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Revista
de estudos
ibericos

N. 15
2019
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Coordenação deste número
Rui Jacinto
Alexandra Isidro

Apoio à Coordenação
Ana Margarida Proença
Ana Sofia Martins

Capa e conceção gráfica


Márcia Pires

Impressão
.....

Edição
Centro de Estudos Ibéricos
Rua Soeiro Viegas, 8
6300-758 Guarda
cei@cei.pt
www.cei.pt

ISSN: 1646-2858

Depósito Legal:

dezembro 2019

Os conteúdos, forma e opiniões expressos nos textos


são da exclusiva responsabilidade dos autores.
in
di
ce
Esbater fronteiras, ler o território 11
Rui Jacinto

IDIOMAS MINORITÁRIOS E FALARES DE FRONTEIRA 17 > 98

Da oralidade para a escrita:


personagens indígenas na literatura no Amazonas 19
Rita Barbosa de Oliveira

Falar cabo-verdiano e português:


a educação bilingue em Cabo Verde e na diáspora 41
Ana Josefa Cardoso

Del nacimiento a la ignorada agonía de da modalidad lingüística


“Castellano-Leonesa” en el Rebollar (Salamanca) 53
Ángel Iglesias Ovejero

Línguas e História(s) de Fronteiras 79


Isabel A. Santos; Cristina Martins, Isabel Pereira

LEITURAS DO TERRITÓRIO.
SERRA DA ESTRELA: SAÚDE & MONTANHA 101 > 187

Ler a Serra 103


Cristina Robalo Cordeiro

Geografia, literatura, viagem:


ler o território, interpretar a Serra da Estrela 107
Rui Jacinto

A Expedição Científica à Serra da Estrela em 1881.


Da aventura ao domínio do território 133
Helena Gonçalves Pinto
Serra da Estrela: dos bons ares aos horizontes 149
Manuel Santos Rosa

Doença-Paixão-Saúde: Serra da Estrela 151


Z. Biscaia Fraga, Francisco Fraga de Mello, Ângela Alves

Antigo Sanatório da Guarda. Saúde, memória, património 155


Hélder Sequeira

Sabugueiro: aldeia em transformação 177


Mário Branquinho

Rede de Aldeias de Montanha:


um território e uma estratégia de desenvolvimento rural integrado 183
Célia Gonçalves

Museus e Centros de Interpretação 188 > 210


. Museu de Lanifícios da Universidade da Beira Interior 189
. A Manta de Papa e o Museu de Tecelagem da aldeia dos Meios 193
. Solar do Queijo da Serra da Estrela 198
. Centro Interpretativo do Vale Glaciar do Zêzere 201
. Interpretação e promoção do património geológico
no Geopark Estrela 203
. A renovação do Centro Interpretativo da Serra da Estrela
e o desenvolvimento cultural, social e económico da Região da
Serra da Estrela 207

Geografia literária da Serra da Estrela:


apontamentos para uma leitura do seu território 211 > 273

Os escritores perante a montanha 213


Cristina Robalo Cordeiro

Serra da Estrela: Literatura geográfica 219


Cristina Robalo Cordeiro, Rui Jacinto, Duarte Belo (Fotografia)
OFICINA DE HISTÓRIA DA GUARDA 277 > 310

A nova igreja de São Vicente: construção e estética 279


António Prata Coelho, Daniel Martins, Antonieta Pinto

De Trancoso à Toscânia:
portugueses em Itália na primeira metade de quatrocentos 303
Rita Costa Gomes

PRÉMIO EDUARDO LOURENÇO 2019 313 > 350

Carlos Reis: Breve Perfil 315


Galeria de Premiados 316
Carlos Alberto Chaves Monteiro 319
Delfim Leão 323
Efrem Yildiz Sadak 327
Joaquim Brigas 329
José Augusto Cardoso Bernardes 331
Carlos Reis 335

Eduardo Lourenço e o Centro de Estudos Ibéricos:


inventário de espólio doado 337

CEI. ATIVIDADES 2019 353 > 374


Ensino e Formação 355
Investigação 362
Eventos e Iniciativas de Cooperação 364
Edições 373
ESBATER FRONTEIRAS, LER O TERRITÓRIO

RUI JACINTO

A aposta no Conhecimento, na Cultura e na Cooperação e o forte compro-


misso com os territórios de fronteira são princípios fundamentais que norteiam
a missão do Centro de Estudos Ibéricos (CEI) e, consequentemente, a programa-
ção das suas atividades. Concebida à luz destas orientações, a programação de
2019, que proporcionou vários conteúdos que estão plasmados neste número
da Iberografias, Revista de Estudos Ibéricos (Nº15), deu a melhor atenção a duas
efeméridas preconizadas pela Organização das Nações Unidas para a Educação,
a Ciência e a Cultura (UNESCO), ao destacar: (i) o Ano Internacional das Línguas
Indígenas (International Year of Indigenous languages – IYIL2019), que esteve
subjacente a um debate realizado durante o Curso de Verão; (ii) o Geopark Es-
trela, palco da primeira edição do projeto Leituras do território, cuja candidatura
foi aprovada por ser reconhecido o potencial geológico e o património natural e
cultural da Serra da Estrela. Além da evocação devida ao seu patrono, Professor
Eduardo Lourenço, o conjunto de atividades levadas a cabo facultaram temáticas
como as que estruturam a presente edição da Iberografias: (i) Idiomas minori-
tários e falares de fronteira; (ii) Leituras do território. Serra da Estrela: Saúde &
Montanha; (iii) Oficina de História da Guarda.

– Idiomas minoritários e falares de fronteira. A UNESCO destacou a impor-


tância de se tomar consciência “da necessidade urgente de se preservar, re-
vitalizar e promover as línguas indígenas no mundo. Atualmente, existem por
volta de 6 a 7 mil línguas no mundo. Cerca de 97% da população mundial
fala somente 4% dessas línguas, e somente 3% das pessoas do mundo falam
96% de todas as línguas existentes. A grande maioria dessas línguas, faladas
sobretudo por povos indígenas, continuarão a desaparecer em um ritmo alar-
mante. Sem a medida adequada para tratar dessa questão, mais línguas irão
se perder, e a história, as tradições e a memória associadas a elas provocarão
uma considerável redução da rica tapeçaria de diversidade linguística em todo
o mundo.” Esta problemática esteve presente no Curso de Verão quando se
debateram os idiomas minoritários e os falares de fronteira. Entre as várias co-
municações apresentadas, onde foram abordados temas tão diversos quanto
Da oralidade para a escrita: personagens indígenas na literatura no Amazo-
nas (Rita Barbosa de Oliveira), Falar cabo-verdiano e português: a Educação
12 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

bilingue em Cabo Verde e na diáspora (Ana Josefa Cardoso), Del nacimiento


a la ignorada agonía de da modalidad lingüística “Castellano-Leonesa” en el
Rebollar (Salamanca) (Ángel Iglesias Ovejero) ou Línguas de fronteira (Isabel
Santos; Cristina Martins, Isabel Pereira).

– Leituras do território. Serra da Estrela: Saúde & Montanha. A UNESCO dis-


tinguiu a singularidade do património natural e geológico dum território re-
partido por nove municípios da região (Belmonte, Celorico da Beira, Covilhã,
Fornos de Algodres, Gouveia, Guarda, Manteigas, Oliveira do Hospital e Seia)
quando aprovou, na 4.ª Sessão do Conselho de Geoparks Mundiais, realizada
na Indonésia, a candidatura da Serra da Estrela a Geopark Mundial. A leitura
holística deste território, como de qualquer outro, só é plena se apelarmos à
convergência de múltiplos olhares e de informação proveniente de várias es-
pecialidades. Corporizando esta perspetiva, o arranque do projeto Leituras do
território optou por centrar a sua reflexão neste território, promovendo a sua
interpretação a partir de diferentes perspetivas complementares: (i) Literatura
e viagem, onde se incluem textos como Ler a Serra (Cristina Robalo Cordeiro),
Geografia, literatura, viagem (Rui Jacinto) e Da aventura ao domínio do terri-
tório, a propósito da Expedição Científica à Serra da Estrela em 1881 (Helena
Gonçalves Pinto); (ii) Montanha e saúde, relação analisada por Manuel Santos
Rosa (Serra da Estrela – dos bons ares aos horizontes), Zeferino Biscaia Fraga,
Francisco Fraga de Mello, Ângela Alves (Doença-Paixão-Saúde, evocando o
Dr. Sousa Martins e o Dr. Francisco Sobral) e Hélder Sequeira (Antigo Sanatório
da Guarda. Saúde, memória, património); (iii) Dinâmicas dos lugares e iniciati-
vas locais de desenvolvimento, exemplificadas a partir do Sabugueiro: aldeia
em transformação (Mário Branquinho) e da Rede de Aldeias de Montanha: um
território e uma estratégia de desenvolvimento rural integrado (Célia Gonçal-
ves); (iv) Museus e Centros de Interpretação, repositórios de memórias e de
saberes que proporcionam viagens pela arqueologia industrial e artesanal:
Museu de Lanifícios da Universidade da Beira Interior (Covilhã, UBI), Museu de
Tecelagem da aldeia dos Meios, Solar do Queijo da Serra da Estrela (Celorico
da Beira), Centro Interpretativo do Vale Glaciar do Zêzere (Manteigas), Centro
de Interpretação do Geopark Estrela (Torre), Centro Interpretativo da Serra
da Estrela (Seia); (v) Geografia literária da Serra da Estrela, abordada a parir
de Os escritores perante a montanha (Cristina Robalo Cordeiro) e duma bre-
ve antologia de Literatura geográfica (Cristina Robalo Cordeiro; Rui Jacinto;
Duarte Belo).

– Oficina de História da Guarda. Projeto dirigido por Rita Costa-Gomes, Pro-


fessora de História na Universidade de Towson (Maryland, Estados Unidos
da América), “tem como principal objectivo oferecer aos seus utilizadores
ESBATER FRONTEIRAS, LER O TERRITÓRIO
13
Rui Jacinto

conteúdos para divulgação sobre a história da Guarda e da sua região, in-


cluindo fontes de arquivo e patrimoniais”. Os trabalhos que se disponibili-
zam resultam de atividades efetuadas neste âmbito (A nova igreja de São
Vicente: construção e estética, por Antonieta Pinto; António Prata Coelho;
Daniel Martins) e da conferência realizada no Curso de Verão, pela coorde-
nadora da ofifica (De Trancoso à Toscânia: portugueses em Itália na primei-
ra metade de Quatrocentos).

– Prémio Eduardo Lourenço 2019: Professor Carlos Reis. O Prémio Eduardo


Lourenço foi instituído com o objetivo de “galardoar personalidades ou insti-
tuições de língua portuguesa ou espanhola que tenham sido protagonistas de
uma intervenção relevante e inovadora no âmbito da cooperação e no domí-
nio das identidades, das culturas e das comunidades ibéricas”. O Prémio, ao
dar publica expressão de reconhecimento ao mentor do CEI, pela sua obra em
prol da cultura português, prestigia tanto a instituição que o concede como,
sobretudo, os sucessivos galardoados. Em 2019 o Júri reconheceu o mérito
de Carlos Reis, Professor na Universidade de Coimbra, “como investigador e
professor universitário bem como a sua trajetória de cooperação nos âmbitos
académicos e culturais de Portugal e Espanha, contribuindo para um intercâm-
bio cultural de alto valor ibérico. O júri valorizou a importante obra de teoria
literária e os estudos de referência sobre Eça de Queirós e José Saramago,
com ampla repercussão em Espanha, na Europa, no Brasil e Estados Unidos.”
Os méritos do premiado, que se destacam em lugar próprio desta Revista,
decorrem quer da sua vasta obra, da docência e dos importantes cargos que
desempenhou.

– As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Curso de Verão.


O espaço de debate entre investigadores oriundos de várias proveniências,
geográficas e temáticas, que caracteriza o Curso de Verão, foi organizado
entre 3 e 6 de julho, a partir dos seguintes eixos temáticos: patrimónios, pai-
sagens e desenvolvimento local; dinâmicas socioeconómicas em diferentes
contextos territoriais; políticas públicas, cooperação e desenvolvimento.
Deste modo, perto de uma centena de participantes portugueses, espanhóis
e dos Países de Língua Portuguesa, particularmente do Brasil, trocaram ex-
periências e saberes, alargando o debate a parceiros do espaço ibérico,
europeu, africano e latino-americano. O CEI afirma-se, assim, como centro
de transferência de conhecimento, continuando a apostar em identificar e
valorizar os recursos do território, naturais e humanos, materiais e intangí-
veis, enquanto fatores críticos e estratégicos do desenvolvimento (património
cultural, paisagem, cultura, etc.). A troca de informações e de experiências per-
mite analisar comparativamente dinâmicas económicas e sociais em diferentes
14 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

contextos espaciais, a apresentação e o debate de programas, iniciativas e


boas práticas que concorram para a coesão económica, social e territorial. O
trabalho de campo continuou a ser valorizado como estratégia pedagógica
e de promoção do património natural e cultural, sobretudo o localizado em
geografias e contextos regionais mais remotos como são os do interior raiano.

Importa registar o gesto do Professor Eduardo Lourenço, pleno de significado,


ao legar mais uma parte interessante do seu espólio pessoal, testemunho dum
vínculo perene ao seu Centro de Estudos Ibéricos e à Guarda. O número apre-
ciável de documentos, medalhas, comendas e diplomas que testemunham os
inúmeros prémios, condecorações e honras académicas que tem vindo a colecio-
nar, agora doado, cujo inventário se publica, vem enriquecer o acervo patrimónial
anteriormente legado e que se encontra depositado na Biblioteca que recebeu o
seu nome.

Finalmente, resta agradecer a todos os que, viabilizaram as várias atividades


e iniciativas que o CEI concretizou ao longo de 2019; a quantos colaboraram pes-
soalmente para tornar possível o número 15 da Iberografias fica também uma
merecida palavra de gratidão.
Idiomas
minoritários
e falares
de
fronteira
DA ORALIDADE PARA A ESCRITA:
PERSONAGENS INDÍGENAS
NA LITERATURA NO AMAZONAS
RITA BARBOSA DE OLIVEIRA*

INTRODUÇÃO
Um dos primeiros pesquisadores dos Mura, Curt Nimuendajú, informa que
este povo foi citado pela primeira vez em 1714 pelo jesuíta Bartolomeu Rodri-
gues, que vivia na missão dos Tupinambás e o localizou na margem direita do
rio Madeira, entre os rios Torá e Unicoré. Depois disso, segundo Curt, o padre
Tastevin, em 1923, e Barbosa Rodrigues, em 1892, registram pequeno vocabulá-
rio e algumas frases daquele povo. Nimuendajú informa que, ainda em 1723, os
padres denunciavam que os Mura saqueavam a vila de Abacaxis, localizada no
rio Jamari, fato que provocou a mudança desta vila para o rio Madeira, em 1742.
O chefe da tropa de resgate João Gonçalves da Fonseca lutou contra eles em
um lago da margem direita do rio Solimões, no lado oposto à foz do rio Autazes,
em 1749. Tempos depois, o povo Mura habitou a região do baixo rio Purus e,
em 1768, havia se transferido para o norte do rio Solimões, perto de Codajás,
não havendo registro de que eles tivessem ido além do rio Jamary. Nimuendajú
levanta a hipótese de que o deslocamento do povo Mura não se deveu à luta
entre eles e o Munduruku, pois estes ainda estavam no rio Maués, antes decor-
reu da depopulação de significativa parte dos outros povos indígenas que havia
sido levada para as missões após ser contactada por tropas de resgate. Este
pesquisador supõe ser desse período o estabelecimento dos Mura em torno do
rio Autazes, embora outros povos tenham habitado a região. Curt informa que
o Ouvidor Sampaio cita vinte e um lugares, rios e povoações, onde os Mura fo-
ram atacados. Acrescenta que outros viajantes do século XVIII citam mais nove
lugares. Para o pesquisador, inesperadamente, em 1784, os Mura “desceram”
para Santo Antônio de Imaripi, no baixo rio Japurá e foram seguidos por outros
Mura para Tefé, Alvarães e Borba, entre outras povoações, de modo que em
1776 os Mura viviam nas povoações da Amazônia. Nimuendajú atribui a isso as

*
Professora efetiva do curso de Letras – Língua e Literatura Portuguesa e do Programa de Pós-Graduação
em Letras – Estudos Literários da Faculdade de Letras da Universidade Federal do Amazonas. Realiza Pós-
-doutoramento no Centro de Literatura Portuguesa da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.
20 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

epidemias contraídas através do contacto com o estrangeiro e a guerra execu-


tada contra eles pelos Munduruku. Contudo, mesmo depois da “pacificação”, os
Mura continuaram a se espalhar no alto rio Solimões na direção da fronteira com
Tabatinga. Também no rio Jandiatuba, perto de São Paulo de Olivença, e em Ori-
ximinã, no rio Trombetas, no baixo Amazonas (Nimuendajú, 1925, pp. 255-256).
Na altura de 1920, data das investigações do povo Mura por parte de Curt
Nimuendajú, este antropólogo contou mil e trezentos indivíduos e observou que
eles não se fixam em um lugar por longo tempo, mas apenas para construir
habitações temporárias, plantar e caçar, predominando o hábito de viajarem em
canoas e pescarem. Curt constatou que eles são miscigenados com negros e
brancos. Registrou ainda que Martius escreveu que, em 1850, os Mura falavam a
língua portuguesa, usavam a língua geral para falar entre os Mura e que a língua
Mura, uma língua isolada, estava completamente desaparecida em alguns gru-
pos Mura (Nimuendajú, 1925, pp. 257-258).
Segundo Marta Amoroso, os Mura são oriundos do Peru, precisamente da
região de Loreto de onde seguiram para a Bacia Amazônica nos complexos dos
rios Japurá, Solimões, Madeira, Rio Negro e Trombetas e estima-se que somavam
de 60 mil a 30 mil pessoas. Durante a revolução da Cabanagem (1835-1840), eles
foram confundidos com os cabanos porque viviam nas margens dos rios e lagos
e porque acolhiam pessoas de outras culturas, independentemente de serem
índios de outras etnias, negros ou brancos. (Amoroso In: ISA, site).
Atualmente, no último censo do IBGE, de 2010, os Mura somam 9.300 ha-
bitantes em Terras Indígenas demarcadas em Manicoré, Careiro, Itacoatiara e
Borba, no Estado do Amazonas, e não há um dado preciso sobre aqueles que
moram em centros urbanos ou em terras não demarcadas como indígenas.
Nesse contexto acontece a relativa passagem do modo de vida do povo Mura
da oralidade para a escrita. Relativa porque o Censo 2010 do IBGE registrou
85,5% de indígenas alfabetizados nos centros urbanos. Nessa porcentagem in-
cluem-se os alunos Mura do curso de Formação de Professores Indígenas em
Letras e Artes da UFAM – Universidade Federal do Amazonas, que funcionou no
município de Autazes, Amazonas. A matriz curricular do citado curso resultava
de discussões entre os alunos aprovados para essa graduação e professores
do Departamento de Educação Indígena da Faculdade de Educação, responsá-
veis pela criação e execução do curso perante a referida universidade. Uma das
disciplinas aprovadas era “Línguas em contacto: português e língua indígena”,
para a qual fui convidada a lecionar em 2011, com a recomendação tanto do
coordenador do curso quanto dos alunos de que os textos fossem direcionados
para escritos sobre a tradição oral dos Mura e de poesia e ficção de autores que
registraram a vida desses indígenas.
Entre os livros sobre a questão, selecionei um de publicação recente, 2000,
resultante de pesquisa de mestrado sobre as narrativas orais do jabuti, Yauti na
DA ORALIDADE PARA A ESCRITA: PERSONAGENS INDÍGENAS NA LITERATURA NO AMAZONAS
21
Rita Barbosa de Oliveira

Canoa do Tempo – Um Estudo das Fábulas do Jabuti na Tradição Tupi, do ex-


-padre jesuíta, linguista e professor aposentado do curso de Letras – Língua e
Literatura Portuguesa da UFAM, Giancarlo Stefani. Este professor selecionou
como corpora algumas aventuras do jabuti escritas em nheengatu tanto para
demonstrar alguns recursos dessas narrativas orais que são difíceis de serem
transpostos para a escrita em outra língua e cultura – como o momento em que
a narrativa é falada-encenada (situação de alegria ou de tensão, dia claro, noite
etc), a gestualidade, a entonação da voz, o público para o qual a narrativa está
sendo dirigida (grupo separados de crianças, jovens ou adultos, mulheres ou
homens, ou grupo de diferentes idades de mulheres e homens) e a participação
do público –, quanto para ressaltar no universo dos narradores da oralidade
resgatados pela escrita em nheengatu, o jabuti que simboliza a esperteza pe-
rante o outro geralmente mais forte que o quer eliminar: matá-lo para o comer,
roubar seu alimento ou um objeto em seu poder e testar suas habilidades. Neste
sentido, essas narrativas do jabuti selecionadas e que têm sido difundidas na
oralidade pelos povos da tradição tupi em nheengatu correspondem à história
do triunfo desses povos diante dos inimigos brancos e também indígenas com o
propósito de funcionarem como lições ou exemplos para a nova geração.
A experiência com essas narrativas na sala de aula foi muito bem-sucedida,
porque, afinal, a oralidade que se constitui no primeiro domínio da língua por
parte de um falante, no caso daqueles alunos do citado curso, foi aliada a seu
universo cultural. Quantas vezes teriam eles escutado essas mesmas narrativas
executadas por diferentes membros da comunidade ou quantas vezes um deles
as havia contado? Por isso, aqui não vou relatar essa ação, mas digo que as
aulas foram dinâmicas, divertidas como aquela em que um dos três senhores
mais velhos da sala, para contar a história do jabuti que caiu do céu, transfor-
mou a cortina preta da sala em veste de jabuti, colocou-se sobre um armário,
de lá saltou para se instalar debaixo da mesa e depois de alguns segundos sair
se arrastando, agora com um saco de plástico preto pintado em quadrículas e
amarrado às costas. Durante a encenação da história do jabuti que caiu do céu,
os outros alunos incentivavam, advertiam-no para não cair e, ao final, aplaudi-
ram demais, riram tão alto que o representante da turma da outra sala veio pedir
silêncio. No entanto, embora apresentassem essas habilidades, na prova escrita
sobre as teorias das narrativas orais, eles tinham dificuldades em relacionar as
terminologias relativas aos procedimentos que eles realizaram durante as nar-
rativas-encenações.
Para este artigo, no entanto, relato a experiência de leitura de obras literárias
que possuem o indígena como personagem em dois textos: Simá – Romance
Histórico do Alto Amazonas, publicado em 1857, de autoria de Lourenço da Silva
Araújo e Amazonas; e o poema épico Muhuraida, manuscrito pelo engenheiro
cartógrafo e tenente-coronel português Henrique João Wilkens em 1785.
22 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

PERSONAGENS INDÍGENAS EM SIMÁ E NA MUHURAIDA


Para as aulas no supracitado curso de formação de professores, as obras
acima citadas foram estudadas por terem personagens indígenas e apresenta-
rem contextos da história de dois povos na Amazônia: a primeira, trata, literária
e tangencialmente aos registros oficiais, do extermínio do povo dos Manaós, e
a segunda refere-se ao descimento – “prática colonial de contacto destinado a
ampliar os incipientes núcleos coloniais por meio do deslocamento dos índios
de suas aldeias e realizadas com base em acordos com as lideranças indígenas”
(Sampaio, 2011, p. 1) – dos povos Mura para a cidade de Ega, chamada atual-
mente de Tefé, no Amazonas. Refiro-me rapidamente à primeira e aprofundo a
discussão da segunda.

Simá – drama de um Manaós aculturado em meio a indígenas em guerra


contra os portugueses

Simá – Romance Histórico do Alto Amazonas foi publicado em 1857 por Lou-
renço da Silva Araújo e Amazonas, que foi engenheiro topógrafo, etnógrafo e
capitão-tenente da Marinha Imperial na Comarca do Amazonas e publicou do
Dicionário Topográfico, Histórico e Descritivo da Comarca do Alto Amazonas,
em 1852. A data de Simá corresponde à do período das narrativas indianistas do
Romantismo no Brasil.
Segundo o crítico Tenório Telles, do ponto de vista temático e histórico, este
romance é mais relevante que o romance Iracema (1865), de José de Alencar,
pois “a percepção de Lourenço Amazonas em relação à presença europeia na
Amazônia é crítica e pessimista, o que difere do autor de Iracema, visto que Alen-
car é complacente e tenta justificar o processo civilizatório empreendido pelos
europeus no Brasil e no continente americano” (Telles, 2012, p. 17).
Diferentemente de Alencar, na introdução ao romance Simá, Lourenço Ama-
zonas refere-se ao massacre dos Mura e dos Cabanos, afirma que os gover-
nantes não se importam com os pobres, informa que em 1755 já havia a lei de
liberdade indígena que impedia missionários e colonizadores de o escravizarem,
pois ele deveria receber como “vassalo português as honras e empregos em
proporção de seu merecimento e capacidade” (Amazonas, 1857, p. 5). Este es-
critor registra que, no entanto, em 1757, acontece a Revolução de Lamalonga em
toda a região do Rio Negro, coincidindo com as expedições chamadas Partidas
de Demarcações, tanto portuguesa quanto espanhola e com o litígio do Reino
de Portugal com a Companhia de Jesus, esta possuindo algumas missões na
Amazônia. Por fim, o autor lança a hipótese de que os revolucionários usaram o
desentendimento de um padre com um indígena como pretexto para irromper a
guerra contra a ocupação de seus domínios (Amazonas, 1857, pp. 5-6).
DA ORALIDADE PARA A ESCRITA: PERSONAGENS INDÍGENAS NA LITERATURA NO AMAZONAS
23
Rita Barbosa de Oliveira

Na narrativa, o regatão (comerciante que vende mercadorias em barcos na


Amazônia) português Régis chega ao “sítio da Tapera, na margem direita da bahia
de Maruaru, próximo à embocadura do rio dos Breves (…) no districto de Quary”
(Amazonas, 1857, p. 9), no rio Solimões, no Estado do Amazonas, e hospeda-se na
casa do comerciante Marcos, um Manaós aculturado, e de sua filha Delfina. Duran-
te o jantar, Régis coloca sonífero na bebida de seus hóspedes, violenta Delfina e
foge em seu barco.
Depois disso, Marcos muda-se para a Missão de Santa Isabel às margens do
rio Negro, onde havia nascido, e troca seu nome para Severo. Sua filha Delfina,
que engravidara de Régis, morre após dar à luz Simá. Quando a neta de Mar-
cos-Severo está adolescente, Regis chega à citada missão. Severo o reconhece,
mas nada diz. Pouco tempo depois Régis violenta Simá. Em seguida, ele reco-
nhece que o colar que enfeita o pescoço de Simá era de Delfina. Marcos-Severo
chega e confirma ser Simá filha de Delfina e Régis. Em seguida, o telhado da
igreja desaba sobre os personagens e os três morrem. O acidente decorreu do
incêndio que atingiu a igreja e todo o povoado ou Missão de Santa Isabel, provo-
cado por grupos indígenas revoltados contra os portugueses. O incêndio alude
à Revolução de Lamalonga, que foi intensa entre 1757 a 1758 no Alto Rio Negro,
após o que se abrandou, mas demorou a ter fim.
A respeito das revoluções no Alto Rio Negro, a historiadora Patrícia Melo
Sampaio lembra estudos que registram a existência de confederações multiétni-
cas formadas por povos do Alto Rio Negro e do Rio Orinoco no período de 1770 a
1775 e que, na revolta indígena da época contra o colonizador, as povoações de
Dari (Lamalonga), Caboquena (Moreira) e Bararoá (Tomar) foram completamen-
te destruídas por incêndio. Em seguida, quando os indígenas atacaram Mariuá
(Barcelos), o chefe Manacaçari foi morto, e eles recuaram para reorganizar as
estratégias de guerra. Patrícia comenta que a guerra se prolongou tanto que,
em carta de 1766, o governador Joaquim Tinoco Valente comunicava ao Secre-
tário de Negócios do Reino, Francisco Mendonça Furtado, que ainda estavam
ocorrendo descimentos mal sucedidos, tendo como consequência a morte de
soldados portugueses (Sampaio, 2011, pp. 8-13).
Para romancear a guerra dos indígenas contra os portugueses, Lourenço
Amazonas aproveita o registro – que ironiza – do Ouvidor Sampaio, no Diário
da Viagem que em Visita e Correção das Povoações da Capitania de São José
do Rio Negro fez o Ouvidor e Intendente da Mesma, de que o incêndio das três
povoações decorreu da revolta de um indígena Manaós contra um padre jesuí-
ta que pretendia separá-lo de sua amada (Amazonas, 1857, p. 5), e entrelaça a
história da guerra com a narrativa de Marcos-Severo, sua neta Simá e o regatão
Régis, concentrando a ação no primeiro encontro de Régis com Marcos e Delfina
em 1738 e o segundo encontro de Régis com Severo e Simá em 1748.
24 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

A atividade realizada em sala de aula com o romance Simá consistiu de lei-


tura dinâmica em que grupos de alunos, em rodízio, liam os capítulos e comen-
tavam as ações e, paralelamente a elas, iam sendo por mim apresentados os
elementos da teoria da narrativa literária, havendo poucas questões significa-
tivas que provocassem o debate mais prolongado. Quanto ao viés histórico da
narrativa, foi resgatado o líder Manaós do Alto Rio Negro, Ajuricaba, povo do
qual o personagem aculturado Marcos-Severo descendia, como se lê em: “in-
dígena genuíno, de aspecto nobre, franco e sereno, mas na expressão de cuja
fisionomia fácil fora aperceber um toque de melancolia” (Amazonas, 1857, p. 8).
O escritor informa que Marcos teria sido promovido a militar devido a sua fideli-
dade aos projetos dos dominadores e se lhe dava a vida confortável que levava
(Amazonas, 1857, p. 8).
Para acompanhar a discussão sobre a origem do personagem Manaós de
Marcos-Severo, também se estudou a carta do governador do Pará, João da
Maia da Gama, ao rei D. João V, de 27 de setembro de 1727, comunicando que
ordenara a devassa contra os Manaós por causa de seus ataques contra quem
adentrava o Alto Rio Negro a partir de 1723, denunciando-os como antropófagos,
polígamos, incestuosos e aliados dos holandeses e dos povos Mayapenas contra
os portugueses. O governador comunica, ainda, a prisão e morte de Ajuricaba,
que se jogou no rio e desapareceu, no mesmo ano em que escreve a carta, 1727.
A história do líder Ajuricaba é bastante conhecida entre os amazonenses e
gerou discussões proveitosas sobre a parte histórica do romance Simá. Talvez
por isso os alunos Mura não tenham feito críticas contundentes ao ler o romance
Simá, embora eu tenha me preparado para alguma reação crítica da parte de-
les com a qual eu precisasse lidar, tendo em vista que, geralmente, o indígena
assume atitude crítica diante de determinados textos e de algumas pessoas de
cultura branca, pois nós inadvertidamente cometemos atos que muitas vezes os
agridem por esses atos estarem introjetados em nossos hábitos. Mas era parte do
conteúdo mostrar como a literatura constrói personagens indígenas e isso foi feito.
Após esse estudo, seguiu-se a leitura do poema épico Muhuraida. O em-
prego de textos que remetessem cada vez mais ao passado histórico tinha o
propósito de aprofundar os contextos da colonização.

Muhuraida – olhar do branco para o descimento dos Mura

O poema épico Muhuraida foi manuscrito pelo engenheiro cartógrafo e te-


nente-coronel português Henrique João Wilkens em 1785 e permaneceu inédito
na Torre do Tombo em Portugal até 1819, quando o presbítero capelão de Évora,
Cypriano Pereira Alho, publicou sua primeira edição, com a seguinte informa-
ção: “A Muhraida [sic] ou a Conversão e Reconciliação do Gentio-Muhra. Poema
heroico em seis cantos composto por H. J. Wilkens dado à luz e oferecido ao
DA ORALIDADE PARA A ESCRITA: PERSONAGENS INDÍGENAS NA LITERATURA NO AMAZONAS
25
Rita Barbosa de Oliveira

Exmo. e Revmo. Senhor D. Antonio José D’Oliveira, Bispo d’Eucarpia, sufragâneo


coadjutor e provisor do Arcebispado de Évora, do Conselho de S. Majestade etc
etc etc [sic]. Pelo seu capelão o padre Cypriano Pereira Alho” (Alho In: Wilkens,
1819, primeira página do livro). No final do “Argumento do poema A Muhraida”,
o padre escreve: “O desejo de ser útil aos meus concidadãos e grato aos países
que habitei me fizeram lançar mão desta empresa” (Alho In: Wilkens, 1819, p. 8).
Em 1991, a Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, por meio de seu pesqui-
sador Dirceu Lindoso, publicou, em seus Anais, a Muhuraida ou o Triunfo da Fé
em transcrição diplomática feita, a partir de cópia eletrostática, do manuscrito
existente na Torre do Tombo, em Lisboa. Esta publicação contém a transcrição
portuguesa do Padre Cypriano Pereira Alho, de 1819, a introdução crítica de Da-
vid H. Treece e o estudo “Henrique João Wilkens e os Índios Mura”, de Carlos de
Araújo Moreira Neto.
Em 1993, a EDUA – Editora da Universidade Federal do Amazonas, e a Fun-
dação Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro publicaram Muhuraida ou o Triunfo
da Fé, com a cópia eletrostática, a transcrição diplomática, a introdução crítica
de David H. Treece e o estudo “Henrique João Wilkens e os Índios Mura”, de
Carlos de Araújo Moreira Neto. Em 2013 a Editora Valer, em Manaus, Amazonas,
publicou o poema épico de Wilkens com o título atualizado de Muraida, sem a
introdução que o autor escrevera. Em 2017, o pesquisador da Universidade do
Estado do Amazonas do polo de Parintins, Weberson Fernandes Grizoste, dis-
ponibilizou na internet, digitalizada, a publicação de 1819, dada a conhecer pelo
Padre Pereira Alho.
Emprega-se neste artigo a acima referida transcrição diplomática do texto
atualizado da Muhuraida ou o Triunfo da Fé, atualmente disponível na internet,
da Biblioteca Nacional.
No prólogo desse épico, Wilkens informa que as notícias de que os Mura
começaram a agir como “corsos” aparecem desde 1756 “em todos os rios con-
fluentes do Solimões ou Amazonas e que suas habitações ou “malocas” ocupa-
vam “imensa extensão de terreno”. Informa, ainda, que a partir de 1784, Matias
Fernandes, chefiado pelo Primeiro Comissário da Partida Portuguesa do Tratado
Preliminar de Paz e Limites de Portugal e Espanha, João Batista Martel, autoriza-
do pelo governador do Mato Grosso e Cuiabá e executor do citado tratado, José
Pereira Caldas, aproximou-se dos Mura, convenceu-os a visitarem as aldeias de
Ega, Alvarães, Nogueira e Alvelos, onde eles e os habitantes destas povoações
trocaram presentes, e um ano depois, em 9 de junho de 1785, os Mura foram
convencidos a aceitar o descimento para o Lago do Amaná no Rio Japurá, onde
já havia sido preparada para esse fim a povoação nomeada de Lugar de Santo
Antônio do Imaripi.
Esta narrativa que parece indicar a mudança dos Mura da inimizade para a
completa adesão ao projeto de colonização portuguesa esconde a guerra
26 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

promovida contra eles, conforme consta no processo intitulado Autos da Devas-


sa Contra os Índios Mura do Rio Madeira e Nações do Rio Tocantins (1738-1739),
organizado pelo Professor João Renôr Ferreira de Carvalho, diretor do CEDEAM
– Comissão de Documentação e Estudos da Amazônia, da Universidade Federal
do Amazonas. As datas indicam que a guerra já havia sido iniciada desde 1738
e que, embora o rei de Portugal tivesse ordenado não procederem à devassa,
ela já estava acontecendo por decisão dos colonos e missionários portugueses.
Formado por 14 documentos, nele se lê que o processo da devassa foi aberto a
pedido dos padres membros da Junta das Missões que denunciavam o ataque
dos indígenas Mura às expedições e aos comerciantes que viajavam pelos rios
Madeira e Tocantins. Em decorrência disso, o Governador do Maranhão e Grão
Pará mandou o Ouvidor da Capitania do Grão Pará primeiramente investigar as
denúncias e depois que este confirmou os fatos, o citado governador ordenou
realizar a “devassa” contra os índios Mura, embora o último dos 14 textos dos
mencionados Autos seja assinado pelo rei de Portugal, D. João V, que recomen-
da não realizar a “devassa”, tendo em vista considerar seus súditos os indígenas
da Capitania do Grão Pará (CEDEAM, site Atlas Digital da América Lusa).
No Canto Primeiro da Muhuraida, o poeta informa que a Musa Época mostra
a Deus, e Ele examina, a guerra que o Mura impõe ao inimigo; anuncia que canta
a Providência após um século de guerra, a Ela suplica que envie o Espírito da Paz
para livrar das trevas o Mura e invoca a Luz das Almas, a qual “faz reconhecer os
erros” e estabelece a Graça. Da estrofe IV à XXI, é descrita a paisagem dos rios e
florestas da Amazônia cujas riquezas não se podem colher porque os Navegan-
tes são aterrorizados pelo Mura que tem “bárbaros costumes, e crueldade”, suas
flechas são envenenadas e pratica o canibalismo. Comparado ao Lobo e à Ave
de rapina, o ataque do Mura é descrito como imprevisível e ele está “desde o
rio Madeira, já espalhado (…)/ Nos rios confluentes, que habitado/ Parece só por
ele” (Wilkens, 1991, p. 101).
No Canto Segundo, o poeta narra o temor dos habitantes dos povoados pro-
vocado pelos Mura. Em seguida, narra que Deus o Onipotente envia um Paranin-
fo ao personagem Mura. O Paraninfo se metamorfoseia em parente do persona-
gem Mura, aparece a ele em sonho e o aconselha a viver numa povoação junto
com outros habitantes não-Mura. O personagem Mura se sensibiliza com a fala
do parente.
No Canto Terceiro, o Anjo fala ao personagem Mura sobre Cristo e pede a ele
que fale sobre isso aos outros da aldeia. O personagem Mura acorda e convida
seus parentes a viverem em paz com os habitantes da povoação próxima, mas é
contestado por um personagem Ancião Mura que o chama de imaturo e diz que
os Mura perderão a liberdade, pois os brancos sempre escravizaram os indígenas.
No Canto Quarto, o personagem Mura insiste aos parentes para que sigam
para a povoação, pois os indígenas não são mais escravizados. Ele se dirige
DA ORALIDADE PARA A ESCRITA: PERSONAGENS INDÍGENAS NA LITERATURA NO AMAZONAS
27
Rita Barbosa de Oliveira

para o Lugar de Santo Antônio de Pádua, antiga povoação de Santo Antônio de


Trocano, e os outros o seguem. Os moradores os recebem com demonstração de
alegria e trocam presentes. O Diretor da povoação diz aos Mura que a decisão
de eles se mudarem para a povoação foi divina, era desejo do rei de Portugal e
que o governador do Pará, quando esteve em Mariuá (Barcelos), pediu que todos
tratassem muito bem aos Mura. Outro grupo de Mura chega à povoação de Ega
e é recebido pelo general do quartel que era diretor da Partida Portuguesa da
Demarcação dos Limites de Portugal e Espanha na Amazônia.
No Canto Quinto, o poeta atribui a Deus o descimento dos personagens Mura
e louva a Musa Época pelo feito dos portugueses. Depois de três dias na cita-
da povoação, os Mura retornam a sua aldeia e lá repartem os presentes com
os indígenas que não foram à povoação. Todos os personagens Mura decidem
mudar-se para as povoações. O diretor do Lugar de Santo Antonio de Pádua
(Imaripi) dá trabalho ao murificado Ambrósio. Neste lugar há plantação, madeira
e palha para os Mura construírem suas casas e se instalarem. Outro grupo de
Mura chega a Alvarães (antiga Caiçara), outros Mura vão para Ega e são bem
recebidos nesses lugares.
No Canto Sexto, o poeta escreve que o Príncipe das Trevas manda o Inimigo
Esquadrão aparecer em sonho aos personagens Mura e dizer que o branco os
irá trair. O Anjo expulsa o Esquadrão. Os Mura seguem para Ega e Nogueira. Em
9 de junho de 1785, nas festas desse mês, vinte indígenas são batizados, tro-
cam presentes e retornam para suas aldeias. O poeta narra que, dias depois, os
personagens Mura voltaram para habitar as povoações do rio Mamiá, no antigo
pesqueiro do rio Manacapuru, no lago Curini e, em 1786, o poeta informa que o
contingente de mil indígenas Mura habitavam as povoações do rio Solimões e a
antiga povoação de Santo Antônio de Trocano, naquele ano já chamada de Santo
Antônio de Borba, no rio Madeira.
O poema Muhuraida foi lido de modo expressivo: cada aluno lia uma estro-
fe e, ao final de cada canto, se fazia a discussão das ações ali apresentadas,
ocasião em que eles lembravam as leituras que fizeram em disciplina anterior
dos Autos da Devassa Contra os Índios Mura do Rio Madeira e Nações do Rio
Tocantins (1738-1739), comentando quais membros das missões, no citado pro-
cesso, defenderam os Mura, quais pediram a devassa contra eles. As histórias
dos parentes mais velhos também foram trazidas para o debate. E a aula desse
dia, à tarde, terminou.
No dia seguinte, ao fazer a chamada, alguns alunos estavam presentes, mas
não responderam, mesmo assim anotei a presença, pois os alunos estavam as-
sistindo à aula. O conteúdo da aula da manhã e da tarde desse dia consistia da
estrutura de uma epopeia e a diferença desta para um poema épico, tendo como
exemplo trechos de Os Lusíadas e trechos da Muhuraida. Enquanto eu projetava
slides ou escrevia no quadro uma espécie de síntese do que eu falava, observei
28 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

o aborrecimento deles na aula e comigo, demonstrando comportamento diferen-


te dos das aulas anteriores.
Durante a tarde, perguntei o motivo do mal estar, pedi desculpas se eu os
havia desrespeitado e disse que eu poderia mudar meu modo de agir desde que
eu soubesse o que houve. Os homens permaneceram calados, e uma aluna mais
jovem disse que ninguém havia gostado da Muhuraida, que eles esperavam se-
rem vistos de maneira mais humana pelo menos no texto literário. Segundo ela,
naquele texto o Mura de modo geral era visto como alguém que só faz o mal.
Os alunos mais jovens decidiram falar: mostraram questões da Muhuraida que
os havia desagradado e relacionaram o estigma criado contra o Mura apresen-
tado no poema épico com o modo preconceituoso como as pessoas ainda os
viam, isso na altura de 2011. Disseram que se identificar como Mura exigia deles
muita coragem. Deixei-os falar o quanto quiseram e depois tentei explicar que
alguns textos literários têm assunto que agrada a maioria, outros não, alguns se
aproximam da realidade, outros se afastam, que os autores têm liberdade para
escrever, que a literatura não é a realidade mesmo quando ela tenta registrar
aquilo que realmente ocorreu. Eles retrucaram que os personagens brancos fo-
ram tratados como heróis na Muhuraida em oposição aos Mura, mostrados como
ferozes, “pareciam até animais”, disse um aluno. Enquanto eu argumentava, os
dois senhores mais velhos nada disseram e seus rostos mostravam desagrado,
com olhar de: “Não importa, sentimo-nos ofendidos”.
Faço um parêntese para atribuir três motivos à reação dos referidos alunos
à Muhuraida relativos aos seguintes aspectos: em primeiro lugar, esse poema
épico só se tornou mais acessível em 2013, com a edição feita pela editora Valer
e, em 2017, com a acima citada divulgação na internet da Muhuraida. Então, até
2011 só constava a edição rara do Padre Pereira Alho em Portugal, de 1819; a
transcrição diplomática da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, de 1991, que
ainda não tinha sido divulgada na internet até 2011; e a edição especial da EDUA
com a Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro em 1993, com valor de compra pou-
co acessível a quem não é pesquisador. Para quem estava em Autazes, em 2011,
sem qualquer ou com precário acesso à internet, sem livraria nem biblioteca
com riqueza de documentos, seria difícil ler esses exemplares, a não ser que um
professor os fotocopiasse para serem estudados em sala de aula. Em segundo
lugar, tem havido a preferência dos alunos, muitas vezes alimentada pelos pro-
fessores, – que não vou aprofundar – por textos literários em prosa em detri-
mento dos textos de poesia. E em terceiro lugar, o choque deveu-se ao fato de o
objeto da crítica ser o eu com o qual os Mura se identificam. Alguém, na poesia,
consolidava a imagem negativa que tem perdurado sobre os Mura.
O choque dos Mura com o olhar de Wilkens deu-se do ponto de vista des-
ses dois elementos, eu e outro, como representações coletivas manifestadas
por grupos culturais diferentes que haviam se enfrentado no passado distante e
DA ORALIDADE PARA A ESCRITA: PERSONAGENS INDÍGENAS NA LITERATURA NO AMAZONAS
29
Rita Barbosa de OliveiraCastro, E., Fernandes, M., Loureiro, F.

cujas consequências ainda repercutem. Wilkens falou dos Mura a partir de sua
cultura, e os Mura se viram terrivelmente criticados como aquele que é comple-
tamente diferente até da noção de humano que tinha o outro cultural de Wilkens.
E o eu coletivo dos alunos Mura remontou aos motivos pelos quais sua cultura
foi descaracterizada, aproximada da cultura do outro pela perda da língua e
assimilação da língua do outro, pela mudança do hábito de ser viajante dos rios
da Amazônia para o de morar em casas às margens dos rios e lagos, ocorrendo
radical transformação do processo de reprodução material e imaterial para a
sua sobrevivência. Reviver a dor dos antepassados foi, naquela aula, a dor deles
também. A respeito de tal choque, Neri de Paula Carneiro escreve que o eu cul-
tural “se define pelas suas diferenças em relação aos seus vizinhos, aos outros
que também se constituem por características específicas”, havendo encontro
e choque entre este eu e o outro cultural portador de “cultura distinta a partir
da qual se fala” (Carneiro, 2013, p. 11). De acordo com os documentos já citados
neste artigo, houve muito mais choque que encontro.
Retorno ao relato das aulas. No final daquela aula à tarde voltei ao hotel na
companhia da professora da outra turma de formação de professores Mura, de
graduação em História. Contei a ela o que se passara e ela me disse para os recon-
quistar propondo algo que os envolvesse. Pensei em propor que eles respondes-
sem a Henrique João Wilkens por meio de uma carta e mostrassem quem eles são.
Depois lembrei-me que eles eram muito bons em atividades faladas e encenadas.
Proporia, então, que escrevessem uma peça de teatro. E rascunhei um trecho ini-
cial da peça para eles terem uma ideia do ponto de partida. É o que narro a seguir.

Peça de teatro “Os Mura na literatura, artes e história” – reação dos alunos
Mura da Formação de Professores Indígenas de Letras e Artes ao texto de Wilkens

Na manhã seguinte, disse que eles poderiam escrever uma peça de teatro
em resposta aos participantes da devassa e ao autor do poema épico e apresen-
tei o esboço de uma peça que intitulei “Os Mura na literatura”, que começava as-
sim: “– A peça de teatro aqui apresentada resultou de nossos estudos na turma
de Letras e Artes sobre o poema épico Muhuraida, de Henrique João Wilkens, e
dos documentos históricos editados no livro Autos da Devassa contra os Mura,
de 1736 a 1737”. Orientei que eles poderiam criar os personagens e as cenas.
Então um aluno mais jovem disse que seria o guerreiro Mura e iria enfrentar um
daqueles brancos do poema. Perguntei quem seria o Ancião, pois era o Mura
que demonstrou firmeza no poema de Wilkens. Os jovens disseram que seria um
dos senhores mais velhos, mas se havia dois senhores na turma, a peça poderia
ter dois anciãos. Então se pensou qual seria a fala de cada um. As mulheres da
sala concordaram que encenariam a dor de perder parentes na guerra. E assim a
peça foi ganhando personagens, paisagem de aldeia na floresta. Enquanto eles
30 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

falavam eu ia escrevendo as falas no quadro. À tarde, foram escolhidos os alunos


que seriam os personagens. Todos encenariam, embora alguns tivessem que
ficar “nos bastidores” para o caso de alguém esquecer alguma parte. A turma
decidiu convidar os alunos e a professora do curso de História para assistirem à
peça que eles encenariam.
Nos três dias seguintes, depois da aula da tarde e após a turma de História
sair da escola onde as aulas funcionavam, aconteciam os ensaios das ações,
para a peça ser encenada no quarto dia pela tarde. Nos ensaios, sempre havia
uma modificação ou no título, ou em uma fala ou na sequência das falas, ou no
posicionamento dos atores ou um aluno não comparecia ao ensaio por um mo-
tivo particular. Assim a peça ia sendo reescrita para se adequar ao que poderia
ficar mais bem dramatizado.
No quarto dia pela manhã, os alunos deveriam trazer os materiais que usa-
riam na encenação, vestuário, tambor, por exemplo, e o cenário seria arrumado
para a peça iniciar às 14 horas. Só o tambor foi trazido, nada me falaram da au-
sência do restante do material. Antes do intervalo para o almoço eu disse para
eles que não precisavam fazer a peça, pois eles demonstraram que se sentiam
obrigados a encená-la. Em lugar da peça eu poderia fazer uma avaliação com as
considerações sobre a Muhuraida. Assim o programa seria cumprido sem dificul-
dades. E saí para o almoço com a professora da outra turma.
Retornamos às 13 horas e 30 minutos como era o costume e vimos que ha-
via número considerável de pessoas na área externa da escola onde funciona-
vam as aulas, aguardando para entrar. Eram os convidados. A escola havia sido
transformada em uma aldeia com palmeiras que simulavam mata fechada no
pátio; dentro da sala havia sido construído o cenário de uma taba com pequenas
cabanas, trempe com fogo e panela a cozinhar, mulheres cuidando de crianças
(bonecas) ou de animais (de pelúcia), cortando verduras, arrumando frutas em
cestos; os guerreiros estavam vestidos de acordo e portavam arco e flechas,
os dois anciãos estavam solenemente vestidos e cada um tinha um bastão (um
galho firme). Os alunos-atores estavam nervosos, achavam que faltava algo. Fi-
quei também nervosa porque devia estimulá-los diante de tanta gente. A plateia
entrou: o radialista, o vereador, a secretária de educação, parentes e amigos dos
alunos, muita criança, a professora e os alunos da turma de História. E a peça
começou, com o texto que transcrevo a seguir:

Os Mura na Literatura, Artes e História

Peça teatral de único ato

1º. e 2º. apresentadores: [Vão para o centro do palco e dizem juntos:] – Boa tarde a
todos!
DA ORALIDADE PARA A ESCRITA: PERSONAGENS INDÍGENAS NA LITERATURA NO AMAZONAS
31
Rita Barbosa de Oliveira

[Os apresentadores aguardam a resposta do público.]


1º. apresentador: – Caro público, seja bem-vindo ao Teatro Virtual Mura para assistir
à peça de único ato intitulada Os Mura na Literatura, Artes e História!
2º. apresentador: – A peça de teatro aqui apresentada resultou de nossos estudos
na turma de Artes e Literatura sobre o poema épico Muhuraida, de Henrique
João Wilkens, dos documentos históricos editados no livro Auto da Devassa do
Mura, de 1786.
1º. apresentador: – O poema épico Muhuraida foi escrito por Henrique João Wilkens
em 1789 e permaneceu inédito na Torre do Tombo em Portugal até 1819, quando
o Padre Cipriano Pereira Alho publicou sua primeira edição, mas alterando al-
gumas partes do texto original. Em 1993, o pesquisador norte-americano David
Treece publicou a segunda edição em Manaus pela Editora da Universidade
Federal do Amazonas, ocasião em que transcreveu o fac-símile do manuscrito e
da 1ª. edição da citada obra, além de escrever um prefácio.
2º. apresentador: – O livro Autos da Devassa Contra os Índios Mura do Rio Madeira e
Nações do Rio Tocantins (1738-1739) foi organizado pelo Professor João Renôr
Ferreira de Carvalho, do CEDEAM – Comissão de Documentação e Estudos da
Amazônia, da Universidade Federal do Amazonas e é formado por 14 docu-
mentos, onde se lê que os padres membros da Junta das Missões denunciam o
ataque dos Mura às expedições e aos comerciantes que viajam pelos rios Ma-
deira e Tocantins. O governador do Maranhão e Grão Pará manda o ouvidor da
Capitania do Grão Pará primeiramente investigar as denúncias e depois realizar
a “devassa” contra os índios Mura e, por último, o rei de Portugal, D. João V,
recomenda não realizar a “devassa”.
1º. apresentador: – Apresentamos agora a relação dos atores da peça Os Mura na
Literatura, Artes e História: [Obs: A autora deste artigo não cita os nomes do
dezoito alunos porque não solicitou autorização de todos eles para citá-los.]
1º. e 2º. apresentadores: – Divirtam-se e reflitam!
Rapaz: [Entra um rapaz dançando e cantando uma música que ele ouve no headfone
ligado ao seu celular. De repente um relâmpago o atinge, e o rapaz viaja no
tempo. O ator que faz o personagem do rapaz gira pelo chão para simular a
viagem no tempo]
Tempo: [O personagem Tempo, segurando um tambor, bate uma vez no tambor – tum
– antes de gritar cada ano, enquanto o rapaz “viaja” para o passado.] – tum:
2000! tum:1900! tum:1800! tum:1700!
[Depois de gritar a última data, o Tempo vai em silêncio para o canto do palco.]
Velhos, guerreiros, mulheres e crianças: [O pano que separa o palco em dois é retirado
e aparece a aldeia com os seus habitantes polindo flechas, cozinhando, amamen-
tando, brincando, preparando remédio, descansando, banhando-se no rio.]
Rapaz: [O rapaz levanta-se assustado e descobre que está em uma aldeia, onde ho-
mens, mulheres e crianças estão em suas atividades cotidianas. O rapaz tenta
32 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

falar com eles ou tocá-los, mas eles não o escutam nem sentem o seu toque.
Assim, invisível e imperceptível aos Mura de 1700, ele assistirá momentos deci-
sivos da história desta nação. A cada cena, o rapaz, sem nada dizer, faz gestos
de alegria, de espanto e de tristeza, movimentando-se na frente, do meio para
a direita do palco para ser observado pelo público.]
Líder guerreiro Mura: [Chega no centro da aldeia o líder guerreiro Mura, bate uma
flecha no terreiro, e todos se levantam e o olham. Ele então diz:] – Velhos,
guerreiros Mura e mulheres! O branco pretende nos levar para a sua cidade por
nossa vontade ou pela força.
[Os velhos permanecem parados, os outros guerreiros Mura aproximam-se mais do
seu líder, as mulheres levam as mãos ao rosto, algumas carregam suas crianças.]
Líder guerreiro Mura: [O jovem guerreiro continua:] – O branco pretende nos tornar co-
merciantes dos frutos da natureza para eles depois venderem em outras cidades.
Primeiro Velho: [O Primeiro Velho dá um passo à frente e bate seu cajado no terreiro.
Todos o olham. O Primeiro Velho fala:] – Homens e mulheres! Desde a chegada
do branco a esta terra, ele quer se beneficiar de nosso saber para explorar os
rios e a floresta.[Grita] Basta! [Grita.] Vamos continuar a enfrentá-los!
Guerreiros Mura: [Os guerreiros Mura juntam-se e gritam:] – Sim! Vamos enfrentá-los!
Mulheres: [As mulheres carregam suas crianças, se abraçam, caminham para o fundo
do palco e lá ficam paradas até sua próxima participação em destaque.]
Velhos: [Os velhos caminham para o lado esquerdo do palco e ficam assistindo a
cena até sua próxima participação]
Líder guerreiro Mura e guerreiros Mura: [O líder dos Mura e seus guerreiros perma-
necem no centro do palco e, após as mulheres irem para o fundo do palco, e os
velhos irem para o lado esquerdo do palco, eles iniciam a luta contra o branco.
Ao sinal do líder, empunham seus arcos, colocam as flechas, alguns apenas mi-
ram e lançam flechas, outros lutam usando outras armas. Alguns caem feridos.
[A cena “paralisa”. Poucos guerreiros estão em pé e em gesto de luta, enquanto
muitos outros guerreiros “estão paralisados” feridos no chão.]
Mulheres: [Enquanto a cena principal está paralisada, as mulheres saem do fundo do
palco, pelo lado direito do palco, passando pela frente dos guerreiros “parali-
sados”, uma por uma: uma chorando, outra assustada, outra “esgueirando-se
pela mata”. À medida que saem, as mulheres vão ficando uma ao lado da outra
no lado esquerdo do palco, mais ao fundo, atrás dos velhos.]
Tempo: [A saída de cada mulher é seguida por uma batida de tambor do Tempo, que fala:]
[Primeira mulher olha aterrorizada os feridos, lamenta e sai. O Tempo:] – tum: 380
mortos!
[Segunda mulher olha aterrorizada os mortos, lamenta e sai. O Tempo:] – tum: 723
mortos!
[Terceira mulher olha aterrorizada a aldeia destruída, lamenta e sai. O Tempo:] – tum:
1.149 mortos!
DA ORALIDADE PARA A ESCRITA: PERSONAGENS INDÍGENAS NA LITERATURA NO AMAZONAS
33
Rita Barbosa de Oliveira

[Quarta mulher olha aterrorizada os mortos, os feridos, a aldeia destruída, lamenta e


sai. O Tempo:] – tum: 1.385 mortos...!
Velhos: [Quando as mulheres tiverem terminado sua cena e estiverem uma ao lado
da outra à esquerda do palco, os velhos vão para o centro do palco. A cena
“descongela”, e o líder Mura olha a destruição a sua volta, olha os velhos e
diz:] – Velhos respeitáveis e guerreiros valorosos. Muitos dos nossos morreram,
outra parte dispersou-se para lugares diferentes para refazer suas forças e con-
tinuar a luta contra o branco. Mas o branco tem maior quantidade de armas e
estamos sendo derrotados. [PAUSA] Vamos decidir agora: ou morremos todos
ou nos sujeitamos a viver sob suas regras.
Segundo Velho: [O Segundo Velho dá um passo à frente, bate seu cajado e diz:] – Líder
guerreiro do povo Mura, sua juventude lhe faz pensar assim. Mas o branco tem
sido cruel, e a pretexto de estabelecer a paz irá nos escravizar de outros mo-
dos. Nós tínhamos tratado o branco com a amizade. Nunca o impedimos de
navegar no rio Madeira. Nós o ajudávamos a pescar a tartaruga e os peixes, a
colher os frutos para a sua viagem, e o que ele nos oferece em troca? Ah! Líder
incauto, gostaria que você descobrisse seu engano.
Líder guerreiro: [O líder guerreiro dá um passo à frente, bate a flecha no terreiro e diz:]
– Apesar de seu conselho, respeitável velho, eu, como líder da nação Mura, não
vejo alternativa de sobrevivência do nosso povo neste momento. Por isso, anun-
cio que iremos morar na cidade do branco. Hoje mesmo partiremos para Tefé.
Primeiro Velho: [O Primeiro Velho dá um passo à frente, bate seu cajado e diz:] – A
decisão está tomada. Vamos descer para Ega, mas vamos continuar procuran-
do alternativa para não abandonar nosso modo de viver diferente do branco.
Velhos, líder dos Mura, guerreiros, mulheres e crianças: [Altivos, corpos eretos e
olhar firme, os dois velhos ficam de frente para a plateia. Depois, lado a lado,
caminham para a saída do teatro. Na última fileira do teatro, os Velhos voltam
pela sua direita e ficam perto do palco em silêncio grave. Imediatamente atrás
deles segue o líder Mura. Atrás deste, um atrás do outro, os guerreiros Mura.
Atrás destes, as mulheres Mura com suas crianças, uma atrás da outra. Todos
permanecem em grave silêncio.]
Tempo: [Desde o primeiro passo dos dois Velhos Mura para saírem do teatro, o Tem-
po bate o tambor compassada e gravemente, até a última mulher e criança vi-
rarem para a esquerda. Ele posiciona-se imediatamente atrás da última mulher
para sair também. O Tempo só para de tocar depois de virar para a direita. A
seguir encaminha-se pela direita para ficar na entrada do palco.]
Rapaz: [Assim que o palco fica vazio, o rapaz vai para o centro do palco e espera o
Tempo parar de tocar o tambor. Então o rapaz grita:] – Esperem! Esperem! [Faz
pausa como se estivesse refletindo]. [Depois fala:] – Não pode ser! Não pode ser!
[Outro relâmpago atinge o Rapaz. Ele cai no chão e começa sua “viagem no tempo”.
O rapaz gira no chão imitando a viagem.]
34 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Tempo: [Assim que o rapaz cai no chão, o Tempo entra no palco e começa a bater o
tambor e contar o tempo para voltar a 2011:] – Tum: 1700! Tum: 1800! Tum: 1900!
Tum: 2000! Tum: 2011!
Rapaz: [Quando ouve o Tempo dizer 2011, o rapaz se levanta devagar, ainda assusta-
do, olha em volta e diz:] – Que aconteceu? [Pausa] – Que foi isso? [Pausa] – Um
sonho? [Pausa] – Viajei no tempo? [Pausa] – Não! Revivi uma parte de mim!
[Pausa] – Eu sabia desse fato. Meus avós, meus parentes contaram essa histó-
ria. Mas eu nunca dei importância a ela. [Pausa] – Hoje, alguma coisa despertou
a memória da perseguição e quase extermínio do meu povo. [Pausa] – Sou
Mura [fala um pouco baixo]. [Faz pausa, caminha em volta e olha as pessoas
também caminhando na rua.]
Pessoas na rua: [os mesmos atores que fizeram os personagens do Tempo, Velhos,
Mulheres, Líder Mura, Guerreiros Mura e Apresentadores]
[Enquanto o rapaz fala “Hoje, alguma coisa...”, os atores que fizeram os personagens
do Tempo, Velhos, Mulheres, Líder Mura, Guerreiros Mura e Apresentadores
entram caminhando no palco como se estivessem caminhando na rua.]
Rapaz: [O rapaz caminha para a frente do palco e grita:] – Sou Mura! – Sou Mura! –
Sou Mura!
Pessoas na rua: [As pessoas na rua param e olham para o rapaz. Aproximam-se dele,
se abraçam e gritam junto com ele:] – Somos Mura! – Somos todos Mura!

A reação do público foi extremamente satisfatória, havendo pessoas que fo-


ram às lágrimas em dois momentos realmente comoventes: quando cada mulher
entrava em silêncio na aldeia, olhava em volta, lamentava apenas com gesto ou
choro uma pessoa morta, ferida ou a aldeia devastada, saía compungida, e o
personagem com o tambor anunciava o número dos mortos; outro momento foi
o da fala dos velhos seguida da retirada de todos, calados, em fila sob a batida
do tambor. A solenidade e a gravidade da ação chocou, pois foram os velhos que
antes resistiam ao descimento a conduzir o povo. E antes mesmo de a cena aca-
bar o público aplaudiu. Então, a ação continuou com o personagem rapaz a vol-
tar para o tempo presente e encenar o final da peça. Talvez a batida do tambor
tenha contribuído para intensificar a emoção da cena. No final da dramatização,
veio novamente o aplauso comovido.
Essa encenação funcionou para os alunos como uma catarse do século XXI
– aquela após a qual poucos ou ninguém se volta para restabelecer uma ordem
da cidade porque os habitantes desta quase não seguem as normas que suas
instituições deveriam fazer valer. Isso ficou claro durante a peça: a fala dos ve-
lhos – que nada tinham decorado e fingiram não ouvir o “sopro” de suas falas
feito pelos colegas da peça – foi além do que estava escrito, colocando para fora
tudo o que precisavam dizer às pessoas da cidade. E o fizeram sob os ouvidos e
olhares respeitosos da plateia.
DA ORALIDADE PARA A ESCRITA: PERSONAGENS INDÍGENAS NA LITERATURA NO AMAZONAS
35
Rita Barbosa de Oliveira

O público fotografou, filmou, gravou em áudio trechos da peça que foram


divulgados pela estação de rádio de Autazes. O representante da associação dos
Mura foi entrevistado na rádio da cidade. Houve uns dias de valorização do outro
habitante de Autazes e suas redondezas que era o Mura. Ocorreu uma identifica-
ção do público com o drama encenado que abriu, naquele dia, perspectivas de
respeito mútuo, o que implica possibilidades de mudança nos modos de pensar
e agir.
Depois que a disciplina finalizou, passei meses sem saber notícia dos alunos,
dado que, em 2011, a comunicação entre Manaus e Autazes era precária por
telefone e Autazes fica a 112 quilômetros de Manaus em uma viagem que alterna
barco, ônibus e balsa; de barco a viagem dura quase 5 horas, dependendo se o
período é de vazante ou de enchente. A coordenadora do curso de Letras e Ar-
tes depois me disse que os alunos deste curso convidaram a turma do curso de
História e outros membros da comunidade a participarem de outras encenações
que realizaram a pedido de escolas e da prefeitura. Disse-me que a solenidade
de formatura durou uma semana e uma das atividades foi a dramatização da
peça “Os Mura na Literatura, Artes e História”. Não pude participar dessa festa
porque estava envolvida em outros compromissos institucionais também rele-
vantes.
Ficou, para mim, a experiência de ter de certo modo revertido a tensão que
eu criara com o estudo da Muhuraida, observar a permanência da poesia oral
de que fala Paul Zumthor, e testemunhar um momento de auto-afirmação dos
alunos Mura como diferentes e cobrando reconhecimento disso perante a so-
ciedade de Autazes. Precisei contar essa experiência que me forneceu grande
aprendizado, assim como tomei conhecimento de que os alunos da turma Mura
a valorizaram e a narraram nas reuniões de seu povo.

CONCLUSÃO: OS MURA EM 2019


Cabe perguntar como estão os Mura em 2019, passados oito anos daquela
experiência em sala de aula. Eles continuam a organizar-se em torno de associa-
ções que dialogam diretamente com os órgãos de representação dos indígenas
no Brasil, como a Fundação Nacional do Índio – FUNAI, criada em 1967, por meio
da qual algumas vezes têm obtido determinadas conquistas, embora demora-
das. Uma delas consiste na abertura, em 2012, do processo de demarcação das
seguintes terras indígenas do povo Mura, as quais se encontram na situação
de declaradas e precisam evoluir urgentemente para homologadas, fato que
lhes garantirá o direito inalienável sobre elas: Murutinga/Tracajá – 13.286 hec-
tares, portaria 483, de 22/04/2016; Ponciano – 4.329 hectares, portaria 2084,
de 14/12/2015; Sissaíma – 8.780 hectares, portaria 482, de 22/04/2016; e Vista
36 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Alegre – 13.206 hectares, portaria 424, de 01/08/2012 – estando esta última


em processo de contestação. Vale observar que, no Censo de 2010, o IBGE não
computara a população das terras aqui citadas porque, pelo fato de estarem em
fase de regularização, sua população foi computada junto com o número de indi-
víduos Mura considerados urbanos, somando pouco mais de três mil pessoas.
As TI de Manicoré, Careiro, Itacoatiara e Borba, que somam 9.300 indivíduos e
citadas na introdução, haviam sido homologadas até 2010 (IBGE, Censo 2010,
site).
Para oficializar uma terra indígena, o processo evolui entre as seguintes eta-
pas dependentes uma da outra: declarada – sendo publicada Portaria declarató-
ria de que aquela TI aguarda demarcação, podendo ser contestada por alguém
que possua documentos de propriedade de parte ou de toda a terra declarada;
homologada – os limites da TI são homologados; regularizada – a TI é registrada
em cartório. Outra forma de reconhecimento de uma terra indígena constitui-se
na reserva indígena, quando a terra é doada por terceiros, adquirida ou desa-
propriada pela União.
Em notícia sobre a abertura do processo de demarcação das citadas TI feita
pela FUNAI, esta entidade informava que, em 2012, havia protocolado pedido à
União para iniciar a demarcação daquelas terras indígenas habitadas pelos Mura
há longo tempo, conforme registros de 1920 do Serviço de Proteção ao Índio –
SPI, criado em 1910 e dirigido pelo coronel Cândido Mariano Rondon. A FUNAI
informava, ainda, que, por meio do protocolo registrado na União, “o Estado
brasileiro reconhece a territorialidade específica dos Mura, povo numeroso, cuja
reprodução física e cultural está intimamente ligada ao regime das águas e ao
conhecimento refinado sobre os cursos das águas amazonenses, desenvolvido
ao longo de uma ocupação antiga e duradoura na região dos municípios de Au-
tazes, Careiro da Várzea e Manaquiri” (FUNAI, site, 15/8/2012).
No entanto, apesar de demarcadas, essas terras continuam sendo invadi-
das pelo branco para garimpo, extração ilegal de madeira, instalação ou não
de madeireiras clandestinas, prática de agricultura comercial, agropecuária e
mineração industrial. A propósito do interesse do branco pelas TI para exercer
extração mineral, o DNPM – Departamento Nacional de Produção Mineral re-
cebe constantemente pedidos de mineradoras públicas, privadas, nacionais e
internacionais, para concessão de títulos de terras que estão localizadas nas TI.
Além da FUNAI, entidades não-governamentais, como o Instituto Socioam-
biental – ISA, fundado em 1994, têm divulgado pesquisas sobre a situação das
terras e povos indígenas com o intuito de fortalecer suas conquistas e denunciar
as agressões de que têm sido vítimas. No site desta ONG, a antropóloga Marta
Amoroso descreve de modo brilhante a auto-identificação dos Mura, que vale a
pena transcrever: “Questionados sobre o local de nascimento ou sobre a iden-
DA ORALIDADE PARA A ESCRITA: PERSONAGENS INDÍGENAS NA LITERATURA NO AMAZONAS
37
Rita Barbosa de Oliveira

tidade indígena, os Mura comumente respondem: ‘sou caboclo legítimo do rio


Madeira’. Por ‘caboclo legítimo’ buscam esclarecer a condição particular do gru-
po étnico: a determinação política de ser Mura a despeito das mudanças históri-
cas. Ocorre, assim, a apropriação de um termo regional, ‘caboclo’, normalmente
utilizado com desprezo pelo regionais para definir o índio ‘impuro’, ‘aculturado’.
Positivado pelos índios, o termo ‘caboclo’ passa a identificar o que é ser Mura
hoje: índio misturado, cuja genealogia é o resultado da incorporação de nordes-
tinos como os maranhenses, peruanos e não-índios em geral, que passaram a
compor a etnia através de casamentos, a maioria das vezes com mulheres Mura.
Por ‘caboclo’ o Mura alude ao componente biológico, o sangue indígena, ainda
que misturado; por ‘legítimo’ sinaliza o pertencimento a uma determinada área
geográfica, um rio, igapó ou lago, por exemplo. Não é mais ‘índio puro’ porque
viveu o processo civilizatório com todos os seus terríveis matizes do período
colonial até o presente. Ao se assumirem ‘caboclos legítimos’ os Mura reafirmam
a consciência do complexo processo histórico vivido pelo grupo para se manter
enquanto tal. A sociedade regional, no entanto, frequentemente questiona se os
Mura seriam ‘índios de verdade’” (Amoroso In: ISA, site).
Mediante as políticas dos órgãos oficiais do Brasil que desrespeitam os gru-
pos indígenas com ações preconceituosas como a exclusão dos indígenas do
poder econômico, os Mura de Autazes têm se organizado em associações que
reivindicam direitos junto às instituições públicas nas áreas prioritárias e básicas
para a sobrevivência, organizações com as quais os Mura têm feito manifesta-
ções de protesto contra as invasões a suas terras demarcadas e as ameaças
de reversão de suas conquistas nas áreas da saúde, educação e posse da ter-
ra, conforme se lê em “Manifestação mostra força e resistência do povo Mura”
(CIMI, site, 19/04/2019), que noticia o ato público ocorrido na cidade de Autazes
na data atribuída no calendário oficial do Brasil à comemoração do dia do índio,
19 de abril. Os Mura resistem.

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40 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

RESUMO
O Censo 2010 do IBGE verificou a existência de 896.917 indígenas no Brasil,
sendo 342.836 na região Norte, e destes, 261.891 vivem em terras indígenas
(2012, p. 55), sendo 68% deles alfabetizados em uma língua indígena e/ou em
língua portuguesa (IBGE, 2012, p. 71). No Amazonas, Estado do Brasil que com-
porta aproximadamente 138 terras indígenas (IBGE, 2012, pp. 192-196), as nar-
rativas orais das lendas e mitos das culturas indígenas são registradas desde os
relatos e crônicas dos primeiros viajantes, bem como dos etnólogos e linguistas.
Uma das primeiras narrativas literárias que reinventam parte das culturas indíge-
nas e que inserem personagens indígenas na ação surge no poema épico Muhu-
raida, escrito em 1785, pelo soldado português Henrique João Wilkens, que nar-
ra o descimento do povo Mura para a cidade de Ega, após anos de guerra entre
eles e o europeu. São também indígenas parte dos personagens do livro Simá:
romance histórico do Alto Amazonas, publicado em 1857 pelo brasileiro nordes-
tino Lourenço da Silva Araújo Amazonas, a respeito da rebelião que destruiu não
apenas as povoações de Lamalonga, Caboquena e Bararoá como também gran-
de parte da etnia dos Manaós. Os dois textos literários tratam poeticamente de
processos históricos de aculturação, no caso dos Mura, e de extermínio, no caso
dos Manaós, dois povos indígenas da região amazônica. Mais recentemente,
autores indígenas têm publicado livros sobre o universo cultural de seus povos
e desconstroem ideias convencionadas a respeito do comportamento do índio.
Um desses textos contesta a escrita literária do narrador branco da Muhuraida,
na peça de teatro de único ato intitulada “Os Mura na literatura, artes e histó-
ria” (2011), escrita por um grupo de estudantes Mura do curso de Formação de
Professores Indígenas da Universidade Federal do Amazonas que recria parte
da história de seu povo, agora sob o olhar do índio. Diante do contexto acima
descrito, proponho-me a discorrer a respeito do entrelaçamento histórico e
literário do poema épico e do romance para a seguir apresentar a situação de
reconstrução cultural em que se encontra o povo Mura, suas lendas, sua língua
e suas terras.
FALAR CABO-VERDIANO E PORTUGUÊS:
A EDUCAÇÃO BILINGUE EM CABO VERDE
E NA DIÁSPORA
ANA JOSEFA CARDOSO*

INTRODUÇÃO
A formação da língua cabo-verdiana surge do contexto de colonização em
que as diferentes línguas levadas pelos povoadores se misturaram e forjaram
uma nova língua, o crioulo cabo-verdiano que se veio a tornar a língua materna
e que ao longo da história tem convivido lado a lado com a língua portuguesa,
embora sempre marcada pela diglossia provocada pela diferença de estatuto
existente entre as duas línguas em presença.
Cabo Verde não tem uma tradição de ensino formal da língua materna e a
língua da educação tem sido exclusivamente o português.
As experiências educativas que incluem o crioulo cabo-verdiano têm sido de-
senvolvidas sobretudo na diáspora, nomeadamente em Portugal e nos Estados
Unidos. A primeira experiência de ensino da língua materna, oficialmente reco-
nhecida pelo Ministério da Educação de Cabo Verde, com crianças do ensino
básico, teve início no ano letivo 2013/2014.
A Educação Bilingue é apontada como uma mais-valia para os contextos em
que há diversidade linguística, independentemente do estatuto das línguas en-
volvidas. As suas vantagens são sustentadas por diversos autores (Bialystock,
2007, 2009, García, 2010).
Para além de uma breve abordagem ao percurso histórico da língua cabo-
-verdiana, serão destacadas duas experiências de educação bilingue cabo ver-
diano/português, uma realizada em Portugal e outra em Cabo Verde.

O PERCURSO DA LÍNGUA CABO-VERDIANA


A língua cabo-verdiana é consequência do contacto entre línguas que atra-
vessaram fronteiras e encontraram nas ilhas de Cabo Verde o terreno fértil para

*
CLUNL-FCSH – Universidade Nova de Lisboa
42 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

interagirem e darem origem a uma nova língua, uma língua crioula, formada com
o material linguístico trazido pelo colonizador português e pelos escravos
pertencentes a diferentes grupos étnicos, oriundos da costa africana.
Segundo Carreira (2000:319),

“…o crioulo formou-se nas ilhas de Cabo Verde a menos de cinquenta anos do seu
achamento e dali se propagou e enraizou na costa ocidental servindo de língua fran-
ca entre o europeu e os nativos e mesmo entre estes quando de etnias diferentes.”

