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INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões!

14/8/2015

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Subjetividade e Relações
Comportamentais

Emmanuel Zagury Tourinho

14/8/2015 INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões!


INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões! 14/8/2015
Copyright © 2009 by Emmanuel Zagury Tourinho

A elaboração e a publicação deste trabalho foram apoiadas pelo Conselho


Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, CNPq (Processos
395743/2004-0, 470802/2004-9 e 304116/2007-6).

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Tourinho, Emmanuel Zagury


Subjetividade e relações comportamentais/Emmanuel Zagury Tourinho.
1. ed. São Paulo: Paradigma, 2009.

Bibliografia.
ISBN 978-85-62550-00-3

1. Comportamento - Análise 2. Comportamento humano 3. Emoções


4. Pensamentos 5. Psicologia 6. Relações interpessoais 7. Sentimentos
8. Subjetividade I. Título.

09-03765 CDD-150

índice para catálogo sistemático:


1. Comportamento: Análise: Psicologia 150

Coordenação editorial Roberto Alves Banaco e Roberta Kovac


Preparação Roberto Alves Banaco
Projeto gráfico, diagramação e ilustrações Silvia Amstalden
Revisão Beatriz de Freitas Moreira

edição - 2009
Paradigma Núcleo de Análise do Comportamento
Rua Vanderlei, 611
Perdizes São Paulo/SP
Tel. 11 3864 9732

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Subjetividade e Relações
Comportamentais

Emm anuel Zagury Tourinho

nni* p a ra d ig m a
IÚCLFO 1)1 ANALISE DO CO M PORTAM ENTO

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À Simone, com m uito amor.

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Ou se tem chuva e não se tem sol,


ou se tem sol e não se tem chuva!

Ou se calça a luva e não se põe o anel,


ou se põe o anel e não se calça a luva!

Quem sobe nos ares não fica no chão,


quem fica no chão não sobe nos ares.

É uma grande pena que não se possa


estar ao mesmo tempo em dois lugares!

Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,


ou compro o doce e gasto o dinheiro.

Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquito...


e vivo escolhendo o dia inteiro!

Não sei se brinco, não sei se estudo,


se saio correndo ou fico tranquilo.

Mas não consegui entender ainda


qual é melhor: se é isto ou aquilo.

(Cecília Meireles, Ou is to ou a q u ilo )

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Sumário

Prefácio 11
Apresentação 17
Considerações Iniciais acerca da
Subjetividade à Luz de um Enfoque Comportamental 21
Capítulo 1 - Relações Interpessoais e o
Florescimento das Dicotomias Psicológicas Clássicas 29
A Interdependência Humana em uma Sociedade Hierárquica 32
Condições de Interdependência em uma Sociedade de Mercado 38
A Emergência do Indivíduo e o Acobertamento das
Relações de Interdependência 47
Dimensões do Indivíduo e as Dicotomias Psicológicas Clássicas 63

Capítulo 2 - Dimensões da Abordagem Analítico-


Comportamental para o Problema da Subjetividade 95
A Noção de Eventos Privados 100
Limites da Noção de Eventos Privados 111
"Eventos Privados” como Resposta Verbal 119
Relações Comportamentais e as Dicotomias Psicológicas Clássicas 136

Capítulo 3 - Subjetividade, Eventos


Privados e Relações Comportamentais 151
A Individualização 152
A Autonomia 162
O Autocontrole 174
Fugindo à Lógica das Dicotomias Psicológicas Clássicas:
Complexidade, Acessibilidade e Relevância de
Relações Comportamentais 183

Considerações Finais 189


Referências 197

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Prefácio

E preciso Ler muita coragem para assumir, em uma empreitada aca­


dêmica e profissional, um tema que seja controverso. A Psicologia é
uma das áreas nas quais esse tipo dc tema é abundante. Os temas
da Psicologia, costumeiramcntc, apresentam para o estudioso mui­
tas armadilhas que, sc não atentamente estudadas e desmontadas,
podem ser fatais para aquele que se lança em sua solução.
Este é especialmente o caso da Subjetividade. Um tema de ta­
manha complexidade e importância que, apesar de ter sido aborda­
do com diligência por grandes cientistas e filósofos da História da
Humanidade, justifica ainda hoje o seu aprofundamento e estudo.
Tendo sido descrita como, mais do que um mosaico conceitua],
uma rede de níveis interpretativos interligados, a Subjetividade
engloba outros conceitos tão importantes para o Ser Humano tais
quais: o autoconhecimento, o autocontrole, a autonomia, as emo­
ções, as relações sociais. Enfim, o tema remete ao papel de todo e
cada Ser Humano no mundo humano - o que aumenta ainda mais
sua complexidade.
Não menos arriscada e exigente é a empreitada de abordar a
Subjetividade sob o enfoque do Behaviorismo Radical. Abordar te­
mas complexos por esse enfoque exige, além dc coragem, empenho
intelectual, cuidado acadêmico e, mais do que tudo, capacidade de
síntese c de comunicação. Essa filosofia é tão encantadora quanto
desprovida de charme. Pelo contrário, é uma filosofia que costuma
ser vista como rasa, reducionista dos temas do Homem, além dc
ladra de seu livre-arbítrio. E encantadora por ser, na aparência,
simples. E amedrontadora por tocar diretamente e sem piedade
em feridas escondidas do Homem, revelando a sua submissão às
Leis da Natureza.
Também não é qualquer cientista que a abraça. E necessário
ter sido especialmcnte formado para enfrentar, inspirado por ela, o

PREFÁCIO II

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desconhecimento. O risco de ser derrotado na empreitada é enor­


me, em parte, porque a filosofia behaviorista radical c a estratégia
científica por ela preconizada para o aumento do conhecimento são
exigentes. Além disso, filosofia e ciência são fortemente defendidas
por implacáveis guardiões, que não poupam aqueles que se lançam
à batalha do conhecimento utilizando-se delas: se não demonstrar
destreza em seu manejo, o cientista pode lançar um trabalho que
será desacreditado por sua comunidade. Por esta razão, tais guar­
diões esmeram-se na formação daqueles que poderão aventurar-se
na empreitada do conhecimento.
Emmanucl Z. Tourinho foi talhado dessa maneira. Com sólida
formação em Análise do Comportamento e com um estudo apro­
fundado sobre o Behaviorismo Radical de Skinner, Emmanuel foi
acompanhado de perto por vários pesquisadores expoentes dessa
abordagem psicológica, tanto enquanto orientadores quanto como
colegas de trabalho. Mesmo assim, pode-se dizer que ele se arriscou
muito neste trabalho... Conseguiu juntar nele um tema polêmico e
uma filosofia exigente para destrinchá-lo.
Mas não foi um risco desvairado. O percurso de Emmanuel
na bu sca da elucidação do tema Subjetividade sob o enfoque do
Behaviorismo Radical iniciou-se concomitante ao início de sua
carreira enquanto autor. Desde as primeiras publicações em 1987
(Tourinho, 1987 a e b), até o reconhecimento internacional de seu
trabalho (por exemplo, em suas publicações de 2003, 2004 c 2006
encontradas nas referências deste prefácio), Emmanuel perseguiu
o estudo desse tema, fiel e incansavelmente até produzir esta obra,
que revela seu pensamento atual.
Solidamente calcado em muitos de seus estudos desenvolvidos
ao longo dc sua relativamente curta carreira, Emmanuel acaba por
coroar esse percurso com uma tese defendida para obter seu título
de Professor Titular em uma das mais respeitáveis universidades
brasileiras: a Universidade federal do Pará.
Destrinchando uma literatura vasta e expoente, Emmanuel vai en­
trelaçando em seu texto conceitos, métodos de conhecimento, pontos
de vista, dados históricos, experimentos, teorias, e criando com isso
um quadro nítido c lógico sobre a problemática por ele estudada.

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Skinner em Ciência e Comportamento Humano (1953) cita que


“Newton explicava suas importantes descobertas dizendo que estava
de pé sobre os ombros de gigantes, fazendo referência à construção
da Ciência que tem por base importantes avanços permitidos por
pesquisadores antecedentes a ele”. Esta citação pode ser invocada
para descrever este livro. Suas referencias denotam uma seleção
cuidadosa e extremamente rigorosa de obras e, dentro delas, ar­
gumentos, que, encadeados de maneira arguta, permitiram ter um
campo no qual a construção do novo conhecimento criado pelo au-
tor pareça ser absolutamente natural e ao mesmo tempo original.
Coerentemente com o teor do trabalho aqui exposto, reconhece o
quanto de social houve em sua elaboração.
Com base nesse quadro, ele avança a conceituação da
Subjetividade e, sem medo de enfrentar possíveis resistências (tal­
vez pela segurança obtida nas bases de sua argumentação), propõe
neste livro a superação das dicotomias psicológicas clássicas.
O livro tem uma estrutura confortável para que o leitor pos­
sa apreender os novos avanços conceituais que propõe. Inicia-
se com algumas considerações que localizam a problemática da
Subjetividade no campo do enfoque comportamental, o que dá
uma direção bastante marcada para o olhar que será desenvolvido
nas páginas seguintes. Segue retomando cm seu primeiro capítulo
um tanto de história que identifica as origens c vertentes das dis­
cussões implicadas na temática abordada. A partir desse ponto,
passa a exercer a análise que permeia toda a proposta, explorando
a noção de que o Conhecim ento é comportamento hum ano na
acepção mais behaviorista sobre o comportamento: a relação fun­
cional observada entre as ações do Homem com as translormações
do ambiente que o circunda. Nesse primeiro capítulo, Emmanuel
localiza, baseado em algumas análises jã desenvolvidas por Norbert.
Elias, as variáveis que levaram toda uma cultura a lazer emergir
o conceito de Indivíduo como ele é conhecido nos dias de hoje.
O capítulo termina explicitando o quanto esse modo de conheci­
mento chega a determinar as Dicotomias Psicológicas Clássicas,
e o insipiente acobertamento que esse conccito produziu sobre as
relações de interdependência.

PREFÁCIO 13
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O segundo capítulo dcbruça-se sobre a abordagem analítico-com-


portamental da Subjetividade. Coerentemente com essa abordagem,
o texto refere-se agora a temas que também passaram por uma traba­
lhosa c extenuante investigação conceituai e empírica, constituintes
do tema mais amplo: os eventos privados e o comportamento verbal.
Esse capítulo encerra-se com uma nova visão das dicotomias psicoló­
gicas clássicas, redimensionando-as, agora, em relações possíveis na
construção do conhecimento a partir da ótica bchaviorista radical.
Por fim, no terceiro capítulo, Emmanucl enLrelaça os conceitos
de Individualização, Autocontrole e Autonomia, conforme definidos
pela abordagem analítico-comportamental, fazendo uma proposta
surpreendente e elaborada para o entendimento da Subjetividade,
Em suas Considerações Finais, o autor aponta caminhos para a con­
tinuidade de estudos que levem em consideração a interdependência
dos Homens, dado que, apesar dos esforços, o tema da Subjetividade
ainda não foi aqui esgotado.
Nesse sentido a obra lança mão de propostas de conceituação
sobre Comportamento Verbal, além das novíssimas proposLas con­
ceituais de Metacontingências e Contingências Entrelaçadas para a
interpretação de comportamentos complexos. Ao todo, esta obra volta
a propor uma visão mais completa do que a visão de “Indivíduo” pro­
porciona para o entendimento da “criação” do Humano no Homem,
a visão dc que este Homem é um ser biológico c social.

Roberto Alves Banaco


Professor "l itular da cadeira de Análise do Comportamento
Faculdade dc Psicologia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo

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Referências
Tourinho, E. Z. (1987). Sobre o surgimento do behaviorismo radical de
Skinner. Psicologia, / 3(3), 1-11.
lburinho, E. Z. (1987). Teoria e pesquisa empírica cm psicologia: elem en­
tos para uma reflexão sobre as obras de Skinner e Eeontiev. Cadernos
do Centro de Filosofia e Ciências Humanas da Ufpa, 14(1), 143-160.
'Iourinho, E. Z.; Neno, S. (2003). Effectiveness as truth criterion in beha­
vior analysis. Behavior and Philosophy; 31 (1), 63-81.
Tourinho, E. Z. (2004). Behaviorism, interbehaviorism and the boundaries
of a science of behavior. European journal of Behavior Analysis, 5(1),
15-27.
Tourinho, E. Z. (2006). Private stimuli, covert responses and private events:
Conceptual remarks. The Behavior Analyst, 29(1), 13-31.

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Apresentação
Emoções e pensamento são tratados em manuais de Psicologia (e.g.,
Hulfman, Vernoy & Vernoy, 2003) como alguns dos processos psi­
cológicos básicos (ao lado de aprendizagem, cognição, memória,
percepção e outros), uma matéria que requer um tratamento es­
pecífico de qualquer sistema explicativo abrangente na Psicologia.
Como o conceito de emoções, o conceito de sentimentos é também
empregado com frequência na abordagem de fenômenos considera­
dos afetivos. Ainda que muitas vezes sejam usados como sinônimos,
sentimentos e emoções são em alguns sistemas diferenciados com
base na existência (para os primeiros) de um componente linguístico
na afetividade. Emoções, sentimentos e pensamentos constituem
o foco do presente trabalho. Eles serão abordados como instâncias
privilegiadas do que tem sido denominado de subjetividade. A aná­
lise oferecida pode se estender a outros fenômenos ou conceitos
correlatos, como cognição, sensação etc., embora não sejam exami­
nadas particularidades desses outros fenômenos ou dos usos desses
outros conceitos. Discutindo pensamentos, emoções e sentimentos,
acreditamos ser possível oferecer um tratamento (comportamcntal)
abrangente para o tema da subjetividade, objetivo deste trabalho.
Homens e mulheres de todas as culturas emocionam-se c refletem
sobre o mundo à sua volta. Algumas emoções (e.g., medo, tristeza)
são, inclusive, consideradas parte de nossa herança filogenética (cf.
Ekman, 1993; Millenson, 1967/1975; Russell, 1991). Com o con­
ceito de subjetividade, porém, referiremos o modo específico como
emoções, sentimentos c pensamenLos são experimentados na cultura
ocidental moderna, um modo que tem sido referido como “privado”
(cf. Elias, 1987/1994) ou “privatizado” (cf. Figueiredo & Santi, 1997).
E a configuração (discutida brevemente ao longo deste trabalho) que
sentimentos, emoções e pensamentos adquirem na cultura ocidental
moderna que dá origem aos conceitos de privado, subjetivo, interno e

APRESENTAÇÃO 17

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mental. E c essa mesma problemática que está na base da fundação


da Psicologia como disciplina independente, primeiro um campo re­
flexivo, depois uma ciência e uma profissão dc ajuda.
A subjetividade assim entendida será examinada ao longo do tra­
balho, a partir dc duas referências. No Capítulo 1, são discutidos
aspectos histórico-culturais da experiência moderna de sentimen­
tos e pensamentos, enfatizando-se as condições sociais que estão
na origem do que denominaremos aqui de dicotomias psicológicas
clássicas (público-privado, objetivo-subjetivo, interno-externo, físi-
co-mental). Nos Capítulos 2 e 3, o trabalho focali/a a elaboração
de uma interpretação para emoções, sentimentos e pensamentos,
à luz dos princípios do sistema explicativo denominado Análise do
Comportamento, que tem como referência principal a obra filosófica
e científica de B. E Sldnncr.
O exame de aspectos históricos da configuração que sentimentos
e pensamentos vieram a adquirir na cultura ocidental moderna não
tem a pretensão de oferecer uma história do processo dc individuali­
zação e de subjetivação no Ocidente. Muitas informações e análises
que seriam indispensáveis para contar essa história estão ausentes
do presente trabalho, simplesmente porque fogem a suas preten­
sões. Os aspectos históricos considerados são apenas aqueles que
precisam ser postos em relevo para demarcar alguns problemas
que estão na origem dos usos modernos dos conceitos privado, in­
terno, mental e subjetivo. Apenas com uma compreensão mais clara
desses problemas é possível formular uma abordagem comportamen-
tal consistente para sentimentos e pensamentos.
O trabalho pretende oferecer um tratamento analítico-compor-
tamental abrangente para a subjetividade, em que emoções, senti­
mentos e pensamento são concebidos essencialmente como relações
comportamenlais. Essa elaboração conflita com noções e valores,
próprios de uma cultura individualista, que encontram expressão
nas dicotomias psicológicas clássicas. A perspectiva interpretatíva
relacionai depende, por outro lado, de uma apropriação das infor­
mações que emergem de uma análise histórica daquelas dicotomias.
Em suma, o trabalho desenvolve a tese de que os conceitos de priva­
do, subjetivo, interno e mental refletem a dificuldade cm reconhecer

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dimensões da interdependência entre indivíduos na definição dos


fenômenos psicológicos, o que pode ser superado com uma inter­
pretação de sentimentos, emoções e pensamentos como relações
comportamentais, desde que ponderados os modos como variáveis
culturais dão uma conformação particular a esses fenômenos.

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Considerações Iniciais acerca


da Subjetividade à Luz de um
Enfoque Comportamental

Tema dc alguns dos trabalhos mais notáveis dc Skinner (c.g., 1945,


1953/1965, 1963/1969, 1974/1993, 1968/2003), os eventos privados
(conccito pelo qual a subjetividade é tratada no sistema skinneriano)
receberam pouca atenção da comunidade dc analistas do compor­
tamento até pelo menos a década dc 1990. Alguma atenção mais
sistemática passou a ser dada ao assunto apenas quando analistas
do comportamento com atuação clínica afirmaram a necessidade de
resgatar, nesse campo da prática psicológica, os princípios analítico-
comportamentais c assinalaram que, na terapia verbal face a face,
o assunto eventos privados é recorrente e demanda um tratamento
mais avançado do que aquele delineado nos escritos de Skinner (cf.
Anderson, Ilawkins, Freeman & Scotti, 2000; Anderson, Ilawkins
& Scotti, 1997; Banaco, 1999; Dougher, 1993a, 1993b, 1994, 2000;
Dougher & Hackbert, 2000; Friman, S. C. Ilayes & Wilson, 1998;
Moore, 2000; Wilson & S. C. Hayes, 2000).
Skinner desenvolve dois argumentos principais ao tratar de even­
tos privados. Em uma direção, sustenta que o que é sentido não
explica o comportamento publicamente observável, do que con­
clui (e.g., Skinner, 1953/1965) que uma ciência do comportamen­
to prescinde da referência a sentimentos e emoções para lidar de
modos efetivos com o comportamento humano. Em outra direção,
discute os processos verbais envolvidos na aquisição de repertórios
autodescritivos dc sentimentos, emoções c pensamentos e sustenta
a tese (c.g., Skinner, 1945) de que, por dependerem dc contingên­
cias sociais, esses repertórios são sempre imprecisos (novamente,
uma razão para não considcrá-los em sua ciência). Esse segundo
argumento constitui o ponto de partida para análises alternativas
(c.g., Dougher & Hackbert, 2000; Friman & cols., 1998; Tourinho,
1999b, 2006) sobre o lugar dos eventos privados em uma ciência
do comportamento.

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Quando se consideram as autodescriçõcs de sentimentos, emo­


ções e pensamentos à luz de uma conccpção funcional de lingua­
gem, como aquelas formuladas por Skinner (1957/1992) e por
Wittgenstein (1953/1988), tem~sc que as autodescriçõcs são, elas
mesmas, parte do fenômeno da subjetividade. E com a linguagem
que parcelas do que pode ser chamado de um ambiente interno
(cf. Tourinho, 1999b) tornam-se diferenciadas, adquirem funções
em relações comportamentais, ainda que dentro de limites e sob
condições específicas (cf. Skinner, 1945, 1974/1993; Tourinho,
1994a, 1994b). De outro lado, as autodescriçõcs podem adquirir,
elas mesmas, 1unções cm relações comportamentais diversas. A
luz de análises mais recentes sobre eventos privados e sobre com­
portamento verbal (e.g., DcGrandpre, Bíckel & Higgins, 1992;
S. C. Hayes, Barnes-Holmes & Roche, 2001), isso levará a uma
rediscussão (e.g., Friman & cols., 1998) da ideia de que eventos
privados não são relevantes em uma análise funcional dos comporta­
mentos publicamente observáveis. Mais importante, os “eventos
privados” serão menos enfatizados como eventos discretos de ina­
cessibilidade restrita e mais realçados como conceito que remete
a relações complexas dos indivíduos com o mundo.
Alguns trabalhos sobre eventos privados, anteriores ao debate
inaugurado pelos clínicos, já haviam posto cm discussão o status
causal de eventos privados, mas a partir da noção de causação inter­
na do comportamento (e.g., Flora 8c Kestner, 1995; Overskeid, 1994;
Stemmer, 1995; Zuriff, 1979). Não foram, portanto, eficientes para
promover uma discussão da subjetividade sob um enfoque de rela­
ções comportamentais, ainda que alguns problemas que levantaram
tenham ficado sem uma apreciação devida na literatura analítico-
comportamental. Quando analistas clínicos do comportamento no­
vamente trouxeram o tema à discussão, o fizeram de um modo que
enfatizou dimensões relacionais verbais dos fenômenos.
Um grande mérito dos trabalhos mais recentes sobre eventos pri­
vados consiste, assim, na sua capacidade para conformar o exame
do assunto à lógica relacional que sustenta mais fundamentalmente
o sistema explicativo analítieo-comportamental como um sistema
psicológico; a ideia de que os fenômenos que constituem o objc-

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to de estudos da Psicologia definem-se como relações dos homens


e mulheres (ou dos organismos1) com o mundo. No lugar, agora,
de olhar para sentimentos, emoções c pensamentos como even­
tos discretos (sejam cies públicos ou privados), torna-se necessário
examinar como relações complexas (operantes e respondentes - cf.
Darwich & Tourinho, 2005) são estabelecidas c entrelaçadas, de tal
modo que alguns eventos inacessíveis à observação pública direta
delas tomam parte.
Com a explicitação de aspectos das relações verbais (e.g., a pos­
sibilidade de formação de classes de estímulos equivalentes) que
conduzem a um novo exame da questão da subjetividade, a análise
do comportamento alargou a perspectiva inaugurada por Skinner. A
abordagem permanece, todavia, ainda no plano dos processos (nesse
caso, verbais) básicos, à luz dos quais fenômenos comportamentais
merecem ser analisados. Um analista do comportamento pode ar­
gumentar que, para além disso, a análise possível da subjetividade
dirá respeito à história ambiental de cada um, à ontogênese, na qual
se materializam as relações que vêm a definir a identidade de cada
homem ou mulher. No presente trabalho, no entanto, propomos
algo diverso. Argumentamos que uma abordagem analítico-compor-
tamental da subjetividade pode avançar a partir de uma consideração
de contingências culturais que vêm a definir o fenômeno.
Os componentes verbais das mais complexas relações comporta-
mentaís referidas como sentimentos, emoções e pensamentos são
produtos de uma cultura que promove de modo mais abrangente
padrões de relacionamento com o mundo físico e social, que definem

1 Neste trabalho, não ignoramos que o projeto skínneriano tinha como objeto
o comportamento dos organismos (humanos e infra-humanos). Entendemos,
porém, que seu interesse principal era o comportamento humano (cf. Andery,
1990) e que é na espécie humana, apenas, que se encontram os fenômenos mais
complexos relacionados à subjetividade (ver Capítulo 2, adiante). As análises
aqui desenvolvidas são pautadas pelo interesse específico no comportamento
humano e por isso deixará de ser assinalado (exceto em casos particulares) quan­
do as argumentações desenvolvidas se aplicarem ao comportamento de outros
organismos.

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a subjetividade e só existem quando essas contingências culturais


estão em operação. Isto é, o problema da subjetividade (aquele reser­
vado à Psicologia —cf. Figueiredo, 1991, 1992; Figueiredo & Santi,
1997) só passa a existir à luz de certas contingências culturais. O
que tratamos como subjetividade são certas relações comportamen-
tais cujas características distintivas prccísam ser especificadas, e um
caminho para isso consiste em examinar as contingências histórico-
culturais que as engendram.
O ponto de vista defendido neste trabalho, portanto, é o de que
uma compreensão mais abrangente da subjetividade na análise do
comportamento requer uma apreciação de contingências que produ­
zem sentimentos, emoções c pensamentos nas culturais ocidentais
modernas e uma especificação dos tipos de relações que definem
esses fenômenos. A questão da inacessibilidade à observação públi­
ca dc certos estímulos e respostas {a base para a noção de eventos
privados) não se perde com essa análise, mas nela encontra um con­
texto analítico mais amplo.
Diversos percursos investigativos poderiam ser seguidos para
prover uma apreciação da subjetividade nos termos mencionados.
Optamos aqui por examinar um conjunto dc informações históri­
cas, delas derivando uma interpretação para sentimentos, emoções
e pensamentos enquanto fenômenos relacionais2. As categorias ana­
líticas empregadas para esse fim serviram também para confrontar
a perspectiva relacional da análise do comportamento com práticas
ou discursos que parecem ignorar, ou pelo menos deslocar para um
segundo plano, essa dimensão dos fenômenos psicológicos.
Hm sua formulação tradicional nas Psicologias, pensamentos,
emoções e sentimentos são discutidos como ocorrências privadas,
subjetivas, internas ou mentais, ocorrências do ou no indivíduo. A tese

2 Sobre a opção de olhar para a história para compreender conceitos psicológicos,


Skinner (J 931/1961) fez algo parecido, ao se voltar para o conceito de reflexo. A
decisão de recorrer a certas informações históricas neste trabalho não significa
que a análise a ser apresentada é uma análise histórica, como a skinneriana, mas
lem a mesma pretensão de lançar luz sobre problemas ainda insuficientemente
formulados na Psicologia e na Análise do Comportamento.

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a scr desenvolvida inicia-se com uma afirmação de que a perspectiva


individualista c subjetivista que esses conceitos veiculam é produto
dc contingências culturais que funcionam para obscurecer as rela­
ções (cada vez mais complcxas) de interdepcndcncia entre homens c
mulheres. Prossegue com a argumentação de que a rcfcrência skin-
ncriana à inacessibilidade de certos estímulos e respostas constitui
um rccurso insuficiente para explicar o conjunto de problemas que
encontra expressão nas dicotomias público-privado, objetivo-subjeti-
vo, externo-interno, físico-mental, requerendo uma formulação mais
abrangente das relações comportamentais que definem sentimentos,
emoções e pensamentos. Knccrra com a proposição de que, à luz de
um exame histórico das dicotomias psicológicas clássicas, é possível
analisar de modos originais as noções de singularidade, autonomia c
autocontrole c com isso favorcccr uma interpretação analítico-com-
portamental mais abrangente e consistcntc da subjetividade.

CONSIDERAÇOES INICIAIS 25

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CAPÍTULO 1

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Relações Interpessoais e o
Florescimento das Dicotomias
Psicológicas Clássicas
Organismos humanos são capazes de interagir uns com os outros de
modos complexos, impondo à realidade configurações sofisticadas,
com graus variados de diferenciação e que afetam de maneiras im­
portantes sua vida cotidiana. Transcendem, assim, as determinações
de sua história filogenética em larga medida e de modos únicos. Suas
realizações nas artes, nas técnicas e nas ciências atestam sua capa­
cidade diferenciada e constituem alguns dos produtos mais salientes
dos processos de criação e transformação da realidade em que vi­
vem. O caráter social de tais produções dificilmente será negado por
alguém que se debruce sobre o processo histórico que está na sua
origem. Todavia, a interdependência entre os homens e mulheres
de uma sociedade (mais ou menos complexa) constitui um fato que
nem sempre sc reflete nas crenças ou sistemas explicativos que essa
mesma sociedade vem a construir sobre suas conquistas, ou sobre as
capacidades humanas. E quando as condições de interdependência
tornam-se menos evidentes, ou menos reconhecidas, estão criadas as
condições para uma concepção de homem como ser autônomo, cujas
ocorrências ou faculdades pessoais constituem o núcleo dc sua exis­
tência e de suas realizações. Os fatos da interdependência entre os
membros de uma cultura e do seu obscurecimento em muitos modos
de representar a vida nas sociedades modernas têm sido examinados
nas humanidades sob várias óticas (c.g., Durkheim, 1893/1995). No
presente trabalho, serão considerados principalmente à luz das aná­
lises sociológicas dc Elias (e.g., 1939/1990b, 1987/1994).
O conccíto de indivíduo e a noção de autonomia em que está
fundamentado, na contramão das evidências empíricas de interde­
pendência, refletem uma autoimagem do homem moderno como
capaz de realizar-se à parte das relações com outros homens. São as
virtudes e faculdades do ou no homem particular que começam a ser
vistas como a base de suas realizações, quer materiais, espirituais,

CAPÍTULO 1 29

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cognitivas, ou de qualquer outra ordem. Um exemplo clássico desse


individualismo, que terá ampla repercussão no pensamento moder­
no, inclusive na fundação na disciplina psicológica, é encontrado no
racionalismo cartesiano, de acordo com o qual a possibilidade de
o homem chegar a juízos seguros acerca da realidade à sua volta é
resultante não dc processos dc interlocução, do diálogo e do embate
de ideias com outros homens, mas, ao contrario, de um exercício de
uma faculdade pessoal, o pensamento racional, cujo emprego eficaz
depende inclusive do desprendim ento cm relação às opiniões
alheias: “é quase impossível que nossos juízos sejam tão puros ou
tão sólidos como seriam, se vivêssemos o uso inteiro de nossa razão
desde o nascimento c se não tivéssemos sido guiados senão por ela”
(Descartes, 1637/1979, p. 35). Não é dc surpreender, portanto, que
o próprio pensar seja suficiente, no sistema cartesiano, como prova
da existência do indivíduo pensante (a res cogitam). Para Descartes
(1596-1650), nenhuma obra será tão perfeita quanto aquela plane­
jada e executada por um único homem; de acordo com o seu próprio
julgamento, “não há tanta perfeição nas obras compostas de várias
peças, e feitas pela mão de diversos mestres, como naquelas em que
um só trabalhou” (Descartes, p. 34).
No presente capítulo, a problematização da subjetividade humana
será discutida à luz da emergência e da consolidação de uma cultura
individualista, na qual a percepção dos laços de interdependência
entre os homens dá lugar à autoimagem de autonomia do indivíduo.
Todavia, no lugar de simplesmente questionar essa autoimagem, se­
rão discutidas algumas condições que explicam sua elaboração e
reprodução em sistemas dc crenças (inclusive teorias psicológicas)
e práticas sociais das culturas caracteristicamente individualistas.
Em particular, serão discutidas certas mudanças importantes nas
sociedades ocidentais com o advento dc uma economia de mercado.
As transformações no plano das relações interpessoais e dos sistemas
explicativos produzidos nesse contexto dc mudanças serão relacio­
nadas as dicotomias psicológicas clássicas: público-prívado, interno-
externo, físico-mental e objetivo-subjetivo. Pretendemos argumentar
que o florescimento de uma cultura individualista, cujas práticas,
valores e crenças Lendem a obscurecer as dimensões interpessoais

30 SUBJETIVIDADE E RELAÇÕES COM PORTA MENTA IS

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das realizações humanas, constitui o fundamento daquelas dicoto­


mias. Isso implicará dizer que a caracterização de lenômenos psico­
lógicos como privadas, internos, mentais ou subjetivos representa um
modo de desqualificar, ou remeter para segundo plano, as dimensões
interpessoais daquelas realizações. Com o propósito de introduzir
essa interpretação, serão assinalados alguns aspectos da vida cm so­
ciedade na Europa feudal que, sc não promoviam de modo claro
uma concepção dc heteronomia ou interdependência dos homens,
ccrtamcnte não constituíam as condições ncccssárias para a forma­
ção de uma cultura individualista. Hunt e Sherman (1993) ilustram
essas questões ao referirem aspectos da ética paternalista cristã, que
cxerceu lorte papel na regulação da vida social feudal:
no início do período teudal, a ética paternalista cristã estava profunda­
mente encravada na cultura europeia ocidental. A ganância, a avareza,
o egoísmo, a ânsia de acumular riquezas, enfim, todas as motivações
materialistas e individualistas eram severamente condenadas. O ho­
mem ganancioso e individualista cra considerado a própria antítese
do hom em bom, preocupado com o bem-estar de todos os seus ir­
mãos. Os hom ens prósperos tinham ao seu alcance a possibilidade
de, com a riqueza c o poder de que dispunham, realizar um grande
bem ou um grande mal: o pior dos inales consistia em usar a riqueza
exclusivamente para a sua autograt.ificação, ou como meio para acu­
mular continuamente, cm seu próprio proveito, maior quantidade de
riquezas. Os homens ricos honrados eram os que tinham consciência
de que a sua fortuna e o seu poder constituíam uma dádiva de Deus.
Assim, sentiam-se moralmente obrigados a agir de modo paternalista,
administrando seus negócios temporais com a finalidade de promover
o bem-estar de seus semelhantes, (pp. 17-18)
Sobre a importância das mudanças econômicas para que os laços
feudais se dissolvessem e a noção de autonomia emergisse, Duby
(1990) assinala:
As marcas evidentes das conquistas de uma autonomia pessoal se
multiplicam no decorrer do século XII, isto c, no momento cm que
se acelera a distensão da econom ia, em que o crescim ento agrícola

CAPÍTULO 1 31

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chega ao ponto, reanimando estradas, mercados, aldeias, de trans-


portar pouco a pouco para a cidadc todos os sistem as de controle c
os fermentos de vitalidade, em que a moeda começa a desempenhar
no mais cotidiano da vida um papel capital, em que por toda parte se
difunde o uso da palavra ganhar ... Tal movimento, a mobilização das
iniciativas e das riquezas, suscitou a valorizaçao progressiva da pessoa,
(pp. 505-506)

Ao longo das próximas seções, alguns aspectos das mudanças do


modo de vida feudal para uma socicdadc dc mcrcado serão breve­
mente discutidos, enfatizando-sc o que representam do ponLo de
vista das relações interpessoais e dos modos como os homens pas­
sam a representar suas relações com o mundo físico c social. Essas
informações são importantes para a análise desenvolvida neste tra­
balho tanto quanto possibilitam compreender o que está na origem
da noção de que sentimentos e pensamentos são ocorrências do ou
no indivíduo. Com isso, pretende-sc argumentar que a ideia de que
sentimentos e pensamentos são fenômenos mentais, internos, .subje­
tivos ou privados decorrc não de um compromisso com uma doutrina
psicológica particular, mas da exposição a contingências sociais es­
pecíficas, que podem inclusivc cxplicar certos limites das soluções
que se pretendem criticas de uma visão individualista de homem.
A análise de contingências histórico-sociais (algumas delas, pelo
menos) é inspirada nos trabalhos de Figueiredo (e.g., 1991, 1992;
Figueiredo & Santi, 1997) sobre a história da Psicologia, embora se
desenvolva segundo categorias próprias (com ênfase nas conexões
dessas contingências com uma economia de mercado, e nos concei­
tos rcsuhanles sob a forma de dicotomias psicológicas).

A Interdependência Humana
em uma Sociedade Hierárquica
Homens e mulheres nascem c se desenvolvem como membros de
grupos sociais específicos, no interior dos quais encontram um modo
de vida e participam, também, da construção dc suas condições dc
sobrevivência c reprodução. Assim, ainda que as crianças revelem, ao

32 SUBJETIVIDADE E RELAÇÕES COMPORTAMENTAIS


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nascer, ccrtas competências para interagir com aspectos importantes


de seu mundo (cf. Moura & Ribas, 2004; Oliva, 2004; Tourinho &
Carvalho Neto, 2004),
c apenas na socicdade que a criança pequena, com suas funções
m entais maleáveis e relativamente indiferenciadas, se transforma
num ser mais complexo. Som ente na relação com outros seres hu­
manos é que a criatura impulsiva e desamparada que vem ao mundo
se transforma na pessoa psicologicam ente desenvolvida que tem o
caráter de um indivíduo c m erece o nom e de ser humano adulto.
(Elias, 1987/1994, p. 27)
Reconhecido o caráter sociocultural do desenvolvimento humano,
é importante destacar algumas condições sob as quais homens e mu­
lheres sc desenvolvem cm sociedades agrárias e hierárquicas como
a sociedade feudal. Em primeiro lugar, é necessário observar que as
funções das classes (clero, senhores e servos) que definem a estru­
tura dessa sociedade são vistas como complementares, em particu­
lar no sistema dc crenças (o catolicismo) que constitui a principal
fonte de legitimação dessas relações: uns rezam, outros protegem,
outros produzem. Inexístindo um poder (ccntral) impessoal que atue
na regulação dessas relações, as obrigações são acompanhadas de
solidariedadcs coletivas nos códigos e costumcs de cada feudo. Ou
seja, é no plano das relações imediatas dos homens uns com os ou­
tros que são construídas as condições concretas de sobrevivência da
sociedade como um todo.
Na Idade Média, como em muitas sociedades em que o Estado é fra­
co ou simbólico, a vida dc cada particular depende de solidariedadcs
coletivas ou de lideranças que desem penham um papel dc protetor.
Ninguém tem nada de seu - nem mesmo o próprio corpo —que não
esteja ameaçado ocasionalmente e cuja sobrevivência não seja asse­
gurada pelo vínculo de dependência. (Ariès, 1991, p. 17)
E claro que a existência de laços dc solidariedade em uma sociedade
hierárquica não implica o acesso indistinto às condições materiais dc
sobrevivência, mas significa que as relações de poder, à luz da ética
cristã e da autoridade da Igreja, encontravam certos limites.

CAPÍTULO 1 33

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Os homens que ocupam posições de poder e detêm a riqueza asseme-


lham-se ao pai ou ao protetor da família. Tinham obrigações paterna­
listas para com os homens comuns, isto é, os pobres ou, prosseguindo
com a nossa analogia, os filhos. Do homem comum, por sua vez, espe-
rava-se que aceitasse seu lugar na sociedade e se submetesse, de bom
grado, à liderança dos ricos e poderosos, da mesma maneira que um
filho aceita a autoridade do pai. (Hunt 8c Sherman, 1993, p. 1 5)
Em segundo lugar, tem grande importância o fato de que nessa
sociedade a função social de homem ou mulher cncontra-se, salvo
exceções, predehnida, dc acordo com a sua orígern, portanto não é
matéria quer de reflexão pessoal, quer de dedicação e conquista ao
longo da vida.
A identidade social numa sociedade agrária, como a medieval, em que
as relações políticas cristalizadas em direitos e deveres, em obrigações
e lealdades consuetudinárias suportavam o peso de toda a reprodução
social era totalmente, ou quase, predefinida pela cultura em função
de eventos biográficos, como o nascimento, a filiação c a idade, inde­
pendentes do próprio indivíduo. (Figueiredo, 1991, p. 20)
Nessas sociedades, como cm sociedades menos complexas ainda
hoje encontradas (às quais o Estado - se existe formalmente - não
chega com suas instituições, e a sobrevivência depende fortemente
de uma atividade produtiva voltada para a subsistência do grupo), a
função social de cada um, além de não depender de uma conquista
pessoal, dcfine-sc basicamente pelo interesse coletivo. O que está na
base desses laços é principalmente o vínculo material entre os mem­
bros do grupo, o fato de que a sobrevivência material está estritamen­
te vinculada à sobrevivência do grupo de origem; há a impossibilidade
de produzir a própria sobrevivência à parte dessas relações. Sob tais
condições, o que regula a vida cotidiana dc homens e mulheres não
são projetos pessoais de vida, mas demandas e interesses coletivos,
contingências ligadas à sobrevivência e à reprodução do grupo.
Nas comunidades mais primitivas e unidas, o fator mais importante
do controle do comportamento individual é a presença constante dos
outros, o saber-se ligado a eles pela vida inteira e, não menos im-

34 SUBJETIVIDADE E RELAÇÕES COMPORTAMENTAIS

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portanto, o medo direto dos outros. A pessoa não tcrn oportunidade,


necessidade, nem capacidade de ficar só. Os indivíduos mal sentem
alguma oportunidade, desejo ou possibilidade de tomar decisões por
si ou do conceber qualquer pensamento sem a constante referência
ao grupo. Isso não significa que os membros desses grupos convivam
harmoniosamente. É comum ocorrer o inverso. Significa apenas que
- para usar o termo que convencionamos - eles pensam c agem pri­
mordialmente do ponto do vista do "nós’'. A composição do indivíduo
adapta-se ao constante convívio com os outros a quem o comporta­
mento tem que ser ajustado. (Elias, 1987/1994, p. 108)
A distinção indivíduo-socicdade, ou melhor, o conceito de indi­
víduo nem sequer faz sentido nessas sociedades, visto que o espaço
para cultivar vocações, interesses c mesmo gostos pessoais são mui­
to restritos. Também são poucas e pouco diferenciadas as Iunções
sociais, de modo que não constituem exatamente um caminho para
a individualização. O compartilhamento do destino inicia-se com o
compartilhamento da moradia c dos espaços de deslocamento, dos
utensílios domésticos e dos instrumentos c rotinas de trabalho,
dos jogos e das preces, ü isolamento físico é objeto de desconfiança
e nem sequer pode existir no interior do espaço doméstico. Loucos
(os homens comuns) ou heróis (eremitas e cavaleiros errantes) são
aqueles que sc arriscam a andar sozinhos. Rezar, ler, cantar ou lavrar
a terra são essencialmente atos coletivos, realizados no espaço so­
cialmente compartilhado. Realizar-se materialmente, espiritualmen­
te, cognitivamcnte ou ludicamente, tudo pertence, de um ponto dc
vista imediato, ao plano das relações interpessoais, de modo incsca-
pável. Vida privada confundc-se com vida pública, no sentido de que
o compartilhamento das diversas dimensões da existência varia com
respeito à amplitude do universo social, porém nunca a ponto de
confinar o homem à introspccção. Ainda que aos olhos do indivíduo
moderno essa imagem cause estranheza, c assim que os historiado­
res descrevcm a experiência de vida no mundo feudal. Discutindo a
“emergência do indivíduo”, Duby (1990) assinala:
Proximidade, promiscuidade, por ve/es multidão - na época feudal,
o espaço, com efeito, jamais estava previsto, no interior das grandes

CAPÍTULO 1 35

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moradas, para a solidão individual, senão no breve instante do trespas­


se, da grande passagem para o outro mundo ... na sociedade feudal, o
espaço privado aparece, na realidade, desdobrado, constituído de duas
áreas distintas: uma fixa, em torno do lar, murada; a outra deslocan-
do-se no espaço público, não menos coerente, apresentando em seu
seio as mesmas hierarquias, reunida pelos mesmos procedimentos de
controle ... E se vida privada significa segredo, esse segredo, necessa­
riamente partilhado por todos os membros da família ampla, era frágil,
logo descoberto; se vida privada significa independência, também essa
independência era coletiva, (pp. 503-504)
Outra característica essencial da sociedade feudal, ainda encon­
trada em sociedades mais simples, consiste no fato de que os pro­
cessos reflexivos e de tomada de decisão não apenas são coletivos,
como muito menos frequentes, pela simples razão de que são menos
necessários, uma vez que há poucas alternativas a serem conside­
radas a cada momento da vida cotidiana. Os homens nessas socie­
dades não precisam se ocupar a cada momento de decidir aonde ir,
como ir, o que fazer, ou de que modo fazer. Mesmo com respeito ao
horizonte de uma vida, há muito menos decisões a serem tomadas,
poucas encruzilhadas, como menciona Elias (1987/1994):
Nas sociedades mais simples, há menos alternativas, menos oportu­
nidades de escolha, menos conhecim ento sobre as ligações entre os
acontecimentos e, portanto, menos oportunidades passíveis de pare­
cerem “perdidas”, quando vistas em retrospectiva. Nas mais simples
de todas, é frequente haver diante das pessoas um único caminho
em linha reta desde a infância — um caminho para as mulheres e
outro para os homens. Raras são as encruzilhadas; raramente alguém
é colocado sozinho diante de uma decisão ... Vive-se um dia atrás
do outro. A pessoa com e, sente fome, dança, morre. Qualquer visão
a longo prazo de algo que possa ocorrer cm algum momento futuro
é muito limitada, e o comportamento presciente é incompreensível e
pouco desenvolvido. Igualmente incompreensível é a possibilidade de
uma pessoa deixar de fazer algo que sc sinta premida a fazer aqui e
agora em nome de uma satisfação que talvez lhe venha dentro de uma
semana ou um ano, ou sua possibilidade de fazer o que chamamos

36 SUBJETIVIDADE E RELAÇÕES COM PORTAM ENTA IS

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“trabalhar”. Por que haveria alguém de fazer um esforço muscular não


referido às exigências urgentes do momento? (p. 110)
Ligados uns aos outros de modos inescapáveis e vivendo uma
vida cotidiana baseada na realidade imediata, homens e mulheres
no mundo feudal não estão expostos a condições que favoreçam a
construção e a dedicação a projetos baseados em uma referência
pessoal. O “nós'’ vale mais do que o “eu” na definição de cada passo,
de cada rotina, de cada projeto. Na religião, por exemplo, o isola­
mento 6 coisa para poucos privilegiados. Para o homem comum,
chegar a Deus é matéria de participação em cerimônias coletivas e/
ou de cumprimento de revcrência ou solidariedade a outros (esse
ponto será retomado adiante).
Se o segredo não é possível, ele também não é necessário, pelo
menos não como nas sociedades modernas. Emoções e sentimentos
podem scr experimentados de modos mais espontâneos. O que essa
espontaneidade significa ficará mais claro quando observarmos o que
acontece quando ela não c mais aceitável. As consequências para
cada um dc os outros saberem o que sente não são tais que justifi­
quem uma preparação para evitar a espontaneidade. E por essa razão
que crianças e adultos compartilham os momentos da vida cotidiana.
Apenas com a transformação dessas relações, a criança será retirada
do convívio com a família e será inventada a infância, com um es­
tágio da vida para o adestramento para a convivência com o mundo
adulto. “Ate por volta do século XII, a arte medieval desconhece a
infância, ou não tentava representá-la ... E mais provável que não
houvesse lugar para a infância nesse mundo” (Ariès, 1981, p. 50)3. A
reflexão, também, sendo predominantemente oral e coletiva (porque

3 Ariès (1981) afirma também: “Na sociedade feudal, que tomamos como pon­
to de partida, o sentimento da infância não existia - o que não quer dizer que
as crianças fossem negligenciadas, abandonadas ou desprezadas. O sentimento
de infância não significa o mesmo que a afeição pelas crianças: corresponde à
consciência da particularidade infantil, essa particularidade que distingue essen­
cialmente a criança do adulto, mesmo jovem. Por essa razão, assim que a criança
tinha condições dc viver sem a solicitude constante de sua mãe ou de sua ama, ela
ingressava na sociedade dos adultos e não se distinguia mais destes” (p. 156).

