Você está na página 1de 413

TM: Cris Guerra.

Tradução: Jessica Markab.

Revisão: Lisa.

Revisão inicial e final: Viviane de

Avalon e Lagertha Calderon.

Leitura final: Hécate Calderon,

Lagertha Calderon e Viviane de

Avalon.

Verificação: Anna Azulzinha

Formatação: Lola
Levei muito tempo elaborando este livro. Depois de

escrever Dominic, eu estava cansada mentalmente e

precisava descansar. Alguns livros causam isso. Na

verdade, neste momento, acho que todos os livros fazem

isso comigo. Isso é uma coisa boa, porque espero dar-lhe

algo memorável sempre.

Dishonorable surgiu da mesma maneira de minhas

outras histórias. Uma imagem muito clara do herói,

neste caso, Raphael. Ou, mais precisamente, de seus

olhos. Eu sabia que essa história se passaria na Itália,

tendo como elementos principais, uma capela e o porão,

embora, no começo, não soubesse o motivo ou o que fazer

com eles. Mas uma coisa que estou aprendendo a

praticar é confiar que a história virá naturalmente e no

final, todas aquelas partes que eu não entendia

totalmente, se encaixavam.
Raphael é, em suas próprias palavras, um monstro

destruído. E, a meu ver, ele está ferido e algumas de suas

partes, nunca curaram ou pararam de doer, mas eu

acho isso bom. Eu tenho uma citação favorita de The

Tale of Despereaux1: “Quando seu coração se parte, pode

crescer novamente torto.” De certa forma, acho que foi

isso que aconteceu com Raphael.

Mas há essas histórias clichês, dizendo que o amor

vence tudo, e eu acredito com todo o meu coração. E

muitas vezes, penso que nossas partes danificadas, nos

fazem mais capazes de sentir, e amarmos mais.

Então, sem querer ocupar mais de seu tempo,

agradeço-lhe por confiar-me, levando-o neste passeio,

juntamente com Raphael e Sophia. Espero que você possa

sentir cada palavra, cada emoção, cada toque —

especialmente nas partes sujas — e que, finalmente, você

se apaixone por este livro.

Beijos,

Natasha.

1
The Tale of Despereaux: Livro lançado em 2003, que posteriormente foi adaptado
para o cinema em 2008.
Sofia

Eu conhecia um pouco da história de Raphael Amado com a

minha família, mas quando ele apareceu na nossa porta exigindo

restituição, meu avô rapidamente concedeu. Qual seria essa

restituição? Eu.

Seis meses depois, no meu aniversário de 18 anos, Raphael

veio até mim. Ele me buscou na minha casa, roubando-me e

levando-me para sua propriedade na Toscana. Da capela em

ruínas passando pelo vinhedo queimado, até o porão que o

assombrava, como uma sombra, o seu passado o perseguia.

Esperando por ele, escondendo-se nos cantos e o prendendo todas

às vezes.

Tanto quanto a crueldade de Raphael me aterrorizava, sua

escuridão me seduzia. Mas no final, foi sua ternura que me

devastou.

Raphael

Sofia veio a mim como uma oferenda. Como uma virgem a

ser sacrificada no altar. Mas a verdade era que seu avô a

traiu. Acho que tínhamos isso em comum. Ele também me ferrou.

Eu conhecia o ódio. Eu jurei vingança. Isso nunca deveria

ser sobre qualquer outra coisa. Mas no final, sua inocência me

quebrou. A própria coisa que eu iria destruir, me destruiu.


Sofia

Julho de 2016

Estremeci ao sentir o ar frio me atingindo quando as


portas da basílica se abriram. Ele carregava um aviso. Um
presságio.

Meu futuro marido estava no final do corredor vestido


de preto da cabeça aos pés, o oposto do meu branco nupcial.

Como um funeral.

O meu funeral.

Ele estava impressionante, mesmo que eu o


odiasse. Seus olhos vitoriosos me devoraram por completo,
sem nunca deixar o meu olhar, aprisionando-me, tal como
um predador e sua presa. Perguntei-me se ele estava
saboreando, com água na boca, enquanto imaginava a minha
submissão, a minha rendição a ele.

Eu sabia o que era esperado de mim hoje à noite. O que


ele e meu avô combinaram no contrato, me fazendo
propriedade de Raphael Amado.

Temos que consumar.

Meu sangue virgem deve manchar seus lençóis. Meu


rosto ardia de vergonha e fúria, e cada passo lembrava-me do
diabo com quem eu estava prestes a casar. Um monstro,
escondido sob a mais bela máscara. E eu sabia, enquanto
caminhava em direção ao meu destino não escolhido e
indesejado que eu nunca perdoaria meu avô por sua traição.
Raphael

Julho de 2016

Ela parou como uma virgem vestal2 nas portas, seu


olhar dourado era ártico, varrendo o corredor até colidir com
o meu. Ela mascarou bem os seus pensamentos, mas quando
ela estivesse debaixo de mim esta noite, eu a teria. Eu
exploraria seu prazer. Sua dor. Eu teria cada centímetro dela.

Ela já pertencia a mim, mesmo que não concordasse


com a ideia. Eu me perguntava o que faria com ela hoje à
noite. Se eu teria que afastar as suas pernas e segurá-la,
mergulhando o meu pau no seu sangue virgem. Eu precisava
tirar esse pensamento da minha cabeça, no entanto. Não
seria correto estar diante de Deus e do padre, duro como uma
rocha.

Eu a observei quando ela começou a andar pelo

2
Virgem vestal: na Roma Antiga, eram sacerdotisas que cultuavam a deusa romana
Vesta.
corredor: Deslumbrante, impressionante — E no braço do
meu irmão gêmeo. Ela recusou o seu avô.

Beleza, isso mesmo.

Ele merecia apenas o seu ódio. Seu cabelo grosso e


castanho, com suas tranças intrincadas, estava arrumado em
cima da cabeça. Mesmo com a renda cobrindo seu rosto
pálido, eu podia ver seus olhos, fixos e acusadores,
queimando em mim, ao contrário de seus lábios macios,
fartos e inocentes, quase angelicais.

Quando ela chegou até mim, meu irmão levantou o véu


de seu rosto. O olhar que eles trocaram me irritou. Eles se
tornaram amigos rapidamente. Antes de entregá-la a mim, ele
me perfurou com um olhar de clara desaprovação. Como se o
que eu estivesse fazendo, fosse para o meu divertimento. Não
sendo para o dele também. Parecendo que eu não merecia
tudo o que tenho, depois de tudo o que passei. Seu olhar
duro, acusando-me de roubar está noiva virgem, como se eu
fosse algum tipo de monstro.

Bem, ele não passou pelo tormento que suportei nos


últimos anos, então ele que se dane. Desviei meu olhar de
meu irmão para Sofia, olhando-a, vendo-a no vestido que eu
escolhera. Ela estreitou os seus olhos para mim, mas ela não
lutou, não quando eu cobri sua mão com a minha, não
quando eu a puxei para ajoelhar-se diante de Deus.

E quando chegou a hora de prometer amar, cuidar e


obedecer ―Sim, eu me assegurei de incluir o voto de
obediência‖ Sofia falou às palavras que selaram o seu destino
e o meu.

Eu prometo.

Após prometer isso, ela era minha. E quando estávamos


de frente um para o outro, como marido e mulher, nos
enfrentando, eu envolvi a minha mão na sua nuca e a puxei
para mim, reclamando a sua boca com a minha, anunciando
a qualquer um ―Caso tivesse alguma dúvida, que eu possuía
esta mulher‖.

Ela era minha.

E o que era meu, nenhum homem poderia separar.

Porque eu mataria qualquer bastardo que tentasse.


Sofia

Natal de 2015

O Natal era a minha época favorita, e este ano, o dia


vinte e cinco caiu em um sábado, e a minha escola, a Escola
Preparatória St. Sebastian nos deu mais uma semana de
folga. Este foi o meu último ano na escola particular. Por
mais exaustivo e tenso que o estudo com as freiras pudesse
ser, eu gostei. A antiga mansão era linda, sendo destinada a
ser a moradia das meninas.

Os meninos moravam na vasta propriedade em uma


segunda mansão mais moderna. Eu amava a propriedade, os
densos bosques que cercavam a remota escola, e até mesmo o
pequeno quarto que eu compartilhava com outra aluna.

A mansão do meu avô, embora linda, era muito


diferente da escola. Dirigindo ao longo da familiar curva
sinuosa, próxima a garagem, vendo a grande mansão de
pedra branca aparecer, era sempre um momento agridoce
para mim. Fazendo-me sentir falta dos meus pais,
especialmente da minha mãe. Isso nunca parecia mudar.

Então, eu vi a minha irmã, Lina, espiando pela


janela. Eu queria que Lina frequentasse a mesma escola que
eu. Entretanto ela tinha um dom, tocar piano – e eu não
tinha, então, ela foi matriculada em uma academia especial
de música perto de nossa casa. Ela reclamava que seus
pobres dedos estavam desgastados, mas eu sabia que ela
adorava tocar.

Chegamos à porta da frente e paramos, atrás de um


SUV que eu não reconheci.

— De quem é esse SUV? — Eu perguntei a Stephen, um


homem que trabalhava para meu avô desde que Lina e eu nos
mudamos para sua casa.

— Raphael Amado. Ele chegou cedo esta manhã, apenas


uma hora antes de eu sair para buscá-la.

Minha escola estava a cerca de duas horas de carro da


casa do meu avô e, em todo Natal, o meu avô mandava
Stephen me buscar. Apenas uma vez, minha irmã foi
autorizada a vir junto com ele.

— Raphael Amado? — Eu não reconheci o nome.

— Parceiro de negócios.

Ele saiu do carro, seu olhar voltado para a casa mais


sério do que esteve durante a nossa viagem de volta. Antes
que eu pudesse perguntar se tudo estava bem, as cortinas se
moveram, e Lina desapareceu atrás da janela. Eu acho que
ela estava correndo, vindo em nossa direção.

— Eu pego suas malas, Sofia. Sua irmã está esperando,


entre. Ela estava chateada por não poder vir comigo. —
Stephen sempre foi muito mais gentil do que meu avô. —
Espero que ele não vá fazê-la estudar durante sua folga.

Ele abriu o porta-malas e descarregou as minhas duas


malas, parecendo que sua mente estava em outro lugar. Olhei
para o SUV e notei um homem sentado atrás do volante.

— Seu avô só quer o melhor para ambas.

Isso era difícil de acreditar às vezes.

A fumaça saía das chaminés. A porta da frente se abriu,


e Lina saiu correndo, parando a poucos passos da porta. Ela
não usava sapatos, e estava ali abraçando a si mesma no ar
gelado da manhã. Nós íamos ter neve no Natal.

— Lina! — Eu subi as escadas para encontrá-la,


abraçando-a apertado. Seu nome completo era Katalina
Guardia, mas nós sempre a chamamos de Lina.

— Finalmente! Esta casa é completamente chata sem


você.

Nos afastamos, olhando uma para a outra. Lina, que aos


dezesseis anos era quase dois anos mais nova do que eu,
agora estava quase da minha altura.

— Droga! — Eu balancei a cabeça, provocando.


— Você tem permissão para dizer isso? — Ela piscou.

— Você está maravilhosa. E está tão alta! Você puxou


isso do papai. — Seu sorriso caiu quando mencionei o nosso
pai. Nossos pais haviam morrido um dia após o Natal, há
onze anos. Era a sua primeira viagem a sós, desde que
nascemos – Lina e eu, uma espécie de segunda lua de mel na
Tailândia. Seus corpos nunca foram encontrados após o
tsunami.

— Que nada, você ainda tem um centímetro a mais que


eu.

Ela encolheu os ombros e me puxou para dentro.

— Está congelando. Entre.

— Sofia!

Marjorie veio correndo do canto da casa. Eu dei a ela


um enorme sorriso e a deixei me apertar em seu abraço
quente e suave.

— Marjorie. Eu senti tanta saudade.

— Eu também, querida. Eu também.

Depois que nossos pais morreram e o meu avô nos


levar, ele contratou várias babás. Marjorie permaneceu por
mais tempo. Quando éramos mais jovens, ela era nossa babá
em tempo integral, morando conosco. Ela essencialmente nos
criou. Agora ela vinha três dias por semana. Lina tinha três,
quase quatro anos, e eu tinha cinco anos.

Eu sabia que as lembranças de Lina sobre os nossos


pais eram vagas – se é que elas existiam, assim como as
minhas próprias recordações, Marjorie tornou-se uma fonte
de calor e compaixão em uma casa tão fria.

— Silêncio, agora, — Stephen disse, seguindo-nos e


fechando a porta.

Marjorie endireitou-se e olhou para o escritório.

— Por que nós temos que fazer silêncio? — Certamente


nosso avô poderia perdoar alguns gritos de felicidade de
nosso encontro. Há meses, eu não via a minha irmã ou
Marjorie.

Lina apontou para a porta do escritório fechada.

— Ele está reunido com o Sr. Amado. Ele esteve aqui


três vezes nesta semana, em reuniões, e o nosso avô está
muito calado sobre isso tudo.

— Quem é ele?

— Não tenho ideia. Eu nem mesmo o vi. Ele não irá me


apresentar, e juro que ele só o deixa entrar e sair daquela
sala depois de ter certeza de que está tudo limpo e de que eu
esteja fora de vista. Muito esquisito.

— Isso é estranho. — Eu me virei para Stephen. — Eu


vou aparecer e cumprimentá-los. — Embora dar um oi não
fosse exatamente comum com meu avô. Ele não era um avô
normal. Ele praticamente mantinha distância, e
honestamente, sempre senti que éramos mais uma obrigação,
um fardo para ele. Bem, pelo menos eu era. Ele parecia ter
um pouco mais de afeição por Lina, e eu sabia que sua
relação melhorara nos últimos quatro anos.
Ele balançou sua cabeça.

— Tenho certeza que eles vão sair em breve. Por que


você e Lina não almoçam primeiro?

— Sim, vamos lá. Eu já servi a mesa para nós três, —


disse Marjorie.

— Nossa, que estranho, — Lina sussurrou em meu


ouvido. — Já estamos indo, Marjorie.

Marjorie assentiu e se dirigiu para a cozinha, e Stephen


desapareceu em algum lugar. Lina me levou para a sala onde
a enorme árvore de Natal estava pronta para ser
decorada. Eu sorri um pouco quando vi as caixas abertas de
enfeites, reconhecendo-os, gostando da familiaridade do
ritual de decoração. Lina e eu começamos a decorá-la juntas
depois da morte de nossos pais. Ela era muito jovem para
lembrar, mas eu me lembrava de decorar a nossa árvore de
Natal com nossos pais em nossa casa. Sempre foi uma
memória agridoce.

Lina pegou a minha mão.

— Vamos almoçar. Quero saber tudo. Você sabe...


Meninos, fofocas, quem está fazendo isso ou aquilo. Embora,
eu ache que você terá que me dizer isso mais tarde, quando
estivermos sozinhas. — Ela balançou as sobrancelhas.

Eu revirei os olhos.

— Não há muito para contar. As freiras nos vigiam


duramente, parecendo à polícia.

— Oh vamos lá. Eu estou trancada aqui, a maioria dos


dias com tutores e professores de piano. Diga o que tem para
me contar.

— Bem, há uma garota... — Comecei enquanto íamos


para a cozinha.

Depois do almoço, Lina começou a desembalar os


enfeites enquanto eu subia ao meu quarto para trocar de
roupa. Eles ainda nos fizeram usar nossos uniformes esta
manhã, embora a maioria de nós estivesse apenas indo
passar o feriado em casa. Eu senti pena dos poucos alunos
que passaram o feriado na escola.

Eu estava no topo das escadas quando percebi que


esqueci minha bolsa no hall de entrada. Eu desci para pegá-
la querendo verificar as mensagens em meu telefone, quando
ouvi uma voz masculina baixa, profunda que eu não
reconheci.

— Está feito, meu velho.

Eu congelei no fim da escada. Meu velho?

— Você não pode fazer isso.

A voz do meu avô era severa, irritada. Eu nunca o ouvi


assim antes. Ele sempre falava baixo, nunca levantava a
voz. Em seus sessenta anos, ainda era um homem
formidável.

Minha mãe era sua única filha viva, e eu me lembrava


bem da noite em que conheci meu avô. Nossos pais nunca
nos trouxeram aqui, e Lina era um bebê quando ele nos
visitou uma noite. Eu quase podia sentir o pânico emanando
da minha mãe. Ele estava parado em nosso corredor, muito
alto e quase ocupando todo o lugar.

Quando ele me olhou, sua expressão dura me fez ir


correndo em direção à minha mãe, escondendo-me atrás de
suas pernas. Tínhamos sido mandadas para os nossos
quartos, mas eu soube o momento exato em que ele saiu. Eu
não fui capaz de dormir naquela noite, não com o súbito
medo que senti com o som de meus pais discutindo, e
escutando minha mãe chorar.

— Você fez isso, meu velho. Você trouxe isso para si


mesmo.

Imaginei que o desconhecido era Raphael Amado.

Passos pesados ecoavam nos pisos de mármore. Fiquei


parada no final da escada. Eu não conseguia me mexer,
mesmo sabendo que deveria. Segurando firmemente o
corrimão, eu prendi a minha respiração quando o estranho
apareceu.

Ele não me viu no início, estava profundamente


concentrado. Seu rosto, fechado e duro, traía seus
sentimentos, mas ele parecia diferente do que eu imaginei.

— Amado! — Meu avô rugiu.

Raphael Amado parou.

Eu devo ter feito algum barulho porque ele virou a


cabeça. Quando seus olhos encontraram os meus, eu ofeguei
e me agarrei ao corrimão. Meu sangue corria frio em minhas
veias. Ele era mais jovem do que eu esperava. Muito mais
jovem. E bonito. Nunca antes desse momento eu descreveria
um homem como sendo bonito.

Ele era alto, cabelos escuros e pele bronzeada, olhos


azuis de aço que não pareciam se encaixar com seus traços
escuros. Eles me perfuraram, atingindo-me onde eu estava,
de modo que mesmo se eu quisesse, eu não poderia ter me
movido. Eu não acho que respirei enquanto ele me
encarava. Eu podia ver sua raiva, queimando naqueles olhos
glaciais.

— Sofia. — Meu avô parou quando me viu. Ele não disse


olá. Ele não sorriu.

O olhar do estranho deslizou sobre o meu uniforme


antes de voltar momentaneamente ao meu rosto. Então ele
desviou o olhar, me libertando da prisão.

— Vá para o seu quarto. — Embora meu avô falasse


comigo, seus olhos permaneciam no homem.

Eu abri a boca para falar, querendo dizer algo, qualquer


coisa, contra seu comando que era mais apropriado para
uma criança de cinco anos. Vi um pequeno sorriso no rosto
de Raphael Amado enquanto ele me observava.

— Agora! — Meu avô vociferou.

Virei-me e subi as escadas, esquecendo a razão pela


qual eu desci, a princípio. Tudo parecia de repente tão sem
importância.

— Seis meses, velho. Então eu estarei de volta para


pegar o que me é devido.
Ouvi Raphael Amado dizer isso logo antes de chegar ao
meu quarto. A porta da frente abriu-se e fechou-se. Fui até
minha janela, vendo Raphael subir no banco de trás do SUV,
e assisti quando desapareceu em direção ao portão da
propriedade.

Uma hora mais tarde, meu avô mandou me chamar,


convocando-me para seu escritório, um lugar para o qual só
fora convidada um punhado de vezes. Quando entrei naquele
cômodo escuro, o encontrei sentado atrás de sua grande e
antiga escrivaninha, seu rosto pálido, seus olhos como aço.

Imaginei um tipo diferente de encontro depois de quatro


meses na escola. Eu não sequer vim para casa passar o
feriado de Ação de Graças. Embora a vida nunca tenha sido
diferente aqui, mesmo durante as férias. Pelo menos eu fui
para a escola. Lina tinha que morar aqui. Às vezes eu não
entendia porque ele queria isso, porque se incomodava com
aulas particulares de piano para ela.

Eu nunca tive essa sensação de que ele queria


incentivá-la ou que ela quisesse — Ele nunca foi esse tipo de
homem —, mas uma vez que ele descobriu seu talento,
contratou os melhores professores. Eu não gostava de deixá-
la. Não gostava do sentimento de deixar minha irmãzinha
desprotegida e sozinha aqui sem mim.

Graças a Deus por Marjorie.

— Feche a porta e sente-se, Sofia.

Um profundo mau presságio me atingiu como um soco


no estômago quando a porta se fechou atrás de mim. Eu
tomei o assento que ele apontou. Ele mal olhou para mim
quando me contou, e quando o fez, era mais como uma
transação de negócios do que a entrega de sua neta para um
estranho.

Aprendi quem era Raphael Amado, pelo menos o que o


meu avô estava disposto a me dizer. Eu conheci o meu
futuro. Um futuro decidido por mim, por razões pelas quais
não me era permitido saber. E à medida que meu coração
doía mais e meu estômago parecia estar revirando o que comi
no almoço, eu sabia que minha vida mudaria ―Já mudou‖
Irrevogavelmente.

Eu nem sequer o ouvi depois de um tempo. Ele falava


quase sempre no piloto automático, como uma máquina fria e
sem coração, e tudo o que eu podia imaginar, tudo o que eu
podia visualizar, era um abismo profundo e escuro e eu de pé
sobre um penhasco, desmoronando sob os meus pés,
momentos antes de cair no abismo, perdendo a minha vida.

Seis meses.

Eu tinha seis meses antes que ele viesse me buscar.

Eu era a coisa que Raphael Amado achava que lhe era


devido.

Era sobre mim que ele estava falando.

Ele viria no meu décimo oitavo aniversário. No mesmo


dia de minha formatura no St. Sebastian. O que deveria ser
um dia de celebração se tornaria o dia do meu
sacrifício. Porque eu já não pertencia a mim mesma. Minha
vida foi negociada, trocada. E eu pertencia a ele agora.
Meu avô, um homem que deveria me proteger, me daria
a um estranho. Com os poucos detalhes que o meu avô me
dava, não tinha certeza de quem odiar, a quem culpar, de
quem sentir piedade. Tudo o que eu sabia era que dentro de
seis meses eu seria levada da minha casa e forçada a me
casar com Raphael Amado, tornando-me sua propriedade, o
pagamento de uma dívida do meu avô.

A imagem dos dois no corredor me veio à mente. Eu


nunca vi um homem enfrentar meu avô. Raphael Amado não
se encolheu. Aconteceu o oposto. Ele estava na casa do meu
avô como se fosse dele. Como se ele tivesse todo o direito. E
ele disse ao meu avô o que faria, não deixando espaço para
discussão, sem dúvidas quanto ao que aconteceria.

Qualquer homem que pudesse fazer meu avô ceder era


espantoso. Eu sabia que Raphael Amado era um desses
homens.

E dentro de seis meses, eu seria dele.


Sofia

Vinte e três de junho.

Apenas uma semana para a minha formatura.

— Isso é tudo, senhoras e senhores. Terminamos. Nós


repetiremos amanhã.

Irmã Lorelai nos dispensou, noventa garotas da turma


de formandos deste ano começaram a conversar, nossos
sapatos fazendo barulho na plataforma de madeira erguida
no jardim leste da propriedade.

— Haverá uma festa na piscina mais tarde. — Cathy


sussurrou para o nosso grupo de cinco meninas. — Os
convidados foram escolhidos a dedo. Estamos todos na lista
de convidados, é claro. — Ela piscou, agarrando os braços de
Mary.

— Roupa de banho opcional? — Mary perguntou.

— Com certeza! — Cathy disse, inclinando a cabeça


perto dela.

Elas começaram a rir. Eu não senti vontade de rir.

— Sofia, vamos lá. Você perdeu as três últimas


festas! Você não pode perder esta noite. — Cathy disse. — As
provas terminaram, você não tem desculpa.

Eu sorri para ela, minha mente em outro lugar.

— Desculpe, esta noite?

Ela ergueu as sobrancelhas.

— Festa? Rapazes?

— Hum...

— Ontem eu recebi um biquíni novo pelo correio! —


Disse Mary. — Eu vou te mostrar.

— Eu vou passar pelo meu quarto primeiro, — Eu disse,


me separando do grupo quando chegamos à mansão onde
ficávamos alojadas. Mary murmurou algo, mas eu não me
importei. Elas não tinham ideia do que aconteceria comigo
daqui a uma semana. E ir a uma festa era a última coisa em
minha cabeça.

Era pouco depois das sete da noite. O jantar seria


servido dentro de meia hora, mas eu não estava sentindo
fome alguma. Eu subi as escadas para o segundo andar onde
Cathy e eu, compartilhávamos um quarto, grata por estar
sozinha.

Uma semana antes do meu décimo oitavo aniversário.

Como ele faria isso? Eu poderia ir primeiro para


casa? Será que ele só apareceria para me buscar? Mandaria
alguém?

Eu estremeci, a lembrança de seus frios olhos azuis,


ainda fresca em minha memória. Sonhei com aqueles olhos
muitas vezes nos últimos seis meses e todas as noites nas
últimas duas semanas. Aqueles olhos árticos cheios de
raiva. Ele era meu inimigo, embora eu não soubesse por
quê. Não, isso não era verdade. Eu sabia o porquê. Porque
meu sobrenome era Guardia. Tudo o que precisava era do
meu sobrenome para ele me odiar, porque eu o compartilhava
com meu avô.

Sempre me perguntei por que Lina e eu tínhamos o


sobrenome da minha mãe e não o do nosso pai. Eu entendia
agora. Era necessário para a herança. Os herdeiros da
fortuna Guardia tinham que levar o sobrenome.

No escritório, seis meses atrás, eu soube que minha mãe


fugira de casa para se casar com meu pai. E eu sabia que
estava certa. Que o nosso avô tinha poucos sentimentos em
relação a nós, ao nos tirar de nossa propriedade. Levar-nos
não foi uma gentileza. Foi à vitória dele sobre a minha mãe
falecida. Por seu pecado de se apaixonar por um homem que
ele não aprovou.

Eu soube que ele tivera negócios com o pai de Raphael,


o que deixou Lina e eu expostas, vulneráveis. Isso foi tudo o
que ele disse. Ele me disse que Raphael estava em posição de
exigir coisas.

Minha querida ―Como se ele já tivesse me tratado como


querida‖ E se eu quisesse o melhor para a minha irmã, era
melhor eu obedecer. Era a única maneira de salvar Lina, ele
disse.

Era tudo o que ele precisava dizer.

Depois dessa única vez, não falamos sobre isso


novamente. Eu não contei a Lina sobre isso por um longo
tempo, e quando eu finalmente contei, eu disse a ela somente
o que precisava, e tive as minhas razões para concordar em
manter segredo.

Aquele natal foi tão ruim quanto o natal quando nós


perdemos os nossos pais, porque agora, não estaria perdendo
somente a minha irmã, mas eu também. Como o meu avô
não podia pagar a Raphael o dinheiro que devia, Raphael me
levaria.

Ele casaria comigo por minha herança — Cinquenta por


cento da vinícola pertenceriam a mim no meu aniversário de
vinte e um anos. Esta... Transação, não era sobre mim. Era
entre Raphael Amado e meu avô. Eu era um dano colateral.

Eu sabia que meu avô não estava me contando toda a


história. Havia muita raiva, muita raiva nos olhos de Raphael
para que isso fosse apenas dinheiro. Meu avô fez algo terrível
a Raphael. Eu sabia. Só esperava que Raphael não me
punisse pelos seus pecados.

Depois de retornar à escola em janeiro, liguei todas as


noites para conversar com Lina e nem mesmo fui para casa
para as férias de inverno. Lina foi autorizada a vir à escola
para passar comigo, o que eu agradeci muito. Foi quando eu
lhe falei sobre o acordo que me ligaria a Raphael Amado.

Eu finalmente cheguei ao meu quarto, e meu devaneio


terminou. Eu fiz uma careta. A porta estava entreaberta. Isso
era estranho. Cathy e eu fechávamos bem a porta. As irmãs
tinham uma política estrita de não tentar qualquer pessoa ao
pecado — Neste caso, o pecado é roubar. Cada uma das
portas tinha fechaduras. Imaginei que Cathy com toda a
pressa e emoção, esqueceu de trancar a porta. Embora
pudesse facilmente ter sido eu. Eu estava muito distraída
esses dias.

Abri a porta e ofeguei, minha mão subindo para cobrir


minha boca. Ele parecia muito grande em pé aqui, meu
quarto de repente era pequeno demais e sem oxigênio.

Raphael Amado fechou o livro ―Meu livro‖ E colocou-o


na mesa de cabeceira. Ele cortou o cabelo desde a última vez
que o vi, mas tinha o que parecia ser dois dias de barba por
fazer. Ele usava jeans escuros e uma camisa azul marinho
com as mangas enroladas, parecendo mais casual do que a
última vez que o vi. Cabelo escuro cobria seus poderosos
antebraços bronzeados. O percorri com meu olhar e imaginei
o contorno de seus bíceps, peito e ombros largos.

Todo o tempo, ele me estudou.

E eu fiquei muda e trêmula diante dele.

— Irmã Amélia me deixou entrar, — Disse ele, seu tom


relaxado, seu corpo à vontade. Ele inclinou a cabeça para o
lado, com um pequeno sorriso em seus lábios. — Espero que
não se importe.
Quando ele falou, eu me forcei a olhar para seu
rosto. Seus olhos pareciam exatamente como em meus
pesadelos, embora não estivessem tão ferozes como estiveram
naquele dia na casa do meu avô. Não tinham raiva. Embora
ainda fosse um olhar duro, e minha mente gritava
advertências dentro da minha cabeça.

Esse homem era perigoso. Sua alma era sombria. E se


eu não tivesse cuidado, ele me arrastaria para a escuridão.

— Me importo, — eu consegui dizer, minha voz


tremia. — Eu me importo.

Ele não respondeu. Em vez disso, ele olhou todo o


quarto, fazendo-me observá-lo. Ele deu um passo e pegou um
sutiã pendurado em uma cadeira, então jogou de volta.

— Você é bagunceira. Ou é a sua companheira de


quarto?

— Eu não esperava uma inspeção.

— Não é uma inspeção. Não do seu quarto, pelo menos.

— O que você está fazendo aqui?

— Só estava curioso, eu acho.

— Não está na hora ainda. — Não estava, eu tinha


certeza. Eu tinha até a formatura. E eu ainda não tinha
dezoito anos. Ele não podia me levar até o meu aniversário de
dezoito anos. Eu tinha mais sete dias.

Ele parou de examinar o quarto e passou a olhar para


mim, lentamente me olhando da cabeça aos pés. Engoli seco,
piscando rapidamente, baixando momentaneamente o olhar
quando ele encontrou o meu, mas me forçando a olhar para
ele.

Eu não poderia me encolher, não importa o que.

Eu não faria isso.

— Eu gosto do uniforme.

— O que você quer?

— Entre. Feche a porta.

Eu balancei a cabeça.

— Eu disse para entrar. Não se preocupe. Você ainda


está a salvo de mim. Não vou te tocar.

Tocar-me? Deus. Ele me tocaria em breve.

Mordi meu lábio, olhando para seu rosto, imaginando


esse homem perto, seu rosto no meu, suas mãos em mim. A
boca dele...

— Sofia.

Sua voz baixa e profunda fez de meu nome um


comando. Entrei no quarto e fechei a porta, mantendo as
mãos nas minhas costas na maçaneta.

Ele caminhou até minha mesa e pegou o pequeno globo


de neve natalino. Uma família ao redor de uma árvore: A mãe,
o pai e duas meninas, todos de mãos dadas, formando um
círculo completo.

— Meio tarde para isso, não é?

Fui até ele para tirá-lo de suas mãos. Quando meus


dedos tocaram levemente os dele, uma faísca de eletricidade
me sacudiu. Eu ofeguei, por um momento fiquei congelada.
Piscando algumas vezes, finalmente encontrei minha voz.

— Isso não é seu. — Eu peguei o globo e coloquei no


lugar.

Ele sorriu, movendo-se um pouco para o lado,


bloqueando-me entre ele e a mesa. Ele estava muito perto,
seu corpo muito grande. Ele tomava todo o oxigênio, então
tudo que eu podia fazer era tentar respirar.

— Mas você é.

Ele olhou para meu rosto, parando em minha boca.

— Minha, quero dizer.

Minha pele começou a formigar, cada terminação


nervosa, meu corpo em alerta.

— Por quê? — Eu perguntei, incapaz de desviar o olhar


dele. Seus olhos, eles me aprisionavam, apesar das
advertências rodando em minha mente.

— Restituição. — Seu olhar permaneceu estável,


observando-me processar.

Mas ele e meu avô falavam em enigmas, me dando


pedaços de um quebra-cabeça que eu não conseguiria
montar sem mais informações. Ele estava tão perto. Eu senti
o perfume de loção pós-barba, sedutor e traiçoeiro e muito,
muito perigoso. Como ele.

Ele sorriu levemente, e eu me encolhi quando ele ergueu


a mão. Mas sacudiu a cabeça antes de enfiar o cabelo que
estava solto do grampo atrás da minha orelha.
— Suave Sofia. Linda Sofia.

Ele se inclinou para perto, seu peito tocando o meu,


fazendo-me ofegar. Ele inalou profundamente.

— Sofia, doce e inocente.

Eu estremeci, meus mamilos ficando duros, roçando


contra o seu peito duro. Ele recuou, seu olhar caindo para os
meus seios, e eu sabia que ele viu meus mamilos duros
através da minha blusa de uniforme branco.

Eu pisquei, olhando para qualquer lugar, exceto para


ele, sentindo muito calor, suor se acumulando debaixo dos
meus braços, deslizando pela minha testa. Ele estava o
oposto, calmo e relaxado e totalmente no controle de si
mesmo, de seu corpo, enquanto o meu traía-me, sentindo
coisas que eu nunca senti com ninguém antes.

Eu sabia que ele tinha vinte e quatro anos. Ele era


experiente. Ele também era um criminoso, como seu pai. Mas
um tão encantador, que ele persuadiu Irmã Amélia a deixá-lo
entrar em meu quarto.

— Os meninos não são permitidos neste edifício, — Eu


disse estupidamente, forçando-me a olhar para ele.

Nesse momento, seu sorriso se alargou, alcançando


seus olhos, como se ele estivesse de repente, se divertindo
extremamente.

— Eu não sou um menino.

Não, ele não era.

Ele recuou, mas pouco.


— Eu faço você ficar nervosa?

— Não, — eu respondi rapidamente.

Ele se aproximou de mim e cobriu minhas mãos com as


suas. Eu percebi que estava me apoiando na beira da mesa.

— Não. De jeito nenhum, — disse ele.

Eu quebrei o contato visual, e ele deu dois passos para


trás. Quando eu olhei para cima, ele estava pegando um
envelope de seu bolso.

— Eu realmente vim para te dar uma coisa.

— O que?

Ele estendeu a mão.

— Eu suponho que seu avô não tenha sido muito claro,


considerando tudo. Embora você provavelmente saiba disso,
já que ele te criou.

— Ele não me criou. Marjorie o fez.

Ele fez um gesto para que eu pegasse o envelope. Eu


peguei.

— O que é isso?

Ele me estudou.

— A verdade.

Um arrepio percorreu-me. Olhei para o envelope na


minha mão.

— Ele não vai sentir minha falta, se é isso que você


pensa. Você não vai machucá-lo me levando.
Ele me estudou, mas não respondeu ao meu
comentário. Em vez disso, estendeu a mão e pegou a minha,
me assustando. Seus olhos permaneceram nos meus, aquele
sorriso ainda em seu rosto enquanto ele tirava meu anel da
escola do meu dedo.

Acordei do meu estupor.

— Isso é meu!

Ele colocou-o em seu dedo mindinho. Andou até o meio


do quarto.

— Eu preciso dele para ter certeza que sua aliança


encaixará.

Aliança.

Nós ainda íamos nos casar. Eu seria dele. Ele seria meu.
Todos os meus cabelos se arrepiaram com o pensamento do
que ele esperaria de mim.

— Eu estarei aqui para levá-la para casa comigo após a


sua formatura. — Raphael se virou e caminhou até a
porta. — Certifique-se de que você estará pronta.

— Não é casa. Não para mim.

— E a casa do seu avô é? — Perguntou ele com apenas


uma olhada em minha direção.

— Você não pode esquecer o que ele lhe deve? O que


você acha que eu devo pagar?

Ele virou para mim.

— Esqueça a dívida, — Eu adicionei quase sussurrando.


Seus olhos ficaram sombrios.

— Infelizmente, o perdão deve preceder o esquecimento


e, infelizmente para você, também não é uma opção.

Seu olhar passou rapidamente por mim mais uma vez.

— Você deveria comer. Você está magra demais. — Ele


desapareceu pela porta.

Eu caí na minha cama, segurando o envelope que ele me


deu, meu coração batendo forte. Passos e risadas invadiram o
silêncio, e Cathy e Mary abriram a porta do quarto.

— Não me admira que você não esteja interessada na


festa! — Disse Mary.

Elas não tinham ideia.


Raphael
Eles acham que eu sou o monstro. A besta que roubaria
a menina inocente, quando o tempo todo, eles são os
animais. Ele é a besta que a vende para salvar seu pescoço
decrépito.

Eu dei à Irmã Amélia uma piscadela quando saí. Do


lado de fora, subi na minha moto, olhando para cima
enquanto eu ligava o motor. Dois rostos olharam para fora
pela janela de Sofia, mas nenhum deles pertencia a
ela. Mudei de marcha, acelerei pelos jardins e saí para a
cidade, precisando da longa viagem. A liberdade da
velocidade. Do perigo.

O último foi uma das poucas coisas que clareou minha


cabeça.

Sofia perdera peso desde a última vez que a vi. Seu rosto
parecia mais magro, seu uniforme mais folgado. Era
esperado, apesar de tudo. Eu imaginei que ela estava mais do
que um pouco ansiosa sobre o seu futuro.

Pelo menos eu não era um mentiroso, embora. Pelo


menos eu estava mostrando quem eu era. Ela não iria a
nenhum lugar pior do que a casa dela. Talvez até um pouco
melhor. Comigo, ela sempre saberia a verdade. A vida comigo
não seria fácil, mas teria honestidade.

Esperando mais uma semana. Então eu deixaria este


lugar. Iria para casa.

Casa.

Porra.

O que era isso mesmo? Em que lugar estava isso?


Poderia a vingança estar em casa?

Por causa desse acordo, era para ser. Eu passei os


últimos seis anos da minha vida atrás das grades. Eu matei
meu pai com minhas próprias mãos. Apesar da decisão ter
sido revogada e o ato declarado como autodefesa, eu já sabia
como seria.

Eu matei o homem que deveria nos proteger, que


deveria ter dado a sua vida para proteger a minha mãe, meus
irmãos. Eu. Eu matei meu próprio pai depois que ele nos
destruiu, depois dele incendiar o único bem que nós
tínhamos.

Entre a educação de Sofia e a minha, tivemos grandes


valores familiares. Quase me fazia entender a escolha da
vocação de meu irmão, Damon. Quase.

Mas isso não era nem uma coisa nem outra.


Infelizmente para Marcus Guardia, eu não apodreci na
cadeia. E agora que a minha vida estava a salvo, eu destruiria
a dele.

Veja, existe uma coisa que a prisão dá a um


homem. Dá-lhe tempo. E nesse tempo, eu descobri as minhas
prioridades. As coisas que importavam. Costumava ser a
minha família para mim. Mas virou cinzas. Agora, a minha
prioridade era punir aqueles que foram o catalisador para o
que aconteceu. Para o fogo que destruiu qualquer coisa pela
qual valia a pena viver.

Mas, mesmo com toda a pompa e circunstância de


Marcus Guardia, ele era um homem fraco. Um covarde. Ele
tinha tudo, mas ofereceu sua neta. Talvez ele pensasse que
eu nunca o enfrentaria. Ou talvez ele simplesmente não desse
a mínima para ela.

Mas ele recebeu um golpe financeiro. Eu estaria


tomando uma parte considerável da preciosa fortuna
Guardia, e eu determinaria o que aconteceria ou não com a
vinícola.

Minha mente vagou de volta para Sofia. Ela era


inocente. Eu sabia. E se eu tivesse alguma humanidade, eu
teria tido pena dela. Por sua situação. Por toda a sua vida,
pelo homem que estava usando-a, abusando da confiança
como seu tutor e responsável legal. Dela e de sua irmã. E ela
não fazia ideia disso.

Eu sabia que ele não só vivia do dinheiro que pertencia


a ela e a sua irmã ―O subsídio que recebe, não lhe permitiria
ter o luxo que estava acostumado‖, mas também estava
descaradamente roubando suas netas.

O que ele planejava fazer com esse dinheiro, eu não


tinha ideia. O homem tinha que estar próximo dos setenta
anos agora. Ele não viveria tempo suficiente para gastar esse
dinheiro. Apesar de que cobras como ele parecem nunca
morrer.

Eu sabia que Sofia era tão vítima quanto eu, mas ela
teria que suportar seu futuro. Seu destino foi selado ao meu
há seis anos. E, em todo caso, eu fui o único que pagou o
preço mais alto. Que perdeu tanto. Eu fui o único quem foi
viver entre homens violentos, homens furiosos que o
estuprariam ou matariam e em seguida comeriam seu jantar
em cima de seu corpo quebrado.

Graças a Deus, precisou exatamente de uma só vez, um


incidente, para que eles aprendessem a não se meter comigo.
Eu acelerei e sacudi meus pensamentos. Isso tudo era
passado agora. Eu nunca teria que voltar lá novamente.

E se eu não dormisse, nem mesmo os pesadelos


poderiam me alcançar.

Cheguei tarde à cerimônia de formatura.

Eu poderia ter esperado ela ir para casa com sua


família. Dado a ela algumas horas preciosas com sua
irmã. Mas eu não queria.

O avô e a irmã de Sofia estavam na segunda fila atrás


dos alunos. O sol batia em mim, o céu claro, o sufocante
calor de junho. Eu não me importava com as temperaturas
elevadas. Era a umidade a pior parte.

Toscana estaria quente, também, mas não úmida, não


como a Filadélfia.

Sofia olhou em volta para acenar para sua irmã, mas


seu sorriso vacilou ao ver seu avô. Fiquei imaginando o
quanto sua irmã sabia. Ela sabia que nos casaríamos.

Mas será que Sofia confidenciou os detalhes desta união


profana? Sofia teria lido o que eu lhe dera, ou teria enterrado
a cabeça na areia? Seria capaz ou não de enfrentar e
compreender as razões de seu destino?

A cerimônia começou, e a conversa cessou, deixando-me


observá-la. Eu não me preocupei em me sentar, escolhendo,
ao invés disso, encostar-me contra uma árvore atrás da
última fileira de cadeiras.

Discursos foram feitos, as pessoas aplaudindo no


momento apropriado. Tudo muito chato, francamente. Sofia
mudou de cadeira, desconfortável, ou, mais provavelmente,
nervosa. Os alunos formaram uma fila, um nome sendo
anunciado de cada vez.

Foi aproximando o momento de Sofia ser chamada, e eu


me endireitei quando ela se levantou e olhou para trás. Desta
vez, seu olhar encontrou o meu. Mesmo a esta distância, eu
vi seus estranhos e pálidos olhos cor de caramelo se
alargarem, a delicada pele ao redor de seus olhos, inchada e
vermelha. Ela estava chorando.
Ela tropeçou quando a menina atrás dela se moveu mais
rápido, mas ela se endireitou, olhando para frente enquanto
se dirigia para o palco. Nas escadas, ela deu mais uma
olhada. Quando eles chamaram seu nome, ela lentamente
caminhou pelo palco, suas pernas parecendo pesadas
enquanto dava esses últimos passos de liberdade para
apertar a mão do diretor e pegar o diploma.

As famílias aplaudiram, e Sofia manteve a cabeça


erguida, recusando-se a olhar para qualquer um, incapaz ou
não querendo sorrir quando ela, em vez de retomar sua
cadeira, caminhou em minha direção. Esta foi uma
surpresa. Eu esperava uma menina mansa, sem coragem,
submissa.

Inclinei a cabeça para o lado.

Quando ela me alcançou, tirou a lapela.

— Parabéns? — Eu disse com um sorriso.

— Foda-se.

Meu sorriso se alargou. Não completamente mansa. Eu


deveria ter visto o fogo queimando naqueles olhos cor de
âmbar normalmente suaves.

— Foi por isso que você andou até aqui? Se for porque
você pensa que eu esqueci seu aniversário...

— Você acha que o que me deu, muda alguma coisa?

Eu dei de ombros.

— Não para mim, — eu disse mais casual do que ela


provavelmente gostaria.
— Você acha que isso faz alguma diferença?

— Eu não me importo, sinceramente. Como eu disse


quando eu dei a você, é a verdade. — Eu não acho que ela me
ouviu.

— Você acha mesmo que eu acredito em suas mentiras?

— Mais uma vez, eu não me importo.

— Saiba que eu vou lutar com você a cada passo do


caminho.

— Espero que sim.

— Sofia?

Sua irmã se aproximou de nós. Marcus Guardia estava


distante, conversando com uma das freiras, mas nos
observando. Seu rosto não revelou nada, o sorriso falso. Ele
era, afinal, um cidadão honrado. Um filantropo que faz
doações generosamente para St. Sebastian e muitas outras
instituições.

Se ao menos eles soubessem.

Minhas mãos fecharam em punhos em meus lados. Eu


queria matar o filho da puta.

— Eu nunca vou facilitar para você.

Sofia chamou a minha atenção de volta para ela.

— Eu espero que não.

O olhar cauteloso de Lina caiu sobre mim. Mesmo que


esta fosse a primeira vez que eu as via juntas, eu saberia que
elas eram irmãs. Além da cor dos olhos — os de Lina eram
verde musgo — e os cabelos escuros de Lina, a semelhança
das suas características era impressionante.

— Sofia.

Desta vez, Lina prendeu a atenção de sua irmã. Sofia


afastou o seu olhar irritado do meu e limpou os olhos com as
costas das mãos.

Bom.

Pelo menos ela sabia o que esperar. As lágrimas de hoje


seriam as primeiras de muitas. Eu tinha anos de ódio para
trabalhar, e ela seria minha menina submissa. Literalmente,
se ela não tivesse cuidado.

— Ei. — Lina tomou o rosto de sua irmã em suas mãos


e apoiou a sua testa contra a de Sofia.

Eu as observei, curioso. Meus irmãos e eu não éramos


tão próximos. Com Damon sendo meu gêmeo, tínhamos um
vínculo especial, mesmo agora, mesmo com todo o ódio e
raiva, mas não era como elas.

Eu suspirei, balançando a cabeça.

— Tudo bem? — Perguntou Lina.

Sofia assentiu.

— Eu tenho que ir.

— Eu sei. — Lina a soltou e deu um passo atrás,


alcançando seu pescoço para desabotoar o colar que usava.

Sofia sacudiu a cabeça.

— Mama deu isso para você.


— Shh.

Notei que cada uma delas tinha lágrimas brilhando em


seus olhos. Ela colocou o colar no pescoço de Sofia e o
prendeu. Sofia tocou o pingente.

— Eu mudei a foto, — Lina disse calmamente.

— Cristo, vocês agem como se nunca fossem se ver


novamente, — Eu disse.

Ambas as irmãs se viraram para mim. Eu levantei as


duas mãos, pedindo falsas desculpas.

— Eu não quero você aqui, — disse Sofia para mim.

— Que pena.

Ela apertou as mãos e estreitou os olhos, e eu sabia que


ela se esforçava muito para dizer-me algo no momento
seguinte.

— Deixe-me dizer adeus à minha irmã. — Ela apertou os


dentes. — Por favor.

Minhas sobrancelhas se ergueram.

— Uau. Um por favor.

Ela apertou os lábios.

— Basta ir até o carro e me dar a porra de um minuto.

— Será que as freiras permitem esse tipo de linguajar?


— Provoquei.

— Sofia.

Sua irmã tentou puxá-la para longe, mas Sofia manteve


firme o seu olhar em minha direção.
— Eu te odeio.

— Você nem me conhece.

— Eu conheço o suficiente.

Eu dei de ombros.

— Vá, — ela ordenou, apontando para o carro.

Eu ri no início, mas meu rosto endureceu no instante


seguinte, e eu me aproximei o suficiente para que ela
recuasse.

— Fale assim comigo novamente, e você se arrependerá.


— Eu sibilei.

— Eu já me arrependo, — Ela disse, com a voz trêmula.

Lina pegou suas mãos, forçando Sofia a olhar para


ela. Eu me afastei.

— Sofia? — Os olhos de Lina estavam lacrimejantes.

Sofia sacudiu a cabeça e tentou sorrir.

— Eu vou ficar bem. Está tudo bem.

— Ligue-me todos os dias, ok?

Eu podia ver o esforço de Sofia para conter as lágrimas.

— Nós temos um voo marcado, — Eu disse, checando


meu relógio.

Elas se abraçaram apertado, e foi Sofia quem se afastou,


fungando.

— Você quer dizer adeus a seu avô? — Perguntei,


embora eu soubesse muito bem a resposta.
— Não, — disse Sofia. — Estou pronta.

— Sim, eu espero que você esteja.


Sofia

Dentro do envelope que Raphael me dera havia três


folhas de papel, partes retiradas de um documento. Quando
eu lhe perguntei o que era, ele disse duas palavras ―A
verdade‖. Mas não poderia ser. De nenhuma maneira. Meu
avô não era tão detestável. Não importa o que, nós somos sua
família, o que restava de sua família.

À noite em que conheci o meu avô quando eu era uma


criança, também foi à noite em que celebramos o vigésimo
primeiro aniversário da minha mãe. O momento da sua visita
fazia sentido, agora que eu sabia os detalhes da minha
própria herança.

Porque, assim como eu acreditava que meu avô era


todo-poderoso, era uma coisa que ele não podia
controlar. Pelo menos não totalmente. Porque no vigésimo
primeiro aniversário da minha mãe, ela recebeu o controle
majoritário da Vinícola Guardia. A meu avô foi dado
meramente um subsídio que ela ditou.

Uma coisa que eu não sabia era que meu avô adotou o
sobrenome da minha avó. Ela se chamava Sofia Guardia,
minha homônima. Ele nunca foi chefe da família. Não
realmente. Mesmo que ele fizesse parecer que ele
era. Imaginei que quando minha avó morreu antes mesmo de
eu ter nascido, ele continuou a receber seu subsídio e vivia
na casa da família, mas só por causa da minha mãe. Ela era
a herdeira. Ele não tinha nada sem ela.

E agora que ela se foi, ele não tinha nada sem Lina e eu.

Isso foi o que Raphael me deu. História. História e prova


da desonestidade do meu avô. Ele estava nos roubando. Ele
roubou da minha mãe, e agora estava roubando de Lina e
eu. Ele até tinha uma conta offshore3 para a qual ele
transferia somas de dinheiro muito pequenas para ser notado
e ainda grande o suficiente para sustentar seu estilo de vida
luxuoso.

Porque ele precisava disso? Ele já tinha tudo o que


queria, não?

Minha mãe fugindo significava que meu avô perdera o


controle, pelo menos por um tempo. Era natural que ele fosse
o nosso guardião quando nossos pais morreram. E com a
gente, meu avô retomou o controle que perdera.

Nos sentamos em nossos assentos na primeira classe,

3
Contas utilizadas para evitar o pagamento de impostos e manter sob sigilo a
identidade de seus proprietários.
olhei para o homem sentado ao meu lado. Este estranho com
quem eu me casaria. Um homem com quem eu teria que
viver. Eu não sabia o que era esperado de mim. O casamento
teria que ser no papel. Eu representava metade da fortuna
Guardia para ele. No meu vigésimo primeiro aniversário, eu
herdaria. E ele roubaria essa herança, assim como meu avô
esteve fazendo toda a minha vida.

O que aconteceria comigo depois dos três anos?

Nos últimos seis meses, eu passei todo o tempo que


pude aprendendo o máximo sobre Raphael Amado e a sua
família. Eu sabia sua idade, tinha vinte e quatro anos, e tinha
dois irmãos, sendo um o seu gêmeo. Sua família tinha duas
casas, uma nos Estados Unidos e outra na Itália, onde
passaram a maior parte de sua infância.

Sua mãe era italiana, seu pai americano, e Raphael e


seus irmãos nasceram na América. Eu sabia que, há seis
anos, ele perdeu a mãe em um incêndio intencional causado
por seu pai em sua casa na Toscana. E eu sabia que poucos
meses após o incêndio, Raphael foi acusado do assassinato
de seu pai. Ele passara seis anos preso em uma penitenciária
italiana por isso, e apenas oito meses atrás a decisão fora
revogada e o nome de Raphael limpo.

Ele não perdeu tempo em vir para mim, não é?

Mas o que meu avô lhe deve? Isso, eu não sabia.

Soube que seu pai fora um criminoso com laços com


algumas pessoas más. Eu sabia que ele fora acusado de um
incêndio criminoso, mas morreu antes que pudesse ser
julgado. A mãe de Raphael morreu no incêndio, e eu sabia no
meu coração que a morte dela e, talvez a forma em que ela
morrera, causou a ira de Raphael. Foi o estopim, precipitando
a morte de seu pai.

Mas olhando para ele agora, eu não via essa violência.

No entanto eu tinha que ter cuidado. Eu não poderia


romantizar esse bandido. Não podia me permitir ser
enganada por sua aparência.

— Você vai me encarar durante todo o voo? — Ele


perguntou sem olhar para cima.

Pisquei, percebendo que eu estava fazendo exatamente


isso e não tinha passado despercebida.

— O que meu avô lhe deve?

Ele dobrou o jornal e virou-se para mim.

— Ele não mencionou nada?

Ele agiu de modo casual, mas eu sabia que não era.

— Você sabe que ele não mencionou.

— Você entendeu o que estava no envelope?

— Eu não sou estúpida, Raphael. Eu entendo o que você


quer que eu acredite.

— Que o seu avô é um ladrão?

Eu balancei a cabeça, ainda não tinha certeza. Ainda


processando tudo.

— Os jornais disseram que você matou seu pai.

Ele ficou tão quieto, era como se estivesse esculpido em


pedra. Levou um minuto até que ele limpou a garganta e
falou, e eu sabia que havia mais do que o que eu li na
internet.

— Eles disseram?

Eu procurei seus olhos, como mares profundos e


tempestuosos. Águas tumultuosas que poderiam me lançar
contra penhascos e me dizimar.

— Você me disse que estava me dizendo a verdade na


outra noite. Eu estou pedindo isso agora. — Fiz uma
pausa. — Você me deve a história completa...

— Eu não lhe devo nada, — disse ele calmamente.

— O seu pai iniciou o incêndio? Foi provado?

— A mídia adora fazer um show, não é?

Ele abriu o jornal novamente e se afastou de mim, me


dispensando.

— Você o culpou pela morte da sua mãe, — Eu disse,


embora não tivesse certeza. Eu só li artigos de jornais e
trechos de registro público, a maioria estava incompleta.

— Isso me absolve, então? Uma vida por outra?

— Eu não sei se você está procurando absolvição,


Raphael.

Ele olhou para mim novamente e curvou a cabeça.

— Menina inteligente.

— Os registros do julgamento desapareceram. Eu não


sei mais nada.
— Talvez seja o melhor.

— Você perdeu sua mãe alguns meses antes. Seu pai foi
acusado pelo incêndio que quase destruiu não só a sua casa,
mas todo o seu legado. Dizimando a história de sua família.

— Não faça de mim um santo. Eu não sou.

— Eu sei que você não é nenhum santo. Eu só quero


saber o que o meu avô tem a ver com isso.

Ele dobrou o jornal novamente e desta vez, o colocou no


bolso do assento.

— Se você está tão curiosa, então por que não


perguntou a ele?

Porque eu estava com medo de sua resposta.

Deixei cair o meu olhar.

— Você não tem dúvidas mais relevantes? Questões que


dizem respeito a você, e o seu destino? As minhas
expectativas no que refere à minha esposa?

Esposa.

Eu sabia onde ele queria chegar.

— Eu posso opinar em qualquer coisa? — Eu perguntei


sem pensar. — O contrato. — Esclareci, olhando para ele. —
O casamento. — Eu vacilei. — O que vai... — Limpei a
garganta. — Será que vai ser apenas no papel? — Eu forcei as
palavras.

Seu olhar passou por mim, e um pequeno sorriso surgiu


em sua boca.
— Você me surpreende. O que exatamente a sua
cabecinha suja está imaginando, Sofia?

Engoli seco, recuando.

Ele sorriu plenamente.

— Bem, o que? Eu definitivamente estou curioso sobre


isso.

— Não!

Quando senti a cor drenar do meu rosto, a aeromoça


veio anotar nossos pedidos de bebida.

— Champanhe? — Perguntou.

— Eu tenho dezoito anos, — eu lembrei estupidamente.

Ele sorriu.

— Vodca, então.

Ele estava brincando? Ele se virou para a aeromoça.

— Água com gás para minha noiva e um uísque puro


para mim, por favor.

Noiva.

— Indo para a Itália se casar?

Raphael sorriu e assentiu.

— Oh, que romântico! Parabéns!

Ela deve ter visto a expressão no meu rosto porque ela


rapidamente limpou a garganta e se foi.

— Eu não sou um monstro, Sofia, — disse Raphael,


toda brincadeira desaparecendo de suas feições.
— Mas o que você vai fazer comigo...

— Passei os últimos seis anos da minha vida atrás das


grades. A ganância do seu avô destruiu a minha família e
quase me destruiu. Pense nisso ao invés da sua vidinha
mesquinha.

— Eu... — Eu o quê? O que eu queria dizer? Que a


minha vida não era mesquinha? Que eu me importava? Que
eu pensava em outras coisas e não apenas em mim mesma?

— Pergunte-me o que foi ser preso por matar um


assassino. Pergunte-me o que foi passar seis anos na prisão
apenas para ter o veredito anulado.

— Raphael...

— Me pergunte.

— Eu não preciso. Imagino que tenha sido terrível.

— Pior do que você pode imaginar. Pior do que eu


poderia ter imaginado.

Eu procurei seus olhos, que perderam toda a sua


arrogância, toda a sua frieza. Não havia espaço para nenhum
dos dois, não com a dor que os enchia. Foi nesse momento
que as coisas mudaram para mim. Isso me fez vê-lo como
algo mais, algo diferente de um animal.

— Não me faça pagar por isso. Por favor, — Eu disse,


minha voz tão fraca quanto eu me sentia.

Ele só me olhou, e eu podia ver a batalha por trás de


seus olhos. Esta guerra do bem e do mal.

— Não faça um santo fora de mim. Eu não sou.


Eu balancei a cabeça com a lembrança de suas
palavras. Não, eu não poderia fazer isso. Ele mesmo me
avisou. Eu era uma jovem inexperiente. Raphael era um
homem. Um homem que matou. Eu era provavelmente uma
brincadeira para ele. Um tédio. Ele provavelmente só
transaria comigo para passar o tempo.

— Por que você veio me ver na escola? Por que você me


contou sobre o meu avô nos roubando?

— Porque era verdade. Isso é uma coisa que você vai ter
comigo, Sofia. Verdade. Eu não vou mentir para você.

— E daí? Quero dizer, isso não torna nada mais fácil.

— Não se trata de ser fácil. Não é fácil.

— Você me odeia tanto assim?

— Eu não odeio você. Eu odeio o seu nome, — ele


retrucou.

Sua raiva súbita me assustou. A aeromoça voltou com


nossas bebidas e deixou o cardápio do jantar. Eu peguei o
meu, mas não me preocupei em olhar para ele. Eu sabia que
ele também não olharia, embora sua atenção parecesse
fixada no cardápio.

— A última vez que nos vimos, você me disse para


esquecer o que aconteceu. Eu disse que não era uma
opção. Isso não significa que eu não quero que seja, — disse
ele. — Há coisas que eu daria anos da minha vida para
esquecer, Sofia.

Essas últimas palavras que ele falou tão baixinho, me


fizeram parar. Fizeram-me estudá-lo, seu rosto, seus olhos,
que ele manteve no cardápio, em vez de olhar para
mim. Parte de mim o compreendia. Entendi porque ele sentia
que tinha que fazer isso. Não que isso fosse certo, não de
qualquer forma. E eu ainda seria a única punida por pecados
que não cometi. Eu seria a ún...

Ele interrompeu meus pensamentos quando se virou


para mim de repente.

— Não tem que ser terrível para você. Três anos, então
você estará livre. Um casamento somente no papel. Vou até
certificar-me de que você não esteja na rua depois disso, se
você for uma boa menina.

O azul de seus olhos brilhou. Tanta emoção passando,


como um furacão mortal por trás deles.