O aparecimento desta nova língua deveu-se sobretudo à juventude da maio-


ria dos escravos, à sua diversidade étnico-linguística e à fraca representativida-
de da língua do colonizador.
Os escravos, sendo na sua maioria jovem, possuíam uma estrutura linguística
ainda pouco sedimentada e suscetível a modificações. O facto de pertencerem
a grupos étnicos diferentes, em que nenhuma podia ser considerada maioritária
(Carreira, 2000), tornava difícil a imposição de uma das línguas étnicas.
Os colonos, para além de serem pouco representativos em termos numéri-
cos (Carreira, 2000: 310), possuíam um nível cultural baixo, sendo muitos deles
iletrados, e não havia instrumentos nem políticas de imposição cultural como
escolas, professores, material didático, etc. (Veiga, 2001: 84).
É neste contexto de diversidade linguística e urgência de criar um código de
entendimento que surge o crioulo cabo-verdiano. Esta nova língua expandiu-se
por todas as ilhas do arquipélago, desenvolvendo-se e enriquecendo-se com
algumas variações de ilha para ilha devido ao processo de povoamento que tam-
bém foi diferenciado. António Mendes Corrêa (1954:187), cita Fausto Duarte que
escreveu que “O novo dialecto teve em cada ilha formas diversas, vocábulos
típicos, modelações suaves e entonações que variam consoante o cunho da pai-
sagem.”. Esta variação dialetal é sensível e permite uma intercompreensão bas-
tante razoável entre as várias ilhas do Sotavento e do Barlavento, e como afirma
Veiga, (1998:120), “...a nível da estrutura profunda existe um único crioulo...”.
No início do século XVII o falar das ilhas caminhava já para o estatuto de
crioulo, caracterizado por uma estrutura interna e externa bastante estáveis e
desenvolvidas (Veiga, 1993: 82), a consolidação do crioulo processou-se sem
grandes perturbações.
Esta nova língua, um crioulo de base lexical portuguesa, é um idioma comum
a todas as ilhas e a todas as camadas sociais. Ela enraizou-se e expandiu-se de
tal forma, que para além de se tornar na língua materna dos cabo-verdianos,
tornou-se também a língua de uso diário dos próprios colonos.
Em 1784, um escritor anónimo afirma que dos brancos residentes em Santia-
go “raro (são) os que sabem falar a língua portuguesa com perfeição, e só vão
seguindo o estilo de falar da terra” (Carreira,1982: 68).
FALAR CABO-VERDIANO E PORTUGUÊS: A EDUCAÇÃO BILINGUE EM CABO VERDE E NA DIÁSPORA
43
Ana Josefa Cardoso

Esta situação incomodava a coroa portuguesa, mas ela era irreversível. A par-
tir do séc. XVIII começaram a surgir correntes de opinião desfavoráveis ao criou-
lo. O testemunho de José Joaquim Lopes de Lima, datado de 1844 refere que

“Os indígenas não falam outra linguagem: rezam em crioulo; os párocos lhes ex-
plicam a doutrina cristã em crioulo, e em crioulo falam eles a qualquer autoridade,
que não sendo do país carece de intérprete para os entender. Os que habitam nas
povoações marítimas pela maior parte compreendem o português, mas não o falam.
(...) Os mesmos brancos animam este uso, aprendendo o crioulo logo que chegam da
Europa, e usando-o depois no trato doméstico, educando os seus filhos a falarem-no
quase com exclusão do português limpo (assim lá chamam, e com razão, o puro)”
(Duarte, 1998:124).

e recomenda a criação de escolas “regidas por professores europeus que


pronunciem bem a Língua Portuguesa sem os vícios do Crioulo Africano…”
Desde cedo, alguns homens das ilhas tiveram acesso à instrução. Carreira
(2000:317) refere que há registos documentais que comprovam que 86 anos
após o achamento das ilhas de Sotavento, havia homens “baços e pretos” que
sabiam ler e escrever em português. Acrescenta ainda, que no início do séc. XVIII
há vários documentos que fazem referência a “pretos cristianizados e a falar a
língua portuguesa”. Neste processo, o papel da igreja foi muito relevante, pois
para além da sua função evangelizadora de cristianizar os escravos, foi também
a principal responsável pela instrução nas ilhas, pois o clero era a classe mais
culta e durante vários séculos o ensino foi assegurado pela igreja.
No século XIX, as ofensivas à língua crioula intensificam-se com a introdução
do ensino oficial em Cabo Verde. As autoridades tentaram proibir o uso do criou-
lo nas escolas, mas nenhuma medida conseguiu afastá-lo da comunicação. A pri-
meira medida data de 1849 e consta do “Programma Interino da Escola Principal
de Instrução Primária”, que refere que “na escola só é permitido falar portuguez,
o dialecto crioulo é absolutamente prohibido” (Brito-Semedo, 2006:73).
Estas medidas repressoras relativas à língua crioula não eram aceites de for-
ma passiva pelos cabo-verdianos e uma elite intelectual crioula com um forte
sentimento de identidade e espírito reivindicativo inicia o movimento Nativista.
Pedro Cardoso e Eugénio Tavares são considerados os principais nativistas ca-
bo-verdianos, com os seus discursos firmes e críticos à política assimilacionista
praticada pelo colonizador, defendem ferozmente a língua e a cultura cabo-ver-
dianas. Esta defesa da língua crioula não punha em causa a língua portuguesa,
pois os Nativistas eram defensores do bilinguismo e a sua crioulidade confirma-
va o seu amor à pátria portuguesa, ao mesmo tempo que defendia os interesses
dos filhos das ilhas, a exclusão das leis discriminatórias e a afirmação da auto-
nomia de Cabo Verde.
44 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Na primeira metade do séc. XX, mais precisamente em 1933, o nativista


Pedro Cardoso reclama publicamente a necessidade de se introduzir a língua
materna no ensino, proferindo o seguinte discurso:

“Todos aprendemos a língua estrangeira tendo por instrumento a língua materna;


saibam também os professores de instrução primária servir-se do crioulo como veí-
culo para mais rápido e profícuo ensino das matérias do programa a cumprir, prin-
cipalmente do Português. (…). Em toda a parte, estudam-se e cultivam os dialetos
regionais; só em Cabo Verde é que aparecem uns ilustres pedagogos a denunciar o
crioulo como um trombolho, e se a mais não se atrevem é que se podem levantar as
pedras das calçadas.” (Cardoso.1933)

Após a Independência de Cabo Verde, em 1979, no Iº Colóquio Linguístico


sobre o Crioulo de Cabo Verde, a língua materna na educação foi um dos temas
amplamente debatido e realçado por vários oradores, sendo de salientar Dulce
Duarte, que defende claramente a necessidade de se ensinar a língua materna
na escola e aponta orientações para a sua implementação.
A língua cabo-verdiana no contexto educacional tem sido utilizada apenas
como um recurso para apoiar a aprendizagem da língua portuguesa (Montei-
ro, 2009), pois os professores dificilmente conseguem ensinar português sem
recorrer à língua materna. Esta situação acontece não só ao nível do ensino bá-
sico como em níveis mais avançados, uma vez que, frequentemente, a língua
materna torna-se no único veículo para fazer chegar a mensagem que se queria
passar em português. Apesar da sua exclusividade no contexto escolar, o portu-
guês continua a ser a língua de constrangimento e o seu domínio é problemático
(Rosa, 2010; Lopes, 2011).
O bilinguismo deveria ser o contexto linguístico natural de Cabo Verde pois,
conforme refere Veiga (2004:110) “As duas línguas constituem não só instrumen-
tos e suportes do desenvolvimento como também elementos fundamentais do
património, do ser e do estar cabo-verdianos”, contudo a diferença de estatuto
e dos contextos de uso das duas línguas fazem com que o bilinguismo cabo-ver-
diano seja apenas individual e se caracterize por uma aquisição sequencial, pois
os que dominam o português, de uma maneira geral, aprenderam no na escola
e em contexto formal. Sabe-se da existência de algumas famílias que usam o
português em casa e aprenderam esta língua também num contexto informal,
mas esta situação não é muito vulgar e mesmo entre estes, o português “é a
língua problemática” (Lopes, 2011:114). A escola tem sido o meio quase exclusivo
de acesso à língua portuguesa e é ela que potencia o bilinguismo cabo verdiano.
Conforme afirma Veiga (2004), o bilinguismo cabo-verdiano encontra-se em
fase de construção e essa construção passa necessariamente pela introdução
formal da língua materna no sistema educativo. Pires (2010:141) reforça que
FALAR CABO-VERDIANO E PORTUGUÊS: A EDUCAÇÃO BILINGUE EM CABO VERDE E NA DIÁSPORA
45
Ana Josefa Cardoso

estas duas línguas “coexistem em paralelo” e para benefício de ambas, o seu


ensino é fundamental e torna-se necessário promover uma educação bilingue,
onde tanto o português como o cabo-verdiano possam ser objeto de estudo e
veículo de aprendizagem de outras áreas curriculares.
A imigração cabo-verdiana acontece desde o séc. XVIII. Na diáspora, os cabo
verdianos são geralmente bilingues, mas esse bilinguismo é composto pela lín-
gua cabo verdiana e outra, que nem sempre é o português. A generalidade dos
cabo-verdianos, mesmo os que podem ser considerados bilingues, na medida
em que detêm um domínio correto do português, preferem falar a língua ca-
bo-verdiana entre si. Este facto é, geralmente tido como um dos principais tra-
ços da identidade cultural cabo-verdiana. A sua língua materna mantém-se na
emigração, estruturando quer a relação familiar e o reconhecimento mútuo, em
público, quer a formação das comunidades e as suas organizações. Nas palavras
de França (1992:67) “O crioulo funciona como denominador comum, vínculo de
pertença e tantas vezes de defesa. O crioulo é a única arma que leva quando sai
de terra”. É esta língua que une os cabo-verdianos residentes em Cabo Verde e
os que se encontram na diáspora.

A LÍNGUA CABO-VERDIANA NA EDUCAÇÃO


As línguas crioulas ainda batalham por um espaço na educação formal e nos
currículos escolares.
As atitudes pouco prestigiantes em relação a estas línguas constituem o prin-
cipal obstáculo à sua introdução nos sistemas educativos, havendo receio que
as competências adquiridas na língua materna não possam ser transferidas para
outra língua (Cummins, 2001) e ainda que o uso da língua de casa na educação
formal possa comprometer a ascensão social e o futuro das crianças.
Para tentar contrariar esta realidade e com o intuito de preservar, desenvol-
ver e elevar o estatuto das línguas crioulas, têm sido implementas em vários
países crioulófonos experiências onde estas línguas ocupam um lugar real na
educação (Migge, Léglise & Bartens, 2010), comprovando que as vantagens do
ensino em língua materna são válidas, qualquer que seja o estatuto dessa língua.
As experiências educativas que incluem o crioulo cabo-verdiano resultam de
projetos a prazo e têm sido desenvolvidas sobretudo na diáspora, nomeadamen-
te em Portugal (Cardoso, 2005; Pereira, 2006) e nos Estados Unidos (Gonsalves,
1999), em contexto migratório, com o intuito de valorizar a língua materna da
comunidade e promover uma melhor integração no país de acolhimento. Esta
língua é aquela que prevalece e que serve de veículo comunicação entre todos
os cabo-verdianos, é uma marca forte de identidade que acompanha os cabo-
-verdianos na diáspora por várias gerações.
46 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

EDUCAÇÃO BILINGUE CABO-VERDIANO/PORTUGUÊS EM


PORTUGAL
Há registo de alguns projetos de educação bilingue realizados em Portugal.
Cardoso (2005:56) dá-nos conta de duas experiências de ensino bilingue com
crianças cabo verdianas realizadas em Portugal, na área metropolitana de Lis-
boa.
A primeira, o Projecto Piloto de Educação Bicultural no Ensino Pré-Primário e
Primário, da responsabilidade do Centro Paroquial da Paróquia de Cristo Rei, em
Algés, financiado pela Fundação Calouste Gulbenkian, teve a duração de 4 anos,
entre 1990 e 1994, foi coordenado por Raja Litwinoff (Litwinoff, 1994).
O segundo, o projeto Nursery Policy and Pratice within Bilingual Context
(Orientações e práticas educativas no jardim de infância, em contexto bilingue),
decorreu entre 1998 e 2000, foi promovido pelo Secretariado Entreculturas e
destinava se a dois Jardins de Infância. Foi desenvolvido em Portugal, em parce-
ria com a Dinamarca e a Inglaterra, e teve como consultora e colaboradora Dulce
Pereira. (Pereira, 2006).
Estes projetos apresentaram resultados bastante positivos, mas chegaram
ao fim e não tiveram continuidade. Contudo, conseguiram provar que a coabita-
ção da língua cabo verdiana com a língua portuguesa em meio escolar pode ser
harmoniosa, trazer vantagens significativas para o desenvolvimento linguístico
das crianças envolvidas.
No ano letivo 2008/2009, foi implementado um novo projeto de educação
bilingue, coordenado pelo ILTEC (Instituto de Linguística Teórica e Computacio-
nal) e financiado pela Fundação Calouste Gulbenkian, no Agrupamento Verti-
cal de escolas Vale da Amoreira, concelho da Moita, com a duração de 5 anos
(2007-2012), tendo sido o primeiro dedicado à preparação da implementação
do mesmo.
Esta experiência, denominada Turma Bilingue era parte integrante do projeto
Bilinguismo, aprendizagem do português L2 e sucesso educativo na Escola Por-
tuguesa. Trata-se de um projeto piloto de investigação, com caráter experimen-
tal que teve como objetivo principal criar e experimentar, em Portugal, um modo
alternativo de ensino no primeiro ciclo, assente no desenvolvimento, aprendiza-
gem e uso regular de duas línguas, na sala de aula, e que permitisse simplificar
e “otimizar” o processo de integração das crianças das minorias na comunidade
portuguesa, melhorando o desempenho escolar e o desenvolvimento linguístico,
cognitivo, social e cultural, não só dessas crianças, mas também das da comuni-
dade de acolhimento. Esta experiência consistiu no acompanhamento educativo
de uma turma do ensino oficial, com uma distribuição equilibrada de alunos de
origem portuguesa e de alunos de origem cabo verdiana, durante os quatro anos
FALAR CABO-VERDIANO E PORTUGUÊS: A EDUCAÇÃO BILINGUE EM CABO VERDE E NA DIÁSPORA
47
Ana Josefa Cardoso

correspondentes ao 1º Ciclo do Ensino Básico. Além da professora portuguesa


que assegura o currículo normal em português, a turma contou também, a tem-
po parcial, com uma professora cabo-verdiana que lecionava as aulas em cabo
verdiano.
Segundo Pereira, Martins & Antunes (2013), de acordo com os parâmetros
avaliados no desempenho em língua portuguesa (aspetos de ordem gráfica, es-
trutura da narrativa e coesão textual), os dados recolhidos (até ao 3.º ano de
escolaridade) na turma bilingue, através de testes linguísticos mostraram resul-
tados, na generalidade, superiores aos da turma de controlo (turma com ensino
monolingue que tem características idênticas, criada com a finalidade de permi-
tir uma avaliação comparativa).
Esta experiência veio comprovar, mais uma vez, as vantagens e os benefícios
da educação bilingue que tiveram reflexo não apenas no desempenho das crian-
ças na escola, como também na comunidade envolvente.

EDUCAÇÃO BILINGUE CABO-VERDIANO/PORTUGUÊS EM


CABO VERDE
Em Cabo Verde, a língua de ensino tem sido unicamente o português, apesar
de Duarte (1998, 215) e Pires (2010, 149) assegurarem que 90% das crianças em
idade escolar falam português pela primeira vez quando ingressam na escola e
as suas experiências de uso desta língua, quase que se circunscrevem ao espaço
da sala de aula. No quotidiano, raramente as crianças têm oportunidade de ouvir
falar ou contactar com a língua portuguesa noutros espaços. Duarte (1998:132)
afirma mesmo que,

“uma percentagem elevadíssima de crianças em idade escolar provém de meios


onde não se fala português (...) Além disso, essas crianças, uma vez deixada a escola
primária, desaprendem o português, não só por desconhecimento da língua, mas por
falta de prática.”

A primeira experiência de ensino da língua materna, oficialmente reconhe-


cida pelo Ministério da Educação com crianças do ensino básico, foi aprovada
para seis anos de escolaridade e a sua implementação teve início no ano letivo
2013/2014. Esta experiência piloto foi proposta no âmbito de um projeto de dou-
toramento em Linguística, pela autora deste texto, uma cabo-verdiana residente
na diáspora e que marca um ponto de viragem nas experiências educativas em
Cabo Verde.
O projeto intitulado Si ka fila tudu ta fila un ponta. Uma experiência de Edu-
cação Bilingue foi apresentado ao Ministério da Educação de Cabo Verde pela
48 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

primeira vez em 2010. Apesar de ter tido desde logo um parecer favorável, só
três anos depois foi possível materializar a sua implementação.
A elaboração deste projeto baseou-se em dez fundamentos principais:
(i) a situação de diglossia vivida em Cabo Verde e o facto da língua materna
ser ignorada no processo de ensino/ aprendizagem;
(ii) o ensino apenas em língua portuguesa não dar provas de total eficácia
nem de elevados níveis de sucesso;
(iii) o convívio entre a língua portuguesa e a língua cabo-verdiana ser mar-
cado não apenas pela diferença de estatuto, mas também pelo efeito das
interferências e da contaminação do contacto entre línguas;
(iv) grande parte das atualizações linguísticas processam na língua cabo-ver-
diana e mesmo aqueles que dominam de forma satisfatória as duas línguas
têm uma performance mais apurada na sua língua materna do que no por-
tuguês;
(v) a legislação cabo-verdiana existente é favorável ao apoio a iniciativas que
valorizem a língua materna, a sua introdução no ensino e o desenvolvimento
da língua segunda com vista à paridade entre elas. (Resolução nº48/2005,
Boletim Oficial nº 46, de 14 de Novembro de 2005);
(vi) o Decreto-Legislativo nº 2/2010 referente à Revisão da Lei de Bases do
Sistema Educativo refere no artigo 10º, alínea h), que são objetivos da política
educativa “Aprofundar o conhecimento e a afirmação da escrita da língua
nacional cabo-verdiana, enquanto primeira língua de comunicação oral, vi-
sando sua utilização oficial a par da língua portuguesa”;
(vii) desrespeito pela Declaração Universal dos Direitos Linguísticos que re-
fere no artigo 29º, ponto um, que “Todos têm direito ao ensino na língua
própria do território onde residem.”;
(viii) em países onde foram desenvolvidos projetos de Educação Bilingue
constatou se que a inclusão no currículo escolar de áreas de desenvolvimen-
to do bilinguismo tem reflexos positivos na aprendizagem das línguas e de
outros conteúdos curriculares;
(ix) a investigação na área do bilinguismo tem demonstrado que a aprendiza-
gem bilingue é uma mais-valia tanto do ponto de vista linguístico, como do
ponto de vista cognitivo e que as crianças que dominam mais do que uma lín-
gua têm probabilidades acrescidas de um nível superior de desenvolvimento
das capacidades linguísticas e metalinguísticas;
(x) há um Alfabeto Cabo-verdiano oficial que ainda não foi testado na escola
em Cabo Verde.

Os principais objetivos que nortearam este projeto foram os seguintes: levar


a efeito práticas de ensino bilingue de acordo com o contexto cabo-verdiano e
orientações internacionais;
FALAR CABO-VERDIANO E PORTUGUÊS: A EDUCAÇÃO BILINGUE EM CABO VERDE E NA DIÁSPORA
49
Ana Josefa Cardoso

(i) proporcionar a aprendizagem da língua cabo-verdiana, a par da língua por-


tuguesa na escola e em sala de aula;
(ii) contribuir para o desenvolvimento linguístico, cognitivo, afetivo e cultural
dos alunos tanto na língua materna como na língua segunda;
(iii) promover a biliteracia fomentando o uso da língua cabo-verdiana como
língua de ensino e objeto de aprendizagem;
(iv) melhorar os níveis de desempenho dos alunos nas diversas competências
(oralidade, leitura, escrita e funcionamento da língua);
(v) promover uma análise contrastiva entre a língua cabo-verdiana e a língua
portuguesa como forma de combate às interferências linguísticas;
(vi) diminuir os preconceitos relativos ao uso da língua materna e elevar o
seu estatuto;
(vii) alargar o conhecimento do alfabeto cabo-verdiano e promover a sua di-
vulgação;
(viii) proporcionar formação específica aos docentes, nomeadamente nas área
da gramática da língua cabo-verdiana e didática do ensino da língua materna;
(ix) elevar os níveis de sucesso escolar e a aproximar as famílias da escola.

Com base nestes objetivos, o modelo de ensino proposto foi um modelo de


Bilinguismo Total, vulgarmente conhecido como Dual Language Education ou
Two Way Bilingual Education, (Lindholm, K., 2001; Torres-Guzman et al., 2002;
Garcia, 2010).
Com a devida aprovação do Ministério de Educação e Desporto, em setem-
bro de 2013, iniciou se em Cabo Verde uma experiência-piloto de educação bi-
lingue em duas escolas do ensino básico, na Ilha de Santiago. Nestas salas de
aula, tanto o português como o cabo-verdiano são objeto de estudo e veiculam
os conteúdos curriculares de outras áreas como a Matemática e as Ciências Inte-
gradas, promovendo assim, não apenas o bilinguismo, mas também a biliteracia
(Kabuto, 2011; Kenner, 2011).
De acordo com o projeto, cada uma das turmas tem dois professores, sendo
um responsável pelo ensino do cabo verdiano e outro responsável pelo ensino
do português. As duas línguas estão em pé de igualdade na sala de aula, cada
uma das línguas ocupa 50% da carga letiva.
No final do 1º ano já eram visíveis as vantagens resultantes desta experiência,
sobretudo no que se refere ao domínio da leitura e da escrita tanto em cabo
verdiano e como em português. Com apenas 6 meses de aulas grande parte dos
alunos já conseguia construir frases simples autonomamente, lê las e registá-las
no caderno diário, o que contrasta com a situação do ensino regular, que segun-
do Monteiro (2009), “no primeiro ano os alunos não sabem ler ainda e (…) no
2º ano, são pouquíssimos os alunos que leem, efetivamente, quer na sala quer
fora dela.”
50 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Os professores confirmam a motivação dos alunos para o estudo em qual-


quer área curricular, sobretudo na aquisição da língua portuguesa. Os alunos
apropriam-se das duas línguas e usam-nas, acrescentando a sua criatividade e
reformulando o que aprendem para aplicar nos diferentes contextos. Oralmen-
te apresentam uma grande espontaneidade a expressar os seus pensamentos,
sentimentos e dúvidas. Têm confiança na sua capacidade de comunicar e fazem-
-no sem medo de errar, utilizando um léxico variado de acordo com a temática
em causa tanto na língua cabo verdiana como na língua portuguesa. Colocam
questões e preocupam-se em estabelecer fronteiras fonéticas, fonológicas, sin-
táticas e semânticas entre a língua materna e a língua portuguesa. Esta reflexão
linguística e este comportamento ao nível da oralidade reflete-se na leitura e na
expressão escrita dos alunos.

CONCLUSÃO
A educação formal em Cabo Verde tem um longo caminho a percorrer no
sentido de contribuir para a construção de um bilinguismo efetivo. A legislação
existente é favorável ao desenvolvimento da língua materna e da sua inclusão
no sistema educativo, mas tem faltado coragem política de colocar a questão
linguística entre as prioridades do país.
A experiência de Educação Bilingue demonstrou as vantagens que a língua
materna transporta para a aprendizagem da segunda língua e os ganhos dos alu-
nos relativamente ao desenvolvimento das suas capacidades linguísticas em to-
dos os domínios, nomeadamente oralidade, leitura, escrita que os prepara para
o uso pleno das suas competências comunicativas. Estes ganhos estendem-se à
aprendizagem dos conteúdos das outras áreas curriculares.
A eliminação do preconceito linguístico é clara nesta experiência, onde não
existe uma melhor ou pior, o português e o cabo verdiano são línguas aprecia-
das, respeitadas, amadas e usadas com rigor. Elas complementam-se no univer-
so linguístico destas crianças que serão verdadeiros bilingues, podendo exibir
uma boa proficiência e performance em ambas as línguas.

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DEL NACIMIENTO A LA IGNORADA
AGONÍA DE LA MODALIDAD
LINGÜÍSTICA “CASTELLANO-LEONESA”
EN EL REBOLLAR (SALAMANCA)
ÁNGEL IGLESIAS OVEJERO*

Parientis probis y burrus viejus, lejus


(refrán rebollano)

En dos intervenciones recientes se ha evocado la situación agónica en que


desde hace décadas se halla una modalidad lingüística de la Comunidad de Cas-
tilla y León. La primera fue en el marco de los cursos de verano de la Universidad
de Salamanca y el Centro de Estudios Ibéricos (Robleda, 4 de julio) y la segunda
con motivo de la conmemoración en Navasfrías (16 de agosto) de una efeméri-
des, que dio lugar a una jornada cultural: “Navasfrías, 800 años en la historia
(1219-2019)”. En esta última se presentó un esbozo de explicación de algo que
ahora se aspira a desarrollar y completar. Es decir, cómo las circunstancias his-
tórico-geográficas que contribuyeron a dar su peculiaridad a un habla vernácula
“castellano-leonesa” en varios pueblos del Alto Águeda han determinado tam-
bién el estado de previsible desaparición que actualmente la define. Y a esto
último contribuye la desasistencia institucional por parte de dicha Comunidad.
Los diversos factores determinantes se relacionan conceptualmente con los “es-
pacios fronterizos” en su dimensión natural, política, económica y cultural, aquí
evocados a través de la onomástica, pues tal vez será el componente que, con
algo de esfuerzo, sobreviva a esta lamentable previsión. Su recuento somero
también permite imbricar los rasgos característicos del dialecto o subdialecto en
cuestión, para llegar a un balance, con estos apartados:

1. El nombre de la antigua comunidad lingüística: El Rebollal / El Rebollar


2. Las fronteras naturales: el espacio geográfico (orónimos e hidrónimos)

*
Catedrático jubilado de la Universidad de Orleans (Francia), miembro del Laboratoire Ligérien de Linguisti-
que (LLL, Univ. Orleans-Tours) y del Centro de Estudios Mirobrigenses (CEM, CECEL-CSIC), angel.iglesias@
wanadoo.fr.
54 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

3. Las fronteras históricas: el espacio conflictivo (odónimos y topónimos)


4. Las fronteras de la subsistencia: el espacio de la identidad (etnónimos ofi-
ciosos)
5. Las fronteras lingüísticas: el hibridismo rebollano agonizante.

1. EL NOMBRE: EL REBOLLAL / EL REBOLLAR


De un modo más o menos fundado desde hace algún tiempo hemos conve-
nido en llamar El Rebollar / El Rebollal un territorio constituido por cinco pueblos
situados en el rincón suroccidental de la provincia de Salamanca, en los confines
de Portugal y Extremadura (Iglesias 2003a): Navasfrías (N), El Payo (EP), Peñapar-
da (P), Villasrubias (V) y Robleda (R). El robri o rebollu es su árbol emblemático, y
le ofrece la base a un nombre propio en consonancia con la realidad geográfica
y económica (explotación ganadera y forestal). En función de su edad y desar-
rollo la planta recibe, con matices locales, una constelación de designaciones,
algunas de ellas comunes con las de otros árboles, pero aplicadas a éste espe-
cíficamente:
– mata, matagüina, matochu (fig. jorrascacalderus), tallaricu, novalíu, tejigu,
rebollu (charramasca, jorramasca), barda, matacán, verdión, ant. carballu
(v. entradas, Iglesias 1990b).

El topónimo tiene, por tanto, una motivación fitonímica, como tantos otros de
la umbría salmantina, algunos de ellos muy cercanos a este territorio histórico,
localidades de escasa entidad y despoblados (dehesas), cuyos nombres son re-
veladores de un paisaje y de un modo de vida centrado en la explotación forestal
y ganadera:
– Agallas, El Bodón, El Cuisal, La Encina, El Fresno, La Genestosa, Malvarín,
El Manzano, El Olmo, Robliza, El Sahugo.

Dentro de la propia comarca, el robli o robri motiva el nombre de Robleda,


cuya primera documentación data de 1181: Sanctam Mariam de Revoreda, lati-
nización parcial para designar una parroquia, en la cesión de Villasrubias (Villa
Ruvias, Villas Ruvas) a la Orden de San Juan de Jerusalén (Ayala 1995, doc. nº
137: Iglesias 2004b: 56, n. 103). Y los citados términos genéricos se aplican por
antonomasia a determinados parajes en la toponimia local:
– Carvajales (EP), El Bardal (EP), Los Bardalonis (EP), Las Barderas (V), El
Barderón (R), La Bardilla (V), etc.

El susodicho topónimo comarcal es relativamente moderno, o al menos no se


registra hasta a principios del siglo XX, en la famosa Reseña de Casiano Sánchez
DEL NACIMIENTO A LA IGNORADA AGONÍA DE LA MODALIDAD LINGÜÍSTICA “CASTELLANO-LEONESA” EN EL REBOLLAR (SALAMANCA)
55
Ángel Iglesias Ovejero

(1904), donde aclara que el nombre respondía a la abundancia de rebollos en la


zona (aunque a decir verdad, como sugiere la Academia con el étimo *repullus
‘renuevo’, en algún pueblo el término parece referirse a la hojarasca y los talla-
ricus). Después lo usaron Pérez Cardenal (1922) y Matías García (1928). Los dos
primeros no incluían a Navasfrías en la comarca, probablemente porque este
pueblo quedaba a desmano en las comunicaciones entre Ciudad Rodrigo y Cá-
ceres, por Vadocarros y el puerto de Perales. En cambio, lo incluye García Boiza
al describir el traje del Rebollar (1940), así como Alonso Zamora Vicente en su
manual de Dialectología (1967 [1960]). Y nosotros, en la tesis sobre el habla de
la zona (1976), que denominamos rebollano (y otros llaman palra), adoptamos el
topónimo, con su derivado etnonímico Rebollanus / Rebollanos (con preferencia
al *Rebollarenses, un tanto alambicado por su connotación culta).
En consecuencia, hemos contribuido a consolidar una denominación que
parecía más acorde con la relativa homogeneidad geográfica y cultural que la
designación del antiguo régimen: el Campo de Robledo o El Robledo y campo de
Malvarín, atestiguado en 1448 por Hernández Vegas (1935). En la administración
de antaño no entraban en esta jurisdicción los pueblos de señorío, Navasfrías,
El Payo y Villasrubias. Hoy la burocracia de la Comunidad de Castilla y León ha
hecho tabla rasa de todas estas consideraciones y pone la sede de El Rebollar en
Fuenteguinaldo (Iglesias 2003a).

2. LAS FRONTERAS NATURALES: EL ESPACIO GEOGRÁFI-


CO (ORÓNIMOS E HIDRÓNIMOS)
El Rebollar tiene unas fronteras naturales y unas características propias que
han determinado dificultades de comunicación seculares, visibles hasta el siglo
XX y en ciertos aspectos hasta hoy. Su corolario ha sido un aislamiento que,
como sucede por lo general en las zonas montañosas, a su vez ha favorecido el
mantenimiento de las tradiciones culturales, entre las cuales se incluye la pecu-
liaridad lingüística, manifiesta en la oronimia específica de la zona.
Sin ser impresionantes por su altura, las montañas del Sistema Central y sus
estribaciones configuran un horizonte preciso que dibuja en la cuenca del Alto
Águeda el relieve de un lecho, cuna o sepultura, y sus nombres implican una
visión animada y casi doméstica, en contraste con algunas aparatosas referen-
cias históricas (para la etimología, v. Giraud-Iglesias 2004b). Desde la raya de
Portugal hasta el campo de Agadones fijan la frontera sudeste con Extremadura:
– en la prolongación de la Serra de Malcata (Portugal), la Serra das Mesas (en
la cartografía española de las Mezas, incomprensiblemente), con El Picotu, y
después hacia el Este, La Carbonera, El Espinazu (Eljas, Cáceres), el Tesu de
la Navi o de la Matancia / Matanza (N), aledaños de la Sierra de Jálama (EP),
56 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

prerromano indoeuropeo (Llorente 2003), junto a las extremeñas Cabezas de


la Cervigona; a continuación la Sierra de Gata, también prerromano indoeu-
ropeo (Llorente 2003), con El Cándalu (P), seguido de La Jañona, la Sierra de
las Pilas, en Cadalso (Cáceres), hasta la Sierra de Villarrubias, con el emble-
mático Picu de los Morus en su cima y El Bardal, El Serrallu y Las Gargantas
en sus faldas, así como en su prolongación oriental La Güerta de Morán (Des-
cargamaría) y la Sierra de Gómaris (Robledillo) en tierra de Cáceres.
Más allá, ya en la perspectiva foránea del estricto territorio rebollano, se per-
filan por el Este:
– las redondeadas siluetas de La Bolla y La Bolla Chica (Robledillo, Các.),
metáfora formal de bolla ‘bollo’; el Cerro del Espino, El Dogal Chico, La Jas-
tiala y la Cumbre de la Petalla (Sahugo, Sal.), metáfora de petalla ‘alcotana,
herramienta en forma de azuela y hacha’, El Fortín (Cespedosa) y el Cotorro
de las Gorgollizas y La Canchera (Vegas de Domingo Rey, Sal.), derivado de
canchal ‘peñasco’; estas últimas elevaciones ya se integran en la Sierra de
Francia, con su punto emblemático en La Peña de F., donde se ubica el cono-
cido santuario que de su nombre toma la advocación mariana.

Esta frontera montañosa, un tanto remota, gira del Noreste hacia el Noroeste,
en un progresivo declive que oculta la frontera con la tierra llana más allá de
Ciudad Rodrigo:
– El Robledo, La Jastiala y El Guindo (Monsagro); las sierras de las Serradillas
(Serradilla del Arroyo y Serradilla del Llano) y El Carazo (Guadapero); las coli-
nas y cerros cercanos de El Collado (Bodón), El Guijo y Guinaldo (Fuentegui-
naldo).

El Rebollar mismo, aunque sus habitantes hayan hecho caso omiso de su


condición montañosa para adecuarlo a la agricultura cerealista, es un áspero
altiplano quebrado, en el que alternan los altos (tesu, cerru, cotorru, cabeza,
coronilla, lombu, cumbri) con las llanuras y terrenos bajos (nava, valli, vega, joya,
gasnata), con nombres especificados en la toponimia menor (Iglesias 2012c). Es
muy significativo históricamente el topónimo Navasfrías (infra: 3.1).
Entre la Sierra y el Llano los habitantes de este minúsculo territorio siempre
han sido conscientes de las analogías y los contrastes entre la Transierra cace-
reña, en la cálida Solana, y la Umbría salmantina, con unos inviernos crudos. Las
diferencias repercuten en la vegetación, más mediterránea en la vertiente sur
(olivu, parra, jiguera, cerezu, naranju, madroñu, enebru, jara, etc.), aunque com-
partan otras especies vegetales (robri, encina, pinu, mostaju, berezu, carquesa,
chaguarzu, etc.). Unos y otros serragatinos se refieren a Extremadura, que está
más al sur (latitud) y más baja con respecto al nivel de mar, mediante el adverbio
nominalizado Abaju, mientras que Arriba es por antonomasia Salamanca y por
DEL NACIMIENTO A LA IGNORADA AGONÍA DE LA MODALIDAD LINGÜÍSTICA “CASTELLANO-LEONESA” EN EL REBOLLAR (SALAMANCA)
57
Ángel Iglesias Ovejero

extensión Castilla, en la perspectiva extremeña. La representación del espacio


en relación con el tiempo (cronotopo) no puede ser coincidente (a no ser a me-
dio día), pues en la Transierra cercana, donde la primavera es más temprana, el
sol mañanero ilumina los altos serranos y caldea los bajos en invierno, al abrigo
de los hielos prolongados, mientras que en el Norte el sol llega más tarde y las
cumbres montañosas ensombrecen pastizales y sembrados, pero los lugareños
se sienten más seguros con esos pilares sosteniendo la bóveda celeste, sin el
agobio crepuscular que cae de repente sobre los pueblos meridionales (el sol se
poni allí más plontu).
En el aludido aislamiento no solamente han influido las dificultades del trán-
sito exterior que suponían las montañas del Sistema Central, sino el río Águeda
(Ríu Grandi), que delimita la comarca de Suroeste a Noreste, desde Navasfrías
hasta su confluencia en Tramburríus con el río Ollerus (o Mayas, del nombre de
un paraje ubicado por bajo del caozu de la Ollita), en tierra de Robleda, donde la
hidronimia le señala una copiosa polinomía en su trayecto (Ollerus, o Ríu Chicu,
ríu de La Malena o de Mallaváu, cerca de su nacimiento en La Bolla, Robledillo,
Các.). Debido a la falta de puentes seguros, en gran parte de su trayecto eran
obstáculos casi insalvables durante el invierno para el tráfico con carretas y los
vehículos modernos. Pero en el interior del territorio también dificultaban los
desplazamientos otros ríos o arroyos torrenciales (Roladrón, en Navasfrías, Ru-
biós o Rubiosu, en El Payo, y Riufríu, en Villasrubias). Como se expone más abajo,
sobre algunos de ellos había puentes o pontones entre los siglos XVI y XVIII,
sobre el Olleros (R.), Águeda (Posadillas, Sahugo), Argaz (EP), Águeda (Villar de
Flores, EP). Al final del s. XIX solamente este último era de utilidad para la trashu-
mancia y el transporte. Los otros se habían caído, y los demás que existen ahora
son posteriores al s. XIX-XX. Quedaba el remedio arriesgado de los puentes de
tablas, que los torrentes se llevaban, así como el recurso a los peligrosos váus
(vados) para carros y caballerías, y, para la gente escotera, pasilis o pasileras y
palus atravesáus sobre traidores barrancos (cubiertos de mansiegas).

3. LAS FRONTERAS HISTÓRICAS: EL ESPACIO CONFLICTI-


VO (ODÓNIMOS Y TOPÓNIMOS)
Para la historia lingüística rebollana no parecen de un interés evidente los
antecedentes remotos de los pobladores prerromanos, aunque ya por entonces
debía de situarse por estos pagos la frontera entre Lusitanos y Vetones en el
Coda o Cuda, hidrónimo latino que señalado origen pre-céltico (kut ‘jabalí’) o re-
lacionado con el vascuence (kuto ’cerdo’), referido a un curso de agua que nace
en la citada Serra das Mesas y en su tramo final hacia el Duero es frontera entre
Portugal y España. De los Vetones quedan vestigios zoomórficos que prueban
58 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

la continuidad milenaria de la cría de ganado como medio de subsistencia. En


el habla vernácula reciben los nombres de verracus, burrus, torus o yeguas, que
dejaron especímenes destruidos o medio destruidos en Peñaparda y Fuente-
guinaldo, dentro de un amplio territorio de lo que hoy son varias provincias de
España y de Portugal. De una época anterior (800 a 600 a. C., Edad del Bronce)
sería la estela funeraria hallada en 2009 en el Pinar de Descargamaría (término
de Robleda). Se encontraba en el paraje de la Choza del Fraili, a la vera del anti-
guo Caminu de los Serranus (o de Robleíllu), que de la Cruz Mojosa y por la Vega
de la Aldegüela bordeaba la Sierra de Villarrubias y llegaba hasta el despoblado
de Perosín (lat. medieval Pedrosin), en cuyos aledaños empalmaba con rutas an-
taño muy frecuentadas entre Coria (Các.) y Ciudad Rodrigo, principalmente la que
correspondía al trazado de la vía Dalmacia romana, la más señera de las variantes
del camino entre esas dos ciudades a lo largo de los siglos (Iglesias 2005a). La
panoplia del personaje enterrado (no forzosamente en el sitio donde se encontró
la estela), con escudo, lanza, espada y espejo, coincide con la de estelas similares
conservadas en San Martín de Trevejo (Cáceres) y Sabugal (Portugal), dentro del
tipo denominado “de estelas extremeñas” (las más cercanas halladas en Roble-
dillo, en Các., y Lerilla, término de Zamarra y cercano a Martiago).

3.1. TOPONIMIA DE POBLACIÓN O REPOBLACIÓN

Desconocemos los avatares lingüísticos específicos de la zona rebollana du-


rante la romanización, la época visigoda y la ocupación musulmana, que más o
menos serían similares a los de otros territorios de la Península. Sobre la situa-
ción lingüística en la Plena Edad Media tampoco se dispone de datos realmente
fehacientes, aunque existen indicios toponímicos interesantes en relación con la
población o repoblación y la organización del territorio circundante. La teoría de
la despoblación de la cuenca del Duero, a raíz de la invasión del siglo VIII, que
no sin contradicciones postuló Sánchez Albornoz, pues primeramente consideró
que habría afectado a la parte norte de la submeseta, hoy parece reducida a
unas proporciones más razonables (Morales 2008: 52). Y precisamente algunos
fenómenos lingüísticos peculiares y topónimos parecen corroborar la hipótesis
de una permanencia de habitantes hispano-visigodos en la umbría de las sierras
de Jálama y de Gata.
Las manifestaciones de la toponimia arábiga rebollana son escasas, una vez
descontados los motivos legendarios o arabismos de dudosa motivación y cro-
nología:
– La Aldegüela (R), La Almenara o Elmenara (V), el Canchal de Moru (N), el
Castillo de Menrim – o Merlín – (EP), El Jaque (V), La Jebi (R), y el Picu el Moru
o el Pozu de los Morus (V), La Mesquita (R), etc. (Iglesias 2004b).
DEL NACIMIENTO A LA IGNORADA AGONÍA DE LA MODALIDAD LINGÜÍSTICA “CASTELLANO-LEONESA” EN EL REBOLLAR (SALAMANCA)
59
Ángel Iglesias Ovejero

El caso más llamativo era El Jaque, que también sedujo a Llorente (2003:
150), y ha resultado ser un probable espejismo, desde que Mari Paz Salazar
(2004) señaló la existencia de un Casar de don Jácome, si se refiere a este
despoblado, cedido por el concejo de Ciudad Rodrigo en 1290, y por tanto
relacionable con el apellido de una familia mirobrigense de presumible origen
franco (v. fr. Jacomme y Jame-s, variantes de Jacques, derivado de Jacobus,
forma latinizada del hebreo Ya‘qob). Un Libro berdadero de comienzos de s.
XVII utiliza la grafía Faque (Iglesias 2004b: 45, nota). La hipótesis arabista para
este rincón, sin embargo, tampoco se puede descartar por completo, pues
en documentos medievales se alude a Mezquitiella, que F. J. Morales Paíno
(2008: 53-54) sitúa en los aledaños de este lugar, aunque también podría re-
ferirse a La Aldegüela (R).
De momento es un misterio la paronimia de Perosín (derivado de Pero, hipo-
corístico de Pedro, nombre de un posesor o poblador, como parece confirmarlo
la forma latina medieval Pedrosin, con un sufijo – in alusivo a un lugar homóni-
mo) y la forma de un topónimo cacereño, Pedroso de Acim, localidad del antiguo
partido judicial de Garrovillas, cerca del puente de Alconétar en la Vía de la Plata
¿Puede ser arabismo el segundo elemento de este complejo toponímico; tuvo la
forma Pedroso un homónimo en tierra rebollana?
En espera de una respuesta por parte de historiadores y arabistas, los datos
manejados dejan indicios de una presencia arabófona anterior a la repoblación,
o de mozárabes entre los repobladores (A. Llorente), pero en concreto los tér-
minos árabes también pueden haber sido aplicados por hablantes posteriores.
Menéndez Pidal (1968a) se corrigió a sí mismo al analizar las analogías entre
algunos aspectos de la modalidad lingüística de El Payo y el asturiano central,
que primeramente atribuyó a la procedencia de los repobladores norteños y más
tarde consideró como un islote testimonial de la lengua romance en el período
visigodo. Esta interpretación resta importancia a la motivación en el nombre de
un posesor o conquistador de origen noroccidental (antropónimo Payo, de lat.
Pelagius), sin que ello apuntale plenamente la posibilidad de un étimo relaciona-
do con pagus ‘aldea’, como podría ser *pageus, referible a un asentamiento de
cabreros o vaqueros.
En el mismo sentido de una continuidad humana interpreta A. Llorente (2003:
104-105) el topónimo Navasfrías, cuya primera documentación (Navas Frías) re-
monta a la cesión de Alfonso IX a la Orden de Alcántara (antes San Julián del
Pereiro, ubicada en Sabugal, antes de 1175). Considera que el étimo nava per-
tenece al sustrato de las primeras oleadas indoeuropeas (véneto-ilirias), y fue
de uso frecuente en el territorio de los vetones y carpetanos (“cultura de los
verracos”). Y su enorme presencia en la toponimia en el área comprendida entre
el Duero y el Tajo no puede atribuirse a repobladores llegados del Norte, donde
apenas se utiliza el término.
60 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

De un modo análogo puede analizarse Martiago, que dicho lingüista, siguien-


do entre otros a Menéndez Pidal (1952: 217) clasifica entre los topónimos de
raigambre céltica, formados con un sufijo – ago y análogos (< lat. -acum, del
céltico *ako), combinado con un nombre latino, Martius, por lo que también lo
considera topónimo de “romanización” (Llorente 2003: 32, 107, 126). El sufijo es
muy rentable en otras partes de la Romania, y particularmente en el territorio ga-
lorrománico, para referirse a explotaciones agrícolas de la época imperial, pero
tiene escasos resultados en la Península. Y por esta razón es poco probable que
llegara con los repobladores, a no ser que éstos fueran de procedencia franca.

3.2. ANTROPONIMIA OFICIOSA FRONTERIZA (ETNÓNIMOS POPU-


LARES)
Con la Reconquista y Repoblación de los siglos XII y XIII, entre los reinos cris-
tianos centrales y occidentales se establecieron las fronteras políticas casi de-
finitivas, entreveradas de hazañas, fueros y desafueros, cuyos pormenores han
sido objeto de los investigadores especializados, empezando por J. González.
El territorio rebollano de entonces y después sufrió los efectos de su ubicación
inter-fronteriza.
Los conflictos entre León y Portugal no concluyeron con el tratado de Alcañi-
ces (1297), cuya primera consecuencia fue que el concejo de Sabugal dejó de ser
tierra leonesa y acercó la frontera hasta las mismas puertas de Navasfrías. Pero
no evitaría los recurrentes conflictos dinásticos, tanto en la Baja Edad Media,
como más tarde con la Monarquía Hispánica. La aplicación de la “política de
tierra quemada”, con destrucción de pueblos, bienes, puentes y vías de comuni-
cación, fue la consolidación de ambos lados de la Raya como un yermo económi-
co europeo: un enorme islote de pobreza. Sus secuelas ahí siguen, aunque afor-
tunadamente parece superado el patrioterismo excluyente y la xenofobia que en
parte lo motivó, manifiesta en los dictados tópicos o blasones populares, que del
lado español se percibe en los motes colectivos aplicados a los habitantes de “la
nación hermana” (en la retórica franquista):
– Carallus, Carreguistas (contrabandistas), Farrucus, Fidalgus, Miñotus, Por-
tuguesiñus, Ratiñus, etc.

La frontera entre León y Extremadura sería menos conflictiva, una vez con-
cluida la ocupación leonesa de la Transierra. El recuerdo de los Moros se trans-
formó en leyenda. Y el contraste con los habitantes de la Solana fue menos trau-
mático, aunque si bien la pobreza podía ser una señal de identidad compartida,
no por ello se borraba un socio-centrismo que también arrastraba una desestima
de los serragatinos extremeños, portadores de sobrenombres poco halagüeños:
– Belloterus, Jurdanus, Mangurrinus, Serranus, etc.
DEL NACIMIENTO A LA IGNORADA AGONÍA DE LA MODALIDAD LINGÜÍSTICA “CASTELLANO-LEONESA” EN EL REBOLLAR (SALAMANCA)
61
Ángel Iglesias Ovejero

Sin duda la frontera menos visible físicamente para los rebollanos ha sido la
de León y Castilla, aunque históricamente sigue vigente en la actualidad, y ello a
pesar de que en el plano político dejó de existir en 1230. Los conflictos existieron
antes y después de aquella fecha, y de un modo simplista se puede decir que
el “matrimonio” de la actual Comunidad de Castilla y León, ha tenido efectos
ambiguos, por no decir perversos, en la cultura y la modalidad lingüística de El
Rebollar, dentro de un proceso de castellanización del área lingüística leonesa,
que, habiéndose consumado en gran parte del territorio leonés en el siglo XIV
(A. Zamora 1967: 11, mapa), ahora se remata en la periferia de esta comunidad.

4. LAS FRONTERAS DE LA SUBSISTENCIA: EL ESPACIO


DE LA IDENTIDAD (SOCIÓNIMOS Y ETNÓNIMOS)
Además de la modalidad lingüística vernácula, los rebollanos han tenido
otras señas de identidad por las que se han reconocido ellos mismos y han sido
reconocidos por los otros, empezando por los circunvecinos más cercanos. Parte
de ese patrimonio se ha conservado, de forma un tanto alambicada y adultera-
da, mediante la exhumación casi arqueológica practicada en los años setenta
y ochenta del siglo pasado, mantenida en lo que convencionalmente suele lla-
marse folclore: música, baile, traje, culinaria, ritos de paso, derecho consuetu-
dinario, medicina popular, creencias religiosas, literatura oral y tradiciones di-
versas, vivienda, etc. Todo un amplio muestrario de un tipismo esquelético de
cuya vigencia se puede dudar, aunque se exhiba en los medios de comunicación
de masas (lo más “típico” para muchos rebollanos hasta bien mediado el siglo
XX era el hambre y la miseria). El progreso, la emigración, el envejecimiento y
la despoblación se han llevado casi todas las señas de identidad relacionadas
con los modos de vida reales. La Comunidad de Castilla y León ha promovido
“el patrimonio forestal”, por fortuna. Pero se lleva por delante también el medio
natural, montañas, valles y ríos (con torres, postes y cables de la electricidad,
parques eólicos, antenas de todo tipo, caminos forestales, cortafuegos, ruptura
de pesqueras de molinos que dejan sin pesca los lechos fluviales convertidos en
secadales, infinitas alambradas en los campos a consecuencia de la concentra-
ción parcelaria, etc.).
La Naturaleza también sufre, pero no tenemos constancia de que el paisaje
tenga identidad. Las personas, sí la tienen, y por añadidura tienen el privilegio
de saber sentir, sufrir y quejarse.
Antaño los modos de vida estaban estrechamente vinculados con el entorno
natural y una tradición cultural que, en sustancia, consistía en los conocimien-
tos necesarios para sobrevivir en una tierra pobre, hostil y escasa. Por ello la
calidad de vida de los rebollanos no era envidiable, y obviamente la nostalgia
62 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

del pasado no puede llevar a echar de menos la miseria. Ahora bien, aunque
los antepasados estaban inmersos en un ciclo económico de subsistencia, las
labores alternaban con la fiesta, en la prolongación del indispensable descan-
so. En cierto modo es lo que recupera el folclore festivo, pero también incluía
la compañía y la comunicación humana natural, la caraba y la corrobra, sin los
artilugios mediáticos. Los datos objetivos de aquella sociedad agropecuaria vi-
gente hace medio siglo, se conocen relativamente bien desde el catastro del
marqués de la Ensenada (mediados del siglo XVIII). Las actividades económicas
giraban en torno a la agricultura, la ganadería y la explotación forestal, que hasta
cierto punto afloran en la designación oficiosa de los rebollanos: los etnónimos
o sobrenombres colectivos, a veces motes (Iglesias 2005a).

4.1. LABRAORIS Y GANAERUS

Para los vecinos de la Sierra extremeña y probablemente para los de Portu-


gal los rebollanos pasaban por labradores cerealistas y hortelanos, con quienes
practicaban un comercio de proximidad complementario (paja pol naranjas de
Acebu, u aceiti de Robreíllu; pan brancu pol café de Portugal). Cada pueblo era
más o menos conocido de puertas afuera por algún producto específico, como
las patatas de Navasfrías, cuya venta se prodigaba hasta hace poco en Valverde,
Eljas y San Martín, los lugares fronteros de la fala en Extremadura. Era la única
localidad de la umbría jalameña y serragatina donde se registra su cultivo en el
mencionado Catastro, más tarde inevitable alimento también en las otras; otro
tanto sucedía con los nabos de Villasrubias, igualmente componente imprescin-
dible de la magra dieta invernal. Pero solamente los naturales de dichas locali-
dades heredaron las respectivas sobrehúsas de Naberus (de V), Pataterus (de N).
A nivel local, el contraste social interno se establecía entre Ricus o Riquinus
y Probis. Los primeros eran dueños de tierras suficientes para practicar la agri-
cultura y generalmente también la cría de ganado vacuno y ovejas en piaras, sin
contar la de asnos, cabras y cerdos para las necesidades domésticas. El ganáu
por excelencia era el vacuno, que los labradores ricos o medianos utilizaban para
las labores agrícolas (vacas de trabaju), apastándolas en el corral, mientras que
las sobrantes (vacas jolgonas o cerrilis) aprovechaban los pastos de las jesas, el
rastroju o el cotu y los baldíus. En invierno se añadía la trashumancia, con envío
de ganado a Extremadura por el secular cordel de la Mesta, que desde la Edad
Media entraba en el territorio por la puenti del Villal y salía por el puertu de Pe-
ralis, ambos en el término de El Payo, aunque también se menciona el puerto de
Portugal (en referencia probable al de Valverde del Fresno, antiguo puerto de los
Ladrones), camino de Navasfrías hacia el país vecino. Los Probis no tenían tierras
o no en cantidad y calidad suficiente, labraban con burrus o no labraban, y cuando
DEL NACIMIENTO A LA IGNORADA AGONÍA DE LA MODALIDAD LINGÜÍSTICA “CASTELLANO-LEONESA” EN EL REBOLLAR (SALAMANCA)
63
Ángel Iglesias Ovejero

eran Jornalerus, sin jornales y con familia, estaban abocados a la hambruna.


En tiempos todavía recientes ellos fueron los más entusiastas partidarios de la
tardía Reforma agraria en 1936, ahogada en sangre por la Sublevación militar y la
represión franquista (Iglesias 2016b). Hoy casi han desaparecido los Labraoris. Y
de aquellas fallidas esperanzas perdura en el folclore una canción: Que rompan
la jesa Arriba (Iglesias 2010a). Los Probis de entonces en su inmensa mayoría
emigraron.

4.2. PALERUS, CARBONERUS, CARRUCHINUS, LOS DE LA MOJAÍNA

El aprovechamiento de los pastos (por cabras y ovejas principalmente) en


los ranchonis (o manchonis) y marrás en las tierras de entrepanes, los baldíos y
montes era compatible en otros tiempos con la explotación forestal del robli, el
pinu, el fresnu (“para coches”) y, entre otras plantas arbustivas, el berezu. Desde
la Baja Edad Media está documentada la venta de leña y presumiblemente de
madera en Extremadura, pues consta que en 1425 los vecinos de Robleda tenían
privilegio para vender leña en Alcántara, sin pagar portazgo (Palacios 2000: doc.
836). La memoria colectiva rebollana se nutre con relatos sobre los míticos viajis
a Sevilla y las salinas de Cádiz, que seguramente eran precedidos de cargas y
descargas de las carretas en que transportaban productos (“sal de Alcalá del
Río”, trigo, vino, lana, tejidos, sombreros) y objetos diversos (utensilios de ma-
dera, cerámica de Talavera, etc.) por una ancha geografía, que incluía Castilla
(ferias de Medina del Campo) y quizá La Rioja, hasta que volvían por Salamanca
(con cuencus y jarras verdis, y seguramente con trigo, que a mediados del s.
XVIII “vendían en la Sierra de Gata”) o bien por el Sur. El Catastro de Ensenada
(1751) y el Bastón de Ciudad Rodrigo (1770) se refieren al “tráfico de la carretería”,
para el que los labradores ricos y sus criados (más de 120 en Robleda) seguían
las rutas y se acogían a los privilegios que los Reyes Católicos habían concedido
(1497) a la Cabaña Real de Carreteros. De su medio de transporte (carretas o
carruchas), de los productos que transportaban (palas y carbón) y de la facilidad
con echaban mano del facu y pinchaban con él (mojaína), cuando se sentían
agredidos o vejados, les vienen los sobrenombres, unos vigentes y otros no:
– Palerus (en particular los de R. y P.), Carruchinus, Carbonerus y los de la
Mojaína.

4.3. CONTRABANDISTAS, MACUTERUS, CARREGUISTAS

La actividad del carboneo no se contabiliza en el Catastro (lo que hace


pensar que los informantes no la señalaron, como si fuera actividad ilegal o
64 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

para ahorrarse gabelas, como sucedía con la sal), aunque menciona la venta de
carbón (y ciscu), elaborado con la cepa de berezu principalmente en el Carbonal
de las sierras mencionadas (supra: 1). Los Carruchinus u otros transportistas de
poca monta lo distribuían por el campo de Argañán y otras tierras llanas, para
que su combustión se terminara en las fraguas y braseros. Quizá desde el siglo
XIX y, en todo caso, hasta bien entrado el s. XX los sufridos rebollanos también
transportaban traviesas de roble para las vías del tren, sirviéndose para ello del
inevitable puente del Villar para llevarlas a la estación de Espeja (EP), hasta que
pudieran hacerlo a Ciudad Rodrigo (La Ciá) por el puente de Vaucarrus (R). Sin
embargo el expediente económico más rentable y socorrido para paliar la nece-
sidad permanente era el contrabando. En esta actividad fraudulenta colabora-
ban Rebollanos, Serranos, Portugueses, que, cuando no disponían de caballerías
o vehículos (los de motor eran prácticamente inexistentes hasta la década de los
cuarenta), llevaban a cuestas el macuto o carga, y por ello recibían los sobre-
nombres adecuados:
– Contrabandistas, Macuterus, Carreguistas.

Transitaban por los citados puertos de Portugal y puente sobre el Águeda


(Villar de Flores, EP). Del otoño a la primavera este último era lugar de paso obli-
gado para el Caminu de los Contrabandistas, que, evitando la proximidad de Ca-
sillas de Flores, frecuentaban los matuteros de a pie llegados desde la Sierra de
Francia y el campo de Agadones. La travesía de la Raya era muy arriesgada para
los intrépidos traficantes, que a veces dejaron su vida o perdieron el uso de sus
miembros sobre todo durante la guerra civil y la posguerra, cuando los agentes
encargados de reprimir el comercio ilegal les daban el mismo tratamiento que a
los guerrilleros republicanos (maquis). Pero en los años cuarenta (bien llamados
los añus de la jambri), la mayoría de las personas del barrio robledano del Rincón
tomaba esos riesgos, y por ello fue y es conocido por El Portugalillu, hoy casi
deshabitado. Como otros muchos en su caso, transportaban productos de prime-
ra necesidad (pan, tocino, café, jabón, telas, etc.). Los más fuertes y ambiciosos
rayanos traficaban con ganado, explosivos, armas, moneda y objetos de oro y
plata, el mineral o la golfa (alemán Wolfram, tungsteno) durante la guerra civil
y la segunda guerra europea; entonces y después, máquinas de coser, tabaco,
bebidas, drogas. Algunos son figuras de las leyendas locales en la visión épica
popular, pero el Contrabandista (homis i mulleris de un lau i otru da Raia) solo
tiene un monumento desde 1995 en As Ellas / Eljas (Các.), localidad hermanada
con Os Foios (Portugal).
DEL NACIMIENTO A LA IGNORADA AGONÍA DE LA MODALIDAD LINGÜÍSTICA “CASTELLANO-LEONESA” EN EL REBOLLAR (SALAMANCA)
65
Ángel Iglesias Ovejero

4.4. JÁNDALUS, CUBANUS, HABANERUS, ARGENTINUS, FRANCESIS

La pobreza, más que el afán de aventura, llevó a la emigración a muchos re-


bollanos. Algunos lo hicieron en tiempos de la conquista y colonización de Amé-
rica (s. XVI-XX) y quizá volverían con maneras y riquezas de indianos, pero no
dejaron huellas visibles en la Umbría serragatina. En cambio, los trajinantes de la
carretería que regresaban de la odisea de Sevilla, cuya duración generalmente
correspondía a los meses libres de sementeras y senaras o saquijus, recibieron
el irónico apodo de Jándalus, por sus ademanes y hablares, quizá calcados de la
literatura de cordel, aunque de connotación positiva (como sucedió con el adje-
tivo jampón ’hermoso, esbelto, lozano’, perdida su asociación con la picaresca).
El aumento demográfico y la falta de tierra determinó la emigración a América
más reciente, sobre todo en el primer tercio del s. XX y después del bloqueo in-
ternacional a que fue sometida la España del primer franquismo, hacia 1950. Los
emigrantes de la zona se dirigieron a Cuba y Sudamérica, y los de Navasfrías,
sobre todo, a la República de Argentina. En los años de la II República muchos
de ellos tuvieron que regresar, a causa de la crisis económica, y fueron recibidos
con sus respectivas etiquetas nominales (Iglesias 1980c):
– Argentinus, Cubanus, Habanerus.

El mismo tratamiento recibieron los emigrados a Francia después de la prime-


ra guerra europea, que a su vuelta a España exigieron la aplicación de las leyes y
reformas republicanas, principalmente de la normativa laboral y la reforma agra-
ria, y por ello fueron de las primeras víctimas elegidas de la sublevación militar y
la represión franquista, muertos o exiliados. Más tarde tomaron el mismo camino
los huidos en la posguerra o desertores de la miseria. Todos fueron llamados
Francesis (incluso los emigrados a la Bélgica y la Suiza alemánicas o la misma
Alemania), objeto de burla por su jerga híbrida hispano-francesa-rebollana.

5. LAS FRONTERAS LINGÜÍSTICAS: EL HIBRIDISMO RE-


BOLLANO
Hasta el s. XX la peculiaridad lingüística de El Rebollar no tuvo expresión es-
crita ni se menciona como tal hasta El viaje de Gálvez en 1755 (J. I. Martín Benito
2011). Pero obviamente no surgió de la nada en tiempo de los tatarabuelos o
bisabuelos, sino que era componente de una norma regional hablada, difícil de
describir ahora, porque tampoco disponemos de documentos fehacientes para
66 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

asentar hipótesis y confirmar conjeturas. Los indicios, analogías y contrastes ob-


servados en las lenguas y dialectos románicos más cercanos nos llevan a pensar
que el hibridismo ha sido una constante del habla rebollana, a consecuencia de
las tres clases de fronteras evocadas. A ello nos hemos referido repetidamente.
En pocas palabras, las peculiaridades rebollanas remontan al período de la
Repoblación (s. XII-XIII), pero ésta en El Rebollar estricto no debió de ser muy in-
tensa. En ella intervendrían contingentes de diversa procedencia, análogos a los
de Salamanca capital (francos, portogaleses, serranos, mozarues, castellanos,
toreses), y por tanto “serranos” y “mozárabes” que no serían o no necesariamen-
te llegados del Norte y pudieron añadirse a una población relativamente autócto-
na. Por otro lado, la expansión castellana aún no afectaba plenamente al territo-
rio propiamente leonés, y en el plano lingüístico la castellanización tampoco se
había producido del todo al oeste de la Vía de la Plata. Por todas esas razones,
el habla rebollana presenta una gran afinidad con el dialecto extremeño (para
Zamora “habla de tránsito”), como expusimos no hace mucho todavía (Iglesias
2010e), y la situación desde entonces solo ha cambiado para acentuar su agonía.
De allí entresacamos lo esencial, especificando con ejemplos por niveles.

5.1. NIVEL FONÉTICO-FONOLÓGICO

El fonetismo peculiar de El Rebollar coincide en gran parte con el de las ha-


blas de la Alta Extremadura y particularmente de Las Hurdes y la tierra de Coria,
en lo que fue territorio del antiguo reino de León.

5.1.1. Vocalismo

i) Neutralización de vocales átonas en posición final: /-e-i/ y /-o-u/. Es un es


un fenómeno muy extendido en todo el área dialectal leonesa, del Cantábrico
a Extremadura, ya consignado por Menéndez Pidal:
– burru/-s, diju/-n, peci/-s, sali/-n.

ii) Neutralización de vocales átonas en otras posiciones. Es vulgarismo ge-


neral en el ancho dominio del español y, en cierto modo, secuela del romance
primitivo y del español antiguo y clásico (Lapesa 1980):
– metá / mitá, nusotrus / nosotros.

iii) [j] epentética leonesa en la terminación. Algunos consideran vulgarismo


esta epéntesis, aunque en estas hablas era un fenómeno más regular:
– alabancia, andanciu, palicia, vacancias (galicismo).
DEL NACIMIENTO A LA IGNORADA AGONÍA DE LA MODALIDAD LINGÜÍSTICA “CASTELLANO-LEONESA” EN EL REBOLLAR (SALAMANCA)
67
Ángel Iglesias Ovejero

iv) [-e-i] final etimológica. Menéndez Pidal señalaba en los textos y en al-
gunos lugares del área leonesa la -e final conservada tras la consonante d
(parede), en El Rebollar con igualamiento en /e-i/:
– redi, joci ‘hoz’, peci.

5.1.2. Consonantismo

i) Aspiración de F- etimológica en [h]. La aspiración de la F- latina (con even-


tual grafía ph en helenismos) en [h] es o era uno de los fenómenos pecu-
liares más regulares en el habla de El Rebollar (en contraste con las falas
extremeñas), comprobado por Menéndez Pidal en el “astur-leonés oriental”
(1906) y por Espinosa y por Rodríguez Castellano en Salamanca y Cáceres
(1936). Puede considerarse arcaísmo leonés de origen castellano antiguo,
en relación con el substrato cántabro o ibero-vasco, según consigna Lape-
sa, aunque este mismo lingüista prefiere analizar esta aspiración extremeña
como meridionalismo:
– jambri, Jelipi, jierru, jiguera, jinoju, jipu.

En El Rebollar los resultados de esta aspiración también se comprueban en


posición interior, en étimos latinos, árabes y sobre todo en derivados con
prefijo:
– mojosu, atajarris, desjerráu.

ii) Aspiración en [h] del fonema general /x/, como en Extremadura, donde
Lapesa y Zamora Vicente analizan este fenómeno como meridionalismo, así
como en general en aquellos lugares en que existe la mencionada aspiración,
tanto en el área leonesa (Cantabria, etc.) como en otras áreas del mundo his-
panohablante (Antillas y en la mayoría de los países ribereños del Pacífico,
desde California al Perú), incluido el judeoespañol de Marruecos:
– ágil [áhil], diju [dihu], truju [trúhu].

iii) Mantenimiento de s sonora antigua en [z]. Menéndez Pidal fue el primero


en señalar la existencia de esta sibilante sonora antigua en tierras de Extre-
madura y Salamanca. En El Rebollar se oyen realizaciones correspondientes
al fonema antiguo castellano /z/, que se escribía con -s- en posición intervo-
cálica:
– jesa [héza], casa [káza], nusotrus [nuzótrus].

La frecuencia del sonido se incrementa con las sonorizaciones de /-s/ en foné-


tica sintáctica, así como las equivalencias de /θ-s/, principalmente en posición
68 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

implosiva delante de nasal, con grafías en z o s:


– las ovejas [lazoβéhas], lesna [lézna], roesnu / rodesnu [roδéznu].

iv) Resultados de z [/dz/] africada sonora antigua en [d]. El mencionado


Menéndez Pidal insistió en la conservación en tierra de Extremadura y Sala-
manca de “la distinción que el castellano y el leonés antiguos hacían entre
un sonido sonoro z y otro sordo ç, que hoy se confunden en el único sonido
sordo de la z moderna” (Dialecto leonés: 75). En El Rebollar los resultados se
han confundido con los alófonos del fonema /d/:
– dagal, bardinu, jadi, Las Dorreras (R).

v) Caducidad de /-d-/ intervocálica. La caducidad del fonema /-d-/ intervo-


cálico es otro meridionalismo en hablas extremeñas (A. Zamora y R. Lapesa),
compartido por El Rebollar y sus aledaños de la Sierra de Gata. Hasta cierto
punto se puede considerar vulgarismo general, pero en el área astur-leone-
sa, y concretamente aquí, este fenómeno es muy marcado:
– el baju ‘badajo’, un cestáu, Vaucarrus o Vocarrus (R).

vi) Mantenimiento del grupo /mb/ etimológico. Es particularidad leonesa


que también señaló Menéndez Pidal en Salamanca y Extremadura (Dialecto
leonés: 79-80):
– lambel, camba, El Lombu.

vii) Resultados en /l/ de grupos secundarios. Es solución leonesa de la que


se comprueban algunos resultados en El Rebollar:
– julgáu (ant. julgar < lat. judicare), pielga (< lat.*pedica)

viii) Neutralización de /r-l/ en posición prenuclear y en grupo. Es leonesismo,


también señalado en las hablas extremeñas. El resultado leonés generalmen-
te favorece [r], pero en El Rebollar la ambivalencia era habitual:
– robreanu, brancu, pláu, templanu.

ix) Neutralización de /r-l/ en posición implosiva. Es considerada meridiona-


lismo, al que R. Lapesa señala antecedentes mozárabes, con una gran vigen-
cia, que comparten con el habla de El Rebollar las dos Extremaduras. El resul-
tado más frecuente es en [l], como en las estribaciones cacereñas de Gata,
cercanías de Coria y en general en el Norte de Cáceres:
– calni, palva, fumaol, matal; pero también se comprueban resultados favo-
rables a [r]: arbañal, jurgáu.
DEL NACIMIENTO A LA IGNORADA AGONÍA DE LA MODALIDAD LINGÜÍSTICA “CASTELLANO-LEONESA” EN EL REBOLLAR (SALAMANCA)
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Ángel Iglesias Ovejero

5.1.3. Contrastes con hablas extremeñas

Las principales divergencias entre el habla de El Rebollar y las de Extremadu-


ra (hecha abstracción de las falas de Jálama) se producen, lógicamente, con res-
pecto a las de la Baja Extremadura, vinculadas lingüísticamente con Andalucía.

i) Posible abertura de las vocales finales, debido a la realización [Ø] de -s / -h


final, aunque esto no se produce en las cercanías de Coria (tres añu, pahtorih
ehpañoli).

ii) Seseo. Meridionalismo y lusismo sin consecuencias en El Rebollar, aparte


de algunas igualaciones esporádicas (vulgarismos generales), o la realiza-
ción polimórfica de –d final:
– lus; Madrí, o Madrís, y generalmente Madriz.

iii) Yeísmo. Era un fenómeno extraño en El Rebollar. Hoy se escribe y proba-


blemente se oye a determinadas personas:
– La Boya (top. La Bolla).

v) Aspiración de -s implosiva y final en [h]. Es fenómeno de gran alcance al


sur de la Sierra, puesto de relieve por los dialectólogos. En la descripción del
habla rebollana (1982) se indicó la aspiración de -s en fono-sintaxis, y quizá
se dé en otras posiciones, pero se trata de resultados esporádicos, que se-
guramente habrá que poner en la cuenta del influjo meridional de las hablas
vecinas:
– extrem. loh amigo, reb. [doháreas ‘dos áreas’].

vi) Asimilación de [r + l] en [l.l] en fonética sintáctica. Fenómeno extremeño


(y de otras hablas), señalado por Cummins (1974) en Coria, donde el trata-
miento con asimilación alterna con el grado cero de l, que es la solución
leonesa y de El Rebollar, comprobada en otros casos de la misma secuencia
en fonética sintáctica:
– extrem. labral.lu, reb. agarralus, enseñali, po’la ‘por la’.

vii) Entonación. En el habla rebollana y extremeña (Canellada 1941), como se-


guramente en otras lenguas y dialectos occidentales, la altura media del tono
es más elevada, pero en aquélla las anticadencias y las cadencias de la mo-
dalidad exclamativa e interrogativa van muy marcadas (Iglesias 1982: 87-91):
– Lu, ¿cuándu has veníu? ¡Yo no sabía ná!
70 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

5.2. NIVEL FONÉTICO-MORFOSINTÁCTICO

La fonética peculiar condiciona también el significante de la morfología en el


habla de El Rebollar, pero aquí no hay espacio para entrar en ese tipo de detalles,
en los que, por otro lado, los estudiosos del dialecto extremeño no han sido muy
explícitos.

i) Formación de palabras: sufijos específicos. Entre los sufijos formadores


de sustantivos que se emplean peculiarmente en El Rebollar cabe señalar:
– iju para expresar la acción o su efecto: caviju, comiju, saquiju
– á y -áu, correspondientes vernáculas de los normativos -ada y -ado, con el
sentido específico de capacidad o contenido en el segundo de ellos: carráu,
cestáu, platáu, vasáu
– inu e -ín /-ina, occidentalismo o leonesismo compartido con el Norte de Cá-
ceres: dagalín/-inus, dagalina/-inas, chiquininu/-inus, chiquinina/-inas; pero
la afectividad parece más marcada por -itu / -ita: hombritu / mujerita.

ii) Morfemas nominales. Presentan analogías y contrastes en el habla re-


bollana y las de Extremadura:
– comparten el femenino “arcaico” de algunos sustantivos, que en la pers-
pectiva reciente son genéricamente ambiguos: el / la calol, el / la mar o mal,
el / la pasaji, el / la puenti
– una divergencia perceptible atañe a los formantes del número, debido al
mencionado tratamiento de -s en las hablas extremeñas (5.1.3), mientras que
en El Rebollar la solución ordinaria es en -s: -pajal / pajalis, burru / burrus,
jorca / jorcas.

iii) Determinantes. Coinciden con las hablas leonesas los usos pleonásticos
del artículo en el Norte y en el Sur de la Sierra de Gata:
– con los adjetivos posesivos, generalmente tónicos, rasgos ambos compro-
bables en las hablas leonesas: los mís hijus, la mí Pepa, la mí casa
– el interrogativo ¿lo qué?, incluida la formulación indirecta: Se descompusun
yo no sé por lo qué.

iv) Antenombre y tratamiento: tio, tia. Como en otros usos rurales, en El


Rebollar y en el Sur de la Sierra, se emplean los antenombres tio y tia, con
algunas diferencias:
– en los pueblos rebollanos son átonos cuando funcionan como antenom-
bres de motes e hipocorísticos: tio Capeas, tio Mingu; incluso en función de-
locutiva: Tio Pedru Hiju y tia Luisina, la su mujel
– en Navasfrías, como en algún punto al Sur de la Sierra, se emplea la forma
DEL NACIMIENTO A LA IGNORADA AGONÍA DE LA MODALIDAD LINGÜÍSTICA “CASTELLANO-LEONESA” EN EL REBOLLAR (SALAMANCA)
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Ángel Iglesias Ovejero

apocopada masculina ti, con artículo cuando es delocutivo: El ti Sé llevaba


una melopea que no se pía lambel
– este tratamiento expresaba el respeto y estaba vinculado con el voseo re-
gional, para personas mayores, compadres y consuegros, hoy en franca de-
cadencia: Tio Juan, ivus pa casa; Jadélu vos, comadre, vos que sabés mejol.

