Você está na página 1de 72

Nº 542 | Ano XIX | 30/9/2019

Vilém Flusser
Humanismos para a
sociedade das imagens
Anderson Pedroso
Gabriela Reinaldo
Rodrigo Petronio
Erick Felinto
Gustavo Fischer

Leia também
■ Castor Bartolomé Ruiz
■ Márcia Junges
■ Ésio Salvetti
■ João Ladeira
EDITORIAL

Vilém Flusser. A possibilidade


de novos humanismos

N
ascido em Praga, em 1920, na Repú- Erick Felinto de Oliveira, professor adjun-
blica Tcheca, Vilém Flusser viveu to na Universidade do Estado do Rio de Janeiro
no Brasil após fugir dos horrores da - UERJ, pensa a possibilidade de constituição
Segunda Guerra Mundial. Autodidata, seus es- de novos humanismos para um mundo cada vez
tudos iniciais voltavam-se a questões em torno mais complexo e múltiplo. “Não existe como vol-
do existencialismo e da fenomenologia e depois tar atrás e abdicar das transformações radicais
foram migrando para os temas da filosofia da que o desenvolvimento tecnológico ocasionou.
comunicação e daquilo que ele próprio chama- Entretanto, podemos tentar habitar ao mesmo
ria de Comunicologia. tempo diversos mundos possíveis”, pontua.
A presente edição da revista IHU On-Li- Gustavo Fischer, professor do Programa de
ne retoma o debate do pensamento de Flusser Pós-Graduação em Comunicação da Unisinos,
que vislumbrava, décadas antes do advento de analisa como as imagens técnicas produzem
inúmeros dispositivos eletrônicos presentes na novas formas de pensar e se relacionar com o
vida contemporânea, como as sociedades tecno- mundo. “O advento deste tipo de imagem indi-
científicas exigiriam novos modos de compre- caria duas tendências diferentes: uma seria de
ender, existir e viver em um mundo prenhe de nos encaminharmos a uma sociedade totalitá-
possibilidades. ria, ‘dos receptores das imagens e dos funcio-
2 Anderson Pedroso, doutorando em Histó- nários das imagens’ (Flusser, 2008) e a outra
ria da Arte na Universidade Sorbonne - Paris 4, indicaria uma ‘sociedade telemática dialogante’
aborda como as transformações tecnológicas, dos criadores e colecionadores das imagens”,
da manufatura às máquinas, impactam as for- ressalta.
mas de pensamento humano e de como o hu- Pode ser lido também o Dossiê Agamben,
mano é pensado. “Flusser apontou para o fato com entrevistas com Castor Bartolomé Ruiz,
de que existe uma relação ontológica entre a professor nos cursos de graduação e pós-gradu-
imagem técnica e a forma de pensar. Pensamos ação em Filosofia da Unisinos; Márcia Jun-
como vemos. Assim, o pensamento não se reali- ges, doutora em Filosofia Política pela Unisinos
za mais de forma linear, movido pela categoria e pela Universitá degli Studi di Padova - UNI-
de progresso. O pensamento se torna circular, PD; e Ésio Salvetti, doutor em Filosofia pela
cênico, ainda em forma de constelação”, aponta. Universidade Federal de Santa Maria - UFSM.
Gabriela Reinaldo, professora do Insti- João Ladeira escreve sobre o filme Legalida-
tuto de Cultura e Arte - ICA, da Universidade de, de Zeca Brito na coluna de crítica de cinema.
Federal do Ceará - UFC, traz elementos de um
A todas e a todos uma boa leitura e uma exce-
certo perspectivismo na teoria flusseriana para
lente semana!
pensarmos a vida em um mundo cada vez mais
imerso nas imagens técnicas. “A distinção onto-
lógica proposta não deveria mais ser entre natu-
reza e cultura, mas entre experiências determi-
nantes e experiências libertadoras”, frisa.
Rodrigo Petronio, professor titular da
Faculdade de Comunicação da Fundação Ar-
mando Álvares Penteado - FAAP, observa
como, a partir de uma leitura fenomenológica
própria, o autor vai constituir uma teoria dos
media em perspectiva existencial. Petronio
argumenta que Flusser consegue “criar uma
ontologia dos meios, das relações e das me- Crédito da foto de
diações que transcende o estatuto conscien- Capa: Rerprodução
ciológico da fenomenologia”. You Tube

30 DE SETEMBRO | 2019
REVISTA IHU ON-LINE

Sumário
4 ■ Temas em destaque
6 ■ Agenda
8 ■ Dossiê Agamben | Castor Bartolomé Ruiz: Implicações políticas das categorias teológicas.
A sacralidade e o sacrifício
16 ■ Dossiê Agamben | Márcia Junges: O sopro de ar gélido de Nietzsche e Agamben que faz
acordar para a resistência em nosso tempo
23 ■ Dossiê Agamben | Ésio Francisco Salvetti: O totalitarismo democrático percebido por Agamben
32 ■ Tema de capa | Vilém Flusser
34 ■ Tema de capa | Rodrigo Petronio: As Obras Completas de Vilém Flusser
36 ■ Tema de capa | Anderson Antonio Pedroso: A tecnologia, as evoluções no pensamento
e a emergência de uma outra filosofia
50 ■ Tema de capa | Gabriela Reinaldo: Conhecer, desnaturalizar, reinventar
53 ■ Tema de capa | Rodrigo Petronio: Um existencialismo mediado
60 ■ Tema de capa | Erick Felinto de Oliveira: Os alienígenas de nós mesmos
64 ■ Tema de capa | Gustavo Daudt Fischer: As imagens de um novo existencialismo
67 ■ Cinema | João Ladeira: A névoa da guerra
70 ■ Publicações | Fábio Konder Comparato: Para arejar a cúpula do judiciário
71 ■ Outras edições
3

Diretor de Redação Patrícia Fachin, Cristina Guerini,


Inácio Neutzling Evlyn Zilch, Stefany de Jesus Rocha,
(inacio@unisinos.br) Wagner Fernandes de Azevedo, Aman-
da Bier e Fred Wichrowski.
Coordenador de Comunicação - IHU
Ricardo Machado – MTB 15.598/RS
(ricardom@unisinos.br)
Redação
João Vitor Santos – MTB 13.051/RS
(joaovs@unisinos.br)
ISSN 1981-8769 (impresso)
Patricia Fachin – MTB 13.062/RS
ISSN 1981-8793 (on-line) (prfachin@unisinos.br)
Wagner Fernandes de Azevedo
(wfazevedo@unisinos.br)
A IHU On-Line é a revista do Institu-
to Humanitas Unisinos - IHU. Esta Revisão Instituto Humanitas Unisinos - IHU
publicação pode ser acessada às segun- Carla Bigliardi
das-feiras no sítio www.ihu.unisinos.br e Av. Unisinos, 950 | São Leopoldo / RS
no endereço www.ihuonline.unisinos.br. Projeto Gráfico CEP: 93022-000
Ricardo Machado Telefone: 51 3591 1122 | Ramal 4128
e-mail: humanitas@unisinos.br
Editoração
A versão impressa circula às terças-fei- Gustavo Guedes Weber
ras, a partir das 8 horas, na Unisinos. O Diretor: Inácio Neutzling
conteúdo da IHU On-Line é copyleft. Atualização diária do sítio Gerente Administrativo: Nestor Pilz
Inácio Neutzling, César Sanson, (nestor@unisinos.br)

EDIÇÃO 542
TEMAS EM DESTAQUE

Entrevistas completas em www.ihu.unisinos.br/maisnoticias/noticias


Confira algumas entrevistas publicadas no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU na última semana.

Bolsonaro é o presidente que adere, sobe no


altar e dá vazão a pautas de evangélicos
“Bolsonaro foi muito bem instruído no discurso que alimentou a pauta de
costumes de sua campanha, afetando fortemente o imaginário evangélico
conservador calcado na proteção da família tradicional, na heteronorma-
tividade e no controle dos corpos das mulheres”.
Magali do Nascimento Cunha, doutora em Ciências da Comunicação pela USP, mestra em Memó-
ria Social pela UNIRIO. Disponível em http://bit.ly/2mb0Mzx

O percurso do Partido dos Trabalhadores à


luz da antropologia de Simone Weil
“Simone Weil fez duras críticas à experiência política com base em parti-
dos, seja ela na forma comunista do partido único ou na forma da demo-
cracia liberal com a existência de vários partidos”.
Alexandre Andrade Martins, graduado em Teologia pelo Centro Universitário Salesiano de São
Paulo e pela Pontificia Studiorum Universitas Salesiana de Roma, mestre em Ciências da Religião
pela PUC-SP. Disponível http://bit.ly/2mk03vO

4 A seguridade social como via para


concretizar os direitos fundamentais
“Faz-se necessário que o tratamento jurídico desigual, aplicável aos de-
siguais, tenha como norte a redução das desigualdades fáticas (sociais e
econômicas)”.
Marciano Buffon, doutor em Direito com ênfase em Direito do Estado pela Universidade do Vale do
Rio dos Sinos - Unisinos e mestre em Direito Público

A desindustrialização brasileira e a
desigualdade social
“O Brasil passa pela mais grave crise desde a década de 1880, quando o
capitalismo se tornou o modo de produção dominante”.
Márcio Pochmann, graduado em Economia pela UFRGS e doutor em Ciência Econômica pela
Unicamp. Atualmente é professor titular no Instituto de Economia da Universidade Estadual de
Campinas – Unicamp. Disponível http://bit.ly/2mlZb9T.

Apoio evangélico a Bolsonaro é marcado por


uma grande volatilidade
“Em um quesito muito específico a base religiosa foi importante: na agen-
da de defesa de um padrão de família. Isso tomou a atenção dos cristãos
no Brasil”.
Christina Vital da Cunha, professora do Programa de Pós-graduação em Cultura e Territorialidades
da Universidade Federal Fluminense e do Departamento de Sociologia da mesma universidade.
Disponível em http://bit.ly/2lI7jBq.

30 DE SETEMBRO | 2019
REVISTA IHU ON-LINE

Textos na íntegra em www.ihu.unisinos.br/maisnoticias/noticias


Confira algumas notícias públicas recentemente no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU

As lágrimas por Ágatha Solidariedade aos A ideologia do mercado


no Complexo do Alemão, povos indígenas do Brasil é fanatismo. Entrevista
onde crianças se diante dos ataques do com Thomas Piketty
habituaram a fugir de tiros presidente da República.

Centenas de pessoas se reu- Durante lançamento do Superar o capitalismo, des-


niram neste domingo chuvo- Relatório de Violências do sacralizar a propriedade
so no Complexo de favelas do Cimi, dom Roque Paloschi privada, reinventar um so-
Alemão, na zona norte do Rio se pronunciou em repúdio cialismo participativo. Tho-
de Janeiro, para exigir Justi- ao discurso de Bolsonaro na mas Piketty está de volta, e
ça por Ágatha Félix, uma me- ONU. Disponível em http:// os ricos tremem. Depois de
nina de oito anos assassinada bit.ly/2lIhy8Q. “O capital do século XXI”,
na noite da última sexta-feira lançado em 2013, o econo-
por um tiro de fuzil nas costas mista francês continua o
durante uma ação da Polícia estudo da história das desi-
Militar (PM). Ela foi atingida gualdades, com um novo e
quando estava dentro de uma volumoso ensaio (1.200 pá-
Kombi, ao lado da mãe. A po- ginas) que já provocou vio-
lícia afirma que a tragédia lentas polêmicas na França.
ocorreu em uma troca de tiros Disponível em http://bit.
com bandidos, o que testemu- ly/2lJwpzW.
nhas negam. Disponível em 5
http://bit.ly/2nSvFsV.

Diálogos do Papa “Não devia estar aqui, Rio de Janeiro.


Francisco com os mas na escola”, diz Greta A guerra contra os
jesuítas de Moçambique Thunberg aos dirigentes pobres: militarização e
e Madagascar mundiais na ONU violência estatal

Na quinta-feira, 5 de se- A jovem militante sueca Em um estudo comparativo


tembro, durante sua via- pediu satisfações aos líde- entre a realidade das favelas
gem a Moçambique, o Papa res mundiais na abertura do do Rio e os territórios pales-
Francisco se encontrou em Encontro de Ação Climática, tinos ocupados, a pesquisa-
particular com um grupo de organizado pelo secretário dora Gizele Martins refle-
vinte e quatro jesuítas, vinte das Nações Unidas, Antó- te: “O que os moradores do
dos quais eram de Moçambi- nio Guterres, denunciando a conjunto de favelas da Maré
que, três do Zimbábue e um “falta de ação” dos dirigen- viveram durante a Copa
de Portugal. Entre eles, esta- tes. Disponível em http://bit. do Mundo de Futebol não é
va o provincial Padre Chie- ly/2m8sWet. muito diferente do que vivem
dza Chimhanda. A reunião os palestinos. A militariza-
aconteceu na nunciatura, ção da vida é algo constante
por volta das 18h15, após o e assustador. Disponível em
Papa retornar de seus com- http://bit.ly/2mkOrZu.
promissos do dia. Disponível
em http://bit.ly/2mkkdG1.

EDIÇÃO 542
AGENDA

Programação completa em ihu.unisinos.br/eventos

EcoFeira Unisinos EcoFeira Unisinos – II Ciclo


Cine-Vídeo Cinedebates IHU

Exibição e debate do filme Farenheit


451 (Direção: François Truffaut.
Reino Unido, 1966)

02/Out. 02/Out 02/Out


Horário Horário Horário
das 9h às 18h 13h às 14h 16h às 19h30min
Local Cine-vídeo: Projeto PANCs Debatedora
Corredor central do – plantas alimentícias não Profa. Dra. Nísia Martins
Campus São Leopoldo da convencionais, Valdely do Rosário – UFRGS
Unisinos, em frente ao IHU Kinupp, Coletivo Catarse
Local
Local Sala Ignacio Ellacuría e
Corredor central em frente Companheiros – IHU
ao Instituto Humanitas Campus Unisinos
Unisinos – IHU| Campus São Leopoldo
Unisinos São Leopoldo

6
Oficinas Observasinos IHU ideias II Ciclo de Palestras
Ontologias Anarquistas

Atividade: Palestra: Direito à cidade, Palestra: Literatura negra: crítica


Oficina das bases de dados colonialidade e território. A disputa às poéticas hegemônicas
do DataSUS pelo Cais Mauá em Porto Alegre

03/Out. 03/Out. 07/Out.


Horário Horário Horário
14h30min às 17h 17h30min às 19h 19h30min às 22h
Mediadora Conferencista Conferencista
Profa. Dra. Veralice Maria Dra. Karina Macedo Ronald Augusto – Poeta e
Gonçalves – Escola de Fernandes – TJ-RS escritor de Porto Alegre
Saúde Pública do RS
Local Local
Local Sala Ignacio Ellacuría e Sala Ignacio Ellacuría e
Sala de Informática Torre Companheiros – IHU Companheiros – IHU
Educacional | Campus Campus Unisinos Campus Unisinos
Unisinos Porto Alegre São Leopoldo São Leopoldo

30 DE SETEMBRO | 2019
REVISTA IHU ON-LINE

Mostra de Filmes EcoFeira Unisinos EcoFeira Unisinos –


sobre Trabalho Digital Círculo Cultural
Exibição e debate do filme GIG - A Uberi-
zação do Trabalho (Realização Repórter
Brasil, Documentário, 60 min., Direção:
Carlos Juliano Barros, Caue Angeli e
Maurício Monteiro Filho. Brasil, 2019)

08/Out. 09/Out. 09/Out.


Horário Horário Horário
17h às 19h das 9h às 18h 13h às 14h
Debatedor: Local Coordenação:
Prof. Dr. Rafael Grohmann Corredor central do Prof. Dr. Telmo Adams –
– Unisinos Campus São Leopoldo da PPG Educação – Unisinos
Unisinos, em frente ao IHU
Local Local
Campus Unisinos Corredor central em frente
Porto Alegre ao Instituto Humanitas
Unisinos – IHU | Campus
Unisinos São Leopoldo

7
Ciclo de Debates Ciclo de Debates IHU ideias
Reforma da Previdência. Reforma da Previdência.
Qual a reforma Qual a reforma
necessária? necessária?
Palestra: O direito à moradia e
Palestra: Reforma da Previdência e o
Atividade: roda de conversa Reforma da Pre- a questão da propriedade. A cidade
Brasil dos anos 2000. A financeirização
vidência e financeirização da política social como espaço comum
da política social

09/Out. 09/Out. 10/Out.


Horário Horário Horário
14h30min às 16h 19h30min às 22h 17h30min às 19h
Debatedor Debatedor Painelista
Profa. Dra. Denise Lobato Profa. Dra. Denise Lobato Dr. Cristiano Müller – Cen-
Gentil – UFRJ Gentil – UFRJ tro de Direitos Econômicos
e Sociais – CDES
Local Local
TEDU Andar B - Sala Ignacio Ellacuría e Local
Campus Unisinos Companheiros – IHU Sala Ignacio Ellacuría e
Porto Alegre Campus Unisinos Companheiros – IHU
São Leopoldo Campus Unisinos
São Leopoldo

EDIÇÃO 542
DOSSIÊ AGAMBEN

Implicações políticas das categorias


teológicas. A sacralidade e o sacrifício
Castor Bartolomé Ruiz versa sobre as apropriações em torno de
conceitos caros à obra de Giorgio Agamben sobre a biopolítica
Ricardo Machado

O
imperativo de que “há que se mental da religião produz uma perver-
fazer sacrifícios” é o modo cí- são dos próprios princípios religiosos
nico de dizer que os pobres que diz defender”, descreve Castor.
devem pagar a conta dos desastres po- “Por dar um exemplo externo, Trump,
líticos, sociais e climáticos de quem de- que nunca foi especialmente religioso,
tém o poder. Não raro, o discurso vem que se saiba, está agora favorecendo a
investido de uma fé no futuro, quando promoção de discursos televisivos de
não sustentado em nome de um gover- pastores evangélicos que o apresentam
no que roga para si o status de repre- como um enviado de Deus. Ele seria o
sentante divino. “O ídolo sobrevive dos enviado de Deus para neste momento
sacrifícios humanos enquanto Deus salvar América do desastre que está pro
os rejeita. O paradigma deste conflito vir. Parece que este discurso também
está visível na figura de Deus que para está sendo promovido dentro do Brasil,
8 a mão de Abraão quando este preten- com diversos matizes”, compara o pes-
de lhe oferecer seu filho Isaac em sa- quisador.
crifício”, postula Castor Bartolomé Castor Bartolomé Ruiz é professor
Ruiz, em entrevista por e-mail à IHU nos cursos de graduação e pós-gradua-
On-Line. “Tudo converge para que ção em Filosofia da Unisinos. É gradu-
através de grandes e perenes sacrifícios ado em Filosofia pela Universidade de
humanos o mercado possa manter os Comillas, na Espanha, mestre em His-
indicadores mínimos de lucratividade tória pela Universidade Federal do Rio
necessária para que o sistema possa Grande do Sul - UFRGS e doutor em
funcionar como um todo. Caso contrá- Filosofia pela Universidade de Deusto,
rio, entraremos em uma crise caótica Espanha. É pós-doutor pelo Conselho
muito próxima à imagem do fim dos Superior de Investigações Científicas.
tempos”, complementa. Escreveu inúmeras obras, das quais
O apocalipse do sistema, como se ele destacamos: La mímesis humana. La
representasse nossa tábua de salvação, condición paradójica de la acción imi-
converte-se em uma espécie de teologia tativa (Frankkfurt: OmniScriptum
sem religiosidade, sem religação com Management, 2016); Os paradoxos do
valores humanistas, transformando-a imaginário (São Leopoldo: Unisinos,
em mero pragmaticismo, cujo sua do- 2003); Os labirintos do poder. O poder
bra é absolutamente efetiva politica- (do) simbólico e os modos de subjetiva-
mente. “A religião oferece-se para o ção (Porto Alegre: Escritos, 2004); e As
poder como um dos instrumentos ide- encruzilhadas do humanismo. A subje-
ológicos de maior influência, por isso é tividade e alteridade ante os dilemas do
instrumentalizada permanentemente. poder ético (Petrópolis: Vozes, 2006).
Na maioria dos casos, esse uso instru- Confira a entrevista.

IHU On-Line – É muito co- a ser apresentado como um sa- sacralidade se convertem, no
mum no discurso neoliberal a crifício de todos, embora seja século XXI, em uma categoria
defesa ao sacrifício, que tende seletivo. Como o sacrifício e a política?

30 DE SETEMBRO | 2019
REVISTA IHU ON-LINE

“O que diferencia o Deus verdadeiro,


Yahveh, dos ídolos, na revelação
bíblica, é que Deus é sempre a
favor da vida e contra qualquer
tipo de sacrifício humano”

Castor Bartolomé Ruiz – A sobre o conceito de história, na qual, o passado pode iluminar o presente
contemporaneidade se pensa a si a modo de aforismo, compara a his- incendiando-o com as possibilidades
mesma como um tempo seculariza- tória a um tabuleiro de xadrez em do que deveria ter sido e não foi. O
do. O que significa um tempo secu- que há um boneco que movimenta passado das vítimas injustiçadas que
larizado? A resposta mais óbvia que as fichas, porém escondido no inte- pode retornar para nós como exigên-
os pensadores modernos deram, rior da mesa, há um “anão corcunda cia de um presente que ainda deve
em geral, é que estamos num tem- e feio” que é quem realiza, de fato, reconstruir aquilo que ficou por fa-
po em que o religioso não mais ex- os movimentos. Esse anão corcun- zer no tempo. Esse tempo kairotico
plica as causalidades históricas ou da e feio, diz Benjamin, é a teologia é profundamente teológico porque
sociais, um tempo em que se aban- que nos dias de hoje ninguém va- redime o passado da sua injustiça,
donaram as categorias religiosas loriza pensando que é um saber ul- mas também contém uma potência
para explicar o funcionamento das trapassado, sendo que ela contém a política que pode revolucionar o pre-
instituições e até muitos dos com- potencialidade de pensar a história sente. Estes são uns breves exemplos
portamentos pessoais. Inclusive há com outras categorias que nos aju- dos nexos profundos que, em Benja- 9
uma vertente da secularização que dariam a reconsiderar possibilida- min, a teologia pode costurar com a
combate toda forma de vestígio re- des de ação que, em muitos casos, ação política.
ligioso nas instituições públicas ou a mera razão instrumental não per-
Desde uma outra perspectiva, po-
até privadas como reminiscência de cebe. Categorias como por exemplo,
deríamos mencionar os estudos de
um processo de alienação ou até de pensar um tempo messiânico e não
Rene Girard2 a respeito da relação
dominação da religião ou igrejas so- um mero tempo cronológico, signifi-
entre o sacrifício religioso e o sacrifí-
bre os espaços públicos. ca apostar numa temporalidade em
cio político. Girard toma como refe-
que a irrupção do imprevisível na
Certamente que desde o século rência o Deus bíblico, Yahveh, o qual
história (o messias) é uma possibili-
XVII houve um processo de secu- se revela como um Deus da vida em
dade política da ação, que nos libera
larização que separou as esferas da contraposição aos ídolos da morte.
da mera programação naturalizada
política e da religião, do Estado e das Também Yahveh, como os ídolos,
dos acontecimentos. Ou pensar que
igrejas, e que tornou nossas culturas são intangíveis para a empiria hu-
há possibilidade de experienciar po-
muito mais “vazias” do discurso reli- mana, por isso, na prática, pode se
liticamente um tempo kairotico no
gioso. Contudo, há uma outra pers- utilizar o nome de Deus para legiti-
qual o passado não é algo perdido no
pectiva, diria que mais profunda, mar uma prática idolátrica. Nem to-
tempo cronológico, senão que, como
que preocupa-se em compreender os dos os que falam em nome de Deus
um lampejo nos tempos do perigo,
estreitos nexos que vinculam a teo- agem como Ele. Então como diferen-
logia com o poder, seja este o poder ciar Deus dos ídolos? O que diferen-
político, econômico ou de outro tipo. giado judeu e, diante da perspectiva de ser capturado pelos
nazistas, preferiu o suicídio. Associado à Escola de Frank-
Esses vínculos excedem com muito a furt e à Teoria Crítica, foi fortemente inspirado tanto por
autores marxistas, como Bertolt Brecht, como pelo místico 2 René Girard (1923-2015): filósofo e antropólogo fran-
mera roupagem superficial dos sig- judaico Gershom Scholem. Conhecedor profundo da língua cês. Partiu para os Estados Unidos para dar aulas de fran-
nos religiosos, já que existem como e cultura francesas, traduziu para o alemão importantes cês. De suas obras, destaca-se La Violence et le Sacré (A
obras como Quadros parisienses, de Charles Baudelaire, e violência e o sagrado), Des Choses Cachées depuis la Fon-
elos que articulam as concepções te- Em busca do tempo perdido, de Marcel Proust. O seu tra- dation du Monde (Das coisas escondidas desde a fundação
ológicas do sagrado com as práticas balho, combinando ideias aparentemente antagônicas do do mundo), Le Bouc Émissaire (O Bode expiatório). Todos
idealismo alemão, do materialismo dialético e do misticis- esses livros foram publicados pela Editora Bernard Gras-
do poder. mo judaico, constitui um contributo original para a teoria set, de Paris. Ganhou o Grande Prêmio de Filosofia da Aca-
estética. Entre as suas obras mais conhecidas, estão A obra demia Francesa, em 1996, e o Prêmio Médicis, em 1990.
de arte na era da sua reprodutibilidade técnica (1936), Teses O seu livro mais conhecido em português é A violência e
A modo de ilustração menciona- sobre o conceito de história (1940) e a monumental e ina- o sagrado (São Paulo: Perspectiva). Sobre o tema desejo
ria, de um lado, a análise que Walter cabada Paris, capital do século XIX, enquanto A tarefa do e violência, confira a edição 298 da revista IHU On-Line,
tradutor constitui referência incontornável dos estudos lite- de 22-6-2009, disponível em https://goo.gl/KaiUzI. Leia,
Benjamin1 faz em sua primeira tese rários. Sobre Benjamin, confira a entrevista Walter Benjamin também, a edição especial 393 da IHU On-Line, de 21-
e o império do instante, concedida pelo filósofo espanhol 5-2012, sobre o pensamento de Girard, intitulada O bode
José Antonio Zamora à IHU On-Line nº 313, disponível em expiatório, o desejo e a violência, disponível em https://
1 Walter Benjamin (1892-1940): filósofo alemão. Foi refu- http://bit.ly/zamora313. (Nota da IHU On-Line) goo.gl/UiW4TW. (Nota da IHU On-Line)

EDIÇÃO 542
DOSSIÊ AGAMBEN

cia o Deus verdadeiro, Yahveh, dos contrário, entraremos em uma crise Benjamin e vem realizando explora-
ídolos, na revelação bíblica, é que caótica muito próxima à imagem do ções muito profícuas nas pesquisas
Deus é sempre a favor da vida e con- fim dos tempos. genealógicas das relações da teologia
tra qualquer tipo de sacrifício huma- e o poder moderno. A sacralidade é
Estes breves traços de aproximação
no, enquanto o ídolo é precisamente uma das categorias teológicas que
entre a teologia e o poder moderno
o contrário, ele só pode subsistir ali- Agamben destaca. O autor, ao fazer a
mentando-se do sacrifício humano. mostram como as implicações entre
genealogia do sagrado, constata que
O ídolo sobrevive dos sacrifícios hu- ambos são muito mais profundas,
o sagrado tem como característica
manos enquanto Deus os rejeita. O para bem e para mal, do que mera principal a separação das coisas do
paradigma deste conflito está visível secularização dos modernos preten- uso comum para transferi-las a uma
na figura de Deus que pára a mão de entender. Através destas perspec- outra esfera que excedia ou trans-
de Abraão quando este pretende lhe tivas críticas haverá que explorar de cendia o uso comum. Sacrare era o
oferecer seu filho Isaac em sacrifício. forma mais incisiva os nexos da teo- termo latino que os romanos utiliza-
logia e o poder, que não se desfazem vam para designar a saída das coisas
Esta tensão sacrificial que marca a por meros voluntarismos jurídicos. do direito humano. A sacralização
teologia bíblica é o elo condutor de
opera, desde suas origens, como
toda a revelação bíblica, culminando
uma prática que subtrai as coisas,
na própria vida de Jesús que antes IHU On-Line – Como o concei-
lugares e pessoas do uso comum e as
que sacrificar a ninguém, ele mesmo to de sacralidade é tratado teo-
transfere para uma esfera separada.
se oferece como sacrifício para abolir ricamente na obra de Giorgio
A sacralização seria um dispositi-
todo e quaisquer forma de sacrifício. Agamben? Como a sacralidade
vo da separação do uso comum das
Os desdobramentos e implicações se converte em um problema fi-
coisas. A sacralização exige, por sua
políticas desta tensão teológica do losófico, ético e político?
vez, pessoas especialmente prepara-
sacrifício atravessam todas as for- Castor Bartolomé Ruiz – das para poder operar com as coisas
mas contemporâneas do poder. Por Agamben3 é um filósofo contem- que foram sacralizadas, ou seja, se-
exemplo, se pensamos na figura do porâneo que levou a sério a tese de paradas para uma outra ordem fora
mercado como entidade que regula do uso comum.
10 as relações econômicas, que deter- 3 Giorgio Agamben (1942): filósofo italiano. É professor
mina muitas das políticas atuais e da Facolta di Design e arti della IUAV (Veneza), onde ensi- Agamben é um dos autores que
na Estética, e do College International de Philosophie de
que rege a vida de todos nós, po- Paris. Formado em Direito, foi professor da Universitá di questiona o sentido da secularização
deremos identificar que o discurso
Macerata, Universitá di Verona e da New York University,
cargo ao qual renunciou em protesto à política do gover-
moderna, uma vez que as implica-
moderno e contemporâneo retra- no estadunidense. Sua produção centra-se nas relações ções entre a teologia e o poder são
entre filosofia, literatura, poesia e, fundamentalmente,
ta o mercado como uma entidade política. Entre suas principais obras estão Homo Sacer: o muito mais profundas que os meros
transcendente porque é algo natu-
poder soberano e a vida nua (Belo Horizonte: Ed. UFMG, símbolos ou ritos externos do poder.
2002), A linguagem e a morte (Belo Horizonte: Ed. UFMG,
ralizado, ele é onipresente já que 2005), Infância e história: destruição da experiência e ori- Neste caso, as instituições moder-
gem da história (Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2006); Estado
encontra-se em todas as relações de exceção (São Paulo: Boitempo Editorial, 2007), Estâncias nas pretensamente secularizadas
humanas, é onisciente porque nada
– A palavra e o fantasma na cultura ocidental (Belo Ho- carregam dentro de si a assinatura
rizonte: Ed. UFMG, 2007) e Profanações (São Paulo: Boi-
escapa à sua racionalidade opera- tempo Editorial, 2007). Em 4-9-2007, o sítio do Instituto da sacralização. De modo impercep-
Humanitas Unisinos - IHU publicou a entrevista Estado
cional, é todopoderoso porque ele de exceção e biopolítica segundo Giorgio Agamben, com
tível, a maioria, senão a totalidade,
regula as lógicas operacionais das
o filósofo Jasson da Silva Martins, disponível em http:// das instituições do poder moderno
bit.ly/jasson040907. A edição 236 da IHU On-Line, de
transações em todo o planeta, é jus- 17-9-2007, publicou a entrevista Agamben e Heidegger: o utilizam o dispositivo da sacralidade
âmbito originário de uma nova experiência, ética, política
ticeiro porque premia aqueles que e direito, com o filósofo Fabrício Carlos Zanin, disponível
para retirar do uso comum diversas
seguem suas leis (o adoram) com al-
em https://goo.gl/zZRChp. A edição 81 da publicação, de dimensões da vida. O exemplo ante-
27-10-2003, teve como tema de capa O Estado de exceção
tos índices de lucratividade e riqueza e a vida nua: a lei política moderna, disponível para aces- riormente mencionado do mercado
so em http://bit.ly/ihuon81. Em 30-6-2016, o professor
e castiga aqueles que se obstinam em Castor Bartolomé Ruiz proferiu a conferência Foucault e
é paradigmático, mas também a lei,
não obedecê-lo. Além destes rasgos Agamben. Implicações Ético Políticas do Cristianismo, que por mais que seja formalmente iso-
pode ser assistida em http://bit.ly/29j12pl. De 16-3-2016 a
teológicos, o mercado tem uma ra- 22-6-2016, Ruiz ministrou a disciplina de Pós-Graduação nômica, carrega em si a assinatura
em Filosofia e também validada como curso de exten- da sacralidade que impede que as
cionalidade muito estrita que exige são através do IHU intitulada Implicações ético-políticas
os sacrifícios de maiorias, com en- do cristianismo na filosofia de M. Foucault e G. Agamben. pessoas comuns possam lidar com a
Governamentalidade, economia política, messianismo
xugamentos salariais, grandes jor- e democracia de massas, que resultou na publicação da lei, já que o judiciário, os processos,
edição 241 dos Cadernos IHU ideias, intitulado O poder as sentenças, só estão acessíveis para
nadas de trabalho, endividamentos pastoral, as artes de governo e o estado moderno, que pode
creditícios, ajustes fiscais nas polí- ser acessada em http://bit.ly/1Yy07S7. Em 23 e 24-5-2017, pessoas especializadas e habilitadas
o IHU realizou o VI Colóquio Internacional IHU – Políti-
ticas de saúde, educação, trabalho, ca, Economia, Teologia. Contribuições da obra de Giorgio para operar nesse espaço sacraliza-
etc., tudo converge para que através
Agamben, com base sobretudo na obra O reino e a glória.
Uma genealogia teológica da economia e do governo (São
do. Esta foi, entre outras, a crítica de
de grandes e perenes sacrifícios hu- Paulo: Boitempo, 2011. Tradução de: Il regno e la gloria. Kafka4 à lei. Mas pensemos no Esta-
Per una genealogia teológica dell’ecconomia e del gover-
manos o mercado possa manter os no. Publicado originalmente por Neri Pozza, 2007). Saiba
mais em http://bit.ly/2hCAore. Em 2017 a revista IHU On 4 Franz Kafka (1883-1924): escritor tcheco, de língua
indicadores mínimos de lucrativi- -Line publicou a edição Giorgio Agamben e a impossibili- alemã. Considerado pela crítica um dos escritores mais
dade necessária para que o sistema dade de salvação da modernidade e da política moderna,
nº 505, disponível em http://bit.ly/2NXjQwT. (Nota da IHU
influentes do século 20. A maior parte de sua obra, como
A metamorfose, O processo e O castelo, está repleta de
possa funcionar como um todo. Caso On-Line) temas e arquétipos de alienação e brutalidade física e

30 DE SETEMBRO | 2019
REVISTA IHU ON-LINE

do ou na política atual, por mais que A partir desta genealogia da sacra- fica que ele deixa de ser monopólio o
interferem diretamente no cotidiano lidade, Agamben propõe uma outra privilégio de uma elite especializada
das pessoas, são projetados como categoria teológica como alternativa que dele se apropriou, para retornar
espaços só aptos para especialistas, política, é a categoria da profanação. ao uso comum de todos aqueles im-
técnicos. Só técnicos especializados A secularização faz uma maquiagem plicados no seu uso.
podem agir nos aparatos do Esta- racionalista do religioso na políti-
Resulta curioso constatar que a ca-
do. O cidadão comum não tem essa ca, porém mantêm o dispositivo da
tegoria da profanação foi também
capacidade. De igual modo a econo- sacralidade no âmago dos disposi-
a acusação feita contra Sócrates5 e
mia aparece totalmente sacralizada, tivos de poder. Com isso, a própria
contra Jesús para condená-los ofi-
as pessoas comuns lidam com seu secularização opera com um fator de
cialmente a morte. Por mais que am-
orçamento básico, mas as grandes encobrimento dos dispositivos sa-
bos fossem especialmente religiosos,
transações financeiras ou os meca- cralizadores do poder moderno que,
ambos foram condenados por profa-
nismos do comercio global que rege ao retirar do uso comum o acesso
nadores. Sócrates exercia sua ação
o mundo estão fora do uso comum ao poder, contribuem para que este
filosófica como uma missão dada
das pessoas, por mais que estas se- fique confinado como privilégio de pelos deuses para educar a juventu-
jam afetadas por estes mecanismos. umas elites especializadas. de de Atenas, contudo ele foi conde-
Em toda sacralização há também Agamben entende que a política nado por perverter a juventude pro-
um arcano, um mundo incognoscí- que vem é, principalmente, devolver fanando as leis sagradas da cidade.
vel e não desvelado para as pessoas para o uso comum o poder de deli- O caso de Jesús é mais conhecido, a
comuns. Esses arcanos do poder beração sobre as diversas esferas da acusação formal do Sinédrio foi ter
o mantém numa esfera afastada vida. O dispositivo da sacralidade profanado a lei e o templo com sua
do uso comum e só acessível aos do poder moderno carregou junto nova doutrina.
qualificados ou privilegiados para a legitimidade da apropriação e da
essa função. A sacralização produz, propriedade como um outro disposi-
tivo através do qual se vinculam as IHU On-Line – Governos con-
junto com a separação do uso, os servadores, com políticas con-
arcanos desses espaços como a lei, pessoas com as coisas. A sacraliza-
servadoras, tendem a se po-
o judiciário, o mercado, o Estado, ção, além de separar legitima a apro-
sicionar publicamente como
11
a moeda, as finanças, etc. que apa- priação por especialistas dos espaços
cristãos. Contudo, como com-
recem misteriosos e inacessíveis que só eles legitimamente estão ap-
preender o paradoxo de gover-
para a compreensão das pessoas tos para operar. A política que vem
nos que se dizem cristãos, mas
comuns. Esses arcanos reforçam a teria como tarefa criar uma outra
ignoram, do ponto de vista da
legitimidade da separação, da sa- relação de uso e não de apropriação
fé cristã, questões éticas e polí-
cralidade desses espaços. com as coisas.
ticas de defesa à vida?
Isso quer dizer, que a sacralização A profanação opera exatamente
Castor Bartolomé Ruiz – Esta
opera como uma assinatura efetiva nesse duplo vetor da desconstrução
questão remete a dois aspectos em
dos dispositivos do poder contem- da separação propiciada pela sacrali-
que operam estas práticas. Numa
porâneos. Através da sacralização, zação e o retorno para o uso comum
dimensão mais externa, poderíamos
as principais esferas do poder são das coisas. A profanação profana,
dizer, o uso da religião como ideo-
retiradas do uso comum das pesso- primeiramente, a idéia dos arcanos,
logia do poder é tão antigo quanto
as, que se mostram como incapazes mostrando que esses arcanos miste-
a existência do poder público. A re-
para lidar com essas realidades sa- riosos escondem um vazio. O arcano
ligião oferece-se para o poder como
gradas que só técnicos especializa- que sacralidade esconde é o vazio.
um dos instrumentos ideológicos
dos de cada área, a modo de novos Não há nada a ser escondido para le-
de maior influência, por isso é ins-
sacerdotes do poder, estão habilita- gitimar a separação do uso comum,
trumentalizada permanentemente.
dos para gerir. Desse modo, através a não ser a própria necessidade de
Na maioria dos casos, esse uso ins-
da sacralização, as pessoas perdem separar para se apropriar. Uma vez
trumental da religião produz uma
desvelado o vazio dos arcanos do po-
a capacidade de decidir e deliberar perversão dos próprios princípios
der, este, como aquele exemplo do
sobre as questões mais centrais de religiosos que diz defender. Isso fica
rei, fica nu perante o olhar comum.
sua existência, que são definidas por muito evidente nos atuais movimen-
essas esferas do poder que estão fora Quando algo é profanado é sim- tos religiosos fundamentalistas se-
do alcance do uso comum. plesmente retirado da apropriação jam cristãos, muçulmanos, budistas,
feita pelos espaços sacralizados e re-
psicológica, conflito entre pais e filhos, personagens com tornado para o uso comum. Profanar 5 Sócrates (470 a.C. – 399 a.C.): filósofo ateniense e um
missões aterrorizantes, labirintos burocráticos e transfor- dos mais importantes ícones da tradição filosófica oci-
mações místicas. Albert Camus, Gabriel García Márquez seria a ação política que devolve os dental. Sócrates não valorizava os prazeres dos sentidos,
e Jean-Paul Sartre estão entre os escritores influenciados todavia escalava o belo entre as maiores virtudes, junto ao
pela obra de Kafka. O termo “kafkiano” popularizou-se em dispositivos de poder para o uso co- bom e ao justo. Dedicava-se ao parto das ideias (Maiêuti-
português como algo complicado, labiríntico e surreal,
como as situações encontradas em sua obra. (Nota da
mum das pessoas. Quando um dis- ca) dos cidadãos de Atenas. O julgamento e a execução de
Sócrates são eventos centrais da obra de Platão (Apologia
IHU On-Line) positivo de poder é profanado signi- e Críton). (Nota da IHU On-Line)

EDIÇÃO 542
DOSSIÊ AGAMBEN

hinduístas... Em muitos casos vemos do promovido dentro do Brasil, com a condição de homo sacer. Ao ser de-
ressurgir, com muita preocupação, diversos matizes. Em qualquer caso, clarado sacer essa pessoa era coloca-
os velhos projetos teocêntricos que nestes debates históricos o ponto crí- da imediatamente fora de qualquer
tentam submeter o espaço público tico de discernimento será sempre a direito. Nesse caso ocorria um grave
a um determinado credo religioso. tensão agonística entre as práticas paradoxo, de um lado, por estar fora
Mas isso não significa que aqueles que propiciam e melhora da vida dos do direito e não ser cidadão não se
que dizem ser contra toda religião mais pobres e injustiçados e as prá- lhe podia condenar oficialmente a
por este motivo estejam isentos de ticas que continuam a legitimar os nada, nem sequer à morte. Não po-
fanatismos secularizados, a modo de interesses das elites. O velho embate dia sequer ser sacrificado oficial ou
religiões racionalistas. Não podemos entre o Deus da vida e os ídolos da legalmente. Mas, concomitantemen-
esquecer que em nome da razão mo- morte reaparece na nossa contem- te, ao ser declarada sacer a pessoa
derna cometeram-se as maiores bar- poraneidade como critério político que estava fora do direito encontra-
baridades e genocídios, por exemplo para discernir estes “falsos profetas va-se também sem direito nenhum.
todo o colonialismo do século XIX e religiosos”. Nunca podemos esque- Isso quer dizer que qualquer que o
XX foi feito sem maquiagem religio- cer que os principais adversários de violenta, rouba ou fizesse qualquer
sa, legitimando-se na necessidade Jesús, que o condenaram a morte, mal contra o sacer, não cometia de-
da civilização sobre a ignorância. A foram os homens (varões) mais reli- lito. Ou seja, o homo sacer é uma
deusa razão foi levada em procissão giosos de Israel: escrivãs, fariseus e vida exposta à total violação com
por Paris durante a Revolução Fran- sacerdotes. absoluta impunidade. O homo sacer
cesa6 e depois veio o reino do terror estava exposto a toda violência sem
jacobino como causa necessária. nenhum direito, sua vida é o para-
Uma outra perspectiva deste pro-
blema atual pode ser aferida da ten-
“Quando algo digma da vida abandonada, da vida
nua. Quem matar o homo sacer não
são teológica entre o Deus da vida e
os ídolos da morte, que analisamos
é profanado é comete delito, pois sua vida não tem
valor para o direito, logo não é pes-
anteriormente. O fato de alguém uti-
lizar um discurso religioso não signi-
simplesmente soa no sentido jurídico do termo. A
vida do homo sacer é uma vida con-
12
fica, em absoluto, que a pessoa seja
coerente com os princípios dessa re-
retirado da denada ao abando e à total matabili-
dade com plena impunidade.
ligião. Por dar um exemplo externo,
Trump7, que nunca foi especialmente
apropriação A questão que Agamben analisa

religioso, que se saiba, está agora fa- feita pelos nas suas pesquisas é que esta figura
do homo sacer longe de ser algo his-
vorecendo a promoção de discursos
televisivos de pastores evangélicos espaços tórico que passou, é absolutamente
atual, pois o dispositivo da exceção
sacralizados e
que o apresentam como um enviado possibilita desde a origem do direito
de Deus. Ele seria o enviado de Deus que este seja utilizado na forma de
para neste momento salvar América
do desastre que está pro vir. Parece retornado para captura e exclusão. A vida humana
é capturada pelo direito que a pro-
que este discurso também está sen-
o uso comum” tege, mas também a ameaça com a
possibilidade de suspender os direi-
6 Revolução Francesa: nome dado ao conjunto de acon-
tecimentos que, entre 5 de maio de 1789 e 9 de novembro tos fundamentais quando esta vida
de 1799, alteraram o quadro político e social da França.
Começa com a convocação dos Estados Gerais e a Que- seja perigosa para a ordem social,
da da Bastilha e se encerra com o golpe de estado do 18
IHU On-Line – Como a biopo- excluindo-a para um espaço de ano-
Brumário, de Napoleão Bonaparte. Em causa estavam o
Antigo Regime (Ancien Régime) e a autoridade do clero
lítica (ou seria necropolítica?) mia, sem direitos. Neste caso, a ex-
e da nobreza. Foi influenciada pelos ideais do Iluminismo
e da independência estadunidense (1776). Está entre as produz paradoxos em torno da ceção operará sobre aquelas pessoas
maiores revoluções da história da humanidade. A Revo-
noção de sacralidade? consideradas perigosas, ou simples-
lução Francesa é considerada como o acontecimento que
deu início à Idade Contemporânea. Aboliu a servidão e mente indesejadas, para a ordem
os direitos feudais e proclamou os princípios universais
de “Liberdade, Igualdade e Fraternidade” (Liberté, Egali-
Castor Bartolomé Ruiz – As social suspendendo, total o parcial-
té, Fraternité), lema de autoria de Jean-Jacques Rousseau. pesquisas de Agamben a respeito da mente, os direitos fundamentais, e
(Nota da IHU On-Line)
7 Donald Trump (1946): Donald John Trump é um empre- sacralidade tiveram como ponto ini- nessa condição passarão a ser novos
sário, ex-apresentador de reality show e atual presidente
dos Estados Unidos. Na eleição de 2016, Trump foi eleito
cial o homo sacer que era uma figura homini sacri.
o 45º presidente norte-americano pelo Partido Republi- do direito romano arcaico, do qual
cano, ao derrotar a candidata democrata Hillary Clinton
temos poucos vestígios. Na Roma Já Michel Foucault8, na sua última
no número de delegados do colégio eleitoral; no entanto,
perdeu no voto popular. Entre suas bandeiras estão o pro-
tecionismo norte-americano, por onde passam questões
antiga, quando alguém que era ci- 8 Michel Foucault (1926-1984): filósofo francês. Suas
econômicas e sociais, como a relação com imigrantes nos dadão e cometia um crime tão grave obras, desde a História da Loucura até a História da sexu-
Estados Unidos. Trump é presidente do conglomerado The alidade (a qual não pôde completar devido a sua morte),
Trump Organization e fundador da Trump Entertainment que nem sequer merecia a pena de situam-se dentro de uma filosofia do conhecimento. Fou-
Resorts. Sua carreira, exposição de marcas, vida pessoal,
riqueza e modo de se pronunciar contribuíram para torná
morte, nesses casos de gravidade ex- cault trata principalmente do tema do poder, rompendo
com as concepções clássicas do termo. Em várias edições,
-lo famoso. (Nota da IHU On-Line) trema se decretava sobre essa pessoa a IHU On-Line dedicou matéria de capa a Foucault: edição