— E se eu disser não? — Perguntei.

Ele levou um momento para responder, e ele só


respondeu depois de estudar meu rosto, meus olhos.

— Você já disse que sim.

— Eu posso mudar de ideia.

— Essa conversa é um desperdício de tempo. Você não


vai mudar de ideia, porque se o fizer, eu vou destruir sua
família. Mesmo que você não se importe que o seu avô vá
apodrecer na cadeia, você se preocupa com a sua irmã.

Ele disse isso com tanta maldade, tanto ódio, que eu


fisicamente senti náuseas com suas palavras.

— Você e Lina são muito próximas.


Foi uma mudança abrupta de assunto, que me
surpreendeu.

— Eu a amo. Eu farei qualquer coisa para protegê-la. —


Eu deixei cair o meu olhar para o meu colo.

— Eu sei. Isso é o que torna isso tão fácil.

A aeromoça voltou para pegar nosso pedido de jantar, e


o homem que eu vislumbrei, aquele sob o ódio, desapareceu.

— Eu não estou com fome, — eu disse, devolvendo o


cardápio.

— Ela vai querer bife. Nós dois vamos.

— Eu disse que não estou com fome.

— Você precisa comer.

— Estou bem.

— Bife, — Ele repetiu para a aeromoça.

— Eu não como carne vermelha.

Ele olhou para mim como se ele não acreditasse, mas


seguiu em frente.

— Faça frango para a minha noiva, então. E outra


bebida para mim, por favor. Obviamente vou precisar de
mais.

Ela assentiu e se afastou.

— Eu não estou com fome. Eu não vou comê-lo.

— Você irá. Você está muito magra.

— Antecipação do meu futuro.


— Ui.

— Se isso é verdade, o que você falou sobre os atos de


meu avô, nos roubando. — Dizer isso em voz alta tornou
real. — Posso proteger a herança de Lina?

Ele deu de ombros.

— Eu posso ajudá-la, ou eu posso te machucar. Escolha


as batalhas que você luta comigo com cuidado.

O que diabos isso significa?

— Diga-me uma coisa. — Ele se aproximou para


sussurrar. — Uma menina bonita como você, deve ter tido
namorados naquela escola, não é?

Toda a seriedade desapareceu. Ele era novamente o


Raphael pretencioso, arrogante e idiota. Eu olhei para ele, em
seguida, desviei o meu olhar para a janela e o céu
escuro. Nós estávamos voando durante a noite.

— Nenhum namorado?

— Não é da sua conta.

— Vamos lá, é um longo voo. E vão ser longos três anos.

— Não era permitido. Além disso, os meninos da escola


não me interessavam.

— Eu imagino. Você parece mais velha do que sua


idade. Você precisa de um homem para controlá-la.

Eu o enfrentei.

— E você acha que é esse homem? — Perguntei,


inclinando a cabeça para o lado.
— Eu acho.

Lambi meus lábios e bebi minha água. Seu olhar caiu


para a minha boca, e o seu olhar fez a minha barriga vibrar,
meu rosto corar com o calor.

— Eu vi como seu corpo reage a mim, Sofia, — disse ele


em um sussurro ameaçador. — Você sabia que a excitação
tem um perfume? O seu é adorável. Suave. Virginal, talvez?
— Ele perguntou, examinando.

Eu não respondi, mas eu provavelmente não precisei,


não com o quão quente eu me sentia de repente.

As sobrancelhas de Raphael levantaram-se e ele pôs a


mão no meu joelho e deslizou-a ao longo da minha coxa. Eu
deveria ter usado jeans. Um grande e folgado par de
jeans. Em vez disso, eu estava com um bonito vestido de
verão.

Eu empurrei a mão dele.

— Não me toque. Meu corpo não reage de forma alguma


a você.

— Eu discordo. — Ele fez cócegas na parte de trás do


meu joelho. — Mesmo agora, suas pupilas estão dilatadas,
seus mamilos estão duros, você está lambendo seus
lábios. E…

Ele trouxe a boca ao meu ouvido, então inclinou o rosto


para beijar o pulso latejante no meu pescoço, fazendo minha
respiração parar.

— Seu coração está batendo loucamente, — ele


sussurrou.

Estremeci. Sua respiração enviou arrepios para a parte


de trás do meu pescoço e calor entre as minhas pernas.

Eu o empurrei para longe quando a aeromoça se


aproximou para montar as nossas mesas individuais para o
jantar. Ele sorriu para mim, obviamente gostando do meu
desconforto, e quando a atendente saiu, ele se inclinou
novamente.

— Alguma vez você já teve um orgasmo, Sofia? Você


deslizou seus dedos dentro de sua calcinha e se tocou
enquanto estava deitada em sua cama à noite, pressionando
seu rosto no travesseiro para abafar seus gemidos de prazer?

Ele lambeu os lábios e pegou o copo, olhando para mim


por cima da beira.

— Alguma vez você já sentiu o toque de um homem? —


Ele sorriu. — O olhar no seu rosto está me dizendo que
não. Não me diga que estou certo. Que você é uma virg...

— Pare! — Eu gritei, tentando saltar do meu assento,


mas fiquei presa no meio do caminho com o cinto de
segurança em meu colo.

— Eu não acho que eles querem que nos levantemos


ainda, querida.

Cabeças se viraram para nos olhar, me


olhar. Envergonhada, sentei-me de volta.

— Eu te odeio, Raphael Amado.

Ele revirou os olhos.


— Eu não me importo, Sofia Guardia. Essa é a beleza
disto.
Sofia
No momento em que desembarcamos em Florença,
viajamos por mais de treze horas. A viagem até a propriedade
Amado levou mais uma hora e quinze minutos. Localizada
fora de Florença, ficava perto de uma cidade chamada San
Gimignano, a casa ―ou melhor, a propriedade‖ apareceu
apenas alguns minutos depois de termos saído da estrada
rural e atravessado uma grande entrada, onde havia altos
portões de ferro abertos e paredes de pedra separando a
propriedade da estrada.

Nós nos sentamos na parte de trás de um sedan escuro


com vidros fumê. Quando o motorista nos levou, eu olhei
para os dragões em cima dos dois pilares. Cada um foi
colocado de maneira diferente, um empoleirado sobre seus
quadris, e o outro pronto para voar com suas asas
largas. Ambos tinham olhos que pareciam me seguir.

Estremeci e olhei para Raphael, que tinha um olhar


estranho em seu rosto enquanto observava a paisagem, as
grandes colinas, a grama verde, as vastas extensões de terra.

— É lindo.

— Obrigado. — Ele sorriu.

Esse foi talvez o primeiro sorriso autêntico que eu vi


dele.

— Chama-se Villa Bellini. Está na família Bellini, a


família da minha mãe, há séculos. Agora pertence a mim.

— Não aos seus irmãos também?

Ele balançou sua cabeça, negando.

— Sempre fica tudo com o primogênito.

— Uau. Isso é loucura. E seus irmãos? E você é um


gêmeo, como isso funciona?

— Damon é meu irmão gêmeo, mas ele nasceu três


minutos depois de mim, o que me faz primogênito.

— Diga-me sobre eles. Damon e Zachariah, certo?

— Damon vive nas proximidades. Você vai encontrá-lo


em breve. Tenho certeza de que ele está morrendo de vontade
de conhecer a minha futura esposa, — ele disse
sarcasticamente. — Zachariah entrou para o exército quando
completou dezoito anos. Não posso culpá-lo. Eu não sei onde
ele está. Alguma missão em algum lugar, eu suponho.

— Você não sabe? Isso não te preocupa? — Ele não


respondeu minha pergunta, parecendo flutuar nas memórias
em vez disso.

— Nascemos na Filadélfia, nossos pais queriam ter


certeza de que tínhamos a cidadania americana, mas
passamos a maior parte do tempo aqui. Com a vinícola em
plena produção, era mais fácil.

— Seu inglês é fluente e você não tem sotaque.

— Nós frequentamos escolas internacionais.

— Ah! O nome Amado é português?

— Meu pai é, ou era de origem americana com


ascendência portuguesa.

— Eu pesquisei sobre isso. Significa quem ama a Deus,


— eu disse.

Seu rosto endureceu e ele virou-se para mim, sua voz


tensa quando ele falou.

— Eu não acredito em Deus, Sofia. Nenhum Deus


permitiria que acontecesse com a minha família o que
aconteceu. — Ele olhou pela janela. — Você verá a ironia
quando encontrar Damon.

— Raphael é o nome de um arcanjo. Isso é uma ironia,


considerando tudo, não é?

— Eu acho que o seu Deus gosta de se divertir às


minhas custas.

Alguns momentos depois, a casa ficou à vista. Eu não


queria estar afetada, mas antes que eu pudesse me deter, eu
emiti um som de espanto total.

— Ela precisa de reparos, — disse Raphael. — Meu


irmão fechou parte da casa. O dinheiro era.... Escasso
enquanto eu estava na prisão.
— Nós voamos de primeira classe, — eu lembrei. Ele
prosseguiu, ignorando meu comentário.

— Dezessete quartos no total, dos quais apenas seis


estão utilizáveis no momento, um pátio interior, uma grande
piscina, cozinha reformada, dentre outros.

— Dentre outros? Você presta atenção em tudo isso?

Ele virou para mim.

— Eu presto atenção.

— A casa Guardia aqui, pelo que eu sei, e porque nunca


estive lá, é mais uma fábrica destinada à colheita e produção.
Esta é linda. Elegante. É, ou era, a vinha? — Perguntei
quando o carro parou diante de uma construção que ficava
ao lado de um vasto campo do que parecia ser os restos
carbonizados de um vinhedo.

— Sim. — Ele olhou diretamente para mim. — A que


meu pai queimou. Para pegar o dinheiro do seguro. Você
queria saber o que seu avô tinha a ver com o que aconteceu
comigo. É isso. Meu pai devia dinheiro ao seu avô. Ele deu a
meu pai um ultimato, viver ou morrer, e meu pai colocou fogo
na propriedade para pagá-lo e salvar sua vida inútil. Isso
matou a minha mãe.

Ele falou as palavras rapidamente, como se determinado


a não as deixar afetá-lo.

— Ela não deveria estar lá, — eu disse. Eu li sobre


isso. Que sua mãe voltou para casa com dor de cabeça e foi
se deitar. Seu pai não sabia disso.
— Ela estava. Isso é tudo que importa. E se ela não
estivesse, a teria matado saber que ele destruiu seu
legado. Então, de uma forma ou outra, ela estaria acabada.

Ele respirou fundo e não olhou mais para mim.

— E o desgraçado não conseguiu sequer cobrir seus


rastros. O seguro não lhe pagou um centavo no final, e ele
ainda morreu.

— Por que ele devia dinheiro ao meu avô? Ele dirige o


negócio da família, porque ele...

— Quer a verdade, Sofia. Você pode suportar?

— Raphael...

— Quer saber por que seu avô concordou tão facilmente


com isto? Entregá-la a mim?

Eu aguentaria essa verdade?

— Eu tenho a prova dos negócios dele com o meu pai,


uma em particular. Ele iria preso se isso estivesse em mãos
erradas. Ele perderia tudo, e você também.

Deus. Isso não pode ser verdade. Meu avô não era tão
mau.

— Eu não acredito em você.

— Fatos são fatos.

— A Vinícola Guardia é um negócio legítimo. Um


sucesso.

— Claro, ele se esconde atrás do legítimo negócio. Sim.

— Raphael…
O carro parou. Raphael abriu a porta e saiu. Meu
cérebro girou com os fatos de Raphael, e demorei um minuto
para sair do carro. Saí e olhei para a mansão, em seguida
entrei na casa, a qual estava preta do fogo.

Era uma enorme construção de dois andares, cujas


pedras e a cor se encaixavam perfeitamente na paisagem
toscana. Na porta da frente havia três arcos, que foram
duplicados no segundo andar. Grandes janelas com ferragens
intrincadas estavam abertas em ambos os andares, e eu me
perguntava se a casa tinha ar-condicionado.

Raphael foi cumprimentar a mulher mais velha que saiu


da casa com um enorme sorriso no rosto, enxugando as mãos
no avental. Eu vi como eles se abraçaram, a observei esfregar
suas costas, em seguida, ficar segurando suas mãos e o
olhando. Ela enxugou os olhos e o soltou. Quando Raphael se
virou para mim, eu não perdi o olhar de ternura em seu
rosto, mesmo que ele fizesse desaparecer quando ele pôs os
olhos em mim.

Em seguida, alguém saiu da casa. Observei quem saiu e


retornei o meu olhar para Raphael. Eu sabia que eles eram
gêmeos, mas vê-los pessoalmente, era estranho. Incrível, que
a natureza pudesse duplicar a vida tão
impecavelmente. Damon era tão alto quanto Raphael, seu
cabelo escuro, sua constituição física grande e poderosa. A
única diferença entre eles eram os olhos. Damon parecia
gentil.

Ele cumprimentou seu irmão com um aperto de mão, e


eu pude ver pelas expressões em ambos os rostos que o
relacionamento deles estava tenso. Damon olhou para mim e
sorriu. Os irmãos se aproximaram juntos. Vê-los era quase
surreal.

— Você deve ser Sofia.

Sua voz era tão profunda quanto à de Raphael, mas


tinha um tom completamente diferente. Eu me perguntava se
era assim que Raphael soaria se ele não tivesse passado os
últimos anos de sua vida atrás das grades. Se as
circunstâncias em sua vida tivessem sido diferentes.

— Eu sou Damon Amado, irmão de Raphael. Bem-vinda


a Itália.

— Obrigada. É bom conhecê-lo, Damon.

— Damon é a minha versão ligeiramente mais


agradável.

Raphael aproximou, ficando ao meu lado e envolvendo


sua mão territorialmente na minha nuca enquanto ele olhava
para seu irmão.

— Santinho e tudo mais.

Damon não respondeu à provocação de seu irmão, mas


desviou o olhar para mim.

— Raphael tem sido muito reservado sobre você.

Eu vi no seu olhar, que ele sabia que isso não era


nenhum romance normal. Na verdade, nem era um romance.

— Eu estou ansioso para conhecê-la, — acrescentou


Damon.
Raphael bufou.

— Incrível como duas pessoas que compartilharam um


útero podem ser tão diferentes, não é? — Ele perguntou a
ninguém em particular.

Damon continuou conversando, me tomando de


Raphael e me conduzindo para a casa.

— Você sempre me terá como um amigo, Sofia, — Ele


disse calmamente.

Eu não tinha certeza se eu era a única ouvindo, mas a


maneira como ele disse, fez meus olhos lacrimejarem.

— O que foi que eu disse? Santinho, — Raphael


resmungou, batendo seus ombros nos de Damon quando ele
passou.

— Esta é Maria, ela é a cozinheira e praticamente


administra tudo que tem a ver com a casa, — disse Damon,
apresentando-me à mulher mais velha. — Ela esteve com a
nossa família desde que me lembro.

É por isso que há uma ligação óbvia entre ela e Raphael.

Ela me deu um sorriso cortês e disse algo em italiano.

— Só fala italiano, no entanto.

Raphael me tirou de seu irmão. Eu me senti como um


ioiô.

— Eu estudei um pouco de italiano. — Eu


disse. Libertando-me de Raphael, eu cumprimentei a mulher
com o meu italiano razoável, e eu pude ver pelo seu olhar que
ela apreciou.
— Vou levá-la para dentro. Maria fez o almoço, então
você terá que esperar para se acomodar.

Quando entramos, três homens surgiram do canto da


casa. Raphael falou com eles em italiano e apertou suas
mãos, em seguida, virou-se para mim para me dizer seus
nomes, não me apresentando, apenas me dizendo quem
eram. Primos, aparentemente, que trabalhavam para ele. Não
consegui gravar seus nomes. Eu só me lembrava do nome do
primeiro: Eric.

O cheiro de comida flutuando da cozinha fez o meu


estômago roncar. Mesmo se eu morresse, poderia comer o
que quer que fosse que essa mulher estivesse cozinhando.

— Eu não posso ficar. Estão me esperando no


seminário, — disse Damon. — No entanto, eu queria vir aqui
para conhecê-la.

Seminário?

— Estarei de volta dentro de alguns dias. Se você


precisar de qualquer coisa...

Antes que eu pudesse responder, Raphael respondeu.

— Ela não precisará, — disse ele, interrompendo-o.

De qualquer maneira Damon tirou um cartão e


entregou-me, como se Raphael não tivesse falado
nada. Imaginei muitas pessoas não fazendo isso com
Raphael.

— Meu número de telefone celular está na parte de trás,


e você pode sempre me encontrar aqui também.
Eu olhei para o cartão. Seminário St. Mark com um
endereço de Florença.

— Você é um padre? — Foi essa a ironia que Raphael


mencionou?

— Estudando. Ainda não ordenado.

— Oh. — Eu olhei para ele com novos olhos.

Raphael me puxou para perto e, como se tivesse lido


minha mente, disse:

— Ele não é tão bom. Não se deixe enganar, Sofia. Posso


dizer-lhe agora para ser cautelosa com qualquer homem
Amado.

Damon revirou os olhos para seu irmão.

— Adeus, Raphael. Acredite ou não, é bom tê-lo de volta


em casa, — disse ele. — Eu acho que será bom para você
estar aqui.

Raphael estudou seu irmão, e por um momento, pensei


que ele poderia dizer algo remotamente humano, mas ele não
o disse. Em vez disso, ele parou de olhar e o dispensou.

— Adeus, irmão.

Damon saiu, e Raphael me conduziu para dentro, onde


o motorista já estava carregando nossas malas para o andar
de cima. Eu tive um momento de pânico, me perguntando
como seria feito na hora de dormir. Nosso casamento seria só
no papel, mas isso significaria que ele não tentaria me
tocar? Isso significaria que ele teria outras mulheres?

Olhei em sua direção, percebendo que ele não teria


problemas em encontrar tantas quanto ele quisesse, casadas
ou não.

— Posso ter alguns minutos sozinha? — Saiu mais duro


do que eu pretendia.

Raphael se virou para mim.

— Eu gostaria de jogar água no meu rosto e trocar de


roupa antes do almoço, — eu acrescentei.

Ele assentiu.

— Vou levá-la para o seu quarto.

Meu quarto.

Isso confirmava que não estaríamos compartilhando?

Raphael disse algo para Maria, que foi para a cozinha, e


ele me levou até as escadas para o segundo andar. Enquanto
subíamos eu olhava tudo, absorvendo cada detalhe.

— Quantos anos tem a casa?

— Mais de trezentos.

— O edifício mais antigo em St. Sebastian tinha setenta


anos.

— Eu vou lhe mostrar tudo mais tarde. — No patamar


do segundo andar, eu vi os arcos que combinavam com
aqueles na porta da frente e deixavam entrar a luz do sol de
um céu muito azul.

— Você deve ter uma vista incrível em noites claras.

— Nós temos.

Raphael parecia nostálgico. Quase triste. Pelo menos


durante um milésimo de segundo.

— Por aqui.

Eu o segui pelo corredor até a terceira porta. Ele abriu, e


eu entrei. Minhas malas já estavam dispostas em suportes de
bagagem, que eram as únicas coisas modernas no grande
quarto com uma cama king-size, coberta por cortinas
penduradas no teto, com cabeceira alta de madeira
esculpida. Azul era o tema deste quarto, e as cortinas nas
janelas pitorescas combinavam com a cabeceira. As janelas
estavam abertas, e eu percebi o quão quente estava lá fora, a
casa em si parecia razoavelmente fresca, mesmo que tivesse
um ligeiro cheiro de mofo. Raphael pareceu notar o mesmo
que eu.

— O quarto não era usado há algum tempo.

— É lindo. — Eu girei, observando tudo, imaginando


quantos anos a mobília tinha.

— O banheiro é aqui.

O segui para um cômodo adjacente, não muito grande,


mas grande o suficiente para abrigar uma banheira separada
do chuveiro. Mármore branco com veios de ouro cobrindo o
chão, teto e paredes, embora os acessórios parecessem
bastante antigos. Ele abriu a torneira.

— Totalmente reformado. Você deve ficar muito


confortável.

— Nós estaremos… Hum… Não importa.

— O que?
Eu hesitei, limpei minha garganta, e fiz a pergunta. —
Vou continuar neste quarto quando nos casarmos?

— A ideia de compartilhar minha cama desagrada você?

— Eu.... Você disse...

Ele riu.

— Não se preocupe. Eu não estou acostumado a ter que


forçar as minhas mulheres.

Imaginei que significava um sim, eu continuaria neste


quarto. Mas também me senti como uma idiota.

— Eu não quis dizer...

— Não demore muito. — Ele saiu do banheiro. — Vamos


almoçar lá fora. Você saberá chegar lá?

— Eu acho que consigo lidar com um conjunto de


escadas e uma saída.

— Eu acho que a educação de sua escola particular


servirá de alguma utilidade finalmente.

Eu era a única que me sentia como uma idiota?

Ele me deixou sozinha, e eu fui até a janela e vi Maria e


duas mulheres servindo um grande banquete que eu juro,
poderia alimentar uma dúzia de pessoas, mas estava sendo
servido apenas para duas pessoas.

A escura cabeça de Raphael apareceu, e vi quando as


duas meninas ajudando Maria quase fizeram uma reverência
para ele. Ele apertou suas mãos, e sua risada ressoou até o
meu quarto. Por alguma razão, um sentimento parecido com
ciúme apertou meu estômago.

Ele olhou para cima, um momento depois, me


surpreendendo. Afastei-me, envergonhada, balancei a cabeça,
e abri uma das minhas malas, pegando minha roupa e
vestindo-me antes de ir almoçar. Eu precisava de um
chuveiro e uma soneca, obviamente. A exaustão estava me
fazendo pensar e sentir as coisas que de nenhuma maneira
eu deveria pensar ou sentir.

A diferença do fuso horário dificultou o meu sono,


então, quando eu acordei às três horas da manhã,
aproximadamente, eu não fiquei surpresa. Depois de revirar
na cama durante meia hora, eu desisti. Eu estava bem
acordada.

Jogando as cobertas para o lado, me levantei e fui para


uma das janelas, empurrando a cortina, vendo o rico e
aveludado céu azul-escuro, salpicado de estrelas
cintilantes. Mais do que eu via em casa, mais do que na
escola. Era uma noite clara, e eu senti como se pudesse olhar
para ele para sempre. As poucas nuvens que flutuavam
passavam pelo brilho prata ao luar.

Os jardins estavam quietos, e eu vi mais uma vez as


sombras da vinha em ruínas. Parecia impossível que o pai de
Raphael a queimasse. E mais impossível ainda que ele o
fizesse para pagar meu avô por uma dívida.

Eu não sabia muito sobre o processo de cultivo de uvas


ou fabricação de vinho. Parecia estranho agora, considerando
que era aonde o dinheiro da minha família vinha. Eu me
perguntei se ele poderia recomeçar a plantação, reutilizando a
terra. Parecia um desperdício e uma vergonha deixá-la morta.

Embora se encaixasse, de certa forma. Uma parte de


Raphael estava morta também. Estremeci e soltei a cortina,
envolvendo-me em meus braços. Peguei um suéter que
pendurei no encosto da cadeira, coloquei-o sobre meus
ombros, e calcei um par de chinelos. Eu iria para a cozinha e
faria uma xícara de chá.

Eu olhei para a direita e para a esquerda, mas o


corredor estava quieto. Eu me perguntava qual era o quarto
de Raphael enquanto eu descia as escadas e ia para a
cozinha, que foi ampliada e, a julgar pela parede, parecia ter
cerca de duas vezes o tamanho original. Eu abri a porta e
entrei, acendendo a luz. Parecia quase assustadora agora,
apenas comigo aqui, mas eu deixei esse pensamento de lado
e encontrei a chaleira, enchi-a com água e coloquei sobre
uma das seis trempes, acendendo-a.

Eu, então, comecei a procurar canecas e saquinhos de


chá. Foi quando uma luz externa se acendeu, me
assustando. Um detector de movimento? A porta se abriu
antes que minha imaginação pudesse trabalhar, Raphael
entrou. Ele parou na porta, tão surpreso por me ver quanto
eu estava por vê-lo.

Ele parecia diferente, seu cabelo bagunçado, o rosto


relaxado, sem a arrogância habitual. Ele usava jeans e uma
camiseta branca apertada com decote em V, que abraçava
seus ombros e braços, dando-me um vislumbre dos músculos
por baixo dela.

Engoli seco.

Ele limpou a sujeira de seus sapatos e os tirou, em


seguida, entrou e fechou a porta.

A chaleira assoviou, mas tudo que eu podia fazer era


olhar para ele. Ele ergueu as sobrancelhas, e como eu não me
movi, ele veio em minha direção, pisando um pouco mais
perto, mais perto do que ele precisava. Seu peito tocou o
meu, e eu peguei o cheiro fraco de suor e graxa antes de dar
passos para trás, tanto quanto o espaço permitiu.

Ele sorriu.

Eu sabia que ele gostava de me deixar


desconfortável. Ele parecia ter algum prazer doentio com
isso. Ele provavelmente gostava mais de brincar comigo
porque eu fazia isso ser tão fácil.

Ele desligou a trempe.

Limpei a garganta, olhando para longe. — Eu não


conseguia dormir. Pensei em fazer um chá.

Ele acenou e estendeu a mão sobre a minha cabeça,


com um pequeno sorriso enquanto eu me encolhia. Estando
tão perto dele, me sentia estranha.

— Por que eu te faço ficar tão nervosa, Sofia? — Ele


perguntou, colocando uma caneca no balcão.

Eu me virei e olhei para cima e encontrei uma série de


embalagens de chá no armário.
— Você não faz, — eu disse fracamente, lendo cada
caixa.

— Eu lhe disse que não esperava dormir com você. Eu


pensei que isso te deixaria mais tranquila.

Concentrei-me em abrir um saquinho de chá.

— A menos que você queria que eu dormisse. Eu estou


aberto a ideias, é claro.

— Você gosta de brincar comigo, — Eu disse, olhando a


água, enquanto enchia minha caneca.

— Eu gosto. É tão fácil.

Ele pegou a chaleira e foi até a pia. Em seu caminho até


lá, ele olhou para sua camisa, que estava manchada com a
sujeira. Ele a puxou sobre a cabeça e deixou-a cair em uma
rampa junto a uma das paredes. Uma rampa da
lavanderia. Eu tinha uma no meu quarto também. Ele estava
de costas para mim, esfregando as mãos e jogando água no
rosto. Eu não tinha certeza se foram às marcas que eu notei
primeiro, finas linhas prateadas cobrindo sua pele, ou seus
poderosos músculos flexionando com o movimento.

Quando ele se virou para mim, eu engoli seco, forçando


minha boca a ficar fechada. Eu nunca vi um homem parecido
com ele pessoalmente antes. Ele era perfeito, seu rosto, seu
corpo

— Perfeito com exceção daquelas inúmeras cicatrizes.

— Você pode me jogar a toalha?

— O que?
— A toalha. Atrás de você.

Eu me virei.

— Oh. — Eu me senti estúpida, confusa. Como uma tola


inexperiente. Eu joguei a toalha, e ele pegou. Tudo o que eu
podia fazer enquanto ele se secava era vê-lo, concentrando-
me em suas mãos.

As mãos dele.

Grandes e calejadas e....

Eu balancei a cabeça para clarear meus


pensamentos. Como eu poderia estar atraída por esse
homem?

— Eu vou lá para cima.

— Não.

Ele andou até o outro armário e encontrou um copo e


uma garrafa do que eu imaginava ser uísque.

— Sente-se.

Ele sentou-se à mesa, então, como eu ainda não tinha


me movido, ele empurrou uma cadeira com o pé descalço.

— Sente-se, Sofia. Eu não mordo.

Com as pernas pesadas, me juntei a ele na mesa. Ele


abriu a garrafa e derramou cerca de dois dedos no seu
copo. Ele então inclinou a garrafa e derramou um pouco no
meu chá.

— O que você está fazendo?

— Vai ajudá-la a dormir. — Ele se recostou na cadeira e


bebeu.

— Eu não bebo.

— Talvez você devesse começar. Ajuda a se soltar um


pouco.

— Me soltar? Você.... Você me sequestrou!

— Não seja dramática. Não me lembro de te nocautear e


arrastá-la. Além disso, eu não te trouxe exatamente para um
calabouço.

— Você sabe o que eu quero dizer.

— Dá um tempo, Sofia. O uísque vai ajudá-la a


dormir. Isso é tudo. — Ele parecia repentinamente cansado.

— É só que, — Eu comecei a dizer, peguei a caneca, e a


cheirei, sentindo-me um pouco envergonhada. — Eu só
realmente nunca bebi muito.

Suas sobrancelhas se ergueram.

— Estamos adicionando beber a lista de coisas que você


não fez?

Eu dei-lhe uma olhada, em seguida, baixei os olhos. Eu


sabia exatamente a que ele estava se referindo. Determinada
a não lhe dar mais uma coisa para me provocar, eu tomei um
pequeno gole. Meus lábios queimaram.

— Defina muito. Você tinha que ter festas naquela


escola, mesmo que o seu velho avô estúpido trancasse o licor.

— É claro que tivemos festas. — Eu só não participava


na maioria das vezes. Eu nunca gostei muito delas,
preferindo passar o tempo lendo ou estudando. — Eu tomei
um pouco de cerveja e vinho.

— Já provou algum dos vinhos da sua família?

Eu sorri.

— Lina e eu escapamos e bebemos um pouco no Natal.

— Meninas más, — disse ele, sua expressão novamente


zombando.

— Não tire sarro de mim.

— Você gosta de seguir as regras?

— Você gosta de quebrá-las?

— É muito mais divertido do que sempre fazer o que


dizem.

Por que eu me importava com o que ele pensava de


mim? Se ele me achava ridiculamente chata? Porque eu me
importava?

— Eu nunca dei muita atenção sobre segui-las. — E por


que diabos eu estava me defendendo?

— Então?

— Eu tenho certeza que sou muito chata, considerando


sua história colorida. — O rosto dele endureceu e eu desejei
não ter dito isso. O que aconteceu com seu pai, que não era
culpa dele. Eu sabia. — Eu sinto muito. Eu não queria...

— Está tudo bem. — Ele terminou sua bebida e serviu


outra.

— Onde você estava? — Perguntei, dolorosamente


consciente de sua beleza nua do outro lado da mesa,
tentando não olhar.

— Maria me disse que eles estavam tendo alguns


problemas com a caminhonete de serviço. Eu fui dar uma
olhada.

— Caminhonete de serviço?

— Há campos do outro lado da propriedade. Nós


vendemos o feno para os fazendeiros locais. Eu vou te
mostrar mais tarde.

— Esse dinheiro sustenta a casa?

Ele riu.

— Nem mesmo perto. Quando minha mãe faleceu, ela


deixou para meus irmãos e eu uma herança considerável. A
maior parte dela foi para a reparação da casa. Não há muito
sobrando para manutenção após o incêndio. Felizmente,
tenho outras fontes de renda.

— Outras fontes, acordos como o meu?

— Bem, eu não tenho outras noivas no armário, mas


sim, eu suponho.

— Você conseguiu consertá-la?

Ele parecia confuso.

— A caminhonete, quero dizer?

— Você realmente quer saber sobre a


caminhonete? Você não tem outras perguntas, nada mais que
você prefira falar?
Eu tinha cerca de um milhão. Eu só tinha que reunir
minha coragem para perguntá-las.

— Eu menti antes. Você me deixa nervosa, Raphael. —


Eu não sei por que eu disse isso, eu só sabia que precisava.

Sua expressão mudou. Ele não esperava isso.

— O que você acha que vai acontecer com você? O que


você acha que eu vou fazer?

— O que você quiser.

Ele sentou-se mais à frente, apoiando um cotovelo na


mesa, o queixo na mão. Seus olhos, azuis tão brilhantes, me
estudaram de perto, fazendo-me me perguntar se eles
poderiam penetrar através de mim, pegando os meus
pensamentos antes que eu tivesse a oportunidade de
processá-los.

— Eu não vou te machucar, Sofia.

— Por que você teve que me trazer, então?

Ele se inclinou para trás em sua cadeira.

— Isso novamente.

— Desculpe aborrecê-lo, mas é da minha vida que


estamos falando.

— Eu te fiz um favor. Abri os seus olhos.

— Ao dizer-me que meu avô é um ladrão. Que ele está


roubando a minha irmã e eu.

— Você prefere enterrar a cabeça na areia? Isso não


muda as coisas. Cresça, porra. — Ele tomou todo o uísque.
Eu empurrei a cadeira para trás.

— Foda-se, Raphael. Você tenta se colocar no meu lugar


por uma fração de segundo, e então me diga para crescer, —
Eu disse, de pé.

— Sente-se, — ele rosnou.

— Não.

— Só se sente porra. Pergunte-me alguma coisa. Algo


diferente.

— Você vai deixar de ser um idiota?

Ele me deu um sorriso torto.

— Eu vou tentar, mas sem promessas. É a minha


natureza.

Eu hesitei.

— Sente-se e converse comigo, — Disse ele finalmente.

Eu não tinha certeza se era seu tom ou suas palavras


que me fizeram obedecer, que me fizeram sentar e encontrar
seus olhos e me sentir, pelo menos um pouco mais em pé de
igualdade, pela primeira vez com este homem.

Ele balançou a cabeça em reconhecimento.

— É este o lar para você? — Perguntei.

Ele inalou profundamente. Ele demorou a responder, e


eu pensei sobre o que ele me disse mais cedo, o que ele
prometeu. Verdade.

— Sim, eu acho que é.

— Por quê?
— Porque é onde as coisas eram boas. É onde eu me
lembro da minha mãe. Onde eu me lembro dos meus irmãos
e eu quando crianças. — Ele fez uma pausa. — Lembro-me
de ser feliz na maior parte.

Ouvi-lo dizer a última parte, foi estranho. De certa


forma, quase me machucou ouvir isso. Eu senti a solidão
saindo dele, e percebi que estava sempre lá, cada vez que eu
estava com ele. Não importa o que, não importam as razões
insanas que me levaram a estar sentada nesta bela casa na
Toscana em frente a esta bela besta no meio da noite, era o
que eu sempre senti nele. Solidão.

Talvez por isso eu tivesse tantas perguntas a


fazer. Talvez fosse por isso que eu quisesse conhecê-lo. Era
ingênuo, eu sabia disso, e aquela pequena voz dentro da
minha cabeça soou o alerta de novo, mas eu senti sua dor,
logo abaixo dessa superfície fria e isolada.

Raphael sofreu. Ele sofreu muito.

— É normal sentir falta da sua mãe, — Eu disse. — E de


seus irmãos e o passado.

Ele pareceu confuso por um momento, e tudo que eu


podia fazer era pensar o quanto do que eu acabei de dizer se
aplicava a mim também.

Nós ficamos sentados tranquilamente, e eu terminei


meu chá. Raphael inclinou minha caneca para olhar dentro
dela, e antes que eu pudesse impedi-lo, ele serviu mais
uísque nela. Não muito, talvez metade do que ele servira a si
mesmo. Ele a devolveu e eu a peguei. Tomar um gole puro foi
mais difícil do que quando estava misturado com o chá, mas
eu tomei, gostando do calor, da sensação de formigamento na
minha coluna, relaxando um pouco.

Fui eu quem finalmente quebrou o longo silêncio com


uma confissão minha.

— Quando minha mãe tinha dezessete anos, ela fugiu


com meu pai. Ela fugiu do meu avô porque ela estava grávida
de mim. — Eu o senti me observando, e eu me perguntava
por que eu disse isso a ele. Embora, ele provavelmente já
soubesse a história. Na verdade, parecia que ele sabia mais
sobre mim do que eu. — Você já pensou em seu pai? Por que
ele fez isso? Mesmo que ele não tivesse a intenção de
prejudicar a sua mãe fisicamente, que ele não soubesse o
quanto isso iria machucá-la, mesmo considerando as
circunstâncias?

A temperatura na sala pareceu cair cerca de mil graus, e


lamentei a pergunta no momento em que as palavras saíram.

— Meu pai era um bastardo, um covarde, um


trapaceiro, e, finalmente, um assassino. Mas ele também
estava desesperado.

O silêncio pairou pesado no ar entre nós até que,


finalmente, eu encontrei a minha voz.

— Eu sinto muito.

Ele ergueu as sobrancelhas e inclinou o copo para mim


antes de tomá-lo.

— Você só me quer pelo dinheiro? Foi por isso que me


levou, porque meu avô não podia pagar? — Eu fiquei um
pouco mais ousada depois de engolir a última gota de
uísque. — Quero dizer, você tem que esperar até que eu
tenha vinte e um anos para consegui-lo. E se eu não ceder às
suas ações?

— Você quer que eu te queira por algo mais? —


Perguntou.

Eu olhei para ele, surpresa com a pergunta.

— A verdade, Sofia.

Meu rosto aqueceu tanto com a pergunta quanto com a


intensidade de seu olhar em mim. Eu não poderia responder-
lhe; eu não sabia o que eu queria.

— Eu nunca pensei que iria me casar... Assim. Isso é


tudo. — Peguei a garrafa e inclinei para derramar um pouco
mais.

— É só isso? — Ele perguntou, me estudando. Vendo


através de mim.

Eu girei o uísque no meu copo, em seguida, esvazie-o e


me servi um pouco mais.

— Você não deveria beber tão rápido, — disse ele.

— Você disse que eu deveria fazer perguntas


diferentes. Eu estou perguntando. Agora você tem que
responder.

Ele sorriu.

— Eu perguntei se você tinha coisas sobre as quais você


gostaria de falar. Eu não disse que eu iria falar sobre elas.
Ele pegou a garrafa e a tampou.

— Isso realmente não é justo, — Eu disse.

— A vida não é justa.

Seus olhos me disseram quão profundamente ele


conhecia a verdade.

— Você vai me machucar se eu me recusar a ceder? —


Perguntei, tomando mais uísque, sem saber por que ou de
onde essa pergunta em particular veio.

Ele me estudou, depois balançou a cabeça com um


suspiro.

— Isso é o suficiente, — Disse ele, de pé. — Para a


cama.

— Eu não terminei. — Eu estendi a mão para a garrafa,


mas ele segurou meu pulso.

— Eu disse que é o suficiente.

Eu olhei para a mão enorme enrolada no meu pulso


minúsculo. Ele poderia agarrá-la em um
segundo. Provavelmente nem sequer lhe custou muito esforço
ou energia.

— Vamos.

Ele caminhou ao redor da mesa até o meu lado. Ele


poderia saber o que eu estava pensando? Talvez, porque ele
soltou meu pulso e deslizou sua mão para a minha.

— Vou levá-la para a cama.

Ele me pôs em pé.


— Quero dizer, você vai me machucar de qualquer
maneira, não é? — Eu me soltei dele e sentei-me. Bem, mas
como cai na minha cadeira, minhas pernas muito instáveis
para me segurar.

Ele me olhou com um suspiro profundo.

— E a nossa noite de núpcias? — Saiu um sussurro. —


Isso não está certo.

— Lembre-me de nunca mais lhe dar uísque.

Limpei meus olhos. Será que ele responderia?

— Meu avô acredita que você dormirá comigo?

— Vamos, levante-se.

— Quero dizer, você pode me obrigar a fazer o que


quiser. Você é maior do que eu. Mais forte do que eu. — Meus
olhos vagaram sobre a extensão agora distorcida de seu
peito. — Talvez você até goste desse tipo de coisa.

— Eu não estou acostumado a forçar mulheres, Sofia, e


não tenho nenhuma intenção de fazer com você algo que não
queira fazer. — Ele fez uma pausa. — Já te disse, eu não vou
te machucar.

— Talvez você goste de ter poder sobre mim. Fazendo-


me submeter-me.

— Você não está fazendo nenhum sentido.

— Você poderia? É isso que você quer? Tornar-me


submissa?

Ele riu. Com uma mão na beira da mesa, ele se inclinou


sobre mim, seus olhos parecendo me estudar sempre.

— Eu acho que você está curiosa, querida, mais curiosa


do que você gostaria de estar.

Ele me chamou de querida? Minha cabeça estava


pesada.

— Mas esta noite não é para esta discussão, embora eu


adorasse tê-la com você. Vamos. Levante-se.

— Eu não estou cansada. — Por que minhas palavras


parecem arrastadas?

Seu sorriso se espalhou por seu rosto, e ele piscou


quando se abaixou em minha direção. — Droga, talvez eu
devesse te dar uísque mais vezes, ao invés de pouco. — E ele
me colocou de pé.
Raphael
Sofia parecia completamente confusa sentada ali,
estava encantadora. Quase cativante, mesmo.

— De pé. Vou levá-la para a cama. — Eu a levantei. Era


a primeira vez que eu realmente a abraçava, ela pareceu
menor, mais leve do que eu esperava. Mais frágil.

— Isso é o que você gostaria, não é?

Ela tentou ficar de pé sozinha e tropeçou, sua mãozinha


disparando em minha direção para se firmar. No momento
em que fizemos contato, nós dois paramos. Eu olhei para a
mão dela, pálida e delicada contra meu peito. Eu estava
trabalhando lá fora desde o final da primavera, então minha
pele estava bronzeada com um rico marrom dourado, fazendo
com que sua macia e branca mão, desse um belo contraste.

Eu pensei que ela se afastaria, e talvez se não tivesse


bebido o uísque, ela teria se afastado. Porra, se ela fosse
inteligente o faria. Eu estava brincando com ela até agora,
mas algo sobre sua inocência, talvez franqueza ingênua, me
intrigou. E quando ela moveu sua mão sobre o meu peito,
suavemente sentindo o toque da minha pele, deslizando-a
sobre o meu ombro, em seguida, bíceps, depois em direção ao
meu rosto, para a barba por fazer no meu queixo, eu sabia
que o que eu disse era mais certo do que ela provavelmente
gostaria de admitir. Ela estava curiosa.

— Você parece legal. — Ela balançou em seus pés. —


Mais suave do que eu pensava.

Eu sorri e envolvi um braço em volta de sua cintura.

— Você parece legal também, mas você vai se


arrepender de estar me dizendo isso na parte da manhã, —
Eu disse, levantando-a em meus braços. Seus olhos se
fecharam, e se abriram um momento depois enquanto eu a
tirava da cozinha e caminhava em direção as escadas.

— Eu não vou dormir com você, — Ela disse, se


enrolando com as palavras, e fechando os olhos novamente.

Eu ri.

— Não se preocupe. Eu não gosto das minhas mulheres


desligadas.

Nós estávamos no meio da escada quando ela colocou a


mão no meu peito de novo e levantou a cabeça.

— Muitas mulheres? — Perguntou ela.

— Você está bêbada, Sofia. — Chegamos à sua porta, e


eu empurrei abrindo-a. Ela virou o rosto para o meu peito.

Sua expressão ficou preocupada.


— Eu sou virgem, — Disse ela, balançando a cabeça. —
Estúpido, não é?

— Não é estúpido. E para sua informação, eu já percebi


isso.

— É estúpido. — Ela sorriu. — Você cheira bem, uma


mistura de trabalhador e homem.

Eu ri.

— Eu realmente espero que você se lembre de tudo isso


amanhã de manhã. — Eu puxei as cobertas de sua cama e a
sentei, tirando os chinelos de seus pés e seu suéter. Eu não
conseguia parar de olhar para o pequeno top e shorts que ela
usava e toda a pele que ficava exposta. Eu a deitei e puxei o
cobertor até seu queixo. Olhei para ela, já adormecida,
roncando baixinho. Isso me fez sorrir e, por algum motivo, eu
me inclinei para beijar sua testa. Ela não se mexeu. Eu
balancei a cabeça e saí pela porta, fechando-a atrás de mim,
então fui para o meu quarto, onde tomei um banho frio antes
de subir na cama.

Ela era doce, inocente e assustada.

E eu destruiria seu mundo tijolo por tijolo.

Ela não percebeu o que eu faria com o negócio da sua


família. Ela pensou que eu tomaria sua herança e fugiria. Ela
pensou que estava salvando sua irmã, sacrificando-se. Bem,
se ela ainda não me odiasse no momento da entrega da
herança, quando ela realmente entendesse o que eu
faria. Seria tarde demais.
Não que isso importasse. Ela estava certa quando disse
que eu não estava buscando absolvição. Eu não tinha
interesse em perdão. O ódio e a traição queimaram qualquer
bondade, qualquer honra, dentro de mim.

E eu não poderia me importar menos se ela me odiava.

Já passava das dez da manhã, quando Sofia desceu as


escadas. Maria e sua equipe já estavam ocupadas
cozinhando, e eu tinha acabado de entrar para pegar uma
segunda xícara de café. Ela estava com seu cabelo molhado
em um coque bagunçado e usava um vestido rosa pálido e
parecia mais do que um pouco desconfortável ao entrar na
cozinha.

— Bom dia, — eu disse.

Ela corou, então limpou a garganta.

— Bom dia.

— Café ou chá?

— Café, por favor.

— Pão fresco para o café da manhã? — Perguntei.

Ela olhou para o balcão, onde Maria colocou uma cesta


de pães e pequenos bolos.

— Cheira maravilhoso. — Ela olhou para Maria e repetiu


o mesmo em italiano. Foi com forte sotaque, e a sentença
estava fora de ordem, mas funcionou. Maria acenou com a
cabeça.
— Dor de cabeça? — Perguntei, certificando-me de que
ela soubesse que eu me lembrava da noite anterior.

— Estou bem.

Mentirosa.

— Bem, se você sentir mais tarde, há aspirina naquele


armário. Venha, vamos comer lá fora.

Eu levei nossas xícaras de café, e ela me seguiu. Eu a vi


olhar nos arredores, a bela ascensão e queda das colinas, os
vastos campos verdes. A vinha morta. Sentamo-nos à mesa, e
ela pegou um pedaço de pão e manteiga.

— Seu irmão disse que ia para o seminário?

— Sim. Ele quer se tornar padre.

— Ele tem apenas vinte e quatro anos. Eu acho que só


conheci sacerdotes velhos.

— Nossa mãe era uma católica devota. Ela deve ter


passado um pouco disso para ele.

— E você nem sequer acredita em Deus.

Dei de ombros.

— Você não é próximo de nenhum dos seus


irmãos. Sério? Nem mesmo de Damon que é seu gêmeo.

Eu balancei minha cabeça.

— Eu acho que não posso imaginar isso. Eu não sei o


que eu faria sem Lina.

Um silêncio constrangedor se estendeu entre nós.

— Eu tenho alguns negócios na fazenda vizinha, então


eu vou estar fora a maior parte do dia.

— Posso ir com você? Eu não quero ficar aqui sozinha o


dia todo.

— A costureira virá à tarde para ajustar seu vestido de


noiva.

— Um vestido de noiva? Eu achei que seria uma


cerimônia civil.

— Na frente de Deus e do homem.

Ela não seguiu com a conversa.

— Você disse que me levaria a um passeio.

— Mais tarde. — Olhei para o relógio.

— Já acabei. Eu não vou fazer você se atrasar.

Ela engoliu o café e deixou o pão. Ela realmente


precisava comer.

— Termine seu café da manhã. Eu posso esperar alguns


minutos.

Depois que ela comeu, liderei o caminho para a grande


garagem. Era construída no mesmo estilo da casa e tinha
espaço suficiente para três carros, mas uma parte estava
ocupada com equipamentos antigos da vinha que não eram
mais usados. No terceiro estava a caminhonete que eu estava
trabalhando, uma Chevy 1970.

— Isso é muito antigo. Ainda funciona? — Perguntou ela


quando nos aproximamos.

— Espero que sim. Fiquei até duas horas da manhã


trabalhando nela. — Eu estava acordado desde às cinco e
meia.

— Você não dormiu muito.

Dei de ombros.

Ela tocou a ferrugem e tirou uma camada de tinta velha,


então abriu a porta e entrou enquanto eu me acomodava no
banco do motorista.

— É seguro?

— Eu não te levaria nela se não fosse.

Ela me olhou quando eu disse isso, então apertou o


cinto de segurança. O motor soluçou depois rugiu a vida, e
nós partimos.

— Espero que você não se importe com o vento. — Eu


deixei as duas janelas abertas. — Não consegui consertar o
ar-condicionado.

— Não. Eu gosto do vento. Quão grande é a


propriedade?

— Cerca de oitenta hectares. Quarenta deles com


vinhas.

— Isso não está mais em uso. Que desperdício.

— É um desperdício.

— Talvez você possa começar de novo, replantar....


Reconstruir a história de sua mãe.

Minha garganta estava apertada, e foi difícil engolir.

— Estes campos aqui são alugados por vizinhos, — eu


disse, ignorando o que ela acabou de dizer.

— São vacas?

— Sim. Meia dúzia ou algo assim. Eles não têm espaço,


e nós temos, por isso é um bom negócio.

— E é bom ver os animais. Algum cavalo?

— Você monta?

Ela balançou a cabeça.

— Tive somente algumas aulas, mas eu gosto.

Eu balancei a cabeça.

— O que é aquilo? — Ela apontou na distância para um


edifício de pedra.

— Capela. Foi construída junto com a casa. — Nós


paramos no edifício, que faltava parte de seu telhado. Eu
desliguei o motor e saímos.

— Isso é incrível.

Sofia subiu os dois degraus e abriu a pesada porta de


madeira. Fiquei atrás, vendo-a observar todos os detalhes,
tocando cada superfície enquanto ela se dirigia ao
altar. Havia apenas seis bancos, três em cada lado. Era muito
pequena. O telhado cedeu em um canto, mas o altar e a
maior parte do edifício ainda estavam protegidos contra a
chuva ou a neve. Um musgo verde crescia ao longo do
exterior e em algumas das paredes internas.

— O altar está intacto.

Ela inclinou a cabeça para frente e fez o sinal da cruz,


em seguida, subiu os três degraus para pegar os tocos de vela
e fixar no altar de pedra, o crucifixo que ainda estava lá.

— Este lugar tem uma energia, — Ela disse


calmamente, não exatamente olhando para mim. — Você
sabe quando foi usado pela última vez?

— Quando minha mãe estava viva.

— Oh.

Ela andou até onde estava o confessionário, a madeira


apodrecendo.

— É quase como se houvesse cheiro de incenso nesse


espaço, como se tivesse sido queimado ontem.

Ela afastou o que restava da antiga cortina empoeirada,


para olhar para o confessionário, e depois se virou para mim.

— Você sente isso, essa energia?

Eu coloquei minhas mãos nos bolsos e balancei a


cabeça. Houve um tempo em que eu sentia. Mas isso era
passado.

— Não mais. — Ela olhou para mim como se ela sentisse


pena de mim. — Nós temos que ir.

— Se você deixar o passado de lado, talvez ele deixe você


livre.

Suas palavras me assustaram, momentaneamente, me


deixando mudo. Seu olhar me segurou, e por um instante, eu
senti inveja da esperança que brilhou dentro daqueles olhos
inocentes. Mas então a realidade me fez lembrar por que ela
estava aqui.
— Quem disse que eu quero deixá-lo ir?

Sofia parecia fisicamente esgotada. Fiz um gesto para a


porta.

— Vamos.

— Você vai repará-la? A capela?

— Não.

— Posso te fazer uma pergunta?

— Você está pedindo a minha permissão agora?

Ela encolheu os ombros.

— Suponho que estou.

— Eu não posso prometer que vou responder, mas você


é livre para perguntar.

— Que tipo de coisas você acha que meu avô está


envolvido? No avião, você disse uma coisa. Isso significa que
há mais.

— Isso significa que você acredita em mim?

— Você tem que compreender como é difícil de


entender. Ele criou Lina e eu, ele pagou...

— Ele está vivendo de suas heranças. Vocês


estão pagando por tudo.

Ela inclinou a cabeça, sacudindo-a uma vez. Eu deixei


para lá. Levaria tempo para aceitar isso. Eu poderia dar-lhe
isso. Droga, tempo era o que mais tínhamos.

— Não faça perguntas que você realmente não quer


saber as respostas. Acredite ou não, não é você que eu quero
machucar.

— Eu sou um dano colateral. Eu sei.

— Vamos.

Desta vez, ela veio sem resistência. Nós dirigimos em


silêncio até que eu passei pelos portões de uma fazenda
vizinha.

— Vamos lá, — eu disse, desligando o motor e vendo


cerca de seis crianças amontoadas no velho galpão
Lambertini. A cadela deles teve filhotes recentemente.

— Onde estamos?

— Esta é a fazenda Lambertini. São eles que alugam a


terra para suas vacas. Eu tenho alguns negócios com
Lambertini. Você terá que esperar por mim.

Lambertini se levantou, limpando as mãos em uma


toalha, o cachimbo pendurado em sua boca, o sorriso largo
em seu rosto desgastado pelo tempo quando ele veio em
nossa direção e estendeu a mão para apertar a minha.

— Raphael.

Ele me puxou para ele, me abraçando com um tapinha


nas costas.

— É bom ver você em casa, — Disse ele em italiano.

— É bom estar em casa, Sr. Lambertini.

Ele virou-se para Sofia e estendeu a mão.

— Esta é Sofia, minha noiva.

Sofia sorriu e disse olá, quando ele tomou sua mão nas
dele.

— São cachorros? — Perguntou ela.

— Por que você não vai vê-los enquanto eu tenho a


minha reunião? — Eu disse a ela.

Ela concordou e saiu. Segui Lambertini para dentro,


onde discutimos o negócio das fazendas antes que seu rosto
ficasse sério. Ele me disse que viu alguns homens algumas
semanas atrás. Imaginei que eram os homens de Moriarty,
procurando-me, agora que eu estava de volta. Ele não sabia
quem eles eram, mas pelo seu olhar, eles não foram
exatamente amigáveis, o que apenas confirmou a minha
suspeita.

— Eu vou cuidar disso, — Foi tudo o que eu disse. Meu


pai tinha inimigos, o que significava que eu tinha
inimigos. Se ele devia dinheiro, e eu tinha certeza que sim,
eles viriam atrás de mim para pagar suas dívidas.

Nós caminhamos para fora, e eu encontrei Sofia


tentando usar seu italiano com as crianças, com um dos
filhotes em seu colo.

— Fique com ele, — Disse o velho, gesticulando e


sorrindo.

Ela olhou para mim.

— Ele está dizendo que você pode ficar com um.

— O que?

Ela olhou dele para o filhote, então para mim. Ela não
queria pedir permissão para mim. Eu podia ver o orgulho em
seus olhos.

— Eu tive um cachorro uma vez, — Disse ela em vez


disso, acariciando a pequena coisa.

Eu não disse nada. Ela virou seus grandes olhos de


caramelo para a mim.

— Posso? — Ela mordeu o lábio.

Eu balancei a cabeça. Eu poderia fazer isso para


ela. Maldição, não era muito.

— Mesmo?

Seus olhos brilhavam, e ela me deu o maior sorriso que


eu já vi.

— Tem certeza? — Ela perguntou a Lambertini.

Ele assentiu.

— Muito obrigada. Obrigada!

— Nós temos que ir, — Eu disse, indo para a


caminhonete.

Ela me parou, vindo direto para mim.

— Obrigada.

Perturbado, eu olhei para ela por um minuto, depois


assenti, sentindo-me desconfortável. Até mesmo
estranho. Era apenas um cão. Nada demais.

— Basta mantê-lo sob controle, — eu disse, dando um


passo em volta dela para abrir a porta do passageiro.

— Eu vou.
Ela subiu, sua atenção totalmente sobre o cachorro. Ela
acenou um adeus quando nós dirigimos saindo.

— Lina e eu tínhamos um filhote de cachorro quando


nossos pais morreram. Eles tinham acabado de nos dar,
apenas três semanas antes de partirem. Nosso avô não nos
deixou levá-lo para a casa nova. Ele partiu o coração de Lina
com a separação. O meu também.

Eu mantive meus olhos na estrada. Todos nós tínhamos


histórias de merda.

— Sim, bem, o que posso dizer? Seu avô é um idiota.

Ela estendeu a mão para tocar o meu ombro, me


assustando. Eu olhei para ela.

— Obrigada, realmente.

— Não seja tão grata ainda. Nada vem de graça. Eu vou


pensar em alguma maneira de você me pagar mais tarde.
Sofia
Quando eu acordei esta manhã com uma dor de cabeça
e más memórias do que eu poderia ter dito na noite passada,
eu não esperava ter um sorriso de orelha a orelha mais tarde
no mesmo dia. Mas lá estava eu, com meu filhote de cachorro
indo para casa. Decidi chamá-lo de Charlie.

Raphael me surpreendeu. Mesmo que ele tenha sido


enigmático,

— Eu vou pensar em alguma maneira de você me pagar


mais tarde. — A memória me fez tremer.

Ontem à noite, o uísque me atingiu com força. Por um


lado, eu era uma consumidora inexperiente, para dizer o
mínimo, e por outro lado, o jet lag4 me deixou
exausta. Lembrei-me de quase tudo, mas esperei que
algumas partes fossem sonhos, especialmente a última parte,
quando eu lhe disse que ele cheirava bem, como um
4
Alteração corporal que ocorre após mudanças do fuso horário em longas viagens de
avião.
trabalhador, ―Eu nem sabia o que significava‖ Oh sim, como
trabalhador braçal. Deus. Que embaraçoso.

E se isso não fosse suficiente, eu também lembrava


claramente de dizer-lhe que eu era virgem. Raphael disse que
ele tinha trabalho a fazer e me deixou em casa para esperar a
costureira. Maria deu uma palmadinha na cabeça de Charlie,
mas do jeito que ela saltou quando seu nariz molhado tocou a
sua mão, eu sabia que ela não estava acostumada com
animais. Ela me deu uma tigela de água, e eu a coloquei no
canto para Charlie beber. As duas mulheres que trabalhavam
para ela, Tessa e Nicola, não se cansaram dele.

Eu olhei para elas, enquanto Maria me mostrava um


pouco de comida para dar a ele. Elas eram
bonitas. Aproximadamente da minha idade, talvez um ou dois
anos mais velhas. Estas eram as mesmas mulheres que se
jogaram no meu futuro marido. Eu não queria gostar delas,
mas eu tinha que admitir, elas eram boas para mim e caíram
imediatamente de amores por Charlie, como eu caí. Elas
foram mais agradáveis que Maria, pelo menos. A mulher mais
velha parecia ficar distante e apenas observar. Eu sabia que
seu vínculo com Raphael era, provavelmente, como o de uma
mãe. Será que ela me vê como uma ameaça? Será que ela
sabe alguma coisa sobre a nossa situação?

Quando a campainha tocou ao meio-dia, perguntei se


Charlie poderia ficar na cozinha enquanto eu estivesse com a
costureira, o que Maria permitiu. Abri a porta, e uma mulher
mais velha com cabelos brancos estava do lado de fora.
— Olá.

A costureira se apresentou com um inglês ruim e


entrou.

— Eu não sei onde o vestido est....

— Foi-me dito que estaria no seu quarto.

— Oh. — Ela sabia mais do que eu. — Eu acho que nós


devemos ir. Você gostaria de algo para beber?

— Não, obrigada.

— Certo. Por aqui então. — Ela me seguiu até as


escadas, e eu admito, minha curiosidade aumentou. Quando
chegamos ao meu quarto, vi a longa embalagem branca,
cobrindo o vestido, pendurada na porta do armário. — Eu
não vi isso, — Eu disse, enquanto ela colocava suas coisas no
chão.

— É lindo, — Disse ela, movendo-se com confiança para


desempacotá-lo. — A mãe de Raphael, Renata, o usou.

Sua mãe usou o vestido de noiva que ele queria que eu


usasse?

— Terrível como ela morreu, — ela continuou.

Eu só acenei e observei-a retirar o longo vestido de


renda da embalagem. Ela olhou e sorriu com aprovação.

— Em perfeitas condições. É da família de


Renata. Usado por pelo menos quatro mulheres.

Toquei a renda delicada e entrelaçada, perguntando-me


a sua idade. Querendo saber por que diabos ele quer que eu
use isso.

— É lindo. — O vestido tinha mangas compridas e um


profundo decote em V com uma cintura justa que se ligava
na parte de trás com uma cauda. Ele parecia ser quase do
meu tamanho.

A costureira me olhou.

— Deve caber em você. Venha.

Tirei a roupa, e ela me ajudou a entrar no vestido, então


abotoou o que parecia ser um infindável número de botões de
pérola que iam desde a minha parte inferior das costas até os
ombros. Só então ela me permitiu olhar-me no espelho.

Eu não tinha palavras. Eu nunca teria pensado que eu


usaria um vestido de renda. Não é que eu tivesse pensado
muito em meu casamento enquanto estava escola. Algumas
meninas pensavam, mas não eu.

Ele teve que ser ajustado apenas um pouco, mas não


muito. Sorri quando estendi a mão para afastar o cabelo do
meu rosto e notei que as mangas se alargavam nos pulsos,
fazendo-o parecer mais medieval. O comprimento seria
perfeito para usar com os sapatos de salto alto que Raphael
também conseguiu.

