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Fisioterapia e Pesquisa, São Paulo, v.16, n.4, p.323-8, out./dez.

2009 ISSN 1809-2950

Comparação do equilíbrio corporal de mulheres a partir da meia-idade


obesas e não-obesas
Body balance comparison between obese and non-obese women from middle-age on
Cristina Oliveira Francisco1, Vanessa Takakura Okada1, Natalia Aquaroni Ricci2,
Benedito Galvão Benze3, José Rubens Rebelatto4, Ana Cláudia Garcia de Oliveira Duarte5

Estudo desenvolvido no Depto. RESUMO: Este é um estudo comparativo do efeito da obesidade no equilíbrio estático
de Fisioterapia da UFSCar – e dinâmico de mulheres a partir da meia-idade. A amostra foi composta por mulheres
Universidade Federal de São acima de 50 anos (n=80), distribuídas segundo o índice de massa corporal em
Carlos, São Carlos, SP, Brasil grupo não-obeso (n=45) e obeso (n=35), com médias de idade equivalentes. Foram
1 avaliadas quanto à gordura corporal por bioimpedância e quanto ao equilíbrio
Fisioterapeutas pelos testes de apoio unipodal (TAU) e de velocidade máxima de andar (VMA). Os
2
Fisioterapeuta Ms.; Profa. dados foram tratados estatisticamente. No TAU em ambos os membros inferiores o
substituta do Depto. de grupo não-obeso permaneceu por mais tempo na posição – 25,6 segundos (s) no
Fisioterapia da UFSCar membro direito e 24,9 s no esquerdo – do que o grupo obeso (19,0 s no direito e
17,5 s no esquerdo, p<0,01). No VMA o grupo obeso apresentou marcha mais
3
Matemático; Prof. Dr. do lenta e velocidade média menor quando comparado ao grupo não obeso (p<0,027).
Depto. de Estatística da No grupo não-obeso, verificaram-se correlações moderadas entre a gordura corporal
UFSCar e o equilíbrio estático e dinâmico; no grupo obeso não foram encontradas
4
correlações entre a a gordura corporal e a maioria das variáveis de equilíbrio. Os
Prof. Dr. do Depto. de resultados evidenciam que a obesidade contribui para o pior desempenho no
Fisioterapia da UFSCar equilíbrio de mulheres de meia-idade e idosas.
5
Profa. Dra. do Depto. de DESCRITORES: Equilíbrio postural; Envelhecimento; Mulheres; Obesidade
Educação Física da UFSCar
ABSTRACT: This is a comparative study on the effect of obesity on static and dynamic
ENDEREÇO PARA balance in middle-aged and elderly women. The sample was composed by 80
CORRESPONDÊNCIA women over 50 years old, distributed according to the body mass index into a non-
obese group (n=45) and an obese group (n=35), with similar mean age. Participants
Cristina O. Francisco were assessed as to body fat by bioimpedance and submitted to the one leg stance
R. Iwagiro Toyama 191 apto 2 (OLS) and maximum walking speed (MWS) tests. Data were statistically analysed.
Jd. Paulistano At the OLS on both feet the non-obese group remained longer in position – 25.6
13564-380 São Carlos SP seconds (s) on the right limb and 24,9 s on the left one – than the obese group (19.0
e-mail: cristinaft05@gmail.com
s on the right, 17.5 s on the left limb, p<0.01). At he MWS test the obese group
showed slower walking and lower mean speed than the non-obese group (p<0,027).
Within non-obese group results, moderate correlations were found between body
APRESENTAÇÃO fat and static and dynamic balance; in the obese group practically no corresponding
maio 2009 correlations were found. Results show that obesity contributes to worse balance
ACEITO PARA PUBLICAÇÃO performance in middle-age and elderly women.
out. 2009 KEY WORDS: Aging; Obesity; Postural balance; Women

