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Até a década de 1990 os processos de improvisação na música brasileira se davam

predominantemente de forma intuitiva. “A arte da improvisação” lançado em 1991, seria o


primeiro material didático sistematizado sobre improvisação no Brasil. Publicado por Nelson Faria
este material mudaria o conceito de improvisação da época.

Nos anos de 1980 o conhecimento sistematizado do ensino musical brasileiro esteve presente
predominantemente em instituições de ensino de música onde o repertório adotado, era em sua
grande maioria, pela música de cunho erudito. Até então, abordagem da música popular pelo viés da
improvisação, era algo inexplorado. As práticas musicais nas universidades e conservatórios nessa
época ocorriam nos moldes eruditos, e não comportavam a prática musical pelo caminho da
improvisação nos moldes populares.

O ensino sistematizado da improvisação em universidades e conservatórios brasileiros, não


aconteciam pelo fato de que as práticas musicais destas instituições eram incompatíveis com esta
habilidade. Professores desta época, até a década de 1980, que lecionavam um repertório voltado
para a música popular, bem como disciplinas relacionadas a este gênero, como por exemplo, a
improvisação, tinham como base unicamente, a formação erudita. Nesta época havia certo
preconceito, por parte da academia, com relação aos músicos populares bem como em relação às
suas práticas musicais, em especial a prática da improvisação.

Na década de 1970, devido à carência de informações na pedagogia da música popular no Brasil


desta época, muitos músicos, inclusive Faria, recorriam a aulas particulares com músicos
renomados do Brasil, porém sem muito êxito.
Tal contexto foi motivador fundamental para o ingresso deste músico no Musicians Institute, escola
norte americana que oferecia um curso intensivo de música popular em Los Angeles. Faria relata
sobre a precariedade do ensino de música popular no Brasil no início dos seus estudos. Afirmava
que estrutura do ensino da música popular aqui era muito precária, e por isso resolveu estudar fora
do Brasil. Também disse que no Brasil poucas iniciativas eram realmente boas. Citando o CLAM
em São Paulo e a escola do BITUCA em Belo Horizonte.
Faria, ao lançar o livro “A arte da Improvisação”, foi ao programa de televisão “Sem censura”, com
o objetivo de divulgar o trabalho. Lá o autor foi questionado a respeito da possibilidade de se
ensinar a improvisar, e também foi levantada uma questão se a improvisação seria um dom.
Faria teria respondido que infelizmente este conceito de dom ainda seria muito forte no Brasil.
Apesar desta mentalidade, afirmou que na improvisação se estudava técnicas de se construir um
solo, o fraseado etc... Também afirmou que só teve contato com essa concepção por que ele foi
procurar uma escola fora do país. Por que na época, aqui no Brasil não havia escolas de
improvisação, e realmente essa habilidade seria considerada exclusivamente como dom.
Assim, em vista da ausência da sistematização do ensino da música popular no Brasil, Faria decide
ingressar em um curso intensivo de música popular nos Estados Unidos em Los Angeles. Relatou
que na instituição em que ingressou encontrou uma situação bastante diversa da brasileira. Afirmou
que os improvisadores sabiam claramente o que estavam fazendo, e mais ainda, sabiam o caminho
que deveria ser percorrido para se atingir aqueles objetivos.
Motivado por todo este cenário, quando Faria retornou ao Brasil atendeu a convites para ministrar
cursos, workshops, festivais de inverno e um convite em especial para lecionar na Universidade
Estácio de Sá no Rio de Janeiro. Esta seria a primeira a oferecer cursos voltados para a música
popular no Brasil. Por fim, o material transferido para esses alunos transformou-se em apostilas o
que posteriormente daria origem ao seu primeiro livro “A arte da improvisação” lançado em 1991
pela editora Lumiar, hoje transferido para a editora Vitale.

Artigo inspirado na dissertação de Felipe Boabaid Guerzoni - “ “A Arte da Improvisação” de


Nelson Faria: Influências na pedagogia da música popular brasileira.”