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História Oral

História oral e história do tempo presente

www.revista.historiaoral.org.br
ISSN 2358-1654

História Oral – Órgão oficial da Associação Brasileira de História Oral, Rio de Janeiro, ABHO,
v. 17, n. 1, jan./jun. 2014. O presente dossiê foi organizado por Carla Simone Rodeghero e
Márcia Ramos de Oliveira.
A revista História Oral está indexada no Sistema Latindex Indexador de Revistas Científicas da
América Latina, Caribe, Espanha e Portugal: <http://www.latindex.org>.
Gestão 2012 – 2014
Diretoria da ABHO
Presidente: Francisco Alcides Nascimento (UFPI)
Vice-Presidente: Carla Rodeghero (UFRGS)
Tesoureiro: Robson Laverdi (Unioeste)
Secretária Geral: Lucia Grinberg (Unirio)
2ª Secretária: Márcia Ramos (UDESC)
Diretoria Regional Norte: Tereza Almeida Cruz (UFAC)
Diretoria Regional Nordeste: Juciene Apolinário (UFCG)
Diretoria Regional Centro-Oeste: Eloísa Pereira Barroso (UNB)
Diretoria Regional Sudeste: Maria Elena Bernardes (Unicamp)
Diretoria Regional Sul: Cézar Karpinski (UNILA)
Conselho Fiscal
Marco Aurélio Santana (UFRJ)
Marcos Montysuma (UFSC)
Gisafran Jucá (UECE)
Conselho Científico
Alice Beatriz Lang (USP)
Amílcar Pereira (UFRJ)
Anna Maria Costa (Funai)
Carla Monteiro (UFRR)
Giovani José da Silva (UFMS)
Regina Beatriz Guimarães (UFPE)
Regina Weber (UFRGS)
Rodrigo Patto Sá Motta (UFMG)
Samantha Quadrat (UFF)
Têmis Parente (UFT)

Revista História Oral


Editora
Carla Simone Rodeghero (UFRGS)
Comitê Editorial
Ana Mauad (UFF)
Benito Schmidt (UFRGS)
Maria Paula Araújo (UFRJ)
Tânia de Luca (UNESP-Assis)
APRE S E NTAÇ ÃO

O dossiê História oral e história do tempo presente visou reunir traba-


lhos que refletissem sobre as aproximações entre a história oral e a história do
tempo presente. A proposta incluía a discussão acerca da constituição da memó-
ria, da emergência dos testemunhos, do protagonismo dos atores individuais e
coletivos e do uso da documentação oral, bem como da oralidade midiatizada
(nos produtos da indústria da cultura e da comunicação e nas novas formas de
narração e de constituição dos acervos audiovisuais e sonoros). O conjunto dos
trabalhos aprovados permite dar conta de parte desses desafios.
No artigo de Fernando Cesar Sossai e Ilanil Coelho são evidenciadas as
sensibilidades e práticas associadas ao lazer nos meios urbanos, especialmente
entre grupos de idosos. Os seus relatos permitem complexificar o entendimento
da noção de velhice e das transformações ocorridas na cidade de Joinville (SC)
nas últimas décadas. O texto de Anita Lucchesi se debruça sobre a publica-
ção crescente de testemunhos orais na internet. A autora atenta para as tensões
entre memória e consciência histórica nesse espaço público e busca contribuir
para o debate acadêmico sobre história pública e história digital. O artigo de
Silvia Maria Fávero Arend discute as transformações na filiação adotiva no
final do século XX, elegendo como foco a cidade de Florianópolis e utilizando
fontes orais. Relatos de filhas e filhos adotivos permitiram captar significados
atribuídos à adoção, com suas permanências e transformações. O trabalho de
Marcos Oliveira Amorim Tolentino, por sua vez, discute La Noche de los Lápi-
ces, emblemático episódio repressivo da ditadura civil-militar argentina (1976-
1983), a partir da fala de sobreviventes. O dossiê conta, ainda, com o artigo de
Viviane Trindade Borges e Juliane Conceição Primon Serres sobre os pacien-
tes do antigo Hospital Colônia Itapuã, instituição destinada ao tratamento da
hanseníase localizada em Viamão (RS). As autoras apresentam o projeto que
deu origem a mais de duas dezenas de entrevistas com antigos pacientes e refle-
tem sobre questões como o isolamento e o estigma em torno de tais pessoas.
O artigo de Sônia Meneses, na seção Multimídia, dialoga com questões
políticas do tempo presente ao analisar “o papel do testemunho na produção
de memórias sobre o golpe de 1964”, a partir de três documentários produzi-
dos entre 1985 e 1996. Nesse material, explora questões como luto, constru-
ção de identidades e busca por reparação. Na seção Artigos variados, contamos
com quatro trabalhos. Angela de Castro Gomes faz um balanço dos 20 anos de
6 Apresentação

existência da Associação Brasileira de História Oral (1994-2014), que lhe per-


mite sustentar a importância que a organização dos praticantes da metodologia
teve ao longo das duas décadas. Entre as variáveis analisadas, destacamos a obser-
vação da composição das diretorias nacionais, os temas dos encontros nacionais
e os dossiês publicados na revista História Oral. Alberto Sosa Martos estuda as
transformações nas oficinas ferroviárias de Tafí Viejo, em Tucumán (Argen-
tina), buscando esclarecer os impactos, para os trabalhadores, das políticas de
privatização colocadas em prática durante os governos de Carlos Menem (1989-
1999). Registros de memória dos trabalhadores sobre esse processo, captados
pelas fontes orais, indicam que eles veem a década de 1990 não como o início do
processo, mas como a culminância de uma política que teria iniciado nos anos
1960. O artigo de Magno Francisco de Jesus Santos, por sua vez, analisa a roma-
ria do Senhor dos Passos, que reúne mais de cem mil romeiros na cidade de São
Cristóvão, no Sergipe. As fontes orais são usadas para problematizar o processo
de reconhecimento da romaria como patrimônio imaterial do povo sergipano
e dão acesso aos variados modos de apropriação desse bem simbólico. Bárbara
Araújo Machado, finalmente, apresenta a trajetória da escritora negra mineira
Conceição Evaristo, a partir de entrevistas e depoimentos da protagonista, par-
tindo das situações de racismo vivenciadas na infância, passando pelo engaja-
mento no Movimento Negro e chegando ao ingresso no campo da literatura.
O presente número de História Oral traz, ainda, uma entrevista com
Sereno Chaise, liderança trabalhista gaúcha, apresentada por Claudira Car-
doso, Gustavo Coelho Farias e Laura Ferrari Montemezzo. O relato traz
aspectos da trajetória política de Chaise, transitando por situações vivencia-
das por ele desde a década de 1940, passando pelo golpe de 1964 – quando
era prefeito de Porto Alegre –, até o momento em que a entrevista foi reali-
zada (em 2008 e 2009).
Agradecemos aos/às colegas que submeteram seus artigos e àqueles/as
que elaboraram os pareceres a partir dos quais foi possível distinguir, entre
as três dezenas de trabalhos recebidos, quais seriam publicados no presente
número de História Oral. Desejamos a todos/as uma boa leitura, na expecta-
tiva de que o material aqui apresentado contribua para o aprimoramento e a
complexificação do uso da história oral e ajude os pesquisadores envolvidos
no desafio de lidar com questões do tempo presente.

Carla Simone Rodeghero


Márcia Ramos de Oliveira
ART I GO S VARI AD O S

Un largo camino a la privatización:


memoria y resistencia de los trabajadores de los
Talleres de Tafí Viejo (Tucumán, Argentina)

Alberto Sosa Martos*

El presente trabajo recorre algunos procesos y transformaciones


que experimentaron los obreros de los Talleres ferroviarios de Tafí Viejo
durante la década de los 90, en el contexto de privatización ferroviaria argen-
tina. Nuestro enfoque abordará el impacto que causó dicha política priva-
tista en una comunidad emblemáticamente ferroviaria. Analizaremos las
transformaciones en la subjetividad e identidad de los trabajadores y cuáles
son las nociones que construyen en torno a ese pasado reciente, por cierto
traumático, este grupo de obreros. A su vez, identificaremos las estrategias
de resistencia que emplearon los trabajadores frente al proceso privatista, sus
logros y contradicciones en un contexto marcado por la incertidumbre y la
precarización laboral.
Tafí Viejo,1 como otras tantas comunidades del país vinculadas al ferro-
carril padeció en carne propia el proceso de privatización, desestructuración
y, porque no, tupacamarización (Cena, 2003) de su estructura industrial
ferroviaria.
Los cambios experimentados en esta localidad, no son más que una
pequeña muestra del proceso de transformaciones que sufrieron cientos de

* Profesor de Historia en la Facultad de Filosofía y Letras de la Universidad Nacional de Tucumán


(UNT). Doctorando en Humanidades (con orientación en historia) en la UNT. Becario doctoral Tipo
1. Temas Estratégicos. Consejo Nacional de Investigación Científicas y Técnicas (CONICET).
1 Tafí Viejo es una localidad ubicada a 20km de San Miguel de Tucumán. Desde 1910 comenzaron a
funcionar los talleres ferroviarios provocando un intenso dinamismo económico en aquella localidad.
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comunidades ligadas a este sistema de transporte e industria. Localidades


que se desarrollaron al calor del impulso ferroviario como Talleres de Laguna
Paiva (Santa Fé), Córdoba, Tolosa (Buenos Aires), Remedios de Escalada,
Liniers y Tafí Viejo etc. Todos ellos desembocaron en procesos similares con
la profundización de las políticas neoliberales de la década de 1990, estos
emplazamientos ferroviarios pasaron a ser elementos prescindibles a la luz
de la lógica de racionalización y privatización de la red ferroviaria. Muchos
talleres desaparecieron totalmente convirtiéndose en recuerdos de un pasado
ferroviario.2
Dicho impacto sobre el conjunto de la sociedad argentina no puede ser
analizado estrictamente desde variables económicas sino por el contrario,
la implementación del proyecto neoliberal obliga a ampliar la mirada para
indagar las consecuencias de dicha transformaciones, teniendo en cuenta los
profundos cambios que se evidenciaron en el mundo del trabajo y lo que ello
implica como estructurador de los espacios de la cotidianeidad y subjetividad
de los individuos.
Entendiendo esta necesidad epistemológica para el abordaje de lo subje-
tivo, creemos apropiado el análisis a partir de las herramientas proporciona-
das por la historia oral. El presente trabajo está elaborado en base al rescate de
narrativas de ex obreros ferroviarios entrevistados entre los años 2010 y 2013.

Un largo camino a la privatización

El desmantelamiento del sistema ferroviario Argentino que se concretó


en la década de 1990 con la privatización de la totalidad de las líneas que inte-
graban la Empresa Ferrocarriles Argentinos es resultado de un conflicto de
largo tiempo y el desenlace de un proceso complejo, que aglutinaba la disputa
de distintos sectores que actuaron por casi treinta años en la implementación
de políticas tendientes a la racionalización del ferrocarril en el mercado de
cargas y pasajeros. Distintos intereses tanto de grupos económicos nacionales
como internacionales agudizaron el debate sobre privatizar o continuar el
estatismo sobre el ferrocarril.

2 Un reflejo sobre las consecuencias de la desaparición del ferrocarril en los pueblos del interior, puede
advertirse en el documental de Fernando “Pino” Solanas (2008), La próxima estación.
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Fueron estos grupos económicos que desde principios de la década de


1960, utilizaron al estado como caja de resonancia instalando ideas respecto
a la necesidad urgente de un nuevo gerenciamiento del ferrocarril. A partir
de allí se comenzó a conformar y consolidar la idea de “racionalizar” el trans-
porte ferroviario, si bien es cierto que dicho sistema presentaba serias difi-
cultades desde mediados de los 50 en cuanto a su rentabilidad y renovación
tecnológica, la privatización y el achicamiento fueron lentamente ganando
terreno como la solución necesaria al problema férreo.
Otro elemento que se sumó a la delicada situación ferroviaria, fue la per-
dida en el volumen de carga y pasajeros que el ferrocarril empezó a perder a
causa del avance del transporte automotor vinculado especialmente a capita-
les extranjeros. Esta disputa de un mercado en común (carga y pasajero) entre
las empresa pública (ferrocarril) y la privada (automotriz), planteó indefecti-
blemente la reducción en la participación del coloso ferroviario.
Siguiendo la situación descripta anteriormente, el primer intento de
racionalización a gran escala del sistema ferroviario fue el proyecto presen-
tado durante la presidencia de Arturo Frondizi (1958-1962), cuyo aseso-
ramiento estuvo dado por el Banco Mundial y el estado Norteamericano.3
El proyecto estipulaba una racionalización abrupta del sistema mediante el
levantamiento de ramales y la reducción de personal. Dicho plan no logró
aplicarse en su totalidad, debido a la férrea resistencia del movimiento
obrero y las débiles condiciones que presentaba el gobierno radical de Arturo
Frondizi.
A pesar de no haberse aplicado el Plan Larkin, los años 60 represen-
tan un período bisagra en el mundo ferroviario ya que los bloques de poder
dentro y fuera del estado lograron consolidar la idea del ferrocarril como un
medio de transporte atrasado y deficitario, urgido en la necesidad de una pro-
funda reforma.4 Por ello, el desarrollismo de Frondizi apostó al crecimiento
de la industria automotriz ya que representaba un avance tecnológico en
materia de transporte a pesar de reforzar los lazos de una economía vinculada
a capitales extranjeros.

3 “El plan de Largo Alcance” destinado a la racionalización y disminución del déficit ferroviario fue uno
de los primeros planes sistemáticos de reducción a la empresa ferroviaria. Denominado por los sindica-
tos como Plan Larkin, generó la huelga de 42 días en 1961.
4 La política ferroviaria de Frondizi estuvo marcado por los distintos períodos que atravesó su gestión. La
política de reducción del déficit ferroviario, se intentaron introducir bajo los ministros Álvaro Alsogaray
y Roberto Alemán (López; Waddel, 2007).
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En este contexto la industria ferroviaria que había gozado de cierta hege-


monía como medio de transporte desde fines del siglo XIX, comenzaba a ser
duramente cuestionado. Los períodos de gloria del ferrocarril y el orgullo de
ser “ferroviario” por parte de sus trabajadores quedaban atrás, a partir de este
cambio de paradigma los “ferroviarios fueron los responsables del déficit del
país”.5
Pero de la misma forma en que los grupos de poder instalaban la idea de
disminuir las dimensiones de la empresa ferroviaria, el movimiento obrero
en contrapartida fue consolidando su identidad y su retórica en torno a la
resistencia y defensa de los puestos de trabajo. En muchos relatos se asocia la
defensa del ferrocarril como una causa nacional en defensa de los intereses de
la patria.
Estas experiencias de lucha y resistencia que planteó el movimiento no
representan una novedad. El movimiento obrero ferroviario posee una histo-
ria centenaria en experiencias de lucha, ya que fue uno de los interlocutores
vitales en la acción sindical de la primera mitad del siglo XX.6
En este sentido esta experiencia previa se puso a prueba en los años 60 y
70, estas décadas dejaron una marca insoslayable en la memoria del conjunto
de trabajadores ferroviarios. Estos procesos grabados en la memoria de los
trabajadores pueden advertirse con cierta similitud en distintas localidades
ferroviarias, lo que nos da la pauta que en esta época se prefigura un plan
nacional y sistemático de reducción ferroviaria. En el caso concreto de los
obreros ferroviarios de Tafí Viejo, las décadas de los 60 y 70 son recorda-
dos con gran tensión. El pasado es evocado con elementos que se repiten
y están presentes en la mayoría de los relatos surgidos de las entrevistas: el
plan Larkin, la gran huelga de 1961; la dictadura militar, la represión, y el
achicamiento/disminución de la actividad. Ambas décadas se presentan de
forma reiterada en los recuerdos de los trabajadores señalados como períodos
claves que produjeron cierto efecto en su identidad. Entendiendo la identi-
dad como un proceso dialéctico, surgido de la relación dialéctica del mundo
interno del sujeto con el mundo externo, esta construcción es condicionada

5 El argumento del déficit ferroviario se fue repitiendo a largo de todo el período, es pertinente recordar al
periodista Bernardo Neustadt durante los 90 hablar sobre el costo que tenía para la sociedad argentina
seguir manteniendo bajo las alas del estado al ferrocarril.
6 El gremialismo ferroviario se estructuró en diferentes organizaciones: La Fraternidad agrupando a
maquinistas, Unión Ferroviaria representando al grueso de los obreros y APDFA (Asociación del perso-
nal de dirección de Ferrocarriles Argentinos) que nuclea al personal jerárquico de dirección.
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social e históricamente y en dicha construcción de carácter continuo se da


la conjunción de elementos contradictorios que se mantienen en tensión y
lucha a lo largo de toda la vida del sujeto (Racedo et al., 2004).
Por ello para muchos obreros, estos períodos marcan el comienzo de una
crisis donde su práctica, conciencia e identidad fue orientándose a la resisten-
cia (Cena, 2009); pero además surgió la imperiosa necesidad de organizar un
relato común del pasado, una memoria colectiva unificada. Para estos traba-
jadores los 60 son la clave que permiten explicar “el desastre ferroviario” que
culminaron con la privatización en los 90. Esta noción de continuidad es
parte de lo que pervive y se reproduce en las memorias.
A continuación, presentamos fragmentos del corpus de entrevistas rea-
lizadas a trabajadores de los talleres de Tafí Viejo (peón, soldador y técnico)
que son representativas en el sentido que reflejan la noción de crisis construi-
das desde los sectores obreros:

Es que en el 61 comienza todo el desastre ferroviario. Entonces trasladan la


fundición a Córdoba, lo empiezan a romper, es decir el corazón del taller lo
mandan a Córdoba, que es la fundición entonces se deja de fundir. Enton-
ces que pasa desaparece la locomotora a vapor. Yo te digo estos talleres en el
año… que se inauguran eran para hacer locomotoras a vapor, reparación de
locomotoras a vapor que hoy en el día servirían pero desgraciadamente ha
venido el patilludo este y ha hecho desastre en general, YPF en todos lados
a destrozado como país. ( Juan Tomás, 2013).

Y en el año 1961 se viene la gran indemnización, aquí en los ferrocarriles,


era el famoso plan Larkin y de ahí empieza el debate de la industria ferro-
viaria desde el año 61 para acá, plan trazado bien sistemáticamente para la
destrucción del ferrocarril. (Raúl, 2013).

[…] hay que aclarar que la decadencia no es solo del taller, el taller no es un
ente aislado porque no era solamente Tafí Viejo. A lo largo del país, en las
seis líneas había muchos talleres […] Pero es por una política anti Argen-
tina, una política sectorial, por eso muchos dicen no hables de política,
pero todo tiene que ver… con la política anti ferroviaria, que se inicia con
un plan Larkin, originario en Estados Unidos. Larkin es un general, una
política hecha para toda América por el auge del automotor que se basa en
el crecimiento del negocio petrolero. Estados Unidos es un país netamente
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capitalista donde los parámetros en los que se movieron siempre fueron el


gran negocio, con las petroleras, con la variable del petróleo se desarrolla-
ron los motores. […] Entonces ellos hicieron una política basada en ese sis-
tema y empezaron a atacarlo al ferrocarril, disminuir el transporte en ferro-
carril para aumentar el de camiones, de ómnibus. (Miguel Ángel, 2010).

En los tres relatos existe una clara coincidencia en cuanto a situar el


comienzo de la debacle ferroviaria en el año 1961. Ninguno de los entrevis-
tados señaló otro momento histórico ante la pregunta “¿Cuándo comienza
para usted la crisis en el ferrocarril?”
Evidentemente existe un imaginario construido acerca de la crisis fer-
roviaria como un proceso que atravesó varias décadas, incluso a pesar que la
profundidad de las denominadas políticas anti ferroviarias aplicadas en los 60
representaron una nimiedad en comparación a las medidas empleadas a partir
de 1990. Por ejemplo, al analizar la construcción temporal sobre la crisis que
hace en su narrativa uno de los entrevistados –el obrero Juan Tomás– pode-
mos percibir la presencia de distintos períodos que corresponden a momentos
que afectaron sensiblemente la capacidad productiva de los talleres. Existe una
clara articulación entre distintas temporalidades tanto personales como colec-
tivas, incluso el presente se cuela en dicha narrativa. Ese uso temporal y colec-
tivo que se desprende de la memoria se relaciona con lo indicado por Dora
Schwarzstein (2001) referido a como el proceso de recordar nunca es algo
estrictamente individual sino por el contrario colectivo y determinado por un
proceso cambiante. La memoria adquiere distintas significaciones en torno a
los condicionantes que impone el presente. Ese aspecto colectivo de la memo-
ria se refleja en aquellos puntos claves para la historia del taller como fueron
el año 61 (gran huelga contra el plan Larkin), el año 78 (los talleres pierden
la fundición, a pesar que el entrevistado lo ubica en año 61) y la llegada del
“patilludo” (haciendo alusión a Carlos Menem y su política privatista).
¿Cuál es la causa que genera que estos tres obreros, con experiencias,
edades y oficios distintos, puedan hacer la misma significación de un perí-
odo? Desde las conceptualizaciones realizadas por la psicología social pode-
mos decir que existen procesos identitario que se vinculan con un espacio
y una historia en común. Uno de los espacios sumamente importante en la
experiencia de todo individuo es el ámbito del trabajo como afirma Zulma
Segura, “la relación con el trabajo es fundamental para nombrase desde la
continua lucha para subsistir. El decirse a partir de un nosotros, es la forma
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de producción popular más auténtica, marca profunda de identidad, que per-


mite reconocerse en y con los otros como parte de una misma situación his-
tórica” (Racedo et al., 2004, p. 176-177). Por ello el trabajo resulta un condi-
cionante determinante de las prácticas que se desarrollan en la vida cotidiana
y representan un elemento estructurante de la subjetividad (Quiroga, 2002).
El plan Larkin y la huelga del año 61, son expresiones de acontecimien-
tos que modificaron la cotidianeidad de dichas relaciones laborales estructu-
radas desde una cierta dinámica y bajo un imaginario fuertemente arraigado
en la tradición ferroviaria, es decir “el ferrocarril como símbolo de progreso y
estabilidad laboral” (Rinaldi; Funes, 2009). Este imaginario se quiebra abso-
lutamente en esta década y la memoria de sus trabajadores produce indefecti-
blemente una asociación negativa con el período.
Los ferrocarriles pasaron de ser el transporte del progreso y la moderni-
dad como se habían planteado en la lógica liberal a fines del s. XIX, a cons-
tituirse en un transporte atrasado y deficitario que impide el desarrollo de la
nación. Entendiendo al trabajo como una parte estructurante del ser humano,
“sin el trabajo, como sin el lenguaje no puede ser pensada la especificidad del
hombre” (Rieznik, 2001, p. 5). Este cambio en las relaciones en el mundo del
trabajo ferroviario implicó la formulación e identificación con un pasado en
común, un discurso de la historia como trabajadores, en este sentido la huelga
del año 61 tiene la significación de ser tomada desde el relato de estos obreros
como un punto de partida para una historia, que por casi treinta años llevará
al movimiento ferroviario a un proceso de lucha y resistencia ante el ataque
sistemático de su fuente de trabajo.
A este discurso que podríamos denominarlo “decadente”, producida por
la memoria de los trabajadores se acopla otro período: los años de dictadura
a partir de 1976. Si bien luego del plan Larkin no se volvió a plantear progra-
mas tan ambiciosos sobre racionalización y reducción del sistema ferroviario,
por lo menos hasta su privatización a partir de 1990, la etapa de la dictadura
es incorporada a este relato teñido de decadencia.
Los recuerdos sobre estos años de dictadura en el taller giran en torno a
dos ejes: la represión militar,7 y el traslado de la fundición y el posterior cierre
del taller en 1980.

7 La represión que aplicó el golpe militar de 1976 sobre los trabajadores de los talleres de Tafí Viejo, tuvo
como objetivo desactivar el movimiento sindical provocando la desaparición de 18 obreros. Por razones
de espacio no desarrollaremos en profundidad los aspectos relacionado con la represión.
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En relación el cierre de la fundición, tal vez es uno de los recuerdos más


recurrentes en la memoria de los trabajadores, fue para muchos la sección
que constituía el corazón de dicha fábrica, era lo que daba identidad a estos
talleres:

Había una hermosa fundición que ha trabajado 50 años, todo eso han
empezado a querer desmantelar. Entonces nosotros veíamos que ya nos
empezaban a achicar, ya la gente que se jubilaba no se reemplazaba. Había
gente de fundición que la trasladaron a Laguna Paiva, entonces ya nos
empezaban a achicar. (Héctor, 2013).

Desde otro relato, se adjudica a este suceso la muerte lenta pero cons-
tante del taller. Cito:

[…] en el 78 nos llevan a Córdoba la fundición, nos quedamos sin fundi-


ción. Hacen desaparecer la calderería de caldera que reparaba máquinas de
vapor. En ese momento que desaparecen calderería de caldera, ya van desa-
pareciendo dos secciones en ese momento… ya no se fábrica más maquinas
a vapor, pero la fundición la llevan a trabajar allá. Y es algo que queremos
que vuelva acá, que estamos luchando para volverla a instalarla a la fundi-
ción en Tafí Viejo. (Pablo, 2013).

Es pertinente señalar que el traslado de dicha fundición está enmarcado


en el proceso de reconversión del parque de locomotoras a vapor a locomo-
toras diesel. Dicho proceso de reconversión ya había comenzado a mediados
de los años 50, sin embargo, los vaivenes de la política ferroviaria retrasa-
ron dicho proceso. Fue recién a mediados de los 60 cuando con cierto vigor
se impulsó la compra de locomotoras diesel para el reemplazó definitivo de
las viejas locomotoras a vapor, proceso completado finalmente por la dicta-
dura de 1976 (Megascini, 2011). Por ello, el traslado de la fundición tuvo un
impacto también desde lo subjetivo en los trabajadores, ya que simbolizó el
advenimiento de una nueva época donde sus saberes, habilidades y conoci-
mientos técnicos ya no tenían lugar. Esto podemos advertirlo en la narrativa
del obrero Pablo donde reflexiona desde el presente la necesidad de reabrir la
fundición. Situación que a pesar de ser poco factible nos releva el significado
que posee esta sección de la fábrica en la subjetividad de sus trabajadores ya
que representa los tiempos de gloria del taller, los tiempos donde el taller
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era productivo. Volvemos a advertir que la memoria no actúa solamente en


relación al recuerdo/ pasado, sino también influye concretamente generando
aspiraciones a futuro (Schwarzstein, 2001).
Este cambio tecnológico impuso transformaciones drásticas en la fun-
cionalidad productiva de los talleres de Tafí Viejo, ya que su propósito origi-
nal había sido la reparación de locomotoras a vapor, tecnología que en 1970
significaba un anacronismo para la industria. Frente a esta situación muchos
obreros interpelan argumentando que nunca existió una política para recon-
vertir el taller a la especialización de reparación de máquinas diesel, estos
anhelos a más de treinta años de distancia forman parte de un sentimiento
que con cierta nostalgia, buscan todavía explicaciones a aquellos sucesos
dolorosos que dejó el cierre del taller.
La dieselización ferroviaria aumentó la dependencia tecnológica del
país no sólo por la compra de locomotoras, sino además por el flujo constante
de repuestos que comenzó a necesitar el nuevo sistema. Por otro lado, la die-
selización puso fin a la necesidad que los talleres de Tafí Viejo conserven su
fundición provocando su desmantelamiento en 1978, y dos años después en
1980 la dictadura bajo la lógica de prescindibilidad y de un nuevo esquema
ferroviario nacional, cuyos argumentos estaban basados en una supuesta efi-
cacia y reducción del gasto público, dispuso el cierre total de dicha estructura
ferroviaria.
Con la utilización de instrumentos como Jubilaciones anticipadas, inde-
mnizaciones y renuncias forzadas, la dictadura pudo llevar a cabo la reducción
de los mil setecientos operarios. Sin embargo, a pesar de la presión impuesta
por la dictadura un pequeño grupo no renunció lo que permitió evitar la
depredación total del taller durante los años que el taller estuvo clausurado.
Esta política de racionalización ferroviaria de la dictadura tuvo un
alcance nacional, debido a que no solo Tafí Viejo sufrió su cierre en 1980
sino previamente en 1977 los talleres de Cruz del Eje en Córdoba fueron
desactivados (Roldan, 1984). Este proceso de reducción de la participación
del estado en la fabricación de elementos para la industria ferroviaria, pro-
ducto de la desactivación de los talleres estatales favoreció de forma directa a
la industria privada donde por ejemplo talleres como Materfer, Siam di Tella,
Fiat comenzaron a cubrir el mercado proveyendo de material rodante a esta
nueva etapa dominada por las locomotoras diesel.
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El menemismo y la desmantelación de los talleres

El retorno de la democracia bajo la presidencia de Raúl Alfonsín (1983-


1989), significó la reactivación de los talleres de Tafí Viejo y de alguna manera
un freno a las políticas de achicamiento que se habían aplicado durante los
años de dictadura. En el caso concreto de Tafí Viejo, Raúl Alfonsín cumplió
su promesa preelectoral de reapertura de dichos talleres Concretándose la
misma el 3 de agosto de 1984, sin embargo la reapertura no pudo revertir en
su totalidad la situación que había generado el cierre.
La reapertura se concretó con la reincorporación de tan solo 400
obreros y muchas de las secciones clausuradas por la dictadura no fueron
reactivadas. En el aspecto productivo, los talleres de Tafí Viejo quedaron
orientados a ser solamente como una planta dedicada a la reparación de vago-
nes de carga. Estas limitaciones en torno a la política ferroviaria, se debió
en gran parte a la compleja situación que atravesó el gobierno de Alfonsín
que imposibilitó un desarrollo y modernización de la industria ferroviaria
evidenciando ciertas tendencias del camino que seguiría la política ferrovia-
ria durante la democracia, muestra de ello fue el “plan Terragno” uno de los
primeros intentos de privatización ferroviaria en democracia.
Con la llegada de Carlos Menem (1989-1995 y 1995-1999) previa
entrega anticipada del poder por parte de Alfonsín y con una situación com-
pleja desde lo económico, el menemismo encarna una construcción hegemó-
nica de la política.
El proyecto neoliberal del menemismo se pone en funcionamiento a
partir de la concreción de una serie de leyes fundamentales que permitieron
abrir las puertas al proceso privatización del patrimonio estatal, estas leyes
son la de Reforma del Estado y Emergencia Económica.
Dicho proceso de reforma le permitirá al menemismo en un tiempo
relativamente corto, ir construyendo una hegemonía política. Esta situación
se concreto debido a la estabilización de la inflación, medida que generó
cierto consenso y un importante apoyo de los sectores medios y bajos que
habían sido golpeados fuertemente por los procesos hiperinflacionarios de
mediados de los 80 (Pucciarelli, 2011; Bonnet, 2007).
La implementación del neoliberalismo no debe ser entendida exclusiva-
mente como un proyecto económico impulsado por el capital internacional,
sino también un cambio de paradigmas y concepciones que las sociedades
História Oral, v. 17, n. 1, p. 193-218, jan./jun. 2014 203

habían construido sobre el trabajo, el estado y el mercado desde mediados del


siglo XX bajo los lineamientos del estado de bienestar (Vilas, 2000; Murillo,
2012). Estas lógicas fueron abruptamente subvertidas por un dogma tota-
lizante denominado neoliberalismo, que fue la expresión más agresiva del
capital financiero en busca de un nuevo reparto de la renta. En este sentido
Claudia von Werlhof (2011, p.106) agrega “lo más novedoso del neolibe-
ralismo actual es su funcionalidad como modelo generalizador y homoge-
neizante aplicado a todas las áreas de le economía y todos los sectores de la
sociedad…”.
Esta avanzada del capitalismo pudo concretarse a partir de la participa-
ción de sectores internos, que lograron aplicar dichas reformas a la realidad
Argentina. La instauración de dichas lógicas, estuvo marcada por un proceso
que con cierto consenso académico se inició durante la dictadura de 1976 y
se profundizó a partir de la década de 1990.
En esta construcción hegemónica del consenso político y la urgencia por
llevar adelante las reformas necesarias. El menemismo provocó una desarti-
culación abrupta en las relaciones que se establecían en el mundo del trabajo,
rompiendo abruptamente con la tradición que existían entre los trabajadores
de las empresas pertenecientes al estado.
Estas transformaciones en el mundo del trabajo generaron profundos
debates académicos, particularmente en lo que atañe al rol del movimiento
sindical en el contexto del neoliberalismo. Recientes estudios centraron su
temática en los alcances y límites del accionar sindical en la defensa de los
derechos de los trabajadores.
En el caso concreto de los obreros ferroviarios, existen elementos que
deben tenerse en cuenta al momento de plantear un análisis de las estrategias
de resistencia que implementó la clase obrera en este período. El mismo está
marcado por:
– El rol del sindicalismo ferroviario en el contexto liberal.
– El ferrocarril y las limitaciones en el proceso de privatización.
– Los lazos de solidaridad y experiencias en prácticas organizativas que
manifiestan los trabajadores.
En relación a los márgenes de negociación por parte del sindicalismo en
los últimos treinta años, advertimos la presencia de importantes transforma-
ciones. El poder de presión y negociación del sindicalismo alcanzó un límite
en 1975, pero con el advenimiento del golpe militar de 1976 y el despliegue
del aparato represivo orquestado en contra del movimiento obrero dicho
204 SOSA MARTOS, Alberto. Un largo camino a la privatización: memoria y resistencia de los trabajadores...

proceso se interrumpe.8 Al retorno de la democracia con el triunfo del radi-


calismo el gremialismo (vinculado en su mayoría al partido peronista) sufre
su derrota política, sin embargo en un proceso de recomposición interna
logrará restaurar mecanismos de presión a medida que la situación econó-
mica del país se volvía cada vez más delicada. De esta manera, el sindicalismo
impulsará situaciones de conflicto abierto con el gobierno radical a partir de
1987 (Palomino, 2005).
Con la llegada del peronismo en 1989, se produce una caída abrupta
de la protesta. Esta situación se podría vincular en primer lugar con la crí-
tica situación económica que limitaba todo tipo de negociación salarial y en
segundo lugar, con la “adhesión automática” de la mayoría del arco sindical al
nuevo gobierno peronista. Esta política de “acompañamiento”, por parte del
sindicalismo a las reformas neoliberales del gobierno llevó a la pérdida pro-
gresiva de las conquistas sociales del movimiento obrero.9 En el caso puntual
de los gremios ferroviarios, los dos sindicatos más importantes como son la
Unión ferroviaria y La Fraternidad acompañaron el proceso de reestructura-
ción ferroviaria propuesto por el menemismo.10
De esta forma, las reformas neoliberales para el ferrocarril significaron
la reducción drástica del personal y la pérdida de casi el 80% de la extensión
de vías que poseían ferrocarriles argentino antes del menemismo. Despidos,
cesantías, jubilaciones anticipadas, fueron algunos de los mecanismos que se
utilizaron para reducir la masa de ferroviarios. Ante la falta de defensa de los
intereses de los trabajadores por parte de las cómplices estructuras gremia-
les, las acciones de resistencia que se plasmaron en este período por parte
de las bases obreras enfrentaron directamente a las cúpulas sindicales. Estas
acciones se enmarcan para algunos autores, en una conceptualización defi-
nida como “nuevas formas de protestas” o “nuevos movimientos sociales”. En

8 Debemos diferenciar que la represión instrumentada por la dictadura estuvo dirigida especialmente al
sindicalismo revolucionario o aquellos sectores obreros que expresaban esta tendencia. La burocracia
sindical en gran parte fue coparticipe con el gobierno militar. Ver Pozzi (2008).
9 Autores como Gordillo (2004), hablan de la actitud de los gremios en los 90 entendida desde las estruc-
turas de oportunidades y marcos culturales que condicionaron como también permitieron la moviliza-
ción social gremial.
10 En el presente trabajo no problematizaremos en profundidad el rol del sindicalismo ferroviario en este
período, sino que nos enfocaremos en el accionar de las bases obreras del taller. Fair (2013) señala que
los sindicatos ferroviarios constituyeron un pilar fundamental en la constitución de la hegemonía mene-
mista.
História Oral, v. 17, n. 1, p. 193-218, jan./jun. 2014 205

este punto haremos un paréntesis para señalar que existe una fuerte discusión
historiográfica en torno a este concepto, ya que esta conceptualización del
conflicto en este período lleva a posicionar al sindicalismo en una postura
que podríamos denominar “derrotista”. En este sentido autores como Nicolás
Iñigo Carrera (2009) sostiene que el sindicalismo no tuvo una acción pasiva
a lo largo de la década de los 90, sino todo lo contrario, ya que el protagonista
principal en los conflictos obreros durante este período continuó siendo
protagonizado por los sindicatos. Sin embargo, desde otra visión autores
como Farineti sostienen que estas nuevas formas de protestas poseen un
“carácter discontinuo en el tiempo cuando consiste en una acción episódica,
aun cuando sea parte de una lucha más amplia o devenga en modalidades
de acción y expresión más permanentes (por ejemplo, la protesta puede dar
lugar a o ser expresión de un movimiento social con una base institucional y
programática estable)” (Farinetti, 1999, p. 1).
Este nuevo escenario altamente conflictivo, donde las bases obreras no
solamente debían resistir contra las reformas gubernamentales sino también
luchar contra la complicidad de las cúpulas sindicales que legitimaban el pro-
ceso de reforma. Consolidó lazos de solidaridad en las bases, generando nue-
vos escenarios de resistencia y protesta orientadas en su mayoría a la solución
de conflictos concretos (reincorporaciones, pago de salarios atrasados, etc.).
Los nuevos canales de negociación abiertos por la “bases”, cuestionaban
directamente las direcciones de los gremios. Éstos, por su parte, actuaron de
modo vacilante durante el período enunciándose desde la condena abierta
hasta el respaldo tibio de algunas reivindicaciones. Es necesario a su vez dife-
renciar la actitud de las seccionales gremiales del interior del país, como en
el caso de la seccional de la Unión Ferroviaria Tafí Viejo que a pesar de estar
alineados a la política impulsada por el gremio a nivel nacional, presentaron
enormes diferencias al momento de resolver las tensiones con las bases. Es por
ello que podemos advertir contradicciones entre las direcciones de los gremios
y las seccionales del interior. Para graficar mejor, la seccional de Tafí Viejo
manifestó su desacuerdo con la política llevada a nivel nacional mostrando su
preocupación por los posibles despidos que se avecinaban a causa de la política
ferroviaria instrumentada (Comunicado Unión Ferroviaria, 13 mayo 1991).
Con el avance del menemismo en materia privatista la tensión entre el
sindicato y las bases fue en aumento. Este divorcio se evidenció en la huelga
ferroviaria de febrero de 1991, en dicha oportunidad el accionar de las bases
obreras fue estigmatizada por el gobierno y el gremio a través de la prensa
206 SOSA MARTOS, Alberto. Un largo camino a la privatización: memoria y resistencia de los trabajadores...

como “seccionales rebeldes” (La Gaceta, 15 feb. 1991). Al identificar las bases
con “seccionales rebeldes”, la lógica del discurso hegemónico menemista (gre-
mios-gobierno) fue aislar a las bases exponiendo que sus acciones estaban por
fuera de toda estructura y lógica de los marcos normales de negociación. El
objetivo de hecho, no sólo fue aislar a los obreros e interrumpir sus canales
de negociación sino a su vez, deslegitimar la protesta frente a la comunidad
usuaria del servicio ferroviario.
Por ello es imprescindible analizar cuáles son las representaciones que
poseen los trabajadores ferroviarios Tafíceños sobre el accionar de dichos gre-
mios, a continuación citaré algunas reflexiones:

[…] la Unión Ferroviaria que era peronista. El sindicato en sí no te salió


a defender. El sindicato ha salido a respaldarlo a Menem porque le daba
cooperativa a ellos, nosotros la gente de abajo hemos tenido que hacer una
intersindical donde salimos a defender los puestos de trabajo, eso nos lleva
a ponerlos en la palestra y desconfiar en ponernos adelante y luchar por el
taller ahí empieza la gran lucha nuestra de querer defender todos los pues-
tos de trabajo. (Pablo, 2013).

[…] no, la Unión Ferroviaria era los señores que estaban acá a cargo eran en
la última época… iba y nos botoneaba en el gobierno que nosotros éramos
unos zurdos, delincuente de todo. Tal es así que logramos que el gober-
nador viniera aquí a Tafí Viejo un día 18 y 19 de diciembre al frente de
la parroquia de la Inmaculada Concepción y él se comprometió en hacer
gestiones para recibirnos a nosotros una comisión coordinadora para que
encarguemos una serie de diálogo… (Raúl, 2013).

En ambos relatos existe un fuerte cuestionamiento al gremio como


órgano representativo de los trabajadores. Al concretarse la fractura del vín-
culo entre representantes –representados, se formalizan las comisiones inter-
nas como el refugio donde plantear la resistencia y defensa de los puestos de
trabajo. Los trabajadores asumen la necesidad de accionar estrategias de resis-
tencia por sí solos, y el sindicato es visibilizado como una herramienta de las
patronales y del gobierno. Un caso similar es la situación que experimentaron
los talleres de Laguna Paiva en la provincia de Santa Fe durante la década de
los 90, sus obreros también recuerdan al sindicato en el lugar de ejecutor de las
políticas gubernamentales, accionando medidas tendiente a quebrar cualquier
História Oral, v. 17, n. 1, p. 193-218, jan./jun. 2014 207

organización y resistencia entre los obreros e imponiendo el proceso de coope-


rativización de los talleres (Brill, 2010). En síntesis, podemos definir el accio-
nar del sindicalismo como un ejecutor de las reformas impulsadas desde el
ejecutivo nacional. Esta alianza entre sindicato - gobierno fue fundamental
para concretar los procesos de privatización convirtiendo a los sindicatos en la
patronal de sus afiliados. Un ejemplo de ello, lo representó la Unión Ferrovia-
ria, encargada a partir de 1997 de la explotación de la línea Belgrano.
En medio de este panorama negativo para los trabajadores, la concreción
del armado de las comisiones en Tafí Viejo constituirá el núcleo movilizador
de las acciones y formas de protestas que canalizarán los reclamos de este perí-
odo. Hay que señalar que el funcionamiento de estas comisiones no son expe-
riencias nuevas dentro del movimiento sino por el contrario, forman parte de
una larga experiencia de organización, lucha y resistencia de los obreros fer-
roviarios ya que estas comisiones internas lograron activar los mecanismos de
resistencia en períodos de fuerte represión sobre el movimiento obrero, espe-
cialmente en momentos de dictadura cuando los sindicatos eran intervenidos
o las comisiones directivas encarceladas (Lucita ,1999; Cena, 2009).
El accionar de la comisión interna de los talleres de Tafí Viejo durante
la década de los 90, encabezó la resistencia a la política antiferroviaria del
menemismo dicho accionar puede dividirse en dos etapas donde en cada una
de ellas, las estrategias y los resultados fueron diferentes.

Primera etapa (1994-1996)

La primera etapa abarca desde 1994 a 1996. Este primer periodo se


caracterizó por la aparición de las medidas tendientes a la reducción de la
masa ferroviaria, durante este período se concretan los primeros despidos
masivos. Esta situación que no solo atañe a los talleres de Tafí Viejo sino una
política aplicada a la mayoría de las empresas que se privatizaban o estaban en
vías de privatización, significó un momento álgido en la conflictividad social
coincidiendo con los primeros años en la presidencia de Carlos Menem.
En el ámbito ferroviario y específicamente en los talleres de Tafí Viejo,
la lucha se centró en la necesidad de conservar los puestos de trabajo y resistir
a los despidos que comenzaron a manifestarse a fines 1992 y principios de
1993, sumado a que la falta de trabajo (vagones para ser reparados) comen-
zaba a ser una preocupación importante entre los trabajadores.
208 SOSA MARTOS, Alberto. Un largo camino a la privatización: memoria y resistencia de los trabajadores...

El Estado Nacional ante las dificultades de la privatización la Línea Bel-


grano11 a la cual pertenece el taller, inició la reducción del personal a partir
de despidos. El funcionamiento de la comisión interna comienza a gestionar
distintas estrategias todas orientadas a generar acciones, tanto dentro como
fuera del taller que impacten en el ámbito público de la sociedad taficeña. En
este sentido las primeras reuniones de la comisión interna se realizaron fuera
de los talleres, con el objetivo de hacer una “convocatoria amplia” confor-
mándose como multisectorial, cuya intención era no solo poner en el tapete
la problemática ferroviaria, sino de la comunidad taficeña en general.
Estas nociones de integrar diversos sectores de la sociedad se evidencian
en el relato de este trabajador, cito:

Cuando nosotros hacemos la comisión interna hacíamos asambleas per-


manentes. Te estoy hablando de 1992. Al año siguiente, no me acuerdo
con precisión, en diciembre del 92 porque aparte de hacerse la asamblea,
interna dentro del taller, afuera. A nivel gremial y con el apoyo de fami-
liares, organizamos marchas con apoyo del pueblo y sectores, se hicieron
marchas de forma semanal, también se hacia una reunión en el centro de
comerciante, nosotros programamos hacer una marcha hacia la capital…
él se entero de la marcha nos mando un enviado, diciendo que no marche-
mos que él iba a venir a Tafí Viejo. Pensábamos ir por la diagonal hasta la
plaza independencia y en la Iglesia de la Inmaculada Concepción hay un
Cristo grande, ahí en la iglesia se hizo la reunión con Palito Ortega y en esa
reunión dijo ‘yo me comprometo a gestionar la reincorporación de los 17
compañeros’ y él hizo la gestión y en menos de una semana fueron reincor-
porados los 17, vos tenés que señalar el efecto de la lucha pero también el
gesto del gobernador… (Miguel Ángel, 2010).

En este período las gestiones siempre se orientaron a concretar canales


de diálogo con el ejecutivo. Los ferroviarios supieron actuar entre los inters-
ticios y contradicciones que existía en la aplicación de las políticas a nivel
nacional en la realidad provincial.

11 La Línea Belgrano mostró dificultades en el proceso de privatización, al ser la línea más extensa impli-
caba no ser rentable por lo cual no hubo oferentes en sus llamados a licitaciones. En 1997 al no poder
privatizarse la explotación fue concesionada al gremio Unión Ferroviaria (Felder, 2009).
História Oral, v. 17, n. 1, p. 193-218, jan./jun. 2014 209

Los obreros al comprender que el Estado Nacional definitivamente se


desprendía de la administración del taller, la comisión interna orientaban
todos sus esfuerzos a lograr la provincialización del taller. Esto en parte fue
posible a que dentro del esquema de privatización ferroviaria propuesto por
el Estado Nacional, existía la posibilidad que las provincias se hicieran cargo
de los servicios, es decir la provincialización. Esta opción fue considerada la
más viable por la comisión interna ya que entendían que de esta forma logra-
ban seguir operando bajo el gerenciamiento del estado y además evitar la
propuesta del sindicato de cooperativización del taller, ya que según sus argu-
mentos esta opción significaba el despido de la mayoría de los compañeros.
Este proceso que culminará con la provincialización de los talleres, pro-
vocó la agudización de las tensiones entre el gremio Unión Ferroviaria y las
bases constituidas en comisión interna. Esta última empleará un discurso que
se centrará en la defensa de los puestos de trabajo y del taller, aduciendo que
los proyectos de cooperativas impulsadas especialmente por el gremio y el
gobierno nacional estaban destinados a la reducción del personal y la parali-
zación de la producción. Una estrategia de la comisión interna para desgastar
la propuesta del sindicato fue poner como ejemplo la situación que vivían
los Talleres de Laguna Paiva (Provincia de Santa Fé) luego del proceso de
cooperativización, donde la desocupación y la inactividad del taller eran las
características de la nueva propuesta (La Gaceta, 8 ene. 1994).
El contrapoder que generó la comisión interna fue desgastando la acción
del gremio entre los trabajadores del taller, y paulatinamente fue perdiendo
fuerza la propuesta de corporativizar. Debido a este contexto las negociaciones
entre la comisión interna y el estado provincial se encarrilaron hacia la provin-
cialización del taller. Proceso que no estuvo exento de dificultades, ya que algu-
nos miembros del gobierno provincial presionaban bajo recomendaciones del
poder nacional por cooperativizar. Un ejemplo de esta disputa y presiones que
se libraron en la negociación, fue la propuesta del interventor de Ferrocarriles
Argentino Ignacio Ludueña ofreciendo contratos por $6 millones de dólares si
se cooperativizaban los talleres (La Gaceta, 14 feb. 1994).
A pesar de los intereses que pugnaban cada proyecto, la comisión interna
logró imponer la propuesta de provincialización que se plasmó en la ley 6.536
de abril de 1994. Dicha ley implicó la transferencia de la planta funcional y del
predio de 22 hectáreas que ocupan los talleres a la administración provincial.
Esta medida marcó un rumbo distinto de los talleres de Tafí Viejo respecto
de otros talleres del país, ya que fue uno de los pocos que logró mantenerse en
210 SOSA MARTOS, Alberto. Un largo camino a la privatización: memoria y resistencia de los trabajadores...

el ámbito estatal (en este caso provincial) y ligado al trabajo ferroviario, por lo
menos en esta primera etapa. La mayoría de los talleres en el país cayeron en
los procesos de cooperativización o desactivación y cierre total.
Los miembros de la comisión interna se atribuyeron esta ley como un
triunfo político frente a la privatización, sin embargo advertimos que en las
memorias de los obreros existen significaciones distintas sobre la importancia
de aquella medida, ya que para muchos es un período plagado de incertidum-
bres. Lo interesante a resaltar del análisis de dichas narrativas es que a medida
que los relatos pertenecen a miembros directos o vinculados estrechamente
a la comisión interna, las percepciones y balances de la provincialización son
sumamente positivos. No obstante, y por el contrario, a medida que nos ale-
jamos del círculo dirigencial el balance se torna pesimista y negativo.
Estas diferencias en las percepciones se vinculan con la necesidad del sec-
tor dirigente de identificar la provincialización como un triunfo político frente
al menemismo. Sin embargo, como advertimos en las narrativas, el proceso de
provincialización no fue asumido de tal forma por el resto de los trabajadores.
Dicha experiencia de los talleres bajo la administración provincial, duró
apenas dos años y en su ínterin presentó innumerables desafíos que obligó a
la comisión interna a un continuo ejercicio de gestión para solucionar proble-
mas que derivaban de la administración provincial en un contexto nacional
de constante reducción de la actividad ferroviaria12.

Segunda etapa (1996-2003)

Muchas de las estrategias de resistencia y logros parciales estuvieron


íntimamente ligadas a la correlación de fuerzas que podían impulsar las bases
obreros frente al poder.
Si el período anterior estuvo dominado por las conquistas de la comi-
sión interna y las oportunidades de negociación que brindo el gobierno de
Ramón “Palito” Ortega (1991-1995) a los ferroviarios. El panorama cambia-
ría significativamente con la llegada del Bussismo (1995-1999) al gobierno
de la provincia donde el ex militar Antonio Domingo Bussi, conocido por

12 La primera dificultad que presentó para los obreros la administración provincial, fue la regulación del
cobro de sueldos, en la nueva administración se registraron demoras de hasta tres meses. El accionar de
la comisión interna se enfocó en la necesidad de resolver este tipo de problemáticas.
História Oral, v. 17, n. 1, p. 193-218, jan./jun. 2014 211

los trabajadores de los talleres por la feroz represión que instaló en los tal-
leres durante su intervención en la provincia en la última dictadura. En los
tiempos democráticos llegó a la gobernación derrotando al peronismo con
un gran apoyo electoral obteniendo el 46% de los votos (Crenzel, 2003).
A comienzos de su gobierno el bussismo pondría fin a la administración
de los talleres por parte de la provincia. La propuesta de cooperativización
sería planteada nuevamente como la única vía para la subsistencia del taller,
el estado provincial también bajó la lógica de reducción de déficit se desen-
tendía de la administración del mismo.
En este nuevo marco de tensiones, la contradicción no se enfocó en
gobierno/sindicatos – obreros como había ocurrido en la primera etapa, sino
por el contrario el bussismo hábilmente pudo trasladar la contradicción al
interior de las bases obreras ofreciendo la continuidad de la fuente laboral en
tanto el taller se cooperativice.
El movimiento se fracturó en distintas posiciones,13 por un lado los que
continuarían la lucha en defensa del taller bajo una administración estatal
y por otro, el grupo que comenzó a ver en la cooperativa la única opción
viable de preservar el trabajo. Todo ello enmarcado en un contexto donde
Tafí Viejo sufría niveles de desocupación que en 1994 rondaban el 26% (La
Gaceta, 15 ene. 1994).
La contradicción finalmente se dirimió por la “necesidad” y la mayoría
de los trabajadores optó por la cooperativa. El proceso de resistencia iniciado
años antes, había provocado un fuerte desgaste de los lazos de solidaridad
anteriormente construidos. El movimiento, ya fracturado, se dividió final-
mente entre los cooperativistas y los anti-cooperativistas.
Sin embargo, y a pesar de las razones que cada grupo sostuvo para deter-
minar su posición en relación al futuro del taller existe un punto de signi-
ficación coincidente en las narrativas acerca de la cooperativa. Para ambos
grupos, este proceso significó el fin de los talleres vinculado a la actividad
ferroviaria. Un obrero cooperativista refiere, sobre el periodo:

[…] después del 96 el grupito de gente comienza a gestionarla [a la coo-


perativa], el 9 de octubre del 97 le dan matrícula como cooperativa pero
como habían un montón que no aceptaban la cooperativa también estaban

13 Los trabajadores siguieron en relación de dependencia con el estado provincial hasta el 30 de julio de
1996, la cooperativa se arma recién en diciembre del mismo año.
212 SOSA MARTOS, Alberto. Un largo camino a la privatización: memoria y resistencia de los trabajadores...

en contra, han quedado poquito en la cooperativa 100 personas… menos,


y dentro de los 100 que habían quedado hacían los trabajos, de ese pri-
mer momento que eran lo de las casas prefabricadas, trabajo chicos. [Sobre
el trabajo ferroviario] no porque gestionaban y en los primeros meses no
habían conseguido nada, en el año 98 consiguen 12 vagones creo y después
de esos vagones no consiguieron más. (Ricardo, 2012).

Ambos grupos tanto los que se quedaron dentro del taller como aquellos
que tuvieron que resistir por fuera del mismo, entran en un período difícil de
constatar donde advertimos una pérdida absoluta de esa identidad ferroviaria.
La mayoría de los anti cooperativistas expulsados del taller optó por
buscar una alternativa de trabajo, de esta forma vemos que la lógica neoliberal
había triunfado sobre estos obreros ya que lejos de un accionar conjunto, la
única salida posible que les dejaba el sistema “salvarse por sí solos”. Otros, los
menos, plantearon seguir resistiendo con lo que ellos denominaron “la carpa
del aguante”, instalada frente del portón de ingreso de los talleres:

[…] otros decidieron no seguir, de la manera en que yo lo planteaba. Como


yo había dicho cuando cerró el taller, que no iba a trabajar más, que iba a
pelear por el taller. No sé si porque era muy tozudo, pero si yo tenía que
estar 24hs frente al taller lo hacía… había un poco de desgaste, ellos renega-
ban mucho de la traición del compañero. Me decían: ‘Para que pelear por
esta gente, si no merecen ¿por quién peleas vos?’ y le decía, ‘Yo peleo por el
taller ellos también son víctimas’. Era entendible ese resentimiento, que yo
también lo tengo… muchos simpatizaron con la carpa se fueron acercando,
como ser los cirujas esos que andan en la calle, muchos ferroviarios se depri-
mían con el ambiente de la carpa...aprendimos a como pelearle al poder,
con mucho con poco y con nada… (Miguel Ángel, 2010).

Como puede advertirse en este relato, los lazos de solidaridad que


habían permitido a estos trabajadores ferroviarios resistir el primer embate
de la política neoliberal impulsada desde las estructuras tanto gubernamen-
tales como sindicales, no pudo consolidar un grupo homogéneo que logre
de alguna manera resolver las fuertes tensiones que existían al interior de las
bases. Sin embargo, como podemos observar las estrategia de la carpa significó
en cierta forma una necesidad para estos ex ferroviarios, ahora desocupados,
de continuar manteniendo algún vínculo con ese espacio que no solamente
História Oral, v. 17, n. 1, p. 193-218, jan./jun. 2014 213

significó toda su vida laboral sino además, moldeo aspectos profundos de su


identidad. La resistencia estuvo orientada a conservar ese vínculo, al insta-
larse en las afueras de los portones ese espacio los seguía identificando a ellos
como ferroviarios.
A partir de 1998 la cooperativa comienza un proceso de desmantela-
miento de los talleres, “chatarreando” y vendiendo material ferroviario a pri-
vados (El Taficeño, mar. 1998), situación impulsada desde organismos oficia-
les como la ONABE (Organismo Nacional de Administración de Bienes).
Este desenlace no representó un caso particular de estos talleres sino fueron
muchos las dependencias ferroviarias que siguieron el mismo destino.
La cooperativa durante este período utilizó los galpones de los talleres
para simplemente sobrevivir. A partir de 1999, el agravamiento de la crisis
económica impactó en la disminución al mínimo de la producción. El fun-
cionamiento de dicha cooperativa a esa altura se sostenía de trabajos encarga-
dos por el estado provincial.14 En el año 2000, la instalación de la municipa-
lidad en el edificio de la administración de los talleres de Tafí Viejo completa
el proceso de despojo y desmantelamiento ferroviario.
Ante la pérdida de la ayuda estatal al funcionamiento de la coopera-
tiva, se gestionaron distintas acciones vinculadas a la utilización de los gal-
pones ferroviarios como depósitos de cemento, azúcar y en el año 2002 la
instalación en la nave principal (Locomotoras) de la insumos manejados
por previsión social de la Nación, encargada de sanear la trágica situación de
desnutrición que padecían los sectores humildes de la provincia luego de la
devastadora crisis de 2001 en Argentina.
Estos sucesos hicieron que los talleres lentamente perdieran su identidad
ferroviaria, todas las políticas desde la estructuras de poder durante esta década
se encaminaron a sellar al ferrocarril como un transporte obsoleto y perimido.
El imaginario construido durante el menemismo de un país carente de
transporte ferroviario, se evidencia en la multiplicidad de proyectos que se
presentaron a lo largo del período para darle otra finalidad al predio de los
talleres. Un ejemplo cabal de esta concepción, es la instalación de la muni-
cipalidad de Tafí Viejo en el edificio de dirección de los talleres predio que
continua ocupando hasta la actualidad.

14 El último trabajo importante que realizó la cooperativa, fue la construcción de la cúpula de madera para
la casa de gobierno de Tucumán, que se había destruido tras un incendio en diciembre de 1995.
214 SOSA MARTOS, Alberto. Un largo camino a la privatización: memoria y resistencia de los trabajadores...

Esta situación se mantuvo a hasta mediados del año 2003, cuando la


nueva gestión del entonces presidente Néstor Kirchner cambiaría parcial-
mente la realidad con una simbólica reapertura. De esta manera estos talleres
y sus trabajadores entrarían en una nueva etapa de su centenaria existencia.

Conclusión

El proceso de privatización del sistema ferroviario Argentino en los 90,


fue una de las acciones más devastadores en cuanto a la ruptura del entra-
mado social, afectando no solo a los trabajadores que estaban insertos en
dicha estructura sino además a las comunidades cuya economía se encon-
traba vinculada a este sistema de transporte. A más 20 años del proceso de
privatización ferroviaria el resultado es lúgubre; 90.000 ferroviarios fueron
despedidos o jubilados, el 80% de la red férrea se encuentra inutilizable, y
cientos de localidades que vivían del mercado generado por el ferrocarril
están hoy convertidos prácticamente en pueblos fantasmas.
A pesar de lo traumático que significó este proceso privatista para casi
la mayoría de los ferroviarios, las memorias que se constituyen a partir de
sus experiencia de trabajo en el ferrocarril ubican la privatización de los 90
como el desenlace de una política que se pergenio y estructuró desde los años
60. Esta experiencia moldeó de alguna forma el carácter e identidad de estos
trabajadores, situándolos en el lugar de resistencia y de lucha por la conserva-
ción de la fuente de trabajo.
Este cúmulo de experiencias en torno a una fuente laboral en “crisis”,
nutrió de ciertas herramientas estratégicas y de participación a este movi-
miento que fueron implementadas en los 90, al momento de la privatización
y cuya puesta en práctica no solo se dieron por fuera de la estructura del sin-
dicato sino que además, desplazaron a este como órgano de representación
de los trabajadores. Estas nuevas formas de participación se canalizaron espe-
cialmente en las comisiones internas, herramienta que permitieron a este
grupo de trabajadores resistir al primer aluvión privatista.
A pesar de ciertos éxitos parciales por parte de estos trabajadores, las
condiciones en el transcurso de la década no mejoraron. La llegada del bus-
sismo al gobierno de la provincia logró fracturar los lazos de solidaridad
construidos entre los trabajadores, permitiendo la división del movimiento
y la posibilidad de introducir la propuesta de cooperativización del taller
História Oral, v. 17, n. 1, p. 193-218, jan./jun. 2014 215

agudizando el proceso de desmantelamiento del taller. En este contexto los


trabajadores cambiaron de estrategia, la resistencia es suplantada por la adap-
tación y porque no simplemente por la supervivencia.
La llegada del Kirchnerismo en 2003 permitió que los talleres de Tafí
Viejo fueran nuevamente reabiertos sin embargo, las políticas antiferrovia-
rias implementadas por casi tres décadas continúan siendo visibles y palpa-
bles al recorrer el taller.

Referencias
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Video
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218 SOSA MARTOS, Alberto. Un largo camino a la privatización: memoria y resistencia de los trabajadores...

Resumen: Los talleres ferroviarios de Tafí Viejo sufrieron, al igual que el resto de la estructura
ferroviaria del país, el impacto de las políticas de privatización y desmantelamiento ejecutadas
por los gobiernos de Carlos Menem (1989-1999). Las políticas de privatización instrumentadas
desde las estructuras estatales y avaladas por los sindicatos, significaron para el movimiento
obrero ferroviario el despido de aproximadamente 90 mil trabajadores. En el caso concreto de
los talleres de Tafí Viejo (Tucumán), la década menemista provocó el cierre y desmantelamiento
de este emplazamiento industrial. A pesar de la gravedad de esta situación, en la memoria de
estos trabajadores los años del neoliberalismo en la década de 1990 son resignificados como
el desenlace, y no el comienzo, de una política que venía instrumentándose desde los años
1960. La complicidad sindical tensionó al conjunto del movimiento obrero, obligando a las
bases a buscar distintas estrategias de resistencia para impedir el cierre del taller y conservar
la fuente de trabajo. La estrategia utilizada consistió en la conformación de nuevos espacios
de participación que no solo cubrían el vacío dejado por los sindicatos, sino además fueron
un potente cuestionador a las estructuras gremiales. El neoliberalismo implementó un nuevo
modelo de país en materia de transporte. El ferrocarril era reducido a su mínima expresión,
provocando el despido de miles de trabajadores y transformando los aspectos identitario de ese
colectivo social.

Palabras clave: neoliberalismo, ferrocarril, obreros, resistencia, identidad.

A long road to privatization: memory and workers resistance in Tafí Viejo workshops
(Tucumán, Argentina)

Abstract: Tafí Viejo’s railway workshops suffered, as the rest of the railway structure of the
country, the impact of the policies of privatization and dismantlement executed by the
governments of Carlos Menem (1989 - 1999). These politics of privatization were orchestrated
from the state structures and supported by the unions. In this context, 90,000 railway workers
were dismissed. In the concrete case of Tafí Viejo’s workshops (Tucumán), the Menem decade
led to the closing and dismantlement of this industrial site. Despite the seriousness of this
situation, in memory of these workers the years of neoliberalism are re-signified as the outcome,
and not the beginning, of a policy that was being orchestrated from the years 1960. Union
complicity pushed the whole labor movement, forcing the foundation into finding different
strategies of resistance, to prevent the closing of the workshop and to preserve the source of
work. The strategy used consisted in conforming new spaces of participation that not only
covered the gap left by the unions, but also powerfully questioned the union structures.
Neoliberalism implemented a new model of transport in the country. The railway was reduced
to its simplest form, provoking the dismissal of thousands of workers and transforming the
identitary aspects of this social group.

Keywords: neoliberalism, railway, workers, resistance, identity.

Recebido em 25/03/2014
Aprovado em 1º/07/2014
ART I GO S VARI AD O S

“Domingo de Reminiscere”:
tramas mnemônicas da romaria do
Senhor dos Passos de Sergipe

Magno Francisco de Jesus Santos*

Dois de junho de 2010. Sala de reuniões do Conselho Estadual de


Cultura do estado de Sergipe. A pauta de discussão tinha como objeto
a avaliação da proposta apresenta pela vice-presidente do conselho, Ana
Maria Nascimento Fonseca Medina,1 de fazer reconhecer a procissão de
Nosso Senhor dos Passos da cidade de São Cristóvão como patrimônio
imaterial. O presidente do Conselho Estadual de Cultura, Luiz Fernando
Ribeiro Soutelo,2 designou a conselheira Ana Conceição Sobral de Carva-
lho3 para produzir o relatório sobre o registro da procissão (Sergipe, 2010).
O relatório apresentado pela conselheira evidenciou os elementos que tor-
navam a celebração religiosa digna de ser registrada como patrimônio cul-
tural dos sergipanos:

* Doutorando em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF), sob a orientação de Martha
Campos Abreu. Bolsista Capes. Professor da Faculdade Pio Décimo.
1 Ana Maria Nascimento Fonseca Medina, filha de Raimundo Fernandes da Fonseca e Maria Isabel Sil-
veira Fonseca, nasceu na cidade de Boquim na década de 1940. Graduada em Letras pela Faculdade
Católica de Filosofia na cidade de Aracaju, estudou Museologia na Inglaterra e atuou como diretora de
museus (Medina, 2010).
2 Sócio do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe e membro da Academia Estaciana de Letras. Tem
como principais publicações Aracaju, a História da mudança da capital (1999) e Convento de Santa
Cruz e a Igreja Conventual: a presença franciscana (2007).
3 Pesquisadora do patrimônio cultural sergipano. Museóloga provisionada com registro no COREM 1R.
0152-IV. Integrou a equipe que organizou o Museu de Arte Sacra de São Cristóvão, instalado na antiga
Igreja da Ordem Terceira de São Francisco, e foi diretora do Museu Histórico de Sergipe.
220 SANTOS, Magno Francisco de Jesus. “Domingo de Reminiscere”: tramas mnemônicas da romaria do Senhor dos Passos...

O ato religioso da Igreja Católica acontece no segundo final de semana da


Quaresma, na Cidade de São Cristovão, atraindo católicos de várias regiões
do Estado, como também do País.
É uma tradição secular entre os sergipanos, emergindo também no seu
entorno manifestações de cunho profano.
O evento religioso é matéria de estudo permanente para nossos pesquisado-
res, que sentem no fato cultural um rico repertório de valores que agregam
elementos históricos, antropológicos, sociológicos, artísticos e culturais.
(Sergipe, 2010, p. 2).

Tais elementos elencados pela pesquisadora enaltecem a procissão como


um símbolo da sergipanidade,4 o elo identitário pautado na tradição. O relatório
está guiado pelos elementos de perenidade da procissão, que perdura por mais
de uma centúria, mas reconhece as mudanças que teriam emergido no entorno,
com as expressões culturais profanas. A procissão foi pensada a partir de uma
visão dicotômica entre o sagrado e o profano e sua disposição espacial na cidade
de São Cristóvão. Nesse sentido, a proposta de Ana Carvalho evidencia dois
pontos essenciais na referida procissão: a tradição e a vitalidade. O primeiro
seria caracterizado pela repetição, pela presença dos católicos – especialmente
os sergipanos – na procissão ao longo dos séculos, e constitui uma leitura idea-
lizada do passado local que permanece no tempo presente. O segundo ponto é
evidenciado pela pujança de estudos acerca da procissão, que denota a emergên-
cia de uma nova intelectualidade preocupada em descortinar o passado local e
contribui para a construção de uma leitura do povo sergipano; desse ponto de
vista, a procissão é entendida como um “repertório de valores” que podem ser
analisados por pesquisadores de diferentes áreas das ciências sociais e humanas e
das artes. Em suma, a procissão do Senhor dos Passos é apresentada como o elo
que une passado e futuro, uma essência da propalada sergipanidade.
Para entender essa discussão sobre o reconhecimento da procissão do
Senhor dos Passos como bem imaterial do patrimônio cultural sergipano é
preciso problematizar a conjuntura em que se deu esse passo inicial do pro-
cesso. Com esse fim, o texto foi estruturado em dois momentos. No primeiro,
foi discutido o processo de sistematização das políticas patrimoniais em

4 O folclorista Luiz Antônio Barreto definiu a sergipanidade como “o conjunto de traços típicos, a mani-
festação que distingue a identidade dos sergipanos, tornando-os diferentes dos demais brasileiros,
embora preservando as raízes da história comum” (Barreto, 2011).
História Oral, v. 17, n. 1, p. 219-242, jan./jun. 2014 221

Sergipe no último decênio. No segundo, foi analisada a trama mnemônica


da romaria do Senhor dos Passos, tendo como fio condutor as fontes orais.

Embates na definição dos “novos” patrimônios

Os embates no reconhecimento dos “novos” patrimônios em Sergipe


assumiram um papel preponderante nos últimos anos e elucidaram a consti-
tuição de uma cultura política em que o popular se torna foco das atenções.
Inspirados pelo decreto que institui o patrimônio imaterial no Brasil (Brasil,
2000), intelectuais e políticos passaram a buscar as expressões culturais de
Sergipe que poderiam ser reconhecidas como bem de natureza imaterial. Essa
busca pelo passado e pelas expressões “típicas de Sergipe” gerou a prolifera-
ção de registros aprovados pelo Poder Legislativo,5 sem passar pela avaliação
do Conselho Estadual de Cultura, nem mesmo pela Secretaria de Estado da
Cultura. Parte considerável da gastronomia estadual foi objeto de registro via
decreto, o que evidenciava mais uma preocupação de legitimação de determi-
nados grupos políticos do que a chancela e proteção dos bens reconhecidos.
É importante registrar que apesar do reconhecimento dos bens de
natureza imaterial como patrimônio cultural sergipano, não foi elaborado
nenhum dossiê ou outro tipo de estudo sobre os bens protegidos. Nem mesmo
os atores sociais produtores dos saberes e fazeres patrimonializados souberam
do reconhecimento oficial. Isso pode ser visto como resultado da ausência
de diálogo entre a esfera legislativa e o Conselho Estadual de Cultura, setor
responsável pelo levantamento e salvaguarda dos bens sergipanos. Contudo,
nos últimos anos ocorreram importantes ações voltadas para a redefinição do
organograma do governo do estado de Sergipe, como a constituição da Subse-
cretaria de Estado do Patrimônio Histórico e Cultural (SubPac)6 e a criação de
instituições museológicas.7 Desse modo, as questões atinentes ao patrimônio

5 Em 2011, o amendoim verde cozido, a queijada, o manauê, a bolachinha de goma, o doce de pimenta-
do-reino, o pé-de-moleque de massa puba, o beiju de tapioca, o macasado e o saroio foram decretados
patrimônio cultural sergipano por meio do Decreto nº 27.720, de 24 de maio de 2011.
6 A SubPac está subordinada à Secretaria da Casa Civil, e substituiu o antigo Departamento de Cultura e
Patrimônio Histórico.
7 No período entre 2010 e 2012 foram criados dois novos museus em Sergipe. O primeiro, Palácio-Museu
Olímpio Campos, foi criado por meio da Lei nº 6.874, de 11 de janeiro de 2010. O segundo, Museu da
Gente Sergipana, foi inaugurado no dia 11 de novembro de 2011.
222 SANTOS, Magno Francisco de Jesus. “Domingo de Reminiscere”: tramas mnemônicas da romaria do Senhor dos Passos...

cultural sergipano passaram a ser geridas pela SubPac, que teve como principal
ação, em seus primeiros anos de existência, a campanha em defesa do reconhe-
cimento da Praça São Francisco como patrimônio da humanidade.8
O processo de avaliação da procissão do Senhor dos Passos de São Cris-
tóvão como patrimônio cultural imaterial de Sergipe foi marcado por ações
oriundas de diferentes campos. Aparentemente as discussões sobre patrimô-
nio passaram a ser “assunto da moda” entre intelectuais e políticos, mas de
ambas as partes as discussões foram pouco efetivas no tocante ao diálogo com
as comunidades envolvidas. Isso pode ser visto como reflexo de uma política
cultural em que se buscam as “origens e raízes” da cultura sergipana, mas se
negligenciam os agentes culturais envolvidos com a trama debatida. O “rico
repertório de valores” é valorizado por sua ligação com o passado, ou seja, as
expressões culturais continuam sendo vistas como sobrevivências de outros
tempos no presente. Nesse sentido, o presente apresenta-se de modo amorfo,
cristalizado e desprovido de sentido, pois o seu valor está no passado.
Além disso, o impacto dos decretos que reconhecem os novos bens de
natureza imaterial em Sergipe não chega a atingir nem mesmo toda a esfera do
poder público, levando-se em consideração a ausência da chancela do Conse-
lho Estadual de Cultura e de ações de educação patrimonial. As experiências
das camadas populares são silenciadas no contexto do tempo presente; a cul-
tura sergipana é, dessa forma, vista como um bem preservado e inócuo. Em
contrapartida, o relatório apresentado por Ana Conceição Sobral de Carva-
lho dialoga com a proposta do IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e
Artístico Nacional) de promover estudos acerca do patrimônio imaterial. A
conselheira afirma que:

A magnitude e abrangência do fato cultural preservado até os dias de hoje


pela comunidade devocional torna relevante o seu reconhecimento oficial
através do registro como bem imaterial do Patrimônio Cultural Sergipano.
Aliado ao registro como bem imaterial, é importante que seja elaborado o
projeto de mapeamento detalhado de todo o conjunto que envolve o ato reli-
gioso e a festa em seus vários aspectos, como: rituais de penitência, objetos

8 A Praça São Francisco da cidade de São Cristóvão recebeu a chancela da Unesco (Organização das
Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) como patrimônio da humanidade no dia 1º
de agosto de 2010. É a praça em que ocorre o encontro das imagens do Senhor dos Passos e da Nossa
Senhora da Soledade.
História Oral, v. 17, n. 1, p. 219-242, jan./jun. 2014 223

devocionais, música, culinária, entre outros fatos que emanam desse universo
místico, para efeito de estudo, publicação e difusão. (­Sergipe, 2010, p. 1).