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INTRODUÇÃO região abdominal, afetam negativamente
a manutenção do equilíbrio11,12. Estudos
culo do IMC utilizou-se a fórmula Peso
(kg)/Estatura (m²)21. O peso e altura foram
A obesidade pode ser considerada, mostram associação entre maior índice medidos em balança antropométrica
atualmente, um dos maiores problemas de massa corporal (IMC) e baixo com estadiômetro (Filizola). Foram ado-
de saúde pública em todo o mundo. Isso desempenho em testes de equilíbrio12,13. tados os pontos de corte recomendados
se deve ao fato de o excesso de peso e Crianças obesas apresentaram maior pela OMS3 para a população adulta e
gordura corporal estarem associados ao comprometimento do equilíbrio, com idosa: baixo peso (IMC<18,5 kg/m²);
maior risco de desenvolver doenças maior dependência visual para manu- adequado (18,5 kg/m²=IMC<25,0 kg/m²);
como diabetes tipo II, hipertensão arterial, tenção da estabilidade postural do que sobrepeso (25,0 kg/m² =IMC<30,0 kg/
arterosclerose, sobrecarga articular, crianças de peso normal14,15. Outros es- m²), obesidade (30,0 kg/m²=IMC<40,0
aumento do colesterol e triglicérides1. tudos revelaram risco elevado de quedas kg/m²); e obesidade mórbida (IMC≥40,0
Além disso, ao modificar a composição entre adultos obesos devido à estabi- kg/m²). A divisão dos grupos foi feita pelo
estrutural do corpo, a obesidade altera lidade corporal inadequada11,16-18. corte do IMC21: não-obesas, entre 18,5
a capacidade funcional do indivíduo, kg/m² e 25 kg/m²; e obesas, IMC entre
Quedas e desequilíbrios foram as-
gerando declínio físico, dificuldade na 30 kg/m² e 40 kg/m².
sociados à redução da qualidade de vida
marcha e redução da independência2. em adultos obesos16. Essas alterações de- Os critérios de inclusão no estudo
A Organização Mundial da Saúde correntes da obesidade podem ser foram: idade igual e superior a 50 anos,
(OMS) define obesidade como uma prevenidas e tratadas em centros de rea- sexo feminino e aptidão física para
acumulação de gordura anormal ou bilitação. Contudo, torna-se necessário participar do programa de revitalização.
excessiva que ocasiona prejuízos à elucidá-las a fim de melhor direcionar a Foram excluídas as participantes que
saúde3. A prevalência da obesidade é intervenção à população obesa. O obje- apresentavam doenças que impedissem
semelhante entre os sexos e o pico de tivo deste estudo foi comparar o equi- a execução dos testes de equilíbrio, que
ocorrência está na faixa entre os 45 e líbrio estático e dinâmico de mulheres usassem marca-passo ou próteses
64 anos4. Entre os idosos, a obesidade obesas e não-obesas com idade igual ou metálicas, bem como aquelas com IMC
está associada à inabilidade física e superior a 50 anos, a fim de verificar o indicativo de baixo peso, sobrepeso ou
incapacidade, sendo mais prevalente nas impacto da obesidade no sistema de obesidade mórbida, sendo finalmente
mulheres 2,4 . As doenças crônicas controle postural. selecionadas 80 mulheres.
tornam-se mais freqüentes com o avan- Para complementar o estudo nutricio-
çar da idade e, nesse caso, a obesidade
