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RESENHA DO FILME DOCE BRASIL HOLANDÊS

ANTONIO HUMBERTO MAGALHÃES BRITO FILHO

O Doce Brasil Holandês é um documentário que explora a memória popular dos recifenses
sobre o período de invasão holandesa no Recife e o pensamento dos historiadores sobre essa
memória. A diretora, Monica Schmiedt, trata sobre as influências dos holandeses, em especial
o Mauricio de Nassau, na vida do pernambucano, seja na imagem de uma era dourada, ou até
mesmo na perspectiva de um presente melhor. As discussões no filme giram em torno da
atuação de Mauricio de Nassau na capitania de Pernambuco durante a ocupação holandesa,
que foram desde a criação da cidade Mauricia, com uma arquitetura européia moderna, a
utilização da arte para uma nova percepção do Brasil colônia.

Permeando todo esse discurso histórico sobre Nassau e o passado holandês no Brasil, vai se
mostrando também uma discussão sobre identidade, pertencimento e memória, seja histórica,
do ponto de vista oficial, ou não, onde fica explícito, principalmente na fala das pessoas
comuns, o quanto essa memória sobre os holandeses é saudosista. E é em um questionamento
feito no início do filme, com a frase: “Por que um povo teria saudade de um invasor?”, que
propõe investigar essa memória tão apegada a esse passado. E quando faço uma análise do
filme relacionando com o estudo sobre a memória, consigo perceber pontos interessantes,
como a arquitetura de uma parte da cidade de Recife e todas as referências artísticas criadas
naquele período da ocupação, ambas são lugares de memória, ou até mesmo a caracterização
do Mauricio de Nassau como uma pessoa monumento, por ser símbolo dessa lembrança
holandesa. Outro processo interessante foi a ressignificação do fato histórico, onde houve um
esquecimento no período post bellum, mas que foi resgatado no processo de independência,
valorizando a imagem holandesa, para a criação de uma identidade nacional e negação às
raízes portuguesas junto com o sentimento antilusitano. Em meio a todo esse projeto de
pertencimento e identidade, existe também o sentimento de inferioridade e busca por uma
semelhança aos europeus, muito pela europeização que permeia a sociedade brasileira, onde
fica bem evidente quando o documentário trata da honra que os pernambucanos manifestam
em ter a aparência e os nomes herdados dos holandeses.

Voltando a frase citada anteriormente, retomo o questionamento e procuro responder,


apontado os fatores já citados e buscando também o Pierre Nora, quando ele fala sobre a
descrença nas utopias e consequentemente em um futuro melhor, que é o diagnóstico da
nossa sociedade contemporânea. Nora diz que nesse momento de crise, onde o passado
possui uma temporalidade confusa, muito pela aceleração do tempo presente, e, junto a isso,
uma perspectiva futura desanimadora, cria-se a fuga da memória, onde buscamos cristalizar
um passado, por meio de lugares de memória, para buscar um “refúgio” no tempo, e talvez
seja esse um fator importante para entender esse apego que os pernambucanos possuem por
essa era dourada construída ao longo do tempo.