Você está na página 1de 43

CONSTITUCIONALISMO BRASILEIRO

FASE COLONIAL·

1. Capitanias hereditárias

Em 1530 chega ao Brasil a primeira expedição colonizadora, chefiada por Martim


Afonso de Sousa. Foi-lhe concedido plenos poderes, tanto judiciais quanto policiais;
assim como aos donatários das capitanias hereditárias, que também gozavam dos
mesmos poderes.

A colonização do Brasil começou efetivamente pela organização das capitanias


hereditárias, sistema que consistiu na divisão do território colonial em doze porções
irregulares, todas confrontando com o oceano, e sua doação a particulares (escolhidos
entre a “melhor gente”), que estivessem decididos a morar no Brasil e fossem
suficientemente ricos para colonizá-lo e defendê-lo.

Das doze capitanias, poucas prosperaram, mas serviram para criar núcleos de
povoamento dispersos e quase sem contato uns com os outros, contribuindo para a
formação de centros de interesses econômicos e sociais diferenciados nas várias regiões
do território da colônia, que veio a repercutir na estruturação do futuro Estado
brasileiro.

As capitanias eram organizações sem qualquer vínculo umas com as outras. Seus
titulares - os donatários - dispunham de poderes quase absolutos. Afinal de contas, elas
constituíam seus domínios, onde exerciam seu governo com jurisdição cível e criminal,
embora o fizessem por ouvidores de sua nomeação e juízes eleitos pelas vilas. A
dispersão do poder político e administrativo era assim completa, sem elo que permitisse
qualquer interpenetração, salvo apenas a fonte comum: a metrópole.

2. Governadores-gerais

Em 1549, institui-se o sistema de governadores-gerais. Introduz-se, com isso, um


elemento unitário na organização colonial, coexistente com as capitanias diversificadas.
O primeiro governador nomeado - Tomé de Sousa - vem munido de um documento de
grande Importância: o Regimento do Governador-Geral.

Os regimentos dos governadores-gerais têm, de fato, a maior importância para a história


administrativa do país: antecipavam-se às cartas políticas, pelo menos na delimitação
das funções e no respeito exigido das leis e privilégios, atenuando o arbítrio, fixando a
ordem jurídica. Foram eles, pois, cartas organizatórias do regime colonial que conferiam
ao governador-geral poderes atinentes ao "governo político" e ao "governo militar" da
colônia. Em torno desse órgão central agrupavam-se outros órgãos elementares e
essenciais à administração: o “ouvidor-mor”, encarregado geral dos negócios da justiça;
o “procurador da fazenda”, encarregado pelas questões e interesses do fisco real; o
“capitão-mor da costa”, com a função da defesa do vasto litoral, infestado de
flibusteiros [piratas].
O Desembargador Pero Borges veio ao Brasil para desempenhar a função de
administrador da Justiça, no cargo de Ouvidor-Geral.

Cada capitania tinha um Ouvidor da Comarca, que solucionava as pendengas jurídicas


nas vilas. Caso alguém se sentisse prejudicado com alguma decisão do Ouvidor da
Comarca, poderia recorrer ao Ouvidor-Geral, que ficava na Bahia.

Devido à complexidade e especificidades das funções judiciais da época (as funções


judiciais confundiam-se com as funções administrativas e também com as funções
policiais) haviam outros responsáveis pela efetivação das atividades jurisdicionais nas
comarcas: chanceleres, contadores e vereadores, que formavam os Conselhos ou
Câmaras Municipais. Na Bahia surgiram os Juízes do Povo, que eram eleitos pela
população.

Com a expansão do reino pela reconquista do território da península ibérica aos mouros,
e a uniformização das normas legais, consolidadas nas Ordenações do Reino (Afonsinas
de 1480, Manoelinas de 1520 e Filipinas de 1603), foram surgindo outras figuras para
exercerem a função judicante e aplicarem as diversas formas normativas:

a. Juízes da Terra (ou juízes ordinários) – eleitos pela comunidade, não sendo
letrados, que apreciavam as causas em que se aplicavam os forais, isto é, o
direito local, e cuja jurisdição era simbolizada pelo bastão vermelho que
empunhavam (2 por cidade).

b. Juízes de Fora (figura criada em 1352) – nomeados pelo rei dentre bacharéis
letrados, com a finalidade de serem o suporte do rei nas localidades, garantindo
a aplicação das ordenações gerais do Reino.

c. Juízes de Órfãos – com a função de serem guardiões dos órfãos e das heranças,
solucionando as questões sucessórias a eles ligados.

d. Provedores – colocados acima dos juízes de órfãos, para o cuidado geral dos
órfãos, instituições de caridade (hospitais e irmandades) e legitimação de
testamentos (feitos, naquela época, verbalmente, o que gerava muitos
problemas).

e. Corregedores – nomeados pelo rei, com função primordialmente investigatória e


recursal, inspecionando, em visitas às cidades e vilas que integravam sua
comarca, como se dava a administração da Justiça, julgando as causas em que os
próprios juízes estivessem implicados.

f. Desembargadores - magistrados de 2ª instância, que apreciavam as apelações e


os recursos de suplicação (para obter a clemência real). Recebiam tal nome
porque despachavam ("desembargavam") diretamente com o rei as petições
formuladas pelos particulares em questões de graça e de justiça, preparando e
executando as decisões régias. Aos poucos, os reis foram lhes conferindo
autoridade para tomar, em seu nome, as decisões sobre tais matérias, passando a
constituir o Desembargo do Paço.
3. Fragmentação e dispersão do poder político na colônia

O sistema unitário, inaugurado com Tomé de Sousa, rompe-se em 1572, instituindo-se o


duplo governo da colônia, que retoma a unidade cinco anos depois. Em 1621, é a
colônia dividida em dois "Estados": o Estado do Brasil, compreendendo todas as
capitanias, que se estendiam desde o Rio Grande do Norte até São Vicente, ao sul; e o
Estado do Maranhão, abarcando as capitanias do Ceará ate o extremo norte. Sob o
impulso de fatores e interesses econômicos, sociais e geográficos, esses dois "Estados"
fragmentam-se e surgem novos centros autônomos subordinados a poderes político-
administrativos regionais e locais efetivos. As próprias capitanias se subdividem
tangidas por novos interesses econômicos, que se vão formando na evolução colonial.

Assim, por exemplo, Piauí erige-se em capitania independente do Maranhão; Minas


destaca-se de São Paulo; Rio Grande do Sul torna-se capitania etc.

Enfim, o governo geral divide-se em governos regionais (Estado do Maranhão e Estado


do Brasil), e estes, em várias capitanias gerais, subordinando capitanias secundárias,
que, por sua vez, pouco a pouco, também se libertam das suas metrópoles, erigindo-se
em capitanias autônomas. Cada capitania divide-se em comarcas, em distritos e em
termos.

Em cada um desses centros administrativos, o capitão-general distribui os


representantes da sua autoridade aos órgãos locais do governo geral. Estes centros de
autoridade local, subordinados, em tese, ao governo-geral da capitania, acabam, porém,
tornando-se praticamente autônomos, perfeitamente independentes do poder central,
encarnado na alta autoridade do capitão-general. Formam-se governículos locais,
representados pela autoridade todo-poderosa dos capitães-mores das aldeias.

4. Efeitos futuros

Nesse sumário, já se vê delinear a estrutura do Estado brasileiro que iria constituir-se


com a Independência. Especialmente, notamos que, na dispersão do poder político
durante a colônia e na formação de centros efetivos de poder locais, se encontram os
fatores reais do poder, que darão a característica básica da organização política do Brasil
na fase imperial e nos primeiros tempos da fase republicana, e ainda não de todo
desaparecida: a formação coronelística oligárquica.

FASE MONÁRQUICA

1. Brasil: Reino Unido a Portugal

A fase monárquica inicia-se, de fato, com a chegada de D. João VI ao Brasil em 1808, e


vai-se efetivando aos poucos. Instalada a corte no Rio de Janeiro, só isso já importa em
mudança do status colonial.

Em 1815, o Brasil é elevado, pela lei de 16 de dezembro, à categoria de Reino Unido a


Portugal, pondo em consequência fim ao Sistema Colonial, e monopólio da Metrópole.
Um passo à frente foi a proclamação da Independência a 7.9.1822, da qual surgiu o
Estado brasileiro sob a forma de governo imperial, que perdurou até 15.11.1889.

Transferida a sede da Família Reinante para o Rio de Janeiro, era preciso instalar as
repartições, os tribunais e as comodidades necessárias à organização do governo;
cumpria estabelecer a ordem, com a polícia, a justiça superior, os órgãos
administrativos, que tinham até aí faltado à colônia. Assim se fez a partir de 1º de abril.

Mas essa organização de poder não teve efetiva atuação além dos limites do Rio de
Janeiro. Pouca influência exerceu no interior do país, onde a fragmentação e
diferenciação do poder real e efetivo perduravam, sedimentadas nos três séculos da vida
colonial. Nem se poderia mudar, da noite para o dia, essa relação de poder que estava
em consonância com a realidade existente, que apresentava um povo disseminado por
um amplíssimo território, formando, socialmente, um conjunto ainda incoerente de
núcleos humanos, ganglionarmente distribuídos pela orla de um litoral vastíssimo e
pelos campos e sertões do interior; e um amontoado de quase vinte capitanias dispersas,
muitas delas com uma tradição mais que secular de autonomia e independência.

2. Influência das novas teorias políticas e o movimento constitucional

Mas aqui já se constituíra uma nobreza brasileira assentada sobre a base dos grandes
latifúndios, numerosa, rica, orgulhosa, esclarecida pelas ideias novas, que revolucionam
os centros cultos do Rio e de Pernambuco, bem como uma aristocracia intelectual,
graduada na sua maioria pelas universidades europeias, especialmente a Universidade
de Coimbra, que haverá de influir na formação política desses primeiros tempos.
Tempos esses que coincidem com o aparecimento de um novo fator, um novo
modificador da estrutura politica, que são as novas teorias políticas que então agitavam
e renovavam, desde os seus fundamentos, o mundo europeu: o Liberalismo, o
Parlamentarismo, o Constitucionalismo, o Federalismo, a Democracia, a República.

Tudo isso justifica o aparecimento do movimento constitucional, no Brasil, ainda


quando D. João VI mantinha a sua corte no Rio de Janeiro.

3. A Independência e o problema da unidade nacional

Proclamada a Independência, o problema da unidade nacional impõe-se como o


primeiro ponto a ser resolvido pelos organizadores das novas instituições. A consecução
desse objetivo dependia da estruturação de um poder centralizador e uma organização
nacional que freassem e até demolissem os poderes regionais e locais, que efetivamente
dominavam no país, sem deixar de adotar alguns dos princípios básicos da teoria
política em moda na época.

O constitucionalismo era o princípio fundamental dessa teoria, e realizar-se-ia por uma


constituição escrita, em que se consubstanciasse o liberalismo, assegurado por uma
declaração constitucional dos direitos do homem e um mecanismo de divisão de
poderes, de acordo com o postulado do art. 16 da Declaração dos Direitos do Homem e
do Cidadão de 1789, segundo o qual não tem constituição a sociedade onde não é
assegurada a garantia dos direitos nem determinada a separação dos poderes.
4. Os primórdios e a Carta Imperial de 1824

A evolução constitucional brasileira, embora sua origem possa ser reconduzida ao


período colonial, inicia com a independência, marcando o desenvolvimento político-
institucional do Brasil como Estado e nação politicamente independente.

O sistema foi estruturado pela Constituição Política do Império do Brasil de 25.3.1824.


Declara, de início, que o Império do Brasil é a associação política de todos os cidadãos
brasileiros, que formam uma nação livre e independente que não admite, com qualquer
outro, laço de união ou federação, que se oponha à sua independência (art. 1 º).

Marcada pelo contexto eminentemente liberal-burguês, mas especialmente impregnada


pela matriz constitucional francesa, a primeira Assembleia Constituinte do Brasil, sob a
presidência do Bispo Capelão-Mor, D. José Caetano da Silva Coutinho, e com a
participação decisiva do assim chamado “artífice da independência”, José Bonifácio de
Andrada e Silva, foi instalada em 3 de maio de 1823, transcorrido menos de um ano da
declaração da independência por Dom Pedro I — muito embora a convocação para a
realização das eleições para a Assembleia Constituinte, convém registrar, tenha ocorrido
ainda antes da declaração de independência, mediante decreto expedido em 03.06.1822.

O ufanismo democrático-liberal, contudo, logo foi freado pelo autoritarismo que ainda
marcava a vida político-institucional, resultando na dissolução da Assembleia
Constituinte pelo Imperador D. Pedro I (em 12.11.1823), que desconfiava do projeto de
racionalização e limitação dos seus poderes imperiais, seguida da convocação, com a
tarefa de elaborar um projeto de constituição, de um Conselho de Estado integrado por
dez membros nomeados pelo Imperador, que então resultou na outorga do primeiro
texto constitucional brasileiro, a Constituição do Império do Brasil, “oferecida e jurada”
por Sua Majestade o Imperador, em 25 de março de 1824, instituindo um governo
monárquico, constitucional e representativo.

O princípio da divisão e harmonia dos poderes políticos foi


adotado como "princípio conservador dos direitos dos cidadãos, e
o mais seguro meio de fazer efetivas as garantias que a
Constituição oferece" (art. 9º), mas segundo a formulação
quadripartita de Benjamin Constant: Poder Legislativo, Poder
Moderador, Poder Executivo e Poder Judiciário (art. 10).

O Poder Legislativo era exercido pela assembleia geral, composta


de duas câmaras: a dos deputados, eletiva e temporária, e a dos
senadores, integrada de membros vitalícios nomeados pelo
Imperador dentre componentes de uma lista tríplice eleita por
província (arts. 13, 35, 40 e 43). A eleição era indireta e
censitária.

O Poder Moderador, considerado a chave de toda a organização


política, era exercido privativamente pelo Imperador, como chefe
supremo da nação e seu primeiro representante, para que
incessantemente velasse sobre a manutenção da independência,
equilíbrio e harmonia dos demais poderes políticos (art. 98).
O Poder Executivo, exercido pelos ministros de Estado, tinha
como chefe também o Imperador (art. 102).

O Poder Judiciário, independente, era composto de juízes e


jurados (art. 151).

No art. 179, a Constituição trazia uma declaração de direitos


individuais e garantias que, nos seus fundamentos, permaneceu
nas constituições posteriores.

Consoante registra José Antônio Pimenta Bueno, tratava-se de uma Constituição que
delegava ao Imperador o exercício precípuo do controle de todos os demais poderes,
tanto sobre o seu exercício próprio, quanto sobre suas relações recíprocas, por meio do
chamado Poder Moderador, o órgão político mais ativo e influente do Império.

Com efeito, a criação, pela Carta Imperial, do Poder Moderador, como um quarto poder
no âmbito do esquema de separação dos poderes preconizado pelo ideário iluminista,
resultou de uma desvirtuada interpretação da teoria de Benjamin Constant, cuidando-se,
no que diz com o exercício do poder político, seguramente do elemento distintivo da
primeira ordem constitucional brasileira. Disciplinado nos arts. 98 a 101 da Constituição
Imperial, no âmbito do Poder Moderador foram atribuídas competências ao Imperador
que caracterizaram um modelo político centralizado, permitindo que o monarca pudesse
intervir fortemente na esfera dos demais poderes estatais.

Para ilustrar tal circunstância, bastaria aqui colacionar alguns exemplos. Com efeito,
cabia ao Imperador a competência exclusiva de nomear os senadores, a possibilidade de
convocar, em caráter extraordinário, a Assembleia Geral, a aprovação e suspensão
interina das resoluções dos Conselhos Provinciais, a dissolução da Câmara dos
Deputados, a suspensão dos magistrados por queixas feitas contra eles (embora após
prévia audiência e ouvido o Conselho de Estado), além da prerrogativa de perdoar e
moderar as penas impostas aos réus condenados por sentença, assim como a concessão
de anistia em caso de urgência.