pode ser fator potencializador para METODOLOGIA nal foi medida a bioimpedância manual
utilizando aparelho eletrônico portátil
complicações clínicas4. Entre as modifi- (Fitness Monitor). Esta é uma alternativa
Este é um estudo analítico comparati-
cações ocasionadas tanto pelo envelheci- para o cálculo da estimativa de gordura
vo sobre o efeito da obesidade no equi-
mento como pela obesidade destaca-se a corporal, sendo uma técnica segura,
líbrio de mulheres a partir da meia-idade.
deterioração do sistema de controle pos- simples, rápida, de alta reprodutibilida-
Foi conduzido de acordo com os pa-
tural. O declínio no equilíbrio e marcha de, aplicável à prática clínica e a estudos
drões éticos exigidos e aprovado pelo
está associado às altas taxas de quedas de campo22-24. Inicialmente o aparelho
Comitê de Ética em Pesquisa da UFSCar
entre os idosos, sendo esta uma das deve ser calibrado com o registro da altu-
– Universidade Federal de São Carlos,
causas principais de morbidade e mor- ra, peso e idade (limite máximo de 80
tendo as participantes assinado o devido
talidade nessa população2,5,6. anos) da participante. Com a participan-
termo de consentimento.
O sistema de controle postural envol- te em bipedestação segurando o apare-
Foi selecionada amostra de con- lho com os braços estendidos na altura
ve a recepção e integração de estímulos veniência dentre 176 mulheres parti-
sensoriais, o planejamento e a execução dos ombros, é feito o cálculo da bioim-
cipantes do Programa de Revitalização
de movimentos para controlar o centro pedância, por meio de corrente elétrica,
de Adultos, mantido pela UFSCar em
de gravidade sobre a base de suporte7,8,9. que estima a quantidade de gordura
parceria com a Prefeitura Municipal de
A obesidade ocasiona desvantagens corporal em quilos e em porcentagem.
São Carlos, que busca implementar a
mecânicas como o aumento da massa Por se tratar de uma corrente elétrica,
assistência ao idoso por meio da manu-
corporal, alterando os momentos de no momento da avaliação, não era per-
tenção da capacidade física e sociabili-
inércia e modificando a expressão do mitido o uso de objetos metálicos pela
zação.
movimento. Esses fatores impõem uma participante.
Para comparar os efeitos da obesidade
nova situação ao sistema nervoso cen- Para a coleta de dados, as voluntárias
no equilíbrio foram formados grupos
tral, gerando maior dificuldade nas ati- foram primeiramente contatadas por
conforme o estado nutricional, avaliado
vidades locomotoras10. telefone para o agendamento da avalia-
pelo IMC. Este é um dos indicadores
ção. Todos os testes foram realizados no
Indivíduos obesos apresentam altera- antropométricos mais utilizados na
mesmo dia, em aproximadamente uma
ções metabólicas que levam à redução identificação de indivíduos em risco nu-
hora de avaliação.
relativa de força e ao prejuízo da função tricional devido a sua facilidade de
neuromuscular. Esses fatores, associados aplicação, baixo custo e confiabilidade Para a avaliação do equilíbrio estático
à maior concentração de massa na intra e interavaliadores19,20. Para o cál- foi aplicado o teste de apoio unipodal

