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À Sombra de um Escândalo
Allegra Gray
Título Original: Nothing But Scandal
Série Daring Damsels – Livro 01

Sinopse:
Inglaterra, 1814

Tudo começou com uma proposta inocente...

Após a morte do pai, Liz Medford se viu sem um centavo e com uma

terrível perspectiva para o futuro: casar-se com o desprezível Harold Wetherby.

Sua família aprovava a união, mas Liz já testemunhara a natureza cruel de

Wetherby e sabia que teria uma vida infeliz ao lado daquele homem. Se ao

menos ele desistisse do casamento... A única maneira de desencorajá-lo seria

arruinar sua própria reputação, que era ilibada... Até aquele momento...

Liz, então, arquitetou um plano brilhante para escapar de seu indesejável

pretendente. O único empecilho era o homem com cuja cooperação ela contava

para arruinar sua reputação — o irresistível Alex Bainbridge, duque de

Beaufort. Alex, contudo, tinha seus próprios segredos, que o levavam a evitar

Liz a todo custo, para o bem de ambos. Ele se mostrou irredutível em sua

decisão de não participar daquele plano maluco... Porém, Liz estava

determinada a fazê-lo ver que era também um plano muito tentador...

Disponibilização: Dani

Digitalização: Marina

Revisão: Giselda

Formatação: Edina
Capítulo 1

Londres, abril de 1814.

Expectativas de família, e a culpa por não estar à altura delas, seriam a

ruína de Liz Medford. Dado que seu pai, o barão James Medford, jamais fora

um bastião da responsabilidade, tendo acumulado uma verdadeira montanha

de dívidas de jogo até morrer inesperadamente, parecia injusto que os parentes

esperassem que ela, os salvasse ao se casar com Harold Wetherby. O terceiro

primo podia ter uma renda considerável, mas a lembrança das mãos suadas de

Harold, tocando-a quando tinha apenas catorze anos, era o suficiente para

convencê-la de que não poderia se casar com ele.

Além disso, uma vez que havia se revelado um retumbante fracasso na

seara do casamento, Liz tinha um novo plano... A ser implementado naquela

manhã.

No momento em que se encerrou o desjejum, apressou a irmã mais nova,

Charity, e a criada, Emma, para fora da casa dos Medford e direto para o Hyde

Park, ignorando a torrente de perguntas enquanto se aprontavam.

Estavam no parque não tinha mais de um minuto, quando Charity

encarou Liz e lhe levantou o queixo.

— Agora vai dizer o que está acontecendo? Se continuar a me provocar

desta maneira, vou acabar morrendo!

Liz olhou para trás. Emma caminhava próxima o suficiente para que

atuasse como acompanhante, mas sem ouvir a conversa.

— Está certo. Pelas últimas semanas, pensamos apenas em uma coisa:

conseguir um homem, qualquer homem que não seja Harold, para que me peça

em casamento. Agora que deixamos o luto por papai, titio e mamãe estão
ansiosos para que eu aceite a oferta. Estou ficando sem desculpas, mas talvez

haja outro modo de escapar.

— Não compreendo.

— Pense. O que Harold ganharia ao se casar comigo?

— Seus contatos. Ele quer respeito, ascensão social.

— Exatamente — confirmou Liz, com alegria.

— Não vejo onde isso vai dar.

— Não quero me casar com Harold, certo? Bem, nós estávamos

pensando que eu precisaria de uma oferta melhor para me ver livre. Mas não

preciso. Preciso apenas que ele retire sua oferta.

— Mas o que o levaria a fazer isso? Ele já sabe sobre a situação financeira

de papai, e nem esse grande fiasco o fez retroceder — assinalou Charity.

— Não, porque, pobre ou não, sou uma "moça de família".

— Céus, Liz, não sei se gosto do que está pensando!

— Se eu não fosse mais respeitável, se eu estivesse, digamos arruinada,

Harold voltaria atrás! — Quase tropeçou sobre uma raiz, tamanha a excitação

diante da ideia.

— Isso é muito ousado. Mas como você faria? E pense no que mamãe e

titio fariam! Atirariam você para fora, certamente. Você seria deserdada,

desonrada. Para onde iria?

— Eu poderia trabalhar para viver, por exemplo. — Liz mordeu o lábio,

ciente de que seu plano tinha mais coragem do que conteúdo. — Eu teria o que

fazer. Sou boa com agulhas, assim poderia trabalhar para uma costureira. Ou

então tornar-me uma governanta. Qualquer coisa seria melhor do que casar-me

com Harold. Eu seria forçada a tolerar seu toque e...

Arrepiou-se, mas lutou para recuperar o controle sobre as emoções. A

irmã mais nova não precisava saber o quanto o primo distante a assustava. Ele

havia tentado chamar sua atenção anos antes, e agora que ela estava mesmo ao

seu alcance, não pararia por nada até que a houvesse desposado.
A não ser é claro, que se casar com ela ameaçasse suas ambições e lhe

ferisse a preciosa reputação.

— É com você que estou preocupada. Meu casamento deveria garantir

seu bem-estar também.

— Faça o que precisar. E não se preocupe demais comigo. Pelo amor de

Deus, não se case com o monstro só porque ele se ofereceu para manter-me

alimentada e vestida. Mas, para que seu plano dê certo, sua reputação deve ser

totalmente destruída, e em breve. Você parece se esquecer de que, apesar dos

escândalos e dívidas de papai, você, irmã querida, não tem qualquer peso sobre

seu nome.

— Até agora.

Os olhos de Charity se apertaram.

— Você já pensou em tudo. Está tramando algo.

— É claro.

— Bem, conte-me! Você sabe que não suporto quando não me inclui em

suas aventuras.

Liz sorriu serena, ainda que seu coração se acelerasse.

— Você não pensou que viemos ao Hyde Park apenas para um passeio,

pensou? Não, Charity, decidi que a melhor maneira de destruir minha

reputação, de maneira que seja certo que Harold jamais se aproxime de novo, é

ser pega em uma situação comprometedora... Com um homem.

Charity parou.

— Liz, você não teria cora...

— Claro que teria.

— Mas... Você precisaria de um homem disposto a participar dessa farsa.

Nenhum cavalheiro jamais aceitaria tal coisa!

Nenhum cavalheiro. Certamente.

Mas Alex Bainbridge, duque de Beaufort, talvez.


Liz o avistou passeando por um caminho lateral. Mesmo àquela hora da

manhã, o homem tinha a aparência de um predador. Desde que se interessara

pelo belo duque, na infância, seguindo-a cada movimento com fascinação, ela

soubera de sua reputação, a combinar com a aparência letal. Fora assim que

descobrira também que ele tinha o hábito de passear pelo parque sempre na

mesma hora.

— Está decidido.

— Vai fazer isso agora? Tem certeza de que não há outra maneira?

— Agora. Consegue esconder-se? Charity olhou em volta.

— Mary Sutherby e a irmã estão logo ali. Vou juntar-me a elas. Por favor,

tenha cuidado!

— Cuidado, Charity, é exatamente o que não vou ter.

Os olhos da irmã se arregalaram de apreensão e admiração.

— Boa sorte — disse, e se afastou apressada.

Liz virou-se. Um olhar apenas em direção a Emma foi o suficiente para

que a criada ficasse ainda mais para trás.

Apressou-se, então, apenas o suficiente para que interpelasse o duque

enquanto passava-lhe à frente. Puxou o vestido um pouco para baixo, de modo

a exibir mais o colo, lembrando-se de que sua presa estava acostumada a

mulheres ousadas.

— Sua graça?

— Srta. Medford... — O duque reduziu o passo.

— Posso tomar-lhe um momento? — O coração dela se acelerou. Teve de

levantar a cabeça a fim de encontrar-lhe os olhos. Os vastos cabelos negros do

duque roçaram as faces mal barbeadas quando ele se curvou para

cumprimentá-la.

— É claro. Precisa de algum tipo de ajuda?

— De certa forma.

O duque olhou em volta, como se houvesse alguma emergência.


Liz respirou fundo. Como abordar o caso? Os livros de etiqueta não

cobriam o assunto sobre destruir a reputação de alguém, apenas diziam como

preservá-la.

— Obrigada, Vossa Graça, por permitir-me um momento de seu tempo.

Não estou aqui para engrossar as fileiras de mulheres oferecidas que o cercam,

esperando que lhes ofereça a mão.

— Não? — Ele deu um sorriso. — Minha habilidade na valsa deve estar

diminuindo. Em geral, não é preciso mais do que isso.

Contente por ter sido lembrada, Liz duelou contra o desejo de responder

justamente da maneira que havia se prometido a não fazer.

— Se não é de outra dança que está atrás, e se não teve qualquer

infortúnio no parque, então como posso ser de serventia?

— Na verdade, tenho uma proposta a fazer.

É mesmo? Uma proposta vinda de uma dama?

A voz era provocante, mas as feições estavam em alerta.

— Apenas espere até que a tenha ouvido.

O duque gargalhou, analisando-a com um olhar descrente, e ela sentiu

um arrepio diante do que estava prestes a fazer.

— Veja, minha mãe está me obrigando a me casar e eu gostaria que

milord me arruinasse.

— Como? — murmurou o duque. — Deixe-me compreender... Você quer

ser arruinada?

— Sim.

— Por mim? — O rosto do nobre tomou um ar mascarado, e a expressão

cínica substituiu a franca gargalhada de momentos antes.

— Sim. Não tenho muita experiência nesses assuntos, mas pensei que

Vossa Graça saberia como pôr algo assim em prática.

— Compreendo. E o que ganho com isso?


— Imagino que o benefício para milord seria o que os cavalheiros

buscam quando arruínam uma donzela.

O duque se engasgou.

— É claro que se milord estiver inseguro sobre como fazer...

— Não é meu conhecimento nessa área que me faz pensar. É a tolice da

sua proposta. Sabe o que está pedindo?

Liz arqueou uma sobrancelha.

— Faço uma ideia.

— Então sabe o que acontecerá a você.

— Sem dúvida. — Sorriu. Ele poderia não entender, mas aquelas

consequências eram exatamente o que ela pretendia.

— Lamento. Não estou interessado. — Ele se virou para ir embora.

— Por que não? — Ela não pôde evitar. O duque virou-se, encarando-a.

— Pode soar como surpresa, mas não tenho o hábito de seduzir inocentes

e assim isentar-me de minhas responsabilidades.

— Compreendo.

Mas não compreendia. Não tinha ele, justo aquela reputação?

— Bem, milord não precisaria me seduzir. Poderíamos apenas deixar que

o rumor se espalhasse.

— Eu já lhe disse. Não estou interessado. — O duque olhou por sobre o

ombro, como se devesse estar em outro lugar.

O constrangimento a invadiu, e a garganta apertou-se sob a ameaça do

choro. Era hora de aceitar a derrota.

— Neste caso, agradeço por seu tempo, Vossa Graça. Ficaria grata se não

mencionasse nada desta conversa a ninguém — murmurou, reunindo os

últimos retalhos de dignidade.

Ele acenou-lhe brevemente.

Liz virou-se e se afastou o mais rápido que seu vestido lhe permitia.
Alex analisou a ruiva enquanto ela se afastava apressada. Toda a família

Medford devia estar louca. Era a única explicação. Ele havia dançado com ela

em um baile, e a moça lhe parecera muito atraente.

Mas ele não soubera quem ela era até que fosse tarde demais.

Tendo crescido com Liz, no entanto, bem sabia sobre sua solidão. De

qualquer modo, jamais tinha imaginado que a inocente garota planejava pedir-

lhe que se envolvesse em tão ilícita relação. Onde ela arranjara tal ideia?

Só podia estar louca.

— Liz, uma palavra com você — disse lady Medford, abordando a filha

no momento em que cruzava a porta de casa. Charity, a quem Liz tinha se

juntado no parque antes que voltasse a casa, ouviu o tom da mãe e desapareceu

como névoa sob o vento, deixando-a para que se defendesse sozinha.

— Mamãe.

Lady Medford caminhou ao longo do corredor e Liz a seguiu, resignada,

arrastando os pés sobre o piso encerado de madeira. A mulher virou-se e

encarou a filha como um general se dirigindo a um soldado.

— Chegou ao meu conhecimento que você foi vista dançando com o

duque de Beaufort.

Liz soltou um grunhido. O duque era a última pessoa sobre quem

desejava falar agora.

— Sim, no baile dos Peasley.

— Ele a está perseguindo?

— Creio que não. — Beaufort deixara bastante claro que não tinha a

intenção de persegui-la!

— Bom. É melhor que não se envolva com ele.

Agora Liz estava confusa, já que a afirmação de lady Medford a

qualificava como a única mãe em toda a cidade que não desejava ter a filha

cortejada pelo rico, belo e disponível duque de Beaufort.

— Mamãe, eu asseguro de que não houve nada. Foi apenas uma dança.
— Ainda assim, o homem tem uma péssima reputação. Qualquer

envolvimento com ele tem grandes chances de se revelar uma decepção para

você. Além do mais, não creio que seu pai aprovasse.

Liz olhou a mãe, espantada. Ela havia evitado a menção ao marido desde

que este falecera. Então por que ela o fazia agora? Nada daquilo fazia sentido.

— Está tudo bem, mamãe. Não tenho qualquer esperança de merecer a

mão do duque.

— Muito bem. Céus! Este ambiente precisa ser arejado. Os criados estão

se tornando relapsos em seus afazeres.

Liz manteve a boca fechada. Os criados não eram relapsos. Estavam

partindo. Sabiam tão bem quanto qualquer um que seu pai havia morrido sem

deixar herança, e sim dívidas consideráveis. Lentamente, vinham arranjando

emprego em casas mais nobres e estáveis.

Virou-se para partir, presumindo que a mudança de assunto significava

que estava dispensada.

— Não, não vá... Você tem visita.

Liz fechou os olhos por um momento. Poderia seu dia tornar-se ainda

pior? Primeiro, a cena humilhante e malsucedida no parque. E agora, quando só

queria paz, deveria receber.

E com que propósito? A mãe anunciaria seu noivado em questão de

horas, e ela já estava sem ideias sobre como evitar o fato.

— Wetherby está esperando na sala de costura. Quis ter certeza de que

você não nutria nenhum sentimento por Beaufort antes que a enviasse até lá.

Mas vejo que, ao menos neste assunto, você é uma menina sensata.

Liz se encolheu. Falar sobre o duque de Beaufort era infinitamente

preferível a falar com Harold Wetherby.

— Não podemos mais esperar, Liz. O fato de Wetherby não ter um título

é lamentável, mas sua renda não. Dei-lhe todas as razões para que pensasse que

seu pedido será aceito, ainda que, é claro, ele queira ouvir isso de sua boca.
Maldição. O plano podia ter falhado, mas, de qualquer modo, não estava

pronta para encarar o primo.

— Sim. Vou vê-lo assim que me recompuser do passeio ao parque.

A baronesa concordou de pronto.

— Vou pedir que o mordomo transmita o seu recado. Quinze minutos

mais tarde, Liz adentrava o recinto. Seu indesejado futuro noivo encontrava-se

à janela, batendo os calçados caros sobre o piso. Não parecia muito feliz em vê-

la.

— Harold — ela saudou com tanta polidez quando pôde reunir,

forçando um sorriso nos lábios.

— Liz.

Ela se retesou enquanto ele se aproximava.

— Você está ótima — ele elogiou, parando apenas quando estavam a

alguns centímetros de distância. — Melhor do que esperaria de alguém lidando

com o luto.

— É preciso seguir em frente.

— Tem razão. Ainda assim, você tem seguido em frente um pouco mais

do que eu apreciaria.

Liz ergueu o queixo, num desafio. Do que ele a estava acusando?

— Nada a dizer em sua defesa, doçura?

— Não entendo o que diz.

— Não? Então me deixe explicar. Por que pensa que me ofereci a você?

Liz tinha muitas teorias àquele respeito, mas, como Harold não iria

apreciar nenhuma delas, manteve-se em silêncio.

— Respeitabilidade, Liz! Sua ausência de dote eu posso tolerar. Tenho

fundos suficientes. Mesmo assim, planejo frequentar a sociedade, e certamente

quero o respeito que deveria advir com o casamento com a filha de um nobre.

— Claro. Mas isso não explica por que me escolheu.


— Você sabe muito bem por quê. Seu pai, o jogador desgraçado que era,

deixou-a a meu alcance.

— Compreendo — ela murmurou. Desistiu de mencionar que, para

alguém que alegava querer respeitabilidade, ele não parecia ter escrúpulos

quanto a usar uma linguagem inadequada diante de uma donzela bem-criada.

— Claro que não compreende. De outra forma, teria mais cuidado com a

própria reputação.

— Minha reputação é assunto meu.

— Cuidado, Liz! Não vou aceitar uma esposa que me responda assim.

Muito menos uma que tenha se arruinado.

Mesmo insultada como estava, Liz sentiu um raio de esperança. Ainda

não havia feito nada inapropriado. Mas, se Harold acreditava ser diferente,

talvez pudesse convencê-lo de que o casamento não valeria a pena.

— Ainda não sou sua esposa, e você ultrapassa os limites me acusando

de alguma impropriedade.

— Então o que significa isto? — Ele passou o dedo indicador pelo decote

baixo.

— Como ousa? — Ela o estapeou, indignada.

— Por que não deveria? — Harold avançou outra vez, lançando-lhe um

olhar maldoso. — Você se esforçou bastante para se deixar à mostra. Uma

mulher respeitável teria mais cuidado ao se vestir. Assim como fará você

quando for minha esposa.

— Eu não vou...

— E além do mais, você precisa ter mais cuidado com as suas

companhias.

— O que quer dizer com isso?

— O duque de Beaufort! — explodiu o homem, com o rosto vermelho e

os olhos faiscantes.

Liz cruzou os braços.


— Se está tão preocupado com seus avanços na sociedade, devia estar

satisfeito por casar-se com alguém requisitado por figuras mais preeminentes

do que o senhor.

Harold bufou, diante da resposta.

— Por mais que seja preeminente, o duque é um conhecido libertino!

Todos sabem disso. Ainda assim, você o acompanha como se fosse uma criada

qualquer.

Talvez o plano estivesse funcionando, concluiu Liz, lançando-lhe um

olhar provocativo.

— O duque me aprecia.

— Bah. Ele aprecia sua inocência, talvez. Mas, de agora em diante, vai

guardar seus flertes e seu corpinho deleitável apenas para mim.

— Eu não havia me dado conta de que você era tão... Antiquado. Afinal,

pouquíssima gente na cidade espera um cônjuge fiel. Talvez não combinemos

muito, no final das contas.

— Combinamos bem o suficiente. — Harold deu um passo à frente,

fechando a mão em volta do braço dela. — Não vou deixar que seja arruinada

por outro homem. O direito ao seu corpo é meu. E vou casar-me com a filha de

um barão, não com uma meretriz.

A bile subiu pela garganta de Liz ante a ideia de ela ter de encarar a

intimidade de tal monstro. Sem pensar, ela o estapeou com toda a força que

pôde reunir.

Harold a soltou tão depressa que ela chegou a cambalear.

— Sua cadela! — berrou, segurando o nariz.

— Saia daqui. — Ela apontou um dedo em direção à porta. Harold

cambaleou até a saída e então se virou.

— Não pense que isto está encerrado, Liz. Você pode se safar agora, mas,

como minha esposa, vai aprender a se curvar diante de minhas vontades. —


Bateu a porta atrás dele com tanta força que fez a madeira reverberar sobre a

soleira.

Liz sentou-se, tremendo, na poltrona mais próxima, e abraçou a si

mesma com força. A pele do braço ainda ardia onde ele a havia apertado. Na

manhã seguinte, haveria hematomas, sem dúvida.

A gritaria de Harold, contudo, podia significar que ele estava a ponto de

desistir do casamento. Não poderia tratá-la daquela forma e ainda esperar se

casar com ela!

Alex mirava o brandy através da penumbra do escritório. Pensara em

passar a noite em casa, mas o incidente da manhã, no parque, se repetia em sua

cabeça. Por que não podia simplesmente bloqueá-lo? A adorável ruiva era tão

louca quando o pai, mas o desespero que flagrara em seus olhos devorava-lhe a

alma.

Ela jamais teria se aproximado se soubesse o que ele faria. Ou talvez

tivesse, refletiu após um longo gole do conhaque. Afinal, ele havia tomado

parte na destruição de sua família, ainda que não tivesse sido nada intencional.

Por que ele não terminaria o trabalho?

Não. Irredimível como era não desceria tão baixo. Aquilo era contra seu

código de conduta.

Os olhos verdes e magoados de Liz dançaram em sua mente. Se ela ao

menos soubesse... Não teria sido sacrifício nenhum. Ele podia se ver beijando o

lábio carnudo ou o canto do sorriso tímido. Exploraria as formas esguias de seu

corpo, a curva dos seios, a pele macia...

Virou o resto do brandy e se levantou. Até o pensamento o excitava.

— Hanson! — gritou pelo pajem.

Precisava de distração. Uma noite de cartas e bebedeira, talvez. Já que

havia dispensado sua última amante, e como não gostava de casas de

tolerância, iria se restringir aos clubes de cavalheiros.


Alex chegou ao White's mais tarde naquela noite, apenas um pouco

bêbado, e seguiu imediatamente para sua mesa. Os lordes Stockton, Wilbourne

e Garrett, todos antigos jogadores, já estavam sentados e dedicados ao

agradável passatempo de apostar quantias obscenas.

Enquanto sentava-se, um garçom apareceu com um copo de seu

costumeiro conhaque, e Alex o agarrou. As três doses que tinha bebido antes de

sair de casa não tinham apagado de sua memória a menina tentadora que lhe

havia oferecido sua própria ruína naquele dia. Tampouco as lembranças do pai

dela.

Os outros homens o conduziram a um jogo de cinco cartas. Jogaram

várias rodadas, mas a mente de Alex não estava ali.

— Qual foi à coisa mais estranha que já ganharam nas cartas? —

perguntou Wilbourne.

— Uma pequena propriedade na Escócia — lembrou-se lorde Stockton.

— No alto das montanhas. Um lugar selvagem onde nenhum inglês em sã

consciência viveria.

Lorde Garrett, o mais jovem, arrepiou-se.

— De qualquer maneira, terras são terras, e com frequência se aposta

para obtê-las. Isso não é tão estranho. Eu, por outro lado, mereci ganhar um

leitão premiado.

— Você, dono de um porco? — Wilbourne gargalhou.

— Pelo tempo que me leve até que o venda a qualquer preço. Stockton

balançou a cabeça. Apostador experiente lidava apenas com dinheiro e terras.

— Um porco! — Wilbourne riu outra vez. — Algo que ganhou pode

superar isso, Beaufort?

— Uma mulher — contou Alex, e quase imediatamente se arrependeu.

Devia ter parado de beber quando houvesse alcançado o ponto em que a boca

funcionava mais rápido do que o cérebro.

Os outros três o fitaram, interessados.


— Conte. — Wilbourne baixou as cartas.

— Uma criada? — perguntou Stockton.

— Amante de alguém? — colaborou Garrett.

Ele sacudiu a cabeça, desejando não ter de explicar.

— A filha de alguém.

Os três homens pareceram horrorizados, e Alex suspirou.

— Eu estava apostando com um homem que havia passado dos limites.

Eu não sabia, ou então jamais teria jogado com ele. De qualquer forma, é

suficiente dizer, quando ele se deu conta de que não poderia pagar por suas

muitas perdas, ofereceu a filha em troca.

— Quem faria tal coisa? — ofegou Wilbourne.

— O homem já faleceu. Prefiro não citar o nome e não pisar-lhe ainda

mais a memória.

— Barbaridade — grunhiu Stockton.

— Uma atitude positivamente medieval — confirmou Wilbourne.

— Você aceitou? — perguntou Garrett.

— É claro que não aceitou — respondeu Wilbourne por Alex. Um

homem sentado à mesa mais próxima, o qual Alex, em meio ao torpor do

álcool, não foi capaz de identificar, levantou-se e roçou suas costas enquanto

passava, fitando-o por um pouco mais de tempo do que seria educado. Havia

ouvido a conversa, sem dúvida.

Garrett olhou para Alex, buscando confirmação.

— Não, não aceitei — ele disse.

Seria sua reputação tão ruim a ponto de que os amigos o julgassem tão

mal? Possuíra muitas amantes e concubinas, mas jamais havia tomado uma

mulher que não se apresentasse por espontânea vontade.

Pôs-se de pé.

— Lamento arruinar suas expectativas, Wilbourne, mas vai ter de se

contentar em ganhar o dinheiro desses outros cavalheiros pelo restante da noite.


Liz chegou ao refúgio temporário do quarto, caminhou por alguns

segundos, e então abriu o guarda-roupa e o baú. Contemplou quais coisas

seriam mais essenciais para que levasse consigo. A fúria e o medo que sentira

diante de Harold haviam cedido, deixando para trás uma sentença firme.

— É um homem horroroso. Um verdadeiro animal. Liz se assustou

quando deram voz a seus pensamentos.

— Charity! Você realmente sabe surpreender as pessoas.

— Ele a machucou?

— Não muito. — Ela esfregou o braço.

— Liz, como você pode suportar? Ele é terrível demais. Com renda ou

não, não consigo compreender por que mamãe e nosso tio querem que se case

com ele. Fiquei feliz por você tê-lo estapeado.

— Não foi meu melhor momento.

— Está errada. Ele merecia aquilo e mais. Você não pode casar-se com

ele, Liz!

— Eu sei.

Charity olhou em volta, parecendo notar pela primeira vez as malas que

a irmã estava fazendo.

— Está partindo?

Liz concordou em silêncio.

— Acho bom mesmo. — Charity suspirou. — Mas para onde vai?

— Vou visitar Bea. Ela vai me abrigar até que eu pense em algo.

Lady Beatrice Pullington havia adentrado a sociedade no mesmo ano que

Liz, e as duas tinham se tornado amigas bem depressa. Bea se casara quase

imediatamente, já que a família fizera arranjos antecipados com lorde

Pullington, um membro mais velho da linhagem. Mas o homem havia vivido

por apenas seis meses, até que seu frágil coração cedesse por completo,

deixando Bea como uma próspera e jovem viúva.


Pelos últimos dois anos, Bea havia mantido a casa na cidade, um

privilégio garantido por seu status de viúva. Era bonita e rica o suficiente para

atrair outro marido. De qualquer modo, não tinha desejo de renunciar à

independência que julgava merecer após o breve, porém, difícil casamento.

Liz sabia que poderia encontrar refúgio temporário com a amiga.

Charity concordou tensa.

— Devo escrever-lhe uma mensagem enquanto você faz as malas?

— Não. Ela teria de ser entregue, e é melhor que pouca gente saiba de

meu destino. Confio que Bea não me deixará plantada à porta, por mais

inesperada que seja minha visita. E também sei que posso confiar em você para

que não diga nada a ninguém.

— É claro. E, Liz, você pode fazer isso sozinha. Não precisa que Beaufort

a arruine nem nada.

— Ah! Nem me lembre disso. Em que eu estava pensando?

— Ah, não seja tão dura consigo. Talvez você quisesse apenas um pouco

de diversão, antes de se confinar a uma vida de tédio. O duque é bem "quente",

não é?

— Charity!

A irmã sorriu, depois voltou a ficar séria.

— Quando vai partir?

— Esta noite, depois que mamãe tiver se recolhido.

— Perfeito. Vou dizer que você escapou enquanto eu dormia. E vou agir

como se estivesse magoada por não ter confiado em mim.

— Obrigada.

Liz sorriu e deu um rápido abraço na irmã. Então fechou a mala.

Nas horas seguintes, as duas circularam pela casa, fingindo estar tudo

normal sempre que os criados se aproximavam, e fazendo planos sussurrados

quando se viam a sós.


A noite chegou, mas nenhuma mostrava qualquer inclinação para o sono.

Charity olhou através da janela de Liz, agarrando as cortinas. A irmã,

estranhamente calma, sentava-se próximo à penteadeira.

— Ouvi mamãe dizer que tem um encontro na residência dos Jameson

esta noite. Assim que ela se for, você pode seguir seu rumo. Olhe! O condutor já

está preparando o coche.

Liz concordou. O velho condutor, Fuston, estivera dirigindo na noite do

acidente e havia desaparecido logo após a morte do pai dela. Na certa se sentira

culpado demais para permanecer no emprego.

— Pronto, minha irmã. Mamãe está subindo no coche!

Liz se levantou e contemplou a irmã que amava com todo o coração.

— Charity, tem certeza de que estará bem, depois que eu for? A moça

sorriu.

— É claro. Eu sei que não ficarão felizes comigo, mas posso suportar.

Não precisa mais me proteger, Liz.

Liz deu-lhe um longo abraço.

— Vou sentir a sua falta mais do que tudo! — Recompôs-se rapidamente.

— Vá na frente e consiga uma carruagem. Vou terminar aqui e estarei pronta

quando ela chegar.

Olhou o adorável quarto verde e dourado que conhecera por anos, e

bateu a porta para aquela antiga vida.

O estábulo dos Derringworth, localizado nos arredores de Londres,

servia apenas aos clientes mais distintos: nobres, em sua maioria. A empresa

possuía tudo, desde cavalos de corrida até montarias para donzelas, com

apenas uma regra: qualquer cavalo proveniente dos Derringworth era da mais

alta qualidade. A operação representaria a epítome do que Harold Wetherby

aspirava se tornar. Motivo pelo qual o homem estava a caminho de lá,

interessado em conseguir um novo animal.


Um jovem encontrava-se sentado a uma pequena escrivaninha à

esquerda da entrada, e se levantou ao vê-lo.

Harold estufou o peito.

— Harold Wetherby. Vim para ver o garanhão que, dizem, está à venda.

— Sr. Wetherby... Sim, vi seu nome em nosso livro. Tim Kemble. Sou

assistente do Sr. Derringworth.

Um assistente? Sua visita não merecia a presença do proprietário?

Perguntou-se Wetherby, irritado.

— Se milord me acompanhar, podemos dar uma olhada no animal.

Passaram por uma baia vazia, depois por várias que abrigavam belos

reprodutores e éguas, até que Kemble se deteve.

— Este garanhão é soberbo. Descendente de Warrior Prince. Agora, se é

de um cavalo para cavalheiros que milord está atrás, pode se interessar pelo

Marty aqui. — Gesticulou para dentro de uma baia. — É também um belo

animal.

Harold lançou ao bicho um olhar impaciente. O cavalo era mesmo

excelente, mas suspeitou de que Kemble o houvesse julgado mentalmente como

indigno do melhor animal que o estábulo possuía.

— Alguém aí? — Uma profunda voz masculina soou da entrada.

— Um momento, Sr. Wetherby. — Kemble se apressou em ir

cumprimentar o novo visitante.

Harold rangeu os dentes.

— Vossa Graça! Que surpresa! — A voz do rapaz ecoou pelo estábulo

logo depois. — E uma honra, devo acrescentar. Se soubéssemos que milord

viria, tenho certeza de que o Sr. Derringworth teria dado um jeito de recebê-lo.

Harold caminhou em direção à entrada enquanto Kemble retornava ao

lado do duque de Beaufort. Poderoso e respeitado, o homem poderia ter tudo

no mundo, bastaria pedir.

Por isso ele o odiava.


— O que posso fazer por milord? — perguntou Kemble.

— Meu cunhado diz que tem um garanhão que vale a pena... Harold

sentiu-se retesar. O duque estava interessado no mesmo cavalo que ele! Sim,

ele, Harold Wetherby, antigo joão-ninguém, mas agora um homem em rota

ascendente.

— Certamente. Uma bela criatura.

Enquanto se aproximavam, Kemble assustou-se, parecendo ter se

esquecido de sua presença.

— Ah, na verdade, o Sr. Wellesley e eu seguíamos naquela direção... Sr.

Wellesley, o que achou do Marty aqui?

— Wetherby — corrigiu Harold. — E prefiro ver o outro garanhão.

— Sem dúvida, mas... Vossa Graça, o senhor se incomoda? Harold bufou.

Ele estava ali antes, e com hora marcada!

O duque deu de ombros, displicente.

— Então venham comigo, cavalheiros.

Ao final do salão, havia uma baia com o dobro do tamanho das outras. O

garanhão do lado de dentro era massivo, a pelagem de um castanho radiante.

Harold suspirou. Ele jamais se sentira confortável ao lado de grandes

animais, mas quando o duque avaliou o cavalo e lançou ao gerente um olhar de

aprovação, mudou de ideia.

Balançou a cabeça, demonstrando sua admiração, e declarou:

— Agora sim, está mais do meu gosto. Quero algo que impressione

minha noiva.

— O senhor vai se casar? — perguntou o assistente, finalmente

desviando o olhar do duque. — Meus parabéns.

O garanhão balançou a cabeça e bufou. Harold deu um passo atrás, mas

disfarçou em seguida. Não queria fazer feio diante de Beaufort.

— Tempestade é o nome dele — disse Kemble. — Precisa de um pulso

firme.
— Talvez — o duque concordou. — Mas, sem dúvida, o animal tem sido

bem tratado.

Harold forçou uma gargalhada.

— Então ele precisa de um pulso firme, assim como a minha noiva... Vou

treiná-los juntos. Ela é uma beleza, mas de gênio difícil.

O assistente do estábulo lançou um olhar constrangido ao duque. Abriu

a boca como se fosse dizer algo, mas a fechou em seguida.

— Um animal precisa saber quem é seu mestre — prosseguiu Harold,

cínico. — Depois, a montaria se torna mais suave. E eu certamente aprecio uma

boa cavalgada... — Estendeu o braço a fim de acariciar o animal, mas o bicho

balançou a cabeça e retrocedeu. -— É claro, que domarei nosso amigo aqui

antes que o consiga com Liz.

— Liz? — perguntou o duque.

— Sim — confirmou Wetherby, o peito estufado. — Liz Medford. Talvez

tenha ouvido falar nela? É filha de um barão. Boa e antiga família. Bela moça

também, apesar de cabeça-dura, como eu já disse. Nada, é claro, que um

homem como eu não possa resolver.

A expressão do duque era ilegível. Poderia estar com ciúmes? Por menos

razoável que fosse não havia dúvida de que Liz era atraente.

Wetherby estreitou os olhos. Em sua recente discussão, ela quase

demonstrara interesse por Beaufort. Mas de maneira nenhuma ele a deixaria

escapar agora. Por isso decidira pressionar o tio de Liz para que o anúncio fosse

feito logo.

Havia apenas uma coisa faltando para selar aquela tarde perfeita.

— Quanto quer pelo garanhão, Kemble?

O assistente se inquietou.

— Sr. Wetherby, se é uma boa montaria que o senhor quer talvez um

animal de corrida não seja sua escolha ideal.

— Quanto quer pelo cavalo?


Kemble endireitou os ombros e gesticulou em direção ao animal.

— Bem, Sr. Wetherby, um cavalo com a procedência do Tempestade... —

Sua voz foi sumindo, cheia de significado.

— Quanto quer por ele, Kemble?

O jovem olhou para o duque, depois para Harold.

— Se o senhor estiver interessado, poderia marcar uma hora e...

— Estou preparado para conversar agora — disparou Harold, os punhos

cerrados.

— O preço sugerido é de mil e duzentas libras — disse Kemble.

O duque, um homem conhecido por suas extravagâncias, nem se moveu.

Harold, por outro lado, teve de engolir em seco. Aquele assistente idiota só

podia estar tentando roubá-lo.

— É uma bela quantia, devo dizer. — Forçou-se a respirar normalmente.

— Talvez se pudesse fazer com que o animal trotasse... Mostre-me do que ele é

capaz.

Tomara pudesse descobrir algum defeito no bicho e forçar o assistente a

baixar o preço.

— Ficarei feliz em levar Tempestade até o lado de fora — respondeu o

rapaz. — Quando o vir em ação, vai perceber que o preço se justifica. Vou

aprontá-lo...

Antes que ele o fizesse, contudo, o duque o deteve pelo braço.

— Negócio fechado.

— P-Perdão? — gaguejou Kemble.

— Como assim? — A pergunta brotou da boca de Harold antes que ele

pudesse impedir. O maldito duque o ignorara!

— Faço negócios com Derringworth há tempo suficiente para saber que

ele garante seus animais. Tempestade vale no mínimo esse preço. Enviarei meu

procurador com uma nota do banco, e o restante da quantia amanhã cedo.


— Esperem só um minuto! — intrometeu-se Wetherby. Mesmo assim,

ninguém lhe prestou atenção.

— Como quiser Vossa Graça — disse Kemble.

A raiva brotou em Harold quando ele se deu conta de que, o tempo

inteiro, sua presença no estábulo havia sido meramente tolerada.

— Inacreditável! — rosnou, partindo em seguida. Os dois homens o

observaram indo embora.

— Vossa Graça — começou o assistente da gerência, constrangido —,

nem tenho como dizer o quanto lamento...

— Não se preocupe. — Alex o tranquilizou. — Não era ninguém de

muita significância.

— Isso mesmo. Por favor, deixe-me assegurá-lo de que Derringworth não

serve a essa clientela... Lamento pela noiva dele.

— Eu também.

Impossível que aquele imbecil estivesse prestes a se casar com Liz.

Aquele arrogante não sabia nem mesmo como adquirir um cavalo!

— Estou perdida, Bea!

— O que aconteceu?

— Você conhece as circunstâncias nas quais meu pai nos deixou —

respondeu Liz. — E parece que o restante da cidade também. Minhas

perspectivas são ínfimas.

— Lamento Liz.

Bea realmente lamentava, notou Liz, ao contrário de tantos outros que

diziam as palavras enquanto se deliciavam com sua derrocada. Era mais uma

razão para que considerasse Beatrice Pullington como uma verdadeira amiga.

Na noite anterior, quando ela chegara à porta de Bea com a mala na mão,

fora recebida sem questionamentos. A moça a havia instalado em um

confortável quarto de hóspedes e cuidado de cada necessidade sua, até que ela

sucumbira à exaustão após o dia tumultuado.


Agora era o meio da manhã, e as duas relaxavam no pequeno salão da

casa enquanto debatiam sobre o futuro de Liz.

— Não é só isso. O irmão de minha mãe, tio George, é o chefe da família

agora. Ele insiste em dizer que não pode sustentar a nós todos e quer que eu me

case com o único pretendente que me restou:

Harold Wetherby.

— Wetherby? Não o conheço.

— Não pessoalmente. Ele é uma espécie de primo distante de mamãe.

Não anda pelos altos círculos. Mas já lhe contei sobre ele, Bea.

Os olhos de Bea se arregalaram com a lembrança.

— Aquele Wetherby? O do piquenique que...

— Esse mesmo.

— Não! — Bea exclamou baixinho, tomando um breve gole de chá.

— Por isso não quero voltar para casa. Prefiro trabalhar para viver.

— Fazendo o quê?

— Essa é a questão. Pensei em me tornar costureira. Sou boa com

agulhas.

— Sim, Liz, mas as melhores modistas vão querer referências, e você não

tem nenhuma.

— O que me sugere, então? Há poucas maneiras pelas quais uma mulher

pode ganhar a vida e se manter anônima.

— Triste, mas verdadeiro. Conheço uma que ganha à vida escrevendo

livros...

— Não tenho competência para isso, Bea. Além do mais, levaria muito

tempo.

— Você é bem-vinda para ficar aqui por quanto tempo queira. Não é

nenhum sacrifício para mim.

— Eu sei, e agradeço por isso. Não sei para onde mais eu poderia ir,

senão para cá. Mas não posso ficar escondida para sempre. Preciso sair o quanto
antes. Qualquer que seja o trabalho que eu encontre, deve ser em um local onde

meu tio não pense em procurar por mim. Eu poderia ser uma governanta.

— E cuidar da casa e dos filhos de outra pessoa? E se forem mimados ou

mal-educados?

— Ah, Bea. Eu amo crianças!

— Mas Liz, você acha que tem jeito para ser governanta? Você é um

tanto cabeça-dura, ainda que eu a ame por isso... Creio que esse tipo de

característica seja malvisto em governantas.

— Tenho certeza de que posso superar esse meu defeito. Não posso mais

me dar o luxo de escolher muito. Mas provavelmente terei o mesmo problema

para arranjar referências.

— Muito provavelmente. Se uma costureira precisa de referências,

imagine o que... Espere! Eu conheço a pessoa perfeita para acolhê-la. Ela pode

reconhecer você, mas é uma alma caridosa. Andei ouvindo, em um chá, outro

dia, que ela estava ansiosa por contratar uma boa governanta. Ela vive no

campo, então é menos provável que você seja vista.

— Quem é?

— A viscondessa Grumsby.

— Grumsby, Grumsby... A irmã do duque de Beaufort? Mas ela é a irmã

de Alex Bainbridge! Eu não poderia!

— Liz, eu sei que você tem certo interesse por ele, mas depois que nada

aconteceu após aquele baile, falho em ver qual o problema.

— Não foi só isso.

Tristonha, Liz contou os detalhes de seu encontro com o duque.

— Céus! Isso foi ousado. Você não é cabeça-dura, minha amiga, é

completamente louca!

Liz sentiu as faces arder.

— De qualquer maneira, continua no mesmo ponto em que estaria caso

ele tivesse aceitado sua proposta — continuou Bea. — Pode ser um tanto
desconfortável se conseguir o emprego e ele aparecer para uma visita à irmã, é

claro, mas será uma chance única para que você se mantenha fora de circulação.

Era verdade, pensou Liz.

— De qualquer modo — prosseguiu Bea —, acho que vale a tentativa.

Como eu disse, lady Grumsby fica no campo quase o tempo todo, o que deve

protegê-la dos olhos mais perigosos.

— Mas e se Alex tiver contado a ela sobre mim?

— Pouco provável. Se ele não quer ter o nome envolvido com o seu em

um escândalo, por que faria isso? Ele provavelmente já se esqueceu disso tudo.

Liz não estava tão certa sobre aquilo, mas, como não podia pensar em

opção melhor, e como a ideia de deixar a cidade por um tempo tinha um forte

apelo, concordou com o plano.

Em questão de horas, Beatrice enviava uma mensagem a, lady Grumsby

atestando sua total idoneidade para o posto de governanta.

E, como era possível que lady Grumsby a reconhecesse de qualquer

maneira, Liz concordou que Bea revelasse seu verdadeiro nome. Apenas rezava

para que a mãe não descobrisse tudo, pois lady Medford tomava o status de

nobreza com bastante seriedade.

Passou os dias seguintes na expectativa por uma resposta. Como mal

podia passear pelas ruas de Londres sem ser vista, Liz se manteve na casa. Bea

tinha mais liberdade e, com a ajuda de Charity, conseguira trazer mais dois de

seus vestidos, embora ambos tivessem sidos tingidos de cinza após a morte do

pai dela.

— Se vai trabalhar como governanta, precisa se parecer com uma —

disse Bea enquanto a ajudava a remover os laços que devam aos trajes sua única

aparência mais moderna. — A notícia sobre seu desaparecimento ainda não

chegou à cidade. Sua irmã diz que a família mantém o fato em segredo,

esperando encontrá-la logo e pôr fim à situação. O escândalo seria enorme. Eu,
é claro, jurei que não sabia de nada. Mas Liz, acha que está fazendo a coisa

certa?

— Não tenho dúvida disso.

— Se é assim... — Bea deu-lhe um tapinha no braço.

Por fim, as boas notícias chegaram: lady Grumsby estava interessada em

entrevistá-la!

Imediatamente, Bea a ajudou a fazer as malas, e Liz comprou uma

passagem na carruagem de aluguel que partiria na manhã seguinte.

Suspirou conformada. Não via mais coches luxuosos em seu futuro.

A despeito de ter saído cedo da casa de Bea, era quase noite quando a

carruagem se aproximou de Garden Home, a propriedade pertencente à irmã

do duque de Beaufort e seu marido. Dado o nome simples, Liz esperava um

terreno agradável, porém modesto. Em vez disso, o coche passou por vastas

relvas bem aparadas e, por fim, avizinhou-se a uma mansão espalhada que

parecia um conglomerado de todos os estilos arquitetônicos que a Inglaterra

conhecera nos últimos quatro séculos.

Bateu à porta, na entrada traseira da casa, trêmula.

Uma criada veio atendê-la e a analisou de cima abaixo.

— Sim?

— Estou aqui para uma entrevista de emprego.

A moça modificou a expressão para outra de maior respeito.

— Sim, madame. Lady Grumsby imagina que esteja cansada da viagem.

Devo mostrar-lhe um quarto e sua entrevista será pela manhã, bem cedo. Por

aqui.

Liz mordeu o lábio, desacostumada a ser tratada com tanta casualidade

pela criadagem, mas seguiu a criada ao longo de um corredor. Era melhor que

se adaptasse logo, já que a posição de governanta estava acima da dos

empregados...

Ainda que bem abaixo da que conhecera por tantos anos.


Liz acordou cedo e já estava totalmente vestida, para não mencionar

ansiosa, quando a criada bateu à porta trazendo-lhe uma bandeja com o café da

manhã. Após o rápido desjejum, ela foi levada até o salão principal.

A moça indicou um pequeno banco, recostado numa das paredes,

próximo a uma porta que levava, na certa, a outro cômodo.

— Espere aqui, por favor.

Liz sentou-se, imaginando como melhor apresentar suas limitadas

qualificações.

A criada reapareceu momentos depois.

— Lady Grumsby vai recebê-la agora.

Liz deixou escapar o ar que, não havia se dado conta, estava segurando, e

adentrou o salão, um recinto agradável, decorado em tons de marfim e azul-

claro. Uma adorável morena, alguns anos, mais velha do que ela, sentava-se à

borda de uma delicada cadeira, diante de uma escrivaninha. Sua aparência

tornava a relação com o irmão do duque reconhecível.

Ciente de seu novo status social, Liz se curvou numa reverência.

— Milady... Não imaginei que fosse ser entrevistada pela senhora.

— Minhas crianças são muito importantes para mim, querida. Encontrar

uma governanta para elas não é uma tarefa que eu julgue apropriado confiar a

mais ninguém.

Liz sorriu, aprovando os sentimentos da mulher.

— Então você é a Srta. Medford.

Liz hesitou, rezando para que o nome Medford fosse comum o suficiente

para que a viscondessa não pensasse em associá-la à filha do barão de mesmo

nome.

— Sim, milady.

— Certo. Bem, Srta. Medford, eu normalmente não entrevistaria alguém

sem referências, mas lady Pullington sugeriu que conversássemos, de modo

que encaro isso como uma referência. Minha última governanta partiu para
cuidar de um parente adoecido. Pode sentar-se... — A viscondessa gesticulou

em direção a uma pequena cadeira, acolchoada em amarelo pálido. — Por

favor, conte-me sobre suas qualificações.

Liz se preparava para blefar, quando a viscondessa franziu a testa.

— Espere um momento. Você disse que seu nome era Medford? Você

não tem alguma relação com... Não, não pode ser. Meu vizinho esteve me

contando sobre tudo o que aconteceu nesta temporada, e o nome Medford veio

à tona, então pensei...

Liz se moveu desconfortavelmente na cadeira.

— Sim, milady. Sou a filha de lorde Medford.

— Não me diga! Como pode se candidatar a um emprego de

governanta? — Os olhos de lady Grumsby refletiam seu constrangimento.

— É uma história bem longa. Por favor, milady, asseguro que esse

trabalho me é necessário. Minhas condições não são mais as mesmas... Preciso

dessa posição e amo crianças. Estou disposta a trabalhar duro, a cuidar delas e a

ensinar-lhes tudo o que sei.

A viscondessa cruzou os braços e lançou-lhe um longo olhar.

— Está comprometida?

— Não, senhora. Mas minha família não pode mais sustentar duas filhas

solteiras, e não tenho o desejo de tornar-me um peso quando nem ao menos tive

a oportunidade de me casar.

Liz esperava que a viscondessa não fosse adiante ao assunto, pois

explicar que havia recusado a escolha da família por um pretendente não se

refletiria bem em seu caráter, não importando o quanto abusivo este fosse. Era

melhor deixar que lady Grumsby pensasse que era um tremendo fiasco na seara

do casamento.

— Compreendo. Lamento saber sobre o infortúnio de sua família. Você

conhece as responsabilidades de uma governanta? Pouco se comparam às da

vida que você costumava levar.


— Sim, milady. Eu conheço.

— Bem, se você foi criada na sociedade, não posso censurar sua

educação. Meus filhos são ainda muito pequenos, mas quero deixá-los expostos

à boa moral e ao aprendizado.

— No meu caso, tive tudo do mais apropriado, milady.

— Vou dar-lhe o emprego em regime de experiência. Se, após um

período de três meses, as crianças e eu acharmos que serve... Você fica.

Liz sorriu genuinamente.

— Obrigada, milady. Não vou desapontá-la.

— Ótimo. Ficarei muito feliz com a sua ajuda às crianças, pois estou

esperando convidados para uma noite próxima. Uma pequena festa na casa

durante a visita de meu irmão.

O estômago de Liz revirou, mas ela conseguiu manter um sorriso. Alex

Bainbridge estaria vindo! O homem diante do qual ela havia se humilhado.

Aquele que poderia fazê-la ser despedida com apenas uma palavra.

Alex deu com as esporas no cavalo, atravessando o campo aberto. O

garanhão balançou a cabeça e flexionou os músculos como resposta ao

comando, e ele se deliciou com o ar pesado passando-lhe pelos cabelos. Seus

olhos soltaram lágrimas pelos cantos quando o animal ganhou velocidade, e ele

sorriu. Não podia pensar em nada que preferisse estar fazendo naquela perfeita

manhã de maio. Havia adquirido o animal no estábulo de Derringworth, em

nome do cunhado, Brian Grumsby. Normalmente, teria examinado melhor o

animal antes de fazer uma oferta, mas havia se irritado demais com o tal

Wetherby para se ater a negociações.

No fim, o esforço físico despendido na cavalgada matutina o ajudou a

afastar da mente os sofrimentos do passado.

Deixou o pensamento vagar, enquanto o solo desaparecia sob os cascos

faiscantes. Em Londres, era caçado por homens de negócios, nobres falidos,


mulheres esperançosas. Dos negócios, ele gostava, e já havia muito se

acostumara às outras coisas. Mas, às vezes, um homem precisava ficar sozinho.

O problema era que vinha se sentindo assim com muita frequência.

A casa da viscondessa, com seus jardins aparados, surgiram diante dele.

Faria uma boa visita à irmã e se divertiria com as crianças antes que os outros

convidados chegassem. Não ficara empolgado ao ouvir sobre a festa, mas

Marian raramente as fazia e agora contava com sua presença. Não poderia

decepcioná-la, voltando a Londres.

Encontrou os sobrinhos do lado de fora, aproveitando a manhã com sua

governanta, cada um puxando-lhe uma das mãos enquanto apontavam

empolgados, para flores, insetos e outras curiosidades. O pequeno Henry lutava

para agarrar a coleira de um exuberante filhote de labrador.

A governanta era uma mulher simples, de chapéu cinza e vestido da

mesma cor, mas a atenção que dedicava às crianças era admirável. Ela balançou

a cabeça e riu quando sua sobrinha, Clara, exibiu um pequeno ninho de

pássaros.

Tão entretida estava a moça que não notou sua chegada. O filhote de

labrador, ao contrário, ficou louco de excitação, desvencilhou-se de Henry e

correu desajeitado, pelo jardim.

O menino tentou agarrar a coleira que rastejou como cobra sobre a

grama, e puxou consigo a pobre governanta, que perdeu o chapéu.

Uma massa de cabelos vermelhos caiu em cascata sobre os ombros

pequenos, e Alex segurou a respiração. Conhecera apenas uma mulher com

cabelos como aqueles. Mas, que diabo ela estava fazendo ali?

Liz espanou a poeira enquanto Henry ralhava com o cachorrinho.

— Não brigue demais com ele, Henry. Ele é só um bebezinho, afinal. E o

que faria um bebezinho ao ver um cavalo grande e assustador?

Liz olhou para cima, e Alex pôde ver seus olhos se arregalando ao avistá-

lo. As faces preencheram-se de cor e ela balançou a cabeça levemente.


Alex fez que sim, entendendo a súplica silenciosa. Tinha muitas

perguntas para a donzela da alta sociedade convertida em governanta, mas não

a constrangeria diante das crianças.

— Tio Alex! — Inconsciente da tensão entre os dois adultos, Henry saltou

para cima e para baixo, tentando merecer a atenção do tio.

— Sua governanta está certa, Henry — ele falou, curvando-se para

abraçar o menino. — Aqui, deixe-me mostrar uma maneira melhor de segurar a

coleira.