Cabe señalar, por añadidura, entre las formas apelativas: (mu)chacho y (mu)
chacha, compañero y compañera, a los que habría que añadir en El Rebollar
dagal y dagala, hoy en desuso o decadencia.

v) Pronombres: formas vulgares. Aparte de los hechos de polimorfismo, se


manifiestan vulgarismos muy extendidos, sobre todo con los pronombres de
primera persona:
– mos / mus, y más raramente mosotros / musotrus, cuya m- debe de ser
analógica de la forma átona me
– vos alternaba esporádicamente con mos, por equivalencia fonética, en
Peñaparda
– preferencia de la primera y la segunda persona en el orden de los pronom-
bres enclíticos en la frase enunciativa: Me se me quema; Te se quema
– anteposición de me, se, nos / mos en la expresión del ruego o mandato:
Mos ponga un mediu pa cá unu; Se vayan andandinu andandinu (‘váyanse
poco a poco’).

vi) Ausencia de leísmo, laísmo. Estos usos “castellano-viejos” no se oían en el


área leonesa, al decir de Menéndez Pidal, ni en estos territorios serragatinos.

vii) Morfemas verbales: conjugación. En la conjugación verbal se produce


un gran polimorfismo, a consecuencia de las particularidades fonéticas del
habla rebollana y extremeña. De modo sucinto:
– en sílaba final: vengu / vienis, comi / comé
– por la caducidad de -d-, con múltiples diptongos y contracciones: pía ‘po-
día’, vía ‘veía’, rí ‘ríe’, etc.
– el mismo fenómeno se da en otros casos: íbis ‘íbais’, his veníu ‘habéis ve-
nido’, trairá, etc.
– verbos con una morfología muy irregular: idil ‘decir’, dichu, idiendu o di-
jiendu, digu, idis ‘dices’, idía ‘decía’, di o idi / idí ‘decid’, dijun, dijiera, dijieris
‘dijérais’, decirá ‘dirá’
– en la conjugación de El Rebollar y de las hablas vecinas del Sur convergen
soluciones arcaicas, analógicas y vulgares, muy extendidas por todas partes:
truji (por traje), vinistis (por viniste), haiga (como traiga), hadrá ‘hará’ (como
tendrá), doldría ‘dolería’ (como saldría), etc.
72 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

– suele resaltarse en el tema de presente como rasgo leonés en las hablas


extremeñas y en El Rebollar la formación en z de los verbos en -(e)cer /-(e)cel:
merezu / mereza, cueza, aconteza, por analogía con la segunda persona del
presente de indicativo (merecis, etc.)
– es solución común, leonesa y vulgar, la forma del imperativo para la se-
gunda persona del plural en -ái; cantáilu ‘cantadlo’, coméi, debida a la men-
cionada pérdida de -d- de la antigua terminación -ade; pero en El Rebollar y
en general es más frecuente la solución ordinaria sin -d final: mirá, traé, salí
– en el tema de pretérito es también rasgo compartido por hablas de Zamora,
Salamanca y Extremadura la formación de la tercera persona plural del pre-
térito en -on / -un: dijun, trajun-trujun, vinun, por analogía con la desinencia
de la misma persona de singular en -o / -u, aunque también es vulgarismo
extendido.

viii) Construcción y sentido de algunos verbos. Coinciden a ambos lados de


la Sierra la construcción y el sentido de algunos verbos:
– valor transitivo de cael /-r ‘verter’ y ‘hacer o dejar caer’: La dagala cayó la
lechi; Lo cayó al niñu
– queal / quedar ‘dejar’: Lo han queáu a mediu jadel
– cogel /-r ‘caber’: La genti no cogía en la iglesia
– valores auxiliares de tenel/-r y de querel/-r, el primero en perífrasis perfec-
tivas y el segundo para expresar el futuro próximo: ¿No te tengu dichu que no
jagas esu?; Llegamus a Robreíllu queriendu sel de día.

ix) Relacionantes. Algunos relacionantes rebollanos (como en el área leo-


nesa) presentan un polimorfismo condicionado en fonética sintáctica por la
presencia de la l del artículo después de las terminaciones en -n o en -r /-l:
– con la > co´la / con´a, ocasionalmente: con´a / co´la manu;
– pol la > po´la: Iban po´la calli; pol los > po´los, ocasionalmente: Esu jué
po´los Carnavalis.

5.3. NIVEL LÉXICO-SEMÁNTICO

Las peculiaridades léxico-semánticas de El Rebollar y la Alta Extremadura


reflejan los avatares históricos evocados. Muchas de sus coincidencias en este
nivel lingüístico son leonesismos u occidentalismos, compartidos con el galle-
go o el portugués fronterizo, cuando no son préstamos de esta lengua. En ello
puede verse la manifestación del avance reconquistador del reino leonés y del
contingente repoblador gallego. Sin embargo, cuando los elementos peculiares
se comprueban en territorios alejados, no debe olvidarse la existencia de un
DEL NACIMIENTO A LA IGNORADA AGONÍA DE LA MODALIDAD LINGÜÍSTICA “CASTELLANO-LEONESA” EN EL REBOLLAR (SALAMANCA)
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Ángel Iglesias Ovejero

fondo común románico, anterior o coetáneo de la reconquista leonesa en el siglo


XII, cuando todavía podían tener alguna vigencia las hablas mozárabes, antes de
la castellanización, aunque esta misma, una vez asimilados los occidentalismos,
puede haberlos difundido a otras áreas lingüísticas hispanas. Y obviamente los
desplazamientos de la población leonesa u noroccidental después de la unión
castellano-leonesa también han sido factores a tener en cuenta en la difusión de
sus propios occidentalismos en Andalucía, Canarias y América, así como en los
países ribereños del Mediterráneo, con el exilio de los judíos. Por esa vía también
habrán contribuido a mantener o incrementar el acervo común de arcaísmos y
vulgarismos de las hablas vernáculas. Al mismo tiempo, el regreso de los emigra-
dos ha aportado elementos novedosos al habla vernácula.

5.3.1. Occidentalismos

i) Leonesismos y mozarabismos (¿?). Algunos regionalismos léxicos rebolla-


nos y extremeños de impronta leonesa tienen gran difusión:
– andanciu ‘epidemia’, carozu ‘residuo triturado del hueso de la aceituna’,
cogüelmu o comuelgu ‘colmo’, llaris ‘cadena para suspender el caldero por
encima de la lumbre’, lambel ‘lamer’, senara ‘cosecha’.

En otros casos la estricta procedencia es más difícil de establecer. Los oc-


cidentalismos rebollanos se relacionan o coinciden con términos de las hablas
mozárabes:
– petrónica ‘betónica’, chaguarzu ‘jaguarzo’, chíchari o chícheri ‘alubia pe-
queña redonda’, chupamielis ‘planta’, frejonis ‘judías’, patalobu ‘cuesco de
lobo’.

ii) Galleguismos y portuguesismos. La gran cantidad de términos proce-


dentes o compartidos con el gallego y el portugués confiere al rebollano una
de sus características, muy marcada en Navasfrías. En esos galleguismos y
lusismos hay sin duda occidentalismos de un fondo común al que puede
pertenecer una serie de términos del léxico rebollano:
– anduriña ‘animalejo parecido a la comadreja’ (Navasfrías, en general ‘go-
londrina’), canchal y canchalera ‘roquedo’, canchol y canchu ‘grosor’, can-
chú-úa ‘grueso’, carunchu ‘carcoma’, el mencionado chaguarzu, chuecu-a
‘huero’, ‘(gallina) clueca’, fechal ‘cerrar con llave’, fechaúra ‘cerradura’, feitíu
‘hechura’ (N), renti o arrenti ‘al rape’, rola y rula ‘tórtola’, tamancu ‘chancla
con suela de madera’, tapal ‘cercar una finca’, tapáu ‘propiedad extensa cer-
cada’, tapiju ‘acción de cercar’, ‘cercado’, ‘lo que impide el paso en la entrada
de una finca’, vianda ‘comida cocida para los animales’.
74 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Otros elementos presentan rasgos portugueses o que se desarrollan a am-


bos lados de la frontera:
– acinchu o cinchu ‘molde para el queso’, achanáu-á ‘liso’, atacuñal ‘asegu-
rar con cuñas’, atillal ‘apretar’, ‘cerrar bien’, bachical ‘salpicar’ (N), bordallu
‘pez de río’, cachuelus ‘trozos de patata cocidos’, carumba ‘hoja del pino’
(N), chanca ‘calzado que tiene el piso de madera’, coaña ‘hierba dañina que
crece entre el trigo’ (N), cheiral ‘oler’, cheiru ‘olor’, chocallu ‘cencerro’, chu-
panu y chupanáu ‘chozo’, enciñu ‘rastro’ (N), esfaralláu-á o esfardagalláu-á
o esfarfalláu-á ‘desordenado’, ‘mal vestido’, esfarrapal ‘deshacer’, ‘romper’,
erizu cacheru o cacheiru, estrangalláu-á ‘deshecho’, furda ‘pocilga’ (N), pusíu
‘erial’, rebotallu ‘desecho’, sape ‘zape’, tortullu ‘hongo’.

Se conocen y se usan a veces para remedar a gallegos y portugueses el sufijo


–iño, sobre todo en posibles sobrenombres colectivos, así como algún término
que se considera muletilla verbal en usuarios de esas lenguas:
– Galleguiñus, Portuguesiñus, Ratiñus, Carallus.

5.3.2. Francesismos

De los avatares exteriores, aparte de algún andalucismo (supra: jándalu y


jampón), lo más llamativo son galicismos importados de la emigración a Fran-
cia, que a veces lo rebollanos comparten con otros rayanos, portugueses, extre-
meños y otros circunvecinos. Son términos relacionados con aspectos claves en
la vida del emigrante:

i) la construcción y la vivienda:
– barraca ‘caseta’ (< fr. baraque), bricola ‘chapuza’, ‘chuchería’ (< fr. bricole),
cava ‘bodega’ y ‘garaje’ (< fr. cave ‘bodega’), etc.

ii) los lugares de trabajo, labores del campo, relaciones laborales, vida sin-
dical y seguridad social:
– ferma ‘granja’, ‘majada’ (< fr. ferme), usina ‘fábrica’ (< fr. usine), comuna
‘municipio’ (< fr. commune), retreta ‘jubilación’ (< fr. retraite), segurancia o
seguranza ‘seguro’, ‘seguridad social’ (< fr. assurance), vacancias o vacanzas
(< fr. vacances), etc.

iii) los medios de comunicación y transporte: gara ‘estación’ (< fr. gare),
michelina ‘automotor ferroviario’ (< fr. micheline), mobileta (< fr. mobylette),
posta ‘correos’ (< fr. poste), remolca (< fr. remorque);
DEL NACIMIENTO A LA IGNORADA AGONÍA DE LA MODALIDAD LINGÜÍSTICA “CASTELLANO-LEONESA” EN EL REBOLLAR (SALAMANCA)
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Ángel Iglesias Ovejero

iv) objetos, utensilios domésticos, vestido, comida: brocha ‘cepillo’ (< fr.
brosse), calrotas o carotas ‘zanahorias’ (< fr. carottes), culotas ‘bragas’ (< fr.
culotte), lesiva ‘colada’ (< fr. lessive), pubela ‘basurero’ (< fr. poubelle), etc.

BALANCE: LA AGONÍA DE UNA MODALIDAD LINGÜÍSTICA


“CASTELLANO-LEONESA”
En los tres niveles lingüístico (fonético, morfosintáctico y léxico) del subdia-
lecto rebollano (no lengua, integrado en lo que Menéndez Pidal llamaba “leonés
oriental”), se reconocen rasgos de la lengua leonesa y arcaísmos fronterizos de
la lengua castellana (desaparecidos en ésta), los primeros de los cuales en parte
coinciden con las lenguas de Galicia y Portugal (occidentalismos). En el nivel
léxico-semántico, sobre todo en los territorios de la Raya, se manifiestan resul-
tados de un fondo común románico, que, vistos de fuera, se interpretan como
arcaísmos, así como en este nivel y en los otros hay fenómenos considerados
vulgarismos (dos conceptos usados con criterios clasistas a veces). Obviamente,
la situación lingüística más parecida es o era la del NO de Extremadura: el dia-
lecto extremeño. En nuestra tesis (Madrid, Complutense, 1976) analizamos dicho
hibridismo lingüístico bajo el prisma del polimorfismo.
Hoy esto pertenece casi al pasado. La razón inapelable de su desaparición
será la falta de hablantes. El Rebollar nunca fue un territorio densamente pobla-
do ni repoblado. Desde mediados del siglo XX (8.439 hab. en 1950) se va despo-
blando (2.690 hab. en 1998), de tal modo que hoy no llega a una cuarta parte del
número de habitantes que tuvo (1.921 hab. en 2018, según el INE), a causa de la
emigración y el descenso brutal de la natalidad. Es una perogrullada: sin hablan-
tes no hay habla posible. El aumento de la longevidad contribuye a prolongar la
agonía de esta habla “castellano-leonesa”, quizá la única que merece tal califica-
tivo en el plano propiamente lingüístico. Pero hay otras causas que contribuyen
a ello, y, como avanzábamos al principio, en parte coinciden con las que hicieron
posible el hibridismo peculiar: el aislamiento, las malas comunicaciones, la situa-
ción fronteriza, el alejamiento de los centros de decisión.
En efecto, todo esto también ha dificultado el desarrollo del habla rebolla-
na y acarreado su desestima, incentivada por las instituciones centralistas
(castellanistas), que se ha traducido en una desasistencia secular e incluso en
una persecución durante el franquismo. La separación administrativa de las
hablas afines extremeñas se inició con la división en provincias del siglo XIX
(1833) y se remató con la organización del estado español en “comunidades
autónomas” (1978). ¿Habría salido ganando El Rebollar con su inclusión en la
Comunidad de Extremadura? En todo caso, no habría perdido gran cosa, en
vista del tratamiento recibido por parte de la Comunidad de Castilla y León,
76 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

como sucede en general con todo aquello que es minoritario y periférico, rele-
gado al apartado del “tipismo”.
Los responsables de la política cultural de esta Comunidad, aparte de alguna
reciente medida tardía, más simbólica que eficaz, no han sabido valorar la rique-
za que supone la variedad lingüística de su amplio territorio, y ello resulta paten-
te en el vacío informativo. A propósito de una partida de 50.000 euros aprobada
en 2017 por la Junta para “confeccionar material didáctico” en El Rebollar y Las
Arribes, el órgano de prensa que desde hace un siglo defiende la ideología po-
lítica (y la economía) dominante en la provincia de Salamanca insinuó que era
un derroche. Para ello, con tanta osadía como ignorancia, y refiriéndose a la
modalidad vernácula de El Rebollar, publicó que su destino era: “para estudiar
un dialecto leonés que no interesa” (29/06/17).
El ninguneo informativo actual atañe a las actividades de Documentación y
Estudio del El Rebollar, una asociación que en colaboración con el equipo uni-
versitario de PROHEMIO (Orleans) desde 2003 había organizado y publicado
las actas de jornadas internacionales, con varias decenas de profesores y es-
tudiosos españoles (entre ellos colegas del Centro de Estudios Mirobrigenses)
y extranjeros. Quizá resulte superfluo añadir que dicho órgano de prensa no se
había enterado de las decenas y decenas de historiadores, lingüistas (de la Es-
cuela Española, de la de Hamburgo, británicos, etc.), antropólogos y folcloristas
que durante más de un siglo han realizado trabajos de campo por estos pagos.
Al cabo de otros dieciocho meses (16/02/2019) ha descubierto que “hace unos
años se publicó un libro sobre el tema”. (Por algo se empieza, cualquier día co-
nocerá el nombre del autor).
Aquella promesa de la Junta de Castilla y León era (fue) un brindis al sol.
Hasta ahora no se tiene constancia del menor interés por parte de entidades o
personas representativas comunitarias hacia dichas actividades, ni por supuesto
la menor colaboración cuando fueron solicitadas. Asisten a la agonía del habla
rebollana con la misma impavidez que (dejando a un lado el espinoso asunto
de la memoria histórica con respecto a la represión del primer franquismo) han
mantenido ante la emigración masiva, la despoblación, el envejecimiento demo-
gráfico, y, concretamente en la comarca mirobrigense, el desmantelamiento de
los servicios públicos, la insuficiencia de los transportes (por tren y carretera), la
falta de centros sanitarios adecuados (con obligados, laboriosos y arriesgados
desplazamientos a Salamanca al menor síntoma de enfermedad), el cierre de la
mayoría de los centros escolares locales (por falta de niños), con el consiguiente
desarraigo de la cultura y la forma de vida en el campo, etc., etc.
En suma, a las circunstancias adversas para mantener viva el habla rebollana,
se une la impotencia, la incapacidad y la insensibilidad de quienes estarían lla-
mados a resolver los problemas que condicionan su pervivencia. De modo que,
DEL NACIMIENTO A LA IGNORADA AGONÍA DE LA MODALIDAD LINGÜÍSTICA “CASTELLANO-LEONESA” EN EL REBOLLAR (SALAMANCA)
77
Ángel Iglesias Ovejero

por así decir, esperan que el tiempo acabe con incómodos habitantes (y hablan-
tes), haciendo buena la nada evangélica terapia del dicho:

Parientis probis y burrus viejus, lejus

REFERENCIAS
Para las referencias detalladas anteriores a 2005, véase Iglesias 2005b, y
para las posteriores a ese año, Iglesias 2010e y 2018b, que pueden consultar-
se, como otras publicaciones en la red informática: Angel IGLESIAS OVEJERO
- Academia.edu
IGLESIAS OVEJERO, Ángel (2005b) = “El Rebollar: balance provisional y perspec-
tivas del estudio de su patrimonio cultural”. En: Estudios Mirobrigenses, 1,
C.E.C.L.-C.S.I.C., Ciudad Rodrigo, 27-58.
ID. (Iglesias 2010e), “Situación del habla de El Rebollar (Salamanca): analogías
y contrastes con las hablas extremeñas”. En: Lletres Asturianes, 103, 35-59.
ID. (Iglesias 2018b), “El árbol paremiológico de Rodrigo, epónimo de Ciudad Ro-
drigo”. En: Estudios Mirobrigenses, V, CEM, C.E.C.E.L.-C.S.I.C., 219-246.
MORALES PAÍNO, Francisco Javier, Colonización y feudalización entre fronteras: el
suroeste mirobrigense durante los siglos XII-XIII, Centro de Estudios Mirobri-
genses, C.E.C.E.L.-C.S.I.C., y Ayuntamiento de Ciudad Rodrigo, 2008.
78 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

(Iglesias 2003a: 33)


LÍNGUAS E HISTÓRIA(S) DE FRONTEIRAS
ISABEL A. SANTOS*
CRISTINA MARTINS*
ISABEL PEREIRA*

RESUMO
Neste trabalho apresentar-se-á a situação linguística de alguns espaços que
nos permitem problematizar a questão da interação histórica entre a definição
da fronteira política luso-espanhola na Península Ibérica e a delimitação de fron-
teiras linguísticas nesse mesmo território. Assim, depois de uma breve referência
à motivação histórica da configuração linguística da Península Ibérica, debruçar
-nos-emos sobre três realidades linguísticas particulares: o mirandês, variedades
galego-portuguesas em território espanhol e o barranquenho. Tratando-se, em
todos os casos, de línguas ou de variedades que se encontram em situação de
contacto linguístico, elas resultam, ainda assim, de processos históricos particu-
lares. Se, por vezes, estamos perante variedades autóctones que sobrevivem
em áreas nas quais outras se tornaram hegemónicas, casos há que resultam de
situações de mobilidade populacional ou de contacto reiterado e sistemático
entre as populações dos dois lados da fronteira.

1. A CONFIGURAÇÃO LINGUÍSTICA DA PENÍNSULA IBÉ-


RICA: QUE MOTIVAÇÕES HISTÓRICAS?
É sabido que a invasão árabe e a deslocação para norte de população godo
-romana é seguida da formação, no norte da Península, de novas unidades polí-
ticas e militares, reinos cristãos. Criaram-se, assim, as condições para o desen-
volvimento e individualização, na parte norte da Península, de um conjunto de
idiomas neolatinos; no noroeste peninsular constitui-se o galego-português e,
de oeste para leste, seguiam-se o asturiano-leonês, o castelhano, formado na
região de Burgos, o navarro-aragonês e o catalão.
Com a reconquista militar do território progridem para sul os idiomas his-
toricamente individualizados no norte (cf. Mapa 1). Na parte central e oriental
da Península, o castelhano expande-se à custa dos outros idiomas e, na parte

*
FLUC / CELGA-ILTEC.
80 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

ocidental, o galego-português fragmenta-se em duas línguas (o galego e o por-


tuguês), num processo associado à separação política dos dois espaços.
Assim, e não desconsiderando a importância de outros elementos, tempo-
ralmente mais longínquos, como as influências das línguas de substrato e as
distintas dinâmicas dos territórios durante o período de ocupação romana, estes
acontecimentos históricos, mais recentes, são responsáveis pela peculiar situa-
1
ção linguística da PI no contexto da România .

Mapa 1. Expansão das línguas ibéricas (situação em 1300)

Fonte: Castro 1991, 172 (segundo Baldinger, 1958).

2. MIRANDÊS: UMA LÍNGUA DE FRONTEIRA(S)


O mirandês, língua minoritária autóctone de Portugal, é, sob muitos pontos
de vista, um idioma de fronteira. Contribui, desde logo, para esta caracteriza-
ção, a sua localização geográfica. Implantado numa área geográfica com cerca
de 500 km2, que recobre o concelho de Miranda do Douro e duas localidades

1
«[Não] é possível conhecer a distribuição exacta dos romances em formação na Península Ibérica nas vés-
peras da invasão muçulmana pois esta (e depois dela a Reconquista) alteraram completamente a situação
existente no centro e sul da Península» (Castro 2006, 65-66) (o negrito é nosso).
LÍNGUAS E HISTÓRIA(S) DE FRONTEIRAS
81
Isabel A. Santos, Cristina Martins, Isabel Pereira

do concelho de Vimioso, o mirandês corresponde, atualmente, a uma mancha


idiomática delimitada a norte pela fronteira política entre Portugal e Espanha, a
leste por esta, coincidente com a fronteira natural constituída pelo rio Douro, a
sul pela fronteira administrativa que separa o concelho de Miranda do Douro do
de Mogadouro e a oeste pela que separa o concelho de Miranda do Douro do
de Vimioso.
Historicamente, o mirandês representa uma das atuais sobrevivências do as-
turo-leonês, um grupo idiomático neolatino outrora pujante e territorialmente
extenso que, no século XIII, se estendia das Astúrias, o seu núcleo territorial
principal a norte da Península, à Estremadura espanhola, raiando, a sul, com
território andaluz (Zamora Vicente 1960).
Do progressivo atrofio histórico desta mancha asturo-leonesa, decorrente da
perda de independência política do Reino de Leão a partir do século XIII, resulta-
ram várias ilhas idiomáticas hoje territorialmente disjuntas: em Espanha, a mais
significativa é constituída pelo asturiano, um conjunto de variedades conhecidas
como bables, faladas no Principado das Astúrias; em Portugal, e para além do
mirandês, refiram-se as variedades faladas, até meados do século XX, nas locali-
dades trasmontanas fronteiriças de Rio de Onor, Guadramil, Petisqueira e Deilão.
Considerando, ainda, os testemunhos de Leite de Vasconcelos (1900) e de Antó-
nio Maria Mourinho (1959 e 1987) sobre as particularidades tipicamente leonesas
encontradas na morfologia flexional nominal e verbal do português falado em
localidades próximas, a sul e a oeste da atual área de implantação do mirandês,
percebemos que a extensão geográfica do asturo-leonês em Portugal terá sido,
no passado, bastante maior do que é hoje.
As razões históricas para sua a implantação em território politicamente
português, por um lado, e para sua a sobrevivência, desde a Idade Média
até aos dias de hoje, por outro, radicam, igualmente, na posição de fronteira
do mirandês. Neste sentido, e em primeiro lugar, considere-se que a própria
existência de manchas asturo-leonesas em território politicamente português
denota que as múltiplas fronteiras que foram cruzando esta região de Trás-
-os-Montes permitiriam, durante um tempo histórico suficiente e necessário, a
construção de uma estreita relação entre a área de implantação do mirandês
e a região vizinha a oriente. Menéndez Pidal (1962, 20) evoca, a este propó-
sito, a pertença desta área, ainda no período romano, ao convento jurídico
de Asturica Augusta, e não ao de Bracara Augusta, bem como o facto de a
igreja de Bragança ter pertencido, pelo menos entre os séculos VIII e XII, à
diocese de Astorga. Maria José Moura Santos (1967) por seu turno, recorda
que o tracejado médio dos limites do Condado Portucalense calculados por
Torquato Sousa Soares (1963) permitem colocar fora do seu território as áreas
linguísticas asturo-leonesas de Portugal, salientando, deste modo, a incor-
poração mais tardia desta área no domínio politicamente português. Além
82 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

disso, a documentação histórica tem revelado que esta região, já depois da


sua integração política em Portugal (no séc. XII ou mesmo no séc. XIII), foi
sendo alvo de sucessivas investidas do Reino de Leão, tendo permanecido
instável durante longo período. Convoque-se, por fim, a colonização leonesa,
entre os séculos XIII e XV, da região em causa, documentada nas Inquirições
de D. Afonso III, entre outras fontes (Carvalho 1973). Esta colonização, em-
preendida pelos mosteiros leoneses de Santa Maria de Moreruela, San Martín
de Castañeda, os Templários de Alcañices e vários particulares, foi mesmo,
no entender de Herculano de Carvalho (1973), a razão determinante para a
implantação do asturo-leonês em Portugal.
Também a sobrevivência multissecular do mirandês se deve a fatores so-
ciais, demográficos e económicos estreitamente relacionados com a posição
periférica da sua área de implantação (Martins 1994b). Saliente-se, antes de
mais, a crónica depressão demográfica desta região de fronteira, tão afas-
tada do centro do poder político português, uma tendência que os esforços
pontuais dos governantes para aí atrair população, empreendidos desde o
século XII, nunca conseguiram contrariar de modo significativo. A debilidade
das redes rodoviária e ferroviária e de telecomunicações, apenas mitigada
na passagem do século XX para o século XXI, mais contribuiu para consolidar
o isolamento e a marginalização da região. Neste contexto, formaram-se pe-
quenas comunidades agro-pastoris, marcadas por uma economia de autos-
subsistência e constituídas por uma população escassamente escolarizada.
Aqui, os falantes do mirandês, pouco expostos a influências exógenas, pude-
ram continuar a usar, durante séculos, a sua língua autóctone nas interações
verbais quotidianas e puderam, também, transmiti-la geracionalmente, sem
2
qualquer motivação para infletir tais comportamentos . Desta forma o miran-
dês se tornou, igualmente, um símbolo identitário, uma marca do modo de
vida local, contrastante com a identidade dos fidalgos, i.e., dos falantes da
língua portuguesa.
Dito isto, é importante esclarecer que língua fidalga também se falou, des-
de cedo, na Terra de Miranda, circunscrevendo-se, contudo, durante séculos,
às interações verbais com representantes da Administração, da Escola e da
Igreja que decorriam, predominantemente, na cidade de Miranda do Douro.
Conviveu, deste modo, o mirandês em contacto com o português, num arranjo
diglóssico que permitiu que cada língua fosse desempenhando um conjunto
de funções comunicativas complementares, associadas a valores simbólicos

2
A exceção é constituída pela perda de vitalidade do mirandês na cidade de Miranda do Douro, um processo
cujo embrião se localiza no século XVI. Sobre esta problemática, cf. Martins (1994a).
LÍNGUAS E HISTÓRIA(S) DE FRONTEIRAS
83
Isabel A. Santos, Cristina Martins, Isabel Pereira

distintos. Foi igualmente este prolongado bilinguismo comunitário com diglossia


que garantiu a sobrevivência desta língua descendente do asturo-leonês, em
3
Portugal, até aos dias de hoje (Martins 1994a) .
Sendo o asturo-leonês uma peça do continuum linguístico ibero-români-
co, compreender-se-á que, também numa perspetiva linguístico-estrutural,
o mirandês se apresente como um idioma de fronteira, marcando a transição
entre o português e o espanhol. Caracterizando-se por poucos traços linguísti-
cos próprios não compartilhados com qualquer uma destas duas línguas (cf., por
exemplo, as tabelas 1 e 2), a identidade do mirandês resulta, antes, de padrões
particulares de sobreposição estrutural, ora com o português em contraste com
o espanhol (cf. tabela 3), ora com o espanhol em contraste com o português
(cf. tabela 4). Estes padrões de sobreposição estrutural encontram-se em vários
níveis de organização dos sistemas linguísticos em contacto. Para além dos tra-
ços fonológicos, ilustrados nas tabelas 3 e 4, exemplos patentes nos paradigmas
4
de pronomes pessoais e de artigos são apresentados nas tabelas 5 e 6 .)

Tabela 1. Mirandês vs. português e espanhol: traços fonológicos

Latim Português Mirandês Espanhol


L- /l/ /ʎ/ /l/
LUNA - lua lhuna luna
Ĕ em formas /ɛ/ /je/ /e/
do verbo esse: EST é yê es

Tabela 2. Mirandês vs. português e espanhol: vogal temática (VT) -a no


pretérito perfeito do indicativo dos verbos regulares

Português Mirandês Espanhol


2sg cantaste VT a > canteste cantaste
1pl VT cantámos e cantemos VT cantamos
2pl inalterada cantastes VT a > cantestes inalterada cantasteis
3pl cantaram o cantórun cantaron

3
Registe-se, ainda assim, a sua perda de vitalidade mais recente (Martins 2014), que tem vindo a ser contrariada
através de medidas de planificação linguística (Martins e Santos 2015).
4
Outros exemplos encontram-se em Martins (2014).
84 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Tabela 3. Mirandês e português vs. espanhol: traços fonológicos

Latim Português Mirandês Espanhol


CL-, PL-, FL- /tʃ/ > /ʃ/ /tʃ/ /ʎ/
CLAMAR-, chamar, cheio, chamar, cheno, llamar, lleno,
PLENU-, FLAMA- chama chama llama
F- /f/ /f/ ø
FACERE fazer fazer hacer
-CT-, -(U)LT- /jt/ /jt/ /tʃ/
LACTE-, MULTU- leite, muito lheite, muito leche, mucho
-LI-, -C’L- /ʎ/ /ʎ/ /χ/
FILIU-, APIC(U)LA- filho, abelha filho, abelha hijo, abeja
-X- ([ks]) /ʃ/ /ʃ/ /χ/
COXU- coxo coxo cojo
-MB- preservação preservação /m/
LAMBER- da forma latina da forma latina lamer
lamber lhamber
AI (secundário) /ej/ /ej/ /e/
LACTE-, PRIMARIU- leite, primeiro lheite, prumeiro leche, primero
AU (primário e secundário) /ow/ > /o/ /ow/ /o/
AURU-, ALTERU- ouro, outro ouro, outro oro, otro

Tabela 4. Mirandês e espanhol vs. português: traços fonológicos

Latim Português Mirandês Espanhol


-L- ø /l/ /l/
PILA- pia pila pila
-N- ø /n/ /n/
LUNA- lua lhuna luna
-LL- /l/ /ʎ/ /ʎ/
GALLU- galo galho gallo
-NN-, -MN- /n/ /ɲ/ /ɲ/
CAPANNA-, DAMNU- cabana, dano cabanha, danho cabaña, daño
Ŏ (sílaba tónica) /ɔ/ /wo/ /we/
PORTA- porta puorta puerta
Ĕ (sílaba tónica) /ɛ/ /je/ /je/
PETRA- pedra piedra piedra
LÍNGUAS E HISTÓRIA(S) DE FRONTEIRAS
85
Isabel A. Santos, Cristina Martins, Isabel Pereira

Tabela 5. Pronomes pessoais em português, mirandês e espanhol


(afinidades interlinguísticas assinaladas em itálico)

Sujeito Complemento direto Complemento indireto


(formas tónicas) (clíticos) (clíticos)

Port. Mir. Esp. Port. Mir. Esp. Port. Mir. Esp.


1sg eu you yo me me me me me me
2sg tu tu tú te te te te te te
3sg ele/ela el/ él/ella o/a {lo, l}/la {lo, le}/la lhe le le
eilha
1pl nós nós nosotros nos mos nos nos mos nos
/nosotras
2pl vós bós vosotros/ vos bos os vos bos os
vosotras
3pl eles/ eilhes/ ellos/ os/as {les, los} los/ lhes {le,
elas eilhas ellas /las las les} les

Tabela 6. Artigos definidos e indefinidos em português, mirandês e espanhol


(afinidades interlinguísticas assinaladas em itálico)

Artigos definidos Artigos indefinidos


Port. Mir. Esp. Port. Mir. Esp.
Masculino o/os l/ls el/los um/uns un/uns un/unos
Feminino a/as la /las la/las uma/umas ũa/ũas una/unas

3. (GALEGO-)PORTUGUÊS NA FRONTEIRA OCIDENTAL DE


ESPANHA
A mesma não correspondência de fronteiras encontramo-la quando o espaço
linguístico de origem galego-portuguesa se prolonga para lá da fronteira políti-
ca com Espanha. Não sendo o nosso objetivo inventariar exaustivamente (à luz
5
dos dados disponíveis) todas as situações , limitar-nos-emos aqui à análise de
casos que, ilustrando situações diferenciadas, encontramos no sul de Salamanca
e na Extremadura espanhola, em grande medida acompanhando neste trabalho
a apresentação dos pontos de perturbação de fronteiras elaborada por Zamora
Vicente (1960). Depois de referir a penetração do leonês em Portugal (tema da
secção anterior), escreve este autor:

5
Não nos debruçamos, assim, sobre a situação da fronteira entre Portugal e Galiza, onde a separação política
não anula um continuum linguístico revelador da história comum do português e do galego. Do mesmo modo
não se descreverá, junto à fronteira norte, na província de Zamora, o enclave português de Hermisende
(Segura 2013, 117; Maia 2000, 785-786).
86 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

«[en] Salamanca los límites [do leonês] coinciden com la frontera política, excepto el
enclave de Alamedilla (partido de Ciudad Rodrigo), que habla português. Análoga
entrada se verifica en dos zonas de la provincia de Cáceres: en el ángulo noroeste,
donde son portugueses Valverde del Fresno, Eljas y San Martín de Trevejo, y nue-
vamente, más al sur, en Cedillo y Herrera de Alcántara. Una nueva entrada hace el
português en la comarca de Olivenza, en tierras de Badajoz. El sur de esta ultima
provincia, reconquistada por Alfonso X, marca la extermidad meridional de la corona
leonesa, donde se pueden todavia hallar rasgos lingüísticos más o menos borrosos»
(Zamora Vicente 1960, 73).

Por outro lado, e embora não se detalhando, no presente trabalho, tal ques-
tão, é necessário realçar que são variáveis os graus de vitalidade destes falares
locais, que se encontram, em todos os casos, em contacto com o espanhol. Além
de fenómenos de transferência que a situação de contacto propicia, a pressão
(pelo poder e prestígio que lhe estão associados) da língua oficial e as atitudes
positivas dos falantes relativamente ao espanhol colocam em perigo as varie-
dades locais e processos de substituição linguística são observáveis em muitos
destes espaços, sobretudo nas localidades de maior dimensão (Carrasco Gon-
zález 2007).
Assim, na zona que confina com a região portuguesa de Riba Coa (cf. Mapa
2), registam-se duas situações linguísticas particulares: a de La Alamedilla (Sa-
lamanca) e a de Valverde del Fresno, Eljas e San Martín de Trevejo, povoações
localizadas no norte de Cáceres, na serra de Xalma. Deparamo-nos, em ambos
os casos, com situações que Zamora Vicente (1960, 73) sinalizou como de pene-
tração do “português” na delimitação do espaço leonês.
As regiões de Xalma e Alamedilla, juntamente com povoações portuguesas
fronteiriças do concelho do Sabugal, foram estudadas por Maia ([1965] 1977), que
identifica, em La Alamedilla, uma variedade de português fonética, morfológica
e lexicalmente muito semelhante ao português, conservador e com arcaísmos,
que é falado nas vizinhas povoações do concelho português (Maia [1965] 1977,
551; Segura 2013, 118). Atesta-o, por exemplo, de acordo com os dados recolhi-
dos pela autora, a existência de um sistema de sibilantes com profundas afini-
dades com os falares da região fronteiriça estudada, as duas áreas partilhando
um conjunto de 7 unidades que inclui 4 alveolares, a palatal surda e as duas
africadas palatais, a surda ([tʃ]) e a sonora ([dʒ]) (Maia [1965] 1977, 193). A atestar
o expressivo conservadorismo da zona está o facto de desta última consoan-
te, [dʒ], restarem apenas vestígios em falares contíguos da Beira Baixa (Segura
2013, 118).
Já no recanto noroeste da província de Cáceres, nas povoações de Valverde
del Fresno, Eljas e San Martín de Trevejo, encontram-se variedades idiomáticas
arcaicas, filiadas no galego-português e apresentando alguns traços leoneses.
LÍNGUAS E HISTÓRIA(S) DE FRONTEIRAS
87
Isabel A. Santos, Cristina Martins, Isabel Pereira

Mapa 2. Mapa geral de zona fronteiriça estudada por Maia

Fonte: Maia [1965] 1977

Essas variedades são habitualmente referidas como Fala e distinguem-se,


histórica e estruturalmente, por um lado, «dos falares das povoações vizinhas,
provavelmente resultantes da castelhanização de primitivos dialectos leoneses»,
e por outro, dos «restantes falares fronteiriços estremenhos» (Maia 2007, 138).
88 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Estes territórios, bem como a vizinha região portuguesa de Ribacoa, perten-


6
ceram ao reino de Leão, que procedeu à sua Reconquista . Foram também os
monarcas leoneses (Fernando II e Afonso IX) que promoveram, posteriormen-
te, o seu repovoamento, tendo sido aí muito importante o elemento galego. A
hipótese que se coloca, então, é a de que se falaria na região, no séc. XIII, um
dialeto de tipo galego-português com leonesismos; segundo Cintra, a estreita
semelhança entre a linguagem das povoações de Xalma e a linguagem dos Fo-
ros de Castelo Rodrigo (escritos por volta de 1280) confirma-o (Maia 2000, 81).
Depois de, com o acordo de Alcanizes (1297), ficar definida e estabilizada
a fronteira política nesta região, o falar local na área que veio a pertencer a
Portugal ficou sujeito a uma situação de contacto interlinguístico com o por-
tuguês, que se lhe foi sobrepondo. Ao contrário, nas localidades da região
de Xalma, e pelo secular isolamento da região, esse dialeto teve condições
para a sua preservação; assim, encontrar-se-á aí um dialeto que, atualmen-
te mais próximo do galego do que do português (sobretudo se se considerar
a variedade padrão deste idioma), terá evoluído autonomamente a partir do
7
tronco comum medieval galego-português . Já em La Alamedilla, onde não se
encontram as mesmas condições de isolamento e onde se observam estreitos
e intensos contactos com povoações portuguesas (Maia [1965] 1977, 107), «o
falar galego-português com leonesismos terá desaparecido» (Maia [1965] 1977,
553).
O caráter não leonês das variedades de Xalma foi há muito assinalado;
Maia (2007, 138) refere as revelações a esse propósito feitas em 1910 por um
discípulo de Menéndez Pidal, Federico de Onís, que nota a inexistência, na
região, dos fenómenos de ditongação próprios do leonês. É então a ausência,
nessas variedades, e tanto no domínio do vocalismo como do consonantismo,
de traços definitórios deste idioma, a par da presença de traços essenciais
específicos do galego-português, que permitem a filiação, neste ramo idiomá-
8
tico, da língua falada em Xalma (Maia 2007, 139) .

6
Maia (2007, 135-136) evoca este contexto histórico referindo uma «íntima associação de toda a zona portu-
guesa a oriente do Rio Coa (a região de Riba-Coa) e a área fronteiriça espanhola».
7
Para uma visão das diferentes abordagens à questão da filiação histórica destas variedades, ver Maia (2007).
8
Maia (2007: 144) não deixa também de assinalar que, além dessa base essencial galego-portuguesa, para a
especificidade linguística da área contribui também (i) a influência do português, propiciada pelos contactos
com as populações vizinhas além da fronteira territorial; (ii) o elemento leonês que se observa nalguns
resultados fonéticos, em aspetos morfológicos e no léxico; (iii) a influência de traços linguísticos originários
de territórios meridionais de Espanha que se encontram também nos falares da Estremadura, região onde
geograficamente estão inseridos os falares de Xalma; (iv) a influência, relativamente recente, do espanhol,
a língua oficial do Estado, resultante do fenómeno da escolarização, da maior facilidade de comunicação e
da expansão dos meios de comunicação social.
LÍNGUAS E HISTÓRIA(S) DE FRONTEIRAS
89
Isabel A. Santos, Cristina Martins, Isabel Pereira

Observa-se, então, que, ao contrário do que é próprio do leonês,


i) não estão representados por ditongos os resultados de E e O breves latinos;
ii) não ocorre a palatalização de N– e L– latinos.

Por outro lado, encontram-se, como no galego-português (e diferentemente


do que acontece no castelhano e no leonês):
i) a preservação dos ditongos decrescentes OU e EI;
ii) a síncope de –N– e –L– latinos;
iii) a simplificação de –LL– e –NN – latinos;
iv) a africada [tʃ] como resultado dos grupos latinos PL–, CL– e FL–.

Em Xalma encontramos, portanto, uma situação muito peculiar e a zona re-


veste-se de muito interesse linguístico e histórico.
No entanto, prolonga-se para sul e em povoações com diferentes histórias
a faixa da Extremadura onde se falam variedades de português, nestes outros
casos com muitas afinidades com o português usado do outro lado da fronteira.
Ainda na província de Cáceres, merecem atenção Herrera de Alcántara e Ce-
dillo, duas pequenas localidades que se encontram num «triângulo encravado
em território português» (Vilhena [1965] 2000, 23), entre os distritos de Castelo
9
Branco e Portalegre e os rios Sever e Tejo (cf. Mapa 3) . Com as localidades de
Valverde del Fresno, Eljas e San Martín de Trevejo, estas duas localidades são,
referimo-lo atrás, igualmente referidas por Zamora Vicente como casos de entra-
da do português em território leonês de Cáceres.
Em 1965, no seu pormenorizado estudo linguístico sobre a área, Vilhena
([1965] 2000, 25-27) apresentava este território como um espaço de contacto
mais fácil e regular (no plano das relações comerciais, mas também no domínio
das relações pessoais) com Portugal do que com Espanha: no caso de Cedillo,
eram densas as relações com Montalvão e Vila Velha do Rodão; no caso de Her-
rera, com Malpica do Tejo. Daí decorriam atitudes que Vilhena ([1965] 2000, 26)
testemunhava desta forma: «Dizem os naturais de Cedillo que ainda não há mui-
to tempo se sentiam mais portugueses que espanhóis».

9
Quando procedeu ao estudo linguístico dessa área, Vilhena ([1965] 2000, 23) descreveu-a como de difícil
acesso às autoridades espanholas devido à falta de comunicações e ao afastamento de meios populosos,
sendo, por isso, um local de refúgio de indivíduos, tanto portugueses como castelhanos, que fugiam à justiça.
90 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Mapa 3. Localização geográfica de Herrera e Cedillo

Fonte: Vilhena [1965] 2000, 21

Do ponto de vista idiomático, deparamo-nos de novo com variedades locais


que muitos aspetos linguísticos ligam ao português, distinguindo-as do caste-
lhano. Esse é o caso, por exemplo, da clara distinção entre vogais orais e nasais
(Vilhena [1955] 2000, 51). No entanto, e apesar da sua proximidade geográfica, é
consideravelmente diferente a situação linguística destas duas localidades, ha-
vendo desse facto consciência por parte dos respetivos habitantes. Testemunha,
então, Vilhena (2000 [1965], 26) que «a gente de Cedillo, consciente do caráter
moderno do falar português que usa, começou a troçar o falar arcaico dos de
Herrera, a tal ponto que estes, hoje, na sua presença, falam apenas em caste-
lhano».
Herrera de Alcántara é uma povoação muito antiga, fundada na Idade Média,
10
pondo-se a hipótese de a sua fundação datar do séc. XIII . A povoação constitui-
-se em torno do castelo então existente e com população em grande medida de
origem portuguesa (Carrasco González 1994, 61). Os contactos com as vizinhas
localidades portuguesas, mais próximas que as espanholas, terão sido intensos,
embora pareçam ter-se tornado menos frequentes na época moderna: segundo

10
Para uma apresentação sistematizada dos dados históricos relevantes, cf. Vilhena ([1965] 2000, 37-38).
LÍNGUAS E HISTÓRIA(S) DE FRONTEIRAS
91
Isabel A. Santos, Cristina Martins, Isabel Pereira

Carrasco González (1994, 62), este facto poderá relacionar-se com as guerras da
Restauração, momento em que o castelo foi destruído.
Assim, Herrera de Alcántara preserva traços linguísticos muito arcaicos já de-
saparecidos do português, como a não redução de vogais átonas (Vilhena, [1965]
2000, 100), que a estrutura do castelhano igualmente favorece; ao mesmo tem-
po, a variedade aí falada torna-se, numa tendência que se acelerou nos últimos
tempos, muito permeável à penetração de castelhanismos (Carrasco González
1994, 62).
11
A variedade aí falada distingue-se, então, da falada em Cedillo , localidade
constituída no séc. XVIII (Segura 2013, 118) e provavelmente a continuação de um
“casalinho” fundado por pescadores portugueses; neste caso, a situação de re-
lacionamento regular com Portugal não parou até época bem recente (Carrasco
González 1994, 62). Tudo isto explica a existência de um falar português moder-
no com muita vitalidade e de características idênticas às dos falares da região
portuguesa contígua (Vilhena [1965] 2000, 36). Estão, por exemplo, registados
em Cedillo timbres vocálicos semelhantes aos que se encontram numa zona ex-
tensa da Beira Baixa e Alto Alentejo: é o caso da vogal mista [Ø], resultante da
monotongação de OU, ou da vogal [u] que tende para palatal ([y]) (Vilhena [1965]
2000, 56-57).
Situações linguísticas semelhantes encontramo-las novamente mais a sul,
12
em localidades fronteiriças do concelho de Valencia de Alcántara : Las Ca-
siñas; El Pino; Jola; La Fontañera (Segura 2013, 118; Carrasco González 2001,
142; 1994, 64) (cf. Mapa 4). Deparamo-nos, neste caso, com variedades sinaliza-
das e estudadas mais recentemente e faladas em localidades que, como Cedillo,
se terão constituído provavelmente no séc. XVIII, resultado de emigração portu-
guesa. Também como em Cedillo, a língua falada nestas localidades correspon-
de ao português moderno ouvido nas localidades vizinhas portuguesas (neste
caso, da região de Portalegre).
Como já adiantámos no início desta secção, aquilo a que Zamora Vicente se
refere como “entrada do português” em Espanha, ocorre ainda «en tierras de
Badajoz». Nesta província podemos, no entanto, e tendo em consideração as
razões que explicam a situação linguística particular, distinguir dois grupos de
localidades onde se fala, igualmente, uma variedade de português semelhante à
falada nas localidades portuguesas vizinhas:

11
No entanto, em ambas as localidades se encontra [tʃ], consoante idêntica à que se encontra em falares
portugueses (Vilhena [1965] 2000, 59) setentrionais, mas que, no interior, atinge o sul do distrito de Castelo
Branco.
12
Este concelho foi dos que mais sofreram nas guerras da Restauração, permanecendo muito tempo sob o
domínio de Portugal (1664-1698 e 1705-1715). O facto de estar desabitada e sob o domínio de Portugal toda
a faixa fronteiriça favoreceu as relações com as localidades vizinhas portuguesas e o estabelecimento de
portugueses na zona ao longo dos séculos XVIII e XIX (Carrasco González 1994: 65).
92 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

i. no Concelho de La Codosera, referem-se habitualmente as povoações de


La Tojera, La Rabaza, El Marco, La Varse (Segura 2013, 118; Carrasco González
2001, 142);
ii. no concelho de Olivença, indicam-se as localidades de Villareal, Olivença,
San Jorge, Santo Domingo, San Benito de la Contienda e ainda Táliga (Car-
rasco González 2001, 144).

Mapa 4. Os falares portugueses na região de Valencia de Alcántara.

Fonte: Carrasco González 1994, 71

As localidades codoseranas pertencem a uma vasta região fronteiriça estre-


menha, do Tejo até ao pequeno riacho Abrilongo, junto a El Marco, onde foram
aparecendo localidades por fixação de famílias portuguesas em época moder-
na (ao longo dos últimos 3 séculos). Neste caso, e embora não se conhecendo
com exatidão a origem e formação destas localidades, temos povoações muito
recentes, dos sécs. XIX/XX, que, por vezes, surgiram como prolongamento de lo-
calidades portuguesas com o mesmo nome: veja-se o caso de Rabaça (povoação
13
portuguesa) / La Rabaza (povoação española) .
Embora pertencendo igualmente à província de Badajoz, é diferente a expli-
cação para o aparecimento do português em Olivença e em Táliga. Neste caso,
estamos perante territórios que integraram Portugal até ao início do século XIX,

13
Relativamente às povoações do sul de Cáceres, estas aparecem em época mais recente sem constituir
localidades tão grandes; é maior a proximidade da fronteira e há uma maior dependência comercial dela; a
vinculação familiar com Portugal mantém-se intacta e a maioria dos habitantes de maior idade nasceu em
Portugal e conserva passaporte português (Carrasco González 2001, 146-148.).
LÍNGUAS E HISTÓRIA(S) DE FRONTEIRAS
93
Isabel A. Santos, Cristina Martins, Isabel Pereira

pelo que estas são, «en consecuencia, las únicas que en rigor conservan la len-
gua portuguesa de sus abuelos» (Carrasco González 2001, 144). Conserva-se aí,
em suma, o português falado neste concelho no início do séc. XIX, com profun-
das influências do castelhano na fonética e no vocabulário.

4. O CASO DE BARRANCOS: UMA LÍNGUA MISTA?


Um pouco mais a sul, em território português, encontramos uma situação de
contacto de línguas um pouco diferente das que foram descritas anteriormente,
a do barranquenho. Leite de Vasconcelos apresenta-o como «um curioso dia-
lecto popular usado no concelho de Barrancos; tem por base o falar do Baixo
Alentejo, modificado pelo estremenho-andaluz, que lhe deu feição muito notá-
vel» (Vasconcelos 1955, X). Condicionalismos históricos, situação geográfica e
isolamento ajudam a explicar a formação desta variedade dialetal fronteiriça,
resultante de um continuado contacto entre as variedades locais do português e
do espanhol, que alguns autores classificam como uma ‘língua mista’.
14
O concelho de Barrancos, com uma população inferior a 2000 habitantes ,
é o mais pequeno e mais oriental município do distrito de Beja e o seu território
«introduz-se em Espanha, uns 9 kms, como uma cunha afiada» (Navas 2017,
33). Faz fronteira com a Estremadura e a Andaluzia, em território espanhol, e
com os concelhos de Moura e Mourão, em território português. A povoação
mais próxima, Encinasola, situa-se em Espanha, na província de Huelva, e fica
a uma distância de 9kms, enquanto que, do lado português, a localidade mais
próxima é Santo Aleixo da Restauração, que está a 21 kms. Barrancos está, por
isso, geograficamente, mais próximo de Espanha, e o isolamento em território
português (a primeira estrada de Moura a Barrancos foi construída em 1931) foi
uma constante, ao longo da sua história.
Esta região da Península Ibérica caracteriza-se historicamente por uma gran-
15
de instabilidade na definição de fronteiras . Desde 1167, data da reconquista
da região pelos portugueses, até 1894, ano em que foi estabelecida definitiva-
mente a fronteira nesta região superior do Guadiana, a vila de Noudar e o seu
castelo, assim como toda a área sob o seu domínio, em que Barrancos se inclui,
foram objeto de uma complicada determinação de limites fronteiriços. Mais de
uma dezena e meia de ocorrências envolvendo a mudança de soberania sobre
esta região, de natureza mais violenta (conquistas) ou mais pacífica (acordos ou

14
De acordo com o Censos 2011, tem uma população de 1834 habitantes.
15
Já na época romana haveria ambiguidade na definição das fronteiras administrativas entre o convento
pacense, da Lusitânia, e o convento hispalense, da Bética, que se terá prolongado pelo período de ocupação
árabe, em que as divisões administrativas foram definidas com base nas divisões romanas (Navas 2017,
47-48).
94 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

doações), podem ser contabilizadas ao longo de sete séculos (Clements 2009,


192-193).
Desconhece-se a data exata da fundação da povoação, mas o nome Os Bar-
rancos surge pela primeira vez num documento de 1493, onde se refere que a
povoação é habitada maioritariamente por castelhanos, apesar de, à época, ser
portuguesa (Navas 2017, 54). Leite de Vasconcelos refere também um documento
de 1527, onde consta a informação de que Barrancos teria 73 moradores, a maio-
ria dos quais castelhanos (Vasconcelos 1955, 9). A preponderância de população
espanhola na povoação, que se terá mantido até época recente, estará na base de
16
certas escolhas políticas, a favor de Castela, em vários momentos históricos .
Assim, as circunstâncias históricas, políticas, sociais e geográficas propicia-
ram a formação de uma identidade particular de Barrancos, de que a variedade
linguística que aí se desenvolveu é um traço importante. Leite de Vasconcelos
dá-nos conta da consciência dessa identidade por parte dos habitantes, que ele
observou em 1938:

«Da situação geográfica de Barrancos, do mesclado dos habitantes e da particu-


lar linguagem que falem (..) advém-lhes certo carácter de tradicional independência
moral. Quando chega a Barrancos algum aldeão de Moura, Beja, etc., dizem os Bar-
ranquenhos: “é um Português, vem ali um Português”. Como se êles não o fôssem!
Mas não deixam de dizer a quem vem de Hespanha: “vem ali um Hespanhol!”» (Vas-
concelos 1955, 10).

O barranquenho é comummente identificado como uma variedade do «por-


tuguês, com as características dos dialetos meridionais, ainda que revele fortes
marcas dos dialetos andaluzes» (Segura 2013, 120), apresentando também al-
guns arcaísmos, leonesismos e moçarabismos (Navas 1992, 232). A sua classi-
ficação como uma variedade do português decorre do facto de, no essencial,
17
os sistemas fonológico , morfológico e sintático serem os do português. Há, no
entanto, em todos estes níveis de estruturação linguística, assim como no léxico,
traços que podem ser atribuídos a influência da língua espanhola, que diferen-
ciam o barranquenho de outras variedades dialetais do português.
Assim, são geralmente consideradas como traços do espanhol no barranque-
nho as seguintes características fonéticas (Vasconcelos 1955, 12-14; Navas 1992,
233-235; Navas 2017, 66-71):

16
Na crise sucessória de 1383-1385, Noudar terá estado do lado do pretendente castelhano ao trono; também
nas guerras da Restauração se terá colocado do lado dos espanhóis, pois D. João IV ordenou a sua destruição
(Navas 2017, 56).
17
No sistema fonológico do barranquenho, manifestam-se as características que definem o português, por
oposição às demais línguas da Península Ibérica (Vasconcelos 1995, 18).
LÍNGUAS E HISTÓRIA(S) DE FRONTEIRAS
95
Isabel A. Santos, Cristina Martins, Isabel Pereira

18
i) ausência de oposição B/V ;
ii) aspiração ou supressão de consoantes sibilantes em final de sílaba, e mais
particularmente em final de palavra;
iii) supressão de /l/ e, sobretudo, de /r/ em final de palavra.

No domínio da morfossintaxe, encontram-se também alguns traços caracte-


rizadores do barranquenho com potencial origem na língua espanhola (Navas
1992, 236-239; Navas 2017, 71-86; Clements 2009, 201-208; Clements, Amaral e
Luís 2011, 406-412), de entre os quais destacamos:
i) alteração do valor de género de alguns nomes (exs.: a leti [port., o leite]; a
19
nari [port., o nariz]; u laranju [port., a laranja] );
ii) uso do pretérito perfeito composto com valor de pretérito perfeito simples
(ex.: o tenho visto há mais dias [port., vi-o há alguns dias]; cf. Clements, Ama-
ral e Luís 2011, 406);
iii) preferência pela anteposição do pronome clítico ao verbo (ex.: a furmiga le
disse que sim [port.: a formiga disse-lhe que sim]; cf. Navas 1992, 239);
iv) duplicação do objeto indireto (ex.: i eu lhe disse à rapariga [port., e eu
disse-lhe ou e eu disse à rapariga]; cf. Clements, Amaral e Luís 2011, 410).

No domínio lexical, são numerosos os itens de proveniência castelhana usados


20
no barranquenho , mas também se encontram alguns arcaísmos e itens lexicais
registados apenas nesta variedade, de proveniência incerta (Navas 1992, 243).
As particularidades da variedade barranquenha, nomeadamente a existência
de características linguísticas atribuíveis à língua espanhola num dialeto portu-
guês, têm levado à discussão sobre a sua classificação como uma língua mista.
Já Leite de Vasconcelos refere que «por alguns dos seus fenómenos, concorrerá
para o estudo das línguas mixtas» (Vasconcelos 1955, 31); e Manuel Alvar corro-
bora que se trata de uma «‘linguagem fronteiriça’ meridional, en relación con lo
que sabemos de las ‘mezclas de dialectos’» (Alvar 1957, 370).
O conceito de língua mista não é de definição consensual; as aceções que
são atualmente mais difundidas no âmbito dos estudos de contacto de línguas
são certamente diferentes daquela a que Leite de Vasconcelos e Alvar se refe-
riam e a que, na época, a Glotologia geral concedia muita importância. Clements,
Amaral e Luís (2011, 395), à luz de definições mais rigorosa e criteriosamente

18
Nas línguas da Península Ibérica, a oposição B/V apenas ocorre no português, nomeadamente nos dialetos
centro-meridionais, em que se integra a variedade padrão da língua. A inexistência desta oposição caracteriza
os dialetos portugueses setentrionais, que assim se aproximam das restantes línguas peninsulares Não é,
no entanto, plausível que a presença deste traço no barranquenho esteja relacionada com os dialetos por-
tugueses setentrionais, sendo, portanto, atribuído a influência do espanhol, com que tem contacto próximo
e continuado no tempo.
19
Optou-se por uma grafia fonética, a fim de permitir uma leitura ilustrativa da realidade fonética.
20
Vasconcelos refere, «à toa», calabaça, côdu, culebra, nutra, pilá, tubilhu (Vasconcelos 1955, 16).
96 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

formuladas, consideram que o barranquenho «is a type of Spanish-Portuguese


language mixture». Estes autores apresentam os seguintes critérios que definem
uma língua mista:
i) ser língua nativa e de comunicação de uma comunidade de falantes;
ii) desenvolver-se numa situação de bilinguismo;
iii) ter o sistema gramatical de uma língua e o léxico de outra;
iv) ter uma ascendência de difícil identificação;
v) ser língua de um grupo étnico separado;
vi) emergir rápida ou abruptamente.

Se os dois primeiros critérios enunciados se aplicam inequivocamente ao


barranquenho, os restantes ou não se verificam, ou são de duvidosa aplicação.
No que respeita ao terceiro critério, a sua base lexical é portuguesa, assim como
o essencial da sua gramática, em que só alguns traços evidenciam uma origem
castelhana. Quanto aos três critérios seguintes, nenhum deles é cumprido no
barranquenho. Não há nada de obscuro na sua ascendência; os barranquenhos,
apesar da sua identidade diferenciadora (e da consciência dela), não podem ser
considerados um grupo étnico distinto dos outros habitantes da região; e não há
indícios de uma emergência rápida ou abrupta do dialeto, bem pelo contrário,
parece ter-se desenvolvido gradualmente, pelo menos desde o início do século
XIX (Clements, Amaral e Luís 2011, 396).
Assim, à luz destes critérios, não nos parece que esta variedade possa ser
classificada com uma língua mista. É inegável, no entanto, a sua identidade diale-
tal diferenciada, «uma variedade notável, e especialíssima, do falar do Alentejo
Baixo, devida principalmente à influência hespanhola (…) ainda que sobrepujada
pela portuguesa» (Vasconcelos 1955, 31).

5. CONCLUSÕES
Dos dados e considerações acima apresentados, uma constatação emerge:
as fronteiras políticas e as fronteiras linguísticas não são forçosamente coinci-
dentes. O espaço correspondente às fronteiras políticas é um lugar de contacto
entre línguas, não de separação. Daí decorre uma distribuição de variedades
linguísticas que nem sempre corresponde ao expectável. No que concerne às
(não) fronteiras do português no contexto da Península Ibérica, verificamos que o
contacto ocorre de diversas formas. Por um lado, com uma outra língua români-
ca, que se preserva em território politicamente português (o mirandês, do grupo
asturo-leonês). Por outro lado, com o castelhano, seja através da presença de
variedades galego-portuguesas em território espanhol (La Alamedilla, Serra de
Xalma, Herrera de Alcántara, Cedillo, Valencia de Alcántara, La Codosera, Olivença),
LÍNGUAS E HISTÓRIA(S) DE FRONTEIRAS
97
Isabel A. Santos, Cristina Martins, Isabel Pereira

seja através do desenvolvimento de uma variedade dialetal com características


das duas línguas, o barranquenho, exemplo inigualável de uma situação de con-
tacto linguístico.

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Leituras do
territorio.
Serra da
Estrela:
Saude &
Montanha
LER A SERRA
CRISTINA ROBALO CORDEIRO*

Colocarei estas breves palavras de abertura sob a invocação do deus Apolo,


deus das musas e deus curandeiro, habitante da montanha do Parnaso. Que ele
se mostre favorável à nossa iniciativa e nos acompanhe ao longo desta jornada
em que celebramos a Serra da Estrela, fonte de vida e de saúde!
O Plano Nacional de Leitura, PNL, na sua extensão à ciência e ao Ensino
superior, através do programa Ler + Ciência, pôs em marcha um projecto de-
nominado Leituras do Território, cujo objectivo é aprofundar o conhecimento
do nosso país junto de todos os cidadãos. Ora, Portugal, virado para o Oceano,
é também, como a Grécia de Apolo, uma terra de montanhas. E podemos orgu-
lhar-nos de possuir um dos mais belos maciços da Europa, embora viremos com
mais frequência o nosso olhar na direcção oposta, para o Atlântico.
O nosso povo fugiu, durante muito tempo – para não dizer sempre – da mon-
tanha para ir descobrir outros mundos pelos mares e além-mar! É um paradoxo
atestado pela literatura portuguesa, relativamente parca em evocações e descri-
ções serranas. Como se não soubéssemos escrever e ler a montanha.
É verdade que não somos os únicos que se mostram injustos e ingratos em
relação aos nossos cumes. A literatura de língua francesa teve que esperar por
Jean-Jacques Rousseau para que os Alpes obtivessem direito de cidadania no
romance. E, curiosamente, só no final do século 18 (precisamente em 1786) e por
influência deste escritor, nasceu o alpinismo, com a conquista do Mont-Blanc
por dois intrépidos Saboianos de Chamonix: o guia Balmat e o médico Paccard.
Até então, a montanha estava associada a imagens de natureza monstruosa e
selvagem, inculta e inóspita, feia e sinistra, que apenas os demónios e os deuses
podiam habitar.
E foi ao subir o Monte Sinai que Moisés, tendo-se descalçado em frente do
Arbusto em chamas, recebeu a revelação do Decálogo, único testemunho, sobre
o rochedo, da escrita do Senhor. Ao mesmo tempo inumana e transcendente,
a montanha permanecerá durante muito tempo – e ainda nos nossos dias, se
pensarmos no Tibete e nos Andes – envolta em misticidade.
Mas esta valorização extrema cedeu pouco a pouco o lugar a outras inter-
pretações. Se Rousseau iniciou um movimento de humanização da montanha,

*
Universidade de Coimbra.
104 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

que se desenvolveu e ampliou até nós, Nietzsche dela fez o lugar de origem do
seu super-homem, Zaratustra, de que Thomas Mann se recordará no célebre
romance A Montanha mágica, onde o seu herói, Hans Castorp, descobre a vida
superior das «gentes do alto».
Não nos surpreende que um romancista filósofo como Vergílio Ferreira adote
acentos nietzschianos para falar de uma realidade que lhe é familiar pois que
nasceu no pé da Serra. Escutemo-lo:

As minhas personagens perdem-se na cidade e vão depois reencontrar-se a si pró-


prias no silêncio das serranias. Porquê a importância da montanha? Porque ela é as-
censão, é um lugar habitado por deuses. Porque ela propicia ao homem a pergunta
essencial da sua vida: há sentido na terra para a humanidade? A montanha tem uma
subida e uma descida. Simbolicamente, ela é a síntese dos contrários: de um lado,
o homem frágil e insignificante. Do outro, a força majestosa e superior. O sonho é a
vontade que assiste ao homem de se transfigurar, de se transcender e subir tão alto
como os próprios deuses.

A montanha, para retomar a expressão de Gaston Bachelard, é indutora de


“psiquismo ascensional”. Ou, por outras palavras, ela possui uma relação directa
com a moral, ela é o próprio símbolo da vida moral. E não será preciso, como
dizia André Gide, “suivre sa pente, pourvu que ce soit en montant”?
Por seu lado, Miguel Torga insiste na autenticidade dos bens que a Serra nos
oferece. Cito uma passagem lírica do capítulo «A Beira» da sua obra Portugal:

Alta, Imensa, Enigmática,


A sua presença física é logo uma obsessão.
Mas junta-se à perturbante realidade uma certeza mais viva: a de todas as verdades
locais emanarem dela.
Há rios na Beira? Descem da Estrela,
Há queijo na Beira? Faz-se na Estrela,
Há roupa na Beira? Tece-se na Estrela,
Há vento na Beira? Sopra-o a Estrela.
Tudo se cria nela,
Tudo mergulha as raízes no seu largo e eterno seio.
Há energia elétrica na Beira? Gera-se na Estrela. (...)
Ela comanda, bafeja, castiga e redime.
Ao contrário de outras serras, o Marão e o Caldeirão;
a Estrela não divide: concentra. (…)
Se alguma coisa de verdadeiramente sério e monumental possui a Beira, é justa-
mente a Serra. (…)
LER A SERRA
105
Cristina Robalo Cordeiro

Há nela as três velhas dimensões necessárias a um tamanho: comprimento, largura


e altura. (…)
Somente a quem a passeia, a quem a namora duma paixão presente e esforçada,
abre o coração e os tesouros. Então, numa generosidade milionária, mostra tudo.
(…)
Revela, sobretudo, recantos quase secretos de mulher.

É verdade que hoje a montanha, mantendo algo de sagrado, é menos per-


corrida pelos deuses antigos do que pelos montanhistas, e atrai todos os que
querem respirar um ar puro, expor-se às influências saudáveis e magnéticas
do mineral, reconciliar-se com uma natureza ainda largamente preservada. Se
a montanha não é já o domínio dos profetas ou dos filósofos, ela é doravante
o território democratizado de todos os que se preocupam com os benefícios
psicológicos e físicos da altitude. Mas nela subsiste uma parte velada pois que a
montanha não nos desvendou ainda todos os seus segredos nem todas as suas
riquezas.
A integração deste projecto Saúde & Montanha no programa Leituras do Ter-
ritório, do PNL, Ler+ Ciência, faz assim todo o sentido. Resumir a vida cultural
de um país às atividades e às obras da capital e definir a vida cultural apenas
pela produção intelectual, são dois erros prejudiciais e comuns, que ignoram a
existência do território na sua fecundidade e na sua diversidade. Se tudo o que
fizemos e tudo o que nos fez não está contido nas nossas fronteiras atuais, o
território nacional, na modéstia da sua extensão, deve ser lido como um grande
livro no qual cada cidadão acrescenta, segundo o seu talento próprio, uma linha
ou uma página inteira.
É preciso aprender a ler esse património vivo, e haverá tantas leituras quan-
tos os aspetos locais que descobriremos, dos mais profundamente inscritos na
geografia e na história, aos que nos oferecem a mudança dos costumes, a evo-
lução dos valores, a inovação tecnológica e digital.
E se a valorização do território passa pela multiplicidade e riqueza das leitu-
ras que dele formos capazes de fazer, o mais completo conhecimento da mon-
tanha requer a participação, numa abordagem interdisciplinar, da maior parte
das ciências, da medicina sem dúvida, mas também da geografia, da geologia,
da mineralogia, da botânica, da história… e, escusado será dizer, da literatura! E,
sem nos encerrarmos num seminário científico à porta fechada, mas, através de
uma fórmula multimodal, quisemos combinar o estudo e o movimento, um pouco
à maneira das viagens filosóficas do século XVIII. Longe dos países exóticos,
será uma viagem na nossa terra, mas na qual a sensação de estranhamento e
de descoberta não será menor.
GEOGRAFIA, LITERATURA, VIAGEM:
LER O TERRITÓRIO, INTERPRETAR
A SERRA DA ESTRELA

RUI JACINTO*

1. LEITURAS DO TERRITÓRIO: A VIAGEM COMO MÉTODO,


O TERRITÓRIO COMO LABORATÓRIO
“Uma ciência há, porém, que se mantém esquiva ao laboratório, deixa aos outros
o manejo do microscópio, reduz ao mínimo o emprego de aparelhos e continua a
recorrer a meios elementares de investigação: pés firmes e olhos bem abertos. O
seu método é a observação; o seu campo de estudo é a face da Terra, quer nos
aspetos naturais, quer na expressão humana das regiões e das paisagens; o seu
meio próprio de expressão é o mapa, esquema e redução da realidade, localização
exacta de acidentes da natureza e de obras materiais dos homens” (Orlando Ribeiro,
1943, 1970: 189).

As leituras possíveis dos territórios remetem para debates antigos e multi-


facetados que ganharam pertinência e atualidade, designadamente no seio da
geografia, pela necessidade de encontrar novas metodologias de análise do
1
espaço e de estabelecer pontes para um desejável diálogo interdisciplinar . A
exaustão dos territórios motivada pela turistificação massiva, que se intensificou
nos últimos tempos, acentuou a demanda de caminhos alternativos para os ex-
plorar, fruir e observar, isto é, melhor conhecer os lugares. Superar uma leitura
restrita, baseada, exclusivamente, em elementos objetivos e materiais, conjuga-
da com dimensões mais intangíveis que apelem a subjetividades, sentimentos,
emoções, proporcionará uma interpretação mais enriquecida dos mesmos terri-
tórios.
A leitura holística dos territórios não prescinde que se explorem o interface
entre os dois campos definido por essa fronteira fluida localizada algures entre

*
Centro de Estudos em Geografia e Ordenamento do Território (CEGOT).
1
A discussão é recorrente e, como atestam por diferentes exemplos, é suscitada por motivos distintos: Savoir
lire le territoire: plaidoyer pour une géographie régionale attentive à la vie quotidienne (Antoine S. Bailly,
Jean-Paul Ferrier, 1986); Lire les territoires (Yves Jean et Christian Calenge, 2002).
108 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

2
a geografia e a literatura . Os geógrafos que começaram a explorar este diálogo
advogavam, por reação a um positivismo exacerbado e redutor, uma geografia
3
de pendor mais humanista (Y.-F. Tuan, 1974; A. Frémont, 1976; D. Pocock, 1988) ,
4
aproveitando as potencialidades da geografia literária e as possibilidades desta
frutuosa relação para prosseguir, nesta senda, uma linha de pesquisa que se
5
continua a diversificar .
6
As repercursões epistemológicas no seio da geografia resultantes destes
debates foram equivalentes ás geradas em torno da “diferença conceitual real
e importante entre o espaço (geográfico, social) e o território”, na tentativa de
decifrar “o que implica do ponto de vista da prática social, da ação política e das
representações culturais” o papel e a missão do geografo visando “melhorar
nosso conhecimento da verdadeira natureza dos territórios. Tal empreendimento
supõe a abertura de três projetos: um de definição das lógicas políticas, sociais
e culturais (mesmo ideológicas) das construções e do funcionamento dos terri-
tórios; o outro decodifica os efeitos reguladores de tensão que os governam;

2
É um debate transversal que tem sido animado, do lado da geografia, por estudos como: (i) Literature and
geography: implications for geographical research (Y.-F. Tuan, 1978); (ii) Geography and Literature (D. Pocock,
1988) (iii) Géographie et littérature (J.-L. Tissier, 1992; 2007); (iv) Entre géographie et littérature: frontières et
perspectives dialogiques (M. Brosseau, M. Cambron, 2003) (v) Géographie et littérature (B. Lévy (dir), 2006;
Le Globe, numéro thématique); (vi) Géographie et littérature (Bédard M., Lahaie C. (dir.), 2008, Cahiers de
Géographie du Québec, dossier) (vii) Géographie, Littérature, Territoires (Mauricette Fournier, 2016; Territoire
en mouvement, «Éditorial», Número temático); (viii) Literature and Geography (E. Péraldo (dir) 2016). No
caso português foi antecipado por Amorim Girão quando escreveu uma nota sobre Geografia e Literatura
(Boletim do Centro de Estudos Geográficos, Coimbra, 1952); nesta linha surgiram trabalhos como As outras
geografias: a literatura e as leituras do território (Rui Jacinto, 1995).
3
Importa destacar: Space and Place: Humanistic Perspective (Tuan Y.-F., 1974), La région espace vécu (A.
Frémont, 1976), Geography and Literature (D. Pocock, 1988) ou, ainda, Géographie humaniste et littérature:
l’espace existentiel dans la vie et l'œuvre de Hermann Hesse (1877-1962) (B. Lévy, 1989, Thèse de doctorat).
4
Exemplo: Pour une géographie littéraire (M. Collot, 2011); entre os elaborados por geografos lusófonos:
Território, poesia, identidade (Rogério Haesbaesrt, 1996; 2009), Geografia e Literatura: ensaios sobre
geograficidade, poética e imaginação (Eduardo Marandola Jr., Lúcia Helena Batista Gratão, 2010), O mapa
e a trama. Ensaios sobre o Conteúdo Geográfico em criações romanescas (Carlos Augusto de Figueiredo
Monteiro (2002), Geografia, literatura e arte: reflexões (Maria Auxiliadora da Silva; Harlan Rodrigo Ferreira
da Silva, 2010) e Ficção, espaço e sociedade: notas para uma leitura geográfica e social da obra de Alves
Redol – Avieiros (Fernanda Cravidão. 1992).
5
Estudos realizados em dois domínios apenas reforçam esta ideia:
a) Os que exploram diferentes estilos literários ou a geograficidade latente na obra de certos escritores,
dispersos por trabalhos como: (i) De l’esprit géographique dans l’œuvre de Julien Gracq (J.-L. Tissier, 1981);
(ii) Julien Gracq, un écrivain géographe: Le Rivage des Syrtes, un roman géopolitique (Y. Lacoste, 1987); (iii)
De l’imaginaire géographique aux géographies de l’imaginaire Écritures de l’espace (Dupuy L., Puyo J.-Y,
2015); (iv) Le roman policier. Lieux et itinéraires (M. Rosemberg, 2007, coordenador de um numéro thématique
de Géographie et Cultures).
b) aproveitam o potencial da literatura para estudar diferentes aspetos da geografia do turismo: (i) Herbert
D., 2001, «Literary places, tourism and the heritage experience», Annals of Tourism Research, vol. 28, no 2,
p. 312-333. (ii) Robinson M., Andersen H.-C., (dir), (2003), Literature and Tourism: essays in the reading and
writing of tourism, Londres, Thomson, 320 pages. (iii) Watson N.-J., 2006, The literary tourist. Readers and
Places in Romantic and Victorian Britain, Basingstoke, Palgrave Macmillan, 256 pages. (iv) Lévy B., Raffestin
C. (dir.), 2004, Voyage en ville d'Europe: géographies et littérature, Genève: Métropolis, 318 p.
6
Por exemplo: E.- W. Soja (1989). Postmodern geographies: The reassertion of space in critical social theory.
GEOGRAFIA, LITERATURA, VIAGEM: LER O TERRITÓRIO, INTERPRETAR A SERRA DA ESTRELA
109
Rui Jacinto

o terceiro trata do estudo das estruturas de lugares que desenham o esque-


ma simbólico no modo às vezes topográfico, às vezes topológico”. A tarefa do
geógrafo que pretenda medir “a natureza inevitável da formação de territórios
é, sem dúvida, trabalhar em sua descompartimentalização, sua abertura e seu
trabalho em rede, mas também em sua desmistificação. A explicação geográfi-
ca, enfatizando a natureza do artefato ideológico do território, contribui para a
luta contra os riscos de exclusão que ele transmite. Por outro lado, o dever do
geógrafo também consiste em trabalhar para promover os recursos de solida-
riedade, desenvolvimento e inovação sócio-cultural ou econômica que certos
territórios possuem. Em terceiro lugar, o geógrafo deve dar mais espaço à abor-
7
dagem fenomenológica ou vivida do espaço, em uma palavra à territorialidade” .
O estudo dos espaços vividos e das territorialidades, além das inevitáveis
questões de método que colocam, tornam ainda mais notório o papel da lite-
ratura e a importância da viagem para a Geografia. A relação com a viagem,
intima e cúmplice, sempre foi explorada como a maneira mais direta de ler e
compreender o mundo que nos rodeia. Desde a antiguidade que os geógrafos
deram a melhor atenção aos relatos das viagens, enquanto base para o seu tra-
balho ou como forma de exprimirem os resultados das respetivas expedições
cientificas. Este sentimento foi bem expresso por Orlando Ribeiro quando incluiu
a Geografia entre uma das “Ciências de ar livre”: “reserve também algum tempo
para passeios e excursões, parte essencial no ensino de algumas ciências, que
não pode ser afastado, sem grande transtorno, do aprendizado delas. Essas são
8
as ciências de ar livre ou da Natureza” .
A generalidade dos geógrafos não se distancia deste pensamento quando
realçam viagem e a importância do trabalho de terreno, embora façam a adver-
tência que o geógrafo não é um explorador ou um viajante. A ideia que a Geo-
grafia repousa sobre a prática de terreno só tardiamente se impôs, pois, o “seu
trabalho não consiste em relatar o que observa em cada lugar, mas transformar
a visão pontual dos que estão em contato com o real numa visão de conjunto,
na qual os campos se distinguem, as linhas se desenhem, as convergências apa-
recem. Que traz o terreno? Garante a autenticidade das observações recolhidas
e permite descobrir realidades que escapam às outras estratégias de investiga-
9
ção” .

