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UNIVERSIDADE ESTADUAL DE PONTA GROSSA

SETOR DE CIÊNCIAS JURÍDICAS

BACHARELADO EM DIREITO

DISCIPLINA DE DIREITO CIVIL IV

PROF. DR. VITOR HUGO BUENO FOGAÇA

ACADÊMICOS: MARCELO JOSÉ DA SILVA E SIMONE BEATRIZ CARRERA DE


ARAUJO

ROTEIRO

CONTRATO DE TRANSPORTE

O transporte é uma das atividades antigas, nas origens, se confundia com


uma locação de serviços ou, mais especificamente, com uma empreitada, porquanto
se considerava o transportador como alguém que se encarregava de realizar uma
obra para outrem. A intensificação dos deslocamentos de pessoas e mercadorias,
com a evolução do comércio e com o aprimoramento dos meios de transporte,
conduziu a uma especialização da atividade, sob o ponto de vista econômico e
jurídico, exigindo o estabelecimento de normas próprias para o contrato de
transporte, que, assim, se desligou dos princípios da empreitada e da locação de
serviços. (GOLÇALVES, 2017, p. 607-608)
De acordo com Carlos Roberto Gonçalves com o antigo Código Comercial foi
o primeiro diploma a regular essa modalidade contratual. Mas se atinha mais ao
transporte de coisas e ao transporte marítimo, que eram os mais importantes na
época. Posteriormente, surgiu a regulamentação do transporte ferroviário, cuja
aplicação foi estendida ao transporte terrestre em geral mediante o emprego da
analogia, do transporte fluvial e marítimo e do transporte aéreo. Finalmente,
surgiram as normas do Código de Defesa do Consumidor, que lhe são aplicáveis
pelo fato de a atividade caracterizar prestação de serviços. (GOLÇALVES, 2017, p.
606).
No entanto, não tínhamos uma legislação específica, na qual constassem os
princípios básicos e norteadores do contrato de transporte, os direitos e deveres que
dele emanam e, principalmente, a responsabilidade das pessoas envolvidas.
O atual Código veio, então, suprir essa deficiência, regulando-o em capítulo
próprio. Código Civil de 2002, que passou a disciplinar o contrato de transporte nos
artigos 730 a 756, dividido em três seções intituladas:
 “Disposições gerais” (Art. 730 até 733)
 “Do transporte de pessoas” (Art. 734 até 742)
 “Do transporte de coisas”. (Art. 743 até 756)
O próprio código civil traz o conceito de contrato de transporte no art. 730
“Pelo contrato de transporte alguém se obriga, mediante retribuição, a transportar,
de um lugar para outro, pessoas ou coisas”.
No entendimento de Flávio Tartuce o contrato de transporte trata- se do
contrato pelo qual alguém (o transportador) se obriga, mediante uma determinada
remuneração, a transportar de um local para outras pessoas ou coisas, por meio
terrestre (rodoviário e ferroviário), aquático (marítimo, fluvial ou lacustre) ou aéreo.
(TARTUCE, 2017, p. 775)
De acordo com Venosa (2017, p. 385) o contrato de transporte é o negócio
pelo qual um sujeito se obriga, mediante remuneração, a entregar coisa em outro
local ou a percorrer um itinerário para uma pessoa, no entanto o autor nos chama á
atenção sobre a distinção do contrato de transporte propriamente dito, que é o ato
negocial cujo objetivo principal é o traslado de uma coisa ou pessoa, da relação de
transporte acessória de outro contrato. O contrato de transporte traduz-se pelo
deslocamento da coisa ou pessoa como fundamento do negócio jurídico. No
entanto, a relação de transporte pode estar presente em outros negócios, como
acessório, tal como na venda na qual o vendedor obriga-se a entregar a coisa no
domicílio do comprador. Nessa hipótese, o vendedor não se qualifica como
transportador, não se submetendo a seus riscos específicos; sua responsabilidade
restringe-se às normas que se aplicam à compra e venda. (VENOSA, 2017, p. 385)
Segundo Carlos Roberto Gonçalves e Flávio Tartuce os elementos do
contrato de transporte são:
• Transportador: Aquele que realiza o transporte;
• Passageiro ou viajante: Pessoa transportada;
• Expedidor: A pessoa que entrega a coisa a ser transportada;
• Transladação: (Transferência ou remoção) É necessário que
haja transferência ou remoção de um lugar para outro, ainda que não
percorra uma distância geográfica. É possível efetuar- se o transporte dentro
da própria casa, do próprio prédio, de um andar, do térreo para a cobertura.
O que identifica de forma contundente o contrato de transporte é uma
obrigação de resultado do transportador, diante da cláusula de incolumidade,
ou seja, a obrigação tacitamente assumida pelo transportador de conduzir o
passageiro incólume ao local de destino. Venosa (2017, p. 383) exemplifica
muito bem essa principal característica do contrato de transporte, trata-se de
contrato peculiar que contém obrigação de resultado que somente se conclui
quando a mercadoria ou pessoa chega ao destino. A distância maior ou
menor não lhe é essencial: o transporte pode ser de um pavimento para outro
ou de um cômodo de edifício para outro.
Gagliano e Pablo Stolze no chama a atenção em relação ao meio em
que é feito o transporte, o contrato poderá ser: terrestre, se em terra ou em
pequeno percurso de água (Decreto n. 92.353/86); marítimo, se feito em alto-
mar ou rios e lagos navegáveis em longos percursos (CCom, arts. 629 a 632);
e aéreo, se utilizar o espaço aéreo (Leis n. 5.710/71, 6.298/75, 6.350/76,
6.833/80, 6.997/82, e 7.565/86 — Código Brasileiro de Aeronáutica, bem
como a Convenção de Varsóvia5). Assim, sem negar a aplicação dos
preceitos genéricos codificados, ressalva-se toda a legislação especial sobre
transportes, bem como o Código de Defesa do Consumidor. E ainda alerta
sobre não se deve confundir, o contrato de transporte com o fretamento, pois,
neste último, os riscos correm integralmente por conta do tomador da coisa
fretada. (GAGLIANO & PABLO STOLZE, 2017, p. 537)

NATUREZA JURÍDICA DO CONTRATO DE TRANSPORTE


- Bilateral ou sinalagmático: Gera direitos e deveres proporcionais para
ambas as partes. A obrigação do transportador é conduzir a coisa ou pessoa de um
lugar para outro incólume ao local do destino. Quanto para o passageiro ou
expedidor ( que terá a obrigação de pegar o preço convencionado pelas partes);
- Consensual: Se aperfeiçoa com a manifestação de vontades dos
contraentes, independentemente da entrega da coisa ou chegada ao destino
(exceção do contrato);
- Comutativo: Pois as partes já sabem de imediato quais são as suas
prestações. A álea não é fator determinante do contrato de transporte apesar de
existente o risco.
- Contrato de adesão: Por não estar presente a plena discussão das suas
cláusulas. O transportador acaba por impor o conteúdo do negócio, restando á outra
duas opções: Aceitar ou não os seus termos.
- Informal ou não solene: Como não há qualquer formalidade prevista para o
contrato, o mesmo é tido como negócio informal ou não solene.