Alex sentiu os olhos de Liz fixos nele enquanto se detinha nos cuidados

com o filhote. Pelo canto dos olhos, pôde vê-la endireitar o chapéu e retirar-se

para um pequeno banco de jardim enquanto ele brincava com as crianças.

Que diabo tinha acontecido nas últimas duas semanas para que Liz

mudasse tão radicalmente? E como ela havia ido parar ali?

Quisesse a Srta. Medford ou não, ele descobriria mais. Com uma

promessa de retornar em breve, enviou os sobrinhos de volta a Liz.

Precisava encontrar Marian.

A irmã sentava-se em seu salão favorito, o recinto azul e marfim,

trabalhando em seu bordado.

— O que ela está fazendo aqui? — indagou de supetão. Marian saltou,

deixando cair à agulha.

— Quem?

— A Srta. Medford.

— Eu a contratei como governanta.

— Sim, mas... Você ao menos sabe quem ela é?

— É claro que sei. Sente-se, Alex. Não há necessidade de sermos

dramáticos. Falho em ver o que o incomoda. Não é culpa da moça que suas

condições tenham se deteriorado. Você preferiria que eu a deixasse na rua?

— Não. — Alex passou a mão pelos cabelos, ignorando o convite para

que se acomodasse. — Sim.


Marian apertou os olhos, ciente dos rumores sobre as várias ligações

amorosas do irmão.

— Há algo mais que eu deva saber sobre ela?

— Não. — A despeito da proposta ultrajante de Liz, sobre a qual ele não

parava de pensar, nada havia realmente acontecido. Além disso, havia

concordado em não mencionar aquela conversa, de modo que não haveria mais

nada a dizer.

A expressão de Marian suavizou.

— Ela é um amor com as crianças, Alex. Apenas quer se esquecer do

passado e fazer seu serviço. Isso é tudo o que eu peço também. Imagino como

deve estar sendo difícil para ela. Deixe-a em paz.

Alex tomou um assento. Liz era uma farsante. Estava certo disso. Uma

bela farsante, claro, mas nenhuma moça da cidade iria trocar uma vida de

privilégios pelo trabalho de governanta.

— Então, quem você convidou para essa sua festa? — perguntou,

tentando mudar de assunto. — É um evento pequeno, certo? Afinal, a

temporada continua.

— Bem pequeno. Cerca de vinte convidados. — Um olhar de cupido que

Alex conhecia bastante bem iluminou os olhos da irmã. — Srta. Landow e Srta.

Symington estarão presentes, junto com uma prima recém-chegada da França.

Não consigo lembrar-me do nome agora, mas ela é solteira...

— Por favor, não me diga que esta festa foi arranjada com o propósito de

encontrar para mim uma companhia.

— Uma noiva. Mas não é só por isso que estou dando a festa. De

qualquer maneira, quando é que vai sossegar, Alex? Já faz tempo que não

corteja alguém seriamente.

— Não estou interessado.

— Você precisa de um herdeiro, esqueceu?

— Fala como se eu tivesse um pé na cova!


— E claro que não. Só quero que seja feliz. E não importa o que alegue

esses seus casos não o deixam assim.

— Veremos — ele falou taciturno.

O plano de Alex para descobrir os reais motivos de Liz não progredia

bem. Havia sabido pouquíssimo pela irmã, e confrontar a moça era difícil, já

que a tentadora governanta mantinha-se a distância.

Na tarde de sábado, assistiu, enquanto Liz caminhava com os pequenos

pelo jardim, apontando as várias plantas e arbustos, uma verdadeira aula sobre

a natureza. Os outros hóspedes estavam fora, visitando a cidade próxima, mas

ele declinara do convite, alegando precisar cuidar de assuntos da propriedade.

Liz gargalhava por algo que uma das crianças havia dito. Permitira que o

chapéu caísse para trás, e os raios do sol beijavam-lhe as faces e luziam sobre

seus cabelos.

Ela era um enigma, concluiu Alex. Três semanas antes, pensava nela

como não mais do que uma filha mimada e impetuosa; que não sabia o que era

melhor para si e que vinha de uma família de tratantes. A maior parte de

Londres sabia, àquela altura, que os cofres dos Medford se encontravam vazios,

e que a família tangenciava a linha da penúria. Estava bem ciente sobre seu

próprio papel em levá-los àquele estado, mas o que a Srta. Medford esperava

conseguir, quando se aproximara dele, no parque?

Do lado de dentro da mansão, Alex entornou o restante do vinho,

desejando que fosse um brandy. Marian poderia ralhar com ele, caso quisesse,

mas não estava disposto a encorajar toda donzela desesperada que lhe cruzasse

o caminho. Seu coração não estava ali.

Antes que outra convidada da irmã viesse a seu encalço, optou por uma

saída discreta, dirigindo-se ao jardim. Depois, poderia voltar por outra entrada

e buscar refúgio em seus aposentos.


Ao dar a volta por um caminho e avistar a silhueta de uma jovem

sozinha no jardim, a noite tornou-se bem mais interessante. Mais ainda quando

o brilho da lua sobre os cabelos acobreados denunciaram-lhe a identidade.

Inconscientemente, suavizou os passos. Desta vez, ela não seria capaz de

evitá-lo.

Esperou até que estivesse logo atrás dela, antes de fazer a pergunta sobre

a qual ponderava desde que a descobrira na casa da irmã.

— Por que você está aqui?

— Vossa Graça. — Liz pulou com os olhos arregalados. — Eu estava

apenas passeando. A lua está linda esta noite.

— Sim, está. Mas isso apenas responde parte de minha pergunta.

— Perdão?

— O que a traz até Garden Home, Srta. Medford?

— Milord conhece a resposta para isso. Sou a governanta de seu

sobrinho e de sua sobrinha agora.

— É claro...

— Por que a ironia? Sua irmã foi bastante gentil ao me contratar e sou

grata pela posição.

Alex admirava aquela combinação única de presença e humildade. Liz

não tinha vergonha de admitir que fosse grata por ter um trabalho, e era forte o

suficiente para defender sua escolha.

E agora que ele havia conhecido Harold Wetherby, tinha um palpite

sobre o porquê daquela decisão.

Mesmo assim, queria ouvir a verdade dos lábios dela. Por que tinha

fugido, quando tantas outras mulheres em seu estado teriam, de forma

submissa, desposado o desgraçado?

— Tive o prazer de conhecer o seu noivo.

— Meu noivo?

— Wetherby afirma que vocês dois devem se casar.


Nem mesmo o luar pôde esconder o profundo rubor de Liz. Aquilo era

constrangimento ou raiva?

— Ah, sim... Estamos muito apaixonados.

— É o que diz Wetherby — mentiu Alex. — Ele é mesmo... Singular.

Como conseguiu conquistá-lo?

Uma risada estrangulada escapou-lhe da garganta.

— Pura sorte, eu suponho.

— Ora, vamos. Uma moça bonita como você? Wetherby deve ter

afastado todos os pretendentes para que pudesse ter uma chance.

— Algo assim — Liz concordou, esmaecida, puxando mais o xale sobre

os ombros.

Então ela não havia tido outros pretendentes. Ao menos, nenhum que o

pai aceitasse antes de sua morte. Liz era atraente, mas sua falta de dote era de

conhecimento público.

A culpa o alfinetou, e ele resistiu à tentação de puxá-la para perto e

protegê-la. Em vez disso, decidiu manter o jogo verbal.

— Conte-me. Como se sente Wetherby com sua noiva trabalhando como

governanta?

Uma emoção impossível de identificar dançou nos olhos de Liz, que

manteve a postura.

— Fiquei bastante arrasada quando papai faleceu, e de forma alguma me

sinto pronta a me casar. Harold compreende isso. Compreende também a

necessidade de que eu trabalhe, já que sempre precisou fazer o mesmo.

Ele bufou discreto. Poderia apostar que Wetherby viveria tranquilamente

sob a fortuna de outra pessoa se tivesse a oportunidade.

Ainda assim, aquela não era sua preocupação principal.

— Então ele sabe que você está aqui. A hesitação de Liz a entregou.

— Diga a verdade, por favor — ele pediu sério.


Ela olhou em volta, a postura tão rígida que, sob a luz da lua, a fez

parecer ser feita de mármore.

— Está certo. Harold não sabe nem mesmo de minha localização.

— E você pretende manter isso assim... — concluiu Alex. Claro. A

mulher preferia mergulhar no ostracismo a se casar com aquele cretino. Era

uma decisão que poucas de seu gênero tomariam, mas algo digno de respeito.

— Não vai dizer nada a ele, vai? — ela implorou, pousando a mão em

seu braço, os olhos cheios de medo.

Alex pôs a mão sobre a dela. Wetherby era mais patife do que ele

pensava, se a assustara tanto.

— Não vou dizer nada.

Liz suspirou, aliviada. Fez menção de retirar a mão, porém Alex a

segurou firme.

— Mas, em troca, precisa me fazer uma promessa.

— Que promessa? — ela indagou, umedecendo os lábios, nervosa.

Uma torrente de calor, pura excitação sensual, atravessou o duque, e ele

liberou-lhe a mão, surpreso.

— Que vai parar de me evitar.

As feições delicadas revelaram surpresa, e Alex se viu tentado a beijá-la.

Em vez disso, cuidou de passar de leve os dedos sobre a face macia antes de

caminhar de volta a casa.

Havia obtido a resposta que queria. Não tinha por que assustá-la ainda

mais.

A viscondessa Grumsby não sabia, mas estava torturando Liz. A

pequena festa na casa deveria durar uma semana. Era a manhã do terceiro dia, e

Liz sentia-se em uma armadilha.

Estava no limite desde que Alex Bainbrigde havia galopado, literalmente,

para dentro de sua vida.


Malditos fossem seus cabelos vermelhos. Sem eles, ela não teria sido

descoberta tão depressa. No momento em que olhara nos olhos escuros e

debochados do duque, fora tomada tanto pela timidez quanto pela vontade.

Fora ele o responsável pelo mais humilhante momento de sua vida.

Ao mesmo tempo, uma olhadela para seu belo rosto, um momento gasto

observando seu óbvio carinho pelos sobrinhos, e ela estava mais uma vez

perdida.

A diferença era que, desta vez, não poderia suportar humilhar-se de

novo. Seu emprego dependia de um comportamento modelo.

De responsabilidade e decoro. Havia violado ambos em sua proposta a

Alex, e, mais uma vez, ao deixar sua própria casa.

Uma terceira indiscrição seria sua ruína.

Após a conversa no jardim, na noite anterior, Liz preocupava-se,

achando que indiscrição era precisamente o que o duque tinha na cabeça. Se

apenas a ideia não fosse tão tentadora!

Se a viscondessa Grumsby tivesse alguma noção dos pensamentos que

ela nutria por seu irmão, ela seria despedida sem qualquer recomendação.

E ainda que, ser uma governanta não lhe proporcionasse uma vida de

luxos, estava contente. Ao menos por enquanto. As crianças eram doces e

tinham ânsia por aprender e explorar. O senhor e a senhora da casa a tratavam

com gentileza. Eventualmente, pensou, poderia até encontrar uma solução mais

definitiva para o futuro. Mas, nesse meio-tempo, aquele trabalho lhe proveria o

que era necessário.

Suspirou e fechou a porta. Havia levado as crianças para dentro, a fim de

que comessem e descansassem. Os convidados dos Grumsby estavam fora, em

um passeio pela tarde. Poderia então relaxar.

— Pensei que nunca fosse encontrá-la sozinha.

Liz virou-se, o coração batendo forte. Ali, no vão das escadas, estava o

homem a quem tentava esquecer.


— Vossa Graça.

— A senhorita pode ser bem evasiva quando quer...

Ela manteve o olhar alguns centímetros abaixo do queixo do duque,

tentando evitar a expressão debochada que sabia haver ali.

— Não sei o que quer dizer, milord. Meu emprego aqui me mantém

bastante ocupada.

— Não está me evitando?

Para responder, precisaria mentir ou revelar demais, de modo que se

manteve quieta. Ousou uma olhadela para cima. O brilho nos olhos escuros

contou-lhe que ele sabia.

— O que aconteceu a sua promessa? Ela ergueu o queixo.

— Não creio ter realmente feito alguma promessa.

— Você me decepciona, Liz.

Ela desapontava a si mesma também pelo júbilo secreto que sentia em

sua presença. Decoro, pensou de novo, mas o lembrete mental era abafado pelo

palpitar de seu coração, que dobrou o passo à medida que o duque se

aproximava.

— Bem, parece que você tem um pequeno descanso de suas atividades.

Talvez possa me conceder um passeio pelos jardins?

— Acabo de vir dos jardins.

— Compreendo. Bem, talvez me permita mostrar-lhe a biblioteca?

— O que milord está fazendo aqui?

— Posso fazer a mesma pergunta.

O timbre profundo enviou-lhe um arrepio pela espinha.

— Milord não contou a ninguém o que eu fiz?

— Não. Ainda que eu mereça algumas respostas. Confesso que estou

preocupado depois de tudo o que ouvi. A biblioteca então?

Liz engoliu em seco. Havia prometido não evitá-lo, e o duque sabia de

seus segredos. Ela precisava manter o aliado. Em todos aqueles anos em que
imaginara Alex Bainbridge procurando por ela, no entanto, jamais pensara que

seria daquela maneira.

O lado bom, disse a si mesma, era que estava realmente pensando em

conhecer a biblioteca.

— Seria um prazer — concordou, tentando não pensar de qual resposta

Alex sentia-se merecedor.

O duque abriu um sorriso satisfeito e ofereceu-lhe o braço, como se ela

fosse ainda a Srta. Medford, filha do barão, e não a Srta. Medford governanta da

nobreza.

Sentindo que seria rude não aceitar o gesto, pousou a mão sobre o braço

forte e se permitiu ser acompanhada escadaria abaixo. Já sabia onde ficava a

biblioteca, era claro, e era bem capaz de se transferir para lá sozinha; mas,

apenas por um momento, decidiu esquecer os últimos meses, o tom vagamente

ameaçador do duque, ou mesmo o fato de que ele já a tinha rejeitado uma vez, e

permitir que sua fantasia se concretizasse ao menos em parte.

Era meio-dia e havia outros criados na casa. Sem dúvida, nenhum mal

adviria disso.

— Ah, aqui estamos nós — disse Alex, enquanto a conduzia até o recinto

amplo e bem arrumado. Prateleiras, todas lotadas, cobriam três paredes. Na

quarta, grandes janelas verticais miravam as pastagens da propriedade. As

cadeiras e poltronas espalhadas pelo recinto pareciam bem confortáveis. Era o

lugar perfeito para se perder em um livro, ou mesmo nos próprios

pensamentos.

— É um cômodo adorável, Vossa Graça. Obrigada por mostrá-lo a mim.

O duque lançou-lhe um olhar atento.

— Não está ansiosa por se livrar de mim, está, Srta. Medford?

— É claro que não.

Era mentira, e ele sabia tão bem quanto ela, que pressionou os lábios e

respirou fundo.
— Milord disse que queria respostas. Pois aqui vai a que, imagino o

senhor deseja: aquele momento no parque foi uma loucura. Uma atitude

descabida e estúpida de minha parte. Jamais fiz algo assim antes, e não

pretendo repetir tal insanidade. Quanto ao homem que se julga meu noivo,

jamais concordei em casar-me com ele, ou com qualquer outro, aliás. Preciso

deste emprego e vou trabalhar muito para mantê-lo. — Ela tomou fôlego. —

Mais uma vez, agradeço por mostrar-me a biblioteca.

Alex deu um sorriso e estendeu um braço em direção às prateleiras.

— Não há de quê. Mas eu mal comecei. O que veremos primeiro? Ah! Eu

sei que tem um gosto por poesia, se bem me recordo.

Liz não era nenhuma poetisa, mas tinha frequentado um recital

promovido por um primo dele, alguns meses antes. Todo o evento fora terrível,

desde as bebidas quentes até a voz de corvo com a qual o rapaz pronunciara o

que, presumivelmente, eram poemas.

Sem dúvida, Alex se lembrava da ocasião, já que, uma vez encerrado o

evento, na pressa para partir ela tropeçara em seu próprio vestido e caíra por

cima dele.

Olhou-o, tímida, e surpreendeu-se ao vê-lo piscar para ela.

Sorriu sem poder evitar.

— Eu adoro um bom poema.

— Bem, não compartilho do talento de meu primo para recitar, mas

posso lhe mostrar a coleção de minha irmã de grandes poetas.

— Sem performance? — Liz comentou, desapontada, enquanto Alex se

dirigia a uma prateleira cheia de volumes encadernados em couro. — Ah, será

melhor assim. Se bem me lembro, fiquei tão comovida com a última a que

assisti que perdi o rumo e quase o derrubei... — ela comentou em tom suave,

enquanto se virava para observar os livros.

— É verdade. Esqueci-me. Talvez eu deva segurá-la, então, enquanto

analisa as páginas, a fim de evitar um novo choque...


Liz puxou o ar, quando um par de mãos quentes se apossou de ambos os

lados de sua cintura. A tentação de pesar sobre ele, absorver seu cheiro e sua

força, foi quase irrecusável. Mordeu o lábio com força, esperando que a dor a

distraísse.

— Eu não deveria permitir isso.

— Se bem me lembro, você estava disposta a oferecer muito mais.

— Isso foi antes. — Liz fechou os olhos, quando os polegares dele lhe

acariciaram os quadris. — Acabei de dizer que...

— Shhh. Você é uma mulher incomum, Liz Medford — murmurou Alex,

a cabeça curvada, de modo que ela podia sentir sua respiração por trás das

orelhas. — Confesso que capturou meu interesse.

Estavam deslizando para território perigoso. Liz se esticou para alcançar

um livro de poesias, embora não soubesse qual era o poeta.

— Milord brinca comigo.

— Jamais.

— Sei bem que me julga menos do que tentadora.

— Pois está errada. Vejo-a como a tentação do tipo mais perigoso.

O fôlego quente roçava-lhe as orelhas, despertando uma vontade de que

ele beijasse aquele mesmo ponto. Nervosa, ela tentou se concentrar no quanto

se sentira mal ao ser rejeitada no parque, naquela manhã. Virou-se para encará-

lo.

— Perdoe meu ceticismo, Vossa Graça. Mas acho difícil crer após ter sido

dispensada quando eu era um membro respeitável da sociedade e praticamente

me ofereci a milord. Agora que aqui estou, como uma mera governanta, seu

interesse é capturado?

Alex deu de ombros.

— Não gosto de mulheres da sociedade.

O tom frouxo fez Liz estudá-lo mais de perto.

— Milord brinca comigo.


— Asseguro-lhe: não é o caso. Mulheres da sociedade são frias e

calculistas. Analisam tudo, desde o mais simples comentário sobre a cor das

luvas de alguém, em sua ânsia de ascensão social.

Liz pendeu a cabeça de leve. Ele tinha razão. Sua própria mãe era uma

mulher assim.

— Você, por outro lado, me fascina, já que decidiu abandonar aquilo

tudo — ele prosseguiu com voz rouca. — Eu a vi com as crianças. É tão mais

natural com eles. Vi que demonstra real afeição, ainda que eles não sejam seus

filhos. Qual Liz é a real? A menina ousada que planejou aquela ultrajante,

embora tentadora, proposta, destinada a sua própria ruína? Ou a que está

diante de mim, e que põe as necessidades dos outros à frente das suas próprias?

— ele exigiu, tocando-lhe a face.

Conduziu-a até uma poltrona, então, até que Liz não tivesse escolha,

senão sentar-se.

Acomodou-se ao lado dela e pousou as mãos sobre as suas. Qualquer

resposta que Liz tivesse sumiu.

— Está vendo? Sei que estou certo. Veja, aqui estamos, longe da

sociedade, tendo uma conversa de verdade. Quantas conversas você teve em

um baile que não girassem sobre o que alguém estava vestindo, quem dançava

com quem, e como interpretar aquilo tudo em valores no mercado do

casamento?

Liz gargalhou. As conversas de baile eram exatamente assim.

— Você tem um sorriso adorável. Ainda que eu prefira sua aparição

como uma jovem da cidade — ele confessou, passando o dedo pelo tecido

simples e cinzento do vestido, para depois tocar-lhe os cabelos que ela havia

prendido em um firme coque.

Liz não teve tempo para se ofender com o insulto implícito, pois ele

continuou pensativo:
— Estranho, não é, como as mulheres das altas-rodas se esforçam para

parecer suaves e convidativas, quando, no fundo, são duras e amargas. Ainda

assim, você, uma governanta carinhosa e de bom coração, deve parecer até

opaca de tão sóbria.

— Estou certa de que isso é apropriado para uma governanta — ela

respondeu tensa, ainda que o toque leve sobre seus cabelos lhe enviasse

arrepios por todo o corpo.

— Talvez. — A mão de Alex cobriu as dela novamente. — Mas isso me

faz pensar. O que aconteceria caso eu puxasse esses grampos de seu cabelo?

Teria diante de mim uma mulher suave e quente, tanto por fora quanto por

dentro?

— Não sei.

O bom-senso ditava que ela se afastasse e corresse para o refúgio do

quarto. O futuro, no entanto, se apresentava diante dela, repleto de paixão.

Seria tão errado aproveitar apenas um momento de prazer?

Não fez qualquer movimento para deter Alex, enquanto ele puxava um

grampo, então outro, e mais outro. As mechas foram se soltando, até que a

massa de fios vermelhos se libertou.

— Aí está a beleza de que me lembro. Como uma cachoeira posta em

chamas. — O tom dele tornou-se rouco e lançou arrepios pelas costas de Liz. —

Está com frio? Acariciou-lhe o braço, e o calor de suas mãos esquentou o sangue

de Liz.

Ela devolveu um sorriso de lado.

— Creio que milord tenha um pouco de poeta em si, já que esse foi o

elogio mais bonito que já recebi na vida.

O sorriso de Liz sumiu quando Alex curvou a cabeça em direção à dela.

Os lábios se encontraram por um breve momento e os olhares se cruzaram,

enevoados, pouco antes que ele a puxasse para perto e a comprimisse contra o

próprio corpo.
Sua boca se moveu contra a dela com paixão incontida, tocando,

degustando, testando.

Liz se afogou nas sensações. Alex a segurava, uma das mãos mergulhada

em seus cabelos, à altura da nuca, a outra lhe puxando as costas. A língua

partia-lhe os lábios gentilmente, mergulhando em seu gosto, até que uma

urgência aguda começou a pulsar em seu ventre.

Ela arqueou o corpo, então, as mãos agarrando os ombros firmes como se

buscando uma âncora em meio àquela tempestade de emoções. De alguma

forma, já não estava mais sentada, mas apoiada contra a poltrona sob o

delicioso peso de Alex.

Enlevada, devolveu o beijo tão bem quanto foi capaz.

Quando a mão de Alex se moveu para tocá-la, passando pela cintura até

abrigar um dos seios, Liz gemeu baixinho. Ele continuou com a prazerosa

tormenta, provocando-a através do tecido, até que o mamilo enrijecesse em

resposta.

Apenas quando ele deslizou a mão por baixo do corpete, e Liz pôde

sentir o choque da carícia contra o seio nu, ela se lembrou de algum senso de

sobriedade.

Afastou-se subitamente, escapulindo para longe, até cair no chão ao lado

da poltrona. Observou-o, mortificada, enquanto tentava recuperar o fôlego. A

posição ridícula em que estava, no entanto, obrigou-a a se recompor.

Céus! O que ela havia feito?

Alex a fitou de volta, os olhos ainda cheios de fogo. Então se levantou e

lhe ofereceu a mão.

Liz a tomou num impulso e permitiu que o duque a ajudasse. Endireitou

as roupas, começou a procurar pelos grampos, sem dizer uma só palavra ao

homem a quem tinha beijado com tanta paixão.

Mesmo enquanto se culpava por seu comportamento, já sentia a falta do

toque dele sobre a pele.


Deus, o que ele devia pensar dela agora? Ela era mesmo uma tola.

Assanhar-se com o duque de Beaufort a faria perder o emprego!

Aflita, reuniu os grampos e os colocou de volta nos cabelos. Alex, que

permanecera quieto, tocou-a no braço gentilmente. — Não é preciso torturar a si

mesma. Um beijo não pode ser tão mau assim.

Liz respirou fundo. Ele podia estar acostumado a aventuras casuais, mas

ela não, de modo que não soubera como responder à leve provocação. Como ele

podia ser tão frio? O beijo não o afetara?

Provavelmente não. Afinal, ele era bem mais experiente.

Para seu horror, lágrimas encheram-lhe os olhos, e ela se virou para

escondê-las. Mas não antes que o duque as notasse.

Com um suspiro, ele apanhou-lhe o queixo e virou seu rosto,

acariciando-lhe a face com os dedos.

Liz fechou os olhos e se manteve imóvel, desejando mais do que tudo

ficar com Alex, que ele a tomasse nos braços e a confortasse. Mas aquilo não

fazia sentido. Ele era a causa de seu desconforto.

De qualquer maneira, suas emoções estavam mexidas demais para que se

importasse.

— Preciso ir — conseguiu sussurrar.

— Como quiser. — Para seu alívio e decepção, Alex deu um passo atrás.

— Mas há mais em você do que eu imaginava. É mesmo muito intrigante Srta.

Medford.

Desesperada para recuperar alguma normalidade, Liz voltou ao seu

papel formal e fez uma reverência.

Alex a observou com diversão, algo evidente no torcer dos lábios e nas

rugas nos cantos dos olhos. Curvou-se também.

— Pode partir agora, Liz. Mas não pense nem por um momento que eu

não a procurarei novamente.

Harold Wetherby mirou a carta sobre a mesa e praguejou.


— Maldito Medford!

— Más notícias? —- Jim Cutter, refestelado sobre uma cadeira do outro

lado da sala, examinava, entediado, o jornal.

Era rude examinar as correspondências diante de um convidado, mas ele

e Cutter dividiam as mesmas opiniões a respeito dos modos em sociedade.

Além disso, Cutter era um amigo, ao menos o mais próximo que possuía o que

queria dizer que compartilhavam ambições e, por isso, toleravam a presença

um do outro. Ambos tinham alugado casas no distrito não tão elegante, e

ambos sentiam que mereciam uma vida melhor.

— Emprestei ao lorde Medford uma boa soma alguns anos atrás —

respondeu Harold. — Mal podia arcar com aquilo, na época, mas precisava do

apoio do homem e de seus contatos.

— E ele jamais o pagou de volta?

— Não. Morreu no último outono. Acidente de carruagem. Cutter moveu

a cabeça num lamento.

Harold tomou a carta, uma educada nota do procurador das terras de

Medford. O dinheiro tinha acabado. Aparentemente, não existiam mais chances

de ele recuperar seu prejuízo.

Bateu com o punho sobre a mesa.

— Maldição!

Não importava que agora pudesse arcar com a perda. O barão o havia

usado. E mesmo que ele não fugisse à regra, não gostava de ver o jogo

invertido.

Harold trincou os dentes.

— O que me irrita é como alguém como ele é considerado da alta

sociedade, enquanto, não importando o quanto eu estude, o quanto eu invista, o

quanto eu avance, continuo sendo um excluído. De qualquer forma, aposto que

a filha de Medford não está sorrindo agora — completou, finalmente

agarrando-se a um pensamento que o agradava. — Atormentou-me por anos


com sua aceitação indiferente, julgando-se boa demais para mim. A piranha

teve a audácia de me estapear — revelou Harold com os dentes cerrados. —

Como se tivesse opção melhor!

A raiva o inundou quando se lembrou de seu último encontro.

Cutter jogou o jornal na lareira e lhe dispensou alguma atenção.

— Não vi nenhum anúncio de casamento sobre ela no The Times. Todos

na cidade sabem que a moça está sem nada.

Então Liz havia falhado. Em breve, aprenderia qual a sensação de ter de

agradar e se curvar por qualquer punhado de aprovação. Em breve,

compreenderia a sensação de ter as portas fechadas diante dela porque não era

rica o suficiente, ou, como no caso dele, por não haver nascido de uma

linhagem nobre.

Harold sorriu. A ideia do desconforto de Liz dava-lhe prazer.

Cutter pôs-se de pé.

— Preciso partir. Tenho um compromisso com meu alfaiate. Lamento por

suas perdas, Wetherby.

Harold concordou em silêncio, acenando para o amigo e escolhendo

ignorar o tímido desgosto que flagrara na voz do homem.

Não importava. Liz Medford ainda poderia lhe ser útil. O pai não

pagaria suas dívidas... Mas ela poderia fazê-lo.

O duque mantinha a palavra. Mesmo após a partida para Londres dos

convidados dos Grumsby, permaneceu na casa. Onde quer que Liz fosse ele

estava lá.

Ela se perguntava por quanto mais ele poderia prolongar a visita.

Poderia despistá-lo naquele jogo de gato e rato antes que sucumbisse àqueles

olhares cheios de desejo e significado que Alex lhe lançava quando não havia

ninguém mais por perto?

Aquilo estava errado. Era perigoso sentir-se assim.


Alguém na festa contara uma piada e, a julgar pela gargalhada do duque

e pela expressão chocada de várias das jovens donzelas, a anedota não era leve.

Ela, todavia, não acreditara nem por um minuto no choque das moçoilas. Uma

delas, inclusive, usara a oportunidade para fingir um delicado desmaio,

mirando os braços do duque.

Suspirou. A cada ano, cada mãe casadoira desejava que sua filha fosse

aquela a fisgá-lo. Quando Alex se decidisse por se casar, e deveria fazê-lo, a fim

de passar adiante suas terras, provavelmente seria com alguém inesquecível,

um diamante lapidado. Não alguém como Liz Medford.

Naquela manhã, as crianças estavam fora com o pai, um homem a quem

Liz aprendera a respeitar. Assim, ela havia aproveitado a liberdade

momentânea para escolher um livro de poesia na biblioteca, onde estivera

distraída demais na última vez, e levá-lo até seu banco preferido, no jardim.

Sua mente, no entanto, não podia concentrar-se nas palavras. Em vez

disso, deslizava das frases doces e pousava sobre Alex.

Havia parado de tentar evitá-lo. Isso não apenas era impossível, mas,

após a intimidade daquele beijo, ansiava por sua presença, de modo que não se

surpreendeu ao vê-lo caminhar em sua direção.

Sentou-se mais ereta, conscientemente reunindo defesas. Não poderia

arcar com mais indiscrições.

O lembrete fez pouco, no entanto, para amainar o júbilo que lhe encheu o

peito à medida que o homem se aproximou.

— Um belo dia para leituras, Srta. Medford. A senhorita compõe uma

bela imagem com esse banco, cercada por rosas.

— Vossa Graça. — Levantou-se e fez a cortesia. O homem era um mestre

dos galanteios, mas ela sabia o suficiente para que não os levasse, ou a ele, a

sério demais. Alex já havia encantado legiões de mulheres. Ela era apenas a

mais recente na fila das que tinham capturado sua atenção.

Mas, ah, como queria acreditar que fosse diferente!


— Por favor, sente-se — ele convidou.

Liz sentou-se, e ele se pôs a seu lado. Se alguém compunha uma bela

imagem com o que havia ao redor, naquela manhã, esse alguém era ele. Alex

era tão bonito quanto amável, observou em pensamento. Vestia calças e uma

bela camisa de lã, além de uma casaca de uma púrpura profundo. O vento

brincava com seus cabelos, e ela resistiu à tentação de ajeitá-los com os dedos.

— Gostaria de acompanhar-me em um passeio, amanhã à tarde? Creio

que nossa conversa na biblioteca foi interrompida, e estou ansioso por continuá-

la.

— Milord é muito gentil, mas eu não poderia.

— Por que não? Amanhã é domingo, e sei que minha irmã gosta de

passar os domingos com as crianças. Parece-me que estará livre... A não ser é

claro, que queira me evitar.

— Não, Vossa Graça, é claro que não. — A resposta escorregou antes que

ela pudesse pensar em algo melhor.

— Então vai vir?

Ela deveria dizer que já havia feito planos. Mas que planos? Alex pôs as

mãos sobre as dela, o polegar perfazendo círculos por sua palma.

— Conheço um caminho agradável que podemos tomar. As flores

acabaram de nascer. Assim como você... Um belo botão desabrochando diante

de meus olhos.

Liz sentiu-se quente.

— Seus galanteios são ultrajantes, Vossa Graça. Não creio que sejam

apropriados.

— É essa sua preocupação, então? Ser apropriada? — Tocou-lhe a parte

interna do pulso.

— É claro — conseguiu dizer, mas a voz saiu como um sussurro.

Alex sorriu mais. Sabia muito bem o que estava fazendo. Liz virou-se,

porém ele tomou-lhe ambas as mãos.


— Não há razão para timidez. Sei que não é avessa às minhas atenções.

De outra forma, jamais teria vindo a mim com aquela proposta fascinante.

Deixe-me ver... Como foi que você colocou? Ah, sim. Pediu-me que a

arruinasse.

Liz levantou-se, indignada.

— É muito pouco galante de sua parte, milord, trazer isso à tona outra

vez — ralhou, ainda que, pela diversão visível nos olhos do homem, a bronca

tivesse surtido pouco efeito.

Alex deu-lhe um puxão no braço que a fez cair sentada de novo; desta

vez, bem mais perto.

— Além do mais, aquilo ocorreu quando pensei que seu envolvimento

seria benéfico — ela continuou nervosa, tentando ignorar o fato de que suas

coxas roçavam. Deus fosse louvado pela quantidade de tecidos que os separava.

— Agora que consegui evitar meu pretendente indesejado e que arranjei um

emprego por conta própria, não há nem mesmo a necessidade de que pense em

mim.

— Discordo. — Ele deslizou para ainda mais perto, e o brilho intenso em

seus olhos denunciou que pretendia beijá-la. — Estou bem certo de haver essa

necessidade.

Ela se inclinou para trás, o calor subindo-lhe pelas faces.

— Haveria vantagens para você.

Ela inclinou a cabeça, incerta sobre como responder.

— Deixe-me ser ousado... Quero tê-la como amante.

— Dificilmente essa é uma posição que almejo Vossa Graça!

— Ao contrario, cherie. Como minha amante, você teria muito mais luxo

do que poderia conseguir como governanta.

Liz desviou o olhar.


— Pense Liz — ele disse o tom mais gentil. — Ambos sabemos que você

não foi feita para o trabalho de governanta. E uma criatura por demais

apaixonada. — Com o dedo, acariciou-lhe o queixo.

— A profissão de governanta é bem mais respeitável do que a que me

oferece, milord — ela respondeu, pondo-se tão rija quanto uma estátua. —

Minha família pode estar decepcionada comigo, mas, ao menos não estou

arruinada aos olhos da sociedade. Como quero me manter digna, prefiro ser

uma governanta de reputação ilibada.

— Incrível que, há tão pouco tempo, você estivesse tão tranquila quanto

à ideia de ser arruinada. E, sinceramente, ainda acho que minha oferta é bem

melhor do que trabalhar como governanta.

— Eu estava um tanto desesperada quando sucumbi àquela ideia insana.

Por sorte, voltei a meu juízo e encontrei algo mais estável. Se eu fosse sua

amante, estaria em constante risco de perder minha posição, pois seu interesse

em mim acabaria desaparecendo, como desapareceu com tantas outras... E

então, como eu ficaria?

Alex afastou o argumento com um abanar da mão.

— Você se subestima.

— Não posso saber ao certo, Vossa Graça. É melhor que eu cuide da

minha reputação.

— De qualquer modo, sente-se atraída por mim.

A confiança na voz a fez querer estapeá-lo. Era verdade, claro, e ele sabia

disso.

— Esse não é o ponto.

— Então por que me beijou na biblioteca?

Agora ele a tinha apanhado. Poderia argumentar que fora ele quem

iniciara o beijo, mas ambos sabiam que ela havia correspondido.

— Não precisa decidir agora. —Alex se levantou. —Apanho-a amanhã,

por volta das duas horas. Vamos até o campo. — As feições benfeitas
suavizaram-se por um instante. — Minha carruagem estará sem a insígnia. Não

precisa temer ser vista.

— Milord vai perder seu tempo. Eu não irei. O duque lançou-lhe um

sorriso tolerante.

— Acho que vai, sim.

Liz estudou o chão. Ele a conhecia bem demais. Alex deu-lhe um beijo

nas costas da mão e começou a se afastar.

— Estarei contando as horas.


Capítulo 2

Alex esfregou as têmporas e encarou a carta sobre a mesa. Na volta do

jardim, encontrara uma pilha de correspondências à sua espera. Seu secretário

havia sabiamente reunido todas e feito com que fossem entregues na casa dos

Grumsby, sabendo que seu patrão não era do tipo que deixava os negócios para

trás.

Por um momento, ele desejou que o assistente fosse menos eficiente, já

que não tinha qualquer desejo de ler aquela carta em particular.

Mesmo após sua morte, o barão Medford continuava a ser uma pedra em

seus sapatos.

Estava bem ciente de que o homem havia falecido ainda lhe devendo

uma quantia considerável, mas ficou um tanto surpreso ao ver que o salafrário

tinha mantido o controle sobre a dívida. Agora, o procurador de Medford

enviava uma carta explicando o status de seus bens após a morte.

E, resumindo a questão: não havia mais bens.

Alex rasgou a carta ao meio. Revoltante. Homens na situação de Medford

não tinham por que jogar. O infeliz destruíra uma respeitável fortuna na mesa

de apostas.

Tentar recuperar a quantia seria em vão. Àquele ponto, ficaria contente

em jamais ser lembrado de sua ligação com o barão.

A filha de Medford, por outro lado, era um assunto completamente

diferente. Liz o desconcertava. Quando ele lhe oferecera a posição de amante,

fizera isso, em parte, para ver como ela reagiria.

E ela o havia surpreendido.


Ele a tinha tomado por farsante, mas, afinal, atrás de que Liz estaria? Em

um minuto, derretia-se em seus braços. No seguinte, informava-lhe preferir

uma vida respeitável de quase penúria aos luxos que poderia receber sob sua

proteção. Por quê?

Aquela cascata de cabelos vermelhos deveria estar espalhada em seu

travesseiro, e não metida num chapéu de governanta.

Droga. Ele perdera horas de sono sonhando com aquele beijo.

Tinha, no entanto, feito à promessa de dissociar-se de qualquer novo

envolvimento com alguém que carregasse o nome Medford. E fora essa aquela

promessa que o fizera declinar da proposta de Liz, naquela manhã, no Hyde

Park.

Agora que a conhecia melhor, só podia lamentar sua decisão.

Serviu-se de brandy. Pensando bem, o que seria mais uma promessa

quebrada em uma vida de pecados?

Começou a pensar que lorde Medford, de maneira bastante estranha,

talvez tivesse tramado algo quando tentara aproximá-lo de Liz.

Correu as mãos pelos cabelos. Devia estar louco se começava a confiar no

julgamento do velho barão.

Entornou o copo, saboreando o malte enquanto este lhe descia pela

garganta. E pensar que, em outros tempos, considerara Medford como um

amigo!

Aquilo, no entanto, fora antes que ele aprendesse sobre sua verdadeira

natureza. Tinham jogado, com ele presumindo que o barão pudesse, mais cedo

ou mais tarde, cobrir suas perdas.

A certa altura, ele, Alex, mencionara algo sobre o pagamento da dívida,

mas Medford protelara o assunto, o que lhe dera a sugestão de que as coisas

não eram como pareciam.

Finalmente, o homem se aproximara com desculpas e com uma proposta

tão vil que ele ainda tinha dificuldade para conceber.


Medford o encontrara no White's, naquela noite. Esperara até que seus

parceiros houvessem abandonado a mesa e que os criados estivessem afastados.

— É algo difícil para um homem dizer — murmurara sem encontrar-lhe

os olhos —, mas, por ora, eu não posso cobrir essas dívidas. É um momento

ruim.

Alex balançou a cabeça ao se lembrar da cena. Sentira-se pesaroso sobre

o velho. Irritado, sim, mas também compassivo, imaginando que o problema

seria temporário.

— De quanto tempo precisa?

— Esse é o problema. Não posso dizer... Mas pensei que talvez houvesse

uma maneira de ficarmos quites.

— Estou ouvindo.

— Você pode tomar minha filha mais velha em casamento.

— Como?

— Pensei que, se juntássemos nossas famílias, minhas dívidas não mais

importariam. Liz é uma menina atraente.

— Sua ideia é uma aberração, Medford. — Ele rosnara por entre os

dentes. — Em primeiro lugar, os dias em que homens pagavam dívidas usando

mulheres se encerraram séculos atrás. E é essencialmente isso o que você me

propõe. Além do mais, em geral a coisa funciona ao contrário: mulheres vêm

com um dote, o que as torna mais atraentes para os homens.

E ele não precisaria do dote de mulher alguma. Mas aquilo não mudava

o princípio por trás da ideia.

— Liz é especial! — insistira Medford, e ele detestara o desespero que

ouvira na voz do homem.

— Nem conheço a menina!

Não apenas não a conhecia, mas não tinha a intenção de se casar com

ninguém tão cedo.

— E isso importa em um casamento da cidade?


— Medford, você me enoja. Está tentando transformar suas perdas em

lucro. Apenas pense: você ficaria livre das dívidas, teria uma filha solteira

liberada de suas mãos, e, acima de tudo, teria uma aliança com uma das

famílias mais antigas da Inglaterra. Exatamente como você vê isso tudo como

uma maneira de, como você diz, "ficarmos quites"?

O barão torcera uma carta nas mãos e se mantivera em silêncio.

— Agora, se ela quiser sanar suas dívidas de outra maneira... — ele falara

com crueldade deliberada, desejando ver o homem, traiçoeiro como era,

revolver-se um tanto.

De qualquer modo, por mais familiarizado que estivesse com o deboche,

ele não tivera a intenção de arrastar uma menina inocente para dentro do

assunto.

— Escute aqui — respondera Medford, o rosto pálido. — Liz é uma

menina respeitável que precisa se casar. E Vossa Graça deve pensar em um

herdeiro.

Inacreditável o que o homem pensara ser capaz de conseguir. De

maneira alguma, ele teria se casado com uma mulher a quem jamais houvesse

visto.

— Isso não é assunto seu.

— Não. — admitira o barão. — Lamento.

Alex apertou os olhos ao se lembrar da cena. Sabia que algumas famílias

enxergavam suas filhas como uma garantia, graças à ascensão social que estas

conseguiam ao se casar. Ainda assim, revoltara-o ouvir aquele homem dizendo

aquilo em voz alta.

— Suponho que consideremos essa opção — insistira Medford. — Se Liz

a aceitar, e se conseguirmos fazer com que a mãe não saiba...

— Não! — ele dissera categórico. — Esqueça o que falei homem de Deus.

Isso seria vil demais. Apenas pague quando tiver recursos.


Em seguida, ele partira rapidamente, ansioso por não ver mais o barão

pela frente. O homem era um jogador, um tratante e, a julgar pelo que estava

prestes a aceitar, um cafetão.

O que mais irritava Alex era como havia julgado mal o pai de Liz. Ainda

mais ele, que sempre se orgulhara de sua habilidade para descobrir o caráter

das pessoas. Naquele caso, tinha errado de forma retumbante.

Jamais jogava com um homem incapaz de arcar com suas perdas. Aquilo

mantinha as coisas civilizadas. Mas o comportamento fácil do barão, diferente

das faces e olhares vazios dos outros desesperados, o havia enganado a ponto

de ele achar que não precisaria investigar mais fundo.

Ao menos até aquela última noite.

Depois disso, ele se transferira para um clube mais exclusivo, e tratara de

esquecer a dívida de Medford. Pacíficos oito meses tinham transcorrido desde

então, e, embora ele não houvesse sido pago nesse meio tempo, acreditara-se

livre do trapaceiro.

Até uma fatídica noite de outubro.

Jogou a carta do procurador na lixeira e se levantou, notando que o sol

pousava um tanto mais baixo no céu do que quando começara a ler a

correspondência. Cansado, esfregou a nuca.

Por que, de todas as famílias na Inglaterra, a bruxinha de cabelos

vermelhos tinha de ter saído daquela.

A carruagem à espera, no final da estrada, não era o veículo usual de

Alex, mas sim algo simples, negro e discreto. Como ele tinha prometido, não

havia nenhum brasão de seu ducado nos lados, e o condutor não usava nada

que o fizesse ser reconhecido.

Ela sorriu ao se aproximar. Mesmo que alguém a visse entrar no coche,

não saberia a quem este pertencia.

O condutor a ajudou a subir, depois fechou a porta.


Alex a assistiu entrar, sentindo-se bastante feliz por não ter sido evitado.

Aquilo, por si só, dizia-lhe tudo o que precisava saber.

Liz sentou-se à sua frente, e Alex pensou em remediar aquilo,

visualizando-a em seu colo.

— Estou feliz por ter vindo — cumprimentou-a, educado, em vez disso.

Ela podia ser uma foragida da nobreza, mas era ainda uma mulher de berço.

O pensamento o fez pausar e se dar conta de que, se realmente se

importasse com aquele tipo de coisa, não a teria convidado para o passeio em

primeiro lugar.

E, se ela fosse rígida sobre tais papéis, não o teria aceitado.

— Foi gentil de sua parte me convidar, Vossa Graça.

A carruagem deu um pequeno tranco quando o condutor puxou as

rédeas. Alex o havia instruído para que seguisse em direção ao campo, sem

qualquer destino, e o cocheiro, um criado bem treinado que sabia quem lhe

pagava o salário, não fizera qualquer pergunta.

— Como vão meus sobrinhos?

— Muito bem. São crianças adoráveis. Henry começou os estudos de

Matemática e está progredindo muito.

— Bom.

Mergulhou no silêncio. Liz fez o mesmo, ainda que a tensão parecesse

ocupar todo o espaço entre os dois.

Ela olhou para o lado de fora, mas, um instante após, Alex a flagrou

observando-o pelo canto dos olhos.

— É um ótimo dia para visitar os campos — ela murmurou, esticando

uma ruga inexistente no vestido.

Alex inclinou-se para frente e puxou as cortinas. Seus joelhos roçaram,

arrancando da moça uma breve exclamação.

— Acho a visão do interior da carruagem mais fascinante — ele

murmurou com voz rouca.


Para sua surpresa, Liz encontrou-lhe os olhos, enquanto respondia.

— Confesso que eu também estou enamorada pela visão daqui.

Era pouco mais do que um sussurro, mas ela não desviou o olhar.

Alex admirara sua ousadia e honestidade desde a primeira vez em que

haviam dançado, no baile dos Peasley. Agora, admirava ainda mais. Ela estava

evidentemente nervosa, mas não era nenhuma covarde. Sabia por que estava

ali, e ele a respeitava por isso.

— Está escuro aqui. Talvez, caso eu me sente mais perto, possa aliviar

seus olhos — provocou, enquanto se acomodava ao lado dela.

Pôde vê-la engolir em seco, mas não a deixaria escapar tão facilmente.

Em vez disso, curvou a cabeça, de modo a traçar uma linha de beijos pelo

pescoço alvo. Liz continuou muito ereta, ainda incerta sobre até onde

prosseguir no jogo íntimo que disputavam.

Traçou outra vez a linha do pescoço com os lábios, notando, com prazer,

que Liz inclinava a cabeça de leve, garantindo-lhe acesso total. Lambeu-lhe o

lóbulo da orelha e então mergulhou a língua para explorar seus sensíveis

recônditos.

As mãos delicadas se agarraram ao vestido e ele pôde ouvir um mínimo

som escapar-lhe do fundo da garganta.

Seus lábios começaram um trajeto que mirava o canto da boca rosada.

Liz virou o rosto e o encontrou na metade do caminho, arrancando-lhe um

gemido de pura satisfação enquanto capturava-lhe os lábios em um beijo

faminto.

De súbito, Liz interrompeu o longo beijo e traçou outros, menores, ao

longo de sua mandíbula, assim como ele havia feito com ela antes. Alex deixou

a cabeça pender, tomando prazer na constatação de que ela queria tocá-lo.

Sentiu o corpo latejar de desejo, insatisfeito com os beijos inocentes em seu quei-

xo. Quando não pôde mais suportar a tortura, virou o rosto e pleiteou-lhe os

lábios mais uma vez, faminto, penetrando a boca totalmente, a língua levando o
beijo até novos níveis de intimidade, enquanto empurrava-lhe as costas contra o

encosto acolchoado da carruagem. Suas mãos ávidas buscaram o corpete,

moldando e abrigando os seios pequenos. Alguém gemeu de desejo, mas ele

não pôde concluir qual dos dois. Enlevado, abandonou a boca macia para beijar

os montes por cima do tecido, as mãos trabalhando para liberá-la do que

parecia uma quantidade interminável de panos.

Liz o acariciava nos cabelos, nos ombros, encorajando-o e implorando

para que se apressasse, para que satisfizesse a necessidade que consumia a

ambos.

Quando ele quase havia realizado a tarefa, a carruagem deu um grande

tranco, rompendo-lhes o abraço e atirando a ambos ao chão.

O veículo inclinou-se precariamente para um lado, e Liz arregalou os

olhos, alarmada. Ambos se protegeram, mas, com uma sacudida final, a

carruagem endireitou-se e parou, estagnando em um ângulo desconfortável.

Alex largou o encosto do banco e soltou o ar. Segurou o trinco e abriu a

porta.

— Maldito vira-latas! — praguejou o condutor.

— O cão correu para baixo das rodas?

— Mil perdões, Vossa Graça. Os cavalos deram de lado para evitar a

criatura e nos levaram a um sulco na estrada. Culpa minha. Eu devia estar mais

atento.

Alex examinou a roda quebrada e suspirou quando Liz parou a seu lado,

ainda corada e lânguida por conta de seus beijos.

— Que tal um passeio a pé? — perguntou pesaroso.

Marian Grumsby estava feliz porque o irmão estendera sua visita. Ele

tinha alegado apreciar o ar livre, a paz da vida no campo, e ela o recebera para

que ficasse por quanto tempo quisesse.

Mas não era tola. Alex jamais permanecia fora da cidade por muito

tempo, e existiam poucas distrações para ele por ali.


Por outro lado, Alex já não era o mesmo havia oito meses. O constante

fluxo de mexericos sobre seu comportamento tinha cessado. Marian não sabia

ser aquilo motivo para preocupação ou alegria.

— Decidi retornar a Londres amanhã. Marian pousou a taça de vinho.

— Então finalmente o entediamos?

— É claro que não. Mas andei negligenciando meus negócios e

propriedades por tempo demais.

— Mal se passaram duas semanas... É certo que suas mansões ainda não

estão desmoronando.

Alex sorriu de volta, mas o sorriso não lhe chegou aos olhos. O que a fez

pensar, e não pela primeira vez, se o irmão alguma vez conhecera a verdadeira

felicidade.

— Ao menos, me prometa que não vai demorar tanto até sua próxima

visita.

— Tem minha palavra. Henry e Clara são encantadores, e tenho a

intenção de montar o cavalo de Brian de novo, uma vez que esteja mais bem

treinado.

Liz estava confusa. Havia estado absolutamente certa de que, depois do

abortado passeio de carruagem, Alex redobraria seus esforços para seduzi-la,

mas, em vez disso, ele tinha desaparecido.

Dizer a si mesma que era melhor assim não adiantava. Estivera à beira da

completa rendição, apenas para acordar na segunda-feira e descobrir que o

duque tinha partido.

Assim, ela passara a manhã dando aulas para Henry e Clara, mas

entregara as crianças à outra criada de bom grado na hora do almoço. Agora

caminhava pelo pequeno quarto, imaginando o que saíra errado.

Devia estar aliviada pela partida de Alex. Cada momento a sós ao lado

do duque era uma ameaça à sua reputação.

Seu coração, no entanto, recusava-se a ouvir a lógica.


Após o que tinha ocorrido na carruagem, por que ele não havia ficado

para concluir a sedução?

Corou, cheia de culpa. Verdade que tinha sonhado com o duque por

anos, mas, recentemente, seus sonhos tinham tomado um rumo perverso:

queria muito saber como seria se deitar-se com um homem. Beatrice lhe

descrevera o ato, mas não podia imaginar como os beijos que ela e Alex tinham

trocado poderiam levar até o processo doloroso e impessoal que a amiga

suportara. Agora, talvez, jamais descobrisse.

Alex havia partido sem nem mesmo se despedir dela. Significaria tão

pouco para ele? Seria Alex realmente como diziam? Um desavergonhado

sedutor de mulheres?

Por sorte, na terça-feira, ela recebeu uma carta que lhe desviou o

pensamento do sensual, porém imprevisível duque. A escrita familiar no

envelope trouxe-lhe um sorriso ao rosto, que sumiu, entretanto, enquanto ela lia

o conteúdo da missiva de Charity.

