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Trabalho de Campo no Assentamento Comuna da Terra Dom Tomás Balduíno

Ponto de partida, sábado, dia 27/04, ás 8h00:

A designação “comuna da terra” sinaliza uma política pública do estado de São Paulo que foi
elaborada entre o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e o Instituto de
Terras dos Estado de São Paulo (ITESP) a partir de 2001, quando foi lançada como modelo de
desenvolvimento para ser implantada no projeto do Assentamento Comuna da Terra Dom
Tomás Balduínoi em Franco da Rocha. Lá, a Fazenda São Roque foi “conquistada” através uma
ocupação da área no dia 8 de março, 2002 e o assentamento “criado” pelo INCRA no 6 de
agosto, 2004. Para o governo, é o Assentamento São Roque, para o MST é Comuna da Terra
Dom Tomás Balduíno; a disputa de nomes faz parte da disputa entre o agronegócio e os sem-
terra. Os sem-terra quer derrubar a ordem dos latifundiários – que são representados hoje
em dia, segundo o MST, pelo agronegócio – e o governo quer preservar a história dos
bandeirantes e fazendeiros que invadiram as terras indígenas e colonizaram o estado. Diz o
MST, “As Comunas da Terra da Região Metropolitana de São Paulo são a expressão dos
conflitos pelo acesso à terra, pelo aceso ao trabalho e pelo acesso às políticas públicas
inerentes aos meios urbano e rural”.ii

No Assentamento Tomás Balduíno, são mais que 600 hectares, divididos em 63 parcelas. Cada
parcela tem um lote de aproximadamente 2 hectares, onde a família tem a liberdade, dentro
das normas, de produzir. São áreas de produção e uso coletiva, como uma ciranda e
anfiteatro, mas 60% da área é de preservação ambiental, reservada para floresta e
mananciais. Tomás Balduíno não é a única comuna no estado. São também na região
metropolitana as comunas do Assentamento Dom Pedro Casaldáliga em Cajamar e o
Acampamento Irmã Alberta no bairro de Perus. Em Americana, tem o Assentamento Milton
Santos; em Limeira, o Assentamento Elizabeth Teixeira; em Ribeirão Preto, o Assentamento
Mario Lago; em São José do Campo, o Assentamento Nova Esperança; em Taubaté, o
Assentamento Manoel Neto e em Tremembé, o Assentamento Olga Benário.

1
Tem como característicasiii:

• Famílias assentadas que são em geral pessoas que residiram um bom tempo em
centros urbanos e não têm experiência recente no campo;
• São designadas Projetos de Desenvolvimento Sustentáveis (assentamentos PDS) e
implantados próximos áreas metropolitanos para contribuir na preservação do meio-
ambiente e estar mais próximo consumidores;
• Utilizar a agroecologiaiv e a cooperação como eixos da produção
• Os assentados estabelecem uma associação ou cooperativa agrícola para possuir a
Concessão Real de Uso da área em nome coletivo invés de individual, proibindo
assim a venda individual das parcelas pelas famílias.

A ideia da Comuna da Terra Dom Tomás veio da experiência do MST trabalhar com milhares
de famílias nos Acampamentos Novo Canudos e Terra Sem Males no interior do estado. A
maioria das pessoas não eram trabalhadores rurais ou sem-terras em termos clássicos, eram
pessoas que passaram a maior parte de suas vidas em centros urbanos, sem conseguir
emprego fixo e casa própria. De fato, a história do Brasil desde os anos 1940 foi um de massiva
migração sentido campo-cidade. Desde a Era Vargas, as políticas publicas favoreceram a
industrialização em áreas urbanas. No discurso da marcha para o oeste de Vargas e
Kubitschek, benefícios para “o homem do campo” foram enfatizados, mas a realidade foi uma
continuação da grilagem de sempre, com a expulsão da terra dos camponeses, povos
indígenas e quilombolas. A tendência da política piorou com a Ditadura, quando quase 30
milhões de “famílias do campo” migraram para centros urbanos. Além destas políticas,
condições climáticas como secas e gelados dramáticas, mecanização (especialmente a
introdução de tratores), megaprojetos como a construção de usinas hidroelétricas, a
expansão de monocultura baseada no uso de insumos sintéticos e a expansão de uso de
trabalhadores temporários, contribuíram para inverter a distribuição da população para as
cidades. Uma grande diferença entre o passado e presente foi a quebra da relação de
moradia. Era tradicional, o proprietário oferecer os trabalhadores casa e lote para morar e
produzir alimentos para seu consumo v. Açoes trabalhistas sobre aluguel e aumento no valor
da terra, bem como no valor dos commodities, estimularam muitos fazendeiros a expulsar os
trabalhadores de suas terras.