C A P ÍT U L 0 1 37
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voltada para assuntos que são dc interesse imediato tambem para os


outros) desenvolve-se ao conhecimento dos outros.
Contingências sociais dessa ordem não promovem, ao contrário,
inibem uma concepção individualizada do homem. Não se pode di­
zer que promovam uma percepção das relações de interdependência,
uma vez que raramente o homem é levado a refletir sobre sua condi­
ção no mundo. Mas certamente não reservam lugar para a noção de
autonomia. Assim, o homem passa a ver a si mesmo como indivíduo
apenas quando encontra novas condições para a produção de sua rea­
lização nos diversos domínios da vida, cm cspccíal quando cncontra
novas condições materiais de vida. Só então urn sentimento de auto­
nomia começa a ser cultivado. Essas condições concretizam-se com
o advento dc uma cconomia de mcrcado. A conquista da autonomia
pessoal, uma marca notável da vida moderna, não sc realizaria sem
essas transformações. E necessário, porém, refletir sobre a natureza
e o alcancc dessa autonomia. Como se argumentará adiante, há de
fato uma autonomia conquistada, no sentido dc o indivíduo nas so­
ciedades modernas encontrar-se menos limitado pelas condições de
vida encontradas ao nascimento, e menos dependente de suas rela­
ções familiares e sociais imediatas. Em contrapartida, os processos
de interdependência no mundo moderno assumem formas muito
mais complexas e sofisticadas, impondo muito mais exigências para
a reali/ação individual. Essas duas dimensões da conquista da auto­
nomia individual (a multiplicação dos hori/ontes de vida e a maior
complexidade da interdependência) explicam em larga medida as
concepções de homem que vão se tomando dominantes na cultura,
inclusive no campo da disciplina psicológica.

Condições de Interdependência
em uma Sociedade de Mercado
A transição do feudalismo para o capitalismo é descrita por his­
toriadores como um processo desencadeado pelo crescimento da
produtividade agrícola na Europa Ocidental, que se prolongou por
vários scculos, c que assumiu características peculiares em dife­
rentes contextos geográficos c sociopolíticos. Para fins da presente

38 SUBJETIVIDADE E RELAÇÕES COMPORTAMENTAIS

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análise, interessará assinalar alguns aspectos do que as mudanças


desencadeadas pela dissolução dos laços econômicos feudais re­
presentaram do ponto de vista das relações cotidianas de homens e
mulheres uns com os outros.
Com o desenvolvimento da técnica na produção agrícola e a in­
tensificação da atividade comercial, a partir do século XI4, a produ­
ção até então voltada primariamente para a subsistência começa a
dirigir-se a um mercado. O interesse na troca, na possibilidade de
produzir para obter moeda, com a qual são adquiridos os bens para
a própria sobrevivência (e mais do que isso) traz um impacto consi­
derável sobre a atividade produtiva rural (note-se que até o século X
a população na Europa Ocidental vivia quase inteiramente em feu­
dos e pequenas aldeias, cl. Hunt 8c Sherman, 1993). A definição do
que produzir, como produzir, que função desempenhar no processo
produtivo, tudo passa a ser regulado por condições do mercado. Na
medida em que interessa produzir aquilo que pode representar maio­
res chances de sucesso financeiro nas trocas econômicas, comcça
a haver espaço para vocações pessoais, preocupação com a efetivi­
dade produtiva dos membros do grupo e uma divisão crescente do
trabalho. Isto é, avança, no interior dos grupos, a diferenciação das
funções sociais. Rompidos os compromissos entre senhores e ser­
vos, seja pela introdução do trabalho assalariado em substituição às
relações de vassalagem, seja pelo abandono de obrigações relativas
à observância de uma estrutura social hierárquica, abrem-se os ho­
rizontes para a conquista dc uma identidade social nova. O sucesso
material ou econômico não é mais constrangido pela condição de
origem, mas dependente de uma conquista pessoal.
Em uma outra esfera, as alternativas para dedicar-se à atividade
comercial c a outras funções (especialmente financeiras e contá­
beis), assim como à produção de manufaturas, multiplicam os cursos
de vida possíveis, por meio dos quais o conforto e o reconhecimento

4 A expansão do comércio a partir do século XI deve-se em grande medida às


cruzadas cristãs, mas, como assinalam Hunt e Sherman (1993), isso não significa
que a motivação desse movimento tenha sido propriamente religiosa.

C A P ÍT U L 0 1 39

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social podem ser conquistados. Isto e, multiplicam-se as funções


sociais que cada um pode desempenhar, e as novas funções não
mais impõem o atrelamento aos laços familiares de origem. E cla­
ro que muitas dessas novas funções c as riquezas que com elas se
pode alcançar não estarão acessíveis a qualquer um. Por exemplo,
as funções contábeis exigirão habilidades matemáticas e de leitura
que poucos, frequentemente clérigos, dispõem. Ainda assim, c no­
tável que a vida do homem comum deixe de ser tão marcadamente
definida por uma condição de subsistência e tão decisivamente de­
pendente de sua permanência junto ao grupo de origem’’.
A intensificação do comércio dará origem ainda a uma condi­
ção geográfica de vida com grandes implicações para as relações
interpessoais. As cidades, inicialmente pequenos centros de trocas,
tornam-se um continente de homens e mulheres, desconhecidos em
sua imensa maioria e frequentemente dedicados a projetos de vida
não compartilhados uns com os outros, ao contrário, muitas vezes
conflitantes com os interesses uns dos outros. E incomparável com
a “limitada e pacata vida feudal” a extensão do universo social em
que está imerso o citadino c as exigências que lhe são impostas para
uma vida bem-sucedida social e economicamente. Especialmente a
partir do século XVI, as cidades tornam-se notavelmente populosas.
Londres, por exemplo, salta de 150 mil habitantes em 1595 para
cinco milhões ainda no século XIX (Sennett, 1989, p. 70). Viver nas
cidades é viver em um universo social no qual o comportamento de
cada um está sujeito a regulações muito mais complexas, e que não

5 Uma passagem de Sennett (1989) ilustra esse ponto, ainda que se referindo
apenas a Londres e Paris no século XVIII, um momento liem avançado do desen­
volvimento do capitalismo: “Do ponto de vista social, o crescimento do comércio
criou empregos nos setores financeiro, comercial c burocrático da cidade. Falar
em 'crescimento da burguesia' em qualquer das duas cidades é, pois, se referir a
uma classe engajada em atividades de distribuição, e não na produção. Os jovens
que vinham para a cidade encontravam trabalho nessas profissões mercantis e
comerciais; na verdade, havia como que uma escassez de mão-de-obra, pois
havia mais empregos que exigiam trabalhadores alfabetizados do que jovens que.
sabiam ler” (p. 79).

40 SUBJETIVIDADE E RELAÇÕES COM PORTA MENTA IS

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se pautam mais por códigos de obrigações e solidariedades definidas


no plano de relações interpessoais específicas.
No século XV, os locais onde se reuniam as feiras começavam a se
transformar em prósperas cidades comerciais, cujos mercados fun­
cionavam durante todo o ano. A atividade comercial desenvolvida por
essas cidades era incompatível com as restrições impostas pelos cos­
tumes e tradições feudais. A maior parte das cidades conseguiu, após
intensas lutas, libertar-se da tutela dos senhores feudais c da Igreja.
Nos centros comerciais realizavam-se operações financeiras: de câm­
bio, de liquidação de dívidas e de crédito. Tornou-se corrente o uso
das letras de câmbio e de outros instrumentos financeiros modernos.
Uma nova legislação comercial foi elaborada pelos comerciantes des­
sas cidades. Ao contrário do direito consuetudinário e paternalista que
vigorava nos feudos, a legislação comercial foi definida por um código
preciso. Lançaram-se assim as bases da lei de contratos, dos papéis
negociáveis, das representações comerciais, das vendas em leilão, en­
fim, de uma série de procedimentos característicos do capitalismo
moderno. (Hunt & Sherman, 1993, pp. 26-27)
Historicamente, a formação dos Estados nacionais, ao final da
Idade Média, representou uma resposta a demandas crescentes de
gerenciamento das relações interpessoais, em parte pelo alargamen­
to do universo social de homens que se deslocavam da vida comu­
nitária em seus grupos dc origem, na direção de uma convivência
com grupos numerosos e desconhecidos. A instituição social do
Estado, porém, representa a resposta a um conjunto mais amplo
de problemas do que o alargamento do universo social. A formação
dos Estados nacionais cumprirá, entre outros, o papel de prover a
sociedade de uma instituição reguladora das relações interpessoais
que tem, sobretudo, responsabilidades relacionadas à proteção e à
garantia de cumprimento dos contratos, agora celebrados em carátcr
impessoal. São as garantias do Estado, também, que darão suporte
ao descolamento do indivíduo de seu grupo de origem, em direção à
conquista de sua (nova) identidade social.

CAPÍTULO 1 41

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Um número cada vez maior de funções relativas à proteção c ao con­


trole do indivíduo, previamente exercidas por pequenos grupos, como
a tribo, a paróquia, o feudo, a guilda ou o Estado, vai sendo transferido
para Estados altamente centralizados e cada vez mais urbanizados. A
medida que essa transferência avança, as pessoas isoladas, uma vez
adultas, deixam mais e mais para trás os grupos locais próximos, ba­
seados na consanguinidade. A coesão dos grupos rompe-se à medida
que perdem suas funções protetoras e de controle. E, nas sociedades
estatais maiores, centralizadas e urbanizadas, o indivíduo tem que
batalhar muito mais por si. A mobilidade das pessoas, no sentido es­
pacial e social, aumenta. Seu envolvimento com a família, o grupo de
parentesco, a comunidade local e outros grupos dessa natureza, antes
inescapávcl pela vida inteira, vê-se reduzido. Eles têm menos neces­
sidade de adaptar sen comportamento, metas e ideais à vida de tais
grupos, ou de se identificar automaticam ente com eles. Dependem
menos deles no tocante à proteção física, ao sustento, ao emprego,
à proteção de bens herdados ou adquiridos, ou à ajuda, orientação e
tomada de decisão. Isso acontece, a princípio, cm grupos limitados
e especiais, mas se estende gradalivamente ao longo dos séculos, a
setores mais amplos da população, até mesmo nas áreas rurais. E,
à medida que os indivíduos deixam para trás os grupos pré-estatais
estreitamente aparentados, dentro de sociedades nacionais cada vez
mais complexas, eles se descobrem diante de um número crescente
de opções. Mas também têm de decidir muito mais por si. Não ape­
nas podem como devem ser mais autônomos. Quanto a isso não tem
opção. (Elias, 1987/1994, p. 102)
Há vários aspectos da abordagem de Elias (1987/1994) que me­
recem destaque neste ponto da apreciação do problema das rela­
ções interpessoais em sociedades de mercado. O primeiro deles diz
respeito ao fato de que as relações de dependência entre os indiví­
duos se alteram, não na direção de uma autonomia absoluta, mas
em direção a urna rede muito mais complexa de interdependência,
daí a necessidade da instituição do Estado para fazer valer compro­
missos mútuos. Isso significará que o indivíduo, na vida cotidiana,
de um lado, depende menos dos pequenos grupos sociais aos quais

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se encontra vinculado ao nascimento, e mais de redes complexas de


relações com um universo social muito mais amplo. De outro, dada a
extensão do universo social no qual está imerso c a complexidadc das
relações com os homens e mulheres que integram esse universo, não
c principalmcntc dc suas relações imediatas (com vizinhos, colegas
de trabalho, parentes, amigos eLc.) que depende o atendimento dc
grande parte de suas necessidades cotidianas (por exemplo, relativas
a alimentação, locomoção, vestuário etc.) ou mesmo suas aspirações
mais distantes ou de maiores “dimensões” (por exemplo, conquistar
um emprego compatível com um trajeto longo de formação, alcançar
uma situação econômica confortável e estável etc.)- Para atender a
essas necessidades ou realizar essas aspirações, o indivíduo deverá
interagir com complexos arranjos sociais e econômicos. O Icitc que
o alimenta pela manhã estará disponível não por lorça de sua relação
com familiares que ordenham animais domésticos dos quais também
cuida, mas como resultado de um complexo sistema dc relações
econômicas, das quais participam desde um desconhecido operador
de máquinas que confccciona embalagens de papel e financistas res­
ponsáveis por operações dc crédito a empresas dc laticínios, até ope­
rários de'empresas de conservação de estradas pelas quais transitam
os caminhões que transportam a produção daquelas empresas, todos
absolutamente desconhecidos e distantes das relações cotidianas ou
imediatas dos indivíduos.
Um segundo aspecto a ser considerado é que a coesão encontra­
da em grupos familiares ou dc afinidade, quando a sobrevivência
de cada um depende direta e imediatamente das relações com os
demais, ínexiste se o indivíduo descola-se desse grupo em direção à
realização de projetos pessoais dc vida. Não se trata de abandonar
um grupo, filiando-se a outro(s), mas de deixar para trás um tipo dc
interação social mais solidária e espontânea, em direção a relações
muito mais complexas, nas quais a identidade de interesses é mui­
to menos presente e em que o comportamento perante os outros
precisa ser calculado. Nas sociedades mais simples, o que promove
a cocsão não c uma “vocação'' para a solidariedade, mas o fato de
que as ameaças externas são constantes e a sobrcvivcncia individual
dependente das relações com grupos de convivência imediata. Nas

CAPÍTULO 1 43

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socicdadcs mais complexas, nos Estados modernos, especialmente


nas metrópoles, as condições materiais de sobrevivência tanto de­
pendem menos dessas relações como exigem a dedicação do indiví­
duo a um projeto pessoal de vida. Quanto mais sensível a demandas
dos outros, quanto menos concentrado em seus objetivos, projetos
e horizontes de vida, menores as chanccs dc “sucesso" material,
medido principalmente pelo acúmulo de riquezas (daí seu menor
envolvimento com a família de origem). Porém, se o indivíduo está
menos disponível para as demandas alheias (porque não são ne­
cessariamente, ou na mesma medida, suas também), de outro lado
ele também dependerá muito mais de si mesmo, no sentido de que
poderá contar muito menos com o suporte de seu grupo social nas
tarefas ou projetos cotidianos a que se dedica.
O terceiro ponto a ser destacado é o fato de que, ao se deslocar
para um universo social de anônimos, a identidade individual deixa
de ser aquela conferida no interior dos grupos familiares, passan­
do a ser matéria de conquista que, dependendo do contexto, pode
ser função de uma variedade de fatores, incluindo uma eficiente
participação em “jogos” sociais, nos quais as “aparências1*tornam-se
fundamentais (cf. Sennett, 1989). Isso significa que, se o indivíduo
vê diante de si possibilidades de mobilidade social, também precisa
responder a exigcncias crcscenLes de comportamento social. Não
c sem razão que, a partir do século XVI, os códigos de etiqueta, ou
“códigos de civilidade ’, tornam-se um tipo dc literatura com ampla
difusão e consumo na Europa Ocidental (cf. Hl ias, 1959/1990b).
Comportar-se adequadamente diante dos outros torna-se uma ne­
cessidade que para ser cumprida requer um longo aprendizado e dis­
ciplina constante. Desde um banal cumprimento, até as sequências
de comportamentos alimentares à mesa6, tudo se torna matéria dc
uma atenção cuidadosa, de comedimento, dc autocontrole.
Por último, em uma sociedade de mercado, multiplicam-se as al­
ternativas de ação a cada momento, assim como se multiplicam os

6 Acompanha esse refinamento o surgimento dos utensílios usados à mesa: a


taça individual, o prato, os talheres, o guardanapo etc.

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sistemas de crenças que orientam o homem na vida cotidiana. Não


apenas os indivíduos podem dedicar-se a funções sociais cada vez
mais diversificadas, como podem dedicar-se a atividades de lazer
cada vez mais variadas, interagir com grupos diversos e variar sua
rotina em inúmeras direções (o que vestir, como trabalhar, que per­
curso fazer etc.). As reformas religiosas, por seu turno, também ins­
tituem a diversidade da cristandade. Para nada na vida há um único
(ou poucos) caminhos a seguir, muito menos uma única referência
em que apoiar a ação. Os indivíduos, como consequência, podem
(e precisam) dccidir. Tomar decisões torna-se uma parte rotineira
da vida. K os indivíduos devem tomar decisões por si mesmos, pois
não estão disponíveis contextos de suporte social para as tomadas de
decisão. Em parte, esse afrouxamento da determinação dos cursos
de vida e dos comportamentos cotidianos, assim como a experiência
de decidir como prática rotineira, explicam uma autoimagem de au­
tonomia do homem moderno.
Alguns dos aspectos mencionados até aqui serão retomados
adiante, na apreciação das dicotomias psicológicas clássicas. Antes
disso, porém, convém acrescentar algumas observações sobre a di­
versificação das funções sociais nas sociedades de mercado. Elias
(1987/1994) assinala que o processo de difcrcnciação e multipli­
cação das funções sociais tem uma história mais longa (alguns mi­
lênios) do que a transição do feudalismo para o capitalismo, mas
também experimentou uma aceleração única nos últimos séculos:
“O número de atividades especializadas ... elevou-se ao longo dos
milênios, a princípio lentamente, mas agora em ritmo cada ve/ mais
acelerado” (Elias, 1987/1994, p. 113).
Com o processo de diferenciação crescente das funções sociais,
a produção das condiçõcs de sobrevivência dos grupos passou a de­
pender de um número cada vez maior dc atividades ou passos exe­
cutados cada um por apenas alguns indivíduos.
No decorrer do tempo, não apenas multiplicou-se o numero de passos
entre o primeiro e o último nutria sequência de ações, como também
um número crescente de pessoas sc fez necessário para executar esses
passos. li, no decorrer desse processo, mais e mais pessoas viranvse

CAPÍTULO 1 45

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numa crescente dependência umas das outras, interligadas como que


por correntes invisíveis. Cada qual funcionava como um elo de liga­
ção, um especialista em uma tarefa limitada. Cada qual era urdida cm
uma Irama de ações em que um número cada vez maior de funções
especiais, e de pessoas dotadas das capacidades para executá-las, se
interpunha entre o primeiro passo em direção a uma meta social e a
consecução dessa meta. (Elias, 1987/1994, pp. 111-112)
A especialização em uma função particular, cada vez mais dife­
rente de todas as funções desempenhadas pelos outros, torna muito
mais complexa e menos visível a dependência de cada um em re­
lação a todos os outros. De um ponto de vista imediato, o sucesso
do indivíduo no exercício de uma função particular (especialmente
sob a forma de uma contrapartida cm moeda) descola-se do que
acontece com todos os outros que estão próximos, excrccndo ou­
tras funções. Além disso, a função com alto grau de especialização
pode ser desempenhada sem o auxílio imediato dos outros. Essa
especialização accntuada favorece, assim, uma autoimagem de au­
tonomia. Todavia, paradoxalmente, quanto mais cspecíali/ado, mais
dependente o indivíduo se toma dc muitos outros indivíduos, pos­
to que estará menos capacitado para uma parcela muito maior das
atividades necessárias à produção das condiçõcs necessárias à sua
sobrevivência. A complexidade dessas novas relações de interdepen­
dência contribui, porém, para torná-las de mais difícil percepção. A
emergência do indivíduo resulta, assim, não de criações originais de
homens e mulheres particulares, mas dc uma transformação expres­
siva das relações interpessoais.
Os avanços da individualização, como na Renascença, por exemplo,
não foram consequência dc uma súbita mutação de pessoas isoladas,
ou da concepção fortuita de um número especialm ente elevado de
pessoas talentosas; foram eventos sociais, consequência de uma desar­
ticulação de velhos grupos ou de uma mudança na posição social do
artista-artesão, por exemplo. Em suma, foram consequência de uma
reestruturação específica das relações humanas. (Elias, 1987/1994,
pp. 28-29)

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A Emergência do Indivíduo e o Acobertamento


das Relações de Interdependência
Quando dizemos que uma sociedade muda, isso significa que m u­
dam certas práticas sociais em seu interior, assim como rnudam os
sistemas de crenças que justificam ou legitimam essas práticas. A
transição para o capitalismo ilustra de modo singular os dois tipos de
mudanças. Na presente seção, serão assinaladas algumas mudanças
nos sistemas de crenças do mundo ocidental que foram cruciais para
a consolidação de um novo padrão de relacionamento interpessoal e
para o enraizamento da autoimagem de autonomia. Apenas por uma
questão de conveniência, os novos sistemas de crenças serão exem­
plificados com referências pontuais à organização sociopolítica e eco­
nômica, às concepções religiosas, ao pensamento filosófico acerca
do conhecimento humano sobre a realidade e às prescrições para o
comportamento social. Há diversos outros domínios (por exemplo,
o das artes) nos quais vão se elaborando noções que tambem refle­
tem uma concepção dc homem como indivíduo. O que acontecc cm
cada um desses domínios de reflexão influencia e é influenciado pelo
que ocorre nos demais. E a cultura como um todo que sofre transfor­
mações em uma dada direção, impulsionada de modo fundamental
pela mudança na base material da vida.
Com a desagregação da organização social e política feudal, rom­
pidos os laços locais dc obrigações de solidariedades que ligavam os
homens no interior da hierarquia social, ao mesmo tempo em que se
multiplicavam as funções sociais e interesses pessoais, os conflitos
encontrariam terreno fértil para progredir, a ponto de comprometer
a sobrevivência da sociedade como um todo, se no lugar daquelas
tradições e costumes não se estabelecessem outros mecanismos de
ajustamento c regulação das relações sociais. O surgimento e a ex­
pansão dos listados nacionais, com suas leis, com o monopólio da
vioJência física e com o controle da atividade cconômica e da circu­
lação da moeda, cumpririam essa função.
A extensão da intervenção do Estado nas relações interpessoais,
cm particular nas relações econômicas, tornou-se objeto de disputa
permanente enLre classes sociais e entre agentes econômicos, cujos

CAPÍTULO I 47

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interesses conflitantes os mantêm cm também permanente luta (cf.


Hunt & Sherman, 1993). O liberalismo clássico, pelo menos a partir
do século XVIII, com o processo de industrialização, tornou-sc o
pensamento econômico dominante no Ocidente, deixando para trás
a ética paternalista cristã medieval. iNao era possível ao capitalismo
estabelecer-se como modo de produção à luz da condenação religio­
sa à busca e acumulação de riquezas. Ao contrário, as motivações
que impulsionam o homem para o enriquecimento passam a ser vis­
tas como virtudes ncccssárias para o progresso econômico. O poder
regulador das relações entre os homens, o Estado, não mais a Igreja,
deve, no lugar de impor sanções à avareza e ao egoísmo, liberar os
indivíduos para que busquem o sucesso econômico, ocupando-se
de evitar que esse movimento conduza a uma “guerra de todos os
homens contra todos os homens” (Hobbes, 1651/1979, p. 77). O
pensamento de Thomas Hobbes ( I 588-1679), ainda no século XVII,
pode ser considerado fundacional para toda a doutrina liberal.
Em seu Leviatã, Hobbes (1651/1979) argumenta que em seu
estado natural todo homem deseja e busca sua satisfação pessoal,
entrando cm conllilo com outros homens: “se dois homens desejam
a mesma coisa, ao mesmo tempo que é impossível ela ser go/ada
por ambos, eles tornam-se inimigos” (p. 74). A competição, a des­
confiança c a glória constituem as três principais causas dos confli­
tos. “A primeira leva os homens a atacar os outros tendo em vista
o lucro; a segunda, a segurança; a terceira, a reputação’’ (p. 75).
ü conflito entre motivações e interesses pessoais é reconhecido,
assim, como uma condição natural da vida humana. Uma vez que
é da natureza humana buscar a satisfação pessoal, não se justifica
condenar suas motivações ditas egoístas, sua avare/.a, ou busca de
riquezas: “Os desejos e outras paixões do homem não são cm si
mesmos um pecado” (p. 76) —justamente o oposto do que pregava
a ética paternalista cristã medieval.
Para que o capitalismo se estabeleça como sistema cconômico
será necessário apoiar-se em um sistema de crenças que, no lu­
gar de condenar o acúmulo de riquezas pessoais, considere virtuo­

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sas aquelas qualidades humanas antes vistas como pecaminosas.


O individualismo, no modo como se elabora nos discursos sobre
o Estado e a economia, cumprirá parcialmente esse papel. Se na
Idade Média a “ganância, a avareza, o egoísmo, a ânsia dc acumular
riquezas, enfim, todas as motivações materialistas e individualistas
eram severamente condenadas” (Hunt & Sherman, 1993, p. 17),
agora se trata de reconhecer sua legitimidade e mesmo sua neces­
sidade para o desenvolvimento econômico. Em 1776, o individua­
lismo liberal assumiu sua forma definitiva em A riqueza das nações
(A. Smith, 1776/1988), de Adam Smith (1723-1790), para quem as
motivações egoístas também teriam uma função importante para o
desenvolvimento do capitalismo e seriam adequadamente reguladas
pela força oculta de um mercado livre (a “mão invisível” do mer­
cado). Antes disso, um dos “país da América”, Bcnjamin Frankiin
(1706-1790), já prescrevia que “tempo é dinheiro”, “crédito é di­
nheiro”, “o dinheiro pode gerar dinheiro” e “o bom pagador é dono
da bolsa alheia” (Frankiin, 1736, cm Webcr, 1904-1905/2003). Max
Weber (1 864-1920), em A ética protestante e o espírito do capitalis­
mo (Weber, 1904-1905/2003), remete-se aos escritos de Franldin
como ilustrações puras do espírito do capitalismo;
A peculiaridade dessa filosofia da avareza parece ser o ideal dos ho­
mens honestos, de crédito reconhecido e, acima dc tudo, a ideia dc
dever que o indivíduo tem no sentido de aumentar o próprio capital,
assumido com o um fim em si mesmo. I)e fato, o que nos é aqui pre­
gado nau é apenas um meio dc fazer a própria vida, mas uma ctica
peculiar. A infração de suas regras não é tratada como uma tolice, mas
como um esquecim ento do dever. Essa é a essência do exposto. Não
sc traia dc rncra astúcia dc negócios, o que seria algo comum, mas de
um ethos. E essa é a qualidade que nos interessa, (p. 48)
Hobbes não via, como A. Smith (1776/1988), “virtudes” do merca­
do que seriam suficientes para regular a vida econômica na socieda­
de. Para ele, se em seu estado natural os homens, governados apenas
por suas paixões e sua ra/ão, travarão uma guerra de todos contra

c a p It u l o 1 49
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todos, em que a sobrevivência ou a segurança não estarão garantidas


para ninguem , uma outra solução para a paz precisa ser encontrada.
Como única saída, o homem deve renunciar, em favor dc uma fon­
te absoluta de poder comum, o Estado, a seu direito natural sobre
todas as coisas8. Trata-se, assim, de uma lei da natureza pela qual a
renúncia à liberdade plena é necessária como a única medida capaz
de restaurar a paz entre os homens:
Que um homem concorde quando outros também o façam9, e na medida
em que tal considere necessário para a paz e para a defesa de si mesmo, em
renunciar a seu direito a todas as coisas, contentando-se, em relação aos
outros homens, com a mesma liherdade que aos outros homens permite em
relação a si mesmo. (Hobbes, 1651/1979, p. 79, itálico do original)
Se o individualismo necessário ao desenvolvimento do capitalis­
mo conflíta com as prescrições do cristianismo medieval, uma outra
referência religiosa será ncccssária como suporte ético para as novas
relações econômicas (cf. Weber, 1904-1905/2003). Com efeito, a
multiplicação de perspectivas, típica do renascentismo, encontra
uma das mais importantes expressões justamente no campo reli­
gioso, com a Reforma protestante e a Contra-Reforma católica. Em

7 Hobbes (1651/1979) provoca <> interlocutor que tende a reagira sua caracteri­
zação do homem: “Que opinião tem ele de seus compatriotas, ao viajar armado;
dc seus concidadãos, ao fechar suas portas; e de seus filhos e servidores, quando
tranca seus cofres?" (p. 76).
8 Desse ponto de vista, há um conflito entre a visão de 1lobbes (favorável a um
listado forte e centralizado) e o liberalismo clássico (que embora fundamen­
tado na mesma concepção de homem postula menor intervenção do EsLado
nas relações económicas). Para A. Smith (1776/1988), as funções dos governos
estariam circunscritas a proteger o país contra invasões, proteger os cidadãos
contra injustiças praticadas por outros cidadãos e construir e manter instituições
públicas (importantes para a sociedade, mas que não seriam construídas por
indivíduos particulares porque não atenderiam à lógica do lucro) (cf. HunL &
Sherman, 1993, p. 66).
9 Note-se que, para Hobbes (1651/1979), apenas quando outros também abrem
mão de seus direitos naturais a renúncia do indivíduo e justificada. Caso contrário,
“equivaleria a oferecer-se como presa ... e não a dispor-se para a paz” (p. 79).

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ambos os casos, o outro se torna acessório, ainda t|ue subsistam as


cerimônias e práticas coletivas, no que há de mais fundamental para
a asccsc espiritual, visto que é no indivíduo que se realizam as con­
dições de salvação. Ainda no final da Idade Média,
no mesmo momento, enquanto a vida penetra o rosto das estátuas-
colunas, toma corpo, entre os sábios que meditam sobre o texto da
Kscritura, a ideia perturbadora dc que a salvação não c alcançada
apenas pela participação cm ritos, numa passividade submissa, mas se
“ganha" por uma transformação de si mesmo. E um convite à intros­
pecção, à exploração da própria consciência, pois que a falta já não
parece residir no ato, mas na intenção, pois se considera que ela se
refugia na intimidade da alma. Para o interior do ser, em um espaço
privado que não tem mais nada de comunitário, transportam-se os
procedimentos de regulação moral. Lava-se a mácula pela contrição,
pelo desejo sobretudo de se renovar. (Duby, 1990, pp. 506-507)
Na Idade Média, já se encontrava um padrão de comportamen­
to religioso baseado no isolamento, no retiro, na busca interior da
afirmação da lé. lodavia, esse não era o comportamento esperado
do homem comum que, ao contrário, deveria evitar o isolamento
(visto que afastado dos outros homens tornava-mc mais vulnerável
às tentações do mal) e voltar-se para as cerimônias e rituais públicos,
nos quais suas práticas religiosas estavam à vista de todos. Mesmo a
confissão, a princípio um ato “excepcional e público” (Duby, 1990,
p. 524), só se instituiu como uma obrigação sob a forma de um ato
“discreto, periódico e obrigatório’' (Duby, p. 525) no IV Concílio de
Latrão, em 1215. O padrão de comportamento baseado no isola­
mento e na introspecção referido acima estava reservado ao clero e,
mesmo nesse grupo, àqueles poucos que já haviam alcançado um
estágio superior de afirmação da fé.
O anacoretismo, assim como inúmeros cuidados no interior dos
mosteiros para limitar a comunicação ou o contato dos religiosos
uns com os outros, representava a tentativa do homem de Deus para
alcançar aquele estágio superior de devoção. A Regra de São Bento
(480-547) estabelecia o grau superior de perfeição a ser buscado
pelo crente em Deus:

CAPÍTULO 1 51

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Quem se afasta do mundo transforma sua vida num jogo de azar. Pude
ganhar ou perder tudo. Acabaram-se os meios-termos da vida comum.
Será Deus ou o Diabo; antes da contemplação, a tentação. O exem­
plo evangélico desses retiros é, com efeito, fornecido pelo episódio
da Tentação no deserto ... Bento, em sua Regra, define as condições
que os eremitas devem preencher: “Os que já não têm na vida regular
um fervor de noviço e que, por um exercício prolongado no mosteiro,
aprenderam a lutar contra o Demônio c se fizeram aguerridos graças
ao apoio de seus irmãos. Então, bem exercitados, passam do batalhão
fraternal ao combate singular do deserto. Sólidos agora sem o apoio
de outros, bastam-se a si m esm os para combalcr, com a ajuda de
Deus, unicamente com sua mão c seu braço, os vícios da carne e dos
pensam entos”. (Dalarun, 1990, p. 27)
Ao mesmo tempo em que a Regra definia aquela perfeição acessível
apenas pelo respeito à 'obrigação do silcncio, cxperiência de retiro”
(Duby, 1990, p. 508), também insistia no despreparo do homem co­
mum para aquela provação: “Nosso Senhor Jesus Cristo advertiu seus
discípulos que ainda não têm a confirmação do Espírito Santo nem o
treinamento do combatc espiritual dizendo: ‘Quanto a vós, permane­
cei na cidadc até receberdes a virtude do alto ” (Chartres, em Dalarun,
1990, p. 28). Ainda: “O ditado popular resume rudemente essas belas
palavras: 'Para eremita jovem, diabo velho’” (Dalarun, 1990, p. 28),
O que cra reservado, no mundo medieval, àquela parcela do clcro
disposta a cumprir o estágio mais elevado dc perfeição espiritual,
penetra, com a Reforma protestante e a Contra-Heforma católica, no
cotidiano do homem comum. Se, antes, chegar a Deus era matéria
de uma dimensão da existência na qual havia sempre o outro, seja
por meio de práticas com os outros (a participação nas cerimônias),
para os outros (a caridade) ou pelos outros (as rezas nos mosteiros,
como as boas ações dos monarcas alcançavam graças para o povo
- cf. Duby, 1990), agora, encontra-se Deus no próprio íntimo - e
apenas se houver a necessária disciplina para desligar-se do mundo
físico e social externo.
As novas formas de religião que se estabelecem nos séculos XVI c
XVII ... desenvolvem uma devoção interior —sem excluir, muito pelo

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contrário, outras formas coletivas de. vida paroquial —, o exame de


consciência, sob a forma católica da confissão ou a puritana do diário
íntimo. Entre os laicos, a oração cada vez mais assume a forma da
meditação solitária num oratório privado ou simplesmente num canto
do quarto, num móvel adaptado para esse fim, o genuflexório. (Ariès,
1991, p. 10)

Weber (1904-1905/2003) observou tanto que o protestantismo


tornou o ascetismo medieval uma atividade terrena, quanto a função
que isso teve para instituir uma cultura propícia ao desenvolvimento
do capitalismo moderno. A disciplina, a moderação no consumo e
a valorização do trabalho constituíam a base da acumulação capita­
lista: “Um dos elementos fundamentais do espírito do capitalismo
moderno, e não só dele, mas de toda a cultura moderna, é a conduta
racional baseada na ideia de vocação, nascida ... do espírito do as­
cetismo cristão” (Weber, p. 134). Hunt e Sherman (1993) também
assinalam que, para a doutrina do protestantismo, “radicalmente
diferente das doutrinas medievais, a melhor forma dc o indivíduo
satisfazer a Deus era exercer com zelo sua missão na terra. A dili­
gência e a dedicação ao trabalho passaram a ser consideradas como
grandes virtudes” (p. 49). Para a ética protestante, esse novo pa­
drão de comportamento, que possibilitava a acumulação individual
de riquezas, não apenas estava justificado aos olhos de Deus como
realizava Seu desejo. Bastava ao indivíduo encontrar dentro de si a
motivação divina: “O princípio básico do protestantismo, o funda­
mento das concepções religiosas que viriam a santificar as práticas
econômicas da elasse média, cra a doutrina dc que os homens sc
justificam não mais pelas obras e sim pela fé” (Hunt & Sherman, p.
48). Nesse caso, no lugar de prestar contas perante a Igreja católica
e suas restrições éticas (e no lugar de comprar cartas de indulgên­
cia), bastaria ao homem comum certificar-se de que a fé era o motor
das práticas que possibilitavam a acumulação.
Todo homem devia escutar o que lhe di/ia o coração para saber se
seus atos eram motivados por intenções puras c pela fc cm Deus. O
homem era o juiz de si próprio. A confiança que essa doutrina indivi­
dualista depositava na consciência pessoal de cada indivíduo desper-

CAPÍTULO 1 53

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tou profundo interesse na nova classe média dos artesãos e pequenos


negociantes. (Hunl & Sherman, 1993, p. 49)
Assim, o individualismo que floresceu no seio do protestantismo
tanto libertou a emergente burguesia das obrigações com a institui­
ção da Igreja católica, tornando direta a relação dc cada um com
Deus, como promoveu a justificação ética para suas práticas eco­
nômicas: *'o protestantismo ... converteu em virtudes as motivações
interesseiras c egoístas, estigmatizadas pela Igreja medieval" (Hunt
& Sherman, 1993, p. 48).
É importante salientar que a penetração da doutrina protestante
no mundo capitalista moderno é tão expressiva que alcança mes­
mo aqueles (a elasse trabalhadora) que teriam motivação política
para combatê-la. O trabalho como valor supremo, contrariando as
Escrituras, de acordo com as quais foi imposto como castigo ao ho­
mem pccador, avança sobre as relações econômicas de modo absolu­
to. A esse respeito, Paul Lafargue, um militante comunista, publicou,
em 1880, um panfleto intitulado O direito à preguiça (Lafargue,
1880/1999)10, no qual faz uma crítica contundente a essa Lradição:
Uma estranha loucura apossa-se das classes operárias das nações onde
impera a civilização capitalista. Esta loucura tem como consequência
as misérias individuais e sociais que, há dois séculos, torturam a triste
humanidade. Kssa loucura é o amor pelo trabalho, a paixão moribunda
pelo trabalho, levada até o esgotamento das forças vitais do indivíduo
e sua prole. Em vez de reagir contra essa aberração mental, os padres,
economistas, moralistas sacrossantiHcaram o trabalho. Pessoas cegas
e limitadas quiseram ser mais sábias que seu próprio Deus; pessoas
Iracas e desprezíveis quiseram reabilitar aquilo que seu próprio Deus
havia amaldiçoado. Eu, que não sou cristão, ecónom o ou moralista,
no lugar do juízo que proferiram invoco o juízo do Deus delas; no lu­
gar das pregações de sua moral religiosa, econômica, livre-pensadora,

10 Segundo Chaui (1999), "O direito à preguiça teve um sucesso setn preceden­
tes, comparável apenas ao Manifesto comunista, tendo sido traduzido para o russo
antes mesmo deste último" {p. 16).

54 SU8JETIVIDADE E RELAÇÕES COMPORTAMENTA15

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invoco as terríveis consequências do trabalho na sociedade capitalista.


(Lafargue, 1880/1999, pp. 63-64)
ü s filantropos proclamavam benfeitores da humanidade aqueles que,
enriquecendo-se sem nada fazer, davam trabalho aos pobres; era me­
lhor semear a peste e envenenar as fontes do que erigir uma fábrica
no meio dc uma população rústica. Introduza-se aí o trabalho nas
fábricas e adeus alegria, saúde, liberdade: adeus a tudo aquilo que faz
a vida bela e digna de ser vivida. (Lafargue, p. 77)
Reagindo ao avanço do protestantismo, igualmente na Contra-
Reforma da Igreja católica serão encontrados os sinais do indivi­
dualismo nascente, especialmente sob a forma de doutrinas de acor­
do com as quais também o homem comum deve buscar Deus no seu
íntimo. Embora a Contra-Reforma da Igreja católica tenha reiterado
vários dos dogmas em que se apoiava desde o período feudal, o isola­
mento, a introspecção e a oração silenciosa avançaram no cotidiano
de homens e mulheres como o caminho para a afirmação de sua fé.
Dalarun (1990) assinala que “o ideal eremítico, nunca extinto, revigo­
rou-se no limiar do ano 1000’' (p. 25). Bem mais tarde, a clausura, o
autoflagelo e a exposição do corpo a condições físicas adversas, como
forma dc adestrar a alma para o desligamento do mundo material,
tornam-se cada vez mais difundidos entre as ordens religiosas e entre
os homens comuns. Apesar do fato de subsistirem (tanto no catoli­
cismo como no protestantismo —cf. Lcbrun, 1991) c cxpandircm-sc,
as práticas coletivas agora parecem cumprir uma outra função. INão
são mais suficientes para alcançar a salvação, como na Idade Média,
quando chegar a Deus dependia dc práticas que não podiam pres­
cindir do outro. Diferente disso, chega-se a Deus (também) pelo que
ocorre no íntimo, na alma; a participação nas cerimônias e demais
rotinas coletivas da paróquia parece estar mais associada a dimensões
sociais dos vínculos com a Igreja. O forte controle social exercido
pela Igreja católica na Idade Média não dará lugar a uma liberação
das obrigações dos fiéis para com a instituição da Igreja (inclusive por
isso, a confissão torna-se obrigatória no século XIII). Mas a difusão
da devoção interior, favorecida também pela popularização da leitura,
definitivamente muda os modos como os indivíduos católicos passam

CAPÍTULO 1 55
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a compreender as possibilidades dc realização no plano espiritual11.


E a própria Inquisição terá de rever sua postura diante das heresias
relacionadas às formas de devoção e submissão à igreja, no que con­
siste em aspecto importante da Conlra-Relorma religiosa.
O enfraquecimento político da Igreja católica, assim como o de­
senvolvimento inicial da astronomia, especialmente com o trabalho
de Galileu Galílei (1564-1642), que conferia um caráter científico a
cursos de investigação que há muito já colocava sob suspeita a dou­
trina religiosa sobre o cosmo, de inspiração aristotélica (cf. Koyré,
1986), desembocaram, a partir da Renascença, na restauração do de­
bate filosófico laico sobre os temas humanos, Uma expressão inicial
dessa mudança é encontrada no ceticismo do século XVI, de acordo
com o qual, em face da falência dos sistemas de pensamento medie­
vais, era nccessário reconhecer a impossibilidade dc o homem chegar
a verdades definitivas acerca da realidade (ainda que, para alguns, o
homem cético devesse se conlormar com a autoridade religiosa).
Embora nessa época o individualismo epistcmológico ainda não
estivesse estabelecido, já ali temas individualistas invadiam o pen­
samento filosófico. Michel de Montaigne (1533-1592), um típico
espírito da Renascença e representante mais destacado do ceticismo
do século XVI, provê em seus Ensaios (Montaige, 1588/2000) pas­
sagens muito ilustrativas da ideia de dissociação c inevitável conflito
entre os interesses de indivíduos particulares. Sob o título O lucro
de um é prejuízo do outro, afirma:
O ateniense Dêmades condenou um homem de sua cidade que tinha
por ofício vender as coisas necessárias para os enterros, sob a alegação
de que exigia um lucro excessivo e esse lucro não lhe podia vir sem
a morte de muitas pessoas. Tal julgamento parece estar mal pronun­
ciado, na medida cm que não se obtém benefício algum a não ser com
'prejuízo dc outrem, e que dessa maneira seria preciso condenar toda
espécie de ganho.

11 Ver, a propósito, a discussão que Figueiredo (1992) oferece da vida e das


concepções religiosas de Santa Teresa de Ávila (1515-1 5B2).

56 SUBJETIVIDADE E RELAÇÕES COMPORTAMENTAIS

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() mercador só faz bem seus negócios por causa da devassidão dos


jovens; o lavrador, pela carestia dos cercais; o arquiteto, pela ruína
das casas; os oficiais de justiça, pelos processos c contendas dos ho­
mens; mesmo as honras e atividades dos ministros da religião provem
de nossa morte e de nossos vícios. N enhum m édico se alegra com
a saúde m esm o de seus amigos, diz o antigo côm ico grego, nem o
soldado com a paz de sua cidade; e assim sucessivamente. E o que é
pior: cada um sonde dentro de si mesmo, e descobrirá que a maioria
de nossos desejos íntim os nascem e se alimentam às expensas de
outrem, (pp. 159-160)
E na reação ao ceticismo, porém, que no pensamento filosófico
o indivíduo torna-se sujeito do conhecimento. No século XVII, tan­
to o empirismo de Bacon (1561-1626) quanto o racionalismo de
Descartes (1596-1650) ocupar-sc-ão da tarefa de estabelecer o cami­
nho (científico) para um conhecimento seguro e verdadeiro, ao mes­
mo tempo em que útil para submeter a realidade às ncccssidades e
aos interesses humanos (no que sc articulam com as transformações
econômicas dc seu tempo). Seja recorrendo à experiência sensível
sistemática e disciplinada (na versão empirista), ou ao uso metódico
e regrado da razão (na vertente racionalista), o pensamento filosófico
do século XVII trará para o plano do homem singular as condições
para sua realização no domínio cognitivo da vida. O conhecimento
seguro ou verdadeiro não será mais uma matéria de revelação divina,
como na filosofia cristã medieval, mas também não será recolocado
no domínio das relações dos homens e mulheres uns com os outros.
O homem que é autônomo para chegar a Deus ou satisfazer suas
necessidades materiais é também aulossuficientemente dotado das
faculdades ou condições necessárias para chcgar à verdade. Ü deba­
te filosófico estará centrado na natureza dessas condições pessoais,
mas não no questionamento da autonomia individual.
A imagem do indivíduo com o ser inteiramente livre, independente,
uma personalidade “fechada” que é “por dentro" inteiramente autos-
suficiente e separada de todos os demais, tem por trás de si uma longa
tradição no desenvolvimento das sociedades europeias. Na filosofia
clássica, essa figura entra em cena como sujeito epistemológico. Neste

CAPÍTULO 1 57

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papel, como homo -philosophicus, o indivíduo obtém o conhecimento


do mundo “externo” de uma forma inteiramente autônoma. iNão pre­
cisa aprender, receber seus conhecim entos de outros. ... A questão
para os filósofos consiste meramente em saber se [o indivíduo] obtém
esses conhecim entos de conexões causais aqui e agora, na base da
sua experiência — se, em outras palavras, essas conexões são uma
propriedade de fatos observáveis “fora dele’7- ou se são alguma coisa
radicada na natureza da razão humana e acrescentada “de dentro’’ do
ser humano ao que nele entra vindo de “fora” através dos órgãos dos
sentidos. (Elias, 1939/1990b, p. 237)
O individualismo epistemológico do século XVII será retomado na
seção seguinte, ao discutirmos a dicotomia objetivo-subjetivo. Ele
representa a incidência, no plano filosófico, de uma concepção de
homem que no século XVII já se encontrava enraizada nas práticas
e nos valores do mundo ocidcntal, sintetizada no conceito de indi­
víduo. Assim, o conceito de sujeito é a contrapartida epistemológica
do conceito de indivíduo. Se falar cm indivíduo significa pensar o
homem à parte de suas relações com outros homens, subm eten­
do as últimas a seus interesses pessoais, falar em sujeito significará
pensar o homem à parle dos outros na sua tentativa de represen­
tar a realidade e à parte da realidade ela mesma, o homem capaz
de distanciar-se intelectualmente da realidade e submetê-la a suas
faculdades cognoscitivas e a seus interesses práticos. Assim, onde
for possível questionar a autossuficiência do indivíduo, será possível
também questionar a autonomia do sujeito, daí Figueiredo (1991)
referir-se à “emergência e ruína do indivíduo” e à “emergência c ruí­
na do sujeito”.
Como último aspecto a ser considerado nesta seção, serão abor­
dados os modos como os homens, a partir da Renascença, passam
a se ocupar do comportamento social, a refletir e elaborar códigos
de conduta cada vez mais refinados, a serem observados quando na
presença dos outros.
Em todas as sociedades o comportamento social é objeto de aten­
ção e prescrições. E variável, porém, a extensão com que esse tipo
de comportamento é regulado, assim como o tipo de exigência que

58 SUBJETIVIDADE E RELAÇÕES COMPORTAMENTAIS

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passa a atender. Na Idade Média, grande parte do comportamento


social obedecia a prescrições de ordem religiosa. Essas prescrições,
porem, frequentemente se ocupavam mais de dimensões éLicas c
morais das relações interpessoais. No cotidiano da vida doméstica,
costumes muito simples prevaleciam. Provérbios curtos e simples,
impessoais e transmitidos oralmente, informavam sobre o compor­
tamento requerido, por exemplo, à mesa, principal circunstância de
convívio social12. As prescrições desse período são menos numerosas
c marcadas pela “simplicidade ou ingenuidade” (Elias, 1939/1990b,
p. 76). Muitas vezes descrevem o padrão de comportamento da no­
breza, ainda assim um padrão no qual “são menos restringidos os
impulsos ou inclinações" (Elias, p. 77), exemplo do que acontece em
“sociedades cm que as emoções são manifestadas mais violenta c di­
retamente" (Elias, p. 76). Constituem exemplos dessas prescrições:
Algumas pessoas mordem o pão e, em seguida, grosseiramente, mer-
gulham -no na travessa. Pessoas refinadas rejeitam essas maneiras
rudes ...
Muitas pessoas roem urn osso e, depois, recolocam-no na travessa —e
isto é uma falta grave ...
O homem que limpa, pigarreando, a garganta quando com e e o que
se assoa na toalha da mesa são ambos mal-educados, isto te garanto.
(Klias, 1939/1990b, p. 77)
O processo de mudança desses hábitos é abordado por Elias
(1939/1990b) como o processo civilizador, um processo de refina­
mento gradual dos costumes e comportamentos sociais em direção a
um maior controle sobre as inclinações ou impulsos pessoais. Ainda
que se trate de um processo que vem dc longa data, “as proibições da
sociedade medieval, mesmo nas cortes feudais, ainda não impõem

12 Sobre o convívio à mesa na Idade Média, Llias (1939/1990b) assinala que


“comer e beber nessa época ocupavam uma posição rnuito mais central na vida
social do que hoje, quando propiciavam —com frequcncia, embora nem sempre
- o meio e a introdução às' conversas e ao convívio” (p. 74).

