiração rascante encheu seus ouvidos, por um momento


que pareceu durar uma eternidade Amy imaginou que ainda estava na floresta
de seus pesadelos até perceber que a escuridão ao seu redor era na verdade as
sombras da noite.

O mundo estava mergulhado no silêncio as paredes beges tingidas de


escuro, a luz da lua não era capaz de romper as sombras em seu quarto, e
embora a garota soubesse que não havia nada de perigoso ali o pesadelo
deixara os nervos a flor da pele,

Tremendo e com os braços gelados Amy se moveu lentamente sobre a


cama o corpo dolorido como se ela tivesse permanecido muito tempo numa
mesma posição. Todo o sono parecia ter abandonado seu sistema, deixando
para trás sua mente repleta de susto e pensamentos caóticas.

Virando-se na cama para ficar de lado de maneira mais confortável a


garota puxou o edredom que havia jogado em seus pés sobre seus ombros, o
ato lhe trouxe um conforto quase infantil, com os olhos ainda abertos ela
deixou que seu olhar caísse do outro lado do cômodo onde parecia haver uma
sombra mais densa a sua frente. O coração dela voltou a martelar em seu
peito enquanto observava aquilo, o medo fazendo com que seu corpo reagisse
num reflexo. Ela pulou da cama ligando o pequeno abajur que estava ao lado
sobre a mesa da cabeceira, a luz dourada inundou o ambiente, fazendo com
que sombras noturnas desaparecessem num piscar de olhos.

O olhar dela estava preso na figura sentada do outro lado do cômodo


sentada no chão com as costas encostadas da parede. Com a cabeça baixa e as
pernas estendidas Amy não precisava ver seu rosto para saber quem ele era, a
presença dele apenas alguns metros dela era o suficiente para fazer
completamente ciente daquela realidade.

- Cézare...?

O nome dele parecia estranho em sua boca como algo dito em outra
língua como um objeto sem forma física. Ele usava um terno escuro a gravata
num tom de vinho quase purpura pendia frouxa sobre o colarinho, o corpo
dele mantinha uma postura relaxada o rosto virado para o chão os cabelos
caindo em ondas contra sua testa.

- Cézare o que você está fazendo?

A voz dela soou frágil no silêncio noturno a frase pairando sobre o


silêncio fazendo com que o medo ainda presente do pesadelo que ela estivera
tendo apenas alguns minutos atrás escorresse por suas veias como veneno.

Havia algo na postura estática dele, no jeito que ele continuava sem
responder que deixou o coração batendo de maneira dolorosa em seu peito.
Ela não sabia o que fazer, ou mesmo pensar. Uma parte em seu cérebro se
perguntou se aquilo simplesmente não era só mais um pesadelo promovido
por seu subconsciente torturado.
Os minutos se arrastaram sua respiração descompassada soando muito
alto em seus ouvidos. Sem ter ideia do que estava fazendo, ela se levantou da
cama incapaz de desviar sua atenção da figura a sua frente.

Ele estaria ferido...Podia estar morto?

A dúvida estourou em sua mente com um impacto assustador, sua atenção


se deslocando para o centro de seu peito. Aquilo era um movimento? Ele
estava respirando.

Cada passo que ela dava em sua direção parecia mais difícil enquanto a
distância se encurtava entre eles; uma parte dela queria voltar para aquela
cama que não era sua cobrir sua cabeça com o edredom que não lhe pertencia
e fingir que nada daquilo estava acontecendo, mas ela simplesmente deu o
próximo passo e mais outro com uma coragem que ela não era capaz de
compreender ou mesmo saber de onde estava vindo. Com todo cuidado ela se
agachou diante dele, seus olhos percorrendo cada detalhe tentando
compreender o que estava acontecendo.

Amy não sabia dizer quando havia decidido que iria toca-lo. A própria
escolha parecia algo completamente estranho em sua mente, algo que ela não
deveria fazer de vontade própria, mas incrédula ela observou sua mão direita
se erguendo muito pálida contra o tom escuro de seu terno tocando-o no
ombro com cautela.

- Cézare – chamou a garota mais uma vez, o som de sua própria voz
soando estranha em seus ouvidos – Você está bem?

Ela pode sentir o tremor sob as palmas de sua mão, o tipo que era causado
quando alguém respirava profundamente. O terno dele estava gelado sob seu
toque, mas ela podia sentir a firmeza debaixo do tecido os músculos
ondulando sob seu contato.

Lentamente como se estivesse despertando de um sono muito pesado


Cézare ergueu sua cabeça, o rosto muito pálido na fraca claridade noturna.
Por um momento ele pareceu confuso, como se não soubesse onde estava, ou
quem havia o chamado, então ele virou o rosto em sua direção deixando que
ela pudesse enxerga-lo por completo e Amy sentiu sua respiração ficar presa
em sua garganta, horror a atingindo por completo.

Uma gota de sangue escorreu por seu rosto trilhando o caminho de sua
mandíbula pingando em sua calça.

Amy ergueu o olhar horror puro gelando suas entranhas, enquanto


lentamente a percepção do que acontecera com Cézare alcançava seus
sentidos. As antigas cicatrizes que cortavam seu rosto trilhando todo um
caminho estavam brancas como teias de aranha em sua face dourada, uma das
mechas de seu cabelo que caia sobre sua testa tinha as pontas mergulhadas no
sangue e colada contra sua pele.

Com o estômago completamente sensível ela observou ali em cima sobre


sua sobrancelha o começo do talho que ele sofrera. Descendo por sua
pálpebra como se alguém tivesse rasgado sua pele com força, o corte
atravessava seu olho esquerdo até alcançar o alto de sua bochecha. Uma visão
grotesca que deixava calafrios correrem por seus braços.

Ela não conseguia entender como ele não parecei estar sofrendo, o rosto
relaxado os olhos quase vidrados fixos num ponto que ela não era capaz de
enxergar como se a dor daquele corte não lhe incomodasse de forma
alguma.

Os joelhos dela tremeram pela falta de movimento, uma parte dela


desejava se aproximar dele tocar seu rosto, sentir a consistência pegajosa do
sangue na ponta de seus dedos. Aquilo realmente estava acontecendo? Ou
toda aquela cena nada mais era do que um pesadelo produzido por sua mente
atormentada?

O sangue num tom quase carmesim escorreu de sua ferida escorrendo por
seu olho, com todo cuidado Cézare piscou lentamente e por um momento
Amy teve a impressão que ele estava chorando uma lágrima vermelha.

-Cézare - disse ela mais uma vez suas mãos agora repousando
delicadamente na parte limpa de seu rosto, fazendo com que ele prendesse
seu olhar ao dela – O que aconteceu? Você está sangrando, precisa de
ajuda...
-Não... eu estou bem.

-Você não pode estar falando sério, há um corte no meio do seu rosto e
parece muito profundo você precisa de pontos, ir a um hospital.

-Eu não posso – respondeu ele o tom de sua voz pairando muito suave
contra a negrume da noite...

Confusão, raiva, e mais outros sentimentos que ela não era capaz de
compreender completamente se agitaram em seu interior. Uma parte dela
queria deixa-lo ali sentado e sangrando no chão, enquanto ela encontrava
uma maneira de escapar, mas o sangue continuava escorrendo por seu rosto
deixando uma visão macabra marcada em suas feições, e embora ela não
quisesse admitir ou mesmo pensar no que faria a preocupação agitou suas
entranhas, mas todos esses pensamentos foram varridos para a parte mais
distante de sua mente, quando a mão de Cézare pousou sobre a sua que
segurava uma de suas faces.

-Essa é a primeira vez que você me toca de livre e espontânea vontade –


disse ele, o olho dourado direito fixo e muito atento em seu rosto – A
sensação é tão boa... Quase me faz esquecer a dor.

-Você não está dizendo coisa com coisa – respondeu Amy, forçando sua
mão a se libertar do seu toque. A sensação da pele dele contra a sua era muito
convidativa, perigosa o suficiente para que ela se esquecesse que não deveria
desejar toca-lo.

-Não... Por favor, me deixe continuar assim por mais alguns minutos... -
pediu ele quase gentilmente.

Amy não queria lhe conceder aquele desejo, a raiva que ela sentia ainda
era algo muito intenso pairando nas paredes de seu coração, e mesmo assim
ela cessou qualquer esforço de se libertar deixando que a mão dele sobre a
sua sentisse a textura de sua pele, o toque cálido escorrendo por seu braço
deixando-a muito alerta a respeito da proximidade deles.

O silêncio no quarto pareceu se expandir, até que ela estivesse


completamente ciente dos pequenos ruídos que a respiração de ambos
produzia. Lá fora não muito distante o grito de uma coruja varou a noite,
dando-lhe uma sensação de distanciamento, como se ambos estivessem muito
longe de qualquer tipo de civilização.

-Cézare, me escute – pediu a garota tentando colocar seus pensamentos


numa ordem racional, enquanto buscava encontrar uma maneira de controlar
aquela situação bizarra - Você precisa ir a um hospital sua ferida...

-Você gosta de me dar ordens- respondeu o mafioso italiano, enquanto


fechava os olhos e se recostava com mais tranquilidade na parede em suas
costas, como se estivesse buscando uma posição mais confortável – Eu nunca
gostei de receber ordens de ninguém, mas por algum motivo não me importo
quando são suas.

-Isso é ótimo então me obedeça, levante essa bunda do chão é vá para


algum maldito hospital italiano. Tenho certeza que você consegue, afinal de
contas conseguiu de alguma forma chegar até aqui.

-Eu não preciso de um hospital... Pietro não seria idiota o suficiente de


me machucar desse jeito...

Amy sentiu a mão que ela havia repousado sobre a face de Cézare se
tornar gélida, enquanto um sentimento de desconforto rastejava em sua
barriga como uma cobra.

-Pietro? Por que seu irmão faria algo assim?

As perguntas dela pairaram no ar pesadas e densas, da pequena distância


que os separava ela observou como o olhar dele se tornou mais firme, as
sombras encobrindo o dourado. A atenção dela recaiu novamente sobre o
machucado em sua face, o rasgo que cruzava seu olho, ela não havia notado
antes, mas até mesmo a pele frágil de sua pálpebra havia sido machucada, em
silêncio ela se perguntou se de alguma forma seu olho ou mesmo sua visão
não haviam sido permanentemente feridos.

-Por sua causa – respondeu Cézare lentamente quase como se não tivesse
plena certeza se realmente aquilo era algo que ela deveria contar a ele – Ele
estava me punindo, porque eu disse que queria ficar com você, mesmo
sabendo da sua sentença.

As pernas dela falharam, os joelhos cedendo sobre seu peso obrigando-a a


se sentar à sua frente. O chão sob suas pernas era gelado, mas não se
comparava ao frio que ela sentia rastejar por seu coração, enregelando seus
membros, congelando sua expressão de incredulidade.

-Não me olhe desse jeito – pediu Cézare desviando seu olhar, o toque
sobre sua mão que ela quase esquecera tornando-se mais firme, real contra
sua pele – A essa altura você já deveria estar acostumada com a selvageria do
meu mundo.

-Por que? - perguntou ela num sussurro de voz, embora no fundo Amy
soubesse que talvez não fosse capaz de encarar aquela realidade – Por que
você... Como?

-Pietro é o Capo da minha família. Sua palavra é a lei. Seis meses atrás
ele decretou sua morte, porque seu irmão havia o roubado. Eu deveria ter te
matado naquela época, mas não consegui... Você fugiu e bem você sabe onde
estamos agora.

-Ele queria que você tivesse me matado quando me encontrou? -


perguntou Amy, o medo deixando suas palavras frágeis e quebradiças.

-Eu mesmo havia prometido matá-la depois do que você me fez Amy...
Mas, não consegui de novo – um sorriso sarcástico brincou nos lábios de
Cézare, deixando sua expressão mais ferina, afiada como uma lamina. Aquela
era a primeira vez que ela o via sorrir, embora não houvesse humor nenhum
em seu semblante. - Eu sei que isso é ridículo.... Mesmo assim eu não fui
capaz. Você não tem ideia do quanto eu desejei de encontrar de novo, mas eu
não podia ficar com você, não sem o consentimento do meu irmão.

-O corte no seu rosto, é a sua punição? Por desejar ficar comigo?

-Não - respondeu Cézare, pesar cobrindo suas feições - O corte é sua


punição.

As palavras secaram em sua boca, transformando-se em areia deixando


um gosto acre em sua língua. O sangue gelou em suas veias, enquanto os
sentimentos em seu coração pareciam comprimir seu peito fazendo com que
ele doesse de forma irritante.

Os olhos dela se desviaram novamente para seu machucado, o sangue


havia secado em sua pele criando uma casca vermelho vivo. Lentamente ela
observou Cézare abrir seu olho ferido, o dourado brilhando de forma
incandescente embaixo de todo aquele carmesim, que lhe lembrava uma
pintura de guerra.

Pietro queria que você pagasse pela humilhação que o fez passar – disse
Cézare, lentamente soltando sua mão.

-Eu só encontrei seu irmão uma única vez. Quando ele invadiu minha
casa, me agrediu e sequestrou. Eu nunca tive a oportunidade de humilha-lo.

-Você foi capaz de fugir de mim – respondeu Cézare num suspiro


cansado – Ele é meu gêmeo...E leva muito a sério a imagem que ostentamos
em nosso mundo.

Algo quente escorreu por sua bochecha, uma lágrima pingou em sua
blusa solitária e vazia exatamente como ela se sentia naquele momento.
Havia um ardor em sua garganta, mas além daquela sensação Amy não era
capaz de compreende exatamente porque estava chorando. Não sabia dizer se
era por si mesma, ou pelo homem ferido e destruído a seus pés.

-Você deixou ele te machucar dessa forma para que não tivesse de me
matar? – perguntou ela

Cézare não lhe respondeu, desviando seu olhar ele fechou ambos os
olhos, recostando a cabeça contra a parede em suas costas, parecendo
extremamente cansado.

-Me responda – pediu ela, horror e descrença cobrindo cada uma de suas
palavras.

-Não há nada pra responder. Não há um motivo complexo por trás disso.
No meu mundo a regra é simples. occhio per occhio, dente per dente .Olho
por olho, dente por dente.

Ele tinha razão, era algo completamente fácil de se compreender


assustadoramente simples, e embora não concordasse de forma alguma Amy
podia entender a lógica por trás daquele pensamento arcaico, e extremamente
cruel...Mas, por que? Por que o homem diante dela iria tão longe a ponto de
sofrer um flagelo daquele em sua própria carne apenas para salvar sua vida?

Agora que o sangue finalmente havia cessado, ela podia ter certeza que
ali Cézare exibiria uma nova cicatriz. Na verdade, agora depois do que lhe
dissera ela compreendia que aquela havia sido exatamente a intenção. Uma
humilhação, o erro que ele cometera gravado em sua pele de forma que nunca
pudesse ser apagado.

-Por que? - perguntou Amy por fim, as palavras deixando seus lábios sem
seu consentimento, a dúvida que parecia roer a sanidade em sua cabeça
ganhando voz.

-Você sabe o porquê – respondeu Cézare, o olhar ainda longe do seu -


Não precisa me perguntar isso.

-Mas eu não sei Cézare... Eu realmente não entendo.

O olhar dourado dele se desviou novamente para seu rosto se prendendo


ao seu. A parte racional em seu cérebro lhe dizia que ela não deveria estar
sentada no chão frio, enquanto conversava com um homem que tinha o rosto
parcialmente destruído. Havia uma certa loucura, uma insanidade que parecia
rodear ambos desde o primeiro momento que eles se encontraram. Nada
nunca parecia seguir algum tipo de ordem, lógica, tudo era sempre uma
bagunça no qual ela sentia-se arrastada incapaz de sustentar seus pés na
própria realidade.

-Eu te desejo Amy, a única coisa que eu quero é ter você ao meu lado.

Tristeza se alastrou por seu peito deixando sua respiração difícil, num
reflexo ela sentiu os olhos se fecharem. Não era aquilo que ela desejava
ouvir...Não era absolutamente nada daquilo.
Pesar e culpa cresceram dentro dela deixando um gosto acre na ponta de
sua língua, enquanto uma parte dela sentia uma completa tola por deixar
aqueles sentimentos criarem raízes em seu peito. Cézare não era um homem
que merecia sua pena, seu remorso não depois de tudo o que ele havia feito
ela passar.

-Eu não queria que as coisas tivessem chegado a esse ponto. Nunca quis
isso.

As palavras dela fluíram de seus lábios tão frágeis quanto significavam.


Os olhos dourados de Cézare estavam fixos em seu rosto, afiados como uma
navalha. Ela conhecia o brilho de persistência por trás deles, a audácia de
quem não admitia se arrepender de nada.

Não era aquilo o que ele desejava ouvir, e ela sabia disso talvez fosse
exatamente por esse motivo que dissera. Estava cansada daquele homem e
das atitudes que ela não era capaz de prever compreender muito menos
aceitar.

Amy sabia que não podia entregar aquilo o que ele buscava ali a seu lado.
O preço era caro demais, engolindo em seco a garota virou seu rosto,
deixando que ele se transformasse em pedra, enquanto tentava se levantar dali
e colocar uma distância entre ela e o mafioso italiano.

A mão dele pousou como um raio sobre seu ombro, desequilibrando-a o


corpo dela foi envolvido por seus braços rodeando sua cintura, o calor dele
irradiando em suas costas, sua proximidade algo solido e quase irresistível
aos seus sentidos.

O fôlego havia ficado preso em sua garganta, as palavras desaparecidas


dentro de sua mente vazia. Uma mecha do cabelo dele roçou em seu pescoço,
de maneira tão leve que lhe provocou um calafrio. Tantos meses depois,
tantas coisas que haviam se acumulado entre eles e mesmo assim havia uma
parte dela que ainda sentia-se completamente exposta e sedenta pelo contato
quando se tratava de Cézare.

Fechando os olhos Amy sentiu as pontas de suas unhas apertarem as


palmas de suas mãos, buscando qualquer controle que pudesse ter sobrado na
parte racional de seu cérebro. Nos últimos meses a solidão havia lhe corroído
viva, fugindo desesperada sem contar com a ajuda de ninguém ela passara
noites insones em seu quarto desejando uma outra presença alguém que
pudesse olhar em seu rosto e realmente enxerga-la. Ela havia se exibido,
dançando para plateias em troca de dinheiro, mas nenhuma vez embora
ansiasse quase que desesperadamente por companhia havia levado um
homem para seu quarto. A última pessoa que havia lhe tocado, a abraçado
daquela maneira havia sido o mesmo homem que quase a destruirá, e isso era
algo que ela simplesmente não era capaz de compreender.

- Me solte – pediu Amy, sua voz tremendo de raiva e algo mais primitivo.

- Eu já irei solta-la... Apenas me deixe ficar assim por mais alguns


instantes. Senti-la aqui perto de mim.

Ela não queria ceder nada aquele homem, até mesmo aquele pequeno
contato roubado que de certa forma ela ainda era capaz de apreciar era uma
afronta que lhe enchia de raiva. Ele não tinha o direito de trata-la daquela
forma. Destruir sua vida e depois simplesmente procura-la por conforto.

Reunindo o que sobrara de sua coragem ela juntou forças em seu braço,
tentando livrar-se dele a força, mas não foi preciso, os braços do mafioso
italiano a soltaram como se de repente ele também não fosse mais capaz de
suportar sua presença, como se o próprio contato entre eles queimasse.
Olhando por cima dos ombros completamente confusa a garota observou
Cézare deixar seu quarto, passos apressados deixando para trás apenas
algumas gotas de sangue respingadas no chão de madeira, enquanto trancava
a porta a sua frente com um baque surdo.

As perguntas se acumularam em sua cabeça dúvidas que se infiltraram


por sua mente como ervas daninhas persistentes. Sem saber o que fazer diante
do que havia acabado de acontecer, a garota voltou para sua cama, o calor do
seu corpo já deixara os lençóis e ela rolou várias vezes sobre o colchão até
finalmente encontrar uma posição mais confortável mesmo assim o sono
permaneceu longe dali.
Capítulo Dez

As vezes ele simplesmente não era capaz de acreditar em seus olhos.


Mesmo agora enquanto ele a observava em silêncio do outro lado da mesa
bebendo seu suco de laranja havia uma parte dele que ainda achava que tudo
aquilo não passava de um sonho.

Cézare abaixou o celular em suas mãos, por um momento permitindo se


esquecer dos vários assuntos de trabalho que ele era responsável, e deixou
que sua atenção ficasse toda focada na garota a sua frente.

As cores haviam voltado a seu rosto, o vermelho saudável colorindo suas


bochechas, os olhos dela pareciam mais límpidos e azuis exatamente como
em suas lembranças, e lentamente as olheiras escuras que ela exibia
começavam a desaparecer de seu rosto.

Apenas uma semana havia se passado desde que ele finalmente havia sido
capaz de reencontra-la, e na maior parte desse tempo a rotina entre eles era
confusa e um pouco caótica, mas ao menos agora ele não era mais obrigado a
força-la a comer com algum tipo de ameaça.

Ele sabia que ela não gostava de sentar-se à mesa enquanto ele estava
presente, na maior parte do tempo ela continuava o ignorando deixando sua
atenção focada no prato a sua frente, ou no quadro pendurado atrás de suas
costas. No começo ele havia pensado seriamente em despedaçar o maldito em
milhares de pedaços para que ela fosse capaz de olhar em seu rosto uma
única vez que fosse, mas ele sabia que o mais provável seria que ela
mantivesse seu foco na parede atrás de suas costas, qualquer coisa que não a
obrigasse a olhar em sua direção.

Agora ela continuava com seu tratado silencioso, ignorando-o de


proposito como se ele não estivesse sentado bem a sua frente. A atenção dele
estava completamente voltada para ela, mesmo assim ela não havia erguido
seu olhar uma única vez que fosse, e ele sabia que Amy estava mais do que
disposto a vencer aquele pequeno jogo mais uma vez. Ela não queria estar ali,
não queria sentar em sua presença, e quando era forçada ela havia aprendido
a combate-lo de alguma maneira.

Contendo um suspiro parcialmente irritado o mafioso italiano observou a


garota a sua frente engolir mais um pedaço de panquecas, e morangos ao
menos ele deveria se sentir mais aliviado que agora ela comia livremente, as
feições dela ainda não haviam recuperado por completo o peso que ela
perdera, mas aquilo era algo que ele pretendia remediar o mais breve
possível. A imagem de suas bochechas fundas e dos ossos saltados em sua
clavícula em suas lembranças eram o suficiente para enviar uma onda de fúria
cega correndo por suas veias.

Sem lançar um único olhar em sua direção, ela empurrou o prato a sua
frente enquanto estendia os dedos em direção ao jornal em sua língua que ele
sempre fazia questão de trazer para ela. Nas primeiras vezes ela havia
simplesmente rejeitado aquele gesto, como se quisesse deixar bem claro que
não aceitaria nenhum tipo de aproximação da parte dele, mas ele também
sabia ser insistente quando era preciso. No fundo ele tinha consciência que o
desejo dela era de se levantar daquela mesa e se esconder novamente em seu
quarto até que finalmente ele tivesse saído da casa e ela não fazia isso porque
ele não permitia... Embora no fundo Cézare soubesse que ela aproveitava
cada segundo daqueles momentos compartilhados entre eles para estuda-lo,
estudar o lugar onde ela estava buscando uma maneira uma resposta para sair
dali. Tudo estava completamente nítido na forma que os olhos azuis dela se
desviavam para as janelas que ficavam atrás de suas costas, ou para a porta
que dava acesso a cozinha. Aquela garota ainda estava buscando uma
maneira de escapar.

Um raio de sol matutino se infiltrou pela janela atrás dela banhando suas
madeixas de dourado. Lentamente ela colocou um cacho mais curto atrás de
sua orelha enquanto seus olhos percorriam as linhas e palavras diante dela
completamente focada.

O desejo de toca-lo por um momento quase sobrepujou seu bom senso.


Isso sempre acontecia quando estava perto dela, aquela atração incontrolável
e desconhecida. Ele simplesmente poderia continuar ali sentado por horas
observando-a e continuaria completamente entretido.
Nos últimos meses Cézare havia tentando compreender a garota sentado a
sua frente. O fascínio que ela havia despertado nele que era algo
completamente inédito. Ele nunca havia sentido nada remotamente parecido
com aquilo, e mesmo depois de todos aqueles meses ele ainda se debatia
desconfortável a respeito dos sentimentos que ela despertava em seu peito.

Uma parte dele já havia a odiado, outra ainda se ressentia pela traição de
sua confiança, ele poderia fazer uma lista quase que infinita, que apenas
serviria apenas para deixa-lo mais confuso e mesmo assim no final de tudo
quando podia sentar ao lado dela e apreciar uma simples refeição Cézare não
conseguia explicar o motivo pelo qual aquilo parecia algo tão certo.

Como um soldado, apenas mais um peão nos esquemas de sua família


particularmente ele nunca se interessara por nada com profundidade.
Assumira o papel como carrasco do clã Fonezi e isso havia feito ele se
transformar numa pessoa sem remorso, ou mesmo consciência disposto a
qualquer coisa sem se importar com as consequências disso. Até conhecer
Amy ele julgara ter sua vida completamente sobre seu controle, ela não iria
passar de apenas mais um trabalho, mas naquela época ele jamais poderia
imaginar o quão errado ele estivera.

Desde que ela fugira do seu alcance, tudo o que fizera até aquele
momento havia sido para encontrá-la. Usando todo o conhecimento, o poder
e a influência de sua família ele havia tentando encontrar respostas para as
milhares de perguntas que haviam se acumulado em sua mente a respeito
daquela mulher.

Quem era Amy de verdade? O que a motivava? Quais eram seus sonhos,
seus desejos? Guiado por uma curiosidade quase mórbida, Cézare havia
comprado a casa que ela estava alugando, no momento que seu irmão a
sequestrara. Quando as migalhas a respeito de seu paradeiro eram infrutíferas
ou ele se deparava com um beco sem saída, Cézare mais de uma vez havia
voltado para aquele lugar, buscando ali alguma pista qualquer coisa que
pudesse trazer alguma clareza a seu respeito, e pôr fim ao menos conseguir a
mais ínfima sensação de proximidade.

Cada pequeno canto da casa que ela habitara estava vividamente marcado
em suas lembranças. Ele observara cada pequeno canto, buscando ali juntas
os pedaços que eram o quebra-cabeça da garota a sua frente. E embora
naquela época a raiva que sentia por ela ainda estivesse muito vivida, ele não
podia negar cada pequena descoberta o deixava mais interessado a seu
respeito.

Ele descobrira que ela havia começado a faculdade, mas nunca fora capaz
de terminar. Ela ainda guardava os boletos junto com uma carta a um de seus
professores pedindo para que ela pudesse ao menos terminar o semestre que
jamais havia sido enviada.

Em seu quarto pequeno e limpo, Cézare havia notado uma certa


organização, embora tudo ao seu redor há muito tempo tivesse tido uma
aparência bonita ou mesmo apresentável. Todo o dinheiro que ela ganhava
era usado para pagar a dívida de seu irmão. Dentro do seu guarda-roupa ele
não encontrara uma única roupa ou sapato que não tivesse uma aparência
gasta. Mesmo dentro de sua casa, ela continuava agindo como uma pessoa
que constantemente se anulava, como se seus desejos não tivessem
importância e pudessem serem colocados em segundo plano. Por algum
motivo que não era capaz de compreender aquilo era algo que o irritava
profundamente.

As fotos dela que ele encontrara guardadas numa caixa de sapato em uma
de suas gavetas haviam sido a parte mais interessante que ele explorara. Com
cuidado ele observara uma por uma tentando entender o contexto por trás de
cada uma daquelas imagens. Havia fotos dela no jardim de infância, uma
sorridente garotinha duas tranças ao lado de seu rosto num sorriso de dentes
faltando. Em outras ela estava brincando, jogando bola, usando sapatilhas de
balé enquanto dançava já adolescente. Não havia ali nenhuma história que o
ajudasse a compreender quem era a garota naquelas fotos, e enquanto ela
permanecia distante as dúvidas apenas o atormentavam sem resposta.

Os olhos dele se ergueram novamente encarando-a a sua frente, deixando


para trás as memorias em sua cabeça. Ela estava ali agora tão real quanto a
luz que entrava pelas janelas e aquecia o cômodo. Uma parte dele sabia que
ele poderia levantar-se dali e tocar seu rosto, deixar que seu toque demorasse
em seus cabelos curtos até que cada uma daquelas sensações estivesse
gravada em seu cérebro. Seria algo extremamente fácil quase simples. Ela
não poderia resistir, estava em sua casa numa propriedade que pertencia a sua
família. Não havia a menor possibilidade dela escapar desse lugar. Não havia
como ela resistir a ele, e esse era o exato motivo pelo qual ela não era capaz
de se levantar daquela cadeira.

Cézare ainda não sabia o que desejava daquela garota. Algumas semanas
atrás se alguém lhe perguntasse a resposta teria chegado rápido até sua
língua. Ela havia o traído o enganado, desejava matá-la e acabar logo com
isso, mas então por que simplesmente ele não era capaz disso? Frustração
nadou em sua mente, durante os últimos meses estivera tão determinado a
encontra-la, que simplesmente não havia planejado nas consequências
daquilo. Por algum motivo que ele não era capaz de compreender, sabia que
não seria capaz de machuca-la, ao mesmo tempo que não suportava manter
aquela mulher longe dele. Uma contradição da qual ele não achava que fosse
capaz de escapar.

- Vão trazer uma cama mais tarde para colocar em seu quarto – disse
Cézara tentando esvaziar os pensamentos que rodeavam sua mente, enquanto
preenchia o silêncio entre eles de alguma maneira.

- Eu não preciso de uma cama maior – respondeu Amy sem lançar um


único olhar em sua direção. – Há que existe no meu quarto ou melhor
dizendo cela é boa o suficiente.

- Aquela cama não cabe nos dois.

Pela primeira vez desde que entrara ali, os olhos dela se encontraram com
o seu, azul faiscando de forma elétrica, ele quase podia sentir a raiva dela
tocando sua pele.

- Eu não vou dormir com você Cézare. Espero que você entenda isso de
uma vez por todas.

Havia algo no jeito que ela dizia seu nome que sempre o pegava de forma
desprevenida. Ele não sabia o motivo, mas não era capaz de controlar a
estranha emoção que parecia preencher seu corpo. Ela costumava evitar olhar
em sua direção, mas quando fazia ele sentia como se ela realmente pudesse
enxerga-lo por completo.
Não tinha certeza se isso era algo bom ou negativo, mas sabia que era
real. Quando Amy o olhava daquela maneira, ela realmente estava o
enxergando. Ao seu redor as pessoas costumavam apenas enxerga-lo pelo seu
título, sua posição na máfia seu sobrenome. Ele não era apenas Cézare Fonezi
ele era o carrasco de sua família, o homem negligenciado pelo seu dever, de
certa forma nem mesmo ele era capaz de saber que tipo de homem ele era,
mas quando aquela mulher o olhava de frente encarando-o profundamente
com seus olhos azuis que pareciam ser infinitos, era como se ela soubesse a
resposta, mas apenas não estivesse disposta a entrega-lo. Ela podia enxergar,
além de seu nome, sua alcunha, suas cicatrizes.

Era estranhamente fascinante.

- Eu não vou força-la a nada, se esse é seu medo – respondeu ele,


enquanto seus dedos tocavam a xicara de café quase vazio a sua frente – mas,
eu pretendo me mudar para essa casa, e você sabe muito bem que só há um
quarto, então teremos de dividi-lo e eu quero fazer isso da maneira mais
confortável possível.

- Não há nada de confortável em dividir uma cama com você. Arranje


outro lugar, me prenda em alguma outra casa com mais cômodos. Não me
interessa eu apenas não vou fazer isso.

- Você sabe que isso não é possível. – respondeu ele desviando seu
próprio olhar. Algo que ele aprendera que a irritava profundamente.

O silêncio entre eles pareceu vibrar ele podia sentir o peso da atenção
dela voltada em sua direção, quase como se fosse algo físico. Durante o
pequeno período em que ela estivera ao seu lado, ele aprendera que Amy era
teimosa e cabeça quente, características que seriam um verdadeiro desastre
para maioria das pessoas, mas debaixo daquilo havia uma perseverança de
ferro. Ela podia estar em silêncio agora, mas ela sabia muito bem que ela não
iria deixar aquela questão de lado. De alguma forma ela encontraria uma
maneira de mostrar o quão insatisfeita estava com aquela situação.

- Então é isso o que vamos fazer? – perguntou ela de maneira irritadiça


enquanto cruzava os braços diante de seu corpo. – Vamos os dois ficar aqui,
vivendo como se fossemos um casal, exceto pelo fato de que na verdade você
está me mantendo em cativeiro.

- É exatamente isso que vamos fazer.

Cézare deixou que o silêncio entre eles se estendesse novamente,


deixando que os pensamentos em sua cabeça ficassem de repente muito alto.
Ele sabia que estava pressionando enquanto dizia aquelas coisas, mas ela
havia o acusado de trai-la de tentar engana-la de alguma maneira. Tinha
certeza que não era aquilo que Amy esperava escutar, mas aquela era a única
verdade que ele tinha pra lhe oferecer naquele momento.

Lentamente ela se levantou deixando o guardanapo de lindo branco sobre


a mesa, seus movimentos pareciam ensaiados, tensos como a corda de um
arco retesado. Ele sabia muito bem que ela estava se controlando com todas
suas forças, para simplesmente não explodir naquele momento, ele admirava
sua tenacidade, a capacidade que ela tinha em conseguir manter sua
dignidade.

- Você diz isso agora Cézare, acha que o que está fazendo não é nada
demais, mas o que vai acontecer quando você se cansar desse teatro?

- Eu não vou...

- Você vai – respondeu a garota o interrompendo, os olhos azuis


dardejando em sua direção – Sabe por que? Eu simplesmente não posso dar
aquilo que você deseja.

As palavras dela tinham um tom final decisivo, e antes que ele fosse
capaz de compreender seu significado, Cézare observou ela se afastar dali,
logo em seguida ele pode ouvir a porta de seu quarto se fechando com um
baque surdo.

Lentamente ele soltou o aperto firme que estivera segurando de seus


punhos, recuperando o movimento de suas mãos, a tensão havia deixado suas
costas doloridas.

Recostando-se em sua cadeira, Cézare repassou novamente o que ela lhe


dissera em sua mente, até que cada palavra estivesse gravada em seu cérebro
enquanto ele buscava compreender o significado delas.

O que ele desejava dela? O que ela não poderia lhe entregar?

Confusão e raiva se espalharam por seu peito, sentimentos tão conhecidos


que por um momento ele mal pode distingui-los. Levantando-se enquanto
vestia seu terno negro, o mafioso italiano resolveu empurrar todos aqueles
pensamentos para parte mais distante de sua mente.

Ele tinha tempo para descobrir o que realmente desejava de Amy, e se um


dia ele realmente chegasse a encontrar essa resposta, então tinha certeza que
seria capaz de tomar isso dela.

Tudo era uma questão de tempo, a única coisa que ele precisava fazer era
mantê-la a seu lado. Mesmo que no fim das contas ela não quisesse isso.
Capítulo Onze
Os dias se arrastaram por Amy de forma quase indistinta, uma repetição
de horas continuas que na maior parte do tempo eram iguais umas às outras.

Até aquele momento ela não tinha notado o quão cansada os últimos
meses haviam a deixado, mas o preço de sua fadiga quase crônica era
cobrado em seu corpo. Embora quando tivesse chegado ali a última coisa que
ela pensara era em seu acostumar com aquela situação, com o passar do
tempo, enquanto dormia em sua cama aconchegante e se alimentava
religiosamente pela insistência de Cézare lentamente os dias passavam por
ela.