Foi apenas por ocasião do período regencial que a Constituição começou a se legitimar
materialmente, como texto constitucional que concedia liberdades e limitava poderes,
mais especificamente a partir da abdicação do Imperador, em 7 de abril de 1831, e da
institucionalização da primeira reforma constitucional, levada a efeito pelo ato adicional
veiculado pela Lei 16, de 12.08.1834. Tal reforma constitucional, impulsionada pela
Câmara dos Deputados, representante do pensamento liberal da época, trouxe avanços
significativos, como a extinção do Conselho de Estado, a institucionalização da
Regência Una e a criação das Assembleias Legislativas Provinciais, consideravelmente
autônomas para a conjuntura política da época.

Nada obstante, com o advento da chamada “Lei de Interpretação”, de 12 de maio de


1840, o conteúdo liberal das reformas foi corrigido, retrocedendo em prol das forças
reacionárias do Império, especialmente mediante a restrição significativa dos poderes
das Câmaras Provinciais.

No que diz com os seus traços essenciais, para além da instituição do já referido Poder
Moderador e da respectiva centralização do poder político nas mãos do monarca, a
Constituição de 1824 apresentava a particularidade (única na história constitucional
brasileira) de ser uma constituição do tipo semirrígido (ou semiflexível), visto que
definia em que consistia a matéria constitucional propriamente dita, sujeita a um
processo mais rigoroso de alteração (mediante o estabelecimento de limites formais à
reforma constitucional), ao passo que o restante do texto poderia ser alterado por meio
do processo legislativo ordinário. Com efeito, de acordo com o teor literal do art. 178,
“é só Constitucional o que diz respeito aos limites, e atribuições respectivas dos Poderes
Políticos, e aos Direitos Políticos, e individuais dos Cidadãos. Tudo o que não é
Constitucional, pode ser alterado sem as formalidades referidas, pelas Legislaturas
ordinárias”.

O controle de constitucionalidade das leis, por sua vez, era eminentemente político,
tendo sido conferido ao Poder Legislativo, a que, de resto, incumbia também a
prerrogativa de interpretar as leis. Nota-se, portanto, que no concernente à organização
dos poderes, a Carta Imperial aderiu ao modelo constitucional francês revolucionário,
extremamente cauteloso (e mesmo resistente) em relação ao poder dos juízes, que, em
geral, deveriam se limitar a atuar como a “boca da lei”, de acordo com a visão
privilegiada por Montesquieu. A posição do Poder Judiciário no âmbito da arquitetura
político-institucional era, portanto, bastante distinta daquela que vinha sendo
engendrada na esfera do constitucionalismo norte-americano (especialmente quando a
Suprema Corte assumiu a prerrogativa do controle de constitucionalidade das leis),
situação que veio a ser superada (ainda assim de modo gradual) apenas a contar da
proclamação da República.

Outra importante característica a ser registrada é a de que a despeito de ter sido


outorgada, a Carta Imperial de 1824 contemplava um elenco significativo de direitos e
garantias individuais, designadamente nos incisos do art. 179. Embora o foco nos
direitos civis e políticos, típico do constitucionalismo liberal, o texto constitucional, a
exemplo da fugaz experiência francesa, continha direitos sociais, como dão conta os
exemplos do direito aos socorros públicos (assistência social em saúde), da instrução
primária gratuita a todos os cidadãos, assim como dos colégios e universidades para o
ensino das ciências, belas-artes e letras, respectivamente disciplinados nos incs. XXXI,
XXXII e XXXIII do art. 179 do Título 8.º da Constituição Imperial.

É preciso assinalar que a Constituição Imperial de 1824 tinha o caráter confessional, de


modo que estabelecia em seu artigo 5º a religião Católica Apostólica Romana como
religião oficial do Império, e as demais religiões apenas o direito de culto doméstico, ou
particular em locais com esta destinação, que não poderiam ter aparência exterior de
templo. Como pode ser observado na transcrição abaixo do referido artigo:

“Art. 5º. A religião Católica Apostólica Romana continuará a


ser a religião do Império. Todas as outras religiões serão
permitidas com seu culto doméstico ou particular, em casas para
isso destinadas, sem forma alguma exterior de templo”.

No Brasil Império a liberdade religiosa era parcial, conforme afirma José Afonso da
Silva: “[...] as demais religiões eram apenas toleradas [...]”. Nesse período, os
protestantes enfrentaram dificuldades quanto a realização do casamento civil, acesso a
educação e utilização dos cemitérios, pois nos cemitérios oficiais só poderiam ser
enterrados católicos.

Afastando-nos já da perspectiva dogmático-normativa, verifica-se que uma das marcas


do constitucionalismo imperial, de resto presente, embora com outras feições, nas
Constituições posteriores, é o abismo entre a abstração normativa e a realidade social e
institucional de então, já que, apesar de positivar um extenso elenco de direitos civis e
políticos, dentre os quais a garantia da isonomia, a Constituição Política do Império do
Brasil vigeu por mais de setenta anos admitindo os privilégios da nobreza, o voto
censitário e o regime escravocrata.

Ademais, ao longo do período imperial, especialmente no período da Regência (1831-


1840), o Estado brasileiro conviveu com fortes instabilidades políticas e sociais, na
tensa oposição entre os movimentos contrários ao regime, de inspiração liberal, e a
manutenção da ordem monárquica, que veio a ser deposta pelo golpe de 15 de
novembro de 1889.

5. Centralização monárquica

A chave de toda a organização política da Monarquia Constitucional estava


efetivamente no Poder Moderador, concentrado na pessoa do Imperador. Realmente,
criando o Poder Moderador, enfeixado na pessoa real, os estadistas do antigo regime
armam o soberano de faculdades excepcionais. Como Poder Moderador, ele age sobre o
Poder Legislativo pelo, direito de dissolução da Câmara, pelo direito de adiamento e de
convocação, pelo direito de escolha, na lista tríplice, dos senadores. Ele atua sobre o
Poder Judiciário pelo direito de suspender os magistrados. Ele influi sobre o Poder
Executivo pelo direito de escolher livremente seus ministros de Estado e livremente
demiti-los. Ele influi sobre a autonomia das províncias. E, como chefe do Poder
Executivo, que exerce por meio dos seus ministros, dirige, por sua vez, todo o
mecanismo administrativo do país.” Aqui, o Rei reinava, governava e administrava,
como dissera ltaboraí, ao contrário do sistema inglês, onde vigia e vige o princípio de
que o Rei reina, mas não governa.

No aparelho político do governo central, dois órgãos concorriam para reforçar a ação do
poder soberano: o Senado e o Conselho de Estado. Aquele, essencialmente conservador,
funcionava corno órgão de reação contra os movimentos liberais da Câmara dos
Deputados. O Conselho de Estado era um órgão consultivo, que tinha enormes
atribuições: aconselhava o Imperador nas medidas administrativas e políticas e era o
supremo intérprete da Constituição.

6. Partidos do Império

Na época do Brasil Império (período entre 1822 e 1889, quando o nosso país deixa de
ser colônia portuguesa, mas ainda não é uma república), o regime adotado aqui era
a monarquia.
Após o “grito de independência”, o primeiro governante do Brasil foi Dom Pedro I. Ele
ficou no poder até o ano de 1831, período chamado de Primeiro Reinado. Logo depois,
ele foi forçado a deixar o cargo em favor de seu filho, Dom Pedro II, que tinha apenas 5
anos. E até Dom Pedro II completar 15 anos – idade em que poderia começar
a governar – o Brasil foi administrado por regentes, que eram representantes do Poder
Executivo.

No Primeiro Reinado, havia três grandes partidos políticos: Restauradores ou


Caramurus – que queriam a volta de D. Pedro I ao Brasil e um regime monárquico. Seus
interesses não foram atendidos e, quando D. Pedro I morreu, em 1834,
o partido desapareceu. O segundo, formado por pessoas radicais, tinha o nome de
Liberal Exaltado ou Jurujubas. Esse partido era a favor do fim da monarquia; eles
queriam que o Brasil se transformasse em uma República. Um último grupo, chamado
Liberal Moderado ou Chimangos, defendiam a permanência da monarquia e a
escravidão, mas não queriam a volta de Dom Pedro I e os “exageros” do partido dos
exaltados.

Mas os principais partidos do Império – Conservadores (também chamados de


Saquaremas) e Liberais (também chamados de Luzias) – só surgiram no Segundo
Reinado. Época governada por Dom Pedro II. A diferença entre esses dois partidos era a
visão que cada um deles tinha sobre a monarquia. Os conservadores queriam sempre um
regime forte, com a autoridade do imperador e pouca liberdade para as províncias (as
províncias eram como são hoje os Estados brasileiros). Já os liberais queriam que as
províncias tivessem mais poder.

7. Os liberais e o ideal federalista

Os liberais lutaram quase sessenta anos contra o mecanismo centralizador e sufocador


das autonomias regionais. A realidade dos poderes locais, sedimentada durante a
colônia, ainda permanecia regurgitante sob o peso da monarquia centralizante. A ideia
descentralizadora, como a republicana, despontara desde cedo na história político-
constitucional do Império. Os federalistas surgem no âmago da Constituinte de 1823, e
permanecem durante todo o Império, provocando rebeliões como as "Balaiadas", as
"Cabanadas", as "Sabinadas", a "República de Piratini". Tenta-se implantar, por várias
vezes, a monarquia federalista do Brasil, mediante processo constitucional (1823,
1831), e chega-se a razoável descentralização com o Ato Adicional de 1834, esvaziado
pela lei de interpretação de 1840.

O republicanismo irrompe com a Inconfidência Mineira e com a revolução


pernambucana de 1817; em 1823, reaparece na constituinte, despontando outra vez em
1831, e brilha com a República de Piratini, para ressurgir com mais ímpeto em 1870 e
desenvolver-se até 1889.

8. Vitória das forças republicano-federalistas


Em 1889, vencem as forças descentralizadoras, agora organizadas, mais coerentes, e
não mera fragmentação e diferenciação de poder como existentes na colônia, mas
certamente como projeção daquela realidade colonial que gerou, no imenso território do
país, os poderes efetivos e autônomos locais, agora também aliados aos novos fatores
que apareceram e se firmaram na vida política brasileira: o federalismo, como princípio
constitucional de estruturação do Estado, a democracia, como regime político que
melhor assegura os direitos humanos fundamentais.

Tomba o Império sob o impacto das novas condições materiais, que possibilitaram o
domínio dessas velhas ideias com roupagens novas, e "um dia, por uma bela manhã,
urna simples passeata militar" proclama a República Federativa por um decreto (o de n.
1, de 15.11.1889, art. 1º).

9. Notas finais sobre a Constituição do Império:

Apesar das críticas que se possa fazer, a Constituição de 1824 é tida como um
documento político significativo, que “logrou absorver e superar as tensões entre o
absolutismo e o liberalismo, marcantes no seu nascimento, para se constituir, afinal, no
texto fundador da nacionalidade e no ponto de partida para a nossa maioridade
constitucional”. Ainda que tal julgamento possa soar um tanto generoso, a Carta
Imperial, especialmente considerando o momento no qual foi forjada e o
comparativamente largo período de tempo durante o qual esteve em vigor (pouco mais
de sessenta e cinco anos), assume um lugar de destaque na história constitucional do
século XIX, pelo menos no âmbito da evolução constitucional americana.

FASE REPUBLICANA

1. A Proclamação da República e a implantação da Federação: a Constituição


da República dos Estados Unidos do Brasil de 1891

Assumindo o poder, os republicanos, civis e militares, cuidaram da transformação do


regime. A Proclamação da República, em 15.11.1889, formalizada mediante a edição do
Dec. 1 (redigido por Ruy Barbosa), pelo Governo Provisório liderado pelo Marechal
Deodoro da Fonseca, foi o ponto de partida jurídico-político da primeira República
Federativa do Brasil.

É preciso registrar, outrossim, que tanto a República, quanto a forma federativa de


Estado, já vinham sendo objeto de expressivas reivindicações. Com efeito, de acordo
com a lição de Paulo Bonavides e Paes de Andrade, a República não foi o resultado
apenas das intenções isoladas de um grupo militar, mas foi a consequência de um
conjunto mais amplo de causas políticas, econômicas e socioculturais, que vinham se
materializando ao longo do Segundo Reinado.

Por determinação do Governo Provisório, foi instituída a chamada “Comissão dos


Cinco”, encarregada da redação do anteprojeto da Constituição, presidida por Joaquim
Saldanha Marinho. O anteprojeto elaborado pela Comissão passou pela redação final de
Ruy Barbosa, então Ministro da Fazenda, tendo sido submetido ao crivo da Assembleia
Constituinte instalada em 15 de novembro de 1890, onde foi aprovado quase em sua
integralidade pelos deputados e senadores constituintes.

No dia 15 de setembro do mesmo ano foi eleita a Assembleia-


Geral Constituinte (em verdade, Congresso Constituinte), que se
instalara no Palácio São Cristóvão, a 15 de novembro. Presidiu-a
o paulista Prudente de Moraes, mais tarde Presidente da
República. Pouco mais de três meses de trabalho e a primeira
Constituição republicana ficara aprovada, com pequenas
alterações introduzidas no projeto do Executivo.

A forte influência norte-americana – em especial devida a Ruy Barbosa – marcou


profundamente o primeiro texto constitucional republicano, não tendo sido por acaso
que passamos a nos chamar de República dos Estados Unidos do Brasil, muito embora
as importantes diferenças no tocante à formatação da estrutura federativa norte-
americana e brasileira.

Durante o processo constituinte, o tema que suscitou maiores controvérsias foi o


federalismo, vencendo a corrente, chamada de unionista, liderada por Ruy Barbosa, que
defendia o predomínio da União na gestão do poder da República. Tal posicionamento,
consentâneo com a tradição centralizadora do período monárquico brasileiro, não
refletia a experiência histórica do federalismo norte-americano, produto de unidades
regionais bem estabelecidas – as antigas colônias inglesas –, que dispunham, inclusive,
de regimes jurídicos próprios, unindo-se em torno de uma Confederação, ratificada,
primeiramente, pelos Articles of Confederation, em 1781, para, num segundo momento,
adotarem a forma federativa de Estado sob a Constituição de 1787.

A adoção do modelo norte-americano, especialmente no que diz com a forma de


importação do federalismo, não restou imune a objeções, destacando-se, neste contexto,
a abalizada crítica contumaz assacada por Paulo Bonavides e Paes de Andrade, seja no
sentido da falta de correspondência entre a realidade histórica e social brasileira e o
texto constitucional de 1891, seja no que diz respeito à adoção de um federalismo
centralizado, que acabou transformando o Presidente da República numa espécie de “rei
sem trono” ou de um “monarca eletivo que se substituía a cada quatriênio”,
precisamente o contrário do que esperavam os adversários da Monarquia e do modelo
unitário de Estado precedente.

No que diz com a ideologia subjacente, a Constituição de 24 de fevereiro de 1891 foi


um grande monumento à teoria liberal, consagrando, além da fórmula da separação de
poderes, a periodicidade dos mandatos políticos e estabelecendo um Estado Federal com
ampla autonomia para os novos Estados-membros, que substituíram as antigas
Províncias. Além disso, diversamente da Carta Imperial, tratava-se de uma Constituição
rígida, visto que a alteração de seu texto apenas poderia ser levada a efeito mediante
procedimento qualificado, distinto da alteração de uma lei.