A autora do parecer expõe que o reconhecimento oficial da procissão


deve ocorrer devido à “magnitude e abrangência do fato cultural preservado
até os dias de hoje” – o que indica uma perspectiva preservacionista da cul-
tura, como já foi debatido anteriormente. Entretanto, ela evidencia a neces-
sidade de se realizar um levantamento sobre o bem cultural com o propósito
de divulgar o patrimônio sergipano.9 Essa recomendação final é de grande
relevância, pois pode ser uma estratégia para promover o diálogo entre os
intelectuais (estudiosos defensores do patrimônio cultural) e a comunidade
(produtores do patrimônio).
Outra questão relevante em relação à proposta de registro da solenidade
como patrimônio imaterial é a abrangência do que deve ser reconhecido.
Ana Carvalho ressalta de forma preliminar alguns aspectos que poderiam
ser estudados no mapeamento: “os rituais de penitência, objetos devocio-
nais, música e culinária”. Essa proposição provoca um olhar sobre a soleni-
dade numa perspectiva relativamente ampla, que considera o cotidiano, a
entrega dos ex-votos e a alimentação. Todavia, o termo utilizado na proposta
de registro evidencia uma restrição do bem registrado. Utiliza-se apenas pro-
cissão do Senhor dos Passos, delimitando o evento à organização oficial feita
pelo clero, ou seja, fica excluída a complexa seara de atividades do entorno
da romaria. Essa limitação imposta pelo uso do termo procissão certamente
é fruto da produção intelectual acerca do tema, que tem explorado o viés do
rito, das práticas penitenciais e até mesmo da continuidade do passado no
presente.10 Na historiografia sergipana sobre os Passos, os termos mais usu-
ais são festa, procissão, procissão dos penitentes, solenidade e peregrinação. Em
raríssimas ocasiões os termos escolhidos são problematizados, o que leva à
constatação de que muitas vezes o pesquisador entende os conceitos como
algo predeterminado e estanque.11

9 Até o momento não foi realizada nenhuma ação voltada para a elaboração do projeto de mapeamento
das expressões culturais inseridas na romaria do Senhor dos Passos. Uma ação isolada, realizada pelo
IPHAN-SE, foi realizada em maio de 2012 em São Cristóvão, com a Jornada do Patrimônio.
10 Um caso elucidativo dessa perspectiva está presente na dissertação de Antônio Bittencourt Júnior (2003).
11 No levantamento realizado sobre a romaria do Senhor dos Passos de São Cristóvão, o únicos traba-
lhos que problematizam os conceitos romaria e peregrinação são Na trilha dos Passos do Senhor (Santos;
Nunes, 2005) e Os Sete Passos da Paixão (Santos, 2014).
224 SANTOS, Magno Francisco de Jesus. “Domingo de Reminiscere”: tramas mnemônicas da romaria do Senhor dos Passos...

A trama mnemônica do Bom Jesus

À revelia dos embates em torno do patrimônio cultural sergipano, os


moradores de São Cristóvão, vizinhos do Senhor dos Passos, organizam a
celebração, que é a mais importante do calendário religioso da cidade. Nas
palavras da pesquisadora sobre romarias no Brasil, Juliana Barreto Farias:

Quando a Quarta-feira de Cinzas chegar, no final deste mês, os morado-


res de São Cristóvão, em Sergipe, já estarão contando os dias para outra
comemoração. No segundo fim de semana da Quaresma (que se encerra na
Páscoa), milhares de sergipanos tomam as ruas, calçadas e praças da cidade
para acompanhar a procissão do Senhor dos Passos. (Farias, 2009, p. 24).

Contar os dias em espera da romaria do Senhor dos Passos é prática


comum entre os cristovenses. A espera e a rememoração das romarias anterio-
res se tornaram parte do ritual da população da cidade. O passado é revisto,
reinventado e recontado no tempo presente. Essa constatação provém das
entrevistas realizadas com moradores da cidade. Tais entrevistas integraram
as ações de duas pesquisas. A primeira, Romeiros do Senhor dos Passos, buscou
compreender a visão dos romeiros da cidade de Lagarto, com um total de
150 entrevistas. Algumas delas foram com moradores de São Cristóvão, no
intuito de compreender a acolhida dos romeiros. A segunda, Caminhos dos
sentidos, foi voltada às memórias da romaria, com a realização de dez entre-
vistas com os organizadores e descendentes das antigas irmandades de São
Francisco e da Ordem Terceira do Carmo.
Neste artigo, usarei apenas três dessas entrevistas, por considerá-las signifi-
cativas nas construções mnemônicas acerca das celebrações do início do século
XX e do início do novo milênio, ou seja, elas elucidam a releitura da romaria
no alvorecer do século XXI. A primeira entrevista foi realizada em 2003, com
Maria Paiva Monteiro (1913-2004).12 Nascida em 1913, ela era filha do antigo
tesoureiro da Ordem Terceira do Carmo, Horácio Pio Monteiro (1852-1924),
e ao longo da vida atuou nas principais congregações religiosas da cidade,
inclusive com participação ativa na crise de extinção da antiga Ordem Terceira
e criação da Associação Nossa Senhora do Carmo, nos idos de 1977.

12 Em outras entrevistas, os moradores se referem a ela como dona Marinete, como também é conhecida.
História Oral, v. 17, n. 1, p. 219-242, jan./jun. 2014 225

A segunda entrevista foi realizada em 2012 com Eunice Batista. Sobri-


nha do último terceiro do Carmo (Domingos Sobral do Rosário), ela atuou
ao longo da segunda metade do século na organização da romaria, sendo uma
das responsáveis pela lavagem das roupas das imagens do Senhor dos Passos
e da Nossa Senhora da Soledade. Além disso, também teve proximidade com
os franciscanos que promoveram a reforma devocional.
Por fim, o último entrevistado passou a infância auxiliando Maria Paiva
Monteiro na organização da Igreja da Ordem Terceira do Carmo, onde tam-
bém trabalhou como zelador. É Jorge dos Santos, carnavalesco que atuou em
importantes escolas de samba do Rio de Janeiro e que foi entrevistado em
2011. Ele reproduziu importantes diálogos que teve com romeiros pagado-
res de promessas. Apesar de terem sido realizadas em momentos diferentes,
as entrevistas mantiveram o mesmo padrão, com uma conversa informal no
primeiro momento, e a seguir gravação das entrevistas semiestruturadas.
A romaria do Senhor dos Passos, de acordo com o memorialista Sera-
fim Santiago (1920), que escreveu sobre a procissão dos Passos no final do
século XIX, era vista pela população sergipana como momento de regozijo,
de efervescência cultural, de rememoração dos tempos idos de capital. A
semana sagrada de Passos, com a maior romaria do estado, era o momento de
maior expressão na vida cultural dos moradores da cidade ao longo de todo
o século XX. De acordo com Santiago, a velha São Cristóvão transformava-
-se no período quaresmal. Ali constituía-se um santuário para a população
católica de Sergipe, que ia participar da romaria do Senhor dos Passos, e de
outras celebrações penitenciais, como a Procissão das Cinzas e as solenidades
da Semana Santa. Para o memorialista:

No correr das sete semanas de quaresma denominadas: Anna, Bagana,


Rabeca, Suzana, Lázaro, Ramos e a ultima que se costumava dizer: em Pas-
choa estamos. Nestes dias a velha cidade ficava repleta de romeiros que ali
compareciam para assistir aos actos divinos. (Santiago, 2009, p. 179).

No olhar dos moradores da cidade entrevistados, a romaria do Senhor


dos Passos era, ao longo do século XX, a ocasião para celebrar a permanên-
cia do status de capital religiosa de Sergipe. Apesar da perda da centralidade
política e do discurso da decadência econômica, a população local celebrava
o fato da cidade de São Cristóvão continuar sendo o centro que atraía a popu-
lação católica de todo o estado para a celebração da dor (Santos, 2012), para
226 SANTOS, Magno Francisco de Jesus. “Domingo de Reminiscere”: tramas mnemônicas da romaria do Senhor dos Passos...

a rememoração dos dramas da Paixão de Cristo. As semanas da Quaresma,


mais do que possuírem nomenclaturas específicas, eram solenizadas pelas
ruas, por meio de procissões que reviviam os últimos momentos de Cristo e
mostravam o poderio das diferentes camadas sociais. Contudo, no período
entre o final do século XIX e o início do século XX, as nomenclaturas passa-
ram a perder parte de seu sentido, pois as irmandades perdiam espaço diante
da força do processo de reforma devocional católica (Santos, 2013). Nos pri-
meiros anos do século XX, as imagens do Cristo sofredor como Senhor dos
Martírios não saíam mais de seus nichos, do mesmo modo que seus devotos
não mais se expunham nas procissões majestosas. Diante dos conflitos que
minavam as antigas irmandades, “Anna, Bagana, Rabeca, Suzana, Lázaro,
Dores e Semana Maior” perdiam seu significado e consequentemente sua
importância. A nomenclatura das semanas da Quaresma foi alterada, e os
antigos nomes foram paulatinamente esquecidos. A contagem do tempo
modificou-se ao longo da Primeira República e inventaram-se outras for-
mas de expressar a resistência ao processo de reforma devocional e ao fim
das irmandades com suas velhas tradições. Falava-se em Semana de Passos,
Sábado de Passos e Domingo de Reminiscere.13
Domingo de Reminiscere. Domingo de lembrar. Esse ato mnemônico
associado à romaria do Senhor dos Passos, ao qual temos acesso por meio
das palavras do memorialista Santiago, reflete os diferentes usos do passado
como estratégia de reivindicação da história e de resistência às mudanças
oriundas dos tempos “modernos”. Serafim Santiago era um homem religioso
que estava perdendo espaço em sua cidade. Era membro da Irmandade de
Nossa Senhora do Amparo dos Homens Pardos, que desde o último quartel
do século XIX passava por séria crise, que a levou a ser extinta antes mesmo
da chegada dos franciscanos da Alemanha. O homem católico e conhecedor
das tradições de seu torrão natal expirava a sua tristeza ao ver o desapareci-
mento de festas, o fechamento de igrejas e a proibição de procissões. Em cer-
tos momentos, Serafim Santiago aparenta escrever para deixar um sinal dos
tempos que vivenciou, mas que estavam desaparecendo. No início do século
XX, Santiago lamentava a substituição dos tempos de irmandades pelos de

13 É o segundo domingo da Quaresma; do Salmo 25, versículo 6: “Reminiscere miserationum tuarum,


Domine, et misericordiarum tuarum, quoniam a saeculo sunt” (“Lembra-te, Senhor, das tuas misericór-
dias e da tua bondade. Porque são desde a eternidade.”). Nesse domingo, em São Cristóvão celebra-se a
procissão do Encontro.
História Oral, v. 17, n. 1, p. 219-242, jan./jun. 2014 227

apostolado; dos tempos dos homens de religião pelo das mulheres beatas. De
certo modo, Santiago é um homem que transita entre esses dois universos,
entre esses dois momentos do catolicismo em Sergipe.
Lembrar é um ato de resistência e de reivindicação. Serafim Santiago
compreendia isso e usava bem. Nos tempos em que as igrejas estavam cer-
radas para os seus modos de operar diante do sagrado, Serafim utilizava-se
das narrativas sobre o passado para provar o seu prestígio e respeitabilidade
entre os homens que sabiam “ver o valor da religião”. A romaria dos Passos é
descrita por meio dos bastidores, como sutil estratégia de comprovar a arti-
culação do memorialista com os setores da elite cristovense, com os membros
do clero sergipano oitocentista e com os membros das irmandades e ordens
terceiras.
Na segunda metade do século XX, o patrimônio mnemônico da roma-
ria dos Passos assume uma nova significação para os moradores da cidade,
particularmente em relação aos cuidados com a vestimenta da imagem do
Senhor dos Passos. Leigos membros da Ordem Terceira do Carmo passaram
a organizar o processo de troca das vestimentas da imagem. Pode-se dizer
que os terceiros carmelitas preocuparam-se em velar os bastidores da grande
solenidade.
A organização da romaria ao longo do século XX ficou a cargo de um
número reduzido de pessoas, com poucas alterações e sempre protegendo os
segredos da romaria. É justamente nessa penumbra que as “zonas de sombras,
silêncios, não ditos” (Pollak, 1989, p. 10) podem ser observadas. O fato de
não se permitir que ninguém veja a arrumação, oferecendo-se aos não par-
ticipantes apenas uma descrição do processo, consiste em uma estratégia de
construção do mistério e de uma hierarquia simbólica. Além de ser da cidade,
era exigido também que o candidato ao ato de troca de vestimenta do Senhor
dos Passos fosse respeitável. Serafim Santiago, homem pardo e funcionário
público, membro da humilde irmandade de Nossa Senhora do Amparo, mos-
trou ter reconhecimento de seus “amigos” da Ordem Terceira do Carmo, evi-
denciando suas estratégias de negociação com os conterrâneos:

Desde a collocação da Sagrada Imagem na Egreja – Ordem 3ª do Carmo,


os antigos frades Carmelitas, de accordo com os músicos e o pôvo chris-
tovense, instituiram a devoção de uma Missa com musica todas as 6ªfeiras
às 7 horas da manhã. Terminado o sacrifício, na antevéspera da procissão
dos Passos, ali se achava o pardo Justiniano da Silveira, homem popular e
228 SANTOS, Magno Francisco de Jesus. “Domingo de Reminiscere”: tramas mnemônicas da romaria do Senhor dos Passos...

bom artista armador, acompanhado de outros rapazes a convite d’elle para


cuidadosamente descer do Trono a respeitavel Imagem e a condusia à mãos
para a Capella-mor da Egreja do Carmo, contigoa à Ordem 3ª, onde já se
achava sobre dois cavalletes a rica charola toda guarnecida de um lindo
debucho moldado em fina e antiga prata, e sobre este desenho admiravel,
os 7 Passos gravados em pequenas redomas do mesmo metal galvanisado a
ouro. Depositada a Imagem no centro da charola, elle Justiniano, que estava
incumbido por antiga devoção, de despir e vestir novamente a referida Ima-
gem; acto continuo, tratava, primeiro que tudo, de evacuar a Egreja, só ali
ficando o velho sacristão – Maximiliano Teixeira de Jesus, e eu Serafim de
Sant’Iago, pela grande consideração que a elle era dispensada pelas pêssoas
de minha família de quem era compadre e amigo velho, pois elle no acto
de despir e vestir a Imagem, não admitia pessôa alguma, com especialidade
meninos. (Santiago, 2009, p. 181).

O ato de vestir a imagem do Senhor dos Passos era considerado um dos


momentos de maior zelo entre os organizadores da romaria. Fechar as por-
tas da igreja era prática recorrente na véspera da procissão do Depósito. A
retirada das pessoas desconhecidas do templo era a garantia da manutenção
do segredo e da exclusividade dos homens de confiança. Mas afinal, o que
representava ser homem de confiança? Qual o significado social de integrar o
seleto grupo de arrumadores da charola do Senhor dos Passos nos primeiros
decênios do século XX?
Não é tarefa fácil responder a tais questões. O próprio Serafim Santiago
afirma que a cidade de São Cristóvão no período entre o final do século XIX
e início do XX era repleta de artistas armadores. No Annuario christovense
mais de uma dezena desses artistas aparecem nas descrições dos bastido-
res das festas de igrejas da cidade, o que evidencia que a profissão tinha um
importante campo de trabalho em São Cristóvão. Santiago apresenta alguns
indícios de que teria executado alguns trabalhos na área, juntamente com
membros de sua família, na qual existiam profissionais renomados, como o
seu tio, Pedro Antonio Falconière,14 que, além de ser tesoureiro da afamada
Irmandade Nossa Senhora da Vitória, também executou alguns trabalhos de

14 Segundo Serafim Santiago: “[...] meu Tio Pedro Antonio Falconière que, naquelle tempo, occupava o
cargo de Thezoureiro da Irmandade da Victoria, e conhecido naquella cidade, como um dos melhores
armadores” (Santiago, 2009, p. 268).
História Oral, v. 17, n. 1, p. 219-242, jan./jun. 2014 229

armador nas festas da padroeira da cidade e da Independência de Sergipe, o


popular 24 de Outubro (Santiago, 2009, p. 284).
Esses primeiros dados evidenciam que Serafim Santiago tinha respeita-
bilidade entre os armadores por ser integrante de uma família que atuava na
área. Além de seu tio, tesoureiro da Irmandade da Vitória, abrigada na Igreja
Matriz, ele também era compadre de Justiniano da Silveira, armador respon-
sável pela arrumação do Senhor dos Passos. Pode-se perceber que existia uma
rede de sociabilidades entre os armadores da cidade, que também eram inte-
grantes de importantes irmandades e confrarias.
A participação desses homens em irmandades consideradas de elite
pode ser vista como indício de que a profissão era respeitada e podia produ-
zir rentabilidade. Não se pode esquecer que o calendário festivo da cidade
era complexo, tanto em decorrência das inúmeras irmandades, confrarias e
ordens terceiras, como também pelas festividades de cunho cívico, que iam
da Independência do Brasil à Emancipação Política de Sergipe. Ao que tudo
indica, não faltava trabalho para os armadores de São Cristóvão. O armador
era um “decorador, especialmente de igrejas” (Aulete, 1881), “o que concerta
[igrejas, casas] e adorna de festa” (Silva, 1813, p. 113), ou ainda aquele “que
orna as casas” (Pinto, 1832, p. 105) – responsável pela ornamentação de alta-
res, dos andores e dos carros para as procissões. Na romaria do Senhor dos
Passos, além da arrumação das charolas dos santos de devoção, os “armadores
e seus ajudantes collocavam os 7 Passos para serem vizitados à tarde na occa-
sião do itinerário da procissão” (Santiago, 2009, p. 185).
Nesse caso, como a cidade de São Cristóvão não possuía as capelas dos
Passos,15 os armadores trabalhavam nas casas de moradores “tradicionais”, a
maioria deles ligada à política sergipana. Desse modo, circulavam entre as
diferentes camadas sociais, indo das autoridades mais poderosas politica-
mente às camadas populares. No caso dos Sete Passos na romaria de São Cris-
tóvão – entre o final do século XIX e o início do século XX –, as armações
estavam distribuídas entre importantes famílias da elite sergipana, como as
de José Joaquim Pereira e do Major Muniz, homens que ocuparam importan-
tes cargos na política provincial.

15 Em algumas cidades onde era realizada a procissão do Encontro foram construídos pequenos nichos
onde ficavam imagens ou pinturas que representavam as cenas da Paixão. Ao longo da pesquisa, pude
encontrar os Passos nas cidades de Paraty, no Rio de Janeiro; Ouro Preto, São João del Rey, Tiradentes,
Mariana e Sabará, em Minas Gerais; Oieiras, no Piauí; e Alcântara, no Maranhão.
230 SANTOS, Magno Francisco de Jesus. “Domingo de Reminiscere”: tramas mnemônicas da romaria do Senhor dos Passos...

No caso do armador Justiniano da Silveira, os trabalhos na romaria do


Senhor dos Passos ocorriam em diferentes frentes. Primeiro, armava as cha-
rolas do Senhor dos Passos e da Nossa Senhora da Soledade.16 Depois armava
os Sete Passos da procissão do Depósito, no sábado à noite, e os mesmos Sete
Passos da procissão do Encontro, no domingo à tarde. Além disso, o armador
também trabalhava ao longo da penitencial procissão do Depósito,

[...] providenciando para melhor ordem da sahida, isto é, fasendo accender


o grande numero de velas postas dentro de cartuchos de papel artistica-
mente bordados e abertos a canivete, que eram levados por homens e meni-
nos, ficando esses cartuchos bem transparentes depois de acezas as velas,
formando uma vistosa illuminação. (Santiago, 2009, p. 182-3).

A procissão dos Passos era grandiosa e gerava gastos consideráveis para


a Ordem Terceira do Carmo. Por ser uma das duas procissões que, segundo
as Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia, poderiam ser realizadas
à noite,17 os elementos artísticos envolvidos eram bem maiores e mais one-
rosos do que os das demais solenidades.18 Os gastos com a organização das
festas dos oragos constituíam a despesa principal das irmandades e confrarias
no Brasil oitocentista, como evidenciam estudos recentes (Flexor, 2001). Há
grande possibilidade de que os maiores gastos das irmandades de São Cris-
tóvão na segunda metade do século XIX e nos primeiros decênios do século
XX tenham sido com os serviços dos armadores.19 Por esse ângulo, percebe-
-se que os armadores eram profissionais que tinham condições de ascender
socialmente, além da oportunidade de circular livremente entre os diferentes
segmentos sociais, especialmente entre os homens da política sergipana.

16 Os andores são arrumados para as procissões na quinta-feira da Semana de Passos, ocasião em que a
igreja é fechada para o ato solene de descida da imagem do Senhor dos Passos do seu nicho no altar-mor,
presenciado por dois homens e duas mulheres.
17 Segundo a normativa que prevaleceu ao longo de praticamente todo o período imperial, era expressiva-
mente proibido realizar procissões noturnas, exceto a dos Fogaréus, pela Santa Casa de Misericórdia e a
do Depósito do Senhor dos Passos, pela Ordem Terceira do Carmo (Vide, 2007, p. 192).
18 Segundo Maria Paiva Monteiro, no dia da procissão do Depósito os moradores das ruas por onde o
cortejo passava colocavam lanternas para iluminar o itinerário. Ela afirma que “todo mundo colocava
lanternas. Lá em casa já tinha lanternas prontinhas” (Monteiro, 2003).
19 No livro de despesas da Irmandade do Glorioso Santo Antônio do Carmo se pode observar que, entre
todos os serviços encomendados, o que teve maior valor foi o do armador (Santos; Santos, 2010).
História Oral, v. 17, n. 1, p. 219-242, jan./jun. 2014 231

Contudo, um aspecto presente na assertiva de Serafim Santiago provoca


estranhamento. A Ordem Terceira do Carmo, até o século XIX, era a mais
importante associação religiosa de leigos de Sergipe, congregando parte con-
siderável da elite política local. Senhores de engenho, barões do açúcar e auto-
ridades políticas integravam o seleto grupo dos terceiros de São Cristóvão.
Todavia, na descrição do memorialista, a cena da troca de roupas da imagem do
Senhor dos Passos era protagonizada por pardos. Tanto o memorialista, que
estava presente no ritual devido à “grande consideração dispensada pela sua
família ao compadre e amigo velho” quanto o armador Justiniano da Silveira
eram pardos e membros da Irmandade do Amparo. Estranhamente, nenhum
dos terceiros do Carmo participava do ato tão nobre e solene de “despir e
vestir novamente” a respeitável imagem. Essa ausência não significa um mero
descaso com o trabalho dos bastidores da grande romaria, e deve ser proble-
matizada para que se compreenda o que levava esses pardos a lacrar as portas
da Igreja do Carmo – pois é perceptível que, ao realizarem trabalho seme-
lhante nas demais irmandades, os armadores não fechavam as igrejas, e per-
mitiam que os moradores observassem a ornamentação dos templos e nichos.
No caso da imagem do Senhor dos Passos, a atenção ao respeito era prepon-
derante, o que denota uma preocupação com a autoafirmação social. Poucos
armadores tinham condições de realizar o devoto ofício e poucos poderiam
acompanhar o ato. Desse modo, ao integrar o grupo de armadores da cidade
de São Cristóvão, Serafim Santiago provava que era um homem que circulava
entre os meios influentes da sociedade sergipana. De um lado, dialogava com
a inteligência local, mostrando-se sua face de “homem de letras”; de outro,
comunicava-se com os moradores de São Cristóvão – fogueteiros, caboclos,
escravos e políticos influentes. Mais do que isso: ao auxiliar seus familiares nos
serviços de armação, circulava entre os membros das diferentes irmandades de
sua terra natal, observando o processo de organização das festas dos oragos e,
principalmente, ouvindo as narrativas de seus antigos tesoureiros. Armava-se
a festa e a memória coletiva da cidade encontrava seu porta-voz.
A presença de homens pardos circulando nos bastidores das princi-
pais solenidades de São Cristóvão evidenciava algumas transformações que
vinham ocorrendo na cidade. Com a transferência da capital do estado para
Aracaju, muitas famílias migraram para lá, onde também criaram novas
irmandades, como a do Santíssimo Sacramento. Paulatinamente São Cris-
tóvão entrava em declínio econômico, situação que se agravou no final do
século, com a perda do espaço político de muitos senhores de engenho e a
232 SANTOS, Magno Francisco de Jesus. “Domingo de Reminiscere”: tramas mnemônicas da romaria do Senhor dos Passos...

opção dos herdeiros de construir suas carreiras políticas e econômicas na nova


capital. Diante da perda do status que mantiveram por mais de dois séculos
– com as baixas sofridas no número de adeptos e nos meios de manter-se –,20
as irmandades e confrarias cristovenses viram-se compelidas a integrar novos
segmentos sociais: até mesmo a Ordem Terceira do Carmo passou a ter como
irmãos homens de cor, que a partir da segunda década do século XX também
podiam tornar-se membros da mesa diretora.
A repercussão dessas mudanças do cenário político-econômico sergipano
nas irmandades de São Cristóvão foi socialmente drástica. A perda de poderio
e as transformações decorrentes do processo de modernização da sociedade ser-
gipana levaram à redução do número de procissões, assim como do número de
andores que saíam nelas. Paulatinamente o campo dos profissionais das festas
religiosas foi restringido e ainda na primeira metade do século XX eles prati-
camente desapareceram. Esse foi o caso dos encarnadores e armadores de São
Cristóvão, que com o processo de reforma devocional e a extinção das irman-
dades da Vigaria Geral de Sergipe, em 1906, praticamente não tinham mais em
que trabalhar.
A romaria do Senhor dos Passos também foi afetada por essa redefinição do
campo de atuação dos profissionais das festas nos primeiros decênios do século
XX. A presença de armadores tornou-se rara e os próprios irmãos terceiros do
Carmo passaram a organizar a arrumação dos andores, cuidando para manter a
mesma postura de não permitir que outras pessoas vissem a retirada da imagem
do altar-mor e a troca das vestimentas. Assim, os saberes e fazeres em torno da
romaria permaneciam como um bem compartilhado entre poucos moradores,
que constituem o que pode ser chamado de “elite” dos bastidores da romaria.
A partir da terceira década do século XX, a organização dos andores
passou a ser realizada exclusivamente por membros da diretoria da Ordem
Terceira do Carmo, como Horácio Pio Monteiro e Domingos Sobral do
Rosário.21 Para a análise das transformações na romaria, as fontes orais trou-
xeram importantes elementos. Segundo Maria Paiva Monteiro, a morte do
último terceiro carmelita foi sentida pelos organizadores da solenidade, pois:

20 Um caso elucidativo dessa situação de precariedade foi o da Santa Casa de Misericórdia, que desde o
último quartel do século XIX encontrava-se endividada, sofrendo intervenções do poder público pro-
vincial (Silva Filho, 2011).
21 O senhor Domingos Sobral do Rosário foi o último terceiro do Carmo e faleceu em 1976. Era negro e
ao longo de praticamente todo o século XX esteve à frente da mesa diretora da Ordem.
História Oral, v. 17, n. 1, p. 219-242, jan./jun. 2014 233

O último terceiro do Carmo foi Domingos Sobral do Rosário. [...] Ele é


quem tomava conta da igreja. Vinha às vezes outro, mas tudo era com ele.
Ele é quem sabia onde estavam as peças. Ele é quem sabia como se veste
o Senhor dos Passos. Olha, quando ele morreu... porque não se esperava
que ele morresse assim depressa... e nós tomamos conta. Houve um até
que abandonou [risos]. Também tinha alguns que eram sabidos. Graças a
Deus! Ficou um senhor lá que era muito avexadinho, assim... não era muito
esperto, não era bem da bola não, mas para essas orientações ele foi ótimo.
Ele chamava Senhor dos Passos de ‘meu chefe’: ‘Eu fico aqui é por ordem do
meu chefe’. E então era ótimo. Então, no primeiro ano para a gente armar
esse andor do Senhor dos Passos, tirar aquela cruz pequena e colocar a cruz
grande... tem uma parte assim, que é coberta de prata e você pensa que é
um espeto. Porque tem um ganchinho assim em cima, e ajusta direitinho
na cruz. Quer dizer, é fácil para quem sabe, mas vendo assim despencado...
Ah, meu Deus, que sacrifício! (Monteiro, 2003).

Percebe-se que a crise gerada com a morte do último terceiro do Carmo


não foi exclusivamente no campo da organização institucional, mas se deu
também na própria romaria, pois ele acabou encerrando um ciclo da trans-
missão de saberes pautado no ver fazer e no ouvir como se faz. A morte de
Domingos Sobral do Rosário significou em parte a morte da própria circula-
ção de saberes da romaria do Senhor dos Passos, pois os herdeiros da honraria
tiveram que reinventar o modo de fazer a montagem das charolas. A descida
da imagem do seu nicho no altar-mor era um dos momentos de maior ritu-
alização da solenidade; cada momento era interpretado como um mistério,
um contato imediato com o sagrado e, consequentemente, a constituição de
uma relíquia. Após a descida da imagem “do nichozinho, segurada por dois
homens, com muito jeito” (Monteiro, 2003), ocorria a sua lavagem. Maria
Paiva Monteiro constata as mudanças de concepções sobre o rito:

A senhora que tomava conta de lá, do Senhor dos Passos... quando ele des-
cia, ela lavava os pés dele com uma esponjazinha. E ela engarrafava a água e
distribuía com as pessoas que antes pediam a ela. Então era a água dos pés do
Senhor dos Passos. Era uma relíquia! Agora depois, esse negócio deixou de
se fazer. Primeiro porque podia estragar a pintura. Depois porque ela fazia
com muito cuidado. Eu mesma não quero fazer isso, porque dá trabalho e
eu não acredito muito assim. Porque a gente não pode tirar quem quiser
234 SANTOS, Magno Francisco de Jesus. “Domingo de Reminiscere”: tramas mnemônicas da romaria do Senhor dos Passos...

acreditar, mas eu não acredito. Agora também não dá para a gente fazer sem
acreditar. Isso se a gente não faz com fé, não vale! (Monteiro, 2003).

A assertiva da entrevistada elucida as mudanças de concepções entre duas


gerações distintas. A primeira, herdeira do catolicismo oitocentista, tornava
todo momento de arrumação das imagens uma ocasião especial e mística. Na
primeira metade do século XX, as práticas religiosas dos bastidores da romaria
do Senhor dos Passos expressavam elementos de um ritual que era combatido
pelo clero reformador. No discurso civilizador, tais práticas eram vistas como
meras superstições, fragmentos de rituais pagãos no seio do catolicismo que
deveriam ser extirpados. Maria Paiva Monteiro, a madrinha dos cristovenses,
representava outra face das práticas religiosas da cidade: filha de um terceiro
carmelita, educada na importante Escola Normal de Aracaju e professora na
Escola Imaculada Conceição das irmãs missionárias, ela refletia a posição de
um agente que circulava livremente entre as duas perspectivas conflitantes do
catolicismo sergipano do século XX. A sua relutância em dar prosseguimento
ao ritual de lavagem dos pés da imagem é justificada pela preocupação com a
preservação patrimonial e pela descrença. Possivelmente a ordem de impor-
tância das duas justificativas seja inversa à da sua menção na entrevista, pois a
argumentação sobre a descrença nesse ritual é muito mais evidente e extensa.
Maria Paiva Monteiro foi uma agente de negociação entre as diferentes prá-
ticas do catolicismo – principalmente entre o clero reformador e os devotos
das camadas populares. Seu discurso expõe uma posição de diálogo quando
afirma simultaneamente “a gente não pode tirar” e “eu mesma não quero fazer
isso”. De qualquer modo, a fala da entrevistada expressa que o catolicismo das
camadas populares necessitava de mudanças, de reforma, mesmo reconhe-
cendo que não haveria como impor uma nova conduta religiosa.
Após a lavagem dos pés do Senhor dos Passos, ocorria a troca de rou-
pas. As túnicas da imagem geralmente eram fruto de doações piedosas dos
promesseiros. Com isso, praticamente todos os anos a imagem do Senhor
dos Passos sai em procissão com uma vestimenta nova, doada por devotos
promesseiros e costurada por moradoras da cidade, como dona Madalena e
dona Rivanda.22 Segundo Jorge dos Santos:

22 Antigas devotas responsáveis pela confecção das túnicas do Senhor dos Passos e da Nossa Senhora da
Soledade. Além disso, juntamente com Maria Paiva Monteiro, elas faziam a troca de vestimenta da ima-
gem da Virgem da Soledade na semana anterior à procissão.
História Oral, v. 17, n. 1, p. 219-242, jan./jun. 2014 235

A cidade foi chegando, foi crescendo com a aparição do Senhor dos Passos
em São Cristóvão [...]. A gente tinha trabalho para receber os fiéis e para
guardar os ex-votos, e a cidade tornou-se esse movimento religioso, porque
uma das festas maiores no estado de Sergipe é a do Senhor dos Passos. E
todo ano ele tem uma túnica nova. Tem gente que faz promessas e dá as
roupas do Senhor dos Passos. Compra o pano e dá para dona Madalena
costurar. Uma das primeiras túnicas do Senhor dos Passos foi doada pelo
barão de Laranjeiras. Até hoje está guardada na Matriz. (Santos, J., 2011).

Na descrição de Jorge dos Santos, o desenvolvimento da cidade se deu


a partir da chegada da imagem do Senhor dos Passos e do crescimento da
romaria. Ao falar do cuidado que os moradores têm com a recepção dos
romeiros e com a guarda dos ex-votos, revela que todos os anos a imagem
recebe uma nova túnica para a procissão. Nas memórias do carnavalesco de
São Cristóvão, percebe-se uma separação entre os ex-votos e a doação de túni-
cas. Enquanto os primeiros eram deixados por romeiros, pagadores de pro-
messas, as túnicas eram doações de pessoas da elite sergipana, como barões e
senhores de engenho.23 Na concepção do entrevistado, há uma distinção nas
práticas devocionais de ricos e pobres.
Essa constatação em parte é evidente, pois apesar de haver um com-
partilhamento devocional entre a elite e as camadas populares da sociedade
sergipana, existe um distanciamento no modo como essa devoção é exposta.
Outra questão é que esse distanciamento aumentou consideravelmente ao
longo dos primeiros decênios do século XX, momento em que a elite política
local passou a desempenhar um papel de espectadora da romaria e as cama-
das populares assumiram o papel de protagonistas do enredo de dor. Pode-se
assim dizer que desde a Primeira República os políticos sergipanos e a elite
econômica passaram a buscar na cultura das camadas populares os pilares
da identidade sergipana, os ícones da tradição. Tratava-se de uma estratégia
de busca do passado por meio das práticas culturais. Contudo, a doação de
túnicas para a imagem do Senhor dos Passos pela elite política aponta para a
continuidade da prática ex-votiva nesse segmento social. Apesar do discurso

23 A túnica do Senhor dos Passos foi uma doação do Barão da Estância. Segundo Maria Monteiro, é “uma
túnica bordada com fios de ouro e comprada na França”. É provável que a peça tenha sido encomendada
a alguma costureira francesa do Rio de Janeiro, em alguma de suas viagens como deputado Geral do
Império (Monteiro, 2003).
236 SANTOS, Magno Francisco de Jesus. “Domingo de Reminiscere”: tramas mnemônicas da romaria do Senhor dos Passos...

modernizador e da tentativa de civilizar os costumes, a persistência da entrega


dos ex-votos revela que não somente as devoções, mas também algumas prá-
ticas devocionais eram compartilhadas entre pobres e ricos. Nesse caso, a dis-
tinção social se dava pelo poder aquisitivo, que tornava explícito o distancia-
mento entre as camadas sociais.
Na semana de Passos, os organizadores da cidade se movimentavam,
costurando e lavando as túnicas. Eunice Batista24 explica a arrumação e a
lavagem das roupas do Senhor dos Passos e da Nossa Senhora da Soledade:

A arrumação a gente fazia. Na semana toda a gente vestia aqueles altarezi-


nhos. Na quinta-feira a gente veste o Senhor dos Passos. Coloca a roupinha
dele e a de Nossa Senhora da Soledade. O povo diz que é Nossa Senhora
das Dores, mas é da Soledade, porque ela ficou só e saiu procurando o filho.
Quem arrumava era eu, dona Marinete, dona Miralda Dantas, que lavava
as roupas, dona Lourdes Tavares. As meninas da associação da gente, Nossa
Senhora do Carmo. Tinha Everaldo e Henrique. Eram poucos. Eram pes-
soas escolhidas, porque tinha que ter muito respeito. A roupa do Senhor
dos Passos quem lavava era eu. Eu cuidava de tudo do Senhor dos Passos.
Lavava aquela roupa com todo o carinho, os santinhos, com muito respeito.
A gente coloca a água, deixa de molho. No outro dia, tira aquela água e
coloca no jardim, para não ficar à toa o sangue de Cristo. Era sempre gente
direita, gente decente mesmo. Perfumava. Um perfume cheiroso. Dona
Lourdes Tavares trazia sempre. Dona Miralda também botava aquele per-
fume. Ficava lindo! Quando descia e ficava pronto, batia o sino. (Batista,
2012).

A entrevista de Eunice Batista é elucidativa da construção simbó-


lica do patrimônio imaterial na romaria do Senhor dos Passos. Os saberes
e fazeres dos bastidores são vistos como um legado, um bem que é passado
de geração a geração. As memórias de Eunice são marcadas pelos elementos
sensoriais: pelos cheiros, pelos ruídos, pelo olhar – o que corrobora a obser-
vação de Michael Pollak de que as “recordações pessoais são de ordem sen-
sorial: o barulho, os cheiros, as cores” (Pollak, 1989, p. 11). Os bastidores da

24 Eunice Batista foi criada no Orfanato Imaculada Conceição. Atualmente ela é uma das responsáveis
pelos ofícios do Senhor dos Passos, executados durante sete semanas, nas sextas-feiras que antecedem e
que sucedem a romaria.
História Oral, v. 17, n. 1, p. 219-242, jan./jun. 2014 237

solenidade no plano mnemônico são solenizados, edificando hierarquias que


levam em consideração a questão moral, “de gente decente”. Trata-se, por-
tanto, de uma memória coletiva que enaltece a formação de uma nova elite,
que não é econômica nem política, mas da “gente de bem” da cidade, da gente
que tem respeito ao Senhor dos Passos e às coisas do sagrado. Na tessitura
dessas novas divisões, o patrimônio em sua perspectiva imaterial é revelado
como um grande legado. A cidade escolhida pelo Senhor dos Passos é tam-
bém o lócus da rememoração das dores do Cristo, da solidão da Virgem e do
acolhimento aos romeiros.
Os vizinhos do Senhor dos Passos mostram-se em sua pluralidade, evi-
denciando que mesmo dentro de um segmento social são construídas novas
formas de distinção, são redefinidos os lugares sociais da cada indivíduo.
Dona Eunice Batista é uma personagem que carrega o legado da tradição e
também representa o ator social que circula entre as diferentes instâncias do
catolicismo. Se por um lado ela mostra-se como sobrinha do último terceiro
do Carmo legítimo, por outro ela enfatiza a sua ligação com o Orfanato da
Imaculada Conceição e suas concepções compartilhadas com os frades fran-
ciscanos. Assim, a tradição da romaria do Senhor dos Passos perpetua-se em
constante processo de renovação e ressignificação.

Considerações finais

A romaria do Senhor dos Passos na cidade de São Cristóvão, antiga


capital de Sergipe, é uma das principais celebrações católicas do Nordeste.
Ao longo do século XX a celebração passou por importantes transforma-
ções no tocante ao processo de organização, com a gradativa substituição de
profissionais, como os armadores, pelos membros das irmandades e ordens
terceiras.
Essa redefinição do campo de trabalho na organização das festas na
velha capital sergipana ilumina frestas do processo de reforma devocional
católica, no qual as irmandades perderam espaço diante do fortalecimento
do clero reformador. As festas religiosas se tornaram palco dos embates entre
os defensores do catolicismo tradicional e os propulsores do catolicismo
renovado. No seio desse conflito, os moradores da cidade circulavam entre
os diferentes universos devocionais. O uso de fontes orais foi relevante para
a compreensão dos bastidores da principal solenidade religiosa de Sergipe.
238 SANTOS, Magno Francisco de Jesus. “Domingo de Reminiscere”: tramas mnemônicas da romaria do Senhor dos Passos...

Além disso, neste momento em que emergem as discussões voltadas


para o reconhecimento da romaria como patrimônio imaterial do estado de
Sergipe, a oralidade se torna imprescindível. Nesse processo as fontes orais
explicitam as reconstruções mnemônicas da festa religiosa e seus diferentes
usos e leituras do passado.

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242 SANTOS, Magno Francisco de Jesus. “Domingo de Reminiscere”: tramas mnemônicas da romaria do Senhor dos Passos...

Resumo: A romaria do Senhor dos Passos da cidade de São Cristóvão, primeira capital de Sergipe,
é uma das principais manifestações do catolicismo no nordeste brasileiro, reunindo mais de cem
mil romeiros nos dois dias de celebrações. Este artigo discute o processo de reconhecimento
oficial da romaria como patrimônio imaterial do povo sergipano, contrapondo-o às memórias
dos organizadores das celebrações – de forma a evidenciar os diferentes modos de apropriação
do bem simbólico. Tendo em vista esse propósito, a solenidade celebrada no “Domingo de
Reminiscere”, o “domingo de lembrar”, torna-se palco privilegiado das tramas mnemônicas
acerca do catolicismo em Sergipe.

Palavras-chave: memória oral, romaria, Sergipe, Senhor dos Passos.

“Reminiscere Sunday”: mnemonic frames of the pilgrimage of Our Lord of the Stations
in Sergipe

Abstract: The pilgrimage of Our Lord of the Stations in the town of São Cristóvão, the first
capital of Sergipe, is one of the main manifestations of Catholicism in northeastern Brazil,
bringing together over a hundred thousand pilgrims in the two days of celebrations. This
article discusses the process of official recognition of this pilgrimage as an intangible heritage of
Sergipe people, in contrast to the memories of the organizers of the celebrations, highlighting
the different modes of appropriation of the symbolic asset. In this sense, the ceremony that
celebrates the “Reminiscere Sunday”, the “Remember Sunday”, becomes a privileged stage of
mnemonic frames about Catholicism in Sergipe.

Keywords: oral memory, pilgrimage, Sergipe, Our Lord of the Stations.

Recebido em 12/01/2014
Aprovado em 21/07/2014
DOSSIÊ

Narrativas sobre o velho leprosário: as


entrevistas realizadas com pacientes/moradores
do Hospital Colônia Itapuã (Viamão/RS)

Viviane Trindade Borges*


Juliane Conceição Primon Serres**

Dos mil moradores do passado, restam 34, todos idosos, na


cidade a 60 quilômetros do centro de Porto Alegre. Circulam
por ruas e praças quase desertas. Grande parte dos 172 prédios
está abandonada. O Centro de Diversões, construção colossal que
acolhia bailes e sessões de cinema, agora raramente abre as portas.
[…] Essas pessoas chegaram ali como prisioneiros.
Eram pacientes de hanseníase, doença antes conhecida
como lepra e tratada em confinamento.
Eva Pereira Nunes, 67 anos, vive há mais de meio século no antigo
hospital, nos confins de Viamão, à margem da Lagoa Negra. Veio
de um internato em Santo Antônio da Patrulha. Tinha 12 anos.
Na caminhonete onde foi enfiada, a enfermeira tentava acalmá-la:
– Não chora, guriazinha. Tu vais para um lugar muito bom.
O lugar era mesmo bom. Inaugurado em 1940 para isolar os
doentes, contava até com moeda própria, cunhada em alumínio

* Doutora em História. Professora do Departamento e do Programa de Pós-Graduação em História da


UDESC (Universidade do Estado de Santa Catarina) e do Mestrado Profissional em História. Coorde-
nadora do projeto de pesquisa Políticas de memória e tempo presente: a patrimonialização do sofrimento
no Brasil e do projeto de extensão Arquivos marginais. E-mail: vivianetborges@gmail.com.
** Doutora em História. Professora do curso de Museologia e do Programa de Pós-Graduação em Memó-
ria Social e Patrimônio Cultural da UFPEL (Universidade Federal de Pelotas). Colaboradora do projeto
de pesquisa Políticas de memória e tempo presente: a patrimonialização do sofrimento no Brasil e do pro-
jeto de extensão Arquivos marginais. E-mail: julianeserres@gmail.com.
120 BORGES, Viviane Trindade; SERRES, Juliane Conceição Primon. Narrativas sobre o velho leprosário: entrevistas...

e com circulação restrita à colônia – uma tentativa de evitar


contágios. O sustento era garantido pela lavoura e criação de gado.
Lá dentro, além de trabalharem, os pacientes iam à escola,
divertiam-se, casavam-se. Também acabavam em uma cela,
cumprindo pena de 10 dias, quando surpreendidos em tentativa
de fuga. Eva fugiu várias vezes. Depois, sem ter para onde ir,
voltava. No início, viveu em um quarto, no pavilhão coletivo.
Trabalhou na lavanderia, no refeitório e na coleta de lixo.
Aos 17 anos, casou-se com outro paciente, Darcy, 27 anos,
na igreja católica do hospital. O matrimônio garantiu o
direito de se mudar para uma das casas reservadas aos casais.
Decidiu não ter filhos. As crianças que nasciam na colônia
eram retiradas das mães após o parto e enviadas para o
Amparo Santa Cruz, instituição a 40 quilômetros dali.
– Eles eram arrancados da mãe como se fossem bichos – recorda Eva.
(Melo, 2012).

A reportagem intitulada “Com mais de 70 anos, Hospital Colônia


Itapuã agoniza a 60 quilômetros de Porto Alegre”, foi publicada no jornal
Zero Hora (07/04/2012). No trecho citado é possível conhecer um pouco
da história da instituição e de seus moradores. Inaugurado em 11 de maio de
1940, o Leprosário Itapuã, em Viamão, Rio Grande do Sul, foi um dos últi-
mos hospitais para o tratamento da lepra construídos no Brasil sob a orienta-
ção do isolamento como forma de profilaxia. Tal medida havia sido sugerida
nas chamadas Conferências Internacionais de Lepra: a primeira, realizada
em Berlim no ano de 1897, havia proclamado a contagiosidade da doença; a
segunda, em 1909, em Bergen, reafirmou o que havia sido dito em Berlim e
asseverou que o isolamento era a forma mais eficaz de evitar a propagação da
doença. Como resultado dessa orientação, o Brasil construiu no período de
governo de Getúlio Vargas (1930-1945) uma rede de mais de 30 instituições,
presentes em todos os estados da federação.
Esses estabelecimentos tiveram como referência o Leprosário Modelo
dos campos de Santo Ângelo, em São Paulo (Souza-Araújo, 1948), e foram
sistematicamente construídos com base em um projeto elaborado em 1935
pelos médicos João de Barros Barreto, então diretor-geral da Saúde Pública;
Ernani Agrícola, diretor dos Serviços Sanitários nos estados; e Joaquim
História Oral, v. 17, n. 1, p. 119-134, jan./jun. 2014 121

Mota, médico do Departamento Nacional de Saúde e Assistência Médico-


-Social (Serres, 2004).
O plano previa a construção de hospitais nos moldes de pequenas cida-
des divididas em áreas denominadas “zonas”: a chamada “zona sadia”, a “zona
intermediária” e a “zona doente”, correspondendo respectivamente a uma
área de moradia de funcionários, uma área administrativa e uma área des-
tinada aos doentes. A divisão pretendia organizar espacialmente os doentes
e impedir o contato deles com pessoas saudáveis; além da divisão espacial,
uma característica importante que marcou a construção dos leprosários foi a
escolha do local: recomendava-se que fossem distantes de áreas populosas e,
quando possível, dotados de barreiras naturais de isolamento (Souza-Araújo,
1956).
O Leprosário Itapuã obedecia a todos os critérios estabelecidos pela
profilaxia: distante 60 km da capital Porto Alegre, ocupava uma área de 3
mil hectares entre a Lagoa Negra, um morro e uma estrada de rodagem no
município de Viamão. A capacidade inicial do leprosário previa o isolamento
de 500 doentes; com a ampliação das construções e algumas adaptações, ele
chegou a isolar mais de 800 pessoas (Serres, 2009).
Durante as quase cinco décadas de funcionamento, foram isolados no
Hospital Colônia Itapuã (HCI) mais de 2.500 doentes; atualmente, a ins-
tituição abriga os poucos remanescentes desse período, bem como alguns
pacientes psiquiátricos (Borges, 2003, 2012b). Estes últimos, provenientes
do Hospital Psiquiátrico São Pedro, foram transferidos na década de 1970
para o Centro Agrícola de Reabilitação (CAR), que funcionava nas depen-
dências do HCI e intencionava reabilitar pacientes de origem rural diagnos-
ticados como esquizofrênicos crônicos, devolvendo-lhes ao seu meio social.
Atualmente, além de ser a moradia de antigos pacientes que perderam seus
vínculos familiares, o HCI também atende à população vizinha como um
hospital geral.
Trataremos aqui da constituição de um espaço de memória dentro do
HCI, entre 2000 e 2002, que possibilitou a realização de entrevistas com
pacientes hansenianos e psiquiátricos. O presente artigo analisa os caminhos
percorridos para a composição de um banco de depoimentos dentro de uma
instituição marcada pelo estigma, problematizando as especificidades ligadas
à análise de tais fontes pelos historiadores do tempo presente.
122 BORGES, Viviane Trindade; SERRES, Juliane Conceição Primon. Narrativas sobre o velho leprosário: entrevistas...

Centro de Documentação e Pesquisa

Conforme apontado no início deste texto, o HCI agoniza esperando


um novo uso para suas edificações, frente ao olhar cansado de seus velhos
pacientes-moradores. Mas não apenas os espaços edificados agonizam: a
memória e a história da lepra no Rio Grande do Sul também sofrem, perdem-
-se em meio ao descaso e ao tempo que passa.
Na tentativa de preservar e difundir a memória dessa instituição, entre
1999 e 2000 foi criado um Centro de Documentação e Pesquisa (CEDOPE),
a fim de reunir em um acervo a documentação produzida pela instituição ao
longo de décadas, além de criar de um banco de história oral com os testemu-
nhos de pessoas diretamente relacionadas à instituição: médicos, funcioná-
rios, religiosos e, sobretudo, antigos moradores (Borges; Barcelos; Fontoura,
2003). A criação do Centro, por um lado, respondia à necessidade de preser-
vação de uma documentação administrativa e da saúde pública; por outro,
com a realização de um trabalho de história oral, movimentava-se no sentido
de registrar as memórias, os testemunhos das pessoas relacionadas à institui-
ção, principalmente os antigos doentes.1
A proposta do CEDOPE/HCI era, entre outras ações, criar um acervo
de fontes orais que serviria, inicialmente, como fonte de pesquisa para a ela-
boração da exposição HCI: 60 anos de história, organizada no ano 2000. A
narrativa sobre a história da instituição compunha-se de fotografias doadas
pelos moradores e de trechos de seus depoimentos. Com o desenvolvimento
da ideia, realizaram-se novas entrevistas com antigos pacientes hansenia-
nos, homens e mulheres (totalizando 21 depoimentos entre 2000 e 2002).
Nessa mesma perspectiva, entre 2002 e 2005 foram feitas seis entrevistas
com pacientes psiquiátricos e mais quatro com membros da equipe médica
do Centro Agrícola de Reabilitação – três psiquiatras e uma assistente social
– que participaram da implementação do CAR e acompanharam seu funcio-
namento entre os anos de 1972 e 1982 (Borges, 2003, 2012a).
A criação do CEDOPE e a preocupação com a preservação de fontes
orais revela a intenção de disponibilizar o acervo a terceiros, possibilitando
novas pesquisas a respeito da instituição e de seus moradores. De acordo com

1 O CEDOPE/HCI foi idealizado pela historiadora Arselle de Andrade da Fontoura, que coordenou o
Centro em seu primeiro ano de funcionamento.
História Oral, v. 17, n. 1, p. 119-134, jan./jun. 2014 123

Dominique Veillon (1992), essa tendência é cada vez mais presente na histó-
ria oral, e implicaum cuidado na preservação dos registros sonoros, visando
sua disponibilização a outros pesquisadores:

Até recentemente, era comum para o historiador prestar uma atenção ape-
nas secundária a questões metodológicas, éticas e técnicas das fontes orais.
Considerando-se o único destinatário da fonte, pouco lhe importavam as
condições de registro ou de armazenamento. Alguns até não intenciona-
vam manter suas gravações, destruindo-as após o uso. Outros viam essas
gravações como uma fonte secundária que não poderia substituir a palavra
escrita e por isso não cuidavam de seu futuro. Uma mudança surgiu nos
últimos anos para harmonizar este tipo de história, institucionalizando-a e
conferindo-lhe um status diferente. Há um esforço para melhor garantir a
sobrevivência dos arquivos sonoros. Vários congressos de arquivistas opta-
ram por consagrar a isso uma parte de seus trabalhos, esforçando-se em par-
ticular para sensibilizar os praticantes da história oral para os problemas da
preservação dos documentos e para a importância da coleta e salvaguarda
dos arquivos orais. Historiadores que utilizam a oralidade estão mais pro-
pensos a não trabalharem sozinhos, eles agora aceitam sem muita hesitação
confiar seus registros a serviços especializados para que sejam mantidos em
boas condições. Essa é uma evidência de que a história oral está prestes a ser
cada vez mais solicitada (Veillon, 1992; tradução livre).

Os depoimentos orais disponibilizados pelo CEDOPE são testemu-


nhos que tratam do cotidiano asilar, da vida em confinamento compulsório.
No caso dos internos, nos deparamos com memórias carregadas de lembran-
ças traumáticas, memórias subterrâneas (Pollak, 1989) que revelam muito
além do que seria possível apreender por meio das demais fontes disponíveis.
A riqueza de tais fontes foi explorada por diferentes perspectivas,
potencializando os significados ligados à experiência do internamento. Serres
(2004, 2009) analisou o combate à lepra no Rio Grande do Sul e as trajetórias
marcadas pela experiência de vida no Hospital Colônia Itapuã. Seguindo essa
mesma perspectiva, Borges (2007) esquadrinhou, por meio de três temas, a
maneira como as mulheres hansenianas internadas no HCI organizaram suas
lembranças – casamento, maternidade e viuvez –, perscrutando lembranças
traumáticas ligadas à separação dos filhos que nasciam dentro do leprosário
– uma medida profilática que estabelecia que os recém-nascidos ou filhos
124 BORGES, Viviane Trindade; SERRES, Juliane Conceição Primon. Narrativas sobre o velho leprosário: entrevistas...

saudáveis dos internados crescessem em instituições específicas, os chamados


preventórios, longe dos pais doentes.
A análise da tessitura das entrevistas realizadas pelo CEDOPE (com o
auxílio de outras fontes) permitiu ainda problematizar a relação entre os sujeitos
acometidos pela lepra e os pacientes psiquiátricos que passaram a habitar o Hos-
pital Colônia a partir da década de 1970 (Borges, 2006, 2007, 2012a, 2012b). A
tensão estabelecida pelo convívio forçado entre pacientes acometidos por doen-
ças milenarmente estigmatizantes – que passaram a dividir o mesmo espaço –
causou estranhamentos e conflitos. Borges utilizou as entrevistas do CEDOPE
e analisou lembranças de hansenianos e pacientes psiquiátricos com a finalidade
de promover a batalha de memórias acerca dessa delicada convivência.
Cabe salientar ainda que os depoimentos colhidos de pacientes psi-
quiátricos a respeito do seu cotidiano nas dependências do HCI fornecem
importantes elementos para o estudo da história da loucura no Rio Grande
do Sul. As falas dos internos ensejam um novo olhar a respeito da institui-
ção e de seus moradores, possibilitando tecer as diferentes sensibilidades que
resistiram ao caráter uniformizante do internamento.
A análise exaustiva de tais fontes, realizada sob diferentes perspectivas,
revela a complexidade de trabalhar com memórias traumáticas – ou memó-
rias subterrâneas. As lembranças vinculadas à lepra e aos antigos leprosários
foram marcadas por situações de grande sofrimento físico e psíquico, os
antigos moradores do Itapuã vivem um paradoxo entre o querer lembrar e o
querer esquecer. O internamento compulsório, que isolou esses indivíduos
durante boa parte de suas vidas, está ligado ao estigma milenar que cerca a
doença, e seus efeitos fizeram com que, em muitos casos, os internos perma-
necessem no HCI mesmo depois de receberem alta.
Neste trabalho, adotamos o entendimento das fontes orais elaborado
por Borges (2013) – com base na noção de memórias subterrâneas desen-
volvida por Pollak (1989) – ao tratar das entrevistas do Hospital Colônia
Sant’Ana, em Santa Catarina:

[...] em seu caráter de oposição a uma memória ‘oficial’, pois aquelas revelam
detalhes a respeito do cotidiano institucional, enriquecendo e/ou potencia-
lizando aquilo que as fontes institucionais revelam, possibilitando outras
nuances a respeito da história que se quer contar. Tais entrevistas empreen-
dem um trabalho de subversão silenciosa, deixando que, incitadas, as memó-
rias aflorem em estado bruto, como um desabafo. (Borges, 2013, p. 1.534).
História Oral, v. 17, n. 1, p. 119-134, jan./jun. 2014 125

Preservar as memórias dos moradores, médicos, funcionários, adminis-


tradores dos antigos hospitais e os demais testemunhos documentais é lutar
contra o esquecimento que repousa sobre essas instituições. À medida que os
hospitais vêm sendo desativados ou reutilizados para outros tipos de assistên-
cia, a memória relativa a esses locais e às milhares de pessoas a eles vinculados
está em vias do desaparecimento. No desenrolar desta nova tessitura, perma-
necem poucos testemunhos sobre esse importante capítulo da saúde pública
do país – bem como, num plano mais pessoal, são poucos os testemunhos
sobre a vida com a (e apesar da) doença.
É possível que a geração que viveu essas experiências, que podemos cha-
mar de traumáticas, não as queira revisitar, silencie-as por serem estigmati-
zantes. Contudo, as gerações seguintes, filhos e netos dos antigos internos,
podem querer conhecer e comunicar essas memórias, como é possível obser-
var no Programa Reencontros, lançado dia 23 de agosto de 2011 na Fundação
Oswaldo Cruz (Fiocruz), no Rio de Janeiro, do qual participa a Universidade
Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). O projeto prevê um mapeamento
genético para identificar os filhos de antigos doentes internados nos hospi-
tais.2 A iniciativa tem um desdobramento econômico: está tramitando na
Câmara de Deputados o Projeto de Lei nº 3.303, de 2012, que visa indenizar
os filhos que foram separados dos pais em razão do isolamento.
Nesse contexto, os “testemunhos da lepra”, mais que revelar um modo
de vida em isolamento, permitem reestabelecer vínculos sociais desfeitos.
Conforme mencionado, quando os doentes eram isolados, seus filhos sau-
dáveis nascidos dentro do hospital (bem como aqueles nascidos antes da
internação) eram levados a instituições específicas, para viver longe dos pais
biológicos, vitimados pela doença. Tal medida é relatada por todas as mulhe-
res entrevistadas, mesmo aquelas que não chegaram a ter filhos expressam o
horror à ideia de ter um filho arrancado dos braços.
Além de oportunizarem o reestabelecimento de vínculos, essas memó-
rias permitem outra aproximação (e tentativa de compreensão) da vida no
isolamento, de modo a pôr de lado, em termos, o peso da sua trajetória. Entre
o desejo de esquecimento e a necessidade de lembrança, sobretudo quando se
chega ao fim da vida – como a maioria dos internados no velho leprosário –,
torna-se urgente comunicar, e esse imperativo torna-se um desafio.

2 O programa foi inspirado na experiência das Avós da Praça de Maio, que vêm trabalhando para reunir
famílias que foram separadas durante o regime militar na Argentina.
126 BORGES, Viviane Trindade; SERRES, Juliane Conceição Primon. Narrativas sobre o velho leprosário: entrevistas...

Com a criação do referido Centro de Documentação e Pesquisa, ini-


ciou-se um processo de coletar depoimentos dos antigos moradores; a exis-
tência de um local que poderia preservar e “perpetuar” as memórias, por sua
vez, desencadeou um desejo de dizer, de narrar, de se fazer ouvir. Inicialmente
esse processo foi lento, mas aos poucos toda a comunidade tinha algo a dizer.
Infelizmente hoje, com o fechamento do Centro, essas vozes estão à procura
de escutas atentas.3
No que tange a memórias traumáticas, cuidados éticos e restrições ao
uso das entrevistas são medidas necessárias, para as quais o pesquisador deve
ficar atento:

Em alguns casos a restrição ao uso das entrevistas pode ser necessária.


Memórias traumáticas, memórias subterrâneas, rememorações ligadas ao
sofrimento, constituem vestígios de passados sensíveis, cujas testemunhas,
em muitos casos, solicitam anonimato e sigilo sobre as informações revela-
das em seus depoimentos, conferindo seu uso apenas ao pesquisador que as
entrevistou. Quando liberada a consulta, os entrevistados podem ter garan-
tido o sigilo em relação a sua identidade, pelo uso de pseudônimos ou com
a possibilidade de revelar apenas as iniciais dos entrevistados, garantindo
o acesso à informação sem prejudicar o depoente. (Borges, 2012a, p. 673).

Nos últimos anos, tem crescido no Brasil o reconhecimento da necessi-


dade de regulação da ética em pesquisa, vejam-se as Resoluções nº 196 (Bra-
sil, 1996) e 466 (Brasil, 2012) do Conselho Nacional de Saúde. Embora esses
documentos se pretendam válidos para todos os campos de pesquisa, sua
estrutura normativa e metodológica está muito ligada à área médica, o que
gera especificidades que muitas vezes não se aplicam às práticas das ciências
humanas. Em 14 de agosto de 2013, por iniciativa da Associação Brasileira
de Antropologia, foi realizada uma reunião – da qual participou a Associa-
ção Nacional de História (Anpuh) – visando à elaboração de uma “resolu-
ção complementar” à Resolução nº 466 (Comitê de Ética..., s.d.), entendida

3 O fechamento do CEDOPE ocorreu em 2002. Na época não obtivemos explicações da direção ou da


Secretaria de Saúde do Estado sobre as razões da desativação. Houve algumas tentativas de reabri-lo por
meio de projetos desenvolvidos pelo Museu de História de Medicina do Rio Grande do Sul, porém o
trabalho foi descontínuo, e hoje o Centro encontra-se fechado e o acervo que abriga, ameaR n. 466, de
12 de dezembro de 2012. do e o acervo que abriga, ameados pelo Museu de Histist (SERRES, 2009)a
contagiosa, mas se çado.
História Oral, v. 17, n. 1, p. 119-134, jan./jun. 2014 127

como “estranha e inconveniente para a condução e avaliação das pesquisas”


em ciências humanas. O debate, como se vê, segue em andamento.
Cabe salientar que os cuidados garantidos por meio da submissão dos
projetos de pesquisa acadêmicos aos Comitês de Ética em pesquisa consi-
deram algumas especificidades importantes, como, por exemplo, os cuida-
dos em relação ao grau de risco oferecido aos indivíduos pesquisados e os
procedimentos de minimização desse risco. Esse tipo de cuidado chama a
atenção do pesquisador para o fato de que todo procedimento de pesquisa
envolvendo seres humanos apresenta algum grau de risco, “físico, psíquico,
cultural, social, entre outros”. A submissão de projetos aos Comitês de Ética
leva o pesquisador oral a ponderar sobre temas sensíveis por vezes suscitados
pelo trabalho de rememoração dos entrevistados, estimulando que ele avalie
procedimentos que ajudem a minimizar eventuais danos (Borges, 2012a).
Outra questão de extrema importância diz respeito à garantia de sigilo
de dados: problematiza-se a necessidade (ou a dispensabilidade) de identifi-
cação dos sujeitos da pesquisa. Por tratarem de pessoas que tiveram suas exis-
tências marcadas por uma doença milenarmente estigmatizada, alguns dos
trabalhos que utilizaram tais entrevistas como fontes optaram pela preserva-
ção das identidades dos depoentes, recorrendo a pseudônimos ou utilizando
apenas as inicias dos entrevistados. Borges (2007), por exemplo, ao analisar
as entrevistas de mulheres hansenianas, problematizando temas como casa-
mento, maternidade e viuvez dentro do espaço asilar, procurou preservar as
identidades das depoentes, valendo-se de nomes fictícios. Essa foi uma opção
definida em conjunto com as entrevistadas, visto que muitas não desejam que
suas identidades sejam reveladas por medo de sofrerem ainda mais com o
preconceito. Contudo, em alguns casos, a identificação do depoente é indis-
pensável para que sua narrativa faça sentido, e há ainda situações em que o
depoente deseja que seu nome apareça, que sua identidade seja revelada.
Cabe salientar que no caso dos residentes ex-hansenianos, todas as
entrevistas feitas pelo CEDOPE foram autorizadas pelos próprios entre-
vistados. Como o internamento não é mais compulsório, residir no HCI
passa a ser entendido como uma escolha, ainda que essa talvez tenha sido
a única opção para aqueles que não conseguiram se reinserir na sociedade.
Esses sujeitos, portanto, respondem por seus atos e podem decidir sobre a
exposição de suas ideias. Em sua tese de doutorado, Serres (2009), analisa as
falas de dois pacientes-moradores: Lori, cujo nome é revelado a pedido da
própria entrevistada, e G.M., que exigiu anonimato. Ponderar a respeito da
128 BORGES, Viviane Trindade; SERRES, Juliane Conceição Primon. Narrativas sobre o velho leprosário: entrevistas...

utilização do nome próprio é uma questão (ética) que se coloca em relação a


esses trabalhos, sobretudo no que toca a pessoas que vivem em instituições de
isolamento social.
Cabe mencionar que os locais e as circunstâncias em que algumas das
entrevistas do HCI foram realizadas exigiram muita sensibilidade dos pes-
quisadores. Alguns depoimentos foram colhidos dentro das enfermarias,
onde os depoentes viviam em função de não terem mais condições físicas de
residirem nos pavilhões, visto que precisavam de cuidados constantes. Bor-
ges (2007) cita o caso de uma entrevista feita com uma senhora que tinha
perdido as duas pernas e que vivia na instituição havia mais de 60 anos. A
depoente falava baixo e logo se cansava, o que exigia que o entrevistador per-
manecesse muito próximo para conseguir captar sua voz com gravador, divi-
dindo a entrevista em etapas para não cansar a entrevistada. Dessa forma,
cabe ressaltar a importância da sutileza do entrevistador nesse processo, que
deve estar atento a detalhes que potencializam a análise:
Para estudar essas existências condenadas pelo preconceito, creio que
interessa ao pesquisador não apenas a fala, mas também um olhar, um sorriso,
ou uma lágrima, enfim, as expressões narradas pelo corpo, as quais somente o
entrevistador pode trazer à pesquisa. (Borges, 2007, p. 112).
Problematizar essas memórias por meio de lugares de preservação e
estudo pode ajudar esses grupos a conviver com o passado traumático, bem
como contribuir para desestigmatizar a doença. Ao tratar de memórias trau-
máticas, Pollak (1989) afirma que elas podem esperar dezenas de anos até
encontrar o momento propício para serem expressas. Percebe-se, no caso do
HCI, que o momento propício é a concomitância da avançada idade dos
antigos moradores, da desarticulação do antigo hospital e do desejo de com-
preensão por parte dos pesquisadores.
É preciso destinar lugares para manter esses vestígios, investigar os pro-
cessos que levaram à segregação de milhares de doentes no Brasil e, sobre-
tudo, compreender como esses indivíduos viveram no isolamento. Não se
trata somente de preservar para a posteridade, mas de permitir que nossa
sociedade compreenda as concepções políticas e médico-científicas que gera-
ram tais práticas.
O CEDOPE pode ser interpretado como um local privilegiado de
guarda dos testemunhos relacionados à vida com a lepra, um importante
espaço para ajudar a pensar o leprosário e as experiências a ele relacionadas.
Apesar de sua inegável importância para estudos a respeito da lepra no Brasil
História Oral, v. 17, n. 1, p. 119-134, jan./jun. 2014 129

e para reflexões que intencionam atuar como difusoras do trabalho de deses-


tigmatização da doença, o Centro foi desativado em 2002. A ocultação social,
a destruição dos vestígios, o apagamento da memória colaboram para manter
o estigma em relação à doença, enquanto a exposição do tema, a ampla dis-
cussão, a preservação dos antigos hospitais ou da sua memória podem ajudar
a combater o preconceito e o sofrimento impostos às dezenas de milhares
de antigos internos dessas instituições e às demais pessoas acometidas pela
hanseníase no Brasil.
As antigas colônias precisam ser desestigmatizadas, mas não pela des-
truição e pelo consequente esquecimento, e sim pela compreensão dos pro-
cessos dos quais são resultado. As memórias dos antigos internados auxiliam
nesse esforço: revelam uma tentativa de estabelecer certa normalidade, visto
que, ao narrar, eles buscam emprestar à sua vida um sentido que permita con-
viver com um passado marcado pelo estigma e exclusão.
A história oral é, assim, uma das principais fontes para o estudo do
passado recente e para a história do tempo presente. Nos depoimentos aqui
referidos, estão contidas a experiência do isolamento, situada no passado,
e a narrativa da experiência, situada no presente, que atualiza e ressignifica
aquela. Cria-se um terceiro tempo, o tempo contado, que não é passado nem
presente, mas uma narrativa no presente sobre o passado, que busca unir dois
extremos: o tempo universal e o tempo vivido (Dosse, 2004, p. 58).
É nessa relação dialógica que apreendemos as experiências das pessoas
que vivenciaram o isolamento no leprosário de Itapuã, cujo passado impregna
o presente a ponto dos indivíduos referirem-se a si mesmos, no presente,
como “doentes”, quando já não mais o são. O acesso que temos às suas vivên-
cias – ao cotidiano, de outrora e do presente, com seus ajustamentos, táticas,
conformismos – ocorre por meio de suas memórias sobre o vivido.
As entrevistas realizadas são memórias provocadas, que comportam ela-
boração, seleção, esquecimentos. Portanto, não se trata um canal que nos
conduziria a um passado intacto; antes de uma operação de construção, que
seleciona fragmentos do passado, por entre as permissões e interdições do
presente, mas que é permeada, sem dúvida, de elementos que podem escapar
ao crivo da intelecção.
A experiência da lepra e o futuro dos espaços de isolamento social, tais
como leprosários e hospitais psiquiátricos, são inquietações do tempo recente,
frutos de uma história inacabada, ainda prenhe de acontecimentos, que em
seu desenrolar interpela o historiador. No caso da hanseníase, projetos como
130 BORGES, Viviane Trindade; SERRES, Juliane Conceição Primon. Narrativas sobre o velho leprosário: entrevistas...

o Programa Reencontros, citado anteriormente, pretendem localizar os filhos


de antigos doentes, procurando amenizar uma dívida social para com aqueles
que foram separados de seus pais devido a uma medida profilática que visava
o isolamento social. Como contemporâneas desse processo, partilhamos com
os sujeitos dessa tessitura as “mesmas categorias essenciais, as mesmas refe-
rências fundamentais” (Chartier, 2000, p. 216), e dessa forma também nos
inquietamos frente ao destino desses espaços, de seus moradores e de suas
edificações. Como historiadoras do tempo presente, ao nos debruçarmos
sobre o tema, intencionamos sensibilizar a sociedade para a necessidade de
políticas públicas que proponham salvaguardar os vestígios dos espaços de
exclusão, que guardam parte da história da saúde pública no país.
O presente artigo procurou trazer à tona o potencial de entrevistas rea-
lizadas há mais de dez anos por um espaço de memória instituído dentro
do antigo leprosário rio-grandense. O CEDOPE/HCI deixou de funcio-
nar, reflexo do descaso em relação à preservação da memória em nosso país;
contudo, os depoimentos que faziam parte do arquivo de fontes orais ainda
reverberam como fontes fundamentais para a compreensão da história da
hanseníase. O historiador que trata diretamente com essas memórias, que
as apreende em pleno desenrolar, que provoca a narrativa, deve estar ciente
da delicadeza que deve envolver seu trabalho. O contato entrevistado-entre-
vistador suscita lembranças por vezes difíceis, rememorações de um passado
cercado por estigma e preconceito. Conforme Motta (2012, p. 35), “para se
fazer história do tempo presente, é preciso manter um distanciamento que
não é dado pelo tempo, mas sobretudo pela ética”, e para isso precisamos nos
manter vigilantes, “manejando com muito cuidado nossas posições políticas
no diálogo com o nosso trabalho científico”. Tais especificidades, ligadas à
história do tempo presente e ao próprio tema, levam a um constante repensar
da pesquisa, que envolve questões relacionadas ao resguardo da identidade
dos sujeitos – ou sua revelação, quando assim for solicitado –, considerando
que uma postura ética é aquela que respeita a vontade dos entrevistados.
Nas 21 entrevistas realizadas pelo CEDOPE, a doença, o isolamento
e o preconceito são temas centrais. O que essas narrativas fornecem de mais
delicado, entretanto, não são subsídios para que se escreva uma “história dos
doentes de lepra”, entendidos como uma categoria homogênea, senão a opor-
tunidade de perceber como cada um desses indivíduos lembra/narra sua tra-
jetória de vida a partir do crucial diagnóstico.
História Oral, v. 17, n. 1, p. 119-134, jan./jun. 2014 131

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Resumo: O presente estudo trata da constituição do Centro de Documentação e Pesquisa do


Hospital Colônia Itapuã (CEDOPE/HCI), setor criado nas dependências do antigo leprosário
do Rio Grande do Sul, fundado em 1940. Intencionamos aqui abordar as especificidades da
composição de um espaço de memória dentro de uma instituição marcada pelo estigma,
problematizando particularmente a realização e o uso de depoimentos orais, sobretudo no
que toca às implicações éticas desse trabalho. Nas 21 entrevistas feitas com antigos pacientes
hansenianos durante o funcionamento do Centro (2000-2002), a doença, o isolamento e o
preconceito são temas centrais. O que essas narrativas fornecem de mais delicado, entretanto,
não são subsídios pra que se escreva uma “história dos doentes de lepra”, entendidos como uma
categoria homogênea, senão a oportunidade de perceber como cada um desses indivíduos
lembra/narra sua trajetória de vida a partir do crucial diagnóstico.