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Francisco et al. Equilíbrio corporal e obesidade

(TAU)25 e, para o equilíbrio dinâmico, o Tabela 1 Idade, índice de massa corporal (IMC), gordura corporal (estimada por
teste de velocidade máxima de andar bioimpedância), resultados obtidos nos testes de equilíbrio estático (TAU)
(VMA)26. Ambos foram efetuados com a e dinâmico (marcha) e valor de p da comparação entre os grupos de
presença de avaliadores treinados voluntárias não-obesas (n=45) e obesas (n=35)
próximos às participantes, para evitar
Grupo Mediana Média dp Mínimo Máximo p
quedas e garantir sua segurança.
Não-obesas 62,00 63,91 8,38 50,00 88.00
Para o TAU, a participante deveria Idade (anos) 0,648
Obesas 61,00 62,91 7,30 50,00 79.00
posicionar-se em pé, descalça, com uma
das pernas elevadas (joelho flexionado), 2 Não-obesas 23,54 23,12 1,39 19,86 25,04
IMC (kg/m ) <0,01
com as mãos na cintura e olhar fixo em Obesas 32,93 33,71 2,89 30,12 39,93
um ponto a dois metros de distância na Bioimpe- Não-obesas 33,7 34,16 4,93 20,1 46
<0,01
altura dos olhos. Foi cronometrado o dância (%) Obesas 42,5 43,04 2,71 37,1 47,8
tempo que a participante se mantinha Não-obesas 19 19,02 2,92 11,9 23,8
Bioimpe-
nessa posição, com limite máximo de <0,01
dância (kg) Obesas 33,6 35,05 5,49 26,6 44,4
30 segundos. Para familiarização com o
teste foram permitidas tentativas iniciais Não-obesas 30,00 25,58 7,78 2,00 30,00
TAU D (s) <0,01
até a participante manter-se na posição. Obesas 21,00 19,00 10,14 2,00 30,00
Foram executadas três tentativas para Não-obesas 30,00 24,91 8,46 2,00 30,00
TAU E (s) <0,01
cada membro inferior, alternando-se os Obesas 17,00 17,54 9,23 2,00 30,00
lados e calculando a média dos tempos Não-obesas 1,90 1,98 0,40 1,44 3,87
em segundos25. Marcha (s) 0,027
Obesas 2,05 2,08 0,32 1,64 3,35
No VMA foi cronometrado o tempo TAU = tempo de apoio unipodal; D = direito; E = esquerdo; Marcha = tempo gasto para
que a participante percorreu andando percorrer 3,33m no teste de velocidade máxima de andar
descalça, com a maior velocidade possí-
vel, porém sem correr, ao longo de um foi, como esperado, significante (p<0,01 O Gráfico 2 mostra que o grupo não-
corredor de 3,33 metros de comprimen- – Tabela 1). Em ambos os grupos foi obeso foi mais rápido no teste VMA em
to por 33,3 centímetros de largura. O encontrada alta correlação entre a relação ao grupo obeso, com diferença
teste foi desconsiderado quando a variável IMC e a bioimpedância em % e significativa (p=0,027). O grupo não-
participante pisava fora do corredor em kg (respectivamente r=0,78; p<0,01 obeso completou o percurso com velo-
demarcado. Foram realizadas três e r=0,92; p<0,01). cidade média de 2,31 m/s e o grupo
tentativas e calculada a média em segun- obeso, com 2,03 m/s.
No grupo obeso, foram capazes de
dos e centésimos de segundo26. atingir o tempo máximo de 30 segundos Quando os valores de bioimpedância
Na análise estatística foram utilizados 22,9% das participantes no TAU direito foram testados com as variáveis de
o coeficiente de correlação de Spearman e 17,1% no esquerdo. No grupo não- equilíbrio do grupo não-obeso, foram
e o teste não-paramétrico de Mann- obeso, 57,8% e 55,6% das participantes encontradas correlações moderadas
Whitney, adotando-se nível de significância atingiram esse tempo no TAU direito e tanto com a medida em % (r=0,69 com
fixado em 5% (α=0,05). As correlações esquerdo, respectivamente. Como mostra TAU direito, r=0,62 com TAU esquerdo,
foram consideradas fortes quando r≥0,70, o Gráfico 1, o grupo não-obeso apre- r=0,60 com VMA, p<0,01 em todas),
moderadas se 0,70<r>0,30 e fracas sentou melhor desempenho no TAU em quanto em kg (r=0,47 com TAU direito,
quando r≤0,30. A análise foi feita com relação ao grupo obeso, com diferença r=0,41 com TAU esquerdo, p<0,01 em
auxílio do programa SPSS (v.10.0 for estatística significativa (p<0,01). ambas, e com VMA, r=0,31 p<0,05). Nos
Windows). 3,0
35
2,8
RESULTADOS 30
Segundos

