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Santos, José Erimar dos.


Geografia econômica urbana [recurso eletrônico] : a Feira da Pedra e sua
dinâmica urbana e regional / José Erimar dos Santos. – Natal, RN : EDUFRN, 2017.
324 p. : PDF ; 8.749 Kb.

Modo de acesso: http://repositorio.ufrn.br


ISBN 978-85-425-0769-0

1. Geografia econômica. 2. Feiras Livres – São Bento (PB) 3. Economia


urbana. I. Título

CDD 330.91
RN/UF/BCZM 2017/69 CDU 911.3:339.177(813.3)

Todos os direitos desta edição reservados à EDUFRN – Editora da UFRN


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Telefone: 84 3342 2221
PREFÁCIO

O presente livro apresenta em sua estrutura elementos sin-


gulares que, ao adentrarmos nas discussões de seu conteúdo,
devem ser ressaltados ao longo deste prefácio. O conteúdo
aqui apresentado é composto de um mérito intrínseco de José
Erimar dos Santos, o qual se constitui originariamente na dis-
sertação de mestrado defendida em 2012, junto ao Programa
de Pós-Graduação e Pesquisa em Geografia da Universidade
Federal do Rio Grande do Norte, sob a minha orientação.
Trata-se de um amplo trabalho desenvolvido por ele sobre
a Feira da Pedra em São Bento (PB), no qual o autor, apesar
de não ser paraibano, mas norte-rio-grandense, se dedicou
com esmero e obstinação a realizar este trabalho de cunho
regional e inédito, haja vista que, apesar de ser um tema que
perpassa a questão regional, a produção e comercialização
de redes de dormir e de outros artefatos domésticos têm uma
particularidade nordestina.
A rede de dormir se originou no seio dos índios da América
e ainda é muito utilizada, nos dias de hoje, em substituição
à cama, principalmente na zona rural, e também tradicio-
nalmente utilizada para descanso em casas de veraneio.
Atualmente, além de São Bento na Paraíba, as redes de dormir

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GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

são fabricadas também nos estados do Rio Grande do Norte,


do Ceará e de Pernambuco, se destacando algumas cidades
do Seridó norte-rio-grandense, Fortaleza e Jaguaruana no
Ceará e o município de Tacaratu no interior de Pernambuco.
Associados às redes de dormir, comumente nesses locais
também são confeccionados tapetes, mantas, jogos de tapetes
para banheiro, jogos americanos, panos de prato etc.
Tendo em vista a importância dessa atividade para o
interior do Nordeste e em particular para São Bento, Erimar
decidiu privilegiar a Feira da Pedra como tema da sua dis-
sertação de mestrado, destacando a sua importância para a
economia do referido município e para a região Nordeste na
qual se encontra inserida.
De origem humilde, nascido e criado no Alto Oeste
Potiguar, especificamente na pequena cidade de Serrinha
dos Pintos, Erimar não se deixou influenciar pela vida coti-
diana do interior, mas procurou ir mais além, rompendo
adversidades e fronteiras em busca de um futuro promissor
através dos estudos. Daí, após concluir o curso de Licenciatura
em Geografia na Universidade do Estado do Rio Grande do
Norte, campus de Pau dos Ferros, Erimar, no ano de 2009,
se muda para Natal para se submeter ao processo seletivo
de mestrado em Geografia na Universidade Federal do Rio
Grande do Norte.

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GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

Conheci Erimar quando da realização do VIII Encontro


Nacional e I Encontro Internacional COM O PENSAMENTO
DE MILTON SANTOS, realizado em Natal no ano de 2009,
e, no primeiro contato que mantivemos, descobri nele uma
pessoa dedicada, comprometida e responsável. Assim, diante
do convite, aceitei de pronto orientá-lo. Ao longo de nossa con-
vivência, tivemos um bom relacionamento e formamos uma
parceria que deu certo, sendo hoje, dentro do Departamento
e do Programa de Pós-Graduação e Pesquisa em Geografia
da UFRN, uma pessoa respeitada e admirada por todos que
tiveram e têm o privilégio do seu convívio dado o seu espírito
colaborativo e o seu amplo conhecimento da Geografia.
Nesse contexto, sinto-me à vontade e identificado para
prefaciar o presente trabalho, pois convivi com Erimar ao
longo de todos esses anos, me constituí numa testemunha
privilegiada no processo de elaboração desse trabalho, pois
atuei diretamente como orientador, tendo a oportunidade
de discutir reiteradas vezes com o autor sobre a construção
da dissertação que resultou na elaboração da presente obra.
Com reflexo de tudo isto, o livro traz uma grande con-
tribuição ao estudo da feira no seu sentido amplo, um tema
até certo ponto negligenciado pela maioria dos cientistas
sociais e, em particular, os geógrafos. Portanto, o trabalho
vem preencher essa lacuna que, acredito, será de grande valia
para os estudiosos e técnicos interessados em estudar, discutir

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GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

e analisar o processo de origem, evolução e permanência da


feira no Brasil e, em particular, no Nordeste brasileiro. Além
disso, o enfoque dado com relação à Feira da Pedra, objeto
de estudo realizado, retrata uma temática ligada à cultura
nordestina, envolvendo tanto o homem do campo quanto
o da cidade.
O trabalho inicialmente destaca um ponto interessante
que é estudar a Feira da Pedra dentro da teoria dos circuitos
da economia urbana defendida por Milton Santos, onde
as atividades comerciais exercidas pela feira perpassam os
circuitos superior e inferior da economia. Essa discussão
apresentada pelo autor é de uma contribuição singular haja
vista que, para muitos, a feira em geral está inserida ape-
nas no circuito inferior e que Erimar, sabiamente, ressalta a
inserção dos dois circuitos no mercado periódico da feira e,
em particular, na Feira da Pedra.
Outro ponto importante que o autor privilegia é um
amplo resgate da história da feira, na qual ele foi buscar os
prenúncios de sua origem na Europa e como essa se inseriu
e desenvolveu ao longo do tempo no território brasileiro e,
em especial, no nordestino, atrelada, quase sempre, ao espaço
urbano e associada, inicialmente, à atividade da pecuária e,
posteriormente também, à cotonicultura, fato que resultou
na comercialização da tecelagem e nas redes de dormir, a
exemplo da Feira da Pedra. Trata-se de um resgate importante

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GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

da história do Brasil que estava esquecido e que, em boa hora,


Erimar dá essa contribuição aos estudiosos interessados em
desenvolver trabalhos sobre essa temática que muitas vezes
tem sido relegada a um plano inferior. É um trabalho exaustivo
que, com coragem e obstinação do autor, foi capaz de (re)
construir a história da feira no Brasil.
O outro aporte que é destacado pelo autor e que se constitui
no mais importante para este trabalho, é a discussão sobre
a história e a realidade atual da Feira da Pedra, a qual nasce
atrelada à própria feira livre da cidade de São Bento. No caso
específico da Feira da Pedra, é feita uma contextualização
histórica associando a evolução tecnológica dentro do processo
produtivo, o que Milton Santos chamou de “Meio técnico
científico-informacional”. Daí, o autor explica com clareza
como a Feira da Pedra evoluiu ao longo de sua existência,
associando-a com a indústria têxtil de fabricação de redes de
dormir e de outros artefatos, dentro dos diversos momentos
pelos quais passou a economia. Aqui, ele estabelece a relação
da feira nos períodos da fabricação artesanal, manufatureira
e, por fim, maquinofatureiro.
Conforme antes ressaltado, outro ponto que o autor pri-
vilegia, e que é coroado de grande importância é a inserção
da Feira da Pedra nos circuitos da economia urbana. Procura
tratar dos diversos produtos comercializados e sua relação
com o meio técnico-científico-informacional, destacando a

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GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

sua inserção local, regional e internacional desses produtos.


Analisa também as condições atuais da atividade têxtil no
Sertão Paraibano e no Seridó Potiguar haja vista que é dessas
duas sub-regiões que as demandas de produtos têm maior
fluidez. Para tanto, é destacado o perfil socioeconômico dos
feirantes e dos consumidores da feira, atores interessados em
adquirir e em comercializar os seus produtos.
Finalmente, outro aspecto privilegiado na presente obra
são os fixos, os fluxos, os circuitos e as racionalidades que
são inerentes à feira e que contribuem para que a cidade de
São Bento tenha se transformado na “capital mundial da rede
de dormir”, atraindo pessoas de vários estados do país para
Feira da Pedra, com o objetivo de adquirir os produtos que
são aí comercializados, estabelecendo um fluxo intenso e
permanente em um mercado periódico que se transformou
em um fixo regional.

Prof. Dr. Ademir Araújo da Costa


Professor do Departamento e do Programa de
Pós-Graduação e Pesquisa em Geografia da
Universidade Federal do Rio Grande do Norte

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Capítulo 1
O TEMA E O ESPAÇO:
do que este livro trata
Este livro constitui-se de uma versão compacta de parte
dos resultados de nossa pesquisa de mestrado acadêmico,
desenvolvida e defendida no âmbito do Programa de Pós-
Graduação e Pesquisa em Geografia da Universidade Federal
do Rio Grande do Norte, sob a orientação do professor Ademir
Araújo da Costa, com apoio financeiro da Coordenação de
Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). Ele
detém-se à geografia econômica urbana, mais especificamente
discutindo e refletindo sobre o sistema feira livre, a partir
dos circuitos da economia urbana, em especial no contexto
das dinâmicas do atual período do espaço geográfico, tendo
como objeto empírico a Feira da Pedra de São Bento (PB). Seu
objetivo é, antes de tudo, mostrar que o moderno e o tradi-
cional são partes de uma mesma totalidade em totalização,
ora se complementando, ora se miscigenando, coexistindo,
em que sua estrutura configura a forma, a função e os pro-
cessos dos fatos a ela ligados, mediante o período técnico e
as possibilidades vigentes nos lugares.
Independente do nível de crescimento, toda cidade possui
duas áreas de mercado, uma representada pela realidade nova
“moderna” e outra com gostos primitivos, “tradicionais”, que
podem ser facilmente identificados, pois estes dois subsistemas
econômicos atuam lado a lado, de forma complementar e
miscigenada. Essa configuração foi chamada por Milton Santos
de circuito superior e circuito inferior da economia urbana.