Palavras-chave: história oral, memória, lepra, saúde, doença.


134 BORGES, Viviane Trindade; SERRES, Juliane Conceição Primon. Narrativas sobre o velho leprosário: entrevistas...

Narratives on the old Leprosarium: interviews with patients/dwellers at Hospital Colônia


Itapuã (Viamão/RS)

Abstract: This article is about the establishment of the Center of Documentation and Research
of the Hospital Colônia Itapuã (CEDOPE/HCI), department created in the old Leprosarium
of Rio Grande do Sul, Brazil, founded in 1940. We intend to approach the constitution of a
place for memory in an institute marked by a stigma, by problematizing the making of oral
interviews, the ethical implications of this and its specificities. During the Center’s operation
(2000-2002), twenty one interviews with former leprosy patients were conducted. Although
much is common among them, like the disease, the insulation, the prejudice, the way everyone
has experienced and reported this is very personal. Accordingly, we cannot write a history of
leprosy patients seen as a homogeneous category, but such reports may point to how each of
these patients recollected/reported their experiences from the disease diagnosis and their own
insulation.

Keywords: oral history, memory, leprosy, health, disease.

Recebido em 19/02/2014
Aprovado em 1º/07/2014
M ULT I M Í D I A

Luto, identidade e reparação:


videobiografias de desaparecidos
na ditadura militar brasileira e o
testemunho no tempo presente

Sônia Meneses*

Eles são o núcleo de um conhecimento sobre a repressão,


além disso, eles têm a textura do vivido em condições
extremas, excepcionais. Por isso são insubstituíveis na
reconstituição desses anos. Mas o atentado das ditaduras
contra o caráter sagrado da vida não transfere esse
caráter ao discurso testemunhal sobre aqueles fatos.
Qualquer relato da experiência é interpretável.
(Sarlo, 2007, p. 61).

Numa sala de estar sóbria, cuja decoração remete aos anos 80, sentada
em um confortável sofá de couro, a testemunha, homem branco, aparen-
tando entre 70 e 80 anos de idade, narra com voz titubeante e cansada uma
história que o deixa visivelmente desconfortável e emocionalmente abalado.
Segundo seu relato, ele foi pessoalmente procurar o comandante do DOI-
-CODI de Brasília em busca da “verdade dos fatos” relacionados à morte de
sua sobrinha-neta. Por meio de seu depoimento, tomamos conhecimento de

* Doutora em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF), docente da Universidade Regional
do Cariri (URCA). Estuda as relações entre história e mídia, teoria da história e tempo presente, memó-
ria, política e Brasil contemporâneo.
136 MENESES, Sônia. Luto, identidade e reparação: videobiografias de desaparecidos na ditadura militar brasileira...

que a jovem foi “torturada de maneira brutal” durante 48 horas, “culminando


a vil tortura com a introdução de um objeto contundente, cassetete da PM,
nos órgãos genitais até causar-lhe hemorragia interna” e que recebeu poste-
riormente um tiro de misericórdia na cabeça. O depoimento é curto, narrado
em um tom pausado, entrecortado por pequenas paradas, sobretudo em seus
trechos mais dramáticos, quando a testemunha tem que descrever em deta-
lhes a morte do seu ente querido.
Tomado em 1985, o relato faz parte da videobiografia1 de Sônia Maria
Lopes de Moraes Angel Jones,2 realizada por iniciativa de seu pai, João Luiz
de Moraes, na época tenente-coronel da reserva. O tio-avô de Sônia, Paulo
César Lopes da Costa, que também tem ligações como os militares, é o
último a falar de uma sequência de 18 testemunhas que ajudam a compor a
biografia da combatente morta durante o regime militar. Em 50 minutos, o
vídeo tenta reconstruir a vida de Sônia Maria – como nos é apresentada –,
desde seu nascimento até sua morte trágica contada em tom de denúncia por
seu tio. Na verdade, a produção do documentário tem o objetivo de desvelar
as circunstâncias da morte da jovem que, em versão oficial, teria sido morta
em combate com a polícia. Todavia, o vídeo3 apresenta muito mais do que
a biografia de Sônia Moraes Angel: serve para pensarmos as dimensões da
memória e do esquecimento em torno desse período e, consequentemente, as
estratégias narrativas utilizadas pelas testemunhas, parentes e presos políticos
para construírem a lembrança daqueles que morreram nos anos da ditadura
militar.
Por outro lado, essas narrativas nos fazem pensar a problemática das ins-
crições do passado na cena contemporânea, principalmente quando colocam
em evidência intensas disputas pela memória e quando apresentam as vítimas

1 O que denomino de “videobiografias” são narrativas – permeadas de jogos de memória e esqueci-


mento – produzidas com fins de tornar visível, por meio de imagens e testemunhos, a história de perso-
nagens cujas trajetórias estão ligadas a eventos importantes para grupos ou gerações. Podem ter formatos
variados, desde documentários, curtas, até vídeos para televisão. Têm como característica o testemunho
e a evocação de memórias traumáticas sobre acontecimentos ou fenômenos sociais.
2 Sônia Angel foi esposa de Stuart Angel, também morto durante o regime militar.
3 O estudo das videobiografias deste artigo é parte de um projeto financiado pelo CNPq intitulado
Memória e reparação: os usos do passado em filmes biográficos e narrativas de desaparecidos políticos no
Brasil, que conta com a participação da licencianda Ana Cristina Rodrigues Furtado no trabalho de des-
crição e de reflexão sobre os filmes. Os vídeos analisados aqui foram acessados e coletados na videoteca
virtual do projeto Brasil Nunca Mais, ligado ao site Armazém Memória: um resgate coletivo da história,
disponível em: <http://www.videotecas.armazemmemoria.com.br>.
História Oral, v. 17, n. 1, p. 135-161, jan./jun. 2014 137

da repressão como proponentes de uma verdade difícil de ser questionada.


Por conseguinte, não está em jogo apenas a análise de artefatos como as vide-
obiografias, mas as apropriações da memória e, consequentemente, as zonas
de esquecimento relacionadas a mortes, torturas e perseguições políticas.
Tal aspecto remete a outra dimensão do processo: a problemática da
produção da história hoje e os desafios para nosso próprio campo do conhe-
cimento, especialmente quando elegemos como foco estudos sobre o tempo
presente, momento que se caracteriza por uma urgência de reflexão sobre o
passado. Ao lidar com documentários de caráter biográfico, pretendo inves-
tigar algumas apropriações e, ao mesmo tempo, refletir sobre as construções
do passado realizadas por parentes e amigos de presos políticos torturados e/
ou mortos durante o regime militar brasileiro, tendo como base seus relatos
testemunhais presentes nos filmes. Assim, mais do que empreender uma aná-
lise estético-teórica dessas produções, buscarei compreender as inscrições da
memória, as zonas de esquecimento, bem como os arranjos de sentido pre-
sentes nessas narrativas, a partir de três dimensões: o lugar do luto, a memória
racionalizada e, por fim, o dever de memória e a busca por justiça.

A memória impedida:
a videobiografia como o lugar do luto

Várias produções de características semelhantes à videobiografia de


Sônia Moraes Angel4 começaram a surgir logo após o fim do regime mili-
tar, ou mesmo antes, a exemplo de Eunice, Clarice e Thereza5 ( Joatan Vilela
Verbel, 1978) e Frei Tito (Andrea Ippolito, 1983). Não há um levantamento
extensivo6 desses relatos, muitos vídeos têm um caráter amador, misturam
estéticas e formatos diferentes, alguns foram produzidos para televisão ou
circularam em espaços restritos de informação. Em sua maioria, foram enco-

4 Neste artigo opto por referir apenas o nome Sônia Moraes Angel (para marcar seus laços familiares) ou
Sônia, em lugar do nome completo Sônia Maria Lopes de Moraes Angel Jones.
5 Documentário com Eunice Paiva, viúva do deputado Rubens Paiva; Clarice Herzog, viúva do jornalista
Vladimir Herzog; e Thereza Fiel, viúva do operário Manuel Fiel Filho.
6 Um levantamento desse tipo está entre os objetivos do projeto Memória e reparação, que, tendo como
ponto de partida o acervo disponibilizado no site Brasil Nunca Mais, tem se ampliado para outras plata-
formas e sites.
138 MENESES, Sônia. Luto, identidade e reparação: videobiografias de desaparecidos na ditadura militar brasileira...

mendados por familiares e amigos de presos políticos e de desaparecidos, ou


por grupos que investigavam os crimes durante a ditadura militar com obje-
tivo de denunciar perseguições ou mortes no período.
Em termos gerais, podemos dizer que esses filmes servem também como
uma espécie de catarse, como suporte de reflexão e apropriação desse passado
recente no qual se evidencia uma luta contra o esquecimento, bem como os
problemas coletivos acerca das interpretações de traumas, silêncios e confli-
tos em torno da memória do regime militar.
A partir da década de 80, narrativas que trouxeram à cena pública denún-
cias e informações de acontecimentos ocorridos em regimes autoritários não
foram uma exclusividade do Brasil. Com o amplo debate desencadeado pelo
Holocausto – retratado em diversos documentários, programas de TV, bio-
grafias, exposições, entre outros –, a memória adquire uma nova configura-
ção, principalmente ao colocar em primeiro plano as testemunhas e vítimas
desses eventos como porta-vozes do passado. Falar, denunciar, lembrar – um
processo que misturou necessidades individuais e coletivas de compreensão
e explicação – foi fundamental para desencadear aquilo que Huyssen (2000)
denominou de uma “cultura da memória” ou, como Rousso (1998) prefere
sugerir, um “tempo da memória”.
Rousso ressalta ser provável que o processo de supervalorização tenha
ocorrido em razão da sensível dificuldade de se assumirem as tragédias do
século XX, que ocasionou um atraso no enfrentamento das memórias trau-
máticas dos conflitos pós-guerra; é também o caso do Brasil, que apenas no
começo do século XXI começou a realizar discussões mais profícuas sobre os
efeitos do período militar, sobretudo aqueles ligados às prisões e torturas. Em
termos de reflexão acadêmica, os debates sobre o passado trouxeram grandes
desafios aos historiadores dedicados a pensar sobre o tempo presente, como
nos alerta Paul Ricoeur:

A história do tempo presente [...] está numa outra fronteira, aquela onde
esbarram uma na outra a palavra das testemunhas ainda vivas e a escrita em
que já se recolhem os rastros documentários dos acontecimentos conside-
rados. (Ricoeur, 2007, p. 456).

O século XXI apresentou um fenômeno muito significativo: o ressurgi-


mento da testemunha como protagonista de narrativas cujo valor de verdade
e apelo a um dever de memória colocaram em primeiro plano as lutas por
História Oral, v. 17, n. 1, p. 135-161, jan./jun. 2014 139

reparação de direitos, bem como uma crescente influência sobre os processos


de governabilidade contemporâneos. Não se pode negar que com as rupturas
desencadeadas pelas ditaduras militares, “os discursos [dessas testemunhas]
começaram a circular e se mostraram indispensáveis para a restauração de
uma esfera pública de direitos” (Sarlo, 2007, p. 47). Nesse caso, a memória
aparece como um bem coletivo, um dever “e uma necessidade jurídica, polí-
tica e moral” (Sarlo, 2007, p. 47). Esses fatores tornaram as narrativas sobre as
ditaduras militares objetos de intensas disputas, sobretudo nos debates sobre
identidades, reparações sociais e memórias feridas que muitas vezes insurgem
sem uma reflexão ou crítica sobre rotinas, ideologias e subjetividades.
Desde o fim de regime militar, a cinematografia brasileira apresenta
obras que abordam o período com o desejo de reflexão sobre esse passado
recente, a exemplo de Pra frente Brasil (Roberto Farias, 1982), Jango (Síl-
vio Tendler, 1984), Cabra marcado para morrer (Eduardo Coutinho, 1984),
Lamarca (Sergio Rezende, 1994), O que é isso, companheiro? (Bruno Barreto,
1997), entre outros. Porém, foi na década de 90 e início dos anos 2000 que se
intensificou a produção de filmes que tratam da temática da ditadura militar
marcados por um forte cunho testemunhal: aqueles que, segundo Gutfreind
e Rech (2011, p. 136), “por sua natureza documental e realista, [são] a via
preferida para um cinema que presta um serviço sócio-histórico”, ou seja, que
tomam a memória como eixo de sua narrativa.
Ainda segundo Gutfreind e Rech, foram um total de “21 filmes feitos
na pós-retomada [ano de 2002 com Cidade de Deus] até 2009 e apenas três
realizados na década de 1980”. No caso das videobiografias, em especial de
sujeitos que não tiveram tanta exposição na mídia, o levantamento se torna
difícil; além das já citadas, podem-se mencionar algumas como: PSW –
Uma crônica subversiva (Paulo Halm, 1987), Emmanuel vive (Tv Memória
Popular, 1992), Iara, lembrança de uma mulher (Renato Sacerdote e Alberto
Baumstein, 1994), 15 filhos (Maria de Oliveira e Marta Nehring, 1996), O
velho (Toni Venturi, 1997), 25 anos sem Fernando (DCE/UFF, 1999), Paulo,
companheiro João (Lur Gomes, 2005), Um companheiro (Clarisse Mantuano,
2005), Caio, pode falar (Mário Pertile).
Um ponto em comum entre esses filmes é que num primeiro plano
há a formulação de um discurso de memória que denuncia o esquecimento
imposto àqueles de quem falam. As vidas dos protagonistas quase sempre são
narradas em tom heroico, seu sacrifício é tido como fundamental para a ins-
titucionalização do processo democrático do país. Inverte-se, dessa maneira,
140 MENESES, Sônia. Luto, identidade e reparação: videobiografias de desaparecidos na ditadura militar brasileira...

o discurso de criminalização aos quais foram submetidos durante a ditadura


para que lhes seja atribuído o lugar de vítimas daquele regime e de protago-
nistas na luta pela democracia.
A biografia de Sônia Moraes Angel, morta em 1973, sem dúvida é um
dos melhores exemplos para pensarmos as articulações entre testemunho,
ideologia e usos políticos da memória na construção de um relato. Demons-
tra, também, o lugar do luto que o filme pode exercer numa narrativa sobre
o passado; ao assistir ao documentário, o espectador se depara com vários
fluxos narrativos que se cruzam e se completam a fim de conceder sentido e
densidade à vida daquela personagem.
O documentário a respeito de Sônia foi produzido em 1985 por solici-
tação do pai, o tenente-coronel João Luiz de Moraes, que anos depois escre-
veria uma biografia, publicada em 1994 com o título O calvário de Sônia
Angel: uma história de terror nos porões da ditadura. Na época de seu lan-
çamento, a videobiografia teve grande repercussão na mídia e impulsionou
vários debates sobre o assunto.7 Após o desaparecimento da filha, seus pais
Cléa e João de Moraes deflagraram uma busca dolorosa pela recuperação dos
restos mortais somente identificados em 1991, quando foram encontrados
no cemitério Dom Bosco em Perus, junto aos de Antônio Carlos Bicalho
Lana, companheiro de Sônia, também morto em 1973. A localização do
corpo e a busca pela verdade sobre as condições da morte de Sônia levaram
seus pais a se engajarem na luta pela memória e reconhecimento de mortos e
desaparecidos no país – João de Moraes foi o primeiro presidente do grupo
Tortura Nunca Mais do Rio de Janeiro.
Já no momento do seu lançamento, em matéria da revista Veja de 23 de
outubro de 1985, a biografia é apresentada como sendo “a dor resgatada” de
uma memória ferida. Mesmo sendo veículo conservador e alinhado aos mili-
tares (na matéria, Sônia é apresentada como terrorista), a revista anunciava
o filme como uma “verdade que surge por inteiro” a partir dos depoimentos
coletados.
A primeira dimensão narrativa da videobiografia de Sônia é o intrin-
cado conjunto de histórias – os relatos de sua morte, as versões dos militares,

7 Na biografia há um depoimento Alex Polari de Alvarenga, ex-combatente do VPR e companheiro de


luta de Stuart Angel, que narra as condições dramáticas da morte do amigo nas dependências do Cisa
(Centro de Informações de Segurança da Aeronáutica), localizado na base aérea do Galeão (Rio de
Janeiro).
História Oral, v. 17, n. 1, p. 135-161, jan./jun. 2014 141

os depoimentos de amigos e de membros de grupos guerrilheiros – que a


informam e que dão a ela uma densa configuração. Sônia Moraes Angel vinha
de uma família tradicional de militares; seu pai, João Luiz de Moraes, tinha
inclusive relações próximas com Castello Branco, primeiro presidente mili-
tar. Sônia de Moraes adotou os sobrenomes Angel Jones em 1968, ao casar-se
com Stuart Edgar Angel Jones – cuja morte se tornaria um dos casos mais
emblemáticos de assassinato e tortura de presos políticos pelo regime militar.8
A partir dessa complexa identidade familiar, o documentário opta por
apresentá-la simplesmente por Sônia Maria, mas é como Esmeralda Siqueira
de Aguiar, nome que usava na clandestinidade, que nos é dada a conhecer
a primeira versão sobre a circunstância de sua morte, quando o ator Carlos
Vereza, em voz-off, lê o atestado de óbito9 que aponta como “causa de morte e
doença, hemorragia interna por ferimento de projétil de arma de fogo”, ocor-
rido em suposto tiroteio com a polícia. Enquanto escutamos a leitura, vemos
uma lista de nomes de mortos e desaparecidos políticos, entre os quais está o
de Sônia. Essa imagem liga a sua vida às de outros sujeitos. Completando a
cena, uma trilha sonora lúgubre confere um tom emocional ao relato.
O documentário começa e termina com a narrativa de sua morte, em
duas diferentes versões. A primeira, morte em combate com a polícia, desde
fins dos anos 70 já havia se comprovado falsa; a segunda, apresentada por seu
tio-avô, denunciava sua tortura e posterior assassinato. Propositadamente, a
apresentação de ambas as versões evidencia o conflito posto naquela conjun-
tura, em que não apenas Sônia teve sua causa mortis oficial contestada, mas
vários outros combatentes e militantes cujos paradeiros até então não haviam
sido elucidados. Talvez se possa acrescentar ao relato uma terceira luta, além
daquela vivida por Sônia e da que seus pais empreenderam em busca de seu
corpo: a luta travada contra o esquecimento e em favor do reconhecimento
da legitimidade de suas ações.
Sob essa perspectiva, a primeira dimensão do esquecimento enfrentada
no relato diz respeito a uma memória impedida, e como tal, abuso de esque-
cimento efetivado pela repressão, negação e omissão (Ricoeur, 2007). Para

8 A morte de Stuart Angel gerou uma grande mobilização, principalmente pela campanha realizada por
sua mãe, Zuzu Angel, em busca de respostas sobre a morte do filho.
9 Sônia só foi oficialmente considerada morta em 1980, quando os pais tiveram acesso ao seu atestado de
óbito. Em 1981, conseguiram permissão para transportar os restos mortais pra o Rio de Janeiro; o corpo
recebido, todavia, não tinha ferimentos à bala e era do sexo masculino. A busca da família só se encerrou
em 1991 com a localização de seus restos mortais no cemitério de Perus, em São Paulo.
142 MENESES, Sônia. Luto, identidade e reparação: videobiografias de desaparecidos na ditadura militar brasileira...

os familiares, reverter o discurso da criminalização era também reconstruir


as lembranças de Sônia numa chave positiva; nesses termos, a preparação do
documentário é um trabalho duplo de memória, uma vez que coloca em evi-
dência tanto anseios individuais – como a busca pelo corpo, a elucidação da
morte, a superação das dores – quanto o trabalho por uma política de memó-
ria que visa uma abrangência maior que o círculo familiar.
Dessa maneira, a construção pública da imagem de Sônia oscila entre
a da filha de João e Cléa, especialmente em sua infância e primeiros anos da
juventude, e a da guerrilheira que se pôs em sacrifício pelo país e cuja vida se
articula com os principais acontecimentos da própria história da nação.
Os depoimentos são intercalados por imagens de jornais e filmes históri-
cos segundo um modelo jornalístico de apresentação. Na tessitura da intriga,
o destino de Sônia parecia traçado desde seu nascimento, em uma imbricada
conexão com a história do país. Por trás dessa intenção totalizante de expli-
cação histórica ensejada pela biografia, o passado seria finalmente capturado
através do documentário. As formas sob as quais o filme evoca o passado
estão associadas tanto a um ordenamento técnico-ideológico da produção,
dimensão diretamente ligada ao campo profissional – montagem de roteiro,
arranjo de imagens, coleta de depoimentos –, como também às constituições
mentais sob as quais o passado é refletido na sociedade, especialmente pelas
testemunhas que contam suas histórias.
O filme oferece ferramentas essenciais para estimular, no presente,
marcos de memória e esquecimento e, além disso, realizar distinções sociais,
construção de identidades e reivindicações de direitos. Vejamos um trecho
da voz-off apresentado em um momento no qual se apresentam imagens de
acontecimentos da história do Brasil e da vida de Sônia:

Mudanças profundas tinham acontecido na América Latina. Em Cuba, um


grupo armado [...] tinha derrubado o governo e iniciado uma revolução.
Em 1961, Ernesto Che Guevara, um dos símbolos da revolução cubana,
esteve no Brasil. [...] Jânio apanhou o país de surpresa, renunciou em agosto
de 61. Sônia tinha apenas 15 anos. É provável que naquele tempo a renún-
cia de Jânio tenha sido para ela apenas um feriado esperado na escola [...].
Jango simbolizou uma série de desejos e de mudanças, enfrentou também
as pressões de importantes setores da sociedade brasileira. [...] O país viveu
tempos de grande impulsão com os projetos ousados de Miguel Arraes e
Leonel Brizola no Sul; lá em Pernambuco um homem chamado Francisco
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Julião incendiava com sonhos da reforma agrária. [...] Por ironia do destino
e por dever de classe, Sônia participou da Marcha da Família com Deus pela
Liberdade, e ao fim da manifestação acompanhou seus pais até à casa do
General Humberto de Alencar Castello Branco, o principal chefe do golpe
militar. Outra coincidência: Sônia completa a maioridade em 1964. (Sônia
morta viva, 1985; grifos meus).

Ao longo do texto narrado por Carlos Vereza, intercalam-se imagens


históricas – de Che Guevara, Brizola, Jânio Quadros e João Goulart, bem
como da Marcha da Família com Deus pela Liberdade – com imagens da vida
de Sônia. O passado torna-se então “como uma floresta para dentro da qual
os homens, pela narrativa histórica, lançam o seu clamor, a fim de compreen-
derem, mediante o que dela ecoa, o que lhes é presente” (Rüsen, 2001, p. 62).
O texto, aliado às imagens, organiza um sentido para a narrativa (Napoli-
tano; Morettin; Kornis, 2012, p. 167) e estrutura um todo coeso sem lacunas
ou ambiguidades. A fala do narrador mistura elementos históricos e estéticos
aos depoimentos dos entrevistados de tal forma que construímos uma ima-
gem nítida a respeito do que teria sido a vida de Sônia.
Após o trecho mencionado acima, o filme fecha o primeiro ciclo da vida
da guerrilheira, e a partir daí começamos a adentrar os caminhos que a leva-
ram para a resistência. Sônia ingressa na luta armada e posteriormente vai
para o exílio, passando por vários países – como Chile, França e Uruguai.
Nessa etapa do documentário, que trata do início dos anos 1970, tanto os
depoimentos como o texto assumem um tom melancólico marcado não ape-
nas pelas referências de uma história oficial, mas pelas informações sobre a
situação dos militantes presos e torturados. Assim, a história é apresentada
não mais como um emaranhado no qual se cruzam sujeitos, passado e pre-
sente, mas como alegoria de um mundo dicotômico, repartida entre a história
que é encenada na superfície e a que é vivida nos subsolos do país. Vejamos:

Na superfície, o Brasil comemorava a sucessão de vitórias com a Copa de


70. Mas havia um outro Brasil subterrâneo, confinado ao silêncio pela cen-
sura à imprensa, onde alguns grupos desarticulados de militantes enfrenta-
vam especialistas na arte de matar, torturar e extrair informações. [...] 1970
foi um ano amargo, Jimmy Hendrix morreu de overdose e Lennon alertou
que o sonho tinha acabado. (Sônia morta viva, 1985).
144 MENESES, Sônia. Luto, identidade e reparação: videobiografias de desaparecidos na ditadura militar brasileira...

Sob esse aspecto, a videobiografia assume uma qualidade realista-român-


tica – para me valer de um conceito utilizado por Beatriz Sarlo –, na medida
em que ressalta uma verdade íntima dos depoimentos, construída na apresen-
tação de detalhes e informações sobre os acontecimentos narrados: “o narra-
dor que lembra de modo exaustivo seria incapaz de passar por alto o impor-
tante, nem forçá-lo, pois o que narra formou um desvão pessoal da sua vida, e
são fatos que ele viu com os próprio olhos” (Sarlo, 2007, p. 52; grifo no original).
O exemplo forte nesse aspecto é o depoimento mais longo do filme,
dado por Alex Polari, ex-combatente da VPR (Vanguarda Popular Revolu-
cionária), sobre as circunstâncias da morte de Stuart Angel, marido de Sônia.
O depoimento é dado com o rosto de Polari em close e fundo preto. Sua voz,
embora tranquila, é entrecortada por pequenas paradas, expressões repetidas
– né, inclusive, quer dizer – que denunciam a tensão posta pela informação
relatada, apresentada aqui de forma resumida:

E na noite de 12 pra 13 de maio de 1971, né, ainda nas dependências do


Cisa, [...] eu fui torturado junto com ele [...] quer dizer numa noite eu não
vi inclusive o rosto dele porque a gente tava encapuzado, mas eu ouvi per-
feitamente a voz, eu conhecia bastante a voz, ele já estava bastante machu-
cado. [...] No pátio... quer dizer, era embaixo da minha janela e de tardinha,
assim, começou um zunzum, um negócio, e eu assim, dando uma subida,
né, na privada, onde tinha o banheiro e tal, e vi o movimento e tudo... quer
dizer, pelos gritos, pela voz, pela silhueta, por tudo que acontecia, né, vi
mais ou menos a cena, que eles tavam torturando o Stuart, inclusive arras-
tando ele com a viatura no pátio, e fazendo... como é que se diz… ele ingerir
gases tóxicos, né, sei lá... da descarga de um carro, nem me lembro mais se
era um jipe ou se era um outro carro. E a coisa andou até a noite, não sei que
horas, assim [...]. (Sônia morta viva, 1985).

Os detalhes dos eventos pessoais apresentados nos testemunhos, assim


como os da situação do país nas fotografias e filmes de época – aliados a uma
trilha sonora dramática –, erguem uma memória-mito da personagem. Cer-
tamente, como nos chama a atenção Sarlo (2007, p. 56), montar essa história
é, para a vítima e seus familiares, “um capítulo na busca de uma verdade”;
nesses termos, “a prática dessa narrativa é um direito e, ao exercê-lo, embora
subsista a parte do passado incompreendida, [...] a lembrança como processo
subjetivo abre uma exploração necessária ao sujeito que lembra”.
História Oral, v. 17, n. 1, p. 135-161, jan./jun. 2014 145

Essa ação nos coloca diante também de outra perspectiva na elaboração


de memórias: aquilo que Ricoeur define como o nível patológico-terapêutico
da lembrança. Os desaparecimentos, a falta de explicações, as notícias incom-
pletas sobre torturas e assassinatos em condições aviltantes, a impossibilidade
do luto acabam por atingir diretamente as representações do passado.
Dessa forma, a biografia se torna o lugar do luto, da homenagem, e pre-
tende restituir ao desaparecido a humanidade que lhe foi negada, ao mesmo
tempo em que monumentaliza sua existência. O documentário efetiva-se
como um lugar de memória e realiza a passagem de uma lembrança melan-
cólica, que se repete interminavelmente por não conseguir construir um sen-
tido para os acontecimentos passados, para uma lembrança se não feliz, ao
menos apaziguada – como se vê nos depoimentos dos pais de Sônia:

[ João Luiz de Moraes] – A infância de Sônia Maria foi uma infância nor-
mal, [...] era muito alegre, muito sensível, gostava muito de brincar, então
o seu relacionamento afetivo, comigo principalmente, era muito bom, até,
naturalmente, uma certa idade, quando começaram a aparecer algumas
divergências. Sônia morta viva, 1985).

[Cléa de Moraes] – Sônia teve uma adolescência tranquila, gostava muito


de estudar e especialmente de ler, mas ao mesmo tempo namorava, ia à
praia e a festas. (Sônia morta viva, 1985).

Percebe-se na fala dos pais o efeito do trabalho da memória que se efe-


tiva na passagem da repetição de um evento traumático para o estágio da
rememoração, ou seja, na transmutação de uma compulsão repetitiva do
passado, que tende a gerar a melancolia, em lembrança suportável. Para que
isso ocorra, é necessário um trabalho de interpretação do passado e reflexão
a respeito dele, bem como um tempo de espera, de elaboração de sentidos.
Nesse sentido, através de algumas videobiografias, a exemplo de Sônia morta
viva, os parentes realizam o processo de perlaboração, que seria o elemento
capaz de estabelecer a diferença entre “reviver” o passado e projetá-lo como
recordação (Ricoeur, 2007, p. 83).
Para isso ocorrer, é necessário um tempo, tanto para compreensão do
evento, como para sua superação; diz Ricoeur sobre esse aspecto, com base em
Freud: “O tempo do luto não deixa de ter relação com a paciência que a aná-
lise demandava a respeito da passagem da repetição à lembrança. A lembrança
146 MENESES, Sônia. Luto, identidade e reparação: videobiografias de desaparecidos na ditadura militar brasileira...

não se refere apenas ao tempo: ela também requer tempo” (Ricoeur, 2007, p.
87). Na medida em que os familiares e amigos de Sônia lembram sua história,
tornam viva sua presença: a escolha do título Sônia morta viva não é casual.
Como chamou a atenção Walter Benjamin, compreendida dessa forma,
a narrativa assume uma função utilitária: “[…] essa utilidade pode consistir
seja num ensinamento moral, seja numa sugestão prática, seja num provér-
bio ou numa norma de vida” (Benjamin, 1996, p. 200). Lembrar, ensinar
e advertir são, dessa maneira, três pilares fundamentais na articulação dos
depoimentos no filme que apresenta um forte cunho pedagógico, aspecto
destacado na fala final do ator Carlos Vereza, ao lembrar que: “Esses mortos
pairam acima de nossas cabeças e estão vigilantes, porque eles exigem [...] que
estes crimes não fiquem impunes” (Sônia morta viva, 1985). Ao apresentar
a vida de Sônia entremeada com os principais acontecimentos históricos do
país, a narrativa projeta o passado como uma totalidade, que por meio de seus
mortos está constantemente a nos velar, uma lição para o futuro e principal-
mente para o presente.

Memória narrada:
videobiografia como lembrança racionalizada

Não é apenas para o luto que a narrativa biográfica se organiza; na ver-


dade, ela pode agenciar vários sentidos e usos do passado e, além de servir
como lugar de memória, também pode atuar na elaboração de uma memória
política e racionalizada na construção de identidades.
A segunda biografia analisada começa com uma encenação. Sob um
fundo negro, escutamos o diálogo que parece vir de um rádio de polícia. Dois
homens conversam sobre a localização de uma moça armada com duas “máqui-
nas” (revólveres) “no apartamento 202”; um deles adverte: “A ordem é só cap-
turar, eu repito, é só capturar”. Imediatamente, somos jogados para dentro da
pequena sala de um apartamento onde uma moça, jovem, desesperada, segura
duas armas nas mãos, enquanto caminha desorientada pelo pequeno cômodo.
Percebendo a iminência da invasão, refugia-se no banheiro e coloca-se em posi-
ção de defesa, preparada para atirar. No entanto, desiste e volta a arma para
o próprio peito. Nesse momento, há um corte, e podemos apenas escutar o
estampido no exato instante em que um dos homens adentra o recinto.
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A cena narrada inicia a videobiografia de Iara Iavelberg no documentá-


rio Iara, lembrança de uma mulher, de 1994, dirigido por Alberto Baumstein
e Renato Sacerdote. No papel de Iara, sua sobrinha, Mariana Pamplona. Ao
começar a narrativa com a encenação do momento da morte de Iara, o filme
introduz o telespectador numa cena dramática que serve como forte artifício
de verossimilhança para os depoimentos que se seguem. Não há preparação
ou informação de que ali se trata de uma performance.
Começo a reflexão a respeito do documentário sobre Iara pela descrição
dessa cena para marcar a diferença de produção entre este e o primeiro filme
analisado, sobre Sônia Moraes Angel. Filmado quase dez anos depois do pri-
meiro e lançado em 1994, o documentário em formato de curta-metragem
tem 13 minutos e meio. A primeira cena é filmada em preto e branco, com
imagens desfocadas, tremidas, golpes de zoom. Ao realizar o “como se” na tes-
situra narrativa, gera uma ilusão do “engajamento da câmera no real”, recurso
que claramente objetiva construir empatia e sensibilizar o telespectador para
a história que se segue. Em 1994, a videobiografia corrobora a versão oficial
sobre a morte de Iara, que foi contestada por seus familiares por mais de dez
anos na Justiça, até a exumação de seus restos mortais em 2003, quando final-
mente foi aceita a tese do assassinato.
Embora comece com uma encenação, diferentemente do primeiro filme,
este tem um caráter menos romantizado, não há narração que organize a sequ-
ência, feita pela disposição das falas dos depoentes ao longo da obra. Ao todo
são dez entrevistados, entre eles os irmãos de Iara – Samuel e Rosa –, além de
políticos conhecidos – como José Dirceu, líder estudantil e também ex-namo-
rado de Iara antes de seu encontro com Lamarca, e Alfredo Sirkis, ex-membro
da VPR (grupo liderado por Carlos Lamarca, do qual Iara também fez parte).
No filme, o elo com o passado é construído apenas por meio de fotos
dos entrevistados na época dos acontecimentos e de dois pequenos extratos
de filmes. No primeiro extrato, durante o depoimento de Alfredo Sirkis,
podem ser vistas imagens da Passeata dos Cem Mil, e no segundo, durante o
depoimento de José Dirceu, imagens do movimento estudantil em que iden-
tificamos a própria Iara e seu irmão Samuel Iavelberg, num rápido flash. Não
há um entrelaçamento da vida de Iara com a narrativa histórica do país.
É também com o objetivo de lembrar que a videobiografia é produzida,
menção clara já no seu título. Todavia, a história com a qual o telespectador
se depara apresenta outras nuances. A morte de Iara não é apresentada como
um sacrifício, mas como uma escolha consciente por um ideal político; dessa
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maneira, a narrativa assume um caráter seletivo e racionalizado por meio dos


testemunhos: mesmo quando os irmãos Samuel e Rosa falam de Iara, o que
destacam entre suas características são a força, o poder de decisão e o carisma.
Os depoimentos assumem um caráter mais argumentativo que emocio-
nal para explicar os acontecimentos. Não por acaso, o primeiro depoimento
é da jornalista Judith Patarra, que escreveu o livro Iara: reportagem biográfica,
publicado em 1991, e é desta forma que a autora expressa os motivos que a
levaram pesquisar a vida de Iara:

A gente esqueceu muito depressa tudo que aconteceu na ditadura. Eu tava


procurando uma pessoa para fazer uma biografia e trazer junto a época, e
a Iara se prestava a isso muito bem porque ela viveu muitas vidas na vida
curta dela. (Iara, lembrança de uma mulher, 1994).

Nesse primeiro depoimento vemos um aspecto marcante que percorre


a videobiografia: além de contar a história de Iara, o filme procura elementos
identitários do grupo que resistiu à ditadura militar ao lado dela. Vemos aí a
mobilização da memória “a serviço da busca, da demanda, da revindicação
de identidade” (Ricoeur, 2007, p. 94), quando a memória cruza a linha da
história pessoal. O filme enseja ainda uma segunda problemática: aquela que
coloca em evidência as lembranças de um indivíduo efetivadas numa econo-
mia da memória coletiva. Nesses termos, podemos dizer que nos deparamos
com outra modalidade na construção desses relatos: aquela abandona a ação
de luto, presente no filme de Sônia, para a construção da dimensão político-
-identitária da memória, no caso de Iara.
A narrativa continua tendo um caráter utilitário, tal como no primeiro
caso, contudo ela não constrói explicações apenas sobre o sujeito biografado,
mas sobre o grupo que ele representa; nesses termos, as testemunhas conferem
também a si mesmas as características que atribuem à personagem principal.
Em suas falas encontramos explicações teóricas sobre o movimento e suas
ações, o que vai ao encontro daquilo que a jornalista Judith Patarra destaca
no início do vídeo: uma reflexão sobre o período que se baseia numa espécie
de síntese explicativa da atuação daqueles jovens entre os quais estava Iara.

[Samuel Iavelberg] – Em casa éramos quatro irmãos, [...] nascemos e nos


criamos no Ipiranga e nós tínhamos muito contato com bairro operário,
[...] então a partir daquela efervescência política nós começamos a entender
História Oral, v. 17, n. 1, p. 135-161, jan./jun. 2014 149

o que era aquela vida, e nós tínhamos certa facilidade de ficarmos do lados
dos oprimidos. (Iara, lembrança de uma mulher, 1994).

[ José Dirceu] – O movimento estudantil, portanto, é uma força política


que se opõe à ditadura, [...] é uma rebeldia da juventude no mundo todo.
(Iara, lembrança de uma mulher, 1994).

[Alfredo Sirkis] – A ditadura militar teve um grande talento em fazer


com que a classe média de centro e de direita [...] rapidamente virasse de
esquerda. (Iara, lembrança de uma mulher, 1994).

[Mario Osava10] – E quando a gente decidia entrar nisso, a gente entregava


a vida nisso, era meio kamikaze. (Iara, lembrança de uma mulher, 1994).

Percebe-se como as falas caracterizam tanto o movimento como os ato-


res que dele faziam parte. Os relatos têm uma dimensão reflexivo-teórica
daqueles acontecimentos; uma “dimensão autobiográfica quase ausente cede
lugar à dimensão argumentativa” (Sarlo, 2007, p. 87). O olhar para o passado
não é apenas o que interroga: é sobretudo aquele que confere sentido pela
função seletiva que a narrativa exerce por meio de um processo de ideologi-
zação da memória.
Tal ideologização se realiza a partir dos recursos de variação ofereci-
dos pela narrativa: seus personagens são postos na trama como condutores e
participantes de uma mudança política e social. A história de Iara é contada
numa chave positiva, e sua morte, a despeito da dor e do trauma, é narrada nos
depoimentos dos irmãos e amigos como escolha pessoal. Tal caráter aponta, em
último plano, “precisamente para a função seletiva da narrativa que oferece à
manipulação a oportunidade, os meios e as estratégias do esquecimento, tanto
quanto da rememoração” (Ricoeur, 2007, p. 98). Neste caso, a relação com o
passado, através da videobiografia, é principalmente política e identitária:

[Samuel Iavelberg] – A nossa mudança para passar a fazer a luta armada


foi uma decisão que a gente tomou enquanto militante. [...] e uma parte de
nós saiu do movimento estudantil. Eu participava ativamente do momento
estudantil, de uma hora eu parei. (Iara, lembrança de uma mulher, 1994).

10 Ex-integrante da VPR.
150 MENESES, Sônia. Luto, identidade e reparação: videobiografias de desaparecidos na ditadura militar brasileira...

[Maria Lúcia Carvalho11] – Então nós procuramos e fomos procuradas


também; além disso, o Samuel, irmão da Iara, era já militante da POLOP,
então era talvez mais alguma coisa a nos puxar mais pro lado da POLOP.
(Iara, lembrança de uma mulher, 1994).

Nesses relatos a evocação da memória dá uma resposta política ao pas-


sado, e principalmente ao presente – não esqueçamos que é com este tempo
que as testemunham dialogam. Ao invés de se apresentar uma visão roman-
tizada da luta, na qual a vítima aparece como sujeito passivo, destaca-se o
caráter positivo e idealista das ações empreendidas; há uma busca pelo reco-
nhecimento dos militantes e guerrilheiros por sua trajetória pública.
Há, por conseguinte, uma virada na relação entre lembrança/esquecimento
e construção de identidade. Todo o esforço realizado na produção de uma memó-
ria instrumentalizada da luta política dos militantes e na evocação insistente de
suas ações contra a ditadura militar objetiva firmar essa atuação como positiva
para a história da nação, o que atesta que toda a formulação da nova identidade
ampara-se na função mediadora do próprio testemunho. Subsiste um trabalho
de configuração de memória numa outra chave interpretativa para o período.
Ocorre, portanto, uma mudança na cadeia explicativa: as vítimas continuam a
figurar no primeiro plano da narrativa, todavia não mais como personagens pas-
sivas em um processo de violência e repressão, mas como agentes que realizaram
escolhas ao se engajarem na luta armada, e aceitam suas consequências.
O documentário destaca também o lado pessoal da vida de Iara, apresen-
tado principalmente nos depoimentos de Maria Magaldi, Maria do Carmo
e Rosa Iavelberg, que trazem à narrativa elementos como sua vaidade e seu
relacionamento com Lamarca.

[Maria do Carmo12] – Uma pessoa muito bonita por dentro e por fora...
a Iara te obrigava a comprar roupa, te obrigava a se arrumar... (Iara, lem-
brança de uma mulher, 1994).

[Rosa Iavelberg] – Ela não tinha aquele padrão, assim, Maria Antônia,13
universidade... mais comum, que era conga, calça jeans e camiseta; ela era

11 Ex-militante da POLOP (Organização Revolucionária Marxista – Política Operária).


12 Companheira de militância de Iara.
13 Rua onde ficava a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, na qual Iara cursava psicologia.
História Oral, v. 17, n. 1, p. 135-161, jan./jun. 2014 151

uma pessoa que se curtia, que se cuidava, que cuidava do corpo, que gostava
de se arrumar. (Iara, lembrança de uma mulher, 1994).

[Maria Magaldi14] – E outro fato marcante pra mim foi essa descrição que
a Iara fazia deste amor que ela tinha encontrado, isso eu tenho gravado na
minha memória [...], sentada no sofá da casa da minha mãe falando do
Lamarca, falando, falando... (Iara, lembrança de uma mulher, 1994).

Essa última reunião de depoimentos nos indica que a imagem que se


constrói de Iara é é a de um sujeito de múltiplas dimensões, que conseguia
repartir sua vida entre a luta política e outros traços comumente associados
às mulheres da sua época – a vaidade, o amor, as ansiedades –, qualidades que
lhe conferem humanidade, mais que uma dimensão heroicizante. Não por
acaso, sua relação com Lamarca aparece nas falas de quase todos os entrevista-
dos. Iara não é uma heroína solitária, ou mesmo uma vítima passiva daqueles
acontecimentos. Por conseguinte, o filme, através do relato biográfico, fun-
ciona como o lugar de uma memória política sobre o movimento e sobre os
sujeitos que dele fizeram parte.

Memória obrigada:
a videobiografia como dever de memória
[ Janaina Teles] – Eu achava que a sociedade me devia alguma coisa, porque
se não tivessem deixado o golpe acontecer, eu não tinha sofrido isso [...].
Quero... quero vingar, quero punir e quero reparar... a dor que me impuse-
ram. (15 filhos, 1996).

O terceiro e último filme dessa reflexão é o documentário curta-metra-


gem 15 Filhos, de 1996, filmado e dirigido por Marta Nehring e Maria de Oli-
veira, que também dão seus testemunhos sobre o período. Diferentemente
dos primeiros documentários, cuja produção foi impulsionada pelos pais e
amigos das personagens principais, este apresenta a versão dos filhos sobre
a vida dos pais presos, mortos ou torturados durante o período. Neste caso,

14 Amiga de Iara.
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há um cruzamento entre as biografias dos filhos e as de seus pais, que conhe-


cemos por meio das lembranças de infância das testemunhas. Portanto, 15
Filhos não é uma videobiografia nos moldes das anteriores. Não se trata de
um relato sobre a vida de uma personagem, mas sim de depoimentos de vários
jovens que eram crianças e adolescentes quando os pais enfrentaram-se com o
regime e contam suas experiências de dor, angústia, desamparo e perseguição.
O terceiro filme é também o mais pungente na busca de explicações e,
principalmente, no discurso de reparação do passado. Filmado em preto e
branco, não apresenta voz-off e sua lógica narrativa é construída a partir de
temas como: clandestinidade, infância, tortura, visitas, mundo, Brasil, escola,
pais e desaparecidos. O principal recurso utilizado é o movimento de uma
câmera que, com closes e zooms, destaca a tensão dos relatos. As testemunhas
estão sentadas no sofá de uma sala branca na qual nenhum outro objeto é visí-
vel, o que direciona todas as atenções para a voz dos entrevistados. A trilha
sonora foi escolhida entre as principais canções que embalaram a época – e
principalmente são elementos do passado das testemunhas –, como Aos nos-
sos filhos, na voz de Elis Regina, que abre o documentário.
O filme foi produzido para um seminário na Unicamp intitulado A
revolução possível, que tinha por objetivo discutir os efeitos da repressão, as
políticas de esquecimento e as possibilidades de reparação do passado.15 Em
20 minutos, reúne 15 testemunhos de filhos de mortos e torturados, a exem-
plo de João Carlos Grabois, filho de André Grabois nascido na prisão; André
Herzog, filho de Vladimir Herzog; Tessa Lacerda, filha de Gildo Macedo
Lacerda e de Mariluce Moura; Janaina e Edson Teles, filhos de Amélia e César
Teles, entre outros. Na conversa inicial com os entrevistados, as diretoras pro-
puseram algumas questões que direcionaram os depoimentos:

O que você lembra, não o que você acha. A infância. As músicas, uma cena,
uma frase. A casa da avó, a hora do recreio. Como era sua mãe? O que você
lembra do seu pai? Não a opinião, a lembrança. O nome (às vezes falso), o
álbum de fotos, o exílio (no país distante ou no bairro onde nasceu), as visi-
tas (na prisão, ou o nome que se desse a ela: hospital, trabalho). (Nehring,
2006 apud Arantes, 2008, p. 82).

15 O artigo de Maria Auxiliadora de Almeida Cunha Arantes (2008) apresenta dados bastante interessan-
tes sobre o filme.
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15 Filhos coloca como problemas centrais a possibilidade de reparação


do passado, a memória como um dever e, consequentemente, um anseio de
justiça a ser alcançada no futuro. Não podemos esquecer que na primeira
metade dos anos 90 ainda estávamos vivendo sob o signo da anistia recíproca,
que beneficiou indistintamente torturados e torturadores. Pode-se dizer que
aquele presente era influenciado por um “esquecimento comandado”, aquele
“cuja fronteira com a amnésia é fácil de ultrapassar” (Ricoeur, 2007, p. 459).
No caso do Brasil, isso trouxe graves entraves para a apuração de crimes de
tortura e assassinato, bem como para a identificação de mortos e desapare-
cidos. Ainda hoje, muitas famílias não sabem o paradeiro de seus parentes;
por isso, segundo Reis, Ridenti e Motta (2004, p. 49), “a sociedade brasileira
[...] enfrenta grandes dificuldades em compreender como participou, num
passado ainda muito presente, da construção de uma ditadura, que definiu
a tortura como política de Estado”. O discurso do “não revanchismo” e do
“consenso” dominou os debates, e pretendeu retirar da cena pública diver-
gências, tensões e dissensos relacionados aos anos do regime militar.
Para aqueles que não tiveram a possibilidade de enterrar seus mortos,
ou mesmo para aqueles que ainda buscavam explicações sobre as ocorrên-
cias do período, a luta pela memória era especialmente difícil, uma vez que
falar sobre o passado e reivindicar esclarecimentos era atitude que os colo-
cava na condição de atores inconvenientes em um momento em que as ideias
de democracia, liberdade e abertura empolgavam discursos. Filmes como 15
Filhos emergiram como mecanismo de reflexão política pós-ditadura tensio-
nando a cena política e social com conteúdos dramáticos amparados pelas
experiências vividas naqueles dias.
À reivindicação da memória como um dever ético-político se agregam
duas outras: a de reparação do passado e a de responsabilização pelos crimes
cometidos. A compreensão de que a dor infligida foi produto de uma polí-
tica de Estado projeta o encargo dos sofrimentos não apenas nos realizadores
diretos daquelas ações, mas em toda a sociedade, que foi conivente com o
Estado. Reproduzo novamente o depoimento de Janaina Teles, no qual fica
claro esse aspecto:

Eu achava que a sociedade me devia alguma coisa, porque se não tivessem


deixado o golpe acontecer, eu não tinha sofrido isso. (15 filhos, 1996).
154 MENESES, Sônia. Luto, identidade e reparação: videobiografias de desaparecidos na ditadura militar brasileira...

Diferentemente dos dois outros filmes, nos quais a narrativa fílmica


exerce as funções de lugar do luto e de construtora de identidade, em 15
Filhos nos deparamos com memórias feridas cujo processo de perlaboração,
interpretação e apaziguamento ainda não foi realizado. Os depoimentos são
carregados de emoção e de lembranças traumáticas ainda não superadas:

[ Janaina Teles] – Agora não tem ponto final, como é que vai ter um ponto
final se a gente sabe, por exemplo, que provavelmente meu tio levou um
tiro pelas costas na coluna, ficou paralítico, levaram ele assim pra Brasília,
torturaram ele não sei quanto tempo, e ele morreu assim? Como é que tem
ponto final pra isso? Se não tem o corpo dele [...], se só tem uma foto 3x4
dele? É isso que existe do André Grabois; e a memória da mãe dele, que
daqui a pouco vai morrer porque tá muito velhinha, da irmã dele... e o Joca,
fica como? Então, pra mim, não tem ponto final, pra mim e pras outras
pessoas, e é isso. (15 filhos, 1996).

A vida é narrada em um fluxo descontínuo, cujo fim ainda não se rea-


lizou. Misturam-se à morte/sofrimento dos pais as dores dos filhos que
narram; são biografias inconclusas, assim como as vidas de seus narradores.
Deparamo-nos com histórias repletas de fissuras, quebras, silêncios, nas quais
não há uma linearidade como aquela presente nos dois primeiros filmes. Os
testemunhos assumem como projeto mais importante a busca por justiça;
como nos adverte Ricoeur (2007, p. 101), “[…] é a justiça que, ao extrair das
lembranças traumatizantes seu valor exemplar, transforma a memória em
projeto; e é esse projeto de justiça que dá ao dever de memória seu fundo
imperativo”. Coloca-se mais um componente no trabalho de memória: o
pressuposto da dívida sobre aquilo que foi tirado ou negado. Dessa maneira,
o presente é marcado pelo peso de um passado que não foi superado, estabe-
lece-se uma busca pelos reais culpados dos traumas infligidos, como se vê no
depoimento de Tessa Lacerda:16

Sempre tive essa visão de que não é justo, não dá pra aceitar essa... quer
dizer, essa... é difícil falar... [sorri] essa... tirar assim a vida... o governo, não
sei, é difícil falar isso. (15 filhos, 1996).

16 O pai de Tessa foi torturado e morto pelo regime, e a mãe estava grávida dela na época da prisão.
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Os relatos dos filhos trazem para o primeiro plano a perspectiva da


vítima, associada às imagens dos pais e deles próprios. Não há dimensiona-
mento da luta política como escolha ou como parte de um projeto de resis-
tência; dessa maneira, o cunho afetivo e emocional dos elementos evocados
se sobrepõe à atuação de seus pais enquanto militantes. A falta dos pais e a
ausência de lembranças claras sobre eles são os referentes que informam a
narrativa, e embora se possam compreender as escolhas na organização desses
relatos como o trabalho de um grupo que, legitimamente, reivindica justiça
sobre o passado, não se pode deixar de entendê-las como parte de um pro-
cesso de seleção realizado pela narrativa.
Isso pode ser demonstrado pelos objetivos e perguntas das diretoras do
documentário, dando ênfase para que os entrevistados se ativessem ao que
“lembravam” e não ao que eles “achavam” sobre os diversos temas propostos.
A intenção de destacar apenas as “lembranças” livres de opiniões representa,
em termos práticos, uma impossibilidade, posto que o ato de lembrar está
diretamente ligado às proposições do presente; assim, dificilmente tais lem-
branças poderiam emergir de forma “pura” no relato. A proposta do seminá-
rio para o qual o documentário foi preparado era a de “discutir a repressão
política, o esquecimento e as possibilidades de reparação” (Arantes, 2008, p.
79), o que já demonstra o forte apelo político dessas lembranças.
Na videobiografia 15 Filhos destaca-se um uso da memória como canal
de restituição do passado, que seria efetivada tendo por base os relatos apre-
sentados pelas testemunhas – não é apenas uma ação de luto ou uma reivin-
dicação de identidade, mas também um exercício de busca por justiça. Cer-
tamente não estamos falando de manipulação político-ideológica – como
poderia ser a de quem esteve no poder durante o regime militar –, mas pode-
mos dizer que as falas dos filhos dos militantes também fazem uso da memó-
ria de forma a trazer à tona suas próprias versões do passado.
A memória é configurada, dessa forma, como um campo de batalha, e
é a via pela qual se torna possível a reclamação de direitos, uma vez que estão
postas demandas por justiça e pela culpabilidade política do Estado pelos cri-
mes do regime militar. 15 filhos, do mesmo modo que os filmes anteriores, é
exemplo da variedade de funções que a produção fílmica pode assumir nos
trabalhos com a memória – neste caso, um projeto amparado pelos desejos de
justiça e reparação de direitos.
156 MENESES, Sônia. Luto, identidade e reparação: videobiografias de desaparecidos na ditadura militar brasileira...

Considerações finais

Segundo Paul Ricoeur, cada sociedade, grupo humano ou indivíduo está


imerso em um emaranhado de histórias não contadas, não sistematizadas, e

a consequência principal dessa análise existencial do homem como ser per-


meado por histórias é que narrar é um processo secundário ao do tornar-
-se conhecido da história [...]. Narrar, seguir, compreender histórias é só a
continuação dessas histórias não ditas. (Ricoeur, 1997, p. 116).

Dessa forma, narramo-nos, e dessa forma, podemos dizer que construí-


mos sentido para nossa existência.
Cada biografia é uma articulação racionalizada de histórias. A partir
dessa compreensão, pode-se dizer que quando um relato biográfico é cons-
truído, organiza-se uma formulação de sentido sobre a vida de um indivíduo
ou de um grupo, por meio do arranjo de eventos, espaços, contextos e acon-
tecimentos nos quais ele esteve imerso. Ao realçar elementos identitários,
memórias – e consequentemente esquecimentos –, elabora-se uma tessitura
que vincula suas experiências às de outros sujeitos. Ao final, essa “história”
quase sempre é uma totalidade que cria um efeito de realidade, ou uma “ilu-
são”, como se nela a vida pudesse ser plenamente configurada numa ordena-
ção causal e temporal harmônica com começo, meio e fim, a exemplo dos
relatos tradicionais. É preciso considerar que todo relato é uma seleção, uma
configuração. Consequentemente, é “essencial conhecer o ponto de vista do
observador; a existência da pessoa em nós mesmos, sob a forma de incons-
ciente” (Levi, 1998, p. 173); por conseguinte, cabe interrogarmo-nos sobre
os intrincados elementos dessas histórias.
Neste artigo, apresentei três narrativas fílmicas que, em comum, realiza-
ram uma reflexão sobre o passado a partir da vida de alguns sujeitos que tive-
ram suas vidas transformadas drasticamente pela ditadura militar brasileira.
Esses relatos, fortes e dramáticos, evidenciam as dimensões do trabalho de
memória no tempo presente. Filmados entre os anos 1980 e 1990, cada um
deles apresenta uma abordagem específica da memória que, sem dúvida, está
presente em outras narrativas publicadas posteriormente.
A luta contra o esquecimento, a superação dos traumas e o desejo de jus-
tiça marcam alguns dos caminhos sobre os quais essas memórias das vítimas
da ditadura brasileira foram sendo formuladas. Não por acaso, quando o ator
História Oral, v. 17, n. 1, p. 135-161, jan./jun. 2014 157

Carlos Vereza – a voz-off em Sônia morta viva – finalmente se apresenta no


documentário, acaba por sintetizar um dos objetivos principais dessas produ-
ções: todos tinham a obrigação de lembrar aqueles que foram “sacrificados”
em nome do povo brasileiro, da democracia e da liberdade.
No primeiro caso, da videobiografia como o lugar do luto, percebeu-
-se uma tentativa de superação dos traumas a partir da catarse realizada pela
narrativa. Filmado em meados dos anos 80, quando havia uma forte presença
do discurso de “não revanchismo” resultante do processo político da anistia,
o documentário não deixa de reivindicar que a memória de Sônia não seja
esquecida. Para isso, usa de vários recursos, desde testemunhos de amigos,
parentes e companheiros de resistência até fragmentos da história política
do país entrelaçados aos da vida de Sônia. Numa perspectiva tradicional, que
aborda desde seu nascimento até a morte trágica – tortura e assassinato –, o
filme busca a elucidação da verdade, ao confrontar as versões de sua morte, e
funciona também como o lugar do luto, da homenagem e da lembrança.
No segundo exemplo, o relato apresenta um caráter mais argumenta-
tivo e funciona como canal para a construção da identidade de uma causa, de
um grupo. Apresenta-se um recorte da vida de Iara Iavelberg, concentrado
no período de sua atuação política. Os depoentes têm uma preocupação de
construir esse período da vida de Iara numa chave positiva, e a ação política
é destacada como opção daqueles que se envolveram na luta armada. Mas
o filme projeta também o lado humano de Iara, suas preocupações com a
aparência, com o relacionamento com Lamarca. Dessa forma, a vítima não é
“vitimizada” como sujeito passivo. Seu destino é narrado como uma escolha,
cujo fim de alguma forma poderia ser previsto. As falas sobre a trajetória de
Iara têm um caráter mais racionalizado e apontam para a memória do grupo
que representou a resistência política ao golpe. Suas ações são justificadas
por meio de uma ideologização do passado, referente positivo para o pre-
sente; mesmo que Iara tenha morrido, sua luta representa a de todos aqueles
envolvidos.
Na última videobiografia, o passado não foi concluído. Encontramos
histórias de vida que se cruzam na dor e nas experiências traumáticas. Há uma
quebra na linearidade e em alguns momentos fica claro que a vida é narrada
do presente para o passado. O elemento fundamental da narrativa se assenta
em um dever de memória e de busca por justiça – constantemente evocada
nos depoimentos. 15 filhos mostra a face de uma memória ferida que reivin-
dica a reparação da dor imposta. Nos relatos dos filhos, os pais são heróis
158 MENESES, Sônia. Luto, identidade e reparação: videobiografias de desaparecidos na ditadura militar brasileira...

inalcançáveis, distantes, cujas vidas e mortes não conseguem ser plenamente


compreendidas. Misturam-se lembranças da infância e reflexões políticas do
presente na orientação dos testemunhos.
O momento da lembrança é ainda o da dor, da emoção; nesses termos,
lembrar ainda é um ato melancólico. A dificuldade no enfrentamento com o
passado ressalta-o como memória infeliz, para usarmos um termo de Ricoeur.
Isso significa que no momento da produção da videobiografia, ainda não
havia ocorrido a passagem da repetição traumática das experiências para a
formulação de uma relação apaziguada com o passado – o que não sabemos
se algum dia vai ser possível para todos. A busca pela culpabilidade política e
moral pelos acontecimentos do passado é o projeto implícito dessa narrativa,
amparada nas ideias de dívida, reparação e justiça.
Em termos gerais, as videobiografias carregam também uma intenção de
futuridade ao reivindicarem a possibilidade do passado ser analisado ou repa-
rado de alguma maneira, pois “quando a testemunha narra a morte ou a vexa-
ção extrema, esse laço estabelece também uma cena para o luto, fundando
assim uma comunidade ali, onde ela foi destruída” (Sarlo, 2007, p. 50). Por
conseguinte, as várias estruturas narrativas se cruzam e se completam, a fim
de dar às histórias veracidade, identidade, mas também de fornecer explica-
ções sobre o passado, como se vê na fala de Carlos Vereza:

Eu tenho a esperança de que Sônia e Stuart, que deram suas vidas pela
democracia, pela liberdade no Brasil, algum dia – que não seja um dia
muito remoto, um dia muito afastado dos nossos dias presentes –, que
eles possam ser resgatados, que suas memórias, que suas biografias sejam
conhecidas de todo o povo brasileiro, como de todos os irmãos, de todos os
patriotas que foram sacrificados, torturados e desaparecidos. (Sônia morta
viva, 1985).

A memória é apresentada como necessidade, como ação política em res-


posta a um esquecimento comandado. Como narrativas, as videobiografias
servem para fundar referentes importantes na construção das memórias de
vítimas do regime militar, pois operam com perspectivas distintas de usos do
passado. Por meio delas pode-se compreender ainda o papel do testemunho
no tempo presente e, principalmente, a complexidade das demandas políticas
e sociais que se apresentam em torno da escrita da história hoje. Certamente,
a busca pela verdade, a disputa de versões e a luta pela restituição de direitos
História Oral, v. 17, n. 1, p. 135-161, jan./jun. 2014 159

influenciam os relatos das vítimas diretas e indiretas da ditadura militar.


Todavia, mais do que canais de reivindicações, esses filmes funcionam como
espaços de construção de memórias que atuam no esforço contra o esqueci-
mento. Cada um deles é lugar de memória e também de resistência política
frente ao silenciamento do presente sobre o passado.

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SARLO, Beatriz. Tempo passado: cultura da memória e guinada subjetiva. São Paulo:
Companhia das Letras, 2007.

Filmes
15 FILHOS. Direção: Maria de Oliveira e Marta Nehring. Brasil, 1996.

IARA, lembrança de uma mulher. Direção: Renato Sacerdote e Alberto Baumstein. Brasil,
1994.

SÔNIA morta viva. Direção: Sérgio Wiessmann. Brasil, 1985.

Resumo: Este artigo analisa videobiografias produzidas entre os anos de 1985 e 1996 a fim
de investigar o papel do testemunho na produção de memórias sobre o golpe de 1964 –
especialmente aquelas ligadas a militantes políticos mortos e desaparecidos no período. São
examinados três documentários representativos: Sônia morta viva, de 1985; Iara, lembrança de
uma mulher, de 1994; e 15 filhos, de 1996. No trabalho destacam-se as diferentes abordagens que
a memória ganha em cada um dos filmes: como lugar do luto, como construtora de identidade e
como dever ético-político no empenho por reparação do passado – problemáticas fundamentais
para o tempo presente.

Palavras-chave: videobiografia, testemunho, memória.

Mourning, identity and repair: video biographies of missing people during the Brazilian
military dictatorship and the testimony at present time
História Oral, v. 17, n. 1, p. 135-161, jan./jun. 2014 161

Abstract: This paper reflects on video biographies produced between the years 1985 and 1996
seeking to investigate the role of testimony in the production of memories about the coup of
1964, especially on the political life of dead and missing in the period. Three representative
films are investigated: Sônia morta viva (1985), Iara, lembrança de uma mulher (1994) and 15
Filhos (1996). In this article, three different approaches that memory plays in each of the films
are highlighted: as a place of mourning, as a constructor of identities and as an ethical-political
duty in the commitment of repairing the past – fundamental issues for the present time.

Keywords: videobiography, testimony, memory.

Recebido em 31/03/2014
Aprovado em 18/07/2014
DOSSIÊ

História oral, cidade e lazer no tempo presente

Ilanil Coelho*
Fernando Cesar Sossai**

Do ponto de vista científico, a história do tempo presente


concede seu pleno sentido ao ‘acontecimento’. Ora, o constato dos
estudos historiográficos e/ou da epistemologia da história, na
atualidade, vem a ser o primado do contemporâneo, do presente
e do acontecimento como categoria historiográfica dominante.
Helenice Rodrigues da Silva (2010, p. 3).

A escolha da epígrafe é uma homenagem póstuma à historiadora


Helenice Rodrigues da Silva (1943-2013). Foi extraída do texto intitulado
Retorno às questões epistemológicas e metodológicas da história do tempo pre-
sente, apresentado na conferência de abertura da XVII Semana de História
da Univille.1 Até onde sabemos inédito no Brasil, o texto foi produzido por
Helenice para atender a um pedido da comissão organizadora, que desejava
abrir o evento com um debate sobre algumas questões teórico-metodológicas
que deram base à formação do Institut d’Histoire du Temps Présent (IHTP)
– instituição à qual ela esteve vinculada como pesquisadora entre os anos de

* Doutora em História Cultural. Professora no curso de História e no Mestrado em Patrimônio Cultural e


Sociedade da Univille. Coordenadora do grupo de pesquisas Cidade, Cultura e Diferença e coordenadora
do Laboratório de História Oral da Univille <historiauniville.wix.com/lho>. E-mail: ilanil@uol.com.br.
** Doutorando em Educação. Professor nos cursos de História e Design da Univille. Coordenador do
Laboratório de História Oral da Univille. E-mail: fernando.sossai@univille.br.
1 Realizada entre os dias 13 e 17 de setembro de 2010, a XVII Semana de História, teve como tema His-
tória do tempo presente: desafios, sentidos e dilemas para o ofício de historiador.
8 COELHO, Ilanil; SOSSAI, Fernando Cesar. História oral, cidade e lazer no tempo presente

2004 e 2005 –, assim como questões que ainda permaneciam na agenda epis-
temológica do instituto 32 depois da sua criação. À mesma época, desenvol-
víamos dois projetos que resultaram na escrita deste artigo, cuja problemática
remete a um acontecimento no tempo presente de Joinville (SC), ou seja, a
um episódio no “período histórico marcado pela presença de testemunhas e
de uma memória viva” (Silva, 2010, p. 3).2
No ano de 2011, a cidade mais populosa do estado de Santa Catarina3
foi surpreendida por um acontecimento singular. Numa das suas principais
vias, trabalhadores, estudantes e outros passantes, premidos pelo horário,
comprimidos em veículos coletivos ou particulares, em trânsito para as uni-
versidades, para o aeroporto, para o shopping ou para suas moradias, vivencia-
ram uma momentânea, porém irritante, desaceleração na vertiginosa experi-
ência de transitar pela cidade. Num final de tarde, por 45 minutos, o trânsito
ficou completamente paralisado: uma manifestação promovida pelos mora-
dores de um bairro do município tentava sensibilizar os governantes para
que tomassem uma atitude em relação aos percalços que enfrentavam diaria-
mente ao buscarem seus direitos de acesso a equipamentos públicos voltados
ao lazer, educação e saúde.
No dia seguinte, imagens estampadas nas primeiras páginas dos jornais
locais tentavam explicar pormenorizadamente o fato. Com bandeiras, mega-
fones, apitos, cartazes e cornetas, cerca de 150 moradores do bairro Jardim
Sofia (zona norte da cidade), adjacente à via paralisada, tinham resolvido
protestar.

2 Ambos os projetos (um de pesquisa, O pedaço do Sofia, e o outro de extensão, Memórias do Jardim Sofia:
cenas da cidade migrante), foram desenvolvidos conjuntamente entre os anos de 2010 e 2011, com finan-
ciamento do Fundo de Apoio à Pesquisa da Universidade da Região de Joinville (Univille) e do Fundo
Municipal de Apoio à Cultura da Fundação Cultural de Joinville.
3 Conforme dados do Censo de 2010 realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE),
Joinville conta com uma população de 515.288 habitantes, sendo considerada, em termos populacio-
nais, a terceira maior cidade do sul do Brasil.
História Oral, v. 17, n. 1, p. 7-37, jan./jun. 2014 9

Figura 1 – Manifestação de moradores do bairro Jardim Sofia

A imagem ilustrou a matéria “Avenida fechada por 45 minutos”, publicada no jornal


A Notícia em 24 de fevereiro de 2011. Fotografia de Rogério da Silva.