7
Guy Di Méo (2002). Quels usages de l’espace et des territoires? in Lectures des territoires. In Jean-Pierre
Lécureuil- De la lecture des territoires, pp: 221-223.
8
Ciências de ar livre (Orlando Ribeiro, Diário Popular, 14 de Fevereiro de 1943, texto republicado em Variações
sobre Temas de Ciências, 1970: 189).
9
Paul Claval (2013). O papel do trabalho de campo na geografia, das epistemologias da curiosidade às do
desejo.
110 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

2. VIAGENS LITERÁRIAS E CIENTÍFICAS: A EXPEDIÇÃO


CIENTÍFICA À SERRA DA ESTRELA (1881) E SEUS ANTE-
CEDENTES
“Estas minhas interessantes viagens hão de ser uma obra-prima, erudita, brilhan-
te de pensamentos novos, uma coisa digna do século. Preciso do dizer ao leitor,
para que ele esteja prevenido; não pense que são quaisquer dessas rabiscadoras
da moda que, com o título de Impressões de Viagem, ou outro que tal, fatigam as
imprensas da Europa sem nenhum proveito da ciência e do adiantamento da espé-
cie. (…) Ora nesta minha viagem Tejo arriba está simbolizada a marcha do nosso
progresso social: espero que o leitor entendesse agora. Tomarei cuidado de lho lem-
brar de vez em quando, porque receio muito que se esqueça” (Almeida Garrett, 1864,
Viagens na minha terra).

O espirito romântico, vigente em meados do seculo XIX, ao animar o renasci-


mento das artes e da ciência, não só contaminou as letras como representou um
estado de alma que ajudou a temperar o fontismo. Esta nova atitude criou um
ambiente propício ao desenvolvimento da viagem, tanto as de índole literárias
como cientificas, de que destacamos dois exemplos flagrantes: a obra Viagens
na minha terra (Almeida Garrett, 1864) e a célebre Expedição à Serra da Estrela
(1881), marcos incontornáveis da relação que, entre nós, se havia de estreitar
entre viagem, literatura e geografia.
A harmonia entre o corpo e o espírito, cultivada à luz destes princípios, ha-
via de conduzir ao desenvolvimento da prática desportiva e do contacto com a
natureza, estimulando o desejo de aventura, evasão e aprendizagem através
da viagem. Estamos perante valores que estiveram no dealbar do turismo e fo-
ram fonte de inspiração para as viagens literárias ou as que foram animadas por
preocupações cientificas. Os princípios e valores que desenham este pano de
fundo são ainda alguns dos pressupostos que levaram à criação das Sociedades
de Geografia, agremiações que despontam no inicio do século XIX, e se difun-
dem no mundo animadas por dois objetivos fundamentais: fomentarem a ciência
que lhe havia dado o nome e patrocinarem expedições cientificas a terras remo-
tas pouco conhecidas.
O contexto social, cultural e politico, sucintamente enunciado, foi a moldura
que enquadrou as expedições que se realizariam a África e a que teria como
destino a Serra da Estrela. O mesmo espírito de curiosidade, aventura e interes-
se cientifico que animou estes exploradores a percorrerem os sertões, tanto os
africanos como as charnecas do interior continental, também presidiu a outras
viagens, sendo a mais famosa a empreendida por Almeida Garrett que o levou a
escrever Viagens na minha terra. O espirito que presidiu a este nomadismo teve
GEOGRAFIA, LITERATURA, VIAGEM: LER O TERRITÓRIO, INTERPRETAR A SERRA DA ESTRELA
111
Rui Jacinto

antecedentes de que nos chegaram relatos de viagens anteriores. Destacamos


duas destas viagens feitas na nossa terra: a viagem realizada por Alexandre Her-
culano (1853), cujo relato revela certo recorte literário, e outra, concretizada por
Gerardo Augusto Perry (1860), escrita num outro registo, cuja motivação está
mais proxima das expedições cientificas.
Os Apontamentos de viagem de Alexandre Herculano resultam de “algumas
observações e notas feitas numa viagem de serviço público durante o Verão de
1853, observações e notas inseridas em cartas a vários amigos mais íntimos”. O
historiador percorreu a Beira para visitar os tombos de conventos e igrejas, que
encontrou muito abandonados, procurando nestes depósitos com papeis velhos
documentos a que poucos prestavama tenção e não davam qualquer valor. O la-
bor deste seu deambular permitiu preservar o notável património imaterial com
que havia de alicerçar o vasto Arquivo que repousa na Torre do Tombo. Durante
esta viagem na Beira, Herculano não ousou penetrar na montanha imponente,
andando sempre ao redor da Serra da Estrela. As notas que redigiu durante esta
incursão na Estremadura e na Beira foram publicadas com a seguinte justifica-
ção: “Parece-me que não pela forma, mas pela matéria, elas deverão mover a
curiosidade dos leitores d’ O Panorama; porque o país da Europa mais desco-
10
nhecido entre nós é sem dúvida Portugal” .
A outra descrição duma viagem na Beira foi feita pelo tenente cartografo Ge-
rardo Augusto Perry, em 1860, resultante do trabalho de campo feito no âmbito
11
dos levantamentos cartográficos que foi incumbido realizar . O relato que pro-
duziu foi transcrito por Amorim Girão, a partir dum manuscrito inédito, que deu
à estampa com o seguinte título: Uma velha descrição geográfica do Centro de
12
Portugal . Perry subiu à Serra da Estrela para tirar cotas e dar expressão visual
ao modelado do relevo acabando por nos deixar as suas impressões sobre as
paisagens naturais e humanas que observou durante uma viagem feita por dever
de ofício. Descreve os lugares visitados e os modos de vida dos serranos que
foram os seus guias na subida à montanha, ainda relativamente desconhecida,
território que, por isso, continuava envolvido numa certa aúrea de mistério: “De
Manteigas fui fazer uma digressão ao alto da serra. Para uma excursão como

10
Os Apontamentos de viagem [1853-1864], incluídos num dos Tomos das Obras Completas de Alexandre
Herculano, foram reunidas e organizadas por Vitorino Nemésio (Livraria Bertrand, pp: 184).
11
Gerardo Augusto Pery de Linde (1835-1893) foi oficial do exercito e importante cartografo que, nesta quali-
dade, percorreu boa parte do centro e do sul do país com a missão de efectuar levantamentos cartográficos
sob o comando do general Filipe Folque. É da sua lavra o levantamento de muitas folhas da moderna Carta
Militar, sendo responsável por várias folhas da Região Centro na escala 1:100.000. Os conhecimentos do país
que adquiriu neste âmbito e o acesso a abundante acervo estatístico permitiram a publicação, em 1875, no
ano em que foi co-fundador da Sociedade de Geografia de Lisboa, duma obra pioneira, marco da moderna
geografia portuguesa: Geografia e Estatística Geral de Portugal e Colónias, com um Atlas (Imprensa Nacional,
Lisboa, 402 p.).
12
Amorim Girão (1951). Uma Velha Descrição Geográfica do Centro de Portugal. Boletim do Centro de Estudos
Geográficos da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, n.º 2/3, pp. 2-34.
112 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

esta, são precisos certos preparativos indispensáveis; tais são, arranjar bons prá-
ticos das veredas impercetíveis, apenas trilhadas pelos rebanhos de ovelhas; é
preciso fazer boa provisão de mantimentos, porque se pode dar o caso de ter
de ficar na serra mais tempo do que aquele que se deseja; e enfim fazer bom
fornecimento de casacos de abafar de mantas etc., para poder resistir ao frio.
(…) pusemo-nos a caminho para a parte mais elevada da serra denominada Serra
dos Cântaros, por aí haver dois enormes rochedos, a que chamam Cântaro Gor-
do e Cântaro Magro. Quando chegámos ao alto da serra onde se acha a Pirâmide
de primeira ordem, eram dez horas; tínhamos gasto sete horas nesta trabalhosa
ascensão. Chegado ali, ao ponto mais elevado de Portugal, a 2000 metros acima
do mar, eu quis abranger num só golpe de vista o grandioso e imenso horizonte
que se desenrolava em torno de mim”.
13
A recém-criada Sociedade de Geografia de Lisboa (1875) havia de patroci-
nar nas décadas seguintes a exploração das terras desconhecidas, de aquém e
de além-mar, mobilizando esforços para substrair do anonimato vastas parcelas
do império. O propósito de impulsionar o conhecimento cientifico, da geografia
e da cartografia, não era, contudo, o único objectivo que movia uma agremiação
que criou, no seu seio, imediatamente após a sua constituição, uma Comissão
Nacional Portuguesa de Exploração e Civilização da África, destinada a “desper-
tar a opinião pública para as questões do Ultramar”. O empenho da Sociedade
de Geografia de Lisboa por África não era inocente dada a concorrência que se
havia estabelecido entre as potencias europeias que apostam num novo impul-
so à colonialização do continente. Prepara, desde logo, as “primeiras grandes
expedições de exploração científico-geográfica, recorrendo a financiamento por
subscrição nacional, contribuindo assim para a definição de uma política colonial
portuguesa em África”. Embora tenha surgido mais tardiamente relativamente
às suas congéneres europeias, teve um papel importante na defesa da posição
portuguesa em África, perante o novo quadro geopolítico e os interesses emer-
gentes que se revelariam conflituantes.
As viagens de reconhecimento empreendidas por exploradores ingleses,
designadamente Cameron e Stanley (entre 1873 e 1875), apenas aceleraram o

13
A fundação da Sociedade de Geografia de Lisboa e a criação da Comissão Central Permanente de Geografia
ocorrem na sequencia do Congresso Internacional de Geografia, realizado em 1875, que teve profundas
repercussões em Portugal. Os estatutos da Sociedade de Geografia de Lisboa foram aprovados por alvará
de 29 de Janeiro de 1876, requeridos por Luciano Cordeiro, em 10 de Novembro de 1875; no seu Conselho
Central figuraram três destacados elementos da Direcção-Geral dos Trabalhos Geodésicos: José Júlio
Rodrigues, Carlos Ribeiro e Gerardo Augusto Pery, ficando Luciano Cordeiro como seu primeiro secretário
perpétuo. A Comissão Central Permanente de Geografia foi criada por decreto de 17 de Fevereiro de 1876,
assinado por João Andrade Corvo, Ministro da Marinha e Ultramar, sendo composta por 18 vogais efectivos
e funcionaria junto do Ministério dos Negócios da Marinha e do Ultramar. A sua missão era “coligir, ordenar e
aproveitar, em benefício da Ciência e da Nação, todos os documentos que pudessem esclarecer a Geografia,
a História Etnológica, a Arqueologia, a Antropologia e as Ciências Naturais, em relação ao território português,
e especialmente às províncias ultramarinas” (http://www.iict.pt/imagens/151.pdf).
GEOGRAFIA, LITERATURA, VIAGEM: LER O TERRITÓRIO, INTERPRETAR A SERRA DA ESTRELA
113
Rui Jacinto

envolvimento mais ativo da Sociedade de Geografia de Lisboa na salvaguarda


dos interesses de Portugal em África. Esforça-se para, sob a sua égide, patroci-
nar explorações no continente com o objetivo de ligar a costa Atlantica à con-
tra-costa do Índico. Importa não esquecer que a histórica Conferência de Berlim,
realizada em 1885, foi antecipada por um surto expansionista de potências eu-
ropeias no continente africano, motivo que levou ao patrocinio de expedições
de prospecção em territórios relativamente desconhecidos do interior africano.
Por este motivo Portugal teve de rever com urgência a sua política colonial e ter
de marcar presença mais efectiva em África para continuar a alimentar a sua
pretensão de legitimar a sua soberania sobre os sertões interiores entre Angola
e Moçambique. O empenho nestas expedições destinava-se a concretizar uma
ocupação mais efetiva sobre aqueles territórios, tanto mais que começava a ser
previsível os interesses ingleses sobre aquela parcela de África. Aquele vasto
território viria a integrar o célebre Mapa Cor-de-rosa, território disputado para
ser incluído na esfera de influência do império inglês, foco dum conflito que se
viria a instalar na sequência do Ultimato Britânico a Portugal (1890).
É neste contexto que acontece a célebre Expedição Científica à Serra da Es-
trela, patrocinada pela Sociedade de Geografia de Lisboa, a exemplo das que
havia apoiado em África. A Expedição à Serra da Estrela, dirigida por Hermene-
gildo Capelo, inscreve-se no espírito duma época e das profundas alterações
em curso, tanto do quadro geopolítico como do progresso técnico impulsionado
pela Revolução Industrial. A Expedição à Serra da Estrela fica indelevelmente
associada tanto às célebres viagens empreendidas por Capelo, em 1877 e 1884,
ao imenso sertão entre Angola e Moçambique, como à expansão do caminho de
ferro, um dos pontos altos daquela proclamada revolução. Sob o comando de
Hermenegildo de Brito Capello (1841-1917), oficial da marinha que havia granjea-
do enorme prestigio enquanto explorador do continente africano, partiram de
comboio, a 1 de Agosto de 1881, da Estação de Santa Apolónia, 47 expedicioná-
rios com destino à Serra da Estrela. Curiosamente, esta, como as viagens realiza-
das por Capelo e Ivens a África, também ficaram perpetuadas em interessantes
14
obras literárias .

14
As duas viagens de Hermenegildo Carlos de Brito Capello e Roberto Ivens proporcionaram outros tantos
livros, com forte impacto e ampla divulgação, intítulados: (i) De Benguela às Terras de Iaca, descrição de
uma viagem na Africa Central e Ocidental (Lisboa: Imprensa Nacional, 1881); (ii) De Angola á contra-costa;
descripção de uma viagem atravez do continente africano (Lisboa: Imprensa Nacional, 1886).
O decreto que os incumbiu de realizarem a primeira viagem (1877) referia destinar-se “a explorar, no inte-
resse da ciência e da civilização”. Foi iniciada na companhia de Serpa Pinto, surgindo divergências com este
explorador que o levaram a tentar, por sua iniciativa, a travessia até Moçambique; Brito Capelo e Roberto
Ivens, foram triunfalmente recebidos em Lisboa em 1 de Março de 1880. Manuel Joaquim Pinheiro Chagas,
Ministro da Marinha e do Ultramar, criaria uma Comissão de Cartografia (decreto de 19 de Abril de 1883),
com o objetivo de elaborar um atlas geral das colónias portuguesas, para a qual nomeou como vogais
aquels dois exploradores. A pretensão era criar um caminho comercial que ligasse Angola e Moçambique,
incumbindo-os de procederem aos reconhecimentos e explorações, por territórios desconhecidos, não
114 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

3. GEOGRAFIA LITERÁRIA: DA GERAÇÃO HERDEIRA DO


ESPÍRITO EXPEDICIONÁRIO AOS SUCESSORES DO GUIA
DE PORTUGAL
“Sei bem que a obrigação, seja o dever, de interpretar fisiograficamente as paisa-
gens constitui a grandeza ou a miséria do meu ofício; e ainda sei quanto seria correc-
to, do ponto de vista do mester, que me limitasse a considerar friamente, objectiva-
mente, a génese das rias e o significado destes acidentes na evolução morfológica
do litoral galego. Sim, sei bem tudo isso; mas tanto – confesso-o humildemente –,
foi superior às minhas forças: e enquanto derrocava quase de todo a deformação
imposta pelo ofício, aconteceu-me que surdisse do meu fundo emocional o melhor
da minha sensibilidade estética – e diante dessas cristalinas toalhas de água, de tão
calmo espraiar e assim caprichosamente insinuadas quilómetros e quilómetros pela
terra adentro, quase só tive olhos para que os deixasse presos do encanto prestigio-
so do cenário. E ainda que me insurgisse contra o que pareceu fraqueza profissional
e ficasse murmurando um contrito mea culpa! – acabei por me interrogar se acaso
um pobre de Cristo poderá assim tão facilmente libertar-se da sua condição humana
e evitar, logo ao primeiro contacto, o sortilégio fascinante da paisagem magnífica”
15
(Alfredo Fernandes Martins, 1952, Vesperal nas rias) .

A ideia visionária e inovadora de Raul Proença que levou à edição do Guia


16
de Portugal, publicado entre 1924 e 1970 , foi assumida por uma geração que

cartografados, nos quais era necessário avançar, recorrendo aos princípios da navegação marítima, tão
familiares a estes exploradores. Iniciam, assim, a segunda viagem (De Angola à Contra-Costa), entre 1884
e 1885, que estabeleceu a tão desejada ligação por terra entre as costas de Angola e de Moçambique.
A missão iniciou-se a 6 de Janeiro de 1884; regressaram em 20 de Setembro de 1885, sendo recebidos
triunfalmente pelo rei D. Luís.
15
Alfredo Fernandes Martins (1952). Tríptico galego. Crónicas duma viagem à Galiza publicadas, inicialmente,
no Diário de Coimbra (Ano XXIII, 1952).
16
O Guia de Portugal foi concebido e organizado por Raul Proença [até ao vol II] e, posteriormente, por Sant’anna
Dionísio. A obra, que teve como responsável gráfico Raul Lino, foi preparada nas Oficinas Gráficas da Biblioteca
Nacional de Lisboa e, a partir do vol III, editada pela Fundação Calouste Gulbenkian, que reeditou todos os
volumes, com apresentação e notas de Sant’ana Dionísio. Este “monumento de patriotismo cultural” (José
Rodrigues Miguéis), foi apoiado, quando Raul Proença já era “perseguido pela Ditadura Militar e o Fascismo”
e Jaime Cortesão dirigia a Biblioteca Nacional, sendo continuado pelo “Grupo da Biblioteca” [António Sérgio,
Aquilino Ribeiro, Câmara Reys e Raul Brandão] e o grupo da “Seara Nova”.
Publicaram-se os seguintes volumes: I vol: “Generalidades. Lisboa e Arredores”, 1924 [org. por Raul Proença];
II vol: “Estremadura, Alentejo e Algarve”, 1927 [org. por Raul Proença]; III vol: “Beira Litoral, Beira Baixa e Beira
Alta”, 1944 [org. por “um grupo de amigos de Raul Proença” (R. P. morre a 20 Maio de 1941), que assinavam,
Afonso Lopes Vieira, António Sérgio, Aquilino Ribeiro, Câmara Reys, Ferreira de Castro, Raul Lino, Reynaldo
dos Santos, Samuel Maia e Sant’Anna Dionísio” e sob coordenação de Sant’ana Dionísio [a reed. do III vol
dividiu-se em 2 tomos: tomo I (1993), “Beira Litoral” e tomo II (1994), “Beira Baixa e Beira Alta”]; IV vol: “Entre
Douro e Minho”, 1964/1965 [II tomos: I (1964), “Douro Litoral” e II (1965) “Minho”] [org. por Sant’ana Dionísio];
V vol: “Trás-os-Montes e Alto Douro”, 1969/1970 [II tomos: I (1969), “Vila Real, Chaves e Barroso” e II (1970)
“Lamego, Bragança e Miranda”] [org. por Sant’ana Dionísio]
(cf.: José Manuel Martins: http://arepublicano.blogspot.com/2013/06/guia-de-portugal.html)
GEOGRAFIA, LITERATURA, VIAGEM: LER O TERRITÓRIO, INTERPRETAR A SERRA DA ESTRELA
115
Rui Jacinto

comungava o espírito e a tradição dos expedicionários que protagonizaram, em


1881, a subida à Serra da Estrela. As duas gerações, como as que lhes haviam
de suceder, pretendiam mobilizar o conhecimento mais avançado de cada ramo
cientifico para promoverem uma leitura aprofundada dos territórios e, por esta
via, exaltar o património nacional e retirar do anonimato as parcelas mais remo-
tas e isoladas do país.
O Guia de Portugal acabou por representar uma plataforma que congregou
os que “não desejam fazer perpetuamente justa a frase célebre de Montesquieu,
ao dizer dos portugueses que tinham descoberto o Mundo, mas desconheciam a
terra em que nasceram; este livro, inventário das riquezas artísticas que ainda se
não sumiram na voragem, e das maravilhas naturais que ainda não conseguimos
destruir, antologia de paisagistas, «vade-mecum» de beleza, roteiro dos passos
dos portugueses enamorados, indículo das pequenas e grandes coisas, que re-
querem o nosso amor – pelo passado, pelo presente e pelo futuro – é Oferecido e
Dedicado” (Raul Proença, I Vol., 1924). No prefácio do volume seguinte, dedicado
à Estremadura, Alentejo e Algarve (1927), o mesmo Raul Proença escreveria não
pretender “um simples roteiro, um inventário inerte e seco, antes um livro que
ajudasse a sentir a beleza das paisagens e das obras de arte, a entendê-las, a
apreendê-las nas suas mútuas relações e a situa-las nos seus quadros naturais. O
meu intento, numa palavra, foi fazer deste guia a geografia pitoresca de Portugal”.
O êxito desta empreitada só foi possível por beneficiar do contributo de vá-
rios técnicos, especialistas de várias áreas do saber (Antropologia, História, etc.),
e duma rede de informadores dispersa por todas as regiões do país. Além de
reunir informação com manifesto interesse que o transformou numa referência
intemporal, o Guia não só continua a resistir a erosão do tempo como foi uma
verdadeira escola onde tarimbararam jovens intelectuais, escritores e geógra-
17
fos, que acabariam por se destacar . Várias publicações, literárias e académi-
cas, posteriormente editadas por autores envolvidos neste processo, são obras
que importa resgatar se estiver em causa aprofundar o frutuoso diálogo entre a
literatura e a geografia. Os estudos geográficos e as obras literárias enquadra-
das por esta linha de pensamento são contributos inestimáveis para uma leitura
mais assertiva da Beira, matriz que se situa na confluência de duas coordenadas
complementares: (i) geografia literária onde se incluem alguns estudos elabora-
dos por Geógrafos da Beira; (ii) literatura geográfica contida em obras de vários
escritores, onde deparamos com uma miríade de referências que, duma maneira
ou doutra, remetem para diferentes temas, lugares e espaços da Beira.

17
A contributo dos geógrafos para o Guia de Portugal foi assegurado por Amorim Girão, Orlando Ribeiro, Silva
Teles, Carlos Alberto Marques e Virgílio Taborda. Entre os escritores destacam-se nomes como: Afonso
Lopes Vieira, António Sérgio, Aquilino Ribeiro, Brito Camacho, Eugénio de Castro, Ferreira de Castro, Jaime
Cortesão, José Rodrigues Migueis, Júlio Dantas, Miguel Torga, Raul Brandão, Sant’ana Dionísio, Teixeira de
Pascoais, Tomás da Fonseca, Vergílio Correia, Vitorino Nemésio.
116 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Literatura geográfica produzida por Geógrafos da Beira. Os trabalhos de


geografia produzidos em tempos mais recuados adquirem um novo significado
se lidos, presentemente, com outro olhar e sob novas perspetivas. Elaboração à
luz dos canones metodologicos e das referências teóricas da época enfermam
duma certa ingenuidade e ausência de reflexão acrítica, motivo que levou, em
determinada época, a terem sido vilipendiados e negligenciados. Contudo, lidos
com estas ressalvas, assumem importância por refletirem um momento da his-
tória da geografia regional e reunirem informação preciosa que constitui, muitas
vezes, os poucos elementos pertinentes para o estudo dos espaços mais perifé-
ricos, marginais, quase sempre rurais.
Essa geografia primordial foi produzida quando esta ciência estava a dar os
primeiros passos em termos universitários. A sua leitura mais atenta permite re-
visitar um tempo e um espaço que nos ajuda a renovar a cultura territorial e,
portanto, imprescindível para alicerçar a arquitetura de novas abordagens geo-
gráficas e, porque não, de novas estratégias de desenvolvimento territorial. (Re)
ler os trabalhos deste período obriga a pesquisas aturadas em várias frentes:
18
Teses de licenciatura em Geografia, elaboradas até 1974 . O contributo da
investigação geográfica desta época permite uma leitura do país em geral e da
Beira em particular. Além de fornecerem um panorama evolutivo da moderna
geografia ajudam a compreender as dinâmicas das paisagens, naturais e hu-
manas, as metamorfoses económicas e sociais, isto é, esboçar o retrato mais
detalhado do país a partir de diversos fragmentos do mosaico regional.

Contributos dos geógrafos para o Guia de Portugal. Os volumes relativos à


Beira (Litoral, Baixa e Alta, 1944; 2ª ed. 1994) incluem relevantes colaborações
de Amorim Girão e de Orlando Ribeiro, além de contributos mais curtos de Carlos
Alberto Marques (Quadrasais, 1896-1965) e de Silva Teles (Francisco Xavier da
Silva Teles, Goa, 1860 – Lisboa, 1930). Embora Virgilio Taborda (Freixo de Espa-
da à Cinta, 1906-1936) não tenha qualquer texto, porque morreu relativamente
18
Os trabalhos produzidos no âmbito da Escola de Geografia de Coimbra foram compilados na obra Fragmentos
de um retrato inacabado - A Geografia de Coimbra e as metamorfoses de um país (António Campar, at al.,
2006; CEG, Coimbra). Entre as 107 teses de licenciatura em geografia apresentadas em Coimbra, entre 1936 e
1974, ano em que teminou este preceito encontramos esudos como: Amilcar Patricio (1939), A Cova da Beira,
Monografia geográfica; Maria Alice Quintela (1945), Esboço monográfico do concelho de Manteigas; Manuel
Virgilio Coelho (1954), Os gados na economia de Jarmelo; Maria Armanda Carvalho (1968), Evolução urbana
da Guarda; Olimpia Correia (1971), Aspectos da agricultura na Bacia de Celorico. A tese de licenciatura de
Alfredo Fernandes Martins, O esforço do homem na bacia do Mondego: ensaio geográfico (1940, Coimbra,
Tip. Bizarro, 299 p. Tese de licenciatura em Ciências Geográficas apresentada à Faculdade de Letras da
Universidade de Coimbra) continua a ser uma referência obrigatória sobre a Serra da Estrela e a bacia
do Mondego. As teses de mestrado em Geografia., que surguirão anos mais tarde, serão um sucedâneo
das que se acabaram de referir, não existindo muitas elaboradas sobre a Serra da Estrela, bem como de
doutoramento.
GEOGRAFIA, LITERATURA, VIAGEM: LER O TERRITÓRIO, INTERPRETAR A SERRA DA ESTRELA
117
Rui Jacinto

jovem, pouco depois de concluir o seu doutoramento em geografia (1932), foram


19
incluídas algumas fotografias da sua autoria (Sortelha, p. ex.) .

Roteiro de viagem elaborados por geógrafos. Os Livros Guias das excursões


realizadas no âmbito do XVIº Congresso Internacional de Geografia, realizado
em Lisboa, em 1949, da autoria de Fernandes Martins e de Orlando Ribeiro, são
a este título verdadeiramente exemplares. Ao compilarem informações uteis e
apresentarem temas geográficos sobre lugares e regiões a percorrer pelos con-
gressistas, nas várias viagens que fizeram a diferentes regiões de Portugal, re-
presentam um modelo de guia especializado que ainda continua a ser replicado.
O material reunido continua a ser importante a quem tem por destino o Litoral e
o Interior da Região Centro, particularmente a informação relativa à viagem de
20
um dia dedicada a visitar a Serra da Estrela .

Através destas obras é possível percorrer lugares e espaços da Beira na


companhia dos geógrafos que os estudaram em um qualquer momento. Esta
geografia da Geografia, campo de estudo ainda pouco explorado sistematica-
mente, permite definir diferentes Rotas a partir de lugares e territórios a que
ficaram perenemente ligados certos geógrafos por os terem estudado, por lá
terem nascido ou pelas fortes vivências. Pode-se palmilhar, assim, os mesmos
passos dos primeiros geógrafos, fundadores da geografia clássica em Portugal.
Citemos exemplos de alguns lugares que são nucleares para o desenho desta
Rota Geográfica da Beira: (i) Coimbra, que pode ser visitada a partir do imaginá-
rio urbano de Alfredo Fernandes Martins. Professor na Universidade de Coimbra,
os seus trabalhos e a sua vivência da cidade permitem traçar tanto um roteiro
urbano que une a Alta (Universidade e o Centro Histórico, designadamente a Rua
da Matemática onde nasceu) e a Baixa (cafés, onde este salatina manteve uma
tertúlia no defunto Arcádia). Além de outros lugares da região (Minde, Mira de
Aire, p. ex.) pontos incontornáveis das inolvidáveis viagens que orientou ao seu
Maciço Calcário Estremenho; (ii) Tondela (Anselmo Ferraz de Carvalho), Fataun-
ços, Vouzela (Amorim Girão) e Viseu (Amorim Girão e Orlando Ribeiro); (iii) Guar-
da, Serra da Estrela, Côa (Carlos Alberto Marques) ou Jarmelo (Virgilio Coelho e
Os gados na economia de Jarmelo); etc..

19
Orlando Ribeiro (Lisboa, 1911-1997) colaborou com as seguintes entradas: Beira Baixa. Introdução geográfica
e etnográfica; De Fratel a Castelo Branco; Proença-a-Nova e Sertã colab.; Malpica, Monfortinho, Idanha-
a-Nova; Beira Alta Introdução; Serra da Estrela. Clima; Vestigios glaciários; Pastoreio; De Seia a Alvoco
da Serra. Amorim Girão (Fataunços, Vouzela, 1895 – 1960) escreveu: Vale de Lafões; Serra das Talhadas;
Serra de S. Macário; Viseu — História; Serra do Caramulo; Serra da Estrela - Introdução. Contributos menos
expressivos foram assegurados por Carlos Alberto Marques (Guarda - Excursão ao Caldeirão) e Francisco
Xavier da Silva Teles (Ascenção ao Colcorinho).
20
Alfredo Fernandes Martins (1949). Le Centre Littoral et le Massif Calcaire d’Estremadura. Livret-guide de l’excur-
sion B du XIV Congrès Internacional de Géographie. CEG, Lisboa. Orlando Ribeiro (1949) - Le Portugal Central.
Livret-guide de l’excursion C du Congrès International de Géographie. CEG, Lisboa (reimpressão em 1982)
118 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Literatura geográfica da Beira: breve introdução a partir de alguns escrito-


res. As incursões literárias ensaiadas por alguns geógrafos e a contaminação
de certos escritores pela geografia pode ser testemunhada pelo enredo de al-
21
guns romances ou, mesmo, pelos títulos que estes atribuíram a certas obras .
Francisco Tenreiro (1921-1963), poeta e geógrafo nascido em S. Tomé e Principe,
é o nome incontornável e mais representativo do geógrafo português incluído
na galeria dos escritores. Embora a sua obra literária seja tão curta quanto a
própria vida, lançou precocemente um primeiro livro, de poema, Ilha do Nome
Santo (Coimbra, 1942; Nº 9 da Coleção “Novo Cancioneiro”). Este título é próxi-
mo do que deu à sua tese de doutoramento, em Geografia, A ilha de São Tomé:
estudo geográfico (1961, Memórias da Junta de Investigações do Ultramar); pu-
blicaria ainda Poesia negra de expressão portuguesa (Lisboa, 1953; com Mário
de Andrade) e Coração em África (concluído em 1962, embora publicado pos-
tumamente).
Alfredo Fernandes Martins é o caso flagrante do geógrafo que mais se apro-
ximou da escrita literária, perceptível mesmo nos textos de índole académica,
onde recorria a um estilo próprio e de recorte poético para descrever temas
relativamente agrestes, como os de geografia física, a sua área de especialida-
de. Destaco, a este propósito, as crónicas que publicou, fruto duma viagem de
estudo á Galiza, que reuniria numa brochura, que intitulou Triptico galego. Tra-
ta-se de pura literatura, escrita impregnada duma poética que qualquer escritor
consagrado não enjeitaria. Exemplo acabado da perfeita fusão entre literatura e
geografia não tem paralelo no registo de outros geógrafos mais prolixos, igual-
mente dados à escrita, como é o caso do brasileiro Milton Santos. As suas cróni-
cas jornalísticas não tinham as mesmas pretensões literárias; escreveu abun-
dantemente para os jornais de Salvador, textos que foram compilados em duas
obras: Marianne em preto e branco (Milton Santos (1957; 2010; Colecção Ponte
da Memória, Assembleia Legislativa da Bahia) e, mais recentemente, uma edição
mais extensa, coordenada por Maria Auxiliadora da Silva e Willian Antunes, Mil-
ton Santos: Correspondente do Jorna A Tarde 1950-1960 (2019). Orlando Ribeiro,
neste domínio, limitou-se a publicar um poema, dedicado a Maria Helena Rocha
Pereira (Revista Biblos, número especial de homenagem a esta académica).

21
Recordemos alguns títulos: Geografia Sentimental (Aquilino Ribeiro, 1951); A melancolia do geógrafo (Brigitte
Paulino-Neto, 1995); Geografia do medo (Francisco Duarte Mangas, 1997); Portugal. Geografia do Fatalismo
(Mário Ventura, 2001). Na poesia destacam-se: Geografia (Sophia de Mello Breyner Andresen,1972); Geografia
do Caos (Nuno Júdice; Duarte Belo, 2005; fotografia e poesia); A função do Geógrafo (Rui Cóias, 2000,
Poesisas); Geografia do Olhar (Ilda Figueiredo, Agostinho Santos, 2011;recentemente, Amosse Mucavele
(2017), escritor moçambicano, lançou um livro de poesia com o mesmo título) e, num outro registo, é ainda
de referir Geografia da Alma (Graça Morais). Há ainda exemplos de edições estrangeiras traduzidos em
Portugal: Atlas de Geografia Humana (Almudena Grandes, 1998); O sonho do cartógrafo. Meditações de
Fra Mauro na Corte de Veneza do Século XVI (James Cowan, 1996; 2000); Biblioteca do Cartografo (John
Fasman, 2005); O meu chapéu cinzento. Pequenas geografias (Olivier Rolin, 1999); O mapa e o território
(Michel Houellebecq, 2010).
GEOGRAFIA, LITERATURA, VIAGEM: LER O TERRITÓRIO, INTERPRETAR A SERRA DA ESTRELA
119
Rui Jacinto

A geograficidade que emana de romances de alguns escritores evidencia


que as fronteiras entre Geografia e Literatura nunca foram estanques, podendo
existir uma geografia implícita, não evocada nem traduzida nos títulos das respe-
tivas obras. O imaginário geográfico e a geograficidade latente em muitas delas
é susceptivel de contribuir para esboçar uma certa Geografia literária, à escala
do lugar, da região ou, mesmo, do país. A partir da geografia de certas obras e
do percurso de muitos autores é possível desenhar diferentes Rotas de Escrito-
res ou outros roteiros que aproveitam os mapas (poéticos, mentais ou, mesmo,
topográficos), sugeridos ou implícitos na trama romanesca, fundamentais para
uma leitura mais holística daqueles territórios.
Certas obras ou escritores transportam-nos a tempos mais recuados e a es-
paços que nos ajudam a aprofundar a leitura da Beira. O legado dos autores que
colaboraram no Guia de Portugal, no volume dedicado à Beira (IIIº Volume, 1944;
2ª ed. 1994), além de Raúl Proença e Sant’ Ana Dionisio, pontificam escritores
como Irene Lisboa, Hipólito Raposo ou Jaime Cortesão. A geografia literária que
plasmaram foi posteriormente retomada por outros escritores, ora centrada na
Beira ora abarcando uma visão global do país. A este propósito importa destacar
três autores que nos legaram, com perspetivas e estilos bem distintos, as suas
visões próprias e as leituras pessoais do país: Miguel Torga (Portugal, 1950), Jai-
me Cortesão (Portugal, a terra e o homem, obra póstuma publicada em 1966) e
José Saramago que, anos mais tarde, num outro registro e para outra finalidade,
22
edita a sua Viagem a Portugal (primeira edição em 1981) .
Jaime Cortesão, ao publicar Portugal, a terra e o homem, tocou num pon-
to caro à geografia e aos geógrafos da época (a terra e o homem), atribuindo
um título, curiosamente, semelhante à antologia que Vitorino Nemésio havia
publicado, em 1948, com o patrocinio do Instituto para a Alta Cultura. Tratava-
-se duma compilação de textos, de vários escritores, sobre as várias regiões do
país, destinados aos cursos de Língua e de Literatura Portuguesa no estrangei-
ro, edição que, segundo o autor, tinha por objetivo “fornecer ao mesmo tempo
boa literatura e temas objetivamente portugueses”, disponibilizando estratos de
obras representativas de “alguns quadros essenciais da vida portuguesa: terri-
tório, povo, costumes, terras”, situando o leitor “no tecido vivo da língua e no

22
A propósito da Viagem a Portugal de José Saramago escrevi num outro contexto: “as ricas e acutilantes
descrições interpretativas que faz da sociedade e do espaço, mesmo quando metafóricas e supostamente
ficcionais, como acontece em A jangada de pedra, não deixam de apelar a exercícios especulativos de
geografia prospetiva. José Saramago, embora não sendo geógrafo, não deixava de estar munido de uma
cultura territorial com que leu e interpretou o país. A preparação da Viagem terá beneficiado de ensinamentos
colhidos no Guia de Portugal, atrás referido, da leitura direta ou indireta de alguns geógrafos, sobretudo
Amorim Girão e Orlando Ribeiro, eventualmente das suas obras mais divulgadas, fosse a Geografia de
Portugal ou Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico. As observações de campo feitas durante a viagem,
temperadas pela subjetividade do olhar e a reflexão pessoal de José Saramago, acrescentaram valor ao
conhecimento inicial, sedimentando informação suficiente para podermos concluir que a cultura territorial
do autor quando termina a sua viagem será incomparavelmente superior a inicial” (Jacinto, 2013).
120 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

âmago da vida corrente: paixões, ideias, hábitos”. A obra de Nemésio, reeditada


em 1978 pela Fundação Calouste Gulbenkian. para celebrar o Dia de Portugal,
seria retomada, a partir de 1979, por David Mourão-Ferreira, com a colaboração
posterior de Maria Alzira Seixo.
Tem vindo a proliferar várias Rotas de escritores e Roteiros literários, expe-
riências que visam fomentar o turismo cultural, valorizar a Literatura e promover
a viagem explorando a cumplicidade de obras e autores com lugares e territó-
rios. A leitura dos territórios a partir da geograficiade de muitas obras tem vindo
a proporcionar várias abordagens, projetos e iniciativas, quer à escala urbana
como regional, de que se adiantam, a título indicativo, alguns exemplos:
(i) Rota dos escritores do século XX, definida na Região Centro, em 2003,
a partir da vida e da obra de Miguel Torga, Vergílio Ferreira, Afonso Lopes
Vieira, Fernando Namora, Carlos de Oliveira, Aquilino Ribeiro e Eugénio de
Andrade, definindo percursos por municipios a que, por uma qualquer razão,
os autores estiveram mais diretamente ligados (Cantanhede, Coimbra, Mi-
randa do Corvo, Condeixa-a-Nova, Idanha-a-Nova, Fundão, Gouveia, Leiria,
Marinha Grande e Vila Nova de Paiva).
(ii) Viajar com… os caminhos da literatura, iniciativa similar à anterior, orga-
nizada pela Delegação Regional da Cultura do Norte, apresentando alguns
roteiros literários definidos a partir de escritores ligados à Região Norte.
(iii) Lugares alentejanos na literatura portuguesa (Estação Imagem, 2009;
patrocinado pela Câmara Municipal de Mora), edição que associa fotografia
de paisagens do Alentejo inspiradas em obras de autores que escreveram
sobre a região.
(iv) Rotas de escritores a nível local, onde relevam os percursos urbanos, em
cidades como Coimbra (Namora, Torga, Carlos Oliveira, etc.), Leiria (Eça de
Queiroz, Torga, Lopes Vieira, etc.), Guarda (Virgilio Ferreira, Eduardo Louren-
ço, Miguel de Unamuno, etc.).

4. A TERCEIRA ENCOSTA DA ESTRELA: VIAGENS DE CAM-


PO E LEITURAS DA SERRA
“O viajante vai à serra, que é, por antonomásia, a Estrela. (...) É certo que se arrisca
a estar na serra e não ver a serra, mas confia que algum deus hermínio, desses que
na Lusitânia se veneravam e agora estão adormecidos, como o louvado Endovelico,
acorde do pesado sono secular para abrir umas nesgas de céu e mostrar ao viajan-
te os seus antigos impérios. (...) Em verdade, os deuses varrem bem as suas altas
moradas, mas deixam os humanos cá em baixo às apalpadelas, quando estes, ino-
centes, mais não pedem que ver a paisagem. (...) Eis a boa filosofia; tudo é viagem.
É viagem o que está à vista e o que se esconde, é viagem o que se toca e o que se
GEOGRAFIA, LITERATURA, VIAGEM: LER O TERRITÓRIO, INTERPRETAR A SERRA DA ESTRELA
121
Rui Jacinto

adivinha, é viagem o estrondo das águas caindo esta subtil dormência que envolve
os Montes" (Viagem a Portugal, 21ª ed.: 318-321).

Os modos de observar, ler e interpretar os territórios são tão amplos quan-


tas as motivações que impelem à viagem ou a escolher um qualquer destino. A
demanda de novos percursos e olhares sugere uma abordagem alternativa dos
territórios às propostas pelos roteiros tradicionais. Os que assumem esta atitude,
além de desejar a viagem, apostam em eleger um destino e alimentar um desejo,
perspetiva também comungada pelos que interpretam a viagem como uma ema-
nação poética da Geografia. Para estes “a viagem começa numa biblioteca. Ou
numa livraria”, pois, “chegar a um lugar sobre o qual nada sabemos condena à
indigência existencial. Na viagem, apenas se descobre aquilo que trazemos con-
nosco. O vazio do viajante produz a vacuidade da viagem; a sua riqueza produz
a sua excelência” (Michel Onfray, 2009:27).
Qualquer viagem tem um antes e um depois a enquadrarem o tempo e o
espaço em que ela se desenrola. Não nos debruçaremos sobre o depois, sobre
a pós-viagem, esse momento de balanço reservado a sedimentar, para memória
futura, as vivências e o espírito dos lugares e dos territórios entretanto apreen-
didos. A presente nota restringe-se, pois, a algumas considerações sobre o pe-
ríodo que precede a viagem e como, no seu decurso, se divaga nos territórios.

Antecedentes da viagem: guias, geografia literária, literatura geográfica. A


recolha de informação, literária ou de teor geográfico, é quase sempre o ponto
de partida para a viagem, a primeira aproximação ao território a percorrer e às
paisagens a observar. Esta (pré)viagem, solitária e virtual, pode configurar uma
digressão através duma geografia sentimental que antecipa a viagem concreta
ao explorar a geograficidade latente na literatura ou em obras geograficas.
Os elementos assim obtidos ajudam a esboçar um primeiro mapa mental do
destino eleito, enquanto os guias de viagem e demais obras literárias e geo-
gráficas fornecem uma primeira leitura dos locais a visitar, neste caso, a Serra
da Estrela.

Guias de viagem. A inflação de publicações ocorrida nos últimos anos, no-


meadamente as destinadas a orientar visitas à Serra da Estrela, tiveram por alvo
públicos diferentes. Os guias e os roteiros, elaborados com o objetivo de auxi-
liarem a observação do território e a contemplação da paisagem, editados por
diferentes entidades, podem organizar-se sob dois prismas complementares:
(i) Guias generalistas, como os elaborados pelo Parque Nacional da Serra
da Estrela (PNSE) (À descoberta da Estrela. Rede de percursos pedestres de
grande rota; A. Barbosa e A. Correia, 1998) ou pela Liga dos Amigos de Co-
nimbriga (Património Natural e Cultural da Serra da Estrela, 2008).
122 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

(ii) Guias temáticos, roteiros mais especializados, destinados a públicos com


interesses específicos, onde se destacam: Arqueologia da Serra da Estrela
(Jorge de Alarcão, 1993); Guia geológico e geomorfológico do Parque Natural
da Serra da Estrela (N. Ferreira; G. Vieira, 1999); Plantas aromáticas e medici-
nais do Parque Natural da Serra da Estrela (Ana Oliveira, Rafael Neiva, 2001);
Guia geobotanico da Serra da Estrela (Jan Jansen, 2002); Uma viagem pelo
Património Natural da Serra da Estrela (Carta lazer das Aldeias Históricas de
Portugal; INATEL, 2002).

Literatura geográfica: lugares, obras, rotas. O elevado número de autores


que escreveram sobre a Serra da Estrela releva das suas origens mergulharem
nesta geografia ou no facto das respetivas obras refletirem a importância ou a
emoção despertada pela montanha: se Virgilio Ferreira, Augusto Gil ou António
Alçada Batista se enquadrarem no primeiro motivo, Ferreira de Castro, por exem-
plo, corresponde à outra razão apontada. A partir dos lugares, das obras e dos
itinerários podem definir-se algumas linhas interpretativas:
(i) Lugares. Há povoações que se confundem com os escritores que aí nasce-
ram e onde podemos encontrar as respetivas casas: Melo, Virgilio Ferreira;
Paúl, Marmelo e Silva; Guarda, Augusto Gil; Covilhã, António Alçada Batista;
etc.. Neste roteiro, as bibliotecas públicas são lugares especiais, sobretudo
os que receberam os nomes de escritores, como acontece com a Biblioteca
Virgilio Ferreira (Gouveia), Eduardo Lourenço (Guarda) ou Eugénio de Andra-
de (Fundão). São lugares onde se respira o espirito dos seus patronos, a que
legaram acervos importantes ou, mesmo, partes das respetivas bibliotecas
pessoais.
(ii) Obras. Certos romances remetem para geografias bem precisas, para
tempos e espaços que se confundem com a realidades de territórios carto-
grafados em obras como Estrela Polar (Virgilio Ferreira, Guarda) ou A lã e a
neve (Ferreira de castro, Covilhã e a Serra da Estrela).
(iii) Rotas de Escritores. Os escritores acabam por pontuar os territórios com
sinais suficientes para, a partir daqui se definir uma rede de nós e eixos es-
truturantes que se desenham diferentes Rotas de Escritores. Os vários per-
cursos assim traçados, quer à escala urbana quer regional, permite-nos viajar
na serra ou na sua periferia imediata, na companhia de escritores como Antó-
nio Alçada Batista (Covilhã), Virgilio Ferreira, Augusto Gil, Eduardo Lourenço
(desde a Guarda a Melo ou S. Pedro de Rio Seco).

Geografia literária: geógrafos e geografias. Os primeiros estudos de caracter


geografico sobre a Serra da Estrela, realizados pela primeira vaga de geógrafos
com formação universitária especifica, tiveram como pioneiros Carlos Alberto
Marques e Alfredo Fernandes Martins. O primeiro, depois de ter publicado um
GEOGRAFIA, LITERATURA, VIAGEM: LER O TERRITÓRIO, INTERPRETAR A SERRA DA ESTRELA
123
Rui Jacinto

primeiro trabalho sobre a Bacia do Rio Côa, aproveitou o ano que passou na
serra a curar-se da doença que havia contraído para elaborar A Serra da Estrela:
subsídios para o estudo da geografia de Portugal, publicado em 1938 na Revista
Biblos (XIV; reeditado em 1996). Alfredo Fernandes Martins, concluíria em 1940
uma monumental tese de licenciatura, O esforço do Homem na Bacia do Monde-
go, onde dedicou páginas suficientes para que este estudo continua a ser uma
referência sobre o ambiente natural e humano da Serra da Estrela.
Contudo, foram os geógrafos então já consagrados, Amorim Girão e Orlando
Ribeiro, a dedicaram trabalhos posteriores à Serra da Estrela, designadamente
23
os, atrás referidos, incluídos no Guia de Portugal . Sobre a Serra Orlando Ribeiro
publicaria outros artigos, designadamente Contribuição para o estudo do pas-
toreio na Serra da Estrela (1941), a que se seguiu Significado geográfico do pas-
toreio na Serra da Estrêla (1941) e Estrutura e relevo da Serra da Estrela (1954).
Neste último trabalho abordou a evolução do modelado do relevo, a escadaria
de blocos da parte mais elevada, o contorno tectónico da parte setentrional, o
fosso do Alto Mondego, as fracturas e as “escarpas múltiplas, dispostas numa
escadaria marginal, e sulcos tectónicos interiores, deslocamentos ao longo de
planos de fractura paralelos” (p. 565). Não é possivel esquecer os trabalhos que
igualmente publicou sobre as áreas adjacentes: A Cova da Beira. Controvérsia
de Geomorfologia (1949), O fosso do médio Zêzere (1949), Três notas de Geo-
morfoloia da Beira Baixa (1951). Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico. Estudo
geográfico (Coimbra, 1945), a sua obra mais citada, inclui vastas referências à
Serra e á evolução da transumância. Escreveu bastante sobre diferentes as-
petos de geografia física e humana, do pastoreio ao queijo da serra, temas
indissociáveis que ainda envolve o imaginário da montanha mais alta. Discorre
ainda sobre a aldeia pastoril do Sabugueiro, os modos de vida na montanha, o
quadro natural da Serra da Estrela, as comunidades agro-pastoris, o povoamen-
to, as pastagens e os gados, a invernada e outras modalidades de transumância,
a agricultura e a evolução das atividades artesanais para a especialização na
mono-indústria dos lanifícios, perfil marcante duma fase não muito remota da
economia regional.

A viagem: miradouros, percursos e demais centros de interpretação e leitura


do território. A imersão no terreno, independentemente do modo de transporte
utilizado para lá chegar e nele nos movimentar, permite observar o território e
a natureza a céu aberto, sem filtros nem intermediação. Esta observação a céu
aberto, nos dias de hoje, não esgota a abordagem nem a interpretação dos

23
No volume do Guia de Portugal dedicado às Beiras Orlando Ribeiro, além do Pastoreio na Serra da Estrela,
publicaria ainda: de Seia a Alvôco da Serra, Beira Baixa: Introdução geográfica; de Fratel a Castelo Branco;
Proença-a-Nova e Sertã; Malpica, Monfortinho, Idanha-a-Nova; e, ainda, Beira Alta: Introdução, bem como,
Condeixa-a-Nova; Ruínas de Conímbriga.
124 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

territórios, complementar com a observação indireta, em espaços confinados,


lugares fechados, sejam osclássicos museus ou os novos centros de interpreta-
ção que começaram a proliferar.
Se os miradouros, as estradas panorâmicas e os diferentes tipos de percur-
sos podem ser considerados verdadeiros centros de observação das paisagens
a ceu aberto, sem custos para o observador, os museus e os centros de inter-
pretação representam outra maneira de nos aproximarmos, caminharmos e per-
corrermos o território. Estes centros são janelas que se abrem para o espaço e o
tempo, portas de entrada que fazem a introdução ao território, complementares
às “estradas verdes”, às rotas (de todo o tipo), aos percursos (pedestres, passa-
diços, etc.) ou aos consagrados e tão esquecidos miradouros.
Miradouros: centros de observação das paisagens a ceu aberto sem cus-
tos para o observador. A rede de marcos geodésicos, definida por lugares
localizados em sítios altos, onde se podem disfrutar rasgados horizontes,
foi fundamental para a cartografia moderna elaborar mapas cada vez mais
precisos. Como aconteceu neste caso, importa definir uma rede hierarquiza-
da de miradouros, devidamente (infra)estruturados, adequada à observação
das paisagens, com fins múltiplos, desde os pedagógicos, destinado à leitura
do território e à interpretação das paisagens, ao puro deleite dos cidadãos,
modo subtil de promover a literacia, renovar a auto-estima e as identidades
territoriais. Esta consciencialização, adquirida na primeira pessoa e sem in-
termediários, não só elucidará sobre a passagem do tempo, como o efeito da
ação humana e a incorporação de saberes no uso e na ocupação do territó-
rio. A definição desta rede de miradouros, devidamente (infra)estruturados,
pontos estratégicos de observação e de leitura do território, não deixará de
incluir, no caso da Serra da Estrela, uma rede definida pela Torre, Varanda
dos Carqueijais, Covão, Piornos, Nave de Santo António, Senhora do Espi-
nheiro, Torre de Menagem da Guarda, etc.
Percursos, rotas, itinerários: estradas verdes, rotas pedestres, passadiços,
circuitos. Os eixos que articulam lugares com diferentes tipos de interesse
(sítios arqueológicos, centros históricos, miradouros, património natural,
museus, etc.) definem percursos, rotas e outros itinerários imprescindíveis
à observação, peregrinação e contemplação da paisagem e do território.
Tais roteiros proporcionam diferentes possibilidade de os ler e interpretar
através de viagens, físicas ou mais intangíveis, que nos colocam em con-
tacto com lugares e paisagens impregnadas de memória. Existem rotas de
âmbito regional, sub-regional e local, oferecidas por todos os municípios,
vão dos percursos pedestres aos destinados a serem realizados de bici-
cleta ou em veículos motorizados, tocando lugares relevantes em termos
patrimoniais (natural e humano, histórico e cultural, material e intangível,
etc.). A Serra da Estrela está retalhada com percursos de todo o tipo e para
GEOGRAFIA, LITERATURA, VIAGEM: LER O TERRITÓRIO, INTERPRETAR A SERRA DA ESTRELA
125
Rui Jacinto

todos os gostos, existe tanto uma Grande Rota como uma Pequena Rota (PR),
exemplificada pela que tem com ponto de partida e de chegada Folgosinho
(Gouveia), um percurso que engloba o troço de duas calçadas romanas, uma
delas com a designação de Galhardos e a outra de Cantarinhos. A consagra-
ção da Serra da Estrela com o estatuto de Geopark Mundial pela Organização
das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) abre
novas oportunidades que importa integrar ao permitir explorar o elevado nú-
mero de geossitios e geomonumentos.
Museus e Centros de Interpretação: nós duma rede territorial e temática. A
rede de Museus locais e de âmbito regional, localizados na envolvente da
Serra, tem vindo a ser reforçada com um conjunto de Centros de Interpre-
tação, quase sempre temáticos, que importa levar em consideração nesta
aproximação à leitura do território que se tem vindo a propor. Sem uma preo-
cupação exaustiva apontam-se os Museus locais, focados no espaço, na arte
e na preservação da memória, podendo esboçar num ou noutro caso algu-
ma especialização, como acontece com o Museu Municipal de Arte Moderna
Abel Manta, inaugurado em Gouveia em 1985. De referir que, muitos destes
museus aproveitam edifícios que são património, por ser classificado, ser re-
presentativo ou integrar a memória urbana.
Complementa esta rede alguns museus temáticos, como os singulares Mu-
seus da Miniatura Automóvel ou do Brinquedo ou os dedicados a saberes e
fazeres locais, onde releva o Museu dos Lanificios (Covilhã), por preservar a
memória e a arqueologia industrial, o Museu dos Meios, ligado à tradição do
cobertor de papa, ou o Solar do Queijo da Serra da Estrela. Os Centros de
Interpretação, que correspondem a uma geração mais recente de equipa-
mentos, criados com preocupações mais ancoradas no território e com dis-
cursos expositivos mais inovadores e contemporâneos, tem como principais
representantes o Centro de Interpretação da Serra da Estrela (CISE; Seia), o
Centro Interpretativo do Vale Glaciar do Zêzere (Manteigas) e o Centro de
Interpretação do Geopark Estrela (Torre).

A leitura e interpretação do território bem como o pleno aproveitamento das


potencialidades e dos recursos locais passa por aproveitar todos estes ativos
dispersos no território e na envolvente da Estrela, estratégia de promoção que
nunca poderá ser isolada nem à margem duma efetiva cooperação territorial. A
valorização dos diferentes recursos tem de explorar complementaridades inte-
gradoras, explorar diversas redes e cumplicidades tecidas a partir de diferentes
geografias com geometrias variáveis e diferentes sentidos, que permitam: (i) ex-
plorar complementaridades que intensifiquem relações e enfatizem os principais
produtos e recursos locais comuns (queijo da serra, património natural, cultural,
imaterial, etc.); (ii) promover a cooperação e o diálogo intermunicipal, sobretudo
126 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

em torno da Serra da Estrela, para valorizar afinidades e especializações, a partir


das áreas classificadas e das paisagens de montanha (Açor, Lousã, Malcata, Gar-
dunha, Douro Internacional, etc.); (iii) integrar a rede regional de equipamentos
interpretativos de diferentes recursos do território, que se tem esboçado nos
últimos anos, servindo de exemplo o Centro de Interpretação da Serra da Estrela
(Seia), Museu Judaico, Ecomuseu do Zêzere e À Descoberta do Novo Mundo
(Belmonte), Solar do Queijo (Celorico da Beira), Museu dos Lanifícios (Covilhã),
Palácio do Picadeiro (Alpedrinha, Fundão).

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2
HELENA GONÇALVES PINTO

TERRITÓRIO, EXPEDIÇÃO E CIÊNCIA


A Expedição Científica à Serra da Estrela, em 1881, apresenta-se como um
marco histórico do conhecimento e da aventura que motivou os principais mo-
mentos dessa viagem expedicionária.
O desconhecimento e a intensidade imagética que envolvia o território da
Estrela motivaram um conjunto de cientistas, historiadores e militares a procurar
desvendar esse longínquo ponto do território nacional. Auxiliados por guias-pas-
tores e outros habitantes da Serra, os expedicionários avistaram a montanha,
cada um reclamou-a e estudou-a de forma exaustiva.
Iniciada a viagem e transpostas as suas encostas temerosas, eis que chegam
ao cume.
Inebriados, entre risos infindáveis e saudações estrondosas, todos contem-
plam, sob a luz brilhante e intensa, a poderosa paisagem. Enquanto durou este
momento, o grupo sucumbia de pasmo perante o panorama que se abria aos
seus olhos – um horizonte sem fim, promontórios e cumes rasgados – num dia
marcado por um sol ardente e sem vento.

UMA NOVA VISÃO PARA UM LUGAR DE IMAGINAÇÃO E


DE SILÊNCIO
Nas salas da Sociedade de Geografia de Lisboa, nasce a 5 de Julho de 1880,
um projecto singular que passaria a preencher todas as suas Secções: organi-
zar uma Expedição à Serra da Estrela, como empreendimento pluridisciplinar de
aprofundamento do conhecimento daquele território. A proposta foi apresentada

1
Excerto da obra inédita “Uma viagem ao cume do conhecimento. A Expedição Científica à Serra da Estrela
em 1881”, de autoria de Helena Gonçalves Pinto.
2
Colaboradora do Centro Nacional de Cultura e docente da Universidade Autónoma de Lisboa.
134 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Serra da Estrela. Rochas estriadas e penedos erráticos no Covão Grande.


fotografia de César Henriques, 1884
col. HGP

por Luciano Baptista Cordeiro de Sousa, fundador da Sociedade, sob iniciativa


do matemático Luís Feliciano Marrecas Ferreira, contando com a fundamentação
científica do médico José Thomaz de Sousa Martins, motivado pelo interesse em
instalar sanatórios na Serra.
A Serra da Estrela era uma região ainda muito pouco conhecida por parte das
ciências, mas suscitava deslumbramento e impelia à aventura.
Em épocas anteriores, alguns touristes percorreram a Serra, motivados pelas
singularidades que se advinhavam, ou pelas assombrosas “alagoas ou poços, a
montanha dos cântaros, o pomar de Judas” e outras raridades geológicas descri-
tas, em finais de Setecentos, pelos especialistas em Botânica e Mineralogia, Hein-
3
rich Friedrich Link e Johann Centurius von Hoffmannsegg, em Voyage en Portugal ;
houve ainda outras incursões isoladas por parte de alguns especialistas.
No campo da Hidrologia Médica, designadamente, o médico Francisco da

3
Voyage en Portugal fait depuis 1797 jusqu’en 1799, par M. Link et le comte de Hoffmannsegg; contenant
une foule de détails neufs et intéressants sur la situation actuelle de ce royaume, sur l’histoire naturelle et
civile, la géographie, le gouvernement, les habitants, les moeurs, usages, production, commerce et colonies
du Portugal, spécialment le Brésil foi publicada originalmente em língua alemã e traduzida para francês em
1808, uma edição que incluía a Carte générale du Portugal. No capítulo dedicado à Serra da Estrela, os
naturalistas descreveram não só as singularidades geológicas e botânicas, mas pontuaram também o seu
relato com as aventuras vivenciadas, incluindo o momento em que o conde de Hoffmannsegg se perdeu
nos desfiladeiros do Cântaro Magro.
A EXPEDIÇÃO CIENTÍFICA À SERRA DA ESTRELA EM 1881. DA AVENTURA AO DOMÍNIO DO TERRITÓRIO
135
Helena Gonçalves Pinto

Fonseca Henriques descrevera as “Caldas da Covilham”, em Unhais da Serra, e


as Caldas de Manteigas em o Aquilégio Medicinal, editado em 1726.
No domínio da geografia foram importantes os levantamentos cartográficos
4
terrestres realizados pelo capitão militar Gerardo Augusto Pery (1835-1894) .
Tratou-se de um contributo decisivo e rigoroso para a representação da realida-
de sobre “a serra da Estrella, que faz parte da cordilheira mais extensa do reino,
orientada a NE. A SO.. Nesta parte central encontram-se comtudo a par das gran-
des serras lagos e fertéis vales, ao contrario do que sucede em geral na região
norte, onde os vales sao mais estreitos e profundos, o que claramente se vê no
5
mappa dos perfis orographicos” referindo-se mapa incluído na Geographia e
6
Estatística Geral de Portugal e Colónias .
Todavia, um grande avanço tinha ocorrido quando, no início de Oitocentos,
se medira a altimetria da Serra, sendo colocado o marco geodésico no ponto
mais alto e iniciadas algumas incursões e a produção de relatos e descrições de
7
viagens .
A Expedição Científica à Serra da Estrela modificaria, definitivamente, o co-
nhecimento deste território, pela vastidão e complexidade desta viagem, que
atribuiria, pela primeira vez, um valor estratégico para o desenvolvimento e pro-
gresso da região e das diferentes áreas científicas. Não obstante ter sido um
projecto movido por razões médicas por parte de Sousa Martins que preten-
dia comprovar cientificamente o valor médico do clima serrano –, a Expedição
acabaria por incluir especialidades várias do conhecimento, tornando-se numa
verdadeira expedição pluridisciplinar e cooperante.
A supradita Expedição foi dividida em Secções, à semelhança das existentes
na Sociedade de Geografia de Lisboa: Agronomia e Silvicultura, Arqueologia,
Antropologia, Geologia, Medicina (incluindo a Subsecção de Hidrologia Minero-
-Medicinal e a Subsecção de Oftalmologia), Meteorologia, Fotografia e Zoologia.

4
Pertenceu à Sociedade de Estatística de Paris e à Academia das Ciências de Lisboa. Cf. PERY, Gerard Augusto;
FRANÇA, F.M. – Vida e Alma: breve exposição de algumas verdades scientificas. Lisboa: Tip. do Futuro, 1870.
5
Carta geographica de Portugal: [Divisão por distritos e concelhos] / Publicada por ordem de sua Magestade,
levantada em 1860 a 1865 sob a direcção do Conselheiro Filipe Folque Gen.ral de Brig. Garduado e director
do Instituto Geographico; pelos officiaes do Exercito A. J. Pery, C.A. da Costa e G.A. Pery; Barreto, Palha e
Santos gr.. - Escala 1:500000. [Lisboa]: Instituto Geographico. BNP cc-956-r.
6
Lisboa: Imprensa Nacional, 1875.
7
Em 1836, Alexandre de Abreu Castanheira publicou As Alagoas da Serra d’Estrella, um relato da viagem que se
realizou em Agosto desse ano. Seguiu-se a publicação do relato da viagem que António de Vasconcelos Pereira
Coutinho de Macedo efectuou em Agosto desse ano na companhia da filha, Beatriz Emília de Vasconcelos
Castello Branco, e do marido, Alexandre Cupertino Castello Branco (autor de um trabalho sobre a Serra).
Na caravana seguiam doze pessoas, entre as quais Serafim Garcia Ribeiro (natural de S. Paio), Jerónimo de
Moraes Almeida e Sousa (director do abarracamento), pastores, caçadores, bagageiros, guias práticos e
Benedita (a jovem criada substituta que ocupou o lugar do jovem Laceiras, criado de D. Beatriz). A viagem
iniciou-se em S. Romão no dia 6 de Agosto, com saída da caravana composta por 12 pessoas montadas a
cavalo. As etapas seguintes de subida da Serra foram realizadas nos dias seguintes, alternando a subida
com as pausas para descanso e visita de algumas localidades.
136 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Serra da Estrela. Uma Geleira.


fotografia de César Henriques, 1884
col. HGP
A EXPEDIÇÃO CIENTÍFICA À SERRA DA ESTRELA EM 1881. DA AVENTURA AO DOMÍNIO DO TERRITÓRIO
137
Helena Gonçalves Pinto

A grandeza do empreendimento exigiu a formação de uma Comissão Orga-


nizadora para recolher todas as informações existentes e planificar a agenda
diária. Foram produzidas as Disposições Regulamentares, um interessante con-
junto de normas específicas para o corpo expedicionário, onde se enunciam os
projectos de estudo das diferentes secções científicas e se faz a apresentação
das equipas superiores, auxiliares e de serviço. Em simultâneo, foram dirigidos
convites a exploradores experientes, como Alexandre de Serpa Pinto, Hermene-
gildo Capello e Roberto Ivens. Serpa Pinto e Roberto Ivens acabariam, contudo,
por declinar o convite, pois estavam comprometidos com projectos internacio-
nais. O prestigioso lugar de presidente da Comissão Administrativa foi entregue
a Hermenegildo Capello.
Os restantes elementos – cientistas e investigadores –, maioritariamente só-
cios da Sociedade, inscreveram-se voluntariamente, movidos pelo interesse de
conhecer aquela região. Uma equipa seguiu antecipadamente para a Serra, em
Junho, iniciando assim os levantamentos topográficos das cabeceiras dos vales
do Mondego, Alva e Zêzere e da planura, coincidindo este trabalho com o tirocí-
nio de alguns dos elementos do pessoal técnico e auxiliar.
Os objectivos específicos da Expedição passaram por estabelecer um
posto meteorológico na região dos Cântaros, já que a observação meteoro-
lógica, associada com o estudo de climatologia médica e a flora aplicada à
farmacopeia, eram fundamentais para toda a investigação programada por
Sousa Martins.
A 14 de Julho estabeleceram-se os grupos de trabalho, percursos e as equi-
pas, definiram-se estratégias e conselhos, fizeram-se listas de materiais e equi-
8
pamentos necessários . A Comissão Organizadora foi decisiva para o estabeleci-
mento de laços intergovernamentais e intermunicipais, que seriam fulcrais para
a concretização deste ambicioso projecto.
Previram que, durante os dias na Serra, cerca de uma centena de homens
montava o acampamento, levantava as estruturas de madeira e as barracas para
acolher os laboratórios das diferentes especialidades científicas de cada Secção.
Foram adquiridos equipamentos e laboratórios portáteis para as Secções de
Hidrologia Médica, Fotografia, Meteorologia (termómetros de “funda, de máxi-
9
ma e de mínima”, barómetros, psicómetros) .

8
Júlio Augusto Henriques era o cientista que melhor conhecia a Serra da Estrela, já que, em Julho de 1880,
tinha percorrido uma grande extensão do território.
Desta vez (1881), a Secção de Botânica previa partir de S. Romão, indo pela Senhora do Desterro até à Lapa
dos Dinheiros, seguindo para a Ribeira da Caniça, Nave, Vidoal, Pomar de Judas e Lagoa Comprida até ao
Planalto do Acampamento.
9
Alguns destes instrumentos foram encomendados pelo Ministério do Reino, por solicitação prévia da Sociedade
de Geografia de Lisboa e indicação precisa de Brito Capello. O Ministério acordou que, após esta Expedição,
os instrumentos deveriam ser entregues para serviço no Observatório D. Luiz, colmatando assim as lacunas
sentidas pela falta desses equipamentos científicos.
138 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

A Marinha Portuguesa cedeu um conjunto de equipamentos e utensílios: 100


10
macas de bordo e respectivos colchões (para evacuação de feridos), 3 sonda-
11 12
dores, 10 faróis de bordo , 20 ancoretas , 20 baldes, 2 ambulâncias (médica e
cirúrgica) com duas macas, 200 mantas, 3 caldeiros e fogões correspondentes,
13 14
100 marmitas , 100 cantis , 4 barcos de lona, 6 cantinas, 6 barracas de campa-
nha, 6 cintos de salvação, 1 estivado, 1 bóia e 1 patesca.
A Comissão conseguiu angariar 5 grandes volumes (contentores de madeira)
com mantimentos e 1 volume com ferramentas, além de 8 volumes com equipa-
mentos e instrumentos para a Secção de Meteorologia, 1 volume com equipa-
mentos e instrumentos de laboratório para Botânica, 1 volume com material para
a Secção de Zoologia, 12 volumes com material de laboratório para a Secção de
Química, 4 volumes com equipamentos e instrumentos para a Secção de Medici-
na e 1 volume para a Secção Administrativa (de expediente).
Os objectos foram cedidos pela Marinha Portuguesa, mas também os Minis-
térios das Obras Públicas, da Guerra e do Reino colaboraram. A Comissão Or-
ganizadora conseguiu o envolvimento das Câmaras Municipais da Guarda, do
Carregal, de Manteigas e de Seia, que deram um apoio fundamental, facultando
15
os meios de acolhimento, transporte e alimentação . A Câmara Municipal de
Seia cedeu onze trabalhadores para serviço no acampamento e, nessa localida-
de, também foram contratados dois carpinteiros. A Comissão Directora ficou res-
ponsável pela alimentação destes dois homens, mas as despesas da sua jorna
ficaram sob o encargo da Câmara.
O transporte do grande volume de material processou-se durante o mês de
Julho, com apoio da Companhia dos Caminhos-de-Ferro do Norte e da Companhia

10
Em ferro, arame e lona (SN-48, Museu da Marinha).
11
O modelo de farol dióptico de borda, a petróleo, de cor branca, em ferro e vidro (IN-IV-80, Museu da Marinha);
e o modelo de farol de borda, a petróleo, de cor vermelha, em cobre, latão e vidro (IN-IV-36, Museu da
Marinha).
12
Modelo de ancoreta com bebedouro, em madeira e ferro (PB-103, Museu da Marinha) e os modelos de copo
de ancoreta, em alumínio (SN-52, Museu da Marinha), e de copo de ancoreta, em aço e arame (SN-51, Museu
da Marinha). No acervo do Museu também se encontram os baldes, em madeira e ferro (PB-100, Museu da
Marinha) e, ainda, o modelo de balde, em madeira, latão e lona (PB-31, Museu da Marinha).
13
Em alumínio (EQ-30, Museu da Marinha).
14
Existem os seguintes modelos: Cantil, em ferro esmaltado e couro (EQ-25, Museu da Marinha); Cantil, em
ferro esmaltado e feltro, com copo de alumínio adaptado (EQ-9, Museu da Marinha); Cantil com copo, em
ferro esmaltado, cabedal e cobre (EQ-70, Museu da Marinha).
15
O Ministério da Marinha, através do director-geral, o visconde da Praia Grande, o chefe da Repartição, sr. Sori,
o superintendente do Arsenal, Silva e Costa, e o chefe dos Depósitos, o capitão-de-fragata Álvaro da Silva,
contribuiu com um conjunto diversificado de equipamentos e utensílios. Também os Ministérios das Obras
Públicas, da Guerra e do Reino colaboraram, entregando objectos para a logística da expedição. Também
a Câmara da Guarda, através do vereador Joaquim Gonçalves Ribas e a Câmara do Carregal, através do
presidente, Pedro Botelho Corte Real, e do vereador, António de Magalhães, deram um grande apoio, quer
facultando os meios de acolhimento e de transporte do grupo, quer facultando a logística e a alimentação.
Também ao comandante do Regimento de Infantaria n.º 13, da localidade, foi pedida a colaboração, forne-
cendo à comissão uma força de seis homens e um cabo para acompanhar a expedição na Fonte dos Perus.
A EXPEDIÇÃO CIENTÍFICA À SERRA DA ESTRELA EM 1881. DA AVENTURA AO DOMÍNIO DO TERRITÓRIO
139
Helena Gonçalves Pinto

dos Caminhos-de-Ferro da Beira, ficando sob a responsabilidade dos expedi-


cionários a bagagem de mão que, sugeria-se, deveria restringir-se aos objectos
pessoais: talher, copo, prato, chávena, toalha de mãos, material de escritório (pa-
pel, tinta, penas, etc.), bordão de montanha e tabaco (em quantidade suficiente
para os quinze dias de estada), bem como prevenir-se com a roupa necessária,
pelo que a comissão recomendava, no Aviso aos Expedicionários, que levassem
16
“fatos de inverno e de agasalho” , o que, afinal, se verificou ser excessivo, face
ao clima quente das horas diurnas e ameno nas nocturnas.

TOCAR A MONTANHA. A SERRA DA ESTRELA COMO LU-


GAR DE AVENTURA E DE EXPERIÊNCIA MULTIDISCIPLINAR
No dia 1 de Agosto parte, da estação da Linha do Norte, um comboio fretado
com um total de 23 carruagens. Nele, 43 expedicionários deixam Lisboa, sob
aclamação entusiástica da assistência de membros do Governo, da Sociedade
de Geografia de Lisboa, Lentes da Universidades, familiares e público interes-
sado.
O percurso em caminho-de-ferro foi sendo acompanhado pelas multidões
que acorriam às estações para saudar o grupo. Partindo da Guarda, a caravana
partiu de noite, até à Gaia e daí a cavalo, passando por Valhelhas, em direcção
17
a Manteigas, onde fez uma paragem para almoço e descanso . De novo em
marcha, era preciso vencer a parte mais árdua do trajecto com caminhos virgens
e sinuosos da montanha, que a todos fascinava, e em breve a emoção apode-
rou-se da caravana quando avistaram, finalmente, o acampamento, onde a 5 de
Agosto foram recebidos por salvas de tiros e gritos de triunfo.