Fiquei parada enquanto a costureira trabalhava, me


perguntando onde exatamente nós estaríamos nos
casando. Ele disse na frente de Deus e do homem. Ele quis
dizer que casaríamos em uma igreja? E por que ele queria
que eu usasse isso? Será que não seria melhor guardá-lo
para quando ele realmente se casasse? Depois de mim, após
os três anos, e ele não tivesse mais compromisso comigo e
pudesse encontrar o seu verdadeiro feliz para sempre?

O pensamento me causou náuseas, na verdade.

A costureira não me furou, contudo, ela usou cerca de


cem alfinetes, eu juro que quando ela colocou inúmeros, ela
ficou muito satisfeita. Ela, então, abriu outra embalagem que
eu não tinha visto. Estava atrás do vestido. Esta continha um
simples véu branco enfeitado com rendas do mesmo
padrão. Ela tirou o grampo do meu cabelo e colocou-o sobre a
minha cabeça. Notei então como o véu estava amarelado nas
extremidades, mas o resultado não foi menos impressionante.

A porta se abriu naquele momento. Não houve nenhuma


batida. Nós duas nós viramos para encontrar Raphael parado
lá. Sua boca se abriu, e ele não falou por um longo
tempo. Finalmente, eu me movi, deslizando o véu da minha
cabeça, de frente para ele.

— Dá má sorte o noivo ver a noiva antes do casamento,


— disse a costureira com uma piscadela.

Ela estava alheia à tensão entre nós?

— Este não é um casamento comum, — eu murmurei.

Raphael limpou a garganta e afastou seu olhar de mim.

— Precisa de alguma coisa? — Perguntou à costureira.

— Não, ele está bom. Vou trazê-lo de volta dentro de


alguns dias. Não há muito para fazer.

— Bom. — Ele me olhou novamente, sua expressão


estranha, fechada. Em seguida, ele acenou, caminhou de
volta para fora, e fechou a porta. A costureira me ajudou a
me despir e cuidadosamente colocou o vestido de volta em
sua embalagem. Depois de reunir suas coisas, ela se
despediu e saiu.

Sentindo o peso do jet lag, fechei os olhos e me deitei


por alguns minutos, mas aqueles poucos minutos se
transformou em duas horas de pesadelo.

Sonhei que estava de volta em casa com Lina e o nosso


avô, mas meu avô tinha um conjunto de chifres em sua
cabeça em meu sonho. Isso e dentes amarelados,
apodrecidos. Lina estava menor, mais jovem. Mais
vulnerável. E mesmo que eu estivesse lá, parecia que eu não
estava. Eu podia assistir, mas eu não podia alcançar e tocá-
la, e ela não podia me ouvir quando eu falava, quando eu lhe
disse para correr, porque nosso avô estava perseguindo-a
pela casa.

Foi quando tive um vislumbre de mim mesma em um


espelho que eu finalmente acordei, e quando o fiz, eu estava
suando e os lençóis estavam emaranhados em meu corpo.

Eu estava usando o vestido de casamento em meu


sonho, mas não parecia o mesmo. Ele estava ensanguentado
e enegrecido pelo fogo e pela morte, e havia um cheiro tão
forte que eu juro que eu ainda podia sentir agora, como se ele
estivesse agarrado às minhas narinas.

Depois de me desenrolar dos lençóis, eu peguei meu


celular e liguei para Lina. Ela atendeu no segundo toque,
sussurrando.
— Estou tão feliz por falar com você, — eu disse.

— Eu também. Eu estive esperando pela sua ligação. Eu


não queria ligar, imaginando que você estaria confusa com a
diferença de horários.

— Não se preocupe com isso, apenas me ligue quando


quiser.

— Você também.

— Por que você está sussurrando?

— Eu estou me escondendo no banheiro. Aula de piano.

— Oh. — Sua agenda era cansativa, e a única coisa que


me deu conforto foi saber que ela realmente gostava das
aulas, ou pelo menos o resultado final.

— Como você está? Como é aí?

— Bem, — Eu disse. — É uma propriedade muito


agradável, na verdade. A família dele tem uma propriedade
aqui, ou eu acho que é dele agora.

— Você conheceu os seus irmãos?

— Apenas um. Damon. Ele quer se tornar um padre!

— Um padre?

— Eu sei, eu também fiquei chocada. Quero dizer, esta é


a família Amado. A única coisa legítima sobre eles era a
vinícola que foi destruída. Não é nenhum segredo quem era
seu pai, e o que ele fez.

— Não julgue todos eles pelas ações de seu pai.

Ela estava mais certa do que sabia, considerando as


ações do avô.

— Você é muito melhor do que eu, Lina.

— Como ele é? Raphael, eu quero dizer?

Dei de ombros. Honestamente, eu não conseguia


entendê-lo. O que eu diria a ela?

— Eu não sei ainda, acho. Ele me deu um filhote de


cachorro.

— Ele deu? Uau! Isso é bom.

— Foi um ato amável. Ele não é um homem bom,


Lina. Não podemos esquecer isso.

— Talvez ele esteja tentando?

— Eu não quero ser ingênua. — Mas eu queria


acreditar. Isso faria as coisas suportáveis.

— Dê a ele uma chance.

— Como posso fazer isso quando eu sei que a razão para


isso é minha herança? Ele vai casar comigo por isso, manter-
me prisioneira, e depois? O que acontecerá depois de três
anos?

— Três anos, então você estará livre. Um casamento


somente no papel. Vou até certificar-me de que você não
estará na rua depois disso, se você for uma boa menina.

— Ninguém sabe o que vai acontecer no futuro. Você


sempre me disse isso quando eu estava triste.

— Ele quer que eu use o vestido de casamento de sua


mãe.
— O que?

— Eu não entendo, Lina. Eu acho que ele gosta de


brincar comigo, mas isso é tão estranho. Porque ele iria
querer isso?

— Sofia, eu não gosto dele por levá-la embora. Eu não


gosto do que ele está fazendo com você, conosco. Mas ele
poderia ser realmente terrível para você. Ele podia trancar
você e jogar a chave fora. Não é como se nosso avô pudesse
detê-lo se quisesse.

— Eu sei que ele não pode.

— Meu ponto é, dê-lhe uma chance. Você não o


conhece. Ele foi ao fundo do poço e voltou. Talvez ele esteja
procurando por algo também. Talvez ele esteja tentando
encontrar a paz.

— Ou se vingar.

— Você tem que dar uma chance para descobrir isso.


Coloque-se no lugar dele.

— Você está do lado de quem?

— Seu. Sempre do seu. Mas, nos próximos três anos,


você está presa. Eu não quero que seja um inferno para você.

— Queria que você estivesse aqui.

— Nosso avô nunca concordará com isso. Você sabe.

— Eu sei.

Ouvi a voz de seu professor chamando por ela.

— Só um minuto, — ela gritou. — Eu tenho que ir, —


disse ela para mim. — Eu te ligo de volta depois da aula, ok?

— Certo.

— Ei, não fique triste.

Concordei, mas as lágrimas encheram meus olhos.

— Me envie fotos do cachorrinho. Como você o chamou?

— Charlie.

— Como o nosso Charlie.

— Você se lembra dele?

— Me lembro de perdê-lo, — disse ela.

— Eu sinto muito.

— Não foi sua culpa. Você tinha cinco anos.

— Eu sei.

— Eu tenho que ir, Sofia. Eu te amo.

— Eu também te amo.

Nós desligamos e eu saí da cama. Era perto de cinco


horas da tarde, e o calor estava opressivo hoje. Procurei nas
minhas malas, encontrei meu biquíni, e o coloquei. Eu
verificaria Charlie e iria dar um mergulho. Um pouco de
exercício limparia minha cabeça. Então eu me concentraria
em tirar fotos de tudo para Lina.

Ela estava certa. Eu não o conhecia. Eu só sabia que ele


passou por um martírio. Eu só não quero que ele me faça
passar por um agora. Mas nos próximos três anos, eu estava
ligada a ele.
Peguei uma toalha do meu banheiro e saí para o
corredor. Pelo menos ele não esperava que eu compartilhasse
sua cama. Isso deveria ter sido um conforto, um alívio, mas
por alguma razão, ele só me fez sentir meio.... Inferior. Como
se eu não fosse boa o suficiente.

Depois de verificar Charlie, que estava dormindo no


chão frio de azulejo da cozinha, saí para a piscina. Eu não vi
Raphael até que fosse tarde demais. Até que ele me viu, e eu
não podia escapar.

Ele encostou-se à beira da piscina. Imaginei que ele


estava nadando, porque ele parecia estar respirando com
dificuldade. Os músculos de seus braços e costas flexionados
quando saiu. Ele usava uma sunga apertada, e o sol refletia
em sua pele molhada. Eu rapidamente desviei o olhar,
andando, quando ele pegou a sua toalha para se secar,
enquanto me observava.

Sentei-me na cadeira mais distante, no lado oposto da


piscina retangular e dele. A água brilhava ao sol. Eu desejava
mergulhar, mas me senti intimidada quando ele se
aproximou, parando na frente da minha cadeira. A água
pingava de seu cabelo molhado, acertando-me. Eu não estava
usando nada além de meu biquíni e enrolada com a toalha
até chegar aqui, então, agora, eu estava sentada na ponta da
cadeira, segurando firmemente a toalha.

Raphael se sentou, expirando, em seguida, se esticou na


cadeira.

— Se você segurar, essa toalha mais apertada, poderá


estalar os nós dos dedos.

Eu suavizei o meu domínio sobre a toalha e virei-me


para ele.

— Onde está o seu cachorro? — Perguntou.

— Dormindo na cozinha. Provavelmente aqui fora está


muito quente para ele.

— Muito quente para qualquer um. Entre na piscina e


se refresque.

— Estou bem.

— Então você veio até aqui para sentar e observar a


piscina?

Dei de ombros.

Ele riu e deitou-se, fechou os olhos, e virou o rosto para


o sol.

— Como quiser.

Voltei minha atenção para a água e, depois de alguns


minutos de seu silêncio, eu me desenrolei da toalha,
verificado se os seus olhos ainda estavam fechados, e
rapidamente fui até a beira da piscina. Testando a água com
meu dedo do pé, eu pisei na escada, descendo os cinco
degraus antes de flutuar pela água, mergulhando e nadando
até a extremidade mais distante antes de olhar para cima.

Olhei para Raphael, que agora estava me


observando. Submergi novamente e nadei, tomando ar
apenas para descobrir que ele se juntou a mim na água.
Meu coração bateu forte quando ele nadou em minha
direção, sua cabeça escura separando a água como um
tubarão, com duas braçadas poderosas, ele estava ao meu
lado, me encurralando, seus braços prendendo-me à beira da
piscina.

— Uma coisa que aprendi cedo na vida é nunca deixar


seus inimigos verem o seu medo. — Ele se aproximou mais,
seu rosto molhado a centímetros do meu. — Nunca os deixe
sentir o cheiro do seu medo, porque é como uma droga,
porra. — Ele inalou profundamente. — Você pode ficar
chapado com isso, Sofia.

— Você é meu inimigo? — Perguntei, concentrei-me


nessa única palavra. Incapaz de pensar sobre o
resto. Sabendo que era verdade.

— Eu não sou seu amigo, sou?

— Não.

— Seus olhos traem o seu desejo, Sofia. Sua fome.

— Você não vê muito claramente, Raphael.

— Eu vejo muito claramente. E eu leio você como um


livro.

Olhei para longe, muito consciente de seu corpo tão


perto do meu, muito ciente de como os meus lábios se
separaram e minha língua saiu para lambê-los. E como ele
observava aquele pequeno movimento involuntário com
conhecimento de causa.

— Você está curiosa, Sofia. Pelo menos admita para si


mesma. Ou você é uma covarde?

— Eu não sou uma covarde. E você está errado.

— Estou?

— Me deixe sair daqui.

— Eu não estou tocando você.

Seu olhar vagou sobre o meu rosto, depois caiu para os


meus lábios.

Mergulhei e deslizei debaixo de seu braço, nadando para


a parte mais rasa da piscina. Mas antes que eu pudesse sair,
ele estava atrás de mim, e desta vez, ele estava me
tocando. Seu corpo pressionado contra mim, seu peito nas
minhas costas, me prendendo.

— Você quer que eu te toque. — Ele sussurrou em meu


ouvido. — Não é?

Quando seus lábios se fecharam no lóbulo da minha


orelha, eu suspirei. Era como se uma sensação tivesse me
atravessado. Atingindo dentro de mim, despertando outra
coisa. Algo que parecia acontecer apenas por ele estar perto
de mim.

Uma de suas mãos deslizou pela minha cintura, e ele


me virou para que eu o encarasse.

— O que você está fazendo? — Perguntei, sem fôlego,


presa.

— Eu disse que encontraria uma maneira de você me


pagar.
— O quê? — Eu entrei em pânico, olhando para todos os
lados em busca de uma fuga, mas sabendo que eu não iria a
lugar nenhum, se ele não me permitisse. Fisicamente, eu não
era páreo.

— Shh. Basta ficar quieta.

A água pingava nos meus olhos, e eu pisquei. Naquele


momento, sua boca se fechou sobre a minha, molhada e fria,
seus lábios com sabor de cloro.

Eu gemi e empurrei seu peito. É o que eu deveria


fazer. Eu deveria resistir. Mas ele não se mexeu e ele não me
soltou, não com seu corpo, não com a sua boca.

Em vez disso, seus lábios provocaram os meus, para


abri-los, a barba em seu queixo roçando contra a minha
bochecha quando ele deslizou sua língua dentro da minha
boca. Contra a minha vontade consciente, eu abri.

Ele aprofundou mais o beijo, e eu fiz algo contra a


minha razão, que era resistir. Ao invés disso, eu o provei. Eu
provei a sua língua, seus lábios, sua respiração, e por um
breve momento, eu o beijei de volta.

Foi quando Raphael parou o beijo. Abri meus olhos para


encontrá-lo me observando, seus olhos mais sombrios, a
vitória dentro deles zombando, me envergonhando.

— Você quer isso, Sofia. Porra, você quer isso muito, eu


posso sentir o cheiro em você.
Raphael
— Saia de cima de mim, — Sofia me empurrou, mas eu
não estava pronto para deixá-la ir ainda.

— Faça-me sair.

Ela tentou novamente.

— Saia.

— Ou o que? O que vai fazer se eu não sair?

A frustração estava estampada em seu rosto. Levou um


minuto para responder-me.

— O que eu posso fazer?

Ela me olhou como se realmente estivesse buscando


minha resposta. De mim.

— Nada. Esse é o ponto, — Eu disse.

— Eu sou um jogo para você.

— Não, não é um jogo.


— Então o quê? Eu não entendo o que você quer de
mim. Você me diz que este casamento será só no papel. Você
me diz que me odeia, no entanto...

— Eu disse que odeio o seu nome. Há uma diferença


entre odiar o seu nome e te odiar.

— Isso importa?

Eu podia ver sua confusão e frustração visivelmente


enquanto ela olhava freneticamente em volta.

— Estou com frio.

Ela engasgou quando eu envolvi minhas mãos em sua


pequena cintura e imediatamente tentou me
empurrar. Quando eu a levantei da piscina e a coloquei sobre
a borda, ela exalou, com o rosto vermelho, provavelmente,
constrangida pelo seu pânico.

Eu saí e peguei a toalha, envolvendo-a sobre seus


ombros enquanto me sentava ao lado dela.

— Obrigada.

Eu balancei a cabeça.

— Eu não entendo o que você quer, — Disse ela.

Olhei-a sentada lá, abraçando-se envolvida com a


toalha, tremendo no calor. Seu cabelo molhado se agarrou a
sua pele, e ela se recusou a me olhar por um longo tempo.

O que eu queria? O que eu queria com ela?

Esta era, definitivamente, uma transação


comercial. Dinheiro devido. Ela estava aqui para saldar uma
dívida.

Mas eu queria deixá-la louca?

O que aconteceria comigo se eu a deixasse? Não foi


assim que eu pensei que seria, mas tê-la aqui, tendo-a perto,
quente e suave e tão malditamente inocente.... Eu poderia tê-
la, esse era o ponto. Eu nem precisei me esforçar. Ela me
queria, e eu estava usando seu desejo contra ela. Insultando-
a com ele.

— Olhe para mim, Sofia.

Ela olhou, e seus olhos pálidos procuraram os


meus. Dentro deles vi a humilhação. Vi tristeza. Incerteza. Vi
vulnerabilidade, e vi uma solidão, um desejo, uma esperança
que eu reconheci. Uma que eu não poderia ignorar.

Uma que ameaçava ressuscitar uma parte de mim que


eu enterrei há muito tempo.

Uma que eu pretendia manter enterrada.

Eu sabia que havia apenas uma maneira de desligá-la, e


eu precisava desligá-la, porra. Agora. A raiva ferveu dentro de
mim. Raiva da minha própria fraqueza. Minha fraqueza perto
dela.

— Eu possuo você, — Eu disse, segurando seu queixo


mais duramente do que eu precisava e trazendo seu rosto
para mim.

— Pare!

— Quando eu quiser te beijar, eu vou te beijar, porra. —


Para provar meu ponto, eu esmaguei meus lábios nos
dela. Desta vez, ela não os abriu. Eles não cederam como há
alguns momentos atrás.

Bom. Isso era bom. Esse era o ponto.

E a soltei, e ela tentou fugir, ralando sua coxa na beira


da piscina enquanto tentava escapar de mim, mas
terminando de costas comigo sobre ela.

— Pare com isso.

Ela lutou debaixo de mim, mas a coisa doente era que,


isso só me excitava. Sua luta me excitou, e eu soube no
instante em que ela percebeu isso.

— Você não quer que eu pare, porra. — A beijei


novamente, desta vez deslizando uma mão entre suas pernas
e agarrando sua boceta. Ela ofegou, e eu intensifiquei meu
aperto.

— Você não quer que eu pare, Sofia.

O próximo beijo foi áspero, meus dentes cortando seu


lábio macio, o sabor metálico de sangue, seu sangue,
fazendo-me gemer.

— Admita, — Eu exigi.

— Eu não quero isso! — Ela gritou, frenética, debaixo de


mim, seus pequenos punhos batendo nos meus ombros, suas
mãos enrolando meu cabelo, puxando forte.

— Mais, — eu disse, beijando-a de novo, apertando sua


boceta. — Isso só faz o meu pau duro.

— Este não é você. Eu sei disso. Eu sei disso.


— Você não sabe nada. Eu poderia fazer isso.

— Você não vai! Você disse isso.

— Eu poderia. E você estaria molhada para mim.

— Não.

— E se eu deslizar minha mão em sua fenda, Sofia?

Ela balançou a cabeça freneticamente, mas só


conseguiu afastar mais as pernas com seu esforço para
livrar-se de mim.

— Você se sente melhor fingindo que não quer isso?

— Por favor, — ela implorou.

— Por favor? Isto é um sim?

— Não. Raphael, me solte. Este não é você.

Eu levantei, montando sobre ela, soltando sua boceta, e


envolvi a minha mão em sua garganta.

— Este sou exatamente eu! — Rugi, anos de raiva


vocalizando agora.

Como ela pensou que me conhecia se eu não me


conheço, porra?

Eu apertei, e ela agarrou meu braço, tentando me fazer


soltar. Seu rosto ficou vermelho, com os olhos arregalados, e
a coisa doente era, o medo neles, só incendiava uma coisa
que já queimava como uma porra de uma marca dentro de
mim.

— Eu matei meu pai com minhas próprias mãos,


Sofia. Você acha que eu não vou te machucar?
— Autodefesa não é o mesmo que assassinato, — Ela
conseguiu dizer, com lágrimas escorrendo pelos cantos dos
olhos.

— Seu medo me deixa duro, — Eu sussurrei perto de


seu rosto. — Isso deve te deixar com medo. — Eu apertei
mais uma vez, então soltei sua garganta e me endireitei,
pairando sobre ela. Ela levou as mãos à garganta e virou a
cabeça, tossindo. Eu assisti até que finalmente, ela desviou o
olhar de volta para mim.

— Sim, — ela murmurou. — Você me deixa com medo.

Seus olhos me prenderam, virando o jogo, mesmo com o


som de derrota em sua voz.

— Você ganhou, Raphael. Você não acha que eu sei


disso? Que você já ganhou?

Eu me endireitei, meu peso nas minhas coxas, então eu


não a esmagava.

— Você me disse que não seria uma besta para mim,


mas olhe para você —, disse ela. — Você pode me obrigar a
fazer o que quiser. Nós dois sabemos disso. Você pode tomar
o que quiser, você pode tirar cada coisa de mim. Você pode
me forçar...

Sua voz sumiu, e ela nunca terminou essa parte.

— Você pode me trancar, e não haveria nada que eu


pudesse fazer sobre isso. Mas você sabe o que é ainda mais
terrível do que ficar com medo?

Sua voz falhou, lágrimas acumulando em seus olhos.


— O fato de que eu sei, que eu acredito com todo meu
coração, que não é o que você quer. Não é quem você é.

Pisquei várias vezes e passei uma mão pelo meu cabelo.

Ela se moveu debaixo de mim, retirando suas pernas,


tropeçando e ficando de pé. Ela pegou sua toalha, segurando-
a contra seu peito, outra barreira entre nós, enquanto me
ajoelhava aos seus pés.

Incapaz de me mover.

Incapaz até mesmo de olhar para ela.

Abaixo dela.

Ela manteve uma ampla distância enquanto cambaleava


para trás e para longe, em direção a casa. Virei-me para vê-la
ir vê-la correr, água pingando enquanto ela desaparecia no
interior. E tudo que eu podia fazer era sentar-me lá. Tudo o
que eu podia fazer era nada.

Eu era um monstro. Eu sabia. Eu sabia disso há muito


tempo.

Tome cuidado ao lutar contra os monstros, para que


você não se torne um.

Minha mãe costumava me dizer isso. A sua citação


favorita de Nietzsche.

Eu lutei por ela também. Eu lutei com ele. Eu sempre


perdi. Eu sempre soube que eu perderia, mas mesmo assim
eu lutei, e eu aceitei as punições, suportei as consequências.

Eu acho que eu não percebi quando a transformação


aconteceu. Quando o monstro me derrotou. Derrotou-me e
me fez gostar dele. Como o meu pai.

Eu cambaleei e fiquei de pé como um homem bêbado e


entrei em casa, para o meu quarto, incapaz de sequer olhar
para a porta fechada. Não me incomodei em tomar banho. Eu
só coloquei um par de jeans e uma camiseta, entrei no carro
e dirigi, sem saber onde eu estava indo até que passei pelos
portões do seminário.

Eu nunca estive aqui antes. Enquanto eu estava na


prisão que Damon me contou seus planos. Nós realmente não
tínhamos falado muito antes disso. Damon e eu, éramos o
oposto. Acho que, de certa forma, nós dois estávamos
sobrevivendo.

Meu pai era um criminoso meia boca. Nunca organizado


ou esperto o suficiente para estar no topo de seu
jogo. Sempre endividado. Um bandido de aluguel. Mas
encantador. Sempre charmoso. O homem podia falar, e ele se
gabava. Fazia as pessoas acreditarem em qualquer coisa que
ele quisesse. Foi assim que minha mãe caiu de amores por
ele, eu tinha certeza. Isso ou o fato de que o amor realmente é
cego.

O abuso físico começou quando eu tinha doze anos. Eu


sempre fui uma criança grande, então eu acho que ele
pensou que eu fosse o alvo perfeito. Como se ele pudesse
fazer o que quisesse comigo, pois no final eu sobreviveria. Eu
me perguntei há quanto tempo ele estava batendo na minha
mãe até que eu realmente visse a prova disso. Ela nos
protegeu daquele lado dele o máximo que pôde.
Vendo o rosto de Sofia, seu medo, sua coragem, ―Porque
ela era corajosa, ela não era a covarde que eu a acusava de
ser‖ Isso me lembrou dela. Minha mãe.

E o reflexo que vi em seus olhos, me assustou, pois o


que eu via ali neles, não era eu. Era ele.

Eu olhei para o meu relógio. Eram quase oito horas. Já


passou do horário de visitas, mas eu não me importei.
Quando eu encontrei as portas fechadas, peguei meu telefone
celular, encontrando o número de Damon e liguei para ele. O
telefone tocou quatro vezes, em seguida, foi para o correio de
voz. Eu dei a volta na propriedade, tentando todas as portas
quando, finalmente, alguns minutos depois, meu telefone
tocou. Era Damon.

— Raphael?

Ele parecia surpreso.

— Sim. Sou eu.

— Você está bem?

— Eu estou do lado de fora.

— Lado de fora?

— Fora do seminário. As portas estão fechadas.

— Espere aí. Vou descer.

Nós encerramos a chamada, e eu voltei para a porta da


frente, abrindo alguns minutos mais tarde. Damon estava do
outro lado vestindo a batina. Eu tive que olhar duas
vezes. Era tão estranho, vendo meu irmão gêmeo vestido
assim.
— Tem certeza de que quer fazer isso? — Perguntei. —
Jogar sua vida fora.

— Baixe a voz e meça suas palavras aqui.

Ele me deixou entrar e trancou a porta. O segui para um


quarto privado. Ele me ofereceu um assento, mas eu passeei
por seu quarto.

— Você tem algo para beber?

Ele balançou a cabeça e tirou uma garrafa de uísque de


um armário. Servindo-nos. Eu tomei o meu em um só
gole. Apesar de levantar as sobrancelhas, ele me serviu mais
e sentou-se. Eu permaneci de pé.

— O que está acontecendo?

— Eu sou como ele, não é? — Perguntei, sem saber o


que eu estava fazendo aqui. Sentindo-me fraco por ter vindo.

Ele me estudou.

— Como nosso pai?

Eu balancei a cabeça uma vez.

— Diga-me de que maneira você é como ele. Dê-me um


exemplo, porra.

Eu sorri.

— Você tem permissão para dizer isso? O seu Deus não


vai te atacar ou algo assim?

Ele me deu um olhar severo.

— Um exemplo.

Eu balancei a cabeça e engoli mais da minha bebida.


— Eu a assusto.

O olhar em seu rosto mudou, mas ele não chegou a


sorrir.

— Bem, pare.

— Não é tão fácil.

— É exatamente assim tão fácil. O que você fez?

Porra.

— Nada — Eu murmurei, sem encontrar os olhos dele.

Ele ergueu as sobrancelhas.

— Ela está machucada? Fisicamente?

— Não.

— Mais uma vez, como você é igual ao nosso pai?

Damon sabia sobre o abuso. Ele tinha me visto sofrê-


lo. Ele era obrigado a assistir. Nosso pai era um homem
manipulador, perverso e malvado.

Eu parei de andar de um lado para o outro.

— Eu não sinto por ele estar morto, — Eu disse


finalmente. — Eu só queria ter feito isso antes. Antes de
nossa mãe...

— Isso não é culpa sua. Nada disso é culpa


sua. Quando é que você vai meter isso nessa sua cabeça
dura?

— Eu sabia o que ele estava fazendo com ela.

— Você descobriu tarde demais. Todos nós.


— Eu deveria ter sabido mais cedo. Eu deveria ter
sabido quando ele parou comigo. — Meu pai só escolhia
aqueles que ele poderia dominar. Ele nunca queria perder. E
quando fiquei maior do que ele, ele me deixou em paz.

— Pare de se culpar. Ela não te culpou.

— Eu fui à fazenda Lambertini. Ele disse que alguns


homens estiveram lá. Homens que tiveram negócios com
nosso pai. Eu estou supondo que seja Moriarty.

— Chame a polícia. Deixe-os lidar com isso, Raphael.

— Eu vou resolver isso.

— Como você está fazendo com Sofia? Ferre com


Raphael Amado e pague? É a mensagem que quer enviar?

— Eu não tenho escolha.

— Sim, você tem. Você pode escolher deixar o passado


no passado. Deixe a polícia lidar com isso.

— Eu sou um assassino.

— Defesa pessoal. Nosso pai teria matado você. Isso era


óbvio para todos, incluindo o juiz.

— Ainda assim, eu passei seis anos...

— E a decisão foi revogada. — Damon esvaziou o


copo. — Eu acho que você tem que descobrir o que quer,
Raphael. Descobrir quem você é. Se você quer viver a vida
que o nosso pai levou, ou enterrá-la. Faça o bem em vez
disso. Você tem a terra. Você pode replantar, viver uma vida
honesta.
Eu bufei com a menção de honesto.

— Isso deixaria nossa mãe orgulhosa, — Acrescentou. —


E seria a vingança final. Tomar de volta o que nosso pai
roubou.

— A morte é o final, irmão.

— Você acha que eu não sei disso?

Eu esvaziei meu copo e o estudei. Eu acho que nunca


pensei em meu irmão de luto, mas ele estava. Todos nós
estávamos, Zachariah também. Ainda. Seis malditos anos
mais tarde.

— Eu tenho uma pergunta para você. — Ele esperou


que eu perguntasse. — Por que você não está me dizendo
para deixar Sofia livre?

Ele me estudou, seus olhos se estreitando um pouco, e


pela primeira vez em muito tempo, vislumbrei o sangue
Amado correndo em suas veias.

— Porque, por mais errado que seja o que está fazendo,


eu acho que ela é boa para você.

Eu ri.

— O que isso faz de você, irmão, se não um cúmplice?

Ele se levantou e veio até mim, sorrindo.

— Em primeiro lugar, eu sou seu irmão, — Ele disse. —


Eu quero que você seja feliz. Finalmente.
Sofia
Não foi difícil evitar Raphael após o incidente na
piscina. Ele parecia estar me evitando também. Ele parecia
sempre comer antes de mim, e me mantive em meu quarto
quando eu não tinha que descer para cuidar de Charlie. Eu
não sabia onde Raphael estava a maior parte do tempo e não
queria me importar. Mas eu importei.

Ele tinha dois lados e se transformava com uma


precisão mortal em apenas um segundo. Seus demônios eram
tão sombrios e profundos que quando apareciam,
alcançando-o, ele era o homem mais assustador. Um homem
cheio de ódio e vingança.

Mas não foram essas mesmas coisas que o quebraram?

Essa rachadura só o tornou mais perigoso, letal. Por me


doer tanto, poderia me engolir em sua escuridão também.
Destruindo-me juntamente com ele.

Eu ainda podia senti-lo em meus lábios, sua língua na


minha, quando abri a minha boca para ele. Como uma tola,
eu cedi e muito facilmente. Ele nem sequer me obrigou a
fazer isso. Se ele me obrigasse, seria mais fácil. Se ele me
obrigasse, eu poderia odiá-lo. Eu não teria que me odiar,
porque ele estava certo.

Eu o queria.

Dois dias depois da minha primeira prova, a costureira


retornou para outro ajuste, e logo meu vestido estava
pronto. Eu o deixei escondido em meu quarto dentro da
embalagem. Eu não queria pensar nisso.

Na terceira noite, mais uma vez, eu jantei com Charlie


na cozinha. Eu estava sentindo medo de que Raphael
entrasse a qualquer momento, temendo-o, mas também, ao
mesmo tempo, estava farta de estar sozinha, pronta para
enfrentá-lo. Pronta para acabar com isso.

Mas a casa ainda estava tranquila, a chuva batendo


contra as janelas. Parecia estranho estar sozinha em um
lugar tão grande e antigo. Charlie devorou sua comida e
enrolou-se em meus pés para dormir novamente. Eu invejava
sua vida.

Joguei mais da metade do meu prato na lata de lixo e


lavei-o, depois deixei Charlie dormir enquanto eu olhava a
casa, tendo o cuidado de deixar a porta da cozinha
entreaberta para ele.

As salas de estar e jantar foram limpas e aspiradas. Eu


passei por elas, sabendo que o escritório de Raphael ficava no
final do corredor. Eu não tinha certeza do que eu faria, não
realmente. Não até que eu estivesse em frente à sua porta. A
culpa me fez olhar por cima do meu ombro antes de pegar a
maçaneta e girar. Eu não sei se me sentia aliviada ou
decepcionada por encontrá-la trancada.

Voltei para a cozinha. Talvez fosse uma coisa boa eu não


entrar no seu escritório. Notei uma luz debaixo de uma porta
fechada que eu ainda não abri. Batendo uma vez, eu esperei,
mas quando ninguém respondeu, eu a abri. Ela rangeu, e
meu coração disparou, sem saber o que eu ia encontrar,
deixando-me nervosa pensando em correr de Raphael ou
correr de um fantasma.

Mas nenhum deles me recebeu. Em vez disso, fiquei de


pé olhando para uma escadaria de pedra, o cheiro e o frio me
dizendo que isso era o porão.

— Olá? Tem alguém aí embaixo?

Nenhuma resposta. Dei dois passos para baixo, em


seguida, mais dois até que eu pudesse espiar o espaço fresco
e úmido. Era grande e bem iluminado, com paredes de pedra
que pareciam que eram mais velhas do que a própria casa.

Minhas sapatilhas não emitiam nenhum som. Eu contei


quatorze degraus no total enquanto eu descia. Olhei em volta,
me abraçando com o frio repentino. Ao longo das paredes elas
estavam cobertas com peças do que eu assumi que fosse
mobiliário ou equipamento antigo. Algumas das tampas
foram retiradas recentemente. Eu poderia dizer pelo pó que
alguém esteve aqui há não muito tempo. No centro do
cômodo havia um pilar. Atraída por ele, eu cruzei o chão. Ele
era velho, como tudo aqui, a madeira esculpida, mesmo que
estivesse um pouco deteriorado. Era resistente e,
provavelmente, foi uma vez bonito. Ele estava enterrado
profundamente no chão, e quando eu olhei para cima, eu
sabia para o que exatamente ele foi usado. O frio que senti
mais cedo agora se arrastava como um dedo gelado ao longo
da minha espinha e parava na minha nuca.

Correntes de ferro penduradas acima. Algemas com


fechaduras estavam abertas. A imagem das costas de
Raphael passou diante de meus olhos. Eu balancei minha
cabeça.

Não. Não é o que você pensa. Não é possível.

O som de passos me assustou, e eu pulei, notando pela


primeira vez uma abertura quase parecida com uma caverna
na parede do fundo, percebendo que era de onde o cheiro de
terra úmida veio. Em pânico, eu queria correr, cada filme de
terror que eu já assisti passando diante dos meus olhos. Mas
o terror paralisou as minhas pernas, e eu fiquei colada no
local, observando, minhas mãos na minha garganta, minha
boca aberta, segurando minha respiração.

Será que eu gritaria? Algum som viria se eu


tentasse? Ou o medo me deixaria muda?

O som se aproximou, e um momento depois, Raphael


apareceu na entrada do túnel. Eu gritei, e ele parou, sua
camisa e cabelo molhados se agarrando a ele.

— Sofia?

Eu cobri meu rosto, só então percebendo a quão tensa


eu estava, como estava com medo. Isso me fez rir um som
estranho, quase maníaco.

— Eu pensei... — Eu dei uma respiração instável e


enxuguei meus olhos.

Por que eu estava chorando? Porque agora?

— Parece que você viu um fantasma, — disse ele.

— Eu pensei que você fosse um.

Ele deu um passo para a luz. Suas bochechas e a ponta


de seu nariz estavam vermelhos de frio, o cheiro do túnel
agarrado a ele.

— Nenhum fantasma.

Seu olhar caiu para o pilar, e quando ele se moveu mais


para dentro do cômodo, eu tive a sensação de que ele teve o
cuidado de deixar um amplo espaço entre nós.

— O que você está fazendo aqui?

Eu balancei minha cabeça.

— Eu estava olhando pela casa e vi a luz.

— Você não deveria estar aqui embaixo.

Ele se aproximou. Senti o cheiro de álcool em seu hálito.

— De onde você veio?

Ele apontou atrás dele.

— O túnel leva à capela.

— Você foi à capela? Agora? É noite, e está chovendo.

Ele andou até uma mesa, de costas para mim, quando


ele respondeu.

— Eu não vi o túmulo de minha mãe em seis anos.

— Oh, Deus. — Fui até ele, levantando minha mão até


seu ombro, mas parando antes de tocá-lo. — Eu sinto muito.
— Eu notei o frasco que ele tinha enfiado no bolso de trás do
jeans dele.

Raphael olhou uns lençóis, mas os deixou. Quando ele


se virou para mim, eu vi como seus olhos escureceram, quão
intensamente seu olhar saltou de canto em canto, parando,
inevitavelmente, voltando àquele pilar.

— Seu lugar não é aqui Sofia.

Sua voz era sombria e baixa, ele deu um passo em


minha direção. Dei um para trás. Sua mão fria e úmida
enrolou no meu braço e parou o meu progresso. Ele se
aproximou, seu corpo úmido quase tocando o meu.

Ele buscou meu rosto, minha boca, meu pescoço, o


volume dos meus seios enquanto eu respirava trêmula e
pesadamente. Seu olhar retornou ao meu, e ficamos assim,
nos olhando, por uma eternidade. Sua camisa molhou meu
vestido.

A mão que segurava meu braço abaixou para o meu


pulso, e sua outra envolveu minha cintura, então mais alto,
entre os meus ombros, gelando a minha nuca, embalando
minha cabeça. Sem uma palavra, ele se inclinou e seus lábios
frios e molhados cobriram os meus.

Ofeguei, mas ele engoliu o som, com a mão na parte de


trás da minha cabeça me segurando no lugar enquanto seus
lábios se moviam sobre os meus, lentos e suaves, me
provando. Quando sua língua sondou, abri, e ele deslizou
para dentro. Inclinei minha cabeça, e ele pressionou contra
mim. Quando o fez, eu o senti, sua dureza, na minha barriga.

Eu teria parado o beijo.

Eu parei.

Mas ele me segurou e recuperou a minha boca, e desta


vez, a urgência substituiu a exploração suave de momentos
atrás. Seu beijo estava faminto, quase voraz, e seu desejo só
pareceu despertar o mesmo dentro de mim. Eu levantei
minha mão e a coloquei contra seu braço, gostando da
sensação dos músculos duros lá. Sentindo-me de alguma
forma segura com isso. Meu corpo calmo, relaxando nele, e
minhas pálpebras se fecharam.

Mas então ele parou o beijo e encostou a testa na


minha. Sua respiração estava pesada. Suas mãos se
moveram para os meus quadris, me segurando.

— Estou fodido agora. — Disse ele. — Você precisa ir lá


para cima.

Eu levantei minha cabeça, olhando o seu rosto, em seus


olhos. Disseram tanto do que ele não disse, e me pareceu
estranho que eu só conhecesse esse homem há alguns
dias. Eu deveria odiá-lo. Temê-lo. E eu o temia, mas havia
outra coisa, uma força poderosa demais para ignorar.

Por mais dominante que ele pudesse ser, tanto quanto


ele mandava em mim, a vulnerabilidade de Raphael parecia
se aproximar de sua dureza, suavizá-la, mesmo que ele
tentasse escondê-la, enterrá-la, e tudo que eu conseguia
pensar era que ele estava perdido.

Com os dedos trêmulos, eu toquei seu rosto.

Uma de suas mãos se moveu mais abaixo, em seguida,


subiu, deslizando sobre o meu estômago, sua pele me
queimando pelo fino algodão do vestido enquanto acariciava
minha barriga, então o meu seio, e quando os nós dos dedos
roçaram meu mamilo endurecido, o senti dentro de mim,
como se ele me tocasse entre as minhas pernas.

— Eu quero você, Sofia. Mas eu estou bêbado, e eu


preciso que você suba para o seu quarto e tranque a porta,
entendeu? — Seu hálito de uísque tocou meu rosto.

— Você não vai me machucar. — Eu tinha tanta


certeza?

— Eu vou. Você não me conhece.

— Você continua me dizendo isso.

— Talvez você devesse começar a acreditar.

Ele segurou meu seio por cima do meu vestido, e eu


ofeguei, observando sua mão se mover, os dedos brincando
com meu mamilo, nem o vestido nem o sutiã oferecendo
proteção.

— Você poderia ter me machucado no outro dia, mas


não o fez, — eu disse.

Seus olhos presos nos meus, ele apertou meu mamilo,


como se para provar seu ponto. Quando eu gemi, ele soltou e
deu um passo atrás para tirar sua camiseta com uma mão.

— Toque-me.

Olhei para ele, engolindo, algo dentro da minha barriga


vibrando. Nós dois assistimos enquanto minhas mãos
tremiam, quando os meus dedos tocaram a pele úmida da
chuva. Eu o acariciava levemente, suavemente. Me perguntei
se ele riria de mim, da minha inexperiência, mas ele não o
fez. Ele me deixou tocá-lo, deixando-me sentir seu coração
bater debaixo de sua pele. Mas quando minha exploração
ficou mais ousada e os meus dedos se arrastaram para baixo
sobre seus músculos para a trilha de pelo escuro que
desaparecia dentro de seu jeans, ele agarrou meu pulso com
força.

Eu ofeguei, o encarando.

— Eu lhe disse para subir para o seu quarto e trancar a


porta. Eu estou bêbado. Vou feri-la.

— Você também me disse para tocar em você.

Ele apertou meu pulso.

— Você estava certo no outro dia. Quero isso. Eu quero


você. — Engoli seco, não sei o que diabos eu estava fazendo,
onde isso ia. — Beije-me outra vez, Raphael.

Um fogo queimava em seus olhos. Meus lábios se


separaram, e eu os lambi. Raphael me empurrou contra a
parede, sua boca esmagando na minha em um beijo tão
intenso, tão cheio de tudo, doía, ele queimava. Era como se
ele estivesse deixando sua marca. Me reivindicando. Ele
pressionou a palma de uma mão contra meu ventre, a parte
de trás da minha cabeça doía contra o frio de pedra irregular.

— Se você não fosse uma virgem, eu foderia você aqui e


agora, contra a parede.

As palavras saíram com uma voz áspera e rouca. Ele


não me deu uma chance de responder. Para dizer a ele para
fazê-lo. Porque uma parte de mim gostava desse lado
dele. Este danificado, sombrio homem com a alma
quebrada. Desejava tocá-lo. Para tocar essa parte fraturada
dele. A que estava aberta, perdida e perigosa.

Em vez disso, ele esmagou sua boca sobre a minha de


novo. Eu gemi, e não em protesto, mas também não em
rendimento. Eu sabia que ele estava bêbado. Eu podia sentir
o gosto em sua língua. Eu gostei, eu queria. Eu o queria. Mas
não assim. Não a primeira vez.

Raphael recuou, respirando com dificuldade. Ele me deu


um olhar duro, então afastou-se, virando as costas para
mim. Mesmo atrás dele, eu sabia que seu olhar estava fixo
naquele pilar.

— Suas costas, Raphael, — eu disse, me aproximando,


tocando a pele irregular e desigual. Tecido cicatrizado.

Ele girou e agarrou meu pulso com tanta força que eu


tropecei.

— Não. Me. Toque. — Ele apertou. — Não minhas


costas.

— Você está me machucando agora, — Eu gritei depois


de um momento.

Era como se ele levasse tempo para processar as minhas


palavras, porque ele demorou para me libertar e se
afastar. Ele baixou o olhar e passou a mão pelo cabelo.

— Eu disse que te machucaria, — ele murmurou, então


se endireitou e tirou o frasco do bolso de trás. — Whisky?

Ele não estava realmente oferecendo, mas eu balancei a


cabeça de qualquer maneira. Ele engoliu um grande gole. A
dureza estava voltando lentamente, colocando concreto sobre
o chão quebrado. Eu vi isso acontecer diante dos meus olhos.

— Você não deveria estar aqui, Sofia. Este lugar, — ele


olhou em volta, balançando a cabeça. — É assombrado.

— Assombrado? — Eu queria de volta, o homem que eu


acabei de ver, o que eu vislumbrei por meros momentos. Ele
não estava fazendo sentido, e ele não olhava para mim. Algo
me disse que eu precisava levá-lo para cima. Tirá-lo deste
porão.

— Muita dor, sofrimento e ódio. — Ele cuspiu a última


palavra.

— Suba comigo, Raphael.

Ele balançou sua cabeça. A luz brilhava contra seus


olhos muito brilhantes.

— Vá.

— Não sem você.

— Aqui é o meu lugar.


Ele bebeu.

Fui até ele de novo, hesitante desta vez quando eu


levantei a minha mão para tocar seu braço, o dorso de sua
mão. Ele observou, observou o progresso do meu toque.

— Aqui não é o seu lugar, não é lugar de ninguém, — eu


disse.

Ele só olhou para mim.

— Vamos lá para cima comigo. Por favor.

— Você não me conhece. Você não sabe nada sobre


mim. Você não tem uma porra de ideia do que eu sou capaz.

— Eu acho que posso conhecê-lo melhor do que você


pensa. E você está certo. Há muita dor aqui. Você precisa
subir comigo.

— Por quê? Por que você se importa? Quero dizer, olhe o


que eu estou fazendo com você.

Eu não respondi. Eu não poderia já que nem eu sabia a


resposta. Tudo que eu sabia era que eu não podia deixá-lo lá
sozinho. Agora não. Nunca.

— Está frio. — Peguei a mão dele e o arrastei, ou tentei,


em direção à escada, mas era como tentar mover esse
pilar. — Estou com frio. Leve-me lá para cima.

Ele não respondeu, apenas me observou. Eu não tinha


certeza de quanto ele já bebeu. Ele não parecia bêbado, mas
não era ele mesmo.

— Vamos, eu estou com frio.


Só então, o pelo de Charlie surgiu no topo da escada. Eu
olhei para ele. Ele estava na beira da escada, ainda era muito
pequeno e talvez estivesse com muito medo de dar esse
primeiro salto. Quando me virei para Raphael, o encontrei me
observando com um olhar estranho. Eu não pude saber que
olhar era esse. Não consegui arriscar.

— Venha comigo, Raphael. — Desta vez, ele me deixou


levá-lo. — Charlie vai se machucar se ele tentar descer. —
Lentamente, fomos para cima, e Charlie arrodeou nossos
tornozelos quando chegamos ao topo. Apaguei a luz e fechei a
porta atrás de nós. Ele me deixou levá-lo pela casa e até o
segundo andar. — Você está congelando, — eu disse quando
chegamos ao meu quarto.

Ele apenas ficou me olhando.

Abri a porta e o trouxe comigo, não tinha certeza se era


a melhor ideia, não com aquele olhar estranho em seus
olhos. Do banheiro, peguei uma toalha e sequei seu cabelo,
ombros e peito e coloquei a toalha na cama. Sem saber o que
estava fazendo, sem saber se eu deveria fazer realmente,
comecei a abrir seu jeans, primeiro o botão, em seguida, o
zíper. Ele ficou parado, e eu me ajoelhei para tirar os sapatos
e as meias, então ele ficou descalço, sem camisa, calça jeans
aberta, o cinza escuro de sua cueca visível.

Eu abaixei seu jeans, o tecido molhado aderindo em


suas coxas. Engolindo seco, eu tentei novamente, e ele saiu
deles.

— Sofia, — ele disse quando eu me endireitei.


— Shh. — Eu puxei as cobertas. — Nós só vamos
dormir. — Eu quis dizer isso. Nada aconteceria. Ainda não.

Sua testa franziu, e seus olhos tinham perdido um


pouco daquele brilho estranho. Ele balançou a cabeça, e
quando eu empurrei seu peito, ele se deitou na cama. Eu
coloquei as cobertas sobre ele, observando como o músculo
grosso de seus braços e ombros se agruparam quando se
virou de lado.

Charlie tentou três vezes pular na cama. Eu o peguei e o


coloquei nos pés de Raphael antes de pegar meu top e shorts
e ir me trocar no banheiro. Raphael estava me observando
quando voltei. Eu tirei as cobertas e subi na cama, virando-
me de costas para ele, tomando cuidado para não o
tocar. Mas, então, seu braço pesado cobriu minha cintura e
me puxou para ele. Meu coração disparou e minha respiração
engatou quando ele me segurou, seu grande corpo
envolvendo o meu, seu braço relaxado, sua mão aberta em
minha barriga, me segurando apertada contra ele.

Nenhum de nós falou, mas eu sabia que ele não dormiu


logo.

Eventualmente, sua respiração se estabilizou, e eu


fechei os olhos, meu corpo cansado demais para lutar contra
a fadiga por mais tempo, seu corpo muito quente para que eu
não me emaranhasse nele, não relaxasse sob ele.

— Nunca dormi segurando uma mulher assim. Nunca.

Pisquei algumas vezes, mas não falei.

— Eu nunca quis que elas ficassem, — completou. Ele


me apertou mais.

— Raphael...

— Durma, Sofia. Nada vai acontecer.

Abaixei minha mão e segurei a parte de trás da dele e


fechei meus olhos e dormi, e quando eu acordei de manhã à
luz do sol vinha através das cortinas, ele tinha ido embora,
seu lado da cama estava frio.
Raphael
Sentei-me no meu escritório com a porta trancada,
lendo pela centésima vez a alteração do contrato que seu avô
fizera. Por mais que eu o odiasse por isso, parte de mim
queria, se alegrava.

Essa era a parte doente. A parte que eu tentei avisá-


la. A parte que ela tinha certeza que não existia.

Eu balancei minha cabeça, meus pensamentos vagando


novamente para ontem à noite. Eu deveria colocar um
cadeado na porta do porão. Eu não poderia tê-la indo lá de
novo. Eu não poderia tê-la vendo o que estava por baixo
daqueles lençóis. Maldição, eu deveria selar aquela
porta. Talvez então eu pudesse esquecer as coisas que
aconteceram naquele cômodo.

Ontem à noite foi a primeira vez que eu estive lá em


mais de seis anos. Estava chovendo, e eu precisava ir à
capela. Para o cemitério atrás dela. Eu não mostrei a Sofia
essa parte quando lhe mostrará a pequena igreja. Parecia
muito pessoal, muito privado. Minha desculpa para usar o
túnel foi a chuva, embora estivesse fraca. Eu não me
importava de me molhar, e se eu quisesse, eu poderia ter
dirigido.

Eu queria ver se aquele porão ainda tinha poder sobre


mim. Se os horrores dele ainda me assombravam. Eu pensei
que era mais forte. Que esse tempo tivesse me
endurecido. Que seis anos na maldita prisão teriam
esmagado essas memórias, mas elas não tinham. Nada
jamais poderia. Sempre que eu descesse aquelas escadas, eu
me tornaria aquele garotinho de novo, o assustado garotinho
mijando em suas malditas calças.

Eu cerrei os dentes.

Poderia ser pior. Eu poderia ser como ele em vez


disso. Como o meu pai. Porra, eu não tinha certeza de que eu
não era. Não seria melhor ser a vítima?

Não. Foda-se, não.

Nunca era melhor ser a vítima. Eu precisava me lembrar


disso, e talvez o que eu precisasse fosse de mais fodidas
visitas a esse inferno, não menos. Talvez o que eu precisasse
era de alguém que usasse o chicote em mim novamente.

Para me ensinar. Para me endurecer.

O corpo quente de Sofia pressionando contra o meu a


noite toda, o som tranquilo da sua respiração, a sensação de
sua suavidade quando ela finalmente relaxou nos meus
braços, finalmente me permitirá respirar.
Nos meus braços.

Porra.

Ela me surpreendeu quando eu voltei para o porão. Esse


era o último lugar em que eu esperava encontrá-la. Eu
sempre quis vê-la. Ela não pertence a este mundo. Eu quis
dizer o que eu disse, o passado assombrava aquele porão, e
esse passado está cheio de horrores. O lugar dela não era ali,
e eu estaria ferrado se eu o deixasse tocá-la. Sujá-la. Tomar
sua inocência.

Mas eu não estava fazendo o mesmo? Roubando isso


dela?

Eu não precisava do passado para sujá-la. Eu mesmo


faria um bom trabalho. Eu a queria. E o jeito que eu a queria
era diferente do que eu esperava, do que planejei. Ela deveria
ter medo de mim. Esse era o plano. Mas segurando-a ontem à
noite, segurando-a em meus braços, ela cuidando de mim...
Cuidando de mim? Por que ela fez isso?

Eu não entendi. Não fazia sentido.

Levantei e caminhei até a janela. À distância,


suficientemente longe das mulheres para não ser intrusivo,
mas perto o suficiente para fazer o seu trabalho, estava
Eric. Após minha conversa com Lambertini, pensei em
contratar mais alguns homens.

De trás da cortina, eu assisti Sofia. Ela usava um curto


vestido de verão turquesa, seu longo cabelo molhado do
banho tinha uma presilha. Eu tenho que falar com ela sobre
seu guarda-roupa. O pensamento de qualquer outra pessoa
olhando para o que era meu me incomodou.

Ela tinha acabado de sair. Charlie, que eu levei para


fora às cinco da manhã, enquanto ela dormia, correu para
ela, e ela o pegou nos braços. Um sorriso iluminou seu rosto,
mas eu vi como ela olhou em volta, e quando Nicola saiu e
Sofia falou com ela, eu soube que ela estava perguntando
sobre mim.

Eu disse a Maria que eu não deveria ser


incomodado. Eu disse a ela para dizer que eu saí.

Eu era realmente um fodido. Um idiota,


realmente. Ontem à noite, ela me viu. Realmente me viu. E
ela não correu. Nem mesmo quando eu deixei a escuridão me
possuir, só por um tempo. O oposto, na verdade. Ela ficou
comigo e se recusou a me deixar para trás naquele lugar. Ela
me disse que lá não era meu lugar. O lugar de ninguém.

Ela não te conhece.

Ela sentou-se à mesa no pátio e tomou um gole de


café. Quando ela olhou para o escritório, eu me escondi atrás
das cortinas.

Eu a queria. Eu queria mais do que apenas fodê-la. Eu


queria ter tudo dela. Talvez tenha sido a prisão. Talvez eu
fosse como um animal preso.

Eu disse a Sofia que isso seria um casamento no papel,


mas então eu comecei a fantasiar sobre ela. Sobre a nossa
noite de núpcias. Sobre erguer as pernas dela, fazendo-a
minha. Mas eu não queria assim. Se ela dissesse que não, eu
pararia. Eu não a machucaria, não desse jeito. Mas eu fiquei
duro só em pensar sobre isso, e essa era a parte que mais me
assustava. Eu não podia deixar isso me consumir, não
importa o quê.

Talvez não tenha sido a prisão que tenha me feito


isso. Talvez tenha sido a sua inocência. Sua pureza. Talvez
fosse uma frágil tentativa minha de me purificar. Maldição,
talvez eu tenha buscado absolvição o tempo todo e nem
sequer soubesse disso.

Tudo o que eu sabia era que não poderia ser assim.

Mas por que não poderia? Por que eu não poderia tê-
la? Ela já pertencia a mim. Porque eu não poderia ter tudo
dela?

Balancei a cabeça e voltei para a minha mesa. Peguei


minha caneta e assinei o contrato, em seguida, peguei o
telefone para ligar para o meu advogado. Eu precisava deixar
as coisas em ordem. Preparar. Eu precisava me forçar a me
concentrar nisso, não nas coisas que Sofia dissera, e não nos
seus olhos caramelo, e não na suavidade de seu toque, a
maciez de sua pele.

Não no pensamento de quanto ela me odiaria quando


soubesse com o que eu acabara de concordar.
Sofia
Eu não vi Raphael por três dias depois do que aconteceu
no porão. Maria acabou de dizer que ele saiu a negócios. Eu
não sei como eu não notei ele sair da cama naquela
manhã. Eu me perguntava que horas ele partiu. Eu nem
sequer o senti se mover quando ele saiu da cama. Tudo o que
eu sabia era que dormi como uma pedra no calor e segurança
de seus braços. Esse homem que me roubaria — foi ele quem
me fez sentir mais segura do que eu senti em anos. Desde
que meus pais morreram.

Eu era tão jovem, mas com Lina sendo ainda mais


jovem, me tornei sua protetora, de certa forma. Não era nem
uma coisa consciente. Foi bom esquecer isso um pouco. Tão
bom, isso me fez perceber, o quanto eu estava guardando por
tanto tempo.

Mas o que dizer a Lina agora? O que aconteceria com


ela, agora que fui embora? Quem a protegeria? Essa idiotice
sobre sentir-me segura nos braços de Raphael, o que foi
isso? Eu não deveria sentir mais medo lá?

Mas a imagem dele naquela noite no porão, de seus


olhos, não poderia tirá-la da minha cabeça.

Raphael Amado estava quebrado. Eu me perguntei há


quanto tempo ele estava quebrado. Quem o quebrou. As
marcas nas costas contavam uma história horrível. Quantos
anos ele tinha quando aconteceu? A julgar pelo tecido
cicatricial, não era coisa de uma única vez. Nem mesmo perto
disso.

Era fim de tarde no terceiro dia e as sombras


começaram a aparecer. Quando Eric entrou para jantar, eu
fugi, cansada de ser constantemente vigiada. Eu precisava de
ar fresco e exercício para limpar a minha cabeça, e
francamente, esperava correr para ele. Eu queria ver
Raphael, enfrentar isso, o que quer que fosse.

Não sabia que eu estava indo para a capela até chegar


lá. Gostaria de saber sobre o túnel que ligava a casa até aqui,
mas estremeci com o pensamento de estar no subsolo em
toda essa distância. Eu nunca fui claustrofóbica, mas isso me
assustava.

Em vez de caminhar até a porta da frente da igreja, eu


fui para trás. Senti que era um pouco errado fazê-lo, vir aqui
sem Raphael saber, mas eu queria ver o túmulo de sua
mãe. Ver onde ele esteve naquela noite.

O caminho cheio de mato não ajudou meu progresso,


mas eu empurrei o pequeno portão que ficava ao lado da
igreja. Eu me perguntava como eu não vi o cemitério no
primeiro dia que vim aqui, quando ele me mostrou a capela,
mas com o mato alto, as lápides estavam bem
escondidas. Empurrando as ervas daninhas de lado, eu
contei mais de uma dúzia de sepulturas, a maioria delas
pedras lisas no chão, algumas mais altas. Encontrar a de sua
mãe não foi difícil. Era a única que as ervas daninhas e o
mato foram limpos recentemente, um único dente de leão
murcho estava diante dela.

Ele deixou uma flor. Ele provavelmente a arrancou do


chão ao lado da sepultura. Fiquei triste ao olhar para ela,
pensar nele aqui, percebendo que ele viera de mãos vazias
visitar sua mãe depois de todo esse tempo. Pensei nele
sozinho. Sentado no lugar onde eu estava agora. E tudo o que
sentia era solidão. Era quase demais.

O som de um galho quebrando me assustou, me fazendo


olhar em volta, minha mão sobre meu coração.

— Eu não queria assustá-la.

Por um breve momento, eu pensei que fosse


Raphael. Mas então Damon sorriu, e eu esperava que ele não
visse minha decepção.

Forcei um sorriso.

— Não, você não assustou. Eu estou apenas nervosa. —


Envergonhada, eu gesticulei à minha volta. — O anoitecer em
um cemitério. Provavelmente não é a minha jogada mais
inteligente.

Damon caminhou em minha direção.


— Cheguei cedo. Eu gosto de vir à capela quando eu
estou aqui. — Ele olhou para a sepultura. — Ele não vai
deixar ninguém fazer a restauração dela.

Eu segui seu olhar para o dente-de-leão.

— Por que não?

Damon balançou a cabeça e olhou para mim, e a


semelhança em suas feições me surpreendeu.

— Se eu conheço o meu irmão, ele se sente culpado por


sua morte. Ele é assim. Por mais duro que aparente ser do
lado de fora, em seu interior é diferente. Sempre foi assim.

Uma súbita rajada de vento me fez tremer.

Damon tirou o casaco que usava e colocou sobre meus


ombros. O gesto foi amável, e talvez pelo fato que ele era
quase um padre que eu não vi com segundas intenções. Notei
que ele usava uma camiseta preta por baixo, e notei que ele
era musculoso como seu irmão, e rapidamente parei de olhar.

— Vamos, vamos entrar. Não vai estar muito mais


quente, mas você vai estar longe do vento.

Subi as escadas com Damon atrás de mim. Ele abriu a


porta e eu entrei.

— Como você conseguiu chegar até aqui sozinha afinal?

— Você está falando de Eric?

Ele assentiu.

— Ele estava jantando.

— Raphael não vai gostar disso.


— Que pena. Em todo caso, não sei por que ele precisa
ficar me vigiando.

— É para sua proteção. De Maria e da equipe. Nosso pai


tinha inimigos.

— Eu sei. Mais ainda é estranho. — Nós nos sentamos


em um banco. — Posso te perguntar uma coisa?

— Claro.

— Eu sei que parece estranho, mas a coisa de padre...


— Eu balancei a cabeça. — Sinto muito, não é da minha
conta realmente, mas eu só quero entender.