30 DE SETEMBRO | 2019
REVISTA IHU ON-LINE

aula do curso Em defesa da socie- violentados, sofrer toda sorte igno- Castor Bartolomé Ruiz – Para
dade, 1976, mostrou como a biopo- mínia sem que nenhum direito lhes responder a esta questão, vou me
lítica moderna irá matar em nome socorra. São os novos homini sacri permitir reproduzir uma parte do
da defesa da vida. Agora, no poder que podem ser violentados com im- manifesto elaborado durante o últi-
biopolítico, não se mata mais por punidade pelas estratégias do poder. mo Colóquio Agamben: interfaces
ser simplesmente inimigo do sobe- e encruzilhadas do pensamento crí-
Nestas vidas matáveis com impuni-
rano, agora se legitima a morte de tico contemporâneo, celebrado na
milhares de pessoas como recurso dade é que a biopolítica que gerencia Unisinos nos dias 13,14,15 de maio
necessário para a defesa da vida de produtivamente a vida humana se último e por esta circunstância coin-
outras pessoas. Esta lógica biopo- transforma em necropolítica ou ta- cidiu com a jornada nacional em de-
lítica está presente, por exemplo, natopolítica, que é uma política da fesa da educação e da pesquisa no
nas novas guerras. Pensemos que morte. Pensemos como no Brasil li- Brasil, celebrada dia 15 de maio.
as guerras que ocorreram depois da damos com uma estatística de mais
de 50 mil assassinatos por ano, des- Durante os últimos quatro meses
queda do muro de Berlim, nenhuma
de faz mais de uma década. A maio- vêm ocorrendo uma série de decla-
delas teve uma declaração formal de
ria dessas vidas são vidas nuas de rações e atos de governo que têm
guerra, e todas foram legitimadas
homini sacri que se tornam insigni- por escopo a crítica às universida-
para defender a ordem mundial do
ficantes para o poder. Mas também des no Brasil, em especial as univer-
perigo que supunha a presença de
pensemos nas dezenas de milhares sidades públicas, considerando-as
determinados regimes ou governan-
de mortos no Brasil por falta de um espaços de “balbúrdia”. Em suces-
tes políticos. Assim foi na guerra da
atendimento em saúde. Estes mor- sivas declarações do governo, pro-
Organização do Tratado do Atlântico
tos são ainda mais invisíveis, eles jeta-se sobre os espaços acadêmicos
Norte - OTAN contra a Iugoslávia,
poderiam viver se tivessem umas das universidades um discurso ne-
na guerra contra Kuwait, na invasão
mínimas condições de atendimen- gativo para objetivá-las como espa-
do Iraque, na invasão de Afeganis-
to em saúde, porém eles morrem ços de algazarra, fora de seu obje-
tão, na guerra contra Líbia e por úl-
abandonados pela gestão pública tivo principal de ensino, pesquisa e
timo na guerra contra a Síria. Agora
do enxugamento de gastos públicos extensão.
vemos preparar um cenário parecido
para uma possível guerra contra Ira. para conseguir um superávit primá- Consideramos que esse discurso e 13
rio que permita, talvez, pagar juros essa objetivação perniciosa da uni-
Todas estas guerras foram reali-
dos empréstimos bancários. É nestes versidade obedecem não só a um
zadas por interesses estratégicos
acontecimentos que vemos aflorar pré-conceito ideológico, mas a uma
maiores, sejam econômicos (petró-
as categorias teológicas do sacrifício perversa estratégia política de esva-
leo), comerciais (desovar estoque
humano demandado para a sobrevi- ziar a universidade e a pesquisa de
da industria da guerra dos EEUU),
vência do ídolo. apoio público. Tal discurso de baixo
influências geoestratégicas das po-
calão sobre a universidade desconsi-
tências, etc. Mas em nenhum dos
dera, de forma deliberada, o grande
casos se legitimou por algum destes
motivos. Sempre se argumentou que “Ou seja, o esforço acadêmico de ensino, exten-
são e pesquisa que há décadas vem
aqueles regimes eram uma ameaça
para a vida de todos os cidadãos de homo sacer sendo realizado nas universidades
no Brasil, com uma produção de co-
bem e que mereciam morrer. Ocorre
que os efeitos colaterais incluíam a é uma vida nhecimento de alta qualidade que
tem formado os profissionais das di-
morte prevista de centos de milha-
res de outras pessoas, sem contar os exposta à versas áreas do saber, inclusive os
atuais governantes do país.
milhões de refugiados que até hoje
perambulam pelo planeta por causa total violação De modo especial, destacamos as
destas estratégias bélicas. Todas es-
sas vidas sacrificadas são um outro
com absoluta declarações do atual ministro de
educação, corroboradas pelo presi-
exemplo atualizado de homini sa-
cri, vidas matáveis com total impu-
impunidade” dente da República, de que as áreas
das humanidades, como a filosofia e
nidade. Eles podem morrer, serem as ciências sociais são saberes inú-
teis que não mais devem ser promo-
119, de 18-10-2004, disponível em http://bit.ly/ihuon119;
edição 203, de 6-11-2006, disponível em https://goo.gl/ IHU On-Line – Como pode- vidos pelo poder público. Conside-
C2rx2k; edição 364, de 6-6-2011, intitulada ‘História da
mos compreender os ataques ramos, assim, que tais declarações
loucura’ e o discurso racional em debate, disponível em
foram feitas de forma pública e so-
https://goo.gl/wjqFL3; edição 343, O (des)governo biopolí- do atual governo à Filosofia,
tico da vida humana, de 13-9-2010, disponível em https:// lene para reforçar o sentido simbó-
goo.gl/M95yPv, e edição 344, Biopolítica, estado de exce- Sociologia e Ciências Humanas
ção e vida nua. Um debate, disponível em https://goo.gl/ lico desta declaração política.
RX62qN. Confira ainda a edição nº 13 dos Cadernos IHU em geral? Que respostas as áre-
em formação, disponível em http://bit.ly/ihuem13, Michel
Foucault – Sua Contribuição para a Educação, a Política e a
as de humanidades podem ofe- Pensamos que o desprezo público
Ética. (Nota da IHU On-Line) recer no atual contexto? do atual governo pelas humanida-

EDIÇÃO 542
DOSSIÊ AGAMBEN

des mostra, em primeiro lugar, um de outro lado, o contingenciamen- cação de inovação em várias áreas
desconhecimento da importância to orçamentário nas universida- da produção. Tememos que uma vez
histórica e crítica que essas áreas des públicas. Ambos atos atingem iniciado o processo de deterioração
do saber tiveram na consecução dos de forma sensível a produção de da pesquisa no Brasil, ele se torne
demais saberes, inclusive os científi- conhecimento em todas as univer- irreversível em muitos aspectos e
cos e tecnológicos. Ainda, essa afir- sidades do Brasil, em especial nas em qualquer caso de difícil recupe-
mação desvela também a ignorân- universidades públicas. Estes atos ração que demorará mais de uma
cia de quem a profere ao mostrar de governo significam uma posição geração para poder atingir o atual
que desconhece os profundos elos pública do atual governo contra patamar novamente.
que vinculam a ciência e tecnológica a pesquisa e contra a produção de
Em uma sociedade na qual o co-
com pressupostos filosóficos da epis- conhecimento no Brasil. A despeito
nhecimento se desenvolve a longo
temologia que constitui qualquer dos falsos argumentos de que esses
prazo, contingenciar a pesquisa
ciência, assim como os princípios contingenciamentos são necessá-
significa sacrificar o povo brasileiro
metodológicos, de caráter filosófi- rios, fica evidente que eles são uma
e mantê-lo no papel de subserviên-
co, que devem estar constantemente decisão política que tem como pro-
cia econômica como mero produtor
pressupostos. Tal afirmação tam- jeto de (des)governo sufocar o apoio
de matérias-primas, sendo depen-
bém desconsidera os elos éticos que público à pesquisa, talvez conside-
dente em escala global da pesquisa
atravessam toda forma de ação hu- rando que ela deva ser entregue aos
e conhecimento desenvolvidos em
mana, e que só uma reflexão filosó- interesses corporativos.
outras latitudes. Ao contingenciar
fica apropriada pode contextualizar
Acreditamos que as restrições a pesquisa, o Brasil perderá, mais
que elas existem como meios para a
orçamentárias para o desenvolvi- uma vez, o trem da história que se
vida, e não como fins em si mesmos.
mento da pesquisa pode atingir de anuncia como uma sociedade do
A negação das humanidades revela
forma muito sensível a qualidade, conhecimento onde a qualidade de
um pré-conceito radical com o co-
a quantidade e o acesso da produ- vida e a produção de riqueza está
nhecimento humanístico, cujo valor
ção científica nas diversas áreas associada à capacidade de produ-
extrapola o caráter utilitarista que
do conhecimento que ao longo de ção de conhecimento e inovação.
nessas declarações transparece.
14 décadas foi desenvolvido com gran- Sem estas duas potencialidades, o
Dentre os atos de governo que de esforço e competência. O desen- povo brasileiro continuará a ser
atingem a pesquisa há que se desta- volvimento da pesquisa no Brasil dependente do conhecimento pro-
car, de um lado, o recorte feito pela também possibilitou a formação de duzido alhures, atingindo todas as
CAPES nas bolsas de pesquisa e, profissionais qualificados e a apli- áreas.” ■

Leia mais
- A produção de violência e morte em larga escala: da biopolítica à tanatopolítica. Entre-
vista de Castor Bartolomé Ruiz, publicado na Revista IHU On-Line, edição 521, de 7-5-2018,
disponível em http://bit.ly/2xwkjMA;
- A filosofia como forma de vida V - O Officium: o dever que separa a vida de sua forma.
Artigo de Castor Bartolomé Ruiz, publicado na Revista IHU On-Line, edição 471, de 31-8-
2015, disponível em http://bit.ly/2rkYbT1;
- A filosofia como forma de vida (IV). A regra da vida (regula vitae), fuga e resistência ao
controle social. Artigo de Castor Bartolomé Ruiz, publicado na Revista IHU On-Line, edição
468, de 29-6-2015, disponível em http://bit.ly/1Has1XK;
- A filosofia como forma de vida (III). Do cuidado de si ao deciframento de si. Artigo de
Castor Bartolomé Ruiz, publicado na Revista IHU On-Line, edição 467, de 15-6-2015, dispo-
nível em http://bit.ly/1GK0EcZ;
- A Filosofia como forma de vida (II). Michel Foucault, o cuidado de si e o governo de si
(enkrateia). Artigo de Castor Bartolomé Ruiz, publicado na Revista IHU On-Line, edição 471,
de 1-6-2015, disponível em http://bit.ly/1IJRiym;
- A Filosofia como forma de vida (I). Pierre Hadot, a filosofia antiga e os exercícios (aske-
sis) do espírito. Artigo de Castor Bartolomé Ruiz, publicado na Revista IHU On-Line, edição
471, de 23-3-2015, disponível em http://bit.ly/1GbmYWA;

30 DE SETEMBRO | 2019
REVISTA IHU ON-LINE

- A verdade, o poder e os modelos de subjetivação em Foucault. Artigo de Castor Bar-


tolomé Ruiz publicado nas Notícias do Dia, de 25-9-2013, no sítio do Instituto Humanitas
Unisinos, disponível em http://bit.ly/GB38Nt;
- Giorgio Agamben, genealogia teológica da economia e do governo. Artigo de Castor
Bartolomé Ruiz na Revista IHU On-Line edição 413, de 1-4-2013, disponível em http://bit.
ly/1aobf9t;
- O trabalho e a biopolítica na perspectiva de Hannah Arendt. Artigo de Castor Bartolomé
Ruiz, publicado na Revista IHU On-Line, edição 393, de 21-5-2012, disponível em http://bit.
ly/KOOxuX;
- O advento do social: leituras biopolíticas em Hannah Arendt. Artigo de Castor Bartolomé Ruiz,
publicado na Revista IHU On-Line, edição 392, de 14-5-2012, disponível em http://bit.ly/J88crF;
- A economia e suas técnicas de governo biopolítico. Artigo de Castor Bartolomé Ruiz,
publicado na Revista IHU On-Line, edição 390, de 30-4-2012, disponível em http://bit.ly/L2PyO1;
- Objetivação e governo da vida humana. Rupturas arqueo-genealógicas e filosofia
crítica. Artigo de Castor Bartolomé Ruiz, publicado na Revista IHU On-Line, edição 389, de
23-4-2012, disponível em http://bit.ly/JpA8G3;
- A bios humana: paradoxos éticos e políticos da biopolítica. Artigo de Castor
Bartolomé Ruiz, publicado na Revista IHU On-Line, edição 388, de 9-4-2012, disponível em
http://bit.ly/Hsl5Yx;
- Genealogia da biopolítica. Legitimações naturalistas e filosofia crítica. Artigo de Castor
Bartolomé Ruiz, publicado na Revista IHU On-Line, edição 386, de 19-3-2012, disponível em
http://bit.ly/GHWSMF;
- A vítima da violência: testemunha do incomunicável, critério ético de justiça. Artigo
de Castor Bartolomé Ruiz, publicado na Revista IHU On-Line, edição 380, de 14-11-2011, 15
disponível em http://bit.ly/vQLFZE;
- A testemunha, o resto humano na dissolução pós-metafísica do sujeito. Artigo de
Castor Bartolomé Ruiz, publicado na Revista IHU On-Line, edição 376, de 17-10-2011,
disponível em http://migre.me/66N5R;
- A testemunha, um acontecimento. Artigo de Castor Bartolomé Ruiz, publicado na
Revista IHU On-Line, edição 375, de 3-10-2011, disponível em http://bit.ly/q84Ecj;
- A exceção jurídica e a vida humana. Cruzamentos e rupturas entre C. Schmitt e W.
Benjamin. Artigo de Castor Bartolomé Ruiz, publicado na Revista IHU On-Line, edição 374,
de 26-9-2011, disponível em http://bit.ly/pDpE2N;
- O estado de exceção como paradigma de governo. Artigo de Castor Bartolomé Ruiz,
publicado na Revista IHU On-Line, edição 373, de 12-9-2011, disponível em http://bit.ly/nsUUpX;
- O campo como paradigma biopolítico moderno. Artigo de Castor Bartolomé Ruiz,
publicado na Revista IHU On-Line, edição 372, de 5-9-2011, disponível em http://bit.ly/nPTZz3;
- Homo sacer. O poder soberano e a vida nua. Artigo de Castor Bartolomé Ruiz, publicado
na Revista IHU On-Line, edição 371, de 29-8-2011, disponível em http://bit.ly/naBMm8.

EDIÇÃO 542
DOSSIÊ AGAMBEN

O sopro de ar gélido de Nietzsche e


Agamben que faz acordar para
a resistência em nosso tempo
Márcia Junges retoma, nos dois filósofos, pensamentos
que ainda dão conta de motivar reações à opressão e
ao controle totalitário da política na atualidade
Ricardo Machado | Edição João Vitor Santos

N
um mundo em que semelhan- sobreviver, somente, é a grande maldição
tes morrem em barcos buscan- que herdamos da Grécia clássica, onde a
do terras melhores enquanto biopolítica já era a categoria que estendia
outros os tratam como invisíveis, em seus tentáculos no âmbito da oikos, da
que periferias são suprimidas em prol casa onde imperava o pater familias e
de quem pode pagar por uma vista seu poder discricionário”, explica Márcia.
melhor e em que o capital parece re- Entretanto, a professora reconhece as
ger tudo, até os afetos, não é de causar dificuldades da insurreição, especial-
surpresa que nos sintamos como que mente no atual contexto brasileiro. “As
amórficos, anestesiados. Para a profes- Humanidades, em um contexto amplo,
16 sora e filósofa Márcia Junges, retomar são ‘inconvenientes’ porque se valem
a Filosofia Política pode ser um dos ca-
do pensamento crítico como seu prin-
minhos para sair desse estado e reagir.
cipal eixo”, dispara. E por isso indica a
É no pensamento de Friedrich Nietzs-
potência de resistência, lembrando que
che e Giorgio Agamben que ela observa
isso é algo a ser sempre buscado. “A
uma potência insurgente. “Nietzsche e
cada dia que passa, as lutas de pesqui-
Agamben insuflam em nossos rostos o
sadores das Humanidades se mostram
vento gélido da coragem, da resistência
ainda mais corretas e coerentes, pois
que faz nossas espinhas não se curva-
fomentam o espírito livre”, conclui.
rem ao poder”, destaca na entrevista
concedida por e-mail à IHU On-Line. Márcia Junges é graduada em Jor-
“Surgem daí formas políticas novas, nalismo pela Unisinos, especialista em
nas quais o ruminar, o transvalorar, o Ciência Política pela Universidade Lu-
profanar e o resistir nos desafiam a vi- terana do Brasil - Ulbra, mestra e dou-
ver uma vida que dê a si própria a sua tora em Filosofia Política pela Unisinos
forma”, completa. e pela Universitá degli Studi di Padova
Márcia observa em Nietzsche um cer- - UNIPD, na Itália. É professora tutora
to nivelamento rasteiro da democracia na Unisinos. Entre suas publicações,
liberal ainda em seu tempo. Para ela, é destacamos A transvaloração dos va-
um quadro muito similar ao que vive- lores em Nietzsche e a profanação em
mos hoje. “Contra a loucura de estar de Agamben (Cadernos de Filosofia Polí-
acordo com todos, Nietzsche nos provoca tica da USP - Especial II Encontro do
a tomarmos posição, a lutarmos nossas GT de Filosofia Política Contemporâ-
próprias batalhas e avançarmos não so- nea, nº 28, 2016, p. 97-108). Foi, ainda,
bre os destroços dos vencidos, mas ele- uma das organizadoras do Colóquio
varmos nossa existência através de um “Agamben: interfaces e encruzi-
espírito revigorado”, defende. Já Agam- lhadas do pensamento contempo-
ben observa uma matriz biopolítica da râneo”, parceria entre o Programa de
Antiguidade grega que deriva para a Mo- Pós-Graduação em Filosofia da Unisi-
dernidade, ainda tendo suas perspectivas nos e o Instituto Humanitas Unisinos
recrudescidas. “Uma vida capturada, es- - IHU, de 13 a 15 de maio de 2019.
vaziada em sua subjetividade, impelida a Confira a entrevista.

30 DE SETEMBRO | 2019
REVISTA IHU ON-LINE

“Nietzsche e Agamben elaboram


críticas à política e à democracia
liberal que são potentes para
analisarmos nossa época”

IHU On-Line – Quando o de- Márcia Junges – Nietzsche e Em nossa pesquisa de doutorado,
serto da imaginação transfor- Agamben elaboram críticas à política essa e inúmeras outras inquietações
ma a política em escuridão e à democracia liberal que são poten- surgiram e nos fizeram examinar
e obscurantismo, qual a ne- tes para analisarmos nossa época, a política e a democracia a partir
cessidade de se pensar ou- marcada pelo obscurantismo e pelo do conceito de potência, que surge
tras formas de política? Qual recrudescimento do fascismo e dife- como seu fio condutor e articula-
a contribuição de Nietzsche1 e rentes formas de autoritarismo, pelo dor. No caso do pensador alemão,
Agamben2 nesse projeto? domínio da biopolítica e do dispositi- estudamos a ideia de vontade de po-
vo da economia como preponderante tência4, uma potência biológica que
1 Friedrich Nietzsche (1844-1900): filósofo alemão, co- à política. Seus escritos nos desafiam coloca a vida como valor supremo
nhecido por seus conceitos além-do-homem, transvalora-
ção dos valores, niilismo, vontade de poder e eterno retor- a repensarmos o protagonismo do su- e justificação inesgotável, como cri-
no. Entre suas obras, figuram como as mais importantes
Assim falou Zaratustra (Rio de Janeiro: Civilização Brasilei- jeito político, que vota em processos tério último e mais elevado. Potên-
ra, 1998), O anticristo (Lisboa: Guimarães, 1916) e A gene-
eleitorais que em quase tudo remon- cia, em Nietzsche, não diz respeito 17
alogia da moral (São Paulo: Centauro, 2004). Escreveu até
1888, quando foi acometido por um colapso nervoso que tam a manifestações de glória com à volição ou ao arbítrio. Trata-se
nunca o abandonou até o dia de sua morte. A Nietzsche,
foi dedicado o tema de capa da edição número 127 da roupagens seculares de espetáculo3 da potência fisiológica, orgânica, de
IHU On-Line, de 13-12-2004, intitulado Nietzsche: filósofo
debordiano. Como é possível pensar- autoafirmação da vida. A grande po-
do martelo e do crepúsculo, disponível para download em
http://bit.ly/Hl7xwP. A edição 15 dos Cadernos IHU em
mos em outras formas políticas se a lítica5 nietzschiana é aquela que irá
formação é intitulada O pensamento de Friedrich Nietzs-
che, e pode ser acessada em http://bit.ly/HdcqOB. Confira, gestão de necessidades parece ocupar
também, a entrevista concedida por Ernildo Stein à edição 4 Em língua portuguesa a expressão Wille zur Macht é
328 da revista IHU On-Line, de 10-5-2010, disponível em o centro das preocupações? traduzida de dois modos: como vontade de poder e von-
http://bit.ly/162F4rH, intitulada O biologismo radical de tade de potência. Entretanto, não se trata de terminologias
Nietzsche não pode ser minimizado, na qual discute ideias equivalentes. Empregamos a segunda opção, em sintonia
de sua conferência A crítica de Heidegger ao biologismo de http://bit.ly/ihuon81. Em 30-6-2016, o professor Castor com a tradução realizada por Rubens Rodrigues Torres
Nietzsche e a questão da biopolítica, parte integrante do Bartolomé Ruiz proferiu a conferência Foucault e Agam- Filho na clássica edição Nietzsche. Obras incompletas
Ciclo de Estudos Filosofias da diferença – Pré-evento do XI ben. Implicações Ético Políticas do Cristianismo, que pode (2ª ed. São Paulo: Coleção Os pensadores, 1978). Neste
Simpósio Internacional IHU: O (des)governo biopolítico da ser assistida em http://bit.ly/29j12pl. De 16-3-2016 a 22- caso, precisamos deixar claro que potência não denota o
vida humana. Na edição 330 da revista IHU On-Line, de 6-2016, Ruiz ministrou a disciplina de Pós-Graduação em sentido aristotélico, como ocorre em Agamben. Por outro
24-5-2010, leia a entrevista Nietzsche, o pensamento trá- Filosofia e também validada como curso de extensão atra- lado, a escolha por não traduzir Macht por poder ajuda
gico e a afirmação da totalidade da existência, concedida vés do IHU intitulada Implicações ético-políticas do cristia- afastar a perspectiva de compreensão do termo em um
pelo professor Oswaldo Giacoia e disponível em https:// nismo na filosofia de M. Foucault e G. Agamben. Governa- aspecto político reducionista e simplificador, como ocor-
goo.gl/zuXC4n. Na edição 388, de 9-4-2012, leia a entre- mentalidade, economia política, messianismo e democracia reu ao longo da recepção nietzschiana dentro e fora do
vista O amor fati como resposta à tirania do sentido, com de massas, que resultou na publicação da edição 241 dos Brasil. Se vertermos Wille por disposição, como pontua
Danilo Bilate, disponível em http://bit.ly/HzaJpJ. (Nota da Cadernos IHU ideias, intitulado O poder pastoral, as artes Scarlett Marton em A terceira margem da interpretação, na
IHU On-Line) de governo e o estado moderno, que pode ser acessada em abertura de A doutrina da vontade de poder em Nietzsche
2 Giorgio Agamben (1942): filósofo italiano. É professor http://bit.ly/1Yy07S7. Em 23 e 24-5-2017, o IHU realizou (MÜLLER-LAUTER, São Paulo: Annablume, 1997, p. 10-11),
da Facolta di Design e arti della IUAV (Veneza), onde ensi- o VI Colóquio Internacional IHU – Política, Economia, Te- podemos entender Macht em conexão ao verbo Machen
na Estética, e do College International de Philosophie de ologia. Contribuições da obra de Giorgio Agamben, com como fazer, produzir, criar. Assim chega-se ao entendi-
Paris. Formado em Direito, foi professor da Universitá di base sobretudo na obra O reino e a glória. Uma genealogia mento de vontade de potência como força plástica e cria-
Macerata, Universitá di Verona e da New York University, teológica da economia e do governo (São Paulo: Boitempo, dora, que nos parece ser aquilo que Nietzsche vislumbrava
cargo ao qual renunciou em protesto à política do gover- 2011. Tradução de: Il regno e la gloria. Per una genealo- com sua doutrina, tida como uma das pilastras filosóficas
no estadunidense. Sua produção centra-se nas relações gia teológica dell’ecconomia e del governo. Publicado ori- de sua obra. Marton pontua que essa concepção pode ser
entre filosofia, literatura, poesia e, fundamentalmente, ginalmente por Neri Pozza, 2007). Saiba mais em http:// encontrada, sobretudo, nos fragmentos póstumos entre
política. Entre suas principais obras estão Homo Sacer: o bit.ly/2hCAore. Em 2017 a revista IHU On-Line publicou 1882 e 1889. (Nota da entrevistada)
poder soberano e a vida nua (Belo Horizonte: Ed. UFMG, a edição Giorgio Agamben e a impossibilidade de salvação 5 A grande política é um contradiscurso nietzschiano à
2002), A linguagem e a morte (Belo Horizonte: Ed. UFMG, da modernidade e da política moderna, nº 505, disponível pequena política expressa pela democracia de rebanho ni-
2005), Infância e história: destruição da experiência e ori- em http://bit.ly/2NXjQwT. (Nota da IHU On-Line) veladora e ressentida, herança secularizada do Cristianis-
gem da história (Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2006), Estado 3 Nos referimos à terminologia espetáculo na perspectiva mo em termos políticos. Engendrada pela transvaloração
de exceção (São Paulo: Boitempo Editorial, 2007), Estân- desenvolvida por Guy Debord, autor central nos escritos dos valores, a grande política expressa não um programa
cias – A palavra e o fantasma na cultura ocidental (Belo de Agamben para compreender o nexo entre poder, glória político, mas uma elevação cultural que irá mudar a dire-
Horizonte: Ed. UFMG, 2007) e Profanações (São Paulo: e espetáculo. Em A sociedade do espetáculo é sinalizada ção do ressentimento como um dos sintomas do niilismo
Boitempo Editorial, 2007). Em 4-9-2007, o sítio do Institu- a origem desse fenômeno, isto é, a economia tornada europeu, e tem como seus pilares “a fisiologia, a hierarquia
to Humanitas Unisinos - IHU publicou a entrevista Estado abundante e forma de soberania irresponsável: “a vida das e a criação para a elevação da humanidade” (RUBIRA in
de exceção e biopolítica segundo Giorgio Agamben, com sociedades nas quais reinam as modernas condições de Dicionário Nietzsche. São Paulo: Edições Loyola (Sendas
o filósofo Jasson da Silva Martins, disponível em http:// produção se apresenta como uma imensa acumulação de & Veredas), 2016, p. 247). Trata-se de um novo horizonte
bit.ly/jasson040907. A edição 236 da IHU On-Line, de espetáculos. Tudo que era vivido diretamente tornou-se teórico (OTTMANN in NIEMEYER, Léxico de Nietzsche. Trad.
17-9-2007, publicou a entrevista Agamben e Heidegger: o uma representação” (DEBORD, Guy. A sociedade do es- André Muniz Garcia, Ernani Chaves, Fernando Barros, Jor-
âmbito originário de uma nova experiência, ética, política e petáculo. Contraponto, 1997, p. 13), e o espetáculo en- ge Luiz Viesenteiner, William Matiolli. São Paulo: Edições
direito, com o filósofo Fabrício Carlos Zanin, disponível em carnou o caráter de “relação social entre pessoas, mediada Loyola, 2014, p. 252) que sai da apolitia para uma dou-
https://goo.gl/zZRChp. A edição 81 da publicação, de 27- por imagens” (Ibid., p. 14), “modelo atual da vida dominan- trina de domínio. Como afirma Brobjer (2008), a grande
10-2003, teve como tema de capa O Estado de exceção e a te na sociedade” (Ibid., p. 14) que se retroalimenta e cujo política traz consigo uma revitalização do espírito e outro
vida nua: a lei política moderna, disponível para acesso em objetivo é ele mesmo. (Nota da entrevistada) parâmetro valorativo, propondo a concepção de uma aris-

EDIÇÃO 542
DOSSIÊ AGAMBEN

tornar a fisiologia senhora de todas ceito aristotélico de potência, enten- que não coincide necessariamente
as outras questões, e não contém em dendo que o ser humano é o único com uma política estatal e expressa
si um significado político no sentido capaz de poder sua própria impotên- pelas formas representativas hoje
clássico do termo. cia, estabelecendo linhas de fuga e em voga no Ocidente. É a política
resistência que gerem novas formas- da inoperosidade10, do qualquer,
Por outro lado, a potência da trans-
de-vida8 e uma política-que-vem9, daquele inapreensível que se dá na
valoração dos valores6 possui a pos-
facticidade do instante e em uma co-
sibilidade de inovar os sentidos já
mas já desde O homem sem conteúdo e Signatura Rerum. munidade-que-vem cuja concretiza-
dados, revitalizando-os a partir de Agamben recupera a filosofia aristotélica para diferenciar
potência (dynamis) como possibilidade, de ato (energeia), ção é um vir-a-ser que se reconfigura
uma outra compreensão política, e reivindica que a potência não se esgota ou anula no ato,
e não tem uma identidade estática.
que rompe com o modelo de repre- mas se conserva no ato e no pensamento e não requer
uma concretização efetiva, porquanto a inoperosidade Desse modo, percebemos que ambos
sentação esvaziado no nivelamento é potência-do-não e uma forma de desativar, em coin-
cidência com a uma forma-de-vida. “Ter uma potência, os filósofos descortinam possibilida-
e na mediocridade da democracia de ter uma faculdade, significa ter uma privação. Por isso, a des para repensarmos a política e,
rebanho. A transvaloração é o con- sensação não se sente a si mesma, como o combustível
não queima por si. A potência é, portanto, a hexis de uma em específico, a democracia, não as
tramovimento capaz de engendrar a steresis” (AGAMBEN, Giorgio. A potência do pensamento.
Trad. António Guerreiro. Belo Horizonte: Autêntica, 2015, invalidando, mas percebendo suas
grande política através de transvalo- p. 245). Essa hexis é, portanto, aquela possibilidade que limitações e apontando para formas-
rações que se dão na facticidade e na o ser humano tem enquanto aberto à contingência e não
inscrito em um determinismo biológico que o obrigue a de-vida que tensionam nosso mode-
imanência, ainda que a política não um fim específico. Ao retomar o conceito de potência-
lo de existência política.
seja a preocupação central do filó- do-não aristotélico Agamben recupera essa herança fi-
losófica que abre linhas de fuga e ruptura para desativar
sofo: a cultura como horizonte mais as programações biopolíticas às quais o Ocidente está
submetido, e assim seu posicionamento ontológico terá
elevado, concretizada pelo além-do notáveis implicações políticas. Pensemos, por exemplo, IHU On-Line – Como pode-
-homem é o que cessaria com a de- que a relação entre potência e ato deve ser transposta
mos compreender o conceito
para o poder constituinte e o poder constituído: “A relação
cadência na qual o Novecento estava do poder constituinte com o poder constituído é como a nietzschiano de “vontade de
relação da potência com o ato. E, por isso, a ideia de um
mergulhado. A grande política é a poder constituinte que não se dilua por completo no po- potência” e de que forma ele é
resposta cultural a um movimento der constituído é equivalente à ideia de uma potência que
capaz de nos inspirar?
não esgota todo seu poder na passagem ao ato” (CASTRO,
político de decadência e apequena- Edgardo. Introdução a Giorgio Agamben. Uma arqueolo-
gia da potência. Trad. Beatriz de Almeida Magalhães. Belo
mento, cujo ápice é o niilismo e a Horizonte: Autêntica, 2012, p. 63), o que Aristóteles no- inapagável do ser humano, e que só consegue se viabilizar

18 pilastra central é a moral judaico- meia de potência de não, ou ainda, adynamía. (Nota da porque não somos reduzidos a uma programação bioló-
entrevistada) gica de espécie, em função de que somos sem obra, sem
cristã. 8 A forma-de-vida expressa aquela vida que jamais pode um destino que determine nosso ser. A expressão “que
ser separada de sua forma. Agamben menciona a vida que vem” não trata de uma concretização futura, mas abre a
dá a si própria a sua regra, e não simplesmente aceita-a perspectiva de um tempo que resta, uma experiência do
Agamben como um elemento exterior imposto como ocorre em kairós, do instante. Não há conteúdo programático que
nossas sociedades: é a insurgência que brota na imanência defina o que é a política-que-vem, mas sim um espírito de
e que rompe com o imperativo da biopolítica de redução a ruptura constante, de abertura ao novo e de um horizonte
No caso de Agamben, a potência- uma mera vida nua, incapaz de interpor resistências. For- movediço do ingovernável democrático. Trata-se de uma
ma-de-vida para Agamben é pensar para além de uma política das singularidades sem uma identidade, uma polí-
do-não7 é pensada a partir do con- submissão ao poder soberano e fazer experiências que ar- tica de seres de potência.
ticulam a linguagem, a potência e o pensamento, vivendo 10 Surgido no momento da publicação de O Reino e a
como se não (hōs mē) estivesse preso a este tempo e aos Glória, em 2007, o conceito inoperosidade é uma ques-
tocracia espiritual para uma vida mais elevada, bem como dispositivos jurídicos da soberania, sem um telos específi- tão ontológica em Agamben e que não significa inércia
a vontade de “tornar a fisiologia senhora sobre todas as co e sempre aberto à possibilidade, capaz de se contem- ou cessação de uma atividade, mas uma operação de
outras perguntas” (KSA 13, Dezember 1888 – Anfang Ja- plar e viver sem se reduzir a um fazer que a legitime. Aqui desativar uma obra e atribuir-lhe um novo uso ao modo
nuar 1889 25 (1), p. 639), temática que também precisa ser o como recebe um estatuto fundamental, uma vez que o de uma profanação, mas que não deve ser compreendido
considerada em termos de problematização que oferece problema decisivo não é o que sou, mas como sou o que somente na esfera da ação e do imperativo da operosida-
quando refletida em contraposição à proposta da própria sou (AGAMBEN, Giorgio. L’uso dei corpi. Homo sacer IV, 2. de, porquanto há uma coincidência irrecusável entre po-
transvaloração dos valores. O tipo humano capaz de levar Vicenza: Neri Pozza, 2014); uma forma-de-vida é inopero- tência-do-não, pensamento e resistência, que funcionam
a termo a grande política é o além-do-homem, aquele que sa uma vez que, para ser não precisa coincidir com um agir, imbricados. Agir, em Agamben, também é pensar, e nisso
se autossupera e transborda, para além dos mecanismos senão com uma potência que não se esgota em um ato. ele dá continuidade à tradição aristotélica e averroísta
de ressentimento e vingança do último-homem aglome- (Nota da entrevistada) que fundamentam sua concepção de potência do pen-
rado em torno das representações democráticas. Pensa- 9 Agamben não formulou uma teoria política com propo- samento. Retomando Aristóteles, Agamben compreende
mos que a grande política é uma ruptura radical não em sições objetivas para solucionar os aspectos sombrios do o ser humano como o único ser sem obra (ergon) pró-
termos de uma ação política em termos clássicos, mas de diagnóstico do presente que realiza, apontando o niilismo pria, portanto inoperoso, e por isso aberto radicalmente
uma expressão cultural que origina novas formas de vida que reside por trás das democracias de massa espetacu- à contingência uma vez que não se reduz a um destino
em transbordamento, rompendo com a tradição judaico- lares. É importante ter em mente a aporia que o autor biológico como as outras espécies vivas, sem uma voca-
cristã e com um conteúdo que Nietzsche não explicita afirma existir desde a fundação da política ocidental, na ção específica que o obrigue a um agir determinado. Na
(SCHMID in NIEMEYER, Léxico de Nietzsche. Trad. André Grécia, quando a vida é compreendida como bios (aquela matriz cristã há uma antítese entre o Deus criador e aque-
Muniz Garcia, Ernani Chaves, Fernando Barros, Jorge Luiz de tipo qualificado), e zoè (aquela aprisionada pela política le ocioso da tradição pagã, motivo pelo qual o Ocidente
Viesenteiner, William Matiolli. São Paulo: Edições Loyola, já nesse tempo e convertida em vida nua, objeto central cristão não consegue conceber a inoperosidade se não for
2014, p. 251). (Nota da entrevistada) da biopolítica). Agamben afirma que a política entrou em sob a “forma negativa da suspensão do trabalho” (AGAM-
6 O termo pressupõe não apenas uma acepção afirmativa, eclipse na Modernidade porque se alinhou ao problema BEN, Giorgio. L’uso dei corpi. Homo sacer IV, 2. Vicenza:
como aquela apresentada em Assim falou Zaratustra, mas da soberania, contaminada pela lei (AGAMBEN, Giorgio. Neri Pozza, 2014), como na festa, na poesia, na dança e
também a tarefa negativa, inserida em seus últimos escri- Estado de exceção. Homo Sacer II. Trad. Iraci D. Poleti. São nas máscaras, cujo caráter destitutivo que estabelecem
tos, e “é a tarefa central da filosofia de Nietzsche” (RUBIRA, Paulo: Boitempo, 2004). É dessas constatações que Agam- rompe com aquele dos dias comuns, invertendo valores e
Luís in MARTON, Dicionário Nietzsche. São Paulo: Edições ben formula a política-que-vem, uma política não jurídica poderes vigentes, liberando o corpo e suas expressões de
Loyola (Sendas & Veredas), 2016, p. 401,). A transvaloração e capaz de reverter esse cenário, mas que não quer fo- um agir produtivo. Nessa abertura inoperosa das funções
dos valores é a inversão daquela moral cristã que Nietzs- mentar quaisquer mecanismos tradicionais com os quais a biológicas, econômicas e sociais surgem novos usos pos-
che aponta como fundante do niilismo ocidental, e que política soberana se organiza e opera. A política-que-vem síveis e profanadores, e desse modo uma abertura para
precisa ser superada e revista para que haja espaço para não tem centro, é anárquica, é aquela política que brota da a política para além daquele eixo da oikos ao qual está
o surgimento do além-do-homem e uma cultura revitali- sobreposição entre forma-de-vida e pensamento, coinci- aprisionada desde a Grécia antiga. É nesse contexto que
zada e pujante. dindo com a inoperosidade e a potência destituinte, fun- devemos entender o poder destituinte agambeniano, ta-
7 A potência-do-não é um dos conceitos centrais na obra cionando justamente nas rachaduras do poder soberano, refa de uma política-que-vem que inaugura novas formas-
agambeniana, formulado como um amadurecimento da a partir da figura das singularidades quaisquer. A política- de-vida e que não é aquela do poder constituído dado por
problemática da potência, que perpassa seus escritos des- que-vem se desvela quando a vida dá a si própria a sua formulações políticas clássicas; não será necessariamente
de os anos 1970. Para Edgardo Castro (Introdução a Gior- norma, quando é capaz de profanar os dispositivos que por revoluções e violência que se dará esse outro hori-
gio Agamben. Uma arqueologia da potência. Trad. Beatriz a aprisionam à biopolítica e faz um novo uso das coisas. zonte político, porquanto se continuar recorrendo a esses
de Almeida Magalhães. Belo Horizonte: Autêntica, 2012, p. Sobretudo, a política-que-vem é aquela experiência de expedientes manterá o paradigma do poder soberano e
10) a temática aristotélica da potência seria o fio condu- uma potência-do-não, de ser capaz de poder sua própria constituinte que se legitima não apenas pela decisão, gló-
tor da filosofia de Agamben, como fica evidenciado, en- potência e não se reduzir às capturas operadas pelo po- ria, liturgia e dispositivos de aclamação, mas também pela
tre outros escritos, em Potência do Pensamento, Bartebly, der constituinte: é a resistência que surge como horizonte força que assujeita e oprime. (Nota da entrevistada)

30 DE SETEMBRO | 2019
REVISTA IHU ON-LINE

Márcia Junges - A vontade de IHU On-Line – De que manei- não invalida a hipótese da demo-
potência é uma potência biológica ra a noção de potência aparece cracia como regime de autogestão
que entende a vida como valor su- tratada na obra de Agamben e coletiva dos quaisquer na política-
premo, operando a nível molecular, como ela é articulada genealo- que-vem, já que é uma possibilidade
fora do escopo do arbítrio humano. gicamente? da potência humana aberta à contin-
Trata-se da potência fisiológica, or- gência. Para Agamben, a política é o
Márcia Junges – O conceito de
gânica, de autoafirmação da vida e “im-possível” não como um projeto
potência, em Agamben, aparece com
que engendra forças em caráter rela- a ser concretizado, mas da possibili-
a terminologia autóctone potência-
cional afirmando suas diferenças. “A dade do novo. Entretanto, pensamos
do-não, e é oriundo da filosofia aris-
vontade de potência aparece assim haver um tensionamento quando
totélica. Agamben se refere não à
como explicação do caráter intrín- são igualadas a política-que-vem à
potência de tipo genérico, mas aquela
seco da força”11 e é a expressão de inoperosidade e à potência desti-
da hexis, que pode tanto ser colocada
sua efetivação. Refletimos acerca da tuinte19, pois estas podem resultar
em ato, quanto ser suspensa e manti-
hipótese de uma espécie de tensio- em outras formas políticas que não
da intacta13. A aporia aristotélica con-
namento entre a vontade de potên- sejam necessariamente soberano-
siste em que a potência se define por
cia, que opera em nível fisiológico, democráticas ou representativas.
seu não-exercício14, e por isso cada
e a transvaloração dos valores, que
potência é, também, impotência do Contra a biopolítica maior, repre-
ocorre como potencialidade de revi-
mesmo em relação a si próprio. Neste sentada pelo Estado, Agamben pro-
talizar um sistema político corroído.
caso a impotência (adynamia) é po- põe uma biopolítica menor, aquela
Essa tensão precisa estar presente tência-de-não, e não ausência de po- que o qualquer constrói a partir de
dentro do diagnóstico que a filosofia tência, mas inoperosidade repleta de sua existência fática, fundada na ple-
nietzschiana traça sobre a decadência potencial criativo. nitude da vida e sua reapropriação20,
política e as aberturas que surgem na construção de modos de ser, de
Agamben propõe que em cada ato
para a política e a democracia liberal. formas-de-vida cuja configuração
de criação resiste algo não expres-
Como a vontade de potência em Niet- fundamental é a coincidência entre a
so: a potência é ambígua, pois con-
zsche é naturalizada, há uma tendên- vida e sua forma, indiscernivelmen-
tém em si a capacidade de passar
cia para que a política siga essa linha, te. É no resto entre as tentativas de 19
ao ato, mas uma resistência que se
tomando rumos hierarquizados e dessubjetivação perpetradas pelo
mantém e que não se exaure na pas-
com pouco espaço para a democracia Estado e a insistência pela subjeti-
sagem da potência ao ato15. O termo
na potência da natureza. De qualquer vação realizada pelo qualquer que
“inoperosidade” surge com força nas
modo, isso não invalida as possibili- se vislumbra uma ética da vida, uma
reflexões sobre o ato de criação, e
dades que brotam da transvaloração política da vida.
Agamben evoca “uma poética – ou
dos valores e de uma política que
uma política – da inoperosidade”16.
rompa com a degenerescência apon- Política além do binômio
Retornando à Etica Nicomachea,
tada por Nietzsche, ainda que a de- auctoritas e potestas
elucida que ergon define a energeia,
mocracia não seja o que almeja e nem
ou seja, aquela atividade do ser-em No ensaio Em nome de quê?, pu-
mesmo a política seja o horizonte de
-ato que é própria e referente ao blicado em O fogo e o relato, Agam-
suas argumentações centrais.
homem17. Em Aristóteles, o ser não ben sentencia que “as categorias do
Portanto, é preciso entender a von- possui uma vocação que o define, político desabaram em todos os lu-
tade de potência em conexão com como outras espécies animais que só gares”21, e apenas a poesia poderia
a categoria de transvaloração dos podem ser o que são e fazer o que fa- fazer-lhe frente. Pensando na po-
valores, pois se a primeira possui zem. A inoperosidade é uma potên- tência-do-não como linha de fuga
uma fundamentação naturalizada, a cia de tipo especial, um ato de cria- e resistência surge a possibilidade
segunda aponta para uma abertura ção18, quando se contempla a própria de formas-de-vida que carreguem
através do posicionamento crítico potência de agir, quando a potência consigo a marca da insurgência, da
e da construção de valores nobres, não se esgota no ato. potência destituinte, da experiência
que superem a decadência de uma de um pensar que também é agir na
Ao conceber a potência como po-
política apequenada e refém de uma expressão do gesto, da medialida-
tência-do-não enquanto possibilida-
lógica do ressentimento. Ao abrir es- de pura, na tensão constante entre
de do novo e da ruptura, Agamben
paço para o conflito, Nietzsche deixa potência e ato personificada pela
espaço para repensarmos a demo- cendence. South African Journal of Philosophy, 26:1, 78-89,
cracia, o que pode ocorrer pelo culti- 2013, disponível em https://bit.ly/2HbXdlT, acesso em 20-
4-2018, p. 88. (Nota da entrevistada) 19 Vide a nota imediatamente anterior, na qual oferece-
vo do dissenso e da possibilidade de 13 AGAMBEN, Giorgio. O fogo e o relato. Ensaios sobre mos uma problematização entre a inoperosidade e a eclo-
resistir12. criação, escrita, arte e livros. Tradução Andrea Santurbano,
Patricia Peterle. São Paulo: Boitempo, 2018, p. 63. (Nota
são de uma potência destituinte. (Nota da entrevistada)
20 GIACOIA JR., Oswaldo. Agamben. Por uma ética da ver-
da entrevistada) gonha e do resto. São Paulo: n-1 edições, 2018, p. 84. (Nota
14 Ibidem., p. 64. (Nota da entrevistada) da entrevistada)
11 MARTON, Scarlett. Nietzsche, seus leitores e suas lei- 15 Ibidem., p. 66. (Nota da entrevistada) 21 AGAMBEN, Giorgio. O fogo e o relato. Ensaios sobre
turas. São Paulo: Barcarolla, 2010, p. 40. (Nota da entre- 16 Ibidem., p. 76. (Nota da entrevistada) criação, escrita, arte e livros. Tradução Andrea Santurbano,
vistada) 17 Ibidem., p. 76. (Nota da entrevistada) Patricia Peterle. São Paulo: Boitempo, 2018, p. 96. (Nota
12 TONGEREN, Paul van. Nietzsche, democracy and trans- 18 Ibidem., p. 79. (Nota da entrevistada) da entrevistada)