Querida Liz,

Não é a mesma coisa sem você em casa. Mamãe não fala com ninguém, exceto,

talvez, com nosso tio; e apenas quando ele termina seus sermões sobre bons

comportamentos. Eles suspeitam de que sei onde você está, mas eu não disse uma só

palavra, o que apenas aumenta sua ira. Não que eu a culpe por ter partido. Lady

Pullington disse-me para onde escrever, e estou muito feliz que tenha encontrado um

emprego.

E a despeito de tudo, estou bem. Exceto pela coisa mais constrangedora. Esta

manhã estava eu retornando do parque com Mary Sutherby e a mãe dela. Subíamos os

degraus quando um mensageiro parou diante da casa. Eu disse que levaria a mensagem,

poupando-o do trabalho de entregá-la formalmente, e é claro, você sabe o quanto sou

curiosa... Eu não poderia apenas entregá-la à mamãe, embora estivesse endereçada a,


lady Medford. Depois que Mary partiu, lancei mão daquele truque que você me ensinou:

usar o vapor para afrouxar o selo.

No fim, a carta era de mais um dos cobradores de papai.

Você se lembra de um broche que papai lhe deu quando você fez quinze anos?

Sinto-me péssima ao dizer isso, mas a loja onde ele o comprou vendeu a joia a crédito. E

ele nunca pagou por ela. A carta diz que esperaram respeitosamente enquanto a família

saía do luto, mas que agora precisam pedir o pagamento.

O que podemos fazer? E claro que não podemos cobrir essa dívida.

Você ainda tem o broche? Acha que a loja o aceitaria de volta? Lamento tanto

pedir isso a você, Liz, mas não tenho aqui nenhuma outra coisa de valor para usar como

pagamento. Por favor, avise-me assim que puder.

Cuide-se, minha irmã. Vou arrumar um modo de visitá-la.

Da irmã que a ama,

Charity.

Liz leu a carta duas vezes, dobrou-a com cuidado e a guardou no

pequeno baú. Vasculhou o fundo da arca, extraindo uma bolsinha de veludo.

Sentou-se e entornou o conteúdo sobre as mãos.

O broche piscou para ela, uma peça de pequenas e delicadas esmeraldas.

Para combinar com seus olhos, o pai havia dito. Ficara tão orgulhosa quando o

recebera de presente! Minha pequena menina já crescida, dissera o pai.

Sentiu a garganta se apertar. Por pior que houvesse sido, o pai gostava

dela. Ela se recusava a pensar de outra forma.

Agora sabia que ele não devia tê-la presenteado com tais coisas, claro.

Mas, talvez ele realmente pretendesse pagar por aquele broche algum dia.

Ainda assim, mais de um ano havia se passado entre a compra e a morte

do barão, o que significava que os fundos de lorde Medford andavam em baixa

desde muito antes que alguém soubesse. E ela fora criada para acreditar que

tomar sem pagar era roubo.


Céus! Doía-lhe pensar no pai como um trapaceiro..

Guardou a joia dentro da bolsinha, notando o nome da loja bordado em

trama dourada sobre o veludo: Gertman's.

Não havia maneira de o salário de governanta permitir joias como

aquelas. Por mais que doesse, precisava rezar para que a loja aceitasse o broche

em vez do pagamento.

Levantou-se para apanhar papel. Escreveu um recado ao joalheiro,

requisitando um encontro, e outro a Charity, avisando que a irmã não se

preocupasse.

— Milord vai querer mais alguma coisa? Temos uma sala de jantar

particular, se preferir.

— Não, obrigado. — Alex balançou a cabeça impacientemente. Não

pretendia parar no White Hart. Estava a caminho de uma visita surpresa à irmã,

bem ciente de que era domingo e que Liz teria a tarde livre.

Ao passar pela estalagem, contudo, tinha visto ninguém menos do que a

própria Liz Medford, bela como sempre, caminhando em direção à entrada.

Curioso, seguira-a até o lado de dentro, certo de que não fora visto.

Ela analisara o recinto. Um homem desconhecido, de cabelos ralos e

usando pequenos óculos de grau levantara-se para recebê-la. Liz havia tomado

uma cadeira, tensa.

As entranhas de Alex se revolveram quando ele se aproximou.

Liz ergueu a cabeça e seus olhos cintilaram de surpresa. Ou seria medo?

— O que está fazendo aqui?

— Estava prestes a perguntar o mesmo.

Ela endireitou os ombros.

— Não é da sua conta, Vossa Graça.

— Tudo seu é da minha conta.


— Nisso, teremos de discordar. — Ela lançou um olhar nervoso ao

homem. — Vossa Graça; tenho assuntos a tratar. Posso pedir que me

aguardasse em outro lugar?

— Sem dúvida. Acho que vou jantar. Estou faminto.

Dito isso, ele tomou um assento a três mesas de distância. Uma ova que

partiria antes de descobrir o que Liz estava tramando.

Pediu um guisado, no qual não tinha qualquer interesse, e continuou a

observá-la enquanto o taberneiro se movimentava a seu redor, ansioso por

agradar.

O taberneiro finalmente se afastou para atender outros clientes. Alex

mirou a própria caneca, repensando a atitude de perseguir a deleitável Srta.

Medford. Moveu a cadeira de leve, tentando obter melhor visão do homem

diante de Liz.

Foi então que a viu tirar um pequeno saco de veludo da bolsa e exibir seu

conteúdo para o sujeito. Suas vozes eram baixas demais para que as ouvisse. E

isso, sem dúvida, por causa de sua presença. Mas era claro que negociavam.

O homem apanhou uma grossa lente e pôs o broche por baixo.

Liz estava vendendo uma joia, concluiu, e sentiu uma ponta de

compaixão.

Isso até se dar conta de que ela preferia vender suas posses a se tornar

sua amante. E que estava até arriscando um encontro clandestino com um

estranho, em um lugar público, a fim de fazê-lo.

— Impossível! — exclamou Liz.

Alex apertou os olhos. O homem diante dela deu de ombros, como se

pedindo desculpas.

— Estou dizendo a verdade, Srta. Medford. — Alex pôde ouvir a

conversa claramente agora. — Se a senhorita conhecer o paradeiro do

verdadeiro broche, minha loja o aceitará de volta. Mas não é este aqui. —

Devolveu-lhe a peça.
O rosto de Liz se tingiu de vermelho, e ela fechou a mão em volta da joia.

Ela não estava ali para vender joias, mas sim para devolver uma!

— Não pode ser — Liz gemeu, arrasada. Então escondeu o rosto nas

mãos. — Tem de ser verdadeiro... Foi um presente!

Vê-la naquele estado pareceu tocar o sujeito.

Num impulso, Alex se levantou e aproximou-se da mesa.

— Posso ser de serventia aqui? — perguntou, decidido.

Liz sacudiu a cabeça, sem nem mesmo erguer o rosto das mãos. Então,

parecendo lembrar-se dos bons modos, olhou para cima e levantou-se, fazendo

uma reverência.

— Perdoe-me, Vossa Graça, eu...

— Qual a causa desse seu desespero? Ela passou os dedos trêmulos pelos

olhos.

— Uma questão pessoal.

O representante da loja se levantara também, mas permanecera em

silêncio.

— Se o motivo de sua angústia é a adorável joia que examinavam, o

assunto está resolvido, - Alex declarou.

— Mas...

— Já que, aparentemente, o comerciante não deseja a devolução da peça,

posso torná-la um presente para a senhorita. — Lançou um olhar significativo

na direção ao joalheiro, que manteve a expressão neutra enquanto informava o

preço do broche original, embora ambos soubessem que aquele, na mão de Liz,

não passava mesmo de vidro. — Envie a conta ao meu secretário, por gentileza.

— Entregou ao sujeito um cartão, junto a uma nota de vinte libras. — Para o

senhor. Não quero qualquer menção ao meu envolvimento neste episódio,

tampouco ao seu encontro com esta jovem donzela, sim?

— É claro, Vossa Graça.

— Então creio estarmos conversados.


— Sem dúvida. Obrigado. — O vendedor curvou-se e partiu agilmente,

na certa pensando em como gastaria a generosa quantia que acabara de ganhar.

Alex virou-se para Liz, cujas faces exibiam dois círculos rosados

enquanto ela se mantinha com os olhos fixos na mesa.

— Estou tão envergonhada — sussurrou com voz trêmula.

— Que motivos têm para isso?

— O broche não é verdadeiro. Jamais pensei... Meu pai o deu a mim! Era

tão especial... E ele deve ter vendido o verdadeiro e o substituído por este que

não passa de metal e vidro.

Alex se condoeu outra vez.

— Não é culpa sua.

Enfim, Liz encontrou-lhe os olhos.

— Obrigada pelo que fez. Vossa Graça me salvou de uma situação

desesperadora. Não posso compensá-lo agora, como deve saber. Mas prometo

que vou economizar meu salário e...

— Shhh. — Alex pôs um dedo sobre os lábios rosados. — Você não me

deve nada.

— Mas...

— Liz, você me atormenta. Nas últimas duas semanas; pensei em muito

pouco além de você. — Ele manteve o tom galante, ainda que as palavras

carregassem mais verdade do que estava pronto a admitir. Acariciou-lhe os

braços e tomou-lhe as mãos, notando que o taberneiro se encontrava distraído,

nos fundos da casa. Então se inclinou para um beijo rápido.

Mas um movimento próximo à porta o distraiu. Um homem se

encontrava na soleira, o rosto virado de perfil, parecendo dar uma última

palavra ao rapaz do estábulo antes de adentrar o recinto.

Alguém que Alex esperava jamais ver de novo. Que diabo ele estaria

fazendo ali?
Sentiu a testa minar suor e as entranhas se revolvendo. O traje de

camponês que o sujeito vestia era diferente do de criado que usara quando Alex

o vira pela última vez.

Mas o rosto era inesquecível.

Fuston. O antigo cocheiro dos Medford. O homem que conduzia o barão

na noite de seu acidente.

Era fundamental, deu-se conta, que Liz não o visse. Se ela o visse, iria

reconhecê-lo e poderia fazer perguntas sobre o pai.

Perguntas que ele preferia manter em silêncio.

Sem pensar duas vezes, agarrou Liz e cobriu-lhe os lábios com um beijo

tão impetuoso que quase a fez cair para trás. Segurou-a com força, movendo-se

de costas e puxando-a consigo.

Alex ignorou-lhe os tímidos protestos e continuou a puxá-la consigo em

direção aos fundos da taverna, jamais interrompendo o beijo. Passaram pelo

taberneiro surpreso, mas bastou um rápido e disfarçado olhar para que este

apontasse uma porta aberta.

Ele procurou pela maçaneta atrás dele, a língua explorando, selvagem, a

de Liz, enquanto manobrava a ambos para dentro do recinto reservado.

— Inferno! — exclamou, tão logo conseguiu fechar a porta. Liz arregalou

os olhos, confusa.

— Perdoe-me — Alex murmurou, inspirando pesadamente, embora

surpreso com a intensidade da reação de seu corpo diante de um beijo que não

podia ter durado mais do que trinta segundos.

Ela sorriu trêmula

— Fico honrada, milord, que tenha sentido tanto a minha falta.

— Você não faz ideia — ele sussurrou, suavizando o abraço. Eu

simplesmente não estava disposto a deixá-la ir.

Embora aquilo não fosse mentira, Liz não podia saber do outro motivo

que o fizera adotar atitude tão impetuosa.


De qualquer forma, havia poucas chances de que Fuston os tivesse

olhado o suficiente para reconhecê-los. E ainda menos chance de que os

seguisse.

O que significava que agora só precisariam passar o tempo até que o

sujeito partisse e ele e Liz pudessem sair dali.

Vendo-se ainda presa ao corpo forte, ela sucumbiu à paixão e passou a

contemplá-lo com pequenos beijos ao longo do queixo. Tímida, deslizou as

mãos para dentro da casaca, seu calor ultrapassando o tecido da camisa.

O desejo o consumiu. Curvou a cabeça e encontrou os lábios carnudos

com ânsia. Liz se deixou beijar sorrindo, e Alex acabou fazendo o mesmo,

puxando-a mais contra si. Ela era tão quente e macia... Por mais de duas

semanas ele havia pensado em pouco mais além do que aquilo.

Sentiu o corpo enrijecer com a necessidade de torná-la sua. O sorriso de

Liz evaporou, e seus olhos se arregalaram para fitá-lo diante da volumosa

evidência.

— Ah, Liz — ele murmurou aflito. — Você deveria me pedir para parar.

— Com pesar, afastou-a de si.

Ela piscou o fôlego arfante, o corpo inundado com a necessidade de tocar

e ser tocada. A maior parte de sua vida tinha sido ditada pelo que ela devia

fazer, e aquilo jamais a deixara feliz.

Encarou-o. Os olhos do homem prometiam um calor indizível.

Mas continuar por aquele caminho seria sua ruína.

Por outro lado, ela já era uma excluída... Não podia suportar a ideia de

afastar-se do único homem que a fazia sentir-se bela, desejável.

— Não posso pedir que parasse. — decidiu com voz rouca. — Não quero

que pare.

Alex respirou pesado. Vinha segurando o fôlego, Liz notou com uma

ponta de orgulho. Ele a desejava tanto quanto ela a ele.

Deu um passo para perto, ousada, e ele ergueu a mão.


— Liz...

Ela corou, mas fitou-o, faminta por mais um beijo.

Alex estreitou os olhos escuros, cheio de paixão, e, devagar, correu um

dedo por seu pescoço e colo. O toque era delicado em contraste com a

intensidade de sua expressão.

Um arrepio desceu-lhe pela espinha. Era um jogo de sedução, percebeu.

Ela não conhecia as regras, mas queria jogar.

Seus lábios se encontraram outra vez para um beijo leve, e Liz

abandonou os pensamentos, contente em saborear o gosto de Alex, em sentir

sua língua explorando e acariciando-lhe o céu da boca.

Ele a tocou num seio, e Liz, dominada pelo prazer, afastou o tecido que

lhe separava a pele do toque.

Alex foi além. Buscou os cabelos fartos, mantendo-a cativa, enquanto a

outra mão desfazia os laços e fechos do corpete com destreza. Liz o envolveu

pelo pelas costas, puxando-o para perto, atrapalhando-o em sua ânsia por mais

carícias.

Alisou a amplidão dos ombros fortes, perdida em pecaminosos

devaneios diante das coisas deliciosas que Alex fazia com ela. Seus quadris se

encaixavam com perfeição e, ousada, ela roçou o corpo ao dele.

— Liz — gemeu Alex. Ela parou assustada.

— Não gosta?

— Ao contrário, querida. Gosto demais! Se continuar com isso, vamos

acabar fazendo algo bem diferente do que eu tinha em mente.

Aquilo a fez pensar... O que ele tinha em mente?

Mas não houve tempo para ponderar mais. O corpete havia cedido sob

os puxões de Alex, e ele curvara a cabeça para deixar uma trilha de beijos por

seu pescoço, colo, e por fim ao longo dos seios. Beijou-a ali e, como ela não se

afastasse muito pelo contrário, sugou-a com volúpia.


O prazer a golpeou, fazendo-a pender a cabeça para trás enquanto seus

joelhos ameaçavam ceder. Alex a arrastou até uma das cadeiras e a fez sentar-se

antes de continuar o trabalho.

O desejo a percorria por inteiro, centrando-se abaixo do ventre. Alex

agarrou a barra do vestido e a puxou para cima, até pousar as mãos nas coxas

nuas.

— Confie em mim — sussurrou, enquanto seus dedos travavam contato

com o centro de sua feminilidade.

Liz resistiu à urgência de fechar as pernas e foi recompensada por um

toque que intensificou seu prazer ainda mais. Com um gemido, pressionou os

quadris contra a mão quente, querendo mais.

Alex riu baixinho e baixou a cabeça dos seios até seu sexo.

— Alex, não... — Ela engasgou por um momento, então silenciou ao

sentir que os lábios dele assumiam o trabalho de seus dedos. Gemeu, deliciada,

a cabeça tombando para trás. Iria morrer se o homem continuasse com aquilo!

Mas não seria uma maneira ruim de partir, decidiu as mãos mergulhadas

nos cabelos fartos de Alex, a fim de mantê-lo no lugar.

De repente, foi como se ela se despedaçasse em uma torrente de

sensações, o corpo se contorcendo. Ele a puxou ainda mais para si, e Liz quase

desfaleceu de prazer.

Voltou a Terra devagar, e se deu conta de que todas as atenções de Alex

tinham estado sobre ela. Não era inocente a ponto de crer que o que tinham

feito o deixara feliz. Na verdade, aquilo deveria ter sido tudo o que ela não

gostaria de viver, dadas as descrições sussurradas de relações conjugais que

ouvira.

E Alex certamente não havia experimentado as mesmas sensações,

tampouco o mesmo alívio que ela.

E, Deus, ela queria que ele sentisse!

Trêmula, estendeu o braço para tocar a ereção por cima das calças.
Alex prendeu o ar e fechou os olhos por um instante para depois se

concentrar na tentação que tinha diante de si. Liz estava linda após ter sentido

prazer. As faces irradiavam cor e o lábio inferior continuava úmido e inchado

após seus beijos. Tinha o vestido baixado até a cintura e as saias em desarranjo.

E era perfeita.

Ela o tocou, tímida, a princípio. Acariciou-o, como ele havia feito então se

atrapalhou com o fecho das calças.

Alex ofegou. Ele não tinha planejado aquilo, mas, se ela não parasse!

A paixão apossou-se dele quando Liz fechou a mão em torno de seu

membro. Gemeu de prazer. Para o diabo com a razão! Precisava estar dentro

dela... Agora!

Já sabia o quanto ela estava pronta para ele. Afoito, ergueu-a e a pôs

sobre a mesa, separou-lhe as pernas e a fez enlaçá-lo com elas após baixar as

calças.

— Alex, eu... — Liz sussurrava num misto de medo e ansiedade.

Santo Deus... O sangue o aquecia até as orelhas, abafando o restante do

pedido. Mas não importava. Sabia o que queria o que ambos desejavam.

Beijou-a em cheio na boca, posicionando-se à entrada. Precisava ir

devagar, mas ela aproximou os quadris por instinto, e ele não pôde mais

esperar.

Subindo mais as saias atabalhoadamente, ele a invadiu centímetro por

torturante centímetro.

Mas, Deus, ela estava tão apertada! Seu corpo tremia com o desejo de

mergulhar fundo e investir seguidas vezes até tombar, exausto, mas não podia

machucá-la.

Respirando fundo ele a puxou de cima da mesa para deitá-la no chão e se

colocou por cima.

— Lamento — sussurrou, e investiu, penetrando-a por inteiro.


Liz sugou o ar, desta vez de dor, e então se fez rígida. Alex se obrigou a

fazer o mesmo.

— É sempre assim na primeira vez, eu sinto muito.

Ela tomou outro fôlego e sorriu, depois começou a ondular sob ele,

fazendo pequenos, incertos e desejosos movimentos.

Ele seguiu a deixa e a penetrou mais um tanto, fazendo-a ofegar. Então

se retirou devagar e a penetrou mais uma vez, e mais outra, acelerando o ritmo

e notando, com prazer, que Liz acompanhava-lhe os movimentos. Agarrou-a

pelos quadris com mais força quando sentiu o corpo clamar por alívio. As

costas dela se arquearam involuntariamente.

— Alex... — ela chamou, enlevada. — Eu preciso...

Ele sabia! Precisava da mesma coisa. Estavam muito perto, muito perto...

Aumentou o ritmo e pousou o polegar sobre a feminilidade intumescida.

Liz sucumbiu a uma torrente de tremores, ao mesmo tempo em que ele

encontrava o próprio alívio. Algo tão poderoso que lhe roubou o fôlego... E

ameaçou todas as crenças que sempre tivera sobre o ato.

Demorou até que retomasse a consciência sobre os arredores. Ele e Liz se

encontravam deitados no chão: dificilmente uma posição digna de um duque e

de uma menina bem-criada...

Ainda que não sentisse qualquer remorso pelo que haviam feito, não

conseguia atinar como tinham chegado ali.

Maldição. Liz merecia tão mais!

Bem devagar, desvencilhou-se e se levantou, ajudando-a a fazer o

mesmo. Os lábios dela ainda estavam inchados, os olhos repletos de desejo

saciado e conhecimento recém-adquirido.

Deus, o que havia feito? Mesmo uma cortesã esperaria tratamento

melhor. Liz na certa não era uma moça de taverna, acostumada a encontros

rápidos no vão da esquina. Até ali, era uma inocente.

Ele correu as mãos pelo rosto, mortificado.


— Liz, eu lamento tanto. Não sei o que se apossou de mim — disse

pesaroso.

Ela o fitou de volta, incerta sobre como reagir. Alex estaria arrependido

do que tinham feito? Talvez ela o houvesse decepcionado.

Não pôde suportar a ideia. Ele tinha anos de experiência com sexo,

enquanto ela era uma virgem. Mas queria tanto agradá-lo!

— Por favor, não se desculpe — implorou, tocando-o no queixo. — Eu

posso aprender. Vou melhorar.

Alex franziu o cenho.

— Jesus, não foi isso o que eu quis dizer.

— Então o quê? Diga, para que eu possa agradá-lo.

— Ah, Liz... — Uma risada irrompeu de dentro dele. — Você me agrada

mais do que deveria. Eu quis dizer que lamento por minha falta de controle, por

agir como um bruto, só isso.

Um novo prazer a inundou diante da ideia de tê-lo afetado tão

fortemente.

— Milord perdeu o controle? — Os olhos dela cintilaram. Alex pôde

notar o tom provocativo e soltou uma risadinha seca, reticente.

— Não pressione um homem além do que deve moça. Pretendo ainda

lhe demonstrar minhas habilidades em outro local.

Ela prendeu a respiração, certa do que aquilo queria dizer, e sentiu o

corpo reagir, quente, diante da sugestão. Alex esboçou um sorriso de lobo.

— Melhor ajeitar os cabelos antes que saiamos daqui. — Estendeu-lhe

um grampo que apanhou no chão.

As faces de Liz se aqueceram enquanto tentava, sem um espelho,

reorganizar as lindas madeixas avermelhadas. Alex lhe foi de alguma ajuda ao

reatar, sorrindo, os cordões do corpete.

Por fim, quando tinham se recomposto o melhor que podiam, ele abriu a

porta, espiou então lhe tomou o braço.


— Sorria querida. Como se nada tivesse acontecido... Seguindo o próprio

conselho, caminhou ao lado dela, enquanto dizia a si mesmo que a situação não

estivera assim, tão evidente.

Mas, ah, Senhor, e se tivessem sido vistos?

As amplas ramificações daquele ato golpearam Liz com a força de um

navio a vapor. Seu coração palpitou como se tentasse escapar-lhe ao peito.

Encontraram o taberneiro a um canto do salão. Felizmente, ele era a

única pessoa ali.

Alex o segurou pelo punho sem rodeios e sussurrou:

— Se dá valor ao seu estabelecimento, vai esquecer que estivemos aqui...

Fui claro?

O homem concordou depressa, esfregando as marcas dos dedos que o

duque lhe deixara no braço com uma careta.

— Bastante claro, Vossa Graça.

O duque saiu à frente, pedindo que seu cavalo fosse aprontado.

— Ficarei feliz em acompanhá-la de volta à casa de minha irmã. Eu

estava a caminho de lá quando passei pela taverna e a vi entrar.

— Mas você tem apenas um cavalo?

— Ele aguenta duas pessoas.

— Vamos ser vistos partindo juntos. Alex negou com um gesto de

cabeça.

— Não há ninguém hospedado aqui; e o velho valoriza demais o seu

negócio para que saia por aí falando. Além do mais, há uma trilha que leva à

floresta e vai dar na casa de Marian.

Liz negou com veemência. Montar um cavalo, pressionada contra ele...

Melhor não.

Partiu a pé enquanto Alex dava de ombros e montava o garanhão com

um suspiro.
Não estava pronta para discutir o que acontecera, ou o que aquilo traria

para o seu futuro.

Na taverna, Jim Cutter sentou-se e pediu cerveja. Aquilo o lembrava de

suas raízes humildes. Permitia-se isso apenas em dias assim, quando sabia que

nenhum de seus conhecidos londrinos o observaria. O White Hart era longe o

bastante da cidade para ser seguro.

E, pelo visto, não era único a pensar assim. O duque de Beaufort não o

reconheceria, mas ele na certa havia reconhecido o duque. Mal chegara, ele o

tinha visto em companhia da moça. Sabiamente, pusera-se fora de vista, e então

esperara até que tivessem partido antes de adentrar o recinto.

Interessante. Seria de pouca serventia pressionar o taberneiro por

detalhes. Qualquer homem de negócios que valesse as próprias calças sabia

manter seus segredos.

Mas ele não precisava de explicação. A menos que estivesse enganado,

aquela era a moça que Wetherby julgava estar desaparecida.

Não que pudesse culpar qualquer mulher por evitar Wetherby. O

homem era um porco.

Baseado no que aprendera de Wetherby sobre os Medford, e adicionando

isso à conversa que tinha ouvido entre o duque e seus parceiros de carteado no

White's, algumas semanas antes, não acreditava que a adorável donzela

estivesse meramente evitando seu amigo.

Liz tinha todos os motivos do mundo para odiar o duque de Beaufort. Se

tivesse algum juízo, ela o faria. Ele havia tirado sua virgindade na taverna como

se ela fosse uma vadia, então tinha desaparecido novamente. Quando ela

acordara, no domingo, ele já tinha partido para Londres.

Ela precisava odiá-lo, mas não conseguia. Mantinha-se lembrando da

maneira galante com que Alex pagara pelo broche de seu pai, do modo como

insistira em acompanhá-la de volta para casa.


Mas nada daquilo se comparava ao que sentira com aquelas carícias tão

íntimas. Ter tomado conhecimento delas a mantinha desperta à noite, fazendo

um calor surgir em pontos que não ousava tocar.

Suspirou, perguntando-se quando o veria outra vez. Aquela podia não

ser a vida que havia imaginado para si, mas estava quase feliz.

Afinal de contas, não esperava que Alex ficasse levantando suspeitas na

casa. Todos ali sabiam que o duque era uma visita rara, na melhor das

hipóteses.

Mesmo assim, teria sido tão melhor se ele houvesse deixado ao menos

um bilhete!

Na manhã de terça, no entanto, Alex o fez.

A carta chegou como de costume e, tão logo ela deixou Henry e Clara

para o almoço, correu para o quarto. O cômodo não era luxuoso, mas acolhedor

o suficiente, e pago com seu próprio esforço, lembrou a si mesma, orgulhosa. A

luz filtrava pela pequena janela, fazendo com que os pontos de poeira

dançassem pelo ar. Enfiada por baixo do travesseiro, a carta a esperava.

Liz a abriu com dedos trêmulos. O envelope estava em branco, mas, por

dentro, a caligrafia espaçosa do duque preenchia o papel.

Querida Liz,

Espero que esta carta a encontre bem. Você povoa meus pensamentos, e estou

ansioso por vê-la novamente. Pensei em lhe enviar flores e joias, apenas uma pequena

medida de minha afeição, mas receio que os presentes não passariam despercebidos pela

criadagem de minha irmã. Sua posição aí é complicada, pois encontro-me querendo mais

de você do que Marian poderia suportar.

Ainda assim, não vou pressioná-la com este assunto por ora. Espero que não

tenha planos para sua próxima tarde de folga, pois enviarei uma carruagem que a traga

até mim.

Por favor, perdoe-me a presunção, mas estou ansioso por vê-la.

Alex
Liz apertou a carta contra os seios, cheia de ansiedade. Ele realmente

queria vê-la!

Deu um giro pelo quarto e abriu a carta para olhá-la mais uma vez.

Perdoe-me a presunção.

Céus! O homem era um duque, um dos mais cobiçados da Inglaterra. A

presunção e a expectativa do perdão eram algo secundário. Ele devia saber que

ela subiria em qualquer carruagem que enviasse.

Ela já não se ocupava mais de enganar a si mesma. Não poderia resistir à

tentação de outra tarde nos braços de Alex. Muito menos agora, quando sabia o

que esperar...

Devagar, ela dobrou a missiva e a enfiou no fundo da mala que trouxera

consigo da casa de Beatrice. As crianças dos Grumsby eram adoráveis. Mas

seria aquilo, cuidar dos filhos dos outros, o que o futuro lhe reservava?

Deitou-se sobre a cama estreita e alongou os ombros algumas vezes.

Caçar Henry e Clara pelos jardins a deixava exausta. As lições sobre a natureza

eram as favoritas dos dois, ainda mais porque, uma vez coberto o conteúdo

pretendido, ela normalmente cedia aos apelos por uma brincadeira de pega-

pega ou de esconde-esconde. Não tinha do que reclamar, no entanto; eles eram

crianças doces, apesar de muito ativas.

Bem como imaginava seus próprios filhos.

A solidão a feriu, de modo que fechou os olhos. Sempre sonhara possuir

uma família. Aquilo não parecia prestes a acontecer, mas ao menos tinha a

companhia alegre de Henry e Clara. Passava mais tempo com eles, como

governanta, do que a maioria das mulheres da cidade fazia com seus pequenos.

Não era o mesmo, claro, e aquilo jamais apagaria sua vontade de ser

mãe, mas já era alguma coisa. E uma coisa boa.

Ajeitou a cabeça sobre o travesseiro, sem querer pensar sobre sua vida.

Poderia ser pior, disse a si mesma. Muito pior. Àquela altura, ela poderia estar

casada com Harold.


Em três dias, veria o duque novamente. Um só instante nos braços de

Alex apagaria suas preocupações.

Sim, disse a si mesma outra vez. A vida era boa.

Três domingos se passaram e, em cada um deles, Liz encontrou Alex por

breves horas.

E aprendeu que, apesar do charme, o homem era deveras distante.

Mesmo assim, não queria nada além de estar com ele nesses momentos.

Alex gostava dela, disso estava certa. Mas havia mais nele do que jamais

imaginara, e cada momento a seu lado a fazia querer saber mais.

E, Deus, como sentia falta de seu toque!

Alex lhe havia dito que achava seu espírito alegre refrescante, de modo

que, quando chegou o domingo, não hesitou em vestir o traje mais leve que

trouxera consigo: um vestido de musselina verde que, segundo Bea, trazia-lhe

luz aos olhos. Não era moderno, mas, quando amarrou os cabelos no alto da

cabeça com uma fita, considerou o efeito bastante agradável.

A carruagem sem insígnia esperava à margem da propriedade como de

costume. Ela gostava de tal precaução, ainda que se preocupasse que alguém,

eventualmente, percebesse um padrão em suas saídas e começasse a fazer

perguntas.

Naquele dia, o coche a levou à cabana de caça do primo de Alex. A casa

era confortável, mas nem o primo ou a criadagem se encontravam ali. Era o

local perfeito para um encontro.

E que encontro. No momento em que o coche se afastou, os lábios de

Alex encontraram os dela, as mãos buscando os laços e os fechos das roupas,

enquanto ele batia a porta atrás deles. Seus cabelos cuidadosamente arrumados

soltaram-se em questão de segundos e a fita se desfez vítima da paixão.

Liz o puxou para perto, buscando-lhe o toque, a sensação da pele. Seria

seu desejo insaciável? Parecia que estavam separados havia eras, e não apenas

uma semana.
Subiram as escadas, tropeçando, rindo, beijando-se e deixando as roupas

pelo caminho.

Liz respirou fundo ante a urgência que sentia por Alex. Era uma

intensidade que ela não compreendia.

Quando ele deslizou para dentro dela, todavia, todas as dúvidas

cessaram. Deus, aquilo era muito bom!

Aquilo, ele, era o que lhe faltava e valia todo e qualquer risco.

No entanto, quando já tinham se amado não por uma, mas por duas

vezes, e deitavam-se enrascados nos braços um do outro, o estranho silêncio de

Alex os envolveu mais uma vez. Ele a abraçou, mas seu olhar se manteve no

teto.

Liz esticou-se para passar os dedos pelos vastos cabelos negros.

— Alex? — perguntou com voz suave. — Fiz algo errado?

— É claro que não! — ele murmurou, capturando-lhe a mão para dar-lhe

beijinhos nos dedos.

Liz sorriu, mas continuou a analisá-lo. Ainda que se sentisse lânguida,

exausta, percebia ainda uma tensão no corpo do amante. Alex estava estranho,

distraído.

Permaneceu em silêncio por um instante, alisando o peito largo, a

firmeza dos braços, e torceu para que ele relaxasse, ou que ao menos dividisse

com ela suas preocupações.

Quando Alex falou, não foi para lhe sussurrar gracejos aos ouvidos.

— Liz, querida, há algo que preciso lhe dizer.

— Você combinou com sua irmã uma visita mais demorada? —

perguntou esperançosa, tentando aliviar o desconforto que sentira.

— Infelizmente não.

— O que é?

— Preciso viajar a negócios.

— Você vai partir?


— Um investimento que fiz no mercado naval requer minha supervisão

— ele confirmou. — A embarcação retornou da índia avariada por uma

tempestade. Os reparos não vão bem, a tripulação está preocupada, e meu

parceiro está tentando arranjar substitutos para as mercadorias exóticas que

foram perdidas. Além de tudo, há dúvidas sobre a integridade do capitão.

Havia pensado em deixar que meus homens na costa cuidassem disso, mas a

questão é mais complicada do que eu previ. Há fundos consideráveis sob

ameaça.

Liz gostou de ser informada com tantos detalhes sobre os negócios dele.

Algo lhe dizia que Alex não dividia aquele tipo de coisa com muitas mulheres.

— Por quanto tempo vai ficar fora?

— Três semanas. Não mais.

Ela concordou tímida. Compreendia claro, mas a ausência dele tornaria

as semanas mais pálidas. Alex tomou-lhe ambas as mãos.

— Liz, se você deixasse essa história de ser governanta e se tornasse

minha amante em tempo integral, eu poderia levá-la comigo.

— Não é uma história — ela replicou, magoada. Olhou para o outro lado

com um nó na garganta.

— Eu sei meu anjo. Você realmente gosta dos meus sobrinhos e eu jamais

a criticaria por isso. Na verdade, é uma das coisas que mais aprecio em você.

Ainda assim, é estranho demais que um homem em minha posição fique em

segundo plano.

Liz esboçou um leve sorriso. No fundo, Alex estava era com ciúme.

— Concordamos que esses seriam nossos termos — lembrou séria.

Ele expeliu o ar com força, a frustração evidente.

— Liz, seus termos não fazem sentido. Posso mantê-la com muito mais

luxo do que você tem agora.

— Mas não pode me oferecer respeitabilidade.


— O que estamos fazendo agora, esgueirando-nos pelas costas de todos,

é mais respeitável?

Ela desviou o olhar outra vez. Alex tinha razão.

— De qualquer modo, não posso.

Se aquela relação se mantivesse em segredo, a vergonha seria apenas

dela. Se virasse uma amante, a notícia se espalharia, e sua família perderia a

última gota de respeito de que ainda dispunham.

Não poderia fazer isso com Charity. Ainda havia esperanças pelo futuro

da irmã.

Tinha desejado Alex desde o momento em que o vira pela primeira vez.

E não estava disposta a perdê-lo.

Mesmo assim, a escolha que ele lhe propunha não seria possível. Entre as

atitudes do pai dela e as suas próprias, sua família já passara vergonha demais.

— Se esta é a sua decisão, Liz, hei de aceitá-la. Eu a verei quando

retornar.

Ela concordou e fez a única coisa em que poderia pensar: beijou-o com

paixão suficiente para três semanas.

Marian Grumsby adorava a vida no campo, a maior parte do tempo. O

marido e os filhos preenchiam seu mundo com amor e alegria, e estavam felizes

longe de Londres.

Além disso, verdade fosse dita, ela não queria fazer como tantas mães

durante a temporada: abandonar as crianças por semanas a fio.

Mas, ocasionalmente, perdia as festas e os chás apreciados pelas outras

damas que conhecia.

Assim, quando lady Alicia Wilbourne, uma amiga de infância, convidou-

a a ir a Londres para o feriado, aceitou sem hesitar. Era uma bênção, pensou

saber que poderia se divertir por alguns dias enquanto os filhos estariam bem

cuidados, em casa. Contratar Liz havia sido pouco convencional, mas, até ali,

provara-se a solução perfeita. A moça era boa com crianças.


O que significava que ela poderia frequentar algumas festas e se atualizar

sobre as fofocas das amigas, sem precisar se preocupar com nada.

Tinha optado por ficar na casa da mãe, na cidade, como fazia ao visitar

Londres, o que era preferível a se impor a amigos que quase nunca via. A

duquesa viúva raramente estava lá, já que passava a maior parte dos dias no

balneário de Bath.

A casa, no entanto, tinha uma pequena criadagem que ficava sempre

satisfeita ao vê-la. Além do mais, teria paz entre os eventos sociais.

A programação daquela tarde trazia uma festa no jardim da casa de

Alicia. O tempo havia cooperado e, quando Marian chegou, o jardim dos

Wilbourne estava decorado com tendas brancas e flores.

Lorde Wilbourne, um homem de meia-idade com cabelos rareando,

caminhava sobre a grama com um prato de canapés na mão. Observou a esposa

enquanto cumprimentavam os convidados.

Vendo a chegada de Marian, ambos seguiram em sua direção.

— Lady Grumsby! De volta da vida rústica, enfim! — exclamou Lady

Wilbourne.

Elas haviam se apresentado à sociedade na mesma temporada e, embora

Marian houvesse sentido pena da amiga pela decisão dos pais de casá-la com

Robert Wilbourne, Alicia não parecera nem um pouco infeliz.

— Sim, por pouco tempo — respondeu Marian.

— Então deve estar desesperada por uma boa conversa. Não posso

imaginar como consegue passar a vida inteira no campo. Venha... — A moça

gesticulou para um grupo de belas mulheres. — Tenho outros convidados para

cumprimentar, mas você se lembra de lady Tweedley, lady Robesford e da Srta.

Josephine Baxter. — Conduziu Marian até as outras mulheres e voltou ao papel

de anfitriã.

Elas abriram espaço para Marian, sem interromper a conversa.


—... As malas — completava lady Tweedley. — Ela era amante dele pelo

quê? Dois anos? Foi-se. Ele já não a vê há semanas.

— Ah, Harriet, como você ouve essas coisas? — perguntou lady

Robesford, ainda que sua expressão, assim como a das outras, sugerisse que

estava mais fascinada do que chocada por discutirem sobre uma cortesã.

— Talvez ele esteja finalmente pensando em se casar. Se apenas tivesse

sido cinco anos atrás...

Marian suspirou. Teria vindo até Londres apenas para ouvir as mesmas

fofocas de sempre sobre Alex? Quase desejou que ele se casasse, ao menos para

que a cidade pudesse ter um novo assunto.

— Na verdade, posso imaginar por que ele a mandou fazer as malas... E

não foi para se casar — acrescentou a Srta. Baxter, uma incurável fofoqueira,

próxima à meia-idade.

— Ah, então conte! — ofegou lady Robesford.

A mulher olhou em volta, como se revelasse um grande segredo.

— Ouvi falar que ele foi visto com a Srta. Medford. E a acompanhante da

moça, se é que havia uma, não estava por perto.

Liz Medford foi vista também adentrando uma carruagem conduzida

por um homem que minha fonte reconheceu como um dos criados do duque.

Posso imaginar para onde seguiam.

— Liz Medford? — perguntou lady Tweedley.

— A própria.

— Não pode ser. Ouvi dizer que ela deixou o campo para visitar um

parente doente — afirmou lady Robesford.

Marian teve dificuldades para respirar, e não apenas porque sua criada

tivera a força de uma amazona para apertar os laços do corpete. A verdade era

que estava com uma sensação muito ruim sobre aquela conversa.

Seus pés, no entanto, pareciam pregados ao chão.


A Srta. Baxter deu de ombros, sorrindo como toda fofoqueira que se

delicia com cada detalhe.

— Eu também ouvi isso tudo. Mas que parente? Ouvi dizer que houve

uma confusão quando rejeitou seu último pretendente, e depois ela fugiu.

— Impossível! A família seria arruinada — falou lady Robesford.

— A família já está arruinada. Não ouviu dizer? O barão morreu sem um

centavo ou herdeiro. De qualquer forma, vi o pretendente partir com meus

próprios olhos, e ele não parecia nada satisfeito. Liz não é vista desde então.

Exceto claro, com Beaufort.

Beaufort! Estavam mesmo falando sobre seu irmão, constatou Marian. E

sobre sua governanta. Abanou-se, aflita.

O gesto chamou a atenção da Srta. Baxter, que levou as mãos ao rosto,

mortificada.

— Lady Grumsby! Ah, Céus, mil perdões!

Marian manteve a expressão cuidadosamente neutra, a espinha bem

ereta. A fofoca da cidade ainda girava em torno de Alex. Aquilo, em si, não era

incomum.

Desta vez, no entanto, envolvia a ela também, já que seus filhos eram

cuidados pela mesma mulher que, dizia-se, andava envolvida com seu devasso

irmão.

Seu corpo latejou de tensão, porém ela se recusou a fugir.

Nenhuma das mulheres sabia que Liz estava em sua casa. Lançou-lhes

um sorriso simpático.

— Compreendo o quanto meu irmão pode ser interessante. As damas se

entreolharam, inseguras, e Marian sentiu certa pena. Afinal, estava acostumada

àquele tipo de mexerico sobre Alex.

— Vocês sabem o que eu ouvi? — Perguntou travessa. Elas a fitaram em

expectativa.
— Ouvi que Alex comprou uma passagem para a índia e prometeu casar-

se com uma princesa de lá. A filha de um homem com quem faz negócios.

A Srta. Baxter deixou a boca pender.

— É claro que isso não é verdade, já que Alex me disse que precisava

fugir de Londres e passar algum tempo em minha propriedade — Marian

completou, rindo. — Ontem mesmo, nossa mãe estava desesperada por sua

falta de interesse em donzelas casadoiras. E minha casa, ainda que seja

adorável, está longe de ser um palácio indiano... Mas, de qualquer modo, valeu

por ser um rumor muito divertido. — Com isso, ela pediu licença e se afastou

do trio.

Aproximou-se de lady Wilbourne.

— Alicia, é uma bela festa. Mesmo que eu não tenha vindo de tão longe

para ouvir notícias sobre minha própria família...

— É um dia realmente lindo — concordou a anfitriã, olhando para o céu

com um suspiro. — Quanto ao duque, minha querida, ele parece mesmo ser o

assunto do dia. Não que isso seja incomum. Meu marido joga cartas com ele,

você sabe, e Robert disse-me que Alex mencionou algo que o fez pensar que os

últimos rumores não pareciam infundados. Mas suponho que esteja cansada de

ouvir sobre as escapadas de seu irmão. Vamos falar sobre o teatro? Há uma

peça maravilhosa em cartaz.

Marian negou com um gesto de cabeça.

— Receio estar com dor de cabeça. Prefiro pedir sua licença. Agradeço

muito por ter me convidado.

Alicia a olhou, compassiva, e logo Marian estava no coche, a caminho da

casa da mãe. Estivera tão ansiosa pelo passeio na cidade, mas sabia não ser

capaz de aproveitá-lo agora. Mesmo que houvesse dado às mulheres boas

razões para que duvidassem de qualquer rumor que tivessem ouvido; sabia

que, se aquelas três estavam comentando, Londres inteira devia estar também.

— Que desastre.
— Ainda não viu o pior — disse o sócio de Alex, enquanto os dois se

punham sobre o deque, analisando os estragos na embarcação.

— Não? — Alex teve a impressão de que não gostaria nada do que veria

em seguida. Não esperava que a viagem fosse agradável, claro. Após despedir-

se de Liz, ele parará brevemente em Londres antes de seguir até o porto, em

Ramsgate, onde seu sócio, Tom Golden, já havia começado a pôr as coisas em

ordem.

— Certo. Ilumine-me.

— Venha.

Alex seguiu o rapaz até a parte de baixo do deque. Como esperado,

vários dos caixotes contendo seda da índia e curiosidades do Oriente estavam

destruídos.

— Eu já imaginava que a carga tinha sido avariada. — Deu de ombros. —

Ninguém pode conter a Mãe Natureza em fúria.

— Não é apenas isso. Veja... — Tom puxou uma extensão de tecido de

dentro de um caixote intacto. — Sinta.

Alex passou a mão pelo tecido, e então franziu o cenho. — O que é isto?

Está abaixo do padrão que exigi de George.

George Marks trabalhara como seu comprador por anos. O homem era

viajado e sabia como distinguir seda de boa qualidade de seus similares

inferiores tão bem quanto qualquer um diferenciava uma pá de um martelo.

Tom tomou de volta a seda e a atirou dentro do caixote.

— George se demitiu no dia seguinte à chegada do navio.

— Maldição. Por quê?

— Disse que havia chegado a hora de se tornar um homem de família,

mas não acreditei. O capitão estava lá quando conversamos, e Marks não travou

contato visual com ele em momento algum.

— Inferno! — praguejou Alex. — Onde está o capitão? — Era para isso

que tinha vindo originalmente. A carta de Tom sobre o navio estar avariado era
preocupante, mas o fato de o capitão não querer supervisionar os consertos era

muito ruim.

— Em Dorset.

— Como? — Ele franziu a testa diante da frustração.

— Em casa, parece. Beaufort há um problema aqui, e receio que seja bem

mais complicado do que um navio prejudicado pela tempestade. Sei como você

conduz seus investimentos, e achei que gostaria de ver por si mesmo.

— Com certeza — ele concordou. — Fez a coisa certa, Tom. Não é com

você que estou zangado.

Pausou por um instante, forçando-se a pensar. Dorset estava há vários

dias de viagem do porto, e mandar um mensageiro iria apenas prolongar o

processo. Além disso, havia certas mensagens que ele preferia entregar

pessoalmente.

— Você cuida dos reparos. Eu cuido do capitão — decidiu, e balançou a

cabeça, frustrado, enquanto caminhava para fora das docas.

— Srta. Medford está dispensada de seus serviços.

As palavras reverberaram na cabeça de Liz como o badalo de um sino.

Estava demitida?

— Lamento — continuou a viscondessa Grumsby, o tom gentil, porém

firme. — Você é uma boa governanta, e as crianças a adoram. Mas sua relação

com meu irmão se tornou pública, e toda a cidade está comentando. Eu estava

disposta a mantê-la conosco, apesar de seu passado, contanto que trabalhasse

discretamente. Mas não posso arriscar a reputação de minha família. Estou certa

de que compreende.

As entranhas de Liz se revolveram de tristeza e constrangimento. Ela

abriu a boca para falar, mas a viscondessa ergueu a mão, interrompendo-a.

— Não importa se é verdade ou não, Liz, já que a sociedade pensa que é.

— Lançou-lhe um olhar de avaliação. — Embora eu tenha visto a maneira como


meu irmão a olha, e ouse dizer que os rumores não são sem fundamento. Liz

baixou os olhos. Não tinha defesa.

— Lamento ter causado tantos problemas, milady. Vou arrumar minhas

coisas e parto em seguida. — Fez uma curta cortesia e deixou o recinto.

Um zumbido preenchia-lhe os ouvidos, enquanto, entorpecida, ela

arrumava seus pertences. Não podia culpar a patroa. Se ela estivesse na posição

da viscondessa, teria feito o mesmo.

Era uma tola. Havia arruinado a única oportunidade de ter um emprego

respeitável. E tudo por um homem com o qual não poderia se casar. Alguns

momentos de prazer furtivo e havia destruído sua vida por completo.

Como havia começado aquele boato? O taberneiro?

Duvidou. A ameaça de Alex o fizera tremer visivelmente. Algum outro

criado, talvez?

Não importava. De alguma forma, a relação deles agora era conhecida. E,

se lady Grumsby tinha ouvido sobre ela em Londres, o assunto devia estar por

toda parte.

Havia pouco o que arrumar, afinal, ela deixara para trás a maior parte de

sua vida quando assumira aquela posição.

Conformada, levou a mala até a entrada dos fundos da casa. O

açougueiro local subia em sua carroça, tendo completado a entrega à

propriedade dos Grumsby, e ela conseguiu uma carona até a altura da taverna

White Hart. O que faria ao chegar lá, isso ela ainda não tinha decidido.

A carroça cheirava a sangue, mas o açougueiro era pouco dado a

conversas, pelo que ela ficou grata. Chegando ao White Hart, sentiu um aperto

no peito ao pensar em tudo o que ela e Alex haviam vivido ali. Seu fôlego se

acelerou, mais por desejo do que por vergonha. Aqueles momentos tinham lhe

custado tudo, mas, ah, o que não faria para revivê-los!


Comprou uma passagem no coche destinado a Londres, e esperou do

lado de fora. Talvez Bea a acolhesse enquanto reunia ânimo e procurava outro

emprego.

Ainda que, agora, a questão das referências estivesse mais difícil do que

antes.

Por que aquilo havia acontecido enquanto Alex estava fora?

Ele não deixara meios de ser encontrado.

Não que lhe devesse tal consideração. Afinal, ela não era sua esposa, e

tinha até recusado a se tornar publicamente sua amante.

Mas agora ansiava por sua presença. Ele era sempre tão confiante tão

decidido. Saberia o que fazer.

Ao mesmo tempo, refletiu, a resposta do duque seria provavelmente a

renovação daquela mesma proposta. E, por mais que gostasse dele, era um

arranjo que não lhe agradava. Tomá-lo como amante havia sido arriscado, sem

dúvida, mas fora escolha sua. Não seria justo deixar que ele pagasse pelo que

ambos tinham feito.

Sentia falta da irmã também. Mas voltar para casa seria admitir a derrota.

Além do mais, era mais provável que o tio lhe batesse a porta na cara, concluiu

com um suspiro.

O coche chegou, e Liz subiu exausta, mal notando os joelhos baterem

contra os dos outros passageiros dentro do veículo lotado.

Toda a vida fora pressionada a agir com responsabilidade. Por mais que

detestasse admitir isso, a mãe tinha razão: bastava olhar para a confusão que

havia feito em sua vida agora, na primeira e única vez em que decidira ignorar

o conselho.

A parada do coche ficava a vários quarteirões de seu destino. Quando

finalmente chegaram, desceu do veículo e parou por um momento, incerta.

Jamais tinha caminhado pelas ruas de Londres sem ao menos uma

acompanhante. Seria reconhecida? O que pensariam?


Mas não arriscaria pedir que alguém fosse buscá-la. Precisava se

defender sozinha.

E também pedir perdão e misericórdia a Beatrice Pullington por ter

perdido a oportunidade que ela lhe proporcionara, arrumando-lhe o emprego

de governanta na casa da viscondessa. Não seria demais contar com aquela

amizade de novo?

Observou a rua agitada. Ainda usava os trajes de governanta. Manteria a

cabeça baixa e apertaria o passo, assim ninguém iria notá-la.

A mala parecia mais pesada agora que precisava carregá-la pelas ruas,

mas Liz não ousou diminuir o passo. Até ali, seu plano parecia estar

funcionando. Mesmo quando levantou a cabeça para analisar o caminho,

ninguém lhe lançou um segundo olhar.

Aproximou-se do parque. Se pegasse um atalho, chegaria à casa da

amiga, mais rápido, e as chances de ser vista seriam mínimas, já que estava no

lado menos frequentado pela alta-roda do parque.

A rua fez-se livre, e Liz a atravessou rapidamente.

Quando pisou o solo do parque, no entanto, um de seus saltos prendeu-

se a uma pedra, e ela caiu com tudo.

Pior. Enquanto se levantava do chão, apressada, deparou com um

homem que acabara de deixar a trilha.

O sujeito esticou-se a fim de ajudá-la. Ela aceitou a mão estendida,

amaldiçoando-se por ser tão desastrada.

O homem que a ajudara, contudo, não parecia melhor do que ela. Rugas

cortavam-lhe o rosto, e seu hálito cheirava a álcool. E era apenas o meio da

tarde.

Liz murmurou um breve agradecimento e seguiu pela trilha.

— Srta. Medford?

Ela estacou lívida. Parou e olhou-o novamente. Estava vestido como um

cavalheiro, mas nenhum que conhecesse.


— Desculpe-me, nós nos conhecemos?

— Talvez não. Você é a Srta. Medford, não é? Faria sentido negar?

— Sou.

Os olhos do homem brilharam ao analisar a mala que ela carregava. —

Está desacompanhada?

Liz suspirou.

— Talvez, então, eu possa lhe ser de serventia — ele se ofereceu. Ela não

confiou na maneira como o homem a fitava.

— Parece-me que estamos seguindo em direções opostas.