A adrenalina e o medo de toda a perseguição que ela passara haviam


ficado para trás, e mesmo com seus pensamentos ainda agitados em sua
mente, Amy havia conseguido se acalmar o suficiente enquanto tentava
entender a situação que se encontrava.

A casa onde se encontrava presa não era grande, paredes altas e num tom
bege nada chamativo rodeavam por todos os lados, os três cômodos sendo
uma cozinha uma sala e um quarto, eram precariamente mobiliados, contendo
apenas o mínimo para que o lugar fosse funcional, embora lentamente ela
percebesse que aquilo estivesse se modificando. Quase todos os dias algo
chegava até ali, trazido principalmente por Giorgina ou Cézare. A imensa e
moderna televisão que enfeitava a sala naquele momento, assim como o sofá
novo eram as mais recentes aquisições. Antes disso uma mesa de jantar
simples de madeira branca havia sido entregue na cozinha, e a partir de então
Cézare havia a obrigado a estar ali com ele em todas as refeições em que ele
estava presente.

Num primeiro momento ela havia se recusado, estando em cárcere


privado a última coisa que ela pretendia era fazer uma encenação de uma
convivência pacifica. Irritada ela se mantivera em seu quarto, até Cézare
agarra-la enquanto a jogava por cima de seu ombro e fazer ela sentar-se a sua
frente, enquanto ele tomava seu café da manhã.
O homem era um completo insano... Uma causa perdida.

Desde a noite em que ela havia o encontrado em seu quarto sangrando, as


interações entre eles haviam se tornado mais distantes e superficiais. Durante
o dia, ele desaparecia por completo deixando-a trancada ali dentro em
nenhum contato com o mundo interior, tirando as ocasionais visitas de
Giorgina que na maior parte do tempo não passavam de uma tremenda dor de
cabeça. Ela não sabia onde ele ia, nem mesmo o que acontecia com ele
quando estava distante. Sabia que ele deveria estar lidando com assuntos
ligados à máfia, por isso uma parte dela sempre torcia para que ele nunca
retornasse aquela casa, enquanto sua outra metade talvez a parte racional que
sobrara sabia que se aquilo acontecesse então talvez ela estivesse numa
situação muito mais perigosa do que se encontrava agora.

Amy sabia que não podia confiar no mafioso italiano, ele era irracional,
teimoso, violento sem levar em conta o fato de ser seu sequestrador. Mas, o
medo que ela sentira quando ele havia a encontrado agora não passava de
uma sombra que rondava as bases de seu coração. Ele não havia a machucado
desde que a encontrara, e embora aquilo a confundisse por completo uma
parte dela que muito provavelmente estava enganada acreditava que ele não
seria capaz daquilo.

Deitando de costas em sua cama, a garota encarou o teto vazio acima de


sua cabeça, o tedio se arrastava por ela deixando seus membros cansados
enquanto os pensamentos se agitavam com velocidade em sua mente. Ela
sabia que poderia sair dali sentar-se no sofá e ligar a televisão nova. Cézare
deixara bem claro na noite anterior que qualquer coisa dentro daquela casa
poderia ser usado por ela livremente. Ele chagara ao cumulo do absurdo de
dizer que todas aquelas coisas eram para ela. Para seu conforto... Claro, como
se realmente ele pudesse enfeitar sua gaiola dourada, e ela perdesse por
completo o desejo de sair dali.

A mão dela cobriu seu rosto frustação pura e simples latejando em seu
peito. Era inútil tentar conversar com ele, tentar fazer com que ele
compreendesse o quão insano era aquela situação. Cézare parecia não se
importar nem um pouco pelo fato de mantê-la ali contra sua vontade... Ele
simplesmente queria estar ao seu lado.
O coração dela bateu descompassado em seu peito, fazendo com que ela
se sentisse uma idiota. Pensar em Cézare era sempre perigoso embora de
certa forma fosse algo que ela não conseguisse evitar por completo. Da
mesma forma como não conseguira deixar de se preocupar quando o
encontrara sentado no chão de seu quarto sangrando. Amy sabia que aqueles
eram sentimentos inúteis e colocados em lugares completamente errados, e
embora ela soubesse disso tudo, também se odiava por não ser capaz de se
impedir de sentir-se dessa forma.

Tinha consciência que a atração que antes existira entre eles continuava
ali... Ela podia observar na forma como ele lançava olhares em sua direção
embora nunca fizesse nada mais além disso. O desejo era quase tangível,
palpável fazendo com que uma corrente elétrica percorresse seu corpo. Uma
parte dela se culpava por isso. Havia sido ela que cruzara meses atrás a linha
que os separava, aproximando-se dele com intenções equivocadas, naquela
época ela acreditara ser capaz de controlar aqueles sentimentos, decidira que
iria usar a atração que via nos olhos do mafioso italiano a seu favor, naquela
época aquele parecia ser o pensamento mais acertado, o único caminho que
lhe sobrara percorrer para se livrar de suas garras, mas em nenhum momento
ela podia ter imaginado se tornar algo de sua própria armadilha.

A aproximação de Cézare era perigosa, principalmente porque dessa vez


ela podia enxergar a sutileza por trás de suas ações. Embora ele estivesse
forçando-a a permanecer ao seu lado tudo era feito com muita tranquilidade,
uma camada de verniz que parecia deixar tudo com uma aparência de
normalidade. Existia um apelo por trás e tudo aquilo, algo que ela
simplesmente não podia ignorar.

A casa onde ela estava embora se mantivesse trancada era segura, limpa
tranquila e extremamente confortável, algo que não se assemelhava em nada
as lembranças de sua própria casa, ou mesmo sua vida em Nova York. Ali ela
podia permanecer tranquilamente, não precisava mais dormir durante o dia
enquanto suas noites eram preenchidas por horas e mais horas de trabalhos
mal remunerados na boate. Não precisava ao fim do mês se preocupar com
cada pequeno centavo, se perguntando constantemente se o que havia
recebido seria o suficiente para pagar suas contas e as do irmão. De forma
implícita lentamente Cézare estava lhe mostrando que enquanto ela estivesse
disposta a permanecer ao lado dele, então ela teria um lugar tranquilo para
viver, seus desejos seriam concedidos no quesito material, e todas as antigas
preocupações que rodeavam sua cabeça poderiam simplesmente serem
esquecidas.

Era algo muito bom para ser verdade, e Amy sabia disso muito bem. Por
que tudo aquilo o que ele tinha pra lhe oferecer não passava de uma mentira,
um suborno extremamente bem arquitetado para que ela se esquecesse que
tudo aquilo tinha um preço. Sua liberdade.

Não importava que em comparação com sua vida anterior, tudo aquilo lhe
parecesse mais atraente, melhor porque nada daquilo viera por sua livre e
espontânea vontade. Ela não havia pedido para ser trazida até ali, e embora
Cézare acreditasse que tudo aquilo poderia ser melhor para ela, a irritava
profundamente que em nenhum momento ele levasse em consideração sua
opinião, ou seus desejos. Ele estava errado e aquilo era algo que Amy não era
capaz de esquecer.

O som de passos no corredor chamou sua atenção, erguendo-se em seus


cotovelos Amy deixou que seu olhar recaísse sobre sua porta enquanto
Giorgina praticamente invadia seu quarto os braços cheios de sacola, saltos
altíssimos e um elegante óculos escuros escondendo seu rosto.

- Levante-se ragazza – disse a italiana sua voz soando alegre e cheia de


confiança – Você acabou de ganhar uma reforma completa no seu quarto.

Sem um pingo de paciência para a mulher, Amy deitou-se novamente em


sua cama, ignorando-a por completo.

- Você deve ter errado o endereço – respondeu Amy, incapaz de conter a


acidez em sua voz. Aparentemente algo que Giorgina havia se acostumado
por completo.

- Vamos levante-se eu trouxe milhares de roupas de cama diferentes, e os


garotos da loja precisam montar a mercadoria.

O pedaço de uma conversa que ela tivera com Cézare na noite anterior se
agitou em sua mente, ele dissera que iria comprar uma cama de casal para
que ambos pudessem dormir no mesmo quarto.

- Peça para eles irem embora –disse Amy, seus olhos dardejando na
direção de Giorgina que nesse momento estava mexendo nas sacolas que
apenas um minuto atrás se encontravam penduradas em seus braços – Eu não
quero uma cama de casal no meu quarto.

- Bem, então você pode ir lá fora e dizer isso aos entregadores. Mas é
melhor falar em italiano acho que eles não vão entender sua língua.

Irritada Amy levantou-se indo até onde Georgina estava, a mulher italiana
havia deixado as sacolas caídas no chão de qualquer forma, enquanto
desembrulhava os pacotes do que pareciam ser roupas de cama extremamente
caras e elegantes.

Deixando a porta aberta, ela caminhou até o corredor enquanto parecia


dar algumas ordens num italiano rápido para alguém que estava do lado de
fora. Sem entender por completo o que estava acontecendo, Amy observou
dois homens entraram em seu quarto e sem lançarem um único olhar em sua
direção começarem a desmontar sua cama de solteiro.

- O que você está fazendo? – perguntou Amy para Georgina


interceptando a mulher enquanto ela voltava para o quarto.

- Não me olhe desse jeito. Eu também só estou cumprindo ordens. Cézare


pediu para que eu comprasse uma nova cama, e é exatamente isso que eu
estou fazendo.

- Não me interessa o que aquele desgraçado quer. Esse é meu quarto, se


ele pretende me manter presa aqui é melhor deixar as coisas do meu jeito.

A atenção de Giorgina se concentrou em Amy, lentamente ela retirou os


óculos que escondiam seu olhar, havia uma espécie de desprezo mal contido
em suas feições. A primeira emoção verdadeira que ela havia enxergado no
rosto daquela mulher.

- Parece que você e Cézare ainda não conseguiram resolver suas questões.
– disse a italiana enquanto um suspiro cansado deixava seus lábios
perfeitamente maquiados – Eu entendo seu lado, realmente entendo... Mas,
não posso contrariar as ordens dele, afinal de contas ele é o irmão do Capo.
Você consegue entender meu lado também não é mesmo?

Amy sentiu os dentes rangerem em sua mandíbula enquanto ela tentava


controlar a raiva que parecia fervilhar em seu sangue. Não, definitivamente
ela não era capaz de entender o lado de Georgina, ou mesmo encontrar
qualquer tipo de coesão na situação que estava vivendo naquele momento. E
o fato daquela mulher simplesmente não dar a mínima para tudo isso
enquanto se comportava de forma irônica, era demais para que ela pudesse
relevar.

- Por que você está fazendo isso? – perguntou Amy erguendo seu tom de
voz. Os olhares dos homens que estavam montando a cama se desviaram para
ela, mas logo a atenção deles retornou ao serviço quando a atenção de
Gerogina recaiu sobre eles. Assim como o cabelereiro que ela havia
contratado aqueles eram trabalhadores que deviam ter algum tipo de
consciência quem estava os empregando.

- Você acha realmente que pode resolver qualquer tipo de problema? –


continuou Amy agora incapaz de conter a enxurrada de palavras que
pareciam estarem presas há muito tempo em sua garganta – Me explique
exatamente como isso funciona. Ele te dá uma ordem, você obedece, e ganha
alguma espécie de bônus que pode trocar em algum lugar ultra secreto da
máfia é isso?

- Eu devo admitir garota. Você tem um gênio forte, além de um humor


bastante ácido que seria divertido se você não fosse um constante pé no meu
saco.

- É claro, me desculpe – respondeu Amy cruzando os braços diante do


seu corpo – Eu deveria agradecer por ter uma cama de casal nova enquanto
sou mantida em cativeiro!

O som da voz dela assim como suas palavras ecoaram no quarto com o
coração batendo descompassadamente dentro do seu peito, ela observou os
montadores de móveis que continuavam desmontando sua antiga cama de
solteiro focarem sua atenção ainda mais em seu trabalho como se ao fazer
isso pudessem ignorar a cena de desafeto que eles estavam presenciando.

A sua frente Giorgina levantou-se com toda sua elegância deixando no


chão os lençóis e fronhas que ela estava mexendo. O olhar que ela lançou em
direção a Amy era gélido e distante, sem dizer uma única palavra ela
caminhou em sua direção segurando seu braço com um aperto que a
surpreendeu enquanto a levava para um canto mais afastado do quarto, longe
dos ouvidos dos homens presentes.

- Você realmente quer saber minha opinião em tudo isso? – sibilou


Giorgina em sua direção

As unhas finas e compridas cortaram sua pele, o aperto de Giorgina como


aço mantendo-a fixo em seu lugar. Sabendo que a mulher tentava apenas
intimida-la, Amy ergueu seu queixo e deixou que ela a julgasse por
completo.

Não se importava nem um pouco no que ela pensava a seu respeito, não
estava ali para criar nenhum tipo de laço de amizade, e simplesmente se
recusava a deixar que aquela mulher que não se importava de forma alguma
com ela simplesmente organizasse sua vida.

- Você está reclamando da sua nova cama – continuou Giorgina lançando


lhe um olhar repleto de asco – Não está feliz com sua situação, isso só mostra
o quão você é uma má agradecida. Você deveria calar sua boca e aceitar
qualquer coisa de Cézare, de dependesse do resto da família, nesse momento
você teria uma bala cravada no meio do seu cérebro.

As palavras de Giorgina lhe trouxeram um horror que ela sabia que não
havia sido capaz de manter longe de sua expressão. Depois de tudo o que ela
havia passado com aquela família era muito fácil para Amy deixar que elas
criassem imagens vividas em seu cérebro. Desde que conhecera Cézare, e seu
clã desde que se envolvera com os negócios da família Fonezi sua vida
estivera em perigo. Mesmo assim ouvir alguém dizer sem nenhum tipo de
preocupação que ela deveria estar morta era algo completamente novo para
Amy.

- Você viu a nova cicatriz no rosto dele? – perguntou a italiana abaixando


ainda mais seu tom de voz deixando que suas palavras lembrassem um sibilo
apressado igual o guizo de uma cobra – Você sabe como ele conseguiu?

Amy desviou o olhar a lembrança do rosto sangrento de Cézare piscando


em sua mente. Nos dias que se seguiram após ela ter o encontrado em seu
quarto, o machucado em seu rosto lentamente começara a se cicatrizar. Ela
não imaginava como ele conseguira cuidar de seu machucado sozinho, ao
menos era isso o que julgava que havia acontecido. O corte agora que ele
exibia sobre sua bochecha era mais proeminente que suas antigas cicatrizes.
A linha dura e vermelhava riscava seu rosto cortando até mesmo sua pálpebra
esquerda. Por um milagre sua visão havia sido poupada, mas seu rosto estaria
para sempre marcado, e Amy não sabia como lidar com o fato de que ela
havia sido o motivo daquilo.

- Ah – exclamou Giorgina docemente, um sorriso ferino surgindo em seus


lábios volumosos – Você sabe muito bem como ele a conseguiu. Está feliz
ragazza? Satisfeita em saber que foi a causa disso tudo?

-Você não sabe o que está dizendo - respondeu Amy, sua voz tremendo
com todos os sentimentos que ela represava entro o seu peito naquele
momento.

-Seu irmão teve a audácia de achar que seria capaz de roubar minha
família - respondeu Giorgina - Isso não é um crime pequeno para nós,
mesmo assim ele continua vivo, e você também. Não acha que isso é muita
sorte?

A raiva deu a Amy força para revidar, forçando seu braço de uma única
vez ela rompeu o contato com Giorgina, as unhas dela rasparam por sua pele
a sensação de ardência extremamente incômoda, algo que ela resolveu
ignorar, enquanto cravava seu olhar no rosto da italiana.

- Você pode pensar o que quiser ao meu respeito Giorgina, mas lembre-se
que minha única vontade era estar o mais longe daqui mas pelo visto você
tem ordens para não deixar isso acontecer. Acho que nós duas vamos ter de
nos contentar em ficar infelizes.

Amy pode perceber na forma como a expressão da mulher diante dela não
se alterou que aquela não era a resposta ou mesmo a reação que ela estava
esperando. Ela pretendia intimida-la mantê-la numa posição onde era
facilmente assustada, o que ela não sabia era que Amy já havia se
acostumado com aqueles sentimentos. O único verdadeiro companheiro que
estivera ao seu lado ultimamente havia sido o medo.

Um sorriso discreto brincou nos lábios da mulher enquanto ela se afastava


em direção aos produtos que havia deixado caídos num canto qualquer do
quarto, como se ela soubesse de um segredo e não quisesse compartilha-lo.

- Vamos ver por quanto tempo você vai continuar com essa pose quando
Cézare finalmente se cansar de você.

As palavras atingiram profundamente seu algo, mas dessa vez Amy


decidiu que não daria o gosto de Giorgina perceber o quanto aquilo havia
deixando-a aflita. Sentindo o rosto estático como uma pedra, ela deu as costas
a mulher caminhando em direção ao corredor.

A casa que Cézare estava usando como sua prisão, não podia ser
considerada grande, com cômodos espaçosos, mas ligados apenas por um
único corredor, Amy conseguiu ouvir a maior parte da conversa dos
montadores de moveis em italiano enquanto descarregavam a nova cama de
casal em seu quarto.

Giorgina havia se juntando a eles, com seu tom de voz característico


repleto de comando, e enquanto caixas e mais caixas chegavam pelo
corredor, Amy percebeu que aparentemente Cézare havia se excedido um
pouco e comprara muito mais do que apenas uma cama de casal.

Um sorriso divertido brincos nos lábios de Amy, dentro de sua garganta


um riso de desespero parecia se acumular em seu peito. Toda aquela situação
parecia completamente cômica, se ela tirasse o fato de que estava sendo
mantida presa naquela casa contra sua vontade.

Frustrada a garota deixou que seus dedos corressem por seus cabelos
curtos. A impotência de não poder fazer nada e ter sua opinião
completamente ignorada vez após outra era o suficiente para deixar que a
raiva queimasse em seu sangue como brasas. Ela precisava fazer alguma
coisa, qualquer coisa diante daquela situação, ou então quando Giorgina
finalmente tivesse completado sua missão, Amy teria perdido o último lugar
que julgara seguro para si mesma ali, e não havia a menor possibilidade de
ela voltar a dividir a mesma cama com Cézare.

Mas o que ela poderia fazer como fugir? Com Giorgina ali na casa, sendo
praticamente uma segunda sombra e Cézare surgindo todas as noites em que
momento ela poderia encontrar uma brecha pra isso? E mesmo se
conseguisse aonde ela poderia ir? Estava na Itália não era como se ela
pudesse saber para onde correr.

Da última vez quando para escapar das garras de Cézare ela decidira se
aproximar dele. Um erro que agora ela não pretendia de forma alguma voltar
a cometer. Amy sabia que a precária confiança que um dia parecia existir
entre ela e o mafioso italiano havia sido completamente destruída. Cézare
nunca mais permitiria que ela se aproximasse desse jeito, nunca mais estaria
disposto entrar em seu jogo de sedução, portanto ela estava de mãos atadas, e
se as coisas continuassem indo de acordo com os planos dele, talvez no longo
prazo a vontade dela de lutar contra toda aquela situação começasse a se
tornar cada vez mais difusa.

Depois de tudo o que havia acontecido entre ela e Cézare, ela não
confiava em si mesmo, ou nas sensações que ela despertava dentro dela. Não
era apenas seu mundo que parecia ter virado de cabeça para baixo, mas todo
seus sentimentos. Ela precisava escapar dali antes que fosse tarde demais mas
como...?

O som de uma caixa sendo arrastada pelo chão de madeira despertou sua
atenção. Um dos carregadores entrou no cômodo com passos apressados sem
lançar um único olhar em sua direção, com as mãos ocupadas ele fechou a
porta com os pés desaparecendo em seu quarto.

Um estalo de uma ideia brilhou em seu cérebro, tão rápido e certeiro que
deixou o coração martelando em seu peito como se alguém tivesse lhe
pregado um susto. Do outro lado das paredes a voz de Giorgina continuava
dando ordens, sons de pregos sendo batidos e furadeiras pareciam ecoar em
seus ouvidos, enquanto Amy ordenou seu corpo a se mover.
Percorrendo o pequeno corredor a passos largos a garota alcançou a porta
branca que dava acesso a parte de trás da casa. Pelo pequeno vidro acima dela
Amy conseguiu notar o caminhão estacionado a poucos metros dali, além de
um conversível vermelho parado logo atrás. Com toda certeza o carro de
Giorgina.

Com a respiração entrecortada entre seus dedos, os dedos de Amy


tocaram a maçaneta, puxando-a para baixo. Em sua mente a garota ordenou a
si mesma a não deixar que a esperança inundasse seus pensamentos, mas
quando a porta cedeu sobre seu toque deixando que uma brisa fresca
acariciasse seu rosto, qualquer pensamento racional foi apagado de sua
mente.

Lançando um olhar sobre seu ombro de volta ao corredor, Amy observou


que não havia ninguém ali. Ninguém que pudesse realmente impedi-la de sair
por aquela porta. A parte racional em sua mente, dizia que aquele era um
movimento muito arriscado, talvez ela estivesse a fazer uma completa
loucura, mas naquele momento ela realmente não conseguia se importar.
Pensou em seu irmão e aquilo apenas lhe deu a pequena centelha de coragem
que ela precisava para seguir em frente. Se ela fosse capaz de encontra-lo,
então sua vida não seria mais usada como moeda de troca.

Com o coração martelando em seu peito como um machado entre suas


costelas, respirando fundo a garota abriu a porta lançando-se para fora,
enquanto corria com todas as forças que suas pernas eram capazes de
suportar.
Capítulo Doze
O vento era um barulho ruidoso em seus ouvidos, as pedras assim como
as moitas empecilhos que a todo custo ela tentava contornar, o ar parecia
muito pesado em seus pulmões quase algo físico que Amy pudesse segurar,
mas ela tentou ignorar tudo isso enquanto colocava toda sua atenção em sua
corrida, sem nem mesmo lançar um único olhar para trás. Se fizesse isso
sabia que estaria perdida, agora tudo o que poderia existir era o caminho que
estava a sua frente.

A garota não sabia para onde estava indo, sem um rumo ou mesmo a mais
leve direção, ela avistou alguns metros adiante o que parecia um pequeno
bosque. Pensando que talvez aquele fosse um lugar mais de difícil acesso
para que eles pudessem procura-la Amy correu naquela direção.

As sombras das árvores eram como um dossel de folhas sobre sua cabeça,
alguns raios dourados invadiam os galhos deixando trilhas de luz ao seu
redor. Amy podia ouvir ao longe o som de passarinhos, assim como uma
brisa morna acariciando sua pele. Por um momento a garota parou no lugar
onde estava sentindo completamente perdida, olhando ao redor tentando
distinguir qualquer direção.

Ela não sabia para onde ir, por isso mesmo com o fôlego entrecortado e
os pés doloridos em suas sapatilhas que não eram nem um pouco ideais para
aquele tipo de corrida Amy continuou em frente se infiltrando no bosque
enquanto mantinha os ouvidos atentos, esperando qualquer pessoa ir em sua
direção.

As árvores por onde ela passava tinham uma aparência jovem com galhos
baixos e copas não muito altas, aquele lugar deveria ser uma espécie de
jardim privativo, o que fez com que ela imaginasse qual o tamanho deveria
ter aquela propriedade. Ela não havia tido oportunidade de olhar ao redor
quando deixara a casa onde Cézare a prendera, mas agora percebia que talvez
ela pudesse estar localizada num lugar muito longe de qualquer coisa que
pudesse ajuda-la.
Os pés dela tropeçaram em si mesmos, embora o chão coberto pela grama
não estivesse muito alta, ele era acidentado e escondia rochas, e raízes que ela
não era capaz de evitar enquanto tentava se locomover ali o mais rápido
possível.

Suor se formou em sua pele, escorrendo por suas costas, debaixo da


proteção das árvores o sol quase não era um problema, mas o tempo seco e o
calor logo começariam a ser um problema.

Sentindo-se completamente desnorteada Amy correu em direção a parte


mais iluminada na floresta, o avanço dela era barulhento, quase caótico, a
garota podia ouvir como os pássaros se assustavam com seu movimento, se
não prestasse atenção qualquer pessoa poderia conseguir seguir seu rastro,
mas naquele momento era apenas o instinto que a guiava.

O dossel de árvores terminava numa linha muito rígida, correndo naquela


direção Amy olhou a sua frente e sentiu o coração parar de bater por um
momento dentro do seu peito com a surpresa.

Apenas alguns metros dela erguia-se a mansão para onde Cézare a


trouxera a primeira noite. A casa erguia-se sobre a colina, o mar a distância
com suas colunas brancas que se assemelhavam a um templo antigo romano.

Com medo de ser avistada a garota se escondeu atrás de uma das árvores
mantendo-se longe da vista daquelas imensas janelas tentando recuperar seu
fôlego.

- Para onde ir? – perguntou Amy num sussurro apressado, o som de sua
própria voz tentando ancorar seus pensamentos caóticos.

Forçando-se sua mente a garota tentou lembrar-se da paisagem que havia


observado durante o caminho até ali. A viagem de carro era apenas uma
lembrança difusa em sua mente, embora tivesse acontecido a pouco tempo.

Lembrava-se de enxergar o mar adiante, uma lua imensa brilhando sobre


ele, havia casas construídas sobre uma encosta rochosa branca, e uma cidade
que parecia crescer até estar completamente aos pés da praia.
Amy sabia que não podia ter muita certeza, mas provavelmente toda
aquela imensa propriedade pertencia a família de Cézare, enquanto ela
estivesse ali correria perigo. Naquele momento o objetivo dela era encontrar
uma forma de sair dali antes que alguém descobrisse seu paradeiro.

Os olhos dela voltaram-se para o mar atrás da casa, apenas uma mancha
azulada que naquele momento parecia estar muito distante lá embaixo. Amy
não sabia como, mas precisava encontrar uma maneira de chegar até ali.
Naquela cidade ela poderia ter uma chance, ela iria até a polícia qualquer
autoridade que pudesse encontrar primeiro. Alguém seria capaz de ajuda-la.

A esperança renovou sua determinação, mesmo cansada com o corpo


tremendo de medo e sabendo do perigo que corria a garota se pôs em
movimento.

Amy sabia que o mar contornava boa parte daquela cidade onde ela
estava, portanto ela refez o caminho da melhor forma que pode tentando
voltar mais ao ponto mais próximo da casa de Cézare. A garota não tinha
muita certeza, mas em algumas noites enquanto estava deitada em sua cama
completamente insone, as vezes ela jurava poder ouvir o som das ondas do
mar. Talvez aquilo não passasse de um truque produzido pelo vento, ou
mesmo seu desejo de encontrar alguma direção para seguir, mas naquele
momento aquilo era o único pedaço de informação que ela possuía, e precisa
se agarrar nele até que conseguisse encontrar algo melhor.

Sem diminuir o ritmo Amy sentiu que seu caminho a levava cada vez
mais fundo pelo bosque, todas as arvores em determinada altura pareciam
iguais, e ela imaginou depois de um tempo se não estaria correndo em
círculos sem realmente nunca chegar a lugar algum, mas empurrou esses
pensamentos para a parte mais funda de sua mente. Não podia se dar ao luxo
de se desesperar naquele momento, sabia que se fizesse isso não teria mais
forças para seguir em frente.

Suor cobriu seu rosto, enquanto ela sentia a luz modificar-se sobre as
folhas das árvores acompanhando o movimento do sol. Tinha perdido a
noção de tempo por completo enquanto a sede se tornava algo quase físico
em sua garganta, o cansaço físico pesando sobre seus ombros.
O pensamento dela estava completamente focado em seguir em frente,
constantemente ela lançava olhares por cima de seu ombro, esperando
encontrar uma sombra, ouvir passos sentir que alguém a perseguia, ela ainda
estava na propriedade Fonezi perto demais de seus inimigos, e enquanto ela
não fosse capaz de colocar uma certa distância entre eles não seria capaz de
descansar.

O ventou aumento balançando a copa das árvores, por um momento Amy


pode sentir o cheiro da maresia em suas narinas. Apressando seu passo, ela
caminhou mais alguns metros, bem à sua frente apenas alguns metros adiante,
o pequeno bosque onde ela se encontrava terminava num promontório
escarpado, uma vista privilegiada que dava diretamente ao mar.

O coração dela afundou em seu peito ao perceber a enorme distância que


os separava, contornando todas as colinas que se espalhavam por ali ela pode
ver lá embaixo a serpenteante estrada que ela e Cézare haviam percorrido até
chegar aquela propriedade, mais a frente o que pareciam ser algumas dezenas
de quilômetros estava o começo da cidade que ficava a beira mar. Apenas um
pequeno pedaço, mas aquilo já era o suficiente para lhe dar alguma direção.

Infelizmente de onde estava Amy não era capaz de descer o paredão de


granito para chegar até a estrada, ela precisaria continuar em frente
contornando o boque até encontrar um caminho onde o declive não fosse tão
intenso para que ela pudesse percorre-lo.

Sem perder tempo ela se colocou a caminho, enquanto protegia os olhos


da luz direta do sol Amy tentou registrar qualquer pequeno detalhe daquele
lugar em sua mente. Acima de sua cabeça o sol brilhava como um globo
dourado sem nuvens brancas que pudessem diminuir sua luminosidade. O
terreno ao redor tornou-se mais rochoso e escarpado e Amy percebeu que sua
agilidade diminuía cada vez mais, tornando seu avanço mais lento.

Tentando afastar todos seus desconfortos enquanto lembrava-se em


silêncio o quanto estava em jogo, ela tentou focar-se num passo de cada vez.
Sua mente foi invadida pelas lembranças de quando fugira de Cézare a
primeira vez. O ocorrido parecia ter acontecido há muito tempo num passado,
embora fossem apenas alguns meses.
Flexionando os dedos como sentisse uma dor fantasma Amy olhou por
um instante as pequenas e quase invisíveis cicatrizes que haviam ficado em
sua mão do vidro da janela que ela usara para escalar e escapar do galpão
onde ela estivera.

A dor ainda era algo muito vivido em suas lembranças, a forma como o
sangue secara com o vento gelado deixando os movimentos de suas mãos
mais lentos as pontas de seus dedos latejando. Por sorte quando finalmente
tivera uma oportunidade para se arrumar, a garota havia descoberto que sua
ferida na verdade era mais feia do que aparentava.

Contando suas pequenas benções Amy afastou sua cabeça no passado


focando sua atenção no presente. Ela não estava ferida como da última vez, e
embora ainda tivesse sentindo-se perdida, ao menos ela havia lançado um
olhar na direção que precisava seguir. Enquanto ela continuasse aquele
caminho tinha quase que a certeza que em algum momento ela poderia
alcançar a cidade. Se esse não fosse o caso, então cada metro que ela
avançava a distância entre ela e Cézare e sua família aumentava e isso por
enquanto precisava ser o suficiente.

Embora suas pernas protestassem devido ao exercício puxado Amy não


se deu ao luxo de diminuir o ritmo. O sol foi um companheiro silencioso e
inclemente sobre ela; a sede em sua garganta transformou-se de algo
suportável para uma sensação incomoda e física, a parte interna de sua
garganta estava completamente ressecada, como se a própria pele que a
revestisse tivesse sido substituída por uma lixa áspera.

O calor deixou que o suor se acumulasse sob sua blusa, os pés


escorregando em suas sapatilhas deixando sua caminhada mais difícil, mas
com o tempo Amy percebeu que o caminho onde ela estava parecia tornar-se
menos íngreme e acidentado, como se ela tivesse percorrendo uma rota que ia
na direção abaixo.

Olhando para cima enquanto protegia sua visão, ela observou o sol
avançar sobre ela, primeiro ela estava logo acima de sua cabeça, então
lentamente começou sua descida a sua frente, até ela perceber que na verdade
parecia como se estivesse o seguindo. Lembrando-se de seus parcos
conhecimentos em geografia se o sol caminhava naquela direção à sua frente
então ele estaria indo para o oeste. Provavelmente ali era onde cidade se
situava portanto, Amy resolveu apertar o passo enquanto podia usar a luz do
dia para se direcionar.

Como não havia planejado aquela fuga as roupas que ela usava nem de
longe eram as ideais, a blusa de algodão ao menos era mais suportável do que
a pesada calça jeans que ela vestia, mas ao menos essas forneciam alguma
proteção para suas pernas, os braços muito pálidos e descobertos logo
começaram a se avermelhar assim como seu rosto. Passando uma das mãos
suadas sobre sua nuca Amy sentiu a pele quente do lugar. Não estava
acostumada a se expor ao sol tanto daquela maneira, e o logo a vermelhidão
de sua pele deixou aquilo evidente.

Amy caminhou durante a tarde inteira, até que o céu sobre sua cabeça se
tornou laranja vivido, e um vento mais cálido percorreu seu redor.
Lentamente o as luzes foram diminuindo até que sobre sua cabeça um imenso
céu negro repleto de estrelas pontilhadas se tornou toda sua companhia.

Sentindo-se completamente perdida, e sem ter certeza para onde estar


indo Amy continuou andando embora seu corpo todo protestasse contra
aquilo. Tinha a nítida impressão de que se parasse naquele momento então
nunca mais ela seria capaz de dar qualquer outro passo.

Os pensamentos haviam desaparecido de sua cabeça, a única coisa que a


mantinha em pé era uma determinação férrea que ela não sabia qual era a
fonte. Olhando ao redor a garota percebeu que finalmente havia descido a
maioria das colinas e encostas, o bosque há muito tempo focara para trás, mas
a cidade que ela havia visto aquela manhã não parecia estar próxima.

Caminhando por um descampado do qual ela não era capaz de enxergar


muito bem, Amy encontrou o que parecia ser uma estrada de terra batida. Ela
não se lembrava de ter visto nenhuma daquelas quando estivera sobre o
penhasco, mas seu senso de direção estava completamente bagunçado assim
como seus pensamentos. Talvez ela tivesse visto e apenas não se lembrava, a
falta de água e o cansaço que pesavam sobre seu corpo deixavam tudo
bagunçado em sua mente.

Por um momento ela se permitiu diminuir o passo, não sabia o que iria
encontrar naquela direção, mas se não fosse seguir por aquele caminho sua
única opção seria voltar mais alguns metros até encontrar novamente a
proteção de algumas árvores para ela passar a noite, algo que ela não estava
muito disposta a fazer. Lançando um olhar em direção a estrada de terra, a
garota percebeu que seria muito mais fácil caminhar por ela. O terreno era
plano, e embora não tivesse asfaltado parecia quase um tapete em
comparação com o penhasco por onde ela estivera andando. Não era nem de
longe sua melhor opção e seguir naquela direção podia deixa-la ainda mais
perdida, mas naquele momento Amy preferia continuar a se mover enquanto
tinha forças.

Tentando não pensar muito nas consequências caso tivesse feito uma
escolha errada, Amy continuou a andar, os pés protestaram imediatamente e
ela sentiu algo quente e pegajoso escorrer para suas solas, enquanto forçava
seu corpo a ir adiante. Ela não tinha luminosidade suficiente para conseguir
conferir, mas tinha certeza que se machucara de alguma forma, um dor
ardente e persistente incomodava seus calcanhares, mas ela preferia mantê-
los protegidos caso precisasse correr em algum momento.