EDIÇÃO 542
DOSSIÊ AGAMBEN

inoperosidade e pela resistência. A dos quais não podemos nos furtar. posto do Cristianismo para a demo-
política-que-vem a partir dessa rup- Cada um de nós pode viver formas- cracia, são para Nietzsche um dos
tura busca justamente evitar que a de-vida outras, e é essa coragem motivos pelos quais a democracia
vida seja controlada e direcionada existencial que nos desafia a pensar termina por operar como um espaço
pelos dispositivos que o capitalismo o presente com a arqueogenealogia destituído de espírito aristocrático e
não cessa de interpor. Ganha força do passado, que Agamben realiza e valores elevados.
a abertura para o novo e a constru- retroage oferecendo uma ontologia
Se o diagnóstico é duro, as possibi-
ção de um tipo de política diferente da potência.
lidades que brotam a partir dele po-
daquele que se fundamenta no binô-
Pensando a partir dos escritos do dem mostrar-se surpreendentemen-
mio auctoritas e potestas, repensan-
italiano, o filósofo é aquele que não te vicejantes. Ainda que pensadores
do a democracia e sua relação fatal
se cala, espécie de estranho na cida- reiteradamente tenham pervertido
com os totalitarismos, que espreitam de, vivendo nela, mas não perten- os escritos nietzschianos, atribuindo
em seu interior. cendo a ela, indócil e incapturável, a ele interpretações fascistas, deve-
IHU On-Line – De que ordem andarilho que destrói suas vestes e mos insistir que de seu pensamen-
é o desafio de superar as estru- que arremessa hastes de aço entre as to surgem arestas promissoras para
turas biopolíticas de governo engrenagens da biopolítica, fazendo pensar uma democracia revitalizada
da vida, que, por sua vez, ten- -a colapsar. Essa atopia é sua maior por valores nobres, não corroídos
dem a produzir os sujeitos sa- potência, porquanto faz ranger o pelo ressentimento, pelo ódio cego
crificáveis – homini sacri? mecanismo de destruição de um ao adversário e à dissidência. O pen-
poder soberano, desconstruindo ilu- samento de Nietzsche jamais pro-
Márcia Junges – A produção em sões e mitos que estão nas raízes das pôs exterminar com os adversários,
massa de homini sacri é um dos efei- paixões tristes como o medo, esse pelo contrário, há o incentivo para
tos colaterais da máquina política do elemento de governo que sempre é cultivar o dissenso, o embate entre
Ocidente, produtora de exclusão e lançado à nossa cara a fim de nos pe- inimigos respeitáveis, mantendo um
morte: nos campos de refugiados, trificar, mantendo tudo como está. pathos da distância capaz de tornar
nos botes que cruzam oceanos tri-
Assim, compreender e superar as salutar a convivência em uma demo-
pulados pelo desespero de seres hu-
20 manos em situação limítrofe, naque- estruturas de governo biopolítico cracia, guardando o espaço para a
está na ordem da urgência, da ta- divergência e o cultivo da excelência.
las pessoas descartáveis por não se
adequarem como consumidores em refa que nos toca enquanto pensa- Contra a loucura de estar de acordo
um mundo onde tudo é mercadoria, dores críticos que apontam para os com todos, Nietzsche nos provoca a
nas favelas onde viver é um desafio limites da democracia representati- tomarmos posição, a lutarmos nos-
diário e os barracos são um entrave va liberal, mas que estão prontos a sas próprias batalhas e avançarmos
aos condomínios com suas varandas repensá-la e dar vazão a outras ex- não sobre os destroços dos venci-
gourmet, nas aldeias onde os povos pressões políticas, complementares, dos, mas elevarmos nossa existência
originários vivem desde sempre, não excludentes, em uma vida que através de um espírito revigorado,
mas são taxados de atrasados e obs- ousa dar a si mesma a sua forma, e que não se dobra ao mando de me-
táculos ao desenvolvimento econô- que não aceita submeter-se à norma díocres, ressentidos, cujo horizonte
mico. A tarefa não só da geração que vazia do Direito e da Economia como existencial se delineia na vingança
vem, como admoesta Agamben, mas pilastras centrais na condução de contra o que é belo, inteligente, forte
da nossa, hoje, na incomensurabili- existências autorizadas e úteis. e impossível de enquadrar.
dade do instante, é a irrecusável res- IHU On-Line - Que pistas
ponsabilidade de desativarmos esses Nietzsche e Agamben oferecem Agamben
dispositivos de exclusão com peque- para avançarmos diante das A exemplo de Nietzsche, Agamben
nas e grandes profanações, fazendo encruzilhadas de nosso tempo?
descreve um cenário preocupante
girar no vazio essa máquina bipolar
Márcia Junges – Nietzsche e acerca da política ocidental, apon-
que nos governa, auctoritas (Reino)
Agamben pertencem àquela espécie tando a biopolítica como modelo de
e potestas (Governo).
provocadora de filósofos, difíceis de aprisionamento da vida nua, e ao es-
Desobedecer, fazer a manada du- enquadrar em cânones tradicionais tado de exceção convertido em regra e
vidar de si própria, aperceber-se e que oferecem chaves importantes modelo jurídico recorrente. Uma vida
de seu aprisionamento através do para pensarmos nosso tempo. A aná- capturada, esvaziada em sua subjetivi-
pensar crítico, são meios de colap- lise de Nietzsche acerca do nivela- dade, impelida a sobreviver, somente,
sar o aparato político ocidental e mento rasteiro da democracia liberal é a grande maldição que herdamos
suas formas de administrabilidade de seu tempo encontra similaridades da Grécia clássica, onde a biopolítica
da vida. Um estado de insurreição hoje, quando presenciamos uma já era a categoria que estendia seus
permanente, de desacato ao injusto corrosão da representatividade no tentáculos no âmbito da oikos, da casa
e desagravo à perseguição à vida em Ocidente. Percepções nodais como onde imperava o pater familias e seu
todas as suas formas são imperativos o comportamento gregário, trans- poder discricionário. Para Agamben,

30 DE SETEMBRO | 2019
REVISTA IHU ON-LINE

essa matriz grega da biopolítica deri- o novo, naquela experiência de tempo ser reconstruídas para pensar a po-
vou para a Modernidade e se aprofun- kairótico denso, contraído, o tempo lítica, como provoca Agamben, são
dou com o império dos dispositivos messiânico que Agamben retoma de uma tarefa para a qual todos esta-
contra os quais devemos nos rebelar e Walter Benjamin22 e retrabalha a par- mos interpelados.
profanar seus ídolos. tir da perspectiva paulina, propondo
profanarmos vivendo como se não.
Com esses aspectos em vista, pen- IHU On-Line – Como pode-
samos que tais filósofos expressam mos compreender os ataques
a importância de se engendrar no- IHU On-Line – Do ponto de do atual governo à Filosofia,
vas formas-de-vida, coincidindo a vista da filosofia política, quais Sociologia e Ciências Humanas
vida vivida com aquela existência têm sido os principais proble- em geral? Que respostas as áre-
que surge do transbordamento e da mas filosóficos a serem enfren- as de Humanidades podem ofe-
destituição, da insurreição-que-vem, tados contemporaneamente? recer no atual contexto?
de uma política que não se reduza
apenas àquela representada pelo Es- Márcia Junges – A Filosofia Polí- Márcia Junges – As Humani-
tado e domesticada por seu modus tica tem em seu horizonte inúmeros dades, em um contexto amplo, são
operandi que faz do sujeito um mero problemas para enfrentar, dos quais “inconvenientes” porque se valem
repetidor de fórmulas gastas para so- pontuo alguns: a crise dos refugia- do pensamento crítico como seu
breviver. O deslocamento político do dos em diferentes partes do mundo, principal eixo. A Filosofia, com sua
Cristianismo para a democracia, na o colapso da representatividade de- pergunta escandalosa pelo sentido
compreensão de Nietzsche, e a deri- mocrática e das categorias com as das coisas e da vida, cuja espinha
va teológica e econômica destes para quais pensamos a política, o proble- dorsal é um pensamento que não se
a política, segundo Agamben, não ma da coincidência entre nacionali- dobra e não aceita comportamen-
são as instâncias últimas daquilo que dade e território, além da aplicação to de manada, causa desespero em
pode a política. O qualquer, o inapro- do estado de exceção como norma, um governo de parvos, que opera
priável, a política-que-vem não se re- nos mais diversos contextos. Em to- valendo-se do medo e da mentira
sumem a uma fórmula, eles trincam das essas situações é evidente a im- para tentar manter sob controle uma
o verniz com o qual a Modernidade portância de uma reflexão filosófica nação cindida. Felizmente, essa cre-
dulidade está trincada e não resistirá
21
pensa ter restaurado a bucólica exis- que nos aponte os limites de teorias
tência em sociedade, em uma polis na que não mais dão conta de nossa a muitas outras investidas, como as
qual a Filosofia tem a tarefa irrecusá- realidade, expondo a fragilidade de manifestações contra os cortes na
vel de pensar o presente a partir das uma ontologia redutora do dever-ser educação já o demonstraram. A cada
raízes do nosso passado. e da submissão da vida enquadrada dia que passa, as lutas de pesquisa-
com vistas ao funcionamento da má- dores das Humanidades se mostram
Rostos insuflados de vento quina neoliberal. ainda mais corretas e coerentes, pois
gélido fomentam o espírito livre, o pensa-
Trata-se de um grande desafio para mento desenraizado, a dúvida como
Para além dos diagnósticos desa- a Filosofia Política, porquanto é im- semente para o eterno pensar, mobi-
lentadores em que desponta o niilis- perativo questionar a política, sem lizando pelas verdades que descor-
mo no qual estamos mergulhados há invalidá-la, porquanto sabemos a tina em um cenário no qual a dis-
milênios, Nietzsche e Agamben insu- impossibilidade de vivermos em um seminação do ódio e das fake news
flam em nossos rostos o vento gélido mundo sem essa expressão da vida têm sido a tônica desde a campanha
da coragem, da resistência que faz em comum, ainda que com todas as eleitoral de 2018.
nossas espinhas não se curvarem ao suas vicissitudes, limitações e im-
Continuar fazendo Filosofia crítica
poder. Surgem daí formas políticas passes. As categorias que necessitam
séria, bem fundamentada e em di-
novas, nas quais o ruminar, o trans-
álogo com pares brasileiros e inter-
valorar, o profanar e o resistir nos 22 Walter Benjamin (1892-1940): filósofo alemão. Foi
refugiado judeu e, diante da perspectiva de ser captura- nacionais é o que devemos ter em
desafiam a viver uma vida que dê a si do pelos nazistas, preferiu o suicídio. Associado à Escola
de Frankfurt e à Teoria Crítica, foi fortemente inspirado nosso horizonte, não cedendo um
própria a sua forma, que se concreti- tanto por autores marxistas, como Bertolt Brecht, como
milímetro sequer no aprofundamen-
ze na imanência de sentidos e valores pelo místico judaico Gershom Scholem. Conhecedor
profundo da língua e cultura francesas, traduziu para o to de nossas pesquisas. Manifestos
que nós próprios possamos criar. alemão importantes obras como Quadros parisienses, de
Charles Baudelaire, e Em busca do tempo perdido, de Mar- físicos e escritos já surgiram e preci-
cel Proust. O seu trabalho, combinando ideias aparente- sam seguir brotando. Devemos fazer
O mundo não está dado, não é ne- mente antagônicas do idealismo alemão, do materialismo
cessitário: é um vir-a-ser, uma cons- dialético e do misticismo judaico, constitui um contributo da insurgência nossa principal fonte
original para a teoria estética. Entre as suas obras mais
trução. Martelar sentidos gastos, conhecidas, estão A obra de arte na era da sua reprodu- de resistência e não nos calarmos
usados por conveniência para tornar tibilidade técnica (1936), Teses sobre o conceito de história
(1940) e a monumental e inacabada Paris, capital do século
frente a medidas que pretendem fa-
as pessoas dóceis, é uma das boas for- XIX, enquanto A tarefa do tradutor constitui referência in- zer a pesquisa brasileira retroagir,
contornável dos estudos literários. Sobre Benjamin, con-
mas de iniciarmos a transvaloração e fira a entrevista Walter Benjamin e o império do instante, retrocedendo no patamar de quali-
a profanação, nas frestas do instante, concedida pelo filósofo espanhol José Antonio Zamora dade que conquistamos ao longo de
à IHU On-Line nº 313, disponível em http://bit.ly/zamo-
da contingência por onde pode surgir ra313. (Nota da IHU On-Line) décadas, a duras penas.

EDIÇÃO 542
DOSSIÊ AGAMBEN

Pensamentos perigosos mamento de certa parcela da popu- Nesse contexto, vale a pena lem-
lação através de um decreto infame brar o quão inconveniente a Filoso-
O que está por trás do ataque às para proliferar armas legais, tal é o fia pode ser, retomando o caso de
universidades, em específico àque- (des)governo que temos. Chegamos Espinosa23, pensador excomungado
las federais e seus cursos repletos ao ponto de quatro ministros menti- da comunidade judaica holandesa
de “idiotas úteis” que ousaram sair
rem deliberadamente em seus Curri- por conta de suas ideias, culminando
à rua se manifestar, é o imperativo
culum Lattes, afirmando possuírem com uma tentativa de assassinato.
de privatizar o ensino e entregá-lo
graus acadêmicos jamais conquista- Conta-se que, vivendo em Leiden, o
a investidores convenientemente
dos, terem frequentado instituições filósofo mantinha consigo seu casaco
próximos a pessoas do governo, tor-
nando os estudantes escravizados onde nunca estiveram, ou nas quais rasgado à faca. A ideia era recordar
por dívidas de crédito estudantil ou era uma “intenção” estudar. O des- acerca da inconveniência da Filoso-
financiamentos em bancos, a exem- prezo pela educação é demonstrado fia e seus pensamentos perigosos. ■
plo do que ocorre nos EUA, que não por tais invectivas, que dão o tom do
por acaso são o modelo ideal do deboche e do esvaziamento da pas- 23 Baruch Spinoza (ou Espinosa, 1632–1677): filósofo
holandês. Sua filosofia é considerada uma resposta ao du-
bolsonarismo. Um Estado que quer ta, consumida em lutas internas e alismo da filosofia de Descartes. Foi considerado um dos
grandes racionalistas do século 17 dentro da Filosofia Mo-
livrar-se do fardo da educação públi- na perseguição a uma pretensa ide- derna e o fundador do criticismo bíblico moderno. Confi-
ca, gratuita e de qualidade, mas que ologia comunista que pensam estar ra a edição 397 da IHU On-Line, de 6-8-2012, intitulada
Baruch Spinoza. Um convite à alegria do pensamento, dis-
não se esquiva em incentivar o ar- arraigada por toda parte. ponível em https://goo.gl/GEGuI5. (Nota da IHU On-Line)

Leia mais
- A grande política em Nietzsche e a política que vem em Agamben. Cadernos IHU Ideias,
22 nº 210, vol. 12, 2014, disponível em http://bit.ly/2F6RGtK.
- Um poder que se alimenta da glória. Revista IHU On-Line, número 505, de 22-05-2017,
disponível em http://bit.ly/2X9Xf4F.
- Schuld: dívida e culpa na Genealogia da Moral, de Nietzsche. IV Colóquio Internacional
IHU - Políticas Públicas, Financeirização e Crise Sistêmica. V. 1, p. 359-376, 2016, disponível
em https://bit.ly/2rM9tij.

30 DE SETEMBRO | 2019
REVISTA IHU ON-LINE

O totalitarismo democrático
percebido por Agamben
Ésio Salvetti observa como o autor italiano vai, no sentido
contrário da Filosofia contemporânea, apreender uma certa
continuidade entre o totalitarismo e a democracia
Ricardo Machado | Edição: João Vitor Santos

O
pensador e político brasileiro uma tácita e crescentes inscrições de
Ruy Barbosa afirma que “a pior nossas vidas na ordem estatal, o que na
democracia é preferível à me- verdade acaba tornando-se uma nova
lhor das ditaduras”. Hoje, mesmo em e temível instância de poder soberano,
meio ao flerte de muitos com os regi- que achávamos que a democracia tinha
mes ditatoriais, não há quem conteste nos libertado”, acrescenta.
veementemente a sua assertiva, dita Assim, o professor endossa a tese de
quando sonhava com um Brasil repu- Agamben de que dentro da própria de-
blicado. Há inclusive quem diga que mocracia há não só arroubos totalitá-
nem os mais totalitários gostariam da rios, mas, também, mecanismos que
volta de uma ditadura. Parece absur- podem engendrar sua destruição. “Não
do, mas há algo nessa perspectiva que podemos mais nos contentar com teo-
revela que mesmo dentro de regimes rias que buscam ‘amenizar’ os desvios
democrático ainda se mantém acesa 23
democráticos. O que precisamos en-
certa centelha de totalitarismo. Isso, na
tender é como num estado democrá-
perspectiva do professor Ésio Francisco
tico pode sobreviver ou germinar as
Salvetti, é percebido muito claramente
sementes do autoritarismo”, provo-
por Giorgio Agamben no final do século
ca Ésio. E, nesse sentido, é observar
XX. “Agamben em 1995, na contramão
como, no contexto brasileiro, se dão os
das teorias tradicionais da filosofia con-
ataques a Ciências Humanas especial-
temporânea, postulou uma tese que lhe
mente. “As ciências humanas cumprem
rendeu muitas críticas, a saber: que en-
uma função de crítica social e crítica
tre democracia e totalitarismo há uma
do conhecimento, simultaneamente.
contiguidade”, explica, na entrevista
Enquanto crítica social, ela condena a
concedida por e-mail à IHU On-Line.
sociedade por não corresponder ao seu
Obviamente, o professor ainda reco- discurso, por não ser aquilo que ela diz
nhece que “Agamben não está negan- ser; como crítica do conhecimento, ela
do os avanços que humanidade logrou é capaz de questionar a forma de co-
com as democracias e tão pouco está nhecimento predominante, pautada
comparando qual dos regimes é me- pela identidade, pela lógica tecnicista
lhor”. Nesse sentido, podemos ousar e planejada”, defende.
afirmar que se aproxima do velho Ruy
Barbosa. “O que Agamben tem dúvidas Ésio Francisco Salvetti é doutor
é se a passagem do totalitarismo à de- em Filosofia pela Universidade Federal
mocracia suscitou uma reviravolta real de Santa Maria - UFSM e pela Univer-
na vida dos sujeitos, ou o que ocorreu sità degli Studi di Padova - Itália em
foi uma verdadeira ilusão e mascara- 2017, mestre em Filosofia, também pela
mento da realidade?”, aponta Ésio. “Se UFSM e graduado em Filosofia pelo
analisarmos com calma, logo percebe- Instituto Superior de Filosfia Berthier e
mos que aquilo que inferimos como pelo Instituto Superior de Filosofia Ber-
avanços da democracia, são eventos de thier. Ainda é bacharelando em Direito
dupla face: a ideia de liberdade e de di- pela IMED.
reitos que adquirimos são na verdade Confira a entrevista.

EDIÇÃO 542
DOSSIÊ AGAMBEN

IHU On-Line – Qual a impor- dições que se encontravam milhares e Foucault à teoria de soberania de
tância da obra de Agamben1, de migrantes. Schmitt7. Hoje, depois da conclusão
sobretudo a partir da segunda do projeto Homo Sacer, é possível
Nesse contexto, Giorgio Agamben
metade dos anos 1990, para traçarmos um fio condutor do início
propôs uma nova interpretação do
pensar a filosofia política? ao fim de seu projeto e ensaiar res-
conceito ocidental de política. Apro-
postas às críticas prematuras que ra-
Ésio Francisco Salvetti – A par- ximando-se das reflexões de Fou-
pidamente foram feitas ao seu pro-
tir dos anos de 1990, Giorgio Agam- cault4 e das análises do totalitarismo
jeto filosófico, como por exemplo:
ben inaugura um momento chave feitas por Hannah Arendt5, Agam-
de que não apresenta propostas, de
para sua teoria filosófica, foi uma ben assume o debate teórico sobre
que é apenas uma crítica ou descons-
década marcada por uma série de a biopolítica, alimentando reflexões
trução e que a ética é negligenciada.
publicações. O primeiro livro foi La e releituras que colocam em questão
Hoje é tranquilamente possível a
comunità che viene, e Bartleby ou elementos cruciais da filosofia polí-
desconstrução desses argumentos.
da contingência (1993)2. Depois, em tica moderna. Não é exagero dizer
1995, Agamben lança o primeiro vo- que este pensador está contribuindo
Filosofia Política como ar-
lume do projeto conhecido de Homo para a redefinição dos parâmetros
ranjo jurídico-institucional
Sacer: a primeira obra, Homo sacer: da filosofia política contemporânea,
il potere sovrano e la nuda vita3. A isso se evidencia através dos novos Nos anos de 1970, o filósofo John
publicação deste primeiro volume conceitos introduzidos por ele e que Rawls8, de forma peculiar retoma o
tornou Giorgio Agamben conheci- hoje são imprescindíveis nas discus- contratualismo, crendo que, pode-
do mundialmente. O projeto surgiu sões da filosofia política. ríamos, em nossas sociedades mul-
simultaneamente com uma nova ticulturais e plurais, concordar com
Isso se deve, em certo sentido, pela
ordem social que despontou com o forma inovadora com que ele vincu- a postulação de princípios consti-
final da Guerra Fria, sob a rubrica la os trabalhos de Benjamin6, Arendt tucionais mínimos, os quais se so-
da guerra humanitária e sob as con- breporiam às diferenças religiosas,
4 Michel Foucault (1926-1984): filósofo francês. Suas morais, raciais ou de qualquer outra
1 Giorgio Agamben (1942): filósofo italiano. É professor obras, desde a História da Loucura até a História da sexu-
da Facolta di Design e arti della IUAV (Veneza), onde ensi- alidade (a qual não pôde completar devido a sua morte),
ordem. Como resposta a postulação
24 na Estética, e do College International de Philosophie de situam-se dentro de uma filosofia do conhecimento. Fou- de princípios constitucionais míni-
Paris. Formado em Direito, foi professor da Universitá di cault trata principalmente do tema do poder, rompendo
Macerata, Universitá di Verona e da New York University, com as concepções clássicas do termo. Em várias edições, mos, surgiram os modelos republi-
cargo ao qual renunciou em protesto à política do gover- a IHU On-Line dedicou matéria de capa a Foucault: edição
no estadunidense. Sua produção centra-se nas relações 119, de 18-10-2004, disponível em http://bit.ly/ihuon119;
canos, comunitaristas, procedimen-
entre filosofia, literatura, poesia e, fundamentalmente, edição 203, de 6-11-2006, disponível em https://goo.gl/ talistas que dominaram a Filosofia
política. Entre suas principais obras estão Homo Sacer: o C2rx2k; edição 364, de 6-6-2011, intitulada ‘História da
poder soberano e a vida nua (Belo Horizonte: Ed. UFMG, loucura’ e o discurso racional em debate, disponível em Política a partir da década de 1970.
2002), A linguagem e a morte (Belo Horizonte: Ed. UFMG, https://goo.gl/wjqFL3; edição 343, O (des)governo biopolí-
2005), Infância e história: destruição da experiência e ori- tico da vida humana, de 13-9-2010, disponível em https://
Foi um período de encantamento
gem da história (Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2006); Estado goo.gl/M95yPv, e edição 344, Biopolítica, estado de exce- com a liberal-democracia quando a
de exceção (São Paulo: Boitempo Editorial, 2007), Estâncias ção e vida nua. Um debate, disponível em https://goo.gl/
– A palavra e o fantasma na cultura ocidental (Belo Ho- RX62qN. Confira ainda a edição nº 13 dos Cadernos IHU Filosofia Política foi pensada como
rizonte: Ed. UFMG, 2007) e Profanações (São Paulo: Boi- em formação, disponível em http://bit.ly/ihuem13, Michel
tempo Editorial, 2007). Em 4-9-2007, o sítio do Instituto Foucault – Sua Contribuição para a Educação, a Política e a
um arranjo jurídico-institucional ca-
Humanitas Unisinos - IHU publicou a entrevista Estado Ética. (Nota da IHU On-Line) paz de organizar a vida social segun-
de exceção e biopolítica segundo Giorgio Agamben, com 5 Hannah Arendt (1906-1975): filósofa e socióloga alemã,
o filósofo Jasson da Silva Martins, disponível em http:// de origem judaica. Foi influenciada por Husserl, Heidegger do uma moralidade mínima, isto é,
bit.ly/jasson040907. A edição 236 da IHU On-Line, de e Karl Jaspers. Em consequência das perseguições nazis-
17-9-2007, publicou a entrevista Agamben e Heidegger: o tas, em 1941, partiu para os Estados Unidos, onde escre-
uma moralidade que não deve inter-
âmbito originário de uma nova experiência, ética, política veu grande parte das suas obras. Lecionou nas principais ferir nas liberdades individuais.
e direito, com o filósofo Fabrício Carlos Zanin, disponível universidades deste país. Sua filosofia assenta em uma
em https://goo.gl/zZRChp. A edição 81 da publicação, de crítica à sociedade de massas e à sua tendência para ato-
27-10-2003, teve como tema de capa O Estado de exceção mizar os indivíduos. Preconiza um regresso a uma concep-
e a vida nua: a lei política moderna, disponível para aces- ção política separada da esfera econômica, tendo como
so em http://bit.ly/ihuon81. Em 30-6-2016, o professor modelo de inspiração a antiga cidade grega. A edição
Castor Bartolomé Ruiz proferiu a conferência Foucault e 438 da IHU On-Line, A Banalidade do Mal, de 24-3-2014, tornável dos estudos literários. Sobre Benjamin, confira a
Agamben. Implicações Ético Políticas do Cristianismo, que disponível em https://goo.gl/QqtQjz, abordou o trabalho entrevista Walter Benjamin e o império do instante, conce-
pode ser assistida em http://bit.ly/29j12pl. De 16-3-2016 a da filósofa. Sobre Arendt, confira ainda as edições 168 da dida pelo filósofo espanhol José Antonio Zamora à IHU
22-6-2016, Ruiz ministrou a disciplina de Pós-Graduação IHU On-Line, de 12-12- 2005, sob o título Hannah Arendt, On-Line nº 313, disponível em http://bit.ly/zamora313.
em Filosofia e também validada como curso de exten- Simone Weil e Edith Stein. Três mulheres que marcaram o (Nota da IHU On-Line)
são através do IHU intitulada Implicações ético-políticas século XX, disponível em http://bit.ly/ihuon168, e 206, de 7 Carl Schmitt (1888-1985): jurista, filósofo político e pro-
do cristianismo na filosofia de M. Foucault e G. Agamben. 27-11-2006, intitulada O mundo moderno é o mundo sem fessor universitário alemão. É considerado um dos mais
Governamentalidade, economia política, messianismo política. Hannah Arendt 1906-1975, disponível em https:// significativos e controversos especialistas em direito cons-
e democracia de massas, que resultou na publicação da goo.gl/uNWy8u. (Nota da IHU On-Line) titucional e internacional da Alemanha do século 20. A sua
edição 241 dos Cadernos IHU ideias, intitulado O poder 6 Walter Benjamin (1892-1940): filósofo alemão. Foi re- carreira foi manchada pela sua proximidade com o regime
pastoral, as artes de governo e o estado moderno, que pode fugiado judeu e, diante da perspectiva de ser capturado nacional-socialista. O seu pensamento era firmemente en-
ser acessada em http://bit.ly/1Yy07S7. Em 23 e 24-5-2017, pelos nazistas, preferiu o suicídio. Associado à Escola de raizado na teologia católica, tendo girado em torno das
o IHU realizou o VI Colóquio Internacional IHU – Políti- Frankfurt e à Teoria Crítica, foi fortemente inspirado tan- questões do poder, da violência, bem como da materiali-
ca, Economia, Teologia. Contribuições da obra de Giorgio to por autores marxistas, como Bertolt Brecht, como pelo zação dos direitos. (Nota da IHU On-Line)
Agamben, com base sobretudo na obra O reino e a glória. místico judaico Gershom Scholem. Conhecedor profun- 8 John Rawls (1921-2002): filósofo, autor de Uma teoria
Uma genealogia teológica da economia e do governo (São do da língua e cultura francesas, traduziu para o alemão da justiça (São Paulo: Martins Fontes, 1997), Liberalismo
Paulo: Boitempo, 2011. Tradução de: Il regno e la gloria. importantes obras como Quadros parisienses, de Char- Político (São Paulo: Ática, 2000) e O Direito dos Povos (Rio
Per una genealogia teológica dell’ecconomia e del gover- les Baudelaire, e Em busca do tempo perdido, de Marcel de Janeiro: Martins Fontes, 2001), além de Lectures on the
no. Publicado originalmente por Neri Pozza, 2007). Saiba Proust. O seu trabalho, combinando ideias aparentemente History of Moral Philosophy (Cambridge: Harvard Univer-
mais em http://bit.ly/2hCAore. Em 2017 a revista IHU On antagônicas do idealismo alemão, do materialismo dialé- sity Press, 2000). A IHU On-Line número 45, de 02-12-
-Line publicou a edição Giorgio Agamben e a impossibili- tico e do misticismo judaico, constitui um contributo origi- 2002, dedicou seu tema de capa a John Rawls, sob o título
dade de salvação da modernidade e da política moderna, nal para a teoria estética. Entre as suas obras mais conhe- John Rawls: o filósofo da justiça, disponível em http://bit.ly/
nº 505, disponível em http://bit.ly/2NXjQwT. (Nota da IHU cidas, estão A obra de arte na era da sua reprodutibilidade ihuon45. Confira, ainda, a primeira edição dos Cadernos
On-Line) técnica (1936), Teses sobre o conceito de história (1940) e IHU Ideias, A teoria da justiça de John Rawls, de autoria
2 Bollati Boringhieri, 2001. (Nota da IHU On-Line) a monumental e inacabada Paris, capital do século XIX, de José Nedel e disponível em http://bit.ly/ihuid01. (Nota
3 Einaudi, 1997. (Nota da IHU On-Line) enquanto A tarefa do tradutor constitui referência incon- da IHU On-Line)

30 DE SETEMBRO | 2019
REVISTA IHU ON-LINE

Para autores como Rawls e Haber- berais, Agamben faz as devidas ava- de perturbação da ordem pública,
mas9, a democracia só subsistiria liações. Obviamente que ao postular o uso de medidas necessárias para
nas sociedades multiculturais se ela a tese sobre a contiguidade entre De- restabelecer a segurança. Não po-
se propusesse como puro procedi- mocracia e Totalitarismo, Agamben demos cometer o erro e pensar que
mento de decisão. Esses pensado- não está negando os avanços que essa prática política-jurídico foi uma
res assumiram o desafio de propor humanidade logrou com as demo- peculiaridade da segunda guerra
um arranjo político capaz de conci- cracias e tão pouco está comparan- mundial. Agamben é claro ao afir-
liar os princípios da igualdade e da do qual dos regimes é melhor. Sobre mar que o estado de exceção tende
liberdade. O grande auge da social- isso, ninguém de boa-fé teria dúvi- cada vez mais a se apresentar como
democracia foi com as políticas de das. O que Agamben tem dúvidas o paradigma do governo dominante
reconhecimento e luta moral pela é se a passagem do totalitarismo à na política contemporânea.
afirmação de identidades coletivas, democracia suscitou uma reviravol- O que dizer das reações desencade-
especificamente a partir de maio de ta real na vida dos sujeitos, ou o que adas pelo governo norte-americano
1968, quando passaram a determi- ocorreu foi uma verdadeira ilusão e diante dos atentados de 11 de setem-
nar a agenda dos movimentos so- mascaramento da realidade? bro? Numa investida global contra
ciais. Assim, a teoria política seguiu os chamados inimigos da civilização
Se analisarmos com calma, logo
uma agenda de afirmação de iden- ocidental, o governo norte america-
percebemos que aquilo que inferi-
tidades morais, como o feminismo, no sistematizou e tornou lei, em 26
mos como avanços da democracia,
o pós-colonialismo, além de temas de outubro de 2001, um documento
são eventos de dupla face: a ideia de
como direitos humanos e ambien- que autorizava a invasão de lares, a
liberdade e de direitos que adqui-
talismo. Sobre isso é importante espionagem de cidadãos, a interro-
rimos são na verdade uma tácita e
destacar que Agamben não se insere gações e torturas de possíveis sus-
crescentes inscrições de nossas vidas
nessa mesma esteira do pensamento peitos de espionagem ou terrorismo,
na ordem estatal, o que na verdade
filosófico contemporâneo. Influen- sem direito a defesa ou julgamento.
acaba tornando-se uma nova e temí-
ciados pela primeira geração da Es- Aos olhos do poder, cada cidadão é
vel instância de poder soberano, que
cola de Frankfurt, Agamben faz uma um terrorista em potencial. De que
achávamos que a democracia tinha
leitura crítica, desvinculando-se do forma podemos explicar que as de- 25
nos libertado. Isso significa afirmar
projeto da modernidade. mocracias têm uma política de segu-
que no próprio seio da democracia
existem os mecanismos da sua des- rança duas vezes pior do que o fas-
Do totalitarismo ao demo- cismo italiano teve? Para concluir,
truição, o que explica a crescente
crático penso que, do ponto de vista da fi-
suspensão democrática de leis.
losofia política, Agamben contribui
Com a queda do muro de Berlim, a significativamente com um diagnós-
transição dos países comunistas do Estado nazista
tico preciso das nossas formas de
leste Europeu e o fim das ditaduras governos e nos alerta que, não pode-
Sobre isso Agamben destaca que a
latino-americanas, o grande tema do mos mais nos contentar com teorias
principal referência deste fenôme-
momento era democracia e totalita- que buscam “amenizar” os desvios
no é, sem dúvida, o Estado nazista.
rismo, a questão de fundo era como democráticos. O que precisamos en-
Hitler10, por meio do decreto para
os regimes totalitários tornavam-se tender é como num estado democrá-
a proteção do povo e do Estado,
democráticos e fundamentalmen- tico pode sobreviver ou germinar as
promulgado em fevereiro de 1933,
te o que era necessário para que as sementes do autoritarismo.
suspendeu os artigos da Constitui-
democracias vigorassem frente ao
ção de Weimar, acionou, após a si-
legado nefasto deixado pelo totali-
tuação emergencial o artigo 48 da
tarismo. Agamben em 1995, na con- IHU On-Line – Como a ques-
Constituição, que previa, em caso
tramão das teorias tradicionais da tão da ética é tratada na obra de
filosofia contemporânea, postulou 10 Adolf Hitler (1889-1945): ditador austríaco. O termo
Agambem, especialmente em A
uma tese que lhe rendeu muitas crí- Führer foi o título adotado por Hitler para designar o chefe linguagem e morte e A comuni-
máximo do Reich e do Partido Nazista. O nome significa
ticas, a saber: que entre democracia o chefe máximo de todas as organizações militares e po- dade que vem? O que ele traz de
e totalitarismo há uma contiguidade. líticas alemãs, e quer dizer “condutor”, “guia” ou “líder”. novo em relação a tradição me-
Suas teses racistas e antissemitas, bem como seus obje-
Se até então vivíamos um período de tivos para a Alemanha, ficaram patentes no seu livro de tafísica ocidental?
1924, Mein Kampf (Minha luta). No período da ditadura
fetiche em relação às democracias li- de Hitler, os judeus e outros grupos minoritários conside- Ésio Francisco Salvetti – Cabe
rados “indesejados”, como ciganos e negros, foram perse-
guidos e exterminados no que se convencionou chamar destacar que Giorgio Agamben não
9 Jürgen Habermas (1929): filósofo alemão, principal de Holocausto. Cometeu o suicídio no seu Quartel-Gene-
estudioso da segunda geração da Escola de Frankfurt. ral (o Führerbunker) em Berlim, com o Exército Soviético se preocupa em sistematizar uma
Herdando as discussões da Escola de Frankfurt, Habermas
aponta a ação comunicativa como superação da razão
a poucos quarteirões de distância. A edição 145 da IHU
On-Line, de 13-6-2005, comentou na editoria Filme da
teoria ética em seu projeto filosófico,
iluminista transformada num novo mito, o qual encobre Semana, o filme dirigido por Oliver Hirschbiegel, A Queda mas isso não significa que ele a ne-
a dominação burguesa (razão instrumental). Para ele, o – as últimas horas de Hitler, disponível em https://goo.gl/
logos deve se construir pela troca de ideias, opiniões e in- Diukrq. A edição 265, intitulada Nazisimo: a legitimação gligência. A filosofia de Agamben é
formações entre os sujeitos históricos, estabelecendo-se o da irracionalidade e da barbárie, de 21-7-2008, trata dos uma crítica à ontologia do ocidente,
diálogo. Seus estudos voltam-se para o conhecimento e a 75 anos de ascensão de Hitler ao poder, disponível em
ética. (Nota da IHU On-Line) https://goo.gl/rhIz3l. (Nota da IHU On-Line) por isso, sua proposta (a pars cons-

EDIÇÃO 542
DOSSIÊ AGAMBEN

truens) se torna incompreensível se este interesse aparece já na obra A La comunità inconfessabile15, como
não pensarmos por este viés teórico. linguagem e a morte11. Logo na in- uma resposta. A influência des-
Sua proposta ética e política passa trodução ele deixa claro que a obra ses dois escritos foi absorvida por
por uma nova ontologia, isso signi- tem uma orientação ética. Com o Agamben e sua contribuição a este
fica que os pilares da filosofia são re- objetivo de fazer um acerto de con- debate foi a obra La comunità che
pensados em sua totalidade. ta entre Hegel e Heidegger e depois viene, que, sem dúvida, ocupa uma
de ter se interrogado sobre o lugar posição central, antecipando aquelas
A proposta filosófica é feita com
da negatividade, a Voz passou a ser teses que em Homo sacer lhe deram
uma erudição intelectual própria,
reivindicada como o problema meta- notoriedade internacional.
suas referências transitam entre os
físico fundamental. Com a exposição
campos da filosofia, literatura, his- Em relação ao tema da ética é im-
do problema da Voz, Agamben en-
tória, linguística, religião, economia portante destacar que no tópico XI
tende que o seminário (a obra) atin-
e direito, desde a antiguidade greco da Comunidade que vem Agamben
giu seu objetivo. Todavia, destaca
-romana à medieval, moderna e con- inicia afirmando:
que o “caminho que o pensamento
temporânea. Este caminho é feito de
deve ainda percorrer [...] se faça em O fato de onde deve partir todo o
um modo profundo, com um cuida-
direção à uma ética” (AGAMBEN, discurso sobre ética é de que o ho-
do filosófico minucioso, muitas ve-
2006, p. 11) e complementa dizendo: mem não é nem terá de ser ou de
zes estranho e inacessível com uma
“De fato, a crítica da tradição ontoló- realizar nenhuma essência, nenhu-
simples leitura.
gica da filosofia ocidental não pode ma vocação histórica ou espiritu-
Entendo que a partir dos anos no- ser levada a cabo se não for, simulta- al, nenhum destino biológico. É a
venta, precisamente, com a obra La neamente, uma crítica da sua tradi- única razão porque algo como uma
comunità che viene, Agamben se ção ética” (AGAMBEN, 2006, p. 11). ética pode existir: pois é evidente
concentra de modo particular sobre que se o homem fosse ou tivesse de
a crise política na contemporaneida- A comunidade que vem é a contri- ser esta ou aquela substância, este
de, porém os pressupostos para essa buição filosófica de Agamben para ou aquele destino, não existiria ne-
crítica Agamben começou a desen- o debate que nasce na França, em nhuma experiência ética possível
volver no início da década de 1970. 1980, com a queda do muro de Ber- – haveria apenas deveres a realizar
26 Na obra La comunità che viene, lim e o fim do socialismo real. O fim (1993, p. 38).
Agamben assinala que seu interes- das políticas comunitárias parecia ter
possibilitado a liberdade. Aquilo que A ética é possível no âmbito onde
se passaria a ser a política, contudo,
se tinha experimentado foi violência, não existe a necessidade de se re-
uma política fundada sobre a crítica
intolerância contra as diferenças e a alizar uma tarefa ou vocação. Isso
à metafísica, à estética e à lingua-
multiplicidade. Diante desse cená- não significa que o homem não seja,
gem. O livro é composto por deze-
rio, surge na França, em 1980, in- ou não deva ser alguma coisa. Pois
nove pequenos capítulos, seguidos
telectuais que buscavam retomar o “há de fato, algo que o homem é e
de uma seção aforística intitulada
ideal político da comunidade. Esses tem de ser, mas este algo não é uma
O irreparável. No capítulo XI en-
intelectuais partiram da tese que o essência [...] é o simples facto da
contramos uma reflexão sobre ética,
projeto comunitário, posto em práti- sua própria existência como possi-
mesmo que de forma brevíssima, po-
ca, havia produzido violência contra bilidade ou potência” (AGAMBEN,
rém, acredito que neste capítulo há a
as diferenças, mas ao mesmo tempo 1993, p. 38)
chave para uma leitura ética de todo
o projeto filosófico de Agamben, em- não podiam negar que o individualis- O problema é que a filosofia oci-
bora não a trate de forma explícita. mo egoísta do liberalismo eliminava dental nos ensinou que o homem
Mas, essa é uma característica do au- qualquer possibilidade de solidarie- precisa realizar algo que lhe é pró-
tor e ele mesmo diz: “em cada livro dade. É neste cenário que Nancy12 es- prio, realizar sua vocação dentro de
há algo assim como um centro que creveu a obra La comunità inopero- determinadas circunstâncias já da-
permanece escondido”. É esse cen- sa13, opondo-se tanto às soluções do das. Agamben não compactua com
tro, portanto, que devemos desco- comunismo e fascismo como à hege- essa tese. Para ele, a elaboração da
brir e acredito que nele está a ética, monia do liberalismo. singularidade qualquer consiste no
que posteriormente se mantém viva, No mesmo ano da publicação de esvaziamento de todo pressuposto
mesmo que de forma não dita na re- Nancy, Maurice Blanchot14 publicou seja, essência, identidade, pertenci-
flexão política. mento, inclusão ou representação.
11 UFMG, 2006. (Nota da IHU On-Line)
Para concluir destaco que a expres-
Ética 12 Jean-Luc Nancy (1940): é um filósofo francês. A obra
de Nancy é marcada pelo grande tamanho de publicações
e pela heterogeneidade de temas. Datam da década de
são “que vem” Agamben já havia
Com a nova reedição da obra La 1960 o início de suas reflexões, que atravessam desde a usado no ensaio de 1984, intitulado
leitura de filósofos clássicos (Descartes, Kant, Hegel), ao
comunità che viene, Agamben acres- envolvimento com figuras essenciais para a filosofia fran-
cesa do século 20 (Nietzsche, Heidegger, Bataille, Merle- crítico literário e jornalista francês, autor de O espaco lite-
centou um prefácio e ali também au-Ponty, Derrida etc.), assim como reflexões sobre arte e rário (Rio de Janeiro: Rocco, 2000), Pena de morte (Rio de
apontou seu interesse pela ética. literatura. (Nota da IHU On-Line)
13 Cronopio, 2002. (Nota da IHU On-Line)
Janeiro: Imago, 1991) e El paso (no) más Allá (Barcelona:
Paidós, 1994). (Nota da IHU On-Line)
Contudo, é importante destacar que 14 Maurice Blanchot (1907-2004): filósofo, romancista, 15 SE, 2011. (Nota da IHU On-Line)

30 DE SETEMBRO | 2019
DOSSIÊ AGAMBEN REVISTA IHU ON-LINE

La cosa stessa (AGAMBEN, 2005, e, como destaca Agamben, é uma tal permitirá uma verdadeira supe-
p. 09-23), e a mesma expressão apa- fronteira móvel, articulada estrate- ração dos impasses identificados em
rece no ensaio de 1990 intitulado gicamente em cada época histórica. nosso tempo. Nesse texto é possível
“Filosofia linguística” (AGAMBEN, compreendermos o tensionamento
2005, p. 57-75). A partir de A co- entre poder constituinte e constituí-
munidade que vem, entretanto, a
expressão “que vem” tornou-se uma
“A ética é do e ali Agamben explicita sua estra-
tégia destituinte.
fórmula recorrente para indicar a possível no Para a compreensão do que signi-
tarefa messiânica da filosofia, da po-
lítica e do pensamento. Parece-nos âmbito onde fica apostar na potência destituinte,
há que entender a crítica que Agam-
não existe a
que esta expressão é fruto da influ-
ben faz ao seu contrário, o poder
ência de Benjamin. Em especial,
constituinte. Na palestra em Atenas,
do ensaio benjaminiano, intitulado
“sul programma della filosofia che necessidade ao refletir sobre o problema do Es-
tado securitário, Agamben destaca
viene”. Por isso interpreta-se que o
“que vem” é de uma tarefa, de uma de se realizar que a partir da revolução francesa
a tradição política da modernidade
exigência, de uma urgente reivindi-
cação que o momento presente colo- uma tarefa concebeu mudanças radicais sobre a
forma de um processo revolucioná-
ca ao pensamento.
ou vocação” rio que age enquanto “poder cons-
tituinte de uma nova ordem institu-
IHU On-Line – O que Agam- cional”. Poder constituído é o poder
ben quer dizer, em A lingua- político advindo ou cristalizado na
IHU On-Line – Do que se tra-
gem e a morte, quando argu- Constituição. Após a fundação da
ta, em Agamben, da teoria da
menta que o homem é um ser Constituição, o Estado tem condi-
potência e quais suas possibi-
sem fundamento? ções de legislar, administrar, sempre
lidades em termos de tensiona-
tendo por base a Constituição, que
Ésio Francisco Salvetti – Nas mento ao poder constituinte e
foi criada por meio do poder cons- 27
páginas finais de A linguagem e a constituído?
tituinte. Por isso que se entende o
morte, Agamben descreve que o Ésio Francisco Salvetti – Em poder constituinte como um poder
homem carece de fundamento, ou 2013, Giorgio Agamben foi convida- ou força transcendente, anterior ao
melhor, seu fazer não está funda- do pelo Institute Nicos Poulantzas e advento da Constituição. É um po-
do senão no seu próprio fazer. Essa pela Juventude do Syriza para uma der que se encontra fora do Estado,
tese tem um peso significativo e é conferência pública em Atenas, que por isso livre para delimitar as dis-
em certo sentido retomada na A Co- foi intitulada “Poder destituinte”. O posições constitucionais do Estado.
munidade que vem, exatamente no mesmo título é dado ao epílogo que
capítulo intitulado Ética. Nas obras Em síntese, é aquele poder capaz de
fecha o último livro do projeto Homo
precedentes Agamben não utiliza estabelecer uma nova ordem consti-
sacer, L´uso dei corpi (2014)17. Nes-
mais a expressão “o homem é um ser tucional. Esta problemática tem sido
te epílogo, Agamben deixa claro que
sem fundamento”, mas o significado objeto de longas discussões de cien-
sua estratégia teórica é superar a
permanece. tistas políticos desde a concepção
ontologia ocidental, fundamentada
esboçada na prática constituinte es-
Acredito que a compreensão do em dispositivos de cisões (zoé/bios,
tadunidense e elaborada por Sieyès
significado dessa expressão é me- oikos/polis, alma/corpo, etc.).
no séc. XVIII, no curso da Revolução
lhor trabalhada na obra O Aberto16. O conceito destituinte precede ao Francesa. Na Modernidade as mu-
Nesta obra, Agamben passa a utiliza projeto Homo sacer e tem suas raí- danças políticas ocorreram através
a tese de que não há uma essência zes nas análises que Agamben faz de do conceito de poder constituinte,
humana, o que há é uma abertura. Bartleby. A partir de Homo sacer I, que funciona da seguinte forma: o
No entanto, historicamente se legou este conceito será chamado désoeu- poder constituído pressupõe sem-
às ciências do homem o poder de le- vrement ou “desativação” e consti- pre em sua origem um poder cons-
gislar e decidir publicamente acerca tuirá o eixo central da proposta que tituinte que, através de um processo,
do que é o homem. E quem decide o se contrapõe à ontologia operativa geralmente revolucionário, o coloca
que é o homem decide, previamente, da tradição política. O epílogo de em ato e o garante.
qual a política e qual a moral deve L´uso dei corpi oferece uma espé-
dispor sobre a ordem pública, para cie de resumo dos gestos e etapas Poder constituinte e cons-
criar as subjetividades flexibilizadas. fundamentais de todo o projeto de tituído
Em tese o significado é esse: a essên- Agamben para reiterar que apenas
cia humana é indeterminada, aberta, um gesto e uma ruptura fundamen- Em vários momentos da história se
pretendeu distinguir poder constitu-
16 Civilização Brasileira, 2017. (Nota da IHU On-Line) 17 Neri Pozza, 2014. (Nota da IHU On-Line) ído do poder constituinte. Por isso

