Você está na página 1de 10

Elementos do debate teórico-metodológico e político

do Serviço Social brasileiro nos anos 80

Texto: OZANIRA, Maria . O Serviço Social e o popular:


resgate teórico-metodológico do projeto profissional
de ruptura. São Paulo, Cortez, 2011. (capitulo 3)

CAPÍTULO 2 : ESFORÇO DE CONSTRUÇÃO DE UM


PROJETO PROFISSIONAL A PARTIR DA RUPTURA

 dimensão acadêmica do SS (formação e


produção científica).
 dimensão organizativa do SS (entidades e
fóruns da profissão).
 dimensão interventiva do SS (a repercussão foi
mais lenta, com ênfase para a compreensão do
Estado e a instituição como espaços
contraditórios)

1
Caracterização da autora quanto aos três
momentos do esforço de ruptura do Serviço Social
nos anos 80
1. Momento de efervescência e mobilização
política, no qual se dá a instituição da ruptura
no contexto de uma luta intensa pela
hegemonia, no interior das entidades do
Serviço Social, especificamente da ABESS e do
CFAS;
2. Momento de aprofundamento e consolidação
do Projeto de Ruptura com instituição da
hegemonia em face da luta com outras
perspectivas de projeto profissional,
especialmente na segunda metade da década
de 1980;
3. Momento de refluxo e de repensar da
profissão, no final da década de 80 e nos anos
90, que se situa no contexto da ofensiva
neoliberal, da crise do Welfare State , da crise
do socialismo real e dos paradigmas teórico-
conceituais;

2
Importante: não há apenas um projeto profissional,
mas projetos profissionais plurais que se cruzam e
se confrontam na busca por hegemonia.

EM BUSCA DE BASES TEÓRICAS NA CONSTRUÇÃO DO


PROJETO PROFISSIONAL DE RUPTURA

 ESTADO – INSTITUIÇÃO-POLÍTICA SOCIAL


 CLASSES SOCIAIS – CLASSES POPULARES E
MOVIMENTOS POPULARES
 TRANSFORMAÇÃO SOCIAL E SERVIÇO SOCIAL

ESTADO – INSTITUIÇÃO-POLÍTICA SOCIAL

RUMOS TEÓRICOS DO CAMPO CATEGORIAL

 Influência da concepção gramsciana sobre o


Estado e a relação entre sociedade civil e
sociedade política; entre estrutura e
superestrutura; entre coerção e consenso;

3
 Ganha espaço, assim, as perspectivas
marxistas que vêm o Estado como realidade
contraditória em que se condensam as lutas
sociais e políticas que ocorrem na sociedade;

Concepção de Gramsci sobre o Estado:


“O Estado representa uma relação entre sociedade
civil e sociedade política, ou seja, ‘na realidade
factual, sociedade civil e Estado se identificam’
(Gramsci, 1978,p.32), sendo Estado ‘todo o
complexo de atividades práticas e teóricas com as
quais a classe dirigente justifica e mantém não só o
seu domínio, mas consegue obter o consentimento
ativo dos governados 9...)” (id.,p.87). Portanto, por
Estado deve se entender, além do aparelho
governamental, também o aparelho ‘privado’ de
hegemonia ou sociedade civil, sendo ‘Estado =
sociedade política + sociedade civil, isto é,
hegemonia revestida de coerção’. O Estado é ,
portanto, concebido não mais como simples
instrumento nas mãos de uma classe.” (SILVA,
2011,p.142)

4
Concepção de Lojkine sobre o Estado:
“Na mesma linha de ampliação do conceito de
Estado, Lojkine (1981, p.84) o percebe como uma
relação social, admitindo que:
 O Estado não se define por uma relação de
exterioridade social;
 A superestrutura não é nem o produto da
superposição de um sistema sobre o outro
(teoria das instâncias), nem um meio exterior;
 A política estatal não é constituída por uam
série de decisões ou de ‘estatrégias’ de atores
autônomos.” (SILVA, 2011, p.142)
 Para Lojkine, o Estado é uma das manifestações
da contradição fundamental entre socialização
doprocesso de trabalho e a apropriação privada
dos meios de produção e trabalho; entre o
valor de troca e o valor de uso. Assim, o Estado
não deve ser sobreposto às relações sociais,
mas inserido nelas e um momento importante
da produção e reprodução das relações sociais
(capital e trabalho).

