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POET/UFC Seleção 2020.

Prova de Conhecimentos Específicos

Espelho das Respostas

Questão 1

Espelho

Espera-se que o candidato aborde e explore os seguintes pontos em sua resposta:

- definição de polissistema;
- definição de textos sensíveis;
- discussão sobre a formação e a composição do jovem sistema literário da cultura surda;
- estado da arte do polissistema literário da cultura surda;
- discussão sobre como o sistema literário surdo influencia na seleção de repertórios e
como os tradutores podem ajudar a criar e a moldar a identidade do polissistema;
- tomadas de decisões na tradução na criação e moldagem do polissistema;
- interligação da literatura surda e da literatura ouvinte no polissistema;
- discussão sobre os tradutores praticantes de dogmas religiosos correrem o risco de
serem acusados de heréticos e falsários, caso violem algum princípio ideológico do
pensamento religioso dos grupos abrangidos pela tradução;
- discussão sobre as negociações linguístico-culturais;
- Teoria da Relevância;
- biculturalidade dos surdos;
- idiossincrasia das culturas surdas em várias partes do mundo;
Questão 2

Espelho

Espera-se que o candidato aborde e explore os seguintes pontos em sua resposta:

- definição e dados sobre Tradução Automática (TA);


- definição e objetivo da TA baseada em regras;
- desvantagens, vantagens e limites de um sistema baseado em regras;
- definição e objetivo da TA baseada em frases;
- desvantagens, vantagens e limites de um sistema baseado em frases;
- definição e objetivo da TA neural;
- desvantagens, vantagens e limites da TA neural.
Questão 3

Espelho

Espera-se que o candidato aborde e explore os seguintes pontos em sua resposta:

- gênese e desenvolvimento da Tradução Comentada (TC);


