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ABILIO TERRA JUNIOR

DE PASSAGEM... DESLIZES
DE PASSAGEM... DESLIZES

1 - Sobre a Questão da Inteligência


2 - O Nascimento do Poeta
3 - O Brasil de Hoje
4 - Em um Certo Reino...
5 - Poetando
6 - Atualizando Dante
7 - Moçoilas em Flor
8 - Gertrudes
9 - Função Social
10 - No Bar do Português
11 - Deslizes
12 - Só
13 - Vida
14 - No Ato
15 - Impasse
16 - Novelo
17 - Buena Vista Social Club
18 - Encontro
19 - Diálogo
20 - Comemorando
21 - XXII de Abril
22 - Abismo
23 - Luz
24 - Devaneios
25 - Fiat
26 - O Vampiro
27 - A Escrava
28 - Circulando
29 - No Fundo
30 - O Vôo
31 - A Noite Negra
32 - O Negociador
33 - A Onça e o Homem
34 - Destino
35 - De Passagem
36 - A Conquista
(4)

SOBRE A QUESTÃO DA INTELIGÊNCIA

Querem filhos-gênios...
e fazem inseminações com semens “geniais”...
e demonstram, assim, a sua própria estupidez genial!
pois “inteligência”, seja lá o que for...
existe... independente de pai, mãe...
e outros fatores probabilísticos, aleatórios...

Se todos fossem... gênios...


nossa sociedade se tornaria um perfeito... caos!
Pois é preciso que hajam inteligências maiores, médias e menores...
para que cada estrato funcione a contento...
É preciso que muitos acreditem no statu quo...
e não mergulhem muito fundo
e nem tentem entender muito...

Foi Ouspensky quem disse que o amor existe no Universo


independente do ser humano?
Amor ou o que quer que se queira chamar,
quem realmente se aproxima, pouco que seja, dessa fonte inesgotável
de amor, inteligência, integridade...
através da sua própria experiência, compreensão,
tateando no caos, nas trevas, na luz do seu próprio ser
e dos demais seres...
começa a ser... um ser inteligente
sem nenhuma salvaguarda, honra ao mérito, prêmio ou título...
continua débil e indefeso, como os seus semelhantes...
embora sentindo que caminhou um pouco...
e que ainda tem muito a caminhar...
na intricada complexidade
em que se constitui a existência.
(5)

O NASCIMENTO DO POETA
(baseado no filme “Orfeu”, dirigido por Jean Cocteau)

O poeta atravessa o espelho...


ele fora atraído pela princesa,
no bar, frente ao qual outro poeta (amante da princesa)
fora atropelado... e morrera.
O poeta, seduzido pela princesa, entra em seu carro
em que ela conduz o corpo do outro poeta.
No castelo, ele observa, assombrado,
quando a princesa ressuscita o outro poeta
para o outro mundo
e o conduz através do espelho!
Ele a segue...
e se depara com um outro mundo...
estranho... com outros dimensões...
e um vento que não para de soprar...
ele tem que morrer e renascer...
para se tornar um autêntico poeta.
Ele se apaixona pela princesa
que já está apaixonada por ele...
mas... a princesa é a Morte!
Ela é julgada (pelos juízes do outro mundo)
por ter se esquecido do seu dever!
Por haver se apaixonado pelo poeta!
(6)

Voltando ao mundo, o poeta escuta


pelo rádio do seu carro a poesia pura
que vem da fonte perene da poesia...
Ele é morto pelos que o acusam
da morte do outro poeta!
E é levado pelo guia,
através do espelho, ao outro mundo...
onde poderá viver com a princesa
em plena poesia!
Mas a princesa se vê forçada
a devolvê-lo ao seu mundo
e a responder pela sua falha!
Ele retorna...
sentindo em seu coração a pungente dor
da nostalgia pela perda irreparável,
que lhe servirá sempre de inspiração
em seu inconsciente... em seus sonhos...
(7)

O BRASIL DE HOJE

Invariável... impermeável...
lusco-fusco... musgo...
burlesco...
espera!
Aumento?
Da carga!
Ora, direis,
mormente agora!

O golpe... a morte...
deslizando até...
o profundo abismo!
Impropérios... arrepios,
estrangulando...
ejaculando!
Metralhando!

O índio,
perfilando,
no céu de verão,
em vão.
Enchente!
Quanta gente...
desprezada!
Olvido...
(8)

A invasão dos
selvícolas?
Não, mas sim
Do “money” que entra...
e sai!
E a bela morena?
E a bela negra?
Exportadas!
É o nosso povo...
que procura trabalho...
e morre desarvorado!
O nosso “paraíso”... se perdeu!