Ainda que o protesto devesse ser tolerado e compreendido, pois se tra-


tava de gente atingida por carências de toda ordem,4 para nós, que estávamos
investigando as memórias desse bairro, o acontecimento ecoava nas interpre-
tações que então fazíamos sobre os processos culturais que atravessavam e
ainda atravessam as práticas e representações de lazer na cidade.
Em primeiro lugar, os reclamantes irrompiam numa ordem urbana ima-
ginada, subvertendo a cartografia simbólica da cidade. Comumente consi-
derados moradores de periferia, protestavam em favor de um deslocamento
do bairro para o centro dos mapas políticos. Intervindo impetuosamente, no

4 O Jardim Sofia virou notícia em numerosos veículos de comunicação do Brasil devido às enchentes que
o assolaram durante os anos 1990 e 2000. De acordo com dados da prefeitura, o bairro é constituído por
famílias de média renda (chefiadas por pessoas que ganham até 500 reais por mês) e possui altas taxas de
gravidez na adolescência (2,16%), de defasagem no ensino fundamental e no ensino médio (12%) e de
registros de trabalho infantil (3,30%). Cf. Diagnóstico da Criança e do Adolescente de Joinville (s.d.) e
Joinville (2009).
10 COELHO, Ilanil; SOSSAI, Fernando Cesar. História oral, cidade e lazer no tempo presente

ritmo da experiência temporal urbana, projetavam-se como cidadãos que –


de vivência em vivência – reivindicavam o direito de (re)significar, conectar e
transformar o futuro da própria cidade.
Em segundo lugar, a aludida obstrução respondia à suposta recorrência
no não cumprimento de uma agenda de ações governamentais. Mais ainda,
parecia operar uma rede de novos sentidos para os direitos de cidadania, pois,
ao combinar reivindicações nas áreas de saneamento básico, saúde, pavimen-
tação, segurança e lazer – sem, contudo, manifestar a intenção de atribuir
quaisquer hierarquizações ou urgências segundo critérios do necessário ou
desejável – associava os direitos de cidadania aos direitos de consumir equi-
pamentos e serviços variados: academia de esporte, praça, parque, nova via de
ligação entre loteamentos habitacionais, ciclovia, posto de saúde e sistema de
tratamento de esgoto.
Toda a complexidade intrínseca à contenda, sem dúvida, impedia-nos
de significá-la como mais um entre os inúmeros atos de protesto que avançam
sobre as urbes contemporâneas. O que estava sendo praticado pelos mora-
dores não era mais uma pichação ou mais um grafite simbólico indicativo
das insatisfações com a produção e reprodução de lugares na cidade; tam-
pouco poderia ser analisado apenas sob uma ótica legalista que evocasse as
(in)competências do poder público. Para além disso, a manifestação colocava
na pauta de discussões o exercício da cidadania no século XXI como articula-
ção entre os direitos políticos (normatizados e reconhecidos pelos aparelhos
estatais) e a cosmética mutante de vivências urbanas.5
É dessa perspectiva que procuramos problematizar, por entre narrativas
de memória e outras fontes, os sentidos e desejos que inserem o lazer nos
processos que, a um só tempo, politizam a cidade e produzem identificações
culturais. Para tanto, valemo-nos de algumas contribuições teóricas da histó-
ria do tempo presente, especialmente as que acenam possibilidades e combi-
nações com a metodologia da história oral.
Ainda nessa direção, destacamos, em primeiro lugar, que foram privi-
legiadas narrativas de memória elaboradas por pessoas idosas moradoras do
bairro Jardim Sofia; essas narrativas nos dão algumas pistas para pensar sobre
os sentidos e sensibilidades envolvidos nas práticas de lazer experimentadas

5 A ideia de cosmética mutante do urbano baseia-se na obra do antropólogo Massimo Canevacci (2008).
Remete à dinâmica sempre transformadora dos modos de apreensão das cidades contemporâneas.
História Oral, v. 17, n. 1, p. 7-37, jan./jun. 2014 11

no presente e no passado, e também sobre como o envelhecimento é relacio-


nado com a construção de novos laços sociais no bairro.6
A esse respeito Ecléa Bosi destaca que “um mundo social que possui
uma riqueza e uma diversidade que não conhecemos, pode chegar-nos pela
memória dos velhos” (Bosi, 1994, p. 40). Deste modo, a função da memória,
em especial para os historiadores, se “não reconstrói o tempo, não o anula
tampouco”, e se não revela o passado, tampouco anula a possibilidade de ser
uma fonte para interpretação histórica (Bosi, 1994, p. 47).
Dessa perspectiva, um desafio metodológico se impõe: com a expansão
da história oral nas últimas décadas, coloca-se em destaque a reflexão sobre as
relações entre memória e história, passado e presente, subjetividades e valor
do testemunho.
No tocante a essa discussão, o historiador Michael Pollak (1992) salienta
que pessoas, acontecimentos e lugares são elementos constitutivos da memó-
ria individual (e também coletiva). Porém, esses elementos são organizados e
estruturados no presente narrado pelo trabalho de seleção – submetido a flu-
tuações, transformações e mudanças. Pelas narrativas, as pessoas buscariam
construir representações para si próprias e, principalmente, para serem per-
cebidas da maneira como querem ser percebidas pelos outros. Dito de outra
forma, as narrativas de memórias são atravessadas por disputas e negociações,
impondo ao historiador “levar ainda mais a sério a crítica das fontes” (Pollak,
1992, p. 207).
Assim, ao longo deste escrito, nossa hipótese é a de que, embora desde
os anos 1990 Joinville seja conhecida como “cidade trabalho”, “cidade da
ordem” e/ou “Manchester Catarinense”,7 as reivindicações de lazer na cidade,

6 No âmbito dos projetos O pedaço do Sofia e Memórias do Jardim Sofia foram realizadas três entrevistas
orais com pessoas que possuem alguma ligação com Jardim Sofia, nomeadamente: Margit Weise (pro-
fessora aposentada em 2011, após atuar durante mais de duas décadas na única escola de ensino básico
do bairro), Maria Marta da Cruz Wittkowski (uma das primeiras moradoras da região) e Vitória da Silva
(de 21 anos, filha de migrantes que se estabeleceram no Jardim Sofia no início dos anos 1990). Além
dessas, ao longo do artigo, também fazemos uso de um conjunto de gravações de vídeo resultantes de
duas oficinas de memória (oito horas de captação) realizadas com 32 idosas do Grupo da Melhor Idade
Cantinho da Amizade do Jardim Sofia. Detalhes sobre tais entrevistas poderão ser encontrados em:
<http://www.wix.com/projetosofia/univille>.
7 Desde a década de 1970, não poucas vezes ocorreram esforços do governo municipal e da imprensa
regional por divulgar Joinville por meio destes epítetos, que supostamente se sustentariam pela existên-
cia na cidade de empresas que se destacam num cenário comercial internacionalizado. Sobre o assunto,
ver Machado e Findlay (2005) e Machado (2009, 2012).
12 COELHO, Ilanil; SOSSAI, Fernando Cesar. História oral, cidade e lazer no tempo presente

do qual o acontecimento recente é apenas um exemplo, e a emergência de


um novo epíteto, “cidade turismo de negócios e eventos”, ligam-se não apenas
a intenções governamentais e empresariais de realinhamento econômico do
local em relação ao global, mas também às maneiras como no tempo presente
os sujeitos (moradores da cidade) experimentam e significam suas próprias
vivências – acionando passados e futuros, praticando consumos, demarcando
rupturas – e, ao mesmo tempo, às maneiras como se referem a elas.
Em segundo lugar, o lazer não é tomado por nós como dimensão temá-
tica isolada de outras da vida social e cotidiana. Tampouco é categoria a que
se possa atribuir uma essência a-histórica, já que ao levantarmos as diferentes
concepções e atividades de lazer que se instituíram e circularam na cidade de
Joinville a partir de meados dos anos 1980, deparamo-nos com múltiplos sig-
nificados que ora se aproximam, ora se contrapõem, ou mesmo se entrecru-
zam mutuamente. Por isso, compreendemos o lazer como processo humano,
e como tal, é na historicidade de suas redefinições, funções e lugares que
podemos perscrutar os múltiplos significados que balizam a sua invocação ou
interpelação. Pretendemos, com isso, participar do debate que institui uma
rede de discursos sobre as possibilidades políticas do lazer frente a alguns dos
desafios que se colocam para o viver urbano na contemporaneidade.
Na esteira dessas premissas, na primeira parte do artigo, buscamos apro-
ximar o debate entre os estudos em história do tempo presente e os atinentes
à metodologia da história oral. Ainda que consideremos relevantes certos
escritos que se dedicam à explicação dos intricados processos que levaram
à formação e ao desenvolvimento da história do tempo presente e da histó-
ria oral entre os historiadores da segunda metade do século XX, tomamos a
liberdade de nos esquivar da produção de assertivas que guardam tão somente
a reedição/revisão de discussões que já são consideradas lugares-comuns no
campo da história8 em favor de explicitar certas zonas de contato entre a his-
tória do tempo presente e a história oral, pontuando alguns dos elementos
teórico-metodológicos que podem contribuir no debate sobre o uso de tes-
temunhos para situar o presente como história e dar impulso a projetos com-
preensivos sobre o passado.

8 Referimo-nos, por exemplo, às ponderações sobre se a história oral deve ser considerada uma ciência,
uma técnica ou uma metodologia; sobre o estatuto da história do tempo presente e a sua relação com a
“história imediata” ou com a prática do jornalismo histórico; sobre o problema da verdade/verossimi-
lhança do relato histórico sobre o presente.
História Oral, v. 17, n. 1, p. 7-37, jan./jun. 2014 13

Num segundo momento, ao longo das demais seções de nosso texto,


procedemos a uma análise de como as práticas de lazer de um grupo de ido-
sos sinalizam formas de apropriação da cidade de Joinville, assim como dão
impulso a um conjunto de críticas alusivas à insuficiência ou mesmo à nuli-
dade dos órgãos governamentais no provimento do que esses idosos imagi-
nam como seus direitos à cidade (saúde pública de qualidade, infraestrutura
urbana e outros).

História do tempo presente e história oral:


possíveis aproximações

Obviamente as poucas páginas que nos propomos a produzir não têm


como objetivo dar conta do conjunto das discussões enunciadas no título
desta seção. De antemão, deixamos claro que nossa intenção é a de dividir
algumas reflexões que temos construído em nossas pesquisas com possíveis
leitores interessados nas aproximações entre a história do tempo presente e a
história oral quando o assunto é a problemática do testemunho em história.
Comecemos, pois, por localizar nossas discussões, remetendo-as à
França dos anos 1970, em especial à criação do Institut d’Histoire du Temps
Présent (1978),9 que sinaliza a intenção de institucionalizar um novo domí-
nio de pesquisa histórica a ser apropriado pelos historiadores de ofício: o
tempo presente.
De acordo com Helenice Rodrigues da Silva (2010, p. 2), tendo à frente
historiadores como René Rémond e François Bédarida,10 o interesse pela
história do tempo presente ligou-se inicialmente à denominada “nova his-
tória política”. Nesse âmbito, destacava-se a necessidade de a escrita histórica
se debruçar sobre práticas culturais que estabeleciam sentidos sobre o polí-
tico. Isso se traduzia como uma espécie de resistência a explicar o político
tomando por base elementos deterministas e noções generalizantes que, por
estarem calcadas em fundamentos metodológicos quantitativos, acabavam
por reduzir a política e as práticas políticas a elementos abstratos e a-históri-
cos (Bédarida, 1996).

9 Trata-se da criação de um laboratório vinculado ao Centre National de Recherches Scientifiques


(CNRS).
10 Ao lado de Rémond, foi um dos fundadores do IHTP, bem como seu primeiro diretor.
14 COELHO, Ilanil; SOSSAI, Fernando Cesar. História oral, cidade e lazer no tempo presente

É preciso destacar que o interesse pelo presente já se fazia perceber entre


os historiadores dos anos 1930 que deram fôlego ao movimento dos Anna-
les. A título de clarificação, cumpre destacar a célebre citação do historiador
Marc Bloch no livro intitulado Apologia da história ou o ofício de historiador:
“O que é, com efeito, o presente? No infinito da duração, um ponto minús-
culo e que foge incessantemente; um instante que mal nasce, morre. Mal
falei, mal agi e minhas palavras e meus atos naufragam no reino de Memória”
(Bloch, 2001, p. 60). No entanto, o que ganhou força nas décadas subsequen-
tes foi a produção de uma historiografia preocupada com o estudo da “longa
duração”; uma “história imóvel” seduzida por acontecimentos que aparen-
temente se expressavam e tinham sua legitimidade histórica assegurada pelo
fato de serem evidências da continuidade do tempo (Hartog, 2011; Silva,
2010, p. 1).
Também daí viria um dos marcadores mais importantes em relação
à “estratégia discursiva de legitimação” da história do tempo presente no
campo da história: aos interessados em sua promoção cabia, antes de tudo,
“definir o tempo presente” (Silva, 2010, p. 2-3).
Segundo Helenice Rodrigues da Silva, tal elaboração foi construída no
diálogo com a “noção de tempo atual” que já se encontrava bem desenvolvida
entre os teóricos da filosofia, em especial as análises empreendidas sobre o
tempo histórico por Agostinho e Paul Ricoeur. Foi em sintonia com essas
perspectivas que no âmbito do IHTP tomou corpo uma historiografia que
propunha a reflexão sobre o tempo presente enquanto “tempo da experiência
vivida” (Silva, 2010, p. 3).
Reivindicando uma história cuja escrita fosse capaz de lidar com
“periodizações mais ou menos elásticas, abordagens variadas, desligamentos
sucessivos”, a problemática do testemunho era questão epistemológica cara
aos historiadores do tempo presente. O primeiro desafio estava em compre-
ender que “[...] a testemunha encontrava-se ‘ali’ no momento dos fatos”. E,
portanto, a reflexão que em princípio era de “ordem histórica” acabava por
se inscrever “no campo da memória” (Silva, 2010, p. 6). O segundo, de um
ponto de vista metodológico, dizia respeito à dimensão heurística dos teste-
munhos, ou seja, à questão da autenticidade do relato. A citação a seguir nos
parece esclarecedora:

Procurando legitimar a cientificidade dessa fonte oral, o IHTP questionou,


desde o início, a sua autenticidade. Como evitar falsos testemunhos? Como
História Oral, v. 17, n. 1, p. 7-37, jan./jun. 2014 15

se prevenir contra uma possível denegação de uma afirmação? Como,


então, definir a testemunha? Trata-se de um ator ou de um espectador da
história? Que papel atribuir na interpretação histórica ou no julgamento
de um processo histórico? (Silva, 2010, p. 6).

Diante desse conjunto de questões, convém lembrar aqui as palavras


de Jean-Pierre Rioux, esclarecedoras a respeito da suposta vulnerabilidade
da história do tempo presente colocada em jogo pela citação. Para ele, “por
ser feita com testemunhas vivas e fontes proteiformes”, tal perspectiva de tra-
balho pode contribuir para a desconstrução de fatos históricos tensionados
pelos meios de comunicação, assim como pode “ajudar a distinguir, talvez de
forma mais útil do que nunca, o verdadeiro do falso” (Rioux,1999, p. 41).
Seja por um, seja por outro caminho, o que mencionamos até aqui já
nos é suficiente para concordar com o historiador François Hartog (2011, p.
210) em relação à percepção de que a década de 1970 marca uma espécie de
“curva do testemunho” no campo da história (e na sociedade ocidental como
um todo).
De acordo com Hartog, no transcurso do século XX a historiografia,
em geral, se inscreveu “em um paradigma do vestígio”, no qual a testemunha
apresenta um “movimento ascendente”. Para o autor, seria fundamental aos
historiadores levar em consideração o “fenômeno da voz” ao fazerem uso de
testemunhos em seus escritos. Contudo, alerta o autor: “Não estou em con-
dições de garantir que a expressão ‘fontes orais’, proposta pelos historiadores,
seja suficiente para resolver o problema”. Acredita ele que somente se levar-
mos a cabo uma rigorosa análise teórico-metodológica daquele fenômeno,
ou seja, da voz, é que poderemos avançar além do debate sobre a relação de
verossimilhança entre a narrativa e o acontecimento. Trata-se, então, de pon-
derar sobre os elementos que dão sustentação à “relação fiduciária” que cons-
titui a “credibilidade do testemunho” (Hartog, 2011, p. 227).
São as pistas deixadas pelas reflexões de François Hartog que procura-
mos seguir ao longo do percurso de análise das narrativas de memória que
selecionamos para trabalhar neste artigo. Mais relevante do que aferir se são
relatos verossímeis sobre o passado ou o presente de uma cidade de médio
porte no sul do Brasil é entendê-las como portadoras de esquemas subjetivos
que carregam consigo sentimentos de pertencimento em relação ao viver o
urbano durante a velhice.
16 COELHO, Ilanil; SOSSAI, Fernando Cesar. História oral, cidade e lazer no tempo presente

E a história oral nesse processo? Lançamos mão dessa metodologia


como base operatória da escrita histórica que nos propomos a realizar: como
dimensão e elemento procedimental que torna possível à história do tempo
presente alcançar excertos de passado; como meio de produção de fragmen-
tos sobre o presente no e com o qual interagimos; como tática de registro de
experiências de ser e estar no tempo.

Lazeres na cidade: alguns pontos de observação

Nos estudos sobre lazer, os termos tempo e espaço são referências comuns
e por vezes basilares de argumentação. Entretanto, à medida que procura-
mos captar as articulações entre esses termos promovidas pelos autores, uma
polifonia conceitual vai pouco a pouco se instalando. As controvérsias sobre
o tempo de lazer como oposição ao tempo de trabalho e de cumprimento
de obrigações sociais são, neste âmbito, ilustrativas. Lembra a pesquisadora
Sílvia Cristina Franco Amaral que

[...] o lazer já foi conceituado como experiência individual, como manifes-


tação coletiva, como organização da cultura de uma dada sociedade, como
produto da indústria cultural, como uma prática funcionalista ou como
uma prática interacionista, na qual subjetividade e objetividade estão em
constante dependência e significação. (Amaral, 2009, p. 43).

Ao discutir o estado da arte dos estudos de lazer, Elza Peixoto (2009)


esclarece ainda que as produções são oriundas das mais diferentes áreas, tais
como sociologia, direito, filosofia, administração, economia, entre outras, o
que acaba por imprimir ao conjunto de estudos um caráter dispersivo e mul-
tifacetado no que diz respeito aos pressupostos teóricos e metodológicos.
Por isso, achamos necessário, em primeiro lugar, explicitar alguns dos
nossos pontos de observação sobre o tema, que foram demarcados dos nossos
lugares de historiadores que buscaram dialogar com outras áreas do saber,
em especial com alguns estudos de história oral, história do tempo presente e
antropologia urbana. Em segundo lugar, corroboramos a ideia e o fato de que
qualquer reflexão diz respeito a uma dada configuração. Portanto, empreen-
der explicações que aspirem tecer uma intriga histórica sobre o lazer em Join-
ville implica flagrar o que há de específico sobre o tema na perspectiva dos
História Oral, v. 17, n. 1, p. 7-37, jan./jun. 2014 17

moradores da cidade, para construir um entendimento do passado que chega


pelo presente vivenciado, que, por sua vez, insinua problemas e dilemas de
outros espaços e tempos urbanos.
Atualmente, as cidades se deixam ler e ver de muitas formas. Para além
do que mostram os mapas, o espaço urbano é esgarçado e comprimido coti-
dianamente; pesam sobre a cidade as disjunções, superposições e complexi-
dades de fluxos de pessoas, tecnologias, finanças, imagens e informações que
pulsam nas e pelas vivências de quem a produz (Appadurai, 1999). Suas fun-
ções já não podem mais ser definidas apenas pelo que dizem leis, planos e pro-
jetos governamentais e empresariais, senão pelo multifacetado emaranhado
de experiências de seus usuários. Assim como a cidade, um bairro sugere uma
nova paisagem de estudo do urbano e das urbanidades que pode subsidiar
não a defesa de conceito ou categoria generalizante, mas uma abordagem e
uma maneira de problematizar as transformações a que assistimos desde a
segunda metade do século XX (Campos; Flores, 2007).
Como nos lembra o antropólogo Pierre Mayol (1996, p. 42), o usuário
da cidade “sempre consegue criar para si algum lugar de aconchego, itine-
rários para o seu uso ou seu prazer, que são as marcas que ele soube, por si
mesmo, impor ao espaço urbano”. Diante da complexidade mutante da vida
urbana contemporânea, um dos poucos lugares que ainda se mostram apro-
priados a uma frágil sensação de aconchego são os bairros. Esses territórios,
reconhecidos pelos seus usuários mais familiarizados como ampliações do
habitáculo, como espaços públicos suscetíveis a usos cotidianamente priva-
tizados, nos estimulam a curiosidade sobre as maneiras múltiplas pelas quais
as pessoas estabelecem redes de solidariedade e sociabilidade, especialmente
quando se trata de interrogar as reivindicações por espaços públicos destina-
dos a compartilhar experiências de lazer e diversão na cidade.
A abordagem ao bairro foi também inspirada na noção de “pedaço”
concebida pelo antropólogo José Guilherme Cantor Magnani (2003, 2004)
no processo de realização de suas pesquisas sobre a prática do “lazer em bair-
ros de periferia”. Para Magnani, “pedaço”

[...] aponta para a existência de um espaço social que se situa entre a esfera
da casa e a da rua. Com base em vínculos de vizinhança, coleguismo, pro-
cedência e trabalho, o pedaço estabelece uma forma de sociabilidade mais
aberta que a fundada em laços de família, porém menos formal e mais
próxima do cotidiano que a ditada pelas normas abstratas e impessoais
18 COELHO, Ilanil; SOSSAI, Fernando Cesar. História oral, cidade e lazer no tempo presente

da sociedade mais ampla. É nesse espaço que se vive e compartilha toda


sorte de vicissitudes que constituem o dia-a-dia por ocasião dos momentos
de lazer, devoção, participação em atividades comunitárias e associativas,
troca de favores e pequenos serviços; como também dos inevitáveis confli-
tos e disputa. (Magnani, 2004, p. 83).

Dessa perspectiva, tomamos, pois, como referência de investigação as


subjetividades, as maneiras de fazer e de representar o bairro (e a cidade) e,
ao mesmo tempo, os sentimentos de pertencimento manifestados pelos pró-
prios moradores em suas narrativas.
Falamos também de usuários e consumidores do espaço urbano, refe-
rindo-nos à noção de apropriação desenvolvida pelo intelectual francês
Michel de Certeau (1994). Para ele, apropriação remete às operações que as
pessoas comuns fazem em relação aos produtos que lhes são oferecidos. Pen-
sar o lazer num bairro implica, pois, abordá-lo na “pluralidade dos empregos
e das compreensões e na liberdade criadora – mesmo que seja regrada – dos
agentes”, praticantes do espaço urbano no bairro (Certeau, 1994, p. 66).
Com o intuito de estimular percepções sobre a multiplicidade de ges-
tos e relatos que configuram as maneiras pelas quais os habitantes da cidade
constroem experiências díspares de tempo e espaço, nosso percurso metodo-
lógico levou-nos às narrativas de memória produzidas por alguns moradores
do bairro Jardim Sofia como meio de ir além da crítica à presença ou à ausên-
cia do Estado na estruturação das condições adequadas ao lazer público.
Levando em conta que desde a década de 1990 o poder público muni-
cipal tem buscado transformar Joinville em referência de turismo e lazer de
Santa Catarina, ao ouvirmos pessoas comuns falarem de suas experiências de
lazer, podemos vislumbrar o jogo que movimentou o tema, bem como as ten-
sões que buscaram atribuir a ele novos e plurais sentidos, funções e lugares.

O “pedaço” do Sofia

O bairro Jardim Sofia, reconhecido por lei no ano de 1990, situa-se na


zona nordeste de Joinville. Com uma população estimada em 4.153 habitantes,
apresenta algumas características que ora se aproximam, ora se distanciam do
perfil socioeconômico de outros bairros da cidade. No mapa a seguir, pode-se
observar de modo mais claro a sua localização no perímetro do município.
História Oral, v. 17, n. 1, p. 7-37, jan./jun. 2014 19

Figura 2 – Mapa de Joinville, em relação ao estado de Santa


Catarina e ao Brasil, com acento para o bairro Jardim Sofia

Fonte: Joinville (2009).

De acordo com os dados extraídos do Diagnóstico Social da Criança


e do Adolescente de Joinville (s.d.), cerca de 50% dos habitantes do Jardim
Sofia não são naturais de Joinville. Tal percentual é considerado “mediano”
em relação aos outros bairros; o Jardim Sofia se destaca por registrar um dos
maiores percentuais de moradores com idade de 0 a 14 anos (52,50%). Com
base no mesmo diagnóstico, constatam-se percentuais um tanto preocupan-
tes nas categorias saúde, educação e trabalho. O bairro, em relação aos demais,
apresenta um dos maiores índices de adolescentes fora da escola (38,98%) e
de pessoas com idade de 12 a 17 anos responsáveis por domicílios (0,12%).
Nos relatórios oficiais, livros ou reportagens de órgãos de imprensa, as
razões de tais índices encontram respaldo nas explicações sobre o histórico
do bairro.11 A paisagem caracterizada pelas atividades agrícolas desenvolvidas

11 A esse respeito ver, Correa e Rosa (1992) e Jardim Sofia: um bairro desenvolvido em meio à floresta (2000).
20 COELHO, Ilanil; SOSSAI, Fernando Cesar. História oral, cidade e lazer no tempo presente

por famílias estabelecidas no início do século XX teria sido profundamente


transfigurada a partir dos anos 1980, com a chegada de migrantes provenien-
tes de várias cidades brasileiras. Esses migrantes, atraídos pelos empregos nas
indústrias joinvilenses, teriam promovido uma ocupação desordenada do ter-
ritório. As precárias condições de habitação e de urbanidade estariam com-
binadas com a ausência de serviços públicos e assistenciais. Disso resultariam
os fatores principais para explicar o perambular de mendigos, prostitutas e
usuários de drogas pelas ruas, a ausência de práticas de lazer saudáveis e a
violência que vitimou uma população supostamente apática e passiva diante
de suas agruras e carências.
Distante das pulsações do cotidiano dos moradores, o diagnóstico sobre
as (não) práticas e os (não) lugares de lazer se vale, de forma determinista, dos
condicionantes econômicos e sociais. Nesse caso, caberia perguntar se basta-
ria que dos gabinetes fossem tomadas decisões de fomento ao lazer junto a
uma população em presumida situação letárgica.
Mesmo estando atentos aos dados quantitativos e a outras fontes escri-
tas em nossa pesquisa, optamos por desenvolver a investigação andando pelo
bairro, procurando conhecer “de perto e de dentro” as práticas e representa-
ções de lazer indiciadas pelos moradores para perceber como nelas e por elas
se moviam redes de sociabilidade, se instituíam e se reconheciam lugares de
lazer (Magnani, 2003, p. 93).
“De perto e de dentro” constitui uma abordagem teórico-metodológica
inspirada nos estudos sobre o urbano empreendidos pelo antropólogo José
Guilherme Cantor Magnani. Para ele, o olhar “de longe e de fora” é um olhar
“de passagem”, cujo fio condutor consiste nas escolhas e no trajeto do próprio
pesquisador. Em vez de reduplicar o “discurso corrente sobre o decantado
caos urbano”, olhar “de perto e de dentro” significa abrir-se para conhecer
“arranjos, mecanismos e saídas surpreendentes dos atores sociais e que não
são visíveis a um olhar meramente de fora” (Magnani, 2003, p. 93).
Assim, ao longo de nossas imersões no Jardim Sofia, deparamo-nos
com diversos indícios que contradiziam certos discursos sobre a inexis-
tência de lugares de lazer no bairro. Ocorre que dentro dos limites admi-
nistrativos do Jardim Sofia existem vários equipamentos e eventos regula-
res voltados ao esporte, ao entretenimento e ao “cultivo de tradições” na
cidade. Entre eles, destacam-se o Festival Brasileiro de Hemerocallis, “o
único festival brasileiro de flores em campo de cultivo” (Festival Brasileiro
de Hemerocallis, 2011), o amplo Parque Integrado, que oferece “espaço
História Oral, v. 17, n. 1, p. 7-37, jan./jun. 2014 21

para eventos, campo de futebol, trilha ecológica, kartódromo e parque


Paintball” (Parque Integrado, s.d.) e o Recanto dos Cavaleiros, que pro-
move cavalgadas e dispõe de “cocheiras, garagens cobertas, churrasqueira e
galpão para eventos” (Lindner, 1999).
Ora, incluídos no calendário oficial da cidade e nos folders da Fundação
Turística de Joinville (Promotur), esses eventos e equipamentos estariam rela-
cionados não apenas aos fluxos migratórios urbanos como também a outros
fluxos contemporâneos, como os de informação, de comunicação, de capital,
de mercadorias e de consumo. Esses lugares de lazer, espetacularizados pela
iniciativa pública e privada, poderiam, “de perto e de dentro”, ser (re)pro-
blematizados e tomados como traços das vivências e tensões das diferenças
culturais (incluindo, pois, a produção de desigualdades sociais) na configu-
ração urbana do bairro. Ainda que qualquer morador ou passante somente
pudesse usufruir dos lugares e atividades desembolsando os valores das tabe-
las expostas nos pórticos, esses enclaves turísticos de lazer no bairro pode-
riam ser desestabilizados em seus sentidos e funções. Caminhar pelo bairro e
ouvir seus moradores suscitou reflexões sobre os lugares que se exibem como
imagem-lazer, instituídos pelas técnicas da produção sociocultural domi-
nante, sobre o que se esconde nos processos de utilização dos praticantes da
cidade na cotidianidade do “pedaço” e, por fim, nesses jogos híbridos, sobre
as mudanças das concepções e funções do lazer.
Apesar da criação oficial do bairro ter sido promulgada somente em
1990,12 a produção do “pedaço” tem como pano de fundo as transforma-
ções urbanas de Joinville ocorridas desde o início da década de 1980.13
Identificamos um conjunto de questões que incidiram sobre as disputas
pelo território.
O Jardim Sofia integrava, segundo o Plano Diretor de Urbanismo
de Joinville,14 a Zona Industrial Norte. Tratava-se de uma vasta área des-
tinada a atrair e abrigar indústrias de grande porte da e para a cidade. A
partir de 1980, muitas imobiliárias submeteram à municipalidade pedidos
de licença para loteamentos com fins habitacionais. Obviamente, a ini-
ciativa dos agentes imobiliários relaciona-se diretamente à relocalização,

12 Lei nº 2.376 ( Joinville, 1990).


13 A esse respeito, ver Coelho (2010) e Sossai e Coelho (2011).
14 O Plano Diretor de Urbanismo de Joinville foi aprovado em 1973, pela Lei nº 1.262 ( Joinville, 1973).
22 COELHO, Ilanil; SOSSAI, Fernando Cesar. História oral, cidade e lazer no tempo presente

reestruturação e expansão do parque industrial de Joinville, que à época


já era considerado um dos maiores polos industriais do sul do país. Mas
não apenas isso. Os interesses econômicos dominantes que disputaram o
território do Jardim Sofia impulsionaram a formalização legal do ambiente
construído sem a devida consideração do ambiente natural do bairro. Dito
de outra forma, sob impulso dos negócios imobiliários, foram sendo defi-
nidos os limites e o ordenamento espacial do Jardim Sofia numa área bas-
tante irrigada, quer seja pelas chuvas intensas e pelo relevo plano, quer por
sua rica hidrografia.15 É preciso destacar que o mesmo ocorreu em outras
regiões da cidade, especialmente em áreas de manguezais. Para que se tenha
uma ideia, em 1980 Joinville possuía 22 bairros; em 1990 passou a ter 34 e,
em 2000, 41 bairros ( Joinville, 2009).
Por outro lado, as disputas pelo território do Jardim Sofia também
envolveram o deslocamento, o desenvolvimento de táticas de sobrevivência
e a criação do “pedaço” por parte de migrantes provenientes de diferentes
cidades brasileiras e de antigos moradores de Joinville.
Segundo o censo de 1980, a média de crescimento populacional de Join-
ville foi de 6,45% ao ano, o que significou mais do que o dobro das taxas
verificadas no estado de Santa Catarina e no Brasil como um todo. No Jar-
dim Sofia, entre o censo de 1991 e o de 2000, houve um aumento de 47% da
população, enquanto o de Joinville alcançou 24% ( Joinville, 2009).
Extrapolando esses índices, as narrativas de memória indiciam os senti-
dos plurais e múltiplos das escolhas de estabelecimento no bairro: a proximi-
dade com as indústrias, o menor preço de terrenos para realizar o sonho da
casa própria ou mesmo a facilidade de conquistar informalmente moradias
sem custo algum. Dessa perspectiva, a origem do “pedaço” pode ser relacio-
nada com as complexas e sinuosas questões do trabalho numa cidade indus-
trializada. Contudo, no decorrer das entrevistas orais realizadas, vislumbra-
-se que a história do bairro emerge no cruzamento entre os jogos de interesses
e de poder (que envolveram industriais, donos de imobiliárias, urbanistas e
políticos) e as múltiplas maneiras de fazer dos moradores que cotidiana-
mente inventaram o bairro.

15 A riqueza hidrográfica do Jardim Sofia é uma de suas principais características geográficas. O bairro
está situado no curso da Bacia Hidrográfica do Rio Cubatão (fonte de quase 70% da água potável de
Joinville), e também integra a Bacia Hidrográfica do Rio do Braço (Oliveira; Ribeiro; Magna, 2009).
História Oral, v. 17, n. 1, p. 7-37, jan./jun. 2014 23

O lazer no bairro: memórias, narrativas, cruzamentos

Uma das primeiras moradoras do bairro foi a Sra. Sophia Nass (popu-
larmente conhecida como dona Sophia), nascida em Joinville em 1914. A
origem do local que atualmente leva o seu nome liga-se aos percursos de sua
família no espaço urbano joinvilense. Recuperamos uma entrevista com ela
realizada em 2004.16
Dona Sophia, caçula de uma família de 12 filhos, nasceu na Estrada da
Ilha, antigo núcleo rural de Joinville. Lá passou parte da infância e da juven-
tude. Mais tarde, mudou-se para as imediações do centro, para uma proprie-
dade trocada pelas terras que hoje formam parte do Jardim Sofia. Relembrou
que a decisão de realizar a troca baseou-se, em primeiro lugar, na vantajosa
extensão do terreno a ser adquirido e, em segundo lugar, na possibilidade de,
no futuro, vender com algum lucro parte da área para quem se interessasse.
Ainda que as vantagens imobiliárias fossem destacadas, no curso de sua nar-
rativa é a lida no campo e o estilo de vida rural que emergem como elementos
centrais do seu trabalho de memória. Dessa forma, as práticas de lazer são
por ela demarcadas obedecendo as experiências com um tempo regido pela
natureza e produção rural familiar.
Mesmo que não recorde a data exata em que se mudou para a região do
atual Jardim Sofia, dona Sophia enfatiza que ela e seu marido se depararam
com um local que “era só capim e capoeira”. As dificuldades para sobrevi-
ver em uma área que, segundo ela, era bastante hostil, foram vencidas com
muito trabalho. Aos poucos passaram a criar animais, cultivar roça e produ-
zir milho. A renda da família advinha da comercialização de leite e do exce-
dente produzido na terra. Com a oferta de empregos industriais, seu marido
tornou-se maquinista numa indústria têxtil (Indústrias Colin). Ainda assim,
lembra dona Sophia que o trabalho fabril do marido pouco incidiu sobre as
vivências cotidianas da família, a não ser, é claro, pelo acúmulo de suas tarefas
durante a semana: educação dos filhos, roça e lar.
A narrativa de dona Sophia nos dá uma ideia de como, no passado do
bairro, as práticas e os lugares de lazer se relacionavam a momentos espe-
cíficos do lavor rural. Ao ser provocada sobre um momento marcante de

16 A entrevista com Sophia Nass integra o Acervo do Laboratório de História Oral da Univille. Detalhes
disponíveis no seguinte endereço eletrônico: <http://historiauniville.wix.com/lho#!acervo>.
24 COELHO, Ilanil; SOSSAI, Fernando Cesar. História oral, cidade e lazer no tempo presente

diversão, dona Sophia não titubeou ao proclamar: “a primeira colheita”. Em


minúcias, explicou todo o processo. Seu marido escolhera para cultivo a beira
do Rio Cubatão.17 Com ferramentas emprestadas (“arado, grades, capinador,
maleador”) ia arando a terra e ela, auxiliada pelos filhos mais velhos, seguia-o,
semeando o solo. Lembra que “quando o milho estava maduro, quando ficou
bom”, fizeram “banco de tábua” e chamaram os vizinhos para a debulha. Ela
preparou “cuca”18 para servir aos convidados que, em uma única noite, abar-
rotaram “cem sacos” com o grão.
A narrativa de dona Sophia deixa-nos ver o lazer na historicidade do
bairro. Em primeiro lugar, o trabalho assume a centralidade para a definição
de seus sentidos, ou seja, o lazer seria prática decorrente de (e submetida a)
uma ordem hierarquizada pelo cumprimento rigoroso das tarefas da lavoura.
Como consequência, os lugares de lazer emergiriam também das contingên-
cias da faina rural, e não da percepção que opõe e fixa espaços definidos para
um e outro.
Alguns termos utilizados por dona Sophia indiciam, por sua vez, as
funções sociais do lazer na ambiência do bairro. Ao significar a debulha da
primeira colheita como singular momento de lazer vivenciado, imprime
um caráter extraordinário ao preparo da “cuca” e do banco de tábua. Aquele
momento de lazer punha em destaque as necessárias compensações aos favo-
res e préstimos provenientes das redes de sociabilidade e de solidariedade
existentes na cotidianidade do pedaço.
Beatriz Sarlo (2007, p. 10) destaca que “o tempo próprio da lembrança
é o presente: isto é, o único tempo apropriado para lembrar e, também, o
tempo do qual a lembrança se apodera, tornando-o próprio”. Ora, isso signi-
fica que é preciso, por fim, considerar na análise da narrativa de memória de
dona Sophia qual o presente em que ela narra e rememora e qual o passado
que representa.
Aos 90 anos de idade, diz ela que já não conhece quase ninguém da vizi-
nhança, tampouco sabe quantas casas existem. O único local que frequenta
é o posto de saúde do Sofia, onde recebe atendimento gratuito. Gosta de

17 O Rio Cubatão do Norte atravessa grande parte do município de Joinville e deságua no mar (Baía da
Babitonga). Ao longo dos tempos, nos arredores de seu curso, foram construídos locais para recreação e
banhos no verão.
18 É uma espécie de pão doce muito comum no sul do Brasil. É feito com ovos, farinha de trigo e açúcar, e
possui uma cobertura doce. Foi introduzido no Brasil durante a segunda metade do século XIX pelos
imigrantes germânicos.
História Oral, v. 17, n. 1, p. 7-37, jan./jun. 2014 25

conversar com a “enfermeira que tem neném” e que a examina e afere sua
pressão. É lá que fica sabendo o que ocorre com conhecidos, ou o perigo
que passam “as crianças pequenas nesse asfalto”,19 muito diferente da época
de sua “meninice”, quando, a caminho da lavoura ou da escola, brincava de
“correrias”.
Ao relembrar momentos passados, o passado revisitado dos dias labo-
riosos da juventude, dona Sophia deixa pistas sobre suas representações
e sensibilidades em relação ao tempo presente, um presente marcado por
novas sociabilidades urbanas destoantes da vida rural narrada. Diferente de
um tempo de lazeres cotidianos imiscuídos ao trabalho árduo na lavoura, o
presente se apresenta a dona Sophia como um momento no qual o estabele-
cimento de redes de solidariedades, mesmo no espaço de trânsitos tão fami-
liares como é o espaço do bairro, se mostra um desejo bastante fugidio. À
exceção das relações sociais vinculadas aos cuidados rotineiros com a saúde,
poucos são os lugares sociais do presente em que ela se sente acolhida e à
vontade. Assim, das lembranças do passado de dona Sophia emergem desejos
nostálgicos, que oscilam entre a alegria da revisita afetiva aos tempos vividos
e a melancolia da sensação de perda de laços sociais com esse passado.
Vivemos uma contemporaneidade marcada por um deslocamento na
experiência e na sensibilidade do tempo. Como nos lembrou o crítico literá-
rio alemão Andréas Huyssen (2000), passamos de um tempo encantado com
as possibilidades de futuro a um tempo seduzido pela memória, um tempo
em que a busca pelo passado tem servido como motivação existencial para
muitos grupos sociais. Entre as diferentes maneiras de nos relacionarmos
com o passado, a nostalgia é o sentimento (ou melhor, ressentimento) que
melhor adere ao desejo de construção de um apreço pelos tempos de outrora,
apreço difícil de ser imaginado em relação ao presente e aos futuros possí-
veis. Nesse caso, dirigimos a memória em busca de conforto, em busca de um
território estável, inimaginável em uma contemporaneidade mutante que se
liquefaz a todo momento.
Possivelmente as vivências do passado de dona Sophia não foram tão
doces como a sua narrativa nos incita a imaginar. Ao tecer as tramas da memó-
ria, esta narradora, um tanto insatisfeita com o presente vivido, traz à tona
uma representação de passado desprovida das tensões, conflitos, tristezas e

19 O asfalto a que se refere a entrevistada é a rua de sua casa.


26 COELHO, Ilanil; SOSSAI, Fernando Cesar. História oral, cidade e lazer no tempo presente

amarguras vividas no cotidiano rural. Nas entrelinhas dessa fala, podemos


perceber o desejo de um lugar mais solidário e acolhedor, um lugar pretérito
em que as sociabilidades e solidariedades construídas nas relações de vizi-
nhança se mostravam possíveis e realizáveis.
Além do mais, esse olhar nostálgico deixa entrever um sentimento de
saudade das práticas de lazer vividas na juventude, práticas que deixaram de
fazer parte da sua vida com a maturidade. Nesse sentido, podemos argumen-
tar que tal visão é movida, entre outros elementos, por privações impostas a
dona Sophia em relação à sua mobilidade, ao convívio familiar e ao autorre-
conhecimento nos espaços de sociabilidade do Jardim Sofia. Sem dúvida, a
existência de algumas restrições quanto às possibilidades de experimentar a
vida urbana – especialmente a fragilidade física pela idade avançada – cons-
titui um entrave na constituição de novos laços sociais com o presente do
bairro.
Diferentemente da nostalgia de dona Sophia Nass, outras idosas que
habitam o Jardim Sofia parecem enxergar nas vivências do presente, especial-
mente em suas relações de amizade e de vizinhança, seus vínculos de perten-
cimento ao “pedaço”. Explicamos melhor...
Todas as terças-feiras, por volta das 14 horas, um grupo formado por
32 idosas se reúne no galpão da Igreja Cristo Bom Pastor com um objetivo
comum: lazer, diversão e boa companhia. Embora a criação do Grupo da
Melhor Idade Cantinho da Amizade do Jardim Sofia tenha resultado da ini-
ciativa dos próprios moradores do bairro, não podemos deixar de observar
aqui que a sua formação (em 2008) esteve diretamente relacionada a ações
governamentais que visavam atender ao disposto no Estatuto do Idoso do
Brasil (Brasil, 2003).
À época em que foi sancionado pelo então presidente Luiz Inácio Lula
da Silva, o Estatuto do Idoso foi considerado um marco na história do direito
brasileiro, sobretudo por reconhecer as pessoas acima de 65 anos de idade
como grupo social singular e, por isso, detentor do direito a políticas públicas
específicas às suas necessidades. Além disso, foi a partir dessa lei que os idosos
passaram a contar com um texto legal que, de fato, assegurava-lhes o “direito
a educação, cultura, esporte, lazer, diversões, espetáculos, produtos e serviços
que respeitem sua peculiar condição de idade” (Brasil, 2003).
Seguindo as determinações desse documento, em março de 2004 o
governo de Joinville criou o Centro de Convivência do Idoso, com o objetivo
de “promover a autonomia do idoso e a sua participação efetiva na sociedade”
História Oral, v. 17, n. 1, p. 7-37, jan./jun. 2014 27

( Joinville ganha Centro de Convivência do Idoso, 2010) e de assegurar “o


desenvolvimento de habilidades, a informação, a expressão artística, espor-
tiva, de lazer, cultura” (Centro de Convivência do Idoso é inaugurado, 2010).
Diante do grande volume de idosos cadastrados e atendidos diariamente,
seis anos depois, em 1º de setembro de 2010, por meio de uma parceria com o
Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, a municipalidade
construiu uma sede própria para o órgão (Abre Centro de Convivência do
Idoso em Joinville, 2010).20 Esse investimento em infraestrutura era justifi-
cado pela necessidade de atender com mais qualidade os “3.210 idosos com
cadastro individual”, assim como outros “quatro grupos, com 80 idosos, que se
encontram semanalmente no local” e também prestar assistência aos “69 gru-
pos de convivência de idosos que acontecem nos bairros, totalizando 3.101
idosos” (Centro de Convivência..., 2010),21 consolidando o lugar como uma
referência para o exercício da cidadania durante os anos da velhice.
Ainda que nossa explanação sobre as pretensões do Centro de Convi-
vência do Idoso de Joinville possa parecer um tanto dispersiva, as formas de
lazer e sociabilidade das idosas que integram o Grupo da Melhor Idade Can-
tinho da Amizade do Jardim Sofia podem ser compreendidas se pensadas no
cruzamento com as ações promovidas por esse órgão. Ao participarmos de
uma das reuniões das idosas,22 dona Marta Schmidt23 contou-nos como se
relacionava com aquele órgão do governo. Disse-nos:

[...] eu vou ao Centro de Convivência do Idoso em todas as reuniões. Às


vezes tem cursos, palestras para os idosos, e eu falo para essas minhas pessoi-
nhas irem lá... Outras vezes tem reunião sobre como temos que organizar
as coisas aqui no [ Jardim] Sofia... porque aqui tem que ser tudo registrado!
(Schmidt, 2010).24

20 A nova sede custou 336 mil reais aos cofres públicos e foi inaugurada com a presença da própria ministra
do Desenvolvimento Social e Combate à Fome no Brasil, Márcia Lopes.
21 Entre eles, o Cantinho da Amizade do Jardim Sofia.
22 Trata-se das oficinas de memória promovidas no âmbito do projeto “Cidade”, em 2010, que menciona-
mos na introdução deste artigo.
23 Moradora do Jardim Sofia desde 1998. É líder comunitária e coordenadora do Grupo da Melhor Idade
Cantinho da Amizade do Jardim Sofia.
24 O depoimento de Marta Schmidt foi coletado em setembro de 2010, durante a oficina de memória His-
tória, imagens e memórias, que integrou o projeto de extensão universitária Memórias do Jardim Sofia:
cenas da cidade migrante, e faz parte do acervo dos autores.
28 COELHO, Ilanil; SOSSAI, Fernando Cesar. História oral, cidade e lazer no tempo presente

Embora dona Marta se mostrasse entusiasmada para responder as per-


guntas que fazíamos sobre como as idosas do Jardim Sofia interagiam com
o Centro de Convivência do Idoso de Joinville, a informação que fez ques-
tão de enfatizar foi a de que os contatos com esse serviço do governo eram
esporádicos e, por vezes, restringiam-se a assessorias para que ela resolvesse
problemas burocráticos do Cantinho da Amizade.
De acordo com ela, a principal dificuldade para que “suas pessoinhas
do grupo” participassem ativamente das atividades pedagógicas oferecidas
no Centro seria a enorme distância a ser percorrida entre o Jardim Sofia e o
bairro Floresta (cerca de 15 quilômetros) por pessoas que, em sua maioria,
têm mais de 65 anos, não possuem carro próprio para circular pela cidade, ou
então têm limitações físicas que as impedem de tomar três ônibus do trans-
porte público para irem àquele local e mais três.
Ainda há outra forma de relacionamento com o Centro de Convivência
do Idoso de Joinville que foi destacada na narrativa de dona Marta. Con-
tou ela que, no início de cada mês, se dirige a esse lugar para retirar a “cesta
básica para o café do nosso grupo”. Ocorre que cada reunião do Cantinho
da Amizade é finalizada com o compartilhamento de um lanche. Muitas das
participantes contribuem levando um pão, um bolo e/ou um tipo de doce
para ser degustado pelas convivas, porém os gêneros alimentícios mais con-
sumidos, por serem de uso contínuo (café, açúcar, sucos), são fornecidos pelo
próprio Centro. Trata-se, segundo dona Marta, de “algo simples” e que “ajuda
na nossa diversão...”.
Embora a existência do Cantinho da Amizade do Jardim Sofia possa
ser pensada na articulação com dispositivos legais que visam mediar as espe-
cificidades de envelhecer no Brasil (e em Joinville), as práticas das suas par-
ticipantes, no ato de se fazer grupo, revelam sociabilidades que estão para
além do discurso preditivo/prescritivo de qualquer documento ou órgão de
governo. Explicou-nos dona Marta como funciona a interação entre as pes-
soas no grupo que coordena:

A gente se reúne toda terça-feira, às duas horas da tarde, aqui no galpão


da igreja. A gente vem, conversa, se diverte... Essas aqui são as minhas pes-
soinhas que participam [...]. Toda semana a gente faz um sorteiozinho dos
brindes que cada uma traz... porque agora não pode mais o bingo... aí a
gente faz o sorteio e cada uma pode ganhar um brinde... (Schmidt, 2010).
História Oral, v. 17, n. 1, p. 7-37, jan./jun. 2014 29

Ainda que pareça apenas um detalhe, o “sorteiozinho” enunciado por


dona Marta revelou, para nós, sociabilidades que, a todo instante, inventa-
vam e reinventavam o lazer das idosas no bairro. O bingo25 era até pouco
tempo uma das principais atividades de entretenimento, tanto que as próprias
integrantes nos informaram que passavam suas terças-feiras administrando
as ansiedades que produziam no ato do jogo. Disputavam prêmios de baixo
valor monetário: panos de prato, potes plásticos, kits de mantimentos, pintu-
ras em tela, trabalhos manuais sob a forma de crochê ou tricô etc. Entretanto,
no ano de 2010, o bingo foi terminantemente proibido pelo padre encar-
regado de zelar pela idoneidade da igreja, que disponibiliza o galpão para o
grupo realizar os seus encontros. Mesmo insatisfeita com tal sanção – afinal,
“o que teria demais um monte de velha fazer um binguinho?” –, dona Marta
explicou-nos que o empecilho seria resultado de uma “lei do governo” que
“proibiu o bingo no Brasil”26 e, por isso, caberia ao padre “proibir também”.27
Ora, o que seria esse “sorteiozinho” e em que medida expressaria a
mediação de dispositivos legais que procuram regular o acesso e a prática do
jogo de bingo no Brasil, sobretudo em Joinville? A primeira parte dessa inda-
gação foi assim respondida por ela:

[...] cada uma traz um brinde... traz para ser sorteado... cada uma que traz
anota o nome no caderno e recebe cinco numerozinhos... a gente também
pede dois reais para participar... aí você recebe mais cinco numerozinhos...
aí, no final, a gente vai sorteando os números e quem tiver o número sorte-
ado ganha o brinde. (Schmidt, 2010).

Não apenas por valer-se de mimos de mesma natureza, mas também


por possuir mecanismos logísticos equivalentes, a descrição que nos foi feita
do sorteio guarda evidente semelhança com os fazeres do jogo de bingo. No

25 Segundo José Carlos David (s.d.), o jogo teve origem na Itália nos séculos XIII e XIV e foi disseminado
para outros países. Consiste num “jogo de azar, onde bolas numeradas são colocadas dentro de um globo, e
sorteadas uma a uma, até que algum jogador preencha toda a sua cartela com os resultados desse sorteio”.
26 Refere-se ela a uma medida provisória assinada pelo presidente Lula em 20 de fevereiro de 2004 que
desencadeou contendas jurídicas que se refletiram num vai e vem de autorizações e desautorizações para
funcionamento de casas e práticas de jogos de azar em todo o Brasil.
27 Não sem resistência dos idosos, que em 2009 pressionaram à discussão oficial do assunto numa sessão
da Câmara de Vereadores de Joinville. Quando de sua realização, se fizeram presentes numerosos idosos
que, por sua vez, representavam diferentes associações de moradores, clubes e outros grupos de idosos
vinculados a igrejas católicas de Joinville.
30 COELHO, Ilanil; SOSSAI, Fernando Cesar. História oral, cidade e lazer no tempo presente

lugar de uma cartela desenhada por algarismos dispostos vertical e horizon-


talmente, números avulsos impressos entregues para cada participante; ao
invés de um globo para retirar os números a serem marcados, um tubo plás-
tico, vedado na parte inferior com fita adesiva branca, de onde são retirados,
um a um, pequenos pedaços de papel numerados manualmente; ao contrário
da rigidez de regras pré-fabricadas sobre o começo, o meio e o fim do bingo,
a flexibilidade decorrente da possibilidade de negociar a qualquer hora o tipo
e a sequência dos brindes que entrarão em disputa.
Longe de enxergarmos o “sorteiozinho” como uma forma de lazer des-
provida de tensões e conflitos, acreditamos que ele coloca em concorrência
muito mais do que meia dúzia de prêmios que quase todas as idosas do Can-
tinho da Amizade do Jardim Sofia já possuem em suas casas. Na ausência de
recursos públicos, por meio dessa prática, o grupo parece ter instituído uma
metodologia para manter e financiar o seu lazer dentro e fora do perímetro
do bairro. Alguns usos dos valores acumulados nessa espécie de fundo mone-
tário do grupo foram orgulhosamente expostos a nós por dona Marta:

A gente alugou um ônibus no ano passado [2009] para fazermos um pas-


seio no final do ano... foi o nosso encerramento de ano... pagamos as cestas
de natal que cada participante ganhou... cada uma recebeu uma cesta com
panetone, frango... às vezes tem uma aniversariante no mês e a gente com-
pra um presentinho para ela... tudo vem desse dinheirinho.... assim a gente
ganha o nosso cascalhinho! (Schmidt, 2010).

Para além disso, pensamos não ser equivocado afirmar que o desenvol-
vimento de tal prática manifesta, por parte das idosas, a mediação dos atos
normativos que visavam conter a prática do bingo no Brasil. E ainda mais
interessante do que isso foi termos percebido a produção de uma intrigante
questão quanto à natureza e o sentido desse jogo no país, a saber: a criação
de incontáveis marcadores legais para, supostamente, proteger o patrimônio
dos idosos, que estava sendo dilapidado pela expansão dos jogos de azar no
Brasil. Emblemática dessa assertiva foi a instalação, em 29 de junho de 2005,
de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) dos Bingos, formada por
15 senadores titulares e 15 suplentes.28 O objetivo da CPI era o de “investigar

28 A solicitação foi feita pelo senador Magno Malta, em 5 de março de 2004. A CPI custou cerca de 200
mil reais ao governo federal e finalizou seus trabalhos em 7 de junho de 2006, com a entrega de um
relatório final contendo mais de 1.400 páginas (Brasil, 2006).
História Oral, v. 17, n. 1, p. 7-37, jan./jun. 2014 31

e apurar a utilização das casas de bingo para a prática de crimes de ‘lavagem’


ou ocultação de bens, direitos e valores, bem como a relação dessas casas e das
empresas concessionárias de apostas com o crime organizado”. Sua justifica-
ção assentava-se no fato de que o “crime organizado e jogos de azar são irmãos
siameses”, bem como na constatação de que “desde o início de suas atividades,
em 1993, as casas de bingo têm prestado um desserviço à Nação”, pois “além
de incentivar o terrível vício do jogo, sob o falso manto de contribuir para o
financiamento de clubes desportistas, algumas dessas entidades vêm sendo
utilizadas para dar ares de legalidades a recursos oriundos de atividades cri-
minosas” (Brasil, 2006).
Atentas o suficiente para se esquivar dessa caça aos bingos do Brasil, as
participantes do Grupo da Melhor Idade Cantinho da Amizade do Jardim
Sofia, à sua maneira, elaboraram um jogo idêntico, cujo resultado era – e
ainda tem sido – o acúmulo de pequenas quantias de dinheiro canalizadas
para financiar suas práticas de lazer coletivo.
Ao contrário de dona Sophia Nass, que entrevê o lazer como um subpro-
duto do mundo do trabalho do qual participava ativamente (e do qual sente
saudade), dona Marta Schmidt parece enxergá-lo como uma prática inerente
às sociabilidades que estabelece no presente em companhia de suas colegas
do grupo. Defende ela que as reuniões realizadas pelo Cantinho da Amizade
do Jardim Sofia ultrapassam a mera disponibilização de entretenimento cole-
tivo e assistencialista para “as pessoinhas do bairro”. As sociabilidades prati-
cadas pelo grupo, para ela, seriam capazes de “prevenir doenças de quem fica
em casa sem fazer nada o tempo todo”, inclusive atuando de maneira a “evitar
a depressão” entre as participantes. Assim, mais do que um passatempo, o que
se evidencia nas tardes de terça-feira é a produção de um espaço de exercício
e de direito à cidadania na velhice em Joinville.
Ainda que políticas públicas nacionais e municipais tenham se mos-
trado insuficientes no agenciamento dos diversos sentidos e dilemas do enve-
lhecimento, assim como do acesso ao lazer na velhice (talvez algo diferente
disso não seja possível, dado o caráter fugidio do viver cotidiano), acredita-
mos que o estímulo à formação dos “grupos da melhor idade” tem sido uma
estratégia profícua para a sociabilidade dos idosos no Brasil.
Todavia, não poderíamos deixar de finalizar este artigo sem registrar
que, tanto quanto em outros lugares, em Joinville há uma quantidade sig-
nificativa de equipamentos voltados ao fomento do turismo de eventos e
32 COELHO, Ilanil; SOSSAI, Fernando Cesar. História oral, cidade e lazer no tempo presente

negócios, muitos geometricamente pensados para facilitar a entrada e a cir-


culação de capital no município.
No tocante ao Jardim Sofia, a pesquisa que realizamos oportunizou o
contato com uma variedade de espaços de lazer que os moradores do bairro
conhecem somente de passagem ou pelo fato de, aos finais de semana, ofe-
recerem neles sua força de trabalho em troca de abjeta remuneração.29 Esses
deslocamentos pelo espaço urbano revelaram que os habitantes da cidade,
cotidianamente, ao edificarem um espaço comum, elaboram “fronteiras sim-
bólicas que separam, aproximam, nivelam, hierarquizam, ou, em uma pala-
vra, ordenam as categorias (e os grupos) em suas múltiplas relações” (Aran-
tes, 1994, p. 191). Entretanto, o mais interessante a ser pensado é que tais
fronteiras não são bem delimitadas. São, antes de qualquer coisa, zonas de
contato que colocam em relação as diferenças e os diferentes: uma espécie de
cosmética na qual as nostalgias de dona Sophia Nass embaralham-se com os
desejos de presente de dona Marta Schmidt, configurando uma cidade (e um
bairro) aos pedaços.

Considerações finais

No curso da nossa investigação, imbricar depoimentos produzidos a


partir da história oral no estudo da história do tempo presente permitiu,
por um lado, (re)problematizar a história da cidade, já que, partindo de
evidências sobre acontecimentos referenciados em discursos da imprensa
e de órgãos oficiais, as narrativas produzidas por moradores do bairro
levaram-nos a distender o tempo e espaço desses mesmos acontecimentos,
suscitando-nos questões que põem por terra explicações um tanto gene-
ralizantes e deterministas, calcadas em noções estereotipadas de periferia,
política e práticas políticas na história urbana. Por outro lado, as apropria-
ções do lazer sinalizadas pelas entrevistas com idosas permitiu-nos teorica-
mente tratar esse tema como dimensão não isolável de outros da vida social

29 Foi-nos relatado quando da conversa com moradores do Jardim Sofia que alguns adolescentes são con-
tratados para ajudar a cortar a grama, retirar o lixo acumulado, apanhar bolas de golfe, encher o pneu
de automóveis de corrida utilizados por pessoas que residem na região central de Joinville e se deslocam
para o bairro a fim de divertirem nos finais de semana. Como recompensa, após uma tarde de cinco horas
de trabalho, recebem a quantia de dez reais.
História Oral, v. 17, n. 1, p. 7-37, jan./jun. 2014 33

e cotidiana. Como tal, é na historicidade de suas redefinições, funções e


lugares que podemos perscrutar os múltiplos significados que balizam a sua
invocação ou interpelação.

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Resumo: Neste artigo tentamos compreender os sentidos atribuídos ao lazer nos processos
de identificação cultural e de pertencimento urbano numa cidade de médio porte do sul do
Brasil, tendo por base as contribuições teórico-metodológicas advindas dos campos da história
do tempo presente e da história oral. Para tanto, além da análise de numerosos escritos que
circularam pela imprensa brasileira, procedemos à interpretação histórica de narrativas de
memória elaboradas por pessoas idosas, atentando para suas sensibilidades no que toca às
práticas de lazer que experimentam no presente e/ou experimentaram no passado da cidade
em que residem. Ao final, empreendemos um esforço de analisar as formas pelas quais nossos
entrevistados narram seu próprio envelhecimento e buscam dar dimensões a novos laços sociais
com o local onde residem, qualificando suas vivências de acordo com passados imaginados e
futuros almejados.

Palavras-chave: memória, cidade, história do tempo presente, história oral.


História Oral, v. 17, n. 1, p. 7-37, jan./jun. 2014 37

Oral History, city and leisure in the present

Abstract: In this article we try to understand the meanings attributed to leisure in the processes
of cultural identification and urban belonging in a medium-sized city in southern Brazil, based
on the theoretical and methodological contributions arising from the fields of History of
present time and Oral History. For this, besides the analysis of many writings that circulated
in the Brazilian press, we proceed to the historical interpretation of narratives of memory
developed by elderly people, observing their sensitivities with respect to the practices of leisure
which they experience in the present and / or experienced in the city in which they lived. In the
end, we undertook an effort to analyze the ways in which our respondents narrate their own
aging and seek to give new dimensions to social ties within local jurisdictions, describing their
experiences according to an imagined past and a desired future.

Keywords: memory, city, History of present time, Oral History.

Recebido em 31/03/2014
Aprovado em 18/07/2014
DOSSIÊ

Os outros rostos de La Noche de los Lápices*

Marcos Oliveira Amorim Tolentino**

O desaparecimento forçado de pessoas constitui um dos principais


legados da última ditadura civil-militar argentina (1976-1983). São consi-
derados desaparecidos todos aqueles cujo paradeiro após a passagem por um
centro clandestino de detenção (entre os 500 que se sabe terem funcionado
de 1975 a 1983) é desconhecido. Devido aos limites que o desparecimento
pôs sobre a sua representação (Crenzel, 2010) e sobre os trabalhos de memó-
ria ( Jelin, 2002), muitos dos desaparecidos são recuperados apenas como um
entre os 30 mil, número simbólico defendido pelo movimento argentino pelos
direitos humanos (Catela, 2001, p. 86-88). Por outro lado, também foram
desaparecidos 1.600 homens e mulheres que reapareceram posteriormente ao
ser liberados dos centros clandestinos de detenção, segundo dados divulgados
em 2003 pela Secretaria de Direitos Humanos (Algañaraz, 2003). Entretanto,
a história desses indivíduos também permanece incógnita: pouco se sabe das
estratégias utilizadas para reconstruir suas vidas, reinserir-se socialmente e
incorporar a experiência do desaparecimento à sua história pessoal.
Nos últimos anos, notamos nas políticas de memória da Argentina a
recuperação de outros perfis de vítimas da repressão ditatorial além dos desa-
parecidos políticos, tendência acompanhada pelos estudos recentes sobre a
ditadura. Inicialmente, esses trabalhos tinham como característica comum
a centralidade de suas análises na figura do desaparecido, tanto por ter cata-
lisado as iniciativas oficiais de tratamento do passado ditatorial quanto pelo

* Esta pesquisa foi realizada com o financiamento da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de


Nível Superior (CAPES), sob orientação do Prof. Dr. José Alves de Freitas Neto.
** Doutorando em História pela Universidade Estadual de Campinas (Unicampw). E-mail: marcosoat@
hotmail.com.
90 TOLENTINO, Marcos Oliveira Amorim. Os outros rostos de La Noche de los Lápices

ineditismo dessa experiência na história da violência política no país (Cal-


veiro, 2008; Catela, 2001; González Bombal, 1995; Forster, 1997; Kaufman,
1997). Por outro lado, atualmente há uma crescente bibliografia que recupera
os efeitos da ditadura nas trajetórias de exilados ( Jensen, 2010; Franco, 2008;
Yankelevich, 2010; Quadrat, 2011), de presos políticos (Garaño, 2008) e de
combatentes da Guerra das Malvinas (Lorenz, 2006). Entretanto, ainda são
escassas as investigações empíricas sobre o que significou ser um sobrevivente
dos centros clandestinos de detenção.
Ana Longoni destaca que a biografia de um sobrevivente é cindida em
um antes e um depois do desaparecimento – uma identidade arrasada pela
situação-limite do centro clandestino a ser reconstruída. Logo, desse mundo
atroz, de contornos e limites inimagináveis, o indivíduo retorna outro, com
uma visão de mundo distinta. Apenas por meio de sua memória é possível
aproximar-se dos detalhes que constituíram o desaparecimento, conver-
tendo-o assim em testemunha primordial, “porta-voz de um pesadelo”. Além
disso, nele se condensaria ainda a memória do eu político, do militante, ati-
vista, guerrilheiro; combatente aprisionado, torturado, mas não assassinado.
Logo, a autora aponta que esse duplo valor – testemunha do terror e sujeito
da militância política – seria responsável pelas polêmicas e silêncios em torno
dos sobreviventes (Longoni, 2007, p. 19-22).
Nesse sentido, Emilio Crenzel afirma que um dos traços da condição
particular dos sobreviventes da última ditadura argentina em relação a seus
pares de outros processos similares é a incredulidade que suscitaram os relatos
que deram em liberdade, ainda durante a ditadura. Na Argentina, a maioria
dos sobreviventes foi liberada por seus próprios captores, tendo que enfren-
tar não apenas as marcas da tortura nos seus corpos e mentes, mas também o
estigma gerado pelo discurso militar justificatório – eram os subversivos con-
tra os quais se sistematizaram as práticas repressivas; o repúdio de uma socie-
dade que não quis escutá-los; a suspeita de alguns militantes pelos direitos
humanos, fruto do caráter clandestino da repressão do conhecimento difuso a
respeito dela; e os conflitos com companheiros de militância devido às trans-
formações individuais sofridas durante a detenção (Ollier, 2009, p. 146-164),
da desconfiança de que haviam colaborado com os repressores para garantir
a sua sobrevivência. Nas organizações político-militares nas quais militaram,
a dificuldade de reconhecer a perda dos projetos revolucionários nas mãos
da ditadura (Crenzel, 2008, p. 44) e o entendimento da política no registro
do sacrifício – “que no permite regresar tras los propios pasos ni resguardarse ni
História Oral, v. 17, n. 1, p. 89-117, jan./jun. 2014 91

abandonar, sin ser considerado un traidor” (Longoni, 2007, p. 15) – geraram


a associação entre sobrevivente e traidor, seja em relação aos que “quebraram”
colaborando com militares, seja para os que “não morreram pela causa”.1
Segundo Ludmila da Silva Catela, essa situação se estendeu até mesmo
na democracia: sobre os sobreviventes colocou-se um estigma social sinteti-
zado na suspeita de que “por algo será” que sobreviveram. O “por algo será”,
que gerava acusações implícitas e desconfianças para explicar o desapareci-
mento dessas pessoas (Novaro; Palermo, 2007, p. 176-177), parecia, assim,
condensar as formas como se entendia o seu reaparecimento: “algo tiveram
que fazer para sobreviver”. Além disso, seus testemunhos traziam à tona
assuntos sobre os quais não se queria discutir: de um lado, a desumanização
nos centros clandestinos e as respostas individuais frente a ela; do outro, a
luta armada e a militância dos anos 1970. Assim, Ludmila da Silva Catela
conclui que, no quadro do boom de memórias gerado pelas comemorações
dos vinte anos do golpe de 24 de março de 1976, não haveria uma disposição
social para escutá-los, como se toda informação que tivessem para oferecer já
tivesse sido suficientemente lida nas páginas do Nunca más – o relatório final
da Comisión Nacional sobre la Desaparición de Personas (CONADEP)
publicado em 1984 – ou escutada ao longo do Julgamento às Juntas Militares
em 1985 – o Juicio a las Juntas (Catela, 2001, p. 373).
Uma das polêmicas em torno dos sobreviventes diz respeito às suas vin-
culações políticas prévias ao desaparecimento. Em sua grande maioria, os
desaparecidos eram indivíduos que militavam em organizações da esquerda
revolucionária, armadas ou não, assim como ativistas sindicais, estudantis e
militantes sociais, com diferentes vínculos com tais organizações (Aguila,
2008, p. 69). Porém, a memória da ditadura que se tornou hegemônica na
democracia trouxe à tona os remanescentes dessa geração no papel de víti-
mas, o que implicou colocar a ênfase sobre a violação e o sofrimento impostos
a eles, em detrimento do seu compromisso político.
Nas políticas de memória adotadas pelo governo de Raúl Alfonsín, por
exemplo, o objetivo foi comprovar os crimes cometidos pela ditadura, o

1 O documentário de 1994 Montoneros, una historia, por exemplo, relata o caso de Ana, ex-militante
montonera que, ao ser liberada da Escuela Superior de Mecánica de la Armada (ESMA), buscou seu com-
panheiro e pai de sua filha, Juan. Ele, também militante montonero, negou-se a vê-la, justificando-se da
seguinte maneira: “Yo podría haberme visto con Ana, pero yo no quiero ver a Ana porque Ana es una trai-
dora... Ana salió con vida de ese lugar, Ana... ¿qué puede ser de Ana?” (Montoneros, una historia, 1994).
92 TOLENTINO, Marcos Oliveira Amorim. Os outros rostos de La Noche de los Lápices

que resultou numa exclusão de qualquer referência a ideologias e compro-


missos políticos das vítimas. Segundo Hugo Vezzetti, recuperar um papel
combatente poderia resultar para os sobreviventes na ausência de reconheci-
mento do seu lugar de vítimas, bem como nas devidas medidas legais caso se
demonstrasse a sua participação em atos terroristas (Vezzetti, 2002). Mais do
que vítimas, tinham que ser vítimas inocentes de equívocos e injustiças irre-
paráveis cometidos pela repressão (González Bombal, 1995, p. 205-207). A
atribuição de inocência aos desaparecidos resumiu-se à condição de não sub-
versão, de alheamento em relação à luta armada, quando deveria se basear no
fato de que todos eles – até mesmo os não implicados na guerrilha – foram
submetidos a um tratamento criminoso, desprovido de julgamento e “desa-
parecedor” de suas identidades (Novaro; Palermo, 2007, p. 643).
Ao responderem ao chamado público da Comisión Nacional sobre la
Desaparición de Personas (CONADEP), os sobreviventes foram interroga-
dos apenas sobre se seriam capazes de identificar locais de detenção, outros
detidos, guardas, torturadores ou chefes militares (Crenzel, 2008, p. 71-72).
O mesmo teria ocorrido durante o Juicio a las Juntas: segundo Claudia Feld,
perguntas sobre as ideias políticas dos sobreviventes foram contidas; preva-
leceram relatos da violência sofrida nos sequestros e nas sessões de tortura,
carregados de manifestações de dor, horror e comoção (Feld, 2002, p. 40-43).
Os objetivos gerais desses testemunhos eram provar que a repressão ilegal
havia ocorrido de fato e recuperar nos sobreviventes a condição de sujeitos de
direitos, condição supostamente universal cuja negação pela ditadura impe-
dia a emergência de suas subjetividades e de suas vivências individuais nos
relatos (Balardini; Oberlin; Sobredo, 2011, p. 170).
Essas sombras sobre as memórias e narrativas pessoais puderam ser par-
cialmente superadas apenas no final da década de 1990, quando a militân-
cia passou a ser objeto de discussão pública, com a circulação de relatos nos
quais os sobreviventes revalorizaram e questionaram sua participação polí-
tica, inclusive os projetos políticos com os quais se comprometeram (Oberti,
2006). De acordo com Emilio Crenzel, nesse momento o testemunho dos
sobreviventes conquistou independência em relação à meta punitiva e come-
çou a trazer à tona memórias que se encontravam subterrâneas, especialmente
devido ao estigma produzido em torno dos seus compromissos políticos e do
seu comportamento durante a sua passagem pelos centros clandestinos de
detenção (Crenzel, 2011, p. 280).
História Oral, v. 17, n. 1, p. 89-117, jan./jun. 2014 93

Além disso, na segunda metade da década de 1990, os julgamentos


contra repressores argentinos iniciados na Itália, na França e sobretudo na
Espanha convocaram muitos sobreviventes a deporem no exterior, em um
momento no qual os indultos estavam vigentes na Argentina.2 O desenvolvi-
mento de tais julgamentos e as audiências públicas dos Juicios por la Verdad
fizeram com que muitos sobreviventes pela primeira vez contassem suas his-
tórias.3 Esse processo culminou, no ano de 2006, com a reabertura no país
das causas judiciais referentes aos crimes cometidos pela última ditadura. Os
testemunhos passaram a circular sob diversos formatos e suportes, que não
se limitavam mais ao depoimento judicial ou à denúncia aos organismos de
direitos humanos (Arfuch, 2013, p. 78).
Com base no que foi exposto, o objetivo deste artigo é analisar quais
relatos circularam nos circuitos de memória da mais recente ditadura civil-
-militar argentina acerca do episódio conhecido como La Noche de los Lápi-
ces – especificamente os testemunhos e declarações públicas de indivíduos
que buscam o seu reconhecimento como sobreviventes desse episódio. La
Noche de los Lápices é o nome pelo qual se tornou célebre um dos eventos
repressivos contra o movimento estudantil secundarista; trata-se do seques-
tro de um grupo de estudantes ocorrido em setembro de 1976 na cidade de
La Plata, entre os quais estavam: Francisco López Muntaner, María Claudia
Falcone, Claudio de Acha, Horacio Ángel Ungaro, Daniel Alberto Racero,
María Clara Ciocchini, Pablo Díaz, Patricia Miranda, Gustavo Calotti e
Emilce Moler. Os jovens eram (ou tinham sido) em sua maioria militantes

2 Os primeiros indultos, assinados em 7 de outubro de 1989, incluíam cerca de 300 pessoas com processo
judicial aberto, em diferentes situações: altos chefes militares processados que não foram beneficiados
pelas leis de punto final e de obediencia debida; acusados de subversão que se encontravam prófugos,
detidos, encarcerados ou condenados; repressores pertencentes às forças de segurança uruguaia; envol-
vidos nos levantes carapintadas; ex-membros da última Junta Militar que haviam sido condenados por
suas responsabilidades na Guerra das Malvinas (tenente-general Leopoldo Fortunato Galtieri, almirante
Jorge Isaac Anaya e brigadeiro-general Basilio Arturo Ignacio Lami Dozo). No ano seguinte, em 30 de
dezembro de 1990, Menem ditou outros decretos que indultavam boa parte dos membros das forças
repressoras e dos dirigentes das organizações político-militares que haviam sido condenados, além de
alguns militares que ainda esperavam sentenças judiciais (Memoria Abierta, 2010, p. 96).
3 Apesar das leis de indulto, durante a segunda metade da década de 1990 o movimento de direitos huma-
nos promoveu diversas estratégias institucionais que abriram espaços e caminhos relacionados com a
justiça. Foi o caso dos Juicios por la Verdad, iniciados em setembro de 1998 em La Plata, nos quais foram
realizadas audiências públicas que buscavam levar adiante investigações de todas as circunstâncias rela-
cionadas com os casos de desaparecimento, sem deferir condenações judiciais (Catela, 2001, p. 334-
345; Memoria Abierta, 2010, p. 124-134).
94 TOLENTINO, Marcos Oliveira Amorim. Os outros rostos de La Noche de los Lápices

da Unión de Estudiantes Secundarios (UES), um dos movimentos de base


dos Montoneros – com exceção de Pablo Díaz, integrante da Juventud
Guevarista ( JG), ligada ao Ejército Revolucionario del Pueblo (ERP), que
por sua vez fazia parte da estrutura militar do Partido Revolucionario de
los Trabajadores (PRT); e de Patricia Miranda, da qual não temos infor-
mações a respeito de vinculação política. Desse grupo, somente os quatro
últimos sobreviveram ao sequestro e à passagem pelos centros clandestinos
de detenção.
A escolha de um episódio que fez parte da formação de uma memória
política na democracia e que se tornou um emblema das violações aos direitos
humanos durante a ditadura coloca a questão sobre como os indivíduos envol-
vidos diretamente com esse episódio se relacionam com tal notoriedade. La
Noche de los Lápices adquiriu nos primeiros anos da democracia forte reper-
cussão pública ao ser citada nas páginas do Nunca más; ao ser selecionado
no Juicio a las Juntas como um dos casos paradigmáticos nos quais se baseou
a ação judicial contra os comandantes das Juntas Militares que governaram
a Argentina durante a ditadura; e ao ter a sua história contada em um filme
e um livro homônimos, ambos lançados em 1986 (Lorenz, 2007; Raggio,
2009, 2010).
Porém, no relato então consagrado, os sequestros realizados em setem-
bro de 1976 teriam resultado no desaparecimento de um grupo de estudantes
secundaristas, dos quais sete continuariam desaparecidos e um único teria
sobrevivido, Pablo Díaz. Além disso, o fato de ter participado na luta pelo
boleto estudantil secundarista na cidade de La Plata, no ano anterior, é o que
explicaria a sua inclusão entre os alvos da repressão ditatorial. Consequen-
temente, os quatro sobreviventes com os quais trabalharei – Emilce Moler,
Gustavo Calotti, Alicia Carminatti e Patricia Miranda – foram excluídos de
uma história que também era sua. Em trabalhos anteriores acerca do episódio
em questão, o testemunho de Pablo Díaz já foi analisado detalhadamente,
tanto no que diz respeito aos limites encontrados por ele, no momento em
que o seu sequestro se tornou público, para reivindicar o reconhecimento
da sua militância e dos outros estudantes desaparecidos, quanto no que toca
aos usos e apropriações públicas do seu relato (Lorenz, 2007; Raggio, 2005,
2009, 2010). Portanto, optei por centrar esta exposição na trajetória dos
outros rostos de La Noche de los Lápices, justificando os marcos com base nos
quais os inseri nessa categoria.
História Oral, v. 17, n. 1, p. 89-117, jan./jun. 2014 95

A variedade de locais de enunciação dos seus testemunhos (justiça,


imprensa, documentários, Arquivo Oral de Memoria Abierta)4 é demons-
trativa da ampliação de canais encontrados pelos sobreviventes dos centros
clandestinos de detenção para transmitir suas experiências. No caso espe-
cífico destes sobreviventes, a aproximação da comemoração anual do 16 de
setembro ou o início de alguma causa judicial da qual La Noche de los Lápi-
ces faça parte resultam numa maior atenção pública por parte dos meios de
comunicação.
Por último, devemos ter em conta a historicidade desses testemunhos e o
fato de que a maioria deles foi produzida a partir dos anos 2000. Se por um lado
isso demonstra a centralidade que, segundo Elizabeth Jelin, os sobreviventes pas-
saram a ter nas políticas de memória, sobretudo a partir de 2004 (Jelin, 2010, p.
240-244), por outro indica que a versão consagrada do episódio em questão já
não parece mais ser satisfatória, tanto para os indivíduos vinculados a ele quanto
para aqueles que buscam pensar sobre as condições de produção dos desapare-
cimentos durante a ditadura (Vezzetti, 2009, p. 112). Em 2001, por exemplo,
Jorge Falcone lançou um livro de memórias no qual aponta que sua irmã, María
Claudia Falcone, era uma militante que andava armada e que resistiu à deten-
ção (Falcone, 2001, p. 82-84). Além disso, nos anos seguintes foram produzi-
dos dois documentários aos quais farei referência, Los irrecuperables (2006) e El
boleto fue secundario (2009), iniciativas de outros atores sociais que buscaram
novas formas de contar uma história que lhes fora transmitida e que se encon-
trava consagrada em suas memórias pessoais sobre a repressão na ditadura.