CAPÍTULO 1 59

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quaisquer grandes restrições ao jogo de emoções. Comparando com


eras posteriores, o controle social é suave” (Elias, p. 1 15). Ainda
sobre a Idade Media:
as pessoas que comiam juntas na maneira costumeira na Idade Média,
pegando a carnc com os dedos na mesma travessa, bebendo o vinho
no mesmo cálice, tomando a sopa na mesma sopeira ou prato fundo
... essas pessoas tinham entre si relações diferentes das que hoje vive­
mos ... Suas em oções eram condicionadas a formas de relações c con­
duta que, em comparação com os atuais padrões de condicionamento,
parecem-nos embaraçosas ou pelo menos sem atrativos. O que faltava
nesse mundo courtois, ou no mínimo não havia sido desenvolvido no
m esm o grau, era a parede invisível das em oções que parece hoje se
erguer entre um corpo humano e outro, repelindo c separando. (Elias,
1939/1990b, p. 82)
Constitui evidência de mudanças acentuadas nesse domínío da
vida cotidiana no Ocidente uma nova modalidade de literatura, que
a partir do século XVI se difunde intensamente: os tratados de civili­
dade. Segundo Elias {1939/1990b), a obra inaugural dessa literaLura
foi um tratado de civilidade (De Civilitate Morum Puerilium) publi­
cado por Erasmo dc Roterdã (1469-1536) cm 1530'\ Seguiram-sc
a esse texto inúmeros outros tratados de civilidade que atestam a
centralidade que o problema do comportamento social foi adquirin­
do para a vida cotidiana c a direção das mudanças nos hábitos. Os
tratados constituem obras individuais, trazem prescrições cada vez
mais numerosas, descrevem a criação dos utensílios para a indivi­
dualização do comportamento à mesa, revelam o cuidado cada vez
maior com o controle das emoções e a ocultação das funções corpo­
rais. Constituem precursores dos modernos manuais de etiqueta e
possibilitam a reconstituição do longo processo de refinamento de

13 Ainda de acordo com Elias (1939/1990b), o Tratado de Erasmo foi mais po­
pular do que seu Elogio à loucura. O Tratado “teve imediatamente uma imensa
circulação, passando por sucessivas edições. Ainda durante a vida de Erasmo ...
teve mais de 30 reedições. No conjunto, houve mais de 130 edições” (p. 68).

60 SUBJETIVIDADE E RELAÇÕES C0MP0RTAMENTAIS

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hábitos tão simples como assoar o nariz ou usar o garfo. A referên­


cia original para esses hábitos era o comportamento na corte, onde
os códigos de conduta tinham funções específicas, frequentem ente
relacionadas à observância de uma ordem hierárquica.
Com o advento de uma nova classe social, a burguesia, que detém
poder econômico, mas não o siatus social da nobreza ou o poder polí­
tico desta e do clcro, os hábitos da corte não apenas começam a scr
reproduzidos pela classe burguesa, como daí se estendem a outros
estratos sociais e passam em todas as classes por aquele processo
de refinam ento14. Segundo Elias (1939/1990b), “a burguesia é7 por
assim dizer, acortesada’ e, a aristocracia, aburguesada’, ou, para ser
mais preciso, a burguesia é influenciada pelo com portam ento da
corte e vice-versa” (p. 118). O refinamento revelado nos tratados de
civilidade alcança o próprio discurso sobre os hábitos e costumes.
Não apenas as funções corporais devem scr controladas quando em
frente aos outros, como também falar sobre isso precisa ser evitado,
para evitar embaraço ou constrangimento.
A adoção de utensílios e o ritual de cuidados com as funções
corporais tendem a sugerir ao homem do século XX que um refina­
m ento nos hábitos foi motivado por questões dc higiene, ou uma
preocupação com a saúde (individual ou pública). Embora algumas
prescrições se prestem a esse tipo de interpretação, um exame aten­
to de qualquer manual contem porâneo de etiqueta revelará uma
diversidade de prescrições que não apenas não encontram suporte
nesse tipo de apelo como, muito frequentem ente, conflitam com

14 “Há um círculo na corte mais ou menos limitado que inicialmente cria os


modelos apenas para atender às necessidades de sua própria situação social e
em conformidade com a condição psicológica correspondente à mesma. Mas
é evidente que a estrutura e o desenvolvimento da sociedade francesa como
um todo fazem com que estratos cada vez mais amplos se mostrem desejosos,
e mesmo sequiosos, de adotar os modelos desenvolvidos em uma classe mais
alta: eles se difundem, também com grande lentidão, por toda a sociedade, e
certamente não sem passarem nesse processo por algumas modificações” (Elias,
1939.'1990b, p. 116).

CAPÍTULO 1 61
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recomendações mais saudáveis1-. Já no scculo XVII, tratados de ci­


vilidade recomcndavam reter gases intestinais ou suportar alimentos
excessivamente quentes colocados na boca inadvertidamente, libe­
rando os indivíduos das prescrições apenas em casos cxccpcionais
ou quando estivessem sós (cf. Elias, 1939/1990b). Prescrições como
não se servir da melhor parte de um prato, ou não mencionar as par­
tes do corpo justificam-se nào por qualquer noção de higiene, mas
pela exigência dc um controle cada ve/ maior sobre as emoções e
uma restrição cada vez maior à espontaneidade da ação: “a m udan­
ça do comportamento à mesa é parte dc uma transformação muito
extensa por que passam os sentimentos e atitudes humanas” (Elias,
1939/1990b, p. 124).
Elias (1939/1990b, 1994) desenvolve uma interpretação do pro­
cesso de m udança civilizadora de acordo com a qual a complexi-
ficação da vida social em sociedades em que o Estado assum e a
mediação dos conflitos e a função de proteção é acompanhada de
exigências cada vez maiores na direção da observação do próprio
com portam ento e controle da impulsividade. O refinamento dos
hábitos tem, assim, mais a lunção de coordenação dos com porta­
m entos dos indivíduos uns pelos outros. O autocontrole torna-se
cada vez mais um requisito para movimentar-se (e realizar-se) na
complexa rede de relações que define essas sociedades mais “civi­
lizadas”. A extensão das prescrições para o comportam ento social
corresponde à extensão com que os com portam entos de cada um
precisam tornar-se previsíveis para os demais, isto é, acompanham
o grau de exigência dc coordenação do comportamento do indivíduo
pelo comportamcnLo dos outros. Para o indivíduo submetido a tais

15 Elias (1939/1 990b) também comenta esse aspecto: “[O espectador do século
XX] acha, talvt.'/., que a eliminação do hábito de ‘comer com as maos’, a adoção
do garfo, as louças e talheres individuais, e todos os demais rituais de seu pró­
prio padrão podem ser explicados por 'razões higiênicas’. Isto porque é esta a
maneira corno ele mesmo explica, de modo geral, esses costumes. Mas o fato 6
que, em data tão recente como a segunda metade do século XVill, praticamente
nada desse tipo condicionava o maior controle que as pessoas impunham a si
mesmas” (p. 122).

62 SUBJETIVIDADE E RELAÇÕES COM PORTA MENTA 15

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mecanismos de controle social, porém, os códigos dc conduta po­


dem ser assimilados simplesmente como descrições de padrões de
comportamento que funcionam para promover sua adaptação c su­
cesso social. Podem, inclusive, parecer o que lhe confere autonomia
perante os outros, ainda que por vezes sejam vistos como aquilo que
contraria sua “natureza" íntima.

Dimensões do Indivíduo e as
Dicotomias Psicológicas Clássicas
As seções anteriores sumarixam algumas informações relevantes
para uma compreensão da emergência c da centralidade da noção
de indivíduo, como autoímagcm do homem no Ocidente moderno.
A medida que essa autoimagem vai se estabelecendo, torna-se mais
provável que certos fenômenos humanos sejam vistos como ocorrên­
cias pessoais ou internas, ou explicados peia referência a ocorrências
desse tipo. Paulatinamente torna-se mais difícil compreender certas
dimensões da vida do homem como relações com o mundo, com a
natureza e com outros homens. E apenas à luz dessas transformações
que se instituem as categorias dc privado, subjetivo, interno e mental
na análise dos fenômenos humanos, dando origem à disciplina psico­
lógica (inicialmente, uma disciplina reflexiva sobre essas questões).
Nos parágrafos seguintes, as dicotomias psicológicas clássicas
(piíblico-privado, objetivo-subjetivo, interno-externo, lísico-mental)
serão abordadas de uma ótica particular, que tem por objetivo desta­
car como funcionam para deslocar a análise dos problemas humanos
de uma dimensão relacional para dimensões pessoais, individuais,
isto é, como funcionam para reproduzir concepções e valores dc uma
cultura individualista. É importante esclarecer que ao fazer esse exa­
me crítico não sc está ignorando que ocorrências pessoais são cons­
titutivas dos fenômenos de que a Psicologia se ocupa, mas apenas se
estará questionando a suficiência da referência a ocorrências do ou
no homem na abordagem daqueles fenômenos, ou a sua assimila­
ção como objeto de estudo. Para além disso, a análise complementa
as observações anteriores enquanto referência do caráter histórico-
cultural da experiência moderna dc individualidade.

CAPÍTULO 1 63

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O público e o privado
A existência de uma esfera da vida à parte do universo social no
qual o homem produz cotidianam ente sua sobrevivência constitui
uma invenção datada no mundo ocidental. Mais especificamente, a
separação nítida entre vida pública e vida privada institui-sc com
a dissolução do modo dc vida feudal e o advento de uma sociedade
dc mercado. Duby (1990) faz referência ao “advento do indivíduo”
ao abordar temas como a solidão e o anacorctismo na Baixa Idade
Média. Como já assinalado neste capítulo, até bastante tardiamente
na Idade Média as condições para o isolamento pessoal eram muito
limitadas e o desejo de estar só visto com desconfiança (quando
manifestado pelo homem comum, era um sinal de loucura, que jus-
tificava inclusive despojar o homem de seus pertences - cf. Duby).
O isolamento físico encontrava dois tipos de “barreira . De um
lado, a exposição da vida individual, representada pelo comparti­
lhamento de todo espaço doméstico c pela imposição da presença
do(s) outro(s). Na moradia, ou nos espaços de trabalho, lazer e reza,
a arquitetura prevê sempre o deslocamento em grupos. Apenas no
final da Idade Média a casa sofre processo acelerado de transforma­
ção, com a separação e especialização dos cômodos e a criação de
espaços de comunicação (corrcdor, hall etc.) (cf. Ariès, 1991). De
outro lado, as práticas c os valores sociais, que condicionavam a
satisfação pessoal e mesmo o reconhecimento social a condições dc
compartilhamento da vida cotidiana com o círculo social imediato. O
isolamento não é possível, mas também não faz sentido no contexto
de vida do homem comum no mundo feudal.
A separação possível entre privado e público na sociedade feudal
correspondia à distinção entre o espaço físico e social das grandes
famílias unidas pela terra (no que o privado era simplesmente um pú­
blico mais restrito) e o espaço físico e social para além desse universo
(d. Duby, 1990). “E se vida privada significava segredo, esse segredo,
necessariamente partilhado por todos os membros da família ampla,
era frágil, logo descoberto; se vida privada significa independência,
também essa independência era coletiva” (Duby, 1990, p. 504).
Os rituais ou práticas religiosas, como já assinalado, também não
previam, pelo menos para o homem comum (e mesmo para novi­

64 SUBJETIVIDADE E RELAÇÕES COM PORTA MENTA IS

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ços), o isolamento. Eram necessariamente realizados com os outros,


abertamente. O lazer era praticado na forma de jogos dos quais par­
ticipavam homens e mulheres, adultos e crianças. As leituras eram
coletivas e os próprios autores escreviam esperando que seus textos
lossem ouvidos, não lidos silenciosamente;
Até boa parte da Idade Media, os escritores supunham que seus lei­
tores iriam escutar, cm vez de simplesmente ver o texto, tal como eles
pronunciavam em voz alta as palavras à medida que as compunham.
Uma vez que, em termos comparativos, poucas pessoas sabiam ler,
as leituras públicas eram comuns e os textos medievais repetida­
mente apelavam à audiência para que “prestasse ouvidos à história”.
(Manguei, 1997, pp. 63-64)16
Segundo Ariès (1991), no final da Idade Média o homem encon­
trava-se “enquadrado em solidariedades coletivas, feudais e com u­
nitárias” (p. 7), “há confusão entre privado e público” (p. 7), o que
significa que “muitos atos da vida cotidiana ... se realizam c ainda por
muito tempo se realizarão em público” (p. 7). Três fatos, porém, alte­
ram substancialmente essa realidade. Primeiro, a formação e a ação
dos Estados nacionais, interferindo nos processos sociais, assumindo
funções antes desempenhadas pelos grupos ou comunidades locais.
Segundo, o desenvolvimento da alfabetização e a difusão da leitura
silenciosa, ainda que “o uso mais difundido da leitura silenciosa não
[tenha eliminadol a leitura em voz alta, que durante muito tempo
havia sido a única forma de ler” (Ariès, p. lü). Terceiro, as novas
formas de religião introduzidas pela Reforma e pela Contra-Reforma.
O que todos esses fatos promovem é um afrouxamento dos vínculos
com os grupos sociais (familiares, comunitários, religiosos) aos quais
homens e mulheres estavam mais fortemente ligados. No lugar dc

16 Segundo Manguei (1997), ‘as palavras escritas, desde os tempos das primei­
ras tabuletas sumérias, destinavam-se a ser pronunciadas etn voz. alta, uma vez
que os signos traziam implícito, como se fosse sua alma, um som particular” (p.
61). Também de acordo com Manguei, “ainda que se possam encontrar exem­
plos anteriores de leitura silenciosa, foi somente no século X que esse modo de
ler se tornou usual no Ocidente” (p. 61).

CAPÍTULO 1 65

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convivência e compartilhamento da vida cotidiana, das aspirações,


dos medos e dos projetos, com aqueles grupos, dos quais havia pou­
cas chances de fuga, cada um encontrará agora as condições para a
constituição de seus projetos pessoais, inéditas até então.
Se é verdade que o contrato social requerido para a instituição
do Estado, como assinalado por Hobbes (1651/1979) implica ne­
cessariam ente restrição à liberdade individual, c tam bém verdade
que esse debate só se instaura porque a liberdade individual cons­
titui agora um valor e uma referência para muitas práticas sociais.
Tambcm é verdade que a instituição do Estado funciona para, ainda
que dentro dc limites, liberar cada um para dedicar-sc aos seus
projetos pessoais de vida. O indivíduo não experimenta mais nas
suas relações imediatas e cotidianas a responsabilidade por solucio­
nar os conflitos ou criar as condições para a sobrevivência de um
grupo mais amplo (e sua própria sobrevivência, ligada à daqueles).
Dcslocando-se entre estranhos, pode ocupar-sc dc seus objetivos
pessoais e aguardar que o Leviatã faça por todos o que antes to­
dos deviam fazer por si m esm os17. Para usar a expressão de Elias
(1987/1994), a instituição do Estado é essencial para que o nós
deixe de ser a referência a partir da qual cada um organiza sua vida
cotidiana. Ainda hoje podemos contrastar essas duas experiências
sociais, observando como se estruturam as relações econômicas,
políticas, afetivas, religiosas etc. nas grandes metrópoles e como isso
se dá em grupos sociais em que prevalece a vida simples e aos quais
o Estado não estendeu suas mãos18.

1 7 Kssa condição dá origem a uma surpreendente (para quem sc acostumou a


uma vida comunitária, ou a resquícios disso) indiferença ante o sofrimento ou
as dificuldades alheias. A solidariedade, quando evocada, o é como exceção, em
face de situações dramáticas (não diante de problemas “menores”, para os quais
se pensa poder ainda aguardar pelo socorro do listado).
18 Há também exemplos (inúmeros, no Brasil e alhures) de sociedades mais
complexas, em que a vida individual se organiza a partir de condições próprias de
uma economia de mercado e nas quais o Estado não chegou com suas institui­
ções. Nesses casos, homens e mulheres encontram-se mais próximos da barbárie
do que da vida civilizada (de um lado) ou comunitária (de outro).

66 SUBJETIVIDADE E RELAÇÕES C0MP0RTAMENTA1S

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Com o processo de individualização, a vida pessoal organi/a-se a


partir de interesses, projetos, necessidades de homens e mulheres
particulares, não necessariamente partilhados pelos que estão à sua
volta. O segredo torna-se não apenas uma possibilidade, dadas as
novas condições sociais e físicas que não mais constrangem o in­
divíduo à exposição perm anente aos outros; torna-se também uma
necessidade, inclusive por força dos conflitos com os interesses dos
outros. A vida privada passa a scr aquela esfera da vida cotidiana na
qual um padrão espontâneo de ação subsiste, a intim idade é aco­
lhida, sentimentos e pensamentos encontram lugar. O território da
vida pública passa a ser um espaço de representação de papéis, de
cum prim ento de regras, de com edim ento, de hábitos refinados e
de com portam entos refletidos - o que no século XVIII tornará o
teatro uma instituição educativa importante (cf. Sennett, 1989)19.
Como apontado por Ariès (1991), a fronteira entre vida pública e
vida privada não tem sido fixa ao longo dos anos. Pode-se dizer que
nem é a mesma para diferentes subculturas, ou para um mesmo
indivíduo ao longo de sua vida. Por vezes, o espaço privado resume-
se ao núcleo familiar, outras vezes não ultrapassa o laço conjugal,
muitas outras vezes significa o indivíduo fechado cm si mesmo.
Figueiredo e Santí (1997) referem-se a “subjetividade privatizada”
ao comentar esse modo (“privado” ou “interiorizado") pelo qual emo­
ções, sentimentos, pensamentos, crenças etc. passam a ser vividos
com a separação entre vida pública e vida privada. Figueiredo e Santi
m encionam que esse modo “privatizado” de lidar com as emoções
torna-se tão usual que nos parece natural; passa a ser difícil imaginar
o que seria, por exemplo, um sentimento de felicidade experimen­
tado de outra maneira.

19 Sennett (1989) observa tambem que no século XVIII as máscaras são abo­
lidas nas representações teatrais, em parte porque deixam de ser necessárias,
na medida em que os indivíduos (todos eles, em alguma medida, e os atores e
atrizes, de modo especial) estão mais bem adestrados para o autocontrole e a
representação, garantindo a expressão apenas de emoções próprias das persona­
gens e ocultando emoções e inclinações pessoais.

C A P ÍT U L 0 1 67

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Quando dizemos que até certo momento da história do mundo


ocidental civilizado não se encontrava propriamente um mundo pri­
vado, estamos afirmando que, para os homens que viveram antes das
transformações aqui citadas, pensamentos, sentimentos, emoções
não faziam parte de sua experiência de vida enquanto ocorrências
privadas. No entanto, esses fenômenos eram, como continuam sen­
do, relações com o mundo, incluindo outros homens e mulheres.
Em um contexto de não dífercncíação entre público e privado o que
ocorre pessoalmente a alguém não mcrccc a atenção que desfruta em
um modo de vida “privatizado”. O pensar, o refletir sobre o mundo
à sua volta, sobre os problemas do dia-a-dia, a pessoa amada, tudo
acontece de forma pública, em voz alta, no diálogo com outros. Basta
comparar o que acontece em subculturas ainda hoje encontradas, cm
que a vida simples prevalece, as funções sociais são pouco dileren-
ciadas e o convívio comunitário dá suporte para as relações cotidia­
nas. Nesses grupos, o homem, ao deitar a cabeça nó travesseiro para
dormir, não procede privadamente ao exame de como despendeu seu
dia, como enfrentou problemas, ou como poderia tê-lo feito. Muito
menos planeja privadamente seu próximo dia (planejar a vida a longo
prazo - por exemplo, o que será sua ocupação de/ anos adiante -
chega a scr uma ideia fora dc lugar nesse contexto). Analogamente,
as emoções e os sentimentos são experimentados abertam ente nas
relações com os outros. Ficar feliz é agir de modo feliz no convívio
com os outros. Quando essas relações com os outros vão se alterando
é que os substantivos vão se Lornando nossos conceitos-chave para
abordar a vida subjetiva. No lugar do '‘pensar’ {verbo transitivo dire­
to e indireto), entra o “pensamento", algo supostam ente contido no
sujeito que pensa. No lugar do aborrecer (idem), o aborrecimento,
do amedrontar (idem), o medo, e assim por diante20. E já que estão

20 F, ssa substituição de verbos por substantivos constitui um dos exemplos do


que (Ryle, 1949/1984) denomina de erro de categoria, isto é, “representar os
fatos da vida mental como se pertencessem a um tipo ou categoria lógica (ou
a um conjunto de tipos ou categorias) quando na verdade pertencem a outra”
(Ryle, p. 16).

68 SUBJETIVIDADE E RELAÇÕES COMPORTAMENTAIS

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contidos nesse mundo privado de cada um, é observando o que se


passa no indivíduo que se encontrará o que é definidor do fenômeno.
Note-se, porem, que o que muda csscncialmcntc com a separação
entre vida pública e vida privada, com o fato dc homens e mulheres
buscarem "esconder" uns dos outros o que pensam e o que sentem,
não é que sentimentos, pensam entos etc. deixam de pertencer ao
domínio dc suas relações com o mundo c com outros homens e m u­
lheres, mas o modo (autocontrolado, como ensina Elias, 1939/1990b)
como isso passa a acontecer.
A separação entre uma esfera da vida privada e uma esfera dc vida
pública significa, então, uma transformação em duas direções: de um
lado, a separação entre o interesse pessoal e o interesse coletivo; de
outro, um novo padrão dc rclacionamcnto interpessoal marcado pela
representação, pelo autocontrole, pelo comedimento. Ariès (1991)
interpreta esses dois aspectos como uma oposição entre "o homem
dc Estado c o particular” (p. 19), podemos dizer, entre o indivíduo
e o cidadão; e uma diferenciação entre sociabilidade anônima e uma
sociabilidade restrita, uma espontaneidade indiferenciada no trato
social versus a espontaneidade resguardada para o espaço doméstico.
Em qualquer circunstância, a construção do mundo privado corres­
ponde ã instituição de mudanças não no interior de indivíduos, mas
no plano dc suas relações com outros homens e mulheres.
O objetivo e o subjetivo
A dicotomia objetivo-subjetivo elabora-se na reflexão sobre a possi­
bilidade dc o homem conhcccr ou representar a realidade dc modo
seguro. No século XVI í, essa preocupação constitui uma reação ao
ceticism o e uma tentativa de restaurar um fundam ento filosófico
para o conhecimento verdadeiro. O empirismo de Bacon e o racio­
nal ismo de Descartes assumirão como tareia tanto explicitar por que
sistemas de crença anteriores fracassaram, mostrando-se frágeis e
dubitáveis, assim como cstabclcccr as condições sob as quais um co­
nhecimento seguro, absolutamente verdadeiro, pode ser alcançado.
Tanto no empirismo como no racionalismo essas condições dizem
respeito a faculdades do indivíduo particular, não a processos sociais
de construção do conhecimento. E a razão (racionalismo), enquanto

CAPÍTULO 1 69

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faculdade da alma, ou a experiência sensível articulada (empirismo)


que conduz ao conhecimento verdadeiro. No Discurso de Descartes
(1637/1979), encontramos;
notei certas leis que Deus estabeleceu de tal modo na natureza, e das
quais imprimiu tais noções em nossas almas que, depois de refletir
bastante sobre elas, não poderíamos duvidar que não fossem exata­
mente observadas em tudo o que existe ou se faz no mundo. (p. 51)
Já na versão de Bacon (1620/1979), quando o intelecto se move
sem o suporte da experiência sensível cuidadosa, o erro é inevitável.
Na verdade, os sentidos, por si mesmos, são algo déhii e enganador,
nem mesmo os instrumentos destinados a ampliá-los e aguçá-los são
de grande valia. E toda verdadeira interpretação da natureza se cum­
pre com instâncias e experimentos oportunos e adequados, onde os
sentidos julgam somente o experimento e o experimento julga a natu­
reza e a própria coisa. (p. 26, Af. L)
A melhor demonstração é de longe a experiência, desde que se atenha
rigorosamente ao experimento. Sc procuramos aplicá-la a outros fatos
tidos por semelhantes, a não ser que se proceda de forma corrcta e
metódica, c falaciosa, (pp. 38-39, Af. EXX)
... quando a experiência proceder de acordo com leis seguras e de
forma gradual e constante, poder-se-á esperar algo melhor da ciência.
(p. 66, Af C)
A elevação de uma capacidade humana a tribunal da verdade con­
trasta com a visão medieval acerca da prerrogativa da autoridade
eclesiástica para estabelecer o que vale como explicação aceitável
da realidade, sempre uma Revelação Divina àqueles que estão no
topo da hierarquia religiosa. Desse ponto de vista, a modernidade
representa uma conquista importante. A regra cartesiana de “jamais
acolher alguma coisa como verdadeira que eu não conhecesse evi­
dentem ente como tal” (Descartes, 1637/1979, p. 37), isto é, “de
nada incluir em meus juízos que não se apresentasse tão clara e tão
distintamente a meu espírito, que eu não tivesse nenhum a ocasião
de pô-lo em dúvida” (p. 37) constitui uma expressão máxima dessa

70 SUBJETIVIDADE E RELAÇÕES COMPORTAMENTAIS


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mudança. No entanto, a reivindicação do racionalismo e do em pi­


rismo do século XVII não se faz sem o reconhecim ento das limita­
ções humanas a serem vencidas antes que o indivíduo possa buscar
o conhecimento seguro. No pensamento cartesiano, esse problema
aparece com a nccessidadc de tomar a dúvida como método, tendo
o cuidado de afastar do intelecto tudo que antes foi admitido como
verdadeiro sem passar pelo rigoroso inquérito da razão21.
Em Bacon (1620/1979), a desconfiança sobre as capacidadcs hu­
manas encontra expressão na Doutrina dos ídolos ou falsas noções: “o
intelecto humano não é luz pura, pois recebe influência da vontade
e dos afetos, donde se poder gerar a ciência que sc quer” (p. 25, Af.
XLIX). Esses obstáculos ao processo de construção de representações
seguras da realidade abrangem tanto dimensões pessoais, do indiví­
duo singular (os ídolos da caverna, relativos à história pessoal dc cada
um), como aspectos da natureza humana (os ídolos da triho, relativos
a distorções da percepção e à tendência a formular leis gerais com
base em uma cxpcriência prccária), as condiçõcs dc interloeução (os
ídolos do foro, relativos à imprecisão da correspondência entre lingua­
gem e realidade22) e dimensões sociais/culturais (os ídolos do teatro,
relativos a sistemas de crença dominantes em uma cultura).
Tanto para Descartes como para Bacon conhecer depende de
obediência ao método (novamente o tema do autocontrole), o cum ­
primento de um conjunto de preceitos que se inicia, em ambos os
casos, com uma espécie de purificação do intelecto, seja pela dúvida,
seja pelo afastamento dos ídolos ou falsas noções.

21 Diferente dos célicos, porém, Descartes (1637/1979) toma a dúvida como


um método para chegar a verdades, não como um fim em si mesma: “N3o que
imitasse, para tanto, os céticos, que duvidam apenas por duvidar e afetam ser
sempre irresolutos; pois, ao contrário, todo o meu intuito tendia tão-somente a
me certificar e remover a terra movediça e a areia, para encontrar a rocha ou
a argila” (p. 44).
22 Diz Bacon (1620/1979): “Os ídolos que se impõem ao intelecto através das
palavras são de duas espécies. Ou são nomes de coisas que não existem ... ou são
nomes dc coisas que existem, mas confusos e mal determinados e abstraídos das
coisas de forma temerária e inadequada” (p. 29, Af. ÍJÍ).

CAPÍTULO 1 71

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No tocante a todas as opiniões que até então acolhera cm meu cré­


dito, o melhor a fazer seria dispor-me, de uma vez para sempre, a re­
tirar-lhes essa confiança, a fim de substituí-las em seguida por outras
melhores, ou então pelas mesmas, depois de tê-las ajustado ao nível
da razão. E acreditei firmemente que, por este meio, lograria conduzir
minha via muito melhor do que se a edificasse apenas sobre velhos
fundamentos, e me apoiasse tão-somente sobre princípios dc que me
deixara persuadir cm minha juventude, sem ter jamais examinado se
eram verdadeiros. (Descartes, 1637/1979, p. 35)
Já falamos de todas as espécies dc ídolos e de seus aparatos. Por de­
cisão solene e inquebrantável todos devem ser abandonados e abju­
rados. O intelecto deve ser liberado e expurgado de todos eles , de tal
modo que o acesso ao reino do homem, que repousa sobre as ciências,
possa parcccr-se ao acesso ao reino dos céus, ao qual não se permite
entrar senão sob afigura de criança. (Bacon, 1620/1979, pp. 37-38, Af.
LXVIII, itálico acrescentado)
O que sc passa com o sujeito do conhccimcnto é, assim, duplamen­
te problematizado. I)e um lado, são faculdades ou capacidades indi­
viduais e subjetivas que conduzem a enunciados verdadeiros, acima
da dúvida. Dc outro, c ncccssário, antes dc fazer uso dessas faculda­
des, eliminar aquelas condições pessoais e subjetivas que constituem
obstáculo à representação precisa da realidade. Ambos os temas, c
importante notar, frequentarão os livros dc Psicologia cientílica a par­
tir do final do século XIX. Os processos cognitivos ou de representação
e as inclinações/distorções/hábitos pessoais não deixarão de ser temas
clássicos para diferentes escolas do pensamento psicológico.
O cartcsianismo, ao postular que a razão é uma faculdade da alma,
tornará central para a reflexão epistemológica o dualismo metafísi­
co, que a partir de Locke (1632-1704) assume a forma da distin­
ção corpo-mcntc, com ampla repercussão na Psicologia. Todavia, o
que importa ressaltar neste ponto é outro aspecto do racionalismo
de Descartes, compartilhado com Bacon: a noção dc que o conheci­
mento verdadeiro é aquele que representa uma realidade independen-
Le do sujeito que conhece. Com isso, há uma terceira dimensão da
problematização do que se passa com o indivíduo do conhccimcnto:

72 SUBJETIVIDADE E RELAÇÕES COMPORTA MENTA IS

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a noção de um afastamento entre sujeito e objeto do conhecimerUo.


A partir dessa elaboração, a verdade torna-sc atributo de enunciados
que representam apenas propriedades da realidade, nada contendo
de qualidades do próprio sujeito que se dedica a conhecê-la. Na aná­
lise de Bacon (1620/1979), isso opõe as “antecipações da m ente”
(descrições da realidade pautadas mais pelos ídolos que ocupam o
intelecto humano e menos por uma observação cuidadosa e sistemá­
tica) à “interpretação da natureza” (enunciados baseados na observa­
ção e experimentação planejadas, e limitados pelos fatos acumulados
desse modo). Coincide com essa abordagem a distinção estabclccida
por Galilei (1623/1987) entre qualidades primárias (propriedades dos
fenômenos) c qualidades secundárias (sensações do sujeito)2'5.
Com a observação do método, garante-se que os enunciados sobre
a realidade constituam apenas interpretações da natureza, retratem
apenas qualidades primárias dos fenômenos. Na análise de Descartes,
quando isso ocorre, o carátcr de clareza e distinção das ideias é tal
que o intelecto não poderá deixar dc reconhecê-las como verdadei­
ras. O método, desse ponto de vista, é o controle das inclinações,
preferências, paixões pessoais, a fim de garantir que esses não inva­
dam as representações do mundo, comprometendo sua validade. Por
isso falar dc método é falar de autocontrole.
O conhecimento verdadeiro é objetivo no sentido dc que retrata
apenas o objeto do conhecimento, não o sujeito. E o mundo subje-

23 Galtleu exemplifica esta diferenciação assinalando que o calor não constitui


uma propriedade do fogo (qualidade primária), mas uma sensação do indivíduo
(qualidade secundária): “havendo já relatado como muitas sensações, que são
reputadas qualidades ínsitas dos sujeitos externos, não possuem outra existência
a não ser em nós, não sendo outra coisa senão nome fora de nós; afirmo que [fui 1
levado a acreditar que o calor seja um fenômeno deste tipo, e que aquelas maté­
rias que produzem e fazem perceber o calor em nós, matérias que nós chamamos
com o nome geral de fogo, sejam uma multidão de pequeníssimos corpos, com
determinadas figuras, movimentadas com velocidade enorme. ... Mas que exista,
além de figura, número, movimento, penetração e junção, outra qualidade no
fogo, e que esta qualidade seja o calor, eu não acredito; considero que o calor seja
uma característica tão nossa que, deixado de lado o corpo animado e sensitivo, o
calor Lorna-se simplesmente um vocábulo (Galilei, 1623/1987, p. 121).

C A P ÍT U L 0 1 73
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livo torna-se o mundo do sujeito que conhece, que possibilita sua


apreensão da realidade c que precisa ser controlado para assim pro­
ceder movido apenas pelas faculdades apropriadas. Má, portanto,
nessas lormulações não apenas um individualismo, conduzindo ao
que Elias (1987/1994) designa uma concepção de homo philosophi-
cus na reflexão epislemológica24, mas um subjetivismo baseado na
noção de afastamento entre o scr que conhece e o mundo cognoscí-
vel. Com preender essa gênese da problematização da subjetividade
é essencial para discutir o status que pode ser conferido aos enun­
ciados modernos sobre as faculdades subjetivas.
A concepção de um homo philosophicus no século XVII é com­
patível com tudo o que foi assinalado acima, acerca da emergência
da noção de indivíduo e das condições sociais em que isso se deu.
Há uma questão, porém, que precisa ser equacionada na análise
que vincula a emergência do conceito do sujeito como conLrapartida
epistcmológica do conceito de indivíduo: o fato de que o cartesianis-
mo reedita em ampla medida o pensamento platônico, portanto uma
concepção de sujeito formulada já na Antiguidade.
Platão (428 a.C.-347 a.C.) inaugurou a filosofia como gênero li­
terário (cf. Colli, 1988), ocupando-se da problemática do conheci­
mento já em uma perspectiva que poderia ser interpretada como
individualista. Em um trabalho anterior (Tourinho, 1994b), foram
assinaladas no pensamento platônico categorias centrais do que viria
a caracterizar o pensamento filosófico do século XVII:

24 Há outras passagens clássicas do individualismo cartesiano, nas quais a cren­


ça na maior elicácia da ação individual são destacadas: "vê-se que os edifícios
empreendidos e concluídos por um só arquiteto costumam ser mais belos e
melhor ordenados do que aqueles que muitos procuram reiormar, fazendo uso
de velhas paredes construídas para outros fins ... assim pensei que as ciências
dos livTOS, ao rnenos aquelas cujas razões sao apenas prováveis c que não apre­
sentam quaisquer demonstrações, pois se compuseram e avolumaram pouco a
pouco com opiniões de mui diversas pessoas, não se acham, de modo algum,
tão próximas da verdade quanto os simples raciocínios que um homem dc bom
senso pode eletuar naturalmente com respeito às coisas que se lhe apresentam’'
(Descartes, 1637/1979, pp. 34'35).

74 SUBJETIVIDADE E RELAÇÕES COMPORTAMENTAIS

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Platão faz uma distinção entre o mundo sensível e o mundo inteligí­


vel. O mundo das sensações é o mundo das aparências, onde tudo
flui c onde não se encontra a essência dos fenômenos. Limitados a
suas experiências sensíveis, os homens podem apenas alcançar opi­
niões, instáveis, variadas e contraditórias. Dc outro lado, o mundo
inteligível é o mundo da razão, da alma, através da qual se pode che­
gar às “ideias”, sinônimo dc verdade c de apreensão da essência das
coisas. Ao contrário das opiniões, as ideias sc afirmam como eternas
e universais. Tem-se, aqui, tanto a afirmação categórica da distinção
entre aparência e essência, quanto a atribuição do conhecimento da
realidade a algo interior e íntimo, diverso das experiências sensíveis,
isto c, à alma. (pp. 17-18)
Há dois conjuntos de informações a serem levados em conta na
apreciação da antecipação platônica de concepções modernas do su­
jeito capaz de conhecer a realidade. Em primeiro lugar, as condições
sociais sob as quais Platão escreve, cm certos aspectos comparáveis
ao clima social da Renascença. Em segundo lugar, o fato de que
o platonismo não dominou a cultura ocidental ao longo de toda a
Idade Média.
Com respeito ao contexto social dc elaboração do platonismo, é
suficiente registrar que a razão grega, na sua origem, realiza-sc ape­
nas no campo da interloeução, do diálogo, do confronto de ideias e
argumentos. Ela floresce no espaço público, como dimensão essen­
cial da vida política nas cidades-Estado.
c no plano político que a Razão, na Grécia, primeiramente sc expri­
miu, constituiu-se e formou-se. A experiência social pôde tornar-sc
entre os gregos o objclo dc uma reflexão positiva, porque se prestava,
na cidade, a um debate público de argumentos. ...
A razão grega é a que de maneira positiva, refletida, metódica, permite
agir sobre os homens, não transformar a natureza. Dentro de seus limi­
tes com suas inovações, é filha da cidade. (Vernant, 1989, pp. 94-95)
Na época em que Platão escreveu, a dialética já dava lugar à re­
tórica. Enquanto a dialética constituía a forma original da raciona­
lidade grega, em que o debate oral estabelecia a sustentabilidade

CAPÍTULO 1 75

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de uma proposição, que não tinha permanência fora dcssc embate


argumentativo (cf. Colli, 1988), na rctórica, juizes externos ao em ­
bate estabeleciam a validade de discursos, que adquiriam autonomia
em relação ao contexto de confrontação de ideias —uma condição
essencial para a filosofia tornar-se um gênero literário, inicialmente,
com Platão, um gênero literário que tentava recuperar a essência da
dialética, recorrendo à estrutura de diálogos (ainda que fosse uma
imitação precária, posto que se tratava de diálogos pensados por um
único indivíduo)25.
Platão escreve em um momento da democracia grega, quando a
retórica assumia, sobretudo, a forma de uma preocupação estilística
e persuasiva, em debates cujos oradores orientavam-se mais por in­
teresses particulares do que por um compromisso com a justiça ou
a verdade26. A condenação de Sócrates comprovava, para Platão, a

25 Colli (1988) observa que "Platão inventou o diálogo como literatura, como
tipo particular de dialética escrita, de retórica escrita, que, num quadro narrativo,
apresenta a um público indiferenciado os conteúdos dc discussões imaginárias. A
esse novo gênero literário, o próprio Platão chama pelo novo nome de 'filosofia'.
Depois de Platão, esta forma de escrita permaneceria como algo adquirido, e ain­
da que o gênero literário do diálogo se transforme no gênero do tratado, mesmo
assim continuará a chamar-se ‘filosofia’ à exposição escrita de temas abstratos e
racionais eventualmente estendidos, após a confluência com a retórica, a con­
teúdos morais e políticos” (p. 92). Paradoxalmente, porém, Platão não acreditava
que as coisas importantes pudessem ser escritas, ou que aquilo que um homem
escreve contivesse o que havia de mais importante em seu pensamento: “Platão
nega à escrita, em linhas gerais, a possibilidade de exprimir um pensamento
sério, e diz literalmente; ‘Nenhum homem de siso ousará confiar seus pensamen­
tos filosóficos aos discursos e além do mais a discursos imóveis, como é o caso
dos escritos com letras’. Ainda mais solenemente, reafirma um pouco adiante,
recorrendo a uma citação homérica: 'Justamente por isso toda pessoa séria evita
escrever coisas sérias para não expô-las à malevolência e à incompreensão dos
homens ... ” (p. 94).
26 Para Platão, "a democracia direta favorece ... a demagogia, isto é, a arte de
incensar a opinião pública por meio do talento oratório; também favorece a ti­
rania, pois há o perigo de que um homem seduza e canalize a opinião pública
em seu proveito para, em seguida, subjugá-la. A critica platônica à democracia
origina-se, fundamentalmente, de sua ‘reflexão sobre a linguagem’. Para Platão, a

76 SUBJETIVIDADE E RELAÇÕES COM PORTA MENTA IS

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impossibilidade de chcgar-se a juízos seguros sob aquelas condições.


A verdade deveria pairar em outra dimensão das realizações possíveis
do pensamento humano.
Em suma, o individualismo encontrado no platonismo se explica
por um clima social no qual os processos de interlocução existentes
foram desqualificados como caminho para a elaboração de enuncia­
dos seguros. Por outro lado, a razão de Platão não orientou o pensa­
mento no mundo medieval porque ali novamente os homens foram
submetidos à autoridade de uma instituição que se arrogava o direito
de legislar sobre a validade de qualquer reivindicação a conhecim en­
to. O platonismo, ou versões dele, ressurgem (na Renascença) ape­
nas quando aquelas condições dc submissão intelectual se alteram,
dando novamente lugar ao homem comum para refletir sobre o m un­
do à sua volta e julgar o que tem valor como descrição desse mundo.
No m omento em que isso acontece, novamente, não há espaços
políticos de debate público genuíno. Cada um, agora, deve encontrar
a verdade em si mesmo, ou com suas próprias faculdades.
A filosofia que se segue à inauguração do lundacionalism o mo­
derno, com Descartes e Bacon, não acompanha a crença ingênua na
experiência purificada, ou na suficiência de uma intuição racionai.
Mas certas categorias analíticas formuladas no século XVI1 repercu­
tirão am plam ente no pensam ento filosófico posterior. Os empíris-
tas (especialmente Hum e - 171 1-1776) insistirão na noção de que
toda ideia tem uma origem na experiência sensível, cujo produto é
processado por uma m ente que dela produz cópias e as associa de
modos que nos levam aos enunciados científicos. Kant (1724-1804)
admitirá a impossibilidade de a m ente representar a realidade dc
modos independentes da experiência humana, mas isso para ele sig­
nifica que as condições de objetividade do conhecimento residem no

linguagem é eivada de armadilhas, sortilégios e perigos. A multidão, maravilhada


pela palavra de um orador, pode, em consequência, votar cegamente contra o
interesse público. É por isso que os sofistas, que ensinam a arte de seduzir e de
persuadir por meio das palavras, constituem um alvo permanente, para Platão”
(Piettre, 1989, p. 23).

C A P ÍT U L 0 1 77

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próprio homem, em suas capacidades subjetivas universais e a priori,


com as quais é afetado sensorialmente pelo inundo e que conferem
inteligibilidade aos objetos de sua experiência:
que a legislação suprema da natureza deve estar em nós mesmos, isto
é, em nosso entendimento, c que não devemos buscar as leis gerais
da natureza na própria natureza por meio da experiência, mas, ao
contrário, devemos derivar a natureza, em sua regularidade universal,
unicamente das condições dc possibilidade da experiência inerentes à
nossa sensibilidade e ao nosso entendimento. ... O entendimento não
cria m m leis (a priori) a partir da natureza; mas as prescreve à mesma.
(Kant, 1783/1980, p. 53)
Há muitos refinamentos nos sistemas mencionados nesta seção
e muitos desdobramentos de suas proposições sobre a natureza e o
alcance do conhecimento humano, ambos não discutidos em razão
dos objetivos deste trabalho. Também merece registro o fato de que
em muitos outros sistemas do pensamento moderno a dimensão in­
terpessoal dos processos de construção c validação de enunciados
sobre a realidade física e social são revalorizados. O individualismo
epistemológico será objeto de muitas diferentes críticas, especial­
m ente ao longo do século XX, em diferentes vertentes do pensa­
mento filosófico e político (cf. Bernstein, 1983), o que, porém, não
repercutiu na Psicologia sob a forma de um abandono amplo das
categorias de análise formuladas no pcnsamenLo do século XVII.
Por último, assim como a dicotomia público-privado expressa
principalmente o que se passa no plano das relações interpessoais,
a dicotomia objetivo-subjetivo sintetiza os modos como o homem
passa a ver sua relação com a realidade enquanto objeto dc conhe­
cimento: uma relação baseada nas funções ou papéis de qualidades
ou faculdades pessoais e que requer distanciamento e autocontrole
para que a real i/ação nesse domínio seja possível. O pensar, o re­
fletir e o julgar, fenômenos psicológicos abordados centralmente na
definição do mundo subjetivo nesse contcxto, constituem faculdades
csscnciais do sujeito singular.