Urge encarar
os novos tempos,
com promissoras perspectivas...
para os sibaritas!
(9)

EM UM CERTO REINO...

Todavia, quem comprometeria o “inocente”,


que parecia, mas não era demente,
em sua inculta razão de ser...
Os vassalos, que promiscuíam-se?
As modernas damas, inveteradas corruptoras?
Ou os falsos cavaleiros, que esnobavam a progênie?

Tudo parecia perdido naquele reino


ignoto, nas imensidões tropicais!
Quem o salvaria?
Algum cavaleiro andante, de passagem?
Como um Don Quixote, visionário, alucinado?
Ou um Galahad, um Lancelote, um Percival,
impregnados de sublimes ideais e boas intenções?
Ou ainda um Merlin, com poderes indescritíveis de magia?

Inevitavelmente, não havia salvação!


Os cavaleiros e os magos já haviam passado
desta para melhor... no sentido estrito.
Os tempos haviam mudado tanto...
que para vencer, tinha-se que ser “pragmático”,
no pior sentido: levar de roldão tudo e todos
para se alcançar o que se elegera como louvável,
poder para manipular; angariar e gerir fundos
e alcançar o maior espaço em contatos
físicos ou cibernéticos...
(10)

Enquanto isso, o reino desmantelava-se


a olhos vistos!
Ninguém, em sã consciência, nos outros reinos...
considerava-o digno de confiança!
Pois o seu rei não o era... nem a sua corte.
O tempo passava... e o povo desse reino
permanecia esquecido e abandonado à sua própria sorte.
Muitos ficavam doentes
e não tinham a quem recorrer...
Muitos tentavam trabalhar
para sustentar as suas famílias,
mas nada encontravam.

Enquanto a maior parte dos recursos do reino


era destinada ao pagamento de dívidas colossais
contraídas com outros reinos mais poderosos e mais ricos,
os pobres e desvalidos buscavam auxílio
na fé, engrossando as filas nas igrejas
e nos locais de peregrinação,
idealizando uma ajuda que não existia
em seu mundo de abandono e dor.
Muitos tentavam explicar o seu sofrimento
como castigo por suas culpas, faltas e pecados...
(11)

Enquanto isso, os ricos acumulavam sempre maiores riquezas,


e o rei aumentava cada vez mais os impostos
cobrados sobre o povo, não sobre os ricos e influentes,
para conseguir pagar os juros crescentes das dívidas,
remunerar o seu círculo de fiéis vassalos, damas e cavaleiros,
e permanecer no poder por um número infindável de anos,
divulgando sempre, através dos seus prestativos arautos,
promessas vazias de dias melhores para os seus súditos...
(12)

POETANDO

Poetando...
encontrando na poesia uma lucidez,
que segue o rumo único do viço intangível,
além do volúvel, corriqueiro.
Ali, em um ponto infinito, perdido além do espaço,
onde os deuses espreitam a passagem dos poetas,
que vagam na dimensão etérea,
ignorada por aquele estado
do exausto perde-ganha das transações...
.

O poeta perde-se nesse vazio,


pleno de constrastes, que conduz
a um sentido completo;
pois o raiar da sua lucidez
o manterá à beira daquela loucura
conhecida daqueles que,
imanentemente,
buscam o que se encontra
na essência mesma da vida;
além da estéril sofreguidão que
borbulha permanentemente...
(13)

ATUALIZANDO DANTE

Nos abomináveis círculos


e fossas infernais, descritos
pela genialidade de Dante,
quedavam os simoníacos
prelados e tantos outros
danados! Já pensou “cair” lá?

No entanto, outros dizem


que o inferno é aqui mesmo,
que a gente não precisa
ficar na expectativa
de que “o dia“ vai chegar!

Dante e Virgílio
percorreram o inferno.
Eu sigo pelos meus
caminhos diários,
tentando entender
como proceder
na atual conjuntura!

Se nosso caro Dante


aqui retornasse,
encontraria farto
material para muitos
outros “Infernos” mais!
(14)

MOÇOILAS EM FLOR

A quantas andam
as telúricas donzelas
endeusadas! Sem elas
a vida ficaria insípida...

Entre altos e baixos,


sigo o meu caminho
desbravador, ousando
atrair e conquistar
as moçoilas em flor...

Tão lindas, agitadas,


passando apressadas,
empinadas, balançando
os seus cabelos morenos,
louros, lisos, crespos,
a cada passo acelerado!
(15)

Pois todas procuram


cumprir os seus destinos
de estudantes, profissionais,
mães, esposas, namoradas,
noivas, empresárias,
jornalistas, escritoras,
comerciárias, professoras,
garotas de programa,
apresentadoras de televisão,
atrizes, escultoras, pintoras,
vendedoras, pesquisadoras,
lutadoras, inovadoras!