A ex-detida/desaparecida

Em 17 de setembro de 1996, o jornal La Nación publicou uma reporta-


gem acerca da marcha ocorrida em Buenos Aires em comemoração ao vigé-
simo aniversário do episódio conhecido como La Noche de los Lápices. O

4 Formado pela Asamblea Permanente por los Derechos Humanos (APDH), pelo Centro de Estudios
Legales y Sociales (CELS), pela Fundación Memoria Histórica y Social Argentina, pela Madres de Plaza
de Mayo Línea Fundadora, pela Familiares de Desaparecidos y Detenidos por Razones Políticas, pela
Comisión de Familiares, Sobrevivientes y Compañeros de las Víctimas del Vesubio e pelo Servicio de
Paz y Justicia (SERPAJ), o Memoria Abierta produziu um arquivo oral que disponibiliza as gravações
de entrevistas com pessoas que têm diferentes vínculos com o passado ditatorial, entre as quais se encon-
tram 192 entrevistas de sobreviventes de centros clandestinos de detenção.
96 TOLENTINO, Marcos Oliveira Amorim. Os outros rostos de La Noche de los Lápices

que chamou minha atenção nessa matéria é que, além de cobrir a marcha
em si, o jornal destacou a presença de um rosto até então desconhecido na
multidão: era Emilce Moler, “a sobrevivente desconhecida de La Noche de los
Lápices”. Essa nota apontava que Emilce Moler, Pablo Díaz e a “outra estu-
dante que após ser liberada emigrou para a Europa” seriam as três pessoas que
teriam sobrevivido à trágica repressão aos estudantes em La Plata (Balma-
ceda, 1996).
Não foi a primeira vez que encontrei em minha investigação o nome de
Emilce Moler citado entre os sobreviventes do episódio. Na terceira parte
do livro de María Seoane e Héctor Ruiz Núñez, na qual os autores narram
as ações em busca de verdade e justiça empreendidas pelos familiares dos
estudantes desaparecidos, Emilce Moler é apresentada como uma “ausente”.
Segundo os autores, ela cursara o bachillerato no Colegio de Bellas Artes, par-
ticipando na mobilização pelo boleto estudantil em 1975 e integrando uma
equipe de trabalho com María Claudia Falcone e Francisco López Muntaner.
Na madrugada de 17 de setembro de 1976, foi sequestrada em sua casa na
mesma operação que sequestrou os demais, e esteve, como eles, no Pozo de
Arana, centro clandestino de detenção que funcionou em La Plata, até ser
levada a outro centro clandestino, a Brigada de Investigaciones de Quilmes,
enquanto os demais seguiram para o Pozo de Banfield. Sua inclusão entre as
vítimas de La Noche de los Lápices é atestada pelos testemunhos no Juicio a
las Juntas de Pablo Díaz e de Nora Ungaro, segundo a qual Emilce Moler
lhe contara ter estado com seu irmão Horacio (Seoane; Ruiz Núñez, 2011,
p. 221-222). Além disso, ao recuperar as denúncias feitas por familiares dos
desaparecidos a organismos de direitos humanos na Argentina durante a
ditadura, Sandra Raggio aponta que o nome de Emilce Moler já era citado
em algumas delas. Assim, no arquivo do Servicio de Paz y Justicia (SERPAJ),
a investigadora encontrou uma declaração de Nelva Falcone, mãe de María
Claudia Falcone, que se refere a Emilce como companheira de colégio de sua
filha, sequestrada na mesma noite e possível testemunha do desaparecimento
de María Claudia (Raggio, 2005, p. 108).
Apesar de reconhecida e mencionada em outros testemunhos, Emilce
Moler é tratada pelos autores do livro como uma “ausente”, pois teria optado
por não tornar público o seu relato. Em uma conversa telefônica em 18 de
julho de 1986 citada no livro, ela teria dito que havia reconstruído sua vida
e que não poderia assumir publicamente o que lhe sucedera, inclusive duvi-
dando da serventia de fazê-lo. Para os autores, o fato de seu pai, Oscar Moler,
História Oral, v. 17, n. 1, p. 89-117, jan./jun. 2014 97

ser um policial aposentado da polícia da província de Buenos Aires e ter


retomado contato com alguns velhos colegas para garantir a liberação da sua
filha explicaria o seu silêncio. Eles fazem assim um juízo moral da decisão de
Emilce Moler ao afirmar que sua declaração poderia ter sido decisiva para
provar algo que a Câmara Federal não admitiu em sua sentença sobre os casos
vinculados a La Noche de los Lápices: “que todos los chicos fueron salvajemente
torturados” (Seoane; Ruiz Núñez, 2011, p. 223-224).
Por outro lado, os testemunhos de Emilce Moler utilizados nesta inves-
tigação apontam para outra versão: no momento da produção do livro, sua
história já era pública, tanto por sua inclusão entre os estudantes de La Noche
de los Lápices no depoimento de Pablo Díaz, quanto por sua participação
na Causa Camps – causa judicial em curso durante o ano de 1986 contra o
general Ramón Camps, militar vinculado aos centros clandestinos que fun-
cionaram em La Plata e responsável direto pelo sequestro dos jovens. Porém,
ao entrar em conflito com os autores sobre os critérios adotados em seu tra-
balho, não foi incluída como um dos personagens centrais da obra, o que
determinou sua exclusão do relato que então se tornou consagrado (El boleto
fue secundario, 2009).
Nos testemunhos e declarações aos meios de comunicação utilizados
neste trabalho, Emilce Moler conta que, depois de quase dois anos de deten-
ção nos centros clandestinos de Arana, da Brigada de Investigación de Quil-
mes e da Comisaría 3ª de Valentín Alsina, e ainda na prisão de segurança
máxima para mulheres Villa Devoto, ao ser liberada, ela e seus pais se viram
forçados a mudar-se para Mar del Plata. Por ter sido considerada uma “irrecu-
perável” em Devoto, aconselharam seus pais que ela não retornasse a La Plata,
onde encontraria dificuldades para retomar seus estudos. Por um ano esteve
sob o regime de liberdade vigiada, o que significava o comparecimento sema-
nal em uma delegacia da cidade, além de restrições para participar em ativida-
des coletivas ou afastar-se de seu local de residência (Memoria Abierta, Tes-
timonio de Emilce Moler, Buenos Aires, 2006). Recorda-se que em liberdade
não temeu que as forças de segurança voltassem a sequestrá-la, mas tinha
medo de violar as regras prescritas pela liberdade vigiada (Pastoriza, 2001).
Para Emilce, esse foi um período contraditório, pois enquanto tentava
“reconstruir sua vida”, tinha todos esses limites para a sua liberdade, além de
enfrentar a ausência de seus amigos, “afetos da adolescência”, que se encon-
travam presos, exilados, mortos ou desaparecidos, e manter o silêncio sobre
o seu cativeiro (Memoria Abierta, Testimonio de Emilce Moler, Buenos Aires,
98 TOLENTINO, Marcos Oliveira Amorim. Os outros rostos de La Noche de los Lápices

2006). Com sua família a princípio falava muito pouco: sua mãe, “muito
antiperonista”, nunca entendeu o porquê do seu sequestro e sempre viveu
com muita vergonha de toda a história, sobretudo quando foi marginalizada
por seu entorno social por ter uma filha desaparecida (Pastoriza, 2001); seu
pai convivia com a culpa de não ter podido protegê-la no momento da sua
detenção – como se acreditava capaz, por ter sido policial (Memoria Abierta,
Testimonio de Emilce Moler, Buenos Aires, 2006).
A partir de 1982, ela começou a participar das marchas dos organismos
de direitos humanos de Mar del Plata e, aos poucos, a reconstruir uma “rede
de afetos”, ao relacionar-se com pessoas com quem compartilhava experiên-
cias de militância no movimento estudantil secundarista, bem como vínculos
com conhecidos presos ou desaparecidos. Chegada a democracia, aproximou-
-se dos advogados de La Plata para participar do Juicio a las Juntas, mas eles
preferiram que ela e seu pai depusessem como testemunhas da Causa Camps
(Memoria Abierta, Testimonio de Emilce Moler, Buenos Aires, 2006). Logo,
ao contrário do que afirmaram os autores do livro La Noche de los Lapices,
Emilce Moler alega que: “En las Juntas no fue que no quise delcarar ni que hice
un pacto de silencio, sino que a mi testimonio lo pasaron a outro Juicio, y declaré
en el año 1986 contra Camps” (El Boleto fue secundario, 2009).
Apesar de Emilce não ter testemunhado no Juicio a las Juntas, o fato
de Pablo Díaz ter mencionado seu nome tornou sua experiência conhecida;
Emilce Moler viveu essa exposição como uma “espécie de invasão”, pois já
não dependia de seu relato e de sua elaboração pessoal que sua história viesse
a público (Pastoriza, 2001), o que lhe tirava a autoridade de testemunha e
a marca dos processos subjetivos para ressignificar o seu desaparecimento e
incorporá-lo a um relato pessoal. Tal menção teria resultado também numa
aproximação por parte de María Seoane e Héctor Ruiz Núñez para que par-
ticipasse de sua obra. Emilce Moler alega que sua condição era que pudesse
escrever um capítulo no qual narraria os fatos a partir de seu ponto de vista,
mas, apesar de inicialmente aceito, esse capítulo não integrou a edição final,
pois houve discussões com os autores sobre o que eles iam ou não narrar,
sobretudo acerca da militância num agrupamento estudantil e suas vincu-
lações com Montoneros. Para Emilce Moler, a sua exclusão do relato con-
sagrado a respeito de La Noche de los Lápices foi fruto desse conflito; conse-
quentemente, costuma em seus testemunhos questionar mais o livro do que
o filme pelo fato de aquele “apresentar-se como real”, por colocá-la como uma
História Oral, v. 17, n. 1, p. 89-117, jan./jun. 2014 99

“ausente” que preferiu não falar e por fazer de Pablo Díaz “o único sobrevi-
vente” (El boleto fue secundario, 2009).
Ao longo desta investigação, não encontrei nenhuma declaração pública
de Emilce Moler anterior à sua participação na marcha em comemoração aos
vinte anos de La Noche de los Lápices. De acordo com Elizabeth Jelin, mais do
que datas de protesto, as comemorações de episódios relacionados às ditadu-
ras são momentos em que se ativam e produzem memórias e discursos sobre o
passado nos espaços públicos ( Jelin, 2002). Nesse sentido, a comemoração de
1996 teve para Emilce Moler tamanha importância que fez com que ela saísse
daquilo que até então lhe parecia um “segundo desaparecimento”, por não se
ver integrada a uma história que “também era sua” (Tenewicki; Dussel, s.d.).
A partir daí, ela passou a contar sua experiência de detenção reiteradamente,
principalmente nos processos judiciais que se instalaram na Argentina – Jui-
cio por la Verdad (1999), Causa Etchecolatz (2006), Causa Circuito Camps
(2011) – e na Espanha (1998).
Em seus testemunhos, notamos que Emilce passou a reivindicar legiti-
midade para o seu relato baseada no fato de ter convivido com os que desa-
pareceram. Sobre Horacio Ungaro, declara que eram grandes amigos, que o
conhecia desde os 13 anos e que se reencontraram alguns anos depois mili-
tando juntos na UES (Ginzberg, 2006). Recupera principalmente o fato de
fazer parte da mesma célula da UES no Bellas Artes que María Claudia Fal-
cone e María Clara Ciocchini, participando dos encontros de segurança com
o mesmo responsável. Os momentos compartilhados não se restringiram a
fora dos centros: ela foi torturada juntamente com Horacio e dividiu cela
com as duas garotas. Dessa forma, afirma:

Porque no soy de La Noche de los Lápices digo, yo me corro, no tengo pro-


blema, pero cuando relatan y hablan de Horacio desaparecido que estuvo con-
migo entonces es como una parte muy fuerte que creo que no me corresponde
cederla porque soy parte de la historia. Y que si puedo aportar detalles, y creo
que eso fui aprendiendo bastante de los sobrevivientes, tenemos eso, además
de nuestra militancia, somos los que pueden contarles de adentro, ¿no? Y no
es poca cosa el legado que uno tiene. Si no lo contamos nosotros no se puede
contar nadie. Y como estaba Horacio, Claudia y María Clara, soy yo la que
puedo contar. (Memoria Abierta, Testimonio de Emilce Moler, Buenos Aires,
2006).
100 TOLENTINO, Marcos Oliveira Amorim. Os outros rostos de La Noche de los Lápices

Trazer à tona o seu relato para fazer parte de uma história que também
era sua consistiu, portanto, em um processo marcado por tensões: muitas das
coisas que passou a dizer publicamente foram para contrapor a versão consa-
grada do episódio. Nesse sentido, Emilce costuma defender que seu seques-
tro não se explica apenas pela luta em prol do boleto estudantil em 1975.
Segundo sua versão, ela não teve uma participação destacada nessa luta, pois
recém havia aderido à UES, e realizava apenas tarefas periféricas. Alega inclu-
sive que era “uma das últimas na marcha” (Memoria Abierta, Testimonio de
Emilce Moler, Buenos Aires, 2006), e que os jovens não foram sequestrados
aleatoriamente por estarem entre os milhares que participavam da mobiliza-
ção, e sim por terem vinculações com grupos específicos e por estarem com-
prometidos com projetos políticos próprios, apesar da escassa idade (Guinz­
berg, 1998).
Mais do que “uma sobrevivente de La Noche de los Lápices”, Emilce
Moler se apresenta publicamente como uma “ex-detida/desaparecida”. Sua
inserção no movimento argentino pelos direitos humanos e seus objetivos
pessoais de buscar justiça e esclarecimento para todos os casos de desapareci-
mento seriam um esforço de “não ser apenas uma sobrevivente” (Tenewicki;
Dussel, s.d.), principalmente de não ser tida como uma “sobrevivente notó-
ria”, cujo sequestro emblemático solaparia a experiência de outros:

A mí me hubiese gustado que el hecho no tenga tanta notoriedad. Me asumo


como una ex detenida más, dentro del contexto en el que ocurría, sin la repercu-
sión que finalmente tuvo. Si sacamos el hecho de La Plata, hay muchos jóvenes
y adolescentes que pasaron por lo mismo en otras partes del país que ni siquiera
tienen sus fechas. Pero, después que se hizo el libro y demás, no puedo correrme
de esa historia. (El boleto fue secundario, 2009).

O exilado

Em 8 de agosto de 1985, na sede da Embaixada Argentina na França,


Gustavo Calotti deu seu primeiro testemunho sobre o desaparecimento.
Quase nove anos antes, em 8 de setembro de 1976, trabalhava numa delega-
cia de polícia da província de Buenos Aires, em La Plata, quando foi chamado
pelo chefe de tesouraria para ir ao seu escritório. Tratava-se de uma armadi-
lha: nesse momento, aos 17 anos de idade, Gustavo Calotti foi sequestrado
História Oral, v. 17, n. 1, p. 89-117, jan./jun. 2014 101

e levado vendado ao Pozo de Arana, onde ficou enclausurado durante duas


semanas. Por ter sido considerado um traidor que entregava informações da
polícia para as “bandas terroristas”, foi submetido a dez dias de interrogató-
rios e torturas intensas. Uma pergunta recorrente era sobre as suas atividades
no Colegio Nacional de La Plata, onde estudava desde 1972 e era conhecido
como “El Francés” – por ter participado em 1975 da Coordinación de Estu-
diantes Secundarios de La Plata como representante do Nacional. Em Arana,
apesar de ter os olhos sempre vendados, reconheceu outros estudantes: Vic-
tor Treviño, María Claudia Falcone, Emilce Moler, Claudio de Acha, Fran-
cisco López Muntanet; e soube que ali também estivera Patricia Miranda
(Calotti, 1985).
A partir do testemunho dado na França, o caso de Gustavo Calotti pas-
sou a ser vinculado judicialmente a La Noche de los Lápices, servindo como
evidência do sequestro e desaparecimento dos estudantes associados ao caso.
Na sentença ditada em 9 de dezembro de 1985 pela Cámara Federal de Ape-
laciones, por exemplo, o tribunal conferiu caráter de prova ao seu testemunho
pelo fato de ele ter compartilhado o cativeiro com os desaparecidos (Seoane;
Ruiz Núñez, 2011, p. 247-267). Entretanto, no momento em que o episódio
cobrou notoriedade pública, Gustavo Calotti não foi reconhecido como um
dos sobreviventes, o que ocorreria apenas em julho de 1998, quando teste-
munhou em Madrid diante do juiz Baltasar Garzón. A partir daí, passou a
ser apresentado nos veículos de comunicação como “um dos quatro sobrevi-
ventes daquela matança” (Mas, 1998), mais especificamente “o único que se
exilou” (Kemelmajer; Savoretti, 2013).
Em seu testemunho no Arquivo Oral do Memoria Abierta, Gustavo
Calotti conta que ao ser liberado da Unidad 9 de La Plata, em 25 de junho
de 1979, não tinha planos de sair do país. Depois de confirmar suas suspeitas
de que seguia sendo vigiado pelas forças de segurança, decidiu cruzar a fron-
teira para o Brasil. Em São Paulo, o Alto Comissariado das Nações Unidas
para Refugiados (ACNUR) acolheu o seu caso e lhe deu salvo-conduto para
ir para a França. Num primeiro momento, o exílio lhe pareceu “uma prolon-
gação do que tinha passado antes”, pois se instaurou entre a comunidade de
exilados argentinos na França uma suspeita de que ele havia participado de
atividades de colaboração e espionagem durante o seu cativeiro, o que pode-
ria explicar o fato de ter sobrevivido. Por esse motivo, optou por residir em
Grenoble, cidade francesa que não tinha uma comunidade de exilados tão
bem articulada, onde conseguiu inserir-se no mercado de trabalho e ingressar
102 TOLENTINO, Marcos Oliveira Amorim. Os outros rostos de La Noche de los Lápices

numa universidade, tornando-se professor de Educação Francesa, profissão


que exerce ainda hoje nessa cidade (Memoria Abierta, Testimonio de Gustavo
Calotti, Buenos Aires, 2006).
Segundo Gustavo Calotti, seus estudos na França foram importantes
para retomar o contato com a Argentina no momento da transição demo-
crática, e para compreender, transcendendo sua experiência pessoal, como
se constituiu a prática do desaparecimento forçado de pessoas. Em 1984, ao
desenvolver um trabalho de mestrado com o tema dos desaparecidos, preci-
sou de casos concretos e estabeleceu contato com algumas Madres de Plaza
de Mayo de La Plata, que lhe mandaram documentação legal e informações
sobre seus filhos levantadas durante suas buscas. Para ele, esse trabalho aca-
dêmico lhe permitiu dimensionar o alcance da repressão na última ditadura
argentina, assim como os efeitos sociais e culturais dos desaparecimentos
(Memoria Abierta, Testimonio de Gustavo Calotti, Buenos Aires, 2006).
Ainda assim, no marco das investigações oficiais empreendidas pelas
políticas de memória do governo Alfonsín, ele resistiu a apresentar seu teste-
munho na Embaixada Argentina por acreditar que sua vida estava tranquila,
por não querer expor sua família na Argentina de novo e por não estar seguro
a respeito de os militares realmente terem deixado o poder. Apenas mudou de
ideia quando foi citado para depor por correspondência diplomática durante
o Juicio a las Juntas; porém, aponta que viveu esse momento com o dilema
sobre o que fazer, se deveria testemunhar ou não (El boleto fue secundario,
2009), situação que seria comum entre os exilados argentinos na França:

Bueno, cuando me llega la carta para declarar yo voy. […] estaba todo asentado
legalmente, ¿no? Pero, ¿vos sabéis cuántos de los miles refugiados que hubo en
Francia, cuántos declaramos en el juicio a los comandantes? […] Éramos miles.
Solamente en la ciudad de Grenoble éramos 600 argentinos, y 3 declaramos.
(Memoria Abierta, Testimonio de Gustavo Calotti, Buenos Aires, 2006).

A partir do seu primeiro testemunho, Gustavo Calotti aponta que


assumiu o compromisso com a memória, para que sua experiência servisse
de exemplo e de legado para outras gerações (Memoria Abierta, Testimonio
de Gustavo Calotti, Buenos Aires, 2006). Ainda que na França não costume
contar sua história a ninguém, ao ser convocado por um juiz, viajou para a
Argentina para assumir o seu lugar de testemunha (Kemelmajer; Savoretti,
2013) e de sobrevivente de La Noche de los Lápices.
História Oral, v. 17, n. 1, p. 89-117, jan./jun. 2014 103

Para ele, o fato de ter sido sequestrado dias antes dos outros estudan-
tes não o exclui do episódio: “Yo siempre digo que no hubo una noche sino
muchas, y que no fueron seis los desaparecidos sino muchos más. Y que también
sobrevivimos muchos otros” (Kemelmajer; Savoretti, 2013). Logo, ao falar de
seu desaparecimento, costuma inseri-lo num ciclo de repressão aos estudan-
tes secundaristas iniciado antes de setembro de 1976, que resultou, apenas
na cidade de La Plata, em “aproximadamente 400 o 500 menores que están
desaparecidos” (El boleto fue secundario, 2009).
Tal recuperação relaciona-se com uma reivindicação de que seu desa-
parecimento não seja explicado apenas pela luta em prol do boleto estudan-
til. Gustavo Calotti aponta que essa luta cobrou significação no histórico de
mobilizações do movimento estudantil secundarista antes da ditadura por
ocorrer num quadro de desmobilização, resultado da crescente repressão nas
ruas e nas escolas e do desprestígio dos partidos políticos entre os jovens. Os
delegados dos colégios de La Plata decidiram organizar a luta pelo boleto para
voltar a mobilizar os secundaristas em torno de um reclame material, que
todos apoiariam (Los irrecuperables, 2006). Por outro lado, Gustavo pon-
dera que se tratava de um ato menor caso comparado à ação política que os
estudantes vinham realizando desde 1972, que os deixou expostos para as
forças de segurança quando os partidos aos quais respondiam partiram para
a clandestinidade, numa referência à relação entre a UES e Montoneros (El
boleto fue secundario, 2009).
Por discordar de algumas decisões tomadas pelos dirigentes Montone-
ros, Gustavo não se encontrava mais vinculado à UES ou realizando ativida-
des militantes no Nacional quando foi sequestrado. Depois do golpe, passou
a colaborar com o ERP, entregando-lhes material ou informação privilegiada
que conseguia retirar do seu local de trabalho. Apesar de à primeira vista
parecer uma “decisão suicida”, ele defende que não foi essa aproximação tar-
dia o elemento decisivo para que se tornasse alvo da repressão, mas sim o seu
histórico de militância estudantil:

Lo más lógico hubiera sido que yo dijera ‘Bueno, no es un momento apropiado’.


Lo que se no hubiese significado más tarde que yo cayera preso, pues yo estoy
seguro que el algún momento, que tuviese o no militancia en ese momento, el
hecho de haber la tenido iba a ser que me detuvieran o me chuparan. (Memo-
ria Abierta, Testimonio de Gustavo Calotti, Buenos Aires, 2006).
104 TOLENTINO, Marcos Oliveira Amorim. Os outros rostos de La Noche de los Lápices

Em seus testemunhos, Gustavo Calotti recupera seus companheiros de


detenção em Arana como militantes políticos que, diferentemente de outros
estudantes secundaristas – cujo papel principal era estudar ou ter práticas
hoje vistas como “normais para a sua idade” –, fizeram a opção por militar
(Los irrecuperables, 2006). Portanto, reivindica para sua geração não ape-
nas a posição de vitimação, mas também de oposição e mudança (Memoria
Abierta, Testimonio de Gustavo Calotti, Buenos Aires, 2006).

A vítima casual

Durante a busca na base de dados do Arquivo Oral do Memoria Abierta


por testemunhos de indivíduos relacionados a La Noche de los Lápices, depa-
rei-me com o testemunho de Alicia Carminatti. Até então não havia conside-
rado os seus vínculos com o episódio: seu nome nunca havia sido citado entre
os jovens sequestrados durante a operação de setembro de 1976 e em outras
declarações encontradas em meios de comunicação ela não tinha reivindi-
cado sua inclusão entre as vítimas.
De acordo com Sandra Raggio, a menos de um mês da estreia do filme
La Noche de los Lápices, em 1986, Alicia Carminatti deu na Austrália – onde
vivia desde 1983 – seu testemunho sobre a passagem pelos centros clandestinos
Pozo de Arana e Pozo de Banfield. Neste último, ela pôde atestar a presença
dos desaparecidos de La Noche de los Lápices, aos quais se referiu como “um
grupo apolítico de estudantes secundaristas” (Raggio, 2006, p. 32). Podem-se
perceber avaliações aproximadas em dois outros relatos. A primeira está no tes-
temunho que seu pai apresentou ao Juicio a las Juntas em 10 de maio de 1985:
nessa ocasião, além de referir a passagem dos estudantes desaparecidos pelo
Pozo de Banfield, Alberto Carminatti também afirmou que não pôde observar
nenhum traço de politização em suas atitudes ou conversas:

Ninguno de ellos, es decir de ese grupo, yo pude detectar por las conversacio-
nes, por el lenguaje utilizado, de que estuvieran politizados o hubieran estado
en contacto con ideologías extrañas, porque el lenguaje no se puede esconder,
menos cuando se es tan joven. […] Estos chicos ninguno de ellos tenía real-
mente, a mi entender, militancia política. (Memoria Abierta. Fondo Fiscalía
Luis Moreno Ocampo, Caja 02, Folio 06, Testimonios del 6º Cuerpo del
Ejército, 10.05.1985).
História Oral, v. 17, n. 1, p. 89-117, jan./jun. 2014 105

A segunda se encontra no testemunho de Pablo Díaz, segundo o qual a


única atividade política dos desaparecidos fora a luta pelo boleto estudantil.
Encontramos uma hipótese para as semelhanças entre os relatos no testemu-
nho de Alicia Carminatti no Memoria Abierta: segundo conta, Maria Isabel
Chorobik de Mariani, nesse momento presidenta da Asociación Abuelas de
Plaza de Mayo, foi quem em 1986 lhe levara o livro à Austrália, presente-
ando-a: “Te traigo el libro este, es el libro de La Noche de los Lápices, tómalo con
pinzas, te lo traigo poque es también la historia de ustedes” (Memoria Abierta,
Testimonio de Alicia Carminatti, Buenos Aires, 2006). Alicia Carminatti foi
sequestrada quando tinha 20 anos, em 21 de setembro de 1976, junto com
seu pai. Portanto, se ela não tinha o mesmo perfil etário dos jovens sequestra-
dos – todos menores de idade e estudantes secundaristas – e se seu sequestro
ocorreu posteriormente aos deles, como poderíamos entender que essa “tam-
bém era sua história” – como afirmara “Chincha Mariani”?
Até assistir ao seu testemunho no Memoria Abierta, eu havia encontrado
o seu caso citado nos meios de comunicação sempre vinculado ao desapareci-
mento de María Estela Montesano de Ogando e Jorge Ogando, sequestrados
em 16 de outubro de 1976 em La Plata, e do filho do casal, Martín, nascido
em cativeiro e adotado ilegalmente. Um informe de imprensa da Asemblea
Permanente por los Derechos Humanos de La Plata afirma que Alicia foi
citada para testemunhar no Juicio por la Verdad ocorrido em 12 de novem-
bro de 2003 por ter sido a única sobrevivente que declarou ter visto os dois
com vida após o sequestro no Pozo de Banfield (Martínez; Miguel; Wiman,
2003). Não são, assim, dados menores a gravação do seu testemunho para
o Memoria Abierta ter ocorrido na casa de Virginia Ogando, a outra filha
do casal, e a ênfase posta por Alicia no seu compromisso pessoal com a luta
pela restituição da identidade de Martín. Porém, nesse mesmo testemunho
ela questiona o relato consagrado sobre La Noche de los Lápices, sobretudo a
legitimidade de Pablo Díaz como testemunha principal: segundo Alicia, ele
teria narrado detalhes sobre o período em Banfield que não são reais. Logo,
afirma que lhe desagrada o fato de que, graças a um testemunho que não
deveria ser tomado como integralmente verídico, Pablo Díaz apareça como
“o único sobrevivente” (Memoria Abierta, Testimonio de Alicia Carminatti,
Buenos Aires, 2006).
Alicia Carminatti defende que essa “também seria sua história”, pois,
além de ter estado detida no mesmo período e nos mesmos centros clandes-
tinos, seu sequestro se insere no mesmo quadro de repressão aos estudantes
106 TOLENTINO, Marcos Oliveira Amorim. Os outros rostos de La Noche de los Lápices

secundaristas. Aponta que em realidade as forças de segurança buscavam


seu irmão, Jorge Carminatti, que inclusive era responsável de Pablo Díaz na
Juventud Guevarista. Jorge participava ativamente da política estudantil:
havia iniciado sua trajetória na JG e em 1976 era responsável por um grupo de
trabalho formado por jovens estudantes entre 15 e 20 anos. Nesse momento,
em que, segundo ela, “tudo estava tão politizado”, sua casa se transformou
num espaço para reuniões de secundaristas. Sobre sua participação, alega que
era algo que crescia paulatinamente, mas de forma periférica, participando de
alguns “atos pequenos” (Memoria Abierta, Testimonio de Alicia Carminatti,
Buenos Aires, 2006).
Partindo disso, podemos compreender sua inclusão como uma sobrevi-
vente de La Noche de los Lápices, por ter sido o que Pilar Calveiro apontou
como vítima casual da repressão: seu sequestro se basearia na crença das for-
ças de segurança de que ela poderia servir para que eles chegassem ao ver-
dadeiro alvo, o seu irmão. Dessa forma, Alicia Carminatti conta que ela e
seu pai foram torturados para que os repressores de Arana obtivessem algum
dado que os levasse a Jorge (Martínez; Miguel; Wiman, 2003). Não pre-
tendo, assim, que sua desaparição seja pensada como base para o argumento
que associa vítimas da repressão e inocência, e sim como uma demonstração
de que, no objetivo de exterminar uma força de oposição, os militares incluí-
ram, quando acharam necessário, o entorno familiar dos militantes políticos:

Puesto que si bien el aniquilamiento físico tenía como objetivo central la des-
trucción de las organizaciones políticas calificadas como ‘subversivas’, la repre-
sión alcanzaba al mismo tiempo una periferia muy amplia de personas directa
o indirectamente vinculadas a los reprimidos ( familiares, amigos, compañe-
ros de trabajo, etc.), haciendo sentir especialmente sus efectos al conjunto de
estructuras sociales consideradas en si como ‘subversivas’ por el nivel de infil-
tración del enemigo. (Calveiro, 2008, p. 45-47).

Alicia Carminatti conta que, já em liberdade, pouco antes de ir para a


Austrália, tentou comunicar-se com Pablo Díaz para relatar sua experiência.
Porém afirma que ele, além de não aparecer nos encontros que ela marcava,
teve uma “postura dura” em relação a seu irmão, chegando a confrontá-lo
acerca de suas responsabilidades com o ocorrido por ter naquele momento
uma posição mais alta na hierarquia da JG, principalmente questionando-o
sobre se não se sentia culpado por estar vivo enquanto outros companheiros
História Oral, v. 17, n. 1, p. 89-117, jan./jun. 2014 107

estavam mortos ou desaparecidos (Memoria Abierta, Testimonio de Alicia


Carminatti, Buenos Aires, 2006).
Talvez como reflexo das respostas que Alicia e seu irmão receberam de
Pablo Díaz, o seu testemunho é, entre todos com que trabalhei, o único que
aponta que Pablo “atravessa a verdade” em três pontos do seu relato. O pri-
meiro, ao afirmar que em Banfield havia um “guarda bom”, o que segundo
Alicia Carminatti seria impossível num centro clandestino como aquele, na
“época da pior repressão” da ditadura. O segundo, por ele ter declarado como
seus atos de outras pessoas, como, por exemplo, a ajuda dada em um parto
ocorrido no cativeiro. Por último, a sua despedida de María Claudia Falcone,
que não poderia ter ocorrido, pois um guarda teria que “quebrar” o esquema
de segurança ao qual estavam todos submetidos (Memoria Abierta, Testimo-
nio de Alicia Carminatti, Buenos Aires, 2006).
Neste último ponto acredito que está o seu maior questionamento ao
relato consagrado a respeito de La Noche de los Lápices, particularmente ao
testemunho de Pablo Díaz. Segundo Sandra Raggio, no relato judicial de
Pablo Díaz, a despedida de María Claudia Falcone é o momento em que se
agrava o sentido da injustiça vivida e em que se sela o pacto entre o sobrevi-
vente e os que não viriam a se salvar, afirmado na proposta de um brinde que
deveria ser feito por ele ao final de cada ano (Raggio, 2005, p. 121-122). Esse
pacto tornaria Pablo a testemunha privilegiada de uma experiência comparti-
lhada e legitimaria o dever de memória assumido por ele de sempre recordar
os jovens e de falar por eles. Além disso, no filme, a despedida representa o clí-
max de um dos eixos narrativos: a criação de um romance entre Pablo Díaz e
María Claudia Falcone sustenta um melodrama do princípio ao fim. Segundo
a versão do filme, para os jovens dos anos 1970 o amor assim como os sonhos
– termo de carga menor utilizado para se referir aos projetos políticos – esta-
vam ao alcance de suas mãos, mas foram impossibilitados precocemente pela
irrupção da violência sem limites da ditadura e pela situação-limite à qual
foram submetidos no centro clandestino (Raggio, 2009, p. 64-66). Logo,
para Alicia Carminatti, a inclusão desse momento demonstraria que nem o
livro nem o filme “representariam o real”, como fora pretendido:

Ahora esto a mí me conmociona primero porque no es real, segundo porque


no ocurrió, y tercero que está tergiversando y dando una imagen que no es
cierta. Y a parte que está jugando con los sentimientos de los que no están.
Está usurpando a parte la memoria de los familiares de todos los chicos que
108 TOLENTINO, Marcos Oliveira Amorim. Os outros rostos de La Noche de los Lápices

no están, de toda la gente que está en Banfield. Y después que sabemos que
Pablo no la conoció a Claudia Falcone, no entiendo entonces de adonde viene
la historia del romance, ¿para qué? (Memoria Abierta, Testimonio de Alicia
Carminatti, Buenos Aires, 2006).

A que se silenciou

Os testemunhos e declarações públicas que analisei têm uma historici-


dade: foram produzidos num momento em que os sobreviventes passaram
a revalorizar suas vivências pessoais e seus pontos de vista, sem limitar-se a
falar sobre os companheiros desaparecidos. Segundo uma sobrevivente numa
sessão em grupo ocorrida no Centro de Estudios Legales y Sociales, em 2010:

Al principio nosotros hablábamos de los compañeros que habíamos visto con


vida en el centro clandestino y que todavía estaban desaparecidos, después fue
el tiempo de nombrar a los represores que pudimos reconocer, ahora es tiempo
de hablar de cada uno de nosotros. (Balardini; Oberlin; Sobredo, 2011, p.
117).

Esse “falar de cada um de nós” faz dos testemunhos documentos que


nos permitem recuperar a experiência, a perspectiva e os dilemas que for-
mam a subjetividade desses indivíduos (Carnovale, 2007, p. 161), e, ao con-
templar essa dimensão, analisar os desejos, ilusões, sentimentos e silêncios
que marcam os relatos de quem rememora. Para aqueles que sobreviveram à
experiência da violência, sua subjetividade se reflete através de possíveis mar-
cas persistentes em seus testemunhos: o medo, a culpa, a omissão, a acusa-
ção, a derrota, o estigma social, a necessidade de reparação ( Jelin; Kaufman,
2006, p. 9-10). Por outro lado, a afirmação da subjetividade de quem conta
permite-nos também pensar as possibilidades de elaboração, de escolha e de
ação diante da violência sofrida. Logo, a análise das três trajetórias evidencia
a pluralidade de possibilidades de elaboração e de ação diante da violência
sofrida, contrariando o emprego da categoria universal do sobrevivente, que
tantas vezes tenta igualar experiências muito dissimilares. O que esses indi-
víduos têm em comum são as marcas que o sequestro, a tortura e o desapa-
recimento deixaram em suas biografias, o antes e o depois que essa vivência
estabeleceu.
História Oral, v. 17, n. 1, p. 89-117, jan./jun. 2014 109

Num contexto em que os sobreviventes não necessitam mais provar os


tormentos aos quais foram submetidos, ou atestar ter visto desaparecidos de
La Noche de los Lápices num dos centros clandestinos, seus testemunhos são
uma forma de questionar um relato consagrado acerca de suas próprias histó-
rias. Percebe-se que cada um deles tem nesse relato um elemento que parece
lhe causar mais incômodo: no caso de Emilce Moler, sua apresentação como
uma “ausente” no livro; para Gustavo Calotti, a ideia de que La Noche de
los Lápices foi apenas um episódio de repressão aos estudantes; para Alicia
Carminatti, a legitimidade de Pablo Díaz como o único sobrevivente/tes-
temunha. Nota-se também a concordância de que o relato consagrado foi
uma narrativa produzida posteriormente aos fatos, passível assim de ser pro-
blematizada, já que trazia em si elementos próprios dos exercícios de memó-
ria, como o silêncio e o esquecimento ( Jelin, 2002). Nas palavras de Emilce
Moler:

Desde el momento en que no existió el hecho, ya que fue una reconstrucción,


no hay criterios para decir quién fue parte de La Noche de los Lápices. Siem-
pre me pregunté por qué yo no estaba dentro de ese criterio. ¿Había de ser
estudiante secundario? Yo lo era. ¿En qué fecha había que ser secuestrado? A
Pablo lo detuvieron el 21 de septiembre, a mí en la madrugada del 17. ¿La
militancia? Yo militaba en la UES con todos los chicos, Pablo no militaba en
la UES. ¿Había de ser menor de edad? Yo era y Pablo no. ¿Por qué yo no era?
(El boleto fue secundario, 2009).

Por outro lado, coincidem na constatação de que esse relato foi uma
narrativa importante no marco da revelação, nos primeiros anos da demo-
cracia, das violações aos direitos humanos cometidas durante a ditadura.
Alicia Carminatti aponta que foi válido para que as pessoas conhecessem
“o horror da guerra suja dos militares”, e abriu espaço para uma recuperação
dos fatos negados pela ditadura, seja por meio de relatos reais, seja por meio
de elementos de ficção (Memoria Abierta, Testimonio de Alicia Carminatti,
Buenos Aires, 2006). Reconhecem também que uma das limitações da nar-
rativa consagrada é o fato de ter sido produzida num momento em que não
se podia falar da militância nem da luta armada, pois não haveria uma von-
tade social de escutar manifestações sobre esses temas. Para Emilce Moler, da
maneira que foi contada, evitando controvérsias, “ninguém poderia opor-se a
essa história” (Ginzberg, 2006). Assim, Gustavo Calotti resume quais foram
110 TOLENTINO, Marcos Oliveira Amorim. Os outros rostos de La Noche de los Lápices

as razões que fizeram de La Noche de los Lápices um episódio emblemático


naquele momento político-cultural:

Creo que había que mostrar en algún momento la crueldad con la que actu-
aron los militares. No es casual que tomaron el hecho de los adolescentes. No
hubiese repercutido tanto si tomaban el hecho de tipos que estaban direc-
tamente en la lucha armada y los representaban como tal. La gente no lo
hubiera tomado de la misma manera […]. Decir ‘a una chica parturienta la
secuestraban y esperaban a que llegara al término su embarazo y después la
eliminaban para tomar su bebé’, vos decís: ‘pero eso ni los animales lo hacen’.
Hay hechos dentro de esa represión que marcan más que otros, y me parece que
eligieron éste para crear esa conciencia, sensibilizar a la gente sobre hasta qué
extremo llegó la dictadura. Por eso yo digo que en definitivo la película tiene
su lado positivo. (El boleto fue secundario, 2009).

Entretanto, tal reconhecimento traz para os testemunhos dos sobrevi-


ventes um dilema: como contar suas próprias versões, questionar um relato
consagrado na memória coletiva sobre os sete anos de ditadura, sem dar argu-
mentos aos que defendem que as narrativas sobre os desaparecimentos são
invenções ou versões marcadas pelo revanchismo? Para Emilce Moler, este
seria o principal limite posto para suas versões dos fatos: o risco de que se diga
que não é verdade o que ocorreu com os desaparecidos – “No se puede salir
a decir ‘todo esto es mentira’ porque le damos pie al enemigo y podrían llegar a
decir que no es verdad lo de los desaparecidos” (El boleto fue secundario, 2009).
Minha intenção na presente exposição não foi a de buscar a verdade
acerca de La Noche de los Lapices, senão a de demonstrar que, ainda que haja
sobre o evento uma narrativa socialmente aceita e cristalizada na memória
coletiva, existe em torno dele um conflito de memórias ( Jelin, 2002), bem
como conflitos para as memórias, principalmente daqueles que se vinculam
diretamente ao episódio. Esses conflitos são coletivos e individuais: veja-se o
caso de Patricia Miranda – um desafio ao longo de toda esta investigação –,
que, por nunca ter tornado pública a sua história, torna-se uma sobrevivente
que não reapareceu. Sobre ela, encontrei apenas breves menções nos testemu-
nhos do de Emilce Moler e Gustavo Calotti no Arquivo Oral do Memoria
Abierta, que podem nos ajudar a compreender a sua opção pelo silêncio:
História Oral, v. 17, n. 1, p. 89-117, jan./jun. 2014 111

Y ahí si en el recorrido, lo que no podía entender, fueron a la casa de otra


compañera mía del secundario, Patricia Miranda, que nunca militó. Nunca
militó, Patricia, pero ni siquiera era allegada. Ella siempre estaba conmigo
haciendo las clases de matemática, así que nada más. Ahí no entendía nada.
Y Patricia estuvo dos años presa, se le murió su mama estando en Devoto,
pidió permisión a ir al velorio y no la dejaron. Así que realmente fue terrible
por Patricia. (Memoria Abierta, Testimonio de Emilce Moler, 2006).

Y Patricia es una chica que la levantan en una casa, con Emilce o con alguien
más, había ido a estudiar. No tenía militancia, no tenía nada. Entonces
como decimos se comió un garrón. Y cuando salió dijo ‘nunca más hablo ni
mi meto’. Y fue así. Y efectivamente es una chica muy consecuente, porque yo
creo que nunca hizo ningún tipo de declaración. Ni denuncia de nada. No
sé dónde vive, ni nada. (Memoria Abierta, Testimonio de Gustavo Calotti,
2006).

Podemos assim concluir que para Patricia Miranda provavelmente a


experiência do sequestro e do desaparecimento custou mais do que para os
outros sobreviventes. Eles posteriormente conseguiram elaborar um sentido e
uma narrativa que, ao ser contada publicamente, garantiu que reaparecessem.
O ato de testemunhar significava superar as limitações impostas pelo desapa-
recimento, o resgate do sobrevivente da situação de violência (Selligmann-
-Silva, p. 66). “¡Recién cuando pude empezar a hablar de lo que había pasado,
a reconstruir mi historia, me sentí ‘aparecida’!”, constatou Elisa Tokar, sobre-
vivente do centro clandestino Escola de Mecânica da Armada (Actis et al.,
2001, p. 293). Dessa forma, Patricia Miranda continuaria sendo uma desapa-
recida, sobre a qual se encontram dados, nem sobre a sua história anterior ao
desaparecimento, nem sobre o que lhe ocorreu após ser posta em liberdade.
Sobre os que silenciaram ao fim da ditadura, Emilio Crenzel afirmou:

En el plano del testimonio, el desgarrador de este pasado ha hecho que muchas


personas no estén dispuestas a dar testimonio, prefieren mantener su testimo-
nio en el anonimato, prefieren que ciertas porciones de su testimonio no sean
públicas porque este pasado sigue teniendo una serie de presencias que pueden
llegar a comprometerlos. (Crenzel, 2011, p. 79).
112 TOLENTINO, Marcos Oliveira Amorim. Os outros rostos de La Noche de los Lápices

Com base no seu caso, podemos levantar dois questionamentos. De um


lado, pode-se pensar que o fato de que sua história esteja integrada à memó-
ria coletiva acerca da ditadura na Argentina – graças à notoriedade alcan-
çada pelo episódio repressivo do qual fez parte – não significa que indivi-
dualmente ela pôde superar o trauma, produzir uma narrativa de memória e
assim comprometer-se no presente com o seu passado. De outro lado, silen-
ciar é uma das opções que os sobreviventes de uma situação-limite podem
fazer uma vez em liberdade, o que nos leva a problematizar a recuperação
da trajetória dos sobreviventes apenas na sua posição de testemunha. Nesse
sentido, os testemunhos aqui trabalhados apontam para alguns temas ainda
não abordados na recente produção bibliográfica sobre a ditadura, como, por
exemplo, a experiência de viver sob a ditadura após ter sido alvo da repres-
são – legal e ilegal –, e os estigmas sociais e políticos gerados posteriormente
por ocupar esse lugar. O desafio que se coloca para quem trabalha com essas
trajetórias é evitar juízos de valor acerca de tais silêncios, e buscar analisá-los
tendo em vista a posição polêmica e paradoxal em que ainda se encontram os
sobreviventes dos centros clandestinos de detenção na produção e circulação
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Filmes
EL BOLETO fue secundario. Direção: Ignacio Alvarez, Julián Carabajal, Luciano Tejada e
Federico Tártara. Argentina, 2009.

LA NOCHE de los Lápices. Direção: Héctor Oliveira. Argentina, 1986.

LOS IRRECUPERABLES. Direção: Igrid Jaschek e Diego Díaz, 2006.

MONTONEROS, una historia. Direção: Andrés di Tella. Argentina, 1994.

Resumo: Nos primeiros anos da democracia, um episódio repressivo da última ditadura civil-
militar argentina (1976-1983) cobrou particular notoriedade: La Noche de los Lápices. No relato
consagrado na década de 1980, entre os sete desaparecidos haveria apenas um sobrevivente,
Pablo Díaz. A partir de 1996, outras vítimas começaram a surgir publicamente, agregando novos
elementos às narrativas sobre esse evento, sobretudo em relação à militância no movimento
estudantil secundarista. Ao tornarem públicas suas memórias, Gustavo Calotti, Emilce Moler
e Alicia Carminatti demonstraram que suas trajetórias foram dissimilares, assim como os
marcos a partir dos quais recuperam sua experiência comum de sequestro e desaparecimento.
O objetivo deste artigo é analisar as relações que suas memórias pessoais estabelecem com a
narrativa consagrada, principalmente no que toca aos significados de ser um sobrevivente do
episódio em questão. Por último, aborda-se o desafio de recuperar uma sobrevivente que nunca
testemunhou e que consequentemente ainda não reapareceu: Patricia Miranda.

Palavras-chave: memória, ditadura civil-militar, Argentina, testemunho, sobreviventes.


História Oral, v. 17, n. 1, p. 89-117, jan./jun. 2014 117

Other faces of “La Noche de los Lápices

Abstract: In the early years of democracy, a repressive episode of the latest Argentinian civil-
military dictatorship (1976-1983) gained special renown: the episode called “La Noche de
los Lápices”. The enshrined report included among its victims seven missing people and only
one survivor, Pablo Diaz. Starting in 1996, other victims  began to emerge publicly, adding
new elements to the episode, particularly concerning the militancy in student movements.
By making public their memories, Gustavo Calloti, Emilce Moler, and Alicia Carminatti
demonstrated that their trajectories were dissimilar, as well as the landmarks from which their
common experience of abduction and disappearance was recovered. The aim of this paper is
to analyze the relationships established between their personal memories and the consecrated
narrative, especially about what it meant to be a survivor of this episode. Finally, it is discussed
the challenge of recovering a survivor who never testified and who consequently has not
reappeared: Patricia Miranda.

Keywords: memory, civil-military dictatorship, Argentina, testimony, survivors.

Recebido em 31/03/2014
Aprovado em 18/07/2014
DOSSIÊ

Conversas na antessala da academia:


o presente, a oralidade e a
história pública digital

Anita Lucchesi*

Dizer que a “tecnologia está em toda parte” se tornou lugar-comum.


Com muitos problemas, aliás, por ignorar as desigualdades sociais que ainda
excluem desse “todo” uma enorme parcela da população global. Mesmo
assim, a situação entre os não excluídos é tal que teóricos afirmam que vive-
mos em uma sociedade em rede, uma sociedade da informação, mediada pelas
novas tecnologias de informação e comunicação (Castells, 2005).
Em busca da crítica do ofício de historiador em dialética com as condi-
ções de produção histórica que nos cercam, tenho percebido que as formas
de tratamento e elaboração do passado (Guimarães, 2007, p. 39) estão, no
tempo presente, perpassadas pela tecnologia – bem mais do que já estiveram
antes.
Diante disso, para a feitura deste artigo, tomo a tecnologia como interface
que permite aproximar a história oral da história do tempo presente, bem como
da história pública (Almeida; Rovai, 2011) e da história digital (Lucchesi,
2014). Partindo do pressuposto de que, no tempo presente, muitos de nós já
não realizam mais seu trabalho sem a mediação das tecnologias informáticas,
de comunicação e informação, pretendo aqui pensar, qualitativamente, as con-
dições de produção e compartilhamento do conhecimento histórico à luz de
algumas mudanças trazidas pelo desenvolvimento tecnológico. Nessa direção,

* Mestre em História Comparada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Possui graduação
e licenciatura plena em História pela mesma universidade (2012). É pesquisadora do Grupo de Estudos
do Tempo Presente (GET) e da Rede Brasileira de História Pública.
40 LUCCHESI, Anita. Conversas na antessala da academia: o presente, a oralidade e a história pública digital

haveria uma miríade de questões a serem exploradas, mas especificamente para


este dossiê – História oral e história do tempo presente –, elegi como problema a
crescente midiatização de testemunhos orais na web.
Para que se compreenda melhor o alcance desse fenômeno, convém
indicar alguns exemplos de veiculação de testemunhos orais na internet. A
seguir destaco três projetos, diferentes nas motivações e na organização, mas
convergentes na proposta de reunião de memórias e publicação na rede.
O primeiro deles é o Memoro: la banca della memoria,1 um projeto
internacional, sem fins lucrativos, concebido em 2007 e lançado em junho de
2008 por iniciativa de alguns jovens de Turim (Itália), com o objetivo princi-
pal de “salvar” e veicular na rede “histórias de vida” de pessoas nascidas antes
de 1950. Vale observar que a justificativa do projeto remete à tradição oral e à
contação de histórias no seio familiar, destacando a figura dos anciãos como
provedores especiais desses relatos:

Muitos de nós provavelmente se lembram com prazer de si mesmos quando


crianças, aninhados sobre as pernas de um avô, absortos, atentos para não
perder uma palavra das histórias que eram contadas. Essas, com o passar
dos anos, eram compreendidas e lembradas como experiências de vida ver-
dadeira, vivida.
Eram contadas para ensinar aquilo que a experiência tinha levado a apren-
der, para servir de exemplo ou para manter a memória das vidas vividas
segundos as usanças e os valores de outra época.
(Il progetto, s.d.; tradução livre, grifos no original).2

Endossando certo saudosismo em relação ao tempo em que era pos-


sível descobrir “um mundo extremamente fascinante” por meio das histó-
rias contadas pelos mais velhos, o site convida os usuários, com forte apelo
aos jovens, a serem “caçadores/pesquisadores de memória” (no site italiano
“cercatori di memória”; no inglês, “memory hunters”). Desse modo, além dos
conteúdos publicados pela própria redação do projeto, existe também uma

1 Disponível em: <http://www.memoro.org/it>. Acesso em: 30 mar. 2014.


2 No original: “Molti di noi probabilmente ricordano con piacere se stessi da bambini, accoccolati sulle gambe
di un nonno, assorti, attenti a non perdere una parola delle storie che ci venivano raccontate. Queste, col
passare degli anni, vengono comprese e ricordate come esperienze di vita vera, vissuta. Venivano raccontate
per insegnare quello che l’esperienza aveva portato ad imparare, perché fossero di esempio o per mantenere la
memoria di vite vissute secondo usanze e valori di un’altra epoca”.
História Oral, v. 17, n. 1, p. 39-69, jan./jun. 2014 41

grande quantidade de testemunhos carregados no site espontaneamente por


esses colaboradores.
No Memoro, os registros são em formato de áudio ou vídeo e a divulga-
ção na internet é gratuita. Qualquer pessoa pode ser um “caçador de memó-
ria” do projeto, basta ter acesso a um gravador, um celular ou uma máquina
fotográfica, anuncia a página. Uma vez registrados, os relatos podem ser
facilmente carregados no site, na página do usuário, na qual ele se torna uma
espécie de curador dos seus próprios “percursos”: é possível criar coleções de
testemunhos organizados por temas de livre escolha, além de inserir fotogra-
fias complementares; a qualquer momento conteúdos podem ser adiciona-
dos, apagados ou modificados, bem ao tom da dinamicidade que caracteriza
a Web 2.0.
O modus operandi do projeto, que se autodesigna “o banco da memória”,
segue a lógica das redes sociais e dos sites de compartilhamento de conteúdo
na internet, baseado na facilidade de acesso e “compartilhabilidade” de infor-
mações da rede mundial de computadores. Em cinco anos de existência, a
iniciativa fez parcerias, conquistou público e se espalhou por diversos países
além da Itália: Espanha, Alemanha, França, Reino Unido, Bélgica, Finlândia,
Polônia, Japão, Camarões, Estados Unidos, Porto Rico, Venezuela, Chile e
Argentina.3 Tomando por base suas estatísticas até junho de 2013, o projeto
alcançou globalmente 2.547 testemunhos, totalizando 79 anos, 10 meses, 15
dias, 22 horas e 46 minutos de “memórias transferidas”; só de vídeos on-line
contavam-se 630 horas. A visitação ao site à época era de aproximadamente
37,5 visitantes/hora; desde 2008, somaram-se 11.859.246 visualizações de
página.4
Tais números fazem pensar ao paradoxo discutido por Harald Weinrich
em Lete (2001): “armazenado, quer dizer, esquecido”, enunciado provocador
para pensarmos a sociedade superinformada de nosso tempo presente e os
desafios para a memória que o suporte digital suscita. Entretanto, em relação
ao Memoro, é relevante destacar que as memórias não estão simplesmente
armazenadas, mas são organizadas por meio de palavras-chave que podem

3 Entre os parceiros, destaca-se a presença do Tibet Oral History Project, uma coletânea de entrevistas com
idosos tibetanos exilados após a invasão chinesa, que também divulga seu acervo através do Memoro
(The Tibet Oral History Project, s.d.). Ademais, vale notar que cada país na rede do Memoro tem uma
versão própria do website na língua local e, em alguns casos, com parcerias locais, como a empresa Eataly,
que exibe entrevistas sobre os pratos típicos de cada região da Itália (Le eccellenze italiane, s.d.).
4 Para mais informações estatísticas, conferir a aba Infographic do website do Memoro (Infographic, s.d.).
42 LUCCHESI, Anita. Conversas na antessala da academia: o presente, a oralidade e a história pública digital

auxiliar na busca e filtragem de conteúdos, o que facilita a navegação pelo


enorme banco de dados. É possível, por exemplo, digitando na barra de busca
a expressão “25 aprile”, localizar uma série de depoimentos relacionados ao
Giorno ou Festa della Liberazione (Dia ou Festa da Libertação), evento que
marca o fim da Segunda Guerra para os italianos, aniversário do fim da ocu-
pação alemã nazista na Itália, festejado desde 25 de abril de 1945. Ou ainda,
buscando por “alluvione” (enchente), pode-se assistir aos testemunhos daque-
les que viveram a grande inundação de 1966, que causou enormes danos a
Florença e adjacências.
O Memoro ganhou a simpatia do público e menções na imprensa. O
alemão Spiegel Online resume o trabalho dos fundadores do projeto – Valen-
tina Vaio, Luca Novarino, Lorenzo Fenoglio e Franco Nicola – simplesmente
como “filmar as histórias e colocá-las em clipes na web” (Meusers, 2008; tra-
dução livre);5 o italiano La Repubblica destaca o espaço ocupado pelas pes-
soas “comuns” na iniciativa:

As recordações, as histórias, os dramas, os sonhos de pessoas que não têm


outro título para poder contar sobre si senão aquele de ter vivido, de ter
atravessado horas, dias, meses, anos de vida. Vida muitas vezes condicio-
nada pela grande história: aquela que faz as guerras, as batalhas, as doenças,
as injustiças. (Veltroni, 2008; tradução livre).6

Já o francês Le Monde chega a comparar o projeto com uma “Wikipédia


de memória”, mas distingue sutilmente memória de história, imputando aos
historiadores um importante papel: “É uma sorte de Wikipédia de memó-
rias. Caberá aos historiadores validar os fatos, priorizá-los e interpretá-los”
(Ridet, 2009; tradução livre).7

5 No original: “filmen die Geschichten und stellen die Clips ins Web”. O trecho foi extraído da matéria Web-
-Tipp: Die italienische Bank der Erinnerungen (Web-dica: o banco italiano de memórias).
6 No original: “I ricordi, le storie, i drammi, i sogni di persone che non hanno altro titolo per raccontare di loro
se non quello di aver vissuto, di aver attraversato ore, giorni, mesi, anni della vita. Vita spesso condizionata
dalla grande storia: quella che fa le guerre, le battaglie, le malattie, le ingiustizie”. O trecho foi extraído da
matéria L’Italia sta cancellando la memoria ma combatteremo il pensiero único (A Itália está apagando a
memória, mas combateremos o pensamento único).
7 No original: “C’est une sorte de Wikipédia du souvenir. Il appartiendra ensuite aux historiens de valider
les faits, de les hiérarchiser et de les interpréter”. O trecho foi extraído da matéria La nostalgie en ligne fait
recette (A nostalgia on-line faz sucesso).
História Oral, v. 17, n. 1, p. 39-69, jan./jun. 2014 43

Dessa maneira, a experiência do Memoro abre diversas “janelas” para


que reflitamos sobre o papel das tecnologias no compartilhamento de infor-
mações, bem como sobre o potencial desse “banco de memórias” para tornar-
-se, por meio da metodologia da história oral, um repositório de fontes para
a história do tempo presente.
Na mesma direção, outro projeto que gostaria de introduzir é o
Herstories,8 um arquivo on-line de histórias de vida de diversas mães do
Sri Lanka que contém relatos filmados, galerias de fotos acompanhadas de
pequenos textos, cartas e outros tipos de narrativas, identificadas como visual
story telling (contação de histórias visual), como a representação gráfica da
“árvore da vida”.9 Diferentemente do Memoro, no caso do Herstories houve a
pré-seleção de um grupo específico a ser ouvido, de significativa importância
para a história do tempo presente no Sri Lanka do pós-guerra civil. A inicia-
tiva é patrocinada pela Commonwealth Foundation10 e pelo Prince Claus
Fund.11
O site do projeto é uma coleção de relatos de mulheres que tiveram suas
vidas marcadas pela experiência da guerra civil da jovem república do Sri
Lanka, que se estendeu de 1983 a 2009. O conflito armado foi alimentado,
principalmente, pela oposição entre o governo e os Tigres da Libertação do
Tamil Eelam (ou simplesmente Tigres do Tamil), que encabeçavam uma
campanha separatista para a criação de um Estado Tamil no nordeste da ilha.
Entre agosto de 2012 e fevereiro de 2013, o projeto coletou cerca de 270
“histórias orais” (textualmente oral histories no website) que não só se refe-
rem ao passado das entrevistadas (suas experiências), mas se detêm também
no seu status presente, e ainda inovam na apresentação de suas esperanças.
Essa perspectiva de delinear no seio do projeto um espaço para o “desabafo”
das entrevistadas sobre suas expectativas para o futuro difere da proposta do
Memoro e de diversos trabalhos com testemunhos sobre o passado, pois per-
mite, por meio da identificação dos desejos e anseios dessas mulheres, pensar
suas condições como sujeitos hoje, suas carências e suas denunciadas lacunas.
É importante ressaltar a especificidade desse grupo de testemunhas,
sobretudo considerando-se que, mesmo após o fim da guerra – que deixou

8 Disponível em: <http://herstoryarchive.org/>. Acesso em: 30 mar. 2014.


9 Ver, por exemplo, Tree of Life Mullaitivu (s.d.).
10 Disponível em: <http://www.commonwealthfoundation.com/>. Acesso em: 30 mar. 2014.
11 Disponível em: <http://www.princeclausfund.org/>. Acesso em: 30 mar. 2014.
44 LUCCHESI, Anita. Conversas na antessala da academia: o presente, a oralidade e a história pública digital

89 mil viúvas e fez de 40 mil mulheres chefes de família –, o patriarcalismo


persiste na sociedade do Sri Lanka. Merecem menção, também, as milhares
de combatentes que lutaram com os Tigres do Tamil e, especialmente no
norte e no leste da ilha, ainda sofrem com a estigmatização, o preconceito, a
perseguição e a violação de seus direitos em diversos aspectos.12
Ao “surfar” pelo arquivo do Herstories encontrei relatos sobre recru-
tamentos forçados, bombardeios, morte de crianças e adultos, casamentos
arranjados, humilhação perante os exércitos, famílias despedaçadas, falta de
comida e de roupa, inúmeros deslocamentos forçados, destruição de peque-
nas riquezas, perda de pessoas queridas, inflações extraordinárias, pessoas
enlouquecendo por conta dos horrores da guerra, a luta para continuar a
educação das crianças e uma série de outras “histórias delas”.
Todas essas histórias, de alguma maneira, apresentam uma visão sobre
o gênero feminino no Sri Lanka contemporâneo, mas vão além, trazendo
também aspectos da cultura, da economia e da política no cotidiano dessas
pessoas que poderiam ser ignorados por abordagens mais gerais ou quantita-
tivas. No Herstories não é o número de mortos, de mulheres desempregadas
ou de crianças fora da escola que importa, mas como são contadas as histórias
a respeito deles, com espaço para a expressão de sentimentos e emoções, com
licença e até certo incentivo para a apresentação de angústias com relação ao
amanhã. Uma das funções sociais do projeto, aliás, parece ser adivinhada por
uma de suas personagens, quando declara: “Nós podemos escrever um livro
sobre as experiências de nossas vidas. Pelo menos nossas futuras gerações
devem viver em paz” (Timelines..., s.d.; tradução livre).13
Perguntada em entrevista sobre o porquê de o projeto trazer exclusiva-
mente a perspectiva das mulheres do Sri Lanka (sem distinção entre cingalesas
e tâmeis), Radhika Hettiarachchi, idealizadora e curadora do arquivo Hersto-
ries, argumenta que uma das razões para essa escolha reside no fato de a his-
tória, quase sempre, trazer o ponto de vista masculino, a visão “deles”. Diante
dessa “ausência” dos pontos de vista femininos, o projeto teria decidido ouvir
especialmente as mães, por acreditar que a experiência da maternidade e o

12 As informações são do relatório Living with insecurity: marginalization and sexual violence against
women in north and east Sri Lanka, da organização Minority Rights Group International, que além de
dados oficiais, apresenta relatos de mulheres que enfrentam, ainda hoje, as mazelas do pós-guerra no país
(Minority women in Sri Lanka..., 2013).
13 Na transcrição em inglês: “We can write a book on our life’s experience. At least our future generation should
live in peace”. Trecho retirado da timeline 1 (Experiences of the war), mulher 3, de Kilinochchi.
História Oral, v. 17, n. 1, p. 39-69, jan./jun. 2014 45

laço particular que cria com a família e a comunidade ofereceriam nos relatos
dessas mulheres uma espécie de “visão composta” de um conjunto de fatores
daquela sociedade, que incluiria só as suas experiências pessoais, mas tam-
bém as relacionadas aos filhos, à família, aos vizinhos, bem como seus sonhos
e esperanças para o futuro das crianças (Archiving “Her Stories”..., 2013).14
Questionada ainda sobre a relevância de arquivar e divulgar tais relatos para
um grande público, Hettiarachchi defende que eles mostram a diversidade de
experiências dessas diferentes pessoas, cujas subjetividades nem sempre são
contempladas em livros de história, mesmo didáticos.
Considero significativa a vocação documental do projeto, que, além de
apresentar o conteúdo on-line, informa que os originais serão apresentados
aos Arquivos Nacionais do Sri Lanka, com o intuito de que fiquem “para a
posteridade”.15 Além disso, deve-se destacar que o projeto, almejando ampliar
sua audiência, também realiza exposições físicas com parte de seu acervo. Em
2013 o Herstories passou por Ampara, Colombo e Galle, no Sri Lanka, e em
março de 2014 a exposição estreou em solo europeu, na The Strand Gallery,
em Londres, onde foi chamada de art exhibition of oral history, uma expo-
sição artística de história oral, que apresentava linhas do tempo coletivas e
mapas de memória escritos pelas mulheres participantes do projeto, bem
como ensaios fotográficos e vídeos curtos.
No Brasil também verificamos a presença na web de um arquivo seme-
lhante em alguns aspectos ao Memoro e ao Herstories, o Museu da Pessoa.16
Trata-se de um museu virtual e colaborativo basicamente dedicado a histó-
rias de vida que, como os outros dois, organiza-se sobretudo em torno da
oralidade, reunindo testemunhos pessoais em formato audiovisual. Há tes-
temunhos de personalidades conhecidas no Brasil (como Laerte Coutinho e
Ziraldo), mas também de pessoas “anônimas”. O projeto tem patrocínio das
iniciativas privada e pública.
A fundação do museu esteve associada à experiência de sua idealiza-
dora, a historiadora Karen Worcman, em projetos de memória e história
oral no período de 1984 a 1990, quando ainda estava na graduação. Basea­do
na “crença de que cada narrativa é singular e resulta, em grande parte, da

14 A entrevista está disponível em vídeo na matéria publicada pelo site Groundviews: Journalism for Citizens.
15 Ver seção The project do website (“Herstories” of resilience and hope, s.d.).
16 Disponível em: <http://www.museudapessoa.net>. Acesso em: 30 mar. 2014.
46 LUCCHESI, Anita. Conversas na antessala da academia: o presente, a oralidade e a história pública digital

perspectiva de cada um” (1991-1996, s.d.), o Museu da Pessoa, antes de


ganhar a internet em 1996, iniciou a montagem de um grande arquivo, cons-
tituído de entrevistas gravadas em estúdio e de vídeos captados em cabines
móveis. Em 1991, durante a exposição Memória & migração, sobre a imi-
gração judaica (Museu da Imagem e do Som, São Paulo), foi experimentada
pela primeira vez a cabine de vídeo, um convite para que as pessoas fossem à
exposição e contassem suas histórias:

A ideia soava bastante estranha naquele momento. Os jornalistas pergun-


tavam quem iria se interessar pela história de pessoas anônimas... Mas o
evento acabou saindo jornal e na TV e, durante os 15 dias da exposição,
pessoas faziam fila para vir contar suas histórias! (O Museu da Pessoa, s.d.).

Hoje o acervo alcança 16 mil histórias de vida em 25 mil horas de gra-


vação em vídeo e 72 mil fotos e documentos digitalizados (desenhos, ilustra-
ções, documentos pessoais, mapas etc.). O museu ambiciona disponibilizar
tudo na íntegra em seu portal.
O mote inspirador do museu é a ideia de que “todo ser humano, anô-
nimo ou célebre, tem o direito de eternizar e integrar sua história à memória
social”. Em uma busca rápida pelo vocábulo “ditadura”, por exemplo, apare-
cem 15 resultados; “Copa do Mundo”, 11; e “eleições”, dois.17 Interessante
pensar que o fácil acesso a depoimentos sobre “ditadura” ou “eleições”, não
seria possível há trinta anos, não apenas pelas limitações técnicas, mas tam-
bém pela ausência de liberdade que marcou a experiência não democrática
no Brasil. Importa notar que a “emergência do tema da memória se deu, no
Brasil, [como também no Cone Sul] em compasso com o processo de rede-
mocratização da sociedade brasileira” (Mauad, 2010, p. 142).
O site permite, assim como no caso do Memoro, que os próprios usuários
criem suas coleções temáticas (análogas aos “percursos” do projeto italiano);
as histórias isoladas e as coleções são interligáveis no ciberespaço por meio
de hipertexto e indexáveis por palavras-chave: como ocorre no Memoro, a
escrita digital pode ter vários “andares” ou níveis de informação (Darnton,
1999).

17 A seleção dos termos é completamente arbitrária, apenas lançamos mão de termos de algum modo rela-
cionados ao ano de 2014 no Brasil.
História Oral, v. 17, n. 1, p. 39-69, jan./jun. 2014 47

O Memoro, porém, é um projeto “born digital”, desenhado para fun-


cionar com a base colaborativa dos seus “caçadores de memória”, atribuindo
grande valor à agência deles. O Museu da Pessoa, mesmo tendo apresentado
uma aspiração para o ambiente de redes ainda em sua fase analógica, surge
com um perfil sensivelmente mais ativo do que o Memoro no processo de
formatar as entrevistas. Enquanto o italiano dá aos usuários autonomia para
coletarem depoimentos e/ou registrarem os seus próprios relatos (apenas
fazendo ressalvas técnicas quanto a equipamentos, ambiente e qualidade de
gravação), o Museu da Pessoa desenvolveu, em mais de duas décadas de ativi-
dades, uma metodologia própria de trabalho. A chamada “tecnologia social
da memória” é entendida como um instrumento que pode ser usado em larga
escala para captação de storytelling, como uma técnica que pode ser “utili-
zada em comunidades, grupos, escolas, empresas e aplicável indistintamente
a toda e qualquer pessoa ou parte interessada, instituição, nacional ou inter-
nacional” (O Museu da Pessoa, s.d.; grifos meus). Em entrevista, Worcman
descreve a tecnologia sinteticamente:

Essa tecnologia inclui três etapas essenciais que se complementam: cons-


truir, organizar e socializar histórias. Começa com cada pessoa contando
sua própria história. Essa história se relaciona com outras do seu grupo e
compõe uma história coletiva. E esta, por sua vez, faz parte de uma rede
mais ampla de histórias dos indivíduos e grupos que compõem a sociedade
atual. (Worcman apud Bandeira, 2011; grifo meu).