EDIÇÃO 542
DOSSIÊ AGAMBEN

muitos compreendem que “os pode- que é assim mantido em relação de do inoperoso e deposto através de
res constituídos existem somente no bando com o estado de direito, assim uma violência que não deseje fundar
Estado: inseparáveis de uma ordem ele se divide em poder constituinte e um novo direito. Enquanto que o po-
constitucional preestabelecida, [...]. poder constituído e se conserva em der constituinte, que destrói e recria
O poder constituinte, ao contrário, relacionamento com ambos, situan- sempre novas formas de direito, sem
situa-se fora do Estado; não lhe deve do-se em seu ponto de indiferença” jamais destruí-lo definitivamente, a
nada, existe sem ele” (HS, p. 46). Por (HS, p. 48). potência destituinte tira do cargo, de
outro lado, há uma forte tendência uma vez por todas, o direito e inaugura
Por isso o problema fundamental
na política atual de querer trazer o imediatamente uma nova realidade.
“não é, aqui, tanto aquele (não fácil,
poder constituinte para dentro do
teoricamente solúvel) de como con- Aqui percebemos a proximidade
poder constituído. É essa distinção
ceber um poder constituinte que não entre potência destituinte e inope-
que impossibilita compor de modo
se esgote jamais em poder constitu- rosidade. Em ambos está em ques-
harmônico a relação destes dois po-
ído, quanto aquele muito mais ár- tão a capacidade de desativar e tor-
deres e que emerge quando se trata
duo, de distinguir claramente o po- nar inoperoso o poder ou a função,
de compreender a natureza jurídica
der constituinte do poder soberano” sem destruir, mas liberando as po-
da ditadura e do estado de exceção e
(HS, p. 49). Foram muitas as tenta- tencialidades que permaneceram
também o caso do poder de revisão,
tivas na história de pensar a conser- sem atuação para permitir um uso
frequentemente previsto no próprio
vação do poder constituinte ao lado diferente. Se, de fato, Agamben está
texto das Constituições. Tanto uma
do poder constituído. São exemplos certo e essa é a estrutura do nosso
posição quanto a outra não perce-
o partido em sentido leninista e o pensamento ocidental, então a tare-
bem os problemas que criam, o que
nazismo. Neles há a conservação de fa é uma só: não podemos continuar
frequentemente ocorre é que o poder
uma instância constituinte ao lado achando que poderemos agir como
constituinte acaba sendo engolido
do poder constituído. Todavia, para se agiu até agora, inventando no-
pelo poder constituído. A tendência
Agamben, não há critérios que per- vas e mais eficazes articulações das
que aposta na autonomia e na distin-
mitem distinguir claramente, pois duas metades da máquina. A tarefa
ção dos poderes também não conse-
ambos os poderes se confundem é a destituição. Não resta outra ati-
gue alcançar a desejada harmonia.
28 numa potencialidade. “Poder cons- tude, pois nenhum mecanismo da
Partindo das teses de Burdeau18, tituinte e poder soberano excedem, máquina ontológica-política do Oci-
que construiu uma teoria do Estado, ambos, nesta perspectiva, o plano da dente pode ser reparado, reconstru-
e dos princípios de Benjamin, Agam- norma, mas a simetria deste excesso ído ou melhorado.
ben compreende que esses dois po- é testemunha de uma contiguida-
deres não podem existir em planos de que vai se diluindo até a coinci-
separados, ou seja, é contrário a dência” (HS, p. 49). Ou seja, poder IHU On-Line – Como Barte-
alguns consensos que estão se for- constituinte e poder soberano não se bly, o escriturário19 de Melvil-
mando atualmente que desejam re- encontram nem totalmente dentro le20 nos ajuda a compreender
duzir o poder constituinte ao poder nem integralmente fora da ordem a potência do não como gesto
de revisão previsto na Constituição constituída. ético?
e põe de lado como pré-jurídico ou Ésio Francisco Salvetti –
meramente factual o poder do qual “A tarefa é a destituição”
Bartleby é o personagem principal
nasceu a Constituição. Benjamin já de um conto clássico da literatura
havia criticado esta tendência, apre- Esse paradoxo irresolúvel mos-
tra a necessidade de se repensar as em língua inglesa, escrita em 1853,
sentando o relacionamento entre por Herman Melville. O conto nar-
poder constituinte e poder consti- categorias ontológicas. A relação
do poder constituinte com o poder ra a história de um velho advogado,
tuído como aquele entre a violência que contrata para ser um dos seus
constituído é como a relação da po-
que põe o direito e a violência que escriturários, um homem misterioso
tência com o ato. Só será possível
o conserva. Tanto a tese que deseja e passivo, chamado Bartleby. No iní-
pensar uma política completamente
reduzir o poder constituinte ao po- cio ele trabalha bem copiando docu-
liberta da relação de bando sobe-
der de revisão previsto na Consti- mentos, mas assim que seu chefe lhe
rano quando se conseguir chegar
tuição, quanto a tese que reivindica pede para fazer algo minimamente
a pensar potência desvinculada do
o caráter irredutível e originário do fora de suas atribuições, como ajudar
ato. Ou seja, da mesma forma que o
poder constituinte, que não pode ser a revisar a cópia de outro escrivão,
poder constituinte não se dilui por
condicionado e constrangido, estão Bartleby responde: “I would prefer
completo no poder constituído, a
aprisionadas no paradoxo da sobe- not to”(“Prefiro de não”). O “prefiro
mesma ideia equivale a uma potên-
rania: “Como o poder soberano se
cia que não esgota todo o seu poder não fazer” torna-se sua marca regis-
pressupõe como estado de natureza,
na passagem ao ato.
19 Via Leitura; Edição, 2017. (Nota da IHU On-Line)
18 Georges Burdeau (1905-1988): politólogo francês, au-
tor de numerosos trabalhos sobre o direito constitucional
Portanto, só se poderá fugir desse 20 Herman Melville (1819-1891): novelista norte-ameri-
cano, ensaíta e poeta. Escreveu obras como Moby-Dick e
e a ciência política. (Nota da IHU On-Line) círculo através de um poder torna- Bartleby, o escriturário. (Nota da IHU On-Line)

30 DE SETEMBRO | 2019
REVISTA IHU ON-LINE

trada, e o advogado narrador, que compete a quem já possui hexis cor- rente do homem, o homem é o animal
evita conflitos a qualquer custo, vai respondente aquele saber ou aquela que pode a própria impotência.
aceitando todas as “insurreições” de certa habilidade. É neste segundo
Bartleby, até que o agora ex-escrivão sentido que um arquiteto tem a po- Potência pura
fica no escritório sem fazer nada. tência de construir, ainda quando
não está construindo. Essa forma de Ao preferir não escrever, Bartleby
Com Bartleby, Agamben retoma torna-se potência pura, absoluta. É
potência se difere da potência genéri-
suas análises de 1987, para subli- fundamental destacarmos que, para
ca. A afirmação “o menino é potente”,
nhar o caráter central da potência, Agamben, a condição de potência
significa que sofrerá uma alteração,
que é um dos principais conceitos de pura jamais pode ser reduzida à von-
deverá passar por um processo de
sua teoria. Com a história do Bartle- tade ou à necessidade, como nos fez
aprendizagem, para tornar-se um ar-
by, Agamben busca entender a for- acreditar a ética clássica, que reduz
quiteto ou pianista, etc. Aquele que já
ma que se articula cada potência, em o poder ao querer e ao dever. A éti-
possui uma técnica não deve sofrer
especial a “potência de não ser” (dy- ca, principalmente a moderna, ao
nenhuma alteração; é potente a partir
namis me einai) ou então a “impo- abordar a questão relativa à potên-
de uma hexis, que pode não colocar
tência” (adynamia). A tese central cia reduziu-se ao problema do dever,
em ato ou implementar, passando de
é de que o ser qualquer é o ser que nunca se colocou a questão sobre o
um não ser em ato a um ser em ato.
pode não ser, que pode a sua própria “poder não fazer” atendo-se sim ao
Por isso, “a potência é definida essen-
impotência. Ou seja, só a potência “não poder fazer”. No “poder não fa-
cialmente da possibilidade de seu não
que, tanto pode ser potência como zer” está em questão o poder exerci-
exercício, assim como hexis significa:
a impotência, é a potência supre- tar a própria impotência.
disponibilidade de uma privação”. A
ma. Na obra A comunidade que vem
diferença entre a potência do arquite- A potência pura diz respeito ao po-
Agamben dá um bom exemplo que
to e a do menino está na “potência do der mesmo, independente do que-
nos ajuda a compreender essa tese:
não”, que o arquiteto possui, enquan- rer ou da vontade ou do não querer.
[...] se é próprio de todo o pianista to a criança não possui. Por isso Agamben alerta que é uma
tocar e não tocar, Glenn Gouldé, no grande ilusão da moral “crer que
entanto, o único que pode não não- Muito além do ato a vontade tenha poder sobre a po-
tocar, e, aplicando a sua potência, tência, que a passagem ao ato seja
29
não apenas ao ato, mas a sua pró- A potência do não existe somente o resultado de uma decisão que põe
pria impotência, toca, por assim no ato. Se a potência existisse somen- fim à ambiguidade da potência (que
dizer, com a sua potência de não to- te no ato não poderíamos considerar é sempre potência de fazer e de não
car. Face à habilidade, que simples- um determinado homem arquiteto fazer)” (AGAMBEN, 1998, p. 61).
mente nega e abandona a própria quando não está construindo. Este Ou seja, a potência do escrivão ex-
potência de não tocar, a mestria é o modo de ser da potência, existe cede à vontade. “Não é que ele não
conserva e exerce no ato não a sua na forma da hexis, sobre uma priva- queira copiar ou que queira não dei-
potência de tocar [...], mas a de não ção. “É uma forma, uma presença de xar o escritório - somente preferiria
tocar (LCV, p. 34). algo que não está em ato”. Por isso, não fazê-lo” (BA, p. 61). A fórmula
Agamben afirma: “A grandeza – mas de Bartleby, repetida várias vezes
Depois de uma análise atenta da também a miséria – da potência hu- (preferiria não ou prefiro não) não
obra De anima21, de Aristóteles22, mana é que essa é, também e antes abre a qualquer possibilidade de
Agamben afirma que o filósofo grego de tudo, potência de não passar ao construir uma relação entre potên-
distingue diferenças no que concerne ato” (PP, p. 280). Esta é uma relação cia e querer. Trata-se de uma potên-
à potência. Há uma potência genéri- paradoxal, pois ter uma potência im- cia que excede a vontade. A vontade
ca, que é aquela em que, por exemplo, plica ter a experiência da privação, e a liberdade do querer sempre fo-
um menino tem a potência da ciência algo que está por ser, que pode ser, ram utilizadas na ética como opera-
ou que é em potência um arquiteto. mas que ainda não é e que até mes- dores da culpa. Precisa-se imputar
A potência é genérica, pois a criança mo pode vir a não ser. O arquiteto, à liberdade do querer e da vontade
pode aprender determinada ciência, por ter a potência como faculdade para responsabilizar de forma legí-
pode se tornar um arquiteto, como pode a qualquer momento suspen- tima uma determinada ação.
também pode não aprender e não ser der o ato (de construir) e manter a
arquiteto. Mas, há uma potência que Bartleby questiona precisamente
potência como possibilidade. Mas a
esta supremacia da vontade sobre a
criança, por ter só a potência genéri-
21 Editora 34, 2006. (Nota da IHU On-Line) potência. O interesse de Agamben
22 Aristóteles de Estagira (384 a.C.–322 a.C.): filósofo ca, não tem a potência do não.
nascido na Calcídica, Estagira. Suas reflexões filosóficas – por Bartleby é mostrar que a “potên-
por um lado, originais; por outro, reformuladoras da tradi-
ção grega – acabaram por configurar um modo de pensar
Os outros seres viventes podem so- cia de não”, já apontada como pos-
que se estenderia por séculos. Prestou significativas con- mente alcançar a potência específica sibilidade em Aristóteles, nunca foi
tribuições para o pensamento humano, destacando-se
nos campos da ética, política, física, metafísica, lógica, de seu ser, podem somente este ou levada às últimas consequências. A
psicologia, poesia, retórica, zoologia, biologia e história
natural. É considerado, por muitos, o filósofo que mais in-
aquele comportamento que já está conclusão de Agamben é que a po-
fluenciou o pensamento ocidental. (Nota da IHU On-Line) escrito na sua vocação biológica. Dife- tência é ambígua, pois pode ser (fa-

EDIÇÃO 542
DOSSIÊ AGAMBEN

zer como pode não ser (não fazer) se tos pobres e tão pouco livres como têm sido os principais proble-
não fosse assim, a potência passaria este estranhamento da impotência. mas filosóficos a serem enfren-
necessariamente ao ato, confundin- Aquele que é separado do que pode tados contemporaneamente?
do-se com este. Bartleby é a experi- fazer, pode, todavia, resistir ainda,
Ésio Francisco Salvetti – Há
ência que se arrisca na contingência pode ainda não fazer. Aquele que é
atualmente uma vasta agenda de
absoluta. A potência absoluta, ilumi- separado da sua impotência perde
problemas que a filosofia política
nada pelo exemplo de Bartleby, abre em contrapartida, antes do mais, a
precisa enfrentar, o que torna difícil
a possibilidade para o homem se ver capacidade de resistir. E como é so-
elencar qual é o mais urgente. No
como pura possibilidade e sem uma mente a calcinante consciência do
entanto, arrisco em elencar alguns:
função definida. Com isso, a ação que não podemos ser a garantir a
crise (ou fim) da democracia liberal;
humana distingue-se claramente da- verdade do que somos, assim tam-
a violenta radicalização dos conflitos
quela do animal ou das coisas físicas, bém é somente a visão lúcida do que
internacionais; a gestão policial da
isso porque a potência da ação huma- não podemos ou podemos não fazer
população em permanente estado de
na não se exaure no agir, mas se man- a dar consistência ao agir” (AGAM-
exceção que conduz naturalmente ao
têm como potência. A potência da BEN, 2010, p. 58-59). empobrecimento das garantias jurí-
ação humana transcende aos deter- dicas em nome da segurança e sobre-
Em uma sociedade do consumo,
minismos da sua natureza biológica, vivência; aumento significativo dos
da submissão, de formatação das
embora por eles esteja condicionada. fluxos migratórios, que envolvem mi-
subjetividades, do fazer por simples
A ideia da potência desenvolvida dever, num mundo onde precisamos lhões de vidas e a utilização de dispo-
até o momento é a mesma ideia que baixar a cabeça de fazer sem contes- sitivos de exceção jurídica para gerir
fundamenta o tópico IX – Bartleby, tar, Bartleby repete o seu ‘preferiria esse fluxo humano. São casos perfei-
da obra A comunidade que vem. A não’. Por isso, entendo que Bartleby tamente conhecidos e evidenciados
tese é que qualquer um é o ser que opera de alguma forma aquilo que na realidade de países subdesenvolvi-
pode não ser, pode a própria impo- Agamben recentemente denominou dos, em especial nas favelas, quando
tência. Bartleby é o personagem que a ‘potência destituinte’. a justiça emite mandados judiciais
não está ancorado em pressupostos, genéricos e todas as residências são
Ao colocar a potência no centro de “revistadas” indistintamente.
30 não realiza qualquer essência, nem sua análise filosófica Agamben chega
mesmo vocação histórica, ou espi- à conclusão de que o homem, dife- De fato, a experiência de nossos po-
ritual, ou seja, não cumpre nenhum rente dos outros viventes que podem bres, que vivem claramente inúmeras
destino. É o exemplo da singularida- somente alcançar a potência especí- situações de exceções jurídicas, indi-
de qualquer, o ser que pode não ser. fica de seu ser, podem somente este ca que a exceção tornou-se a regra.
Bartleby é a potência suprema que ou aquele comportamento que já No entanto, com uma análise mais
pode tanto a potência quanto a im- está escrito na sua vocação biológica, apurada percebemos que no centro
potência. Parece que é exatamente o homem pode a própria impotência. destes casos que elenquei está a no-
isso que Agamben chama de Ética. A potência humana é plena na me- ção de biopolítica. Creio que este é o
Na obra intitulada Nudez Agamben dida em que é capaz de suspender a problema central que a filosofia polí-
descreve: potência de fazer. A potência do não tica contemporânea necessita enfren-
é a possibilidade do homem se dis- tar. Pois, o que está em jogo é uma
“É sobre esta outra face mais obs- tanciar dos imperativos biológicos complexa estratégia para regular e
cura da potência que hoje prefere da espécie a ponto de ter uma po- controlar os momentos mais funda-
agir o poder que se define ironica- tência podendo negar a realização de mentais da vida, tarefa da biopolítica
mente como “democrático”. Separa uma determinada ação. A fórmula que se aproveita da medicina e de ou-
os homens não só e não tanto da- “preferiria não” faz com que Bartleby tras ciências como economia, direito,
quilo que podem fazer, mas antes do cumpra uma outra tarefa cara a nós estatística para governar a vida. To-
mais e as mais das vezes daquilo que modernos: não se deixa submeter dos esses fenômenos, em si comple-
podem não fazer. Separado da sua à satisfações ou desejos dos outros. xos, têm em comum o fato de serem
impotência, privado da experiência Numa sociedade com uma legião de fenômenos políticos que têm uma
do que pode não fazer, o homem de Bartlebys o sistema capitalista, com implicação direta na vida biológica
hoje crê-se capaz de tudo e repete suas produções dos desejos, não te- do ser humano, enquanto ser viven-
o seu jovial “não há problema” e o ria sucesso. O personagem Bartleby te. São fenômenos que nos mostram
seu irresponsável “pode fazer-se”, seria a forma de resistência pois per- como a política assumiu o encargo de
precisamente quando deveria antes manece numa zona de indiscernibi- gestão biológica da vida. É esse en-
dar-se conta de ser entregue numa lidade entre o sim e o não, entre a cargo político que Foucault intitulou
medida inaudita a forças e proces- potência de ser e a de não ser. de biopolítica. Um conceito que cada
sos sobre os quais perdeu qualquer vez mais está em uso, porém, ainda
controle. Tornou-se cego não ao que é tratado com generalidade, muitas
pode fazer, mas ao que não pode ou IHU On-Line – Do ponto de vezes mal compreendido, principal-
pode não fazer. [...] Nada rende tan- vista da filosofia política, quais mente suas consequências éticas.

30 DE SETEMBRO | 2019
REVISTA IHU ON-LINE

IHU On-Line – Como pode- papel político de manutenção do espaçonaves em planetas distantes,
mos compreender os ataques Status Quo do sistema político-e- mas não conseguimos mais contro-
do atual governo à Filosofia, conômico, mas, para fazer isso com lar a fumaça poluente expelida pe-
Sociologia e Ciências Humanas mais facilidade e tranquilidade, pre- los automóveis e fábricas” (CAPRA,
em geral? Que respostas as áre- cisa fragilizar as ciências humanas. 1995. p. 39). Não nos esqueçamos
as de humanidades podem ofe- que o século XX foi o século de gran-
Destaco alguns problemas, que in-
recer no atual contexto? des acúmulos tecnológicos, mas, ao
corremos, quando aceitamos que um
mesmo tempo, foi o século caracte-
Ésio Francisco Salvetti – A Fi- governo pense a construção de uma rizado por genocídios, guerras, crise
losofia, Sociologia ou, qualquer ou- sociedade fragilizando as ciências ambiental e etc. Ou seja, a técnica
tra área das ciências humanas, não humanas e investindo apenas nas que prometia libertar a humanida-
oferecem à sociedade o mesmo que ciências tecnológicas. Nos últimos de das amarras, está destruindo-a.
profissionais das áreas tecnológi- dois séculos, a humanidade presen- O século XX demonstrou o quanto
cas. Numa sociedade onde milhões ciou o avanço acelerado da tecnolo- estamos despreparados para os no-
passam fome, as ciências humanas gia e da ciência. Cremos cegamente vos desafios, riscos e oportunidades
não desenvolvem técnicas para a que a técnica desvendaria ao homem técnicas que se avizinham.
produção de mais alimentos, numa o seu próprio ser, não apenas o mun-
sociedade com altas taxas de desem- do onde vivia. Cremos, desejamos e As ciências humanas não são con-
prego ou de violência, não oferecem cobiçamos o progresso prometido tra aos avanços tecnológicos, pelo
emprego ou segurança, mas, empe- pela técnica. A promessa era que contrário, mas tem por objetivo a
nham-se em entender e dar respos- junto com o progresso a sociedade se construção de caminhos que aliam
tas ao porquê da existência da fome, emanciparia e os sujeitos tornariam- técnica e ciência ao humano e não
do desemprego, violência e etc. Ter se esclarecidos. ao sistema, ao capital. Nesta pers-
clareza e entendimento sobre os pectiva, as ciências humanas cum-
Atualmente compreende-se que prem uma função de crítica social
pressupostos que levam milhões
esta excessiva ênfase no método e crítica do conhecimento, simulta-
morrerem de fome (para dar apenas
técnico-científico e no pensamen- neamente. Enquanto crítica social,
um exemplo) é fundamental para
to racional levou a humanidade a ela condena a sociedade por não
pensarmos alternativas e soluções. 31
uma situação paradoxal, sintetizada corresponder ao seu discurso, por
Na maioria das vezes, a insistên-
por Capra23 da seguinte forma: “po- não ser aquilo que ela diz ser; como
cia que as ciências humanas fazem
demos controlar o pouso suave de crítica do conhecimento, ela é capaz
para retornar aos pressupostos dos
problemas (fome, violência, desem- de questionar a forma de conheci-
23 Fritjof Capra: físico austríaco, cientista, ambientalista,
prego, etc) produz diagnósticos que educador e ativista. Surgiu para o mundo após lançar O
mento predominante, pautada pela
tao da física, no qual discorre sobre os paralelos, a prin- identidade, pela lógica tecnicista e
mexem nas “feridas” do sistema. Por cípio impossíveis, entre a física quântica e o misticismo
oriental. Estabeleceu-se no posto de pensador holístico planejada. Diante disso, ela realiza
isso esse sistema não nos “suporta”. com O ponto de mutação, explorando as mudanças no
paradigma social que acompanham as descobertas cientí-
uma dinâmica que se caracterizada
Não é difícil compreender por que ficas. Atualmente, vive em Berkeley, na Califórnia. Ele fun- pela reflexão imanente, respeitando
dou o Center for Ecoliteracy, uma instituição que forma
o atual governo ataca as ciências profissionais para ensinar Ecologia nas escolas. É professor o diferente. Com isso, posso afirmar
humanas. Ao contrário de suas pro- do Schumacher College, um centro de estudos ecológi-
cos na Inglaterra. Em português, foram publicados, entre
que as ciências humanas contri-
pagandas de campanha, o atual go- outros, os livros: O ponto de mutação. São Paulo: Cutrix, buem para a obtenção de uma or-
1982, Sabedoria incomum. São Paulo: Cutrix, 1995, A teia
verno é o que há de mais retrógrado da vida. São Paulo: Cultrix, 1997, O tao da Física. São Paulo: dem social mais justa, mais huma-
no conservadorismo político. É um Cultrix, 2000, As conexões ocultas. São Paulo: Cultrix, 2002,
Pertencendo ao universo. São Paulo: Cultrix, 2003. (Nota
na, desvelando os dispositivos que
governo que apenas cumprirá um da IHU On-Line) impedem a emancipação.■

Referências
AGAMBEN, Giorgio. Il linguaggio e la morte: un seminario sul luogo della negatività. Torino:
Piccola Biblioteca Einaudi, 1982. [A linguagem e a morte: um seminário sobre o lugar da
negatividade. Trad. Henrique Burigo. Belo Horizonte: UFMG, 2006].
AGAMBEN, Giorgio. A comunidade que vem. Trad. António Guerreiro. Lisboa: Presença, 1993.
AGAMBEN, Giorgio. La potenza del pensiero: saggi e conferenze. Vicenza: Neri Pozza, 2005.
AGAMBEN, Giorgio. Nudez. Trad. Miguel Serras Pereira. Lisboa: Relógio D’Água, 2010.
DELEUZE, Gilles; AGAMBEN, G. Bartleby: la formula della creazione. Macerata: Quodlibet, 1998.

EDIÇÃO 542
TEMA DE CAPA
REPORTAGEM

Vilém Flusser | Imagem: Acervo Sesc SP

32
Vilém Flusser
Autor do texto Ricardo Machado

A
perseguição nazista da II Guerra losofia, editada pelo Instituto Brasileiro de
trouxe Vilém Flusser para o Brasil Filosofia – IBF, ambos fundados por Mi-
em 1940. Nascido em Praga, na Re- guel Reale, em São Paulo, aproximando-se
pública Tcheca, em maio de 1920, o filó- de um círculo de intelectuais brasileiros de
sofo viveu por 20 anos no Brasil e acabou formação liberal.
se naturalizando brasileiro, adotando São
Paulo como sua cidade. Paulistano de co- A partir de 1960, leciona Filosofia da Ci-
ração, além de filósofo, atuou como jorna- ência, na Escola Politécnica da USP, e Filo-
lista e escritor. De volta à terra natal, mor- sofia da Comunicação, na Escola Superior
re em 27 de novembro de 1991. de Cinema e na Escola de Arte Dramática
- EAD, também em São Paulo. Publica seu
Seu trabalho inicial foi marcado pela dis-
primeiro livro, Língua e realidade, em
cussão do pensamento de Martin Heideg-
ger e pela influência do existencialismo e 1963. Ajuda a fundar a Faculdade de Co-
da fenomenologia. A fenomenologia, aliás, municação e Marketing da Fundação Ar-
tem papel importante na transição para a mando Álvares Penteado - FAAP, e dedica
fase posterior de seu trabalho, na qual ele grande parte de seu tempo ao aprimora-
voltou sua atenção para a filosofia da co- mento do departamento. Em 1966, inicia
municação e da produção artística. sua colaboração com o jornal Frankfurter
Allgemeine Zeitung.
Nos anos de 1950 e 1951, dedica-se a pre-
parar um livro sobre a história intelectual Flusser pesquisou o significado histórico
do século XVIII. A partir de 1960 inicia sua e cultural de formarmos uma coletividade
colaboração com a Revista Brasileira de Fi- que acredita acima de tudo nas imagens e

30 DE SETEMBRO | 2019
REVISTA IHU ON-LINE

escreve um conjunto de exposições sobre a mente a maneira como o mundo é percebi-


ação de fotografar e de difundir imagens. do. Historicamente, a fotografia é impor-
Ele escreveu nos anos 1970 e 1980 sobre tante porque introduz uma nova era: “a
fotografia e postula que, no contexto do invenção da fotografia constitui uma rup-
desenvolvimento da tecnologia da infor- tura na história que só pode ser entendida
mação, a fotografia foi a primeira forma em relação a essa outra ruptura histórica
de imagem técnica a mudar fundamental- que é a escrita.

33

EDIÇÃO 542
TEMA DE CAPA
ARTIGO

As Obras Completas de Vilém Flusser


Rodrigo Petronio | Edição: João Vitor Santos

R
odrigo Petronio, escritor e filósofo, é professor titu-
lar da Faculdade de Comunicação da Fundação Ar-
mando Álvares Penteado - FAAP e foi e organizador
das Obras Completas (2010) do filósofo brasileiro Vicente
Ferreira da Silva (1916-1963), um dos mais constantes e in-
fluentes interlocutores de Flusser no Brasil. Ao lado de Ro-
drigo Maltez Novaes, compõe a coordenação editorial das
Obras Completas de Flusser.
No artigo a seguir, Petronio faz a apresentação dessa cole-
ção que está sendo organizada.
Eis o artigo.

34 Pela primeira vez em termos mundiais, o filósofo judeu-tcheco-brasileiro Vilém Flusser (1920-
1991) terá suas Obras Completas reunidas. Trata-se da Biblioteca Vilém Flusser, um projeto
editorial extenso e abrangente que conta com a coordenação editorial de Rodrigo Maltez Novaes
e de Rodrigo Petronio e tem sido levado a cabo pela Editora É. O projeto propõe a publicação
de toda a obra de Flusser, disposta em quatro eixos: Monografias, Cursos, Ensaios e Artigos, e
Correspondência (Filosófica).
O primeiro eixo conta com a publicação de todas as obras pensadas, escritas e estruturadas por
Flusser como livro. São 19 monografias, e quase todas serão lançadas até 2020, ano de come-
moração do centenário de nascimento do autor e para o qual a Biblioteca Flusser prevê o lança-
mento de inéditos. O segundo eixo deve se concentrar nos manuscritos, datiloscritos, gravações
e transcrições das dezenas de cursos ministrados por Flusser, no Brasil e no exterior. O terceiro
eixo visa reconstituir a atividade de Flusser como escritor de ensaios e artigos, seja para revistas
especializadas, seja para a imprensa, brasileira e estrangeira, alguns deles publicados em revis-
tas internacionalmente reconhecidas, como ArtForum e Leonardo, dentre outras.
Por fim, o eixo dedicado à correspondência deve se concentrar mais nas cartas de conteúdo
filosófico e intelectual. Guarda algumas preciosidades, tais como vastas e complexas correspon-
dências mantidas com alguns intelectuais, artistas e pensadores brasileiros e estrangeiros, como
Milton Vargas, Dora Ferreira da Silva, José Bueno, Vicente Ferreira da Silva, Sergio Rouanet e
David Flusser, dentre outros.
Até o momento, todas as edições da obra de Flusser, brasileiras e estrangeiras, foram parciais
e se ativeram apenas às monografias e a antologias de artigos e ensaios. Depois de anos de pes-
quisa nos Arquivos Flusser de Berlim, Rodrigo Maltez Novaes conseguiu elaborar uma linha do
tempo detalhada sobre os anos de produção e concepção de cada texto do autor, e não apenas
uma referência aos anos das primeiras publicações. Essa alteração é substancial, pois possibilita
ao leitor acompanhar o processo sequencial e o desenvolvimento interno e orgânico de toda a
obra de Flusser.
A Biblioteca Flusser começou pela publicação das monografias e até agora cinco títulos foram
lançados: O último juízo: gerações, Filosofia da caixa preta, Da dúvida, Elogio da superficiali-
dade: universo das imagens técnicas e Pós-História. Dois novos títulos se encontram no prelo:
Vampyroteuthis Infernalis e Língua e realidade. Cada título deve conter aparatos críticos e

30 DE SETEMBRO | 2019
REVISTA IHU ON-LINE

introduções escritas pelos organizadores, bem como posfácios de especialistas, professores, ar-
tistas e intelectuais admiradores da obra de Flusser.
Os cinco primeiros volumes contaram com as colaborações valiosas de Mario Dirienzo, Maria
Lília Leão, Rachel Costa, Norval Baitello Júnior, Julio Cabrera, Celso Lafer, Soraya Guimarães
Hoepfner, Lucia Santaella, Marcos Beccari, Lucrécia D’Alessio Ferrara, Andrew Fisher, João
Borba, Vanice Ribeiro, Raphael Dall’Aese. Os próximos títulos devem trazer a participação enri-
quecedora de diversos outros colaboradores, compondo um espectro polifônico digno da polifo-
nia e da multiplicidade de vozes de um autor como Flusser.■

35

EDIÇÃO 542
TEMA DE CAPA

A tecnologia, as evoluções no pensamento


e a emergência de uma outra filosofia
Anderson Pedroso observa como Flusser aponta que a tecnologia vai conferir
ao ser humano uma liberdade para pensar, mas, para isso, é preciso atualizar
conceitos, como o de arte, para não cair em reducionismos binários
João Vitor Santos

V
ilém Flusser vai apreender re- imitando a escrita, se torna imagético,
flexões sobre a centralidade que circular, inspirado na maneira holísti-
as máquinas vão assumindo na ca de como os homens na pré-história
vida das pessoas. Mais do que isso, vai olhavam as figuras nas cavernas”, expli-
pensar como elas vão assumindo cen- ca. E completa: “Flusser apontou para o
tralidades e papéis distintos no fazer fato de que existe uma relação ontológi-
humano ao longo dos tempos. “Segun- ca entre a imagem técnica (composta de
do Flusser, até a 1ª Revolução Indus- pontos) e a forma de pensar. Pensamos
trial, os instrumentos eram extensões como vemos. Assim, o pensamento não
mecânicas das mãos, e o homem esta- se realiza mais de forma linear (históri-
va no centro, cercado de ferramentas”, ca), movido pela categoria de progres-
aponta Anderson Pedroso, doutorando so. O pensamento se torna circular, cê-
em História da Arte, que estuda o au- nico, ainda em forma de constelação”.
36 tor. Segundo ele, na 2ª Revolução In- Na entrevista concedida por e-mail à
dustrial, a máquina assume o centro e IHU On-Line, Anderson revela que
é cercada pelos homens. “Finalmente, é possível pensar além desses limites
em época pós-industrial (3ª Revolução que a técnica impõe. Aliás, mais do que
industrial?), as fábricas se esvaziam, limites e reduções de conceitos, como
pois são as máquinas computadori- o de arte, ele propõe um pensamento
zadas que trabalham diretamente a que, talvez, distenda clássicos concei-
matéria (hardware), e o homem vai se tos. “De fato, quando se fala em arte, o
especializando nos programas (softwa- registro inicial de uma conversa é pre-
re), isto é, ele trabalha (e pensa) com as dominantemente binário, isto é, base-
pontas dos dedos!”, completa. Para ele, ado na contraposição entre o belo e o
“o homem começa a criar universos pa- feio, e as referências são a arte do Re-
ralelos e adquire liberdade para refazer nascimento. Talvez seja uma das razões
o mundo a partir deles”. pelas quais muitas pessoas não conse-
Entretanto, ao mesmo tempo em que guem compreender a Arte Moderna e,
o humano adquire certa liberdade de ainda menos, a Arte Contemporânea”,
inventar e construir novas concepções aponta. Afinal, vivemos outros tempos,
de mundos, é inevitável que haja tam- em que a técnica e tecnologia desmo-
bém algumas reduções. E Flusser tam- ronam a dualidade entre belo e feio.
bém pensa sobre isso. “Flusser tinha “Flusser deixou como legado a neces-
razão quando criticava como a menta- sidade urgente de se refletir sobre uma
lidade tecnicista reconfigurou e reduziu ‘filosofia da tecnologia’. Ele considera-
o conceito de arte”, aponta. Mas, segun- va que as bases estavam postas desde
do Anderson, isso tem relação em como Heidegger, Bachelard, passando pelos
a técnica vai impactar a forma de pen- teóricos marxistas e pelos pensadores
sar. Um exemplo clássico é o caso da contemporâneos como Santayana. Mas
fotografia, muito trabalhado pelo au- é preciso continuar a pensar, pois, ain-
tor. “Com o aparecimento da fotografia, da segundo Flusser, não temos outra
como prática de fabricação ou consti- saída”, provoca.
tuição de imagens, o pensamento deixa Anderson Antonio Pedroso é
de ser puramente linear, progressivo, doutorando em História da Arte, com

30 DE SETEMBRO | 2019
REVISTA IHU ON-LINE

interesse em questões estéticas, na Uni- goriana e em Filosofia pela Universida-


versidade Sorbonne - Paris 4, na Fran- de do Sagrado Coração, em Bauru, São
ça. Possui mestrado em Estética e Fi- Paulo. Foi professor auxiliar de Teologia
losofia da Arte pela mesma instituição das Faculdades João Paulo II, e de Filo-
e mestrado em Teologia pela Pontifícia sofia do Direito na Instituição Toledo de
Universidade Gregoriana de Roma, na Ensino - ITE. Ele é padre jesuíta.
Itália. É graduado em Teologia pela Gre- Confira a entrevista.

IHU On-Line – Como a feno- Em outras palavras, o pensamento percepção fenomenológica aguçada
menologia compõe o pensa- de Vilém Flusser parece ter se con- que faz de alguns de seus textos inte-
mento de Vilém Flusser? Quem centrado na imbricação de três con- ressantes, algumas de suas ideias tão
são os principais autores que juntos de saberes que, em língua ale- perspicazes, além de possibilitar-lhe
formam suas bases? mã, poderia ser sintetizada em três transmitir seu pensamento com bas-
‘K’: Kulturgeschichte, Kommunico- tante originalidade.
Anderson Pedroso – É, em
logie e Kunstwissenschaft. As três
parte, graças à fenomenologia que
poderiam ser vistas também como Autores
Flusser desenvolveu um tipo de
três esferas interpenetradas, e em
pensamento mais perceptivo, isto Quanto aos autores, Flusser depen-
movimento. De um certo ponto de
é, intuitivo e gestual. Como sabe- de fundamentalmente de Edmund
vista elas aparecem misturadas, mas
mos, Flusser não costumava citar Husserl3, mas, como é típico no seu
um olhar atento é capaz de ver quan-
academicamente os autores e as modo de agir, ele absorve uma par-
do uma destas três esferas de conhe-
fontes de seu pensamento. Assim, te do pensamento de um autor, e às 37
cimento emerge com mais força em
durante minha pesquisa, tive que vezes “recorta” um pouco algumas
um determinado texto, enquanto as
mergulhar numa miríade de textos ideias, ou as aborda desde outro
outras permanecem como um fundo
que se encontravam nos Arquivos ponto de vista, para que ela possa
comum disseminado.
Flusser em Berlin1. Então, percebi se encaixar melhor na estrutura do
que, através de seu estilo fenome- pensamento nômade que ele está
Fenomenologia
nológico, coisas antigas emergiam construindo em determinado mo-
de maneira nova. Em Flusser a fenomenologia pro- mento. Isso explica por que ele pare-
Visto o caráter interdisciplinar da priamente dita parece agir como ce não ter aderido à terminologia de
tese (um tema de Estética filosófi- uma perspectiva teórica e experien- Husserl de maneira rígida.
ca no Departamento de História de cial que atravessa esta triangulação
Um exemplo bem específico é o
arte da Faculdade de Letras), adotei (ou conjunto de esferas interpene-
da noção de “gesto”. Foi durante os
uma perspectiva de “arqueologia do tradas), iluminando desde seu in-
primeiros anos na França, a partir
seu pensamento”. O resultado é que terior. É também interessante que
de 1972, graças aos diálogos com
parece haver uma espécie de trian- tudo é traduzido em uma linguagem
outros intelectuais, como por exem-
gulação fundamental da produção particular, curiosamente composta
plo, Abraham Moles4 (um outro au-
intelectual de Flusser, a saber: uma por expressões da filosofia existen-
crítica histórica da cultura, associa- cial e da cibernética. Neste sentido,
da a uma original teoria da comu- Flusser não hesita, por exemplo, em nível em https://goo.gl/dn3AX1, intitulada O biologismo
radical de Nietzsche não pode ser minimizado, na qual dis-
nicação (bastante conhecida) e uma falar da segunda lei da termodinâmi- cute ideias de sua conferência A crítica de Heidegger ao
biologismo de Nietzsche e a questão da biopolítica, parte
certa “ciência da arte”. Esta última ca, a entropia (morte térmica), asso- integrante do ciclo de estudos Filosofias da diferença, pré
é algo que nos estudos de arte de ciando-a à reflexão sobre o “ser-para -evento do XI Simpósio Internacional IHU: O (des)governo
biopolítico da vida humana. (Nota da IHU On-Line)
língua alemã é chamado de Kuns- -a-morte” (Heidegger2). Enfim, é sua 3 Edmund Husserl (1859-1938): Edmund Gustav Albrecht
Husserl, matemático e filósofo alemão, conhecido como
twissenschaft, a saber: uma ciência, o fundador da fenomenologia, nascido em uma família
2 Martin Heidegger (1889-1976): filósofo alemão. Sua judaica numa pequena localidade da Morávia (região da
ou conjunto de saberes, que busca obra máxima é O ser e o tempo (1927). A problemática atual República Tcheca). Husserl apresenta como ideia
compreender o funcionamento da heideggeriana é ampliada em Que é Metafísica? (1929), fundamental de seu antipsicologismo a “intencionalidade
Cartas sobre o humanismo (1947) e Introdução à metafí- da consciência”, desenvolvendo conceitos como os da
criação artística e também das sen- sica (1953). Sobre Heidegger, confira as edições 185, de intuição eidética e epoché. Influenciou, entre outros, os
19-6-2006, intitulada O século de Heidegger, disponível alemães Edith Stein, Eugen Fink e Martin Heidegger e os
sações (aesthesis) dos espectadores em http://bit.ly/ihuon185, e 187, de 3-7-2006, intitulada franceses Jean-Paul Sartre, Maurice Merleau-Ponty, Michel
(ou participantes) das obras de arte. Ser e tempo. A desconstrução da metafísica, disponível Henry e Jacques Derrida. (Nota da IHU On-Line)
em http://bit.ly/ihuon187. Confira, ainda, Cadernos IHU 4 Abraham Moles (1920-1992): engenheiro elétrico e en-
em Formação nº 12, Martin Heidegger. A desconstru- genheiro acústico francês, além de doutor em física e filo-
ção da metafísica, que pode ser acessado em http://bit. sofia. Também foi professor de sociologia, psicologia, co-
1 Veja mais em http://www.flusser-archive.org/. (Nota da ly/ihuem12, e a entrevista concedida por Ernildo Stein à municação, design na “Hochschule für Gestaltung d’Ulm”
IHU On-Line) edição 328 da revista IHU On-Line, de 10-5-2010, dispo- e nas universidades de Estrasburgo, San Diego, México e

EDIÇÃO 542
TEMA DE CAPA

tor judeu que teve grande influência IHU On-Line – Flusser afirma denlos7). Tudo isso junto parece con-
em seu pensamento), que Flusser se que “a invenção da fotografia figurar o que se pode chamar de uma
concentrou na noção operatória de constitui uma ruptura na his- verdadeira “crise de época”.
“gesto”, inspirado no conceito hus- tória”. Mas que ruptura é essa?
serliano de “ato intencional”, para E em que medida as técnicas As máquinas e os homens
revelar o sentido profundo de ações e tecnologias da fotografia na
quotidianas, muitas vezes conside- atualidade atualizam essa pers- Imerso nestes acontecimentos dra-
radas como banais. É o que ele fez pectiva do autor? máticos que atravessaram o século
com os “gestos do fotógrafo”, que se XX, ele propõe a uma já conhecida
Anderson Pedroso – Antes de visão teórica da história (Escola de
tornou finalmente a figura-chave, a
mais nada é importante definir o Frankfurt8), uma corporeidade con-
partir da qual se configurou (design)
termo “ruptura”, pois para Flusser creta e uma maneira própria de ima-
sua “filosofia da fotografia”. Assim,
este termo tem um sentido bem ginar. Com efeito, seu pensamento
a “filosofia da fotografia” proposta
experiencial – mais uma vez invo- é gestual, nunca separado do corpo.
por Vilém Flusser é, na verdade, um
cando aqui sua fenomenologia. Em Segundo Flusser, até a 1ª Revolução
desdobramento de sua análise feno-
uma carta a um amigo confidente, industrial, os instrumentos eram
menológica dos gestos do fotógrafo
Flusser afirma que sua juventude extensões mecânicas das mãos, e o
em ação.
nos anos 1930 foi vivida em um homem estava no centro, cercado de
Existem muitos outros autores mundo de rupturas profundas. De ferramentas. Depois da 2ª Revolu-
que têm uma grande influência fato, ele foi diretamente tocado pe- ção industrial, é a máquina que está
(confluência?) na original compo- los acontecimentos que marcaram no centro, cercada de homens. Final-
sição filosófica (fenomenológica e o século XX. Nascido em 1920, ele mente, em época pós-industrial (3ª
existencial) de Flusser. Entre eles, viveu a crise econômica dos anos Revolução industrial?), as fábricas
podemos pensar nos dois Martin: 1930, vendo a emergência do tota- se esvaziam, pois são as máquinas
M. Buber5 e M. Heidegger. Do pri- litarismo na Europa (neste sentido computadorizadas que trabalham
meiro vem a perspectiva fundamen- os anos 1930 poderiam nos ajudar diretamente a matéria (hardware),
tal do diálogo, do segundo, depen- a pensar o que estamos vivendo e o homem vai se especializando nos
38 de, por exemplo, sua noção de arte. atualmente...). No início dos anos programas (software), isto é, ele tra-
Junto com E. Husserl, eles são eixos 1940, sua família é exterminada balha (e pensa) com as pontas dos
importantes do pensamento gestual em Auschwitz, enquanto ele con- dedos! O homem começa a criar uni-
de Flusser. Mas, como já comentei, seguia escapar para a Inglaterra, e, versos paralelos e adquire liberdade
Flusser absorve e modifica certos em seguida, para o Brasil, com sua para refazer o mundo a partir deles.
conceitos destes autores, recom- futura esposa.
pondo-os em sua original constela- Tudo isso me parece pertinente,
Assim, ele viveu e pensou o Oci- pois tem um impacto enorme no
ção (triangular) de ideias.
dente em crise. Ora, Flusser pensa imaginário contemporâneo (veja-
Em todo caso, a questão da arte em “crise” mais ou menos no mesmo se por exemplo os últimos filmes
Flusser, que nos interessa particu- sentido de H. Arendt6, isto é, como de ficção, à la Matrix9) e na imagi-
larmente, não pode estar desconec- um momento em que às articula- nação humana (veja-se confluência
tada da potente crítica da cultura e ções faltam evidências, uma brecha entre a arte e a tecnologia), bem
da história ocidental que ele procu- (gap), provocada por uma ruptura como na percepção de si mesmos
rou fazer, através da fenomenolo- fundamental. Assim, Flusser vive, e nas relações que estabelecemos
gia, de forma emblemática. Ao falar então, esta “época em crise” como (mais abstrata e virtual). Tudo isso
de jogo, por exemplo, Flusser não uma experiência pessoal e coletiva junto, é bem observável em certas
trata simplesmente do aspecto lúdi- (cultural), a saber, como uma “falta séries de Netflix.
co (embora ele fosse fascinado por de chão” (expressão que ele escolheu
isso), mas de estratégias de sobrevi- como título de sua autobiografia, Bo- Em outras palavras, Flusser con-
vência das armadilhas da sociedade sidera fenomenologicamente as
moderna (capitalista) e do naufrágio 6 Hannah Arendt (1906-1975): filósofa e socióloga alemã,
rupturas fundamentais da história
de origem judaica. Foi influenciada por Husserl, Heidegger
da História no século XX. e Karl Jaspers. Em consequência das perseguições nazis-
tas, em 1941, partiu para os Estados Unidos, onde escre- 7 Bodenlos. Uma Autobiografia Filosófica. São Paulo: Anna-
veu grande parte das suas obras. Lecionou nas principais blume, 2007. (Nota da IHU On-Line)
universidades deste país. Sua filosofia assenta em uma 8 Escola de Frankfurt: escola de pensamento formada
crítica à sociedade de massas e à sua tendência para ato- por professores, em grande parte sociólogos marxistas
mizar os indivíduos. Preconiza um regresso a uma concep- alemães. Abordou criticamente aspectos contemporâneos
ção política separada da esfera econômica, tendo como das formas de comunicação e cultura humanas. Deve-se à
modelo de inspiração a antiga cidade grega. A edição 438 Escola de Frankfurt a criação de conceitos como indústria
Compiègne. (Nota da IHU On-Line) da IHU On-Line, A Banalidade do Mal, de 24-3-2014, dis- cultural e cultura de massa. Entre os principais professo-
5 Martin Buber (1878-1965): filósofo vienense de origem ponível em https://goo.gl/QqtQjz, abordou o trabalho da res e acadêmicos da Escola podemos destacar: Theodor
judaica, foi o primeiro professor de uma cátedra de Judaís- filósofa. Sobre Arendt, confira ainda as edições 168, de 12- Adorno (1903-1969), Max Horkmeimer (1885-1973), Wal-
mo na Universidade de Frankfurt. Com a ascensão do na- 12- 2005, sob o título Hannah Arendt, Simone Weil e Edith ter Benjamin, Herbert Marcuse (1917-1979), Franz Neu-
zismo, abandonou a cátedra e mudou-se para Jerusalém, Stein. Três mulheres que marcaram o século XX, disponível mann, entre outros. (Nota da IHU On-Line)
onde passou a lecionar como professor da Universidade em http://bit.ly/ihuon168, e 206, de 27-11-2006, intitulada 9 Matrix: produção cinematográfica norte-americana e
Hebraica. A obra de Buber centra-se na afirmação das re- O mundo moderno é o mundo sem política. Hannah Arendt australiana de 1999, dos gêneros ação e ficção científica,
lações interpessoais e comunitárias da condição humana. 1906-1975, disponível em https://goo.gl/uNWy8u. (Nota dirigido pelos irmãos Wachowski e protagonizado por
(Nota da IHU On-Line) da IHU On-Line) Keanu Reeves, no papel de Neo. (Nota da IHU On-Line)