Eu as admiro, belas que são,


em sua exuberância juvenil,
dignas dos meus olhares
apreciadores e sensuais!
(escrevi este poema há
muitos anos atrás)...
(16)

GERTRUDES

O que vai acontecer


com Gertrudes,
indócil e esbelta?

Seus seios, durinhos,


sua pele, queimando,
seu sexo, ardendo.

Deitou-se no feno,
enrolou-se com o namorado,
sentiu dor misturada com gozo.

Sonha em sair da fazenda,


ganhar a cidade e a sua vida,
voltar rica e famosa!

Acabou se casando
com o namorado.
E sua vida se integrou,
de vez, ao ritmo rural:
cuidando dos filhos,
vacas, cabras; produzindo
queijos, frutas, legumes;
seu sonho foi se esfumaçando...
(17)

O tempo foi passando...


Trabalhou bastante,
administrou bem
seus negócios, junto
com o marido, é claro;
acabou tornando-se
rica fazendeira.

Organizou rodeios,
entrou em contato
com a mídia, comprou
até uma rádio,
e começou a produzir
shows de música
sertaneja e a compor
para uma dupla famosa.

Nas horas de folga


escreve um livro
contando a sua vida,
e não pensa mais
em ir para a capital...
(18)

FUNÇÃO SOCIAL

Linda conquistadora, ia de cama


em cama, cumprindo a sua sina,
permitindo que tantos e tantas
extravasassem seus orgasmos,
emoções, repressões, frustrações.
Atraía com seus olhares e
seu belo corpo jovem, bem torneado,
malhado, “sarado”, bronzeado.

Quem poderia lhe recriminar?


A não ser aquelas que lhe queriam
ocupar o lugar... Era uma função social,
diria o sociólogo e o antropólogo,
observando-a, exigentes e carentes.

Todos se admiravam com sua sedutora


aparência e vocação para a conquista,
enquanto ela, sem se preocupar com esses
detalhes, ia e vinha, dava e gozava,
comprava o que podia, enquanto tinha.

Consumia e era consumida, tão


presente e atuante em sua desdita,
despercebida, que a engolia,
dia a dia, sorrateiramente.
(19)

NO BAR DO PORTUGUÊS

Infarto fulminante do miocárdio,


você foi ao enterro?
De noite estava lá deitado,
de manhã tava lá, esquisito,
perdemos um grande amigo...

Conversa de bar ...


Entro no “Bar do Português”,
ele está sentado numa mesa,
eu vou primeiro ao banheiro.

Resolvo, então, me sentar,


escolho uma mesa,
ele se levanta, me pergunta:
brama? Eu respondo: brama.

Um sujeito entra e se senta


na mesa em frente. Bem depois,
outro se senta com ele,
e começam o bate papo.
(20)

O bar é espaçoso, confortável,


com muitas mesas. Outro sujeito
já entrou pra trás do balcão,
contando que sua prima está
há vinte dias com o olho aberto,
morte cerebral. Nas paredes,
uma imagem de Santo Antônio,
azulejos com dizeres divertidos:
se tens inveja do meu viver,
trabalha, malandro. A minha
sogra é uma santa, só é uma pena
não estar no céu. Freguês
educado não cospe no chão,
não pede fiado, não diz palavrão.

Acendem as luzes (são cinco horas).


Lembra do Célio, um veado magrinho?
Falar em Célio, ele está preso de novo, né?
A mulher pergunta (de óculos e cabelo curto).
Graças a Deus! - responde o sujeito do balcão.

O português, a essa altura,


já se levantou da mesa
e se dirigiu para os fundos do bar.
Além da mesa ocupada à minha frente,
há cinco mulheres em outra mesa,
lá perto da TV (que tem canais da Net),
que já estavam lá quando eu cheguei.
(21)

Devem trabalhar por perto,


parecem funcionárias de alguma loja
ou parentes do português.
Perto dos azulejos, um relógio,
marcando cinco e dez.

Chegam uns tipos interessantes:


este último chegou empertigado,
como um “gentleman”, meneou
levemente a cabeça para os dois
que conversam sem parar na mesa em frente.
Sentou-se, após pedir uma cerveja
e dar uma olhada nos salgados.

Chega a segunda cerveja.


Resolvo comer alguma coisa,
dou uma olhada nos salgados,
acabo pedindo um “peixe à escabeche”,
após o garçom me explicar o que é:
sardinhas feitas no azeite, com molho, tomate.