Igualmente por força da influência norte-americana, foi adotado o sistema


presidencialista de governo, bem como consagrada a adoção de um Estado laico (daí a
laicização do ensino nos estabelecimentos públicos), caracterizado pela separação entre
o Estado e a Igreja.
No campo dos direitos e garantias fundamentais, assume papel de destaque a figura da
ação de habeas corpus (art. 72, § 22), que, na época (por não ter sido criado, ainda, o
mandado de segurança), era o principal instrumento para a defesa dos direitos
individuais frente a ilegalidades e abusos de poder — para além das questões de “ir e
vir”).

Ademais, pela primeira vez no constitucionalismo pátrio, foi estabelecida,


expressamente no texto da Constituição, a abertura material do catálogo dos direitos e
garantias, nomeadamente no seu art. 78, ao dispor que a declaração de direitos não
excluía “outras garantias e direitos não enumerados, mas resultantes da forma de
governo que ela estabelece e dos princípios que consigna”.

De matriz marcadamente liberal, foram excluídos do texto constitucional os direitos de


cunho social presentes na Carta Imperial, quais sejam o direito à assistência social
(socorros públicos), o direito à instrução primária gratuita, assim como o acesso a
colégios e universidades para o ensino das ciências, belas-artes e letras, previstos nos
incs. XXXI, XXXII e XXXIII do art. 179 do Título 8.º da Constituição do Império.

Outro ponto a ser destacado, além do natural abandono do Poder Moderador,


incompatível com o projeto liberal republicano, diz com o papel do Poder Judiciário no
esquema da separação de poderes. A criação do STF, cujos magistrados eram
livremente nomeados pelo Presidente da República, além de sabatinados pelo Senado
Federal, somada à implantação da figura do judicial review norte-americano, no sentido
da possibilidade de cada juiz ou tribunal (mediante possibilidade de recurso ao STF, em
caráter extraordinário) não aplicar lei ou ato normativo contrário à Constituição,
provocou o rompimento definitivo com a tradição de um controle político, exercido pelo
próprio Legislativo.

1.1. “Crimes de hermenêutica”: notas a respeito de um caso que se insere no


contexto da Constituição de 1891

Sob a égide do poderoso Júlio de Castilhos que governava o Estado do Rio Grande do
Sul com mão de ferro, uma reforma legislativa inspirada nos ensinamentos positivistas
de Benjamim Constant, foi promovida em vários âmbitos, inclusive na forma da nova
lei de organização judiciária. A Lei n. 10 de 16 de dezembro de 1895, que, entre outros
pontos, modificou o instituto do júri popular, estabeleceu que as decisões do Júri
“seriam proferidas pelo voto a descoberto da maioria” e que os jurados não poderiam
ser recusados, apenas seria oposta suspeição motivada a ser decidida pelo presidente do
tribunal.

Em seu plano de instituir uma “ditadura científica”, Júlio de Castilhos defendia a


abolição do tribunal do júri, mas era impedido de acabar com o órgão devido à expressa
determinação da Constituição de 1891, que dizia, na seção II – da Declaração de
Direitos:

Art. 72. A Constituição assegura a brasileiros e a estrangeiros


residentes no país a inviolabilidade dos direitos concernentes à
liberdade, à segurança individual e à propriedade nos termos
seguintes:

§31. É mantida a instituição do júri. [ortografia original]

O Presidente do Estado optou, por isso, por modificar a instituição, diminuindo-a de


doze para cinco membros, substituindo o sigilo pela publicidade nas deliberações do
conselho de sentença e acabando com a prerrogativa do acusado e do Ministério Público
de recusar jurados sem precisar justificar a recusa, mantendo apenas a possibilidade de
recusa motivada. A própria exposição de motivos da lei mostrava o ânimo do governo
com essas reformas:

A simples observação commum reconhecerá facilmente o


inilludível declínio dessa instituição, cujo destino histórico se
approxima cada vez mais do seu termo fatal. (...) applicando o
methodo positivo às investigações criminaes, tem chegado à
conclusão de que é necessária a eliminação do Jury, em nome da
defesa social, já que, em vez de ser factor de repressão, elle tem
sido um elemento protector do crime. [ortografia original]

Essa lei de dezembro de 1895 teve que operar seus efeitos pela primeira vez em 28 de
março de 1896, dia da abertura da sessão do júri da cidade do Rio Grande, presidida
pelo juiz de direito da comarca daquela cidade, Dr. Alcides de Mendonça Lima, que
declarou logo no início da sessão que não aplicaria os artigos 65, § 1º e 66, da lei por
julgá-los inconstitucionais. Os artigos regulamentavam precisamente o voto em
descoberto e o fim da recusa peremptória. Dr. Alcides entendia que o voto secreto e as
recusas peremptórias são características intrínsecas do instituto do júri, que não podem
ser revogadas ao bel prazer dos interesses políticos, sem subverter o estabelecido pelo
art. 72 §31 da Constituição Federal.

A reação do governo do Estado foi imediata e três dias mais tarde o Presidente Júlio de
Castilhos oficiava ao Procurador Geral do Estado para que promovesse a
responsabilidade do “juiz delinquente e faccioso”. O juiz Alcides foi denunciado por
crime de prevaricação (art. 207, §1º do Código Penal), alegando ter ele agido por ódio e
interesses político. O Tribunal do Estado não aceitou a capitulação do crime, mas
entendeu que o juiz excedeu os limites das funções próprias de seu emprego, incorrendo
no grau médio do crime estabelecido no art. 226 do Código Penal e condenou-o a pena
de nove meses de suspensão do emprego, por abuso de autoridade.

Inconformado com a decisão, o Dr. Alcides requereu a revisão-crime ao Supremo


Tribunal Federal, assistido em sua defesa pelo advogado Rui Barbosa, que apresentou
uma monografia, que não apenas constava dos autos como petição inicial, como foi
publicada pela imprensa, distribuída em círculos intelectuais e discutida nas ruas,
intitulada: O Jury e a responsabilidade penal dos juizes.
Na fundamentação da denúncia ao Superior Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, o
Procurador Geral do Estado argumenta que:

Comquanto os poderes políticos e constitucionaes sejam orgams


de um mesmo apparelho governativo, cada um tem sua órbita toda
de acção definida, uma funcção especial a desempenhar e fora
dessa órbita toda a sua actividade é illegal. Si o poder legislativo
agio nos termos prestabelecidos pela Constituição, respeitando o
processo decretado da mais completa publicidade e promulgou
afinal a lei organisação judiciária, não cabe ao poder judiciário e
menos a um juiz singular e isolado oppôr embaraços à sua
execução. O procedimento do denunciado é, portanto, criminoso
[ortografia original]

Essa citação é reveladora da dificuldade na cultura institucional brasileira de aceitar o


controle jurisdicional de constitucionalidade, principalmente tratando-se do modelo
difuso, que abria possibilidade a qualquer juiz de primeira instância de confrontar
poderes políticos e legislativos com grande autoridade local, no contexto coronelista da
época. A acusação contra o Dr. Alcides fundava-se basicamente no argumento de ter ele
procedido contra literal disposição de lei, o que descaracterizava a sua função de
aplicador, agravado pelo fato de ter sido movido por interesses políticos e paixões
partidárias.

Em sua defesa, o Dr. Alcides admitiu ter se recusado a aplicar a lei naqueles
dispositivos citados, mas no estrito cumprimento de seu dever, qual seja, o de
interpretar a lei em face à Constituição Federal. Ele admitiu ter julgado que esses artigos
contrariam a Constituição e subvertem a instituição por ela mantida como direito
fundamental do cidadão. O juiz se valeu, conforme ele explica do art. 8º da mesma lei n.
10, que estabelece, em consonância com a própria Constituição Federal, que: “Os juizes
deixarão de applicar as leis e regulamentos manifestamente inconstituconais”.

Contra tal argumento, o Procurador do Estado alegou que os dispositivos em questão


não eram ‘manifestamente’, ou seja, expressamente inconstitucionais, e que, portanto ao
juiz não caberia “arvorar-se em supremo e original poder moderador para tardiamente
offerecer seu veto à execução da lei”.

O Dr. Alcides tentou ainda convencer o Tribunal de que este não poderia se pronunciar
sobre a denúncia até que o STF se manifestasse sobre a constitucionalidade da lei in
casu, do qual o processo de responsabilidade é incidente. Levantada a preliminar,
aprofundou nos argumentos em favor da inconstitucionalidade da lei riograndense, e
buscou comprovar que a interpretação da lei é atributo especial do Poder Judiciário, a
ser exercida com a maior responsabilidade possível e por isso mesmo, mister se faz
negar a aplicabilidade de toda lei que contrarie a lei maior. Essa tarefa de interpretação
não pode ser vista como crime, mesmo que contrarie os interesses de facções políticas
ou mesmo que seja exercida de maneira errada.
Desqualificou, ainda, a capitulação do crime de acordo com o art. 207 §1º, tendo em
vista que este fala em o juiz ir contra a literal disposição de lei para se beneficiar
pessoalmente da decisão tomada. Ou seja, o artigo exige, para surtir seus efeitos
sancionatórios, do dolo do agente, da intenção, que nesse caso estava completamente
ausente. E aqui é desenvolvido um argumento muito interessante por parte do Dr.
Alcides quando alega que o Procurador do Estado, ao se referir a ‘ódio político’ ou
‘interesse político’ teria alargado o sentido do art. 207, que falava apenas em ódio ou
interesse, referindo-se à tentativa do juiz se beneficiar pessoalmente e introduzir a
corrupção em suas decisões. E continua o Dr. Alcides: as divergências políticas por si
só não podem ser tidas como ódio pessoal, mas como elementos que trazem
contribuições a um assunto que é essencialmente jurídico.

E termina dizendo:

Sem dúvida que o meu acto foi premeditado, reflectido,


maduramente pensado e estudado com calma e frieza de
raciocínio, não sob a pressão dos moveis subalternos
mencionados na denuncia, mas debaixo da suggestão natural dos
princípios geraes de direito, a que está subordinado o exercício do
meu cargo. [ortografia original]

Para concluir a sua defesa perante o Tribunal de segunda instância, o Dr. Alcides mostra
que se houve alguém que se moveu por interesses políticos e paixões partidárias, esse
alguém foi precisamente o Presidente do Estado, que, ao invés de recorrer da sentença,
mandou processar criminalmente o juiz por interpretar a lei, instituindo uma figura
desconhecida do código penal brasileiro: o crime de hermenêutica.

Rejeitada a preliminar, o Tribunal passou a decidir primeiramente sobre a pronuncia.


Essa decisão é interessante, pois acaba por consagrar a ideia de que o juiz pode ser
processado criminalmente por fazer uma interpretação equivocada da lei. O relator
argumenta que a falsa interpretação do juiz, que confunde o direito com a forma e a
instituição com a organização, teria como consequência a restrição das prerrogativas
constitucionais dadas aos governos dos Estados-membros, atentando contra o princípio
federativo.

A decisão sobre a pronuncia, foi julgada procedente por maioria, para que seja o Dr.
Alcides acusado e julgado pelo crime do art. 226 do Código Penal, portanto, pelo crime
de abuso de autoridade. E finalmente, em 18 de Agosto de 1896, a sentença
condenatória, contra o Dr. Alcides, a nove meses de suspensão do emprego porque
incurso no grau médio do art. 226 do Código Penal.

Foi nesse contexto que em novembro de 1896 chega ao Supremo Tribunal Federal
revisão-crime cuja defesa é assinada pelo eminente Rui Barbosa. A estratégia de Rui
7107 consiste em primeiramente discutir a instituição do tribunal do júri na Constituição
de 1891, compará-la com o debate mundial, fazendo referencias aos Estados Unidos,
Inglaterra e países da Europa continental. Mostra o júri como instituição que desde a sua
origem é ligada à ideia de liberdade, e que todo governo no mundo que tentou suprimi-
la o fazia em virtude do alcance que esta instituição tem para o aprofundamento da
democracia.

Desenvolve ainda em seu raciocínio a ideia que tanto o voto secreto quanto as recusas
peremptórias são características intrínsecas ao tribunal do júri, e que ao suprimi-las
estar-se-ia subvertendo a lógica da instituição e afetando a sua essência. O voto secreto
tem como base a proteção da independência do julgador, que não se sujeita as pressões
vindas da divulgação de seu voto, por isso sua abolição afeta a essência do júri. As
recusas peremptórias têm sua base no principio de confiança do réu, que se sente seguro
de que será julgado com imparcialidade, por jurados que de certa maneira ele ajuda a
escolher. Essa garantia é tão preciosa em países que a implantaram a ponto de se tornar
direito irrenunciável, operando a nulidade do processo.

Para adentrar esse argumento, Rui lança um desafio – apesar de tudo o que foi dito
sobre a instituição do júri e sobre a inconstitucionalidade das restrições impostas pela lei
do Rio Grande do Sul, se partirá do pressuposto de que o Dr. Alcides esteja errado,
tenha feito uma interpretação equivocada da lei n. 10, que na verdade é constitucional.
Partir-se-á desse pressuposto para mostrar que mesmo o juiz tendo errado, não cometeu
nenhum crime. Pois o poder de anular leis inconstitucionais não é uma faculdade dada
aos juízes, mas antes um dever imposto a qualquer juiz e tribunal.

Tendo o juiz confrontado o poder político do Estado com “o imprevisto de uma força
viva e independente”, foi inventado quase que por “geração espontânea” o crime de
hermenêutica, a responsabilidade penal do juiz “pelas rebeldias da sua consciência ao
padrão official no entendimento dos textos”. E o Presidente do Estado, ao invés de
utilizar a hierarquia judiciária para consertar os erros do juiz de primeira instância,
mediante interposição de recurso, preferiu o terror, um mecanismo de pressão capaz de
“dissolver o homem em escravo”. O ofício do governador ao Tribunal dava a entender
que se este absolvesse o juiz, seria igualmente constituído como faccioso.

A revolta de Rui contra essa visão vale a pena ser lida na íntegra:

Ahi está onde naufraga a ingenuidade dos que suppõem ter, por
esse manifestamente, delimitado com a precisão de uma raia
inequívoca a linha entre o exercício correcto e o exercício
incorrecto do poder confiado aos juizes, para joeirarem a
constitucionalidade e a inconstitucionalidade na crítica das leis. O
que é manifesto a um espírito, pode ser duvidoso ao critério de
outros, ainda figurando que estes e aquelles occupem nível
superior, emparellando, ao mesmo tempo, no talento e no
desinteresse. Não se descobrio, até hoje, a pedra de toque, para
discernir com certeza absoluta o oiro falso do verdadeiro na
interpretação dos textos. [ortografia original]
Rui Barbosa assenta com a sua defesa a ideia de que a divergência entre juristas e entre
magistrados é parte do ofício. Não representa como pode parecer para o positivismo
legalista, um erro, no sentido epistemológico. A divergência tem um caráter político –
não político partidário, mas político-institucional, ela diz respeito a como se entendem
as “bases orgânicas de toda a justiça”. Por isso, a declaração da inconstitucionalidade
enquanto dever dos juízes é uma forma desses exercerem um papel político-institucional
de guardiões da soberania constituinte contra a invasão por parte do poder legislativo. E
por isso, raciocina Rui Barbosa, pouco importa se as partes entram num acordo no
sentido de não considerar uma lei inconstitucional, se elas se articulam para
desobedecer a essa lei, pouco importa que a inconstitucionalidade não afete os
interesses das partes no caso concreto, em qualquer circunstância: “a lei
inconstitucional, neste regimem, é irrita de nascença: it is az if it had never been” (...)
“Sua invalidade é irremediável. O consenso dos interessados não pode sana-la” (sic)

Haveria de incriminar todo juiz vencido em uma dessas divergências, as prisões seriam
pequenas para prender tantos juízes! A típica ironia bem-humorada de Rui Barbosa,
termina por desqualificar os crimes de hermenêutica.