30 DE SETEMBRO | 2019
REVISTA IHU ON-LINE

como consequência do desenvol- a mediadora de tudo o que fazemos e agora se pode pensar (novamente)
vimento da imaginação humana, da forma como pensamos. por imagens e imediatamente –
enquanto processo de abstração “num piscar de olhos”, ou uma vi-
e concretização da realidade. Na são “scanning”, como dizia Flusser.
medida em que o homem faz ex- IHU On-Line – Como Flusser Isto é parecido com o que acontecia
periência dialética com as coisas apreende as ideias de pensa- antes do aparecimento da escrita,
que estão em torno dele, ele de- mentos em linha e superfície? quando os homens gravavam e pin-
senvolve um tipo de imaginação, Anderson Pedroso – Como aca- tavam suas experiências nas caver-
de artefatos e de obras de arte cor- bei de dizer, com o aparecimento da nas pré-históricas. Quem olhava,
respondentes. Enquanto o homem fotografia, como prática de fabrica- descobria (heuristicamente) o todo.
pré-histórico manipulava coisas ção ou constituição de imagens, o Hoje, é este olhar que é recupera-
com as mãos, e desenhava nas ca- pensamento deixa de ser puramente do ao mesmo tempo que o “mito do
vernas com instrumentos de pedra, linear, progressivo, imitando a escri- progresso”, que alimentou a história
com galhos e com seus próprios ta, se torna imagético, circular, ins- (enquanto tèlos) até Auschwitz, é
dedos, o homem contemporâneo pirado na maneira holística de como deixado para trás.
manipula ideias, que ele reproduz, os homens na pré-história olhavam Provavelmente trata-se de um
enquanto imagens, em superfícies as figuras nas cavernas. Evidente- novo regime de historicidade, pela
projetáveis (as telas que, agora ele mente, existe uma diferença funda- qual se abandona o “farol” que
simplesmente toca com as pontas mental: agora trata-se de imagens conduzia a Modernidade, ou seja:
dos dedos). Trata-se de um salto produzidas por aparelhos, frutos não se olha mais para um futuro
que passa pelo aparecimento da da técnica reinante na Modernida- que iluminaria o presente (“futu-
escritura e suas lógicas. Em todo de. Resultado: a “nova imaginação” rismo”), mas concentra-se no pre-
caso, existe uma relação intrínseca se torna exata, realizada através de sente mesmo, o único capaz de dar
entre o homem e a imagem, pela conceitos matemáticos, mas lida em inteligibilidade aos eventos atuais
qual sua “forma mentis” se revela sua totalidade (circular) como ima- e quotidianos do tempo presente
profundamente ligada à sua expe- gem superfície. (“presentismo”). De fato, com as
riência de corporeidade. É a partir
Com a “nova imaginação”, a con-
devidas diferenças, as análises de 39
desta convicção que se dá a análise Flusser sobre o tema da pós-his-
flusseriana do gesto fotográfico. temporânea, se é capaz de imaginar
tória, inaugurada pelo advento das
não mais coisas (contemplando-as,
imagens fotográficas, fazem pensar
Câmera fotográfica imitando-as ou descrevendo-as),
neste conceito de “presentismo”.
mas de imaginar os conceitos das
Foi assim que Flusser tentou mos- coisas e de criar outras coisas (re-
Passado, presente e futuro
trar que o aparecimento da câmera compondo-as e concretizando-as)
fotográfica não foi por acaso. Pelo numa superfície imagética (onde se O historiador francês François
contrário, a câmera fotográfica e suas projeta a imagem, e que é a imagem Hartog10, em sua tese sobre os re-
novas imagens (a-cheiropoietas, isto mesma), isto é, numa tela. Trata-se gimes de historicidade, considera a
é, não mais feitas por mãos huma- de uma nova forma de ver e de estar modernidade como uma experiência
nas), encarnou esta ruptura na his- no mundo, numa dinâmica de abs- do tempo marcada pela categoria do
tória que se alargou rapidamente no tração e concreção que caracteriza futuro. Ela é antecedida pelo antigo
ritmo dos avanços tecnológicos que e estabelece o que Flusser chama de regime de historicidade, em que o
ela mesma impunha. Em 150 anos, pós-história. passado é que conduzia o presente,
as imagens passaram de chapas de isto é, a exemplaridade dos antigos
Assim, a fotografia não somente
cobre espelhadas (“daguerreotipos”) e a imitação dos feitos do passado
tem uma história, mas ela tem tudo
a leves superfícies de tablets... Bom, eram o modelo: Historia Magistra
a ver com a História. O advento da
ainda há algo de manual. Logo mais vitae (Cicero). Não se tratava de
fotografia e a consequente dissemi-
tudo será projetado no ar, sem ne- pura repetição, mas de uma forma
nação das imagens técnicas (produ-
cessidade de apoio. de compreender o presente olhando
zidas por aparelhos) são os sintomas
A velha câmera fotográfica, um hí- o passado. Mas uma crise se instala
de um mundo que não se apresenta
no final do século XVII e dá origem
brido de arte e tecnologia, implicava mais como processo linear, onde
também uma prática híbrida do ho- os acontecimentos são sucessivos 10 François Hartog (1946): historiador francês. Aluno de
mem com a máquina. Isso mudou (como frases em um texto), numa Jean-Pierre Vernant e leitor de Reinhart Koselleck, con-
tribuiu para a formação e disseminação do conceito de
sua relação deste com as coisas, além narrativa histórica. Como acaba- “regime de historicidade”, que define as variações da arti-
de inaugurar uma forma nova de fa- mos de dizer, a partir da fotografia, culação entre as categorias de passado, presente e futuro
conforme o espaço e o tempo. Segundo Hartog, o regime
bricar imagens – sintoma de uma a realidade é vista como superfície de historicidade (relatar uma sociedade no passado, pre-
sente e futuro) está marcado por certo presentismo que
forma nova de pensar e de imaginar, interpretada e interpretante, isto é, privilegia a memória (traços do passado que se tornam
mais tecnológica. Finalmente, pode- uma cena. Assim, se antes pensava- presentes por sucessivos passados) à história (reconstru-
ções e distanciamentos do tempo passado). (Nota da IHU
mos dizer que a tecnologia se tornou se linearmente, e progressivamente, On-Line)

EDIÇÃO 542
TEMA DE CAPA

a uma ruptura que inicialmente pro- blema, é só uma característica que Filosofia a partir da foto-
vocou um certo pessimismo, expres- a faz verdadeiramente (e flusseria- grafia
so no adágio: “quando o passado namente) artística. Neste sentido,
não ilumina mais o futuro, o espírito Flusser gostava de repetir um adá- Mas do ponto de vista da imagem
marcha nas trevas” (Tocqueville11). gio de Nietzsche12, segundo o qual a mesma, também há uma reflexão
arte é melhor que a verdade (“Kunst filosófica interessante de Flusser a
Com as novas descobertas da ci- partir da fotografia. A certa distân-
ist besser als Warheit”).
ência moderna, a experiência do cia, uma fotografia analógica im-
tempo se acelera na direção de um De fato, Flusser insistiu no caráter pressa em papel é vista como uma
futuro que começa a dar inteligibili- filosófico que o gesto do fotógrafo cena; mas se chegarmos bem perto,
dade para o presente. “Progresso” é encerrava. Foi em 1975 que Flusser com ajuda de uma lupa ou microscó-
o nome deste modo de predomínio participou do famoso Festival de Fo- pio, veremos apenas pontos e inter-
da categoria do futuro. No entanto, tografia de Arles. Naquele momento, valos entre eles (na fotografia digital,
já no final do século XIX este mo- ele estabeleceu uma analogia entre a vemos os pixels na tela).
delo ou regime de temporalidade dá fotografia e a filosofia: elas são dois
sinais e extenuação. Assim se pode métodos de “dúvida metódica” em Ora, inspirado na Filosofia Antiga,
falar de uma crise do futuro duran- busca do melhor ponto de vista para Flusser fala de duas visões do mun-
te o século XX, o que nos permitiria obter uma imagem (ideia) de uma do, uma “heraclitiana” e outra “de-
mudar o adágio de Tocqueville, em: determinada realidade. mocratiana”. Sabemos que Herácli-
“quando o futuro não conduz mais to13 pensava a realidade em termos
A partir desta analogia, Flusser de um rio (“tudo flui”), isto é, a re-
o presente, o espírito marcha nas
considera que os dois métodos de alidade é fluida, derramando-se em
trevas”. É neste momento de crise
representação da realidade encar- uma direção. Já Demócrito14 pensa-
que uma nova categoria se impõe:
nam a busca de um ponto de vista va a realidade como uma chuva de
o presente. Neste sentido se fala de
para obter uma imagem (ideia). átomos – que nos faz pensar uma
presentismo, como um novo regime
E ainda mais, as duas práticas são nuvem de bits (clound!, diríamos
de historicidade em que a inteligibi-
feitas de reflexão: pelo espelho na hoje). Mais uma vez, esta ausência de
lidade, ou a luz para iluminar o pre-
câmera e pelas ideias na cabeça. As- direção (para frente), faz pensar nas
40 sente, vem do próprio presente, não
sim, ambas são métodos de reflexão teses sobre o presentismo. Em todo
mais do passado (Antiguidade), nem
realizados por meio de gestos deci- caso, com o advento da fotografia,
do futuro (Modernidade). Assim, é o
sivos (apertar o botão). Neste senti- passamos a esta nova percepção da
presente que busca seu próprio pon-
do, algo interessante aparece: assim realidade e de nós mesmos. A ima-
to de vista sobre si.
como fotografar, pensar não é só gem formada projetivamente numa
Flusser parece coincidir com algo uma questão de vista e de visão in- tela de computador de maneira bi-
desta percepção de uma tempora- telectual, mas do corpo inteiro. Em nária (1-0) demonstra a estrutura
lidade outra quando ele fala de pós outras palavras, Flusser sugeriu que da matéria: tudo o que existe é uma
-história, mas ele pensa este novo pensamos com o corpo, através de confluência de pontos e de vazios.
momento em termos de uma filoso- gestos. Assim, a gestualidade mes-
fia da imagem (fotográfica). ma é colocada no centro. Na verdade, Flusser adotou esta
ideia de uma visão contemporânea
“democratiana”, a partir de uma
IHU On-Line – Como compre- 12 Friedrich Nietzsche (1844-1900): filósofo alemão, obra do filósofo e historiador das
conhecido por seus conceitos além-do-homem, transva-
ender essas novas formas de loração dos valores, niilismo, vontade de poder e eterno ciências Michel Serres15 – um inte-
pensamento em uma sociedade retorno. Entre suas obras, figuram como as mais impor-
tantes Assim falou Zaratustra (Rio de Janeiro: Civilização
mediada pelas lógicas das ima- Brasileira, 1998), O anticristo (Lisboa: Guimarães, 1916) e 13 Heráclito de Éfeso (540 a. C.-470 a. C.): filósofo pré-
A genealogia da moral (São Paulo: Centauro, 2004). Es- socrático, considerado o pai da dialética. Problematiza a
gens fotográficas? creveu até 1888, quando foi acometido por um colapso questão do devir (mudança). Recebeu a alcunha de “Obs-
nervoso que nunca o abandonou até o dia de sua morte. A curo” principalmente em razão da obra a ele atribuída por
Anderson Pedroso – Antes de Nietzsche, foi dedicado o tema de capa da edição número Diógenes Laércio, Sobre a Natureza, em estilo obscuro,
127 da IHU On-Line, de 13-12-2004, intitulado Nietzsche: próximo ao das sentenças oraculares. Na vulgata filosó-
tudo, é necessário compreender as filósofo do martelo e do crepúsculo, disponível para down- fica, Heráclito é o pensador do “tudo flui” (panta rei) e do
imagens fotográficas, para além de load em http://bit.ly/Hl7xwP . A edição 15 dos Cadernos fogo, que seria o elemento do qual deriva tudo o que nos
IHU em formação é intitulada O pensamento de Friedrich circunda. De seus escritos restaram poucos fragmentos
uma perspectiva esteticista ou de Nietzsche, e pode ser acessada em http://bit.ly/HdcqOB . (encontrados em obras posteriores), os quais geraram
Confira, também, a entrevista concedida por Ernildo Stein grande número de obras explicativas. (Nota da IHU On
uma leitura exclusivamente semi- à edição 328 da revista IHU On-Line, de 10-5-2010, dis- -Line)
ótica. Na medida em que a foto- ponível em http://bit.ly/162F4rH, intitulada O biologismo 14 Demócrito de Abdera (480 a.C.-380 a.C.): filósofo gre-
radical de Nietzsche não pode ser minimizado, na qual go sucessor de Leucipo de Mileto. Sua fama decorre do
grafia mostra algo, ela esconde a si discute ideias de sua conferência A crítica de Heidegger fato de ter sido o maior expoente da teoria atômica ou do
ao biologismo de Nietzsche e a questão da biopolítica, par- atomismo. De acordo com essa teoria, tudo o que existe
mesma. Ela revela mentindo. É sua te integrante do Ciclo de Estudos Filosofias da diferença é composto por elementos indivisíveis chamados átomos.
natureza, ou sua condição de pos- – Pré-evento do XI Simpósio Internacional IHU: O (des) (Nota IHU On-Line)
governo biopolítico da vida humana. Na edição 330 da 15 Michel Serres (1930-2019): filósofo e historiador das
sibilidade. Mas isso não é um pro- revista IHU On-Line, de 24-5-2010, leia a entrevista Niet- ciências francês. Escreveu entre outras obras O terceiro
zsche, o pensamento trágico e a afirmação da totalidade instruído e O contrato natural. Atuou como professor vi-
da existência, concedida pelo professor Oswaldo Giacoia sitante na USP. Desde 1990 ele ocupa a poltrona 18 da
11 Alexis Carlis Clerel de Tocqueville (1805-1859): pen- e disponível em https://goo.gl/zuXC4n. Na edição 388, de Academia Francesa. Professor da Universidade de Stan-
sador político e historiador francês, autor do clássico A 9-4-2012, leia a entrevista O amor fati como resposta à ti- ford e membro da Academia Francesa, escreveu inúme-
democracia na América (São Paulo: Martins Fontes, 1998- rania do sentido, com Danilo Bilate, disponível em http:// ros ensaios filosóficos e de história das ciências, entre os
2000). (Nota da IHU On-Line) bit.ly/HzaJpJ . (Nota da IHU On-Line) quais Os cinco sentidos, Notícias do mundo, Variações sobre

30 DE SETEMBRO | 2019
REVISTA IHU ON-LINE

lectual francês que morreu em Pa- globo terrestre, colocando tudo em mente Guimarães Rosa17, cuja obra o
ris há poucos meses. Em todo caso, uma outra ordem de comunicação ajudou a chegar a uma compreensão
Flusser apontou para o fato de que – quiçá, comunhão (um termo teo- bastante perspicaz do imaginário
existe uma relação ontológica en- lógico por excelência). É interessan- brasileiro (o Brasil profundo). Mas
tre a imagem técnica (composta de te, porque, em um momento de oti- ele também conheceu outros intelec-
pontos) e a forma de pensar. Pensa- mismo, Flusser fala de “comunhão tuais e artistas que contribuíam com
mos como vemos. Assim, o pensa- cósmica”, como antítese de uma so- a cena cultural urbana em São Paulo
mento não se realiza mais de forma lidão humana diante das telas. (a Pauliceia desvairada).
linear (histórica), movido pela ca-
Em seguida, nos anos 1970, ele se
tegoria de progresso, isto é, na di- Novo sentido à imaginação
tornou mais realista e crítico para
reção de um futuro que dá sentido humana com as elites conservadoras e uma
ao caminho. O pensamento se tor- certa classe média, conivente com o
na circular, cênico, ainda em forma Em suma, para Flusser o que se deu
depois da fotografia foi um novo sen- regime ditatorial, que não cultivava
de constelação. Como consequên- quase nenhuma profundidade inte-
cia, emerge uma nova consciência, tido à atividade humana de imaginar.
Agora, o homem imagina (faz ima- lectual e cultural, nem vontade de
irrigada pela constante chuva de contribuir com o país, mas parecia
imagens técnicas (feitas através de gem) com aparelhos que calculam os
elementos pontuais do universo, agru- unicamente interessada em manter
aparelhos), que estamos todos ba- seus privilégios econômicos. Nes-
nhados todos os dias (cartazes, TV, pando-os para formar novas imagens,
até então inimagináveis. Segundo te momento, ele decidiu deixar o
cinema, smartphones). Isso muda a Brasil, motivado naturalmente, por
relação do homem com a realidade Flusser, triunfos do mundo ocidental,
a ciência e a técnica, destruíram a so- muitas outras razões – entre elas, a
e com os outros. busca de uma maior interlocução in-
lidez do mundo em pontos (bits), que
Imerso num universo que é calcu- agora são recompostos em telas (su- telectual. No entanto, é importante
lável, o homem contemporâneo vive perfícies aparentes). Consequência: o dizer que entre Flusser e Brasil hou-
num mundo codificado. Visto do es- homem se desvincula do mundo ma- ve muita troca. Foi uma verdadeira
paço, o globo terrestre é circundado terial para viver numa sorte de relação experiência de “transfert” cultural.
de satélites e recoberto de uma rede com o impalpável. Este processo de Pessoalmente, ele soube se enri- 41
de sinais de comunicação invisíveis abstração já é profundamente arraiga- quecer culturalmente. Ele se sentiu
(ou infra visíveis). Em outros ter- do nas novas gerações. Algo que preci- acolhido em um país onde a alterida-
mos, ele aparece então envolvido samos ter presente quanto às crianças de era aceita de forma natural, como
por uma aura espectral. Isso me e jovens de hoje, para além de nossas um elemento de enriquecimento
parece muito próximo, pelo me- análises geracionais, muitas vezes um mútuo. De fato, ainda hoje o estran-
nos do ponto de vista imagético, de pouco estereotipadas. geiro é sempre visto como figura in-
algo que Teilhard de Chardin16 (que teressante, seu sotaque é muitas ve-
Flusser leu e até citou) refletiu, com Neste sentido, já no final dos anos
zes motivo de imitação jocosa, mas
seu conceito de “noosfera”, como 1970, Flusser confessa que seu inte-
nunca de desprezo. Ao contrário, há
uma forma de consciência coleti- resse era cada vez mais concentrado
uma certa admiração pelo diferente.
va interplanetária que recobriria o no problema da estrutura da comu-
Isso é muito simpático. Talvez este
nicação no ensinamento escolar.
sentido de uma alteridade aberta
o corpo, O incandescente, Hominescências e Júlio Verne: A Ele considerava que a comunicação
ciência e o homem contemporâneo, todos títulos lançados estava em crise, e era preciso repen-
no Brasil pela editora Bertrand Brasil. (Nota da IHU On 17 João Guimarães Rosa (1908-1967): escritor, médico e
-Line) sá-la enquanto gesto e design, para diplomata nascido em Cordisburgo, Minas Gerais. Como
16 Pierre Teilhard de Chardin (1881-1955): paleontólogo, escritor, criou uma técnica de linguagem narrativa e des-
teólogo, filósofo e jesuíta que rompeu fronteiras entre a além da questão dos conteúdos, cada critiva pessoal. Sempre considerou as fontes vivas do fa-
ciência e a fé com sua teoria evolucionista. O cinquente- vez mais disponíveis. lar erudito ou sertanejo, mas, sem reproduzi-las em um
nário de sua morte foi lembrado no Simpósio Internacional realismo documental, reutilizou suas estruturas e vocá-
Terra Habitável: um desafio para a humanidade, promovi- bulos, estilizando-os e reinventando-os em um discurso
do pelo IHU em 2005. Sobre ele, leia a edição 140 da IHU musical e eficaz de grande beleza plástica. Sua obra parte
On-Line, de 9-5-2005, Teilhard de Chardin: cientista e mís- do regionalismo mineiro para o universalismo, oscilando
tico, disponível em http://bit.ly/ihuon140. Veja também a IHU On-Line – Flusser viveu entre o realismo épico e o mágico, integrando o natural,
edição 304, de 17-8-2009, O futuro que advém. A evolução o místico, o fantástico e o infantil. Entre suas obras, des-
e a fé cristã segundo Teilhard de Chardin, em http://bit.ly/ no Brasil. Como foi a relação tacam-se Sagarana (1946), Corpo de baile (1956), Grande
ihuon304. Confira, ainda, as entrevistas Chardin revela a dele com o país? sertão: veredas (1956) – considerada uma das principais
cumplicidade entre o espírito e a matéria, na edição 135, obras da literatura brasileira –, Primeiras estórias (1962) e
de 5-5-2005, em http://bit.ly/ihuon135 e Teilhard de Char- Tutameia (1967). A edição 178 da IHU On-Line, de 2-5-
din, Saint-Exupéry, publicada na edição 142, de 23-5-2005, Anderson Pedroso – Flusser 2006, dedicou ao autor a matéria de capa, sob o título
em http://bit.ly/ihuon142, ambas com Waldecy Tenório.
Na edição 143, de 30-5-2005, George Coyne concedeu a
tinha uma relação muito dinâmica, Sertão é do tamanho do mundo. 50 anos da obra de João
Guimarães Rosa, disponível em disponível em https://goo.
entrevista Teilhard e a teoria da evolução, disponível para de fascínio e de reservas, com Brasil. gl/LXRCAU. Confira ainda a edição 275 da IHU On-Line,
download em http://bit.ly/ihuon143. Leia também a edi- de 29-9-2008, intitulada Machado de Assis e Guimarães
ção 45 edição do Caderno IHU Ideias A realidade quânti- Em um primeiro momento, nos anos Rosa: intérpretes do Brasil, disponível em http://bit.ly/mB-
ca como base da visão de Teilhard de Chardin e uma nova
concepção da evolução biológica, disponível em http://bit.
1950, ele chegou a falar do brasileiro ZOCe. A revista publicou também em sua edição 503, de
24-4-2017, a entrevista com Kathrin Rosenfield intitulada
ly/1l6IWAC; a edição 78 do Cadernos de Teologia Públi- como modelo do “novo homem”, en- Leitura de Guimarães Rosa ensina a viver sentindo e dando
ca, As implicações da evolução científica para a semântica sentido à vida, disponível em https://bit.ly/2wRB1WQ. A
da fé cristã, disponível em http://bit.ly/1pvlEG2; e a edição quanto homo ludens – que superaria IHU On-Line número538, intitulada Grande Sertão: Ve-
22 do Cadernos de Teologia Pública, Terra Habitável: um
desafio para a teologia e a espiritualidade cristãs, disponí-
o “velho homem”, o homo faber. Nos redas. Travessias, também tratou da produção do autor.
Acesse em http://www.ihuonline.unisinos.br/edicao/538.
vel em http://bit.ly/1pvlJJL. (Nota da IHU On-Line) anos 1960, ele conheceu pessoal- (Nota da IHU On-Line)

EDIÇÃO 542
TEMA DE CAPA

fascine ainda os estrangeiros. Enfim, como uma mulher pouco religiosa) e bôs cibernéticos serão considerados
Flusser compreendeu logo que se o Faust18 de Gœthe19, que ele conhe- como último avatar deste “monstro”
tornar brasileiro parecia não passar cia quase de cor... O primeiro foi per- criado por mão humana.
exclusivamente pelo domínio da lín- dido durante a travessia, enquanto o
gua (que ele acabou conseguindo), segundo foi felizmente conservado. Luta iconoclasta
mas pela forma de pensar e agir, pelo Assim, a questão da religião é algo
jeito (o não-dito). Enfim, Flusser re- pelo qual ele parece se interessar (de Um outro traço da cultura de então
cebeu a nacionalidade brasileira em um ponto de vista cultural) como é que, se nos ambientes intelectuais
1951 e tentou apropriar-se deste jeito um continente perdido, que exata- germânicos que ventilavam entre
de ver, viver e pensar próprios, sem mente por estar imerso em águas Praga e Viena, uma filosofia da lin-
nunca ter perdido suas origens, em profundas, continua a condicionar guagem, de ares místicos (Wittgens-
termos de cultura de base. o presente. De outra parte, em ter- tein20), despontava, nos ambientes
ra firme, a sombra de Mefistófeles, o artísticos europeus se buscava a au-
Pensamento de Flusser diabo perguntador de Fausto, pare- tonomia da Arte, como reação a toda
ce ter acompanhado alegoricamente ideologia política que a queria do-
Neste sentido, talvez seja bom lo- mesticar nos anos 1930. Contra tais
Flusser, e mesmo, inspirado em suas
calizar, principalmente para quem ídolos (Socialismo russo, Nazismo
práticas dialógicas.
ainda não conhece Flusser, o territó- alemão, Fascismo italiano), os artis-
rio geográfico e o “terreno” cultural É verdade que Flusser fazia parte tas pareciam reatualizar a ancestral
onde, precisamente, se cultivou (e de uma elite judaica que reivindica- luta iconoclasta, numa sorte de rela-
depois desterrou) o seu pensamento. va um despojamento de certos pres- ção dialética com as imagens. Dessa
Isso pode ajudar como chave de lei- supostos religiosos e se queria cada forma, os habitantes de Praga viviam
tura dos textos de Flusser. vez mais secular. Porém, neste am- entre mitos, línguas e imagens de
biente ninguém escapava incólume grande poder simbólico. Assim, não
Como sabemos, Flusser nasceu e
dos condicionamentos culturais de é por acaso que Flusser pensou a cul-
cresceu na Praga dos anos 1920 e
um imaginário comum. De fato, em tura, a comunicação e a imagem.
1930, um momento de grande flores-
Praga, certos mitos judaicos eram
42 cimento intelectual, banhado pelo
ambiente multicultural próprio de
ainda operantes como, por exemplo, Cibernética
o Golem, um hominoide desprovido
territórios de fronteira. Nesta região Depois de sua fuga da perseguição
de livre-arbítrio, feito de argila pelo
dos Sudetos (onde se falava alemão nazista em 1942, já no Brasil, Flus-
rabino da cidade para ajudá-lo, que,
e tcheco), heranças culturais diver- ser entrou em contato com as tecno-
no entanto, se rebela e ameaça domi-
sas e aparentemente inconciliáveis logias, especialmente nos anos 1950.
nar seu criador e aterrorizar os ha-
conviviam sem grandes problemas. É bastante conhecida esta fase de
bitantes da cidade. Trata-se de mito
Um bom exemplo é o fator religioso sua vida em que de dia trabalhava
que se tornou lenda no século XVI,
que, do ponto de vista dos estudos em uma fábrica de transformadores
inspirando o teatro folclórico yiidish
culturais, é um elemento importante de rádio e de noite lia sobre filosofia.
e que inspirou muitas expressões
(embora, não poucas vezes, negli- Assim tecnologia e filosofia eram te-
artísticas no início do século XX (es-
genciado) na composição do imagi- mas ativos em sua cabeça. Nos anos
culturas, fotos, filmes), numa sorte
nário que vai condicionar a forma de 1960, ele entrou em contato com o
de prelúdio das ficções científicas
pensar e de agir. mundo artístico, especialmente com
atuais. Não é por acaso que os ro-
Com efeito, Flusser foi educado no a arte abstrata, que ele via como pre-
judaísmo tcheco cosmopolita dos 18 Fausto: protagonista de uma popular lenda alemã de missa e promessa da confluência en-
um pacto com o demônio, baseada no médico, mágico e
anos 1930, que convivia com um alquimista alemão Dr. Johannes Georg Faust (1480-1540). tre arte e ciência. No final dos anos
cristianismo latino (catolicismo bar- O nome Fausto tem sido usado como base de diversos 1960, Flusser participou de eventos
romances de ficção, o mais famoso deles de Goethe, pro-
roco, carregado de corporeidade) e duzido em duas partes, tendo sido escrito e reescrito ao emblemáticos neste sentido, como
longo de quase 60 anos. A primeira parte – mais famosa
uma proximidade com cristianismo – foi publicada em 1806 e a segunda, em 1832 – às vés-
peras da morte do autor. Considerado símbolo cultural da 20 Ludwig Wittgenstein (1889-1951): filósofo austríaco,
oriental (ortodoxo, com sua forte modernidade, Fausto é um poema de proporções épicas considerado um dos maiores do século 20, tendo contri-
tradição icônica). Estes três ele- que relata a tragédia do Dr. Fausto, homem das ciências buido com diversas inovações nos campos da lógica, da
que, desiludido com o conhecimento de seu tempo, faz filosofia da linguagem e da epistemologia, dentre outros
mentos de fundo religioso estarão um pacto com o demônio Mefistófeles, que o enche com a campos. A maior parte de seus escritos foi publicada pos-
energia satânica insufladora da paixão pela técnica e pelo tumamente, com exceção de seu primeiro livro: Tractatus
presentes em seu pensamento mais progresso. (Nota da IHU On-Line) Logico-Philosophicus, em 1921. Os primeiros trabalhos de
profundo. 19 Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832): foi um Wittgenstein foram marcados pelas ideias de Arthur Scho-
autor e estadista alemão que também fez incursões pelo penhauer, assim como pelos novos sistemas de lógica ide-
campo da ciência natural. Goethe também era formado alizados por Bertrand Russel e Gottllob Frege. Quando o
Interessante porque em sua auto- em Direito e chegou a atuar como advogado por pouco Tractatus foi lançado, influenciou profundamente o Círculo
biografia, Flusser conta que na sua tempo. Como sua paixão era a literatura, resolveu dedicar- de Viena e seu positivismo lógico (ou empirismo lógico).
se a esta área. Fez parte de dois movimentos literários im- A edição 308 da IHU On-Line, de 14-9-2009, apresenta a
fuga da perseguição nazista, ele pôde portantes: romantismo e expressionismo. Como escritor, entrevista O silêncio e a experiência do inefável em Wit-
Goethe foi uma das mais importantes figuras da literatura tgenstein, com Luigi Perissinotto, disponível em https://
levar dois livros: um livro de orações alemã e juntamente com Friedrich Schiller, foi um dos líde- goo.gl/HGR6jZ. A entrevista A religiosidade mística em
judaicas, um Sidur (curiosamente res do movimento literário romântico alemão Sturm und Wittgenstein, concedida por Paulo Margutti, consta na edi-
Drang. Apresentou ainda um grande interesse pela pintura ção 362 da revista IHU On-Line, de 23-5-2011, disponível
dado por sua mãe, que ele descreve e desenho. (Nota da IHU On-Line) em https://goo.gl/J0krYa. (Nota da IHU On-Line)

30 DE SETEMBRO | 2019
REVISTA IHU ON-LINE

as três “Bienais de Ciência e Huma- suas reflexões mais maduras sobre a um alter ego. Talvez essas breves in-
nismo”, que aconteceram consecuti- comunicação e pelo seu encontro, na formações possam ajudar a iluminar
vamente durante as Bienais de Arte França, com alguns artistas-cientis- alguns pontos cegos de nossa leitura
de São Paulo (1967, 1969 e 1971). tas, especialmente Nicolas Schöffer23 dos seus textos.
e Wen-Ying Tsaï24.
Isso explica por que o pensamen-
to de Flusser parece ter assumido o Em 1975, ele participou ativamen- IHU On-Line – Como, a par-
viés informacional que ele absorveu te do Festival da Fotografia, em tir de Flusser, o senhor apre-
de suas leituras de textos sobre a ci- Arles (França), com uma interven- ende os fenômenos das “sel-
bernética. De fato, ele acompanhou ção sobre a filosofia e a fotografia, fies” que são impulsionadas
as peripécias da cibernética desde através de um enfoque fenomenoló- pelas redes sociais? O que essa
seu nascimento oficial, em 1948 (a gico e sistêmico (cibernético). Este relação do humano com a foto
“primeira cibernética”, de Norbert evento abriu-lhe as portas do mun- e sua imagem revela acerca de
Wiener21), até seu desenvolvimento do cultural europeu. Assim, o livro nosso tempo?
em forma de uma análise sistêmica que fez famoso Flusser, “Filosofia
de auto-gestão, nos anos 1980 (uma da caixa preta”25, não pode ser lido Anderson Pedroso – Acredito
“segunda cibernética”). sem esta base cibernética: termos que já devam existir análises sobre
como input-output, feed-back, apa- esta questão das selfies, desde a psi-
Assim, a cibernética atravessa canálise até o marketing, passando
relho/aparatus, são a apropriação
transversalmente, como fio de ouro, pela sociologia. Posso tentar respon-
linguística de uma cultura sistêmi-
as diferentes fases do pensamento de der do ponto de vista da história da
ca que estruturava seu pensamen-
Flusser. Nos anos 1950 ele descobre fotografia. Antes de tudo, trata-se de
to paradoxalmente não sistêmico.
a cibernética lendo certas obras es- experimentos pessoais e coletivos
Finalmente, nos anos 1980 Flusser
pecializadas e outras mais genéricas. que revelam uma demanda experi-
levou ao máximo suas reflexões de
Nos anos 1960, a cibernética emerge mental científica que atravessou o
natureza cibernética ou sistêmica,
no careffour de suas reflexões sobre século XX. No azo da fotografia, há,
ao considerar a sociedade contem-
a língua e seu contato com a arte portanto, dois traços fundamentais
porânea completamente informati-
abstrata. Aliás, a arte abstrata sem- interligados: o lúdico (que contava
zada uma “sociedade telemática”. 43
pre foi um lugar de grande interlocu- com o azar) e o tecnológico (ancora-
ção de Flusser. Ele ainda conheceu Enfim, se o fundo cultural originá- do no cálculo). Assim, o jogo lúdico
pessoalmente Haroldo de Campos22 rio europeu é o substrato primeiro da fotografia se revelou como uma
(poesia concreta). Nos anos 1970 a que irriga seu pensamento de base estratégia de “azar programado”.
cibernética reaparece com força em (crítica da cultura, teoria da comu-
nicação e filosofia da imagem), ele é Do ponto de vista da experiência
enriquecido com um percurso inte- estética, o desenvolvimento da fo-
21 Norbert Wiener (1894-1964): matemático americano
lectual original que Flusser pôde fa- tografia mostra como a visão do ho-
conhecido como fundador da cibernética. Criou o termo
em seu livro Cybernetics or Control and Communication zer no Brasil e desenvolver, a partir mem foi se transformando pelo seu
in the Animal and the Machine (MIT Press, 1948). Entre
seus livros também incluem-se The Human Use of Human da França, nos países vizinhos (de contato com as novas tecnologias.
Beings (1950), Ex-Prodigy (1953), I Am a Mathematician língua alemã). Mas Flusser se man- Basta pensar na “Nouvelle vision”
(1956). (Nota da IHU On-Line)
22 Haroldo de Campos (1929-2003): poeta e tradutor teve sempre ligado ao Brasil, através que a fotografia dos anos 1920 encar-
nascido em São Paulo. Fez seus estudos secundários no
de visitas e de uma rica correspon- nava e promovia. Esta “nova visão”
Colégio São Bento, onde aprendeu os primeiros idiomas
estrangeiros, como latim, inglês, espanhol e francês. In- dência com alguns de seus amigos era ao mesmo tempo de um mundo
gressou na Faculdade de Direito da Universidade de São
Paulo, no final da década de 1940, lançando seu primeiro e interlocutores, entre eles, Milton industrial e urbano, um mundo da
livro, O Auto do Possesso, em 1949, quando participava
Vargas26, que ele considerava como velocidade e das máquinas, da linha
do Clube de Poesia, ao lado de Décio Pignatari. Em 1952,
Décio, Haroldo e seu irmão Augusto de Campos rompem direta dos trilhos dos trens que re-
com o Clube, por divergirem quanto ao conservadorismo
predominante entre os poetas, conhecidos como Geração 23 Nicolas Schöffer (1912-1992): foi um artista ciber-
presentavam bem a Modernidade e
de 45. Fundam, então, o grupo Noigandres, passando a nético nascido na Hungria. Schöffer nasceu em Kalocsa, seu regime de temporalidade “futu-
publicar poemas na revista do grupo, de mesmo título. Hungria, e residiu em Paris de 1936 até sua morte em
Nos anos seguintes, defendeu as teses que levariam os Montmartre, em 1992. Ele construiu suas obras de arte rista”. Consequentemente, um novo
três a inaugurar, em 1956, o movimento concretista, ao sobre teorias cibernéticas de interatividade de feedback, fotógrafo é encarregado de mostrar
qual se manteve fiel até o ano de 1963, quando inaugura baseadas principalmente nas ideias de Norbert Wiener. O
um trajeto particular, centrando suas atenções no projeto trabalho de Wiener sugeriu a Schöffer um processo artís- este mundo em imagens e o olhar do
do livro-poema Galáxias. Fez o doutorado na Faculda- tico em termos da causalidade circular dos ciclos de fee-
de de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, sob dback. (Nota da IHU On-Line) público também muda.
orientação de Antonio Candido, tendo sido professor da 24 Wen-Ying Tsai (1928-2013): foi um escultor cibernéti-
PUC-SP, bem como na Universidade do Texas, em Austin. co e artista cinético pioneiro americano, mais conhecido São interessantes, por exemplo, as
Haroldo dirigiu até o final de sua vida a coleção Signos, por criar esculturas usando motores elétricos, hastes de
da Editora Perspectiva. “Transcriou” em português poe- aço inoxidável, luz estroboscópica e controle de feedba- famosas fotografias que Moholy-Na-
mas de autores como Homero, Dante, Mallarmé, Goethe, ck de áudio. Como um dos primeiros artistas nascidos na
Mayakovski, além de textos bíblicos, como o Gênesis e o China a obter reconhecimento internacional na década de
gy27 fez do prédio do Bauhaus: não
Eclesiastes. Publicou, ainda, numerosos ensaios de teoria 1960, Tsai foi uma inspiração para gerações de artistas chi-
literária, entre eles A Arte no Horizonte do Provável (1969). neses. (Nota da IHU On-Line)
No teatro, suas obras foram interpretadas, com exclusivi- 25 São Paulo: Annablume, 2013. (Nota da IHU On-Line) 27 László Moholy-Nagy (1895-1946): foi um designer,
dade, por três atores: Giulia Gam (1989, Cena da Origem, 26 Milton Vargas (—2011): filósofo, engenheiro eletricis- fotógrafo, pintor e professor de design pioneiro, conhe-
direção de Bia Lessa), Bete Coelho (1997, Graal: Retrato ta e civil brasileiro, especializado em mecânica de solos. cido especialmente por ter lecionado na escola Bauhaus.
de um Fausto Quando Jovem, de Gerald Thomas) e Luiz Participou do Centro Interunidade de História da Ciência Ele foi muito influenciado pelo Construtivismo Russo e um
Päetow (2015, Puzzle, de Felipe Hirsch). Pouco antes de da USP, foi membro fundador do Instituto Brasileiro de Fi- defensor da integração entre tecnologia e indústria no
falecer, publicou sua transcriação em português da Ilíada, losofia e pertenceu à Academia Paulista de Letras. (Nota design e nas artes. Nagy aplicava a técnica de colagem
de Homero. (Nota da IHU On-Line) da IHU On-Line) de negativos e uso de instrumentos que interferem artis-

EDIÇÃO 542
TEMA DE CAPA

há mais horizontal ou vertical onde físico-químico feito em laborató- como algo tão banal. Talvez isto seja
se apoiar, algumas fotos podem ser rio, começou a dar lugar à imagem algo para se pensar mais seriamente.
vistas de cabeça pra baixo. O impor- digital, feita por câmeras portáteis.
Esta é precisamente a armadilha
tante é a linha transversal, rompen- Estas últimas substituíram a câmera
dos aparelhos, segundo Flusser:
do com a antiga visão fotográfica ba- fotográfica analógica, que reinou du-
usando-os, somos usados e domina-
seada na linha do horizonte. De fato, rante o século XX. Característico do
dos por suas lógicas, no caso, a lógica
uma fotografia à la ancienne en- século XXI, estamos mergulhados
do consumo, da aparência, da busca
quadrava tudo segundo as regras da em megapixels e a realidade virtual
de seguidores virtuais, num ensaio
perspectiva dos pintores do Renasci- não nos é mais algo estranho. Isso
de idolatria pessoal... Tudo isso tem
mento. Esta visão não corresponde tem uma consequência na experiên-
um preço e são as grandes empresas
mais ao homem moderno do início cia contemporânea: simultaneidade, que lucram, inchando o tempo pre-
do século XX, pois este homem é pe- megavisão e vida virtual. As selfies sente com novas demandas consu-
destre das grandes cidades, e nunca estão inseridas neste novo contexto, mistas: a cada dia aparecem novos
olha somente direto, mas move o mas dão continuidade a esta deman- gadgets, aplicativos, para comprar.
olhar para cima, para contemplar os da de uma prática experimental na
prédios, e para baixo, para olhar os história da fotografia. Experiência mercantilizada
automóveis. Enfim, o homem urba-
no começa a ver tudo em movimen- Autorrepresentação Assim, o problema real parece ser
to e de modo oblíquo. A diagonal se o que o mercado faz com nossas ex-
torna a linha por excelência da cida- Já do ponto de vista estético, na periências, e como somos condicio-
de moderna e de suas vertigens. história da arte os “auto-portraits” nados e escravizados por suas lógi-
estão inscritos na tradição mesma cas e seus programas. Não sei o que
Virtualidades das práticas artísticas autorrepre- Flusser diria sobre as selfies, mas
sentativas de todos os tempos. Há com certeza ele provocaria alguma
E as fotografias vão explorar estas algo de bonito em algumas selfies, reflexão, justamente para quebrar as
virtualidades: fotos de grandes pré- talvez porque transparece algo de lógicas programadoras que estão por
dios ou das chaminés das usinas. ingênuo, um desejo de fixação e de detrás deste fenômeno. Flusser pro-
44 Diferente dos pintores, o fotógrafo transmissão de uma emoção. Enfim, vavelmente pensaria numa estraté-
não se interessa da natureza, consi- nem tudo é negativo, kitsch ou bre- gia para se “jogar contra o aparelho”
derada muito desordenada... Logo, ga. Acredito que toda atitude esnobe (o apparatus estatal, financeiro, co-
os fotógrafos fazem fotos do alto dos com o que é popular deve ser seria- mercial, cultural) e ganhar espaços
prédios, produzindo imagens ver- mente questionada. Não deveríamos sempre maiores de liberdade.
tiginosas da cidade. E a fotografia aumentar a ruptura social, afirman-
do uma arte (e um modo de ser) eli- IHU On-Line – O fácil acesso
aérea, desenvolvida durante as duas
tista, contra outra “popular”. Numa à fotografia através de disposi-
guerras como estratégia militar, tra-
selfie coletiva as pessoas se juntam, tivos móveis e o compartilha-
balha ainda mais este olhar do alto.
há um momento de alegria, de fixa- mento de imagens via redes so-
Visto do alto, tudo parece mais sim-
ção de um instante (tempo) em uma ciais imprimem novas formas
ples, a ordem é coletiva, a comple-
imagem (espaço) – desejo de eterni- de percepção da experiência,
xidade do real desaparece atrás da
dade? Tudo isso é muito próprio da do conhecimento e da relação
abstração, do jogo de formas e luzes.
fotografia, como experiência de tem- entre seres humanos? Por quê?
De outro lado, a fotografia científica
também desenvolve uma outra pers- po e espaço e como percepção estéti- Anderson Pedroso – Sim, tal-
pectiva deste olhar contemporâneo: ca de si mesmo, desde sua invenção vez dando continuidade a algumas
se pode ver a realidade microscópi- há mais de um século. intuições de W. Benjamin28 (A obra
ca, o que permite uma nova concep- Mas está claro: no caso das selfies, 28 Walter Benjamin (1892-1940): filósofo alemão. Foi
ção do corpo humano. já não são mais os artistas pintores refugiado judeu e, diante da perspectiva de ser captura-
do pelos nazistas, preferiu o suicídio. Associado à Escola
Associada à ciência e à técnica, a que, com ajuda de espelho e outras de Frankfurt e à Teoria Crítica, foi fortemente inspirado
nova visão que atravessa o século XX técnicas, pintavam a si mesmos. tanto por autores marxistas, como Bertolt Brecht, como
pelo místico judaico Gershom Scholem. Conhecedor
celebra a era das máquinas e dos ro- Agora é um aparelho que abstrai, profundo da língua e cultura francesas, traduziu para o
alemão importantes obras como Quadros parisienses, de
bôs. Mas, na segunda metade do sé- recompõe e concretiza a imagem Charles Baudelaire, e Em busca do tempo perdido, de Mar-
culo XX, tudo começa a mudar, tan- de uma pessoa, que pode inclusive cel Proust. O seu trabalho, combinando ideias aparente-
mente antagônicas do idealismo alemão, do materialismo
to quanto à percepção da realidade, “melhorar” alguns de seus aspectos dialético e do misticismo judaico, constitui um contributo
original para a teoria estética. Entre as suas obras mais
como aos condicionamentos mate- exteriores, artificialmente retoca- conhecidas, estão A obra de arte na era da sua reprodu-
riais da fotografia: a fixação da ima- dos (photoshop!). Estamos diante tibilidade técnica (1936), Teses sobre o conceito de história
(1940) e a monumental e inacabada Paris, capital do século
gem em papel fotossensível, através de algo tão revolucionário, pois da XIX, enquanto A tarefa do tradutor constitui referência in-
contornável dos estudos literários. Sobre Benjamin, con-
de um procedimento de revelação manipulação da imagem, passa-se fira a entrevista Walter Benjamin e o império do instante,
à manipulação do corpo e dos ge- concedida pelo filósofo espanhol José Antonio Zamora
à IHU On-Line nº 313, disponível em http://bit.ly/zamo-
ticamente na impressão das fotos. (Nota da IHU On-Line) nes (DNA), o que pode ser praticado ra313. (Nota da IHU On-Line)