O tal “gentleman” vai pagar a conta,


mas, nisto, aparece um sujeito
“bem nutrido” e ele muda de idéia.
Aponta a sua mesa para o recém chegado,
parecem ser velhos conhecidos,
sentam-se e começam o papo.
(22)

O sujeito do balcão
(acho que é filho do português)
parece ser conselheiro da mulher de óculos,
lhe dá informações sobre um curso
que ela pretende fazer e lhe diz
que tinha uma colega de setenta anos
quando dele participou.

Um dos sujeitos da mesa em frente


conversa sobre branco, preto,
só ele que fala, o outro escuta, atento:
os holandeses são muito claros,
na África todo mundo é preto...

Estou ouvindo apenas pequenos


trechos desconexos da conversa...
São seis e doze agora , o tempo urge,
estou terminando a minha brama.
Peço a conta, pago e vou embora.
(23)

DESLIZES

Suaves contornos,
deslizes...
Na curva da sua cintura,
no suave declive que descia até
os cabelos negros
que emolduravam
o talho do seu sexo,
eu me perdia,
eu me perco,
embriagado, sonolento,
depravado, cansado...
(24)

Homeopáticas doses
tomava, a cada dia,
de melancolia,
que extravasava
de sua vida.

Olhava, vislumbrava
o que vinha
e teimava
em se permitir
ultrapassar cada minuto
no infinito
orquestrado pelo guardião.
Ele, um ponto
frente à vastidão!

Putas, donzelas,
o cercavam
no delírio dos sentidos.
Vertical, encontro
de todas as forças;
circular, o espírito,
sem princípio e fim;
e ele, equilibrando-se?
Tentando...
(25)

Pois pensava entender


a linguagem das estrelas,
mas, se enganava.
Não entendia a terra,
que era também
uma estrela a desabrochar...
(26)

VIDA

Pulula a esfera controversa


em hediondos e lúgubres espasmos.
Mortíferos raios quilométricos
atingem as montanhas,
onde explodem vulcões,
espargindo cinzas nas alturas,
cobrindo rios, lagos, florestas,
tudo arruinando!

A calamidade é pouca,
está só no início,
especialistas comentam...
Estrelas, sóbrias,
observam de longe
sem se imiscuir;
a lua, cansada,
não quer saber
de mais nada...

O sol, opulento,
lança uma explosão
como bilhões de bombas
de hidrogênio para ajudar
a acelerar o processo, já
que não tem mesmo mais jeito!
(27)

Eu observo tudo em meu sonho:


perplexo, vejo, da minha janela,
uma enorme bomba em forma de prédio
que cai verticalmente sobre a cidade, de ponta!

A destruição se alastra, quarteirão


após quarteirão! Eu saio do prédio,
caminho entre a multidão
desvairada, meu coração bate
acelerado, o pânico é meu companheiro!
(28)

Torno-me o ar poluído, a água fervente,


a terra se abrindo em fendas
que se espalham, tragando pessoas
desesperadas, animais atônitos, prédios e carros!

Acompanho a explosão da esfera


em trilhões de partes e partículas:
minha consciência se multiplica
e sinto a dor de cada um, misturada
à sensação de que tudo se acabou...

E, ao mesmo tempo, de que a vida continua


reproduzindo-se e espalhando-se pelo espaço,
procurando novas formas de manifestação.
Começo a entender que, mesmo assim,
valeu pena a ter vivido, continuar vivendo
ainda que sob uma nova forma e consciência,
tentando de novo, destruindo e construindo,
como todos os outros elementos da natureza múltipla.

Mergulho no mais profundo negror central


onde reside a origem; sou agora parte
de um crescer original em busca de novos caminhos,
novos erros, novos descaminhos,
em novos universos que se desdobram
nas noites e manhãs infindáveis do espaço/tempo.
(29)

NO ATO

Erecto, me expando, vigoroso, e


penetro em você, gruta macia e quente,
molhada e perfumada,
sentindo um prazer crescente!

Aperto as suas mãos nas minhas,


o meu corpo comprime o seu corpo.
As minhas mãos acariciam os seus seios,
a sua cintura, as suas coxas bem torneadas.

Os meus lábios brincam no seu rosto,


no seu pescoço, nos seus seios, no seu ventre,
em toda você! Os seus olhos brilham e
sua pele macia troca mensagens
carinhosas com a minha.