Com todos seus sentidos em alerta Amy caminhou pela desértica estrada
de terra, tentando escutar qualquer som que ela considerasse suspeito. Na
noite silenciosa, sua única companhia era o vento que acariciava seu rosto, e
retirava um pouco do ardor do sol que permanecia em sua pele. Ao longe ela
podia ouvir ocasionalmente o barulho do motor de um carro ou uma moto,
nesse momento a garota corria para se esconder alguns metros ao redor da
estrada. Embora sentisse desesperada por ajuda, as suspeitas que carregava
em seu coração ainda eram muito pesadas, ela não seria capaz de confiar em
nenhum daqueles estranhos que estariam transitando por ali de noite.

Amy caminhou até que seu corpo ficasse entorpecido, lentamente ela
perdeu a sensibilidade em seus pés mesmo assim se forçou a continuar
adiante. Com a ponta da língua Amy percorreu os lábios ressequidos, a sede
agora que sentia era quase insuportável, a garganta completamente seca como
se tivesse sido feita com a areia do próprio deserto, nem mesmo a saliva que
ela produzia era capaz de lhe trazer algum conforto.

Havia perdido completamente a noção do tempo, a lua muito acima dela


não passava de um pequeno arco prateado sorridente que parecia debochar
dos seus esforços. Ela continuou andando porque embora não soubesse
exatamente como ainda tinha forças para continuar, até lentamente perceber
que aos longe pequenos focos de luz começavam a surgir.

O coração dela disparou em seu peito enquanto uma euforia contagiante


viajava por seu corpo. Não muito longe dali, Amy conseguiu enxergar a
cidade que começava a se desenrolar em direção ao mar, brilhando como uma
joia banhada pelas ondas.

Sem perder tempo a garota aumentou seus passos, sua mente tentando
buscar a melhor forma de encontrar ajuda. A estrada onde ela estava dava
acesso ao que parecia ser um bairro humilde que contornava o interior
daquela cidade. A maioria das casas ao redor, pareciam antigas com janelas
de madeira e luzes pagadas. Amy não tinha ideia do horário portanto quando
observou as ruas quase desérticas ao seu redor imaginou que a noite já ia
avançada.

Com pressa ela caminhou ao redor os olhos percorrendo todos os lugares


qualquer coisa que pudesse ajuda-la.

As poucas placas que encontrou pelo caminho estavam em italiano e


embora Amy pudesse compreender o mínimo da língua falada, não era capaz
de entender nada quando escrita. Perdida ela andou pelos arredores, até se
deparar com um lugar que parecia estar mais agitado.

A casa de dois lugares lembrava vagamente a aparência de um bar que já


vira dias melhores. O som de uma música chegava até seus ouvidos embalado
pela brisa noturna. Se escondendo nas sombras de um dos muros do outro
lado da esquina Amy observou o lugar com interesse. Alguns homens
entravam no lugar enquanto riam abertamente, não haviam muitas casas ao
redor, e aquele era o único lugar que parecia aberto naquele momento.

Uma parte dela queria atravessar a rua e pedir ajudar a qualquer pessoa
que encontrasse pela frente, mas o bom senso e o medo mantiveram ela presa
paranoica que ali pudesse estar alguém que a levasse de volta até Cézare.

Ela não conhecia aquele lugar, talvez ali não houvesse nenhum estranho
que falasse sua língua dessa forma como eles poderiam ajudá-la?
Amy sentia-se completamente dilacerada por aquelas dúvidas, quando
uma figura vagamente conhecida saiu do bar, parando logo de frente a porta
enquanto fumava seu cigarro tranquilamente.

O coração dela disparou em seu peito, um sorriso de descrença e


felicidade esticando as bordas do seu rosto, ela mal era capaz de acreditar em
seus olhos! Depois de tudo o que havia acontecido, a sorte finalmente havia
sorrido pra ela.

Sem perder tempo Amy percorreu o pequeno espaço, atravessando a rua,


a luz do poste recaiu diretamente sobre a figura quando ela deu alguns passos
pela calçada. Ela poderia conhecer aquele perfil em qualquer lugar do mundo,
independente de quanto tempo tivesse se passado. A imagem de seu irmão
trouxe uma alegria que há muito tempo ela não era capaz de sentir.

- Peter!

O nome dele se destacou em seus lábios o riso borbulhando em sua


garganta, antes mesmo de alcança-lo ela observou a expressão no rosto dele
de surpresa ao reconhece-la. Finalmente! Agora que eles estavam juntos ela
tinha chances melhores de conseguirem escaparem dali.

Sem perder tempo ela se jogou nos braços dele, apertando-o contra seu
peito para ter certeza que aquilo não era apenas um sonho produzido por sua
mente traiçoeira.

- Meu Deus Peter, eu não acredito que pude encontra-lo! Você está bem?
Está ferido?

- Amy? Espera é você mesmo? O que está fazendo aqui?

As perguntas de ambos se entrelaçaram no ar, sorrindo com o coração


batendo de felicidade a garota se desvencilhou do irmão, olhando com avidez
em seu rosto, todo o cansado e o sofrimento que passara para chegar até ali
completamente esquecido.

- Sou eu mesma Peter – respondeu a garota rapidamente as palavras quase


se atropelando em sua língua umas sobre as outras – Eu escapei essa manhã...
Precisamos ir embora imediatamente, se eles nos encontrarem nós...

-Amy espera do que você está falando – perguntou seu irmão lançando
lhe um olhar completamente confuso enquanto segurava parada no mesmo
lugar – Do que você está falando? Como assim você fugiu?

- Essa manhã eu consegui escapar quando Cézare não estava por perto, a
essa altura todos eles devem estar me procurando, precisamos ir embora
enquanto...

As palavras morreram em sua língua, como se fossem bolhas de sabão


explodindo no ar. O olhar que seu irmão lhe encarava era de surpresa,
misturado com uma pitada de frieza que lhe gelou até os ossos.

- Amy, eu não estou entendendo você fugiu de Cézare? Não, não você
não pode fazer isso precisa voltar.

- O que? – perguntou a garota horrorizada, enquanto tentava se


desvencilhar do toque de Peter – O que você quer dizer com voltar? Eu não
vou voltar Peter!

Lançando lhe um olhar completamente frustrado Peter deixou que seus


dedos percorressem seus cabelos bagunçando-os por completo. As mechas
não estavam tão compridas como ela se lembrava, agora seu cabelo parecia
lustroso exibindo um corte moderno que combinava com suas roupas.

A voz dela ecoou de maneira estridente até mesmo em seus ouvidos. O


gosto acre de sangue invadiu sua boca, e Amy percebeu que tremia tanto
devido a sua fúria que havia mordido seu lábio inferior.

Uma parte dela esperava que Peter também agisse de uma maneira
agitada, a contestando como se ela tivesse o interpretado de maneira errada.
Queria que ele se defendesse, dissesse que não era nada daquilo, mas quando
o silêncio entre eles se estendeu, ela pode sentir o coração lentamente
desacelerar em seu peito enquanto a verdade de toda aquela situação de
descortinava a sua frente.

- Peter... Diga alguma coisa – pediu a garota incapaz de conter a suplica


em sua voz.

- O que você quer que eu diga? – perguntou seu irmão, lançando lhe um
olhar derrotado e impaciente como se ele não pudesse mais suportar aquele
assunto – Você nunca foi contra essa ideia.

- Eu nunca foi pra cama com nenhum homem por dinheiro – disse Amy,
horror e descrença escorrendo de cada uma das suas palavras.

- Então como você pagava minha dívida?

- Eu era dançarina na boate, você sabe disso... Eu...

- Dançarina certo. É assim que você chama?

Foi o sorriso nos lábios de seu irmão que fez com que ela parasse aquela
conversa, o jeito que os lábios dele se erguiam pra cima, deixando claro o
escarnio obvio em seus olhos. Durante todo o tempo em que trabalhara como
dançarina na boate da máfia italiana em Nova York, ela havia perdido a conta
de quantas vezes alguém lhe lançava aquele mesmo olhar em sua direção.
Como eles distorciam suas próprias palavras, ela jamais havia vendido seu
corpo uma vez que fosse, embora propostas nunca tivessem faltado. Sabia das
outras garotas que faziam aquilo e não era capaz de julgá-la de forma alguma.
A vida para elas já era difícil, ela não precisava piorar a situação delas ainda
mais.

Durante todo aquele tempo ela acreditara que seu irmão compreendia o
sacrifício que ela fazia em seu nome. Quando a máfia italiana cobrara a
divida sobre Peter, havia sido ela quem estivera ao seu lado, exatamente
como alguém de sua família deveria fazer. Lembrava-se que ele lhe
agradecera, naquela época suas palavras pareciam terem sido tão sincera,
vindas direto do seu coração.

Durante todo aquele tempo ele acreditara que ela estava se prostituindo
para pagar sua dívida? E se isso fosse verdade então ele teria deixado que ela
continuasse nesse caminho.

A dor se infiltrou por seu pé quando ela percebeu que havia dado mais
um passo para trás afastando-se do seu irmão. De repente tudo parecia ter
perdido o significado, a vontade de fugir dali escapar daquela situação
completamente perdida em seu corpo.

Não sabia mais o que fazer.

- Você precisa voltar – disse seu irmão mais uma vez dessa vez com
bastante tranquilidade, como se ela fosse uma criança teimosa que se
recusava a seguir os pais – Isso será o melhor para nós dois. Você vai ver.

Dessa vez ela não teve vontade de responder, pela primeira vez desde que
chegara até ali percebia que ele não estava a ouvindo. Seu irmão não se
importava com seu bem-estar, ela não passava de uma desculpa, um objeto
pra ser usado e descartado da melhor forma possível.

- Deixe-me ligar para Cézare, ou alguns dos homens dele, ele com certeza
vai querer vir te buscar. Podemos criar uma desculpa dizer que você estava
confusa...Ele não vai.

Amy não conseguiu mais prestar atenção ao que Peter dizia, enquanto
mexia em seu celular moderno que ela não se lembrava dele possuir, seu
corpo se moveu sozinho, o instinto de sobrevivência falando mais alto dentro
de sua cabeça. Quando seu irmão virou de costas para ela, para terminar de
fazer sua ligação, Amy simplesmente voltou correndo para a escuridão de
onde viera.
Capítulo Treze
Ela ouviu seu irmão gritar seu nome a suas costas, mas aquilo apenas a
impulsionou a continuar em frente, a dor um combustível para que ela não
parasse de correr.

Dessa vez ela não se importava para onde estava indo, o destino não fazia
a mínima diferença, qualquer lugar estaria bom o suficiente se ela pudesse
sair dali e nunca mais voltar.

Amy percorreu as ruas daquela cidade desconhecida em alta velocidade,


os pés dela soavam abafados em seu calçamento de pedra, não prestou
atenção as casas ao seu redor, nem aos prédios, guiada apenas pelo seu
instinto ela correu em ziguezague enquanto se embrenhava em becos escuros
e ruas estreitas.

O fôlego ficou preso em sua garganta, a dor de uma pontada aguda


invadindo abaixo de suas costelas, a voz de seu irmão havia ficado para trás,
olhando sobre seu ombro a garota percebeu que havia se afastado bastante do
bairro estranho onde havia chegado até a estrada de terra, sentia-se mais
perdida do que nunca, mas ao menos agora isso tornaria ainda mais difícil
para que qualquer uma daquelas pessoas a encontrasse.

A solidão deixou o coração rangendo em seu peito, lágrimas ardentes


subiram até seus olhos, e a garota as espantou enquanto piscava com raiva.
Chorar agora seria apenas uma perda de tempo, e ela não tinha o luxo de ficar
se lamentando pela maneira como havia sido tratada pelo seu irmão. Não
quando sua segurança estava em jogo.

Mesmo assim a ferida da injustiça queimava em seu peito de maneira


dolorosa, que chegava a ser quase insuportável enquanto ela caminhava sem
parar. Jamais acreditara que Peter pudesse fazer algo assim... Sabia que ele
era uma pessoa problemática, que sempre encontrava uma maneira de se
enfiar em alguma confusão, mesmo assim ele era a única família que lhe
sobrara no mundo, sem ele então não haveria mais ninguém a seu lado
literalmente. Ele podia ser um inconsequente, mas ela acreditara que no
fundo do seu coração se importava com ela... Depois da conversa que eles
haviam acabado de ter isso significava então que durante todo aquele tempo
ela estivera enganada a seu respeito?

A tristeza enlaçou seu peito deixando seus movimentos mais lentos, uma
parte dela estava cansada demais, exausta tanto física quanto
emocionalmente. A única coisa que ela poderia desejar naquele momento, era
sentar-se ali mesmo na sarjeta e descansar apenas alguns minutos. Por que ela
continuava se esforçando tanto assim, quando na verdade ela não tinha mais
para onde ir?

Amy não tinha uma resposta para aquela pergunta, naquele momento a
única coisa que impulsionava a seguir em frente era sua teimosia, nos últimos
meses ela acostumara seu corpo a continuar seguindo em frente a qualquer
custo, agora era como se ele tivesse apenas trabalhando no piloto automático.

O som das ondas do mar invadiu seus ouvidos, erguendo seu rosto a
garota notou que seu caminho havia levado em direção até a orla da praia que
naquele momento estava praticamente deserta.

O mar estava parcialmente tranquilo as ondas eram pequenas desaguando


na areia da branca da praia, ao redor os paredões de pedra cinzenta davam
uma aparência selvagem que permeava todo os arredores, como se aquele
fosse um lugar encantando. Um sorriso derrotado brincou nos lábios de Amy,
como ela podia se sentir tão perdida e derrotada enquanto observava uma
paisagem tão bela quanto aquela?

Desejava acima de tudo poder voltar para casa, mas como faria isso? Não
tinha pensado em nenhum plano enquanto decidiria simplesmente sair
correndo da casa de Cezare, enquanto estivera percorrendo todo o caminho
até a cidade, seus pensamentos haviam se distanciado para seu irmão, tivera
esperança de encontra-lo e dessa forma conseguir com que ele a ajudasse...
Nem mesmo em seus mais horríveis pesadelos imaginara aquilo que Peter lhe
dissera.

Pensar em seu irmão trouxe de volta a tão conhecida dor da magoa em


seu peito. Enquanto ouvia novamente as palavras que ele lhe dissera o
sentimento de traição que sentira da primeira vez parecia fazer com que
antigas feridas se abrissem novamente. Sabia que não podia continuar
daquela maneira, senão aquilo a levaria a um caminho sem volta.

Os pés dela tropeçaram no calçamento da praia, acima de sua cabeça as


estrelas eram testemunhas silenciosas, Amy desejava saber quanto tempo
haviam se passado desde que ela fugira do seu cativeiro, para de alguma
forma tentar se localizar, mas sua noção de tempo estava completamente
bagunçada naquele momento. Tentando buscar ao redor qualquer ponto de
referência, Amy virou a direita numa das ruas que contornavam a praia e
sentiu a surpresa tomar conta de suas expressões.

Do outro lado da rua, erguendo-se num prédio moderno e muito bem


iluminado estava o logo em italiano de uma base da polícia. A palavra Polizia
era umas das únicas que a garota conhecia muito bem em italiano, sendo
constantemente mencionada enquanto ela estivera trabalhando em seu antigo
emprego na boate comandada pela máfia italiana em Nova York.

A insegurança nadou em seu estômago como um peixe agitado, enquanto


os pés da garota pareciam ficarem presos no concreto do calçadão que
circundava a praia. Os olhos dela se ergueram tentando buscar ali alguma
movimentação que indicasse que o lugar estava ocupado, mas ela não foi
capaz de enxergar nada.

Os dedos dela se apertaram um contra o outro tentando dispersar um


pouco do nervosismo que havia feito com que seu coração disparasse em seu
peito. Não tinha certeza se aquela era a melhor decisão que poderia tomar
naquele momento, mas estava cansada incapaz de encontrar uma saída
daquela situação em que estava, mas naquele momento qual seria sua outra
opção? Amy sabia que nunca era uma boa ideia envolver a polícia em
assuntos que a máfia também participava, mas naquele momento a verdade
era que se sentia cansada demais para se importar. Se ir até a polícia italiana e
contar tudo o que lhe acontecera iria fazer com que ela voltasse para sua casa,
então ao menos isso valia uma tentativa.

Os passos dela eram suaves enquanto ela caminha até a delegacia, as


luzes fluorescentes feriram seus olhos assim que ela entrou no pequeno
recinto. A sala era pequena e naquele momento completamente vazia, acima
de sua cabeça um ventilador de teto girava continuamente interrompendo o
silêncio ao redor.

Erguendo os olhos Amy notou que havia um único guarda atrás do


balcão, a atenção dele estava voltada para o celular que ele mexia sobre a
mesa, a camiseta do uniforme que ele usava tinha um tom de azul claro muito
forte, o quepe preto estava esquecido a seu lado. Ele não parecia ser jovem,
as pequenas rugas de expressão ficavam no canto de seus lábios enquanto um
punhado de cabelos brancos se destacava no meio de suas madeixas mais
escuras.

- Com licença – pediu a garota de maneira tímida enquanto se


aproximava do balcão – Por favor, você poderia me ajudar?

O olhar do guarda recaiu sobre ela de maneira confusa, a atenção dele


estava completamente voltada para ela, mas Amy não conseguia encontrar
nem um pingo de compreensão em seu olhar.

- Eu preciso de ajuda – repetiu a moça mais uma vez, agora com palavras
mais pausadas, embora ela tivesse a nítida impressão que ele não entendia o
que ela estava tentando dizer – Você pode me ajudar?

- Mi dispiace, signorina, non parlo inglese.

As palavras do guarda soaram de maneira confusa em seus ouvidos, ela


conseguiu entender que ele havia lhe pedido desculpas, mas além disso todo
o resto de sua sentença parecia algo completamente bagunçado em sem
sentindo para ela. Um pensamento de receio e pessimismo cruzou sua mente,
talvez ela não devesse ter ido até aquele lugar.

- O que está acontecendo aqui? – perguntou outra guarda num ingles


carregado no sotaque mais compreensivel enquanto entrava na sala, por um
corredor atrás do balcão que a garota havia ignorado.

- Graças a deus, você fala ingles – respondeu Amy, enquanto o alivio


batia em seu corpo como uma onda – Eu preciso de ajuda... Eu...

O guarda que acabara de chegar cruzou o espaço que os separava saindo


de trás do balcão para ficar a sua frente, ele usava o mesmo uniforme
combinando com seu parceiro, mas parecia ser alguns anos mais novos, com
cabelos castanhos claros e uma postura desafiadora.

- Por favor senhorita, nós podemos ajuda-la apenas diga com calma o que
aconteceu.

As palavras borbulharam em sua lingua, tão rapidas e confusas que Amy


mal era capaz de forma-las com coerencia em sua cabeça. Como ela poderia
explicar o que havia lhe acontecido? Eles iriam acreditar nela? Suas mãos
estavam completamente vazias, ela não possuia nenhum tipo de prova contra
Cezare ninguem que ficaria a seu lado...

- Eu... eu estou perdida – disse Amy desviando o olhar buscando qualquer


coisa dentro de sua mente que pudesse conter algum tipo de sentindo,
enquanto desehava ardentemente que eles acreditassem em sua palavra –
Quero dizer eu não estou perdida... Eu...Meu nome é Amanda Jones, eu fui
sequestrada.

- Sequestrada? – perguntou o guarda diante dela enquanto um olhar de


choque e descrença cruzava suas faces.

- Sim, eu acabei de fugir, eu corri o dia inteiro não sabia por onde ir...
Eu...

- Você está bem? Está machucada? Pode me dizer algo sobre seu
sequestrador...

- Eu o conheço – respondeu a garota interrompendo o guarda diante dela,


a atenção de ambos completamente presa em suas palavras – Sei que isso
pode parecer loucura, mas eu fui trazida até aqui por um homem chamado
Cezare Fonnezi...

O nome do mafioso ficou pendurado em seus labios, como um mau


pressagio pairando ao redor, em silêncio a garota observou um olhar de
reconhecimento cruzar ambas as expressões dos homens diante dela.

- Fonnezi? Senhorita você tem certeza que esse é o nome do homem que
a sequestrou? – perguntou o guarda mais novo parado a sua frente.

- Sim, certeza absoluta, eu posso descreve-lo pra você se isso for


preciso... Vocês precisam acreditar em mim.

- Eu acredito no que você está me dizendo senhorita, por favor se acalme


eu preciso conversar com meu parceiro. Sente-se aqui, por favor.

O guarda diante dela indicou um sofa de aparencia antiga localizado nos


fundos da pequena delegacia, embora não conseguisse se acalmar num
momento como aquele, Amy fez como ele havia lhe instruido, tentando
ignorar as batidas descompassadas de seu coração dentro do seu peito.

Seu corpo protestou de forma dolorosa enquanto ela sentava-se, por um


momento ela mexeu os pés dentro de suas sapatilhas com desconforto,
tentando não olhar na direção deles, tinha certeza de que aquela cena não
seria nem um pouco agradavel.

Erguendo o rosto Amy deixou que sua atenção se focasse nos dois
guardas que conversavam em voz baixa num italiano apressado diante dela.
Eles pareciam discutirem algum ponto com enfase embora ela não
conseguisse compreender nada do que eles diziam. O nervosismo infiltrou-se
por suas veias deixando um frio desagradavel percorrer seu corpo fazendo
com que seu corpo tremesse de ansiedade. Uma parte dela queria que toda
aquela situação simplesmente se encerrasse de uma vez, e agora que
finalmente ela havia sido capaz de tomar uma decisão pedindo ajuda para a
policia italiana talvez isso logo pudesse ser algo se tornar realidade.

Sua mente divagou de volta até sua cidade, as lembranças de sua casa que
ela não via a mais de seis meses, um aperto em seu peito deixou seu folego
entrecortado, tudo o que ela mais desejava era voltar para Nova York.

- Senhorita, por favor beba um copo de água.

Sendo atraida novamente para a realidade Amy ergueu seu olhar para
encontrar o guarda italiano de aparencia mais nova diante dela, estendendo-
lhe um copo de vidro. A lingua dentro de sua boca se contraiu sedenta pelo
liquido ali dentro. Tantas coisas haviam acontecido desde que ela fugira da
casa de Cézare que uma parte dela havia se esquecido quanta sede ela sentia,
principalmente depois do encontro com seu irmão. Como se aquele incomodo
tivesse ficado na parte mais afastada de sua mente.

Fechando ambas as mãos sobre o copo oferecido Amy bebeu avidamente,


deixando que o liquido escorresse por sua garganta sedenta, e antes mesmo
que ela pudesse se sentir satisfeita a bebida ja havia acabado.

- Obrigada – disse a garota estendendo de volta o copo para o guarda.

- Não precisa agradecer, eu falei com meu colega. Nós vamos leva-la para
um lugar seguro, você apenas precisa responder mais algumas perguntas
nossas.

- Claro – respondeu Amy prontamente – Eu vou responder o que for


necessario.

- Ha quantas dias você foi sequestrada por Fonezzi?

- Eu não sei... Não tenho certeza o numero de dias exato. Acredito que eu
esteja a uma semana na Italia.

- Onde você estava antes disso? – perguntou o gaurda

- Nos Estados Unidos, Cézare me encontrou depois de seis meses me


procurando... Essa não é a primeira vez que eu fugi dele.

- Ele teria algum interesse em ter você de volta?

As palavras do guarda soaram de maneira engraçada dentro do seus


ouvidos, apertando os olhos por um momento Amy teve a niitida impressão
que a imagem diante dela se tornara embaçada. De repente ela não era mais
capaz de enxergar com clareza as feições do policial diante dela, piscando
com força o mundo ao seu redor pareceu dançar, se inclinando em todos os
lados.

- Eu não estou me sentindo bem... – disse a garota enquanto, tentava se


colocar em pé, o liquido em seu estômago se remexeu de maneira
desconfortavel, enquanto a nausea se alojava em sua garganta.
- Você não respondeu minha pergunta – disse o guarda e Amy sentiu uma
mão firme pousar sobre seu ombro se maneira dolorida, sua cabeça parecia
pesar uma tonelada, enquanto ela fixava sua atenção no homem diante dela.
Talvez aquilo não passasse de uma imaginação exagerada de sua mente, mas
parecia haver um brilho de irritação e impaciencia em seu olhar.

- Eu não entendi... Não entendo por que você iria querer saber algo como
isso – disse Amy, forçando as palavras para fora de seus labios com extrema
dificuldade. Todo o mundo parecia girar agora diante dela, deixando-a
completamente enjoada.

- Ele vai querer ter você de volta? – repetiu o guarda, agora suas palavras
soando mais altas em seu ouvido.

- Quem? De quem você está falando?

- Fonezzi? O desgraçado ainda pretende de encontrar? – perguntou o


guarda parado a sua frente, o rosto embaçado pairando sobre seu rosto um
brilho desconhecido em seus olhos.

Muito ao longe o som de algo se espatifando como vidro chegou até seus
ouvidos, sem força alguma para compreender o que estava acontecendo Amy
sentiu seu corpo cair no chão, as ultimas gotas da água que ela bebera
respigando em seu tornozelo. Na parte mais afastada de sua mente, ela sabia
que estava em perigo, que as perguntas que o policial estava lhe fazendo não
faziam nenhum sentido... Mas, enquanto sua consciencia cada vez mais se
afastada dali, ela se deu conta de que havia cometido um erro ao entrar
naquela delegacia, mas enquanto seus olhos desapareciam atrás de palpebras
pesadas demais para permanecerem abertas, a garota percebeu que aquilo era
algo que ela não poderia ter uma segunda oportunidade para remediar.
Capítulo Catorze
O corpo dela pesava enquanto uma nuvem como algodão parecia se alojar
exatamente no centro dos seus pensamentos. Antes mesmo de abrir os olhos,
que pareciam extremanente rigidos e doloridos Amy sabia que alguma coisa
estava tremenda errada.

Ela se remexeu com desconforto, sobre o que parecia ser uma cadeira de
ferro, os braços numa posição estranha estavam amarrados a suas costas,
fazendo com que seus ombros ficassem rigidos. Bem acima de sua cabeça
uma luz branca e gelada caia ao seu redor iluminando paredes pintadas num
tom profundo de cinza que se erguiam por todo comodo a seu lado. Perto da
sua linha de visão havia um espelho refletindo sua aparencia.

Os cabelos bagunçados dela caiam por sua testa grudadas com o suor, os
labios descoloridos e ressecados eram evidentes, dando-lhe uma aparencia
doentia.

Uma nausea agitou suas entranhas, fazendo com que ela precisasse conte-
la enquanto fechava sua boca de maneira muito firme. Havia algo muito
errado com seu corpo, como se ela tivesse ingerido algo que lhe fizera muito
mal.

Uma lembrança tentou perfurar a nuvem confusa de pensamentos que


parecia pairar sobre sua cabeça. O gosto de água com um toque metálico no
fundo que ela deliberadamente ignorara, porque estava desesperadamente
sedenta.

Horror escorreu por sua pele, deixando uma sensação pegajosa de


reconhecimento enquanto lentamente o quebra-cabeça do que havia lhe
acontecido se formava em sua mente.

O som de uma porta sendo aberta chegou até seus ouvidos, o corpo dela
se retesou na cadeira tenso como a corda de um arco enquanto ela observava
em silêncio o policial que havia prometido lhe ajudar entrar dentro daquela
sala.
- Você me drogou – disse Amy tentando controlar sua propria lingua que
parecia desengoçada em sua boca – O que você fez comigo...?

Os olhos do policial mais novo pairaram sobre ela demaneira distante,


quase despreocupada como se ele não se importasse nem um pouco com o
que ela havia acabado de lhe dizer.

Os dedos dele pousaram sobre seu queixo, erguendo para cima


obrigando-a a olhar em sua direção. A imagem do seu rosto inexpressivo
pairou de maneira embaçada a sua frente, o corpo preso naquela cadeira
completamente a sua merce.

- Você não parece ser alguem importante – disse o guarda de maneira


muito tranquila, o sotaque em sua voz deixando suas palavras soando de
forma quase doce. – Mesmo, assim parece que Cézare mobilizou toda a
familia por sua causa... Me diga quem é você e por que ele esta tão
interessado em te-la de volta?

- Por que você quer saber isso? Você é um policial, deveria me ajudar...

Um sorriso divertido brincou em seus labios, enquanto Amy forçava as


unhas nas palmas de sua mão buscando naquela pequena picada de dor algo
em que ela pudesse ancorar sua mente.

- Estamos na Sicilia senhorita. Não existe um unico lugar aqui onde a


máfia não alcance.

O medo se infiltrou em seu corpo, deixando seus membros mais pesados


enquanto o frio se espalhava por sua pele, o guarda largou seu queixo
afastando-se dela enquanto dava uma volta ao redor da mesa a sua frente, os
passos dele ressoando como pedras caindo no chão em seus ouvidos.

- O que você quer comigo? – perguntou Amy tentando conter o desespero


que parecia se agarrar em sua voz; como algo como aquilo que mais parecia
um pesadelo poderia estar acontecendo com ela?

- Quero que você me diga porque a familia Fonezzi, está tão interessada
em você. Meu chefe está bastante curioso a seu respeito.
- Quem é o seu chefe? – perguntou Amy, enquanto forçava seus braços na
cadeira tentando encontrar ali qualquer brecha para que ela conseguisse se
soltar.

- Eu não vejo como isso poderia ser do seu interesse – respondeu o


guarda, enquanto seus olhos se desviavam novamente em sua direção.

- Eu estava fugindo dele, fugindo dos Fonnezi talvez ele pudesse me


ajudar...

As palavras de Amy pairaram no ar enquanto se esticavam no silêncio


entre eles, a corda havia se afundando em seus braços, deixando a pele
dolorida e arranhada enquanto ela tentava conseguir ao menos o minimo de
espaço possivel pra se mexer sobre aquela cadeira. Os pensamentos em sua
cabeça continuavam embaralhados, mas ela sabia que precisava continuar
fazendo o homem diante dela falar, enquanto tentava encontrar uma maneira
de engana-lo para que pudesse se libertar.

Atraido por suas palavras, ela observou ele se aproximar novamente


ficando exatamente embaixo da luz ofuscante acima de sua cabeça, os
contornos dele se tornaram mais afiados, os olhos encobertos pela sombras.
Em seu peito Amy sentiu o coração bater de maneira assustada, o ritmo
ecoando em seus ouvidos.

Dor simples e aguda explodiu em seu rosto, pontos negros e brancos


piscaram diante de seus olhos enquanto ela percebia que sua cabeça havia
sido arremessada para trás com violencia. Sangue fresco escorreu em seu
queixo, enquanto o ardor de seu lábio partido irradiava por todo seu rosto.

- Não é você quem faz as perguntas aqui – disse o guarda de maneira


muito simples, sua voz soando perigoamente gelida – Você responde o que
eu lhe pergunto, e se eu não achar que sua resposta não me convenceu você
vai sentir o peso da minha mão novamente.

O gosto de ferrugem pinicou a ponta de sua lingua, enquanto Amy


prensava os labios fechados furiosamente. Todo o ar que os circundava
parecia ter se modificando se tornando mais denso, mais gelido. O medo
escorreu como veneno em suas veias, os pensamentos completamente
silenciados em sua cabeça. Tudo o que lhe sobrara era um instinto de
sobrevivencia, do qual ela não sabia usar totalmente.

- Agora – continuou o policial italiano de maneira ameaçadora olhando


em seus olhos – Vamos continuar exatamente de onde paramos. Por que
Cezare Fonezzi está interessado em você?

As palavras dele eram cautelosas, embora ela pudesse ouvir a curiosidade


inerente por trás de sua voz. Ela não sabia por que aquele homem parecia
estar tão interessado em seu relacionamento com Cézare, mas ela decidiu que
permaneceria em silêncio, na posição fragil onde ela se encontrava naquele
momento, Amy sabia que nada do que ela dissesse poderia lje ajudar.

Ela pode ver que seu silêncio não o agradou na maneira que ele se
aproximou dela, sua figura se avolumando contra a luz. O corpo dela agiu
num impulso, tentando se afastar se agitando na cadeira onde as cordas a
mantinham presa, enquanto os dedos dele se infiltravam por seu cabelo
puxando-os pela raiz até que a dor trouxesse lágrimas a seus olhos.

- Não seja uma garota teimosa – disse ele, sua voz muito proxima a seu
ouvido direito – Ficar quieta não ira lhe ajudar em nada. Eu vou parar quando
você me der as respostas.

- Não... Você não vai – respondeu a garota num sussuro quase inaudivel.

O rosto dele se inclinou o brilho de divertimento surgindo em seus olhos


castanhos. Agora que a nuvem de confusão do remedio que ele lhe drogara
havia sido quase que completamente retirada de sua isão, ela podia enxergar
com mais atenção seu rosto. Ele parecia ser um homem comum, olhos e
cabelos castanhos do tipo que não atrairia um segundo olhar na rua, mas
parecia haver uma aura de inocencia que o cercava ou talvez fosse de
ingenuidade, como se ele não oferecesse nenhum tipo de perigo. Havia sido
aquela impressão que fizera com que ela confiasse no homem diante dela,
assim como o uniforme que ele usava. Um erro caro demais.

- Você parece conhecer as regras desse mundo – disse o policial soltando


o aperto doloroso de seus cabelos. – Não me pediu uma unica vez que fosse
por clemencia. Deve estar acostumada com esse tipo de tratamento. Me diga
o que você é do assassino Fonnezi? Uma de suas prostitutas? Dizem que ele
não se interessa por esse tipo de atividade, se é que você me entende.

Amy sentiu a pressão aumentar em sua mandibula enquanto ela forçava


seus dentes um contra os outros, os braços dela se tornaram ainda mais
rigidos contra as cordas que a mantinha presa, enquanto a raiva daquela
declaração escorria por seu sangue. A impotencia de novamente estar numa
situação de perigo, onde ela não era capaz de fazer absolutamente nada para
se proteger, era como um ferida pulsante no centro do seu peito.

- Você quer realmente continuar com nossa sessão de tortura? –


perguntou o policial casualmente cruzando os braços diante do seu corpo,
como se até aquele momento eles estivessem tendo uma conversa civilizada –
Por que você está os protegendo agora? Se me der as informações que eu
preciso meu chefe no futuro usar isso de alguma maneira contra a familia
Fonnezi.

- E você quer que eu acredite que o seu chefe, quem quer que ele seja está
preocupado comigo? Com meu bem- estar? – perguntou Amy o gosto do
sangue em sua boca embrulhando ainda mais seu estômago vazio. – Eu posso
não compreender quais os motivos de você estar fazendo isso sendo um
policial, mas sei que aqui eu não passo de um bode espiatorio.

O soco que ele desferiu contra a mesa de metal a sua frente ressou em
todo o ambiente, como o badalo de um imenso sino, num reflexo a garota
tentou se proteger de alguma maneira, obrigando seu corpo a se retesar ainda
mais na cadeira, enquanto virava seu rosto. Tremores de puro medo
percorreram seus membros fazendo com que seus lábios não conseguissem se
manter fechado. Ela podia sentir o coração batendo descompassadamente
como um louco no centro de sua garganta, quando a unica porta que ficava
naquele comodo se abiu.

O policial que ela abordara mais cedo e não sabia falar uma única palavra
em ingles entrou naquele comodo, seguido por uma outra pessoa, erguendo
os olhos sentiu uma onda de alívio avassalador percorrer seu corpo, quando
ela reconheceu o rosto de Cézare.

O corpo dela se acomodou na cadeira perdendo todas suas forças, os


olhos dele se fixaram em seu rosto, como se eles fossem as duas unicas
pessoas ali dentro. A expressão dele era vazia, seu semblante distante embora
ela pudesse enxergar algo atrás de seus olhos dourados e brilhantes.