30 DE SETEMBRO | 2019
REVISTA IHU ON-LINE

de arte na era de sua reprodutibi- campanha política e talvez acabaram Consequentemente as milhares de
lidade técnica29), Flusser apontou por ajudar bastante nas últimas elei- (sub)celebridades do Instagram são
uma transformação profunda da ex- ções nos EUA e no Brasil... vítimas do sistema que elas mesmas
periência humana pela transmissão alimentam. Apesar de propagar
Mas, talvez, o mais representativo
das imagens, desde uma perspectiva uma liberdade invejável em todos
em termos de imagens seja o Ins-
tecnológica (cibernética). De fato, os sentidos (ir e vir, vestir e despir),
tagram, em que há uma exposição
segundo Flusser, do ponto de vista elas estão constantemente ameaça-
contínua e concorrencial: tudo tem
material (hardware), os aparelhos das pela irrelevância. Isso explica
que acontecer, ser e ter, imediata-
se tornaram cada vez mais leves, a triste corrida por “imagens-even-
mente – eventos! Mas isso tem seu
adaptáveis, belos, isso graças a no- tos”. O vulgar assumiu um lugar
preço e, na medida em que se per-
vos profissionais, considerados ago- corre um perfil, junto com a fasci- jamais pensado. As pessoas estão
ra fundamentais: os designers! nação, se dá a sensação do obsoleto dispostas a tudo. Paisagem interior
que rapidamente recobre todas as desoladora que revela um enorme
Ao mesmo tempo, do ponto de vista
“imagens-eventos” – e, consequen- vazio atrás das mais coloridas ima-
interno (software), os programas se
temente, todos os acontecimentos gens fotográficas. Flusser falava da
tornaram mais sofisticados, graças a
da vida. O Snapchat parece o filho imagem como uma tela fina, fei-
outros profissionais, os programa-
caçula que se tornou bastante popu- ta de nós e de espaços, como uma
dores. Eles criam novos aplicativos
lar entre os mais jovens. Este aplica- rede. De longe parece consistente,
(gadgets) que não param de se de-
tivo me aparece como um derradei- mas de perto não é mais que uma
senvolver – mais parecem bactérias
ro sintoma desta rapidez que obriga capa do vazio que se encontra atrás
tecnológicas que se associam, ali-
a ver, ler, compreender e responder dela. Assim, muitas imagens, senão
mentam e assimilam umas às outras.
tudo imediatamente. todas, expõem para esconder. Isso
Do ponto de vista do usuário, acon- não é ruim do ponto de vista semió-
tece algo paradoxal: seu uso se tor- Nesta corrida contra o tempo e em tico, mas quando a vida se confunde
nou cada vez mais simples (basta busca de relevância imediata, as pes- com a imagem, então é bem com-
um “touch”, ou mesmo um olhar – a soas parecem fabricar um presente plicado. Diz-se que num mundo tão
retina), perde-se a noção de “como” que se quer “histórico” antes mesmo conectado nunca se experimentou
isso acontece. Trata-se da “maldição de acontecer. Há uma avalanche de tanta solidão. Às vezes as telas de 45
da caixa-preta”, a saber: vemos a en- eventos acarretando numa contra- TV, computador ou smartphone são
trada e a saída (input-output), o es- ção extraordinária de nossa expe- “audiência para a solidão”.
tímulo e o resultado, mas não sabe- riência de historicidade. Tudo isso
acontece em tempos de capitalismo IHU On-Line – De que forma
mos o que se passa dentro dela. Isso
que prega a flexibilidade, a mobi- a ideia arte, numa perspecti-
é profundamente ideológico. Em ou-
lidade em vista da eficácia. Não se va histórica, é reconfigurada a
tros termos, não importa o processo,
fala em gestação, processo, muito partir (I) do advento da foto-
mas a eficácia. Um conceito que está
menos em discernir (esta palavra grafia e (II) da massificação dos
associado à rapidez. Hoje tudo tem
-processo, bastante negligenciada), usos da fotografia?
que ser imediato.
mas de estar pronto para responder Anderson Pedroso – A expres-
Presentismo a tudo instantaneamente, a toda so- são reconfigurar a arte é interessan-
licitação (de amizade, de opinião, de te porque justamente é o que Flusser
Aqui se manifesta um outro aspec- pesquisa de satisfação...). Na maio- tentava. Ele parecia obstinado em
to da teoria do “presentismo” que ria dos casos, não há tempo para restaurar a unidade perdida depois
mencionei, que se estende na econo- se pensar, refletir, contemplar, e, do Renascimento, entre arte e ciên-
mia mediática. As redes sociais e os finalmente, discernir, mas deve ser cia moderna. Ele defendia com te-
meios de comunicação mais variados o primeiro a responder “em tempo nacidade, o que eu chamaria de uma
sofreram uma metamorfose: a cada real”. Isso já tem provocado algu-
“afinidade eletiva” entre a arte abs-
minuto se anuncia um acontecimen- mas questões: somos obrigados a
trata e a ciência tecnológica que se
to que se apresenta como “evento”, estar sempre online? Temos que di-
desenvolveram durante o século XX.
numa necessidade de renovação zer tudo de imediato: o que fazemos,
constante de tudo (das estruturas como nos sentimos, numa transpa- Em 1974, Flusser participou, no
das coisas até as relações pessoais). rência obrigatória? Neste sentido, Museu de Arte Moderna de Paris,
A TV já mostrava isso abundante- nos deparamos com um paradoxo, de um Congresso sobre o tema da
mente, mas também as mídias so- segundo alguns estudos: numa so- imaginação contemporânea. Foi
ciais, especialmente alguns dispo- ciedade que faz constante apelo à um evento importante para ele, pois
sitivos. O fenômeno do Twitter, do transparência, nunca se produziu afirmava sua convicção de uma ten-
Facebook e do WhatsApp entraram tanta opacidade pela tecnologia. De dência atual à reunificação entre
para a história como ferramentas de fato, sabemos somente algo do que arte e ciência, depois de um lapsus
é feito de nossos dados eletrônicos de quatro séculos. De fato, o Renas-
29 São Paulo: L&PM, 2018. (Nota da IHU On-Line) pelo marketing e o mercado. cimento parece representar o último

EDIÇÃO 542
TEMA DE CAPA

momento de unidade cultural em vesse que se resignar quanto a seus e inovadora para escapar de todo
que a relação entre ciência e arte atores: “infelizmente nos falta um condicionamento que lhe diminui
eram o sinal mais evidente. Mas, em Leonardo”31, dizia. a liberdade.
seguida, por diversos fatores, a ciên-
Leonardo, de quem estamos re- Segundo Flusser, realidades novas
cia moderna se impôs como um sa-
cordando este ano os 500 anos de nascem deste caldo, desta mistura:
ber predominante, e a única prática
sua morte, é a figura (híbrida?) do uma “arte pura” ou uma “ciência
legítima para chegar à verdade. Con-
cientista que age como artista, isto pura” são monstros estéreis, pois
sequentemente, a arte foi colocada
é, com liberdade de imaginação, e, não geram nada de novo, repetem,
de lado, ou mesmo lançada entre as
vice-versa, do artista que age como quando não assustam, reprimem e
realidades pouco sérias, “subjetivas” cientista, isto é, em constante bus- aprisionam a imaginação do ser hu-
no sentido de falta de objetividade e ca de saber – sem portanto partir mano. O que Flusser faz é um tipo
valor cognitivo real. A grande ques- dos pressupostos científicos e suas de paradoxal manifesto a uma “livre
tão é que, paradoxalmente, diver- pretensões. Em todo caso, nestas imaginação científica”, e também a
tindo-se e criando outros mundos condições se dava a arte no Renas- uma “exata imaginação artística”.
(brincando), o homem se desenvolve cimento, através de uma experiên- Isso é interessante, e parece se reali-
e realiza suas mais profundas virtu- cia estética consciente de seu valor zar, pois tanto os cientistas como os
alidades e habilidades (Schelling30). cognoscitivo, diverso daquele cien- artistas estão intercambiando méto-
Flusser notou como durante o sé- tífico, mas, exatamente por isso, dos. Alguns artistas criam com aju-
culo XX, já nos primeiros anos, se inovador e indispensável. O resulta- da de logaritmos, enquanto alguns
dá um momento histórico de conflu- do é que ao lado de grandes obras cientistas deixam a imaginação voar
ência entre arte abstrata e a ciência (pintura, escultura, arquitetura) para além do preestabelecido.
tecnológica. A confluência das duas está uma miríade de invenções que
estaria bem representada na foto- não funcionaram, mas que faziam
grafia, esta máquina de produzir parte deste grande exercício de cria- IHU On-Line – O ser humano
imagens, que é na verdade sintoma tividade e sem as quais as obras de renascentista vê na arte uma
de uma nova percepção do mundo e arte (obras-primas) não existiriam. forma de buscar o entendimen-
46 de si mesmos. Uma nova imagina- to sobre si. Como a humanida-
ção estava emergindo, pela qual o Arte e ciência de do século XXI, da técnica e
homem não era mais capaz de sim- da lógica, reconfigura a sua re-
De fato, os artistas continuam lação com a arte?
plesmente imaginar fenômenos con-
utilizando tudo o que acham inte-
cretos, mas também de imaginar os Anderson Pedroso – Como já
ressante, sem preconceito ou pre-
conceitos. Isso evoca algo da “fanta- mencionamos, até o Renascimento
tensão da verdade, para explorar
sia essata” de Leonardo. não havia uma separação radical
suas ideias, intuições e emoções,
E isso é possível ver com maior de maneira sensorial. É neste sen- entre arte e ciência, mas somente
evidência a partir da segunda me- tido que a arte atual pode ajudar os se mantinha uma distinção entre
tade do século XX, por exemplo cientistas contemporâneos, inclu- elas. Flusser parecia obstinado pela
na arte minimalista, na arte con- sive questionando a ciência quanto restauração da unidade perdida
ceitual, na vídeo-arte, assim como ao sentido dos seus métodos cien- entre arte e ciência depois do Re-
nas instalações com hologramas. O tíficos e produtos tecnológicos. Aí nascimento. E ele estava convenci-
mesmo se deu da parte da própria se instala uma tensão, mas uma do de que era a tecnologia, a qual
ciência, quando observamos certos tensão criativa que constitui a rela- se desenvolveu no século XX, que
modelos de ácidos ribonucleicos e ção entre o homem e a técnica. En- tornaria possível tal façanha. Neste
de sistemas de nebulosas que são tão uma luta é necessária. E serão sentido, evocando o caráter urgen-
artísticos, sem deixar de ser cientí- necessárias “artimanhas” da parte te desta demanda, ele falava de um
ficos, e vice-versa. Assim, a “imagi- do homem-artista para dominar Novo Renascimento e afirmava que
nação exata” que tende a ultrapas- este bicho que ele criou. Assim a a partir de então: “todos os homens
sar a distinção rigorosa entre arte tensão provoca uma resistência serão artistas”. Assim, Flusser tra-
e ciência. Com entusiasmo, Flusser criativa. Só a arte tem no seu DNA balhou no interior deste reencontro
designa este momento como uma esta informação matricial criativa entre arte e ciência, apostando na
“Nova Renascença”, embora ele ti- confluência de duas formas de pen-
31 Leonardo da Vinci (1452-1519): polímata italiano, uma sar aparentemente inconciliáveis: a
das figuras mais importantes do Renascimento naquele
30 Friedrich Schelling (Friedrich Wilhelm Joseph von país, que se destacou como cientista, matemático, en- técnica e o humanismo, encarnados
Schelling, 1775-1854): filósofo alemão. Suas primeiras genheiro, inventor, anatomista, pintor, escultor, arquiteto,
obras são geralmente vistas como um elo importante botânico, poeta e músico. É ainda conhecido como o pre-
respectivamente na cibernética (pós
entre Kant e Fichte, de um lado, e Hegel, de outro. Essas cursor da aviação e da balística. Leonardo frequentemente -humanista) e em uma fenomenolo-
obras são representativas do idealismo e do romantismo foi descrito como o arquétipo do homem do Renascimen-
alemães. Criticou a filosofia de Hegel como “filosofia ne- to, alguém cuja curiosidade insaciável era igualada apenas gia (anticartesiana).
gativa”. Schelling tentou desenvolver uma “filosofia po- pela sua capacidade de invenção. É considerado um dos
sitiva”, que influenciou o existencialismo. Entrou para o
seminário teológico de Tübingen aos 16 anos. (Nota da
maiores pintores de todos os tempos, e possivelmente
a pessoa dotada de talentos mais diversos a ter vivido.
De fato, Flusser, leitor de Heideg-
IHU On-Line) (Nota da IHU On-Line) ger, conhecia bem a crítica heidegge-

30 DE SETEMBRO | 2019
REVISTA IHU ON-LINE

riana ao predomínio da técnica que a Artista não é gênio atual em que se manifesta esta “afi-
cibernética representava, como parte nidade eletiva” entre arte e tecno-
de sua reivindicação sobre a prepon- Mas existe algo muito interessante logia. O design é algo que sempre
derância do ser, e suas tentativas de quanto à figura do artista. Para Flus- esteve presente no pensamento de
salvá-lo do esquecimento. Mas Flus- ser, o artista não é visto mais como gê- Flusser desde sua chegada ao Brasil.
ser era também fascinado pela ci- nio, e não é mais divinizado como de-
miurgo, que imitaria a Deus, que cria Na primeira Bienal de São Pau-
bernética, termos que vem do grego
ex nihilo. Ao contrário, o artista con- lo, em 1951, Max Bill33 venceu o
kibernein (governar), e que instaura
temporâneo é visto (e admirado) por prêmio de escultura com a obra
uma nova forma de conhecimento
Flusser porque encarnaria o protótipo “Unidade Tripartida”, e a escola
sistêmico baseado no controle da
do novo homem, a saber, o homo lu- de Ulm foi consagrada (com sua
informação (input-output), pela di-
dens: aquele que brinca com informa- Gestalt). Na época, Flusser era um
nâmica da retroação (feed-back).
ções, produzindo o imprevisível capaz simples imigrante que tentava se
Enfim, se Heidegger denunciava a li-
de renovar todas as realidades. Na integrar num país que, ainda mo-
nearidade e calculabilidade da ciber-
verdade, o jogo é sério e nele se joga a vido pela ideologia do progresso,
nética como a mecanização do pen-
liberdade diante de todos os sistemas respirava ares de atualização. O
samento e da vida (Maschenschaft),
vocacionados ao totalitarismo, num problema é que se acreditava que
com o consequente fim da poesia e
mundo condenado ao envelhecimento a atualização deveria vir sempre de
da filosofia. Flusser preferia enfren-
e à morte por causa da segunda lei da fora (Europa, EUA). Quase quaren-
tar o monstro para convertê-lo em
termodinâmica, afirmava Flusser. ta anos depois, em 1988, Flusser se
aliado: é melhor jogar para mudar o
reencontra com Max Bill, desta vez
jogo! É interessante notar como ele, Mas o homo ludens não é a apologia na Alemanha, durante um congres-
de formação clássica (humanista), ao infantilismo ou ao descompromis- so sobre design. Então, Flusser já é
sempre manteve um grande interes- so. Ao contrário, encarna uma forma conhecido e escutado. É uma fase
se pelas ciências duras. de exercer a liberdade, profundamen- muito feliz de Flusser, quando ele
A arte parece entrar naturalmen- te necessária para se aventurar no exerce sua missão de “Mefistófeles
te nesta dinâmica. Enquanto ex- jogo, muitas vezes perigoso, de um abrasileirado”, colocando novas
periência criativa que comporta mundo formatado e informatizado. perguntas, muitas vezes capciosas,
Neste sentido, este homo ludens não
47
conhecimento, a arte é convocada com a finalidade de promover o di-
pelo seu poder de “driblar” o que pode jogar sozinho. A massa de in- álogo e de aprofundar a reflexão.
se apresenta como preestabelecido, formações que temos à disposição é
tão grande que se faz necessária uma Então, o design é considerado
de encontrar saídas “geniais” para
forma de memória coletiva, formada por Flusser como ponte, ou lugar
impasses, e estabelecer uma nova
de memórias individuais (humanas) de confluência entre a arte e a tec-
relação com e entre as coisas. Nes-
e memórias artificiais, num ensaio de nologia, e adquire o status de um
te sentido, Flusser gostava muito da
transumanismo. espaço onde se encarnam, abrigam
palavra “artimanha”, que em portu-
e se revelam as mais pungentes ló-
guês, especialmente no Brasil, tem Trata-se de uma nova característi- gicas contemporâneas. Interessante
uma conotação ambivalente: talvez ca da contemporaneidade: a necessi- que Flusser pensa o design como
faça pensar imediatamente no “jei- dade de dinâmicas e processos cole- fenômeno de criação de objetos ma-
tinho brasileiro...”, numa lógica de tivos em todos os âmbitos (grupos de teriais, profundamente ligado ao
tirar vantagem – o que não deveria pesquisa, laboratórios, experiências corpo. Aliás, como já acenei antes,
nos orgulhar... Mas também fala de comunitárias etc.). Algo paradoxal, isso é muito forte em Flusser: para
uma forma de resistência criativa, de dada a consciência subjetiva atual, ele, pensar é gesto físico também!
flexibilidade e de adaptação diante tão individualizada. Da solidão dian- Em todas as formas de arte, mesmo
dos imensos desafios que a realida- te da tela o homem pode chegar à co- as mais abstratas, não podemos es-
de socioeconômica impõe à maioria munhão cósmica (que naturalmente capar de nossa natural (intrínseca)
dos brasileiros. Assim, a arte entra- inclui a ecologia), passando neces- percepção da corporeidade.
ria com aquela poética que equilibra sariamente pelo comprometimento
a nossa relação com a vida profun- com a comunidade humana. O design mostra como estamos
damente marcada pelas lógicas da em diálogo constante com o corpo.
mecanização e da tecnologia – isso Design Mesmo uma cadeira é diálogo com
nos faz pensar na noção dos atos de Neste sentido, os estudos de design o corpo em repouso, de onde ela
resistência cultural em Michel de contemporâneos são um exemplo
Certeau32.
33 Max Bill (1908-1994): suíço, foi um designer gráfico,
curso sobre a liberdade religiosa, publicada nas Notícias do designer de produto, arquiteto, pintor, escultor, professor
32 Michel de Certeau (1925-1986): foi um historiador, Dia de 28-09-2015, disponível em http://bit.ly/2elkzm7; e teórico do design, cuja obra o coloca entre os mais im-
juesuíta e erudito francês que se dedicou ao estudo da Há 30 anos, a morte do jesuíta francês Michel De Certeau, portantes e influentes designers do século XX e do século
psicanálise, filosofia, e ciências sociais. Intelectual jesuíta é “excitateur de la pensée”, publicado nas Notícias do Dia atual, tendo como principal o concretismo. Realizou uma
autor de inúmeras obras fundamentais sobre a religião, a de 11-01-2016, disponível em http://bit.ly/2eciMRY; e De atuação especial na área de educação do design, sendo
história e o misticismo dos séculos XVI e XVII. O IHU pu- Certeau, um “sujeito de inquietação verdadeira”, publicado professor na Escola de Ulm, onde influenciou fortemente
blica regularmente textos sobre Certau. Entre eles, Michel nas Notícias do Dia de 12-01-2016, disponível em http:// o perfil assumido pela Escola Superior de Desenho Indus-
De Certeau, o pensador jesuíta citado pelo papa no seu dis- bit.ly/2e0GBjw. (Nota da IHU On-Line) trial, no Brasil e na Alemanha. (Nota da IHU On-Line)

EDIÇÃO 542
TEMA DE CAPA

tira (extrai) sua forma. Neste senti- razão quando criticava como a men- que talvez a Arte Contemporânea se
do é também um gesto poético (de talidade tecnicista reconfigurou e aproxima mais de uma nova experi-
poiesis, produção). E se pode jogar reduziu o conceito de arte. Durante ência heurística, onde o sensorial e o
e “brincar” com as formas e redese- a Modernidade, a arte, aparente- conceitual estão em jogo de maneira
nhar a gestão das coisas, produzin- mente glorificada, foi acumulada muito particular, o que implica, por
do novas informações, em busca de nos museus. Durante o século XIX, consequência, uma epistemologia
uma experiência sempre maior de a fundação de museus e a aquisição própria. Ela parece mais apresentar
liberdade. Mas o design vai além dos (senão apropriação) de obras de arte perguntas fortes que oferecer res-
objetos, pois ele propõe formas orga- foi algo extraordinário e mudou o ce- postas simples. Mas é evidente que
nizativas novas, do ponto de vista da nário cultural. Mas, ao lado dos ar- os seus produtos (obras de arte) po-
gestão dos sistemas, pessoas e até da tistas consagrados de outras épocas dem e devem ser questionados, es-
natureza (no sentido da sustentabili- (de Fra Angelico34 à De la Croix, pas- pecialmente por causa do mercado
dade ecológica). sando pelos renascentistas), o artista que se organiza em torno deles. Nes-
comum, moderno e contemporâneo, te sentido Flusser fala do fenômeno
Como em um jogo de xadrez entre começou a ser visto como alguém
um iniciante e um jogador expe- do kitsch, não tanto por questões
que não conta e, consequentemente, estéticas formais, mas por causa das
riente. O iniciante, extremamente as coisas que ele produz (as obras de
concentrado ou “focado” (uma ex- lógicas que ele esconde. Poderíamos
arte), não passam de pura diversão, imaginar Flusser numa exposição
pressão tão à moda...) só pensa em esteticismo, para decorar, quando
ganhar o jogo, isto é, ele pensa line- do Jeff Koons35: ele certamente faria
não, para deixar mais algum lugar uns comentários bem irônicos – e
armente, numa relação causa-efei- mais “bonito”... O próprio Flusser
to). Já o jogador experiente, natural- extremamente perspicazes.
fala da diferença entre o belo e o bo-
mente descontraído, age subtraindo nito (o “le beau et le joli”).
o máximo de informação de todas Como e quando se dá a arte?
as situações, sobretudo das falhas, É verdade que os artistas sempre
se rebelaram contra isso, ironizan- Em todo caso, sobre o conceito
numa constelação de possibilidades. de arte, não sei se a pergunta mais
Ele não joga unicamente para ga- do esta concepção binária, redutiva
conveniente neste momento seja:
48 nhar o jogo ou para perder menos, e perversa. A arte contemporânea
“o que é arte?” , mas talvez : “como
mas ele joga para superar o jogo, tem este viés de denúncia irônica,
embora não seja o único. Em Pa- e quando se dá a arte?”, ligada à
isto é, para modificá-lo na medida
ris, a própria concepção do museu questão do estatuto do artista que
em que explora jogadas ainda não
de arte contemporânea, o Centre já mencionamos há pouco. Com
estabelecidas. Neste sentido, Flusser
Pompidou, é emblemática: o edifí- certo humor, Flusser chamava os
considera em uma definição da arte,
cio aparece em sua estrutura nua, artistas de “desempregados natos”.
como uma prática limitada por re-
sem fachada, como um corpo sem Mas ele dizia isso porque admira-
gras que são modificadas na medida
pele, que expõe propositalmente va profundamente estes homens e
do seu desenvolvimento.
suas estruturas metálicas colori- mulheres que estão “fora do siste-
Certos aspectos do design, como o das (simbolicamente seus ossos e ma” – a condição de possibilidade
fenômeno contemporâneo de criação veias). Uma ferida em meio à ar- de renovar a realidade.
de objetos materiais e não materiais, quitetura do século XIX, em que Mas existe outro aspecto que trata
são “arte”, no sentido flusseriano de predominam as grandes fachadas a arte em todos os tempos: sua rela-
artimanha, ou seja, uma forma lúdica haussmanianas. ção intrínseca com a história huma-
de resistência aos condicionamentos
De fato, quando se fala em arte, o na e a confecção de seu imaginário,
(às lógicas dos sistemas: sejam eles
registro inicial de uma conversa é dando visibilidade, sob várias for-
econômicos, políticos ou culturais). E
predominantemente binário, isto é, mas e aspectos, a seus momentos
o mais interessante no processo cria-
baseado na contraposição entre o mais felizes ou dramáticos. Posso
tivo de certos designers é exatamente
belo e o feio, e as referências são a testemunhar uma forte experiência,
esta descontração que manifesta uma
arte do Renascimento. Talvez seja diria uma emoção especial, diante
busca (e ganho) de liberdade, através
uma das razões pelas quais muitas do quadro de Paul Klee36, Angelus
de um necessário compromisso com
as grandes causas da humanidade pessoas não conseguem compreen-
hoje, como a ecologia. der a Arte Moderna e, ainda menos, 35 Jeffrey “Jeff” Koons (1955): é um artista e escultor
estadunidense. Em maio de 2019 a escultura de Koons,
a Arte Contemporânea. É verdade chamada Rabbit, foi leiloada por US$ 91 milhões na casa
de leilões Christie’s. É considerado o trabalho mais caro de
um artista vivo. (Nota da IHU On-Line)
34 Giovanni da Fiesole (1387-1455): nascido Guido di 36 Paul Klee (1879-1940): pintor e poeta suíço naturali-
IHU On-Line – Como compre- Pietro Trosini, mais conhecido como Fra Angelico, foi um zado alemão. Seu estilo, grandemente individual, foi in-
ender o conceito de arte na atu- pintor italiano, beatificado pela Igreja Católica, conside- fluenciado por várias tendências artísticas diferentes, in-
rado o artista mais importante da península na época do cluindo o expressionismo, cubismo e surrealismo. Foi um
alidade? Gótico Tardio ao início do Renascimento. O papa João estudante do orientalismo e era um desenhista nato que
Paulo II, em 1982, indicou sua festa litúrgica para o dia realizou experimentos e dominou a teoria das cores, sobre
Anderson Pedroso – Antes de de sua morte e dois anos depois, o mesmo pontífice
declarou-o “Padroeiro Universal dos Artistas”. (Nota da
o que escreveu. Com o pintor russo Wassily Kandinsky, seu
amigo, era famoso por dar aulas na escola de arte e arqui-
tudo, me parece que Flusser tinha IHU On-Line) tetura Bauhaus. (Nota da IHU On-Line)

30 DE SETEMBRO | 2019
REVISTA IHU ON-LINE

Novus37, emprestado pelo Museu Shapiro e Heidegger, sobre os pa- acreditava que a tecnologia poderia
de Jerusalém para uma exposição res de botas que Van Gogh40 pintou. mesmo ajudar o homem a se lançar
no Centre Pompidou (Paris). Fi- Enquanto Heidegger (filósofo) com- nesta aventura vertiginosa.
quei comovido diante dessa obra de põe um belíssimo texto sobre como
Neste sentido, Flusser deixou
arte, que em termos técnicos não é a obra de arte não representa o real,
como legado a necessidade urgen-
extraordinária, mas que se trans- mas abre à verdade do ser, Shapiro
te de se refletir sobre uma “filoso-
figura como mensagem alegórica, (historiador da arte) estabelece uma
fia da tecnologia”. Ele considerava
ao estar relacionada com a história lista de perguntas mais concretas
que as bases estavam postas desde
contemporânea dramaticamente (do tipo: de quem era este par de
Heidegger, Bachelard, passando
marcada pelo horror das guerras calçados? Não seria do próprio Van
pelos teóricos marxistas e pelos
e, particularmente, o extermínio Gogh?) que ele buscará responder
pensadores contemporâneos como
dos judeus (Auschwitz). Quem co- analisando os arquivos (cartas, do-
Santayana41. Mas é preciso conti-
nhece a obra de Walter Benjamin cumentos). Derrida, vendo nas botas
nuar a pensar, pois, ainda segun-
“Sobre o Conceito de História”38 simplesmente uma obra de pintura
do Flusser, não temos outra saída,
não pode ficar inócuo diante desta (despojada de seu ser de produto),
pois mesmo que não queiramos
obra de arte que ele tornou célebre questiona o conceito de verdade,
nos interessar da tecnologia, ela se
na nona tese como o “anjo da his- perguntando-se também o quanto a
interessa por nós, e pode ser muito
tória”. Pessoalmente acredito que arte é seu lugar de enunciação.
arriscado deixá-la falar sozinha...
esta relação viva e circular da arte
Ao contrário, todas as ciências e
com a História, numa constelação A arte é melhor que a ver-
formas de saber precisam ser con-
de objetos, sujeitos, circunstâncias dade
vocadas e ouvidas.
e temporalidades (notoriamente
reveladas por suas rupturas histó- Leitor de Heidegger, Flusser gosta- Finalmente, Flusser mantinha a
ricas), seja mais fascinante do que va de repetir o adágio nietzschiano: A característica muito peculiar do
uma simples, embora necessária, arte é melhor que a verdade (“Kunst professor que se preocupava em
história (linear) da arte em termos ist besser als Wahrheit”). Mas a no- comunicar suas teses, através da
mais convencionais. ção de arte e de verdade que Flusser transmissão dialógica, para a trans-
agenciava dependiam de suas lei- formação informativa da realida- 49
Neste sentido, o pensamento de turas heideggerianas unidas à sua de. Por isso, ele buscava lugares e
Flusser sobre a arte se aproxima prática de revisitar os termos etimo- circunstâncias de aplicabilidade,
muito de uma ciência da arte (Kuns- logicamente. Assim, Flusser parecia em que suas reflexões se confronta-
twissenschaft), que estaria entre a repropor o sentido grego da verda- riam com a realidade concreta. Um
História da arte (que precisamen- de (a-lètheia) como desvelamento exemplo é sua participação no con-
te parte das obras de arte, a fim de da realidade. Neste sentido a arte é selho regional de pesquisas (CNR)
compreender as questões de tais ele- verdadeiramente um gesto poético do Ministério da Educação na Fran-
mentos materiais e intelectuais), e a (poiesis) para com a humanidade, ça. Durante uma reunião em 1982,
Filosofia da arte, ou a tradicional Es- pois o artista é aquele que é lançado ele propôs que se refletisse sobre o
tética (que teria a tentação constante no território da linguagem ainda não papel da criação artística no ensina-
de se distanciar das obras, para se tematizada para fazer emergir (vir-a- mento científico e tecnológico do fu-
dedicar a questões de interesse mais ser) novas realidades. A partir desta turo, sugerindo superar a divisão de
teórico). Uma certa ciência da arte perspectiva existencial, os autênti- tempo livre e tempo de trabalho. Tal
evitaria extremos de uma História da cos artistas (em todos os domínios) proposta me parece ter ainda mais
arte tentada ao fechamento em ques- se reconhecem como colocados nas sentido atualmente. Basta visitar
tões materiais bastante técnicas, e de “fronteiras do ser”. Mas, diferente um laboratório de robótica. Ultima-
uma Estética que pode sempre ceder dos temores de Heidegger, Flusser mente, tive a oportunidade de visitar
à tentação de buscar confirmação de
um na faculdade de engenharia da
sua tese (ideias teóricas) nas obras sua extensa produção, figuram os livros Gramatologia (São FEI (São Paulo). A sensação é estar
de arte, sem conhecê-las historica- Paulo: Perspectiva), A farmácia de Platão (São Paulo: Ilumi-
nuras), O animal que logo sou (São Paulo: Unesp), Papel- em um atelier de tecnoartistas onde
mente, isto é, materialmente. máquina (São Paulo: Estação Liberdade) e Força de lei (São
Paulo: WMF Martins Fontes). É dedicada a Derrida a editoria
se trabalha jogando (homo ludens).
Um caso famoso é uma querela Memória, da IHU On-Line nº 119, de 18-10-2004, disponí- Isto é genial.■
vel em http://bit.ly/ihuon119. (Nota da IHU On-Line)
lançada por Derrida39, que envolve 40 Vincent Willem Van Gogh (1853-1890): pintor neer-
landês, considerado o maior de todos os tempos desde
Rembrandt, apesar de durante a sua vida ter sido mar-
37 Angelus Novus: (em português, ‘anjo novo) é o título ginalizado pela sociedade. Sua influência no expressio-
latino de um desenho a nanquim, giz pastel e aquarela nismo, fauvismo e abstracionismo foi notória e pode ser
sobre papel, feito por Paul Klee em 1920. Atualmente faz reconhecida em variadas frentes da arte do século XX. Van 41 George Santayana (1863-1952): pseudônimo de Jorge
parte da coleção do Museu de Israel, em Jerusalém. (Nota Gogh foi pioneiro na ligação das tendências impressio- Agustín Nicolás Ruiz de Santayana y Borrás, foi um filósofo,
da IHU On-Line) nistas com as aspirações modernistas. Hoje em dia várias poeta, humanista. Nascido na Espanha, foi criado e educa-
38 São Paulo: Boitempo Editorial, 2015. (Nota da IHU On-Line) das suas pinturas, entre elas Doze girassóis numa jarra, A do nos Estados Unidos, porém sempre manteve seu passa-
39 Jacques Derrida (1930-2004): filósofo francês, criador casa amarela, Quarto em Arles, Os comedores de batatas e porte espanhol. Santayana, que se identificava como nor-
do método chamado desconstrução. Seu trabalho é as- Autorretrato encontram-se entre os objetos mais caros do te-americano, escreveu sua obra em inglês e é geralmente
sociado, com frequência, ao pós-estruturalismo e ao pós- mundo, sendo superados apenas por Pablo Picasso. Era considerado parte da intelectualidade daquele país. Aos 48
modernismo. Entre as principais influências de Derrida portador de epilepsia e também de distúrbio bipolar (psi- anos de idade, deixou seu posto em Harvard e retornou à
encontram-se Sigmund Freud e Martin Heidegger. Entre cose maníaco-depressiva). (Nota da IHU On-Line) Europa permanentemente. (Nota da IHU On-Line)

EDIÇÃO 542
TEMA DE CAPA

Conhecer, desnaturalizar, reinventar


Gabriela Reinaldo traz elementos de um certo perspectivismo na
teoria flusseriana para pensarmos a vida em um mundo cada
vez mais imerso nas imagens técnicas
Ricardo Machado

S
e fôssemos reformular as per- palpável do vampyroteuthis é compa-
guntas em torno das relações rado ao universo das imagens digitais,
entre cultura e natureza com que abre espaço para o nascimento de
as palavras e o pensamento de Vilém um novo repertório imaginativo ligado
Flusser, chegaríamos a questões sobre às não coisas”, postula Gabriela. “Só co-
o que são experiências libertadoras e nhecendo essa programação – a cultura
determinantes. “Se há vários acessos ‘naturalizada’ – ele poderia subverter a
ao significado de natureza, o desnor- ordem que limita sua liberdade. O jogo
teio provocado pela dúvida passa a ser e a poesia são formas de libertação, são
condição essencial para as tentativas de saídas para enfrentarmos o discurso de
classificarmos o que é natural e o que matiz autoritário”, pondera.
é cultural. De todo modo, uma coisa é
Gabriela Reinaldo é graduada em
certa: Flusser tinha horror ao estabe-
50 lecido, ao que não poderia ser subme-
Comunicação Social pela Universidade
Federal do Ceará - UFC e realizou mes-
tido à dúvida – ou seja, ao conceito de
natureza como algo dado. Para ele, se a trado e doutorado na Pontifícia Univer-
cultura se naturaliza, este é um proble- sidade Católica de São Paulo - PUCSP.
ma a ser enfrentado”, explica Gabriela Além disso, realizou doutorado sanduí-
Reinaldo, em entrevista por e-mail à che na Université Paris X e estágio pós-
IHU On-Line. “O estabelecimento do doutoral no Departamento de História
que é natural e do que é artificial já não da Arte da Universidade de Cambridge
se sustenta hoje. A distinção ontológica - UK, onde investigou as representações
proposta não deveria mais ser entre na- do Brasil feitas pelos artistas cientistas
tureza e cultura, mas entre experiências do século XIX. Atualmente é professora
determinantes e experiências liberta- do Instituto de Cultura e Arte - ICA, da
doras”, complementa. Universidade Federal do Ceará - UFC,
onde é professora na graduação e no
Em um exercício de provocação pers-
Programa de Pós-Graduação em Co-
pectivista, Flusser usa o exemplo de
municação. Coordena o Laboratório de
uma lula chamada Vampyroteuthis In-
estudos de estética e imagem – Imago.
fernalis, que vive entre 400 e mil metros
É autora de Uma cantiga de se fechar
de profundidade, para nos convocar a
pensar e se relacionar com o mundo de os olhos: mito e música em Guimarães
uma maneira menos antropocêntrica. Rosa (São Paulo: Annablume, 2005).
“O universo fantasmático e quase im- Confira a entrevista.

IHU On-Line – Como Flusser Annablume Editora, 2010), dizia co para Flusser falar da essência mí-
compreende o conceito de na- que não é mais o beija-flor que se as- tica, ancestral, do próprio voo; ele
tureza? semelha ao helicóptero, mas o con- diz “para os nossos antepassados,
trário. O pássaro – assim como em o pássaro era o elo entre animal e
Gabriela Reinaldo – Flusser, em outros ensaios aparecem animais anjo”. Em alemão, o título é Vogel-
Natural:mente – vários acessos ao como a vaca, o unicórnio ou o vam- flüge. Essays zu Natur und  Kultur
significado de natureza (São Paulo: pyroteuthis – é um elemento poéti- – que quer dizer algo como “Voos

30 DE SETEMBRO | 2019
REVISTA IHU ON-LINE

“Flusser tinha horror ao


estabelecido, ao que não poderia
ser submetido à dúvida”

dos pássaros: ensaios sobre nature- pia ou dado x construído. O estabe- mamíferos – e assim sentimos asco
za e cultura”. Mas o título da obra lecimento do que é natural e do que de formas como as do vampyro-
em português possibilita uma brin- é artificial já não se sustenta hoje teuthis. Por outro lado, Flusser di-
cadeira (ou jogo, como ele preferia) (como vemos na historinha do bei- zia que o vampyroteuthis é “todo
semântica. Em português, título e ja-flor e do helicóptero). A distinção amor”. O coito, que ocupa grande
subtítulo (“Natural:mente – vários ontológica proposta não deveria parte de sua vida, é uma dança
acessos ao significado de nature- mais ser entre natureza e cultura, prolongada e pública. Além disso,
za”), de saída, desestimulam o leitor mas entre experiências determinan- ele teria três pênis; sendo dois de-
a pensar numa resposta única para tes e experiências libertadoras. les utilizados para excitar a fêmea
essas questões. e para se introduzir dentro dela.
  O terceiro, seria um instrumento
Se o natural mente, se é capaz de IHU On-Line – Em que senti- de observação e conhecimento do
trapacear, e se há vários acessos ao do a cultura humana é orienta- mundo. Se conhecemos pelas nos-
significado de natureza, o desnor- da pelo “aparelho digestivo” e a sas mãos que esbarram contra o 51
teio provocado pela dúvida passa a do vampyroteuthis (lula vam- mundo e produzem cultura – no li-
ser condição essencial para as ten- piro) é orientada pelos órgãos vro Os gestos [São Paulo: Annablu-
tativas de classificarmos o que é sexuais? me, 2014], Flusser explora a mani-
natural e o que é cultural. De todo pulação do mundo como critério de
Gabriela Reinaldo – O vam-
modo, uma coisa é certa: Flusser ti- conhecimento – o vampyroteuthis
pyroteuthis infernalis foi descober-
nha horror ao estabelecido, ao que to por cientistas bem no comecinho conhece amorosamente, apaixona-
não poderia ser submetido à dúvida do século XX e chamou atenção de damente, pois ao invés das mãos
– ou seja, ao conceito de natureza vários pesquisadores – como até ele desbrava o mundo pelo pênis e
como algo dado. Para ele, se a cultu- hoje, quando uma nova espécie é pela boca.
ra se naturaliza, este é um problema encontrada, especialmente sendo
a ser enfrentado. Flusser diz que o vampyroteuthis
tão insuspeitos a sua forma e o seu é nosso inferno e que ri de nós. Um
Em O mundo codificado (São Pau- comportamento. A dita “lula vampi- riso que vem das profundezas como
lo: Cosac Naify, 2008), ele diz: “so- ra do inferno” vive nos abismos oce- uma provocação e um convite a um
mos condenados à morte, ao mundo ânicos, entre 400 e 1 mil metros de fazer científico menos antropocên-
da natureza”. O objetivo da comu- profundidade. Flusser, em sua ficção trico. O universo fantasmático e
nicação humana seria, portanto, científica, pondera, entretanto, que o quase impalpável do vampyroteu-
superar, de algum modo, essa con- abismo que nos separa do vampyro-
this é comparado ao universo das
dição. O homem é um animal que teuthis é ainda maior do que o das
imagens digitais, que abre espaço
sabe que vai morrer e que, nesta funduras oceânicas.
para o nascimento de um novo re-
hora, estará sozinho. Ele culpa a na- Nesse sentido, podemos assumir pertório imaginativo ligado às não
tureza por essa sujeição. A comuni- o “infernalis” como a condição do coisas. Nossa cultura “manipulada”
cação humana é neguentrópica, ela que em tudo difere de nós. Flusser responde ao aparelho digestivo, ao
nega o processo de entropia ao or- dizia que o nojo recapitula a filo- passo que os órgãos sexuais deter-
ganizar e armazenar informações a gênese. Ou seja, numa perspectiva minam o comportamento vam-
fim de fugir do vazio provocado pela em escala, tendemos a sentir mais pyroteuthis. Flusser diz que somos
morte. Flusser dizia que a comuni- nojo dos vermes mais moles do que uma aberração (ele diz “anomalia”)
cação humana é inatural e contra- dos peixes e anfíbios e mais destes em comparação com os vampyro-
natural. Ao mesmo tempo, ele se do que dos vertebrados de sangue teuthis: “como explicar tal anomalia
recusava a pensar o par natureza e quente. Nessa sequência, nos afei- a preponderância da digestão sobre
cultura como entropia x neguentro- çoamos, de forma solidária, aos o sexo?”.

EDIÇÃO 542
TEMA DE CAPA

IHU On-Line –Em que sen- brechas entrariam os “ventos” das mas também sertão como interior do
tido o par cultura-natureza é informações e das realidades numé- homem), penso que Flusser, apesar
uma falsa oposição? Qual a ar- ricas) e com o recrudescimento da de urbano, se sentiria bem em fabu-
gumentação do autor em torno ultradireita. O nacionalismo exacer- lar por essas bandas. Além disso, as
dessa questão? bado, o sentimento patriótico de teor contribuições de Flusser, que assu-
nazifascista, que o desterrou de seu me o exílio como postura filosófica,
Gabriela Reinaldo – Flusser
país de origem, é o mesmo que o im- são valiosas para pensarmos os flu-
é um autor profícuo, que discu-
peliu a deixar o Brasil nos primeiros xos migratórios que estão aconte-
tiu, em seus ensaios, vários temas.
anos pós-AI-5. cendo com grande intensidade por
Flusser discute as imagens técni-
todo planeta e as políticas de acolhi-
cas, a tradução (sua própria escrita Se ele morasse no Brasil de 2019,
mento aos refugiados – e também as
é um exercício de se traduzir, de um país que elegeu seu presidente
de encarceramento, morte, reclusão,
se experimentar e de se enxergar ligado a movimentos da ultradireita
de muros.
como outro em pelo menos quatro graças às fake news, para onde ele
línguas), a comunicação, as artes, o iria hoje? Para onde escaparia fu- Voltando ao exemplo do Brasil e à
exílio, a escrita, os gestos e o par gindo de um mundo que respira os temática da natureza, temos uma im-
natureza e cultura... mas, penso efeitos do escândalo Cambridge-A- prensa hegemônica que condena o
que Flusser perseguia um único nalytica2, um mundo em que Steve maior produtor de alimentos orgâni-
tema: a liberdade. Bannon3 dá as cartas? Essa é uma cos da América Latina, o Movimento
pergunta que também me faço. Sem dos Trabalhadores Rurais Sem Ter-
O homem deveria conhecer a pro-
parecer ufanista (Flusser não me ra - MST, e uma classe que atribui
gramação da natureza – e seu estar
perdoaria), gostaria de lhe oferecer as queimadas recém acontecidas em
no mundo, se sabendo um ser que
abrigo no Nordeste brasileiro, no parte da Amazônia à própria nature-
tende para a morte e se comunica
Brasil do Bacurau4. Obviamente mi- za. Flusser era extremamente cáus-
com outros a fim de lidar ou mes-
nha oferta é para um mundo poético, tico em relação ao modo como nós,
mo evitar a morte, manipulando
um sertão fantasiado (como é a rea- brasileiros, lidamos com a natureza
os problemas/objetos e informan-
lidade do sertão, com um simbolis- brasileira. Ele dizia que, para nós, a
do o mundo – e das máquinas. Só
52 mo muito preservado e nada desen- natureza é madrasta, é inimiga, e não
conhecendo essa programação – a
cantado). Com a familiaridade que “magna mater”. Ela é pérfida e essa
cultura “naturalizada” – ele poderia
ele tinha com a obra de Guimarães deslealdade atribuída à natureza bra-
subverter a ordem que limita sua
Rosa5 (e seu sertão mineiro/goiano sileira tem consequências profundas
liberdade. O jogo e a poesia são for-
na nossa mentalidade.
mas de libertação, são saídas para
enfrentarmos o discurso de matiz 2 Cambridge Analytica: é uma empresa privada que
 
combina mineração e análise de dados com comunica-
autoritário. ção estratégica para o processo eleitoral. Foi criada em IHU On-Line – Deseja acres-
2013, como um desdobramento de sua controladora
britânica, a SCL Group para participar da política esta- centar algo?
  dunidense. Em 2014, a CA participou de 44 campanhas
IHU On-Line – Nesse senti- políticas. A empresa é, em parte, de propriedade da fa-
mília de Robert Mercer, um estadunidense que gerencia
Gabriela Reinaldo – Leiamos
do, qual a atualidade do pensa- fundos de cobertura e que apoia muitas causas politi- Flusser. Duvidemos com Flusser – e
camente conservadoras. A empresa mantém escritórios
mento de Flusser? em Nova York, Washington, DC e Londres. (Nota da IHU duvidemos de Flusser. Vale a pena
On-Line) “ouvir” sua escrita, que pode soar
Gabriela Reinaldo – Flusser 3 Steve Bannon (1953): é um assessor político estaduni-
dense que serviu como assistente do presidente e estrate- como estranha, enigmática, mas que
não conheceu os smartphones nem gista-chefe da Casa Branca no governo Trump. Como tal,
é poética e errática. ■
a evolução da internet como tes- participou regularmente do Comitê de Diretores do Con-
selho de Segurança Nacional dos Estados Unidos, entre 28
temunhamos hoje e, certamente, de janeiro e 5 de abril de 2017, quando foi demitido. Antes
de assumir tal posição da Casa Branca, Bannon foi diretor
se estivesse vivo estaria lidando de executivo da campanha presidencial de Donald Trump, em
forma lúcida, acidamente honesta e 2016. (Nota da IHU On-Line)
4 Bacurau: filme brasileiro de 2019, dos gêneros drama, bulos, estilizando-os e reinventando-os em um discurso
criativa – como é sua forma de se co- faroeste, terror gore, fantasia e ficção científica, escrito e musical e eficaz de grande beleza plástica. Sua obra parte
dirigido por Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles. do regionalismo mineiro para o universalismo, oscilando
locar no mundo – com o fenômeno É produzido por Emilie Lesclaux, Saïd Ben Saïd e Michel entre o realismo épico e o mágico, integrando o natu-
das fake News1 das mensagens cada Merkt e estrelado por Sônia Braga, Udo Kier e Bárbara ral, o místico, o fantástico e o infantil. Entre suas obras,
Colen. O título do filme é o apelido do último ônibus da destacam-se Sagarana (1946), Corpo de baile (1956),
vez mais específicas e vascularizadas madrugada no Recife, e a origem do nome vem de uma Grande sertão: veredas (1956) – considerada uma das
ave de hábitos noturnos comum nos sertões brasileiros, principais obras da literatura brasileira –, Primeiras estó-
que chegam pelo whatsapp (graças que era chamada pelos povos tupis de wakura’wa. Na rias (1962) e Tutameia (1967). A edição 178 da IHU On
ao que ele chamou de terceira catás- edição 541 da IHU On-Line, João Ladeira resenha o filme -Line, de 2-5-2006, dedicou ao autor a matéria de capa,
no artigo intitulado “Os muitos êxitos de Bacurau”, aces- sob o título Sertão é do tamanho do mundo. 50 anos da
trofe, que estaria ainda em curso, e se em http://bit.ly/2mexz6y. Em Notícias do Dia, no sitio obra de João Guimarães Rosa, disponível em disponível
que nos conduziria a outra forma de do IHU, também foram publicadas uma série de análises em https://goo.gl/LXRCAU. Confira ainda a edição 275
da obra, entre elas “Bacurau é um filme de ataque, mes- da IHU On-Line, de 29-9-2008, intitulada Machado de
nomadismo, quando nossas casas mo que ‘involuntariamente’”, disponível em http://bit. Assis e Guimarães Rosa: intérpretes do Brasil, disponível
ly/2mkBijd. Acesse mais em ihu.unisinos.br/maisnoticias/ em http://bit.ly/mBZOCe. A revista publicou também em
estariam perfuradas e por todas as noticias. (Nota da IHU On-Line) sua edição 503, de 24-4-2017, a entrevista com Kathrin
5 João Guimarães Rosa (1908-1967): escritor, médico e Rosenfield intitulada Leitura de Guimarães Rosa ensina
diplomata nascido em Cordisburgo, Minas Gerais. Como a viver sentindo e dando sentido à vida, disponível em
escritor, criou uma técnica de linguagem narrativa e des- https://bit.ly/2wRB1WQ. A IHU On-Line número538, inti-
1 A revista IHU On-Line, número 520, de 23-04-2018, critiva pessoal. Sempre considerou as fontes vivas do fa- tulada Grande Sertão: Veredas. Travessias, também tratou
aborda a Fake News como Tema de Camap. Acesse em lar erudito ou sertanejo, mas, sem reproduzi-las em um da produção do autor. Acesse em http://www.ihuonline.
ihuonline.unisinos.br/edicao/520. (Nota da IHU On-Line) realismo documental, reutilizou suas estruturas e vocá- unisinos.br/edicao/538. (Nota da IHU On-Line)

30 DE SETEMBRO | 2019
REVISTA IHU ON-LINE

Um existencialismo mediado
Rodrigo Petronio observa como, a partir de uma leitura
fenomenológica própria, o autor vai constituir uma
teoria dos media em perspectiva existencial
Ricardo Machado | Edição: João Vitor Santos

P
ara Rodrigo Petronio, Vilém como aquilo que gera algo a partir de
Flusser pode ser lido como um um fenômeno, estabelece diálogos com
“eu empírico”. Isso porque ele a cibernética e com as teorias da infor-
vai constituir suas reflexões para além mação e da comunicação. “Por isso, não
de uma fenomenologia, colocando-se podemos demarcar uma ruptura nesse
dentro dela e traçando também linhas continuum de sua reflexão. Pelo con-
correlacionais. Por isso, considera que trário, torna-se cada vez mais urgente
no autor ainda reside “um eu existen- compreender essa formação inicial nas
cial e suspenso, um eu que emerge de- ontologias, filosofias da existência e
pois das diversas depurações antina- fenomenologias do começo do século
turais da empiria, possibilitadas pela XX para compreendermos melhor a re-
fenomenologia”. “Flusser se apoiou volução cognitiva das obras de Flusser
no correlacionismo da consciência, relativas aos media e às tecnologias”,
proposto pela fenomenologia, e dele acrescenta.
53
derivou uma consciência do correla-
Rodrigo Petronio é escritor e filó-
cionismo”, detalha na entrevista con-
sofo e atualmente é professor titular da
cedida por e-mail à IHU On-Line. É
Faculdade de Comunicação da Funda-
assim, segundo Petronio, que Flusser
consegue “criar uma ontologia dos ção Armando Álvares Penteado - FAAP.
meios, das relações e das mediações Desenvolve pós-doutorado no Centro
que transcende o estatuto conscien- de Tecnologias da Inteligência e Design
ciológico da fenomenologia”. Ou, de Digital - TIDD/PUC-SP sobre a obra de
outra forma, pode-se dizer que o autor Alfred North Whitehead e as ontologias
vai conceber um existencialismo que e cosmologias contemporâneas. Ainda
não se reduz ao sujeito, mas se dá por é doutor em Literatura Comparada pela
meio da relação entre o ser humano e Universidade Estadual do Rio de Janei-
os meios. ro - UERJ. Possui dois mestrados: em
Ciência da Religião, pela PUC-SP, sobre
O fruto de todo esse processo gera
o filósofo contemporâneo Peter Sloter-
uma reflexão muito própria acerca dos
dijk, e em Literatura Comparada, pela
media. “Flusser se valeu do método
UERJ, sobre literatura e filosofia na
fenomenológico, presente em suas pri-
Renascença. Entre suas publicações de
meiras obras, para escavar e edificar
poemas, destacamos História Natural
uma teoria dos media e uma ontologia
(São Paulo: Gargântua, 2000), Assina-
das relações, bem como para conceber
tura do Sol (Lisboa: Gêmeos R, 2005),
também uma ontologia das lingua-
Pedra de Luz (Lisboa: A Girafa, 2005),
gens, ou seja, dos processos de codi-
entre outros. Divide com Rodrigo Mal-
ficação e decodificação, de abstração
tez Novaes a coordenação editorial das
e de concretização, de mediações e de
tecnologias que constituem o que cha- Obras Completas do filósofo Vilém
mamos de realidade e que presidiram Flusser pela Editora É, que prevê a pu-
a emergência do sapiens”, explica. O blicação dos primeiros 20 títulos entre
professor ainda detalha que essa análi- 2018-2020.
se dos media, não só como meio, mas Confira a entrevista.