Pelas descrições dessa “tecnologia social”,18 podemos perceber que o


museu assume um papel bastante significativo na montagem e curadoria de
seu arquivo, cujo caráter, justamente por isso distingue-se da espontaneidade
que perpassa grande parte dos testemunhos disponibilizados via Memoro. O
Museu da Pessoa criou uma metodologia especial para utilizar em diferentes
ambientes e aplicar a qualquer sujeito. Na seção do website denominada Conte

18 Para Jacques de Oliveira Pena e José Clailton Mello, uma “tecnologia social” é: “Todo processo, método
ou instrumento capaz de solucionar algum tipo de problema social e que atenda aos quesitos de simpli-
cidade, baixo custo, fácil reaplicabilidade e impacto social comprovado” (Pena; Mello apud Museu da
Pessoa, 2009, p. 11). Considerando que o projeto adota essa definição objetiva de “tecnologia social”,
nota-se que o museu se propõe certa função social (“solucionar um problema”), a partir da sua ação
direta para a “construção de um legado social e cultural para gerações e gerações”, como expressa em seu
website.
48 LUCCHESI, Anita. Conversas na antessala da academia: o presente, a oralidade e a história pública digital

sua história, encontra-se o item Como contar uma história, no qual se pode per-
ceber o esforço do museu em direcionar a realização dos registros e, portanto,
em construir e organizar as histórias por meio de recomendações prévias:

– Uma boa história é bem diferente de um bom relatório. História bem


contada tem clima, tensão, ritmo, revelações. Tente não contar o fato de
um jeito linear, previsível e sem emoção.
– Antes de contar a história, confirme se ela tem começo, meio e fim.
Geralmente, o começo introduz o assunto; o meio desenvolve a história; e
o final apresenta alguma conclusão.
– Perguntas descritivas e de movimento ajudam a contar uma história, por
exemplo: Como era tal lugar? O que você fez depois que saiu de casa?
– Não esqueça de incluir tags (palavras-chave) relacionadas ao relato. (ex.
cartas, infância, namoro à distância, telegramas etc.).
(Apresentação Conte sua história, s.d.).

O trecho ajuda a identificar o aspecto prescritivo da curadoria exercida


pelo Museu da Pessoa na captação e publicização dos depoimentos, inclusive
com recomendações sobre de que modo a pessoa deve falar, a sugestão de
roteiros mentais para a entrevista e exemplos de palavras-chave. Tal conduta,
como já se vinha assinalando, difere do modo como se organiza o “banco da
memória” italiano, talvez justamente por este último não se entender como
um museu. Já com o Herstories é possível notar algumas semelhanças, como
a preocupação em orientar as falas e sugerir modalidades narrativas, mas no
caso desse projeto, os parâmetros foram preparados pensando exclusivamente
naquele grupo de entrevistadas. O Museu da Pessoa, por sua vez, prevê a utili-
zação sua “tecnologia social da memória” por qualquer pessoa e/ou entidade.
Em certa medida, os três projetos parecem dispostos a enfrentar, de
modos distintos, os desafios que Philippe Joutard apontou para a história oral
no século XXI: “ouvir a voz dos excluídos e esquecidos; trazer à luz as reali-
dades ‘indescritíveis’, quer dizer, aquelas que a escrita não consegue transmi-
tir; testemunhar situações de extremo abandono” (Joutard, 2000, p. 33). Para
Joutard, trata-se de continuar fazendo o que esse campo da história se propu-
nha a fazer em suas primícias, quando ainda não tinha o reconhecimento que
tem hoje nos diversos fóruns acadêmicos. Percebemos esse intento no afã dos
projetos em “caçar”, “resgatar”, “salvaguardar”, “compartilhar” e “legar” memó-
rias de “pessoas comuns”. O Museu da Pessoa, por exemplo, chega a mencionar
História Oral, v. 17, n. 1, p. 39-69, jan./jun. 2014 49

textualmente entre seus resultados que se tornou “referência e fonte inédita de


conteúdos sobre Brasis invisíveis” (O Museu da Pessoa, s.d.; grifo meu).
É necessário frisar que embora esses projetos colaborem para a formação
da consciência histórica de quem acessa as narrativas publicadas, é a memória
que está em causa nos seus acervos, não o conhecimento histórico que pode
ser produzido a partir deles. No entanto, deve-se observar o potencial das
coleções e percursos temáticos – que ensejam a construção de sentidos e de
narrativas históricas, tomando testemunhos orais como matriz – para se
aproximarem mais de trabalhos historiográficos que operam com metodolo-
gias da história oral e que já podem usufruir do ambiente colaborativo favo-
recido pela rede. Acredito que por meio de uma abordagem de história oral
esses modelos de coleções/percursos podem constituir interessantes possi-
bilidades de divulgação histórica, que se desprendem do tradicional modelo
monográfico e dissertativo (impresso, textual, linear) dominante na produ-
ção acadêmica.19
Dito isso, deve-se considerar que apesar do potencial de ampla divulga-
ção dessas memórias na nova esfera pública da internet, a produção de conhe-
cimento não se dá pela simples existência e publicação desses testemunhos,
mas por meio de uma necessária prática historiadora a partir desses teste-
munhos, que os compreenda como evidências para uma história – oral que
seja. A peculiaridade da história do tempo presente – em que se inscrevem
esses depoimentos –, é que essa prática historiadora, como sugere Ana Maria
Mauad, confunde-se com a prática social. Diz a autora:

Isso porque se redefine o estatuto de objetividade científica através da pro-


dução de uma autoridade compartilhada entre sujeito e objeto do conhe-
cimento, por dividirem e vivenciarem a mesma condição de sujeitos da

19 O canal no YouTube da rede social brasileira Café História iniciou em 2013 um trabalho interessante de
divulgação histórica em formato alternativo ao impresso. São realizados bate-papos, entrevistas e debates
ao vivo com historiadores sobre diversos temas, dos quais o público pode participar de qualquer lugar
do mundo, via internet, assistindo e fazendo perguntas; terminado o evento virtual, o vídeo fica dispo-
nível on-line. A título de exemplo, canal organizou com a Associação Nacional de História, seção Rio
de Janeiro (ANPUH-RJ), o debate História digital: ensino, divulgação e pesquisa (Debate..., 2013) – do
qual participaram Bruno Leal (UFRJ; Café História), Lise Sedrez (UFRJ) e Keila Grinberg (Unirio),
com mediação de Flávio Edler (Fiocruz; ANPUH-RJ) –, interessante para as questões discutidas neste
artigo. O Café História TV também publica diversas “colunas”, como O que é história?, Folhetim do histo-
riador e Desembalando livros. Ainda sobre a superação do modelo monográfico como tipo hegemônico
de produto historiográfico na era digital, ver Rigney (2010).
50 LUCCHESI, Anita. Conversas na antessala da academia: o presente, a oralidade e a história pública digital

experiência histórica. O que de fato se propõe nessa perspectiva de estudo é


que a prática historiadora se alie à prática social na produção de um conhe-
cimento compartilhado e reconhecido como válido pelos sujeitos históri-
cos. (Mauad, 2010, p. 143).

O incremento tecnológico deste novo milênio e a popularização da


internet criaram mais lugares – no ciberespaço – para a produção de auto-
ridades compartilhadas, e colateralmente vão se abrindo também, ainda
que devagar, espaços institucionalizados para isso. Em Digital History, Roy
Rosenzweigh e Daniel Cohen (2005) sugerem que a web com sua flexibi-
lidade, acessibilidade, hipertextualidade e conectividade atualizou a esfera
pública e criou espaço para outras dinâmicas no seio da disciplina histórica.
O processo de assimilação, crítica e apropriação dessas novidades
demanda tempo, sobretudo porque traz questões que falam diretamente
às bases do métier do historiador, como a nota, a referência, a citação e as
questões de autoria (Chartier, 2009). Ao mesmo tempo, a “virada digital”
turva as relações entre autoria e autoridade na rede, e subitamente a acade-
mia parece sofrer essas angústias à sombra do diletantismo20 – um conflito
intrinsecamente ligado à supremacia do discurso histórico dito verdadeiro ou
mais objetivo produzido nas universidades. Bate à porta o receio de que nos
ambientes de publicação digital (Rolland, 2004) se faça história sem a parti-
cipação de historiadores como mediadores-mor entre o presente e o passado.
Mas essa “história sem historiador” deve mesmo ser temida?
Dez anos após Joutard escrever no calor do X Congresso Internacional de
História Oral21 sobre os desafios do campo para o século XXI, Mauad fez uma
importante atualização acerca das aspirações da história oral no tempo presente:

Nesse registro de história, é importante ressaltar, ninguém dá voz ao aos que


não têm voz, não há resgate de memória, pois o que se produz é um novo
tipo de conhecimento que supera o passado. Supera, no sentido de suspen-
der, elevar a lembrança da experiência empírica vivida pelos seus agentes a

20 Vale lembrar, com Marieta de Moraes Ferreira, que o próprio “desprezo” da academia pelos “testemu-
nhos diretos” “transformou esse campo dos estudos históricos [história oral] em monopólio dos histo-
riadores amadores” (Ferreira, 2000, p. 3).
21 O X Congresso Internacional de História Oral foi realizado pela primeira vez na América do Sul em
junho de 1998, na cidade do Rio de Janeiro, e representou um momento importantíssimo de diálogo
entre a comunidade brasileira e a internacional de história oral (Ferreira; Fernandes; Alberti, 2000).
História Oral, v. 17, n. 1, p. 39-69, jan./jun. 2014 51

uma nova forma de relato que a contém, processada e construída à luz de


uma problemática de estudo. (Mauad, 2010, p. 144; grifo meu).

Não se trata, portanto, de uma história oral redentora ou salvadora


que vem dar voz aos outrora excluídos, mas de uma perspectiva de estudo
que considera as experiências contidas nessas histórias de vida objetos legíti-
mos de análise. Nesse ponto, permanece atual o que apontara Joutard sobre
a concorrência entre a “história oral militante, radicalmente alternativa” e a
“história oral acadêmica”. Para ele, essa era a “grande divisão ideológica e epis-
temológica” nos debates de história oral ( Joutard, 2000, p. 37); e ainda é, se
considerarmos que persiste a fragmentação entre aquela história oral feita do
“ponto de vista dos que estão embaixo e dos excluídos” e aquela feita pelos
acadêmicos. Perguntava o autor:

Haverá um diálogo possível entre empreendimentos diversos e com meto-


dologia variável, ou será o estatuto oral radicalmente diferente? E entre os
militantes de uma ‘história alternativa’ e os historiadores acadêmicos, que
respeitam seus interlocutores, mas buscam um certo distanciamento e a
construção de um verdadeiro discurso histórico? Desta diversidade, que
às vezes beira a explosão, será possível obtermos uma oportunidade e um
enriquecimento recíprocos? ( Joutard, 2000; p. 37; grifos meus).

O que vemos, ao menos na superfície das problemáticas apresentadas


pelos projetos aqui comentados, é que a condição de produção e comparti-
lhamento de conhecimento histórico pode ser diferente na web – pelas novas
formas que possibilita e pelos sujeitos que podem participar dessa cena –, o
que nos traz alguns desafios. Refletir sobre a memória disponível na internet,
sob a perspectiva da história do tempo presente, que pode se valer de conteú-
dos divulgados na web como fonte, não é uma questão de menor (ou maior)
importância que pensar as memórias em suportes materiais já estabelecidos,
como o papel ou o microfilme. Entretanto, é necessário avaliar as especificida-
des dos registros de memória que circulam na web (sua fluidez, impermanên-
cia, reprodutibilidade...) e como o meio digital tem facilitado sua profusão.
A história digital e a história pública parecem hoje ocupar o posto de
história alternativa que coube à história oral por algum tempo; entretanto,
elas ainda não gozam de tanto crédito. Embora ainda exista certo hiato
entre a prática dita militante da história oral e a acadêmica, cada vez mais a
52 LUCCHESI, Anita. Conversas na antessala da academia: o presente, a oralidade e a história pública digital

conjugação da prática historiadora com a prática social vem favorecendo o


diálogo e legitimando novas abordagens – as atividades do Laboratório de
História Oral da Universidade Federal Fluminense (LABHOI) são exemplo
disso.22 Ademais, a perspectiva de análise do tempo presente, que pressupõe
a supressão daquela regra do distanciamento entre o fato e o trabalho do his-
toriador, também vem colaborando para que entrem na academia discussões
inconvencionais, por assim dizer, com perspectivas de estudos e arranjos teó-
rico-metodológicos menos estabelecidos.
O burburinho na antessala da casa de Clio é grande. A abertura para
introduzir certas discussões nos fóruns privilegiados ainda é limitada. A tra-
dição, quer seja positivista, quer historicista, zela para que a história continue
sendo apenas a ciência dos homens no passado e não a dos homens no tempo,
como queria Marc Bloch. Esta última compreensão não só valorizaria os
estudos do tempo presente como perspectiva, mas também incentivaria uma
reflexão sobre métodos, objetos, espaços, documentos e linguagens peculia-
res dessa temporalidade. Hoje, na “era digital” (Cohen; Rosenzweig, 2005)
é fundamental pensar a relação entre a história oral, os testemunhos publica-
dos na web, o ciberespaço, as várias mídias digitais e as diferentes formas de
representar o passado em ambientes eletrônicos.
A história digital, que pode ser compreendida como o braço histórico
das humanidades digitais, pode ser de auxílio nesse sentido. Todavia, vale
lembrar que mesmo após a chegada da Web 2.0 a história continua sendo
uma ciência baseada em fontes, em um método específico e em debates entre
os pares (Clavert; Noiret, 2013, p. 20). Nem as tecnologias, nem a história
digital operam uma ruptura radical com estas bases, antes acrescentam nova
mobília e ferramentas à oficina da história, mas os fundamentos da disciplina
continuam os mesmos.23

22 Veja-se o projeto digital Identidades do Rio, coordenado pela prof.ª Hebe Mattos, que trabalha identi-
dade e memória social no estado do Rio de Janeiro. Os temas históricos pesquisados pelo projeto foram
transpostos com êxito para a linguagem digital em seu website e, dessa forma, receberam uma aborda-
gem inovadora. Assim, um projeto que, via de regra, poderia ter seus resultados reservados a um pequeno
número de interessados dentro de uma instituição, ganha ares de história pública e digital na esfera
aberta da internet. Disponível em: <http://www.pensario.uff.br/>. Acesso em: 30 mar. 2014.
23 É importante não adotarmos um posicionamento cético ou fetichista em relação à tecnologia; nenhum
tipo de “neoluddismo” ou de “determinismo tecnológico” contribuiria para a reflexão. Não se trata,
como aponta Dilton C. S. Maynard em seu Escritos sobre história e internet, de aprovar ou condenar as
tecnologias, mas de atentar para as mudanças qualitativas que trazem (Maynard, 2011).
História Oral, v. 17, n. 1, p. 39-69, jan./jun. 2014 53

Onde o quadro já suscitou discussões de fundo teórico e metodológico,


o potencial da web como elemento transformador dos padrões de comunica-
ção e expressividade humanos tem merecido atenção. Entre as questões mais
imediatas discutidas pelos historiadores dedicados ao estudo da história digi-
tal está justamente a ampliação da acessibilidade a informações viabilizada
pela web. Não se fala apenas na abertura de bibliotecas, arquivos e museus
ao grande público; a acessibilidade on-line refere-se também a outros con-
teúdos, dispersos em sites, blogs, redes sociais, wikis e aplicativos vários que
colocam ao alcance dos usuários textos, fotos, músicas, vídeos, mapas e infor-
mações de todo tipo. Seja abrigada por instituições de saber oficiais ou não,
grande parte dessa informação já é criada no ambiente on-line (born digital)
por distintos autores, que são os próprios usuários da rede, como vimos no
Memoro, no Herstories e no Museu da Pessoa.
Em razão da acessibilidade engendrada pela web, os projetos de história
digital têm sido percebidos por alguns estudiosos como uma prática da his-
tória pública – na acepção americana, uma história aplicada, divulgada por
diversas vias e dirigida a grandes audiências. Como afirma o autointitulado
humanista digital Shawn Graham: “mídias digitais fazem de toda história,
história pública” (Graham, 2012).
“Para historiadores, as vantagens disso são óbvias. O passado ocorreu
em mais de um meio. Então por que não estarmos aptos a apresentá-lo em
múltiplas dimensões?” (Rosenzweig; Brier, 1994; tradução livre)24 – colo-
cam os historiadores Roy Rosenzweig e Steven Brier. Entretanto, para Serge
Noiret, ainda que a história pública já tenha se estabelecido em alguns países
– como os Estados Unidos – há pelo menos trinta anos, tendo inclusive esti-
mulado a criação de organizações,25 revistas e cursos de formação em vários
outros – como Itália, Inglaterra e Austrália –, essa disciplina ainda é, de certa
forma, uma “disciplina fantasma” (Noiret, 2011).

24 No original: “For historians, the advantages of multimedia are obvious. The past occurred in more than one
medium, so why not present it in multiple dimensions?”.
25 Fora do Brasil, destacam-se o National Council on Public History (nos Estados Unidos) e a recém-
-formada International Federation for Public History. Para o caso brasileiro, é importante destacar os
recentes movimentos que partiram da academia: em janeiro de 2013 foi lançada na internet a página
da Rede Brasileira de História Pública (RBHP) – disponível em <www.historiapublica.com> –, cujas
bases foram construídas durante o Curso de Introdução à História Pública que ocorreu na Universidade
de São Paulo (USP) em fevereiro de 2011, promovido pelo Núcleo de Estudos em História da Cultura
Intelectual. O curso também resultou no lançamento do livro Introdução à história pública (Almeida;
Rovai, 2012).
54 LUCCHESI, Anita. Conversas na antessala da academia: o presente, a oralidade e a história pública digital

Robert Perks observa que, há cerca de quatro décadas, a história oral


como método e abordagem também enfrentou resistência entre acadêmicos,
arquivistas, profissionais de museus e de bibliotecas. O autor associa esse rela-
tivo baixo crédito da história oral e das suas fontes na comunidade científica
– ao menos inicialmente – ao questionamento que elas impunham a aborda-
gens e documentos tradicionais, geralmente registros em papel provenientes
um passado distante (Perks, 2003, p. 55-56). É fácil perceber certo paralelo
com a situação da história pública digital hoje em dia, donde possivelmente
se explica, em parte, a restrita circulação do tema.
Embora a análise de Perks esteja embasada no processo que ocorreu na
Inglaterra, pode ilustrar tendências alhures, mais ou menos compartilhadas.
No caso do Brasil a resistência à história oral foi semelhante, e foi preciso,
como na Inglaterra, a dedicada atuação de alguns indivíduos e grupos para
quebrar a inércia disciplinar (Hartog, 2010, p. 1) e submeter à reflexão o pró-
prio conceito de fonte histórica. Foi necessário repensar as práticas do ofício.
O processo que possibilitou a mudança desse quadro apresenta vários
fatores, relativos não só à comunidade acadêmica de pesquisadores e pro-
fessores universitários, mas também a profissionais de arquivos, bibliotecas
e museus. Entre os principais fatores relacionados à ciência da informação,
destaca-se a compreensão de que não mais era possível ignorar arquivos
audiovisuais se no futuro se quisesse entender a sociedade daquele tempo.
Na mesma direção, outro fator de relevo foi a percepção de que ao se consi-
derarem apenas os registros escritos, uma parcela considerável de sujeitos e
objetos não eram plenamente contemplados em termos de arquivamento e,
logo, de possibilidades de investigação histórica. Assim, nota Perks, trabalhos
sobre imigração e sobre diversos grupos étnicos na Inglaterra estiveram entre
os primeiros estudos de história oral explorados no país – e permaneceram
em voga (Perks, 2003, p. 56-57).
Jill Liddington e Graham Smith buscam na história pública um exemplo
de como o presente condiciona a maneira como nós vemos o passado. Segundo
os autores, as representações públicas do passado, geralmente midiatizadas,
fazem parte do conjunto de elementos culturais do presente que, de certa forma,
emolduram memórias e influenciam a formação de consciência histórica das
pessoas. Salgado Guimarães, comentando a problemática contemporânea da
memória e dos usos políticos do passado, lembra que – embora por caminhos
diferentes de Liddington e Smith – Beatriz Sarlo também ratifica que o passado
é, antes de tudo, uma captura do presente (Guimarães, 2011, p. 44).
História Oral, v. 17, n. 1, p. 39-69, jan./jun. 2014 55

Liddington e Smith relatam a experiência de um trabalho de história


oral sobre a história do voto feminino na Inglaterra, uma pesquisa feita nos
anos 1970 com filhas de mulheres sufragistas. A sondagem realizada permi-
tiu perceber que, quase setenta anos depois do movimento, as memórias das
entrevistadas sobre a campanha política realizada por suas mães estavam per-
passadas por reconstruções mais recentes do movimento, como a série de TV
Shoulder to shoulder (lançada pela BBC em 1974), que dramatizou a luta
pelo direito ao voto das inglesas (Liddington; Smith, 2005, p. 30).
Certamente, representações públicas do passado – seja em livros, filmes,
rádio, televisão, seja na internet – não são as únicas a influenciar memórias.
É vasto o universo das experiências pessoais e dos elementos culturais que
devem ser considerados em investigações de história oral. Entretanto, o que
Liddington e Smith sublinham é a relevância de considerar seriamente o
papel desempenhado por esses conteúdos de história pública – nem sempre
mediados por historiadores de profissão – na moldagem de certa consciên-
cia histórica. Na definição de Sara Albieri, essa consciência “designa o modo
como os seres humanos interpretam a experiência da evolução temporal de si
mesmos e do mundo em que vivem” (Albieri, 2011, p. 25).26
Em nosso ofício, entretanto, não são apenas a nossa trajetória pessoal
e o contexto em que estamos inseridos que exercem influência. Há muitas
outras questões que perpassam nossas elaborações conceituais e abstrações.
Nos limites deste artigo, não enveredarei por essas reflexões, mas chamo a
atenção para a existência de fatores que condicionam nosso trabalho em sua
dimensão mais prática, meramente artesanal. Como Michel de Certeau já
disse certa vez, “cada sociedade se pensa ‘historicamente’ com os instrumen-
tos que lhe são próprios” (Certeau, 1988, p. 28). Ao delinear dessa forma
a operação histórica e seus instrumentos, Certeau abre uma janela impor-
tante para nossa reflexão. Quando consideramos os constructos intelectuais,
os esquemas de pensamento, a consciência histórica, as chaves de leitura – e
toda a carga subjetiva que contêm – que colaboram na interpretação de deter-
minado passado, estamos falando de instrumentos. Mas, ao mesmo tempo,
quando nos referimos à pena, à caneta, à máquina de escrever ou ao com-
putador também estamos apontando instrumentos, embora sejam de outra

26 Para a Albieri, o recurso à noção de consciência histórica é o que “permite fundamentar filosoficamente
a passagem da história acadêmica para a história pública”, por reconhecer na condição humana o pressu-
posto histórico (Albieri, 2011, p. 27).
56 LUCCHESI, Anita. Conversas na antessala da academia: o presente, a oralidade e a história pública digital

natureza. Se pensarmos nos vários instrumentos que perpassam o lado prá-


tico do nosso fazer historiográfico ao longo do tempo – considerando tarefas
como arquivamento, catalogação, escritura, reprodução, divulgação –, perce-
bemos como o tipo de trabalho que produzimos está atrelados às técnicas e
tecnologias de um tempo.
É notável, assim, que o desenvolvimento das ciências e o avanço tec-
nológico trouxeram desdobramentos interessantes para a história no último
século. O diálogo com outras disciplinas e os debates metadisciplinares
sobre as possibilidades de escrita da história aumentaram, ao menos poten-
cialmente, o leque de fontes à nossa disposição. Hoje, graças à evolução da
tecnologia e à reflexão sobre a própria operação histórica, a voz, que já foi
instrumento dos aedos se tornou também uma fonte para a história.
Vale destacar, nesse sentido, que além das reflexões teóricas e metodoló-
gicas que possibilitaram a emergência da história oral, a oportunidade de criar
registros não escritos e trabalhar com eles é fruto do desenvolvimento técnico
e científico que permitiu a invenção do gravador (bem como das mídias, dos
leitores, dos reprodutores e depois de diversos tipos de filmadoras). É bem
verdade que podemos pensar em pesquisas que abordem a oralidade e não
careçam dessa tecnologia (aliás, os antropólogos já nos contaram um bocado
a respeito disso), mas o que de fato tornou possível documentar um depoi-
mento oral – que não pode ser simplesmente tomado como equivalente de
sua transcrição27 – foi o gravador e depois a filmadora (Schmidt, 2010, p. 9).
Hoje, com os gravadores de bolso e a facilidade de acesso e divulgação
aberta pela web, os registros em áudio e vídeo se popularizaram (sempre con-
siderando, grosso modo, a população não excluída digitalmente, dotada de
algum letramento para esse novo meio), algo que o Memoro compreendeu
muito bem. E, sendo a rede mundial de computadores também considerada
“des-hierarquizante” – dado que nas comunidades virtuais não haveria, ao
menos idealmente, hierarquia –, multiplicam-se os testemunhos de sujeitos e
grupos que passam a usar a web como espaço livre para elaborar um discurso
sobre si, para reinterpretar suas memórias e ter domínio de suas próprias
narrativas midiatizadas. Esse processo muitas vezes passa pela incorporação
das memórias em contextos de luta social, como no caso dos indígenas, dos

27 A simples transcrição não dá conta de toda a expressividade contida em um depoimento; não pode fazer,
por exemplo, da emoção que toma conta das falas mais que “registros secos como ‘choro’ ou ‘aparen-
tando nervosismo’” (Schmidt, 2010, p. 9 ).
História Oral, v. 17, n. 1, p. 39-69, jan./jun. 2014 57

negros e das mulheres, que em sociedades racistas e patriarcais como a brasi-


leira sofrem com as desigualdades e discriminações decorrentes desses arrai-
gados preconceitos.
Podemos considerar que a tecnologia é um dos fatores da contempora-
neidade a provocar o retorno da testemunha de que nos fala François Hartog
(2011, p. 221). A profusão de memórias na rede, porém, pode se revelar um
tanto quanto desconcertante para o historiador, afeito ao trabalho de gabi-
nete, habituado a ter de ir buscar a matriz de seus trabalhos em arquivos.
Como nota Ricardo Pimenta, esse quadro é inédito:

‘Memória’ e ‘tecnologia’ se encontram, portanto, nas formas, nos lugares


e através das ferramentas utilizadas na contemporaneidade de maneira
jamais vista. Basta constatar o fenômeno da museificação das falas, das artes
e das experiências que, apesar dos contornos históricos que lhes outorgam
‘coordenadas’ espaçotemporais, são auxiliadas pela miríade de ferramentas
tecnológicas próprias de nossa cultura informacional global que nos possi-
bilita cotidianamente responder a número crescente de dúvidas e questões
pela capacidade de mediação entre indivíduos e seus grupos em escala mun-
dial. (Pimenta, 2013, p. 152-153).

É importante notar que a ampliação das possibilidades de registro –


com formatos que extrapolam o texto, como o fotográfico e audiovisual –
bem como a disponibilização desses registros para o grande público sem a
mediação do historiador, causa certo estranhamento para uma “ciência de
vestígios escritos” – tal como a história se constituiu, seguindo a esteira de
Langlois e Seignobos (Hartog, 2011, p. 222) . Embora nos anos 1970 a his-
tória oral tenha sido acusada de “bisbilhotices” (Hartog, 2011, p. 225), uma
sensibilização maior justamente entre os historiadores “do contemporâneo”
reconduziu ao protagonismo da cena histórica as testemunhas, às quais a
“história profissional” estendeu “de bom grado seus microfones” (Hartog,
2011, p. 226). Tal processo gerou, segundo Hartog, uma interpretação que
confunde história contemporânea e história do tempo presente com uma
“história com testemunhas”. Nesse contexto, o problema que parece se dese-
nhar é o do excesso de memórias circulando na rede, sem intermediários:

E o historiador fala, então, menos de memória e de história da memória,


mas sobretudo de história, ou seja, de arquivos de textos escritos, de críticas
58 LUCCHESI, Anita. Conversas na antessala da academia: o presente, a oralidade e a história pública digital

das fontes e do ofício do historiador. Seu pesadelo seria, talvez, o de uma


memória, ao mesmo tempo, mercadoria e sacralizada, escapando aos his-
toriadores e circulando na internet, como a verdadeira história da época.
(Hartog, 2011, p. 226).

Ocorre que, apesar do paradigma do vestígio que marcou a historiografia


do século passado, a ascendência da testemunha traz o imperativo de reflexão
sobre o fenômeno da voz, ou sobre o próprio testemunho como “estrutura de
transição” entre a memória e a história, como diz Hartog, lembrando Paul
Ricoeur (Hartog, 2011, p. 227) – nesse processo, pois, deve ser considerado o
problema particular da evidência na escrita contemporânea da história. Com
isso em mente, mesmo não atribuindo às testemunhas a condição de vítimas,
como faz Hartog,28 podemos nos questionar sobre a exigência ética e polí-
tica da história trabalhar com esses testemunhos cada vez mais orientada pela
categoria do presente e por uma função/prática social, como vimos acima
(Ferreira, 2012, p. 101). Parece que a história pública digital tem enfrentado
problemas bastante similares aos postos pelas mudanças tecnológicas para a
história oral e para o tempo presente, especialmente no tocante ao enfren-
tamento da abundância de memórias na rede e à disputa por audiência com
versões da história “cosmetizadas”, “romantizadas”, por assim dizer, para agra-
dar seus consumidores – vejam-se as narrativas históricas jornalísticas que se
tornaram best-sellers na última década (Bonaldo, 2010). Um maior diálogo
entre os praticantes desses registros historiográficos tópicos do tempo pre-
sente – o oral, o público e o digital – seria seguramente profícuo para discutir
as estratégias e as razões pelas quais enfrentar esses problemas.
A história oral se aproxima da história do tempo presente tanto pelos
instrumentos, como pelos possíveis objetos de estudo. Como já apontara
Mauad, “a história da produção da memória social por diferentes agentes his-
tóricos” é atrelada às “dinâmicas temporais que definem a tessitura histórica
do tempo presente” (Mauad, 2010, p. 142).
A história oral (pela inclusão de novas fontes), a história do tempo pre-
sente (pela abolição do “precioso” distanciamento), a história digital (pela
sua radical proposição de novas formas de comunicação histórica) e, por
fim, a história pública (por sua diversificação de audiência e possibilidade

28 Cf. Hartog (2011, p. 227).


História Oral, v. 17, n. 1, p. 39-69, jan./jun. 2014 59

de engajamento em políticas públicas) questionam as regras estabelecidas


na historiografia há longo tempo, e, talvez por isso, enfrentam resistências
enquanto metodologias, perspectivas, modos de escrita e de divulgação his-
tórica. Essas histórias e os seus diferentes registros, mediados pela tecnologia,
implicam uma ampliação das áreas de atuação dos historiadores e trazem para
o debate discussões acerca do compartilhamento de autoridade:

Ao menos potencialmente, mídias digitais transformam a tradicional


relação de mão única entre leitor e escritor, produtor e consumidor. His-
toriadores públicos, em particular, têm buscado formas de ‘compartilhar
autoridade’ com seu público; a web oferece um meio ideal para esse com-
partilhamento e colaboração. (Cohen; Rosenzweig, 2005; tradução livre).29

Por tudo isso, foram trazidos para este artigo os exemplos das três ini-
ciativas citadas – Memoro, Herstories e Museu da Pessoa –, considerando-se
especialmente seu valor heurístico para pensar as maneiras de enfrentar a
problemática dos espaços e das formas legítimas de representação no tempo
presente – logo, as perspectivas de estudo possíveis.
Com isso, chego ao ponto de inflexão deste artigo, em que me interessa
destacar as vantagens da junção da metodologia da história oral às práticas de
escrita da história digital, com sua hipertextualidade e sua caixa de ferramen-
tas para processamento, mineração e visualização de dados de formas que
analogicamente seriam inviáveis. Essa conjugação pode trazer novas possibi-
lidades de divulgação histórica, de ensino e pesquisa, inclusive em formatos
e canais com apelo ao grande público. Fundamentalmente, quero chamar a
atenção para a possibilidade de, articulando a metodologia da história oral
aos novos procedimentos de escrita da história digital, criarmos produtos de
história pública capazes de chegar a grandes audiências – por seu caráter inte-
rativo, webfriendly e potencialmente lúdico – sem, entretanto, igualarem-se
às questionáveis narrativas jornalísticas.
Por fim, tendo em vista a emergência dos testemunhos veiculados na web,
como nas experiências do Memoro, do Herstories e do Museu da Pessoa, con-
sidero que a metodologia da história oral e a abordagem do tempo presente

29 No original: “At least potentially, digital media transform the traditional, one-way reader/writer, producer/
consumer relationship. Public historians, in particular, have long sought for ways to ‘share authority’ with
their audiences; the web offers an ideal medium for that sharing and collaboration”.
60 LUCCHESI, Anita. Conversas na antessala da academia: o presente, a oralidade e a história pública digital

podem compor um interessante instrumento de análise para as tensões entre


memória e consciência histórica que se apresentam no espaço público da
internet atualmente – seja pelo approach do tempo presente aos usos e abusos
que se fazem do passado neste momento de superpublicação de memórias na
rede, seja pelo consistente aporte que a história oral pode prestar à interpreta-
ção desses registros. Por ambos os lados, esse arranjo pode contribuir para um
posicionamento ativo e crítico, orientado para a ação, com todas as implica-
ções políticas, éticas e estéticas que isso pode ter, considerando-se a peculiari-
dade das fontes e a sua inscrição em um novo ambiente (eletrônico/digital),
com suas diferentes dinâmicas e linguagens. Desse modo, por compartilhar
de pressupostos da história digital e da história pública, especialmente por
sua concepção mais holística de fonte e texto histórico, o aparato formado
pela conjugação da metodologia da história oral com a perspectiva analítica
do tempo presente contribui para o enriquecimento recíproco de que falava
Joutard, daqueles que estão dentro e daqueles que estão fora da academia.
Imagino, por exemplo, as potencialidades de um projeto de história
pública digital que utilizasse os acervos que comentei aqui como fonte pri-
mária, construindo uma narrativa videográfica com base neles – que pode-
ria, por sua vez, estar interligada a diversos conteúdos da web, passíveis de
interação com o público; pode-se imaginar o quão interessante seria o apelo
pedagógico de um trabalho nesse formato, gratuito, facilmente reproduzí-
vel, engajado com a comunidade, frente aos clássicos modelos da tradição
impressa.. Quantos temas do tempo presente poderiam ser investigados
e quantos desdobramentos um projeto desses poderia ter (artigos digitais,
conteúdos colaborativos, exibições on-line, handbooks, materiais didáticos
digitais)! Enfim, trata-se também de repensar a historiografia além do texto
escrito e, sobretudo, de:

[...] estarmos atentos para o fato de que mais lembranças, como partes das
demandas de nossa contemporaneidade, não implicam necessariamente
mais conhecimento do passado e muito menos uma compreensão crítica
das experiências pretéritas. (Guimarães apud Pereira, 2011, p. 64).

Concordo com Helena Miranda Mollo (2011) quando afirma que o


momento é de avaliação, para que se compreenda uma nova forma de estar no
mundo. Mollo lembra que para Hannah Arendt, a descoberta da América, a
Reforma e a invenção do telescópio foram eventos emblemáticos para uma
História Oral, v. 17, n. 1, p. 39-69, jan./jun. 2014 61

nova forma de vivência, atrelada a uma diversa compreensão da temporização


histórica. Esse tipo de fratura do tempo não é uma exclusividade moderna: no
presente, as mudanças continuam, e trazem consigo questionamentos para
o fazer do historiador. São inauguradas por distintos eventos e invenções,
como as que permitiram o advento da globalização e da internet. Nos estu-
dos que desenvolveu sobre regimes de historicidade, François Hartog assinala
uma profunda alteração na percepção das sociedades contemporâneas sobre
a passagem do tempo. Trata-se, na verdade, de um conjunto de mutações que,
para Salgado Guimarães, “deixam-se perceber não apenas por uma experi-
ência acelerada do tempo, potencializada pela cultura eletrônica que invadiu
nosso cotidiano, como também por uma ressignificação de formas narrativas
demandadas socialmente” (Guimarães, 2011, p. 41; grifos meus).
No que diz respeito à história – ainda que esteja destronada do seu
posto de “mestra da vida” –, essa demanda social por outras formas narrativas
pode estar atrelada ao que Hans Ulrich Gumbrecht chamou de “dependência
do passado” (2011), que nos atravessaria independentemente de paradigmas
históricos.30 Percebe-se hoje, do ponto de vista desse autor, um “tipo revigo-
rado de fascínio pelo passado que parece exigir formas de imersão na histó-
ria” (Gumbrecht, 2011, p. 41).
Assim, podemos pensar que a história, diante de uma nova forma de
estar no mundo no tempo presente (e, por que não, a própria história do
tempo presente?), parece requerer novas formas de expressão, capazes de
transcender o efeito informativo das narrativas tradicionais. É como se as
experiências estéticas e sensoriais pudessem vir em seu auxílio para apaziguar
tamanho fascínio pelo passado e/ou dar vazão, de alguma forma, à torrente
de memórias que se acumulam dia após dia nos mais variados formatos e
suportes, em volume inédito.
Os aspectos que a representação do passado pode assumir costumam
variar de acordo com a conjuntura histórica: o destaque dado à pintura his-
tórica no século XIX, inclusive como cânone, é um exemplo disso, embora
fosse a escrita a forma hegemônica de produzir inteligibilidade para o pas-
sado sob os auspícios da ciência histórica com sua premência por objetivi-
dade (Guimarães, 2011, p. 45).

30 Para o professor de Stanford, essa dependência ultrapassaria a própria noção de histórico e se alastraria
por um sentido corporal (genético, da passagem do tempo), jurídico (vide a jurisprudência), econômico
(pensem-se os extratos das contas bancárias) e por aí afora. Ver Gumbrecht (2011, p. 32-33).
62 LUCCHESI, Anita. Conversas na antessala da academia: o presente, a oralidade e a história pública digital

Diante disso, numa dimensão teórica e autorreflexiva, a história oral


tem muito a contribuir para o experimento de formas de representação que
superam o texto, especialmente por constituir-se num registro que pioneira-
mente ousou recorrer à voz em plena cultura alfabética. Se de fato passamos,
na última virada de século, de uma cultura alfabética para uma cultura digital
(Ragazzini, 2004), é razoável então que avaliemos os artefatos com que faze-
mos história hoje, compreendendo-os em sua historicidade. O que podemos
fazer com o (novo?) arquivo, a (nova?) fonte e as respectivas possibilidades de
“escrita” da história na conjuntura do tempo presente é a questão em aberto.
Desde os tempos de Herculano, em Portugal, e Varnhagen, por aqui,
nosso trabalho, como o dos homens de letras, costuma ser solitário, a come-
çar pela ida aos arquivos. Os praticantes da história oral, porém, trabalham
menos isolados, vão a campo mais frequentemente e há alguns anos têm
construído pontes com outras áreas como a fotografia e o cinema. Como
tirar partido dessa aparente heterodoxia da história oral para encarar os acer-
vos digitais hoje? Pragmanticamente, faz-se necessário reconciliar as artes de
Clio, e buscar uma solução tangível para o problema imposto por aconteci-
mentos-limite (como o Holocausto perpetrado pelos nazistas na Europa, o
Apartheid sul-africano ou as ditaduras da América Latina) de desproporção
entre experiência e narrativa (Cezar, 2012, p. 40). Se encontrada, ou pelo
menos tateada (o importante é o questionamento), essa solução pode trazer
novidades inclusive para o ensino da história e para a sua didática no senso
mais lato, de formação como experiência que ultrapassa o espaço escolar.
Se aqueles que há mais tempo contornam a primazia da fonte documen-
tal textual para a história também se ocuparem de questionar o estatuto lite-
rário do discurso historiográfico, talvez possamos, enfim, atualizar o que disse
Lucien Febvre há mais de meio século: “A história faz-se com documentos
escritos, sem dúvida. Quando estes existem. Mas pode fazer-se, deve fazer-se
sem documentos escritos quando não existem” (Febvre, 1985, p. 249). Vale
observar, porém, que a demanda atual por outras formas narrativas não está
de modo algum ligada à ausência de documentos (escritos ou não): o histo-
riador que trabalha com o tempo presente “está mais ameaçado pela supera-
bundância do que pela penúria” (Rémond apud Ferreira, 2012, p. 108).
O que está em jogo no tempo presente, parece-me, é encontrar modos
de expressão alternativos para a história – quer bebam de fontes textuais,
quer não – que possam conviver com a fortuna crítica já experimentada pela
narrativa escrita. Trata-se, por um lado, de identificar maneiras de representar
História Oral, v. 17, n. 1, p. 39-69, jan./jun. 2014 63

as experiências extremas, já que “intransmissível não significa indizível”


(Ricoeur apud Cezar, 2012, p. 47);31 por outro, de conseguir atender à
demanda social do passado, buscando alternativas de narração que propor-
cionem uma imersão na história.
Gumbrecht menciona como possibilidade uma abordagem que tente se
aproximar do “clima” histórico, a Stimmung histórica, uma espécie sofisticada
de recurso à cor local literária que pudesse apresentar a atmosfera de um dado
momento; numa outra tradução possível, a “vozcidade” do momento histórico,
a “vozcidade” de uma cultura (Gumbrecht, 2011, p. 41). Representações mais
“envolventes” como essa povoam hoje telenovelas, peças teatrais, filmes e mesmo
video games. O fenômeno do historical reenacment como entretenimento ou
estratégia educativa está em voga (Anderson, 2011), mas poucas vezes envolve,
de fato, o trabalho de historiadores de profissão em sua concepção.
Desse modo, a aproximação do historiador que trabalha com história
oral dos canteiros da história digital e da história pública pode, a meu ver,
incentivar a criação de novos experimentos, mobilizando ferramentas e acer-
vos digitais, bem como as linguagens “amigáveis” do ambiente digital, para
chegar a outros públicos, informá-los e, em certa medida, tocá-los. As novas
tecnologias não introduzem apenas uma mudança de suporte, mas, como
busquei mostrar, trazem novas dinâmicas e relações subjetivas que precisam
ser investigadas, que sugerem novas práticas, possibilidades e, igualmente,
responsabilidades.
Penso que, talvez, para enfrentar os desafios teóricos colocados pela
história do tempo presente e pelo próprio tempo presente, como se vinha
discutindo acima, seja oportuno refletirmos sobre aquilo que dizia Durval
Muniz de Albuquerque Júnior sobre a “reconciliação da historiografia com
a voz, com o efeito da voz, com o afeto da voz sobre o corpo”. Desse modo,
para o autor:

A historiografia reataria seus laços com a retórica, prestando atenção na e


fazendo parte da vozcidade de nosso tempo. Tempo em que orelhas voltam
a ter importância para o historiador, tanto quanto os olhos. A historiogra-
fia, que pretendeu dar a ver o passado, hoje talvez precise dar-lhe a ouvir.
Se é tempo de desencanto, talvez a historiografia precise ser canto, música,

31 Por quanto controversa, a iniciativa da Survivors of the Shoah Visual History Foundation, de Steven
Spielberg, é uma ilustração disso. Disponível em: <http://sfi.usc.edu/>. Acesso em: 3 ago. 2014.
64 LUCCHESI, Anita. Conversas na antessala da academia: o presente, a oralidade e a história pública digital

paisagem sonora, ambiência, clima de ideias. Afetar os homens tanto pelos


conceitos, como pelos efeitos estéticos. Ser não apenas logos, mas mythos e
rituais. Não apenas erudição, normatividade e rigor à moda alemã, mas tal-
vez inventividade, criação poética e sonoridade à brasileira. (Albuquerque
Júnior, 2011).

Diante de tal escopo é que situo esta conversa na antessala da academia,


esperando que o atual “trânsito livre” dos historiadores que trabalham com
história oral na casa possa ajudar a formalizar a discussão.

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Resumo: Este artigo explora a relação entre a história oral e a história do tempo presente, em
diálogo com os recentes debates em torno da história pública e da história digital. A necessidade
dessa reflexão nasce da crescente publicação de testemunhos orais na web e da demanda por
crítica que esse fenômeno apresenta à comunidade historiadora. A disponibilização de memórias
em rede constitui-se em um problema específico do nosso presente, que diversos autores têm
chamado de “era digital” devido ao papel desempenhado pelas tecnologias de informação e
comunicação hoje. Interessa ponderar sobre como a abordagem da história do tempo presente e
a metodologia da história oral podem compor um instrumento de análise para as tensões entre
memória e consciência histórica que se apresentam no espaço público da internet. Por fim,
importa observar como o exercício dessa análise pode contribuir para qualificar as discussões
atuais sobre a história pública e digital no espaço acadêmico brasileiro.

Palavras-chave: oralidade, tempo presente, história pública, história digital.

Conversations in the anteroom of the academy: the present, the orality and the digital
public history

Abstract: This article explores the relationship between the Oral History and the History of
the Present in dialogue with recent debates on Public History and Digital History. The need
for such reflection comes from the increasing publicity of oral testimonies on the Web and
the demand for criticism that this phenomenon presents to the historian community in the
Academy. The availability of these memories on the Web is in a specific problem of our present,
which by several authors has been called “Digital Age” because of the important role played by
the information and communication technologies today. Our interest is to think about how
the approach of the History of the Present and the methodology of Oral History can compose
an analytical tool for the tensions between memory and historical consciousness present in the
public space of the Internet nowadays. And, finally, it is important to note how the exercise
of this analysis can help to qualify the current discussions on Public and Digital History in
Brazilian Academy.

Keywords: orality, present time, Public History, Digital History.

Recebido em 31/03/2014
Aprovado em 04/08/2014
ART I GO S VARI AD O S

“Escre(vivência)”:
a trajetória de Conceição Evaristo

Bárbara Araújo Machado*

Introdução

Neste artigo, trago alguns resultados da minha dissertação de mes-


trado, intitulada “Recordar é preciso”: Conceição Evaristo e a intelectualidade
negra no contexto do movimento negro brasileiro contemporâneo (1982-2008).
Tal pesquisa teve início em 2010, quando da realização da monografia de
conclusão do curso de história. Naquele ano, quando eu procurava um tema
para construir o projeto de monografia, soube de um evento que seria reali-
zado na favela de Acari, no Rio de Janeiro, para celebrar os 96 anos do nas-
cimento da escritora Carolina Maria de Jesus, mulher negra e moradora de
uma favela em São Paulo. Uma rápida pesquisa sobre Carolina na internet me
levou ao nome da escritora negra Conceição Evaristo. Do nome à obra literá-
ria, da obra literária ao fascínio: mais do que um objeto de pesquisa interes-
sante, que me possibilitaria refletir sobre questões sociais que me preocupam
enquanto militante, as palavras escritas por Conceição haviam ultrapassado a
mim, historiadora, para emocionar a mim, poeta e leitora de poesia.
Maria da Conceição Evaristo de Brito nasceu em 1946 em uma favela na
cidade de Belo Horizonte, Minas Gerais. Após ter se formado em uma Escola
Normal no início da década de 1970, mudou-se para o Rio de Janeiro para
ingressar no magistério público. No Rio, Conceição encontrou um Movi-
mento Negro cada vez mais intenso, em consonância com um momento

* Mestre em História Social pela Universidade Federal Fluminense (UFF).


244 MACHADO, Bárbara Araújo. “Escrevivência”: a trajetória de Conceição Evaristo

histórico marcado pela luta da população negra norte-americana por direitos


civis e pelos movimentos de descolonização dos países africanos. Em 1976,
iniciou a graduação em Letras na Universidade Federal do Rio de Janeiro,
interrompida em 1980, por conta do nascimento de sua filha Ainá, e con-
cluída no ano de 1989. Durante a década de 1980, Conceição participou do
grupo Negrícia: Poesia e Arte de Crioulo. O grupo atuava realizando recitais
de textos literários em favelas, presídios e bibliotecas públicas, entre outras
atividades. Em 1990, Conceição publicou seu primeiro poema nos Cadernos
Negros, editados pelo grupo paulista Quilombhoje. Desde então, publicou
diversos poemas e contos nos Cadernos, além de dois romances (2003, 2006),
uma coletânea de poemas (2008) e um livro de contos (2011a). Além disso,
Conceição Evaristo é mestre em Literatura Brasileira pela Pontifícia Univer-
sidade Católica do Rio de Janeiro (1996) e doutora em Literatura Compa-
rada pela Universidade Federal Fluminense (2011b). Assim, além da obra
literária, ela também tem produzido reflexões de cunho acadêmico sobre lite-
ratura negra brasileira e literatura africana.
Neste artigo, analisei uma declaração proferida por Conceição Evaristo
em um encontro de escritoras (cuja versão escrita me foi cedida pela pró-
pria autora), bem como duas entrevistas que realizei com ela – a primeira em
2010, no contexto da feitura de minha monografia, e a segunda em 2013, já
no mestrado. Tal análise busca responder duas questões gerais. A primeira
trata da relação entre a trajetória da autora e o desenvolvimento histórico
do Movimento Negro. Mais particularmente, a análise de sua trajetória pos-
sibilita perceber a complexa interseção entre a questão racial, a de gênero e
a de classe conforme experimentadas por Conceição. A segunda questão a
ser respondida diz respeito à dinâmica de funcionamento do campo edito-
rial da literatura negra no Brasil. Creio que a discussão de tais questões pode
ajudar a compreender a atuação militante de escritoras e escritores negros na
contemporaneidade, suas conquistas e seus desafios em uma sociedade ainda
marcada pela discriminação racial.

A trajetória de Conceição Evaristo

Tanto na obra de Márcia Contins (2005) quanto na de Verena Alberti


e Amílcar Pereira (2007) – que reúnem entrevistas com militantes do Movi-
mento Negro brasileiro – há questionamentos aos/às entrevistados/as sobre
História Oral, v. 17, n. 1, p. 243-265, jan./jun. 2014 245

o momento de “tornar-se negro” (Contins, 2005) ou de tomar “consciência


da negritude” (Alberti; Pereira, 2007).1 De fato, consciência é uma palavra
fundamental para o Movimento Negro contemporâneo. É comum dizer,
por exemplo, que a luta contra-hegemônica realizada por esses/as intelectu-
ais consiste principalmente na conscientização da população negra. Michael
Hanchard afirma que “a consciência racial representa o pensamento e a prá-
tica dos indivíduos e grupos que reagem à sua subordinação com uma ação
individual ou coletiva, destinada a contrabalançar, transpor ou transformar
as situações de assimetria racial” (Hanchard, 2001, p. 31).
É possível aprofundar a compreensão da questão da consciência no Movi-
mento Negro se considerarmos a formulação de Thompson do conceito de
consciência de classe, intimamente relacionado ao de experiência. Segundo o
autor, é a partir de experiências comuns que um grupo (classe) identifica seus
interesses entre si e contra outro grupo social – processo a partir da qual toma
forma a consciência (Thompson, 1987, p. 10). Nesse sentido, o “tornar-se
negro” experimentado pelos/as militantes do movimento é um processo deci-
sivo para a reflexão sobre sua atuação política. Conceição Evaristo, em entrevis-
tas e depoimentos escritos, remonta seu processo de perceber-se como negra e
pobre:

Foi em uma ambiência escolar marcada por práticas pedagógicas excelen-


tes para uns, e nefastas para outros, que descobri com mais intensidade a
nossa condição de negros e pobres. Geograficamente, no curso primário
experimentei um ‘apartheid’ escolar. O prédio era uma construção de dois
andares. No andar superior, ficavam as classes dos mais adiantados, dos que
recebiam medalhas, dos que não repetiam a série, dos que cantavam e dan-
çavam nas festas e das meninas que coroavam Nossa Senhora. O ensino
religioso era obrigatório e ali como na igreja os anjos eram loiros, sempre.
Passei o curso primário, quase todo, desejando ser aluna de umas das salas
do andar superior. Minhas irmãs, irmãos, todos os alunos pobres e eu sem-
pre ficávamos alocados nas classes do porão do prédio. Porões da escola,
porões dos navios. (Evaristo, 2009, p. 1-2).

1 Para utilizar uma linguagem inclusiva de gênero, optei por, ocasionalmente, usar as desinências de gênero
masculino e feminino na mesma palavra, separando-as por barra (exemplo: “intelectual orgânico/a”;
“estudiosa/o”).
246 MACHADO, Bárbara Araújo. “Escrevivência”: a trajetória de Conceição Evaristo

Quando a entrevistei, Conceição localizou na vida escolar o momento em


que se percebeu como negra. Já no depoimento supracitado, a autora relaciona
essa percepção com um estranhamento em relação à sua certidão de nascimento:

Uma espécie de notificação indicando o nascimento de um bebê do sexo


feminino e de cor parda, filho da senhora tal, que seria ela [a mãe de Con-
ceição]. Tive esse registro de nascimento comigo durante muito tempo.
Impressionava-me desde pequena essa cor parda. Como seria essa tonali-
dade que me pertencia? Eu não atinava qual seria. Sabia, sim, sempre soube,
que sou negra. (Evaristo, 2009, p. 1-2, grifo no original).

Ao dizer que “sempre soube” que era negra, Conceição utiliza um


recurso narrativo que nos dá uma importante pista quanto ao sentido geral
que ela pretende conferir ao seu depoimento. Afirmar-se negra ante a deno-
minação parda, presente em um documento oficial, configura um ato con-
testatório realizado já na tenra infância. Mais do que saber desde pequena
que era negra, Conceição diz perceber-se como negra desde sempre, atempo-
ralmente. Alessandro Portelli explica que as narrativas que as pessoas fazem
de si são “artefatos verbais” moldados pela percepção e interpretação têm
de si mesmas e de suas palavras (Portelli, 1991a, p. 118). Enquanto Pierre
Bourdieu vê na construção de um sentido de si, no tornar-se “ideólogo de sua
própria vida”, uma “ilusão biográfica” (Bourdieu, 2006, p. 184), Portelli per-
cebe aí uma subjetividade enriquecedora para a análise. Com isso em vista,
uma construção narrativa como a do trecho acima pode revelar a intenção
de Conceição de reforçar um posicionamento político e uma característica
contestadora como inerentes a ela.
A “consciência da negritude” (Alberti; Pereira, 2007), para Conceição,
está ainda ligada à sua condição de classe. Ela conta que sua relação com a lite-
ratura “passa pela cozinha, pelas cozinhas alheias”, porque as mulheres de sua
família trabalharam como empregadas domésticas para famílias de importan-
tes escritores/as mineiros/as, como Otto Lara Resende, Alaíde Lisboa de Oli-
veira e Henriqueta Lisboa (Evaristo, 2010). A questão de classe e a percepção
de si não apenas como negra, mas como subalterna, aparece no trecho a seguir:

O pai de Henriqueta Lisboa, doutor João Lisboa, era padrinho dessa minha
irmã mais velha, padrinho de batismo. Era um tempo ainda em que essas
relações de subalternidade eram também marcadas por uma relação de
História Oral, v. 17, n. 1, p. 243-265, jan./jun. 2014 247

compadrio. Então você ter alguém de uma classe superior com quem você
tivesse uma certa relação... era interessante. Então essa minha irmã, também
foi só ela, que todos nós depois... as relações de compadrio já foram com
pessoas da mesma classe social da gente. Então eu gosto de brincar muito
que a relação minha com a literatura parte desse lugar de subalternidade.
(Evaristo, 2010).

Conceição conta que ela mesma trabalhou como doméstica desde os oito
anos, alternando essa atividade com a de levar crianças vizinhas para a escola
e ajudá-las nas tarefas de casa, o que “rendia também uns trocadinhos” (Eva-
risto, 2009, p. 1). Além disso, ela participava com a mãe e a tia “da lavagem, do
apanhar e do entregar trouxas de roupas nas casas das patroas” (Evaristo, 2009,
p. 1). Sobre essa atividade, há uma bela passagem em um de seus depoimentos
escritos, marcante pela forma literária com que escolhe contá-la:

Mais um momento, ainda bem menina, em que a escrita me apareceu


em sua função utilitária e às vezes, até constrangedora, era no momento
da devolução das roupas limpas. Uma leitura solene do rol acontecia no
espaço da cozinha das senhoras:
4 lençóis brancos,
4 fronhas,
4 cobre-leitos,
4 toalhas de banho,
4 toalhas de rosto,
2 toalhas de mesa,
15 calcinhas,
20 toalhinhas,
10 cuecas,
7 pares de meias,
etc, etc, etc.
As mãos lavadeiras, antes tão firmes no esfrega-torce e no passa-dobra das
roupas, ali diante do olhar conferente das patroas, naquele momento se tor-
navam trêmulas, com receio de terem perdido ou trocado alguma peça. Mãos
que obedeciam a uma voz-conferente. Uma mulher pedia, a outra entre-
gava. E quando eu, menina, testemunhava as toalhinhas antes embebidas
de sangue, e depois, já no ato da entrega, livres de qualquer odor ou nódoa,
mais a minha incompreensão diante das mulheres brancas e ricas crescia. As
248 MACHADO, Bárbara Araújo. “Escrevivência”: a trajetória de Conceição Evaristo

mulheres de minha família, não sei como, no minúsculo espaço em que viví-
amos, segredavam seus humores íntimos. Eu não conhecia o sangramento
de nenhuma delas. E quando em meio às roupas sujas, vindas para a lava-
gem, eu percebia calças de mulheres e minúsculas toalhas, não vermelhas, e
sim sangradas do corpo das madames, durante muito tempo pensei que as
mulheres ricas urinassem sangue de vez em quando. (Evaristo, 2005, p. 2).

Essa passagem é muito interessante para compreendermos a presença


da interseção das questões de classe, raça e gênero na experiência de Concei-
ção, que marcará toda a sua produção literária. Aqui, Conceição distingue
as “mulheres brancas e ricas” – as “patroas” – de forma aguda, retratando-as
como de natureza tão diferente das mulheres de sua família – as lavadeiras
– que chegavam a ter um traço biológico diferente, estranho: urinar sangue.
Não se tratava de uma confusão infantil, mas de um crescimento da com-
preensão, segundo ela. A relação de subalternidade é evidenciada no fato de
que a menina Conceição entrava em contato direto com “as toalhinhas antes
embebidas de sangue” de suas patroas, enquanto jamais havia tido qualquer
notícia daquelas que pertenciam às mulheres da sua própria família – da sua
cor, da sua classe. As desigualdades no ser mulher que Conceição revela nesse
trecho são ligadas por ela à função “utilitária” e “constrangedora” da escrita.
O constrangimento, assim, é útil na medida em que evidencia as relações de
subalternidade que a autora deseja denunciar.
A relação entre mulheres aparece de forma diversa quando Conceição
trata do convívio entre as de sua família:

Como ouvi conversas de mulheres! Falar e ouvir entre nós era a talvez a
única defesa, o único remédio que possuíamos. Venho de uma família em
que as mulheres, mesmo não estando totalmente livres de uma domina-
ção machista, primeiro a dos patrões, depois a dos homens seus familiares,
raramente se permitiam fragilizar. Como ‘cabeça’ da família, elas constru-
íam um mundo próprio, muitas vezes distantes e independentes de seus
homens e mormente para apoiá-los depois. Talvez por isso tantas persona-
gens femininas em meus poemas e em minhas narrativas? Pergunto sobre
isto, não afirmo. (Evaristo, 2005, p. 4).

É frequente nas narrativas de Conceição Evaristo que ela se apresente


como parte de uma “escola” de escritoras negras, moradoras de favelas (Evaristo,
História Oral, v. 17, n. 1, p. 243-265, jan./jun. 2014 249

2010). Ela fala em diversos depoimentos sobre a importância que a obra de


Carolina Maria de Jesus, “a favelada do Canindé [que] criou uma tradição lite-
rária”, exerceu não só sobre ela, mas sobre sua mãe, que “seguiu o caminho de
uma escrita inaugurada por Carolina e escreveu também sob a forma de diário,
a miséria do cotidiano enfrentada por ela” (Evaristo, 2009, p. 1).2 Ela conta que
sua família lia a obra de Carolina “não como leitores comuns, mas como perso-
nagens das páginas de Carolina. A história de Carolina era nossa história” (Eva-
risto, 2010). Além de referir-se à identificação com a experiência de Carolina
de Jesus por ser uma mulher negra e moradora de favela que escreveu literatura,
Conceição ressalta o significado por trás dessa escrita:

Quando mulheres do povo como Carolina, como minha mãe, como eu


também, nos dispomos a escrever, eu acho que a gente está rompendo com
o lugar que normalmente nos é reservado. A mulher negra, ela pode cantar,
ela pode dançar, ela pode cozinhar, ela pode se prostituir, mas escrever, não,
escrever é alguma coisa... é um exercício que a elite julga que só ela tem esse
direito. Escrever e ser reconhecido como um escritor ou como escritora, aí
é um privilégio da elite. (Evaristo, 2010).

Sobre esse ponto, vale considerar a argumentação da intelectual negra


norte-americana bell hooks,3 que afirma que o corpo da mulher negra, desde
a escravidão até a atualidade, “tem sido visto pelos ocidentais como o símbolo
quintessencial de uma presença feminina ‘natural’, orgânica, mais próxima da
natureza, animalística e primitiva” (hooks, 1995, p. 468). Essa formulação
discursiva atua para tornar o domínio intelectual um lugar interdito, já que
“mais do que qualquer grupo de mulheres nesta sociedade, as negras têm sido
consideradas ‘só corpo, sem mente’” (hooks, 1995, p. 469). Diante disso,
hooks defende que é essencial para a luta de libertação das mulheres negras
que elas ocupem esse espaço interdito do trabalho intelectual. É nesse sentido
que Conceição assinala a importância de que mulheres como ela, sua mãe e
Carolina de Jesus se afirmem enquanto escritoras.

2 Carolina Maria de Jesus (1914-1977) é autora de Quarto de despejo: diário de uma favelada (1950).
Best-seller à época de sua publicação e traduzido em 13 idiomas desde então, o livro narra as mazelas e
discriminações enfrentadas pela autora na periferia de São Paulo.
3 “bell hooks” é o pseudônimo da feminista negra norte-americana Gloria Jean Watkins, que o adota
grafado em letras minúsculas – grafia que emprego também aqui.
250 MACHADO, Bárbara Araújo. “Escrevivência”: a trajetória de Conceição Evaristo

Quanto ao seu engajamento na militância política, Conceição Evaristo


costuma localizá-lo no momento em que se mudou para o Rio de Janeiro, no
início dos anos 1970. Entretanto, ela revelou, em uma das entrevistas que fiz,
ter participado de movimentos sociais ainda em Belo Horizonte, nos anos
que antecederam a ditadura militar:

Naquele momento a Igreja Católica tem uma preocupação muito grande


em ser uma igreja dos pobres. E aí nesse momento – minha família inteira é
católica – eu descubro o movimento operário de inspiração católica [...]. Eu
era da JOC [ Juventude Operária Católica], do movimento de domésticas
também, que era uma célula dentro da própria JOC, então tinha a célula
das domésticas e eu vivi uns dois anos [nela]... (Evaristo, 2013).

Como é comum em depoimentos de intelectuais do Movimento Negro


brasileiro, Conceição assinala a ausência da discussão sobre o racismo em
organizações de esquerda como a JOC:

Foi muito marcante porque nesse momento, apesar de eu ter uma consci-
ência já da questão social por vivência, mas nesse momento eu começo a
perceber a amplitude dessa questão social. Mas a questão étnica realmente,
a questão racial, porque esses movimentos, eles não discutem a questão
racial, pra eles tudo é só social, a questão racial eu vim realmente me inserir
e ter um discurso mais veemente aqui no Rio de Janeiro. (Evaristo, 2013).

É interessante notar que, ainda que a autora localize “o momento da


militância” como sendo o do Rio de Janeiro, suas ressalvas revelam um con-
tato não só com “a questão social”, mas com “a questão racial” ainda em Belo
Horizonte:

O momento da militância é o momento aqui do Rio de Janeiro [...] Se


bem que Belo Horizonte é um caso interessante. [...] Em 1972 em Belo
Horizonte a gente já ouvia os ecos do Movimento Negro dos Estados Uni-
dos, porque em 1972 eu já usava o cabelo black power, influenciada por
Angela Davis. Quando eu vim pro Rio fazer o concurso pro magistério, eu
já usava o cabelo black power. Então nesse momento em Belo Horizonte eu
já recebo ecos de movimento negro. É essa questão do famoso lema, “Black
is beautiful”. Então naquele momento lá em Belo Horizonte, agora que eu
História Oral, v. 17, n. 1, p. 243-265, jan./jun. 2014 251

estou me recordando, eu já compactuava com esse ideal. Agora, em termos


de militância mesmo, de Movimento Negro, assim, como luta coletiva, eu
venho conhecer melhor é no Rio de Janeiro. (Evaristo, 2010).

Note-se como é feita uma diferenciação da afirmação estética do black


power em relação à “luta coletiva”, essa sim sendo a “militância mesmo”. Em
sua reconstrução narrativa do passado, a autora busca em suas recordações
elementos que revelem seu engajamento na luta antirracista. Nesse sentido,
apesar do marco inicial de sua militância ter sido estabelecido na mudança
para o Rio de Janeiro, dizer “agora que eu estou me recordando, eu já com-
pactuava com esse ideal” revela uma leitura daquele momento informada por
sua vivência posterior, a partir da qual pôde classificar seu comportamento
como já afirmativo de uma identidade negra.
Em entrevista realizada posteriormente surge outra lembrança de mili-
tância negra ainda em sua cidade natal:

Apesar de que houve um momento também que eu participei do Movi-


mento Negro de Belo Horizonte, que era Movimento Negro brasileiro...
Tinha o Movimento José do Patrocínio, que eu participei de uma ativi-
dade ou outra, mas também eu era muito nova, então eu não tinha nenhum
embasamento político, eu vim adquirindo-o ao longo do tempo aqui no
Rio de Janeiro. (Evaristo, 2013).

O “Movimento José do Patrocínio” ao qual Conceição se refere é a


Associação Cultural, Beneficente e Recreativa José do Patrocínio, criada
em 1952 na capital mineira e atuante nas décadas de 1950 e 1960 (Silva, p.
2010). Andréia Silva afirma que a associação definia-se em estatuto como
“apolítica” e dizia ter “por finalidade ampliar e cultivar os conhecimentos
da coletividade brasileira, proporcionando-lhe, gratuitamente, assistência
social, cultural, beneficente e recreativa” (Silva, 2010, p. 54). Na prática,
foi criada e frequentada por pessoas negras mineiras e funcionava como um
espaço possível de socialização diante da exclusão sofrida por elas nos demais
espaços. Esse tipo de iniciativa, predominante nas primeiras fases do Movi-
mento Negro brasileiro (até o golpe militar), constituiu, segundo Petrônio
Domingues, “uma estratégia [...] empregada pelo grupo negro para compen-
sar: em um primeiro momento, as atrocidades do cativeiro; e em um segundo
momento, o seu processo de marginalização no pós-abolição” (Domingues,
252 MACHADO, Bárbara Araújo. “Escrevivência”: a trajetória de Conceição Evaristo

2005, p. 314). Assim, elas tinham um caráter de assimilação social da popula-


ção negra, e não tanto de contestação, como viria a ocorrer a partir dos anos
1970. Esse caráter assimilacionista e recreativo da Associação José do Patro-
cínio pode explicar o motivo pelo qual Conceição minimiza sua participação
nela, percebendo-a como acrítica.
Diante da dinâmica baseada em indicações e troca de influências impli-
cada em conseguir um trabalho como professora em Belo Horizonte, Con-
ceição conta ter decidido se mudar para o Rio para prestar concurso público
para o magistério. O ano de 1973, quando chega na cidade, é aquele que

[...] marca mesmo essa visão pra mim de Movimento Negro como luta
coletiva. [A partir] daí é que eu vou descobrir a cultura negra. Aqui no Rio
de Janeiro que eu vim conhecer candomblé, porque lá em Minas eu não
conhecia, nós somos extremamente católicos. Então aqui no Rio [foi um
momento] marcado justamente pelas lutas de libertação das colônias por-
tuguesas, que marcou muito; não só colônias portuguesas, a gente ouvia
falar de [William] Seymour, ouvia falar de Patrice Lumumba... Essa afirma-
ção dos valores negros como cultura, como possibilidade política, isso vai ser
em 73. (Evaristo, 2010; grifos meus).

A percepção da existência de uma cultura negra que ultrapassa a bar-


reira nacional para abarcar toda uma dimensão diaspórica – as pessoas negras
norte-americanas, as das ex-colônias africanas – relaciona-se com uma das
características principais do Movimento Negro contemporâneo: a criação
de uma identidade negra positivada, de sentido político, que faz frente ao
racismo dominante. Assim como contam muitos/as outros/as militantes
negros/as no Rio de Janeiro na década de 1970, Conceição frequentava os
debates e discussões no IPCN (Instituto de Pesquisa das Culturas Negras),
entre outras atividades do movimento, que tinham o objetivo de fazer
conhecer a mobilização negra que extrapolava o lugar e a época em que se
encontravam.
Em 1976 Conceição iniciou a graduação em letras na Universidade
Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), mas teve de interrompê-la em 1980, já
prestes a se formar, por conta do nascimento de sua filha Ainá, portadora de
uma síndrome genética que comprometeu o seu desenvolvimento psicomo-
tor. A escritora veio a retomar o curso e finalizá-lo em 1989, quando Ainá
completou 9 anos de idade.
História Oral, v. 17, n. 1, p. 243-265, jan./jun. 2014 253

Nos anos 1980 Conceição fez parte do grupo Negrícia: Poesia e Arte de
Crioulo, criado no Rio de Janeiro em 1982. Sobre sua participação no grupo,
Conceição conta:

Eu me lembro que a gente ia às comunidades... Não gosto desse termo,


que eu acho que você muda o termo, mas a realidade é a mesma, né? A
gente ia às favelas, ia aos morros, ia aos presídios, fazer recital nos presí-
dios. Fora outros lugares também, biblioteca pública, a gente se encontrava
no [IPCN]... E era interessante porque, justamente, você lidava com uma
poesia que era uma poesia também do cotidiano, das suas coisas, das suas
causas, era uma poesia que trazia também uma marca desse discurso nosso,
desse discurso negro, desse discurso de... emancipação. E foi um momento
muito fértil, tanto criação em si, quanto como militância. Realmente a
gente... acreditava. (Evaristo, 2010).

Neste ponto, cabe retomar Alessandro Portelli, que atenta para o fato
de que “fontes orais são fontes orais”, no sentido de que a versão transcrita
de uma entrevista nunca dá conta de transmitir sua riqueza de significados.
Segundo ele, “a transcrição transforma objetos orais em visuais, o que inevi-
tavelmente implica mudanças e interpretação” (Portelli, 1991b, p. 47). Recu-
pero essa observação porque a entonação e as pausas que Conceição emprega
no trecho acima, as quais grafei com reticências, são bastante significativas.
Chamam atenção os adjuntos adnominais “negro” e “de emancipação” como
qualificadores do discurso do grupo, que fazem lembrar as reivindicações
de transformação social mais profunda presentes na Carta de Princípios do
Movimento Negro Unificado, datada de 1978 (Gonzáles; Hasenbalg, 1982,
p. 66). Atento também para o uso do verbo “acreditava”, no pretérito imper-
feito e sem complemento. Ele indica uma crença em alguma coisa não dita,
mas uma crença que ficou no passado, encerrada.
De fato, o grupo Negrícia encerrou suas atividades no fim da década
de 1980. Podemos supor que a crença que Conceição deu por passada
não se refere ao “discurso negro de emancipação”, mas à forma pela qual o
Negrícia exercia esse discurso: por meio de uma espécie de ação direta lite-
rária, caracterizada pela ida a favelas, presídios, sindicatos etc. Se a década
de 1980 foi marcada por mudanças nas formas de atuação do Movimento
Negro, que se tornou cada vez mais institucionalizado, as organizações
artísticas negras parecem ter acompanhado esse processo. É sintomático,
254 MACHADO, Bárbara Araújo. “Escrevivência”: a trajetória de Conceição Evaristo

nesse sentido, que enquanto o carioca Negrícia encerrou suas atividades,


o grupo paulista Quilombhoje, centrado na publicação dos Cadernos
Negros e com um caráter muito mais institucional, tenha permanecido em
funcionamento.
É possível dizer que a trajetória de Conceição Evaristo acompanha, em
linhas gerais, as mudanças observadas no Movimento Negro contemporâneo.
Após uma militância mais “direta” no grupo Negrícia, nos anos 1990 Concei-
ção Evaristo se dedica à realização de seu mestrado em literatura brasileira na
Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), engrossando
as fileiras de intelectuais negras/os que produzem conhecimento acadêmico
contra-hegemônico nas universidades brasileiras. Sua dissertação, intitulada
Literatura negra: uma poética de nossa afro-brasilidade (Evaristo, 1996), mos-
tra-se uma reflexão acadêmica crítica – em primeira pessoa – sobre a produ-
ção literária das/os escritoras/es negras/os brasileiras/os. Sobre a motivação
que a levou ao mestrado, Conceição diz:

Quando eu fui fazer o mestrado, eu já tinha feito durante um ano [...]


um curso de especialização na UERJ [Universidade do Estado do Rio de
Janeiro]. Eu me lembro que eu ia com a Ainá também, foi o momento que
o meu marido tinha morrido. Então ir pro mestrado foi realmente que-
rer fazer uma pesquisa [...] [sobre] essa produção [literária] negra. Porque
desde a graduação eu já ficava observando a maneira da representação do
negro na literatura brasileira, então esse foi um processo que eu vim real-
mente amadurecendo. (Evaristo, 2013).