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GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

O circuito superior refere-se ao conjunto de atividades


realizadas com capital intensivo, resultado direto da moder-
nização tecnológica, cuja maior parte das relações ocorre
fora da cidade, uma vez que possui referência nacional e
internacional. Nesta categoria de produção, comércio e con-
sumo enquadram-se os bancos, as indústrias, os serviços
modernos, atacadistas e transportadores. Já o circuito inferior
consiste de atividades em pequenas escalas e são praticadas
pela parcela da população que não tem acesso às atividades
econômicas do circuito superior, por falta de “qualificação
profissional”, poder de consumo e acesso à tecnologia. São
exemplos as atividades da economia informal praticadas por
ambulantes, carregadores de mercadorias em feiras livres e
pequenos comércios, os denominados pobres. Para M. Santos
(1979a), contrariamente ao circuito superior, o inferior é bem
sedimentado e goza de relações privilegiadas com sua região.
O município de São Bento possui atualmente uma
população de 30.880 habitantes, sendo 25.039 residentes na
cidade e 5.841 no meio rural, segundo o Instituto Brasileiro
de Geografia e Estatística (IBGE, 2010a). A principal caracte-
rística de sua sede urbana é a fabricação de redes de dormir,
fato que a torna denominada de Capital Mundial das Redes.
Em função disso, apresenta uma geografia peculiar em relação
a outras cidades de mesmo tamanho no Estado da Paraíba.
Possuindo mais de 300 pequenas, médias e grandes indústrias

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GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

têxteis, que fabricam aproximadamente 600 mil redes ao mês,


num processo que consome 12 milhões de quilogramas de
fios por ano, em 1,2 mil teares que funcionam dia e noite para
atender a demanda de consumo de vários estados brasileiros
e também ao exterior, como Bolívia, Paraguai etc., São Bento
tem sua economia voltada em maior parte para a fabricação de
redes de dormir (CARNEIRO, 2001, 2006, 2011; HADDAD,
2004a; MARTINS; VASCONCELOS; CÂNDIDO, 2007). Esse
produto (a rede de dormir) apresenta grande diversificação
de tipos e qualidades, sendo confeccionado tanto em grandes
fábricas, como em pequenas tecelagens de fundo de quintal,
espalhadas por toda a cidade e município. Baseado em fontes
do IBGE, Haddad (2004a) afirma que 80% da população eco-
nomicamente ativa existente no município vive diretamente
da produção, comercialização e distribuição de redes.
A Feira da Pedra, inserindo-se no processo de comerciali-
zação e distribuição dessas mercadorias, faz parte desse con-
texto, sendo, a priori, uma extensão da feira livre aí existente.
Trata-se de um sistema de comércio de mercadorias têxteis
produzidas pela indústria têxtil de fabricação de redes de dor-
mir e derivados dessa mesma indústria, presente em algumas
cidades dos estados da Paraíba e do Rio Grande do Norte,
constituindo-se numa estratégia de sobrevivência, inserida no
rol do terciário e do comércio varejista da economia urbana
dessa cidade paraibana. Essa feira, no dia de sua realização (às

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GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

segundas-feiras), proporciona o encontro de diversos objetos


têxteis e o estabelecimento de diversas relações não somente
típicas de comércio, mas também sociais, culturais e políticas,
pois “desde longa data que a ida às compras ultrapassa a
simples necessidade de mercadejar, para adquirir também
aspectos lúdicos de ver gente e coisas novas, saber novidades
e saber trocar pontos de vista” (SALGUEIRO, 1989, p. 153).
Esta feira não se constitui apenas como um fenômeno local
e regional, mas também como uma referência econômica e
sociocultural constitutiva de um lugar do espaço geográfico
em que muitos sujeitos paraibanos e norte-rio-grandenses
se identificam, pois o acontecer dessa atividade traz para o
seu cotidiano semanal o produto resultante da labuta têxtil
do Sertão Paraibano e do Seridó Potiguar.
A Feira da Pedra constitui-se numa das mais importan-
tes características dessa cidade nordestina, tendo em vista
sua grande importância econômica, social e cultural para
a população local e regional. Assim, essa atividade acarreta
diversas dinâmicas ao espaço urbano e regional, pelo fato de
atrair grande número de pessoas, carregando consigo ações
típicas de sua relação com o espaço intra e interurbano.
A compreensão de espaço geográfico, aqui adotada, parte
da perspectiva definida por Santos (2009a, p. 21), para quem o
espaço geográfico é “[...] um conjunto indissociável de sistemas
de objetos e de sistemas de ações”, em que participam “[...]

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GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

de um lado, um certo arranjo de objetos geográficos, objetos


naturais e objetos sociais e, de outro lado, a vida que os anima
ou aquilo que lhes dá vida. Isto é a sociedade em movimento”
(SANTOS, M., 1988a, p. 15). Buscando operacionalizá-lo,
utilizaremos também a noção de região, lugar, paisagem,
território, sempre que se fizerem conveniente e oportuno,
levando-se em conta as esferas: social, política e econômica,
privilegiando alguns elementos e categorias de análises.
É nesse âmbito que se insere a temática aqui estudada, não
como um fenômeno isolado, mas como fenômeno espacial
em sua totalidade, pois, conforme já dizia La Blache (1954,
p. 36), “um objeto isolado pouco nos diz; mas já coleções da
mesma providência nos permitem discernir uma sigla comum,
e dão, viva e direta, a sensação do meio”. Dessa forma, não
se pode analisar determinados fenômenos constitutivos do
espaço geográfico “através de um só desses conceitos, ou
mesmo de uma dominação de dois deles” (SANTOS, 2008a,
p. 76), mas levando-se em consideração a sua imbricação,
tendo a metodologia como diálogo da bibliografia pertinente
ao tema e teoria enfocados, com os resultados das pesquisas
documental e de campo, resultante do levantamento de dados
e informações do objeto pesquisado.
O livro encontra-se seccionado em cinco capítulos, que dis-
cutem a feira, uma das vertentes do comércio varejista urbano,
a partir dos circuitos da economia urbana, no espaço tempo

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GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

atual. O comentário concernente a cada um dos capítulos


consta no início dos mesmos. Fazendo nossas as palavras de
Silva (1978, p. 4): “dispenso-me, pois, de fazer mais referências
do que as já feitas [...]”.
Ademais, esperamos que este livro contribua com o debate
geográfico, incitando novas discussões e pesquisas, pois, dis-
tante de ser uma elaboração construída por completa, pronta
e acabada, fechada em si mesma, não descarta contribuições
que venham ajudá-lo a ser menos imperfeito, uma vez que “[...]
a ciência é, em grande parte, um modo de pensar o mundo
para além das aparências” (SILVA, 1982, p. 22), e é isso que
este livro reflete.

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Capítulo 2
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA:
a teoria dos dois circuitos da
economia e o atual período do
espaço geográfico
Este capítulo versa sobre a economia urbana à luz da
Geografia, destacando os elementos teórico-conceituais indis-
pensáveis à compreensão das dinâmicas urbana e regional
em que as feiras livres e a Feira da Pedra se inserem no atual
período geográfico do espaço, cuja natureza é, em grande
medida, técnica, científica e informacional. Assim, discutimos
os circuitos da economia urbana enquanto uma ótica de aná-
lise e compreensão da geografia econômica da cidade, levando
em consideração as dinâmicas do tempo contemporâneo.
Compreender a realidade atual não é simples, ainda mais
nesse período técnico-científico-informacional, de globalização,
que, de forma direta ou indireta, afeta todo o espaço, pois a
interconexão entre todos os pontos e, por sua vez, a organização
socioespacial apresentam-se cada vez mais universalizadas. Em
outras palavras, vivemos, conforme diz M. Santos (1988b, p. 14),
a “universalização do mundo, [...] universalização das trocas,
[...] universalização relacional das técnicas [...] universalização
dos gostos, do consumo, [...]. Universalização da cultura e dos
modelos de vida social [...]”, sendo esse fenômeno presente em
praticamente todos os espaços, nos deteremos àquele concebido
como urbano.
Os processos que desencadeiam o processo da urbaniza-
ção, sobretudo após a Segunda Guerra Mundial, carregam, em
seu bojo, diversas nuances sociais, dentre elas a pobreza e a

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GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

falta de emprego. Foi pensando nessa complexa questão, que o


geógrafo Milton Santos traçou significativas reflexões, dentre
as quais a sua teoria dos dois circuitos da economia urbana.

Os dois circuitos da economia urbana: contra


o dualismo e por uma possibilidade de
compreensão da geografia econômica urbana

Tecendo reflexões sobre as características do processo de


urbanização verificado nos países subdesenvolvidos, no pós-
Segunda Guerra Mundial, é que Milton Santos, atentando-se
para o contexto da economia internacional, verificada naquele
momento, bem como ainda pensando o modelo teórico e
metodológico de compreensão desses países, provenientes do
centro do sistema explicativo (sobretudo da França), começa
a travar debates e reflexões, que culminam com a teoria
dos circuitos da economia urbana. Teoria essa que aponta o
pequeno comércio – como entendemos ser o caso das feiras
livres, a prestação de serviços, como carpinteiros, alfaiates,
pedreiros, ferreiros, dentre outros –, como originário de um
mesmo fator (o desenvolvimento tecnológico), não sendo, pois,
resultante de um processo dual como acreditavam alguns.
O pós-Segunda Guerra Mundial configurou-se em um
momento no qual intelectuais (sociólogos, antropólogos,

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GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

geógrafos) procuraram entender o Brasil, a partir de uma


perspectiva endógena, de dentro, como foi o caso, por exem-
plo, do legado de Celso Furtado (Economia), Darcy Ribeiro
(Antropologia), Florestan Fernandes (Sociologia), Milton
Santos (Geografia), dentre outros. Outra que merece nossa
atenção foi forjada por Jacques Lambert com a sua obra Os
dois Brasis, da segunda metade da década de 1960, em que
afirmava que os brasileiros encontravam-se divididos em
dois sistemas de organização econômica e social, distintos
tanto nos níveis quanto nos métodos de vida. Segundo ele,
“essas duas sociedades não evoluíram no mesmo ritmo e não
atingiram a mesma fase; não estão separadas por uma diferença
de natureza, mas por diferenças de idade” (LAMBERT, 1976,
p. 101, grifos nossos).
O termo grifado serve para perceber a concepção dua-
lista de explicação da sociedade forjada por Lambert, pois a
origem das desigualdades que assolam a sociedade, sobre-
tudo a brasileira, resulta da diferença de natureza, natureza
técnica, científica configurativa dos processos econômicos
e socioespaciais, sendo, portanto um mesmo processo – o
desenvolvimento contraditório e desigual do capitalismo,
que em seu jogo contraditório, é complementar em todos
os aspectos e atualmente é miscigenado quanto ao uso das
técnicas em alguns deles.