78 SUBJETIVIDADE E RELAÇÕES COMPORTAMENTAIS

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O físico e o mental
A ideia de que o homem é constituído por uma substância física,
corpórea, e outra imaterial, transcendental ou mental, não se origina
com o pensamento religioso cristão, embora tenha se propagado na
cultura ocidental com a difusão de ideias religiosas a esse respeito
ao longo da Idade Média.
O dualismo não c um dado originário do pensam ento mais antigo
[judaico-cristãoj que, pelo contrário, tende a afirmar a unidade do real
e do homem em particular. Ele é fruto de formas mais elaboradas de
conhecimento, desenvolvidas sobretudo no âmbito da filosofia grega e
penetrado posteriormente na teologia. (Massimi, 1986, p. 10)
Massimi (1986) argumenta que o monismo antropológico dos
primeiros Padres da Igreja deu lugar ao dualismo a partir de uma
assimilação das categorias filosóficas do pensam ento platônico na
doutrina religiosa. Segundo Massimi,
as ideias de preeminência da alma c de sua autonomia do corpo, da
imortalidade da alma e da identificação entre alma e vida, estão rela­
cionadas, nas suas origens, à investigação filosófica c à necessidade
de fundamentar a objetividade do conhecimento humano de seu ins­
trumento principal, a razão. E portanto no alvo da filosofia grega, e
sobretudo do platonismo, que nasce a categoria de alma, enquanto
substância, e a raiz do dualismo. De fato, o dualismo é um efeito ine­
vitável do surgir de uma nova forma de pensamento analítico e autor-
reflexivo. E uma criação epistemológiea, antes de ser uma afirmação
ontológica. Todo o problema, a nosso ver, está na medida cm que
procura-se transformar uma dimensão epistemológiea em realidade
ontológica, (p. 22)
Retomando as colocações anteriores accrca do contexto em que
Platão desenvolve sua doutrina sobre a razão como faculdade dc
uma alma que preexiste ao nascim ento do homem, é importante
observar que há uma motivação essencial para essa suposição: a
desqualificação dos processos de interlocução como meios pelos
quais o hom em pode chegar a cnunciados verdadeiros. Se dim en­
sões interpessoais da existência hum ana não estão qualificadas para

CAPÍTULO 1 79

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conduzir cada um a juízos seguros, tais juízos ou não são possíveis


(a posição do cético), ou vêm dc outra fonte. Na filosofia cristã me­
dieval, essa outra fonte era Deus, que de acordo com Sua vontade e
decisão dava ao homem a chance de contemplar ideias verdadeiras.
Km Platão, porém, essa outra fonte estava encerrada no próprio
homem que busca o conhecimento.
Voltando-se ao homem singular como fonte do conhecimento se­
guro, podemos alternativamente atribuir à sua estrutura e funções
corporais as capacidades cognoscitivas. No entanto, essa não será
a opção platônica, visto que o dado disponível sobre o que o corpo
informa sobre o mundo sugere que as percepções humanas são res­
ponsáveis por grande parte dc nossos equívocos ao buscar represen­
tar a realidade; propiciam-nos, no máximo, opiniões. Há, portanto,
em Platão, uma desqualificação também do corpo. Piettre (1989)
explica esse aspecto da doutrina platônica:
As ideias ou essências são percebidas unicamente pela inteligência,
dispensando o recurso à experiência sensível, isto é, ao testemunho
dos sentidos. Por outro lado, as opiniões, múltiplas e contraditórias,
devem sua imprecisão e mobilidade ao testemunho dos sentidos sobre
os quais elas se apoiam, (pp. 24-25)
Portanto, os sentidos constituem obstáculos ao conhecimento da ver­
dadeira realidade, Kles retêm a alma no estágio das opiniões parciais
e precárias, fazendo com que se tome por verdadeiro o que nada mais
ó do que a aparência fragmentária e fugitiva da verdadeira realidade.
(p. 25)
O que caracteriza principalmente as realidades inteligíveis ou as ideias
é sua estabilidade, sua eternidade: seu ser. E o que caracteriza princi­
palmente as realidades sensíveis é sua mobilidade, seu aparecimento
e desaparecimento, seu nascimento e sua morte, enfim, sua condição
de vir a ser. (p. 26)
Segundo Ribes (2004), tam bém em Aristóteles encontramos o
dualismo corpo-alma, porém não como substâncias independentes.
Nessa visão, a religião cristã forjou o dualismo de substâncias, que
alcançou sua formulação definitiva com Descartes.

80 SUBJETIVIDADE E RELAÇÕES COMPORTAMENTAIS

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Em contraposição ao argumento dc Arislóleles, de acordo com o qual


a aima não cra um corpo, mas algo do corpo, a alma tornou-se uma
substância separada. Na concepção aristotélica, a alma nào existia
sem um corpo, mas a alma não cra cm si mesma um corpo. Ela sem ­
pre existia em um tipo particular de corpo. Na tradição judaico-cristã,
a alma tornou-se uma entidade separada de qualquer corpo. A alma
lornou-se o sujeito, no lugar de um predicado, e a ela foram atribuídas
funções similares àquelas dos corpos: de ser uma substância, mover-
se por si mesma e ser afetada por outros corpos. Santo Agostinho e
Santo Anselmo foram decisivos na formulação tínal de uma teoria da
alma, que a convertia em uma entidade que governa e sofre, ao m es­
mo tempo, as ações de um universo restrito dc corpos: os corpos hu­
manos. Em seu Discurso do método .... de 1637, Descartes forneceu os
argumentos racionais que formalizaram a divisão do homem em duas
substâncias, a alma (razão) e a matéria (o corpo). Essa divisão separou
as ações humanas de seus raciocínios. O comportamento tornou-se
puramente a ação mecânica e a alma tornou-se uma mente cognitiva.
(Ribes, 2004, p. 56)
Se no aristotelismo a independência de duas substâncias, corpo e
alma, não está assim formulada, o mesmo não pode ser dito do plato­
nismo, que claramente postulava a preeminência da alma. E, de fato,
Platão constituiu a principal referência filosófica para a doutrina de
Santo Agostinho, na qual sc encontra a versão religiosa do dualismo
de substâncias (cf. Jaeger, 1989).
Chega-se, assim, a um aspecto fundam ental do dualismo meta­
físico. Ele está assentado não em um compromisso inicial com a
transcendência, mas em uma desqualificação dos processos inter-
subjetivos (sociais) e sensoriais (individuais) como fonte segura de
conhecim ento. Isto 6, uma vez que os processos dc interlocução
podem promover a aceitação dc ideias falsas, e uma vez que ne­
nhum a referência ao corpo hum ano será suficiente para explicar a
identificação (ou reconhecimento, para Platão) de ideias verdadeiras,
ao contrário, conduzem a opiniões provisórias e conflitantes, então
torna-se logicamente necessário supor a existência de uma dimen­
são humana, individual, não corpórea, imaterial, como a morada do

CAPÍTULO 1 81

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pensamento racional, com o qual se chega às ideias verdadeiras. O


dualismo é, assim, uma consequência inevitável do individualismo
associado à desqualificação do corpo.
O outro aspecto fundam ental dessa comprccnsão do dualismo é
que a oposição corpo-mente tira dc evidência o passo anterior de
desqualificar o plano das relações interpessoais como domínio das
capacidades humanas cognoscitivas. Com isso, pode-se pensar que
o debate reside em saber se há apenas uma ou duas naturezas hum a­
nas. Sc o homem é só corpo, ou corpo e alma, ou corpo c mente. Se
podemos explicar suas realizações referindo apenas o que se passa
em seu corpo, ou sc precisamos supor a existência de uma mente.
Do ponto de vista da análise aqui desenvolvida, o essencial vem
antes: se podemos ou não explicar as realizações hum anas como
realizações dos homens nas relações uns com os outros; ou o que
nos leva a abordar essas realizações não mais como realizações so­
ciais, mas como realizações pessoais/individuais. Se consideramos
que se trata de realizações pessoais, o dualismo será praticam ente
inevitável. Soluções reducionistas organicistas, como discursos que
apoiados nas neurociências invocam para o cérebro as capacidades
cognoscitivas, permanecem no campo do individualismo, regulados
por um desconhecim ento do que se passa no plano interpessoal
como essencial para a definição dos fenômenos psicológicos. Aliás,
se estiverem corretos, uma Psicologia deixa de ser neccssária.
Em favor da tese de que a categoria do mental está antes apoia­
da na desqualificação da interlocução e do corpo, convém observar
que a definição do mundo mental é invariavelmente negativa. Isto e,
quando se indaga sobre a mente, o que sc obtem como resposta são
rcfcrências ao que a mente faz, suas capacidades. Por exemplo, “a
m ente é a instância responsável pela cognição". Quando sc insiste
em saber o que é essa instância responsável pela cognição, o que se
obtém ó uma descrição do que ela não é. Locke (1690/1978) pode
aqui servir de exemplo sobre como tergiversar sobre o tema.
Não me ocuparei agora com o exame íísico da mente; nem me inquie­
tarei em examinar no que consiste sua essência; nem por quais movi­
m entos de nossos espíritos, ou alterações de nossos corpos, chegamos

82 SUBJETIVIDADE E RELAÇÕES COMPORTAMENTAIS

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a ter alguma sensação mediante nossos órgãos, ou quaisquer ideias


em nossos entendimentos; c, se, cm sua formação, algumas daquelas
ideias, ou todas, dependem ou não da matéria, {p. 140)
Talvez esse modo de apresentar o conceito de mente revele uma
distinção importante em relação a Platão. A desqualificação do espa­
ço de interlocução se dá menos pelo reconhecimento desse espaço
e atribuição a ele dos vícios dos julgamentos humanos, e mais pela
dificuldade cm identificar as dimensões intersubjetivas do pensa­
mento humano, possivelmente porque as relações nesse domínio são
demasiadamente complexas para serem discernidas íacilmcntc, ou
mesmo conccitualmente formuladas com as categorias disponíveis
inicialmente. Afinal, no mundo contemporâneo, não são em assem­
bleias públicas que as reivindicações a conhecim ento e à verdade
são confrontadas c deliberadas. Os processos por meio dos quais
comunidades amplas participam da construção dc um enunciado e
a eles conferem um valor de verdade envolvem muito mais etapas,
atores e mecanismos dc aferição das qualidades dos enunciados.
Será mais fácil supor, sob essas condiçõcs, que os julgamentos sob
os quais podemos apoiar nossa relação com o mundo em segurança
(e com certeza) são obras dc mentes individuais.
O interno e o externo
A postulação dc uma noção dc interioridade também pode ser enten­
dida à luz das variáveis culturais examinadas neste capítulo. Todavia,
aqui começamos com um paradoxo: se é possível considerar ccrtas
ocorrências hum anas como internas, é logicamente difícil operar
com a dicotomia interno-externo, pois o que seriam dimensões do
indivíduo externas a ele? Ainda que concordemos que o pensar é
interno, o que é externo? O andar, por exemplo?
As análises de Hlías (1939/1990b, 1987/1994) mais uma vez po­
dem lançar luz sobre a questão de modos muito importantes. Elias
(1939/1990b) argumenta que com o processo civilizador a concep­
ção de homem que se torna dominante é a do homo clausus, o ho­
mem fcchado em si mesmo:

CAPÍTULO 1 83

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A concepção de indivíduo como homo clausus, um pequeno mundo


em si mesmo que, em última análise, existe inteiramente indepen­
dente do grande mundo externo, determina a imagem do homem em
geral. Todo outro ser humano é igualmente visto como “homo clausus".
Seu núcleo, seu ser, seu verdadeiro eu aparecem igualmente como
algo nele que está separado por uma parede invisível dc tudo o que é
externo, incluindo todos os demais seres humanos.
A natureza dessa parede em si, porém, quase nunca é examinada c
nunca é devidamente explicada. Será o corpo o vaso que contém fe­
chado em si o ser verdadeiro? Será a pele a fronteira entre o '“interno”
e o “externo”? O que, no homem, é a cápsula e o que é o conteúdo? A
experiência do “interno” e do “externo” parecem tão autoevidentes que
essas questões raramente são colocadas; aparentemente não reque­
rem exame ulterior. O indivíduo se satisfaz com a metáfora espacial de
"interno” e “externo”, mas não faz nenhuma tentativa seria dc localizar
o “interior” no espaço. (Elias, 1939/1990b, p. 238)
O que permite a Elias (1939/1990b) conferir alguma inteligibili­
dade à autoimagem do homo clausus e à experiência de interioridade
são suas incursões na história dos costumes e na literatura da civi­
lidade. A partir dessas fontes, Klias chama a atenção para o fato de
que o padrão de comportamento que passa a ser exigido nas relações
interpessoais em sociedades complexas é tal que requer um treino
de observação do próprio comportamento e a vigilância perm anen­
te sobre os “impulsos emocionais”. Em outras palavras, a civilidade
requer autocontrole; a impulsividade funciona contra o indivíduo.
Em todas as sociedades, o controle da impulsividade é requerido,
mas em sociedades mais simples o limite é dado externamente, são
os outros que impedem que o homem vá além do que é socialmente
tolerável. Nas sociedades mais complexas, o controle deve ser exer­
cido pelo próprio indivíduo. A coação externa funciona para treinar
o indivíduo a observar a si mesmo e a agir de modos contidos.
A transformação de compulsão externa interpessoal em compulsão in­
terna individual, que agora continua a aumentar, leva a uma situação
em que muitos impulsos afetivos não podem ser mais vivenciados tão

84 SUBJETIVIDADE E RELAÇÕES COMPORTAMENTAIS

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espontaneamente como antes. Os autocontroles individuais autôno­


mos criados dessa maneira na vida social, tais como o “pensamento
racional'’ c a “consciência moral ”, nesse momento se interpõem mais
severamente do que nunca entre os impulsos espontâneos e emocio­
nais, por um lado, e os músculos do esqueleto, por outro, impedindo
mais eficazmente os primeiros de comandar os segundos (isto é, dc
pô-los em ação) sem a permissão desses mecanismos de controle.
(Filias, 1939/1990b, pp. 245-246)
As práticas de autocontrole socialmente produzidas voltam-se,
portanto, às reações emocionais, que representariam padrões mais
espontâneos de ação. São essas práticas que garantirão um padrão
representacional de comportamento social, o cum prim ento de pa­
péis, ou o comportamento esperado e previsto pela sociedade e do
qual a sociedade depende para evitar que os conflitos se resolvam
pela imposição da vontade particular de alguns. Elias (1939/1990b)
avança um pouco na interpretação das razões pelas quais essa expe­
riência de autocontrole favorece uma noção de interioridade:
Chegamos assim um pouco mais perto do centro da estrutura da per­
sonalidade individual subjacente à experiência de si mesmo do homo
clausus. Se perguntamos ... o que realmente deu origem a esse con­
ceito de indivíduo como encapsulado “dentro” de si mesmo, separado
de tudo o que existe fora dele, e o que a cápsula e o encapsulado
realmente significam em termos humanos, podemos agora ver a di­
reção em que deve ser procurada a resposta. O controle mais firme,
mais geral e uniforme das emoções, característico dessa mudança ci-
vilizadora, juntamente com o aumento de compulsões internas que
mais implacavelmente do que antes impedem que todos os impulsos
espontâneos se manifestem direta e motoramente em ação, sem a
intervenção de mecanismos de controle - são o que é experimentado
como a cápsula, a parede invisível que separa o “‘mundo interno” do
indivíduo do “mundo externo ”, ou, em diferentes versões, o sujeito de
cognição de seu objeto, o “ego” do outro, o “indivíduo” da “sociedade”.
O que está encapsulado são os impulsos instintivos e emocionais,
aos quais é negado acesso direto ao aparelho motor. Eles surgem na
autopercepção como o que é ocultado de todos os demais, e, não

CAPÍTULO 1 85

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raro, como o verdadeiro ser, o núcleo da individualidade. A expressão


“o homem interior” é uma metáfora conveniente, mas que induz em
erro. (Elias, 1939/1990b, pp. 246-247)
A noção de interioridade seria, assim, produzida quando o indiví­
duo experimenta uma espécie de “contenção” das emoções, im pe­
dindo que se manifestem por seu aparelho motor. Podemos, porém,
formular isso de outro modo: o indivíduo aprende (a) a não respon­
der emocionalmente em certas condições sociais ou a responder de
modos concorrentes ou incompatíveis com uma resposta emocional
com alguma probabilidade de ser emitida (por exemplo, aprende a
sorrir e dizer “Sim, senhor” quando um superior diz que sua opinião
está errada, no lugar de dizer-lhe impropérios) e/ou aprende (b) a
responder emocionalmente com reduzida participação do aparelho
motor (por exemplo, aprende a manifestar sua satisfação com um
sorriso discreto, ou seu medo de um inseto saindo vagarosamente
do ambiente). Como para isso o indivíduo precisa observar o próprio
corpo, aprender quando respostas motoras são evocadas como parte
de uma emoção, e adestrar-se para evitar ou reduzir esse compo­
nente motor, parece-lhe apropriada a metáfora de algo contido em
si mesmo (como se esse “eu'1fosse apenas um receptáculo - a peie,
talvez, como limite - e não incluísse tudo nele contido). Trata-se,
porém, de uma metáfora, e disso é bom não esquecer. Afinal, é o
indivíduo como um todo que “sente felicidade”, “fica apavorado”, c
não uma parte sua que possa abrigar outros conteúdos.
Há boa razão para dizer que o cérebro humano se localiza dentro do
crânio e o coração dentro da caixa torácica. N estes casos, podemos
distinguir claramente o continente do conteúdo, o que se locali/a
dentro de paredes e o que fica fora, e em que consistem as paredes
divisórias. Mas se as m esm as figuras de retórica forem aplicadas a
estruturas de personalidade, cias se tornam impróprias. A relação
entre controle de instintos e impulsos instintivos, para mencionar
apenas um exemplo, não é uma relação espacial. O primeiro não tem
a forma de um vaso que contenha o segundo. I I á escolas de pensa­
m ento que consideram os m ecanism os de controle, a consciência
o li razão, como mais importantes, e h á outras que atribuem maior

86 SUBJETIVIDADE E RELAÇÕES COM PORTA MENTAIS

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importância aos impulsos instintivos ou emocionais. Mas se não es­


tamos dispostos a discutir sobre valores, se limitamos nossos esfor­
ços à investigação do que existe, descobrimos que não há aspecto
estrutural no hom em que justifique chamar uma coisa de núcleo do
homem, e outra de casca. Rigorosamente falando, todo complexo de
tensões, tais como sentim entos e pensam entos, ou comportamento
espontâneo e controlado, consiste de atividades humanas. Se em vez
dos habituais conceitos-subslancia, com o “sentim entos” e “razão”,
usarmos conceitos de atividade, fica mais fácil com preender que,
embora a imagem de “externo” e “interno”, de casca de um recep­
táculo contendo algo dentro, seja aplicável a aspectos físicos do ser
humano, ela não pode ser aplicada à estrutura da personalidade, ao
ser humano vivo como um todo. N este nível, nada há que lembre um
continente - nada que possa justificar metáforas como a que fala do
“interno” de um ser humano. A intuição da existência de uma parede,
de alguma coisa “dentro” do hom em separando-o do mundo “exter-
no”, por mais genuína que possa ser como intuição, não corresponde
a nenhuma coisa no homem que tenha o caráter dc uma real parede.
{Elias, 1939/1990b, p. 247)
A análise de Elias (1939/1990b), ao mesmo tempo em que con-
fere inteligibilidade à noção do homo clausus, sugere as contin­
gências sociais que explicam por que alguém estará inclinado a
adm itir que suas emoções e sentim entos são ocorrências internas,
c a mesma análise que revela a inadequação da metáfora enquanto
descrição de fatos (psicológicos) reais. E as vinculações dessa me­
táfora com a noção de indivíduo instituída ao longo da Renascença
são tam bém assinaladas:
a modificação nos estilos de vida social impôs uma crescente restri-
ção aos sentim entos, uma necessidade maior de observar e pensar
antes dc agir, tanto com respeito aos objetos físicos quanto em relação
aos seres humanos. Isso deu mais valor c ênfase à consciência de si
rnesmo com o um indivíduo desligado de iodas as outras pessoas e
coisas. O desprendimento no ato de observar os outros e se observar
consolidou-se numa atitude permanente e, assim cristalizado, gerou
no observador uma ideia de si com o um ser desprendido, desliga-

CAPÍTULO 1 87

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do, que existia independentem ente dc todos os demais. Esse ato de


desprendimento ao observar c pensar condensou-se na ideia de um des­
prendimento universal do indivíduo; e a função da experiência, do
pensar c observar, passível de ser percebida de um nível superior dc au­
toconsciência como uma função da totalidade do ser humano, apresen­
tou-se pela primeira vez, sob a forma reificada, como um componente
do ser humano sem elhante ao coração, ao estômago ou ao cérebro,
uma espécie de substância insubstancial no ser humano, enquanto o
ato de pensar se condensou na ideia de uma “inteligência”, uma “razão”
ou, no linguajar antiquado, um 'espírito”. (Elias, 1987/1994, p. 91)
A ideia de indivíduos decidindo, agindo, e "existindo” com absoluta
independência um do outro é um produto artificial do hom em, ca­
racterístico dc um dado estágio do desenvolvimento de sua autoper-
cepção. D epende parcialm ente de uma confusão de ideais e fatos
e, até certo ponto, da materialização de m ecanism os de autocontro­
le individuais — da separação dos impulsos em ocionais individuais
frente ao aparelho motor, do controle direto sobre os m ovim entos
corporais e as ações.
Esta autopcrcepção em termos do próprio isolamento, da parede invi­
sível que separa o ser “interior” de todas as pessoas e coisas 'externas",
tem para grande número de pessoas na era moderna a mesma força
imediata que a convicção de que o Sol girava em torno dc uma Terra
situada no centro do cosmos possuía na idade Media. Tal como antes a
visão geocêntrica do universo físico, a imagem egocêntrica do universo
social certamente poderá ser vencida por uma visão mais realista, em ­
bora emocionalmente menos atraente. (Elias, 1939/1990b, p. 248)
A abordagem de Elias (1939/1990b) possibilita tam bém com ­
preender por que certas vertentes da Psicologia como profissão de
ajuda se ocuparão dos efeitos somáticos desse novo padrão de rela­
cionamento interpessoal em seus aspectos “psicológicos” de evitação
de ativação do aparelho motor. As “Psicologias Corporais” cncontram
lugar na cultura como resposta a essa dimensão dos problemas psi­
cológicos, o que parece confirmar ao leigo que sua problemática
psicológica é de fato relativa a um mundo interno e, como tal, relati-

88 SUBJETIVIDADE E RELAÇÕES COMPORTAMENTAIS

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va à sua individualidade ou singularidade2 . Em uma direção oposta,


Elias sugere que a noção de homo clausus seja substituída por uma
concepção de homem como parte perm anente de redes de interde­
pendência com outros homens e mulheres.
A imagem do hom em como “personalidade fechada” é substituída
aqui pela de “personalidade aberta”, que possui um maior ou menor
grau (mas nunca absoluto ou total) de autonomia face a de outras
pessoas e que, na realidade, durante toda a vida é fundam entalm en­
te orientada para outras pessoas e dependente delas. A rede de inter-
dependências entre os seres humanos é o que os liga. Elas formam
o nexo do que é aqui chamado configuração, ou seja, uma estrutura
de pessoas m utuam ente orientadas e dependentes. Uma vez que as
pessoas são mais ou menos dependentes entre si, inicialm ente por
ação da natureza e mais tarde através da aprendizagem social, da
educação, sociali7.ação e necessidades recíprocas socialm ente ge­
radas, elas existem , poderíamos nos arriscar a dizer, apenas com o
pluralidades, apenas como configurações. Este o motivo por que ...
não é particularmente frutífero conceber os hom ens à imagem do
hom em individual. M uito mais apropriado será conjeturar a ima­
gem de numerosas pessoas interdependentes formando configura­
ções (isto é, grupos ou sociedades de tipos diferentes) entre si. Vista
deste ponlo de vista básico, desaparece a cisão na visão tradicional
do hom em. O conceito de configuração foi introduzido exatamente
porque expressa mais clara e inequivocam ente o que chamamos de
“sociedade” que os atuais instrum entos conceituais da Sociologia,
não sendo nem uma abstração de atributos de indivíduos que exis­
tem sem sociedade, nem um “sistem a” ou “totalidade” para além
dos indivíduos, mas a rede de interdependências por eles formada.
(Elias, 193971990b, p. 249)

27 A relação da noção tlc interioridade com o controle da impulsividade pro­


vavelmente explica por que tendemos a reservar a categoria de “interno” para
sentimentos e emoções, enquanto mais provavelmente referimos o pensamento
ou a reflexão como “mentais”.

C A P ÍT U L 0 1 89

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A noção de interno, assim, la/, tão pouco sentido enquanto cate­


goria analítica para a abordagem dos fenômenos psicológicos quan­
to as categorias de “privado”, “subjetivo” ou "mental”. Uma ciência
do comportamento que busque prover um enfoque relacional para
aqueles fenômenos terá como desafio elaborar a crítica dessas re­
ferências. Todavia, as informações aqui discutidas mostram clara­
mente que a caracterização de emoções, sentimentos e pensamentos
como privados, internos, subjetivos ou mentais não decorre de um
desconhecimento, de uma preferência, ou de um compromisso ideo­
lógico, mas de complexas determinações sociais, históricas e cultu­
rais. E necessário olhar com atençao para essas determinações, se o
objetivo for identificar com maior clareza o que podem ser caminhos
consistentes para a interpretação c investigação dos problemas reser­
vados por essa mesma cultura a uma disciplina psicológica.

90 SUBJETIVIDADE E RELAÇÕES COM PORTA MENTAIS

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CAPÍTULO 2

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Dimensões da Abordagem
Analítico-Comportamental para
o Problema da Subjetividade

A análise desenvolvida no Capítulo 1 indica que há boas razões


histórico-sociais para pensarmos que sentimentos, emoções e pen-
samenLos são ocorrências do ou no indivíduo. Há também fatores
relativos à constituição humana que favorcccm aquela visão. Como
todo fenômeno humano é sempre um fenômeno que envolve o or­
ganismo humano, há sempre a possibilidade de nos referirmos a di­
mensões orgânicas como evidência da interioridade dos sentimentos
c pensamentos. Uma vez tendo aprendido a observar o próprio corpo
de modos particulares28, qualquer um será capaz de relatar a certeza
de interioridade de seus sentimentos. Se, alem disso, não puder ver
com clareza como se liga aos outros homens e mulheres como parte
dessa experiência, estarão dadas as condições fundam entais para
que a noção de interioridade seja bastante persuasiva.
Ao contrapor ao individualismo e ao subjelivismo modernos uma
interpretação comportamental para a subjetividade, assinalando o
caráter relacionai de pensamentos e sentimentos humanos, este tra-
balho seguirá um percurso dividido em duas etapas. Neste capítulo,
serão discutidas algumas dimensões de uma interpretação compor­
tamental para aqueles fenômenos e seus possíveis desdobramentos
na análise das dicotomias psicológicas clássicas. No Capítulo 3, se­
rão examinadas as possíveis articulações dessa interpretação com

28 A observação rotineira do próprio corpo não emergiu como prática apenas no


mundo ocidental moderno. Nas culturas orientais, práticas semelhantes foram
desenvolvidas, embora com certas variações e outras funções na vida cotidiana.
A primeira visLa, nas culturas orientais a observação do próprio corpo e mesmo
exercícios de autocontrole são praticados visando a uma espécie de equilíbrio
corporal que se relaciona a uma concepção de transcendência; em outros con­
textos, são um requisito para a reprodução da hierarquia social. Hm qualquer dos
casos, trata-se de uma experiência bem diversa daquela descrita no Capítulo 1.

CAPÍTULO 2 95

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uma análise dos temas ressaltados no Capítulo 1 como centrais no


processo de construção da noção de indivíduo (singularidade, auto-
nomia e autocontrole do indivíduo).
Algumas palavras iniciais acerca da perspectiva comportamental de
abordagem para os temas da Psicologia sao necessárias, com o fim
de dem arcar o universo filosófico e conceituai com o qual trabalha­
remos. A Psicologia Com portam ental foi inaugurada com o m ani­
festo de Watson (191 3/1994) no início do século XX, uma iniciativa
que buscava conferir à disciplina o mesmo estatuto de cientificida-
de então desfrutado pelas ciências naturais. A proposta de Watson
assentava-sc especialmente na postulação do comportamento como
objeto de estudos e a observação e a experimentação como métodos.
Desde então, diferentes versões dessa abordagem foram formuladas,
vários sistemas explicativos foram desenvolvidos, definidos como
behavioristas basicam ente porque elegem o comportamento como
objeto. A diversidade e mesmo o conflito entre fundam entos (filo­
sóficos e metodológicos) e proposições encontradas nesses diferen-
Les sistemas torna necessário explicitar adicionalmente a referência
teórico-metodológica com a qual se está trabalhando, quando se
pretende falar acerca do ponto de vista comportamental com respei­
to a algum conjunto de problemas examinados pela Psicologia.
No presente trabalho, a análise do comportamento constituí a
referência básica para a discussão da problem ática da subjetivi­
dade. Em bora em sua origem fortem ente inspirada pelo trabalho
de Watson, a análise do comportamento constitui urna abordagem
mais identificada com o programa de pesquisas e a produção in­
telectual dc B. F. Skinner (1904-1990) c seus colaboradores. Será
com os instrum entos conceituais c o conhecim ento empírico acu­
mulados pelos analistas do com portam ento que as questões rela­
tivas à subjetividade serão predom inantem ente discutidas neste e
no próximo capítulo.
Ao referir a análise do comportamento, estamos considerando o
sistema amplo de conhecim ento e de práticas profissionais desen­
volvidos a partir da obra de Skinner e seguidores. Isso inclui o que

96 SUBJETIVIDADE E RELAÇÕES COMPORTAMENTAIS

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tem sido designado como behaviorisnio radical — ou contextualista29


(a vertente reflexiva e filosófica da análise do com portam ento), a
análise experimental do comportamento (a investigação científica de
processos comporLamentaís básicos), a análise do coynportamento
aplicada (a investigação aplicada dos princípios comportamcntais)
e as práticas profissionais de analistas do comportamento. O sistema
analítico-comportamental é, assim, entendido como esse conjunto
de produções, que são interdependentes. Pode, também, ser pensa­
do como conjuntos de produções que variam, aproximando-se mais
ou menos de uma daquelas direções. Esse modo de caracterização
tem prevalecido, nos últimos anos, na explicitação da natureza e
alcance da análise do com portam ento (cf. Hawkins & Anderson,
2002; Moore & Cooper, 2003; Tourinho, 2003)JÜ. Na síntese de
Hawkins e Anderson (2002),
podemos ... identificar pelo menos quatro papéis que um analista do
comportamento pode desempenhar: analista conceituai do comporta­
mento, analista básico do comportamento, analista aplicado do com ­
portamento e praticante analítico-comportamental. Qualquer analista
do comportamento pode sc engajar em qualquer um (ou mais) desses
papéis em diferentes momentos e poucos analistas do comportamento
se engajam em todos. Talvez mais importante do que isso, ... cada um
desses quatro papéis é uma parte extremamente valiosa da análise do
comportamento e cada um merece respeito total e igual. (p. 119)

29 Skinner (e.g., 1963/1969) refere-se ao componente filosófico de seu sistema


explicativo como hehaviorismo radical. O termo é considerado inadequado por
alguns autores (e.g., Drasb, 1988; S. C. Hayes 8c L. J. Hayes, 1992). A alter-
nativa mais frequentemente referida na literatura analítico-comportamental é
“behaviorisnio contextualista" (cf. S. C. Hayes & L. J. Hayes), sugerido por ra­
zões de coerência epistemológica. No entanto, prevalece ainda entre os analistas
do comportamento a designação “behavíorismo radical”.
30 Esse tipo de caracterização da análise do comportamento reflete de modo
amplo a tentativa em edificar-se como resposta ao conjunto variado de problemas
reservados pela cultura à disciplina psicológica (cf. Tourinho, 2003).

CAPÍTULO 2 97

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O compor lamento dos organismos é assumido como objeto de es­


tudos da análise do comportamento. No entanto, desde a primeira
incursão skinneriana no conceito dc reflexo (Skinner, 1931/1961),
por comportamento entende-se a relação do organismo com mundo
à sua volta.
A análise do comportamento pretende ocupar o lugar da Psicologia
porque entende que fenôm enos psicológicos são fenôm enos compor-
tamentais. O conceito de comportamento, porem, é empregado por
analistas do comportamento para abordar relações. Ele não designa
o que um organismo faz, mas uma relação entre um organismo e o
mundo à sua volta. Por essa razão, às vezes prefere-se falar de rela­
ções comportamentais. Assim, a proposta é a de interpretar os fenô­
menos psicológicos como fenôm enos relacionais, em outras palavras,
fenôm enos que dizem respeito às relações dos organismos com o seu
ambiente físico e social (especialmente o ambiente social, no caso do
comportamento humano). (Tourínho, 2003, p. 37)3'
Relações comportamentais constituem , portanto, o objeto de es­
tudos da análise do com portam ento. Os termos dessas relações
(respostas e estímulos) definem-se m utuam ente, não existem inde­
pendentem ente. Em um Lrecho dc sua discussão sobre o caráter
contextualista da concepção analítico-comportamental dos fenôme­
nos psicológicos, Morris (1988) assinala esse ponto afirmando que,
“na visão analítico-com portam ental, o am biente com portamental
(psicológico) desenvolve-se em interação m útua, recíproca, com o
organismo comportamental (psicológico)’' (p. 302).
E importante, também, registrar que muito do que será aqui de­
senvolvido usufrui da interlocução com outra escola do pensamento
comportamental na Psicologia, o interbehaviorismo, sustentado es­
pecialmente na obra de J. R. Kantor (1888-1984). Essa interlocução

31 Essa perspectiva relacional implicará conferir menor importância à topografia


comportamental, no que a análise do comportamento distancia-se do fisicalisnio
encontrado em outras vertentes da Psicologia Comportamental (cf. L. D. Smith,
1989).

98 SUBJETIVIDADE E RELAÇÕES COMPORTAMENTAIS

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é possível em razão do fato de que a análise do com portam ento e


interbchaviorismo compartilham muitos pontos de vista (filosófi­
cos e teóricos) sobre as feições que a Psicologia deve assumir como
ciência do comportamento. Uma expressiva literatura tem assinalado
a compatibilidade e mesmo a possível complementaridade entre os
dois sistemas (e.g., Fuller, 1973; Marr, 1984; Moore, 1987; Morris,
1984; Morris, Higgins & IJickel, 1982; Tourinho, 2004)í2, em bo­
ra ainda sejam restritas as iniciativas na direção de uma integração
maior da produção nos dois domínios-” . O trabalho de Kantor c es­
pecialm ente im portante para dirigir a atenção do analista do com­
portamento para as implicações de uma compreensão do responder
do organismo como o responder do organismo como um todoi4, para
as implicações da distinção entre objeto estímulo c função de estí­
mulo, topografia de resposta e função de resposta. As contribuições
de Kantor são também notáveis na discussão de temas relacionados
à subjetividade, em particular sua rejeição da dicotomia interno-ex-
terno e sua abordagem da observabilidade enquanto dimensão inter­
pessoal dos fenômenos psicológicos (cf. Iburinho, 2004).
Por último, cumpre ressaltar que se Skinner constitui a principal
referência para o exame que se segue sobre a temática da subjeti­
vidade, não se pode dizer que as proposições aqui contidas são, em
sua totalidade, skinnerianas. Elas são em grande medida fundam en­

32 Morris (1984), por exemplo, assinala que "a psicologia intercomportamental e


bastante explícita e sofisticada acerca de supostos metateóricos. Estes precisam
ser integrados com as contribuições empíricas e conceituais do behaviorismo ra­
dical, para aumentar a aceitabilidade de uma ciência natural do comportamento'
(p. 202). Há, de outro lado, notáveis divergências entre os dois sistemas (cf. f,.
J. Hayes, 1994; Kantor, 1970; Morris, 1984).
33 No período de 1945 a 1947, Skinner foi docente do Departamento de
Psicologia na Indiana University, a convite de Kantor. Os frutos da convivência
dos dois ainda estão por ser adequadamente apreciados (cf. Fuller, 1973).
34 Sobre esse aspecto, L. J. Hayes (1994), discutindo as contribuições de
Kantor, ressalta: “Não são os olhos que veem, os ouvidos que ouvem, as pernas
que caminham, ou o cérebro que pensa —é o organismo como um Lodo que se
engaja nesses atos” (p. 151).

CAPÍTULO 2 99

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tadas ou inspiradas nos escritos de Skinner e de outros analistas do


comportamento (assim como de intcrbchavioristas), mas pretendem
introduzir uma perspectiva original de análise a esse corpo dc co­
nhecimento, compatível com princípios analítico-comportamentais.
Trata-se, assim, de uma abordagem diferente de outros estudos que
se ocuparam essencialm ente de reconstruir o pensam ento skin-
ncriano (e.g., Moore, 1981), ou de nele identificar certos limites
(e.g., Tourinho, 1995). Também deve ser notado que o tema pode
ser tratado a partir de uma variedade dc aspectos, alguns deles de­
senvolvidos em estudos anteriores (Tourinho, 1994a, 1994b, 1995,
1997a, 1997b, 1997c, 1999a, 1999b, 2004, 2006; Tourinho, Teixeira
& Maciel, 2000). Na presente discussão, serão focalizadas apenas
algumas dimensões da abordagem analítico-comporiamental para a
subjetividade (eventualm ente articulando colocações pontuais de
trabalhos anteriores), que possibilitam retomar o problema das di­
cotomias psicológicas clássicas e a elas contrapor uma perspectiva
relaciona] de análise.

A Noção de Eventos Privados


A abordagem que Skinner provê para a temática da subjetividade se­
gue dois cursos, a princípio complementares, mas que em um senti­
do particular, a ser discutido adiante, tornam-se conflitantes: de um
lado, o reconhecimento de que há uma particularidade a ser levada
cm conta quando se discutem esses fenômenos: o caráter privado
de certos estímulos e certas respostas, o que os torna inacessíveis
a uma observação pública direta; de outro lado, uma discussão das
implicações do caráter funcional do comportamento verbal para a
análise da linguagem da experiência privada. Esses dois temas serão
discutidos a seguir, buscando-se caracterizar o alcance das proposi­
ções skinnerianas.
Skinner (e.g., 1945, 1953/1965, 1963/1969, 1938/1991,
1974/1993) enfatiza em sua discussão sobre os “termos psicológicos’'
o equívoco da suposição de existência de um mundo mental. Grande
parte de sua argumentação ocupa-se da rejeição dessa categoria,
considerando-se que (a) inexistem evidencias desse mundo e (b) a

KX) SUeJ£TIVH)AD£ E RELAÇÕES COMPORTAMCNTAIS

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postulação de sua existência não aum enta a capacidade de previsão


e controle do fenômeno comportamental; ao contrário, desvia a aten­
ção do pesquisador das variáveis relevantes. A oposição sistemática
ao conceito de mente tem possibilitado uma visão de acordo com a
qual behaviorismo e mentalismo constituem em essência projetos
concorrentes na Psicologia do século XX (cf. Uttal, 2000), o que
constitui uma caracterização parcialmente correta (considerando-se
a diversidade de behaviorismos e as críticas de algumas dessas ver­
tentes ao mentalismo). Todavia, em Skinner, o antimentalismo cons­
titui apenas um aspecto de uma proposição mais ampla de recusar
explicações do comportamento do organismo que apelam a ocorrên­
cias do próprio organismo. Para além do mentalismo, encontra-se em
Skinner uma crítica a toda sorte de explicação internalista, aí incluí­
das as explicações que apelam à (neuro)fisiologia do comportamento
(cf. Tourinho, 1999a). Km O comportamento dos organismos, Skinner
(1938/1991) já afirmava:
Eu já mencionei (no Capítulo Um) a visão primitiva e ainda não to­
talmente vencida de que os fenômenos do comportamento são essen­
cialmente caóticos, mas que eles podem ser reduzidos a um tipo de
ordem através da demonstração de que eles dependem de um sistema
determinante fundamentalmente interno. Essa é a visão que muito
naturalmente apresenta a si mesma como uma alternativa materialista
às concepções psíquicas ou mentalistas do comportamento. O tipo de
homúnculo neural que e postulado como a força controladora carrega
urna inequívoca sem elhança com o hom únculo espiritual ou mental
dos velhos sistemas, e suas funções da mesma forma introduzem um
tipo de ordem hipotética ao mundo desordenado. (Skinner, p. 418)
Em textos posteriores (e.g., Skinner, 1953/1965, 1990 - cf.
Tourinho, 1999a), reaparece o tema das causas neurais ou fisioló­
gicas como explicações que também interditam o projeto de uma
ciência do com portam ento^. O antimentalismo, portanto, não sin-

35 Trata-se, nesse caso, de um tipo de crítica antecipado e largamente desenvol­


vido por Kantor (1922, 1923, 1947) desde a década de 1920.

CAPÍTULO 2 101
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tctiza inteiram ente (ou corretam ente) o tipo de causalidade a que


Skinner se opõe36.
Embora dotados de uma m esma natureza física, certos eventos
que são constitutivos do objeto da Psicologia, estímulos c respos­
tas, diferenciam-se por uma inacessibilidade à observação pública
direta; são, então, designados de eventos privados: “um evento priva­
do pode distinguir-se por sua acessibilidade limitada, mas até onde
sabemos não por qualquer estrutura ou natureza especial’’ (Skinner,
1953/1965, p. 257). A categoria de eventos privados inclui, assim,
estímulos gerados pelo próprio corpo do indivíduo, que o afetam
de modos únicos, e respostas em itidas “em escala tão reduzida’’
(Skinner, 1953/1965, p. 263) que não podem ser observadas pelos
outros. Em princípio, essa proposição significará que o que dife­
rencia o pensar*7 é o lato de se tratar de uma resposta encoberta,
e o que diferencia um sentim ento de felicidade é o fato de que o
indivíduo pode estar respondendo a uma estimulação privada. Esse,
porém, é apenas um ponto de partida do que pode vir a scr uma ex­
plicação comportamental ampla para a problemática de sentimentos
e pensamentos.
Em um trabalho recente (Tourinho, 2006), observamos que a base
dessa inobservabilidade de certos estímulos e respostas, isto é, o que
torna certos estímulos e certas respostas inobserváveis, não chega a
m erecer uma apreciação detalhada na obra de Skinner. Dentre os
demais analistas do comportamento, isso leva a um debate incon-
cluso sobre o assunto. Em linhas gerais, a questão que se coloca
é: podemos tratar como estímulos privados quaisquer eventos (e.g.,

36 A este respeito, ver a extensa análise de Carvalho Neto (2001) acerca do


antimentalismo no pensamento skinneriano,
37 Skinner preferirá sempre falar do '‘pensar” (thinking) como resposta, no lugar
de falar de “pensamento” (thought) como conteúdo ou posse individual, 'lermos
equivalentes serão usados para outros fenômenos (sonhar no lugar de sonhos,
lembrar no lugar de memória, alucinar no lugar de alucinação etc.). Sobre o caso
específico do pensar, Andery e Sério (2003) proveem uma análise mais detalha­
da. Uma interpretação para o sonhar baseada em Skinner é apresentada por F.
M. Silva (2000).

102 SUBJETIVIDADE E RELAÇÕES COM PORTA MENTA IS

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acontecimentos passados) com função dc estímulos, inacessíveis à


observação pública direta, e como respostas encobertas quaisquer
respostas (e.g., votar sccrctam cnte) igualmente inacessíveis à ob­
servação pública direta? Se respondemos afirmativamente, deixa­
mos de explicitar por que a cultura considera o pensar uma resposta
qualitativamente diferente do andar, ou do votar secretamente, que
não pode ser observado porque há uma barreira física. Deixamos de
responder por que o individuo em nossa cultura considera “sentir fe­
licidade” (responder ao estímulo privado constitutivo da “felicidade”)
algo pessoal, único e especialmente importante, mas não considera
o relatar seu dia anterior como um fenômeno com as mesmas pro­
priedades. E importante lembrar que Skinner introduz o conceito de
eventos privados em um texto (Skinner, 1945) dedicado a discutir
os “termos psicológicos”. Trabalhar com uma interpretação genérica
para o conceito de “eventos privados” não parece a melhor solução
simplesmente porque com isso continuaríamos devendo uma expli­
cação à especificidade dos fenômenos considerados “subjetivos”.
Se respondemos negativamente à interpretação genérica para o
conceito de eventos privados, precisamos ainda esclarecer o que
confere a respostas e estímulos um tipo específico de inobserva-
bilídade. Esse tipo de especificação é possível a partir de algumas
proposições de Skinner e de Kantor.
Com respeito aos estímulos privados, a análise de Skinner (e.g.,
1974/1993) inicia-se com o reconhecim ento de que existe um tipo
de introspecção, uma espécie dc observação pelo indivíduo do que
acontece com sua “interioridade”. No entanto, o que é observado é
sim plesm ente o próprio corpo, não um mundo imaterial qualquer.
Esse argumento, por um lado, afasta novamente o dualismo mente-
corpo; por outro, conduz a uma identificação problemática do m un­
do privado com um mundo interno:
Uma pequena parte do universo está contida dentro [sic] da pele de
cada um de nós. Não há nenhuma razão para que ela tenha um status
físico especial cm virtude de se situar nesses limites e nós eventual­
mente teremos uma explicação completa dela [fornecida] pela anato-
mia e pela fisiologia. (Skinner, 1974/1993, p. 24)

CAPÍTULO 2 103

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Sem entrar na discussão da inconsistência encontrada na defini­


ção do privado como interno, já abordada em outros trabalhos (e.g.,
Tourinho, 1997a)^8, o importante a salientar é que o mundo privado diz
respeito à estimulação gerada pelo próprio corpo. Skinner (1974/1993)
explicita esse ponto de vista destacando que chamamos de privados
aqueles estímulos gerados pelo próprio corpo e que não podem afetar
outras pessoas do mesmo modo como afetam o próprio indivíduo. Ou
seja, estímulos privados corresponderiam a estímulos interoceptivos e
proprioceptivos. Estímulos exteroceptivos (e.g., visuais) gerados pelo
próprio corpo não cairiam na mesma categoria, uma vez que podem
afetar os outros do mesmo modo como afetam o próprio indivíduo. A
título de exemplo, considcrcm-sc duas condições que podem contro­
lar uma resposta (auto)descritiva de sentir-se envergonhado, ambas
provocadas pela alteração na circulação sanguínea na face: a alteração
da temperatura da face c a alteração na cor da face. Ambos podem
constituir estímulos (se adquirirem essa íunção) gerados pelo corpo
do indivíduo, o aquecimento da face um estímulo interoceptivo, a
ruborização um estímulo exteroceptivo. O que Skinner salienta e que
aquela alteração corporal poderá afetar outros sob a forma de esti­
mulação exteroceptiva, mas nunca como estimulação interoceptiva.
Qualquer um poderá emitir a resposta verbal “vergonha” sob controle
da ruborização da face do indivíduo (estímulo exteroceptivo gerado
pelo corpo do indivíduo “envergonhado ”), mas apenas o próprio indi­
víduo poderá emitir a mesma resposta sob controle da estimulação na
temperatura (estímulo interoceptivo)í9. A lorma de contato constitui,
portanto, uma característica essencial da estimulação privada que se
articula com a problemática dos sentimentos, embora esse contato

38 Observe-se apenas que a caracterização é inconsistente não apenas porque


respostas não podem ser internas ou externas ao organismo, mas também porque
alguns estímulos gerados pelo próprio corpo (e.g., a estimulação interoceptiva
gerada por um corte na pele) não estão exatamente "dentro” do indivíduo.
39 Em várias ocasiões Skinner (e.g., 1945) menciona que a invasão por instrumen­
tos não resolve este problema, pois neste caso os outros responderão sob controle
das medidas dos instrumentos (estímulos exteroceptivos) enquanto o indivíduo
poderá permanecer respondendo sob controle de estímulos interoceptivos.