A despeito das observações de Liz sobre seu destino, Cutter se pôs ao

lado dela enquanto ela partia em direção à casa dos Pullington.

Senhor... — Cutter.

Seu estômago revolveu-se de tensão. Não quisera causar uma cena na

rua, mas, agora que estavam dentro do parque, não haveria mais ninguém caso

precisasse de ajuda.

Agarrou-se à mala e acelerou o passo.

— Por que tanta pressa? O duque a espera?

— Não sei do que está falando.

Deus, já teria problemas suficientes quando chegasse a Bea e começasse a

remontar os cacos de sua vida! Pensou sombria. Não poderia ao menos chegar

até lá sem maiores incidentes?

— Não negue. Sua relação com o duque é o assunto da cidade.

Liz respirou fundo. Como, por Deus, tinha dado o azar de chocar-se

contra aquele homem?

— Sr. Cutter — disse impaciente —, o senhor está equivocado. Não tenho

relação com nenhum duque. Além do mais, não preciso de sua assistência.

— Percebo. O duque já perdeu o interesse? Bem, agora que já trabalhou

para pagar as dívidas de seu pai, está livre para escolher um homem mais a seu

gosto. — Ele a segurou pelo braço.


Liz estacou pálida. O homem estava claramente bêbado, do contrário não

ousaria falar tamanha besteira.

— Não tenho noção do que diz. Por gentileza, solte-me!

— Não se faça de inocente comigo — ele grunhiu. — O duque mesmo me

contou a seu respeito.

— Contou o quê? — ela perguntou lívida.

Cutter respondeu com convicção, como se, por baixo de todo o álcool,

houvesse um fundo de verdade:

— Como seu pai ofereceu você como pagamento pelas dívidas de jogo

que contraiu com Beaufort. Não posso dizer que aprovo, mas, como a coisa está

feita...

— Ele não faria isso! — exclamou Liz, sentindo o estômago revirar. Mas

como poderia ter certeza? Tanta coisa sobre o pai não era como ela pensara.

Havia, no entanto, uma coisa que ela sabia: — E se fizesse Sua Graça jamais

teria aceitado tal oferta.

— Defendendo Beaufort acima do papai? — Ele soltou uma gargalhada.

— Acha mesmo que ele recusaria essa oferta?

Ele é um homem, criatura. E certamente a senhorita sabe da reputação do

duque. — Mirando-lhe os seios, Cutter continuou o assalto verbal: — Você

também não é desprovida de charme... Mas, preciso dizer, quando tornar-se

minha amante, terá de deixá-los mais à mostra.

Liz agradeceu mentalmente pelo traje de governanta.

— Lamento Sr. Cutter, mas seu interesse em mim está deslocado. Não

tenho qualquer intenção de me tornar sua amante.

— Boa demais para um simples cavalheiro, não é? Pois saiba que posso

pagá-la muito bem.

— Não seja rude. Meus favores não estão à venda — ela respondeu fria,

fazendo o possível para se afastar. Por que havia decidido cruzar aquele

parque?
— Pense bem, doçura — disse o homem, malvado —, agora que você fez

de tudo para ajudar seu velho pai, não há mais volta. Sua Graça cansa-se

rapidamente de suas amantes, estou certo de que sabe disso. Por que mais

estaria a senhorita, sozinha, carregando uma mala pelas ruas? Considere a

dívida paga. Já que o duque não a está auxiliando pelos favores que julga ser

tão preciosos, você não tem motivos para manter-se fiel. Com certeza não é tola

a ponto de pensar que ele gosta de você.

Liz cravou as unhas nas palmas da mão, resistindo a dar uma resposta. O

sujeito jamais poderia compreender o que ela e Alex haviam compartilhado.

Cutter soltou uma risadinha.

— Eu lhe asseguro princesa: Beaufort não desenvolve afetos duradouros.

Eu, por outro lado, talvez consiga fazer isso. Poderíamos fazer um arranjo

interessante, você e eu... — Apertou-lhe o braço.

Liz o puxou com ódio.

— Ouça aqui — rangeu os dentes. — Não estou interessada. Se disser

mais uma palavra; vou vomitar! Sugiro que não me siga quando eu seguir meu

caminho, pois gritarei e não estamos tão longe assim da rua. E se fizer mais uma

dessas propostas imundas, não vou hesitar em entregar seu nome a meu tio!

Afastou-se, antes que o homem pudesse responder. A ameaça da

retaliação do tio era vazia, disso ela sabia. Era mais provável que ele a

entregasse a Cutter e lavasse as mãos.

Deixando o parque às presas, Liz rezou para que jamais precisasse

descobrir isso.

Apenas mais alguns quarteirões, pensou aflita, o coração disparado.

Por mais que mantivesse a cabeça erguida e o queixo firme, no entanto,

um terrível sentimento a invadia. O pai poderia tê-la realmente oferecido a

Alex? Teria mesmo uma dívida de jogo com o duque?


Mordeu o lábio com força, oscilando na caminhada. Era provável que

sim. Tinha aprendido o suficiente sobre o velho barão para saber que seus

problemas eram graves.

Mas vender a própria filha? Nenhum pai seria tão cruel!

Quanto a Alex... Aquilo não fazia sentido. Se houvesse existido um

acordo entre eles, quando ela havia pedido a ele que a arruinasse, ele não a teria

rejeitado. E apenas quando já era uma governanta, meses após a morte do pai, o

duque se aproximara dela.

Um novo e feio pensamento lhe ocorreu. Em geral levava meses até que

se definissem o valor das propriedades e as contas de um nobre após seu

falecimento. Ainda mais quando não existia um herdeiro.

E se Alex tivesse recusado a oferta enquanto o pai dela estivera vivo

apenas porque planejava esperar pelo pagamento em dinheiro? Em algum

ponto após a morte do barão, talvez o duque tivesse sido informado de que não

havia dinheiro disponível. Teria ele então considerado usá-la como

compensação?

Não. Não podia acreditar.

Ao mesmo tempo, tantas de suas ilusões tinham se despedaçado nos

últimos meses. Era impossível não imaginar. Se ao menos soubesse em que data

Alex fora avisado sobre a falência do pai dela... Poderia compará-la ao dia em

que ele começara a persegui-la.

Deus haveria alguma relação?

Infelizmente, não tinha como perguntar isso sem acusar o próprio pai de

ter feito a oferta. E sem acusar Alex de tê-la levado em conta.

O assunto todo era terrível demais para ser contemplado.

— Srta. Medford? Por favor, aguarde aqui, enquanto anuncio sua

chegada a, lady Pullington. — O mordomo a deixou logo à entrada do grande

salão e se retirou.
Liz sentiu-se inquieta. A criadagem de Bea a conhecia havia anos. Em

visitas anteriores, teria sido conduzida diretamente ao pequeno salão da

família. As tímidas boas-vindas deixavam claro que os rumores tinham chegado

aos ouvidos dos criados.

Teria sido um erro ir até ali?

Os segundos passavam intermináveis. Por fim, Liz ouviu o som dos

passos de Bea nos degraus da escadaria. A porta se abriu e, antes que ela

pudesse dizer uma só palavra, Bea a envolveu num abraço.

Após um longo instante, a moça deu um passo atrás. Bea era, como de

costume, a imagem da moda em um vestido, cor de cereja, com sapatos

combinando. Sua expressão, no entanto, era sofrida.

— Bea, o que há de errado? — As palmas das mãos de Liz umedeceram,

enquanto a dúvida a invadia. Talvez Beatrice tivesse seus próprios problemas.

E, se a melhor amiga a mandasse embora, não teria outro lugar para ir senão

para casa.

Bea a fitou, amuada.

— Parece que você teve uma grande aventura, e não dividiu o menor dos

detalhes comigo, sua ingrata.

— Grande aventura... — Liz tentou sorrir, mas, para seu horror, sentiu os

olhos marejados. — Ah, Bea, estou perdida! Provavelmente não devesse nem

estar aqui. Associar-se a gente como eu pode arranhar a sua reputação. Mesmo

assim, estou muito agradecida por vê-la outra vez.

— Perdida como? Parece que ouvi essas mesmas palavras de você há não

muito tempo.

— Desta vez é muito pior. A moça deu um suspiro.

— Venha — disse, puxando-a para dentro da sala da família. — Conte-

me tudo.
Contar foi rápido. Sob outras circunstâncias, Liz ficaria tentada a dar

detalhes, mas, no momento, estava preocupada demais com seu futuro para

contar sobre os arrepios que o duque lhe provocava...

Muito menos quando era pouco provável que os experimentasse

novamente.

Quando se aproximou do final da história e contou a Bea sobre a

desgraça em que deixara a casa dos Grumsby, a moça inclinou-se sobre a

poltrona e a abraçou com força.

Liz aceitou o abraço, aliviada por saber que nem todo mundo estava

contra ela.

— Liz, você é minha amiga mais querida e eu a amo; não importa que

escândalo a rodeie. Mas preciso admitir: não estou certa se posso ajudá-la desta

vez.

— Tenho medo da fúria de meu tio caso eu volte para casa — ela falou

com voz trêmula.

— Então não vá para lá. Você fica aqui, é claro.

— Eu lhe seria grata para sempre! É só até que eu arranje um novo plano,

Bea. Vou ser discreta também. Ninguém jamais saberá que você acolheu uma

mulher arruinada.

— Pobrezinha. — Bea apertou-lhe a mão. — Os rumores são mesmo bem

ruins. Mas se ficar escondida vai apenas afiar as línguas, você sabe. Não se

preocupe comigo. — Sorriu. — Minha vida tem sido por demais, tediosa

ultimamente, e uma pontinha de escândalo talvez venha a calhar.

Liz conhecia Beatrice bem o suficiente para identificar a preocupação por

baixo do sorriso da amiga.

— Nem sei como lhe agradecer, Bea.

— Esqueça isso e me escute — prosseguiu a moça, cuidadosa. —

Nenhum dos rumores que ouvi veio de alguém que a houvesse visto com o

duque. Apenas mexericos da criadagem. Talvez pudéssemos convencer o


restante da cidade de que esses rumores são falsos. — Sentou-se mais ereta,

empolgada com a ideia.

— Bea, eu jamais...

— Charity foi à única testemunha de seu encontro com o duque no

parque, não foi? Aquele em que o interesse dele em você ainda era inexistente?

Liz sentiu-se corar.

— Não tenho razões para crer que mais alguém saiba disso.

— Poderíamos recontar o episódio. Deixar de fora a parte em que você

realmente se ofereceu, é claro, e se concentrar apenas no desinteresse do duque.

Sem ofensa a você, querida, mas na certa a cidade achará mais fácil crer que o

duque está fora de seu alcance do que presumir que esse romance seja real.

— Mas lady Grumsby me demitiu — lembrou Liz. Bea mordeu o lábio.

— Sim, há isso também. — Afundou no sofá de novo, e ambas

permaneceram em silêncio por um instante.

— Então o interesse do duque não era tão pouco quanto pareceu de

início... — Os lábios de Bea se curvaram travessos.

Liz sentiu outra onda de carinho pela amiga.

— Sim, era.

Seu rubor aprofundou-se, e ela pressionou as mãos contra as faces

quentes, enquanto pensamentos sobre Alex a inundavam de desejo, saudades...

E frustração.

Como ele pudera partir e deixá-la sozinha para enfrentar aquilo tudo? O

ânimo a abandonou novamente.

— Entendi — disse Bea, poupando-a de mais explicações. Levantou-se,

puxando Liz consigo. — Você tem seu antigo quarto aqui pelo tempo que

quiser.

Quando Liz acordou, na manhã seguinte, seus problemas ainda eram os

mesmos. A hospitalidade de Bea era uma bênção, mas ela se recusava a

ameaçar a reputação da amiga anunciando sua presença na casa dos Pullington.


O resultado foi que passou a maior parte do tempo dentro da mansão,

matando o tempo com bordados ou outras tarefas sem sentido, longe dos

olhares acusadores e das línguas afiadas da sociedade.

Em seu segundo dia ali, escreveu a Alex. Após vários rascunhos nos

quais declarava seu amor, sua mágoa, o quanto sentia a falta dele e como era

injusto que tudo houvesse ocorrido enquanto ele estava distante, decidiu-se por

outro caminho.

A mensagem final saiu curta e objetiva.

Vossa Graça,

Perdi o emprego na casa de sua irmã. Liz

Não fez menção ao que tinha ouvido de Cutter no parque. Quem poderia

afirmar que era verdade? O fato de já estar falada por toda a sociedade era o

suficiente.

Não tinha ideia de como Alex reagiria. Não sabia nem onde encontrá-lo,

de modo que alugou uma charrete e levou o envelope ao endereço londrino do

duque.

— Por favor — pediu ao mordomo, tentando não imaginar o que o

homem estaria pensando por trás daquela expressão impassível —, preciso que

esta carta seja entregue ao duque. Sei que ele não está na cidade, mas pode

providenciar para que chegue a ele em breve?

— É claro — garantiu o homem.

Liz sentiu-se melhor no caminho de volta. A situação era ruim, mas Alex

certamente saberia o que fazer.

À medida que os dias passavam, no entanto, não teve notícias dele.

Ou a carta não o havia alcançado, ou o duque a ignorara.

Duvidou de que os criados fossem tão irresponsáveis a ponto de ignorar

a mensagem de uma mulher que, deviam saber, estava envolvida com seu

senhor. O que deixava a possibilidade de que Alex estivesse ocupado demais.

De qualquer forma, doía.


Após duas semanas, forçou-se a parar de conferir a caixa dos correios.

Tentou, em vez disso, resignar-se como um eremita, pois era isso que havia se

tornado.

Ela sabia o quanto tinha se oferecido ao duque. Agora pagaria por tal

pecado assumindo sua solidão.

Arranjar um emprego respeitável de governanta estava fora de questão,

por isso enviou bilhetes a várias modistas, perguntando se precisavam de

assistentes. As linhas e agulhas pareciam-lhe sua melhor possibilidade.

— Alguma resposta? — perguntou a Bea, que examinava a

correspondência sobre a pequena escrivaninha.

— Não, nada ainda. — A moça apanhou outro envelope. — Ah, lady

Mettlethorne vai oferecer uma festa de carteado. Eu gostaria de ir, mas... — A

voz de Bea sumiu junto com uma olhadela furtiva em direção a Liz.

Uma pontada de arrependimento, misturada a ciúme, a golpeou.

— Por favor, não vá ficar em casa por minha causa. Ficarei bem.

— Está certo. — Bea corou, instigando-lhe a curiosidade.

— O que há de tão especial nessa festa?

— Lady Mettlethorne é uma antiga amiga de minha mãe.

— Mas... Ah! O filho dela estará presente, acertei? — Liz sorriu.

Colin Mettlethorne era atraente, não muito mais velho do que Bea, e, se

Liz lembrava bem, continuava solteiro. Bea corou ainda mais.

— Por todos os santos, vá! — instigou Liz. — E quero ouvir cada detalhe

quando voltar.

Liz considerou esperar por Bea na noite do carteado, mas dispensou a

ideia. Eventos assim duravam a noite inteira. Seus pais costumavam frequentá-

los com certa regularidade. A mãe, inclusive, estivera em um desses quando o

pai dela havia falecido.

Estremeceu, tentando não reviver os momentos daquela noite.


Bea fizera um excelente trabalho em supri-la com romances e, material

de costura, a fim de que passasse o tempo. Sem companhia que aliviasse sua

solitária existência, no entanto, ela terminou por caminhar incessantemente pela

casa, antes que sucumbisse ao sono, os sonhos torturados pelos fortes braços de

um sombrio, porém apaixonado amante.

Na manhã seguinte, Liz acordou mais determinada do que nunca a

encerrar seu purgatório. Alex havia partido, disse a si mesma, mas a esperança

não estava toda perdida. Ela se tornaria uma costureira, ganharia a vida, e,

talvez, com o tempo, conhecesse um comerciante de respeito e se casasse.

Não por amor. Ninguém jamais poderia fazê-la sentir o que ela sentira

pelo duque de Beaufort. Mas pela esperança de uma família e de filhos, ao

menos. Sonhava agora com uma vida simples, bem distante do círculo da elite

no qual fora criada, mas uma vida livre, afinal.

Sua determinação foi redobrada quando Bea finalmente desceu para o

desjejum com uma expressão sonhadora.

— Presumo que os eventos da noite passada tenham sido agradáveis. —

Liz curvou os lábios num sorriso maroto.

— Bastante. — As faces de Bea se tingiram.

— O Sr. Mettlethorne compareceu, então?

— Sim. — Bea sentou-se à mesa, e entornou uma xícara de chá.

— Está sendo lacônica demais!

— Desculpe-me. — Bea sorriu. — É que... Não sei o que dizer.

— Ele a está cortejando?

— Ainda não.

— Quer que ele o faça? Bea estudou as unhas.

— Não sei o que quero. Quando fiz quinze anos, meus pais já haviam

acertado minha união com lorde Pullington. Jamais tive tempo para mais do

que breves flertes antes de me casar. — Bebericou o chá. — Não tenho vontade

de repetir a experiência, mas...


Liz bebeu de sua própria xícara, segurando uma resposta. Não tinha

palavras para descrever o incrível prazer de se ter alguém a quem desejava.

Não podia imaginar o que Bea sentira em sua noite de núpcias.

A primeira mensagem a chegar naquela manhã veio de C. P.

Mettlethorne, e o prazer que irradiou dos olhos de Bea foi visível.

Liz ficou grata por o cavalheiro ter enviado o bilhete em vez de aparecer

ali. Teria se sentido, péssima caso pusesse Bea na posição de dispensá-lo, ou de

pedir a ela que se escondesse no quarto. E se algo mais ocorresse entre os dois?

A amiga, mais do que qualquer um, merecia uma chance no amor.

Mas, que tipo de relação poderia ter enquanto abrigasse uma pária da

sociedade?

Olhou pela janela, fingindo não notar a maneira cuidadosa, quase

amorosa com que a amiga pôs o cartão de Mettlethorne sobre a mesa. Naquele

dia, decidiu, visitaria pessoalmente os estabelecimentos de roupas que,

pensava, poderiam contratá-la com mais facilidade.

Do lado de fora, um coche sem adornos freou e parou em frente à casa

dos Pullington. Ainda que fosse simples, era algo familiar.

Perplexa, Liz viu o tio descer do veículo, seguido por sua mãe.

Bateu nos ombros de Bea, apontou então se esgueirou apressada, para a

sala dos criados, preferindo evitar o confronto até que soubesse qual era o

propósito da visita. Sua posição a manteria fora de vista, mas a conversa ficaria

ao alcance de seus ouvidos.

Um momento depois, ouviu o tio identificá-los em voz alta:

— Lady Medford e Sr. George Gorsham. Gostaríamos de uma audiência

com lady Pullington.

— Queiram aguardar no salão, enquanto vejo se milady está disponível

— respondeu o mordomo, educado.

— Diga-lhe que é assunto urgente.

— Certamente. — O homem se afastou, mas sem qualquer pressa.


Bea deu-se um tempo até adentrar a sala, mas, quando o fez, o tio de Liz

se adiantou:

— Lady Pullington. Compreendo que seja uma grande amiga de minha

sobrinha.

— Sim, sou.

— Indo direto ao ponto, pergunto-me se a senhora sabe sobre seu

paradeiro.

— Como assim, senhor?

Liz sorriu em seu esconderijo. A amiga não a denunciaria. Tio George

limpou a garganta.

— Dissemos, por algum tempo, que Liz visitava um parente adoentado,

mas, na verdade, ela partiu por conta própria. E, não há uma maneira delicada

de se dizer isso, com os rumores que a cercam, tornou-se imperativo que eu a

encontre.

— Estamos preocupados com ela — acrescentou a mãe dela. Liz

suavizou-se por um instante, mas o tio se exasperou.

— É chegada a hora de pôr um fim nessa maluquice e colocá-la sob

controle antes que nos envergonhe ainda mais.

A raiva a inundou, porém Liz se manteve quieta no lugar.

— As fofocas londrinas podem ser vis, é verdade — respondeu Bea, sem

se comprometer. — Mas o que o faz crer que Liz queira voltar?

Liz pôde imaginar o rosto do tio tornando-se vermelho.

— Por Deus, o lugar de uma moça solteira é com a família!

— Talvez ela não esteja certa se será bem vinda — replicou Bea.

— A senhora sabe onde ela está, ou não sabe? Subitamente, a vergonha

invadiu Liz. Não era nenhuma covarde. Não cabia a Bea responder por ela ou

pagar por seus erros. Ainda assim, era o que estava acontecendo.

Endireitou as saias, nervosa. Estava cansada de viver escondida. Não

havia ouvido uma só palavra sobre Harold Wetherby desde que fugira, meses
antes. Charity teria arranjado uma maneira de lhe contar se fosse o caso. Com

certeza, o infeliz já não queria mais nada com ela.

Sendo assim, voltar para casa não seria um prazer, mas ao menos não

seria perigoso. Nem ao menos precisaria ser algo permanente, disse a si mesma,

enquanto saía do esconderijo. Assim que encontrasse um emprego respeitável,

cuidaria de si mesma outra vez.

Caminhou para dentro do salão, interrompendo a conversa tensa.

— Está tudo bem, Bea, não precisa mais se desculpar por mim. Vou

voltar com eles.

Era estranho. Antes de sair de casa, Liz vivia ouvindo sermões sobre suas

responsabilidades e sobre as expectativas da mãe. Agora, embora houvesse

voltado a seu antigo quarto, ninguém sabia o que fazer com ela. Parecia

condenada a se manter solteira, mas ninguém abordava o tema.

Além disso, ninguém sugerira que procurasse emprego. Mesmo assim,

com a ajuda de Bea, tinha conseguido uma entrevista com uma costureira na

semana seguinte. Não tinha qualquer intenção de contar à família, contudo,

antes que soubesse do resultado.

Além de Charity, não possuía quase ninguém com quem conversar.

Vários dos criados, cientes do fiasco financeiro dos Medford, tinham partido em

busca de novos trabalhos. O mordomo fora substituído por um homem

grosseiro que agia mais com soberba do que altivez para alguém interessado em

se estabelecer com a parca quantia que lhe poderia ser paga.

No final das contas, era uma casa quieta, contrita.

Na manhã de terça, após ter voltado para casa, Liz sentou-se no salão,

fingindo trabalhar com as agulhas enquanto o restante da casa fingia que ela

não estava ali.

Suspirou e olhou pelas janelas, o bordado esquecido. Precisava pensar

em algo. Estava disposta a admitir que tivesse sido tola ao se apaixonar por
Alex, mas, se não conseguisse remontar sua vida em breve, passaria o restante

de seus dias sob o domínio do tio.

A porta se abriu, e Charity entrou, atirando-se sobre a poltrona.

— Arre! Mamãe precisa parar. Não posso culpá-la por partir, Liz, pois

penso em fazer o mesmo.

— Do que está falando? — Sua adorável irmã parecia muito infeliz.

— Ela tenta me arranjar um casamento. Ainda nem virei mulher, mas ela

diz que isso não importa para certos cavalheiros. O único requisito é que ele

seja próspero o suficiente para que não se preocupe com um dote.

— Compreendo. Estou mais do que ciente desse requisito... Ainda que

não imaginasse que fosse depositar novas esperanças em você.

— Não vejo por que não podemos todos simplesmente nos retirar para o

campo. A casa de tio George não é tão pequena. Eu não preciso do luxo de que

ele tanto faz questão.

— Não quer se casar algum dia? Charity se endireitou.

— Talvez. Mas não assim. Sabe o que ela me contou hoje? Que lorde

Hetterton mostrou um possível interesse por mim. O que quis dizer com

"possível", eu não sei, mas sabe quantos anos ele tem?

— Hetterton... — Liz tentou puxar pela memória. — Ah, sim. Mas o

homem deve estar chegando aos cinquenta! Onde você o encontrou?

— Em um chá que fui com mamãe. Ele passou quase uma hora me

contando sobre a paixão de suas irmãs solteiras por chihuahuas...

Liz reprimiu um sorriso ao ver o desprezo no rosto da irmã.

— Bem, pelo menos ele ainda não está batendo à nossa porta. Ainda

assim, honestamente, não creio que mamãe ou titio estejam dispostos a ouvir

sobre minhas preferências.

A culpa golpeou Liz.

— Tudo isso é culpa minha. Você não deveria estar nessa situação.
Por toda a vida, ela havia sido a responsável. Ao menos até os últimos

meses. Ainda que não se importasse mais com a própria reputação,

incomodava-a que, no final das contas, coubesse à irmã caçula também pagar o

preço.

Charity deu de ombros.

— Como eu disse não a culpo por fugir. Eu mesma a encorajei lembra-se?

Wetherby era um horror. Você não poderia se casar com ele. — Torceu o nariz.

— Hetterton não é assim tão ruim. Aborrecido, mas não descortês. O problema

é que não me imagino casando tão cedo, e com alguém tão mais velho.

O lamento da irmã se manteve na cabeça de Liz pelo restante da tarde.

Ainda estava duelando com aquilo quando o tio a chamou pouco antes do

jantar.

— Liz tenho excelentes notícias.

Ela fitou o tio, ressabiada. Suas definições de "excelente" costumavam ser

bem diferentes.

— Harold Wetherby vai se juntar a nós para o jantar. Ele esteve viajando

e, com sorte, pode não ter sabido de suas escapadas. Rogo-lhe que se comporte

bem diante do cavalheiro, afinal, ele pode renovar sua proposta.

Liz empalideceu.

— Dificilmente ele vai se esquecer de que desapareci bem antes que

nosso compromisso fosse anunciado.

O tio cruzou os braços sobre a grande barriga. — Você estava nervosa.

Era muito próxima de seu pai, e o falecimento teve um forte impacto sobre suas

emoções. — Os lábios dele se torceram ao pronunciar as palavras, tornando

claro que não acreditava em uma só letra do que dizia.

Liz ergueu as sobrancelhas. Que pena que o tio não havia considerado

suas emoções ao ameaçar surrá-la até que recuperasse o juízo, após ela voltar

para casa.

— Tio George... — começou com um suspiro.


— Não discuta comigo, mocinha. Wetherby não circula pelas altas-rodas,

de modo que talvez não esteja ciente dos rumores sobre você e Beaufort. Você

não merece uma nova chance, mas pode consegui-la. Seria bom para a situação

da família que não a desperdiçasse.

Inferno! Liz praguejou em pensamento. O tio tentava envergonhá-la a

fim de que ela fosse gentil com Harold.

Bem, aquilo poderia melhorar a situação dele, mas ela falhava em

perceber que bem faria a ela.

Mesmo assim, havia Charity a considerar. Uma renovação de

compromisso com Harold tiraria a pressão de cima da irmã.

Isso se ela tivesse estômago para tanto.

— Penteie os cabelos e ponha um vestido limpo. Precisa fazer seu melhor

para atrair o homem.

Ela respirou fundo. Harold era a última pessoa no mundo a quem

desejava atrair.

Como a parte arruinada da família, no entanto, não estava em posição de

argumentar.

— Verei o que posso fazer.

— Seja rápida. Quero você pronta no momento em que Harold adentre a

casa. Ele não deve julgá-la como uma daquelas mulheres vaidosas que

consideram aceitável deixar um cavalheiro esperando.

Liz apertou os lábios, mas tratou de se tornar apresentável. Não fez

qualquer esforço para tanto, porém o tio não encontraria defeitos em seu

vestido de seda cinza-claro, ou na fita que amarrara nos cabelos, combinando

com o traje.

Desceu apática, de volta ao salão. Era cedo ainda; e pouco provável que

Harold aparecesse tão já.


O bordado repousava abandonado sobre o sofá. Olhou-o sem ânimo,

mas o apanhou por nenhuma outra razão que não evitar as críticas da mãe

sobre "mãos ociosas".

Mirou à lareira, distraída, registrando que o vaso de Limoge, que

costumava ficar ali, havia desaparecido.

Engoliu em seco. A falta de coisas belas não a incomodava tanto quanto a

sensação de que estava prestes a cair em uma armadilha.

— Aí está você. — Charity se aproximou, carregando uma travessa com

bolinhos, a qual estendeu na direção dela. — Imaginei que fosse querer alguns.

O fato de a irmã carregar a travessa era outra indicação da decadência da

família.

— Obrigada. — Liz esboçou um sorriso. — Harold já chegou?

— Não. Mas acabei de ouvir titio dizendo que ele está vindo. As duas se

entreolharam, o sofrimento de uma, espelhado no rosto da outra. Feria Liz ver a

irmã, sempre tão alegre, agora tão amuada.

— Odeio o papai — declarou com voz trêmula.

— Liz! — exclamou Charity. — Claro que não odeia. É ruim falar assim

dos que já se foram.

Liz suspirou.

— Eu o amava, sabia? Ele ria comigo, levava-me para passear, e jamais

brigava com minha falta de jeito, como a mamãe. Mas odeio que tenha nos

deixado nesta situação.

— Eu sei.

— Ele agia como se tudo estivesse perfeito e eu pudesse me casar com

quem escolhesse e quando quisesse. Queria que ele houvesse sido sincero sobre

as nossas circunstâncias.

— Talvez ele realmente julgasse a situação como algo temporário e

achasse que poderia se recuperar sem que ninguém soubesse. Afinal, deve ser

difícil para um homem contar à família que está arruinado.


— Ele não teria sido o primeiro — retrucou Liz, revoltada.

— Verdade, mas isso não torna as coisas mais fáceis.

— Eu sei. — Ela suspirou e mordeu um bolinho. — Está muito bom...

Melhor eu aproveitar. Tenho certeza de que não vou conseguir tocar no jantar,

sentada diante de Harold.

— Não vamos falar disso por enquanto.

— Está certa. — Liz limpou os farelos do colo, levantou-se e começou a

caminhar. — Estou com tanta raiva, Charity! De papai, titio, Harold, todos! Até

de mamãe por ela não ter providenciado um funeral adequado para o papai,

apesar de tudo, e insistir em manter se na cidade de cabeça erguida quando mal

pode se sustentar.

Charity puxou os cabelos para o lado, um hábito antigo que denunciava

sua tensão.

— Não compreendo também. Mamãe disse que precisou mandar lacrar o

caixão, por isso não pudemos nos despedir dele.

Liz franziu a testa. Incomodara-a não ver o corpo do pai. Tinham sido

informadas de que o barão fora jogado para fora da carruagem, no acidente,

mas na certa poderiam tê-lo limpado o bastante para que tivesse um funeral

apropriado. Seria sua mãe tão sovina a ponto de se recusar a pagar por tal

serviço?

Sem querer atormentar a irmã ainda mais com seus lamentos, Liz pôs-lhe

um braço ao redor.

— Tenho certeza de que ele sabe que quisemos lhe dar adeus. E lamento

ter dito que o odiava... Estou apenas aborrecida.

— É compreensível. Em seu lugar eu estaria com raiva também.

— Por que tio George me detesta tanto? Os olhos de Charity suavizaram.

— Não é só você. Ele foi terrível com a mamãe enquanto você estava

fora. Gritava com ela constantemente, dizendo que ela se julgava melhor do que
o restante da família por ter se casado com um nobre, e que agora estávamos

nesta situação.

— Ah, Céus!

Liz não estava no melhor dos termos com a mãe, mas desprezou o tio

ainda mais.

— Ele nos vê como um problema a ser resolvido, de preferência com o

mínimo possível de seu dinheiro. Por isso é tão indelicado com você. Casá-la

com Harold facilitaria as coisas para ele.

— Eu jamais faria isso voluntariamente — Liz afirmou, então esboçou

um sorriso. — Uma coisa de cada vez. Ajude-me a pensar em uma maneira de

suportar esta noite.

O espírito travesso de Charity acendeu-lhe os olhos.

— Que tal, litros e litros de vinho? — sugeriu sorridente.

Charity podia estar brincando, mas, quando, por fim, sentaram-se à

mesa, agarrou-se à taça como se esta fosse o limite entre a vida e o purgatório. A

tentação de fugir de novo, de escapar para qualquer lugar que não aquele,

quase a exauriu.

Harold dominou os assuntos do jantar, relatando os detalhes de suas

viagens recentes ao continente. Fora uma viagem tediosa, pensou Liz, mas tio

George continuava a instigá-lo com perguntas sobre quem havia encontrado e

se realizara contatos promissores.

Ela rezou para que um deles fosse uma noiva, aliviando-a de suas

futuras obrigações, mas Harold não mencionou nada do gênero.

Ocasionalmente, pausava o monólogo, enfiando comida pela boca e analisando-

a enquanto mastigava.

Liz decidiu que seria melhor manter os olhos no prato. Quando um dos

homens a ela se dirigia, respondia economizando palavras.

A mãe e Charity permaneceram caladas, ainda que, de vez em quando,

Liz percebesse o olhar compassivo da irmã mais nova.


Suspirou. Por ora, tudo o que precisaria fazer seria suportar o jantar

inteiro. Depois disso, daria preferência a costurar mil vestidos a se casar com o

suíno do outro lado da mesa.

Na metade do jantar, Liz sentiu a cabeça leve.

Ao final, no entanto, percebeu ter sido leviana demais com o vinho.

Céus! Quantas taças havia tomado? Sua cadeira parecia flutuar em mar aberto...

Temeu o momento em que precisaria se levantar e retirar-se com a irmã.

— Liz, por que você e o Sr. Wetherby não ficam mais um pouco,

enquanto o restante de nós se retira? — sugeriu o tio dela. — Ele me disse, antes

do jantar, que gostaria de conversar com você em particular, e aprovo a ideia.

Sonolenta, ela pensou não ser uma ideia tão ruim, pois isso a pouparia da

indignidade de ter de se levantar e revelar seu estado. Ao mesmo tempo, estaria

a sós com Harold.

— Estou certa de que ele não se importará caso fiquem — declarou,

embora as palavras tivessem saído mais lentas do que de costume.

— De modo algum — respondeu o tio. Acenou então para as duas outras

mulheres. — Venham, senhoras.

Aflita, Liz assistiu as formas oscilantes do tio, da mãe e da irmã

esgueirar-se para fora do recinto.

Seu pretendente moveu-se para perto, tomando o assento ao lado.

— Termine seu vinho, Liz. — Estendeu-lhe a taça.

Ela sacudiu a cabeça, e a sala inteira girou. Péssima ideia.

— Não, creio já ter bebido muito. Por que queria falar comigo?

Engraçado. As palavras saíam arrastadas, e a sala parecia dançar diante

dela. Piscou para ver melhor.

-— Vamos conversar — disse Harold. — Mas antes proponho um brinde.

A nós?

Sinos de alerta soaram em sua cabeça confusa.


— Não existe nós, Harold — ela o informou, ou pensou ter feito isso.

Nunca saberia ao certo, pois a sala oscilou e a mesa subiu até encontrar seu

rosto.

Sonhou. Sabia disso, mas não podia erguer a grossa camada de névoa

que a mantinha ali. Estava viajando. Às vezes um tranco chegava-lhe à

consciência, fazendo-a se perceber num veículo em movimento, na certa uma

carruagem, os braços posicionados às costas. A língua parecia grossa; a

garganta, seca. Uma vez, talvez duas, alguém he levou um cantil à boca, e ela

bebeu intensamente.

A névoa desceu mais uma vez e a carregou de novo para o mundo dos

sonhos. Para a noite da morte do pai.

Retorceu-se, ciente dos eventos que seguiriam. Assistiu a si mesma, uma

Liz mais inocente, descer as escadas, olhar para a tempestade noturna lá fora, e

seguir até a cozinha para um lanche tardio.

— Maldição, Fuston, o que aconteceu?

Jamais, em toda a sua vida, havia ela ouvido o formal mordomo usar tal

linguajar. Encolheu-se em um canto sombrio do corredor. Um fio de luar, vindo

de uma pequena janela, recaía sobre Fuston, o cocheiro, que tremia.

— Foi um acidente. Não pude fazer nada. Os cavalos se assustaram com

um lobo, acho, e se descontrolaram. Consegui apenas saltar antes que a

carruagem sumisse pela ravina.

O pavor a inundou. Ainda assim, ela não ousou revelar-se antes de saber

o que havia ocorrido ao pai.

— E quanto ao patrão? — Mesmo em choque, o mordomo soava

impositivo.

Fuston balançou a cabeça, parecendo horrorizado. Ela sentiu o fôlego

faltar e caiu de joelhos, imaginando o pior.


Os homens olharam em volta, procurando pelo barulho, mas as sombras

a mantinham escondida. O sangue pulsava em suas orelhas enquanto se

esforçava para ouvir mais.

— Você chamou um médico?

— Não havia necessidade — sussurrou o cocheiro.

Tonta, ela pressionou os dedos contra a boca, abafando o gemido que lhe

escapava.

— Precisaremos informar à baronesa. Ela partiu no coche de lady

Jameson esta noite, mas não falou sobre seu paradeiro.

Ela duvidou de que encontrassem sua mãe na casa dos Jameson.

Lady Jameson jogava com a mãe dela com frequência, mas lorde Jameson

não aprovava isso, de modo que todos os jogos noturnos ocorriam na casa de

outros. Estava prestes a revelar isso quando o mordomo falou outra vez:

— Onde está o corpo do barão?

Suas entranhas se revolveram diante da menção aos restos mortais do

pai. Fuston parecia em pânico. Cascatas de suor perolavam e desciam-lhe pelo

rosto.

— Há um problema... — O cocheiro puxou o mordomo para perto e

sussurrou-lhe algo que ela não pôde ouvir. O fio de luar iluminava a ambos

agora, e podia ver a surpresa na expressão normalmente impassível do homem

mais velho, antes que este se virasse e se apressasse até a porta, puxando o

pobre Fuston com ele.

Ela permaneceu onde estava às pernas bambas, incapaz de absorver a

conversa que tinha ouvido. O pai não podia estar morto. Não podia crer em

uma só palavra das que tinha ouvido. Poderia levar horas até que a mãe

retornasse, mas ela havia pouco interesse em encontrar e consolar a fria

baronesa.

Mas não poderia, também, ficar agachada no corredor para sempre.


O tecido do vestido flutuou ao longo do corredor vazio enquanto ela

seguia para acordar a irmã. Onde estava Charity?

Um tranco a trouxe de volta das terríveis memórias. A carruagem havia

parado.

Entorpecida, Liz tentou endireitar-se, mas os braços que não conseguia

mover das costas estavam dormentes demais. Forçou-se a abrir os olhos, e as

formas generosas de Harold Wetherby se revelaram diante dela.

No momento seguinte, era carregada para fora do veículo.

Uma onda de náusea a assolou quando o homem a atirou por sobre o

ombro e seguiu em direção a uma casa desconhecida.

Liz fechou os olhos de novo e voltou a sonhar.

Desta vez, estava num baile, a mãe advertindo-a de que uma donzela

deveria ser sempre educada com um cavalheiro antes de empurrá-la para perto

do primo atarracado e de expressão maliciosa. Ele a conduzira até a sacada.

Para tomarem ar puro, disse.

De repente, sentiu-lhe os dedos subindo pelas costelas até ter um seio

apertado com lascívia... Não! Ela se debateu e abriu os olhos.

Piscou e olhou em volta. Ao ver o quarto pouco familiar, uma terrível

sensação de desconforto subiu-lhe ao estômago. Estava grogue. Por que não se

recordava de nada? Ou ao menos de como havia chegado até ali?

A última coisa de que se lembrava, era de estar em casa, tolerando um

jantar desagradável com a mãe, Charity, tio George e Harold. Tinha bebido

mais vinho do que de costume, mas com certeza não a ponto de perder a

memória daquele jeito.

Alguma coisa estava errada. Tinha vagas memórias de uma viagem, de

estar terrivelmente desconfortável e incapaz de se mover. Onde estava afinal?

O cômodo era pequeno e a janela se encontrava fechada.

Mas era dia, notou pelas frestas de luz.


Levantou-se da cama, usando uma pequena mesa para firmar-se ao

sentir nova vertigem. Abriu a cortina e inspirou o úmido ar do campo.

Franzindo a testa, virou-se outra vez para o quarto. Era decorado em azul-claro

e tinha uma mobília adequada, ainda que sem luxo.

Estava certa sobre jamais ter estado ali.

Passos soaram do lado de fora da porta. Alguém subia um lance de

escada. A porta se abriu e revelou o primo dela com uma bandeja de chá na

mão, o rosto vermelho pelo esforço da subida. Havia mudado de roupa, notou,

ainda que a capa bordada não ajudasse em nada para lhe melhorar a imagem.

Aquilo, entretanto, só provava uma coisa: ele tinha planejado tudo.

Harold lançou-lhe um sorriso arrogante.

— Srta. Medford... Que prazer.

— Onde estou? O que você fez? — Ela exigiu, apavorada.

— Relaxe, Liz. Apenas achei melhor levar minha noiva a algum local

tranquilo onde pudéssemos repensar nosso relacionamento.

— Não tenho qualquer relacionamento com você. E também não sou sua

noiva!

— Ah, Deus! — Harold baixou a bandeja até uma mesa lateral, e então se

apoiou indolentemente no batente da porta. — Vejo que estava certo quando

disse a seu tio que talvez você precisasse de algum tempo para se adaptar à

ideia. Na verdade, assinamos nosso compromisso duas noites atrás.

— E onde eu estava?

— Você estava... Descansando.

— Estava drogada, você quer dizer. Você me drogou! — Liz acusou

revoltada, o sangue pulsando-lhe nas têmporas.

— Foi para o seu próprio bem. Mas com seu comportamento abominável

das últimas semanas, não esperávamos que você visse as coisas como são.
— E como elas são? — ela exigiu trêmula. — Acha que tem sentido

drogar uma mulher com quem pretende se casar e levá-la para... Onde estou

afinal? Que dia é hoje?

— Hoje é quinta-feira. E está... Em uma propriedade particular.

— Uma propriedade de onde não posso escapar você quer dizer — ela

deduziu com desgosto.

— Apenas até que se ajuste.

— Que me ajuste a quê?

Harold empurrou o batente e caminhou na direção dela. Tomou-lhe o

queixo sem delicadeza, forçando-a a fitá-lo.

— A casar-se comigo. A ser obediente. A pôr a minha vontade acima da

sua própria, como deve fazer uma mulher.

Liz liberou o queixo.

— Você é louco.

Ele se aproximou mais, as feições retorcidas.

— Asseguro-lhe de que não. Você vai aprender a me obedecer, nem que

precise apanhar. Será melhor se aceitar o fato.

A parede por trás de Liz limitou-lhe a retirada, e ela virou a cabeça,

tentando evitá-lo.

Sua mente ainda sofria os efeitos da droga que lhe haviam ministrado,

mas ela lutava para pensar em uma saída.

— Uma mulher direita não passaria nenhum tempo a sós com o homem

que pretende desposar — declarou os ombros retos.

— Direita? — Harold lançou uma feia gargalhada. — Toda a sociedade

vem comentando sobre seu comportamento. Seu tio pensa que não sei, mas não

sou nenhum tolo.

— Não é meu comportamento que pretende mudar? — Ela arriscou

numa última cartada. — Talvez fosse melhor começar me obrigando a dar um

bom exemplo.
— Lamentavelmente, precisaremos esquecer esse aspecto. — Lançou-lhe

um olhar que sugeria descaso. — Você já se provou indigna de confiança e

imprevisível, de modo que nossos assuntos devem ser resolvidos em particular.

Além do mais, ficar a sós comigo só vai, aos olhos da Igreja, reforçar a necessi-

dade do casamento.

As mãos dele lhe circundaram a cintura, então subiram até as costelas, os

polegares pressionando a parte debaixo dos seios.

— Pare! — Liz tentou se afastar, mas a parede a impediu. Harold

apertou-lhe os seios de leve.

— Seu toque me dá náuseas! Se não me soltar, vou vomitar! Ele deu um

passo atrás, o olhar de antes substituído por outro, de pura raiva.

— Não pense que isto está acabado, Liz. O mundo todo já sabe que é

uma vadia. Não vai conseguir me afastar com essa conversa de mulher direita.

Ainda vou pôr as mãos nesse seu corpinho deleitável... Talvez não agora, mas

muito em breve, pois estou no comando aqui. Deveria aprender a me agradar e

obedecer se quiser recuperar sua liberdade, ou conseguir uma visita que seja à

sua irmã.

— Prefiro a morte! — ela gritou. Harold lançou-lhe um olhar piedoso.

— Estou certo de que vai repensar isso. — Virou-se e, apanhando a

bandeja, deixou o recinto.

Apenas quando o ouviu passar o trinco, Liz percebeu estar presa.

Desgraçado!

As atitudes de Harold, ainda que desprezíveis, não a surpreendiam.

Estavam bem de acordo com seu caráter.

Mas pensar que o tio havia concordado com aquele plano sórdido a fez

odiá-lo a ponto de tremer.

Mas ela não seria subjugada tão facilmente.


Seguiu até a janela. Do lado de fora, viu um pequeno jardim, depois

pastos verdes e, por fim, uma floresta. A névoa da manhã ainda pousava sobre

as reentrâncias dos montes e vales. Nenhuma estrada, nenhuma vila.

Talvez a janela desse para os fundos da propriedade...

Ou então Harold a tinha levado a um lugar muito distante.

Entre a casa e a floresta, não havia onde se esconder. Precisava ser

rápida.

O quarto que a aprisionava era outra história. Uma grossa cerca viva

crescia por baixo da janela.

Mordeu o lábio, considerando-a. Caso se pendurasse no parapeito, a

cerca abreviaria a queda, embora a aterrissagem pudesse ser bem desagradável.

Ainda assim, não tão desagradável quanto esperar ali por um resgate que

poderia jamais chegar.

Poderia fazer aquilo. Olhou mais uma vez, mas não havia sinal de

Harold. Lentamente, passou pela janela e se abaixou até ficar pendurada pela

ponta dos dedos. Segurando o ar, deixou-se cair.

Sentiu o vestido rasgar ao se enroscar num galho, mas, a despeito disso,

chegou sã e salva. Assim que sentiu as pernas firmes, correu em direção à

floresta.

Era mais longe do que parecera da janela, e seus pulmões ardiam. Não

ousou reduzir o ritmo até estar abrigada sob as árvores.

Enfim, deixara o campo aberto para trás. Deslizando em torno do tronco

de uma grande árvore, apoiou-se contra as raízes, a fim de recuperar o fôlego. O

orvalho havia lhe encharcado os sapatos e a barra das saias. Ainda usava as

roupas que vestira para o jantar, em Londres. Nada apropriadas para viagens

rústicas.

Bem devagar, seu coração se acalmou, e ela pôde ouvir o orvalho caindo

das folhas. Tudo parecia calmo demais. Pelo frio no ar, e pelas árvores que a

cercavam, deduziu ter sido levada para o Norte.


Mas, onde, não era capaz de dizer.

Espiou por trás do tronco. Ninguém à vista. Sem um destino particular

em mente, passou para uma árvore próxima, e depois para a seguinte,

mantendo o campo à vista de modo a não se perder. Se ao menos encontrasse

uma cabana onde pudesse pedir ajuda!

O som de cascos batendo na terra firme soou de repente. Liz correu para

se abrigar mais ao fundo da floresta, porém era tarde demais. A mão enluvada

de Harold a empurrou para o chão, enquanto ele puxava as rédeas e fazia o

cavalo parar.

Liz caiu com tudo, o ar expulso dos pulmões. Desesperada, arrastou-se

de costas. O rosto de Harold estava roxo de fúria.

— Desgraçada! Achou mesmo que eu não iria me lembrar da janela? —

Saltou do cavalo com surpreendente agilidade a considerar seu peso. Agarrou-

lhe o braço e a fez ficar de joelhos, como se fazia a uma criança malcriada.

— Vai aprender a me obedecer... — Golpeou-a no traseiro com toda a

força. — Não terei uma esposa desrespeitosa!

— Seu monstro! — Liz arfou revoltada.

Harold ignorou o insulto, forçando-a a se levantar. Em seguida sacou um

pedaço de corda da sela e lhe amarrou os pulsos.

Liz lutou por alguns instantes, depois parou, ainda que sua cabeça

continuasse a trabalhar na tentativa de encontrar uma saída. Fisicamente,

Harold era bem superior. Além disso, com ele a cavalo, seria impossível fugir a

pé.

Grunhindo como um porco, ele a suspendeu até o dorso do animal, então

montou por trás dela. Liz estremeceu diante do contato com a massa suada.

Ainda assim, manteve-se quieta. Deixá-lo com mais raiva só pioraria as coisas.

Harold conduziu o cavalo de volta a casa. Permitiu que o animal seguisse

lentamente, aproveitando o tempo para passar as mãos pelo corpo de Liz.


Ela sentiu bile subir à garganta ao sentir-lhe a excitação. A corda cortava-

lhe os pulsos, mas não importava o quanto tentasse, não conseguia afrouxá-la.

Quando estava a ponto de desfalecer de desgosto e repulsa nas mãos do

aproveitador, chegaram a casa. Era uma construção discreta de dois andares,

pintada de azul-claro. Grande o suficiente para abrigar uma família e talvez um

criado ou dois. Com certeza não parecia uma prisão.

A porta da frente se abriu, e um homem desconhecido e de aparência

suja deu um passo para fora.

Após buscar na memória, Liz o identificou como o cocheiro que ajudara

Harold em seu sequestro. Outro inimigo.

Harold desmontou, e Liz se ressentiu por ter de esperar que ele a tirasse

do cavalo.

O criado se aproximou e tomou as rédeas do animal.

— Foi bem rápido em recuperá-la, senhor.

Harold estufou o peito e passou um braço pela cintura de Liz.

— Ela é teimosa, mas não é páreo para mim.

Liz se retorceu. O homem soltou uma gargalhada áspera e conduziu o

cavalo em direção ao celeiro.

Ela fechou os olhos por um instante. Sentia o corpo todo abusado. E a

sensação só fez aumentar quando Harold a arrastou até o quarto de onde havia

escapado.

— Sugiro que repense seus modos, doce Liz — disse a centímetros de seu

rosto. — Ainda que caçá-la seja divertido, prefiro uma mulher mais submissa

para esposa. Vou desamarrá-la agora, mas espero que tenha aprendido a lição.

Começou a trabalhar no nó, não sem antes dar-lhe um belo beliscão no

traseiro.

Liz o chutou na canela, mas seu sapato úmido não era páreo para as

botas de montaria que o primo usava.


— Não apenas não sou sua esposa como já deixei bastante claro que não

vou me casar com você! — gritou revoltada, e, no momento em que viu os

pulsos livres, lançou-lhe um cotovelo nas costelas.

Harold absorveu o impacto e a empurrou contra a parede.

Liz deixou escapar o ar dos pulmões, depois esfregou os pulsos,

procurando recuperar a circulação, enquanto cravava os olhos no homem à sua

frente.

— Por toda a vida ouvi falar em coisas que eu não poderia ter — ele

começou numa voz rouca e ameaçadora. — Coisas para as quais eu não era

bom o suficiente, nem nobre o suficiente. E você, a filha de um simples barão,

pensava estar tão acima de mim. Ficava desfilando por aí, pelas altas-rodas,

tratando-me como um parente pobre, enquanto, o tempo inteiro, seu pai

gastava a fortuna em mesas de apostas. E veja quem é o parente pobre agora...

Ela balançou a cabeça. Jamais tinha se exibido para parentes pobres, a

maioria dos quais era gente decente. Ainda assim, uma coisa que Harold

dissera era verdade:

— Com dinheiro ou não, você jamais será bom o suficiente para mim —

declarou de queixo erguido.

— Sua audácia é impressionante, mas ambos sabemos que isso não é

verdade. Não fosse por mim, você estaria nas ruas.

— Seria preferível a estar ao seu lado. Sou perfeitamente capaz de me

defender sozinha.

— Ah, é? Então por que voltou engatinhando para casa quando sua

última aventura não deu certo?

— Eu não devia estar pensando — ela admitiu num murmúrio.

— Ao contrário. Talvez tenha sido a decisão mais racional que já tomou.

Se apenas houvesse vindo seguida do aprendizado sobre gratidão e

obediência... É melhor que se resigne Liz. Nenhum homem vai querê-la agora.
Ela deu de ombros. Homens; havia aprendido, eram criaturas ruins.

Nenhum deles era digno de confiança.

— Considere bem suas próximas atitudes, minha querida. Você terá

tempo de sobra.

Harold saiu, mais uma vez trancando a porta.

O estômago dela roncava, lembrando-a de que a última vez em que

comera fora no fatídico jantar, antes de seu sequestro. Seria a intenção de

Harold matá-la de fome até que se submetesse a ele?

Quando os passos do detestável primo haviam se convertido em silêncio,

permitiu que lágrimas de frustração rolassem finalmente.