DISPOSIÇÕES GERAIS (ART. 730 ATÉ 733)


Como já apresentado o art. 730 começa apresentando o conceito de
contrato de transporte.
Art. 730. Pelo contrato de transporte alguém se obriga, mediante retribuição, a
transportar, de um lugar para outro, pessoas ou coisas.
Trata-se de um contrato que apresenta, inequivocamente, uma obrigação de
resultado: transportar a pessoa ou o bem, ao local de destino, em perfeita
segurança.
Gonçalves (2017) reforça que se o transporte é secundário ou acessório de
outra prestação, o contratante, seja vendedor ou de outra espécie, não pode ser
considerado um transportador, cuja obrigação é exclusivamente a de efetuar o
traslado de coisa ou pessoa, regendo-se a sua responsabilidade pelas normas que
disciplinam o contrato principal.
O Art. 731. diz “O transporte exercido em virtude de autorização, permissão
ou concessão, rege-se pelas normas regulamentares e pelo que for estabelecido
naqueles atos, sem prejuízo do disposto neste Código”. A norma está sintonizada
com o art. 175 da CF/ 1988, pelo qual incumbe ao Poder Publico, na forma da lei,
diretamente ou sob o regime de concessão ou permissão, sempre através de
licitação, a prestação de serviços públicos. Sempre que o transporte for privativo do
Poder Público, pode este conferir a sua exploração a particulares por meio dos
institutos do direito público, como a autorização, a permissão e a concessão.
O Estado fixa as regras, as condições, enfim, as normas que regerão a
prestação dos serviços. O transporte “obedecerá, prioritariamente, ao que for
estabelecido nos atos de autorização, permissão ou concessão – especialmente
quanto às obrigações, itinerários, tarifas, prazos – e normas regulamentares”, sem
prejuízo do que dispõe o Código Civil. Dessa forma, haverá a aplicação
concomitante das normas de Direito administrativo, particularmente aquelas
relacionadas á concessão do serviço público, com as normas previstas no Código
Civil (GOLÇALVES, 2017, p. .
O art. 732 do CC/2002 procurou compatibilizar as normas codificadas do
contrato de transporte com a legislação especial e com o Direito Internacional,
dispondo: “Aos contratos de transporte, em geral, são aplicáveis, quando couber,
desde que não contrariem as disposições deste Código, os preceitos constantes da
legislação especial e de tratados e convenções internacionais”. Exemplo, no caso de
transporte aéreo, pode ser aplicado o Código Brasileiro de Aeronáutica (CBA – Lei
7.656/ 1986), desde que o mesmo não entre em conflito com o Código Civil em
vigor.
O dispositivo em apreço procura compatibilizar as normas deste capítulo com
a legislação especial referente a transportes, vindo a repercutir principalmente no
transporte aéreo, que é objeto de tratados internacionais ratificados pelo Brasil.
Continuam sendo aplicáveis a essa modalidade de transporte, no que não
contrariam o Código Civil, o Código Brasileiro de Aeronáutica, a Convenção de
Varsóvia e o Código de Defesa do Consumidor.
As normas de direito internacional público vigoram na ordem interna com a
mesma relevância das normas de direito interno, desde logo quanto à subordinação
à Constituição – sendo, pois, inconstitucionais se infringirem as normas da
Constituição ou seus princípios. Nesse sentindo o Superior Tribunal de Justiça
proclamado: “Transporte aéreo. Indenização tarifada. Convenção de Varsóvia.
Código de Defesa do Consumidor. Tratando-se de relação de consumo, prevalecem
as disposições do Código de Defesa do Consumidor em relação à Convenção de
Varsóvia. Derrogação dos preceitos desta que estabelecem a limitação da
responsabilidade das empresas de transporte aéreo” 1.
A IV Jornada de Direito Civil foi aprovado o Enunciado nº 369 CJF/ STJ, com
a seguinte redação: “Diante do preceito constante no art. 732 do Código Civil,
teologicamente e em uma visão constitucional de unidade do sistema, quando o
contrato de transporte constituir uma relação de consumo, aplicam- se as normas do
Código de Defesa do Consumidor que forem mais benéficas a este”.
Art. 733. Nos contratos de transporte cumulativo, cada transportador se obriga
a cumprir o contrato relativamente ao respectivo percurso, respondendo pelos danos
nele causados a pessoas e coisas.
§1º O dano, resultante do atraso ou da interrupção da viagem, será
determinado em razão da totalidade do percurso.
§2º Se houver substituição de algum dos transportadores no decorrer do
percurso, a responsabilidade solidária estender-se-á ao substituto.
O art. 733 do CC trata do transporte cumulativo, ou seja, aquele em que
vários transportadores se obrigam a cumprir o contrato por um determinado
percurso.
Ocorre o transporte cumulativo quando vários transportadores – por terra,
água ou ar – efetuam, sucessivamente, o deslocamento contratado. Segundo o teor
do caput do dispositivo comentado, “cada transportador se obriga a cumprir o
contrato relativamente ao respectivo percurso, respondendo pelos danos nele
causados a pessoas e coisas”. Mas para considerar-se cumulativo o transporte é
preciso que haja unidade da relação contratual a que se vinculam os diversos
transportadores. (GONÇALVES, 2017, p. 617)
A redação do § 2º do dispositivo em epígrafe não deixa dúvida de que foi
estabelecida a solidariedade passiva entre todos eles. Prevalece, assim, em face do
inadimplemento dos transportadores colegiados, o direito do usuário de reclamar a