É frequente que Conceição afirme em entrevistas que seu papel enquanto


intelectual acadêmica está ligado à sua percepção da universidade como um
lugar de disputas de poder. Segundo Conceição,

[...] mesmo quando as pessoas advogam que a academia não é um lugar de


militância, ela é um lugar de militância. O intelectual está ali, os professores
estão ali militando de alguma forma. Ou a favor do status quo ou contra, ou
[ainda] por omissão. A academia não é um lugar neutro. (Evaristo, 2010).

É interessante observar, quanto a isso, que esse posicionamento foi con-


solidado após um “dilema muito grande”, nas palavras da autora:
História Oral, v. 17, n. 1, p. 243-265, jan./jun. 2014 255

Porque eu tinha saído de Belo Horizonte e a minha experiência tinha sido


em movimento social e em movimento operário, também em movimento
de domésticas. E eu achava que o meu espaço de militância, que o meu
lugar de militância era no movimento social. Eu não acreditava, eu não via
possibilidades ou até eu não valorizava que o espaço da academia pudesse
ser um espaço de militância. Pra mim as coisas tinham que acontecer no
mundo operário. Então quando eu fui fazer a graduação, eu me perguntava
muito o que eu estava fazendo ali, me perguntava demais. (Evaristo, 2013).

A mudança de percepção sobre sua presença no campo acadêmico se


deu a partir da noção de que era uma tarefa importante para a luta política na
qual estava engajada problematizar o conhecimento acadêmico estabelecido:

[...] até eu perceber essa representação [estereotipada] do negro na litera-


tura brasileira. Nesse momento [da graduação] eu já dava aula também,
trabalhava como professora de primeira à quarta [série]. Então foi um
momento muito importante pra mim, que eu começo a descobrir que o
saber, e esse saber que te legitima, pra você ser uma difusora do saber... então
eu comecei a perceber também que tinha sentido. E como eu começo a
perceber isso? Na medida em que eu levanto algumas questões dentro da
academia e eu noto que alguns professores se interessam e que alguns falam
mesmo: ‘Eu nunca pensei sobre isso’. Então quando eu começo a colocar
algumas questões dentro da academia, ao mesmo tempo que você cria uma
certa rejeição por parte de alguns professores, você encontra também aco-
lhida. (Evaristo, 2013; grifos meus).

Vale ressaltar, nesse trecho, a constatação da autora de que o saber acadê-


mico é uma fonte de legitimidade. O conhecimento crítico da questão racial
brasileira e internacional não foi obtido por ela na academia, mas nos espa-
ços de organização do Movimento Negro. Entretanto, é por meio do saber
acadêmico – por ser o saber reconhecido pelo status quo –, que Conceição
confere legitimidade a esse conhecimento vivencial e pode, assim, tornar-se
sua “difusora”. Assim, conclui:

Hoje eu não tenho nenhuma dificuldade, eu tenho certeza que a acade-


mia é um espaço de militância também. Aquela questão de ‘saber é poder’.
Eu tenho certeza que a academia é um lugar de militância, eu acho que as
256 MACHADO, Bárbara Araújo. “Escrevivência”: a trajetória de Conceição Evaristo

pessoas oriundas das classes populares, elas têm que estar dentro da aca-
demia. Você tem que levar um outro discurso, um outro posicionamento,
formas de saberes diferenciados, porque senão a academia vai continuar
sendo... os produtores de saber serão sempre das classes privilegiadas. Hoje
eu não tenho nenhuma dificuldade de encarar a academia como um espaço
meu, que eu tenho que estar lá dentro com uma outra postura. (Evaristo,
2013).

Seguindo essa convicção, Conceição dedicou-se posteriormente ao


doutorado em literatura comparada pela Universidade Federal Fluminense
(UFF), que completou em 2011.4
Além de dedicar-se à vivência acadêmica, é a partir dos anos 1990 que
Conceição passa a publicar seus escritos. Considerando os conceitos de
campo e de trajetória propostos por Pierre Bourdieu (2004, 2006), analisarei
a seguir as posições ocupadas por Conceição Evaristo no campo editorial.
Longe de querer fazer um mapeamento exaustivo da dinâmica de todos os
campos nos quais a escritora se inseriu e se insere, procurarei deter o olhar
sobre os processos de produção editorial de suas publicações literárias, evi-
denciando as relações entre os agentes envolvidos nesses processos. Perce-
ber de que forma a autora estabeleceu sua rede de relações para realizar cada
publicação pode ajudar a compreender o funcionamento do campo editorial
da literatura negra e as estratégias utilizadas por intelectuais negros/as para
viabilizar a difusão de sua obra.

Caminhos editoriais

No texto biográfico sobre Conceição Evaristo publicado no por-


tal Literafro, vinculado à Faculdade de Letras da Universidade Federal de
Minas Gerais (UFMG), o ano de 1990 aparece como o marco da estreia da
autora na literatura.5 Nesse ano foi publicado o poema “Vozes-mulheres” nos

4 Intitulada Poemas malungos: cânticos irmãos (Evaristo, 2011b), a tese compara textos de literaturas afri-
canas de língua portuguesa e da literatura afro-brasileira através de autores como Agostinho Neto, Nei
Lopes e Edmilson Pereira.
5 Disponível em <http://www.letras.ufmg.br/literafro/data1/autores/43/dados.pdf>. Acesso em: 10
jan. 2013.
História Oral, v. 17, n. 1, p. 243-265, jan./jun. 2014 257

Cadernos Negros, editados pelo grupo Quilombhoje. Conceição, em entre-


­

vista, reafirma esse marco como sendo a data de sua primeira publicação, con-
tando que escrevia textos literários desde a juventude, mas que durante muito
tempo “não pensava em publicar” (Evaristo, 2010). A autora faz a ressalva, no
entanto, de que já havia publicado uma crônica, ainda em Belo Horizonte, no
fim da década de 1970, mas parece desconsiderar essa publicação ao afirmar:
“[...] mas eu realmente só vou publicar nos anos 90” (Evaristo, 2010; grifo
meu). Essa opção pelo marco do ano de 1990 como estreia na literatura é
significativa, ainda mais se considerarmos a experiência da autora como escri-
tora não publicada no anos 1980, quando era integrante do Negrícia.
Por meio desse grupo, Conceição estabeleceu contato com diversas/os
artistas e militantes do Movimento não apenas do Rio, mas de outros estados.
Foi a experiência do Negrícia que viabilizou sua participação na publicação
do volume 13 dos Cadernos Negros:

Eu participava já com o grupo Negrícia, participava de recital, falava meus


textos, mas tudo inédito. A professora UFRJ me falou do grupo Quilom-
bhoje, mas eu não prestei muita atenção, até que Deley de Acari! Deley
de Acari é que mandou meu endereço pra uma das meninas [ligadas ao
Quilombhoje], Miriam Alves, também escritora. Ele deu meu endereço e
depois veio [o convite]. (Evaristo, 2010).

Conceição atribui grande importância ao grupo Quilombhoje, não ape-


nas em sua trajetória pessoal, mas no campo literário, de modo geral:

Eu digo que ele é um ritual de passagem pra muitos de nós. [...] O dia que os
críticos de literatura brasileira estiverem mais atentos pra escrever a história
da literatura brasileira, querendo ou não eles vão incorporar a história do
grupo Quilombhoje. Tem que ser incorporada. Na área de literatura brasi-
leira como um todo, é o único grupo que [...] tem uma publicação ininter-
rupta durante 33 anos. [...] Acho que quando surgirem historiadores, crí-
ticos que tenham uma visão mais ampla da literatura, vai ser incorporada.
Essa é a dívida que a literatura brasileira tem com o grupo Quilombhoje.
(Evaristo, 2010).

É possível perceber nesse trecho o significado atribuído pela autora ao


fato de ter estreado e de ter seguido publicando textos nos Cadernos Negros.
258 MACHADO, Bárbara Araújo. “Escrevivência”: a trajetória de Conceição Evaristo

Para ela, ter participado e, principalmente, estreado na literatura com uma


publicação nos Cadernos a insere definitivamente na história da literatura
negra brasileira e, mais amplamente, da literatura brasileira. O marco da pri-
meira publicação localizado em 1990 carrega muito mais poder simbólico,
para usar o conceito bourdieusiano, do que se fosse levada em consideração a
crônica publicada em Belo Horizonte no fim dos anos 1970.
Como vimos, o ano de 1990, além de marcar sua estreia como autora
publicada, é o início de uma década em que Conceição Evaristo deixa para
trás a atuação no Negrícia e passa a ter uma atuação mais significativa dentro
da academia. A vida acadêmica aumentou sua rede de relações com a inte-
lectualidade negra: além de artistas e escritores/as, integravam-na agora pes-
quisadores/as e professores/as negros/as. Cabe a observação, nesse ponto, de
que é comum que o limite entre a arte e a pesquisa seja tênue: escritores/as
negros/as frequentemente produzem também reflexões de cunho acadêmico
sobre a literatura negra brasileira.
Embora a intensificação dessa rede e a “dupla função” de escritora e aca-
dêmica tenham conferido a Conceição uma posição de prestígio no campo
intelectual negro brasileiro, a condição de gueto imputada à literatura negra
dentro da literatura brasileira faz com que esse prestígio não signifique neces-
sariamente privilégio. Isso fica claro quando observamos os processos de pro-
dução editorial dos livros lançados por Conceição.
Seu primeiro romance, Ponciá Vicêncio (Evaristo, 2003), é ainda sua
obra mais conhecida e difundida, tendo uma edição em versão de bolso e
uma tradução para a língua inglesa. A editora, Mazza, foi procurada por
Conceição para realizar a publicação:

A Mazza eu já conhecia há anos, a pessoa Mazza [Maria Mazarello Rodri-


gues], a dona da editora, porque ela é mineira, eu também. [...] A editora
Mazza teve uma importância muito grande na história do Movimento
Negro porque foi a primeira editora a trabalhar [especificamente] com
autores negros. Então eu [...] resolvi perguntar se ela não queria publicar
Ponciá Vicêncio. Só que a Mazza não é uma grande editora, quer dizer, hoje
está até maior, mas naquela época não era uma grande editora. Então, na
verdade, ela aceitou publicar, mas eu tinha que bancar. Então eu fiz um
empréstimo bancário, levei mais de um ano pagando, no vermelho, e publi-
quei Ponciá Vicêncio. (Evaristo, 2013).
História Oral, v. 17, n. 1, p. 243-265, jan./jun. 2014 259

No mesmo ano da publicação de Ponciá, foi promulgada a Lei nº 10.639,


que determina a obrigatoriedade do ensino de história e cultura afro-brasi-
leira e africana nas escolas do Brasil. Nesse contexto, e diante da boa recep-
ção pela crítica literária e da crescente importância que Conceição adquiria
no campo acadêmico, o romance passou a integrar em 2004 a bibliografia
indicada para o vestibular da Universidade Federal de Minas Gerais. A indi-
cação para o vestibular é o provável motivo para a edição de bolso feita em
2006 pela Mazza (menor e mais barata do que a publicação original, prova-
velmente voltada para estudantes).
O sucesso de Ponciá não fez com que o livro chegasse aos circuitos de
distribuição mais amplos, como as grandes livrarias. Atualmente, é possí-
vel adquiri-lo em livrarias especializadas em temas afro-brasileiros, como a
Kitabu, no centro do Rio de Janeiro, e em eventos como a Primavera dos
Livros, promovida pela Libre (Liga Brasileira de Editoras), uma organização
de editoras independentes que reúne editoras universitárias e de pequeno e
médio porte, da qual a Mazza é membro.6 Por outro lado, a posição de pres-
tígio que Conceição ocupa no campo intelectual negro brasileiro viabilizou
a difusão internacional de sua obra. Foi por conta de um evento acadêmico
para o qual foi convidada a fazer uma comunicação que surgiu a possibilidade
de lançar uma edição de Ponciá Vicêncio em inglês. Elzbieta Szoka, fundadora
da editora norte-americana Host Publications e professora de literatura da
Universidade de Columbia, veio ao Brasil para um seminário sobre mulhe-
res e literatura, em Belo Horizonte, do qual Conceição fora convidada para
participar, juntamente com Esmeralda Ribeiro e Miriam Alves – a escritora
do grupo Quilombhoje envolvida na publicação de seu primeiro texto nos
Cadernos Negros. Esse encontro resultou na publicação de textos das três
brasileiras na coletânea intitulada Fourteen female voices from Brazil (Szoka,
2003); Conceição Evaristo participou da obra, editada pela Host, com o
conto “Ana Davenga”, publicado anteriormente nos Cadernos.7 Diante da boa
recepção do conto pelo público norte-americano, a Host realizou em 2007 a
tradução para a língua inglesa de Ponciá Vicêncio (Evaristo, 2007), que hoje
se encontra na segunda tiragem. Esse cenário de aceitação de Ponciá resultou
ainda num convite da Mazza em 2006 para publicar mais um romance de

6 Disponível em: <http://www.libre.org.br/>. Acesso em: 10 jan. 2013.


7 “Ana Davenga” está publicado no 18º número dos Cadernos Negros (Evaristo, 1995) e em Szoka (2003).
260 MACHADO, Bárbara Araújo. “Escrevivência”: a trajetória de Conceição Evaristo

Conceição, Becos da memória (Evaristo, 2006). O livro havia sido escrito em


1988, ano do centenário da abolição, quando houve uma movimentação sem
sucesso do Instituto Palmares para publicá-lo.
Após a publicação de Becos da memória, Conceição lançou em 2008
pela editora Nandyala a coletânea Poemas de recordação e outros movimentos
(Evaristo, 2008), edição que teve que bancar integralmente. Quando ques-
tionada do porquê da mudança de editora, Conceição afirmou que, além de
diversificar sua experiência de publicação, era uma forma de fortalecer uma
nova editora voltada para a temática afro-brasileira. Enquanto a Mazza foi
fundada em 1981 e compõe a Libre, a Nandyala foi fundada em 2006 por Íris
Amâncio, escritora negra e professora adjunta do departamento de Letras da
Universidade Federal Fluminense, onde Conceição realizou seu doutorado:

A Íris estava surgindo no mercado, era uma outra mulher negra que estava
também com uma editora [...]. Porque é muito difícil você se afirmar no
mercado, né? Mas quanto mais editoras existirem, [melhor]. Essas editoras
pequenas [travam] uma luta desigual com uma Companhia das Letras, por
exemplo. (Evaristo, 2013).

Em 2011, Conceição publicou uma coletânea de contos também pela


Nandyala, Insubmissas lágrimas de mulheres (Evaristo, 2011a), custeando
60% da produção do livro (o restante ficou a cargo da editora).
Nota-se, a partir da análise dos caminhos editoriais percorridos por
Conceição Evaristo, as dificuldades enfrentadas pela autora para publicar sua
obra, a despeito da importante posição ocupada por ela no campo intelectual
negro. Isso acontece porque ser uma escritora negra brasileira de prestígio
significa ser uma escritora negra brasileira, isto é, ocupar um lugar impor-
tante dentro de um campo que, por sua vez, está em uma posição subalterna
no campo mais amplo da literatura brasileira. É sintomático, portanto, que
Conceição tenha ainda que pagar por parte da edição de seus livros, como
ocorreu com Insubmissas lágrimas de mulheres. Essa situação revela o lugar de
gueto que a literatura negra ainda ocupa dentro do campo editorial amplo,
bem como a posição problemática da literatura negra em relação à literatura
brasileira.
Além disso, foi possível perceber como o envolvimento de uma série de
agentes no processo de produção editorial pode se dar na base das relações
interpessoais. Esse quadro pode ser melhor compreendido se considerarmos
História Oral, v. 17, n. 1, p. 243-265, jan./jun. 2014 261

alguns aspectos da história do campo editorial. Roger Chartier afirma que,


desde o século XIX até recentemente, as editoras têm sido caracterizadas por
uma “natureza pessoal”, segundo a qual os editores “imprimem uma marca
muito pessoal à sua empresa”, inventando “novos mercados (novos ‘nichos’,
diríamos hoje)” (Chartier, 1999, p. 51-52). De fato, tanto a Mazza quanto a
Nandyala são reconhecidas pelos escritores e pelos leitores em relação à per-
sonalidade da pessoa-editora, respectivamente as intelectuais negras minei-
ras Maria Mazarello Rodrigues e Íris Amâncio. Ambas as editoras foram
fundadas com o intuito de proporcionar um espaço editorial – previamente
inexistente ou muito pequeno – para difundir textos sobre assuntos afro-
-brasileiros e de autoria de pessoas negras.
Pequenas editoras como essas, cuja especificidade é seu recorte temá-
tico de cunho político, enfrentam uma recomposição recente do campo
editorial, na qual figuram as grandes editoras que Chartier caracteriza como
“empresas multimídia, de capital infinitamente mais variado e muito menos
pessoal” (Chartier, 1999, p. 51-52). Essas grandes empresas editoriais ope-
ram com outra lógica de mercado, sem uma definição ideológica pública,
como no caso das editoras negras. A classificação proposta por Gustavo Sorá
(1997) pode ajudar a caracterizar esses dois tipos de editoras: de um lado, as
“empresas comerciais”, “orientadas por investimentos seguros a curto prazo”;
de outro, as “empresas culturais”, “orientadas por investimentos arriscados a
longo prazo”. Essa diferença se manifesta

nos gêneros tratados, nas concepções de autor, nas tiragens, nos estilos de
lançamentos de títulos, nos circuitos de difusão utilizados, nas estratégias
de reedição e, fundamentalmente, nas formas de adquirir textos, de se rela-
cionar com os escritores, com seus leitores e com os leitores que pretendem
alcançar. (Sorá, 1997, p. 154).

Podemos considerar, portanto, as editoras negras como empresas cul-


turais que, considerando-se a concorrência com as empresas comerciais,
enfrentam enorme dificuldade de distribuição e mesmo de manutenção da
própria existência. Se o mercado editorial é, antes de tudo, um mercado, as
empresas editoriais comerciais permanecem com as vantagens materiais de
produção e circulação.
262 MACHADO, Bárbara Araújo. “Escrevivência”: a trajetória de Conceição Evaristo

Considerações finais

Busquei até aqui apresentar e analisar a trajetória de Conceição Evaristo,


tecida a partir de seus depoimentos. Com isso, pode-se perceber de que forma
ela experimentou as relações de gênero, classe e raça, bem como o sofrimento
resultante da complexa desigualdade social associada a essas relações. Além
disso, percebeu-se que sua trajetória acompanhou, em linhas gerais, o desen-
volvimento histórico do Movimento Negro. É possível identificar na década
de 1980 uma primeira fase da militância de Evaristo, cuja atuação política
se dava de forma mais “concreta”, no sentido de que a autora estava presente
fisicamente em saraus, leituras de poesia e debates em espaços populares, em
diálogo direto com seu público-alvo: a população negra, entre militantes e
aqueles/as que se pretendiam conscientizar para a militância. Num segundo
momento, a década de 1990, que coincide com o fim do grupo Negrícia, com
a publicação de seu primeiro texto nos Cadernos Negros e com seu ingresso
no mestrado, Evaristo passa a ter uma atuação mais significativa dentro da
academia. Nesse momento, ela se individualiza na militância, ao mesmo
tempo em que ascende no campo intelectual: a autora, principalmente na
última década, tem ganhado cada vez mais destaque como escritora negra
brasileira, e tornou-se uma das grandes referências na história da literatura
negra brasileira.
O caráter acentuadamente acadêmico da atuação de Conceição a partir
da década de 1990 pode ser relacionado ao contexto mais amplo do Movi-
mento Negro. Se nos anos 1980 o Movimento era mais forte nas ruas, na
década seguinte, principalmente a partir da nova Constituição Civil de 1988,
as lutas parecem ter passado a ser travadas principalmente em marcos insti-
tucionais, tendo as movimentações nas ruas ficado menos evidentes. Com
a incorporação de determinadas demandas à Constituição, o Movimento
passou a cobrar a aplicação dessas medidas e sua ampliação. Como exemplo,
temos a mobilização das comunidades remanescentes de quilombos que vêm
reivindicando a titulação das terras em que vivem por meio do artigo 68 do
Ato das Disposições Transitórias da Constituição de 1988.
Em um segundo momento do artigo, procurei deter o olhar sobre os
processos de produção editorial das publicações literárias de Conceição, com
o objetivo de observar um pouco do funcionamento do campo editorial da
literatura negra e das estratégias utilizadas por intelectuais negras/os para
História Oral, v. 17, n. 1, p. 243-265, jan./jun. 2014 263

viabilizar a difusão de sua obra. Conclui-se que, diante da complexa realidade


mercadológica do campo editorial, autores/as negros/as enfrentam dificul-
dades específicas em uma sociedade que nega a própria existência do racismo
em seu seio, atuando, assim, para reproduzi-lo.

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História Oral, v. 17, n. 1, p. 243-265, jan./jun. 2014 265

Resumo: No presente artigo, procuro analisar a trajetória da escritora negra mineira Conceição
Evaristo, com base em duas entrevistas que fiz com ela e em um depoimento que escreveu.
Para tanto, considerei desde suas experiências com as crueldades do racismo na infância até
as diferentes estratégias que tem utilizado para combatê-lo. Creio ser possível afirmar que
a trajetória desta autora acompanha, em linhas gerais, as mudanças observadas na história
do Movimento Negro contemporâneo no Brasil. Nesse sentido, pode ajudar a compreender
a atuação militante de escritores/as negros/as na contemporaneidade, suas conquistas e seus
desafios em uma sociedade ainda marcada pela discriminação racial. Busquei, ainda, perceber
de que forma Conceição estabeleceu uma rede de relações para viabilizar suas publicações, com
o objetivo de compreender alguns aspectos do funcionamento do campo editorial de literatura
negra.

Palavras-chave: Movimento Negro, literatura negra, mulheres negras, Conceição Evaristo.

“Escrevivência”: Conceição Evaristo’s trajectory

Abstract: In this article the trajectory of Conceição Evaristo, a Black writer from Minas Gerais,
Brazil, is analyzed through two interviews she gave to me and a testimony she wrote. For this,
I have considered her experiences with the cruelty of racism during her childhood, as well as
the different strategies she has been using to fight racial discrimination. It is possible to state
that this author’s trajectory follows the overall changes that have occurred in the history of
the contemporary Black Movement in Brazil. Thus, analyzing her trajectory might help to
understand Black writers activism in contemporary times, as well as their accomplishments
and challenges in a society marked by racial discrimination. I also sought to understand how
Evaristo established a relationship network to make her publications possible; this might help
us to comprehend some aspects of how the editorial field of Black literature works.

Keywords: Black movement; Black literature; Black women, Conceição Evaristo.

Recebido em 1º/04/2014
Aprovado em 31/07/2014
DOSSIÊ

Família, lei e memória:


subjetividades construindo parentesco
(Florianópolis, 1970-1990)

Silvia Maria Fávero Arend*

Introdução

Ao longo do século XX, no Brasil, mulheres e homens transferiram sua


prole para outras famílias ou instituições. A colocação de meninos e meninas em
abrigos e a filiação adotiva – temporária ou permanente – foram “estratégias”
utilizadas, sobretudo em função da pobreza, por pessoas que visavam a sobrevi-
vência de crianças, adolescentes e jovens. A antropóloga social Cláudia Fonseca
afirma que sem essas práticas, parte dessa população infanto-juvenil pobre possi-
velmente não teria galgado a idade adulta no país (Fonseca, 1995, p. 73).
Foi a partir do século XX, com os governos republicanos, que a inge-
rência exercida por representantes do Poder Judiciário no relacionamento
das famílias brasileiras tomou maior vulto. Em 1916, por meio da institui-
ção do Código Civil (Brasil, 1916), os valores e as práticas da norma fami-
liar burguesa foram dispostos em lei. Os dois Códigos de Menores (Brasil,
1927, 1979), que prescreviam os direitos e os deveres de menores de idade,
bem como as responsabilidades de adultos, oscilavam entre uma “tentativa
de judicializar o problema sob a forma de leis penais e medidas repressivas
duras” e a proteção social ampla, na forma de políticas públicas, com mínima
participação do Judiciário (Pilotti; Rizzini, 1995, p. 33).

* Professora do curso de graduação em História e do Programa de Pós-Graduação em História da Univer-


sidade do Estado de Santa Catarina (UDESC).
72 AREND, Silvia Maria Fávero. Família, lei e memória: subjetividades construindo parentesco (Florianópolis, 1970-1990)

Com a legislação vigente no Brasil entre 1916 e 1988, a filiação adotiva


ganhou normatização jurídica. O Código Civil de 1916 preconizava que a
adoção, em suas predisposições jurídicas, era revogável e aditiva, ou seja, o
vínculo com a família consanguínea do adotado não necessitava ser rom-
pido e, caso existisse prole considerada legítima, o filho adotado herdaria
somente a metade do que coubesse aos consanguíneos. A Lei nº 3.133, de
1957, não modificou o que estava prescrito no Código Civil: somente alte-
rou a idade mínima do adotante de 50 para 30 anos e a diferença de idade
entre o adotado e adotante de 18 para 16 anos. Já a Lei nº 4.655, de 1965,
trouxe algumas mudanças significativas. Uma nova modalidade de adoção
entrava em cena no Brasil de forma concomitante à aditiva. Nessa modali-
dade – nominada substitutiva –, restrita aos menores de sete anos, a relação
entre pais e filhos adotivos tornava‑se irrevogável do ponto de vista jurídico
e o contato entre o adotado e seus parentes consanguíneos passava a ser coi-
bido. O Código de Menores de 1979, que entrou em vigor durante a dita-
dura militar, possibilitava que os adotantes optassem por uma das modali-
dades de adoção: a aditiva, denominada simples e a substitutiva, intitulada
plena (Fonseca, 1995, p. 120-121).
As leis no âmbito do direito da família e da infância no Brasil expres-
sam as práticas e os valores disseminados especialmente entre os segmentos
sociais dominantes, bem como os embates travados em torno do tema. As
primeiras leis relativas à filiação adotiva eram norteadas pela “cultura do filho
de criação”, de longa data instituída na sociedade brasileira. As pessoas ado-
tadas sob a lógica do “filho de criação”, em sua grande maioria, eram utiliza-
das como mão de obra, principalmente no âmbito doméstico ou no labor
rural, por famílias da elite e da classe média (Arend, 2011). A permanência
do vínculo com a família consanguínea e a desigual divisão da herança em
desfavor do filho adotivo ou da filha adotiva apontam para tal fato. A partir
dos anos 1960, principalmente no universo urbano, esse cenário começou
a sofrer alterações. A lei de 1965 indica que outras experiências em relação
à filiação adotiva começavam a emergir no país. Esse processo de mudança
do ponto de vista jurídico culminou, em 1990, no Artigo 20 do Estatuto
da Criança e do Adolescente: “Os filhos, havidos ou não da relação do casa-
mento, ou por adoção, terão os mesmos direitos e qualificações, proibidas
quaisquer designações discriminatórias relativas à filiação” (Brasil, 1990,
art. 20). Neste estudo, o foco da análise recai sobre experiências de filiação
adotiva vivenciadas por mulheres e homens no Brasil nas últimas décadas do
História Oral, v. 17, n. 1, p. 71-88, jan./jun. 2014 73

século XX. Objetiva-se identificar as principais características dessas experi-


ências para demonstrar como essa forma de parentesco, construída a partir
das subjetividades, foi vivenciada na sociedade brasileira no referido período
(Zonabend, 1996). Por meio de investigações orientadas pela história oral, é
possível descrever essas experiências tendo em vista a perspectiva das pessoas
participaram do processo como filhos e filhas adotivos. O historiador inglês
Paul Thompson sublinhou o impacto positivo provocado pela história oral
em diversos campos da história, como a história da família e a história da
infância e juventude:

O traço mais surpreendente de todos, porém, talvez seja o impacto trans-


formador da história oral sobre a história da família. Sem a evidência oral,
o historiador pode, de fato, descobrir muito pouca coisa, quer sobre os
contatos comuns da família com vizinhos e parentes, quer sobre suas rela-
ções internas. Os papéis de marido e mulher, a educação de meninas e
meninos, os conflitos e dependências emocionais e materiais, a luta dos
jovens pela independência, o namoro, o comportamento sexual dentro e
fora do casamento, a contracepção e o aborto – todas essas eram, efetiva-
mente, áreas secretas. [...] Com o uso da entrevista, é possível agora desen-
volver uma história bem mais completa da família através dos últimos
noventa anos, e estabelecer seus padrões e mudanças principais no correr
do tempo, de lugar para lugar, durante o ciclo da vida e entre os sexos. Pela
primeira vez, torna-se viável a história da infância como um todo. E, dada
a predominância da família na vida das mulheres, pelo trabalho em casa,
pelo serviço doméstico e pela maternidade, verifica-se um alargamento
quase equivalente do campo de ação da história da mulher. (Thompson,
1992, p. 27-28).

O uso das fontes orais oportuniza que os historiadores apreendam


experiências anteriormente “invisíveis”: por meio dos relatos de memória, é
possível conhecer dimensões privadas da vida, como, neste caso, as subjetivi-
dades infanto-juvenis e os eventos cotidianos da vida de meninas, meninos,
mulheres e homens que normalmente não aparecem em documentos escritos
ou de outra natureza. A história oral, portanto, engendra um alargamento
das possibilidades da escrita da história, como afirma Paul Thompson. Essas
dimensões visibilizadas por meio da história oral são importantes não apenas
porque colocam em destaque novos personagens, mas porque evidenciam o
74 AREND, Silvia Maria Fávero. Família, lei e memória: subjetividades construindo parentesco (Florianópolis, 1970-1990)

papel político desempenhado pelas pessoas em determinadas fases da vida –


ou então, em espaços sociais considerados sem importância.
Nesta investigação, foram realizadas seis entrevistas com pessoas ado-
tadas. Quatro delas foram concedidas por mulheres e duas por homens
residentes na cidade de Florianópolis que foram adotados entre 1970 e
1980. A realização desse estudo na capital do estado de Santa Catarina jus-
tifica-se pelo fato dessa cidade ser representativa em relação ao processo de
modernização das relações sociais que se operaram nas famílias das cama-
das médias. Eis o que afirmam as historiadoras Marlene de Fáveri e Teresa
Adami Tanaka:

O Brasil, sob o regime militar instaurado desde 31 de março de 1964, vivia


em 1977 um clima de esperança de redemocratização, a chamada ‘distensão
política, prometida pelo Presidente Ernesto Geisel ao assumir o governo
em 1974, após os ‘anos de chumbo’ do governo do General Emílio Gar-
rastazu Médici (1969-1974). O tema da modernização do país era ampla-
mente utilizado pelos governantes e estava sempre presente nas discussões
naquele período: o Brasil não seria mais um país subdesenvolvido, agora
passaria a ser um país ‘em desenvolvimento’. A cidade de Florianópolis, nos
anos 1970, caminhava no compasso dos discursos desenvolvimentistas e
passava por um ‘intenso processo de remodelação e expansão’, com gran-
des obras de intervenção urbana, como a construção da Ponte Colombo
Sales e do aterro da Baía Sul, a abertura de vias expressas, em ritmo acele-
rado de mudanças na ocupação dos espaços e alterando a paisagem urbana
para uma modernização da cidade, que, sendo capital do estado, tinha, até
a década de 1970, uma economia urbana apoiada, principalmente, na sua
função administrativa, e buscava alterar essa situação marginal em relação a
outras regiões do estado de Santa Catarina e ao panorama nacional. (Fáveri;
Tanaka, 2010, p. 366).

Florianópolis, como afirmam as autoras, passou por um processo de


modernização de sua infraestrutura urbana nos anos 1970. Porém, ocor-
reu também em outras esferas sociais. Desde a década anterior, as empresas
estatais e as universidades – criadas pelos governos militares – sediadas na
cidade acolheram profissionais provenientes de diferentes regiões do país.que
adensaram as camadas médias que já habitavam a urbe. No Brasil, as relações
sociais vigentes nas famílias da classe média passavam por transformações
História Oral, v. 17, n. 1, p. 71-88, jan./jun. 2014 75

pautadas na noção de igualdade (inclusive jurídica) no campo das relações de


gênero e da relação de filiação (Arend, 2013). Foi entre essas famílias da classe
média que buscamos localizar os/as entrevistados/as.
No processo de localização de entrevistados/as, optou-se por recorrer à
rede social de conhecidos, especialmente em função das dificuldades em abor-
dar um tema ainda considerado por muitos como um tabu. Caso se utilizassem
somente os dados produzidos pelo Poder Judiciário, como se demonstrará a
seguir, a narrativa apresentaria grandes lacunas. Várias pessoas foram contata-
das e um número significativo recusou‑se a conceder uma entrevista alegando
dificuldades em “falar do passado”. Essa recusa também forneceu pistas sobre as
mudanças ocorridas em relação à filiação adotiva no período em estudo. Cri-
térios de sexo, etnia e geração foram utilizados na seleção dos entrevistados.
Buscou-se entrevistar homens e mulheres visando perceber se essa variável era
importante no processo de construção da relação de filiação adotiva em um
momento histórico no qual as famílias de classe média almejavam tornar as
relações sociais mais igualitárias entre os sexos. Procurou-se entrevistar também
pessoas oriundas de diferentes grupos étnico-raciais – portugueses, alemães,
italianos, indígenas e afrodescendentes – com o objetivo de constatar se essa
variável cultural era significativa na edificação da relação de filiação adotiva. (É
importante lembrar que o estado de Santa Catarina recebeu um grande con-
tingente de imigrantes alemães e italianos durante o século XIX e início do
século XX. Antes disso, algumas regiões do estado foram marcadas pela colo-
nização açoriana e pela presença de africanos escravizados; em outras regiões,
teve peso a figura do caboclo, descendente de indígenas e de europeus.) Por fim,
buscou-se entrevistar pessoas que haviam sido adotadas nas décadas de 1970 e
1980 com o intuito de verificar se havia diferenças entre esses dois momentos
históricos, ou seja, no período em que paulatinamente a filiação adotiva dei-
xava de ser tratada a partir de uma perspectiva do segredo, como explicitaremos
posteriormente.
Não se pode também deixar de mencionar que durante as entrevistas,
ao narrarem suas memórias desde a infância até a fase adulta, os depoentes
emocionaram‑se bastante. Os entrevistados/as sondaram amigos e conhe-
cidos no intuito de confirmar se a pesquisadora era historiadora ou jorna-
lista. Além das seis pessoas mencionadas, cuja identidade será preservada,
foram entrevistadas também a antiga presidente do Grupo de Estudos e
Apoio à Adoção de Florianópolis (GEAAF), Cecília Larroid Cardoso, e
a secretária da Comissão Estadual Judiciária para a Adoção (CEJA-SC),
76 AREND, Silvia Maria Fávero. Família, lei e memória: subjetividades construindo parentesco (Florianópolis, 1970-1990)

sediada no Tribunal de Justiça do Estado de Santa Catarina, a assistente


social Mery Ann das Graças Furtado e Silva.1
As entrevistas com filhos e filhas adotivos foram realizadas a partir de
um roteiro pré‑estabelecido de questões que tematizavam as relações sociais
vivenciadas no plano do indivíduo, da parentela, da escola e do mundo do
trabalho.2 O roteiro para as entrevistas com a antiga presidente do GEAAF e
com a secretária da CEJA-SC, por sua vez, foi pautado nos papéis desempe-
nhados pelas duas instituições em relação à filiação adotiva na sociedade bra-
sileira desde a instituição do Estatuto da Criança e do Adolescente, em 1990.
É importante observar ainda que a rememoração de eventos ocorridos
na idade da vida denominada infância, conforme o historiador Eduardo Sil-
veira Netto Nunes (2005), deve ser analisada pelo pesquisador a partir de um
olhar vigilante, pois, quando se trata desse período, são notáveis as tendências
tanto de “romantizar” quanto de tornar “sombrias” as experiências.

“Adoção à brasileira” x
adoção mediada pelo Poder Judiciário

Nos últimos 40 anos, no estado de Santa Catarina, um conjunto de


fatores impulsionou homens e mulheres que viviam no campo a se transferi-
rem para as cidades: o processo de esfacelamento de pequenas propriedades
rurais de descendentes de europeus, devido à partilha da terra no momento
da herança; a mecanização agrícola; a concentração fundiária nas regiões
do Planalto e do Meio Oeste; a falta de financiamento por parte do Estado
para os agricultores. Os residentes do interior do estado que migraram para
Florianópolis compartilhavam o espaço urbano com uma população pobre
descendente de portugueses e de africanos que vivia na cidade havia várias
gerações.
Nas décadas de 1970 e 1980, a população pobre da capital catarinense
aumentou em número e heterogeneidade, com valores e práticas de diferentes

1 Agradeço a Mery Ann das Graças Furtado e Silva e aos demais membros da equipe da Comissão Esta-
dual Judiciária de Adoção de Santa Catarina o constante apoio na realização de investigações acerca da
história da família e da história da infância e juventude no Brasil.
2 Na construção desta narrativa histórica foram utilizados nomes fictícios, visando preservar a identidade
dosas entrevistados/as e de sua parentela.
História Oral, v. 17, n. 1, p. 71-88, jan./jun. 2014 77

etnias e distintas condições de acesso à alfabetização e à cultura urbana –


para muitos, o modo de ser do mundo rural não fora totalmente esquecido.
Esses homens e mulheres desempenhavam atividades ocupacionais diversas,
como a de lavadeira, empregada doméstica, operário da construção civil,
entre outras (Fantin, 2000). Mães e pais de pessoas que se tornaram filhos e
filhas adotivos eram oriundos desse estrato populacional, segundo o relato da
maior parte dos depoentes. As experiências dessas pessoas pobres, bem como
de seus filhos e filhas consanguíneos, passarão a ser descritas a partir de agora.
No inverno de 1978, uma mulher, aqui identificada como Selma, per-
corria um bairro de Florianópolis, de casa em casa, perguntando se alguém
queria “pegar” uma menina de cinco meses. A menina estava muito magra e
cheia de feridas. Selma morava em um casebre, fora expulsa de casa quando
jovem, ingeria bebidas alcoólicas com frequência e já tinha doado outros
filhos. Uma dona de casa que chamaremos Gertrudes aceitou ficar com a
menina, contanto que fosse “de papel passado”. Gertrudes e seu marido, neste
estudo chamado de Evaldo, foram ao cartório de registro civil da cidade e
registraram a menina, aqui denominada Isabel, como sua filha legítima, afir-
mando que havia nascido no domicílio. Outra experiência foi a de Odete
– como será identificada –, adotada pelo mesmo casal: nascida em uma das
maternidades de Florianópolis, foi logo transferida para a sua família adotiva,
e também registrada como filha legítima.
A menina aqui identificada pelo pseudônimo de Joceline, por sua vez,
nasceu em um país da América do Sul, onde viveu até os oito anos de idade
na casa de uma tia, pois sua mãe consanguínea era muito pobre. Nessa idade,
foi transferida para uma família brasileira que morava em Santa Catarina.
Quando Joceline tinha 13 anos, sua mãe adotiva, com receio de que o setor
de imigração brasileiro a enviasse de volta a seu país de origem, recorreu a
conhecidos de um cartório da cidade para regularizar a situação da criança,
ou seja, conseguiu “torná-la” filha legítima. Joceline obteve assim a naciona-
lidade brasileira.
Isabel, Odete e Joceline foram adotadas durante a década de 1970. As
três meninas ingressaram em suas famílias adotivas de diferentes formas,
contudo as suas adoções se deram por meio de uma prática amplamente
difundida na sociedade, chamada pelos representantes do Poder Judiciário
de “adoção à brasileira”. Essa prática consistia simplesmente no compareci-
mento dos pais e mães adotivos a um cartório para registrar a criança ou o
jovem como filho legítimo. O processo, aparentemente só de cunho jurídico,
78 AREND, Silvia Maria Fávero. Família, lei e memória: subjetividades construindo parentesco (Florianópolis, 1970-1990)

guardava vários significados. Pais adotivos – majoritariamente pertencentes


à classe média –, em função de preconceitos e inseguranças, optavam por
“apagar” a história da adoção, como também por silenciar sobre a origem
social do filho ou filha adotiva, que era proveniente geralmente de grupos
sociais empobrecidos, rurais ou urbanos. Essa “ficção jurídica” possibilitava
à criança ou ao jovem adotado ser percebido pela sociedade como filho de
pais consanguíneos. Essa prática produzia o chamado “segredo da adoção”,
que, segundo a literatura psicológica, ao ser revelado durante no período da
juventude ou da fase adulta, ocasionava muitas vezes problemas existenciais
entre as pessoas adotadas (Levinzon, 1999). Não há registros do número de
“adoções à brasileira” acontecidas em Florianópolis na década de 1970. Toda-
via, as entrevistas sugerem que essa era uma a prática que geralmente vigorava
entre as famílias de classe média da cidade.
As crianças aqui chamadas de Ingrid, Pedro e Francisco foram adotadas
na década de 1980 por casais que residiam em Florianópolis. Os dois meninos
nasceram em uma maternidade da capital catarinense e foram transferidos
para as suas famílias adotivas nos primeiros dias de vida. A menina, aos cinco
meses, devido à desnutrição e a problemas respiratórios, foi internada em um
hospital da cidade. Passado algum tempo, os parentes da criança “desapare-
ceram” do hospital. Ingrid foi então transferida para uma nova família na
condição de filha adotiva. Essas três adoções aconteceram com a mediação de
representantes do Poder Judiciário, e as crianças foram registradas nos cartó-
rios de Florianópolis como filhas adotivas de seus pais.
Os pais e mães adotivos dos entrevistados eram em sua maioria funcio-
nários públicos e donas de casa, mas também há entre eles comerciantes e pro-
fissionais da área da saúde. As classes médias de Florianópolis nas décadas de
1970 e 1980 eram provenientes sobretudo de dois grupos sociais, conforme
se afirmou anteriormente. Uma parcela dessa população pertencia a famílias
estabelecidas na cidade havia gerações, e atuava em profissões liberais e no
serviço público estadual. A outra parcela era composta de pessoas de diferen-
tes regiões do país que haviam se transferido para o município para trabalhar
nas empresas federais e estaduais sediadas na cidade, tais como a Eletrosul, a
Celesc (Centrais Elétricas de Santa Catarina), a Telesc (Telecomunicações de
Santa Catarina) e a UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina).
Ingrid e Francisco afirmaram que seus pais optaram pela filiação adotiva
em função da infertilidade do casal. Eis como Ingrid descreveu o que moti-
vou a sua adoção: “Era uma casa que tinha um pai, tinha uma mãe e tinha
História Oral, v. 17, n. 1, p. 71-88, jan./jun. 2014 79

uma avó. Só faltava um neném! E esse neném que faltava era eu. Eu que tinha
sido escolhida pra ser esse neném”. Ou seja, a menina ingressou na família na
condição de filha, seja do ponto de vista psicológico de seus pais e parentes,
seja do ponto de vista jurídico. De outra parte, por meio das entrevistas de
Joceline e Isabel, constata-se que lógica da caridade e a perspectiva de obten-
ção de mão de obra ainda estiveram presentes como motivações para suas
adoções. No trecho a seguir, Joceline explicita por que foi adotada aos oito
anos de idade por sua mãe, que na época tinha um filho pequeno:

Claro, ela aproveitou decerto para eu ficar de babá e já me criar, entendeu?


Acho que é isso [risos]. Nunca perguntei, assim, para ela o porquê. [...] Eu
acho, assim, também que ela ficou com pena, certo. Sabendo como era lá
[país onde nasceu] e que vida que eu ia continuar levando, né.

Isabel, por sua vez, narrou da seguinte forma a sua adoção, pautada pela
lógica da caridade:

Eu era uma criança isolada das outras, e tive uma educação rígida. Quando
eu fui entregue para a mãe adotiva, não foi através de adoção formal. Minha
mãe adotiva era estéril. A outra mãe andava no bairro me ofertando de casa
em casa porque o pai biológico ‘não tinha assumido’. A mãe biológica já
tinha sido expulsa de casa e vivia embaixo das pontes da cidade. Ela tinha
outros filhos. Os avós toleravam os filhos anteriores. Vários, uns oito ou
nove. Quando eu vim, eles expulsaram a mulher de casa. Aí, ela caiu no
desespero, porque não tinha com quem me deixar. Falam que eu ficava o
dia inteiro jogada no barraco sozinha. O outro filho da minha mãe bio-
lógica já tinha morrido por causa disso. Aí, pelo que eu sei, a adoção foi
agilizada porque o meu estado de saúde era muito crítico: problemas de
pulmão, asma, tudo.

Questões socioculturais e de ordem jurídica levaram os pais adotivos de


Ingrid, Pedro e Francisco a preferir operacionalizar a adoção por “caminhos
legais” na década de 1980. A adoção realizada sob os auspícios do Estado
brasileiro proporcionava segurança aos pais e mães adotantes: após a sua efe-
tivação, os representantes do Poder Judiciário ou os parentes consanguíneos
das crianças não poderiam retirá-las da nova família. Desde 1965, a lei federal
garantia aos filhos e filhas adotados sob o instituto jurídico da adoção plena
80 AREND, Silvia Maria Fávero. Família, lei e memória: subjetividades construindo parentesco (Florianópolis, 1970-1990)

direitos de sucessão iguais aos dos filhos consanguíneos. Na “adoção à brasi-


leira”, muitas vezes, os parentes consanguíneos dos adotados tentavam “pegar
de volta” o infante.
Os principais argumentos apresentados pelos adotantes para explicar
sua recusa à adoção sob a mediação do Poder Judiciário envolviam o longo
tempo de espera até a chegada do filho (um ou dois anos), além de conside-
rarem indesejável, por diferentes motivos, a visita de assistentes sociais do
Poder Judiciário em suas residências para monitorar a relação estabelecida
entre o adotado e a nova família. De acordo com a secretária geral da CEJA-
-SC, esse período de observação, com duração média de cerca de um ano, é
necessário para garantir os direitos e o bem-estar de todas as partes envolvi-
das no processo de adoção. Segundo Ingrid, seus pais temiam que durante o
seu primeiro ano de estada com a nova família as assistentes sociais do Poder
Judiciário emitissem um parecer desfavorável à sua adoção. A mãe adotiva
contou‑lhe que esse período de acompanhamento das autoridades judiciais
foi um tempo de muita ansiedade e insegurança. Ingrid, Francisco e Pedro,
por sua vez, afirmaram que se sentiam tranquilos pelo fato de suas adoções
terem sido realizadas de “papel passado”.

“Lógica do segredo” x “lógica da verdade”

Domingos Abreu (2002), que pesquisou o tema da adoção internacio-


nal na região nordeste do Brasil entre as décadas de 1970 e 1990, sugeriu
que nesse período os adotados experienciaram duas lógicas culturais distin-
tas. Nos anos 1970, prevaleceria a “lógica do segredo”, ou seja, somente um
círculo muito pequeno de pessoas sabia do fato, que muitas vezes era omi-
tido aos próprios adotados. Essa lógica contribuía para que a temática fosse
tratada pela sociedade em geral de forma preconceituosa. A partir dos anos
1980, teria começado a ganhar espaço a “lógica da verdade”, segundo a qual
a condição da adoção deixa de ser segredo nos âmbitos interno e externo à
família.
As entrevistas mostraram que a questão é mais complexa do que o pro-
posto pelo sociólogo. Constatamos que as conotações singulares atribuídas à
adoção pelos membros da família constituem uma variável com grande peso
na experiência de pessoas adotadas e relativizam a “lógica da verdade”. Os
entrevistados afirmaram que raramente dialogavam com parentes, amigos ou
História Oral, v. 17, n. 1, p. 71-88, jan./jun. 2014 81

conhecidos sobre seu tipo de filiação. Para Pedro, a relação com os pais era
“normal”, então o tema não suscitava interesse. Para Joceline, falar sobre sua
adoção significava “rememorar coisas tristes”. Assim como sua mãe adotiva,
preferia não “tocar no assunto” com irmãos e outras pessoas. Isabel afirmou
que comentava a sua filiação com pessoas amigas, mas não com os pais adoti-
vos. Ingrid foi a única entrevistada que afirmou dialogar sobre esse tema com
sua mãe adotiva, parentes e amigos.
Os entrevistados, com exceção de Isabel, sabiam desde a infância de sua
condição de adotivos. As expressões para falar sobre esse tema nas entrevistas
usualmente variaram entre “eu sempre soube” e “essa ideia foi colocada em
mim desde pequeninha”. Essa abordagem da filiação adotiva pode ter sido
influenciada pelos saberes da psicologia e da psicanálise, que nas décadas de
1960 e 1970 passaram a ser difundidos entre as camadas médias no Brasil
por meio de diferentes instituições (com destaque para a escola) e veículos de
informação (como as revistas Realidade e Claudia, por exemplo, que difun-
diam um discurso considerado mais moderno sobre a família e as relações de
gênero).
Devido ao fato da filiação adotiva ser construída com base nas subje-
tividades, psicólogos têm procurado abordar a temática em seus estudos.
Segundo a psicóloga Lídia Natalia Dobrianskyj Weber (1999), as pessoas
adotadas carregam consigo, em sua subjetividade, a “angústia da separação”.
Esse sentimento, quando potencializado em situações-limite que envolvem
perdas ou abandonos, faz com que o equilíbrio psíquico dessas pessoas se
fragilize. Visando evitar crises psíquicas, intituladas no senso comum de
“revolta”, os pais costumam ser aconselhados a contar para a criança desde a
mais tenra idade que foi adotada. Ingrid, Pedro e Odete afirmaram que não
eram “revoltados”, mas que sabiam de pessoas que haviam se rebelado porque
a revelação do “segredo da adoção” ocorreu somente na fase adulta da vida.
Isabel, por sua vez, descobriu que era filha adotiva durante a fase deno-
minada de pré‑adolescência. Em uma aula sobre “cruzamentos de raças” acon-
tecidos no Brasil, a professora explicou que a miscigenação ocorrida entre
indígenas e portugueses resultava nocaboclo. Isabel, cuja mãe adotiva era des-
cendente de indígenas e imigrantes italianos e cujo pai adotivo tinha ascen-
dentes portugueses, não se identificou com a representação gráfica docabo-
clo. Identificou‑se, porém, com o desenho do que seria um mulato. Naquele
dia, ao chegar em casa, questionou os pais quanto à diferença de fenótipo
existente entre eles. A mãe teria dito, em resposta, que Isabel era “filha do
82 AREND, Silvia Maria Fávero. Família, lei e memória: subjetividades construindo parentesco (Florianópolis, 1970-1990)

coração”. A declaração da mãe adotiva lhe provocou um choque, seguido por


um longo tempo de tristeza, como se estivesse “isolada do mundo”. Todavia,
Isabel enfatizou em sua entrevista que, após a revelação do “segredo da ado-
ção”, um “canal se abriu”, ou seja, nos embates que aconteciam no cotidiano,
seus pais adotivos passaram a lhe “jogar na cara” que ela não era filha consan-
guínea deles. Nesse caso, os laços afetivos estabelecidos não eram tão fortes a
ponto de superar a ausência de laços consanguíneos.

Laços de sangue x laços afetivos

No Brasil, os valores e as práticas da norma familiar burguesa foram


introduzidos de forma mais efetiva entre as camadas médias a partir da década
de 1940. Segundo Jurandir Freire Costa (1989) – à luz dos ensinamentos
de Michel Foucault –, esse conjunto de relações sociais visava transformar a
criança em um adulto produtivo. Tendo em vista essa perspectiva, as mulhe-
res passaram a desempenhar os papéis de donas de casa e mães, enquanto
os homens apresentavam‑se como provedores do lar. Os pais consanguíneos
tornaram-se responsáveis pelos cuidados materiais e afetivos, assim como pela
educação escolar de sua prole. Nessa configuração de família, o parentesco
entre pais/mães e filhos/filhas passou a ser construído a partir de uma dupla
via: a consanguinidade e a afetividade. Na ausência da primeira, a possibili-
dade da construção do parentesco por meio dos laços afetivos foi tornando a
adoção uma alternativa socialmente aceita no Brasil.
As expressões utilizadas pelas mães e pais visando à construção de laços
de parentesco, segundo os entrevistados, eram as seguintes: “meu filho”;
“filho adotivo”; “filho do coração”; “filho que não nasceu da barriga”; “filho
de criação”. Em contrapartida, os entrevistados referiram-se às pessoas que
os adotaram simplesmente por meio das palavras “mãe” e “pai”. O adjetivo
“adotivo” associado aos pais não foi utilizado por nenhum dos entrevistados
em suas reminiscências.
Ingrid, Francisco e Pedro afirmaram que seus pais foram responsáveis
pelos cuidados materiais e afetivos e pela educação escolar. Para Joceline, o
processo ocorreu de forma diferente. A mulher afirmou que os irmãos, filhos
consanguíneos do casal, recebiam muito carinho, enquanto ela era tratada
com certo distanciamento. Narrou que, em tais circunstâncias, “chorava
pelos cantos da casa, mas tinha que aceitar o que Deus lhe tinha dado”. Os
História Oral, v. 17, n. 1, p. 71-88, jan./jun. 2014 83

filhos adotivos deram grande ênfase em suas entrevistas para a questão da


afetividade dos pais e parentes colaterais. Quando as relações afetivas não
estavam presentes em seu cotidiano, ou quando não atendiam às suas expec-
tativas, o sentimento de não pertencer de todo àquela família vinha à tona,
provocando angústias, como no caso de Joceline.
Apenas os pais adotivos de Pedro e Isabel não tiveram filhos consanguí-
neos. Os de Joceline, quando a adotaram, tinham um filho consanguíneo, e
posteriormente aumentaram a prole com mais dois meninos. Segundo ela,
os três meninos eram tratados pelos pais de forma diferente no que tange ao
trabalho doméstico. Joceline lembra que tinha que auxiliar as empregadas
domésticas nas tarefas da casa, enquanto as demais crianças somente estuda-
vam. Na época da realização da entrevista, seus três irmãos eram universitá-
rios, enquanto ela trabalhava como comerciária no estabelecimento da mãe.
Para Francisco, que tem um irmão “que é filho de verdade” de seus pais – em
sua própria expressão –, o tratamento oferecido a ambos pelos pais era igual.
Ingrid narrou que Joice, como é aqui denominada a filha consanguínea de
sua mãe, tinha ciúme da relação que se estabelecia entre ela e os pais adotivos.
Joice acusava os pais de mimarem demasiadamente a sua irmã adotiva. Ingrid
explicou que ela e a irmã tinham personalidades muito diferentes, e que seus
pais de fato se identificavam mais com a sua.
Isabel, Odete e Joceline, adotadas nos anos 1970, enfrentaram maiores
preconceitos dos que as pessoas adotadas na década seguinte. O que moti-
vava essa visão preconceituosa era a noção de sangue instituinte das relações
de parentesco na sociedade ocidental. Segundo essa noção, o fenótipo, a
denominada personalidade e os valores sociais seriam transmitidos entre as
gerações através do “sangue” (Fine; Neirinck, 2000).
O espectro do “sangue ruim” está presente no imaginário social brasi-
leiro acerca do/a filho/a adotivo/a, e fomenta um conjunto de preconcei-
tos. Isabel, como se disse anteriormente, tem um fenótipo diferente dos seus
pais adotivos. Segundo a mulher, os pais têm pele branca e ela se considerava
mulata. Isabel narrou que suas primas, especialmente as que moravam na
cidade de Blumenau, cuja população é majoritariamente descendente de imi-
grantes alemães, afirmavam que a menina “não era filha da tia delas, porque
era preta”. Nas brincadeiras que ocorriam entre as garotas durante a infân-
cia, Isabel narrou que era constantemente deixada de lado. As afirmações de
ordem racista de suas primas deixavam‑na muito triste e faziam com que se
sentisse “um peixe fora d’água”. De acordo com Isabel, os membros de sua
84 AREND, Silvia Maria Fávero. Família, lei e memória: subjetividades construindo parentesco (Florianópolis, 1970-1990)

parentela, mesmo depois que ela atingiu a idade adulta, permaneceram dis-
criminando-a em função do fato de ela ser filha adotiva. No caso de Odete, o
preconceito emergia quando a menina apresentava o seu boletim escolar para
os membros da família. Sua avó se espantava com as suas boas notas: “Como
que uma filha adotiva podia ter tão bom desempenho escolar?”. Joceline nar-
rou que a mãe adotiva reclamava que, durante a sua adolescência, a jovem
“não se abria com ela, mas ficava contando as coisas para as empregadas”. Para
a mãe, essa ausência de diálogo entre as duas era atribuída à filiação adotiva,
não ocorreria se tivessem “o mesmo sangue”. Isabel ,Odete e Joceline men-
cionaram nas suas entrevistas que não foram discriminadas em função de sua
filiação fora do círculo de parentes. Todavia, é importante lembrar que as suas
adoções não foram publicizadas para um círculo maior de pessoas. Talvez, se
isso tivesse acontecido, preconceitos de outras pessoas em relação à filiação
adotiva também pudessem vir à tona.
Francisco afirmou que no bairro onde morava as pessoas sabiam que
ele era filho adotivo, mas não o tratavam de forma diferente. Ingrid, cujo pai
adotivo era descendente de alemães, contou que apenas um tio paterno fora
contrário à sua adoção. O argumento utilizado pelo homem era o de que
“podia ser perigoso pegar filho dos outros que nem [se] sabe de quem é e
que sangue tem”. Contudo, segundo a mulher, paulatinamente o tio a aceitou
como membro da família.
As rememorações dos entrevistados coincidem com as conclusões da
psicóloga Gina Khafif Levinzon (1999) em estudo sobre a psique de crianças
adotivas. O medo de serem devolvidas e o sentimento de não pertencerem de
todo à família geravam inseguranças. Essas características nas subjetividades
infanto-juvenis fizeram com que as pessoas adotadas fossem descritas pela
literatura psiquiátrica e psicológica, por um longo tempo, como portadoras
de comportamentos considerados patológicos.
Os entrevistados afirmaram saber muito pouco sobre as suas famílias
consanguíneas. A única certeza de todos era de que os seus pais e mães con-
sanguíneos eram pobres e não tinham condições de criá-los. Isabel e Odete
aventaram em seus depoimentos a possibilidade de que o pai adotivo fosse
o seu genitor – e assim elas seriam filhas consideradas ilegítimas daqueles
homens. Mas eram apenas especulações, que, talvez, produzissem para as
duas mulheres uma maior segurança de ordem psicológica. Nenhuma das
pessoas entrevistadas afirmou ter interesse em conviver na fase adulta com
os genitores. Joceline, aos 13 anos, reencontrou sua mãe consanguínea, que
História Oral, v. 17, n. 1, p. 71-88, jan./jun. 2014 85

pediu‑lhe que voltasse a morar com ela e seus irmãos, mas sua opção foi por
permanecer junto à família adotiva, pois queria ter um destino melhor do
que o de seus parentes consanguíneos.
Para Odete, Isabel, Francisco e Pedro, que professavam a fé católica, os
pais, ao adotá‑los, realizaram um ato de amor e caridade. Sendo assim, todos
“deviam” muito àqueles que os haviam criado. Para Ingrid, que professava a fé
luterana, ela fora “eleita por Deus” para fazer parte daquela família. A relação
de filiação presente na norma familiar burguesa é uma via de mão dupla: os pais
também se beneficiam do que os filhos lhes proporcionam ao longo da vida,
no que diz respeito à afetividade, ao status, aos cuidados na velhice etc. Porém,
em suas narrativas, entrevistados e entrevistadas não fizeram menção a essa
outra dimensão, tão importante da relação de filiação. Adotados em períodos
diferentes e com experiências as mais diversas, os entrevistados persistiram na
lógica da caridade para referir-se à adoção. Essa percepção possivelmente está
associada à condição de pobreza de suas famílias consanguíneas. Como se afir-
mou anteriormente, todos sabiam que eram oriundos de famílias pertencentes
a outra classe social. Se as adoções ocorressem entre pessoas do mesmo estrato
social, possivelmente uma visão mais igualitária seria construída.

Considerações finais

Uma das principais características da história do tempo presente é a


incompletude dos processos históricos analisados pelo pesquisador (Rousso,
2007). Neste artigo, procurou-se descrever as transformações da filiação ado-
tiva na sociedade brasileira nas últimas décadas do século XX, tomando como
referência experiências de adoção na cidade de Florianópolis. Entre a letra da
lei brasileira de 1990 – que afirmava não haver distinção entre os tipos de filia-
ção – e as experiências vivenciadas pelas pessoas havia ainda grandes distân-
cias. Porém, essas distâncias começaram a diminuir nas décadas anteriores.. A
construção do parentesco pautada nas subjetividades, segundo os entrevista-
dos, implicava um constante “tornar-se” filho ou filha. Esse processo de edi-
ficação de laços de parentesco envolvia não somente os filhos adotivos, seus
pais e irmãos, mas também a parentela que, muitas vezes, ainda demonstrava
preconceito em relação a esse tipo de filiação. A opção por realizar a adoção
de crianças sob a mediação do Poder Judiciário foi possivelmente o caminho
preferido por casais de classe média a partir da década de 1980 na cidade de
86 AREND, Silvia Maria Fávero. Família, lei e memória: subjetividades construindo parentesco (Florianópolis, 1970-1990)

Florianópolis. Todavia, esse tema de caráter sociojurídico relativo à gestão da


população infanto-juvenil demanda uma maior investigação.
A história oral possibilitou que práticas e subjetividades dos filhose
filhas adotivos/as pudessem subsidiar a escrita de uma narrativa histórica.
Este artigo colocou em cena dimensões importantes da filiação adotiva, a que
o Estado brasileiro, por meio de suas leis e ações, busca atribuir igualdade
de direitos. Certamente esta interpretação contribuirá para adensar o debate
sobre o tema no campo dos direitos da infância e da juventude e do direito
de família no Brasil.

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Florianópolis, 8 nov. 2001.

Resumo: Neste artigo, busca-se descrever as transformações ocorridas no processo de filiação


adotiva no Brasil entre 1970 e 1990. Inicialmente, o foco da análise são as questões de ordem
jurídica que envolvem o tema e seus desdobramentos, considerados indispensáveis para a
construção de uma narrativa que aprofunde a compreensão de certos elementos do tempo
presente brasileiro. Posteriormente, a partir da memória de pessoas adotadas nas décadas de
1970 e 1980, são destacadas as principais características dessa relação de parentesco construída
a partir dos laços de subjetividade.

Palavras-chave: história, família, lei, memória, parentesco.

Family, law and memory: kinship built through subjectivities (Florianópolis, 1970-1990)

Abstract: This paper seeks to describe the changes that occurred in the adoptive filiation
process in Brazil between 1970 and 1990. Initially, the focus of the analysis refers to the legal
questions surrounding the issue and its consequences which are indispensable to construct a
narrative that deepens the understanding of certain elements of the Brazilian present time.
Subsequently, from the memory of people adopted in the decades of 1970 and 1980, the text
highlights the key social and historical features of this family relationship constructed from the
bonds of subjectivity.

Keywords: history, family, law, memory, kinship.

Recebido em 03/05/2014
Aprovado em 27/07/2014
ART I GO S VARI AD O S

Associação Brasileira de História Oral,


20 anos depois: O que somos?
O que queremos ser?*

Angela de Castro Gomes**

Estamos persuadidos de que a história oral não está mais nas suas
primícias. Chegou já à primavera e é cada vez mais reconhecida e
compreendida nos círculos acadêmicos mais tradicionais.
Os que contestam a fonte oral travam combates ultrapassados.
Em contrapartida, como em todo fenômeno que atinge a
maturidade, o risco de perda de vitalidade, de banalização, é real.
Seu segundo desafio é o de permanecer fiel à sua inspiração inicial.
(Philippe Joutard, 1998)

Esse pequeno fragmento que serve de epígrafe às reflexões que se


seguem faz parte da conferência proferida por Philippe Joutard no X Con-
gresso Internacional de História Oral, realizado no Rio de Janeiro em 1998.
Sua comunicação foi reunida com várias outras no livro História oral: desafios
para o século XXI, publicado em 2000.1 Tanto o congresso (o primeiro orga-

* Este artigo foi escrito para o XII Encontro Nacional de História Oral, realizado em Teresina (PI) entre 6 e 9
de maio de 2014. Agradeço a Fernanda Mendes, aluna da graduação em História da Unirio, que trabalhou
com dedicação e eficiência como auxiliar de pesquisa no levantamento dos dados e na feitura dos gráficos.
** Professora titular aposentada de História do Brasil na Universidade Federal Fluminense (UFF) e profes-
sora visitante sênior da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio).
1 O livro, publicado pela Editora FGV (Rio de Janeiro), foi organizado por Marieta de Moraes Ferreira,
Tânia Maria Fernandes e Verena Alberti.
164 GOMES, Angela de Castro. Associação Brasileira de História Oral, 20 anos depois: O que somos? O que queremos ser?

nizado pela Associação Internacional de História Oral na América Latina)


quanto o livro tornaram-se referências para pensar os rumos da metodologia
da história oral no Brasil. Além disso, observou-se a qualidade das comuni-
cações apresentadas naquela oportunidade, que foram apenas em parte mate-
rializadas no livro.
No momento em que a Associação Brasileira de História Oral (ABHO)
faz 20 anos, esse fragmento está sendo recuperado como mote para pensar.
Em 1998, o autor saudava os avanços conseguidos pela metodologia, que
havia vencido fortes e arraigadas resistências no campo das ciências huma-
nas e sociais, não sem muita persistência e luta. Segundo o diagnóstico do
autor, as fontes orais naquele momento já haviam alcançado um grau de
reconhecimento e compartilhamento tão amplo, que tentar questionar sua
legitimidade e usos era como travar “combates ultrapassados”. Considerando
essa parte do fragmento, pode-se ponderar que Joutard, não sendo brasileiro,
talvez não avaliasse o ritmo particular de cada comunidade acadêmica na
acolhida de algumas mudanças – como a adoção de novas metodologias –,
especialmente quando desacomodam questões canônicas, como é o caso
do valor da fonte escrita como documento – ao menos na área da história.
Muito provavelmente, o que ele identifica devia de fato ocorrer em diver-
sas comunidades científicas da Europa. Mas no Brasil, em 1998, muitos dos
praticantes da história oral ainda encontravam grande desconfiança (ou algo
mais) quando apresentavam projetos ou resultados de pesquisas que privile-
giavam fontes orais, ou quando adotavam a história oral como um método
necessário e mesmo incontornável para a construção e análise do objeto a
ser pesquisado. Entre 1998 e 2014, muita água rolou debaixo dessa ponte, e
talvez agora esse combate esteja realmente ultrapassado. Contudo, é sempre
bom ser cuidadoso e manter o “talvez”, que nos coloca em alerta e nos poupa
de surpresas desagradáveis.
De toda a forma, é possível dizer que, no Brasil do século XXI, a meto-
dologia de história oral alcançou sua maturidade. Pensando assim, não há
dúvida de que um dos instrumentos mais importantes e exitosos na luta
pela afirmação da metodologia foi a formação de uma Associação Brasileira
de História Oral, em 1994. A mobilização e organização de seus pratican-
tes por meio dessa associação foi decisiva para o fortalecimento dos argu-
mentos que defendiam sua especificidade e valor e, no mesmo movimento,
conformavam práticas de pesquisa que demarcavam o que seria conhecido
como metodologia de história oral no Brasil. Tratando-se de uma fonte que
História Oral, v. 17, n. 1, p. 163-192, jan./jun. 2014 165

é construída intencionalmente durante o processo de pesquisa, e que é cons-


truída de forma dialógica – porque envolve o próprio sujeito pesquisado
além do pesquisador –, foi preciso tempo e debate para chegar a acordos
sólidos. Evidentemente, nunca se chegou – até porque nunca se desejou che-
gar – a um consenso absoluto. Na verdade, essa é uma possibilidade remota
no que se refere a escolhas teórico-metodológicas. Entretanto, a construção
e o compartilhamento de um conjunto de procedimentos metodológicos
capaz de definir com clareza uma prática de produção e análise de fontes
de pesquisa foram encarados como incontornáveis para legitimar a história
oral no Brasil. Esse trabalho demandou diversos debates e um alto grau de
concordância em questões fundamentais para que um resultado consistente
fosse produzido. Caso contrário, como estava claro para os envolvidos no
processo, um reconhecimento mais amplo por parte da comunidade aca-
dêmica seria muito mais difícil. O desafio, portanto, era estabelecer pontos
fundamentais em comum e consagrá-los na teoria e na prática de pesquisa,
para que a metodologia fosse reconhecida amplamente e utilizada com segu-
rança por seus praticantes.
A ABHO nasceu e cresceu no enfrentamento desse desafio. Assim, ao
ler o comentário de Joutard dirigido à metodologia, julguei que seria interes-
sante utilizá-lo como estímulo para pensar nossa associação neste momento
de comemoração. Com 20 anos, ela viveria sua primavera e teria alcançado
sua maturidade? A própria pergunta nos impulsiona a refletir sobre o que
somos hoje e o que queremos ser no futuro. Se a ABHO foi criada para
ser um fórum de praticantes de uma metodologia muito questionada e até
mesmo negada na área das ciências sociais, que precisava lutar por seu reco-
nhecimento e expansão, 20 anos depois ela precisa ter novos objetivos. E,
para começar, seria interessante diagnosticar suas forças e fraquezas, saber
do que essa associação é feita e traçar planos para seguir em frente com vitali-
dade. É o que queremos, e é outro enorme desafio – digno do primeiro, que,
bem ou mal, foi ultrapassado com sucesso.
Estimulada por esse desafio, decidi realizar um balanço para entender
melhor como temos existido ao longo destas duas décadas. É claro que isso
já foi feito outras vezes, por outros colegas; mesmo assim, os 20 anos de
ABHO impõem a repetição do exercício. Por isso, revisitei mapeamentos
anteriores, e um deles, especialmente, teve grande importância para o que
me proponho a fazer. Refiro-me ao artigo História oral no Brasil: uma aná-
lise da produção recente (1998/2008), de autoria de André de Faria Pereira
166 GOMES, Angela de Castro. Associação Brasileira de História Oral, 20 anos depois: O que somos? O que queremos ser?

Neto, Bárbara Araújo Machado e Antonio Torres Montenegro, publicado


na revista História Oral em 2007. Por trabalhar basicamente com as mesmas
fontes que eu iria mobilizar, esse texto forçou-me a criar outros arranjos para
os dados levantados; além disso, estou tratando também da produção pos-
terior a 2008. O artigo mencionado desejou apresentar uma análise prelimi-
nar da produção acadêmica brasileira que usava a história oral entre 1998
e 2008, tendo como fontes os artigos da revista História Oral e os cader-
nos de resumos das comunicações apresentadas nos encontros nacionais da
ABHO.
Como meu objetivo é procurar ver o que é a ABHO em seus 20 anos,
também teria que privilegiar os artigos da revista, uma fonte rica e estra-
tégica para conhecer a associação. Porém, busquei igualmente saber como
suas diretorias nacionais foram compostas, e o que se podia “ver” da ABHO
examinando os temas e a localização de seus encontros, em especial os
regionais. Por isso, num primeiro momento, fiz um levantamento de dados,
orientada por questões que se relacionavam à composição e distribuição
dessas diretorias, considerando algumas variáveis. Em seguida, organizei
os resultados em gráficos para favorecer a visualização. O móvel de toda a
pesquisa é entender melhor como é a ABHO em 2014 e, não menos impor-
tante, de que forma ela poderia planejar seu futuro, fugindo do risco de
perder sua vitalidade.