Como tinha chegado àquele estado? Dez meses antes, era a filha do barão

de Medford. Um mês antes estava feliz o suficiente como governanta e amante

de um dos mais poderosos homens da Inglaterra.

De qualquer modo, nem seu pai nem o duque eram o que pareciam. E

agora ela não era mais do que a refém de um sujeito a quem julgava menos

digno do que um rato.

Uma mulher deve se colocar sob os cuidados de um homem, lembrou-se

das palavras da mãe, desgostosa. Como era possível que ela pensasse daquela

maneira?

Talvez não estivesse sendo justa em relação a Alex. Ele havia lhe

oferecido mais proteção do que ela estivera disposta a aceitar.

Sacudiu a cabeça. Como era tola por ainda tentar encontrar maneiras de

liberá-lo da culpa. Deveria ser mais esperta. Mesmo que Alex não a houvesse

aceitado como moeda de troca pelas dívidas de jogo de seu pai, pelo que o tal

Cutter sugerira no parque, ele costumava seduzir e abandonar suas mulheres.

Alex podia ter lhe oferecido dinheiro, joias, mas teria poupado seu coração?

Provavelmente não. Afinal, não recebera uma só palavra dele, desde que

partira em negócios.

Dali em diante, não confiaria mais em ninguém.


Capítulo 3

Alex sorriu quando a casa do visconde Grumsby surgiu à vista. Estivera

longe por muito mais tempo do que havia planejado, mas, por fim, havia

colocado as coisas em ordem. O navio estava com os reparos quase prontos, o

capitão fora substituído e seu parceiro, tranquilizado. Quanto aos prejuízos, ele

os recuperaria na próxima expedição à índia.

Tudo parecia bem mais promissor, exceto por um detalhe preocupante:

sentira muito a falta de Liz.

E não apenas fisicamente. Sentira falta de seu espírito alegre, de seu

senso de aventura. Sentira falta da maneira como, a despeito da ruína da

família, ela sempre pensava no futuro com otimismo, algo que ele próprio já

não vinha fazendo.

Por isso decidira fazer uma visita à irmã e ao cunhado antes de retornar a

Londres.

O caminho que subia para a casa pareceu mais longo do que de costume;

e foi com alívio que ele conduziu o faetonte ao longo da construção e atirou as

rédeas ao criado que surgiu para ajudar.

— Cuide dos cavalos, por favor. Foi uma longa viagem. — Desceu do

veículo e caminhou em direção a casa.

Do lado de dentro, o mordomo informou-lhe que milord e a senhora

estava fora, passando o dia.

Não importava. Seria poupado dos pretextos e veria Liz.

— As crianças?

— Lá atrás, milord, com a governanta.


— Perfeito.

Fez o itinerário que levava aos fundos da mansão e, no mesmo instante,

ouviu as risadas dos pequenos.

Pouco depois, Henry vinha correndo em sua direção.

— Tio Alex!

Ele jogou o sobrinho no ar, e o menino gritou de felicidade.

— De novo!

— Em um minuto — disse, procurando por Liz.

Mas tudo o que viu foi Clara se curvando sobre uma flor, próxima a uma

senhora grisalha.

— Henry, onde está a sua governanta?

— Está ali — O garoto apontou para a senhora. Alex franziu o cenho.

— Quero dizer: onde está a Srta. Medford?

— Ah. Não está mais aqui.

— Como assim? — ele indagou com o coração disparado. Henry deu de

ombros.

— Ela disse que precisava partir. Não queríamos que ela fosse embora,

mas ela foi mesmo assim. A Srta. Medford era divertida. Mas mamãe diz que

devemos obedecer a Srta. Grifford agora.

Que diabo havia acontecido?

— Tio Alex, jogue-me para cima mais uma vez!

— Agora não, Henry — ele murmurou. — Vá brincar com Clara.

A decepção do menino refletia a dele. Cabisbaixo, Henry se afastou.

Alex suspirou pesadamente, iria se acertar com o sobrinho depois.

— Que bons ventos o trazem, meu irmão? O duque ignorou a polidez da

irmã.

— Onde ela está?

Marian ergueu uma sobrancelha.

— Ela, quem?
— Você sabe a quem me refiro. Onde está Liz?

Ele não pudera extrair qualquer informação útil da criadagem, de modo

que, caminhando pelos cômodos da casa incessantemente, fora obrigado a

aguardar o retorno de Marian. Teria Liz partido a fim de evitá-lo? Teria

recebido alguma oferta melhor de emprego ou de casamento?

Por sorte, a irmã resumira o passeio e voltara antes que ele pudesse cavar

buracos no piso da casa.

— Onde está ela, Marian? — repetiu, enquanto a moça desamarrava o

chapéu com enlouquecedora lentidão.

— Ela se foi, Alex. Mas, dê-me um instante... Se me seguir até o salão,

podemos conversar tomando um chá.

— O que quer dizer com "ela se foi"? — Ele ignorou o apelo da irmã,

bloqueando-lhe a passagem. Precisava saber o que havia acontecido naquele

momento.

Marian comprimiu os lábios e se endireitou.

— Não tive escolha. Londres inteira fervilhava com comentários sobre

vocês dois.

Alex desviou o olhar, incapaz de negar a acusação implícita, mas incerto

sobre o quanto de seu romance com Liz era conhecido.

— Seus desatinos me custaram uma boa governanta desta vez. — Marian

lançou-lhe um olhar de condenação. — Deixe-me falar sinceramente, Alex. Sei

que está acostumado a ter a mulher que deseja, mas costuma cuidar para que

não tenham problemas. Por que Liz? Ela era uma boa menina, ainda que a

família não tivesse sorte, e as crianças a adoravam.

— Lamento. Sei que as crianças gostavam dela. — Seguindo em direção à

porta, ele perguntou: — Ela disse para onde ia? O que planejava fazer no

futuro?

Marian cruzou os braços.


— Que futuro, Alex? A reputação da pobre foi arruinada além de

qualquer limite.

— Marian... — ele falou devagar. — Para onde ela foi?

— Para casa, creio. Isto é, se é que a família a recebeu de volta.

Ele se virou e saiu, deixando a irmã estupefata com sua total falta de

modos.

— Cavalariço! — chamou, chegando ao estábulo. O mesmo rapaz de

antes se aproximou.

— Apronte o faetonte e os cavalos. Vou para Londres. O menino franziu

a testa.

— Sim, milord.

Maldição. Como aquilo havia acontecido enquanto estava fora? E por

que ninguém o informara da situação? Perguntou-se Alex, inconformado.

Os cavalos sacudiram-se em protesto quando ele os açoitou com as

rédeas. Estavam cansados, mas ele devia desculpas a Liz. Não estava disposto a

perdê-la com tanta facilidade.

Após vários grampos quebrados, Liz percebeu que abrir uma fechadura

era bem mais difícil do que as heroínas de seus romances favoritos a tinham

feito crer.

O que significava que deveria ser esperta e tentar convencer Harold de

que havia desistido de lutar. Se conseguisse liberdade suficiente apenas para

vagar pelas cercanias, poderia planejar uma rota de fuga, ou mesmo encontrar

uma maneira de pedir ajuda.

Tramar a fuga a manteve distraída da fome crescente. Mas conforme o

crepúsculo descendeu sobre os campos e um delicioso aroma de rosbife se

elevou pela escada, nada pôde desviá-la de seu apetite. Não comia desde a noite

do sequestro. Não sabia ao certo por quanto tempo tinham viajado, mas Harold

dissera ter assinado o compromisso de noivado duas noites antes, o que

significava que havia passado bastante tempo desde sua última refeição.
Se soubesse o que realmente estava por vir durante aquele último jantar

em família, teria prestado mais atenção ao que tinha no prato e menos ao vinho

batizado.

Quando a luz do lado de fora diminuiu ainda mais, e como Harold ainda

não houvesse reaparecido, ela decidiu bater à porta. Precisava de energia para

colocar qualquer plano em prática, e isso significava um bom prato de comida.

Ouviu os passos com uma mistura de alívio, raiva e medo.

A porta se abriu apenas o suficiente para que ele lhe bloqueasse qualquer

chance de fuga.

— Sim? — perguntou Harold, curioso, como se não tivesse ideia do que

Liz poderia querer.

Inferno. Odiava ter de implorar.

— Não vai dividir nenhuma refeição com a sua noiva? — Manteve a voz

tranquila, ainda que a ideia de dividir qualquer coisa com aquele porco imundo

a fizesse ter náuseas.

— Seu comportamento, nesta manhã, fez pouco para me convencer de

que merece isso. Talvez queira se desculpar?

Ela o odiou ainda mais.

— Lamento pelo inconveniente que lhe causei. Harold lançou-lhe um

sorriso esperto e satisfeito.

— Ainda assim, acho melhor que fique aqui por mais algum tempo. Vou

trazer uma bandeja.

Ótimo, pensou Liz. Não importava onde faria sua refeição, contanto que

se alimentasse.

Harold voltou com uma pequena baixela.

— Como já comi, vou apenas lhe fazer companhia. — Passou-lhe a

bandeja e sentou-se na cadeira mais confortável do quarto.

Quando Liz viu a quantidade de comida que ele havia lhe reservado,

teve vontade de chorar, mas o orgulho a impediu.


— Ouvi dizer que vocês, meninas, tem apetite delicado. Espero que isso

não seja pesado demais para você...

A minúscula porção de bife e pão não seria pesada nem para um pardal.

Era o suficiente apenas para instigar, e não saciar o apetite.

Ela lançou-lhe um sorriso, como se tudo estivesse perfeito, e tratou de

comer o mais lentamente que podia, embora o desejo fosse de engolir tudo e

implorar por mais.

Harold a observou com olhos estreitos. No instante em que ela terminou,

levantou-se e retirou a bandeja.

— Melhor ter uma boa noite de sono, querida. Quem sabe amanhã

possamos estreitar nossos laços...

— Talvez. — Ela sentiu o estômago revirar, mas deu um sorriso.

Até que a porta se fechou. Quando escapasse, e ela iria escapar, decidiu,

precisaria de um lugar para onde ir.

Precisava enviar um recado a Alex. O duque de Beaufort podia ter lhe

partido o coração, mas, se soubesse de suas condições, não se furtaria a lhe

oferecer proteção.

Os cavalos do duque estavam exaustos e arrastando os cascos no

momento em que chegaram ao número nove da Milton Road. Alex não se

encontrava muito melhor quando saltou da charrete e subiu os degraus da casa

dos Medford.

Um mordomo de uniforme esmaecido o conduziu para dentro, e Alex

observou ao redor, impaciente, enquanto esperava pela visão da mulher de

quem sentia tanta falta.

A pessoa que o cumprimentou, no entanto, lembrava tanto Liz quanto

um paralelepípedo lembra um rubi.

— Vossa Graça, que prazer inesperado. Alex não estava para festas.

— Quem é você?

— George Gorsham, irmão de lady Medford, milord.


Ah. O tal tio George a quem Liz se referira com tanto desdém.

— Onde está a Srta. Medford?

Os olhos do homem se desviaram.

— Receio que não esteja aqui.

— Por que não? — Alex sentiu o sangue abandonar o rosto.

— Minha sobrinha retirou-se para o campo.

— Onde, exatamente? Quero um endereço. George esfregou as mãos,

contra a calça, nervoso.

— Lamento Vossa Graça, mas não posso dizer.

— Não pode ou não quer?

— Não posso. Sinto muito. Mas, caso tenha negócios com Liz, tenho

como lhe enviar uma mensagem. Sei de alguém que diz conhecer o paradeiro

dela.

— Não há necessidade. Meus negócios com ela são assunto meu. Quem é

a pessoa que pode me informar onde ela está?

— Harold Wetherby.

— Wetherby? — Ele sentiu o coração dar um salto. — Só pode estar

brincando.

— Não. Ela está com ele.

— Sozinha? — O pulso de Alex acelerou enquanto o sangue lhe subia à

face novamente.

— Hum... Eu não sei ao certo.

Alex agarrou o homem pelo colarinho.

— Ela foi por livre e espontânea vontade?

George preferiu não responder, embora a pressão de Alex em seu

pescoço fosse o suficiente para lhe roubar o ar.

Alex dispensou a resposta, contudo. Sabia como Liz se sentia acerca do

primo.
Como o rosto de George se tornasse vermelhos, Alex o soltou, e o velho

caiu sobre uma cadeira, lutando para recuperar o fôlego.

— Se Liz sofrer algum mal nas mãos daquele desgraçado, acertarei as

contas com você — ameaçou antes de deixar a casa.

Para o desprazer de Liz, ela precisou de três dias de hipocrisia para

merecer a liberdade de vagar pelos arredores. Mesmo agora, Harold dava-lhe

comida apenas o suficiente para que sobrevivesse. A falta de comida a deixava

sem energia, mas cada vez mais resoluta.

Quando deixara o quarto, o sequestrador e seu criado sujo, Bormley,

tinham se mantido perto o suficiente para que ela não tentasse escapar

novamente. O criado era menos atento do que Harold, no entanto, e, sob sua

supervisão, ela conseguira esconder, conforme os dias passavam pena, tinta e

papel por baixo do vestido.

Após uma semana de cativeiro, pôde fazer uso do material que tinha

reunido.

Lembranças da voz profunda de Alex, e de seus olhos escuros brilhando

de paixão, inundaram-na enquanto escrevia. Deveria confessar que ele ainda

era dono do seu coração?

Não. Homens esperavam uma mistura de paixão e praticidade de uma

amante, e não amor.

Vossa graça,

Certa vez ofereceu-me proteção caso eu aceitasse ser sua amante, e, tola que sou,

recusei tal proposta. Agora sinto falta da paixão que compartilhamos e anseio por estar

ao seu lado.

Minha situação piorou sensivelmente, como deve saber. Assim, pretendo aceitar

sua oferta caso ela ainda seja de seu interesse.

Não posso dizer quando, todavia. Meu primo me mantém presa, não sei onde,

contra a minha vontade. Pretendo escapar daqui e rezo para que, quando finalmente

puder reencontrá-lo, Vossa Graça não rejeite minha humilde companhia.


Sempre sua,

Respirou fundo e dobrou o papel. Umas poucas gotas da cera da vela o

selaram.

Céus! Até onde havia ido!

Aqueles últimos dias, contudo, tinham provado uma coisa: Harold não

desistiria por nada de torná-la sua. A cada momento, suas mãos ficavam mais

ousadas, como se ele soubesse que as forças dela estavam escasseando.

E ela estava ficando sem tempo para agir. Sacrificar o próprio orgulho,

implorar a Alex Bainbridge pela posição de que tinha desdenhado, era

infinitamente preferível àquilo.

Se ao menos pudesse contatar o antigo amante.

Mas havia uma esperança. Na noite anterior, permanecera desperta

devido a uma discussão no andar de baixo.

— Você me prometeu o dobro do pagamento por ajudá-lo a trazer a

mulher para cá! — exclamara Bormley. — Não tenho visto nem mesmo o

pagamento normal há duas semanas. Não que eu pudesse gastá-lo por aqui...

Sinto como se fosse eu o prisioneiro.

Harold respondera em voz baixa, mas, pelo que Liz captara não fora

capaz de acalmar os ânimos de seu imundo ajudante.

O que significava uma oportunidade ascendente. Qualquer homem baixo

o suficiente para trabalhar para Harold seria baixo o suficiente para aceitar

suborno.

Enfiou a carta no decote e deixou o quarto.

Quando alcançou a pequena sala, Harold já deixara o local. Bormley, no

entanto, permanecia ali, parecendo revoltado.

Perfeito.

Ela abriu a porta e rumou para o jardim, sabendo que seria seguida. A

cabana que Harold escolhera para sua aventura era realmente remota. Jazia ao

fim de uma estreita trilha de terra, sem que houvesse nenhuma outra casa
vizinha. A trilha, por sua vez, estendia-se através dos montes, perdendo-se a

distância.

Tomara esta levasse a uma vila.

Sob outras circunstâncias, a casa até pareceria bonita, com as janelas e a

cerca branca. Mesmo assim, ela só conseguia sentir, repulsa.

Continuou andando pelo jardim, e então deu a volta no celeiro.

— Está indo longe demais — avisou-lhe sua indesejada sombra.

Liz reduziu o passo até que ele se emparelhasse com ela.

— Eu queria falar com você.

— Sobre o quê? — Um brilho calculista iluminou os olhos normalmente

macilentos do homem.

— Vou falar com franqueza. Ouvi sua discussão com Wetherby, na noite

passada. Ele o está usando e é pouco provável que lhe pague como prometeu.

Harold nunca foi um homem generoso. É do tipo que paga, faz meia-volta e diz

que foi roubado.

Bormley cruzou os braços, desconfiado.

— Poderíamos ajudar um ao outro — ela pressionou. — Ajude-me a

fugir, e cuidarei para que seja recompensado.

O homem curvou os lábios, analisando-a de cima a baixo, os olhos

pequenos pousando em seus seios por um repulsivo instante.

— Você não tem nada. Todos sabem que está à míngua.

— Pode ser que sim, mas tenho um amigo que pagaria muito bem por

meu retorno.

Bormley bufou.

— Que amigo?

— O duque de Beaufort.

Bormley cocou a cabeça, impressionado.


— Não posso conceber Sr. Bormley, que trabalhar para Wetherby seja o

ideal para um homem com a sua ambição e habilidades — ela prosseguiu. —

Ajude-me, e nunca mais vai precisar se sujeitar a algo assim outra vez.

— O que quer que eu faça? Wetherby não é nenhum tolo. Era verdade.

Harold a vigiava constantemente, esperando que fosse fugir de novo.

— Quando o senhor e Wetherby me trouxeram aqui, ele deu-me vinho

misturado a alguma coisa. Um sonífero, talvez. Não sobrou nada dessa poção?

O homem estreitou o olhar.

— Sobrou, sim.

— Perfeito. Basta, então, que ele se distraia. — Lembrou-se da carta

guardada junto aos seios. — Pode entregar uma mensagem?

— É pouco provável. Sou quase tão prisioneiro quanto você, a menos que

o patrão me arrume alguma tarefa.

— Compreendo. — Inferno. Teria de cuidar dessa parte sozinha. — Está

certo. Quando eu estiver pronta, faço-lhe um sinal. Vou deixar meu lenço cair.

Começou a caminhar novamente, não querendo permanecer escondida

atrás do celeiro por tempo demais com o homem, ou poderia levantar suspeitas

em Harold.

— E quanto ao pagamento?

— O duque irá cuidar disso — Liz afirmou, rezando para que sua fé em

Alex fosse justificada.

Mas havia uma boa chance de aquilo dar certo. Mesmo se ele não a

amasse, não haveria de querer vê-la prisioneira. Bormley fez-lhe um breve

aceno com a cabeça.

— Verei o que posso fazer.

Não era uma promessa, ela pôde notar. Mas já era alguma coisa.

Seria o homem confiável? Liz se perguntou, preocupada. Não tinha

ilusões de que ele consideraria ajudá-la apenas por caridade cristã. Esperava
apenas que sua ganância por lucros maiores do que os que Harold poderia

oferecer o fizesse colaborar.

Pela primeira vez, ficou grata por seu relacionamento com o duque ter

vindo a público. Se Bormley tivesse ouvido os rumores, acreditaria poder ser

recompensado.

Cruzou os braços, protegendo-se da fria névoa da manhã.

— Com frio?

Seu estômago se apertou enquanto Harold se aproximava. Ainda assim,

ela manteve a expressão neutra.

— Um pouco.

— Talvez devesse entrar e se aquecer antes que partamos.

— Para onde? — As esperanças a tontearam. Ele não havia mencionado

nada antes, mas não importava. Estaria longe daquela prisão. Talvez até fizesse

uma refeição de verdade, já que o primo provavelmente não lhe negaria comida

em público.

— Tenho uma surpresa para você, Liz. — O tom cantado deixava

evidente o quanto ele apreciava torturá-la.

Que espécie de surpresa? Uma surra?

— Estou ansiosa por descobrir do que se trata...

— Vai ter de esperar, doçura. — Harold riu condescendente. — Mas

posso garantir, vai achá-la bastante... Cativante.

A maneira com ele falava a fez estremecer. Aquilo não fizera parte de seu

plano. Precisava de mais tempo.

Moveu-se em direção a casa, passando por Bormley a caminho do

estábulo. Encarou-o, tentando avisar sobre a nova urgência, mas impedida de

falar abertamente diante de seu malfeitor. Puxou o lenço, segurou-o diante do

nariz, e então deixou que escapasse por entre os dedos e planasse até tocar o

chão. Curvou-se para apanhá-lo, aguardando por alguma reação de Bormley.

O criado devolveu o olhar, mas de maneira indecifrável.


O pânico a invadiu.

Passou para o lado de dentro e apanhou um xale mais quente, uma peça

feita à mão que encontrara num baú. A quem havia pertencido, não tinha ideia,

já que Harold não lhe contara nada sobre os donos ou antigos ocupantes da

casa.

Aqueceu-se diante da lareira, enquanto Bormley aprontava o coche e os

cavalos. Viria ele em seu auxílio? Ou estaria agora mesmo revelando sua trama

a Harold?

— Está na hora, Liz.

Rigidamente, ela seguiu até o veículo, tentando imaginar se a mudança

nos planos representaria uma oportunidade de fuga ou um perigo ainda maior.

Bormley a ajudou a subir, mas sua expressão vazia nada denunciava.

Enquanto Harold suspendia seu considerável peso até o assento ao lado,

Liz sentiu as esperanças minguar.

O criado tomou o assento do condutor, mas, subitamente, fez um gesto

com a mão.

— Um momento, senhor — disse, apressando-se de volta a casa.

O coração de Liz disparou, e ela enviou uma prece aos Céus. Harold

emitiu um impaciente grunhido.

Uma vez de volta, Bormley estendeu uma jarra e uma cesta coberta por

um pano.

— Para a viagem, senhor.

A esperança renasceu e Liz lançou-lhe um olhar. Seria apenas sua

imaginação, ou o homem piscara para ela?

Harold aceitou a oferta, e o criado subiu até seu lugar. Um golpe de

rédeas, e estavam a caminho sabia-se lá de onde.

Pela primeira parte da viagem, Liz sentou-se rígida ao lado do

sequestrador. Ele não lhe tinha dito nada sobre seu destino, e ela tampouco lhe
havia perguntado. A preocupação a devorava, no entanto, enquanto tentava

adivinhar quais os planos de Harold.

— Com sede? — Harold apontou-lhe a jarra.

Liz sacudiu a cabeça, e assistiu enquanto ele tomava um gole e

examinava a cesta de pães.

O coche passou por pequenas fazendas cujos campos se encontravam

quase prontos para a colheita. Bormley havia baixado a cobertura do coche, e

ela se viu feliz por ter trazido o xale.

Passaram por alguns outros viajantes. Será que a considerariam louca

caso gritasse por ajuda?

Não. Tinha de ser paciente. Não poderia arcar com outra fuga

malsucedida.

Finalmente, a distância, viu a silhueta de uma igreja.

Uma vila! Com gente de verdade, comércio e...

Lágrimas encheram-lhe os olhos, tamanha a falta que sentia de uma vida

normal. Não podia mais suportar o silêncio de Harold.

— Estamos indo para a vila? — perguntou, detestando o tom de súplica

na própria voz. Entre o cativeiro imposto pelo primo e o isolamento que

experimentara em Londres, tanto na casa de Bea quanto na de sua própria

família, estava faminta havia tempo demais. Não apenas por comida, mas

também por contato humano.

— Sim, à igreja.

— Para a missa? — Era domingo? Céus! Tinha perdido a conta.

— De certa forma.

Liz torceu a mãos junto ao xale, enquanto seu desconforto crescia.

— Considere cuidadosamente suas atitudes, doçura — advertiu-a Harold

—, pois não é apenas o seu destino que depende delas.

Ela franziu o cenho.

— Pense também em sua querida irmã.


— Charity? O que ela tem a ver com isto?!

— Da maneira que as coisas estão agora, você arruinou suas chances de

um futuro decente.

A vergonha a inundou. Era verdade. Ainda que Charity houvesse dito

saber cuidar de si mesma, ela sabia ser a responsável pelas dificuldades da

irmã. A reputação da família Medford fora abalada após a morte do pai delas,

mas agora estava em frangalhos. E nada daquilo era culpa de Charity.

— Talvez possamos consertar as coisas — Harold afirmou, sorrindo com

cinismo.

— Não vejo como.

— A sociedade é inclemente, mas é bem capaz de esquecer os deslizes de

alguém se a pessoa os enxerga e se decide por um respeitável e legítimo

casamento. — Ele bebeu mais um gole da jarra.

Liz afastou o olhar, mirando a estrada enquanto o veículo seguia lento.

Os campos dourados e marrons e as fazendas se alternavam diante de seus

olhos úmidos. Harold dissera que estavam indo à igreja. Agora ela sabia por

quê.

De qualquer modo, haveria tempo. O proclama deveria ser lido três

domingos antes da data.

— Case-se comigo, Liz. Quando os rumores cessarem, vou patrocinar eu

mesmo uma temporada para Charity.

Ela sacudiu a cabeça em protesto, a garganta apertada.

— Pense bem, doçura, antes que tome uma decisão da qual vá se

arrepender.

Ela faria qualquer coisa pela irmã, mas a oferta de Harold era vazia.

Ainda que ele fosse capaz de patrocinar Charity, não tinha as necessárias

relações políticas e sociais para que a lançasse com sucesso, principalmente

depois dos rumores que tinham cercado sua família.


E Harold estava errado. Os boatos poderiam morrer, mas as pessoas não

se esqueceriam.

Como ela se mantivesse em silêncio, Harold a agarrou pelo braço com

força.

— Se não estiver convencida, podemos voltar à sua casa, onde informarei

seu tio de que, a despeito de nosso interlúdio no campo, julgo-a inapropriada...

E de que prefiro me casar com Charity.

Liz empalideceu.

— Jamais! — Ela se ergueu e passou a golpeá-lo, desesperada e

enraivecida. — Você não vai tocar em minha irmã, seu monstro!

Harold tentou lhe afastar as mãos, mas ela parecia sem controle.

— Bormley, pare o coche agora! — o primo gritou, mas o criado não fez

mais do que notar sua ordem.

O rosto de Harold torceu-se de raiva. Ele era bem maior do que ela

lembrou-se Liz, e no estado de inanição em que ela se encontrava, seria incapaz

de competir com o homem.

Dando-se conta de sua loucura, recuou até beirada do assento e se

preparou para saltar do coche.

Um incrível soco a arremessou para o fundo, e a fez desabar no piso,

diante dos joelhos de Harold. Os punhos gordos agarraram seus cabelos por

trás, forçando-lhe o queixo para cima.

— Se você pular esteja certa de que vou me divertir com Charity. Ela é

bonita e é jovem. Será bem mais facilmente treinada. Quantas refeições perdidas

e quantas surras acha que serão necessárias antes que ela me receba bem na

cama?

Aquilo fez o que nenhuma ameaça surra ou falta de comida havia

conseguido.
Liz fechou os olhos, sem escolha. Harold não podia pôr as mãos em sua

irmãzinha. Apenas por uma loucura sua estava naquela posição. E mesmo que

não fosse ela jamais poderia permitir que a irmã pagasse por isso.

Tinha o corpo moído pela tensão, e a cabeça ainda latejando devido ao

soco, porém conseguiu movê-la devagar.

— Está fazendo a coisa certa, doçura — afirmou Harold, e ela detestou

seu tom presunçoso. — Levou algum tempo, mas eu sabia que você seria

razoável um dia. Na verdade, esta é a razão para nosso passeio, esta manhã.

Harold a soltou e, temerosa, Liz se arrastou para cima do banco.

— Consegui uma licença especial para o nosso casamento — ele explicou,

soando orgulhoso. — O vigário está à nossa espera.

Ela lutou para respirar.

— Pretende fazer isso hoje?

— Por que não? Ande logo com isso! — ele gritou a Bormley, que deu

com as rédeas nos animais.

Liz deu uma olhadela em direção à jarra. Haveria ainda alguma

esperança? O homem não demonstrava sinal de estar abalado.

Não podia contar que Harold fosse desmaiar com o sonífero, mas ela,

que já se sentia fraca de inanição, com certeza o faria.

Bormley levou o veículo até o pequeno pátio da igreja e parou. Harold

abriu a porta e... Liz piscou, alerta. Teria ele cambaleado ao tocar o chão?

Não importava. Ela contava com um plano agora, ainda que este fosse

temporário.

Desceu do coche e o seguiu, em aparente obediência, para dentro da

penumbra da igreja. O vigário não poderia proceder com a cerimônia caso a

noiva estivesse inconsciente, poderia?

Investigar o desaparecimento de Liz tomou mais tempo do que Alex

esperara. Ele mal resistiu à urgência de cavalgar à sua procura.


Mas procurar sem um plano seria tarefa de tolo. Ela deveria estar

escondida em alguma parte. Assim, contratou os melhores investigadores,

pagou-os a mais para que se apressassem, e então os atormentou

incessantemente.

Após dois dias sem resultado, estava desesperado de preocupação e

culpa, e se encontrou com lorde Wilbourne no White's para uma noite de

carteado e bebedeira.

— Está jogando muito mal, Beaufort — disse-lhe Wilbourne, em apenas

uma hora de jogo.

Alex deu de ombros e entornou outro brandy. Para onde, diabos, aquele

desgraçado havia levado Liz?

Três rodadas mais tarde, e Alex tinha chegado a um estado em que não

se concentrava mais.

Wilbourne baixou as cartas.

— Vai contra a minha consciência apostar contra um homem que está

mais concentrado em se matar com o álcool do que em jogar.

Alex se recostou no assento com um suspiro.

— Algo o incomoda, Beaufort?

Alex registrou a nota de preocupação na voz do amigo apenas

vagamente.

— Não consigo encontrar Liz — murmurou com voz arrastada, deixando

a cabeça pender sobre o espaldar.

Robert olhou em volta. Estavam em um canto discreto do clube de

cavalheiros.

— Aquela cujo pai a vendeu?

Alex o encarou por um instante, como se tentasse lembrar.

— Sim.

Com o mais leve gesto de mão, Robert sinalizou para que o garçom não

trouxesse mais bebida.


— Liz é diferente, Wilbourne. Acho que preciso dela — confessou o

duque com impressionante clareza para seu estado.

A cabeça baixou até as mãos. — Cristo. É tudo culpa minha.

— O que é culpa sua?

— Eu a arruinei, e agora ela se foi.

— Para onde?

— Não sei. — Alex esfregou as têmporas. — Não consigo pensar. Acho

que foi sequestrada.

— Sequestrada? — ecoou Robert, atônito.

— Por Wetherby, aquele desgraçado. Tenho pelo menos uns doze

homens procurando por ela neste momento. Vou atrás dela, Wilbourne... Assim

que este maldito clube parar de girar.

Após quase uma semana de relatórios inúteis dos homens que Alex

contratara para investigar os assuntos de Wetherby, um deles voltou com uma

história sobre uma fábrica têxtil e uma pequena propriedade residencial, ao

norte, pertencentes a Harold Wetherby.

Com o propósito renovado, Alex partiu imediatamente a cavalo. Era uma

boa distância, mas, após cavalgar por toda a tarde e à noite, viu-se próximo a tal

residência.

Não era muito: uma casa de dois andares na Inglaterra rural. Conferiu as

descrições do investigador mais uma vez e se aproximou com cuidado, o

coração palpitando. Queria ver por conta própria que Liz estava bem, mas o

bom-senso lhe dizia que tal investida poderia provocar Harold ainda mais.

Ninguém notou sua chegada ao pequeno jardim. Havia um estábulo,

porém não ouviu nenhum som de animais, exceto por aqueles vindos de um

punhado de galinhas ciscando pelo pátio.

A ansiedade cedeu lugar à incerteza. Algo estava errado. Teria ido ao

lugar errado? Não existia mais nada em volta.


Bateu à porta e não obteve resposta. Empurrou-a e, surpreso, viu esta se

mover.

Um breve exame pelos cômodos confirmou que a casa se encontrava

vazia, embora seus ocupantes não houvessem partido muito tempo antes.

Restos do desjejum permaneciam sobre a mesa, e o perfume de Liz ainda

recendia no andar de cima.

O temor o invadiu quando seguiu para os fundos e confirmou que o

estábulo também se encontrava deserto.

Um pequeno trabalho de investigação revelou novas pistas, levando à

direção oposta daquela de onde viera. Ele chutou os flancos do garanhão e se

pôs a galope enquanto um nó lhe crescia na garganta. Onde estaria Liz?

Que Deus ajudasse Wetherby se ele lhe tivesse feito algum mal.

Havia meses Alex não adentrava uma igreja, mas, enquanto mantinha os

olhos nos rastros que seguia, sua mente elaborou uma prece. Mais do que tudo,

rezou para que Liz não houvesse sofrido por uma inconsequência dele.

Os rastros levaram-no a uma vila, e então até uma capela.

Seu desconforto quase se transformou em pânico quando avistou o fim

da trilha.

Lançou-se de cima do animal e correu até a igreja.

O empurrão fez a porta de madeira bater contra a parede lateral.

Enquanto seus olhos se ajustavam à falta de luz, discerniu três figuras próximas

ao altar. Uma vestia-se de negro, e as outras duas permaneciam diante desta na

clássica formação de um casamento.

A cascata de cabelos acobreados da noiva tornou impossível que se

equivocasse, e a fúria o inundou.

— Não! O senhor não pode continuar! — Sua voz ecoou na capela,

ricocheteando pelas paredes de pedra. Rapidamente, Alex cobriu a distância até

os três.
Liz, o vigário e um homem robusto, com ralos cabelos castanhos, se

voltaram para fitá-lo. Alex reconheceu este último do encontro no estábulo de

Derringworth, meses antes: Wetherby.

— É a minha igreja, meu filho. Continuarei, se julgar apropriado —

respondeu o padre, contrariado, as sobrancelhas vastas emoldurando o tom

imperial.

Alex virou-se para a mulher por quem atravessara o país.

— Liz, o que está acontecendo aqui?

A atenção dela, no entanto, estava voltada para Wetherby, cuja expressão

tornara-se vazia. A mão gorda deslizou do altar e o homem caiu pesadamente

no chão.

— Liz — Alex insistiu, ignorando a situação —, diga-me que jamais

pretendeu se casar com este infeliz!

Ela se voltou para ele, por fim, os olhos cintilando.

— Jamais!

Estava mais pálida, mais magra do que ele se lembrava, mas a disposição

no rosto delicado mantinha-se intacta. Alex sorriu pela primeira vez em dias.

— Vamos, então, antes que ele se recupere.

— Isso não vai acontecer tão cedo — ela afirmou convicta.

— O que está acontecendo aqui? — O vigário exigiu, indignado.

— Este é Alex Bainbridge, o duque de Beaufort, padre — esclareceu Liz.

— Quanto ao Sr. Wetherby... Creio que tenha provado de seu próprio remédio.

— Duque?! — exclamou o padre. Empurrou Harold com a ponta dos pés.

— Este pobre foi envenenado?

— Não! — Ela corou. — Apenas tomou um sonífero. Alex sorriu

orgulhoso dela.

— Deixou a coisa chegar perto, não? — sussurrou-lhe ao ouvido.

Um arrepio a perpassou enquanto ela sorria de volta.

— A situação é bem pouco usual — declarou o vigário.


— Certamente — concordou Alex, seco.

Harold grunhiu, atraindo a atenção dos três. Passou a mão pela testa e,

com dificuldade, se pôs de pé. Seu olhar pousou em Liz.

— O vinho! — murmurou. — Sua vaga... Alex pôs-se à sua frente,

tomado de ira.

— Cavalheiros! — intrometeu-se o vigário, nervoso. Wetherby se moveu

de lado, ainda cambaleante.

— Será que Vossa Graça não percebe que, casando-se comigo, ela vai

fingir recuperar algo que perdeu com o senhor?

O punho de Alex encontrou em cheio as formas rotundas do homem.

Harold oscilou, ainda que não soubessem se pelo golpe ou pelo efeito da poção

que Liz havia lhe dado.

— Parem! — exclamou o vigário, ainda que recuasse vários passos para

longe dos homens raivosos. — Esta é uma casa de Deus!

— Saia daqui — rosnou Alex, transtornado. O suíno, no entanto, agarrou

o braço de Liz.

— Ela é minha agora.

— A moça não tem o desejo de se casar com você!

— Ela está arruinada. Que opção pode ter?

— Liz vai se casar comigo.

A pequena igreja mergulhou no silêncio enquanto Liz, Harold e o vigário

fitavam o duque com a boca aberta.

— Isso é verdade? — o padre perguntou. Diga que sim! Alex pediu em

silêncio.

Não havia planejado fazer nenhuma proposta. Ela simplesmente lhe

escapara da garganta.

Mas agora que tinha ocorrido, ele sabia que assim deveria ser.

Isso se Liz concordasse.


Pontos de poeira dançavam em meio aos raios de luz filtrados pelos

vitrais estreitos da capela, e Liz se mantinha quieta. O sacerdote se voltou para

Harold.

— Sinto muito, mas não posso seguir com a cerimônia nestas

circunstâncias.

— Mas temos um acordo — resmungou Harold.

— Ele é membro da realeza — resmungou de volta o vigário.

— Liz? — Alex os ignorou.

— Sei que Vossa Graça não pretendia dizer isso — ela sussurrou.

— Engano seu — Alex se viu dizendo, como se não mais comandasse o

próprio cérebro.

— Mas a sociedade vai...

— Dane-se a sociedade. — Pousou um dedo sobre os lábios rosados a fim

de calá-la. Então segurou suas mãos e se apoiou em um joelho. — Liz, esqueça-

se de tudo o mais. Quer se casar comigo?

Ela mordeu o lábio inferior e Alex pôde ver a falta de fé nos olhos claros

dar lugar à esperança. Os cantos da boca perfeita se curvaram, iluminando a

manhã.

Liz tomou um longo fôlego e deu-lhe a resposta que havia muito ele

ansiava por ouvir:

— Sim, Alex, quero me casar com você.

Harold puxou o ar, o rosto gordo tingindo-se de vermelho. Em seguida

ele o soltou e cambaleou para fora da igreja.

O padre balançou a cabeça e se retirou, deixando-os a sós no altar.

Liz continuou a fitar Alex, mal contendo a emoção. Os eventos daquela

manhã teriam feito qualquer outra mulher desmaiar, mas ela não podia correr o

risco de perder seu amado de vista novamente.

Ver Alex irrompendo pela igreja à sua procura fora como viver um

sonho. Como ele a havia descoberto ali?


Não importava. Ele a tinha encontrado.

Uma sombra desceu sobre seus pensamentos, no entanto. Ainda existia o

que Cutter dissera sobre ela ser parte de algum acordo entre Alex e seu pai.

Mas ela o amava tanto! Pensou, comovida. Por mais indigno que aquilo

pudesse ser, ela se casaria com Alex Bainbridge.

Além disso, a proposta tornava a maioria de seus erros irrelevante.

Quis traçar-lhe a longa linha do maxilar, aninhar-se junto a seus braços e

derreter sob sua força.

Antes, no entanto, devia-lhe uma explicação.

— Vossa Graça...

— Eu prefiro que me chame de Alex.

— Alex — ela recomeçou determinada a contar por que havia sido

encontrada prestes a se casar com outro homem. — O que aconteceu esta

manhã...

— Podemos discutir o assunto mais tarde. Apenas diga-me uma coisa: —

Alex tocou a mancha em seu rosto. — Ele a feriu?

Liz olhou para baixo, envergonhada. Após um longo instante, encontrou

o olhar dele novamente.

— Ah, esse infeliz vai pagar por isso! — disse a voz crispada,

acariciando-a no pescoço e nos braços, nervoso. — Como mais ele a feriu, Liz?

Devo procurar um médico?

— Não. Eu já estou me recuperando.

— Mas... —As mãos dele a percorriam, aflitas. Vê-lo aturdido de tanta

preocupação a comoveu.

— Ah, Alex, apenas me abrace.

Ele obedeceu. Acariciou-lhe os cabelos, as costas.

— Deus, Liz. Você não faz ideia. Quando voltei à casa de minha irmã e vi

que havia partido...


O que quer que fosse dizer se perdeu quando ele passou a cobrir-lhe a

testa, os olhos, os lábios de beijos.

Liz inalou o perfume másculo que emanava dele com um suspiro

trêmulo. Havia milhões de perguntas a ser feitas sobre o futuro, mas, por ora,

todas poderiam esperar.

— Diga-me novamente — Alex murmurou-lhe ao pé do ouvido.

— O quê?

— Que vai se casar comigo.

— Vou me casar com você. — Ela ofegou incapaz de crer que Alex

Bainbridge, duque de Beaufort, havia se oferecido a ela. Se aquilo fosse um

sonho, esperava nunca acordar.

O que ele havia acabado de fazer? Perguntou-se Alex, atônito. Como

aquela garota tinha transformado o maior libertino de Londres em um homem

que atravessava o país para pedi-la em casamento?

O engraçado era que aquilo parecia certo; como se o casamento fosse

completá-lo.

Olhou para Liz. Ela parecia um tanto confusa. Não que pudesse culpá-la.

— Vamos — disse, tomando-lhe a mão e conduzindo-a para fora da

pequena igreja.

Apertou os olhos ao retornar à iluminada manhã. Não havia sinal de

Wetherby, e seu cavalo encontrava-se parado próximo ao portão do cemitério

da igreja, parecendo exausto.

Ele se aproximou a apanhou as rédeas, os olhos correndo pelas

sepulturas ali perto. Lorde Medford devia estar se revirando em seu túmulo,

refletiu. Quando oferecera a filha a ele na esperança de acertar suas dívidas, não

devia nem sequer ter imaginado que um dia os dois poderiam se apaixonar o

que lhe teria poupado de tamanha indignidade...


De qualquer forma, era melhor que Liz permanecesse na ignorância

quanto aos atos do pai. Já havia sofrido o suficiente. Suspirou ao se dar conta de

mais um problema.

— Eu estava tão desesperado por encontrá-la que não pensei que teria de

levá-la de volta à Londres... Meu cavalo é bom, mas duvido que consiga

carregar a nós dois.

Olhou em volta. Além da igreja, só havia algumas lojas e casas, além de

uma pequena taverna no vilarejo.

— Fique aqui por um momento. Mas prometa-me que não vai se mover

um só centímetro.

Liz assentiu com um breve sorriso. Após o tumulto da manhã, não estava

certa nem sobre conseguir se mover, caso precisasse. Alex retornou logo depois,

parecendo um tanto desapontado.

— Não há carruagens para alugar até a próxima cidade. Tomara meu

cavalo consiga nos levar por esses dois ou três quilômetros.

Liz concordou. Tinha, no entanto, uma necessidade maior do que

qualquer outra no momento. Olhou para o chão, enrubescida, detestando que

Alex soubesse como Harold a tratara.

— Alex, antes de partirmos, há algum lugar onde eu possa comer? Estou

faminta.

Ela soube que ele havia compreendido pela maneira como os olhos

escuros se tornaram sombrios.

— Aquele desgraçado. — Alex gritou, irado. — Ah, se um dia eu puser

as mãos nele de novo!

— Alex...

Ele correu as mãos pelo rosto.

— Lamento querida. Vou encontrar algo para comer.


Lágrimas de gratidão encheram os olhos de Liz. Ela as afastou, piscando,

mas, quando Alex retornou dez minutos depois com um grande sanduíche de

presunto e uma maçã, não pôde mais contê-las.

Chorou enquanto comia.

Ele a apertou nos braços, condoído.

Para a surpresa de Liz, seu estômago se encheu bem antes que planejasse

terminar.

— Está tudo bem — disse Alex, gentil. — Se tentar compensar agora, vai

acabar passando mal. Deus, Liz, lamento tanto... Isso jamais devia ter lhe

acontecido.

— Você está aqui agora.

— E não vou à parte alguma. — Cuidadosamente, tomou-lhe a comida

das mãos e a envolveu em um guardanapo de pano. — Vamos levar isso

conosco. Quando estiver pronta, pode comer. Jamais vai precisar se preocupar

com a fome de novo. — Beijou-a na testa, nos lábios. — Está pronta para partir?

— Sim, por favor. — Com sua necessidade mais básica saciada, ela não

queria nada além de se afastar das terríveis lembranças sobre Harold. —

Espere... Há mais uma coisa. Bormley, o criado de Harold. Ele pôs a poção no

vinho do patrão, esta manhã, a meu pedido. Prometi-lhe um pagamento por me

ajudar a fugir. Só que...

— Considere feito. — Alex olhou em volta. — Ele se foi agora, mas vou

cuidar do assunto. Não precisará pensar nisso outra vez.

Finalmente, ajudou-a a subir no cavalo. Liz sentiu-se tonta quando Alex

sentou-se por trás dela e deu com as rédeas no animal. Era muito íntimo e

pouco apropriado cavalgar daquela maneira.

De qualquer modo, estavam prestes a se casar, lembrou-se, feliz, e tentou

relaxar.

Após a intensa cena da igreja, Alex parecia hesitante em falar.


Mas ela também não saberia o que dizer. Tanto havia acontecido nas

últimas semanas! Não queria reviver tudo agora.

Virou-se para fitar seu noivo. Alex tinha o queixo tão forte, os olhos tão

intensos. Os cabelos negros e desgrenhados imploravam por seu toque. O

homem possuía propriedades por toda a Inglaterra, investia em assuntos

domésticos e estrangeiros e reunia mais poder do que qualquer um que ela

conhecera.

E não só havia vindo resgatá-la como também se oferecera para desposá-

la.

Deveria estar mesmo delirantemente feliz.

Exceto que não podia evitar lembrar-se do incidente com o homem que

encontrara a caminho de casa após perder o emprego de governanta. O tal Sr.

Cutter, por mais bêbado que estivesse, havia lhe abalado a fé de que as

intenções de Alex eram sinceras.

Haveria o duque barganhado com seu pai e a aceitado como pagamento?

A ideia a deixava enjoada.

Ele a havia procurado apenas após a morte do barão, lembrou a si

mesma. Mas era possível que houvesse recebido o aviso sobre a falência do pai

dela e, assim, tivesse decidido aceitar a oferta.

Alex nunca tinha mencionado nada do tipo. Porque era vergonhoso ou

porque não era verdade? Quando ele a procurara pela primeira vez, fora por

genuíno interesse ou para cobrar o acordo?

E como poderia Cutter saber sobre aquela situação? Haveria Alex

discutido o assunto com outras pessoas? Quantos na sociedade estariam

comentando que seu próprio pai a oferecera como prêmio?

Liz suspirou. Estava certa de que Alex gostava dela agora, mas quanto?

Ele estaria se casando por amor ou por culpa?

Santo Deus! E se aquele silêncio quisesse dizer que estava arrependido

do que havia dito na igreja?


Alex percebeu que Liz o observava por cima do ombro. Seus cabelos

pareciam em chamas sob a luz intensa do sol, nas partes em que escapavam do

chapéu. Sentiu vontade de beijá-la na ponta do nariz. Seus olhos, no entanto,

pareciam tristonhos.

— O que foi?

Ela balançou a cabeça e se voltou para frente mais uma vez.

— Liz... Ela suspirou.

— O que você fez lá na igreja...

— Foi algo que eu devia ter feito há muito tempo.

— Devia? Ou queria ter feito?

— O que quer dizer? — Era evidente que algo a incomodava.

— O que o fez procurar por mim, Alex? Ele respirou profundamente.

— Quando voltei de viagem e vi que você havia partido, ouvi sobre o

que tinha acontecido: que Wetherby a tinha levado. Era a única coisa a fazer,

Liz. Apenas queria ter chegado mais rápido.

— Não, Alex. Quero dizer, por que me procurou antes disso tudo? Digo:

eu quase implorei para que me arruinasse aquele dia, no parque, e você se

recusou a fazer isso. O que o fez mudar de ideia?

Alex pôde sentir-lhe a tensão pelo corpo.

— Não sei explicar — falou em voz baixa. — Sua oferta me tentou

sobremaneira e, depois, quando a descobri na casa de minha irmã, longe da

falsidade da sociedade... Não pude parar de pensar em você. Sei que não

começamos nos termos mais honrosos e quero desculpar-me por isso. Acho que

o desejo me roubou o bom-senso.

Liz olhou por sobre o ombro, estreitando os olhos.

— Não foi porque queria ser pago pelas dívidas de meu pai? Alex

engoliu com força. Como ela sabia sobre aquilo? Porém, não deveria se culpar.

Jamais havia feito aquilo.


Na verdade, a proposta do pai dela quase o tinha impedido de procurá-

la.

Viu nos olhos de Liz que não adiantaria fingir.

— Não! — disse com firmeza. — Eu não estava tentando recuperar o

prejuízo que seu pai me causou.

— Então ele realmente me ofereceu como moeda de troca — ela falou

tranquila.

— Sim.

Alex sentiu-se mal, mas não estava disposto a mentir. Deus! Qual não

devia ser a sensação de saber que o pai havia feito algo assim?

— Eu recusei a oferta e evitei maior contato com seu pai depois daquilo

— contou taciturno. — Não sabia nem ao certo quem era você, naquela época.

No baile de Peasley, convidei-a para dançar por genuíno interesse. Imagine

minha surpresa quando soube que você era a filha do barão.

— Mas nessa ocasião ele já estava morto. E você sabia que não seria

capaz de recuperar suas perdas da forma normal.

Alex franziu a testa.

— Meu senso de honra não é tão fraco quanto sugere Liz. A perda me

irritou, mas não esperaria que uma filha pagasse pelos erros do pai. Por isso

recusei sua proposta pouco convencional.

— E depois, Alex? — Ela parecia pouco convencida. — Se não houve

acordo, como Cutter soube de tudo?

— Cutter?

Ela explicou o incidente no parque.

— Ah, Liz... — Alex puxou-lhe o corpo tenso contra o seu. Já começava a

reagir à íntima posição sobre o dorso do animal, mas, por ora, precisava se

concentrar no que seria melhor para ela.

Mesmo que não tivesse aceitado a proposta terrível de Medford, ele

havia errado com ela. Agora Liz precisava de palavras, não de sua lascívia.
— O que aconteceu depois foi realmente minha culpa. Em uma noite que

eu tinha bebido demais, em um esforço para esquecê-la e a sua proposta, fiz

uma breve menção às palavras de seu pai. Não creio ter citado o seu nome ou o

do barão, mas esse tal Cutter deve ter ouvido algo e tirado suas conclusões. Eu

jamais devia ter mencionado isso. Peço perdão.

Ela concordou em silêncio.

— Nós dois vimos agindo de uma maneira que dá pouco crédito ao

nosso caráter — disse com suavidade. — Eu fugi de casa e envergonhei minha

família ao envolver-me em um romance escandaloso.

Alex apoiou a cabeça contra a dela.

— Não posso culpá-la por fugir. Compreendo agora, bem mais do que

antes, por que estava tão desesperada para evitar Wetherby. — Beijou-lhe o

topo da cabeça, acariciando-lhe os cabelos com os lábios. — E não me arrependo

de nada do que fizemos.

— Eu também não, — ela sussurrou emocionada. Alex começou a beijá-la

no lóbulo da orelha.

— Era você que eu queria, Liz. Não uma forma bizarra de vingança

contra seu pai. Lamento não ter feito a coisa certa e pedido sua mão antes de

pleitear seu corpo. Você não faz ideia do quanto senti a sua falta. Quando voltei

e vi que havia partido...

— Mas eu lhe mandei um recado — ela lembrou. — Logo que perdi o

emprego.

Alex retrocedeu um pouco e negou com um gesto de cabeça.

— Jamais recebi qualquer carta. Os negócios me enviaram a destinos que

eu não imaginava. A maior parte de minhas correspondências não chegou até

mim.

Ela suspirou pesarosa, e Alex a puxou para perto mais uma vez.

— Eu jamais teria ignorado seus problemas se soubesse deles.

— Eu acredito — Liz murmurou, sorrindo.


— E acredite, também, que todas essas semanas me fizeram dar conta de

que, mais do que tudo, eu queria você a meu lado. Não apenas para uma tarde

ou outra, mas para sempre. Esqueça a proposta de seu pai, Liz: ela foi a

tentativa desesperada de um homem arruinado por suas próprias fraquezas.

Nada disso tem relação com o que existe entre nós dois. Deixe-me fazer a coisa

certa agora. Seja a minha esposa. — Traçou-lhe o contorno da orelha com a

língua.

Liz estremeceu e se aconchegou junto ao corpo forte, feliz.

— É o que eu mais quero.

— Estamos quase lá.