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GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

Os circuitos propostos por Milton Santos não são distintos


mediante a sua idade, muito embora, na ausência de outro
termo possamos chamá-los de circuito moderno e circuito
tradicional, respectivamente circuito superior e circuito
inferior, uma vez que, “[...] as atividades do circuito superior
não são tão definidas pela sua idade quando comparadas
com atividades semelhantes nos países do centro e, sim, pelo
seu modo de organização e de comportamento” (SANTOS,
2009b, p. 61). Isso porque, nas condições técnicas atuais,
as atividades do circuito inferior encontram-se estrutural-
mente subordinadas, complementares e miscigenadas às
condições de modernização, alimentando-se em parte dessa
modernização para manter-se frente às transformações. Nesse
sentido, os termos circuito superior e circuito inferior talvez
não sejam os mais adequados, tanto é que logo na introdução
do livro: O Espaço Dividido... Milton Santos já nos adverte,
pois superior pode dar ideia de superioridade, e inferior, de
inferioridade. Apesar disso, o fato é que são subsistemas da
economia urbana que se complementam, resultantes de um
mesmo fator: o desenvolvimento do capitalismo, sendo que
se tratados em termos de dualismo arriscar-se-á “[...] deixar
de lado a trama histórica, indispensável a uma interpretação
correta da realidade e de outro lado conduziria a análises
parciais suscetíveis de acarretar mais uma vez soluções fal-
sas” (SANTOS, M., 1979a, p. 43), pois são resultantes de um

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GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

mesmo encadeamento de causas, de um mesmo grupo de


fatores que “[...] com a preocupação de simplificar, chamamos
de modernização tecnológica. [...] não há dualismo: os dois
circuitos têm a mesma origem, o mesmo conjunto de causas
e são interligados” (SANTOS, 1979a, p. 43; 2009b, p. 47).
A explicação dualista da sociedade vai ser uma das preo-
cupações do geógrafo Milton Santos, quando, em meados
da década de 1970, publica uma obra chamada O Espaço
Dividido: os dois circuitos da economia urbana dos países
subdesenvolvidos, cuja constituição é uma tentativa de aná-
lise e interpretação sistemática, e não dualista, da evolução
espacial, econômica, social e política e, portanto, geográfica
da economia urbana dos países, classificados naquela época
como “terceiro mundo”, “subdesenvolvidos”. O objetivo geral
desta obra foi tecer uma nova teoria, a dos dois circuitos da
economia urbana baseada na organização do espaço geográ-
fico, cuja análise pautou-se no novo sistema técnico, dado
após a Segunda Guerra Mundial, levando a uma nova teoria
da urbanização desses países. Com essa teoria, esse geógrafo
contribuiu para que uma nova leitura geográfica fosse feita
da economia urbana e regional. Segundo M. Santos (1979a),
nos países subdesenvolvidos, a modernização tecnológica
verificada na segunda metade do século passado processou-se
de forma significativamente relativa, bipolarizando a vida
econômica, o espaço e a sociedade desses países em dois

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GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

circuitos de produção, distribuição e consumo, que são por


ele denominados de circuito superior e circuito inferior. Assim,
o referido autor chama a atenção para se pensar a realidade
desses países a partir de suas próprias realidades.
Em São Bento, o mercado de trabalho é caracterizado por
uma expressiva quantidade de pessoas que não têm emprego
nem renda permanentes, ocupando uma variedade muito
grande de ofícios. Tal fato é uma constante nas cidades nesse
contexto de economia flexível, pós-fordista, marcado pelas “[...]
enormes diferenças de renda na sociedade, que se exprimem,
no nível regional, por uma tendência à hierarquização das
atividades e, na escala do lugar, pela coexistência de atividades
de mesma natureza, mas de níveis diferentes” (SANTOS, M.,
1979a, p. 15), como é evidente na Feira da Pedra.

Os dois circuitos da economia urbana:


definição e características

M. Santos (1979a, p. 33) define os dois circuitos da eco-


nomia por duas variáveis: “1) o conjunto das atividades
realizadas em certo contexto; 2) o setor da população que
se liga a ele essencialmente pela atividade e pelo consumo”.
A essas duas variáveis acrescentaríamos uma terceira, qual
seja: os níveis de tecnologia, capital e organização, presentes

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GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

em cada circuito. Como atividades pertencentes ao circuito


superior, podemos listar aquelas consideradas de alto grau de
tecnologia, modernas e ligadas ao capital hegemônico e nas
quais a população é em peso pertencente às classes média e
alta. Já as atividades inseridas no circuito inferior são aquelas
que operam com baixa tecnologia ou na ausência desta, con-
sideradas não modernas, embora resultem da modernização,
cuja população ligada, tanto no que diz respeito à produção
quanto ao consumo, pertence, em grande medida, ao substrato
social pobre, que “[...] advém da banalização das variáveis
determinantes e, por isso, não pode ser estudada à margem
da riqueza” (SILVEIRA, 2007, p. 4).
Derivado diretamente da modernização tecnológica, o
circuito superior organiza o espaço em macro escala, pos-
suindo um quadro de referência nacional e internacional
e servindo a uma população seleta (as classes mais altas).
Como exemplos de atividades do circuito superior, citam-se
os shopping centers, super e hipermercados, lojas de departa-
mentos, os “[...] bancos, comércio e indústria de exportação,
indústria urbana moderna, serviços modernos, atacadistas
e transportadores” (SANTOS, M., 1979a, p. 31), ao contrário
do circuito inferior, que é “[...] constituído essencialmente por
formas de fabricação não ‘capital intensivo’, pelos serviços não
modernos fornecidos ‘a varejo’ e pelo comércio não moderno
e de pequena dimensão” e pelas feiras livres.

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GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

Todos os ramos do circuito superior utilizam capital


intensivo e são, portanto, extremamente dependentes do
crédito disponibilizado pelas instituições financeiras (bancos
e caixas econômicas), tendo o Estado a seu favor, através de
políticas públicas, que contribuem direta ou indiretamente
para a sua manutenção. Como exemplo, citamos as cadeias
do setor têxtil de redes de dormir, que têm se estabelecido na
cidade de São Bento, tendo, nos benefícios governamentais e
no crédito financeiro, seu grande instrumento de alavancagem
para fortalecer o apelo ao consumo de produtos têxteis pela
América do Sul e Europa. Isso só acontece pelo apoio do
Estado, que protege e incentiva.
Ainda com relação a esse circuito, há uma subdivisão, que
comporta as atividades que utilizam formas menos modernas
em relação à tecnologia e à organização, denominadas de
circuito superior marginal, isto é, as formas primitivas da
modernização ou das adaptações de formas específicas que
não entrariam por completo no rol das atividades modernas.
Dessa forma, “a atividade de fabricação do circuito superior
divide-se em duas formas de organização”. De um lado, “uma
é o circuito superior propriamente dito, a outra é o circuito
superior marginal, constituído de formas de produção menos
modernas do ponto de vista tecnológico e organizacional”
(SANTOS, M., 1979a, p. 80).

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GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

Já o circuito inferior se exemplifica nas diferentes mani-


festações do comércio informal, o qual satisfaz o orçamento
das classes menos favorecidas, permitindo que estas tenham
“acesso, por formas específicas de comercialização” – da qual
destacamos o sistema feira – “[...] aos produtos fabricados no
circuito superior, bem como o de produzir, ele mesmo, os bens
de tipo moderno ou tradicional que comercializa através de
seu aparelho próprio” (SANTOS, M., 1979a, p. 73). É fruto
da dinâmica econômica, que faz em seu processo coexisti-
rem, lado a lado, um circuito “moderno” e um circuito “não
moderno”, os serviços não modernos “a varejo” e o comércio
tradicional de pequeno porte. Na época em que o geógrafo
Milton Santos fez sua análise sobre este circuito, havia uma
massa muito grande da sociedade articulada de forma parcial
ou quase nula às inovações tecnológicas e aos serviços consi-
derados modernos. No entanto, hoje há uma pulverização de
objetos técnicos considerados modernos nos lares e na vida
da população de uma forma geral, bem como nas formas de
comércio e processos produtivos típicos desse circuito, como
é o caso do uso demasiado de aparelhos celulares e máquinas
de cartão de crédito presentes em atividades desse ramo etc.
Tal realidade não exclui a condição de atentarmos para o
seguinte fato: “a existência de uma massa de pessoas com
salários muito baixos ou vivendo de atividades ocasionais, ao
lado de uma minoria com rendas muito elevadas” (SANTOS,

29
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

M., 1979a, p. 29), ainda é uma característica desse espaço


em totalização. Isso cria, na sociedade urbana em tela, “uma
divisão entre aqueles que podem ter acesso de maneira per-
manente aos bens e serviços oferecidos e aqueles que, tendo
as mesmas necessidades, não têm condições de satisfazê-las”
(SANTOS, M., 1979a, p. 29), ponderando-se ao mesmo tempo
uma realidade com significativas diferenças quantitativas e
qualitativas no sistema de consumo e existencial dos cidadãos.
Circuito inferior e circuito superior só existem porque as
racionalidades, que fazem o acontecer do espaço geográfico,
se dão de maneiras distintas e, para entendê-las, precisamos
compreender as razões que fazem tais circuitos acontecerem,
cuja causa está no atual período do espaço, o período técnico-
científico-informacional, pois “[...] os circuitos da economia
urbana são moldados pelo período” (SILVEIRA, 2007, p. 10),
isto é, pelo período técnico-científico-informacional.

