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escrito por

Vita Murrow
ilustrado por

Julia Bereciartu

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Caras crianças,

Alguns meses atrás, tive o prazer de participar do Jubileu das Nobres


Monarcas, uma conferência especialmente organizada para que as líderes dos
reinos encantados se encontrem, compartilhem sucessos e troquem ideias. Foi
lá que encontrei algumas das princesas que aparecem neste livro.
Belle, uma agente à paisana da polícia dos Reinos Encantados, apresentou,
com Cinderela, uma palestra sobre igualdade de renda e prevenção ao crime.
Aurora (também conhecida como Bela Adormecida) e Branca de Neve falaram
sobre padrões de beleza e a ciência do sono. Rapunzel deu uma palhinha sobre as
ferramentas ultramodernas de design inclusivo que ela desenvolve.A programação
estava excelente e colocou todos os holofotes no árduo trabalho dessas líderes
da realeza, destacando a personalidade divertida e o impressionante potencial de
cada uma. Mas, na verdade, foi o bate-papo fora do palco que mais me chamou
atenção. Depois da sessão de autógrafos, ouvi as princesas conversando entre si.
— Eu queria que nossos fãs soubessem a verdade sobre a gente — disse
Bela Adormecida.
— É verdade, é tão irritante — reclamou Belle, a corajosa. — Todo mundo
acha que a gente só sabe se casar com príncipes e viver feliz para sempre.
— Nem me fale! Estou exausta de autografar sapatinhos de cristal. Isso não
tem nada a ver com ser princesa — concordou Cinderela.
— Mas, meninas, como podemos mostrar às pessoas quem realmente somos?
— perguntou Pequena Sereia.

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Conforme as princesas falavam, percebi que faltava alguma coisa nas histórias delas.
— Acho que posso ajudar — interrompi. — Sou escritora e, se quiserem,
poderia escrever um livro sobre vocês.
Para minha sorte, as princesas toparam. Naquele mesmo dia, conversamos
muito sobre a história de cada uma delas e sobre o que significava ser princesa.
Elas me ensinaram que uma princesa é uma pessoa que procura ajudar as
outras, que está aberta para aprender coisas novas e que sempre tenta dar mais
sentido à própria vida e à daqueles que as cercam.
Nos meses seguintes, entrevistei todas elas para descobrir os detalhes daquelas
histórias tão particulares. Todas me contaram de onde vinham e sobre quando
elas ou alguém da família ou mesmo uma pessoa querida viveu um grande
desafio. Muitas vezes, havia mistério ou magia. Às vezes, uma aventura ou uma
jornada audaciosa. E, sempre, momentos engraçados e muitas surpresas.
A coisa que mais me impressionou foi que cada princesa que conhecia
me lembrava de alguém. Minhas amigas, minha família, pessoas com quem eu já
trabalhei: atletas e artistas, professores e cientistas, mães e filhas. Tenho certeza de
que as personagens nas histórias das princesas vão fazer você se lembrar de alguém
que conhece. Talvez, cometam os mesmos erros ou tenham os mesmos triunfos que
as princesas, talvez corram os mesmos riscos ou enfrentem desafios parecidos.
Agora que suas histórias foram recontadas, vire as páginas e reencontre essas
princesas poderosas. Talvez, como eu disse, você reconheça um pouco de sua
própria história também!

Vita Murrow

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Jubileu das Nobres Monarcas
Lista de participantes e suas histórias

Belle, a corajosa A Pequena Sereia


p. 6 p. 12

Rapunzel A Rainha da Neve Isabel e os cisnes


p. 18 p. 24 selvagens
p. 30

Cinderela A pastorinha de gansos


p. 36 p. 42

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Estrela e as doze A princesa e a ervilha Zade e as
crianças bailarinas p. 54 1.001 ideias
p. 48 p. 60