— Está tudo bem. Eu acho que é uma questão normal,


mas eu realmente não tenho uma resposta. Não uma que
faça sentido. É apenas.... Um sentimento.

Concordei, embora eu não tivesse certeza de que


entendia o que ele queria dizer.

Ele continuou.

— Eu gosto daqui. Sempre me alivia de alguma


forma. Mesmo que eu viva em um seminário e frequente
diariamente a missa, esta pequena capela me faz sentir algo
diferente.

— É um lugar especial.

— Talvez eu goste da cerimônia da igreja católica. A


disciplina. Ela também me acalma, suponho. Mas talvez eu
só esteja tentando escapar do passado. De quem eu sou. Do
sangue em minhas veias. — Nós dois olhamos para o altar
enquanto falávamos.
— Você também se sente culpado.

— Não, é diferente.

— Alguma vez você já se apaixonou? — Eu perguntei


antes que pudesse me conter.

Ele sorriu para mim e encolheu os ombros. — Eu passei


por um período em que me apaixonava toda noite por uma
mulher diferente.

Senti-me corar.

— Como meu irmão está te tratando? — Perguntou.

— Ele está... Diferente do que eu pensei que ele estaria.

— Ele não é um monstro, Sofia. Quando eu te conheci,


eu pensei que você pudesse ajudá-lo a ver isso. Mas você tem
que ver primeiro.

— Eu vejo. Essa é a coisa. Eu só não entendo ele, eu


acho. Eu esperava que ele fosse cruel. Ou mais cruel. Faria
mais sentido se ele fosse. — Nós sentamos em silêncio por
um minuto, nossos olhos no altar. Quando um pequeno rato
correu por cima dele, eu me assustei.

— Eu acho que ele vive aqui, — disse Damon com um


sorriso. — Ele parece estar aqui toda vez que eu venho.

— Eu acho que seria bom a capela ser usada para


alguma... Coisa, mesmo que seja apenas um rato. — Eu virei
para ele. — Damon, estou certa de que isso é muito pessoal,
mas.... Eu não sei como perguntar na verdade.

— Basta perguntar.
Ele era tão franco e tão fácil de falar. — Raphael tem
marcas nas costas.

O rosto de Damon ficou sombrio, e ele desviou o olhar


do meu.

— E eu estava no porão outra noite. O encontrei lá. Ele


disse que foi até o túmulo da mãe de vocês, e sei que ele
estava bebendo, e ele... Ele não era ele mesmo. — Eu hesitei,
mas decidi dizer a ele o que eu pensava. — Eu vi o pilar.

Ele assentiu e voltou sua atenção para o altar.

— Nosso pai não era um homem gentil, Sofia, — disse


ele solenemente antes de olhar para mim novamente. — E
Raphael era um bom irmão. Um irmão protetor para mim e
Zachariah.

— O que...

— O resto é ele quem tem que te contar.

A porta batendo contra a parede surpreendeu a nós


dois. Eu pulei, ofegando, e nós dois nós viramos para olhar
para trás. Raphael estava na entrada da capela, uma mão
contra a porta que ele acabara de esmagar contra a parede, o
outro punho apertado em seu lado, seu rosto duro.

Damon se levantou.

— Irmão.

— Acolhedor aqui dentro, — disse Raphael, seu olhar


mudando de seu irmão para mim, a acusação em seus olhos
arrepiante. — Eu estava procurando por você.

— Você não estava em casa, — eu disse, sentindo-me


culpada, mas não sei por quê.

— Você não deveria vir aqui sozinha. Vai escurecer em


breve.

— Você simplesmente desaparece e espera que fique


sentada esperando você?

Raphael ignorou o meu comentário, mas não negou. Ele


voltou sua atenção para Damon e inclinou a cabeça para o
lado.

— O que você estava dizendo a ela?

— Ele não estava me dizendo nada, — eu cruzei os


braços sobre o peito. — Você desapareceu, — eu repeti.

Novamente, ele não olhou para mim. Isto era entre os


irmãos.

— Eu sempre venho à capela, você sabe disso. E


encontrei Sofia aqui dessa vez, — disse Damon.

— O que você espera que eu faça sozinha aqui dia após


dia? — Perguntei. — Quando você some sem uma palavra? —
Eu me senti irritada por ser ignorada, irritada comigo por
estar emocionada, com a dor na minha voz. Mas ele não
sentira algo na outra noite? Quando ele me segurou, isso não
significou nada?

Raphael e Damon se entreolharam.

— Raphael, não seja estúpido, — disse Damon como se


estivessem de alguma forma se comunicando sem palavras.

— Eu estou sendo estúpido quando não consigo


encontrar minha noiva em qualquer lugar, e quando eu
finalmente a encontro, ela está sentada com o aconchegante
casaco do meu irmão em seus ombros, e vocês dois
sussurrando.

— Que porra você está sugerindo? — Perguntou Damon,


entrando no corredor em direção Raphael.

Raphael arrastou seu olhar para mim.

— Aqui não é lugar para você, Sofia.

Deixei escapar um pequeno suspiro e sai do banco


também.

— Ou seja, dois lugares que não devo estar. Eu nem


mesmo sei por que você me quer aqui.

— Vou levá-la de volta para casa, — disse ele, seu tom


vazio de emoção.

Eu andei em direção à porta, em seguida, percebi que


tinha o casaco de Damon eu o tirei e devolvi para ele.

— Eu posso encontrar o caminho sozinha. — Mas ele


estava na porta e não se mexeu.

— Não, você não pode. — Ele pegou meu braço.

— Me solte.

— Raphael, — Damon começou dando um passo em


nossa direção.

— Fique fora disso. Ela pertence a mim.

— Eu sou um ser humano! Eu não pertenço a ninguém!

— Errado.

Com um sorriso rápido e frio, Raphael me fez sair da


igreja e descer os degraus. A noite caía rapidamente, e eu tive
que admitir, ele provavelmente estava certo e eu não poderia
encontrar caminho de volta sozinha.

— Por que você está fazendo isso? — Eu perguntei


quando ele não me soltou, mas continuou andando em um
ritmo muito rápido que eu não conseguia acompanhar sem
tropeçar. — Me solte. Eu não sou uma criança. Ou incapaz
de andar sozinha. O que você tem?

Ele parou.

Eu tropecei atrás dele.

Quando ele me endireitou, ele abriu a porta do lado do


passageiro da caminhonete, mas eu travei meus calcanhares
no chão.

— Entre.

— Não. Não até que você me diga por que você está
agindo tão estranho.

— Eu estava procurando por você, — ele finalmente


disse, sem demonstrar emoção alguma.

— Você foi quem saiu no meio da noite. Partiu e nunca


mais voltou.

— Era de manhã. Aquele seu cachorro estava


latindo. Entre na caminhonete. Maria está esperando com o
jantar. Eric não deveria deixá-la escapar.

— Eu não gosto de ser seguida e observada o tempo


todo.

— É para sua proteção.


Eu não quero falar sobre Eric.

— Eu não entendo você, Raphael. Eu pensei que depois


daquela noite...

— Depois daquela noite?

A maneira como ele perguntou, tão casualmente, como


se não tivesse sido nada. Como se nada tivesse
acontecido. Isso me fez sentir tão estúpida, eu hesitei.

— Eu não quero que você ande por aí com o meu irmão,


— disse ele.

— Nós não estávamos andando por aí. Eu só queria


ver....

— O túmulo da minha mãe? Você queria ver por que eu


estou tão fodido?

Ele me agarrou pelos braços, seu aperto muito duro.

— Você está me machucando.

— Entre na maldita caminhonete.

— Por que você está tão bravo?

— Droga, entre.

Ele me levantou, me colocou na caminhonete, e fechou a


porta antes que eu pudesse protestar. Ele deu a volta para o
outro lado e entrou. Eu vi Damon nos observando da porta da
capela.

— E o seu irmão?

Raphael estendeu a mão para colocar o cinto de


segurança em mim, em seguida, deu a volta com a
caminhonete e saiu muito rápido.

— Ele já é grandinho. Ele pode encontrar o caminho de


volta sozinho.

— Por que você está tão bravo?

— Eu já disse na outra noite, Sofia. Estou fodido. Isso é


tudo. Tudo o que você imaginou que aconteceu entre nós,
esqueça.

— O que eu imaginei? — Perguntei, sentindo raiva


agora.

Ele me olhou com o canto do olho.

— Desacelere.

— Você quer saber sobre minhas costas? Sobre as


cicatrizes?

Ele não desacelerou, com as mãos em punhos no


volante enquanto nós dirigimos passando pela casa e em
direção ao portão que leva para fora da propriedade.

— Era isso que você estava perguntando a Damon?

— Onde estamos indo? Desacelere.

— Meu pai me chicoteava. Era sua punição especial só


para mim. Tenho certeza que meu irmão contou tudo para
você.

Eu vi seu rosto, me sentindo realmente com medo agora


enquanto nós íamos estrada a fora, rodas girando,
levantando poeira.

— Dezenas de vezes. Lá embaixo naquele porão. E isso


não é o pior de tudo.

— Raphael... — Estendi a mão para tocá-lo, mas puxei


minha mão de volta.

— Eu precisava ver aquele lugar novamente. Isso foi


tudo. Eu estava bêbado.

— Por favor, diminua a velocidade. Você está me


assustando. — Então nós batemos em um buraco. Deixei
escapar um pequeno grito, o cinto de segurança me
apertando enquanto eu tirava as minhas mãos do painel.

Ele riu, mas o som era estranho, não era um sorriso de


verdade, mas ele diminuiu a velocidade da caminhonete.

— Você está com medo de mim ou do jeito que eu dirijo?


— Perguntou.

— Ambos, — eu respondi honestamente. — Ele não me


disse nada sobre suas cicatrizes. Ele me disse que você era
um bom irmão. Um protetor. Isso foi tudo.

Ele olhou para mim, estudando meus olhos na luz fraca.

— Eu perguntei a ele, e ele disse que era você quem


deveria contar. Isso é tudo, Raphael.

Isso pareceu acalmá-lo um pouco, e nós dirigimos em


silêncio durante dez minutos antes dele pegar um desvio para
uma estrada sinuosa que conduzia para o que parecia ser
uma vila abandonada e em ruínas.

— E não era nada, — eu disse, reunindo minha


coragem. Estudei seu perfil. — O que aconteceu na outra
noite, você não estava apenas bêbado. Era algo mais.
Ele não respondeu. Nós dois sentados em silêncio
enquanto ele dirigia. Ele finalmente estacionou o carro
próximo às paredes exteriores da vila. Desligou o motor e
ficou olhando para a vila. Eu mantive meus olhos nele.

— O que Damon quis dizer quando disse que você era


um irmão protetor? — Eu tive que perguntar. Mas eu sabia a
resposta, não é? Eu podia adivinhar.

Raphael se virou para mim, a dor em seus olhos era a


mesma dor que eu vi na noite anterior. Ele não respondeu
minha pergunta. Em vez disso, ele saiu da caminhonete. Tirei
o cinto de segurança e o segui.

— Esta é Civitella in Val di Chiana5.

— Ela parece abandonada. — Estava tão escuro.

— Não é. Não completamente. Há alguns festivais


durante o verão, depois novamente em setembro na colheita,
mas fora isso, é tranquilo.

O segui pelo portão de pedra em ruínas, olhando em


volta, lendo as placas das lojas — um padeiro, um
açougueiro, vários pequenos cafés. Quando eu tropecei, ele
me pegou e segurou minha mão o resto do caminho até que
estávamos no topo da vila em uma área aberta, que deve ter
sido uma vez parte da casa que agora estava em ruínas. A
grama a muito tempo cobriu o chão, e no centro do agora um
pequeno campo, ele parou e olhou para cima. Segui seu olhar
e fiquei admirada com o céu negro pontilhado de estrelas
brilhantes.
5
Espécie de comunidade, localizada na Toscana, Itália.
— Sem poluição luminosa6, — disse ele e se sentou.

Sentei-me ao lado dele.

— É incrível.

— Minha mãe costumava me trazer aqui. — Ele se


deitou. — Nas noites ruins. — Eu o segui, e nós dois
observamos o céu.

— Tome cuidado ao lutar contra os monstros, para que


você não se torne um, — disse ele.

Virei à cabeça, mas ele não estava me observando.

— Nietzsche, — acrescentou.

— Você não é um monstro.

— Você não me conhece.

— Você continua me dizendo isso. — Ele virou de lado


para me encarar.

— Você sabe o que eu quero fazer agora, Sofia?

Seu olhar deslizou para minha boca, então de volta aos


meus olhos, e sua mão veio para o meu ventre. Me olhando,
ele começou lentamente a subir meu vestido, o fino algodão
fazendo cócegas nas minhas coxas quando ele subiu mais e
mais.

Eu coloquei minha mão sobre a dele.

— Pare.

— Por quê?

6
É o tipo de poluição ocasionada pela luz excessiva ou obstrutiva criada por
humanos.
Ele segurou meus pulsos e os arrastou sobre a minha
cabeça antes de rolar em cima de mim.

Prendi a respiração, ofegando quando eu percebi que eu


o sentia pressionando minha barriga.

A boca de Raphael veio à minha para um breve, mas


luxurioso beijo.

— Eu quero que isso doa, Sofia.

Sua voz estava tão calma, e desejo ardia em seus olhos


quando ele trouxe sua boca de volta para a minha, seus
lábios não suaves, mas não muito duros. Ele transferiu meus
pulsos para sua mão, e sua outra deslizou para minha coxa
quando ele abriu as minhas pernas com os joelhos, olhando o
meu rosto enquanto ele fazia isso, olhando em meus olhos
com uma escuridão que tanto me apavorava quanto me fazia
querer.

— Pare, — eu tentei novamente, soando pouco


convincente até mesmo para mim.

— Talvez seja por causa de como eu cresci.

Seu domínio sobre meus pulsos apertou quando


comecei a lutar quando os dedos da outra mão vagaram pela
parte de dentro da minha coxa, subindo mais, apenas
roçando contra a extremidade da minha calcinha.

— Raphael...

— Houve uma mudança.

— Que mudança?

Ele balançou a cabeça, como se estivesse afastando


aquele pensamento.

— Não fará diferença se eu foder você hoje à noite ou


amanhã à noite ou na noite seguinte. Você é minha. Isso é
tudo que importa.

Ele engoliu seco e lambeu os lábios, e eu mal podia


respirar com o seu olhar agora sombrio.

— Será que te assusta eu querer te machucar? Que eu


queira que você me sinta enquanto eu a fodo. Sinta-me
rasgar você.

Mordi meu lábio.

— Que eu queira ouvir você gritar.

Eu engasguei quando seus dedos deslizaram em minha


calcinha, tocando-me lá.

— Você não sabe o quão duro eu fico quando eu penso


sobre a sua pequena boceta apertando meu pau. Imaginando
quão quente seu sangue virgem vai ser. O que eu quero saber
é....

Ele beijou minha boca novamente quando ele ergueu


seus quadris um pouco, e seus dedos se fecharam sobre o
meu sexo.

— Se você está molhada para mim.

Ele sorriu, e eu fechei meus olhos e virei à cabeça para o


lado.

— Hmm.

Ele gemeu contra meu ouvido enquanto seus dedos


começaram a me acariciar, me fazendo tomar respirações
curtas e rápidas enquanto ele tocava meu clitóris.

— Por favor.

— Por favor, o que?

Ele deslizou um dedo em minha abertura, e eu


endureci. Ele tirou seu peso de cima de mim, mas manteve
meus pulsos fixos sobre a minha cabeça. Nós dois olhamos
para como o meu vestido jazia amassado na minha barriga,
minhas coxas se separaram, seus dedos trabalhando dentro
da minha calcinha.

Eu deveria lhe dizer para parar. Mas eu não poderia


fazê-lo. Eu não poderia dizer-lhe para parar. Porque eu o
queria. Eu queria ele tanto quanto ele me queria, e eu não me
importava com o resto.

— Olhe para mim, — ele ordenou com um sussurro.

Eu olhei.

Ele lentamente retirou a mão da minha calcinha e


começou a arrastá-la para baixo.

— Diga-me para parar.

Descendo, descendo, descendo, descendo pelas minhas


coxas, pelos meus joelhos e sobre os meus tornozelos.

— Diga-me para parar, e eu vou parar. Eu vou parar


agora.

Ele soltou meus pulsos. E eu não me movi quando ele se


sentou, e seu olhar deslizou para o meu sexo. Ele passou os
dedos pelos cachos escuros e olhou para mim.
— Diga-me, Sofia. Diga-me você não quer isso. Diga-me
que não me quer.

Eu não podia. Deus, eu não podia.

Ele sorriu como se já soubesse.

— Você não pode dizer.

E não me movi, e ele sorriu.

— Abra suas pernas.

Eu balancei a cabeça um pouco. Essa foi toda a


resistência que eu pude reunir. Ele sorriu e então, sem
quebrar o contato visual, ele empurrou uma perna para me
abrir e voltou seu olhar para o meu sexo. Fiquei ali incapaz
de me mover ou falar enquanto seus dedos passavam pelo
cabelo novamente antes que ele baixasse sua cabeça escura
para me beijar ali.

O meu suspiro foi um murmúrio de seu nome. Ele então


me lambeu, um rápido movimento de sua língua, então um
lento, circulando meu clitóris. Quando ele selou seus lábios
nele, eu gemi, e minhas mãos se moveram para sua cabeça,
puxando seu cabelo enquanto ele se ajoelhava entre minhas
pernas abertas e olhava para mim.

— Eu sinto seu cheiro, — disse ele.

Então, com os dedos no lado dos lábios, ele me abriu.

— Sua pequena boceta bonita está pingando para mim.

Ele fechou a boca sobre o meu clitóris novamente e


começou a chupar e lamber. Segurei seu cabelo e tentei
empurrar, querendo, querendo sua boca, querendo a
sensação dele em mim, me chupando, sua língua tão macia,
a barba em sua mandíbula tão áspera. Levei apenas alguns
minutos para gozar, o som que fiz me foi estranho, apertei
meus olhos bem fechados. Ele chupou forte, fazendo-me
transbordar, drenando-me, engolindo meu prazer, minha
negação, meu desejo, tudo de mim, até que finalmente, os
meus braços caíram para os meus lados, e eu exalava alto,
com um suspiro profundo Raphael endireitou, limpando seus
lábios molhados com a parte de trás da sua mão, sorrindo
para mim, vitorioso.

— Me agrada que você esteja gostando, — disse ele,


puxando o meu vestido mais para cima para revelar o meu
sutiã. Ele o abaixou sob os meus seios e me estudou,
pegando o zíper de sua calça jeans enquanto ele fazia isso.

O som dele de repente me animou.

— Espere!

Ele balançou a cabeça e colocou uma mão firme em


minha barriga.

— Fique. — Ele se ajoelhou. — Não fantasia sobre como


será? — Ele perguntou, tirando a calça jeans e cueca.

Olhei para ele, seu pênis contra sua barriga rígida,


grosso e longo, a ponta úmida. Ele o segurou e começou a
bombear lentamente, e quando eu encontrei seu olhar, ele
estava me observando.

— Não se pergunta o que vai sentir quando meu pau


grosso esticar sua pequena boceta apertada?
Engoli. Eu me pergunto. Toda noite. Todas as noites
enquanto eu deslizava meus dedos entre as minhas pernas,
eu imaginava exatamente isso. E o seu olhar me disse que ele
sabia disso.

— Você é minha, Sofia.

Ele bombeou mais duro quando ele disse isso, e com a


outra mão, ele alcançou meu mamilo, me machucando, me
fazendo gritar. Embora isso só parecesse excitá-lo mais,
quando ele apertou com mais força e bombeou mais
rápido. Mordi meu lábio olhando para ele, imaginando o
sabor de seu pau majestoso, meu olhar se movendo de seus
olhos escuros e brilhantes para sua mão, movendo tão
rápido, tão duro, me fazendo desejá-lo. Inclinei-me em meus
cotovelos, e Raphael ajoelhou-se sobre mim. Um som veio do
fundo de seu peito, e ele gozou, jatos de sêmen em toda a
minha barriga, minha boceta, meus seios e pescoço, quente
contra meus mamilos quando ele gozou em mim, antes de
cair na grama, exausto, drenado, como eu.

Me movi para me cobrir, mas ele segurou minha mão e


balançou a cabeça e observou o céu.

— Houve uma mudança no contrato, — disse ele, sem


olhar para mim.

A brisa repentinamente pareceu fria contra a minha


pele, e eu estremeci.

— O que mudou?

Raphael apertou meu pulso e se virou para mim.


— Nós vamos nos casar em dois dias.

— Dois dias? — Por que eu entrei em pânico com o


pensamento? Eu sabia que estava chegando.

Ele assentiu.

— Não me olhe assim. Pelo menos você vai ver sua irmã.

— Raphael... — Comecei a me levantar, mas ele me


parou. Sentou-se, tirou a camiseta, e começou a me
limpar. Ele não falou enquanto ele limpava, e uma vez que ele
terminou, ele abaixou meu vestido, me cobrindo.

— A mudança, Sofia, — disse ele. — Não é a data. É


outra coisa.

Me sentei, seu olhar me dando um aviso.

— É uma alteração do contrato.

— Que alteração? — Perguntei, sabendo o que ele me


diria, o que ele concordou, seria uma traição para mim.

— O casamento será consumado.

Confusa, eu esperei.

— Seu avô pediu a mudança.

— Eu não entendo.

— Ele quer seu sangue em meus lençóis.

O desinteresse em seu tom me deixou fria.

Eu balancei a cabeça, afastando-me dele. Eu


consumaria o casamento. Eu queria isso. Ele tinha que saber
isso. Mas ele não queria? Esta noite... Ele iria fazer amor
comigo.... Não, ele não faria amor. Ele me foderia. Eu nunca
deveria cometer esse erro, não com ele. Ele iria me foder para
ferrar meu avô. Se tratava disso, e eu fui uma tola de pensar
de outro modo, mesmo por um segundo.

Ele ficou de pé.

— Vamos. Eu estou com fome.

Eu só podia olhar para ele, sem acreditar no que estava


ouvindo.

— Uma noite, Sofia. Você vai sobreviver. Não olhe para


mim assim. Não finja que não quer.

Ele estendeu a mão para pegar a minha.

— Fique longe de mim, — eu disse, me afastando.

— Cristo.

Fiquei de pé, recuando.

— Porque você não me contou? Porque me humilhar


assim? — Eu olhei para a minha calcinha descartada na
grama, e a vergonha que senti fez minha pele queimar.

— Não seja dramática. Vamos.

— Você vai pegar algo que poderia ser bonito e torná-lo


feio. Você não tem direito. — Tentei processar, entender como
isso poderia estar acontecendo. — Você tem nojo de mim? —
Eu finalmente perguntei.

— O quê? — Perguntou.

Eu suspirei, balançando a cabeça.

— Você vai me foder para que você tenha lençóis


ensanguentados para provar que o casamento foi
consumado? Para garantir que meu avô não conteste os seus
supostos direitos à minha herança?

Ele respirou fundo e me olhou, como se estivesse


confuso.

— Não tenho nojo de você. Longe disso, — disse ele.

— Eu não posso acreditar em você. Deus, eu sou uma


boba, não sou?

— Acalme-se, Sofia. Vamos para casa.

— Eu já disse, aquela não é a minha casa. Nunca será


minha casa. Você acabou de se certificar disso.

— Tudo bem, já chega.

Ele segurou meus braços.

— Eu odeio você, — eu disse, com lágrimas borrando


minha visão. — Eu odeio que você vá fazer isso comigo.

— Não é como se você não quisesse.

— Eu não estou falando sobre foder, caralho!

Sem me responder, ele se virou, segurando um dos


meus braços e caminhando de volta para a caminhonete.

— Me solte. Fique longe de mim.

— E o que, deixá-la aqui? Ligar para o meu irmão vir


buscá-la? Você gostaria disso, não é? Vocês dois se
aproximaram rápido, Sofia.

Eu lutei com ele todo o caminho de volta para a


caminhonete, mesmo que fosse inútil.

— Bem, notícia de última hora. Ele vai ser a porra de


um padre. Ele é celibatário. Ou deveria ser.

O que diabos isso significa?

— Eu não quero o seu irmão. Não é desse jeito.

— Não? — Ele abriu a porta do lado do motorista e me


levantou, então me empurrou através do banco para o lado
do passageiro. — Como é, então?

— Eu fico pensando que você tem jeito, mas você não


tem, — Eu disse quando ele ligou o motor e colocou o carro
em marcha.

— Coloque o cinto de segurança.

— Eu continuo pensando que você está apenas perdido


e ferido e....

— Bem, talvez você devesse parar de pensar


nisso. Talvez você deva aceitar o fato de que eu sou a porra
de um monstro. Que eu vou te foder, para mostrar ao seu avô
doente os lençóis ensanguentados que ele quer ver.

— Vocês dois são doentes. — Eu cobri o rosto com as


mãos.

— Bem, olhe pelo lado positivo. Uma noite comigo e está


feito. Você nunca precisará me tocar de novo.

— Você está certo, — eu disse, sem me importar se ele


estava dirigindo rápido demais. — Você estava certo o tempo
todo. Eu nunca deveria ter pensado em mais nada. Você é
um monstro. Como seu pai.
Raphael

Após a noite em Civitella in Val di Chiana, duvidei que


Sofia apreciaria que estaríamos casando na Basílica de Santa
Croce em Florença, ao lado dos lugares de descanso de
Michelangelo, Galileu e Maquiavel, diante dos olhos de Deus
e de um punhado de testemunhas e fodidas multidões de
turistas. Os turistas eram inevitáveis nesta época do ano. Eu
quase poderia tolerá-los.

Custou uma contribuição exorbitante para reservar a


basílica, mas isso só concretizava o meu pensamento. O
dinheiro compra tudo o que inclui a igreja. Mas eu tinha que
admitir, esta era uma magnífica exibição da devoção e da
arte, mesmo fosse desperdiçada.

Eu estava no altar, esperando a minha noiva. A corda


pouco fez para manter os visitantes curiosos à distância. Ao
meu lado estava Eric como testemunha e outro homem
arranjado por meu advogado. Eu não sabia quem ele era. No
banco da frente estava sentado o avô de Sofia, o grande
Marcus Guardia, sua expressão ilegível. Ao seu lado sentou
Lina. Menor do que Sofia, mas não por muito. Tão bonita
quanto ela. O velho manteve sua parte no acordo depois de
eu ter assinado o contrato alterado. Do outro lado do corredor
estava Maria. Eu não convidei ninguém para o casamento.

Cerca de duas dezenas de estranhos, fiéis que


provavelmente não estavam esperando um casamento,
distribuídos pelos outros bancos, dando a aparência de
convidados. O padre limpou a garganta e fez uma
demonstração de verificar o relógio.

Demorou mais cinco minutos antes que as portas


fossem abertas, e alguém entrou para sinalizar para a
música. O organista começou a tocar a marcha nupcial, e eu
tomei um momento para endireitar minha gravata. Eu usava
preto sobre preto. Era apropriado.

Dois homens seguravam as grandes portas de entrada


dos fiéis. Pela luz do sol lá fora, eu conseguia distinguir as
duas formas, o branco do vestido lançando uma espécie de
halo em torno de Sofia. Ao seu lado estava meu irmão. Meu
maldito irmão. Alto e orgulhoso em seu terno, o braço de
Sofia enfiado no seu. Eu quase podia vê-lo dando tapinhas,
dizendo-lhe que ficaria tudo bem. Tranquilizando-a quando
ele não tinha nada a fazer.

Eu não sabia quando ela lhe pediu para levá-la até o


altar. Eu entendi que ela não queria seu avô. Isso fazia
sentido perfeitamente. Mas isso? Isso me irritou, na verdade.

O organista começou a marcha novamente, e eles deram


os primeiros passos. Quando entraram na igreja, eu podia ver
seus rostos. Meu irmão, depois todo o seu apoio a algumas
noites atrás, agora me condenava com seu olhar. Fiquei
imaginando o quanto ele sabia. Quanto ela lhe disse.

Sofia olhou para o chão. O véu a protegia até que ela


estava a cerca de um terço do caminho até o altar. Foi
quando ela hesitou. Damon fez uma pausa também, em
seguida, sussurrou algo para ela. Ela pareceu levar um
minuto para se recompor, e diante dos meus olhos, ela se
endireitou, mais alta, sua coluna ereta. Ela olhou
diretamente para mim.

Eu encontrei o seu olhar, senti o frio não natural dentro


de seus olhos, aceitei as acusações que ela jogou como
granadas. Mas ela nunca me pareceu mais bonita do que
naquele momento.

O caimento do vestido como se tivesse sido feito para


ela, abraçando suas curvas delicadas, o antigo véu com
bordas amareladas não a escondia completamente, mas
acrescentava um ar quase etéreo a ela, à sua beleza. Seu
cabelo foi intricadamente trançado, apenas algumas suaves
mechas caindo em seu rosto, sobre seu ombro, e seus olhos
dourados brilhavam como se cobertos por uma camada de
cristais de gelo.

Ela nunca desviou o olhar. Não vacilou novamente


enquanto Damon caminhava com ela para mim. Quando ele
olhou para ela, o olhar que eles trocaram me fez fechar as
mãos em meus lados. Não era atração ou afeto, não mais do
que a amizade, mas parecia como se um vínculo tivesse se
formado entre eles, e eu sabia pela maneira como ele olhou
para mim, a maneira como olhou para ela, que ele sabia o
que aconteceu entre nós. O que ainda aconteceria.

Eu o odiava por isso naquele momento. Eu o odiava por


ter alguma coisa dela que eu não tinha. Que eu nunca teria.

Meu irmão levantou o véu e deu-lhe um sorriso gentil,


um beijo na bochecha. Uma palavra sussurrada. Eu o
mataria por isso, porra.

Ele então a virou para mim.

Lágrimas brilhavam em seus olhos. Seu lábio não


tremeu. Quando ela olhou para mim, tudo o que vi foi
ódio. Um ódio que veio da traição. Destruindo uma relação
que ainda estava sendo construída.

E, apesar disso, ou talvez por causa disso, ela me tirou o


fôlego.

Eu a virei para o altar e fiquei em silêncio ao seu lado,


ouvindo-a respirar, ouvindo o padre, mas sem escutar suas
palavras. Ouvindo-a tranquila ―Eu aceito. ‖ Falando a
minha. Pegando o ligeiro tremor de sua mão quando ela
entregou seu buquê de lírios negros ―apropriado se não
dramático‖ para meu irmão, que permaneceu ao seu lado. Ela
então me encarou novamente, e eu peguei a mão dela. Do
meu bolso eu peguei sua aliança de casamento. Um anel de
espinhos feito de ferro, preto e arredondado para deslizar em
seu dedo, recortado para lembrá-la de seu lugar.

Ela olhou para ele, uma vez que foi totalmente


encaixado no seu dedo delicado, e eu gostaria de saber que
pensamentos circulavam em sua mente.

O padre limpou a garganta, e eu queria dar um tapa


nele. Para dizer-lhe para dar a ela tempo. Para nós dois.

Sofia me olhou. Dei-lhe o meu anel. Ela pegou, e eu


estendi minha mão esquerda. Quando ela colocou o anel
serrilhado no meu dedo, ela ofegou, hesitando diante da visão
súbita do sangue.

Sua boca se abriu, seus olhos arregalados quando ela


encontrou os meus.

— Coloque-o, — eu disse.

Ela deslocou seu olhar de volta para a minha mão e


arrastou a faixa cravada para cima, seus olhos agora fixos
nas linhas vermelhas que apareceram ao longo do meu
dedo. A primeira gota escura caiu, sujando o branco neve do
vestido, e quando empurrou meus dedos manchados à
distância, ela olhou para mim novamente, o gelo em seus
olhos diferente, menos frio. Confuso agora. Perdido.

Perdido novamente.

Segurei a sua nuca e forcei sua atenção ao sacerdote


que estava um pouco pálido com o sangue.

— Acabe com isso, — eu cuspi.

Ele olhou para mim, engoliu, atrapalhou-se com a sua


fodida Bíblia, e depois nos declarou marido e mulher.
Beijei minha noiva com uma fome que a devoraria. Um
aviso para ela. Uma promessa do que viria.
Sofia
— O que você fez com o anel? — Eu perguntei quando
entramos no carro. — Seu dedo...

— Vai curar.

— Porque você fez isso? Por quê?

— Eu pensei que seria um lembrete constante de você,


— disse ele com um sorriso de quem não disse tudo.

— Eu não entendo.

— O que você tem com o meu irmão?

— Nada. Você está com ciúmes?

— Não estou com ciúmes. Lembre-se, verdade. Eu quero


a verdade, sempre.

— Bem, ele não é louco. Isso é uma coisa que temos em


comum, eu acho.

— Ele é um tipo diferente de louco. Estou avisando


agora para ter cuidado com ele. Você não conhece o meu
irmão.

— E eu já gosto dele mais do que de você.

— Isso não é uma vergonha para você, então.

Silêncio.

Tirei os grampos que prendiam o véu sobre a minha


cabeça e o dobrei no meu colo. Olhei para fora das janelas
escuras, observando quando Lina e meu avô entraram em
outro sedan. Lina olhou para o nosso carro e acenou. Eu
acenei de volta, vendo que eles nos seguiram quando saímos.

Lina me ligou em pânico apenas alguns dias atrás. Ela


me disse que o avô não a traria para o casamento. Algo o fez
mudar de ideia. Fiquei imaginando o que.

O jantar seria servido na casa hoje à noite, e eu soube


que teria mais gente na recepção do que aqueles reunidos na
igreja. Mas fiquei surpresa ao encontrar mais de uma dúzia
de carros estacionados na casa após a nossa chegada.

— Quem são todas essas pessoas?

— Primos. Parceiros de negócios. Pessoas das fazendas


próximas. Pessoas que eu preciso ver, agora que estou de
volta.

— Oh. — Eu olhei para a casa iluminada, vi pessoas se


movendo para dentro. A área da piscina e a varanda dos
fundos estavam iluminadas com velas e lanternas. Quando
Raphael me ajudou a sair do carro, eu pude ver mesas para o
jantar com bonitas toalhas de mesa brancas e peças centrais
ornamentadas. Lírios negros. Como o meu buquê. Essa foi a
minha única exigência, e eu estava determinada a deixar a
minha marca. Deixá-lo saber como eu via essa união profana.

— Eu arranjei para sua irmã ficar conosco por alguns


dias, — disse Raphael de repente.

— O que?

— Sua irmã. Eu sei que você quer passar mais tempo


com ela.

— Mas meu avô...

— Seu avô é bem-vindo para sair quando ele quiser. Ela


vai ficar. Eu arranjei isso, — ele disse, me cortando. — Eu
disse que não seria uma besta para você.

— Por quê?

— Por que não vou ser uma besta?

— Por que você faria isso por mim?

— Basta dizer obrigado, — ele disse enquanto dobrava a


esquina. Todas as cabeças se voltaram para nós.

— Obrigada.

Eu não tive a chance de dizer mais, porque fomos


arrastados pela multidão, muitas pessoas que eu não
conhecia vindo em nossa direção, nos parabenizando em
italiano, beijando minha bochecha, nos entregando envelopes
que eu não esperava. Como se isso fosse um casamento real.

Raphael sorriu ao meu lado, falando com as pessoas,


abraçando alguns, apertando as mãos de os outros. Ele
parecia relaxado, mais relaxado do que eu jamais o vira. E ele
nunca tirou as mãos das minhas costas, me mantendo perto
dele, me apresentando muitas pessoas, nenhuma das quais
eu me lembraria.

Minha irmã e meu avô chegaram. Damon estava com


Lina. Meu avô pairava atrás dela como uma sombra
negra. Estremeci com a imagem, mas fui distraída quando me
foi entregue uma taça de champanhe e alguém fez um brinde.

Olhei para Raphael, que parecia me observar apesar de


tudo isso, como se um olho estivesse constantemente em
mim.

— Beba, — disse ele.

Eu bebi.

Em seguida um jantar extravagante, acabando apenas


quando o café foi servido. Raphael e eu recebemos mais
convidados que vieram após o jantar. Um SUV com vidros
fumê, incluindo o para-brisa, dirigindo para a propriedade
chamou minha atenção. Raphael enrijeceu ao meu
lado. Quando três homens de terno desceram, me virei para
perguntar-lhe quem era.

— Vá para dentro com sua irmã, — disse ele, mal


olhando para mim. Me dispensando.

— Raphael...

— Vá.

Ele acenou para Eric, dando-lhe uma ordem em


italiano. Eric olhou para mim com um sorriso tenso.

— Pegue sua irmã e vá para dentro, Sofia. Eu tenho que


cuidar de alguns negócios.

Eu nem sequer tive tempo de fazer uma pergunta antes


que ele se afastasse para saudar os homens. Fui com a
minha irmã, sentindo os olhos do meu avô em mim, mas
incapaz de olhar para ele.

— Lina, — eu disse, trazendo-a para dentro da casa. —


Raphael arranjou para você ficar aqui por alguns dias.

— Eu sei. O nosso avô me disse que concordou. Disse


que era o seu presente de casamento.

— Estou tão feliz.

— Eu também. Você está muito bonita por sinal. Vocês


formam um bonito casal.

— Não diga isso.

— Vocês vão fazer lindos bebês também.

— Isso nunca vai chegar a esse ponto, eu juro, — eu


disse e a levei para a sala de estar, onde ela imediatamente
foi para o piano.

— Nunca se sabe, — ela provocou, deixando seus dedos


correrem por algumas teclas.

— Oh eu sei.

Ela se virou para mim e me olhou da cabeça aos pés.

— Realmente, você está tão bonita.

— Obrigada.

— Ele não tira os olhos de você também, — ela disse,


acenando com a cabeça para trás de mim.
Virei-me para ver o sombrio olhar de Raphael em mim
mesmo enquanto ele se dirigia para seu escritório. Os
homens que se aproximavam quando ele me enviou para
dentro seguiram-no, e eu não perdi o jeito que eles me
examinaram e sabia que Raphael tampouco.

Passou-se meia hora antes que a porta de Raphael se


abrisse novamente. Lina estava sentada ao piano com um
grupo reunido ao seu redor para ouvir. Eu assisti os homens
saírem, seus rostos tensos. Raphael seguia de perto, e eu não
perdi a forma como ele estendia as mãos em punhos em seus
lados. Vi-os sair pela porta da frente, notei o murmúrio
tranquilo de sussurros e olhares de canto e me perguntei
quem eram. Eu teria perguntado a Damon, mas então
Raphael veio até mim, me pegando pelo braço me dando um
sorriso forçado e fazendo uma reverência que chamou a
atenção de cada homem e mulher no lugar.

— Hora de levar minha noiva para a cama, — disse ele


para o deleite de todos os presentes. Todos menos
eu. Quando olhou para mim, porém, eu vi a sombra nos seus
olhos. Esta atitude casual, era uma fachada. Alguma coisa
aconteceu com aqueles homens.

Deixei que ele me levasse para as escadas. Olhei para


trás e vi Lina e Damon assistindo, a preocupação nos olhos
dela, um aviso nos dele, um aviso para seu irmão. Um que eu
sabia que Raphael não prestaria atenção.

Subimos, Raphael e eu. Passando pelo meu quarto,


desaparecendo pelo corredor até o último quarto, aquele com
grandes portas duplas que ele abriu, então se afastou e fez
um gesto para que eu entrasse.

Nossos olhares se encontraram, e embora eu soubesse


que não tinha escolha, que nenhum de nós tinha, eu sabia
que entrar em seu quarto mudaria tudo para nós. Eu nem
sabia mais o que queria. O que eu não queria. Era demais
para fazer sentido. Demais para entender.

E assim, quando ele chamou meu nome, me trazendo de


volta ao presente, eu dei esse passo, e ele seguiu. A porta se
fechou atrás de nós, e a fechadura clicou, deslizando no
lugar, e eu virei para ele para começar a nossa dança.
Raphael
Seria possível ouvir a batida de um coração?

O de Sofia batia em um ritmo frenético. Ela ficou de pé


dentro do meu quarto. Seu olhar deslizou do meu, e eu a
assisti olhando tudo, vendo-o novamente a partir de seus
olhos. Era o maior dos quartos que não foram danificados
pelo fogo. O que eu cresci foi quase destruído. O mobiliário
aqui era pouco e novo: carpete escuro, cortinas escuras para
combinar, uma cama king-size contra a parede do fundo, e
uma mesa com uma lâmpada no lado em que eu dormia,
uma cadeira e mesa em um canto na qual eu joguei meu
paletó. Isso era tudo.

Ela voltou seu olhar para o meu.

Eu afrouxei a gravata no meu pescoço e a puxei sobre a


minha cabeça, pendurando-a sobre o encosto da cadeira,
depois tirei as abotoaduras da minha camisa uma por uma. E
as coloquei sobre a mesa antes de enrolar as mangas da
camisa. Todo o tempo, Sofia e eu nos observamos.

— Quem eram aqueles homens? — Perguntou ela.

Sua pergunta me fez lembrar do encontro. Afastei-me


dela e tirei a tampa da garrafa de uísque sobre a pequena
mesa, servindo para cada um de nós um copo. Ela só hesitou
por um instante antes de pegar o copo que eu lhe oferecia.

— Associados de negócios do meu pai.

— Não são seus amigos ou a família?

— Não.

— Por que estavam aqui, então?

— Eles te aborreceram?

— Não. Apenas.... Eu não gostei de como eles olharam


para mim. E eles pareciam.... Eu não sei. Eles não foram
convidados, foram?

— Não, — não há sentido em mentir.

Ela aceitou.

— Você está segura, Sofia.

— Estou?

Eu não respondi, mas toquei meu copo no dela e


bebi. Ela fez o mesmo. Quando nossos copos estavam vazios,
eu peguei o dela e coloquei de lado.

— Dispa-se.

— Oh, é claro. Aos negócios.

Eu sorri e envolvi um braço em cintura para puxá-la


para mim.

— Eu vou fazer isso ser bom para você.

As mãos dela pressionadas contra o meu peito.

— Você tem alguma ideia de como isso é humilhante


para mim? Saber que meu avô...

— Esqueça o velho. Esqueça tudo. Você quer isso. E eu


também.

Minhas mãos trabalharam os botões mais altos da parte


de trás do vestido. Ela recuou.

— Pare.

— Não me faça arrancar isso de você, Sofia.

— Você arrancaria?

— Eu não quero.

— Não foi isso que eu perguntei.

— Eu vou fazer você gozar. Eu prometo.

— Você acha que isto é sobre um orgasmo?

— Se fosse assim tão fácil, — eu disse, soltando-a,


afastando-me para passar a mão pelo meu cabelo,
pensando. Pensando. Eu enfrentei ela. — Esta coisa, Sofia...
esta alteração.... Seu avô está testando minha fraqueza. Ele
está testando para ver se você se tornou minha fraqueza.

— O que você quer dizer?

— Ele usou Lina. Ele disse que não permitiria que ela
estivesse aqui com você para ver o que eu faria. Ver se eu
cederia a essa demanda, ou lhe diria para ir se foder. Se eu
lhe dissesse para se foder, então ele saberia que eu não dou a
mínima para você.

Ela inclinou a cabeça, sua mão vinda para sua


garganta.

— Eu preciso sentar por um minuto.

Ela se sentou na beira da cama, sem se mover por um


longo tempo, provavelmente tentando entender o que eu
acabei de dizer. Ela começou a desfazer os grampos que
prendiam o cabelo e colocá-los na mesa de cabeceira. Eu
contei vinte e sete no momento em que ela terminou e seu
cabelo caiu em ondas sobre os ombros.

— Por que você não me disse isso na outra noite? —


Perguntou ela.

— Porque eu estava puto por estar sendo


manipulado. Fiquei chateado ao encontrar você e meu
irmão...

— Não era o que você estava pensando.

— Eu sei. Eu sei agora.

— Tem mais?

Agora não era o momento para o mais.

— Esqueça-o. Ele não é o motivo por estarmos aqui,


entendeu? Não mais.

Ela não respondeu, mas me olhava, pensativa.

— Venha aqui, Sofia.

Ela levantou-se e atravessou o quarto.


— Vire-se.

Ela se virou, obediente. Ela sabia que isso aconteceria,


tanto quanto eu. Eu não a submeteria a isso. Eu não queria
fodê-la desse jeito.

Eu me aproximei dela, e ela se manteve de costas para


mim. Tocando-a o mais leve que pude, levantei os cabelos
sobre o ombro. Ela ainda tremia, embora, mesmo naquele tão
leve roçar de pele com pele. Olhei para seu pescoço, delicado
e tão frágil. Isso me fez perceber o quão vulnerável ela
era. Quão facilmente ela poderia ser ferida.

Minha mente viajou para os homens que vieram, sobre


os quais ela perguntou. Moriarty e seus capangas. Eu não
perdi a maneira como ele olhou para ela. Ao me casar com
Sofia, ela poderia se tornar minha vulnerabilidade. Ou minha
força, depende. Se ela fosse vista como uma dívida paga a
mim, isso mostraria a minha crueldade. Se ela fosse vista
como alguém que eu tinha sentimentos, uma mulher que eu,
possivelmente me importava, então ela era uma fraqueza.

Esta seria a minha próxima guerra?

Eu não seria fraco.

Eu não poderia.

Não se quisesse sobreviver. Não se eu quisesse que


ambos sobrevivêssemos.

Meus olhos foram atraídos para a pele exposta em suas


costas, cada vértebra compondo a espinha, a pele perfeita
esticada sobre ossos e músculos. Ela ofegou, endurecendo
quando comecei a desfazer os botões de pérola, um por um,
apreciando o processo meticuloso, querendo fazer esse
momento durar. Uma vez que eu desabotoei até o meio das
costas, ela moveu as mãos para manter o vestido em seu
peito. O puxei um pouco e olhei para ela, engolindo quando,
como se por vontade própria, minhas mãos alcançaram a
carne tremendo pelo toque, traçando as linhas de seus
ombros, omoplatas, coluna vertebral.

Ela virou a cabeça para que ela pudesse me olhar pelo


canto do olho. Mesmo de perfil, com o nariz arrebitado,
maçãs do rosto salientes e lábios cheios, ela era a perfeição.

— Sabedoria, — eu disse distraidamente, lentamente


desabotoando o resto dos botões, mais e mais até que eu
pudesse ver o topo da sua calcinha de renda.

— O quê? — Ela perguntou, sua voz um sussurro.

— Seu nome. Sofia. Significa sabedoria.

Nós trancamos nossos olhares, e eu empurrei o vestido


de seus ombros. Ela hesitou, mas deixou cair os braços e o
deslizou para o chão, como uma piscina em torno de seus
tornozelos. Ela não usava sutiã e agora estava com as mãos
cobrindo os seios. Meu olhar deslizou por suas costas até sua
bunda vestida de renda. Meu pau se contraiu, mas não era
apenas uma foda que eu queria. Era muito
mais. Reivindicação. Tomada. Posse. Mas mesmo isso não era
suficiente, não se fosse apenas seu corpo.

Eu queria mais.

Eu queria tudo.
— Você é tão bonita, — eu disse, traçando a curva de
sua espinha, gostando de como seu corpo reagiu, como ela
endureceu, consciente de todos os meus toques
fugazes. Inclinei minha cabeça para mais perto e beijei seu
ombro, na curva suave de seu pescoço. Ela gemeu, e eu a
virei e tomei seu rosto em minhas mãos.

— Sofia. Inocente e sábia e tão bonita. — Eu beijei sua


boca, querendo saboreá-la, saborear sua doçura antes do
fogo, antes da intensidade, antes que a necessidade pura me
alcançasse. A beijei suavemente. Ela abriu, e eu deslizei uma
mão para a sua nuca, embalando sua cabeça. Suas mãos
subiram para o meu peito. Tomei um pulso e arrastei-o para
o meu pau. Quando ela ofegou e tentou se afastar, eu apertei
a sua mão e interrompi nosso beijo para que eu pudesse ver
seu rosto.

Ela abriu a boca como se fosse falar, mas nada veio.

— Eu quero você muito, porra, você não tem ideia.

— Raphael... — Ela tentou novamente se afastar. — Não


desse jeito. Não por causa de algum contrato.

— Foda-se o contrato. Eu não me importo sobre o


contrato. Não faz qualquer diferença. Quero te fazer minha,
Sofia. Isso é tudo. Minha.

Ela gemeu quando eu peguei seu rosto com as duas


mãos e beijei-a novamente, então a afastei, mas mantive
perto.

— Tire minha camisa.


Cautelosa, insegura, seus olhos curiosos encontraram
os meus, então piscou e deslocou-se para os botões da
camisa. Ela me deu um leve aceno, e seus dedos tremiam
quando eles tocaram o primeiro botão, desfazendo-o,
atrapalhando-se enquanto eles deslizavam para o próximo, o
seu toque deixando meu pau mais duro.

Eu queria que tomássemos um banho para acalmá-la,


mas eu não tinha certeza de quanto tempo eu duraria com
ela tão perto. Só o pensamento dela nua, sentada na
banheira entre as minhas pernas, era duro o suficiente.

Ela se moveu lentamente, o tremor de seus dedos


tornando a tarefa mais difícil, mas logo, ela estava tirando a
camisa de dentro da calça e, uma vez que todos os botões
foram desfeitos, ela a empurrou, seus olhos seguindo suas
mãos enquanto ela acariciava meu peito e afastava a camisa
dos meus ombros. Ela olhou para mim, seus dedos enrolados
sobre o meu bíceps.

Seu sorriso desapareceu quando eu a enfrentei


novamente e desta vez, agarrei ambos os lados de sua cintura
e a arrastei em direção à cama. Quando as costas de seus
joelhos bateram no colchão, ela se sentou. Espalhei suas
pernas e ajoelhei-me entre elas, o meu olhar se movendo de
seu rosto para os pequenos montes de seus seios, até a
calcinha de renda, seus pelos púbicos e a fenda de sua
vagina visível através dela. Com uma mão, eu arrastei a sua
calcinha de lado, expondo a sua boceta para mim. Ela ofegou,
mas eu segurei uma perna e a puxei para que ela sentasse na
beira da cama.
Eu trouxe a minha boca para seu clitóris e lambi, então
suguei. As pernas de Sofia se espalharam um pouco mais, em
seguida se fecharam ao redor da minha cabeça.

— Você quer isso tanto quanto eu. Esqueça tudo. Nada


importa, exceto isso.

Eu as afastei novamente e me afastei, deslizando sua


calcinha e descartando-a, então ela estava sentada nua. Eu
então me levantei enquanto ela assistia, tirei o resto das
minhas roupas.

— Você vai gozar com o meu pau dentro de você esta


noite, querida.

Querida. Eu gostei. Se encaixava com ela.

Empurrando-a para trás, subi entre as pernas dela e


beijei sua boca novamente, gostando da sensação dela contra
mim, a sua nudez pressionando contra a minha própria. Meu
pau doía para estar dentro dela, mas eu me segurei,
querendo saborear cada centímetro seu primeiro, seus lábios,
sua bochecha, o pulso batendo em seu pescoço, sua
clavícula, o espaço entre os seios, seus mamilos rígidos, seu
ventre plano, sua boceta, suas coxas.

Sofia estava ofegante quando eu me aproximei de


joelhos e empurrei suas pernas, pegando uma e dobrando-a
ao lado dela, expondo-a totalmente para mim.

— Eu quero te foder com força, Sofia.

Ela encolheu-se um pouco, medo e desejo guerreando


em seus olhos.
Observando isso, olhando seu rosto, eu trouxe meu pau
para sua entrada molhada e pressionei a cabeça nela.

As mãos dela vieram para meu peito, mas ela não


empurrou. Eu empurrei, no entanto, esticando-a lentamente,
centímetro por centímetro, olhando em seus olhos quando eu
fiz, controlando quando sua boceta apertada espremeu meu
pau até que eu bati em sua barreira.

— Raphael, — ela começou, pânico afiando sua voz.

— Sofia, — eu gemi, querendo muito empurrar mais,


sabendo como isso a machucaria se eu fizesse.

Recuei, soltando sua perna, colocando suas coxas em


cima das minhas, então eu ainda podia ver seu rosto.

— Olhos abertos. Em mim, — eu disse.

Ela balançou a cabeça, mas suas unhas cravaram em


meus ombros enquanto ela se preparava. Eu bombeava
dentro e fora lentamente, ainda não quebrando sua barreira,
deslizando dois dedos sobre o clitóris e esfregando.

— Abra os olhos, — eu lembrei quando ela mordeu o


lábio e os fechou. — Olhe para mim.

No próximo impulso, eu empurrei profundamente,


sentindo a resistência, sentindo a passagem, ouvindo seu
grito enquanto o calor envolvia meu pau. Fechei os olhos por
um momento, aquele sentimento de possuí-la era tão
completo, mas tão fugaz, eu queria me agarrar a ele. Quando
os abri, encontrei-a me observando. Comecei a trabalhar seu
clitóris novamente, transformando a dor em prazer enquanto
eu pressionava mais forte, mais duro, deixando-a no limite,
em seguida, novamente, observando o seu rosto. Coloquei
meu peso em cima dela e fechei a boca sobre a sua.

— Porra, Sofia. — Eu resmunguei quando ela fechou os


olhos e gemeu, do mesmo jeito que ela fez na noite sob as
estrelas. Sua boceta apertou em meu pau, e vi seu rosto,
tenso, em seguida, suave, com os olhos abrindo lentamente,
suas unhas rompendo minha pele.

Vê-la gozar me deixou no limite, e com um impulso


final, eu gozei dentro dela. Observei-a me olhar enquanto eu
gozava, o sangue dela e o meu esperma se misturando,
manchando juntos, tirando tudo de mim até que finalmente,
eu desmoronei em cima dela, segurando-a, meu pau
deslizando para fora dela, sujando a pele perfeitamente
cremosa de sua coxa e avermelhando meus lençóis.

Acordei na minha hora habitual, às três da manhã, e


ouvi Sofia dormir, seu corpo nu pressionado contra o
meu. Abri minha mão largamente em sua barriga, segurando
tanto dela quanto eu pude.

Ontem à noite foi bom. Melhor do que eu esperava. A


atração física entre nós era mútua, mas havia mais do que
isso. Eu queria agarrá-la, essa coisa, fosse o que fosse. Eu
sabia que era importante.

E inconstante.

Porque eu não podia ter isso e os resultados da


alteração no contrato. Era um ou o outro.
O teste do velho só fortaleceu minha determinação.

Eu não poderia esquecer porque eu estava fazendo


isso. Por que ela estava aqui.

Eu não esqueceria.

Rolando sobre minhas costas, eu olhei para a faixa de


luar que aparecia entre a divisão das cortinas e formava
listras do teto. Sofia fez um som, e por um momento eu
pensei que a acordei, mas então ela se encolheu contra mim,
o topo de sua cabeça cavando em mim, seu corpo abraçando
a si mesmo, pequenos punhos e joelhos perto. Imóvel, eu a
observei até que ela se acalmou e depois envolvi meu braço
em torno dela novamente, segurando-a contra mim. Me
perguntei se ela faria isso conscientemente se ela estivesse
acordada perto de mim.

A coisa era, eu pensei que ela poderia.

Talvez seja isso que tornou isso tão difícil.

Marcus Guardia usou o amor de Sofia por Lina para me


testar. Para testar a minha fraqueza. Ele provavelmente
estava planejando isso o tempo todo. O bastardo me leu como
um maldito livro, e eu caí diretamente em sua armadilha.

Se por um único momento eu pensei que ele poderia


sentir alguma pitada de sentimento por sua neta, a facilidade
com que ele sacrificou o corpo dela destruiu essa
ideia. Éramos todos peões em seu jogo torcido.

Mas eu dei a volta nele. Consegui usá-lo para minha


vantagem com Sofia.
Eu acho que eu também era um mestre manipulador.

Dizer a ela sobre consumar da maneira que eu disse foi


cruel. Mas lhe dar o presente de ter sua irmã no casamento,
virou o jogo. Provavelmente confundido ela, mas maldição,
essa coisa fodida também me confundia.

Filho da puta doente, o seu avô. Eu me perguntei se ele


achava que eu não conseguiria se ela se recusasse. Talvez
esse fosse o motivo para ele exigir isso. Talvez ele pensou que
ela alegaria estupro. Me colocaria na prisão novamente. Ou
talvez ele realmente só não dá a mínima para ela.

Ontem à noite acontecendo do jeito que aconteceu, no


entanto, mudou tudo. Ela se deu para mim. Eu não tive que
olhar no espelho esta manhã para encontrar um monstro
mais terrível do que Marcus Guardia olhando de volta.

Mas havia mais. Mais que não dizia respeito à Sofia,


ainda não de qualquer maneira. Eu me agarraria a isso, e
usaria quando eu precisasse.

Marcus Guardia queria cinco por cento de volta. Lina


poderia vir e passar alguns dias com a sua irmã se eu
concordasse em perder cinco por cento, recebendo apenas
quarenta e cinco por cento das ações, e não cinquenta. Desta
forma, ele garantiu que eles mantivessem o controle da
Vinícola Guardia.

Ele não era um tolo. Ele suspeitava que eu afundaria a


empresa o mais rápido que pudesse, logo que eu tivesse a
capacidade de fazê-lo. E eu ainda afundaria. Eu apenas faria
de forma diferente do que eu imaginara. Ele ainda
pagaria. Porra, dessa forma, ele perderia tudo, não apenas a
metade.

E eu perderia Sofia quando acontecesse.

Mas havia mais a considerar do que Marcus


Guardia. Meu encontro com Moriarty não foi bem. Eu não
percebi o quão grande era a dívida de meu pai. E Moriarty
não estava disposto a perdoar essa dívida só porque meu pai
estava morto. Ele ainda tinha toda a intenção de receber.

Eu não poderia lhe dar o que ele queria, porém, porque


o que ele queria era o legado de minha mãe. Esta casa. A
terra. Tudo isso. Ele até me pagaria por isso, pelo menos a
parte que meu pai não lhe devia.

Moriarty era um desenvolvedor de negócios. Bem, isso


era a fachada legítima. Ele tinha uma maneira de conseguir o
que queria e não tinha nenhum problema em usar todos os
meios que ele precisasse. Quando Damon me disse para
chamar a polícia e deixá-los lidar com isso, ele não entendia
que Moriarty tinha a polícia na sua folha de pagamento. Eu
teria que lidar com ele, e eu não poderia deixar que Sofia
fosse parte disso.

Eu me sentia pressionado por todos os lados, perdendo


a vida aos poucos. Tudo isso enquanto eu segurava Sofia,
tentando impedi-la de ser esmagada.

Levantei-me da cama.

Sofia se agitou, mas se aquietou rapidamente. Eu pus o


cobertor sobre ela e vesti um par de jeans, então, do meu
armário, eu peguei o lençol manchado que Maria dobrou e
colocou lá sob minhas instruções, enquanto eu dava banho
em Sofia. O levei para o andar de baixo, para a sala de
estar. Lá, eu acendi o fogo da lareira e o assisti queimar,
assisti os gravetos queimarem, assisti as chamas
consumirem a madeira. Eu estudei aquele fogo por um longo
tempo. Eu não acho que decidi conscientemente. Eu coloquei
o lençol nas chamas, destruindo-o, vendo-o queimar, todas
as evidências de nossa noite de núpcias transformada em
cinzas.

De certa forma, era simbólico, porque por dentro, eu


também estava em cinzas.
Sofia
Na manhã seguinte, quando acordei, Raphael não
estava. Me perguntei se ele dormiu, quantas horas ele
dormiu. Ontem à noite, depois de fazer amor comigo ―e ele fez
amor comigo‖ ele me lavou com tanta ternura, tão
cuidadosamente, que me surpreendeu. Embora talvez não
devesse ter surpreendido. Talvez a dualidade fosse o normal
com ele. Talvez saber que ele tinha a capacidade de ser
sensível faria a diferença, faria com que tolerá-lo quando ele
fosse terrível suportável. Porque eu também sabia que ele
seria terrível.

Ou talvez esse conhecimento só faria esses momentos


muito mais duros.

Após a noite em Civitella in Val di Chiana, eu não sabia


como eu seria capaz de ir em frente com o casamento. A noite
de núpcias. Mas então ele me disse o porquê. Meu avô usou
Lina como um peão. Ele viu uma janela, minha fraqueza, e
usou contra Raphael.
Eu precisava falar com meu avô. Eu precisava
confrontá-lo e ouvir o seu lado da história, sobre o roubo,
sobre seu acordo com Raphael. Mas eu não era tola o
suficiente para pensar que ele me diria a verdade. Pelo menos
não toda ela. Mas havia dois lados para cada história, e ele
me criou. O homem nos deu abrigo, se não amor, por treze
anos. Ele nos deu o melhor que o dinheiro podia comprar. Ele
não podia nos odiar.