104 SUBJETIVIDADE E RELAÇÕES COMPORTAMENTAIS

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diferenciado do indivíduo não signifique um acesso ou conhecimento


privilegiado (cf. Tourinho & cols., 2000).
Passando para a análise das respostas encobertas, temos um tipo
de inobservabilidade gerada não por barreiras físicas (como quando
alguém vota sccretam cntc, ou digita uma senha bancária cm um
aparato especial), mas por propriedades formais e/ou relacionais das
respostas (Tourinho, 2006).
Skinner (1953/1965) refere uma “escala reduzida” das respostas
encobertas, sem especificar que propriedades estão presentes em es­
cala reduzida nessas respostas. Também faz refcrcncia (cf. Skinner,
1957/1992) a uma “ordem decrescente de energia” ao discutir o
responder verbal encoberto, uma ideia que é muito interessante, na
medida em que sugere variações maiores das respostas verbais do
que simplesmente abertas e encobertas (adiante, esse aspecto será
discutido). Um aspecto também muito importante da abordagem
dc Skinner é que ela atribui a contingências sociais a forma aber­
ta ou encoberta das respostas (cf. Skinner, 1953/1965, 1974/1993,
1968/2003). Isto é, aprendemos qualquer repertório sempre na forma
aberta e respondemos abertamente ou encobertamente dependendo
das contingências sociais a que somos expostos. Assim, não há res­
postas naturalmente, nem definitivamente, abertas ou encobertas.
Tourinho (2006) articula as proposições dc Skinner à abordagem
de Kantor (cf. Kantor & N. W. Smith, 1975), de acordo com a qual
todo responder, sendo o responder do organismo como um todo,
envolve a participação de todos os sistemas orgânicos. Seguindo a
argumentação de Kantor, a observabilidade dc uma resposta varia
como função tanto do grau dc participação do aparelho motor na sua
emissão (propriedade formal ou estrutural da resposta), quanto da
familiaridade entre observador e observado (cf. L. J. Hayes, 1994;
Kantor & N. W. Smith, 1975; Observer, 1973, 1981 )40. Rcgistre-se

40 L. J. Hayes (1994) afirma que, dc acordo com Kantor, as respostas são mais
ou menos sutis e “a sutileza não ó uma característica formal do evento cm ques­
tão. Isto é, a sutileza não é uma propriedade de um evento particular, à parte dc
uma história insuficiente do observador com respeito ao mesmo. Quanto maior

CAPÍTULO 2 105

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já aqui que a restrição na ativação do aparelho motor, mencionada


por Kantor na análise do caráter “inaparente” de certas respostas, e
a mesma referida por Elias (e.g., 1939/1990b) na discussão do auto­
controle, Esse aspecto será discutido no capítulo seguinte.
Acom panhando Donahoe e Palmer (1994), pode-se dizer que a
observabilidade varia também como função dos instrum entos do
observador41, sendo possível falar em um continuum de observabili­
dade. Tourinho (2006) acrescenta a essas fontes de variabilidade o
treino de observação do observador. Quanto mais adestrado para ob­
servar o responder dos organismos e, em especial, as relações entre
esse responder e contingências ambientais, mais capacitado se está
para identificar respostas que, aos olhos dos outros, ou na relação
com os outros, são encobertas.
De acordo com a presente análise, não apenas propriedades for­
mais (e.g., Skinner, ] 953/1965), nem somente dimensões relacionais
(Donahoe & Palmer, 1994) definem a observabilidade de respostas.
A proposição de Donahoe e Palmer, no sentido de operar com a
noção de um continuum de observabilidade, é aqui adotada, porém
admitindo-se que os intervalos desse continuum variam como (unção
de propriedades formais e relacionais das respostas.
A noção de um continuum de observabilidade de respostas, embora
não discutida por Skinner, é inteiramente compatível com sua argu­
mentação acerca de uma “ordem descendente de energia” (Skinner,
1957/1992, p. 438) na análise da variação do comportamento verbal.
Como assinalado por Tourinho (2006), é também compatível com

a história de interação de uma pessoa com eventos sutis, mais óbvios eles se
tornam, pois, falando psicologicamente, os eventos observados são nada mais do
que os loci de tunções de resposta para os observadores" (p. 160).
41 Segundo Donahoe e Palmer (í 994), “a observabilidade de uma resposta não
é determinada por sua intensidade ou magnitude, mas pelas características ou
instrumentos do observador ... Devemos evitar a tentação de pensar no com­
portamento encoberto como um tipo de comportamento, com propriedades
essencialmente diferentes do comportamento aberto. Em vez disso, lodo com­
portamento localiza-se em um continuum de observabilidade’’ (p. 275).

106 SUBJETIVIDADE E RELAÇÕES COM PORTA MENTAIS

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certas proposições de Watson (1930/1970) acerca do pensar, quando


este refere estágios de ativação da musculatura vocal. Essa observabi-
lidadc variável, como assinalado por Skinner (1953/1965, 1974/1993,
1968/2003) é dependente de contingências sociais.
Embora m encione que ccrtas respostas são em itidas de forma
encoberta devido a um controle de estímulos fraco, ou por conve­
niência, Skinner (1957/1992) salienta que a “evitação da punição’’
(p. 436) contingente à forma aberta da resposta constitui uma ra­
zão mais importante para a emissão encoberta de respostas verbais.
Esse aspecto é especialm ente im portante porque aqui podemos
começar a fa/er uma segunda ligação com a problemática do auto­
controle. Esse tema será retomado apenas no próximo capítulo, mas
é importante registrar desde já que o modo como a sociedade opera
para promover respostas encobertas inclui (de modo preponderan­
te) a disposição desse tipo de contingência (a punição contingente
à forma aberta da resposta). Se examinarmos as circunstâncias em
que isso ocorre, veremos que o indivíduo responder de forma aberta
produz não apenas consequências para si mesmo (o próprio estím u­
lo auditivo gerado pela resposta verbal vocal constitui um poderoso
reforço para a resposta)42, como também uma estimulação auditiva
para os outros, que pode ter diferentes funções. Quando essa esti­
mulação tem uma função aversiva para o outro, será mais provável
que seja punida. Em outras palavras, pode haver no responder aber­
to um conflito entre as consequências para o próprio indivíduo e as
consequências para o grupo.
Passando para a questão das relações entre linguagem c privaci­
dade, desde a primeira proposição do conceito de eventos privados
Skinner (1945) estende sua analise na direção de examinar os pro­
cessos verbais possivelmente envolvidos quando alguém fala de si
mesmo, sob controle de estímulos privados. Sua análise em muito
se aproxima da abordagem oferecida por W íttgenstein (1953/1988)

42 Nessa abordagem, estamos sempre considerando o comportamento verbal


vocal, por suas implicações para a análise do pensar.

CAPÍTULO 2 107
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accrca da impossibilidade de uma linguagem privada43. O ponto de


partida consiste em indagar como é possível que um indivíduo res­
ponda verbalmente sob controle de um estímulo ao qual só cie pró­
prio tem acesso, quando esse responder depende, para ser adquirido
e mantido, dc contingências dispostas por uma sociedade.
A análise funcional desenvolvida por Skinner (1957/1992) para
o com portam ento verbal, já delineada em 1945 (Skinner, 1945),
postula que o responder verbal é parte de uma relação operante
da qual também participam consequências mediadas socialmente
(com um aspecto diferenciador de outros comportamentos sociais
de humanos e infra-humanos, nos quais também podemos encon-
trar uma mediação social: a reciprocidade de papéis entre falantes
e ouvintes)44. Assim, um indivíduo aprende a dizer “maçã” diante
de uma fruta quando uma com unidade verbal reforça diferencial-
m ente essa resposta na presença daquele estímulo. Nesse caso, te­
mos um operante verbal do tipo tato, no qual “uma resposta de uma
dada forma é evocada (ou pelo menos fortalecida) por um objeto ou
evento particular, ou por uma propriedade de um objeto ou evento
particular” (Skinner, 1957/1992, pp. 81-82). Outros operantes ver­
bais descritos por Skinner não serão aqui discutidos em razão dos
objetivos específicos deste trabalho. Mas é importante ressaltar que,
diante de conceitos, psicológicos ou de outra ordem, o que a análise

43 Vários trabalhos assinalam as similaridades (e, em alguns casos, também


diferenças) entre as abordagens de Skinner e de Wittgenstein para a linguagem
(e.g., Bloor, 1987; Costall, 1980; Day, 1969; Lampreia, 1992; Tourinho, 1994b;
Waller, 1977).
44 CJatania (I99H) esclarece a peculiaridade da mediação social no compor­
tamento verbal: “as contingências sociais tornam-se recíprocas muito cedo: a
criança aprende tanto a perguntar quanto a responder e a dí/.er ‘obrigado’ assim
como 'de nada’. Assim, ern alguns aspectos, todas as culturas verbais são socieda­
des de relorço mútuo” (p. 262). Adiante, Catania acrescenta: “O comportamento
verbal envolve tanto o comportamento do ouvinte, que é modelado pelos seus
eleitos sobre o comportamento do laiante, quanto o comportamento do lalante,
que é modelado pelos seus eleitos sobre o ouvinte. Tais reciprocidades definem
o comportamenLo verbal" (p. 262).

108 SUBJETIVIDADE E RELAÇÕES COMPORTAMENTAIS

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skinneriana recomenda é que não sejam tratados como rótulos de


coisas ou essências, mas como de falo sc apresentam, isto é, como
respostas verbais. Enquanto respostas verbais, devem ser analisados
identificando-se as contingências (sociais) das quais são função. No
lugar dc especular acerca de uma ontologia da vida mental, portan­
to, a análise de Skinner recomenda indagar sobre as contingências
das quais nossos conceitos, como respostas verbais, são função (cf.
Leigland, 2003; Moore, 2001).
Uma concepção funcional da linguagem c encontrada também
cm W ittgenstein (1953/1988), para quem a linguagem constitui uma
forma de ação hum ana no mundo, baseada em convenções social­
m ente definidas. Como tal, suas relações com a realidade não são
de representação; ao contrário, a linguagem define a realidade, no
sentido de que quando participamos de certos jogos de linguagem ”,
quando usamos certos conceitos de modos eficientes em certos con­
textos, estamos configurando uma parcela da realidade a um tipo
particular de experiência com ela, estamos tornando-a diferenciada
de modos específicos, que não nos aproximam ou distanciam de ne­
nhuma essência, mas nos permitem interagir dc modos que atendem
a certas necessidades. Lampreia (1992) sintetiza esse ponto de vista
assinalando que WiLtgenstein
procurou combater a visão tradicional segundo a qual as palavras
representam, ou substituem, uma referencia e as sentenças descre­
vem um estado de coisas. Mas isto não significa que ele negue que
as palavras possam ser usadas para representar uma referência e
que as sentenças possam ser usadas para descrever um estado de
coisas. O que está em questão é o que determina a representação e
a descrição. Para Wittgenstein, não é a referência, mas todos os pres­
supostos envolvidos na prática de usar palavras e sentenças. A “re­
presentação" já se dá em um contexto que é linguístico e que envolve
uma “mitologia”’ e as crenças dc determinada cultura. E são essa
mitologia e essas crenças que, em última análise, determinam o sig­
nificado das representações. Ou seja, não é a realidade que sc impõe
à linguagem, mas, ao contrário, c a linguagem que se impõe à rea­
lidade c determina a forma como ela será representada. Diferentes

CAPÍTULO 2 109

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mitologias c crenças irão levar a diferentes representações da reali­


dade, logo irão constituir diferentes realidades, (p. 281)
Voltando à análise de Skinner, a comunidade verbal é que dispõe
contingências que podem promover a instalação de respostas au-
todcscritivas dc emoções. Segundo Skinner (1945), nesses casos,
a com unidade baseia sua ação reforçadora em estímulos públicos
correlacionados com os estímulos privados. Para o indivíduo, porém,
a resposta pode vir a ficar sob controle dos estímulos privados, ainda
que disso resulte uma “im precisão” das respostas autodescritivas.
Tanto a suposição skinneriana de que a comunidade verbal “infere”
o que acontece no mundo privado, quanto sua insistência no caráter
“impreciso” (las respostas autodescritivas de sentimentos e emoções
constituem aspectos polêmicos da análise skinneriana, discuLido em
outros trabalhos (c.g., Bloor, 1987; Tourinho, 1994a, 1994b). Como
o próprio Skinner (1945) assinala, as contingências sociais conti­
nuam operando na m anutenção dc nosso repertório verbal, isto é,
nossas autodcscrições perm anecem sob controle de contingências
socialmente dispostas (incluindo o controle de estímulos cm que
o reforçamento diferencial está baseado) mesmo após adquirirmos
esse repertório. “O indivíduo adquire a linguagem da sociedade, mas
a ação reforçadora da comunidade verbal continua a desempenhar
um papel importante na manutenção das relações específicas entre
respostas e estímulos, que são essenciais ao funcionam ento apro­
priado do comportamento verbal" (Skinner, p, 272). Sc aprendemos
a atribuir “sono”, “alegria” ou “angústia” sob controle de certas res­
postas abertas, dos outros e de nós mesmos, nossas autodescríções
desse tipo continuarão sob controle de contingências baseadas nes­
ses eventos públicos, caso contrário, deixam de ser funcionais nas
interações com os outros.
Uma apreciação mais recente de como podemos eonsistentemente
interpretar os conceitos mentais à luz da teoria skinneriana do com­
portamento verbal e das contribuições da filosofia de W ittgenstein é
olerecida por Kibes (2004):
Os conceitos mentais são aprendidos como palavras c expressões
usadas e aplicadas corretamente em circunstâncias e situações espe-

110 SUBJETIVIDADE E RELAÇÕES COMPORTAMENTAIS

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cíficas. O aprendizado de descrições ou identificação de estados men­


tais e intenções na primeira pessoa acontece do mesmo modo que o
aprendizado da identificação desses estados em segundas e terceiras
pessoas: usando c aplicando o conceito corretamente. Aprendemos
a reconhecer a circunstância na qual um conceito tem significado
ajustando-nos aos critérios, comportamentais e situacionais, sob os
quais o conceito c usado apropriadamente. O conceito é aprendido
falando e comportando-se de uma maneira particular, não por meio
de um processo elaborado de discriminação de propriedades físicas
ostensivas, internas ou externas, de si m esmo ou de outros, e cons­
truindo com base nisso a identificação, nomeação, ou descrição do es­
tado mental ou intenção (ou tateando estímulos privados sob controle
da comunidade verbal). Os conceitos mentais estão profundamente
ligados à linguagem, (pp. 65-66)

Limites da Noção de Eventos Privados


Na presente seção, pretende-se desenvolver a ideia de que a distin­
ção público-privado, central para a elaboração skinneriana acerca
dos “termos psicológicos”, pode funcionar para reproduzir a lógica
dualista que está na origem da definição do objeto da Psicologia
(cf. Ribes, 1982; Tourinho, 1995), ou, de modo diverso, pode fun­
cionar para conferir inteligibilidade para aspectos im portantes da
experiência de interioridade e sugerir caminhos para uma abordagem
científica (não dualista) da experiência subjetiva cm geral. Em outras
palavras, as ideias dc contato diferenciado do indivíduo com certos
estímulos e de restrição na observabilidade de certos estímulos e
certas respostas podem ser preservadas como recursos importantes
para uma coniprccnsão científica de sentim entos c pensamentos,
sem necessariam ente conduzir-nos a uma visão dualista dos fenô­
menos humanos.
Já foi assinalado acima que a ideia skinneriana dc imprecisão das
respostas verbais autodescritívas de emoções é problemática porque
parte da noção de uma (im)possível (ou supostam ente desejável)
correspondência entre linguagem e subjetividade. Apesar disso, é
importante salientar que um aspecto distintivo da análise dc Skinner

CAPÍTULO 2 111
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consiste em cham ar a atenção para o fato dc que nossas respos­


tas verbais45, sob certos arranjos de contingências (por exemplo,
quando incluem contingências que promovem auto-observação e
autocontrole), podem ficar 'parcialmente sob controlc de estímulos
gerados pelo próprio corpo (em particular, estímulos interocepti-
vos e proprioceptivos)46. Ao longo de sua obra, Skinner assinalou
que isso acontecia tendo por base uma correlação entre estím u­
los públicos (aos quais a comunidade verbal tem acesso) e estímulos
privados (aos quais apenas o próprio indivíduo tem acesso direto).
Mais recentem ente, foi demonstrado empiricamente que condições
anatomofisiológicas podem adquirir função de estímulo discrimi-
nativo (interoceptivo) enquanto membros de classes de estím u­
los equivalentes das quais participam tam bém estímulos públicos
(cf. DeGrandpre, Bickel & Higgins, 1992)47. Do ponto de vista da
análise que vimos desenvolvendo, esse aspecto do tratam ento que
Skinner provê para a relação entre privacidade e linguagem 6 bastan­
te relevante quando considerado à parte do discurso da imprecisão.
Isto é, não se trata de afirmar que a descrição de uma angústia, por
exemplo, é mais ou menos precisa, correspondendo mais ou menos
precisam ente a uma condição anatomofisiológica particular, mas
dc destacar que a resposta verbal “estou angustiado” pode ficar sob
controle de estímulos privados equivalentes ou correlacionados com
estímulos públicos (sejam eles quais forem, e sejam eles variáveis

45 Sobre outras possíveis funções de estímulos privados (eliciadora, reforçadora,


ou discriminativa para respostas não-verbais), ver Tourinho (2006).
46 Para uma apreciação crítica do alcance dessa possibilidade, ver lòurinho
(2006).
47 Observe-se que a afirmação da equivalência entre estímulos públicos e priva­
dos está aqui circunscrita às condições sob as quais a análise do comportamento
tem investigado a equivalência de estímulos (cf. DeGrandpre, Bickel & Higgins,
1992). Em particular, deve ser notado que, embora equivalentes, estímulos pú­
blicos podem adquirir funções discriminativas para respostas verbais à parte
de qualquer relação com estímulos privados, ao passo que estímulos privados
defendem das relações (correlações ou relações de equivalência) para adquirir
as mesmas lunções (cl. Tourinho, 2006).

112 SUBJETIVIDADE E RELAÇÕES COM PORTA MENTAIS

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ou não dentro de um certo arranjo — cf. Tourinho, 2006). Moore


(2001) observa como esse componente da explicação skinneriana a
diferencia de outras perspectivas interpretativas:
a análise do comportamento concorda com a análise conceituai e com
Wittgenstein que o comportamento verbal não pode originar-se sob
controle de estímulos privados. De fato, admitir isso seria uma marca
do dualismo. No entanto, a análise do comportamento argumenta que
o comportamento verbal pode originar-se sob controle de circuns­
tâncias públicas e o controle pode então transferir-se para estímulos
privados, de modo que em instâncias específicas o comportamento
verbal em questão pode vir a ser ocasionado por estímulos privados.
Mas a distinção entre público e privado na análise do comportamento
é na realidade não uma distinção ontológica entre físico e mental. No
lugar disso, é uma distinção de acesso, (p. 177, itálico do original)
E necessário, porém, ir além da colocação de Moore (2001), sa­
lientando as implicações das condições sob as quais a “transferência”
do controle de estímulos (de eventos públicos para eventos privados)
acontece. Em segundo lugar, é necessário definir o exato lugar da no­
ção de privado, a partir do reconhecimento de que respostas verbais
podem ficar parcialmente sob controle de estímulos privados.
Tendo em vista o funcionam ento da linguagem, isto é, a depen­
dência do comportamento verbal relativa a contingências sociais, o
controle de respostas verbais por estímulos privados não se descola
das contingências baseadas em estímulos públicos (isto é, não passa
a independer destes) apenas porque ocasionalmente a resposta é
emitida sob controle de estímulos privados relacionados. A transfe­
rência de controle de estímulos a que Moore (2001) se refere não
é absoluta, muito menos definitiva. O controle eventual de respos­
tas verbais por estímulos privados só é possível porque o repertório
verbal é mantido por reforço interm itente, este sempre baseado em
estímulos públicos. Disso resulta que nossos conceitos de emoções
e sentimentos não descrevem e não podem descrever ocorrências
essencialmente privadas. Olhando de outro modo, significa que os
conceitos de que dispomos descrevem eventos ou fenômenos sem­
pre dotados de dimensões públicas.

CAPÍTULO 2 113

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A análise de Skinner, porem, mostra-nos que tam bém pode ser


um equívoco tomar os conceitos emocionais como descritivos ape­
nas de conjuntos de classes de eventos públicos4*. Isto é, quando
um indivíduo diz que está angustiado, não apenas está descrevendo
conjuntos amplos de ação, ou a probabilidade de agir publicamente
de modos específicos em frente a certos estímulos. Ele pode es­
tar tateando uma condição corporal associada àquelas ocorrências.
Km outras palavras, Skinner está atento a aspectos da experiência
de sentimentos e emoções no mundo moderno que a diferenciam de
outros contextos socioculturaís. Se é verdade que em culturas não
individualistas os conceitos em ocionais são “em pregados” sem ­
pre sob controle de conjuntos de eventos todos públicos, também
c verdade que cm uma cultura que promove perm anentem ente
a auto-observação e o autocontrole esses conceitos existem sob a
forma de respostas verbais parcialm ente sob controle de estímulos
gerados pelo próprio corpo (e que, quando afetam os outros, a es­
timulação é de outro tipo).
Passando para as respostas encobertas, sendo originalm ente
função de contingências baseadas na forma aberta, deve-se notar
que são sempre instâncias de respostas adquiridas e mantidas sob
controle de contingências públicas. Isto e, quando um indivíduo
pensa49 (ou em ite encobertam ente a resposta verbal) “o dia hoje
está chuvoso", esse pensar constitui uma instância de uma resposta

48 A abordagem skinneriana diferencia-se, por exemplo, do behaviorismo molar


de Rachlin (cf. Baum. 1994) e do behaviorismo linguístico de Ryle (cf. Ryle,
1949/1984), para os quais os conceitos emocionais não descrevem ocorrências
discretas, mas constituem rótulos para conjuntos de diferentes classes de com­
portamentos (cf. Holth, 2001).
49 Os conceitos de "pensar’ e de “pensamento” constituem respostas verbais sob
controle de eventos ou fenômenos muito diversos (e.g., como em “Eles pensam
que nos enganam”, “José está pensando em escrever um livro", “Pensando bem, é
melhor aguardar a chuva passar”, “Pense bem antes de tomar uma decisão" etc.).
lòdavia, a discussão que vem sendo apresentada focaliza apenas o pensar enquan­
to resposta verbal encoberta (como em I.. J. Hayes, 1994), em razão do interesse
particular desse fenômeno para a discussão da subjetividade/privacidade.

114 SUBJETIVIDADE E RELAÇÕES COMPORTAMENTAIS

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verbal adquirida c mantida sob controle de um reforçamento dife­


rencial provido pela comunidade verbal quando a resposta é emitida
na forma aberta. Assim, uma resposta encoberta tem sempre e ne­
cessariamente dimensões públicas, independentem ente do quanto
varie em termos daquelas propriedades (formais e relacionais) dis­
cutidas na seção anterior, que a tornam mais ou menos facilmente
identificável por terceiros.
Com as observações anteriores, pode-se argumentar que a noção
de privado é relevante para salientar certas propriedades do con­
trole de estímulos cm respostas verbais descritivas de emoções c
sentimentos e certas propriedades de algumas respostas (em geral,
aquelas que qualificamos como “cognitivas” ou “m entais”“50) em uma
sociedade individualista. Por outro lado, isso é diferente de postular
que faz sentido categori/ar os eventos que são relevantes para uma
análise psicológica, ou comportamental, como públicos ou privados.
Quando fazemos isso, podemos dizer que introduzimos uma dicoto­
mia que, embora não expresse um dualismo metafísico (cf. Skinner,
1945), reproduz a lógica dualista sobre a qual a Psicologia foi funda­
da. Conforme assinalado no Capítulo 1, a distinção público-privado,
pensada no plano das relações dos homens e m ulheres uns com
os outros, dos modos como passam a se organizar politicamente (o
conflito indivíduo/Estado) c a s e relacionar socialmente (a distin­
ção sociabilidade anônima/sociabilidade restrita), significa não uma
problematização (ou cisão) do indivíduo/sujeito, mas um modo de
enfocar dimensões das relações interpessoais. Ao transportá-la para
o domínio psicológico de análise, tendemos a tomá-las como igual­
m ente apropriadas enquanto expressão de dimensões dos termos
que constituem as unidades de análise de nosso objeto de estudo

50 Como apontado antes, exatamente por força de contingências que estão na


origem desses conceitos, tendemos a chamar de internos os sentimentos e emo­
ções e de mentais as atividades intelectuais. Menos frequentemente chamamos
de internas as atividades cognitivas, e menos ainda tendemos a chamar de men­
tais os sentimentos e emoções.

CAPÍTULO 2 115

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(no casoTdimensões dos estímulos e das respostas)51 e com isso pas­


samos a operar com a mesma lógica dualista subjacente ao cartesia-
nismo (cf. Ribes, 1982).
Uma primeira razão para rejeitar a dicotomia público-privado con­
siste no fato de que comportamentos (enquanto relações) não são
fenômenos públicos ou privados, mas fenômenos de maior comple­
xidade dos quais podem participar estímulos públicos e respostas
encobertas. Para além disso, estímulos e respostas não são eventos
que podem ser categorizados como públicos ou privados. São even­
tos que variam ao longo de um continuum de observabilidade, e
por força não apenas de suas propriedades formais, mas também do
contexto interpessoal em que acontecem. Ou seja, observabilidade
ou inobservabilidade não constituem propriedades absolutas de es­
tímulos e respostas; são poios de um continuum ao longo do qual
variam certos eventos em contextos de relações.
Na seção anterior discutiu-se mais claram ente a noção de um
continuum de observabilidade de respostas, mas não se especificou
em que medida o mesmo raciocínio poderia ser empregado na dis­
cussão de estímulos. A lógica, no entanto, é a mesma. EsLímulos
não são simplesmente eventos, mas eventos com certas funções no
contexto de relações comportamentais. No caso específico dos con­
ceitos psicológicos^2, argumentou-se anteriormente que nossas res­
postas verbais autodescritivas de emoções são emitidas sob controle
de eventos públicos apenas, ou sob controle de eventos públicos e
privados. Assim, também no caso dessas relações comportamentais

51 Ou seja, há uma diferença substancial entre o que significam os conceitos


de público e de privado na Sociologia e na Psicologia, um tema ainda por ser
analisado de modo aprofundado.
52 A presente análise de estímulos privados Lem enlocado apenas as circunstân­
cias nas quais condições do próprio indivíduo adquirem Funções discriminativas
para respostas verbais em razão de que são essas as circunstâncias que importam
para uma análise dos conceitos psicológicos. Como afirma Skinner (1945), "o
único problema que uma ciência do comportamento pode resolver em conexão
com o subjetivismo é no campo verbal. Como podemos explicar o comportamen­
to de faiar sobre eventos rnentais?” (p. 294).

116 SUBJETIVIDADE E RELAÇÕES COMPORTAMENTAIS

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verbais, não há simplesmente um evento controlando a resposta, mas


arranjos de eventos. Esses arranjos podem variar quanto à observa-
bilidadc, dependendo do grau de participação de eventos públicos e
eventos privados. Isso permitiria falar também em um continuum de
observabilidade dos arranjos de estímulos que controlam respostas
autodcscritivas de emoções e sentimentos. E claro que esse raciocí­
nio pode ser questionado, salientando-se que há estímulos privados
específicos, mas nesse caso não se trata do arranjo dc eventos que
controla qualquer resposta autodescritiva de emoções e sentimentos,
isto é, estaremos referindo um evento qualquer à parte das relações
que constituem nosso objeto de análise.
Em suma, se a noção de privado ou (in)observabilidade é relevan­
te para uma compreensão ampla da problemática de sentimentos e
emoções no m undo moderno, a categorização de estímulos e res­
postas como simplesmente públicos ou privados é desnecessária e
introduz uma lógica que pode comprometer a compreensão desses
fenômenos. O pensar (como o imaginar, o sonhar ctc.) c uma rela­
ção do homem com o mundo, que não cabe no rótulo de público ou
privado. Mesmo o pensar enquanto resposta (termo daquela relação)
não pode ser estritamente privado (sernpre terá dimensões públicas).
Alegrar-se, entristecer-se, angustiar-se etc. também não são eventos
discretos que possam ser definidos como públicos ou privados, mas
relações comportamentais.
A favor de Skinner, nesse debate, deve contar o fato de que sua
abordagem inicial para a questão da privacidade representou um
passo adiante na construção de uma reíerência com portam cntal
para o tratam ento do assunto, afastando o dualismo metafísico da
Psicologia mentalista e o fisicalismo dos behavioristas metodológicos
(cf. Skinner, 1945; Tourinho, 1995). Os termos iniciais dc sua ela­
boração sobre eventos privados, porém, não sofreram grandes altera­
ções em trabalhos posteriores. Alem disso, sua rejeição da categoria
de mental serve apenas para afastar o dualismo metafísico, mas não
funciona para instituir uma perspectiva totalm ente consistente de
análise. Sua afirmação de que “a m inha dor de dentes é tão físi­
ca quanto a minha máquina de escrever, embora não seja pública”
(Skinner, 1945, p. 294) pode funcionar como uma armadilha se for

CAPÍTULO 2 117

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interpretada em sentido estrito. Dor de dentes não é o tipo de fenô­


meno que se defina por propriedades físicas, portanto assinalar que
há propriedades físicas aí envolvidas serve apenas para que não seja
LraLado como fenômeno imaterial, mas não para indicar como pode
ser consistentemente tratado.
Uma segunda razao para afirmar que a dicotomia público-privado
traz problemas para uma análise comportamental de sentimentos e
emoções consiste no fato de que o conceito de privado formulado
genericam ente como a propriedade distintiva dc ccrtas instâncias
dc sentim entos e pensam entos leva a uma diversidade de defini­
ções não coincidentes. Essa variedade de definições para eventos
privados é notória e pode ser aqui ilustrada. Baum (1994) sustenta
que “eventos privados são eventos que nunca podem ser relatados
por mais de uma pessoa, não im portando quantas outras pessoas
estejam presentes” (p. 30). De acordo com essa definição, eventos
privados são eventos que não podem ser tateados por outros, no
que o aspecto verbal torna-se central para a definição. Anderson
e cols. (1997) afirmam que eventos privados são “respostas priva­
das e os efeitos de estím ulo dessas respostas na pessoa que está
respondendo” (p. 158). De acordo com esse ponto de vista, o res­
ponder encoberto é que é central para a definição dc eventos pri­
vados. Anderson e cols. (1997) acrescentam haver “quatro classes”
(p. 161)^ de eventos privados: “emoções (afeto, sentimentos), pen­
samentos, percepções (visuais ou outras imagens) e estimulação in-
teroceptiva e proprioceptiva” (p. 161). As emoções, admitidas como
uma classe de eventos privados, são adiante definidas como “uma
resposta ou um conjunto de respostas ... Essas respostas podem
incluir comportamentos respondentes ... e podem incluir comporta­
mentos operantes” (p. 161). Moore (2000) oferece outra definição:
alguns fenômenos privados são condições sentidas do corpo (e.g.,
por exemplo, dores, sentim entos e emoções), enquanto outros são
formas encobertas de comportamento (o pensar, resolver problema,

53 0 título da seção do artigo cm que essa expressão aparece é “Tipos de Eventos


Privados” (cf. Anderson & cols., 1997, p. 161).

118 SUBJETIVIDADE E RELAÇÕES COMPORTAMENTAIS

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lembrar e imaginar)” (p. 48). Na elaboração dc Moore, os eventos


privados são condições corporais que adquiriram funções de estí­
mulo e respostas encobertas. Todas essas definições são de algum
modo consistentes com as proposições de Skinner, mas isso também
significa que “eventos privados” é uma resposta verbal emitida por
analistas do com portam ento sob o controle de conjuntos variados
dc eventos. Trata-se, portanto, ela mesma, de uma resposta verbal,
para usar o termo de Skinner, “im precisa”.
A seção seguinte discutc essa noção de “evento privado” como res-
posta verbal, buscando delinear uma abordagem de caráter analítico-
comportamental para os problemas da subjetividade. A partir desse
ponto, deve ser notado que o conceito de 'privacidade será empregado
na referência a fenômenos com diferentes graus de complexidade,
dos quais participam eventos com diferentes graus de observabilida-
de, não eventos estritamente privados.

"Eventos Privados" como Resposta Verbal


Esta seção está parcialmente baseada em uma análise desenvolvida
em Tourinho (2006), a ela acrescentando alguns desdobramentos e
refinamentos, na direção de enfatizar o enfoque relacional da análise
do comportam ento e suas concxões com o campo da privacidade.
A proposição central daquele trabalho é a de que quando analistas
do comportamento falam de eventos privados (como nas definições
apresentadas na seção anterior) estão se voltando para (ou estão sob
controle de) conjuntos diferentes de problemas, ou aspectos não ne­
cessariamente coincidentes de um mesmo conjunto de problemas. A
análise foi bastante motivada por uma proposição de Friman e cols.
(1998), de acordo com a qual há circunstâncias em que as respostas
verbais autodescritivas de emoções funcionam não apenas como ta-
tos, mas também adquirem funções de determinantes do comporta­
mento público, o que contrariaria uma alegação skinneriana de que
esses fenômenos não estão dotados de funções causais.
Uma das dificuldades encontradas nesse debate sobre o possível
status causal de sentim entos e emoções, que conflita à prim eira
vista com um enfoque que toma o com portam ento como relação

CAPÍTULO 2 119

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do organismo como um todo com eventos externos a ele, reside


no fato de que sentimentos e emoções são eles mesmos respostas
verbais em itidas sob controle de fenôm enos diversos. Em geral,
quando Skinner (e.g., 1963/1969, 1989, 1974/1993) alega que sen­
tim entos não causam respostas públicas sua referência é ao que ‘ e
sentido” ou “introspectivam ente observado”, isto é, as condições
anatomofisiológicas que em um dado m omento são o resultado da
história genética e ambiental do indivíduo. Essas condições de fato
não causam o responder público (embora possam controlar discri­
m inativam ente — nos limites discutidos acima — respostas auto-
descritivas e, em algumas circunstâncias, possam funcionar como
operações estabelecedoras, isto é, condições que alteram m om en­
taneam ente a sensibilidade do organismo a certas contingências de
reforçamento). Todavia, quando Friman e cols. (1998) argumentam
que é necessário analisar de modo diferente as emoções, estao par­
tindo da noção de que as autodescrições são elas mesmas parte do
fenôm eno discutido como em ocional e assinalando que uma vez
que essas autodescrições participam de outras relações e entram no
controle de comportamentos futuros dos indivíduos, não é possível
sim plesm ente dizer que não possuem um slalus causal. Um Lrecho
de Friman e cols. (1998) ilustra o ponto de afastamento em relação
à análise de Skinner.
Uma pessoa com transtorno de pânico não evita simplesmente lo­
cais públicos; ele ou ela evita todo um conjunto dc comportamen­
tos privados associados com aqueles lugares. A alegação de Skinner
de que a emoção e o comportamento aberto são controlados pelos
mesmos eventos está, portanto, incorreta, ou pelo menos incompleta.
Um entendimento mais completo requer uma análise das comple­
xas contingências verbais que estão envolvidas na disposição humana
para categorizar eventos arbitrários (e.g., um coração agitado) como
emoções negativas e responder de modo correspondente (“Estou em
pânico, tenho que sair”). Uma análise das contingências diretas po­
deria revelar a base para a esquiva de uma pessoa de lugares públicos,
mas não explica prontamente a esquiva de seus pensamentos e senti­
mentos sobre esses lugares, (p. 149)

120 SUBJETIVIDADE E RELAÇÕES COMPORTAMENTAIS

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O modelo proposto por Tourinho (2006) para a análise dc problemas


desse tipo, e correlatos, parte do suposto de que, enquanto fenôme­
nos psicológicos ou comportamcntais, sentimentos e emoções podem
ser abordados apenas como relações. Condições anatomofisiológicas,
ainda que participem de fenômenos comportamentais (afinal, trata-se
de comportamento dc organismos), não definem esses fenômenos (cf.
Tourinho & cols., 2000) e em certas circunstâncias analíticas podem
inclusive ser ignoradas (cf. Reese, 1996a, 1996b). Portanto, ao inda­
gar se o responder (público ou privado) pode ou não ser determinado
por emoções e sentimentos, o que podemos estar examinando é (a)
que relações definem uma emoção ou sentimento específico e (b)
como essas relações variam com respeito ao grau de complexidade e
se entrelaçam com outras relações comportamcntais.
Um sentimento específico, por exemplo, a inveja, enquanto rela­
ção comportamental pode envolver um responder com os seguintes
componentes: a) controle discriminativo pela presença de outro in­
divíduo (o “invejado”), notícias sobre o invejado, objetos do inve­
jado etc.; b) classes dc respostas verbais (por exemplo, descrever
negativamente o invejado, ou criticar suas qualidades, fazer intrigas
envolvendo o nom e do invejado etc.) e não-verbais (por exemplo,
tentativas dc imitar o invejado, de eliminar atributos ou propriedades
do invejado); c) sensibilidade a aspectos do ambiente físico e social
do invejado e, ao mesmo tempo, a descrições negativas do invejado
por outros, enquanto estímulos reforçadores. Outras relações com
o mesmo ou diferentes graus de complexidade podem constituir a
inveja para um segundo indivíduo. Por exemplo, pode incluir uma
autodcscrição do tipo “Eu sou melhor do que fulano”, sob contro­
le daquela relação154. Pode também incluir a mesma autodescrição

54 Paradoxalmente, um indivíduo que exiba o padrão descrito será considerado


invejoso pelos outros, mas sua inveja dificilmente incluirá a autodescrição “Eu in­
vejo fulano”. Em conLrapartida, quando um indivíduo afirma “Eu invejo fulano",
essa resposta ‘'funciona” nas relações interpessoais como sinal de respeito ou ad­
miração pelo outro, não como evidência de inveja enquanto o fenômeno descrito
acima. Isso acontece, para usar uma expressão de Wittgenstein (1953/1988),
como resultado da gramática da palavra “inveja”, que serve a diferentes usos. No

CAPÍTULO 2 121

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parcialm cntc sob controle de uma condição corporal associada. A


presença do invejado pode adquirir funções eliciadoras em relações
respondentes-5 etc.
O grau variável de complexidade dos fenômenos comportamentais,
especialm ente humanos, pode ser examinado tendo-se como refe­
rência as relações que os definem e os entrelaçamentos dessas rela­
ções. Em Tourinho (2006) propõe-se que o modo causal de seleção
por consequências, formulado por Skinner (e.g., 1981, 1990) provê
uma referência produtiva para a análise do problema, De acordo com
Skinner, o comportamento humano é o produto conjunto de contin­
gências filogenéticas, ontogenéticas e culturais. Um fenômeno com-
portamental humano, na análise desenvolvida em Tourinho (2006),
pode incluir relações produzidas em um ou mais desses níveis e isso
poderia ser tomado como uma referência da complexidade do fenô­
meno. Para explicitar esse ponto de vista, Tourinho recupera a abor­
dagem de Donahoe e Palmer (1994), segundo a qual “a complexidade
é o resultado cumulativo de processos seletivos repetidos” (p. 22).
As ciências históricas explicam a complexidade como resultado do
processo em trcs etapas, de variação , seleção e retenção ... Ciclos re­
petidos desse processo em três etapas são suficientes para produzir a
complexidade organizada no mundo biológico e —sustentamos —tam­
bém no mundo eomportamentul. {Donahoe & Palmer, 1994, p. 18)
Na noção dc complexidade sugerida por Tourinho (2006), tanto a
repetição dos processos seletivos como o nível em que se dão (filo-
gênese, ontogênese e cultura) constituem referências importantes.
Tourinho sugere um conúnuum de complexidade dos fenômenos
comportamentais humanos baseado nesse modelo. De acordo com

exemplo citado, estamos focalizando apenas um uso particular do conceito. Em


temos comportamentais, isso significa que "invejar" (como o “pensar”, ilustrado
anteriormente) constitui uma topografia de resposta verbal que pode participar
de relações comportamentais diversas.
55 Em Darwich e Tourinho (2005), explica-se como relações respondentes e
operantes podem entrelaçar-se em fenômenos emocionais.

122 SUBJETIVIDADE E RELAÇÕES COMPORTAMENTAIS

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essa proposta, um fenômeno será tão ou mais complexo do que outro


dependendo de incluir relações resultantes de um ou mais níveis de
determinação. A noção de complexidade está aqui associada a uma
ideia de inclusividade. Fenômenos mais complexos são aqueles que
incluem relações produzidas por um nível adicional dc determ ina­
ção. Uma representação gráfica possível dessa ideia é apresentada
na Figura 1, a seguir. Observe-se que (a) fenômenos em um nível
superior de complexidade incluem relações dos níveis anteriores e
(b) o continuum não tem apenas três segmentos, correspondentes
aos três níveis de variação e seleção, mas sugere que mesmo nos
limites de um mesmo nível os fenômenos podem variar em comple­
xidade (dependendo das relações envolvidas e do entrelaçam ento
dessas relações).

Cultura

Figura 1: Complexidade dc fenômenos comportamentais à luz do modo causai de


seleção por conseqüências.