Polegarzinha Chapeuzinho Vermelho


p. 66 p. 72

A Bela Adormecida Branca de Neve Evangelina e o


p. 78 p. 84 príncipe sapo
p. 90

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Belle, a corajosa
E
ra uma vez, em uma ensolarada província francesa, uma menina chamada Belle. Na
verdade, podemos chamá-la de Belle, a corajosa, porque ela era destemida.
Você sabe o que significa isso? Ser destemida é respirar fundo antes de tomar
vacina. Ser destemida é andar altiva num emaranhado de teias de aranha. É mergulhar de
um rochedo alto na água gelada. E, no caso da Belle, ser destemida significava também se
aventurar numa floresta assustadora, quando ninguém tinha coragem de fazer isso. (Não
era por acaso que o lugar se chamava Floresta Proibida, afinal.)
Tudo começou em um dia lindo e alegre, quando o pai de Belle teve de viajar. Cada
uma de suas filhas lhe fez um pedido.
— O senhor pode me trazer um conjunto de papéis e tintas? — pediu a mais velha.
— O inverno está chegando. Eu quero um chapéu bem quentinho, se você encontrar
algum — disse a outra.
— Belle, e o que posso trazer para você? — perguntou-lhe o pai. Mas ela estava ocupada,
estudando seu mapa da Floresta Proibida.
— Ah, o senhor me conhece, nada especial. Quem sabe uma flor?
As irmãs acenaram felizes ao pai, que partia. Porém, passaram-se alguns dias e o pai
não voltou. Elas começaram a se preocupar. Dias tornaram-se semanas e, finalmente, Belle
percebeu que teria que ir à procura dele – e sozinha. Pois, entre as irmãs, era ela que sabia
subir em árvores, andar entre teias de aranha e saltar de penhascos rochosos. Sem contar que
vinha trabalhando em seu mapa da Floresta Proibida, e esta seria a oportunidade perfeita
para colocá-lo à prova.
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— Tem certeza de que deve fazer isso? — disseram suas irmãs, preocupadas. — Já está
escurecendo e pode ter… você sabe… monstros?
— Azar dos monstros! — disse Belle. — Não se preocupem!
Deu um beijo e um abraço nas irmãs e partiu (tão corajosa quanto você conseguir
imaginar) noite adentro. Logo que se aventurou pela Floresta Proibida, foi acolhida pelo
chamado das corujas. A vegetação da trilha ficava cada vez mais densa, cheia de arbustos
espinhosos. Belle precisou sacar seu fiel mapa para se orientar. Exploradora, sagaz, ela
rapidamente identificou uma rota. Porém, por azar do destino, um raio abateu uma árvore
bem no meio do caminho!
— Droga! — lamentou Belle, porque a árvore era grande demais até para ela.
Porém, a floresta ouviu seu suspiro, e o raio seguinte iluminou outra trilha, que desviava
do caminho principal.“Perfeito!”, pensou ela, que sempre suspeitara que a Floresta Proibida
guardava bons segredos. Seguiu por essa nova trilha e logo chegou ao pé de um grande e
misterioso castelo, envolto em brumas, coberto por um véu de neve reluzente e cercado
por um imenso roseiral. A menina ficou quase sem ar, mas ainda assim conseguiu expressar
seu deslumbramento: “Uau!”
Subiu cerca de cem degraus para chegar à porta. Quando se apoiou nela para tomar um
pouco de fôlego, a tranca encantada lhe cedeu passagem, e a porta abriu caminho, revelando
um grandioso salão, extremamente escuro e gélido, sem uma alma viva ao alcance dos olhos.
Belle entrou e estava prestes a gritar, quando a porta se fechou atrás dela com um grande
estrondo, dando lugar a uma sombra maior ainda.
Ao se virar, a menina viu que a sombra pertencia a uma criatura descomunal. Desajeitado,
excessivamente crescido, com uma postura horrível e um hálito igualmente horroroso: uma
verdadeira besta. Ela via também o pé de alguém por trás da Fera, então gritou:

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Lute como uma princesa

— Papai, é você?
Um trapo de homem desabou, exausto, aos pés da besta. Belle viu que seu pai estava
fraco e doente e que segurava o que deveria um dia ter sido uma linda rosa.
— Vossa Graça! — exclamou Belle, dirigindo-se a Fera. — O senhor não percebe que
ele não está bem? Não fique parado aí, ajude-me!
Belle levantou o pai e encontrou uma cadeira confortável para que ele pudesse se sentar.
Então correu até a lareira para acender o fogo.
— O que está fazendo? — disse ela a Fera, que estava parado feito uma estátua espantada.
— Traga um pouco de madeira seca, por favor!
— Vá embora! — berrou Fera. — Seu pai estava bisbilhotando minha propriedade, e
eu não gosto de visitas. Agora ele é meu prisioneiro!
A gritaria agitou o pai da moça.
— Belle, que raios você está fazendo aqui? — murmurou ele. — Saia enquanto pode.
Isto não é lugar para você!
— Posso avaliar o que está acont…
— Peguei este homem roubando do meu roseiral — esbravejou Fera, levando o pai a
seus pés —, por isso, um de vocês pagará com sua liberdade.
— Não ouse me ameaçar! — disparou Belle. — Coloque meu pai no chão já! — Fera,
ultrajado, deixou o homem despencar na cadeira. — Aqui está minha contraproposta —
continuou ela, encarando Fera seriamente. — Vossa Graça deixa que meu pai se vá, e eu
ficarei aqui para pagar a dívida.
E assim ficou acordado. Belle seria hóspede de Fera. Os dias viraram semanas, e as
semanas se tornaram meses. Nem tudo eram rosas e brigadeiros, mas também não era só
espinho e urticária. Era verdade: Fera era um anfitrião horrível e resmungão, que se isolava.
Mesmo assim, Belle sabia que nem sempre as coisas eram tão assustadoras quanto pareciam
à primeira vista.
Um dia, Belle e Fera chegaram à despensa para beliscar uma coisinha exatamente na
mesma hora. Os dois colocaram as mãos ao mesmo tempo no mesmo pote de creme de
avelã, e Fera, com muito mais delicadeza do que o normal, rapidamente retirou sua mão
e fez menção de sair.
— Espere — disse Belle. — Pegue uma colher para mim, vamos dividir.
Parado de costas para a porta, Fera hesitou e, para a surpresa de Belle, ao virar-se, segurava
uma colher. Sentaram-se para tomar chá, deliciando-se com cada colherada do creme de
avelã e descobrindo que, embora nunca pudessem ter imaginado, tinham muito do que falar.
— Talvez a gente devesse repetir isso algum dia. — disse Fera, timidamente.
Belle sorriu. E o creme de avelã tornou-se uma tradição, que se repetia toda semana. Em
uma das sessões, descobriram que Fera era um grande dançarino de swing. Belle aprendeu
com ele, e os dois divertiram-se por horas no salão de baile.
Um dia, Fera fez o mais estranho pedido a Belle:
— Acho que preciso de um corte de cabelo — disse ele. — Estar com você fez com
que me sentisse tão melhor em relação a mim mesmo que acho que eu gostaria de ter
uma aparência mais agradável também.