1.2. Crises e considerações finais sobre a Constituição de 1891

É bom notar que a conjuntura promíscua da política oligárquica dominou os espaços da


vida institucional brasileira ao longo de todo o período da chamada “República Velha”.
Com efeito, desde a dissolução do Congresso por Deodoro da Fonseca, em 3 de
novembro de 1891, e da não convocação de novas eleições por Floriano Peixoto,
quando da renúncia precoce do primeiro Presidente da República, o novo regime
constitucional já dava sinais concretos de inoperância frente aos fatores reais de poder.

Nesta perspectiva, a assim designada “política do café com leite”, introduzida a partir da
sucessão do governo de Prudente de Morais por Campos Sales, viria a aviltar o processo
democrático brasileiro, com a institucionalização da fraude eleitoral e do pacto
oligárquico entre os cafeicultores paulistas e os pecuaristas mineiros, dando margem ao
surgimento do assim chamado coronelismo, que, ao fim e ao cabo, acabou
transformando a cidadania brasileira, em maior ou menor medida, em uma espécie de
“rebanho eleitoral”.

Como se sabe, o sistema constitucional implantado enfraqueceu o poder central e


reacendeu os poderes regionais e locais, adormecidos sob o guante do mecanismo
unitário e centralizador do Império. O governo federal não seria capaz de suster-se, se
não se escorasse nos poderes estaduais. Campos Sales percebeu-o muito bem. Formulou
a doutrina de que a política e a ação devem ser privilégio de uma minoria: as grandes
deliberações nascidas de liberdades democráticas levam necessariamente o país a
agitações e ao aproveitamento da situação por um grupo muitas vezes o menos capaz. À
minoria deliberativa no plano federal deve corresponder outra minoria deliberativa dos
Estados. Esta representação aristocrática é o cerne de seu pensamento.
Consequentemente o problema apresenta-se como a garantia de estabilização das atuais
oligarquias no poder. Fundado nesse esquema doutrinário, imprime interpretação
própria ao presidencialismo. Despreza os partidos, e constrói a “Política dos
Governadores", que dominou a Primeira República e foi causa de sua queda.

O poder dos governadores, por sua vez, sustenta-se no coronelismo, fenômeno em que
se transmudaram a fragmentação e a disseminação do poder durante a colônia, contido
no Império pelo Poder Moderador. O fenômeno do coronelismo tem suas leis próprias e
funciona na base da coerção da força e da lei oral, bem como de favores e obrigações.
Esta interdependência é fundamental: o coronel é aquele que protege, socorre, homizia e
sustenta materialmente os seus agregados; por sua vez, exige deles a vida, a obediência
e a fidelidade.

Os anseios reformistas acabaram resultando, em 1926, na única


reforma do texto constitucional de 1891. Dentre as alterações, as
mais significativas foram as que trataram da intervenção nos
Estados, aumentando a autoridade do Presidente da República,
bem como da determinação da competência federal para legislar
sobre as relações de trabalho. A emenda constitucional inovou
ainda com a proibição da reeleição de presidentes e governadores
dos Estados; com a proibição das caudas orçamentárias; com a
restrição à teoria ampliativa do habeas corpus; e com a instituição
do veto parcial.

Apesar de toda a crise política e institucional ocorrida ao longo da chamada “República


Velha”, foi neste período que se vislumbraram as primeiras medidas legislativas em
torno da questão da seguridade social, como dão conta a primeira Lei de Acidentes do
Trabalho, de 1919, e a Lei Eloy Chaves, que criou o primeiro instituto de aposentadoria,
o dos ferroviários, em 1924.

Uma avaliação sumária da primeira Constituição republicana permite afirmar que, a


despeito do considerável tempo de vigência da Constituição, de 24.02.1891 até
11.11.1930, o descompasso entre o texto constitucional e a realidade social, econômica,
política e cultural brasileira acabou sendo uma das marcas características desse período.
Por outro lado, há quem seja mais generoso com a nossa primeira fase republicana e a
Carta de 1891, admitindo que, a despeito de todos os percalços vivenciados, a
Constituição ainda assim possibilitou a consolidação das instituições nacionais e do
Estado brasileiro.

2. A Revolução de 1930 e a questão social

Quatro anos depois da supracitada Reforma Constitucional (1926), irrompera a


Revolução, que a pôs abaixo com a Primeira República.

Apesar do avanço normativo inegável em relação ao texto de 1824, a Constituição de


1891 não dispunha, à evidência, de força normativa suficiente para coordenar o
processo político-institucional, faltando sintonia com a base social, econômica e
cultural, o que levou ao surgimento de insatisfações generalizadas. Faltaram-lhe
vinculação com a realidade do país. Por isso, não teve eficácia social, não regeu os fatos
que previra, não fora cumprida.
A Constituição de 1891 não resistiu à transformação social e política brasileira,
designadamente com o avanço da industrialização e do operariado urbano e a formação
de movimentos reivindicatórios ancorados na questão social, aqui representada, em
caráter ilustrativo, pela fundação, em 1922, do Partido Comunista do Brasil.

Tudo isso acabou resultando na superação da ordem vigente pela Revolução de 1930,
capitaneada pelos governadores de Minas Gerais, do Rio Grande do Sul e da Paraíba,
que depuseram o presidente Washington Luiz e entregaram o governo, transitoriamente,
a uma Junta Militar, que o exerceu até o dia 3 de novembro daquele ano, quando
assumiu, em caráter definitivo, o então governador do Rio Grande do Sul, Getulio
Vargas, líder civil do movimento revolucionário.

Deve-se, em primeira linha, à atuação de Getulio Vargas, na condição de Presidente da


República, a transição para uma nova ordem constitucional. Com efeito, foi dado início
a uma política de intervenção nos Estados, aniquilando-se com a chamada “Política dos
Governadores”, acompanhada do afastamento, em termos significativos, da influência
dos coronéis; institui-se a Justiça Eleitoral, mediante a promulgação, em 3 de fevereiro
de 1932, do Código Eleitoral, que, entre outros avanços significativos, institui o voto
feminino e transferiu das Assembleias políticas para o Poder Judiciário a competência
para julgar a validade das eleições e de proclamar os eleitos.

Subindo Getúlio Vargas ao poder, como líder civil da Revolução,


inclina-se para a questão social. Logo cria o Ministério do
Trabalho; põe Francisco Campos no da Educação, que daria
impulso à cultura, entorpecida e desalentada. "A revolução
respondia, com isso, e desde logo, à República Velha, que uma
feita rotulara de questão de polícia a inquietação operária".

Getúlio, na Presidência da República, intervém nos Estados.


Liquida com a política dos governadores. Afasta a influência dos
coronéis, que manda desarmar. Prepara novo sistema eleitoral
para o Brasil, decretando, a 3.2.32, o Código Eleitoral instituindo
a justiça eleitoral, que cercou de garantias e à qual atribuiu as
funções importantíssimas de julgar da validade das eleições e
proclamar os eleitos, retirando essas atribuições das assembleias
políticas; com o que deu golpe de morte na política dos
governadores e nas oligarquias que dominavam exatamente em
virtude do processo de verificação de poderes.

Após dominada a Revolução Constitucionalista de 1932, eclodida em São Paulo, que


buscava a reconstitucionalização e redemocratização do País, foi instaurada a
Assembleia Constituinte que resultou a segunda Constituição da República dos Estados
Unidos do Brasil, promulgada em 16.7.34.

3. A Constituição da República dos Estados Unidos do Brasil de 1934

A Constituição promulgada em 16.07.1934 é fruto do movimento de 1930 e da


Revolução Constitucionalista de 1932, e pode ser considerada como o momento
constitucional que marcou a introdução do constitucionalismo social no Brasil. Embora
sua vigência tenha sido efêmera (considerando a sua superação pelo texto de 1937,
resultado do golpe do Estado Novo), já se disse que a segunda Constituição da
República foi a mais criativa das Constituições republicanas.

Aspecto a ser destacado é que a Constituição de 1934 foi fortemente influenciada pelo
corporativismo fascista, o que, de resto, acabou por se constituir em marca indelével da
chamada Era Vargas (1930-1945), mas não se podem subestimar, muito antes pelo
contrário, os estímulos oriundos da Constituição espanhola de 1931, da Carta austríaca
de 1920 e, especialmente no tocante ao constitucionalismo social, a influência exercida
pelas Constituições mexicana (1917), alemã (Constituição da República de Weimar,
1919), e também pelo texto constitucional soviético, de 1918.

No que diz com as principais características da Carta de 1934, a manutenção da


estrutura organizacional da Constituição anterior, no caso, da República, da Federação,
do postulado da separação de poderes, do sistema presidencialista e do regime
democrático-representativo, foi acompanhada de algumas inovações dignas de nota,
como é o caso da instituição, ao lado do Ministério Público e do Tribunal de Contas,
dos Conselhos Técnicos e dos órgãos cooperativos nas atividades governamentais.

Além disso, foi fortalecido o Poder Executivo, ampliando-se as possibilidades da


decretação do estado de sítio; manteve-se o mandato de quatro anos para o Presidente,
porém impedida sua reeleição; e foi abolida a figura do Vice-Presidente. A criação da
Justiça do Trabalho também se deveu ao novo texto constitucional, apta a dirimir
litígios entre empregados e empregadores.

No campo dos direitos e garantias do cidadão, muito embora a existência, na Carta


Imperial de 1824, de algumas posições jurídicas, isoladas e pontuais, atinentes à
categoria dos direitos sociais, foi apenas na Constituição de 1934 que o
comprometimento (ao menos formal) com a noção de um Estado Social e com a ideia
de direitos sociais passou a ser incorporada, de forma perene, ao constitucionalismo
brasileiro.

Tal processo teve seu ponto de partida com a formação da assim chamada Subcomissão
do Itamarati, encarregada de dar início aos trabalhos de confecção do anteprojeto da
Constituição de 1934, composta, dentre outros, por diversos ministros do governo
provisório, como o Ministro das Relações Exteriores Afrânio de Melo Franco
(presidente), além de Temístocles Brandão Cavalcante (secretário-geral), Assis Brasil,
Osvaldo Aranha, José Américo de Almeida, Carlos Maximiliano, Antonio Carlos de
Andrade, Arthur Ribeiro, Prudente de Moraes Filho, Agenor de Rouer, João
Mangabeira, Oliveira Viana e Góis Monteiro, com o que o País deu seu primeiro passo
no sentido da constitucionalização de um extenso rol de direitos sociais.

Dentre o elenco dos direitos sociais destacam-se os estabelecidos em dois títulos


inexistentes relativamente à primeira Constituição Republicana, quais sejam o da ordem
econômica e social e o da família, educação e cultura.

A ordem econômica, consoante o art. 115, deveria ser pautada pelos princípios da
justiça, possibilitando a todos uma existência condigna; foi garantido o amparo à
maternidade e à infância, incumbindo ao Poder Público a adoção de medidas
legislativas tendentes a restringir a mortalidade e a morbidade infantis (art. 138); além
de toda a produção legislativa na seara laboral decorrente dos preceitos estipulados no
art. 121, como os referentes ao salário mínimo, à jornada máxima de oito horas de
trabalho, ao repouso semanal, às férias anuais remuneradas, à indenização para o
trabalhador pela dispensa sem justa causa, à assistência médica ao trabalhador e à
gestante, e ao reconhecimento das convenções coletivas de trabalho.

Mas também no campo dos direitos civis e políticos o texto constitucional de 1934
trouxe grandes inovações, como o instituto do mandado de segurança, a ser ministrado
toda vez que houvesse direito “certo e incontestável, ameaçado ou violado por ato
manifestamente inconstitucional ou ilegal de qualquer autoridade”.

O projeto constitucional, todavia, por mais progressista que tenha sido, especialmente
em matéria de direitos sociais, praticamente não teve chance de se afirmar na vida
cotidiana política, social e econômica do Brasil, visto que, em virtude de golpe
desferido em 10 de novembro de 1937, pelo próprio líder do movimento revolucionário
que esteve na base do texto de 1934, acabou sendo substituída de forma autoritária,
dando lugar ao Estado Novo, pouco mais de três anos após sua entrada em vigor. Sua
derrocada precoce pode ser reportada, ainda que não exclusivamente, ao fato de estar
permeada por princípios antagônicos, é dizer, apesar de seu “brilhantismo jurídico”, não
era possível identificar um projeto político hegemônico para o País.

4. O Estado Novo e a Carta de 1937 (a Constituição “Polaca”)

A década de 1930 havia iniciado de modo agitado, já com as Revoluções de 1930 e


1932, que resultaram na Constituição de 1934. Todavia, as turbulências seguiram e não
asseguraram suficiente estabilidade político-institucional para a afirmação da nova
ordem constitucional.

O fato é que também no Brasil se faziam sentir, de modo intenso, as agitações


ideológicas, de perfil extremista, que vicejavam na Europa, notadamente as diversas
correntes do fascismo (até mesmo o nacional-socialismo, embora de forma mais tímida,
alcançou o Brasil) e do socialismo e comunismo, tudo potencializado pela crise da
economia mundial, especialmente em função das consequências desastrosas da crise de
1929. Com efeito, foi neste período que, sob a liderança de Plínio Salgado, surgiu a
Ação Integralista Brasileira, de inspiração fascista, assim como foi nesta época que
ocorreu a reorganização do Partido Comunista no Brasil, sob o comando de Luís Carlos
Prestes, sujeito, de resto, à disciplina estrita do Comitê Central Soviético, culminando
com o malogro da chamada “Intentona Comunista”, de 1935.

Tal cenário, de certo modo, facilitou sobremaneira as coisas para que Getulio Vargas,
mediante argumentos de manutenção da ordem, dissolvesse a Câmara e o Senado,
outorgando a Constituição de 10.11.1937. Mediante a imposição de um novo texto
constitucional, destituído de qualquer legitimação democrática, apenas foi assegurada
uma roupagem “constitucional” para a ditadura do Estado Novo.

O perfil profundamente autoritário e controlador, especialmente em relação à


dissidência política, aos meios de comunicação e às organizações sindicais, foi
assegurado, entre outros aspectos, por meio da implementação da polícia política, com
seus órgãos institucionais, como o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), o
Tribunal de Segurança Nacional, a Delegacia Especial de Segurança Pública e Social
(DESPS) e o Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), articulados com a
finalidade de perseguição política e de uniformizar as massas, mediante a doutrina
ideológica do regime.

No que diz com suas principais características, a Carta de 1937, redigida por Francisco
Campos e também designada de “A Polaca”, em virtude de ter sido inspirada fortemente
na Constituição da Polônia, de 23.04.1935, fortaleceu sobremaneira o Poder Executivo,
atribuindo a este uma intervenção mais ampla na elaboração das leis, designadamente,
assegurando a possibilidade da expedição de decretos-leis em todas as matérias de
competência da União, enquanto não fosse reunido o Congresso Nacional, conforme
preceitua seu art. 13, no título destinado à organização nacional.

Outra marca autoritária e centralizadora pode ser identificada no campo do controle da


constitucionalidade: declarada inconstitucional uma lei que, a juízo do Presidente da
República, fosse necessária ao bem comum, à promoção ou à defesa de interesse
nacional, poderia esta ser submetida novamente ao exame do Parlamento, podendo ser
declarada constitucional por maioria de dois terços dos votos, em cada uma das Casas
(art. 96, parágrafo único).

Aliás, ficou expressamente vedado, conforme o art. 94, o conhecimento pelo Poder
Judiciário de questão exclusivamente política, abrindo uma margem significativamente
arbitrária de controle externo do Judiciário. Ademais, tal autoritarismo era conspícuo na
dicção do art. 99, transformando o chefe do Ministério Público Federal em mero fâmulo
do Presidente da República.