As suas pernas me enlaçam,


os seus calcanhares me alcançam as costas,
você pulsa de prazer junto comigo.
(30)

Sinto o cheiro forte e erótico do seu desejo


crescendo, se expandindo pelo ar.
Nossos suores se misturam,
beijo seus lábios com gosto de sal
e minha língua se enrosca na sua.

Os meus olhos se encontram com os seus


e chegam lá dentro da sua alma,
que se abre para mim e se reflete na minha.

O prazer cresce cada vez mais,


até que transborda! Pela cama,
quarto, casa, rios, florestas,
correntezas, cachoeiras, mares, ar,
sol, lua, estrelas, planetas!

A minha semente inunda de vida


a sua gruta quente, que responde,
agradecida, com espasmos de prazer.
Por segundos chegamos ao clímax,
ao segredo do universo, da criação.

As nossas almas e corpos, apaziguados,


suados, extenuados, param no tempo,
permanecem no vácuo, esquecidos de tudo,
absortos no mistério do encontro.
(31)

IMPASSE

Enviesado, olhava o trono


e se debatia à espera
de novas oportunidades
que nunca surgiam,
pois o impreterível momento
nunca chegava;
e assim o tempo passava.

Obtuso ele era, o sabia,


e constatava, cada vez mais,
o desleixo.
Matilde o avisara
do princípio do fim;
nunca a ouvira,
porque agora?

E, ainda assim,
pensava na derrama
detrás dos montes.
(32)

Árvores provectas
observavam o horizonte
belo, escuro, inviável;
se Trancoso ali estivesse,
mas se fora...

Normas o impediam
de agir na direção
do seu coração
sibilante, ofegante.

A virgem o inspirava
a sorver em nacos
sua concupiscência;
bela e tristonha,
carregando o fardo
da sua peçonha.

Sorumbático,
tecera comentários
impublicáveis
aos subordinados,
que de nada entendiam.
(33)

Porfiava em ensandecer
os ousados ouvidores
que não acreditavam
ser ele capaz.

Nas ondas, jangadas e navios,


presentes e passados,
passavam ante seus olhos,
antes efusivos,
agora distorcidos
pelo espanto do ostracismo
antecipado.

Nas minas nada mais havia


a não ser buracos,
as vias cruzadas
conduziam a nada.
(34)

Produções de bananas
oferecidas ao seu preço
renderiam alguns trocados?
- perguntava-se e entreolhava-se.

Sucumbira, sim, mas


a vertente fatal
estava longe do seu fim.
(35)

NOVELO

Flores belas, sudanêsas,


o esperavam, para o seu conforto,
e o entretinham com chá, noz moscada
e iguarias originais.

Lia os jornais e esperava a chegada;


ela demorava como sempre, reticente,
envolvendo-o em um novelo sem fim,
não sabia se lia ou se previa...

Suava com o calor que subia:


lembrava-se do último encontro
entre as pernas dela se envolvera
demais, cada vez mais...

Sussurrava para si mesmo


que a esqueceria para sempre;
mas se lembrou, quando a viu
com o olhar perdido, bonito...

Chamando-a para si, suspirou


com seu perfume, seus cabelos,
com sua coxa encostando na sua
e seu hálito cálido e sensual...
(36)

BUENA VISTA SOCIAL CLUB


(baseado no filme homônimo, dirigido por Wim Wenders)

Grandes músicos inspirados,


esquecidos, abandonados,
redescobertos, redespertos
de sono de muito tempo
despontam para o mundo
com sua verve, talento,
humor, presença,
após longo sofrimento
em humildes condições
perdidos nas ruas de Havana;
alguns quase centenários
emocionam aos que os ouvem
com suas belas melodias
de ritmos "calientes";
platéias holandesas,
do Carnegie Hall,
deliram deslumbradas;
contam suas histórias
humildes e tristes:
(37)

o pianista exímio
desistira de tocar
alegando artrite
o cantor famoso
não mais cantava
pois nada ganhava;
até que, por sinal
do destino, ressurgem
das penumbras sorrateiras;
um deles tem como padroeiro
Lázaro, mendigo, de quem
conserva um amuleto,
protetor dos esquecidos.
(38)

ENCONTRO

Querida amiga, só espero


que entendas que te quero
mais que tudo no mundo
e aguardo no vão de entrada
que me recebas com graça,
me convides a entrar
em sua casa e me sirvas
bebidas, salgados e doces
e me seduzas, em seguida,
com sorrisos íntimos
olhares capilares
toques suaves
risos nervosos de
garganta límpida.