EDIÇÃO 542
TEMA DE CAPA

IHU On-Line – Quem foi Vi- acabava alterando alguns conceitos ca de cada língua. Se o mundo é uma
lém Flusser?  e mesmo alguns termos nucleares abertura desocultante interno a cada
de seu pensamento. Não por acaso, língua, haverá tantos mundos quan-
Rodrigo Petronio – Vilém Flus-
uma de suas primeiras obras se inti- tas línguas houver. Contudo, para
ser foi um dos maiores pensadores,
tula Língua e Realidade (1963). Flusser, o problema da língua não é
ensaístas e filósofos do século XX.
Ao dizer isso, não me refiro apenas Em uma inusitada conexão entre apenas algo imanente aos códigos e
ao Brasil. Falo em termos mundiais. Heidegger2 e Wittgenstein3, entre às linguagens verbais. Um exemplo
Judeu tcheco, deixou Praga por cau- filosofia analítica, fenomenologia e clássico deste procedimento radical
sa da guerra e da perseguição aos ontologia, Flusser parte do seguin- de metateoria e de metaontologia,
judeus, depois de ter parte de sua te axioma: as línguas são mitos que como se diz na filosofia contempo-
família assassinada nos campos de fundam mundos. Flusser se apoia na rânea, é a obra Vampyroteuthis In-
concentração. Foi primeiro para a noção do duplo espelhamento entre fernalis. Flusser redigiu três versões
Inglaterra e depois migrou para o linguagem e natureza, proposto por diferentes, uma em cada língua (por-
Brasil, onde viveu ao longo de 32 Wittgenstein para pensar os esta- tuguês, alemão e francês).
anos. Em São Paulo, dialogou infa- dos de coisa e os mundos declinados
tigavelmente com todos os círcu- (casos) dentro da linguagem. Lin- Obra em aberto – a filosofia
los intelectuais, independente das guagem e natureza seriam lâminas de Flusser
orientações filosóficas e ideológicas, que correm paralelas, espelham-se
Isso quer dizer que teríamos três
com uma liberdade de pensamento e nunca se tocam. Também parte
que o levava a criticar duramente até da relação de instauração originária obras diferentes de um mesmo autor
mesmo seus melhores amigos, o que entre ser e linguagem, proposta por e com um mesmo título? Ou três ver-
lhe rendeu a alcunha de polemista Heidegger. sões substancialmente alteradas de
e debatedor cruel. Foi o fundador uma mesma obra, de acordo com as
Entretanto, Flusser subverte am- modalidades de cada língua? Como
da Faculdade de Comunicação da
bas as matrizes. Não existiria a lin- sempre, tudo que se refere a Flusser
Fundação Armando Alvares Pen-
guagem, homogênea, transparente fica em aberto. Não por acaso, essa
teado - FAAP, onde sou professor
e universal, de que fala Wittgens- brilhante peça de filosofia da ficção
54 titular e cujo Departamento de Co-
tein e os analíticos. Tampouco ha- tematiza a determinação formal que
municação leva seu nome, algo de
veria o ser, infenso às impurezas e os meios produzem em nossa produ-
que tenho muito orgulho. Trabalhou
mediações das diversas línguas que ção de mundos.
também como professor de Filosofia
o declinam, como queria Heideg-
da Ciência na Escola Politécnica da Por meio dessa criatura das regi-
ger. Haveria uma multiplicidade de
Universidade de São Paulo - USP, a ões abissais dos oceanos, Flusser
mundos declinados, conforme o caso
convite de Milton Vargas1, um dos relativiza todas as instâncias ins-
em questão, na sintaxe e na semânti-
seus maiores e mais fiéis amigos e tauradoras do humano, tais como
interlocutores ao longo de toda vida. 2 Martin Heidegger (1889-1976): filósofo alemão. Sua Deus, deuses, tecnologias, razão, se-
obra máxima é Ser e tempo (1927). A problemática heideg-
Ministrava palestras em diversos geriana é ampliada em Que é Metafísica? (1929), Cartas so- xualidade, moral, religiões, crenças,
bre o humanismo (1947) e Introdução à metafísica (1953).
espaços culturais e também atuou Sobre Heidegger, confira as edições 185, de 19-6-2006,
filosofia, ciências, entre outras. Se o
como jornalista, com colaborações intitulada O século de Heidegger, disponível em http://bit. Vampyroteuthis representa o fim de
ly/ihuon185, e 187, de 3-7-2006, intitulada Ser e tempo.
frequentes para o Suplemento Lite- A desconstrução da metafísica, disponível em http://bit.ly/ um processo evolucionário inverso
ihuon187. Confira, ainda, Cadernos IHU em Formação nº
rário do jornal O Estado de S. Paulo. 12, Martin Heidegger. A desconstrução da metafísica, que
ao que produziu o sapiens, o sapiens
Embora tenha escrito em português pode ser acessado em http://bit.ly/ihuem12, e a entrevista pode ser considerado o inverso do
concedida por Ernildo Stein à edição 328 da revista IHU
algumas de suas obras mais impor- On-Line, de 10-5-2010, disponível em https://goo.gl/ mundo do Vampyroteuthis. E vice-
dn3AX1, intitulada O biologismo radical de Nietzsche não
tantes, Flusser se valia de quatro lín- pode ser minimizado, na qual discute ideias de sua confe- versa. Esses conflitos ônticos e epis-
guas para a filosofia: francês, inglês, rência A crítica de Heidegger ao biologismo de Nietzsche têmicos que definem o cerne da filo-
e a questão da biopolítica, parte integrante do ciclo de
alemão e português. Mais do que um estudos Filosofias da diferença, pré-evento do XI Simpó- sofia de Flusser surgem a partir de
simples virtuosismo de linguagem, o sio Internacional IHU: O (des)governo biopolítico da vida
humana. (Nota da IHU On-Line) uma livre incorporação das matrizes
processo de tradução e, nesse caso, 3 Ludwig Wittgenstein (1889-1951): filósofo austríaco, da fenomenologia e das filosofias da
considerado um dos maiores do século 20, tendo contri-
de intratradução, foi para Flusser buído com diversas inovações nos campos da lógica, da existência, que balizaram muitas de
uma grande ferramenta ontológica filosofia da linguagem e da epistemologia, dentre outros
campos. A maior parte de seus escritos foi publicada pos- suas obras da década de 1950 e 1960.
e epistemológica. Por meio de um tumamente, com exceção de seu primeiro livro: Tractatus
confronto constante entre as diver- Logico-Philosophicus, em 1921. Os primeiros trabalhos de Entretanto, é importante compre-
Wittgenstein foram marcados pelas ideias de Arthur Scho-
sas acepções de palavras, frases, penhauer, assim como pelos novos sistemas de lógica ide- ender que nesta atitude existencial-
alizados por Bertrand Russel e Gottllob Frege. Quando o
sentenças, verbos e substantivos, Tractatus foi lançado, influenciou profundamente o Círculo
fenomenológica se encontra o giro
de Viena e seu positivismo lógico (ou empirismo lógico). copernicano de Flusser para a teoria
A edição 308 da IHU On-Line, de 14-9-2009, apresenta a
1 Milton Vargas (1914-2011): filósofo, engenheiro eletri- entrevista O silêncio e a experiência do inefável em Wit- dos media, para a filosofia das tec-
cista e civil brasileiro, especializado em mecânica de solos. tgenstein, com Luigi Perissinotto, disponível em https://
Participou do Centro Interunidade de História da Ciência goo.gl/HGR6jZ. A entrevista A religiosidade mística em nologias e para a teoria da comuni-
da USP, foi membro fundador do Instituto Brasileiro de Fi- Wittgenstein, concedida por Paulo Margutti, consta na edi- cação, que o torna célebre mundial-
losofia e pertenceu à Academia Paulista de Letras. (Nota ção 362 da revista IHU On-Line, de 23-5-2011, disponível
da IHU On-Line) em https://goo.gl/J0krYa. (Nota da IHU On-Line) mente a partir dos anos 1970. Eu e

30 DE SETEMBRO | 2019
REVISTA IHU ON-LINE

Rodrigo Maltez Novaes4, que esta- losofias da existência. No âmago des- Isso quer dizer que Flusser teria
mos coordenando a edição das Obras sas matrizes, como uma espécie de abandonado a fenomenologia e a on-
Completas de Vilém Flusser, levada bússola, encontra-se o método feno- tologia que o formou? Acredito que
a cabo pela Editora É e intitulada Bi- menológico e seus diversos recursos e não. Ele transcende o correlacionis-
blioteca Flusser, estamos prestes a conceitos: perspectivismo, adumbra- mo estrutural entre a consciência e
relançar Vampyroteuthis Infernalis. ções, antinaturalismo, objetos inten- os objetos intencionais em direção a
E pretendemos adicionar nos apara- cionais, giro imaginativo, suspensão uma ontologia relacional, para além
tos algumas informações sobre esse do juízo e redução eidética. dos horizontes conscienciológicos.
princípio babélico desta obra, mas Esse percurso interno de seu pen-
Por isso, não existem exatamente
que no fundo orienta o pensamento samento abriria a possibilidade de
obras nas quais Flusser explique,
de Flusser como um todo. alocar o meio como categoria central
de alguma maneira, as filosofias da
de sua reflexão. E a compreender
Em linhas gerais, e de modo muito existência, as diversas ontologias
os meios também não apenas como
resumido, para mim Vilém Flusser e a fenomenologia. Todas essas
tecnologias modernas, mas como
e Vicente Ferreira da Silva5 são os exposições, quando existem, en-
elementos nucleares da hominização
dois maiores filósofos da língua por- contram-se dispersas. Existe, en-
e da antropogênese. Por isso, pode-
tuguesa, em qualquer tempo e em tretanto, sempre uma aplicação do
mos dizer que Flusser se valeu do
qualquer nacionalidade. Digo isso método e das abordagens fenome-
método fenomenológico, presente
não menosprezando outros tantos nológicas às existências, aos seres
em suas primeiras obras, para esca-
representantes da filosofia de lín- e às linguagens. Nesse sentido, é
var e edificar uma teoria dos media
gua portuguesa, que conta com um curioso perceber um arco que re-
e uma ontologia das relações, bem
patrimônio filosófico dos mais ricos, cobre as obras mais marcadamente
como para conceber também uma
contra o senso comum. Digo isso por vinculadas à fenomenologia, às on-
ontologia das linguagens, ou seja,
adesão e eleição afetivas e individu- tologias e às filosofias da existên-
dos processos de codificação e deco-
ais, mas também por entender que cia, como O Século Vinte (1957), A
dificação, de abstração e de concreti-
ambos foram os autores que levaram História do Diabo (1958), Língua
zação, de mediações e de tecnologias
mais longe, dentro da dicção e da e Realidade (1963), Da Dúvida
que constituem o que chamamos de
plasticidade da língua portuguesa, a (1964-65), O Último Juízo: Gera- 55
realidade e que presidiram a emer-
construção e a criação de uma nova ções (1965-66), Da Religiosidade
gência do sapiens.
linguagem e de novos conceitos para (1967), Problemas em Tradução
a filosofia, ampliando dessa maneira (1969-70). Curiosamente, este arco
A alegoria flusseriana
as potencialidades da filosofia como se fecha com Fenomenologia do
um todo. Brasileiro (1970-71), única obra Essa constatação poderia nos con-
que traz uma menção à fenomeno- duzir a propor duas fases na obra de
logia no título. Flusser? Também acredito que não.
IHU On-Line – Quais são as Exceção feita à autobiografia Bo- Por exemplo, a gênese de conceitos
principais características dos denlos (1973-74), a esse primeiro como aparelho e instrumento, que
trabalhos de Flusser voltados ciclo de obras seguem-se outras estão no âmago da especulação ulte-
ao existencialismo e à fenome- mais claramente focadas nas re- rior de Flusser sobre a fotografia, a
nologia? lações, nos aparelhos, nas media- comunicação e as tecnologias, pode
Rodrigo Petronio – Pode-se di- ções, nos processos, nas codifica- ser detectado em O Último Juízo:
zer que, desde o começo de sua obra, ções, na semiose, nas tecnologias, Gerações, obra redigida entre os
Flusser articula quatro grandes ma- nas linguagens, na escrita, ou seja, anos de 1965 e 1966. Nesse sentido
trizes das primeiras décadas do sécu- naquilo que poderíamos definir a obra de quase mil páginas, toda es-
lo XX: as filosofias da linguagem, as como teoria dos media com cer- crita em português e cuja versão in-
ta generalização: Coisas que me tegral publicamos pela primeira vez
fenomenologias, as ontologias e as fi-
cercam (1971-72), Natural:men- na Biblioteca Flusser, realiza uma
4 Rodrigo Maltez Novaes: artista brasileiro, tradutor, edi- te (1974-75), Os gestos (1976-77), reconstrução da modernidade, des-
tor e fundador da Metaflux Publishing. Foi pesquisador do
Mutações das relações humanas de o século XV ao século XX.
Arquivo Vilém Flusser na Universität der Künste, Berlim,
de 2010 a 2014. Com um bacharelado pela Universidade (1977-78), Pós-História (1978-79), Flusser se vale do recurso da ale-
de Gloucestershire e um mestrado pela Universidade das
Artes de Londres, suas principais áreas de atividade são Vampyroteuthis Infernalis (1980- goria e do anacronismo deliberado
pintura, filosofia, mídia e comunicação. Atualmente vive
e trabalha em São Paulo, onde agora lidera o projeto de
81), Filosofia da caixa preta (1981- (Georges Didi-Huberman6) para
longo prazo para a tradução e publicação do trabalho de 82), Elogio da superficialidade:
Vilém Flusser do português do Brasil para o inglês. (Nota
da IHU On-Line) o universo das imagens técnicas 6 Georges Didi-Huberman (1953): nascido em Saint-É-
5 Vicente Ferreira da Silva (1916-1963): filósofo, lógico e tienne, é filósofo, historiador, crítico de arte e professor
matemático paulista, pioneiro em lógica contemporânea
(1982-83), A Escrita: há futuro da École de Hautes Études em Sciences Sociales, em Paris.
no Brasil. Em um momento posterior, Ferreira passou a se para a escrita? (1986-87), Supo- Considerado um dos grandes intelectuais franceses de sua
dedicar aos estudos dos mitos. Baseando-se na filosofia geração. Autor de uma vasta obra ensaística, baseado em
de Schelling e Martin Heidegger, Ferreira inverte a noção nhamos (1987), Do sujeito ao pro- autores como Freud, Benjamin, Pasolini e Warburg. Trata
de mythos e logos de modo a propor a filosofia como uma
espécie de desdobramento em relação aos mitos. (Nota
jeto (1989-90) e, por fim, Homini- de temas que vão da filosofia da imagem à história da
arte, passando por cinema e literatura. Alguns de seus li-
da IHU On-Line) zação (1990-91). vros: O que vemos, o que nos olha (Editora 34), Diante da

EDIÇÃO 542
TEMA DE CAPA

demarcar as etapas dessa moderni- em São Paulo, às quais certamente lhos, mas que especificidades
dade como Culpa, Castigo, Maldição acompanhou e que foram durante os trabalhos na área da teoria
e Penitência. A maneira pela qual o momento da escrita desta obra8. da comunicação e da teoria das
Flusser empreende a reconstrução Pode-se ver analogias entre o que mídias têm em relação a sua
das condições de possibilidades da Foucault nomeia como dispositivos obra anterior?
emergência do mundo moderno e epistemes que configuram a mo-
Rodrigo Petronio – A singulari-
se baseia naquilo que define como dernidade e as definições de Flusser
dade da teoria da comunicação e dos
arqueobiografia: a partir de uma dos meios e etapas empregados no
media desenvolvida por Flusser se
arqueologia dos modos de vida do processo de ocultação dos agentes
refere a diversos dos fatores mencio-
século XX, o eu pode reconstruir, a e a ascensão dos aparelhos que de-
nados acima. Quando as analisamos,
partir de sua condição existencial, as terminam essa mesma época. Nesse
percebemos que boa parte das teo-
diversas camadas e mediações que sentido, a arqueologia de Flusser
rias da comunicação, da informação
o conduziram e o levaram a habitar diz respeito não apenas à reconstru-
e dos meios se concentra em análises
o mundo e o meio que agora habita. ção fenomenológica das categorias
de meios de informação e comuni-
Esse eu meditativo que reconstitui da experiência e da empiria, como
cação dos séculos XIX e XX, ou seja,
suas condições de existência apenas propôs Husserl. Relaciona-se tam-
privilegia as transformações, supor-
pôde fazê-lo mediante as mesmas bém à configuração formal de con-
tes, materialidades e tecnologias
condições que o constituíram como ceitos como aparelho, um ser rela-
surgidas com a época industrial e
um eu meditativo que se debruça so- cional inextenso capaz de organizar
com as tecnologias digitais. Esse cro-
bre si mesmo. e unificar em si todas as condições
notopo (Hans Ulrich Gumbrecht9) é
de possibilidade da experiência, ou
Ou seja: as condições de possibili- importante e muitas vezes decisivo
seja, transcender e negativar todos
dade desse eu refletir sobre a exis- nos estudos de comunicação, pois
os atos livres e contingentes.
tência foram dadas pelos mesmos nos ajuda a circunscrever a especi-
processos que esse eu agora recons- Essa intuição de Flusser será des- ficidade dos objetos que analisamos.
titui e define em suas diversas eta- dobrada mais tarde em sua teoria
Por outro lado, essa ênfase pode
pas. Essa circularidade do pensa- dos media e das relações, em diálogo
nos deixar presos a um perigoso cro-
56 mento de Flusser não tem nada de com a cibernética e com as teorias da
nocentrismo: avaliarmos toda refle-
tautologia. Trata-se de uma das pre- informação e da comunicação. Por
xão sobre os meios e as mediações a
missas presentes em diversas filoso- isso, não podemos demarcar uma
partir do estatuto gerado por novas
fias da existência, mediante a qual o ruptura nesse continuum de sua re-
tecnologias, sem questionarmos a
eu apenas pode objetivar os meios flexão. Pelo contrário, torna-se cada
emergência mesma das condições de
de sua constituição à medida mesma vez mais urgente compreender essa
possibilidades das tecnologias, se-
que toma consciência dos processos formação inicial nas ontologias, fi-
jam elas novas ou arcaicas. Ao longo
que o conduziram a ter determina- losofias da existência e fenomeno-
de sua obra, a abordagem de Flusser
das constituições. Esse eu é Flusser, logias do começo do século XX para
caminha cada vez mais rumo a uma
um eu empírico, como se pode ates- compreendermos melhor a revolu-
compreensão dos fatores ontogêni-
tar por diversos signos que ele revela ção cognitiva das obras de Flusser
cos, biogênicos e antropogênicos dos
de sua biografia. Mas também é um relativas aos media e às tecnologias.
meios, preocupação que culmina
eu existencial e suspenso, um eu que
com Do Sujeito ao Projeto (1989-
emerge depois das diversas depura-
IHU On-Line – É evidente que 90) e Hominização (1990-91), e que
ções antinaturais da empiria, possi-
há uma ligação entre os traba- o aproxima muito de autores como
bilitadas pela fenomenologia.
Michel Serres10 e Peter Sloterdijk11,
Flusser e Foucault
edição 203, de 6-11-2006, disponível em https://goo.gl/ 9 Hans Ulrich Gumbrecht (1948): é um teórico literário
C2rx2k ; edição 364, de 6-6-2011, intitulada ‘História da norte-americano nascido na Alemanha e atualmente nos
Rodrigo Maltez Novaes destacou loucura’ e o discurso racional em debate, disponível em ht- departamentos de Literatura Comparada, francês e italia-
tps://goo.gl/wjqFL3; edição 343, O (des)governo biopolítico no, alemão e espanhol e português da Universidade de
a influência exercida sobre Flus- da vida humana, de 13-9-2010, disponível em https://goo. Stanford e da Universidade Zeppelin. Publicou no Brasil,
ser pelas conferências de Foucault7 gl/M95yPv , e edição 344, Biopolítica, estado de exceção entre outros livros, Modernização dos sentidos (1998, Edi-
e vida nua. Um debate, disponível em https://goo.gl/RX- tora 34) e Em 1926: vivendo no limite do tempo (1999, Re-
62qN . Confira ainda a edição nº 13 dos Cadernos IHU cord). (Nota da IHU On-Line)
em formação, disponível em http://bit.ly/ihuem13, Michel 10 Michel Serres (1930): filósofo e historiador das ciências
imagem (Editora 34), A Imagem Sobrevivente. História da Foucault – Sua Contribuição para a Educação, a Política e a francês. Escreveu entre outras obras O terceiro instruído e
arte e tempo dos fantasmas segundo Aby Warburg (Con- Ética. (Nota da IHU On-Line) O contrato natural. Atuou como professor visitante na USP.
traponto) e Imagens apesar de tudo (Lisboa, KKYM). Em 8 Rodrigo Maltez Novaes levantou algumas “provas de Desde 1990 ele ocupa a poltrona 18 da Academia France-
2013, a revista IHU On-Line dedicou o tema de capa As que Flusser realmente frequentou as conferências”. Se- sa. Professor da Universidade de Stanford e membro da
imagens nos olham. Como ver o que nos olha? inspirado no gundo Maltez, quando da publicação das Ficções Filosófi- Academia Francesa, escreveu inúmeros ensaios filosóficos
pensamento do autor, cuja edição pode ser lida na íntegra cas de Flusser, Bento Prado Jr. deu o seguinte depoimento: e de história das ciências, entre os quais Os cinco sentidos,
em http://bit.ly/2OWNLn3. (Nota da IHU On-Line) “Surpreendia-me ele em 1958 ou 59 com a aproximação Notícias do mundo, Variações sobre o corpo, O incandes-
7 Michel Foucault (1926-1984): filósofo francês. Suas que fazia entre os pensamentos de Heidegger e de Wit- cente, Hominescências e Júlio Verne: A ciência e o homem
obras, desde a História da Loucura até a História da sexu- tgenstein. Mais tarde, em 1965, eu ouviria, numa aula de contemporâneo, todos títulos lançados no Brasil pela edi-
alidade (a qual não pôde completar devido a sua morte), Michel Foucault a que Flusser também estava presente, tora Bertrand Brasil. (Nota da IHU On-Line)
situam-se dentro de uma filosofia do conhecimento. Fou- a seguinte frase provocadora: ‘É preciso ser uma mosca 11 Peter Sloterdijk (1947): filósofo alemão. Desde a pu-
cault trata principalmente do tema do poder, rompendo cega para não ver que as filosofias de Heidegger e de Wit- blicação de Crítica da razão cínica, é considerado um dos
com as concepções clássicas do termo. Em várias edições, tgenstein são uma e a mesma filosofia’”. Conferir: http:// maiores renovadores da filosofia atual. Em 2004, encerrou
a IHU On-Line dedicou matéria de capa a Foucault: edição www1.folha.uol.com.br/fsp/resenha/rs13029905.htm sua trilogia Esferas (Sphären), cujos primeiros volumes
119, de 18-10-2004, disponível em http://bit.ly/ihuon119; (Nota do entrevistado) foram publicados em 1998 e 1999. Interessado na mídia,

30 DE SETEMBRO | 2019
REVISTA IHU ON-LINE

por exemplo. Esse percurso lhe pos- muito semelhante. Tanto nos estu- ser, inspiradas nas ontologias, feno-
sibilitou a criação de alguns con- dos relacionados a novas ontologias menologias e filosofias da existência
ceitos poderosos em Mutações das e a novas cosmologias, quanto nas do século XX, e se pensarmos que
relações humanas (1977-78), Pós áreas de arqueologia das mídias, boa parte dessa produção foi exclusi-
-História (1978-79), Vampyroteu- tanto na filosofia das ciências quanto vamente em português, isso quer di-
this Infernalis (1980-81) e, sobretu- nas investigações sobre transuma- zer que a compreensão mundial que
do, em Elogio da superficialidade: nismo, tanto nas pesquisas de novos se tem da dimensão, da amplitude e
o universo das imagens técnicas padrões e semioses não humanas do âmago de sua obra ainda é muito
(1982-83), para mim uma das mais quanto nas reflexões sistêmicas e defasada e cheia de lacunas.
importantes obras de teoria dos me- nas teorias da complexidade, pode-
mos identificar essa tentativa não Uma das preocupações precípuas
dia do século XX.
apenas de borrar as fronteiras entre que temos com essa nova edição e
Essa singularidade de Flusser agentes humanos e naturais, mas de com o plano de publicação das Obras
também se encontra na maneira buscar uma perspectiva multitem- Completas pela Biblioteca Flusser é
brilhante e irônica com que ilude poral e não linear como explicação justamente chamar a atenção para
o leitor ávido de novidade. Não se global dos processos. Ou seja: algo essa lacuna imensa. E procurar pro-
pode negar que Filosofia da caixa que Flusser estava buscando desde a jetar suas obras em português para
preta (1981-82) seja uma obra pio- década de 1940. que encontrem editores e tradutores
neira, em termos mundiais, na re- em outras línguas e países.
flexão sobre a fotografia. Contudo,
quando a analisamos com cuidado, IHU On-Line – Como as obras
vemos que os operadores conceitu- de Flusser escritas em alemão
ais como aparelho e caixa preta,
bem como os jogos com as etimo-
dialogam com as obras escritas
em português?
“Uma das
logias da palavra imagem, apro-
ximam-na mais de um tratado de
Rodrigo Petronio – O alemão alterações do
epistemologia do que de uma obra
estrita sobre os usos da fotografia. O
e o português foram as línguas nas
quais Flusser mais escreveu. Por isso pensamento 57
mesmo recurso à elipse e à ironia se
a importância dessa produção. O
caso de Flusser em relação a línguas moderno é a
encontra em O último juízo: gera-
ções (1965-1966), obra que propõe
é um caso bastante singular. Há pou-
cos autores que tenham escrito tanto vetorização
realizar uma arqueologia da moder-
nidade e que preserva, em seu sub-
em tantas línguas, tendo produções
significativas em cada uma delas.
do tempo e
texto, uma estrutura alegórica e te-
ológica deslocada do regime de pura
Felizmente, como mencionei, Flus-
ser mesmo empreendia essas intra-
do cosmos”
imanência que comumente atribuí- traduções de suas obras como uma
mos à formação da época moderna. maneira de testar os conceitos e sua
Esses jogos são inclusive explica- polissemia, colocando as pretensões
de universalidade da filosofia em IHU On-Line – De que manei-
dos e desenvolvidos por Flusser em ra Flusser enfrenta a Moderni-
Pós-História (1978-79), a partir de atrito com as especificidades, limites
e virtualidades de cada língua. dade no livro  O último juízo:
uma teoria dos jogos e de uma tipi- gerações?
ficação do papel central dos jogos na Um fenômeno que vale destacar
organização das sociedades telemá- nessa predominância do alemão e Rodrigo Petronio – Imagino que
ticas, e que hoje reputamos aos algo- do português é que boa parte dos es- tenha respondido a esta pergunta em
ritmos. Esse jogo incide inclusive en- critos de Flusser em alemão não foi uma pergunta anterior. E há um lon-
tre a tecnofobia e a tecnofilia, pois o traduzida para outras línguas, como go ensaio que escrevi especialmente
próprio Flusser chegou a evidenciar o inglês e o francês, que possuem um como prefácio a esta obra de Flusser.
o erro presente em ambas as postu- número maior de leitores dentro dos Faço aqui uma sinopse a partir de al-
ras de demonização e de divinização meios acadêmicos. Com exceção das guns pontos que considero cruciais
das técnicas. Se mapearmos algumas obras vertidas por Rodrigo Maltez para a compreensão de seu eixo ar-
das vertentes contemporâneas, per- Novaes para o inglês, a maior parte gumentativo, mas que não esgotam
ceberemos um vetor de orientação das obras que Flusser escreveu em a amplitude dessa obra. Em linhas
português ainda não foi traduzida gerais, a tese defendida em Gerações
dirige Quarteto filosófico, programa cultural da cadeia de para o inglês ou para outras línguas é curiosamente muito semelhante
televisão estatal alemã ZDF. Tem inúmeras obras traduzi-
das para o português, como Regras para o parque humano de maior acesso e projeção intelectu- à proposta por Peter Sloterdijk no
- uma resposta à carta de Heidegger sobre o humanismo
(São Paulo: Estação Liberdade, 2000). No sítio do IHU, fo- ais. Se levarmos em conta tudo que terceiro volume de Esferas: ao expli-
ram publicadas várias traduções de entrevistas concedidas mencionei aqui sobre a função ma- citar os seus mecanismos internos,
pelo filósofo. Elas podem ser acessadas pela busca em
www.ihu.unisinos.br. (Nota da IHU On-Line) tricial das primeiras obras de Flus- o mundo ganhou em transparência,

EDIÇÃO 542
TEMA DE CAPA

mas perdeu em opacidade. Reduziu confina aos contornos e aos limites a possibilidade de prever o futuro e
as camadas virtuais de seu interior da simples razão. Nasce o mito de- de reorganizar essa mesma natureza
antes oculto. A imagem da catedral dutivo da razão moderna. em sua totalidade.
citada por Flusser logo no começo
Chegamos, assim, a uma mística
da obra, em uma espiral de brilhante Razão dedutiva e ciência racional: a estrutura eidética das
ensaísmo, é a imago dessa opacida-
Como sombra do método indutivo formas da sensibilidade é decalca-
de perdida.
e do experimentalismo, razão dedu- da como se fosse a estrutura das
Os séculos XVI e XVII transfor- tiva e ciência se dissociam. Tornam- engrenagens de uma maquinaria,
maram a alquimia e o mecanicismo se meninas gêmeas inimigas, sepa- tão complexa quanto vazia de vida.
em modus operandi dessa trans- radas no parto. A ruína da metafísica Não se trata de compreender a on-
formação e dessa explicitação do medieval ironicamente nos lançou togênese do pensamento vivo. Tra-
real. A luz oriental do fisicalismo, do ta-se de prever como as roldanas
em uma oscilação entre o empírico
empirismo e materialismo por sua do mundo produzem o pensamento
e o transcendental, como diagnosti-
vez adentrou o Ocidente como uma a partir de causas e consequências.
cou Foucault, e essa seria uma das
promessa de redenção da matéria Nasce a natureza em sua autono-
analogias entre os dois pensadores,
de seu torpor metafísico milenar. A mia. Nasce a possibilidade de emer-
conforme mencionei em uma per-
despeito da desinibição gigantesca gir dessa natureza e dessas concep-
gunta anterior. Entretanto, de certo
da ciência e da tecnologia, essa re- ções de natureza o grau máximo do
modo, Flusser amplia a microscopia
denção não se cumpriu. E tampouco autonomismo: o autômato.
e a macroscopia dessas imagens. Si-
o poderia. Porque a emancipação de
tua-as em um corte transversal, que
um polo material não pôde deixar, Ontologia moderna
transborda as epistemes e confere
ainda que à sua revelia, de produzir
um horizonte mais amplo ao projeto A ontologia moderna prepara
o seu contrário: o espiritual, o co-
da arqueologia de Foucault. passo a passo a sua própria erosão.
gito, o pensamento puro, o sujeito
transcendental, a submissão da filo- O aparelho é a forma inextensa
Dentro desse percurso, mesmo a
desse esvanecimento. Justamente
sofia e de todas as ciências ao more equação de Espinosa13, segundo a
ao santificar o mecanicismo, o apa-
58 geometrico. qual a natureza é uma modalização
relho é o instrumento que promove
de Deus, pode ser a chancela do pan-
O século XX é o Leito de Procusto a impossibilidade de determinar o
teísmo, mas não escapa aos ditames
dessa evisceração do mundo. Um que venha a ser um ser mecânico,
mundo que se tornara transparente da geometria. O empiriocriticismo
pois a própria biologia se apropria
e cuja transparência transformou rasgou o véu da realidade. Desnu-
dos modelos mecânicos para pen-
a realidade mesma em uma subs- dou os mecanismos do mundo. Ou
sar e remodelar o ser vivo. Justa-
tância opaca. Inaugura-se o proble- seja: criou a expectativa de que a re-
mente por santificar o humanismo,
ma por excelência da modernidade alidade pode ser compreendida em
produz-se a destituição dos proces-
nessa figura invertida. A ontologia seu todo. Essa marcha da ciência em sos primários que nos caracterizam
moderna pode ser caracterizada jus- busca do esgotamento do campo da em nossa humanidade. O funda-
tamente por isso: a emancipação da realidade é a marcha em busca de mento irracional da razão se torna
dimensão material da existência foi uma equivalência entre realidade e cada vez mais translúcido para a
paradoxalmente conflagrada graças conhecimento. A ontologia de um experiência imediata. Materializa-
à ampliação dos modelos matemá- Deus relojoeiro assume o palco. E a se no aparelho. Funciona com os
ticos e ao aprofundamento de pro- descoberta dos mecanismos simples funcionários. Programa-se pelos
cessos abstrativos que desenraizam que estruturam a natureza produz programas. Torna-se uma realida-
a experiência existencial, circuns- de plena e amplamente desinibida
isto é, entre o que nos aparece e o que existiria em si mes-
tanciada e viva. O que chamamos de mo. A coisa-em-si não poderia, segundo Kant, ser objeto por meio dos instrumentos.
mundo passa a ser a redução das ca- de conhecimento científico, como até então pretendera a
metafísica clássica. A ciência se restringiria, assim, ao mun- Esta é a Penitência que nos cabe
madas da experiência aos padrões da do dos fenômenos, e seria constituída pelas formas a prio-
ri da sensibilidade (espaço e tempo) e pelas categorias do desde o século XX. E que persiste,
aritmética por meio das operações entendimento. A IHU On-Line número 93, de 22-3-2004,
aberta e sem redenção, em direção
do cogito. O que chamamos de mun- dedicou sua matéria de capa à vida e à obra do pensador
com o título Kant: razão, liberdade e ética, disponível em ao futuro. Nesse contexto, uma
do material passa a ser decomposto http://bit.ly/ihuon93. Também sobre Kant, foi publicado o
Cadernos IHU em Formação número 2, intitulado Emma- das alterações do pensamento mo-
pela geometria e confinado aos limi- nuel Kant – Razão, liberdade, lógica e ética, que pode ser
derno é a vetorização do tempo e
tes da extensão. E o que chamamos acessado em http://bit.ly/ihuem02 . Confira, ainda, a edi-
ção 417 da revista IHU On-Line, de 6-5-2013, intitulada do cosmos. Em Gerações, Flusser
de pensamento a partir de Kant12 se A autonomia do sujeito, hoje. Imperativos e desafios, dis-
ponível em https://goo.gl/SIII5H . (Nota da IHU On-Line) identifica essa alteração, seminal
13 Baruch Spinoza (ou Espinosa, 1632–1677): filósofo para seu pensamento ulterior de
12 Immanuel Kant (1724-1804): filósofo prussiano, con- holandês. Sua filosofia é considerada uma resposta ao du-
siderado como o último grande filósofo dos princípios da alismo da filosofia de Descartes. Foi considerado um dos A Escrita, de Elogio da superfi-
era moderna, representante do Iluminismo. Kant teve um grandes racionalistas do século 17 dentro da Filosofia Mo-
grande impacto no romantismo alemão e nas filosofias derna e o fundador do criticismo bíblico moderno. Confira cialidade: o universo das imagens
idealistas do século 19, as quais se tornaram um ponto de
partida para Hegel. Kant estabeleceu uma distinção entre
a edição 397 da IHU On-Line, de 6-8-2012, intitulada Ba-
ruch Spinoza. Um convite à alegria do pensamento, dispo-
técnicas e de Pós-História. A ve-
os fenômenos e a coisa-em-si (que chamou noumenon), nível em https://goo.gl/GEGuI5 . (Nota da IHU On-Line) torização da natureza é um pro-

30 DE SETEMBRO | 2019
REVISTA IHU ON-LINE

blema que vem sendo abordado IHU On-Line – Como pode- humano se lhe revelou em toda sua
pela epistemologia e a filosofia da mos compreender a fenome- extensão, em toda sua profundida-
ciência desde o século XIX, desde nologia flusseriana e de que de e em toda sua glória.
Boltzmann14 e da segunda lei da maneira ela ajuda a entender a
termodinâmica. Esse problema se emergência da era moderna?
IHU On-Line – A propósito,
relaciona à entropia. Trata-se da Rodrigo Petronio – Para resu- como ler Flusser no século
descrição de sistemas complexos mir de modo bem pontual, diria que XXI?
não lineares cuja energia se encon- Flusser se apoiou no correlacionis-
tra em constante escoamento, para mo da consciência, proposto pela Rodrigo Petronio – Como um
usar a expressão de Husserl, e cujo fenomenologia, e dele derivou uma dos maiores livres-pensadores do
sentido tende sempre à diminuição consciência do correlacionismo. século XX e talvez de toda história
e à morte. Essa vetorização da na- Conseguiu assim criar uma onto- da filosofia. Como alguém que cami-
tureza encontra-se representada nhava para o passado para abrir ho-
logia dos meios, das relações e das
em Gerações pelo advento da Que- rizontes e vastos portais em direção
mediações que transcende o estatu-
da e pela escatologia messiânica ao futuro. Como alguém que se situ-
to conscienciológico da fenomeno-
das quatro alegorias (Culpa, Mal- ava e que sempre se manteve sem-
logia. O método de suspensão con-
dição, Castigo, Penitência). chão (Bodenlos), para o bem da vida
tinuou sempre ativo. E, por meio
e do pensamento. Como alguém que
Contudo, esses mesmos siste- dele, Flusser conseguiu escavar
combatia os amigos com mais vitali-
mas abrem uma perspectiva inu- camadas e estratos da experiência
dade do que o fazia com os inimigos,
e da empiria, rumo a um aprofun-
sitada ao papel desempenhado pois esse era um gesto de admiração
damento da consciência e do papel
pelos meios e pelas tecnologias: a e respeito pelo Outro.
desempenhados pelos meios.
neguentropia. A possibilidade de
negar a dissipação da natureza. Esses meios assumem o nome de
Os meios e as tecnologias seriam programa, aparelho, instrumento, IHU On-Line – Deseja acres-
forças de suspensão da entropia e função. São meios apenas aparen- centar algo?
do devir, impulsionadas parado- temente neutros, pois eles produ- Rodrigo Petronio – Leiam 59
xalmente pela captação da finitu- zem transparência dos sentidos Flusser. Quem o conhece, leia o que
de e da mortalidade por parte da das tecnoimagens e a opacidade e a ainda não leu ou releia as obras que
consciência reflexiva que nasce vacuidade do sentido: a função ze- lhe agradem. Quem ainda não o co-
paradoxalmente da agonia e morte rodimensional sobre a qual repou- nhece, procure conhecê-lo. Flusser
da alma do mundo e dos sistemas sam essas tecnoimagens. A escato- é sempre um exercício de lucidez.
de animação e animismo, extintos logia de Flusser é uma escatologia Um constante dialogismo. Uma re-
pelo mecanicismo e pela ciência do Nada. Onde todas as religiões flexividade infinita. Trata-se de um
moderna. revelam Deus, as tecnoimagens em autor polifônico. Não apenas pelas
torno da qual a modernidade gravi- vozes e vetores de outros autores e
14 Ludwig Edward Boltzmann (1844-1906): matemático ta revelam o Nada. Essa grande re- obras que ele incorporou, mas poli-
e físico austríaco. Sistematizou o conceito de entropia,
segundo o qual há uma tendência natural de a energia velação apenas foi possível porque fônico como atitude do pensamen-
se dispersar e de a ordem evoluir invariavelmente para a a nadidade que constitui o humano to e do eu, em constante embate
desordem. Explica o desequilíbrio natural entre trabalho e
calor. (Nota da IHU On-Line) e que também o determina como consigo mesmos.■

Leia mais
- Pesquisador defende que a tecnologia está matando a política. Artigo de Rodrigo Pe-
tronio, publicado nas Notícias do Dia de 15-2-2019, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos
– IHU, disponível em http://bit.ly/2mG7nBJ.
- Equívocos Humanos. Artigo de Rodrigo Petronio, publicado nas Notícias do Dia de 16-
2-2013, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU, disponível em http://bit.ly/2l4KNCk.
- Niilismo. A matéria-prima das religiões do futuro. Entrevista com Rodrigo Petronio, publi-
cada na revista IHU On-Line, número 412, de 18-12-2012, disponível em http://bit.ly/2l2d10u.

EDIÇÃO 542
TEMA DE CAPA

Os alienígenas de nós mesmos


Erick Felinto aborda o pensamento de Vilém Flusser em perspectiva
com a possibilidade de constituição de novos humanismos para
um mundo cada vez mais complexo e múltiplo
Ricardo Machado

T
odo o ideal de humanismo escul- aos outros seres com que dividimos este
pido por séculos durante a mo- mundo. Se hoje passamos a prestar cada
dernidade transformou-se num vez mais atenção aos mundos animais
grande ponto de interrogação após a e vegetais, é porque vamos aos poucos
Segunda Guerra Mundial. Não se trata tomando consciência de que habitamos
de admitir, em hipótese alguma, que o espaços múltiplos, maleáveis, instáveis,
humanismo moderno acabou, mas foi nos quais não podemos mais assumir
colocado em causa, entre outras razões, que somos os agentes únicos. O tema do
pelo alcance que a dimensão técnica ponto de vista tinha importância vital no
alcançou. “Como defender valores hu- pensamento flusseriano porque, numa
manistas, as grandes obras do espírito, postura próxima ao perspectivismo de
a grande tradição ocidental, após Aus- Viveiros de Castro, ele cria que o próprio
chwitz? Como elaborar uma proposta do humano é sua capacidade de reinven-
para o humano que permita descons- tar-se, de articular diferentes pontos de
truir nosso privilégio ontológico em re- vista e entrar em conversação com outros
60 lação às outras entidades deste mundo, universos existenciais”, complementa.
ao mesmo tempo que preserve determi- Erick Felinto de Oliveira é doutor
nados princípios basilares?”, provoca em Literatura Comparada pela Universi-
o professor doutor Erick Felinto, em dade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ
entrevista por e-mail à IHU On-Line. e tem pós-doutorado em Comunicação
Se de um lado a programação de má- pela Universität der Künste, Berlim. É
quinas e de seres humanos, impulsiona- pesquisador do CNPq e professor adjun-
das também pela Inteligência Artificial, to na UERJ, instituição em que realiza
torna-se cotidianamente algo recorrente, pesquisas sobre cinema e cibercultura.
de outro temos sempre a possibilidade de É autor de, entre outros, A religião das
reinvenção humana. “Não existe como máquinas: ensaios sobre o imaginário
voltar atrás e abdicar das transformações da cibercultura (Porto Alegre: Sulina,
radicais que o desenvolvimento tecno- 2005); Silêncio de Deus, silêncio dos ho-
lógico ocasionou. Entretanto, podemos mens: Babel e a sobrevivência do sagra-
tentar habitar ao mesmo tempo diversos do na literatura moderna (Porto Alegre:
mundos possíveis. Quando tento lidar Sulina, 2008); O explorador de abis-
com mídias diferentes em pé de igualda- mos: Vilém Flusser e o pós-humanismo
de, como o livro e o computador ou a pin- (com Lucia Santaella. São Paulo: Paulus,
tura e a videoarte, amplio meu leque de 2012); Cibercultura em tempos de diver-
possibilidades cognitivas e emocionais”, sidade: estética, entretenimento e políti-
salienta o professor. ca (São Paulo: Anadarco, 2013); A vida
“O novo humanismo necessita, antes secreta dos objetos: ecologias da mídia
de tudo, desvincular-se da hierarquia (Rio de Janeiro: Azougue, 2016).
ontológica que o humano elaborou face Confira a entrevista.