Liz espreguiçou-se e abriu os olhos. Não era um sonho. Alex Bainbridge,

seu noivo, ocupava o assento à sua frente, na carruagem.

Segurava uma carta nas mãos. Uma carta bastante familiar. Liz

despertou de uma vez.

— Onde conseguiu isso?

— Escorregou pelo seu vestido enquanto você dormia.

O selo estava intacto, ela notou com alívio. Esticou a mão.

— Posso tê-la de volta?

— Ela está endereçada a mim.

Mas Alex não poderia lê-la. Não agora. Não quando tudo estava perfeito,

e ele havia lhe pedido que o desposasse. Se Alex descobrisse que ela estivera

disposta a ceder por muito menos, será que ainda a amaria?

Não poderia suportar o coração partido mais uma vez.

— Por favor, Alex. — Ela pediu com voz trêmula. — Não tem

importância agora. É apenas uma carta que escrevi antes que você chegasse à

igreja.

— O que ela diz?

— Apenas que eu esperava contar com a sua ajuda.

Por favor...
Relutantemente, ele a entregou.

— É claro que eu viria em seu auxílio. Mas está vermelha. O que mais diz

a carta?

Liz baixou o olhar.

— Eu vi como estava sendo tratada, Liz. Eu juro nada do que diga

poderia baixar meu conceito sobre você. É a mulher mais corajosa e esperta que

já conheci. — Alex trocou de assento, acomodando-se ao lado e puxando-a para

os braços.

— Estou tão envergonhada — ela sussurrou.

— Querida, como você já disse, não importa mais. Pode me contar.

Liz inspirou, tomando coragem.

— Eu estava assustada, pois, por mais que pensasse em fugir do meu

cativeiro, não teria para onde ir. Minha casa já não era segura. Além do mais,

não tinha nenhuma carta de referência. Então escrevi essa carta, dizendo que,

caso a sua oferta para que eu fosse sua amante ainda estivesse de pé, eu estava

disposta a aceitá-la.

Ergueu os olhos até encará-lo e encontrou apenas compreensão e amor.

Não condenação.

— Estou honrado que tenha pensado em mim em seu momento de maior

necessidade — Alex falou em voz baixa. — De qualquer maneira, reafirmo o

que eu disse antes. Seu lugar é ao meu lado, como uma esposa adorada, e nada

menos do que isso.

Liz lançou-lhe um sorriso trêmulo. O olhar de Alex baixou até seus lábios

e ela se inclinou, implorando por seu toque, por seu amor. Passou os braços

pelo pescoço forte com um suspiro quando ele a beijou com paixão.

Céus! Como pensara em viver sem ele?

A carruagem parou.

— Já chegamos? — ela perguntou, afastando-se com pesar. Ainda que

estivessem viajando havia dois dias, parando apenas nas tavernas para comer e
refrescar os cavalos, Liz enxergava aquilo como um interlúdio, um refúgio

temporário da prisão e do escrutínio que encararia em seu retorno a Londres

com o duque de Beaufort.

— Não exatamente. Pedi ao cocheiro que parasse em minha casa de

Londres, mas apenas por um instante. Quero trocar de carruagem.

Era verdade que o coche alugado não era tão luxuoso quanto o do

duque, mas Liz sabia que devia haver alguma outra razão.

Em minutos, o cocheiro de Alex trouxe a bela carruagem com o brasão de

Beaufort orgulhosamente estampado nas laterais. A parada seguinte seria a casa

dos Medford, onde pretendiam tornar seu compromisso oficial e notório.

Liz se transferiu para o outro veículo, mas, enquanto se aproximavam de

sua casa, começou a hesitar.

— Precisamos fazer isso? — perguntou, nervosa. — Você não poderia

apenas me levar até Gretna Green e resolver o assunto?

Alex sorriu e se inclinou para um beijo.

— A ideia é tentadora, mas, não. Se quisermos exibir nossos rostos em

Londres sem culpa, é melhor que o façamos da maneira apropriada. — Uma

sombra obscureceu-lhe o olhar, como se algo mais o preocupasse.

Ele dissera "nós", mas Liz sabia que Alex se referia a ela. A cidade

perdoaria um duque por qualquer coisa, especialmente Alex Bainbridge. Não

seriam tão generosos com uma Medford, no entanto.

A carruagem virou na rua em que a mãe morava.

— Não quero entrar lá.

— Eu sei — disse o duque com ternura, segurando-lhe a face. — Mas eu

vou com você.

Liz suspirou. Não entendia muito bem por que Alex insistia em pedir

permissão a seus parentes, quando estes a haviam traído.

Ainda assim, permitiu que ele a ajudasse a descer da carruagem.


Sentiu-se gelar quando o mordomo abriu a porta e fez com que

entrassem. Esperaram no salão rosa, sem se incomodar em buscar assento.

Poucos instantes se passaram até que a mãe dela e tio George se apressaram a

adentrar o recinto, curvando-se numa reverência.

Liz quase sorriu diante das expressões ansiosas. Não era todo dia que um

duque vinha visitá-los, muito menos de mãos dadas com sua filha... A qual

devia estar aprisionada no campo com um homem de linhagem bastante

inferior à daquele.

— Quanta honra Vossa Graça... — disse lady Medford num fio de voz. —

Bem-vinda de volta, Liz.

Liz tentou não se magoar por a mãe ter notado o duque antes dela.

— Uma honra, realmente — emendou o tio.

Alex fez uma breve cortesia com a cabeça, lembrando-a de que, por mais

que a provocasse e brincasse com ela, era mesmo um duque.

Eles se mantiveram de pé apesar das indicações para que se sentassem, e

seus parentes fizeram o mesmo, parecendo constrangidos.

— Como quiser Vossa Graça. Mas... Não compreendo. Onde está o Sr.

Wetherby? — perguntou o tio dela.

Liz sentiu Alex enrijecer.

— Jamais pronuncie o nome desse homem em minha presença de novo

— ele ordenou num tom ameaçador.

— Quaisquer que tenham sido as suas intenções ao permitir que eu

partisse com aquele homem detestável, devo informá-lo de que Harold e eu não

ficaremos juntos — emendou Liz, tensa.

— Aquele infeliz merecia apodrecer na cadeia pelo que fez à sua

sobrinha — prosseguiu Alex num rosnado. Na verdade, eu apreciaria vê-lo

morto — declarou sem rodeios.

O tio dela tratou de manter a expressão neutra, ainda que Liz tivesse

notado os nós brancos dos dedos com os quais ele agarrava o espaldar de uma
cadeira. A mãe ouvia a tudo, parecendo aturdida. Talvez a trama estivesse

restrita aos dois homens.

— Em que podemos servi-lo, Vossa Graça? — perguntou lady Medford,

inquieta.

Alex suavizou o tom.

— Pretendo me casar com a sua filha, milady. — Ele fez uma mesura em

sinal de respeito.

Liz não compreendeu a quase imperceptível troca de olhares entre o

duque e a mãe dela.

— Este é o propósito de minha visita, senhora — Alex prosseguiu

calmamente. — Quero pedir Liz em casamento.

A tensão pareceu abandonar o corpo de lady Medford, e ela sorriu. Não

pela excitação natural que alguém esperaria da mãe de uma moça que havia

recebido a mais cobiçada proposta de toda a Inglaterra, estranhou Liz, mas

obviamente por alívio.

— Está de acordo, minha filha? — ela perguntou.

Liz olhou para Alex, esperando que o duque pudesse ver quanto amor

sentia por ele.

— Estou.

— Mas... Quero dizer... — O tio pareceu se lembrar a tempo de que

estava diante de um duque. — Certamente não consigo pensar em honra maior

para minha sobrinha. É claro que têm nossa permissão.

— Agradeço. — Alex curvou-se com uma ponta de cinismo.

— Você fica aqui até o casamento. — A mãe voltou-se para ela.

— Não, mamãe.

O olhar chocado de lady Medford desviou-se para o duque.

— Ficarei com Beatrice Pullington — Liz explicou. — Lamento, mas,

após o que aconteceu na última vez em que voltei para casa, não tenho qualquer

desejo de permanecer aqui.


A mãe teve a graça de parecer culpada.

— E quando vai ocorrer esse casamento? — perguntou tio George.

— Em três semanas — decidiu Alex. O tio dela apertou os olhos.

— Há alguma razão para tanta pressa? — O tom tornava claro que ele

não havia se esquecido do escândalo em torno do jovem casal.

— Não — Liz tratou de responder, ao mesmo tempo em que o noivo

dizia "sim".

Ela o fitou, mortificada, e a mãe sentou-se numa poltrona.

— Compreendo. — A voz do tio exalou escárnio.

— Não creio... Ainda que a sua falta de fé em sua sobrinha já não me

surpreenda. — Alex apresentou-lhe todo o seu tamanho mais uma vez. — A

questão é simples. Gosto muito de Liz, e ela vem passando por maus bocados.

Quero-a sob o meu teto, sob a minha proteção, o mais breve possível.

Liz relaxou.

— Então não está...? — recomeçou a mãe dela com voz sumida.

— Não — Liz afirmou.

Lady Medford respirou, aliviada.

— Três semanas é muito pouco tempo, mas, se Vossa Graça assim deseja,

havemos de aceitar.

— Certamente — confirmou George, ainda que a expressão desgostosa

contrastasse com as palavras.

— Liz terá toda a minha criadagem à disposição — declarou Alex.

— É claro — concordou lady Medford. — Mas, quanto ao vestido...

— Esteja certa de que isso será providenciado também — disse Liz,

magoada. A mãe não precisaria ajudá-la naquele momento, já que jamais havia

lhe estendido a mão quando ela mais precisara. Bea e Charity, suas leais amiga

e irmã, poderiam ajudá-la de bom grado.

Alex sentiu seu desconforto.


— Lady Medford, senhor, eu agradeço. Fizemos uma longa viagem e

estamos exaustos. Estou certo de que compreenderão nossa precoce partida.

Vou instruir meus secretários para que qualquer correspondência de vocês me

seja entregue imediatamente. Faremos contato à medida que a data se

aproximar.

Mais algumas mesuras e estavam do lado de fora.

Liz respirou fundo, sentindo um peso ser erguido dos ombros.

Sorriu, tentada a se atirar nos braços de Alex e beijá-lo com ardor. Pela

primeira vez em quase um ano, seu futuro parecia luminoso.

Ajeitar as coisas entre Alex e sua família era apenas o começo dos

desafios de Liz. Tinha ainda de reparar sua reputação.

Em primeiro lugar, deveria se certificar de que Beatrice Pullington não

houvesse sucumbido às fofocas e se não tivesse voltado contra ela. Quando

dissera à mãe que ficaria com Bea, não havia ainda consultado a amiga.

A carruagem de Alex a levou até a casa de Beatrice após deixá-lo em sua

própria residência.

— Liz, se houver qualquer problema com sua amiga, por favor, venha

para cá — ele instruíra ao partir.

— Obrigada. — Ela havia sorrido travessa. — Embora eu imagine não ser

esta a única razão pela qual me quer sob seu teto...

— Vá, diabinha — ele grunhira, deixando a carruagem, apressado. —

Não me tente!

O coche a conduzira para longe enquanto seus pensamentos vagavam

com as diversas maneiras pelas quais ela planejava tentar Alex Bainbridge.

A casa de Bea parecia à mesma de sempre, porém Liz sentiu-se uma

mulher diferente ao tocar a campainha.

O mordomo atendeu, e Beatrice apareceu instantes depois, parecendo

um pouco apreensiva.
— Liz! Fiquei tão preocupada! Entre, entre... Você está bem? Ela estendeu

ambas as mãos a fim de cumprimentar a velha amiga.

— Perfeitamente bem. Melhor, talvez, do que possa imaginar.

— Sorriu maliciosa.

Bea arregalou os olhos.

— O que aconteceu? Tem havido rumores, mas você sabe como é... Foi a

carruagem do duque de Beaufort que vi em frente à casa? Ah, Liz, conte logo!

Ela rapidamente pôs a amiga a par do que havia acontecido, encerrando

com o, ainda não anunciado, compromisso com o duque.

— Liz! — exclamou Bea, a expressão repleta de júbilo.

— Que maravilha! Depois de tudo por que você passou, com certeza

merece tal felicidade.

Ela sorriu, vendo que Bea era mesmo uma amiga querida.

— Quando é o casamento?

— Em três semanas. Por isso vim, Bea. Preciso de um lugar para ficar até

lá. Desprezo a mim mesma por me impor a você mais uma vez, mas...

— Não diga mais nada. Não está se impondo coisa nenhuma. É claro que

pode ficar.

— Não sei o que faria sem você, minha amiga!

Bea a abraçou.

— E eu não sei o que faria sem você para animar minha vida!

Provavelmente seria uma viúva entediada e ranzinza.

— Jamais! — Liz exclamou, e ambas se puseram a rir.

— Sua família não está de todo satisfeita com o casamento?

— Bea estranhou. — Não posso imaginar por quê.

Liz fez-se sóbria, então contou sobre o cativeiro na casa de Harold.

— Não acredito! Que monstro! Sua mãe sabia? Seu tio?

— Meu tio, certamente. Mamãe... Bem, não tenho certeza. Por isso não

posso voltar para casa, Bea.


— Tem razão — concordou a moça. — Está mesmo bem? Apesar da

exaustão, Liz pensou no homem maravilhoso que esperava para se casar com

ela.

— Agora estou.

— Vai voltar à sociedade da melhor maneira — Marian Grumsby falou

com segurança alguns dias depois. Foi uma das primeiras visitas de Liz, depois

de Charity, que, afoita, chegara apenas uma hora depois que a irmã havia se

instalado na casa de Bea.

Liz e sua ex-patroa, irmã de seu amado duque, sentaram-se no pequeno

salão. Bea havia saído, mas não se importava que Liz recebesse visitas.

— Esta é a sua casa — tinha afirmado.

Lady Grumsby, para o alívio de Liz, ficara bastante entusiasmada com o

noivado do irmão.

— Sabia que havia algo diferente na maneira como ele à olhava —

comentou, sonhadora. — E é claro que não estou aborrecida com você. Como

poderia estar, quando você e Alex são tão obviamente certos um para o outro?

Eu posso, inclusive já o fiz, arranjar outra governanta. Mas jamais encontraria

uma noiva melhor para meu irmão. — Seu olhar tornou-se gentil.

— Você sabe quantas mulheres se atiraram diante de Alex antes mesmo

que ele tivesse idade para notar o sexo oposto? E meu irmão jamais demonstrou

qualquer desejo de se envolver de forma mais duradoura com qualquer uma

delas, a não ser com você.

As palavras de Marian eram reconfortantes, pensou Liz. Já a insistência

para que ela frequentasse bailes e chás como se nada houvesse acontecido...

— Eu não poderia. — Balançou a cabeça. — Alex e eu vamos viver

tranquilos no campo. Quero dizer, olhe em volta... Tornei-me persona non grata

até mesmo em minha própria casa depois disso tudo.

Marian assentiu os belos cachos castanhos se movendo com graça.


— Liz, não há maneira de dizer isso com educação, mas eu, no seu lugar,

nem gostaria de viver com a sua família. Exceto por sua irmã. Considero-a

adorável. Mas, honestamente, a questão sobre onde vai morar pelas poucas

semanas antes de seu casamento não é tão importante quanto você parecer ou

não estar se escondendo. O duque de Beaufort é um homem importante, e

certas coisas são esperadas da futura duquesa. Você não pode simplesmente se

esconder no interior. Meu querido irmão pode ter concordado com isso porque

está mesmo apaixonado, mas, a longo prazo, isso o prejudicaria.

— Claro que não. — Liz tomou um gole de chá, nervosa. Desejava a

felicidade de Alex, queria que ele tivesse uma esposa da qual se orgulhasse.

— Há outra razão — prosseguiu Marian. — Pense em sua irmã. Assim

como você, ela também está arruinada de certa forma. Mas se a sociedade se

convencer de que tudo não passou de um engano, ela poderá, sem dúvida,

voltar a sair e na certa terá um bom número de belos pretendentes.

Liz soltou uma risada vazia.

— Ultimamente, parece que, sempre que alguém quer me coagir de

algum modo, usa minha irmã como isca. — Ela contou a lady Grumsby sobre a

ameaça de Harold Wetherby a Charity.

— Que coisa terrível! Liz, eu jamais pretendi...

— Eu sei que não. — Ela acenou com um sorriso triste. — Eu amo minha

irmã, milady, mas receio que meus erros tenham sido tão graves que não

possam ser superados aos olhos da sociedade.

— Deve me chamar de Marian, agora que vamos ser irmãs. — O sorriso

da bela morena era genuíno. — De qualquer forma, os olhos da sociedade não

têm tanto discernimento como imagina. As pessoas vão preferir acreditar ter

cometido um erro ao julgá-la a se arriscar a perder a simpatia de meu irmão. Ser

casada com o duque de Beaufort tem lá suas vantagens, e é por isso que estou

aqui. Você poderá contar comigo, com meu marido e com lady Pullington para

o que quiser. E, lembre-se, nossas reputações estão acima de qualquer suspeita.


Liz mirou o chão, embaraçada. Marian pôs-lhe a mão sobre o ombro.

— Eu não disse isso para envergonhá-la, querida. Considero-a uma

mulher forte e corajosa. Deve ser mais do que isso, para que Alex goste tanto de

você.

— Estou muito grata por sua ajuda, Marian, embora continue um tanto

insegura.

— Sem dúvida. Mas não deve deixar que ninguém mais saiba disso. Você

precisa manter a cabeça erguida ou vão querer devorá-la com sua maldade.

Seria bom que sua mãe estivesse ao seu lado para apoiá-la, apesar de tudo.

Liz concordou.

— Ela poderá ficar ao meu lado, em um baile; acredito. Não acho que

isso vá ofender o nome do duque.

Liz suspirou. Ela e a mãe não se falavam desde o dia em que ela havia

retornado a Londres. Sua relação ainda estava ferida, ainda que Liz nutrisse a

esperança de que lady Medford não tivesse nada a ver com a trama envolvendo

Harold.

— Isso resolve a questão. — Marian sorriu. — Faremos seu retorno em

três semanas, no baile dos Holbrook.

— Mas Alex quer se casar em três semanas — avisou Liz.

— Como? Impossível! — exclamou Marian. — A menos, é claro, que seja

necessário... — Seu rosto bonito corou.

— Não, não... Fique tranquila. — Liz enrubesceu também.

— Então é melhor convencê-lo a adiar o casamento.

— Convencer o duque de Beaufort de que ele precisa esperar?

Marian gargalhou. — Bom argumento. Mas umas poucas semanas a mais

ajudariam muito. Além disso, quanto mais longo o noivado, melhor; ao menos,

aos olhos da sociedade.

Liz respirou fundo. Como de costume, estava à mercê da aprovação da

sociedade.
De qualquer forma, pretendia tornar-se uma esposa de que Alex se

orgulhasse.

— Posso tentar.

— Meu irmão vai concordar com o que quer que peça — Marian previu.

— E, se tudo der certo, no baile dos Holbrook você fará seu retorno com a

cabeça erguida. Encontraremos uma maneira de explicar todo o escândalo.

Uma discreta batida à porta as interrompeu, e Bea enfiou a cabeça para

dentro.

— Voltei... Posso me juntar às nobres damas?

— Claro! — Marian se alegrou. — Pode nos ajudar a planejar.

Bea se aproximou e tomou assento.

— Planejar o quê?

— Liz e eu estávamos discutindo que readentrar a sociedade talvez não

seja uma tarefa fácil para ela. Talvez você possa nos ajudar com alguma

estratégia.

Beatrice resplandeceu.

— Não há nada de que eu gostaria tanto!

Ainda que Liz houvesse abandonado o assunto sobre a traição do pai,

Alex continuava incomodado. E claro, ele sabia bem mais do que ela.

Jamais, em um milhão de anos, teria se imaginado noivo da filha daquele

salafrário.

Mas, na verdade, o compromisso com Liz o fazia feliz.

Pela primeira vez em meses, tinha uma sensação de paz e interesse por

seu próprio futuro. Podia imaginar um filho com os vibrantes cabelos

vermelhos de sua amada, ou uma filha com seus belos olhos verdes. Estava

ansioso por acompanhá-la publicamente. Liz abraçava a vida com paixão e não

tinha medo de riscos. Fazia-o ver as coisas com frescor.

Sim, o futuro se apresentava muito melhor. Ele só esperava poder se

esquecer do passado.
Antes que pudesse fazer isso, contudo, precisava ter certeza de não ter

deixado nenhuma peça fora do lugar.

Uma rápida audiência com lady Medford confirmou o desejo da senhora

de evitar maiores escândalos sobre o decepcionante homem com quem havia se

casado.

— Liz ainda nutre boas lembranças do pai, apesar de tudo — ela o

lembrou. — Por que lhe roubar a paz?

Ele concordara claro.

Sua segunda tarefa era bem mais simples. Uma nota anônima e generosa

do banco, enviada a certo cocheiro, selaria o assunto. Fuston seria esperto o

suficiente para saber de onde teria vindo o dinheiro, e se manteria em silêncio.

Haviam discutido sobre aquilo antes. Seria apenas um lembrete.

Com o passado posto para trás em segurança, Alex sentiu-se mais leve

enquanto parava próximo à casa de lady Pullington. Bateu de leve à porta

entreaberta que levava ao salão onde sua noiva sentava-se e conversava com

sua irmã e a amiga. O mordomo se oferecera para anunciá-lo, porém Alex

dispensara a formalidade.

Uma olhadela em direção a Liz, e ele a desejou com uma intensidade que

o enervava. Quando haviam estado a caminho de Londres, ela estivera exausta

demais para se envolver com ele em alguma intimidade maior do que dormir

com a cabeça apoiada em seu colo.

Ele, por sua vez, fizera pouco mais do que amparar o corpo delicado, tão

em contraste com o seu rijo de desejo.

E desde que tinham retornado, ela estivera na casa de lady Pullington,

onde parecia estar sempre cercada de amigas, falando animadamente sobre os

planos para a cerimônia.

Era o suficiente para levar um homem ao desespero.

Apesar disso, empurrou a porta do salão um tanto mais e o adentrou. As

três se puseram de pé, interrompendo a bela cena.


— Alex — saudou Marian, alegre. — Discutíamos sobre como sua

adorável noiva precisa readentrar à sociedade.

Ele mirou Liz, que parecia um tanto insegura, e a culpa o alfinetou.

Graças a Deus, ao contrário de seus outros erros, os efeitos daquele poderiam

ser neutralizados.

— Talvez seja melhor que as deixe tramar tudo, querida. Afinal, você é a

especialista em regras da sociedade — disse, voltando-se para Marian. Tinha

absoluta fé de que a irmã logo levaria sua noiva às graças de todas as senhoras

de Londres, contanto que Liz pudesse suportar o terrível escrutínio ao qual

certamente seria posta.

— Estamos quase terminando — comunicou-lhe lady Pullington. —

Lady Grumsby e eu estávamos a ponto de sair para visitar a papelaria. Certo?

— Por favor, pode me chamar de Marian. E sim, creio termos tomado

nossa decisão. O baile dos Holbrook será nosso ponto de partida. Cabeça

erguida, querida Liz!

Marian e Bea trocaram olhares, então deixaram o recinto.

— Creio que pretendia nos dar alguma privacidade — observou Liz, sem

graça.

Alex cruzou o cômodo em sua direção, tomando-lhe ambas as mãos.

— Liz, você não precisa fazer isso. A sociedade pode ser cruel, e você já

passou pelo suficiente.

O ferimento no rosto já tinha sumido, mas a lembrança dele, e o que ela

havia dito ter passado naquelas semanas, era mais do que suficiente para que

quisesse poupá-la de ainda mais sofrimento.

— Tenho diversas propriedades no interior onde podemos viver.

Liz deu um passo para perto, precisando levantar a cabeça para fitá-lo

nos olhos.

— Eu quero fazer, Alex. Você merece mais do que uma esposa a quem

precisa esconder o tempo todo.


Ele ergueu uma sobrancelha.

— Mas seria melhor para mim, manter os outros homens afastados.

Ela sorriu diante do tom provocativo, depois se fez sóbria.

— Eu adoro que confie em mim. Mas preciso fazer isso por mim mesma e

por minha irmã... Se é que isso pode ser feito.

Alex sabia que ela estava certa. E sabia que seria difícil.

— Estarei ao seu lado em qualquer situação.

— E um homem honrado, milord — Liz falou, suavemente.

O duque a encarou, sério.

— Não, não sou.

Havia lhe tirado a virgindade em um local público, como se fosse ela

uma garota de taverna qualquer, e então falhara em manter seu romance em

segredo. Falhara em protegê-la.

E mesmo que seu noivado significasse que aquelas indiscrições poderiam

ser esquecidas, outras coisas não seriam.

Mirou os luminosos olhos verdes mais uma vez e viu que ela não

acreditava em sua resposta. A fé de Liz o abalava até o âmago, aquecendo os

mais profundos recônditos de sua alma enegrecida.

Ela entreabriu os lábios, e a circulação de Alex se acelerou.

— Talvez você possa tirar vantagem deste momento, como Marian e Bea

pretenderam, e me fazer esquecer de que precisarei mostrar o rosto a dúzias de

pessoas ansiosas por ser as primeiras a me destratar — disse, um tanto

ofegante.

— Elas não ousariam.

Liz arqueou uma sobrancelha.

— Aparentemente, o senhor não conhece as mulheres tão bem quanto

imagina milord.

Alex moveu-se mais para perto, abrigando-a nos braços.


— Eu imploro. Dê-me a chance de provar que está enganada. Liz

derreteu sob o abraço.

— Assim é melhor.

Que Deus o ajudasse, pensou Alex, enquanto comprimia os lábios contra

os dela, afoito. Passaria o resto da vida tentando ser o homem que ela desejava,

e esperando que Liz jamais descobrisse o contrário.

Alex e Liz decidiram sob-recomendação de Beatrice e Marian, esperar até

que Liz houvesse voltado às boas graças da sociedade antes de anunciar seu

matrimônio. Assim, mesmo com relutância, o duque decidiu que o casamento

ocorreria em seis semanas.

— Com certeza — argumentara, em meio a beijos. — A essa altura, seu

magnífico time de conspiradoras já a terá lançado ao topo da sociedade.

Liz não estava tão certa disso. Ainda assim, encontrava-se ansiosa por

tornar aquela união uma realidade.

De acordo com Bea e Marian, o baile dos Holbrook seria o maior

obstáculo a ser superado para que Liz recuperasse sua reputação. O evento

anual era restrito, frequentado pelos membros mais influentes da cidade. Se Liz

conseguisse aprovação, navegaria sobre mares calmos, após tanta turbulência.

Lady Medford concordou em comparecer ao lado da filha a fim de

demonstrar a solidariedade da família e afastar rumores. Demonstrava mais

boa vontade agora que a filha estava prestes a se casar acima de suas

expectativas, ainda que parecesse desconfortável na presença do duque. Mais

de uma vez, Liz tinha visto a mãe desviar o olhar, constrangida, quando Alex

adentrava os recintos.

Mas talvez fosse apenas a preocupação de que o duque a culpasse por

seu sequestro.

A presente trégua entre a mãe e ela fora conseguida sob a concordância

de que nenhuma das duas citasse o nome de qualquer de seus parentes homens,

próximos ou distantes.
Preparar-se para o baile impediu Liz de pensar demais sobre tais

assuntos, felizmente. Bea e Marian compareceriam ao evento também e, era

claro, Alex, ainda que houvessem concordado que o duque não lhe serviria de

acompanhante. Tal tarefa caberia a Brian Grumsby, marido de Marian.

Charity ficaria de fora pelo momento, embora houvesse lembrado,

indignada, de que já tinha dezoito anos. Fora preciso muito para convencê-la de

que tudo seria melhor quando a irmã fosse uma duquesa, e não a maior fonte

de fofocas da cidade.

No fim, ela aceitara o papel de assistente do casamento.

O tempo exíguo: o baile em três semanas, depois apenas mais três antes

do casamento, envolveu todas as moças em um furor de preparações. Afinal, ao

longo do último ano, o guarda-roupa de Liz sofrerá consideravelmente.

Primeiro ao ser modificado para roupas de luto, depois para uniformes de

governanta.

Mesmo assim, com uma respeitável transferência de fundos de Alex e

alguma bajulação, elas haviam convencido uma modista para lhe preparar um

vestido de gala por um preço considerável, e em um espaço de tempo bastante

curto.

Quando, por fim, chegou a noite do baile, os nervos de Liz estavam à flor

da pele. Seu estômago se retorcia, e as mãos tremiam diante da ideia de encarar

tanta gente impiedosa.

Afinal, tinha cometido imperdoáveis delitos morais. Não importava o

que dissesse; temia que qualquer um que a fitasse nos olhos visse a verdade: ela

havia mesmo feito tudo aquilo de que era acusada... Incluindo dormir com o

notório duque de Beaufort.

Mesmo com os Grumsby, a mãe e Bea ao lado, ela teria uma boa chance

de ser rejeitada, concluiu Liz. Ah, como queria fugir novamente! A criada de

Bea as ajudou a se aprontar para o baile.


— Deixe-me em paz, criatura! — ralhou Bea a certa altura, uma vez que

já tinha os cabelos prontos. — Posso cuidar do restante sozinha. É Liz quem

precisa impressionar a todos. — Sorriu para a amiga.

Liz suspirou trêmula. O pálido vestido de seda dourada era cortado em

estilo grego. O traje caía em camadas a partir de um dos ombros, deixando o

outro quase desnudo.

— É intrigante e inesperado — garantiu-lhe Bea enquanto se ajeitava

mais uma vez. — Você não haveria de querer um decote profundo demais, mas

cobrir-se completamente faria as pessoas pensar que tem algo a esconder...

— Acho que nunca me preocupei tanto com um vestido — confessou Liz.

— Está linda, Liz. Nem muito virginal tampouco muito provocante. Esse

dourado foi à medida certa. Se você parar de esfregar as mãos, ninguém jamais

duvidará de que pertence ao ápice da escala social.

Bea, no entanto, parecia tão preocupada quanto ela. Liz engoliu em seco.

Depois endireitou os ombros e forçou as mãos trêmulas a repousar dos lados do

corpo.

— É melhor irmos.

Apanharam a mãe de Liz, que aguardava no andar de baixo, e subiram

na carruagem.

Em geral, as ruas de Londres estavam apinhadas, mas, naquela noite,

para o desprazer de Liz, o coche chegou à festa em tempo recorde. Com alívio,

ela notou que a carruagem dos Grumsby chegara logo antes da sua. Em pouco

tempo, todo o grupo entregava as capas a um lacaio e permanecia esperando

que o mordomo os anunciasse.

Quando este chegou à borda da festa e anunciou "Srta. Liz Medford", um

incrível silêncio recaiu sobre o salão.

Um breve instante depois, o burburinho retornou, enquanto todos,

homens e mulheres presentes, se viravam para a pessoa ao lado e começavam a

sussurrar.
O coração de Liz quase parou. Mas antes de encarar a multidão, ainda

precisaria passar pelos anfitriões, os quais, infelizmente, aproximavam-se

rápido demais.

Lady Holbrook era uma mulher de compleição sólida, com brilhantes

cabelos brancos e uma expressão um tanto tola.

— Grumsby, que prazer em vê-lo. Lady Pullington, é uma honra. Lady

Medford... — Cumprimentou os três antes de se virar para Liz. Seus olhos se

apertaram, então, quase imperceptivelmente. — Srta. Medford. Confesso que

não esperava vê-la.

— Acabei de retornar do interior, milady — Liz respondeu como havia

praticado.

— De que parte? — trovejou lorde Holbrook, indiferente à tentativa da

esposa de ser discreta.

— Meu primo tem uma pequena propriedade ao norte. — Isso lá era

verdade. — Sua esposa estava solitária e precisava demais de companhia...

Além disso, admito que a última temporada foi demais para mim; em especial

após a perda de meu pai. De modo que aproveitei a oportunidade para deixar a

cidade e visitá-los por um tempo.

— Percebo. — A expressão de lady Holbrook suavizou-se. Ainda assim,

não havia parado de destilar seu veneno. — Houve rumores diante de seu

desaparecimento.

— Assim ouvi dizer. — Liz ergueu o queixo de leve. — De qualquer

forma, como parece ser sempre o caso, os rumores eram bem mais interessantes

do que a verdade por trás. — Rezou para que os anfitriões não pudessem ouvir

as batidas de seu coração. Mentir sempre a deixava desconfortável.

— Sem dúvida — concordou lady Holbrook. — Então não está envolvida

com Beaufort?

— Lydia! — Os olhos do marido se esbugalharam diante da pergunta,

mas ela o ignorou.


— Ah, eu realmente encontrei o duque em casa de lady Grumsby —

comentou Liz, tentando se manter impassível. — Beaufort estava lá, ajudando o

sobrinho a treinar um novo cachorrinho... É um homem bastante sensível —

segredou, com o sorriso de uma adolescente que desenvolvera uma inocente,

porém não correspondida atração pelo vistoso duque. Uma tarefa nada difícil,

dado ser isso o que ela sentira alguns anos antes.

Marian e o marido se mantiveram a seu lado, sorridentes.

— Meu cunhado sempre foi bastante cativante — colaborou lorde

Grumsby.

A mãe de Liz e Bea, que se aproximara, sorriram e concordaram, como se

a história que ela havia contado não as implicasse de maneira nenhuma.

Por trás do pequeno grupo, novos convidados tinham chegado e

esperavam para cumprimentar os anfitriões da noite.

— Seja bem-vinda de volta a Londres, Srta. Medford — lorde Holbrook

disse, educado. — Espero tornar a vê-la ao longo da temporada — completou,

tomando a esposa pelo cotovelo antes de se afastar com ela para a entrada.

Lady Holbrook parecia ter algo mais a dizer, mas, respeitosamente

seguiu com o marido.

Liz suspirou, aliviada. Ainda tinha o restante do baile, mas havia

passado pelo primeiro teste.

Analisou o salão de festas, enquanto seu grupo avançava, mas Alex

ainda não tinha chegado.

Suspirou e preparou-se para passar as várias horas seguintes encostadas

à parede ou se refugiando nas salas ao lado.

Mas as coisas não pareciam tão ruins. A idosa lady Tanner se aproximou

do grupo, seguida por algumas de suas amigas.

— Olá, mocinha... — disse ríspida. — Ouvi dizer que andou dando

bastante trabalho a sua família durante o verão.

Liz lançou um olhar em direção à mãe.


— Creio termos acertado nossas diferenças.

— É mesmo? — comentou a senhora idosa, olhando para lady Medford

em busca de confirmação.

A mãe não a deixou em apuros.

— Liz sempre foi uma menina de temperamento forte, mas no fundo é

muito ajuizada.

Lady Tanner arqueou as sobrancelhas.

— Devo então presumir que haja um compromisso por vir...?

— Infelizmente, ainda não posso tecer nenhum comentário a respeito —

respondeu lady Medford com um sorriso misterioso.

— Pena — volveu a mulher, enviando a Liz um olhar rude antes de

engatar uma conversa com a mãe dela.

Mas que fosse refletiu Liz. Apenas a presença de tantas senhoras da

sociedade ao seu redor ajudaria a suprimir os rumores.

Enfim, ela ouviu o mordomo anunciar o nome de Alex. Seu coração

subiu à garganta quando assistiu o belo duque adentrar o recinto. O traje de

gala era quase negro, a não ser por uma gravata e uma camisa branco-neve. Ele

parecia perigosamente atraente.

Reprimiu um sorriso. Por que havia concordado em esperar três semanas

a mais pelo casamento?

— Tem certeza de que duas danças seria demais? — arriscou.

Marian e Bea, as mentoras de sua tentativa de salvar a reputação,

tinham-lhe permitido apenas uma dança com Alex. Bea sorriu condescendente.

— Duas danças indicariam uma preferência.

— Mas em breve ele vai anunciar nosso noivado. Não deveria, mesmo,

me preferir às outras?

— Melhor não alimentar ainda mais os rumores — aconselhou Marian.

— Se vamos tecer a história de que ele se enamorou de você enquanto passeava


pelo campo, e que você esteve em nossa propriedade todo esse tempo, não

podemos deixar que perguntassem demais.

Liz concordou decepcionada.

Quando Alex veio pleitear sua única dança, manteve-se formal, como se

Liz fosse apenas uma conhecida. Apenas o brilho nos olhos escuros, quando

ofereceu o braço, deixou claro o que sentia.

Ela o aceitou de bom grado, embora, no fundo, desejasse deslizar as

mãos por baixo da casaca impecável, correr os dedos por sobre o branco da

camisa, segurá-lo bem perto e tocá-lo por toda parte... Jamais fora adepta das

danças, mas respirar o perfume másculo que emanava dele era um estímulo e

tanto. Como, Deus, ela poderia se concentrar em dançar? Soaram as primeiras

notas da música, e Alex sorriu.

— Uma dança típica? Só podem estar brincando. Não poderiam ao

menos ter reservado uma valsa?

Liz lançou-lhe um sorriso triste.

— Ordens de Marian. Uma valsa seria íntima demais. Ela quer que eu

pareça respeitável.

Alex tomou sua posição, um par de metros distante. Quando se

aproximaram novamente, lançou-lhe um sorriso.

— Eu não pretendia me casar com um poço de respeitabilidade...

Liz errou um passo, e o sorriso dele se expandiu.

— Pois saiba que, se tivesse chegado mais cedo e ouvido a conversa com

nossos anfitriões, saberia que agora Vossa Graça é um poço de sensibilidade —

ela conseguiu dizer, muito tempo depois.

Alex ergueu as sobrancelhas.

— Jamais me julgaram sensível em toda a minha vida...

A natureza da dança não permitia muita conversa, mas, quando o duque

a devolveu à mãe, Liz sussurrou-lhe ao ouvido:

— Acho milord tão sensível quanto sou respeitável.


O duque gargalhou, e então lhe lançou um lindo sorriso.

— Eu nutro todo o respeito por sua pessoa, Srta. Medford. E apenas a

ideia de me casar com alguém que é considerada um "poço de respeitabilidade"

que me causa calafrios.

— Hei de tentar não corresponder ao apelido.

— E eu hei de cuidar para que mantenha a promessa... Muito em breve

— ele completou, devolvendo-a à mãe.

Liz estava feliz demais para se importar com o fato de que, tão logo Alex

a deixou ao lado da mãe, um séquito de admiradoras o cercara. Era algo a que

deveria se acostumar, ao menos até que o noivado fosse anunciado

publicamente.

Marian e Bea lançaram-lhe sorrisos triunfantes.

— Foi maravilhoso — cochichou Marian. Bea concordou.

— Andei bisbilhotando — segredou travessa. — Alguns ainda duvidam,

mas a maior parte imagina que você não ousaria mostrar o rosto esta noite,

fosse verdade metade das coisas que têm sido ditas ao seu respeito. Liz

suspirou. Se eles soubessem...

Preparar-se para o baile dos Holbrook não havia sido nada em

comparação aos preparativos para o casamento. Como tinham planejado,

apenas uma semana após o baile, Liz e Alex tinham anunciado o noivado.

Embora alguns rumores houvessem reaparecido quase todos eram obra de

jovens invejosas que tinham perdido a esperança de ver o próprio nome

associado ao do duque de Beaufort.

Os rapazes da sociedade, ao contrário, aprovaram o casamento, pois este

lhes dava uma chance melhor com as donzelas solteiras, as quais não poderiam

mais perder tempo sonhando com o duque.

O resto da cidade parecia ter aceitado a trama sem problemas. Pessoas

que haviam ignorado Liz semanas antes agora vinham visitá-la, oferecer

cumprimentos e, claro, garantir um convite para o evento.


A casa de Bea tornou-se um verdadeiro caos de parafernália

matrimonial, e Charity vinha com tanta frequência que Beatrice acabou lhe

oferecendo o outro quarto de hóspedes.

Naquela tarde, após gastarem uma quantia obscena do dinheiro de Alex

com um guarda-roupa "digno de uma duquesa" segundo Marian, Bea e Charity,

as mulheres deixaram mais uma loja.

A viscondessa marchava para o chapeleiro mais próximo, quando

Beatrice puxou Liz de lado.

— Liz, você está certa de que é isso que quer? Quero dizer, eu sei como

sempre se sentiu em relação ao duque, mas casamento é algo muito diferente.

— Diferente como?

— Terá de... Responder a ele, em primeiro lugar. — O rosto bonito

tornou-se surpreendentemente vermelho. — Em um casamento, há mais na

cama do que apenas beijos.

Liz sorriu, ainda que seu coração se condoesse por Bea e pelo tipo de

casamento que devia ter tido.

— Eu sei. Mas... — baixou a voz — preciso confessar que não tenho

dificuldade alguma em responder a Alex.

Bea arregalou os olhos diante da admissão tácita da amiga de que os

rumores sobre sua relação com o duque eram verdadeiros.

— Compreendo — murmurou com um sorriso cúmplice. — Espero que

esteja contente.

— Muito — confirmou Liz.

Nem mesmo uma carruagem fechada poderia oferecer alguma

privacidade ao duque e sua noiva, mas, quando ele se ofereceu para levá-la a

um passeio de faetonte, na terça-feira seguinte, Liz prontamente aceitou. Desde

que retornara a Londres, havia tido poucos e preciosos momentos ao lado do

homem que amava, e a maioria deles ocorrera em locais que mal lhes tinham

permitido uma conversa.


Como acontecia, desde o anúncio do noivado, assim que adentraram o

parque, um rapaz veio correndo em sua direção.

— Peço-lhe perdão, Vossa Graça. — Tirou o chapéu e fez uma mesura

estranha. — Pergunto-me se poderia lhe falar por um instante, Srta. Medford.

— Quem é você? — perguntou Alex, desconfiado. O rapaz pareceu

constrangido.

— Meu nome é Tippen, Vossa Graça. Trabalho para o escritório de

advocacia Harrow & Morton.

Liz sentiu pena do evidente desconforto do rapaz, ainda que à menção

de sua ocupação ela também tivesse ficado pouco à vontade.

— Por que, Sr. Tippen, gostaria de falar comigo?

— É que... Bem, nossa firma tinha negócios com seu falecido pai, e temos

tido muita dificuldade para conseguir uma resposta de seus procuradores. Não

consigo pensar em uma maneira educada de dizer, senhora, mas há uma

grande quantia de dinheiro envolvida.

— Lamento saber disso — ela respondeu, educada —, mas falho em ver

como eu poderia ajudá-lo. Suas questões seriam mais bem respondidas pelos

procuradores de meu pai.

A seu lado, Alex brincou com as rédeas em sinal de impaciência.

— Mas pensei que... — Tippen evitou olhar para o duque, o rosto mais

rubro do que nunca.

— Perdoe-me, Sr. Tippen, precisamos ir — Liz falou com firmeza.

Diante disso, Alex deu com as rédeas e o faetonte seguiu, deixando o

rapaz, de pé, à entrada do parque.

— Não posso imaginar o que o fez se aproximar de você daquele modo

— ele comentou, exasperado.

Liz deu de ombros.


— Ele está apenas tentando fazer seu trabalho. Sem dúvida deve

responder a alguém, e imagino que esteja ansioso por explicar a falta de

progresso no caso dos Medford.

— Não importa. O sujeito faz isso em um parque público, quando é

óbvio que está a passeio. E diante de seu noivo!

Liz olhou em volta, pouco à vontade. Belo passeio.

— Imagino que tenha pretendido deixá-lo ciente dos problemas de meu

pai, na certa esperando que você fosse cobrir suas dívidas.

Alex fechou o semblante.

— Já perdoei uma quantia colossal devida pelo barão. Não tenho a

intenção, tampouco a responsabilidade, de cobrir outra.

Ansiosa, Liz o tocou no braço.

— Eu jamais pediria isso a você. As feições de Alex relaxaram.

— Francamente, Liz. A posição em que seu pai a deixou é absurda. Não

imagino como um homem tão irresponsável e inconsequente como ele possa ter

criado uma filha como você.

— Ele não era tão ruim assim.

O olhar de Alex foi de descrença.

— Como pode defendê-lo?

Ela suspirou. Alex era um noivo maravilhoso, mas não gostava de sua

família. Na verdade, mudava de assunto quando ela citava algum parente,

principalmente o pai. Qualquer menção ao nome Medford fazia sua expressão

se tornar indecifrável.

Ela sabia a razão, ao menos em parte. Ainda magoava lembrar que o pai

a havia oferecido como pagamento.

Mas tinha outras lembranças, bem melhores, dele.

— Sei que meu pai gastou demais com jogos. E sei que ele e minha mãe

não foram sempre felizes um com o outro. Mas existia outro lado nele; o lado

gentil e brincalhão. E isso eu não posso esquecer.


— Se não fosse pela inconsequência do barão, você jamais teria passado

pelo que passou — argumentou Alex. — Liz, ele tentou vender você para mim.

— Eu sei — ela concordou, amargurada. — E só posso esperar que, em

meio a seu desespero, ele tenha tido algum tipo de intuição sobre nós dois. Alex

pode ser difícil de compreender, mas eu me lembro de meu pai como um bom

homem. Quando eu tinha doze anos, por exemplo, mamãe matriculou-me em

aulas de dança. Estava decepcionada por não ter tido um filho homem, e

determinada a me fazer arrumar um belo casamento para compensar o fato de

não ter dado um herdeiro ao marido. Receio tê-la desapontado também nisso.

Como deve ter notado, não sou particularmente graciosa ao dançar.

— Jamais reparei nisso... — Alex fingiu constrangimento por ela tê-lo

visto cruzando os dedos.

Liz deu-lhe um tapa, rindo.

— De qualquer maneira, mamãe vivia ralhando comigo por minha falta

de habilidade. Um dia, meu pai me esperou ao final da aula. Eu estava quase às

lágrimas, pois, na quadrilha, não conseguira estar no lugar certo, na hora certa.

Papai não disse uma só palavra sobre a minha incompetência. Apenas sorriu,

segurou-me pela mão e perguntou se eu gostaria de passear no Vauxhall

Gardens. É claro que eu disse "sim", e nós nos divertimos muito. Ele me fez

esquecer completamente da minha falha. Ao final do dia, meu espírito estava

renovado. Quando voltamos para casa e mamãe me perguntou sobre a aula, ele

disse que eu tinha ido muito bem. — Sorriu. — Eu sabia que mentir era errado,

é claro, mas, naquele dia, não precisei encarar meu fracasso. Esse é o pai de

quem eu gosto de lembrar.

Alex fez-se sério.

— Desculpe-me, Liz. Não o conheci dessa maneira. Compreendo, agora,

como pode defendê-lo. Deve ter sido difícil perdê-lo.

Ela lançou-lhe um breve sorriso.


— Não é culpa sua. Além disso, se ele não tivesse sido o homem que foi

nenhuma das coisas que me aconteceram teria acabado desta maneira. Afinal de

contas, esses eventos me trouxeram até você.

— Sim — Alex concordou relutante.

Liz franziu a testa. Havia dado seu melhor, mas, a despeito do

comentário de Alex de que tinha compreendido, seu humor era ainda sombrio.

Talvez pudessem evitar falar sobre os homens de sua família... Desde que não

tivessem outros encontros com os inconvenientes cobradores do barão.

Antes que ela pudesse pensar em uma maneira de alegrar seu duque, Liz

viu-se distraída por uma carruagem repleta de moças que acenavam para ela.

Ou para seu noivo, corrigiu-se, ao registrar os olhares lânguidos.

O veículo transportando as jovens reduziu a velocidade ao se aproximar.

Liz suspirou quando Alex puxou as rédeas do faetonte. Por um momento,

considerou estalar ela mesma as rédeas nos cavalos. Em vez disso, resignou-se a

desenhar um belo sorriso no rosto para receber a inevitável rodada de

felicitações, embora suspeitasse de que estas não fossem ser tão sinceras.

Se o número de presentes chegando à casa de Bea era um indicativo, seu

reingresso na sociedade fora um sucesso. A festa de casamento, que a princípio

se pretendia não muito grande, tornara-se grandiosa.

Ainda assim, Liz não tinha do que reclamar. Estava se casando com o

homem que amava. Um homem que havia lhe perdoado a ausência de dote e os

tantos defeitos dos membros de sua família.

E que a tinha até resgatado de seu pior momento. Para o restante da

sociedade, Alex podia ser um rico inconsequente, mas, para ela, era um

verdadeiro príncipe encantado.

Mesmo feliz como estava, na data da cerimônia Liz tinha os nervos à flor

da pele. A igreja estava abarrotada. Carruagens lotavam as ruas do lado de fora,

e os que chegavam de última hora precisavam procurar por algum centímetro

vago onde se sentar. Liz, Charity e o tio encontravam-se fora de vista em um


pequeno cômodo, próximo à frente da igreja, enquanto esperavam pelo inicio

do cerimonial.

Ansiosa, Liz espiou lá fora. Havia algo irreal naquilo tudo. Ela, Liz

Medford, estava se casando com o duque de Beaufort, mesmo após ter a

reputação dela e da família arruinada.

Da janela, viu chegar uma carruagem com o brasão de Beaufort e sentiu

uma onda de alivio. Alex estava ali. Não a deixaria no altar. Ele saltou da

carruagem e se apressou em subir os degraus.

Liz espiou para dentro da igreja novamente. Nos bancos mais próximos

ao altar, pôde ver Marian e Brian Grumsby sorrindo. Ao lado deles, havia uma

senhora com o mesmo formato de rosto de Alex. Sua sogra deu-se conta; vinda

de seu santuário, em Bath.

E, diante da duquesa viúva, sentava-se sua própria mãe, parecendo

nervosa e orgulhosa ao mesmo tempo.

Soprou as mãos úmidas. Se pudesse percorrer a nave sem tropeçar,

consideraria o dia um sucesso. Os metros e metros de seda incrustada de

pérolas da cauda na certa não facilitariam seu trabalho. Por que não havia dito

a, madame Benoit que era desastrada, e pedido que a mulher desenhasse um

modelo mais simples?

Uma vez posicionada à porta da igreja, Liz percebeu o tio rígido a seu

lado. Ela mal falava com ele depois do que havia acontecido com Harold, mas

não tinha mais ninguém que a acompanhasse até o altar, tampouco o desejo de

atiçar as más-línguas percorrendo a nave sozinha.

A sua frente, Charity estava estonteante em um vestido de seda azul-

piscina, as madeixas loiras presas no alto da cabeça. Lançou-lhe um sorriso

cheio de alegria e excitação por sobre o ombro, e ela respirou fundo.

Os últimos convidados haviam se sentado. Pouco depois, ela pôde ver o

vigário acenar.
Ao soar de uma canção, Charity avançou sorridente, e tomou seu lugar

no altar, onde permaneceria durante a cerimônia para auxiliar Liz com a longa

cauda do vestido.

A música mudou, sinalizando a entrada da noiva. Liz pôs a mão

enluvada no braço do tio e se moveu.

Alex estava ao fim do tapete vermelho, e sua expressão se alterou

visivelmente quando a viu entrar. Um sorriso de aprovação curvou-lhe os

lábios benfeitos e ela sorriu, aliviada.

Santo Deus, ele estava lindo. A casaca de veludo negro fora cortada à

perfeição, assim como as calças.

Querendo esquecer os rostos curiosos da multidão, Liz respirou fundo e

tentou se concentrar em seu futuro marido. Surpreendentemente, não tropeçou,

não desmaiou, e assistiu com irreal distanciamento enquanto Alex e o tio se

cumprimentavam.

Pouco depois, tinha início à cerimônia.

Alex tomou-lhe as mãos. Seu toque era quente e reconfortante. Estavam

diante de Deus e de toda a sociedade, dispostos a dar aquele passo irrevogável.

Ela repetiu seus votos, rezando para que jamais tivesse motivos para

violá-los. Alex fez o mesmo, a voz baixa e confiante.

Juntos, viraram-se e encararam o vigário.

Com a concordância do sacerdote, Alex a envolveu pela cintura e a

puxou para um beijo. Liz fechou os olhos e retribuiu, comovida.

Um arrepio de excitação a perpassou. Alex Bainbridge era seu marido.

Se aquela recepção não terminasse em breve, Alex certamente

enlouqueceria.

Forçou um sorriso quando outro convidado o tocou no ombro. A mãe

dele, por sua vez, já havia deixado à festa, mas não antes de intimá-lo à tarefa

de conseguir um herdeiro.

— Já passava da hora, Alex! Graças a Deus, finalmente escolheu alguém.


Ele apenas trancara os dentes. Poderia, sim, cuidar de fazer um herdeiro,

não ficasse Liz sumindo o tempo inteiro do salão sem dar-lhe a chance de dizer

que tinha o desejo de partir.