Além disso, a Constituição apresentava um cunho fortemente estatizante e nacionalista,


pois outorgava ao Estado a função precípua de coordenar a economia nacional, como,
por exemplo, na exploração das minas e demais riquezas do subsolo (art. 143). Além
disso, a Carta de 1937 levava a cabo a nacionalização de determinadas atividades
econômicas, tendo como base jurídica o estipulado no art. 144, que se referia à
nacionalização progressiva das minas, jazidas minerais e quedas d’água ou outras fontes
de energia, assim como das indústrias consideradas básicas ou essenciais à defesa
econômica ou militar da Nação.

No que diz com os direitos e garantias individuais, deveriam ser exercidos nos limites
do bem público, das necessidades da defesa, do bem-estar, da paz e da ordem coletiva,
bem como das exigências da segurança da Nação e do Estado (art. 123). Ainda neste
contexto, e com especial destaque negativo, está o art. 139, que estipula que a greve é
recurso antissocial, nocivo ao trabalho e ao capital e incompatível com os superiores
interesses da produção nacional.

Os direitos fundamentais ganharam referência, mas apenas


simbólica. A pena de morte voltou a ser adotada, agora para
crimes políticos e em certos homicídios. Institucionalizaram-se a
censura prévia da imprensa e a obrigatoriedade da divulgação de
comunicados do Governo.

Para além dessas notas sobre o seu conteúdo, importa registrar que, em determinada
perspectiva, a Carta de 1937 não entrou sequer em vigor, visto que previa, no seu art.
187, a necessidade de sua aprovação em Plebiscito, que nunca veio a ocorrer, o que foi
admitido mesmo pelo seu autor, Francisco Campos, em entrevista concedida já na fase
final do Estado Novo, em março de 1945.

Aliás, neste sentido também o magistério de Pontes de Miranda, para quem a


Constituição de 1937 “foi solapada, logo depois, pelos seus próprios autores. Não se
realizou; não foi respeitada – quase toda, nem, sequer, existiu”.

José Afonso da Silva:

Em síntese, teve a Constituição dos Estados Unidos do Brasil, de


1937, como principais preocupações: fortalecer o Poder
Executivo, a exemplo do que ocorria em quase todos os outros
países, julgando- se o chefe do governo em dificuldades para
combater pronta e eficientemente as agitações internas; atribuir ao
Poder Executivo uma intervenção mais direta e eficaz na
elaboração das leis, cabendo-lhe, em princípio, a iniciativa e, em
certos casos, podendo expedir decretos-leis; reduzir o papel do
parlamento nacional, em sua função legislativa, não somente
quanto à sua atividade e funcionamento, mas ainda quanto à
própria elaboração da lei; eliminar as causas determinantes das
lutas e dissídios de partidos, reformando o processo
representativo, não somente na eleição do parlamento, como
principalmente em matéria de sucessão presidencial; conferir ao
Estado a função de orientador e coordenador da economia
nacional, declarando, entretanto, ser predominante o papel da
iniciativa individual e reconhecendo o poder de criação, de
organização e de invenção do indivíduo; reconhecer e assegurar
os direitos de liberdade, de segurança e de propriedade do
indivíduo, acentuando, porém, que devem ser exercidos nos
limites do bem público; a nacionalização de certas atividades e
fontes de riqueza, proteção ao trabalho nacional, defesa dos
interesses nacionais em face do elemento alienígena.

A Carta de 1937 não teve, porém, aplicação regular. Muitos de


seus dispositivos permaneceram em letra morta. Houve ditadura
pura e simples, com todo o Poder Executivo e Legislativo
concentrado nas mãos do Presidente da República, que legislava
por via de decretos-leis que ele próprio depois aplicava, como
órgão do Executivo. Vinte e uma emendas sofreu essa
Constituição, através de leis constitucionais, que a alteravam ao
sabor das necessidades e conveniências do momento e, não raro,
até do capricho do chefe do governo.

4.1. Sobre a derrocada do Estado Novo

No plano político, a fase final do Estado Novo foi, entre outros aspectos, marcada pelas
tentativas envidadas por Getulio Vargas no sentido de promover uma gradual abertura
política, especialmente por meio da edição da LC 9, de 18.02.1945, anunciando a
convocação de eleições gerais para assegurar o efetivo funcionamento dos órgãos
representativos, previstos na Constituição de 1937, mas impedidos de atuar pelo próprio
ditador. Tais expedientes, contudo, não impediram a deposição de Getulio pelas Forças
Armadas, em 29 de outubro de 1945, e a instalação de um governo provisório, liderado
pelo Ministro José Linhares, então Presidente do STF, que exerceu a chefia do governo
até a eleição do Marechal e Ex-Ministro da Guerra do Estado Novo, Eurico Gaspar
Dutra, empossado em 31.01.1946.

Aliás, a escolha do nome de Eurico Gaspar Dutra no Brasil ilustra um ambiente


favorável às eleições e consequente inserção no processo político dos heróis militares da
Segunda Grande Guerra, dos quais vários foram guindados, em boa parte dos casos,
pelo voto popular, à condição de Chefes de Governo ou outros cargos de relevo no
Executivo e Legislativo, como dão conta, dentre outros, os exemplos de um Dwight D.
Eisenhower, nos EUA, e de um Charles de Gaulle, na França.

Antes de continuar, é preciso analisar dois casos que se inserem no contexto do


Governo Getulista, quais sejam:

A. O caso Olga Benário Prestes (Habeas Corpus Nº 26.155/1936)

Uma página triste na história do STF.

Conhecida no Brasil como Olga Benário ou Olga Benário Prestes, Maria Bergner era
uma revolucionária que defendia o comunismo. Olga fez parte do grupo de
estrangeiros destacados para acompanhar Luis Carlos Prestes em seu retorno ao
Brasil.

Presa no início de 1936, no governo Vargas, e submetida a inquérito de expulsão, a


sorte de Olga era incerta. Seu advogado Heitor Lima impetrou em seu favor o habeas
corpus 26.155/DF. A autoridade coatora era o ministro da Justiça.

A petição foi apreciada pelo STF na sessão de 17 de junho de 1936. Pretendia-


se evitar a expulsão (e não a extradição) da paciente, que era presa política e estava
grávida. Esperava Anita Leocádia, filha de Prestes.

Infelizmente, numa página triste da história do STF, o pedido não foi conhecido pela
Corte, sob a alegação de que o artigo 2º do Decreto n. 702, de 21 de Março de 1936 –
baixado por Vargas – suspendera a garantia constitucional do habeas corpus em razão
da “commoção intestina grave articulada em diversos pontos do paiz desde novembro
de 1935, com a finalidade de subverter as instituições politicas e sociaes.”

O artigo 161 da Constituição de 1934 permitia a decretação do estado de guerra, o que


implicava a suspensão das garantias constitucionais que pudessem “prejudicar direta
ou indiretamente a segurança nacional”.

A tese de Heitor Lima advogado de Olga utilizada no HC baseava-se na afirmação de


que criminosos deveriam ser punidos, depois de julgados, e não expulsos. No entanto,
ainda segundo Heitor Lima, "o estrangeiro nocivo, e só este, é que poderia ensejar
expulsão".
E justamente porque a paciente supostamente teria cometido crime, aqui mesmo no
Brasil deveria ser julgada, processada e eventualmente penalizada. E também pelo
fato de que era estrangeira, porém não nociva, até porque estava grávida, não haveria
razões justificativas de expulsão. Ressaltando ainda que Olga encontrava-se grávida e
o filho, brasileiro, não poderia ser expulso.

O pedido de Habeas Corpus foi negado pelo Supremo Tribunal Federal. Por maioria,
não se conheceu do pedido, com base no artigo 2º do Decreto 702, de 21 de março de
1936, que vedava a utilização do remédio, naquele caso. Segue o teor da decisão:

“Vistos, relatados e discutidos estes autos de habeas-corpus


impetrado pelo Dr. Heitor Lima em favor de Maria Prestes, que
ora se encontra recolhida á casa de detenção, a fim de ser
expulsa do território nacional, como perigosa á ordem pública e
nociva aos interesses do país: A Corte suprema indeferindo, não
somente a requisição dos autos do respectivo processo
administrativo, como também o comparecimento da paciente e
bem assim a perícia médica afim de, constatar o seu alegado
estado de gravidez, e atendendo a que a mesma paciente é
estrangeira e a sua permanência no país compromete a
segurança nacional, conforme se depreende das informações
prestadas pelo Exmo. Sr. Ministro da Justiça; atendendo a que,
em caos tais não a como invocar a garantia constitucional do
habeas-corpus, á vista do disposto no art. 2º do decreto nº 702
de 21 de Março deste ano. ACORDA, por maioria, não tomar
conhecimento do pedido. Custas pelo impetrante. Corte
Suprema, 17 de Junho de 1936.”

O Supremo Tribunal Federal negou habeas corpus a Olga Benério Prestes, permitindo
que ela, comunista, judia e grávida, fosse deportada para a Alemanha nazista, onde
viria a ser assassinada num campo de concentração. Ao serem indagados sobre o caso,
os ministros do STF disseram que a decisão foi tomada com base no "interesse
público".

Consumada a decisão da Suprema Corte brasileira, Olga deixou o Brasil em setembro


de 1936, a bordo do cargueiro La Coruña rumo a Hamburgo. Transportada como
coisa. Já perdera sua condição de pessoa. Ela e seu nascituro haviam sido expulsos
para a Alemanha, onde o regime de Hitler e sua Gestapo os aguardavam. Olga foi
enviada para a prisão de Barnimstraße em Berlim, onde, em novembro de 1936,
nasceu sua filha Anita Leocádia.

O caso Olga Benario Prestes trata-se, inequivocamente, da demonstração de um erro


hermenêutico. Nesse particular, cabe inferir a irreparável máxima atribuída ao filósofo
grego Epictetus, contemporâneo de Aristóteles e, de que o que perturba
fundamentalmente o ser humano não são os fatos, e sim a interpretação que faz deles.

Em carta que endereçou a Prestes em 9 de outubro de 1937, Olga relatou o drama de


sua prisão preventiva sem acusação:
“[…] Carlos, faltam apenas alguns dias para completar um ano
que me trouxeram do navio em Hamburgo para Berlim e depois
para a prisão de mulheres. Devo confessar-te que, devido a
minha situação particular, eu esperava logo obter novamente a
liberdade. Mas agora já passou um ano e, ainda que não esteja
condenada à punição alguma por nenhum tribunal, o termo
‘detenção preventiva’ é suficiente para estar detida. Começo
agora a me habituar à idéia de uma detenção mais longa.
Melhores dias virão […]”.

Estes melhores dias não vieram. Logo Olga seria transferida para o campo de
concentração de Ravensbrück e de lá para o Centro de Eutanásia de Bernnurg, onde
morreu numa câmara de gás em 23 de abril de 1942. A condenação de Olga à
morte fora decretada em 1936, quando o STF não conheceu o HC 26.155, relatado por
Bento de Faria.

B. Caso dos “Irmãos Naves”

A centenária Araguari, no Triângulo Mineiro, foi cenário daquele que ficou conhecido
como um dos mais graves erros judiciários do Brasil. Em 1937, no derradeiro mês de
dezembro, dois irmãos (os Naves) começam a ser investigados pelo desaparecimento e
morte de um comerciante local.

O rumoroso caso começa quando os irmãos Sebastião José Naves, à época com 32
anos, e Joaquim Naves Rosa, 25 anos, firmam sociedade com o primo, o mercador
Benedito Pereira Caetano. Os três dividem o mesmo caminhão para executar a
atividade diária de sustento: compram e revendem cereais.

Após algumas idas e vindas do mercado, o ambicioso Benedito, acreditando em


possível alta das mercadorias, toma grandes empréstimos na praça. No entanto,
repetidas quedas de preços começam a preocupar o comerciante, já então afundado em
dívidas. Fazendo e refazendo contas, Benedito procura oferta e, em ato desesperado,
vende o produto a valor baixo, inferior ao montante da dívida.

O apurado com a venda é insuficiente para fazer frente aos credores, conquanto
somasse a polpuda quantia de 90 contos de réis.

Indeciso, com dívidas e com o bolso tilintando... Benedito se deslumbra com a


possibilidade de livrar-se do poço sem fundo de cifras negativas em que se enfiou e
delibera sua fuga na madrugada de 29 de novembro.

Os sócios, irmãos Naves, parceiros diários de labuta, dão conta do inesperado


desaparecimento do amigo. Correm ao delegado, que imediatamente dá início às
apurações.
As investigações corriam placidamente sob os cuidados do delegado Ismael Benedito
do Nascimento, mas uma troca de comando altera o desfecho do caso. De fato, assume
o cargo o tenente Francisco Vieira, que dá novos rumos ao inquérito.

Recém-empossado, Vieira convoca e reconvoca testemunhas, estuda, ouve boatos e


conclui que os irmãos Naves eram os maiores interessados no sumiço e morte do
primo Benedito.

Sem perder tempo, ordena a prisão de Joaquim e Sebastião. Os irmãos e demais


familiares passam por sessões de tortura pelos beleguins do mão de ferro. O chefe de
Polícia aponta os matadores e forma a opinião pública, certo da proximidade das
confissões. Mas elas não surgem tão rapidamente.

De fato, só após 15 dias de tortura em um matagal afastado da cidade, a 12 de janeiro


de 1938 o delegado afirma ter conseguido a "confissão particular" de Joaquim. A 3 de
fevereiro é a vez do irmão assumir a culpa.

Pronunciados, os Naves têm como defensor o valente advogado João Alamy Filho,
que ingressa com HC mostrando às autoridades o equívoco que era cometido.
Baldadas as tentativas, a dupla tem prisão preventiva decretada.

Chega o dia do julgamento. O causídico ensaia o sibilante discurso. Com a palavra,


seis dos sete jurados votam pela absolvição dos Naves. A promotoria não se dá por
satisfeita e recorre, pedindo e conseguindo anular o julgamento.

Em nova plenária, confirma-se o placar favorável aos irmãos. O tribunal, no entanto,


altera o veredito outra vez, com ajuda da Constituição de 1937.

Nesse cenário adverso, os consanguíneos são condenados a 25 anos e 6 meses de


reclusão, pena posteriormente reduzida para 16 anos.

Após 8 anos e 3 meses encarcerados, em agosto de 1946, Sebastião e Joaquim ganham


liberdade condicional ante comportamento exemplar.

Mas já é tarde.

Joaquim foi acometido de longa e dolorosa doença e morre nos alvores da liberdade.
O irmão sobrevivente, incansável, inicia sua busca para provar a inocência.

Boas notícias demoram a surgir, mas o Sol volta-lhe a brilhar no inverno de 1952,
quando aparece, em lugar distante, vivinho da silva, o primo Benedito. Só então, 12
anos após acusações, é, enfim, reconhecida a inocência dos irmãos.

5. A Constituição dos Estados Unidos do Brasil de 1946

A posse de Gaspar Dutra foi sucedida pela imediata instalação de uma Assembleia
Constituinte, aos 2 de fevereiro de 1946, eleita em 2 de dezembro de 1945, integrada
por representantes da direita, do centro-democrático, progressistas, socialistas e
comunistas, com certo predomínio dos primeiros.

Em 18 de setembro do mesmo ano, foi, após um período relativamente curto de debates,


aprovada a nova Constituição da República dos Estados Unidos do Brasil, que, ao
contrário das demais Constituições, prescindiu de um projeto pré-elaborado, mas adotou
como texto-base a Constituição de 1934, o que contribuiu para um trâmite expedito do
processo constituinte.

No que atine ao sistema normativo, tratava-se de uma Constituição que se assemelhava


muito à Constituição de 1934, mediante a distribuição de poderes entre a União, Estados
e Municípios, traçando diretrizes gerais da ordem econômica e social, prevendo os
direitos políticos e sociais, outorgando estabilidade no Brasil até os fatos que eclodiram
em 1961.