Um peso pareceu ser pressionado em seu coração, deixando suas batidas


mais dificeis, ela podia sentir o frio deslizar sobre sua pele, o medo agitar em
seu estômago, mas quando olhava para Cézare de certa forma não era capaz
de sentir nada além de um alivio que parecia completamente fora de lugar.

- Fonnezi – disse o policial, colocando-se atrás de Amy, os dedos de sua


mão pousando sobre seu ombro com uma força desnecessaria – Você atendeu
meu pedido, muito mais rapido do que eu teria imaginado. A garota
realmente deve ser importante para você...

Os olhos de Cézare se desviaram por um instante para o homem que o


abordara, sua expressão mostrando pouco interesse como se ele apenas
tivesse se dado conta de sua existencia naquele momento, continuando em
silêncio, ele voltou sua atenção para Amy, andando até estar apenas alguns
passos de distancia dela.

Ele parecia diferente, embora Amy não pudesse reconhecer o que parecia
estar fora do lugar, até ela notar que ele usava um terno. Desde que o
conhecera, ele nunca tivera uma aparenta distinta e sofisticada como os
outros homens da máfia que ela havia acostumado a observar. O terno num
tom profundo de azul petroleo parecia algo mais apropriado para uma uma
festa elegante do que uma delegacia, mesmo assim parecia cair como uma
luva no corpo dele, na forma com que ele usava deixando sua figura mais alta
e imponente, a gravata ao redor do seu pescoço era de um tom profundo de
vermelho quase negro, e combinava perfeitamente com sua pele levemente
bronzeado e os cabelos caindo sobre o colarinho impecavelmente branco.

Sem saber o que pensar, ou como reagir ela observou Cézare ajoelhar-se a
sua frente, até que seus rostos estivessem completamente emparelhados, o
olhar dele recaiu firme sobre ela, e embora Amy desejasse escapar dele,
desviando sua atenção não foi isso o que fez, a presença de Cézare ali apenas
havia servido para deixar claro o quao longe ela havia chegado, e como
estava perdida.
- Você não deveria ter fugido, de novo... – disse o mafioso italiano para
ela, suas palavras soando tensas carregadas de sentimentos indefinidos.

Um sorriso brincou nos lábios dela a dor ardente nele trouxe lágrimas a
seus olhos, enquanto ela respondia:

- Eu não tive escolha.

- Não? – perguntou Cézare erguendo uma de suas sombrancelhas, como


se ele estivesse realmente surpreso com sua resposta. Daquela pequena
distancia onde ele estava Amy podia observar a linha que cruzaca sua
sombrancelha cortando seu rosto. O machucado parecia muito melhor tendo
perdido a aparencia inchada e avermelhada.

- Talvez em algum momento você vá perceber Cézare que eu não tenho o


menor desejo de fazer algo contra minha vontade.

- Eu percebi isso. Mas me diga você está feliz? – perguntou o mafioso


enquanto se levantava sua figura imponente pairando a sua frente bloquando
a luz sobre seu rosto – Era nesse tipo de lugar que você queria estar quando
fugiu?

As palavras dele doeram na parte mais sensivel do seu coração, como se


ele tivesse acabado de jogar sal em suas feridas, pela primeira vez Amy
desviou seu olhar, aquilo era exatamente o tipo de coisa que ela não precisava
suportar.

A cabeça dela pendeu sobre seu pescoço, o peso de suas escolhas


tornando-se quase insuportavel sobre seus ombros, o alivio que ela sentira ao
encontrar Cézare agora havia completamente desaparecido. Por um momento
fugaz ela esquecera que aquele homem não era seu inimigo.

- Acabe logo com isso – murmurou a garota sem saber se ele era capaz de
ouvi-la.

- Parece que vocês dois precisam colocar muitas coisa em dia – comentou
o policial atrás de suas costas, os dedos em seus ombros se apertando ainda
mais – Espero que você tenha vindo disposto a negociar Fonezzi. Meu chefe
está disposto, a ser bastante compreensivel nesse momento.

- Seu chefe está completamente fora do territorio dele – respondeu Cézare


num sussurro de voz extremamente ameaçador – E eu não acredito que toda a
Ndrangheta, esteja disposta a aceitar uma retaliação, por causa disso.

- Digamos que meu chefue é um homem que gosta de correr riscos, além
disso Fonezzi você não seria louco de começar uma guerra por causa de uma
vagabunda qualquer. Pague a quantia que meu chefe exigiu e libere os
territorios na Sicilia e então você pode levar seu brinquedinho para casa. É
simples assim.

- Ou então? – perguntou Cézare de maneira muito tranquila – O que você


pretende fazer?

Amy ergueu o rosto, o sangue correndo muito forte em suas veias parecia
ecoar em seus ouvidos, olhando por sobre seu ombro ela observou o rosto do
policial atrás dela se tranformar numa máscara de colera mal disfarcçada.
Agora estava mais do que claro que ele era alguem infiltrado na policia, ela
sempre soubera que os braços da mafias eram compridos alcançandos lugares
que a maioria das pessoas gostavam de admitir que estavam seguros, mesmo
assim ela jamais teria desconfiado da policia, uma ingenuidade que estava lhe
custando muito caro.

- Eu sei que não posso tocar em um unico fio do seu cabelo Fonezzi –
respondeu o policial – Mas, é diferente com ela, a garota não pertence a
nenhuma das familias da cidade, portanto eu posso fazer o que eu quiser com
ela, caso você não queira aceitar meu acordo.

Medo rastejou pelo corpo de Amy agudo e desenfreado provocando


ansias em seu estômago, mesmo após tudo o que ela passara de alguma forma
seu corpo ainda buscava uma maneira de tentar revidar e superar aquela
situação.

Ela sentiu os olhos de Cézare se feixaram novamente sobre ela era


estranho perceber que mesmo sem conhece-lopor completo uma parte dela ja
havia memorizado a cor de suas pupilas que mesmo agora ela podia perceber
a mais leve nuance de mudança sobre elas. Agora os olhos dele tinham um
tom citrino como se fossem duas pedras e embora eles estivessem
extremamente brilhantes também pareciam completamente gelados.

- Você está me ameaçando – perguntou Cézare muito tranquilo, embora


seu olhar estivesse preso em Amy.

- Não, eu jamais teria essa ousadia... – respondeu o policial de maneira


muito tranquila – Na verdade eu estou ameaçando a garota sentada aqui na
minha frente.

O silêncio cresceu em todo o ambiente deixando a tensão que parecia


reinar ali dentro se tornar quase insuportavel. Os dedos do policial se
infiltraram ainda mais em seus ombros, tornando o contanto extremamente
doloroso e Amy foi incapaz de conter a careta de dor que cruzou seu rosto.

- Vamos garota seja intelienge e peça para que ele aceite o acordo, ou
então nem mesmo deus vai poder te ajudar.

Os lábios dela se mantiveram trancados, enquanto ela tentava suportar a


dor que escorria por suas costas um reflexo da ardencia em seus lábios. Uma
parte dela sabia que estava sendo teimosa, mantendo um orgulho que não tina
sentido algum, enquanto outra parte talvez uma que fosse mais racional
soubesse que nada do que ela dissesse poderia realmente influenciar qualquer
um daqueles homens, e se ela fosse sincera consigo mesmo talvez se ela
tivesse de morrer então preferia que isso acontecesse ao menos com ela sendo
capaz de manter seus ultimos fiapos de dignidade.

A sua frente Cézare se aproximou até que as pontas de seus sapatos


estivessem se tocando, de maneira displicente ele colocou ambas suas mãos
em seu bolso enquanto dizia:

- Se confia em mim então feche seus olhos. – a frase dele pairou no ar


deixando-a completamente confusa, ela não era capaz de compreender o
motivo por tras daquele comando, mas como se tivesse sengo guiada por um
instinto algo quase pimitivo, ela sentiu as palpebras de seus olhos se
fecharem.

A escuridão encheu seus sentidos deixando mais atenta a tudo o que


acontecia a seu redor, ela percebeu Cézare se deslocar pela maneira que o
proprio ar se moveu a sua frente, a mão dolorosa do policial que estivera
sobre seu ombro foi arrancada numa velocidade espantosa, então o grito dele
de pura agonia estourou em seus ouvidos.

Petrificada Amy sentiu os dentes se apertarem em sua mandibula, o


coação explodindo em seu peito com euforia e medo. Ao seu redor os sons
aumentaram de proporção, os gritos do policial aumentando numa cadencia
quase que insuportavel junto com barulho de choques, e impacto de golpes.
Assim como havia começado rapidamente logo tudo se acalmou o silêncio
ecoando em seus ouvidos quase tão alto quanto os gritos que ela ouvira.

Tremendo por completo Amy tentou controlar a respiração


descompassada e chiada em seus lábios, sabia que precisava abrir novamente
seus olhos e compreender o que havia acontecido mas não era capaz de
encontrar força, ou coragem dentro de si mesma para fazer aquilo.

Algo muito leve como um toque roçou sobre as cordas que prendiam seus
pulsos, num reflexo ela se encolheu ainda mais na cadeira enquanto sentia as
cordas cairem de seus braços.

O sangue fluiu livremente para suas extremidades deixando as pontas de


seus dedos doloridas, muito lentamente reunindo o que havia sobrado de sua
coragem Amy se permitiu abrir os olhos enquanto lançava um olhar sobre seu
ombro.

Parada atrás de suas costas Cézare erguia-se como uma figura esculpida
em pedra, o rosto dele estava de perfil para ela sua atenção completamente
atraida para o corpo do homem que jazia a seus pés como um boneco de
pano.

Os olhos dela ficaram presos naquela figura contra sua vontade, na


maneira que os membros pareciam espalhados pelo chão de forma
desengonçada, mas foi o jeito que seu pescoço estava posicionado de uma
maneira completamente anti natural que deixou que seu estômago se
convulsionasse em ansias.

- Você consegue andar?


A voz de Cézare perfurou o entorpecimento que parecia pairar sobre sua
mente, a incredulidade de enxergar o corpo sem vida daquele homem
desconhecido a sua frente. Amy ainda era capaz de sentir o toque dolorido
dele sobre seu ombro, apenas um minuto atrás ele estivera falando com ela
ameaçando sua vida e agora estava caido a seus pés o peito completamente
imóvel.

Os olhos dela se desviaram novamente para Cézare, agora a atenção dele


e seus olhos dourados estavam completamente sobre ela, não havia um unico
ferimento a vista nele, ele não parecia estar machucado, ou mesmo abalado
de alguma forma, embora seus pés estivessem apenas alguns centimetros do
rosto do homem que ele havia acabado de matar. Sua expressão era neutra e
distante, e tirando o fato de que sua gravata estava ligeiramente fora do lugar,
ele era a imagem de um homem impecavel.

- Eu consigo... Consigo andar – respondeu Amy forçando as palavras para


fora de seus lábios embora ela não tivesse certeza se realmente era capaz de
fazer aquilo.

Sua atenção foi novamente atraida para o corpo a seus pés, enquanto
Cézare mexia em seu celular e logo sua voz em italiana enchia todo o
ambiente enquanto ela fazia uma ligação.

Com cuidado Amy flexionou os dedos de suas mãos, sentindo lentamente


o fluxo de sangue correr por elas de forma a não ficar doloridas. Ela esperou
que sua mente fosse bombardeada pelos sentimentos que ela imaginava
naquele momento estar inundando seu coração. Medo, revolta, nojo...
qualquer coisa que não fosse aquele frio distanciamento que parecia deixa-la
completamente entorpecida, incapaz de desviar sua atenção de um cadáver,
como se ela estivesse em choque.

O pensamento cruzou sua mente na parte mais periferica, talvez ela


estivesse em choque não somente pelo que havia acabado de acontecer, mas
por todo o dia e os problemas que ela enfrentara, e até mesmo por todos os
motivos e escolha que haviam culminado que ela chegasse até aquele lugar
em especifico naquele momento, tudo por causa do homem que estava a sua
frente.
Os olhos dela se ergueram se feixando em Cézare novamente, ela ja o
conhecia o suficiente para saber pela linha de tensão em seus ombros que ele
não parecia nem um pouco satisfeito com a pessoa do outro lado de sua
ligação embora sua voz permanecesse completamente inalterada. Vestido
daquela forma, trajando seu terno de grife, ele parecia a imagem de um
homem completamente refinado, algo que se chocava por completo com o
que ele havia acabado de fazer.

Desde que o conhecera Amy sabia que aquele homem era perigoso. Havia
uma aura que o circundava, quase um instinto que ele parecia exalar,
deixando bem claro para todos a seu redor que ele era uma ameaça. Uma
parte dela sempre estivera ciente disso, talvez até de um modo quase
incosciente, em todas as vezes que Cézare havia lhe ameçado ela acreditara
em suas palavras, havia sido exatamente o medo delas se tornarem verdade
que fizera com que ela tentasse escapar de seu alcance de uma maneira tão
desesperada.

Ela sempre soubera que Cézare era perigoso, ele nunca havia escondido
isso e mesmo assim ainda era dificil compreender o que ele acabara de fazer,
Cézare havia matado um homem completamente desarmado e agora se
comportava como se nada demais pudesse ter acontecido, como se naquele
momento não houvesse um corpo ainda quente a seus pés.

Amy não podia negar, uma parte dela sentia-se aliviada que tudo aquilo
finalmente tivesse terminado, mesmo com aquele resultado ela não era capaz
de sentir nenhum tipo de culpa ou mesmo remorso... Havia apenas um vazio
em seu peito como se seu coração estivesse ausente de seu corpo, ela se
perguntava se era aquilo que Cézare também sentia, se nenhuma vida
realmente possuia algum valor para ele, eram essas perguntas que rodeavam
seu cérebro, quando ela percebeu ele terminar sua ligação.

Em silêncio ela observou o mafioso olhar em sua direção, os dourados


quase brilhantes demais, um assassino o predador de que ela finalmente
compreendera que não seria capaz de escapar.

Todo o esforço que ela fizera havia sido completamente disperdiçado a


esperança tão pequena que ela acalentara em tentar fugir daquele lugar jaziam
destruidas e mortas no chão como o homem que ameaçara sua vida. Com
cautela ela deu um passo em frente, forçando seu corpo dolorido a se mover,
se aproximando de Cézare o olhar preso ao seu. Esperou que o medo daquele
homem e de seu futuro se infiltrasse por seu corpo, deitando as raizes em seu
coração, mas depois de tudo o que lhe acontecera a ausencia de sentimentos
em seu peito, era quase como uma benção.

Não havia como escapar de Cézare, e naquele momento se fosse


totalmente sincera consigo mesmo ela não se importava com o que ele
pretencia fazer com ela... Depois de tudo ela apenas estava cansada de fugir.
Capítulo Quinze

Foi extremamente facil se desligar enquanto Cézare a levava para fora da


delegacia. A mão dele pousada sobre a parte baixa de suas costas era como
uma ancora a realidade que se desenrolava a sua frente quase que em camera
lenta.

Ela mal notou enquanto andava cabisbaixa a seu lado os homens que
estavam parados em frente a delegacia quando eles sairam todos usando
ternos escuros, e rostos inexpressivos. Uma parte dela se perguntou onde
estaria o policial italiano que ela havia encontrado no primeiro momento
quando chegara a até a delegacia, mas depois que a pergunta cruzou sua
mente Amy decidiu que seria melhor se ela simplesmente não se preocupasse
em conseguir uma resposta.

O tempo parecia ter paralisado do lado de fora da janela do carro onde


Cézare havia a colocado, o céu estrelado era a unica coisa que ela permitia
que sua atenção ficasse presa, não tinha ideia alguma de quanto tempo se
passara desde que havia sido drogada e se fosse sincera consigo mesmo ela ja
não se importava.

O cansaço parecia um manto pesado que cobria seu corpo, como uma
capa que a mantinha distante de tudo o que acontecia a seu redor. Todos os
desconfortos que ela sentira durante aquele dia, como fome sede e cansaço
agora pareciam completamente esquecidos, e para ela foi facil deslizar para
aquele lugar silencioso em seus pensamentos onde parecia não haver
preocupações, dúvidas e dilemas e antes mesmo que ela tivesse percebido,
sua cabeça havia encostado no vidro gelido do carro e ela simplesmente se
desligara.

Não tinha certeza se em algum momento ela realmente chegara a


adormecer, agora que estava ali ao lado de Cézare uma parte de seu cerebro
não parecia disposto a descansar, mas o silêncio ao redor e o movimento
constante do carro foram o suficiente para deixa-la completamente relaxada.
Mais tarde ela se lembraria do seu corpo ser carregado para uma casa,
embora suas palpebras estivessem pesadas demais para que ela se desse ao
trabalho de entender quem estava tomando conta dela. Enquanto se
perguntava aonde Cézare estaria, seu corpo se aninhou ao calor morno da
pessoa que a carregava, antes de que a sensação de maciez de um colchão
preenchesse seus sentidos, antes mesmo que ela tivesse tempo de encontrar
uma posição mais confortavel, ela simplesmente deslizara para um sono
profundo.

***

Foi o sol que a acordou na manhã seguinte, os primeiros raios dourados


que surgiam no horizonte deslizavam por suas palpebras enchendo seu
mundo de um tom alaranjado profundo. A consciencia voltou a sua mente de
uma única vez, como se ela tivesse simplesmente piscado por alguns
instantes, embora as partes rigidas em seu corpo, lhe dissessem que algumas
horas haviam se passado.

Erguendo-se na cama enquanto tentava espantar o cansaço de seus


membros, Amy sentiu a pontada de dor viajar por seu braço esquerdo,
erguendo os olhos sua atenção recaiu sobre um suporte de soro ao lado de sua
cama, a pequena canula de plastico transparente descia com cuidado pelo
suporto até alcançar a agulha metalica inserida em sua pele. A região estava
dolorida e um pouco inchada, o soro parecia ter completamente acabado por
isso sem pensar duas vezes, ela puxou a agulha para fora de seu braço,
enquanto o flexionava tentando conter algumas gotas de sangue que
escorreram até seu pulso.

As mesmas paredes sem cor e a ausencia de móveis do comodo onde ela


estava indicaram a Amy sua localização, contra sua vontade uma parte dela
sentiu certo alivio em reconhecer aquele lugar. Ela esperava que ao menos ali
não tivesse mais surpresas das quais não seria capaz de lidar.

O silêncio quase que completo da manhã deixou-a inquieta enquanto


comtemplava o quarto que Cézare havia escolhido para mante-la naquele
momento. Ela esperou que alguem viesse ve-la, lhe dar alguma instrução
qualquer coisa mas o lugar parecia completamente vazio.

O nervosimos cresceu em seu interior, e embora ainda se sentisse fragil, a


garota se levantou enquanto sentia o frio picar as sola de seus pés, o tecido da
camisa que ela não percebera até aquele momento que estava usando se
enrolou em seus punhos ocultando suas mãos.

Confusa Amy tentou se lembrar em que momento da noite anterior


alguem havia lhe despido mas parecia existir um buraco em suas memórias.
Ela usava uma camisa de mangas longas e brancas, o tecido de algodão
encorpado era quase como uma caricia em sua pele. A pessoa que a vestira
havia perdido seu tempo abotoando os pequeninos botões até a altura de seu
pescoço, parecia algo contraprodutivo mas de certa forma ela sentia-se grata
por aquele tipo de cuidado. Definitivamente aquele seria o tipo de roupa que
ela jamais escolheria de vontade propria para dormir, mas na noite anterior
estivera tão cansada que seu cérebro simplesmente havia se desligado.

O cansaço ainda estava presente em seu corpo, na forma como suas juntas
pareciam protestar enquanto ela caminhava lentamente pelo quarto, havia um
ardor doloroso em suas batatas da pernas, e coxas como se ela tivesse feito
horas e mais horas de exercicios, os lábios estavam rachados e sensiveis, e
mesmo sem olhar num espelho ela poderia dizer que havia uma queimadura
de sol sobre seu rosto.

Vendo dessa forma seu quadro no geral parecia extremamente negativo,


mas agora que a névoa de confusa parecia ter sido retirada de sua mente por
causa de sua exaustão ela deixava sua mente analisar os acontecimentos da
noite anterior.

Pensar na delegacia, naquela pequena sala onde ela havia sido amarrada
numa cadeira incapaz de se defender trouxe um desconforto que nadou em
seu estômago como um peixe escorregadio. Agora que estava ali dentro,
protegida pelas paredes daquela quarto, ela conseguia mensurar o risco que
havia corrido na noite anterior. Ela mais teria desconfiado da policia italiana,
e embora não pudesse negar seu azar em encontrar de uma unica vez policiais
corruptos aquele era exatamente o tipo de acontecimento que ela jamais seria
capaz de prever. Seu erro de julgamento na noite anterior poderia ter lhe
custado sua vida.
Pensar nisso trouxe de volta a memoria do policial que Cézare havia
matado. De alguma forma a imagem dele parecia ter se cravado em sua
mente, como se seu cerebro tivesse escolhido aquele macabro momento para
registrar uma foto mental. Com uma riequeza de detalhes morbidas, ela podia
se lembrar com clareza assustadora do jeito que sua boca havia permanecido
aberta num grito silencioso, a forma como seus olhos fitavam o vazio de um
jeito inexpressivo enquanto seu pescoço permanecia retorcido numa posição
completamente antinatural.

Uma onda de sentimentos contraditorios varreu seu peito, na noite


anterior ela sentia-se completamente sobrecarregada para compreender tudo o
que havia acontecido,agora sua mente balançava num equilibrio precario
entre a culpa e o alívio.

Pensar em tudo o que lhe acontecera na noite anterior apenas serviu para
deixar o nervosimo mais presente em seu corpo, o silêncio cresceu em seus
ouvidos, e a garota resolveu que preferia sair dali e procurar qualquer pessoa,
ou atividade que pudessem distrai-la de sua mente traiçoeira.

O corredor da casa a recebeu como o mesmo silêncio quase onipresente,


olhando ao redor Amy percebeu que tudo estava exatamente igual ao dia
anterior, as sacolas que Giorgina trouxera permaneciam esquecidas ao lados
das paredes como se elas não tivessem nenhuma importancia, ela tropeçou
numa fronha com um delicado bordado ao redor de suas extremidades
enquanto fazia seu caminho tranquilamente até a sala.

A mente dela divagou para o dia anterior. Como Cézare havia descoberto
que ela fugira? Quem teria o avisado? As perguntas cresceram em sua mente
sem resposta, ela havia saido daquela casa sem mesmo lançar um unico olhar
para tras desejando nunca mais precisar encarar aquelas paredes aquela casa,
depois da noite anterior o peso reconfortante em reconhecer aquele ambiente
tinha um gosto agridoce em sua boca.

Ela sabia que de certa forma estava protegida ali dentro, a propriedade da
familia Fonezzi era um lugar de dificil acesso e poucas pessoas ali dentro
teriam coragem de feri-la sabendo que isso seria como desafiar Cézare.
Naquele momento o mafioso italiano continuava sendo seu perigo imediato
mais preocupante.
Pensar em Cézare foi o suficiente para deixar sua cabeça ainda mais
confusa, depois de tudo o que acontecera entre eles, ela sabia que ja não era
mais capaz de separar os sentimentos emaranhados entre eles. A raiva que
sentia dele começava queimando em seu coração apenas para caminhar de
mãos dadas com a gratidão por ter ido atrás dela, e ter salvo sua vida; era algo
complicado e que a maioria das pessoas não seria capaz de compreender... Se
fosse sincera consigo mesmo nem mesmo ela era capaz de tal ato.

Os passos dela a levaram até a sala que também continuava vazia, a


pequena sala de estar ligada a cozinha parecia estar intocada, as cortinas
fechadas impediam a entrada da luz matutina mergulhando todo o ambiente
em tons acizentados, a ausencia de qualquer som ou pessoa ali dentro apenas
serviu para deixar seus nervos a flor da pele. Depois da noite anterior, de tudo
o que lhe acontecera era só precisava encontrar alguem, a sensação de estar
completamente sozinha era muito maior do que ela podia suportar.

Ela não pensou com clareza quando seus dedos tocaram a porta da
cozinha, imaginou que a encontraria fechada como sempre acontecia, mas
quando a brisa da manhã invadiu o ambiente eriçando os cabelos em seu
rosto, ela simplesmente caminhou em frente.

Lá fora o mundo ainda parecia meio encoberto por um manto cinzento, o


sol ja era visivel na linha do horizonte e embora o céu ja tivesse uma
tonalidade mais clara bem acima de sua cabeça algumas estrelas ainda
estavam visiveis.

Parando ali por um momento Amy respirou profundamente apreciando


aquele pequeno pedaço de tranquilidade, depois do pesadelo que lhe
acontecera toda aquela calmaria era como um balsamo para suas feridas
psicologicas e fisicas, e sem pensar muito no que estava fazendo ela
continuou em frente.

Contornou a casa deixando que a grama orvalhada molhasse a sola de


seus pés, tudo ao redor parecia muito tranquilo e até mesmo o canto dos
pássaros parecia distante, a confusão em sua mente por um momento também
parecia estar completamente silenciada quando ela finalmente chegou aos
fundos da residencia e finalmente o encontrou.
O sol escolheu aquele momento para romper as ultimas nuvens que o
cobriam, a luz irradiou por todo o lugar finalmente deixando a noite para trás.
Em silêncio ela deixou que seu olhar caisse sobre Cézare registrando cada
pequene detalhe de sua figura.

Ele estava de costas para ela, o olhar completamente perdido em direção a


imensa mansão de sua familia que podia ser vista acima da colina como um
imenso templo branco se erguendo pelo mar. Ele havia retirado o terno da
noite anterior, usando apenas uma camisa social branca que ele enrolara sobre
seus antebraços. De repente ela compreendeu quem havia a vestido na noite
anterior.

Amy sabia que deveria dizer alguma coisa, ou mesmo refazer o caminho
de volta para casa, mas agora que havia chegado ali a garota percebera que
era ele quem estivera procurando durante todo esse tempo. Acordar naquele
quarto e perceber que estava completamente sozinha apenas servira para
aumentar o desejo de reve-lo novamente, para bem ou mal, todas as escolhas
que ela fizera haviam e levado até aquele momento.

Milhares de frases e palavras percorreram sua mente numa velocidade


insana, haviam várias coisas que ela gostaria de dizer para Cézare, uma
mistura que ia do agradecimento até o insulto mais perverso, talvez fosse esse
o motivo pelo qual sua lingua parecia estar grudada ao cpeu de sua boca.

- Você está se sentindo melhor? Conseguiu descansar um pouco?

A voz dele num tom tranquilo chegou até ela trazido pela brisa da manhã,
as mexas de cabelo dele ondularam se destacando contra o colarinho de sua
camisa extremamente pálido e por um instante muito rapido e vivido ela teve
ciume daquele vento.

- Eu estou bem. Consegui ter uma boa noite de sono.

Virando-se em sua direção, ela sentiu o coração diminuir o ritmo em seu


peito quando seus olhos dourados como a aurora recairam sobre sua figura.
Desde o momento que o conhcera ela havia lutado contra a atração que sentia
em relação aquele homem, agora ela começava a perceber o quão perto de
perder aquelabatalha ela se encontrava.
- Você não deveria ter retirado o soro – disse Cézare cortando sua linha
de raciocinio os olhos afiados caindo sobre a pequena gota de sangue que
parecia visivel em sua camisa branca emprestada – O médico que a examinou
ontem disse que você estava desidratada.

- O soro já havia terminado quando acordei, eu simplesmente não


conseguia mais continuar na cama...

A frase incabada morreu em sua boca, as palavras parecendo muito


simples e sem sentido depois de tudo o que acontecera na noite anterior estar
ali fora conversando com ele de forma tão casual, parecia algo
completamente fora de contexto.

Amy observou ele se aproximar dela cada pequeno detalhe do seu rosto
mais destacado sob a luz da manhã, o jeito que o sol parecia brilhar de fora
para dentro em seus olhos, a forma como seu queixo se projetava para frente.
Havia uma fina camada de barba ao redor do seu maxilar e olheiras discretas
em sua pele, caracteristicas que apenas faziam com que ele se tornasse mais
real, uma beleza palpavel que estava a seu alcance.

Ela esperava de certa forma que ele a ameçasse, ou mesmo a punisse


depois de sua tentativa de fuga, de certa forma ela havia se preparado para
isso, quase chegava a esperar algum tipo de retaliação, mas quando ele
simplesmente passou por ela voltando para o interior da casa sem lhe dizer
mais nenhuma palavra, ela o seguiu sentindo ainda mais perdida.

Cézare desapareceu dentro da cozinha, e quando ela o encontrou ele


estava de frente para os armarios abrindo todos de uma vez como se estivesse
procurando por algo embora não soubesse onde aquilo estava.

- O que está fazendo? – perguntou Amy incapaz de conter a curiosidade


em sua voz.

- Café. Eu preciso de alguma coisa mais forte se for continuar acordado, e


você precisa se alimentar.

A resposta pegou-a completamente despreenida, de todas as atitudes que


ela havia imaginado que ele pudesse tomar depois de descobrir que ela havia
fugido e quase acabara sendo morta no processo, café definitivamente não
estava na sua lista. Parada no batente da porta da cozinha, ela tentou ignorar o
desconforto enquanto o suor brotava nas palmas de suas mãos devido ao
nervosismo, de repente embora ela quisesse continuar ao lado dele, não sabia
o que dizer muito menos como agir.

Incapaz de manter-se quieta num quanto qualquer Amy caminhou de


volta para dentro da cozinha, procurando nas gavetas do balcão uma toalha de
mesa, pratos e copos, a essa altura embora tivesse passado pouco tempo
naquela casa, parecia que ela tinha uma melhor noção de onde as coisas se
encontravam do que Cézare.

O cheiro fresco de café pairou pelo ambiente levando embora um pouco


da preguiça que ainda parecia estar impregnado em seus ossos, ela não sentia
fome alguma mas ao menos se concentrar no café da manhã naquele
momento seria o suficiente para manter suas mãos ocupadas e não deixar que
as dúvidas em sua cabeça roubassem o resto do seu bom senso.

Enquanto transitava pela cozinha, Amy não conseguiu impedir sua


atenção de voltar constantemente para Cézare embora no começo ele
parecesse não saber direito onde ficavam os talheres e outros utensilios na
cozinha, agora observando-a enquanto terminava os ovos mexidos ela
percebeu como nos ultimos dias havia tentando inutilmente evitar sua
presença.

Presa dentro daquela casa, ele havia a visistado com frequencia, e em


todas as vezes Amy tentara de alguma forma ficar longe dele, até um ponto
onde ele obrigara a se sentar com ele a mesa para as refeições. Durante todo o
tempo que havia passado ali ela havia tentado ignora-lo com todas suas
forças, como se isso fosse o suficiente para resolver o seu problema, como se
o fato de não olhar em sua direção realmente fizesse com ele desaparecesse
de sua frente.

Agora ela não era capaz de retirar seus olhos dele, da maneira como ele se
movia pela cozinha com sua confiança tão costumeira, Cézare se movia com
uma graça afiada, uma expressão de controle perpetua em seu rosto era um
homem acostumado a ser temido e obedecido e deixava isso muito claro na
maneira com que se portava para todos.
A lembrança do policial que ele havia matado na noite anterior estourou
em sua mente, de forma tão abrupta que ela deixou que um copo escorregasse
de suas mãos. O vidro se chocou de maneira audivelmente alta contra a mesa
embora o impacto não tivesse sido alto o suficiente para que ele quebrasse.

Por cima de seu ombro Cézare lhe lançou um olhar de indagação sua
nova cicatriz se destacando enquanto ele erguia sua sombrancelha numa
pergunta silenciosa.

Amy terminou de colocar a mesa para o cfaé enquanto tentava conter o


tremor que havia tomado conta de suas mãos agora suadas e grudentas. O
nervosimo era como uma cobra se enroscando no interior de seu estômago,
sentia como se algo imenso e sem sentindo estivesse prestes a entrar em
erupção dentro do seu peito, simplesmente não sentia-se capaz de conectar
aquela cena de café da manhã placida e tranquila com o assassinato que
presenciara na noite anterior.

Alheio ao seu desconforto e nervosismo Cézare caminhou em direção a


mesa, uma frigideira em suas mãos. O cheiro de ovos bacon e café estava
extremamente apetitoso, mesmo assim não era o suficiente para que ela
tivesse algum desejo por comida.

Em silêncio e sem olhar uma unica vez em sua direção, ela observou ele
encher seu prato enquanto permanecia parada como uma estátua atrás da
cadeira, aquilo foi o suficiente para que ela verbalizasse em voz alta o medo
que pairava sobre seu coração.

- Você não pretende me punir por tentar fugir?

-Você deveria primeiro se preocupar em comer – respondeu Cézare


enquanto servia-se de uma generosa caneca de café o cheiro terroso
permeando todo o ambiente.

Amy não queria parecer o tipo de pessoa incivilizada que não era capaz
de aproveitar uma única refeição quando seu interesse lhe era negado, a
contra gosto ela sentou-se, deixando que os dedos tocassem os talheres ao
lado de seu prato, ela também se serviu de uma dose de café embora não
tivesse desejo o suficiente para toma-lo. Brincou com os ovos mexidos no
prato levando o mínimo a boca, o gosto estava excelente mas o nó em seu
estômago não lhe deixou que ela aproveitasse a refeição.

- O que aconteceu depois que fomos embora da delegacia? – perguntou


Amy por fim, depois que o silêncio entre eles se tornou tão intenso que ela
não pode mais ignora-lo.

- Os homens da minha família terminaram o serviço de maneira discreta.


Havia muitas coisas que precisavam serem feitas, eu te trouxe de volta e
depois que o médico a examinou voltei para supervisionar.

- Como...? Havia um homem morto no chão...

- Você quer que eu te explique no café da manhã, como se livrar de um


corpo? – perguntou Cézare muito tranquilamente.

Os olhos dourados dele se encontraram com os seus, havia uma frieza ali
que ele não era capaz de disfarçar, o primeiro sinal de desagrado que ela via
desde que o encontrara lá fora.

- Talvez eu devesse – continuou Cézare deixando os talheres de lado e se


recostando contra o encosto de cadeira – Quem sabe dessa forma, você
pudesse compreender melhor o risco que correu ontem a noite.

- Você não precisa me contar esse tipo de detalhe sórdido, pra que eu
saiba o tipo de perigo que corri – respondeu Amy abaixando sua cabeça sua
voz soando baixa num misto de vergonha e constrangimento.

- Se você realmente soubesse o risco que corria jamais teria ido até a
polícia.

- Eu não tinha como saber Cézare, que a polícia também era uma
ameaça... Acha que era isso o que eu queria quando fugi daqui?

- Então deixe-me explicar para que você não cometa o mesmo erro
novamente.
Amy deixou os talheres praticamente intocados ao lado de seu prato, ela
podia perceber pela expressão contrariada de Cézare que aquele era um tipo
de assunto que ele preferia não abordar, mesmo assim haviam um brilho
resoluto por trás de seus olhos, e a garota também não podia negar o desejo
de saber mais sobre aquele mundo, um tipo de curiosidade mórbida que
talvez em nada tivesse a lhe acrescentar, mas ela simplesmente não era capaz
de suprimir.

- A máfia está espalhada por toda a Itália – disse ele lentamente. Suas
palavras pareciam serem escolhidas cuidadosamente, como se dessa forma
ela pudesse compreender realmente o que havia por trás de tudo aquilo – Ela
existiu antes do Estado conseguir se erguer por completo, e tomar o controle
das vidas das pessoas. É um sistema, um tipo de vida, para alguns o unico
que existe. Não é uma escolha, faz parte de sua família quem você é, está em
seu sangue, seu passado, não há como fugir disso.