Diretorias e encontros

Para começar, foi interessante examinar a composição das diretorias


nacionais, considerando os estados e as instituições que delas mais partici-
param. O levantamento contemplou separadamente, pela importância dos
cargos, a presidência e a vice-presidência – pois é o vice-presidente que ocupa
a editoria da revista História Oral. Em seguida, tomou todos os cargos da
diretoria nacional, organizando-os por estado, por instituição, e também – o
que se mostrou de grande importância – pela área de inserção disciplinar dos
integrantes.
Contudo, antes de observar esses dados, é preciso ponderar que neles
está refletida uma passagem de tempo de 20 anos. Como é óbvio, em 1994
o número de instituições universitárias, sobretudo com programas de pós-
-graduação, era muito menor do que é em 2014, além de ser muito mais
História Oral, v. 17, n. 1, p. 163-192, jan./jun. 2014 167

concentrado no sudeste e no sul do país. Estou, portanto, considerando que


essas são variáveis relevantes para entender o estabelecimento da história oral
como metodologia no território nacional – mesmo sabendo que, nos anos
1990, vários centros de pesquisa e universidades sem cursos de pós-graduação
tinham núcleos que usavam tal metodologia. Essa situação mudou radical-
mente nesses 20 anos, com um aumento incrível de programas de pós-gradu-
ação nas áreas das ciências humanas e sociais, que impactou o perfil do ensino
superior e precisou ser considerado pela ABHO.
Justamente por diagnosticarem esse processo de transformação, as pró-
prias diretorias nacionais – tendo em vista expandir o número de praticantes
da metodologia – buscaram incorporar integrantes de vários estados e re­giões
do país, iniciativa a que se aliou a realização de encontros nacionais fora do
eixo Sudeste/Sul. Ou seja, registro neste balanço a existência de uma clara
diretriz política da ABHO, construída desde o início de seu funcionamento,
no sentido de descentralizar os locais dos encontros nacionais e de incorporar
em sua diretoria, de forma estratégica, pesquisadores de diversas formações
e de variados estados e regiões do Brasil – tudo isso tendo em vista o desejo
de que a metodologia fosse conhecida e pudesse se desenvolver e espraiar da
melhor forma possível.
Assim, os resultados encontrados neste levantamento foram produzidos
no marco de uma tensão. De um lado, havia efetivamente mais núcleos de
praticantes no Sul e no Sudeste, o que teria que se manifestar na composição
das diretorias nacionais, sobretudo nos anos 1990; de outro, havia uma clara
proposta da ABHO que procurava minimizar essa concentração, atraindo
para seu centro – a diretoria nacional – pesquisadores que teriam o papel de
estimular e propagar o uso da metodologia em locais onde ela fosse pouco
conhecida e utilizada.
168 GOMES, Angela de Castro. Associação Brasileira de História Oral, 20 anos depois: O que somos? O que queremos ser?

Gráfico 1 – Estados que participaram da


presidência e vice-presidência da ABHO

O gráfico acima mostra a distribuição dos presidentes e vice-presiden-


tes das diretorias nacionais por estados da federação. Os estados do Rio de
Janeiro e São Paulo tiveram cinco (5) representantes cada um; os estados de
Pernambuco e Rio Grande do Sul, três (3) cada um. Os demais estados, com
um representante cada, foram Acre, Ceará, Minas Gerais e Piauí. No Rio de
Janeiro, as instituições que responderam por esses cargos foram o CPDOC/
FGV (Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do
Brasil, da Fundação Getulio Vargas), a UFRJ (Universidade Federal do Rio de
Janeiro) e a UFF (Universidade Federal Fluminense), havendo casos de dupla
filiação. Já em São Paulo o destaque é a USP (Universidade de São Paulo),
que, em números absolutos, foi a instituição que mais ocupou essas posições
(5 pesquisadores), tendo a Unicamp (Universidade Estadual de Campinas)
apenas uma presença. No Rio Grande do Sul a participação foi dividida entre
a UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) e a Unisinos (Uni-
versidade do Vale do Rio dos Sinos), mas em Pernambuco, a UFPE (Univer-
sidade Federal de Pernambuco) respondeu pelos três representantes. No Acre,
Ceará e Piauí eles vieram das universidades federais – respectivamente, UFAC
(Universidade Federal do Acre), UFC (Universidade Federal do Ceará) e
História Oral, v. 17, n. 1, p. 163-192, jan./jun. 2014 169

UFPI (Universidade Federal do Piauí)  –, mas em Minas Gerais saíram da


PUC Minas (Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais).
A seguir, apresento dois gráficos que demonstram a distribuição de
todos os integrantes das diretorias nacionais por estados e instituições, o que
amplia muitíssimo o número absoluto de envolvidos. Mesmo assim, observa-
mos que, no que se refere aos estados da federação, Rio de Janeiro e São Paulo
continuam mantendo franca liderança, acompanhados por Minas Gerais,
Rio Grande do Sul e Santa Catarina, sendo que os dois últimos quase se equi-
valem. Vale notar, contudo, atestando o objetivo de integrar pesquisadores
de várias partes do país, que é numerosa a presença de membros da direto-
ria vindos de diferentes estados de todas as regiões. O gráfico que registra
as instituições corrobora essa conclusão, bem como a força das instituições
paulistas e fluminenses. Mais uma vez, a USP é a mais presente isoladamente,
sendo também importante a PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de
São Paulo). Já o Rio de Janeiro participa com uma espécie de grupo formado
pela UFRJ, UFF, CPDOC/FGV e Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz),
todas bem representadas, embora, como mencionei, haja muitos casos de
dupla filiação. Em Minas, a PUC Minas e a UFMG (Universidade Federal
de Minas Gerais) estão praticamente equiparadas.

Gráficos 2 – Estados que participaram da diretoria da ABHO


170 GOMES, Angela de Castro. Associação Brasileira de História Oral, 20 anos depois: O que somos? O que queremos ser?

Gráfico 3 – Instituições que participaram da diretoria da ABHO

De toda forma, a presença maciça nas diretorias nacionais é de professores


de universidades federais, algumas – não por acaso – com núcleos de pesquisa
formados em torno do uso de fontes orais e visuais, antes mesmo da criação da
ABHO, ainda nos anos 1980. Esse é um ponto que vale ponderar, sobretudo
porque nesses 20 anos cresceu muito o número de universidades estaduais,
além do número de campi de universidades federais fora da capital dos estados.
Esse duplo movimento tem sido, em grande parte, responsável pela expansão
do ensino superior e de pós-graduação no interior dos estados. Ou seja, vale
pensar que se a ABHO deseja manter sua diretriz de formar praticantes em
vários estados e regiões do Brasil, espraiando o uso da metodologia, é o caso de
dar atenção particular às universidades estaduais e aos diversos campi de uni-
versidades federais em várias cidades dos estados brasileiros, até porque nessas
unidades, pesquisas que se voltam para questões regionais/locais são estimula-
das pela facilidade de acesso a fontes documentais e também a depoentes. Em
tempos de valorização de “jogos de escala”, com tantos e tão bons exemplos
de microanálise, esse dado não pode, nem deve, ser minimizado ou visto com
qualquer tipo de desapreço, como ocorria em passado nem tão distante.
Para encerrar o exame das diretorias nacionais, procurei construir um
gráfico que mostrasse a origem disciplinar de seus membros. Afinal, todos
História Oral, v. 17, n. 1, p. 163-192, jan./jun. 2014 171

os que participam da ABHO já ouviram que essa é uma associação interdis-


ciplinar, uma vez que o que nos une são os procedimentos metodológicos, e
não os temas e questões de pesquisa. Além disso, o que é óbvio, os historia-
dores que usam a metodologia são os que trabalham com a chamada história
do tempo presente, um tempo que “não passou completamente”, até porque
muitos dos seus atores estão ainda vivos. São desses atores os testemunhos
que os historiadores buscam nas suas entrevistas de história oral.

Gráfico 4 – Áreas disciplinares dos participantes da diretoria da ABHO

Gráfico 5 – Incidência de repetição de nomes na diretoria da ABHO


172 GOMES, Angela de Castro. Associação Brasileira de História Oral, 20 anos depois: O que somos? O que queremos ser?

O que o gráfico 4 evidencia é que a ABHO é e talvez sempre tenha sido


uma associação de historiadores, com participação numericamente pequena
de pesquisadores das áreas da sociologia, antropologia e história da ciência,
discretíssima presença do serviço social e, menor ainda, da educação. Consi-
derando que sabemos que o uso de entrevistas (não diria da história oral) é
muito comum em pesquisas de serviço social, educação e também literatura
e direito, vale pensar nas razões dessas significativas ausências, ao menos no
caso das diretorias nacionais. Não estou querendo de forma alguma consi-
derar que é um mal para a ABHO ser uma associação de historiadores, ape-
nas que é bom que ela tenha consciência disso para traçar diretrizes de ação
e pensar, com essa perspectiva, em algumas das questões que a mobilizam.
Outro dado interessante para ser considerado, ao lado do anterior, é o alto
índice de repetição de nomes nos cargos dessas diretorias nacionais, já que
ultrapassam 50% do universo. Esse percentual aponta para um baixo nível de
renovação, e as causas disso precisam ser pensadas com cuidado e vagar – o
que à primeira vista pode parecer mera manutenção de posições por parte
de um grupo (hipótese que não se deve excluir) pode indicar também uma
grande dificuldade de recrutamento para ocupar cargos com apoio institu-
cional, como é o caso em exame.
Enfim, tais resultados instigam novas reflexões. Uma delas é a possibi-
lidade de que a ABHO seja muito atraente para professores e pesquisadores
de várias áreas do conhecimento no que diz respeito à participação em seus
encontros nacionais e regionais, mas que seu poder de sedução fique por aí.
Ou seja, pode ser que os participantes de encontros busquem o “salão inte-
lectual” como um espaço onde se dão a ver e são vistos, caminho certo para o
reconhecimento e, sendo irônica, para o preenchimento do currículo Lattes.
Mas esses participantes, de fato, não entram na “rede” dos praticantes de his-
tória oral: não se interessam em se associar, ou em integrar suas diretorias, ou
em publicar em sua revista etc. Concluindo, orbitam a ABHO, mas dela não
participam efetivamente.
Como se sabe, a ABHO organiza-se por meio de diretorias regionais, o
que é congruente com o tamanho e a diversidade do país, bem como com seu
desejo de não se tornar uma associação restrita a alguma região. Ao longo des-
ses 20 anos, sempre houve diretorias regionais. É interessante acompanhar a
composição de cada uma, considerando as duas variáveis examinadas: estados
e instituições. Os dados aqui utilizados foram coletados do site da ABHO,
onde estão publicados os nomes de todos os integrantes de todas as diretorias
História Oral, v. 17, n. 1, p. 163-192, jan./jun. 2014 173

no país. Contudo, nem sempre foi possível mapear todos os encontros regio-
nais realizados, e pode ser que reuniões não registradas tenham ocorrido, de
maneira que, uma vez que haja razões para inferir que aconteceram, só se
pode datá-las aproximadamente.
No caso da Regional Norte, todos os estados (Acre, Pará, Rondônia,
Roraima e Tocantins), com exceção do Amazonas, participaram da diretoria.
O Acre (4) e o Pará (3) se destacam amplamente por meio de suas universi-
dades federais. A total ausência do Amazonas dá o que pensar. O estado de
Tocantins abriga núcleos de pesquisa que vêm trabalhando com a metodo-
logia e participando sistematicamente dos encontros da região. Como sabe-
mos que a existência de um grupo de interessados na metodologia – mesmo
que pequeno e geralmente organizado em laboratórios ou núcleos – é comu-
mente a base para uma aproximação da ABHO, cabe pensar se há grupos
organizados ou não no Amazonas. Se não existem, ou se existem e ainda não
participam, por quê? Talvez os colegas do Norte possam nos ajudar a enten-
der melhor esse fato.
Na Regional Norte foram computados seis (6) encontros entre 2003 e
2013. Mas como em 2003 tratava-se do III Encontro, a suposição é de que
houve duas reuniões anteriores, provavelmente bem no final dos anos 1990.
É possível supor também que tais encontros tenham clara relação com os
esforços da ABHO de chegar a todas as regiões do país. Os seis encontros
que estão no site realizaram-se em cinco estados diferentes, havendo repeti-
ção apenas do Acre, que abrigou um encontro nacional em 2006. Ou seja, fica
evidente o cuidado na escolha das sedes dos encontros regionais, de forma
que a ABHO visitasse estados e instituições distintas na região, certamente
com o objetivo de, com seus debates, esclarecer e estimular o conhecimento
da metodologia de maneira ampla. As temáticas desses encontros apontam,
ao longo desse tempo, para um perfil de questões particularmente caras à
própria região, contemplando o meio ambiente e as diversidades culturais da
região Amazônica, por exemplo.
As diretorias da Regional Nordeste são um bom exemplo do alcance que
a ABHO conseguiu ter, considerando o número de estados que compõem a
região. Foram computados oito (8) encontros de 2001 a 2013, e há apenas
um encontro não registrado, provavelmente em 1999. O total de encon-
tros realizado no Nordeste, portanto, seria nove, o que é um número alto.
Os oito encontros registrados se distribuíram em cinco (5) estados, tendo
a Bahia, Paraíba e Piauí recebido duas reuniões cada um. Pernambuco não
174 GOMES, Angela de Castro. Associação Brasileira de História Oral, 20 anos depois: O que somos? O que queremos ser?

recebeu nenhum encontro regional, mas abrigou dois encontros nacionais:


em 1997 e em 2010. O Piauí está abrigando o encontro de 2014, tão especial.
Ou seja, parece que há uma distribuição de encontros, no geral equilibrada;
cabe pensar a disponibilidade de outros estados para receberem encontros
nacionais. Vale observar, no que se refere a abrigar encontros da ABHO, a
ausência completa dos estados do Ceará e Rio Grande do Norte, que têm ati-
vos departamentos e cursos de pós-graduação de história. Ambos os estados,
inclusive, já sediaram Encontros Nacionais da Anpuh (Associação Nacional
de História), o que exige muita capacidade de organização. Portanto, fiquei
pensando se esse fato poderia produzir algum desgaste nas universidades,
aliando-se a um certo desinteresse pela participação na ABHO. Não tenho
como refletir melhor sobre esse ponto, mas considerei interessante levantá-lo
aqui e agora. Alagoas também nunca sediou qualquer encontro e não tenho
ideia se há grupos de professores desse estado que participem de encontros
regionais e nacionais da ABHO. Vale saber, nesse caso, se há algum labo-
ratório ou núcleo de pesquisa voltado para a metodologia, e, se for o caso,
mobilizá-lo mais. Quanto às temáticas dos encontros, é interessante perce-
ber uma maior presença de debates ligados às questões do patrimônio e das
narrativas orais – sem dúvida, algo que diz muito sobre os frutíferos usos da
metodologia na região.
Na região Centro-Oeste foram computados seis (6) encontros regionais
entre 2001 e 2013, sendo que o de 2001 é nomeado como o quarto encon-
tro. Logo, é possível que os encontros regionais tenham começado ainda em
finais dos anos 1990, logo após a criação da ABHO. Se isso de fato aconte-
ceu, o total de encontros seria de nove (9), mas não se pode ter certeza. A
distribuição é de dois (2) encontros no Distrito Federal, dois (2) no Mato
Grosso e um (1) no Mato Grosso do Sul. O estado de Goiás sediou um (1)
encontro regional e um encontro nacional, este último em 2005. Nada se
observou de mais específico quanto às temáticas desses encontros.
A região Sudeste realizou sete (7) encontros regionais entre 2001 e
2013, sendo o ocorrido em 2001 o quarto encontro, tal como ocorreu no
Centro-Oeste. Nesse caso, o total seria de dez (10) encontros regionais pro-
movidos, também um número alto. Tais reuniões foram distribuídas entre os
estados de Minas Gerais (3), São Paulo (2) e Rio de Janeiro (2). O destaque é
a ausência do estado do Espírito Santo, mesmo que se considere que seus pes-
quisadores participem dos encontros do Sudeste. Essa região é a que recebeu
maior número de encontros nacionais – ao todo seis (6) dos 12 realizados –,
História Oral, v. 17, n. 1, p. 163-192, jan./jun. 2014 175

distribuídos entre São Paulo, com três (3); Rio de Janeiro, com dois (2) e
Minas Gerais, com um (1). Algo para pensar é se essa concentração de encon-
tros na região – ao todo 16 – produziu algum efeito no que diz respeito,
por exemplo, a um possível esvaziamento dos encontros regionais. Qualquer
encontro exige financiamento, deslocamento etc., ou seja, esforços e recur-
sos que devem ser despendidos por seus organizadores e participantes; seria
interessante que a regional Sudeste pudesse verificar se declinou o número
de participantes de seus encontros regionais – sobretudo aqueles que se rea-
lizaram mais recentemente –, e considerar se tal fato pode estar relacionado
ao grande número de encontros realizados na região, além de outros fatores
mais específicos, como o próprio local do encontro regional.
As diretorias da regional Sul promoveram seis (6) encontros entre 2001
e 2013, sendo o de 2001 o segundo. Logo, a região teria realizado sete (7)
encontros. Desses, o Rio Grande do Sul recebeu três (3); o Paraná, dois (2) e
Santa Catarina, um (1). Embora esse número absoluto seja menor do que o
encontrado em outras regiões, ele demonstra um dos resultados mais eficazes
do investimento da ABHO em disseminar núcleos de praticantes da meto-
dologia no país – afirmo isso porque quando a ABHO se formou, a região
Sul tinha poucos representantes. Houve, portanto, um grande crescimento,
sobretudo se for considerado que o Rio Grande do Sul também recebeu um
encontro nacional em 2008, realizado na Unisinos. No que diz respeito às
temáticas desses encontros, cabe ressaltar a presença do debate em torno da
integração latino-americana, cara à dinâmica política da região Sul. Essas
brevíssimas observações quanto às temáticas dos encontros regionais visam
apenas divisar se existem temas mais específicos de uma região que de outra e
se eles vêm se impondo, por exemplo, na revista da ABHO.
No geral, os encontros regionais acompanham as temáticas dos nacio-
nais, sempre amplas e abarcando discussões em torno das relações entre his-
tória oral, memória e história; memória e narrativa; tempo e narrativa; his-
tória e tradição oral; diversidade cultural e história oral; história oral e ética;
história oral, democracia e justiça, entre outros. No que diz respeito a um
cruzamento entre os temas dos encontros – em especial os nacionais – e os
temas dos dossiês da revista História Oral, é interessante observar que são
poucas as coincidências. Apenas em três oportunidades o tema do encontro
nacional se transformou em dossiê da revista, o que deve ser alvo de reflexão.
Não que isso seja algo bom ou mau em si mesmo. Porém, vale pensar se (e de
que forma) os encontros, quer por meio de suas temáticas, quer por via dos
176 GOMES, Angela de Castro. Associação Brasileira de História Oral, 20 anos depois: O que somos? O que queremos ser?

trabalhos neles apresentados, alimentam a revista da ABHO e respondem


por suas dificuldades ou facilidades de captação de artigos. Os três (3) casos
encontrados foram os do encontro nacionais de São Paulo, em 2002, cujo
tema, Tempo e narrativa, foi dossiê da revista em 2003; o do encontro de
2004, ocorrido em Goiás, com o título de Tradição oral e história, que estru-
turou um dos números de 2005 da revista; e, finalmente, o do encontro ocor-
rido no Rio de Janeiro em 2012, cujo tema, Memória, democracia e justiça,
esteve presente na revista no mesmo ano.
Partindo de tais observações, passo a examinar a própria revista História
Oral, buscando conhecê-la melhor e refletir mais sobre o que somos e o que
queremos ser nos próximos anos e décadas.

A ABHO e a revista História Oral

Sem dúvida, a revista da associação é uma das fontes mais importantes


para refletir sobre a trajetória da ABHO, pelo fato de permitir (uma vez que
está disponível on-line) a consulta e a combinação de muitos e variados dados
com facilidade. A revista começou a ser publicada em 1998; portanto, pouco
tempo após a fundação da ABHO. Com absoluta certeza, a rapidez com que
se organizou o periódico e a boa qualidade que apresentou foram decisivas
para a visibilidade da associação no país e no exterior. Além disso, a revista foi
e continua sendo uma das principais ferramentas da ABHO na conformação
e disseminação dos procedimentos próprios à metodologia, dos principais
debates que movimentaram seus praticantes no Brasil e dos resultados de
importantes pesquisas que se valeram da história oral.
O volume de 1998, o de seu lançamento, foi um volume-piloto, sendo
a publicação efetivamente organizada como periódico – com conselho edi-
torial e consultivo – a partir do volume de 1999, cujo dossiê versava sobre
violência e política. Entre 1998 e 2004, a ABHO lançou apenas um número
da revista por ano, embora seu projeto, desde o início, fosse o de ter um perió-
dico semestral. De 2005 em diante, esse propósito foi alcançado, apenas com
uma breve interrupção, ocorrida nos anos de 2008 e 2009, quando somente
um número (e com atraso) foi lançado pela ABHO. Por tais razões, entre
História Oral, v. 17, n. 1, p. 163-192, jan./jun. 2014 177

1998 e 2013,2 um total de 23 revistas foi lançado, com as mesmas caracte-


rísticas de capa e organização interna. Uma mudança importante ocorreu
quando a revista abandonou o papel como suporte para circular por meio
eletrônico, por razões compartilhadas por praticamente todos os periódicos
nacionais e internacionais.
Mas o que se pode saber da ABHO consultando sua revista? Considerei
que devia continuar trabalhando com as variáveis instituições e estados, desta
feita para analisar a composição da direção da revista e refletir sobre a distri-
buição da participação nesse aspecto. Como o editor da revista é o vice-presi-
dente da ABHO, tomei toda a diretoria da revista para um registro quantita-
tivo. Comecei pelas instituições, e o resultado é o que se vê no gráfico:

Gráfico 6 – Instituições que participaram da direção da revista

A evidente presença da USP, durante todo esse tempo, continua sendo


o destaque. São 19 pessoas que, se somadas aos cinco (5) integrantes da Uni-
camp, mostram a dominância do estado de São Paulo no periódico. A isso
se segue a participação de três (3) instituições do Rio de Janeiro, que pode
estar superestimada por duplas filiações, como já se observou. Mesmo assim,

2 Como escrevo em maio de 2014, os números relativos a este ano não podem ser considerados, pois ainda
não foram lançados.
178 GOMES, Angela de Castro. Associação Brasileira de História Oral, 20 anos depois: O que somos? O que queremos ser?

pode-se dizer que ocorre uma razoável distribuição de funções na diretoria


da revista por instituições, o que é bom para a associação e foi por ela estimu-
lado. No fundamental, isso se confirma quando os dados são organizados por
estado e São Paulo e Rio de Janeiro voltam a aparecer amplamente.

Gráfico 7 – Estados que participaram da direção da revista

Se uma parte dessa concentração pode ser entendida pela presença de


núcleos de praticantes da metodologia nesses dois estados na primeira década
de existência da revista, vale pesquisar se tal fato foi alterado e se, nesse caso,
foi acompanhado de mudanças entre os responsáveis pelo periódico. De toda
forma, os dados levantados mostram a presença de outras instituições e esta-
dos fora do eixo São Paulo-Rio de Janeiro – havendo a possibilidade de eles
estarem refletindo momentos mais recentes. Contudo, é bom averiguar com
mais elementos de que maneira essa diversificação que aparece na revista tem
sido construída, e verificar se é possível melhorá-la ainda mais. O problema,
já detectado e debatido, é que muitas vezes a concentração dessas atribuições
História Oral, v. 17, n. 1, p. 163-192, jan./jun. 2014 179

em alguns estados e instituições resulta menos de um desejo de controlar


posições do que da dificuldade de encontrar pesquisadores e instituições que
possam conduzir com segurança os rumos do periódico, já que isso demanda
apoio institucional, extrapolando vontades individuais e de grupo. Isso tam-
bém vale, efetivamente, para a distribuição de cargos da direção da associa-
ção, como foi referido anteriormente.
A questão que me moveu a seguir foi a de saber de que áreas do conhe-
cimento vinham os artigos da revista História Oral. Seria muito mais difícil,
e provavelmente menos útil, empregar essa variável numa aproximação das
comunicações dos encontros nacionais e regionais. Tais trabalhos são extre-
mamente numerosos, diversificados e também voláteis; além disso, é difícil
o acesso a eles. Como verificamos, muitos dos participantes (talvez a ampla
maioria) não mantêm vínculos com a ABHO fora dos encontros. Já quem
tem seu artigo publicado na revista demonstra não só um nível de reflexão
mais apurado, como, em princípio, algum relacionamento com a ABHO –
pode-se admitir a hipótese de ser um associado ou até mesmo um associado
que participou mais de perto da ABHO em algum momento. Investigar que
filiação disciplinar têm os textos publicados pela revista remete, de outra
perspectiva, à questão da interdisciplinaridade da associação. Quer dizer,
é costume afirmar-se que a metodologia teria como uma de suas riquezas a
possibilidade de efetivamente reunir reflexões de pesquisadores oriundos de
vários campos disciplinares.
Nesse sentido, considerando-se a real utilidade dos encontros em pro-
moverem essa ultrapassagem de fronteiras e, assim, produzirem uma troca
bastante frutífera de experiências, seria razoável imaginar que a revista tam-
bém evidenciaria certa diversidade de origens disciplinares entre os autores
de seus artigos – mesmo que as diretorias da ABHO fossem, como se veri-
ficou, maciçamente compostas por historiadores. A concentração de cargos
de diretoria na área da história de forma alguma precisaria ter como desdo-
bramento necessário outro tipo de concentração disciplinar, no caso, a de
artigos no periódico. Contudo, o resultado encontrado pelo levantamento
realizado na totalidade dos autores de artigos publicados não diminuiu a
concentração já encontrada na área da história, muito ao contrário, como se
pode visualizar.
180 GOMES, Angela de Castro. Associação Brasileira de História Oral, 20 anos depois: O que somos? O que queremos ser?

Gráfico 8 – Áreas disciplinares em que os autores publicados atuam

Como claramente se vê, considerando-se o conjunto dos autores de arti-


gos publicados na revista, a ABHO mostra-se como uma associação de histo-
riadores, com boa participação de cientistas sociais e presença muito discreta
de profissionais da área da educação. Ou seja, nesses 20 anos, a associação
não atraiu profissionais de outras áreas disciplinares para publicar em sua
revista, nem mesmo, de forma mais significativa, sociólogos e antropólogos.
Evidentemente, insistindo mais uma vez, isso não significa que profissionais
de outras formações disciplinares não participem dos encontros nacionais e
regionais realizados em diversos locais do Brasil nestas duas últimas décadas.
Eles podem estar participando, e até de forma razoável, o que coloca uma
questão a ser investigada com mais tempo e dados; porém, se isso ocorre, eles
não estão publicando na revista, não estão participando das diretorias nacio-
nais e regionais e talvez nem mesmo se associando à ABHO.
Uma possibilidade interessante para conferir a formação disciplinar dos
integrantes da ABHO é, portanto, coletar os dados de seus filiados. Isso dá
trabalho, mas é factível, na medida em que é necessário preencher uma ficha
para se associar. Não pude trabalhar com esse material no momento, mas
História Oral, v. 17, n. 1, p. 163-192, jan./jun. 2014 181

isso pode trazer informações bem mais precisas sobre quem está fazendo a
ABHO existir. Caso tal levantamento se realize, poderemos saber, por exem-
plo, se a associação é composta basicamente de historiadores desde suas bases
– os associados – ou se tal concentração ocorre apenas em outro nível, em
função de razões a serem bem pensadas.
No balanço realizado em 2007, já mencionado neste artigo, tal concen-
tração disciplinar entre os autores da revista foi claramente notada. Naquele
momento, 63,7% dos autores eram oriundos da área da história, enquanto
19,8% vinham das ciências sociais e apenas 7,7% da educação. Nessa opor-
tunidade, contudo, foi possível cotejar esses percentuais com os dos parti-
cipantes dos encontros nacionais. Feita a comparação, observou-se que nos
encontros nacionais se mantinha a preponderância de historiadores, mas
se alterava a distribuição das outras áreas disciplinares: ao contrário do que
ocorria na revista, nos encontros a participação de educadores era maior que
a de cientistas sociais.
De toda forma, cabe perguntar o que poderia explicar essa presença
maciça de historiadores na revista. Uma hipótese a ser verificada é a de, além
de serem eles a maioria absoluta de membros das diretorias, serem também
a maioria de filiados a até de participantes dos encontros da ABHO. Afi-
nal, existem associações com excelente grau de mobilização e organização
em todas as áreas disciplinares das ciências sociais – de que são exemplos a
ANPOCS (Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências
Sociais), a ABA (Associação Brasileira de Antropologia), a SBS (Sociedade
Brasileira de Sociologia) –, como também na da educação e na do serviço
social. Também existe um grande número de periódicos de qualidade que
podem aceitar textos que trabalhem com a metodologia da história oral,
mas cujas questões substantivas são afetas às áreas disciplinares que não a da
história. Com escassez de recursos, por um lado, e crescentes custos de par-
ticipação, por outro, poderia estar havendo uma seleção fina, quer para par-
ticipar de encontros, quer para se filiar a associações, quer para escolher um
periódico para publicar um artigo. Isso para não falar no Qualis Periódicos
da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior),
que avalia o “lugar” da revista História Oral. Como deixei claro, essa revista
sofreu descontinuidade entre 2008 e 2009, e com isso, obviamente, pode ter
deixado de ser atraente para muitos autores, em especial os menos envolvidos
com a associação.
182 GOMES, Angela de Castro. Associação Brasileira de História Oral, 20 anos depois: O que somos? O que queremos ser?

Por fim, é fundamental fazer um tipo de observação que também foi


realizada pelo texto de 2007. No Brasil, a ABHO exige de seus associados
formação universitária, diferentemente do que ocorre na Europa e nos Esta-
dos Unidos, onde associações semelhantes são compostas também por pes-
quisadores filiados a movimentos sociais ou ligados a empresas. Assim, valeria
investigar melhor essa caracterização, buscando, por exemplo, informações
mais recentes de associações de outros países, sobretudo na América Latina,
cuja realidade nos é mais próxima.
Por conseguinte, o que estou ponderando é que a ABHO pode estar
perdendo participantes de encontros, associados e também autores para sua
revista devido a um contexto muito competitivo, tendo em vista o campo
em que se organizam disciplinas como a antropologia, a sociologia, o serviço
social etc. Ou seja, o fato de uma metodologia nos unir poderia funcionar
como vantagem, mas igualmente como desvantagem, dependendo da força
de atração da ABHO e da qualidade acadêmica de seu periódico. Fica aqui a
sugestão para se pensar em mais essa questão, com bastante vagar e com mais
elementos, pois ela é bem complexa.
Seguindo em meu levantamento de dados, como somos uma associa-
ção ligada pela prática de fazer entrevistas segundo procedimentos acordados
nacional e internacionalmente, fui conferir que entrevistas foram publicadas
na revista, até porque essa foi uma proposta inicial considerada estratégica
pelo periódico.

Gráfico 9 – Presença de entrevistas na revista


História Oral, v. 17, n. 1, p. 163-192, jan./jun. 2014 183

Gráfico 10 – Temática das entrevistas

O resultado me surpreendeu. Em 23 números, 12 tinham entrevistas


e 11 não, meio a meio. Considero pouco, já que tais entrevistas deveriam
ocupar um espaço nobre na revista, dedicado a pôr os leitores em contato
não só com importantes nomes da história oral do Brasil e do mundo, com
também com importantes experiências de pesquisa que usaram a metodolo-
gia. Pelo menos esse era o objetivo quando a revista foi criada. Examinando
que entrevistas eram essas, verifiquei que 50% delas eram realmente exemplos
de entrevistas. Explicando melhor: eram depoimentos feitos com um mestre
de capoeira, uma esportista etc. que mostravam, na prática, como se faz uma
boa entrevista. Porém, não tinham como tema explícito uma reflexão sobre
como fazer entrevistas. Os outros 50% se dividiam em dois tipos. Aquelas
entrevistas feitas com acadêmicos, entre os quais historiadores como Jacques
Revel e Luís Reis Torgal, que não se relacionam diretamente com a história
oral, perfaziam 33% do total. Obviamente, o fato de serem historiadores que
não usam a metodologia não tira nada do mérito e do valor das entrevistas,
até porque a ABHO tem insistido, de forma geral, em explorar as relações
entre teoria e metodologia, o que pode certamente ser bem explorado nesses
casos. Os 17% restantes do total das entrevistas – parcela pequena, a meu
ver – é que remetem à construção da memória da história oral no Brasil, e,
marginalmente, fora do Brasil, na medida que exploram a experiência de his-
toriadores que trabalham com história oral. Esse é o caso das entrevistas feitas
com Aspásia Camargo, Mercedes Vilanova e Marieta de Moraes Ferreira, em
1999 e 2001. Ou seja, faz tempo.
184 GOMES, Angela de Castro. Associação Brasileira de História Oral, 20 anos depois: O que somos? O que queremos ser?

Sei que qualquer tipo de classificação é arbitrária e que a que fiz com esse
pequeno conjunto de entrevistas não foge à regra. Mesmo assim, entendo
que ela pode ser útil, na medida em que mostra que a revista não manteve
um investimento sistemático em publicar entrevistas, e não conseguiu fazer
do espaço dedicado às entrevistas um “lugar de memória” para a história da
ABHO e dos usos da metodologia da história oral dentro e fora do Brasil.
Digo isso entendendo que essas entrevistas podem ser exemplares dos pro-
cedimentos da metodologia, constituindo um material privilegiado para se
refletir criticamente sobre ela. Talvez, passados 20 anos, devêssemos pensar
que, entre nós mesmos, há vários pesquisadores a entrevistar, tendo em vista
diversas experiências de trabalho que usaram a metodologia e fizeram acha-
dos importantes para diversas disciplinas. Talvez, com 20 anos de estrada,
possamos pensar em uma lista de entrevistados e entrevistadores muito esti-
mulante para os próximos números da revista; ou seja, planejar a montagem
de um conjunto de depoimentos que registre a memória de nossa experiência
com a metodologia nesse espaço simbólico que é o periódico da ABHO.
Examinadas as entrevistas, passei a uma classificação dos temas dos
dossiês da revista, para, em seguida, fazer o mesmo com todos os artigos do
periódico, estivessem ou não nos dossiês; excluí apenas as resenhas de livros.
Para os dois casos, foi necessário montar uma tipologia de temas com base na
observação do que foi publicado, bem como do que foi indicado pelos títu-
los dos encontros regionais e nacionais. Propositalmente, procurei elaborar
uma tipologia diferente daquela proposta pelo artigo de 2007, aumentando e
diversificando o número de temas. Naquele texto, os autores propunham três
grandes divisões: artigos que tratavam das “camadas populares”, que foram
os mais numerosos (42); os que se voltavam para os segmentos dominantes
(13); e os que discutiam problemas de historiografia, teoria e metodologia
(31). Essa classificação da produção estava ligada à visão de que a história
oral devia se voltar para os atores que não produziam documentação textual
e que, como se dizia, não eram priorizados pela academia; dessa forma, com o
uso da história oral, podiam ganhar nova visibilidade e reconhecimento polí-
tico-social. Além desses atores, não se devia descurar dos estudos que elegiam
as elites – políticas, burocráticas e militares, por exemplo –, que também uti-
lizavam muito essa metodologia. Como tal exercício já tinha sido feito, con-
siderei que não precisava ser retomado sete anos depois. Começando pelos
dossiês – nos quais, em certos casos, entendi ser necessário computar mais de
um tema –, elaborei o gráfico a seguir.
História Oral, v. 17, n. 1, p. 163-192, jan./jun. 2014 185

Gráfico 11 – Incidência de temas nos dossiês da revista

O tema mais frequente, com oito (8) dossiês, resulta da agregação de


um conjunto que remete ao que se pode considerar a questão de fundo da
metodologia da história oral: as relações entre história, memória, tempo
e os processos de construção de identidades – que sempre se combinam,
mais ou menos explicitamente, com o debate de questões metodológicas. A
seguir, com quatro (4) dossiês, está o tema da política, igualmente produto
do grupamento de várias questões, como a da violência e a da militância –
que remetem diretamente às experiências autoritárias do Brasil e de outros
países –, além do tema do comunismo – o que é interessante. Com três (3)
dossiês cada, surgiram dois temas: os clássicos estudos sobre trabalho e tra-
balhadores, que marcaram o perfil da história oral internacionalmente, e um
tema – digamos – novo, chamado de natureza e Amazônia por se dedicar aos
debates sobre o meio ambiente. Imediatamente a seguir, com dois (2) dossiês,
surgem outros dois temas bem visitados pela história oral: gênero e narrativa.
Os demais temas estão em apenas um dossiê.
Uma rápida observação da revista por essa distribuição de dossiês
constata que ela continuou a privilegiar os temas teóricos e metodológicos
ligados à história oral, como em 2007. Evidentemente, isso não quer dizer
que não exista esse tipo de preocupação em dossiês que contemplem outros
186 GOMES, Angela de Castro. Associação Brasileira de História Oral, 20 anos depois: O que somos? O que queremos ser?

temas explicitamente; trata-se apenas de ponderar a ênfase e a oferta de tex-


tos. Vemos também, por um lado, que os temas do trabalho e de gênero não
tiveram tanta força, mas, por outro lado, que cresceram em importância os
artigos que tratam da política, sobretudo por seu laço com a militância e a
violência ligadas aos regimes ditatoriais. Essa inflexão certamente está acom-
panhando a produção acadêmica das áreas da história e das ciências sociais no
Brasil. Por fim, vale observar como os debates sobre meio ambiente – creio
que praticamente inexistentes em 2007 – avolumaram-se, a ponto de gerar
três dossiês. Enquanto isso, aqueles referentes à etnia parecem não ter aumen-
tado tanto, a despeito das grandes mudanças e debates ocorridos nesta última
década no Brasil. Essas ponderações só fazem sentido na medida em que a
escolha do tema do dossiê de uma revista seja encarada como um produto
tanto do que se faz em um campo de pesquisa, quanto do que os editores da
revista desejam estimular em termos de reflexões consideradas estratégicas
em determinado momento. Com alguns ajustes, o mesmo tipo de classifica-
ção foi aplicado aos artigos da revista, num total de 189, conforme o gráfico
abaixo demonstra.

Gráfico 12 – Temática dos artigos da revista


História Oral, v. 17, n. 1, p. 163-192, jan./jun. 2014 187

O primeiro ponto a observar é que a distribuição dos temas dos arti-


gos não replica aquela dos dossiês. Nesse sentido, o tema da política, que era
o segundo em incidência nos dossiês, reforça-se muito quando observamos
o número de artigos da revista: só esse tema reúne 31 textos. Do mesmo
modo, se o tema do gênero teve dois dossiês, sua presença na parte de arti-
gos livres da revista é absolutamente expressiva, a ponto de ser o segundo
mais frequente, com 24 textos, ao lado dos temas identidade, memória, tra-
dição oral e tempo. Já o tema trabalho, agrupado com o de migrações de
trabalhadores, está, por esses indicadores, em recuo na revista, e talvez nas
pesquisas que usam a metodologia. Avança, por sua vez, presença de temas
como o das questões ambientais e dos suportes audiovisuais, ambos tendo
recebido incentivos dos editores, por meio de dossiês e de uma espécie de
nova seção.
O segundo ponto a se destacar é que a revista, pelos temas de seus arti-
gos, efetivamente contemplou o que se pode chamar de questões teóricas
e metodológicas que envolvem a história oral. Se no gráfico essas questões
estão separadas por subtemas – para uma melhor visualização e especificação
do que se publica dentro do grande tema –, o agrupamento dessas variações
evidencia a importância da revista para quem deseja saber o que é e como pra-
ticar bem a metodologia. Juntos, os temas identidade, memória, tradição oral
e tempo reúnem 24 artigos; questões metodológicas e acervos, 20; história
oral, memória e história, 14; narrativas e narradores, 10. Esse grande tema,
portanto, perfaz um montante de 68 artigos, num total geral de 118 – des-
prezando-se os que foram classificados como “outros” –, o que equivale a um
percentual maior do que 50%.
Tal concentração é congruente com as temáticas dos encontros nacio-
nais e regionais de forma geral, como já havia sido assinalado no artigo de
2007. Até essa data, inclusive, verificou-se que 51% dos trabalhos apresen-
tados em encontros nacionais – o que chegava a 141 comunicações – envol-
viam os temas historiografia, teoria e metodologia. Ou seja, pode-se imaginar
que se até 2013 a revista continuou a publicar predominantemente esse tipo
de grande tema, foi porque, muito provavelmente, ele continuou a crescer em
apresentações nos encontros da ABHO – ao menos essa é uma das hipóteses
que se pode considerar e testar.
Por fim, chama a atenção – reiterando o que já se tinha observado
quanto à pequena participação de pesquisadores ligados à área da educa-
ção na ABHO – a quase irrelevante presença de artigos sobre história oral
188 GOMES, Angela de Castro. Associação Brasileira de História Oral, 20 anos depois: O que somos? O que queremos ser?

e educação. Considerando-se que os historiadores – como se viu, a maioria


absoluta dos autores da revista – têm se dedicado mais sistematicamente a
pensar os vínculos entre história, historiografia e ensino de história na escola
e fora dela, e considerando-se que a metodologia da história oral é uma ferra-
menta conhecida e utilizada por pesquisadores na área da educação, fica esse
alerta fornecido pelos dados. Quer dizer, ficam as perguntas: Para onde vão
as reflexões que estão sendo elaboradas a respeito dos usos da história oral na
educação e, em particular, no ensino de história? Vão para outros periódicos?
Ou essa é uma suposição equivocada e, na verdade, não existem tantas refle-
xões sobre essa questão? Nesse caso, por que não existem? E o que fazer para
que existam e apareçam mais em nossa revista?
Concluindo o exame desses dois gráficos e, em especial, atentando para
a grande e qualificada produção publicada na revista a respeito de variados
temas que abarcam questões teóricas e metodológicas da história oral, não
pude deixar de fazer um questionamento. Por que, apesar da ABHO cum-
prir seu papel de disseminar quais são os procedimentos considerados mais
adequados e compartilhados para se fazer o que chamamos de entrevistas de
história oral, vejo (vemos) sistematicamente, nos encontros regionais e até
nacionais, comunicações que pecam em pontos básicos da metodologia?
Como explicar a apresentação de trabalhos que demonstram claramente não
saber exatamente o que é uma fonte oral, ou como produzir um depoimento
de forma correta, ou ainda como proceder à sua transcrição sem desrespeitar
o que o depoente disse? Mais grave ainda, como explicar a apresentação de
comunicações que simplesmente não trabalham com a metodologia e que
não deviam ser submetidas aos encontros da ABHO (e, no caso de submis-
são, deviam ser recusadas por inadequação)?
Consideradas as diversidades presentes e necessárias em qualquer
campo do conhecimento, sabemos que a ABHO, ao longo desses 20 anos,
conseguiu estabelecer regras procedimentais aceitas pelos praticantes da
história oral, algo que não foi fácil e a que precisamos dar muito valor.
Então, por que a sensação é, muitas vezes, a de que caminhamos pouco?
Se tal observação tem algum fundamento, o que devemos fazer além de
continuar publicando na revista História Oral? Que outras estratégias e
mídias a ABHO pode utilizar? Seria interessante repensar como está rea-
lizando seus encontros e, particularmente, selecionando comunicações e
compondo mesas redondas? Seria útil responder de forma mais incisiva às
questões fundamentais da metodologia, por exemplo, no site, por meio de
História Oral, v. 17, n. 1, p. 163-192, jan./jun. 2014 189

uma janela de “consultas de um pesquisador interessado”? Seria bom orga-


nizar, a exemplo de outras associações, um concurso de teses e dissertações
em que as fontes orais fossem privilegiadas e uma reflexão frutífera sobre
elas, explícita ou implícita, estivesse presente?
Também procurei saber, a exemplo do que foi feito em 2007, de que
regiões vinham os artigos de História Oral. Naquela oportunidade, de um
total de 91 artigos, 67% vinham do Sudeste. Com dois dígitos, mas muito
abaixo, estavam as regiões Nordeste (12%) e Sul (11%). Com um dígito,
encontravam-se o Centro-Oeste e o Norte, com 5,5% e 4,4% dos artigos,
respectivamente.

Gráfico 13 – Regiões dos autores publicados pela revista

Em 2013, o percentual do Sudeste abaixou, mas não tanto, pois de 189


textos, 103 (54,5%) ainda vêm dessa região. Cresceu bastante a participa-
ção do Sul, responsável por 49 textos (ou 25,9%). Quer dizer, o Sudeste e o
Sul juntos respondem por 80% do total de textos publicados. Pode-se dizer
que também houve aumento da participação das regiões Centro-Oeste,
que passou a deter 6,3%, Norte, com 5,2%. Já a região Nordeste teve um
decréscimo, passando a corresponder a 9,5% dos artigos publicados. Ou
seja, de forma geral, a distribuição por regiões está menos concentrada, mas
a contribuição do Sudeste ainda é muito grande. Não quero, contudo, dar
190 GOMES, Angela de Castro. Associação Brasileira de História Oral, 20 anos depois: O que somos? O que queremos ser?

a entender que isso é um mal em si mesmo, até porque reconheço que há


um esforço das editorias de História Oral para diversificar as autorias por
instituições – o que inclui a variável região –, até mesmo para que o peri-
ódico tenha uma boa avaliação no Qualis da Capes e participe do Scielo,
por exemplo. Essa distribuição está relacionada com um conjunto de outros
dados, além do recorte incluir o período de implantação da metodologia
no Brasil, quando o Sudeste teve um papel decisivo por meio de várias ins-
tituições do eixo Rio-São Paulo.
Também visando diversificar a autoria de artigos, os editores buscaram
textos de autores estrangeiros com os quais diversos membros da ABHO
mantêm contatos – até mesmo pela forte inserção do Brasil na Associação
Internacional de História Oral. Alguns desses autores visitaram o Brasil e
proferiram palestras em várias universidades. Sua presença no periódico é,
portanto, indicativa dos diversos laços que unem a ABHO a pesquisadores
importantes internacionalmente na área da história oral.

Gráfico 14 – Autores estrangeiros

Autores estrangeiros são 18% dos colaboradores da revista, o que, a meu


ver, é um excelente percentual. Entre eles , a maioria é de europeus e latino-ameri-
canos, o que não é nenhuma surpresa. O pequeno número de norte-americanos
História Oral, v. 17, n. 1, p. 163-192, jan./jun. 2014 191

sem dúvida tem a ver com as características da produção de história oral nos
Estados Unidos, mas também com as redes de sociabilidade intelectual que os
pesquisadores da ABHO construíram ao longo destes 20 anos.
Para finalizar, insisto que estas reflexões pretendem ser apenas um estí-
mulo, já que são fundadas nos dados quantitativos mais facilmente disponí-
veis. Sua intenção é nos fazer pensar mais no presente da ABHO e em seu
futuro, neste ano tão simbólico para a história oral no Brasil.

Referências
FERREIRA, Marieta de Moraes; FERNANDES, Tania Maria; ALBERTI, Verena (Org.).
História oral: desafios para o século XXI. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz/Casa de Oswaldo
Cruz; CPDOC/Fundação Getulio Vargas, 2000.

PEREIRA NETO, André de Faria; MACHADO, Bárbara Araújo; MONTENEGRO,


Antonio Torres. História oral no Brasil: uma análise da produção recente (1998/2008).
História Oral, v. 10, n. 2, p. 113-126, jul./dez. 2007.

Resumo: Em 1994, como produto de esforços de profissionais de várias disciplinas por mais
uma década, formou-se a Associação Brasileira de História Oral (ABHO). A mobilização e
organização de seus praticantes por meio dessa associação foi decisiva para o fortalecimento dos
argumentos que defendiam sua especificidade e valor e, no mesmo movimento, conformavam
práticas de pesquisa que demarcavam o que seria conhecido como metodologia de história oral
no Brasil. Esse trabalho demandou intensos debates e um consistente grau de concordância em
questões fundamentais para que um resultado respeitável fosse produzido. Em 2014, portanto,
a ABHO faz 20 anos. Nesse momento especial, o presente artigo tem como objetivo realizar
um balanço para entender melhor como a ABHO tem existido ao longo dessas duas décadas.
Para tanto, investe em um diagnóstico de suas forças e fraquezas, conhecimento necessário para
traçar planos para seguir em frente com vitalidade.

Palavras-chave: ABHO, metodologia de história oral, associações científicas.

Brazilian Association of Oral History, 20 years later: What are we? What do we want to be?

Abstract: In 1994, as a result of the efforts of professionals of various areas during over a
decade, the Brazilian Association of Oral History (ABHO) was created. The mobilization and
organization of its participants through this association was decisive for the strengthening of the
arguments that defended its specificity and value and, in the same movement, shaped research
practices that demarcated what would be known as methodology of Oral History in Brazil. That
work demanded intense debates and a consistent level of agreement concerning fundamental
192 GOMES, Angela de Castro. Associação Brasileira de História Oral, 20 anos depois: O que somos? O que queremos ser?

issues so that a respectable result could be produced. In 2014, the ABHO completes 20 years
of existence. In this special moment, the present article aims to conduct an assessment in order
to better understand how the ABHO has existed throughout these two decades. For that, this
paper diagnoses its strengths and weaknesses, a necessary knowledge in order to make plans and
move forward with vitality.

Keywords: ABHO, methodology of Oral History, scientific associations.

Recebido em 10/05/2014
Aprovado em 27/07/2014
E NT RE VI S TA

A trajetória política de Sereno Chaise:


da democracia de 1945 aos dias atuais

Claudira Cardoso*
Gustavo Coelho Farias**
Laura Ferrari Montemezzo***

A entrevista a seguir, concedida aos historiadores Claudira do S. C.


Cardoso, Gustavo Coelho Farias e Laura Ferrari Montemezzo, foi realizada
em duas sessões, em dezembro de 2008 e maio de 2009, nas dependên-
cias da Companhia de Geração Térmica de Energia Elétrica, no centro de
Porto Alegre. Trata-se da 24ª entrevista editada pelo Programa de história
oral do Centro de Documentação sobre a Ação Integralista Brasileira e o
Partido de Representação Popular (CD-AIB/PRP). O programa era, na
época, orientado pela Prof.a Dr.ª Núncia Maria Santoro de Constantino,
da PUCRS (Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul), e
estava vinculado ao projeto Organização e ampliação do acervo do Centro de
Documentação sobre a Ação Integralista Brasileira e o Partido de Represen-
tação Popular, sob a orientação do Prof. Dr. René Ernaini Gertz, da mesma
universidade.
Em fins de 1945, com 17, Sereno Chaise ingressou na Ala Moça do PTB
(Partido Trabalhista Brasileiro), onde começaria sua trajetória político-parti-
dária. Entre o curso de Ciências Jurídicas na Faculdade de Direito da PUCRS

* Doutora em Ciência Política e professora do Instituto Federal do Rio Grande do Sul (IFRS).
** Mestre em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e professor da rede
estadual e municipal de ensino.
*** Especialista no ensino de História e Geografia e professora da rede estadual de ensino do Rio Grande
do Sul.
268 CARDOSO, Claudira; FARIAS, Gustavo C.; MONTEMEZZO, Laura F. A trajetória política de Sereno Chaise...

e o trabalho como funcionário do Tribunal Regional leitoral do Rio Grande


do Sul (TRE/RS), Sereno foi tecendo laços com outros membros do PTB,
entre eles Leonel Brizola. Chaise fez parte da geração de trabalhistas que se
forjou politicamente na experiência democrática de 1945-1964. Assim como
Brizola, João Goulart e tantos outros, em seu relacionamento com lideran-
ças já estabelecidas dentro do PTB, Sereno Chaise pôde acumular forças e
avançar postos em sua trajetória partidária, construindo considerável capital
político. Tais redes de relações, juntamente com a base eleitoral construída
no meio estudantil, levaram Sereno ao cargo de vereador em Porto Alegre no
ano de 1951 e, posteriormente, à eleição como deputado estadual consecuti-
vamente nos anos de 1958 e 1962.
Na Assembleia Legislativa, Sereno Chaise viveu o progressivo isola-
mento do PTB no quadro partidário gaúcho. Em 1961, os trabalhistas per-
deram o apoio que o Partido de Representação Popular (PRP) havia dado ao
PTB na eleição de 1958, apoio que contribuiu para levar Brizola ao governo
do estado.1 No estado do Rio Grande do Sul, o trabalhismo ampliava sua
área de enfrentamento externo enquanto fervilhava em tensões e disputas
internas resultantes da renovação desencadeada anos antes pela ascensão da
geração de trabalhistas ligada a Brizola.2 Ao longo desse processo, Sereno foi
aprimorando o capital político que o impulsionaria à prefeitura de Porto Ale-
gre em 1963. Foi lá que ele teve sua vida política atingida em cheio pelo golpe
de 1964 e seus desdobramentos.
Após vencer a prévia no interior do partido, Chaise foi eleito para a pre-
feitura de Porto Alegre, assumindo o executivo da capital gaúcha em janeiro
de 1964. Como não poderia deixar de ser, por ocupar um posto de destaque
na política gaúcha, Sereno foi alvo na “Operação Limpeza” realizada pela
ditadura instaurada pelo golpe de 1964, juntamente com o vice-prefeito, Aja-
dil de Lemos. Porém, mesmo com a cassação e a suspensão de seus direitos
políticos, Sereno Chaise seguiu atuando informalmente e exercendo influ-
ência nas lutas internas do PTB, e, posteriormente, do MDB (Movimento
Democrático Brasileiro). A atuação informal dos “cassados” dentro do MDB
teve uma importante contribuição (Coelho, 2014, p. 164ss.), na medida em

1 Sobre a aliança entre o PRP e o PTB para as eleições de 1958, ver Cardoso (1999). Sobre o progressivo
isolamento do PTB, ver Cánepa (2005).
2 Sobre essa renovação no plano nacional, ver Delgado (1989, p. 189ss.). Para o mesmo processo no
âmbito estadual e municipal, ver Coelho (2014, p. 63ss.).
História Oral, v. 17, n. 1, p. 267-302, jan./jun. 2014 269

que laços políticos não totalmente rompidos seguiam em silenciosos traba-


lhos de bastidores – processo que é ilustrado pelo depoente.
Oficialmente fora da vida partidária, Sereno Chaise optou por conti-
nuar em Porto Alegre, onde seguiu advogando pelo tempo que lhe foi possí-
vel, e posteriormente trabalhou em um restaurante. Nesse período, manteve
contato com antigos colegas de política, diversos dos quais estavam exilados.
Já no período da abertura, voltou à vida político-partidária, estando presente
na fundação do Partido Democrático Trabalhista (PDT), onde viveu nova-
mente intensos conflitos internos. No início dos anos 2000, migrou para o
Partido dos Trabalhadores (PT).
O depoimento de Sereno Chaise mapeia, portanto, uma trajetória
de referência dentro do trabalhismo gaúcho, bem como sua colisão com a
ditadura pós-1964. A importância da atuação política de Sereno Chaise foi
reconhecida em abril de 2014, quando, em sessão extraordinária, a Câmara
Municipal de Porto Alegre realizou a restituição simbólica dos mandatos
cassados no município durante a ditadura. Dentre os nomes reconhecidos
e homenageados, estava o de Sereno Chaise. Assim como tantas outras figu-
ras, Sereno precisou se reinventar para continuar vivendo a política brasi-
leira. Acreditamos que entrar em contato com o material a seguir possibi-
lita conhecer um pouco mais esse período da história, que comporta ainda
muitas questões a serem desvendadas e debatidas. O acervo documental
do Centro de Documentação AIB/PRP foi doado em sua integralidade
à PUC-RS, onde ele está depositado, e acessível a qualquer pesquisador,
no Delfos – Espaço de Documentação e Memória Cultural, no prédio da
Biblioteca Central.

Entrevista (primeira sessão)

Historiadores3 – Então, senhor Sereno, nós sempre começamos com uma


pergunta introdutória… para o senhor falar um pouco das suas origens, em
que região o senhor nasceu, como era a cidade, a relação com a sua família,
um breve histórico desde a sua infância.

3 Como as perguntas foram feitas ora por um, ora por outro dos entrevistadores, optamos por padronizar
a menção usando a palavra historiadores.
270 CARDOSO, Claudira; FARIAS, Gustavo C.; MONTEMEZZO, Laura F. A trajetória política de Sereno Chaise...

SC – Eu sou do interior, eu nasci no interior do município de Soledade, onde


o meu pai era um pequeno produtor rural. Nós morávamos a dez quilômetros
da cidade. Cidade que não era mais do que uma simples vila, basta dizer que
não tinha uma quadra de rua calçada. Eu era guri lá nesse tempo e me lembro,
então, quando chovia a gente ou saía descalço, ou com uma bota, porque
depois ficavam quilos de barro, [riso] era horrível. E no verão, no tempo seco,
era um pó, e no inverno, era um barro. E logo eu fui fazer o grupo escolar na
cidade, depois, já em 1941, minha família decidiu que eu devia estudar… lá
só tinha grupo escolar. Então eu fui pra Passo Fundo, morar numa pensão,
com doze anos de idade, para fazer o curso ginasial. Terminei o ginásio em
Passo Fundo em 1944; 1941, 1942, 1943, 1944. Bom, e aí? Naquela época,
faculdade, só em Porto Alegre. Não é como hoje que, em qualquer canto, tem
ensino superior. Então aí eu tive que me transferir para cá, cheguei em Porto
Alegre em março de 1945. Lutando com dificuldade, trabalhando para estu-
dar, sempre trabalhei para estudar. Minha família é uma família de pequeno
produtor rural. As minhas irmãs, quase todas hoje aposentadas, eram pro-
fessoras… tempos depois, né. Então essa é minha origem, sou do interior, me
criei no interior, saí menino do interior, forçado pela necessidade de estudar.
Bom, vim para Porto Alegre em 1945…

H – Então a gente vai ter o final do Estado Novo, depois a primeira legis-
latura; na primeira o senhor já se encontrava em Porto Alegre. Dá para o
senhor fazer um panorama das disputas? Das discussões na época, como o
senhor conseguia acompanhar isso e ao mesmo tempo já em 1945…

SC – Eu acompanhei, claro, claro. Aí nós construímos o velho PTB. Então


o estado já naquela época… porque aqui é uma espécie de tradição do Rio
Grande, o Rio Grande é dividido em duas metades. Antes eram federalistas
e republicanos, maragatos e pica-paus, e depois aí nós construímos o velho
PTB, que tinha quase a metade. A outra metade era somado o PL [Partido
Libertador], PSD [Partido Social Democrático], UDN [União Democrá-
tica Nacional]. Por exemplo, essa primeira eleição estadual foi em janeiro de
1947, nós perdemos por menos de 20 mil votos de um total de 800 mil votos,
perdemos para o Walter Jobim relativamente por pouco, mas o PTB já saiu
daquela eleição com a maior bancada, 23 deputados estaduais de 55. É que
naquele tempo a legislação era diferente, porque tu fazes, assim, um rateio,
que era o cociente eleitoral. Então um partido elege tanto, o outro partido
História Oral, v. 17, n. 1, p. 267-302, jan./jun. 2014 271

tanto, tanto, tanto, e hoje a sobra é de acordo com um índice que vai ficando
maior, distribui também, na época não era assim. Na época, a sobra era do
partido que fazia maior bancada, então nós a rigor elegemos 18, mas toda a
sobra, que era mais cinco, nós éramos maiores, então nós fizemos 23 deputa-
dos. Quer dizer, perdemos uma eleição para governador, mas saímos de longe
como o maior partido, sempre foi assim na história. O Rio Grande é assim,
sempre muito dividido, como é até hoje, uma parte progressista de esquerda
e uma parte conservadora, mas era o “meio a meio”.

H – Sr. Sereno, o senhor comentou que entrou logo no início do partido, na


Ala Moça. Então o senhor participou da estruturação do PTB, do partido.
Contudo, em 1951, o senhor ainda era muito jovem quando se elegeu verea-
dor. Como o senhor viu a indicação do seu nome para vereador, como é que
foi?

SC – Foi o processo da Ala Moça. A Ala Moça, em 1947, indicou o Brizola


para deputado estadual. Nós éramos companheiros de quarto e eu fui uma
espécie de secretário da campanha, candidato da Ala Moça. Nos elegemos.
Depois, quatro anos depois, ainda na eleição municipal – porque em 1947
foi eleição estadual; em 1950, de novo eleição estadual – depois, em 1951, já
foi a eleição municipal. Então eu fui indicado pela Ala Moça.

H – Então, inicialmente, naquela primeira eleição, a base eleitoral do senhor


foi o meio estudantil?

SC – Foi o meio estudantil. Claro que eu tive um apoio muito importante


aqui nas ilhas, porque aqui tinha uma colônia de pescadores, a Z5, e o secre-
tário de agricultura… Em 1951, o governador era o Ernesto Dornelles, e o
secretário da agricultura era o Maneco Vargas, filho do velho Getúlio, e o
chefe de gabinete dele era um agrônomo, que morreu há pouco, chamado
Helio Becan, Dr. Helio Becan. E um dia ele me chamou lá na secretaria. A
Secretaria da Agricultura era ali perto da rodoviária, na Júlio de Castilhos,
naquele prédio que está abandonado, à direita, aquela ali era a Secretaria da
Agricultura. Quando ele me chamou lá, ele disse: “Olha, vou pedir para a
Colônia, a Z5, para os pescadores te apoiarem”. E realmente, naquele tempo,
a ilha tinha uns 1.200 eleitores, e eu fiz 800 votos… Mas aí, até então, o que
tem a ver agricultura? É que o fundamental para os pescadores é o barbante,
272 CARDOSO, Claudira; FARIAS, Gustavo C.; MONTEMEZZO, Laura F. A trajetória política de Sereno Chaise...

os novelos desse tamanho de barbante [gesticula com as mãos] para faze-


rem as redes, e a rede estava sempre estragando e a Secretaria da Agricultura
dava o barbante, fornecia de graça o barbante para eles. Bom, eles ficaram
meus amigos, depois eu era vereador e passava a noite aí pescando. Naquele
tempo o Guaíba era… [riso]. Era de madrugada, clareando o dia estavam as
canoas aqui despejando peixe fresquinho, vivo ainda, aqui no mercado. Hoje
tu não tens mais nada, a poluição acabou com os nossos peixes. Então eu
fiz uma votação muito grande nas ilhas, e a nossa bancada era uma bancada
brilhante, imagina: Temperani Pereira, professor universitário, um homem…
uma figura excepcional; Geraldo Brochado da Rocha, morreu agora com 94
anos, faz uns 15 dias que ele faleceu; Zé Diogo, irmão do Francisco Bro-
chado da Rocha; o Josué Guimarães, que se transformou no grande escri-
tor, era meu companheiro de bancada; o Lúcio Marques; o velho Leopoldo
Machado, que era um líder sindical e contemporâneo de Assembleia daquele
tempo… da Assembleia não, da Câmara; o Alberto André, o Manoel Braga
Gastal. Era uma turma, não sei se é porque a gente fica velho, mas eu hoje
olho, assim, os deputados e os vereadores e acho tudo tão fraco [riso]. Acho
que no nosso tempo era um pessoal… professores universitários… Temperani
era uma figura, autor de livros de economia, o Geraldo era muito culto… o
Josué! O Josué era um jornalista polêmico, mais tarde se transformou em
escritor, mas ele tinha uma coluna no jornal, assinava Dom Chicote, era um
crítico ferrenho, mordaz. Depois ele virou escritor. Eu não leio literatura, eu
não li os livros dele, uma vez ele me perguntou o que eu tinha achado de
Marimbondos de fogo,4 parece que é […],5 eu não leio isso.

H – Então a sua… o início da sua ação mais direta na política é 1951, e a gente
vê que até 1963, quando o senhor é eleito prefeito em 1963, o senhor tem
uma trajetória anterior como presidente da Câmara Municipal…

SC – Da Câmara, isso, em 1955. Secretaria de governo, tipo Casa Civil hoje.

H – Aí depois como deputado, reeleito numa outra legislatura…

4 Livro publicado pelo ex-presidente da república e atual senador pelo PMDB (Partido do Movimento
Democrático Brasileiro), José Sarney.
5 Por via de regra, as marcas de supressão indicam trechos não compreendidos da gravação.
História Oral, v. 17, n. 1, p. 267-302, jan./jun. 2014 273

SC – Em 1962, foi reeleição. Era um trabalho em equipe. Era um trabalho


em equipe.

H – Como era que o grupo… porque havia dentro da Ala Moça, certamente,
alguns que eram mais, enfim, que se tornavam figuras mais públicas, que
tinham uma influência maior, outros… Com o senhor, como é que era?

SC – Assim, às vezes, tem luta interna, que é a pior de todas. Em 1963 mesmo,
nessa convenção, houve uma disputa, eu fiz 23 votos contra 21 do Wilson,6
então foi uma “diferencinha”… 23 a 21, soma 44 num diretório de 50. Dois
estavam doentes, dois ou três se omitiram, quer dizer, entre os dois acabou
dando em mim. Mas isso era disputa interna, em meia hora… eu reuni 28
votos às 18h. Duas horas e meia depois, às 20h30, eu fiz 23 votos. Teve três…

H – Mas anteriormente, teve a…

SC – Eu fui o líder do governo na Assembleia, eu acho que eu me destaquei


um pouco foi na Assembleia. Na liderança da maior bancada também, eram
23 de novo, com 55... dava sempre 28 votos. Então, como nós tínhamos um
acordo com o PRP no começo do governo do Brizola, não havia problema,
quiseram cinco votos: 23, 5, 28 tranquilo. Mas a partir do começo do terceiro
ano, quando se rompeu o acordo…

H – A partir de 1961.

SC – Aí tivemos que buscar outras soluções, mas nunca perdemos a votação na


Assembleia. Mas aí foi uma atividade parlamentar muito grande, mas eu vivi
aquilo com muita intensidade. Eu vivia a Assembleia 24 horas por dia. Claro
que eu era obrigado, eu sabia tudo, tudo que se passava lá. Via tudo, tudo…
tinha que acompanhar, tinha assim… sempre arrumava votos fora da bancada e
sempre aprovamos tudo, até o orçamento. Então, isso aí foi uma luta, depois…
na prefeitura foi pouco tempo, né; eu assumi dia 1º de janeiro e fui cassado dia
8 de maio.7 Então, naquele tempo, nós perdemos assim tão fácil daquele golpe

6 Wilson Vargas, liderança importante no PTB gaúcho.


7 A data oficial da cassação de Sereno Chaise foi 7 de maio 1964.
274 CARDOSO, Claudira; FARIAS, Gustavo C.; MONTEMEZZO, Laura F. A trajetória política de Sereno Chaise...

de 1964, como o outro lá também ganhou tão fácil que eles meio que se surpre-
enderam, eles não esperavam ganhar assim tão fácil. E aí, era uma quinta-feira,
quinta-feira à noite na Hora do Brasil, saiu a cassação. Aí, digo: “Bom, fazer o
quê?”. Sexta-feira eu esvaziei as gavetas da prefeitura e digo: “Vem aí um major,
um capitão, quem sabe, se era a capital do estado, um tenente-coronel, vem
alguém aí”. Não veio ninguém, passou a manhã toda, ninguém, à tarde… E,
naquele tempo, o Milton Dutra, que era meu vice-líder na Assembleia, quando
era vivo ele era vice-líder, aí já era deputado federal. Então ele me ligava de
Brasília: “Não deixa a prefeitura! Porque tu não tiveste o mandato cassado, só
tiveste os direitos”. Porque era assim, a “revolução” botava assim: “Ficam cassa-
dos os mandatos e suspensos os direitos políticos de... uma lista”. Outros saíam
assim: “Ficam cassados os mandatos”. Só quem tinha mandato. E outros saíam
assim: “Ficam suspensos, por dez anos, os direitos políticos” – onde estava o
meu. Então eu disse: “Bom, mas isso ai é discussão de sexo dos anjos, eu não
vou ficar aqui agarrado como um carrapato”. Porque quem não tem direitos
políticos, como pode exercer a prefeitura da capital? Isso aí não dá! Tenha
a paciência! Não! Mas isso aí não dá. Bom, aí às 17h eu disse: “Olha…” – o
expediente da prefeitura terminava às 18h. Então mandei ordem para todos os
departamentos e secretarias que às 18h, quinze minutos antes, vir todo mundo
para o salão nobre. Eu me despedi da prefeitura e saí. Ficou acéfala.

[...]8

H – Mas eu queria prosseguir no sentido de a gente retomar o clima ali do


golpe, do golpe de 1964. Bom, o senhor é prefeito, quer dizer, prefeito da
capital, o PTB tinha uma bancada majoritária na Assembleia e… Conte para
a gente, assim, como é que era essa coisa, assim, não surgiu nada da tentativa
de resistência, de… Bom, se aceita essa cassação de modo muito tranquilo?
Como é que foi a discussão no partido?

SC – O ambiente era muito diferente do ambiente de 1961, quando houve a


Legalidade. Primeiro, porque a tese em 1961 era uma tese, vamos dizer assim,
que “derrubava pessegueiro”: já que o presidente renuncia, tem que assumir
o vice, para isso existe o vice; não se queria a renúncia do presidente, mas

8 No trecho omitido, Sereno desviou-se da questão proposta pelos entrevistadores.


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ele mesmo se negou a vir para cá e resistir a partir daqui. Já em 1964 não, a
inflação era alta, estava quase com 80% ao mês de inflação, quer dizer, o PTB
velho, que era a esperança da classe trabalhadora naqueles… já no segundo,
terceiro ano de governo do Jango, já a inflação comendo horrores, havia muita
decepção… Então o apelo popular já não era o mesmo. Em 1964, nós perde-
mos facilmente sem condições de reagir, sem condições de reagir. Como eles
também ganharam tão fácil, muito mais fácil do que esperavam, não espera-
vam ganhar com tremenda facilidade. E nós caímos assim, como um castelo
de areia, por quê? Porque o povo estava muito desencantado, estava muito
desencantado, com razão, basicamente pela questão da inflação, basicamente
pela questão da inflação.

H – Mas as chamadas tentativas de reformas, que tinham um apoio popular…

SC – Sim, o Jango lutava por isso, fez muita força, mas não adianta. O Con-
gresso era totalmente hostil. Aliás, o nosso Congresso até hoje… É o seguinte,
a Constituição de 1988 determinou que a lei ordinária fixasse os critérios
para a questão da composição das câmaras municipais. Passaram-se dezesseis
anos – não é dezesseis semanas e dias, dezesseis anos – e o Tribunal Superior
fixou, adotou o critério. Aí ficaram brabos os parlamentares. Agora, está até
nos jornais aí hoje, estão lá aprovando na comissão de justiça o projeto do
Pompeo9 aumentando o número de vereadores. Ah, o que é isso? Pega Porto
Alegre, o Rio Grande tem na Assembleia 55 deputados, Porto Alegre tem na
sua Câmara 36 vereadores e ainda querem aumentar? Mas o que é isso? Não
tem sentido, não tem lógica. Então, o nosso Congresso… projetos impor-
tantes estão lá, dez, quinze anos na gaveta, é uma coisa de desiludir! Coisa
de desiludir! E aí um sistema eleitoral também… a pessoa ganha a presidên-
cia da república com folga e fica com minoria lá. Tem que fazer concessões,
tem que dar o ministério para esses, para aqueles para poder governar… Um
inferno, um inferno! E esse nosso Congresso… começa o seguinte: eles tra-
balham terça de tarde, quarta e quarta de noite já começam a se mandar. É
coisa que, se tu procurar como remédio é encontrar um deputado em Brasília
sexta ou segunda. E eu estou de acordo que os deputados têm que estar nas
suas bases também. A mesma coisa aqui, demagogicamente: restringiram o

9 Pompeo de Mattos, deputado federal pelo PDT do Rio Grande do Sul.


276 CARDOSO, Claudira; FARIAS, Gustavo C.; MONTEMEZZO, Laura F. A trajetória política de Sereno Chaise...

recesso parlamentar, mas para quê? Para quê? O parlamento, antigamente, as


assembleias, a própria Câmara dos Deputados, tinha a função orçamentária.
A Assembleia aqui, no tempo dos deputados classistas, em 1934, 1935,10 se
reunia realmente no mês de novembro para elaborar o orçamento do ano
seguinte, no mais podia funcionar, mas mais para discurso. Então é um hor-
ror isso hoje, isso hoje é um horror! Aqui na Assembleia quantos funcionários
tem? Cada deputado tem 15, 16 assessores. Se tu fizeres uma conta dessas,
pegar a Câmara de Vereadores, vê o que custa! Se tivesse um prefeito como
o Bins, aqueles velhos, o Serres, antigo… com aquele dinheiro ia mudando a
cidade. Num ano já estava bem melhor a cidade. Mas essas coisas a gente nem
pode falar muito, porque aí é contra a democracia.

H – Mas aí, mais uma questão relativa a esse momento da cassação: como é
que foi a repercussão disso na sua vida?

SC – Não, eu não. Eu recebi três, quatro vezes gente que veio da parte do Bri-
zola [para] me levar [ao exílio]. Do Jango também. “Mas eu não vou, tenho
filho pequeno”. Vou abandonar meus filhos, vou distribuir para as minhas
irmãs? Vou para lá, viver como lá? Não, sou homem pobre, vou viver de favor
deles? Não, vou ficar aqui e vou trabalhar. Fiquei, não me arrependo, acho que
acertei. Qualquer coisa, via qualquer bobagem, “prende o Sereno”. Eu ia preso
em tudo, mas paciência, esse período passou. Aí eu não fui… Eu fui indiciado
em tudo quanto era IPM [inquérito policial militar]. Não fui denunciado em
nenhum, eu não respondi nenhum processo regular, não respondi nenhum
processo regular. Então eu tomei essa decisão: vou ficar aqui, vou criar meus
filhos, vou trabalhar. Não, não, nasci aqui e essa terra vai comer meus ossos!
Não vou, não vou! Terminantemente, não vou!

H – Mas aí o senhor começou a trabalhar em quê?

SC – Eu comecei a advogar. Numa posição difícil, tentei quatro anos. Advo-


gava ali com o Otávio Caruso da Rocha, que era meu assessor na prefeitura, e
o Nei Brito, que era meu secretário de governo. Só que o Nei era aposentado
do Tribunal de Contas, salário bom. O Otávio era professor catedrático da

10 Sereno refere-se à legislatura de 1935-1937.


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UFRGS [Universidade Federal do Rio Grande do Sul]. Então chegava no


fim do mês, fazia a contabilidade do escritório. A gente tinha que entrar todo
mundo, mas eu não tinha renda nen