Em termos de novidades em relação aos textos anteriores, especialmente em face da


Carta ditatorial imposta pelo regime de Vargas, é possível destacar, no campo
organizatório, a tentativa de restauração do federalismo, nos moldes clássicos da
tradição republicana de 1891, e a reinserção do Senado como segunda Câmara
Legislativa na estrutura do Congresso Nacional.

Embora com um tom menos incisivo, relativamente à Constituição de 1934, os direitos


sociais foram objeto de proteção, especialmente no campo trabalhista, onde foi, por fim,
reafirmado o direito de greve. No campo da garantia dos direitos individuais, situa-se a
incorporação ao ordenamento jurídico brasileiro da inafastabilidade do controle
jurisdicional: “A lei não poderá excluir da apreciação do Poder Judiciário qualquer lesão
de direito individual” (art. 141, § 4.º); e na ordem social e econômica foi estabelecido
um plano de recuperação e especial proteção da região Amazônica e do Nordeste,
especialmente pelos problemas socioeconômicos advindos dos períodos de secas,
mediante a aplicação de percentuais do orçamento tributário da União (art. 199).

Gilmar Mendes:

O Legislativo reassumiu o seu prestígio, reservando-se somente a


ele a função de legislar, ressalvado o caso da lei delegada. Na
vigência dessa Constituição, foi instituída a representação por
inconstitucionalidade de lei, reforçando o papel do Judiciário no
concerto dos três Poderes. Da mesma forma, proclamou-se que
nenhuma lesão de direito poderia ser subtraída do escrutínio desse
Poder. Ficaram excluídas as penas de morte, de banimento e do
confisco. A Constituição ocupava-se da organização da vida
econômica, vinculando a propriedade ao bem-estar social e
fazendo dos princípios da justiça social, da liberdade de iniciativa
e da valorização do trabalho as vigas principais da ordem
econômica. O direito de greve apareceu expresso no Texto.

O texto constitucional, todavia, também apresentava aspectos considerados


problemáticos. Neste sentido, Miguel Reale, a despeito de louvar diversos pontos da
obra do constituinte de 1946, apontava para aquilo que designou de quatro graves
equívocos, consubstanciados no exacerbado enfraquecimento do Executivo, frente à
estrutura do Poder Legislativo; na redução do quadro normativo às figuras da lei
constitucional e da lei ordinário, no qual se encontrava o Legislativo; na dificuldade
engendrada pela Constituição no tocante à intervenção do Estado no domínio
econômico, especialmente diante de uma sociedade industrial emergente; e na adoção
ilimitada do pluralismo partidário, oportunizando o surgimento de partidos políticos de
fachada.

No que diz com as reformas constitucionais levadas a efeito, a mais significativa


(embora efêmera e de questionável legitimidade) resultou na instauração, pela primeira
vez no regime republicano brasileiro, do parlamentarismo como sistema de governo,
mediante a EC 4, de 2 de setembro de 1961, votada às pressas por ocasião da renúncia
de Jânio Quadros, e em face da resistência, por parte dos setores reacionários da política
nacional, ao nome do então Vice-Presidente João Goulart.

Rapidamente rejeitado por ocasião de consulta plebiscitária, o parlamentarismo foi


relegado ao esquecimento, e a sucessão de percalços vivenciados durante o governo de
João Goulart acabaram levando ao ocaso da ordem democrática, quando, em 1.º de abril
de 1964, assume o poder um Comando Militar “Revolucionário”, destituindo o poder
civil e instaurando a ditadura militar, que perduraria até o ano de 1985, impulsionada
pelos sucessivos Atos Institucionais, bem como em virtude das possibilidades
oferecidas pela própria Constituição de 1967 e sua Emenda 1/1969.

É possível notar, portanto que, sob a égide da Constituição de 1946, sucederam-se crises
políticas e conflitos constitucionais de poderes, que se avultaram logo após o primeiro
período governamental, quando se elegeu Getúlio Vargas com um programa social e
econômico que inquietou as forças conservadoras, que acabaram provocando
formidável crise que culminou com o suicídio do chefe do governo. Sobe o Vice-
Presidente Café Filho, que presidiu às eleições para o quinquênio seguinte, sendo
derrotadas as mesmas forças opostas a Getúlio. Nova crise. Adoece Café Filho. Assume
o Presidente da Câmara dos Deputados, Carlos Luz, que é deposto por um movimento
militar liderado pelo General Teixeira Lott (11.11.55), que também impede Café Filho
de retornar à Presidência (21.11.55). Assume o Presidente do Senado, Seno Nereu
Ramos, que entrega a Presidência a Juscelino Kubitschek de Oliveira, contra o qual
espocam rebeliões golpistas, mas sem impedirem concluísse seu mandato.

Elege-se Jânio Quadros, para suceder a Juscelino. Sete meses depois, renuncia. Reação
militar contra o Vice-Presidente João Goulart, visando impedir sua posse na
Presidência. Vota-se, às pressas, uma emenda constitucional parlamentarista (EC-4, de
2.9.61, denominada Ato Adicional), retirando-lhe ponderáveis poderes, com o que não
se conformaria. Consegue um plebiscito que se pronuncia contra o parlamentarismo e,
pois, pela volta ao presidencialismo, razão por que o Congresso aprova a EC-6, de
23.1.63, revogando o Ato Adicional Jango Goulart tenta equilibrar-se no poder
acariciando a direita, os conservadores e a esquerda.

Jango, despreparado, instável, inseguro e demagogo, desorienta-se. Perde o estribo do


poder. Escora-se no peleguismo, em que fundamentara toda a sua carreira política.
Perde-se. Sem prestar atenção aos mais sensatos, que, aliás, despreza, cai no dia 1º de
abril de 1964, com o Movimento Militar instaurado no dia anterior.
6. A Constituição do Brasil de 1967 e a EC 1/1969

Após a eleição pelo Congresso Nacional do Marechal Humberto Castelo Branco como
Presidente da República, em consonância com o disposto pelo Ato Adicional 1, e pela
desfiguração da Constituição de 1946, mediante a ingente produção legiferante da Junta
Militar, decidiu-se pela formulação de uma nova Constituição, mais afeita ao novo
regime de governo.

O Congresso Nacional foi convocado às pressas a votar o Projeto de Constituição,


elaborado pelo então Ministro da Justiça, Carlos Medeiros Silva, pelo Ato Institucional
4, de 07.12.1966. A despeito de ter sido votada pelo Congresso Nacional, o que ocorreu
de fato, em virtude da convocação autoritária e da fixação de um prazo fatal exíguo para
votação do projeto encaminhado pelo governo militar, foi uma mera homologação
congressual, de tal sorte que, em termos técnicos, a Carta de 1967 deve ser
compreendida como outorgada, ainda que com o “beneplácito” do Legislativo. Nessa
perspectiva, não é à toa que se chegou a falar, considerando o somatório dos vícios de
formação e de conteúdo, no “aleijão constitucional de 1967”.

Segundo o saudoso desembargador, historiador e


constitucionalista gaúcho (Ruy Ruben Ruschel), podem ser
colacionados os seguintes vícios (de formação) da constituinte e
da Constituição de 1967: (a) ter sido promulgada por um
congresso que não havia recebido mandato constituinte expresso
do eleitorado; (b) aprovação por maioria absoluta em turno único;
(c) em virtude dos expurgos e cassações de parlamentares, faltava
plena legitimidade ao Congresso constituinte; (d) prazo exíguo
para discussão e aprovação do projeto encaminhado pelo governo
militar (quatro dias para aprovação do projeto em bloco e doze
dias para analisar 1.500 emendas apresentadas); (e) ameaça de
aprovação tácita no caso de falta de aprovação pelo Congresso no
prazo assinalado; (f) forte coação sobre os constituintes, em
função da presença de ameaças de suspensão de direitos, cassação
de mandatos, entre outras [RUSCHEL, Ruy Ruben. Direito
constitucional em tempos de crise, p. 28 e ss.]

A Carta Constitucional de 1967 entrou em vigor em 15.03.1967, antes mesmo da posse


do Marechal Arthur da Costa e Silva, sendo fortemente influenciada pela Carta Política
de 1937, cujas características essenciais foram incorporadas. Ao longo de todo o texto
constitucional, evitou-se falar de democracia, sendo esta substituída pela expressão
“regime representativo”.

Dentre suas disposições mais importantes estão a exacerbação do poder centralizado na


União e na figura do Presidente da República; a eleição indireta para a escolha do
Presidente da República; a redução da autonomia individual, permitindo a suspensão de
direitos e garantias constitucionais; a aprovação de leis por decurso de prazo, resquício
do período autoritário do Estado Novo brasileiro; a prerrogativa do Presidente da
República para expedir decretos-leis sobre segurança nacional e finanças públicas; e o
recrudescimento do regime no que tange à limitação do direito de propriedade,
autorizando, para fins de reforma agrária, a desapropriação mediante pagamento de
indenização em títulos da dívida pública.
Se havia alguma esperança de retorno à normalidade institucional democrática, esta foi
por água abaixo com a decretação, em 13.12.1968, do Ato Adicional 5, secundado pelo
recesso do Congresso Nacional. O novo edito ditatorial previa, dentre outras questões, a
possibilidade de o Poder Executivo suspender direitos políticos e cassar mandatos
eletivos em todas as esferas legislativas e de governo; a suspensão do habeas corpus
nos casos de crimes políticos; o afastamento da apreciação judicial dos atos praticados
com base no Ato Institucional; e a competência do Executivo para legislar no período de
recesso do legislativo.

A ditadura toma forma no seu estágio mais avançado, perseguindo e torturando presos
políticos, censurando a imprensa e reprimindo a atividade político-partidária. Na
percuciente análise de Pontes de Miranda, estava em curso um período histórico-
institucional em que não havia mais a distinção entre o ato político (ou administrativo) e
o ato legislativo, ou seja, quando o ato político já é lei, no sentido de que não havia mais
o rito do Poder Legislativo em transformar o ato político em ato legislativo,
consubstanciando um governo autocrático.

Com a doença do Presidente Costa e Silva, ele é declarado temporariamente impedido


do exercício da Presidência pelo AI 12, de 31.8.69. Assumem o Poder Executivo os
Ministros da Marinha de Guerra, do Exército e da Aeronáutica, que completam o
preparo do novo texto constitucional, afinal promulgado em 17.10.69, como EC n. 1 à
Constituição de 1967, para entrar em vigor em 30.10.69.

Considerando a amplitude das reformas e a consolidação da ditadura militar, com um


reforço significativo dos poderes de exceção, entre outros aspectos, costuma atribuir-se
à Emenda 1/1969 a condição de uma nova Constituição, e não apenas de uma simples
emenda à Constituição de 1967. “Teórica e tecnicamente, não se tratou de emenda, mas
de nova constituição”, nos ensina José Afonso da Silva. Com efeito – e para além deste
aspecto –, a emenda apenas serviu como mecanismo de outorga de um novo texto
constitucional, que na prática passou a reger a ordem jurídico-estatal brasileira.

Além disso, como bem destacou Ruy Ruben Ruschel, o movimento militar praticamente
confessou, quando da emissão do Ato Institucional 5, de 13.12.1968, a origem ditatorial
da Carta de 1967, visto que no quarto considerando daquele edito autoritário ficou
consignado textualmente que a “Revolução vitoriosa outorgou à Nação” os
instrumentos jurídicos exteriorizados na Carta.

De qualquer modo, não é caso de dar valor demasiado à discussão sobre se a EC 1/1969
foi uma nova Constituição, substituindo por completo a Constituição de 1967, posição
que parece gozar da preferência no âmbito da doutrina, ou se é possível reunir ambos os
documentos, ainda mais em virtude de a vigência de ambos ter sido acompanhada pela
vigência dos editos ditatoriais (com destaque para os Atos Institucionais), de tal sorte
que o que o Brasil experimentou no período de 1964 até a promulgação da CF de 1988
foi um processo complexo de ruptura, ascensão, auge e distensão de uma ditadura,
seguida de uma reconstitucionalização democrática e pacífica, que viabilizou uma nova
ordem constitucional capaz de assegurar estabilidade institucional ao País.

6.1. Alguns Atos Institucionais


O Ato Institucional no 1 (AI-1) para dar suporte ao golpe. O preâmbulo do Ato
Institucional no 1, de 9 de abril de 1964, afirma peremptoriamente que:

“A revolução vitoriosa se investe no exercício do Poder


Constituinte. Este se manifesta pela eleição popular ou pela
revolução. Esta é a forma mais expressiva e radical do Poder
Constituinte. Assim a revolução vitoriosa, como Poder
Constituinte, se legitima por si mesma... Os processos
constitucionais não funcionaram para destituir o governo, que
deliberadamente se dispunha a bolchevizar o País. Destituído pela
revolução, só a esta cabe ditar as normas e os processos de
constituição do novo governo e atribuir-lhe os poderes ou os
instrumentos jurídicos que lhe assegurem o exercício do Poder no
exclusivo interesse do País.”

Acompanhado desse espírito constituinte, o artigo 7º do AI-1 suspendeu, por seis meses,
as garantias constitucionais da vitaliciedade e da estabilidade, admitindo, mediante
investigação sumária, a demissão ou dispensa de servidores públicos, e, ainda, afirmou
que o controle judicial desses atos se limitaria ao exame das formalidades extrínsecas,
vedada a apreciação dos fatos que os motivaram, bem como sua conveniência ou
oportunidade. Inicia-se um ciclo de punições e demissões baseadas num suposto
interesse público.

O preâmbulo do AI-2 afirma, ao fazer referência ao AI-1, que:

“Não se disse que a revolução foi, mas que é e continuará. Assim


o Poder Constituinte não se exauriu, tanto que é ele próprio do
processo revolucionário, que tem de ser dinâmico para atingir
seus objetivos. Acentuou-se, por isso, no esquema daqueles
conceitos, traduzindo uma realidade incontestável de Direito
Público, o poder institucionalizante de que a revolução é dotada
para fazer vingar os princípios em nome dos quais a nação se
levantou contra a situação anterior”.

O AI-2, de 27 de outubro de 1965, transferiu para a justiça militar a competência para


julgamento dos crimes contra a segurança nacional, aumentou o número de ministros do
STF de 11 para 16, determinou o fim das eleições diretas para Presidente da República,
extinguiu os partidos políticos, admitiu a cassação e a suspensão de direitos políticos,
suspendeu as garantias da vitaliciedade, estabilidade e inamovibilidade, excluiu da
apreciação do Poder Judiciário os atos praticados pelo comando da revolução e pelo
governo federal com fundamento no Ato Institucional de 9 de abril de 1964, no próprio
Ato Institucional no 2 e em seus Atos complementares.

Do rol de medidas dos dois primeiros Atos Institucionais, verifica-se o enfraquecimento


do sistema de freios e contrapesos, bem como a manutenção meramente formal da
Constituição de 46, uma vez que o Comando da Revolução tinha poderes para
sumariamente cassar direitos políticos, aposentar e demitir juízes, sem que houvesse a
possibilidade de discussão judicial desses atos.
A ampliação do número de ministros do STF foi também uma medida autoritária com a
clara intenção de, mediante a nomeação de 5 ministros de uma só vez para a Suprema
Corte, ter a maioria do Tribunal alinhada aos interesses da revolução. Do ponto de vista
constitucional, não havia, portanto, na prática, quaisquer limites ao Comando da
“Revolução”, e a Constituição, lembrando a classificação ontológica de Loewenstein,
era apenas semântica.

A afirmação de que o poder constituinte não se exauriu, formulada no preâmbulo do AI-


2, deixou clara a ideia de que a “revolução” tudo podia, em nome do interesse dos
“verdadeiros brasileiros”.