16
“Aviso aos Expedicionários”, in Expedição Scientifica á Serra da Estrella: Disposições regulamentares. Lisboa:
Casa da Sociedade de Geographia, 1881, p. 1.
17
Quando a caravana saiu de Manteigas, deixou os médicos Augusto Jacinto Medina e Leonardo Torres, da
Secção de Medicina/Hidrologia. Sem hotel na povoação, os dois médicos ficaram acomodados em “systema
de alugar quartos e mandar cada um cozinhar o que quer”, pagando 160 réis diários nos dias 5 a 8 de Agosto.
O quarto foi simultaneamente laboratório, consultório, observatório, sala de dormir e de jantar.
As observações e as medições meteorológicas eram sistematizadas pelo menos em três momentos do dia:
das 6 às 9 horas; 12 horas; 21 horas da tarde, com auxílio de um barómetro, que “era um pequeno ameroide
sem thermometro adjacente”, não sendo, porém, possível realizar a correcção da altura barométrica, por se
ter partido na viagem o termómetro de mínima que tinha sido fornecido pela Secção de Meteorologia.
Os dois médicos colheram amostra da água termal e analisaram-na no laboratório. As observações médicas
foram sistemáticas, sendo criadas tabelas de registos dos aquistas que estavam nas Caldas fazendo os
seus banhos. Os dados quantitativos (número de banhos, etc.) e os dados qualitativos (perfil dos doentes:
idade, sexo, proveniência, doenças, uso de águas, observação, melhorias, etc.) foram sendo rigorosamente
avaliados.
Finalizada esta tarefa, partiram no dia 10, pelas 4 da manhã, em direcção ao acampamento, em caminhadas,
travessias difíceis, exigindo mais destreza e vitalidade energética por parte dos exploradores.
140 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Serra da Estrela. Grupo expedicionário pousando junto do Cântaro Magro, [c.1881]


col. de HGP

No acampamento da cumeada da Serra, cada expedicionário encontrou na


barraca principal uma maca de bordo e duas mantas para cama, uma bacia de
barro para lavagem, uma marmita para ração de cozinha e um cantil para ração
de vinho.
Grande parte da estrutura do acampamento foi, algum tempo antes, acomo-
dada pelo condutor de obras públicas Norberto Campos.
Ao lado da barraca principal, foi construído um pavilhão de madeira, para
arrecadação dos alimentos e dos materiais de logística da Expedição. Atrás, foi
colocada a barraca para o pessoal auxiliar, moços, guias e destacamento militar.
No outro lado dessa espécie de largo central (no centro do qual seria hasteada
a bandeira da Sociedade de Geografia de Lisboa), ficou a barraca da adminis-
tração; atrás, a barraca da Secção Química. Lateralmente à barraca do pessoal
superior e alinhando com a da administração, ficou a barraca da Secção Médica.
Desse lado, num plano superior, ficaram as barracas da Secção de Zoologia
e da Secção de Fotografia. Foi erguida a cozinha, num edifício com paredes
em pedra solta e tecto de madeira, para evitar os incêndios. Na elevação supe-
rior do terreno, desse lado, ficaram os edifícios do observatório meteorológico,
constituídos por um pavilhão de madeira, que também serviria de dormitório aos
observadores Hermenegildo Capello, Carlos da Silva e Jayme Silva. Um pequeno
A EXPEDIÇÃO CIENTÍFICA À SERRA DA ESTRELA EM 1881. DA AVENTURA AO DOMÍNIO DO TERRITÓRIO
141
Helena Gonçalves Pinto

pavilhão, com cobertura de colmo, teria um outro aparelho de observação. Para


além deste conjunto de barracas e pavilhões, foi construída uma cavalariça.
Nas localidades próximas, foram contratados caçadores, para fornecerem
caça durante toda a estada. O entusiasmo local era enorme, o que levou alguns
comerciantes a manifestarem a vontade de se estabelecerem no acampamento,
com uma barraca para venda de tabaco e outros artigos.
A dieta alimentar foi elaborada com enorme rigor, sendo afixados os menus
das refeições, cada um em articulação com a categoria profissional. Estas nor-
mas visavam o cumprimento de um regime rigoroso, quer no tempo de perma-
nência no acampamento quer no decurso das excursões de trabalho de campo.
Sem surpresas, as normas militares aplicar-se-iam a todo o quotidiano da
expedição, com as actividades definidas sob a autoridade do toque de uma cor-
neta militar, e a rigidez de um perímetro de protecção ao acampamento vigiado
e com controlo da circulação de pessoas externas, assegurados pelas guias de
marcha e identificação visível de todos os expedicionários com uma fitinha azul
que trariam na lapela do casaco ou no colete.
Foi, igualmente, determinado pela SGL, que todas as observações fossem
registadas em cadernos de campo, através de texto, desenho e, pioneiramente,
fotografia, com o apoio dos técnicos cedidos pelo Exército Português, o que viria
efectivamente a acontecer. Os dados e os espécimes colhidos na Serra seriam
posteriormente analisados, podendo toda a equipa contar com o apoio das uni-
versidades e dos centros de investigação, a que pertencia a maioria dos investi-
gadores expedicionários. Os trabalhos seriam da responsabilidade individual e
colectiva dos membros das secções, e cada equipa tinha um prazo de 6 meses
para a entrega dos relatórios gerais ou parciais à Comissão Executiva. Os resul-
tados seriam divulgados nas sessões da Sociedade de Geografia de Lisboa e
publicados, exclusivamente, nos relatórios desta instituição, estando proibido o
seu uso público ou os estudos correspondentes. A vastidão do projecto levava a
considerar que alguns trabalhos teriam de ser retomados nos anos seguintes. E,
no impulso inicial, previa-se que, em 1882, a Sociedade de Geografia de Lisboa
pudesse lançar um projecto igual para a Serra do Gerês.

COMISSÃO EXECUTIVA
Presidente: Conde de Ficalho; Vice-Presidente: João Capello; Secretário: Ro-
drigo A. Pequito; Tesoureiro: Eduardo Coelho; Vogais: F. A. de Oliveira Feijão,
Luiz F. Marrecas Ferreira e Nuno de Freitas Queriol.

COMISSÃO AUXILIAR DA GUARDA


Presidente: Francisco António Patricio; Secretário: F. P. Mouzinho de Albu-
querque; Vogais: A. C. Franco de Castro, Manuel Emygdio da Silva, Conde de
142 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Tavarede, José Augusto Barbosa Colen, Padre J. A. M. da Cunha, A. da Costa


Faro, J. A. S. Ribeiro de Castro, J. d’Elvas Leitão, H. P. Pinto Bravo, M. Lopes
de Sousa, N. A. de Almeida Campos, J. G. dos Santos e A. B. B. Portugal da
Silveira.

EXPEDIÇÃO TOPOGRÁFICA AUXILIAR


Direcção: A. X. de Almeida Pinheiro; Secção Central: A. C. Paes de Faria, Fol-
que, L. de S. Mouzinho de Albuquerque; Condutores-chefes de Trabalhos: A.
H. de Almeida Castello Branco, A. M. Beltrão, A. Marques da Silva; 1.ª Sec-
ção (Zêzere): Condutor Chefe de Secção, Bartholomeu Velladas; 2.ª Secção
(Mondego): Condutor Chefe de Secção, C. Agostinho da Costa, Condutor de
Trabalho, F. Sabino da Costa; 3.ª Secção (Alva): Condutor Chefe de Secção,
B. da Costa Roxo, Condutor Chefe, E. F. de Mello Garrido, mais o pessoal
superior da Direcção das Obras Públicas da Guarda.

EXPLORAÇÃO GERAL
Agronomia e Silvicultura (Chefe: Jayme Batalha Reis; Antonio Lopes Men-
des e Joaquim Pedro de Freitas Castello Branco); Antropologia (Chefe: José
Joaquim da Silva Amado); Arqueologia (Chefe: Francisco Martins Sarmento;
Gabriel Pereira e Joaquim de Vasconcellos); Botânica (Chefe: Júlio Augus-
to Henriques; Júlio Daveau); Química (Chefe: Carl von Bonhorst); Etnografia
(Chefe: Luiz Feliciano Marrecas Ferreira); Geologia (Chefe: João Eduardo Al-
bers); Hidrografia (Chefe: João Emilio de Sant’Ana Castello Branco), Subsec-
ção: Levantamento e Sondagens das Lagoas (Chefe: Francisco da Silva Ribei-
ro; Luís Feliciano Marrecas Ferreira); Medicina (Chefe: José Thomaz de Sousa
Martins. Subsecções: Hidrologia Minero-Medicinal (Chefe: Leonardo Moreira
da Costa Torres; Jacintho Augusto Medina); Oftalmologia (Chefe: Francisco
Lourenço da Fonseca); Meteorologia (Chefe: Augusto Carvalho da Silva; Her-
menegildo Carlos de Brito Capello e Jacintho Augusto); Fotografia (Chefe:
Frederico Augusto Torres; Alberto Júlio Brito e Cunha e Norberto Amâncio de
Almeida Campos); Zoologia (Chefe: Fernando Mattoso dos Santos); Secção
Auxiliar – Topografia (Chefe: António Xavier de Almeida Pinheiro; Augusto
Paes de Faria e Luiz da Silva Mouzinho de Albuquerque; auxiliados por 5
condutores de obras públicas).
A EXPEDIÇÃO CIENTÍFICA À SERRA DA ESTRELA EM 1881. DA AVENTURA AO DOMÍNIO DO TERRITÓRIO
143
Helena Gonçalves Pinto

A MATERIALIDADE E O DOMÍNIO DO TERRITÓRIO


Os programas previstos inicialmente foram cumpridos pelas Secções envol-
vidas nesta pioneira Expedição Científica à Serra da Estrela, permitindo conhe-
cer a orografia (planaltos, vales profundos e abrigados, encostas arborizadas),
a origem, profundidade e importância das lagoas, os cursos dos rios, as carac-
terísticas das águas termais, a orientação dos ventos e a relação climática, as
plantas e a vegetação (alpina e agrária), as lendas na tradição oral, a descrição
das antiguidades e as doenças dos habitantes locais.
A Expedição contribuiu, essencialmente, com resultados animadores para o
aproveitamento do Corgo das Mós e Vale do Conde como estância climatérica
de cura.
Os diversos trabalhos realizados revelar-se-iam, desde logo, estruturantes,
como o executado pelo Serviço Topográfico Auxiliar da Expedição (Mapa Geral
18
dos Levantamentos Executados ), para além da instalação de um posto de Cor-
reios e de Telégrafo-Postal, em Manteigas, e, no início da Expedição (5 de Agos-
to), de um observatório da Meteorologia, no Poio Negro, o ponto mais elevado
do local do acampamento (acima dos 700 metros da vila de Manteigas), numa
19
barraca que lhe estava destinada .
A observação meteorológica, as patologias das altitudes, a climatologia mé-
dica e a flora aplicada à farmacopeia eram os pontos fulcrais da investigação,
cujo programa foi preparado por Sousa Martins.
Os trabalhos posteriores de Meteorologia foram realizados por Augusto Ca-
pello, que ficou a viver “paciente como um beneditino e desinteressadamente
20
como um franciscano” .
Todavia, não chegaram a ser editados os relatórios das Secções de Agrono-
mia, Antropologia, Química, Geologia, Hidrologia, Fotografia, Zoologia e Zootéc-
nica.

18
“Serviço Topographico Auxiliar da Expedição Scientifica á Serra da Estrela. Mapa geral dos levantamentos
executados”. Escala 100.000, Lisboa 18 de Abril de 1882. Tela parafinada, tinta-da-china e cor vermelha.
As outras vinte e duas folhas do Mapa são igualmente em tela parafinada, tinta-da-china, tinta vermelha
(orografia), tinta azul (rios). SGL/Cota 7-H-23 (23 folhas)
19
Esta foi construída sobre uma pequena camada de terra que cobria o granito das fundações. Ficando
orientada no sentido do comprimento, na direcção do meridiano magnético, tendo, no alçado voltado para
E., a porta de entrada e duas janelas. O ponto “em que o terreno próximo estava mais alto, em relação ao
acampamento, era a Estrela, com 141 metros de diferença de nível, ficando a distância aproximadamente
de 1:750 metros e demorando a pirâmide de 13.º30’SE verdadeiros; a partir deste ponto, a altura do terreno
descia até ao Cântaro Gordo do lado E. e para W até um pouco além da pirâmide do Malhão Grosso, o qual
se marcava por 26 SW. Verdadeiros”. A elevação do solo dos 10º NE aos 52.º SW era formada pelos cabeços
do Rodeio Grande, que ficava muito perto do acampamento.
20
Martins, José Thomaz de Sousa – “Carta-Prefácio”, in Quatro Dias na Serra da Estrela. Porto: Livraria
Civilisação, 1884.
144 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Tendo a Medicina liderado esta Expedição, os resultados acabariam por dar


protagonismo à Botânica, ciência que realizou uma obra que se revelaria impor-
tante para o conhecimento das espécies, com manifesta aceitação por parte da
comunidade científica.
Depois das herborizações executadas e da recolha de espécimes, materiais e
outros dados, os trabalhos de análise foram continuados nos Institutos e Centros
de Investigação de Lisboa e de Coimbra.
A fecunda actividade prática deveria reverter na produção de relatórios espe-
cíficos, para serem publicados pela Sociedade de Geografia de Lisboa. Durante
esse período, foi intensa a colaboração entre os especialistas, tendo em vista a
revisão, confirmação e aferição das matérias. Esses contributos são visíveis na
documentação trocada entre Júlio Henriques, Júlio Daveau e Jayme Batalha Reis.
A secção de Medicina assentou os seus projectos num tripé terapêutico: a
natureza, a experiência e a ciência. A natureza da Serra da Estrela foi o seu ponto
de partida, a experiência foi o seu domínio de trabalho e a ciência o método de
verificação e de certificação.
Na prática, os trabalhos realizados promoveram a reflexão sobre a im-
portância que a medicina natural (ar, luz e sol) exercia directamente sobre o
homem. Os dados (atmosféricos, água e o estado de saúde das populações)
compilados são a parte constitutiva e dominante da Expedição, sobretudo para
explicar os efeitos da aeroterapia, hidroterapia, exercício e alimentação e a
sua maneira de actuar sobre o homem sadio, mas essencialmente sobre os
doentes e a sua cura.
Com esta exigência, a Climatologia Médica foi enriquecida com os dados me-
teorológicos colhidos a partir da Expedição, que viriam a confirmar positivamen-
te as qualidades do ambiente serrano para a cura da tuberculose. Os estudos
realizados no Planalto validaram as qualidades terapêuticas da Serra, e Sousa
Martins acabou por difundi-los em publicações e nas sessões da Academia e da
Sociedade das Ciências Médicas.
O texto mais importante deste projecto passou a ser “A Tuberculose Pulmo-
nar e o Clima de Altitude da Serra da Estrela” (1890), que Sousa Martins dirige ao
presidente do Conselho de Ministros, pedindo o aproveitamento da Serra para a
instalação de sanatórios e casas de saúde. Nesse documento, são apresentados
os dados clínicos e as experiências realizadas, que demonstravam que os facto-
res de altitude exerciam influência no aparelho respiratório humano.
No panorama internacional, Sousa Martins publicou estudos comparativos
entre a climatologia da Serra da Estrela e a estância Suíça de Davos Platz, a
funcionar desde 1865 e considerada um projecto inovador e modelar, para onde
algumas famílias portuguesas também se deslocavam para fazer as suas curas
termais e climáticas.
Na argumentação pelo desenvolvimento regional da Serra da Estrela, Sousa
Martins defendia que a Estrela reunia melhores condições para o desenvolvimento
A EXPEDIÇÃO CIENTÍFICA À SERRA DA ESTRELA EM 1881. DA AVENTURA AO DOMÍNIO DO TERRITÓRIO
145
Helena Gonçalves Pinto

de uma estância climatérica da cura da tuberculose, pela excelência dos seus


recursos endógenos – ar, sol, vento, temperatura, humidade, águas termais –, e
a sua concretização da estância deveria passar pelo investimento dos sectores
público e privado.
Na sequência da Expedição, logo no ano seguinte Sousa Martins consegue
demonstrar a validade dos seus estudos através do acompanhamento médico
de Alfredo César Henriques, o primeiro doente a ser instalado na Serra e a ser
por ela curado.
César Henriques foi, igualmente, o primeiro empresário na área da saúde,
tendo mesmo construído uma casa de cura a partir da gruta formada pelas várias
moles de granito – a Casa da Fraga – nas Penhas Douradas.
Os estudos climatológicos sobre a Serra da Estrela mereceram o apoio da
Academia Médica, mas a dúvida colocou-se sobre o local para a construção dos
sanatórios. Entre 1884 e 1890, foram propostos três locais: Vale do Conde (1700
m), Corgo das Mós (1600 m) e Santinha (1500 m). Tinham em comum as exce-
lentes condições de temperatura e humidade e coberto vegetal que propiciava
abrigo dos ventos fortes.
Segundo Sousa Martins, o “vale do Conde parece, sob esse ponto de vista,
o mais conveniente. Se assim se provar, ficará esse valle (…) um dos melhores
21
sanatórios do mundo” .
O modelo de investimento foi, pragmaticamente, esboçado pelo médico Sou-
sa Martins, no qual o Governo deveria assumir a construção das infra-estruturas
(a igreja e os edifícios para repartições públicas, a ampliação do posto de me-
teorologia) e estabelecer um plano de isenção de contribuições aos investido-
res, por um período de 10 anos, bem como aos comerciantes e industriais que
se instalassem nas altitudes de 1400 a 1800 metros, responsabilizando-se pela
construção dos edifícios capazes de servir a população doente e de promover
a instalação de serviços necessários à constituição de uma localidade (estação
de telégrafo-postal, serviço policial-sanitário privativo, estabelecimentos comer-
ciais e industriais). Tudo isto para além da criação de um hospital, tarefa que
seria posteriormente assumida pelo Club Hermínio.
Nas décadas seguintes, a maioria dos médicos portugueses já não debatia o
aproveitamento terapêutico da Serra para a cura da tuberculose, mas discorda-
vam no modo de aproveitar o inóspito planalto em centro sanatorial.
Os trabalhos consequentes foram lentos, depois de 1890.
Além do Posto de Meteorologia, realizaram-se alguns trabalhos de arboriza-
ção e a construção da estrada para ligar Manteigas a Gouveia. O Governo pouco
investiu na criação da estância sanatorial, assumindo a criação e manutenção

21
Martins, José Thomaz de Sousa – A Tuberculose Pulmonar e o Clima de Altitude da Serra da Estrela. Lisboa:
Imprensa Nacional, 1890, p. 30.
146 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

do posto meteorológico, os trabalhos de arborização da Serra, a construção da


estrada de Manteigas a Gouveia e os encargos com um professor de medicina
para elaborar o estudo da climatologia, da clínica e da bacteriologia médicas do
22
planalto . Por oposição, coube à iniciativa privada uma maior responsabilidade
e uma participação mais activa em fundar e manter um “modesto núcleo de um
23
sanatório embryonario” , pois, além dos estudos assumidos por Sousa Martins,
estava em construção o primeiro hospital, sob a responsabilidade e beneficência
do Club Hermínio.
O Sanatório das Penhas da Saúde seria constituído por diferentes chalés
construídos nessa encosta da Serra, servindo uns de habitação dos proprietários
e sendo outros arrendados a doentes.
No domínio da botânica, as excursões científicas sucederam-se, registando e
estudando os principais lugares e actividades rurais.
No campo desportivo, a Serra proporcionou novas aventuras aos excursionis-
tas e turistas, sendo trilhada de oeste a leste, de norte a sul “galgando as rochas,
pisando o cervum, banhando-se nas lagoas, batendo-se com os ventos ou espre-
guiçando-se sob o Sol da Montanha, não é só fazer vida na natureza, respirar o
ar rarefeito da altitude e recuperar a saúde gasta pela vida cotidiana da cidade;
visitar a Serra da Estrela é elevar a alma, purificar a mente, tornar a ser homem
24
despreocupado e livre”, como afirmava Fred Wachsmann .
A Água, o Ar e a Orografia motivaram a crescente complexidade projectual
nos vários domínios da Serra da Estrela, lançando os desafios para o aproveita-
mento territorial.
Nas décadas seguintes, novas estratégias emergiram, lançando a reflexão
sobre o espaço natural e construído. As experiências e os acontecimentos múl-
tiplos transformaram esta “paisagem de silêncio” numa multiplicidade territorial
com características únicas para acolher projetos estruturantes nas áreas da saú-
de e do bem-estar, desporto e lazer, economia e da cultura.
A Serra da Estrela será confirmada como lugar ilimitado de sensações subtis
ou enérgicas que se materializam pela especificidade do lugar e da cultura.

REFERÊNCIAS
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ABREU, Adelino de (1905). Serra da Estrela, Guia do Touriste. Lisboa: Livraria
Ferreira & Oliveira, L.da.

22
Idem, pp. 38-39.
23
Ibidem.
24
Wachsmann, Fred, Como Eu Vi a Serra da Estrela. Alcobaça: Tip. Alcobacense, [1948].
A EXPEDIÇÃO CIENTÍFICA À SERRA DA ESTRELA EM 1881. DA AVENTURA AO DOMÍNIO DO TERRITÓRIO
147
Helena Gonçalves Pinto

ARAÚJO, Norberto de (1932). “Caderno de Viagem: oito dias na Serra da Estrela


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EXPEDIÇÃO Scientifica à Serra da Estrela em Agosto de 1881 Promovida pela SGL
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PIRES, José Diogo (1891). COIMBRA Médica, Coimbra.
SERRA DA ESTRELA.
DOS BONS ARES AOS HORIZONTES

1
MANUEL SANTOS ROSA

De há muito que somos acompanhados pela referência intemporal aos bene-


fícios dos bons ares da serra, seja ela uma simples colina, ou a maior montanha
dos nossos horizontes geográficos mais próximos – a Serra da Estrela.
Curiosamente esta referência tem eco em episódios importantes de saúde e
doença, como no caso da construção de sanatórios em locais, muitos deles no
horizonte serrano, cujo ambiente (especialmente atmosférico) poderia propiciar
a cura da tão tenebrosa tuberculose.
A Serra da Estrela e a sua envolvente são disso um bom exemplo, em que
por um lado é aproveitada a qualidade do ar, a quase ausência de poluentes, o
diferente espetro de patogéneos microbianos, a diversidade de ambiente me-
teorológico, face à localização geográfica, mas também o efeito de altitude.
Este último pormenor é especialmente vincado no meio serrano de que fa-
lamos, com a evidente diminuição da temperatura e da disponibilidade de oxi-
génio atmosférico e o consequente estímulo à melhor utilização deste elemento
fundamental para a vida humana.
O oxigénio foi, e será sempre, o alicerce funcional da respiração, essencial
para o funcionamento celular, todos nós conscientes que a privação de oxigé-
nio leva a danos muitas vezes irreversíveis, ou mesmo a um processo fatal. É
ainda ele que permite muitos dos mecanismos de defesa contra agressores, es-
pecialmente contra os microrganismos. Contudo, é também o oxigénio que nos
envelhece e nos mata, como é bem conhecido pelo decifrar dos mecanismos
oxidativos, hoje tão em voga e tão massacrados pelo apelo aos anti-oxidantes.
É neste “dilema oxigenado”, ou de “prós e contra o oxigénio”, que a altitude
permite novos equilíbrios, geradores de uma melhor utilização deste elemento,
num ambiente de menor agressividade ambiental e consequente benefício para
a capacidade de defesa do ser humano.
Ora, se os nossos horizontes físicos são, quase sempre, mediados pelo ar,
que se quer límpido e puro como o da Serra da Estrela, para não os limitar, ou
distorcer, também não deixa de ser verdade que nesses horizontes se realça,
1
Universidade de Coimbra
150 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

de forma quase permanente, o elemento água. A maior componente do nosso


corpo é água, dependemos dela para viver e recebemos, com base na qualidade
físicoquímica e bacteriológica da água, significativas influências metabólicas.
Tornou-se assim perfeitamente natural a utilização da água não apenas como
bebida, mas para fins medicinais, protagonizados pelo termalismo. Mais uma vez
a Serra da Estrela e a sua envolvente abrem os nossos horizontes neste campo,
com excelentes áreas termais, associando as qualidades intrínsecas da água mi-
nero-medicinal, às técnicas de utilização termal (ultrapassando as limitações dos
SPAs). Gera-se, desta forma, para além da hidroterapia, um micro-ambiente de
relaxamento, de equilíbrio, que coadjuvado pelas propriedades termais, assume
um destacável benefício na saúde, quer como elemento profilático, quer mesmo
como terapêutica para determinadas patologias, como são exemplo as respira-
tórias e as músculo-esqueléticas.
Mas se os nossos horizontes estão de uma forma indelével associados ao
ar e à água, também se cruzam com a necessidade, basicamente energética e
estrutural, da alimentação. Cada vez mais procuramos uma “alimentação boa”,
ou uma “boa alimentação” e cada vez mais nos sentimos a perder o horizonte
do que devemos fazer.
O que dizer de um quotidiano de informação, formal e informal, de uma he-
terogeneidade e inconsistência aterradora – os 10 melhores alimentos; os 15 ali-
mentos que previnem o envelhecimento; os alimentos que não podem ser con-
sumidos crus, etc. Que pequeno horizonte comparado com o que naturalmente
nos pode propiciar a serra. Aqui podemos ter a tão importante sazonalidade dos
alimentos, a proximidade entre a produção, a colheita e a utilização, a diversi-
dade dependente da altitude, das características dos solos e da exposição solar.
E o que aqui encontramos não é apenas a possibilidade de “regressarmos às
raízes”, mas sim de compatibilizar a natureza e os produtos alimentares associa-
dos às mais modernas e promissoras dietas. É disto exemplo o recente sucesso
das dietas cetogénicas, baseadas no jejum intermitente, por certo já anterior-
mente mimetizadas de uma forma natural pela escassez de alguns alimentos em
períodos de maior adversidade climatérica, ou da tão necessária sazonalidade
alimentar.
Vivemos de horizontes, para horizontes, pelos horizontes, no fundo a quali-
dade de vida depende do horizonte que nos rodeia, dos que queremos atingir,
do equilíbrio com a natureza e do que conseguimos integrar na nossa felicidade
e bem estar. Embora em grande parte a qualidade de vida dependa de nós pró-
prios, é essencial saibamos usufruir do que nos rodeia e valorizar o que ainda
temos de bons recursos naturais.
Viver ou visitar a Serra da Estrela é um privilégio que não podemos menos-
prezar. Descobrir e preservar cada um dos pormenores deste magnífico horizon-
te é uma forma de os integrarmos na nossa qualidade de vida e bem estar.
DOENÇA-PAIXÃO-SAÚDE:
SERRA DA ESTRELA

1
Z. BISCAIA FRAGA
2
FRANCISCO FRAGA DE MELLO
3
ÂNGELA ALVES

Os autores na conferência proferida a 10 de maio de 2019, no CEI (Centro


de Estudos Ibéricos), na Guarda, e neste artigo fazem referência à obra de dois
médicos notáveis: Sousa Martins e Francisco Sobral. No final do século XIX, em
que pela sua dedicação abnegação e sacrifício de vida, tudo deram para salvar
doentes e população respetivamente da tuberculose pulmonar e tifo exantemá-
tico, duas grandes tragédias nacionais.
Sousa Martins granjeou a primeira cura de tuberculose pulmonar em Portugal
nas Penhas Douradas.
Francisco Sobral salvou a população da vila de Manteigas de ser dizimada
por doença gravemente contagiosa de que todos, incluindo os médicos, morriam
e de que os vivos se afastavam.
Fruto do conhecimento destes fenómenos, atualmente considera-se que o
clima e a ambiência da montanha (1500 metros de altitude) é excelente para
a preparação de desportistas, muito benéfico para o comum dos cidadãos e
fortalece o organismo em muito pouco tempo. Assim, estar duas semanas na
montanha é um verdadeiro “dopping” biológico, reparador para o organismo
humano.

1
Médico (natural da Serra da Estrela)
2
Aluno do 2º ano de medicina
3
Licenciada em Jornalismo
152 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

GALERIA
SOUSA MARTINS

Dr. Sousa Martins Busto de Dr. Sousa Martins no Hospital da Guarda

Estátua de Dr. Sousa Martins em Lisboa


DOENÇA-PAIX ÃO-SAÚDE: SERRA DA ESTRELA
153
Z. Biscaia Fraga, Francisco Fraga de Mello, Ângela Alves

FRANCISCO SOBRAL

Dr. Francisco Sobral Rua em Manteigas

Lápide ao benemérito Francisco Sobral


154 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Mausoléu de Dr. Sobral no Cemitério da Guarda


ANTIGO SANATÓRIO DA GUARDA.
SAÚDE, MEMÓRIA, PATRIMÓNIO

HÉLDER SEQUEIRA*

A realização do Encontro “Leituras do Território – Saúde & Montanha”, pro-


1
movido pelo Centro de Estudos Ibéricos (CEI) no passado mês de maio , deu-
-nos o ensejo de revisitarmos o atual Parque da Saúde da Guarda, onde outrora
existiu o Sanatório Sousa Martins. Ao mesmo tempo, e suportados num anterior
trabalho relacionado com a referida unidade de saúde, suscitou-nos algumas
breves notas sobre um lugar, um tempo e um território.

A MONTANHA MÁGICA
A designação de “Cidade da Saúde” atribuída no século passado à Guarda
em muito se fica a dever a uma instituição que a marcou indelevelmente, ao
longo de sete décadas; embora a situação geográfica e as especificidades cli-
matéricas associadas tenham granjeado à cidade esse epíteto, a construção do
Sanatório Sousa Martins validou e rentabilizou as condições naturais da cidade
para o tratamento da tuberculose, doença que vitimou, em Portugal, largos mi-
2
lhares de pessoas.
A Guarda foi, nessa época, uma das localidades mais procuradas de Portugal,
afluência que deixou inúmeros reflexos na vida económica, social e cultural; a
3
sua apologia como terra “eficaz no tratamento da doença” foi feita por distintas
figuras da época.

*
Instituto Politécnico da Guarda.
1
Este Encontro decorreu nos dias 10 e 11 de maio de 2019.
2
A tuberculose é uma doença infecto-contagiosa resultante da acção do Mycobacterium tuberculosis (conhecido
por bacilo de Koch), o qual é comum ao homem e a alguns animais (nomeadamente bovídeos) cuja lesão
anatómica característica é o tubérculo ou nódulo tuberculoso. Esta doença pode assumir formas diversas,
em função do local da inoculação, da extensão das lesões, do modo evolutivo e, naturalmente, do grau de
resistência do organismo. Na maioria dos casos, a infecção ocorre por inalação, sendo a localização mais
frequente ao nível dos pulmões.
3
Para utilizarmos a expressão do Dr. Lopo de Carvalho, apresentada na intervenção que proferiu no II Congresso
Nacional de Tuberculose; citado por Ladislau Patrício, in o “Sanatório Sousa Martins na Guarda”, 1936.
156 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Rua Direita. Uma das ruas onde se alojaram muitos doentes em cura livre.
ANTIGO SANATÓRIO DA GUARDA. SAÚDE, MEMÓRIA, PATRIMÓNIO
157
Hélder Sequeira

A cidade começou a ser “a montanha mágica” junto à Serra, envolta ainda na


bruma da atracção e do desconhecido, palco frequente do magnífico cenário ori-
ginado pela neve, que bem se podia transpor para o quadro descrito por Thomas
Mann, no seu conhecido romance.
Recorde-se que muitas pessoas vinham para a Guarda com o objectivo de
usufruírem do clima de montanha, praticando, assim, uma cura livre, não sendo
seguidas ou apoiadas em cuidados médicos. As deslocações para zonas propí-
cias à terapêutica “de ares”, e consequente permanência, contribuíram para o
aparecimento de hóteis e pensões, dado não haver, de início, as indispensáveis
e adequadas unidades de tratamento.
Aqui vinham viver pessoas oriundas do Brasil (nomeadamente de São Paulo,
Rio de Janeiro e Baía), da Alemanha, de Espanha (Madrid e Cádis, por exemplo),
Valença, Braga, Porto, Ponte de Lima, Ponte da Barca, Monção, Peso da Régua,
Murça, Favaios, Elvas, Évora, Açores, entre muitas localidades; na Guarda o alo-
jamento tinha lugar, de uma forma mais acentuada, na Rua Batalha Reis, Rua do
Encontro, Rua do Comércio, Rua do Arrabalde (hoje Rua Dr. Lopo de Carvalho),
Praça Luís de Camões, Rua do Amparo, Rua D. Luís (atual Rua 31 de Janeiro) e na
4
Rua Direita (Rua Francisco de Passos).
Esta situação desencadeou fortes preocupações nas entidades oficiais da
época. Em 20 de Outubro de 1897, o Governador Civil da Guarda, José Osório
de Gama e Castro, tornou público um Edital/Regulamento relativo às “Provi-
dências Prophiláticas contra o contágio da Tuberculose”. De acordo com esse
regulamento, “os enfermos de molestia pulmonar expectorante, residentes
temporaria ou perpetuamente n’este districto, não devem projectar no solo
o produto da expectoração; e por isso andarão munidos, fora de casa, d’uma
escarradeira portatil contendo o desinfectante prescrito pelo facultativo assis-
tente; e, dentro de casa, terão escarradores com o mesmo desinfectante para
identico fim”.
O referido regulamento ditava normas concretas para os “donos ou gerentes
das hospedarias,” bem como para aos proprietários de casas alugadas, onde
não podiam ser recolhidos “promiscuamente indivíduos sãos e doentes, com
excepção dos familiares d’estes, sob pena de 10$00 reis de multa, e do dobro no
caso de reincidência”. Para além disso, as mencionadas directrizes do Governo
Civil da Guarda estipulavam que “haverá em todas as casas supra mencionadas
o suficiente número de escarradeiras para uso dos doentes; e o produto da ex-
pectoração será enterrado diáriamente, depois de esterilizado pelo calor, ou por
outros meios indicados pelos facultativos, sob pena de 5$00 reis de multa, e
do dobro no caso de reincidência, imposto aos respectivos donos ou gerentes”.

4
Como se pode verificar no “Livro de matrículas dos enfermos de moléstia pulmonar em tratamento nesta
cidade”, ano de 1896 e seguintes. Registo feito pela entidade policial da época.
158 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

As condições higiénicas oferecidas pelos estabelecimentos de hotelaria


eram um dos principais argumentos utilizados pelos seus proprietários, mesmo
aquando do processo de venda, como se pode deduzir das notícias ou anúncios
publicados na imprensa local. “O sr. Abel Ferreira d’Abreu, d’esta cidade, acaba
de tomar de trespasse o hotel Central, conhecido por ‘hotel Mello’, cujo funda-
dor foi o fallecido sr. António Balha e Melo. Este hotel, que há mais de 40 annos
existe na Guarda, está situado num dos melhores pontos d’esta cidade, estando
5
dotado de todas as condições hygienicas a satisfazer os mais exigentes” . Ape-
sar do número de tuberculosos que vinham para a Guarda, muitos para fazerem
cura livre, os efeitos da doença não tiveram o dramatismo que seria de supor na
população local.
“Na Guarda, entre os naturais, a tuberculozidade (mortalidade referida a
10.000 habitantes) passou de 12,0 em 1895-1902, para 10,5, em 1903-1910, bai-
xando ainda para 10,0 em 1911-1921. Facto análogo registaram Bourdeaux, Gors-
6
bersdorf, Falkenstein, etc., em seguida à abertura dos respectivos sanatórios” .
A Sociedade de Geografia de Lisboa promoveu, no ano de 1881, uma Expe-
dição Científica à Serra da Estrela, sendo integrada, entre outros, pelo médico
7
Sousa Martins . Dessa expedição resultou a elaboração de relatórios das várias
secções científicas, que aparecem compilados num volume intitulado “Expedi-
8
ção Científica à Serra da Estrela” e, dois anos depois, o livro “Quatro Dias na
Serra da Estrela”, da autoria de Emídio Navarro. A iniciativa teve, igualmente, o
mérito, e através dos esforços de Sousa Martins, de chamar a atenção dos meios
científicos e clínicos de para as condições que a cidade da Guarda oferecia no
plano do tratamento da tuberculose. Sousa Martins defendeu a implantação de
Casas de Saúde nesta zona, chegando a fundar, em 1888, o “Club Hermínios”,
instituição de carácter humanitário que se manteve durante cerca de quatro
9
anos . O movimento impulsionado por Sousa Martins, defendendo um Sanatório
10
de montanha , levou à construção, na Guarda, de uma estrutura de assistência,

5
Cf. “A Guarda”, 17 de março de 1907, nº 104.
6
Cf. Guarda, Album Ilustrado, Edição da Comissão de Iniciativa da Guarda, s. d., p. 27. As taxas referidas
foram colhidas, como é mencionado nessa publicação, no trabalho de Amândio Paul, intitulado “Questões
de Higiene Pública do Distrito da Guarda”.
7
José Tomás de Sousa Martins nasceu em Alhandra, a 7 de março de 1843, no seio de uma família com escas-
sos recursos económicos. O seu nome, mercê dos seus trabalhos e análise de casos clínicos, atravessou
fronteiras. Apesar de não ter legado muitas publicações, Sousa Martins deixou atrás de si várias gerações
de médicos, uma Escola Clínica e, sobretudo, um verdadeiro exemplo de doação à sociedade e à Medicina.
Este clínico morreu a 18 de agosto de 1897, na sua terra natal.
8
Diversos Relatórios, Imprensa Nacional, Lisboa, 1883. Citado em A Serra da Estrela – estudo geográfico, de
Carlos Alberto Marques, Ed. Assírio e Alvim, Lisboa, 1996.
9
O médico Ladislau Patrício (terceiro director do Sanatório) caracterizou o Club Hermínios como “uma socie-
dade de beneficência em prol dos tuberculosos pobres, possível embrião da actual A.N T”.
10
O clima serrano e a sua influência terapêutica foi objecto de trabalhos não só de Sousa Martins mas também
de Serras e Silva (professor catedrático da Universidade de Coimbra); J. Mendes dos Remédios, Sousa Martins
e a Serra da Estrela, Viseu, 1898; Francisco António Mendes Póvoas, Herminismo, Seia, 1922; A. Vaz de
ANTIGO SANATÓRIO DA GUARDA. SAÚDE, MEMÓRIA, PATRIMÓNIO
159
Hélder Sequeira

encerrado por razões de ordem económica; antecedeu a construção do Sanató-


rio da Guarda.
Em 1895, realizou-se o primeiro Congresso Português sobre Tuberculose,
11
dirigido por Augusto Rocha. Nesse congresso, Lopo de Carvalho , já uma emi-
nente figura da Medicina, discursou sobre os processos profilácticos usados na
Guarda.
Lopo de Carvalho foi um dos mais fervorosos defensores da criação do
Sanatório – do qual, aliás, viria a ser o primeiro director – o que aconteceu por
decisão da Rainha D. Amélia, Presidente da Assistência Nacional aos Tuberculo-
sos (ANT), instituição criada em 26 de dezembro de 1899. O Sanatório da Guarda
foi o primeiro a ser instituído por esse organismo.

A CONSTRUÇÃO DO SANATÓRIO
Em 1901 foi adquirido o espaço necessário à edificação dessa unidade; par-
te dos terrenos foram adquiridos à Quinta do Chafariz, tendo a escritura sido
celebrada em 9 de novembro, na Guarda. O Dr. Lopo de Carvalho figurou como
procurador de D. António de Lencastre, Secretário-Geral da Assistência Nacional
aos Tuberculosos. À referida Quinta foi adquirida “toda a parte ocidental que se
acha separada das restantes terras da mesma pela estrada real número cincoen-
ta e cinco que desta cidade vai a Castello Branco e que parte pelo nascente com
a dita estrada, pelo norte com o Largo do Chafariz de Santo André, e caminho
público, poente com a quinta das Lameirinhas e quinta do Pina, e pelo sul com a
12
mesma quinta do Pina” .
No dia 21 de Dezembro desse mesmo ano, foi assinada uma outra escritura
(onde o Dr. Lopo de Carvalho representou igualmente o Secretário Geral da ANT)
através da qual foi vendida à Assistência Nacional aos Tuberculosos uma área de
terreno pertencente à Quinta do Pina, com setenta e cinco mil metros quadrados,

Macedo, Serra da Estrela, Estância de Repouso, Lisboa, 1929; Joaquim da Cruz Filipe, A Serra da Estrela
como Estância de Repouso, Lisboa, 1936. Amorim Girão, num artigo publicado no Bola de Neve (1951), fala
de “A Serra da Estrela num passo de Estrabão”. São também conhecidas antigas referências, como seja o
caso de André de Resende, De Antiquitatibus Lusitanie, Coimbra, 1670.
11
O Prof. Tiago de Almeida, catedrático da Faculdade de Medicina do Porto, que passou algum tempo em
repouso na Guarda, referiu-se a Lopo José Figueiredo de Carvalho como detentor de um “carácter nobilíssimo,
pondo no tratamento dos doentes a enorme afectuosidade do seu coração; cercando os seus clientes do
carinho e conforto é que ele, como médico distinto que é e como doente que foi, sabe perfeitamente serem
indispensáveis elementos terapêuticos”. Citado por Ladislau Patrício no Jornal “A Medicina Contemporânea,”
outubro de 1962, Ano LXXX, nº 10, Lisboa, p. 394. Lopo José de Carvalho era pai de Fausto Lopo Patrício
de Carvalho (que nasceu a 15 de maio de 1890; faleceu em 23 de maio de 1970), outro destacado vulto
da Medicina portuguesa e que gozou de enorme prestígio internacional. O jornal A Guarda, 18 de maio
de 1907, refere-se a Lopo de Carvalho (pai), como “médico distinctíssimo, paladino devotado da cruzada
anti-tuberculosa”. Cf. p. 4.
12
Arquivo Distrital da Guarda, Escritura de Venda, L133/135, Fls 7v - 8v.
160 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

“constituída por duas porções de terreno, uma à direita e outra à esquerda


do caminho que desta cidade se dirige à povoação de Porcas e vulgarmente
13
conhecida com o nome de caminho do forte” . Estes terrenos ficavam adja-
centes à antiga Mata da Guarda, localizada entre a vertente da Torre de Me-
nagem da antiga estrutura muralhada, a vertente da zona tradicionalmente
14
conhecida por Dorna e o subúrbio conhecido por Lameirinhas, a sudoeste
da cidade.
A cerca do futuro espaço sanatorial foi começada a construir no ano seguin-
te, altura em que se iniciou a arborização dessa área com a plantação de abe-
tos e pinheiros, num total de mil árvores. Aberto, a de 15 de janeiro de 1904,
o concurso para a edificação de três pavilhões, a construção do Sanatório da
Guarda (cidade onde tinha já funcionado uma unidade de assistência designada
15
Príncipe da Beira já atrás referenciada), começou em abril desse mesmo ano,
num terreno com 27 hectares, localizado a 1039 metros de altitude numa zona
denominada “Cova Quente”.
A inauguração (inicialmente prevista para 28 de abril e depois para 11 de
maio) dos três pavilhões que integravam o Sanatório, ocorreu a 18 de maio de
16
1907, com a presença do rei D. Carlos e da Rainha D. Amélia .
A autoria do projecto dos edifícios do Sanatório Sousa Martins pertence a
Raul Lino, sabendo-se que Alfredo Cophino foi o “Arquitecto construtor Civil” e
17
o mestre de obras dava pelo nome de Augusto Lourenço . A Rainha D. Amélia
materializou neste Sanatório a homenagem a Sousa Martins, atribuindo a esta
instituição o nome daquele clínico, cuja acção e dinamismo ela tinha já evocado
numa intervenção pública, no seio da Associação Nacional aos Tuberculosos,
realizada em 1889.
O acto inaugural foi precedido por cuidadosos preparativos, que a imprensa
18
local acompanhou , fornecendo interessantes relatos e informações, sobretudo
acerca do festivo dia. “Por este facto, que representa um importante benefício

13
Arquivo Distrital da Guarda, Escritura de Venda, L133/135, Fl. 19v.
14
Actualmente cortada pelas Avenidas Afonso Costa e Francisco Sá Carneiro.
15
Refira-se que, desde 1737 e até 1834, os primogénitos dos reis de Portugal intitulavam-se Príncipe da Beira.
D. Luis Filipe (assassinado a 1 de fevereiro de 1908), filho de D Carlos, retomara a tradição, a qual seria
abolida com a implantação da República.
16
A inauguração esteve prevista para o dia 28 de abril, e depois para 11 de maio, não se concretizando devido
ao mau tempo. “Em vista do tempo invernoso que tem feito desde há dias, foi adiada a festa de inauguração
do Sanatório que se anunciara para hoje. Está marcada para o dia 18”. In O Combate, 11 de maio de 1907,
nº 106, primeira página, segunda e terceira colunas. Também A Guarda, na edição de 5 de maio de 1907,
na primeira página, tinha anunciado que a inauguração estava prevista para dia 11 de maio.
17
Cf. Dulce Borges, “Encontro com a cidade”, Revista Praça Velha, Ed. Câmara Municipal da Guarda, Ano I, nº
1, I Série, julho de 1997, p. 31.
18
Cf. os jornais “Notícias da Guarda”, “Jornal do Povo”, “O Combate”, “O Districto da Guarda”, “A Guarda” e
“Correio da Beira”. O “Distrito da Guarda” faz alusão à deliberação camarária relativa à preparação “condigna”
da “recepção a Suas Magestades e aos numerosíssimos visitantes que por essa ocasião aqui concorriam”,
pelo que foi constituída uma “Grande comissão dos festejos”. Cf. edição de 24 de março de 1907.
ANTIGO SANATÓRIO DA GUARDA. SAÚDE, MEMÓRIA, PATRIMÓNIO
161
Hélder Sequeira

para a Guarda, reina aqui grande e justo enthusiásmo. A nossa excelsa Rainha,
a quem se deve em grande parte tão importante melhoramento vem na compa-
19
nhia de lusido cortejo, presidir à solemnidade” . E a abertura dos pavilhões, que
atraiu alguns milhares de pessoas à cidade, foi feita com pompa e circunstância
e registada documentalmente.

“Aos dezoito dias do mês de Maio de mil novecentos e sete, num dos edifícios re-
centemente construídos no reduto da antiga Quinta do Chafariz, situada à beira da
estrada número cinquenta e cinco, nos subúrbios da cidade da Guarda, estando
presentes Sua Majestade a Rainha Senhora Dona Amélia, bem como os funcioná-
rios abaixo assinados, procedeu-se à solenidade da abertura da primeira parte dos
edifícios do Sanatório Sousa Martins e da inauguração deste estabelecimento da
Assistência Nacional aos Tuberculosos, fundada e presidida pela mesma Augusta
Senhora. Neste acto, Sua Majestade a Rainha, em nome da dita Associação, fez
saber às pessoas ali reunidas que desde então ficavam abertos três pavilhões, cada
um com vinte e oito leitos para o tratamento de tuberculosos curáveis, um para
doentes de mais posses, outro para os remediados e outro para pobres, o hospi-
tal para doenças intercorrentes, com capacidade para doze leitos, o pavilhão dos
serviços gerais, a abegoaria, a casa destinada à desinfecção e à lavandaria, e seis
habitações reunidas duas a duas, em três chalés, cada uma destinada a ser aluga-
da a uma família abastada, constituindo todos estes edifícios a primeira parte do
Sanatório Sousa Martins, inaugurado na mesma data. Para perpetuar a memória
deste acontecimento, foi redigido o presente auto, por mim, Guilherme Maria da
Silva Jones, segundo-secretário do Conselho Central da Assistência Nacional aos
Tuberculosos, que o subscrevo, depois de o haver lido perante as pessoas presentes
20
e de por elas ter sido assinado, do que dou fé” .

O Pavilhão dos pobres apenas recebeu doentes no mês de setembro de 1907,


21
facto que não passou desapercebido, criticamente, à imprensa local . O fluxo de
tuberculosos superou, largamente, as previsões, fazendo com que os edifícios
do Sanatório Sousa Martins se tornassem insuficientes perante a procura; este
era aconselhado a todos quantos sofriam de “tuberculose pulmonar, anemia,
22
fraqueza organica, impaludismo, etc.”, como noticiava o jornal A Guarda.

19
Cf. “A Guarda”, 24 de março de 1907, nº 105, Ano III.
20
Auto da inauguração, citado por Ladislau Patrício em “O Sanatório Sousa Martins na Guarda (Memórias)”,
trabalho publicado em separata de A Medicina Contemporânea, Jornal Português de Ciências Médicas,
fundado por Manuel Bento de Sousa, Miguel Bombarda e Sousa Martins. Cf. edição de outubro de 1962,
Ano LXXX, nº 10, Lisboa.
21
“De 18 de maio, dia da inauguração, a 18 de setembro vão quatro mezes certinhos; e n’estes quatro mezes
não se poderiam ter já tratados muitos doentes? Agora começa a fazer frio, e é menos convidativa uma
permanência na Guarda”. Cf. “A Guarda”, 29 de setembro de 1907, última página.
22
Cf. “A Guarda”, 26 de maio de 1907.
162 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Guarda. Rua batalha reis

Na mesma edição, num artigo provavelmente escrito por um dos elementos


do corpo clínico do Sanatório, ou mesmo pelo próprio Director, acentuava-se que
“agora que elle está terminado e prompto a funccionar, o que devemos é fazer
com que elle dê o maximo de resultados praticos. Dal-os-há? É o que muitos
põem em dúvida. Em primeiro lugar pergunta-se: a tuberculose é curável? As
respostas dadas a esta pergunta, não são uniformes. Essas respostas consti-
tuem outra tantas escolas”, referindo-se o articulista ao “fatalismo de Laennec”,
à “curabilidade restricta de Fournet”, ao “optimismo de Brehmer” e ao “bom
senso de Morton”.
O Pavilhão 1 (designado de Lopo de Carvalho) teve de ser aumentado um ano
23
depois, duplicando a sua capacidade. A zona envolvente dos pavilhões foi em-
belezada, arborizada e passou a integrar espaços ajardinados, com pequenos
lagos e vários elementos arquitectónicos, tão ao gosto da sociedade de então. O
Sanatório começou a ser uma cidade dentro da urbe guardense; um espaço que
foi também dotado com capela privativa, possibilitando assim um maior apoio
religioso, a realização de diversos actos litúrgicos e várias cerimónias, inclusive
nupciais.

23
Este pavilhão foi alvo, mais tarde, de uma nova intervenção, passando a integrar um terceiro piso. Neste
edifício funciona, atualmente, a sede e administração da Unidade Local de Saúde da Guarda, E.P.E.
ANTIGO SANATÓRIO DA GUARDA. SAÚDE, MEMÓRIA, PATRIMÓNIO
163
Hélder Sequeira

Consultório de Ladislau Patrício - Primeiro andar do edifício de cor branca.

Numa publicação sob o título “Guarda Ilustrada”, editada pela Comissão de


Iniciativa da Guarda, é feita alusão ao Sanatório, descrevendo-se algumas das
24
suas características e particularidades .

“Situado a 1 039 metros sobre o nível do mar, possui todas as comodidades e con-
fôrto modernos reclamados pela higiene no tratamento dos doentes que sofrem de
tuberculose pulmonar, anemia, fraqueza orgânica, impaludismos, etc (...).
Três grandes pavilhões para doentes de 1ª, 2ª e 3ª classes; um pavilhão de isolamen-
to para doenças intercorrentes; seis chalets para famílias que prefiram viver inde-
pendentemente; a séde da Farmácia e do novo Pôsto radiológico para diagnóstico
e tratamento; um chalet à entrada do Sanatório para os serviços de escritório e da
Administração e, finalmente, o edifício destinado à Lavanderia a vapor e rouparia,
montada segundo processos mais modernos, tendo anexa a casa das desinfecções
provida de uma grande estufa Geneste Haerscher e de todo o material exigido num
estabelecimento desta natureza.
Lavanderia e Central eléctrica – A nova Lavanderia, consideralvelmente ampliada
e melhorada em material e instalações para todos os serviços, tem anexa a central
eléctrica, privativa do Sanatório.

24
Nesta publicação não aparece indicada a data mas, seguramente, é da década de 20, no período em que
Amândio Paul aparece como Director Clínico e Ladislau Patrício, que o substituiu, como Médico-Adjunto.
Lopo de Carvalho faleceu a 6 de julho de 1922. Amândio Paul foi nomeado Director a 14 de julho de 1922,
cargo que desempenhou até 1934. Nesse ano, Ladislau Patrício (cunhado do poeta Augusto Gil) assumiu as
funções de Director do Sanatório.
164 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Água – Tem o Sanatório água potável de primeira ordem, captada a 4 quilómetros


de distância (Forte Marquez d’Alorna), distribuindo-se a todos os edifícios mediante
canalização directa.
Esgotos – A drainagem dos esgotos, que é completa e perfeita, faz-se por meio
duma rêde de canalizações que vai terminar em tanques sépticos americanos (1ª
instalação no país), onde se faz a sua esterilização e filtragem.
A exposição de todos os Pavilhões é francamente ao sul e procurou-se defendê-los
do norte por abrigos naturais.
Arranjo interior – As paredes interiores de todos os edifícios (quartos, salas, corre-
dores e outras dependências) são cobertas de um inducto impermeável até à altura
de 2 metros, de forma a permitirem a lavagem diária com solutos desinfectantes.
Todos os ângulos reintrantes no interior dos edifícios, como é de regra, foram cuida-
dosamente evitados.
Galerias de cura – As galerias de cura, amplas e confortáveis, são envidraçadas nas
extremidades e comunicam com os quartos dos doentes.
Iluminação – A iluminação é eléctrica em todos os edifícios e suas dependências,
bem como nas avenidas e ruas do extenso e formosíssimo Parque do Sanatório.

Dispensário - Guarda
ANTIGO SANATÓRIO DA GUARDA. SAÚDE, MEMÓRIA, PATRIMÓNIO
165
Hélder Sequeira

Banhos – Em todos os pavilhões há um salão de conversação e quartos para banhos


de imersão, em cada andar, bem como nos chalets.
No rés-do-chão do Pavilhão “Lopo de Carvalho”, existe um balneário completo para
serviço dos doentes e pessoas que os acompanham.
Ventilação – O sistema de ventilação está em harmonia com o clima – bandeiras
móveis em tôdas as portas existentes e inferiores dos quartos; ventiladores de
persianas de ferro em cada quarto e em locais diversos no interior dos edifícios;
ventiladores de chaminé fixa (Volpert) em todos os Pavilhões.
Desinfecção dos quartos – Todos os quartos são desinfectados com vapor de formol
por meio de um autoclave próprio e de um aparelho “Clayton”.
Jogos – Xadrez, damas, dominó, gamão. Não se permitem jogos de azar.
Pavilhão “Lopo de Carvalho”. Consultório – No primeiro andar do Pavilhão Lopo
de Carvalho está instalado o consultório com uma dependência para aplicação do
pneumothorax, tratamentos da laringe, injecções, Etc., e o gabinete da Direcção.
Pavimento – O pavimento dos corredores está revestido de corticite, e de linoleum,
o dos quartos e restantes dependências deste Pavilhão.
(...)
Jardim de Inverno. Diversões – No jardim de Inverno, anexo à sala de meza, rea-
lizam-se com frequência sessões recreativas de Telefonia sem Fios (com audições
diárias de concertos e conferências dos principais postos emissores da Europa), ci-
nematografia, trifonola, piano, conferências e outros espectáculos para distracção
dos doentes, no intuito de os tonificar moralmente e atenuar tanto quanto possível
os inconvenientes do isolamento dentro do Sanatório.
Biblioteca – Para o mesmo efeito existe no salão de recreio uma biblioteca com mais
de mil volumes escolhidos entre os melhores autores portugueses e estrangeiros.
(...)
Pavilhões de 2ª e 3ª classe – Os Pavilhões “D. António de Lencastre” e “D. Amélia”
teem, cada um, 11 quartos com capacidade para receberem 31 doentes, em duas
zonas separadas, para cada sexo; salão de conversação, cozinha, sala de jantar,
serviço autónomo para desinfecção de louças, talheres, escarradores; quartos de
banho em cada andar, consultório privativo, etc.
Um e outro possuem amplas galerias de cura com exposição ao sul e sudoéste,
comunicando directamente com os quartos dos doentes.
Laboratório – Em edifício próprio está instalado o Laboratório de análises clínicas,
sob a direcção de um médico especializado.
Pavilhão anexo – O Pavilhão anexo, que dispõe de 10 quartos com 16 camas, vai ser
transformado em dois chalets.
Tem quartos de banho e nos dois tôpos uma galeria de cura envidraçada”.

Além disto, e da apresentação das especificidades dos vários sectores, era


sublinhado que “o tratamento higiénico pelo ar puro, repouso e alimentação, tal
166 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

25 26
como foi instituído por Brehmer e continuado por Detweiler , é o que é funda-
mental e rigorosamente sempre tem sido seguido no Sanatório Sousa Martins,
único também que na hora presente é unânimemente considerado como o mais
eficaz, dado o insucesso constante de tôdas as tentativas feitas com os agentes
27
da chamada terapêutica específica – soros e vacinas” .
Essa mesma publicação evidenciava o clima da região, com “as característi-
cas gerais dos climas de montanha – pressão barométrica baixa, ar puro, sêco
e isento de gérmens, raros nevoeiros, elevada ozonização e acção intensa da
luz. A Guarda, porém, tem sôbre a região do Observatório da Serra da Estrêla, a
vantagem de registar menor grau de humidade (68,9 contra 74,2), maior estabi-
lidade de temperatura (0º,36 contra 1º, 40), menos dias de nevoeiros (112 contra
159), menos de metade dos dias de vento forte (41 contra 85) e a quinta parte
28
apenas dos dias de vento tempestuoso (17 contra 85)” .
Acentuando as condições do Sanatório e as virtualidades da zona, era dei-
xada a informação para as “pessoas saudáveis que acompanham os doentes,
a cidade e seus arredores proporcionam-lhes um certo número de distracções
agradáveis: sport, teatro, cinematógrafos, passeios (Vale do Mondego, Caldei-
29
rão, Serra da Estrêla, etc.)” .
As décadas de quarenta e cinquenta “são um tempo de viragem na Guar-
30
da” , pois sofreu grandes transformações na sua estrutura urbana, econó-
mica e social. Foram executadas novas artérias, desencadeou-se um novo
ritmo de construção, surgiram novos estabelecimentos comerciais e mais
serviços.
A Lei 2.044, de 20 de julho de 1950, “abre as portas a toda a pessoa com
tuberculose. Rapidamente é construído aqui um novo Pavilhão para 300 camas
e a lotação passa para 600 leitos, pelos quais chegaram a passar, em cada ano,
800 doentes. As necessidades de ordem social avolumam-se rapidamente com
31
tal avalanche” .

25
Hermann Brehmer, a quem se ficou a dever a construção, em Gobersdorf (Silésia) do primeiro hospital
especializado na cura de tuberculosos.
26
Peter Dettweiler, colaborador de H. Brehmer, fundou o Sanatório de Falkenstein, na Alemanha Central.
Ficaram igualmente famosos os Sanatórios de Davos e Leysin, o primeiro dos quais evocado na conhecida
por Thomas Mann, em “A Montanha Mágica”. Cf. pp. 244-245.
27
Ob. cit., p. 27.
28
Guarda, Album Ilustrado, Edição da Comissão de Iniciativa da Guarda, s. d., pp. 19-20.
29
Ob. cit., p. 23.
30
Veja-se Jaime Couto Ferreira, “Do Perpianho ao Betão – Deambulações entre 1940 e 1959”, in “A Guarda
Formosa na Primeira Metade do Século XX”, Ed. Câmara Municipal da Guarda, 2000. Este tempo de viragem
coloca a Guarda “entre a pequena cidade com muitos traços medievos e o crescimento contínuo e acentuado
do último quartel da centúria, que a estendeu em todas as direcções para os terrenos municipais e privados,
agrícolas e maninhos dos seus arrabaldes”, p. 95. O Ante-Plano Geral de Urbanização da Guarda, da autoria
do arquitecto João António de Aguiar, foi concluído em 5 de Setembro de 1949.
31
Como evidenciou o Dr. Martins de Queirós, quarto e último Director do Sanatório Sousa Martins. Este médico
trabalhou, antes de vir para o Sanatório da Guarda, na Estância Sanatorial do Caramulo, onde integrou a
ANTIGO SANATÓRIO DA GUARDA. SAÚDE, MEMÓRIA, PATRIMÓNIO
167
Hélder Sequeira

Muro lateral da entrada do Ex-Sanatório

32
O novo pavilhão foi inaugurado em 31 de maio de 1953 , no terreno em
33
frente da, atual, Avenida Rainha D. Amélia . Com este novo pavilhão o Sana-
tório Sousa Martins ganhou uma maior dimensão, projetando-se, como uma
autêntica “povoação” auto-suficiente, dentro da própria cidade; apenas recor-
ria ao exterior em casos muito esporádicos ou por manifesta indisponibilidade
de meios.

UM JORNAL E UMA RÁDIO NO SANATÓRIO


Como escreveu J. Pinharanda Gomes, “a história do Sanatório deve ser um
mundo. Implica segmentos científicos (a medicina da tuberculose, o herminismo,

equipa de cirurgiões, da qual faziam parte o Prof. Doutor Bissaia Barreto e o Dr. Luis Quintela.
32
A inauguração esteve inicialmente prevista para o domingo anterior, talvez até por razões políticas, como
aliás deixava transparecer o “Correio da Beira,” na edição de 28 de maio de 1953. “A Guarda, possivelmente,
ainda nem se deu conta deste facto: a obra a inaugurar é a de maior vulto de quantas se dão prontas – e
são tantas – em todo o país nesta semana comemorativa da Revolução Nacional de 28 de Maio. De maior
vulto não só pela verba dispendida pelo Estado, como pela sua finalidade social.” Este acto foi também
abordado na sessão ordinária do executivo municipal da Guarda, de 27 de maio de 1953. Cf. Acta da sessão,
fl. 137. Igualmente na acta de 3 de junho de 1953, fl. 143, é feita referência à visita do Ministro das Obras
Públicas, “que veio a esta cidade inaugurar o novo pavilhão do Sanatório Sousa Martins”.
33
Assim se passou a denominar o troço da Estrada Nacional entre a Rua Batalha Reis e ao longo da cerca do
Sanatório. A atribuição do nome da Rainha foi decidida na sessão de Câmara de 5 de dezembro de 1951.
168 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

a cura pela altitude), políticos, sociais e económicos de muito vasto alcance.


E também culturais, porque ali foram internados doentes que se notabilizaram –
34
poetas e escritores, e se fez a Rádio Altitude e o jornal Bola de Neve” .
O Boletim Bola de Neve (como se definia inicialmente), editado pela Caixa
Recreativa do Sanatório Sousa Martins, surgiu a 1 de fevereiro de 1948, tendo
35
como primeiro director o Engº Agrónomo Álvaro Martins da Silva; até ao mês
36
de junho desse ano possuiu periodicidade quinzenal . Refira-se que antes
do “Bola de Neve” tinha existido, embora com diferente aspecto gráfico, uma
outra publicação fundada e dirigida por José Maria de Almeida Fernandes,
que, a partir de 1 de agosto de 1950, desempenhou as funções de Gerente do
Sanatório.
Em 28 de Abril de 1950, o Dr. José Barata assumiu a direcção do jornal, ma-
nifestando o seu empenho em dar nova projecção a este periódico. O Bola de
Neve contou com a colaboração de diversas e eminentes figuras, nomeadamen-
37 38
te Amorim Girão, Damião Peres , Nuno de Montemor, Miguel Torga , J. Romão
39 40
Duarte , Otília de Bastos Couto , Joaquim Veríssimo Serrão, Gonçalo de Repa-
41 42 43
raz , Gen. João de Almeida, Iven Swedberg , Cândido Guerreiro e Ladislau
Patrício, entre outros.
44
Tendo suspendido a sua publicação em 15 de Abril de 1952 , o BN retomou-a
em 24 de Março de 1959, reaparecendo como “instrumento de divulgação desse
espírito límpido que levará aos que vivem tristes um pouco de ânimo, anuncia-
rá aos que se julgam inutilizados uma oportunidade de vencerem, aos próprios
indiferentes levará um estímulo que os conduzirá – mais cedo ou mais tarde – à

34
Cf. J. Pinharanda Gomes, Memórias da Guarda, Ed. Câmara Municipal da Guarda, 2001, pp. 19-20. Cf. também,
op. cit., “Espirituais no Sanatório”, pp. 121-129.
35
“Um certo aspecto cultural e recreativo do Boletim não lhe rouba o carácter informativo que deve ter, para
proporcionar aos sócios da nossa instituição mais regalias e mais um interesse de fraternidade e harmonia
entre todos os doentes do Sanatório”. Cf. “Bola de Neve,” 1 de abril de 1948, Ano I, nº 4, p. 5.
36
A edição de 6 de julho de 1948 identifica o “Bola de Neve” já como mensário.
37
Cf. edição de 14 de agosto de 1950, Ano III, nº 21, p. 6. Na coluna onde eram divulgados os novos colaboradores,
o BN salientava que “Damião Peres é catedrático da Faculdade de Letras de Coimbra e membro titular da
Academia Portuguesa de História. É um dos mais altos valores da ciência histórica portuguesa (...)”.
38
Tem um poema, inédito, publicado na edição de 4 de dezembro de 1951, Ano IV, nº 25, 1ª página, intitulado
o “Mergulho” e datado de junho de 1951, Poço do Inferno (Serra da Estrela).
39
Reitor do Liceu da Guarda.
40
Como era referida, “prestigioso nome da literatura contemporânea do Brasil”.
41
Cf. Bola de Neve, 28 de abril de1950, pag. 1. “Doutor pela Sorbona, funcionário superior da Unesco, uma
das maiores autoridades mundiais da história dos grandes descobrimentos portugueses es espanhóis”.
42
Professor de Geografia no Liceu de Gloteborg (Suécia).
43
“O grande lírico nacional, a quem todo o Algarve, em 1941, rendeu comovida homenagem de apreço e de
gratidão”. Cf. Bola de Neve, 28 de abril de 1950, primeira página.
44
Bola de Neve, nº 26. Na edição de 23 de abril de 1952 o “Correio da Beira” faz referência à saída deste
número, “de 12 páginas, em óptimo papel de luxo, felicitando “o ilustre Director da ‘Bola de Neve’ e os seus
colaboradores pelo belíssimo exemplar deste jornal literário, cultural e regionalista”.
ANTIGO SANATÓRIO DA GUARDA. SAÚDE, MEMÓRIA, PATRIMÓNIO
169
Hélder Sequeira

Hospital Francisco dos Prazeres. Unidade hospitalar que coexistiu com o Sanatório.

45
mesma campanha de optimismo” . A partir de 10 de agosto de 1959 não são
46
conhecidas mais edições do Bola de Neve .
Por outro lado, a actividade radiofónica desenvolvida, a partir de 1947, no
Sanatório suscitou a preferência de muitos doentes. A rádio era um fascínio con-
tagiante, acrescido pelo facto de não ser normal a possibilidade de contactar, de
perto, com uma emissora de radiodifusão sonora.
A maior parte dos internados, no Sanatório Sousa Martins, que eram admi-
tidos na Rádio, designada de “Altitude”, ocupavam-se quer na manutenção téc-
nica dos equipamentos de emissão ou de estúdio quer no apoio administrativo
ou no arquivo de discos e registos magnéticos, onde se podia verificar uma irre-
preensível catalogação; apenas os doentes com melhores condições de saúde,
e outras características exigidas, eram escolhidos para efectuarem locução ou
47
apresentação de programas.
O Bola de Neve noticiava, na edição de 1 de abril de 1948, que a Caixa Re-
creativa do Sanatório Sousa Martins tinha adquirido um aparelho emissor. “Po-
deremos escutar dos nossos quartos as festas realizadas e deliciarmo-nos com

45
Cf. Bola de Neve, 24 de março de 1959, nº 27, Ano VI, Director e Editor: Dr. Martins de Queirós, p. 2.
46
Cf. edição nº 30.
47
Sobre a Rádio Altitude veja-se de Helder Sequeira, Os Sons do Tempo na Cidade da Saúde – Rádio Altitude
um património da Guarda, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, Outubro de 2001 (Tese de
Mestrado) e “Na Guarda das Memórias da Rádio”, Praça Velha, Ed. Câmara Municipal da Guarda, Ano II, nº
5, pp. 119-144.
170 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Pavilhão D. Amélia. Estado actual.

música do nosso agrado directo e recrearmo-nos com crónicas de são oportunis-


mo de propósitos inofensivos. Além de que a organização dos programas distrai
e desperta curiosidade, Rádio Altitude é mais um elemento de fraternidade entre
os doentes do Sanatório – e, em destaque, uma nova regalia da Caixa Recrea-
48
tiva” .
No ano de 1948 a Rádio Altitude apresentava-se como “Posto Emissor CS2XT”
(mais tarde foi-lhe atribuído o indicativo CSB-21), emitindo no comprimento de
onda dos 212,5 m e na frequência de 1495 Kc/s. As emissões desdobravam-se,
na altura, em dois períodos. A estação emissora e o Fundo de Auxílio aos Doen-
tes eram, nesse ano, apresentados como “duas criações filantrópicas da Caixa
49
Recreativa” . A Rádio foi crescendo, progressivamente, afirmando-se como voz
da Guarda e da região, que desde cedo cativou.
Convém não esquecer que as principais fontes de receita do Centro Educa-
cional eram as verbas resultantes da publicidade difundida pela Rádio Altitude,
as receitas de uma Cantina e dos trabalhos feitos nas oficinas.
A referência a estes dois meios de comunicação justifica-se, neste breve
apontamento, pela importância que tiveram na em termos sociais, culturais e na
promoção da cidade e região.

48
“Bola de Neve”, ed. cit., Ano I, nº 4, p. 5.
49
Cf. “Bola de Neve”, 1 de outubro de 1948, Ano I, nº 12.
ANTIGO SANATÓRIO DA GUARDA. SAÚDE, MEMÓRIA, PATRIMÓNIO
171
Hélder Sequeira

Pavilhão do antigo Sanatório, na actualidade.

A INTEGRAÇÃO NO HOSPITAL
Na década de 70, a terapêutica começou a ser ministrada em regime ambu-
latório, o que se traduziu numa importante alteração no tratamento da doença.
Daí que as instituições sanatoriais tenham iniciado um rápido declínio, sendo
algumas pura e simplesmente encerradas, enquanto outras foram integradas em
Hospital Centrais ou Distritais, como foi o caso do Sanatório Sousa Martins.
Após o 25 de Abril de 1974, o Sanatório Sousa Martins entrou na fase final
da sua existência. Nesse mesmo ano, a 12 de setembro, ocorreu a última assem-
bleia geral, extraordinária, do Centro Educacional e Recuperador dos Internados
no Sanatório Sousa Martins.
Com a publicação do Decreto-Lei 260/75, de 26 de maio, o Sanatório Sousa
Martins foi desligado do Instituto de Assistência Nacional aos Tuberculosos e,
50
por despacho de 5 de novembro de 1975 do Secretário de Estado da Saúde ,
aquele Sanatório foi integrado no Hospital Distrital da Guarda.

50
Publicado a 14 de novembro de 1975 em Diário do Governo, nº 264, II Série, p. 7172. “Despacho. 1 - Nos termos
do artigo 7º do Decreto-Lei nº 260/75, de 26 de Maio, o Sanatório Sousa Martins, na Guarda, fica integrado
no Hospital Distrital da Guarda, passando a dispor da autonomia que lhe for delegada pela administração
do mesmo Hospital. 2 - A presente integração faz-se sem prejuízo do princípio fixado no nº 2 do artigo 4º
do referido decreto-lei. Secretaria de Estado da Saúde, 5 de novembro de 1975 – O Secretário de Estado
da Saúde, Carlos Matos Chaves Macedo”.
172 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Sanatório - Pavilhão D. António de Lencastre - HS

Após 68 anos de existência, o Sanatório Sousa Martins conclui a sua emi-


nente função social. Ao longo deste período teve como Directores o Dr. Lopo de
51 52
Carvalho (entre 1907 e 1922) , o Dr. Amândio Paul (entre 1922 e 1934) , o Dr.
Ladislau Patrício (1934-1954) e o Dr. Martins de Queirós (entre 1954 e 1975).
Consumada a integração do Sanatório no Hospital da Guarda foi igualmente
arrastado todo o património do CERISSM. A partir de então começou o declínio
dos Pavilhões e o desaparecimento de muito do seu equipamento e material,
peças de primordial importância para um desejado, quanto necessário, Museu
53
do Sanatório Sousa Martins . A inexistência de corpos sociais, com a saída dos
doentes – a qualidade de associado efectivo do Centro dependia, entre outros
aspectos, do internamento no Sanatório Sousa Martins — o progressivo alhea-
mento dos responsáveis do Hospital e as alterações estruturais progressivamen-
te registadas conduziram a um vazio jurídico na existência desta associação.
Neste contexto, apenas prevaleceu a Rádio Altitude.
54
O CERISSM foi extinto a 24 de junho de 1998 , iniciando-se então o processo
de privatização daquela emissora.

51
O Dr. Lopo de Carvalho faleceu a 6 de julho de 1922.
52
Tomou posse em 14 de julho de 1922.
53
Cf. Dulce Helena Borges, “Proposta de Musealização do Ex-Sanatório de Sousa Martins”, Praça Velha, Ed.
da Câmara Municipal da Guarda, nº 7, 2000, pp. 189-217.
54
Através do despacho nº 10 647/98 (2ª série), do Ministro do Trabalho e da Solidariedade Social.
ANTIGO SANATÓRIO DA GUARDA. SAÚDE, MEMÓRIA, PATRIMÓNIO
173
Hélder Sequeira

Guarda. Rua batalha reis

CONJUNTO DE INTERESSE PÚBLICO


Através da portaria 39/2014, do Secretário de Estado da Cultura, publicada
55
em 21 de janeiro , o complexo que integrou o Sanatório Sousa Martins foi clas-
sificado como conjunto de interesse público, ficando igualmente definida a zona
geral de proteção.

“O antigo Sanatório Sousa Martins, projetado no início do século XX por Raul Lino e
instituído na Guarda, cujo clima favoreceria a cura de doenças respiratórias graves,
foi a primeira instituição criada de raiz para a assistência a doentes com tubercu-
lose, tendo-se constituído como um complexo hospitalar de referência nas áreas
social, científica e arquitetónica.
O sanatório, ampliado entre 1950 e 1955, insere-se num extenso parque concebido
de acordo com o gosto romântico e revivalista da época, onde se distribuem espa-
ços exuberantemente ajardinados, lagos, fontes, grutas e recantos pitorescos. Entre
os edifícios principais, exemplos de grande qualidade de arquitetura do ferro, desta-
cam -se, pela sua autenticidade, o pavilhão D. Amélia e, particularmente, o pavilhão
D. António de Lencastre, verdadeiro ex-libris do conjunto.

55
Cf. Diário da República, 2.ª série — N.º 14 — 21 de janeiro de 2014.
174 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Os quartos possuem amplas varandas ou “galerias de cura”, com boa exposição


solar, e ainda instalações sociais, cozinha, sala de jantar e consultório, contando
ainda o pavilhão de primeira classe com jardim de inverno, biblioteca, barbeiro
e dentista. A estes pavilhões juntam -se os edifícios da administração, farmácia,
laboratório, posto de radiologia, capela neo -gótica, chalets, pombal e lavanda-
ria.
A classificação do Antigo Sanatório Sousa Martins reflete os critérios constantes
do artigo 17.º da Lei n.º 107/2001, de 8 de setembro, relativos ao caráter matricial
do bem, ao génio do respetivo criador, ao seu interesse como testemunho notável
de vivências ou factos históricos, ao seu valor estético, técnico e material intrín-
seco, à sua conceção arquitetónica, urbanística e paisagística, à sua extensão e
ao que nela se reflete do ponto de vista da memória coletiva, e às circunstâncias
suscetíveis de acarretarem diminuição ou perda da perenidade ou da integridade
do bem (…)”.

Infelizmente a classificação mencionada em nada veio alterar, até à presente


data, o panorama desolador que ao longo de décadas envolve o conjunto ar-
quitetónico do Sanatório Sousa Martins, onde ficou a marca de Raul Lino. Como
observou Dulce Borges, “dizer que o Sanatório Sousa Martins foi uma obra origi-
nal e única projetada por Raul Lino é constatar que na Guarda se construiu uma
referência na modernidade arquitetónica de então. Para além deste marcante
evento, é importante realçar que este equipamento de saúde possuía, à épo-
ca, as melhores instalações e os melhores serviços médicos, estando dotado
de sofisticados equipamentos, usufruindo de uma climatoterapia de excelência:
baixa pressão atmosférica, ar puro e seco, elevada ozonização, grande luminosi-
56
dade e nevoeiros escassos” .
Ainda nas palavras desta investigadora, “o arquiteto, conjuntamente com ou-
tros elementos da equipa, ao escolher o local da edificação, tomou posse de um
espaço natural e deu-lhe uma forma urbana através de uma gramática construti-
57
va e de uma conceção ambiental e paisagística”.
Os habitantes da Guarda têm hoje uma pálida, quanto desfigurada, imagem
daquilo que foi uma das principais instituições de combate e tratamento, em Por-
tugal, da tuberculose; como desconhecem as referências na atual malha urbana
aos locais e edifícios onde de desenvolveram cuidados médicos e tratamentos
relacionados com a mencionada doença pulmonar; desde as ruas onde residi-
ram pessoas afetadas pela doença, aos emblemáticos edifícios onde conceitua-
dos clínicos exerceram à sua atividade…um roteiro que está por fazer (ver fotos).

56
Cf. Dulce Helena Pires Borges, “O Sanatório Sousa Martins e o conceito de obra de arte total”, in Revista
Praça Velha, nº 37, Ano XIX, 1ª série, novembro 2017, Ed. Câmara Municipal da Guarda, pp. 53-62.
57
Idem, p.55.
ANTIGO SANATÓRIO DA GUARDA. SAÚDE, MEMÓRIA, PATRIMÓNIO
175
Hélder Sequeira

Antigo Consultório de Lopo de Carvalho onde funcionou o Dispensário.