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Belle, a corajosa

“Não ouse me ameaçar!”

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Lute como uma princesa

— Jura? Mas é claro! — disse ela. Quando acabou o corte, ele tinha um lindo topete e
um rabo de cavalo, a barba bem cortada e até as sobrancelhas aparadas.
— Amei! — exclamou Fera. — E também amo você! — completou.
Belle foi pega de surpresa: uma alegre surpresa, porque ela igualmente amava Fera.
Mas a maior surpresa veio a seguir. Pois, quando Fera terminou de falar, um grande raio
de sol iluminou a sala toda, como se ali houvesse fogos de artifício. Pequenas gotas de luz
brilhante choviam ao seu redor e, quando tocaram Fera, ele se transformou em (tchan-
-tchan-tchan-tchan!) um cara normal.
— O quêêê?! — exclamou Belle.
Fera olhou encabulado.
— Acho que lhe devo uma explicação — disse. — Há algum tempo, eu era príncipe e
fui vítima de uma maldição. Mas, antes que tenha pena de mim, saiba que mereci. Nem
sempre eu pensava nas outras pessoas. Na verdade, às vezes, eu nem conseguia ver além do
meu próprio nariz. Acho que você teria me chamado de…
— Egoísta? — sugeriu Belle.
— Não, eu era mais do que egoísta. De qualquer modo, paguei por isso. Um dia, uma
fada apareceu no palácio e pediu minha ajuda. Eu não estava nem aí, claro. Quando me
recusei a ajudá-la, ela me transformou em uma fera.
— Ela exagerou um pouco — disse Belle. — Maldições nunca ajudaram ninguém.
— Ela disse que eu só voltaria a ser eu mesmo quando conseguisse ver bondade nos
outros e, assim, encontrar alguém que visse bondade em mim — continuou o príncipe.
Belle assentiu.
— Bem, agora o feitiço acabou. Será que sentirá falta de ser a besta? Você conseguia
fazer coisas incríveis.
— Estou feliz de ser eu mesmo de novo. No entanto, aprendi
muito sendo Fera, e essas lições ficarão comigo para sempre.
Espero que você fique comigo também — disse o príncipe,
cheio de esperanças.
— Não consigo
pensar em outro
lugar melhor
para estar —
disse Belle.

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Belle, a corajosa

— Porém, antes, gostaria de confrontar essa “fada” de quem você está falando.
Maldições são crimes que devem permanecer no passado, e ela deve pagar por isso.
Quando amanheceu, o príncipe ajudou a menina a mapear uma jornada para encontrar a
fada. Mais uma vez, ela saiu Floresta Proibida afora, onde agora se sentia em casa. Os afiados
instintos de navegação de Belle logo a levaram até a fada, que, relutante, acompanhou-a
à polícia dos Reinos Encantados. Assim que Belle fez menção de deixar a delegacia, uma
investigadora de alto escalão a chamou:
— Ei, garota. Foi você que desvendou a maldição do castelo de Fera?
— Sim, por quê? — disse Belle, já na porta.
— Esse estranho caso nos mobilizou por anos. Não houve um único detetive com
coragem suficiente para desbravar o território. Posso lhe perguntar se não sentiu medo?
— pressionou.
— Medo de quê? — perguntou Belle.
A investigadora sorriu.
— Você poderia esperar um pouco? Acho que tenho o emprego perfeito para você.
Daquele dia em diante, armada com seu distintivo, sua coragem e sua generosidade,
Belle trabalhou incansavelmente na Delegacia de Proteção da Justiça Restauradora dos
Reinos Encantados para proteger a comunidade de maldições. Ela ajudou criaturas mágicas
incompreendidas e procurou construir pontes entre todos os cantos do reino.
Belle foi apelidada de “Bela” por sua habilidade de ver beleza em tudo e em todos. Em
casa, no castelo, ela e o príncipe continuaram a saborear potes de creme de avelã. Conforme
o afeto deles cresceu, o castelo e os jardins também floresceram. Um dia, quando as rosas
estavam prontas para ser colhidas, Belle falou:
— Este jardim seria perfeito para um casamento.
O príncipe concordou e emendou, piscando um dos olhos:
— Conheço as duas pessoas certas para a cerimônia.
Foi assim que Belle e o príncipe se casaram naquele cantinho encantador, bem pouco
tempo depois. E foi assim que Belle se tornou princesa.

POLÍC I A

DO
REI N O

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