Manoel Gonçalves Ferreira Filho (1984, p. 20) aponta que:

“o Pres. Castello Branco, em discurso proferido por ocasião da


solenidade de diplomação dos estagiários da Escola Superior de
Guerra, expôs a razão por que, dias antes, editara o Ato
Institucional n.º 4 que determinava e regulava a elaboração de
nova Constituição. ‘Com uma Constituição vulnerável a vários
tipos de crise’, afirmou ele, ‘a Nação vinha há muito inquietada
entre as alternativas inelutáveis da anarquia e da ditadura. E a
revolução eliminou uma e evitou a outra. Por que não se
completar agora a institucionalização da Revolução?’”.

Esse AI-4 fixou a data limite de 21 de janeiro de 1967 para a votação do texto enviado
pelo Presidente da República. Apesar de toda a pressão e a intimidação, os
parlamentares conseguiram, pelo menos do ponto de vista formal, incluir os direitos
fundamentais na Constituição. Na prática, a Constituição de 1967 teve pouco tempo de
aplicação, pois, no ano seguinte, foi editado o AI-5, que tornou meramente figurativos a
organização de poder e os direitos fundamentais previstos na Constituição.

É interessante notar que, no preâmbulo do AI-5, se afirma que a “revolução” teve como
propósito dar ao país:

“um regime que, atendendo às exigências de um sistema jurídico


e político, assegurasse autêntica ordem democrática, baseada na
liberdade, no respeito à dignidade da pessoa humana, no combate
à subversão e às ideologias contrárias às tradições de nosso povo,
na luta contra a corrupção.”

Dignidade da pessoa humana? Democracia? Liberdade para quem? Apesar da


fundamentação do preâmbulo, na prática, o AI-5 foi o instrumento jurídico que deu
aparência de legalidade e legitimidade a uma série de perseguições e medidas que
violaram os mais comezinhos direitos fundamentais, tudo isso acompanhado da
previsão expressa de que os Atos estariam fora do controle judicial.

Art. 11 do AI-5: “Excluem-se de qualquer apreciação judicial


todos os atos praticados de acordo com este Ato institucional e
seus Atos Complementares, bem como os respectivos efeitos”.

Fabiana Oliveira recorda:


“Tendo por base esse ato, o governo aposentou compulsoriamente
três ministros do STF que se mantinham em posição contrária ao
regime: Victor Nunes Leal, Hermes Lima e Evandro Cavalcanti
Lins e Silva. Essa decisão provocou a demissão voluntária de dois
ministros, Antônio Carlos Lafayette de Andrada16 e Antônio
Gonçalves. Um mês e meio depois foi decretado o AI-6, que
reduziu novamente o número de ministros do STF para onze,
vedou a competência do Tribunal em julgar ordinariamente o
habeas corpus e aboliu o recurso ordinário nos casos de mandado
de segurança denegados pelos tribunais”.

A aposentadoria compulsória de três ministros do STF foi um recado direto de qual era
a regra do jogo e de qual relação deveria existir ou não entre o Poder Judiciário e o
Poder Executivo. É de se destacar que o Judiciário, antes do AI-5, estava concedendo
várias ordens de habeas corpus em crimes contra a segurança nacional. Não por acaso o
artigo 10 do AI-5 previa expressa e fatidicamente:

Art. 10 – Fica suspensa a garantia de habeas corpus, nos casos de


crimes políticos, contra a segurança nacional, a ordem econômica
e social e a economia popular.

Em resumo, o AI-5 autorizava o presidente da República, em caráter excepcional e,


portanto, sem apreciação judicial, a: decretar o recesso do Congresso Nacional, intervir
nos estados e municípios, cassar mandatos parlamentares, suspender, por dez anos, os
direitos políticos de qualquer cidadão, decretar o confisco de bens considerados ilícitos,
e suspender a garantia do habeas-corpus.

Essa centralização de poder nas mãos do Presidente da República, estando esta


autoridade acima do bem e do mal, é completamente incompatível com o
constitucionalismo.

Além disso, ao contrário dos outros Atos Institucionais, o AI-5 não tinha prazo de
vigência definido, o que fazia com que sua eficácia seria extinta apenas segundo as
conveniências dos mandatários do regime. Desta forma, o AI-5 foi a expressão mais
emblemática da ditadura militar brasileira (1964-1985). Vigorou até dezembro de 1978
e produziu um elenco de ações arbitrárias de efeitos duradouros. O AI-5 foi,
indubitavelmente, um dos maiores símbolos da ditadura, o instrumento jurídico que
outorgou poderes para abusos do Executivo.

6.2. Lei de Anistia

A transição do regime militar para a democracia brasileira não foi um processo


revolucionário. Ao contrário, realizada sob a tutela militar, como anunciado pelo
Presidente Geisel, tinha o propósito de ser uma “distensão lenta, gradual e segura”.
Objetivava-se a abertura, mas sem perder o controle da situação. Nas palavras de
Ronaldo Costa Couto, “Ernesto Geisel governou com a abertura em uma das mãos e
com o AI-5 na outra. A flor e o chicote”.
Nesse contexto surgiram os Comitês Brasileiros de Anistia, que organizaram
manifestações públicas, debates, comícios, divulgaram panfletos, publicaram cartazes,
promoveram abaixo-assinados, mesmo sob a forte ameaça do aparato militar. O
movimento recebeu apoio até de presos políticos, por meio de greves de fome em favor
da anistia.

No final de 1978, foi realizado, em São Paulo, o 1º Congresso Nacional da Anistia,


onde foi lançada a palavra de ordem “anistia ampla, geral e irrestrita” aos presos,
cassados, exilados e demais perseguidos políticos. Ampla, porque deveria alcançar
todos os atingidos pelos Atos Institucionais e demais dispositivos de exceção; geral e
irrestrita, porque não deveria impor qualquer condição aos seus beneficiários, nem o
exame de mérito dos atos praticados.

Diante da pressão popular, o projeto da lei de anistia foi então encaminhado pelo
Presidente da República João Baptista Figueiredo ao Congresso Nacional, ocasião em
que foi formada uma comissão mista de senadores e deputados para analisá-lo. A falta
de legitimidade do projeto da Lei de Anistia brasileira, no sentido de não se adequar aos
anseios da população, pode ser atestada pelo número de emendas e substitutivos
propostos durante os trabalhos da comissão. No total, foram oferecidas 305 emendas e
09 substitutivos. Tais emendas foram apresentadas por 134 parlamentares, sendo que 49
pertenciam à ARENA. A maior parte delas, mais especificamente 83, dizia respeito ao
artigo 1º do projeto, referente aos destinatários do benefício.

Após nove horas de debates e votações, sob um clima de tensão no Congresso, o projeto
foi finalmente aprovado, por 206 votos a favor, e 201 contra. Com a sanção do
Presidente da República, em 28 de agosto de 1979, foi promulgada e publicada a Lei nº
6.683.73, Lei de Anistia. Eis a redação de seu primeiro artigo e parágrafo:

L. 6683/79 - Art. 1º É concedida anistia a todos quantos, no


período compreendido entre 02 de setembro de 1961 e 15 de
agosto de 1979, cometeram crimes políticos ou conexo com estes,
crimes eleitorais, aos que tiveram seus direitos políticos suspensos
e aos servidores da Administração Direta e Indireta, de fundações
vinculadas ao poder público, aos Servidores dos Poderes
Legislativo e Judiciário, aos Militares e aos dirigentes e
representantes sindicais, punidos com fundamento em Atos
Institucionais e Complementares.

§ 1º - Consideram-se conexos, para efeito deste artigo, os crimes


de qualquer natureza relacionados com crimes políticos ou
praticados por motivação política.

Importante notar que desde a edição da Lei de Anistia, em 1979, a interpretação que
prevaleceu foi a de que houve uma anistia ampla, geral e irrestrita, com extensão aos
crimes comuns praticados pelos agentes da repressão que mataram, torturaram e
violentaram sexualmente os opositores políticos do regime militar. Essa interpretação
oficial acerca do alcance dos citados dispositivos legais “representou o silêncio e o
esquecimento sobre os envolvidos nas ações repressivas após o golpe de 1964”.
Uma virada de página em relação à sua postura anistiante poderia ter sido realizada
recentemente pelo Estado brasileiro. É que em outubro de 2008 o Supremo Tribunal
Federal foi provocado pelo Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil a,
novamente, pronunciar-se sobre o alcance da anistia concedida em 1979, desta vez à luz
da Constituição Federal de 1988 e de toda a normatividade internacional dos Direitos
Humanos.

O ajuizamento junto ao STF da ADPF 153 pretendeu que aquela Corte declarasse,
“conforme à Constituição, à luz dos seus preceitos fundamentais, que a anistia
concedida pela citada lei aos crimes políticos ou conexos não se estende aos crimes
comuns praticados pelos agentes da repressão contra opositores políticos, durante o
regime militar.”

Além da OAB, autora da ação, integraram a lide, na qualidade de amici curiae, a


Associação de Juízes para a Democracia – AJD, o Centro pela Justiça e o Direito
Internacional – CEJIL, a Associação Brasileira de Anistiados Políticos – ABAP e a
Associação Democrática e Nacionalista de Militares – ADNAM. Além disso, como
intervenientes obrigatórios por força de Lei, foram chamados a Advocacia-Geral da
União, o Congresso Nacional e a Procuradoria-Geral da República.

Todos trataram de questões referentes à aplicabilidade técnica da Lei nº 6.683/1979 aos


agentes do Estado, a conformidade, ou não, anistia brasileira ao texto constitucional e ao
Direito Internacional, entendido como os tratados e convenções internacionais sobre
direitos humanos ratificados pelo país, o costume internacional e a jurisprudência
internacional relacionada ao tema.

Ao final do julgamento, em abril de 2010, por 7 votos a 2, o Supremo Tribunal Federal


reconheceu a constitucionalidade e eficácia da Lei de Anistia brasileira, bem como
manteve a interpretação de que ela obstaculiza o julgamento dos crimes comuns
praticados por agentes da repressão contra civis durante o regime militar, entre eles,
torturas, lesões corporais, homicídios e crimes sexuais.

O Ministro Eros Grau, relator da ADPF 153, votou pela improcedência da ação.
Acompanhando seu entendimento, votaram, nesta ordem, as Ministras Cármen Lúcia e
Ellen Gracie e os Ministros Marco Aurélio, Celso de Mello, Cezar Peluso e Gilmar
Mendes. Os Ministros Ricardo Lewandowski e Ayres Britto, divergindo do relator,
julgaram parcialmente procedente o pedido. Não votaram os Ministros Joaquim Barbosa
e Dias Toffoli, aquele porque se encontrava licenciado e este por já ter se manifestado
anteriormente sobre a Lei de Anistia enquanto Advogado-Geral da União.

7. A Nova República e a Constituição de 1988

A luta pela normalização democrática e pela conquista do Estado Democrático de


Direito começara assim que se instalou o golpe de 1964 e especialmente após o AI 5,
que foi o instrumento mais autoritário da história política do Brasil. Tomara, porém, as
ruas, a partir da eleição dos Governadores em 1982. Intensificara-se, quando, no início
de 1984, as multidões acorreram entusiásticas e ordeiras aos comícios em em prol da
eleição direta do Presidente da República, interpretando o sentimento da Nação, em
busca do reequilíbrio da vida nacional, que só poderia consubstanciar-se numa nova
ordem constitucional que refizesse o pacto político-social. Frustrou-se, contudo, essa
grande esperança.

Não desanimaram, ainda desta vez, as forças democráticas. Lançam a candidatura de


Tancredo Neves, então Governador de Minas Gerais, à Presidência da República.
Concorreria pela via indireta no Colégio Eleitoral com o propósito de destruí-lo.

Em campanha, deita as bases da Nova República em famoso discurso pronunciado em


Maceió. Propôs construí-la usando metodologia clara, conforme esta síntese:

"A Nova República pressupõe uma fase de transição, com início a


15 de março de 1985, na qual serão feitas, 'com prudência e
moderação', as mudanças necessárias: na legislação opressiva, nas
formas falsas de representação e na estrutura federal, fase que 'se
definirá pela eliminação dos resíduos autoritários', e o que é mais
importante 'pelo início, decidido e corajoso, das transformações
de cunho social, administrativo, econômico e político que requer a
sociedade brasileira'. E, assim, finalmente, a Nova República 'será
iluminada pelo futuro Poder Constituinte, que, eleito em 1986,
substituirá as malogradas instituições atuais por uma Constituição
que situe o Brasil no seu tempo, prepare o Estado e a Nação para
os dias de amanhã”.

O povo emprestou a Tancredo Neves todo o apoio para a execução de seu programa de
construção da Nova República, a partir da derrota das forças autoritárias que dominaram
o país durante tanto tempo. Sua eleição, a 15.1.85, foi, por isso, saudada como o início
de um novo período na história das instituições políticas brasileiras, e que ele próprio
denominara de a Nova República, que haverá de ser democrática e social, a concretizar-
se pela Constituição que sena elaborada pela Assembleia Nacional Constituinte, livre e
soberana, que ele convocaria assim que assumisse a Presidência da República.
Prometeu, também, que nomearia uma Comissão de Estudos Constitucionais a que
caberia elaborar estudos e anteprojeto de Constituição a ser enviado, como mera
colaboração, à Constituinte.

Sua morte, antes de assumir a Presidência, comoveu o Brasil inteiro. Foi chorado. O
povo sentiu que suas esperanças eram outra vez levadas para o além. Assumiu o Vice-
Presidente, José Sarney, que sempre esteve ao lado das forças autoritárias e retrógradas.
Contudo, deu sequência às promessas de Tancredo Neves.

O Presidente José Sarney, cumprindo mais uma etapa dos compromissos da transição,
enviou ao Congresso Nacional proposta de emenda constitucional convocando a
Assembleia Nacional Constituinte.

A querela jurídica em torno da impossibilidade formal da instituição de um poder


constituinte originário ilimitado mediante emenda constitucional acabou não vingando,
especialmente pelo fato de que, materialmente, tal emenda constituiu-se em ato político,
destinado a pôr cobro ao regime constitucional pretérito, e não a manter a Constituição
emendada. De qualquer modo, o que se pode designar de um “impulso constituinte”, ou
seja, o modo pelo qual se inicia o processo constituinte, por si só não retira a plena
legitimidade da nova ordem constitucional, desde que esta possa ser reconduzida a uma
Assembleia Constituinte livre e soberana (embora não exclusiva, como, aliás, era a
preferência de muitos), marcada por uma participação popular e por um processo de
deliberação sem precedentes na história brasileira e mesmo digna de nota no contexto
internacional.

Ainda no âmbito de uma fase que se pode designar de preparatória da Assembleia


Constituinte, o então Presidente José Sarney criou e nomeou, sob a presidência de
Afonso Arinos de Mello Franco, uma Comissão Provisória de Estudos Constitucionais,
a assim chamada “Comissão dos Notáveis”, formada por 50 personalidades ilustres e
ligadas às mais diversas áreas da vida econômica, social, política e cultural, portanto,
não integrada apenas por juristas, revelando um perfil inquestionavelmente plural e
heterogêneo, inclusive em termos de orientação ideológica, com o intuito de elaborar
um anteprojeto de Constituição. O texto que resultou dos trabalhos da Comissão era
analítico (436 artigos no corpo permanente), revelando um tom progressista,
comprometido com uma noção de Estado Social e Democrático de Direito, e propunha a
adoção do sistema parlamentarista de governo, o que, segundo consta, acabou
influenciando na decisão do Presidente Sarney no sentido de não enviar o anteprojeto à
Constituinte, o que, todavia, considerando a divulgação e repercussão do anteprojeto
“Afonso Arinos”, não impediu que viesse a influenciar de maneira decisiva, em diversos
aspectos, o processo de elaboração da Constituição Federal de 1988.