— Pretendo deixá-lo orgulhoso de mim — ela havia dito sincera, quando

a recepção começara.

— Você já me deixa orgulhoso — ele respondera, com a cabeça em

assuntos bem mais íntimos.

Que bom era pensar que ninguém mais poderia censurá-lo por dormir

com Liz. Passara o último mês em um quase constante estado de desejo, e

conseguira apenas um eventual beijo roubado. Nem mesmo quando garoto

tinha sido tão pudico, e por tanto tempo.

Sem dizer que, para alguém cuja reputação havia sido arruinada, Liz

vinha sendo guardada quase a sete chaves pela família e as amigas.

Entornou o resto do champanhe, mantendo a frustração sob controle.

Aquelas mesmas mulheres tinham conseguido ressuscitar Liz socialmente, fato

pelo qual ele lhes era grato.

Localizou Liz cercada por outra turba de convidados, muitos dos quais

senhoras idosas e repletas de joias. Olhou para o relógio que trazia preso ao

colete, impaciente.

— Já cansado da recepção?

Alex virou-se e deparou com o sorriso de Brian Grumsby.

— Maldição. Grumsby gargalhou.

— Ninguém se importaria caso você e Liz, decidissem partir. Na

verdade, ouso dizer que quase todos se perguntam quando o farão.

— Faríamos se a minha esposa ao menos olhasse na minha direção.

— Ela está ansiosa por agradar a todos, o que é compreensível. E não é

tão incomum, homem, que uma mulher fique assim em sua noite de núpcias.

— Manterei isso em mente — Alex respondeu seco.


Liz era uma mulher passional. Mesmo que seu novo papel de duquesa a

enervasse, ele sabia que aquele aspecto não a incomodava.

Seria possível que ela não estivesse tão ansiosa quanto ele? Ou que

estivesse mesmo tão entretida com a conversa, que não havia se dado conta de

que passara muito da hora de eles partirem?

Finalmente Liz se virou e os olhares se encontraram. Ele acenou de leve

com um gesto de cabeça em direção à saída antes de caminhar em sua direção,

tomar-lhe a mão e, sem maior aviso, acompanhá-la para fora da festa sob o

incentivo dos convidados.

Ignorando-os, apressou-a ao longo do salão que conduzia aos cômodos

privados da família.

— Está linda como uma deusa — disse havia sinceridade em cada

palavra. O vestido era uma obra de arte, os cabelos vermelhos tinham sido

arrumados de forma magnífica. — Eu já lhe disse isso?

Era claro que, em menos de dez minutos, ele planejava ver o magnífico

traje no chão e os cabelos cor de fogo, libertos.

— Talvez uma vez, milord — provocou Liz, quase correndo a fim de

acompanhar-lhe o passo.

Alex reduziu o ritmo ao percebê-la ofegante.

— Foi uma festa maravilhosa.

— Sim. Mas você parece bastante apressado para deixá-la. Alex parou,

encarando-a.

— Deus do céu, Liz, não pode imaginar por quê? — Puxou-a para os

braços, beijando-a de modo a afastar qualquer dúvida. Os cabelos e a pele dela

cheiravam a rosas, e seu gosto era o do melhor dos champanhes.

Jamais necessitara tanto de alguém.

Quando a soltou, o rosto de Liz estava corado, os olhos brilhantes.

— Não está nervosa, está? — perguntou, cheio de curiosidade.

— É claro que não! — ela respondeu após um segundo de hesitação.


— Querida, não há por que se pôr tão tensa. Nós já... —... Fizemos isso

antes, ia dizer. Mas, de alguma forma, não parecia certo lembrá-la de que suas

núpcias tinham sido precipitadas, ainda que o fato não o incomodasse nem um

pouco.

Liz respirou fundo. Estava mesmo nervosa. Mas, ah, como queria fazer

amor com ele! Havia semanas, seu corpo implorava pelo toque quente de Alex.

Misturado ao desejo, contudo, havia o medo de que jamais estivesse à altura do

duque de Beaufort. Na recepção, chocara-se com a súbita e completa

transformação no modo como a sociedade a tratava.

Sabia estar se casando com um duque, ainda assim, não era capaz de se

imaginar como uma duquesa.

Agora, no entanto, gente que jamais lhe dirigira a palavra se curvava e

pedia sua opinião sobre qualquer assunto. Começava a compreender o que Alex

experimentara por toda a vida.

Aquela, porém, não era a hora para pensar em sua nova posição.

Enfim, chegaram às amplas portas duplas que conduziam ao quarto

principal. Emma, sua antiga criada, concordara alegremente em servir a casa de

Beaufort. Agora, ela e Hanson, o pajem de Alex, mantinham-se do lado de fora,

tal qual, duas sentinelas.

— Vossa Graça... — No momento em que eles passaram pelas portas,

Hanson se adiantou para ajudar Alex com a casaca.

Liz quase riu quando o marido soltou um grunhido e Hanson deu um

nervoso passo atrás.

— Creio que possamos nos cuidar sem maior ajuda esta noite — Liz

sugeriu, suavemente.

— Mas, senhora, todos esses botões... — murmurou Emma, analisando-

lhe o vestido.

Alex resmungou algo de novo, ainda que, desta vez, Liz tenha sido capaz

de discernir um "deixem-nos em paz" ao final da frase.


Aceitando a sugestão, Hanson e Emma se curvaram numa mesura e

desapareceram.

Pela primeira vez naquele dia estressante, Liz percebeu-se sorrindo.

— O que é tão engraçado? — perguntou Alex.

— Pobre Hanson. Não vai conseguir dormir esta noite, tão preocupado

que está com suas roupas.

Alex sorriu também.

— Venha aqui, esposa.

— Tem certeza de que não quer que eu troque de roupa? Madame Benoit

desenhou uma peça especialmente para... — Mordeu o lábio. — Quero dizer,

não deveria uma duquesa se pôr mais...

Alex sorriu. Liz ainda estava nervosa. Cobriu a distância entre os dois e

tomou-lhe a boca, interrompendo o discurso. Beijou-a suavemente, roçando os

lábios, e sentiu a rigidez deixar-lhe o corpo.

Deus, continuar naquele ritmo iria matá-lo... Mas ela merecia ser

saboreada.

Continuou a beijá-la, trabalhando nos infindáveis botões do vestido com

dedos trêmulos.

— Há botões demais, não é? — desculpou-se Liz. — Quer que eu...

— Quieta. O vestido é perfeito. Você é perfeita.

— Ah, Alex! — Ela suspirou. — Estou tão longe da perfeição. Não sei se

conseguirei ser uma boa duquesa.

— Não quero uma boa duquesa — ele replicou, tentando não rir agora

que sabia o que a atormentava. Segurou-a pelo queixo. — Jamais quis. Eu já

disse: você é perfeita para mim.

Alex pôde notar as lágrimas nos olhos verdes antes de ela beijá-lo na

palma da mão.
O duque sentiu a própria garganta se apertar pela emoção. Voltou a

cuidar dos botões do vestido, movendo-se para trás da esposa, de onde poderia

realizar a tarefa mais facilmente.

Um a um, ele os soltou, beijando cada pedacinho que se descortinava.

Beijou-lhe o pescoço, os ombros. Liz arqueava-se, inclinava-se para mais perto

do toque. Centímetro a centímetro, o corpete se afrouxou, até que se soltou

inteiramente. As várias saias se provaram tarefa mais simples: alguns laços

desfeitos, e estas logo caíram no chão, deixando-a apenas com uma fina

combinação de seda.

— Perfeita! — repetiu Alex. Passou as mãos pelos lados do corpo esbelto,

por sobre os seios, puxou-a para perto, a crescente ereção pressionando-a.

Liz gemeu diante do contato erótico.

Deus pensou Alex, ansiava por estar dentro dela!

Em vez disso, forçou-se a se concentrar nos grampos que lhe prendiam

os cabelos até que as madeixas acobreadas caíssem de uma vez pelas costas.

Ele apanhou uma das mechas e a beijou.

— São muito vermelhos, não? — Liz comentou insegura.

— São perfeitos — ele repetiu.

Por fim, pôs-se de frente para ela, puxando-a para outro beijo. As línguas

se encontraram, e desta vez foi ele quem gemeu ao sentir os seios tenros e os

quadris delicados pressionados contra ele, enquanto ela instintivamente

buscava mais.

Alex desviou-se da boca tentadora e arrancou as próprias roupas.

Ouviu a rápida inspiração da esposa quando suas calças caíram ao chão,

e sentiu-se ainda mais rijo. Um toque sutil nas alças de seda sobre os ombros de

Liz, e ela também estava nua.

Ele a ergueu no colo e a carregou até a cama.

— Quero me fartar de você — falou rouco de paixão. Beijou-lhe o queixo,

o pescoço, e então mergulhou mais abaixo, capturando um mamilo com a boca.


Sugou levemente e sentiu os dedos dela cavando suas costas em um pedido

silencioso.

Teria lhe dado tudo o que Liz queria se ela já não fizesse movimentos

oscilantes e famintos com os quadris, e seu próprio corpo não clamasse pela

necessidade de possuí-la.

Esperara por mais de um mês. Não suportaria mais nem um minuto.

Afastou-lhe as pernas levado por puro instinto. Ao perceber que ela

estava pronta, penetrou-a com ímpeto.

— Alex — ela gemeu, arqueando as costas.

Ele retrocedeu depois a penetrou seguidas vezes, encontrando o ritmo

que ambos buscavam.

— Abra os olhos, Liz — sussurrou ofegante.

Ela assim fez e a paixão e o amor que ele encontrou ali quase o fez se

perder. Manteve-se no ritmo, contudo, acariciando-lhe os seios, os cabelos,

tocando em todas as partes.

Liz ondulava por baixo dele, encontrando cada movimento seu. Deus!

Como ele não soubera que ela seria seu par perfeito?

Invadiu-a outra vez, os últimos vestígios de controle já sumindo

enquanto ela mesma o apressava. Chegaria ao êxtase a qualquer instante e

queria que ela compartilhasse a sensação.

Estavam quase lá, ele podia sentir. Pressionou o polegar no centro de sua

feminilidade, e ela gemeu alto e estremeceu dos pés à cabeça, convulsionada

pela paixão. Enlevado, ele a prendeu pelas mãos contra o colchão e, mantendo-a

cativa, investiu uma última vez, dissolvendo-se dentro dela com um grito

abafado.

Rolou para o lado, então, puxando-a consigo de modo que se

mantivessem ainda intimamente ligados.

Sorriu. Jamais segurara as mãos de uma mulher enquanto fazia amor.

Mas não estava disposto a analisar aquilo agora. Em vez disso, ele a fez
repousar a cabeça sob seu queixo, segurando-a, protegendo-a, até que ela

recuperasse o fôlego.

Pôde senti-la sorrir contra o peito.

— Não imaginei que pudesse ser tão bom.

— Isso foi apenas o começo — ele garantiu feliz.


Capítulo 4

A vida de casado era perfeita. Em Liz, Alex encontrara uma parceira que

o amava por mais do que sua posição, e que acompanhava seu espírito

aventureiro de todas as formas.

Havia apenas uma coisa que ele precisava fazer antes de providenciar

um herdeiro e se dedicar â vida em família.

— Quero vê-lo destruído — ordenou frio. — Quero que Wetherby não

tenha um só centavo em seu nome.

Homem nenhum se safaria de qualquer abuso cometido contra Liz.

Harold Wetherby muito menos.

Naquele dia, ele, Alex, tinha dito à esposa que iria encontrar um parceiro

de investimentos, mas a verdade era que fora se assegurar de que Wetherby

jamais a incomodaria novamente.

A tentação de causar ao homem danos físicos era grande, mas ele se

decidira por uma vingança de cavalheiros; uma que, sabia, abalaria o orgulho

de Wetherby bem mais do que uma simples surra.

— Compreendo senhor — respondeu o procurador. — Até aqui, descobri

que ele tem ações em diversas minas ao norte, assim como algum tipo de

indústria têxtil. Roupas masculinas creio, próximo a Yorkshire. As condições de

trabalho nas fábricas são abomináveis.

— Imagino.

Alex se perguntou quantos órfãos e viúvas eram mantidos escravos para

que garantissem o estilo de vida de Harold.


— Seria possível destruir Wetherby sem que seus funcionários fossem

parar nas ruas? É Wetherby quem eu quero que sofra não aqueles que já são

suas vítimas.

O procurador concordou.

— Isso pode ser feito com um pouco mais de finesse, Vossa Graça. Quem

sabe se milord estivesse envolvido, indiretamente, é claro, em negócios rivais...

— Você cuida dos detalhes. Mas, Browne, aja depressa.

Duas semanas após o casamento, Liz se encontrava sentada no gabinete

de Alex. Ele havia saído para encontrar um parceiro de negócios, prometendo

voltar cedo, e ela cantarolava alegremente enquanto escrevia cartas de

agradecimento pelos muitos presentes. No dia seguinte, ela e Alex viajariam

para Montgrave, sua propriedade no campo, onde passariam o inverno.

Ouviu alguém limpando a garganta e encontrou o mordomo.

— Vossa Graça, há um cavalheiro à porta, querendo vê-la.

— Eu lhe disse que viesse pelos fundos, pois ele me parece de pouca

estirpe, mas o homem insiste que é imperativo falar com a senhora. Alega ter

trabalhado para seu pai.

— Não se preocupe, eu irei vê-lo.

O mordomo pareceu aliviado por não ter de conduzir o inesperado

visitante até o gabinete, e Liz o seguiu até o saguão.

O homem à porta vestia roupas simples, e não mais um uniforme, mas

Liz reconheceu o antigo cocheiro imediatamente.

— Fuston! Por onde esteve esse tempo todo?

— Srta. Medford, isto é, Vossa Graça... — Ele apertou o chapéu nas mãos.

Parecia dez anos mais velho.

— Qual é o problema?

— Eu preciso lhe contar uma... — Parou nervoso. — Não. Eu não devia

estar aqui. — Gotas de suor lhe surgiram na testa.

— Não estou autorizado.


Liz franziu o cenho. Algo estava muito errado.

— O que quer dizer? — Até onde ela sabia, cidadãos ingleses eram livres

para circular pelo país à vontade.

A preocupação a invadiu. Alex e ela haviam tido sua cota de

estranhamentos após o casamento, claro, mas agora tinham finalmente

resolvido tudo. Ela era uma mulher bem casada.

Mas o fato de Fuston estar ali após ter desaparecido por meses...

Afagou as saias e olhou em volta, mas os outros criados haviam

desaparecido. Estavam a sós.

— Vossa Graça, a senhora não deveria... — Fuston mirou a porta, como

se repensasse a decisão de visitá-la.

— Relaxe, homem. Diga-me o que veio dizer. Isso vai lhe aliviar a

consciência, aposto.

Com certeza, qualquer que fosse o assunto, não poderia ser assim tão

ruim. Ao menos, era o que ela esperava.

O antigo condutor concordou trêmulo, e então a chamou para perto. Liz,

naturalmente, inclinou-se para frente.

— Seu pai, senhora. A morte dele não foi um acidente.

Ela deu um passo atrás. Sentiu uma pressão nas têmporas e o corpete lhe

pareceu bem mais apertado, impedindo-a de respirar.

— Não. — Sacudiu a cabeça. — Foi um acidente de carruagem. Você

mesmo disse que o coche ficou completamente destruído.

Fuston engoliu em seco e concordou.

— Sim. Mas eu virei à carruagem de propósito... Sob instruções do duque

de Beaufort.

Liz tateou a parede atrás dela, buscando equilíbrio.

— Deve estar enganado.

Talvez o infeliz houvesse enlouquecido. Ou tivesse perdido a memória

para o álcool.
Ela, no entanto, não sentia qualquer cheiro de bebida. E ainda que o

homem estivesse nervoso, não havia sinais de que houvesse perdido a

sanidade.

— Não, senhora. Não estou enganado. Seu pai foi baleado.

— Baleado?

— Sim. Jurei manter segredo. Fui pago para que desaparecesse de

Londres. Mas quando as notícias de seu casamento chegaram ao interior,

Beaufort...

— O que tem meu marido a ver com tudo isso? — ela o interrompeu

tensa.

— Foi ele o mandante.

Liz se recostou na parede para não cair.

— Impossível!

Fuston sacudiu a cabeça, e o suor se acumulou acima de suas

sobrancelhas.

— Lamento sinceramente, Vossa Graça. Mas a senhora vê, agora, por que

eu precisava lhe contar. Apenas não vim a tempo. Não temos jornais, e as

notícias demoraram a chegar.

Ela não se ateve àquilo.

— O que aconteceu a meu pai? — Ofegava incapaz de encontrar a voz de

costume.

— Não sei sobre a coisa toda. Fui conduzi-lo até a casa dos Beaufort,

naquela noite, mas, o que aconteceu do lado de dentro, não sei dizer. A não ser

que ouvi uma discussão, e uma porta bateu. Ouvi mais vozes. Vieram para o

lado de fora, do outro lado da propriedade. Fiquei ao lado da carruagem, e não

pude ouvir tudo o que diziam. Foi então que escutei um tiro. Um dos homens

de Beaufort creio eu, veio até a carruagem justamente quando eu descia. Disse

que o barão estava morto e; que o duque seria generoso se eu fizesse parecer

que tinha sido um acidente de carruagem o que o matara.


— Mas, o corpo... — ela balbuciou atordoada.

— O caixão estava fechado, não estava?

— Pensei que fosse porque papai estava ferido... Céus, minha mãe sabe

disso?

— Não sei dizer. Lowdry, o antigo mordomo de sua família, foi quem

falou com ela. Mas duvido que tenha contado. Afinal, sua pobre mãe

descansaria melhor pensando ter sido um acidente.

A história do cocheiro era terrível e absurda demais para que ela

acreditasse.

— Alguém realmente viu Alex, digo, Sua Graça, naquela noite? —

perguntou com voz sumida, tentando justificar os atos do homem a quem

amava.

— Eu não. Mas a voz dele era, sem dúvida, uma das que ouvi na

discussão. E foi ele quem me pagou para que ficasse quieto. — Fuston estendeu

as mãos em súplica. — Não consegue ver? A senhora se casou com o homem

que assassinou seu pai.

Liz sentou-se à pequena escrivaninha, os cotovelos apoiados, a cabeça

entre as mãos, enquanto encarava o papel em branco.

Após a saída de Fuston, seu primeiro instinto fora correr dali. Mas já

fizera aquilo por vezes demais. Pelos últimos meses, vivera fugindo, e estava

esgotada.

Além disso, não haveria para onde ir.

Desejou dispensar a narrativa de Fuston como sendo o devaneio de um

lunático, mas o plácido cocheiro jamais havia demonstrado qualquer sinal de

loucura em todos os anos em que ela convivera com ele. O que quer que

houvesse ocorrido naquela noite fatídica, realmente assustava o pobre homem.

Além disso, não haveria razões para que Alex o pagasse se não tivesse

nada a esconder...
Deus, nada daquilo fazia sentido! Ela amava Alex. Ele era seu marido, e

ela poderia até estar grávida dele.

Mas, como poderia continuar a amá-lo se ele a houvesse privado do

único outro homem por quem ela tivera apreço? O pai não fora nenhum santo,

como bem sabia, mas, ainda assim, era seu pai. Alex o teria assassinado?

Lembrou-se da cerimônia tão recente, do carinho com que ele lhe

segurara as mãos e repetira seus votos. Um homem com uma morte nas costas

não poderia desempenhar aquele papel com tanta confiança, a menos que

possuísse uma alma negra.

Ela afundou o rosto nas mãos. Precisava de conselhos, mas não sabia a

quem pedi-los. Qual seria a coisa responsável a fazer? Confrontar o marido?

Santo Deus. Ela não tinha medo dele, pois, até então, Alex não tinha

qualquer motivo para feri-la.

Mas, se a história de Fuston não fosse verdade, ela poderia lhe ferir a

honra, o caráter, apenas por perguntar. E Alex não merecia aquilo.

A menos, é claro, que fosse tudo verdade.

Deitou a cabeça latejante sobre a mesa.

Se confrontasse Alex, revelaria o envolvimento de Fuston e, talvez,

pusesse o cocheiro em perigo. Tampouco poderia esquecer a visita do homem.

Por isso decidira escrever uma carta.

Erguendo a cabeça, rabiscou algumas linhas, amassando em seguida

outra folha de papel.

Alex e ela deveriam comparecer a uma sessão de poesias, naquela noite:

outra performance da estimada Srta. Lambert, a prima do duque com voz de

corvo. Ela e Alex haviam rido muito, combinando que suportariam a noite

inteira.

Agora, no entanto, não imaginava como poderia fazer parte daquilo.


Apressada, rascunhou uma nota, dizendo que estava com dor de cabeça

e que, por isso, gostaria que ele a dispensasse do passatempo noturno.

Encontrou, a seguir, um mensageiro.

O bilhete, ao menos, poderia lhe fornecer algum tempo.

E a dor de cabeça não era mentira. Suas têmporas latejavam.

Exausta, ela subiu a escada e seguiu para o quarto.

Liz não tinha experimentado um bom sono, mas, quando abriu os olhos,

o crepúsculo caíra sobre Londres. O latejar na cabeça havia cedido um tanto, e

ela se levantou e seguiu até a janela. Do lado de fora, uma carruagem passava,

lenta, e as janelas das outras casas brilhavam suavemente. Tudo parecia normal.

Exceto por ela.

Não poderia se esconder no quarto para sempre.

Angustiada, ela relembrou a cena que observara entre Fuston e o

mordomo na noite da morte do pai, enquanto estivera escondida em um canto

escuro do corredor. Por meses, esse cenário se repetira em seus sonhos.

As coisas que Fuston dissera, coisas que ela ignorara sob o choque da

perda do pai, voltaram, vividas. O cocheiro estivera mesmo aterrorizado, mas

ela havia imaginado que ele se sentia responsável pelo acidente.

Se não tinha ocorrido nenhum desastre, entretanto, talvez seu terror se

devesse a ter se tornado cúmplice de um assassinato.

Deus! Aquilo tudo ia tão contra a imagem que ela possuía de Alex. Ele

era um bom homem.

Seu pai, por outro lado, era um infeliz que havia apostado além de suas

possibilidades, e então oferecido a filha mais velha como pagamento por

dívidas que não seria capaz de cobrir. Na verdade, apenas porque seu marido

era um homem honrado ela não havia sido vendida naquele trato nojento.

Lentamente, puxou as cortinas, lembrando-se das muitas razões pelas

quais confiava em Alex Bainbridge. Não era cega para as falhas de ninguém,

muito menos para as suas próprias. A reputação de Alex na cidade também não
era das melhores: o duque era visto como um homem rude nos negócios, nos

jogos, e em quase todos os assuntos envolvendo mulheres.

Mas, a despeito disso, ela não podia acreditar que ele fosse capaz de um

assassinato a sangue-frio. Por mais que Alex apresentasse essa imagem rude e

cínica ao restante do mundo, ela havia enxergado além daquilo. Tinha visto a

maneira como seus sobrinhos se iluminavam diante dele, a maneira como

correspondia às crianças com alegria. Crianças eram melhores juízas de caráter,

em sua opinião, do que muitos adultos.

E, o mais importante, sabia como Alex a havia tratado. Quando sua

própria família a decepcionara, ele a procurara por todo o interior e a resgatara

de Harold. Oferecera-lhe seu nome, seu amor, seu corpo. Talvez não naquela

ordem, mas ela mesma havia sido voluntária o suficiente em suas indiscrições...

A verdade era que Alex era um homem bom. E ela não deveria destruir a

confiança que partilhavam baseando-se apenas nas palavras de um antigo

cocheiro que até admitira não ter visto exatamente o que tinha ocorrido naquela

noite trágica.

Por outro lado, não podia deixar a morte do pai permanecer envolvida

em mistérios.

Chegou a uma decisão: não desonraria o marido num confronto aberto.

Antes disso, provaria que Fuston estava errado, investigando por conta própria.

Como planejado, Alex e Liz rumaram para o campo ao final de outubro,

tendo comparecido a tantos eventos sociais quanto puderam suportar. O

redemoinho de atividades impediu Liz de se revolver com as terríveis

acusações que Fuston fizera contra seu marido, mas agora, com a rotina menos

atribulada, sua mente girava cada vez mais em torno do assunto.

Montgrave, a propriedade do duque, era um terreno vasto e espalhado.

A casa-grande havia sido construída por volta de 1600, e depois reformada por

cada duque em sua linha de sucessão, resultando em uma bela mistura de

história e conveniência moderna.


Liz a amou à primeira vista, ainda que atormentada pelas dúvidas que

cercavam a morte do pai e o envolvimento do marido. Por onde começaria se

quisesse mesmo uma resposta à última questão?

Conforme os dias passavam, ela começou a fazer perguntas. Colocava-as

com a maior discrição possível, para que a criadagem não desconfiasse.

Precisava agir devagar. Se ficasse fazendo perguntas a todos os criados

do duque de uma só vez, na certa a julgariam como louca e contariam ao patrão

sobre seu comportamento.

Havia, no entanto, subestimado a enormidade da tarefa. A morte de seu

pai ocorrera em outubro, um ano antes. Fuston dissera ter conduzido o barão

até a propriedade de Beaufort, não até a casa de Alex na cidade.

Ainda que os Medford tivessem passado o inverno em Londres naquele

ano, pois a mãe detestava deixar as diversões que a cidade oferecia Montgrave

não era tão distante. E várias festas costumavam ser realizadas na residência de

campo do duque, e parecia razoável que seu pai tivesse vindo até ali.

Mas encontrar alguém que se lembrasse daquela noite fatídica se

revelava quase impossível.

O mordomo, quando perguntado se Alex oferecia sempre festas no

inverno, havia apenas lhe informado que, como ele fora admitido no emprego

em maio último, não poderia falar com autoridade sobre os hábitos do duque.

A governanta afirmara não saber quando a sala de visitas fora usada pela

última vez, ainda que assegurasse que a mobília e as louças eram cuidadosa-

mente mantidas, de forma que estavam à sua disposição.

O único membro da criadagem a quem ainda não havia conseguido

perguntar alguma coisa era o pajem pessoal de Alex, Hanson. O homem era tão

reservado quanto uma freira, por isso Liz suspeitou de que ele soubesse mais

do que qualquer um por ali.

Entretanto, ela jamais o vira longe da presença do marido.


Betsy, uma das criadas da cozinha, ofereceu-lhe alguma informação

sobre por que ninguém parecia saber coisa alguma sobre o patrão.

— Lamento Vossa Graça, mas fui contratada em agosto — contou,

quando Liz perguntou se ela se lembrava de alguma amizade entre o duque e o

barão de Medford.

— Muitos dos criados são novos, então?

— Certamente, milady. A maioria de nós chegou nos últimos meses.

— Tem alguma ideia do motivo? Houve algum problema com os criados

antigos?

— Não sei dizer. — Betsy deu de ombros. — Sua Graça não mencionou

nada.

— Compreendo. Obrigada, Betsy.

Pelo visto, Alex havia trocado a maioria de seus criados desde o último

outono. Mas por quê? Teria a morte do pai dela a ver com tal decisão? Ou teria

o duque apenas ficado insatisfeito com o desempenho da velha equipe?

— Vou levar um pouco deste pão até a cidade, para a Sra. Culpepper —

Betsy falou, meio sem jeito. — O marido dela está de cama, com o pé ferido e,

com ele fora de serviço, precisam de uma ajuda extra. A governanta me

garantiu que temos o suficiente.

— É muito gentil de sua parte. Por favor, transmita a Sra. Culpepper e ao

marido meu desejo de que ele se recupere logo.

Betsy fez uma mesura esquisita e partiu, deixando Liz a se perguntar

sobre a causa da troca da criadagem apenas meses após a morte do pai dela.

Suspirou. Alex era um marido atencioso e amável. Era tão tentador

esquecer aquele assunto.

Mas ela amara o pai, a despeito de todos os seus defeitos.

Precisava tentar com mais afinco se pretendia sepultar de vez suas

dúvidas.
E já que ninguém sabia nada sobre seu marido, talvez fosse hora de

aprender mais sobre o barão Medford.

Alex observou Liz pelo canto do olho. Ela estava apoiada a um canto da

mesa, parecendo perdida em devaneios, enquanto ele revisava os balanços

financeiros de seu último investimento: uma fábrica indiana que produzia belas

sedas bordadas. Ser dono de um negócio como aquele eliminava a necessidade

de um fornecedor. Jamais passaria novamente pela experiência de receber um

carregamento com qualidade inferior, como acontecera da última vez.

Tendo lidado com o sexo oposto por anos, Alex bem sabia da paixão das

mulheres por coisas finas; particularmente as que não estivessem à disposição

de suas rivais. Tinha toda a crença de que os tecidos cumpririam esse papel e se

converteriam em um bom lucro após serem vendidos a costureiras e modistas

selecionadas.

E, assim que chegasse o primeiro carregamento, ele planejava presentear

Liz com xales e vestidos que complementassem sua beleza. Quando as damas

de Londres vissem sua adorável duquesa, a luta para imitá-la teria início.

Rascunhou alguns números no livro de contabilidade. Liz moveu-se

levemente, e uma nuvem de lavanda o alcançou.

Alex sacudiu a cabeça. Estaria aquele número correto? Com a tentadora e

jovem esposa ao lado, toda fresca após um banho, era difícil manter a

concentração.

Não que estivesse reclamando.

Por fim, afastou os papéis.

— A manhã está passando. Gostaria de almoçar comigo, hoje? — Lançou

a ela o mais travesso dos sorrisos. — Ainda que esteja frio demais para um

piquenique, pedi à criadagem que o preparasse. Pensei que poderíamos

desfrutá-lo diante do fogo... — Acenou para a grande lareira, na frente da qual

um grosso tapete descansava.


Os olhos de Liz se abriram mais quando ela compreendeu o convite. Ela

umedeceu os lábios, e Alex sentiu o sangue esquentar. Mas, para sua surpresa, a

esposa não lhe devolveu o sorriso.

— Eu... Não posso — disse, desviando o olhar. — Prometi uma visita à

Sra. Culpepper.

— Com certeza isso pode esperar. — Ele traçou-lhe um dedo pela linha

do pescoço e pôde vê-la tremer.

Liz se encolheu de leve, então se endireitou.

— É que, eu realmente prometi.

— Quem é essa Sra. Culpepper? Não gostei dela. Liz deu-lhe um tapa de

brincadeira.

— Não deve dizer essas coisas. Ela é uma das aldeãs. O marido está de

cama, ferido, e eles têm cinco filhos. Só estou sendo solidária.

O coração de Alex suavizou um tanto. Não poderia culpá-la por ser

gentil e caridosa, mas, maldição, estava ficando cansado de ver as coisas se

colocando no caminho da sedução que, pensara, iria lhe preencher todas as

horas de recém-casado.

Estava ansioso por ter Liz só para si. Não era para isso que servia uma

lua de mel? Certamente, não era para que perdessem tempo com cada tarefa

imposta pela sociedade.

Mas, pelo visto, a esposa pensava de outra maneira.

Liz abaixou a cabeça.

— Vou retornar o mais rápido possível. Talvez possamos tomar um chá

juntos?

Alex suspirou, esperando dissuadi-la de suas boas maneiras.

— Suponho que sim. Não tem bem o apelo de um piquenique em frente

à lareira, mas, se é esse o tempo que tem para mim...

— Ah, fique quieto — ela se inclinou para frente a fim de beijá-lo.


Ele a beijou com vigor, no entanto. Quando a sentiu ceder, saboreou-a

com volúpia. Por mais egoísta que fosse, esperava que cada segundo na casa

dos Culpepper fosse repleto de arrependimento pelo que eles poderiam estar

fazendo.

Finalmente, Liz recuou.

— Lamento Alex. Hei de compensá-lo por isto.

— Pretendo cobrar a promessa — ele avisou, enquanto ela reunia as saias

e se afastava apressada.

Maldição! Alex inclinou a cabeça contra o encosto da cadeira. Seria

possível que Liz não soubesse por que casais recém-casados ficavam a sós?

Supôs que nem todos ficassem. Muitos dos casamentos na sociedade

ocorriam sem que houvesse qualquer sentimento mais forte entre as partes. Ele

evitara uma união assim por anos, mas pensara que o que ele e Liz possuíam

fosse diferente.

Seria possível que ela não compartilhasse seu quase constante estado de

desejo?

Não. Podia ver a paixão nos olhos verdes quando a tocava.

Mas, então, por que Liz se mostrava tão arredia?

Liz realmente visitou os Culpepper. Apenas não ficou por tempo demais,

pois decidiu aproveitar a oportunidade para continuar sua investigação,

examinando os últimos meses de vida do pai. Para esse fim, deixou a casa dos

aldeões, após entregar-lhes uma enorme quantidade de geleias e queijos, e foi

até a taverna da cidade, onde combinara de se encontrar com o cobrador que

cuidara da propriedade do barão.

Em vez de chamar a atenção, usando a carruagem e o cocheiro de

Beaufort, escolhera montar o gentil animal com que Alex a presenteara.

Buttercup era uma criatura plácida, mas ela jamais fora uma boa amazona, de

modo que o percurso não foi dos melhores.


Extrair informações de um homem com quem jamais havia se encontrado

foi igualmente difícil.

A seu pedido, o cobrador, o Sr. Pearce, chegou com uma pilha de papéis

detalhando as várias contas do barão. As quantias, quase todas negativas, eram

impressionantes.

Mas ainda mais interessantes eram os nomes.

Ela reconheceu um em particular.

— Garrett...

O Sr. Pearce moveu-se, inquieto.

— Como, Vossa Graça?

— O nome de lorde Garrett aparece muitas vezes aqui — notou

intrigada. — O que sabe sobre ele?

— Pouco, eu receio. Esteve envolvido em um dos investimentos

malsucedidos de seu pai. O que sei é que a propriedade de lorde Garrett pôde

absorver melhor as perdas.

— Eles se conheciam? — Liz indagou com estranheza. Garrett era um

parceiro frequente de Alex nas cartas. Se pudesse comprovar a ligação entre e o

homem e seu pai, poderia estar diante de algo.

— Imagino que sim, mas não posso falar com autoridade sobre as

relações pessoais do barão.

Liz examinou novamente os papéis.

— E quanto ao meu marido? Vejo apenas uma menção a ele.

— Sim, Vossa Graça.

— Essa dívida foi paga?

O Sr. Pearce limpou a garganta, pouco à vontade.

— Não.

— Pensei que eles tivessem sido sócios por algum tempo, assim como

aconteceu com lorde Garrett.

Cansado, o procurador passou a mão pela testa.


— Posso falar abertamente?

— É claro, por favor.

— Não sei que informação milady está buscando, mas meu conselho é

que pare de fazer perguntas.

Liz sentiu o coração bater mais forte.

— Por quê?

— A senhora parece buscar um elo entre seu pai e seu marido. Diante

disso, posso lhe dizer o seguinte: todos os nobres mantêm acordos. Os

desacordos, eles procuram não registrar... Alguns mais do que outros. Se for

buscar respostas, pode não gostar do que vai descobrir. E creio que o duque

também não aprovaria isso. Nesses casos, a maioria dos cavalheiros prefere

deixar o passado para trás. — O homem se levantou, endireitando a capa. —

Espero que nosso encontro lhe tenha sido de algum valor, Vossa Graça, mas

preciso partir agora.

— Mas meu pai...

— Seu pai era um homem infeliz. — Ele declarou em voz baixa. — Já o

homem com quem se casou... Esse é implacável.

Liz levantou-se, tonta, enquanto o Sr. Pearce partia sem maiores

explicações.

Implacável, o homem dissera. Mas isso ela sabia desde o início.

— Onde, em nome de Deus, você esteve? — Alex parou de caminhar

pelo gabinete e se virou para encarar a esposa que acabara de irromper recinto

adentro como uma lufada de vento frio. Era claro que estivera ao ar livre, pois

as faces estavam rosadas e os cabelos vermelhos, desgrenhados.

Pareceria maravilhosa se ele não tivesse passado as últimas seis horas

imaginando o que teria lhe acontecido. Mesmo àquela altura, membros da

criadagem ainda a procuravam pelas cercanias.

Liz endireitou as saias amassadas pela longa cavalgada. Era sua

imaginação, refletiu Alex, ou seus dedos tremiam?


— Acabo de voltar do vilarejo, milord.

— Do vilarejo? Que ideia tola a fez ir até a vila com toda essa neve? —

Ele sabia estar sendo áspero, mas ela não tinha ideia do quão preocupado ele

estivera.

Alex ocupou as mãos, servindo-se de uma grande dose de brandy, e se

forçou a relaxar.

— Nem me dei conta da neve. O tempo tem estado terrível por conta do

inverno.

Um criado apareceu, trazendo chá, e Liz tratou de servir-se de uma

xícara. Seus movimentos eram rijos e, sim, um pouco trêmulos.

Alex franziu o cenho. Teria se oferecido para servi-la se não estivesse tão

irritado.

— Visitei os Culpepper e... Levei uma cesta de geleias até o orfanato. A

cozinheira me assegurou de que tínhamos mais do que o suficiente, então

pensei que as crianças iriam gostar de um presente. — Interrompeu-se

enquanto colocava um torrão de açúcar com cuidado dentro do chá.

Um músculo pulsou na têmpora de Alex.

— Compreendo. Outra de suas nobres jornadas... Liz, você pode dar cada

pote de geleia desta casa a quem quiser, mas não no meio de dezembro, em

meio a uma quase nevasca, e sem informar ninguém sobre seu paradeiro.

Menos ainda sem um acompanhante.

Ele precisava pôr algum limite no caráter independente da esposa.

Estavam casados havia apenas dois meses, e Liz se revelava tão livre quanto um

espírito da floresta.

O que, de certa forma, a mulher lembrava, naquele instante, parecendo

tão deliciosamente destratada pelo vento, os cabelos vermelhos refletindo a luz

do fogo.

Deveria contratar alguém para que pintasse um retrato seu.


Alex respirou fundo e apertou os olhos. Quando havia se tornado um

fracote? Não conseguia nem ao menos uma resposta objetiva da mulher e ainda

sonhava com sua linda imagem numa pintura!

Maldição, como ela fazia isso com ele?

— Não precisa me tratar como criança. Tenho cuidado bastante bem de

mim até aqui.

— Ah, sim — ele replicou, sentindo a raiva crescer. — Um belo trabalho,

você tem feito. Deixe-me ver... Fugiu de casa para trabalhar para minha irmã,

depois correu de volta, apenas para se deixar sequestrar por seu primo. Sim,

creio que as evidências falem por si mesmas — completou cínico. — Suponho

que eu devesse ter me dado conta, antes de nos casarmos, de que você tem o

hábito de desaparecer... Mas Liz, você vai ser a minha morte, se não a sua

própria, caso não pare com isso.

— Está certo. — Ela parecia mesmo arrependida. Fungou, esfregando o

nariz.

Alex suspirou.

— Provavelmente apanhou um resfriado andando por aí com esse

tempo. Venha aqui... — Ofereceu-lhe um lenço, então a puxou para os braços e

permaneceu com ela próximo ao fogo, o queixo sobre os cabelos vermelhos.

Nada mais importava, pensou. Ela estava de volta.

Deus, ele não a compreendia. Quando não o estava evitando, Liz era

brincalhona e apaixonada. E, ultimamente, toda vez que desaparecia por

algumas horas, mesmo que dentro da casa, ao voltar, parecia ainda mais

contrita.

Seria demais, pedir-lhe que pensasse o mínimo em sua própria

segurança? Ou ao menos que confiasse nele, seu próprio marido, para que a

protegesse?

Maldita independência daquela mulher.


E, por Deus, quando Liz havia começado a significar tanto para ele a

ponto de deixá-lo quase paralisado diante da ideia de perdê-la?

A despeito da promessa da esposa de que ela pararia de desaparecer por

horas e horas, sentiu um desconforto no estômago. Algo lhe dizia que Liz

estava se esquivando dele. Se não fisicamente, ao menos emocionalmente.

E ele não tinha ideia do que havia feito para causar aquilo.

Os instintos de Alex foram confirmados quando, dois dias depois,

durante o jantar, Liz o informou de que desejava viajar a Londres.

— Por quê? — perguntou estupefato. Quem ia a Londres durante o

inverno, a menos que a negócios?

Liz era uma duquesa. Sua duquesa. Não precisaria trabalhar. Ela mexeu

na ponta do garfo até que este estivesse alinhado ao restante dos talheres.

— Bem, eu... Pensei em visitar minha família. E ainda tenho um assunto

pendente quanto ao meu guarda-roupa.

— Posso cuidar para que a modista de sua escolha venha até aqui.

Aquilo também não a deixou feliz.

— É muito gentil de sua parte, mas há a questão dos acessórios, como

chapéus, luvas, sombrinhas... E é claro que Londres tem mais diversão do que o

interior. Não sei por que, mas, ultimamente, tenho me sentido estranha. Aqui é

muito quieto.

Alex mal podia crer. Poucos meses antes, ele era a diversão pela qual Liz

ansiava. Era ele quem iluminava seus dias. O "muito quieto" deveria soar como

um paraíso para dois amantes. E, mesmo assim, ele andava ansioso por ter

algum tempo a sós com ela.

Seria sua esposa tão volúvel?

Mas Liz jurara amá-lo.

Afastou o prato, sem fome.

Liz abaixou a cabeça diante do silêncio estendido do marido.


Deus, ela era linda, mesmo com aquela expressão tristonha, ele pensou.

Odiava vê-la daquele modo. Quem sabe se ela tivesse a diversão que pretendia,

voltasse menos deprimida.

— Está bem — concordou a contragosto. — Vamos a Londres na semana

que vem. Faremos algumas compras e visitaremos sua família no feriado.

— Obrigada. — Liz sorriu finalmente. — Creio que essa viagem seja a

coisa certa para me deixar mais... Animada.

Alex esperava que sim.

— Para o que estamos fazendo compras mesmo? — perguntou Bea. — E

por que isso não podia esperar? Está gelado aqui.

— Um novo traje de montaria — respondeu Liz. — E Alex me prometeu

um casaco de pele.

— Você nem gosta de montar! — Charity virou os olhos. — Mas um

casaco de pele faz sentido.

Liz sorriu. Acompanhara as outras moças com bastante alegria, mas,

quando a carruagem as deixara na Bond Street, fora a primeira a notar que

tinha escolhido o dia mais frio do ano para o passeio. Havia tido esperanças de

que um dia de compras a fizesse esquecer os problemas, e lhe permitisse

descobrir o paradeiro de lorde Garrett. Sendo solteiro, o homem com certeza

passava o inverno na cidade.

Na verdade, ela contava com isso, pois o homem era sua última

esperança naquelas malsucedidas investigações.

De qualquer modo, precisava ter certeza de que ele se encontrava por ali,

antes de pôr o restante de seu frágil plano em prática.

Apressou as acompanhantes até a loja da estilista, onde a proprietária as

saudou e a vendedora lhes trouxe vaporosas xícaras de chá. A bebida quente

pareceu acalmar os ânimos de Bea e Charity.

Ausente, Liz selecionou os tecidos, linhos e amostras que a proprietária

ansiosamente lhe exibiu.


— Não vou mentir — disse a comerciante. — Os negócios têm andado

lentos com o frio, mas na certa vão se aquecer quando os outros souberem de

suas compras, Vossa Graça.

Ela sorriu desconfortável. Não tinha ideia sobre o que havia escolhido, de

forma que seria uma surpresa caso as outras mulheres quisessem copiá-la.

Nenhuma das moças se mostrou ansiosa por se aventurar do lado de fora

outra vez, mas Liz prometeu que parariam apenas para um chocolate quente e,

doces, e então voltariam à casa de Bea.

Já tinha perdido tempo demais. Com as ruas tão vazias, era pouco

provável que esbarrasse em qualquer um que fosse útil a seu propósito.

Assim, decidiu-se por outra maneira de abordar lorde Garrett, contanto

que Bea aceitasse ajudar.

Na loja de doces, eram as únicas clientes mais uma vez.

— Liz, há algo errado? — perguntou Beatrice, astuta, apanhando uma

rosca.

— Por quê?

— Pensei que recém-casados gostassem de ficar a sós. Não falo por

experiência própria, é claro, uma vez que meu casamento foi dificilmente uma

união de amor, mas pensei que você e Beaufort fossem... Diferentes.

Charity parecia absorta com seu chocolate quente, mas Liz sabia que a

irmã ouvia cada palavra.

— Alex é maravilhoso — ela falou, suavemente. — Mas Montgrave é tão

vasto... Às vezes, sinto-me perdida lá. Sinto falta da companhia de vocês.

Beatrice se embeveceu.

— Bea — perguntou Liz, ansiosa por mudar de assunto —, posso lhe

pedir outro favor?

— Certamente.

— Quero surpreender Alex com algo que ele aprecie. Poderia promover

uma noite de carteado enquanto estamos na cidade?


— Eu nunca soube que gostava de jogos. — Charity se intrometeu.

— Não como o papai, é claro. Apenas pensei: Alex adora jogar, e pode

ser divertido para ele reencontrar os amigos antes que retornemos a Montgrave.

— Mordeu o lábio, o coração palpitando. — Conheço os nomes de seus

parceiros, mas ainda não estou confortável com o papel de anfitriã.

— Eu ficaria feliz em fazê-lo — disse Bea. — Deus sabe, não tenho tido

muito que planejar... Quem pensa em convidar?

— Lorde Wilbourne e a esposa, lorde Stockton e lorde Garrett — disse,

sem preâmbulos. — Sabe se eles estão na cidade?

— Os Wilbourne estão no campo, para a temporada de inverno, mas

creio que os outros estejam por aqui. Mais alguém?

Então lorde Garrett estava na cidade. Com certeza não recusaria um

convite se soubesse que Alex compareceria.

— Convide quem desejar, amiga, contanto que não sejam iniciantes. Sabe

como é... Meu marido leva as cartas a sério.

— Tenho um par de conhecidas que gostam de jogar. Poderiam ajudar a

completar o número.

— Acho que vou ser deixada de fora mais uma vez — resmungou

Charity.

Liz lançou-lhe um sorriso encorajador.

— Assim que tiver se apresentado à sociedade, prometo introduzi-la a

todo tipo de comportamento escandaloso.

— Ah! Por isso eu sinto tanta falta de você.

Elas riram, embora Liz rezasse para que não estivesse a caminho de

qualquer escândalo que envolvesse a irmã.

Dois dias antes do carteado, o frio cortante de Londres cedeu por fim.

Todos se puseram fora de casa, gratos pelo novo alívio. O ar ainda era úmido,

mas o sol brilhava intensamente.


Liz chamou Charity, e as duas partiram para um rápido passeio pelo

Hyde Park.

Estavam voltando à casa dos Medford, quando Charity soltou um

grunhido.

— Que maravilha. Tio George está vindo em nossa direção. Liz

identificou-lhe as generosas formas no pátio, adiante.

Para alguém que deixara claro o peso que era cuidar das três mulheres

Medford, o tio com certeza não havia se apressado para voltar ao campo

terminado parte de sua tarefa. Na verdade, ele parecia muito satisfeito em

Londres, agora que o marido dela sustentava a casa.

Fora essa a razão primeira pela qual ela se recusara a visitar a mãe desde

o casamento. Mesmo durante a ceia de Natal que ela e Alex tinham oferecido, e

à qual o tio tivera a pachorra de comparecer, conseguira não lhe falar

diretamente.

Agora era tarde demais para fingir que não o tinha visto.

— Liz quer dizer, Vossa Graça... E Charity. Acabo de receber notícias

preocupantes.

— O que houve tio? — perguntou Charity.

— É melhor que me acompanhem até a casa, onde poderemos discutir o

assunto.

Liz não o acompanharia a parte alguma.

— O que quer que seja, pode nos dizer aqui.

— Pois que seja. Harold Wetherby está morto.

Liz lançou um olhar na direção da irmã. Pela expressão de Charity,

compartilhavam a mesma opinião. A seu ver, as notícias eram interessantes,

mas não preocupantes.

— O que houve?

— Receio que o pobre homem tenha se afogado.

— Que horror — comentou Charity sem muita expressão.


— Terrível — concordou o tio delas. — Encontraram uma carta sobre sua

mesa. Parece que ele acabara de receber a notícia de que sua fábrica havia

falido; e de que os trabalhadores de suas minas tinham todos pedido demissão,

pois tinham decidido trabalhar para um concorrente que ofereceu mais dinheiro

do que Wetherby poderia pagar. Ele estava à beira da ruína.

Um jorro de lucidez golpeou Liz. Alex estava por trás daquilo. Havia

feito aquilo por ela, para se assegurar de que ela estivesse a salvo de Harold

para sempre.

Respirou fundo. A estratégia de destruir o inimigo por vias financeiras

era um forte indicativo de que seu marido não era dado a assassinatos a

sangue-frio.

Seu coração aqueceu-se de amor pelo homem que havia desposado.

— Mas como ele se afogou? — perguntou Charity, curiosa. O tio

balançou a cabeça.

— Receio que não estivesse em sã consciência naquela noite. Um

trabalhador das docas presenciou sua queda, mas quando conseguiu um barco

e remou por baixo da ponte, Wetherby se fora.

Liz presumiu que Harold estivera bêbado, ou que tinha pulado.

De qualquer forma, não fora assassinado. O alívio a inundou.

Por mais que tentasse, contudo, não foi capaz de sentir remorso.

— Deve ter sido um choque para o senhor, meu tio. — Foi a melhor

resposta que conseguiu encontrar.

— Sim, sim — comentou George. — O funeral será em três dias. Sua mãe

e eu vamos cuidar dos preparativos, já que Harold não tinha parentes mais

próximos. Pode estender sua estada na cidade?

Liz nem sequer considerou a hipótese. Não devia nada ao tio, muito

menos a Harold.

— O senhor pode cuidar dos preparativos que desejar. Não tenho

qualquer intenção de comparecer, assim como Charity. — Começou a virar-se, e


então pensou melhor. — E, tio... Quando tiver feito o que for necessário, sugiro

que volte para casa. Tenho certeza de que suas terras sentem sua falta. Aposto

que não gostaria de ter o mesmo destino de Wetherby.

Liz teve a satisfação de vê-lo empalidecer antes de tomar o braço da irmã

e caminhar adiante.

Alex não tinha ideia por que, após insistir em uma visita à família e às

lojas, Liz estendera sua estada para um carteado.

— É inverno, Alex, nem todos poderão comparecer. Bea conta conosco

para completar os números — ela havia implorado.

Mais uma vez, ele tinha cedido. Quando a esposa lhe contara que a

amiga havia convidado lorde Stockton e lorde Garrett, chegara mesmo a sentir-

se ansioso. Agradava-o que a duquesa tivesse tido o trabalho de cuidar para

que seus amigos fossem convidados. Talvez eles dois não estivessem tão

distantes quanto pensara, ainda que o comportamento de Liz se mantivesse

preocupante, e que sua vida estivesse longe do que imaginara ser a de um casal

recém-casado.

Naquela noite, seu pajem, Hanson, terminou o nó da gravata e disse:

— Está pronto, Vossa Graça. Um belo trabalho se posso dizer. Milord

sairá com sua duquesa esta noite, então?

Hanson raramente falava, muito menos fazia perguntas. Alex ficou tão

surpreso que respondeu sem pensar.

— Sim, é claro.

— Muito bem. — O pajem assentiu. — Cuide bem de sua senhora,

milord.

Alex franziu o cenho. Hanson não era um falastrão, mas ele sabia ser o

homem bastante observador.

— O que há de errado com Liz?

— Nada, Vossa Graça. Eu não disse que havia algo de errado. Alex

cruzou os braços e esperou.


O homem suspirou, exasperado.

— Não sou um homem casado, senhor, portanto não alego conhecer as

mulheres. Mas há algo nos olhos da duquesa... — Baixou a cabeça. — Vossa

Graça, peço desculpas. Milady é perfeita. Estou ficando velho e meus olhos

andam me pregando peças. Não posso permitir que meus pensamentos façam o

mesmo.

Alex concordou em silêncio e partiu, encontrando Liz à porta do quarto

de vestir.

Perdeu o fôlego. Ela ainda lhe causava aquele tipo de reação.

Liz havia cuidado da aparência com mais esmero. Os cabelos vermelhos

estavam presos no alto da cabeça por uma fita verde e, sorrindo, ele se

perguntou o que aconteceria caso esta fosse puxada. Ficou tentado a

experimentar. O vestido era verde escuro e se agarrava às suas formas, antes de

descer em camadas até o chão.

Ele engoliu e seco.

— Está linda.

Ela esboçou um sorriso.

— Não tão perfeita quanto você merece.