O período técnico-científico-informacional
e os circuitos da economia urbana

Para uma melhor compreensão desse período, o dividire-


mos em dois momentos: 1) o período técnico-científico-in-
formacional propriamente dito do Brasil construído, segundo
Santos (1994; 2008b; 2009a) e Santos e Silveira (2002), após a

30
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

Segunda Guerra Mundial; e 2) o período técnico-científico-in-


formacional de São Bento. Acreditamos, pois, que em ambos
os espaços, os meios técnicos, científicos e informacionais se
deram de forma diacrônica, já que “os processos espaço tem-
porais não são homogêneos, nem tampouco homogeneízam
[...]” (CASTRO, 2008, p. 320) todos os territórios ao mesmo
tempo em que ocorrem.
Sendo o meio técnico-científico-informacional o espaço
geográfico resultante da intensidade, em sua estrutura, da
aplicação da tecnologia, da ciência e da informação no pro-
cesso produtivo, logo o período de mesmo nome diz respeito
ao tempo atual do espaço geográfico, cuja natureza é técnica,
científica e informacional, conforme Santos (1994; 2008b;
2005a; 2009a) e Santos e Silveira (2002). Para Santos (2005a,
p. 121), a partir do final da Segunda Guerra Mundial “o terri-
tório vai se mostrando cada dia que passa com um conteúdo
maior em ciência, em tecnologia e em informação”, sendo
esta última, a grande regedora das ações que definem novas
realidades espaciais, dando ao meio e aos seus objetos e ações
uma organização típica desse período.
Santos (1994; 2008b, p. 134-135) nos fala da especificidade
do território brasileiro mediante alguns fatos que devem ser
levados em conta quando se discute algo relacionado a esse
período do espaço geográfico: 1) o grande desenvolvimento
da configuração territorial que passa a se dar com mais

31
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

intensidade nesse período. Segundo ele, “a configuração


territorial é formada pelo conjunto de sistemas de engenharia
que o homem vai superpondo à natureza, verdadeiras próteses,
de maneira a permitir que se criem as condições de trabalho
próprias de cada época”; 2) a produção material, englobando
a industrial e agrícola, pois passa por mudanças estruturais,
em que “a estrutura da circulação e da distribuição muda;
a do consumo muda exponencialmente” e expandindo-se
territorialmente através das novas formas produtivas; 3) “o
desenvolvimento das formas de produção não material”, pois
se tem “uma grande expansão das formas de produção não
material”, como é o caso “da saúde, da educação, do lazer,
da informação e até mesmo das esperanças”. São formas de
consumo que se disseminaram na constituição do território; 4)
o privilegiar-se a distorção da produção e do consumo, “com
maior atenção ao chamado consumo conspícuo, que serve a
menos de um terço da população, em lugar do consumo das
coisas essenciais, de que o grosso da população é carente”
(SANTOS, 1994; 2008b, p. 135).
Concordamos com Carneiro (2006, p. 151), quando,
baseado na premissa de que os espaços são desiguais, afirma
que, no município de São Bento, “[...] a constituição de seu
meio técnico-científico-informacional se dá com a distribuição
diferenciada socioespacialmente dos elementos constitutivos
do espaço: técnica, ciência e informação”. Realidade essa

32
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

expressa em sua paisagem, bem como nas atividades econô-


micas. A paisagem nos revela, portanto, “a incompletude ou
escassez” dos elementos desse período no espaço geográfico
em tela, tanto no campo como na cidade, “nas empresas ou
nas repartições públicas, no lar ou no trabalho, nos objetos
e nas ações, no processo de produção, no comportamento e
no cotidiano das pessoas” (CARNEIRO, 2006, p. 151). Assim,
“[...] sincronia e assincronia não são de fato opostas, mas
complementares no contexto espaço temporal, porque as
variáveis são exatamente as mesmas” (SANTOS, 1976, p. 21;
2008c, p. 259), havendo em São Bento, como também em
outras cidades, a sincronia dos elementos técnicos, científicos
e informacionais incompletos, o que nos força para uma com-
preensão das lógicas de suas complementaridades e também
miscigenação, mediante análise geográfica da Feira da Pedra.
No atual “estado das técnicas” (SANTOS, 2009a, p. 169),
é preciso levar em consideração a discussão dos circuitos da
economia urbana tendo a premissa de que “o conhecimento
científico é profundamente dinâmico e evolui sob a influência
das transformações econômicas e de suas repercussões sobre a
formulação do pensamento científico”. Isso significa que “[...]
o objeto e os objetivos de uma ciência são relativos, diversifi-
cando-se no espaço e no tempo, conforme a estruturação das
formulações econômicas e sociais” (ANDRADE, 1992, p. 15),
que são inerentes a cada período. Assim, “a ambição de uma

33
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

obra, que procura apresentar um corpo de ideias elaboradas


de modo pioneiro, é provocar um debate geral e encorajar
estudos empíricos que confirmarão ou não a ideia geral e
ajudarão a reformulá-la” (SANTOS, M., 1979a, p. 9), pois
sendo o espaço “[...] a expressão da sociedade. Uma vez que as
sociedades estão passando por transformações estruturais, é
razoável sugerir que atualmente estão surgindo novas formas
e processos sociais” (CASTELLS, 1999, p. 435-436), aos quais
a discussão sobre os circuitos da economia urbana devem
estar relacionados, em que a coexistência e a simbiose entre
tais subsistemas da economia urbana são uma constante.
Em outras palavras, no atual período torna-se cada vez mais
complexo definir o que é circuito superior e inferior, dado o
estado das técnicas.
Segundo Silveira (2004, p. 3), no período em que se encon-
tra o espaço geográfico, os circuitos encontram-se com con-
teúdos novos devido à natureza modificada do espaço, pois:
“[...] la intensa urbanización, la reorganización del Estado
y de la economía, la monetarización de la economía y de
la sociedad [...] y la diversificación y profundización de los
consumos son datos nuevos del período, que alteran la natu-
raleza del espacio”, onde se desenvolvem “los circuitos de la
economía urbana”. Ainda conforme essa autora temos hoje
uma intensa explosão do circuito inferior, juntamente com um
crescimento do circuito superior marginal, ocasionados pelo

34
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

ritmo imposto pela época em que se encontra o espaço. Dentre


esses aspectos notamos, que “muito presente na constituição
do circuito inferior nos anos setenta, a figura do agiota, é,
em grande parte, substituída hoje pelos bancos e instituições
financeiras [...]” (SILVEIRA, 2007, p. 10).
De um modo geral, pesquisadores como Jesus (1992),
Porto (2005; 2007), Trevisan (2008) e Costa (2003; 2009)
têm focado os seus trabalhos na investigação de feiras livres,
a fim de compreendê-las a partir da teoria dos circuitos da
economia urbana. Tais trabalhos abrem espaços para a com-
preensão desses tipos de comércios e para a análise de suas
individualidades e perfis.
Jesus (1992, p. 97), investigando a feira livre carioca pau-
tado em grande parte na teoria dos circuitos da economia
urbana de M. Santos (1979a), “[...] oferece-nos elementos
significativos para se compreender a coexistência de formas
e processos espaciais contrastantes e aparentemente contradi-
tórios nas grandes cidades dos países subdesenvolvidos”, em
específico, o caso da cidade do Rio de Janeiro. Afirma que a
feira livre carioca apresenta-se enquanto circuito inferior, mas
do ponto de vista da informalidade. Segundo esse autor, “[...]
nos últimos 25 anos a feira livre carioca empreendeu um autên-
tico mergulho no universo do setor informal da economia
urbana” (JESUS, 1992, p. 112), resultante da modernização do
varejo e das estratégias desenvolvidas pelos feirantes. Circuito

35
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

inferior não é sinônimo de setor informal e sabemos que,


embora as grandes cidades apresentem uma reestruturação
socioespacial mais intensa resultante da ação do Estado e
do circuito superior, a feira enquanto instituição do sistema
econômico das cidades é tributária do poder político.
Porto (2005; 2007), discutindo sobre configuração
socioespacial e produção socioeconômica da cidade baiana
de Itapetinga, insere as feiras livres dessa urbe e seus arredores
no circuito inferior da economia urbana. Atentando para
as características dos dois circuitos da economia urbana,
conclui em seu estudo, “[...] que a maioria das características
do circuito inferior, apresentadas por Santos, está presente no
‘dia a dia’ das feiras”, por ele analisadas. Assim, dentre essas
características podemos citar “[...] o caráter simples em que se
dá a venda dos produtos, o baixo investimento em capital no
funcionamento dos pontos de venda, a presença considerável
de familiares trabalhando nesse processo, baixo estoque de
produtos” (PORTO, 2005, p. 153), e, ainda, a não utilização
de empréstimos bancários pelos feirantes para manter seu
próprio negócio, dentre outras.
Para Trevisan (2008), estudar a feira a partir da teoria dos
circuitos da economia urbana é relacioná-la à formalidade
(circuito superior) e à informalidade (circuito inferior). No
entanto, apresenta características desse comércio periódico,
ora enfatizando-as como circuito inferior ora evidenciando

36
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

as empresas do circuito superior, próximas a essa atividade,


construindo uma abordagem econômica do espaço estudado
– Igarassu (PE).
Por fim, Costa (2003, p. 152; 2009), trazendo a feira de
Campina Grande (PB) a partir da teoria dos circuitos da
economia urbana, chega à conclusão, dentre outros fatores,
que a feira por ele analisada é um “[...] importante ponto de
contato, não só entre o moderno e o tradicional, mas também
entre o urbano e o rural, seja no atendimento do que há de
mais rugoso ou das tecnologias emergentes”. Essa é uma
capacidade pela qual a feira se mantém no meio atual, per-
tencendo, portanto, ao circuito inferior da economia urbana
dessa cidade paraibana.
O que todos esses trabalhos têm em comum, além de
relacionar a feira ao circuito inferior, é o fato de trabalharem
com a teoria dos circuitos da economia urbana sem a preo-
cupação com o estado das técnicas atual, faltando atentar-se
para a complexidade inerente à distinção do que é circuito
superior e circuito inferior, nos dias atuais, uma vez que a
relação de complementaridade e miscigenação dos elementos
e características desses subsistemas se intercruzam intensa-
mente, conforme já frisamos anteriormente. Apesar disso, são
importantes no sentido de elaborarmos impressões sobre as
feiras, de um modo geral, relacionadas a essa teoria do espaço,
tomando por base evidências empíricas.