- Eu não entendo... – respondeu a garota. Tudo o que ele lhe dizia era algo
muito maior e mais complexo do que ela poderia ter imaginado, quase como
se ele tivesse falando de outra realidade. Uma onde pessoas morriam como
moscas, a policia existia apenas como uma fachada, e o destino muitas vezes
não eram decidido por escolha própria.

- Meu mundo é feito de sangue – continuou Cézare desviando o olhar,


deixando que ele pousasse na parede lisa do outro lado do cômodo, como se
ele pudesse estar enxergando algo completamente diferente ali, além da
ausencia de qualquer adorno, e da cor básica – Minha família tem as mãos
sujas, e a maior parte deles não se importa desde que isso consiga os manter
no poder. Nós controlamos a maior parte da região que vai Da Sicilia até o
sul, além de operar em outros paises como o seu. Mas nós temos inimigos.

- O policial de ontem a noite – disse Amy num sussurro abafado.

- Ele era apenas um peão sem importancia, mas estava trabalhando para a
Ndrangheta, eles são um grupo extremamente fechado que domina toda a
região da Calábria, e constantemente tenta invadir nosso território.

- Você acredita que o policial que me ameaçou ontem, era um mafioso


disfarçado então?
- Não – respondeu Cézare de maneira muito firme – Ele era apenas um
homem comum, que provavelmente havia aceitado algum tipo de suborno
para trabalhar com nossos inimigos. Isso é algo comum em se tratando da
policia, nos dias de hoje qualquer informação que pudermos conseguir é um
trunfo.

Amy deixou que seu olhar se desviasse para as mãos que sem que ela
percebesse se apertavam em seu colo. As pontas de seus dedos estavam
esbranquiçadas e gélidas, apenas falar sobre o que havia lhe acontecido
agitava o medo, o nervosismo enquanto ela tentava não se desbruçar muito
sobre as lembranças do pesadelo de ontem a noite.

- Então isso quer dizer, que o fato de eu ter encontrado um policial


corrupto ontem a noite foi apenas azar... Talvez eu realmente não devesse ter
fugido no final das contas.

A voz dela estava repleta de um sarcasmo dolorido que parecia queimar


em seu peito como um ácido. Todo seu plano, sua fuga desesperada era sua
última esperança de escapar daquela situação onde ela se encontrava, agora
ela precisava admitir a si mesma que cometera um erro, e aquilo deixava um
gosto amargo em sua lingua.

Estava num país estranho contra sua vontade, incapaz de compreender


como as coisas transcorriam ao seu redor, enquanto frequentemente era
mergulhada naquele submundo repleto de inimigos que se escondiam no
escuro, crimes e morte.

- O que você pretende fazer comigo? – repetiu Amy mais uma vez. Ela
sabia que havia desafiado Cézare ao fugir, e que isso era exatamente o tipo de
atitude que não passaria impune, uma aprte dela temia as consequencias
daquele caminho que ela escolhera. Enquanto estivera fugindo ela jamais
havia deixado seus pensamentos se desviarem para o fato de que ela talvez
não pudesse conseguir escapar, mas agora que precisava lidar com a realidade
diante dela, havia uma parte de si mesma que apenas desejava que aquilo
acabasse o mais rapido possivel.

- Você olha pra mim como se eu tivesse todas as respostas Amy, mas
adivinhe eu também não sei o que fazer com você.
- Não ouse se fazer de vítima Cézare, como se eu fosse a única errada
nessa situação, foi você desde o início que me arrastou pro meio disso!

Amy levantou-se tentando escapar da sensação de ebulição em seu peito.


Assim como seus pensamentos caóticos, ela já não era mais capaz de
controlar ou entender seus pensamentos, e aquilo a assustava muito mais do
que era capaz de admitir para si mesma.

Sabia que estava sendo infantil, como se estivesse fugindo de Cézare, mas
naquele momento, ela precisava fazer algo qualquer coisa para se afastar
porque simplesmente não era mais capaz de permanecer ali.

Ela não conseguiu ir muito longe assim que passou por Cézare sentiu os
dedos dele se infiltrarem por seu cotovelo, fazendo com que ela fosse
obrigada a virar em sua direção. A estatura dele, e o jeito como se rosto
mostrava contraído deveria ter sido o suficiente para intimida-la, mas o bom
senso parecia ter sido completamente abandonado de sua mente, deixando
para trás apenas a raiva e a indignação por tudo o que havia lhe acontecido
até aquele momento.

- Me solte agora – pediu a garota sua voz não passando de um murmúrio


raivoso entre dentes.

- Não! Você acha que pode simplesmente sair andando quanto bem tiver
vontade depois de tudo o que aconteceu? O que você quer de mim Amy? Que
eu diga que não há mais nenhum problema agora que você entendeu a
gravidade de toda a situação ontem? Você tem ideia do que aquele homem
poderia fazer com você caso eu não chegasse a tempo.

- Você tem sua parcela de culpa em toda essa situação Cézare –


respondeu a garota forçando seu braço num impulso violento para que ele a
soltasse de uma vez – Você me trouxe até aqui contra minha vontade, e em
sua cabeça completamente enlouquecida espera que eu fique quieta sem lhe
causar problemas.

- Eu espero que ao menos você possa ter o mínimo de autopreservação.


Se você não tivesse fugido nada disso teria acontecido.
- Você não me deu escolhas! – respondeu a garota erguendo sua voz
odiando como ela parecia frágil em sua garganta – Você me trouxe até aqui
sob milhares de ameaças, eu fiz a única coisa que julguei que poderia me
salvar.

Cézare afastou-se um passo para trás o rosto transtornado, olhos que


lançavam faíscas enquanto deixava as pontas de seus dedos bagunçarem os
cabelos sobre sua testa. Aquela imagem serviu apenas para deixar Amy ainda
mais frustrada, ele não tinha o direito de se sentir daquela maneira, não sendo
o autor de toda aquela situação. Aquilo era algo que ela não era capaz de
esquecer ou mesmo perdoar, embora a preocupação em seu olhar estivesse
evidente na maneira com que ele a observava.

- Por que você me trouxe aqui Cézare? – perguntou Amy enquanto


tentava conter as batidas frenéticas de seu coração. Eles já haviam ido longe
demais com aquele assunto seria melhor lidar com aquilo de qualquer forma
mesmo que ela se opusesse com todas as suas forças, como se estivesse
arrancando um curativo grudado em algum ferimento em sua pele, quem sabe
se ela fosse rápida o suficiente a dor pudesse ser controlada.

- Você já me perguntou isso diversas vezes, a essa altura já deveria saber


qual seria minha resposta.

- Você pretendia me punir – continuou Amy tranquilamente – Embora


não tenha feito isso de verdade desde que chegamos a Itália.

Os olhos dourados dele se dirigiram para a janela, como se naquele


momento em especifico ele simplesmente não pudesse encara-la. Haviam
verdades que nadavam na piscina douradas de suas orbes, tão próximas que
Amy jurava quase poder ouvi-las sussurradas em segredo em seus ouvidos.
Uma parte dela temia descobrir o que elas realmente podiam significar.

- Meus planos... Não era isso o que eu havia planejado para nós dois. Eu
já lhe disse eu não tenho todas as respostas.

- Então o que faremos?

O silêncio foi a única resposta que ela obteve, e aquilo mais do que tudo
foi o suficiente para empurra-la sobre a borda, depois da noite anterior de
tudo o que havia lhe acontecido a única coisa que ela podia desejar era uma
resposta. Por mais negativa que ela fosse ao menos seria algo que ela pudesse
contemplar, continuar ali daquela maneira sabendo que seu futuro era algo
completamente indeterminado iria leva-la a loucura mais cedo ou mais tarde.

- Você me deve uma resposta Cézare – persistiu Amy, sem se importar


com o fato de estar empurrando-o contra a parede.

- Eu não tenho todas as respostas, nesse momento também não sei o que
fazer.

- Você pretende me deixar ir?

A expressão dele se modificou assim que ouviu sua pergunta, a forma


como sua mandíbula se contraiu como se ele a estivesse cerrando, era um
indicativo muito claro do que iria lhe responder. Agora ela já o conhecia o
suficiente para perceber as respostas que desejava escondidas em sua
aparência tão cuidadosamente rígida. Sem pensar no que estava fazendo Amy
caminhou em sua direção, fazendo com que seu olhar se prendesse ao dele,
talvez aquilo no fim das contas só fosse prejudica-la, desde que conhecera
aquele homem ela nunca havia sido capaz de ganhar algo dele, estivera
sempre fugindo, mas agora sentia-se cansada demais para lidar com ele, e
todo o problema que trouxera para sua vida.

- Ao menos isso você precisa me responder Cézare. Tenho certeza que


você tem a resposta pra essa pergunta.

- Não – respondeu ele simplesmente, a voz soando completamente calma


e controlada.

- Não? Simples assim, você nem ao menos vai me dar uma justificativa,
ou quanto tempo pretende me deixar presa ao seu lado.

- Isso vai fazer alguma diferença?

- Faz toda a diferença do mundo pra mim! É da minha vida que estamos
falando.
A voz dela se quebrou na última palavra e Amy tentou conter as lágrimas
salgadas em sua garganta, os lábios ainda continuavam secos como se ela
tivesse esfregado areia sobre eles, a pequena ferida sobre a pele delicada
havia se rompido novamente que servira apenas para irrita-la. Havia uma
parte dela que não queria mais continuar aquela conversa, com certeza Cézare
deixara muito claro que ele não se importava com o que ele queria ou mesmo
desejava daquela situação, mesmo assim ela não conseguia se obrigar a virar
as costas para ela. Agora que chegara até ali precisava despejar tudo aquilo
que parecia acumulado de maneira insuportável em seu peito diretamente
sobre ele.

- Por que Cézare? – perguntou a garota erguendo o rosto em sua direção,


deixando que ele pudesse lhe ver por completo – Por que você me quer ao
seu lado tanto assim?

Um sorriso triste e irônico brincou nos lábios dele repuxando as cicatrizes


em sua face. Por um momento ele pareceu verdadeiramente surpreso com sua
pergunta como se estivesse se preparando para receber qualquer outra dúvida
além daquela.

- O que você quer que eu diga Amy? Quer que eu encontre algum tipo de
lógica por trás desse desejo?

- Você não pode simplesmente entrar na minha vida e bagunça-la por


completo apenas por causa de um capricho seu.

- Não é um capricho – rebateu ele, aproximando-se dela, a raiva brilhando


em seus olhos e outra coisa, que lembrava algo como mágoa.

Ela não se afastou embora talvez devesse, a proximidade dele era


perigosa, quase viciante, insuportável. Não era capaz de desviar os olhos
dele, tão claros e brilhantes, ninguém deveria ter olhos como aquele, claros
como a luz do sol lá fora que agora tentava se infiltrar pelas janelas fechadas
por cortinas da sala.

Cézare falava sobre o desejo que sentia por ela, aquela atração que ele
dizia não ser capaz de combater, Amy gostaria de acreditar que tudo aquilo
não passava de uma desculpa esfarrapada, o tipo que era usada por homem
desesperado para conquistar uma garota que não significava nada para ele... E
mesmo assim ela também não conseguia suprimir aquele desejo de estar ao
lado dele, indo contra seu bom senso mesmo depois de tudo o que ele havia
lhe feito. Talvez no fundo o que ele dizia tivesse uma pequena pitada de
verdade.

- O que eu sou pra você Cézare? – A pergunta escapou dos lábios dela de
maneira sorrateira, e Amy se surpreendeu com o significado por trás daquelas
palavras. Era realmente aquilo que estivera espreitando nas sombras de seu
coração.

Um tipo novo de nervosismo agora deslizou por seu corpo, mais ameno e
diferente da onda pulsante de medo que ela costumava sentir tantas vezes
quando se tratava do mafioso italiano, parada incapaz de se mover um único
passo que fosse como se estivesse hipnotizada por ele, Amy observou Cézare
se aproximar, a mão direita dele se moveu lentamente, como se ele realmente
não notasse o que estava fazendo. As pontas de seus dedos tocaram o alto de
sua testa, escorrendo pelo lado de seu rosto delicado como o toque das asas
de uma borboleta quase imperceptível.

Algo pareceu pulsar dentro dela, um desejo que ela não sabia de onde
nascia, o toque dele despertou nela uma ânsia por mais, como se durante todo
aquele tempo ela tivesse estado privada de algo que lhe era extremamente
querido.

- Você é minha tormenta Amy, meu castigo – as palavras de Cézare


chegaram até ela como um murmúrio praticamente inaudível, mas agora ele
estava tão perto que ela podia enxergar com clareza o formato perfeito de
seus lábios, a maciez que um dia ela havia experimentado gravada como fogo
em suas lembranças.

- Eu não sou um bom homem – continuou ele, agora a mão dele


repousava completamente por sua face um contato extremamente carinhoso
em contraste com o toque rígido dos calos em sua palma. – Talvez você seja
a forma que Deus encontrou pra fazer com que eu pague por meus pecados.
Uma tortura, que eu não consigo evitar.

Ela sabia que deveria se afastar, aquelas não eram as palavras que ela
queria ouvir um tipo de verdade distorcida em crenças, e mesmo assim ela
permaneceu ali. Porque embora não ousasse admitir em voz alta ela também
se sentia torturada, porque agora que ele havia lhe tocado o desejo por ele era
como fogo queimando em seu corpo, desintegrando seu bom senso e todo
pensamento racional.

Da primeira vez que ela se entregara a Cézare ela fizera como uma
desculpa, uma forma que ela encontrara para tentar engana-lo, e agora com
ele diante dela longe das sombras da noite que o cobriam quando eles haviam
se encontrado pela primeira vez, talvez ela pudesse admitir ao menos pra si
mesma, que sempre havia se interessado por aquele homem. Um tipo de
atração que não fazia sentido algum, que mais parecia estar fadada ao
fracasso e mesmo assim estava entre eles, viva e ardente crepitando a cada
toque dele sobre sua pele, a cada pequeno espaço conquistado mais próximo
por sua presença.

- Você matou um homem a noite Cézare, você me ameaçou inúmeras


vezes não precisa me dizer que tipo de homem você é. Eu sei muito bem.

- Eu te pediria desculpas milhares de vezes se isso de alguma forma


pudesse compensar o medo que provoquei em você. Mas sei que as coisas
não são simples assim... Eu não posso apagar o que aconteceu entre nós
quando nos conhecemos, e depois disso.

- Não quero que você apague o passado Cézare, eu só quero você pare de
repetir os mesmos erros no presente!

A mão dela se fechou sobre a dele, o toque quente infiltrando por seu
corpo, o aroma dele viajou até seu nariz, deixando que seu coração batesse
num ritmo saudoso. Ela estava muito consciente de seu corpo naquele
momento, vestindo apenas a camisa do homem diante dela, para esconder
suas roupas intimas. A conversa que havia começado repleta de acuações e
raiva se enveredara por águas perigosas, e Amy não queria que aquilo
inominado que existia entre eles acabasse naquele momento.

- Você quer que eu te peça perdão! – perguntou ele tão próximo a ela, que
a garota pode sentir o hálito quente contra seu rosto – Eu farei isso quantas
vezes você quiser, eu posso me ajoelhar a você. Você sabe como eu me senti
ontem a noite quando percebi que podia te perder pra sempre Amy? Lembrar
que eu mesmo poderia ter feito algo assim quando te encontrei?

Os olhos dele queimavam, dourados e brilhantes em seu rosto


atormentado, como um homem com uma aparência tão destruída, poderia ser
tão belo e fascinante? Como seu corpo e seu coração podiam deseja-lo
mesmo depois de tudo?

O mafioso italiano dissera que não havia lógica, e Amy simplesmente não
quisera ouvi-lo, descartara aquela resposta como algo completamente inútil,
porque não havia sido capaz de compreender sua profundidade... Mas ele
estava certo, não havia lógica na loucura, assim como não havia ordem no
caos, ambos se completavam e coexistiam embora um não pudesse
compreender o outro.

Cézare era o caos, a ausência de logica que ela sempre tentara afastar de
sua vida tão medíocre e comum, a luz que parecia existir nas trevas, e ela já
não era mais capaz de lutar contra a atração magnética que sentia por ele.

- Eu me arrependo de tudo o que te fiz... Mas não posso me arrepender do


caminho que tomei até chegar a você, eu não posso me arrepender disso.

As palavras dele a estavam a matando, aquela verdade que ela nunca


havia desejado ouvir, aqueles sentimentos misteriosos que ela havia esperado
encontrar nos olhos de qualquer outro homem. Alguém que fosse seguro,
companheiro confiável. Não no homem diante dela, um assassino de sangue
frio que ela mal era capaz de compreender. O coração dele parecia retumbar
contra as pontas de seus dedos, o espanto tomou conta de suas feições quando
ela percebeu que suas mãos haviam se erguido sem que ela fosse capaz de
notar, tocando seu peito, buscando algum tipo de apoio que suas pernas
haviam completamente desistido.

Os dedos dele se infiltraram por seu cabelo curto, roçando em sua nuca,
ela sabia o que estava prestes a acontecer e algo dentro dela lhe dizia para
impedir, aquele era o último momento para deixar para trás toda aquela
insanidade, mas o pensamento assim quando surgiu em sua mente foi soprado
para longe como fumaça. Ela deixou que ele a tocasse, embora soubesse que
não deveria, ela aproveitou a ternura de suas mãos o calor de sua pele,
mesmo quando seu coração bateu dolorido em seu peito com medo de que ele
se arrependesse, mas as borboletas dançavam ensandecidas em seu estômago,
o sangue correndo como fogo em sua pele, e quando ele finalmente a beijou
foi simplesmente como se o mundo não existisse ao seu redor.

Os lábios dele eram macios contra os seus, o gosto igual em suas


lembranças, o corpo dela se ergueu nas pontas dos pés, deixando que ele se
colasse ao seu. As mãos dele a seguraram pela cintura uma estabilidade bem-
vinda. A língua dele se infiltrou em sua boca, quente úmida, sedenta de
desejo, expulsando todo o receio, que habitava sua mente apenas um minuto
atrás.

Ela queria que ele a tomasse contra seu corpo, a deitasse ali mesmo contra
o sofá que estava apenas alguns passos de distância. Os dedos dela se
infiltraram pelo cabelo dele, tão macios quanto seus lábios, as pernas roçaram
juntas, o tecido de sua calça de alfaiataria pinicando a pele exposta em suas
coxas.

Amy sentiu a parede tocar suas costas, abrindo os olhos ela notou como
eles haviam caminhado pela sala, os braços de Cézare roçaram sua cintura,
erguendo seu corpo de encontro ao dele, e então ele se afastou dela, olhando
pegando fogo, enquanto encostava a testa contra sua dizendo em murmúrios:

- Não... Me desculpe, eu não devia ter feito isso, você ainda está doente...
E provavelmente não quer isso.

O choque da ausência dos lábios dele por um momento congelou seu


cérebro, como se lhe causasse uma dor física, ela observou Cézare se
desvencilhar dela, afastando-se um passo de cada vez, até ela finalmente
conseguir alcançar sua mão, puxando de encontro a si mesma.

- Cézare não... Eu quero isso.

Ele balançou a cabeça em negativa, confusão nublando seu rosto,


enquanto os dedos de sua mão livre bagunçavam ainda mais as mexas de seu
cabelo. Ele parecia cansado, e perdido, olheiras visíveis sobre seus olhos
claros. Tão diferente do homem na noite anterior, a sombra vestida de terno,
o rosto sem uma única expressão humana. Com os lábios inchados e
vermelhos e olhos nublados pelo desejo, ele parecia mais bonito do que ela
podia suportar.

- Não Amy, não diga isso. Sempre é assim entre nós. Alguma explosão,
uma decisão tomada as pressas. Eu não quero fazer nada que depois você se
arrependa...

- Eu não vou me arrepender – disse a garota num murmúrio, embora não


pudesse acreditar naquelas palavras, mas elas não importavam, mesmo que
aquela fosse uma verdade, Amy havia decidido que tomara conta das
consequências quando essas finalmente chegassem até sua porta. Por um
único dia que fosse, ela havia decidido parar de fugir.

- Eu quero isso que existe entre nós. Eu quero você.

O espanto que tomou conta das feições dele teria sido o suficiente para
lhe trazer gargalhadas, se ela não soubesse que aquilo seria algo que iria
ofende-lo. Percorrendo a pequena distância que os separava Amy se colocou
nas pontas dos pés até que fosse capaz de alcançar os lábios dele mais uma
vez.

Dessa vez o beijo que ela depositou ali foi doce, e terno completamente
diferente do que ele havia lhe dado, durante todo o momento ele permaneceu
de olhos abertos, como se simplesmente não fosse capaz de acreditar no que
estava acontecendo diante dele.

- Não precisamos ter pressa – sussurrou ela contra seus lábios


depositando beijos molhados sobre sua face – Eu posso ser paciente, posso
fazer amor com você o dia inteiro.

As palavras dela não afastaram a dúvida em seu olhar, mas Amy


conseguiu observar a barreira se tornar mais fina, ele a desejava com a
mesma intensidade não havia motivos para que nenhum deles continuasse
negando aquilo.

Os dedos dela trilharam a marca da nova cicatriz dele que escorria por sua
pele, marcando seu olho, ela contornou sua forma gravando-a em sua
memória, não conseguia deixar de sentir responsável por aquilo, embora
soubesse que aquilo era uma infantilidade. Aquele homem que havia se
machucado por sua causa, apenas para mantê-la a seu lado, que salvara sua
vida na noite anterior, lhe confundia na mesma medida que excitava. E aquele
era exatamente o tipo de sentimento que ela não queria mais continuar a
negando a nenhum dos dois.

Beijando a ponta de sua cicatriz exatamente onde ela terminava no alto da


bochecha, a garota murmurou contra sua pele dizendo:

- Me leve para o quarto Cézare, faça amor comigo.


Capítulo Quinze

Cézare sabia que deveria ter resistido. Mesmo quando a boca dela tocou
seus lábios de forma tão cálida ele jurou a si mesmo que não iria retribui-la.
Seria forte por ambos naquele momento, ela estava ferida física e
emocionalmente, se ele realmente queria que ela acreditasse no que acabara
de dizer, em suas desculpas, então precisava agir de acordo, mas então ela
beijou seu rosto exatamente onde ficava sua cicatriz e tudo aquilo foi apagado
de sua mente.

Amy lhe embriagava, roubava seus sentidos enchia seu corpo de um


prazer inimaginável. Ele não era capaz de lhe negar absolutamente nada.

Ela o puxou contra si novamente, fazendo com que ele se desequilibrasse


e precisasse amparar ambos os corpos com seus braços. O beijo que ela lhe
deu foi sorridente, ainda de olhos abertos ela observou ela erguer o rosto, as
mãos ágeis em seus cachos, devorando sua boca tão sutilmente com extrema
paciência que ela achou que não seria mais capaz de suportar aquela tortura.

Sabia que não estava sonhando, nem mesmo em sua mente ele poderia
conseguir criar algo tão delicioso quanto aquilo. Amy tinha gosto de céu, do
paraíso proibido que ele sabia muito bem que sua entrada jamais seria
permitida. Ela era seu objeto de tentação, tortura e desejo que ele não era
capaz de se cansar. Jamais seria.

Os braços dele rodearam sua cintura, um homem que sabia que havia
perdido, quando pegou-a no colo levando-a em direção a seu quarto. Os
passos dele soaram vacilantes no corredor, estava com as pernas bambas? O
pensamento trouxe um sorriso em seus lábios enquanto ela continuava a
depositar beijos sobre seu rosto, seu pescoço, sua clavícula, e quando ela
mordiscou com seus pequenos dentinhos a delicada pele entre seu ombro e
seu pescoço, ele descobriu que realmente estava com pernas bambas. Pela
primeira vez em toda sua vida.

O pensamento era assustador, assim como aquela realidade, onde ela o


beijava e ele podia deslizar suas mãos novamente por seu corpo.
Amedrontador e magnifico, o suficiente para fazer qualquer homem perder a
cabeça.

Ele deveria ter se preparado melhor, queria que aquele momento, a


decisão que ela havia tomado valesse a pena faria qualquer coisa que
estivesse em seu alcance, mas como? Não sabia por onde começar, e a
proximidade dela afastava o pouco raciocínio logico que havia sobrado em
sua mente.

O coração batia em seu peito como um machado incansável, como se


tivesse a intenção de quebrar ao meio suas costelas, apertando o corpo dela
mais de encontro ao seu, aspirou o perfume de seus cabelos, o aroma entrou
em sua corrente sanguínea acalmando de imediato sua mente. Nos meses em
que ela estivera longe do seu alcance, ele sempre tivera perto de si, uma
camiseta dela próxima sem se importar se estava se comportando como um
maldito maníaco. A ausência dela havia dilacerado a alma que ele julgara não
possuir, e somente aquilo era capaz de lhe trazer um pouco de lucidez.

Os corpos dele tropeçaram na porta empurrando-a com um estalo audível


contra a parede, praguejando em italiano, ele a levou em direção a cama, que
agora ria de forma audível. Se continuasse daquela maneira então podia dar
adeus a perfeição que ele tanto almejava. Estava se comportando como um
maldito adolescente, incapaz de segurar sua própria libido.

A ereção no centro de suas calças, era uma lembrança constante de como


ela o enfraquecia, aquela mulher o tinha exatamente na palma de suas mãos e
por algum motivo que ele não era capaz de compreender aquilo não era algo
que lhe incomodava.

Com cuidado ele a depositou na cama, o corpo dela se aconchegando aos


lençóis como uma sereia sobre as ondas.

- Abra as cortinas – pediu Amy enquanto rolava pela cama, a barra da


camisa que ela colocara nela subindo acima de sua cintura, deixando amostra
as pernas torneadas, e a cintura que ele não se cansava de deslizar suas mãos.

Erguendo-se sobre os cotovelos, ela inclinou a cabeça enquanto sorria, os


cabelos curtos rodeando seu rosto como uma aureola, ele não podia negar que
sentia falta de suas longas madeixas da forma como elas escorriam em ondas
sobre seus ombros e costas, mas ela estava sempre bela enquanto o
observava, de um jeito que deixava os batimentos de seu coração mais lentos.

Cézare sabia que não era capaz de lhe negar nada, por isso caminhou até a
janela daquele quarto, recolhendo as cortinas de tecido diáfano, a luz do sol
invadiu todo o ambiente beijando o corpo dela, fazendo com que seu cabelo
refulgisse a luz do sol.

- Tem certeza disso? – perguntou ele, enquanto retirava os próprios


sapatos, a ansiedade uma nova companheira roendo suas entranhas. – Está
muito claro lá fora.

- Tenho eu quero ver você por completo.

As mãos dele congelaram sobre a meia que ele havia acabado de retirar,
erguendo os olhos ele encontrou o olhar dela fixo ao seu. Nunca havia se
considerado um homem vaidoso, sabia que aquela seria exatamente o tipo de
atitude inútil para se ter. Conhecia muito bem a imagem que via quando se
olhava no espelho, por isso aquele pedido que ela fizera disparou um alarme
em sua mente.

- Por que ? – perguntou ele com boca seca, embora talvez não estivesse
preparado para encarar sua resposta.

- Quando nós encontramos da primeira vez Cézare, tudo ao nosso redor


estava repleto de escuridão. Quero fazer amor com você aqui debaixo da luz
do dia. Quero vê-lo por completo.

Não havia maldade nenhuma em seus olhos azuis como o céu lá fora, e
quando ela sorriu em sua direção erguendo a mão pálida para ele, algo dentro
dele se moveu atraído, como se ela fosse uma espécie de imã. Ele se
aproximou da cama, parando apenas na beirada para observa-la, se a tocasse
agora sabia que sua luxúria tomaria completamente conta de si e não seria
mais capaz de se conter.

- Você é tão linda Amy.


O sorriso dela esmoreceu em seus lábios enquanto um rubor quase
imperceptível cobria o alto de suas bochechas. Aquilo o surpreendeu por
completo, por que ela se sentia tímida daquela maneira quando a elogiava?
Claramente ele já havia feito isso antes.... Ela era belíssima, ele deveria ter
dito antes...

A mente dele foi invadida pelos milhares de vezes em que ele havia sido
rude com ela, seu estômago se contorceu em desconforto, o desgosto
deixando um goste ocre em sua boca. Ele jamais havia sido um homem
inteligente, mas saber que estivera tão perto de perder aquela mulher por
incompetência própria foi o suficiente para que ele se amaldiçoasse em
silêncio.

Cézare observou como ela se moveu sobre a cama, deitando-se com as


costas contra os altos travesseiros, exatamente no centro da imensa cama, que
ele havia comprado. Ve-la ali, usando nada mais do que suas roupas sobre os
lençóis que ele comparar foi o suficiente para satisfazer ao menos um pouco a
parte possessiva de sua mente. Desde que se deitara com ela naquele galpão
caindo aos pedaços em Nova York, sonhara em traze-la até ali, coloca-la em
sua casa na terra que pertencia a sua família, ao menos nesse ponto ele havia
sido bem sucedido, e definitivamente o esforço havia valido a pena.

- Tire a roupa pra mim – pediu ela muito lentamente, enquanto cruzava as
mãos sobre o colo como se fosse uma espectadora, esperando um show
começar.

Uma parte dele queria protestar contra aquele pedido, mas quando as
mãos dele pousaram sobre o primeiro botão abaixo do seu pescoço, e o olhar
no rosto de Amy se transformou ele decidiu abafar a voz insegura em sua
cabeça e fazer exatamente como ela pedia.

Ele conhecia aquele olhar no rosto dela. Fome e desejo eram visíveis
entre as ondas azuladas de suas orbes um reflexo cristalino daquilo que
crescia dentro do seu próprio peito. Lentamente, ele desabotoou botão após o
outro, até que a camisa pendesse aberta sobre seu corpo, quando os dedos
dele pousaram sobre o cinto que prendia sua calça, um murmúrio escapou
dela enquanto ela mordia os lábios sem ao menos se dar conta disso.
A eletricidade parecia vibrar entre eles, o sol aqueceu suas costas a brisa
da manhã balançando seu cabelo, mas sua atenção estava completamente
voltada para a mulher sentada em sua cama, e em seu desejo de agrada-la.

Ele deslizou para baixo de suas coxas sua calça e cueca, deixando que
ereção se mostrasse completamente no ar. Despido por completo de suas
roupas e orgulho ele parou a frente dela, completamente vulnerável sedento
por ela.

O olhar de Amy percorreu seu rosto vagarosamente descendo por seu


pescoço passando por tronco, ela parecia capturar cada pequeno detalhe,
enquanto deitava sua cabeça, os lábios sendo mordiscados entre os dentes, até
que estivessem vermelhos como um morango.

A atenção dela recaiu sobre sua ereção, e mesmo aquela distancia ele
pode ver sua íris se tornando mais negro engolindo o azul. Saber que ela o
desejava era o afrodisíaco mais potente que ele alguma vez experimentara na
vida. Somente usando toda sua força de vontade, Cézare conseguiu
permanecer ali debaixo do seu escrutínio.

Levantando-se e engatinhando em sua direção, ela caminhou até a beirada


da cama, olhos fixos ao seu, erguendo-se em seu joelho ela pairou apenas
alguns centímetros de distância, a respiração dela contra seu pescoço onde
sua altura permitia que ela alcançasse.

Levantando uma das mãos, ela pairou os dedos sobre uma de suas mais
antigas cicatrizes, que ficavam ao lado de sua cintura, ela não chegou a toca-
lo mas apenas a proximidade foi o suficiente para que ele travasse o ar em
sua garganta.

- Você tem muito mais cicatrizes do que eu me lembrava – disse Amy, o


olhar dela preso em seu corpo. O que aconteceu aqui?

- Eu acabei me cortando enquanto treinava quando era um adolescente.

Erguendo o rosto em sua direção, ela observou sua expressão como se


tivesse esperando encontrar ali uma mentira, quando finalmente se deu por
satisfeita, ela deixou que seu olhar recaísse sobre outra linha essa um pouco
mais acentuada perto do seu ombro.

- E essa daqui?

- Um tiro de raspão.

Amy apontou pra outra linha no alto de sua coxa, o pequeno e antigo
ferimento quase imperceptível entre os pelos do seu corpo.

- E essa daqui, tenho certeza que essa eu não conhecia.

- Um jogo de futebol que deu muito errado quando eu era criança.

A resposta pareceu pega-la completamente desprevenida, tentando conter


o riso, Cézare puxo-a até ela, deslizando as mãos sobre sua cintura, sentindo
a maciez do corpo dela.

- O que foi? Não me olhe dessa forma eu não passo vinte e quatro horas
do meu dia, metido em algum tipo de luta armada.

- Mesmo? – respondeu Amy enquanto sorria para ele – Você quase


conseguiu me convencer de que não era um homem incivilizado.

Ele a beijou porque a proximidade com ela era insuportável sem que ele
tivesse seus lábios possuído. As mãos dele moldaram sua forma, deslizando
por debaixo de sua camisa, acariciando o alto de suas nádegas a parte debaixo
de seus seios, quando ela suspirou de puro desejo entre os lábios dele Cézare
sabia que estava caminhando sobre o fio da navalha.

A mão dela se infiltrou por seus corpos, alcançando a ereção dele que
repousava sobre sua barriga, prazer puro e simples escorreu por sua mente,
enquanto ela interrompia o beijo, buscando o ar que havia escapado
completamente de seus pulmões.

Ela o acariciou lentamente, o toque tão gentil o levou a beirada de um


orgasmo que ele precisava retardar. Aquela mulher o iria levar a loucura.

- Quero tocar em você, sentir você, te provar.


Ele também queria que ela fizesse tudo isso, mas seu corpo caminhando
sobre aquela tênue linha do desejo apenas queria sua libertação, mesmo assim
Cézare buscou respirar fundo, deixando que ela se aproveitasse de seu corpo,
aquele momento com ela era a única coisa que ele tinha imaginado
impossível nos últimos meses, e ele seria um desgraçado se fosse o único a
arruína-lo.

O coração dele martelou em seu peito quando notou como ela se curvava
na direção de sua ereção, sua pequena e pálida mão ainda estava sobre seu
membro tocando-o de maneira habilidosa, mas quando sua pequena e rosada
linga saiu de seus lábios atingindo a ponta de sua ereção, ele acreditou que
todo o mundo teria se resumido aquilo.

- Amy...

A voz dele era um grunhido, algo primitivo e quase sem sentindo, ele
tentou conter seu corpo mas foi em vão enquanto suas coxas se contraiam
investindo contra a boca dela.

Ela o chupou para dentro sua língua rodeando a ponta de seu membro
deslizando por seu comprimento, a mão dela continuava sobre seu corpo num
movimento de vai e vem que era uma doce tortura.

A imagem dela curada sobre seu corpo daquela forma chupando-o com
avidez ficou impressa em sua mente, e ele soube que jamais seria capaz de
esquece-la. Queria enterrar seu corpo dentro dela, sentir seu pequeno núcleo
escorregadio apertar seu membro enquanto ela gozava uma vez e outra,
queria empurrar sua ereção em sua boca, até que ele pudesse sentir a garganta
dela pressionando sua ponta.

Incapaz de se controlar Cézare aumentou o movimento, sabendo que


talvez estivesse começando a ficar mais brusco, enquanto seus dedos
deslizavam pelas ondas do seu cabelo, puxando-a de encontro a si mesmo.

Os lábios dela deixaram sua ereção que agora pulsava com força
querendo sua libertação, ela continuou deslizando sua língua contra ela lábios
inchados e vermelhos, enquanto sua voz chegava até ele repleta de sedução.
- O que você sente quando eu faço isso?