Ele vendeu você.

Literalmente.

Sim, ele vendeu. Mas se eu fosse honesta comigo


mesma, o que ele sentia por mim não era o mesmo que ele
sentia por Lina. Talvez fosse porque ela era mais
jovem. Talvez fosse a sua natureza, que ela forçasse alguma
afeição, mesmo que pouca, dele?

Lina de lado, porém, eu não poderia esquecer ou negar


que ele foi contra mim. E se o que Raphael disse fosse
verdade, que ele estava roubando de mim, de Lina — ele tem
que ser parado.

Mas ele ainda era meu avô.

Eu esfreguei meu pescoço, tentando aliviar a dor de


cabeça que estava começando.

Outra coisa que estava martelando na minha cabeça por


alguns dias. Desde o voo para a Itália. Eu tinha dezoito anos
agora. Eu era casada. Com Raphael, eu era capaz de
sustentar a minha irmã.
Eu poderia pedir e ganhar a guarda dela? Eu poderia
trazer Lina para viver conosco? Se meu avô não permitisse, o
que eu achava que seria sua resposta, eu lutaria com ele no
tribunal? Poderia? Quão público eu estaria disposta a ir — se
o que Raphael disse for verdade? Quanto machucaria
Lina? Seu relacionamento com ele era diferente. Eles moram
na mesma casa. Eu estive fora por quatro anos.

Mas havia outra pergunta também. Raphael permitiria?

Ele me deu esses dias com ela de presente. Ele sabia o


quanto ela significava para mim. Mas, trazê-la aqui para viver
conosco?

Será que Lina concordaria? Ela teria que deixar tudo


para trás. Como ela se sentiria sobre deixar nosso avô
sozinho? E eu poderia lançar dúvidas sobre sua fé no nosso
avô, quando até eu não tinha certeza do que era verdade?

Era muito a se pensar. Saí da cama e me lembrei de


quando Raphael estava me dando banho, alguém entrou no
quarto para trocar os lençóis. Meu rosto se aqueceu com o
esse pensamento, de alguém — Maria, imagino — saber. É
onde ele está agora? Mostrando para o meu avô?

Eu balancei a cabeça, afastando o pensamento. Eu não


pensaria nisso. Eu não podia. Era muito terrível. E por mais
que eu não quisesse, eu sabia que tinha que falar com meu
avô esta semana, antes que ele voltasse para casa.

Peguei meu celular e encontrei o número dele, mas eu o


guardei novamente. Eu não ligaria ou marcaria um
encontro. Eu apareceria em seu hotel. Surpreendendo-
o. Talvez o pegando desprevenido.

Além disso, eu tinha coisas mais importantes para fazer


hoje.

Percebendo que eu não tinha nenhuma roupa no quarto


de Raphael ―a pessoa que mudou os lençóis também levou o
vestido de noiva‖ eu abri a porta de seu closet. Acendi a luz e
inalei profundamente, o cheiro dele era forte aqui. Eu não
tinha certeza do que eu esperava encontrar, mas não
encontrei muito. Alguns ternos estavam pendurados
ordenadamente, todos escuros, alguns pares de jeans
estavam dobrados e empilhados, e camisetas. Uma montanha
delas. Todas eram pretas ou brancas.

Eu ri. Irônico. Preto e branco. O bem e o mal. Ele era


ambos.

Virando-me, eu encontrei uma camiseta preta


descartada em cima do cesto de roupa suja. Olhando em
volta para ter certeza que eu estava sozinha, eu a peguei,
trouxe-a para o meu rosto e inspirei. Sem pensar demais, eu
vesti a camisa. Ficava na metade de minhas coxas, o que
serviria. Deixei seu quarto e caminhei na ponta dos pés pelo
corredor até o meu, ciente da dor entre as minhas pernas, de
como ele me fodeu, como foi quase suave. No início.

Eu ainda me perguntava e se eu tivesse dito não, ele


teria me forçado?

Uma vez no meu quarto, eu rapidamente me troquei


para um par de shorts e uma regata, escovei os dentes e lavei
o rosto, amarrei meu cabelo em um rabo de cavalo, e me
dirigi ao quarto de Lina. Ela já estava no corredor quando eu
saí do meu quarto, vestida e carregando Charlie,
murmurando para ele enquanto o acariciava, sua pequena
cauda abanando.

— Eu o amo tanto, — disse ela quando me viu.

— Eu também. Ele é maravilhoso.

Ela olhou para o meu rosto e sorriu.

— Você parece bem. — Ela piscou.

— Cale a boca, — eu disse, tomando-a pelo braço e


levando-a para a escada. — Estou faminta. Você?

— Sim.

— Como você dormiu?

— Ótima. Eu não dormi no voo, e eu estava morta de


cansaço.

— Você falou com nosso avô hoje? — Perguntei.

— Ainda não. Eu disse a ele ontem à noite que eu o


visitaria hoje para o almoço. Seria bom você ir também. Você
não pode evitá-lo para sempre. Talvez lhe dê uma chance
para explicar.

Coloquei meu braço no dela, e descemos as escadas e


entramos na cozinha.

— Eu sei que tenho que o ver. Vai ajudar ter você lá.

— Então está decidido, — disse Lina.

Nicola me entregou uma nota logo que eu entrei na


cozinha.
— Para você.

— Obrigada, — eu olhei para a folha de papel dobrada,


confusa, então a abri.

Sofia,

Espero que você tenha dormido bem. Eu tinha negócios


cedo, e eu não vou estar de volta até tarde. Eric foi instruído a
levar você e sua irmã para onde você queira ir.

Esteja na minha cama esta noite.

Raphael

Eu rapidamente dobrei o papel e guardei-o no bolso,


tentando não pensar nas palavras.

―Esteja na minha cama esta noite. ‖

Decidi que não ficaria irritada com Eric desta vez. Eu


poderia dirigir um carro. Mas ele não queria Eric como
motorista. Ele queria segurança. Lembrei-me da noite
anterior, naqueles homens que chegaram tarde, os que se
reuniram com ele no escritório. Estremeci com a lembrança
de como me olharam.

— O que é? — Perguntou Lina.

— Nada. Só que temos um motorista, — eu disse com


um sorriso resignado.

Lina me estudou por um minuto. Ela sabia que eu


estava escondendo alguma coisa, mas felizmente não fez
nenhum comentário.

— Você não vai usar essas sandálias, não é? — Eu


disse, olhando para seus pés. — É um longo caminho. — Ela
usava um par de belas sandálias, completamente novas, com
um salto de cinco centímetros. Eu estava usando um par de
Toms7 bem gastos.

— Elas são fofas. Eu tenho que usá-las em algum lugar.

— Siena não é provavelmente o lugar para usá-las.

— A beleza não vem de graça, — disse ela, encolhendo


os ombros.

— Vaidosa.

Ela mostrou a língua para mim.

Após café da manhã, saímos sem Charlie. Eric nos levou


para Siena, onde meu avô estava hospedado. Lina organizou
para que nós o encontrássemos em seu hotel para o almoço,
o que nos deu algumas horas para fazer compras e
passear. Era ótimo estar com ela de novo. Sozinha em um
lugar bonito, eu quase poderia esquecer as razões pelas quais
estávamos aqui.

Meu avô estava hospedado no melhor hotel da cidade


antiga. Enquanto caminhávamos em direção à sua mesa na
parte de trás do restaurante, eu não pude deixar de pensar se
era a de Lina ou minha herança que estava pagando por
isso. Eu o vi quando nos aproximamos, sentado atrás da
mesa elegantemente posta com sua toalha branca, um sorriso
em seu rosto, seu cabelo branco perfeitamente arrumado, seu
terno impecável quando ele se levantou para nos

7
Marca de alpargatas.
cumprimentar.

— Lina e Sofia, — disse ele, sorrindo, segurando as


mãos para nós.

Lina sorriu de volta e pegou.

— Olá, avô. — Ela beijou sua bochecha, e seu sorriso se


alargou.

Senti a pontada habitual de inveja de seu


relacionamento com ele. Eu não queria sentir isso, mas eu
senti. Mesmo que ele nunca fosse como os outros avôs, sua
afeição por Lina era óbvia, tão óbvia quanto o fato de que ele
nunca se sentiu exatamente da mesma maneira sobre mim.

— Exatamente os olhos de sua mãe. É impressionante,


— disse ele, uma vez que se afastaram.

Embora tivéssemos a mesma aparência, Lina herdou a


cor dos olhos da mãe, bem como sua pele bronzeada e cabelo
mais escuro, enquanto eu tinha a cor e os olhos de meu
pai. Gostaria de saber se era isso. Se era por isso que ele me
amava um pouco menos.

— Sofia, — ele hesitou. — Você parece bem.

Eu não podia responder, os meus pensamentos muitos


confusos com tudo o que eu soube. Com tudo o que ele tinha
de responder.

— Sentem-se, senhoras.

Ele levantou a mão para chamar a garçonete. Nós


pedimos bebidas, água para Lina e eu, e um copo de vinho
branco para meu avô, em seguida, sentamos para estudar os
nossos menus em silêncio por mais tempo do que era
confortável. Enquanto eu me escondia atrás do menu, pensei
em como eu faria isso, como eu faria minhas perguntas,
como fazê-las sem gritar. Meu coração batia forte, e eu estava
suando. E eu me odiava por isso.

Notavelmente, almoçamos sem uma menção de Raphael,


do que aconteceu para nos trazer aqui. Lina falou a maior
parte do tempo, obviamente nervosa não querendo deixar o
clima estranho. Mesmo que ela não soubesse todos os
detalhes, sabia que o acordo do meu casamento foi feito entre
o avô e Raphael.

Ao final de uma hora, ela se levantou para ir ao


banheiro feminino.

— Vamos juntas? — Perguntou ela.

Teria sido mais fácil dizer sim. Enterrar minha cabeça


na areia. Mas eu não podia fazer isso.

— Não, vá em frente.

Lina sorriu e apertou meu ombro. Não importa o quê,


ela não gostava de conflito. Talvez ela pensava que ele e eu
conversaríamos nestes próximos minutos.

Eu o observei enquanto ele assistia ela ir. Ele então


virou-se para mim.

— Como você está, Sofia? — Perguntou.

— Bem, considerando tudo.

— Eu quero que você saiba que eu reconheço que eu


escolhi mal.
Ele me surpreendeu.

— Eu deveria ter encontrado outra maneira.

— Uau. Você escolheu mal. — Eu balancei a cabeça. —


Sim, você deveria ter encontrado outra maneira.

— Eu estou tentando corrigir isso.

— Corrigir como? Não é tarde demais para isso?

Ele não respondeu.

— Eu estou estendendo minha viagem, para que você


possa passar mais tempo com sua irmã.

— Quão generoso de sua parte. — Eu não poderia dizer


que eu sabia o porquê. Como uma tola, eu me senti muito
envergonhada.

— Sofia...

— O que ele disse é verdade? Você está nos roubando?

Houve um flash de algo próximo à irritação nos olhos


dele, mas ele mascarou rapidamente.

— Roubando você?

— E Lina.

— Você sabe que o dinheiro está nos nomes de vocês,


sempre estará. Eu casei com a família. Você duas nasceram
nela.

— Você está nos roubando, então? Apenas me diga a


verdade.

— Eu estou usando os fundos necessários para fornecer


a vocês a melhor educação, — ele respondeu bruscamente.
— E você? Você não está tomando qualquer coisa para
si mesmo?

— Não seja ingrata, Sofia. Não se transforme nisso.

— Transformar-me? — Eu balancei minha cabeça.

Ele pegou o copo de vinho e tomou um gole. Ele mal o


tocou durante todo o nosso almoço.

— Por que você me odeia, avô? O que foi que eu fiz para
você?

Ele balançou sua cabeça.

— Eu não odeio você, Sofia.

— Você não me ama também. Não como Lina.

— Seu ciúme não tem fundamento.

— É porque eu sou a razão pela qual minha mãe fugiu


para se casar com meu pai? — Eu disparei. Era uma
pergunta que eu me fazia por um longo tempo, que eu nunca
tive a coragem de perguntar. Eu fiz as contas depois de
encontrar cartas de minha mãe para minha avó. Ela e meu
pai não estavam casados quando ela ficou grávida.

O rosto de meu avô endureceu. Ele inclinou a cabeça


para o lado.

— Eu estou tentando corrigir minhas ações,


Sofia. Tentando consertar o que eu fiz. Acredite ou não, eu
não quero perder a minha neta do jeito que eu perdi a minha
filha.

Eu hesitei, não sei o que eu esperava. Certamente não


era isso.

— Você está procurando perdão, então? Você espera o


meu? — Perguntei, tudo isso era ridículo.

Ele sorriu e balançou a cabeça. Ouvi sandálias de Lina


clicando no chão de mármore.

— Você não acha que eu sei que não mereço isso? —


Perguntou. Um momento depois, ele colocou um sorriso no
rosto, escondendo qualquer emoção que ele sentia, e ficou de
pé para ajudar Lina em seu assento.

Saímos de lá vinte minutos depois. Eu não falei mais do


que algumas palavras uma vez que Lina voltou para a mesa,
minha mente cheia demais com o que o meu avô disse. Ele
parecia arrependido, o que era estranho para ele. Todo esse
tempo, ele lamentava o que aconteceu com a minha
mãe? Será que ele se arrepende de perdê-la, porque ele não
podia aceitar a sua escolha de marido?

Duas horas mais tarde, quando estávamos saindo da


cidade Lina percebeu que ela não tinha o seu telefone celular.

— Eu me pergunto se eu deixei no banheiro das


mulheres no hotel quando eu lavei minhas mãos.

— Podemos voltar. São apenas alguns quarteirões.

— Meus pés estão me matando nestas sandálias, —


disse ela.

Tomei-lhe o braço, e nós voltamos para o hotel.

— Da próxima vez, use sapatos inteligentes. Não


bonitos.
— Sim, sim.

Nós entramos no lobby do hotel, e Lina foi verificar o


banheiro. Ela saiu com um sorriso no rosto um minuto
depois.

— Consegui.

— Você é sortuda. Vamos. — O meu avô disse que teria


reuniões o resto do dia, então eu não esperava vê-lo e estava
grata que eu não o vi. Mas então, enquanto saíamos do hotel,
ouvi sua voz. Nós duas ouvimos e paramos. Ele estava
falando com alguém, e o outro homem riu. Algo me disse para
me esconder. Eu arrastei Lina para um canto e sinalizei para
que ela ficasse quieta. Do nosso esconderijo, vimos meu avô e
o estranho homem que veio para o casamento na noite
anterior entrarem no lobby. Ambos pareciam sérios e não
muito amigáveis, mas quando o homem estendeu a mão e
meu avô a sacudiu, senti um arrepio na espinha.

— Nós temos que ir, — eu disse uma vez que os homens


desapareceram.

— O que é isso? Quem era aquele? Ele esteve na sua


casa na noite passada também.

Eu balancei minha cabeça, confusa, questionando


minha lealdade. Meu avô acabara de apertar a mão do
inimigo do meu marido.
Raphael
No momento em que cheguei em casa, já passava da
meia-noite. Fui diretamente para o meu quarto, não tendo
certeza de que ela teria feito como foi dito ou não, mas lá
estava ela, dormindo na minha cama. Ela ainda estava
vestida e em cima dos lençóis. Seu braço pendia ao lado, e
um livro estava sobre a cama.

Ela deve ter esperado por mim. Ou tentado.

A observei por alguns minutos. Ela usava shorts


brancos e uma blusa amarela, e longas mechas de cabelos
castanhos caíram sobre suas costas e braço. Suas pernas
estavam um pouco bronzeadas, e olhando para seus pés
descalços com os dedos enrolados, a fazia parecer uma
criança. Como se ela precisasse de proteção.

E ela precisava

Mais do que ela sabia.

Toquei seu rosto. Ela gemeu e se virou, ainda


adormecida. Peguei seu livro. Quando Nietsche chorou. Eu
levantei minhas sobrancelhas.

— Escolha interessante.

Depois de colocar o marcador na página que estava


aberta, eu o coloquei na mesa de cabeceira, depois me sentei
na cama e afastei o cabelo de seu rosto para olhar para ela.

Ela não usava maquiagem e dormia tão


profundamente. Eu não conseguia me lembrar de uma vez ter
dormido assim. Tive pesadelos durante toda a minha infância
e eles continuaram na minha vida adulta. Sempre em
evolução, ao mesmo tempo, mantendo-se sempre os
mesmos. Eu tinha inveja de Sofia. Eu não cobiçava. Era
simplesmente inveja.

Ela rolou de costas naquele momento, seus braços


caindo abertos em ambos os lados dela. Ela não usava sutiã,
e seu top de alças estava esticado sobre o peito, destacando
os pequenos montes redondos, os mamilos escuros. Seu
short curto mostrava suas pernas bem tonificadas. Sentei-me
na cama ao lado dela e, me sentindo um pouco como um
verme, eu abri seu short. Quando ela não se mexeu, eu o
arrastei por suas pernas. Ela usava calcinha de renda rosa
pálido. Meu pau estava duro com a visão, o pequeno
triângulo de cabelo escuro logo abaixo da renda.

Limpando minha garganta, eu ajustei meu pau e fiquei


de pé.

— Sofia, — eu disse suavemente.

Nada.
— Sofia.

Mais uma vez, nenhuma resposta. A menina dormia


mesmo.

Levantando-a para ela sentar, eu puxei seu top sobre


sua cabeça. Com isso, ela se mexeu, piscando várias vezes,
dando-me um meio sorriso, então fechando os olhos
novamente. Eu sorri de volta, estupidamente, sabendo que
ela não podia me ver. Ela estava dormindo.

Eu afastei os lençóis e a deitei, e também tirei sua


calcinha, gostando dela nua na minha cama. Gosto de olhar
para ela. Um momento depois, eu me forcei a cobri-la de
novo, então fui para o banheiro tomar banho e subi na cama
ao lado dela.

— Eu estou em sua cama, — ela murmurou, rolando em


minha direção e jogando seu braço sobre mim. — Como você
disse.

— Eu estou vendo.

Mas ela estava fora novamente. Enrolei um braço em


volta dela, segurando-a perto de mim. Eu me sentia culpado
sobre o que eu faria com ela, e sua irmã? Eu destruiria a
Vinícola Guardia para punir seu avô. Eu sabia que isso
significava que eu iria destruí-la no processo. Eu não tinha
dúvida de que a minha promessa de não a deixar na rua não
me absolvia.

Que ironia, como paralelas nossas vidas


pareciam. Estranhamente o mesmo. Nossos caminhos não se
limitaram a cruzar-se. Eles seguiram exatamente o mesmo
caminho. O que seu avô precipitou, a perda que matara a
minha mãe, eu a repetiria. Eu repetiria a história
conscientemente. Eu atearia fogo nas terras dos Guardia.
Apagaria a vinha e o nome Guardia.

Adormeci com esses pensamentos correndo pela minha


mente, e o pesadelo que eu tive mil vezes antes era diferente
desta vez. Eu sabia pela forma como começou, sabia quando
eu me engasguei com a fumaça, tentando em vão alcançá-la,
sabendo que seria tarde demais.

Eu sempre chegava tarde demais.

Desta vez, a casa era diferente.

Desta vez, não havia sirenes, apenas o som de fogo e


destruição em uma casa já destruída. Desta vez, quando
cheguei ao quarto e bati na porta e a ouvi, eu sabia que era
tarde demais, sabia que o que eu ouvi era a morte dela.

E desta vez, quando eu arrombei a porta, não foi o corpo


carbonizado de minha mãe que eu encontrei. Não era ela.

Eu subi na cama, respirando com dificuldade, suor me


cobrindo. Minhas pálpebras se abriram, banindo o sono,
deixando apenas a carcaça dessa versão do pesadelo que se
repetira durante seis anos. Olhei para Sofia ao meu lado, que
de alguma forma ainda dormia.

Ela seria a Bela Adormecida que se transformaria em


cinzas desta vez?

Seria eu quem pegaria o fósforo e acenderia o fogo?

Quem mais, a não ser eu, a destruiria?


Eu lhe disse que não seria uma besta com ela, mas não
era essa a minha intenção o tempo todo? Sua destruição não
era o centro dessa trama de vingança? Não estava em
movimento agora, totalmente em jogo, depois da mudança
que seu avô fizera no contrato?

Eu era um monstro. Eu sabia. Mas a destruiria?

Ela?

Enquanto minha mente lutava, ela dormia, alheia e


inconsciente ao meu lado. Ela tinha um poder tão estranho
sobre mim.

Por que eu não podia odiá-la? Era para eu odiá-la.

Eu saí da cama, com raiva, irritado e frustrado, e desci


as escadas, através da cozinha, levando à velha e fiel, garrafa
de whisky, comigo. Eu não me incomodei com um copo. Não
precisava de um. Eu sabia onde eu estava indo. Para aquele
lugar odioso.

Ainda sem uma fechadura na porta. Eu não poderia


fazê-lo. Não poderia não ser capaz de chegar lá.

Abri a porta do porão, o cheiro já me fazendo voltar anos


e anos.

Este era um tipo torcido de santuário? Uma coisa


emaranhada, escura, que eu não poderia escapar, que eu
temia que me atraísse de volta uma e outra vez?

Eu bebia goles de uísque quando desci as escadas. Sem


luzes esta noite. Eu não precisava delas. Eu conhecia cada
centímetro do lugar, e as duas pequenas janelas no topo de
uma parede deixavam entrar luz da lua suficiente.
Destacando o pelourinho8, como se fosse um holofote
brilhando sobre a coisa.

Retirei a tampa da primeira mesa, deixando-a cair no


chão. Uma aranha rastejou para longe, suas longas pernas
delicadas sobre o couro desgastado. Os chicotes estavam
todos enrolados como se estivessem esperando sua vez. Eles
não teriam, no entanto. Nunca mais. Não nas minhas costas.

Por um longo tempo, eu fiquei olhando para eles. Eu


conhecia a sensação de cada um e me encolhi com a dor da
lembrança.

As chicotadas só aconteciam à noite. Sempre depois de


eu ter ido para a cama. Talvez eu ainda estivesse
condicionado a acordar na mesma hora daquelas noites. Eu
acho que ele gostava. Gostava de saber que eu dormia com
medo, nunca tendo certeza se eu seria acordado no susto e
arrastado para este lugar para ser punido por pecados que eu
nem conhecia. Eu nem acho que importava para ele ou não
se eu fiz alguma coisa. Se algum de nós tinha ou não.

Eu bebi novamente, engolindo metade da garrafa desta


vez. Minha garganta queimou, mas eu não me importei. Eu
precisava disso. Eu precisava daquela queimadura quando
estendi a mão e toquei o longo couro fino de um dos chicotes,
aquele que ele usou mais. Sem pensar, envolvi minha mão
em torno da alça trançada. Estava desgastada, o suor de seu

8
Coluna de pedra ou de madeira, colocada em praça ou lugar central e público, onde
eram exibidos e castigados os criminosos. Neste caso ele se refere ao pilar de madeira
no centro do porão.
esforço fazia parte da coisa agora. Lubrificada. Mantendo-a
flexível mesmo anos mais tarde.

Quando eu puxei meu braço, eu assisti, paralisado,


como o couro lentamente desenrolou como uma cobra. Eu
sacudi meu braço, jogando-o no chão, vacilando com o som,
uma coisa que eu nunca poderia esquecer. A memória deixou
minhas costas tensas em uma tentativa de me proteger.

Eu bebi mais whisky. Em seguida, deixando a garrafa ao


meu lado, eu voltei minha atenção para o pelourinho. Ele
também foi usado. As esculturas estavam gastas onde a
carne a abraçara uma e outra vez. Eu afastei meu braço e
bati nele, ouvi o som do couro que envolve a madeira,
lembrando de como o chicote faria um círculo como se cada
golpe valesse por dois.

Como se o próprio couro fosse ganancioso. Cruel.

Mas o qual era a sensação para ele? Ao ficar aqui atrás


de mim, ou atrás dela, ouvindo nossos gritos, vendo nossa
dor, vendo o sangue escorregar por nossas costas. O que ele
sentia ao estar aqui e ter todo esse poder? Ao ser mestre da
nossa dor? O que?

— Raphael.

Sua voz quebrou o silêncio do cômodo. Interrompeu o


caos da minha mente.

Eu sabia que ela viria.

— Eu quero saber, — eu disse, olhando para a madeira


gasta, como se ela estivesse ouvindo meus pensamentos, e eu
estava apenas continuando a conversa. — Eu quero saber o
que ele sentia.

Quando eu finalmente mudei o meu olhar para ela, eu a


encontrei em pé na parte inferior das escadas com os pés
descalços, minha camisa batendo no meio da coxa, os braços
em torno de si mesma. Ela me olhou, seu olhar desviando
para o poste, o chicote, para o meu punho enrolado no cabo.

— Você está bebendo? — Perguntou ela.

Percebi que ainda segurava a garrafa na minha outra


mão e trouxe-a para a minha boca, drenando-a, em seguida,
a joguei esmagando-a contra a parede oposta.

Sofia pulou.

Eu enfrentei ela, dei um passo em direção a ela. Em


seguida, outro.

— Venha aqui, — eu disse.

— Abaixe o chicote, — disse ela.

— Eu gosto de segurá-lo. Eu gosto do que sinto.

— Não. Você não gosta.

— Eu gosto. Eu realmente gosto.

— O que aconteceu hoje à noite? Porque você está


aqui? Já passa de uma da manhã.

— Venha aqui.

Ela olhou para o chicote e sacudiu a cabeça.

— Você tem medo de mim?

Ela me estudou, sua testa franzindo um pouco.


— Não.

Uma mentira.

— Então venha até mim.

Demorou duas vezes o tempo que deveria demorar para


atravessar o espaço entre nós.

— Você me despiu? Eu acordei nua.

Eu balancei a cabeça e toquei a curva de sua cintura,


com minha mão agarrei a camiseta, e a puxei para mim.

— Eu gosto de você nua. — Eu serpenteei meu punho


ao redor dela, segurando-a para mim, eu me inclinei para
beijá-la.

Uma de suas mãos envolveu meu ombro, a outro


agarrou no pulso que segurava o chicote, mantendo o braço
ao meu lado.

Seus lábios tremeram um pouco, traindo sua cautela.

Puxando-a para mais perto, eu pressionei meu rosto em


seu cabelo, inalando o cheiro de xampu. Fechei os olhos e
respirei fundo.

— Eu quero saber como é, — eu sussurrei em seu


ouvido. — É doente, não é?

A mão que estava envolta em meu ombro agora mudou-


se para o meu rosto. Ela olhou para mim com pena em seus
olhos.

Eu odiava pena. Eu odiava isso.

Eu queria que desaparecesse.


E se foi, no instante seguinte. Eu senti meu rosto
mudar, meus olhos escurecem, e soube o momento em que
ela processou a mudança porque o medo substituiu a pena.

Ser miserável era ser fraco. Eu não seria fraco. Eu decidi


isso na noite em que eu o matei.

— Não sinta pena de mim, Sofia. Eu me aceito como eu


sou.

— Não, Raphael. Isto não é o que você é. Não é o que


você quer.... Você não deve beber...

Eu a soltei e fui até o poste, colocando minha mão sobre


ele pela primeira vez em anos. Lembrei-me dos cumes, os
conhecia intimamente.

Sofia estendeu a mão para pegar a minha, aquela que


segurava o chicote, e andou atrás de mim. Quando os dedos
da outra mão traçaram as cicatrizes nas minhas costas, eu
me encolhi, apertando cada músculo. Ela parou de se mover,
mas não se afastou. Com um suspiro, eu abaixei a cabeça,
minha mão se transformando em um punho sobre o poste.

Ela seguiu cada linha, seu toque leve como uma


pena. Ela viu tudo. Ela me viu. E eu a deixei. Fiquei ali, e eu
a deixei. E só depois que ela conheceu cada cicatriz ela se
afastou. Foi só por um momento, e eu fiquei onde eu
estava. Quando senti sua respiração em mim, seus lábios nas
minhas costas, me beijando suavemente, beijando o tecido
das cicatrizes, eu estremeci.

Quando me virei, ela se endireitou. Ela estava nua. Ela


tinha tirado a camisa. Seus mamilos duros no ar frio do
porão. Eu olhei para eles, para ela. E quando eu a peguei e a
virei para que ela ficasse de costas para o poste, ela
deixou. Mesmo quando o seu olhar cauteloso passou
ligeiramente pelo chicote, ela deixou.

Beijando-a, eu trouxe seus pulsos para cima da cabeça


e os algemei.

Ela gemeu, um suspiro escapando. Foi esse som — isso


e o seu olhar — que denunciou seu medo. Eu me levantei
para pegá-la, vi como ela estava na ponta dos pés, tentando
deslizar seus pulsos dos ferros. Meu pau endureceu com a
visão dela ali, amarrada ao poste, nua e minha.

A minha mercê.

— Você está com medo de mim agora?

Ela balançou a cabeça, mas não foi convincente. Eu


sorri e estalei o chicote ao meu lado. Ela pulou e deixou
escapar um pequeno grito.

— Eu acho que você está, — eu disse.

— Você não vai me machucar, — ela conseguiu dizer,


com a voz trêmula.

— Eu não sei se você acredita nisso. — Eu andei ao


redor do poste. Ela me seguiu com os olhos. — Você está
tendo uma chance, Sofia.

— Você quer saber como é chicotear alguém? Ferir


alguém que está impotente e incapaz de lutar com você?

— Doente, certo?

Ela não respondeu. Eu fiquei na frente dela. Seu olhar


caiu brevemente para minha cueca, para meu pau
pressionando como uma barra de aço, antes que ela
arrastasse seu olhar de volta para o meu.

— Você não é como ele, — disse ela.

— Isto não é evidência suficiente de quão doente eu


sou? — Perguntei, apontando para minha ereção.

— Eu não me importo. Você não é o seu pai,


Raphael. Tudo o que você pensa, por mais doente que você
pense que seja, você não é. Você precisa deixar o passado ir.

— Talvez eu precise fazer isso primeiro. Saber como é. —


Minha voz saiu tensa, estava difícil de engolir. Levou um
longo tempo antes que eu dissesse a última parte. — Talvez
eu precise ferir alguém primeiro.

Seus olhos procuraram os meus, e lágrimas como duas


gotas de cristal delicadas deslizaram pelo seu rosto.

— Vire-se e abrace o poste, Sofia.

Seus dentes começaram a bater, e mais lágrimas


seguiram. Meu pau doía. Com um passo, eu estava em cima
dela, segurando a parte de trás de sua cabeça, pegando um
punhado de cabelo, e levantei seu rosto. Eu esmaguei minha
boca sobre a dela. Ela choramingou, me beijando de volta,
completamente chorando agora, quase freneticamente, o beijo
desesperado, como se só com os lábios ela se agarrasse a
mim.

Eu deslizei o punho do chicote entre suas pernas, e ela


deu um grito. Mas quando eu apertei sua boceta, ela estava
molhada, o clitóris inchado. Olhei para ela, exalando antes de
tomar sua boca novamente.

— Você está molhada, — eu gemi, me esmagando contra


ela.

— Eu quero você, — ela disse, inclinando seu rosto para


frente quando eu me afastei. — Faça amor comigo.

Não. Agora não era o momento para fazer amor. E eu


não gostava dela usando o sexo para me manipular.

Virei-a bruscamente para que ela enfrentasse o poste,


em seguida, tirei minha cueca. Ela empurrou sua bunda em
mim.

Eu gemi com a necessidade, enterrando meu rosto em


seu cabelo, imaginando sua boceta apertada no meu pau,
cheirando seu perfume, sua pele tão perto.

— Eu não era o único, — eu disse como se fosse uma


confissão, beliscando seu mamilo antes de segurar aquele
punhado de cabelos novamente e virar sua cabeça, beijando
seu rosto manchado de lágrimas, encontrando sua boca.

— Raphael...

— Ele chicoteou minha mãe também. Eu não sei por


quanto tempo ele fez isso.

Ela balançou a cabeça.

— Quanto tempo ela manteve o segredo.

Eu pressionei o chicote contra a boceta de Sofia. Eu


queria fodê-la. Deus, eu queria enterrar a porra do meu pau
dentro dela, mas eu não podia. Ainda não.
— Se eu tivesse deixado ele me bater.... Se eu não
tivesse lutado, talvez ele não a tivesse machucado.

Ela esticou o pescoço e olhou para mim, me


escutando. E talvez eu tenha me ouvido, pela primeira vez,
por dizer isso em voz alta, porra. Eu sabia a culpa que eu
sentia. Não era nova. Não foi algo que eu enterrei. Mas dizer
isso em voz alta? A outro ser humano? Para Sofia?

Eu balancei a cabeça, me afastando, segurando o


chicote com força.

— Abrace o poste, Sofia.

— Não é sua culpa.

Ela puxou freneticamente suas restrições. Elas a


prenderiam forte, no entanto. Eu sabia.

— O que ele fez, Raphael, não é culpa sua.

— Abrace a porra do poste! — Rugi, levantando o


chicote.

Ela gritou e se virou, envolvendo seus braços e pernas


ao redor a coisa da melhor maneira possível, e ela chorou e
implorou e porra, Deus sabe o que ela disse. Que palavras,
ela murmurou, porque eu não podia ouvi-las. Não mais. Tudo
o que eu podia fazer era vê-la agarrar-se ao poste, assistir seu
corpo tremendo enquanto esperava que eu a
chicoteasse. Tudo o que eu podia fazer era vê-la.

Me ver nela.

Ver medo.

Sentir.
Sentir seu terror.

E isso me lembrou, me fez voltar tantos anos.

E isso me fez hesitar, e eu odiava que isso me fizesse


malditamente vacilar.

Eu não poderia ser fraco.

Eu não faria isso.

Um som veio de mim, algo estranho e cheio, como vidro


quebrando em mil pedaços. Estilhaçando. Danificando além
do reparo.

Era eu. Isso era o que eu era. Um monstro


destruído. Um assassino. Uma besta odiosa e vingativa.

Sofia esticou o pescoço, seus olhos molhados


encontraram os meus, o terror dentro deles me cortou
novamente. Como se isso fosse possível. Não havia nada para
machucar.

Com a garganta apertada, eu fui até ela, abraçando-a,


tirando-a do poste.

— Desculpe, — eu disse, virando-a, segurando-a. Eu


enterrei meu rosto em seu cabelo e não parava de dizer isso,
repetia as palavras, segurando-a tão apertado, tão
malditamente apertado.

Estendi a mão, minhas mãos tentando abrir as


restrições. Eu esperava que ela se afastasse. Fugisse de
mim. É o que ela deveria ter feito. Mas em vez disso, seus
braços estavam em volta do meu pescoço e, ainda chorando,
lágrimas salgadas em meus lábios, ela me beijou, me
abraçando com todas as suas forças, agarrando-se a mim
como se ela não estivesse naquele poste e eu a tivesse
assustado. Quando eu estive há momentos de chicotear suas
costas, machucá-la como fui machucado, deixando cicatrizes
como as minhas.

— Sinto muito, — eu disse novamente. — Eu sinto


muito.

— Faça amor comigo, — ela disse contra meus lábios,


nossos corpos nunca se separando, nunca separados.

Eu a levantei, usando o poste em suas costas quando eu


a deslizei para o meu pau, ainda muito duro depois de tudo
isso.

Nossos olhos se fecharam, nossos lábios se tocaram, e


eu empurrei nela.

Ela respirou fundo, e eu sabia que ia machucá-la. Ela


era muito apertada. Muito pequena para eu foder. Mas eu
queria isso. Eu queria ela. Isso. Porra. Eu precisava disso.

— Mais duro.

Para mim? Ela sabia que eu precisava? Será que ela


também precisa?

Eu fiz isso de novo, empurrando novamente, e


novamente, e meu pau inchou e sua boceta apertou e ela me
agarrou com todas as suas forças, e quando suas paredes
apertaram e pulsaram em torno de mim, eu a observei, vi
seus olhos se fecharem, assisti seu lábio desaparecer entre os
dentes, e eu gozei dentro dela, enterrado profundamente,
deixando algo para trás, uma parte antiga de mim, quase
como se a deixasse fisicamente.
Sofia
Eu acordei nos braços de Raphael. Eu não me movi e
tentei manter a minha respiração estável. Que diabo
aconteceu na noite passada? Quão perto eu cheguei de ser
açoitada? Eu sabia que ele precisava que a cena ―aquela cena
insana‖ acontecesse. Ele não podia pisar em ovos sobre o
passado por mais tempo. Talvez voltar aqui, talvez
subconscientemente, ele buscou o confronto porque sem ele,
não haveria alívio. Eu esperava que a noite passada fosse a
sua vitória sobre os demônios que o perseguiam. Eu esperava
que na noite passada ele os tivesse banido para o inferno
onde eles pertenciam.

Que tipo de infância ele teve?

Que tipo de culpa que ele carregava em seus ombros?

Ele me disse que ele protegera seus irmãos de seu pai, e


eu entendi que tomava as chicotadas para salvá-los. O que
ele disse ontem à noite, no entanto, que seu pai ―uma vez que
Raphael era grande demais para apanhar‖ voltou sua raiva
para a mãe de Raphael?

Que besta. Que monstro.

Eu olhei para o rosto adormecido do meu marido. Era a


primeira vez que eu o via assim. A primeira vez que eu fui
capaz de vê-lo sem ser vista por ele. E com toda a sua dureza,
com todas aquelas duras ações, vê-lo assim, com o rosto
calmo, havia uma suavidade nele. Uma inocência que ele
escondia tão bem sob toda a dureza.

Eu sabia que ele era bonito. Isso não era uma


pergunta. Os cabelos grossos e escuros e a pele bronzeada, e
corpo que um modelo mataria para ter, mas, mesmo sem
isso, mesmo que ele fosse feio, essa inocência dentro dele,
aquele garotinho danificado ainda enterrado lá, isso me fez
querer protegê-lo, protegê-lo de seus monstros.

Ele dormiu me segurando, e seu braço pesava uma


tonelada do meu lado. Me movi um pouco, incapaz de resistir
a tocar levemente o pelo de seu queixo. Perguntei-me se Lina
estava acordada. Ela tinha que estar e provavelmente estava
esperando por mim.

Raphael piscou, um azul que não se encaixava com a


cor escura de seus cílios. Ele rolou de costas e olhou para o
teto.

— Que horas são?

— Quase onze. Eu não queria te acordar.

— Quase onze?
Ele se virou para mim, e seu rosto ficou sério. Era como
vê-lo se lembrar.

— Você está bem?

Eu sorri e toquei seu rosto novamente.

— Sim.

Não tínhamos tomado banho quando chegamos no


andar de cima ontem à noite. Ele não permitiu, querendo me
segurar. O quarto cheirava a sexo.

— Eu preciso de um banho, — eu disse. — Minha irmã


provavelmente está esperando, se perguntando onde eu
estou.

— Ela provavelmente descobriu onde você está.

Ele rolou em cima de mim e me prendeu com os


cotovelos em ambos os lados do meu rosto. Ele me beijou.

— Eu gosto do meu cheiro em você.

— Bem, eu não sei se todo mundo vai gostar, então eu


deveria tomar banho.

— O que vocês duas vão fazer hoje?

— Eu ainda não tenho certeza. — Lembrei-me de ontem,


de ver o meu avô com aquele homem. — Raphael, aquele
homem do casamento, quem ele é exatamente?

O seu rosto ficou sério, e ele saiu de cima de mim.

— Vincent Moriarty. Um autoproclamado homem de


negócios. Um bandido e um chantagista também, a quem
meu pai devia dinheiro.
— Ele é perigoso, não é?

— Eu lhe disse que eu não deixaria ele machucar você,


Sofia.

Não era comigo que eu estava preocupada.

— Ele quer te machucar? — Eu perguntei.

— Ele espera que eu pague a dívida do meu pai.

— Eu tenho que te dizer uma coisa, — eu disse, me


sentando.

— Se é sobre ele reunido com seu avô, eu sei.

— O que? Como?

— Eric mencionou. Ele os viu, quando você e sua irmã


foram buscar o telefone dela.

— Oh, — eu esqueci Eric. É claro que ele teria visto. —


Eu quero ver o meu avô novamente hoje. Perguntar a ele
sobre o que se tratava. Fazer com que ele coloque todas as
suas cartas na mesa.

Raphael riu e saiu da cama.

— Você é ingênua, Sofia.

Eu o segui.

— Eu não sou ingênua. As coisas mudaram. Você é o


meu marido agora, e é diferente do que deveria ser.

Ele parou e se virou. O se olhar me fez vacilar.

— Eu não quero mentir para você. E eu não quero jogar


com você, — eu disse.
— Isso é bom, porque eu não quero jogar com você.

— Nós não somos inimigos, certo?

— Não, mas o seu avô...

— Precisa ir para casa e aceitar o que aconteceu. Aceitar


a sua derrota.

Ele pegou meu rosto em suas mãos e me atraiu para ele,


então beijou minha testa.

— Ingênua, mas doce.

Ele entrou no banheiro. Eu o segui.

— Você nunca me respondeu quando eu perguntei se


havia mais para me contar sobre a consumação. Estive
pensando sobre isso, e isso não faz sentido. Ele não tem nada
a ganhar exigindo isso. Havia algo mais, não é? — Eu sabia
que havia pelo seu olhar. — Do que você desistiu para me dar
tempo com a minha irmã?

— Cinco por cento.

— O que?

— Eu tenho quarenta e cinco por cento agora. Não os


cinquenta.

— Por esses poucos dias que ela estará aqui?

Ele assentiu e ligou o chuveiro.

— Raphael, você fez isso por mim? — Ele não


precisava. Ele não tinha que fazer nada para mim. Fui até
ele, mas quando ele se virou, eu vi como seu rosto endureceu.

— Eu te disse uma vez; não faça de mim um santo. Eu


não sou, Sofia.

Suas palavras me assustaram.

— O que isso significa?

— Isso significa exatamente o que eu disse.

— Quero que Lina fique. Eu quero ser sua guardiã legal,


— eu soltei antes que eu pudesse amarelar.

— Fique? Aqui conosco?

— Ela vai ter dezoito em dois anos. E ela é


autossuficiente, não é como uma criança...

— Eu não estou preocupado com isso. O que faz você


pensar que seu avô vai permitir isso?

— Eu vou perguntar a ele.

— Não. — Ele balançou a cabeça. — Você não pode vê-lo


novamente. Eu a proíbo.

— Você me proíbe?

— Ele é meu inimigo, Sofia, o que o torna seu inimigo. O


que você viu com seus próprios olhos ontem não provou isso?

— Exatamente por isso que eu preciso trabalhar para a


minha irmã ficar aqui comigo. Eu não me sinto segura
mandando-a de volta com ele.

Ele balançou a cabeça, entrou no chuveiro, e pegou o


shampoo.

— Raphael! Estou falando com você.

— Estou atrasado para uma reunião.


— Que reunião? O que são todas essas reuniões?

— Eu tenho tempo para uma transa rápida no chuveiro,


no entanto.

Ele sorriu, aquela arrogância que eu odiava.

Mostrei o dedo do meio e saí do banheiro, enfiei a


camiseta sobre a cabeça, e corri para o meu quarto, não
querendo esbarrar em ninguém até que eu tivesse tomado
banho. Ele levou dois minutos inteiros para me seguir,
pingando e nu, no corredor. Na minha porta, ele agarrou meu
braço e me empurrou para dentro, batendo a porta atrás de
nós.

— Não se atreva a fazer isso comigo de novo, entendeu?

— O quê, isso? — Eu mostrei o dedo novamente. — Ou


sair?

Ele apertou meu braço, sua boca tensa.

— Você quer jogar, afinal?

Estreitei meus olhos, mas meu coração batia forte vendo


aquele olhar dele, o tom de sua voz. Eu sempre parecia
esquecer minha inexperiência. Esquecer seu poder. Ou talvez
eu apenas pensei que as coisas mudaram entre nós na noite
passada.

— Nós podemos jogar.

Ele me virou e me empurrou na beira da cama.

Eu tentei me levantar, mas ele apertou a mão entre


minhas omoplatas e me manteve na cama, em seguida,
empurrou a camisa sobre minhas costas e espalhou minhas
pernas antes de ficar entre elas. O senti então, senti sua
dureza na minha bunda, e tanto quanto eu não queria, tanto
quanto eu queria ficar com raiva, meu corpo estava
respondendo, como ele sempre respondeu à Raphael.

— Você tem uma bunda grande, Sofia, — disse ele,


então deu uma bofetada.

— Ai!

— Mantenha o rosto na cama.

Ele torceu meu cabelo na sua mão e se inclinou sobre


mim.

— Você está me machucando.

— Parece ser a história de nossas vidas.

Ele deu um tapa na minha bunda novamente.

— Pare!

— Você vai manter sua cabeça para baixo?

Ele apertou o punho, e eu assenti. Quando ele se


endireitou, eu fiquei como estava. Suas mãos vieram até
minha bunda e me abriram.

— Que bunda foda, — disse ele, os dedos me


acariciando, me alargando.

Eu gemi, constrangida, e enterrei meu rosto na cama.

— E a sua vagina está sempre pingando para mim, não


é?

— Eu te odeio, — eu murmurei.

— Isso não é verdade.


No momento seguinte, sua língua estava me lambendo
toda, do meu sexo até minha bunda, circulando lá, em
seguida, deslizando ao longo dos lábios da minha boceta.

— Eu vou foder cada buraco seu, você sabe disso, certo?

Engoli seco, mais excitada do que eu gostaria.

Ele lambeu novamente, desta vez, pressionando a língua


contra a minha bunda.

— Pare.

— Não se preocupe.

Ele se endireitou, seu pau na entrada da minha boceta.

— Ainda não.

Ele mergulhou seu pau, e eu arqueei minhas costas,


mordendo meu lábio.

Porra. Aquele primeiro momento, quando ele entrou em


mim... Porra.

— Você quer gozar, não é? — Ele se moveu lentamente


dentro e fora. — Você gosta de ser fodida.

Engoli seco, agarrei a colcha, e me recusei a


responder. Muito humilhada por ele saber como eu estava
excitada.

— Não esta manhã, no entanto.

Sua mão no meu cabelo, ele me pôs de pé, me segurou


contra ele com seu pau ainda enterrado em mim.

— Considere-o a sua primeira punição. Uma


relativamente fraca.
Ele saiu e me virou para me beijar uma vez, me
empurrou de joelhos.

Olhei para ele, para seu pau que antes estava em mim,
liso com meus sucos.

— Abra largamente, querida. Eu quero mergulhar na


sua garganta. Cuidar desse buraco antes de cuidar dessa
bunda.

Eu queria odiá-lo, queria ter nojo dele, das suas


palavras. Ele ficou duro enquanto me humilhava. Então, por
que eu não podia odiá-lo? Por que eu, em vez disso, abri a
boca e o lambi, me provando sobre ele, antes de abrir
amplamente, como ele disse, e o engoli? Por que eu estava
molhada por ele?

— Porra, — Raphael gemeu, com dificuldade.

Eu olhei para ele enquanto ele me movia sob si com a


mão no meu cabelo, me machucando um pouco, mas ainda
me deixando excitada.

Isto era ferrado. Sexo não deveria ser assim.

E era ainda mais ferrado que me deixasse molhada.

Quando ele olhou para mim e me deu aquele sorriso


sujo, torto, tudo o que eu queria fazer era chegar entre as
minhas pernas e me fazer gozar.

— Eu gosto da sua boca virgem, Sofia. Eu vou gostar de


gozar na sua garganta, fazendo você sufocar com a minha
porra.

Ele se moveu mais rápido empurrando todo seu


comprimento, indo mais fundo, não aliviando enquanto eu
lutava para respirar.

— E eu quero que você saiba que quando eu digo que


proíbo algo, eu espero obediência.

Ele apertou o meu cabelo, seu pau no fundo da minha


boca, forçando-me a olhar para ele.

— Lembre-se de seus votos de casamento.

Ele sorriu e empurrou mais fundo, seu rosto tenso, seu


pau engrossando.

— Porque eu não usei um chicote nas suas costas na


noite passada não significa que eu não vou pegar o meu cinto
e usar no seu traseiro quando você precisar dele. Castigo
merecido é algo totalmente diferente.

A cabeça de seu pau bateu no fundo da minha garganta.

— Compreendido?

Lágrimas caíram dos cantos dos meus olhos enquanto


eu empurrava suas coxas, lutando para respirar.

Ele puxou um pouco, e concordei acenando com a


cabeça.

— Boa menina.

Naquele momento, eu o odiava. Eu odiava seu poder


sobre mim. Odiava que me excitasse até agora, mesmo com
isso.

Mas então ele me inclinou para trás em um ângulo


doloroso e fodeu minha boca, realmente fodeu, e quando ele
se acalmou e gozou na minha garganta, tudo o que eu podia
fazer era engolir, o engolir, e ver seu rosto, seu belo rosto
enquanto tomava seu prazer de mim, em seguida, puxou para
fora, me liberando.

Limpei a minha boca com as costas da minha mão,


sentando-me em meus calcanhares.

— Isso foi bom para a sua primeira vez, — disse ele. —


Mas você perdeu um pouco.

Com o dedo do pé, ele apontou para onde havia algumas


gotas de porra no chão.

— Lamba tudo.

A raiva queimava dentro de mim, começando na minha


barriga, queimando minha garganta enquanto ele se fez
ouvir.

— Foda-se — Eu me levantei, de alguma forma não


tropeçando e o encarei. Recusei-me a desviar o olhar. E
quando ele sorriu, eu puxei meu braço e lhe dei um tapa.

Seu corpo não se moveu, apenas a sua cabeça estalou


para o lado. Ele exalou, e o lado de sua boca se curvou,
enquanto sua mão subiu para tocar sua
bochecha. Lentamente, ele virou-se para olhar para mim.

Seu olhar deslizou sobre mim, e eu estremeci,


prendendo a respiração quando ele trouxe seus dedos pela
minha barriga e os deslizou entre os meus seios, sobre meu
peito. Sua mão em seguida apertou minha garganta, e eu
agarrei seu antebraço quando ele se inclinou sobre mim.
— Nunca faça isso de novo.

Ele apertou, e eu tremi. Ele era volátil, como uma mina


terrestre, que se eu não pisasse levemente, explodiria. Ele
esmagou meu pescoço em sua mão, e eu não pude falar. Eu
fiz um som quando ele me levantou na ponta dos pés. Foi
quando ele deve ter percebido o que estava fazendo, porque
ele piscou rapidamente várias vezes, como se me visse de
novo. Quando ele me soltou, eu me equilibrei. Era a única
maneira de me manter na posição vertical.

Ele olhou em volta do quarto, e demorou um minuto


para me enfrentar novamente.

— Vista-se. Não me obrigue a puni-la.

Após sua advertência, ele cruzou o chão e saiu, batendo


a porta atrás dele.

Exalei, esfregando minha garganta. O que diabos


aconteceu? Depois da noite passada? Como chegamos a este
ponto? O que eu disse? O que eu perguntei? Eu o deixei e
saí. Ele ficou tão irritado. Muito irritado.

Com minhas pernas tremendo, eu entrei no banheiro e


liguei o chuveiro. Corri para me lavar e me vestir, fazendo um
rabo de cavalo no meu cabelo enquanto eu fui bater na porta
de Lina. Mas não houve resposta. Quando eu abri a porta, a
cama estava feita e o quarto vazio. Ela levou Charlie para
dormir em sua cama, e ele também se foi.

Eu não ouvia Raphael quando cheguei à cozinha, eu


encontrei Maria rolando massa no balcão e Nicola secando e
empilhando pratos.
— Bom dia.

Ambas sorriram e me desejaram o mesmo.

— Minha irmã está aqui?

Maria disse alguma coisa, mas eu não entendi então


Nicola traduziu.

— Não. Ela saiu com Damon mais cedo. Ela disse que
estaria de volta na hora do jantar.

— Com Damon? — Eu acho que ela estava esperando


por mim. — Ela me deixou um bilhete ou algo assim?

— Não, desculpe. Ela disse para te deixar dormir.

— Ok. Obrigada. — Charlie escolheu aquele momento


para voltar para dentro da casa, latindo de emoção quando
me viu. Eric seguiu atrás dele, parecendo irritado. — Onde
está Raphael?

— Ele saiu para uma reunião, — disse Nicola.

Então eu estava sozinha. Bem, sozinha com Eric.

— Se você quer ir a algum lugar, eu levo você, — disse


Eric.

— Estou bem. Obrigada.

Depois de me servir uma xícara de café, eu fui para


fora. Seguida por Charlie. Os campos estavam quietos, não
havia outra pessoa à vista, até onde eu podia ver. Caminhei
em direção ao vinhedo com o meu café, aproveitando o sol, o
silêncio em volta de mim, desapontada por Lina ter me
deixado, mas feliz por ela ter saído. Ela tinha apenas alguns
dias restantes, e era bom que Damon estivesse aqui e
pudesse lhe mostrar a redondeza. Mas o que eu faria aqui o
dia inteiro? Ficar aqui, dando voltas na casa, só me faria me
sentir isolada, ainda mais sozinha. Eu me perguntei se eu já
poderia chamar esse lugar de casa.

Eu tirei meu telefone do meu bolso e liguei para Lina,


mas foi diretamente para o correio de voz. Deixei-lhe uma
mensagem e disse-lhe para se divertir, então tentei o telefone
de Damon. Ele também foi para o correio de voz.

Então eu fiz outra coisa. Algo que eu sabia que Raphael


não aprovaria. Mas se ele estava ocupado com suas reuniões
e esperava que eu ficasse aqui sozinha o dia todo e apenas
deixasse tudo acontecer à minha volta, bem, ele estava muito
enganado. Eu tive que lembrar que não importa o que
acontecesse entre nós, este homem carregava um monte de
bagagem. O abuso físico quando criança, provavelmente
acompanhado por abuso emocional e mental. Assassinato —
mesmo que fosse autodefesa. Prisão.

Não importava o que ele fizesse, não importava o quanto


eu queria que as coisas fossem bem, não importava o quanto
eu precisava acreditar que os demônios podem ser banidos,
eu precisava lembrar a realidade das coisas. E sua mão
apertando a minha garganta esta manhã, bem, isso era
realidade.

Toquei meu pescoço, que parecia tenso. Contusões já


começaram a se formar, e eu decidi que não as cobriria. Ele
deveria ver do que era capaz. Todos deveriam.
Procurando em meu celular, eu encontrei o número do
meu avô. Ele atendeu no segundo toque.

— Aqui é Marcus Guardia, — disse ele formalmente.

Revirei os olhos. Ele tinha que saber que era eu. Ele
veria o meu nome na tela.

— É Sofia, — eu disse.

— Bom dia, Sofia.

— Bom dia, avô.

Um momento constrangedor.

— Isso é uma surpresa. Uma agradável.

— Eu... — O que eu estava fazendo? — Eu preciso ver


você.

— Tudo bem. Estou me preparando para ir até a


vinícola. Você se importaria de me acompanhar? Dar uma
olhada em tudo?

— A vinícola? — Eu nunca a conheci. Nem Lina. Ao


longo dos anos, o meu avô fez viagens para lá, mas ele nunca
nos trouxe junto. — Sim.

— Eu posso buscá-la em cerca de 45 minutos, tudo bem


para você?

Olhei atrás de mim para a casa, mas não vi Eric.

— Sim, por favor. Eu estarei esperando no portão.

— Vejo você daqui a pouco. E Sofia, — disse ele, quando


eu estava prestes a desligar a chamada. — Fico feliz que você
tenha ligado.
Eu não tive uma resposta além de um adeus, e nós
desligamos. Voltei para a cozinha, já sabendo o que eu diria a
Eric para garantir que ele não me seguisse. Quanto a
Raphael, eu arrisquei despertar sua raiva, mas eu não tinha
escolha. Eu precisava falar com meu avô sobre Lina. Sobre
Moriarty. Eu precisava esclarecer as coisas e acabar com
tudo isso.

Quarenta e cinco minutos mais tarde, Charlie e eu


estávamos de pé no portão. Um sedan veio em nossa direção
pela estrada poeirenta, parando nos portões. Meu avô abriu a
porta traseira e saiu ao mesmo tempo que o motorista, e eu
entrei no carro com Charlie no meu colo.

— O que é isso? — Ele perguntou, com uma expressão


clara de desgosto em seu rosto.

Eu cocei atrás da orelha de Charlie e o segurei no meu


colo.

— É um cachorrinho, avô. Seu nome é Charlie.

— Ele tem que se juntar a nós?

— Sim.

Ele não discutiu comigo, mas me deu um olhar


resignado. O motorista fechou a porta, e nós saímos.

— Ninguém veio com você? Onde está sua irmã?

— Descansando, — eu menti. Eu sabia que ele não


gostaria de saber que Lina estava em mãos inimigas. Embora
Damon não fosse o inimigo. Talvez ele fosse meu único
aliado. Engraçado como, apenas algumas horas atrás, eu
estava pensando que Raphael era meu aliado.

— E Raphael?

— Reuniões...

— Ele sabe que você está comigo?

— Não.

— Boa menina, — disse ele sorrindo, olhando para fora


pela janela.

— Por que você nunca nos trouxe à vinícola?

— Eu não tinha certeza de que estariam


interessadas. Vocês eram muito jovens.

— É a nossa história. Claro que estaríamos


interessadas.

— Bem, então perdoe minha má escolha.

Sua voz me disse que não queria mais falar sobre


isso. O que era bom. Eu também não queria.

Nós dirigimos em silêncio por um tempo, Charlie


tornando o que poderia ter sido uma longa viagem um pouco
menos estranha. A vinícola estava localizada a cerca de uma
hora da propriedade de Raphael. Eu não fazia ideia de que
era tão perto. Por que Raphael não o mencionara?

Muito parecida com a dele, ficava fora da estrada com


uma grande casa no topo de uma colina, cercada por
vinhedos em plena floração, as videiras grossas com folhas
verdes exuberantes. Escuras uvas roxas azuladas cresciam
em abundância. Isso era tão oposto às vinhas enegrecidas
que cercam a casa de Raphael, era surpreendente.

— Chegamos, senhor, — disse o motorista.

— Obrigada. — Cheguei a abrir a porta, mas meu avô


pôs a mão no meu joelho me parando.

— Nós vamos ficar bem.

— Senhor. — O motorista concordou e nos deixou


sozinhos.

— Sobre o que você disse outro dia. Eu não odeio você,


— disse meu avô. — E eu posso ter culpado você pelas
escolhas de sua mãe, mas eu percebi que isso não está
certo. Eu estou tentando, Sofia.

Olhei para ele, seus olhos cinza alinhados mostrando


sua idade. Eu mordi o interior da minha boca e
assenti. Muitas perguntas a fazer, mas neste momento, eu
senti que era verdade. Sua verdade, pelo menos.

Mas então, eu pensei sobre a alteração do


contrato. Raphael mentiu sobre isso? Meu avô pediu que o
casamento fosse consumado? Eu deveria ter perguntado, mas
eu não podia. Em vez disso, apenas concordei.

Abrimos as portas e subimos. Eu tinha Charlie em uma


coleira, e eu o mantive nela enquanto nós caminhamos até a
colina para a casa. — É maior do que eu imaginava que seria.

— Cerca de quatrocentos acres. E eu coloquei uma


oferta em uma propriedade próxima.

— Uma oferta? Estamos comprando mais?

— Você perderá metade em três anos, Sofia. Eu quero


ter certeza de que algo seja deixado quando este casamento
for dissolvido e Amado se sentir como dono de tudo.

Senti a hostilidade em sua voz, como se fosse uma coisa


física.

— Mas como você vai se livrar dele?

— Vai ser em seu nome. Não da Vinícola Guardia. Meu


acordo com Amado é de ações da Vinícola Guardia. Não a
propriedade privada de Sofia Guardia.

Eu nunca teria pensado nisso. Inteligente, eu supus. E


talvez eu fosse ingênua, como Raphael gostava de dizer, mas
eu estava feliz por eu não pensar em como eu poderia
manipular as coisas para minha vantagem.

Mas havia uma pergunta.

— Como você vai comprá-la? Com que dinheiro? Se ele


não é Guardia...

Ele me deu um sorriso e virou-se para a casa.

— Não se preocupe com isso. Você só guarde a notícia


para si mesma por enquanto.

Eu o segui para dentro, apreciando o frescor do lugar


em comparação ao calor de fora. Embora as manhãs fossem
agradáveis e o ar estivesse relativamente seco na região, o sol
da tarde poderia ser sufocante.

Eu me encontrei na entrada do que uma vez deve ter


sido uma grande casa. Comparada a beleza da casa de
Raphael, este era, posso dizer, usada mais como uma fábrica
do que como qualquer outra coisa. Sem vida e suja,
armazenava máquinas e tinha longos balcões de trabalho
onde os funcionários trabalhavam enquanto nós caminhamos
em volta, examinando tudo.