5
Concepção de Poulantzas sobre o Estado:
Não obstante a existência de uma perspectiva
estruturalista no pensamento inicial de Poulantzas
sobre o Estado, Ozanira destaca a influência do
autor para o Serviço Social notadamente a partir da
sua produção posterior (Livro “O Estado , o poder e
o socialismo”) com ênfase sobre a explicação do
Estado a partir da dinâmica da luta de classes.
O Estado deve se analisado historicamente, a partir
das formações sociais que lhe dão existência e
sustentação. Para Poulantazas o Estado não deve
ser limitado à função coercitiva física e organizada,
ainda que a exerça, pois o Estado é também
organizador ativo das funções ideológicas, criando,
transformando e realizando as formas de adesão e
integração à ordem social. “ ‘O Estado apresenta
uma ossatura material própria que não pode, de
maneira alguma, ser reduzida à simples dominação
política. (...) Se o Estado não é integralmente
produzido pelas classes dominantes, não o é
também por elas monopolizado.’ Mesmo que o
fundamento da ossatura material do Estado se
encontre nas relações de produção e na divisão
social do trabalho, não se trata aí de uma estrutura
6
econômica em que as classes, os poderes e as lutas
estariam ausentes, posto que deste fundamento já
se fica estabelecida uma relação entre o Estado, as
classes e as lutas.” (SILVA, p.144)
Assim, o Estado expressa a condensação de
relações de forças, uma arena de luta de classes,
em contraposição à concepção de “Estado-coisa” e
“Estado-sujeito”.
Segundo o autor, o Estado “ao trabalhar para a
hegemonia da classe dominante, o Estado trabalho
para a divisão e a desorganização das massas
populares.”(p.147)

AS CATEGORIAS NO CONTEXTO DO SERVIÇO SOCIAL

7
A PROPOSTA METODOLÓGICA DE RUPTURA

EIXOS ARTICULADORES:

 Formação de alianças (superação da


fragmentação da realidade social/institucional;
análise e intervenção sobre as relações de
poder/saber, formação de alianças com base na
correlação de forças nos âmbitos da sociedade e
da instituição; fortalecimento do compromisso
com lutas populares e de classe na direção de
vínculos orgânicos com os setores populares para
a construção da legitimidade profissional;
formulação de táticas e estratégias de ação a
partir da compreensão dos limites da intervenção
profissional e dos sujeitos sociais)
 Educação popular (objetivo de viabilizar processo
reflexivo acerca do cotidiano dos setores
populares de forma a contribuir para a
construção de um saber popular que se coloque

8
como resistência ao processo hegemônico da
dominação burguesa. O papel do AS deve ser de
co-participante do processo , pois o
conchecimento é também tarefa coletiva,
baseada em ação-reflexão particpação-
organização; influência de Paulo Freire; ênfase
sobre a dimensão político-educativa ou político-
pedagógica da intervenção profissional.
 Investigação-ação (nos planos da atividade
acadêmica de pesquisa e da intervenção
profissional nas instituições)
 Assessoria a setores populares
 Redefinição da prática de Assistência Social :
caráter contraditório das políticas sociais; defesa
da Assistência como direito de cidadania e
política de seguridade social; articulação entre
prestação de serviços sociais e prática educativa.

9
EXIGÊNCIAS BÁSICAS PARA A
IMPLEMENTAÇÃO DA PROPOSTA
METODOLÓGICA DE RUPTIRA

 Articulação teoria-prática
 Definição do objeto de intervenção
 Relação sujeito-objeto (inserida tanto na
prática social quanto na prática profissional;
compromisso com os interesses dos “setores
populares” )
 Articulação da prática profissional com a
realidade social (papel das mediações teórico-
práticas que partam do concreto e não do real
“abstrato”)
 Pesquisa
 Organização da categoria profissional
 Redefinição da formação profissional

10