Os olhos dela se encontraram com os dele repletos de luxuria, os lábios


vermelhos e úmidos era um convite uma promessa que ele não era capaz de
recusar.

- Sua boca Amy, você vai me enlouquecer.

Ela o abocanhou novamente com voracidade e Cézare não pode se conter,


os quadris dele assumiram o controle forçando-se para frente, a mão dela o
ordenhando enquanto sua língua o enlouquecia, ele estava prestes a gozar
quando a puxou novamente sobre seu corpo beijando sua boca com avidez.
Sentir seu próprio gosto em seus lábios foi o suficiente para excita-lo ainda
mais, os dedos dele se enlaçaram eu seu cabelo se enroscando assim como a
língua de ambos. Quando ele finalmente foi capaz de interromper a urgência
daquele beijo, o ar parecia ter ficado trancado em seu peito, denso e pesado
de tal forma que parecia algo físico, lentamente ele deitou o corpo de Amy
sobre a cama ficando sobre ela, sabendo que nunca teria o suficiente daquela
sensação.

✽✽✽

O corpo dele estava aquecido pelo sol quando Amy deslizou as mãos por
suas costas nuas, os músculos ondulando deliciosamente debaixo do seu
toque. Os olhos de Cézare eram um rio derretido de cobre brilhando de forma
radiante enquanto ele a beijava com paixão, a língua em sua boca numa dança
repleta de volúpia.

Abrindo suas pernas ela deixou que ele se acomodasse sobre seu corpo,
sua ereção pesada contra o centro de suas coxas, fazendo com que o desejo
corresse rápido como fogo em suas veias.

O gosto dele era um afrodisíaco em sua língua fazendo com que ela
tremesse com o desejo. A realidade do que estava acontecendo naquele
instante por um momento se misturou as lembranças em sua mente, assim
como da primeira vez em que desfrutara do prazer com Cézare o mundo
parecia ter diminuído sua velocidade enquanto as cores tornavam-se mais
clara.

Os dedos dele encontraram os pequenos botões da camisa que ela usava,


atrapalhando-se em despida, puxando o tecido de forma mais brusca, ela
ouviu o som de algo se rasgando, olhando para baixo percebeu que havia sido
ele que fizera isso.

Os trapos que se tornaram sua camisa foram deixados de lado como se


fossem algo completamente insignificante, com mais delicadeza ele trilhou
um caminho de beijos molhados e mordidas suaves sobre seu pescoço, sua
clavícula o alto de sua bochecha.

A respiração dele era pesada contra sua pele, o hálito quente eriçando seu
corpo deixando-o tremulo, ela o desejava profundamente com um tipo de
perdição que jamais havia sentido por ninguém.

Cézare não era capaz de apagar os erros que cometera no passado, e ela
tinha plena consciência da gravidade deles, mas naquele momento quando
seus olhos dourados estavam fixos aos seus, os lábios inchados de seu beijos,
e seu corpo ardendo de desejo por aquele homem, tudo parecia possível e
todas as dores mais suportáveis.

Cada toque dela era recebido com um deletei delicioso por seu corpo, ela
não havia percebido como sentira falta daquilo, agora sentia como se
estivesse sedenta por ele, cada pequeno toque olhar, qualquer coisa que
pudesse amenizar a falta e o anseio que cresciam no centro do seu peito.

O sutiã que ela usara foi retirado do seu corpo com cuidado as mãos
pesadas dele moldando a carne macia de seus seios. Ela não conseguiu
segurar um gemido que brotou em sua garganta, o dedo áspero dele
escorregou pelo bico rígido de seu peito, o açoitando gentilmente para frente
e para trás numa caricia dolorosamente deliciosa.

Amy queria pedir que ele fosse mais rápido, que a tocasse com mais
intensidade mas não conseguia encontrar as palavras quando o prazer parecia
nublar completamente sua mente daquela forma.

A boca dele substituiu seus dedos, os lábios capturando o bico


intumescido de seu seio provocando-a enquanto ele girava a pico enrijecido
com sua língua, massageando seu corpo a seu bem prazer.

- Eu não consigo mais esperar... Cézare.

O mafioso italiano ergueu o rosto que parecia repleto de prazer um


reflexo do seu próprio, deslizando por seu corpo a mão dele encontrou o cós
de sua calcinha, deslizando lentamente por sua pele, até que ela estivesse
completamente nua sobre a cama assim como ele.

A luz do sol se infiltrou pela janela fazendo com que ela pudesse apreciar
o corpo dele por completo, os músculos rígidos o tronco esplendidamente
esculpido, as cicatrizes que ela havia descoberto mais cedo, apenas serviam
ao propósito de contar uma história, fazendo com que ela apreciasse ainda
mais cada pequena marca que ele pudesse considerar como uma falha.

O coração dela doeu em seu peito, enquanto ele a deitava sobre a cama
com um cuidado mais do que necessário. Por um momento ela observou uma
sombra cruzar sua expressão, como se de repente ele não tivesse mais certeza
se realmente estava disposto a ir até o final com aquilo. Segurando o peso por
completo de seu corpo em seus cotovelos, ele pairou sobre ela como se sua
simples proximidade pudesse machuca-la.

- Você tem certeza disso? – perguntou Cézare a voz dele contendo uma
pitada de fragilidade que ela mais havia imaginado ser capaz de ouvir.

- Cézare não me pergunte isso, novamente eu realmente não quero


continuar conversando agora.

A resposta dela, embora tivesse um leve tom de ironia não foi o suficiente
para espantar as dúvidas que nadavam em seus olhos, erguendo-se Amy
puxou junto para si beijando com avidez, enquanto sua mão viajava até sua
pesada ereção que pulsava contra seu umbigo.

- Eu preciso sentir você dentro de mim agora – murmurou ela contra seu
ouvido mordiscando o lóbulo exposto de sua orelha.

Com um aperto firme na base de seu membro a garota deslizou a ponta


sobre seu núcleo pulsante. Sentir sua umidade ali misturar-se a dele foi o
suficiente para deixa-la ainda mais ansiosa por aquele contato, mesmo assim
ela se forçou a continuar aquela pequena brincadeira, provocando o corpo de
ambos até que eles estivessem no limite do desejo.

Amy deslizou seu corpo sobre o de Cézare sentindo como sua ereção
pulsava de encontro a sua mão, a ponta dela escorregou para dentro de seu
núcleo úmido enchendo-a centímetro após centímetro. O desejo deixou sua
voz rouca, um gemido escapando de sua garganta quase como se fosse um
lamento, em algum lugar de sua mente ela ouviu que Cézare dizia algo em
italiano que ela não pode compreender.

O gosto acre de sangue invadiu sua boca, quando ela percebeu que
novamente havia machucado seu lábio enquanto o mordia, tomando conta
dos movimentos, ela agarrou o mafioso pelas costas, enquanto puxava seu
corpo em sua direção, numa única estocada, ela sentiu ele a penetrar por
completo.

Prazer inundou sua mente, enquanto seus olhos se fechavam com


sofreguidão, em seu peito o coração batia num ritmo frenético, os pulmões
ansiosos por mais oxigênio. Sob o corpo de Cézare ela rebolou os quadris,
instigando-o a continuar os olhos amarelos dele travaram em seu rosto, uma
nuvem de preocupação nublando seu olhar. Ele não queria machuca-la,
depois da noite anterior e o fato de tentar se conter mesmo quando seu corpo
ardia de desejo por ela foi o suficiente para que seu coração se derretesse por
ela.

- Mova-se Cézare – pediu ela, mordiscando seu pescoço deixando que sua
língua percorresse sua pele levemente salgada – Eu preciso sentir você dentro
de mim...

As palavras dele se tornaram um gemido ininteligível, ao lado de sua


cabeça, ela observou os braços dele tremeram do esforço para se manter
sobre ela, conectados apenas por suas partes intimas.
Fechando os olhos Amy sentiu o corpo dele deslizar para dentro do seu a
fricção molhada deixando completamente ensandecida de prazer, o
movimento lento uma tortura deliciosa, até que como se finalmente tivesse
perdido o que havia sobrado de seu autocontrole, ela sentiu Cézare aumentar
o ritmo, um movimento de vai e vem que a deixou completamente sem ar.

Os dedos dela se infiltraram na pele dele, supor pontilhando as pontas de


seus dedos enquanto suas unhas deslizavam por sua pele. O sol moveu-se
pelo céu, mudando a claridade do quarto, a luz inundou os corpos de ambos,
aquecendo a pele deles.

Os beijos de Cézare tornaram-se frenéticos, assim como sua respiração,


Amy sentiu o prazer se acumular no centro entre suas pernas, a onda
crescendo em seu interior. Te-lo daquela forma, completamente em liberdade
era mais do que ela poderia suportado, um sonho, um desejo erótico do qual
nunca poderia superar.

O ritmo de ambos tornou-se descontrolado, os gemidos de Cézare


ecoaram em seus ouvidos entre as palavras sussurradas em italiano que ela
ouviu seu nome aparecia entre elas, como uma prece um pedido, fazendo
com que todo o prazer que ela construirá dentro de si escorresse sobre seu
corpo como uma onda, arrebentando sobre a praia.

Ela despencou completamente em êxtase enquanto sentia o corpo dela


abraça-lo ao mesmo tempo em que ele alcançava o ápice dentro de si.
Espasmos percorreram seu corpo, enquanto ela lentamente sentia o ritmo de
sua respiração descontrolado se acalmar.

Lentamente a realidade ao seu redor começou a entrar em foco, do lado


de fora ela ouviu o canto de um passarinho mais estridente e o som de uma
cigarra solitária. Tentou mover-se mas o simples ato lhe pareceu ser algo
completamente cansativo.

Fechando os olhos, Amy sentiu Cézare depositar um beijo cálido pelo


alto de suas bochechas, pálpebras, lábios deliciosamente inchados. O silêncio
entre eles era reconfortante e delicioso e ela não esperava que fosse quebrado
por palavras que não precisavam serem ditas naquele momento.
Amy sentiu ele e deslocar sobre ela, deitando-se ao seu lado, preparou-se
para protestar, mas logo seu corpo foi novamente acolhido por Cézare, como
se pudesse ler seus pensamentos, ele a virou de lado na cama, deitando em
suas costas, aconchegando-a por completo. Prometo a si mesma que apenas
iria descansar alguns segundos, mas antes que pudesse fazer qualquer coisa
para evitar, caiu num sono tranquilo completamente sem sonhos.
Capítulo Dezesseis
Quando Amy finalmente acordou o sol inundava completamente o quarto,
deixando todas as paredes mais claras ofuscando sua vista. Por um momento
ela se perguntou em silêncio como havia conseguido dormir tão
profundamente num quarto tão iluminado como aquele, mas logo enquanto se
espreguiçava pela cama percebeu que seu corpo ainda estava dolorido, e
talvez precisasse de mais algumas horas de descanso, embora sua mente
estivesse completamente descansada e atenta.

Erguendo-se na cama ela não se importou nem um pouco com sua nudez,
remexendo em seu cabelo, deixou que seu olhar varresse o quarto,
procurando por ele.

- Cézare – chamou a garota erguendo sua voz, esperando que ele pudesse
ouvi-la de onde estava.

- Um minuto! – respondeu ele, sua voz chegando abafada e distante.

Apenas um momento depois, ela observou a figura dele, voltar a quarto


saindo do banheiro, ele usava apenas uma toalha enrolada sobre sua cintura,
os cabelos ainda úmidos haviam sido penteados para longe do seu rosto,
enquanto uma mancha ainda branca de espuma de barbear permanecia sobre
sua face esquerda.

- Aconteceu alguma coisa? Está sentindo alguma dor?

A pergunta repleta de preocupação assim como sua face carregada


misturada com o jeito que ele estava diante dele foi o suficiente para lhe
trazer um sorriso bobo aos lábios. Apenas uma região dela ainda estava
deliciosamente dolorida, mas ela tinha certeza que não era sobre aquilo que
ele estava se referindo.

- Eu estou bem – respondeu a garota deixando que seu sorriso se


alargasse em seu rosto – Apenas queria saber onde você estava. Poderia ter
esperado por mim para tomar um banho.
- Você precisava descansar – disse ele com um simples aceno de ombros
– Eu não queria perturbá-la.

- Eu dormi muito? – perguntou a garota enquanto deixava que seus dedos


percorressem as mechas bagunçadas do seu cabelo – Acho que perdi
completamente a noção do tempo.

- Eu pretendia deixa-la dormir mais, ainda estamos no meio da tarde...


Espere um momento, eu preciso tirar isso da minha cara.

Enquanto o observava voltar ao banheiro Amy arrumou os travesseiros


em suas costas, sentando-se assim numa posição mais confortável. A atenção
dela recaiu sobre os trapos da camisa de Cézare que ela usava na noite
anterior e agora estavam aos pés da cama, a peça de roupa havia se tornado
completamente inutilizável, sabia que o melhor naquele momento seria
levantar-se e buscar algo para vestir, mas como a preguiça ainda deixava os
membros de seu corpo muito lentos, ela preferiu se aconchegar ainda mais na
cama enquanto se enrolava sobre o lençol buscando uma posição mais
confortável.

Assim que terminou, ela notou Cézare voltar do banheiro. A toalha que
ele usara apenas um momento atrás havia sido substituída, por uma calça de
moletom de um tecido cinza extremamente claro, algo completamente
despojado se ela fosse comparar com o terno que ele usara na noite anterior.
Um sorriso brincou em seus lábios enquanto ela observava ele se aproximar
da cama, ainda não havia conseguido compreender por completo qual era o
estilo de roupas preferido do mafioso italiano diante dela, mas precisa admitir
ao menos para si mesma que definitivamente tudo parecia cair como uma
luva sobre seu corpo.

- Como você está se sentindo – perguntou Cézare sentando-se ao seu


lado na beirada da cama, o olhar novamente de preocupação nublando seus
olhos claros.

- Não precisa ficar preocupado. Estou bem melhor.

- De qualquer forma, acho que não deveríamos ter nos esforçado como
fizemos.
- Não diga isso, não me arrependo de nada do que houve entre nós. Foi
minha escolha. – respondeu Amy deslizando a palma de sua mão sobre a
dele, entrelaçando seus dedos juntos, o contato simples foi o suficiente para
fazer com que seu coração acelerasse dentro do seu peito, como se ela fosse
uma adolescente inexperiente. Sabia que talvez as coisas estivessem
caminhando rápido demais, num vórtice caótico, mas o dia ainda não havia
terminado ao menos ela poderia se dar algumas horas de luxo, sem ficar se
questionando milhares de vezes por qualquer coisa que fazia.

Cézare concordou com um aceno de cabeça, sua atenção voltada para


suas mãos entrelaçadas. Embora fosse difícil admitir, parecia existir algum
tipo de conexão sem palavra entre eles, permeado por um desejo de
proximidade que parecia quase impossível de ser saciado. Uma parte dela
tinha quase certeza que havia acordado no momento em que ele deixara a
cama, como se o simples fato de ele não permanecer mais ao seu lado fosse o
suficiente para acorda-la. O pensamento trouxe um nervosismo que brincou
dentro de seu estômago, ainda era mais cedo para ela se sentir ligada a ele de
uma forma tão profunda, ainda mais se ela não levasse em consideração toda
a história que existia entre eles, afastando aqueles pensamentos para a parte
mais distante de sua mente, Amy decidiu que por enquanto preferia se focar
exclusivamente no presente.

- Você está com fome? – perguntou Cézare desviando a atenção de seus


pensamentos.

Como se escolhesse aquele momento propicio para protestar, sua barriga


roncou audivelmente fazendo com que um rubor ardido percorresse suas
bochechas.

- Acho que isso respondeu sua pergunta – disse a garota sorrindo sem
jeito em sua direção.

- Eu fiz alguns pedidos pelo telefone, mas acredito que eles vão demorar
um pouco ainda pra chegar, de qualquer forma encontrei algumas coisas na
geladeira que ainda estão comestíveis se você quiser matar a fome por
enquanto.

Virando-se em direção ao pequeno criado mudo que ficava ao lado de sua


cama, Amy observou ele pegar uma pequena bandeja prateada que possuía
algumas frutas sobre elas. O vermelho de alguns morangos, se destacou sobre
o amarelo das bananas, e os kiwi cortados de forma desajeitados. O estômago
dela protestou mais uma vez, e a garota decidiu que preferia comer alguma
coisa para acalma-lo ao menos por enquanto.

O gosto fresco e levemente adocicado do morango pipocou em sua


língua, o sumo delicado aplacando uma fome que até aquele momento ela
nem ao menos havia se dado conta que sentia.

- Morango são uma das minhas frutas preferidas – disse a garota,


enquanto enxugava com o dorso da mão uma das gotas que haviam escorrido
por seu lábio – Você gosta?

Os olhos dourados de Cézare pareceram completamente confusos, como


se ela tivesse acabado de lhe perguntar algo extremamente complexo.

- Do que ? – perguntou ele erguendo uma de suas sobrancelhas

- Morangos? Gosta deles?

- Não sei... Eu nunca realmente acho que parei pra pensar nisso.

Erguendo as pernas, e deslizando seu queixo apoiando ele em seus


joelhos Amy aproveitou aquele momento para reparar por completo no
homem diante dela. Havia pouquíssimas coisas, que ela sabia a seu respeito
tirando o fato de que ele tinha um péssimo temperamento era um mafioso e
muito provavelmente havia a magoado além de qualquer tipo de perdão...
Talvez ela devesse estar perguntando coisas a ele mais importantes do que
sua fruta predileta, mas embora uma parte dela ansiasse por saber mais a seu
respeito, outra tinha medo do tipo de verdades que ela iria encontrar ali.

- Bem agora você já sabe qual é uma das minhas frutas prediletas, quando
terminar de saber tudo ao meu respeito tenha certeza que estará
completamente entediado, e perdera completamente essa atração irresistível
que sente por mim.

- Vou ser obrigado a discordar – respondeu Cézare, um sorriso torto


quase imperceptível brincando em seus lábios, fazendo com que o coração
dela se acelerasse, enquanto continuava – Além disso, eu acredito que saiba
bastante coisas a seu respeito.

- Mesmo posso saber como?

O rosto de Cézare tornou-se desconfortável, sua atenção se voltando para


a janela que ficava do outro lado do cômodo, como se ele tivesse tentando
não olhar em seu rosto naquele momento.

- Meu Deus, você está fazendo uma expressão de culpado impagável –


disse Amy, sem conseguir conter o riso em sua voz – Precisa me contar o que
fez!

- Você vai provavelmente ficar brava com isso.

- Me conte e me deixe julgar sobre isso.

Os olhos dele voltaram a encararam, desconfiados como olhos de gatos, a


curiosidade aumentou em seu peito fazendo com que ela se aproximasse dele
repetindo em voz baixa:

- Me conte Cézare

- Eu comprei a casa que você alugava em Nova York. Eu fiquei algum


tempo ali enquanto estava te perseguindo.

As palavras a chocaram mais do que ela poderia ter imaginado. Uma


lembrança da pequena kitnet que ela alugava pipocou em sua mente,
enquanto ela tentava processar o que ele havia acabado de lhe dizer.

- Você comprou minha casa? Como alguma espécie de stalker? Por que
fez isso?

- Eu disse que você ia ficar brava comigo, por isso eu não queria
responder.

- Não estou brava – respondeu Amy sorrindo – Quer dizer acho que não
estou... Só quero entender por que você fez isso.
A pergunta claramente o deixou desconfortável, como se ele preferisse
milhares de vezes fazer qualquer outra coisa além de responde-la. Algo como
matar alguém, ou intimidar as pessoas parecia ser uma tarefa mais tranquila.

Cézare deslizou os dedos pelas mechas de seu cabelo que começavam a


secar um gesto que ela começava a associar com o fato dele sentir-se
incomodado com algo.

- Na época em que estava te procurando quando não conseguia encontras


pistas do seu paradeiro, eu costumava voltar para sua casa. – disse o mafioso,
os olhos voltados para sua mão entrelaçada a dela, os olhos distantes como se
estivessem perdidos em memórias – Eu costumava dizer que ir até lá poderia
me ajudar a encontrar uma maneira de encontrá-la, mas acho que no final das
contas aquilo não passava de uma desculpa para contornar sua ausência.

Amy se surpreendeu com a sinceridade contida em suas palavras, e no


peso que elas carregavam. Sentado a seu lado, ao alcance de seu toque o
homem diante dela parecia desprovido de qualquer tipo de muralhas, seria
muito fácil deixar se levar pelo o que ele acabara de dizer, encontrar ali
alguma espécie de romantismo desajeitado, mas as coisas não eram simples
entre eles, e jamais poderiam ser. Embora ela soubesse que ele estava sendo
sincera, e uma parte dela se sentisse grata por isso, não podia ignorar o fato
de que ele havia se comportado como um stalker enquanto estivera a
procurando.

- Você descobriu alguma coisa ao meu respeito, enquanto estava


bisbilhotando pela minha casa? – perguntou a garota, sorrindo em sua
direção, tentando aliviar com aquela curiosidade inofensiva, os pensamentos
que começavam a se infiltrar em sua mente naquele momento.

- Você é organizada – respondeu Cézare muito sério como se realmente


tivesse tentando impressiona-la de alguma forma, dizendo o que havia
aprendido a seu respeito enquanto estivera ali – Acho que posso arriscar
dizer que você tem algum tipo de fixação com adesivos que eu realmente
não entendi... E suas cor preferida é o preto.

- Você está certo quanto aos adesivos, são minha coleção da qual eu
tenho o maior orgulho, mas completamente errado sobre minha cor predileta.
Eu odeio preto.

- Você está mentindo – respondeu Cézare, o olhar de espanto em seu


rosto sendo completamente impagável – A maioria das roupas no seu guarda-
roupa são pretas.

- Sua resposta só mostra o quão você é uma pessoa privilegiada que


nunca precisou lavar uma peça de roupa na vida.

- E o que isso tem a ver com sua cor favorita? – perguntou Cézare
enquanto lançava um olhar de esguelha repleto de dúvidas em sua direção.

- Roupas pretas não costumam aparentar estarem sujas, ou seja, é mais


fácil usa-las por longos períodos de tempo, além de não as manchas ou
desbotar com facilidade. É uma cor feita para durar.

Amy pode perceber que Cézare não parecia muito satisfeito com sua
resposta, sorrindo em sua direção ela lembrou-se do pequeno guarda-roupa de
segunda mão que havia comprado para deixar em seu quarto. Ela nunca havia
se considerado uma pessoa organizada, por que isso era algo que lhe custava
muito esforço, mas ela sempre tentava ao máximo fazer com que suas roupas
durassem a maior quantidade de tempo possível, sabendo que quase nada do
seu salário poderia ser gasto com superficialidades como aquela.

- Minha família nunca teve muito dinheiro – explicou a garota, deixando


que as palavras fluíssem num ritmo constante de seus lábios sobre assuntos
que há muito tempo não falava a ninguém – Sempre fomos, eu minha mãe e
Peter. As coisas pioraram logo depois que ela morreu, meu irmão passou a
ficar menos tempo em casa, e eu tive de começar a trabalhar muito cedo...
Acabei adquirindo o habito de comprar roupas pretas, porque sabia que elas
iriam durar mais tempo, e nunca saem de moda.

- Amanhã nós vamos as compras, e você pode comprar qualquer coisa de


qualquer cor que você queira. – disse Cézare, como se aquilo de repente fosse
uma decisão muito importante que ele acabara de tomar.

O riso explodiu em sua garganta, do tipo alegre e surpreendente que


trouxe lágrimas a seus olhos. Um sentimento que ela praticamente havia
esquecido como era.

- Não diga isso – pediu Amy, tentando conter o riso em seus lábios – Não
contei uma história triste pra conseguir algum tipo de presente... Além disso
tudo isso está sendo completamente injusto, por que somente eu estou sendo
interrogada?

- Você pode me perguntar o que quiser Amy, e eu prometo responder –


disse Cézare muito sério.

O rosto dele parecia sério, como se ele realmente pretendesse seguir


aquilo que acabara de dizer. A mente dela disparou em várias direções
perguntas se chocando uma contra as outras até que tudo não passasse de um
ruído constante dentro de sua cabeça. Havia milhares de coisas que ela
gostaria a saber a respeito de Cézare, sobre eles, sobre o futuro que os
aguardava, mas a incerteza de tudo aquilo pesava sobre ela fazendo com que
as palavras continuassem coladas no céu de sua boca.

- Quanto anos você tem? – perguntou ela por fim, tentando preencher o
vazio silencioso que se formara entre eles.

- Vinte e nove – respondeu ele, um sorriso torto brincando em seus lábios,


fazendo com suas cicatrizes tornassem mais pálidas com aquela expressão tão
rara – Não imaginei que você se importasse com isso.

- Quando eu souber sua data de aniversário, e seu signo então finalmente


posso ter uma opinião mais elaborada sobre você.

- Espero que ela seja favorável – disse Cézare erguendo a mão, que ela
havia esquecido que ele estava segurando beijando delicadamente.

Um calafrio de prazer escorreu por sua pele, aquecendo seu rosto


disparando seu coração. Era fácil se perder naquele momento, enquanto o
desejo por ele ainda era nítido em seu sangue, as lembranças do toque dele
ainda frescas em sua mente, mas o olhar dela deslizou para as pequenas
cicatrizes brancas agora quase imperceptíveis que ainda haviam restado em
sua pele, onde ela quebrara a janela do galpão em sua fuga, uma outra
memoria que ela jamais poderia pagar de sua mente.
Amy sentia-se completamente dividida em duas direções completamente
opostas, ao mesmo tempo em que se sentia atraída por Cézare, não era capaz
de negar seu mundo ou o tipo de vida que ele levava, e como aquelas
escolhas haviam impactado em seu destino.

- Por que você obedece ao seu irmão? – perguntou Amy, a voz


completamente controlada, enquanto seus olhos buscavam a atenção de
Cézare – Vocês são gêmeos, mesmo assim fica claro quem é que está no
comando.

Por um momento ela imaginou que ele não iria lhe responder, a forma
como desviou o olhar novamente para suas mãos entrelaçadas, como se
pudesse encontrar ali qualquer coisa que pudesse mudar o assunto. O silêncio
se expandiu, fazendo com que a garota se tornasse muito consciente do som
das cortinas se chocando levemente contra a brisa, assim como o som das
cigarras que se tornara mais distante.

- Eu nunca pensei muito nisso – respondeu Cézare, por fim erguendo seu
olhar e deixando que ele se fixasse em seu rosto, os olhos brilhando tão claros
como a luz do sol que se infiltrava pela janela atrás de suas costas – Embora
gêmeos, eu e Pietro somos muito diferentes um do outro. Ser o chefe de
nossa família, sempre foi o único desejo dele, aquilo pelo qual ele sempre
trabalhou.

- Suas cicatrizes... Você não o culpa de alguma forma?

- Eu nunca o culpei, mas você não precisa acreditar em mim – respondeu


Cézare simplesmente – Você precisa entender Amy que nós dois viemos de
mundo muito diferentes. Eu e meu irmão fomos criado pelo meu avô, o pai
de nossa mãe era um homem frio e calculista, que criou nós dois para sermos
implacáveis e fieis a família acima de tudo. Ele sabia que apenas um de nós
poderia ser o líder, por isso eu e Pietro estávamos sempre competindo um
contra o outro, para descobrirmos quem era o mais rápido, o mais inteligente
tudo isso enquanto ele assistia.

- E sua mãe? Onde ela estava enquanto os filhos dela passavam por tudo
isso, como seu pai...
- Minha mãe morreu logo depois que nós nascemos – respondeu Cézare a
interrompendo delicadamente – Meu pai se beneficiou muito disso também, a
fidelidade dele estava com meu avô, portanto ele nunca se opôs a esse tipo de
tratamento. Quando ele finalmente estava a beira da morte, eu e Pietro fomos
chamado a seu quarto, ali ele disse que escolheria para ser o chefe aquele que
fosse capaz de ferir um ao outro.

- Por que? – perguntou Amy horrorizada com a história do passado que


estava se desenrolando diante dela – Por que ele faria algo assim com os
próprios netos?

- Ele dizia que sua única preocupação era com a família, portanto ele
precisava escolher aquele que estaria disposto a fazer qualquer coisa para
protege-la, mesmo que isso significasse machucar seu próprio sangue. O
próprio irmão.

- Você... você tentou...

- Não. Eu não tinha a menor intenção de machucar Pietro, por um motivo


como aquele. Além do mais eu nunca quis ser o líder de nossa família.

- Então você apenas ficou ali? Enquanto seu irmão te machucava?

Cézare concordou com um simples aceno de cabeça, enquanto o coração


dela se retorcia em seu peito. Seus olhos percorreram a extensão de todo seu
rosto, observando cada pequena linha retorcida e prateada que percorria seu
rosto. Ela tentou memorizar cada uma de suas formas, o jeito que elas se
deslocavam sobre sua pele, enquanto tentava compreender a dor imensa que
ele sofrera.

Era impossível não conseguia imaginar, tudo o que sentia não se


comparava ao que ele havia passado. Uma parte dela, pensou em seu irmão,
em todos os problemas que eles haviam enfrentado durante os últimos anos.
Peter era um irresponsável cabeça de vento que na maior parte do tempo
estava sempre se metendo ambos em confusões, mas ela não conseguia
imaginar ele a machucando daquela maneira.

A mente de Amy se deslocou em direção ao seu irmão, ela ainda não


havia contado para Cézare que o encontrara na noite anterior, uma parte dela
não tinha certeza se essa realmente era a melhor alternativa. As palavras
pesaram em sua língua, fazendo com que ela apertasse os lábios de maneira
muito firme um contra outro, até que um leve ardor a lembrasse que eles
ainda estavam machucados. Lá fora o sol poderia iluminar todo o mundo com
sua luz radiante, mas ainda assim não era o bastante para iluminar as dúvidas
que pairavam sobre seu coração.

- Sinto muito Cézare... De verdade. – disse a garota abaixando seu tom de


voz, enquanto se deslocava em sua direção, o delicado toque do algodão
roçando sobre seu ombros, para que ela depositasse um beijo cálido sobre
suas faces marcadas.

- Está tudo bem. Já se passaram muito anos.

Amy permaneceu em silêncio, ela queria lhe dizer inúmeras coisas que
naquele momento pareciam entaladas em sua garganta, oprimindo seu
coração. Ela se lamentava não apenas pelo passado de tristeza que o
permeava, o tipo de vida solitária que ele havia levado até ali, também se
ressentia pela forma em que eles haviam se conhecido, como seus caminhos
se cruzaram da pior maneira possível, como tudo em se tratando em relação a
eles parecia repleto daquela mistura de luz e escuridão que parecia dilacera-
la, enquanto sem que ela pudesse conter sentimentos dos quais ela sabia do
perigo de existirem começavam a crescer raízes em seu peito pelo homem
diante dela.

Um som repetitivo de um toque de celular chamou sua atenção,


dispersando seus pensamentos. Num silêncio confortável, ela observou
Cézare se levantar parando exatamente ao lado da janela, enquanto atendia a
ligação em italiano.

Amy observou imediatamente sua postura se modificar, os ombros


assumindo uma forma mais altiva, enquanto suas palavras tornavam-se mais
agressivas no telefone; ele falava tão rápido que Amy mal pode distinguir
alguma coisa até que ele encerrou a conversa de forma abrupta.

- Alguma coisa errada? – perguntou a garota incapaz de se conter, sua


mente voltando para os acontecimentos da noite anterior, sobre o policial
envolvido com a máfia e como toda aquela história tinha um imenso
potencial para acabar de uma forma nada agradável.

- Não... Quero dizer, não era um problema até ontem, mas com certeza é
algo que eu não estava nem um pouco de resolver.

- O que aconteceu?

- Pietro marcou uma reunião com alguns homens essa noite, ele não
poderia por comparecer por isso mandou seu Consigliere, o segundo em
comando em nossa família. Ele me pediu para ir com ele para protege-lo.

Assim que as palavras saíram de seus lábios Amy pode compreender o


significado por trás delas muito bem. Eles ainda não haviam resolvido como
a situação dela ficaria após sua fuga, e claro que depois de tudo o que
acontecera entre eles muito ainda precisava ser discutido, e mesmo assim não
significava que eles chegariam a uma conclusão. A única coisa que
permanecia extremamente clara em sua mente era o seu desejo de não
continuar mais ali como uma prisioneira.

- Eu não quero deixa-la aqui sozinha... – disse Cézare quase num fio de
voz a surpreendendo – Mas, eu realmente preciso ir.

Amy desviou o olhar enquanto sentia os dedos se apertarem no lençol que


cobria seu corpo. Discutir aquilo com ele ainda estando nua, deitada em sua
cama não ajudava em nada a confusão que pairava sobre sua cabeça.

- Venha comigo – disse Cézare de repente dando um passo em sua


direção.

O pedido dele pego-a completamente desprevenida, a expressão de puro


espanto tomando conta de suas feições.

- Cézare...

- Me deixe terminar primeiro. Eu não quero deixa-la presa aqui, e depois


de tudo o que aconteceu não me sinto confortável com você longe da minha
vista. Será uma reunião rápida, e logo estaremos de volta.
- Eu não sei... No momento talvez essa não seja a melhor decisão a ser
tomada – respondeu a garota incapaz de olhar em sua direção.

- Amy, por favor. Venha comigo.

O tom suave de sua voz, foi o suficiente para que ela erguesse o olhar
encarando o homem a sua frente, uma imagem da primeira vez em que o vira
estourou por trás de suas pálpebras, naquele momento ele havia caminhado
para fora da escuridão como se tivesse se formado a partir delas, naquele
momento a única coisa que ela desejara havia sido fugir dali, ficar o mais
longe possível de sua presença.

Agora ele pairava a sua frente com o sol do verão banhando suas feições,
colorindo seus cabelos em tons de vermelho transformando seus olhos em
ouro liquido.

A parte racional de sua mente sabia que ela não deveria aceitar aquele
convite, tudo o que já havia de complicado entre eles apenas estaria se
tornando ainda mais difícil, o coração dela tremeu em seu peito um misto de
medo e apreensão que ela jamais havia sentindo, e então contra todo o bom
senso e sabendo que mais tarde, aquela decisão poderia lhe custar muito caro
Amy lhe deu um pequeno aceno em concordância, aceitando seu pedido.
Capítulo Dezessete

Quando Amy deixou o banheiro, a luz do lado de fora de sua janela já


começava a se tornar mais amena e descolorida. Água quente, e uma refeição
haviam operado maravilhas em seu corpo, embora ele ainda permanecesse
dolorido, e os arranhões em sua pele estivessem um pouco inflamados.

Depois de aceitar ir ao encontro de negócios de sua família com Cézare,


ele havia se colocado num frenesi agitado tentando colocar todas as coisas
em ordem para aquele plano desse certo. Vários telefonemas depois, muitas
conversas trocadas em inglês e italiano, tudo parecia ter sido organizado.

Eles haviam almoçado na cozinha assim que a comida que ele ordenara
fora entregue. A conversa se desenrolara sobre amenidades, como se nenhum
dos dois, estivessem dispostos a deixa-la se tornar muito mais densa, depois
de tudo o que acontecera com eles. Já havia preocupações o suficiente.

Mesmo assim o toque dele permanecera o tempo inteiro sobre sua mão,
beijos roubados que eram afoitos ou completamente carinhosos, e tiravam
completamente sua concentração, enquanto faziam com seu coração tremesse
em seu peito como um pequeno beija-flor agitado.