Nesse envolvente encontro,


dancemos enlaçados
ritmos variados
modernos e antigos
até nos sentirmos
comprometidos
como cupidos enamorados;
(39)

nos beijemos, apaixonados,


tropecemos em nossas roupas,
e nossas bocas e mãos
se encontrem pelos caminhos
dos nossos desejos sem freios;
nada mais importa,
o gozo alcança o momento,
difuso e amplo;
cabelos, ardor, suor, cheiro,
tudo se entrelaça e se completa
num caos eterno e visceral;
nos perdemos e nos encontramos
na cama ampla e incerta
que alcovita o nosso prazer
efêmero, total, descomunal.
(40)

DIÁLOGO
(baseado em uma charge de Duke)

Bispos pedem perdão aos índios


que, cansados de promessas vãs,
respondem com retumbante "não";
no ato, recebem duro golpe da
tropa de plantão e, já no chão,
ouvem do FHC e do bispo
que lhes apontam os dedos:
essa é pra aprender a aceitar
pedido de perdão!!!
(41)

COMEMORANDO

Na festa dos 500 anos


jovem índio corajoso
ajoelha frente à tropa
que tropeando continua
sobre o seu maxilar,
bombas não lhe deixam respirar;
o Grecca se ri atôa
até da "nau capitânia"
e o meu dinheiro se escoa;
bem longe o povo observa
a festa, comendo broa.
(42)

Cronograma com a data: vinte e dois de abril.

XXII DE ABRIL

Xi! a coisa está preta, dizia o pataxó,


Xingaram e bateram na gente sem dó!
Ilustres presidentes congratulavam-se, sorridentes,
Igualmente alheios, com prosaicos anseios
de abril outonal bem diferente do atual.
(43)

ABISMO

Do fundo do abismo
ressoa e reboa o grito
incandescente e atroz
de quem busca por nós,
alhures, algures,
perdido em sua rota
rumo ao infinito,
degenerou-se, degradou-se,
sucumbiu ao bem e ao mal
em uma luta desigual
contra tudo e todos;
perdeu sua essência,
amesquinhou-se,
amarfanhou-se,
caindo de degrau em degrau,
de mundo em mundo,
traído, perdido;
sabe que nenhuma alma
o alcançará;
(44)

estão, levadas pelo vento


da insensatez,
atrás do gozo e da glória,
tênues, leves,
sem a sua consistência;
sabe que está banido,
conspurcado,
mas ainda conserva
a lucidez,
seu esplendor e sua perdição,
que o atormenta,
cada instante
de um tempo
que não existe
para ele,
engolfado
em seu tormento.
(45)

LUZ

(dedicado ao romancista, poeta, teatrólogo e homem político Victor Hugo, cujas


últimas palavras foram: "Vejo a luz negra!")

Luz negra, tu existes?


ou és a sombra da luz branca?
de onde vens?
do paraíso, do inferno
ou de lugar nenhum?
habitavas o caos,
antes do som inicial?
ou te perdestes pelo espaço
tal como Lilith
procurando seu par,
perdido nas imensidões abissais?
de onde vens, quem sois?
estás no centro do centro
do planeta, do átomo, da esfera,
do sol, da estrela, da galáxia,
do buraco negro,
guardando a sete chaves
(46)

o segredo, o inominado,
o obscuro, o criador,
o destruidor, o restaurador,
a fonte de todos os bens
e de todos os males,
o regente da sublime
música das esferas,
que destrói nossos ossos
e cria e recria nosso feto
e o das estrelas?
Luz negra, eu te procuro
no recôndito do meu ser,
com ardor e pavor
de me perder e me encontrar.
(47)

DEVANEIOS

Com todos esses momentos


em que os meus pensamentos
se esvaem ao céu, de déu em déu,
ou penetram no profundo terreno
em que piso, alcançando até
o magma incandescente
e todo um mundo interior,
superior, com o seu sol
e o seu disco voador...

Lentamente, entendo
fenômenos estranhos
manifestados em cavernas
ou nos oceanos e montes;
ou que nosso multiverso
com muitas dimensões
pode ter uma base comum:
já dizem os cientistas,
calculando matematicamente,
não são dementes.
(48)

Olhando e pensando
nas sextavadas dimensionadas
partículas anexadas às nossas,
tridimensionais; que existem
em nosso universo, recluso
e incluso em outros, maiores!

Não sou matemático:


a poesia me leva até
os recantos mais estranhos
do tempo, cujas alternativas
se abrem para todos nós,
a cada momento,
em paralelos universos;
cada ação conduz a
um deles, entre
mínimas diferenças...
E lá vou eu...
(49)

FIAT

Na semeadura,
uma semente caiu na pedra
e cresceu na pouca terra
sobre aquela, o quanto pode,
aproveitando ao máximo
as gotas de chuva
que formavam barro,
e os raios do sol: tornou-se
um pequeno arbusto.