— Quando sua mãe era mais jovem, costumávamos vir


durante a colheita. Os quartos no andar de cima ainda estão
intactos. Se você quiser ver eles...

— Sim! — Eu estava tão animada, eu o


interrompi. Limpei a garganta. — Por favor.

Um homem se aproximou de nós com um sorriso


agradável, mas urgente. Meu avô o apresentou como o
gerente. Depois de apertar a minha mão, o homem
mencionou algo ao meu avô, e avô virou-se para mim.

— Se você não se importa, você terá que ir sozinha. Eu


tenho que cuidar de algo.

— Não, tudo bem. Obrigada.

Melhor ainda. Eu não podia acreditar na minha sorte.

— O último quarto era da sua mãe.

Deixando-os para trás, eu subi as escadas com Charlie


ao meu lado. Havia apenas três quartos aqui. O primeiro era
muito pequeno, cabendo apenas uma cama de solteiro e uma
mesa de cabeceira dentro. Não havia nenhum colchão na
cama, apenas a tela, e as paredes estavam nuas. Os poucos
passos que eu dei para dentro deixaram minhas impressões
na camada de poeira no chão.

O segundo quarto era duas vezes maior. Uma cama


king-size estava contra a parede do fundo. Este estava com
seu colchão intacto, mas estava coberto com uma camada de
poeira. Uma mesa de cabeceira de cada lado com luminárias
sem lâmpadas. Uma cômoda estava contra uma parede. Eu
olhei as gavetas, mas as encontrei vazias.

No meu caminho para o quarto final, passei por um


banheiro. Parecia não ser reformado há algum
tempo. Quando me aproximei do quarto de minha mãe, meu
estômago vibrou como borboletas. Gostaria de saber quando
ela esteve aqui pela última vez, quantos anos ela tinha.

Aproximei, coloquei minha mão na maçaneta da porta e


respirei fundo. Eu precisava estar preparada para nada. Os
outros quartos não tinham toques pessoais. Qualquer um
poderia ter vivido nesses quartos. O da minha mãe poderia
ser tão decepcionante quanto.

Abri a porta e entrei, então, depois de um momento, a


fechei atrás de mim.

A poeira cobria o chão aqui também, e eu devo ter sido a


primeira pessoa aqui em muito tempo. O quarto era
ligeiramente menor do que o último, e uma cama de casal
estava disposta em um canto com uma janela em cada
parede. Levantei o cobertor contra poeira9 para encontrar o
colchão e o travesseiro debaixo. Minha mãe dormira uma vez
nesta cama.

Olhei para as paredes nuas. Pregos deixaram


buracos. Uma penteadeira estava contra a parede mais
próxima da cama. Corri meus dedos através da superfície

9
Tecido leve colocado sobre móveis para evitar poeira.
empoeirada, em seguida, abri a gaveta. Eu sorri.

Lá dentro, eu encontrei um velho batom metade usado


de uma cor rosa quente horrível e uma pequena amostra de
perfume. Eu borrifei um pouco e inalei, voltei imediatamente
no tempo.

Uma onda de emoção passou por mim.

Eu não tenho muitas memórias de meus pais. Eu mal


lembrava da aparência deles e tinha que olhar as fotos deles
muitas vezes. Eu também não conseguia me lembrar de suas
vozes. Eu odiava isso. Tínhamos alguns vídeos de festas de
aniversário, mas a maioria das filmagens era de Lina ou eu.
Ou minha mãe ou meu pai estavam sempre atrás da câmera,
e embora você pudesse ouvi-los, eles não estavam nos
vídeos. O perfume, no entanto, esse cheiro era da minha
mãe. Eu esqueci disso também.

Sentei-me na beira da cadeira. Meu coração doeu com a


lembrança.

Depois de guardar o pequeno frasco, passei o dedo sobre


a superfície do espelho e peguei o batom e olhei para a
marca. Era uma marca de farmácia barata que eu costumava
comprar quando eu era adolescente e tinha pouco dinheiro.

Tirando a tampa, eu o trouxe aos meus lábios e apliquei


um pouco. Estava duro e bolorento, mas eu imaginei
deslizando-o em toda a sua boca, e quase me senti como
ela. Era o mais próximo que eu poderia estar da minha mãe
fisicamente.

Colocando ambos no bolso, fechei a gaveta e verifiquei a


cômoda e o armário. Eu não achei nada. Nenhuma peça de
roupa. Nenhum bicho de pelúcia esquecido ou livro ou
qualquer coisa.

— Sofia? — A voz do meu avô chamou à distância.

Limpando meus olhos e nariz com as mãos, fui até a


porta, dando uma última olhada.

— Estou chegando.

No andar de baixo, o gerente apontou o novo


equipamento que instalaram, incluindo um novo sistema de
segurança. Ele nos acompanhou pelas vinhas com Charlie
seguindo de perto, brincando e correndo a meus pés. Por
mais que eu quisesse tirá-lo da coleira, meu avô pediu que eu
não tirasse.

Somente quando nos sentamos em uma mesa posta


para o almoço que eu tive alguns minutos para falar com ele
enquanto o gerente nos deixou com copos de vinho e foi
atender uma ligação.

— Este é o nosso vinho, obviamente, — ele me disse,


gesticulando para eu pegá-lo.

Eu hesitei. Ele nunca permitiu isso em casa. Nem


mesmo uma pequena amostra. Peguei meu copo, e ele
segurou o seu alto. Toquei o meu no dele.

— Para um melhor relacionamento, — disse ele.

— Você quer mesmo isso? — Eu perguntei depois de


tomar um gole, estava delicioso.

Ele assentiu.
— Então eu quero pedir que você me dê à guarda de
Lina. — Seu rosto mudou instantaneamente, mas eu
continuei. — Eu quero tê-la aqui comigo. Eu perdi os últimos
quatro anos, estando ausente na escola, e....

— Isso está fora de questão.

— Por quê? Não vai interferir no seu arranjo


financeiro. Você pode continuar como você sempre fez.

— Não, Sofia.

— Eu posso ter os melhores professores em casa. Eu


posso...

— E o seu marido? Tenho certeza que ele não gostaria


de sua irmã rondando. Ele nos odeia, lembre-se disso.

— Ele não nos odeia.

Ele abaixou a cabeça, os lábios apertados.

— Certo. Ele me odeia.

— Sinto saudades da minha irmã.

— Então você terá que convencer Amado a deixá-la


retornar aos Estados Unidos para visitas.

— Será que você, pelo menos, pode pensar sobre


isso? Deixá-la ficar no verão, pelo menos?

Duas mulheres e o gerente retornaram então, com


pratos de comida e grandes sorrisos em seus rostos. Nossa
conversa parou, e eu sabia que seria impossível. Quando o
meu avô decide, decide. Sempre foi assim enquanto estava
crescendo. Ele fez as regras. Nós obedecemos.
Mas nós não éramos mais crianças. Eu não o deixaria
intimidar-me em silêncio, não com algo tão importante como
isso.

Sentei-me durante o almoço não falando muito, minha


barriga revirando de frustração, por minha
impotência. Enquanto meu avô e o gerente falavam de
negócios, eu deixei a comida no prato e decidi que Maria era
muito melhor cozinheira. No momento em que os pratos
foram retirados, eu não poderia segurar minha língua por
mais tempo.

— O que Vincent Moriarty estava fazendo em seu hotel


ontem? — Saiu mais duro do que eu pretendia.

O som solitário de um garfo caindo em um prato, então


tudo ficou silencioso. O gerente limpou a garganta e focou em
tirar pequenas migalhas de pão da mesa.

— Sr. Moriarty é um desenvolvedor de negócios nesta


região. Eu estou surpreso que seu marido não o tenha
mencionado.

— Seu nome é Raphael. Apenas Raphael. Não


Amado. Não seu marido. E ele mencionou. É exatamente por
isso que eu estou querendo saber o que você estava fazendo
com ele.

— Ah.

Eu levantei minhas sobrancelhas.

— A propriedade que estou comprando para você,


Moriarty tem interesse nela também.
— Sua reunião foi sobre a compra de um pedaço de
terra?

— O que você acha? De que tipo de negócio que você


esperava que eu tratasse? Talvez eu não seja o homem
que Raphael pintou, Sofia.

Raphael mentiu para mim? Moriarty era legítimo e não


um bandido, como ele o descrevera? Qual era a sua relação
com Moriarty? E por que o homem me dava arrepios?

— Eu.... Eu não sabia.

— Bem, infelizmente, o nosso encontro não foi tão


frutífero quanto Moriarty gostaria. Na verdade, ele tentou me
convencer de que a propriedade que eu queria não seria
interessante para mim.

— Por quê?

— Não importa, realmente, e nem ele. A oferta está


valendo. Isso é tudo o que importa.

Fiquei grata, então, que as mulheres trouxeram a


sobremesa. Meu avô fez um show como quão ela parecia
muito bonita para ser comida, e as mulheres sorriram, até
corando um pouco. Eu o vi, esse lado dele diferente do
homem que eu conhecia, quase encantador. Não era um
homem capaz de fazer as coisas que Raphael
alegou. Certamente não é capaz de ameaçar a vida de um
homem.

Mas, novamente, minha presença aqui, o anel que


pesava no meu dedo, não provava o contrário?
Apesar de meu avô sorrir, algo frio se instalou em seus
olhos, e isso me gelou.

Eu precisava andar com muito cuidado aqui. Mentirosos


vinham em todas as formas e tamanhos.

Assim como monstros.


Raphael
Os seus olhares quando me viram aproximar-me do seu
pequeno almoço acolhedor foi inestimável. Eu gostaria de ter
uma câmera. Choque e pavor seriam as palavras certas para
descrever. Pelo menos para Sofia. Eu tive a sensação de que o
velho me esperava.

Quando Eric me ligou para dizer que nem ela nem o cão
foram encontrados em qualquer lugar, eu sabia exatamente
onde ela estaria. Ou pelo menos com quem ela estaria. Ela
me ignorou completamente e fez o oposto do que eu disse. O
que eu acho que significava que ela não me ignorou
completamente. Eu sempre tentei ver as coisas pelo lado
bom.

Eu liguei para o hotel em Siena, onde seu avô estava


hospedado, e que levou apenas alguns minutos para eu fazê-
los me dizer onde o motorista estava o levando. Vinícola
Guardia.
— Bem, bem, que surpresa, — disse Marcus, limpando
a boca com o guardanapo.

Eu o ignorei, meus olhos em minha esposa desobediente


em vez disso. Naquele momento, eu percebi que não poderia
nomear a tempestade de emoções que rodava dentro de
mim. Estava muito confuso, muito estranho.

— Almoço agradável? — Eu forcei minha voz para


parecer calmo, mas isso não aconteceu. Não completamente.

Charlie latiu em seus pés, sua coleira presa sob a


cadeira dela, a única coisa impedindo-o de correr para
mim. Como se eu fosse seu mestre para cumprimentar.

— Sim, foi, — disse ela, levando o guardanapo de seu


colo e colocando-o ao lado do prato. — Estamos sem
sobremesa, ou eu lhe ofereceria. — Ela se levantou, me
surpreendendo.

— Você está indo embora? — Perguntou seu avô. — Tão


cedo?

— Se Raphael veio até aqui para me pegar, eu não quero


deixá-lo esperando. Ele tem um monte de reuniões. Homem
ocupado, você sabe.

Ela disse adeus para os homens.

— Só um minuto, Sofia, — disse seu avô.

Ela parou. Ele acenou para o gerente, que tinha a mão


no bolso para pegar duas chaves. Marcus pegou e estendeu-
as para ela.

— Isso vai abrir o portão lá embaixo quando ele estiver


trancado, bem como a própria casa.

Ela parecia confusa.

— Pegue. Ela ainda é sua, afinal de contas.

Ela estendeu a mão para pegar as chaves.

— Obrigada.

— Seja bem-vinda.

Um momento depois, ela se virou para mim.

— Você não tinha que vir me buscar. Meu avô teria me


levado.

Eu soltava fumaça. Minhas unhas cravaram em minha


palma. Quando a levasse para casa...

— Pegue seu cão, e vamos embora, — eu rebati.

— Como eu disse, você não precisava vir.

O avô dela nos observava, quase incapaz de manter o


sorriso satisfeito fora de seu rosto. Ela pegou Charlie, e eu
tinha a sensação de que ela estava trabalhando muito duro
para não ter que me encarar.

Uma vez que ela chegou até mim, eu peguei seu braço e
a puxei para perto.

— Solte.

— Eu deveria colocar uma coleira em você.

— Aposto que você gostaria. Idiota.

— Vir aqui com ele foi uma coisa estúpida a se fazer.

Chegamos ao carro e eu abri a porta do passageiro para


deixá-la entrar. Ela sentou-se e colocou o filhote no
colo. Assim que entrei e liguei o carro, ela falou.

— Não foi estúpido. Lina saiu com Damon. O que eu


deveria fazer, sair com o Eric?

— Eu não sei, brincar com o seu cão, nadar, ler. Tirar a


porra de um cochilo.

— Tenho certeza que muitas mulheres invejariam minha


posição, mas você sabe que eu precisava falar com ele.

Eu me virei para ela e vislumbrei as marcas azuladas


em seu pescoço. Marcas que eu deixei. Engoli minha
repreensão e voltei minha atenção para a estrada.

— Eric está lá para mantê-la segura, Sofia, — eu disse


mais calmo dez minutos depois.

— Meu avô não representa uma ameaça. Não para mim.

— Ele não, mas seus associados sim.

— Moriarty não é seu associado.

Eu olhei para ela e ri.

— É mesmo?

— O que isso significa?

— O seu avô lhe disse isso?

Ela parecia confusa. Eu sabia que não poderia haver


nenhuma verdade nisso. O velho era um mentiroso
manipulador.

— E que tal sobre se tornar guardiã legal de sua


irmã? Você perguntou isso? E ele prontamente
concordou? Colocando suas netas antes de si mesmo?

Ela se mexeu no assento e olhou para frente. — Ele


recusou completamente.

Eu não disse nada, embora eu quisesse.

— Vá em frente, Raphael, não se segure. Você não quer


me dizer que me avisou?

— Acredite ou não, eu queira estar errado neste caso.

Ela exalou e balançou a cabeça, olhando pela janela


lateral.

— Você pensou por um minuto que sua irmã poderia


estar mais segura lá do que aqui? Pelo menos por enquanto?

— Mais segura?

— Eu tenho inimigos, seu avô é um deles. Mas Moriarty


representa uma ameaça mais iminente.

— Você disse...

— Eu disse que te manteria segura, e eu planejo. Mas


seria mais fácil se eu não tivesse que procurar você por toda
a Toscana, e sua irmã fisicamente não estar aqui é melhor
para ela. Seu avô cuidará dela.

— Ele também não me machucaria.

— Eu sei que ele não a machucaria fisicamente.

Nossos olhos se encontraram, e eu vi mil e uma


perguntas por trás deles. Mas ela não perguntou sequer uma.
Ela duvidava. Duvidava de seu avô. Ela duvidava de mim. E
ela deveria. Seria inteligente não confiar em nenhum de nós.
— Você pode ver como ela não estar aqui pode ser mais
seguro para ela? Fora do alcance de Moriarty.

— O que você deve a ele?

— Eu não devo nada a ele. Meu pai, por outro lado,


devia-lhe meio milhão de dólares.

Sua boca se abriu.

— Meio milhão de dólares?

Eu balancei a cabeça.

— Por quê?

— Ele roubou dele. Como o maldito idiota que era.

— Você não pode simplesmente pagá-lo?

— É meio milhão de dólares, Sofia. Além disso, não é a


minha dívida para pagar. Se eu pago isto, eu estaria enviando
uma mensagem. Quero que saiba que eu não vou pagar pelos
erros do meu pai. Seus pecados são dele. Eu não sou seu
bode expiatório.

— Sobre o que são todas as suas reuniões?

— Vinhedo. Estou pensando em vender.

— Vender a terra?

— A terra. A casa. Tudo isso.

— Raphael...

— Eu me pergunto se não seria melhor. Me afastar de


tudo. Começar de novo.

— Mas a casa. É onde você se lembra de sua mãe. Seus


irmãos. Você disse que é onde você se lembra de ser feliz. Se
fosse eu, e eu tivesse algo de meus pais, eu não desistiria,
não importa o quê.

Será que ela achava que eu tomei essa decisão


levianamente? Ficamos em silêncio por dez minutos.

— Seu pescoço, Sofia, — eu finalmente disse.

Ela colocou uma mão ao redor dele.

— Eu sinto muito. Eu posso ficar muito.... Com muita


raiva.

— Percebi.

Virei-me para ela.

— Eu não quero te machucar.

— Então, não machuque. Você tem que descobrir como


lidar com a raiva.

— Como você não me despreza?

— Como eu poderia? Como eu poderia te odiar? Você é


uma vítima. Talvez mais do que eu.

— Eu não sei se há graus ou se eles importam.

— O que seus irmãos pensam sobre a venda?

— Não importa. Eu sou o dono.

— Raphael, você quer...

— Ainda não decidi, — falei honestamente. — De


qualquer maneira.

— Mas...
— Deixe isso, Sofia. Eu preciso pensar.

— Você faria isso?

Eu não respondi. Em vez disso, eu entrei na


propriedade. Lina e Damon saíram da casa juntos para nos
cumprimentar.

Sofia saltou do carro depois de Charlie, abraçando


primeiro sua irmã, depois Damon. Ele disse algo para ela,
mas eu não ouvi. Pelo olhar em seu rosto, era uma censura.
Bom.

Lina pegou a mão de Sofia e entraram em casa. Mas


logo antes delas estarem fora de vista, eu notei o olhar que
Lina jogou sobre seu ombro em Damon. Havia algo estranho
nisso. Algo inesperado.

— Onde Damon a levou? — Perguntou Sofia.

Eu não ouvi a resposta de Lina enquanto elas


desapareciam à nossa frente, mas eu estudei meu irmão, vi
como seus olhos as seguiram, como eles se estreitaram
quando eles rastrearam Lina.

— Ela é um pouco jovem, não é? — Perguntei, o que era


para ser uma piada, mas percebendo que ele tomou isso
como mais uma provocação no momento que eu vi seu rosto.

— Que porra isso significa?

— Só que ela é jovem. Dezesseis anos, certo?

— Então, primeiro você me acusa de ser — qual foi à


palavra que você usou? Acolhedor? Sim, acolhedor, com
Sofia, e agora é outra coisa com a sua irmã?
Eu sorri.

— Eu pensei que você seria melhor em mascarar suas


emoções agora, irmão.

— Foda-se, Raphael.

— O que está acontecendo com o clero nos dias de hoje?


— Eu disse, caminhando pela casa para a cozinha, parando
na porta. — Você vem? Você queria trabalhar na
capela. Quero dizer, é por isso que está aqui, certo? Não há
nenhuma outra razão.

O rosto de Damon ficou vermelho, e ele fechou suas


mãos em seus lados. Mas manteve sua boca fechada. Nós
pegamos algumas garrafas de água, saímos pela porta dos
fundos e fomos para a capela. Nós caminhamos mais de um
quilometro e meio em silêncio. Eu não me importava. Não
dava a mínima. Eu o deixei instável, algo que em se tratando
de meu irmão gêmeo era quase impossível de fazer.

Damon e eu trabalhamos em silêncio durante as


primeiras horas, e quanto mais o tempo passava, mais eu
pensei sobre como ele tomou o meu comentário. Como se
houvesse alguma verdade por trás dele, teria consequências
pesadas para o meu irmão.

Olhei para ele. Ele tirou a camisa e estava levantando


blocos de pedra quebrados para levar para fora.

— Damon, — eu disse, enxugando a testa com a minha


camisa descartada. — Está quente. Devemos fazer uma
pausa.

— Vá se você precisar. Eu preciso continuar


trabalhando.

— Por quê? Aqui tem estado desse jeito durante


anos. Agora você está com pressa?

— Eu só preciso trabalhar, Raphael. Volte para a


casa. Eu não preciso de você aqui.

Ele não olhou para mim uma vez enquanto


trabalhava. Eu me encostei contra a parede e bebi da minha
garrafa de água, que já estava quente.

— Diga-me o que aconteceu, — eu disse.

Ele parou, com as costas tensas, ou pela minha


pergunta pelo peso da pedra que carregava.

— Nada, — disse ele com um olhar por cima do


ombro. — Eu não sei o que você está falando.

Ele saiu da igreja, e eu ouvi a pedra bater contra a pilha


que já fizemos. Eu ri. Durante toda a conversa, meu irmão
precisava de ajuda para ser honesto consigo mesmo.

— Bem, se você não sabe do que estou falando, como


pode ser nada? — Perguntei quando ele voltou, tomando mais
um gole de água. — Quente como mijo.

Ele parou, seus olhos escurecendo.

— Você está em uma igreja. Meça suas palavras.

Eu levantei as duas mãos em sinal de rendição


simulada.
— Não sabia que você se importava muito, considerando
tudo.

— Qual é a porra do seu problema? — Perguntou ele, de


repente na minha cara.

— Uau, irmão. Quem tem que cuidar da boca agora?

— Se você está tentando me incitar a uma briga...

— Eu só estou fazendo uma pergunta, — eu disse,


inclinando-me em seu espaço. Nós éramos iguais na altura e
similar na construção física. Eu não lutei com ele desde que
éramos garotos. Eu lutaria se fosse preciso. Porra, talvez
fizesse ele se sentir melhor.

— Bem, não.

— Você é meu irmão. Estou apenas cuidando de você.

Ele cerrou os dentes.

— Eu não preciso de cuidado. E eu nunca lhe pedi para


me proteger. Nem uma única vez. Você quis fazer isso. Você
escolheu.

— Que porra você está falan...

Ele balançou seu punho tão rápido, que eu quase não o


vi chegar. Mas na prisão eu aperfeiçoei minhas habilidades
de luta. Eu peguei seu braço, parando a colisão com o meu
rosto.

— Eu disse cuidado com a boca. Você está em um lugar


santo!

— Será que um homem santo deve olhar para uma


menina de dezesseis anos de idade?

A mão de Damon fechou na minha garganta, e ele me


empurrou com força contra a parede da igreja. Eu ri.

— Onde você aprendeu esse movimento? Eles ensinam a


lutar nesse seminário?

— Pare.

— O que, Damon? Estou vendo através de você?

— Eu vi as suas marcas na garganta de Sofia, irmão.

Minha boca apertou, e desta vez, foi Damon que sorriu.

— O que ela tem, metade do seu tamanho? Aprendeu


isso com o pai, depois de tudo?

Minha respiração veio apertada, meu peito arfando a


cada respiração. Eu acho que ele sabia como ver através de
mim também.

— Qual é o problema? Verdade demais para você? —


Perguntou.

Porra. Ele soou como eu. Exatamente como eu.

Tirei seu braço do caminho e bati meu punho em sua


mandíbula. Damon cambaleou para trás, quase tropeçando
em um banco, mas endireitou-se rápido e veio para mim,
braço levantado para me bater de volta.

— Sim, é melhor. Bata em mim. Eu posso aguentar, e


eu posso devolvê-lo. Você não bate em alguém que tem
metade do seu tamanho, porra, — disse ele, seu punho
colidindo com o lado do meu rosto.
Empurrei-o para trás, desta vez esmagando-o contra a
parede e agarrando-o pelo pescoço.

— Eu não bati nela, porra. Eu nunca bati nela,


porra. Eu nunca...

— E aquelas contusões, ela as colocou lá?

Eu afastei meu braço de novo, tão irritado, com raiva


que tudo que via era vermelho. Os olhos de Damon se
moveram sobre meu ombro. Eu nem mesmo a ouvi chegar,
mas de repente, as mãos de Sofia enrolaram meu braço, e ela
usou todo o seu peso para me impedir de bater em Damon.

— Pare! — Ela gritou. — O que você está fazendo?

— Diga a ele que eu não bati em você.

— O que?

— Diga a ele, porra.

— Saia de cima dele, Raphael!

— Afaste-se, Sofia! — Damon ordenou.

Ele conseguiu tirar meu braço de sua garganta.

— Você vai se machucar.

— Não, — ela disse me puxando, me afastando do meu


irmão.

— Diga a ele, — eu disse, meu olhar ainda preso no de


Damon, o dele no meu.

— Ele não me bateu. Ele não me bateu nenhuma vez,


Damon. Nem uma única vez.

Damon virou-se para ela, seus olhos procurando seu


rosto, talvez tentando descobrir se ela estava mentindo.

— Eu juro, Damon. Raphael não vai me machucar.

Ela se empurrou entre nós, de pé em frente a mim como


se ela fosse me proteger.

— Os hematomas em seu pescoço, — disse Damon.

— Outra coisa. Eu prometo, está bem?

Damon olhou para o chão, depois passou a mão pelos


cabelos, sacudindo a cabeça. Seu rosto quando ele olhou
para mim mostrou apenas confusão.

— Vamos voltar. Maria já tem o jantar quase pronto, —


Sofia disse, pegando a minha mão em uma das dela e
estendendo a mão para pegar a dele.

Damon sacudiu a cabeça.

— Vão vocês dois. — Ele se afastou um passo, seu olhar


parando no altar.

— Sofia, — eu disse, olhando para ele enquanto eu


falava. — Espere por mim lá fora. Já estou indo.

Ela hesitou.

— Vá. Sem mais brigas.

Ela concordou e nos deu um olhar ponderado antes de


sair da capela.

— Desculpe, — eu disse, dando um passo em direção a


Damon. — Você está certo. Eu estava tentando incitar
você. Eu nem sei por quê.

Ele esfregou sua mão sobre a boca, no rosto, e sacudiu


a cabeça.

— Sinto muito também. Eu não sei o que deu em


mim. Eu não estou...

— É minha culpa. Esqueça. Se você precisa falar...

— Eu preciso de um tempo sozinho.

Eu balancei a cabeça e caminhei em direção à porta.

— Você vem para o jantar?

Ele caminhou até o banco da frente e se sentou.

— Vá em frente. Eu estarei lá mais tarde.

Por mais que eu quisesse ir até ele, forçá-lo a falar


comigo, eu fiz minhas pernas me levarem em outra direção e
me aproximei de Sofia, que ficou esperando nos degraus da
igreja, os olhos arregalados de preocupação.

— Vamos, — eu disse.

— O que aconteceu?

— Mais tarde. — Eu peguei a sua mão, e fomos para a


casa. Me senti grato pela noite esconder meu rosto, porque
Damon estava certo ao se preocupar com Sofia. E ele nem
sabia toda a história. Não sabia o que ainda estava por vir. E
eu me odiava um pouco mais por isso todos os dias.
Sofia
Raphael e eu voltamos para a casa em silêncio. Ele
segurou minha mão, seu polegar fazendo círculos dentro da
minha palma. O ar pendia pesadamente ao redor dele, seu
humor escuro. Eu queria que ele me contasse o que
aconteceu entre ele e Damon.

— Você está bem? — Eu finalmente perguntei antes de


entrar.

Ele virou para mim e esfregou meus braços, me


apoiando contra a parede. Sua expressão parecia ter mil
coisas a dizer, mas em vez de dizer qualquer uma delas, ele
embalou minha cabeça com uma mão e se inclinou para
beijar-me na boca, seus lábios macios contra os meus, o
toque íntimo e sensual. Diferente de seus outros beijos. Não
erótico. Não no início. Quando ele se afastou, seus olhos
quase brilharam.

Toquei seu rosto, e ele se encolheu. Ele teria uma


contusão feia amanhã.

— A minha intenção quando eu comecei isso, todo o


tempo que planejei, eu nunca pensei em você. Não você, como
em carne e osso, humana. Meu irmão tem razão em se
preocupar. Eu continuo dizendo que eu não vou te machucar,
mas eu vou, não é?

— Raphael...

— É o que eu faço.

Ele balançou a cabeça e passou um dedo pelo meu


rosto.

— Eu poderia parar. Eu poderia cancelar tudo. Deixar


para lá. Esquecer a herança. Se eu fosse bom, eu faria
isso. Mas eu não sou bom.

Eu procurei seus olhos, confusos. Ele parecia solene,


quase pesaroso, e as suas palavras pareciam tão... Finais.
Mas antes que eu pudesse fazer qualquer pergunta, a porta
se abriu. Maria saiu com Charlie correndo ao redor de seus
pés. Ela parecia irritada e então quando nos viu,
embaraçada. Ela nos disse que o jantar estava pronto, e se
nós não nos apressássemos, estaria frio em breve.

— Vamos.

Raphael pegou minha mão e me levou para dentro.

Depois que ele tomou um banho rápido, nós três nos


sentamos para jantar. Eu não perdi como os olhos de Lina
vagavam para o assento vazio onde Damon deveria sentar.

Quando voltei para casa naquela tarde, ela parecia....


Diferente. Feliz, mas diferente do habitual. Ela me contou
sobre seu dia com Damon, disse que ele chegara a casa cedo,
e eles tomaram café juntos enquanto me esperavam, mas
quando era por volta das dez eu ainda não tinha aparecido,
ele se ofereceu para lhe mostrar sua vila favorita, Pienza.
Depois disso, a história foi bastante superficial. Almoço. Um
passeio pela igreja. Em seguida, dirigiram pelo campo. Algo
me dizia para não fazer mais perguntas, mas sim esperar que
ela me dissesse.

Fiquei imaginando o quanto do dia de Damon e Lina


juntos tinha a ver com a briga dos irmãos. Eu estava
morrendo de vontade de perguntar detalhes à Raphael, mas
não podia, não com Lina lá. Em vez disso, nós tivemos
conversa fiada, e a cada pequeno barulho tanto Raphael
quanto Lina olhavam para a porta. Damon nunca apareceu, e
passava das onze da noite quando Lina finalmente foi para a
cama, sua decepção era evidente.

— O que foi aquilo na capela? — Eu finalmente


perguntei quando estávamos sozinhos em seu quarto.

— Bem...

Ele tirou a camiseta e jogou-o no chão antes de me


encarar.

— Você notou como ele e sua irmã se entreolharam


quando voltamos?

— Eu notei algo, mas ela tem dezesseis anos. Quer


dizer, ela vai ter dezessete em poucos meses, mas eu pensei
que eu estava errada, dado o fato de que ele está no
seminário e ela é, bem, jovem.

— Eu não estou dizendo que algo aconteceu. Damon é


muito responsável. Embora hoje tenha me mostrado um lado
diferente do meu irmão.

— Como a briga começou?

— Eu fiz alguns comentários sobre o que você acabou de


dizer, Lina ser jovem, e ele explodiu. As coisas em seguida
rapidamente passaram para o seu tema favorito. Meus
problemas de raiva.

Eu mordi o interior da minha bochecha, não negando


nada.

— E tudo isso acabou no que você viu. Você sabe, talvez


apenas tenha anos de raiva dentro dele também. Quero dizer,
eu não tenho nenhuma ideia de como a cabeça dele está com
o que aconteceu. Sobre a nossa mãe e, bem, com o que eu fiz.

— Você nunca falou sobre isso?

— Nós não crescemos falando sobre qualquer coisa,


Sofia.

— Eu acho que feriu os sentimentos de Lina, quando ele


não aparecer esta noite.

— Bem, é provavelmente melhor que ele não tenha


aparecido. Não é como se qualquer coisa pudesse acontecer
entre eles.

Ele dizendo isso em voz alta, no entanto, era estranho,


quase como se ele estivesse tentando o destino. Muito pressa
ao que ele disse, eu não respondi, mas fiquei o estudando até
que ele pegou minha mão e me levou para a cama.

Eu compartilhei a descoberta do perfume e do batom de


mamãe com Lina. Ela não tinha uma conexão com o cheiro
que eu pensava como o de mamãe, pelo que eu estava
grata. Eu não queria desistir do meu achado.

Ela e eu passamos os próximos dois dias juntas. Eric


nos levou em algumas das vilas durante o dia, então
voltávamos para a casa para nadar à noite. Raphael
praticamente nos deixou sozinhas, e Damon permaneceu sem
aparecer. Sempre que eu tentava conversar sobre ele, Lina
conseguira virar o jogo. Estava claro que ela não queria falar
sobre ele.

Na manhã em que ela voaria para casa, nós nos


levantamos cedo e fizemos uma longa caminhada na
propriedade com Charlie.

— Eu não tenho certeza de quem você vai sentir mais


saudades, eu ou ele, — eu provoquei.

— Vocês dois. Eu gostaria de poder ficar mais tempo.

— Eu tentei, mas nosso avô não permitiria isso. — Eu


deixei de fora a parte sobre Raphael pensando que era mais
seguro para ela ir para casa de qualquer maneira.

— Bem, talvez eu possa voltar durante o feriado de Ação


de Graças. Nós podemos mostrar a Maria como é um feriado
americano.

— Quer dizer cozinhar um peru? Você e eu?


— Não. Nós não queremos matá-la. — Ela fez uma
pausa, hesitando por um momento antes de chegar em seu
bolso. — Você acha que quando você ver Damon novamente,
você pode dar-lhe isso? — Era um envelope lacrado.

O peguei de sua mão, estudando-a, tentando descobrir o


quão longe eu poderia ir.

— O que aconteceu com vocês dois?

— Nada. Não realmente.

Ela se virou para caminhar, e eu caminhei ao lado


dela. Ela manteve os olhos no chão, mas eu vi um pequeno
sorriso fluindo de seus lábios.

— Eu nem sei como descrever isso. — Ela olhou para


mim. — Quero dizer, ele tem vinte e quatro anos de idade, e
ele vai ser padre. Não é como se qualquer
coisa pudesse acontecer.

— Ele e Raphael estavam brigando na


capela. Fisicamente.

— Será que Damon deu a ele aquele hematoma?

— Ele tem um correspondente.

— Eita. O que aconteceu?

— O que Raphael me disse foi que ele fez algum


comentário sobre como vocês se olharam, e Damon explodiu.

— Ele explodiu? — Ela procurou meu rosto,


esperançosa, mas depois o rosto dela escureceu novamente.

— Não importa de qualquer maneira. Eu estarei do


outro lado do oceano.

— E você tem dezesseis anos.

— Quase dezessete.

— Ele vai fazer votos de celibato.

— Ele ainda não fez.

— Lina, — eu parei e peguei suas mãos para fazê-la


olhar para mim. Minha irmã e eu éramos próximas. Eu
conhecia Lina. Mas eu percebi então como, nos últimos
quatro anos, nós tínhamos estado separadas mais do que
tínhamos estado juntas. Lina não era mais apenas minha
irmãzinha. Ela cresceu. Ela era quase uma adulta. Isto — o
que quer que seja isso que aconteceu entre ela e Damon —
pertencia a ela e algo me disse para deixá-lo acontecer. Para
não pressionar.

De repente eu não sabia o que dizer. Ela olhou para


mim como se ela pensasse que eu a repreenderia. Talvez
fosse a isso que ela estava acostumada com o nosso avô. Mas
isso não era o que eu queria.

— Eu não quero que você fique triste quando você for


para casa, isso é tudo, — eu disse, querendo dizer cada
palavra.

Lágrimas brotaram de seus olhos, e ela caiu em meus


braços.

— Eu já estou triste. Estou perdendo você, Sofia. Você


não está apenas duas horas de distância. Nem sequer
estamos no mesmo fuso horário. Há um maldito oceano
inteiro entre nós agora.

Eu a abracei de volta, apertando forte. — Eu não me


importo. Vamos nos falar todos os dias. Vamos conversar no
Facetime10 por horas. E eu vou visitá-la.

— E se ele não deixar?

— Ele vai deixar. Ele tem que deixar.

— Sofia, — Raphael chamou, caminhando da casa em


nossa direção.

Ambas limpamos nossos rostos. Eu sabia que ele vira


nossas lágrimas, mas ele não mencionou.

— Hora de ir.

Assentimos.

As coisas pareciam diferentes com ele por alguma razão.


Gostaria de saber por que mais ele e Damon discutiram e
lutaram.

Lina subiu no banco de trás do sedan com Charlie no


colo. Raphael nos levaria a Siena, onde Lina encontraria
nosso avô. Eles iriam para o aeroporto juntos. Eu estava
determinada a aproveitar cada último minuto que pudesse
com minha irmã.

Quando chegamos a Siena, meu avô já estava esperando


junto com seu motorista ao lado de seu sedan. Saímos, Lina e
eu com lágrimas nos olhos.

Raphael não saudou meu avô. Não com mais do que um

10
Aplicativo de conversas por vídeo em tempo real.
aceno de cabeça. Lina foi para Raphael, e ele se virou para
ela.

— Cuide de minha irmã. — Ela o olhou nos olhos,


minha irmãzinha mais madura, toda crescida.

Ele a estudou por um longo minuto, depois assentiu.

— Eu vou.

Eu vi a sombra por trás de seus olhos. Ele estava


preocupado, o que eu entendia.

Meu avô me deu um abraço desajeitado, e apesar de


Lina e eu termos prometido uma a outra não chorar, o nosso
último abraço foi choroso. Até mesmo Charlie parecia
sombrio quando o sedan foi embora. Raphael permaneceu em
silêncio, esperando e observando comigo até que o carro
desapareceu.

— Tudo bem? — Ele perguntou enquanto entravámos de


volta em nosso carro.

Eu dei de ombros, incapaz de olhar para ele. Eu odiava


quando ele me via chorar.

Nós dirigimos em silêncio, indo para casa. Charlie


cochilou no meu colo, e eu o acariciava distraidamente. Eu
não estava prestando atenção ao nosso entorno, e quando eu
finalmente olhei para cima e vi Raphael olhando com muita
frequência para o espelho retrovisor, eu também olhei por
cima do meu ombro. Um grande SUV preto dirigia atrás de
nós.

— O que é isso? — Perguntei a Raphael.


Ele balançou a cabeça, seu olhar fixo por um momento
no SUV, então na estrada sinuosa. Essas ruas não eram
muito movimentadas, e eu não tinha certeza se era a reação
de Raphael ou o quê, mas algo estava errado. Algo sobre esse
SUV me surpreendeu.

Quando Raphael acelerou, o SUV também o fez. E


quando ele desacelerou, a mesma coisa. Eles pareciam estar
mantendo o ritmo conosco. Eu podia distinguir duas formas
no interior, apesar de todas as janelas, incluindo o para-
brisa, serem fortemente escurecidas.

Foi quando eu me lembrei.

Moriarty.

Ele veio para a casa durante a recepção de casamento


em um SUV semelhante a este. Era ele?

— Raphael? — Perguntei. — Eles estão nos seguindo?

— Espere, — disse ele, fazendo uma manobra acentuada


e inesperada.

— O que você está fazendo? — Eu gritei, assustada, o


som dos freios chiando me assustando terrivelmente.

Raphael não me respondeu. Em vez disso, nós dois


observamos o SUV se descontrolar na estrada, a condução
irregular agora.

— Maldito idiota, — disse Raphael, estendendo a mão


para abrir o porta-luvas. Foi quando eu vi a ponta brilhante
do que eu sabia que era uma pistola.

— Raphael!
Ele estava retardando o carro, saindo para o lado.

— O que você está fazendo? Por que você tem isso?

Ele parou completamente e pegou a arma na palma da


mão. Charlie deve ter sentido meu pânico. Ele começou a latir
e fazer círculos no meu colo.

— Mantenha-o quieto!

— Eu não posso evitar! O que está acontecendo? — Ele


estendeu a mão para abrir a porta, mas eu agarrei seu braço
para impedi-lo. Foi quando os freios do SUV gritaram, e eles
desviaram violentamente ao nosso redor. Eu gritei, e Raphael
murmurou uma maldição, então se virou para mim.

— Você está bem? — Ele perguntou.

— O que é que foi isso?

— Você está bem? — Ele exigiu desta vez.

— Sim!

Ele empurrou a pistola de volta no porta-luvas, colocou


o carro em marcha e o levou de volta para a outra estrada em
direção a casa.

— Capangas de Moriarty.

— O que eles estão tentando fazer?

— Assustar-nos.

— Bem, funcionou.

— Vou levá-la para casa.

— Aonde você vai?


— Eu vou fazer uma visita a ele e acabar com isso de
uma vez por todas.

— Eles são perigosos, Raphael. Você não pode...

Mas o seu olhar quando ele se virou para mim me


parou.

— Eu sou perigoso também, Sofia, — ele disse,


parecendo sereno, respirando fundo.

— A arma, — eu disse. Eu não precisava dizer mais.

Ele não respondeu, mas manteve seu olhar na


estrada. Ele fez duas ligações, e quando entramos pelos
portões e estacionamos na casa, vi Eric e os outros dois
homens que conheci quando chegamos à nossa espera.

Raphael saiu do carro, mas o deixou em


funcionamento. Ele disse alguma coisa para Eric que eu não
ouvi. Eu deixei Charlie sair e fui para Raphael.

— O que está acontecendo? — Perguntei.

Eric assentiu e deu algumas ordens aos outros. Raphael


se virou para mim.

— Fique aqui. Eu voltarei. Entendido?

— Você não pode ir até ele.

Raphael me deu um sorriso tenso, seus olhos não


completamente em mim. Eu podia sentir a ira, a raiva, saindo
dele.

— Raphael?

— Vá para dentro, Sofia. Nade se quiser. Tanto faz. Não


faça nada estúpido, fui claro?

Com isso, ele me dispensou, e eu percebi que eu não


tinha um guarda, mas dois. Os primos de Eric ficaram em
casa, enquanto Raphael e Eric partiram. Eu os assisti ir
sentindo-me impotente e com medo.

Entrei na casa, andando por um tempo, sem saber o


que fazer. Charlie se deitou na cozinha para seu cochilo, e
Maria e os outros estavam trabalhando. Subi para o meu
quarto e tirei o cartão que Damon me dera e liguei para
ele. Ele não atendeu seu celular, então liguei para o
seminário onde, depois de esperar por mais de dez minutos,
Damon entrou na linha.

— Aqui é Damon, — disse ele.

— É Sofia.

— Sofia?

— Raphael acabou de sair com Eric. Ele vai ver


Moriarty.

— Moriarty?

Eu balancei a cabeça.

— Sim. No caminho de volta após levarmos Lina para


Siena, um SUV começou a nos seguir. Foi muito
assustador. Damon, ele tem uma arma.

— Merda.

Quando ouvi a urgência na voz de Damon, caí na cama,


pesada demais para ficar de pé.
— Damon?

— Acalme-se, Sofia. Vou encontrá-lo, tentar interceptá-


lo.

Estupidamente, eu assenti novamente.

— Obrigada, Damon. Obrigada.

— Vou ligar para você assim que puder.

Ele estava quase desligando, quando eu chamei seu


nome.

— Damon?

— Sim?

— Cuidado.

— Eu vou tomar cuidado. Vai ficar tudo bem. Não se


preocupe.

Eu odiava essas três palavras. Elas sempre significavam


o oposto do que elas diziam.
Raphael
Meu fodido irmão não parava de discar o meu
telefone. Imaginei que Sofia ligara para ele, logo que eu saí, e
eu sabia que ele não pararia de ligar. Finalmente, após a
oitava vez, atendi.

— O que é, Damon.

— Onde está você, Raphael?

— Estou supondo que você sabe disso.

— No caminho para os escritórios de Moriarty?

— Ele foi longe demais.

— Sofia disse que você tem uma arma.

— Você propõe que eu vá sem uma?

— Proponho que você não vá. Não até que você se


acalme. Não é sobre um bandido qualquer que estamos
falando. Ele é um homem de negócios legítimo...

— Não há nada legítimo nele.


— A menos que você queira dar-lhe munição, você não
pode entrar em Florença com uma fodida arma.

Ele estava certo. Eu sabia. Mas foda-se.

— Ele enviou um carro atrás de nós. Nós, Damon. Sofia


estava comigo.

— Eu sei que tem que haver um encontro. Só não gosto


disso, não quando você está fora de controle.

— Não estou sempre fora de controle? Isso é o que você


estava me dizendo há alguns dias com seus punhos, não era?

Ele suspirou.

— Eu preciso estar lá também. Isso me preocupa tanto


quanto você.

— Não, não preocupa.

— A casa pode pertencer a você, mas é o meu passado


também.

— Não.

— Você ainda está me protegendo, irmão?

— Oh, é isso mesmo, que você não queria minha


proteção.

— Droga, Raphael. Apenas espere, porra. Estou a


caminho. Eu perdi você uma vez. Não estou disposto a perder
você de novo.

Eu parei, como se ouvisse suas palavras em câmera


lenta. Levei um minuto para responder.

— Eu vou esperar. Eu vou chegar lá em quarenta e


cinco minutos.

— Eu vou esperar por você, então. Estou mais perto. Eu


estarei lá em vinte.

Damon estava certo, eu sabia disso. Moriarty pode ser


um idiota, mas ele era um homem poderoso. Legítimo o
suficiente para que eu precisasse fazer isso direito. Se eu
entrasse em seu escritório brandindo uma arma, ele me
mandaria para a cadeia. Considerando o meu passado, eu
estaria facilitando tudo para ele.

O trânsito para Florença nos atrasou, mas quando


chegamos, encontrei Damon no café da esquina do prédio de
Moriarty, que era uma antiga propriedade de três andares,
antiga no exterior, meticulosamente moderna no interior. Eu
sabia por que vi fotos em uma revista uma vez.

Eu disse a Eric para esperar fora do prédio e entrei no


café onde, antes que eu pudesse protestar, meu irmão tinha
uma garçonete me trazendo um café expresso.

— Sente.

Embora relutante, eu sentei.

— Beba e respire.

— Se fosse só eu, isso seria uma coisa, Damon. Mas


Sofia estava lá.

— Eu sei. Entendi. E concordo que precisamos lidar


com isso.

— Ele quer a propriedade. Ele deixou bem claro que


compraria, depois de subtrair a quantia que nosso pai lhe
devia.

— Generoso ele.

— Eu prefiro vê-la queimar até o chão do que dar a ele.

— Bem, ela quase queimou, não é?

Eu balancei a cabeça, sentindo-me mais à vontade


agora que Damon estava aqui também. Eu não percebi o
quanto eu precisava dele. E ele estava certo. Eu estava muito
irritado. Moriarty queria isso. Ele sabia que aquela
perseguição de carro assustaria Sofia, e ele sabia que eu
reagiria.

— Melhor?

Damon estava me lendo. Ele sempre teve um talento


especial para isso.

— Sim. — Eu levantei, empurrei a cadeira. — Vamos


fazer isso.

Ele balançou a cabeça e se levantou, jogou algumas


notas sobre a mesa, e saímos. Eric esperou do lado de fora do
edifício. Uma vez lá dentro, nós passamos pela jovem
recepcionista loira e nos dirigimos para a grande escadaria de
mármore.

— Senhor, você não pode...

Eu a ignorei. Nós dois. Eu sabia que ela ligaria para


Moriarty de qualquer maneira.

No terceiro andar, fomos recebidos por dois homens em


ternos do lado de fora das grandes portas duplas que levavam
ao escritório de Moriarty.
Damon pôs a mão no meu braço quando nos
aproximamos. A secretária particular de Moriarty limpou a
garganta.

— Não o deixe chegar até você. Ele vai fazer o que puder
para te provocar. Não deixe, não importa o que você ouça,
entendeu?

O que ele disse soou estranho, e eu teria questionado,


mas a secretária então falou.

— Sr. Moriarty está esperando por vocês. Vocês podem


entrar.

— Que gentil.

Os homens abriram as portas, e Damon e eu entramos


em seu escritório. No interior, dois homens sentavam-se em
grandes poltronas em um canto e mais dois flanqueavam sua
grande mesa de mogno. Atrás dela, Moriarty recostou-se na
cadeira, uma perna cruzada sobre a outra, com um sorriso
idiota na cara gorda e seus dedos juntos.

— Que grande prazer. A visita de não um, mas dois


irmãos Amado. Com os olhos pretos combinando. Que
interessante.

— Seis homens. Isso é especialmente para nós, ou você


precisa de tanta segurança com todos os seus visitantes? —
Perguntei.

— Você sempre se achou especial, Raphael, — disse ele,


então se virou para seus homens. — Revistem eles.

Dois homens nos revistaram. Moriarty sentou-se,


inclinando para frente e apoiou os cotovelos sobre a mesa
desagradavelmente grande. Um dos homens anunciou que
estávamos desarmados.

Moriarty assentiu e inclinou a cabeça para o lado.

— A que eu devo o prazer?

— Seus meninos tentaram jogar a mim e a minha


esposa para fora da estrada.

Ele fingiu choque.

— Vamos cortar a merda, Moriarty.

— Eu não sei do que você está falando.

— Você não vai conseguir a casa.

— Alguém tentou tirá-lo da estrada?

Minha mandíbula se apertou, minhas mãos em


punhos. Quando eu dei um passo para a frente, a mão de
Damon se fechou sobre meu ombro.

— Raphael, — disse ele. — Não deixe que ele chegue até


você.

— Sim, Raphael. Não me deixe chegar até você.

— Você não envolve minha esposa nisso, você


entende? Ela não tem nada a ver com isso.

— Infelizmente, ela tem. Ela passou a ter no momento


em que ela disse as palavras — eu aceito. — Ah, o amor
jovem. Eu me lembro daqueles dias. Muito bem, na verdade.

— Corte a porcaria.

— Você sabe, uma vez, sua mãe, seu pai e eu fomos


muito próximos.

— A história antiga. — Eu sabia disso. Meu pai foi para


a escola com Moriarty, quando seus pais se mudaram para a
Itália. Ele conheceu minha mãe dois anos depois disso, e os
três eram amigos. Por um curto período de tempo, pelo
menos.

— Ainda assim. — Ele deu de ombros.

— Espere um minuto. — Eu ri e olhei ao redor da


sala. Tive a impressão de que as duas poltronas de couro em
que os homens estavam sentados foram movidas da frente de
sua mesa para que ele nos mantivesse de pé. — Se importa se
eu me sentar? — Perguntei, pegando uma cadeira de madeira
menor e levando-a em direção a sua mesa antes que ele
pudesse responder. Damon permaneceu de pé. — Então, é
sobre isso que tudo isso se trata? — Perguntei. — É sobre o
que sempre foi?

Seus olhos se estreitaram um pouco. Eu teria perdido se


eu não estivesse prestando atenção. Damon não era o único
que podia ler as pessoas.

— Minha mãe? — Eu continuei.

— Raphael, — a voz baixa de Damon avisou ao meu


lado.

Moriarty pegou uma caneta, e vi como os nós dos dedos


ficaram brancos em torno dela. Eu tinha razão.

— Ela o escolheu ao invés de você, não foi? — Perguntei.

— Seu pai a conheceu primeiro. Nunca foi uma


competição.

— Não? Você não acha que eu me lembro do seu nome


aparecendo em casa, quando eu estava crescendo? — O que
eu disse era verdade. De repente, tudo fez sentido. — Deixe-
me fazer uma pergunta. Você a amava, ou você queria apenas
o que meu pai tinha?

— É o bastante. Você está aqui para me dizer que você


tem o dinheiro que me deve? Porque você sabe que se não
fizer isso, há outra maneira.

— Eu estou aqui para lhe dizer que não é uma dívida


minha para eu pagar.

— Mas é. Em meu livro, pelo menos. E você,


especificamente, Raphael, já que você é responsável pela
morte de seu pai — autodefesa ou não. Portanto, você herdou
essa dívida.

— Essa é uma lógica interessante.

— Uma vez que você me pague, eu saio da sua vida. Se


não fosse pela quantidade astronômica, eu
perdoaria. Novamente.

Novamente?

— Besteira. Você não perdoa nada.

— Você entende...

Ele se levantou e se virou, então ele olhou para a rua


enquanto ele começava a falar.

— Sua mãe também tentou isso uma vez.


Minhas mãos se apertaram em meus lados com a
simples menção dela.

Damon limpou a garganta.

— Vamos, Raphael. — Ele se virou para Moriarty, que


agora nos enfrentava. — Nós vamos descobrir uma maneira
de arranjar o dinheiro, mas não será a casa.

— Não é nossa dívida para pagar, — eu repeti para


Damon.

Moriarty me observou, ignorando meu irmão


completamente. O sorriso em seu rosto de repente me
adoeceu.

— Sua mãe esteve aqui antes também. Bem, várias


vezes. Afinal de contas, Renata amava Florença.

— Não diga o nome dela, — eu disse.

A mão de Damon fechou sobre meu ombro.

— Já chega, — disse ele a Moriarty. —


Raphael. Precisamos ir. Agora.

Eu olhei para Damon, vi como uma parte da cor drenou


de seu rosto.

— Veja, seu pai e eu tivemos um desentendimento


muito tempo atrás. Talvez na época que vocês dois
nasceram. Ele não podia esperar para colocar bebês em sua
mãe. Pensando que a manteria ligada a ele.

Eu fiquei de pé, minha respiração tensa agora. Os


homens que estavam sentados nas poltronas também se
levantaram. Os dois homens diante da mesa de Moriarty se
aproximaram, deixando Damon e eu sabermos que seria
estúpido lançar qualquer tipo de ataque físico.

— Mas seu pai, bem, acho que Renata deu-lhe razão


para questionar. Mesmo sua paternidade, acredite ou
não. Até o fim. O homem nem sequer acreditava na verdade
da ciência.

— O que diabos você está falando? — Perguntei.

— Raphael. Vamos embora. Agora.

Desta vez, o comando de Damon carregava um sentido


muito real de urgência.

— Renata, que a sua alma descanse em paz...

Damon cortou.

— Deixe os mortos em paz, — disse ele com os dentes


cerrados.

Eu olhei para Damon, mas ele não parecia tão chateado


como eu. E o seu olhar no momento em que encontrou o meu
era de resignação.

— Damon. Sempre razoável, — Moriarty começou


novamente. — Como está Zachariah? Oh, você não sabe. Ele
está desaparecido em combate ou ele sumiu? Não me lembro.

— Você não vai ficar com a casa dela, — disse


Damon. — Vamos, Raphael. Precisamos ir embora.

Moriarty tocou em algo em sua mesa, e as portas se


abriram. Os dois homens do lado de fora entraram.

— Tirem-no, — disse Moriarty, apontando para Damon.


— Raphael. Venha comigo. Nós precisamos ir. Agora.

Mas eu não podia. Tudo o que eu podia fazer era olhar


para a cara feia e gorda de Moriarty. A vitória em seus olhos
rasos e mortos. Não, eu não podia ir embora. Eu tinha que
ouvir.

Damon lutou com eles, e um terceiro homem se juntou


para arrastá-lo para fora da porta. Moriarty virou-se para
mim.

— Seu irmão já conhece a história. De qualquer forma,


provavelmente o teria aborrecido.

— Fale essa porra agora, e fale rápido.

— Como eu estava dizendo, sua mãe, bem, ela era uma


prostituta. Ela queria que todo homem que a quisesse...

Eu não sabia se ele tinha mais a dizer. Se ele estava na


metade. Parei de ouvir o momento em que ele chamou minha
mãe de prostituta. Eu me atirei, mas eles esperavam o
movimento. Seus homens me agarraram pelos braços e me
seguraram para que eu enfrentasse aquele bastardo.

Moriarty olhou para mim.

— Veja, sua mãe já se sentou naquela mesma cadeira,


— disse ele, apontando atrás de mim.

— Que diabos você está falando? — Perguntei.

— A primeira vez que ela veio até mim, ela queria que eu
perdoasse a dívida de seu pai. Ela sabia que escolheu o
homem errado. Sabia que ele era fraco...

— Minha mãe...
— Ofereceu-se para fazer qualquer coisa. — Ele arrastou
a última palavra.

Eu grunhi com o esforço para me libertar, mas os


homens me seguraram firme.

— Qualquer coisa, — ele repetiu, — Veja, isso é um déjà


vu, realmente. Mas eu não quero que você se ajoelhe sob
minha mesa e chupe meu pau, Raphael. Eu prefiro as
mulheres.

Dedos apertaram em meus braços quando eu lutei


contra seus guardas para chegar até ele. Eu queria envolver
minhas mãos em seu pescoço e apertar até que a vida tivesse
deixado ele.

— Eu prefiro o rabo apertado de sua mãe curvado sobre


minha mesa. E eu fodi ela na bunda. Ela precisava aprender
uma lição...

— Você é um fodido mentiroso! Um maldito mentiroso!


— Eles me seguraram firme. Ouvi o clique de uma arma
sendo engatilhada e senti o aço frio atrás da minha orelha.

— Eu não quero uma bagunça no meu escritório,


rapazes — disse Moriarty, calmo como poderia ser.

Ele voltou sua atenção para mim.

— Veja, eu mantive minha palavra. Eu perdoei sua


dívida. Aquele tempo. Mas seu pai não aprendeu. Quando ela
veio para mim novamente, bem, há tanta coisa que um
homem pode fazer por uma boceta velha e esgotada, não é?

A raiva pulsava dentro de mim, queimando, bombeando


o sangue com adrenalina. Com um rugido mais animal do
que humano, me livrei dos homens que me seguravam e me
lancei sobre a mesa para cair em cima de Moriarty,
derrubando sua cadeira, mandando-o para o chão. Eu envolvi
minhas mãos em sua garganta e apertei, sua carne gorda
muito grossa para estalar seu pescoço. Seus olhos se
arregalaram, seu rosto ficou vermelho enquanto ele lutava
para respirar, mas antes que eu pudesse matá-lo, fui
arrastado e atirado contra a parede oposta, um punho
pousando em meu estômago, depois outro e depois outro até
que eu me curvasse, segurando minha barriga. Alguém
chutou minhas pernas debaixo de mim, e eu caí no chão. Um
sapato fechou-se sobre a minha garganta e me segurou
quando Moriarty veio ficar de pé sobre mim, chutando-me
com força nos rins.

Quando olhei para cima, vi como desgrenhado ele


parecia, sua gravata torta, a camisa e terno salpicado com
que eu assumi ser o meu sangue. Eu ri quando um de seus
homens me chutou novamente e novamente até que eu não
conseguia ver direito.

— Tire-o daqui, — Moriarty disse finalmente. Eu ouvi a


cadeira ranger sob seu peso.

— Eu tenho um comprador, — eu disse enquanto fui


levantado na posição vertical. — Você não vai ficar com a
casa dela, você fodido nojento. — Eu cuspi sangue quando eu
falei, e eu não tinha certeza se poderia mesmo entender
minhas palavras. — Você nunca terá qualquer parte
dela. Vou matá-lo antes que isso aconteça.
Damon me levou para casa, e Eric seguiu no carro de
Damon. Minha cabeça estava girando, meu corpo doía. Eu
acho que eu desmaiei uma ou duas vezes. Eu olhei para
Damon, lembrando daquele seu olhar, aquela
resignação. Lembrando-me de sua insistência em partirmos.

— Você está bem? — Perguntou Damon.

— É verdade? — Eu ignorei sua pergunta.

— Isso importa?

Porra.

Minha mãe? Com ele? Para saldar a dívida de meu pai?

— Você sabia? — Perguntei.

Ele ignorou minha pergunta.

— Ela está morta, — disse ele. — Ele pode falar o que


quiser, e ela não pode se defender.

Eu pressionei minhas mãos contra meus olhos.

— Ele estava tentando fazer você reagir, — Damon


continuou.

Não. De jeito nenhum.

— É a porra da verdade? Conte-me. — Eu disse.

Mas ele não precisava dizer nada. Tudo o que ele tinha a
fazer era olhar para mim.

— Deus. Caralho. — Bati meu punho contra o painel, e


dor disparou por meu braço. — Você sabia?
Damon voltou seu olhar para a estrada.

— Eu encontrei um diário que ela guardava. Na


capela. Eu não deveria tê-lo lido. Quem me dera não ter feito
isso.

— Por quê? Por que ela... — Eu engasguei com as


palavras, engolindo sangue.

— Ela sentia como se não tivesse escolha. Ela sabia que


ele sempre se ressentiu por ela escolher o nosso pai. Usou
isso para livrá-lo da dívida. Papai não a merecia.

— Foi por isso que ele bateu nela? Ele não começou com
ela até mais tarde.

— Eu acho que sim. A época se encaixa. Ele deve ter


descoberto.

— Eu pensava que era por que eu resisti.

— Isso não importa mais, Raphael. Eles se foram.

— Eu vou matá-lo. Eu vou matar o bastardo.

— Talvez nós tenhamos que pensar sobre o comprador.


Podemos não ter escolha. Eu não quero que ele tenha a
propriedade, mesmo que isso signifique que temos que dar a
outra pessoa.

Eu não poderia responder. Em vez disso, eu abri a


viseira e me encolhi com meu reflexo.

— Sofia vai pirar.

— É por isso que eu estou levando você para o


seminário primeiro para você se limpar. Não podemos
encobrir os hematomas, mas pelo menos posso limpar o
sangue e arranjar uma muda de roupa para você.