Deixando escapar um pequeno suspiro de resignação de seus lábios Amy


caminhou até a cama, observando os pacotes que apareceram ali depois que
ela entrara no banho. Um vestido negro com mangas diáfanas e cintura fina
havia sido deixado ali com sandálias de salto altos que cruzavam em tirar
toda a extensão do pé de quem as iria calçar.

Encantada com a beleza, ela deixou que seu toque corresse pela peça
apreciando a delicadeza do tecido e o trabalho requintado daquela peça.
Jamais havia usado algo tão belo quanto aquele vestido, nem mesmo durante
o tempo em que havia trabalhado como dançarina em Nova York.

O nervosismo deslizou por seu corpo como uma segunda pele, enquanto
ela sentava-se ao lado do vestindo tomando cuidado para não amassa-lo.
Todo aquele lugar, o convite que ela recebera e até mesmo a roupa que ela
deveria usar não faziam parte do seu mundo. Não era algo de sua realidade...
E mesmo assim quando ela estava ao lado de Cézare sentia-se como se de
alguma forma tudo se encaixasse...

Os pensamentos se acumularam em sua mente, as dúvidas se sobrepondo


uma atrás da outra, enquanto o receio de ter tomado uma decisão equivocada
brilhava em sua cabeça, fazendo com que seu bom senso desejasse lhe passar
uma tremenda lição de moral.

Tudo estava indo rápido demais, para que ela pudesse compreender o que
realmente estava acontecendo, e uma parte dela temia que as coisas já
tivessem saído completamente do seu controle.

Fechando os olhos por um momento, a garota empurrou tudo isso para o


fundo de sua mente, enquanto se vestia. Era tarde demais agora para se
arrepender de uma decisão que ela havia tomado. Não queria ficar sozinha ali
naquela casa, principalmente depois de tudo o que acontecera entre ela e
Cézare. Sabia que aceitar seu convite não ajudava em nada a solucionar o
problema entre elas, mas ela decidira que naquele instante se preocuparia
com o presente quando ele estivesse diante dela.

O vestido caiu-lhe como uma luva o que trouxe um sorriso a seus lábios,
dando círculos ao redor de si mesma Amy tentou visualizar toda a beleza
daquele vestido, sentindo-se um pouco desapontada pelo fato de não existir
ali um único espelho de corpo inteiro onde ela pudesse contemplar toda a
beleza daquela roupa.

Em seus pés as sandálias eram muito mais leves e confortáveis do que ela
havia imaginado, com certeza conseguiria andar sobre elas durante um longo
tempo antes que seus pés protestassem. Ignorando as bolhas que ainda
estavam sensíveis ela as calçou sentindo que ela havia completado com
perfeição o conjunto.

Usando os dedos, Amy penteou os cabelos enquanto os apertava dando-


lhe mais volume enquanto secavam lentamente. O resultado não seria tão
bom quanto usar alguma espécie de modelador de cachos, mas aquilo era o
máximo que poderia fazer. Não tinha nenhuma maquiagem consigo ali
naquele momento, sua mente se lembrou de todas as coisas que ela deixara
no quarto do motel onde Cézare havia lhe encontrado. Um batom e algum
corretivo poderiam fazer um verdadeiro milagre em seu rosto, mas
aparentemente ela teria que se contentar em ficar sem eles.

Uma leve batida na porta chamou sua atenção, virando ela encontrou
Cézare parado na entrada, um olhar de surpresa e desejo percorrendo seu
rosto.

Eles se observaram um longo momento sem nada a dizer. Ele trocara a


calça despojada que estivera usando por uma nova de um tom de azul
petróleo profundo, a camisa social dobrada em seus punhos tinha um tom
quase cinzento que constratava com sua pele bronzeado e destacava os
cabelos chegando a altura de seu colarinho. Mesmo aquela distancia, ela
percebera que ele havia feito a barba, desejou poder escorrer seus dedos por
sua pele, sentindo a maciez de seu rosto até alcançar seus lábios. O
pensamento disparou o sangue em seu corpo, deixando sua boca seca.

- Você está bonita... – disse Cézare cruzando o espaço entre eles até estar
parado a sua frente – Acho que preciso me desculpar pela cor do vestido.

O sorriso expandiu em seu rosto enquanto ela deixava que os dedos


percorressem a saia desfazendo um amaçado inexistente.

- O vestido é lindo de qualquer forma Cézare independente de sua cor.


Provavelmente a peça mais bonita que já usei.

- Bem ao menos nesse ponto Giorgina conseguiu fazer um bom trabalho –


comentou o rapaz, os olhos se estreitando ligeiramente como se ele tivesse
contendo um sentimento negativo em suas expressões.

- Aposto que ela não deve estar muito feliz com o fato de você estar me
levando nessa reunião – disse Amy enquanto se lembrava do último encontro
que tivera com a mulher italiana.

Sua opinião a respeito de Giorgina nunca havia sido boa, as palavras


trocadas entre elas antes de Amy fugir poderiam ser consideradas no mínimo
como sendo ríspidas. No fundo ela não se importava nem um pouco com a
opinião dela a seu respeito, mas sabia que transitava com Cézare em águas
desconhecidas, e de certa forma tinha receio de como a família dele poderia
reagir quando descobrisse que ele estava a levando em suas reuniões.

- Você está pronta? – perguntou o mafioso italiano interrompendo seu


raciocínio?

Amy sorriu em sua direção enquanto concordava, deslizando a mão sobre


a sua como se eles fossem um simples casal comum, ele a levou para fora da
casa. Estacionado em frente ao jardim, estava um elegante conversível
italiano negro. Amy sentiu os nós de nervosismo se apertarem ao redor do
seu estômago enquanto ajeitava seu corpo sobre o estofado de couro, embora
de certa forma ela estivesse acostumada a transitar naquele mundo de
opulência e extravagância a financeira uma parte dela nunca deixava de se
maravilhar com aquela exposição, enquanto sentado ao seu lado atrás do
volante Cézare se comportava como se nada daquilo significasse
absolutamente nada.

A viagem até a cidade foi tranquila e extremamente agradável. O sol já


havia se posto no horizonte, mas sua luz dourada e laranja ainda podia ser
visível como uma faixa mais clara sobre as ondas. O tempo estava agradável
embora estivesse quente como uma noite de verão havia uma brisa que vinha
do ar e acabava refrescando o ambiente. Os cheiros de especiarias e flores de
laranjeiras chegaram até suas narinas quando eles contornaram uma extensão
do que parecia ser uma fazenda com vista para os penhascos ao redor do mar.
Com o vidro abaixado apreciando a vista Amy tentou afastar as lembranças
do dia anterior de como o sol quente sobre sua cabeça havia deixado sua
língua seca como areia, e seus pés exaustos cheio de bolhas continuavam sua
caminhada sem futuro.

Naquele momento, enquanto tentava fugir o medo havia a impossibilitado


de apreciar a paisagem. Desde que chegara até ali, seu único objetivo havia
sido sair daquele lugar o mais rápido possível. Uma parte dela sempre
soubera que havia uma beleza imponente na paisagem que a circundava, mas
sua situação não havia permitido que ela realmente pudesse aprecia-la.

Pela primeira vez Amy realmente se permitiu olhar ao redor, apreciando a


vista ao máximo, um prazer desconhecido encheu seu peito, quando ela
observou a pequena cidade cravada como uma joia ao sopé dos rochedos
sendo banhada pelas águas cristalinas do mar.

Ela sempre fora uma garota de cidade grande, a agitação de Nova York, e
sua selva de pedra concreto e metal sempre teriam um espaço cativo em seu
coração, mas aquela beleza simplória e quase rustica demais deixou sua
mente extasiada.

Como aquela era uma noite para aventuras e coragem ela se permitiu
imaginar desbravar aquele lugar, conhecendo suas pequenas ruelas de pedra,
andando ao redor da orla da praia, talvez quem sabe se tivesse um pouco mais
de audácia ela poderia arriscar um banho de mar, depois então tomaria um
imenso sorvete e para o jantar teria uma verdadeira pizza italiana.

Um sorriso brincalhão se estampou em seu rosto, olhando para o homem


a seu lado, sua imaginação que naquele momento estava completamente fora
de controle, o colocou ao seu lado. Foi extremamente fácil visualizar Cézare
a sua frente enquanto ambos dividiam um romântico jantar a luz de velas a
beira mar. Ele poderia segurar sua mão enquanto ela caminhava pelas ruas,
roubando-lhe um beijo de vez enquanto, confidenciando palavras apressadas
em seus ouvidos. Os dias passariam rápidos, e durante as noites eles
poderiam passear pela praia, aproveitando o céu estrelado sobre suas cabeças,
enquanto tentavam se refrescar.

O sorriso morreu em seu rosto, como se fosse uma pequena bolha de


sabão explodindo devido ao peso da gravidade. Aquelas imagens eram
perfeitas demais, por isso não podiam fazer parte da realidade. Não haveria
passeios românticos, ou jantares a luz de velas com Cézare. O passado que os
unia era sombrio demais e ela não podia se esquecer disso.

A viagem acabou sendo muito mais rápida do que ela havia previsto,
Cézare contornou o centro, cruzando em frente ao mar, numa região
movimentada com cafés a bares abertos que pareciam bastante movimentados
aquelas horas da noite. Amy observou os restaurantes enquanto o cheiro de
comidas deliciosas e desconhecidas viaja até ela. Eles se dirigiram para uma
parte da cidade que parecia ser mais histórica. Ali os prédios não muito altos
erguiam-se em ruas de pedra com sacadas ao redor das janelas no segundo ar
portas e janelas de madeira. Um pouco mais adiante Cézare parou em frente a
um elegante prédio de aparência antiquada, que parecia ter sido
completamente restaurado. A fachada de pedra branca era adornada com
imensas janelas e portas duplas. Parando diante da entrada que naquele
momento parecia completamente vazia, um homem se adiantou abrindo a
porta para ambos, como se eles tivessem sendo esperados.

Cézare conversou com ele num fluente e educado italiano, fazendo


perguntas que Amy não foi capaz de compreender, o empregado respondeu
de forma atenciosa enquanto lhes indicava a entrada do local.

A mão de Cézare pousou sobre a parte de trás de suas costas de forma


reconfortante enquanto eles entravam no estabelecimento. Acima de suas
cabeças um lustre de ferro imponente iluminava um hall de entrada em pedra
e mármore. Ao longe Amy ouviu acordes de violino, e som agudo de uma
aria cantada em italiano. Um longo corredor se estendia diante deles,
enquanto uma escada subia ao andar de cima um tapete vermelho cobrindo
seus degraus de madeira polidos.

- Que lugar é esse? – perguntou Amy num sussurro ansioso, apenas para
que Cézare ao seu lado pudesse ouvi-la.

- Um clube de cavalheiros – respondeu ele lançando um olhar de esguelha


em sua direção, embora sua voz continuasse controlada ele aparentemente
não via motivo para os sussurros – O prédio pertence a minha família a
gerações. Costumava ser hotel, depois foi transformado num restaurante por
alguns dos meus parentes que são tantos que fica impossível lembrar-se de
um nome. Costumava ser gerenciado pelo meu pai quando ele estava vivo,
mas agora é um lugar onde nós nos reunimos para um descanso, ou fazer
negócios.

- Você costuma vir muito aqui? – perguntou Amy tentando controlar sua
atenção que teimava em se perder nos quadros pendurados na parede ao seu
redor. As pinturas a maioria de retratos possuíam pinceladas fortes e tons
escuros e terrosos, ela já havia visto aquilo em algum livro como o exemplo
da arte barroca, teve vontade de se aproximar para apreciar cada detalhe, mas
o bom senso e os passos de Cézare ao seu lado a impediram.

- Apenas quando necessário – respondeu o mafioso italiano discretamente


– Pietro costuma insistir em minha presença, mas a maioria da minha família
não costumava ficar à vontade ao meu redor.

- Por que? – perguntou Amy os saltos altos de suas sandálias ecoando ao


seu redor.

- Eu sou o carrasco Fonnezi no final das contas. É um trabalho necessário,


e ninguém se importa quando o serviço é realizado contra outras pessoas, mas
todos aqui estamos debaixo das ordens do meu irmão. Qualquer homem aqui
dentro sabe, que um passo em falso e eu serei a última coisa que ele vai
enxergar nesta vida.

Ela sabia que não haviam sido de proposito, mas Amy não conseguiu
deixar de sentir um calafrio correr em sua pele, as palavras de Cézare
pairaram ao seu redor, como um manto opressivo, lembrando-lhe que ela
estava pisando em um território completamente desconhecido.

Os dois entraram finalmente num salão amplo e ricamente decorado, aos


fundos um bar com balcão de mogno e prateleiras delicadamente iluminadas
exibia uma coleção rica e variada de garrafas de vinho. Pequenas mesas
redondas, estavam expostas toalhas brancas as decoravam e sobre cada uma
um solitário vaso com rosas brancas, completava a decoração.

O ambiente requintado estava praticamente vazio, apenas um pequeno


grupo de homens se reunia próximo as janelas conversando em voz baixa
num italiano rebuscado. Todos usavam ternos, e a maioria possuía uma taça
de vinho tinto nas mãos. Assim que eles entraram no salão, a atenção deles
recaiu sobre eles.

Amy colocou seu sorriso profissional em seu rosto, erguendo o queixo


ligeiramente enquanto tentava esconder seu nervosismo debaixo de sua
fachada fria e controlada. Ela acompanhou o passo de Cézare que também
parecia ter assumido sua postura de autoridade e liderança.

- Você tem certeza que não há nenhum problema eu estar aqui? –


perguntou a garota mais uma vez, lançando lhe um sorriso forçado, tentando
disfarçar aquela conversa entre eles. – Parece que estamos atraindo atenção
demais.
- Não se preocupe com eles – respondeu Cézare de forma direta – Eles
não vão ser audaciosos o suficiente pra dizer alguma coisa, mas com certeza
logo toda a família via estar falando a respeito...

- Seu irmão não vai ficar bravo com você – perguntou Amy incapaz de
esconder a preocupação em seu timbre de voz.

- Na verdade eu acho que ele será um dos mais curiosos a esse respeito,
além do mais eles não estarão falando de mim... Mas de você.

Cézare havia e levado até o fim do salão onde se localizava o balcão,


Amy sentiu suas se encostarem no balcão enquanto Cézare ficava exatamente
diante dela, impedindo que ela pudesse enxergar o pequeno grupo de homens
reunidos logo mais adiante.

- Eu nunca fui visto acompanhado de nenhuma mulher – disse ele de


maneira muito calma, se reclinando em sua direção, como se estivessem
compartilhando um segredo – Com certeza eles vão querer saber mais a
respeito da mulher que despertou minha atenção.

- Eu não sei se quero ser o centro das atenções deles.

- Você não precisa se preocupar... Enquanto estiver ao meu lado estará


segura.

- E se eu não quiser estar ao seu lado Cézare? – respondeu ela num


sussurro quase inaudível.

Ali estava, a dúvida que estivera durante todo aquele tempo corroendo
suas entranhas, deixando um gosto ocre em sua língua. Os olhos de Cézare
faiscaram em sua direção, uma miríade de sentimento distintos cruzando atrás
dele. Dor, raiva, tristeza. Agora ela podia dizer que conhecia um pedaço do
homem por trás daquela fachada, e aquilo apenas servira para fazer com que
ela se sentisse ainda mais atraída por ele, o que apenas tornava tudo pior
naquela situação.

Cruzando o pequeno espaço que os separava Cézare deixou que suas


mãos encostassem no balcão ao lado de seu corpo prendendo a sua frente.
Algo se agitou dentro dela talvez fosse seu coração que parecia mais leve em
seu peito, ou o sangue que parecia correr mais rápido em suas veias, de
qualquer forma não era mais medo e sim antecipação, como se a única coisa
que ela pudesse desejar naquele mundo fosse que ele se aproximasse mais.

- Por que você quer me deixar Amy? – perguntou Cézare muito sério os
olhos dourados radiantes fixos em seu rosto.

- Porque você quer me prender...

- Não quero prende-la... Quer tê-la ao meu lado.

- Você não está me dando uma escolha Cézare.

- E você não está me dando uma chance...

A testa dele se encostou contra a sua, por um momento ela se esqueceu


onde estavam, capturada completamente pelo seu olhar a força de sua
presença. Sentiu as pontas de suas unhas arranhado a saia de vestido. Se ele a
beijasse naquele momento ela estaria completamente perdida.

- Fique comigo – pediu ele, o hálito quente acariciando o alto de suas


bochechas – Eu a levarei para conhecer a cidade, você não precisar ficar em
minha casa pode ficar... Num hotel, qualquer hotel que escolher depois disso
então...

As palavras dele morreram em seus lábios, como se ele tivesse lutando


para colocar para fora seu desespero para que ela pudesse compreende-lo. Ela
queria negar seu pedido, claramente era a escolha mais logica a ser feita
embora sua mente já tivesse se deixado levar por suas palavras. Ela podia se
ver ali por mais alguns dias, numa tentativa de esquecer todos os problemas
em sua vida que pareciam soterra-la. Seria tão simples, quando ela teria uma
oportunidade como aquela novamente... A tentação dançou sobre sua pele,
nublando seus sentidos sendo apenas mais abrasadora devido a proximidade
com Cézare, a mente dela estava repleta das imagens do corpo dele, a
lembrança da sensação de como havia sido toca-lo corria por sua mente
deixando sua boca seca... Ela precisava recusa-lo então por que as palavras
simplesmente não chegavam até sua língua?
O nome dele foi chamado fazendo com que ambos recuassem assustados
com a interrupção, Cézare olhou de maneira ameaçadora para o homem que
os interrompera, antes de voltar sua atenção para Amy dizendo:

- Não acabamos ainda esse assunto, mas por favor pense em meu pedido.

Amy ficou parada exatamente no lugar onde estava enquanto toda aquela
confusão parecia embaralhar ainda mais os pensamentos em sua cabeça.
Virando-se em direção ao balcão deixando que sua atenção recaísse sobre os
espelhos colocados sobre as imensas prateleiras de bebidas, ela respirou
fundo tentando acalmar seu coração agitado. O rosto dela parecia afogueado,
os olhos brilhantes e desfocados definitivamente naquele momento ela
poderia se aproveitar de um drinques para conseguir suportar melhor toda sua
atenção.

Erguendo sua mão ligeiramente, ela tentou atrair a atenção do garçom que
estava na ponta oposta do balcão. Havia dois homens trabalhando ali, mas
apenas alguns minutos atrás um deles havia se retirado para os fundos do
estabelecimento. Olhando ao redor Amy sentiu-se mais tranquila quando
percebeu duas mulheres também próximas ao balcão. Vestidas de forma
elegantes elas usavam maquiagens rebuscadas e joias que com toda certeza
absoluta não eram réplicas. Elas pareciam tão jovens quanto elas, e
conversavam em italiano uma contra a outra de maneira empolgada.

Amy desejou poder atravessar o pequeno espaço que as separava e iniciar


uma conversa casual, qualquer distração naquele momento seria bem-vinda
para que ela pudesse se distrair, mas Amy não era nem um pouco fluente em
italiano e talvez aquelas garotas também não falassem sua língua. Ela tentou
mais uma vez de alguma forma chamar a atenção do garçom que continuava
a ignorando, parecendo extremamente interessado em algo que estava de
baixo do balcão, ela deu um passo em sua direção quando todo seu mundo
virou de cabeça para baixo.

Como se tivesse observando toda a cena acontecer em câmera lenta, Amy


observou o garçom se levantar de onde estava carregando algo em suas mãos,
por um momento ela confundiu o objeto que ele segurava então o som de um
tiro sendo disparado muito alto fez com que o caos irrompesse pelo ambiente.
O grito das duas garotas que estavam apenas alguns passos de distância
ecoou em seus ouvidos enquanto o homem que apenas um minuto atrás havia
chamado Cézare caiu a sua frente um buraco sangrento em suas costas.
Apenas alguns metros os separavam mas naquela confusão parecia ser um
distancia intransponível, o som de portas se batendo com brusquidão atraiu
sua atenção enquanto ela observava mais dois homens vestido como garçons
entrarem no estabelecimento, armas em punho.

Um deles se adiantou erguendo sua pistola diretamente em direção ao


rosto de Cézare, fazendo com que o medo corroesse duas entranhas como
ácido.

- Não!

Levou alguns segundos para Amy perceber que o grito de negação partira
de seus lábios, a atenção do desconhecido que segurava uma arma em direção
a Cézare voltou-se completamente para ela, com olhos inquisidores ele
lançou um olhar em sua direção cheio de raiva, apontando a arma em sua
direção.

O homem perguntou algo em italiano que ela não soube responder, acima
de seus ombros ela pode ver o rosto de Cézare perder completamente a cor
enquanto ela era ameaçada por aquele homem.

- Amy? O que você está fazendo aqui?

Uma voz desconhecida e completamente fora de lugar chegou até seus


ouvidos, assustada e incapaz de compreender o que realmente estava
acontecendo ali, ela observou seu irmão dar alguns passos em sua direção.
Assim como os dois outros homens ele também vestia-se como um garçom
embora em seu corpo mirrado o uniforme ficasse desproporcionalmente
grande.

- Peter...

- Irmãzinha? Meu Deus Amy, não era pra você estar aqui...

Lentamente as peças de um quebra-cabeça começaram a se juntar em sua


cabeça, um pedaço após o outro até que toda a cena diante dela pudesse ser
vista de outra maneira com um outro significado que lhe gelou os ossos.

- Peter... – disse Amy num sussurro de voz – O que você fez?

Um sorriso enlouquecido brilhou em seus lábios, deixando seus olhos tão


parecidos com os dela mais abertos enquanto ele respondia:

- Eu? Estou fazendo um investimento...

- Jones – rosnou Cézare atrás de suas costas dando um passo em sua


direção – O que você pensa que está fazendo?

- Pode parar exatamente onde está Fonnezi – respondeu Peter, erguendo a


mão esquerda que portava uma arma exatamente diante de seu rosto – Eu não
quero você perto de mim.

- Eu vou arrancar essa sua maldita cabeça de cima dos seus ombros
desgraçado.

- Ei isso é jeito de falar com o irmão da garota que você anda fodendo?

As palavras dele a aterrorizaram ou talvez fosse o timbre de voz alterado


combinado com a maneira que ele segurava a arma diante de Cézare, como se
fosse atirar por uma pura brincadeira.

- Peter, o que você está fazendo? – perguntou Amy dando um passo em


sua direção, tentando formar uma barreira entre seu irmão e Cézare.

- Eu fui pago para formar essa armadilha – explicou seu irmão, lançando
lhe um olhar divertido em sua direção, como se ele não pudesse se conter
diante daquilo que estava fazendo desejoso em contar algum tipo de
vantagem. – Aposto que nenhum desses mafiosos viu esse golpe chegando.
Eles me trouxeram até aqui me torturaram, e depois simplesmente me
deixaram pra lá como se eu fosse apenas um pedaço de lixo descartável.

- Quem é seu chefe? – perguntou Cézare atrás de suas costas num sibilo
de voz – Quem está te pagando.
- Bem, agora que já chegamos a isso, acho que não custa mesmo lhe
dizer. A Ndrangheta quer sua cabeça Fonezzi, eles não andam lá muito felizes
com a disputa de território entre vocês e a família deles.

Amy sentiu calafrios escorrerem por seu corpo, enquanto ela reconhecia o
nome que acabara de sair da boca de seu irmão. Ele estava trabalhando com a
máfia inimiga a família de Cézare, sendo informante deles... Uma lembrança
da noite que ela havia o encontrado num bar fora da cidade piscou em sua
mente... Aquele havia sido o motivo pelo qual ele realmente não quisera fugir
com ela. Peter já deveria ter aquele plano inteiro formado em sua mente. Seu
irmão havia escolhido o dinheiro ao invés do seu próprio sangue.

- Mas não se preocupe Fonnezi infelizmente eu não terei a honra de mata-


lo, eles querem que você seja levado para a Calábria... Vivo, mas é claro que
se você tentar alguma gracinha você pode chegar até lá sem alguns pedaços
faltando...

O horror tomou conta da expressão da garota enquanto, ela deixava que


seu olhar registrasse completamente a face de seu irmão. Ela o via diante de
si, os mesmos cabelos louro cor de trigo, olhos azuis que pertenciam a mãe
de ambos. O garoto que estivera ao seu lado nas partidas de vídeo-game que
lhe comprara uma casquinha de morango... Como aquele poderia ser o
mesmo homem que apontava a arma na face de outra pessoa, e falava sobre
desmembramento como se estivesse comentando sobre o tempo... Aquele
homem, ela não conhecia.

- Peter você não pode fazer isso – pediu ela num sussurro de voz,
tentando segurar o braço erguido que ele segurava a arma.

- Não toque em mim, sua vadia! Você nem ao menos deveria estar aqui!

Amy recuou assustada e completamente ferida, sentiu o sangue escorrer


de seu rosto deixando para trás sua pele gélida e pegajosa.

- Não importa, não importa – murmurou Peter para si mesmo, como se


precisasse falar em voz alta para colocar em ordem os pensamentos em sua
cabeça – Você não vai me impedir de terminar meu serviço irmãzinha. Você
gostou de ser a cachorrinha dele? Não se preocupe tenho certeza que
podemos encontrar outro dono pra você.

Falando em italiano seu irmão se adiantou para frente enquanto apontava


sua arma, para os outros homens parados atrás de Cézare, com posturas
rígidas eles obedeceram seus comandos, formando um grupo compacto no
fundo do salão.

- Vá para lá Fonezzi, eu não estou com muita paciência – ordenou Peter


virando-se e novamente apontando a arma em sua direção.

- O que você pretende fazer com ela? – perguntou Cézare sem parecer se
importar com a arma diante do seu rosto, os olhos dourados fixos no rosto de
Amy repletos de uma preocupação indisfarçada.

- Preocupado? Me poupe, ela é minha irmã, você não tem o direito.

- Cézare – chamou Amy sentindo as palavras ficarem presas em sua


garganta deixando o fôlego em seu peito quase dolorido.

- Faça o que ele mandar – pediu Cézare interrompendo suas palavras, o


rosto inexpressivo completamente controlado. – Acho que nossos planos vão
precisar ser adiados...

- Chega de conversinha e vá para o fundo... AGORA!

O grito de Peter foi seguido por um tiro que ele deu contra a parede do
outro lado do cômodo, aquela pequena distância Amy pode ver como o rosto
de Cézare se contorceu sua mandíbula se projetando completamente cerrada
em sua expressão severa.

Amy sentiu o coração bater na parte do fundo de sua garganta, quando os


dedos de Peter se fecharam sobre seu braço, ele puxou o rosto dela em sua
direção, até que eles estivessem se encarando por completo. Havia um brilho
maníaco em seu olhar, a íris negra devorando o azul de suas pupilas, o
desconforto de lembranças ruins agitou suas entranhas, o vício que seu irmão
jamais havia sido capaz de combater estava escrito em cada um de seus
traços.
- Eu não vou deixar que você estrague tudo pra mim novamente – disse
ele num subilo de voz – Vou tira-la daqui, e quando finalmente tiver acabado
com Fonezzi nos vamos conversar.

Erguendo sua voz, ele gritou mais algumas ordens para os outros dois
desconhecidos usando uniformes de garçom enquanto começava a arrasta-la
para fora do salão.

- Peter! Me solte! _ exigiu Amy, assim que eles atravessaram as portas


duplas do salão, indo em direção ao imenso corredor.

- Cala essa boca!

- Você não pode fazer isso... Não.

O corpo dela foi empurrado contra a parede com brusquidão, os dedos


dele cavando fundo na pele do seu braço direito.

- Não posso? Me dê um único bom motivo irmãzinha pelo qual eu não


devo fazer isso...

- Você não pode estar falando sério Peter. Você não é um assassino!

- Não sou? – perguntou ele de maneira irônica – Como você tem tanta
certeza disso?

O sorriso que se espalhou por seu rosto, deixou os pelos de seu braço
completamente eriçados. A bile se enroscou em sua língua agitando
completamente seu corpo.

- Você não é um assassino – respondeu a garota num fio de voz, embora


uma parte de seu cérebro estivesse completamente em negação – Você é meu
irmão.

- Você não sabe nada a meu respeito! NADA ouviu bem! Além disso que
diferença faz, todos os homens naquela sala são tão bandidos quanto eu!

- E só por isso você acha que tem o direito de mata-los? Perguntou Amy
incapaz de esconder o horror em sua voz.
- Não se trata sobre direito irmãzinha, é apenas uma questão de negócios.
Eu fui pago pra isso.

Dando um passo para trás e lhe lançando um olhar debaixo a cima, Peter
deixou que suas feições se cobrissem de um desgosto genuíno enquanto dizia:

- Você me irrita Amy. Sempre pensando tão pequeno, nunca disposta a se


arriscar. Igualzinha nossa mãe. Se eu tivesse ficado preso a vocês duas nunca
conseguiria realizar minhas ambições.

- Você está se ouvindo Peter... Não acredito que esteja falando sério.

- E por que não? Eu nunca me contentei com o pouco que essa vida tinha
a me oferecer. Ao contrário de você.

O coração dela se retorceu em seu peito com suas palavras, com o olhar
enojado que ele lançava em sua direção. Um desprezo total e absoluto que ela
jamais imaginara que iria encontrar na única pessoa que era sua família nesse
mundo.

- Eu fiz tudo por você Peter, estive ao seu lado quando ninguém mais
estava.

- Ah como você adora jogar isso na minha cara irmãzinha. Você sempre
se achou muito melhor do que eu não é mesmo? Mais honrada, mais digna,
pena que agora você não passe de um joguete nas mãos daquele Fonnezi.

- O que você vai fazer com Cézare?

- Eu já disse o que vou fazer com ele – respondeu Peter, lançando um


sorriso maligno em sua direção – Eu vou leva-lo até a Calabria, e pegar meu
dinheiro, e se você for esperta vai vir comigo e ficar completamente
quietinha. Uma pena que não vou estar lá quando eles finalmente decidirem
acabar com Fonezzi.

- Agora ande e não tente nenhuma gracinha, porque eu não estou nem um
pouco com paciência.

Os dedos dele se infiltraram novamente sobre seu braço, empurrando seu


corpo corredor adiante. Os passos de Peter eram apressados, o fôlego dele
pairando muito alto no corredor completamente vazio. Lançando um último
olhar sobre seu ombro, a garota observou a porta fechada onde Cézare estava
sendo mantido preso se afastar.

Algo se agitou dentro dela, um tipo de sentimento que pareceu crescer a


cada batida descompassada de seu coração. Em sua cabeça sua mente era um
espaço completamente amplo e vazio, com exceção da negação que parecia
se avolumar a cada passo que ela dava naquele corredor. Ela não podia
simplesmente seguir seu irmão sem fazer nada... Não quando a vida de
Cézare estava correndo perigo. Aquilo era algo que ela simplesmente não era
capaz de fazer.

- Me desculpe Peter – murmurou a garota enquanto deixava seu corpo


tomar conta da situação agindo por um completo instinto.

Usando todo o peso que podia Amy jogou-se contra seu irmão, tentando
fazer com que ele se desequilibrasse. Pego completamente de surpresa, ele
tropeçou enquanto ela conseguia lhe acertar um soco desajeitado em seu
rosto.

Quando crianças, elas nunca haviam realmente chegado a brigar de forma


física, mas Peter havia lhe ensinado o pouco que ela sabia sobre golpes,
quando soubera que ela estava sendo intimidada na escola.

Amy não deu a seu cérebro raciocinar com logica o que estava fazendo.
Agindo apenas no piloto automático, ela caiu sobre o corpo de seu irmão,
enquanto tentava tirar a arma de suas mãos, buscando uma maneira de se
soltar dele.

Peter pareceu se irritar profundamente com sua atitude, os dedos dele


agarraram seu cabelo de maneira dolorosa, chocando sua cabeça contra a
parede atrás de suas costas. Dor simples e bruta explodiu atrás de seus olhos,
tirando o folego de seus pulmões. Tarde demais a garota notou que estava
caindo, por isso estendeu suas mãos buscando a parte de frente da camisa de
seu irmão, enquanto juntava todas suas forças erguendo seu joelho
diretamente no centro de suas pernas.
O grito angustiado dele soou muito próxima a seus ouvidos, ambos
caíram no chão rolando enquanto seus membros se embaraçavam e Amy
tentava desesperadamente se levantar.

Vermelho escuro inundou completamente sua visão, até Amy perceber


que estava de joelhos no chão braços estendidos segurando o corpo que
tremia violentamente. Peter havia caído próximo a seus pés, a respiração
rasante lhe dizia que ela havia tido sorte o suficiente para conseguir lhe
acertar.

Os dedos dela se fecharam sobre algo rígido como uma pedra, erguendo
rapidamente enquanto o mundo parecia balançar precariamente sob seus pés,
Amy lançou lhe num ritmo acelerado percorrendo o corredor a sua frente.

- Amy – gritou Peter a suas costas, sua voz soando como um urro de um
animal ferido – Sua desgraçada volte aqui!

Os passos dela foram vacilantes, trôpegos no corredor parcialmente


iluminado, sentindo a cabeça girar em seus ombros, Amy apoiou sua mão
livre sobre as paredes sentindo a textura áspera da parede debaixo de seus
dedos. O medo fez com que o instinto gritasse em seu sangue, ela precisava
sair dali o mais rápido possível, embora tivesse acertado Peter
momentaneamente tinha certeza que logo ele estaria recuperado e ela não
queria estar por perto do seu irmão quando isso acontecesse.

A atenção dela recaiu sobre o pequeno objeto que ela pegara quando
havia caído junto de seu irmão, sua visão turva por um momento não
permitiu que ela conseguisse identificá-lo. Havia pensado num primeiro
momento que poderia usá-lo como uma arma, mas agora que ela percebia que
roubara seu celular, sentiu um fiapo de esperança romper dentro de seu peito.

Aumentando o passo a garota correu, até chegar ao hall de entrada


daquele ambiente. A porta de entrada estava fechada, Amy tentou abri-la,
mas a pesada fechadura não se moveu nenhum centímetro quando ela notou
que estava trancada ali dentro.

Os dedos dela se apertaram ao redor do celular, enquanto ela olhava para


todos os lados buscando uma saída. Sua atenção foi desviada para a escada
que levava aos andares superiores. Não sabia o que poderia encontrar ali em
cima. Poderiam mais homens estarem escondidos a mando do irmão?

Terror deixou suas pernas bambas como se fossem gelatinas, retirando as


sandálias rapidamente Amy as deixou num canto qualquer sabendo que se
fosse preciso correr então seria melhor se ela estivesse descalça.

Tentando controlar os pensamentos amedrontados e descontrolados em


sua cabeça, ela continuou em frente até alcançar o que parecia ser uma porta
aos fundos do hall que lembrava a entrada de serviço para funcionários. Se
eles haviam conseguido uma maneira de trancar a entrada principal, Amy
sabia que precisava encontrar uma outra maneira para sair dali.

Os dedos dela se apertaram ainda mais sobre o celular que ela carregava
em sua mão, sentindo o trincado que cruzava um pedaço de sua tela do lado
esquerdo que ele sofrera na tela. Ao menos ele continuava funcionando a
única coisa que ela precisava fazer agora, era encontrar uma maneira de
destrava-lo então fazer uma ligação... A mente dela descendo num espiral
caótico lembrou-se da noite anterior, ela nem ao menos era capaz de saber o
número de emergência da polícia italiana, e mesmo se ela tivesse essa
informação como ela poderia ter certeza que de alguma forma, não haveriam
pessoas infiltradas ali dentro participando daquela operação naquele
momento.

- Amy? Onde você está! Volte AQUI!