Um continuum assim definido poderia ser útil na análise da priva­


cidade e teria as seguintes feições:
Proponho que a complexidade dos fenômenos comportamentais hu­
manos relacionados à privacidade pode ser tratada como função de
processos seletivos repetidos, envolvendo a participação de variáveis
filogenéticas, ontogenéticas e culturais. Proponho que um continuum

CAPÍTULO 2 123

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dc complexidade pode ser derivado dessa perspectiva. Em uma extre-


midade desse continuum, os fenômenos comportamentais estariam
limitados a relações filogcnéticas, o que incluí respostas sob o contro­
le de eventos que adquiriram função de estímulo na história filogené-
tica do homem. K claro que esse é um zero ideal do continuum, uma
vez que nenhuma relação real pode ser interpretada como resultante
apenas da filogênese. Mas algumas respostas humanas, como o sugar
o seio, ou o mover-se em direção à voz da mãe, pelo bebê, estão clara­
mente mais próximas dessa extremidade do continuum.
Na outra extremidade do continuum , temos fenômenos compor­
tamentais constituídos por relações (entrelaçadas), resultantes de
variáveis filogenéticas, ontogenéticas e culturais. A maior complexi­
dade resulta aqui não apenas de processos seletivos repetidos, mas
também dos tipos de variáveis envolvidas no controle, especialmente
a participação de contingências verbais que tornam possíveis novas
relações (entrelaçadas). Esse é o caso, por exemplo, quando a raiva
de alguém se define não apenas por respostas reflexas de glândulas
e músculos lisos, mas também por um conjunto de relações que in­
cluem uma alta taxa de respostas agressivas cm direção a um agente
controlador (cf. Skinner, 1953/1965, p. 362), respostas de auto-ob-
servação, respostas autodescritivas e outras respostas controladas por
autodescrições, todas presumivelmente estabelecidas por contingên­
cias operantes anteriores. Nesse caso, um termo de uma relação (um
estímulo ou uma resposta) pode adquirir uma função de estímulo
para outras respostas. A resposta de agressividade de uma pessoa
pode ser um estímulo discriminativo para respostas autodescritivas,
que por seu turno podem controlar discriminativamente outras res­
postas em direção ao agente controlador ou a estímulos relacionados.
( Ibnrinho, 2006, pp. 24-25)
Embora possamos dizer que emoções e sentim entos têm uma
base hlogenética, a história am biental dc um indivíduo produzirá
um conjunto de relações entrelaçadas que vão muito além daquela
determinação. Quando essa história inclui contingências culturais,
um grau muito maior de complexidade é introduzido em razão do
íato de que a linguagem dá origem a funções de estímulo derivadas

124 SU G JETM DADE E RELAÇÕES COMPORTAMENTAIS

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(S. C. Ilayes, Barnes-Holmes & Roche, 2001), isto é, com a lingua­


gem introduzimos muitas novas relações como constitutivas dc um
fenômeno. Um indivíduo que se com porta de determ inados mo­
dos em certos contextos e sensível (ou não) a certas consequências
pode ser considerado por outros “depressivo”, ou não, independen­
tem ente dc se autodescrever desse modo. lodavia, quando aprende
a dizer-se um indivíduo depressivo, dependendo das contingências
culturais a que tiver sido exposto, pode estar aprendendo mais do
que isso. Pode aprender, também, que sujeitos deprimidos são um
fracasso social, têm dificuldades para cumprir funções profissionais,
não são bem-sucedidos afetivamente ctc. Essas descrições entram
no controle de uma ampla gania de outros comportamentos e mui­
tas mais relações (e muito mais complexas) passam a ser constitu­
tivas de sua depressão.
Um raciocínio sem elhante pode ser desenvolvido para qualquer
emoção ou sentimento, incluindo aqueles para os quais identifica­
mos mais claramente um com ponente filogenético. O que cham a­
mos dc medo, por exemplo, inclui conjuntos muito variados (em
extensão e complexidade) de relações comportamcntais. (Em ouLras
palavras, o “m edo”, como “eventos privados” e como todos os con­
ceitos emocionais, pode ser entendido como uma resposta verbal
emitida em uma dada cultura sob controle de conjuntos variados de
fenômenos, por isso afirmações genéricas sobre o medo podem sern-
pre ser questionadas à luz de instâncias às quais não se aplicam).
Dizemos que crianças têm medo de ficar sozinhas, que Cebolinha
tem medo dc M ônica e que jornalistas têm medo de políticos (ou
que políticos têm medo de jornalistas, dependendo do caso). Em
cada situação, estamos diante de um lenômeno com determ ina­
do grau de complexidade. A noção de inclusividade é im portante
para assinalar que fenômenos mais complexos diferem tanto quanto
incluem relações adicionais. O medo mais complexo, no qual se
identificam relações produzidas por um nível cultural de determ i­
nação, não se lim ita a isso; inclui relações produzidas nos níveis
filogenético e ontogenético de determ inação (o que tem im plica­
ções im portantes para a identificação do alcance da intervenção
verbal ou não-verbal em Psicologia). Questões dessa ordem esLão

CAPÍTULO 2 125

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mais extensam ente discutidas em Tourinho (2006). Nos parágrafos


seguintes, são sugeridos alguns desdobramentos dessa abordagem,
não contemplados naquele trabalho.
As relações entre linguagem e sentimentos
Em uma discussão do tema da subjetividade à luz do modo causai
de seleção por consequências, Andery (1997) assinala que “sem o
terceiro nível de seleção por consequências é impossível, por assim
dizer, discutir-se a construção da subjetividade” (p. 206). Essa afir­
mação deriva do que toi discutido acima acerca da necessidade de
exposição do indivíduo às práticas de uma com unidade verbal para
que seu m undo “interno” seja construído (na verdade, para que seu
próprio corpo adquira certas funções para suas respostas verbais).
Assim, os conceitos emocionais não descrevem algo que existe an­
tes e independentem ente do com portam ento verbal; ao contrário,
com a aquisição do com portam ento verbal 6 que as emoções, en ­
quanto fenômenos experimentados pelo indivíduo na relação con­
sigo mesmo, isto é, as emoções enquanto fenômenos que incluem
o responder verbal sob controle do próprio corpo, passam a existir.
Essa é a subjetividade de que falamos quando nos referimos aos
conceitos psicológicos.
Uma objeção pode ser levantada à proposição da dependência da
subjetividade em relação à linguagem, assinalando-se que nossos
conceitos emocionais, como apontado antes, são usados mesmo em
circunstâncias em que o fenômeno emocional apresenta um grau
inferior de complexidade, em particular, em circunstâncias nas quais
não há um componente verbal. Que isso acontece pode ser verifica­
do quando atribuímos sentimentos e emoções a crianças pré-verbais.
Por exemplo, vemos uma criança ser afastada dos país c chorar e
atribuímos tristeza a ela. Esse fato pode servir ao argumento de que
o sentim ento existe independentem ente da linguagem. Mesmo de
animais infra-humanos poderia ser dito que ficam alegres, tristes,
aborrecidos, saudosos etc.
Todavia, somos nós, seres verbais, que atribuímos tristeza à crian­
ça pré-verbal ou a animais infra-humanos. Para a própria criança,
o “estar triste’' enquanto resposta verbal não existe como parte de

126 SUBJETIVIDADE E RELAÇÕES COMPORTAMENTA!S

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sua tristeza. Assim, diante da indagação acerca da possibilidade de


humanos pré-verbais (ou jnlra-humanos) “possuírem” subjetividade,
não é possível responder apenas afirmativamente ou negativamente.
D epende do que estiver sendo indagado. Se a questão é saber se
podemos encontrar em pré-verbais aquelas relações mais simples,
produtos da filogênese e da ontogênese, constitutivas de emoções
e sentimentos, a resposta é afirmativa56. Se a questão for saber se
há identidade entre essas relações e as relações que definem sen­
timentos e pensamentos para indívíduos verbais de sociedades que
promovem autoobservação e autocontrole, a resposta obviamente é
negativa. Quanto às consequências de se comparar os dois graus de
complexidade desses fenômenos, dependerá dos objetivos analíticos
do pesquisador.
Em suma, o componente verbal, quando existe, não simplesmente
descreve a emoção, ele é parte da emoção. Essa emoção que inclui
relações verbais produzidas pelo terceiro nível de determinação do
comportamento só existe para humanos verbais e, mais do que isso,
para humanos verbais expostos a determinadas contingências cul­
turais. A cultura que produziu a noção dc subjetividade é a mesma
que promove essas autodescrições e, por isso também, justifica-se a
compreensão de que o conceito de subjetividade está ligado a esse
grau mais avançado de complexidade de emoções e sentimentos.
A variabilidade de emoções e sentimentos entre culturas
Pesquisas transculturais têm demonstrado que certos sentimentos
variam como função de contextos culturais. Em outra direção, há
trabalhos postulando que certas emoções são universais, produtos da
seleção filogenética. Ambas as posições serão ilustradas a seguir, sem
menção às diversas e sofisticadas teorias encontradas na literatura

56 Como assinalado antes, a noção de um continuum baseado no modo causal


de seleção por consequências não significa que se trata de um continuum com
apenas três segmentos. Por exemplo, mesmo um sentimento limitado por rela­
ções ontogenéticas e filogenéticas pode ter diferentes graus de complexidade, no
sentido de que pode envolver mais ou menos relações, entrelaçadas ou não.

CAPÍTULO 2 127

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de Psicologia das emoções (cm razão dos objetivos específicos deste


trabalho), mas sugerindo-se que podem scr compreendidas à lu/, do
continuum de complexidade apresentado anteriormente.
Segundo M esquita e Walker (2003), a ideia de determinação fi-
logenética dos sentimentos e emoções tem prevalecido, inclusive
em grande parte dos estudos transculturais, enquanto “os aspectos
socioculturais das emoções tem sido am plamente ignorados, pelo
menos na Psicologia” (p. 778). Quando os aspectos socioculturais
são levados em conta, pode-se tanto enfocar os modos específicos
como sentimentos universais são experimentados em uma dada cul­
tura, quanto buscar identificar sentimentos que são próprios de um
universo cultural. Exemplo do primeiro tipo de estudo é encontrado
na seguinte descrição de M esquita c Walker:
modelos culturais da Ásia Oriental ... enfatizam a harmonia relacional
e favorecem que os indivíduos ocupem seu lugar apropriado. Esses
modelos culturais desencorajam os indivíduos quanto a ocuparem
muito espaço na relação, tanto figurativamente quanto literalmente.
Assim, o comportamento expansivo, tal como a atividade somática
geral, c um sinal de que o indivíduo está tomando mais do que o seu
espaço apropriado ... há indicação de que a expressão de felicidade,
um outro comportamento expansivo, também é raro em culturas que
atribuem uma ênfase à harmonia nas relações. As expressões de fe­
licidade são vistas como potencialmente disruptivas porque podem
contrastar dolorosamente com o estado emocional dos outros ..., ou
porque podem ser vistas como indicando a plausibilidade de um indi­
víduo estar desafiando as obrigações sociais e fugindo de responsabi­
lidades. (p. 786)57

57 Observe-se que aqui ternos um exemplo de como, em um contexto cultural


diferente daquele encontrado na sociedade ocidental moderna, um tipo de auto-
-observação e autocontrole emergem com funções distintas (nesse caso, preser­
var a harmonia no interior dos grupos sociais, o que possivelmente se relaciona
com a questão de respeito à hierarquia mencionada no Capítulo 1 - funções
que são relevantes nesse conLexLo, independentemente da extensão do universo
social e do grau de complexidade das relações de interdependência dos membros

128 SUBJETIVIDADE E RELAÇÕES COMPORTA MENTA IS

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Russcll (1991) aborda alguns achados de estudos do segundo tipo,


que focalizam emoções que são específicas de certos contextos cultu­
rais. Russell considera que as evidências colecionadas a esse respeito
demandam uma análise mais cuidadosa e especula que as diferentes
emoções podem ser apenas a “ponta do iceberg” de processos mais
amplos, envolvendo a diversidade de sistemas de crenças sobre “a
mente, o self, a sociedade, a natureza e assim por diante” (p. 445).
Em seu trabalho, oferece alguns exemplos de conceitos emocionais
próprios de certas culturas.
Um exemplo da Alemanha é a palavra Schaâenfreude , que significa
o prazer derivado do desprazer de outro. Uma outra palavra é Angst:
Waiter Lowrie (1944) traduziu o livro de Kierkegaard Der RegriffAngst
sob o título de O conceito de pavor, mas afirmou que “o próprio título
desse livro revela um lacuna séria em nossa língua: nào temos uma
palavra que traduza adequadamente Angst” (p. ix). Um exemplo da
língua japonesa é itoshii, que se refere a ansiar pela pessoa amada au-
sente'’*. Uma outra palavra é ijirashii. que se refere a um sentimento
associado com a visão de alguém louvável superando um obstáculo.
... Eu ouvi de uma mulher árabe sobre seu deleite ao aprender a
palavra em inglês Jrustration [frustração], pois sua língua nativa não
tinha nenhuma palavra para aquele sentimento. (Russell, 1991, p.
426, itálico do original)
A pesquisa que focaliza uma possível base filogenética das em o­
ções tem resultado na apresentação de listas variadas (em núm e­
ro e em itens) de “em oções básicas”. Em uma de apresentação
abrangente de sua história de pesquisas nessa área, Ekman (1993)
assinala que “expressões [faciais] universais distintivas têm sido

do grupo). Em contraste, no mundo ocidental moderno, a auto-observação e o


autocontrole emergem com a valorização do indivíduo (não do grupo) e com a
complexificação das relações de interdependência, cumprindo funções ligadas à
necessária previsibilidade do comportamento de cada um e à harmonização de
indivíduos ocupados com uma variedade cada ve/ maior de funções sociais.
58 Provavelmente um conceito sirnilar a “saudade".

CAPÍTULO 2 129

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identificadas para raiva, medo, repulsa, tristeza e alegria Sobre a


determ inação filogenética dessas emoções, Ekman afirma que
o que distingue as emoções de outros fenômenos psicológicos é que
nossa avaliação de um evento atual c influenciada por um passado
ancestral. Nào c simplesmente a nossa história ontogenética, mas a
nossa história filogenética que faz com que uma emoção seja mais
prontamente suscitada em uma circunstância do que em outra, e ain­
da assim a ontogenia tem um efeito enorme, (p. 389)60
Na literatura da análise do comportamento são também encontra­
das referências a emoções “primárias” (cf. Banaco, 1999; Millenson,
1967/1975), definidas em term os de relações com portam entais.
Millenson menciona três emoções primárias, ansiedade, elação e rai­
va, como resultantes de emparelhamentos pavlovianos, com efeitos
sobre o comportamento operante. Em uma abordagem semelhante,
Banaco propõe um sistema de coordenadas baseado na apresentação
ou remoção de reforçadores positivos ou negativos. As emoções re­
sultantes poderiam ser então interpretadas como mais ou menos di­
ferenciadas de acordo com a ação de contingências ontogenéticas.

59 Grande parte da investigação de Ekman baseia-se no estudo de expressões


faciais. Todavia, Ekman (1993) assinala que é possível haver emoção sem a con­
trapartida da expressão facial, o que é importante para a ideia aqui discutida de
que sob práticas sociais que promovem o autocontrole as respostas emocionais
podem ter outra topografia. Diz Ekman: “Há evidência de que as pessoas podem
não demonstrar mudança na atividade facial visível, embora relatem sentir emo­
ções e manifestem mudanças na atividade do sistema nervoso autonômico ... A
existência dessas pessoas contradiz a proposta de Tomkins (3963) de que a ati­
vidade facial sempre é parte de uma emoção, mesmo quando seu aparecimento
é inibido" (p. 388).
60 A ideia de que há emoções básicas, que fazem parte do equipamento genético
dos homens, parece ser pelo menos tão antiga quanto o século I a.C. Russell
(1991) revela que em uma enciclopédia chinesa desse tempo (que compilava
documentos de períodos anteriores) encontra-se: “O que são os sentimentos dos
homens? Eles são alegria, raiva, tristeza, medo, amor, repulsa e afeição. Esses
sete sentimentos pertencem aos homens sem que os aprendam” (Chai & Chai,
1885, em Russell, p. 426).

130 SUBJETIVIDADE E RELAÇÕES COMPORTAMENTAIS

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Mesmo quando as emoções são abordadas como produtos filo-


genéticos, encontra-se um reconhecimento da determinação cultu­
ral de certos aspectos que definem como são “experienciadas”. Por
exemplo, Ekman (1999/2004) sugere que existem emoções básicas,
distintas umas das outras e resultantes de processos evolutivos, por­
tanto com partilhadas por indivíduos de diferentes culturas. Mas
também reconhece que ‘ a capacidade de representar a experiência
emocional em palavras muda em muitos aspectos a experiência emo­
cional” (Ekman, 1999/2004, p. 8). Com uma posição sem elhante,
Solomon (2002) assinala que “a questão das emoções básicas deveria
ser entendida e abordada de maneira a capturar a riqueza e varieda­
de da existência hum ana” (p. 143).
Usando novamente o modo causal de seleção por consequências
como recurso conceituai para conferir inteligibilidade ao conjunto
variado de evidências sobre emoções e sentimentos, podemos su­
gerir que há emoções (relações) selecionadas filogeneticamente (as
básicas ou primárias, independentemente de quantas e quais forem)
e que estas constituem a base a partir da qual diferentes culturas
constroem diferentes universos de sentimentos e emoções (novas
relações). Cada novo sentimento significa um tipo de diferenciação
adicional introduzido por uma cultura, com base em variações ou
dimensões específicas (e.g., o controle de estímulos específico, a
frequência, a magnitude da resposta etc.) das configurações que as
emoções básicas podem assumir em diferentes contextos de vida de
homens e m ulheres61. Em um contexto teórico bastante diverso da
análise do comportamento, Ratner (2000) apresenta uma abordagem
para a questão da base biológica das emoções que c compatível com
essa ideia de diferenciação cultural da experiência emocional:

61 Um comentário de Russell (1991) ilustra como maior diversidade de con­


ceitos emocionais representa maior diferenciação de uma classe de fenômenos:
“algumas línguas não distinguem claramente o que o inglês trata como categorias
emocionais separadas de um nível básico. Left (1973, p, 301) assinalou que em
algumas línguas africanas lima mesma palavra abrange o que distinguiríamos
como raiva e tristeza" (p. 430). Outros exemplos similares são encontrados nesse
mesmo trabalho.

CAPfTULO 2 131

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A evidência apresentada acima indica que as funções biológicas que


medeiam os fenômenos psicológicos são integradas com funções cul-
turais-psicológicas. A integração acontece porque a biologia se adapta
às atividades culturais. As funções biológicas são o material bruto que
é moldado pelas atividades culturais. A biologia é indispensável para
a Psicologia e para a cultura. No entanto, ela não determina seu con­
teúdo específico, (p. 33)
Ratner (2000) constrói uma teoria explicativa de emoções também
baseada na atividade humana. Embora a apresente como uma teoria
da atividade, há um caráter relacional evidente na sua explicação.
A ênfase em atividades como base das emoções produz a descrição
e a explicação mais vívidas das emoções porque as conecta à riqueza
vibranle da vida real. Ela relaciona as emoções às mudanças dinâmicas
que estão aconlccendo na economia mundial, aos tipos de governo e
sistemas legais nos quais as pessoas vivem, à maneira como a assis­
tência à saúde é provida, às mudanças nas relações familiares e nos
sistemas educacionais nos quais as crianças crescem, à arte que c pro­
duzida e à mídia à qual as pessoas são expostas, às inovações e artefatos
tecnológicos espetaculares e à infraestrutura física cm mudança nas
cidades. Ignorar a atividade condu/. a ignorar muitos aspectos culturais
específicos das emoções. Conduz também a explicações incompletas
das características, tormação e função das emoções, (p. .34)
Em suma, variáveis culturais produzem sentim entos diversos,
mas limitados por um aparato produzido filogeneticamentc. Alguns
sentimentos podem ser mais o produto dessas variáveis culturais e
outros podem estar mais próximos daquela base filogenética. Desse
modo, um sentimento será mais diferenciado entre culturas quanto
mais se apresentar como relações produzidas por variáveis culturais
específicas. Em outra direção, algumas emoções, referidas como
emoções básicas (cf. Ekman, 1999/2004), serão menos variáveis
entre culturas, na medida em que se apresentem apenas (ou pre-
dominantem ente) como relações produzidas por variáveis seletivas
filogenéticas. Dessa perspectiva, sentimentos e emoções variam ao
longo do mesmo conünuum de complexidade descrito anteriormente,

132 SUBJETIVIDADE E RELAÇÕES COMPORTAMENTAIS

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localizandose cm diierenl.es pontos desse continiium, dependendo


do quanto dele participam relações produzidas filogcncticamente,
ontogeneticamente ou culturalmcntc.
As diferenças entre emoções e sentimentos
Os conceitos de emoções e sentimentos são frequentem ente usados
como sinônimos, tanto na linguagem ordinária quanto na literatura
psicológica. Algumas abordagens científicas, porém, evidenciam um
interesse em empregar esses conceitos para difcrenciar certos con­
juntos de fenômenos. A linguagem então aparece como o aspecto ca­
racterístico do que é possível diferenciar e, nesse caso, o continuum
de causalidade delineado neste estudo pode scr útil para a análise.
Isto é, nas diferenciaçõcs disponíveis, o conceito de emoção pode
ser empregado para designar relações comportamentais relacionadas
à aletividade produzidas por variáveis filogcncticas c ontogenéLieas,
enquanto sentim entos seriam aquelas relações produzidas por va­
riáveis culturais (a partir das emoções).
Essa alternativa de interpretação seria consistente com certas
alegações no campo da fisiologia, de acordo com as quais emoções
são “estados corporais” (se considerarmos que estão se referindo a
respostas fisiológicas em certas emoções) e sentimentos são “sen­
sações conscientes”, cada tipo de fenômeno “mediado por circuitos
neuronais distintos no cérebro” (Iversen, Kupfermann & Kandel,
2000, p. 982). Seria parcialm ente consistente ainda com a argu­
mentação de Ekman (1999/2004), dc acordo com a qual, em certo
sentido, todas as emoções são básicas, mas distintas de “outros fe­
nômenos afetivos” (embora ainda seja necessário examinar se nesse
conceito de emoção se incluiriam tam bem componcntcs ontogené-
ticos). Também para alguns sistemas explicativos em Psicologia, não
comportamentais, a distinção parece relevante. Dér (2004) assinala
que para Wallon
a afetividade é um conceito amplo que, além de envolver um compo­
nente orgânico, corporal, motor e plástico, que c a emoçào, apresenta
tambem um componente cognitivo, representacional, que são os sen­
timentos e a paixão. O primeiro componente a se diferenciar é a emo­

CAPÍTULO 2 133

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ção, que assume o comando do desenvolvimento logo nos primeiros


meses de vida; posteriormente, diferenciam-se os sentimentos e, logo
a seguir, a paixão, (p. 61)
Não está claro que para a análise do comportamento uma tal di­
ferenciação seja recomendada ou produtiva, sobretudo se conside­
rarmos que o modelo de seleção por consequências possibilita, com
mais economia conceituai, uma apreciação mais abrangente das di­
versas configurações (relacionais) que (o que denominamos na lin­
guagem coloquial como) sentimentos e emoções podem adquirir para
indivíduos em contato com diferentes sistemas culturais. Assim, a
referência a esse problema no contexto da presente discussão tem
apenas a função de mostrar que quando uma diferenciação entre
sentimentos e emoções é buscada por outros sistemas explicativos, o
resultado a que chegam baseia-se em dimensões relacionais dos fenô­
menos, contempladas no modelo interpretativo aqui apresentado.
O status da fisiologia na definição de sentimentos e emoções
Toda relação comportamental implica uma ação do organismo como
um todo (embora não se limite a isso, pois dela também participam
variáveis ambientais), portanto envolvendo todos os seus sistemas
orgânicos (cf. Kantor, 1922, 1923; Kantor & N. W. Smith, 1975).
Porém, certos componentes fisiológicos dc uma resposta podem ser
ou não especialm ente relevantes para sua definição. Por exemplo,
eventos fisiológicos podem ser críticos (Kantor diria “mais proemi­
nentes”) quando o indivíduo saliva, mas não terão o mesmo papel
para a (definição de uma) resposta de abrir uma porta. Dizer que o
evento é “crítico” em um caso, mas não no outro, significa que pode
ter ou não uma função específica no fenômeno comportamental sob
exame, e variar menos (na resposta de salivar) ou mais (na resposta
de abrir a porta) entre indivíduos.
Um ciência do comportamento deve evitar visões redueionistas de
seu objeto, mas precisa explicar o status da base fisiológica do com­
portamento. No caso de emoções e sentimentos, os componentes fi­
siológicos serão mais ou menos relevantes (ou “críticos”), dependendo
do ponto do nosso continuum em que o fenômeno se localiza.

134 SUBJETIVIDADE E RELAÇÕES COMPORTAMENTAIS

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As emoções básicas, produtos de variáveis seletivas filogenéticas,


apresentarão um componente fisiológico mais semelhante entre os
indivíduos e a referência a esse com ponente pode ter alguma re­
levância para a definição da resposta (a resposta pode ser mais ti­
picamente uma resposta fisiológica). Fenômenos comportamentais
(inclusive relativos à privacidade) mais complexos, cm contrapartida,
revelarão uma variabilidade fisiológica muito maior. lViman e cols.
(1998) abordaram esse ponto na análise da ansiedade e o argumento
ali desenvolvido (de acordo com o qual a fisiologia da ansiedade é
a mesma de muitas outras relações comportamentais)62 aplica-se a
muitas outras instâncias de sentimentos. Amor, paixão, felicidade
e outros sentimentos positivos, por exemplo, podem difercnciar-sc
com respeito às relações comportamentais envolvidas, mas compar­
tilhar com ponentes fisiológicos específicos6*. A identificação desse
componenLe será, portanto, de pouca ou nenhum a utilidade para
uma identificação do sentimento presenLe em um dado momento.
Resumindo, quanto mais complexo um sentimento, mais variável
e menos importante sua fisiologia para uma defiçâo do fenômeno. E
à medida que a fisiologia se mostra mais variável e menos relevante
como propriedade definidora de um fenômeno relativo à privacidade,
é a análise com portamental, não a fisiológica, que produzirá uma

62 Friman e cols. (1998) exemplificam: “uma definição comum de ansiedade é


a reatividade fisiológica a eventos com resultados incertos, porém potencialmen­
te aversivos. Atravessar uma rua sem carros e ser subitamente tomado por um
responder fisiológico de alta intensidade (e.g., batimento cardíaco, respiração,
transpiração e pressão arterial elevados) é considerado uma instância de ansie­
dade ... Atravessar a mesma rua c quase ser batido por um carro produz a mesma
fisiologia, mas não constitui uma instância de ansiedade, Isso seria uma instância
de medo” (p. 138).
63 Saindo um pouco do foco em sentimentos e emoções, é relevante registrar que
há semelhanças na atividade neurofisiológica quando são emitidas respostas
que diferem quanto à presença ou ausência de certos estímulos controladores.
Por exemplo, o ver e o imaginar parecem ser emitidos com o mesmo tipo de
atividade neural (cf. Donahoe 8c Palmer, 1994). Com isso, "a interpretação do
imaginar não parece requerer a postulação de quaisquer processos biocomporta-
mentais que sejam únicos do imaginar” (Donahoe 8c Palmer, p. 256).

CAPÍTULO 2 135

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compreensão do fenômeno. É também a intervenção comportamen-


tal, não a intervenção fisiológica, que será requerida para solucionar
problemas relacionados àquele fenômeno.

Relações Comportamentais e as
Dicotomias Psicológicas Clássicas
A abordagem para a subjetividade delineada nas seções anteriores,
na medida em que trata os problemas relacionados a sentimentos e
pensamentos como problemas no campo das relações do indivíduo
com contingências de seu mundo físico c social (especialmente o
último), conflita com as categorias analíticas encerradas nas dico­
tomias psicológicas clássicas. Na presente seção, serão discutidos
alguns aspectos desse conflito.
Como assinalado no Capítulo 1, as dicotomias psicológicas sur­
gem como expressão de uma visão de homem particular (própria do
individualismo). É nesse terreno que começam as dificuldades para
conciliar aqueles conceitos com o sistema explicativo analíLico-com-
portamcntal. Para este último, o homem não é um ser autônomo,
que por força de suas faculdades ou qualidades c capaz de submeter
o mundo a seus interesses. Diferente disso, as compeLências (e.g.,
cognitivas, profissionais, artísticas etc.) do homem definem-se ape­
nas nas relações com outros hom ens (uma discussão do problema
da autonomia é apresentada no Capítulo 3, adiante). Com respeito
a isso, há grande proximidade entre o ponto de vista analítico-com-
portamental c a abordagem oferecida por Elias (e.g,, 1939/1990b,
1987/1994). No lugar de indivíduos, a análise do com portam ento
também vê homens e mulheres relacionando-se com o mundo físico
e uns com os outros, c identifica nessas relações a descrição/explica­
ção possível para os ternas de que a Psicologia se ocupa.
Uma análise científica do comportamcnto despoja o homem autô­
nomo e transfere o controle que se tem dito que ele exerce sobre o
ambiente. O indivíduo pode então ser visto como particularmente vul­
nerável. Ele será a partir de então controlado pelo mundo à sua volta c
em grande parte por outros homens. (Skinner, 1971/2002, p. 205)

136 SUBJETIVIDADE E RELAÇÕES COMPORTAMENTAIS

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Na análise do comportamento, as relações do homem com o m un­


do são examinadas enquanto relações funcionais, produzidas por va­
riáveis filogenéticas, ontogenéticas e culturais. Variáveis culturais,
por seu turno, modelam o comportamento individual, e são selecio­
nadas ao fazerem isso, por seu efeito para o grupo e não para o indi­
víduo particular (esse aspecto também será discutido no Capítulo 3,
adiante). A partir disso, é necessário olhar para o responder humano
como parte de um sistema mais complexo do que sim plesm ente
o que representam enquanto ação do indivíduo. É necessário exa­
minar sua função no contexto de relações que podem ser mais ou
menos complexas (em geral, muito complexas - especialmente mais
complexas do que é possível investigar experimentalmente). Mesmo
quando um indivíduo formula isoladamente um enunciado sobre
uma parcela qualquer da realidade, um Robinson Crusoé qualquer,
que explique a cor de seus sapatos ou o trajeto dos astros, esse fenô­
meno será inteligível apenas à .luz de sua história ambiental. Onde há
linguagem (e só com ela o Robinson Crusoé pode formular qualquer
descrição da realidade) há mediação social64, há relações específicas
com parcelas da realidade que se tornaram diferenciadas para o ho­
mem por força de sua exposição a ambientes sociais sofisticados.
Certas relações comportamentais verbais são produzidas por am­
bientes sociais que promovem a auto-observação e um responder
diferenciado sob controle de condições corporais. Algumas vezes,
condições corporais que se relacionam de modos especiais com
sentimentos e emoções (em alguns casos, alterações fisiológicas eli-
ciadoras de respostas motoras, ou condições estabelecedoras). As
funções adquiridas pelas condições corporais sob tais contingências
são únicas, mas também inteligíveis apenas como parte de arranjos
complexos de contingências. Do mesmo modo que a complexidade

64 Apesar de ter alirrnado, em 1945 (Skinner, 1945), que o que importa para o
Robinson Crusoé não é se ele concorda com alguém, mas se consegue lidar cio
modos efetivos com a realidade, Skinner {1971/2002) reconhece que Crusoé
tem "débitos com a sociedade” {p. 123), pois se tivesse chegado à ilha em que
viveu isolado ainda bebê, sua hisLória "Leria sido diferente” {p. 124).

CAPÍTULO 2 137
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das relações de interdependência dificulta a percepção das ligações


com os outros homens e mulheres (cf. Elias, 1987/1994), a com ­
plexidade das contingências que promovem uma diferenciação das
condições corporais em relações emocionais favorece uma visão da
emoção como ocorrência do ou no indivíduo. Nos dois casos, a ciên­
cia funciona para contrariar o “conhecim ento'' imediato, em parti­
cular, funciona para contrariar concepções confortáveis e sedutoras
baseadas no que o leigo é capaz de discriminar acerca de suas rela­
ções com o mundo, mostrando-as como descrições precárias (de um
ponto de vista da instrumentalidade científica) de fenômenos que só
sc tornam inteligíveis quando unidades mais amplas e medidas mais
sofisticadas são empregadas para a análise.
Algumas considerações adicionais podem ser feitas acerca dos
problemas aqui examinados, considerando cada uma das dicotomias
psicológicas clássicas.
A dicotomia público-privado
Há uma diferença fundam ental entre a separação público-priva-
do na Sociologia (assim como na Economia, na Política etc.) e na
Psicologia. Na Sociologia, a separação expressa o afastamento dos
homens uns dos outros, seja do ponto dc vista do compartilhamento
de funções e obrigações, seja do ponto de vista da sociabilidade.
Nesse contexto, porém, o privado nem sempre está limitado pelo
universo individual (pode alcançar o núcleo familiar, ou outras re­
lações) e nunca conduz a um inquérito metafísicof,\ Na Psicologia,
a separação público-privado não apenas funciona para postular-se
um isolamento individual, isto c, para elevar o indivíduo particular a
unidade de análise, como frequentem ente mostra-se associada a um
subjetivismo, ou dualismo metafísico. Esta observação é importante
para que sc entenda que a afirmação da separação público-privado
em outros contextos analíticos não fundamenta a adoção dessa refe­
rência na Psicologia com as feições assinaladas.

65 Provavelmente por essa ra/ao a distinção público-privado nao conduz, na


Sociologia, a um debate tão extenso ou frequente quanto na Psicologia.

138 SUBJETIVIDADE E RELAÇÕES COMPORTAMENTAIS

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Skinncr (e.g., 1945) encontra na dicotomia público-privado uma


saída para evitar o dualismo metafísico, ao mesmo tempo em que
garante que enquanto ciência do comportamento a disciplina psico­
lógica continuaria a voltar-se para seus problemas originais (relacio­
nados à subjetividade). Para Skinner, é muito importante o fato de
que a distinção público-privado é uma distinção de fronteiras, não
de natureza. A (in)observabilidade (pública e direta) passa, assim, a
ser a dimensão que torna diferenciados os fenômenos relativos à sub­
jetividade, o que justifica que recebam um tratamento diferenciado.
Em sua discussão do privado como inacessível à observação pú­
blica, Skinner (e.g., 1945) faz referência a estímulos e respostas.
Isto é, são certos estímulos e certas respostas que por razões discu­
tidas anteriorm ente mostram-se inacessíveis à observação pública
direta, ao passo que podem assum ir certas funções cm relações
com portam entais. A partir desse reconhecim ento, porém, vamos
encontrar em Skinner (e.g., 1974/1993) e em outros analistas do
comportamento (e.g., Anderson e cols., 1997) referendas a fenôme­
nos comportamentais mais complexos, que na realidade se definem
como relações, e ainda assim são descritos como eventos privados.
Esse vem a ser um aspecto problem ático dos usos do conceito de
eventos privados na análise do com portam ento. Se, por um lado,
é verdade que estímulos e respostas podem ser inacessíveis à ob­
servação pública direta, por outro, estímulos e respostas existem
enquanto tal apenas no contexto de relações, que necessariamente
têm dimensões públicas. Os eventos da subjetividade, sentimentos
e pensamentos, em particular, enquanto relações comportamentais
não são propriam ente públicos, nem privados. São relações das
quais podem participar (sob certas condições) eventos inacessí­
veis à observação pública direta, mas das quais também participam
eventos observáveis. Sendo essa uma conclusão derivada do próprio
sistema explicativo da análise do com portam ento, temos que essa
abordagem psicológica provê alguns instrum entos conceituais para
a superação, na Psicologia, da categoria de privado como descritiva
dc instâncias de seu objeto de estudos, ao mesmo tempo em que
equacionam o problema da (in)observabilidade de certos termos das
relações comportamentais.

CAPÍTULO 2 139

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Tambcm a partir de Skinner (1945), analistas do comportamen­


to tenderão a classificar termos dc relações comportamentais como
públicos ou privados. A mesma ciência, servindo-se da interlocu-
ção com outros sistemas explicativos, pode postular que não é bem
assim. Primeiro, a observabilidade dc certos termos das relações
com portam entais não constitui sim plesm ente uma propriedade
intrínseca a esses eventos, mas é uma propriedade dependente da
relação observador-observado. Segundo, a propriedade de observabi­
lidade de estímulos (considerando-se o que controla autodcscriçõcs
de emoções e sentimentos) e respostas varia ao longo de um conti-
nuum, como função de aspectos formais e relacionais.
Pode-se questionar (c.g., Ribes, 1982) se há sentido cm valori­
zar a observabilidade restrita de certos estímulos e certas respostas,
quando esse tipo de restrição pode ser encontrado na análise de
lima infinidade de relações comportamentais não conectadas com o
tema da subjetividade. É bom lembrar, no entanto, que para a cul­
tura ocidental moderna a inobservabilidade de estímulos e respostas
constitui um problema dc interesse especial apenas quando conec­
tada com a problemática do autocontrole e é isso que justificará uma
atenção especial às instâncias de inobservabilidade relacionadas com
a subjetividade ou privacidade.
A noção de privado assim formulada, é importante ressaltar, não
se conecta com as noções de mental, de interno, ou de subjetivo. A
noção dc privado, não sendo um rótulo para o fenômeno comporta-
mental ou psicológico, apenas sinaliza que sob certas conLingências
a observabilidade de um termo da relação comportamental poderá
ser restrita - não naturalm ente ou irremediavelmente restrita, mas
circunstancialm ente restriLa. As contingências sob as quais isso
acontece são contingências culturais que precisam ainda ser identi­
ficadas de modos mais precisos. Os estudos históricos e sociológicos
oferecem uma direção para essa investigação, o proccsso dc indi­
vidualização no mundo moderno. Como assinalado anteriormente,
essa observabilidade restrita pode também emergir sob outras con­
tingências culturais, mas talvez dc um modo que não dá origem à
investigação e à teorização psicológicas.

140 SUBJETIVIDADE E RELAÇÕES COMPORTAMENTAIS

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A dicotomia objetivo-subjetivo
A ideia de separação entre um mundo objetivo e um mundo sub­
jetivo está assentada em uma visão representacional da linguagem,
duram ente criticada ao longo do século XX, cspccialmcntc a partir
do trabalho de Wittgenstein (1 953/1 988). A adoção de uma concep­
ção funcional da linguagem, como na análise do comportamento,
conduz necessariamentc a uma dissolução desse dualismo, uma vez
que implica considerar que Lodas as descrições (de pensam entos
e sentimentos, ou da realidade física que cerca os indivíduos) são
função da exposição a parcelas do universo, sob controle de certas
contingências do reforço que tornam essas parcclas mais ou menos
diferenciadas, ou diferenciadas quanto a uns ou outros aspectos.
Para Skinner, uma vez que todo responder verbal é função de
contingências dc reforço, enunciados científicos sobre a realidade
não são mais objetivos do que descrições concorrentes (poéticas,
literárias, ou jornalísticas), não estão mais próximas de uma essência
ou propriedade fundam ental da realidade. Dilcrcnciam-sc apenas
porque são mais eficientes em promover a previsão e o controle dos
fenômenos66.
E um erro ... dizer que o mundo descrito pela ciência é, de alguma
forma, mais próximo “do que realmente existe", mas também é um
erro dizer que a experiência pessoal do artista, composilor, ou poeta
está mais próxima “do que realmente existe”. Todo comportamento é
determinado, direta ou indiretamente, por consequências, e os cnm-

66 É verdade que a iioçâo de método, inaugurada no século XVII. subsiste na


ciência moderna e implica seguir um conjunto de regias de modo a evitar que
características pessoais interfiram negativamente na produção de conhecimento.
Há, porém, duas observações a fazer. Primeiro, as características ‘pessoais” não
são tão pessoais assim, mas apenas não compartilhadas por todos os membros de
uma dada comunidade (o que é pessoal é uma história ambiental, não algo con­
tido no sujeito). Segundo, há uma distância entre afirmar que as contingências
sociais responsáveis pelo fazer científico funcionam para limitar a interferência
de inclinações pessoais e supor que a descrição científica descreve uma realidade
independente. Ela descreverá sempre uma realidade enquanto objeto investigado
sob controle das práticas de uma comunidade verbal.

CAPÍTULO 2 141

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portamentos de ambos, o cientista e o não-cientista, são modelados


pelo que realmente existe, mas dc maneiras diferentes. (Skinner,
1974/1993, pp. 140-141)
De outro lado, conceitos emocionais não descrevem um mundo
“subjetivo”, próprio do sujeito, à parte da realidade compartilhada
por todos. Novamente, onde há linguagem, há uma base pública
para todas as descrições.
Os processos verbais envolvidos nos modos como cm sociedades
complexas as descrições sobre a realidade (inclusive a realidade “psi­
cológica”) são construídas e validadas são os mesmos encontrados
em sociedades mais simples, porém as relações entro os indivíduos
são muito mais complexas devido à extensão (muito maior) do uni­
verso social que participa desses processos e os modos (diferentes
do debate face a face) como isso acontece. E mais fácil, sob as novas
condições, considerar que as descrições a que se chega resultam
do pensam ento ou da reflexão pessoal (desse mundo particular do
sujeito) e/ou do controle de outros aspectos da vida “subjetiva”, mas
a postulação de (acuidades pessoais aqui meramente substitui o que
não pode ser especificado por ser muito complexo.
A dicotomia físico-mental
Um passo importante para a postulação da categoria de mental con­
siste, como assinalado antes, cm tratar fenômenos relacionais como
ocorrências individuais. Uma vez instituída essa lógica, o debate
acerca da natureza (física ou mental) daquelas ocorrências reprodu­
zirá o dualismo. Quando indagamos se podemos atribuir uma natu­
reza física a certo evento, estamos admitindo que se trata de evento
com respeito ao qual faz sentido indagar acerca de suas dimensões
físicas, e com respeito ao qual negar essa dimensão física significa
considerá-lo dotado de uma natureza especial. Por essa razão, no
lugar dc afirmar, como Skinner (1945), que uma dor de dentes tem
dimensões físicas, será mais produtivo afirmar que dor de dentes não
é uma ocorrência do ou no indivíduo, mas uma relação do indivíduo
com o mundo na qual certas condições corporais adquirem uma fun­
ção. A dor, sendo ela própria um responder sob controle de estímulos

142 SUBJETIVIDADE E RELAÇÕES COMPORTAMENTAIS

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(públicos e privados), não é física ou mental, embora dela participc


um organismo (portanto, um ser dotado dc dimensões físicas, assim
como químicas, elétricas etc.).
Assim, a superação do dualismo físico-mental depende menos dc
uma afirmação da existência de dimensões físicas nos fenômenos
humanos, e mais da afirmação do caráter relacional desses fenôme­
nos. Essa perspectiva pode usufruir das proposições analítico-com-
portamentais tanto quanto essas proposições instituem uma lógica
relacional de análise dos fenômenos humanos. Isso acontece quando
no lugar de substâncias (como “pensam ento”) analisamos atividades
humanas (como o ‘p ensar’) e as relacionamos a contingências dc
reforço, e quando destacamos que, mesmo na ausência de outros, o
responder verbal é mediado socialmente, isto é, constitui um fenô­
meno dependente de contingências sociais.
Uma vez abandonado o individualismo, o mentalismo torna-se
desnecessário. Se a capacidade de homens e m ulheres refletirem
criticam ente acerca do mundo à sua volta, coletarem evidências
empíricas de relações entre eventos e contrastarem-nas com descri­
ções possíveis da realidade, sistematizarem descrições abrangentes e
econômicas de classes de fenômenos, se todas as capacidades desse
tipo forem consideradas capacidades que requerem e se realizam no
plano das relações uns com os outros, a questão de uma natureza
mental da capacidade reflexiva deixa de ser colocada.
Para que a lógica relacional seja persuasiva na Psicologia, será
necessário nela acomodar o reconhecim ento de uma especificidade
dos fenômenos considerados relacionados à subjetividade. Isso é fei­
to quando se destaca a observabilidade restrita de certos estímulos e
ccrtas respostas; os primeiros (estímulos), em razão de se tratar de
condições corporais que adquirem uma função para o responder
de um indivíduo, que não podem adquirir para o responder de ter­
ceiros; as últim as (respostas), em razão de dimensões estruturais
(grau de participação do aparelho motor) e relacionais (história dc
interação observador-observado, instrum entos e treino de observa­
ção do observador) que as tornam menos evidentes do que respostas
tipicamente motoras.

CAPÍTULO 2 143

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Provavelmente será necessário que um combate anterior seja ven­


cido, antes que a lógica relacional seja aceita, no lugar da lógica indi­
vidualista e subjetivista que sustenta a crença em um mundo mental,
isto é, será necessário vencer, ou superar, a concepção de homem
dominante nesta cultura. De certo modo, essa é uma batalha que
já vem sendo travada e não apenas pela análise do comportamento.
Concepções antimentalistas e antirrepresentacionistas da linguagem,
cm particular a perspectiva funcional de Wittgenstein (1953/1988),
tiveram ampla repercussão no pensamento ocidental do século XX,
com penetração em várias esferas da cultura e das humanidades. Na
Sociologia, a concepção anti-individualista de Elias (e.g., 1987/1994)
alcançou notável reconhecimento a partir da década de 1970, so­
bretudo na Europa. Na Filosofia, o neopragmatismo de Rorty (e.g.,
1982, 1988, 1993) caminha na mesma direção, enfatizando os pro­
cessos dialógicos como o campo de construção e validação de nossas
reivindicações a conhecimento, como o espaço no qual se definem,
a cada momento de nossa história intelectual, os critérios com base
nos quais tomamos nossas crenças como verdadeiras.
Sc não virmos o conhecer como a posse de unia essência, a ser des­
crita por cientistas ou filósofos, mas antes como um direito, pelos
padrões correntes, a acreditar, estaremos então no bom caminho
para ver a conversação como o contexto último em que o conhe­
cimento deve ser compreendido. O nosso foco passa da relação
entre os seres humanos e os objetos do seu inquérito para a re­
lação entre padrões alternativos de justificação, e daí para as efetivas
alterações nesses padrões que formam a história intelectual. (Rorty,
1988, p. 300, itálico do original)
Não por acaso, alguns trabalhos assinalam certas aproximações
possíveis do pensamento skinneriano com W ittgenstein (e.g., Bloor,
1987; Costall, 1980; Day, 1969; Lampreia, 1992; Tourinho, 1994b;
Wallcr, 1977) e com Rorty (e.g., Lamal, 1983, 1984; Leigland, 1999;
Tourinho, 1994b). Quem sabe em breve serão também algumas re­
ferências acerca de aproximações e interlocuções possíveis entre
Skinner e Elias.

144 SUBJETIVIDADE E RELAÇÕES COM PORTA MENTA IS

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A dicotomia interno-externo
Interno e externo constituem conceitos que podem ser empregados
na descrição da localização de objetos ou eventos, tendo-se como
referência alguma fronteira, a partir da qual se diz que os objetos ou
eventos estão de um lado (dentro) ou de outro (fora). A gramática
desses conceitos (para usar novamente o termo wittgensteiniano)
requer, portanto, a indicação das relações espaciais entre o que é
contido c o que o contém. Uma bola pode estar dentro de uma cai­
xa, assim como um livro pode estar dentro de uma casa. Quando se
diz que pensam entos e sentimentos são eventos internos, há duas
possibilidades: (a) ignorar o requisito de especificar uma fronteira
e usar os conceitos de interno e externo com um sentido metafó­
rico impreciso, ou (b) postular que a pele constitui a fronteira. No
primeiro caso, abdicamos de prover uma descrição científica para
sentim entos e pensam entos. No segundo, deixamos de consi­
derar sentimentos e pensamentos como eventos do organismo como
um todo e passamos a trabalhar com a ideia de que pensar c sentir
são atividades de parte(s) do organismo (ainda por serem especifi­
cadas). As duas posições sustentam a noção de mundo interno, que
assim invade o discurso do leigo e do cientista.
A opção de ignorar o requisito de especificar uma fronteira para a
definição da interioridade frequentem ente aparece quando a noção
de interioridade vem associada ao mentalismo. O mundo mental é
que é interno. Nesse caso, há uma impossibilidade lógica notória. Sc
o mundo mental não está dotado da propriedade de extensão encon­
trada no mundo material, se não pode ser localizado espacialmente,
como pode localizar-se dentro ou fora de alguma coisa?
A opção de considerar sentimentos e pensamentos como eventos
sob a pele significa tratá-los como ocorrências de partes do organis­
mo, o que conduz a um reducionismo organicista. Esse rcducionis-
mo pode funcionar para evitar o mentalismo, mas não para instaurar
um objeto de investigação psicológica. Se o “pensar”, por exemplo,
for identificado com a atividade do sistema nervoso central, podemos
considerá-lo uma ocorrência interna ao organismo, 'lòdavia, neste
caso, trata-se de um tipo de lenômeno que se confunde com o ob­
jeto das neurociências, não requerendo o exame dc uma disciplina

CAPÍTULO 2 145

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psicológica. Quando dizemos que o pensar constitui um fenôm e­


no psicológico, que requer o exame de uma ciência psicológica, isso
deve significar que, independentem ente do grau de participação do
sistema nervoso central na emissão da resposta, o fenômeno se es­
tende para além disso, tem uma outra dimensão —relacional - , que
o define como objeto dessa outra ciência.
O que favorece conceber sentimentos c pensamentos como fenô­
menos internos é não apenas a crença de que qualidades do ou no
próprio indivíduo possibilitam-no representar o mundo e realizar-sc
em diversos domínios de sua vida (sua razão, fc, vocação, persona­
lidade, convicção, determinação etc. impulsionam para o sucesso),
como também o modo particular como sentimentos e pensamentos
são vividos.
Com uma abordagem relacional para sentimentos e pensamentos
deixam de fazer sentido as categorias de interno e externo. O pensar
não está dentro do homem, como não estão o andar, o pintar, ou
o ministrar uma aula. Em todos os casos, estamos diante de rela­
ções das quais participam respostas do organismo como um todo.
Do mesmo modo, o alegrar-se, o aborrecer-se ou o amedrontar-se
não se localizam no inLerior do homem, mas constituem relações
nas quais certas condições corporais adquirem uma função. A no­
ção de um mundo interno ou sob a pele, referida até por Skinner
(e.g., 1953/1965), quando discutida à luz da perspectiva relacional
analítico-comportamental se definirá por essa dupla abordagem: o
reconhecimento da especificidade de relações nas quais condições
corporais adquirem certas funções e a afirmação dos limites dentro
dos quais isso ocorre (cf. Malerbi, 1999; Matos, 1999; Micheletto,
1999; Tourinho, 1999b).
A ideia de que o caráter encoberto de algumas respostas não sig­
nifica que deixam de ser respostas do organismo como um todo, mas
podem implicar uma participação reduzida do aparelho motor na
sua emissão, está em acordo com a análise desenvolvida por Elias
(1939/1990b) com respeito ao que sustenta a noção dc interiorida­
de na autoimagem do homo clausus. Para Elias, é o autocontrole, a
vigilância sobre o próprio corpo para evitar que respostas emocionais
alcancem o aparelho motor, que dá origem a uma experiência de

146 SUBJETIVIDADE E RELAÇÕES COMPORTAMENTAIS

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interioridade dos sentimentos e emoções. Isto é y o autocontrole de


que Elias trata diz respeito exatamente à emissão dc certas respos­
tas (emocionais) com reduzida participação do aparelho motor. No
Capítulo 3, a seguir, esse tema será desenvolvido.