1 REsp 258.132-0-SP, rel. Min. Barros Monteiro, DJU, 28-11-2000, v. u.;


REsp 209.527-0-RJ, 3ª T., rel. Min. Menezes Direito, DJU, 15-12-2000, v. u.; REsp
154.943-DF, rel. Min. Nilson Naves, DJU, 28-8-2000, RSTJ, 143/274.
reparação de qualquer dos coobrigados. Tendo em vista a obrigação de resultado
que encarta o contrato de transporte.
De acordo com Tartuce, em tais casos havendo danos a pessoas ou a coisas
haverá responsabilidade objetiva, pois a obrigação de cada transportador é de
resultado (clásula de incolumidade). Para essa responsabilização independente de
culpa ainda pode ser invocado o Código de Defesa do Consumidor, em diálogo das
fontes.
Caso esteja presente dano resultante do atraso ou da interrupção da viagem,
este será determinado em razão da totalidade do percurso, diante da indivisibilidade
da obrigação dos transportadores. Ocorrendo a substituição de um transportador por
outro nessa mesma forma de contratação, a responsabilidade solidária também será
estendida ao substituto (art. 733, § 2º, do CC). Nesse último caso, há o que a
doutrina denomina como contratação de sub-transporte. (TARTUCE, 2017, p. 784)
Após analise das regras gerais do contrato de transporte, passamos para as
explicações a respeito de assunto específicas, começando com o transporte de
pessoas e posteriormente com o transporte de coisas.

DO TRANSPORTE DE PESSOAS (ART. 734 ATÉ 742)


O contrato de transporte de pessoa obriga o transportador a levar o
passageiro até o destino contratado. (VENOSA, 2017, p. 387)
O transporte de pessoas é aquele pelo qual o transportador se obriga a levar
uma pessoa e a sua bagagem até o destino, com total segurança, mantendo
incólume os seus aspectos físicos e patrimoniais. A obrigação assumida pelo
transportador é sempre de resultado, o que fundamenta a sua responsabilização
independentemente de culpa. É dever o transportador levar o passageiro são e salvo
a seu destino, e responderá pelo dano a ele causado. (TARTUCE, 2017, p. 784)
Art. 734. O transportador responde pelos danos causados às pessoas
transportadas e suas bagagens, salvo motivo de força maior, sendo nula qualquer
cláusula excludente da responsabilidade.
Parágrafo único. É lícito ao transportador exigir a declaração do valor da
bagagem a fim de fixar o limite da indenização
Regra é sintetizada no art. 734, no tocante ao transporte de pessoas: o
transportador responde pelos danos causados às pessoas transportadas e suas
bagagens, salvo motivo de força maior (evento previsível, mas inevitável), sendo
nula qualquer cláusula excludente da responsabilidade. É claro que também a culpa
exclusiva da vítima, dentro dos princípios gerais da responsabilidade civil, elidirá o
dever de indenizar.
O caso fortuito (evento totalmente imprevisível) também constitui excludente,
até porque muitos doutrinadores e a própria jurisprudência consideram as duas
expressões como sinônimas. Vejamos alguns julgados:

“Transporte de mercadoria. Roubo. Responsabilidade da transportadora.


Roubo de mercadoreia praticado mediante ameaça exercida com arma de
fogo é fato desconexo do contrato de transporte e, sendo inevitável, diante
das cautelas exigíveis da transportadora, constitui- se em caso fortuito e
força maior, excluindo a responsabilidade dessa pelos danos causados.
Agravo não povido” (STJ, AGRESP 470. 520/SP (2002010799819, 499.70,
j. 26.06.2003, 3ª Turma, Rel. Min, Nancy Andrighi, DJ 25.08.2003, p. 301).

“Civil. Indenização. Transporte coletivo (ônibus). Assalto à mão armada


seguido de morte de passageiro. Força maior. Exclusão da
responsabilidade da transportadora. 1. A morte decorrente de assalto à mão
armada, dentro de ônibus, por se apresentar como fato totalmente estranho
ao serviço de transporte (força maior), constitui-se em causa excludente da
responsabilidade da empresa concessionária do serviço público. 2.
Entendimento pacificado pela Segunda Seção. 3. Recurso especial
conhecido e provido” (STJ, REsp 783.743/RJ, Rel. Min. Fernando
Gonçalves, 4.a Turma, j. 12.12.2005, DJ 01.02.2006, p. 571).

“Processo civil. Recurso especial. Indenização por danos morais e estéticos.


Assalto à mão armada no interior de ônibus coletivo. Força maior. Caso
fortuito. Exclusão de responsabilidade da empresa transportadora.
Configuração. 1. Este Tribunal já proclamou o entendimento de que, fato
inteiramente estranho ao transporte (assalto à mão armada no interior de
ônibus coletivo), constitui caso fortuito, excludente de responsabilidade da
empresa transportadora. 2. Entendimento pacificado pela eg. Segunda
Seção desta Corte. Precedentes: REsp 435.865/RJ; REsp 402.227/RJ;
REsp 331.801/RJ; REsp 468.900/RJ; REsp 268.110/RJ. 3. Recurso
conhecido e provido” (STJ, REsp 714.728/MT, Rel. Min. Jorge Scartezzini,
4.a Turma, j. 12.12.2005, DJ 01.02.2006, p. 566)

Ainda quanto ao art. 734, caput, do CC, o dispositivo não considera como
excludente a cláusula de não indenizar (cláusula excludente de responsabilidade ou
cláusula de irresponsabilidade), previsão contratual inserida no instrumento do
negócio que exclui a responsabilidade da transportadora. O art. 734, caput, do CC
apenas confirma o entendimento jurisprudencial anterior, consubstanciado na
Súmula 161 do STF, segundo a qual: “Em contrato de transporte é inoperante a
cláusula de não indenizar”.
Gonçalves (2017) exemplifica muito bem algumas situações: Em certos meios
de transporte distinguem-se perfeitamente o momento da celebração do contrato e o
de sua execução. Nas viagens aéreas, por exemplo, é comum a passagem ser
comprada com antecedência. Nestes casos, a responsabilidade do transportador só
terá início com a execução da avença. No transporte rodoviário, tendo em vista que
a estação não pertence à transportadora, a execução se inicia somente com o
embarque do passageiro, e só termina com o desembarque. Se o passageiro vem a
se ferir em razão de queda ocorrida durante o embarque, porque o ônibus
movimentou-se abruptamente, por exemplo, configura-se a responsabilidade do
transportador, porque já se iniciara a execução do contrato. Do mesmo modo se a
queda ocorrer por ocasião do desembarque.
Se, por um lado, é nula, em contrato de transporte, a cláusula de não
indenizar, admite-se a limitação dessa responsabilidade. O seguro desempenha
importante papel nesse contrato, a resguardar a indenização por danos ocasionados
a pessoas e coisas transportadas. Nesse diapasão, o parágrafo único do art. 734
dispõe ser lícito ao transportador exigir a declaração do valor da bagagem a fim de
fixar o limite da indenização. Cabe ao passageiro, se lhe for conveniente, contratar
seguro pelo valor não coberto pelo transportador. Atente-se que o transportador,
apesar de poder limitar a indenização por perda ou avaria de bagagem, não pode
reduzi-la a tal ponto de torná-la inócua. Redução a tal ponto pode caracterizar
cláusula abusiva, reprimida pelo Código de Defesa do Consumidor. Pode, por outro
lado, a norma específica ou administrativa especificar os valores máximos pelos
quais responderá o transportador.
Inicialmente, deve-se entender que o art. 734 do CC não torna obrigatória ao
consumidor passageiro a referida declaração. Na verdade, o dispositivo enuncia que
é lícito exigir a declaração do valor da bagagem, visando a facilitar a prova do
prejuízo sofrido em eventual demanda. Não sendo feita a referida declaração, torna-
se difícil comprovar o que está dentro da bagagem. Para tanto, pode o consumidor
utilizar-se da inversão do ônus da prova, nos termos do art. 6.°, VIII, do CDC? O
Superior Tribunal de Justiça vem entendendo que sim, ou seja, pela aplicação dessa
inversão em casos tais:

“Processo civil. Civil. Recurso especial. Indenização por danos materiais e


morais. Extravio de bagagem. Empresa aérea. Danos materiais
comprovados e devidos. Inversão do ônus da prova. Art. 6.°, VIII, do CDC.
Danos morais. Ocorrência. Indenização. Razoabilidade do quantum fixado.
1. Divergência jurisprudencial comprovada, nos termos do art. 541,
parágrafo único, do CPC, e art. 255 e parágrafo, do Regimento Interno
desta Corte. 2. Com base nos documentos comprobatórios trazidos aos
autos, tanto a r. sentença singular quanto o eg. Tribunal de origem, tiveram
por verossímil as alegações do autor – uma vez que a relação dos bens
extraviados mostra-se compatível com a natureza e duração da viagem –
aplicando, então, a regra do art. 6.°, VIII, do CDC, invertendo-se o ônus da
prova. 3. A inversão do ônus da prova, de acordo com o art. 6.°, VIII, do
CDC, fica subordinada ao critério do julgador, quanto às condições de
verossimilhança da alegação e de hipossuficiência, segundo as regras da
experiência e de exame fático dos autos. Tendo o Tribunal a quo julgado
que tais condições se fizeram presente, o reexame deste tópico é inviável
nesta via especial. Óbice da Súmula 07 desta Corte. 4. Como já decidiram
ambas as Turmas que integram a Segunda Seção desta Corte, somente é
dado, ao STJ, em sede de recurso especial, alterar o quantum da
indenização por danos morais, quando ínfimo ou exagerado o valor. 5.
Considerando-se as peculiaridades fáticas assentadas nas instâncias
ordinárias e os parâmetros adotados nesta Corte em casos semelhantes a
este, de extravio de bagagem em transporte aéreo, o valor fixado pelo
Tribunal de origem, a título de indenização por danos morais, mostra-se
excessivo, não se limitando à compensação dos prejuízos advindos do
evento danoso, pelo que se impõe a respectiva redução a R$ 4.000,00
(quatro mil reais). 6. Recurso conhecido e provido” (STJ, REsp 696.408/MT,
Rel. Min. Jorge Scartezzini, 4.a Turma, j. 07.06.2005, DJ 29.05.2006, p.
254).

Art. 735. A responsabilidade contratual do transportador por acidente com o


passageiro não é elidida por culpa de terceiro, contra o qual tem ação regressiva.
Em matéria de responsabilidade civil do transportador, a jurisprudência já não
vinha, com efeito, admitindo a excludente do fato de terceiro. Justifica-se o rigor,
tendo em vista a maior atenção que deve ter o motorista obrigado a zelar pela
integridade de outras pessoas. Absorvendo essa orientação, o atual Código Civil
reproduz, no aludido art. 735, o texto da Súmula 187 do Supremo Tribunal Federal,
com a mesma redação.
Ocorrendo um acidente de transporte, não pode o transportador, assim,
pretender eximir-se da obrigação de indenizar o passageiro, após haver
descumprido a obrigação de resultado tacitamente assumida, atribuindo culpa ao
terceiro (p. ex., ao motorista do caminhão que colidiu com o ônibus). Deve,
primeiramente, indenizar o passageiro para depois discutir a culpa pelo acidente, na
ação regressiva movida contra o terceiro.
Assim, qualquer acidente que cause danos ao passageiro obriga o
transportador a indenizá-lo, porque se trata de obrigação de resultado. Não importa
que o evento tenha ocorrido porque o veículo foi “fechado” ou mesmo abalroado por
outro. O transportador indeniza o passageiro e move, depois, ação regressiva contra
o terceiro. O fato de terceiro só exonera o transportador quando efetivamente
constitui causa estranha ao transporte, isto é, quando elimina, totalmente, a relação
de causalidade entre o dano e o desempenho do contrato, como na hipótese de o
passageiro ser ferido por uma bala perdida, por exemplo. (GOLÇALVES, 2017, p.
620)
O Art. 735 do CC/2002 e a Súmula 187 do STF servem também para
responsabilizar as empresas aéreas por acidentes que causam a morte de
passageiros. Mesmo havendo culpa exclusiva de terceiros, inclusive de agentes do
Estado, as empresas que exploram o serviço devem indenizar os familiares das
vítimas, tendo ação regressiva contra os responsáveis (TARTUCE, 2017, p. 792-
793). Alguns casos:

“Agravo regimental. Responsabilidade civil objetiva. Acidente aéreo


envolvendo o avião Boeing 737-800, da Gol Linhas Aéreas, e o jato
Embraer/Legacy 600, da Excel Air Service. Dano moral. Irmã da vítima
falecida. Cabimento. Precedentes. 1. Os irmãos possuem legitimidade ativa
ad causam para pleitear indenização por danos morais em razão do
falecimento de outro irmão. Precedentes. 2. Restou comprovado, no caso
ora em análise, conforme esclarecido pelo Tribunal local, que a vítima e a
autora (sua irmã) eram ligados por fortes laços afetivos. 3. Ante as
peculiaridades do caso, reduzo o valor indenizatório para R$ 120.000,00
(cento e vinte mil reais), acrescido de correção monetária, a partir desta
data (Súmula n.° 362/STJ), e juros moratórios, a partir da citação. 4. Agravo
regimental parcialmente provido” (STJ, AgRg-Ag 1.316.179/RJ, 4.a Turma,
Rel. Min. Luis Felipe Salomão, j. 14.12.2010, DJE 01.02.2011).