Na Guarda da memória dos afectos, o Sanatório Sousa Martins (sobre o


qual deixamos este breve apontamento) tem um lugar perene e o seu território,
povoado de recordações, merece ser salvaguardado, fruído culturalmente e
divulgado.

REFERÊNCIAS
Actualidade (A), 1910-1911.
Actualidade, 1926-1927.
Alta Cidade, 1974-1975.
Bola de Neve, 1948-1952.
Correio da Beira, 1946-1974.
Districto da Guarda, 1906-1935.
Guarda (A), 1906-1988.
Jornal do Fundão, 1948-1988.
Jornal da Guarda, 1898-1900; 1913-1914; 1924-1935.
Jornal do Povo, 1902-1910.
Notícias da Guarda, 1906-1907; 1984-1990.
176 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

O Combate, 1904-1931.
“Livro de matrículas dos enfermos de moléstia pulmonar em tratamento nesta
cidade”, ano de 1896 e ss, Guarda.

BORGES, Dulce Helena (2000). “Proposta de Musealização do Ex-Sanatório de


Sousa Martins”, Praça Velha, Ed. da Câmara Municipal da Guarda, nº 7, pp.
189-217.
BORGES, Dulce Helena (2017). “O Sanatório Sousa Martins e o conceito de obra
de arte total”, in Revista Praça Velha, nº 37, Ano XIX, 1ª série, novembro 2017.
CARVALHO, Lopo José de Figueiredo (1895). Os tuberculosos na Guarda. Coimbra
Médica. Coimbra, Imprensa da Universidade. Tomo 15, n.º 17, pp. 265-274.
CARVALHO, L. (1935). A Luta contra a Tuberculose em Portugal, ed. Adolpho
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Guarda. Jornal da Sociedade das Sciencias Medicas de Lisboa. Lisboa:
Imprensa Nacional. Tomo 61, pp. 413-417.
MARTINS, José Thomás de Sousa (1890). A tuberculose pulmonar e o clima da ser-
ra da Estrella. Jornal da Sociedade das Sciencias Medicas de Lisboa. Lisboa,
Imprensa Nacional. Tomo 54, pp. 258-298.
PATRÍCIO, Ladislau (1938). Altitude – O espírito na Medicina, Ed. Europa, Lisboa.
PATRÍCIO, Ladislau (1934). “A Guarda, estação de altitude”, Terras de Portugal, nº
50, Tipografia do Diário de Notícias.
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ROCHETA, José (1944). O Estado Actual da Luta Contra a Tuberculose em Portugal,
Livraria Luso-Espanhola, Ldª, Lisboa.
SEQUEIRA, Hélder (2003). O dever da memória: uma rádio no sanatório da mon-
tanha, Ed.Câmara Municipal da Guarda.
VIEIRA, Ismael Cerqueira (2012). Conhecer, tratar e combater a «peste branca»: a
tisiologia e a luta contra a tuberculose em Portugal (1853-1975). Porto: FLUP.
Tese de Doutoramento.
SABUGUEIRO:
ALDEIA EM TRANSFORMAÇÃO

MÁRIO BRANQUINHO

1.

Em plena montanha, a 1050 metros de altitude, chamada a “aldeia mais


alta”, o Sabugueiro, fica a meio caminho do “teto de Portugal”, ponto mais alto
da serra da Estrela, a quase dois mil metros. A dois passos da única pista de es-
qui do país, para cima, e a 11 quilómetros da sede do concelho, Seia, para baixo.
Com cerca de 450 habitantes (478 nos sensos 2011), o Sabugueiro é hoje,
em 2019, uma aldeia que vive essencialmente do turismo, com mais de 30 lojas
comerciais, predominando produtos artesanais e 10 restaurantes que valorizam
a gastronomia local.
O alojamento local tem vindo em crescendo, quer pela recuperação de casas
antigas no centro antigo, quer pelo registo oficial efetuado pelos seus proprietá-
rios. Ao todo, contam-se no portal do Turismo de Portugal 30 unidades regista-
das, com 1 hotel de 4 estrelas, 1 hostel e demais alojamentos locais, para um total
de 465 dormidas legalizadas.
O Sabugueiro é uma das mais extensas freguesias de todo o Parque Natu-
ral da Serra da Estrela, sendo a aldeia conhecida pelos seus recursos naturais,
entre os quais as quedas de água, e pelas paisagens de uma vegetação serrana
única.
Precisamente pela sua localização, o Sabugueiro constitui um dos melhores
pontos de partida para conhecer algumas das estruturas do aproveitamento hi-
droeléctrico da Serra da Estrela, de que são exemplo as barragens do Lagoacho,
do Vale do Rossim e da Lagoa Comprida, o maior reservatório de água em toda
a serra.
Embora o turismo e o comércio constituam as principais atividades econó-
micas das suas gentes, os usos e costumes de antigamente marcam, ainda, o
ritmo diário da aldeia. Algumas das atividades são valorizadas através de even-
tos organizados no quadro do projeto da rede de Aldeias de Montanha. Destas,
destacam-se a Queima do Entrudo (Sábado de Carnaval), a Caminhada à Serra
(Maio), a Festa da Transumância (Junho), a Noite das Caçoilas (Novembro), além
178 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

das festas religiosas do Santíssimo Sacramento (1º Domingo de Agosto) e a Festa


da Nª. Senhora da Graça (3º fim de semana de Setembro).
O padroeiro da terra é S. João Batista, celebrando-se a sua festa na noite de
23 para 24 de junho. Para além da Igreja Paroquial, existe ainda outro local de
culto que é a Capela de Nª. Senhora de Fátima.
Outrora terra de centeio e de pastorícia, o Sabugueiro oferece ao visitante
paisagens deslumbrantes e locais pitorescos de curiosidades múltiplas.
A Praia Fluvial é o local privilegiado para o descanso, sobretudo no Verão,
onde apetece mergulhar nas águas cristalinas que correm por entre as pedras
gastas da ribeira. Junto à praia fluvial, na margem do Rio Alva, situa-se o Polides-
portivo da Freguesia, disponível para o desporto e lazer, quer dos habitantes da
aldeia, quer dos turistas que visitam o Sabugueiro.
O "Forno Velho" é hoje um espaço museológico onde estão retratados vá-
rios aspetos rurais da aldeia, com destaque para a pastorícia e as sementeiras
agrícolas. Este espaço situa-se na parte mais antiga da freguesia, junto ao forno
comunitário.
O forno comunitário foi ao longo dos anos utilizado por quase todas as fa-
mílias da freguesia para cozer o "Pão do Sabugueiro", um elemento central da
alimentação que dava sustento para uma ou duas semanas. Ainda hoje o visitan-
te pode encontrar algumas mulheres da aldeia com os seus tabuleiros à cabeça,
que aqui vêm cozer o saboroso pão.
SABUGUEIRO: ALDEIA EM TRANSFORMAÇÃO
179
Mário Branquinho

Os moinhos de água e o forno comunitário são exemplos de memórias de


um passado que não quer ser esquecido.
A Cascata da Fervença e o Covão do Urso, ampla depressão de origem gla-
ciária, constituem exemplos de valores paisagísticos que merecem uma visita.
Do ponto de vista social e cultural, destaca-se o papel da Associação de Be-
neficência do Sabugueiro, uma IPSS com várias valências, que emprega cerca de
30 pessoas, o que é relevante para a dimensão económico-social da freguesia.
A Associação possui uma estrutura residencial para idosos, presta serviço de
apoio domiciliário, apoio médico e de farmácia, escola de música. Desenvolve
ainda o projeto “Alavanca” para acompanhamento próximo e regular da popula-
ção alcoólica e tóxicodependente nos concelhos de Seia e Gouveia. Participa no
projecto “Sabugueiro, Aldeia Inteligente”, em parceria com a Vodafone, Municí-
pio de Seia e Junta de Freguesia. O principal objetivo deste projeto é a disponi-
bilização de soluções tecnológicas na aldeia do Sabugueiro que contribuam para
a melhoria de qualidade de vida dos cidadãos e que funcionem de alavanca para
a melhoria do desempenho ambiental deste espaço rural.
Mais recentemente, esta Associação transformou o antigo Centro de Dia no
Hostel Criativo do Sabugueiro, uma unidade hoteleira com capacidade para 34
pessoas, onde também se realizam residências artísticas.

2.

Até meados da década de 90, a agricultura e a pastorícia ainda eram ati-


vidades preponderantes, registando-se o cultivo das “courelas” mais junto ao
povoado, sobretudo para legumes, batata e milho e, nos campos mais afastados
do povoado e mais extensos, pelas encostas da serra, para as sementeiras de
centeio. O trabalho era manual, muito duro e demorado, contando com o recurso
a burros, quer para lavrar as terras, quer para transportar os produtos arreca-
dados ao campo. Segundo Alberto Martinho, sociólogo, natural do Sabugueiro,
com vasta obra publicada, “em 1971 havia na aldeia 102 burros, 2 cavalos e 8
éguas, dispersos por 64% das casas. Em junho de 1998 havia na aldeia 19 burros,
2 éguas e 4 cavalos (dois são apenas usados para passeios turísticos”.
Estes animais de carga, serpenteavam pelos caminhos escarpados e difíceis
e eram por isso de grande valor, transportando em segurança pesados fardos.
A pastorícia era também uma atividade preponderante desde tempos ime-
moriais. Os pastores, no tempo da neve, viam-se forçados a “invernar” para as
chamadas “terras chãs”, levando consigo a família, incluindo filhos em idade
escolar. Por lá permaneciam de novembro a fevereiro do ano seguinte, voltando
com a Primavera. No pico do Verão, juntavam-se as “chotas” e faziam a transu-
mância, ou seja, chegavam a juntar-se mais de mil ovelhas de vários pastores,
180 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

para subirem à serra e aí, estes, “revezavam-se” na guarda do gado, permitindo


algumas folgas.
Também até meados da década de 90, registavam-se na aldeia muitos traba-
lhadores das fábricas têxteis de Seia, sobretudo da Fisel e da Vodratex que, no
total, com outras fábricas, chegaram a empregar cerca de 4 mil trabalhadores no
concelho de Seia.
Segundo Alberto Martinho, “chegaram a contar-se na aldeia cerca de 30
motorizadas”, que era o principal veículo de transporte do Sabugueiro para as
fábricas de Seia.
Ao longo das décadas de 70, 80 e 90, no rendimento das famílias registava-
-se um cenário acentuado de pluriatividade, ou seja, para além do rendimento
das fábricas têxteis (e também da EDP e da Fábrica das Águas Serra da Estrela),
os trabalhadores juntavam o rendimento da agricultura familiar. Por exemplo, to-
das as famílias semeavam centeio e coziam o pão no forno comunitário, onde o
“forneiro” se encarregava de organizar as fornadas. Assim como havia o controle
da levada de água, para as regas dos campos mais próximos da aldeia.
De fora, vinham as malhadeiras para a malha do centeio, nas eiras de pedra,
onde os “rolheiros” de molhos de centeio empilhados, davam lugar aos palhei-
ros. E na Festa da Senhora da Graça, oferecia-se centeio à Virgem, como forma
de agradecimento pelas colheitas. Centeio que era depois leiloado, revertendo a
receita para as festas da “Santa”. E todas as famílias possuíam arcaz de centeio
na loja, para o pão no ano inteiro.
A partir da década de 70, “os das fábricas” transformaram-se também em
novos resineiros e outros recoletavam bolbos “de flores” (Narcisos) que eram
SABUGUEIRO: ALDEIA EM TRANSFORMAÇÃO
181
Mário Branquinho

vendidos para o Porto e, por sua vez, exportados para a Holanda. Os mesmos
também apanhavam bagas de zimbro que vendiam para serem misturadas na
aguardente, vendida aos turistas (Martinho, 2008).
Com o fim do têxtil, uma mono-indústria que caracterizou durante décadas
o concelho de Seia, e com a invasão de supermercados de média dimensão e
consequente abandono agrícola, foram surgindo ao longo da Estrada Nacional
339 várias lojas comerciais vocacionadas para o turismo que rumava à Serra. Era
outra transformação que se ia operando.
A primeira loja comercial destinada aos turistas tinha aberto as suas portas
em 1959 e, em 1972, já eram 3 estabelecimentos (Martinho, 2008).

3.

Nos fins do século XIX, a penetração da Serra da Estrela começou a verificar-


-se através de excursões cientificamente organizadas. O Sabugueiro tornou-se
estação obrigatória ou ponto de apoio e de passagem para os exploradores.
De aldeia ignorada, tornou-se muito conhecida. Uma transformação decisiva e
surpreendente, que foi em crescendo ao longo dos anos.
Do ponto de vista histórico e político-administrativo, podemos dizer que o
Sabugueiro era uma freguesia independente, pelo menos em 1757, e assim o
confirma o Código Administrativo de 1836. Porém, em 1936, foi anexada à de
Seia, pelo que os seus habitantes fizeram esforços para obterem a devida auto-
nomia e assim o conseguiram em 1946.
O Cadastro da população do Reino, mandado organizar por D. João III, em
1527, dava a Seia 1.168 moradores e ao Sabugueiro 19 (Bigotte, 1992). O Capi-
tão Dr. António Dias, na sua "Monografia do Sabugueiro", insere uma inquirição
em que D. Pascoal respondeu que nesta povoação eram possuidores de terras
Mendo Carneiro, Pedro Viegas e Domingos Gonçalves, que não pagavam foro
ao "Senhor Rei".
Em antigos documentos aparece chamada de "Vila de Sabugária". É por isso
uma povoação muito antiga, de que dão notícias as Inquirições de D. Afonso II,
em 1296, onde se chama "Sambugueiro", Sabugário e Sabugueiro (Bigotte, 1992).
Reza a história que esta freguesia surgiu a partir de um aglomerado de ca-
banas de pastores que aproveitavam os pastos para as suas ovelhas e cabras.

4.

Como se lê e constata, o Sabugueiro tem sido ao longo da sua história, uma


aldeia em transformação, que vai às raízes da sua identidade, para se reinventar
182 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

sucessivamente. Como que arrancando pedras duras e toscas da montanha, o


homem de cada época foi moldando a sua faina na procura de sustento. Sou-
be extrair da montanha, riqueza e sabedoria, na adaptação aos tempos, nesse
imenso potencial de natureza brava e fria.
Agora, perscrutando o futuro, sobressai o anseio de resposta aos novos tem-
po, exigentes de requintes e de formas modelares, capazes de cruzar a tradição
com a modernidade. No anseio e desejo de ver engenho e arte suficiente para
ajudar a acordar um gigante meio adormecido, que é esta uma montanha de
riqueza chamada serra da Estrela, com o Sabugueiro a meio.

REFERÊNCIAS
MARTINHO, Alberto (2008). O Caixão das Almas.
BIGOTTE, Quelhas (1992). Monografia da cidade e concelho de Seia.
MARTINHO, Alberto (1978). O Pastoreio e o Queijo da Serra.
MARTINHO, Alberto (1972). Sabugueiro, uma Aldeia da Serra da Estrela.
DIAS, Capitão Dr. António (1945). Monografia do Sabugueiro.

Webgrafia:
Entidades:
Turismo de Portugal, Registo Nacional de Turismo
https://rnt.turismodeportugal.pt/RNT/ConsultaAoRegisto.aspx

Freguesia do Sabugueiro:
http://www.sabugueiro.pt/

Associação de Beneficência do Sabugueiro


http://www.absabugueiro.com/
REDE DE ALDEIAS DE MONTANHA:
UM TERRITÓRIO E UMA ESTRATÉGIA DE
DESENVOLVIMENTO RURAL INTEGRADO

CÉLIA GONÇALVES*

A Rede de Aldeias de Montanha. As Aldeias de Montanha que integraram a


primeira fase do projeto piloto incluíam exclusivamente aldeias do Município de
Seia. Numa fase posterior, a rede alargou-se para além das Aldeias de Montanha
do concelho de Seia, passando a incluir Aldeias de todos os concelhos que inte-
gram o Parque Natural da Serra da Estrela dos concelhos de Gouveia, Celorico
da Beira, Manteigas, Guarda e Covilhã, bem como outros concelhos com forte
ligação identitária à serra da Estrela, nomeadamente o Fundão, Fornos de Al-
godres e Oliveira do Hospital. Presentemente, a Rede de Aldeias de Montanha
dispersa-se por 9 Municípios totalizando um conjunto de 41 aldeias, conforme se
pode observar no mapa se a seguir se apresenta.

ALDEIAS DE MONTANHA: OS CONCELHOS E AS ALDEIAS


QUE INTEGRAM A REDE
A Associação de Desenvolvimento Integrado da Rede de Aldeias de Mon-
tanha (ADIRAM): uma parceria e objetivos estratégicos. A ADIRAM tem como
principais objetivos a promoção do desenvolvimento turístico e integrado da
Rede das Aldeias de Montanha, através da adoção de uma postura sustentável,
integrada, inovadora e criativa. A sua atividade está focada num conjunto de
funções que permitem cobrir vários âmbitos de atuação, nomeadamente:
– A promoção e execução de projetos turísticos e outros que contribuam para
a dinamização da RAM e da sua própria capacitação;
– Valorizar a paisagem natural e ambiental e o património cultural material e
imaterial das Aldeias de Montanha como referência na afirmação da identida-
de do território da serra da Estrela;

*
Coordenadora da Associação de Desenvolvimento Integrado da Rede de Aldeias de Montanha (ADIRAM)
184 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

– Fomentar e apoiar a criação de novas empresas em setores tradicionais,


onde existam vantagens competitivas e diferenciadoras, facilitando assim a
fixação de pequenas empresas na região, através da valorização e formação
dos seus recursos humanos e da inovação;
– Atuar como entidade geradora de consensos e aproximação de interesses
com vista ao desenvolvimento da Rede das Aldeias de Montanha enquanto
produto turístico e enquanto projeto de desenvolvimento local, comunitário
e inclusivo.

As Aldeias de Montanha que integram a rede partilham em comum a identi-


dade de montanha. São as Serras da Estrela e Gardunha e em particular a sua
geografia, que condicionam a dimensão vivencial que é o reflexo das heranças
do passado, das vivências do momento presente e das expectativas de futuro
das comunidades “serranas”. E é esta identidade que é reforçada pela partilha
de valores culturais semelhantes entre as aldeias, expressa em patrimónios, cos-
tumes e tradições, que as comunidades locais tão bem têm conseguido valorizar
ao longo dos tempos, que a ADIRAM – Associação de Desenvolvimento Integra-
do da Rede de Aldeias de Montanha deverá ser capaz de potenciar de forma
inovadora e criativa por forma posicionar a marca “Aldeias de Montanha” no
ciclo económico. A dimensão identitária é um fator que distinguirá este território
REDE DE ALDEIAS DE MONTANHA: UM TERRITÓRIO E UMA ESTRATÉGIA DE DESENVOLVIMENTO RURAL INTEGRADO
185
Célia Gonçalves

de tantos outros no país, transformando-o num espaço capaz de “contar a sua


história”, sempre com o envolvimento direto das comunidades locais.
A construção dessa identidade supramunicipal não deve ser, de todo, o so-
matório dos aspetos simbólicos de cada um dos concelhos, mas antes a síntese
de um processo identitário próprio, que valoriza como um todo as peculiaridades
do imaginário de montanha que associamos à Serra da Estrela e ao território
envolvente.
A Rede das Aldeias de Montanha é, um projeto de afirmação de um territó-
rio montanhoso com uma personalidade única, suportado por três labels (Eco,
Social e Heritage) vividos através de um conjunto de negócios coletivos que os
operacionalizam, de forma integrada: um território com potencial para o “Turis-
mo de Natureza”, para o “Touring Cultural e Paisagístico”, para o “Turismo de
Gastronomia”, para o “Turismo Rural” e para o “Turismo Solidário.”
Natureza Autêntica e Gente Genuína: o que de melhor as Aldeias de Mon-
tanha têm para oferecer. A afirmação da identidade das Aldeias de Montanha,
porque é mais do que o somatório dos aspetos simbólicos de cada uma das
aldeias, deve traduzir-se na síntese de um processo identitário próprio, que valo-
riza como um todo os valores diferenciadores do imaginário coletivo das Aldeias
de Montanha que associamos às serranias. Este plano identitário integrado e
que se materializa também na promoção integrada das Aldeias de Montanha,

Vila de Manteigas Cabeça (Seia)

Cadafaz (Celorico da Beira) Loriga, Socalcos (Seia)


186 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Alpedrinha (Fundão) Videmonte (Guarda)

São Gião (Oliveira do Hospital) Melo (Gouveia)

deve ser visto como uma oportunidade para a transformação deste território em
torno de uma identidade de montanha forte e coesa capaz de posicionar a marca
Aldeias de Montanha enquanto produto turístico de referência, nas serras da
Estrela e Gardunha, capaz de criar vantagens competitivas e diferenciadoras,
que certamente irão acrescentar valor à região.

O FUTURO
O Projeto da Rede de Aldeias de Montanha cofinanciado pelo CENTRO 2020,
integra a EEC PROVERE iNATURE, enquadrado no Eixo Aldeias do Conhecimento.
Uma estratégia a operacionalizar no triénio 2019-2021 – Aldeias de Montanha
Ecossistema Criativo e Comunitário – que assenta em lógicas de laboratórios
vivos com uma aliança estratégica entre o património ambiental das aldeias
REDE DE ALDEIAS DE MONTANHA: UM TERRITÓRIO E UMA ESTRATÉGIA DE DESENVOLVIMENTO RURAL INTEGRADO
187
Célia Gonçalves

Algodres (Fornos de Algodres) Penhas da Saúde, Estância de Montanha (Covilhã)

(natureza e cultura), com forte tradição rural marcada por uma vivência de mon-
tanha e os novos fatores de competitividade, como o desenvolvimento tecnoló-
gico (a trabalhar por via do reforço das parcerias), a criatividade e inovação, a
economia da partilha, a solidariedade e a sustentabilidade.
É pretensão da ADIRAM assumir as Aldeias de Montanha como Pólo de teste
e experimentação de um modo de vida inteligente, sustentável, inclusivo e soli-
dário, posicionando-se regional e nacionalmente como “portas de entrada” para
uma vivência rural de imersão na natureza, cultura e identidade das Aldeias de
Montanha.
Desta forma o projeto assenta numa abordagem focada numa estratégia de
comunicação e marketing territorial coerente com os valores identitários e trans-
versal às ações do projeto. O Plano de Inovação e Empreendedorismo que se
traduz em modelos de inovação, empreendedorismo social, por via da criação
de redes colaborativas, como fontes de conhecimento e cocriação de soluções
para incentivar um desenvolvimento inteligente e a dinamização de sectores
emergentes no domínio da economia verde e da partilha.
O Plano de animação explora e privilegia por via de um calendário de Festas
de Montanha, a criação de sinergias com as dinâmicas locais que já mobilizam
as comunidades possuindo por isso um forte sentido de pertença. As atividades
propostas no calendário da animação materializam-se numa abordagem que va-
loriza as tradições locais, a sustentabilidade, a arte e o design. Exemplos como a
Cabeça Aldeia Natal, as Festas do Solstício, o Festival do Pão, as Paisagens So-
noras, o Festival do Míscaro e os Chocalhos, valorizam as especificidades endó-
genas de cada uma das Aldeias de Montanha e traduzem-se em ativos e forças
motoras de afirmação territorial.
Museus
e Centros
de
Interpretaçao
MUSEU DE LANIFÍCIOS DA UNIVERSIDADE
DA BEIRA INTERIOR

O Museu de Lanifícios constitui um Centro Interdepartamental da Universi-


dade da Beira Interior. Integrado na Rede Portuguesa de Museus desde 2002,
o Museu de Lanifícios tem por missão a salvaguarda do património associado a
uma das mais antigas indústrias humanas, a indústria têxtil e, em particular, ao
seu subsector dos lanifícios, num território que tem por matriz a Serra da Estrela
1
e por centro histórico a cidade da Covilhã .
Desde a Idade Média que, na região da serra da Estrela, o trabalho de trans-
formação da lã norteou a relação entre o homem e o território, estimulando a
criação de uma paisagem cultural. Ao longo do tempo, nasceram tradições,
desenvolveram-se saberes e técnicas de que ainda restam muitas evidências
materiais e imateriais. Esta paisagem cultural pontua-se por um património que
ainda hoje é vivo em múltiplas das suas aceções e pode ser fruído imergindo nos
seus diversos ambientes (Pinheiro, 2009). Através de três núcleos museológicos,
o Museu convida à descoberta desta paisagem cultural, caracterizada por uma

1
www.ubi.pt
190 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

atividade produtiva secular onde a fibra de lã imperou tendo, durante os séculos


XIX-XX, atingido um tal fulgor que a cidade da Covilhã chegou a ser considerada
a Manchester portuguesa.
Os núcleos museológicos localizados em espaços patrimoniais, são os se-
guintes:

1. Real Fábrica de Panos


Este núcleo, através da recuperação arqueológica, arquitetónica e da história
da ocupação do edifício da Real Fábrica de Panos, visa essencialmente recons-
tituir os processos manufatureiros do fabrico e do tingimento dos tecidos de lã
mais utilizados em Portugal nos finais do século XVIII. A visita a este núcleo per-
mite uma imersão no ambiente de uma tinturaria setecentista, encontrando-se
a área classificada como Imóvel de Interesse Público (Dec. nº 28/82 de 26 de
Fevereiro).
A Real Fábrica de Panos foi criada na Covilhã em 1764, no âmbito da po-
lítica de fomento industrial do Marquês de Pombal. A sua localização, junto à
Ribeira da Goldra, foi estrategicamente escolhida para apoiar os fabricantes lo-
cais, nomeadamente na realização das operações de tinturaria e acabamento
dos tecidos. Construída num edifício monumental, para além da transferência
de tecnologia, servia também para certificar a qualidade da produção e para
formar aprendizes. Na Covilhã, a criação desta importante manufatura estatal
teve grande impacto na economia local.
MUSEU DE LANIFÍCIOS DA UNIVERSIDADE DA BEIRA INTERIOR 191

2. Real Fábrica Veiga


Em 1784, José Mendes Veiga, um negociante de lãs e panos, cristão-novo,
natural de Belmonte, fundou, nas imediações da Real Fábrica de Panos, uma ma-
nufatura de tinturaria e acabamento de tecidos. Esta empresa privada conquis-
tou grande notoriedade e destaque económico e por obter diversos privilégios
reais, veio, posteriormente, a ser conhecida como a “Real Fábrica Veiga”.
Este edifício, com uma área de cerca de 12.000 m 2, aloja a sede do Museu
e, para além das diversas áreas socias e técnicas, integra o Centro de Documen-
tação dos Lanifícios e o núcleo museológico da industrialização dos lanifícios.
Este núcleo, através de uma significativa coleção de máquinas e equipamentos,
enfatiza a fase da industrialização, apresentando a evolução tecnológica ocor-
rida nos lanifícios entre meados dos séculos XIX e XX. No Centro de Documen-
tação/Arquivo Histórico dos Lanifícios, encontra-se incorporado um conjunto de
documentação constituída por diversos fundos de arquivo, coleções e espólios
de documentação técnica, cartográfica, iconográfica e têxtil, estrutura de grande
importância para a salvaguarda da memória dos lanifícios e para o desenvolvi-
mento de investigação pluridisciplinar.

3. Râmolas de Sol
O terceiro núcleo, de ar livre, preserva in situ, junto à Ribeira da Carpinteira,
no Sineiro, um conjunto de râmolas de sol e um estendedouro de lãs, pertencen-
tes à antiga firma Inácio da Silva Fiadeiro & Sucessores (1910-1939).
192 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

O Museu de Lanifícios, de acordo com o lema que o norteia “os fios do pas-
sado a tecer o futuro”, pratica a conservação ativa do património dos lanifícios,
desenvolvendo a dimensão projetiva do acervo que incorpora, através da inves-
tigação aplicada, da disponibilização de serviços e do apoio ao desenvolvimento
de produtos. Para este fim, conta também, no edifício da Real Fábrica Veiga, com
uma oficina têxtil, espaço de experimentação de técnicas e de estímulo a no-
vas aprendizagens, estrutura que pode considerar-se relevante para promover
a conservação patrimonial e a inovação, através de uma cuidada programação
das atividades educativas.
Em paralelo, aposta igualmente na valorização do património industrial e la-
neiro da região e da cidade onde o Museu se insere, visando, através da verten-
te turística, contribuir para o desenvolvimento sustentável do território. Neste
sentido, o Museu definiu, no âmbito da “Rota da Lã”, um conjunto de itinerários
turísticos e culturais, tendo a lã como fio condutor, com a finalidade de desco-
brir por toda a região as múltiplas e diversas evidências patrimoniais (Pinheiro,
2009). Em complemento, propõem-se atividades de turismo criativo para sentir
a cultura laneira explorando um mapeamento cultural assente na diversidade
morfológica das lãs e na consequente especialização de técnicas.
Assim, a partir da divulgação de conhecimento, da investigação, da educação
e da valorização turística, o Museu de Lanifícios convida a um outro olhar sobre
uma paisagem cultural que se quer evolutiva, caracterizada por um património
vivo, que importa conservar, valorizar e divulgar para poder fruir, experienciar e
viver.

REFERÊNCIAS
PINHEIRO, Elisa Calado (2009). Rota da Lã TRANSLANA: Percursos e marcas de
um território de fronteira: Beira Interior (Portugal) e Comarca Tajo-Salor-Al-
monte (Espanha), Vol.1- Reconhecimento e valorização patrimonial. Vol. 2 -
Inventários das vias agro-pecuárias e do património edificado associado à
indústria de lanifícios. Covilhã: Museu de Lanifícios da Universidade da Beira
Interior.
A MANTA DE PAPA E O MUSEU
DE TECELAGEM DA ALDEIA DOS MEIOS

O Museu de Tecelagem localiza-se na aldeia dos Meios que, pela sua altitu-
de, é a segunda aldeia mais alta de Portugal, cuja paisagem natural e íngreme,
beijando o Rio Mondego, fazem dela um cantinho onde a historia e a natureza se
cruzam. Marcada desde muito cedo pela pastorícia, agricultura e a tecelagem,
esta freguesia ainda hoje presenteia aos visitantes uma sensação agradável de
um regresso ao passado, onde se destaca um rico património histórico, arquite-
tónico e cultural.

O COBERTOR DE PAPA
O cobertor de Papa ou manta de Papa teve a sua origem nas freguesias do
concelho da Guarda, nomeadamente nos Trinta, Meios e posteriormente em Ma-
çainhas. A proximidade do Rio Mondego terá contribuído para tal uma vez que
foram construídas várias fábricas de fiação para transformação de lã suja em lã
194 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

lavada e fiada, com o aproveitamento da força motriz da água como energia, os


chamados engenhos.
As fábricas de tecelagem encontravam-se dentro das aldeias e muitas vezes,
pessoas particulares possuíam teares para produção muito limitada mas não dei-
xava de ser mais uma fonte de rendimento para enfrentar aqueles tempos difí-
ceis. A matéria-prima ideal para este produto é a lã churra e a lã merina, oriunda
de vários pontos do país, desde a Beira Alta, Trás-os-Montes e Alentejo.
A Manta de Papa começou por ser manufacturada e comercializada a peso,
sendo que cada manta teria que ter um peso de 3.500 kg, até aos anos 60 do
Século XX. Mais tarde, passaram a ser comercializadas à peça e o peso deixa de
ser o factor principal e consequentemente as mantas de Papa começam a ter
menos peso, logo menos espessura.

O NOME E OS TIPOS DE MANTAS


Existem duas versões explicativas do nome deste artigo. Como se trata de
um produto feito a partir de uma lã muito fina, churra ou merina, de extrema
qualidade, o produto final é tão bom que fica digno de se colocar na cama de um
Papa. A outra versão está ligada a uma das fases da feitura do cobertor de Papa.
Depois de tecida a pisa (conjunto de 6/7 mantas), necessita de se completar
o ciclo. Tem que ser lavada e pisoada, ou seja, batida com enormes maços de
madeira dentro de um recipiente com água e grede (terra vermelha), para poder
ser cardada (puxar o pelo), seca nas ramblas (estruturas metálicas colocadas no
exterior para colocação das pisas para que sequem ao sol), cortadas e comer-
cializadas.
Quando a pisa está envolta em água e terra assemelha-se a uma papa e
muito provavelmente a explicação do nome da manta de Papa advenha desta
imagem.

A MANTA DE PAPA PASTOR: Manta composta de duas cores naturais dispos-


tas em barras castanhas e brancas. Esta manta é a tradicional para o uso diário
do pastor oriundo da Beira Alta, muito especialmente desta região da Serra da
Estrela, na sua lide da guarda do gado. Quer seja de Inverno ou Verão a manta
Pastor faz sempre parte da indumentária do pastor. O facto de ser impermeável,
uma vez que a gordura da lã (surro) se mantém durante muito tempo, por mais
que a lavem, faz desta manta o parceiro ideal para os dias frios e gélidos que
assolam as nossas pastagens.

A MANTA DE PAPA LOBEIRA OU BARRENTA: Manta composta por várias cores


dispostas em barras brancas, castanhas, amarelas, verdes e vermelhas. A lã de
A MANTA DE PAPA E O MUSEU DE TECELAGEM DA ALDEIA DOS MEIOS 195

cor desta manta (amarela, vermelha e verde), é tingida antes de ser tecida, ao
contrário das mantas totalmente de cor, que são tingidas depois de tecidas.
Como a manta de Papa tem origem nestas terras da Beira Alta, muito es-
pecialmente em freguesias que pertencem ao actual Parque Natural da Serra
da Estrela, facilmente se percebe que a rigorosidade dos invernos obrigava a
planeamentos por parte dos pastores, no que concerne ao alimento das ovelhas.
Como os invernos eram terríveis, com nevões que se prolongavam por semanas,
tornava-se muito difícil alimentar as muitas ovelhas que existiam pelo que a so-
lução passava pela chamada Transumância e no caso desta encosta da Serra da
Estrela, ela era feita para as terras da Cova da Beira (Alpedrinha, Idanha-a-Ve-
lha…). As chamadas “descidas” ocorriam em Novembro e as “subidas” em Maio.
Da fauna de então fazia parte o lobo que abundava pelas serranias da Estrela
e Gardunha. A manta Lobeira, e daí o nome, fazia parte sempre da transladação
do gado para as pastagens mais ricas e disponíveis e sempre que o rebanho era
atacado por lobos, a manta Lobeira servia como arma de defesa uma vez que as
fortes cores da manta confundia os lobos sempre que os pastores as atiçavam
para o meio da alcateia. Por ser feita com cores muito fortes, os lobos investiam
contra as mantas e quando se apercebiam que afinal não se tratava de alimento, já
o repasto estava a salvo das intenções do lobo. Existe também a possibilidade, em
casos extremos de o pastor se enrolar na manta e ficar imóvel e desta forma aque-
le conjunto enrolado com cores fortes, não ser reconhecido pelo lobo como alvo.
196 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

A MANTA DE PAPA BRANCA: Manta totalmente manufacturada a partir de lã


branca, sem ter sofrido qualquer tipo de tingimento. A cama era o destino desta
manta e rainha dos mais ousados enxovais. Talvez por ser branca, cor da pureza
e virgindade, o seu destino era a cama da primeira noite de casada.

MANTA BORDADA: São mantas de Papa, menos usuais, com uma barra para-
lela bordada, geralmente em losangos, nas extremidades.

AS MANTAS DE CORES: Feitas a partir de mantas brancas que depois de pron-


tas, são tingidas à cor, nomeadamente verde, amarela, castanha, vermelha. A
sua função era essencialmente como agasalho para as camas.

AS FASES DA FEITURA DA MANTA PAPA


1. A lã churra/merina é lavada e fiada;
2. É tecida em teares manuais;
3. É cortada do tear ao formar uma pisa (Conjunto de 6/7 mantas que corres-
ponde aproximadamente a 25 kg e a um dia de trabalho do tecelão);
4. A pisa é lavada nos pisões. O pisão consiste numa espécie de um tanque
apetrechado de dois maços de madeira em forma de pé que são accionados
e batem na pisa para ajudar a sair a gordura e sujidade da lã. É nesta fase que
o batimento dos maços transforma a pisa numa massa, muito semelhante a
uma papa e que muito possivelmente explica o nome deste artigo;
5. A pisa é cardada, numa primeira fase com carda, pequenas escovas com
dentes de ferro e posteriormente numa maquinaria muito primitiva denomi-
nada de percha que era um equipamento que possuía um tambor completa-
mente recheado de milhares de pontas, como se fossem pequenos pregos, à
largura da pisa e ao passar incessantemente pelos pregos invertidos, a lã era
puxada, dando volume e pelo à manta;
6. A pisa é cortada em mantas e esticadas nas ramblas, que consistia em bar-
ras horizontais de ferro, com saliências pontiagudas para poderem prender
e esticar a pisa;
7. As mantas entram no processo de fitamento (opção) e embalamento.
A MANTA DE PAPA E O MUSEU DE TECELAGEM DA ALDEIA DOS MEIOS 197

A MANTA DE PAPA NA ACTUALIDADE


Hoje em dia a manta de Papa tornou-se num artigo tradicional, quase extinto.
Até há muito pouco tempo existiam algumas fábricas com um carácter muito
artesanal na freguesia de Maçainhas, concelho da Guarda mas que o tempo se
encarregou de as encerrar, embora subsista a vontade de manter esta herança,
através de iniciativa de uma associação.
Quando surge em Agosto de 2006 o Museu de Tecelagem dos Meios, ou-
tra freguesia do Concelho da Guarda, fez-se um esforço para preservar esta
tão ancestral arte e praticamente desaparecida. Paralelamente surge também
a reposição deste artigo no mercado através de uma fábrica têxtil dos Trinta,
freguesia do concelho da Guarda que dista da freguesia dos Meios apenas 1
km, denominada de Têxteis Evaristo Sampaio, Lda/ Lordelo, que outrora também
manufacturou a manta de Papa, tendo mesmo tido um papel importantíssimo na
história deste ancestral produto.
Actualmente, o Museu de Tecelagem dos Meios e a Associação Genuína do
Cobertor de Papa de Maçainhas ainda tecem os cobertores em teares ancestrais
e manuais. De uma forma mais industrial, apenas a Fábrica Têxteis Evaristo Sam-
paio nos Trinta faz o cobertor de Papa.
198 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

SOLAR DO QUEIJO DA SERRA DA ESTRELA

No Centro Histórico de Celorico da Beira, nas imediações do castelo em fren-


te à igreja de Santa Maria, ergue-se o Solar do Queijo Serra da Estrela. Ao abrigo
do Programa LEADER II, a Câmara Municipal requalificou e adaptou uma antiga
casa solarenga da 2.ª metade do século XVIII, que ostenta na sua frontaria de
estilo barroco, o brasão real e o brasão com as armas da vila, construindo uma
autêntica catedral do queijo Serra da Estrela, inaugurada em novembro de 1998,
pelo então Primeiro-ministro, Eng.º António Guterres.
Por força das condições edafoclimáticas e da flora específicas do concelho
de Celorico da Beira, apascentam nos seus pastos férteis e verdejantes os maio-
res rebanhos de ovelhas da raça autóctone Bordaleira Serra da Estrela e Churra
Mondegueira, produzindo-se aqui a maior quantidade de queijo Serra da Estrela
(DOP), de qualidade ímpar, situação que granjeou para Celorico da Beira o epíte-
to de Capital do Queijo Serra da Estrela.
SOLAR DO QUEIJO DA SERRA DA ESTRELA 199

O Solar do Queijo Serra da Estrela é hoje, um dos ex-libris do património


celoricense, verdadeira montra do melhor queijo produzido no concelho e espa-
ço nobre de exposição, degustação e venda deste produto nobre da pastorícia,
cartão-de-visita do concelho foi, recentemente, alvo de obras de manutenção e
conservação transformando-se num espaço remodelado e mais atrativo.
Atendendo a que os tempos modernos são dominados pela tecnologia e a in-
formação, esta operação de limpeza, embelezamento e modernização impunha-
-se, não só pelo peso da história do edifício – no passado, funcionou como Paços
do Concelho, Tribunal, Cadeia, sede dos Escuteiros e dos Bombeiros Voluntários
– como também, pela necessidade de adaptar esta sala de visitas do concelho,
aos novos tempos, tornando-o mais moderno e funcional, sem contudo, perder o
brilho e sumptuosidade que desde sempre o caracterizaram.
O espaço museológico e as salas de provas e vendas de queijo continuam
bem definidas e separadas, apresentando agora um ar mais moderno. A deco-
ração manteve o mesmo estilo: um misto de materiais rústicos com outros mais
nobres e sofisticados.
No rés-do-chão, o visitante/turista encontra um espaço museológico mais
atrativo, didático e funcional. No centro da sala está colocada uma vitrina, onde
estão expostos os artefactos ligados à laboração do queijo e o vestuário do
200 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

pastor e da queijeira. Num dos cantos da sala, foi recriada uma cozinha rural
onde predominam os artefactos ligados à produção do queijo, os quais podem
ser, simultaneamente, visionados no vídeo demonstrativo de todo o processo de
produção de queijo e requeijão, que é projetado neste espaço durante a visita.
Na parede, pode observar sugestivos painéis interpretativos de todo o processo
de laboração do queijo e do requeijão, com textos em português, inglês e fran-
cês que permitem ao público estrangeiro compreender estes processos ances-
trais de produção artesanal destas iguarias serranas.
No 1.º andar encontram-se as salas destinadas à realização das provas de
degustação e/ou venda de queijo Serra da Estrela, amanteigado ou duro e de
outros produtos do concelho.
Aceite o nosso convite e traga os amigos para (re)visitar o Solar do Queijo
Serra da Estrela e/ou para saborearam alguns dos tesouros da gastronomia ser-
rana: queijo Serra da Estrela, presunto, chouriço, requeijão e doce de abóbora,
sempre acompanhados com pão centeio e regados com um bom vinho.
Esperamos por si!
CENTRO INTERPRETATIVO
DO VALE GLACIAR DO ZÊZERE

O Centro Interpretativo do Vale Glaciar do Zêzere, inaugurado no dia 04 de


março de 2013, tem como objetivo dar a conhecer outras perspetivas e visões do
Vale Glaciar do Zêzere e as potencialidades turísticas do Concelho de Manteigas.
Um equipamento único na região e que funcionará como excelente meio de
captação de visitantes e de divulgação do território.
A principal atracção do Centro Interpretativo é um simulador que recria uma
viagem de balão/dirigível ao longo do Vale Glaciar do Zêzere. Um passeio onde
o visitante se deslocará virtualmente sobre a área, património natural, com uma
extensão de 13 quilómetros, com pontuais recuos no tempo, saltos de milhares
de anos, para, com o recurso a representações 3D, melhor se compreender o
fenómeno da glaciação.
O Centro Interpretativo conta ainda com duas «janelas» para Manteigas (pre-
sente e passado), quadros interativos sobre a fauna e flora predominantes no
Vale, um módulo sobre os percursos pedestres e a narração de uma história rela-
cionada com a atividade florestal (antiga Casa do Guarda Florestal) num cenário
criado em torno da lareira existente no edifício.
202 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Fauna e Flora – Quadros Interativos. Explora as espécies vegetais e animais


representativas da riqueza biológica da região, dando particular ênfase aos
endemismos locais.

O passado de Manteigas. Retrata Manteigas de antigamente, com imagens


de alguns edifícios e episódios marcantes das gentes de Manteigas.

Janela para o presente. Janela de promoção turística do concelho de Mantei-


gas. Apresentação num ecrã sensível ao toque de informações sobre Mantei-
gas, pontos notáveis, locais a visitar e outras curiosidades.

Uma casa com história. Dar a conhecer um pouco da história do próprio edi-
fício e da atividade de quem ali trabalhava.

Percursos Pedestres. Apresenta as várias rotas pedestres existentes na zona


bem como os valores a elas associados. Um ecrã sensível ao toque, de gran-
des dimensões, apresentará um mapa da região onde serão apresentados ao
visitante 16 percursos diferentes.

Simulador de balão/dirigível. Recriação de uma viagem de balão ao longo do


Vale Glaciar do Zêzere. Uma viagem silenciosa em que o visitante se deslo-
ca virtual e lentamente ao sabor dos caprichos da natureza e numa altitude
compatível com a necessidade de compromisso entre a percepção do todo
com a relevância do particular.

Fonte: http://www.civglaz-manteigas.pt/index.php/localizacao
INTERPRETAÇÃO E PROMOÇÃO
DO PATRIMÓNIO GEOLÓGICO
NO GEOPARK ESTRELA

EMANUEL CASTRO*
HUGO GOMES*
FÁBIO LOUREIRO*
LUCAS CEZAR*

O Geopark Estrela é um território detentor de um notável património geo-


lógico, sendo a sua principal originalidade as evidências resultantes da última
glaciação, com valores pedagógicos e cénicos elevados e com um notável valor

Figura 1. Mapa distribuição de geossítios no Geopark Estrela.

*
Geopark Estrela.
204 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

científico, considerando a posição geográfica no limite SW da Europa. Os valores


geológicos e geomorfológicos deste território fazem da Estrela um laboratório
vivo de conhecimento e aprendizagem. O Património Geológico do Geopark Es-
trela e em especial as marcas deixadas pela última glaciação, são valores re-
conhecidos da importância natural da região, representados por 124 geossítios
(Figura 1), estruturados em diferentes tipologias em função da sua génese (Figu-
ra 2).
A sua geodiversidade compreende uma ampla variedade de rochas graní-
ticas hercínicas, de idades compreendidas entre os 480 e os 280 milhões de
anos, e de metassedimentos, com idades próximas dos 650 milhões de anos,
sendo as formações geológicas mais antigas da região. Destacam-se também
as formações do Pleistocénico Superior, em particular os depósitos glaciários e
fluvioglaciários. A ação dos processos glaciários e fluvioglaciários contribui para
os principais valores que estão na base da candidatura do território da serra da
Estrela à UNESCO.

Figura 2. Distribuição dos Geossítios do Geopark Estrela por tipologia.


Fonte: Dossier de Candidatura UNESCO Aspiring Geopark Estrela (2017).

O Geopark Estrela estruturou uma estratégia de desenvolvimento territorial


holística, que tendo por base o Património Geológico, promove a valorização
INTERPRETAÇÃO E PROMOÇÃO DO PATRIMÓNIO GEOLÓGICO NO GEOPARK ESTRELA
205
Emanuel Castro, Hugo Gomes, Fábio Loureiro, Lucas Cezar

de todo o património, seja natural ou cultural, tangível ou intangível. Nesta


ótica, o Geopark Estrela tem vindo a desenvolver um conjunto de iniciativas
que permitem atingir os objetivos traçados, das quais se destacam as Estruturas
Interpretativas (painéis e mesas), o Centro de Interpretação do Geopark Estrela,
os Programas Educativos e a Promoção e Divulgação através da dinamização de
conferências e seminários.
Neste contexto, o Centro de Interpretação do Geopark Estrela (Figura 3),
localizado no ponto mais alto de Portugal continental, visa o reconhecimento
e valorização deste território. Este espaço, em funcionamento desde setembro
de 2018, constitui uma mais-valia interpretativa para os quase 2 milhões de
visitantes que se deslocam até ao planalto da Torre todos os anos. Assim, a
interpretação e divulgação dos valores patrimoniais do território neste centro
de interpretação permite uma maior consciencialização dos visitantes, contri-
buindo por um lado para a preservação destes recursos através da educação,
e por outro, para a melhoria da experiência turística, alcançando um dos ob-
jetivos de um Geopark Mundial da UNESCO, que pretende que a preservação
seja conseguida por via da educação e não pela proibição.

Figura 3. O centro de Interpretação do Geopark Estrela na Torre. Fonte: Filipe Patrocínio


206 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Este é um espaço dedicado à interpretação do património geológico, assim


como da biodiversidade e ocupação humana deste território. No ponto mais alto
de Portugal Continental torna-se fundamental a existência de um espaço com
estas características, uma vez que os milhares de visitantes que aqui chegam
passam a dispor de um centro de informação, de conhecimento e de documen-
tação, constituindo, incontornavelmente, uma mais-valia para a experiência tu-
rística nesta Montanha.
Nos primeiros 8 meses de 2019 visitaram as exposições do Centro de Inter-
pretação mais de 3 mil pessoas, de diferentes nacionalidades, mas muitas mais
passaram por este espaço para obter informação ou documentação, neste que
é, também, a décima porta do Geopark Estrela. Paralelamente, o CIGE tem ve-
rificado uma tendência positiva no número de visitantes, em relação à qual não
é alheio o trabalho de divulgação feito pela Associação Geopark Estrela nestes
últimos meses, registando-se de forma expressiva, no aumento do número de
visitas nos meses de verão, o que vem demonstrar uma tendência para a dimi-
nuição da tradicional sazonalidade, que durante décadas caracterizou a serra da
Estrela.
A classificação da Estrela como Geopark Mundial da UNESCO constitui a
grande estratégia de desenvolvimento regional de base territorial para o séc.
XXI, traduzindo-se numa mudança efetiva de comportamentos e ações, sobre-
tudo no modo como os diferentes agentes do território passam a valorizar os
seus recursos endógenos de modo transversal e holístico. A valorização do
património geológico encontra-se presente de forma transversal nas diversas
áreas de atuação, quer seja no contexto da Ciência, Educação, Cultura, Turismo
e, inevitavelmente, na própria Comunicação que é produzida. Na verdade, está
em marcha uma importante estratégia de desenvolvimento, sem paralelo neste
território, nascida da consciência do valor científico da sua geologia e da História
que ela encerra.
Faz parte da estratégia do 5º Geopark Mundial da UNESCO em Portugal, um
reforço da interpretação do seu património, aproximando a ciência e o conheci-
mento das populações, tornando os seus mais de 2200km2 um recurso para o
desenvolvimento das suas populações.
A RENOVAÇÃO DO CENTRO
INTERPRETATIVO DA SERRA DA ESTRELA
E O DESENVOLVIMENTO CULTURAL,
SOCIAL E ECONÓMICO DA REGIÃO
DA SERRA DA ESTRELA

A região da serra da Estrela é uma referência nacional incontornável no tu-


rismo de natureza e cultural. As Aldeias de Montanha, as tradições e costumes
locais, a gastronomia regional, as paisagens de elevada qualidade, a geodiver-
sidade e uma biodiversidade rica oferecem a todos aqueles que visitam a serra
da Estrela momentos singulares de recreio, lazer e contacto com a natureza e
cultura locais.
Com o intuito de dar a conhecer os valores naturais e culturais da mais alta
montanha do território continental português, a Câmara Municipal de Seia criou
o Centro de Interpretação da Serra da Estrela (CISE), em outubro de 2000. O
Centro representa um instrumento essencial na execução da política turística e
208 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

ambiental da região. A interpretação do património natural e cultural da serra da


Estrela, a promoção do turismo de natureza, a educação ambiental e o apoio à
investigação constituem as suas missões principais. Para consolidação da voca-
ção da serra da Estrela como o principal destino turístico de montanha no país,
o Município de Seia concluiu, em 2007, um projeto de ampliação do CISE finan-
ciado pelo Fundo Europeu para o Desenvolvimento Regional, assente na remo-
delação dos espaços já existentes e na construção de novos equipamentos, de
que se destaca um edifício principal, e que permitiu ao Centro assumir-se, desde
logo, como uma infraestrutura âncora no turismo ambiental nacional.
Do novo equipamento resultaram, entre outros espaços, as salas de exposi-
ção, a sala multimédia, os laboratórios, o auditório e o centro de documentação,
que colocam ao dispor do público um conjunto de valências devidamente prepa-
rados para a prossecução das atividades que promove.
No contexto da interpretação do património ambiental e do turismo de na-
tureza, o CISE funciona como um centro de receção e apresentação da serra
da Estrela, constituindo um ponto privilegiado para iniciar uma visita à região
e fundamental para a valorização do território. Neste âmbito, na oferta do Cen-
tro evidenciam-se: i) as áreas de exposições permanente e temporária e a sala
multimédia, destinados à promoção deste território com propósitos de carácter
turístico e pedagógico; e, ii) a organização de um conjunto vasto de atividades
de animação ambiental, como sejam cursos e saídas temáticas de observação
da natureza e oferta de percursos pedestres interpretativos, desenvolvidos com
A RENOVAÇÃO DO CENTRO INTERPRETATIVO DA SERRA DA ESTRELA E O DESENVOLVIMENTO CULTURAL, SOCIAL E
209
ECONÓMICO DA REGIÃO DA SERRA DA ESTRELA

o intuito de auxiliar o público na compreensão dos processos naturais e culturais


relacionados com a montanha. O CISE funciona, ainda, como centro receção de
visitantes, onde presta serviços de informações turísticas necessárias para uma
visita plena à serra da Estrela: “onde ficar, o que ver e como chegar aos lugares
mais interessantes do território” são as questões mais frequentes. Nesta área,
o CISE possui também um posto de vendas onde o visitante pode adquirir mer-
chandising, roteiros e mapas turísticos, publicações sobre o património ambien-
tal da região, entre outros.
Decorrida mais de uma década desde a abertura das novas instalações do
CISE, e com vista a assumir o posicionamento do Centro como um equipamento
de referência na visitação à maior Área Protegida nacional, o Município de Seia
está a desenvolver um projeto ambicioso de renovação. Esta atualização permiti-
rá ao Centro continuar e incrementar a realização de um trabalho de excelência,
com melhores instalações e mais valências, na promoção do turismo de natureza
e valorização do património ambiental da região.
Deste modo, o projeto preconiza uma intervenção integrada a nível da es-
truturação dos espaços do edifício principal e dos seus múltiplos equipamentos,
em particular aqueles que possuem uma vertente interpretativa mais marcada.
Esta intervenção deverá basear-se em premissas de comunicação mais criativas,
inovadoras e adequadas ao perfil do turista e que possam contribuir para um
reforço ainda maior dos objetivos que estiveram na génese do Centro, de que se
destacam, entre outros:
210 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

• Promover o território da serra da Estrela, potenciando ainda mais a notorie-


dade como o principal destino turístico de montanha do país.
• Potenciar a dinamização económica do território, através da criação de no-
vos fluxos turísticos, que incluem como destino as aldeias e vilas da região,
nomeadamente as que já se estruturaram enquanto Produtos Turísticos de
referência, em particular as Aldeias de Montanha.
• Promover o consumo de serviços e bens locais por parte dos visitantes, de
forma a dinamizar a atividade económica da região.
• Estimular a proteção do património e da identidade local.
• Estabelecer uma proposta interpretativa para os diversos valores patrimo-
niais da serra da estrela, com particular ênfase na biodiversidade, na geodi-
versidade, na história e na ocupação humana, nos seus objetos, memórias e
vivências.

Para tal, as ações de renovação previstas pressupõem a implementação de


um conjunto de atualizações ao projeto inicial, em particular das componentes
expositivas e de receção aos visitantes, que, para além de visar a modernização
de instalações, equipamentos, conteúdos e design expositivo, procuram torná-
-los ainda mais atrativos, impactantes e funcionais para o público.
Geografia
literária da
Serra da
Estrela:
apontamentos
para uma
leitura do seu
territorio
OS ESCRITORES PERANTE A MONTANHA
CRISTINA ROBALO CORDEIRO*

É tardio o aparecimento da montanha na cena literária europeia, ainda que


apenas enquanto cenário ou pano de fundo. Entre muitos outros aspectos da Na-
tureza, ela própria durante muito tempo desconhecida dos escritores (no século
XVII, a palavra “natureza” não designa nada mais do que a natureza moral do
Homem), a montanha teve que esperar por Jean-Jacques Rousseau para entrar,
muito discretamente, no índice temático do romance de língua francesa. É ver-
dade que a linguagem litúrgica — mencionando Ararate, Sinai e Sião, ou essas
montanhas que, no Novo Testamento, a fé faz mover — deveria ter preparado os
espíritos para a descoberta de uma realidade tão “incontornável”, mas é certo
que o ser humano sempre preferiu prudentemente contorná-las em vez de as
atravessar…
Foi preciso que o “cidadão de Genebra”, reagindo contra o artificialismo dos
homens de letras parisienses, situasse a acção da sua Nouvelle Héloïse no sopé
dos Alpes para que os olhares se voltassem enfim para as alturas. É curioso notar
que as primeiras ascensões do Monte Branco, em 1786 (por Balmat e Paccard) e
em 1787 (por Horace de Saussure, autor de Voyages dans les Alpes, 1779) foram
precedidas pela “Profession de foi du Vicaire Savoyard”, no Emile, e das Lettres
de la Montagne do mesmo Jean-Jacques Rousseau, o que nos autoriza a subli-
nhar o carácter antecipador, senão profético, do seu génio literário.
Conviria, em boa justiça, atribuir aos pintores o mérito de terem dado a co-
nhecer, desde o século XV, algumas longínquas escarpas (pensamos em Konrad
Witz, falecido em Genebra por volta de 1445): e, apesar da expressão bem co-
nhecida “uma imagem vale mil palavras”, estes quadros dos nossos primitivos da
paisagem não foram suficientes para tirar a montanha da ignorância para a qual
estava relegada desde há séculos, na literatura ocidental.
O romantismo parecia predestinado a explorar (nos dois sentidos do termo
em português) a montanha. E se a personagem de Fausto faz uma incursão no
Harz e Lord Byron, apesar da sua claudicação, conhece a tentação do alpinis-
mo nascente, em França, o aparecimento, em 1868, de La Montagne de Jules
Michelet contribuiu largamente para familiarizar o público com a Saboia que o
Segundo Império de Napoleão III acabara de tornar território francês, em 1860,

*
Universidade de Coimbra. Plano Nacional de Leitura, Ler+ Ciência.
214 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

por via de referendo. No entanto, com a excepção do helvético Toepffer e das


suas pitorescas Voyages en zigzag, publicadas desde 1845, é apenas no século
XX que a montanha encontra e consagra os seus escritores. A intervenção de
Nietzsche terá, entretanto, vindo substituir a influência de Rousseau e foi, uma
vez mais, a Suíça da alta Engadina que serviu de mediadora.
Fazer hoje o levantamento dos textos literários de que a montanha é objecto
representaria um desafio fastidioso. Mesmo se nos limitássemos ao corpus de
língua portuguesa, a existente matéria daria lugar a um espesso volume, de que
a presente colectânea não é senão um pequeno esboço. Uma primeira dificulda-
de seria a de determinar o grau de literariedade, digamos o valor estético, que
nos autorizaria a colocar uma página sob a rubrica “literatura.” Por que não seria
um botânico ou um etnólogo considerado um escritor, tanto quanto um médico
como Torga ou um historiador como Herculano? E quem, para descrever uma
paisagem de montanha, estará melhor equipado do que um geógrafo, desde
que não recuse partilhar a sua emoção, sem a qual a paisagem fica somente no
papel?
Mas uma outra dificuldade se acrescentaria a um trabalho de inventário.
Como distribuir e classificar as obras ou os extractos de obra inspirados pela
montanha? Diversos pontos de vista científico, estritamente geográficos (morfo-
logia, mineralogia, climatologia, etc.), poderiam orientar a taxinomia. Todavia, e
numa perspectiva literária, a tipologia deve ser estabelecida de outra forma e,
afastando a ordem cronológica, incerta e por vezes enganadora, basear-se em
categorias como o imaginário, o real e o ideal, em função das quais os escritores,
deliberadamente ou não, sentiram, pensaram e restituíram a montanha. E assim
vemos surgir três espécies de montanhas, isto é, três maneiras de abordar a
montanha, e este modo de distribuição poderia, a posteriori, ajudar a situar e a
compreender a pequena selecção aqui apresentada e que obedece à preocupa-
ção de uma “geografia literária”. Desenhemos em traços largos o perfil de cada
uma destas Montanhas.
É sabido que o espírito humano não começou por apreender o real, que é
uma conquista da razão. Anteriormente, a Montanha esteve envolta nos véus da
imaginação e é rodeada por uma atmosfera de lendas e de superstições que te-
mos que a considerar, num primeiro tempo, nos textos literários. De entre todos,
foi Charles-Ferdinand Ramuz quem mais fortemente exprimiu, em particular no
seu romance La Grande peur dans la montagne, de 1926, o carácter animado
que a montanha reveste aos olhos dos seus habitantes: “c’est que la montagne
a ses idées, c’est que la montagne a ses volontés” (“é que a montanha tem as
suas ideias, é que a montanha tem as suas vontades”). O maciço ou a cadeia
montanhosa, dotados de nomes, veem-se personificados, como monstros e titãs
que ressentem paixões humanas, sofrendo e infligindo castigos teológicos. Os
glaciares são vistos como lugares de expiação e os espaços desérticos, sem
OS ESCRITORES PERANTE A MONTANHA
215
Cristina Robalo Cordeiro

nenhuma vegetação, que terão tomado o lugar de verdes prados na sequên-


cia de algum misterioso pecado, estão assombrados por seres maléficos ou por
pastores feiticeiros capazes de com eles lidarem. Mais maldita do que mágica,
a montanha ressoa de vozes e de ecos mais perturbadores ainda do que os das
sereias para o navegador.
É assim que Vergílio Ferreira nos mostra uma personagem dos seus Contos,
engenheiro (supostamente) armado contra os terrores ancestrais, mas que se
deixa invadir pelo temor supersticioso que nasce da Serra:

Um grande vento de solidão e montanha embatia-lhe no peito, inchando-lhe


a camisa desapertada, penetrando-o de grandeza e de um incerto pavor.

Também Fernando Namora, ao vislumbrar as alturas tormentosas da falésia


de Monsanto, se deixa arrastar para a sua visão de um “dorso de monstro a cres-
cer para nós até tomar conta de quase todo o céu”.
Mas esta dimensão fantástica da montanha, antes mesmo de ser a projec-
ção dos fantasmas do espírito humano, foi primeiramente a criação da natureza
perturbada pela Queda. O jardim de Éden não era acidentado e não conhecia
cume nem abismo: como explicar de outra forma que não a de uma catástrofe
sobrenatural estas extravagâncias orográficas tão inumanas? O grande natura-
lista Buffon não podia, em Les Epoques de la nature (1778,) imaginar sem estre-
mecimento as convulsões primeiras do globo. E mesmo esquecendo os mitos
das origens, limitando-nos a interpretar a literatura da montanha segundo as
regras da imaginação expostas por Gaston Bachelard, onde melhor assistiríamos
ao encontro dos elementos – terra, ar, água e fogo – senão no cimo das ilhas
volcânicas, as dos Açores ou as da Madeira?
A conquista metódica da Montanha – e falamos aqui da Serra da Estrela –
exigiu um tempo extremamente longo antes de ser levada a cabo. Quase um
século depois da subida do Monte Branco, uma expedição militarmente organi-
zada permitia enfim estudar o nosso maciço central como qualquer outro objecto
de investigação científica. Convém assinalar que a data e a própria ideia desta
operação se inscrevem no âmbito do positivismo triunfante, que viu formarem-se
na Europa numerosas sociedades de geografia, e referir ainda que o positivismo
e o determinismo não foram de todo incompatíveis com a arte e a literatura,
como bem mostra a obra de Émile Zola. Podemos aliás lamentar que um Eça de
Queirós não tenha sido convidado a juntar-se aos sábios membros da equipa de
1881: teríamos ganho uma truculenta e verídica narrativa de aventuras!
Se todos os grandes escritores, Almeida Garrett, Alexandre Herculano, Mi-
guel Torga, José Saramago prestaram uma atenção apaixonada à geografia de
Portugal, os geógrafos mostraram que sabiam escrever. Os textos extraídos das
obras de Orlando Ribeiro ou Hipólito Raposo, e aqui reproduzidos, são disso
216 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

testemunho evidente, sendo neles a descrição das paisagens marcada por uma
mistura de precisão técnica e de lirismo contido. Citemos, do primeiro, as se-
guintes linhas:

Admirável de intuição geográfica é o nome popular aplicado à depressão que jaz


entre as serras da Estrela e da Gardunha: Cova da Beira. Na verdade, uma cova
entre as montanhas, alongada como elas no mesmo sentido, de fundo rugoso de
colinas e valeiros e uma larga depressão por onde corre um Zêzere manso, ao rés
de espraiados areais e cascalheiras.

A este propósito, impõe-se um comentário que releva da história das ideias.


A expressão “intuição geográfica” utilizada por Orlando Ribeiro atesta, nos anos
30, a influência do bergsonismo, movimento de pensamento hostil ao cientismo
da geração anterior. Para Bergson, não se conhece o real apenas através da
quantidade mensurável, mas sim da simpatia estabelecida com o objecto estu-
dado e no qual é verdadeiramente necessário penetrar. Não devendo conten-
tar-se com o exterior, o geógrafo não é assim apenas um geómetra, devendo
também viver a paisagem, através da intuição, de forma idêntica à do pintor e
do romancista.
Mas há uma terceira dimensão da Montanha que não se esgota nem na que
se teme pelo seu mistério nem na que se presta à análise. É aliás necessário
reconhecer que o mistério e o medo supersticioso se dissipam à medida que o
turismo e os desportos invadem as encostas e os picos, hoje que a ciência se
interessa mais pelas montanhas submarinhas ou lunares. Esta outra montanha,
que inscreve no ser humano a necessidade de superação, o sentido místico do
Ideal e do Esforço – e já Michelet falava de iniciação –, é a Montanha proféti-
ca que abrigou Zaratustra e foi o tema do grande livro de René Daumal, Mont
Analogue, de 1952, alegoria de uma escalada interior. Lembremos que Daumal
pertence a essa linhagem de escritores fascinados pela religião tibetana, de que
o poeta Victor Segalen foi pioneiro ao celebrar a impossível escalada para o Ser,
no poema inacabado Thibet. É certo que nem a Serra da Estrela nem mesmo o
Monte Branco podem rivalizar com o Tecto do Mundo, mas a altitude é uma coisa
muito relativa. A Serra da Estrela, precisando embora da sua Torre para atingir os
2000 metros, não deixa de figurar quer o Absoluto quer o Absurdo, consoante
nela detectemos a presença ou a ausência de Deus, a grandeza do Homem ou
a sua insignificância.
Paul Valéry assim escreve, em Mon Faust:

Não é a altura nem essa espécie de sucção que exercem a profundidade abrupta
e o seu vazio que me perturbam. É um vazio bem diferente que age sobre um sen-
tido diferente… A solidão essencial, o extremo da rarefação dos seres… Ninguém,
OS ESCRITORES PERANTE A MONTANHA
217
Cristina Robalo Cordeiro

primeiro; e depois, menos do que ninguém. Nem uma réstia de erva, um musgo. A
natureza terrestre, exausta, para sem forças um pouco mais abaixo. Nada mais aqui
senão pedras, neve, um pouco de ar, a alma e os astros. Quatro ou cinco palavras
bastam para tudo dizer deste lugar muito alto. Que esse pouco diga tudo, é bem um
sinal do universo. Há imensamente de nada no Todo… O resto? Uma pitada de pó
semeado… E a vida? Um rasto insensível num grão deste pó.

Vergílio Ferreira foi sobretudo sensível à incomensurabilidade da montanha,


onde o pensador se reencontra e se reconhece no seu elemento ontológico,
apesar de não ser já senão um desconhecido na sua aldeia natal.

Voltar à imobilidade da montanha desde a criação do mundo. A sua mudez na eter-


nidade. À infinidade dos séculos que choram no seu peso e imensidão. Voltar à al-
deia. Nunca mais. Ainda que voltasse.

No termo deste muito breve périplo, em tríptico, compreendemos que a geo-


grafia literária da Montanha, apesar dos seus inícios tardios, tem já uma rica
história e terá o imenso futuro que nós, preocupados com o Humano e com o
Planeta, e tão sábios quanto poderosos, soubermos dar tanto à Cultura quanto
à Natureza.
SERRA DA ESTRELA:
LITERATURA GEOGRÁFICA
CRISTINA ROBALO CORDEIRO*
RUI JACINTO**
DUARTE BELO (FOTOGRAFIA)***

Serra da Estrela
Grandeza de um incerto pavor – Alfredo Fernando Martins
A Beira (Serra) – Miguel Torga
A Serra da Estrela. Estudo Geográfico – Carlos Alberto Marques
Serra da Estrela – Introdução – Amorim Girão
Pastoreio – Orlando Ribeiro
A lã e a neve – Ferreira de Castro
A serra descia a toda a pressa para a aldeia – Vergílio Ferreira
Castanheira – Irene Lisboa
A Beira e as Beiras – Jaime Cortezão

Outras Beiras de Além-Serra


O planalto estepário da Beira Transmontana – Carlos Alberto Marques
Cova da Beira: sortilégio de cores e enfeites por diversas culturas – Orlando Ribeiro e Hipó-
lito Raposo
O Sul; Beira Baixa: horizontes fundos, um mundo de soledade – Orlando Ribeiro
Entre o Porto da Carne e a Faia – Alexandre Herculano
Povoados fronteiriços – Nuno de Montemor
Esta era uma Covilhã de casas e pessoas – António Alçada Baptista
Só o bulício do mercado quebrava a rotina dos dias – Fernando Paulouro Neves
Raia – António Salvado
Uma paisagem que passo a passo se atormenta: a Beira Baixa – Fernando Namora
Era o tempo em que uma aldeia era um organismo vivo – Eduardo Lourenço
A materna relação com as terras baixas e interiores da Beira – Eugénio de Andrade

*
Universidade de Coimbra.
**
Centro de Estudos em Geografia e Ordenamento do Território (CEGOT).
***
Arquiteto.
220 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

GRANDEZA DE UM INCERTO PAVOR


1
ALFREDO FERNANDO MARTINS

(…) continuemos a descrição da cordilheira da Estrêla. De Nordeste para Sudoes-


te três degraus a constituem: Estrêla (1.991 m.), S. Pedro-de-Açôr (1.340m.) e
Louzã (1.202 m.).
Destes degraus, o inicial começa nos primeiros contrafortes da Cabeça-Alta e
termina na região relativamente baixa de Valezim a Unhais-da-Serra, ou, com mais
precisão, como notou Silva segundo a linha de contacto dos granitos com as forma-
ções precâmbricas da grande mancha do Sul. Na vertente Noroeste, o limite corre
das proximidades de Celorico (Aldeia-da-Serra) por Folgosinho, Mangualde-da-
-Serra, Seia e S. Romão; pelo Sueste vai de Cortes à Covilhã, Aldeia-do-Carvalho,
Aldeia-do-Mato e Valhelhas; subindo depois pela ribeira de Famalicão, alcança
a da Corujeira e por fim o Mondego, que também serve de limite por Nordeste.
Assim delimitada, a Estrêla é a abóbada mais saliente do solar português;
de cenário sempre variado — nos desfiladeiros, nos esporões majestosos dos
Cântaros, nas naves, nas lagoas — tudo nela grandioso, tao grandioso que se

1
Alfredo Fernandes Martins (1940), Esforço do Homem na Bacia do Mondego. Ed. autor, Coimbra: 25-27;
111-112; 237; 239.
SERRA DA ESTRELA: LITERATURA GEOGRÁFICA
221
Cristina Robalo Cordeiro, Rui Jacinto, Duarte Belo (Fotografia)

traduz, como notou Emídio Navarro, pela persistência dos aumentativos na topo-
mínia local — fragões, covões, malhöes — tal a impressão recebida pelos que se
deslocam nessas paragens.
A serra levanta-se rápidamente sôbre o planalto beirão e ainda mais na ver-
tente da Covilhã. Atendendo a esta diferença, dividiu-se a serra em duas par-
2
tes — Brava e Mansa — correspondendo primeira designação às encostas de
Sueste na zona da Covilhã e a vertente Sudoeste que desce abrupta dos cumes
escalonados de NW a SE — Corvo (1.149 m.), S. Bento (1.513 m.), Penha-do-Gato
(1.768 m.), Rodeio-Grande (1.854 m.), Penha-dos-Abutres (1891 m.) Malhão-Gros-
so (1892 m.), Malhão-Grande (1.991 m.), Tanoeiro (1.785 m.) e Zebrais (1.736 m.)
— sôbre a linha já referida, de Valezim a Unhais. Por Serra-Mansa entende-se a
vertente de Noroeste que, embora muito declivosa, oferece mais fácil acesso,
não se encontrando nela aquela brusca diferença de nível que na Serra-Brava
se acentua de forma tão extraordinária — cerca de 1000 metros entre a linha de
cumes e a região baixa. (…)
Envolta de Inverno num sudário de neve ou queimada de Verão pela torreira
de Agosto; triste nas encostas sáfaras da região xistosa; sempre igual e diferente
na paisagem granítica; alcantilada nos zimbórios fragosos e caótica na dispersão

2
Sousa Lacerda – Viagem à Serra-da-Estrêla. Lisboa, 1908 e Adelino de Abreu – Serra da Estrêla. Lisboa,
1905.
222 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

dos blocos; mirante de longes terras, vendo a Espanha e olhando o mar, a Serra-
-da-Estrêla transforma-se a pouco e pouco numa atracção turística de real valor,
sendo já hoje freqüente a prática do sky na maravilhosa pista da Nave-se-Santo-
-António. Assim, a-par-da economia pastoril e do desenvolvimento industrial que
tem e se tornará maior quando convenientemente aproveitados todos os recur-
sos hidro-eléctrìcos — temos a sensação de que a Estrêla será dentro em breve
um magnífico cartaz turístico, ao menos um Saint-Moritz a-dentro das fronteiras.
Para tanto contribuirá a fisionomia da Serra — agreste sem dúvida, impres-
sionante nos desfiladeiros, alterosa nos cumes, às vezes triste, mas de um pito-
resco inexcedível. (…)
Lá para cima, nas serranias, a arquitectura rude do relevo, a sombra arroxeada
das ravinas, os horizontes que a vista mal abarca, se tornaram o homem concentra-
do e um tanto meditativo, dão-lhe também costumes austeros e uma certa poesia
que o bucolismo duma flauta rústica, ecoando nas quebradas, vem confirmar.
A montanha impõe-se! As vozes roucas são a ressonância do ribombar das
tormentas nos píncaros nevados; as próprias canções, os rimances, como lhes
chamam por algures, são monótonas, da monotonia da montanha — não na es-
cultura sempre variada, mas na côr pardacenta da áspera serrania. (...)
Verdadeiramente transumantes são os rebanhos de ovinos, excluídas as pou-
cas cabeças que, em geral, têm os lavradores do planalto — essas, ficam sempre
nas regiões de origem. Os grandes rebanhos das faldas da Estrela e das regiões
SERRA DA ESTRELA: LITERATURA GEOGRÁFICA
223
Cristina Robalo Cordeiro, Rui Jacinto, Duarte Belo (Fotografia)

médias do planalto, mal começa o Verão, deslocam-se em busca de outras pas-


tagens.
Na região compreendida entre o Alva e o Mondego, a maior parte dos reba-
nhos escolhe para pascigo as regiões altas, o cervum das naves e valeiros da
Estrela. E, de Junho a Outubro, nos covões, nas encostas, por entre as fragas,
ora acarrados, ora tosando a erva, numerosos rebanhos, milhares de cabeças,
andam cá e lá.
A Serra é então uma sinfonia de chocalhos, de sons graves ou agudos, cujo
fundo musical são as notas rústicas de uma flauta pastoril e o ladrido do valente
companheiro do pastor, o cão da serra, — forte e denodado inimigo do lobo, o
fantasma dos redis. (...)
Estes rebanhos transumantes, sobretudo os da Estrela, são muitas vezes
constituídos por gados de vários proprietários que os entregam a um pastor ou
grupo de pastores, pagando-lhes em dinheiro.
O maioral ganha mais; os simples ajudas recebem unicamente 5$00 por dia.
Os pastores que vêm para Coimbra, trazem, além do típico colete de ramagem,
os safões e o cajado, característicos. Fazem-se acompanhar por possantes cães
da serra, e por um ou dois burros que transportam as modestas alfaias.
Quando em marcha, os rebanhos chegam a ocupar em profundidade muitas
dezenas de metros nas estradas, ou melhor, nos caminhos, porque os pastores
preferem os atalhos às vias de grande movimento.
224 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

A BEIRA (SERRA)
3
MIGUEL TORGA

É de Augusto Gil esta quadra de saboroso desenho:

Porque fui dançar na roda,


Em que foi que te ofendi?
Andei sempre à roda, à roda,
Mas sempre à roda de ti.

E é invariavelmente destes versos que me lembro quando penso na Beira.