Apanhou muita poeira,


xixi de cachorro,
quase esmagada
por carros em disparada;
sobreviveu, com seu exemplo,
aos pessimistas e oportunistas
que sequer a percebiam.

De suas flores minúsculas


abelhas levaram seus germens
que frutificaram em outras paragens.
Amén!
(50)

O VAMPIRO

Sentia o intenso gosto do sangue


ao morder a suave garganta,
dilacerando as suas veias:
a energia penetrava em seu corpo,
que vibrava - estava salvo!
- até a próxima vítima -
seguiria a sua sina para sempre
até o findar do mundo,
levando a peste, a dor, o sofrimento,
a todos os lugares
onde pisasse e executasse
o seu macabro ritual, fatal;
a menos que deparasse
com um mortal genial
que lhe pusesse termo;
sucumbiria assim
e sua alma negra
para sempre sofreria
nas fossas da dor,
agrilhoada no fundo
de um mar de sangue
nauseabundo e podre,
regurgitando em sua garganta;
como pobre mortal
sem direito à morte...
(51)

A ESCRAVA

Sussurros pingando um a um em seu ouvido


iam lhe adormecendo
sentindo os braços dela
e ainda assim, entrava no sono, sonhando:
bebericava saboroso vinho
ela, sua escrava, o servia
bela como agora...
o bobo divertia a corte
espalhada por uma mesa sem fim
uvas, doces, faisões...
dançarinas fluíam no salão
a espada, descansada,
a música, ondulava entre as conversas,
gargalhadas, olhares, piscares...
ele sorria para a dama, do seu lado,
com cabeleira crespa e loura
dentes brilhantes em boca ampla
olhos redondos, grandes, fundos...
seios apertados, saltados,
ancas completas, soberbas,
descobertas pelo seu olhar...
(52)

e a sua escrava voltava


a lhe servir, com suas pernas morenas
e rápidas, sabores orientais especiais
que deglutia com sabedoria...
imperceptivelmente, acordando,
sentiu que ela, a escrava,
ali estava sobre ele, agora, esposa,
cumprindo os seus deveres,
servindo-o com prazeres
mais carnais, em doses tão doces
e apetitosas quanto no sonho...
(53)

CIRCULANDO
(cientistas conseguem romper a velocidade da luz)

O círculo envolve o ponto


o ponto envolve o círculo
o tempo é um círculo
presente e eterno
a luz já não é a mais veloz
ela mesma se ultrapassa
a si mesma, se deixando lá pra trás
se dividindo em mais de uma
o efeito antecede a causa
viajamos no tempo e nem sabemos
circulamos no círculo do tempo
estivemos e estamos na antiga Índia
estaremos e estamos no futuro mundo
neste e em outros universos
paralelos: navegantes, andantes, falantes,
pedantes, inconscientes de nosso
fluxo e refluxo, ao sabor das marés
da luz, do tempo, do espaço.
(54)

NO FUNDO

Tromba, trompa,
toca de lebre,
de esquilo, de raposa,
de lobo, de loba,
sumindo, indo
ao fundo negro
na pedra, na água,
imerso, nada vê.

Caminha pro fundo


mais e mais desce,
longo corredor,
entra na gruta:
o grande diamante
a deusa, o deus,
lado a lado.

Se prostra, pequeno, humano,


com o seu animal, que o guia
com força, com mestria,
agradece com prece,
se ergue e prossegue.
(55)

Encontra a sua criança


perdida, sem rumo,
entre outras, na escuridão.

Soergue-se com prumo


encontrando o seu rumo
sai do fundo do mundo
com sua missão.

A ligação estreita, escorreita,


do mundo de cima
com o mundo do meio
com o mundo de baixo.
(56)

O VÔO

Lulu escorregou e caiu:


se esborrachou,
zuniu pelo espaço
além; por auri-verdes
campos; procelas,
arminhos, doninhas,
giocondas amadas;
sumiu até a bolha
estratosférica,
brilhante, quimérica;
podia viver e respirar,
mas não ousar
dali sair.
Sons, músicas esféricas,
imortais, ouvia.
Também via sua dona,
ousadia...
Sim, era o seu paraíso,
conquistado
e merecido.
(57)

A NOITE NEGRA

Via a situação perder o controle:


a miséria dominando,
o desespero, o crime,
energias sugadas
para fora;
tudo virou mercadoria:
corpo, mente, alma,
trabalho, sexo, prazer.
Lá de fora vinham as ordens
cumpridas com prazer
pelos que não acreditavam
em sua gente, em sua raça,
em sua cultura, em seu trabalho.
Retornavam ao passado
de celeiro dos ricos.
Vendiam tudo barato,
abriam para eles
e tudo nosso se ia
para sempre...
(58)

Ficava o deserto,
a dor, a fome,
a penúria, a prostituição.
Violência na cidade,
no campo, massas gritavam.
Tropas avançavam
contra a liberdade...
Crises, crises,
vulneráveis, sem proteção,
indefesos, a espera
do próximo golpe,
irremediável, fatal!