Nós continuamos em silêncio, cada um de nós perdidos


em nossos pensamentos, eu tentando dar sentido a isso. Ele,
bem, eu não sabia.

— Onde está o diário? — Perguntei-lhe quando


chegamos ao seminário.

Ele me estudou.

— Dê algum tempo. Se você quiser vê-lo depois, eu vou


dar a você. Ainda não. Vamos lidar com isso primeiro. — Ele
abriu a porta do carro. — Nós vamos te limpar e ir para casa.
Sofia provavelmente está ansiosa.

Damon não chegou a olhar para mim depois disso. Eu


sofri no chuveiro, me perguntando se eles me quebraram
costelas quando me chutaram, sentindo-me ferido por dentro
e por fora. Ele estava certo. Eu estava ansioso para voltar
para Sofia. Levou tudo que eu tinha para sentar-me enquanto
ele tratou os cortes e contusões antes de me entregar um
espelho.

— Porra. Eu pareço bem.

— Sim.

Ele me ajudou a sair para o carro.

— Eles não se perguntam o que diabos você está


fazendo? — Eu perguntei, gesticulando para os irmãos que
estavam observando de longe. — Você com
hematomas. Então você me traz aqui, também com
hematomas.

— Oh sim. Eu mantenho as coisas interessantes por


aqui.

Damon levou-nos para casa. Eu sabia que ele ligara


para Sofia para avisá-la. Quando nós chegamos em casa mais
tarde, ela estava me esperando na porta. No minuto em que
me viu, ela engasgou, cobrindo a boca com a mão, com os
olhos cheios de lágrimas.

— Eu sei, eu já estive melhor. — Eu disse, me


encolhendo quando ela timidamente me tocou. — Eu gostaria
de poder dizer que você deveria ver o outro cara.

— Leve-o para cima, — disse Sofia.

— Traga-me um pouco de whisky, — eu disse enquanto


eu ia para as escadas, olhando Maria, que estava com as
mãos em seu rosto, lágrimas escorrendo em seu rosto, um
sorriso fraco.

Eu os deixei cuidar de mim durante uma semana


inteira. Damon ficou em casa, e Sofia nunca saiu do meu
lado. E o tempo todo, tudo o que passava pela minha cabeça
era minha mãe, minha mãe com aquele homem.

Eu queria matá-lo. Eu malditamente o mataria.

Ele a chamou de prostituta, mas se o que ele disse era


verdade, ele era um estuprador. Ele a extorquiu com essas
humilhações. Ela não era uma prostituta. Seu único pecado
era amar sua família.

Mas apenas ao lado desses pensamentos, a imagem de


Sofia se manteve aparecendo.

Porque em última análise, eu não estava fazendo a


mesma coisa para ela que Moriarty fez a minha mãe?
Sofia
Três semanas se passaram, e nesse tempo, Raphael se
curou. Eu dei a Damon a carta de minha irmã e o observei
quando ele pegou. Eu não sei se eu imaginei o fato de que
seus olhos pareciam um pouco tristes quando ele olhou para
o papel.

Damon voltou para o seminário, mas veio para o jantar


todas as noites. Nenhum deles quis me dizer o que aconteceu
naquele dia, e Raphael estava mais distante do que
nunca. Nós não fizemos amor nenhuma vez, nem mesmo
quando ele estava curado. E ele até me disse que era mais
confortável para ele dormir sozinho e me mandou para o meu
quarto.

Era o fim da segunda semana, quando ouvi Maria


mandar Eric buscar Raphael na capela para o jantar.

— Eu posso ir, — eu disse. — Eu estive sentada o dia


todo de qualquer maneira. — Eu sabia com certeza agora que
ele estava me evitando, assim eu fui em direção à capela. Era
início da noite, mas a lua estava brilhante. Até agora, eu
tinha um bom senso de direção na propriedade. Eu vi uma
luz acesa na capela, e embora eu não estivesse tentando me
aproximar tranquilamente, Raphael parecia tão preso em
seus próprios pensamentos que ele não me ouviu quando eu
entrei.

Eu o observei por alguns minutos. Ajoelhado no


confessionário, pintando a madeira. Tinha tirado a camisa e o
suor brilhava em sua pele bronzeada enquanto trabalhava.
As contusões na maior parte curaram, apenas manchas
escuras restavam. Eu me perguntei se elas ainda estavam
sensíveis e percebi que eu não o tocara em mais de uma
semana.

— Esta tarde, — eu disse depois de limpar a garganta


para chamar sua atenção. — Maria já aprontou o jantar.

Raphael olhou para cima. Olhou para o relógio e tampou


a lata de tinta para madeira, então se levantou.

Olhamos um para o outro por alguns minutos.

— Eu vou ter que vender a casa, — disse ele. — A terra.

— Mas eu pensei...

— Eu dei ao advogado o sinal verde hoje.

— Oh... — Eu não percebi que ele estava pensando


nisso seriamente. — Você está bem?

Ele coçou a cabeça e foi para frente da capela para se


sentar no banco. Segui e sentei-me ao seu lado, deslizando
minha mão na sua.

Ele mordeu o interior da bochecha, os olhos no altar. —


Minha mãe amou este lugar. Era sagrado para ela.

Eu o observei.

— Eu nunca entendi isso. Ela veio aqui muito,


especialmente no último ano. Pensei — depois de descobrir
que meu pai estava batendo nela — eu pensei que era por
isso. — Ele coçou a cabeça. — Mas eu não acho mais que era.

— O que aconteceu naquele dia com Moriarty?

Ele olhou para mim, seus olhos intensos em meu rosto


como se ele tirasse tudo de mim.

— Acho que meu pai a estava punindo por sua traição.

— Traição?

— Ele percebeu a traição. Ela tentou fazer com que


Moriarty perdoasse sua dívida. Conseguiu uma vez.

— Eu não entendo

Voltou-se para o altar, seu rosto parecia pedra.

— Ela o fodeu. Foi assim que ela pagou.

— O quê? — Raphael só ficava olhando para frente.

— Não faz sentido, você sabe? Ele nunca levantou a mão


para ela antes do fim. Ele deve ter descoberto.

— Foi isso que Moriarty lhe disse? Porque homens como


ele, eles mentem, Raphael. São monstros detestáveis.

Ele balançou sua cabeça.


— Damon confirmou. Ele encontrou um diário dela.

— Então ela não tinha escolha. Ela não poderia ter.

Ele virou para mim novamente.

— Eu sei disso. Isso não é..... Não entende, Sofia?

Olhei para ele, confusa, a dor em seus olhos fazendo


meu coração doer.

— Como é que eu estou fazendo diferente com você? —


Perguntou.

— Raphael. — Levei alguns minutos para processar


suas palavras.

Ele afastou minha mão, levantou-se e foi até o altar,


onde ele colocou a mão sobre ele, tocando o crucifixo. Quase
acariciando.

— Eu fiz de você uma prostituta, não é?

Ele não olhou para mim.

— Eu só continuei repetindo a história, agindo por agir.

Essa carícia mudou de repente, e em um puxão rápido,


violento, ele puxou o crucifixo da parede.

— Agir por agir de merda.

Ele o jogou do outro lado da capela, batendo-o na


parede oposta, onde ele caiu e se partiu em dois, a placa de
inscrição, INRI, deslizando para o canto mais distante.

— Raphael. — Fiquei de pé e agarrei seu braço enquanto


ele segurava a porta quebrada do sacrário e a rasgava de
suas dobradiças. — Pare.
Eu não poderia impedi-lo. Ele puxou a outra porta,
expondo o interior vazio onde a comunhão uma vez fora
armazenada.

Eu puxei mais forte em seu braço.

— Olhe para mim.

Ele não faria isso.

— Olhe para mim, porra!

Ele olhou, mas só quando eu consegui me espremer


entre ele e o altar.

— O que esse homem fez com sua mãe é diferente. Não


somos nós. — Eu balancei ele, obrigando-o a me encarar. —
Afinal, como você pode chamar de prostituta alguém que está
disposta?

Ele me estudou, seus olhos mais derrotados do que com


raiva. Ele deu um passo para trás, os ombros caindo. Eu
balancei a cabeça e agarrei seu rosto.

— Não. Você não pode fazer isso. A memória de sua mãe


é sagrada, Raphael. Não deixe esse homem manchá-la com
suas mentiras.

— Mas não são mentiras, Sofia. Você não entendeu? E


você? Eu fiz de você minha prostituta.

— Então foda-me.

— Volte para casa, Sofia, — disse ele, empurrando-me


para longe.

— Não. Foda-me. Foda sua prostituta. — Eu disse,


ficando cada vez com mais raiva de mim mesma.

— Eu disse vá.

Ele pegou meu braço rudemente e me afastou.

— Não. Você não pode fazer isso! Eu não vou deixar


você! — Eu gritei voltando ao seu espaço, minhas mãos em
cada lado de seu rosto. Eu só precisava recuperá-lo, atraí-lo
de volta para este momento, aqui e agora, de qualquer inferno
que ele tivesse entrado. — Você acha que é o único com
demônios?

— Vá!

— Você acha que é o único que sofre?

— Eu disse...

— Foda-se o que você disse. E foda-se você! Você me


trouxe aqui. Você se casou comigo. E eu acho que você se
importa comigo mais do que você está disposto a admitir,
mas você não vai se permitir ter isso, vai? Você não pode
fazê-lo. E você não quer que eu tenha também. Bem, foda-se,
Raphael Amado. Eu estou pegando isso!

Eu puxei seu cinto e abri o botão superior de sua calça


jeans.

Suas mãos cobriram as minhas, mas ele não me


impediu.

— É isso que você quer?

Ele se inclinou, seu rosto a centímetros do meu.

— Você quer uma boa foda, dura? Você sente falta do


meu pau dentro de você?

Ele me virou, me dobrando para frente e bateu com


força minhas mãos no altar.

— Mantenha-as lá. Não se mova.

Eu ofeguei quando ele desabotoou meu short e tirou ele


e minha calcinha, em seguida, empurrou meu top para cima
e empurrou meu sutiã sob o meu peito, de modo que quando
ele me dobrou totalmente para frente, a pedra fria do altar me
fez estremecer.

— Ra...

Mas antes que eu pudesse falar o nome dele, ele estava


dentro de mim. Ele se inclinou sobre mim e meteu com força.

— Você quer ser fodida?

Sua respiração estava quente contra o lado do meu


rosto.

— Você quer o meu pau em sua boceta? Você quer que


eu faça você gozar?

Deixei escapar um gemido quando ele empurrou.

— Como uma prostituta? Aqui? Perante o teu


Deus? Aqui, inclinada sobre o seu santo altar?

Deveria parecer errado. Eu pensava que seria. Este


lugar sagrado, nós dois fazendo isto neste lugar santo.

Mas as mãos de Rafael fecharam-me sobre as costas, e


ele arrastou os braços para os lados e me prendeu ao altar, e
nada parecia mais certo. Ele precisava disso. E eu precisava
dele perto de mim. Eu precisava dele dentro de mim. Era a
única maneira de alcançá-lo, para arrastá-lo para fora de seu
inferno.

— Você nem sequer sabe da missa a metade, Sofia.

Sua voz estava rouca contra a minha orelha, e minha


respiração parou quando seus dedos apertaram meu clitóris.

— Eu não me importo, — eu consegui dizer, fechando


meus olhos. Fodendo ele. Deixando ele me foder. Me
possuir. — Eu não me importo. Eu te amo.

De repente, ele se acalmou, seu pau enterrado dentro de


mim.

Eu não me virei. Eu não precisava, porque eu podia


imaginar seu rosto. Eu podia imaginar seu choque.

— Eu te amo, — eu disse de novo, não me importando.

Finalmente, eu estiquei o pescoço para olhar para trás.

— Você não sabe o que eu planejei fazer, — disse ele,


puxando para fora. Ele se afastou de mim. Eu me movi. Ele
puxou seus jeans de volta para cima sobre sua ereção.

— Raphael? — Mas ele voltou para seu inferno, e não


havia lugar para mim lá.

— Você ainda diria isso se soubesse? Se você soubesse a


quantidade de dano que eu pretendia causar a você?

— Pare. Olhe para mim. Apenas olhe para mim. Estou


aqui. Bem aqui. Você não precisa fazer isso.

Ele tropeçou para trás.


— Quando eu fiz o negócio com seu avô para deixar sua
irmã ficar, ele queria cinco por cento do que eu tomaria. Eu
concordei, mas talvez ele pensou que era muito fácil. Que eu
não sofri o suficiente.

Ele sentou-se novamente no mesmo banco, quase


caindo nele. Fui até ele e me ajoelhei diante dele, minhas
mãos em seu colo, segurando suas mãos. Seus olhos —
mesmo que ele estivesse fisicamente aqui, ele estava tão
longe. Muito longe para eu alcançar.

— Eu já conheço essa história, — eu disse calmamente,


minha visão turva de lágrimas não derramadas.

— Foi quando ele pediu os lençóis para provar que


tínhamos consumado. Ele já sabia. Ele sabia que você se
tornaria uma fraqueza. Minha fraqueza.

Observando-o, observando seus olhos, eu sabia que


havia mais. E não era bom.

— Eu não fiz isso, porém. Eu queime-os. Ele nunca viu


os lençóis.

— Você queimou?

— Eu ainda me pergunto por que ele fez isso. Por que


ele pediu aquela coisa. E tudo que eu podia pensar era que
ele não acreditava que eu conseguiria. Talvez ele esperasse
que você dissesse não. Me parasse. Acabasse com isso. Eu
não sei. — Ele fez uma pausa. — Mas isso não importa. Vou
dizer que o casamento não foi consumado. Podemos tê-lo
anulado.
— O quê? — Perguntei, atordoada.

— O que importa é o que eu decidi depois daquele dia.

Ele podia me ouvir? Estremeci, de repente, gelada, e me


abracei.

— Minha sede de vingança, meu ódio por ele, substituiu


tudo.

— O que você decidiu? — Eu perguntei, minha voz


baixinha. Eu não queria saber. Não.

Ele finalmente olhou para mim e, com o polegar, ele


enxugou uma lágrima. Fechei os olhos e me inclinei na palma
da sua mão, pelo menos por um momento,
insuficiente. Sentindo falta de quão terno ele poderia ser, tão
oposto à sua violência. Sua raiva ardente.

Abri os olhos quando ele falou.

— Eu me pergunto se depois de eu te dizer, você ainda


vai pensar que me ama.

— Conte-me.

Ele acariciou minha bochecha por um momento mais,


então afastou a mão. Ele não me deixou segurá-la
novamente.

— Eu ia incendiar a propriedade da
Guardia. Transformá-la em cinzas.

Eu congelei, olhando para ele, para aquele estranho


que, dia após dia, enquanto ele fazia amor comigo, planejava
essa destruição? Essa traição? Isso não iria apenas me
impactar. Significava a herança de minha irmã também. Seu
direito de família. Seu futuro.

— Você não tem direito.

— Eu considerei destruir a minha parte, pelo menos


com a minha metade dela. Mas então ele fez esse negócio, e
ele pensou que me tinha. Mas eu teria preferido destruir você
que permitir que ele ganhasse. A derrota dele era mais
importante para mim do que você.

Eu balancei minha cabeça.

— Você continua dizendo era. Você está falando como se


fosse passado.

— Não importa. Você não vê?

— Raphael, o que você pensou, o que você queria fazer,


não importa. Tudo mudou. Tudo. O que esse homem fez para
sua mãe... — Eu balancei a cabeça. — Isso não é nada como
nós. Você não é um monstro. E eu te amo.
Raphael
Ela pensou que me amava.

A raiva de Moriarty era real. Seu ódio por mim, era


porque eu era filho do meu pai. Ele não se importava com o
dinheiro que pensava que era devido. Isso não importa. O que
ele queria era a dizimação da minha família. Porque essa era
a única maneira que ele poderia ter sua vingança. Vingança
contra a minha mãe por não o ter escolhido. Vingança contra
meu pai por ser quem ela amava. O que ela escolhera.

Ele queria a casa, a terra, para a destruir.

Eu já sabia que ele não iria parar. Minha vida, foi


perdida. Mas a dela? Eu não podia deixá-lo destruí-la por
causa de mim.
Eu assisti doce rosto de Sofia, seus confiantes,
inocentes, esperançosos olhos. Ela acreditava que me
amava. A coisa era, no momento em que ela disse isso, eu
sabia disso também. Eu a amava a muito tempo.

E era exatamente por isso que eu tinha que deixá-la ir.

Endureci meu rosto e fiquei de pé.

Ela permaneceu ajoelhada aos meus pés.

— Há apenas um problema, Sofia. Eu não te amo. —


Como a minha voz estava tão forte, eu não tinha ideia. E
quando eu vi seu rosto enquanto ela processava minhas
palavras, eu tinha que congelar meu coração para não
abaixar e envolver meus braços ao redor dela, segurá-la
contra mim, dizer a ela que eu estava mentindo. Que eu a
amava. Dar-lhe a verdade que eu prometera a ela que sempre
teria comigo.

Porque agora, eu era o maior mentiroso de todos.

— Eu não te amo, — eu repeti.

— Eu não acredito em você.

Ela sentou-se sobre os calcanhares, os dedos fechando


em torno das roupas ainda espalhadas no chão da capela.

— Bem, acredite. Eu gostava de foder você. Eu gostei de


brincar com você, por um tempo. — Eu a empurrei com o
meu joelho, levantei-me e caminhei alguns passos até onde
os pedaços do crucifixo quebrado estavam no chão. Me
dobrando, eu os peguei, segurando a imagem de Cristo na
minha mão.
— Raphael.

Virei-me para encontrá-la de pé, abotoando seu short.

— Você não quer dizer isso. Eu conheço você, — disse


ela.

Eu ri esse som estranho e feio.

— Você continua dizendo isso. Você realmente acha que


pode conhecer alguém? Saber o que está na sua cabeça?

— Eu não ligo para o que está na sua cabeça. Essa é a


questão. Eu sei o que está em seu coração estúpido. — Seu
rosto estava todo amassado, e suas mãos fechadas em
punhos. — Você me prometeu a verdade, Raphael.

— E eu estou dando a você. — Eu coloquei a cruz no


banco que eu abandonara e toquei meu próprio anel de
espinhos. — Amanhã de manhã, vou ligar para o meu
advogado e começar o processo de anulação. — Eu tirei o
anel do meu dedo, vendo as linhas de sangue quando eu fiz
isso, querendo a dor, precisando dela. Uma vez que tirei, eu
caminhei até o altar e o coloquei no canto.

— Raphael, por favor...

Seus olhos estavam molhados enquanto ela olhava para


o anel de ferro ensanguentado.

— Você não quer...

— Eu quero isto feito o mais rápido possível, — eu disse,


minha voz dura.

Ela olhou para mim, encolhendo-se, quase assustada.


— Eu quero que você saia o mais rápido possível. Vou
tomar as providências. — Fui até a porta. — Vamos.

— Não.

Ela ficou onde estava. Ela estendeu a mão para tocar o


anel, então soltou rapidamente, abraçando a si mesma.

Revirei os olhos e suspirei como se estivesse irritado,


mesmo que tenha me quebrado um pouco fazê-lo, vê-la
assim. Saber que eu era a causa de sua dor. Novamente.

Mas foi melhor assim. Melhor para ela. Mais seguro


para ela.

Talvez quando essa confusão acabasse...

Não.

Sem talvez.

Sem futuro.

Isto estava terminado. Tinha que estar, por causa dela.

— Escute, eu tenho um lugar para estar. Você volte para


casa. Jante. Vá para a cama como uma boa menina.

— Eu não sou uma menina.

— Bem, você é, na verdade. E eu estou um pouco


cansado dessa coisa de menina virgem, honestamente.

— Você não quer dizer isso.

Não, eu não queria. Mas ela tinha que pensar que eu


queria.

— Foi divertido por um tempo. Mas é hora de eu seguir


em frente. Deixar o passado para trás. O que foi que você
disse? Se eu deixar o passado ir, talvez ele vai me deixar
ir? Eu acho que você estava certa. — Eu olhei em volta,
gesticulando com minhas mãos. — Tudo isso é passado. Você
é o passado. Eu estou cansado dele. Eu quero viver minha
vida, e a única maneira que eu posso fazê-lo é acabando
isso. Deixá-lo ir, por isso me deixe ir.

Ela apenas olhou para mim.

— Vamos sair daqui, Sofia.

— Você quer isso? Você quer acabar com tudo?

— Sim. — Algo no meu peito torceu. — E se você


realmente acredita que me ama, vai fazer o que eu digo e me
deixar ir. — Porra. Eu era um idiota de primeira classe. Eu
não merecia lamber o chão que ela andava, mas eu precisava
acabar com isso. — Eu estou com fome. Vamos.

Ela balançou a cabeça e sentou-se.

— Vá.

— Você não pode encontrar o caminho sozinha.

— Eu posso encontrar meu próprio caminho. Eu não


preciso de você.

Eu assisti a parte de trás de sua cabeça, vi-a puxar os


joelhos para cima no banco e abraçar a si mesma.

— Vamos.

— Vá, Raphael.

— Sofia...

— Basta ir! Devo arrancar a porra do Band-Aid,


certo? Apenas vá.

— Bem. Cuide de si mesma.

Saí da capela em direção a casa, odiando deixá-la ali


sozinha, sabendo que eu tinha que fazê-lo. Porque se ela me
odiasse, isso seria mais fácil.
Sofia

Não sei quanto tempo fiquei sentada na capela assim,


mas quando voltei a casa, uma única luz foi deixada sobre o
fogão e o carro de Raphael se foi. Charlie era o único que
estava esperando por mim. No momento em que eu abri a
porta, eu vi seu pequeno nariz vindo da esquina, e eu me
inclinei para pegá-lo e abraçá-lo.

O que aconteceu nas últimas três semanas? Foram


nessas semanas que Raphael chegara à conclusão de que ele
não queria isso? Não me queria? Ou era a verdade o tempo
todo? Eu só estava cega?

Eu realmente pensei que ele se importava comigo.

Não, mais do que isso.

Eu pensei que ele me amava.

Um frio repentino me fez tremer, e eu carreguei Charlie


até o meu quarto.
Quando Raphael ficara daquele jeito, comigo ajoelhada a
seus pés, quando ele olhou para mim, eu vi algo tão estranho
em seus olhos. Então, em desacordo com o que ele estava
dizendo. Pelo menos por um momento único e muito fugaz.

Uma vez dentro do meu quarto, eu coloquei Charlie no


chão. Ele circulou minhas pernas duas vezes, e então olhou
para mim com seus grandes olhos de cachorrinho. Inclinei-
me para acariciá-lo, e ele pegou um dedo em sua boca e
gentilmente tentou me puxar para a cama.

— Vá em frente, querido. Eu não consigo dormir ainda.

Ele choramingou, e eu juro que ele sabia que eu estava


sofrendo, mas quando eu me endireitei, ele foi para a cama e
pulou sozinho. Ele estava crescendo.

Entrei no banheiro e tirei a aliança de Raphael do meu


bolso. Estudando-a, eu toquei meu polegar nos espinhos
afiados no interior do aro. Liguei a água e enxaguei, limpando
o sangue antes de colocá-la na beira da pia. Eu então deslizei
a minha do meu dedo e a coloquei ao lado da dele.

Agarrando a beira da pia, eu me curvei, sentindo


náuseas, sentindo que algo profundo dentro da minha
barriga precisava ser expulso. Vomitado. Mas não havia
nada. Nada além de lágrimas, grossas e pesadas. Embora eu
soubesse que ninguém poderia me ouvir, eu cobri minha
boca contra meus soluços e chorei pelo que parecia uma
eternidade até que finalmente, estava seca, nada restou
dentro de mim.

Ele não me ama.


Ele não me queria.

Ele queria que eu acreditasse que essa coisa toda foi um


jogo para ele, mas eu não podia. Não quando eu me lembrava
de seu rosto no porão, não quando eu senti a mão no meu
rosto quando ele me disse que não me amava. Que estava
cansado de mim. O que ele disse? Cansado dessa coisa de
menina virgem?

Uma súbita onda de energia me rasgou e eu bati nos


anéis, enviando-os voando para cantos opostos. Liguei a água
e lavei meu rosto antes de encontrar o meu reflexo, meus
olhos vermelhos e inchados.

— Tudo isso é passado. Você é o passado.

Meu coração doía com a lembrança de suas


palavras. Eu estava com raiva e humilhada, e eu me senti tão
triste. Por ele. Por mim. Porque de certa forma, ele estava
certo. E eu tinha razão. Ele tinha que deixar o passado ir
para ele o deixar ir. Talvez ele não tenha escolha. Mas como
eu me tornei um dano colateral? Eu pensei que seria
diferente. Eu pensei que essa coisa que começou tão feia se
transformara em algo bonito. Um amor duradouro.

Segurei o cabelo em ambos os lados da minha cabeça e


puxei.

Eu precisava ir. Sair daqui. Eu não podia vê-lo


novamente. Eu não poderia ficar na mesma casa. Era muito
doloroso. Encontrei o meu telefone e, embora já fosse tarde,
eu disquei para um serviço de táxi local e providenciei alguém
para me pegar dentro de meia hora. Meu celular estava com
pouca bateria, então eu o liguei no carregador e comecei a
fazer as malas. Eu acabei por levar uma mochila com itens
essenciais. Minha prioridade agora era sair de lá.

Vinte minutos mais tarde, chamei Charlie, que levantou


a cabeça e veio quando eu abri a porta. Eu verifiquei se a
chave que meu avô me dera estava na minha bolsa. Estava
exatamente onde eu deixei, no pequeno zíper na lateral. O
mais silenciosamente que pude, desci as escadas. Embora o
carro de Raphael não estivesse, eu não sabia ao certo se Eric
estava em algum lugar no local ou se ele ia voltar. Mas eu
não me deparei com ninguém enquanto eu ia cegamente
através da sala de estar, para a cozinha e saia pela porta, eu
andei pelo caminho de cascalho de quilômetros de
comprimento em direção à entrada frontal da propriedade.

Quando eu cheguei lá, o táxi estava esperando. Abri a


porta de trás, e Charlie pulou na minha frente. Depois de
arrastar a minha mochila atrás de mim, eu coloquei Charlie
no colo e disse ao motorista para onde estava indo. Vinícola
Guardia. Felizmente, ele sabia exatamente onde era, porque
eu não me lembrava, e dentro de alguns minutos, estávamos
fora de vista da casa de Raphael.

Era sábado à noite. Ninguém trabalharia amanhã, então


eu teria o dia para planejar o que eu queria fazer e resolver as
coisas. Eu passaria a noite no antigo quarto da minha mãe
como um fantasma na empresa. Já estávamos a vinte
minutos na estrada quando eu percebi que não tirei meu
telefone do carregador. Na minha pressa, eu esqueci isso.
Sentei-me no banco. De jeito nenhum eu ia voltar por
ele. Eu não teria sorte de não ser pega saindo duas
vezes. Embora não fosse como se Raphael quisesse que eu
ficasse. Droga, ele provavelmente ficaria satisfeito por eu
estar facilitando para ele. Eu balancei a cabeça, banindo
todos os pensamentos sobre ele.
Raphael
Era perto de meia-noite quando cheguei em casa. Meu
advogado trabalhou horas extras, colocando a papelada para
a venda da casa em ordem. Eu estava pronto para assinar,
mas nós encontramos um problema. Um documento que o
comprador tinha que fornecer, e ele não forneceu. Eu acho
que o atraso aconteceu pelo fato de que era fim de semana, e
os italianos não gostavam de trabalhar nos fins de semana.
Eu esperava ter tudo assinado e acabado hoje. Quanto menos
eu pensasse sobre isso, melhor. E mais rápido eu poderia
fazer o que eu disse a Sofia que faria — deixar o passado ir.

E uma vez que eu assinasse, eu não poderia mudar de


ideia.
Vender a casa era o meu último recurso. Eu odiava fazê-
lo. Damon me odiava por ter que fazê-lo. Mas não havia outra
maneira. Moriarty não estava de brincadeira. Eu não poderia
correr o risco de machucar minha família por causa
disso. Não valia a pena.

Enquanto caminhava pelo quarto dela, tentei não


pensar sobre ela na capela. Não ver seu rosto quando ela se
ajoelhou aos meus pés, olhando para mim quando eu lhe
disse que não a amava. Eu só precisava lembrar que eu
estava fazendo isso para seu próprio bem.

Quando cheguei ao meu quarto, eu ouvi seu telefone


celular tocar, mas eu o ignorei. Provavelmente era sua
irmã. Era apenas início da noite na Costa Leste. Tirei minhas
roupas no meu quarto e tomei um longo banho antes de cair
na cama.

Meus velhos hábitos de dormir voltaram ao longo das


últimas duas semanas. Eu estava correndo três horas por
noite, e eu estava exausto. Mas parte de mim não queria
dormir. Era a única maneira de me manter longe dos
pesadelos, e aquele sobre Sofia estava entre eles bem — eu
simplesmente não conseguia mais lidar com isso.

Eu não sei se foi o telefone tocando à distância que me


acordou ou outra coisa, mas as quinze para as três da
manhã, eu acordei ouvindo. Talvez fosse porque o som estava
estranho, deslocado. Um mau pressentimento me forçou a
sair da cama. Coloquei um par de cuecas e fui para o
corredor. O telefone parou de tocar assim que cheguei lá, e eu
quase voltei para a minha própria cama, mas então começou
novamente.

Veio do quarto de Sofia. E meu instinto me disse que


algo estava errado.

Eu não me incomodei em bater na sua porta. Em vez


disso, a abri e acendi a luz.

— Porra.

Ela não estava lá, e a cama não estava desarrumada.


Charlie não estava por perto, e ele estava sempre com
ela. Suas roupas ainda estavam no armário, e suas duas
malas estavam enfiadas em uma prateleira. Eu não sabia se
ela tinha produtos de higiene pessoal, mas não vi nenhuma
escova de dente no banheiro. No meu caminho de volta, eu vi
o anel no chão, no canto. A aliança dela.

Inclinei-me para pegá-la e a coloquei no meu dedo


mindinho, em seguida, vi o outro anel. O meu. Estava no
canto mais distante. Deixei ele onde estava. O telefone
começou a tocar novamente. Eu fui para o quarto
atender. Ele estava em seu armário conectado a seu
carregador. Eu verifiquei o visor e vi que era Lina. Eram nove
horas no seu fuso, mas ela tinha que saber que aqui era meio
da noite. Eu pressionei para atender antes que fosse para o
correio de voz.

— Olá? Aqui é Raphael.

— Raphael?

— Sim. Lina, como você está?


— Onde está minha irmã?

— Bem, essa é uma boa pergunta. Outra boa pergunta


é, você sabe que horas são?

— Sim. Eu sinto muito. Eu realmente preciso falar com


Sofia. Eu tenho tentado durante as últimas horas.

— Está tudo bem?

— Eu não sei. — Ela parecia ansiosa. — Onde ela


está? Ela está bem? Por que você está atendendo o telefone
dela?

— Porque ela não está em seu quarto, e o telefone me


acordou. Ela está provavelmente lá embaixo. — Eu não
acreditava que ela estivesse lá, mas eu desconectei o telefone
do carregador e andei pela casa, descendo para
verificar. Talvez ela não conseguisse dormir. Ou ela ficou com
fome e foi pegar um lanche. — Estou verificando a casa
agora, Lina. Diga-me por que você está ligando tão tarde.

Lina hesitou, e eu fiquei mais ansioso ao encontrar a


sala de estar e cozinha na escuridão. Quando cheguei em
casa, o segundo carro e a caminhonete ainda estavam
estacionados lá fora, então eu não pensei em checar ela,
imaginando que ela não queria me ver. Tomando o caminho
mais fácil. Onde diabos ela estava?

Fui em direção à porta do porão.

— Lina? — Perguntei, abrindo-a, acendendo a luz


quando eu vi que estava escuro. Ela nunca iria lá sem
acender as luzes, mas eu desci de qualquer maneira,
encontrando-o vazio. — Eu não encontro a sua irmã, então é
melhor você me dizer o que está acontecendo.

— O que quer dizer, você não a encontra?

— Quero dizer que ela não está aqui. Por que você está
ligando tão tarde? Talvez as duas coisas estejam
relacionadas.

— Ela não iria a lugar algum sem o seu telefone celular.

— Ok. — Eu tentei parecer mais calmo do que eu


estava. Eu não queria preocupar ou perturbar Lina. — Espere
um segundo. Eu estou verificando seu registro de chamadas.
— Puxando o telefone longe do meu ouvido, percorri seu
histórico de chamadas e dei um suspiro de alívio ao saber
que ela chamou um táxi por volta das dez horas. Eu acho que
uma parte de mim pensou Moriarty ou seus homens teriam
vindo por ela. Levando-a para chegar até mim.

Inferno, talvez eles levaram.

— Lina, ela chamou um táxi por volta dez


horas. Tivemos uma briga. Ela provavelmente está bem, mas
eu preciso descobrir onde ela está. Vou precisar desligar para
fazer isso.

— Você vai me ligar de volta?

— Sim.

— Obrigada.

Eu quase desliguei quando ela chamou meu nome.

— Raphael?
— Sim?

— Você assinou os papéis para vender a sua


propriedade?

— O quê? — Como malditamente ela sabia sobre isso?

— Apenas me diga. Você já assinou?

— Não. Houve um atraso. Faltou um documento. — Eu


ouvi o alívio em sua expiração. — Lina, o que diabos está
acontecendo?

— Não assine, ok? Apenas não assine.

— Eu preciso de mais do que isso, e eu realmente


preciso ir procurar Sofia. — Silêncio. — Lina?

— Eu acho que meu avô é o comprador.

Parecia que um buraco se abrira debaixo de mim. Fiquei


ali, segurando o telefone no ouvido, tentando entender o que
ela acabara de dizer.

O comprador tinha um representante, e toda a papelada


estava sendo feita através de telefone e fax — tão antiquados
como o último parecia. O comprador esqueceu um
documento legal que era necessário para que a venda fosse
reconhecida pela lei italiana. Esse atraso foi à única razão
pela qual eu não assinei a venda da propriedade hoje.

Eu tentei encontrar informações sobre o comprador,


assim como meu advogado, mas tudo apontava para uma
empresa no sul da Alemanha. Não me ocorreu nenhuma vez
que fosse uma fachada. A oferta foi superior ao valor do
terreno. Por que diabos Marcus Guardia queria comprar esta
casa? Esta terra morta?

— Você ainda está aí? — Perguntou Lina.

— Eu preciso encontrar sua irmã. Lina, seu avô sabe


que você sabe?

— Não. Eu ouvi algo que ele disse, e eu escapei para seu


escritório quando ele saiu para o jantar. Eu só sabia que algo
não estava certo.

— Obrigado. Eu vou lidar com isso mais tarde. Não diga


a ele que você me contou.

— Eu não ia. Raphael, descobri outras coisas também.


— Sua voz estremeceu.

— Tudo certo. Eu vou encontrar Sofia, e vamos ligar


juntos. Fique firme, ok?

— Ela não está ferida, não é?

Como é que eu responderia isso?

— Tenho certeza que ela está bem, — menti, não tenho


certeza de nada.

Nós desligamos, e eu liguei para o serviço de táxi que ela


usou. Eles puderam confirmar que um táxi chegou à
propriedade às dez e meia e deixou uma mulher e seu cão na
Vinícola Guardia.

Agradeci-lhes e desliguei, rapidamente mandei uma


mensagem para Lina, e subi as escadas para me vestir e ir
para a vinícola buscá-la. Seu avô lhe dera uma chave no dia
do almoço. Ela deve ter planejado ficar lá depois da nossa
briga hoje.
A vinícola ficava a pouco mais de uma hora de
distância. Eu dirigi rápido pelas estradas escuras e desertas,
tendo apenas a luz da lua em intervalos entre as nuvens e
meus faróis para percorrer a estrada sinuosa. Eu não
conseguia afastar a sensação de que algo estava errado. Esse
pressentimento, parecia mais como uma premonição, e
imagens do meu sonho recorrente continuavam a piscar
diante de meus olhos.

Eu bati o pé no acelerador e abri a janela, sentindo


náuseas. Estava ficando tão ruim, eu pensei que eu pudesse
até mesmo sentir o cheiro, sentir o cheiro do fogo, de carne
queimada no fogo.

Porra. Eu estava ficando louco. Foi um sonho. Nada


estava errado. Apenas um maldito sonho estúpido.

Mas quando eu tomei a próxima curva, as nuvens se


dissiparam, e uma nuvem de fumaça subia sobre a próxima
colina. Reconheci aquele cheiro. Não era o sonho. Eram
cinzas. Estava no ar.

Enquanto meu cérebro tentava processar o que estava


acontecendo, minhas mãos se apertaram ao redor do volante
e eu empurrei o acelerador até o limite. Não mais de três
quilômetros de distância, uma chama subiu alto, o som de
fogo, o rugido de ainda um sussurro, uma dica.

— Não.

Dirigi como se o próprio diabo estivesse me perseguindo


e busquei o celular de Sofia no assento ao meu lado, o
carregador pendurado como a cauda de um rato. Tirando
meus olhos da estrada por um segundo, eu disquei 1-1-211, o
cheiro mais forte à medida que me aproximava da Guardia.

Isso não poderia estar acontecendo.

De novo não.

Era a porra do meu pesadelo. Não a realidade.

Uma voz veio através da linha, crepitando com a má


recepção. Virei-me para a propriedade, onde os portões
estavam parcialmente abertos, empurrando-os de
largamente, com a extremidade dianteira do meu carro. Eu
dei a agente o endereço. Disse-lhe que havia um
incêndio. Precisávamos dos bombeiros. Nós precisávamos de
ajuda.

Parei o carro no meio do caminho para a casa.

Ela perguntou se alguém estava lá dentro. Abri a porta e


saí, cinzas me sufocando enquanto olhava para a terra
destruída antes de me voltar para a casa.

Eu não acho que eu respondi a ela. Em algum lugar ao


longo do caminho, eu perdi o telefone de Sofia enquanto eu
corria para a estrutura, chamando o nome dela, gritando
contra o rugido do fogo. A porta da frente estava trancada. Eu
tentei jogar meu ombro sobre ela, a dor atravessando o meu
lado com o impacto. Ainda não cedeu. Não abriria.

— Sofia!

Tudo que eu ouvia era o som de fogo. Tudo o que eu


podia sentir o cheiro era de cinzas. O fogo estava queimando

11
Telefone de emergência na Itália. Preferi manter como o original para não fugir tanto da história.
a parte de trás da casa, e eu precisava entrar lá. Para tirá-la.

Eu recuei, olhando para as janelas, vendo que uma


estava aberta no lado mais próximo do fogo. É onde ela
estava. Eu sabia.

Sem pensar, peguei a pedra mais próxima e atirei pela


janela no andar de baixo, quebrando-a. Não me importando
que cacos de vidro rasgassem minhas roupas e pele, subi
para dentro, o som distante de sirenes me dando alguma
esperança, mesmo quando o cheiro de gasolina enchia
minhas narinas.

Ela ficaria bem.

Eu a encontraria. Eu chegaria a tempo.

Eu não a deixaria morrer.

Mas tudo que eu podia ver eram as imagens do


pesadelo. Ouvi-la. Incapaz de alcançá-la. Abrir a porta
apenas para descobrir que era tarde demais. Encontrar restos
carbonizados...

— Sofia!

Eu tirei minha camisa para cobrir minha boca e nariz e


corri para as escadas. A fumaça espessa tornava impossível
ver.

— Sofia, onde você está?

Nada. Nada dela.

Mas um latido.

Fiquei no alto das escadas e olhei para o corredor na


última porta. A mais longe de mim. Mais latidos. Era Charlie.

O corredor parecia crescer mais enquanto eu me movia,


muito lentamente, mesmo enquanto eu me obrigava, lutando
contra o pesadelo, os demônios que continuavam a repetir
aquela cena, de novo e de novo e outra fodida vez.

— Sofia!

Algo caiu atrás de mim, uma viga caindo, o teto se


abrindo para o céu. Sufocando, eu fui para frente,
alcançando a porta. Os latidos de Charlie continuavam agora.

— Sofia. Eu estou aqui. — Eu toquei na maçaneta da


porta. Queimou a minha mão. Envolvendo minha camisa em
volta dela, eu a girei.

No pesadelo, ela estava trancada. Estava sempre


trancada, e eu tinha que abrir a porta. Isso foi o que sempre
me retardou. Eu nunca poderia alcançá-la no pesadelo. Não
quando era a minha mãe. Não quando era Sofia. Mas desta
vez, ela se girou. Eu empurrei.

O quarto estava cheio de fumaça, muito grossa para ver


através dela.

— Charlie!

Ele latiu, e eu segui o som para a outra porta. Outra


maldita porta.

Deve ter sido o banheiro.

Este também aberto. Meu coração bateu.

Charlie sentou ao lado de Sofia, que estava inconsciente


no chão. Ele latiu e lambeu seu rosto e abanou o rabo
brevemente e latiu para mim novamente, levantando-se a
quatro patas, sentando-se novamente, lambendo o rosto de
novo e de novo.

Eu caí de joelhos.

Lá fora, luzes piscavam, e alguém gritou ordens.

— Sofia? — Toquei seu rosto, deslizei minha mão para


seu peito para sentir seu batimento cardíaco. Eu não sei se
era cinza ou fumaça ou o que embaçou meus olhos, mas eu a
peguei. Charlie latiu aos meus pés e seguiu quando eu cobria
a boca e o nariz dela com a minha camiseta e corri pelo
corredor, o fogo entrando furiosamente dentro da casa
agora. Quando cheguei às escadas, eu me afastei. Muito
tarde. Eu teria que encontrar outra maneira de sair. De volta
ao quarto onde eu a encontrei, fui até a janela e me inclinei,
respirei o ar fresco. Gritei para os homens abaixo. Dois carros
de bombeiros e três carros de polícia estavam estacionados
embaixo e, à distância, uma ambulância se dirigia até a casa.

No instante em que nos viram, levantaram uma


escada. Um dos homens subiu.

Sofia se moveu em meus braços, sufocando, tossindo.


Olhei para ela e não pude deixar de sorrir um pouco.

Ela estava viva. Eu não cheguei tarde demais. Ela estava


viva.

— Você está aqui.

Um acesso de tosse parou qualquer coisa mais que ela


teria dito. Quando o bombeiro chegou até nós, eu a entreguei
para ele. Ele a ergueu por cima do ombro e desceu as
escadas. Eu olhei para baixo para Charlie, que voltou para o
banheiro, se afastando o máximo possível enquanto o fogo de
aproximava.

Alguém gritou para eu sair, mas eu voltei correndo,


peguei o lençol da cama e o envolvi, segurando-o contra mim.
Um calor intenso fez-me correr de volta para a janela, e, com
Charlie empacotado em meus braços, eu saí e desci.

Eles puxaram a escada para longe da casa e apontaram


suas mangueiras para ela, jogando água sobre o fogo.

Eu fui para Sofia, que estava deitada em uma maca na


parte de trás da ambulância com uma máscara de oxigênio
sobre o rosto. Seus olhos se abriram e fecharam, e ela
estendeu a mão para mim. Alguém trouxe uma tigela de água
para Charlie, e eu coloquei para ele beber.

Sofia sentou-se e puxou a máscara. Ela olhou para a


casa atrás de mim, depois olhou para mim.

— Raphael?

Foi quando tudo me atingiu. Tudo isso. O incêndio,


quando ele aconteceu, a destruição da Vinícola Guardia —
porque foi destruída — a perda.

A quase perda dela.

Eu tropecei e segurei a porta da ambulância para me


equilibrar.

Isso foi trabalho de Moriarty? Esta era a sua forma de


vingança? Isso foi o que eu planejei fazer? Pensei que eu
poderia fazer?

— Raphael?

Virei-me para ver as lágrimas escorrendo pelo rosto de


Sofia.

Eu me dirigi para o hospital duas horas depois, quando


o fogo estava finalmente sob controle e já não ameaçava as
propriedades adjacentes. Eles deram a Sofia um sedativo
depois de verificá-la, então ela estava dormindo quando eu
cheguei ao seu quarto. Ela ficaria bem. Eu cheguei a tempo.

Saindo do quarto, liguei para Lina e disse que Sofia


ficaria bem. Ela já sabia do fogo. Claro que ela sabia. O
gerente teria ligado para seu avô assim que ele soubesse.
Depois de tranquilizar Lina dizendo que Sofia ligaria assim
que ela estivesse acordada, eu disquei outro número, um
homem que eu sabia que tinha laços com o departamento de
polícia, que fez algumas investigações para mim no
passado. Isso significava que alguém intencionalmente
acendeu o fogo. Disse-lhe também o que Lina me dissera e
lhe pedi para confirmar. Que Marcus Guardia foi quem esteve
tão perto de comprar Villa Bellini. Depois disso, entrei no
quarto do hospital para esperar que ela acordasse.

Sentei-me na cadeira ao lado da cama durante as


próximas horas, observando-a dormir, ainda sentindo o
cheiro do fogo sobre ela, em mim mesmo. Eu quase cheguei
tarde demais. Se Lina não tivesse ligado, se eu não tivesse
ouvido o celular de Sofia e acordado, Sofia teria morrido
naquele quarto. Esse pensamento me impediu de dormir até
quase o amanhecer. Fiquei olhando para ela, olhando os
monitores que mediam o seu batimento cardíaco constante,
certificando-me de que ela estava realmente bem.

A sensação de sua mão sobre a minha foi o que


finalmente me acordou mais tarde naquela manhã.

— Ei, — disse ela.

Eu me endireitei, esfreguei meu rosto e verifiquei meu


relógio.

— Ei. — Minha voz saiu rouca e sonolenta, muito


parecida com a dela.

— Obrigada.

Por que eu achava que era uma coisa estranha a se


dizer? E o que eu deveria dizer de volta? Acabou que eu não
precisei responder. Ela falou antes que eu pudesse.

— Charlie?

— Ele está bem. Damon o pegou e o levou para casa.

Ela sorriu, então seu rosto ficou sério novamente.

— Ela se foi?

— Sim. — Eu odiava ser quem lhe contava. — Tudo está


praticamente destruído.

Ela assentiu.

— Como você sabia que eu estava lá? — Ela perguntou.

— Você esqueceu seu telefone e sua irmã continuou


tentando ligar para você. Ele me acordou, e quando eu
percebi que você saiu, eu procurei em seu telefone e descobri
que você chamou um táxi. Não demorou muito tempo para
conseguir o endereço que eles levaram você.

— Minha irmã!

Ela tentou se sentar, mas depois se deitou novamente.

— Eu tenho que ligar para ela.

— Eu já liguei. Relaxe. Você pode ligar para ela mais


tarde.

— Obrigada. Novamente.

Ela tentou se sentar novamente, e desta vez eu a ajudei,


ajustando a cama e os travesseiros nas suas costas.

— Você não deveria ter ido embora.

— Eu não podia ficar.

Silêncio constrangedor.

— Eu acho que foi tudo por nada, não é? — Ela


perguntou.

— O que você quer dizer?

— Você não tem que continuar casado comigo depois de


tudo. Minha herança virou fumaça.

Estudei seus olhos caramelo, os observei encherem-se


de lágrimas, a observando segurá-las.

— Oh, espere, — ela continuou. — Seguro. Eu acho que


você será pago com o dinheiro do seguro.

Havia uma centena de coisas que eu poderia ter dito. Eu


deveria ter dito. Coisas como Eu sinto muito. Ou eu não quis
dizer o que eu disse.

— Ou Eu te amo. Mas eu não disse nenhuma dessas


coisas. Em vez disso, quando meu celular tocou, eu olhei
para a tela e saí do quarto para atender.

Era o investigador.

— Você estava certo, — disse ele. — Latas de gasolina


foram encontradas em toda a propriedade. A pessoa que pôs
esse fogo não estava escondendo o fato de que isso foi
incêndio criminoso.

— O que exclui Marcus Guardia. — Eu não duvidava


que ele pudesse destruir a vinícola, para que eu não
colocasse minhas mãos nela. Para que ele pudesse retirar
dinheiro. Mas ele teria o cuidado de esconder as evidências.

— E o que a garota lhe disse está certo. Marcus Guardia


está usando a empresa alemã como uma fachada. Ele foi
quem colocou a oferta em sua casa.

Eu disse a Moriarty no outro dia que eu tinha um


comprador. Que ele não teria a propriedade, porque eu já
vendera. Moriarty sabia que era o avô de Sofia? Poderia esse
fogo ter sido colocado para punir o velho?

— Obrigado. Mantenha-me informado, ok?

— Eu vou.

Quando eu abri a porta do quarto de Sofia, encontrei-a


sentada na cama com seu telefone em seu ouvido, a testa
enrugada enquanto escutava.

— Lina, você tem certeza?


A preocupação que ouvi na voz dela me deixou
curioso. Ela encontrou meus olhos, então desviou o olhar.

— Ok. Ok, eu tenho que ir. Deixe-me pensar sobre


isso. Eu ligo de volta.

Ela desligou e olhou para mim um pouco sem jeito. Eu


queria perguntar o que ela estava falando com a
irmã. Obviamente, ela estava chateada. Mas eu não senti que
eu poderia. Poucos minutos depois, o médico entrou na sala
para nos dizer que ela precisaria de repouso, mas que se
recuperaria totalmente.

— Quando eu posso sair? — Perguntou ela.

— Mais tarde, hoje — disse o médico. — Vou assinar a


papelada.

— Posso voar?

O médico parecia confuso, então eu falei.

— Você vai ficar em casa enquanto você se recupera,


Sofia.

— Mas...

— Mas nada. — Eu saí com o médico para discutir


algumas coisas. Quando voltei, Sofia sentou na cama, com o
rosto ilegível.

— Eu preciso te perguntar uma coisa, — disse ela.

— Pergunte.

— Foi um acidente?

Eu a estudei. Verdade. Eu prometi a ela a verdade. Eu


já quebrei essa promessa uma vez. Eu não faria isso
novamente.

— Não.

Ela engoliu seco, piscando várias vezes, e desviou o


olhar por um momento antes de voltar o olhar para mim. Sua
voz embargada quando ela perguntou a próxima.

— Você teve alguma coisa a ver com isso?

Eu bufei, balancei a cabeça, e anulei a emoção


borbulhando no meu estômago. A dor em sua acusação.

— Eu nunca quis você morta, Sofia.


Sofia
Incêndio culposo.

Alguém tinha posto deliberadamente o fogo que


destruíra a Vinícola Guardia.

Duas semanas se passaram e as informações que


Raphael recebera de sua fonte foram confirmadas pelo
investigador oficial. Meu avô chegou no dia seguinte ao
incidente. Ele não trouxera Lina com ele. Eu não o vi ainda,
embora hoje mais tarde eu o veria. Eu não tinha certeza de
como eu seria capaz de olhar para ele, sabendo o que Lina me
contou. O que ela encontrou. Evidências do que Raphael me
disse sobre as transferências de dinheiro do avô. Mais do que
isso, mais informações que deixariam o negócio vulnerável se
ele nunca fosse descoberto.

Eu não contei a Raphael o que Lina me disse. Ele


cuidou muito bem de mim, enquanto eu me recuperava,
passando tempo comigo durante o dia, tendo jantares em
meu quarto sentado ao meu lado na cama. Quando ele me
tocou, foi ternamente, mas nada mais que isso. Nem uma vez
que falamos sobre o que aconteceu na capela. Parecia como
um elefante no quarto, mas nenhum de nós trouxe à
tona. Por mais que eu desejasse que ele me dissesse que o
que ele dissera na capela não era verdade, eu não queria
perder os momentos que tive com ele.

Raphael me disse o que Lina lhe contou sobre o meu


avô, que ele foi quem fez a oferta a Villa Bellini. Que Raphael
quase assinou tudo para ele.

Eu não entendi. Esta era a terra que o avô disse que


estava comprando para mim? Para manter em meu nome
quando eu perdesse tudo? Ele roubaria a casa de Raphael
debaixo do nariz dele assim como Raphael roubara metade da
Vinícola Guardia de nós?

Olho por olho, dente por dente. Tudo isso me deu uma
dor de cabeça.

Hoje, Raphael me levaria para a vinícola para eu ver o


estrago. Então, nós teríamos uma reunião com meu avô e
seus advogados sobre o estado das coisas.

Na vinícola, dirigimos até onde nós fomos autorizados a


ir, o que não era muito longe, já que a investigação ainda não
estava fechada. Saí do carro com Raphael ao meu lado.
— Meu Deus.

O dano era inacreditável. As terras — tudo o que restava


das videiras saudáveis eram seus restos carbonizados. Um
cheiro de queimado ainda pairava no ar, e a própria casa
estava em escombros. Uma parede permaneceu parcialmente
em pé, e uma fita amarela isolou a área. Ainda era
considerado perigoso.

— Eu me lembro do cheiro da nossa casa depois, —


disse Raphael.

— Eu não posso acreditar nisso. Que perda. Que perda


inacreditável.

Estremeci, e pensei por um momento que Raphael


levantou o braço e que ele o queria envolver em torno de mim,
mas então ele enfiou as mãos desajeitadamente nos bolsos.

— Quem faria isso? — Perguntei.

— Apenas um nome vem à mente, Sofia.

— Moriarty.

Ele assentiu.

— Mas por quê? Que sentido faria? Não seria melhor


para ele incendiar a propriedade Amado?

— Você disse que seu avô e Moriarty tinham algum


interesse na mesma propriedade. Pergunto-me se essa era a
minha propriedade e Moriarty ameaçou seu avô para ele
retirar a oferta.

— Ele disse no dia que almoçamos que Moriarty tentou


lhe convencer de que a propriedade que ele queria não seria
interessante para ele.

Raphael olhou para a terra, mas não respondeu.

Lembrei-me de alguma coisa, então.

— Espere um minuto. — Ele se virou para mim. — O


gerente disse ao meu avô que instalaram um novo sistema de
segurança. É possível que exista alguma gravação de vídeo
daquela noite? Talvez pudéssemos ver quem fez isso?

— A casa está destruída. Eu não posso imaginar que


qualquer coisa teria sobrevivido ao fogo. Se tivesse, tenho
certeza que a polícia já teria a evidência agora. Sinto muito,
Sofia. Não importa o quê, eu nunca quis isso para você.

Voltamos para o carro e fomos até Siena para nos


encontrar com dois advogados e meu avô. Os escritórios
estavam no centro da cidade turística em um edifício que
datava centenas de anos atrás. Fomos logo introduzidos.
Uma vez lá dentro, encontrei meu avô, ainda orgulhoso, mas
parecendo um pouco mais cansado, sentado à cabeceira de
uma longa mesa. Dois homens sentaram-se de cada lado da
mesa, examinando a papelada.

Todos olharam para cima quando entramos. O olhar que


meu avô deu a Raphael me gelou.

— Sofia, — disse ele de pé. — Raphael.

Ele mal acenou na direção de Raphael. Ele apresentou


os dois advogados, um dos quais era americano, o outro
italiano. Ambos colocaram seus cartões de visita sobre a
mesa.
Uma vez que nos sentamos, um dos advogados começou
a falar, passando sobre nossas opções agora que a safra teve
uma perda total, bem como os detalhes da apólice de seguro.

— Mas como o incêndio é a causa, tudo está....


Amarrado — disse meu avô.

— Algum suspeito? — Perguntou Raphael.

— Não. Você conhece algum? — Avô combateu.

— Avô, — eu disse. Agora não era o momento.

Ele fechou a boca e deixou o advogado


continuar. Basicamente, passamos uma hora confirmando o
fato de que não tínhamos nada, não até que a companhia de
seguros pagasse. Até mesmo a casa na Filadélfia estava em
questão.

Eu acho que eu não percebi a extensão dessa


perda. Nunca me ocorreu que íamos de ter tudo para não ter
nada. Eu me perguntei se isso foi o que envelheceu meu avô,
porque ele parecia mais velho, seu terno um pouco enrugado,
seu cabelo não estava absolutamente perfeito.

— Cavalheiros, vocês sairiam por um momento, por


favor? — Disse meu avô para os advogados.

O que?

Ambos concordaram, sabendo claramente que isso ia


acontecer. Eles saíram da sala. Raphael limpou a garganta,
seu olhar nunca deixando o meu avô, a suspeita neles
evidente.

Quando a porta se fechou, meu avô pegou sua maleta,


que estava ao lado dele no chão, e a pôs sobre a mesa. Abriu-
a e tirou um envelope grande, colocou a maleta de lado, em
seguida olhou para nós.

— Raphael, você compreende que quarenta e cinco por


cento de nada é nada.

— A propriedade tinha seguro.

— Sim, no entanto, com a investigação de incêndio,


nada está claro.

— Você está dizendo que eles podem decidir não pagar?


— Perguntei.

— Bem, é uma grande quantia de dinheiro, então eles


estão usando o que podem para segurar o pagamento.

— Porque foi intencional, — eu disse,


compreendendo. — Eles acham que isso foi feito por alguém
que poderia ganhar um grande pagamento do seguro.

— A Vinícola Guardia tem sido uma empresa lucrativa


há muito tempo. Nos últimos anos, as vendas caíram, mas
isso estava mudando.

— O que você quer dizer? A vinícola estava em apuros?


— Perguntei.

— Não, não estava em apuros, mas as receitas têm


vindo a diminuir ao longo dos últimos anos. Foi por isso que
eu contratei o novo gerente. Ele tem ideias modernas.

— Mas...

Ele ergueu uma mão.


— E com essas ideias modernas veio o novo sistema de
segurança que ele insistiu em instalar. — Meu avô abriu a
pasta e tirou uma pilha de papéis, juntamente com um
envelope menor.

— O que é isso? — Perguntou Raphael.

— Eu tenho um novo contrato, Raphael.

— O quê? — Eu perguntei, olhando para Raphael,


depois de volta para o meu avô.

— Uma vez que o seguro for pago, não há necessidade


de esperar até que Sofia tenha vinte e um para recolher os
fundos. Como o responsável pela administração, cabe a mim
pagar para ela, ou neste caso, para você, mais cedo.

— Mas você disse que o pagamento está vinculado com


a investigação, — eu disse, percebendo onde isso estava indo.

— Não será para sempre, — disse o avô, deslizando a


papelada para Raphael. — Um pagamento. Um substancial.

Olhei para a papelada, pisquei duas vezes com o


número escrito lá.

— É potencialmente mais do que as ações teriam valido,


considerando o declínio da vinícola, — disse o avô.

Raphael passou a primeira página, depois a segunda e a


terceira antes de deixá-las de lado e esperar que meu avô
continuasse.

— Anule o casamento, e o dinheiro é seu assim que a


situação do seguro for resolvida.

— O quê? — Eu perguntei, meu coração caindo em


minha barriga. Levei uma mão tremendo debaixo da mesa
para tocar Raphael, que estava notavelmente,
perturbadoramente, estável. Ele não se afastou, mas pegou a
minha mão na dele.

— Você quer comprá-la de volta? — Perguntou Raphael,


nenhuma vez olhando para mim.

— Não seja grosseiro.

— Grosseiro? Ser grosseiro é a última coisa que me


preocupa agora, velho. O que tem no envelope?

Ele apontou para o que meu avô ainda segurava.

— Um cartão de memória.

— E o que tem no cartão de memória?

— A prova que os homens de Moriarty causaram o


incêndio.

— Como? — Perguntei.

— Os portões da frente tinham câmeras


instaladas. Seus homens não perceberam isso. Eu não acho
que Moriarty sabia, já que o sistema de segurança era tão
novo. As imagens da casa foram destruídas, mas eu tenho as
deles indo e vindo no momento em que o fogo começou.

— Por que você não deu à polícia? — Perguntei.

Raphael recostou-se na cadeira, estudando meu avô.

— Moriarty tem muitas conexões na Itália, — disse meu


avô.

— Mas ele não está acima da lei.


— Receio que ele está.

— Mas você tem as provas!

— E eu vou usá-las para comprar sua liberdade, Sofia.


— Ele se virou para Raphael. — Assine o contrato, e você terá
o cartão de memória. O homem não se assusta facilmente,
mas tenho a sensação de que você será capaz de convencê-lo
a acabar com a dívida de seu pai e salvar sua propriedade.

Eu me virei para Raphael. Era disso que ele precisava.


Isso o libertaria. Isso lhe daria exatamente o que ele disse que
queria na igreja. Para ter isso, ter a garantia de que Moriarty
não poderia machucá-lo ou sua família mais.

Raphael desviou o olhar do meu avô para mim, mas


seus olhos não revelaram nada. Minha mão repousava na
sua. Seu polegar desenhou círculos na minha palma.

Quanto mais demorava, quanto mais pesado ficava o


silêncio, mais lágrimas brotavam em meus olhos.