Na verdade, todas as vezes que a visitei, olhei e perscrutei, a ver se conse-
guia entendê-la, andei sempre à roda, à roda, e sempre à roda da mesma força
polarizadora: — a Estrela.
Como aquelas divindades ciosas, que não consentem adoração a mais ne-
nhum poder, só fascinado por ela o peregrino é capaz de caminhar e perceber.
Beira, quer já de si dizer beira da serra. Mas não contente com essa marca eti-
mológica que lhe submete os domínios, do seu trono de majestade a esfinge de
pedra exige a atenção inteira. Alta, imensa, enigmática, a sua presença física
é logo uma obsessão. Mas junta-se à perturbante realidade uma certeza ain-
da mais viva: a de todas as verdades locais emanarem dela. Há rios na Beira?

3
Miguel Torga (1950) – Portugal. Coimbra, 3ª Ed. Revista, 1967: 80-83.
SERRA DA ESTRELA: LITERATURA GEOGRÁFICA
225
Cristina Robalo Cordeiro, Rui Jacinto, Duarte Belo (Fotografia)

Descem da Estrela. Há queijo na Beira? Faz-se na Estrela. Há roupa na Bei-


ra? Tece-se na Estrela. Há vento na Beira? Sopra-o a Estrela. Há energia eléc-
trica na Beira? Gera-se na Estrela. Tudo se cria nela, tudo mergulha as raízes
no seu largo e materno seio. Ela comanda, bafeja, castiga e redime. Gela-
da e carrancuda, cresta o que nasce sem a sua bênção; quente e desanuvia-
da, a vida à sua volta abrolha e floresce. O Marão separa dois mundos — o
minhoto e o transmontano. O Caldeirão, no pólo oposto de Portugal, imita-o

como pode. Mas a Estrela não divide: concentra. O muro cresceu, alargou,
e transformou-se na extensão que teria de partilhar. O pouco que ficou
desse abraço, são flancos, abas, encostas e escorrências de aluvião. (…)
Pouco sensível à estética, o beirão não cuida da beleza dos seus burgos.
Mas ela surge-lhe mesmo sem ele querer, como os coelhinhos brancos nas leis
mendelianas. E temos Avô, Coja e Celorico, por exemplo.
Dessa pobreza artística que o marca, e da ingratidão dos materiais de que
dispõe — nas zonas de xisto a inventiva para automaticamente —, sofrem os
monumentos as consequências. Uma ou outra igrejinha românica, às vezes de
pedra rolada, como a de Arganil, a estátua orante ou jacente de algum fidalgo de
antanho, um pelourinho desgarrado, um solar perdido nos confins duma quinta,
uma sé gótica e pesada na austeridade da Guarda, um pormenor sobrevivente
da grandeza passada de Viseu, é quase tudo. O que fica, e que o inventário do
bricabraquista pode ainda descobrir, não se impõe como valor. É uma perna de
santo aqui, uma cadeira sem palha acolá, uma mísola mais adiante, cacos de
226 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

presenças de excepção que não resistiram ao embate da vulgaridade. A pobreza


do solo, a espereza do clima e a configuração moral e mental do habitante não
consentiram nunca nem os vagares da criação gratuita, nem os ócios da sua
fruição. E é das coisas desconsoladas verificar que não aparece nas feiras da
região um barro colorido, uma canga entalhada, um avental bordado. Tudo é
neutro como as pedras da serra, a que é preciso descobrir beleza na coesão dos
átomos e na serenidade com que assentam no chão.

Andei sempre à roda, à roda,


E sempre à roda de ti...

Não. Não se pode fugir ao magnetismo do íman que tudo atrai e que tudo dis-
põe. E é justo. Se alguma coisa de verdadeiramente sério e monumental possui
a Beira, é justamente a serra. (…)
Perder-se por ela a cabo num dia de neve ou de sol, quando as fragas são
fofas ou há flores entre o cervum, é das coisas inolvidáveis que podem aconte-
cer a alguém. Para lá da certeza dum refúgio amplo e seguro, onde não chega
a poeira da pequenez nem o ar corrompido da podridão, o peregrino esbarra a
cada momento com a figuração do homem que desejaria ser, simples, livre e fe-
liz. Um homem de pau e manta, a guardar um rebanho, — criatura ainda impoluta
do pecado original, para quem a vida não é nem suplicio nem degradação, mas
um contínuo reencontro com a natureza, no que ela tem de eternamente casto,
exaltante e purificador.
SERRA DA ESTRELA: LITERATURA GEOGRÁFICA
227
Cristina Robalo Cordeiro, Rui Jacinto, Duarte Belo (Fotografia)

A SERRA DA ESTRELA. ESTUDO GEOGRÁFICO


4
CARLOS ALBERTO MARQUES

Objeto do presente trabalho. Sob o ponto de vista geográfico apenas, é que a


Serra da Estrela ainda não foi estudada. Dos geógrafos estrangeiros raros foram
os que a visitaram, limitando-se a sua maioria a copiar banalidades que algum
português tenha escrito; dos geógrafos nacionais, que nos conste, apenas Fer-
raz de Carvalho e Amorim Girão à Serra da Estrela têm feito ligeiras referências,
preocupados, sem dúvida, com outros importantes assuntos geográficos que o
poliformismo da terra portuguesa, do solar lusitano, oferece.
Tenta-se agora o estudo do maior relevo orográfico do país, sob os pontos
de vista físico, biológico e humano, que seja contributo, despretensioso embo-
ra, para o conhecimento da geografia de Portugal. Dentro da tríplice função do
geógrafo, ao qual pretendemos imitar — como já dissemos algures” — tendo
observado os vários fenómenos, procuramos classificá-los segundo os métodos
científicos e explicá-los em ordem às causas que lhes dão ou deram origem,
modificaram ou aparentemente fixaram.
Para delimitação do objecto do nosso trabalho e para a sua execução, impor-
ta dizer aqui que a Serra da Estrela é somente uma parte, e não muito extensa,

4
Carlos Alberto Marques (1938). A Serra da Estrela. Estudo Geográfico (Assírio & Alvim, 1996:].
228 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

da cordilheira de montanhas conhecida sob a designação de sistema castelha-


no-português que abrange, na Espanha, as serras de Guadarrama, Grêdos e
Gata,entre os planaltos da Castela-Velha e da Castela-Nova, e em Portugal, as
serras de Malcata, Gardunha, Estrela, Açor, Góis e Lousã na Meseta, e Sicó, Aire,
Candeeiros, Montejunto (Torres Vedras) e Sintra na orla portuguesa mesozóica
ocidental ou de terrenos secundários. A Serra da Estrela faz parte do sistema
castelhano-português (lusitano-castelhano, também chamado), pertence à Me-
seta ibérica e fica compreendida entre a depressão do vale do Mondego, ao
Norte de Celorico da Beira, a linha de quebra ou baixa hipsométrica da referida
serra, ao Sul, e que passa pela parte meridional de Vila Cova, Loriga, Alvoco,
Unhais da Serra, Cortes, Tortosendo, até ao Zêzere, linha esta de coração inferior
a 800m; o leito do Mondego desde Celorico a Fornos de Algôdres, continuando
o vale do mesmo rio por Vila Franca, Vila Cortês, Nabais, S. Paio, Vinhó, Moimen-
ta, S. Tiago e S. Romão, pelo Ocidente, e a linha de alturas da margem esquerda
do Massueime que desce à Corredoira (estação dos caminhos-de-ferro da Guar-
da), sobe ao Barracão, para seguir o vale da Teixeira, concorrente com o vale da
Amezendinha, por Belmonte e vale do Zêzere até Tortosendo, pelo Oriente.
À zona assim delimitada chama-se Serra da Estrela, a mesma toponímia ali
empregada o comprovando: Vale de Estrela, Vila Cortês da Serra, Moimenta da
Serra, Vila Franca da Serra, Unhais da Serra, Cortiço da Serra, etc. Certamente
não estudaremos apenas a orografia da Estrela, como parece indicar o título des-
te trabalho; estudaremos a sua geografia, isto é, os aspectos físicos, biológicos
SERRA DA ESTRELA: LITERATURA GEOGRÁFICA
229
Cristina Robalo Cordeiro, Rui Jacinto, Duarte Belo (Fotografia)

e humanos — como já se disse — não só do relevo, da montanha, dos píncaros,


das neves, das lagoas, mas também da base, da falda, das encostas, dos vales e
de outras depressões que da Serra fazem parte integrante, em função sempre da
terra habitada, aproveitada e adaptada às necessidades humanas. (…)

A habitação. Grutas, cavernas e castros. A fantasia humana inventou anti-


gas civilizações na Serra da Estrela, do tempo dos romanos e anteriormente a
Viriato. Julga ver a mesma fantasia restos ou vestígios de habitação humana em
todos os amontoados de pedregulho, que são simples ruínas ou desagregações
de rochas in situ, em toda a gruta ou caverna que a acção lenta e persistente
dos agentes sub-aéreos e do próprio diastrofismo e da mesma disjunção criou;
qualquer lapa, como a dos Dinheiros, do Fragão do Ronca, da Nave da Areia, do
Barrocal do Carapito, da Penha de Prados, das Arcas do Pão, covas de raposa,
lobo ou texugo, caverna que as correntes subterrâneas minaram, são considera-
das antigas habitações pré e proto-históricas, ou pelo menos obra da moirama.
Em cal se poderia acreditar se tais cavernas e grutas naturais tivessem qualquer
sinal, desenho, fóssil ou objecto de uso humano e ainda se as mesmas cavernas
e grutas, situadas todas acima de mil metros de altitude, pudessem ter sido ha-
bitadas em tempos de mais rigoroso clima que o actual. Não menos fantasista
é o espírito daqueles que pretendem ver nas galerias e cavernas naturais anti-
gas explorações mineiras, em sítios ou lugares onde se não encontra qualquer
vestígio de exploração ou pedaço de minério aproveitável”. Há, sim, vestígios
230 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

de povoações fortificadas no Tentenolho e no castro de S. Romão; nos cimos


da Estrela parece não ter vivido ninguém nos tempos recuados da Lusitânia. (…)

Habitações actuais. Antes de nos referirmos ao tipo de habitação perma-


nente da Serra da Estrela, citaremos as habitações de carácter provisório que
fazem parte integrante da paisagem. A mais rudimentar habitação provisória,
a do pastor, não só nas maiores altitudes da Serra mas também e sobretudo nos
vales, é a choça, uma prancha feita com palha de centeio ou com giestas, levan-
tada ao alto e apoiada em duas estacas levemente inclinadas, e que é colocada
contra o vento e contra a chuva; esta habitação, como a tenda dos Kirguise, é
levada ou conduzida para os diferentes lugares de pastagem dos gados ou para
junto das estrumeiras dos mesmos gados. Segue-se o chôço, habitação também
provisória em certas épocas do ano mas não transportável: um cone de palha ou
de mato, assente no solo e com uma pequena abertura de penetração; utilizam-
-no os pastores e também, na maior labuta agrícola, os operários cujas terras
estão afastadas do povoado. Vem depois as cabanas ou cortes, constituídas por
quatro paredes ou por uma parede circular, de pedra solta, e encimadas por co-
bertura de palha, de giestas, de torrões, de latas velhas, de lascas de piçarra ou
ainda de telha, sem qualquer repartimento interior, servindo quase sempre para
5
habitação humana ou pernoita de gados . Há ainda as casas pobres da aldeia,

5
A junta de freguesia de Folgosinho, por feliz e benéfica iniciativa e por intermédio e auxílio do Ministério
SERRA DA ESTRELA: LITERATURA GEOGRÁFICA
231
Cristina Robalo Cordeiro, Rui Jacinto, Duarte Belo (Fotografia)

os tugúrios ou buracos onde entra sem cerimónia a neve, a chuva, o frio e... a
miséria, onde nascem às vezes os sentimentos da revolta da pobreza imerecida;
há as habitações das quintas e herdades, casas para habitação do operário, do
ganhão, dos gados e do proprietário que quase sempre a troca, por infeliz urba-
nismo, pelo menos física e moralmente higiénico palacete da cidade. As casas da
Serra, os chalets das estâncias sanatoriais de altitude, são de construção resis-
tente e de planta simples: paredes graníticas bem rebocadas com argamassa e
cobertas de zinco, sobre as quais assenta um telhado de grande declive forrado
de madeira em escama e também revestido de zinco; porta de entrada chapeada
de metal e meia dúzia de janelas com persianas ou vidraça dupla; uma cozinha,
uma sala de jantar e de estar, quatro ou meia dúzia de quartos espaçosos e so-
bretudo, essencial, um corredor envidraçado e virado para Sueste, a galeria ou
sala de repouso e cura.
Finalmente o tipo de habitação permanente e predominante é a casa de um
andar com rés-do-chão ou lojas, coberta por um telhado de grande declive, de
telha da Pampilhosa e às vezes romana. A construção é feita com granito ou com
xisto, segundo a região geológica, tendo, todavia, as casas das regiões xistosas
pedras de granito ou simples pranchões de madeira a guarnecer janelas e por-
tas, as soleiras, torças e ombreiras. Sobe-se ao primeiro e único piso por uma es-
cadaria de seis a oito degraus, sendo o patamar que antecede a entrada quase
sempre coberto por alpendre que assenta por colunas de pedra, varões de ferro
ou simples e rústicos paus nas resguardas do balcão; no telhado, quando não
é apenas de duas ver tentes ou águas, encontram-se sótãos ou águas-furtadas,
construídas de madeira e forradas exteriormente de zinco; ao lado das janelas
há pedras salientes para os vasos do manjericão, cravo, do serpol. Um curral ou
recinto fechado, anexo, a pocilga dos porcos, o cabanal para as lenhas, estru-
mes e alfaias agrícolas, a ramada e às vezes o horto ou quintal com fruteiras,
jardim e plantas hortícolas, completa-se a vivenda ou habitação dos remediados.
As paredes são caiadas de branco nas povoações do Ocidente e do Sul da Serra
e às vezes também na parte setentrional e oriental. (…)

Vias de comunicação. Veredas, caminhos vicinais, alpondras e pontões. Para


uso dos peões e dos gados é a Serra atravessada em vários sentidos por cami-
nhos de pé posto ou veredas, sempre íngremes e mal marcadas no solo, cami-
nhos para encurtar distâncias e, sobre a Serra, para poderem ser visitados os
lugares de mais interessante aspecto. De aldeia para aldeia, da freguesia para
os lugares, para as quintas e, duma maneira geral, para as terras de cultura, e

das Obras Públicas, construiu na sua Serra, isto é, nos territórios serranos da freguesia, umas cinco casas
de abrigo para pastores que a tempestade pode colher de surpresa e para todo o transeunte, turista ou
negociante, que possa precisar de abrigo. Bom seria que tal exemplo fosse imitado por outras freguesias
altas da Serra.
232 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

ainda do campo para os centros rurais e urbanos, há caminhos vicinais, enchar-


cados ou gelados no Inverno, pedregosos ou poeirentos no Verão, que servem
para o trânsito de peões e de gados mas principalmente para os carros de bois,
para o gado grosso e suas cargas de cereal, batata, farinha, estrumes, lās, uten-
sílios domésticos, para os cavaleiros, etc. São as principais vias de comunicação
os caminhos vicinais que ora sobem, ora descem, serpenteiam pelas várzeas e
são rectilíneos nas terras incultas, apertados aqui, largos acolá, em função da
riqueza do solo e ainda na mesquinhez dos proprietários das terras marginais.
Em frente da linha de água, segue o caminho vicinal pelo leito do ribeiro ou rio,
passado a vau pelos gados e transposto pelos peões através das alpondras que
são grossas pedras espetadas no leito do rio, à distância de meio a um metro
umas das outras. Outras vezes transpõe-se a linha de água pelo pontão, isto é,
uma superfície alongada de lajes ou pedras largas que assentam em espeques
ou pilares fortes que estão espetados no leito do rio; também se encontram pon-
tões de madeira, formados por dois paus e traves que, pelos extremos, assentam
nas margens; alguns caminhos vicinais são servidos por pontes, devidamente
construídas. Há ainda caminhos que foram antigas vias romanas ou vias feitas à
romana, hoje quase destruídas, como da Guarda para o Mondego, daqui para a
Rapa, Vale de Azares e Celorico, desta vila para o Mondego, de Belmonte para
a Covilhã, desta cidade para a Serra e para algumas fábricas, e em Folgosinho,
Linhares, Videmonte, Trinta, Loriga, S. Romão, Seia, Gouveia. (…)
SERRA DA ESTRELA: LITERATURA GEOGRÁFICA
233
Cristina Robalo Cordeiro, Rui Jacinto, Duarte Belo (Fotografia)

Águas minerais. As principais fontes de águas minero-medicinais são as


de Caldas de Manteigas e de Unhais da Serra. As Caldas de Manteigas têm
quatro fontes, variando a temperatura das suas águas desde 28° C a 42°, sen-
do consideradas hipertermais, hiposalinas, carbonatadas, sulfídricas, litícas.
As termas de Unhais da Serra são agrupadas nas águas alcalinas, hiposalinas,
cloretadas, sulfúricas, siliciosas, com temperatura normal de 30 C. Tanto umas
como outras são bastante frequentadas, perdendo as suas águas as qualida-
des terapêuticas quando são aplicadas longe das Caldas. É de notar o facto
curioso de Manteigas e Unhais se encontrarem aproximadamente à mesma
distância da Nave de Santo António, ambas as caldas nos vales de fractura
dos topos da referida Nave — o que explica a sua idêntica natureza e origem.
Junto da estação do caminho-de-ferro de Celorico da Beira há também umas
termas alcalinas, sulfurosas, as termas de Santo António, mais conhecidas na
região pelo nome de Banhos da Emília, actualmente abandonados. Ainda para
os lados do Casteleiro, no concelho de Sabugal, na serra da Pena, há as termas
rádio-activas da Curie.

Indústrias. Lanificios. Há na Serra da Estrela uma produção de la que anda à


volta de seiscentas toneladas; esta grande quantidade, acrescida da lã que vem
da bacia do Côa até ao Douro, dos distritos de Castelo Branco, Portalegre e Viseu
e até do de Coimbra, constitui a matéria-prima de uma desenvolvida indústria
234 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

de lanifícios espalhada por quase toda a Serra. Junto dos rios principais e dos
seus afluentes, instala-se o pisão, o engenho ou a fábrica, utilizando-se a água
para lavagem e para força motriz. Em Vate de Estrela, Meios, Fernão Joanes,
Maçaínhas, Trinta e Videmonte fazem-se os cobertores de lă (de papa) e os cha-
les e também nos Trinta e nos Meios há indústria de fiação de lã para artigos de
malha, de manufactura caseira. A Covilhã é a metrópole portuguesa da indústria
de lanifícios, a cidade -fábrica, a Manchester portuguesa, como lhe chamam (nós
preferiríamos chamar-lhe a Leeds portuguesa) com mais de quarenta fábricas,
de cardação, fiação, penteação e tecido; acessórias dos lanifícios, há também
indústrias de algodão e de linho. Gouveia, Tortosendo, Seia, Manteigas, Alvoco,
Unhais (com uma fábrica modelar, sob o ponto de vista técnico, social e moral),
Moimenta, Loriga, S. Romão e S. Paio, têm várias fábricas de lanifícios onde são
preparados cobertores, briches, saragoças, baetas, meltons, montanhaques, fla-
nelas, castorinas, casimiras e estambres, rivalizando sempre com os melhores
tecidos da estranja.

Cerâmica, tamancaria e serração. Como as argilas são de fácil modelação,


nas terras onde abundam, fabrica-se a telha e outros objectos de indústria ce-
râmica, como copos, tigelas, barris e cântaros. Em Alvoco, S. Romão, Manteigas
e Celorico existe a indústria manual dos tamancos ou socos. O tamanco é o cal-
çado usado pelo cavador e também por todos aqueles que, tendo de atravessar
lamas e charcos, não querem humidade nos pés. É este calçado feito de cabedal
mas com o rasto de madeira, ordinariamente de amieiro. A gente pobre aprovei-
ta a parte superior do calçado velho, as empenhas, às quais prega os paus e tem
assim tamancos para as invernias. A serração das madeiras é em grande parte
manual; já há algumas fábricas que o desenvolvimento das matas do Estado
há-de multiplicar.

Moagem, padaria e forno. Os cereais produzidos na Serra da Estrela são


reduzidos a farinha em moinhos de pão, em azenhas, em moinhos de vento e
em fábricas de moagem. As azenhas são frequentes na parte inicial dos rios
Mondego e Zêzere: os moinhos de vento são raros, pois não há necessidade de
aproveitar a energia eólica numa região onde abunda a hidráulica; as fábricas
de moagem distribuem-se pelos lugares onde escasseiam moinhos e azenhas; o
moinho de mão é muito raro e emprega-se ordinariamente para reduzir o milho
a farinha ou carolo.
O fabrico do pão ou a panificação das farinhas é indústria caseira, a mor
parte das vezes; no entanto, nalgumas aldeias e em todas as vilas e cidades há
padarias que fabricam o pão e o vendem ao público.
O forno de cozer o pão, quase sempre de carácter comunal, existe em todas as
povoações e, embora de dimensões exíguas, nas quintas e herdades, é aquecido
SERRA DA ESTRELA: LITERATURA GEOGRÁFICA
235
Cristina Robalo Cordeiro, Rui Jacinto, Duarte Belo (Fotografia)

com as lenhas dos matos e cobra por tal o seu proprietário e também o forneiro a
bola ou poia, que é um pão pequeno, que constitui o rendimento do forno.
Lagares. Com extensas manchas de vinhedo e de olivedo, indispensável se
tornou construir por toda a Serra da Estrela os lagares respectivos para o vinho
e azeite; aqui se espremem as uvas, acolá se esmaga a azeitona, abundando os
lagares por todas as regiões vinícolas e oleícolas.

Lacticínios. É muito importante a indústria de laticínios na Serra da Estrela: o


fabrico da manteiga é reduzido, limitado quase ao necessário para o consumo
das principais famílias da povoação; o fabrico do queijo de leite de cabra, de
vaca e de ovelha atinge proporções tais que dá grande e lucrativa exportação.
O queijo de ovelha, queijo da Serra, típico, caracterizado, regional, tem grande
consumo em quase todo o continente e Colónias e é fabricado principalmente
em Salgueirais, Gouveia e freguesias do concelho, Manteigas, Celorico, Vide-en-
tre-Vinhas, Cortes, Ferro, Seia, Alvoco, Sabugueiro, Prados e Videmonte.

Artefactos de verga. Em Gonçalo existe uma paciente e útil indústria manual


que se vai estendendo para a Covilhã, S. Romão e Guarda, a indústria dos ar-
tefactos de verga do salgueiro e do vimeiro, em cestos, cabazes, condessas,
mesas e cadeiras para parques, jardins e terraços, invólucros de garrafas e de
garrafões, guarnições, etc.
236 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Apicultura e outras indústrias. A rendosa indústria da apicultura tem sido des-


prezada: o mel e a cera são magníficos produtos, quase nada dispendiosos; como
noutro lugar se falou da distribuição geográfica das abelhas, acrescentaremos
apenas que seria muito para desejar que tal indústria se desenvolvesse na Serra
da Estrela, imitando o proprietário do apiário de Santo Ambrósio, na Guarda.
Outras indústrias como de marcenaria, serralharia, carpintaria, sapataria, al-
faiataria, etc., pela sua generalização, não merecem ser referidas aqui.

Geradoras hidráulicas de força motriz ou iluminante. No vale de Mondego,


no Pateiro junto da povoação dos Trinta, há uma central hidro-eléctrica que for-
nece energia para a fábrica do Rio Diz e iluminação para a Guarda e Trinta. Ou-
tras centrais se encontram em Vila Cova, na Senhora do Desterro, em Unhais da
Serra, em Loriga, em Gouveia, em Manteigas, todas e cada uma proclamando
o valor da Serra da Estrela que das suas arcas de água fornece energia motriz,
iluminante, de fertilização agrícola, de higiene e até de beleza às povoações
SERRA DA ESTRELA: LITERATURA GEOGRÁFICA
237
Cristina Robalo Cordeiro, Rui Jacinto, Duarte Belo (Fotografia)

que a ela se encostam. As águas da Lagoa Escura, reunidas às da orida, são


represadas nesta última por uma enorme barragem que escoando-se por uma
levada de grande extensão e grande declive vão produzir a energia hidro-eléc-
trica da central de S. Romão, próximo da qual corre o Alva onde novas barragens
e, portanto, novas quedas deram origem às centrais de Vila Cova e da Ponte de
Jugais. Dos covões situados a montante da Ribeira do Alforfa, entre o Torroeiro e
o Espinhaço do Cão (caminho de acesso da Nave de Santo António para os Cân-
taros) saem pelo degelo e por pequenas linhas de água, os mananciais que, por
três seguidas e grandes barragens, são aproveitados para a central de Unhais,
onde se procura aproveitar, canalizando a água, uma queda de mais de duzentos
metros. As lagoas de Loriga, com a barragem respectiva, estão sendo também
aproveitadas. Por estudos feitos pelo engenheiro Sousa Lopes, se conclui que,
aproveitando-se a grande queda de uma torrente da margem esquerda do Zê-
zere no sítio do Apertado, se poderia criar uma central hidro-eléctrica de grande
valor. E quantas outras energias inaproveitadas?!
238 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

SERRA DA ESTRELA – INTRODUÇÃO


6
AMORIM GIRÃO

“A Estrela, a mais grandiosa serra de Portugal, deve considerar-se como par-


te integrante do grande sistema Lusitano-Castellano, que nela se eleva às maio-
res altitudes ocidentais (1991 m). Não falta quem tenha pretendido atribuir-lhe
certa independência em relação aquele sistema, conclusão a que pode levar-nos
a análise da carta hipsométrica de Botella y Hornos; mas não pode restar dúvida
sobre a continuação da orografia castelhana através do nosso país. Além de a li-
nha de relevo que formam esse «Sistema Central Divisório”, como usam chamar-
-lhe os geógrafos espanhóis — serras de Guadarrama, Gredos e Gata — estarem
longe de apresentarem uma continuidade orográfica perfeita, dispondo-se antes
à maneira de panos de um cenário gigantesco, reconhece-se que a vira de Gata
tem sua ligação bem visível pela serrania fronteiriça das Mesas, com a nossa
serra da Guardunha; e esta anda, por seu turno evidentemente relacionada com
a da Estrela, tendo formado até as duas, segunda Choffat, um maciço único que
a erosão do Zêzere só muito tarde veio a separar em duas secções distintas.

6
Amorim Girão (1944). Serra da Estrela – Introdução. Guia de Portugal vol III, Tomo II - Beira Baixa e Beira Alta
(2a ed. 1985), FCG: 878-880.
SERRA DA ESTRELA: LITERATURA GEOGRÁFICA
239
Cristina Robalo Cordeiro, Rui Jacinto, Duarte Belo (Fotografia)

E o vale superior do Alva que separa da Estrela propriamente dita da sua


vizinha do Açor (1.940 m); o vale do Cerra marca, por sua vez, a divisória entre as
serras do Açor e da Lousa (p. 39), onde a sistema central ibérico vem morrer em
face da orla mesozoica portuguesa no vale tectónico do Espinhal.
De formação geológica predominantemente granítica, apenas com a zona
xistosa pré-câmbrica que da Cabeça Alta (1283 m) se estende para o S. até quase
à Covilhã, a serra da Estrela evidencia-se bem pela imponência e extensão do
seu relevo. Uma linha tirada de Cortes por Unhais da Serra, Loriga e Valesim,
em sentido transversal à orientação predominante da serra (NE.-SO.), e corres-
pondendo mais ou menos no limite entre os terrenos graníticos e os xistos pré-
-cambricos, marca um salto pronunciado do relevo para S. e SO., que se torna
bem sensível a quem da encosta fronteira do Caramulo contempla o seu perfil a
recortar-se no horizonte longínquo. Para N. NO., é por degraus sucessivos que
se desce à bacia do Mondego, em bora as quedas de nível sejam nalguns pontos
muito bruscas.
A actividade glaciária teve na serra uma importância especial, e dela res-
tam ainda numerosos vestígios. O vale do Zêzere, por exemplo, a montante de
Manteigas apresenta blocos evidentes de antigas moreias. Lagoas de barragem
ou de simples desgaste, como a Comprida, a Escura e a do Peixão, entre ou-
tras, surgirá na zona mais elevada da Serra. Blocos erráticos, entre os quais se
destaca o Poio do Judeu não faltam também. As rochas estriadas e os penedos
aborregados, como especialmente sucede na Nave de Santo António, vêm ainda
completar o quadro.
Tão vasta superfície de relevo em que a chamada zona subalpina, superior
a 1200 m, ocupa uma extensão aproximada de 224 km2 e situada, para mais, a
não muita distância de mar, deve corresponder a uma importante linha de con-
densação, constituindo o principal centro de dispersão hidrográfica do nosso
país. Do seu interior descem efetivamente o Alva, o Mondego e o Zêzere. Estes
dois últimos, saindo da serra quase a par, e profundamente encaixados, experi-
mentam depois uma decidida mudança de curso, voltando de súbito as costas
um ao outro, e descrevendo ambos um cotovelo pronunciado. O Mondego, a
montante de Celorico da Beira, alarga o seu vale e atravessa uma região encan-
tadora que a linha férrea da Beira Alta e particularmente a estrada da Guarda a
Celorico percorrem em grande parte. O Zêzere, por seu lado, apresenta na forma
e ubérrima Cova da Beira, características que contrastam profundamente com as
do seu curso superior. E dentro desta secção do seu curso que desagua a ribeira
de Unhais, o mais importante afluente de margem direita. Em sentido oposto,
corre, para a bacia do Mondego, a ribeira de Alvoco, que mais logo vai juntar-se
ao Alva na ponte das Três Entradas. As numerosas torrentes que descrem de
serra, alimentadas ainda no Verão pela fusão das neves, tem sido aproveitada
como fontes de energia, dando lugar a uma larga actividade industrial.”
240 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

PASTOREIO
7
ORLANDO RIBEIRO

«Esta parte do monte Herminio, que vulgarmente chamão da Estrela, he a


mais alta, e a mais celebre parte delle e serra altissima onde continuamente
ha neve: a qual quando no verão se derrete, faz grandes e fermosos pasigos
para muita criação de ovelhas que naquella serra, e seus contornos ha, a que
também os de entre o Tejo e Guadiana vem pastar seus gados» (Duarte Nunes
do Leão). A transumância a que alude o velho corógrafo está hoje em franca
decadência. Mas a Serra da Estrela, com uma área de cimos alpestres que não
sofre comparação com qualquer outra montanha portuguesa, é ainda o principal
centro de pastoreio nacional. Não só pelas reses criadas nas suas abas, (à volta
de 40000 ovelhas e 30000 cabras, uma cabeça por habitante), mas ainda pela
atracção que exerce nos rebanhos da Beira Alta, os quais geralmente transumam
de Verão aqui ou no Montemuro. De Inverno, são os gados das povoações mais
altas da serra que descem ao campo de Coimbra, ao vale do Douro, e, principal-
mente às Campanhas da Idanha e outros plainos da Beira Baixa. Outrora estes
movimentos pastoris, sobrevivências de um passado pré-histórico, chegavam ao

7
Orlando Ribeiro (1944). Pastoreio. Guia de Portugal vol III, Tomo II - Beira Baixa e Beira Alta (2a ed. 1985),
FCG: 886-889.
SERRA DA ESTRELA: LITERATURA GEOGRÁFICA
241
Cristina Robalo Cordeiro, Rui Jacinto, Duarte Belo (Fotografia)

Campo de Ourique, onde invernavam as ovelhas serranas: e, de Verão, subiam


aos cimos alpestres da Estrela reses do Alentejo e até das províncias espanholas
fronteiriças (até ao séc. XVII, pelo menos).
Os rebanhos são principalmente de ovelhas. Estas são criadas pela lã, que
abastece boa parte das fábricas de lanifícios das abas da Estrela, e, pelo leite, de
que se faz o queijo da Serra, justamente considerado um dos melhores queijos
portugueses. As cabras, que se juntam as ovelhas, destinam-se a fornecer o leite
para alimento dos pastores e dos cães. E ainda o estrume das reses (que para
isso vão dormir aos alqueives), que aduba as terras altas e permite a cultura do
centeio em grandes altitudes.
Em Abril derretem as neves e começam os rebanhos a subir à Serra. Se o
tempo está bom, são levados ao pasto, juntos todos os gados da mesma povoa-
ção. Os donos, que por essa época começam também a ocupar-se do preparo
das sementeiras, revezam-se na guarda do rebanho. A cada possuidor de vinte
ovelhas, por exemplo, compete andar um dia com o rebanho; quem tem quaren-
ta anda dois dias, quem tem cem anda cinco. A isto se chama correr a andana
ou correr a volta. Quando o tempo está áspero, o que sucede com frequência na
Primavera e no Outono, dormem pela Serra, em currais, construções toscas de
pedra solta cobertas de colmo, ou em redes (as ovelhas aconchegadas umas às
outras, para mais facilmente se defenderem da tempestade e serem vigiadas do
lobo, que ronda à volta), ou nas lojas das povoações. Logo que o tempo levanta
e as nuvens grossas de tempestade se desfazem num nevoeirinho leve e claro,
242 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

ao tilintar alegre de centenas de chocalhos, adivinha-se o rebanho que sai dos


abrigos para o pasto: como uma massa sombria que se move lentamente, donde
se levantam, a espaços, os vultos agigantados dos pastores.
Em Maio vão os maiorais pelas feiras da Terra Chã combinar com os donos de
gado o número de ovelhas que hão-de trazer para a Serra e a paga. Pelo S. João
(24 de Junho) povoam-se as alturas dos gados de fora vem principalmente das
faldas da Serra e das terras baixas ao Norte (Paranhos, Oliveira do Hospital, San-
ta Comba Dão, Tábua, Nelas, Gouveia, Arganil, Fomos de Algodres, etc.). Do lado
do Sul vêm muito menos alguns da Cova da Beira e das terras xistentas. pobres,
das margens do Zêzere. E o apogeu da pastorícia na Serra: juntam-se todos os
gados, em rebanhos de mil e quinhentas, duas mil, três mil cabeças, guardados
por pastores serranos. (…)
Do traje tradicional do pastor serrano só se conservam sinda os elementos
que, de facto, corresponder a necessidades do seu modo de vida. Continuam a
vestir-se de tecido grosseiro (burel, surrobeco), fabricado especialmente para
eles nas aldeias da Serra, mas talhado já cor soante a moda universal. O pastor
traz sempre consigo o cajado com que ataca o loco ou encaminha alguma rês
tresmalhada, a manta, feita de la grosseira das suas ovelhas, dobrada sobre o
SERRA DA ESTRELA: LITERATURA GEOGRÁFICA
243
Cristina Robalo Cordeiro, Rui Jacinto, Duarte Belo (Fotografia)

ombro de dia, e onde se enrola para dormir, os alforjes com algum pão e uma
coma (pedaço de chifre, fechado na extremidade mais delgada e provido de
tampa ria outra, também usado no Alentejo) com gordura, carne ou azeitonas, e
uma lata a ferrada — que lhe serve para cozer batatas, mungir o leite ou ir buscar
agua à nascente Pelo tempo frio usa pelica (espécie de casaco) safões, de pele
de ovelha, feitos na Serra ou comprados no Alentejo. (…)
No S. Bartolomeu (24 de Agosto), começam a dispersar os grandes rebanhos
e cada proprietário toma conta do seu gado. Fazem-se as contas, o dono recebe
a mais as crias que nasceram e conforma-se com a perda das reses que o lobo
levou. Nesse dia o pastor janta melhor, bebe com o dono um trago de vinho, dis-
cute da gordura e da magreza dos vivos, da falta de pasto e das arremetidas do
lobo. Depois guiadas pelos danos, descem as reses a parti das até à Terra Chã,
onde já vão dormir. A maior parte do gado retira-se por essa época, outra fica
até à Santa Eufémia (3 de Setembro), dia da cobrança dos gados de fora, e vai
depois, com os primeiros frios, deixando a montanha, até a invernada, em que
os rebanhos serranos também a abandonam.
Em resumo: de Novembro a Março os gados permanecem nas terras baixas,
de Abril a Outubro, na montanha, reforçados durante os dois meses mais quen-
tes (Julho e Agosto) com os rebanhos de fora.”
244 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

A LÃ E A NEVE
8
FERREIRA DE CASTRO

“Os primeiros teares criaram-se, em já difusos e incontáveis dias, para a lã


que produziam os rebanhos dos Hermínios. O homem trabalhava, então, no seu
tugúrio. erguido nas faldas ou a meio da serra. No Inverno, quando os zagais se
retiravam das soledades alpestres, os lobos desciam também e vinham rondar,
famintos, a porta fechada do homem. A solidão enchia-se dos seus uivos e a
neve reflectia a sua temerosa sombra. A serra, porque só a pé ou a cavalo a
podiam vencer, parecia incomensurável, muito maior do que era, e de todos os
seus recantos, de todos os seus picos e que brotavam superstições e lendas
— histórias que os pegureiros contavam, ao lume, a encher de terror as noites
infindas.
O homem para ali há muitos séculos, mas poucos tinham sido e poucos eram
ainda os que levantavam o seu abrigo de granito nos sitias mais propicias; e,
quando o faziam, achegavam-se uns aos outros, como se se quisessem defender
da bruteza circundante. Os génios da montanha e as fúrias do céu possuíam,
assim, quase toda a majestosa extensão da serrania, ermáticos domínios onde
podiam transitar com passos de fantasmas ou bramir livremente.

8
Ferreira de Castro (1947). A lã e a neve.
SERRA DA ESTRELA: LITERATURA GEOGRÁFICA
245
Cristina Robalo Cordeiro, Rui Jacinto, Duarte Belo (Fotografia)

No começo do Verão, antes de demandar os altos da serra, ovelhas e carnei-


ros deixavam, em poder dos donos, a sua capa de Inverno. Lavada por braços
possantes, fiada depois, a lã subia, um dia, ao tear. E começava a tecelagem. O
homem movia, com os a tosca construção de madeira, enquanto as suas mãos
iam operando o milagre de transformar a grosseira matéria em forte tecido.
Constituía o acto uma indústria doméstica, que cada qual exercia em seu pro-
veito, pois a serra não dava, nessas recuadas eras, mais do que lã e centeio. (…)
Um dia tudo se revolucionou. Já não se tratava de melhores debuchos, de
mais gratas cores, mas de coisa mais profunda da produção automática. Lá nas
nevoentas terras inglesas o padre Cartwright inventara o tear mecânico. A água,
fazendo girar grandes rodas, começara a produzir o movimento dado, até aí, pe-
los pés do homem. Mas continuavam a ser precisos os homens junto das novas
máquinas.
Os serranos, que, nas solidões da Estrela, ora pastoreavam as suas ovelhas,
ora reciam a lã que elas forneciam, tornaram-se cada vez mais raros. A maioria
entrara nas fábricas. Eles tinham de regrar, agora, a sua vida por um salário fixo,
chegasse ou não chegasse para as exigências de cada dia. Isso, porém, carecia
de importância; ninguém pensava em aumentar-lhes os ganhos, pois havia de se
ter sempre em conta o preço da mão-de-obra para a concorrência dos tecidos
nos mercados.”
246 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

A SERRA DESCIA A TODA A PRESSA PARA A ALDEIA


9
VERGÍLIO FERREIRA

“Agora a serra descia a toda a pressa para a aldeia. Depois, tranquila, alas-
trava devagar num grande vale, para subir ainda, suavemente, lá ao longe. Que-
brado de cansaço e quase de surpresa, o engenheiro parou um instante no alto
de um penhasco, soprando o fumo largo do cigarro, olhando em roda o silêncio
da tarde. Um grande vento de solidão e montanha embatia-lhe no peito, inchan-
do-lhe a camisa desapertada, penetrando-o de grandeza e de um incerto pavor.
Mas logo reagiu, metendo a passo batido pelo caminho pedregoso que se lhe
abria adiante, resvalando pesadamente no cascalho. De um e de outro lado,
num pavor de precipícios, duas ribeiras iam fugindo para o vale, longo tempo
acompanhadas por filas de arvoredo que lhes caminhavam à beira. De súbito,
porém, o engenheiro parou de novo. Mas não valia a pena insistir, E outra vez foi
descendo, largando atrás o negrume das matas, a hostilidade tenaz do pedregal.
Quando, porém, vencida logo adiante uma pequena colina, se lhe levantou do
chão o pico da torre do Paço com a massa negra das ruínas, ele parou ainda,
emocionado, na expectativa de ver surgir o Outeiro.” (...)

9
Virgílio Ferreira (1976). Contos. Bertrand, Lisboa: 25. Vergílio Ferreira, Escrever (2001; edição de Hélder
Godinho). Bertrand, Lisboa: 122.
SERRA DA ESTRELA: LITERATURA GEOGRÁFICA
247
Cristina Robalo Cordeiro, Rui Jacinto, Duarte Belo (Fotografia)

“Voltar à aldeia, à terra onde fui. Mas é impossível porque não é voltar ape-
nas às casas e ruas, mas às pessoas que al foram e já não são. Olhar-me-iam
assim a olhos estranhos e surpresos quem é? E eu não saberia dizer-lhes quem
sou. Resta repetir a memória evocação do espaço em que fui e das pessoas
que se integravam nele e eram a sua necessidade como de todos os espaços
habitáveis, e o passar das estações desde as invernias glaciais aos calores do
Verão, ao Outono das tardes que esmorecem. Voltar à imobilidade da montanha
desde a criação do mundo. A sua mudez na eternidade. À infinidade dos séculos
que choram no seu peso e imensidão. Voltar à aldeia. Nunca mais. Ainda que
voltasse.”
248 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

CASTANHEIRA
10
IRENE LISBOA

“É grato a todo o que escreve e a todo o que pensa, e passa os ora doces,
aceitáveis, ora pesados, gastadores dias sucessivos da vida própria e alheia, ter
uma diversão. E uma diversão pode ser tirar o pé de um cerro ou de um simples
cabeço e pô-lo em outro...
Desta eira chamada das Bichas me virei para a Castanheira.
Para as bandas da Castanheira sucedem-se, grupam-se os cerros, altaneiros
uns, outros maneirinhos e declivosos. A Estrela revolta e maciça, descaindo já,
cortada pelo Mondego infante, nesta Castanheira sem castanhas, apresenta-se-
-nos recolhida, tranquila e solitária. O ar dos mil metros, cada vez mais fino,
alivia-nos. Os casais, a princípio indescortináveis, de pobríssimos rendeiros dos
senhores daquelas lombas agras e sáfaras, que de muito longe e descansados
as desfrutam, casam-se com o chão. Não têm cor, se cor se chama à tinta que
borra a paisagem, ao acidente que declina (termo local) ou assinala a distância a
vida humana. E tomam ou conservam o mesquinho nome de cortes.

10
Crónicas da Serra, Obras de Irene Lisboa, Vol. VII, Editorial Presença, 1997, pp.136-137.
SERRA DA ESTRELA: LITERATURA GEOGRÁFICA
249
Cristina Robalo Cordeiro, Rui Jacinto, Duarte Belo (Fotografia)

Correndo a estradinha pitoresca, que nos depõe na casa do guarda das ma-
tas nacionais, nada mais se vê, viradas as costas à funda vilória de Manteigas,
que cerros mansos. Amansa-os, malha-os docemente o pão. Este pãozinho ainda
por ceifar na terra, mas já amarelo, intercalado com o mato sombrio, lista-o com
certa bizarria. E as cortes nas baixas onde deve aflorar água, que do caminho se
nem suspeita, acaçapam-se com extrema humildade. Quase não têm altura; en-
tra-se nelas de corpo dobrado. As suas paredes são de xisto, pedra de lasca, que
se não apruma, se sobrepõe deitada como folhas de papel, finas e grossas; e os
tectos são de palha, negra do fumo interiormente, cor do pó e de todas as cinzas
exteriormente. A custo, com surpresa, casualmente mesmo os descobrimos. E
temos sorrisos para estas escondidas graças (graças nos parecem) da região.
O Mondego, nascido umas poucas léguas acima e vindo la por onde só ca-
breiros e ovelheiros sabem até este recanto vagamente povoado e amanhado,
dá aqui umas duas ou três voltas caprichosas
Os açudes o atalham aquém e além e lhe emprestam alguma fundura; nunca
o bastante, no entanto, para se afogar nele uma cabra.
Dou-me ao gosto — a manhã é longa — de caminhar a pé com a água. Eu
marcho sobre as belas barras de xisto, de quinas rectas e longos veios, como os
da madeira cortada, num sentido. Suponho que desço. A água ora repousa, ora se
encrespa, ora reflui. Ramagens, que o acaso e o tempo ou alguma mão mais amá-
vel e mais melindrosa que a do pastor aqui deixou crescer, batem graciosamente
250 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

no frouxo rio. Vejo, mercê do sol que o atravessa fácil e por inteiro, o movimento
dos insectos da água, alados e rasteiros. A sombra deles, agitada, estrelada e
corredia no líquido incolor e calmo, parece-me deliciosa, estranha. Criadora de
formas e imagens.
Ser pintor... Quem soubesse pintar... Mais uma vez de mim para mim o digo e
penso, até sem a certeza, até duvidando de que a pintura reflectisse semelhan-
tes coisas. Nem o cá dentro tão absorvente da memória as poderia deter.
Continuo a andar. Cessa a rama. As pedras de um açude deixam, finalmente,
escorrer a água presa e uma espécie de praia de seixos brancos a divide. Vai fio
para um lado e fio para outro. Sente-se frescura e uma graça de solidão indizível.
O sol já anda por todos os lados, cobre tudo sem morder ainda. Outros insectos,
brilhantes, metálicos e esguios correm e adejam à minha vista. São escuros,
de um verde, azul e negro, lindos a mais não. Qualquer coisa igualável a estes
formosos seres estonteados e ligeiros voa ou quer voar também em mim, com
os meus olhos e o meu espírito. Estou parada, a água corre-me entre os pés. E
um apetite me vem, subreptício, puro, inominável, de oferecer ou de repartir,
de dissipar a sensação que me toma. De a tornar um dom, bem de partilha.
Sinto-me instantaneamente remontada a outras épocas vividas.
Mas porque serei eu só, neste furtivo momento, a colher a graça da terra, do
ar ou da luz ou dos insectos ou da água ou dos seixos? Tudo para mim...
SERRA DA ESTRELA: LITERATURA GEOGRÁFICA
251
Cristina Robalo Cordeiro, Rui Jacinto, Duarte Belo (Fotografia)

Penso também, tenho tempo de pensar, que a água corrente e os insectos,


pássaros, seixos e ramas me deram sempre, combinados, esta fina impressão de
recolhimento exaltado.
Sorrio à minha pequena descoberta. E lembro-me com uma consciência perti-
naz, activa já, que dos ribeiros até tenho tirado impressões literárias, das que me
são mais gratas. Desde a minha própria infância. Na literatura dos outros, a água
corrente evocada e explorada também me produziu sempre especial impressão.
Refluo o Mondego, que não sei se ainda se chamará Mondeguinho, como à
sua nascente, mas já acompanhada. Passamos a pequena ponte, baixa e sólida,
que o rio nas suas enchentes arrebata sempre. Serve ela de ligação entre a Cas-
tanheira e os casais da várzea.
A Castanheira mais não é, afinal, que um punhadito de choças pardas, perdi-
das nas baixas de uma lomba; mas estes casais da chamada várzea ainda mais
pobres serão. Visitámos um deles.
A ponte... oh! rara é a ponte que não tenha a sua qualidade. Uma ponte é
sempre uma afirmação, uma pausa, uma síncope, uma variante na paisagem.
Esta, plana e modesta, afogada de aspecto, sólida! depõe-nos no caminho xis-
toso que antigamente volteava aqueles cerros, de Folgosinho até Manteigas.
Estranho me parece o xisto, que vamos sempre pisando. Cada coisa deste
mundo tem fatalmente a sua graça, quando descoberta. Não é esta a primeira
vez que me aparece o xisto, mas agora que o piso e que ele me ladeia, que o
vejo como cepos dentro de água e estratificado, fino, a formar paredes, sinto-me
252 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

sua melhor conhecedora. Descubro nele uma elegância particular, uma beleza
natural e sóbria. É uma pedra inteiriça, de faces muito lisas e estriadas; pedra
que nunca se poderá chamar pedregulho... E simultaneamente delicada e rígida
e toma umas vezes por outras aspectos vegetais.
Andando, vamo-nos aproximando da corte mais perto da ponte. Baixa, cober-
ta de palha ruça, quase hermética, sem uma fenda no xisto apertado, diz-nos que
destes lados vêm os maus ventos e as tempestades. Damos-lhe a volta. É escuro;
tudo é e parece sombrio, sumido ou alheado da claridade que reina.
Uma mulher andrajosa, como as mulheres da serra se apresentam sempre,
num cercadito triste, descasca batata miúda. Logo se desculpa, o que também
aqui é usual: já se gastou a grada, agora temos de ir expurgando esta...
Mostra idade incaracterística e tem os olhos doentes. A seu lado duas crian-
ças loiras, bonitas, sujas e fortes, olham-nos. São suas netas. Há cinquenta anos
que para ali veio. Por umas leirazitas, que nós estamos vendo, cobertas de rama
de batata, e por aquela choça paga sessenta medidas de pensão a uma família
de Folgosinho, que nós devemos conhecer... Falamos-lhe do Riquinho, que sa-
bemos lá da aldeia ter feito para ali fortuna.
Por malas-artes, diz-nos a mulher. Mas lá para outro cerro, na volta do Mon-
dego. Por aqui ninguém chama seu ao que cria, anda tudo à renda.
Pedimos-lhe licença para entrar em sua casa. Nada tem de especial. É térrea,
suja e escura. Há dois buracos mais resguardados, um onde se dorme, outro
onde se guarda a lã no chão e os queijos numas tábuas suspensas.”
SERRA DA ESTRELA: LITERATURA GEOGRÁFICA
253
Cristina Robalo Cordeiro, Rui Jacinto, Duarte Belo (Fotografia)

A BEIRA E AS BEIRAS
11
JAIME CORTEZÃO

A Beira segundo Jaime Cortezão. Haverá um complexo de caracteres, bem


individuado, quer geográfico, quer humano, daquilo a que é costume chamar-se
a Beira, abrangendo as Beiras — Alta, Litoral e Baixa, conforme a nomenclatura
actual?
Bem e vincadamente individuado, não. E muito menos quando encarado no
puro aspecto da geografia. Entre a Beira minhota — dos vales de Cambra e de
Lafões, a Beira Litoral, dos canais e polders da região de Aveiro, ou a Beira alen-
tejana, zona de transição do Sul da Beira Baixa para o Alto Alentejo, a diferen-
ciação geográfica é profunda e multiforme. Já quanto ao tipo humano, olhado
não nos caracteres somáticos, mas como entidade moral e mais que tudo no
complexo peculiar das crenças e costumes, existe o indivíduo beirão, sob a trípli-
ce capa de qualificação provincial. Beirão que somos e de que nos orgulhamos,
nascido e criado na Beira Litoral, à margem da cidade, quando lemos os volumes
da excelente «Etnografia da Beira», de Jaime Lopes Dias, ainda que referida com
predominância à Beira Baixa, sentimos, a cada passo, o laço etnográfico de
família, que intimamente nos liga aos beirões das outras Beiras.

11
Jaime Cortezão (1964). Portugal. A terra e o homem. INCM.
254 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Mas a individuação geográfica ou cultural das Beiras e beirões, sente-se tan-


to mais viva e densa, quanto mais nos aproximamos, em terra e género de vida,
da Serra da Estrela ou, melhor, da Beira Alta. É na espinha orográfica, que vai
daquela serra à da Lousã e entre o planalto da Nave e as fontes do Coa, que se
ergue o maior divisor de águas em terras portuguesas. Dali o Paiva, o Távora ou
o Coa, durienses; o bucólico Vouga e o Mondego, o maior rio de percurso todo
português, com os seus tributários Dão e Alva; ou o tagano Zêzere, têm os seus
manadeiros. Dali todos descem rasgando os flancos da montanha ou do planalto
em declives dramáticos, dando ao homem o exemplo do vigor tenaz que tem de
pôr na humanização da serra ou das chapadas pedregosas. Desde aí se dilui e
apaga a aspereza serrana e se propaga o tipo do habitante.
Com efeito, considerada no seu conspecto geográfico, a Beira enfeixa e gra-
dua em si as sete cores do arco-íris das paisagens de Portugal. «A confluência
numa extensa região central de todas as paisagens do País, eis a Beira», disse
um dos escritores portugueses que melhor conheceram e mais amaram a sua
terra, Raul Proença. E um geógrafo que viajou repetidamente no País, buscando
sempre o que nele havia de diverso e de comum, Silva Teles, observou também
que a Beira representa uma súmula dos caracteres geográficos de todo o terri-
tório nacional. (…)
Desta multímoda Beira, aquele sistema fluvial, centrado na Beira Alta, predis-
punha só por si — pois que os rios unem — à unificação. humana pelos caracteres
SERRA DA ESTRELA: LITERATURA GEOGRÁFICA
255
Cristina Robalo Cordeiro, Rui Jacinto, Duarte Belo (Fotografia)

étnicos e culturais. E, na verdade, uma economia típica, estreitamente moldada


sobre o terreno e com profundas raízes pré-históricas, a transumância pastoril que
liga a Serra da Estrela aos campos de Coimbra, ao vale do Douro, aos plainos da
Beira Baixa e se alargava outrora ao Alentejo, foi, pela sua secular acção, um dos
mais fecundos agentes da unificação do tipo humano em todo o centro do País. Os
pastores transumantes não só guardavam o gado mas moldavam e individuavam a
grei, semeando vida e comportamento próprio através do território.
Assim se explica, em boa parte, que o nódulo mais puro e resistente do ca-
rácter português, feito de integridade moral, inconformismo agreste, consciên-
cia activa dos ideais e interesses nacionais e humanos, equilíbrio e senso da
medida, generosidade e franqueza, continue a individuar. o tipo do beirão nas
suas personalidades mais representativas, ainda que reflectindo as diferenças
regionais — unidade e variedade conjuntas, que documentam a existência da
12
Beira e das Beiras.
Graças à Beira Alta. Apesar da sua riqueza em paisagem e fastos gloriosos,
a Beira Alta, na sua mais antiga e genuína essência, é serra e fraga; é nevão
originário, que se funde em manadeiros de torrentes; é anta e castro; e pastores
transumantes que desde o fundo das idades guardam e encaminham ovelhas de
cuja lã se vestem, de cujo leite se alimentam. Dessa fisionomia da terra e género

12
Jaime Cortezão (1964). Portugal. A terra e o homem, pp: 103-104.
256 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

de vida se formou o tipo do habitante, como se o primeiro homem, o Adão das


Beiras, tivesse nascido naquele Paraíso de fragas e de lobos.
É lá, pelo planalto da Nave, nas encostas da Estrela e Caramulo, ou nos des-
vãos do Vouga, que ainda hoje certas moradas de rocha guardam a forma de
construção pelásgica e ciclópica. Algumas, de lobregas e primitivas, lembram
fojos que, à falta de melhor, os homens habitas sem; outras são ainda, as de
escadaria e varanda alpendrada em colunata, com seu brasão sob a cimalha,
tão cor de bronze e de grisalha, que, à sua volta, até no pino do dia cai a tarde.
Há pouco tempo atravessámos e explorámos a Serra da Estrela desde Gou-
veia até à Covilhã. Na subida, ao sol-poente, abismámos o olhar nos páramos a
perder de vista, da província, já nimbados de neblina e oiro. Do fragão do Corvo
avistámos Manteigas e o vale do Zêzere, saltando sobre penhas lá no fundo do
abismo, a mais de 700 metros de profundidade. Na descida vertiginosa até à
povoação, vimos pegureiros e rebanhos que continuavam vestidos de rudeza
pré-histórica; caminhámos suspensos nos desfiladeiros selváticos do Poço do
Inferno; subimos até aos Cântaros o vale do Zêzere, talhado pelos glaciares e
SERRA DA ESTRELA: LITERATURA GEOGRÁFICA
257
Cristina Robalo Cordeiro, Rui Jacinto, Duarte Belo (Fotografia)

povoado aqui e além de casebres de pedra solta, cobertos de colmo, e tão ru-
des que mal se distinguiam dos blocos erráticos. E tudo isto respirava uma tão
espessa tristeza e remota Antiguidade, que mais lembrava a história trágica da
Terra que do Homem.
Nesta primitividade telúrica e humana vive ainda hoje o mais antigo e
genuíno tipo de português. Netos de Viriato e dos seus indomáveis compa-
nheiros, os mesmos homens que resistiram às legiões romanas de Licínio
Luculo ou de Galba, que, em Trancoso e antes de Aljubarrota, desbarataram
as hostes castelhanas, que expulsaram as águias napoleónicas dos flancos da
Estrela, continuaram agarrados à mesma terra, cem vezes invadida e arrasada
pelo massacre, o incêndio, o saque, o estupro, e sempre semeando centeio e mi-
lho; construindo calhadas — os socalcos da Beira; plantando e podando cepas; e
guardando arme tios, mas capazes de voltar de novo o cajado, o alvião e a foice,
contra os invasores.
Daqueles milenários pastores que se vestiam de lã e se alimentavam com o
leite das ovelhas, ainda hoje derivam as maiores indústrias das abas da Estrela —
a dos tecidos e a dos lacticínios. São coisas típicas, que lisonjeiam a vista, o tacto
e o paladar, os queijos da serra e os panos de lã — burel, serguilhas, picotilho —
fabricados em teares e pisões primitivos. E os mesmos homens que transumam
rebanhos e lavram penhas de granito, poderiam repetir com o mesmo rompante
o sal agreste, as falas sublimes ou cândidas do Lavrador e do Pastor no Auto do
Purgatório de Gil Vicente.
Fiéis ao carácter primitivo, os beirões de hoje, moradores das aldeias da
montanha ou do planalto arremetem com a mesma fereza defendendo os bens
próprios ou comuns. Há tempo, quando na companhia de Aquilino Ribeiro visita-
va a aldeia de Aguas-Boas, situada num desvão ínvio do planalto, entre a serra
da Nave e a da Lapa, a mil metros de altitude, com a intenção de estudar, na
igrejinha local, certa imagem de sabor primitivo e popular, um dos habitantes da
povoação, supondo talvez que éramos altos funcionários do Estado (os pobres
de nós!) com a missão de transferir para museu os seus pobres tesouros de arte,
ameaçou-nos de olhos fuzilantes, sibilando por entre os dentes que os defende-
13
riam «como lobos» .

13
Jaime Cortezão (1964). Portugal. A terra e o homem. INCM, Pag. 111-113.
258 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

O PLANALTO ESTEPÁRIO DA BEIRA TRANSMONTANA


14
CARLOS ALBERTO MARQUES

“Planalto estepário que a serra das Mesas, os contrafortes da Estrela e os


relevos do Douro quase fecham por três bandas, alarga-se a perder de vista
para os lados de Castela, ermo, assombreado, manchado na pardacenta triste-
za pelos remendos da escura vegetação — se o abrangermos numa vista de
conjunto. Se, todavia, desdobrarmos ou repartirmos este quadro geral em pe-
quenos quadros e se, sobre eles atentarmos um pouco, descobriremos variadas
paisagens com pormenores interessantes que nos fugiam, diluídos ou esbatidos
na paisagem geral.
A serra das Mesas, retalhada em todos os sentidos pelos afluentes e sub-
-afluentes do rio Côa, é formada por inúmeros montes acaçapados, planuras ou
assentadas, com estreitos e pouco profundos vales que a constituição xistosa de-
terminou. Aqui e além, afloramentos pardacentos de rochas e a cobertura também
parda das terras do sargaço e dos carvalhiços que no Inverno abrangem e domi-
nam com a sua cor árvores, arbustos e ervas, tostadas pelos frios e geadas da

14
Carlos Alberto Marques (1935; 1995). A Bacia Hidrográfica do Côa, seguido de Algumas Notas Etnográficas
de Riba Côa.
SERRA DA ESTRELA: LITERATURA GEOGRÁFICA
259
Cristina Robalo Cordeiro, Rui Jacinto, Duarte Belo (Fotografia)

estação. As terras amareladas, avermelhadas ou escuras perdem um pouco a cor


nos lugares onde os cereais dominam com o seu verde-esmeralda. (…)
Rasga-se agora a paisagem do território compreendido entre as altitudes de
750m e 500m, o verdadeiro planalto, que se continua por Leão e Castela-a-Velha.
Terrenos graníticos muito recortados, as linhas de água estuam no tempo das
grandes chuvadas e são ravinas, secas e nuas nos meses do Verão. Cimos com-
pletamente desarborizados, terras esbranquiçadas, inçadas de penedos, onde
com dificuldade se desenvolve o rosmaninho e a giesta, falta de nascentes, cultu-
ra de cereais, pinhais raquíticos, campo ermo e desolado. Nas encostas domina
o carrasqueiro e aparece a xara, a giesta e o rosmaninho; nos vales, e às vezes
subindo a encosta, a cinzenta oliveira a confundir-se com o carrasqueiro, as fru-
teiras, os fracos carvalhos, raríssimos castanheiros e alguns pinhais. A estepe ca-
racteriza-se, porém, melhor para o lado da Espanha, árida, com cardos e magras
ervas, grandes áreas de restolho, ermo onde vivem o pastor, o cão e o rebanho.
Os pombais e as pombas quebram um pouco a monotonia da parada charneca.
O restante território até ao Douro é constituído na sua maioria por xistos e é
rasgado fundamente pelas linhas de água, com as terras de cor avermelhado-es-
cura. Os cimos dos montes são escalvados, bem como a maioria das encostas,
aparecendo nalgumas, e até no cimo dos montes, povoações que alvejam no meio
de tufos de verdura de plantas de folha permanente. A oliveira e a amendoei-
ra predominam e, apoiadas a esteios xistosos negros, associadas com fruteiras
várias e com oliveiras, alinham-se as cepas de videira que põem, na primavera
e verão, a mancha verde na paisagem avermelhado-escura das encostas que
olham para o Douro.”
260 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

COVA DA BEIRA: SORTILÉGIO DE CORES E ENFEITES POR


DIVERSAS CULTURAS
ORLANDO RIBEIRO E HIPÓLITO RAPOSO
15
Sortilégio de cores . Admirável de intuição geográfica é o nome popular
aplicado à depressão que jaz entre as serras da Estrela e da Gardunha: Cova
da Beira. Na verdade, uma cova entre as montanhas, alongada como elas no
mesmo sentido, de fundo rugoso de colinas e valeiros e uma larga depressão por
onde corre um Zêzere manso, ao rés de espraiados areais e cascalheiras. Terra
de soutos, carvalhais e pinhais, de pomares, hortas e milhos de regadio, viçosa
das águas que recolhe em grande abundância das serranias que a cercam, de
um mimo e fertilidade de Beira Alta, à qual se liga pelo estilo da paisagem, em-
bora, pela posição as relações naturais se abram para os caminhos do vale do
Tejo. Para NE rareia a verdura e aumentam os tons cinzentos da rocha nua e os
restolhos amarelados de centeio, ao mesmo tempo que a ondulação mais forte
do solo estabelece a passagem gradual para as serras da Terra Fria.
16
Revestida de enfeites por diversas culturas . Entre as duas grandes mon-
tanhas, aparece a Cova da Beira, revestida de enfeites por diversas culturas.
Pinheiros viçosos, opulentos carvalhos, matas de castanheiros bravos que or-
gulhosamente esperam o seu ano de corte, alternam com talhões de vinha e
pomar, com extensas várzeas de milho por onde circulam ribeiros claros, como
veias abertas no solo, para gosto e prosperidade da gente. Por dez léguas a
montante no Zêzere, por dez léguas até às nascentes da Meimoa, que no largo
vale confluem sem braveza nem ruído, o mesmo festim vegetal se prolonga em
brônzeos esplendores de vinhedo, na prata fosca das oliveiras, na flamejante
verdura das hortas, por onde as rodas, à ritmada força das passadas do homem,
vão elevando as águas para as veigas semeadas em que a esperança da colheita
é sempre o mais risonho sorriso dos lares. Para estas terras, o labor humano é
duro, mas não se toma por castigo, a lembrar a maldição do Paraíso, como nas
charnecas para oeste da Província: as águas das montanhas, a saudável humi-
dade do ar, dão à terra o esplendor dos hortos floridos que prendem os olhos e
a alma em permanente sortilégio de cores.

15
Orlando Ribeiro (1944). Beira Baixa. Guia de Portugal vol III, Tomo II - Beira Baixa e Beira Alta (2a ed. 1985),
FCG: 627-628.
16
Hipólito Raposo (1944). Cova da Beira. Guia de Portugal vol III, Tomo II - Beira Baixa e Beira Alta (2a ed.
1985), FCG: 705-706.
SERRA DA ESTRELA: LITERATURA GEOGRÁFICA
261
Cristina Robalo Cordeiro, Rui Jacinto, Duarte Belo (Fotografia)

O SUL; BEIRA BAIXA: HORIZONTES FUNDOS, UM MUN-


DO DE SOLEDADE
ORLANDO RIBEIRO
17
O Sul . Ainda que nesta divisão esteja compreendida a mais vasta e mo-
nótona unidade natural do nosso território — o Alentejo —, o domínio me-
ridional é, no conjunto, mais complexo e heterogéneo do que qualquer dos
descritos.
Pelo interior, começa nos plainos do sopé da Cordilheira Central: a sombra
da montanha estende ainda um pouco de viço de pinhais, hortas e milhos rega-
dos; mas, logo o sobreiro se avantaja aos carvalhos e castanheiros, a azinheira
aparece e o solo se reparte em largas folhas de trigo, de restolho e de pousio.
Da portela de Alpedrinha, no dorso da Gardunha, o contraste é impressionante
entre as serranias que, pelo norte, barram o horizonte próximo e o planalto a
que se não vê o fim: sobre ele, as manchas de verdura vão se tornando cada
vez mais desbotadas, indecisas e distantes. Na verdade, é o Alentejo que se
anuncia.

17
Orlando Ribeiro (1945). Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico. Livraria Sá da Costa: 151.
262 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

18
Beira Baixa: horizontes fundos, um mundo de soledade . Beira Baixa, «pro-
víncia charneira», cuja meada agrária eu próprio comecei a desfiar há uns trinta
anos, com o sentimento de reconstituir pela observação um Alentejo mais pobre
e mais arcaico. [...] A primeira distinção fundamental a estabelecer na paisagem
é entre incultos e terras cultivadas. A extensão dos primeiros era considerável
ainda em 1868, as aldeias apareciam no meio de clareiras: o papel destas char-
necas era, contudo, essencial na antiga economia agrícola. As arroteias eram
abertas a ferro e fogo para afugentar os animais bravios, que danificavam as
sementeiras e atacavam o gado: no século xviii, os lobos ameaçavam os reba-
nhos nos arredores da própria cidade de Castelo Branco. Porque tal extensão
de incultos? O relevo (o mato era tão denso que não se conseguia chegar ao
cimo de alguns montes) e a posição fronteiriça parecem ser responsáveis de tão
extensos matagais. Todas as povoações raianas sofreram muito com as guerras
da Restauração e da Sucessão de Espanha e algumas foram abandonadas; a
primeira e terceira invasões francesas assolaram também a região, menos pelos
combates do que pelo vazio criado aos exércitos inimigos, a tal ponto que ainda
em 1817 o Governo mandava bois aos agricultores de Castelo Branco. Em tempo
de guerra, só no meio de matagais incultos os habitantes sentiam a segurança
das arroteias: assim nasceu o lugar de Cubeira, cultivado por gente foragida de
Monforte e Malpica.
Outro facto é o isolamento devido à carência de estradas e seu péssimo esta-
do, posto em relevo por um economista do princípio do século XIX. Um relatório
da campanha do Conde de Lippe (1762) descreve, em vivas cores, as dificulda-
des dos caminhos. (…)
Que o essencial do povoamento se desenvolveu já, na época portuguesa
está patente nos nomes das vilas e aldeias, quase todos explicáveis pela língua
actual sem qualquer dificuldade de interpretação: nomes tirados do assento ou
da natureza do terreno (Penha Garcia, Pedrógão, Lousa, Bemposta, Aguas, Vale
de Prazeres, Soalheira), da segurança na defesa (Monforte, Castelo Branco, Cas-
telo Novo, Salvaterra, Segura), da vegetação (Mata, Salgueiro, Freixial, Sobral,
Lentiscais, Rosmaninhal) ou da fauna (Zebrais, Zebreira — de zevro, onagro ou
burro selvagem —, Ninho do Açor, Aranhas), de circunstâncias do próprio povoa-
mento (Aldeia do Bispo, Aldeia de João Pires, Atalaia, Póvoa de Rio de Moinhos),
de invocações religiosas (Salvador, Santa Margarida); e ainda, por influência do
Sul da França, Proença (-a-Velha), fundada pelos Templários; a contrapor a estes,
apenas um nome germânico (Medelim) e alguns de consonância arábica (Alfrí-
vida, Alcafozes, Alcains, Almaceda), outros que evocam monumentos funerários
(Orca) ou cultos pré cristãos (Monsanto).

18
Orlando Ribeiro (1970), A Evolução Agrária no Portugal Mediterrâneo. Centro de Estudos Geográficos, Lisboa:
pag.25-26.
SERRA DA ESTRELA: LITERATURA GEOGRÁFICA
263
Cristina Robalo Cordeiro, Rui Jacinto, Duarte Belo (Fotografia)

ENTRE O PORTO DA CARNE E A FAIA


19
ALEXANDRE HERCULANO

Saímos às seis horas para a Guarda a três léguas, terreno pouco acidentado e
medianamente cultivado: entramos na planície e tornamos a passar o Mondego:
caminho quase sempre plano: por mais duma légua. No meio a Lajeosa, grande
e próspera aldeia a uma légua de Celorico. É o melhor caminho que temos anda-
do desde a Igreja da Lapa. Chegamos ao Porto da Carne, onde tornamos a pas-
sar o Mondego a vau: a estrada inclina-se a poente seguindo a montanha o rio
que se aproxima das suas fontes indo sumir-se por entre as serras. Magnificência
do vale entre o Porto da Carne e a Faia na margem direita e Porco na esquerda.
Nesta margem também se vê a Miserela a certa distância, onde o vale parece
começar a estreitar-se. O fundo do vale, regado por águas derivadas do rio, é
uma sucessão contínua de pomares, hortas, campos de milho e feijão, grupos de
árvores silvestres, castanheiros, vinhas. As encostas olivedos, soutos, bosques
de carvalhos, que elevam até onde há uma pouca de terra entre as fragas: os
visos das duas cordilheiras nus e ásperos terminam em penedias dentadas e re-
cortadas tão caprichosamente que chegam a simular linhas de árvores isoladas.

19
Alexandre Herculano, Apontamentos de viagem (1853-1854). Lisboa, Bertrand, 1973: 180.
264 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

POVOADOS FRONTEIRIÇOS
20
NUNO DE MONTEMOR

Lajeosa da Raia é, como outros povoados fronteiriços da Beira-Serra, uma


aldeia de moradias baixas, em alvenaria morena, mal grudada com barro pardo.
O branco airoso da igreja e de uma ou outra casa rica, mais vinca a miséria
dos tugúrios negros, alguns deles sem janelas, apenas alumiados pela porta do
balcão exterior, prolongado, com degraus de granito, até às ruas juncadas de
palhiço, que os gados de passagem a toda a hora conspurcam.
No entanto, por amoroso trabalho da sua gente, a cor parda e seca da planí-
cie castelhana acaba ali, em face das hortas verdes que, na linha dos dois países,
desafiam a lodice toiros guardados na vizinha floresta espanhola da Ginestosa.

20
Nuno Montemor (1939). Maria Mim. Câmara do Sabugal (4ª ed., 2003): 121.
SERRA DA ESTRELA: LITERATURA GEOGRÁFICA
265
Cristina Robalo Cordeiro, Rui Jacinto, Duarte Belo (Fotografia)

ESTA ERA UMA COVILHÃ DE CASAS E PESSOAS


ANTÓNIO ALÇADA BAPTISTA

Esta era uma Covilhã de casas e pessoas que hoje só existem por dentro de
mim. Daí para cá a cidade cresceu mas pergunto-me se as cidades terão que
crescer assim. Se não seria possível preservarem-se os fragmentos que fizeram
a história do nosso dia-a-dia, bem mais real e visceral que a história dos ma-
nuais. É que isto assim dá-nos depois um trabalho de memória verdadeiramente
sobre-humano: é preciso lembrar a forma dos lugares, a postura das pedras, a
cércea das casas, a perspectiva das ruas onde começamos a vida. (...)
É um sentimento difícil de explicar, este, que me prende à Beira Baixa. É tudo
aquilo que eu disse da Covilhã que se estende por cerros lugares que ficaram
ligados às minhas recordações de infância, Agora, quando vou por lá, são todos os
que morreram que me vêm à memória, personagens que passeavam por aqueles
cenários, só que os cenários já mudaram também. Não posso separar a minha
infância da Serra da Estrela, sobretudo da casa do meu avô. Subia-se da Covilhã
por uma estrada estreita, toda calçada de pedra, que serpenteava pela encosta
até à Nave de Santo António. Primeiro vinha a floresta, depois a Varanda dos Car-
queijais, logo a seguir o Sanatório que eu, menino, me lembro de ver construir.
266 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

SÓ O BULÍCIO DO MERCADO QUEBRAVA A ROTINA DOS


DIAS
21
FERNANDO PAULOURO NEVES

Só o bulício do mercado, às segundas-feiras, quebrava a rotina dos dias: o


tempo lento que marcava o compasso da vila. Nesses dias, era o diabo! As ten-
das instalavam-se no terreiro e espaços adjacentes, os vendedores da banha da
cobra atroavam a pacatez do burgo e os camponeses vestiam fato domingueiro
para impor respeito na feira onde se compravam e vendiam os produtos rurais,
a junta de bois ou o bacorinho, com licença de vossas senhorias... Era o dia de
todos os ganhos ou de todas as perdas: 0 negócio media-se em número de no-
tas quando a sua circulação ainda significava alguma coisa. As segundas-feiras
eram o verdadeiro dia de guarda dos que trabalhavam no campo. Vinham à vila
tratar de todo o tipo de pendências, que lhes levavam couro e cabelo, arranjar
um empenho para qualquer caso mais bicudo, emborrachar-se nas tascas e nas
casas de pasto, que graças a Deus eram instituições que nunca entravam em
crise.

21
Fernando Paulouro Neves (2003). Os fantasmas não fazem a barba. CCC (Cuidado Como Cão Ed.), Lisboa:
35-36.
SERRA DA ESTRELA: LITERATURA GEOGRÁFICA
267
Cristina Robalo Cordeiro, Rui Jacinto, Duarte Belo (Fotografia)

RAIA
22
ANTÓNIO SALVADO

Turvam os olhos estas viajeiras / rotas da raia tão enraizadas; / afogos que
nos sonhos afogados/ cruzaram as nortadas da fronteira.//
As moitas insinuam no perfil/ do espaço largo/ a vontade sem glória de partir/
sem saber até onde por atalhos.//
Há sangue no restolho; indefinida/ a esperança derramou/ sobre o cheiro
vivaz do rosmaninho, um pássaro ferido/ que não voa.
Como agarrar as amplidões dos cumes,/ arrancar da neblina a fenda proibi-
da/ de céu azul/ e retalhar por entre a incerteza/ a pedregosa e mendigante via/
de mitigar a fome e saciar a sede?//
Ficou tombado no florar das urzes,/ dos giestais transidos de humildade/ um
coração calcado sem futuro/ e retalhado.