Art. 736. Não se subordina às normas do contrato de transporte o feito


gratuitamente, por amizade ou cortesia.
Parágrafo único. Não se considera gratuito o transporte quando, embora feito
sem remuneração, o transportador auferir vantagens indiretas.
Relativamente ao transporte feito de forma gratuita, por amizade ou cortesia,
popularmente denominado carona, não se subordina às normas do contrato de
transporte (art. 736, caput, do CC). O dispositivo está sintonizado com a Súmula 145
do STJ, pela qual: “No transporte desinteressado, de simples cortesia, o
transportador só será civilmente responsável por danos causados ao transportado
quando incorrer em dolo ou culpa grave”. Não há responsabilidade contratual
objetiva daquele que dá a carona. A responsabilidade deste é extracontratual,
subjetiva, dependendo da prova de culpa.

“Contrato de transporte – “Carona” cortesia – Aplicação das regras gerais


da responsabilidade civil – Culpa do réu – Ausência de prova – Recurso
provido. Nos termos do art. 736 do Código Civil, a responsabilidade do
transportador que concede uma carona em virtude de um vínculo de
amizade é subjetiva. Para tanto, dever ser aferido se o réu agiu com culpa,
nos termos dos arts. 186 e 927, ambos do Código Civil. O réu não estava
embriagado e conduzia seu veículo em baixa velocidade. A culpa do
acidente foi de terceiro, que condizia seu veículo em alta velocidade e
invadiu a mão de direção em que o autom[ovel do réu transitava, fazendo
com que o requerido perdesse o controle de seu veículo. Como o réu não
agiu com culpa, o mesmo não é responsável pelos danos sofridos pelos
autores em virtude da morte de seu ascendente”. (TJMG, Apelação cível
0043.05.033533-9/0011. Araçuaí, 15ª Câmara Cível, Rel. Des. Tibúrcio
Marques, j. 02.07.2009, DJEMG 14.07.2009).

Não se considera gratuito o transporte quando, embora feito sem


remuneração, trouxer ao transportador vantagens indiretas (art. 736, parágrafo
único, do CC). Nesses casos, a responsabilidade daquele que transportou outrem
volta a ser contratual objetiva. Pode ser citado como vantagens indiretas auferidas o
pagamento de combustível ou pedágio por aquele que é transportado. A questão
recomenda análise caso a caso.
De acordo com Gagliano e Plablo Stolze, o transporte clandestino não
encontra amparo legal, e qualquer acidente que venha a ocorrer em virtude do
mesmo deverá ser juridicamente suportado pela vítima. É o caso do sujeito que
sofre grave lesão por adentrar sorrateiramente no compartimento de cargas de um
navio. Atuou com culpa exclusiva, não cabendo direito a indenização. Caso venha a
falecer, não poderão, pelas mesmas razões expostas, os seus familiares, pleitear
indenização. (GAGLIANO & PABLO STOLZE, 2017, p. 564)
Flávio Tartuce faz uma observações muito importante para os dias atuais, o
UBER e outras formas de transporte compartilhado, apesar de pendência de
legislação específica não se enquadram como transporte clandestino, mas como
modalidade de carona, com vantagens indiretas. Assim, deve- se aplicar o parágrafo
único do art. 736 do Código Civil, com a incidência das regras de transporte e da
correspondente responsabilidade civil objetiva, sem prejuízo da subsunção do
Código de Defesa do Consumidor, em diálogos das fontes. Isso faz com que não só
o transportador eventualmente responda por danos causados ao passageiro, mas
também a empresa que administra o aplicativo.
Art. 737. O transportador está sujeito aos horários e itinerários previstos, sob
pena de responder por perdas e danos, salvo motivo de força maior.
O dispositivo citado fundamenta eventual indenização no caso de atraso do
transportador, o que faz com que o passageiro perca um compromisso remunerado
que tinha no destino. O dispositivo reforça a tese pela qual o transportador assume
obrigação de resultado, a gerar a sua responsabilidade objetiva. O dever de
pontualidade do transportador.
Araken de Assis nos explica:

Essas considerações se aplicam ao cumprimento do horário. Nos


aeroportos centrais das grandes cidades brasileiras, homens e mulheres
atazanados, à beira do histerismo coletivo, aguardam transladação ao seu
destino, no qual se desincumbiriam de reuniões previamente agendadas.
Não importa, neste caso, chegar ao destino. É inútil chegar depois do
horário previsto: a viagem está arruinada. O art. 256, II, da Lei 7.656/1986
prevê, explicitamente, a responsabilidade do transportador aéreo pelo
atraso. O dever existe para qualquer contrato de transporte, seja qual for o
meio (rodoviário, ferroviário e aquaviário). Mas acontece de as condições
atmosféricas, quer no ponto de partida, quer no de destino, impedirem
decolagens e pousos. Tal fato, bem como outros similares, elide a
responsabilidade do transportador” (ASSIS, 2005, p. 339).

Nesse sentindo o Tribunal de Justiça de São Paulo analisou apelação e


decidiu:
“Transporte aéreo. Voo nacional. Atraso por cerca de seis horas, no
chamado período do ‘apagão aéreo’. Dano moral. Cabimento. Fixação,
porém, em valor razoável e proporcional. Recurso parcialmente provido. E
cabível compensação por danos morais a passageiros obrigados a suportar
atraso de voo por várias horas, gerando situação de indiscutível desconforto
e aflição Mas o valor deve ser fixado com moderação, em termos razoáveis
e proporcionais, evitando que a reparação enseje enriquecimento indevido,
com manifestos abusos e exageros. (TJSP, Apelação n. 7322839-8,
Acórdão n. 3480714, São Paulo, Décima Primeira Câmara de Direito
Privado, Rel. Des. Gilberto dos Santos, julgado em 05.02.2009, DJESP
12.03.2009).