37
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

Entendemos, portanto, que as feiras fazem parte do cir-


cuito inferior, no entanto com uma peculiaridade específica
em relação aos outros setores comerciais que compõem esse
subsistema da economia urbana, qual seja: sua periodicidade.
Nesse sentido, as feiras são um circuito inferior periódico, ao
passo que as outras atividades não modernas de produção,
distribuição e consumo presentes nas cidades brasileiras são
um circuito inferior permanente, no sentido de encontrarem-se
diariamente na constituição do espaço urbano. A esse respeito,
M. Santos (1979a, p. 279) nos mostra que, na cidade, existem
dois tipos de circuito inferior, quais sejam: “[...] um circuito
inferior permanente, correspondente às operações diárias e
às dimensões urbanas, e um circuito inferior periodicamente
aumentado, representando as dimensões superpostas da
cidade e de sua zona de influência”, ou seja, as feiras.
Partindo dessa premissa, ressaltamos que a totalidade
está em totalização (SARTRE, 2002), impondo-nos a aten-
tarmos para o contexto que é sempre mutável, em que a
cada momento, são inventadas novas formas de analisar e
compreender o passado e o presente, sendo cada explica-
ção sempre uma crítica da explicação precedente, pois “[...]
uma teoria do espaço que deseje ser válida deve levar em
conta que a realidade se renova cotidianamente” (SANTOS,
M., 1988a, p. 14). Isso implica que é preciso buscar sempre
novas interpretações dos fenômenos que, aparentemente, se

38
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

manifestam os mesmos, uma vez que é preciso atentar-se para


a complexidade sistêmica e estrutural da economia urbana,
que conforme Donald Schon (1973, p. 35) apud SANTOS
2008c, p. 197), “a estrutura social, a teoria e a tecnologia são
interdependentes”. Em outras palavras, é a sociedade em seu
conjunto que explica os fenômenos que nela existem.
Com base nessas premissas, nossas discussões orientam-
se no sentido de compreender a relação da Feira da Pedra
com os circuitos da economia urbana, uma vez que esse
local de comércio periódico é parte do comércio urbano
e/ou da economia urbana, apresentando comportamentos
típicos do que caracteriza esses subsistemas econômicos
urbanos, acrescentando, na medida do possível, as relações
intersubjetivas que a caracterizam, uma vez que “uma dada
situação não pode ser plenamente apreendida se, a pretexto
de contemplarmos sua objetividade, deixarmos de considerar
as relações intersubjetivas que a caracterizam” (SANTOS,
2009a, p. 315), pois “não são apenas as relações econômicas
que devem ser apreendidas numa análise da situação de
vizinhança [tal qual é a feira], mas a totalidade das relações”
(SANTOS, 2009a, p. 318). Assim, “A divisão social do trabalho
[...] é o resultado da conjugação de todos esses fatores, não
apenas do fator econômico” (p. 319), tal qual foi destacado,
em sua maioria, na teoria dos dois circuitos da economia

39
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

urbana de M. Santos (1979a) e por aqueles que estudaram a


feira tomando por base essa teoria do espaço urbano.
Nesse período técnico-científico-informacional, mediante
o processo de globalização dos mercados, controlado pelas
grandes empresas e o Estado defensor dos interesses do capital,
Milton Santos defende que a nova postura do Estado capitalista
é de se tornar omisso “[...] quanto ao interesse das populações
[manifestando-se] mais forte, mais ágil, mais presente, ao
serviço da economia dominante” (SANTOS, 2010, p. 66),
muito embora defenda uma distribuição mais equitativa
da renda, como percebemos no governo brasileiro. Esse é o
período do comando da economia, no sentido de que o Estado
deixa de ser o principal capitalista, passando a ser regulador
do capital, tornando-se parceiro dos agentes econômicos, fato
que implica no aumento das desigualdades sociais. Dentro
desse contexto, as feiras livres, como percebemos no Nordeste
brasileiro, aguardam ações mais consistentes por parte do
Estado para serem reconhecidas como parte integrante da
economia urbana, tanto econômica como socialmente.
Façamos lembrar a importância que tinham essas ativi-
dades (as feiras livres) na década de 1970 e o seu contexto de
hoje, marcado pela comercialização de produtos tecnológicos
e industrializados. Assim, não podemos refletir sobre eventos
econômicos como as feiras livres sem situá-los nos aspectos
macroeconômicos e na dinâmica regional e nacional, cuja

40
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

explicação pode ser encontrada nos circuitos da economia


urbana nesse período técnico da história socioespacial.
Na década de 1970, o circuito inferior ocupava um papel
regulador entre a economia moderna e as massas empobre-
cidas que empregava. Atualmente, quando olhamos para a
atividade Feira da Pedra, na qual os feirantes-produtores
chegam a faturar de três a seis salários mínimos por dia de
realização desta atividade, evidencia a realidade complexa em
relação ao que é superior e inferior, pois o sistema de ações e
o sistema de objetos que constituem o espaço geográfico têm
uma cara nova, cuja marca é a ciência e a tecnologia atreladas
à informação, fazendo com que olhemos com mais criticidade
a teoria aqui em voga.
Para compreendermos melhor o circuito inferior, iremos
relacioná-lo às características do circuito superior e vice
versa. Assim, temos o Quadro 1, que faz um comparativo das
características dos dois circuitos segundo Milton Santos em
relação aos dois circuitos na atualidade, isto é, nesse período
técnico-científico-informacional.

41
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

Quadro 1 – Características dos dois circuitos da economia urbana na década


de 1970 e na atualidade

Características 1970 2014

Circuito Circuito Circuito Circuito


Superior Inferior Superior Inferior

Tecnologia Capital Trabalho Capital Capital


intensivo intensivo intensivo intensivo

Organização Burocrática Primitiva Burocrática/ Estruturada


institucional para alguns
segmentos
Importantes:
(baseados
cada vez
mais na
ciência, Têm um giro
tecnologia, maior neste
Capitais Importantes Reduzidos subsistema
informação;
unicidade
das técnicas,
da infor-
mação e do
dinheiro)
Emprego Reduzido Volumoso Cada Limitado
vez mais
reduzido
Dependente
dos produ-
Assalariado Dominante Não Dominante tos que se
obrigatório produz ou
comercializa
Grande Pequena Grande Grande quan-
quantidade quan- quantidade tidade e/ou
Estoque e/ou alta tidade, e/ou alta alta qualidade,
qualidade qualidade qualidade qualidade
inferior não inferior

42
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

Subme-
tidos à
Preços Fixos (em discussão Fixos e Fixos e
geral) entre negociáveis negociáveis
comprador
e vendedor
(haggling)

Bancário Pessoal, Bancário Pessoal e insti-


institucional não insti- (Privado e tucional (de
Crédito tucional Público) banco, como
empreende-
dor individual)
Tem um
volume maior,
Reduzida por Elevada Crescente vendas para
unidade, mas por uni- por unidade, o comércio:
importante dade, mas importante o circuito
pelo volume pequena pelo volume superior
Margem de negócios em de negócios
de lucro (terceiriza-
(exceção relação ao (exceção ção). Pequena
produtos volume de produtos por unidade
de luxo) negócios de luxo) ou grande a
depender do
volume de
negócios.

Diretas e Diretas e
Impessoais impessoais
Relações com Impessoais Diretas, e/ou com e/ou com
a clientela e/ou com persona- papéis ou papéis ou
papéis lizadas tecnologia da tecnologia da
informação e informação e
comunicação comunicação

Custos fixos Importantes Despre- Cada Importantes e


zíveis vez mais desprezíveis;
importantes depende do
negócio

43
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

Necessária:
faz publici-
dade por meio
de banners,
cartões,
Extrema- comunicação
mente entre clientes
Publicidade Necessária Nula necessária e propaganda
em rádios e
jornais locais
e comunitá-
rios, serviço
de som em
bicicleta,
motos etc.

Reutilização Nula Frequente Nula e Frequente


dos bens frequente
dependendo
da indústria

Overhead Indispensável Dispen- Indispen- Necessário


capital sável sável

Importante Muito
e constante presente
Ajuda Importante Nula ou através do (SEBRAE,
governamental quase nula papel do Portal do
Estado atual Empreen-
dedor)

Grande, Grande, Reduzida para


atividade atividade alguns casos,
Dependência voltada para Reduzida voltada para mas alta em
direta do o exterior ou nula o exterior e relação à
exterior segmentos economia
nacionais em rede
(economia)

Fonte: M. Santos (1979a, p. 34); Santos (2009b, p. 61-62; 2007, p. 127; 1979b,
p. 136); Santos (1994; 2008b; 2005a; 2009a) e Santos e Silveira (2002);
pesquisa de campo, 2011.
Elaboração e Adaptação: o autor, 2014.

44
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

Nem sempre as características por nós elencadas concer-


nentes aos circuitos, no atual período técnico, se manifestam
na feira, pois sua dimensão é reduzida em relação a uma
discussão geral sobre o espaço, no sentido de ser também um
local de comercialização, faltando outras variáveis que per-
mitem tal empreitada. No entanto, já nos revelam a tamanha
complexidade de lidarmos com essa teoria diante dos avanços
tecnológicos do atual período, pois o acesso à informação
passou a ser uma realidade em todos os âmbitos da socie-
dade, sendo a Feira da Pedra, inserida num circuito inferior
moderno, agregadora de características do circuito superior,
constituindo-se, portanto, em um circuito miscigenado.
Ademais, antes de nos atermos a essa realidade, vejamos
um pouco sobre a origem das feiras enquanto parte da eco-
nomia urbana, a partir de uma relação considerando diversos
espaços e tempos.

