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Lidar com a morte súbita é algo demasiado complicado, ainda mais quando levamos em

conta o modo como lidamos a morte nos dias atuais (MATOS-SILVA, 2011). Antes que
possamos tratar do luto na morte súbita propriamente dita, precisamos nos situar historicamente
nos dias atuais, e para isso, é preciso estabelecer um processo de análise dos períodos anteriores,
a partir dos quais iremos determinar o modo como encarar a morte se alterou ao longo da
história.
Por se tratar de um processo natural e inevitável a morte esteve presente ao longo da
história humana, em cada momento sendo vista e interpretada de um modo diferente. Ainda que
seja caraterizada como um processo biológico, ela não se limita a isso, influenciando a
sociedade em meios sociais e psicológicos (CORALLI, 2012). Conforme as civilizações
seguiam seus processos de evolução ao longo da história, tratavam e enxergavam a morte de
maneira diferente.
Foucault postulou que não se pode analisar a história como uma série de eventos
sequenciais mas sim como momentos históricos. Cada momento histórico possui seu modus
operandi próprio, determinado por um discurso vigente. Deste modo, não há qualquer entidade,
ou organização que consiga escapar de tais mudanças. (CANDIOTTO, 2007). Nem mesmo a
instituição que construímos acerca da morte escapa disso.
A ausência de entidades supra-históricas nos permite analisar separadamente cada um
desses períodos e determinar como a morte era encarada em cada um deles, incluindo no
período atual.
Durante a primeira Idade Média, a morte, quando era anunciada previamente, era vista
com certa tranquilidade (BARBOSA, 2010). Não se buscam meios para alongar a vida, o que
faz parecer com que havia uma certa conformidade em relação a esse evento.
Quando se faz uma comparação com a morte da primeira Idade Média, com a do
próximo período histórico, popularmente conhecida como Alta Idade Média, aquilo que mais
se destaca é como esse processo de perceber a morte passou a ser muito mais individualista.
Nesse momento passou a existir uma maior preocupação com o que acontece após a morte, no
momento do Julgamento Final. O medo da punição divina, somado com a perda de todos os
bens adquiridos em vida, fez com que a sociedade parasse de encarar os períodos de leito de
morte com a mesma tranquilidade de antes. (BARBOSA, 2010). Surge agora uma sentimento
de aflição em relação a morte. O temor dela torna o homem mais preocupado consigo mesmo
e com o seu destino. Mas ao mesmo tempo, pela crença cristã, ele deve negar seus bens matérias
e os prazeres da terra para conseguir a salvação. A morte ao mesmo tempo provoca um
sentimento egoísta, e por outro lado, condena esse mesmo sentimento. Deixando o homem,
aflito, numa encruzilhada.
Isso se agravou durante o surto da peste bubônica. Responsável pela morte de um terço
da Europa, ela abalou a sociedade da época de tal forma que alguns a viram como um sinal do
Apocalipse Bíblico. A morte passou a ser vista como uma punição, um castigo divino. Pilhas
de corpos se acumulavam nas ruas, em pinturas da época se representava a Morte em meio os
doentes e moribundos, pregadores a usavam de exemplo, escritores a colocavam em destaque
em seus textos. Tudo isso aumentava a aflição provocada pela morte, em todo lugar que se
olhava era possível encontrar alguma representação dela, não havia como escapar
(KASTENBAUM, 1983).
Durante o Romantismo, o homem resinificou sua relação com a morte e passou a vê-la
com certa fascinação. Se antes havia uma preocupação egoísta com sua própria morte, agora a
morte do outro é que é alvo de receio. São atribuídas características de beleza, a própria morte
ganha um tom teatral, dramático, e desejável. Porém, a morte do outro, por provocar a
separação, provoca tristeza (BARBOSA, 2010). Ainda assim, o tom de dramaticidade também
se aplica a morte do outro, isso pode ser observado nas visitas ao cemitérios que tem início
nesse momento histórico. (ARIÈS, 2003 apud BARBOSA, 2010). Os sentimentos negativos
em relação a morte são de certa forma escondidos através do véu romântico na época. A
ressignificação tem um duplo tom de negação e barganha.
Já no Século XIX com o desenvolvimento da medicina, diversas doenças passaram a ser
tratadas e as condições de vida de grande parte da população melhorou, e como consequência
a expectativa de vida também aumentou. Agora era possível evitar a morte, atrasá-la.
É importante destacar que nesse momento o mundo passava por uma grande
massificação do capitalismo. Que valorizava acima de tudo a produção (WEBER,2007). A
morte interrompe a produção, não somente daquele que morre, mas muitas vezes daqueles
próximos do agora defunto.
Se entristecer com a morte de alguém, a tal ponto que não seja possível trabalhar é uma
ideia absurda nesse momento histórico. Nesse momento vemos surgir uma aversão ao luto
prologado, que acaba se transformando em um transtorno. É impossível negar os impactos
positivos que o avanço da medicina teve na sociedade. Mas isso elevou esse campo a um nível
de grande prestigio. A morte é então a falha suprema desse campo, e portanto é escondida.
(KASTENBAUM, 1983) (CORALLI, 2012).
Na atualidade, como consequência do zeitgeist, morrer é visto com um sentimento de
vergonha, e a tristeza da morte também. Como o luto não é propriamente trabalhado, a
sociedade se torna fragilizada, e constante necessidade de se esconder as falhas, que aqui
podemos relacionar com a “ditadura da felicidade”, acaba fazendo com os problemas que
existam ao redor da morte sejam ignorados, o único problema que é considerado é a própria
morte.
Por isso, a mote que acontece sem avisos, a morte súbita, acaba gerando lutos
complicados e muitas vezes prolongados (PARKES, 1993 apud MATOS-SILVA, 2011). Neste
caso são comuns comportamentos nos quais o enlutado aparenta buscar, constantemente algum
contato com o falecido, isso se relaciona ao fato de que, na morte súbita, tem-se uma sensação
demasiada forte de que o evento da morte não ocorreu de fato. A aceitação da morte ocorre com
muito mais dificuldades (MATOS-SILVA, 2011).
Sem a aceitação, o indivíduo acaba negando a morte e assim todo o processo não pode
ser desenvolvido, uma vez que somente após a aceitação da perda é que será possível
experimentar o sofrimento. Quando isso ocorre, o enlutado pode então dar início ao processo
de luto. Os que ficam devem aprender a lidar com o ambiente, agora mais vazio. Para aqueles
que eram mais próximos essa tarefa tende a ser mais marcante, e quando não é comprimida
pode dificultar que sejam estabelecidas novas relações e adquiridas novas habilidades
(MATOS-SILVA, 2011).
É essencial que os enlutados possam dar um novo significado emocional para o morto,
não somente reposicioná-lo. Nesse momento é preciso que exista o entendimento de que a vida
continua apesar do ocorrido. Essa tarefa se completa quando é possível que o enlutado se lembre
do falecido sem que isso cause sentimentos intensos. O processo do luto só será considerado
elaborado quando a imagem falecido passar a existir somente nas memórias do enlutado, sendo
completamente internalizado (MATOS-SILVA, 2011).
Ainda que a morte súbita dificulte o processo do luto, com auxilio e apoio é possível
que todo o processo se cumpra de maneira adequada.
REFERÊNCIAS