IHU On-Line – De que forma dos? Como entender essa pre- crer que o domínio do humano é o da
tanto o ser humano quanto as missa? pura imprevisibilidade, da liberdade
máquinas são seres programa- Erick Felinto – Nós tendemos a de ação e pensamento como horizon-

30 DE SETEMBRO | 2019
REVISTA IHU ON-LINE

“O diálogo era parte fundamental


da filosofia de Flusser, pois ele cria
que só podemos existir plenamente
na relação com a alteridade. Eu
sou o outro, não existo sem ele”

tes sempre abertos. Todavia, ainda condicionamentos que as materiali- su, mas o desafio de pensar um hu-
que exista, sim, essa margem de in- dades do mundo produzem em nós. manismo capaz de responder às de-
determinação e potencial de criativi- Para ele, nossas tecnologias e meios de mandas específicas de nosso tempo.
dade, o ser humano recebe uma série comunicação determinam de forma
É possível que Shakespeare4, Mi-
de programas, que são de ordem bio- radical nossa subjetividade. A ideia de
chelangelo5 ou Cervantes6 possam
lógica, social e cultural. A cibernética programa associado ao ser vivo e ao
seguir nos ensinando coisas impor-
buscava explorar essa ideia de forma homem, mais particularmente, vem
tantes sobre a experiência do huma-
extrema, ao considerar homens, ani- ganhando tração renovada nos últimos
no? Eu creio que sim, pois mesmo
mais e máquinas como sistemas que anos e esse vasto campo de estudos que
habitando um mundo radicalmente
funcionam a partir de princípios bá- têm sido definido como “pós-humanis-
diferente, existem núcleos dessa ex-
sicos semelhantes. mo” dá testemunho disso.
periência que se mantêm relevantes.
Nesse sentido, tanto Flusser como   Nesse sentido, a frase de Terêncio
Norbert Wiener1 (um dos pais da ciber- IHU On-Line – Como pensar o com que Flusser abre o Vampyroteu- 61
nética) produziram um tipo de pensa- humanismo em uma sociedade this Infernalis (São Paulo: Anablume,
mento que se situava nos interstícios cuja dimensão tecnocientífica é
entre o humanismo e uma espécie de a ponta de lança? 4 William Shakespeare (1564-1616): dramaturgo inglês.
Considerado por muitos como o mais importante dos
pós-humanismo. Por um lado, se ape- escritores de língua inglesa de todos os tempos. Escreveu
gavam à ideia do humano como esse Erick Felinto – Esse é um dos algumas das mais marcantes tragédias da cultura ocidental,
mas também algumas comédias. De suas obras, incluindo
lócus de riqueza interior e liberdade; grandes dilemas com que Flusser se aquelas em colaboração, restaram até os dias de hoje 38

por outro, consideravam com serieda- defrontou. Como defender valores peças, 154 sonetos, dois longos poemas narrativos e mais
alguns versos esparsos, cujas autorias, no entanto, são ain-
de o papel dos programas e formas de humanistas, as grandes obras do es- da disputadas. Suas peças foram traduzidas para todas as
principais línguas modernas e são mais encenadas que as
inscrição social/cultural nos compor- pírito, a grande tradição ocidental, de qualquer outro dramaturgo. Muitos de seus textos e te-

tamentos dos indivíduos. A ideia de após Auschwitz3? Como elaborar mas permanecem vivos até a atualidade, sendo revisitados
com frequência. Algumas de suas obras são as tragédias
alma como a dimensão divina e inde- uma proposta para o humano que Romeu e Julieta; Júlio César; Macbeth; Rei Lear; Otelo, o Mou-
ro de Veneza; Hamlet; e A Tempestade; e as comédias Sonho
terminada do humano sofreu seguidos permita desconstruir nosso privilégio de uma Noite de Verão; O Mercador de Veneza; Noite de Reis;
golpes por via de disciplinas como a ontológico em relação às outras enti- A Megera Domada; A Tempestade; e As Alegres Comadres de
Windsor. (Nota da IHU On-Line)
psicanálise e a antropologia. Mais re- dades deste mundo, ao mesmo tempo 5 Michelangelo di Lodovico Buonarroti Simoni (1475-
1564): mais conhecido simplesmente como Michelangelo
centemente, Friedrich Kittler2 e a teo- que preserve determinados princí- ou Miguel Ângelo, foi um pintor, escultor, poeta e arquiteto
ria da mídia alemã, em geral, levaram pios basilares? O que normalmente italiano, considerado um dos maiores criadores da história da
arte do ocidente. Ele desenvolveu o seu trabalho artístico por
essa crítica da interioridade criativa a esquecemos é que não existe propria- mais de setenta anos entre Florença e Roma, onde viveram
seus grandes mecenas, a família Medici de Florença, e vários
um extremo. Para Kittler, era neces- mente um modelo único, intemporal papas romanos. Iniciou-se como aprendiz dos irmãos Davide
sário “expulsar o espírito” das ciências e universal do que é o humano. Essa e Domenico Ghirlandaio em Florença. Tendo o seu talento
logo reconhecido, tornou-se um protegido dos Medici, para
humanas – isso porque, em alemão, noção é historicamente definida, e já quem realizou várias obras. Depois fixou-se em Roma, onde

“ciências humanas” se diz “ciências do teve diferentes significados ao longo deixou a maior parte de suas obras mais representativas. Sua
carreira se desenvolveu na transição do Renascimento para
espírito” (Geisteswissenschaften). E do tempo. Parece-me que o grande o Maneirismo, e seu estilo sintetizou influências da arte da
Antiguidade clássica, do primeiro Renascimento, dos ideais
o espírito, como imaterialidade pura, perigo que enfrentamos na sociedade do Humanismo e do Neoplatonismo, centrado na represen-

desconsidera todas as experiências e hipertecnológica não é exatamente a tação da figura humana e em especial no nu masculino, que
retratou com enorme pujança. Várias de suas criações estão
desaparição do humanismo lato sen- entre as mais célebres da arte do ocidente, destacando-se na
escultura o Baco, a Pietà, o David, as duas tumbas Medici e o
Moisés; na pintura o vasto ciclo do teto da Capela Sistina e o
1 Norbert Wiener (1894-1964): matemático americano co- 3 Auschwitz-Birkenau: nome de um grupo de campos Juízo Final no mesmo local, e dois afrescos na Capela Paulina;
nhecido como fundador da cibernética. Criou o termo em seu de concentração localizados no sul da Polônia, símbolos serviu como arquiteto da Basílica de São Pedro implemen-
livro Cybernetics or Control and Communication in the Animal do Holocausto perpetrado pelo nazismo. A partir de 1940, tando grandes reformas em sua estrutura e desenhando a
and the Machine (MIT Press, 1948). Entre seus livros também o governo alemão comandado por Hitler construiu vários cúpula, remodelou a praça do Capitólio romano e projetou
estão The Human Use of Human Beings (1950), Ex-Prodigy campos de concentração e um campo de extermínio nesta diversos edifícios, e escreveu grande número de poesias.
(1953), I Am a Mathematician (1956). (Nota da IHU On-Line) área, então na Polônia ocupada. Houve três campos princi- (Nota da IHU On-Line)
2 Friedrich A. Kittler (1943-2011): foi um estudioso lite- pais e 39 auxiliares. Como todos os outros campos de con- 6 Miguel de Cervantes e Saavedra (1547-1616): escritor
rário e teórico da mídia. Suas obras se relacionam com a centração, os campos de Auschwitz eram dirigidos pela SS espanhol, autor de Don Quixote de La Mancha. (Nota da
mídia, tecnologia, e os militares. (Nota da IHU On-Line) comandada por Heinrich Himmler. (Nota da IHU On-Line) IHU On-Line)

EDIÇÃO 542
TEMA DE CAPA

2011), talvez seu livro mais singular, é midade e dos espaços de encontro me Flusser nos ajuda a pensar os
emblemática: “Homo sum: nihil hu- parece essencial para construirmos um dilemas atuais?
mani a me alienum puto” (“sou hu- humanismo capaz de responder aos
Erick Felinto – Com todas as limi-
mano, e nada do que é humano me é desafios da nossa era.
tações e contradições que apresenta, o
alheio”). Não existe como voltar atrás
  pensamento de Flusser é rico de intui-
e abdicar das transformações radicais
IHU On-Line – Flusser sugere ções para o enfrentamento dos dilemas
que o desenvolvimento tecnológico
uma noção de humanista dife- contemporâneos. A problemática da
ocasionou. Entretanto, podemos ten-
rente da perspectiva clássica. identidade, uma questão central para
tar habitar ao mesmo tempo diversos
Do que se trata esse novo hu- nós no contexto da cultura das redes,
mundos possíveis. Quando tento lidar
manista pensado por Flusser? foi tratada por Flusser de forma bas-
com mídias diferentes em pé de igual-
tante instigante. Mas acho que se trata
dade, como o livro e o computador ou Erick Felinto – O novo humanis- menos de buscar repostas em Flusser
a pintura e a videoarte, amplio meu mo necessita, antes de tudo, desvin- do que encontrar perguntas interes-
leque de possibilidades cognitivas e cular-se da hierarquia ontológica que santes. Penso que devemos confrontá
emocionais. O que Siegfried Zielinski7 o humano elaborou face aos outros -lo com outros autores e questões mais
chamou de “psicopatia medialis” – a seres com que dividimos este mundo. próximas de nossa situação, e ver o que
imposição de determinados padrões Se hoje passamos a prestar cada vez é possível extrair desse confronto.
fechados e unívocos por meio da indús- mais atenção aos mundos animais e
tria da comunicação – é um perigo real vegetais, é porque vamos aos poucos  
que autores como Flusser sugeriam tomando consciência de que habita- IHU On-Line – De que manei-
combater com uma postura de experi- mos espaços múltiplos, maleáveis, ra o pensamento cibernético, ou
mentação e versatilidade, ou seja, uma instáveis, nos quais não podemos melhor dizendo, pensamento so-
atitude vital eminentemente estética. mais assumir que somos os agentes bre a cibernética, era uma preo-
Minha atitude pessoal, se é que pos- únicos. O tema do ponto de vista tinha cupação central para Flusser?
so falar disso, baseia-se num misto de importância vital no pensamento flus-
pessimismo filosófico (uma noção bem Erick Felinto – Flusser tinha um
seriano porque, numa postura pró-
expressa no ensaio de Thomas Ligotti8, entendimento da cultura que passa-
xima ao perspectivismo de Viveiros
62 “The Conspiracy against the Human de Castro10, ele cria que o próprio do
va pela perspectiva cibernética. Nesse
Race”, ou seja, na constatação de que sentido, está curiosamente próximo
humano é sua capacidade de reinven-
sofremos de um danoso “excesso de da recuperação da cibernética efetuada
tar-se, de articular diferentes pontos
consciência”, com a esperança de que por vários autores da chamada “teoria
de vista e entrar em conversação com
essa percepção possa nos lançar numa da mídia alemã”, como Claus Pias12
outros universos existenciais. Essa
espécie de compaixão schopenhaueria- ou Friedrich Kittler. Depois de vários
capacidade, como sugere Katherine
na9 de comunidade com o outro. anos de obscuridade, a cibernética pa-
Hayles11 citando Flusser, é um ele-
rece agora conquistar uma sobrevida
Todos nós compartilhamos da dor e mento compensatório que necessita-
no pensamento desses autores. Para
das excruciantes contradições impli- mos para contrabalançar nossas ten-
Flusser, um sistema (seja um ser vivo
cadas na experiência do humano. O dências antropocêntricas. O exercício
ou uma máquina, por exemplo) é basi-
diálogo era parte fundamental da fi- imaginativo de ocupar o lócus existen-
camente um processador de informa-
losofia de Flusser, pois ele cria que só cial de outras entidades e outras visões
ções. Tais sistemas funcionam numa
podemos existir plenamente na relação de mundo é o que pode nos salvar de
permanente busca de equilíbrio e re-
com a alteridade. Eu sou o outro, não nosso fechamento natural em nossa
novação com o meio ambiente circun-
existo sem ele. Como ele escreveu bela- condição humana.
dante. Os processos culturais podem
mente, numa evocação de aspectos da ser traduzidos em termos informáticos,
 
tradição judaica, “nós sobreviveremos como armazenamento, transmissão
IHU On-Line – Nesse sen-
na memória dos outros”. Numa era de e processamento. O mundo aparece
tido, como o pensamento de
conexões distantes e mediações técni- como uma rede de relações de code-
cas, elaborar essa consciência de proxi- pendência entre diversas entidades.
10 Eduardo Viveiros de Castro (1951): antropólogo bra- Em tal perspectiva, o self flusseriano
sileiro, professor do Museu Nacional do Rio de Janeiro, na
7 Siegfried Zielinski (1951): é um teórico de mídia ale- Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Concedeu a manifesta-se como nó em uma rede de
mão. É diretor do Arquivo Internacional Vilém-Flusser na
Universidade de Artes de Berlim. Entre 2016 e 2018 suce-
entrevista O conceito vira grife, e o pensador vira proprietário
de grife à edição 161 da IHU On-Line, de 24-10-2005, dis-
relações dirigida por uma diversidade
deu Peter Sloterdijk como chefe da Universidade de Artes ponível em http://bit.ly/ihuon161. Entre outras publicações, de forças e fluxos sempre em movi-
e Design de Karlsruhe. (Nota da IHU On-Line) escreveu Arawete: O Povo do Ipixuna (São Paulo: CEDI), A
8 Thomas Ligotti (1953): é um escritor de terror ameri- inconstância da alma selvagem (e outros ensaios de antro- mento. Esse sujeito se adapta cons-
cano contemporâneo e figura literária cult reclusa. (Nota pologia) (São Paulo: Cosac & Naify) e Metafísicas canibais tantemente ao meio do qual participa
da IHU On-Line) (São Paulo: Cosac & Naify). Também é autor do prefácio do
9 Arthur Schopenhauer (1788-1860): filósofo alemão. Sua livro A queda do céu – Palavras de um xamã yanomami, de e precisa produzir continuamente no-
obra principal é O mundo como vontade e representação, em- Davi Kopenawa e Bruce Albert (São Paulo: Companhia das
bora o seu livro Parerga e Paraliponema (1815) seja o mais Letras). (Nota da IHU On-Line)
conhecido. Friedrich Nietzsche foi grandemente influenciado 11 N. Katherine Hayles (1943): é uma crítica literária pós-mo- 12 Claus Pias (1967): é um teórico da mídia alemã e histo-
por Schopenhauer, que introduziu o budismo e a filosofia derna, mais notável por sua contribuição aos campos da lite- riador da mídia. Ele é professor de história e epistemologia
indiana na metafísica alemã. Schopenhauer, entretanto, fi- ratura e da ciência, literatura eletrônica e literatura americana. da mídia no Instituto de Cultura e Estética da Mídia Digi-
cou conhecido por seu pessimismo. Ele entendia o budismo Ela é professora e diretora de pós-graduação no Programa de tal da Universidade Leuphana, em Lueneburg, Alemanha.
como uma confirmação dessa visão. (Nota da IHU On-Line) Literatura da Duke University. (Nota da IHU On-Line) (Nota da IHU On-Line)

30 DE SETEMBRO | 2019
REVISTA IHU ON-LINE

vas informações de modo a garantir o Erick Felinto – Como explicado a partir da ideia de uma “diferença
funcionamento dos sistemas. Lutamos acima, em Flusser a Comunicologia é a natal” ou “natalidade”. Essas expres-
permanentemente contra a entropia, rainha das ciências, e a competência da sões definem o fato de que estamos
contra a perda de energia que aflige o teoria da comunicação deve se estender continuamente nos estendendo e nos
cosmos, e nesse processo a criação do a todas as formas culturais, científicas, engajando com campos tecnológicos,
novo é um elemento fundamental. políticas, artísticas, econômicas etc. – políticos, artísticos e sociais. Somos
já que em todos esses campos se trata criaturas abertas e em constante
  fundamentalmente da transmissão de transformação. É isso que caracteriza
IHU On-Line – Como o sen- mensagens simbólicas. O homem é es- o humano, e em Flusser essa capaci-
tido da comunicação, nos ter- sencialmente um ser codificador, que dade se traduz na habilidade de sub-
mos de Flusser, se converte em codifica para dar ordem ao mundo. E verter os programas (a partir de uma
uma dimensão humanista?  atitude lúdico-estética).
trazer ordem ao mundo é também um
Erick Felinto – Para Flusser, a projeto eminentemente artístico, daí Na esfera da arte, no domínio da
Comunicologia deveria ser a rainha a centralidade da arte no pensamento criação, o homem talvez seja capaz de
dos saberes, dado que os processos flusseriano. A Comunicologia é uma transcender sua própria “programa-
comunicacionais são componentes espécie de teoria geral de todas as disci- ção”. Vale lembrar que Flusser não ti-
fundamentais da própria natureza. plinas humanas, pois sua meta é inves- nha nenhum pudor quanto a imaginar
Comunicação é troca de informação; tigar aquilo que é caracteristicamente futuros pós-humanos e modelos de
é processamento (Verarbeitung). Isso humano (a produção de símbolos e manipulação nos quais os homens pu-
não significa dizer que o novo huma- códigos). E se a comunicação realmen- dessem inclusive alterar seus corpos. A
nismo deva ser uma abordagem tecni- te pode ser traduzida num processo de obra de arte total seria, nesse sentido,
cista do homem. Se nos confrontamos negação da entropia, da morte, como uma transformação de nós mesmos –
o tempo todo com aparelhos, técnicas sugere Flusser, ela é a radical negação através da tecnologia, da manipulação
e programas, é porque necessitamos da biologia e da física. Desse modo, es- genética etc. Por que não podemos,
confrontar esses programas de forma pecula ele, a Comunicologia pode tor- por exemplo, ter um cérebro completa-
criativa, ultrapassar suas limitações nar-se, futuramente, o domínio de uma mente esférico em vez de semiesférico,
por meio da “arte” – ou seja, formas nova crença pós-religiosa (eines neuen pergunta ele. Construir novos huma-
de pensamento criativo capazes de in-
63
postreligiösen Glaubens). nismos significa, assim, a capacidade (e
troduzir o novo em todos os campos da mesmo a necessidade) do humano de
experiência cultural. Essa centralidade   reinventar-se, de se recriar, de inven-
da arte no pensamento flusseriano é IHU On-Line – Por que o ser tar novos espaços existenciais e novos
digna de nota. Para Flusser, portanto, humano, diferente das máqui- corpos. Desse modo, ao falar de pós
o humano em sua dimensão artístico- nas, mesmo sendo programado -humanismo não estamos entrando
criadora constitui elemento central dos é capaz de torcer, subverter, o somente na zona dos delírios da ficção
sistemas culturais. imperativo de sua própria cria- científica, mas lidando com um aspecto
ção? O que isso significa em ter- vital e histórico do ser humano. Somos
  mos de construir novas ontolo- sempre outros, somos sempre os alie-
IHU On-Line – O que é o con- gias e, por isso mesmo, novos nígenas de nós mesmos. ■
ceito de Comunicologia de humanismos?
Flusser? Em que sentido tal
perspectiva teórica pode ser Erick Felinto –  O filósofo alemão
compreendida como uma ci- Peter Sloterdijk13 pensa o ser humano dirige Quarteto filosófico, programa cultural da cadeia de
televisão estatal alemã ZDF. Tem inúmeras obras traduzi-
ência universal nos moldes do das para o português, como Regras para o parque humano
13 Peter Sloterdijk (1947): filósofo alemão. Desde a pu- - uma resposta à carta de Heidegger sobre o humanismo
que foi a teologia para a Idade blicação de Crítica da razão cínica, é considerado um dos (São Paulo: Estação Liberdade, 2000). No sítio do IHU On
Média, segundo a defesa do maiores renovadores da filosofia atual. Em 2004, encerrou
sua trilogia Esferas (Sphären), cujos primeiros volumes
-Line, foram publicadas várias traduções de entrevistas
concedidas pelo filósofo. Elas podem ser acessadas pela
próprio autor? foram publicados em 1998 e 1999. Interessado na mídia, busca em www.ihu.unisinos.br. (Nota da IHU On-Line)

Leia mais
- A invenção de um mundo pelas imagens sintéticas. Entrevista com Erick Felinto publi-
cada na Revista IHU On-Line, nº 419, de 20-5-2013, disponível em http://bit.ly/2lEJaM1 .
- Um futuro complexo, híbrido, incerto e heterogêneo. Entrevista com Erick Felinto publi-
cada na Revista IHU On-Line, nº 375, de 3-10-2011, disponível em http://bit.ly/orp7tJ .
- A era da memória total e do esquecimento contínuo. Entrevista com Erick Felinto publi-
cada na Revista IHU On-Line, nº 368, de 4-7-2011, disponível em http://bit.ly/mGxCcU .

EDIÇÃO 542
TEMA DE CAPA

As imagens de um novo existencialismo


Gustavo Fischer analisa como as imagens técnicas produzem
novas formas de pensar e se relacionar com o mundo
Ricardo Machado

É
a ambiguidade das imagens existenciais dos homens futuros’. É
técnicas e o crescimento de provável que nós sejamos estes homens
seus impactos no mundo con- futuros”, complementa.
temporâneo que nos convidam a pen-
O mundo contemporâneo exige que
sar nas múltiplas forças de sentidos
possamos, senão compreender o fun-
que elas operam. Flusser estava in-
cionamento das imagens técnicas, ao
teressado em pensar na forma como
menos levar em conta suas complexi-
determinados aparelhos produziam
dades. “Da mesma maneira como, de
imagens sem que soubéssemos exa-
alguma forma, as aulas de português
tamente o funcionamento de suas
nos auxiliaram (ou deveriam tê-lo fei-
caixas pretas. As câmeras fotográfi-
to) a enxergar um ‘programa’ abaixo do
cas analógicas, objetos de interesse
64 texto (no caso das análises sintáticas,
do autor, são bons exemplos de como
por exemplo) ou de nos fazer perceber
somos programados pelas lógicas dos
estilos, gêneros, estéticas, caberia esti-
aparelhos para construirmos imagens
mular, desenvolver e ampliar as capa-
do mundo, o que gera impactos sobre
cidades ‘fuçadoras’ do homem com as
a forma como devemos nos compor-
tecnologias”, descreve.
tar. A conversão da sociedade em sua
versão tecnocientífica tornou-se um Gustavo Daudt Fischer é gradua-
ambiente rico para pensarmos atual- do em Publicidade e Propaganda pela
mente nesses processos. Universidade Federal do Rio Grande do
Sul - UFRGS, com mestrado e doutora-
“As chamadas imagens técnicas são
do em Ciências da Comunicação pela
aquelas que para Flusser são mediadas
por aparelhos e na qual debruçou-se Universidade do Vale do Rio dos Sinos
para pensar a fotografia. Para o autor, - Unisinos. Entre 2001 e 2010 coorde-
o advento deste tipo de imagem (que nou os cursos de graduação de Publici-
podemos levar até os aparelhos outros dade e Propaganda, Comunicação Di-
que contêm softwares e que chama- gital e a Escola de Design da Unisinos.
mos - talvez em um ato falho Freudia- No desdobramento acadêmico de seus
no - de Smartphones) indicaria duas estudos na pós-graduação em Comuni-
tendências diferentes: uma seria de nos cação, passou a trabalhar com o campo
encaminharmos a uma sociedade tota- das interfaces digitais e suas proprie-
litária, ‘dos receptores das imagens e dades midiáticas. Em 2011 passou a
dos funcionários das imagens’ (Flusser, integrar o Programa de Pós-Graduação
2008) e a outra indicaria uma ‘socieda- em Comunicação da Unisinos, onde é
de telemática dialogante’ dos criadores professor na linha de pesquisa Mídias
e colecionadores das imagens”, explica e Processos Audiovisuais, programa
o professor doutor Gustavo Fischer, que também coordenou entre os anos
em entrevista por e-mail à IHU On de 2015 e 2019. É um dos líderes do
-Line. “A primeira, para Flusser, seria grupo de pesquisa Audiovisualidades e
mais negativa se comparada à segunda, Tecnocultura: comunicação, memória e
mas ambas indicam que ‘as imagens design.
técnicas concentrarão os interesses Confira a entrevista.

30 DE SETEMBRO | 2019
REVISTA IHU ON-LINE

“As chamadas imagens


técnicas são aquelas que para
Flusser são mediadas por
aparelhos e na qual debruçou-
se para pensar a fotografia”

IHU On-Line – Como Flusser realidade) e uma explicação da coi- minharmos a uma sociedade totali-
compreende o texto escrito e sa (conceito) e uma imagem dessa tária, “dos receptores das imagens
a imagem? Que mundos cada explicação, passaríamos a ter uma e dos funcionários das imagens”
tipo de pensamento – escrito e imagem e dela decorreria a produ- (Flusser, 2008) e a outra indicaria
imagético – produz? ção de um conceito. uma “sociedade telemática dialo-
Gustavo Daudt Fischer – Em gante” dos criadores e coleciona-
O mundo codificado (São Paulo: dores das imagens. A primeira,
IHU On-Line – Em termos de para Flusser, seria mais negativa se
Cosac Naify, 2008), uma obra fun- compreensão do mundo, qual
damental para pensar nas aproxi- comparada à segunda, mas ambas
a importância de levar em indicam que “as imagens técnicas
mações entre design e comunicação, conta a diferenciação ontoló-
talvez considerando a tecnocultura concentrarão os interesses existen-
gica entre imagens e imagens
como uma perspectiva que os reú- ciais dos homens futuros”. É prová-
técnicas?
vel que nós sejamos estes homens 65
ne, Flusser nos apresenta a ideias
de pensamento em linha e pensa- Gustavo Daudt Fischer – futuros.
mento em superfície como forma de Para Flusser, em obras como Fi-
Para tentar ser mais específico em
problematizar uma relação entre os losofia da caixa preta (São Paulo:
relação à pergunta: a importância
meios de representação e registro e Annablume Editora, 2011) e O uni-
de levar em conta esta distinção é
como, ao nos apropriarmos deles, verso das imagens técnicas (São
retirar nosso olhar habituado ao
estamos de fato entrando em modos Paulo: Annablume Editora, 2008),
uso dos meios e dispositivos de
de ser distintos no mundo, ou ain- a reflexão sobre as diferenciações
produção ou reprodução de ima-
da, nos colocam em temporalidades entre imagens e imagens técnicas
gens/conteúdos de uma cegueira
distintas. se esclarece na medida em que a
por situação, de ficarmos no hábito
primeira passa pela perspectiva de
A escrita representando o pensa- do uso e deixarmos de perceber o
entender a escrita, por assim dizer,
mento em linha nos coloca no tem- que se organiza nas camadas mate-
já inscrita em imagens como picto-
po histórico, em processo, é preci- riais e/ou temporais inscritas nes-
gramas, ideogramas e hieróglifos
so fazer a leitura para chegar-se a tes objetos técnicos. Dito de outra
remetendo a uma ideia de mundo
uma conclusão, da análise para a forma: em uma suposta “declara-
na qual se cria uma capacidade
síntese. Já o pensamento em su- ção dos direitos do usuário” deverí-
imaginativa, no sentido de imagi-
perfície, representado por Flusser amos ter o direito de compreender
nar o mundo “exterior” (se pen-
pela chegada tsunâmica das ima- o funcionamento efetivo dos algo-
sarmos nas imagens das cavernas
gens em telas, cartazes e ilustra- ritmos que aceitamos. A computa-
pré-históricas, por exemplo).
ções procederia o movimento in- ção se move rapidamente para uma
verso: primeiramente fazemos uma As chamadas imagens técnicas são (ideia de) invisibilidade, o que isso
apreensão do todo, para depois aquelas que para Flusser são me- significa?
decompormos as partes. A radi- diadas por aparelhos e na qual de-
calização desse movimento de pre- bruçou-se para pensar a fotografia.
sença maior dos “meios de superfí- Para o autor, o advento deste tipo IHU On-Line – Nesse sentido
cie” levaria à própria absorção dos de imagem (que podemos levar até como o pensamento de Flusser
“meios em linha” pelos primeiros. os aparelhos outros que contêm sof- nos ajuda a pensar os dilemas
As implicações desta reflexão, para twares e que chamamos — talvez em atuais? De que maneira, a partir
Flusser, nos levariam a um tempo um ato falho Freudiano — de Smar- de uma perspectiva flusseriana,
pós-histórico no qual, especula, ao tphones) indicaria duas tendências podemos pensar as implicações
invés de termos a “coisa” (dado da diferentes: uma seria de nos enca- sociais da Caixa preta?

EDIÇÃO 542
TEMA DE CAPA

Gustavo Daudt Fischer – Creio ciedades até mesmo consideradas uma perspectiva, ao meu ver, labo-
que estas duas questões possuem maduras e desenvolvidas, como é o ratorial-reflexiva. Esse, ao meu ver,
conexão importante. Flusser nos caso do Brexit2. é o que os estudos em Comunicação
indaga sobre nosso papel enquanto estão pedindo. Na era do frenesi ar-
funcionários ou enquanto jogadores quivístico, em que a nuvem parece
com relação ao aparelho. Manovi- IHU On-Line – O escândalo tudo poder guardar de nossas sel-
ch1, anos mais tarde, escreverá em da Cambridge analítica foi, em fies intermináveis, é preciso colocar
um texto curto chamado “Não existe certo sentido, um processo de as coisas em ação, com concretude,
mídia, só software” que as crianças dar alguma transparência à cai- produzindo imagens que pensem
devem aprender a programar. Fa- xa preta das redes sociais. Em- conceitos. Neste sentido, não se deve
la-se em alfabetização digital como bora Flusser não ofereça uma desprezar a perspectiva projetual,
já se falava antes (e ainda se men- fórmula para clarear o interior as reflexões do campo das Digital
ciona) a ideia de literacia midiática dos aparelhos produtores de Humanities entre outras iniciati-
(pedagogia para os meios, etc, etc). imagens técnicas, qual a impor- vas. Dois exemplos que me vêm: o
As caixas pretas estão cada vez mais tância de tentarmos esse exer- laboratório de Cultural Anayltics3
reluzentes, “intuitivas”, fluidas. Es- cício para compreendermos as de Manovich e uma iniciativa menos
sas e outras palavras (e muitas, mui- implicações dos dispositivos na conhecida, mas muito incisiva nesta
tas imagens) parecem construir uma democracia? visão de jogar com o aparelho: o co-
ideia ainda profundamente “mágica” Gustavo Daudt Fischer – Flus- letivo Disobidient Eletronics4.
sobre o aparelho. ser gosta de enfatizar que não se
Da mesma maneira como, de algu- propõe a produzir respostas, mas
IHU On-Line – Por que o ser
ma forma, as aulas de português nos como diz em O Universo das Ima-
humano, diferente das máqui-
auxiliaram (ou deveriam tê-lo feito) gens técnicas: “(...)embora minhas
nas, mesmo sendo programado
a enxergar um “programa” abaixo perguntas sejam mascaradas como
é capaz de torcer, subverter, o
do texto (no caso das análises sintá- respostas”. Daí depreendo um pon-
imperativo de sua própria cria-
ticas, por exemplo) ou de nos fazer to importante: interrogar o aparelho
ção? Gustavo Daudt Fischer –
perceber estilos, gêneros, estéticas, não significa negá-lo, mas é preciso
66 que se invente, ou melhor, que se
Aqui, pedirei licença para Flus-
caberia estimular, desenvolver e am- ser, para trazer Henri Bergson5
pliar as capacidades “fuçadoras” do faça o tema de casa de buscar encon-
e sua filosofia vitalista, o que
homem com as tecnologias. Creio trar/produzir redes de investigação
há é evolução criadora, não
que as consequências foram mais do e de interrogações que passem por
há como prever e matematizar
que evidentes em processos recen- o futuro com fórmulas e pres-
tes envolvendo fake news e outras crições. Estamos na duração,
2 Brexit: a saída do Reino Unido da União Europeia é ape-
estratégias que contam com a fal- lidada de Brexit, palavra-valise originada na língua inglesa somos potência e devir. A vida
sa transparência do aparelho e que resultante da fusão das palavras Britain (Grã-Bretanha) e
exit (saída). A saída do Reino Unido da União Europeia tem viverá, com suas contradições e
resultaram em situações que agora sido um objetivo político perseguido por vários indivídu- (sub)versões.
os, grupos de interesse e partidos políticos, desde 1973,
produzem grandes impasses em so- quando o Reino Unido ingressou na Comunidade Econô-
mica Europeia, a precursora da UE. A saída da União é um
direito dos estados-membros segundo o Tratado da União 3 A página está disponível em http://lab.culturalanalytics.
Europeia. A saída foi aprovada por referendo realizado em info/. (Nota do entrevistado)
1 Lev Manovich (1960): é crítico de cinema e professor junho de 2016, no qual 52% dos votos foram a favor de 4 A página está disponível em http://www.disobediente-
universitário, estabelecido nos Estados Unidos. É pesqui- deixar a UE. O Instituto Humanitas Unisinos – IHU, na se- lectronics.com/. (Nota do entrevistado)
sador na área de novas mídias, mídias digitais, design e ção Notícias do Dia de seu site, vem publicando uma série 5 Henri Bergson (1859-1941): filósofo e escritor francês.
estudos do software (software studies). Lev Manovich mu- de análises sobre o tema. Entre elas, A alma da Europa Conhecido principalmente por Matière et mémoire e L’Évo-
dou-se para Nova Iorque nos anos 1980, onde realizou depois do Brexit, artigo de Roberto Esposito, publicado no lution créatrice, sua obra é de grande atualidade e tem
seus estudos em cinema e computação. É autor de Soft jornal La Repubblica e reproduzido nas Notícias do Dia de sido estudada em diferentes disciplinas, como cinema,
Cinema: Navigating the Database (The MIT Press, 2005), 1-7-2016, disponível em http://bit.ly/2gazMuF; e O Brexit literatura, neuropsicologia. Sobre esse autor, confira a edi-
Black Box - White Cube (Merve Verlag Berlin, 2005) e The e a globalização, artigo de Luiz Gonzaga Belluzzo, publi- ção 237 da IHU On-Line, de 24-9-2007, A evolução cria-
Language of New Media (The MIT Press, 2001), que foi con- cado por CartaCapital e reproduzido nas Notícias do Dia dora, de Henri Bergson. Sua atualidade cem anos depois,
siderado como “a mais sugestiva e ampla história da mídia de 12-7-2016, disponível em http://bit.ly/2eY4F68. Confira disponível para download em http://bit.ly/109AdXn. (Nota
desde Marshall McLuhan”. (Nota da IHU On-Line) mais textos em ihu.unisinos.br. (Nota da IHU On-Line) da IHU On-Line)

Leia mais
- Arqueologia e genealogia das mídias, uma articulação necessária. Entrevista especial
com Gustavo Fischer publicada na Revista IHU On-Line, nº 375, de 3-10-2011, disponível em
http://bit.ly/2lHPpyu.

30 DE SETEMBRO | 2019
REVISTA IHU ON-LINE

Cena de Leonel Brizola (Leonardo Machado) em discurso no Palácio Piratini, sede do governo gaúcho

67

A névoa da guerra
João Ladeira

“Legalidade quase vestiu Brizola no uniforme verde de guerrilheiro insurgente. Por sorte, fo-
mos poupados da ingenuidade, mas os problemas não acabam por aí”, escreve João Ladeira1.
Legalidade (sinopse): Brasil, 1961. Quando Jânio Quadros renuncia à presidência do Brasil,
João Goulart, o vice-presidente, torna-se o sucessor natural ao cargo. No entanto, setores da
sociedade, liderados pelos militares, que dariam um golpe de estado três anos depois, clamavam
por novas eleições e pelo impedimento da posse de Jango. Liderado por Leonel Brizola (Leonar-
do Machado), o movimento Legalidade, por sua vez, buscava concretizar a posse de Jango. Em
meio à turbulência política e social, um triângulo amoroso é formado entre Cecília (Cleo Pires),
Luis Carlos (Fernando Alves Pinto) e Tonho (José Henrique Ligabue).
Eis o artigo.

Fuma-se muito em Legalidade (2019, de Zeca Brito). O filme se inicia com a bruma produzi-
da por Jânio Quadros. Brizola (Leonardo Machado) passa praticamente toda a projeção com
o cigarro nas mãos. O mesmo ocorre com os heróis inventados pelo filme, como Luis Carlos
(Fernando Alves Pinto), guerrilheiro de Sierra Maestra transplantado para o Piratini, e, é claro,
Cecilia (Cleo), a intrépida espiã.

1 João Martins Ladeira é professor na Universidade Federal do Paraná, possui doutorado em Sociologia pelo Iuperj, mestrado e graduação em Comu-
nicação pela UFF. (Nota da IHU On-Line)

EDIÇÃO 542
CINEMA

Todos aqueles envolvidos com a democracia em vertigem de Legalidade se veem envoltos nes-
sa névoa. O porão do governo do Rio Grande do Sul parece bem insalubre, nos momentos em
que o governador repete as transmissões radiofônicas que os filmes sobre Churchill usualmente
utilizam. O bar de jornalistas, centro de recrutamento das brigadas de Brizola, não é lá muito
mais saudável.
E por aí vai. Os únicos que quase não fumam são os militares. Uma vez que o palco do enredo
é Porto Alegre, sem que quase nunca sejamos transportados para as intrigas de Brasília, pode-
mos apenas imaginar como se comportariam as versões cinematográficas de Odílio Denys, Grün
Moss e Sílvio Heck. Mas Machado Lopes quase não traga, e, quando o faz, é bem discretamente.
Para Brito, a fumaça parece ser o ato revolucionário por excelência, o signo escolhido para
todos aqueles que envolveu na sua versão de 1961. Sempre que um personagem se junta a outro
para organizar uma célula em defesa de um mundo melhor, parece obrigatória a combustão de
tabaco. A névoa da guerra confunde, mas a fumaça de Legalidade é pura fantasia.

Spy vs. Spy


Isso ocorre em cada dos um dos dois filmes que Brito nos apresenta. Pois há duas histórias
correndo lado a lado. A primeira é o pretenso relato histórico. A segunda, um estranho filme
de espiões, um remake invertido de Interlúdio (Notorious, 1946, de Alfred Hitchcock), no
qual a agente brasileira, ao contrário de Alicia (Ingrid Bergman), simpatiza com o peão que
ela trabalha.
Na verdade, Legalidade se esforça por compor um pastiche de muitos filmes. Algumas colagens
são mais sutis. Jânio, enquanto fuma, escreve aquilo que parece ser uma carta de renúncia. Ao
que se sugere, a única ocasião em que o cinema brasileiro havia se aproveitado desse documento
no qual um mandatário abandona seu cargo por escrito havia sido nos registros sobre Vargas.

68 Tal ocorre em Getúlio (2014, de João Jardim), mas Legalidade encontra um jeito de se apro-
priar dessa ideia. Também não demonstra pudor em repetir o avião de Casablanca (Michael
Curtiz, 1942) quando apenas metade do casal embarca em direção a outra vida. Usualmente pro-
blemático, o drama histórico parece inofensivo frente à ingenuidade com que aqui o sepultaram.
Mas, por que perder tempo discutindo um trabalho abertamente medíocre como Legalidade?
Qual a razão de se debruçar sobre aquilo que mais parece uma paródia de filmes de guerra e
histórias de espionagem? Pois Brizola é uma desculpa fraca para uma narrativa que apenas um
fã das intrigas do Missão Impossível de Tom Cruise poderia levar a sério.

Velhice do mesmo, sem glamour


A escolha por um roteiro que dorme sonhado a si próprio
como criação de Franco Solinas, mas acorda para se des-
cobrir meio Ian Fleming, reflete uma imensa ingenuidade,
mas essa inocência serve para ilustrar algumas deficiên-
cias intrínsecas às tentativas de reconstituição histórica:
várias delas imensamente malsucedidas, algumas sempre
pelas mesmas razões.
Decerto, toda pretensão de reconstituir o passado com
fins didáticos flerta com o desastre. O primeiro perigo,
mais singelo, mais inócuo, assassina o filme em prol de
uma discussão qualquer, que começa quando as luzes se
acendem. O cinema morre em prol de um debate de sala
de aula, no qual as mazelas do mundo são explicadas para
os colegiais com a ajuda da projeção.
Isso é ruim, mas é também inofensivo. Grave se torna
o instante em que um cinema progressista descobre em
filmes como os de Costa-Gavras o ponto mais radical que
poderia chegar. Foi Serge Daney quem usou exatamente
esse exemplo, provocando sobre o quão pouco seria refil- Cartaz do filme Legalidade

30 DE SETEMBRO | 2019
REVISTA IHU ON-LINE

mar Z (1969) até o fim dos dias. Legalidade não consegue nem ao menos tocar nesse ponto, e já
é hora de abandoná-lo.
Pois existe sempre uma expectativa de demonstrar força nesses filmes. Citar novamente Daney
é obrigatório, quando ele nos lembra o quanto tais trabalhos pouco se distanciam de Raoul Wal-
sh: há o herói íntegro espiritualmente, forte fisicamente, sempre pronto a mostrar ao mundo o
que existe de melhor. O crítico francês perceberia que o espírito de Rock Hudson paira sobre o
Brizola de Brito.
Mas não é tudo. Pois há o naturalismo que parece matar de velhice esse tipo de cinema
pseudopolítico, do mesmo jeito que assassinou faz tempo o extenso legado que nos levou até o
universo dos Vingadores de Favreau, Whedon e dos irmãos Russo. Pois esse cinema não pode
existir sem sugerir que as coisas são como são, embora, ao mesmo tempo, nos apresente seus
heróis indestrutíveis.
Uma contradição? Pois sem ela não existiriam feitos gigantescos, monumentais. O contrário
seria produzir um cinema revolucionário a partir de imagens revolucionárias. O Mubi organizou
uma belíssima mostra sobre os Straub-Huillet: seria a oportunidade de perceber, de Os Não-Re-
conciliados (Nicht Versöhnt, 1965) a Othon (1970), o que se ganha ao ignorar a representação,
dissipando, assim, a névoa.■

Ficha técnica
Título original: Legalidade
Ano: 2019 69
Direção: Zeca Brito
Gênero: Drama Nacional
Nacionalidade: Brasil
Assista o Trailer em http://bit.ly/2oB4K57.

Leia mais
- Legalidade. Resenha de Neusa Barbosa, reproduzida nas Notícias do Dia de 17-09-2019,
no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU, disponível em http://bit.ly/2nWSVWs.
- A Campanha da Legalidade e a radicalização do PTB na década de 1960. Reflexos no
contexto atual. Artigo de Mário José Maestri Filho, publicado em Cadernos IHu Ideias nº
281, disponível em http://bit.ly/2oDdEiD.
- Campanha DA Legalidade 50 Anos de Uma Insurreição Civil. Cadernos IHU em Forma-
ção nº 40, disponível em http://bit.ly/2oBxQ4l.
- 1964. Um golpe civil-militar. Impactos, (des)caminhos, processos. Revista IHU On-Line,
número 437, de 17-03-2019, disponível em http://bit.ly/2miNfWu.
- Leonel de Moura Brizola 1922-2004. Revista IHU On-Line número 107, de 28-06-2017, dis-
ponível em http://bit.ly/2NcrnV5.
- Do rádio à internet: a legalidade e a mobilização popular. Entrevista especial com Chris-
ta Berger, publicada nas Notícias do Dia de 28-08-2011, no sítio do Instituto Humanitas Uni-
sinos – IHU, disponível em http://bit.ly/2n97p5A.

EDIÇÃO 542
PUBLICAÇÕES

Para arejar a cúpula do judiciário

O
Cadernos IHU Ideias, na sua edição de número 288, traz o artigo
de Fábio Konder Comparato, intitulado Para arejar a cúpula do ju-
diciário. No texto, o autor observa que “a reforma do Poder Judici-
ário, realizada pela Emenda Constitucional nº 45, de 2004, deixou de lado
os órgãos da cúpula desse Poder, notadamente o Supremo Tribunal Fede-
ral”. Comparato analisa a proposta de
Emenda Constitucional nº 275/2013,
ainda não votada. A Emenda determi-
na seja o STF transformado em Corte
Constitucional, com 15 Ministros, al-
terando-se radicalmente o processo
de sua nomeação, e reduzindo-se a
competência da futura Corte em re-
lação à vigente no STF. “As matérias
70 assim subtraídas da competência da
futura Corte Constitucional passarão
automaticamente à competência do
Superior Tribunal de Justiça, que terá
sua composição aumentada para pelo
menos 60 Ministros, cujo processo de
nomeação será equivalente ao pro-
posto para a Corte Constitucional”,
explica. No texto, o professor ainda
defende que seja suprimida a respon-
sabilidade dos membros dessa Corte
pelos chamados crimes de responsa-
bilidade, extinguindo-se o instituto
do impeachment e recompondo-se a
responsabilidade criminal do Minis-
tros da Corte Constitucional e do Su-
perior Tribunal de Justiça.
A versão completa deste Cadernos
IHU Ideias está disponível em http://
bit.ly/2nANgpf.
Estas e outras edições dos Cadernos
IHU Ideias também podem ser obti-
das diretamente no Instituto Huma-
nitas Unisinos - IHU, no campus São
Leopoldo da Unisinos (Av. Unisinos, 950), ou solicitadas pelo endereço hu-
manitas@unisinos.br. Informações pelo telefone (51) 3590-8213.

30 DE SETEMBRO | 2019
REVISTA IHU ON-LINE

Outras edições em www.ihuonline.unisinos.br/edicoes-anteriores

Vilém Flusser: Um comunicólogo


transdisciplinar
Edição 399 – Ano XII – 20-8-2012

A vida e obra do filósofo e teórico da mídia Vilém Flusser são descri-


tas, comentadas e analisadas nessa edição da IHU On-Line. E dois textos
dele, inéditos, são publicados. Indisciplinado e polêmico, Flusser não foi
nada tradicional, academicamente falando. “Seu discurso não era um
que a academia aceitasse com facilidade, porque ele dava saltos entre di-
versas formas de conhecimento; não era um pensamento sempre lógica e
rigorosamente estruturado”, avalia o professor da Universidade Estadu-
al do Rio de Janeiro – UERJ, Erick Felinto de Oliveira.

Arqueologia da mídia. Um passado presente


71

Edição 375 – Ano XI – 3-10-2011

“Não aceitamos a ideia de que a mídia tenha sido inventada no século


XIX com o advento da fotografia, telefonia e cinematografia, ou seja, que
a mídia seja resultado da industrialização”. Assim o pesquisador alemão
Siegfried Zielinski compreende a arqueologia da mídia, conceito por ele
criado e que inspira o debate da IHU On-Line dessa semana.

Midiatização. Um modo de ser em rede


comunicacional

Edição 289 – Ano IX – 13-4-2009

O complexo processo da midiatização da sociedade é o tema ao qual di-


versos estudiosos têm se dedicado nos últimos dez anos. Nesta edição da
revista IHU On-Line, Pedro Gilberto Gomes, José Luiz Braga, Antonio
Fausto Neto e Jairo Ferreira, pesquisadores do Programa de Pós-Gradu-
ação em Comunicação da Unisinos, ajudam a compreender o fenômeno.

EDIÇÃO 542
ihu.unisinos.br | ihuonline.unisinos.br
twitter.com/_ihu bit.ly/faceihu bit.ly/instaihu bit.ly/youtubeihu