2,5
Segundos

25
2,3
A amostra foi constituída por 80 20
15 2,0
mulheres distribuídas em grupo não-
obeso (n=45) e grupo obeso (n=35). A 10 1,8
média de idade no grupo não-obeso foi 5 TAU-D 1,5
TAU-E
64 anos, enquanto no grupo obeso foi 0 1,3
63 anos; não foi verificada diferença na Obeso Não-obeso Obeso Não-obeso
média de idade dos grupos (Tabela 1). Gráfico 1 Tempo (s) médio de apoio no Gráfico 2 Tempo (s) médio gasto para
Como os grupos foram formados segun- teste de apoio unipodal percorrer 3,33 m no teste de
do o valor de IMC das participantes (não direito (TAU-D) e esquerdo velocidade máxima de andar
obeso, <25 kg/m² e obeso, =30,0 kg/m²) (TAU-E) dos grupos obeso dos grupos obeso (n=35) e
a diferença entre ambos quanto ao IMC (n=35) e não-obeso (n=45) não-obeso (n=45)

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valores obtidos pelo grupo obeso, foi grupo obeso neste estudo (2,03 m/s). A não ter tomado diuréticos nos últimos 7
encontrada correlação moderada entre velocidade da marcha no grupo não- dias – e, também, recomenda-se não
o VMA e a bioimpedância em % (r=0,48; obeso está superior ao esperado para a avaliar mulheres com retenção hídrica
p<0,01), mas não em kg (r=0,07; idade avaliada, visto que a idade mínima devido ao ciclo menstrual. Não foi
p>0,05); e não foi verificada correlação da amostra foi 50 anos, enquanto o possível observar esses cuidados ao
entre as medidas de equilíbrio estático grupo obeso apresentou velocidades testar a amostra. Além disso, a maioria
e a bioimpedância em % (p>0,05) nem semelhantes ao esperado para a idade das equações preditivas de gordura em
em kg. avaliada. Obesos possuem aumento da idosos não apresentam validação cruza-
base de apoio durante a marcha para da, limitando sua aplicabilidade. Segun-
compensar a mudança do centro de do Gurgel37, a bioimpedância manual
DISCUSSÃO gravidade 31. Os resultados do VMA apresenta uma tendência de aumento
podem ter sido influenciados pela limi- nos valores médios com o avançar da
A obesidade é um fator associado ao tação da base exigida pelo teste (uma idade. Outros estudos concluem que as
risco de quedas em idosos, tendo im- faixa de pouco mais de 30 cm de largura). fórmulas apresentadas para o cálculo da
pacto negativo no equilíbrio e oscilação porcentagem de gordura subestimam a
postural, além de aumentar o risco de Os resultados deste estudo concor-
massa gorda, já que foram desenvolvidas
limitações funcionais 27 . Nos obesos dam com os de Ferrucci et al.12, Barbosa
para utilização em população jovem38 e
observa-se uma alteração do centro de et al.13 e Rebelatto et al.18, que observa-
uma das alterações decorrentes do pro-
gravidade28 que, associada a uma pro- ram associação entre equilíbrio e IMC em
cesso de envelhecimento é a substitui-
vável redução da força muscular decor- idosos. Com o avanço da idade, ocorre
ção da massa magra por tecido adipo-
rente do envelhecimento, ocasiona redução da força muscular, especial-
so38. Os pontos de corte de percentual
maior dificuldade na manutenção do mente dos membros inferiores32. O pro-
de gordura para mulheres de 56 a 65
equilíbrio tanto estático quanto dinâmi- cesso de envelhecimento acarreta natu-
anos são: excelente (18 a 22%), bom (24
co. Esses dados corroboram os resultados ralmente uma redução na força, que
a 26%), acima da média (27 a 29%),
encontrados em ambos os testes de pode ser acentuada com a obesidade.
média (30 a 32%), abaixo da média (33
equilíbrio aplicados neste estudo. Obesos apresentam alterações metabó-
a 35%), ruim (36 a 38%) e muito ruim (39
licas que reduzem sua capacidade de
O presente estudo verificou que no a 49%)39. Considerando esses pontos de
hipertrofia muscular16. Alterações da
teste de equilíbrio estático (TAU) o de- corte, observa-se que o grupo não-obeso
força limitam diretamente a manutenção
sempenho do grupo não-obeso foi apresentava percentagem de gordura
do equilíbrio, pois o sistema osteomus-