- características da TC:
- O caráter autoral: o autor da tradução é o mesmo do comentário;
- traduzir vs comentar: Intercambiáveis/ relação de similaridade e diferença;
- relação com a interpretação: relação intrínseca entre leitura, comentário e tradução.;
- O caráter metatextual: está na tradução comentada e na própria tradução por inteiro, objeto
do comentário; a tradução está dentro do corpo textual (o texto dentro do texto);
- O caráter discursivo-crítico: o objetivo da tradução comentada é mostrar o processo de
tradução para entender as escolhas e estratégias de tradução do tradutor e analisar os efeitos
ideológicos, políticos, literários, etc. dessas decisões;
- O caráter descritivo: todo comentário de tradução parte de uma tradução existente e,
portanto, reflete sobre tendências tradutórias e efeitos ideológico-políticos das decisões de
tradução;
- O caráter histórico-crítico: todo comentário teoriza sobre uma prática de tradução,
alimentando dessa forma a história da tradução e a história da crítica de tradução;
- a função do comentário: explica e teoriza de forma clara e explícita o processo de tradução,
Tradução e comentário têm em comum essa qualidade incoativa sempre em processo, nunca
acabado, num outro espaço e tempo, com outros leitores, outras línguas/culturas. O comentário
pode ser considerado também como um gênero acadêmico-literário, como o resumo é um
gênero acadêmico, a tese, o artigo, etc. O caráter literário do comentário de tradução dependerá
do seu autor e do objeto em estudo;
- a nota do tradutor: a nota (a nota de rodapé) não é uma ruptura do texto ou dentro do texto,
mas sim uma leitura em paralelo, uma leitura hipertextual;
- a questão da retradução: as traduções não são a-históricas, elas foram feitas num
determinado tempo e espaço: de acordo com Berman, qualquer tradução envelhece,
principalmente as traduções dos clássicos da literatura mundial. Para ele, a retradução tem um
sentido histórico e cultural específico, o de reabrir o acesso a obras apagadas, esquecidas. A
tradução envelhece, pois não responde mais às expectativas de um novo público-leitor: os
gostos mudam, as convenções literárias mudam, as línguas estão em constante processo de
mudanças, provocando a necessidade de ter uma nova tradução. É como se as primeiras
traduções fossem consideradas como traduções-introduções e as retraduções, pelo contrário,
teriam como função mostrar a outra cultura sem naturalizar tanto o texto traduzido. O estatuto
das retraduções vem do fato de que textos e autores já são canonizados no sistema literário e
cultural de origem; de acordo com Torres, a retradução é uma manifestação de subjetividade
por parte do (re) tradutor, principalmente a nível microestrutural, onde ele desfrute de sua
liberdade de escolhas e decisões. Traduções e Re-traduções escrevem a memória histórica de
um texto de outra cultura, escrito em outro tempo e espaço;
- Não é somente um poeta que traduz poesia, o que pode dar a impressão de a condição de
poeta é um pressuposto para realizar esse tipo de tarefa tradutória, e sim de dizer que traduzir
poesia é uma maneira de escrever poesia — ou seja, que quem traduz poesia como poesia está
fazendo trabalho de poeta.
- Não está se falando aqui em intraduzibilidade em sentido estrito, e sim na incompatibilidade
entre o efeito que se quer obter e os recursos que seriam necessários para isso: custos em
oposição a benefícios. Até agora, estamos considerando que a organização de uma antologia
de um poeta estrangeiro obriga o poeta a exercer a tripla função de tradutor, poeta e
selecionador de textos. Porém há também um quarto papel a ser exercido pelo antologista: o
de crítico.
- Os tradutores que, como Augusto de Campos, sabem tirar o máximo proveito do espaço do
paratexto, afirmando-se como críticos, apresentando e comentando tanto o seu processo
tradutório quanto a obra e o autor sendo traduzidos, conseguem romper a barreira da
invisibilidade sem turvar a fronteira entre o seu trabalho e o do autor do original, uma fronteira
que, por mais porosa, instável e problemática que seja, não pode ser dissolvida sem que isso
acarrete a perda da especificidade do ofício do tradutor.
- ELEMENTOS EM COMUM: visibilidade e responsabilidade, pensamento crítico; o poema
traduzido é na verdade um trabalho conjunto do poeta traduzido e do poeta tradutor.
- DIVERGÊNCIAS: e o texto poético é aquele que põe em relevo a própria materialidade do
significante — os sons dos fonemas, as relações de tonicidade e atonicidade, até mesmo a forma
visível das palavras impressas no papel. Ora, se a virtude do poema reside na escolha dessas
exatas palavras, e não outras, dispostas precisamente desse modo, e não de outro, a tradução
de poesia leva as dificuldades da tradução literária ao grau máximo.
- O tradutor de prosa de ficção na maioria das vezes verte obras inteiras — romances e novelas
— ainda que, ao lidar com a produção de contistas, por vezes atue também como antologista.
Mas no caso da tradução de poesia a situação se inverte: aqui, embora por vezes se trabalhe
com um livro específico, ou mesmo com a obra completa de um poeta, o mais frequente é o
tradutor selecionar os poemas que ele próprio traduz; ou seja, ele acumula as funções de poeta,
tradutor e antologista. E com isso sua visibilidade e responsabilidade aumentam mais ainda:
pois os poemas que ele seleciona para traduzir muitas vezes passam a ser encarados pelos
leitores de sua tradução não como representando a obra do poeta traduzido, e sim,
metonimicamente, como sendo a própria obra. Porém há casos em que a escolha do tradutor
recai em peças tão atípicas que o resultado é um poeta traduzido que mal seria reconhecido
pelos seus leitores originais.
- Em outros casos, a situação é mais complexa; não se trata propriamente de intraduzibilidade,
e sim de algo diferente, que envolve uma espécie de cálculo de custos e benefícios. Um
determinado poema, ainda que não apresente nenhum problema linguístico, pode pressupor um
volume muito grande de conhecimentos linguísticos e culturais, de tal modo que, para ser
compreendido pelo leitor, ele exigiria um pesado aparato paratextual — notas de rodapé, notas
de fim, posfácio, seja lá o que for; e talvez esse custo seja alto demais para justificar a tradução
de um poema que, no final das contas, nem é tão importante assim. Nesse tipo de caso, um
paratexto longo e complexo é simplesmente um preço elevado demais a se pagar, pois o
benefício daí advindo — a compreensão plena do poema — não compensaria o esforço.
Questão 4

Espelho

Espera-se que o candidato aborde e explore os seguintes pontos em sua resposta:

- Tradutor: tradução como experiência de escritura, focalizando-a no espaço em que o


tradutor, ora por déficit de palavras, ora por déficit de sentido, se perde na transposição de um
texto para outra língua o erro em tradução pode trazer vestígios do que permanece
incontornável na experiência de traduzir, a saber, o inevitável estranhamento de sempre dizer
com palavras de outro;
e sujeito: o sujeito que traduz pode aparecer, graças a um discurso que o interpela e legitima
seu ato tradutório; por outro, arrisca-se a perder-se nas vacilações suscitadas pela busca da
formulação que melhor corresponda à de partida;
Na tradução, o sujeito que traduz deve dobrar-se ao ato de enunciar no ponto em que faz um
mesmo sentido transitar para outra língua. É inerente ao dizer que ele - sob modalidade oral ou
escrita - aconteça exposto a repetição em uma mesma ou outra língua. Redizer, reenunciar
noutra língua, ou repetir em um modo estrangeiro de dizer, eis uma definição possível da
experiência de traduzir;

- O autor trabalha com o conceito de “deslize” na tradução, desenvolvido por Eni Orlandi a
partir de Michel Pêcheux. O deslize é pensado primeiro dentro de um contexto monolíngue e
depois no contexto bilíngue, em que territórios linguísticos diferentes se cruzam por meio da
tradução e do tradutor, que traz consigo sua bagagem ideológica. O deslize é o termo adotado
por Orlandi para descrever o movimento instável da interpretação que antecede a qualquer
possibilidade de sentido. Interpretar, pois, é produzir, no tecido da linguagem, um
esgarçamento, um rasgão. Figurativamente, alude ao deslizamento que desloca, transfere o já
dito localizado em certa uma série histórica do dizer para outra em vias de se realizar em um
momento dado de enunciação;