45
Capítulo 3
FEIRA LIVRE E SUA
GEOHISTÓRIA:
no meio da feira e em
diversos espaços e tempos
Já nos alertou Ratzel (1990) que uma geografia do homem
deve ser inseparável da história da humanidade. Tomando essa
premissa, podemos afirmar que os fenômenos econômicos e
sociais, a exemplo da feira, devem ser compreendidos conside-
rando-se sua dinâmica temporal, pois isso possibilita o enten-
dimento das interações entre os ritmos e as dinâmicas que
se travam ao longo do processo constitutivo de tal atividade.
Assim, neste capítulo, buscamos clarificar o sistema feira livre,
a partir de uma discussão teórica e, sobretudo, conceitual,
examinando ainda alguns enfoques sob os quais têm se dado
algumas abordagens referentes ao objeto empírico em estudo
– a Feira da Pedra. Para tanto, o diálogo com outras ciências é
preciso ser tecido, no sentido de tornarem tal abordagem mais
enriquecida, já que as feiras são interdisciplinares1 e também
“são lugares multidisciplinares” (SILVA, 2009, p. 33). Dessa
forma, realizamos um diálogo da Geografia com a História,
com a Sociologia, com a Antropologia e com a Economia,
uma vez que o objeto temático feira não foi estudado apenas

1 Mott (2000, p. 14) nos fala desse caráter interdisciplinar que o tema
feira envolve em seu estudo. Nesse sentido, ele afirma: “quando comecei
a estudar as feiras, a primeira coisa que constatei é que se tratava de
um domínio interdisciplinar, unindo a antropologia, a geografia e a
economia, mais precisamente a antropologia econômica, a geografia
do comércio ou da circulação e a economia política – todas disciplinas
com produção específica sobre esse assunto”. Assim, não se trata de
uma confusão teórico-metodológica, mas de um caráter, ainda que
superficial, interdisciplinar.

47
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

pela ciência geográfica2 e, sobretudo, por entendermos, assim


como Capra (1996, p. 23) que: “quanto mais estudamos os
principais problemas de nossa época, mais somos levados a
perceber que eles não podem ser entendidos isoladamente”. E
também porque é mediante a historicidade que percebemos
e entendemos os fenômenos geográficos numa perspectiva
mais concreta, no sentido de desvelarmos o caráter dialético
que o fenômeno estudado envolve. Nesse sentido, inicialmente
teceremos algumas notas sobre: a diferença entre feiras e
mercados, a relação entre feira e espaço urbano e a relação
entre essa atividade e o espaço brasileiro e nordestino, em
seguida discutindo sobre a Feira da Pedra.

Feiras e mercados: por uma distinção

Por serem estudadas por várias ciências humanas, as feiras


livres foram definidas em relação a vários aspectos: elementos
constituintes do sistema de localidades centrais; espaços de
relações econômicas; de relações socioculturais; sob a ótica
da formalidade e da informalidade; dentre outros. Notamos

2 Essa articulação é fundamental, porque ela “[...] nos leva a rearticular


conceitos e a pesquisar outras áreas do conhecimento que possam nos
auxiliar na compreensão dos espaços de reprodução da vida, que são
os lugares de materialização da realidade social” (PINTAUDI, 2009, p.
56), dos quais a Feira da Pedra é parte.

48
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

que poucos estudos relacionaram-na com os circuitos da


economia urbana, sendo que os trabalhos que as consideraram
caíram no erro de confundir o circuito inferior com o setor
informal da economia. As feiras são elementos do circuito
inferior da economia urbana, mas relacionados ao circuito
superior, sobretudo às formas de comércio e serviços (super-
mercados e bancos, por exemplo), presentes nas cidades onde
ocorrem, uma vez que, não sendo atividades hegemônicas, são
uma contra racionalidade, uma contra finalidade do espaço
total capitalista, cuja marca principal é a prevalência das
horizontalidades do lugar, marcada por uma racionalidade
própria, com objetivos e dinâmica socioespacial, com fluxos e
circulação a partir de onde se inserem e/ou ocorrem. Apesar
disso, os autores que discutem esse assunto, ora utilizam a
terminologia mercado, ora feira, ambos como sinônimos.
Para Vargas (2001, p. 146),

A feira (de feria, do latim, que significa festa de um


santo) era, sobretudo o encontro de mercadores, fre-
quentemente vindos de muito longe, que durava muitas
semanas. O século XII viu surgir ciclos de feiras regionais

49
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

e inter-regionais que formavam uma espécie de mercado


contínuo, exceto no período de mau tempo3.

Já o mercado surge também dessa necessidade do encontro,


afirmando essa mesma autora que:

A origem do mercado está, portanto, no ponto de fluxo


de indivíduos que traziam seus excedentes de produção
para a troca, normalmente localizados em pontos equidis-
tantes dos diversos centros de produção. O fato de serem
espaços abertos e públicos, imprimia-lhes uma condição
de neutralidade territorial e de segurança no ato da troca
que acontecia no momento em que as mercadorias eram
entregues (VARGAS, 2001, p. 95).

Desde o estabelecimento de um sistema moderno de governo


local, depois da Revolução Francesa e, na Grã-Bretanha, com
o Ato do Governo Local, em 1858, houve uma tendência
para institucionalizar os antigos mercados e diminuir as
desvantagens dos mercados ao ar livre, [feiras], criando

3 O mau tempo é um dos fatores de sazonalidade da Feira da Pedra, no


sentido de que, no período de janeiro, mês em que as ocorrências de
precipitações pluviométricas são mais intensas no interior do Nordeste,
ela apresenta um número menor de feirantes-vendedores realizando
essa atividade em certos dias. Assim, esse fator de influência da feira
identificado há muito, hoje ainda se faz presente nessas atividades.

50
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

espaços reservados onde as barracas podiam ser perma-


nentes e onde fossem providenciados serviços para coleta
de lixo e controle sanitário. O mercado coberto era, pois,
um edifício capaz de acolher um grande número de lojas
e atrair um público diversificado (VARGAS, 2001, p. 160).

Sendo no início “espaços abertos e públicos”, percebemos


que ambos os termos, feira e mercado, eram usados como
sinônimos. No entanto, hoje, o mercado é uma espécie de
feira em local coberto e público. Assim, a palavra mercado
aqui é usada no sentido arquitetônico de espaço coberto, de
compra e venda de mercadorias. A feira é uma atividade que
se realiza ao ar livre, ou seja, um espaço aberto e público.
Sennett (2003, p. 168) dá pista de que “na Alta Idade Média
a exposição dos artigos tornara-se uma verdadeira festa. As
grandes feiras não se organizavam mais a céu aberto, mas
em ‘salões especialmente destinados ao comércio de diversos
ramos ou especialidades [...]”, ou seja, naquilo que se conhece
como o mercado. Isso mostra que, com o passar do tempo, as
feiras foram evoluindo, ao ponto de surgirem os mercados,
talvez por uma necessidade política, talvez por uma neces-
sidade econômica em comercializar determinados produtos
em locais mais reservados, ou os dois motivos juntos.
Para Ferreira (2001, p. 317), o termo feira se refere ao
“lugar público, não raro descoberto, onde se expõem e vendem

51
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

mercadorias” e, mercado, ao “lugar onde se comerciam gêneros


alimentícios e outras mercadorias”. Existe, portanto, uma
semelhança entre os termos e talvez seja essa uma das razões
porque essa atividade comercial é tratada pelos pesquisadores
ora como feira, ora como mercado, sendo o primeiro, do ponto
de vista, a priori, da paisagem, da forma, um local descoberto
e, o segundo, um local coberto, onde se desenvolvem atividades
econômicas. Dessa forma, ainda conforme o clérigo Humbert
de Ramans, relatado por Sennett (2003, p. 168), “embora os
termos ‘mercado’ e ‘feira’ sejam usados indiscriminadamente,
existe uma diferença entre eles”.
Huberman (1986, p. 32-33) afirma que a diferença entre
feira e mercado se dava mediante a dimensão e o alcance
espacial. Nesse sentido, mostra que “os mercados eram peque-
nos, negociando com os produtos locais, em sua maioria
agrícolas. As feiras, ao contrário, eram imensas, e negociavam
mercadorias por atacado, que provinham de todos os pontos
do mundo conhecido”. Assim, os mercados eram caracteriza-
dos por serem pequenos e locais, vendendo em sua maioria
produtos agrícolas, ao passo que as feiras eram imensas praças
de compra e venda de produtos diversos.
Mott (1975) fala de Market Principle e de Market Place. O
primeiro termo é profundamente utilizado pelos economistas,
sendo abstrato e não referente a um local ou construção espe-
cífica, mas sim a princípios de realização de trocas, baseados

52
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

na lei da oferta e da procura. A segunda expressão é utilizada


por antropólogos, sociólogos e geógrafos, designado “[...] sítio
geográfico – a praça do mercado – com atribuições sociais,
econômicas, culturais, políticas etc., onde um certo número
concreto de compradores e vendedores se reúnem com a
finalidade de trocar ou vender e comprar bens e mercadorias”
(MOTT, 1975, p. 10), embora se encontrem outras finalidades
(passeios, encontros...). Ainda para Mott (1975, p. 10), “para
o antropólogo, a feira ou mercado é visto primordialmente
[...]” como esse segundo termo/expressão, ou seja, market
place. Isso significa que não há, para a antropologia, diferença
entre feira e mercado, sendo ambos instituições4 sociais e não
subsistemas do sistema urbano, uma vez que entendem essas
atividades como campos que se encerram em si. Assim, Mott
(1975, p. 16), discorda da feira como um sistema, afirmando
que este termo (sistema) implica uma totalidade e se encerra
em si mesmo, não sendo aplicado corretamente às feiras.
Em trabalho sobre as feiras nordestinas, na perspectiva
dos estudos realizados e dos problemas, Ferretti (2000, p.
36) afirma que mercado é “[...] o local onde se efetuam um

4 Os antropólogos consideram mercado e feira como a mesma coisa, ou


seja, como instituição. De igual modo, alguns geógrafos seguindo esses
cientistas, também assim o fizerem, como é o caso de Dantas (2007, p.
25), quando afirma que “[...] a utilização de ambas as terminologias
refere-se exatamente à mesma instituição que se desenvolve no Nordeste
brasileiro e em outras partes do país”.