Art. 738. A pessoa transportada deve sujeitar-se às normas estabelecidas


pelo transportador, constantes no bilhete ou afixadas à vista dos usuários, abstendo-
se de quaisquer atos que causem incômodo ou prejuízo aos passageiros,
danifiquem o veículo, ou dificultem ou impeçam a execução normal do serviço.
Parágrafo único. Se o prejuízo sofrido pela pessoa transportada for atribuível
à transgressão de normas e instruções regulamentares, o juiz reduzirá
equitativamente a indenização, na medida em que a vítima houver concorrido para a
ocorrência do dano.
O citado artigo 738, dispõe que a pessoa transportada deve sujeitar-se às
normas estabelecidas pelo transportador, abstendo-se de quaisquer atos que
causem incômodo ou prejuízo aos passageiros, danifiquem o veículo, ou dificultem
ou impeçam a execução normal do serviço.
A título de exemplo, se os prepostos da transportadora perceberem que o
passageiro pode oferecer riscos à viagem, haverá possibilidade de impedir a sua
entrada no meio de transporte. Concretizando, é o caso de passageiros bêbados
que pretendem ingressar em voos nacionais ou internacionais.
Se o prejuízo sofrido por pessoa transportada for atribuível à transgressão de
normas pelo próprio passageiro, o juiz reduzirá equitativamente a indenização, na
medida em que a vítima houver concorrido para a ocorrência do dano (art. 738,
parágrafo único, do CC).
Art. 739. O transportador não pode recusar passageiros, salvo os casos
previstos nos regulamentos, ou se as condições de higiene ou de saúde do
interessado o justificarem.
A regra geral é no sentido de que o transporte de pessoas é um serviço
público, um direito constitucional do indivíduo em se locomover. Nesse sentido, o
transportador não poderá recusar passageiro, salvo, é evidente, a hipótese descrita
há pouco, os casos previstos nos regulamentos, ou se as condições de higiene ou
de saúde do interessado o justificarem.
O próprio Código Civil cuidou de estabelecer em seu art. 739 uma regra
aparentemente discriminatória, mas que, em verdade, visa salvaguardar um
interesse público superior.
A título apenas de exemplo, lembre-se de que passageiros portadores de
doenças infecto- contagiosas, transmissíveis pelo ar, não devem viajar em aparelhos
utilizados por outras pessoas. Tal medida visa à proteção dos usuários desses
serviços de transporte.
Na mesma linha, passageiros armados não podem ser admitidos em
transportes de uso coletivo, especialmente as aeronaves.
Art. 740. O passageiro tem direito a rescindir o contrato de transporte antes
de iniciada a viagem, sendo-lhe devida a restituição do valor da passagem, desde
que feita a comunicação ao transportador em tempo de ser renegociada.
§1º Ao passageiro é facultado desistir do transporte, mesmo depois de
iniciada a viagem, sendo-lhe devida a restituição do valor correspondente ao trecho
não utilizado, desde que provado que outra pessoa haja sido transportada em seu
lugar.
§2º Não terá direito ao reembolso do valor da passagem o usuário que deixar
de embarcar, salvo se provado que outra pessoa foi transportada em seu lugar, caso
em que lhe será restituído o valor do bilhete não utilizado.
§3º Nas hipóteses previstas neste artigo, o transportador terá direito de reter
até cinco por cento da importância a ser restituída ao passageiro, a título de multa
compensatória.
O Código resolveu estabelecer um princípio geral para transporte de
passageiro no tocante à desistência da viagem. O art. 740 concede o direito ao
passageiro de rescindir o contrato de transporte, antes de iniciada a viagem, sendo-
lhe devida a restituição do valor da passagem, desde que feita a comunicação ao
transportador em tempo de ser renegociada. As leis e regulamentos devem
especificar os prazos para o exercício desse direito: 24 ou 48 horas antes da data
aprazada, por exemplo.
O art. 740 da atual codificação privada trata da possibilidade de rescisão, ou
mais especificamente, de resilição unilateral do contrato de transporte pelo
passageiro. Esta será possível antes da viagem, desde que feita a comunicação ao
transportador em tempo de a passagem poder ser renegociada. Anote-se que parte
da doutrina entende que se trata de um direito de arrependimento assegurado ao
passageiro pela lei.
Mesmo depois de iniciada a viagem, ou seja, no meio do percurso, é facultado
ao passageiro desistir do transporte, tendo direito à restituição do valor
correspondente ao trecho não utilizado, desde que fique provado que outra pessoa
haja sido transportada em seu lugar no percurso faltante (art. 740, § 1.°, do CC).
Entretanto, se o usuário não embarcar, não terá direito, por regra, ao
reembolso do valor da passagem, salvo se conseguir provar que uma outra pessoa
foi transportada em seu lugar, caso em que lhe será restituído o valor do bilhete não
utilizado (§ 2.° do art. 740 do CC).
Fica a ressalva, contudo, de que nas hipóteses de resilição unilateral o
transportador terá direito à retenção de até cinco por cento (5%) da importância a
ser restituída ao passageiro, a título de multa compensatória. Como se trata de
cláusula penal, sendo esta exagerada – o que será difícil de ocorrer na prática, diga-
se de passagem –, pode-se aplicar a redução equitativa da multa constante do art.
413 do CC, como corolário da eficácia interna do princípio da função social dos
contratos.
Art. 741. Interrompendo-se a viagem por qualquer motivo alheio à vontade do
transportador, ainda que em consequência de evento imprevisível, fica ele obrigado
a concluir o transporte contratado em outro veículo da mesma categoria, ou, com a
anuência do passageiro, por modalidade diferente, à sua custa, correndo também
por sua conta as despesas de estada e alimentação do usuário, durante a espera de
novo transporte.
Trata-se de comando normativo que traduz a obrigação de resultado derivada
deste tipo de contrato. Ainda que a viagem se frustre por motivo alheio à sua
vontade, deve o transportador contar com a logística necessária para a consumação
do fim a que se propôs, sob pena de responsabilidade. É o que ocorre, com
frequência, nos aeroportos do Brasil, quando, diante de atrasos ou cancelamentos
de voo, os passageiros são alocados em outras aeronaves, ou recebem vouchers
para estada em hotel, aguardando acomodação. Todo esse custo faz parte da
atividade do transportador, que não poderá repassá-lo ao usuário do serviço.
O Tribunal do Distrito Federal aduziu que, “na forma do art. 737 do Código
Civil, o transportador está sujeito aos horários e itinerários previstos, sob pena de
responder por perdas e danos. A responsabilidade do transportado não se encerra
com o endosso do bilhete para outra companhia, mas subsiste até o efetivo
cumprimento do contrato. O cancelamento de voo de retorno obriga o transportador
a ressarcir as despesas de estada e alimentação do usuário, na forma do art. 741 do
Código Civil, bem como dos demais danos, na forma do art. 475 do mesmo diploma.
A reparação civil deve abranger os danos morais decorrentes dos transtornos
decorrentes de um dia a mais de viagem não programada. A indenização fixada em
R$ 6.000,00 para os dois autores está em conformidade com as circunstâncias do
caso e com a necessidade de compensação e prevenção dos danos. 5 – Recurso
conhecido, mas não provido. Sentença mantida. O recorrente pagará as custas e os
honorários advocatícios, no valor de R$ 900,00 (novecentos reais)” (TJDF, Recurso
2011.01.1.204996-5, Acórdão 617.589, 2. a Turma Recursal dos Juizados Especiais
do Distrito Federal, Rel. Juiz Aiston Henrique de Sousa, DJDFTE 13.09.2012, p.
184).
Art. 742. O transportador, uma vez executado o transporte, tem direito de
retenção sobre a bagagem de passageiro e outros objetos pessoais deste, para
garantir-se do pagamento do valor da passagem que não tiver sido feito no início ou
durante o percurso.
Configura, portanto, uma modalidade de autodefesa, de forma a garantir o
adimplemento da contraprestação fixada na relação contratual estabelecida. Vale
destacar que o contrato de transporte de bagagens é acessório ao contrato de
transporte de pessoas, pois o viajante, ao comprar a sua passagem, assegura o
direito de transportar consigo as suas malas, ainda que se estabeleçam limites
razoáveis para tal transporte.