- Interpretação: a passagem de um ato de enunciação para outra língua não acontece sem
interpelação. Isso implica dizer que o sujeito que traduz não pode se constituir a não ser
perdendo-se na turbulência dos discursos que se encarregam do destino do dizer submetido à
passagem. Pelo viés da Análise de Discurso, diz-se que a passagem do dizer de uma para outra
série de enunciados implica esquecimento. Não me refiro apenas ao campo de luta entre
sentidos, contexto agonístico no qual para que um sentido sobreviva é preciso que outro seja
abatido até desaparecer da memória. É que antes de se decidir por um sentido ou outro, a
matéria significante passa por um estágio de turbulência, de exposição ao excesso em que tudo
e nada pode ser tomado como seu significado. Ante à força ideológica que rege a injunção de
traduzir, trata-se então de esquecer ou apagar vestígios que impedem a passagem do dizer a
outro regime de sentido, sob a ameaça de a interpretação não se efetivar e a enunciação
tradutória perder-se no vão entre os discursos que disputam ideologicamente a tutela da
tradução possível;
- O texto de partida é sempre interpretação que se impõe como efeito de evidência, impondo
também a forma de sujeito tradutor em certa posição de discurso. Mas a interpelação que torna
possível a ilusória e necessária completude da tradução enfrenta uma resistência que embora
se apague ideologicamente, deixa vestígios em seu percurso. Daí que a particularidade do ato
de traduzir, no limiar da interpelação do indivíduo em sujeito, consiste em uma perda;
- A intrincada e complexa questão da tradução vai levar, muitas vezes, ao que o autor
denomina de “perda” (déficit/alusão faltante): “Perda que não se mostra nem no ponto de
partida, nem no ponto de chegada, mas no trajeto de redizer o já dito em outra língua” e, por
isso, se terá o que ele chama de “instabilidade do processo tradutório”;

- Erro e estranhamento:
No caso de estranhamento o recurso à nota de rodapé entra sempre como o expediente que
elucida localmente no texto traduzido a presença de uma alusão ali onde se nota uma estranheza
no dizer. Embora o recurso expresse a elegância do tradutor que, através de uma notação
pontual, amplia a rede de compreensão da relação de sentido presente no texto, permanece no
mesmo gesto a acentuação de um destino seletivo inerente à alusão. Em outros termos, o
tradutor detém, contra qualquer competência linguística partilhável com o leitor, o lugar-chave
que abre para uma estratégia complexa de discurso. Assim é que se pode reportar os fatos
linguísticos de difícil passagem como o traço que desenha a fronteira entre a fala estrangeira e
a própria. Trata-se da marcação da diferença que, sob uma maneira alusiva de dizer, se mostra
enquanto tal perturbando a fluência da escritura que transita da língua do outro para a própria.
A estranheza apresenta-se em sua incapacidade de completude; em sua impossibilidade de
circunscrever o dizer em dada ordem de discurso.

Se não há subjetividade sem a passagem pela língua como horizonte, o que se passa quando o
dizer que constitui o sujeito submete-se a mais de uma língua? O pressuposto de base é o de
que conceitualmente aquela em que o sujeito é produzido só pode ser a língua materna. Esta
tem como traço inerente sua própria ordem que simbolicamente a distingue de outra e acolhe
como estranho tudo o que não coincide com as regras dessa ordem. Por mais que domine outras
línguas diversas da sua, inconscientemente o falante só se reconhece sujeito na sua própria
língua.
A impossibilidade da passagem, dada pela ausência de posição de discurso conectável à língua
de chegada, aponta para a experiência escritural em que o tradutor depara-se com o real na
língua e na história deixando vestígio nas dissonâncias entre o texto de partida e o de chegada.
Se na forma primeira, o texto mobiliza a língua constituindo nela e com ela o dizer já
significado, na versão segunda só retoma o mesmo dizer a partir do discurso que o tornou
possível em outro sistema linguístico.
A retomada de uma enunciação em outra língua expõe o sujeito que traduz a uma experiência
provisória e necessária de de-subjetivação, já que o transporte do dizer de uma para outra
língua implica também a composição incerta de uma posição de sujeito possível na língua. Tal
transposição demanda abertura e retirada. De um lado, abertura para a multiplicidade de
sentidos que assaltam o dizer em seu trajeto de uma cadeia a outra de enunciação De outro,
retirada de lugares fixados de dizer como condição à passagem para a função enunciativa que
faz autoria fora do si do sujeito-tradutor constituído em língua própria, deixando-se enunciar
em língua estranha.