A noite negra chegara:


sem fôlego,
tentava perplexo
uma saída,
que estava fechada
para ele
e para muitos outros.
(59)

O NEGOCIADOR

Vil, de perfil ou de frente,


inconsciente, inconseqüente;
sutil seu plano, burilado,
cada fase, procedente
do seu cérebro arraigado.

Recebeu a comissão,
elaborou a negociação,
convenceu todos,
sorridente; foi-se
para o paraíso dos ricos.

Comprou mansão, avião,


iate, quadros de arte;
sua mulher, bela
se tornou, esculpida
com esmero pelo doutor.
(60)

Até ele perdeu a barriga,


que depois encontrou...
Julgado, enquadrado,
seu advogado provou
sua boa intenção
em todos seus atos,
quase beatos, por fim
escapou.

Lá em Miami
navega, pesca, joga,
recebe, aplica, conquista,
equilibrista em altas rodas.

Exemplo presente,
de sempre, seguido
de perto por alunos sagazes,
vorazes, do nosso rincão.
(61)

A ONÇA E O HOMEM

A onça avançou de frente


encontrou os ombros de quem
estático olhava a penumbra
entre as folhagens úmidas
flores avermelhadas com pontos amarelos
miquinhos engraçadinhos
serpentes esverdeadas
formigas esforçadas
tatus em seus buracos
troncos redondos
galhos divididos
raízes destacadas.
(62)

Tudo o que a onça queria


era matar sua fome,
e esse homem sem renome
rastrear um destino incerto
perdido entre paredes, prédios,
ruas, avenidas, trilhas,
ribanceiras, rios, córregos,
árvores, cipós, pedras,
como uma borboleta fugaz,
tangenciando a curva noturna
do seu limite extremo, supremo,
audaz como um cavaleiro sereno,
que lutou, buscou um prêmio
esvoaçado, que lhe fugiu,
e em seu lugar restou a dúvida.
(63)

DESTINO

Cada semente se ajeitava,


apertando-se uma contra a outra
no espaço concentrado
cercado pela casca;
cada uma olhava a vizinha,
parecida com ela, vermelhinha,
e perguntava: - companheira,
sabes para onde vamos?
qual o nosso destino?
uma respondia: - para a boca
de algum demente!
outra: - para um delicioso
prato de doce!
e ainda outra: - apodrecer
e acabar no lixo!
mas nenhuma imaginava
que seu destino glorioso
seria servir de meio
para “simpatias” de amigas
no Dia de Reis...
(64)

DE PASSAGEM

De súbito encontrou-o,
alijado de qualquer contato
e lhe perguntou se era aquela mulher
que lhe pertencera, e que perdera,
mas ele não respondeu.
Cismado estava e continuou
em seu estado.

Tantos anos de lutas


lhe marcaram o rosto, a alma
e sua palma calosa.
A curvatura da espinha,
inclinada, expunha sua pena,
cumprida em obscura sina.

Seus cabelos, rareados


no confronto com os ventos
do seu destino.
A sua pele, encrespada,
curtida, ensolarada.
Seus dentes, mambembes,
se sustinham, indispostos.
(65)

Bebia e se entretinha
com as notícias do dia,
esperando o tempo
prosseguir até o porvir.
(66)

A CONQUISTA

O sapo se enamorou:
pulou no poço,
buscou a bola
da bela, se libertou do feitiço,
se transformou
em lindo príncipe;
no castelo do seu reino
ele e sua amada se amavam,
dos ataques inimigos se defendiam;
na conquista de novas terras se lançou;
cresceu em poder: singrou mares,
baías penetrou com seus navios,
lutou em rudes batalhas
e se tornou célebre, admirado.
O tempo passou,
nas intrigas da corte
foi traído por amigos,
em quem confiou.
(67)

Já abatido, enfraquecido, entorpecido,


sonhava muitas vezes com uma lagoa
serena, misteriosa, pacífica,
rodeada de arbustos,
árvores imensas,
moscas saborosas,
flores belas,
rãs namoradeiras.
Sentia nostalgia,
inexplicável saudade de
um paraíso perdido...