CAPÍTULO 2 147

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CAPÍTULO 3

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Subjetividade, Eventos Privados e


Relações Comportamentais
No capítulo anterior, delineamos uma caracterização de fenômenos
psicológicos, cm particular sentimentos, emoções e pensamentos,
como relações do homem com o mundo, que não se tornam inteligí­
veis à luz dos conceitos de privado, subjetivo, m ental ou interno, mas
apenas a partir da especificação da dependência Funcional entre estí­
mulos e respostas, que pode se materializar em fenômenos com graus
variados de complexidade e observabilidade. A luz das análises ali
desenvolvidas, o sistema explicativo analítico-comportamcntal pode
ser reconhecido como um sistema que não reproduz o individualismo
e o subjetivismo que historicamente fundamentaram a edificação da
Psicologia como disciplina independente. Aquelas análises, porem,
embora conLrariem crenças e conceitos psicológicos modernos, não
explicam suficientemente algumas questões importantes destacadas
em trabalhos históricos, como aqueles mencionados no Capítulo 1.
Em particular, a in divid u a lização , a autonom ia e o au tocon trole do
homem que vive nas sociedades modernas, aos quais a problemática
de sentimentos e pensamentos encontra-se estreitamente vinculada,
constituem temas que precisam ser ainda examinados. O presente
capítulo ocupa-se desses temas, discutindo como podem ser tratados
à luz de princípios analítico-comportamentais e como suas conexões
com a problemática de sentimentos e pensamentos podem ser pro­
dutiva e coerentemente interpretadas. O exame dos temas não altera
a interpretação analítico-comportamental desenvolvida no Capítulo
2, mas conferc-lhc um novo cnquadreamcnto, que estende o alcancc
de suas contribuições e favorece, dentre outros, o diálogo com disci­
plinas que se ocupam de problemas afins.

CAPÍTULO 3 151

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A Individualização
O processo de individualização no m undo moderno pode ser en­
focado a partir de duas referências. A prim eira consiste no fato
de que cada hom em ou m ulher vem a ser único(a), singular,
diferenciado(a) de todos os outros hom ens e mulheres à sua volta
em aspectos considerados muito relevantes. Sob essa ótica, a indivi­
dualidade, ou singularidade do indivíduo, implica o reconhecimento
de que mesmo no interior de uma cultura compartilhada por outros
homens e mulheres cada um merece atenção por aquilo que lhe é
pessoal, próprio, inconfundível com os atributos do vizinho ao lado
(em outras palavras, sua “subjetividade”).
Uma segunda abordagem possível para o processo de individuali­
zação consiste em examinar relações de contingências que definem
a diferenciação de homens e mulheres uns dos outros na vida coti­
diana, e que ganham importância especial nas sociedades de mer­
cado. Homens e mulheres sempre foram diferentes uns dos outros,
cm muitos aspectos, e isso, em outros contextos culturais, não deu
origem ao conceito de indivíduo, a conjuntos dc práticas e crenças
baseadas na autoimagem do homo clmisus, enfim, a uma cultura in­
dividualista c subjetivista. Quando a diferenciação se tom a muito
importante, o que muda não é o fato dc que atributos pessoais di­
ferem, mas o fato dc que relações de contingências importantes na
vida cotidiana se transformam. Ksse segundo percurso analítico põe
então em destaque a peculiaridade do processo dc individualização
nas sociedades de mercado, buscando identificar contingências que
explicam a cmcrgcncia da individualidade como categoria do pensa­
mento moderno.
O primeiro tipo de abordagem para o processo de individualização
é claramente desenvolvido na liLeralura analítico-comportamental.
Na introdução de seu Sobre o behaviorismo, Skinner (1974/1993)
enumera vinte concepções equivocadas acerca das realizações e do
alcance da análise do comportamento. Uma dessas concepções vei­
cula a ideia de que a análise do comportamento “se prcocupa apenas
com princípios gerais e, portanto, despreza a singularidade do indi­
víduo” (p. 5). Há, nessa eríLiea, uma confusão entre a investigação
dc rcgularidades dos fenômenos comportamcntais e a aplicação do

152 SUBJETIVIDADE E RELAÇÕES COMPORTAMENTAIS

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conhecimento daí derivado ao exame do comportamento individual.


Ela talvez reflita o fato de que o desenvolvimento da análise expe­
rimental do comportam ento só foi acompanhado tardiam ente por
um interesse maior na sua aplicação (especialmente em contexto
de terapia verbal face a face), assim como na interpretação de fenô­
menos complexos, Se é verdade, porém, que o sistema explicativo
skinneriano oferece leis gerais do comportamento, sua aplicação na
intervenção ante o comportamento individual parte do reconheci­
mento do caráter idiossincrático das relações comportamentais que
resultam da história ambiental particular dc cada organismo67.
Iodo organismo humano é único, di/ Skinner, enquanto resultado
de múltiplas determinações, que, no entanto, não o tornam senhor de
seu destino como pessoa, do destino dc sua espccie, ou do destino
de seu grupo.
O indivíduo é no máximo um lócus no qual muitas linhas de desenvol­
vimento se agrupam de um modo único. Sua individualidade é inques­
tionável. Cada célula em seu corpo é um produto genético único, tão
úníca quanto a marca clássica da individualidade, a impressão digital.

67 Na terapia analítico-cornportamental, esse reconhecimento constitui o ponto


de partida para a intervenção e repercute sobre todos os aspectos (e.g., técnicos
e éticos) que a compõem. Segundo Samson e McDonnell (1990), “uma análise
funcionai pode ser altamente complexa e, como decorrência, específica ao in­
divíduo. E improvável que sejam exatamente as mesmas as intervenções que as
análises funcionais podem recomendar para dois problemas que pareçam ser
similares. Quaisquer similaridades entre as intervenções estarão relacionadas
à similaridade das funções a que os problemas servem. Isso significa que não é
possível, quando se usa uma abordagem analítica funcional, fazer generalizações
amplas sobre a intervenção a ser realizada ou sobre o estilo com que deve se
apresentar” (p. 260). Também discutindo a terapia analítico-cornportamental,
Neno (2005) assinala que “as fontes de individualização em uma intervenção
clínica podem ser de três ordens. Uma primeira diz respeito à variabilidade das
relações comportamentais, ao caráter idiossincrático das relações comportamen­
tais que definem os problemas de cada indivíduo em atendimento. Llm razão
disso, qualquer modelo de intervenção, para ser eficiente, precisará ser sensível
àquela variabilidade e prover condições para que seja adequadamente contem­
plada em suas estratégias' (p. 221).

CAPÍTULO 3 153

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E mesmo no interior da cultura mais uniforme, cada história pessoal é


única. ... Mas o indivíduo permanece meramente um estágio em um
processo que se iniciou muito antes dele vir a existir e que continuará
longamente após clc. Ele não tem qualquer responsabilidade última
por um traço da espécie, ou por uma prática cultural, embora tenha
sido ele que passou pela mutação ou introduziu a prática que se tornou
parte da espécie ou da cultura. (Skinner, 1971/2002, p. 209)
O modo causal de seleção por consequências constitui o instru-
mento conceituai com o qual é interpretado o caráter idiossincrático
dos repertórios que resultam da história ambiental de um indivíduo.
De acordo com esse modelo explicativo, cada indivíduo é o produto
único de uma conjugação de determinações filogenéticas, ontogené-
ticas e culturais. A singularidade desse indivíduo pode ser formulada
em termos comportamentais; o que o diferencia de todos os demais
são seus repertórios, ou uma probabilidade alterada de agir de deter­
minados modos sob controle de certos estímulos. Os processos sele­
tivos produzem, também, um organismo alterado do ponLo de vista
anatomofisiológico, mas esse constitui um domínio das ciências bio­
lógicas (embora venha a se tornar relevante, em termos discutidos
adiante). Uma probabilidade de resposta diferenciada, resultante
dos processos seletivos, define a pessoa ou o self, segundo Skinner
(1974/1993) (ou várias pessoas/selves, quando repertórios concor­
rentes lorem adquiridos, sob controle contextuai).
Um membro da espécie humana tem identidade no sentido dc que
é um membro e não outro. Ele começa como um organismo e torna-
se unia pessoa ou sclf na medida em que adquire um repertório de
comportamento. Ele pode tornar-se mais de uma pessoa ou self sc
ele adquire repertórios mais ou menos incompatíveis apropriados a
diferentes ocasiões, (p. 247)
Aqui, as relações comportamentais não estão sendo enfatizadas,
mas estão subentendidas nas referências a probabilidades de respos­
ta, ou a repertórios. Em outro momento da análise skinneriana, fica
menos evidente que seu enfoque continua relacional. Sua noção de
singularidade aproxima-se daquela que prevalece no mundo moder­

154 SUBJETIVIDADE E RELAÇÕES COMPORTAMENTAIS

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no quando Skinner estabelece uma distinção entre pessoa e self. Em


acordo com o modo causai de seleção por consequências, Skinner
(1989) diferencia os produtos de cada nível de determinação: “... a
seleção natural nos dá o organismo, o condicionam ento operante
nos dá a pessoa e ... a evolução das culturas nos dá o self' (p. 28). O
self, nesse caso, não corresponde mais ao repertório comportamen-
tal em si (embora o que é promovido por contingências culturais
sejam novas relações comportamentais), mas a um conjunto de con­
dições “internas”. Trata-se de condições internas que, por força da
exposição do indivíduo a certas práticas culturais, passam a adquirir
funções (únicas) para o comportamento individual, tornam-se fun­
cionalmente diferenciados para o próprio indivíduo (e apenas para
cie). Mas Skinner contrasta o repertório (produzido pela ontogênesc)
dos estados produzidos pela cultura.
Uma distinção mais clara pode agora ser feita entre pessoa e self: uma
pessoa, enquanto um repertório comportamcntal, pode ser observada
por outros; o self, enquanto um conjunto de estados internos que acom­
panham o comportamento , só é observado através do sentimento ou da
introspecção. {Skinner, 1989, p. 28, itálico acrescentado)
Temos, assim, uma espécie de concessão à lógica subjetivista que
orienta a interpretação moderna da individualidade. Não que aquilo
que é “introspectivamcnte observado” não seja singular, único para
cada um. Afinal, na abordagem de Skinner é o próprio corpo que é
introspectivamente observado e este, como produto também singular
dos processos seletivos, será diferenciado para cada um. Mas tomar
essa especificidade como referência para a discussão da individua­
lidade recoloca o problema no plano do que acontece no indivíduo.
De todo modo, pode ser suficiente lembrar que quando as condições
corporais assumem funções como resultado da exposição a contin­
gências que promovem auto-observação e autocontrole, o que temos
são novas relações comportamentais, também definidoras da singu­
laridade do homem-em-relação-com-o-mundo.
Uma maneira de ir além desse tratam ento consiste em pensar a
individualização no plano das relações de contingências encontradas

CAPÍTULO 3 155

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na vida cotidiana de homens e mulheres que vivem nas complexas


sociedades de mercado. A análise que se ofercce a seguir tem esse
objetivo. Ela será desenvolvida tomando como exemplo um campo
específico, o das relações econômicas, podendo ser estendida para
outras esferas. Esperamos com ela ilustrar o segundo percurso pos­
sível para um tratamento analítico-comportamental do processo dc
individualização.
O argumento desenvolvido por Skinner (1986/1987a) em O que
há de errado com a vida cotidian a no m u n do ociden tal constitui um
bom ponto de partida. Skinner afirma que o mundo ocidental foi efi­
ciente em solucionar vários problemas da vida cotidiana e promover
condições de conforto c segurança bastante avançadas em compa­
ração com-outras culturas. Mas, ao mesmo tempo, certas práticas
culturais no Ocidente têm funcionado para erodir contingências de
reforço. Skinner explica que há dois efeiLos do reforço: um efeito
dc fortalecim en to da resposta (ao qual os analistas do comportamento
se voltam em suas investigações operantes) e um efeito de prazer.
Certas práticas culturais têm sido selecionadas no Ocidente, segun­
do Skinner, pelo efeito de pra/.er do reforço, independentem ente de
eleiLo lortalecedor de respostas.
A erosão das contingências dc reforço significa que eventos antes
contingentes a certas classes de respostas deixam de sê-lo. O respon­
der do indivíduo deixa de produzir certas consequências, ou o acesso
às consequências passa a independer do responder. Com isso, (a)
a m anutenção daquelas classes passa a depender de outras conse­
quências (em muitos casos, coercitivas), caso em que os indivíduos
deixam de contatar as consequências que antes mantinham aquele
responder, ou (b) as classes dc respostas entram em extinção e o in­
divíduo não entra em contato com outros efeitos do comporLamcnto.
Assim, “quando as consequências fortaleeedoras do comportamento
foram sacrificadas pelo bem das consequências de prazer, o com por­
tam ento sim plesm en te tom ou -se fraco” (Skinner, 1986/1987a, p. 26,
itálico do original). Um papel reservado à análise do comportamento
aplicada consistiria justam ente cm promover a compreensão e o for­
talecimento das contingências de reforço.

156 SUBJETIVIDADE E RELAÇÕES COMPORTAMEN TAIS

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Skiruier (1986/1987a) discorre sobre cinco exemplos dc práticas


culturais que ilustram a erosão das contingências de rei orço. Dois
dos exemplos dizem respeito à questão do trabalho. No primeiro
caso, as contingências dc reforço foram erodidas quando a produção
dirigida para o mercado conduziu à alienação do trabalhador com re­
lação ao produto do seu trabalho68. O comportamento do trabalhador
industrial, diferente do do artesão, ou do do lavrador que planta para
a subsistência, não é mantido por suas consequências diretas - o
produto de seu trabalho, frequentem ente, o trabalhador não só não
tem acesso, como nem sequer faz contato com esse produto. No lu­
gar disso, seu comportamento é mantido por contingências que não
funcionam exatamente para fortalcccr o trabalhar^.
No segundo exemplo, a referência é ao comportamento do empre­
gador, que passa a ter acesso ao produto do trabalho sem trabalhar'0.
Com isso, o empregador evita o contato com eventuais consequcn-

68 Não se trata, aqui, de um problema apenas de economias capitalistas, nas


quais apenas uma classe detém os meios dc produção, mas de qualquer eco­
nomia na qual a produção c voltada para o mercado e, com isso. a divisão do
trabalho avança e a relação imediata trabalho produto do trabalho c rompida:
"A alienação tem pouco a ver com cxploraçáo. pois os empresários também são
alienados das consequências do que fazem, assim como os trabalhadores cm
Estados socialistas" (Skinner, 198ó/1987a, p. 18).
69 O dinheiro pode funcionar como um reforço generalizado, mas mesmo quan­
do o trabalhador recebe um salário deve-se considerar que: a) o dinheiro "está
sempre um passo mais longe do tipo de consequência reforçadora à qual a es­
pécie se tornou originalmente suscetível" (Skinner, 1986/l987a, p. 18); e b)
salários mensais não constituem consequências estritamente contingentes ao
trabalho. “Os salários pagos pela quantidade de tempo trabalhado, estritamente
falando, não reíorçam de modo algum o comportamento” (Skinner, p. J9).
70 No mesmo exemplo, Skinner (J986/1987a) faz tambem referência a recursos
de que o homem comum lança mão para evitar o trabalho, como a invenção
de instrumentos eletrônicos como controles remotos e outros aparelhos que
permitem acessar muitos reforços apenas com a resposta de pressionar botões.
“Considere a extensão com que aparelhos para economizar trabalho nos tornaram
apertadores de botões. Apertamos botões em elevadores, telelones, painéis, vi­
de ogravadores, máquinas de lavar, fornos, máquinas de escrever e computadores,
tudo no lugar de ações que pelo menos teriam um pouco de variedade” (p. 20).

CAPÍTULO 3 157

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cias aversivas do trabalhar, mas também com outros efeitos fortale­


cedores. Ele pode alcançar conforto e bem-estar únicos, mas como
resultado de comportamentos que não são aqueles antes fortalecidos
por esses eventos. E cm face da independência funcional dc res­
postas e estímulos antes constitutivos de relações de contingências,
sua vida poderá ser a um mesmo tempo confortável e monótona. A
variedade de interações possíveis com o mundo, a experiência de
operar de diferentes modos sobre o mundo e entrar em contato com
diferentes consequências, que podem tornar a vida interessante e
surpreendente, dá lugar a umas poucas respostas emitidas muito
frequentem ente. “Ao vencer a guerra por liberdade e a busca de
felicidade, o O cidente perdeu sua inclinação para agir” (Skinner,
1986/1987a, p. 25). Além disso, onde há menos variabilidade, há
menores chances dc sobrevivência do grupo. Assim,
o que há de errado com a vida no Ocidente não é que ela tem muitos
reforçadores, mas que os retorçadores não são contingentes aos tipos
de comportamento que sustentam o indivíduo ou promovem a sobre­
vivência da cultura ou da espécie. (Skinner, 1986/1987a, p, 24)
Partindo dessa argum entação de Skinner, podem os abordar a
questão da individualização salientando um aspecto não discutido
das novas contingências que passam a operar no plano da realização
material dos indivíduos: o fato de que as consequências contingen­
tes ao trabalhar passam a ser outras (em geral, o salário) e deixam
de ser contingentes ao comportamento de um conjunto de homens
e mulheres e passam a ser contingentes ao trabalhar individual. A
moeda introduz (também) essa possibilidade. Um produto industria­
lizado (e.g., uma televisão) não pode funcionar como consequência
reforçadora para o comportam ento de produzi-lo. No lugar disso,
o comportam ento do trabalhador que o produz é mantido por um
salário que, na melhor das hipóteses, tem uma relação indireta com
os eventos que podem m anter o comportamento de trabalhar (algu­
mas vezes nem é contingente ao trabalhar). Além disso, ainda que o
comportamento de vários trabalhadores seja requerido para produzir
um bem (como a televisão), as consequências que mantêm o com ­
portamento de cada um são independentes, não compartilhadas.

158 SUBJETIVIDADE E RELAÇÕES COMPORTAM ENTAIS

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A individualização neste terreno torna-se, assim, uma questão


de dissociação das consequências que mantem o comportamento de
trabalhar de grupos de homens e mulheres. A especialização cres­
cente de suas funções é acom panhada pelo distanciam ento cada
vez maior entre as consequências que mantêm o comportamento de
cada um. Consequências que não apenas se diferenciam daquelas
que modelaram o trabalhar originalmente, como também tornam o
trabalhar de um indivíduo cada vez mais independente do trabalhar
do outro em um sentido particular e crucial, isto é, do ponto de vis­
ta das consequências que o mantêm. Em contraste, em sociedades
coletivistas, nas quais a produção é dirigida para a subsistência, o
comportamento de trabalhar de cada um é mantido por uma con­
sequência que afeta o comportamento de todos. Quando a socieda­
de é hierárquica —por exemplo, quando há servos e senhores que
usufruem do trabalho dos servos em troca de proteção e cessão da
terra - não há igualdade, mas a independência das consequências
contingentes ao trabalhar pode ainda inexistir.
No interior de grupos sociais com alto grau de individualização,
essa dissociação das consequências que mantêm o trabalhar de cada
um traz várias implicações. As relações de poder tornam-se cada vez
mais assimétricas, as relações afetivas são reguladas por aspectos
econômicos (mais do que pelos costumes ou tradições), os contratos
invadem o espaço privado de modo a ratificar o acesso diferenciado
de cada um aos bens acumulados etc.
Algo sem elhante aparece cm outros domínios das vidas de indi­
víduos. Considere-se, por exemplo, a mudança da leitura coletiva
em voz alta para a leitura individual silenciosa. No primeiro caso,
uma mesma cconsequência, o acesso a uma literatura sagrada ou
profana, a comentários, reflexões etc., é compartilhada por grupos de
indivíduos contingentem ente a comportamentos diversos (não só o
comportamento de ler do letrado, mas também os comportamentos
de organizar o grupo para a leitura, providenciar o livro, preparar o
alimento para as reuniões etc., de outros membros do grupo). No
segundo caso, o da leitura silenciosa, o acesso às mesmas consequên­
cias (ou melhor, a algumas daquelas consequências) se dá individual­

CAPÍTULO 3 159

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m e n te 1. Além disso, o acesso independe, do ponto de vista imediato,


do comportamento do outro. O comportamento do próprio indivíduo
lhe basta. Por último, como se trata de um comportamento que não
precisa afetar o outro, pode ser emitido na forma encoberta.
Essa condição representa um tipo de independência de indiví­
duos, mas apenas do ponto de vista imediato. Além do fato de que
o indivíduo vive em uma rede complexa de relações, que o tornam
dependente de muitos outros indivíduos (ainda que não o perceba),
o conjunto das práticas mantidas por esses grupos repercute, em um
prazo maior, sobre a sobrevivência do grupo como um todo. A sobre­
vivência do grupo passa a ser a principal consequência compartilha­
da com os outros, mas, nesse caso, uma consequência não contatada
na vida cotidiana; 110 lugar disso, uma consequência remota demais
para controlar 0 comportamento atual dos indivíduos. Contingências
especiais passam, então, a ser requeridas, contingências que podem
promover o que Skinncr (1968/2003) denominará de autogerencia-
mento ctico (discutido adiante, na seção sobre autocontrole). Nesse
ponto, o processo de individualização articula-se com a questão da
privacidade. Onde a sobrevivência do grupo é um evento remoto,
a sociedade precisa dispor contingências novas para garantir um
comportamento previsível (não impulsivo) de cada um (entra aqui,
também, o papel do Estado). Como assinalado no Capítulo 2, a pri­
vacidade emerge em grande medida como função de práticas sociais
que promovem auto-observação e autocontrole. As conexões do au­
tocontrole com a individualização tornam essa última também um
aspecto a ser considerado para a análise da privacidade.
Retornando ã questão econômica, em uma sociedade de mercado
os bens individualmente acumulados têm importância crucial para
definir a posição de cada um na hierarquia social, assim como seu

71 A propósito, voltando ao tema de Skinner, sobre a invenção de dispositivos


para ter acesso a certas consequências sern ter de emitir os comportamentos
que originalmente as produziram, e emitindo comportamentos cada vez mais
repetitivos, temos agora os livros em áudio, que propiciam o acesso aos textos
contingentemente apenas à resposta de apertar botões.

160 SUBJETIVIDADE E RELAÇÕES COMPORTAMENTAIS

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INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões! 14/8/2015

status nos diferentes contextos de interação com os outros. A disso^


ciação das consequências contingentes ao trabalho de cada um (e
especialmente a possibilidade de acesso a essas consequências sem
o trabalho) funcionará também a favor de construção de riquezas
pessoais diferenciadas. Esse aspecto corresponde cm grande medida
ao que significa a individualização nessas sociedades, visto que o
poder econômico passa a ser a principal referencia para a localização
de cada um nas redes de relações sociais. E, desse ponto de vista,
o grau de mediação das relações econômicas pela moeda constitui
um bom indicador do grau de individualização em uma sociedade.
Quanto mais as relações entre os homens e mulheres são mediadas
pela moeda, maior a individualização encontrada na sociedade; em
grupos ainda comunitários, essa mediação está menos presente.
O estabelecimento da dicotomia indivíduo-sociedadc, longamente
discutida por Elias (1987/1994), pode ser examinada por essa óti­
ca. Os homens e mulheres falam de sua vida cotidiana como o seu
“grupo”, a sua “família”, a sua “comunidade" quando seus compor-
tamentos são cm grande medida mantidos por consequências que
afetam de um ponto de vista imediato os comportamentos dos outros
membros do grupo (seja no interior de uma sociedade igualitária ou
hierárquica). Tenderão a falar de si mesmos como “indivíduos”, e dos
outros como ‘sociedade”, quando seu comportamento é mantido por
consequências que não afetam imediatamente o comportamento dos
outros (c quando não são imediatamente afetados por consequências
contingentes aos comportamentos dos outros). Uma passagem de
Elias é ilustrativa do problema:
Desde a Idade Média europeia, o equilíbrio entre a idcnlidadc-cu c
a identidade-nós passou por notável mudança, que pode ser resumi­
damente caracterizada da seguinte maneira: antes a balança entre as
jdentidades-nós e eu pendia maciçamente para a primeira. A partir
do Renascimento, passou a pender cada vez mais para a identidade-
eu. Mais e mais frequentes se tornaram os casos de pessoas cuja
identidade-nós enfraqueceu a ponto de elas se afigurarem a si mes­
mas como eus desprovidos do nós. Enquanto, em épocas anteriores,
as pessoas pertenciam para sempre a determinados grupos, fosse a

CAPÍTULO 3 161

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partir do nascimento, fosse desde certo momento de sua vida, de tal


modo que sua identidade-eu estava permanentemente ligada a sua
identidade-nós e era amiúde obscurecida por ela, o pêndulo, com o
correr do tempo, oscilou para o extremo oposto. A identidade-nós das
pessoas, embora decerto continuasse sempre presente, passou, então,
muitas vezes a ser obscurecida ou ocultada, em sua consciência, pela
identidade-eu. (p. 161)
A análise desenvolvida nesta seção pretende sugerir, finalmente,
que a mudança ilustrada por Elias (1987/1994) pode ser examinada
à luz das relações de contingências envolvidas na realização de ho-
mens e mulheres - por exemplo, no campo econômico, mas também
em muitos outros, na mesma medida em que em cada um penetra a
cultura individualista.
Se cada um se torna um indivíduo não apenas porque seu repertó­
rio é único, mas também (e, talvez, principalmente) porque em sua
vida cotidiana despende a maior parte de seu tempo em atividades
mantidas por consequências que não mantem igualmente o com ­
portamento dos outros, então cada um será mais requerido a auto-
-observar-se e autocontrolar-se na medida necessária para que cada
outro possa também buscar sua satisfação pessoal.

A Autonomia
Este trabalho tem afirmado em muitos momentos que a emergência
de uma condição de autonomia foi essencial para o processo de in­
dividualização e para a construção da subjetividade moderna. Como
se acomoda essa proposição em um sistema explicativo que entende
o homem como produto de sua história ambiental r1Para responder a
essa questão, comecemos com uma caracterização mais precisa do
que c a crítica que analistas do comportamento tecem à noção de
autonomia, ou, mais especificamente, à noção de liberdade.
O comportamento humano, sendo uma interação do homem com
o mundo, consiste em uma relação de dependência luncional entre
respostas e estímulos. Apenas no contexto de relações desse tipo
uma ação do homem pode ser apropriadamente designada uma res­

162 5UBJETIVIDADE E RELAÇÕES COMPORTAMENTAIS

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posta, e aspectos do mundo físico e social são apropriadamente con­


siderados estímulos. Uma parte ou aspecto do mundo físico e social
que não tenha função para uma resposta não constitui exatamente
um estímulo, assim como uma ação ou movimento do organismo não
vem a ser uma resposta se não participa de uma relação funcional
com estímulos. Muitas vezes, falamos de comportamento como sinô­
nimo de respostas e esse é o caso quando discutimos se os comporta­
mentos humanos são determinados pelo ambiente ou não. Portanto,
se com a indagação sobre a autonomia estivermos inquirindo sobre
a possibilidade de uma resposta independer de relações de contin­
gência com estímulos, a análise do comportamento terá sempre uma
resposta negativa. Todo responder do organismo é função de (partici­
pa de relações funcionais com) contingências de reforço. A resposta
é sempre um termo de uma relação comportamental. Essa noção
de modo algum implica passividade do homem, visto que o am bien­
te que afeta seu comportamento não existe enquanto tal de modo
independente do responder do organismo, ele é produzido por esse
responder, isto é, “o comportamento está continuamente produzindo
as condições de sua produção” (Serio, 1997, p. 210). Isso vale mes­
mo para alguém que não se comporta de acordo com os padrões de
uma subcultura dominante (isto é, para alguém que age sob controle
de contingências dispostas por outras subculturas):
Mesmo aqueles que se destacam como revolucionários são quase
inteiramente produtos convencionais dos sistemas que subvertem.
Eles falam a língua, usam a lógica e a ciência, observam muitos dos
princípios cticos e legais e empregam as habilidades práticas e o co­
nhecimento que a sociedade os concedeu. Uma pequena parte de seu
comportamento pode ser excepcional, talvez dramaticamente excep­
cional, c teremos que procurar razões excepcionais em suas histórias
idiossincráticas. (Atribuir suas contribuições originais a seu caráter
taumaturgo como homens autônomos não constitui, é claro, qualquer
explicação). (Skinner, 1971/2002, p. 124)
Isso significa que a liberdade constitui uma ficção que merece
ser abandonada? Em termos. Uma análise comportamental do pro­
blema começa com a indagação: “Sob que condições emitimos a

CAPÍTULO 3 163

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resposta verbal ‘liberdade ?’’. Frequentem ente falamos de liberdade


quando não bá controle baseado em reforçadores negativos (punição
positiva, ou reforço negativo). Para Skinner, essa é a base da “lite­
ratura da liberdade”, que cumpriu um papel importante na história
do Ocidente, ao motivar os indivíduos para a luta contra o controle
aversivo do comportamento.
Algo que podemos chamar de “literatura da liberdade” foi delineada
para induzir as pessoas a escaparem de ou atacarem aqueles que agem
para controlá-las aversivamente. O conteúdo dessa literatura é a filo­
sofia da liberdade, mas as filosofias encontram-se entre aquelas cansas
internas que precisam ser examinadas. (Skinner, 1971/2002, p. 30)
A literatura da liberdade, no entanto, se volta apenas para situa­
ções em que um tipo específico de controle é encontrado, e ignora
que o controle existe, e frequentem ente os indivíduos não lutam
contra ele, em muitas outras circunstâncias72. Em particular, o con­
trole sob a forma de contingências baseadas no uso dc reforçado-
res positivos encontra pouca reação e mesmo reconhecimento. Os
indivíduos tenderão menos a se ver como controlados quando são
positivamente reforçados por agir de determinados modos c tende­
rão a reagir menos a essa lorma dc controle. Isso acontece porque a
questão da liberdade e do controle é enfatizada no mundo moderno
a partir de como os indivíduos se sentem. Isto é, respostas verbais do
tipo “liberdade’ tendem a ser emitidas sob controle de relações ou
condições corporais a elas associadas, em que o controle aversivo
inexiste. Na presença do sentim ento de liberdade, supõe-sc ainda
que o controle em geral está ausente. Dada sua associação com es­
tímulos aversivos, a noção de controle adquire um valor negativo na

72 lim uma passagem, Skinner (1971/2002) afirma que “uma das coisas mais
notáveis da luta por liberdade do controle intencional é a frequência com que ela
não existe. Muitas pessoas têm se submetido aos mais óbvios controles religiosos,
governamentais e econômicos por séculos, lutando por liberdade apenas espo­
radicamente, quando lutam. A literatura da liberdade prestou uma contribuição
essencial à eliminação de muitas práticas aversivas no governo, na religião, na
educação, na vida familiar e na produção de bens” (p. 31).

164 SUBJETIVIDADE E RELAÇÕES C0MP0RTAMENTAIS

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cultura ocidental, o que dificulta a disseminação do planejamento


de contingências para a solução de problemas humanos73.
Há duas situações principais em que analistas do comportamen­
to empregam o conceito de controle: para falar dos objetivos de sua
ciência (a aíirmação da previsão e do controle como os fins últimos
da ciência) e para afirmar a dependência funcional do comporta­
mento (ou respostas) cm relação a estímulos (a afirmação de que
todo comportamento é controlado pelo ambiente). No primeiro
caso, já foi sugerido (S. C. Ilayes, 1993) que o melhor é falar de
“previsão e influência” como objetivos da ciência do comportamen­
to, visto que em lace da multideterminação do comportamento é
possível apenas reduzir, mas não eliminar totalmente a variabilida­
de comportamcntal.
No segundo caso, da dependência funcional entre respostas e
estímulos, pode-se dizer que a noção de controle significa nada mais
do que sensibilidade. O comportamento humano é controlado pelo
ambiente no sentido de os homens e mulheres serem sensíveis ao
mundo que produzem ou com o qual interagem, isto é, não são

73 Skinner (1971/2002) discute longamente esse problema. Segundo ele, a re­


ação ao c o n t r o l e n ã o deveria ser generalizada: " O problema é libertar os homens
n ã o do controle, mas dc certos tipos de controle e isso pode ser resolvido apenas
se nossa análise levar em conta todas as consequências” (Skinner, 1971/2002,
p. 41). No âmbito das relações interpessoais, não há como ignorar a função que
o comportamento d e um indivíduo pode ter para o comportamento de outro (ou
seja, como o comportamento de um pode controlar o comportamento de outro;
“... muitas práticas sociais essenciais ao bem-estar da espécie envolvem o con­
trole de uma pessoa por outra e ninguém que se preocupe com as realizações
humanas pode suprimir essas práticas” (p. 41). A reação ao controle funciona,
enlirn, contra os tndívíduos e as culturas: “Não fosse pela nossa generalização
desavisada dc que todo controle é errado, lidaríamos com o ambiente social de
modo tão simples quanto lidamos com o ambiente não-social. Embora a tecnolo­
gia tenha libertado os homens de certos aspectos aversivos do ambiente, ela não
os libertou do ambiente. Aceitamos o fato de que dependemos do mundo à nossa
volta e simplesmente alteramos a natureza da dependência. Da mesma maneira,
para Lornar o ambiente social tão livre quanto possível de estímulos aversivos,
não precisamos destruir o a m b ie n L e ou escapar dele; precisamos redesenhá-lo”
(Skinner, 1971/2002, p. 42).

CAPÍTULO 3 165

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indiferentes ao mundo à sua volta como um lodo (embora possam


sê-Jo com respeito a algumas parcelas ou aspectos desse mundo,
dependendo sempre de sua história ambiental).
O sentido em que o conceito dc autonomia é empregado nos tra­
balhos mencionados até aqui não conflita com essa noção dc sensi­
bilidade aos eventos do mundo com o qual o indivíduo interage. Ao
contrário, diz-se que é apenas quando o indivíduo passa a interagir
com um ambiente social diferente, quando fica sob controle das no­
vas contingências de um ambiente social, que poderá experimentar
alguma autonomia.
Embora a alegação de uma autonomia possa ser vista como compa­
tível com a noção de determinação ambiental, ela não significa exa­
tamente o sentimento de liberdade referido por Skinner. O que está
em jogo quando se diz que o indivíduo moderno tem certa autono-
mia é não apenas o fato de experimentar um sentimento de liber­
dade (pela eliminação de certos controles aversivos, o que de fato
ocorre para algumas culturas ou grupos), mas principalmente o
fato de que ele é exposto a um ambiente no qual os cursos de ação
possíveis estão multiplicados e frequentemente ele tem de tomar
decisões, ou fazer escolhas. As contingências sociais são tais nessas
situações que as possíveis consequências de cada alternativa de ação
não são evidentes, entre outras razões porque se distanciam tempo-
ralmente da ação (diferente do que acontcce quando a sobrevivência
do indivíduo vincula-se estreitamente com a sobrevivência do gru­
po, em que consequências imediatas prevalecem c variáveis sociais
muito frequentemente limitam as chances de escolha). Esse é um
aspecto insistentemente assinalado por Elias (1987/1994)74.
Quer o indivíduo o recorde ou não, o caminho que ele tem que tri­
lhar nessas sociedades complexas - comparado ao que se abre para o
indivíduo das sociedades menos complexas - é extraordinariamente
rico em ramificações e meandros, embora não na mesma medida, é

74 O outro lado desse tipo de autonomia é o talo de que as consequências das


escolhas pesam sobre o indivíduo particular, o que torna as ocasiões de tomar
decisões circunstâncias que envolvem riscos pessoais.

166 SUBJETIVIDADE E RELAÇÕES COMPORTAMENTAIS

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claro, para os indivíduos de diferentes classes sociais. Kle passa por


um grande número de bifurcações e encruzilhadas em que se tem que
decidir por esse ou aquele caminho. Quando se olha para trás, é fácil
deixar-se tomar pela dúvida. Eu não deveria ter escolhido um rumo di­
ferente? Nào terei desprezado todas as oportunidades que tive naquela
ocasião? Agora que consegui isto, que produzi isto ou aquilo, que me
tornei um especialista nisto ou naquilo, não terei deixado que se per­
dessem muitos outros dons? E não terei deixado de lado muitas coisas
que poderia ter feito? É próprio das sociedades que exigem de seus
membros um grau muito elevado de especialização que grande número
de alternativas não utilizadas - vidas que o indivíduo não viveu, papéis
que não desempenhou, experiências que não teve, oportunidades que
perdeu —sejam deixadas à beira do caminho, (pp. 109-110)
Ainda que sem recorrer ao conceito dc autonomia, há uma li­
teratura na análise do comportamento cjue enloca precisamente o
problema da escolha entre cursos de ação possíveis c que alarga
o enfoque olerecído para a questão da determinação ambiental do
comportamento, abrangendo dimensões que di/em respeito à possi­
bilidade permanente de um indivíduo poder comportar-sc dc modos
variados. O ponto de partida dessa literatura c a noção de esquemas
concorrentes, a ideia dc que um organismo pode estar exposto, ao
mesmo tempo, a diferentes contingências de reforço, responden­
do a um ou outro de vários arranjos dc contingências. Isto é, “um
esquema concorrente consiste de dois ou mais esquemas indivi­
duais ou componentes, que estão disponíveis ao organismo ao mes­
mo tempo’' (McDowell, 1989, p. 154). Quando identificamos es­
quemas concorrentes a que um organismo está exposto, podemos
supor (prever) que responderá a um ou outro esquema dependendo
de certas propriedades/? das relações respostas-consequências. E

75 “a proporção de respostas em uma dada alternativa ... é igual à proporção


de reforços obtidos daquela alternativa. Essa relação se mantém se o tempo
despendido no responder é medido, no lugar da taxa de resposta” (McDowell,
1989, p. I 54), isto é. a proporção de tempo despendido ein urn responder é igual
à proporção de reforços obtidos nessa alternativa.

CAPÍTULO 3 167

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podemos mesmo influenciar sua cscolha, o que conduz a um reco­


nhecimento importante sobre de que modos podem ser alteradas
probabilidades de operantes concorrentes. Souza e Andery (2004)
introduzem a questão assinalando que
a pesquisa sobre esquemas —isto c, sobre como o arranjo de conse­
quências afeta o comportamento, tem mostrado que diferentes tipos
de arranjos entre respostas e consequências podem gerar e manter
padrões altamente regulares de comportamento (Kerster & Skinner,
1957/1992). Ksse conhecimento é importante, seja para sintetizar
comportamentos novos - isto é, para planejar e implementar esses
arranjos, de modo a gerar comportamentos de interesse, seja para en­
tender c alterar padrões ocorrendo em situações naturais. Mas talvez a
contribuição mais importante seja a noção, lortemente generalizável,
de que todo comportamento ocorre no contexto de outros comporta­
mentos c que os efeitos das consequências de um comportamento
são sempre relativos, são função do contexto de reforço (Baum, 1994;
Herrnstein, 1970; McDowcll, 1989), isto é, o valor reforçador de uma
mesma consequência varia dependendo de quais são os outros refor-
çadores disponíveis, (p. 2)
A lei da igualação consiste de uma proposição matemática da rela­
ção entre respostas e reforços em esquemas concorrentes. “De acordo
com a teoria da igualação, o efeito do reforço contingente só pode ser
entendido em termos do contexto total de reforço no qual ocorre”
(McDowell, 1989, pp. 155-156). Essa formulação já incorpora uma
contribuição de Herrnstein (1970), que assinalou que os organismos
estão expostos a esquemas concorrentes mesmo quando procedimen­
tos experimentais programam o reforço contingente a uma única clas­
se de respostas. Todo comportamento envolveria uma cscolha, mesmo
quando isso não é óbvio ou planejado, na medida em que sempre há
outros cursos de ação possíveis. Assim, “as equações [propostas por
Herrnstein, 1970] estabelecem que o comportamento é determinado
não apenas pelo reforço contingente (r), mas também por todo outro
reforço provido pelo ambiente” (McDowcll, 1989, p. 155).
Em face do que estabelece a lei da igualação todo responder de
um indivíduo c função não apenas do reforço contingente a uma

168 SUBJETIVIDADE E RELAÇÕES COMPORTAMENTAIS

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ciasse dc respostas, mas também da disponibilidade, na mesma si­


tuação, de outros reforços contingentes a outras classes de respos­
tas. Quando um indivíduo se encontra, por exemplo, cm uma praça,
pode fazer muitas coisas diferentes e ser reforçado. Pode caminhar,
conversar com o vendedor de jornais, jogar futebol, comprar um sor­
vete, observar os pássaros, brincar com as crianças, namorar etc. A
probabilidade de o indivíduo conversar com o jornaleiro dependerá
não apenas do reforço contingente a essa classe de respostas, mas da
taxa de reforço contingente a cada outra possibilidade de ação. Uma
consequência importante da lei da igualação consiste no fato de que
a probabilidade de emissão dc uma classe de respostas pode ser alte­
rada sem que o esquema correspondente seja alterado, simplesmente
como resultado de uma alteração na taxa de reforço contingente a
classes de respostas concorrentes. Por exemplo, a probabilidade dc
o indivíduo conversar com o jornaleiro poderá ser alterada simples­
mente modificando-se a taxa do reforço contingente a brincar com
as crianças. Do mesmo modo, uma criança pode chorar menos (um
responder mantido por atenção social) como resultado de um au­
mento na taxa de reforço de respostas de brincar. Um adolescente
pode despender mais tempo apostando em jogos eletrônicos quando
se altera a taxa de reforço contingente à prática dc esportes. Um pro­
fessor pode dar mais aulas quando se altera o reforço contingente à
elaboração de artigos. O contexto de esquemas concorrentes define,
assim, as probabilidades de resposta de um indivíduo. A validade
da lei da igualação em seus diferentes refinamentos (cf. McDowell,
1989) encontra amplo suporte empírico, com várias espécies. Além
disso, “a evidencia disponível indica que a teoria da igualação se sus­
tenta nos ambientes humanos naturais tanto quanto no laboratório, e
que ela tem aplicações terapêuticas uteis” (McDowell, p. 156). Sobre
as aplicações da teoria. Mijares e M. T. A. Silva (1999) assinalam:
Uma das consequências mais importantes dentro da teoria e da prá­
tica comportamental derivada da lei da igualação e especialmente
da hipérbole [de Hcrrnstein], é que, para poder predizer como de­
terminado reforçador vai afetar o comporta me nlo, c necessário levar
cm consideração o contexto no qual esse reforçador é contingente ao

CAPÍTULO 3 169

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comportamento, isto é, levar em consideração os outros reformadores


presentes no meio e contingentes a outras respostas. Por exemplo, a
lei da igualação oferece um marco referencial que perrnite compreen­
der os “efeitos colaterais” inexplicados do reforço ou da extinção, fre­
quentemente relatados na literatura c às vezes chamados por críticos
da terapia eomportamental de “substituição de sintoma”. Por exemplo,
vários autores relataram que a taxa de comportamentos inadequados
dentro de aula diminui quando comportamentos acadêmicos são re­
forçados; outros informaram que a frequência do comportamento de
autoestimulação diminui quando outros comportamentos não relacio­
nados são reforçados; igualmente, outros tantos estudos mostram que
comportamentos adequados diminuem em frequência quando outros
comportamentos, também adequados, são reforçados (McDowell,
1988). Segundo a teoria da igualação, esses efeitos colaterais não são
inexplicáveis, mas são consequências da mudança do contexto refor-
çador do ambiente. Assim, a teoria prediz que qualquer intervenção
que acrescente ou remova reforçadores, mudando a quantidade total
de reforços no ambienle, não apenas mudará o comportamento que é
objeto de intervenção, mas também os outros comportamentos emiti­
dos nesse ambiente, (p. 47)
A escolha está, portanto, contemplada em uma ciência eomporta-
mcntal que reconhece como unidade de análise não apenas respos­
tas específicas ou relações de contingência específicas, mas também
o contexto de possibilidades concorrentes de comportamento dos in­
divíduos. A ideia de que a escolha vem a ser ela mesma determinada
pela taxa relativa de reforços pode parecer contrariar a ideia de que
os indivíduos escolhem agir dc um ou outro modo, mas o que está
sendo afirmado é que esse escolher não existe independentemente
das consequências de cada escolha. K de um ponto dc vista empíri­
co, a dependência funcional das escolhas está estabelecida.
Partindo-sc, então, do fato de que a análise do comportamento
reconhece (e tem produzido evidências) que os organismos estão
permanentemente expostos a arranjos concorrentes de contingên­
cias, que sempre há vários cursos de ação possíveis, e que a proba­
bilidade de um indivíduo agir de um ou outro modo é determinada

170 SUBJETIVIDADE E RELAÇÕES COM PORTA MENTAIS

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apenas probabilisticamente, podemos avançar na interpretação das


particularidades desse fenômeno nas culturas (individualistas) em
que a noção de autonomia floresceu e tornou-se central.
Um primeiro aspecto a ser considerado é que um mundo baseado
na exploração e transformação radical do ambiente e no desenvol­
vimento tecnológico cria muito mais alternativas de ação para o
indivíduo, comparativamente a ambientes culturais menos comple­
xos. A cada momento, há uma variedade muito maior de classes de
respostas com alguma probabilidade de serem emitidas e há muito
mais variação topográfica dentro de uma mesma classe de respostas.
Kxemplo do primeiro caso são as inúmeras profissões que sinteLi/am
as funções sociais disponíveis em dada sociedade. Como exemplo
do segundo caso há os diversos modos de alimentar-se, envolvendo
o uso de utensílios cada vez mais variados, cm contextos tambem
bastante diversificados. Paradoxalmente, como apontado antes, esse
é o mesmo ambiente cultural que promove a estereotipia topográ­
fica e o responder repetitivo (considcrc-sc a frequência do “apertar
botões” nesse ambiente), quando certas práticas culturais são se­
lecionadas com base no efeito de prazer do reforço. De qualquer
modo, há nas sociedades modernas muito mais situações que desig­
namos de escolha do que nas sociedades mais simples. Isto é, o su­
jeito nessas sociedades mais complexas está mais permanentemente
exposto a arranjos concorrentes de contingências mais numerosos.
Em razão disso, escolhe mais —não porque é mais autônomo, mas
porque o ambiente exige.
Mais fundamental é outra particularidade dos esquemas con­
correntes em sociedades complexas: o fato dc que muito frequen­
tem ente as consequências para os cursos de ação possíveis são
muito atrasadas, muitas vezes jamais contatadas pelos indivíduos.
Um indivíduo que vive em uma sociedade mais simples tende a
escolher entre pescar ou caçar, conversar ou jogar, beber água ou
aguardente etc. Além de menos numerosas, as alternativas de ação
têm em comum o fato de que produzem consequências contatadas
pelos indivíduos imediatamente, ou no máximo em prazo curto (a
distância temporal das consequências parece variar com o grau de
complexidade das sociedades). Nas sociedades mais complexas,

CAPÍTULO 3 171

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como as sociedades de mercado, a distância temporal entre a res-


posta e a consequência c maior. O indivíduo escolhe hoje pagar ou
não um plano de previdência, para ter uma aposentadoria melhor
Lrinta anos depois; escolhe hoje declarar ou não ao fisco o seu ga~
nho financeiro, para fugir de uma multa cinco anos depois; esco­
lhe hoje um curso profissionalizante, para dez anos depois talvez
alcançar uma função social bem remunerada. Esses são tipos de
escolha para os quais um adestramento especial será necessário. A
impulsividade infantil precisará dar lugar à capacidade de ponderar
consequências atrasadas da ação. A formação para a vida nessas
sociedades exigirá um novo tipo de educação.
A capacidade de estimar consequências muito atrasadas dos vá­
rios cursos de ação possíveis será tão mais necessária quanto mais
se realiza um terceiro aspecto peculiar dos esquemas concorren­
tes a que os indivíduos das sociedades modernas estão expostos:
a maior distância (em magnitude ou valor reforçador) das conse­
quências contingentes a cada curso de ação. No mundo moderno,
escolher entre x e y significa não apenas ter acesso a um reforço um
pouco maior ou um pouco menor, um pouco mais frequente, ou
um pouco menos frequente. Significa muitas ve/es realizar-se ou
não (materialmente, afetivamente etc.), viver muitos ou poucos anos
além da aposentadoria, tornar-se uma celebridade ou um anônimo,
poder manter uma família ou viver na solidão etc. As escolhas nesses
conLextos contêm a possibilidade de uma mudança muito significati­
va em aspectos importantes da vida a longo prazo; elas não envolvem
simplesmente o conforto ou a satisfação imediatos do indivíduo.
Uma última observação sobre a autonomia no mundo moderno,
pensada à luz da noção de esquemas concorrentes; como as conse­
quências de maior magnitude ou maior valor rcíorçador produzidas
por certas escolhas são frequentemente muito atrasadas, o com­
portamento de escolha dessas alternativas muitas vezes vem a fi­
car sob controle de outras contingências, contingências sociais que
funcionam para promover a escolha do curso de ação que produz as
consequências atrasadas. Em um trabalho sobre as relações entre
assertividade e autocontrole, Marche/ini-Cunha (2004) definiu os
dois tipos de consequências:

172 SUBJETIVIDADE E RELAÇÕES COMPORTAMENTAIS

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ao longo deste trabalho serão utilizadas as expressões “consequên­


cias sociais específicas” c “consequências reforçadoras em geral”.
Consequências sociais específicas terão, aqui, o sentido de aprova­
ção ou desaprovação de dado comportamento pelo grupo. Já conse
quências reforçadoras em geral (ou consequências aversivas em geral)
poderão ser enlendidas como satisfação de outras necessidades, con­
sequências mediadas socialmente ou não, mas cm sentido diverso
àquele específico de aprovação/desaprovação, (p. 3)
Ou seja, uma última particularidade da autonomia de que fala
Elias (1987/1994), ou du comportamento de escolha em sociedades
complexas, é que a probabilidade de um curso de ação não é neces­
sariamente função da proporção de reforço (atrasado) contingente a
esse e a outros cursos de ação, mas de uma relação entre magnitude
c atraso do reforço em esquemas concorrentes nos quais se incluem
contingências sociais de aprovação/desaprovação não necessaria­
mente conectadas com outros eventos possivelmente reforçadores.
A sociedade, porém, tende a introduzir contingências para in­
fluenciar as escolhas do indivíduo apenas naquelas circunstâncias
em que a escolha produz não apenas uma consequência para ele
mesmo, mas também uma consequência para o grupo. Por exem­
plo, a sociedade dispõe contingências especiais para favorecer a
prática de esportes, no lugar do consumo de drogas. Nesse caso,
a sociedade intervém para aumentar a probabilidade do compor­
tamento que favorece o grupo. Quando não estão em jogo conse­
quências para o grupo, e quando as consequências que afetam ape­
nas o próprio indivíduo são muito atrasadas, as escolhas podem ser
função de muitas outras variáveis relacionadas à história ambiental
do indivíduo, por vezes muito difíceis de aferir, o que fortalece uma
visão de autonomia.
Por exemplo, mesmo em sociedades complexas, os esquemas con­
correntes envolvem consequências que não são atrasadas, c que não
representam um conflito indivíduo/grupo. O indivíduo pode escolher
beber leite ou suco, pegar um elevador ou uma escada rolante, viajar
ou comprar um carro, jogar damas ou dominó etc. Essas são situa­
ções em que esquemas concorrentes estão operando c que podem

CAPÍTULO 3 173

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ser explicadas recorrendo-se à lei da igualação. Não ilustram, porém,


toda a problemática da autonomia individual no mundo moderno 6.
Em suma, a autonomia encontrada nas sociedades modernas
tanto se explica cm termos da exposição permanente de indivíduos
a esquemas concorrentes de reforço, que exigem escolhas, como,
em alguns casos, a partir de particularidades desses esquemas nes­
sas sociedades, em termos da distância temporal entre respostas e
consequências e a participação de contingências sociais adicionais
quando os cursos de ação possíveis envolvem um conflito entre
consequências para o indivíduo e consequências para o grupo.
Nesse ponto, a questão da autonomia se articula com o problema
do autocontrole.