superior ao do grupo obeso. Goulding corporal abaixo da média (34,16%) e o
cular é o componente efetor do sistema
et al.29 compararam o equilíbrio de jo- grupo obeso, na faixa muito ruim
de controle postural33.
vens obesos e não-obesos, não encon- (43,04%).
trando diferenças no equilíbrio com base Teasdale et al.34 observaram que a per-
Foi verificada correlação moderada
de sustentação bipodal; contudo, no da de peso em homens obesos ocasionou
entre as variáveis de equilíbrio e a bioim-
equilíbrio unipodal houve alteração melhora do controle postural. Os obesos
pedância no grupo não-obeso, mas não
significativa pela redução da base de apresentam aumento na demanda de
no grupo obeso. Em mulheres obesas a
suporte. A quantidade de gordura cor- esforço motor e maior dificuldade de
regular o equilíbrio sobre perturbações manutenção do equilíbrio postural é
poral e a maior dimensão corporal po-
externas34,35 . Além disso, a pelve da mais difícil, principalmente durante a
dem ser fatores que dificultam o posicio-
namento das pernas e a manutenção do mulher é mais larga e em obesas há marcha, muito embora a base de apoio
equilíbrio no TAU13. Greve et al.28 obser- maior quantidade de massa corporal e seja proporcional à morfologia estrutural
varam correlação entre altos valores de de gordura localizada nessa região, de cada sujeito. Provavelmente a massa
IMC e instabilidade postural em suporte influenciando diretamente a postura corporal elevada com base de apoio
unipodal. corporal31. estreita causam uma desvantagem me-
cânica maior do que a quantidade total
Quanto ao teste de equilíbrio dinâmi- Estudos demonstram que em idosos de gordura na composição corporal.
co, o grupo obeso apresentou maior há correlação positiva entre as variáveis
dificuldade na manutenção do equi- IMC e gordura corporal estimada por Indivíduos obesos são freqüentemen-
líbrio, indicado pelos maiores valores de bioimpedância4,36. Esses dados estão de te sedentários, havendo correlação
tempo de percurso e menor velocidade acordo com os resultados deste estudo. inversa entre IMC e nível de atividade
quando comparado ao grupo não-obeso. No entanto, uma limitação deste estudo física 16. As limitações deste estudo
A média da velocidade de mulheres com é que, no teste de bioimpedância, foram incluem a falta de controle de fatores
aproximadamente 30 anos é de 2,3 m/s30, desconsiderados fatores importantes como nível de atividade física, quantida-
velocidade que no presente estudo foi para sua realização de forma replicável, de de quedas e força muscular, tendo
semelhante à encontrada no grupo não- como não ter ingerido ou bebido nas em vista a influência destes na avaliação
obeso; já para as idades entre 60 e 70 últimas 4 horas, não ter feito exercício do equilíbrio corporal. São necessários
anos, Hausdorff & Alexander30 observa- físico nas últimas 12 horas, ter urinado outros estudos para elucidar quais com-
ram que a média declina para 1,7 m/s, 30 minutos antes do teste; não ter ponentes do sistema de controle postural
velocidade inferior à encontrada no consumido álcool nas últimas 48 horas, são afetados pela obesidade.

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CONCLUSÃO que, embora o envelhecimento acarrete


degeneração dos sistemas de controle
ção. A identificação da obesidade por
meio do IMC é um método fácil e rápido,
Os resultados deste estudo evi- postural, a obesidade é um fator agra-
que pode fazer parte da rotina de avalia-
denciam que obesas a partir da meia- vante. Apesar das limitações, este estudo
idade apresentam maior deficit de guarda importância de natureza clínica, ção da fisioterapia para que o enfoque
equilíbrio estático e dinâmico quando já que pacientes obesos são cada vez terapêutico leve em consideração os ris-
comparadas às não obesas, sugerindo mais comuns nos centros de reabilita- cos que essa condição acarreta.

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