DO TRANSPORTE DE COISAS

De acordo com a Doutrina pátria, o Contrato de Transporte regulado pelo


Código Civil na sua espécie/modalidade Transporte de Coisas vai abarcar, não
somente o transporte de objetos pequenos que podem ser transportados por
motocicletas, como também objetos muito maiores que tenham que ser deslocados
por veículos de maior porte. Lembrando que aqui o preço pago ao transportador
recebe a denominação de “frete ou porte”. No caso do transporte de coisas, o
expedidor ou o remetente envia coisas de um lugar a outro por meio do transporte
contratado. Sendo assim, exige-se que a coisa entregue ao transportador esteja
devidamente discriminada e que contenha o nome e o endereço do destinatário.

Art. 743. A coisa, entregue ao transportador, deve estar caracterizada pela


sua natureza, valor, peso e quantidade, e o mais que for necessário para que não se
confunda com outras, devendo o destinatário ser indicado ao menos pelo nome e
endereço.
O transporte exige que a coisa transportada seja infungível, pois o
transportador deve levar ao destino os mesmos bens que recebeu para transportar.
A infungibilidade decorre da caracterização da coisa, segundo a sua natureza, peso,
quantidade e outras características necessárias à sua individualização.
Art. 744. Ao receber a coisa, o transportador emitirá conhecimento com a
menção dos dados que a identifiquem, obedecido o disposto em lei especial.
Parágrafo único. O transportador poderá exigir que o remetente lhe entregue,
devidamente assinada, a relação discriminada das coisas a serem transportadas,
em duas vias, uma das quais, por ele devidamente autenticada, ficará fazendo parte
integrante do conhecimento.
Observa-se que o conhecimento de transporte é um documento, derivado do
próprio contrato, que contém os necessários dados de identificação da mercadoria.
Contudo, o expedidor que declarar informação falsa ou inexata, e por essa razão
causar dano ao transportador, deverá indenizá-lo, conforme o art. 745, onde
determina que a indenização se sujeita ao prazo prescricional de 120 dias contados
a partir da declaração falsa.
Art. 745. Em caso de informação inexata ou falsa descrição no documento a
que se refere o artigo antecedente, será o transportador indenizado pelo prejuízo
que sofrer, devendo a ação respectiva ser ajuizada no prazo de cento e vinte dias, a
contar daquele ato, sob pena de decadência.
Diante do exposto acima pode-se analisar as bases da responsabilidade civil
do transportador no transporte de coisas ou mercadorias. Tratando-se desse modo
de uma responsabilidade de natureza contratual, na medida em que o transportador,
ao assumir a obrigação, arca com o dever de levar a coisa até o local de destino,
devidamente protegida e em perfeito estado de conservação.
Em verdade, o transportador assume uma obrigação de resultado, na medida
em que se obriga a transportar a mercadoria até o local acertado, em segurança.
Pode-se concluir que a esmagadora maioria das sociedades ou empresários
individuais que atua neste setor realiza uma atividade de consumo, sujeita às regras
do Código de Defesa do Consumidor, tratando-se assim, de uma hipótese de
responsabilidade civil objetiva, e não meramente de presunção de culpa, na eventual
hipótese de descumprimento do pactuado.
O princípio da boa-fé objetiva permite a recusa de qualquer coisa cujo
transporte seja inadequado, não só em razão da embalagem. É lícito o milite
imposto por transportadores para a dimensão dos volumes transportados, bem como
a recusa de transporte de produtos químicos, de animais ou plantas que sejam
objeto de restrições administrativas. Somente não são admissíveis as restrições
arbitrárias, ou seja, aquelas que não tenham justificativas em um interesse público
importante.
Art. 746. Poderá o transportador recusar a coisa cuja embalagem seja
inadequada, bem como a que possa pôr em risco a saúde das pessoas, ou danificar
o veículo e outros bens.
Se a coisa vier desacompanhada de documentos que a lei ou regulamento
exijam, ou se seu transporte for proibido, a recusa será um dever do trasportador,
como por exemplo, nos casos de animais silvestres, de substâncias tóxicas, entre
outras, conforme o artigo a seguir.
Art. 747. O transportador deverá obrigatoriamente recusar a coisa cujo
transporte ou comercialização não sejam permitidos, ou que venha
desacompanhada dos documentos exigidos por lei ou regulamento.
Antes de entregue a coisa ao destinatário, pode o expedidor desistir do
transporte e resilir o contrato, caso em que a coisa deverá ser-lhe restituída.
Admitindo-se também que o expedidor determine que a coisa seja entregue a outro
destinatário. Em qualquer caso, o expedidor ficará responsável por perdas e danos,
e pelas despesas extras que sua desistência ou nova instrução causar, conforme o
artigo 748.
Art. 748. Até a entrega da coisa, pode o remetente desistir do transporte e
pedi-la de volta, ou ordenar seja entregue a outro destinatário, pagando, em ambos
os casos, os acréscimos de despesa decorrentes da contra-ordem, mais as perdas e
danos que houver.
Art. 749. O transportador conduzirá a coisa ao seu destino, tomando todas as
cautelas necessárias para mantê-la em bom estado e entregá-la no prazo ajustado
ou previsto.

Como mencionado anteriormente o contrato de transporte estabelece


obrigação de resultado, assumindo o transportador o dever de entregar a mercadoria
a seu destinatário nas condições ajustadas. Sendo responsabilizado civilmente, pela
mora ou pelo inadimplemento contratual.