BARBOSA, Caroline Garpelli. A soiciedade diante do morrer: percurso histórico. Capítulo


I da Dissertação apresentada como requisito à obtenção do título de Mestre à Universidade
Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” – Programa de Pós-Graduação do
Desenvolvimento e Aprendizagem, área de Psicologia, sob a orientação da Prof. Dra. Ligia
Ebner Melchiori e coorientação da Prof. Dra. Carmen Maria Bueno Neme. 2010.

CANDIOTTO, C. Foucault e a crítica do sujeito e da história. Revista Aulas. Vol. 1 n. 3. 2007.

CORALLI, Bruna. O silêncio Coletivo: a morte na atualidade e o desconforto causado por


ela. Portal dos Psicológos, 30.12.2012.

KASTENBAUM, Robert & AISENBERG, Ruth. Psicologia da Morte. São Paulo. SP:
Editora da Universidade de São Paulo. 1983. Cap. 5 e Cap. 6.

MATOS-SILVA, M. S. O mundo interno diante da morte: a elaboração do luto. In:______.


Teclando com os mortos: um estudo sobre o uso do Orkut por pessoas em luto. 2011. 158 f.
Tese de doutorado na Pontificia Universidade Católica do Rio de Janeiro. p. 49-71.

WEBER, Max. A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. São Paulo. SP: Editora
Scwarcz LTDA. 2007.