0 Autocontrole
Análises como a desenvolvida por Elias (1939/1990b, 1987/1994)
apontam para a importância do autocontrole na definição da expe­
riência subjetiva moderna. Elias (1987/1994) salienta que a particu­
laridade do processo de individualização no mundo moderno é que
ele vem acompanhado de uma exigência crescente de autocontrole.
Aquilo que visto por um aspecto se apresenta como um processo de
individualização crescente é, visto por outro, um processo de civili­
zação. Pode-se considerar característico de certa fase desse processo
que se intensifiquem as tensões entre os ditames e proibições sociais,
internalizados como autocontrole, e os impulsos espontâneos reprimi­
dos. Como dissemos, e esse conflito no indivíduo, essa '‘privatização”
... que desperta no indivíduo a sensação de ser, “internamente”, uma
coisa totalmente separada, de existir sem relação com outras pessoas,
relacionando-se apenas “retrospectivamente” com os que estão “fora”
dele. (Klias, 1987/1994, p. 103)

76 Voltando ao continuum de complexidade dos fenômenos comporfamcnfais,


podemos dizt:r que essas são situações em um ponto intermediário daquele con­
tinua m.

174 SUBJETIVIDADE E RELAÇÕES COMPORTAMENTAIS

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Na medida em que vão se dissociando as consequências que man­


têm o comportamento de cada um (que cada um vai sendo mais
diferente de todos os demais porque suas relações com o mundo são
cada vez mais particularizadas) e na medida em que isso acontece
em um contexto de relações de dependência interpessoal indiretas
muito complexas, mais e mais autocontrole vai sendo exigido do in­
divíduo e, desse modo, vai se construindo sua “interioridade” e ele
vai se vendo como autônomo. Podemos formular o problema do se­
guinte modo: quanto mais idiossincráticas as relações comportamen-
tais que definem a vida cotidiana dos indivíduos, em contextos de
contingências concorrentes cada vez mais numerosas e que envol­
vem um conflito de consequências para o indivíduo e para o grupo,
mais e mais vão sendo exigidos do indivíduo a auto-observação e a
emissão de comportamentos autocontrolados. Como resultado disso,
o indivíduo deve observar mais o próprio corpo, fazer mais escolhas
e responder sob controle de consequências em geral atrasadas, ou
consequências sociais imediatas específicas do tipo aprovação/desa­
provação. Esse padrão de comportamento envolverá um responder
reflexivo com participação cada ve/, mais reduzida do aparelho mo­
tor e um responder emocional sem os componentes motores sele­
cionados filogeneticamente. Por “responder reflexivo” entendam-se
aqueles repertórios de exame, apreciação, elaboração conceituai e
deliberação sobre aspectos do mundo à sua volta. Por “responder
emocional”, entendam-se aquelas relações (ou conjunto de relações,
mais ou menos complexas) que se originam a partir das chamadas
emoções básicas ou primárias.
No Capítulo 1, assinalamos que para Elias (1939/1990b) a noção
de interioridade se torna persuasiva na medida em que os “impul­
sos naturais” precisam ser contidos e nisso consiste o autocontrole.
Tal contenção significa, para Elias, que os “impulsos emocionais”
não podem atingir o aparelho motor. A metáfora do homo clausus
seria assim justificada pela experiência que cada um tem de vigiar
o próprio corpo para conter as emoções “naturais”. Um analista do
comportamento pode considerar dispensável esse tipo de aborda­
gem, alegando que permanece no campo de uma lógica internalista.
Todavia, a argumentação de Elias vai justamente na direção oposta,

CAPÍTULO 3 175

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assinalando as redes de intcrdcpcndência cntrc os homens c as di­


mensões dessas redes (complexidade, sob a lorma de extensão das
redes e existência de muitos elos de mediação da dependência) que
tomam dilícil aos indivíduos visualizá-las. Toda a análise de Elias
tem a função de tornar inteligível a autoimagem de autonomia e
ainda assim apontar seu caráter ilusório. Portanto, estamos diante
de um autor que opera com uma lógica relacional, não internalista,
na análise de problemas de interesse central para a Psicologia. Que
contribuições mais específicas sua análise provê para uma aborda­
gem comportamental desses problemas? Diversas, dentre elas a indi­
cação de algumas variáveis culturais de relevância central no mundo
moderno, a proposição de que o autocontrole constitui uma chave
para a discussão dos fenômenos emocionais tal como se configu­
ram nessa cultura e a sugestão de que um aspecto importante dessa
configuração consiste na forma de emissão de certas respostas: com
restrita participação do aparelho motor, ou simplesmente a emissão
de respostas com dimensões motoras concorrentes (e.g., sorrir em
um momento de desagrado).
Na análise do comportamento, o autocontrole recebe um trata­
mento diverso. Não se trata de “conter emoções", mas de responder
sob controle de consequências com maior atraso e maior magni­
tude, quando esse responder concorre com outro{s) (impulsivos)
mantido(s) por consequências imediatas de menor magniLude (cí.
Hanna 8c Todorov, 2002; Rachlin, 1974, 1991; Skinner, 1974/1993,
1968/2003). Segundo Rachlin (1991), “retire a questão temporal e
a questão do autocontrole será também eliminada” (p. 264). Há, no
entanto, um terreno comum às duas abordagens, que será aqui enfa­
tizado: a relação entre autocontrole e dimensões éticas do processo
de individualização.
Muito frequentemente, nas sociedades modernas, o indivíduo
está exposto a contingências concorrentes que envolvem um confli­
to entre consequências (imediatas) para si mesmo e consequências
atrasadas (para si mesmo e para os outros) (e.g., cada um pode jogar
seu lixo no mar quando vai à praia, ou acondicioná-lo em recipien­
tes próprios e transportá-lo para o local de coleta; pode pescar a
qualquer momento, ou apenas fora do período de reprodução das

176 SUBJETIVIDADE E RELAÇÕES COMPORTAMENTAIS

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espécies; pode respeitar as leis de trânsito, ou dirigir dc acordo com


sua urgência e conveniência ctc.). Nesses casos, a impulsividade traz
uma consequência negativa para o grupo como um todo, ainda que
represente, para o próprio indivíduo, dc um ponto de vista imediato,
uma consequência positiva. Rachlin (1991) assinala que

o que quer que leve uma pessoa a sacrificar prazeres imediatos para
seu próprio bem no futuro pode também levar uma pessoa a sacrificar
bens individuais em prol de bens sociais. A ideia subjacente à analogia
é que cooperar com outros geralmente resulta cm bens maiores a lon­
go prazo para o indivíduo (embora isso possa não acontecer o tempo
todo), (p, 284)
Skinner discute o autocontrole a partir de duas óticas. Uma pri­
meira (cf. Skinner, 1953/1965) diz respeito à possibilidade de o
próprio indivíduo dispor contingências que favoreçam a emissão
do comportamento autocontrolado77. Neste caso, as “técnicas de
autocontrole” funcionam do mesmo modo que as estratégias para
controle do comportamento do outro: altera-se o ambiente e, como
resultado, a probabilidade de certas classes de respostas é alterada
(e.g., desliga-se a televisão para aumentar a probabilidade do com­

77 Skinner refere-se às situações em que o indivíduo manipula variáveis para


alterar a probabilidade de outros comportamentos como exemplos do que tem
sido denominado "resolução de problemas”, “tomada de decisão" e “autocontrole”
(cl. Nico, 2001). Sobre a diferença entre tomada de decisão e autocontrole, Nico
aíirma que “o que caracteriza a tomada de decisão é o desconhecimento prévio,
por parte do sujeito que se comporta, das consequências a serem produzidas por
um e outro comportamento. Assim, diferentemente do autocontrole, o comporta­
mento de tomar uma decisão não consiste na aplicação de um conjunto de técni­
cas de modo a tornar mais provável uma resposta antecipadamente identificada.
O que d e f i n e a tomada de decisão é a emissão de certos comportamentos que
aumentam a probabilidade de optar por, decidir qual curso de ação será tomado.
Dessa lorma, um indivíduo torna-se mais capaz de tomar uma decisão quando se
comporta de modo a produzir conhecimento acerca das contingências envolvidas
em um e outro comportamento” (p. 16). A discussão apresentada neste trabalho
sugere, porém, que autocontrole e tomada de decisão confundem-se quando
se LraLa de esquemas concorrentes que envolvem consequências imediatas e
atrasadas, p a r a o indivíduo e para o grupo.

CAPÍTULO 3 177

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portamento de ler, coloca-sc pouco dinheiro na carteira para reduzir


a probabilidade de fazer despesas etc.)'fi. Uma outra, e talvez princi­
pal, ótica desenvolvida por Skinner diz respeito às circunstâncias nas
quais a sociedade inlroduz contingências que favoreçam o compor­
tamento autocontrolado e/ou inibam o comportamento impulsivo.
Neste último caso, estamos no terreno da ética.
A ética é principalmente uma questão de conflito entre consequências
imediatas c remotas. Como podemos abrir mão de uma recompensa
de modo a evitar uma punição mais tarde, ou admitir uma punição
em nome de uma recompensa mais tarder As culturas têm ajudado a
resolver o problema, provendo consequências imediatas que têm os
mesmos efeitos que as consequências remotas. Elas envergonham
seus membros que não conseguem abrir mão das recompensas ime­
diatas, ou se recusam a admitir a punição imediata, e louvam aqueles
que conseguem. Se comer muito sal e açúcar fosse mais sério, isso
seria considerado vergonhoso. (Skinner, 1987b, p. 6)
Contingências sociais podem funcionar para promover o res­
ponder autocontrolado, mesmo quando os esquemas concorrentes
envolvem consequências apenas para o próprio indivíduo (e.g., a
sociedade pode dispor contingências que favoreçam práticas espor­
tivas relacionadas a uma vida mais saudável)'9. i\o caso das sanções

78 Diz Skinner ( J 953/1965) que ao manipular as variáveis o indivíduo “controla-


se precisamente como controlaria o comportamento de qualquer outro, por
meio da manipulação de variáveis das quais o comportamento é função. Ao fazer
isso, seu comportamento é um objeto próprio de análise, e finalmente deve ser
explicado por variáveis que se situam fora do próprio indivíduo” (pp. 228-229).
79 Marchezini-Cunha (2004) e Nico (2001) fornecem boas sistematizações das
possíveis relações de auto c on L ro le . Na descrição d e Marchezini-Cunha, "as rela­
ções de autocontrole podem ser didaticamente categorizadas da seguinte manei­
ra: ( I ) situações nas quais o autocontrole c originado somenle do conflito entre as
consequências diretas do comportamento do indivíduo; (2) situações nas quais o
conflito entre as consequências do comportamento e acentuado p o r sanções óti­
cas impostas pelo grupo. As situações da categoria (2) podem ser ainda subdividas
em (a) conjunto de condições sob as quais o grupo impõe sanções éticas como
torma de lacilitar o autocontrole e assim ‘proteger’o indivíduo das consequências

178 SUBJETIVIDADE E RELAÇÕES COM PORTAM ENTAIS

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éticas80, porém, estamos diante da circunstância específica em que


o responder impulsivo do indivíduo pode produzir consequências
aversivas para o grupo. As sanções tornam-se necessárias porque o
responder autocontrolado do indivíduo, que favoreceria o grupo, não
chega a ser instalado. As consequências são muito atrasadas e fre­
quentemente o indivíduo nem sequer faz contato com elas. Assim,
uma estimulação suplementar, social, entra em ação para evitar a
impulsividade81. Trata-se, em geral de uma punição contingente ao
comportamento impulsivo (uma punição cuja magnitude, para ser
eficaz, varia acompanhando mudanças nas consequências de respos­
tas concorrentes - ou seja, varia acompanhando o contexto de refor-

aversivas de seu comportamento impulsivo e favorecer um comportamento vanta­


joso para o indivíduo; e (b) conjunto de condições sob as quais as sanções éticas
visam à promoção do autocontrole, evitando assim consequências que seriam
reforçai Ioras para o indivíduo, mas aversivas para o grupo’’ (p. 29).
80 Uma definição para “sanções éticas” é elaborada por Marchezini-Cunha
(2004): "... sanções éticas podem ser compreendidas como estímulos aversivos
dispostos pelo grupo com a função de reduzir a frequência de uma resposta
impulsiva, como também podem ser interpretadas como regras, alterando a
função de certos estímulos, colocando assim o comportamento do indivíduo
sob controle de estímulos que não o controlariam sem a regra. Por exemplo, a
pena de 2 anos de reclusão por porte ilegal de arma (sanção como consequência
aversiva) e a regra ‘biscoitos recheados são constituídos de substâncias cance­
rígenas' (regra alterando a função do estímulo, aumentando a probabilidade de
autocontrole)” (p. 31).
81 Nk:o (2001) assinala que “esta pode ser apontada como uma diferença em
relação ao primeiro conjunto de condições sob as quais o grupo leva o indivíduo
a autocontrolar-sc [categoria 2a]. Sob aquelas condições, o indivíduo em algum
momento entra em contato com as estimulações aversivas diretamente produzi­
das peln seu comportamento - a ressaca por ter bebido, a dor no estômago por
ter comido muito, a perda de fôlego por ter fumado etc.; no presente caso, as
estimulações aversivas produzidas pelo seu comportamento, agregadas àquelas
produzidas por muitos outros homens, no mais das vezes não são experienciadas
pelo indivíduo que assim se comporta. Portanto, neste segundo easo, é ainda
rnenos provável que o indivíduo se autocontrole, sendo o planejamento de con­
sequências especiais, na forma de sanções éticas, o único modo possível de
estabelecer tal comportamento” (p. 77).

CAPÍTULO 3 179

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ços disponíveis). Como resultado, os esquemas concorrentes a que


o indivíduo se encontra exposto incluem contingências sociais
que produzem um autocontrole sob a forma de “comportamento de
esquiva socialmente instalado” (Nico, 2001, p. 85)82.
Ora, o responder do organismo que pode alterar o ambiente físico
e assim afetar os outros é o responder com (determinada) partici­
pação do aparelho motor*3. Assim, o autocontrole, em circunstân­
cias de conflito ético, mesmo pensado enquanto um responder sob
controle de consequências atrasadas, ou sanções sociais imediatas,
envolve uma resposta com restrita participação do aparelho motor,
ou uma resposta com componente motor que é concorrente com
aquela que seria impulsiva84.
Como já assinalado, o papel da ativação (restrita) do aparato motor
na definição do carátcr (parcialmente) encoberto de certas respostas
é abordado por Watson (1930/1970), Skinner (1957/1992) e Kantor
(Kantor & N. W. Smith, 1975). E também a questão levantada por
Elias (e.g., I939/1990b) ao discutir o autocontrole nas sociedades
modernas. Também esses autores chamam a atenção para a impor­
tância de contingências sociais punitivas para a produção dessas res­
postas encobertas. Essas contingências são dispostas socialmente não
por seu efeito para o indivíduo, mas por seu efeito para o grupo.
Na discussão oferecida por Andery (1997) acerca as práticas cul­
turais que produzem a subjetividade, somos chamados à atenção
para esse aspecto crucial de uma interpretação analítieo-comporta-

82 Um discussão mais detalhada do uso de estímulos aversivos na promoção do


autocontrole é encontrada cm Nico (2001).
83 Algumas vezes a ativação do sistema circulatório também afeta o outro, sob a
forma de uma ruborização do indivíduo. Formas mais avançadas de autocontrole
(e.g., técnicas refinadas de representação) incluem a evitação dessa resposta
fisiológica. Ainda que não controladas, respostas fisiológicas são em geral res-
pondentes condicionados ou incondicionados. Embora possam ter dimensões
públicas, não produzem consequências aversivas para o grupo.
84 Essas possibilidades tem conexão com uma problemática discutida no âmbito
clínico como comportamentos assertivos, agressivos e passivos (cK Marche/.ini-
Cunha, 2004).

180 SUBJETIVIDADE E RELAÇÕES COM PORTA MENTAIS

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mental: práticas culturais produzem repertórios individuais, mas são


selecionadas por seus efeitos para o grupo85, não para o indivíduo.
as contingências responsáveis pela construção da subjetividade ... são
... um conjunto de contingências que só permanecem por suas con­
sequências em termos da sobrevivência do grupo praticante. Não se
pode, portanto, compreender a subjetividade como mero conjunto de
resultados de interações entre indivíduos, uma vez que estas interações
são mediadas pela comunidade verbal, uma comunidade que mantem
um conjunto de práticas por suas consequências para o grupo ... talvez
a subjetividade aparentemente tão absolutamente individual e singular
só sobreviva enquanto puder ser também social e diretamente ligada à
sobrevivência do grupo social. (Ander)', 1997, p. 206)
É à cultura que interessa o autocontrole c c por visar a esse auto­
controle que a cultura promove a discriminação de condições corpo­
rais c a transformação das relações tidas por um responder emocional
espontâneo. Isso não significa que algo fica contido dentro do sujeito
autocontrolado (exceto como uma metáfora). Mas significa que sobre
as relações emocionais primárias a cultura opera transformando-as
e produzindo relações com graus cada vez maiores de complexidade
(por exemplo, do ponto de vista dos entrelaçamentos entre relações
diversas, verbais e não-verbais, com componentes abertos c enco­
bertos etc.), das quais participam respostas parcialmente encobertas
não encontradas nas relações que deíinem as emoções primárias
(o responder emocional referido no início desta seção). Do mesmo
modo, significa que outras classes de respostas relacionadas à “cog-

85 Algumas vezes, dependendo das relações de poder no interior dos grupos, as


práticas podem se manter por seus efeitos (proveito) para alguns subgrupos: “Se
o futuro dos governos, religiões e sistemas capitalistas fosse congruente com o
futuro da espécie, nosso problema estaria resolvido. Quando se descobrisse que
um determinado comportamento ameaça a espécie, as instituições o declarariam
ilegal, pecaminoso, ou dispendioso, respectivamente, e mudariam as contingên­
cias que impõem. Infelizmente, os futuros são diferentes. Armas nucleares são
construídas para garantir a sobrevivência de governos e religiões, não a sobrevi­
vência da espécie” (Skinner, 1987b, p. 7).

CAPÍTULO 3 181

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nição”, o responder reflexivo mencionado anteriormente, tornam-se


parcialmente encobertas por força da individualização, exposição do
indivíduo a esquemas concorrentes cada ve/ mais numerosos, ne­
cessidade de estar permanentemente fazendo escolhas e conflito de
consequências (imediatas/atrasadas, maior/menor magnitude, para
o indivíduo/para o grupo etc.).
O padrão autocontrolado de comportamento interessa à cultura
(no mundo ocidental) por várias razões. O alto grau de complexidade
das relações entre os indivíduos torna importante para a sobrevivên­
cia do grupo a previsibilidade do comportamento de cada um (uti­
lizando um único de muitos exemplos possíveis, imagine-se como
ficaria comprometida essa sobrevivência se todos os habiLantes de
uma grande metrópole dirigissem automóveis impulsivamente). O
desenvolvimento tecnológico e a especialização das funções multi­
plicam os cursos de ação possíveis (multiplicam os relorços disponí­
veis em cada contexto de ação) tornando impossível para a sociedade
controlar diretamente, a cada momento, o comportamento individual
em favor do grupo. A dissociação das consequências que mantêm o
comportamento de cada um introduz um grau inédito de conflito
entre consequências para o indivíduo c para o grupo (inexistente em
sociedades menos complexas).
Pensar as relações que definem emoções, sentimentos e pen­
samentos sob as variáveis culturais aqui referidas, a partir de suas
articulações com as questões da autonomia, individualização e auto­
controle, pode ser produtivo porque assim se tem uma referência dos
tipos de variáveis para as quais olhar ao buscar compreender aquelas
relações. Uma emoção ou sentimento não constitui simplesmente
uma estimulação interoceptiva, ou um responder verbal sob contro­
le de uma condição corporal (e, assim, não será suficiente discutir
como essa autodescrição sc instala, ou sc é precisa ou não). Dc mes­
mo modo, o pensar não é simplesmente um responder encoberto
(portanto, não será suficiente discutir se adquire ou não funções
para outros comportamentos). A análise do comportamento poderá
avançar em sua abordagem de sentimentos, emoções e pensamentos
na medida cm que considerar as relações concretas, nas vidas dos
indivíduos de uma cultura, cm que esses fenômenos vêm a existir.

182 SUBJETIVIDADE E RELAÇÕES COMPORTAMENTAIS

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Fugindo à Lógica das Dicotomias


Psicológicas Clássicas: Complexidade, Acessibilidade
e Relevância de Relações Comportamentais
Toda a argumentação aqui desenvolvida demanda estados adicionais,
conceituais e de outros tipos, para que sua possível contribuição
seja aferida. Nos objetivos estabelecidos, ela organiza conceituai-
mente um conjunto de problemas, mas de um modo que merece
ser explorado, refinado. Ela oferece direções para o tratamento de
alguns problemas importantes, nos limites do sistema explicativo
analítico-comportamental. Sua capacidade de contribuir para estu­
dos empíricos, básicos e aplicados, precisa ainda ser avaliada, as­
sim como sua possível contribuição para a intervenção do analista
do comportamento, especialmente o clínico, que é cotidianamentc
instado a interpretar o comportamento verbal descritivo e emoções,
sentimentos c pensamentos.
A discussão oferecida para os temas da individualização, auto­
nomia e autocontrole permite pensar em termos de relações com­
portamentais os fenômenos complexos considerados instâncias de
sentimentos, emoções e pensamentos, fugindo, assim, da lógica
dualista que está na origem das dicotomias psicológicas clássicas.
Ela permite restaurar na análise as complexas relações de interde­
pendência entre homens e mulheres, que ficam obscurecidas com
aquelas dicotomias. Porém, ela faz isso sem ignorar os problemas
que estão na origem daquelas dicotomias; ao contrário, procurar
trazê-los à luz com um enfoque relacional.
Na análise desenvolvida, não se tomam necessários os conceitos
de interno, mental ou subjetivo. Quando muito podemos empregar
o conceito de privado, mas não como característica do fenômeno
psicológico ou comportamental. Com a análise oferecida, podemos
sugerir que o conceito de privado serve para chamar a atenção para
a especificidade de um fenômeno que existe enquanto tal sob certas
contingências culturais. Mas “privado’' é uma propriedade de termos
daquelas redes de relações, não uma propriedade das relações em
si mesmas. Sentimentos, emoções e pensamentos, desse ponto de
vista, não são privados, embora se definam como relações das quais

CAPÍTULO 3 103

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podem participar estímulos c respostas cuja observabilidade, sob


certas condições, é restrita.
Considcrando-se que o enfoque relacional é que recoloca os pro­
blemas humanos no plano das relações de interdependência entre
homens e mulheres, a superação das dicotomias clássicas não se
dá pela afirmação dos poios que atendem a critérios de uma visão
monista. Não é afirmando que sentimentos, emoções e pensamentos
são todos eles fenômenos públicos, objetivos, físicos, ou externos
que se visualizam as dimensões relacionais funcionais desses fenô­
menos. No lugar dessa lógica, podemos indagar quais são as novas
relações que dão origem à autoimagem do homem autônomo c en­
clausurado em si mesmo.
Certas características das relações que definem a individualização,
autonomia e autocontrole na cultura ocidental moderna mostram-se
relevantes para compreender aquela autoimagem e suas repercus­
sões nos modos como sentimentos, emoções e pensamento são vivi­
dos. Uma compreensão mais avançada dessas características exige
do analista do comportamento um exame de práticas culturais, o que
parece fugir aos domínios dc seu objeto de estudos. Skinner (e.g.,
1990) chega a sugerir que esse é um objeto de parte da Antropologia.
Podemos, no entanto, indagar se é possível evitar essa incursão nas
práticas culturais sem com isso limitar o alcance dc nossa análise
desse conjunto particular de fenômenos (e, talvez, de outros). Na
medida em que essas variáveis definem o próprio fenômeno, a res­
posta é negativa. No próprio Skinner (1953/1965), por outro lado, e
em outros analistas do comportamento, como nos lembram Andery,
Micheletto e Sério (2005), encontra-se o reconhecimento de que fe­
nômenos sociais são também objeto da análise do comportamento,
Uma leitura dos volumes dos últimos anos de alguns periódicos
frequentados por analistas do comportamento {e.g., The Behavior
Analyst, Behavior anã Philosophy c Behavior and Social Issiies) eviden­
cia, na verdade, um interesse cada vez maior de analistas do compor­
tamento pelas contingências culturais (a proposição do conceito de
metacontingências constitui um desses exemplos —cf. Glcnn, 1988,
1991) e um esforço para incorporá-las em suas discussões dos fenô­
menos psicológicos ou comportamentais. Ou seja, na prática, analis­

184 SUBJETIVIDADE E RELAÇÕES COMPORTAMENTAIS

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tas do comportamento estão se voltando às práticas culturais como


parte de seu objeto dc estudo (ainda que a elas não se dirijam com
os mesmos instrumentos da investigação experimental). O presente
trabalho, como um esforço na mesma direção, não está propondo um
tipo novo de. investigação, tuas apenas sc voltando a um problema
específico: a subjetividade. A complexidade do problema rccomenda
que o percurso analítico aqui seguido seja tomado como possível di­
reção para investigações futuras (o que também não é muito diferente
do eslorço de analistas do comportamento para explicar o comporta­
mento humano complexo).

CAPÍTULO 3 185

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CONSIDERAÇÕES FINAIS

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Considerações Finais
A inexistência de programas de pesquisa amplos sobre a temática da
subjetividade na análise do comportamento86, consequência de uma
dedicação mais sistemática ao assunto apenas nos últimos anos, sig­
nifica que. estamos ainda em uma etapa dc construção conceituai, na
direção dc estabelecer problemas relevantes, enfoques pertinentes
e alternativas metodológicas para esses estudos. Em um contexto
desse tipo, cada passo pode apenas remover algumas inconsistên­
cias e sugerir algumas direções para os próximos passos. Trabalhos
como os de Anderson e cols. (2000) e Friman e cols. (1998) são
contribuições desse tipo, orientados principalmente por demandas
da aplicação clínica da análise do comportamento. Com o presente
estudo esperamos estar também dando um passo desse tipo adiante,
partindo de uma interlocução com uma literatura diversificada (não
apenas analítico-comportamental).
Não laz parte da tradição da análise do comportamenLo buscar
a interlocução com outros sistemas explicativos psicológicos ou de
outras áreas8 . Ao contrário disso, alguns analistas do comportamen­

86 Programas de pesquisa sobre o controle do comportamento por autorregras


existem, são muito relevantes e seus produtos podem contribuir para uma dis­
cussão analítico-comportamental das descrições encobertas de contingências
(e.g., Simonassi, Tourinho & A, V. Silva, 2001). Mas esses programas não se
voltam especificamente aos probJemas instituídos pela noção de subjetividade,
como examinados ao longo deste trabalho.
87 A ieitura dos textos de Skinner mostra que se trata de um autor que buscou
conhecer pontos de vista muito variados sobre os fenômenos e os problemas
humanos. Todavia, isso não se reflete em citações de outros auLorcs, ou em um
encorajamento ao leitor para usufruir de uma literatura diversa. Sobre o compor­
tamento de citar de Skinner, a partir do momento em que seu sisLema explicativo
começa a tomar feições próprias, ver Anderv, Micheletto e Sério (2002).

CONSIDERAÇÕES FINAIS 189

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to (e.g., o próprio Skinner, 1971/2002) por vezes sugerem que a


disciplina está sozinha na promoção de uma visão dc homem que
conflita com aquela produzida pela cultura individualista, subjetivis-
ta. Todavia, a ideia de que a análise do comportamento se encontra
em uma posição única, singular na cultura ocidental, na medida em
que se opõe às doutrinas mentalistas; que está na contracorrente
das ideias encontradas nos principais sistemas de crenças com re­
percussão no mundo moderno, encontra pouca sustentação quando
se consideram as obras de autores das mais variadas disciplinas nas
humanidades, já se mencionou a importância do antimentalismo
veiculado na filosofia da linguagem de Wittgcnstein (1953/1988),
no pragmatismo de Rorty (e.g., 1988) e na sociologia dc Elias (e.g.,
1987/1994), todos com notável repercussão no pensamento do sé­
culo XX88. Outros tantos exemplos podem scr encontrados nestas e
em outras disciplinas.
Elaborações como as de Elias (e.g., 1939/1990b) constituem con­
tribuições relevantes a uma interpretação relacional dos problemas
psicológicos, do mesmo modo que as argumentações dc Wittgenstein
(1953/1988) acerca da impossibilidade de uma linguagem privada.
Essas elaborações informam sobre possíveis percursos de uma inter­
pretação relacional, assim como contribuem para uma compreensão
mais avançada das práticas e dos valores contra os quais essa inter­
pretação deve ser edificada.
No presente estudo, iniciamos com um exame das condições so­
ciais sob as quais se elaboraram as dicotomias psicológicas clássicas.
Com essa contextualização fica maís íácil notar que o individualismo
e o mentalismo que prevalecem na cultura ocidental moderna não
resultam simplesmente de uma ignorância sobre os fatos descritos
por uma ciência do comportamento (c por outras ciências que as­
sinalam as relações de interdependência entre os homens e mu­
lheres), mas de contingências sociais muito complexas que tornam
muito persuasivas as noções de indivíduo e de mente. Compreender

88 Sobre o enfoque relacional e a noção cie função ern Elias, ver Waizbort
(1999).

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essas contingências, investigar o que representam do ponto de vista


da regulação da vida cotidiana de homens e mulheres, c crucial tanto
para promover um conhecimento avançado das relações comporta-
mentais que definem sentimentos, emoções e pensamentos, como
para pensar em intervir no nível cultural, em promover uma nova
forma de vida, baseada em valores mais ligados à variabilidade corn-
portamental e ã sobrevivência da espécie89.
A elaboração da noção de eventos privados representou um passo
importante na construção de uma abordagem para a subjetividade,
que se revela crítica do dualismo c da noção de autonomia. Com
cia, a Psicologia enquanto ciência do comportamento pôde começar
a se voltar para problemas embaraçosos para uma ciência empírica,
porém centrais para qualquer pretensão de edificar-se como sistema
psicológico. A referência a estímulos privados e respostas encobertas
funciona para afirmar que permanecemos no terreno dos fenômenos
comportamentais quando nos voltamos para sentimentos, emoções
e pensamentos. iVIas esse c um ponto de partida, não um ponto de
chegada, como tornam evidentes os debates encontrados na literatu­
ra analítico-comportamental mais recente, sobretudo as proposições
de analistas do comportamento com atuação clínica.
Alguns analistas do comportamento (e.g., Skinner, 1953/1965)
argumentam que para objetivos práticos, de controle (ou influência)

89 De certo modo, a discussão aqui desenvolvida pode também scr conecta­


da com o debato sobre metacontingências (cl. Glenn, 1988, 1991; Todorov,
Martone & Moreira, 2005). Todavia, ao buscar esse tipo de elaboração, será
necessário notar que não é a subjetividade individual, não são os conjuntos de
relações definidoras da subjetividade de um indivíduo que podem constituir uma
metacontingência, ainda que. práticas culturais sejam responsáveis por sua pro­
dução. Apenas a partir da identificação de produtos agregados das relações que
definem a subjetividade de vários indivíduos poderíamos falar de metacontin-
gências. Taivez possamos considerar que a coordenação dos comportamentos
de grupos sociais amplos, cm relações complexas, de modo a tornar previsível
(probabifisticamenLe) o comportamento de cada um, seja um desses produtos
agregados das práticas culturais responsáveis pela construção da subjetividade no
mundo moderno. Esse tipo dc abordagem, porém, requer, ele mesmo, um exame
mais sistemático, que foge aos objetivos do presente esLudo.

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cio comportamento, bastam os instrumentos conceituais e metodoló­


gicos desenvolvidos na abordagem do comportamento publicamente
observável. Talvez isso seja verdade na abordagem do comportamen­
to individual menos complexo e/ou em circunstâncias nas quais o
analista do comportamento tem acesso amplo a informações da his­
tória ambiental do indivíduo. É muito improvável que se sustente
ante repertórios complexos, que incluem relações verbais diversas,
cm contextos sociais sofisticados como aqueles discutidos ao longo
desle trabalho, e quando o analista do comportamento tem acesso
restrito à história ambiental. Nesses casos, evitar a abordagem de
sentimentos, emoções e pensamentos não deve constituir exatamen­
te a melhor solução prática.
Se a noção de eventos privados constitui um ponto de partida,
precisamos examinar o que vem depois. Deixando para trás as di­
cotomias que obscurecem as relações de interdependência, o pre­
sente trabalho sugere que um percurso possível consiste em tratar
sentimentos, emoções e pensamentos como conjuntos de relações
com graus variáveis de complexidade, construídas em um contexto
cultural específico, que confere àquelas relações dimensões usual­
mente referidas com os conceitos de singularidade, autonomia e
autocontrole.
Para uma análise comportamcntal, a noção de singularidade signi­
ficará não apenas o caráter idiossincrático do repertório de cada um,
não apenas o fato de que cada um é único (em qualquer cultura)
do ponto de vista das relações que vem a estabelecer com o mundo
à sua volta, mas principalmente o lato de que em face da dissocia­
ção das consequências que mantêm o comportamento individual,
o responder emocional e reflexivo sofrerá transformações do ponto
de vista de seus componentes motores, com implicações diversas,
ainda por serem adequadamente analisadas (de um ponto de vista
com poria me n tal y10.

90 A psicossomática e outras áreas da Psicologia têm enfocado ess;is conse­


qüências, por outra ótica.

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As dimensões de autonomia podem scr interpretadas com o reco­


nhecimento de que todo homem ou mulher é sensível ao mundo à
sua volta, de que há uma dependência funcional cntrc suas respostas
e ocorrências desse mundo. No entanto, será necessário considerar
que cada um está permanentemente exposto a esquemas concorren­
tes, que se multiplicam quanto mais complexo o ambiente social, pe­
rante o qual deve tomar dccisõcs ou fazer escolhas. A diversificação
das funções sociais constitui apenas um exemplo dessa multiplicação
de alternativas de ação. A autorreflexão necessária quando esquemas
concorrentes envolvem consequências muito atrasadas e individuali­
zadas (assim como sua dependência de outras contingências sociais)
constitui outro elemento a ser levado em conta. Nesses contextos, o
indivíduo escolhe mais, não porque é mais autônomo, mas porque
o ambiente exige. Suas escolhas têm um impacto que vai além do
conforto ou da satisfação imediatos. E a sociedade só intervém para
favorecer cursos específicos dc ação quando estão cm jogo também
consequências que afetam o grupo, por isso que alguns autores
falam da modernidade como uma época de desamparo.
O autocontrole pode scr interpretado como um responder tam­
bém sensível a contingências ambientais, portanto não representan­
do uma forma de autodeterminação. Mas é necessário considerar
que o autocontrole assume características (e frequência) peculia­
res sob certas contingências do mundo moderno. Nessa direção,
as chamadas “técnicas de autocontrole” (cf. Skinner, 1953/1965)
são menos importantes que o autocontrole como forma de auto-
gerenciamento ético, quando se está diante de um conflito entre
consequências para o indivíduo e consequências para o grupo, um
conflito que se acentua de modos originais em uma cultura indivi­
dualista. Sob esses conflitos c que o autocontrole representará uma
transformação do responder reflexivo e emocional do ponto de vista
de seus componentes motores. Essa transformação, frequentemen­
te baseada na punição social, requer por seu turno um exame à
parte, que leve em conta os efeitos diversos da punição, que, como

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diz Skinner (1971/2002), não funciona simplesmente para reduzir


a probabilidade de uma resposta91.
A singularidade, a autonomia e o autocontrole como categorias
analíticas, convém reiterar, foram sugeridos pelo exame de informa­
ções históricas sobre a problemática da subjetividade, que tomou
como referência as dicotomias psicológicas clássicas (Capítulo 1). A
análise a partir daí desenvolvida, sobre o alcance das proposições de
Skinner e as possibilidades de fazer avançar a abordagem analítico-
comportamental para o tema (Capítulos 2 e 3), usufruiu daquele
esforço de interlocução com disciplinas afins, na área das humani­
dades. Outras iniciativas de interlocução com as mesmas ou outras
ciências (inclusive das áreas biológicas) podem conduzir a novas e
produtivas sistematizações dos problemas aos quais uma ciência do
comportamento deve se voltar92. A objetividade na definição de seu
objeto e dos modos eficazes de produzir descrições de regularida-
des desse objeto não é incompatível, na análise do comportamento,
com um diálogo mais fecundo com disciplinas afins. Ao contrário,
pode ser muito importante para aumentar nossa compreensão desse

91 Afirma Skinner (1971/2002): “Uma pessoa que foi punida não estará sim­
plesmente menos inclinada a comportar-se de uma dada maneira; no melhor dos
casos, ela aprende como evitar a punição. Algumas maneiras de fazer isso são
mal adaptadas ou neuróticas, como nos famosos ‘dinamismos freudianos’. Outras
maneiras incluem a esquiva de situações nas quais o comportamento punido é
provável de ocorrer e fazer coisas que são incompatíveis com o comportamento
punido” (p. 81).
92 Também sobre a possibilidade de usufruir da interlocução com as ciências
biológicas, é interessante observar o exemplo de Elias (1990a), que em dado
momento se dedicou ao estudo da Medicina: “Só mais tarde compreendi com
clareza que o estudo da medicina fora uma das experiências fundamentais que
me estimularam a abandonar a filosofia para me consagrar à sociologia. Mas até
os anos 60, quando dava minhas aulas de introdução a alunos de sociologia, tinha
às vezes ao alcance da mão urn crânio humano desmontável. Parecia-me que
um estudante de sociologia devia ter algumas noções essenciais da estrutura do
sistema nervoso humano, para ser capaz de se aproximar da concepção do ho­
mem indispensável à compreensão de contextos sociais, ou seja, uma concepção
do homem como fundamentalmente organizado para viver em meio a homens,
animais, plantas e minerais” (p. 99).

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objeto e tornar inteligível para outras áreas o ponto de vista compor-


tamental e suas contribuições (boje, limitadamente reconhecidas)
para a solução dos problemas humanos.

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Este livro foi composto nas tipologias Interstate (Tobias Frere-


Jones, Font Bureau) e Fairlield (Rudolph Rü/icka e Alex
Kaezun, I.inotypc) e impresso em papel Pólen Soft 80g/m2
pela Bartira Gráfica e editora Ltda. em abril de 2009.

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A contribuição de Emmanuel Zagury


Tourinho para o estudo da subjetivi­
dade é amplamente conhecida pelos
analistas do comportamento brasilei­
ros e, mais recentemente, tem alcan­
çado reconhecimento internacional.
Pesquisador desde a década de 1980,
o autor vem desvendando aspectos
intrincados da proposta skinneriana
e pós-skinneriana para o entendimen­
to dos sentimentos, emoções e pen­
samentos, aprimorando o arcabouço
conceituai para a sua compreensão, a
partir de uma perspectiva consisten­
te e inovadora.
Resultado do trabalho de pesquisa
desenvolvido para sua tese de titular,
a presente obra retrata o amadure­
cimento de um psicólogo, professor,
pesquisador e teórico, cuja obra é es­
sencial para a construção da análise
«do-comportamento contemporânea.
Desse ponto de vista,”è'uma"õBra de
...referênciajjara estudantes e profis­
sionais anal istas do comportamento
psicólogos, filósofos, psicoterapeutas
e tantos outros inte ressa dos no estua­
do da subjetividade e na compreensão
de aspectos filosóficos, teóricos e me­
todológicos que-constituem a ciência
anal ítico-compor,tamental .

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A subjetividade é considerada, por muitos autores, o fenômeno


que marca a especificidade da psicologia perante outras ciências
e é, por vezes, subestimada no desenvolvimento teórico da análise
do comportamento. Emmanuel Zagury Tourinho, na presente obra,
resgata o tema e lhe dá a devida importância, conferindo um trata­
mento profundo, abrangente e coerente com a noção selecionista
e contextualista que marca a proposta da abordagem.
O tema é considerado em seu aspecto filogenético, ontogenético
e cultural, três níveis de determinação que constituem necessaria­
mente o fenômeno psicológico. Mas é no tratamento das variáveis
culturais e, mais especificam ente, verbais que a obra alcança o
seu maior valor. O autor questiona as dicotomias tradicionalmente
constituídas no campo da psicologia, tais como mente e corpo,
público e privado, interno e externo, e defende a natureza eminen­
temente verbal do fenômeno subjetivo que, como tal, é constituído
a partir da relação do indivíduo com a cultura.

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