53
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

certo número de transações, onde se reúnem todos os que


querem ceder, adquirir ou trocar produtos sob a forma de troca
direta ou utilizando a moeda [...]”. Mais adiante, buscando
conceituar feiras, diz que estas “[...] são reuniões comerciais
periodicamente realizadas em local descoberto (rua, praça
etc.), frequentemente próximo ao mercado” (idem, ibidem).
Acrescenta ainda que, quanto a sua realização, “tentam ser
realizadas durante um dia da semana (especialmente sábado,
domingo ou segunda feira) e a oferecer maior variedade e
quantidade de produtos do que os mercados” (Idem, p. 41).
As feiras livres têm sido, com muita frequência, anali-
sadas pelos geógrafos sob a ótica do conceito de “mercado
periódico”, conceito este que mais se aproxima da verdadeira
forma dessas atividades, enquanto realidades da economia
urbana de muitas cidades.
Bromley, Symanski e Good (1980, p. 184), analisando
as teorias referentes aos mercados periódicos e comércio
móvel, concluem que havia uma forte orientação economicista
derivada da teoria da locação econômica, que destituía das
análises, os “fatores sociais e culturais”. Para eles, “um enten-
dimento completo das instituições comerciais deve se basear
não somente no estudo de processos econômicos contempo-
râneos, mas também no contexto social e no desenvolvimento

54
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

histórico da atividade comercial”5. Tais autores rompem com


esse tipo de pesquisa que discute questões somente a partir do
viés econômico e trazem, para a análise, “[...] a sociedade, o
costume e a tradição para explicar a existência e a permanência
dos mercados periódicos” (BROMLEY; SYMANSKI; GOOD,
1980, p. 184). Consideramos essa acepção mais próxima da
realidade do que são as feiras, pois essas atividades constituti-
vas do espaço urbano das cidades brasileiras não se explicam,
apenas, pela óptica economicista, o que nos faz também,
nesta pesquisa, pensar a teoria dos circuitos da economia
urbana, sobretudo o circuito inferior numa perspectiva mais
abrangente de sua compreensão, embora de forma introdu-
tória, levando em consideração também aspectos culturais
e simbólicos que envolvem sua dinamicidade.
Esses autores trazem ainda três fatores dos quais a feira faz
parte, que consideramos importantes no estudo dos mercados
periódicos, responsáveis pela sua formação e permanên-
cia, quais sejam: 1) “as necessidades dos produtores”, 2) “a

5 “[...] a atividade comercial pertence à essência do urbano e seu apro-


fundamento nos permite um melhor conhecimento desse espaço e da
vida na cidade” (PINTAUDI, 2010, p. 144).

55
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

organização do tempo” e 3) “a inércia e vantagem comparativa”


(BROMLEY; SYMANSKI; GOOD, 1980, p. 184)6.
Foi a necessidade dos produtores de comercializarem sua
produção o motivo inicial da origem dos mercados periódicos.
Isso acontece ainda atualmente nas feiras livres, embora
tenhamos outra categoria de feirante que é aquele sujeito
que vende produtos que não produz, ou seja, compra para
revender, como constatamos na feira em tela. Sendo muitos os
produtores que encontramos nas feiras, em especial na Feira
da Pedra, percebemos, assim como constataram Bromley,
Symanski e Good (1980, p. 185), que grande parte desses
sujeitos socioespaciais “[...] trabalha em tempo parcial, tem
duas ou mais ocupações diferentes e dedica-se a alguma forma
de produção primária ou secundária”. Como veremos mais
adiante, assim acontece com muitas mulheres que trabalham
na Feira da Pedra, conciliando as atividades de mães, esposas,
donas de casa, produtoras e realizadoras de acabamentos de
artigos têxteis, e comerciantes destes mesmos produtos.
Com relação à organização do tempo, Bromley, Symanski
e Good (1980, p. 185) afirmam: “os agrupamentos de mercado
periódico estão relacionados aos conceitos sócio-culturais de

6 “O comércio em tempo parcial e a designação de dias especiais para


sua realização favorecem igualmente a criação de mercados periódicos”
(BROMLEY; SYMANSKI; GOOD, 1980, p. 183-184). Assim, é a ocorrência
das feiras de um modo geral e, em particular, da feira aqui em análise – a
Feira da Pedra.

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GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

tempo, à duração da semana ou mês estabelecido e à existência


de dias separados para descanso, cerimônias religiosas ou
reuniões públicas e festividades”. A esse respeito, Maia e
Coelho (1997, p. 5) acrescentam que, nas grandes cidades,
“[...] as feiras adequam-se ainda ao trânsito urbano (circulação
diferenciada em espaço e tempo de indivíduos de classes
sociais distintas, além do movimento rotineiro de automóveis
e de outros veículos)”. E concluem que podemos “[...] consi-
derar, até mesmo, que este seja um dos fatores fundamentais
para a disposição espacial dos comércios periódicos, o qual
influencia o planejamento locacional do poder público para
estas atividades” (MAIA; COELHO, 1997, p. 5).
Por fim, a inércia e a vantagem comparativa são o fator
que se refere à “[...] tendência à continuidade”, baseado nas
vantagens históricas que os mercados periódicos ou feiras
oferecem aos comerciantes e consumidores em geral.
Em suma, esses três fatores são fundamentais para se
entender a origem e a perpetuação das feiras, sobretudo na
contemporaneidade.
Fazendo uma revisão conceitual dos mercados nos países
em desenvolvimento, Bromley (1980, p. 649-650) afirma que
estes são classificados de maneira mais fácil mediante sua
periodicidade, divididos em três classes: mercados diários,
típicos de maiores centros; mercados periódicos, ocorrendo
em um e/ou mais dias fixos semanais; e mercados especiais,

57
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

ocorrendo anualmente. Dessas três modalidades de merca-


dos, a mais constante nas cidades brasileiras é o mercado
periódico, caracterizado como um dos principais modelos de
organização e estruturação das redes de localidades centrais
de uma região, como são as grandes feiras livres realizadas em
algumas cidades do Nordeste brasileiro, a exemplo de Caruaru
(PE), Itabaiana (SE), Feira de Santana (BA) e São Bento (PB).
Segundo esse mesmo autor, os mercados periódicos são um
dos modos de organização da rede de localidades centrais
em países subdesenvolvidos, definindo-os como:

[...] aqueles núcleos de povoamento, pequenos, via de


regra, que periodicamente se transformam em localidades
centrais [...]. Fora dos períodos de intenso movimento
comercial, esses núcleos voltam a ser pacatos núcleos rurais,
com a maior parte da população engajada em atividades
primárias (CORRÊA, 2001, p. 50).

Vale ressaltar que, atualmente, em função de uma eco-


nomia cada vez mais centrada no comércio e nos serviços,
aqueles “núcleos de povoamento pequenos”, apontados pelo
autor acima, não se centram mais “em atividades primárias”,
uma vez que há uma dinamicidade resultante de fatores/
atividades econômicas diversas ligadas ao terciário, mesmo
quando não se faz presente a feira. Atividades essas ligadas

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GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

ao circuito inferior da economia urbana dessas pequenas


aglomerações urbanas. Isso é notório quando se percebe a
diversidade intrarregional que existe, sobretudo no Brasil e
em especial no Nordeste brasileiro.
Ainda dentro dessa discussão sobre mercados e feiras,
Bromley (1980, p. 647) afirma que “em muitas regiões sub-
desenvolvidas a mais importante instituição comercial é
o mercado”. Esse mesmo autor apresenta a definição de
mercado de B. W. Hodder que o caracteriza como “uma
reunião pública e autorizada de compradores e vendedores de
mercadorias que se encontram em intervalos regulares num
lugar estabelecido” (HODDER, 1965, p. 57 apud BROMLEY,
1980, p. 647). Exemplo dessa reunião pública de compradores
e vendedores de mercadorias, em especial mercadorias têxteis,
é a Feira da Pedra, fazendo parte da rotina econômica e social
dos são-bentenses e outros sujeitos socioespaciais do Sertão
Paraibano e Seridó Potiguar. Acrescenta ainda aquele autor
que “o mercado se baseia em grandes quantidades de nego-
ciações simultâneas feitas de pessoa para pessoa” (BROMLEY,
1980, p. 648), sendo uma das primeiras instituições mercantis
a se desenvolver no espaço urbano, depois das feiras.
Assim, a utilização de feira, enquanto uma instituição
e subsistema do sistema econômico urbano, e o uso da ter-
minologia mercado periódico, enquanto atividade que se
dá não somente pela razão econômica, mas também pela

59
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

finalidade social e cultural, não se referem à mesma atividade


econômica relacionada à realidade urbana da cidade que os
comportam. Trata-se de atividades que estão imbricadas,
sendo as feiras locais de realização de comércios varejistas,
realizadas periodicamente e caracterizadas por se realizar
ao ar livre, configurando-se num fenômeno socioespacial,
econômico, político e cultural7. Além disso, são constitutivas
do circuito inferior da economia urbana das cidades onde
ocorrem, caracterizando-se pelo trabalho intensivo; pela troca
das mercadorias por dinheiro líquido e crédito pessoal; pela
pequena quantidade de mercadorias; e pela pechincha e/ou
barganha dos preços dos produtos, cuja racionalidade é a lógica
da sobrevivência, sobretudo familiar, em vez da lógica e/ou
racionalidade da acumulação. Já os mercados são ambientes
arquitetônicos cobertos, destinados também à comercialização
de produtos diversos, porém de caráter permanente8 e não

7 Assim, no dizer de Santos (1988, p. 13), “Não é aceitável, aliás, fazer como
Grano (1929, p. 38) para quem, apesar da unidade dos fenômenos de
ordem material e de ordem imaterial em um pedaço qualquer do espaço,
[exemplo da Feira da Pedra] a geografia pára no domínio do estritamente
material, cabendo à sociologia encarregar-se das determinações sociais,
culturais e políticas”. Daí compreendermos a feira como uma atividade
de natureza conforme apresentada, ou seja, como um fenômeno que tem
uma dimensão socioespacial, econômica, política e cultural.
8 A permanência dos mercados é, no período atual, uma realidade
deficitária e extremamente comprometida, uma vez que, nas cidades,
existem as formas modernas de comercialização, como por exemplo, os
supermercados e nas maiores, além desses, os hipermercados e shopping
centers.