Era isso.

Raphael e eu estávamos terminados.

Meu avô limpou a garganta e se levantou de seu


assento.

— Cinco minutos, ou a oferta expira, e você pode


arriscar o pagamento. — Ele abotoou o paletó. — Eu estarei
lá fora.

Nós não o vimos sair, e nós não nos falamos por uma
eternidade depois que a porta foi fechada.

Raphael se levantou e foi para uma das duas janelas.


— Eu pensei que você estivesse morta, — disse ele, de
costas para mim.

— O quê? — Eu comecei engolindo o nó na minha


garganta.

Ele me encarou, mas permaneceu onde estava.

— Eu tenho esse pesadelo — já o tenho há seis anos —


onde eu continuo vendo o fogo na casa, continuo correndo
para salvar minha mãe e continuo encontrando-a muito
tarde.

Um peso tão pesado quanto uma pilha de tijolos se


instalou na sala conosco.

— Bem, isso mudou nas últimas semanas.

Ele correu as duas mãos pelo seu cabelo, em seguida,


enfiou-as nos bolsos e me deu um sorriso estranho.

— Não era mais a minha mãe que eu continuava


encontrando.

Ele andou para a outra janela, então pareceu se forçar a


olhar para mim.

— Tornou-se você, Sofia. Era seu corpo que eu


encontrava minutos tarde demais.

Lágrimas quentes derramaram dos meus olhos, e eu


abri a boca para falar, mas nada veio, não pelo que pareceu
ser um tempo muito longo. E quando veio, eu parecia
estranha, não como eu.

— Raphael, é um sonho. Um pesadelo. Não é real.


— O fogo era real. Você quase morreu.

Parecia que eu estava ouvindo suas palavras uma de


cada vez, lentamente processando seu significado. Não
querendo.

— Eu quis dizer o que eu disse na igreja. Que eu te


deixaria ir. Eu pensei que era a coisa certa a fazer. — Ele
parou, respirou fundo. — Eu ainda penso.

Eu abri minha boca para falar, mas ele ergueu a mão


para me impedir.

— Mas você precisa saber algo primeiro. Eu menti para


você, Sofia. Prometi-lhe a verdade, e eu menti para você.

— Raphael...

— Na Igreja. O que você disse, quando você me disse


que me amava, me pegou desprevenido. Eu não percebi...

Ele tirou algo do bolso. Era o meu anel, o que eu deixara


no banheiro.

— Isso é ridículo, não é? Um fodido anel de espinhos.

Eu não tinha palavras.

— Mas eles se encaixam. Sendo casada comigo, Sofia,


você sempre terá os espinhos, só que não há nenhuma rosa.

Eu me levantei, mas meus joelhos se dobraram, e eu caí


de volta em minha cadeira, sufocando um soluço que veio de
algum lugar dentro de mim.

Eu sabia o que estava fazendo. E eu estava certa. Isto


era um adeus. Ele assinaria esse contrato, mas ele não
estaria vendendo de volta minha liberdade. Ele estaria
comprando a dele do meu avô.

E desta vez, foi muito mais difícil do que na igreja. Desta


vez, isso me destruiria. Porque me dizendo que ele não me
amava, por mais que tenha doído, isso era pior.

Ele colocou o anel em seu dedo e veio até mim.

— Eu te amo, Sofia, e quase perder você... — Ele


balançou a cabeça, esfregou a barba de dois dias no seu
queixo. — Eu estou fodido e com raiva, e eu não posso ficar
com você.

— Não.

Ele ajoelhou-se diante de mim e pegou meu rosto em


suas mãos, enxugando minhas lágrimas com os polegares.

— Não importa o quanto eu queira, eu não posso ficar


com você. Seu avô, ele está enganado sobre Moriarty em uma
coisa. Ele não vai parar. Ele não está preocupado com este
pedaço de evidência. Seu ódio por mim, ele coloca você em
perigo demais. A outra noite foi prova disso. Não importa o
que, nós estaríamos sempre olhando sobre nossos ombros.

— Não. Não com a evidência.

— Mesmo se não fosse por ele, Sofia, eu nunca deveria


ter trazido você aqui. Eu nunca deveria ter começado
isso. Puni-la para punir seu avô? Veja o que aconteceu.

— Eu não opino nisso tudo?

Levantou-se para ficar de pé, trazendo-me com ele, e


com o meu rosto em suas mãos, ele me beijou. Foi um beijo
áspero. Um final.

— Eu amo você, Sofia.

Seu olhar penetrou nos meus como se ele memorizasse


todos os detalhes do meu rosto.

— Eu te amo demais para fazer isso para você.

Antes que eu pudesse responder, antes mesmo de eu


processar suas palavras, ele me afastou e pegou a caneta
sobre a mesa e assinou seu nome no contrato. Eu assisti,
estupefata, quando ele rabiscou sua assinatura na folha,
então ele abaixou a caneta e colocou meu anel ao lado dela.

Com mais um olhar para mim, ele pegou o envelope com


o cartão de memória, colocou-o no bolso, se virou e saiu pela
porta.
Sofia
Depois que Raphael saiu do escritório, fiquei na sala,
olhando para ela. Olhando para o espaço onde ele esteve
antes de cair de volta em minha cadeira, minhas pernas
incapazes de me apoiar.

Eu não tinha certeza do que seria mais fácil, pensar que


ele não me amava ou conhecer a verdade. Embora eu ache
que eu sabia que não seria fácil. Isso faria mal. Doeria por
muito tempo.

Meu avô e os advogados voltaram para a sala. Ninguém


parecia me ver. O avô pôs o anel e a caneta de lado e verificou
a assinatura no contrato.

— Está feito, — disse ele, entregando-o a um dos


homens que o colocou em sua pasta, depois fechou. Ninguém
se sentou novamente. — Senhores, obrigado. Eu estarei em
contato.

Eles estavam apertando as mãos, quase na porta,


quando eu falei.

— Por que você quis o casamento consumado?

Todos pararam. Alguém limpou sua garganta. Meu avô


se virou para mim, uma frieza em seus olhos que me gelou,
então voltou sua atenção de volta para eles.

— Encaminhe as cópias oficiais eletronicamente e em


papel.

Os homens foram embora. Meu avô fechou a porta atrás


deles e me encarou, mas permaneceu onde estava.

— Que pergunta inapropriada a se fazer na frente de


nossos advogados.

— O que uma solicitação inapropriada causa.

Ele se aproximou de mim.

— Eu fiz isso por você.

— Você também fez isso comigo.

— Eu te disse, eu estava fazendo as pazes.

— Diga-me porque você queria consumado?

Ele me estudou.

— Porque eu não achava que ele conseguiria. Porque eu


pensei, quando confrontado com uma noiva virgem que não
queria...

Eu vacilei com as palavras.

— Sua moralidade iria impedi-lo. Acabar com


isso. Maldição, talvez eu achasse que você diria que era
estupro.
Fiquei de boca aberta. Ele estava disposto a ir tão
longe? Não. Deus, não.

Ele se aproximou e inclinou a cabeça para um lado,


qualquer fraqueza que eu pensei que eu vi quando chegamos
pela primeira vez na sala desapareceu.

— Mas você não estava disposta, não é, Sofia? Você se


prostituiu com aquele homem. Assim como sua mãe fez com
seu pai.

Eu respirei com inspirações e expirações tensas e,


usando cada gota de coragem, levantei-me para ficar pé.

— Não se atreva a chamar ela ou mim de prostituta,


velho.

Ele fez algo que ele nunca fez antes desse momento.
Apesar de toda a sua frieza, de toda a sua distância, ele
nunca levantou um dedo para nós. Não até hoje.

O som dele batendo no meu rosto reverberou nas


paredes, estalou minha cabeça para o lado e me fez tropeçar
para trás.

Toquei minha bochecha. Ela latejava, ficando mais


quente sob minha mão.

— Não se atreva a falar assim comigo de novo,


entendeu?

A porta se abriu naquele momento e um dos advogados


voltou.

— Desculpe, eu esqueci... — Ele parou. — Com licença.

Ele fez para voltar, mas antes que pudesse, eu falei.


— Você é um velho abominável, — eu disse ao meu
avô. — Você é um velho egoísta e ganancioso. Você nunca
perdoou a minha mãe por se apaixonar por um homem que
você não aprovava quando você nunca deveria opinar em
qualquer coisa. Você me usou como um peão. Você não me
tratou de forma diferente do que o seu inimigo. Você está
roubando da minha irmã e de mim toda a nossa vida. Já está
na hora de acabar com isso.

Virei-me para o advogado.

— Quero a guarda da minha irmã. Elabore qualquer que


seja a papelada que eu precise...

— E você vai apoiá-la como? Com que dinheiro? —


Perguntou meu avô. — O Estado nunca permitirá isso.

— Se você ficar contra mim, eu vou até as autoridades


com o que eu sei. Você será investigado. Você vai ser preso.
Você será preso.

Pela primeira vez em todo o tempo que eu o conhecia,


meu avô não falou. Ele ficou lá, perdendo um pouco da cor de
seu rosto.

— Vá embora, e você pode manter o que você roubou, —


acrescentei.

— Você não sabe do que está falando, — ele começou


abrindo a boca para continuar antes que eu o parasse.

— Você está disposto a correr esse risco? — Perguntei.

O telefone celular do meu avô tocou naquele


momento. Imaginei o alívio que ele deve ter sentido, a
gratidão pela distração. Ele se afastou, tirando-o do
bolso. Quando ele o fez, eu peguei o anel que Raphael deixou
sobre a mesa, o deixei cair na minha bolsa e saí.

Eu não sabia para onde estava indo. Não sabia se meu


cartão de crédito ainda funcionaria, não tinha nenhuma
roupa. Felizmente, eu tinha o meu passaporte. E eu precisava
sair dali. Sair daquela sala sufocante, daquele prédio, antes
que as paredes me esmagassem. Saí pelas portas da frente
para o calor e o ruído da cidade movimentada e me perdi no
meio da multidão, de alguma forma conseguindo não cair,
não romper em lágrimas enquanto caminhava cada vez mais
longe, sem saber para onde iria, precisando desaparecer.
Raphael
Tive que juntar cada grama de coragem para virar as
costas para Sofia e sair desse escritório. Bati no ombro de
alguém no meu caminho, mas não olhei para trás, não me
desculpei, não conseguia parar. Saí pela porta e fui para o
corredor e desci as escadas e saí pelas portas da frente, onde
parei, ofegante, as mãos nos joelhos, querendo vomitar.

Mentir para Sofia no chão da capela, me feriu. Mas


isso? Hoje? Deixando-a assim, assinando aquele maldito
contrato e saindo, acabou comigo. Eu prometi a ela a
verdade, e eu mantive minha promessa, finalmente. E isso
me destruiu.

Eu me endireitei, enxugando o suor da minha testa.

Eu não me lembro de andar pela cidade para a


garagem. Não me lembro de dirigir para casa. Assim que saí
do carro, Charlie veio correndo para mim. Eu parei e olhei
para ele. O assisti esperar a porta do lado do passageiro
abrir, e Sofia sair. Ele latiu várias vezes, correu de volta para
mim, rabo abanando, depois voltou a sentar junto à porta do
carro para esperar.

— Ela não está lá, — eu disse a ele.

Charlie se virou para mim, inclinando a cabeça para um


lado, como se ele não entendesse, então voltou a encarar a
porta do carro, latiu mais uma vez, esperando.

— Ela não vai voltar.

Entrei na casa e no meu escritório. No caminho, disse a


Nicola para arrumar as malas de Sofia. Eu mandaria para ela
mais tarde.

Depois de analisar a filmagem da câmera de segurança


no cartão de memória, fiz várias cópias, coloquei uma em um
cofre, enviei uma para o seminário para Damon, e levei uma
pessoalmente para entregar a Moriarty. Desta vez, porém, nos
encontraríamos em um lugar público. Eu escolhi o
restaurante e para garantir cheguei cedo.

Escolhendo uma cabine na parte de trás, eu pedi o meu


jantar e esperei.

Quando ele finalmente chegou, eu não me levantei para


cumprimentá-lo, mas limpei minha boca e gesticulei para ele
tomar um assento.

— Tudo curado, Raphael?

Embora ele se esforçasse para uma vibração casual,


seus olhos correram pelo salão. Este não era um dos seus
restaurantes regulares, e Moriarty, com todos os amigos
poderosos que tinha, também tinha inimigos.

— Tudo curado. Obrigado por perguntar.

A garçonete veio, e ele pediu um copo de água.

— Isso não é muito divertido, não é? Água? Peça outra


coisa. Por minha conta. — Virei-me para a garçonete. — Um
uísque duplo. — A garçonete assentiu e saiu. — Você vai
precisar dele.

— Meus homens estão do lado de fora. Se precisar de


outra surra para aprender a respeitar...

— Os espancamentos nunca funcionaram para mim,


Moriarty. Meu pai nunca mencionou o quão duro ele tentou?
Você sabe onde ele acabou.

Seu rosto não se alterou, e quando a garçonete entregou


sua bebida, ele bebeu.

— Isso é sobre o quê?

— Incêndio na propriedade Guardia, — eu disse.

— Uma vergonha.

— Perda enorme. — Eu olhei para ele. — Quando você


descobriu que o velho era meu comprador?

— Eu não sei o que você está falando, — disse ele,


tomando outro gole.

— Eu acho que isso realmente não importa de qualquer


maneira. — Eu comi a última batata no meu prato e tomei
um pouco de vinho. — Você sabia sobre o novo sistema de
segurança que instalaram? Coisa de primeira, o novo gerente,
aparentemente.

Moriarty se mexeu na cadeira.

— Acontece que havia um par de câmeras nos portões


da frente da propriedade. — Eu dei outra mordida no meu
bife, coloquei minha faca e garfo em meu prato e, depois de
limpar minha boca, joguei meu guardanapo em cima dele.

— Vá direto ao ponto, Raphael.

— Satisfeito, — eu disse, levantando minha mão para


pedir a conta. Enfiei a mão no bolso para tirar o envelope
contendo as imagens das câmeras de segurança. —
Interessante quão sofisticadas estas coisas são nos dias de
hoje. Incrível, na verdade.

Moriarty olhou ao redor do restaurante, mas não tocou


no envelope. A garçonete reapareceu com a minha conta, e eu
entreguei-lhe algumas notas.

— O que é isso? — Ele perguntou.

— Um carro entrando e saindo na noite do


incêndio. Luzes apagadas. Um motorista e dois
passageiros. O logotipo da sua empresa na janela lateral —
eu sempre achei que era pretensioso — tão visíveis como a
luz do dia. As placas confirmam o veículo pertence a você.

Ele pegou o envelope, espreitou por dentro, e


rapidamente colocou-o no bolso.

— Onde você conseguiu isso?

— Marcus Guardia não joga bem, Moriarty. Ele irá


cortar seu próprio nariz se ele ofender o seu rosto. — Eu
substituí o meu sorriso com algo muito mais sinistro. — Isto
é o que vai acontecer. Você vai ficar longe, muito longe de
mim, da minha família, de Sofia e Lina Guardia. Maldição, de
qualquer coisa que você pode até pensar que pode ser
remotamente associada a mim, minha família, ou as irmãs
Guardia. Se você não fizer isso, uma cópia desse cartão de
memória, bem como as fotos que você tem no seu bolso será
entregue a todos os jornais em toda a Itália, juntamente a
cada promotor, cada juiz.... Eu preciso continuar?

Ele não respondeu.

Eu me levantei.

— Qualquer dívida que você pensa que eu devo a você


está limpa. Fique longe de mim, ou da próxima vez, vou
espremer a vida fora de você, seu maldito porco nojento.

Ele não teve a oportunidade de falar. Quando um de


seus homens entrou na minha frente, eu bati nele com meu
ombro e continuei. Ele não seguiu. Saí do restaurante e fui
para o meu carro e dirigi para casa, acabando com Moriarty e
suas dívidas, um passo mais perto de me afastar do meu
passado. O único problema era que eu sabia que nunca lhe
daria uma chance de ir porque eu sabia que não podia deixá-
lo ir. Não quando isso significava abrir mão de Sofia.
Sofia
Saí de trem de Siena para Veneza naquela
noite. Quando cheguei em um pequeno hotel, liguei para o
advogado que ouviu minha conversa com meu avô e lhe dei
meu endereço, dizendo-lhe para me enviar qualquer papelada
para cá. Liguei para Lina e lhe disse que estava em Veneza,
disse a ela o que aconteceu e o que eu fiz, e que precisava
ficar desconectada por alguns dias.

Eu senti falta de Charlie. Eu senti falta do aconchego


com ele no meu colo, senti falta do seu amor incondicional.

Os primeiros doze dias passei na cama, sentindo pena


de mim mesma.

No décimo terceiro dia, alguém bateu na porta. Quando


eu disse a quem quer que fosse para ir embora, eles
responderam que eu recebi um pacote.

Relutantemente, eu fui até a porta, encolhendo-me


quando eu peguei um vislumbre de mim no espelho. Eu abri
e peguei o grande envelope branco, assumindo que era
papelada sobre a tutela de Lina. Abri as persianas e a janela
para deixar entrar um pouco de ar fresco e sol. O quarto
cheirava mal, e parecia que a minha tristeza penetrou até
mesmo as paredes.

Uma vez sentada à escrivaninha, eu abri o envelope e


retirei os papéis.

E olhei.

Verifiquei o endereço do remetente. Era meu advogado,


então eu assumi que eles eram os papéis para assumir a
tutela de Lina. Mas quando os abri, havia um segundo
envelope dentro. Este era de Raphael ou seu advogado. Ele
deve ter mandado para o meu advogado que o enviou para cá.
Este era o documento que discutia a anulação do nosso
casamento.

— Inacreditável. — Eu folheei as páginas, balançando a


cabeça. — Não perdeu tempo, não é?

Depois de tudo o que aconteceu, ele acabara de preparar


os documentos e daria andamento ao processo. Tudo o que
era necessário era a minha assinatura, e ele teria um grande
e agradável pagamento do meu avô.

Eu questionei agora o que aconteceu naquele escritório


aquele dia. Talvez ele não tivesse mentido em tudo na
capela. Talvez ele tivesse mentido depois de ouvir sobre o
pagamento, sabendo que ele poderia se livrar de mim e ainda
receber o pagamento em questão de semanas em vez de
anos. E salvar a sua própria casa e tirar Moriarty de suas
costas. Talvez ele não me quisesse de jeito nenhum. Não é
como se ele estivesse lutando para mim.

Eu empurrei a cadeira para trás e encontrei uma caneta


em uma das gavetas.

Em vez de assinar o documento, eu desenhei um X no


centro dele e escrevi a palavra FODA-SE no topo com grandes
letras em negrito.

A menos que eu assinasse, ele não receberia nada.

E por que isso deveria ser fácil para ele, quando nada
era fácil para mim?

Liguei para a recepção e rabisquei Retornar ao


Remetente no envelope, devolvendo-o ao homem que acabara
de entregá-lo e dizendo-lhe para enviá-lo de volta. Então eu
fui para o banheiro para tomar um banho e dar em mim
mesma um chute na bunda.

Por que diabos eu estava chafurdando na minha dor,


quando ele estava elaborando a papelada para se livrar de
mim? Para receber o dinheiro com isso?

Além de meu pai, eu conheci outros dois homens. E


ambos me traíram. Eles me usaram e depois me descartaram
como se eu fosse um pedaço de lixo.

Bem, fodam-se eles. Eu já tive o suficiente.

Saí do hotel mais tarde naquela manhã e fui para uma


gôndola que me levou para frente do canal e passei o dia
explorando a bela cidade antiga. Eu sempre quis vir aqui
para vê-la. Eu nunca pensei que estaria sozinha. Mas eu
forcei um sorriso no meu rosto e comecei a caminhar com
outros turistas pelos mercados e ruas estreitas, almocei em
um pequeno café onde eu pedi apontando para um prato que
outro cliente estava comendo. Voltei para o meu hotel quando
estava escuro com uma garrafa de vinho que comprei,
sentindo-me exausta, a depressão que eu estava empurrando
para o lado rastejou de volta quando eu abri a porta do
quarto e entrei. Abri a janela, e puxei minha cadeira até ela, e
observei a água e as pessoas abaixo. Eu bebi a garrafa inteira
de vinho e nem sequer me incomodei em tirar minhas roupas
antes de cair em cima dos lençóis, o esquecimento parecia
uma boa ideia naquele momento.

No começo eu pensei que o barulho era minha cabeça.

Eu estive bêbada uma vez antes, na casa de Raphael


naquela primeira noite.

Aquela ressaca não era nada comparada com o que


estava acontecendo agora. O som não parava, a palpitação
não parava.

— Sofia! Abra a porta!

Eu rolei para o meu lado, percebendo que eu ainda


tinha a minha roupa e até mesmo um sapato.

— Eu sei que você está aí. Não me faça arrombar.

Olhei para a porta. As batidas começaram novamente, e


ouvi outra porta abrir e alguém gritar que era meio da
noite. Eu verifiquei a hora. Eram quase duas horas da
manhã.

— Maldito seja. — Ele começou a bater novamente.

Raphael?

Sentei-me, segurando minha cabeça. Eu ainda estava


bêbada, ou era ressaca? Levantando-me, destranquei a porta
e a abri para encontrar Raphael do lado de fora, parecendo
que estava prestes a se jogar contra ela.

— Por que você está batendo? — Perguntei, dando um


passo para trás quando ele entrou antes de fechá-la.

— Porque você dorme como os mortos. Eu tentei bater


como uma pessoa normal, acredite em mim.

Ele olhou para mim, franziu as sobrancelhas, inalando,


então se concentrou na garrafa vazia de vinho deitado ao lado
dela perto da janela. Meu olhar seguiu o dele, surpreso. Eu
bebi a coisa toda?

— Você está bêbada, — disse ele.

— Não. — Eu balancei a cabeça, mas doía por isso


parei. — Eu estava bêbada. Agora estou de ressaca.

Ele sorriu, balançando a cabeça.

— Não, querida, você ainda está bêbada.

Querida.

Ha.

— Como você me encontrou? — Ninguém sabia onde eu


estava, nem mesmo Lina. Só o meu advogado, para que eu
pudesse assinar o que quer que eu precisasse assinar e tirar
Lina do meu avô.

— Não foi fácil.

— O que você quer? — Perguntei, piscando com força,


forçando meus olhos a ficarem abertos.

Ele se moveu pelo quarto e foi até o telefone, pegou-o, e


pediu café e algumas garrafas de água. A água parecia bom.

— Vamos, você vai tomar um banho.

Ele pegou meu braço e começou a me mover em direção


ao banheiro.

— Não, eu não vou. Vou voltar para a cama assim que


eu beber a água que você pediu. Vá embora.

— Acho que não.

Ele me levantou em seus braços já que eu não iria de


boa vontade e me colocou no banheiro.

— Dispa-se.

— Foda-se.

— Você já disse isso sobre os papéis de anulação,


lembra? — Alguém bateu na porta. — Dispa-se, e entre no
chuveiro enquanto eu atendo.

— Não.

Mas ele se afastou para atender a porta, deixando-me


sozinha para fazer o que ele disse. Bem, como eu disse, ele
poderia ir se foder.

Sentei-me na borda da banheira e preparei um banho


em vez disso.
Eu o ouvi agradecer ao homem do serviço de
quarto. Poucos minutos depois, a porta do banheiro se abriu
novamente, e ele entrou com uma garrafa de água. Eu ainda
não tinha tirado roupa, mas ele parecia satisfeito por eu ter
ligado a água.

— Aqui.

Ele me entregou a garrafa. Peguei e bebi quase tudo


enquanto ele voltava para o quarto. Ele voltou com uma
xícara de café.

— Você não deve beber uma garrafa inteira de vinho.

— Como se você se importasse. — Eu peguei o café dele


e bebi um longo gole. Foi bom. Eu me senti um pouco mais
humana.

— Eu me importo. Já te disse isso. O que diabos foi


aquele Retornar ao Remetente com um grande foda-se, Sofia?

— Você não gostou?

— Não. Você está sendo imatura.

— Bem, eu sou uma garotinha, certo? Não foi isso que


você disse? — Eu esvaziei o café e entreguei-lhe o copo
vazio. — Me dê licença enquanto eu tomo banho.

— Eu vou ficar bem aqui. — Ele colocou o copo no


balcão.

— O que você quer, Raphael? Você quer a minha


assinatura? Depois de tudo, você só quer apagar essa coisa
toda como se nunca tivesse acontecido? Bem, você não pode
simplesmente fazer isso. Não funciona dessa forma. — Eu
esbravejei contra as lágrimas que ameaçavam e mudei a
minha atenção para desligar a água.

— Você quase foi morta por minha causa.

— Não, não por sua causa. Por causa do meu avô.

— Eu estou te devolvendo a sua liberdade.

— Você está sendo pago.

— Não é sobre o dinheiro.

— Você com certeza foi rápido para assinar. — Cinco


minutos ou a oferta expira. — Você mal podia esperar para
assinar.

— Você ouviu uma palavra que eu disse a você naquele


escritório?

— As mentiras, você quer dizer? Você me disse uma vez


para não fazer de você um santo. Bem, eu ouvi isso, alto e
claro. Você não é um santo. Entendi. Lembrei-me. Foi muito
mais fácil ir embora e me dizer que estava fazendo isso por
mim. Admita, Raphael. Admita que era mais fácil. Então saia
minha vida.

Eu me senti mais forte, como os efeitos do vinho


passando. Talvez tenha sido a água ou o café, mas eu tinha a
sensação de que era a raiva dentro de mim queimando o
álcool mais do que qualquer outra coisa.

Mas então ele disse o que disse.

— Se você me quisesse fora de sua vida, você teria


assinado os papéis da anulação.
E eu sabia que era verdade. Ele estava certo. Se eu o
quisesse fora, eu teria assinado e deixado tudo isso para trás.

— Eu mudei de ideia, de qualquer maneira. Você não vai


a lugar nenhum, Sofia.

— Não até que você tenha a minha assinatura, você


quer dizer? Trouxe uma cópia em branco da papelada?

— Você está sendo estúpida.

— Não, eu acho que a palavra é ingênua. Você usou


essa uma vez também, não é? Você me lia o tempo todo. Eu
fui à tola ao cair nessa, na sua coisa de alma
torturada. Saia. É sério.

— Não.

— Dê o fora.

Ele inclinou a cabeça para o lado.

— Bem. Você quer que eu saia? Faça-me sair.

Eu estreitei meus olhos e fui em direção a ele. Com


ambas as mãos em seu peito duro, eu o empurrei para trás.

Só que ele não se moveu.

— Você vai ter que fazer melhor que isso.

— Foda-se.

— Isso é uma oferta?

Empurrei novamente. Mais uma vez, nada.

— Saia. Sério, — eu disse, mãos em punho em meus


lados.
— Como eu disse, me faça.

Ele me deu um sorriso arrogante. O que me lembrou de


quando eu o conheci. Aquele que dizia que não acreditava
que eu ousasse.

Bem, eu ousei, porra.

Com lágrimas nos meus olhos, eu afastei meu braço


para trás e lhe dei um tapa forte no rosto. Ele mal se
moveu. Seus olhos piscaram e sua cabeça virou um pouco,
mas o seu peito feito uma parede ainda ficou bem onde
estava, sem se mover, não permitindo que eu me movesse.

Por um momento, eu congelei. Esta não era a primeira


vez que eu o batia. E lembrei-me bem o que acontecera na
última vez.

Mas Raphael ficou parado, esperando por mim. À espera


de mais?

Eu poderia dar-lhe mais.

— Eu nunca tinha sido esbofeteada — eu disse,


afastando meu braço novamente, lembrando do meu avô me
batendo, preparando-me para atacá-lo novamente. — É uma
coisa muito pessoal, não é? — Eu disse, balançando. —
Humilhante.

Ele pegou meu pulso, e quando eu balancei o outro, ele


pegou aquele também e empurrou minhas costas contra a
parede, pressionando seu corpo no meu, esticando meus
braços sobre minha cabeça.

— Sim, é pessoal.
Ele esmagou seus lábios sobre os meus então parou
rapidamente para pegar ar.

— É muito malditamente pessoal.

Eu gemia, tentando me libertar, recusando-me a abrir a


boca, virando a cabeça.

— Foda-se.

Ele transferiu ambos os pulsos para uma mão e segurou


meu queixo com a outra, forçando-me a olhar para ele.

— Eu já te disse, eu te amo, — disse ele.

— É por isso que foi tão difícil desistir de mim.

Ele balançou a cabeça, em seguida, me beijou


novamente, moendo contra mim.

— Sua estúpida, garota estúpida.

— Me solte! Me solte ou eu vou gritar.

— Vá em frente e tente.

Ele me levantou do chão e me levou para o quarto, onde


ele me jogou na cama.

— Eu vou fazer isso.

— Eu disse vá em frente e tente.

Ele tirou a camisa e veio até mim, um joelho na cama,


me capturando enquanto eu corria para o outro lado. Uma
vez que ele me pegou, ele me arrastou em direção a ele. Fiz o
que eu disse que faria e abri a boca para gritar, mas ele
fechou a mão sobre ela, pairando sobre mim com aquele
sorriso arrogante, e rasgou meu vestido em dois.
— Da próxima vez que eu disser para você tirar a roupa,
você vai aprender a tirar.

Eu lutei com ele, mas ele só riu de minhas tentativas e


rasgou meu sutiã, expondo meus seios, em seguida, arrastou
minha calcinha para baixo e tirou.

— Eu senti falta de ver você nua, — disse ele, seu olhar


me examinando. — Senti falta de tocar em você.

Ele montou em mim com suas coxas, mantendo o seu


peso fora de mim, mas me prendendo. Ele se inclinou perto.

— Eu preciso te amordaçar?

Eu abri minha boca para gritar, mas ele abafou o som


quando seus lábios encontraram os meus.

— Eu acho que isso é um sim, — ele murmurou.

Ele apertou sua boca sobre a minha de novo e segurou


meus braços em meus lados, prendendo-me na cama. Depois
de um gostoso e longo beijo, ele se inclinou para trás.

— Agora fique quieta e ouça.

Tentei me mover, me libertar, mas era impossível. Parei


de lutar e olhei para ele.

— Você ao menos se incomodou de ler os papéis que eu


lhe enviei antes de rabiscar sua mensagem para mim?

Eu não li. Eu não pensei não havia qualquer


necessidade.

— Você leu?

Eu balancei minha cabeça.


— Se você tivesse, você teria visto que eu abri uma
conta bancária em seu nome. Que o dinheiro que o velho me
devia, seria transferido de volta para você. Eu não quero o
dinheiro, Sofia. Isso nunca foi sobre o dinheiro. Mas
porra. Isso nunca era para ser sobre o amor também.
Raphael
Ela finalmente se acalmou.

Porra. Eu não vim aqui para fodê-la. Eu não vim.

— Você ainda quer que eu te solte?

Ela balançou a cabeça.

Eu soltei seus pulsos e a joguei sobre seu ventre, então


a estiquei novamente, prendendo ela abaixo de mim.

— Eu te amo, — eu disse, estendendo a mão para pegar


o frasco de hidratante para mãos que ela tinha na mesinha
de cabeceira. — Mas você é uma dor na minha bunda. — Eu
levantei seus quadris, de modo que ela estava de joelhos. —
Não se levante, — eu disse a ela quando ela começou a se
levantar. Afastei os joelhos dela com os meus e peguei um
punhado de seus cabelos, empurrando seu rosto na cama. —
Bunda para cima, rosto para baixo. Entendido?

— Raphael...

Eu bati na sua bunda — não forte, mas o suficiente


para chamar sua atenção. Ela gritou e olhou para mim pelo
canto do olho.

— Entendido?

— Sim.

— Bom. — Eu soltei seu cabelo e abri o hidratante,


espremendo cerca de metade do tubo na parte inferior de
suas costas. — Agora, como eu disse, — eu comecei abrindo o
zíper do meu jeans, retirando-o junto com a minha cueca,
meu pau como o aço na expectativa do que estava por vir. Eu
não tive outra mulher desde Sofia, e fazia muito tempo que
não a fodia.

Eu espalhei suas nádegas e olhei para sua perfeita,


bunda virgem antes de deslizar meu pau em sua boceta.

Ela respirou fundo.

— Como eu disse. — Ela olhou para mim. — Você é uma


dor na minha bunda, então eu vou ser uma dor na sua.

Seus olhos se arregalaram quando ela registrou o


significado disso, e eu sorri, bombeando lentamente dentro e
fora de sua boceta enquanto passava hidratante por todo o
seu pequeno rabo apertado.

— Você não pode, — ela disse, fechando os olhos


novamente.

— Eu disse a você que a foderia em cada buraco, não


foi?

— Mas...

— Não se preocupe, eu me certificarei que você goze,


mas não até que eu esteja enterrado profundamente. — Eu
deslizei meu polegar no seu rabo enquanto eu disse, e ela
virou de costas, seus músculos apertando pela intrusão. —
Relaxe, você vai gostar. — Levou alguns minutos, mas ela
relaxou, lentamente, arqueando as costas novamente, me
deixando mover meu dedo dentro e fora dela enquanto eu
lentamente bombeava meu pau em sua boceta. Eu passei
mais hidratante na sua bunda, e quando ela estava tomando
dois dedos e gemendo, eu tirei o pau de sua boceta e segurei
seus quadris.

Ela endureceu instantaneamente, suas pálpebras se


abriram, e ela tentou afastar seus quadris.

— Sofia. — Apertei mais forte e bati na bunda dela


novamente para chamar sua atenção. — Eu vou foder sua
bunda agora. Relaxe. Olhe para mim, ok?

Ela assentiu.

Eu encostei a cabeça do meu pau em seu ânus,


espalhando mais hidratante, esfregando e empurrando até
que sua abertura esticou, me deixando entrar.

— Muito grande. — Ela tentou se afastar novamente.

— Shh.
Ela gemeu e eu empurrei um pouco mais.

— É isso aí. Relaxe. Porra, você é tão apertada.

— Isso dói.

— Você vai gostar. Eu prometo. — Eu tomei seu clitóris


entre meus dedos e esfreguei. Seus olhos se fecharam de
novo, e as costas arquearam. Eu empurrei um pouco mais,
bombeando dentro e fora lentamente. — Você é tão gostosa,
Sofia.

— Eu vou gozar, Raphael.

— Goze, amor. Deixe-me sentir você gozar.

Ela gozou, como se sob minha ordem, gemendo com


meu pau metade enfiado nela, meus dedos beliscando seu
clitóris, esfregando, fazendo-a gozar. Seu corpo relaxou, e eu
bombeava mais profundo. Tive que me esforçar para não
empurrar mais forte, querendo, precisando reivindicá-la, toda
ela. Precisando fazer ela minha.

— Você gosta do meu pau na sua bunda? — Perguntei,


bombeando um pouco mais forte, quase todo enfiado nela
agora. — Você vai me deixar gozar no seu rabo?

— Sim. Foda-me, Raphael...

Ela fechou os olhos, gozando de novo, e desta vez


quando ela gozou, eu tirei meu pau e enfiei mais forte. Ela
engasgou, arqueando as costas, empurrando seus quadris
contra mim.

— Com mais força, — ela conseguiu dizer, com as mãos


espalmadas sobre a cama, com o rosto enterrado nas
cobertas. — Quero com mais força.

Olhei para sua bunda, meu pau grosso entrando e


saindo dela, brilhando do hidratante, seu orgasmo
manchando as coxas dela e as minhas. Quando ela gritou
uma terceira vez, eu enfiei profundamente nela e acalmei,
meu pau latejando, enquanto eu gritei seu nome eu gozei
dentro dela, apertando seus quadris, sentindo o êxtase do
momento.

Fiquei abraçando Sofia, ela de costas para mim e, não


querendo dizer a ela o que eu tinha para lhe dizer.

— Você está bem? — Perguntei.

Ela assentiu.

— Como está Charlie?

— Ele sente sua falta. Ele dorme ao lado da porta como


se estivesse esperando você entrar.

Ela se virou para mim.

— Você realmente veio porque estava chateado com o


meu foda-se?

— Isso e outras coisas. — Eu não estava pronto para


falar sobre essas coisas ainda. — Sofia, você disse algo mais
cedo. Você disse que nunca tinha levado um tapa, o que me
faz pensar... — Fiz uma pausa, mudando a maneira como eu
fazia a pergunta. — O que você quis dizer?

Ela bufou, virando o rosto novamente para inclinar a


cabeça em mim.
— Depois que você saiu naquele dia no escritório, eu
confrontei meu avô sobre.... Bem, tudo. Para encurtar a
história, ele me chamou de prostituta e me deu um tapa.

Meu rosto ficou tenso e minhas mãos ficaram em


punhos quando a raiva me envolveu.

— Naquele dia no hospital depois do incêndio, quando


você voltou para o meu quarto, eu estava conversando com
Lina. Ela estava muito chateada, é por isso que ela estava
tentando me encontrar. Tudo o que você disse, Raphael, era
verdade. Tudo e mais um pouco. Ela encontrou um caderno,
um livro. Notas pessoais do meu avô, números de contas. Ele
roubou não apenas de nós, mas dos investidores
também. Milhões de dólares, Raphael.

Eu já sabia disso. Provavelmente em mais detalhes do


que ela soube. E eu não era o único. Eu estava feliz que ela
estava de costas para mim, não estando pronto para lhe dizer
o que eu vim lhe dizer. Não querendo estragar este momento.

— Eu disse a ele que eu queria a guarda de Lina, ou eu


levaria a verdade a público. O entregaria.

— Eu preciso falar com você sobre isso, na verdade. —


Momento estragado.

Ela sentou-se, com uma expressão séria.

— Seu avô foi levado sob custódia ontem, Sofia. Ele está
sendo extraditado para os Estados Unidos.

— O que?

— A prova que você ameaçou usar, bem, alguém a


encontrou. Assim que ele desembarcar na Filadélfia, ele será
formalmente acusado.

Voamos para a Filadélfia na manhã seguinte. Eu tinha


as malas de Sofia no carro e já tinha agendado o voo antes de
chegar a Veneza.

— Você não foi a Veneza por causa dos papéis da


anulação, não é? — Ela perguntou enquanto atravessávamos
os portões da casa de sua família.

— Não.

— O que vai acontecer agora?

— Eu não sei. As acusações contra seu avô são


contundentes. Se ele é inteligente, ele vai assinar um acordo
judicial, mas ele vai para a prisão. E ele terá que pagar de
volta o que ele roubou de investidores, de vocês.

Ela balançou a cabeça, forçando um sorriso em seu


rosto enquanto Lina abria a porta da frente e saía.

— Eu não me importo com o dinheiro. Não com o meu,


de qualquer maneira. Eu preciso ter certeza de que minha
irmã está bem.

Estacionamos e saímos. Os advogados já estavam


esperando por nós quando entramos. Sofia e Lina passaram
quinze minutos juntas antes dela sair sozinha. Eu esperava
lágrimas, mas em vez disso, seu rosto estava sério. Duro.

— Tudo bem? — Eu perguntei a ela fora das portas do


escritório.
— Estou bem. É a Lina que me preocupa.

— Ela não está se juntando a nós lá dentro?

— Não.

Entramos juntos no escritório. Sofia conhecia um dos


advogados pelo nome, Sr. Adams. Foi a ele quem eu enviara a
papelada da anulação. Ele apresentou os outros dois, e nos
sentamos.

— Eu arranjei um advogado criminal para Marcus, —


disse Adams. — Eu vou vê-lo mais tarde hoje, depois da
audiência de fiança.

— Será que ele vai ser liberado até o julgamento?

— É improvável, Sofia.

A sala ficou em silêncio até que Adams limpou a


garganta. Ele falou brevemente sobre as acusações que
Marcus estaria enfrentando, mas mais focado nos negócios
da vinícola.

— Todas as contas bancárias foram congeladas. Todo o


dinheiro será usado para pagar os investidores. — Ele olhou
pela sala. — A casa...

— E a casa?

— Também provavelmente será apreendida.

— Mas tem estado na minha família...

— Está tudo conectado à vinícola. Se fosse em seu


nome, ou da sua irmã...

— O que você quer dizer exatamente?


— Quer dizer que vocês vão ter que sair.

— O que? Mas o que acontece com o dinheiro do


seguro? Isso não vai pagar...

Ela parou quando Adams sacudiu a cabeça.

— Não. E qualquer dinheiro que sobrar vai para os


custos judiciais do seu avô. Tudo se foi, Sofia. Eu sinto
muito.

Sofia ficou muda. Fiquei de pé para apertar a mão dos


homens enquanto eles se saiam e os conduzi até a
porta. Quando voltei para o escritório, encontrei-a
exatamente no mesmo lugar.

— O que eu vou fazer? Como vou cuidar de Lina? E o


seu futuro?

— Você não está sozinha, Sofia. — Eu fiquei atrás de


sua cadeira, apertando seus ombros, então me movi para
pegar suas mãos. — Eu não vou deixar você fazer isso
sozinha.

— Mesmo o dinheiro que ele te prometeu...

— Para começar, ele nunca foi meu. — Fiz uma


pausa. — Sofia, sua irmã.... Foi ela que entregou as provas?

Ela olhou para mim, e ela levou um longo tempo para


responder.

— Não.

Essa foi à primeira mentira que Sofia me contou.


Sofia
A minha casa nunca pareceu casa para mim. Eu não
quero ficar aqui e não teria ficado se não fosse por Lina. Mas
ela era mais próxima de nosso avô que eu jamais fora. E
todas as lembranças dela são dessa casa.

Depois que o escândalo se tornou público, meu avô


aceitou o acordo judicial que lhe fora oferecido, o que
significava uma sentença de prisão reduzida ―eles levaram em
consideração sua idade‖ em troca de colaboração
completa. Ele manteve notas meticulosas, muito típico
dele. Além do caderno que Lina encontrou, havia três
outros. Pelo menos três que foram descobertos. Eu me
perguntei se havia mais. Se ele algum dia nos diria. A
propriedade na Itália foi leiloada, comprada
supreendentemente por Vincent Moriarty. Ele fez um bom
negócio. Era injusto, mas também estava acabado.

Eu vi meu avô durante seu julgamento. Eu assisti de


dentro do tribunal. Eu não fiz contato físico com ele. Vê-lo
daquele jeito, lá em cima parecendo menor, mais velho, eu
me perguntava se havia algo de errado comigo, porque depois
de tudo o que ele fez, depois de toda a destruição e dor que
ele causara, senti arrependimento e um sentimento de perda
que eu não esperava sentir. Talvez fosse por Lina. Eu não
sabia. Mas quando, antes de o levaram, ele se virou para
mim, eu não sorri. Eu não fui até ele. Eu só o assisti com
olhos tristes e resignados. A justiça estava sendo feita, tudo
se encaixando no seu devido lugar, quase tudo.

As coisas para Lina apenas começaram a se encaixar,


no entanto, quando ela entregou nosso avô.

Eu sabia que ela sentia esse fardo profundamente, e


embora compartilhássemos tudo, ela nunca falou sobre isso
depois da primeira vez, depois de me dizer que foi ela.

Raphael permaneceu durante todo o processo e não fez


exigências a mim. Nós não compartilhamos uma cama, e nós
não falamos sobre isso. Eu senti que ele se afastou cada vez
mais, enquanto eu passei muito tempo com Lina. Eu
precisava estar com a minha irmã. Ela estava sofrendo, e
agora, ela era o que importava.

Lina foi para a cama cedo na nossa última noite na


casa. O banco tomaria posse na parte da manhã. Raphael
não estava lá. Ele saiu, como ele parecia fazer quase todas as
noites. Eu entendi. Estar aqui era provavelmente um
infortúnio para ele. Maldição, era um infortúnio para
mim. Ele teve o luxo de sair. Além disso, eu ainda não sabia o
que aconteceria conosco. Mesmo depois de Veneza, agora,
agora que tudo acabou, eu não tinha certeza de que ele
gostaria de ficar. Se eu ficaria bem o deixando, não depois de
tudo o que acontecera com ele.

Eu não consegui dormir por horas, quando era cerca de


uma da manhã, eu desisti e decidi descer e me fazer uma
xícara de chá. A maioria dos móveis já havia desaparecido,
mas a mesa da cozinha com suas duas cadeiras
permanecia. Acendi a luz sobre o fogão e coloquei a chaleira
no fogo, contemplando o silêncio, a quietude de uma casa
vazia. Era quase assustador, mas de uma maneira, eu
também gostei. Eu gostei da calma, e eu gostei do escuro. Eu
me senti segura, como eu estivesse fora de vista. Como se
ninguém pudesse me ver aqui. Talvez tenha sido por causa de
toda a publicidade nas últimas semanas.

Quando a chaleira apitou, me aproximei para apagar a


trempe. Foi quando eu ouvi a chave deslizar na porta e,
assustada, olhei para cima e encontrei Raphael abrindo-a.

Ele me deu um sorriso estranho e entrou na casa.

Eu queria perguntar onde estivera, mas não conseguiria


fazer isso. Em vez disso, eu limpei minha garganta e voltei
minha atenção para o chá, abri o saquinho e coloquei na
caneca.

Raphael não falou. O ouvi abrir um armário e tirar um


copo, em seguida puxou uma cadeira e sentou-se à mesa
pequena.

— Déjà vu.

Virei-me para encará-lo. Ele empurrou a cadeira em


frente a ele com o pé.

— Sente.

Ele tinha uma garrafa de whisky e se serviu um


pouco. Seus olhos frios permaneceram fixados em mim. Eu
caminhei e me sentei. Ele inclinou a garrafa de uísque e
serviu um pouco no meu chá.

— Obrigada.

— Como você está? — Perguntou.

Dei de ombros e envolvi minhas mãos na caneca


fumegante antes de encontrar seu olhar.

— Eu ficarei bem. Obrigada por estar aqui. Eu estou


muito grata. Você não precisava...

— Claro que eu precisava. O que você pensou, que eu


viraria as costas quando as coisas ficassem feias?

Eu olhei para a minha caneca.

— Eu ainda te deixo nervosa? — Perguntou.

Quando eu olhei para ele, vi que ele tinha aquele olhar


arrogante em seus olhos.

— Você não me assusta. Não mais, Raphael.

— Não?

Eu balancei minha cabeça.

— Talvez eu devesse me esforçar mais.

Eu não estava com disposição para rir.

— Onde você estava? Onde você vai à noite?


— Nenhum lugar em especial.

— Que tipo de resposta é essa?

— Que tipo você quer?

— O tipo verdadeiro.

— Não menti.

— Você também não me disse nada.

— O que você quer saber? Exatamente?

Ele sabia o que eu queria saber. Ele só queria me


obrigar a dizer isso. Tomei um gole demorado do chá com
whisky, fechando bem meus olhos enquanto ele queimava na
minha garganta.

— Cuidado. Você bebe muito rápido, e eu vou ter que


colocá-la na cama novamente.

Um sorriso sujo iluminou seu rosto.

— Bem, eu não gostaria de te ocupar. Você


provavelmente já esteve ocupado esta noite, colocando
alguém na cama. — Eu não quis parecer tão irritada quanto
pareci.

— Ah. — Ele terminou sua bebida e serviu outra. — A


verdade.

— Eu nunca menti para você.

— Você mentiu uma vez.

— Quando?

— Você mentiu para proteger sua irmã.


Senti meu rosto esquentar. Como ele sabia?

— Eu não coloquei ninguém na cama desde que


estivemos juntos, — disse ele arrogantemente.

— Oh.

— Você realmente pensou o contrário?

— Eu não sei o que pensar. Você não precisa mais ficar


casado comigo. Sou só mais uma responsabilidade para você
agora.

— Eu penso em você como um ser humano, não como


uma responsabilidade.

— Mas eu não tenho mais nada.

— Humana. Não sinta pena de si mesma, Sofia. Merda


aconteceu com você. Você sobreviveu, e agora você vai
avançar. Bem-vinda a vida.

— Não me enche.

Seu rosto mudou, endurecendo um pouco.

— Tenha cuidado, querida.

Querida. Deus, eu adorava quando ele me chamava de


querida.

— Eu não estou sentindo pena de mim mesma.

— Então faça as perguntas que você quer fazer, e não se


esconda atrás de seu medo.

— O que vai acontecer conosco? — Eu disparei.

— Aí está. Veja, não é tão difícil, é?


Eu balancei a cabeça e empurrei minha cadeira para
trás.

— É tão fácil de tirar sarro de mim, não é? Você gosta de


brincar comigo? Você se diverte tanto assim? Pensei que já
estivesse cansado disso.

— Sente-se, e não seja dramática.

— Você sabe o que? Este é um momento dramático na


minha vida. Desculpe se é chato para você.

— Cristo. Sente-se, Sofia.

— Eu vou para a cama. — Fui até a porta.

— Não, você não vai.

Sua cadeira raspou no chão, e assim que eu cheguei à


porta, ele pegou meu braço. Ele me virou. Eu colidi com seu
peito e saltei, e teria caído se ele não tivesse me segurado.

— Você é tão boa em fugir, não é? Você apenas sai e vai


embora quando lhe convém. Quando as coisas ficam
difíceis. Vamos ver, esta é a terceira vez agora. Primeiro,
houve a sua viagem para a vinícola, depois foi Veneza, e
agora isso.

— Eu não estava fugindo de você. Não quando fui para


Veneza. E você deixou bem claro que não me queria quando
eu fui para a vinícola.

— E eu não deixei bem claro para você que estava


errado quando eu fui atrás de você?

— Você nunca disse isso, Raphael.


— As ações não importam para você? Será que o fato de
eu ter vindo atrás de você todas às vezes não prova nada para
você? O fato de eu estar aqui, ainda assim, depois de
tudo? Com toda certeza importa para mim, porra.

Eu parei de lutar e inclinei minha cabeça, encostando


minha testa contra seu peito.

— Sofia, eu te amo. Quantas vezes eu tenho que dizer


isso até que você acredite?

Eu olhei para ele, seu olhar me controlando, me


sustentando, ainda mais poderosamente do que as mãos me
seguravam fisicamente.

— Como eu posso tornar isso mais óbvio?

Ele nos guiou até que minhas costas bateram na


parede.

— Você sabe o que eu mais quero fazer agora?

Ele me levantou, inclinando minhas pernas para que eu


as envolvesse nele.

— O que eu mais quero fazer agora...

Ele abriu sua calça jeans, sem perder o contato visual


comigo, empurrou a camisola que eu usava até minha
cintura, e afastou minha calcinha.

— É foder você contra esta parede.

Como se para fazer o seu ponto, ele fez exatamente isso,


empurrando seu comprimento grosso dentro de mim, me
fazendo ofegar enquanto ele afundava rapidamente.
— Eu quero te foder tão duro, que você vai gritar meu
nome e acordar a maldita vizinhança.

Cravei minhas unhas em seus ombros, respirando


muito rápido, enquanto ele bombeava antes de me levar até a
mesa e me colocar sobre ela. Ele rasgou minha calcinha e
afastou meus joelhos. Com um impulso duro, ele afundou
dentro de mim e colocou as mãos em cada lado do meu rosto.

— Eu quero tanto te foder que dói, Sofia. Eu quero que


você me sinta por dias. Eu quero que você saiba que você
pertence a mim. Você sempre pertencerá a mim.

— Raphael.

Mas ele não me deixou puxá-lo para mim. Em vez disso,


ele agarrou minhas coxas e as afastou dolorosamente.

— Não. Sinta isso. Me sinta. Você é muito teimosa para


foder suavemente. Você precisa de rápido e duro, não é?

Ele se movia de forma diferente agora, minha boceta tão


molhada, que ele deslizou dentro e fora facilmente.

— É isso?

O sorriso arrogante estava de volta em seu rosto.

— Você gosta duro?

— Sim.

— Essa é uma boa menina, — disse ele. —


Verdade. Sempre a verdade.

Ele tirou de mim.

— Não, — eu gemia, olhando para seu pau grosso


molhado com a minha excitação.

Ele agarrou meu cabelo e me arrastou até meus joelhos.

— De joelhos, Sofia. Chupe meu pau. E chupe direito se


você quiser dentro de você novamente.

Ele não me deu um momento para pensar, para reagir,


nem um único segundo. Em vez disso, com a mão segurando
meu cabelo, ele deslizou na minha boca disposta,
empurrando dentro e fora rápido e duro. Fiel à sua palavra,
ele queria que eu o sentisse, para saber que ele me
pertence. Saber que ele gosta com um pouco de dor.

— Eu deveria gozar por todo o seu rostinho bonito.

Em vez disso, porém, ele tirou da minha boca e me


colocou de pé. Ele reclamou minha boca, gemendo enquanto
ele me beijava, sua língua dentro, uma mão no meu cabelo, o
outra amassando minha bunda.

Ele se afastou e, sem nunca tirar os olhos dos meus,


rasgou a minha camisola.

— Você precisa ficar nua mais vezes.

Ele olhou para mim, inclinando-se para que ele pudesse


colocar a boca em um mamilo, depois o outro, chupando com
força, pegando cada mamilo com os dentes.

— Eu preciso de você dentro de mim, — eu consegui


dizer, alcançando-o, puxando-o para mim. — Por favor.

Ele se endireitou, sorrindo, e me inclinou sobre a


mesa. Agarrando meus quadris com ambas as mãos, ele me
abriu e deslizou seu pau na minha boceta e seu dedo na
minha bunda.

— Foda-me, Raphael. Duro. Me faça gozar.

Ele fez. Sem mais palavras, só fodeu. Apenas me


fodendo e possuindo me machucando um pouco, tão gostoso,
porra. Ele inchou dentro de mim, e quando ele envolveu uma
mão na minha nuca e apertou, eu gozei. Eu gozei tão forte
que, quando fechei meus olhos, vi estrelas, e quando ele
apertou mais forte, eu pensei que eu iria morrer, eu parei de
respirar, pensei que eu nunca seria capaz de recuperar o
fôlego novamente.

Nós deslizamos para o chão juntos, Raphael embalando-


me em seus braços, segurando-me contra ele, minha cabeça
descansando contra seu peito. Nossa respiração desacelerou
com o tempo, mas quando eu tentei me mover, ele não me
deixou. Ele apenas me segurou contra ele, e eu o agarrei
apertado, fechei os olhos, e virei meu rosto em seu peito.

— Isso deixou claro o suficiente que eu te quero? — Ele


perguntou eventualmente.

— Ficou claro o suficiente que eu quero você? —


Perguntei de volta.

Ele me carregou para cima até meu antigo quarto, onde


ele estava dormindo. Lá, ele me deitou na cama e deitou-se ao
meu lado, me segurando contra ele como na primeira noite
que nós dormimos juntos, apenas dormimos juntos, depois
que eu o encontrei naquele porão. Ele me segurou como se
ele não fosse me deixar, e eu sabia que nunca seria capaz de
deixá-lo.
Raphael

Primavera, Um Ano Depois

Ela nunca assinou os papéis da anulação. Minha


teimosa e linda esposa.

Eu estava bebendo café na janela da cozinha,


observando Sofia falar com um dos trabalhadores. Charlie,
completamente crescido e pesando mais de trinta e cinco
quilos, nunca deixava seu lado.

Voltamos para a Toscana alguns dias depois que o


banco tomou posse da casa na Filadélfia. Lina veio conosco e
estaria começando seu último ano em uma escola de
Florença voltada para músicos talentosos.

Graças à ganância de seu avô, Sofia e Lina perderam


tudo. A Vinícola Guardia não existia mais, a não ser como um
exemplo de corrupção e destruição.

Lina nunca falou sobre isso. Ela raramente mencionava


seu avô. Sofia estava preocupada, mas a Itália fez bem a
ela. Ela a afastou de tudo, do passado, da publicidade, deu-
lhe o anonimato novamente, e espero que lhe dê um novo
começo.
Eu terminei o meu café e coloquei a caneca na pia antes
de sair. Sofia acenou quando me viu aproximar-me.

Nós tínhamos replantado o vinhedo. O chão ficou rico


após o incêndio, e embora levasse alguns anos até que as
vinhas produzissem uvas para vinho, elas produziriam.
Iríamos restabelecer a Vinícola Villa Bellini como era antes da
minha mãe. Eu já encomendei e pendurei à nova placa sobre
os portões, e, pela primeira vez em muito tempo, me senti
animado. Senti como se eu tivesse algo para olhar para
frente. Um futuro.

Sofia me encontrou no meio do caminho, Charlie nos


seus calcanhares.

— Você saiu da cama cedo, — eu disse, puxando-a para


um abraço e beijando-a. Isso era outra coisa. Eu poderia
dormir novamente. E parecia que eu estava recuperando anos
perdidos.

— É você quem dorme como os mortos nos dias de hoje.

— E sábado. Pensei que poderíamos passar a manhã na


cama.

— Você quer passar todas as manhãs na cama.

— Isso é culpa sua, querida, — eu disse, agarrando sua


bunda.

Caminhamos em direção à capela, Sofia parecendo um


pouco quieta demais.

— Você está bem? — Eu tive a sensação que eu sabia o


que estava por vir.
— Lina decidiu voltar para os Estados Unidos após a
formatura, mas ela quer tirar um ano de férias antes de
continuar seus estudos.

— Isso é bom. Ela é jovem. E ela provavelmente precisa


de espaço, honestamente.

— Ela não está nem indo para a audição, Raphael.

Eu sabia. Ela me disse antes de ter dito a Sofia, sabendo


que sua irmã ficaria decepcionada.

— Ela vai conseguir outra. — Com uma recomendação


de seu professor de piano, ela garantiu uma audição em uma
escola de música de prestígio.

— Ela vai sentir falta dessa oportunidade. Esta é uma


bolsa de estudos integral.

— Dê-lhe espaço. Ela vai ficar bem.

Ela parou quando nos aproximávamos da capela.

— Você sabia, não é?

Eu olhei para ela. Verdade. Sempre verdade. Eu não


mentiria para ela nunca mais.

— Sim.

Ela soltou minha mão e se afastou, balançando a


cabeça.

— Sofia. — Eu a segui para dentro.

— Ela confia mais em você do que em mim.

Eu a peguei e a virei para me encarar.

— Não. Ela estava apenas pedindo a minha opinião


antes de falar com você.

Segui seu olhar pela capela, que Damon e eu tínhamos


quase completamente restaurado. Damon. Isso era outra
coisa. Ele ficou mais distante no último ano.

— Eu sou tão ruim assim? — Ela perguntou, sentando-


se no último banco.

— Você é ótima. Ela ama você e não quer feri-la, mas


esta é a vida dela, e você precisa deixá-la ir. Lembre-se do
que você me disse uma vez.

— Se você deixar o passado ir, talvez ele vá deixá-lo


ir. Essas palavras nunca param de me perseguir?

— Talvez seja isso que ela precise agora. Sua culpa por
entregar as evidências...

— Ela não deveria se sentir culpada. O meu avô é o


único que deve ter qualquer remorso.

— Bem, a vida não é justa, não é? Eu pensei que você


viu até agora.

Ela encolheu os ombros.

— Eu tenho algo para você. — Enfiei a mão no bolso e


tirei uma pequena caixa.

Ela olhou para ela, então estendeu a mão para tocá-la


hesitantemente.

— O que é isso?

Seus olhos já estavam enevoados quando encontraram


com os meus. Ela sabia.
— Nosso casamento, apesar de bonito, ele não estava
certo.

Ela piscou e baixou os cílios momentaneamente.

— E você é teimosa demais para assinar os papéis da


anulação.

— Eu quero ser casada com você, estúpido.

Abri a caixa, olhei para dentro e, sorrindo, virei-a para


ela.

Ela ofegou, sua mão se movendo para sua boca.

— Não há mais anel de espinhos. — Dentro havia uma


bela aliança de platina com um diamante solitário no centro.

Ela jogou os braços em volta de mim, suas lágrimas


molhando em meu rosto enquanto ela me abraçava.

— É lindo. É tão bonito.

— Eu quero fazer isso direito, — eu disse, segurando-a,


puxando-a de volta para enxugar suas lágrimas. — Aqui. Nós
vamos fazer isso aqui. Apenas família. Falaremos nossos
votos corretamente e faremos isso direito. — Eu tirei o anel
da caixa e olhei para ela.

Ela estendeu a mão esquerda, e eu tirei a aliança


original do casamento e a substitui pela nova.

Era isso. Esta era a minha lousa em branco, o meu


recomeço. Nosso recomeço. O anel de ferro preto substituído
por brilhantes, platina brilhante. Da escuridão para a
luz. Sofia e eu juntos, de alguma forma mudamo-nos da
escuridão para a luz.
— Quer se casar comigo de novo, querida? — Eu
perguntei, minha visão ficou embaçada quando eu olhei para
ela.

— Eu quero. Eu me casaria com você de novo uma


centena de vezes.

A história de Damon e Lina será contada


no livro