— Bobagem sua, mas creio que isso vá fazê-la mudar de ideia... — Abriu

uma pequena caixa de veludo que tirou do bolso, revelando um belo pingente

de esmeralda.

— Que lindo! — Liz exclamou, maravilhada.

— Aqui. — Alex prendeu-lhe o colar em volta do pescoço, aproveitando

para inspirar seu perfume. Deu um passo atrás antes que a tentação de tomá-la

nos braços falasse mais alto. — Perfeito.

— É adorável. Obrigada. — Deu-lhe o braço. — Vamos? Alex esperara ao

menos alguns momentos de intimidade na carruagem, a caminho da casa de

lady Pullington... Mas não era para ser. Liz sentou-se a seu lado, dizendo um
sem-número de vezes o quanto havia apreciado o presente, mas, ainda assim,

parecia distante.

Ele tratou de reprimir sua crescente impaciência, mas, com o estranho

aviso de Hanson pesando-lhe na mente, não foi bem-sucedido.

Quando chegaram à reunião, Bea tinha duas mesas prontas na biblioteca,

ainda que boa parte do grande cômodo estivesse dedicada a uma longa mesa,

repleta de bebidas, e a uma área aberta, onde os convidados poderiam se

misturar.

Antes do casamento, Alex teria simplesmente sentado à mesa e ignorado

todo o resto, preferindo se dedicar ao jogo. Naquela noite, no entanto, teve

problemas para deixar Liz. Notou, não pela primeira vez, o quanto o vestido

dela era cavado à altura dos seios. O decote chamava a atenção para o colo

perfeito, ainda mais agora, com o pingente de esmeraldas aninhado justamente

ali.

Apanhou uma taça de vinho do criado que passava. Por que não estava

em casa, na cama, com a esposa?

— Não vai jogar querido? — ela sugeriu com doçura. Estaria sua esposa

tão ansiosa por se ver livre dele? Pousou a mão em suas costas, sem pressa de se

afastar. As cartas poderiam esperar.

No mesmo instante, no entanto, lorde Stockton bateu-lhe no ombro.

— Beaufort! Bom vê-lo novamente. Ouvi rumores de que estava na

cidade. De outra forma, eu não teria vindo até aqui.

Liz deu a Alex um belo aceno e deslizou para longe.

Antes que ele notasse, estava sentado à mesa com três outros homens.

Reconheceu-os como jogadores veteranos. Não era o entretenimento que teria

preferido, mas talvez a noite não fosse um desperdício total.

— Fico surpreso que sua jovem esposa o tenha deixado livre em plena

lua de mel, Beaufort — comentou um deles.


— Ora essa Beaufort é homem, pode fazer o que quiser — disse outro. —

Não deixaria o casamento impedi-lo de nada.

Engano dele, Alex refletiu desgostoso.

Suspirou profundamente. Teria a viagem deixado Liz mais tranquila,

como ela alegara? Difícil dizer, pois ele a havia visto muito pouco naquelas

últimas horas.

Lorde Garrett chegou e tomou o último assento à mesa.

— Excelente — comentou, enquanto os homens o punham no jogo. —

Não encontro jogo bom assim desde o início do inverno. Beaufort, sua ausência

foi sentida... Fico feliz em ver que sua esposa sabe se divertir.

— O que isso quer dizer? — ele perguntou áspero. Droga. Por que todos

comentavam sobre seu casamento?

Forçou-se a respirar fundo. Na certa queriam apenas provocá-lo. Não

poderiam saber que o comportamento de Liz o preocupava.

Garrett lançou-lhe um olhar vazio.

— Eu não quis dizer nada, Vossa Graça. Passei por ela enquanto fazia

compras acompanhada de suas amigas, outro dia e depois no parque. Não

conheço o cavalheiro com quem estava conversando. Um tanto mais velho, ele

era. De qualquer maneira, é bom que ela não o segure apenas para si mesma. O

White's tem estado muito enfadonho.

Alex esboçou um sorriso contido. Quem, diabos, havia sua esposa

encontrado no parque? Que mulher ia ao parque durante o inverno? E, por que

ela não tinha pedido que a acompanhasse?

Um pensamento sombrio descendeu sobre ele. Talvez Liz não o desejasse

a seu lado. Estava tão distante ultimamente. Todas aquelas escapulidas, às

vezes por horas... Por onde andava? E com quem? Teria ele sido apenas um

meio em direção a seus fins? Estaria seu verdadeiro amor em alguma outra

parte?
Seu coração, um órgão que descobrira possuir havia muito pouco tempo,

parecia feito de chumbo. Apanhou as cartas, forçando-se a se concentrar a

despeito da raiva e da desconfiança que borbulhavam em suas entranhas.

Liz assistia ansiosa, enquanto a festa prosseguia. Prometera a si mesma

que, após aquela noite, se não ouvisse algo novo, deixaria de lado aquela louca

investigação. Seu coração doía pela distância que impusera entre si mesma e

Alex. Naquela noite, teria a chance de falar com os dois homens que melhor

conheciam seu marido, um dos quais o procurador do pai havia mencionado.

Se não soubessem de nada, provavelmente não havia nada a ser sabido, e teria

sido uma terrível má interpretação da parte do antigo cocheiro, talvez. Nada,

além disso.

Por fim, viu a oportunidade que buscava. Lorde Garrett, que jogara à

mesa de Alex por quase toda a noite, afastou as cartas e se levantou para esticar

as pernas.

Enquanto seguia em direção à mesa que continua as bebidas e comidas,

Liz o seguiu.

Casualmente, esticou-se até um copo de ponche, enquanto o homem

fazia o mesmo.

— Ah, perdoe-me! — exclamou o cavalheiro.

— Não, não, eu é que lamento — replicou Liz, a voz soando alta demais.

Ela era mesmo uma farsa. — Lorde Garrett, não?

— A seu dispor, Vossa Graça. — Ele se curvou galante, entregando-lhe o

ponche que tentara alcançar.

— Bem, obrigada. — Liz tomou um gole com dificuldade; nervosa

demais. Agarrou o copo com força, a fim de disfarçar o tremor.

— Não me lembro de ter tido a oportunidade de felicitá-la pessoalmente

por seu recente casamento.

— Muito obrigada.
— Jamais pensei que Beaufort fosse sucumbir às tarefas da bênção

marital — o homem brincou bem-humorado. — Mas é claro que se trata de um

homem de grande sabedoria e grande gosto pela beleza, o que se resume na sua

figura.

Liz baixou os olhos, um sorriso nos lábios. Lorde Garrett, poucos anos

mais jovem que seu marido, era claramente um sedutor.

Mas aquilo era bom. Se ela fosse amigável, sua missão poderia ser menos

árdua do que ela imaginara. Se apenas pudesse levá-lo a algum lugar quieto,

onde pudessem conversar à vontade...

Caminharam em direção ao salão, onde algumas janelas jaziam abertas

apenas o suficiente para permitir a entrada de ar, e não do frio do inverno.

— Devo dizer, no entanto — Garrett continuou —, que é uma surpresa

vê-los de volta a Londres tão cedo.

— Trata-se apenas de uma rápida visita. Meu marido e eu tínhamos

assuntos a resolver na cidade e, quando minha grande amiga lady Pullington

nos convidou, pareceu-nos um refresco da monotonia da vida no interior.

Devemos voltar a Montgrave amanhã. Confesso que o último ano foi bastante

tumultuado para mim. — Parou, a fim de recuperar o fôlego.

— Sim... — murmurou lorde Garrett. — Lamento por sua perda.

A esperança se acendeu no peito de Liz. Ele havia trazido à tona o

assunto sobre o barão diante da menor das menções. Talvez pudesse finalmente

descobrir alguma coisa.

— Milord o conhecia? — perguntou ansiosa. — Ele costumava jogar

cartas com meu marido, assim como o senhor. Ele alguma vez se juntou ao

grupo?

Céus! Estaria sendo óbvia demais? Tinha as mãos úmidas e a garganta

seca.

Lorde Garrett pareceu embaraçado.


— Não, receio que não. Não me lembro de ver o barão e seu pai jogando

juntos.

— Ah — disse Liz, decepcionada. — Pensei ter ouvido meu pai

mencionar seu nome. — Lançou-lhe um sorriso bobo. — Devo estar enganada.

Garrett sorriu de volta, caindo fácil na armadilha.

— Agora que mencionou, lembro-me de ter me envolvido em um

negócio naval ou dois com o barão.

— Com Alex também? — ela perguntou esperançosa.

— Não. — Garrett soltou uma gargalhada. — Se bem me lembro, esses

negócios não foram muito bem... O duque é esperto demais para cometer erros

como aqueles.

— Compreendo. O senhor parece conhecer bem meu marido... Por que

ele e meu pai pararam de jogar cartas juntos? Houve algum tipo de briga entre

os dois?

Lorde Garrett lançou um olhar preocupado em direção ao grande salão

onde os outros convidados trocavam previsões sobre quem teria sorte nas cartas

naquela noite.

— Talvez seja melhor esquecer esse assunto — disse gentil. Mas Liz não

poderia parar agora. Não quando finalmente falara com alguém que havia

conhecido seu pai nos últimos momentos de vida.

Aproximou-se mais um pouco e lançou a Garrett o olhar mais cheio de

apelo que conhecia.

— Perdão se insisto, mas não é sempre que converso com alguém que

conhecia meu pai. O resto da cidade, assim como o senhor, parece ansioso por

esquecê-lo.

— Eu não quis dizer isso — Garrett respondeu tenso. — Mas receio que,

à altura em que conheci Medford, ele não fosse um homem feliz. Eu me sentiria

péssimo se lhe ferisse o humor com tal assunto.


— Ao contrário, milord, é um alívio falar francamente. Sei que meu pai

tinha um lado que escondia da família. Aprendemos isso da maneira mais

difícil, por intermédio daqueles a quem ele devia dinheiro. Meu marido não

gosta de tocar no assunto... Mas pensei que, caso eu soubesse mais, poderia

compreender que tipo de homem meu pai era. É importante para mim.

— Percebo. — Lorde Garrett estudou o próprio ponche. — Não tenho o

desejo de me colocar entre a senhora e seu marido, mas posso lhe dizer que

discutiram. Beaufort era um dos homens a quem seu pai devia e não tinha como

pagar. Receio que o duque não tenha pensado o melhor do barão quando este

lhe deu essa notícia. Seu marido sempre aposta, mas jamais com dinheiro de

que não possa dispor; portanto tem pouco respeito por aqueles que não fazem o

mesmo. — Garrett baixou mais a voz, até ser necessário que ficassem apenas a

alguns centímetros um do outro. — Após a discussão, os dois passaram a se

evitar. Não creio que tenham tido qualquer outro contato até...

— Lamento interromper essa deliciosa conversa — trovejou uma voz

profunda, assustando Liz a ponto de fazê-la saltar para trás.

— Alex!

— Beaufort — Garrett o saudou com um sorriso amarelo. Alex não

retribuiu a cortesia. Seu rosto era uma máscara de gelo.

— Com licença, mas minha esposa e eu estamos partindo.

— Mas, Alex...

— Não discuta comigo. — A voz dele soou baixa e ameaçadora. Liz

estremeceu.

Lorde Garrett olhou de um para o outro.

— Há algo errado?

— Liz está com dor de cabeça, não é mesmo?

— Eu... — O começo do protesto escorregou, porém ela mordeu o lábio.

— Verdade. — Liz seguiu o marido, lançando um olhar de desculpas ao lorde.

Garrett deu de ombros e seguiu em direção à sala de jogos.


Liz não teve pressa para acompanhar as longas e raivosas passadas do

marido. Um criado trouxe os agasalhos, e logo eles estavam na carruagem do

duque, a caminho de sua residência londrina.

Alex postava-se como uma estátua no assento diante dela. A escuridão a

protegia de sua expressão de fúria, mas Liz podia sentir a irritação do duque.

— Vai me dizer o que há de errado? — pediu a voz suave.

— Não.

— Por quê?

— É melhor que eu permaneça em silêncio, Elizabeth.

Um arrepio a trespassou. Elizabeth? Ele estava tão aborrecido com ela a

ponto de usar seu já esquecido nome de batismo?

Mas por quê? Teria Alex descoberto o real motivo por trás de seu desejo

de ir a Londres? Ela fora tão discreta. Afinal, seu coração ainda protestava

diante da ideia de que o marido pudesse ter algo a ver com a morte do pai.

Ou seria algo mais?

Arriscou outro olhar em direção ao marido. As luzes das casas por que

passavam iluminavam o interior da carruagem apenas o suficiente para que

visse que a expressão de Alex não havia mudado.

Abraçou a si mesma. Teria sido um erro vir até ali? Ela o amava, apesar

de tudo.

Apenas... Bem, precisava saber. Se não pelo pai, ao menos por si mesma.

Deus passara os primeiros vinte anos de sua vida sendo enganada pelo homem

a quem amara incondicionalmente. Não tinha o desejo de passar o restante de

seus dias da mesma maneira.

O coche reduziu a velocidade, por fim, e então parou diante da casa.

Alex desceu e a ajudou a fazer o mesmo em silêncio.

Liz adentrou a casa e entregou o casaco ao mordomo, depois

permaneceu à entrada, insegura.

Alex se livrou da casaca e dedicou-lhe um breve olhar.


— Lá em cima.

O medo reduziu-lhe os passos enquanto obedecia ao comando do

marido. Jamais o havia visto tão irritado.

Alex subiu à frente dela, em seguida parou na escada, a expressão fria.

Liz engoliu em seco. Acreditara, durante todos aqueles meses, que

encontraria alguma evidência que livrasse o marido. Mas testemunhar toda

aquela fúria jogava agora uma sombra de dúvida sobre suas convicções.

No momento em que adentraram o quarto principal, ele a abordou.

— É ele?

— Como? — A pergunta a aturdiu. — Ele, quem?

— Garrett — Alex falou por entre os dentes.

— O que tem lorde Garrett?

— “É ele o homem”? — Os olhos escuros se apertaram. — Pelo amor de

Deus e de si própria, não me diga que há mais de um.

Liz deixou a boca pender, quando a compreensão enfim a invadiu. Alex

pensava que ela lhe fosse infiel?

— Não! Eu jamais faria...

Alex acenou-lhe, fazendo-a parar.

— Não se incomode em explicar. Eu devia saber desde o início. Desde o

momento em que pediu que eu a arruinasse, devia ter me mantido distante.

Pensei que fosse apenas seu pai, o louco, quem a havia levado a tal situação;

mas vejo que estava enganado — ele declarou amargo.

— O que tem meu pai a ver com isso? -— ela replicou tensa.

— Ele a ofereceu a mim, lembra-se? Como pagamento por suas dívidas

— Alex falou, contido, a face transformada pelo ódio. — Não pude acreditar

que um pai fizesse tal coisa. Mas, pelo visto, o homem conhecia a própria filha

melhor do que pensei. Ah, ele deve estar feliz agora... Provavelmente

gargalhando no túmulo.

— Não! — murmurou Liz, sem saber bem o que negava.


— Talvez eu devesse apenas ter aceitado o que me ofereceu. Assim,

quem sabe, tivesse aproveitado desse seu deleitável corpo sem culpa, nem

obrigação.

— Obrigação? — ecoou Liz, a própria ira se elevando. — Você se casou

comigo por obrigação? Eu deixei bastante claro desde o início que...

— Você não deixou nada claro. Acreditei que você fosse uma vítima

inocente das circunstâncias, uma menina bem criada, forçada à posição de

governanta, obrigada a esconder a própria beleza e paixão no campo, onde

nada pudesse atingi-la. Você realmente possui beleza e paixão... Mas seria

melhor se as usasse para propósitos mais nobres.

— Não está fazendo sentido, Alex — murmurou Liz, com tanta calma

quanto pôde, ainda que seu corpo inteiro tremesse diante das acusações e do

vasto golfo de mal-entendidos que os separava. — O que eu fiz além de amar

você?

— Amar-me? Ah, sim, posso ver o quanto me ama — ele disse sarcástico.

— Talvez seja por isso que você, minha esposa, tenha se afastado tanto de mim

a ponto de eu ter começado a pensar que não suporta minha presença. Você me

amou o suficiente para que pusesse um anel em seu dedo, para que

incorporasse meu nome ao seu, mas seu amor desapareceu mais rapidamente

do que uma tempestade de verão. Você não é melhor do que as debutantes que

se ofereceram a mim, Liz. Não é melhor nem mesmo do que uma prostituta

que, uma vez paga, retira sua afeição.

Ela entreabriu os lábios, incapaz de reagir.

— Fui um tolo por acreditar em seu amor — Alex finalizou a amargura

presente em cada palavra. — Lamento admitir que seu plano deu certo.

Ninguém ainda havia ido tão longe a ponto de se valer de minha cama ou da

casa de minha irmã a fim de conseguir minha atenção. A maioria se contentava

em se atirar sobre mim em bailes e coisas assim... Mas você, Liz, pensei que

fosse diferente.
— Não houve plano nenhum — ela sussurrou, sentindo as palavras dele

castigarem-na como golpes de chicote.

— Não? Então onde está o amor que alega sentir?

— Eu amo você! — ela jurou o coração apertado.

E o amava realmente. Apenas não sabia se podia confiar nele.

— Mentira. Hoje mesmo foi vista no parque, encontrando-se com outro

homem, e à noite eu a flagrei trocando confidencias com Garrett. Posso ter

cometido um erro ao pensar que seu amor era verdadeiro, mas não vou tolerar

uma esposa que me engana.

— Eu nunca...

— Mentira! — ele repetiu a voz gélida e desprovida de emoção, a

expressão, uma dura máscara. — A oferta maldita de seu pai não funcionou.

Quando ele a deixou quase à míngua, você e sua mãe logo pensaram que

poderiam fazê-la se unir a um duque, imagino, por isso estava disposta a fazer

qualquer coisa... Pois saiba que não gosto de ser usado, e não gosto que mintam

para mim. Não posso imaginar o que mais você poderia querer a ponto de se

aproximar de outro, mas não estou disposto a descobrir. Você é nada além de

uma mentirosa e uma vadia. Saia da minha frente.

Liz não tinha ideia do quanto o duque havia se convencido do que dizia,

mas era claro que qualquer argumento seria inútil. Reunindo o pouco de

dignidade que lhe restava, ela se levantou para partir.

— Milord está errado — disse apenas em voz baixa. — Talvez um dia

descubra isso, talvez não. Quanto a mim, estou certa do que há em meu coração

e em minha consciência. Nada do que fiz, nada do que fizemos, foi menos do

que honesto.

As atitudes dele ou as do pai dela podiam ser falsas, mas tudo o que ela

havia feito fora ser pega enquanto tentava se, manter fiel aos dois homens que

amava.

Havia tanto mais a dizer, mas o duque já lhe tinha dado as costas.
Por um instante, Liz apenas o contemplou. Alex permanecia com a

silhueta emoldurada pela janela, a fraca luz de um candelabro aprofundando as

sombras ao seu redor. Os ombros largos pareciam mais retos do que nunca, mas

a cabeça pendia levemente.

Doía-lhe querer ir com ele, atirar-se a seus pés e implorar por perdão por

suas traições reais e imaginárias. Mas sabia que, a despeito do que fora dito,

havia lhe traído a confiança bem mais do que o duque pensava.

Tinha consciência, também, que Alex não era um homem cujo perdão se

conseguia tão fácil.

Deixou o quarto, e então permaneceu no topo da escada, a visão borrada

pelas lágrimas.

Tinha fracassado, refletiu Liz. Fracassara em descobrir a verdade por trás

da morte do pai, se é que havia algo a ser descoberto, mas, mais importante

ainda, fracassara em seu casamento.

— Não se aflija Vossa Graça — disse Emma, confiante, enquanto

escovava seus cabelos com mais cuidado do que de costume.

Aparentemente, ela percebera sua tristeza e agora tentava lhe oferecer

algum tipo de conforto. — Seu duque vai voltar atrás.

— Duvido Emma.

Haviam se passado duas semanas desde que tinham discutido. Desde

que Alex lhe pedira para que sumisse de sua frente.

E ele não dera qualquer sinal de querer voltar atrás em sua decisão.

Não dera sinal de nada, para ser honesta. Sua raiva parecia ter amainado,

mas agora ele a tratava como se ela não existisse.

Logo após a discussão, ele havia retornado a Montgrave sem ela. E

quando ela chegara a casa por conta própria, no dia seguinte, Alex tinha feito

com que os criados levassem todas as suas coisas até uma suíte em uma ala

separada do solar.
Foi humilhante. Agora toda a criadagem sabia que o duque e sua esposa

não estavam se entendendo.

Divórcio, no entanto, estava fora de questão. De qualquer modo, não

seria o primeiro casal da nobreza a estar casado apenas oficialmente. Seria

apenas outro casamento de fachada.

Emma prendeu uma madeixa vermelha com o grampo.

— O duque é orgulhoso, claro, mas um homem só fica zangado assim

com alguém a quem ama de verdade.

— Amava — murmurou Liz. — Não creio que me ame mais. E por que

deveria? Ela lhe havia traído a confiança. Não da maneira como ele imaginava,

mas traíra, de qualquer forma, pensando que fazia a coisa certa. Tentara confiar

em Alex e ainda assim cumprir seu papel em memória do pai. Em vão.

Na verdade, de certa maneira sua traição fora ainda pior, pois, em vez de

se entregar a outro homem, como ele a acusara de ter feito, ela havia

questionado sua integridade.

Liz suspirou. Apesar de tudo, a fúria de Alex só fizera aumentar suas

dúvidas. Ao vê-lo tão transtornado naquela noite, passara a considerá-lo bem

capaz de cometer um assassinato.

— Bem — disse Emma com um grampo preso ao canto da boca —, ele

tem um herdeiro em que pensar. Com certeza, não vai negligenciar seus

deveres e, se me perdoa a ousadia, Vossa Graça, essa pode ser a chance de

reconquistá-lo. — Prendeu o grampo. — A senhora está particularmente

adorável, esta noite. Talvez, se fosse até ele para lembrá-lo do que já viveram

juntos...

Liz forçou um sorriso que não lhe chegou ao coração. Um herdeiro. Era

uma das razões pelas quais os duques se casavam, afinal.

Alex, no entanto, não parecia muito preocupado com isso.

E ela não havia engravidado até agora. Mais uma área na qual tinha

fracassado.
Havia sonhado com as crianças que teriam: um menininho, talvez, com a

inteligência e os cabelos negros de Alex, ou uma menininha a quem ela pudesse

vestir com laços e fitas.

Mas, a despeito da confiança de Emma, estava convencida de que Alex

preferiria passar o título para outra pessoa a se aproximar dela de novo. Até

onde lhe dizia respeito, era como se Liz não existisse.

— Pronto. — Emma deu seu toque final. — Perfeito. Por que não vai

fazer um passeio antes do jantar, milady? Seria bom para a senhora, e está

surpreendentemente quente para o inverno. Ouvi dizer que o jardineiro cultiva

rosas na estufa. Talvez queira vê-las.

Liz lançou à leal criada um sorriso frouxo.

— Obrigada, Emma. Talvez eu vá.

— Vai comer na sala de jantar, esta noite, ou prefere que lhe traga uma

bandeja?

— Uma bandeja, por favor. Emma concordou tristonha

— Cuidarei disso, Vossa Graça. — Fez uma cortesia e saiu do quarto,

deixando-a sozinha.

Não que isso fosse incomum naqueles dias.

Mas ela merecia aquilo, lembrou a si mesma; ainda que isso não fosse

fácil de suportar.

Seguindo a sugestão de Emma, Liz visitou a estufa. As rosas eram

adoráveis, e o jardineiro se mostrou animado em mostrá-las, mas Liz não foi

capaz de elevar o espírito e compartilhar seu entusiasmo.

Ansiava por companheirismo. Ansiava pela intimidade e pela calma que

dividira com Alex. Aquela sensação de que os dois possuíam um segredo, algo

que lhes permitia rir das loucuras do restante da cidade enquanto aproveitavam

um ao outro.
Ansiava, principalmente, pela maneira como o marido era capaz de lhe

acender o desejo, pela maneira como transformava o sexo em uma bênção,

deixando-lhe o corpo tão exausto quanto extasiado.

Não haveria ninguém mais como ele.

E então, por fim, deu-se conta: estava fugindo. Toda vez que era posta

diante de uma crise, os instintos a instigavam a fugir e se esconder. Desta vez,

não havia feito isso fisicamente, mas escolher não confiar em Alex tivera o

mesmo resultado.

E ela o tinha afastado.

Precisava se desculpar. Precisava dizer-lhe a verdade.

Alex acreditaria? Afinal, julgava-a uma adúltera quando, na verdade, ele

fora o único homem que ela conhecera.

Mas, se quisesse que o marido acreditasse naquilo, teria de lhe contar

todo o restante; tudo o que mantivera preso dentro de si desde a terrível tarde

que Fuston viera visitá-la.

Um calafrio atravessou-lhe o corpo. Talvez Alex tivesse uma explicação

simples sobre o que havia ocorrido na noite da morte de seu pai. Talvez

gargalhasse e a julgasse tola por ter dado ouvidos à história de Fuston.

Ou talvez se sentisse ainda mais traído, por ela ter escondido suas

dúvidas o tempo inteiro.

Pior seria se ele lhe dissesse que era verdade.

Mas não importava. Ela precisava falar com ele e pôr tudo a limpo.

Pediria desculpas por suas dúvidas, pelo comportamento errante. Não havia

mais o que ser feito.

No entanto, tinha de fazer isso da maneira certa. Qual seria a melhor

forma de abordá-lo? Não queria irritá-lo ainda mais, tampouco suportaria sua

indiferença.
Se ela se aproximasse dele à noite, na cama, e se oferecesse fisicamente,

será que Alex a ouviria? Sempre houvera paixão entre os dois. Alex não seria

capaz de recusá-la.

Mas ele detestava ser usado... Não seria esse o caso?

Talvez fosse melhor pela manhã, sob a clara luz do dia. Mas, quando?

Durante o desjejum? Ele mal aparecia. Interrompendo-lhe o trabalho? Não

queria que ficasse irritado desde o início.

Como havia aquela distância se tornado tão grande?

Era tudo culpa sua. Cabia apenas a ela consertar a situação, se isso fosse

possível.

Quando Emma lhe trouxe a bandeja com o jantar, comeu distraída

enquanto ponderava sobre o dilema.

Finalmente, afastou a bandeja, deixando muito da comida intocada.

Sentia-se muito sozinha. Talvez uma visita a Buttercup a animasse.

Ainda que jamais houvesse sido boa amazona, sempre apreciara afagar os

animais e conversar com cavalos.

E àquela altura, precisava estar perto de algum ser, humano ou não.

De cabeça baixa e perdida em pensamentos, ela caminhou pela relva

escura em direção ao estábulo. Mais cedo o tempo estivera aberto, um belo

alívio diante do rígido inverno, mas, agora que o sol havia baixado, sentia

bastante frio novamente.

Estremeceu e desejou ter trazido um agasalho mais quente. O céu se

tingira de um azul bem escuro, como costumava acontecer antes que se pusesse

de negro.

Ergueu a cabeça, a fim de observar as estrelas, enquanto suas botas

revolviam a grama seca. Chegou ao estábulo. A porta estava aberta e um quente

e acolhedor raio de luz brilhava pela entrada. Ergueu a mão e empurrou a porta

um tanto mais, antes de entrar.

— Não se mova.
Liz paralisou o fôlego preso à garganta.

Então se deu conta de que a voz não se dirigira a ela, embora fosse a de

seu marido. Alex falava com mais alguém.

Ela espiou através da abertura. Um homem permanecia estático, do

outro lado do estábulo. E estava sob a mira da arma de Alex.

— No, três, vou atirar. — A voz do duque era baixa, porém firme.

Por que ele daria ao intruso um aviso?

— Um...

Liz reconheceu as feições aterrorizadas do velho Tom, seu criado

favorito. Céus! Ele não era nenhum invasor!

Com a constatação, veio outra, ainda mais assustadora.

O marido era um assassino. E a menos que ela agisse rápido, outro

inocente morreria.

— Dois...

— Não! — ela gritou desesperada, enquanto agarrava o braço de Alex

com toda a força a fim de desviar-lhe a mira. — Seu maldito, Tom não lhe fez

nada! Não vou deixar que o mate! Já assassinou meu pai, não é o suficiente?!

Duas faces chocadas de homem se viraram para encará-la. A arma

disparou, mas a bala se perdeu em uma das paredes do estábulo. Um animal

entrou em pânico e passou a toda velocidade, jogando-a para o lado enquanto

se apressava para dentro da noite.

— Esqueça o velho Tom, Alex! — ela implorou aos prantos, tentando se

reaproximar dele. — O que ele lhe fez?

Para sua surpresa, Alex deixou cair à arma.

— Ele se foi.

Liz parou confusa. O criado estava logo ali, enxugando o suor. Havia

algo acontecendo e ela ainda não tinha se dado conta do quê.


Lentamente, retrocedeu. O comportamento do marido era imprevisível,

mas, agora que sabia ser ele um assassino, estava apavorada que sua fúria se

voltasse contra ela por ter interrompido a cena de momentos antes.

— Não se mova! — O comando de Alex foi firme.

Ela balançou a cabeça e continuou a andar em direção à porta.

— Você é louco — sussurrou. — Fuston disse a verdade: você assassinou

meu pai.

O velho Tom deixou a boca pender, mas as sobrancelhas de Alex se

ergueram, revelando sua compreensão.

— Não, senhora! — Tom interveio. — A senhora entendeu tudo errado.

Vossa Graça mirava no cão, não em mim.

— Cão? — Liz parou.

Vagamente, lembrou-se do borrão de pelos que passara por ela.

— A grande fera peluda que fugiu pela porta enquanto a senhora gritava

— explicou o velho. — Ele tem rondado as terras pelo último mês ou mais,

matando galinhas e todo bicho que vê pela frente. Não estávamos muito

preocupados, até que soubemos que mordeu um homem no vilarejo e lhe

passou raiva. O pobre está à morte. Não poderíamos deixá-lo solto por aí.

Quando vimos o bicho se esgueirar para dentro do estábulo, seu marido pensou

em nos livrar dele. O único problema foi que dei o azar de ficar entre ele e a

fera.

Liz se voltou para Alex.

— Eu mirava no animal — ele confirmou. — Tom, parece que o

perdemos por hoje. Creio, no entanto, que minha esposa e eu tenhamos algo a

discutir. Se puder nos conceder a gentileza de se retirar... — disse ao criado,

enquanto seus olhos permaneciam nela.

— É claro, Vossa Graça. — Tom passou pelo meio dos dois, e se afastou.

Alex soltou o ar e curvou a cabeça, parecendo envelhecer.

— Liz...
Ela se apoiou na parede de madeira, entontecida. Acreditara na

explicação de Tom para o que tinha acontecido ali, mas aquilo não provia

qualquer resposta para sua questão mais importante.

E agora que o marido estava ciente de suas suspeitas, não sabia ao certo

como ele reagiria.

O duque balançou a cabeça, então estendeu as mãos como se num

apelo... Ou talvez apenas para indicar que não lhe faria nenhum mal.

— Não sou um assassino. Mas não nego meu papel na morte de seu pai.

Posso explicar-me?

O coração dela palpitava a cada palavra, e seus joelhos pareciam frouxos,

mas Liz concordou.

Alex gesticulou em direção a um banco baixo.

— Por favor, sente-se.

Liz obedeceu, como se em transe. Uma pequena parte de seu cérebro

dizia-lhe que corresse que escapasse da presença daquele homem perigoso; mas

seu coração doía demais para que se importasse com o que aconteceria a seguir.

Não fugiria outra vez.

Ele se pôs ao lado dela, abaixando-se lentamente, exausto.

— Eu não estava ciente de que suspeitasse ou soubesse o que aconteceu a

seu pai. Há quanto tempo sabe?

— Desde logo depois do casamento.

— Todo esse tempo? — perguntou Alex, impressionado.

Liz o fitou, procurando por algum sinal do homem que amara.

— Eu não queria chegar a conclusões apressadas, baseadas na palavra de

um só homem, milord. Rezei para que estivesse enganada. Afinal, você tinha

meu coração.

— Tinha? — perguntou Alex. — Não, não diga nada. Mas eu realmente

gostaria que tivesse vindo a mim com seus medos e suspeitas. Sempre foi uma

mulher corajosa.
— Sou uma tola, isso sim, pois decidi descobrir tudo sozinha. Não

ousava fazer-lhe a pergunta, quando mais lidar com a verdade. Ainda assim,

em toda a minha investigação, não encontrei nada que contradissesse as

palavras de Fuston. E esta noite, agora mesmo, você as confirmou.

— Não! — contradisse ele. — Não inteiramente. Ainda que não tenha

negado o feito, jamais tive a intenção de matar seu pai. Sou responsável pela

morte dele, mas não sou um assassino.

Ela queria acreditar, realmente queria, mas as palavras a confundiam

ainda mais.

— Não compreendo.

—O quanto você sabe do que aconteceu? Liz estudou as próprias mãos.

— Apenas o que Fuston me contou. Que você atirou em meu pai, e então

fez tudo parecer um acidente.

— Bastante verdadeiro, de certa forma. Mas não uma imagem inteira dos

eventos que se sucederam.

Liz esperou, duelando com a esperança que lhe preenchia o coração.

— Na noite em que seu pai morreu Liz, eu oferecia uma noite de

carteado. Não era um evento pouco usual para mim, mas não esperava que seu

pai comparecesse. A lista de convidados era exclusiva e, como as dívidas dele

para comigo fossem exorbitantes, eu havia descontinuado nosso contato. Mas o

barão chegou, naquela noite, acompanhado de alguém que tinha sido

convidado, de modo que não vi motivos para causar confusão. Talvez ele

ganhasse alguma coisa. E se não, o que seria mais um membro da nobreza com

um pendor deficiente para os jogos? Simplesmente decidi que eu não jogaria

contra ele.

— Sei dos hábitos de meu pai — ela confirmou em voz baixa.

— Seu pai não venceu naquela noite, Liz, e consumiu grande quantidade

de álcool. Receio que tenha nublado o próprio juízo de mais do que uma forma,

pois ficou mesmo depois que quase todos os convidados haviam se retirado.
Consegui evitá-lo durante o jogo, mas, àquele ponto, o homem decidiu confron-

tar-me... Eu tinha acabado de conduzir um amigo até seu coche, e estava

voltando para dentro da casa, quando ele me chamou do outro lado do jardim.

— Alex franziu o cenho. — Liz, não estou certo sobre quanto disso tudo deveria

ouvir.

Ela o fitou nos olhos.

— Creio que seja melhor explicar tudo de uma vez.

— Mas diz-se que é pouco sábio falar mal dos que se foram — protestou

o duque.

— Já chegou a meu conhecimento que meu pai não era nenhum santo. —

Liz suspirou. — E esses segredos vêm sendo mantidos a tempo demais. Já

causou prejuízo o suficiente. Diga-me o que aconteceu, e eles não terão mais

qualquer poder.

Alex passou a mão pelos cabelos.

— Receio que seu pai, confuso pela quantidade de álcool que consumira,

tenha chegado ao ponto do desespero. Tentou recuperar suas perdas sob a mira

do revólver.

— Ele o ameaçou? Mas, por quê?

— Por causa de você, Liz. Ela balançou a cabeça.

— Não compreendo.

— Na verdade, você já conhece essa parte. Quando ele tinha vindo até

mim, alguns meses antes, já havia feito àquela proposta. Por isso brigamos. —

Alex desviou o olhar, a exaustão visível no rosto moreno.

Liz engoliu em seco, e então se levantou enquanto um raio de consciência

a atingia.

— Quando você me fez sua amante você estava... Cumprindo os tais

termos? Estava recuperando o que lhe era devido? Mas aquilo foi depois da

morte de meu pai... Você me disse, quando me resgatou de Harold, que jamais...
— A voz dela falhou lágrimas encheram-lhe os olhos. Deu um passo atrás. —

Você gostava de mim, eu sei que sim! Talvez não a princípio, mas...

— Liz... —Alex se levantou também e a abraçou, hesitante. Ela se fez

rígida sob o toque estranho e, ao mesmo tempo, tão dolorosamente familiar.

Lágrimas rolaram-lhe pelas faces. Quanto daquela relação havia sido mentira?

— Jamais concordei com a proposta de seu pai. Jamais. — Ele a segurou

pelo rosto, usando os polegares para acariciá-la.

Tudo o que Liz pôde fazer foi escutar. Por tantas noites ela sonhara com

aquele toque, perguntando-se se um dia o sentiria de novo.

— Lamento trazer esse assunto à tona. Mas preciso explicar como as

coisas ocorreram naquela noite — continuou Alex num tom grave. — Como eu

disse, eu havia cortado o contato com seu pai quando tinha ficado claro que ele

não pagaria por suas dívidas. Nem mesmo uma vez, depois que a conheci,

considerei usá-la assim. —Aproximou a boca da sua. — Nem uma vez —

repetiu com o olhar em chamas. — O que tivemos, o que temos, é único, Liz.

Ela acreditava. Que Deus a ajudasse por ser tão tola, mas acreditava.

Respirou fundo e relaxou nos braços fortes.

— Espere um minuto. — Desta vez, foi Alex quem recuou um passo e

franziu a testa. — Você disse, um minuto atrás, que estava tentando descobrir a

verdade sobre aquela noite... Era isso o que estava fazendo todas as vezes que

se recusou a explicar sobre seu paradeiro?

— Era — ela respondeu os olhos transbordando de sinceridade.

O rosto moreno se iluminou, mas apenas por um instante, antes que

baixasse a cabeça até as mãos com um grunhido.

— E por isso eu a acusei de adultério — balbuciou por entre os dedos. —-

Liz sou eu o tolo. Um infeliz, um homem indigno de sua confiança. Quando

pensei que você... Quase morri ao pensar que a mulher a quem eu amava em

quem me permitira acreditar, poderia estar se entregando a outro! Deus, eu

peço desculpas. Eu devia saber que você jamais seria capaz disso.
— Sim, devia... Mas eu o perdoo. Alex a fitou, inseguro.

— Perdoa?

— Sim. Posso ver como meu comportamento deve ter parecido estranho.

Nós dois mantendo segredos... Como deixamos de confiar um no outro? Eu traí,

mesmo, sua confiança; apenas não da maneira como imaginou. Por isso eu

também lhe peço perdão.

Alex considerou as palavras por um momento, e Liz suspirou.

— Alex; preciso ouvir o restante — disse baixinho.

— Está certo — ele respondeu pesaroso, e a conduziu de volta ao banco,

sentando-se a seu lado. — Não compreendi bem os caminhos tortuosos que a

mente de seu pai traçou, mas, de alguma maneira, ele se convenceu de que eu

era responsável por sua ruína.

— Como você poderia ter me arruinado? Mal nos conhecíamos!

— Eu sei. Mas como eu disse, o barão estava bastante perturbado. Tentei

discutir o assunto com ele, mas sua capacidade de argumentação estava

limitada. Tornou-se claro que Medford não tinha qualquer intenção de largar

aquela arma. Pelo contrário: pretendia usá-la. Ele mesmo me atirou uma

segunda arma, exigindo "acertar as coisas".

— Um duelo?

— Era quase de manhã, mas não tínhamos companhia, e ele seguiu

adiante antes que os arranjos pudessem ser feitos.

— Meu pai atirou em você?

— Lamento dizer isso. Mas, graças a seu estado, ele errou o tiro. Ainda

não consigo compreender o que ele esperava ganhar com a minha morte.

Exceto, talvez, que ele não me veria mais ansioso por ver pagas as suas dívidas

— concluiu com um longo suspiro. — Após ter errado o alvo, começou a

recarregar a pistola e se aproximar. Tornou-se claro para mim que aquele não

era seria um duelo entre cavalheiros. — Lançou-lhe um olhar de consulta. —

Liz, um homem tão próximo, mesmo um bêbado, pode ser bem perigoso.
Quando seu pai ergueu a arma mais uma vez, não lhe dei qualquer chance e

atirei.

Ela sentiu a garganta se apertar. Viu-se incapaz de respirar, muito menos

de falar, enquanto visualizava a cena que o marido descrevia.

— Não atirei para matá-lo — Alex prosseguiu como que em transe —,

mas duas coisas me fizeram errar: a primeira foi que lidava com uma arma

desconhecida. A segunda, e a pior, infelizmente, foi que, no momento em que

puxei o gatilho, seu pai cambaleou entontecido pelo álcool, e a bala que lhe fora

destinada aos joelhos o atingiu no peito... Lamento Liz.

A cabeça dela girava. Se aquilo fosse verdade, então a morte do pai fora

mesmo um acidente. Um homem que se defendia de uma ameaça em sua

propriedade, não era um assassino.

— Ele morreu na hora?

— Sim. Quando o alcancei, na grama, ele já havia se ido.

— Você não pretendia matá-lo, não é? — ela pediu confirmação com voz

embargada.

— Não, Liz. Confesso que não tinha nenhum apreço por seu pai depois

da proposta que ele tinha me feito, mas não lhe desejava a morte. Ainda assim,

acabei por causá-la.

— Mas se o que diz é verdade, não pode se considerar culpado.

— Já matou um homem alguma vez, Liz? — ele indagou amargo. —

Intencionalmente ou não, é impossível não sentir o peso da responsabilidade.

De qualquer maneira, eu não gostaria que me considerasse um assassino.

Liz viu o arrependimento estampado no rosto de Alex, o peso da culpa

que carregava refletido nos olhos tristes.

— Você acredita em mim? — ele insistiu inseguro.

A história fazia sentido, claro. Por outro lado, o cenário era tão macabro

que a desconcertava.
— Quero acreditar. Mesmo. Mas é difícil aceitar coisas assim sobre seu

próprio pai, por mais que agora eu saiba sobre ele.

— Gostaria que acreditasse baseada apenas em minha palavra, mas sei o

quanto isso deve ser difícil para você, ainda mais quando meu comportamento

nos últimos meses tem dado tão poucas razões para que o faça. — Cobriu-lhe a

mão com uma das suas.

Liz não retirou a dela, tampouco lhe deu qualquer resposta positiva.

Alex suspirou pesadamente.

— Há uma pessoa que pode atestar o que lhe contei.

— Há? — Era uma surpresa. Em todas as semanas de discreto inquérito,

ela não havia cruzado uma só alma que alegasse saber de algo. — Quem?

— Sua mãe.

— Minha mãe? — ecoou Liz, em estado de choque.

— Sim. Naquela noite, ela estava na festa também. Ela havia vindo com

lady Jameson, mas pretendia partir com seu pai — contou Alex. — Eu jamais a

teria convidado e... Por favor, não se ofenda, mas ambos apareceram ao lado de

conhecidos meus. A comunidade de jogadores dentro da nobreza é muito

reduzida, ainda mais durante o inverno, quando muitos estão distantes.

— Mas...

— Talvez ela possa lhe explicar melhor do que eu — Alex a interrompeu

e conduziu para fora do estábulo, pedindo a um criado que o coche fosse

aprontado imediatamente.

Liz subiu no coche, a mente focada apenas no que a mãe poderia dizer

para explicar o relato bizarro que ela ouvira do marido.

Alex sentou-se a seu lado, embora não fizesse menção de abraçá-la.

Liz, no entanto, queria que ele o fizesse. Precisava de seu calor.

Houve pouca surpresa na expressão da baronesa quando ela os viu. Na

verdade, parecia alguém que havia se resignado a um encontro tão aguardado

quanto evitado.
— Mamãe.

— Liz. Vossa Graça... — Ela se curvou numa mesura.

Liz respirou fundo. A mãe parecia mais envelhecida do que ela se

lembrava.

— Mamãe, esta noite ouvi algo que minha mente tem dificuldade em

aceitar.

A mãe concordou.

— Imagino que sim. Estava fadado a vir à tona algum dia, uma vez que

se casasse com o duque.

— É verdade, então? Sobre papai?

Lady Medford manteve os olhos fixos em Alex. Ao menor aceno, contou

à filha:

— É verdade que a morte de seu pai não foi causada por nenhum

acidente de carruagem. É verdade também que ele foi morto por seu marido...

Mas a culpa não foi do duque.

— Papai o ameaçou?

Os ombros de lady Medford pesaram, a voz perdeu a força.

— James não devia ter ido à festa, naquela noite. E eu não devia tê-lo

deixado ficar, quando o vi ali. No mínimo, devia ter ficado a seu lado e não ter

deixado que se embebedasse tanto. Mas cada um de nós seguiu seu caminho,

como normalmente fazíamos, embora tivéssemos concordado em voltar para

casa juntos.

— E papai...

— Sim, ele ameaçou Sua Graça. Estou certa de que, caso James não

estivesse bêbado, teria pensado melhor em suas atitudes. Eu não sabia o quanto

desesperadoras eram as circunstâncias dele, ou melhor, as nossas, até aquele

momento.

— Como isso é possível? — Liz teve ciência da presença sólida de Alex a

seu lado.
Lady Medford torceu as mãos, nervosa.

— Eu sabia que seu pai gostava de jogar; às vezes, além da conta. Mas

jamais discuti com ele a respeito. Seu tio George não é nenhum exemplo de

homem, mas, em uma coisa, ele tem razão: eu enganei a mim mesma, pensando

ter me alçado um degrau acima ao me casar com James. Eu o fiz, realmente,

porque seu pai tinha um título... E, no início, nós nos demos bem. Porém eu

nunca quis questionar seus hábitos, portanto não soube de nada até que fosse

tarde demais.

A aceitação tomou conta de Liz aos poucos, assim como o perdão.

— Eu compreendo. De verdade. Papai era tão afável, tão divertido.

— O barão também me iludiu com seu jeito fácil e cordial — Alex falou

finalmente. — De outra forma, eu jamais teria jogado com ele.

— Eu estava procurando por James, para dizer-lhe que queria partir,

quando ouvi vozes do lado de fora — prosseguiu a mãe dela, como se

revivendo o pesadelo. — Fui até a porta e vi como tudo aconteceu. Fiquei

horrorizada, chamei por ele, implorei para que parasse... Mas James não me

ouviu. — Ela fechou os olhos com força. — Eu devia ter feito algo, mas fiquei

tão assustada...

— A senhora não tinha como fazer nada — Alex a lembrou, gentil.

— Não sei, eu...

— A senhora viu tudo? — perguntou Liz, chocada.

— Sim.

— E mesmo assim concordou em fazer parecer com que papai houvesse

morrido em um acidente de carruagem.

— Sim — a mãe respondeu. — Não é bonito quando alguém da nobreza

morre sob circunstâncias vergonhosas. Especialmente quando a causa da morte

é um ferimento à bala. Eu não conheci a extensão dos problemas da família até

mais tarde, mas sabia que uma investigação sobre a morte de James com certeza

provocaria um escândalo. Seu marido pensou rápido, e isso nos poupou de


consideráveis constrangimentos. Até porque eu vi minha filha, como seu pai o

tratou. Tudo o que pedi depois foi que Alex fizesse uma promessa: de que, após

aquela noite, depois que tudo estivesse devidamente encoberto, ele jamais

entrasse em contato com a nossa família outra vez. Eu só queria esquecer.

Liz apertou os lábios, assimilando a informação. Então outro pensamento

lhe ocorreu.

— Mais tarde, quando eu estava procurando por pretendentes e você me

disse que preferia que eu ficasse longe de Alex... Foi por isso, não foi?

Lady Medford concordou.

— Espero que me perdoe Vossa Graça. Mas, na época, seu interesse em

Liz não parecia sério, e estávamos desesperados em busca de um noivo para

minha filha. Pensei que, quanto menos Liz estivesse envolvida com o senhor,

menor seria a probabilidade de que o passado viesse à tona.

— Compreendo — ele murmurou, tomando a mão de Liz.

— É claro que, meses depois, quando milord chegou para pedir a mão

de Liz, considerei a proposta perfeita. Era evidente que vocês dois tinham sido

feitos um para o outro. — Lady Medford avançou um passo em direção ao

duque. — Posso entender por que Liz deveria saber a verdade agora, pois a

decepção arruína um casamento. Ainda assim, eu me confortaria bastante se

soubesse que essa história não se espalhará. Se não por minha própria

reputação, ao menos pela de minha outra filha.

— É claro que não — Liz garantiu, sentindo alguma simpatia pela mãe

pela primeira vez em muitos meses. — Eu também não gostaria de ver o nome

de papai na boca da sociedade... Desde que o de meu marido também se

mantenha limpo. Posso encontrar Fuston e explicar-lhe que ele se equivocou.

— Na verdade, ele foi pago para que não comentasse nada — lembrou

Alex. — Mesmo assim, posso perdoá-lo pela tentativa de avisar minha esposa.

— Pousou um braço protetor sobre seus ombros.


Imediatamente, ela sentiu um calor percorrê-la. Foi preciso muito para

que não se virasse e se abrigasse nos braços do marido.

Sim, o homem disparara o tiro que tirara a vida de seu pai.

Mas ela compreendia agora que não havia existido uma escolha. Sabia

também que, muito antes daquela noite, o pai tinha se perdido num hábito que

havia lhe extraído o que ele possuía de melhor.

— Mesmo assim, deviam ter-me contado — ela disse à mãe e ao marido.

— Talvez não logo em seguida, mas há bastante tempo. Antes que Alex e eu nos

casássemos. Afinal, não sou nenhuma criança. Eu merecia saber. Especialmente

se minha vida seria tão afetada. Nestas últimas semanas... — interrompeu-se,

comovida, enquanto pensava no quão abalado estivera seu casamento.

— Eu sei. E lamento muito — disse-lhe Alex mais uma vez. — Se eu

tivesse a mínima noção sobre o que a estava deixando tão nervosa, teria

contado; mesmo que isso representasse perdê-la para sempre. Eu quis protegê-

la e, admito, temi que, acidente ou não, minha ofensa fosse grande demais para

ser perdoada.

— Pode me perdoar? — lady Medford perguntou ansiosa. Liz encarou a

baronesa. O marido, ela estava preparada para perdoar, mas não a mãe.

— E quanto a Harold?

A mulher desviou o olhar.

— Eu não me dei conta de como Harold a tratava — disse pesarosa. —

Pensei que estivesse agindo apenas como uma menina mimada... Você sempre

foi, afinal de contas, uma criança caprichosa. Nós precisávamos lhe encontrar

um marido e, como você nunca havia demonstrado qualquer interesse em

procurar por um pretendente... — Deixou que a voz sumisse. — Para mim você

estava recusando uma oferta sólida de Wetherby, apenas para apostar em

algum outro que poderia ou não aparecer... E àquela altura, eu já estava

cansada de apostas.

Liz engoliu com dificuldade.


— De qualquer modo, imaginei que nenhuma mãe desejasse ver a filha

apanhando.

— Harold e seu tio tramaram o plano para levá-la daqui sem meu

conhecimento. Quando George me contou, fiquei preocupada, mas me convenci

de que, se os dois fossem deixados a sós, talvez pudessem chegar a algum

acordo. Era uma última esperança, pois, àquela altura, você havia afastado suas

outras opções por conta de seu próprio comportamento inconsequente. Liz

nada disse.

— Tive minhas razões, mas agora vejo que devia ter examinado tudo

mais de perto — admitiu lady Medford. — Eu poderia tê-la ouvido quando me

contou sobre sua antipatia por Wetherby. Poderia ter feito mais perguntas. Se

eu soubesse o que estava se passando, Liz teria feito algo, acredite.

Liz fechou os olhos. Com certeza, era o melhor que conseguiria da mãe.

Elas podiam não compartilhar muitos pontos de vista, mas não desejava viver

aquele ressentimento pelo restante de seus dias.

Abriu os olhos outra vez.

— Eu a perdoo — falou num fio de voz.

A exaustão pareceu se dissolver no rosto da baronesa. E então,

milagrosamente, a mulher fez o que Liz esperava que fizesse: uma mesura, e se

retirou rapidamente, deixando-a a sós com o marido.

Alex a virou para que ela o encarasse.

— Pode me perdoar também? — perguntou ansioso. — Sei que não é

fácil, Liz. Mas gostaria de...

Liz o interrompeu, pressionando um dedo contra os lábios benfeitos.

— Apenas me abrace. — Suspirou quando o marido a envolveu nos

braços, protegendo-a.

Alex inalou o perfume que emanava dela, como um homem em busca de

oxigênio.

— Liz?
Ela ergueu a cabeça para fitá-lo.

— Quero levá-la para casa...

Liz o abraçou outra vez, puxando-o para mais perto.

— Mas, antes, quero fazer amor com você — completou Alex.

Ela sorriu, deliciada.

— Creio que eu ainda tenha um quarto aqui.

FIM.