Os gritos de seu irmão a alcançaram apenas alguns metros de distancias,


lançando-se o mais rápido que podia correr pela porta que era usada apenas
pelos funcionários Amy embrenhou-se num corredor mais estreito com portas
pintadas de branco de ambos os lados que a levaram em direção a cozinha.
Atravessando portas duplas de ferro, a garota olhou ao redor assustada
contendo o pânico que parecia crescer dentro do seu peito fazendo com que
respirar se tornasse mais difícil.

Não havia uma única pessoa ali para qual ela pudesse pedir ajuda, de
alguma maneira eles haviam conseguido esvaziar completamente o prédio,
cortando por completo o contato com o mundo exterior. Com os dedos
trêmulos, Amy levou o celular até que sua tela estivesse próxima a seu rosto,
supor escorria por sua nuca e em suas têmporas enquanto ela começava a
sentir uma dor incomoda detrás de seus olhos.

Os dedos dela tremiam descontroladamente enquanto ela tentava


destravar o teclado do celular que roubara de seu irmão. Sua primeira
tentativa ao colocar a data de aniversário de sua mãe foi falha, ficando sem
alternativas ela tentou sua própria, apenas para o aparelho continuasse
inutilizado.

Praguejando entre os dentes, Amy tentou buscar em suas lembranças


qualquer número que pudesse fazer algum sentindo para ela usar, mas a única
coisa que conseguiu pensar foi no próprio aniversario de Peter.
Completamente espantada Amy observou a tela destravar a sua frente como
num passe de mágica.

- Amy! Onde você está! Eu quero meu celular de volta!

O coração pareceu parar em sua garganta batendo tão rapidamente que


por um momento ela acreditou que pudesse saltar para fora do seu peito.
Olhando ao redor a garota percebeu que não havia ali nenhum lugar onde ela
pudesse se esconder caso Petrer a encontrasse. Agindo num impulso, ela
rastejou para debaixo de uma das mesas de metal, deslizando sobre suas mãos
e joelhos, enquanto metade de sua atenção estava direcionada a agenda que
ela tentava acessar no celular de seu irmão.

Ela desconhecia mais da metade daqueles números, mas entre eles um


acabou chamando sua atenção. Sem pensar duas vezes ou mesmo nas
consequências, ela digitou o número rezando pra que do outro lado ele
pudesse atender sua ligação.

Os toques se repetiram um após o outro até que os nervos dela estivessem


em frangalhos, debaixo da mesa ela observou a porta da cozinha se abrindo
lentamente.

- Peter espero que você tenha um bom motivo para estar me ligando
tantas vezes assim – disse Pietro do outro lado da linha sua voz soando
completamente irritadiça.
- Cézare está em perigo.

A voz de Amy soou tremula, contida não mais do que um suspiro, ela
rezou para que do outro lado da linha o irmão de Cézare pudesse
compreende-la e acreditasse em suas palavras. O silêncio se prolongou em
seus ouvidos, fazendo com que o som dos batimentos acelerados de seu
coração soasse muito alto dentro do seu peito.

- Onde ele está? – perguntou por fim Pietro, o tom de sua voz agora havia
mudado completamente tornando-se mais frio e controlado.

- Ele me trouxe a reunião que você pediu para ele comparecer, mas havia
uma emboscada... A Cálabria.

- Cézare está vivo? – perguntou Pietro

- Não sei... eu realmente não sei.

A incerteza daquela resposta, a dúvida que parecia esmagar seu coração


naquele momento trouxe lágrimas a seus olhos, o som de algo chiado chegou
até seus ouvidos e levou Amy um longo momento para que ela percebesse
que era a forma desesperada que ela tentava sugar o ar para dentro de seus
pulmões que causava aquele som.

- Estou a caminho – respondeu Pietro em seguida, desligando a ligação de


uma única vez.

Uma espécie de alivio invadiu seu peito, embora a impotência de toda


aquela situação deixasse seu corpo pesado. Algo morno escorreu por seu
queixo e Amy notou que durante todo o tempo que estivera no telefone,
lágrimas haviam escorrido por seu rosto como um rio. Levou a mão direita
até os lábios tentando conter o grito de horror que se formava dentro de sua
garganta. Ele não podia morrer... Cézare tinha que estar vivo.

Algo pesado e gélido como algemas caiu sobre seu tornozelo,


completamente assustada Amy olhou para cima apenas para encontrar a face
do seu irmão completamente distorcida pelo ódio, antes de ser
completamente arrastada para fora do lugar onde ela se escondia.
Seu corpo foi erguido com facilidade, ela tentou se defender, mas dessa
vez Peter foi mais rápido lhe acertando um golpe com força em seu
estômago. Dor pura e simples viajou por seu peito fazendo com que ela se
curvasse para frente o estômago completamente enjoado.

- Por que fez isso Amy? Por que você está tentando salvar o desgraçado
do Fonnezi?

Os dedos do seu irmão se infiltraram em seu cabelo, puxando sua cabeça


para cima de maneira dolorosa. Não havia nada por trás dos olhos de Peter
além de um vazio infinito e sem forma. O homem diante dela podia ter seu
sangue seu sobrenome, mas agora como se uma venda finalmente tivesse sido
retirada de seus olhos ela podia enxerga-lo com clareza; aquele homem não
era sua família... Ele não a amava.

Cerrando seu maxilar Amy deixou que o desgosto tomasse conta de seu
rosto, mesmo naquela situação estando completamente a sua mercê ela não
deixaria que Peter a intimidasse.

- No final das contas você preferiu ficar ao lado daquele desgraçado ao


invés da sua família. – disse Peter enquanto puxava as raízes de seu cabelo
com força, obrigando-a a olhar em sua direção – Você realmente sempre foi
uma ingrata.

- Não ouse me falar a respeito de família – disse Amy cuspindo suas


palavras de maneira completamente raivosa – Você nunca me tratou como se
realmente importasse comigo. Você é o único culpado de toda essa situação
Peter.

- Você continua sendo uma burra Amy. Nunca sabendo aproveitar as


oportunidades que a vida lhe oferece. Mas, dessa vez você deveria ter ficado
do meu lado!

O corpo dela foi empurrado com força contra a mesa, ela sentiu um golpe
forte atingiu sua perna fazendo com que ela perdesse o resto do equilíbrio que
lhe restava.

- Mas, não se preocupe – continuou Peter caminhando lentamente em sua


direção, um sorriso em seus lábios descoloridos, como se ele realmente
estivesse feliz com aquela situação. – Você não vai conseguir ajuda-lo de
maneira alguma. Você não pode salva-lo assim como não pode se salvar, e eu
vou te ensinar realmente o que significa família.

A raiva queimou sobre ela ardente e brilhante como uma chama. A


traição de Peter doía em seu peito como uma ferida, todo o sofrimento que
ela havia experimentado nos últimos anos por sua causa, lhe deram forças
para reagir. Dessa vez Amy não esperou o golpe que ela sabia que ele estava
preparando, agarrando a primeira coisa que encontrou sobre a mesa onde ela
se apoiara jogou nele ouvindo o som de vidro se espatifando contra a parede.

Ela não esperou para ver se realmente tinha o acertado, com o coração
saltando como um coelho assustado em seu peito, ela atravessou a cozinha
correndo jogando seu corpo com tudo sobre as portas de vai e vem tentando
colocar qualquer distância entre ela e seu irmão.

Do outro lado, um pequeno corredor ainda mais estreito tinha uma placa
vermelha no final sobre uma porta indicando a saída. Amy torceu para que
ela não estivesse trancada, mas então sua atenção recaiu sobre uma caixa de
metal ao lado da porta. Sem pensar duas vezes ou mesmo medir as
consequências, ela abiu com força deixando que os dedos de sua mão se
fechassem sobre a pequena alavanca de plástico ali dentro, quando ela a
desligou todas as luzes do prédio foram mergulhadas na mais completa
escuridão.

Do outro lado na cozinha as suas costas, ela ouviu o grito enraivecido de


Peter, sem perder tempo, ela correu o mais rápido que suas pernas podiam
aguentar tentando alcançar a saída daquele lugar.

Mesmo sobre as batidas altas e descontroladas de seu coração, ela pode


ouvir os passos de Peter atrás de suas costas, de alguma forma ela tentou
aumentar sua velocidade, mas não conseguiu seus pulmões não tinham mais
forças.

Lançando os braços pra frente Amy quase deixou que seu corpo se
chocasse com a porta diante dela, mas para seu alivio ela estava aberta.
- Amy pare agora!

O ar quente da noite açoitou seu rosto quando ela conseguiu sair para o
exterior do prédio, numa rua pouco movimentada, então uma dor ardente e
cegante explodiu em seu braço acompanhada do som de um tiro.

Completamente petrificada, a garota girou os calcanhares para no mesmo


lugar olhando em direção a seu irmão que estava exatamente debaixo da porta
aberta, uma arma prateada erguida em sua direção seu cano ainda fumegante.

- De mais um passo, e eu atiro dessa vez pra valer.

As palavras de Peter eram gélidas, o olhar em seu rosto um misto de nojo


e ódio. Ignorando-o por completo Amy deixou que sua atenção, caísse sobre
o sangue vermelho que começava a escorrer em abundância de seu ombro até
seu cotovelo. Por um momento sua mente que apenas um segundo atrás
estivera repleta de pensamentos barulhentos agora havia completamente se
silenciado. A dor em seu braço era constante anulando qualquer outra coisa
que ela pudesse estar sentindo naquele momento. Todo o medo e o pânico
haviam desaparecido enquanto uma estranha calma se apoderava do corpo
dela, enquanto um pensamento muito claro se desenhava em sua mente
enquanto ela respondia para seu irmão.

- Então você vai me matar essa noite Peter, porque eu não vou voltar com
você.
Capítulo Dezoito
O som de pneus derrapando nas ruas e carros acelerando chamaram a
atenção de ambos. Petrificada diante de seu irmão que lhe apontava uma
arma, Amy observou três carros completamente negros pararem na rua
estreita, impedindo completamente seus movimentos.

A porta da frente de um deles se abriu, uma figura saltando para fora de


maneira ágil e elegante, quando os olhos dele se fixaram em seu rosto Amy
sentiu o coração explodir dentro de seu peito. Ela tinha se esquecido como
Pietro o gêmeo de Cézare era extremamente parecido consigo.

Sua atenção foi desviada para seu irmão. O rosto dele transformado numa
careta agora exibia um tom pálido deixando seus olhos azuis muito vividos,
daquela pequena distância que os separava Amy observou sua mão tremer, a
arma apontada em sua direção perdendo completamente o equilíbrio. Ela nem
ao menos teve tempo de temer por ele, quando Peter sem nem mesmo lançar
um único olhar em sua direção, voltou correndo novamente para dentro do
prédio.

Amy sentiu a cabeça sobre seus ombros ficar leve como se estivesse cheia
de ar, quando Pietro parou diante dela, obrigando-a a olhar em sua direção.

- Onde está meu irmão? – perguntou ele de maneira direta. Sua voz era
diferente de Cézare mais distante e contida, as palavras em inglês não
possuíam nenhum tipo de sotaque.

- Dentro do salão próximo ao bar. Há dois homens armados, eles estão


vestidos como garçons... Não sei se existem mais pessoas.

Os olhos gélidos dele desviaram em seu rosto, sua atenção atraída pela
ferida em seu ombro que ela havia esquecido embora a dor ainda estivesse
presente. Ela tentou mover o braço mas percebeu que seria impossivelmente
doloroso, flexionou os dedos de sua mão, sentindo a textura grudenta de seu
próprio sangue ficando impresso em suas digitais enquanto o aroma de ferro
de impregnava em suas narinas.
- Acho que pela cena que acabo de presenciar você não parece estar
envolvida nessa armadilha – disse Pietro muito tranquilamente, enquanto
retirava um canivete do bolso interno de seu terno. – Aquele era seu irmão?

Ela sabia que aquela pergunta nada mais era do que uma armadilha, a sua
frente Pietro esperava que ela de alguma forma tentasse proteger seu irmão
depois de tudo o que acontecera. Mesmo numa situação como aquela sua
mente continuava afiada arquitetando planos.

- Sim, era meu irmão, ele está trabalhando com seus inimigos. –
respondeu Amy, um suspiro cansado e doloroso escapando por entre seus
dentes trincados.

Ela esperava que aquela confissão doesse de alguma forma, agora que ela
claramente havia escolhido um lado para estar, mas tudo o que podia sentir
naquele momento era o sangue pulsando na ferida do tiro que seu irmão lhe
causara.

- Fique aqui – instruiu Pietro simplesmente enquanto caminhava com


toda tranquilidade para dentro do prédio – Acho que precisaremos conversar
quando tudo isso tiver acabado.

Amy concordou com um simples aceno de cabeça, enquanto observava


ele e seus homens silenciosos entrarem no prédio rapidamente. Todos
estavam armados, e seus rostos eram máscaras sem nenhuma expressão.

Dando alguns passos para trás, a garota permaneceu ali completamente


sozinha na noite de verão, tendo apenas como companhia a lua crescente
sobre sua cabeça. No primeiro momento o silêncio ecoava em seus ouvidos,
até que o som de múltiplos tiros irrompera na escuridão. Parada ali fora como
se suas pernas tivessem criado raízes, Amy observou a maneira como o som
das armas se locomovia pelos corredores seguido pelos flashes que brilhavam
na escuridão por trás das janelas. Ela imaginou que não era a única que
estaria ouvindo aquilo, mas durante todo o tempo em que estivera ali nenhum
carro da policia ou mesmo curiosos chegaram até o local.

O tempo se arrastou de modo estranho, e Amy percebeu que mais uma


vez estava chorando, as lágrimas escorriam por seu rosto deixando ardido e
dolorido enquanto não era em Peter ou mesmo na traição que ela sofrera que
ela estava pensando, mas em Cézare...

Não era nem ao menos capaz de dizer seu nome em voz alta, enquanto
seu coração parecia bater enlouquecidamente dentro de seu peito. Imaginar
que Pietro poderia ter chegado tarde demais, que naquele momento ele
poderia estar morto era como sentir uma faca se cravando em seu coração
centímetro após centímetro.

Ela se importava com ele, embora soubesse que aquilo era uma completa
loucura e um erro terrível aquele era um fato que ela não podia mais ignorar.
Um pedaço de seu coração havia sido roubado por ele, e ainda haviam tantas
coisas tantos problemas que eles precisavam resolver entre eles. Cézare
simplesmente não podia morrer.

Com aquele único pensamento em mente, ela permaneceu ali, até que o
sangue escorrendo em sua ferida finalmente tivesse parado, e as pontas de
seus dedos estivessem dormentes.

Os tiros cessaram abruptamente assim como haviam começado, com o


coração em frangalhos ela permaneceu ali olhos fixos no corredor
mergulhado na mais completa escuridão, até que finalmente as luzes voltaram
a iluminar o prédio. Um longo momento se seguiu no mais completo silêncio,
e quando finalmente ela decidira que não poderia mais permanecer ali
esperando por uma resposta, ela enxergou a figura de Pietro surgir no final do
corredor.

Ela percorreu os metros que os separavam de maneira tranquila, e Amy


não pode deixar de reparar como o sangue havia escurecido completamente
suas mãos deixando num tom de vermelho intenso. Seu estômago se
contorceu em sua barriga com aquela visão, enquanto a dúvida perfurava sua
mente como um prego afiado. Aquele sangue era de seus inimigos ou
aliados?

A língua parecia muito seca em sua boca, como se alguém tivesse


esfregado areia por todo seu comprimento, mais uma vez a semelhança com
Cézare lhe assustou embora as diferenças entre eles estivessem espalhadas
por toda sua postura. O rosto de Pietro parecia ser mais delgado, os cabelos
cortados curtos não permitiam que as madeixas formassem as ondas que ela
tanto amava em Cézare, mas eram os olhos que claramente possuíam a maior
diferença. Enquanto os olhos de Cézare eram radiantes, tudo o que havia nos
orbes de Pietro era algo gelado e sem vida.

- Cézare... Ele está? – As palavras se atropelaram em sua língua o medo


deixando sua cabeça completamente zonza. O que ela faria se ele dissesse
que ele estava morto?

Os olhos de Pietro se cravaram nela, sua atenção por uma fração de


segundo se voltou para suas mãos completamente ensopadas de sangue, ele
pareceu ponderar uma resposta, como se tivesse pensando se realmente
deveria lhe ceder qualquer informação. Aquilo foi o suficiente para que seu
coração doesse em seu peito uma dor que ultrapassava a ferida em seu braço.

Como ela poderia fazer aquele homem acreditar em seus sentimentos, em


sua preocupação? A última vez em que eles haviam se encontrado, ele a
sentenciara a morte.... Ela não passava de um problema que ele há muito
tempo havia decidido se livrar.

- Ele está vivo – respondeu Pietro por fim, interrompendo o fluxo de


pensamentos desconexos em sua cabeça – Você salvou a vida dele.

Por um momento Amy mal pode compreender suas palavras, então aos
pouco o sentido de cada uma delas perfurou a confusão em sua mente e ela
sentiu um alívio indescritível percorrer seu corpo.

Ela não soube o que responder, mais lágrimas escorreram por seu rosto, e
ela nem ao menos pode se importar com o fato de estar chorando
copiosamente na frente do irmão de Cézare.

- Ele está ferido – continuou Pietro após um momento, seu olhar se


fixando em seu rosto, como se ele tivesse tentando decifrar seu coração
naquele momento – Mas, ele vai se recuperar... Acho que preciso agradece-la
em nome da minha família. Uma verdadeira tragédia poderia ter acontecido
aqui hoje se não fosse por você.

- Você não precisa me agradecer Pietro eu não fiz isso querendo uma
recompensa.

As palavras dela não pareciam te-lo convencido, tirando um lenço


completamente branco do bolso de trás de sua calça, ela o viu começar
lentamente a limpar as mãos, até que todo o tecido também tivesse tingido de
vermelho. Em nenhum momento a expressão dele se alterou, como se aquela
fosse uma realidade rotineira em sua vida, por um momento Amy ficou
cativada por sua expressão, o rosto dele completamente angelical e sem
cicatrizes igual, mas ao mesmo tempo diferente de seu irmão.

- De qualquer forma – continuou ele muito tranquilo, refazendo seu


caminho de volta ao interior do prédio – Você terá sua recompensa, pelos
seus serviços prestados em nome da minha família essa noite.

As palavras dele a deixaram completamente atônita. Recompensa? Sobre


o que ele estava falando? Ela não queria discutir sobre isso, naquele momento
a única coisa que ela se importava era com Cézare.

- Pietro do que você está falando? – perguntou Amy dando um passo em


sua direção, erguendo sua voz para que ele pudesse ouvi-la. – Onde está
Cezare eu posso vê-lo? Que recompensa é essa?

- Você está livre Amy. Vá pra casa.

Surpresa a manteve presa fazendo com que ela não fosse capaz de segui-
lo enquanto ela desaparecia no corredor. Enquanto ela se preocupava com o
estado de Cézare sua mente finalmente compreendeu que ela estava livre.
Tinha a palavra do patriarca da família Fonezzi.... Podia voltar para casa,
finalmente tudo tinha chegado ao fim. Então por que ela se sentia
miseravelmente infeliz naquele momento?

Por que a liberdade que ela tanto desejara tinha gosto de cinzas em sua
boca?
Epílogo.
Amy deixou a mala vazia sobre sua cama, ela ainda tinha algum tempo de
sobra antes de sua viagem que seria apenas na manhã seguinte, mas ela
preferia simplesmente já começar a arrumar suas coisas.

O olhar dela percorreu seu quarto o que parecia ser uma última vez. Lá
fora com o fim da tarde as ruas movimentadas de Nova York, estavam mais
barulhentas produzindo um ruído de fundo que realmente nunca desaparecia.
Aquele era exatamente uma das particularidades que ela ainda não havia se
acostumado desde que voltara.

De certa forma no tempo que ela passara longe daquela cidade, de sua
casa aprendera a se identificar com o silêncio de lugares mais tranquilos, a
inexistência de barulhos quando a maioria das pessoas estavam longe
deixando apenas os sons da natureza. Não queria admitir para si mesma em
voz alta, mas desde que voltara para sua casa não havia conseguido dormir
tão bem, a ausência do murmúrio das ondas do mar e dos pássaros no bosque
perto de onde ela ficara na Sicília haviam deixado uma marca em seu
subconsciente muito maior do que ela poderia ter imaginado.

Na verdade, tudo o que lhe acontecera nos últimos meses, havia sido
muito mais grandioso do que qualquer coisa que já havia lhe acontecido. Nos
últimos meses tantas coisas se desenrolaram diante dela até um ponto onde
ela mal era capaz de se reconhecer, talvez esse fosse exatamente o motivo
pelo qual mesmo estando debaixo do teto que havia sido sua casa nos últimos
dez anos, ela não era capaz de sentir como se realmente estivesse em seu lar.

O lugar ainda era exatamente o mesmo, seus moveis de segunda mão, as


pequenas conquistas que ela havia sido capaz de guardar com seu pequeno
salário nos últimos anos. Durante o tempo em que ela estivera fora, a única
coisa que acontecera ali dentro havia sido o acumulo constante de pó que ela
simplesmente havia desistido de limpar assim que percebera que aquela era
uma tarefa inglória e demorada demais. Apenas um mês havia se passado
desde que ela voltara da Itália para sua casa. Uma parte dela ainda não
conseguira totalmente se acostumar aquela nova realidade, e Amy começava
a se perguntar se um dia ela realmente seria capaz disso.

Caminhando até seu guarda-roupa ela o abriu olhando com atenção para
as roupas ali dispostas de uma maneira quase organizada. Ela havia tentado
manter sua casa em ordem, lavando aquilo que estava empoeirado demais
para ser usado, descartando outras coisas, mas todos os serviços que ela
começara desde então haviam sido interrompidos no meio. O último mês em
sua vida havia sido uma espécie de presente que ela dera a si mesmo depois
de tudo o que havia lhe acontecido, Amy sabia que havia conquistado o
direito de permanecer um tempo sendo preguiçosa ou mesmo irresponsável, e
embora ainda não fosse fácil admitir para si mesma, apenas o tempo e seu
passar constante era o que realmente estava a ajudando a superar toda a atual
situação de sua vida naquele momento.

Mais do que nunca assim que voltara a Nova York ela havia desejado
seguir em frente. Ela havia se esforçado para isso, uma lista que nunca
chegara a realizar continuava esquecida sobre a mesa da cozinha, uma parte
dela sempre acreditara que ao menos ela fosse capaz de tentar ignorar tudo o
que havia lhe acontecido então lentamente a rotina de sua vida voltaria ao
normal. Tudo parecia ser tão simples, tão fácil de alcançar, mas no final das
contas aquele desejo não havia passado de uma esperança que realmente
nunca chegara a se concretizar.

Ela não conseguiu seguir em frente, embora os dias tivessem se passando


diante de seus olhos uma parte de sua cabeça continuava focada
constantemente em outro lugar.... Outra pessoa. Contra todo seu bom senso, e
qualquer raciocínio logico ela não havia sido capaz de superar Cézare.
Mesmo agora em sua casa cercada por todas as coisas que eram suas a mente
dela facilmente deslizava até ele em suas lembranças, a preocupação agora
um peso sempre presente em seu coração.

Os dedos dela se fecharam lentamente sobre uma blusa preta, sentindo a


textura macia do algodão. Em silêncio ela se perguntou se algum dia seria
capaz de ver qualquer coisa com aquela cor sem associar a ele. Tudo ao seu
redor parecia conspirar de alguma maneira para que ela se lembrasse dele de
alguma forma... Sua mente não era capaz de esquece-lo e embora no último
mês ela tivesse tentado ignorar o crescente sentimento em seu coração, estava
cansada de enganar a si mesma.

Ela havia se apaixonado por Cézare Fonnezi. O pensamento provocou


como sempre acontecia uma reação engraçada em seu corpo, um misto de
nervosismo com alegria que deixava seu estômago leve como se tivesse
povoado por borboletas. Completamente frustrada Amy fechou os olhos
enquanto agarrava de qualquer maneira, algumas peças de roupa em seu
guarda-roupa. Como algo como aquilo havia acontecido? Como ela pudera se
envolver com aquele homem que não havia feito nada além de lhe trazer
problemas?

A pergunta rolou de maneira desimpedida por sua mente, não pela


primeira vez. Ela vinha se martirizando com aquela mesma dúvida a si
mesma, e embora aquilo fosse constante não havia conseguido chegar a uma
explicação lógica.

Como Cézare uma vez lhe dissera não parecia haver sentido algum
naquele sentimento que brotara em seu peito, e agora parecia domina-la por
completo, a única coisa que ela poderia fazer naquele momento era decidir o
que fazer com ele.

O medo de ter tomado uma decisão errada ainda pairava em sua cabeça,
deixando-a confusa mesmo depois de já ter tomado sua decisão. Depois de
tudo o que acontecera com seu irmão, Amy sabia que estava fragilizada
emocionalmente, uma parte dela talvez nunca mais pudesse se recuperar...
talvez ela devesse ter esperado um pouco mais...

Pensamentos se acumularam em sua cabeça, até ela perceber que


continuava parada diante da sua cama, a mala aberta sobre suas colchas as
roupas esquecidas em seus braços. Se continuasse dessa forma levaria muito
mais tempo do que pretendia para terminar aquela tarefa.

O toque de seu celular chegou até seus ouvidos, dispersando seus


pensamentos num gesto automático ela o alcançou retirando do bolso de trás
de sua calça jeans atendendo a ligação.

- O que você está fazendo?


A voz dele inundou seus sentidos deixando o coração acelerado em seu
peito, expulsando imediatamente todos os pensamentos que ela tinha em sua
mente naquele momento.

- Arrumando minha mala – respondeu Amy enquanto sentava-se em sua


cama, um sorriso se desenhando em seu rosto – E você Cézare, por que está
me ligando? Deveria estar dormindo uma hora dessas, é quase madrugada na
Itália.

- Eu já lhe disse que você não precisava se preocupar com coisas como
roupas – respondeu ele do outro lado, o mal humor claramente tingindo suas
palavras – Podemos comprar tudo isso quando você chegar aqui.

- Eu sei disso... Mas, já conversamos, se realmente vamos fazer isso então


tudo dessa vez vai ser do meu jeito.

O silêncio cresceu entre eles repleto de uma espécie de tensão que não era
negativa, mas repleta de uma expectativa que ela não sabia definir, assim
como não sabia nomear o que era aquilo que havia entre eles, ou aquela
tentativa de relacionamento que ela nem ao menos havia tido a coragem de
nomear.

O pensamento dela por um momento se deslocou de volta a noite onde


Cézare sofrera a emboscada orquestrada por seu irmão. Naquele momento
uma parte dela havia acreditado que ele havia partido, o simples pensamento
fizera seu coração doer de uma maneira que ela jamais julgara ser possível.
Quando Pietro saíra daquele prédio as mãos repletas de sangue e dissera que
ele estava bem, estava vivo, uma parte dela simplesmente se desmanchara em
alivio e descrença.

Havia sido naquele momento, debaixo da lua crescente sozinha numa rua
silenciosa que ela percebera como seu coração havia se voltado para o
mafioso italiano. Mesmo com seu ombro ferido por um tiro, com a fuga de
seu irmão, ela havia continuado pensando apenas nele, rezando por um
milagre para que ele continuasse vivo.

Perceber algo como aquilo havia sido um choque, algo que tirara
completamente o chão debaixo de seus pés. Mais tarde, quando finalmente
ela havia voltado para sua casa, Amy dissera a si mesma que havia sido o
medo que fizera com que ela saísse dali sem olhar para trás. Bastava saber
que ele estava vivo e agora que finalmente ela estava livre, graças as ordens
de Pietro, ela poderia retomar sua vida de onde havia parado... é claro que
tudo isso havia parecido muito fácil naquele momento, a melhor decisão que
ela poderia ter imaginado. Mas, com o passar do tempo o remorso e angustia
haviam se alastrado por seu peito de tal maneira que até mesmo respirar se
tornara uma tarefa difícil.

Durante o mês que ela passara de volta a Nova York, uma parte dela
sempre imaginara e até mesmo chegara a ansiar que Cézare viesse até ela.
Aquele pensamento sempre a assustava, como ela podia sentir falta da
presença daquele homem que antes apenas lhe trouxera tristeza e medo?

Ela não tinha respostas, e na maior parte do tempo precisava lutar contra
as censuras constantes de seu bom senso que parecia indignado com suas
escolhas, enquanto seu coração estava exultante em seu peito.

- Aconteceu alguma coisa? – perguntou Cézare do outro lado da linha,


preocupação em sua voz por que ela havia ficado muito tempo sem dizer
nada.

- Não – respondeu Amy sem graça, raspando uma linha solta em sua
calça – Desculpe por isso... De qualquer forma você está bem? Como estão
os machucados?

- Você vai continuar me fazendo a mesma pergunta toda vez que eu ligar
pra você? Eu já disse estou ótimo. Praticamente curado.

- Você levou dois tiros mês passado. Me desculpe por estar sendo a
paranoica da preocupação – respondeu Amy sendo sarcástica. Ela sabia que
Cézare detestava que ela mencionasse os ferimentos que sofrera aquela noite,
aparentemente ele os enxergava como uma espécie de fraqueza, como se não
tivesse sido capaz de proteger ela ou sua família. Dizer que ela achava tudo
aquilo algo completamente frustrante era puro eufemismo.

- Não é a primeira vez que eu levo um tiro. Não será a última muito
provavelmente.
- Bem digamos que eu apenas me reservo o direito de permanecer
preocupada, agora e no futuro.

As palavras saíram muito rápido de seus lábios, até o momento que ela
percebeu que eram sinceras e falavam um tipo de verdade que também a
pegara completamente desprevenida. Ela nem ao menos tinha certeza do que
estava acontecendo naquele momento entre eles, e já estava citando o futuro,
como se tudo entre eles já não estivesse complicado o bastante.

- Preciso vê-la Amy... – a necessidade em sua voz, deixou as borboletas


em seu estômago completamente alvoroçadas, era em momento como aquele
quando seu cérebro era apenas uma bagunça caótica, mas seu coração batia
num compasso ritmado e firme que ela tinha esperanças em ter feito a escolha
certa.

Três dias atrás, indo contra tudo o que um dia ela julgara ser certo ela
havia procurado Cézare. Havia sido fácil encontrar um número de telefone
comercial na Itália com o sobrenome de sua família, sem pensar muito nas
consequências do que estava fazendo ela fez a ligação sabendo que de
alguma forma alguém tentaria convence-la que ela havia ligado para o
numero errado. Exatamente como havia previsto a voz do outro lado
extremamente educado de uma secretaria lhe dizia que ela havia ligado para o
numero errado, mas passaria qualquer recado caso ele tivesse desejo de
deixar alguma mensagem, Amy não tinha no final ela mesma encerrara a
ligação, sem saber se fizera a escolha certa, e mais tarde naquela madrugada
ele havia ligado para seu celular.

Ela não havia conseguido mensurar a ausência de sua presença até aquele
momento, durante todo o tempo que estivera ao seu lado, seu único desejo
havia sido exatamente o oposto, ela precisou atravessar meio mundo depois
de ambos passarem por experiências de quase morte, para finalmente
perceber qual escolha ela havia feito.

- Eu também quero vê-lo Cézare – respondeu a garota o desejando


deixando cada pequena palavra em sua língua mais pesada – Mais do que
tudo.

- Então abra a porta pra mim...


Incredulidade deixou sua expressão completamente imóvel, enquanto as
palavras que ele acabara de lhe dizer lentamente começavam a fazer sentido
em sua mente. Ainda com o telefone em mãos, ela correu atravessando seu
quarto, até que seus passos apressados alcançassem sua sala abrindo a porta
fechada num único rompante.

Parado debaixo da soleira num dia claro de verão que não parecia possuir
nuvem alguma sobre céu azulado, Cézare estava lhe esperando, os olhos
dourados completamente abertos o rosto cheio de uma expectativa que era
parecida com aquela que brilhava em seu peito.

As lágrimas escorreram por seu rosto antes mesmo que ela pudesse se
jogar em seus braços, trazendo seu corpo para perto do seu como se apenas
com aquele abraço desesperado ela pudesse comprovar que ele estava bem,
vivo e respirando mais uma vez ao seu lado.

- Aí, cuidado com meu braço por favor...

- Me desculpe – pediu Amy desvencilhando-se dele, o coração saltitando


como um pequeno beija-flor em seu peito, os olhos percorrendo toda sua
figura buscando qualquer mudança, de sua aparência em suas lembranças –
Você está bem?

- Estou ótimo, apenas ainda um pouco dolorido.

- Como você? O que está fazendo aqui? Pensei que fossemos nos
encontrar amanhã eu estava indo para Itália.

- Eu não pude esperar – respondeu ele dando um passo em sua direção,


sua figura bloqueando o sol que banhava todo o mundo lá fora – Eu queria
estar com você...

Foi a vez dela de ser puxada para seus braços, os lábios deles desceram
sobre os seus sedentos e macios e mesmo o gosto de sal de suas lágrimas não
pode estragar aquele beijo.

- Vamos precisar trabalhar um pouco mais com sua impaciência – disse a


garota entre seus beijos enquanto um sorriso moldava completamente seus
lábios – Mas, no momento eu estou muito feliz que você esteja aqui.

Ela o puxou para dentro da sua casa, apreciando a maneira como as


sombras arejadas de sua casa aliviaram a quentura de seu corpo. Lá fora o dia
continuava sua rotina completamente alheio a eles dois. Com o coração
repleto de saudades, ela abraçou Cézare levando-o até seu quarto tinha
milhares de coisas que gostaria de perguntar, dúvidas que se acotovelavam
em sua mente até que tudo parecia um turbilhão caótico dentro de sua mente,
e embora naquele momento a ansiedade tivesse correndo-lhe um pouco
centímetro por centímetro um pequeno buraco em seu peito, naquele
momento ela decidiu que não iria se importar... Ao menos por enquanto.

Porque no final das contas, depois de tudo o que havia acontecido, ela e
Cézare estavam vivos, e isso por si só já era um verdadeiro milagre.

Erguendo seu rosto, sentindo a firmeza dos braços dele ao redor de sua
cintura, ela deixou que seu olhar recaísse sobre Cézare absorvendo cada um
daqueles sentimentos escritos em seu olhar. O passado deles sempre seria
algo complicado e exatamente difícil de ser encarado, repleto de sombras e
dor e talvez jamais pudesse ser superado, mesmo assim ela havia feito sua
escolha, sua decisão havia sido feita não no caminho que eles haviam trilhado
até ali, mas no desejo que ela possuía no futuro que poderia ser construído
dali em diante.

Por um instante a mente dela divagou novamente para a noite onde


Cézare quase perdera sua vida, antes de desaparecer novamente no corredor
Pietro lhe contara que no primeiro momento ao recuperar sua consciência,
Cézare havia chamado por seu nome. No final das contas havia sido aquele
pedaço de informação pequenino e quase sem importância alguma que fizera
com que ela mudasse de ideia. Amy havia decidido que daria uma chance a
eles, aquele futuro que brilhava como uma pequena chama a sua frente
embora a escuridão da incerteza ainda pairasse ao redor. Porque agora ela
aprendera que nada na vida era completamente escuro, ou resplandecente o
mundo era uma mescla de ambos e certezas eram efêmeras e transitórias
como a luz e a escuridão, por isso ela continuaria ao lado de Cézare
aprendendo a lidar com as consequências de suas escolhas... Um passo de
cada vez.
Fim.

Outras obras da autora:


Amor e Vingança
Paixão Sombria
Doce Tentação

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