22
António Salvado (1997). Obra II. A Mar Arte, Coimbra.
268 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

UMA PAISAGEM QUE PASSO A PASSO SE ATORMENTA: A


BEIRA BAIXA
23
FERNANDO NAMORA

“Quem vem de longe, das terras frescas do litoral, onde o verde salpica os
olhos e se debruça nas estradas, e após a transição das ravinas do Zêzere, en-
contra uma paisagem que passo a passo se atormenta: a Beira Baixa. Aí, trans-
posta que é a charneca com a sua cabeleira rala, nos cômoros a ferida aberta
das ribeiras que descem ao Tejo por entre sobressaltos de xisto, ou ainda o dou-
rado da campanha da Idanha, a querer-se alentejana sem o ser — aí, senhores,
já a tristeza começa a espessar-se, a montanha crepita tendo por detrás relances
de horizontes fundos, e as coisas se tornam graves. Ei-lo, um mundo de soleda-
de, sobre que pesam crimes, mesmo se as frondes e as ramadas lhe escondem
as dores do exílio.
Assim, de facto, o sentimos: remoto e em degredo. E Monsanto se chama, de
pedra é feito — minha nave coalhada. (...)
Lá no Norte de mimos (o Norte foi sempre a tua saudade vingativa e toda a
vingança é desforço do débil), vizinho do mar ou das cidades em que nos jul-
gamos mais perto da vida, cada pedaço cheira ao seu dono, quase se habita
do sofrer e do júbilo humanos. A terra é cerne, um corpo a pulsar. Por isso lhe
ouvimos o riso e lhe saboreamos o renovo em cada ciclo de fecundação. Aqui,
perante estes serros taciturnos, estes alqueives desnudos à fornalha do Estio
ou aos Invernos agachados sobre as moradas que lembram fojos (e a neve, a
sombra azul sobre o imenso e expectante coágulo branco — lembras-te?), pare-
ce que as coisas exalam um frio de entranhas, se repassam de abandono, que
ora é desterro, estigma da distância, ora pura melancolia, com o silêncio a unir
o instante ao eterno. Coisas que se supõem ao desprezo, longe que os homens
andam, tão raro os vemos, escuros como o granito e nele fundidos. O friso álgido
da Gardunha, donde parte o vento carregado de gumes, e a raia aguçada são a
muralha que fecha tal mundo dentro da sua solitude. (...)
Por aqui, dizia, se encontra Monsanto. Onde a fraga se torna pesadelo. De
longe a vi e a temi, um dorso de monstro a crescer para nós até tomar conta de

23
Fernando Namora (1975). A Nave de Pedra. Libraria Bertrand, Amadora: 9-19.
SERRA DA ESTRELA: LITERATURA GEOGRÁFICA
269
Cristina Robalo Cordeiro, Rui Jacinto, Duarte Belo (Fotografia)

quase todo o céu, num tempo de já não sei quando e com uma personagem
decerto desaparecida, esse eu bisonho a eriçar-se de espinhos, ou de frouxidão
embuçada, no trato dos homens. Um eu que só tarde veio a reconhecer que é no
gesto sem medo, afinal o gesto que pedia e lhe pediam, que estava o segredo
da comunicabilidade.
Homens e panoramas desta Estremadura beiroa, de desconfiança em aler-
ta, nos oferecem, pois, a ideia de um viver tão duro quanto marginal. Curtido
na servidão e por isso amuado. Se, em muitos outros sítios (a que o viajante
esteja afeito, como eu o estava), ao camponês pertence o agro onde mal cabe
a sua sombra mas onde planta uma esperançada tenacidade, na Beira Baixa,
na maioria dos casos, nem isso: o campónio tem de seu os braços e aluga-os
para subsistir. Ou então, parte: a raia é um ir e vir no mesmo dia, o jogo de
morte com a guarda compensa quem à vida dá mais préstimo que valor; e a
cidade também é aceno que tenta, por muito que um jugo seja trocado por
outro às vezes maior.
270 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

ERA O TEMPO EM QUE UMA ALDEIA ERA UM ORGANIS-


MO VIVO
24
EDUARDO LOURENÇO

Tu habitaste um planeta desaparecido. Não podias adivinhar que o que te


cercava era mais estranho que a face escondida da lua. Se tivesses sabido que
o granito triste, as mãos terrosas, as camisas encardidas da tua gente, seus ges-
tos, as suas palavras já haviam morrido há séculos e te batiam no rosto como a
luz de estrelas há muito extintas, terias sido mais atento. Assim, tudo te passou
como água entre os dedos. Mais tarde, podias ter registado essas vozes, o diá-
logo entre fantasmas que elas não sabiam ser. Mas ninguém te preparara para
Oscar Lewis da tua própria gente. Tu habitaste entre gente medieva, medievo tu
mesmo. E foi o melhor que te aconteceu. A família da tua infância, a tua aldeia
árida e pobre, hoje dissolvida em poeira e saudade estelar viviam sem contradi-
ção alguma no neolítico, na pré-história, na idade média, um pouco já — quando
alguém ia à estação de Vilar Formoso — no século XIX e não sabiam quase nada
do século XX que as ignorava. Nem água encanada, nem luz eléctrica que só
quarenta anos mais tarde viria alumiar um mundo perdido. A água espera ainda
e é bem feito para um povo que se chama Rio Seco. (...)

24
Fernando Namora (1975). A Nave de Pedra. Libraria Bertrand, Amadora: 9-19.
SERRA DA ESTRELA: LITERATURA GEOGRÁFICA
271
Cristina Robalo Cordeiro, Rui Jacinto, Duarte Belo (Fotografia)

Era o tempo em que uma aldeia era um organismo vivo, espécie de homem
colectivo separado do mundo que o desconhecia e ele desconhecia, homem de
dura enxada e de seus parcos frutos. Entre a fome e o sol, todos dias eram seus.
Pouco a pouco, esse vasto mundo invadiu-lhe a casa, separou-o de si mesmo
convidando-o para manjares mais suculentos que nunca mais lhe saciarão a an-
tiga fome. Envergonhou-se dos tamancos, das meias de algodão, do casaco de
sorrobeco, pôs um pouco mais de açúcar no café, aprendeu a ler e a esquecer o
que lia e conheceu enfim a sua milenária miséria. Em quarenta anos passou da
flauta de Pan e das aventuras de Dafnie e Cloé ao esplendor imaginário da tele-
visão e seus amores piegas, seus locutores ventríloquos, vendedores de elixires
divinos. Só é pena que tanta felicidade e tanto sonho a domicílio nem cure fome
de séculos nem faça florir o deserto. As novecentas almas do povoado recolhe-
ram à sombra ou esperam por ela. Já não habitam essas cozinhas enfumadas
de trogloditas felizes. As mais audazes partiram à busca de alimento, música,
cinema, escola. Estão em Africa, no Brasil, em França, na Alemanha e até na Es-
panha. Lá é o São Pedro deles. Esta minha aldeia, sem história de ouro e sangue,
navio encalhado na meseta hispânica, enterra-se docemente na sua inexistên-
cia, com todas as luzes apagadas e um carregamento de fantasmas cobertos de
antigo suor e de mais antigas lágrimas. Quem os pudesse ressuscitar ...
272 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

A MATERNA RELAÇÃO COM AS TERRAS BAIXAS E INTE-


RIORES DA BEIRA
25
EUGÉNIO DE ANDRADE

A minha relação com as terras baixas e interiores da Beira é materna, quero


eu dizer: poética. A tão grande distância do tempo em que ali vivi os primeiros
oito anos da minha vida, o rosto de minha mãe confunde-se com a cor doirada
do restolho e daquela terra obscura onde emergem uns penedinhos com giestas
à roda, e alguns sobreiros de passo largo a caminho do Alentejo. Mas também
os olivais de muros baixos de pedra solta me chegam nas suas falas, as dela e
as de toda essa gente de Póvoa de Atalaia, camponeses na sua quase totalida-
de; e quando o não eram, o seu ofício era ainda o de uma relação privilegiada
com as coisas da terra: pedreiros, carpinteiros, ferreiros. Fora destes mesteres,
o restante da população lavrava, semeava, sachava, colhia. Ou pastava o gado,
e fabricava queijo, azeite, vinho, pão. Lembro-me do cheiro dos lagares, das
queijeiras, do forno, das forjas eram cheiros que entravam pelas narinas como
tantos outros, mas só esses se infiltraram no sangue e aí ficaram, depositados
em sucessivas camadas, para sempre, como ficou o aroma das estevas e do
feno. E ainda o das folhas secas dos castanheiros, trazidas às carradas e despe-
jadas ao lado do balcão.

25
Eugénio de Andrade (1979), Poesia, terra de minha mãe. In Rosto precário, Ed. Fundação Eugénio de Andrade,
Porto, (64 ed. 1995): 29
SERRA DA ESTRELA: LITERATURA GEOGRÁFICA
273
Cristina Robalo Cordeiro, Rui Jacinto, Duarte Belo (Fotografia)

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Notas Etnográficas de Riba Côa. Assírio & Alvim (1935: Biblos, Coimbra).
MARTINS, A. F. (1940). Esforço do Homem na Bacia do Mondego. Ed. autor, Coim-
bra: 25-27; 111-112; 237; 239.
RAPOSO, H. (1944). Cova da Beira. Guia de Portugal vol III, Tomo II - Beira Baixa e
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RIBEIRO, O. (1970). A Evolução Agrária no Portugal Mediterrâneo. Centro de Estu-
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CASTRO, F. de (1947). A lã e a neve.
FERREIRA, V. (1976). Contos. Bertrand, Lisboa: 25.
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HERCULANO, A. (1853-1854). Apontamentos de viagem. Lisboa, Bertrand, 1973:
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LISBOA, I. (1997). Crónicas da Serra, Obras de Irene Lisboa, Vol.VII, Editorial Pre-
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LOURENÇO, E. (1996). Jornal de Letras, Artes & Ideias, 8 de Maio de 1996.
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SALVADO, A. (1997). Obra II. A Mar Arte, Coimbra.
REDE DE ALDEIAS DE MONTANHA: UM TERRITÓRIO E UMA ESTRATÉGIA DE DESENVOLVIMENTO RURAL INTEGRADO
275
Célia Gonçalves
A Oficina de História da Guarda é um projeto coordenado por
Rita Costa-Gomes, Professora de História na Universidade de Towson
(Maryland, Estados Unidos da América), que tem como principal
objectivo oferecer aos seus utilizadores conteúdos para
divulgação sobre a história da Guarda e da sua região, incluindo
fontes de arquivo e patrimoniais, trabalhos inéditos devidamente
licenciados pelos seus autores, e trabalhos publicados em edição
impressa, com salvaguarda dos respectivos direitos.
Mais informação em: http://www.cei.pt/ohg/
oficina
de historia
da guarda
A NOVA IGREJA DE SÃO VICENTE:
CONSTRUÇÃO E ESTÉTICA
ANTÓNIO PRATA COELHO
DANIEL MARTINS
ANTONIETA PINTO

Em 1790 um novo templo surgiu no coração da cidade da Guarda – a nova


Igreja de São Vicente, no bairro do mesmo nome. Foi construída na mais anti-
ga praça da cidade, um espaço cuja génese remonta à Idade Média. O núcleo
populacional medieval, com malha urbana irregular e sinuosa, acompanhava
o espaço muralhado. Integrava uma zona de judiaria e duas praças principais,
junto de edifícios religiosos cristãos – Santa Maria do Mercado e São Vicente.
A partir do início do século XV podemos referir a existência de uma terceira
1
praça intra-muros, o Largo do Paço do Biu . Não que a cidade estivesse toda
contida dentro dos muros medievais. São de 1230 as primeiras referências a
igrejas do arrabalde, o que segundo Rita Costa Gomes, é “indicador importan-
2
te da instalação dos habitantes fora dos muros” . As paróquias na cidade da
Guarda eram três, limitadas pela muralha. Duas estavam inteiramente intra-
muros – São Vicente e Santa Maria do Mercado – enquanto a da Sé já incluiria
espaço extramuros.
3
Como refere Maria José Ferro Tavares , a praça de São Vicente apresenta
uma centralidade no espaço urbano. É ponto de confluência entre os dois eixos
urbanos medievais mais importantes da Guarda – um que ligava a porta da Co-
vilhã, próxima da Torre de Menagem, à porta do Curro; o outro que estabelecia a
ligação entre a Porta d’El Rei e a Porta da Erva. Este era o espaço nuclear de um
mundo económico e social marcado pela relação, nem sempre pacífica, entre os
cristãos e a comunidade judaica. De referir que a antiga judiaria “acompanhava a
muralha e o eixo viário que saído da porta d’El Rei se dirigia para a Igreja de São
4
Vicente e para a rua que lhe era perpendicular, onde se fazia a feira”. No Tombo

1
Rita Costa Gomes, A Guarda Medieval, 1200-1500, Lisboa, Sá da Costa, 1987, p. 53.
2
Rita Costa Gomes, A Guarda Medieval, 1200-1500, Lisboa, Sá da Costa, 1987, p. 38.
3
Maria José Ferro Tavares, “O Povoamento Judaico no território da diocese da Guarda (Período medieval e
Moderno)”, in Praça Velha 36 (2016) , p. 65-87.
4
Maria José Ferro Tavares, O Povoamento Judaico…, p.73.rei, localizadas no termo da cidade, da qual não
nos ocupámos por agora.
280 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

da Comarca da Beira há referências claras à existência de um mercado e de um


5
alpendre junto da antiga igreja .
A Praça de São Vicente tinha assim funções económicas e religiosas, para
além de ser zona de convivência entre os habitantes da urbe. Era aí que, desde
o séc. XIII, segundo os aforamentos régios de D. Dinis, conviviam livremente as
duas comunidades religiosas – a cristã e a judaica. Só em 1465, nas cortes reali-
zadas na Guarda por D. Afonso V, se decidiu que a judiaria da Guarda começaria
a ser fechada por portas, o que não impediu a continuação da ligação entre as
comunidades num espaço contíguo.
A Igreja medieval de São Vicente, tinha, segundo Rita Costa Gomes, a orien-
6
tação convencional , com a sua cabeceira virada para Nascente e o portal para
Poente. Esta orientação implicava que a porta de entrada da igreja cristã esti-
vesse virada para a zona onde vivia a população judaica. Da dimensão e planta
dessa igreja original pouco se sabe. Apenas se pode afirmar que se encontrava
na Praça de São Vicente, e que no seu adro existia um cemitério cristão, referido
nas queixas dos procuradores do município, a D. Afonso V, nas cortes da Guarda
7
de 1465.
Esta igreja dará lugar, no final do século XVIII, à atual Igreja de São Vicente.
Este novo edifício teve como patrono o bispo da Guarda, D. Jerónimo Rogado do
Carvalhal e Silva.

O PATRONO E O CRIADOR DO RISCO


A figura do bispo D. Jerónimo é fundamental para a compreensão não ape-
nas do novo edifício da Igreja de São Vicente mas também do contexto que
deu origem à sua reedificação. D. Jerónimo Rogado do Carvalhal e Silva, Bispo
da Guarda entre 1773 e 1797, nasceu na Guarda a 7 de Dezembro de 1720 e foi
8
batizado, na mesma Igreja de São Vicente, a 1 de Janeiro de 1721. Era filho de
D. Luís de Oliveira Almeida Osório, natural da Guarda, e de D. Maria Marta de

5
“Item [G73] Um campo onde estava o alpendre em que costumavam estar as regateiras, que está sob a
cabeceira da igreja de São Vicente e confronta com a rua pública. No tempo em que havia alpendre tinham
que estar ali as regateiras, ainda que não quisessem; cada uma pagava ao rei, cada dia, dois dinheiros da
moeda antiga.
Item [G74] Um alpendre que o rei tem na dita cidade, o qual o dito Rui Peres mandou fazer por ordem do
dito senhor, no qual estão seis tendas. Situado no campo da Igreja de São Vicente, da parte da Rua Direita.
O almoxarife do rei arrenda-as no dia da feira aos mercadores, que nelas queiram estar.” http://www.cei.pt/
ohg/a-judiaria-da-guarda-em-1395.html - consultado a 4 de julho 2018.
6
Rita Costa Gomes, A Guarda Medieval…, p.31.
7
Maria José Ferro Tavares, O Povoamento Judaico…, p.75.
8
Arquivo Distrital da Guarda (doravante ADGRD), Paroquiais de S. Vicente, Batismos, Folha 65 verso, Item 6,
Rolo 743.
A NOVA IGREJA DE SÃO VICENTE: CONSTRUÇÃO E ESTÉTICA
281
• António Prata Coelho, Daniel Martins, Antonieta Pinto

Vasconcelos Zuzarte do Carvalhal, natural de Alter do Chão. Faleceu na Guarda


9
a 19 de fevereiro de 1797 e foi sepultado na Sé Catedral, em espaço com lápide
encomendada por ele.

10
D. Jerónimo Rogado do Carvalhal e Silva, Bispo da Guarda

Entre 1739 e 1744 D. Jerónimo frequentou a Faculdade de Cânones, da Uni-


versidade de Coimbra, onde concluiu o bacharelato e a licenciatura. Em 1747 fez
diligências de habilitação para o Santo Ofício. No ano seguinte (1748) foi orde-
nado diácono e padre. Restam alguns vestígios documentais da sua atividade
no Santo Ofício. Enquanto inquisidor foi responsável, em colaboração com Fran-
11
cisco Mendo Trigoso, futuro bispo de Viseu, pela elaboração de um “Culpeiro”.
Em 22 de Janeiro de 1766 D. Jerónimo foi nomeado bispo de Portalegre pelo
rei D. José I, cargo que só virá a ser confirmado a 4 de Agosto de 1770, por te-
12
rem estado interrompidas as relações de Portugal com a Santa Sé. As escolhas
dos bispos, desde o reinado de D. Manuel I (1495-1521), passaram a ser feitas
pelos monarcas. O papa geralmente sancionava a proposta apresentada. Este
procedimento resultou da centralização do poder régio que visava uma maior
13
capacidade de domínio sobre a igreja portuguesa.

9
ADGRD, Paroquiais da Sé, Óbitos, Folha 192, Item 7, Rolo 749.
10
Retrato existente no Paço Episcopal de Portalegre. Reproduzido em José Joaquim Pinto Geada, José Maurício
(1752-1815), Mestre da Capela na Sé da Guarda, Guarda, Câmara Municipal da Guarda, 2003.
11
Este caderno em papel abarca o período de 1757 e 1784 e apresenta um índice onomástico, por ordem alfa-
bética do primeiro nome, das pessoas a quem é atribuída culpa. Cumpre destacar o registo que se encontra
escrito nos fólios de 13 a 15, contendo uma síntese das culpas imputadas ao padre jesuíta Gabriel Malagrida.
Arquivos Nacionais – Torre do Tombo, https://digitarq.arquivos.pt/details?id=4490650, consultado em 04 de
julho de 2018.
12
Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura, Lisboa/São Paulo, Verbo, 1998-2003, Vol. 28, s.v. “Jerónimo Rogado
do Carvalhal e Silva”.
13
“Antes de 1740 e das diligências efetuadas em Roma por ordem de D. João V, o rei «suplicava» ao papa
o provimento dos bispos nas dioceses antigas e apresentava os das novas. Depois de 1740, passou a
«apresentá-los» ou «nomeá-los» todos.”: José Pedro Paiva, Os Bispos de Portugal e do Império (1495-1777),
Coimbra, Imprensa da Universidade, 2006, p. 562-563.
282 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

A partir de 1756, o futuro Marquês de Pombal assumiu a intenção de dominar


a Igreja e o clero: para tal fim operaram-se modificações no processo de escolha
dos bispos e utilizou-se o sistema de promoções visando o controlo das dioceses
mais importantes. Sebastião José de Carvalho e Melo, enquanto ministro de D.
José, colocou em prática um meticuloso plano com base nos tratados do Ora-
toriano António Pereira de Figueiredo, nomeadamente o texto Doctrina Veteris
Ecclesiae, que tinha como objetivo atribuir ao monarca um “domínio absoluto
14
sobre a Igreja”. O conjunto de produção legislativa apresentado a partir de 1762
reflete o desejo do Marquês de Pombal de exercer controlo sobre os bispos e o
15
consequente fortalecimento do poder do Estado.
De acordo com os ideais do despotismo esclarecido, Pombal procurou refor-
çar a secularização do estado e afirmar a soberania em relação ao poder papal.
Era necessário que “à frente das dioceses estivessem pessoas da sua máxima
16
confiança”. A escolha dos bispos passou a ter uma “articulação profunda com
o exercício da política e com a hegemonia que no seu centro, por variados mo-
17
dos, se conseguia alcançar.” A somar a esta situação não se pode deixar de
acrescentar a lógica das clientelas familiares, subordinadas à ordem política e
18
aproveitadas pelos órgãos de poder como garantia da sua afirmação. Assim,
como observou José Pedro Paiva, “31.8% das dioceses providas no tempo de
D. José I resultam de transferências/promoções de quem já era bispo. E a maio-
ria delas foram feitas depois de 1756, para agraciar servidores empenhados do
19
ministro.” D. Jerónimo Rogado de Carvalhal e Silva foi inicialmente bispo de
Portalegre, de 1770 até 1773, e foi posteriormente transferido para o episcopado
da Guarda ainda em Março de 1773, tendo sido confirmado em consistório a 10
de junho do ano seguinte.
Critérios políticos e não tanto religiosos estiveram, assim, por detrás da esco-
lha de muitos bispos no século XVIII. Não obstante esta circunstância, D. Jeróni-
mo Rogado Carvalhal e Silva aparece-nos como um prelado preocupado com as
suas competências episcopais. São conhecidas três pastorais impressas da sua
autoria, promulgadas entre 1770 e 1773, dirigidas aos diocesanos e eclesiásticos
20
do seu bispado. Muitos aspetos da sua atuação continuam por estudar, apesar
do muito que se progrediu nos últimos anos para esclarecer o seu patrocínio da
música. Enquanto bispo da Guarda, para além das funções episcopais, D. Jeróni-
mo esteve envolvido na criação de uma escola pública de música, assim como

14
José Pedro Paiva, Os Bispos de Portugal..., p. 536.
15
José Pedro Paiva, Os Bispos de Portugal..., p. 538.
16
José Pedro Paiva, Os Bispos de Portugal..., p. 568.
17
José Pedro Paiva, Os Bispos de Portugal..., p. 568.
18
José Pedro Paiva, Os Bispos de Portugal..., p. 569.
19
José Pedro Paiva, Os Bispos de Portugal..., p. 543.
20
Biblioteca Geral da Universidade, Catálogo da Colecção de Miscelâneas, Coimbra, Imprensa da Universidade,
1988, p. 58.
A NOVA IGREJA DE SÃO VICENTE: CONSTRUÇÃO E ESTÉTICA
283
• António Prata Coelho, Daniel Martins, Antonieta Pinto

na reforma do grande órgão da Sé Catedral. Na década de 1780, no sentido de


dar continuidade ao esforço do bispo anterior, atribuiu os cargos de mestre de
capela da catedral bem como o de diretor da escola de música a José dos Santos
21
Maurício, destacado músico de Coimbra. Do ponto de vista do seu patrocinato
artístico, sabemos que promoveu a decoração da Capela do Santíssimo Sacra-
mento na Sé Catedral, bem como a criação da sua lápide funerária na mesma
igreja. A Igreja Paroquial de Aldeia Viçosa foi também ornamentada sob o seu
22
incentivo.
Segundo inscrição colocada junto da Pia Baptismal de São Vicente, a igreja
desta paróquia da cidade foi o resultado do seu mecenato.
A igreja dataria de 1790 (mas trata-se do início da construção, ou do fim da
mesma?), e o seu “risco” tem sido atribuído a António Fernandes Rodrigues.

Inscrição junto da pia batismal, Igreja de S. Vicente

O arquiteto que desenhou a nova Igreja de São Vicente, António Fernandes


Rodrigues, foi, entre 1759 e 1762, estudante de artes em Roma e Florença, sob
o patrocínio do Marquês de Pombal. Sabemos que nasceu em Mariana, Minas
Gerais, no auge da exploração mineira que levou ao crescimento económico e
demográfico da região brasileira. Era filho de um português e de uma “crioula”,
segundo nos dizem as fontes coevas.

21
José Joaquim Pinto Geada , Obras de José Maurício (1752-1815), Mestre da Capela na Sé da Guarda, Guarda,
Câmara Municipal, 2003, p. xi e xiii.
22
Vitor Serrão, “Le tableau de Grão Vasco à Santa Maria de Porco”, Revue de l’Art 133 (2001-2003), p. 63.
284 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Mariana teve a sua origem no arraial de Ribeirão do Carmo, transformado em


vila em 1711 e elevada à categoria de cidade, segundo Carta Régia de Abril de
23
1745 . Dada a sua importância económica para o reino, a cidade foi alvo de um
planeamento urbano estabelecido por D. João V em Provisão de 2 de Maio de
1746, no qual se apresenta a necessidade de eleger “sítio para praça espaçosa”.
Para este plano de intervenção foi indicado, em 1742, por ação de Gomes Freire
de Andrade, um dos mais competentes engenheiros militares do século XVIII,
24
José Fernandes de Pinto Alpoim . As orientações do rei foram zelosamente
cumpridas e a cidade surgiu com ruas retas, praças amplas, catedral com pers-
petiva desafogada, casa da câmara e cadeia.
As transformações de Mariana na década de 1740, nomeadamente no que diz
respeito à construção de igrejas, seminário, e paço episcopal, podem seguir-se
25
na copiosa correspondência do Bispo Frei Manuel da Cruz . O futuro arquiteto
terá assistido a estas transformações urbanística na sua região natal, mas cedo
vai para o Rio de Janeiro onde estudou gramática latina, música e desenho.
Em 1758 veio para Lisboa, daí para Roma e depois para Florença como atrás

23
Benedito Lima Toledo, “Espaços Públicos: Mariana e Ouro Preto” in Manuel C. Teixeira (ed), Colóquio Portugal-
Brasil “A Praça na Cidade Portuguesa”, Lisboa, Livros Horizonte, 2001, p. 177-178.
24
Alpoim foi mestre do curso regular de engenharia militar denominado “Aulas de Artilharia e Uso de Fogos
de Artifícios”, no Rio de Janeiro: Toledo, “Espaços Públicos..”, p. 179.
25
Aldo Luiz Leoni (ed), Copiador de Algumas Cartas Particulares do Excelentíssimo e Reverendíssimo Senhor
Dom Frei Manuel da Cruz, Bispo do Maranhão e Mariana (1739-1762), Brasília, Edições do Estado Federal,
2008, p. 239-243, 287.
A NOVA IGREJA DE SÃO VICENTE: CONSTRUÇÃO E ESTÉTICA
285
• António Prata Coelho, Daniel Martins, Antonieta Pinto

26
referido. Regressou definitivamente a Lisboa em 1762 onde passou a trabalhar
como gravador e arquiteto.
Das suas obras salientamos o Desenho da Alegoria ao Marquês de Pombal
(1762), o projeto para cemitério-tipo em Lisboa (1791) e o “Prospecto da Máquina
de Fogo de Vista” (1793).

27
Alegoria ao Marquês de Pombal, 1762

Estas três obras muito diferentes ilustram bem a multiforme atividade de Fer-
nandes Rodrigues em Lisboa, como desenhador e gravador, como arquiteto, e
como projetista de arquitetura efémera (neste caso, para comemorar em 1793 o
nascimento da filha do Príncipe Regente, o futuro D. João VI). Segundo o con-
temporâneo Volkmer Machado, que o conheceu bem, o artista fez o risco de São
28
Vicente da Guarda no período lisboeta da sua vida, certamente após 1773.
A partir 23 de Abril de 1781 António Fernandes Rodrigues foi convidado, por
Pina Manique, para dirigir a Aula de Desenho na Casa Pia do Castelo. Segundo o
seu plano de estudos, a Casa Pia era local onde os alunos deveriam ser tratados
“com civilidade” e inspirados na “verdadeira nobreza” que reside nas “virtudes
29
moraes” e em ser “útil à Pátria e em geral ao próximo”. Transmitia-se nesta

26
Cyrillo Volkmar Machado, Collecção de Memorias, Relativas Às Vidas dos Pintores, Escultores, Architetos,
e Gravadores Portugueses, e dos Estrangeiros que estiverão em Portugal, Lisboa, Victorino Rodrigues da
Silva, 1823, p. 288. Biblioteca Nacional Digital http://purl.pt/28030.
27
“Alegoria ao Marquês de Pombal”, Biblioteca Nacional Digital http://purl.pt/6779.
28
Cyrillo Volkmar Machado, Collecção…, p. 288.
29
“Regras para os Estudos e Colégio da Real Casa Pia de Lisboa”, Direção Geral de Arquivos – Torre do Tombo,
Intendência Geral da Polícia, Papéis Diversos, Maço 3, número 71.
286 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

30 31
Projecto para cemitério-tipo em Lisboa, 1791 Prospecto da Máquina de Fogo de Vista, 1793

escola um novo ideal de nobreza que colide já com o conceito tradicional do


nobre de Antigo Regime. A instituição apresentava-se deste modo como espaço
de introdução e difusão das ideias iluministas que grassavam na Europa e co-
meçavam a despontar em Portugal. Já no governo do Marquês de Pombal essas
ideias serviram a centralização do poder, desafiando a importância da nobreza
tradicional e preparando a renovação da sociedade. Os ideais iluministas influen-
ciavam este conceito de educação e de sociedade que o plano de estudos da
Casa Pia claramente promove. Um professor convidado para a Casa Pia pelo seu
responsável máximo partilharia certamente estes ideais que progressivamente
entravam em Portugal através de estrangeirados, como ele.
30
“Projecto para cemitério-tipo em Lisboa” de António Fernandes Rodrigues (1791), fonte que hoje se conserva
no Arquivo da Torre do Tombo (Ministério do Reino, Coleção de plantas e outros documentos iconográficos,
maço 454, cx.569, pl. 24, 25, 26), publicada em parte por Paula Cristina André dos Ramos Pinto Vieira, Os
Cemitérios de Lisboa no século XIX. Pensar e construir o novo palco da memória, Dissertação de Mestrado
em História da Arte Contemporânea, Lisboa, Universidade Nova de Lisboa, 1999, Volume 2. Este projeto do
estabelecimento de 8 cemitérios em Lisboa foi iniciativa de Pina Manique.
31
Esta gravura, representando o “aparato” de fogo de artifício construido para celebração pública, faz parte
do espólio do Palácio de Queluz, e seria parte de uma série da qual se conhece pelo menos outra folha:
http://www.matriznet.dgpc.pt/MatrizNet/Objectos/ObjectosConsultar.aspx?IdReg=1000806, Consultado em
4 de julho 2018.
A NOVA IGREJA DE SÃO VICENTE: CONSTRUÇÃO E ESTÉTICA
287
• António Prata Coelho, Daniel Martins, Antonieta Pinto

A circulação destas ideias iluministas fazia-se igualmente no meio académi-


co, pois não era apanágio apenas da Casa Pia. Em Coimbra eram motivo de
tertúlias, de circulação de livros e apoio às medidas reformistas implementadas
por Pombal. Foram, no entanto, motivo de intervenção da Inquisição quando o
32
momento político se alterou com a subida ao poder de D. Maria I. Parece-nos
que haveria uma afinidade entre os princípios que norteavam o ensino na Casa
Pia e o ambiente iluminista coimbrão. No círculo do primeiro ambiente estaria
o arquiteto de São Vicente. Mas o que poderia ter unido um Ministro do Santo
Ofício a um artista formado no estrangeiro e ativo nos círculos ligados à Casa
Pia? Que ligação se poderá estabelecer entre este homem e o bispo que lhe
encomendou a obra?
Na sua grande maioria, os bispos nomeados por Sebastião José de Carvalho
e Melo acataram a hegemonia do primeiro ministro e submeteram-se às suas
diretivas. Pesava na escolha dos eleitos à nomeação do cargo episcopal ter pas-
sado pelo Tribunal do Santo Ofício, pela Universidade, entretanto reformada por
Pombal, ou pela recentemente criada Real Mesa Censória. Dos bispos nomeados
a partir de 1770, 50% eram inquisidores, como era o caso de D. Jerónimo Rogado
33
de Carvalhal e Silva (Portalegre, 1770 e Guarda, 1773). Todos tinham percursos
semelhantes: filhos de pais ricos, com formação universitária, todos passaram
pelo Tribunal do Santo Ofício. Deve acrescentar-se que “a partir de 1761 [a Inqui-
sição] passou a ser dirigida pelo irmão de Pombal, o qual teria um conhecimen-
to próximo dos posicionamentos e atividades dos inquisidores e deputados do
34
Conselho Geral”. A adesão destes bispos ao iluminismo católico foi facilitada
pelo governo pombalino, a par com a crítica aos Jesuítas.
A Universidade de Coimbra foi também local de recruta de bispos por Pom-
bal. Aí Sebastião José de Carvalho e Melo foi ao encontro de homens de cultura
que, tendo aderido nalguns casos aos princípios iluministas, corresponderiam
aos anseios de secularização do Estado. Como referido anteriormente, D. Je-
rónimo frequentou a Faculdade de Cânones, da Universidade de Coimbra, entre
1739 e 1744, onde concluiu o bacharelato e a licenciatura. Sabemos que o bispo
sendo Ministro do Santo Ofício frequentava também a capital, embora não te-
nhamos encontrado ainda ligações claras ao círculo de Pina Manique, que entre-
tanto assumiu a direção da Intendência Geral da Polícia (em 1778) e criou a Casa
Pia em 1780, onde como vimos se adotaram as novas ideias sobre educação.
Não conseguimos apurar quem colocaria D. Jerónimo em contacto com o arqui-
teto que dirigia a aula de Desenho criada por Pina Manique, como anteriormente

32
Luis A. de Oliveira Ramos, “Sobre os Ilustrados da academia de Coimbra”, Estudos em homenagem a João
Francisco Marques, Porto, Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 2001, vol. II, p. 313-326.
33
José Pedro Paiva, Os Bispos de Portugal..., p. 549-550.
34
José Pedro Paiva, Os Bispos de Portugal..., p. 549.
288 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

35
referido. Em todo o caso, a proteção de Pina Manique ao artista continuou a
ser uma constante da sua carreira, como o demonstram as suas obras dos anos
de 1780 e 1790, fato que certamente seria do conhecimento do Bispo da Guarda.
Sendo Pombal especialmente atento à escolha e nomeação episcopal, con-
figura-se-nos pertinente a hipótese de o bispo da Guarda, D. Jerónimo Rogado
do Carvalhal e Silva, estar também próximo deste pensamento reformador. Eram
escolhidos para nomeação episcopal os que já tinham dado provas em institui-
ções criadas ou reformadas por Pombal, como a Real Mesa Censória, o Tribunal
do Santo Ofício ou a Universidade de Coimbra. “Ser anti-jesuíta tinha passado a
ser um fator de peso no momento em que se apuravam candidatos ao episco-
36
pado”, afirma o historiador José Pedro Paiva . Lembremo-nos que D. Jerónimo
Rogado de Carvalhal e Silva, enquanto ministro do Santo Ofício foi corresponsá-
vel pela elaboração de um “culpeiro” no qual eram imputadas culpas ao padre
Malagrida. Com este processo terá dado suficientes provas da sua posição cri-
tica em relação ao papel dos Jesuítas na sociedade portuguesa do século XVIII,
posicionando-se a par com as pretensões do Marquês de Pombal de diminuir o
poder da Companhia de Jesus ao mesmo tempo que o Tribunal do Santo Ofício
37
se submetia aos interesses do Estado.
Outra questão que se pode colocar é relativa à estética do edifício de São
Vicente. Que dizer de um risco barroco da Igreja de São Vicente vindo de um
homem que integrava uma instituição imbuída de princípios iluministas, onde a
racionalidade devia prevalecer sobre a exuberância? Que pensar de um projeto
de cemitério de influência neoclássica ao lado de uma Igreja Barroca? Terá o
projeto de António Fernandes Rodrigues sido acompanhado por ele, ou levado a
cabo por um desconhecido mestre de obras?
Estas questões não são de resposta fácil. Podemos afirmar que em Portugal,
durante o século XVIII, não existiu uma verdadeira arquitetura do neoclassicis-
mo. Uma parte significativa dos projetos neoclássicos levados a cabo resultaram
de importações de arquitetos como John Carr (Hospital de Santo António, Porto),
John Whitehead (Feitoria Inglesa, Porto) e de uma vasta empresa que resultou
das ideias de Pombal e da tradição urbanística portuguesa – a Lisboa pombalina,
o acontecimento arquitetónico do século XVIII em Portugal. Embora se tenha
construído muito, entre nós o barroco prolongou-se até muito tarde enquanto
o neoclássico revela, ao mesmo tempo, a relação da nossa arquitetura com o
35
Neuma Brilhante Rodrigues “Para a Utilidade do Estado e “Glória À Nação”: A real Casa Pia de Lisboa Nos
Tempos de Pina Manique (1780-1805)”, Revista Territórios e Fronteiras 1, 2 (2008), p. 25-46.
36
José Pedro Paiva, Os Bispos de Portugal..., p. 542.
37
A suposta participação do padre Malagrida no episódio do atentado ao rei tornou-se preciosa acusação
para os objetivos de Sebastião de Carvalho e Melo. Colocando pessoas da sua confiança na Inquisição, o
ministro conseguiu dominar o processo referente ao padre Malagrida e, por conseguinte, a sua condenação
em Auto de fé. Este processo levou à desacreditação da Companhia de Jesus e à sua consequente expulsão
do país a 3 de setembro de 1759: Giuseppe Marcocci e José Pedro Paiva, História da Inquisição Portuguesa,
1536-1821, Lisboa, A Esfera dos Livros, 2016, p. 336-343.
A NOVA IGREJA DE SÃO VICENTE: CONSTRUÇÃO E ESTÉTICA
289
• António Prata Coelho, Daniel Martins, Antonieta Pinto

que se fazia na Europa. Este facto, segundo o historiador Varela Gomes, não
pode esclarecer-se através da escassa teoria da arquitetura em Portugal, pois a
38
“nova arquitetura erguida em Portugal no século XVIII fez-se sem teoria” . Só
Cyrillo Volkmar Machado, o biógrafo do arquiteto António Fernandes Rodrigues,
produziu alguma teoria arquitetónica muito com base nas afirmações de outros
39
autores. Criticou, por exemplo, a “libertinagem” portuguesa do barroco e o seu
exagero decorativo, o que faria dele mais um adepto do neoclassicismo. No en-
tanto, entre 1794 e 1823 não se coibiu de fazer rasgados elogios ao trabalho do
40
arquiteto de Mafra – Frederico Ludovice . Surge também no seu discurso uma
posição ideológica ao lado de valores aristocráticos que eram contrários a uma
arquitetura que advogava, com lembra Varela Gomes, um certo “igualitarismo
utilitário”. Podemos, assim, afirmar que a apreciação da arquitetura portuguesa
nos círculos em que participou Fernandes Rodrigues oscilava entre o barroco e a
construção pombalina, entre a imponência e respeitabilidade do neoclássico e a
extravagância sensorial do barroco.
É nesta ambivalência que podemos encontrar as respostas para uma com-
preensão dos trabalhos que conhecemos do arquiteto da Igreja de São Vicente.
António Fernandes Rodrigues, homem do seu tempo, revela no conjunto da sua
obra não lhe ser necessária a adoção de uma orientação precisa. Apresenta-nos
trabalhos como “Prospecto da Máquina de Fogo de Vista” (1793) e a igreja de
São Vicente (entre 1773 e 1780) de estética marcadamente barroca, enquanto
que a alegoria intitulada “Desenho e elogio ao Marquês de Pombal” (1762) e o
“Projeto para cemitério tipo em Lisboa” (1791) revelam uma outra linguagem (no
primeiro caso eivada de símbolos maçónicos e greco-latinos) fazendo-os aproxi-
mar da estética neoclássica.

A IGREJA
Face à controvérsia relativa à data de 1790 como conclusão ou início da obra
foi feito levantamento dos registos de batismos na Paróquia de São Vicente,
41
entre 1769 e 1797 , como consta do gráfico apresentado. Da análise dos dados
pode concluir-se que, no período correspondente à década de 1780, algo alterou
a rotina paroquial. Nesse espaço de tempo verifica-se a ausência ou redução
considerável de registos de batismo na Paróquia o que pode indiciar a existência
de obras em curso. 1790 será, no nosso entender, a data de conclusão da obra

38
Paulo Varela Gomes, A Cultura Arquitectónica e Artística em Portugal no século XVIII, Lisboa, Caminho, 1988,
p. 80.
39
Paulo Varela Gomes, A Cultura Arquitetónica…, p. 84.
40
Paulo Varela Gomes, A Cultura Arquitetónica…, p. 86.
41
ADGRD, Registos Paroquiais da Paróquia de São Vicente, rolo 744; item 2: Registo de Batismos de São Vicente.
290 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

pois esse momento coincide com a normalização dos registos paroquiais. A par-
tir dessa data o número de batismos retoma valores semelhantes aos registados
42
nos anos anteriores a 1780.

O edifício apresenta hoje uma cobertura em duas águas, planta longitu-


dinal, formada por dois retângulos justapostos sendo a nave única mais alta
e mais larga que a cabeceira. É muito provável que o espaço da igreja me-
dieval tivesse ficado subsumido na área mais vasta do edifício setecentista,
como geralmente acontecia na tradição católica. Existiu anexa à igreja uma
casa de residência do pároco que foi posteriormente vendida a particulares.
Como veremos, a amplitude das obras e a associação dos dois edifícios num
só projeto iniciava uma reforma, simultaneamente, do espaço urbanístico da
praça de São Vicente mas também da própria paróquia, pois que modificava
singularmente as condições de vida de um dos elementos constituintes desta:
o pároco.
A fachada da igreja integra um corpo principal, ladeado pelas torres sinei-
ras, composto por portal, janelão, brasão de armas do bispo, e rematada com
frontão curvilíneo interrompido e encimada por cruz latina. As laterais do corpo
principal estão ladeadas por duas pilastras coroadas por fogaréus.
O portal de arco abatido com moldura dupla, em meia cana, das ombreiras ao
lintel é ladeado por pilastras quadrangulares, com reentrâncias, de capitel jónico
assente em pedestais. É rematado por frontão quebrado com cartela ao centro
decorada com relevos vegetalistas e volutas nas laterais, a realçar o movimento
resultante do frontão interrompido. As formas côncavas deste frontão afirmam
a estética do Barroco pela congregação de massas salientes e reentrantes, fa-
zendo suceder espaços vazios a espaços cheios. A encimar o portal encontra-se

42
Uma vez que não se encontram na Torre do Tombo os livros de registos de casamentos e óbitos da Paróquia
de S. Vicente relativos ao período em questão, aguardamos a abertura à investigação do Arquivo Diocesano
da Guarda, pois o acesso a outras fontes poderá comprovar esta hipótese.
A NOVA IGREJA DE SÃO VICENTE: CONSTRUÇÃO E ESTÉTICA
291
• António Prata Coelho, Daniel Martins, Antonieta Pinto

Fachada principal

Porta principal Pormenor - capitel


292 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

um grande janelão coroado com as armas do bispo D. Jerónimo Rogado do Car-


valhal e Silva.
As torres sineiras apresentam-se mais recuadas em relação à fachada princi-
pal e salientes em relação ao corpo da igreja, reforçando o alinhamento vertical
da fachada leste do templo.
As torres são retangulares, com três registos divididos por friso com ligeiras
reentrâncias e saliências, próprias da gramática decorativa do Barroco. No pri-
meiro registo, vê-se uma janela com arco abatido e moldura em granito deco-
rada com meia cana no lintel. A torre sul apresenta no seu lado oeste porta de
acesso às torres e ao coro alto. No segundo registo ambas as torres se encon-
tram isentas de qualquer elemento decorativo, ostentando apenas a torre sul um
relógio mecânico. No registo superior temos as sineiras em arco de volta inteira,
coroadas por coruchéus nos ângulos e cobertas por um coruchéu bulboso.
Ao entrar na igreja pela porta principal, no lado direito, apresenta-se a pia
batismal em granito, em êxedra de paredes decoradas com painéis de azulejo
alusivos ao batismo de Cristo e a pedra gravada com a inscrição já anteriormente
referida. É de aceitar a hipótese que a pia batismal seja a da igreja anterior, a
mesma que segundo a inscrição serviu no batismo do bispo patrono das obras
do edifício.

Pia Batismal
A NOVA IGREJA DE SÃO VICENTE: CONSTRUÇÃO E ESTÉTICA
293
• António Prata Coelho, Daniel Martins, Antonieta Pinto

Por cima da porta principal surge o coro alto, em madeira, suportado por
arco abatido em granito, apresentando forma de asa de cesto.

Coro alto

O interior do edifício é composto por dois retângulos de nave única com co-
bertura em abóbada de berço em madeira pintada a azul celeste. O arco triunfal
de volta inteira, coroado com o brasão do bispo encomendador, divide a nave
principal do altar mor. Os alçados laterais são simétricos e apresentam, cada
um, porta de acesso lateral ao templo, púlpito, confessionário, janelão em can-
taria com lintel decorado com moldura em meia cana, como acontece com as
restantes aberturas do edifício. O pavimento da nave é soalhado enquanto que
a capela mor apresenta no primeiro patamar um lajeado mais antigo, tendo o
segundo nível um lajeado mais recente.
Toda a estrutura interior do templo, se despojado dos elementos decorati-
vos compostos pelos retábulos e azulejos, revela uma simplicidade marcada
por alçados laterais completamente direitos, por friso linear, e pela ausência de
pilastras ou colunas que lhe provoquem a irregularidade típica da estética do
Barroco. Em termos estruturais importa sublinhar que se trata de um edifício
desornamentado lembrando a “arquitetura chã” comum em muitas igrejas por-
tuguesas. Usando as palavras de Varela Gomes, diríamos que foi o azulejo neste
caso a “dar voz” a um templo que sem ele seria apenas um vasto salão decorado
com talha dourada. António Fernandes Rodrigues desenhou para a Guarda um
conjunto arquitetónico que podemos considerar mais um exemplo da arquitetura
294 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

do século XVIII, marcada pela “lenta propagação de influências, de persistências


locais, de ciclos longos, de ausência de ideologias arquitetónicas firmemente
43
estabelecidas”.

Interior da Igreja – vista da porta principal

Nas laterais do arco triunfal e na parede divisória da nave central e do altar


mor constam dois altares: o altar colateral norte consagrado ao Sagrado Coração
de Maria e o altar colateral sul a S. Vicente. Cada um dos púlpitos está assente
em mísula, coberto por um baldaquino decorado com talha dourada e encimado
por um anjo com trombeta. O material usado em cada um destes púlpitos é a
madeira a imitar mármore, destacando-se da policromia a cor verde e os marmo-
reados de cor castanha, bem como os dourados. O púlpito presente no alçado
norte é meramente decorativo, apresentando porta em trompe l’oeil. O acesso
ao púlpito sul é feito através de escadaria embutida na parede, com entrada a
partir das portas do confessionário.
A cabeceira da igreja, à qual se acede através de arco triunfal de volta intei-
ra, ostenta cobertura semelhante à nave e é mais elevada que o corpo principal
da igreja, concorrendo para a cenografia típica da estética barroca. Apresen-
ta janelas simétricas nos alçados, uma porta que dá acesso à sacristia e outra
policromada em trompe-l’oeil no alçado sul. O duplo patamar formado pelos
degraus culmina no retábulo em talha dourada composto por tribuna ladeada
43
Paulo Varela Gomes, A Cultura Arquitetónica…, pp. 12 e 13
A NOVA IGREJA DE SÃO VICENTE: CONSTRUÇÃO E ESTÉTICA
295
• António Prata Coelho, Daniel Martins, Antonieta Pinto

por colunas de fuste liso e capitel compósito sustentadas por mísulas douradas.
Na parte superior apresenta entablamento e duplo frontão curvo com anjos. En-
44
cimando tudo está uma glória solar com um remate de folhagens douradas . A
decoração é exuberante com palmetas, grinaldas, querubins, sobre a superfície
marmoreada em tons de verde azulado, rosa e dourado.

Altar mor – glória solar

Altar mor – pormenor Altar mor – pormenor

44
João Paulo Cardinal Martins das Neves, “Algumas considerações sobre a talha dourada e policromada de
S. Vicente da Guarda”, in Praça Velha, nº 21, 2007, p. 63.
296 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Acede-se à sacristia através de uma porta no alçado norte, em cuja soleira


são ainda visíveis motivos vegetalistas esculpidos que levantam a hipótese de
poder ter sido usado material da antiga igreja nas obras de reedificação do atual
templo, prática de resto muito habitual.
A sacristia é um espaço exíguo, próprio para cumprir as funções de registo,
composto por uma janela da construção original e uma porta que dá acesso a novo
compartimento. Este espaço de construção posterior, como comprova a sua janela
que não obedece à cantaria de toda a igreja, bem como a cornija na parede exte-
rior norte, denotam a existência de modificações posteriores no edifício.

Porta de acesso à sacristia


A NOVA IGREJA DE SÃO VICENTE: CONSTRUÇÃO E ESTÉTICA
297
• António Prata Coelho, Daniel Martins, Antonieta Pinto

A igreja está decorada com riquíssimo conjunto de painéis de azulejo atribuí-


dos a Salvador de Sousa Carvalho (cerca de 1727-1810), ceramista de Coimbra. O
conjunto de azulejaria apresenta, à entrada, a Fuga para o Egito e o Batismo de
Cristo; nos alçados laterais da nave, a Anunciação, Visitação e Adoração dos Reis
Magos; na capela-mor cenas da Paixão e Morte de Cristo. De todo este conjunto
salientamos o caráter narrativo dos painéis historiados que transformam a de-
coração da igreja em catecismo, ao serviço das diretrizes do Concílio de Trento.
A utilização do azulejo é um artifício para romper com a sobriedade clássica do
edifício. A simplicidade do plano linear dos alçados laterais, a ausência de colu-
nas ou pilastras e de frisos com reentrâncias ou saliências é compensada pelo
carácter narrativo do azulejo, que realça o papel da parede como suporte da
imagem para atrair as atenções dos fiéis.
Ao nível da técnica destacamos a forma recortada dos painéis pintados a
45
amarelo e manganês com representação das folhagens a verde cobre.

A PARÓQUIA DO SÉC. XVIII


No século XVIII a Paróquia continua a ser um espaço administrativo e viven-
cial por excelência das populações, apresentando-se como quadro de referência
da conjugação ou da concorrência do poder real e do poder religioso, nos seus
esforços em prol da “reforma” do reino. Segundo o historiador Magalhães Godi-
nho, como elemento fundamental da organização do espaço a paróquia veio até
46
a suplantar, já no século XIX, o próprio concelho. O rei procurava através dela
enraizar na comunidade “o poder civil e político”. Por sua vez, a Igreja nela fun-
dava o seu programa de “promoção social e cultural dos povos” e de instrução
religiosa. Mas as próprias comunidades afirmavam na paróquia e na sua gestão
o entendimento da sua autonomia, reivindicando o respeito de tradições e direi-
47
tos históricos solidificados pelo costume.
No quadro eclesiástico, a Paróquia reafirmou-se como centro de poder reli-
gioso e de enquadramento das populações em resultado das diretrizes do Con-
cílio de Trento (1545-1563). Os bispos, agentes cruciais da reforma tridentina,
tentaram clarificar e levar a cabo os decretos conciliares, nomeadamente redi-
48
gindo cartas exortatórias aos paroquianos e aos eclesiásticos , como acontecia
45
http://www.patrimoniocultural.gov.pt/en/patrimonio/patrimonio-imovel/pesquisa-do-patrimonio/classifica-
do-ou-em-vias-de-classificacao/geral/view/74788 - consultado em 4 de julho 2018.
46
Vitorino Magalhães Godinho, “Reflexão sobre Portugal e os Portugueses” in Ensaios e Estudos. Uma maneira
de pensar, Lisboa, Sá da Costa, 2009, Vol. I, p. 58.
47
José Viriato Capela, “A crise da paróquia no Antigo Regime: a paróquia rural portuguesa a caminho de
um novo modelo de acção paroquial. Nova pastoral. Ensino e assistência” in Maria Marta Lobo de Araújo,
Alexandra Esteves (eds), Marginalidade, Pobreza e Respostas Sociais na Península Ibérica, séculos XVI-XX,
Braga, CITCEM, 2011, p. 89.
48
José Viriato Capela, “A crise da paróquia…”, p. 90.
298 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

com D. Jerónimo. De facto, a 19 de outubro de 1770, ainda como bispo de Por-


talegre, emitiu uma pastoral pela qual exortou os seus fiéis sobre o que deviam
observar como verdadeiros católicos. A 4 de Março de 1773, enquanto bispo de
Portalegre e eleito bispo da Guarda, escreveu nova carta pastoral e exortatória
a todos os eclesiásticos e seculares do seu bispado, documento cujo conteúdo
49
será discutido na Real Mesa Censória. A 30 de Setembro do mesmo ano, agora
já como bispo da Guarda, D. Jerónimo saudou os seus novos diocesanos em
nova pastoral.
Como nos revela o inquérito geral feito às paróquias em 1758, a maior paró-
quia da Guarda era a da Sé, com 420 fogos, os quais representavam mais de me-
tade (56,5%) da população urbana. As restantes paróquias da cidade pouco se
50
distanciavam da dimensão média das paróquias rurais: cerca de 80 fogos. São
Vicente seria, pois, uma paróquia de pequena dimensão no contexto da cidade.
Talvez por isso mesmo, a construção desta nova igreja adquiria um significado
de certa forma modelar, sobretudo se atendermos à associação entre o edifício
de culto e uma condigna residência para o pároco. As propostas de intervenção
que surgiam, quer nos meios da governação quer da Igreja, cada vez mais ten-
diam a conceber-se, justamente, a partir da paróquia: “culto exterior, instrução e
catequese, assistência aos pobres, fábrica da igreja, clero pago condignamente,
instruído e ativo – eis os tópicos maiores que começavam a ser lugares comuns
nas críticas e propostas de reforma à ação eclesiástica e paroquial” durante as
51
décadas de 1770 a 1790.
A construção de uma nova igreja em São Vicente exprime bem, a nosso ver,
um projeto de reordenamento e reforma da Paróquia. Valoriza-a através da cria-
ção de um edifício por um lado certamente maior em dimensão física, por outro
lado adequado à estética da ideologia resultante do Concílio de Trento. Um es-
paço capaz de albergar os seus fiéis num recinto sagrado comum e que, ao mes-
mo tempo, permite a encenação do poder do Bispo, quer como mecenas, quer
como líder espiritual. O facto de ter sido construída uma residência paroquial
anexa à igreja é também sintoma da necessária implicação do pároco na vida da
paróquia. O pároco, segundo as orientações de Trento deveria residir junto da
sua comunidade de fiéis, de modo a catequizar a sua paróquia.
No final do século XVIII a conjuntura económica era critica. As estruturas de
Antigo Regime estavam em desagregação, mas tentavam resistir revigorando as

49
O secretário da Real Mesa Censória, Alexandre Faria Manuel, referiu-se a esta carta pastoral numa missiva
de 18 de Fevereiro de 1773 enviada de Lisboa a Frei Manuel do Cenáculo: Francisco António Lourenço Vaz
(ed), Correspondência Inédita dirigida a Frei Manuel do Cenáculo. As Cartas de Joaquim Sá e Alexandre
Faria Manuel, Évora, CIDEHUS, 2018. <http://books.openedition.org/cidehus/3346>
50
José Viriato Capela, Henrique Matos (eds), As Freguesias do Distrito da Guarda nas Memórias Paroquiais
de 1758, Braga, Universidade do Minho, 2013, p. 89.
51
José Viriato Capela, “A crise da paróquia…”, p. 105.Veja-ser a escritura datada de 1791 relativa ao contrato
de reedificação do orgão da Sé: ADGRD/NOT/NGRD3/00026
A NOVA IGREJA DE SÃO VICENTE: CONSTRUÇÃO E ESTÉTICA
299
• António Prata Coelho, Daniel Martins, Antonieta Pinto

suas exigências. A Paróquia demonstrava crescentes dificuldades em socorrer


os seus necessitados e abundavam as queixas do clero paroquial contra os seus
baixos rendimentos. Perante este quadro, como é que a Guarda que, no início do
século XVIII, assistira já à edificação de um templo de características monumen-
tais – a Igreja da Misericórdia – conseguiu na Paróquia de São Vicente congregar
meios para a reedificação e manutenção de uma nova igreja? O bispo assumia o
controle da situação ao promover a construção da igreja, como atesta a inscrição
junto à pia batismal. Mas qual a origem das verbas para tal obra? A ausência de
fontes não nos permite, por ora, avançar resposta a estas questões.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
A construção da igreja resultou da ocupação de um espaço que desde a épo-
ca medieva cumpriu funções religiosas. A igreja de São Vicente era um edifício
central na vida da cidade. O novo templo foi obra da vontade de um bispo, fi-
gura integrada no seu tempo e promotor de dinamismo cultural da cidade e da
região. Conhece-se a sua preocupação com a reforma do grande órgão da Sé,
52
com a criação da escola de música para a qual convidou excelentes Mestres.
A ornamentação de outras igrejas paroquiais foi também alvo do seu mecena-
to. A igreja de S. Vicente resultou da implementação de um projeto feito por
um homem de ascendência negra, num período marcado por estigmas sociais
e étnicos, o que não incomodou D. Jerónimo. Por outro lado, a aceitação de um
projetista vindo do círculo da Casa Pia, instituição onde germinavam os ecos do
pensamento iluminista europeu, provam a abertura do bispo para o pensamento
mais moderno e prenunciador da sociedade do século XIX.
Este bispo, Ministro do Santo Ofício, assumindo as orientações do Concílio de
Trento, envolveu a paróquia na construção de uma religiosidade mais exuberan-
te onde a cenografia e o espetáculo religioso surgiam como parte integrante do
serviço litúrgico, afirmando o poder da Igreja. Na sua orientação espacial inversa
à do anterior templo medieval e ao que era habitual, a nova igreja fecha-se em
relação ao espaço da antiga judiaria, mas abre-se à comunidade cristã servindo
de palco para a encenação do poder da igreja católica. A própria escadaria de
acesso ao portal principal transforma a fachada num palco.
A possibilidade de o pároco residir junto da igreja reedificada consolidava a
presença do agente religioso na comunidade civil, com a dupla função de apoio
e vigia da moralidade imposta pela hierarquia, como claramente explicavam as
53
constituições sinodais promovidas após Trento. O bispo D. Jerónimo exprimia
deste modo o seu entendimento da importância da Paróquia e da necessidade

52
José Joaquim Pinto Geada , José Maurício…, p.13
53
Aires Diniz, “Constituições Sinodais do Bispado da Guarda”, Praça Velha 35 (2015), p. 135-157.
300 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

de agir sobre ela. Por seu intermédio, através da reedificação de S. Vicente,


contribuiu para a alteração das dinâmicas sociais e relacionais da Paróquia e
promoveu o papel da igreja, não apenas em termos religiosos, mas também cul-
turais e cívicos.
A função económica da antiga praça esvai-se; a função religiosa afirma-se. As
tendas medievais, sob o alpendre mandado fazer pelo rei, estão agora fora de
questão. A nova igreja é de maiores dimensões que a anterior. A praça reduziu-
-se enquanto espaço cívico e de atividade económica, mas ganhou capacidade
de circulação com as vias que rodeiam a igreja e que permitiam a passagem das
muitas procissões que a época valorizava. A transformação urbanística ganhou
monumentalidade através do enquadramento arquitetónico do templo. Conquis-
ta-se, deste modo, um espaço onde os fiéis podiam demonstrar a sua fidelidade
à fé de Roma e às hierarquias eclesiásticas. A Paróquia ganha um novo palco no
qual a plasticidade barroca concorre para um verdadeiro espetáculo religioso,
no qual o sacerdote assume a apologética do poder.

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Paroquiais da Sé [Guarda], Óbitos
Arquivo Nacional Torre do Tombo
Intendência Geral de Polícia
Ministério do Reino - Coleção de plantas e outros documentos iconográficos
Biblioteca Nacional de Portugal, Biblioteca Nacional Digital
http://www.matriznet.dgpc.pt
DE TRANCOSO À TOSCÂNIA:
PORTUGUESES EM ITÁLIA NA PRIMEIRA
METADE DE QUATROCENTOS
RITA COSTA GOMES*

Conserva-se em duas bibliotecas florentinas uma notável colecção de car-


tas com grande relevância para a história da sociedade portuguesa do século
XV. É delas que vos venho falar hoje, na sequência do trabalho de transcrição
e estudo que me levou à publicação recente deste conjunto de 550 missi-
vas, um projecto que permitiu que fossem estudadas na sua totalidade. Esta
edição visa pôr este conjunto de textos à disposição de leitores e estudiosos
da história portuguesa, e em especial das relações entre Portugal e a Itália
1
durante o Renascimento florentino .
Trata-se de uma colecção multilingue, na qual cerca de metade dos textos
estão escritos em português e/ou foram enviados por correspondentes por-
tugueses (mesmo se usando outras línguas como, por exemplo, o latim). Se
atendermos apenas aos textos escritos em português, deve sublinhar-se que
esta é a série mais abundante de originais de cartas missivas quatrocentistas
identificada até hoje. São mais de duas centenas de cartas, ainda assim uma
pequenina ponta de um icebergue constituído pelas muitas (certamente na es-
cala dos milhares) que terão sido escritas e enviadas em Portugal durante esta
época. Através desta série de cartas podemos estudar assuntos tão diversos
como os estilos de escrita, os tipos de papel usado em Portugal, modos de
enviar correspondência através da Europa, influência de modelos retóricos na
composição deste tipo de texto, uso de marcas individuais como assinaturas e
selos. Isto para referirmos, apenas, aspectos materiais ou formais das cartas.
Ou seja, sem mergulharmos ainda no assunto fascinante dos conteúdos das
mensagens registadas nestas folhas de papel, conteúdos cuja diversidade nos
espanta, para além das dificuldades de interpretação inerentes à obscuridade
de muitas delas para um leitor de hoje.
Mas a importância deste conjunto precioso de cartas não resulta, apenas,
da sua abundância. Tratando-se de uma colecção que fazia parte do arquivo
do mosteiro mais antigo da cidade de Florença – o Mosteiro Beneditino de

1
Rita Costa Gomes (ed), A Portuguese Abbot in Renaissance Florence. The letter collection of Gomes Eanes
(1415-1463), Florença, Olschki, 2017.
304 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Santa Maria, mais conhecido pelo nome de “Badia Florentina” – estas cartas
missivas dão-nos notícia de uma sucessão ininterrupta de actos de comunica-
ção ocorridos durante mais de duas décadas (entre 1415 e 1463) e centrados,
maioritariamente, na figura do português Gomes Eanes, abade deste abasta-
do mosteiro toscano. As cartas desvendam, portanto, a existência de círculos
de correspondentes em Portugal e em Itália, o assunto que gostaria de explo-
rar convosco nesta ocasião.
Quem era Gomes Eanes, o destinatário destas cartas? Como tantos outros
jovens estudantes atraídos pelas famosas universidades italianas (nomeada-
mente, pela Universidade de Bolonha, mas também por Pisa, Pavia, Pádua,
Siena, etc.), este lisboeta cursou leis em Pádua nos primeiros anos do século
XV, antes de optar em 1413-14 pela vida monástica. Assim entrou no círculo dos
monges reformadores que então se originava em torno de figuras bem mais
conhecidas na Itália daquele tempo, como a do aristocrata veneziano Ludo-
2
vico Barbo . Durante os anos da sua vida florentina, entre 1419 e 1441, o aba-
de português construiu uma carreira eclesiástica brilhante, mas continuando
sempre em contacto assíduo com as mais diversas personalidades, homens
e mulheres, que lhe escreviam a partir de Portugal. Em claro contraste com
o conteúdo das maioria das cartas enviadas de Itália, as cartas portuguesas
recebidas pelo Abade Gomes solicitavam, as mais das vezes, assistência para
tratar diversos assuntos e pedidos na administração papal, ou o seu patrocínio
e conselho em diligências tão diversas como a feitura de um livro manuscrito
3 4
com belas iluminuras , a organização de uma peregrinação à Terra Santa , a
5
procura de um parente de quem se não tinha notícias , ou a escolha de um
6
curso de estudos para um jovem português nas escolas de Itália .
O que significava, para o português Gomes Eanes, a direcção da “Badia”
de Florença nas décadas entre 1420 e 1440? Lembremos rapidamente alguns
factos bem conhecidos da história florentina. Por exemplo, que entre 1420 e
1436 o famoso arquitecto Brunelleschi completou o espantoso feito do pro-
jecto, construção, e inovadora obra de engenharia da monumental cúpula da

2
Para uma breve biografia desta figura: Alessandro Pratesi, “Barbo, Ludovico”, Dizionario Biografico degli
Italiani, Roma, Istituto della Enciclopedia Italiana, 1964, Vol. 6, pp. 244-249. A biografia e carreira de Gomes
Eanes em Itália foram alvo de uma primeira reconstrução na obra de Eduardo Borges Nunes, Dom Frey
Gomez, Abade de Florença: 1420-1440, Braga, Livraria Pax, 1963, Vol I (e único).
3
O caso mais interessante e detalhado diz respeito a um livro de horas encomendado por um mercador do
Porto: Rita Costa Gomes, “Between Pisa and Porto: Afonso Eanes, Merchant of the King of Portugal (1426-
1440)”, Diogo Ramada Curto, Eric R. Dursteler, Julius Kirschner, Francesca Trivellato (eds), From Florence to
the Mediterranean and Beyond, Florença, Olshki, 2009, pp. 235-248.
4
Por exemplo, aquela que fez Vasco Rodrigues, chantre da Sé de Braga, em 1437: ver Carta 400 in A Portuguese
Abbot, pp. 385-387.
5
Em vão pedia Fernão Fogaça, então à frente da casa do Infante D. Duarte, notícias de um seu parente que
exercia medicina em Itália: ver Cartas 177 e 215 in A Portuguese Abbot, pp. 168-169 e 205.
6
O juiz régio Rodrigo Anes Vilela, por exemplo, solicitava orientação para seu filho, e dava novas da expedição
de ataque à cidade marroquina de Tânger: ver Carta 416 in A Portuguese Abbot, pp. 405-406.
DE TRANCOSO À TOSCÂNIA: PORTUGUESES EM ITÁLIA NA PRIMEIRA METADE DE QUATROCENTOS
305
Rita Costa Gomes

catedral da cidade, ainda hoje de pé. Que após um escasso ano de exílio, o as-
tuto banqueiro Cosme de Médicis (mais tarde chamado “o Velho”) conseguiu
em 1434 regressar à cidade, juntamente com seu irmão Lourenço, e tornar-se
a partir desse regresso no mais poderoso homem do governo da república,
cujas instituições controlava de modo directo e indirecto através de influência
pessoal, vínculos de clientelismo, e usando a sua imensa fortuna. A conhecida
facciosidade do governo florentino, numa sociedade política frequentemente
dividida em bandos sediciosos e rivais, era justamente uma das razões pe-
las quais os homens de religião na cidade, nomeadamente os abades das
comunidades monásticas mais importantes, eram chamados a participar em
processos políticos – por exemplo, nas eleições e sorteios para a escolha de
certos cargos oficiais. Como esclareceu o historiador Richard Trexler, não sen-
do eles mesmos eleitores nem eleitos, e sendo considerados mais tementes
do julgamente divino, os religiosos podiam ser alvo da confiança da oligarquia
local para supervisionar e intervir com honestidade em actos delicados do
7
governo político da cidade .
Mas não só o governo da cidade estava próximo do abade português – até
fisicamente, pois que a “Badia Florentina” se situava a um quarteirão apenas
do palácio da Senhoria de Florença. Estava-o também o governo da própria
Igreja Romana. Durante o tempo do abaciado de Gomes Eanes, dois papas
se instalaram na cidade do Arno, governando a Igreja a partir dela: Martinho
V (em1419-1420) e Eugénio IV (em 1434-1436, e de novo em 1439-1443). Sob
iniciativa deste último, e contando com o precioso apoio do grupo dirigente da
8
cidade, teve lugar o famoso Concílio de Florença, em 1439 , no qual represen-
tantes das igrejas da Grécia, Etiópia, e Arménia tentaram uma reconciliação
e solução para o cisma que dividia Roma e Constantinopla há quase quatro
séculos. Juntamente com as figuras mais notáveis de Florença, Gomes Eanes
recebeu em 1439 o papa Eugénio fora das muralhas, acompanhando-o em
9
solene procissão na entrada da cidade .
Para responder à nossa pergunta de há pouco, basta lembrar, portanto,
que estar à frente da “Badia Florentina” significava, nestas décadas cruciais
do Renascimento florentino, estar próximo do poder. Durante os anos do seu

7
Richard Trexler, “Honor among thieves: the trust function of the urban clergy of the Florentine Republic” in
Dependence in Context in Renaissance Florence, Binghampton, Center for Medieval and Early Renaissance
Studies, 1994, pp. 17-34.
8
O Concílio foi transferido da cidade de Ferrara, entretanto acometida pela peste. Embora a historiografia
seiscentista tenha atribuído sobretudo a Cosme de Medici a iniciativa desta política florentina de atracção
da reunião conciliar, parece que ela deve atribuir-se a toda a oligarquia do governo: Luca Boschetto, Società
e Cultura a Firenze al Tempo del Concilio. Eugenio IV tra Curiali, Mercanti e Umanisti (1434-1443), Roma,
Edizioni di Storia e Letteratura, 2012, pp. 170-171.
9
Uma entrada descrita, por exemplo, no “livro de lembranças” do mercador de vinhos Bartolomeo del
Corazza, Diario Fiorentino (1405-1439), ed. Roberta Gentile, Anzio, De Rubeis, 1991, pp. 79-80 (embora este
não mencione o abade português).
306 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

governo, o abade português cuidadosamente cultivou a amizade de alguns


dos mais importantes cardeais do tempo, que também se instalaram em Flo-
rença quando a cúria lá se estabeleceu: Branda Castiglione, Niccolò Albergati,
10
Lucido Conti, Domenico Capranica, Antonio Correr . Fê-lo por uma comuni-
cação assídua pela troca de cartas, a promoção dos interesses pessoais e do
bem-estar destes homens (guardando malas e livros, acolhendo os seus reco-
mendados e familiares, enviando pequenos presentes), e a visita e convívio
pessoal quando possível. Todas essas acções abriram caminho para a defesa
dos interesses da corte portuguesa que o abade também serviu, de modo
constante e dedicado, como agente diplomático e representante “oficioso”
dos reis de Portugal D. João I e, sobretudo, de D. Duarte. Não vamos explorar
aqui este aspecto mais conhecido da actividade de Gomes Eanes em Itália,
servindo os monarcas e obtendo o apoio destas figuras da cúria em assuntos
de tão grande relevância para o Portugal quatrocentista como a concessão
de bulas de cruzada na guerra de Marrocos, a nova divisão dos territórios dos
bispados fazendo-os concidir com as fronteiras políticas do reino, a indepen-
dência das ordens militares (Santiago e Avis) em relação aos seus dirigentes
máximos em Castela, ou os avanços e recuos na famosa “questão das Ca-
nárias”, um conflito político-diplomático opondo Portugueses a Castelhanos
visando a conquista destas ilhas atlânticas. A proximidade e assiduidade das
relações epistolares com o Infante (e depois rei) D. Duarte dariam, por si só,
11
para longas considerações . Reconhecendo a competência e posição privile-
giada do abade português, todos os restantes Infantes de Avis, à excepção de
D. Henrique – D. Pedro, D. Isabel, D. João, D. Fernando – se corresponderam
com Dom Gomes e dele solicitaram favores e diligências. Por exemplo, quan-
do o Infante D. Pedro visitou a Itália em 1428 durante as suas viagens pela
Europa, o Abade Gomes Eanes acompanhou-o a Roma, onde o príncipe foi
12
recebido pelo Papa Martinho V .
Mas o meu propósito, hoje, é o de sublinhar como esta correspondência
igualmente revela outros círculos de interacção e colaboração que não envol-
veram, apenas, príncipes, grandes senhores e aristocratas da corte, ou os ho-
mens que estavam no vértice da igreja daquele tempo. Bem mais da metade
das cartas provenientes de Portugal que compõem esta colecção revelam a
extensão e diversidade social da rede de correspondentes do abade da “Ba-
dia Florentina”, diversidade que traduzia afinal a tessitura complexa das suas

10
Veja-se o que a este propósito afirmamos na introdução do volume in A Portuguese Abbot, pp. xix-xx.
11
Incluem-se 24 missivas de D. Duarte nesta colecção, mas nela se dá notícia do envio de muitas mais. O
abade Gomes Eanes pedia ao monarca que lhe mandasse o manuscrito do livro que este então escrevia,
para a sua leitura e tradução: ver Carta 458 in A Portuguese Abbot, pp. 450-452.
12
Sobre esta visita a Roma ver Francis Rogers, The Travels of the Infante Dom Pedro de Portugal, Cambridge
(Massachusetts), Harvard University Press, 1961, pp. 52-53. A companhia de Gomes Eanes não é mencionada
por Rogers, embora surja referida em várias cartas desta colecção.
DE TRANCOSO À TOSCÂNIA: PORTUGUESES EM ITÁLIA NA PRIMEIRA METADE DE QUATROCENTOS
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Rita Costa Gomes

relações interpessoais envolvendo gente da mais variada posição no Portugal


quatrocentista. Também estas missivas nos permitem avaliar, por outro lado,
o papel que desempenharam na sua carreira outros personagens, seus co-
laboradores – homens sem os quais a acção do prelado português não teria
sido tão bem sucedida. Entre os seus principais coadjutores, salientam-se os
autores de breves séries de missivas ilustrando o uso que o abade português
fazia de monges dotados de grande cultura e (alguns deles) de formação hu-
manista, muitas vezes recrutados por ele mesmo para o mosteiro florentino,
ou para outras comunidades que Gomes Eanes intentava reformar na Toscâ-
nia. Oriundos, quase todos, de famílias toscanas de elevada posição social e
esmerada educação, estes jovens colaboradores serviram como secretários,
priores, copistas, capelães, e ecónomos do mosteiro e suas dependências.
As cartas por eles enviadas ao abade Gomes dão conta da progressão e dos
obstáculos das tarefas e projectos em que estavam envolvidos. Os seus no-
mes merecem referência: Marino di Maffeo, Timoteo Ricci, Jacopo Niccolini,
Stagio Attavanti, Biagio Onofri, entre outros. Esta colecção de cartas igual-
mente revela que havia, convivendo com estes italianos, monges portugueses
no mosteiro florentino, dois dos quais continuariam na década de 1430 as suas
13
carreiras em Portugal .
É singular neste contexto do pequeno círculo de colaboradores directos a
figura do português Álvaro Dias, oriundo de Trancoso, e especialmente próxi-
mo do Abade Gomes Eanes. Conservam-se neste tesouro epistolar cartas tro-
cadas entre ambos, através das quais podemos entrever a especial confiança
14
e, até, a intimidade das suas relações . Umas poucas missivas enviadas a
Álvaro por terceiros, e que se guardaram na “Badia Florentina” conjuntamente
com as cartas recebidas pelo próprio abade, contribuem para nos ajudar a
completar o quadro da acção multifacetada de Álvaro Dias.
Começaremos por descrever a esfera das suas actividades. Praticamen-
te desde o início do abaciado de Gomes Eanes em 1419, Álvaro serviu como
prior da “Badia Florentina”. É importante referir que o próprio Gomes assim
iniciara a sua carreira em Florença – como prior do mosteiro, vindo para trazer
novos costumes sob patrocínio de Ludovico Barbo e a pedido do abade em
exercício, o florentino Niccolò Guasconi. Quando este último faleceu pouco
depois, Gomes sucedeu-lhe, em resultado da eleição da comunidade. Entre
o pequeno grupo de monges que Barbo enviara para Florença a pedido de
Guasconi, contava-se já Álvaro Dias. A sua posição subordinada à autoridade

13
Trata-se de Estevão de Aguiar, que se tornou Abade do Mosteiro de Alcobaça (entre 1431 e 1446), e de
Fernando Falcão, que transitou, já em Portugal, para os Franciscanos: ver, entre outras, as Cartas 30, 37,
221, pp. 33-34, 41, 209-211.
14
Vejam-se, por exemplo, as Cartas 77, 120, 211, 213, 217 in A Portuguese Abbot, pp. 78-79, 112-113, 201-202,
203, 206-207. A diversidade caligráfica revela que algumas foram escritas por secretários, devido à doença
que acometeu o Prior Álvaro.
308 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

de Gomes Eanes era apenas um aspecto das suas relações. As cartas troca-
das entre ambos, sugestivamente misturando várias línguas – o português, o
latim, ocasionais palavras em dialecto italiano – revelam bem o paralelismo
das suas experiências italianas e a profunda confiança que os unia. Álvaro
esteve à cabeça da “Badia Florentina”, substituindo o Abade Gomes no go-
verno da comunidade quando este fez uma viagem a Portugal em 1424-1426.
Deslocou-se então ele mesmo a Portugal, instando pelo regresso de Gomes
a Florença. Também viajou ocasionalmente em Itália, em várias missões de
grande delicadeza, nomeadamente para participar das reuniões gerais dos
vários mosteiros “reformados”, comunicando com Barbo e outros abades e