A Assembleia Nacional Constituinte foi instalada no dia 1.º de fevereiro de 1987, na


sede do Congresso Nacional, sob a presidência do Min. José Carlos Moreira Alves, que,
na época, presidia o STF, tendo sido composta por 559 membros (487 deputados
federais e 72 senadores, dos quais 23 eram ainda oriundos do quadro de senadores
eleitos de modo indireto, em 1982, os assim chamados senadores “biônicos”, com
mandato até 1990), registrando-se, além disso, que os integrantes da Assembleia
Constituinte receberam, nas eleições de 1986, mandato cumulativo, pois, além das
funções constituintes, de caráter transitório, seguiram exercendo as atribuições
ordinárias do Congresso Nacional.

Sem prejuízo de outros aspectos relevantes no que diz com a composição da Assembleia
Constituinte, quanto ao perfil político-ideológico dos seus integrantes é possível afirmar
que, a despeito do forte pluralismo, predominava a ala do assim chamado “Centro” (ou
“Centrão”, como também se costumava dizer), com ligeira inclinação para a chamada
“centro-direita”, visto que os partidos efetivamente identificados com a esquerda (PDT,
PT, PCB, PC do B e PSB) totalizavam apenas 50 constituintes, ou seja, 9% do total,
registrando-se, ademais, um percentual relativamente alto de troca de partidos
(aproximadamente 15% dos constituintes trocaram de sigla partidária ao longo do
processo), além do surgimento do PSDB, em junho de 1988, absorvendo um número
importante de dissidentes do PMDB, mantida, todavia, a orientação do Centro, que foi
decisiva para o formato final da Constituição.

No que diz com os trabalhos propriamente ditos no âmbito da Assembleia Constituinte,


uma vez superada questão de ordem envolvendo a legitimidade dos assim chamados
senadores “biônicos” e eleito, pela própria Assembleia, o seu presidente, com vitória
esmagadora do Deputado Ulysses Guimarães, do PMDB, a primeira fase das atividades,
mais de dois meses, foi destinada à elaboração do regimento interno, decidindo-se, para
além de uma série de outras questões relevantes, que a Constituinte se limitaria à função
de elaborar uma nova Constituição, e não no sentido de também promover modificações
na ordem constitucional vigente, refutando-se, ainda, qualquer recurso oficial a um
anteprojeto, seja o elaborado pela Comissão Afonso Arinos, seja algum projeto
elaborado por uma comissão interna, formada por um grupo menor de constituintes.

Assim, todos os integrantes da Assembleia foram envolvidos no processo, participando


das 24 subcomissões temáticas, reunidas em torno de oito comissões temáticas, que, na
sequência, enviariam os seus respectivos projetos a uma Comissão de Sistematização, o
que, para alguns, contribuiu decisivamente para o caráter analítico da Constituição de
1988.

Após ampla participação de um considerável número de representantes da sociedade


civil, seja por meio de audiências públicas realizadas na esfera das subcomissões
temáticas, bem como e de modo especial por meio da apresentação de emendas (apenas
na fase das comissões temáticas foram recebidas 14.911 propostas), com destaque para
a apresentação de 122 emendas populares reunindo ao todo mais de doze milhões de
assinaturas, um exaustivo trabalho e intenso debate no âmbito da Comissão de
Sistematização resultou no envio, ao Plenário da Assembleia Constituinte (em
24.11.1987), do Projeto de Constituição aprovado pela Comissão de Sistematização, sob
a presidência do Deputado Bernardo Cabral.

Na sequência, em função de uma suspensão dos trabalhos no texto constitucional em


virtude de uma acirrada disputa em torno de uma alteração do regimento interno da
Constituinte, patrocinada pelo bloco interpartidário conhecido como “Centrão”, foi
retomado o processo propriamente dito, seguindo-se dois turnos de votação, com
posterior remessa do texto aprovado em segundo turno para uma Comissão de Redação,
presidida por Ulysses Guimarães e integrada por 28 componentes, que, embora não
fosse esta a sua função (já que a Comissão de Redação deveria apenas cuidar de
aspectos linguísticos e de técnica legislativa), acabou ainda promovendo ajustes de
conteúdo no texto, cuja versão final, após mais de vinte meses de intenso trabalho, foi
aprovada por 474 votos contra 15 (sem contar as 6 abstenções) e promulgada no dia
05.10.1988.

O texto da Constituição da República Federativa do Brasil promulgado em 05.10.1988


surge com 245 artigos no corpo permanente, distribuídos em nove títulos: (a) princípios
fundamentais; (b) direitos e garantias fundamentais; (c) organização do Estado; (d)
organização dos poderes; (e) defesa do Estado e instituições democráticas; (f) tributação
e orçamento; (g) ordem econômica e financeira; (h) ordem social; (i) disposições gerais.
Soma-se ao corpo permanente um Ato das Disposições Constitucionais Transitórias,
com 70 artigos, número de dispositivos que chegou a aumentar em virtude de sucessivas
e algumas mesmo abrangentes reformas constitucionais, sendo pelo menos curioso e
digno de nota que mais de duas décadas depois de sua promulgação o próprio Ato das
Disposições Transitórias tenha crescido no que diz com o número de artigos.

Cuida-se, portanto, de um texto que, sem prejuízo de suas virtudes, surge – de acordo
com a crítica de Luís Roberto Barroso – como “um texto que, mais do que analítico, era
casuístico, prolixo e corporativo”. De qualquer modo, a despeito de seus aspectos
menos virtuosos, a assim chamada “Constituição Cidadã” – a evolução subsequente
veio a demonstrá-lo consiste em texto constitucional sem precedentes na história do
Brasil, seja quanto a sua amplitude, seja no que diz com o seu conteúdo, não sendo
desapropriado afirmar que se trata também de um contributo (jurídico-político)
brasileiro para o constitucionalismo mundial, seja em virtude da forte recepção das
modernas tendências na esfera do direito constitucional, seja pelas peculiaridades do
texto brasileiro.

Antes de adentrarmos, em seus traços gerais, nas linhas mestras que caracterizam a
Constituição Federal, importa lembrar que o texto promulgado pela Assembleia
Constituinte desde logo contemplava a possibilidade de uma ampla revisão
constitucional, que, a depender da evolução, poderia inclusive chegar ao ponto de
assumir feições constituintes. Com efeito, mediante a introdução de dois artigos no Ato
das Disposições Constitucionais Transitórias determinou-se a realização de um
plebiscito para a definição da forma e do sistema de governo (art. 2.º), bem como a
realização de uma revisão constitucional, transcorridos cinco anos da promulgação da
Constituição (art. 3.º).

O plebiscito, que acabou sendo antecipado por alguns meses, acabou confirmando a
opção pela República e pelo sistema presidencialista de governo, o que, para alguns, por
si só já afastaria até mesmo a possibilidade de uma revisão constitucional. Esta última,
em que pese uma relativamente acirrada controvérsia sobre as possibilidades e limites
de tal revisão, acabou não logrando êxito, de tal sorte que apenas seis alterações
constitucionais foram levadas a efeito, por meio das assim chamadas Emendas
Constitucionais de Revisão.

José Afonso da Silva:

Como se nota, a revisão constitucional foi um verdadeiro e


retumbante fracasso, apesar de as elites brasileiras, com todos os
meios de comunicação social, se empenharem muito para sua
realização. Acontece que o povo percebeu que esse empenho
visava a retirar da Carta Magna conquistas populares que foram o
resultado de longas e penosas lutas. O povo não se sensibilizou
pela revisão, daí o seu rotundo fracasso. Contudo, o desejo dessas
elites vem se realizando por meio de um processo de reforma
constitucional mediante emendas nos termos do art. 60.

Ainda assim, considerando o número de emendas constitucionais “ordinárias”, ou seja,


processadas e aprovadas nos termos do art. 60 da CF, mas especialmente à vista da
amplitude das alterações levadas a efeito (bastaria apontar para as reformas
administrativa, previdenciária e do Poder Judiciário), não faltou quem dissesse – e não
sem razão – que a revisão constitucional acabou sendo transformada em algo
permanente e que as emendas constitucionais, destinadas a promover, na condição de
espécies do gênero reforma (que inclui tanto a revisão quanto as emendas), mudanças
pontuais, isoladas, no texto constitucional, se transmutaram em mecanismos de revisão
da Constituição.

No que diz com as suas principais características, além do seu perfil analítico e
casuístico, já referidos, a Constituição Federal de 1988 pode ser considerada como a
mais democrática e avançada em nossa história constitucional, seja em virtude do seu
processo de elaboração, seja em função da experiência acumulada em relação aos
acontecimentos constitucionais pretéritos, tendo contribuído em muito para assegurar a
estabilidade institucional que tem sido experimentada desde então no Brasil.

No que diz com o seu conteúdo, cuida-se de documento acentuadamente


compromissário, plural e comprometido com a transformação da realidade, assumindo,
portanto, um caráter fortemente dirigente, pelo menos quando se toma como critério o
conjunto de normas impositivas de objetivos e tarefas em matéria econômica, social,
cultural e ambiental contidos no texto constitucional, para o que bastaria ilustrar com o
exemplo dos assim chamados objetivos fundamentais elencados no art. 3.º.

Tanto o Preâmbulo quanto o título dos Princípios Fundamentais são indicativos de uma
ordem constitucional voltada ao ser humano e ao pleno desenvolvimento da sua
personalidade, bastando lembrar que a dignidade da pessoa humana, pela primeira vez
na história constitucional brasileira, foi expressamente guindada (art. 1.º, III, da CF) à
condição de fundamento do Estado Democrático de Direito brasileiro, por sua vez
também como tal criado e consagrado no texto constitucional. Não é à toa, portanto, que
o então Presidente da Assembleia Nacional Constituinte, Deputado Ulysses Guimarães,
por ocasião da solenidade de promulgação da Constituição, batizou a Constituição de
1988 de Constituição Coragem e Constituição Cidadã, lembrando que, diferentemente
das Constituições anteriores, a Constituição inicia com o ser humano.

Outro aspecto digno de nota, que diz respeito ao título dos Princípios Fundamentais, é a
ênfase dada, pelo menos no plano textual, à integração na comunidade internacional,
afirmando-se, no plano das relações internacionais, a “prevalência dos direitos
humanos” (art. 4.º, II) e assumindo-se, como tarefa, a busca da integração econômica,
política, social e cultural dos povos da América Latina e a formação de uma
comunidade latino-americana (art. 4.º, parágrafo único): é igualmente sem precedentes e
foi acompanhada, ao longo da evolução subsequente, de um conjunto significativo de
ações nesse sentido, inclusive a ratificação de expressivo número de tratados
internacionais.

Particular atenção merece o título dos Direitos e Garantias Fundamentais, pela sua
atualidade (visto que recepcionou a maioria dos direitos consagrados até então no plano
internacional mesmo antes da ratificação em definitivo dos principais tratados de
direitos humanos) e amplitude, pois contempla tanto os direitos e garantias individuais
“clássicos”, ou seja, os direitos de liberdade, quanto os direitos sociais, incluindo um
extenso rol de direitos trabalhistas, bem como o direito de nacionalidade e os direitos
políticos.

Em função da abertura do sistema de direitos fundamentais, são também acolhidos


direitos dispersos ao longo do texto constitucional e direitos decorrentes do regime e
dos princípios da Constituição, além da pioneira referência aos direitos constantes dos
tratados internacionais ratificados pelo Brasil, embora aqui seja necessário registrar que
durante muito tempo o STF não atribuía aos tratados de direitos humanos mais do que a
hierarquia de lei ordinária, o que, contudo, foi objeto de superação recente. Também no
que toca ao regime jurídico privilegiado assegurado pela Constituição Federal aos
direitos fundamentais o texto constitucional de 1988 assumiu uma relevância ímpar,
embora não se possa menosprezar, muito antes pelo contrário, o labor da jurisprudência
nesse contexto.
Assim, além da expressa previsão da aplicabilidade imediata das normas de direitos
fundamentais (art. 5.º, § 1.º) e da proteção contra o poder de reforma constitucional (art.
60, § 4.º), importa mencionar um conjunto expressivo de garantias e instrumentos
processuais, sem prejuízo das funções desempenhadas pelo Poder Judiciário (com
destaque para o papel do STF na condição de guardião da Constituição) e pelo
Ministério Público, dentre outros aspectos dignos de nota (em termos do acesso à justiça
não há como olvidar a criação da Defensoria Pública como função essencial) que
receberam incumbências, meios e autonomia para enfrentarem mesmo os demais órgãos
estatais na defesa da ordem constitucional.

Gilmar Mendes:

A Constituição promulgada em 5 de outubro de 1988 restaurou a


preeminência do respeito aos direitos individuais, proclamados
juntamente com significativa série de direitos sociais. O Estado se
comprometia a não interferir no que fosse próprio da autonomia
das pessoas e a intervir na sociedade civil, no que fosse relevante
para a construção de meios materiais à afirmação da dignidade de
todos. As reivindicações populares de ampla participação política
são positivadas em várias normas, como na que assegura as
eleições diretas para a chefia do Executivo em todos os níveis da
Federação. Dava-se a vitória final da campanha que se espalhara
pelo país, a partir de 1983, reclamando eleições “diretas já” para
Presidente da República; superava-se a abrumadora frustração
decorrente da rejeição, em abril de 1984, da Proposta de Emenda
apresentada com esse intuito. A Constituição, que,
significativamente, pela primeira vez na História do nosso
constitucionalismo, apresentava o princípio do respeito à
dignidade da pessoa humana e o Título dos direitos fundamentais
logo no início das suas disposições, antes das normas de
organização do Estado, estava mesmo disposta a acolher o
adjetivo cidadã, que lhe fora predicado pelo Presidente da
Assembleia Constituinte no discurso da promulgação.

Por outro lado, a generosa inclusão de direitos e garantias no texto constitucional,


notadamente no âmbito dos direitos sociais e dos direitos dos trabalhadores,
complementada, na parte relativa à administração pública e à ordem social, por um
expressivo número de disposições assegurando direitos e prerrogativas ao servidor
público e mesmo aos cidadãos em geral, também não deixou de receber importantes
críticas, por exemplo, no sentido de que teria havido uma prodigalidade irresponsável da
parte dos constituintes, que prometeram mais do que se poderia cumprir, gerando
expectativas, por exemplo, no que diz com a efetividade dos direitos sociais, que
estariam, desde logo, fadadas à frustração. O quanto tais manifestações críticas
correspondem à realidade é aspecto que aqui não se poderá enfrentar.

De qualquer sorte, a forte atuação de agentes fortalecidos e mesmo criados pela


Constituição, como é o caso do Ministério Público e da Defensoria Pública, a atitude
proativa assumida por cada vez maiores segmentos do Poder Judiciário (bastaria apontar
para o número de ações judiciais envolvendo direitos sociais), mas também o
crescimento da economia brasileira, a ampliação das políticas sociais, a redução
significativa dos níveis de pobreza extrema ao longo das já mais de duas décadas de
vigência da Constituição, revelam que no conjunto, por muitos e várias vezes, alegada
ingovernabilidade instaurada pela Constituição de 1988 não se comprovou na prática. O
que não significa que inexistam pontos frágeis e ajustes a serem feitos, como, de resto,
já tem sido o caso mediante um expressivo número de emendas constitucionais, que,
embora nem sempre imunes a questionamentos quanto à sua constitucionalidade (o
próprio STF assim já se pronunciou mais de uma vez), de modo geral, não causaram
mutilações particularmente graves no sistema constitucional (inclusive no campo da
ordem econômica e social), muito menos afetaram (pelo contrário, inclusive ampliaram,
mediante a inserção dos direitos à moradia, à alimentação e à razoável duração do
processo judicial e administrativo) o catálogo dos direitos e garantias fundamentais.