Depois de tanta desterritorialização da terra dos camponeses pelos latifundiários e o


agronegócio, as comunas da terra têm que ser vistas como meio de um processo de
reterritorialização camponesa ou de recampesinização da terra. É isso que vamos conhecer
na aula de campo.

i
Tomás Balduíno (1922-2014) foi um padre (1948-) e bispo (1967-) que trabalhava com Dom Pedro Casaldáliga
(1928) na região do rio Araguaia, onde as políticas de desenvolvimento da ditadura ameaçaram a vida dos
camponeses e povos indígenas. Dentro da linha do CNBB da teologia da libertação, a missão de Balduíno e
Casaldáliga foi de defender os mais pobres, no caso, os camponeses e povos indígenas. Foi a partir dos
trabalhos deles lá que nasceu a ideia de criar a Comissão Pastoral da Terra (CPT) em 1975. O CPT trabalhou por
dentro do movimento sindical no apoio de líderes mais preparados e comprometidos com as necessidades dos
trabalhadores rurais. A CPT também contribuiu bastante na fundação do MST.

2
ii
RAGGI, Roberta Vieira. “O outro lado da metrópole: as Comunas da Terra de região metropolitana de São
Paulo”. Tese de doutorado em Arquitetura e Urbanismo. USP, 2014, p. viii.
iii
Lista reproduzida a partir do livro GOLDFARB, Yamila. A luta pela terra entre o campo e a cidade: reforma
agrária, movimentos sociais e novas formas de assentamentos. São Paulo: Annablume, 2011, p.20
iv
Agroecologia foi desenvolvido nos anos 1970 pelo agrônomo Stephen Gliessman, que trabalhava na
assistência de camponeses em México. Observando a eficácia de diversos métodos de produção dele,
aprendeu questionar as técnicas convencionais que dependiam no uso de insumos químicos. Agroecologia
depende na diversidade, no melhoramento do solo, na recuperação e preservação de biossistemas em estados
sustentáveis que permitem meios de intensificar e expandir a produtividade sem danificar o meio-ambiente.
Mais, além da produção agrícola, agroecologia trata também os trabalhadores no campo e os consumidores na
cidade. Quem produz alimentos e quem os consome fazem partes integrais do mesmo ecossistema e assim, o
mesmo trato equilibrado do solo no campo precisa ser estendido para o consumidor na cidade para garantir a
sustentabilidade do planeta. Pensadores e ativistas como Miguel Altieri e Ana Primavesi ajudaram espalhar
pelo mundo formas de “agricultura alternativa” a partir dos anos 1980. Uma resposta, foi a introdução de
comida orgânica, que criou um mercado de nicho com preços elevados. A agroecologia produz alimentos
orgânicos, mas com preços menores. Hoje em dia, agroecologia recebe mais atenção por ser visto como
também um dos melhores métodos para enfrentar o aquecimento global – onde a agricultura convencional, a
monocultura industrial dependente em insumos carbônicos, é uma das piores fontes do problema – e
construir sistemas de mercado da economia solidária, que são justos e acessíveis para todos.
v
GOLDFARB. A luta pela terra, pp. 67-70.

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