Art. 750. A responsabilidade do transportador, limitada ao valor constante do


conhecimento, começa no momento em que ele, ou seus prepostos, recebem a
coisa; termina quando é entregue ao destinatário, ou depositada em juízo, se aquele
não for encontrado.
Com relação à responsabilidade do transportador esta é limitada ao valor
constante do conhecimento de transporte, e tem início no momento em que a coisa
lhe é entregue, para se encerrar quando é recebido pelo destinatário.
Art. 751. A coisa, depositada ou guardada nos armazéns do transportador,
em virtude de contrato de transporte, rege-se, no que couber, pelas disposições
relativas a depósito.
Em razão do contrato de transporte, pode a coisa a ser guardada pelo
transportador antes ou depois de concluído o trajeto. O dispositivo manda aplicar à
relação expedidor e transportador as regras ao contrato de depósito enquanto
perdure essa situação.
Destaca-se que o transportador somente é obrigado a dar aviso da chegada
ao destinatário, ou entregar a coisa em seu domicílio, se assim houver
expressamente pactuado, exigindo a lei que essas cláusulas constem do
conhecimento, conforme o artigo 752.
De acordo com o artigo 753, se por qualquer razão, o transporte não se
puder realizar ou sofrer considerável interrupção, é dever do transportador solicitar
do expedidor, imediata, que o instrua sobre como proceder, além de cumprir o dever
de guardar a coisa.
Se o expedidor deixar de se manifestar, e perdurar o impedimento, sem culpa
do transportador, este poderá depositar em juízo a coisa ou vendê-la, caso em que
terá de depositar o preço obtido, devendo sempre comunicar o expedidor do fato. Se
o impedimento se dever a culpa do transportador, este deverá, por sua conta e risco,
depositar a coisa, somente sendo-lhe facultado vendê-la se a coisa for perecível,
mantendo-se a obrigação de comunicar o expedidor. Caso a coisa seja depositada
em armazém do transportador, este fará jus a uma remuneração, a ser ajustada com
o expedidor, podendo ser fixada de acordo com os usos do topo de transporte, se o
expedidor não se manifestar quanto ao depósito.
Art. 753. Se o transporte não puder ser feito ou sofrer longa interrupção, o
transportador solicitará, incontinenti, instruções ao remetente, e zelará pela coisa,
por cujo perecimento ou deterioração responderá, salvo força maior.

§1º Perdurando o impedimento, sem motivo imputável ao transportador e sem


manifestação do remetente, poderá aquele depositar a coisa em juízo, ou vendê-la,
obedecidos os preceitos legais e regulamentares, ou os usos locais, depositando o
valor.

§2º Se o impedimento for responsabilidade do transportador, este poderá depositar a


coisa, por sua conta e risco, mas só poderá vendê-la se perecível.
§3º Em ambos os casos, o transportador deve informar o remetente da efetivação do
depósito ou da venda.

§4º Se o transportador mantiver a coisa depositada em seus próprios armazéns,


continuará a responder pela sua guarda e conservação, sendo-lhe devida, porém,
uma remuneração pela custódia, a qual poderá ser contratualmente ajustada ou se
conformará aos usos adotados em cada sistema de transporte.
Art. 754. As mercadorias devem ser entregues ao destinatário, ou a quem
apresentar o conhecimento endossado, devendo aquele que as receber conferi-las e
apresentar as reclamações que tiver, sob pena de decadência dos direitos.

Parágrafo único. No caso de perda parcial ou de avaria não perceptível à primeira


vista, o destinatário conserva a sua ação contra o transportador, desde que
denuncie o dano em dez dias a contar da entrega.

O conhecimento é documento que representa a propriedade da coisa


transportada. A transferência do conhecimento transfere a propriedade da coisa
transportada, operando-se a tradição ficta, segundo as regras da venda sobre
documento. Desse modo, a coisa deve ser entregue ao destinatário, podendo
reclamá0la até a entrega o expedidor ou terceiro a quem tenha sido transferido o
conhecimento.

O conhecimento se faz mediante a conferência da coisa a fim de averiguar o


seu estado, se correspondem ao momento de entrega.

As avarias perceptíveis à primeira vista devem ser denunciadas de imediato;


as não perceptíveis devem ser denunciadas no prazo de 10 dias a contar da data da
entrega.

Art. 755. Havendo dúvida acerca de quem seja o destinatário, o transportador deve
depositar a mercadoria em juízo, se não lhe for possível obter instruções do
remetente; se a demora puder ocasionar a deterioração da coisa, o transportador
deverá vendê-la, depositando o saldo em juízo.

O destinatário sempre deve ser indicado no conhecimento. Diversos fatos


podem ocorrer que impeçam a clara e imediata identificação do destinatário, tais
como a morte dele, o encerramento da pessoa jurídica, homonímia… Havendo
dúvida quanto ao destinatário, deve o transportador esclarecê-las junto ao
expedidor, e não lhe sendo possível, deve depositar a mercadoria em juízo. Se
houver risco de deterioração, deve vender a mercadoria e depositar o preço em
juízo, em favor do expedidor.

Por fim, em caso do transporte cumulativo de coisa, a responsabilidade dos


transportadores é solidaria, a não ser que se apure em que trecho ocorreu o dano,
conforme determina o artigo 756.
Como pode-se observar na doutrina pátria tem-se o seguinte quadro
esquemático de direitos e obrigações das partes envolvidas no contrato de
transporte de mercadorias:
1. obrigações do remetente: entrega da mercadoria em condições de envio;
pagamento do preço convencionado, ressalvada a hipótese de este ser adimplido
pelo destinatário; acondicionamento da mercadoria; declaração do seu valor e da
sua natureza; recolhimento tributário pertinente; respeito às normas legais em vigor
no sentido de somente expedir mercadorias de trânsito admitido no Brasil;
2. obrigações do transportador: receber a coisa a ser transportada no dia,
hora, local e modo convencionados; empregar total diligência no transporte da
mercadoria posta sob a sua custódia; seguir o itinerário ajustado, ressalvadas as
hipóteses de caso fortuito e força maior; entregar a mercadoria ao destinatário da
mesma, mediante apresentação do respectivo documento comprobatório de sua
qualidade de recebedor (conhecimento de transporte); respeito às normas legais em
vigor no sentido de somente expedir mercadorias de trânsito admitido no Brasil.
REFERÊNCIAS

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em homenagem ao Professor Miguel Reale. São Paulo: RT, 2005.

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VENOSA, Sílvio de Salvo.. Direito civil. 3. ed. São Paulo: Atlas, 2017. v. 3.

DONIZETTI, Elpidío; QUINTELLA, Felipe. Curso Didático e Direito Civil – 6ª ed.


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