60
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

periódico, embora fazendo parte também do circuito inferior


da economia urbana, muito presentes no espaço urbano das
cidades brasileiras, em especial nordestinas.

O surgimento das feiras livres e sua


relação com o espaço urbano

O espaço urbano apresenta ações realizadas tanto no


presente, como no passado, mediante o processo de sobre-
vivência e acumulação de capital que envolve os sujeitos que
dele fazem parte e o produzem; simultaneamente é cenário
de inclusão econômica e social e também de exclusão e isola-
mento. O espaço urbano é resultante dessa complexa teia que
envolve sujeitos em seu processo de produção, socialmente
concebido ao longo da história da organização do espaço
geográfico. Assim, sendo o espaço um produto social em
constante mudança a partir da interação entre os sistemas de
objetos e os sistemas de ações, para melhor compreendê-lo é
preciso considerar sua relação com a sociedade que, ao passo
em que se modifica, também acarreta uma nova organização
espacial ao designar novas funções aos objetos geográficos
necessários à produção do espaço (SANTOS, 2009a).
A apreensão do que é o espaço geográfico e, em especial, o
urbano, torna-se necessária para discutirmos o assunto feira,

61
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

já que esse sistema econômico é formado por um sistema de


objetos (nesse estudo, os diversos produtos têxteis: redes de
dormir, panos de prato, mantas, toalhas, dentre outros) e por
um sistema de ações (ações econômicas, sociais, culturais),
maneira pela qual compreendemos o espaço e suas subtota-
lidades. Além disso, por apreendermos ainda o espaço não
apenas como “[...] uma localização ou as relações sociais da
posse de propriedade”, já que “ele representa uma multipli-
cidade de preocupações sociomateriais”, conforme observou
Gottdiener (1997, p. 127), baseado na Teoria do Espaço de
Henri Lefebvre. Este último enfatiza que “o espaço urbano
é contradição concreta. O estudo de sua lógica e de suas
propriedades formais conduz à análise de suas contradições”
(LEFEBVRE, 1999, p. 46), já que ele, “[...] torna-se o lugar do
encontro das coisas e das pessoas, da troca” (LEFEBVRE,
1999, p. 22, grifos nossos), o que pode ser compreendido na
concepção miltoniana aqui adotada de Circuitos da Economia
Urbana, com seus sistemas de objetos e sistemas de ações.
Complementando a discussão, é oportuno lembrar as
pistas deixadas por Ana F. A. Carlos sobre a cidade, para quem
“[...] a cidade é a heterogeneidade entre modos de vida, formas
de morar, uso dos terrenos da cidade por várias atividades
econômicas” (CARLOS, 2005, p. 22, grifos nossos). Assim,
a cidade pode ser organizada e entendida como o lócus de
subsistemas, isto é, o circuito superior e o circuito inferior.

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GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

Vale ressaltar que “modos de vida” e usos de terrenos por


atividades econômicas são o que mais interessa e aproxima da
análise aqui tecida. A feira tem tudo a ver com modo de vida
de sujeitos citadinos que encontram nessa atividade econômica
o sustento familiar ou próprio, assim como a territorialização
(uso) de terrenos da cidade, como é o caso de ruas e avenidas
ocupadas por essa atividade. Diante disso, “a cidade é um
modo de viver [...]” (CARLOS, 2005, p. 26), e a feira cons-
titui-se como parte dessa condição/modo, embora envolva
em seu acontecer sujeitos socioespaciais diversos, citadinos
e rurais, cuja compreensão maior se faz mediante a teoria
dos circuitos da economia urbana enquanto possibilidade de
entendimento da Geografia econômica urbana. É também
“[...] una totalidad, hecha de cosas y personas, de objetos y
relaciones, de formas y acciones, en un movimiento desigual
y combinado, en una dinámica de cooperación y conflicto”
(SILVEIRA, 2004, p. 2), pois se configura não apenas como
“[...] una suma de partes, ni solamente un sistema de objetos,
sino el conjunto de la base material y de la vida que la anima”
(SILVEIRA, 2004, p. 2).
É por esse motivo que

[...] as cidades continuam a ser, [...] sem dúvida, reunião de


espaços de múltiplas trocas e circuitos: econômicos (mer-
cado), socioculturais (modelos de sociabilidade, sistemas de

63
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

significação), políticos (conflitos e regras) e comunicacionais


(ruas, serviços, cabos de comunicação etc.). Elas são também
o resultado de múltiplos tempos espacializados, de variados
usos e atividades e de diferenciados domínios espaciais
(público e privado, sagrado e profano, individual e coletivo
etc.) (GOMES; BERDOULAY, 2008, p. 10, grifos nossos).

Fazendo uma análise dos aspectos da urbanização do


Nordeste brasileiro, Roberto Lobato Corrêa, já nos finais
dos anos 1970, apresentava alguns elementos que chamam
a atenção. Diz esse autor que, nessa região, constituía-se um
conjunto de lugares, sobretudo urbanos, que apresentava
mais relações com uma determinada cidade do que com
outras. Um desses fatores de interação urbana era o comércio.
Naquela época, no comércio atacadista, incluía-se “[...] o
gênero produtos agropecuários e extrativos, o qual se refere à
comercialização de produtos rurais que são comercializados
in natura ou cujo beneficiamento não é considerado atividade
industrial” (CORRÊA, 1977, p. 12). Essa comercialização se
dava configurando uma “[...] estrutura espacial da oferta e
demanda de produtos comercializados”, por um conjunto
de “ilhas urbanas” que se tornavam “menores à medida que
se passava do litoral para o sertão” (CORRÊA, 1977, p. 15).
Falando da importância das cidades como centros ataca-
distas, esse mesmo autor destaca que “o comércio atacadista

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GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

representa uma atividade tradicional dos centros urbanos


nordestinos” (CORRÊA, 1977, p. 29). Essa modalidade de
comércio seria ainda ressaltada por esse autor, mediante o
Censo Comercial realizado pelo IBGE, como o comércio
cujas “transações se efetuam por grandes partidas, em geral
negociadas com outras entidades comerciais” (IBGE, 1970
apud CORRÊA, 1977, p. 29). Já o comércio varejista, do qual
as feiras fazem parte, “[...] constitui o setor através do qual o
circuito de comercialização chega ao seu final” (Idem, p. 29).
A Feira da Pedra em São Bento, ora se insere no comér-
cio varejista, ora no comércio atacadista, se configurando
em um comércio misto, ou seja, aquele que realiza vendas
por varejo e atacado. Esse sistema de comércio é a maior
possibilidade de os consumidores diversos terem acesso aos
produtos industriais têxteis fabricados pela indústria local
são-bentense e regional e, também, é por meio dele que os
produtores colocam à venda imensa quantidade de seus pro-
dutos. Somando-se a uma parcela significativa da população
que se reúne periodicamente no espaço urbano são-bentense,
podemos ainda ressaltar que existe uma significativa mão de
obra não qualificada, subempregada e desempregada que se
aglutina, juntamente com os feirantes da feira em tela. Assim,
nas cidades brasileiras, o circuito inferior constitui-se de uma
válvula de escape para as crises de desemprego, na sociedade
técnica, científica e informacional do presente.

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GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

O comércio, sendo uma atividade econômica de origem


milenar, foi sempre de fundamental importância no processo
de formação e também no desenvolvimento das primeiras
sociedades urbanas9. À medida que a cidade abrigava as
funções do poder religioso e político desde as suas origens,
“[...] desempenhou um papel igual na vida econômica”
(MUMFORD, 1998, p. 84). É especialmente na cidade que o
sistema mercado encontra um lugar permanente, no sentido de
aí dispor de “[...] uma população suficientemente grande para
oferecer um bom meio de vida a mercadores”. Essas condições,
reunidas na cidade e acrescidas dos avanços tecnológicos
dos sistemas de transporte e comunicação, impulsionaram o
crescimento das transações comerciais, ampliando a escala,
deixando o mercado de ser uma prática local, tornando-se
este propulsor de diversos e intensos fluxos econômicos e
socioespaciais que conhecemos hoje.

9 A esse respeito, ver Weber (1979; 1987), para quem o embrião de uma
nova aglomeração humana, a cidade, se deve ao nascimento de institui-
ções: – mercados e feiras –, destinadas ao intercâmbio de mercadorias e
abastecimento da população. No texto: Conceito e Categorias da Cidade
(WEBER, 1979; 1987), faz uma observação sobre os vários tipos de
cidades que existiram no passado e evidencia as diferentes origens
destas, dando ênfase à relevância do mercado para o desenvolvimento
das mesmas. Nesse sentido, esse autor afirma que a existência da cidade
implica a existência de instituições como estas citadas. Ainda sobre a
importância do comércio na formação dos núcleos populacionais, ver
Braudel (1996).

66
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

Essa realidade nos faz lançar uma hipótese: as caracte-


rísticas do circuito inferior são mais expressivas na Feira da
Pedra do que as do circuito superior, sendo esse sistema de
comércio e socioespacial fundamental na dinamicidade da
indústria têxtil de redes de dormir e de seus derivados presen-
tes em municípios do Sertão Paraibano e do Seridó Potiguar,
dada a grande presença de trabalhadores nessa atividade,
seja vendendo diretamente produtos têxteis nesse local, seja
comprando-os para revender em seus municípios de origem,
seja ainda prestando serviços diversos. Isso se torna, portanto,
extremamente relevante para o conhecimento e reflexão da
situação do trabalho sob condições “informais”, bem como
“[...] os significados atribuídos ao trabalho, à construção do
saber prático, as condições de vida, trajetórias profissionais,
reorganização do trabalho etc.” (SOUZA; TOLFO, 2007, p.
2), materializadas numa esfera da organização econômica e
socioespacial chamada de circuito inferior, muito expressivo
nas cidades brasileiras, embora com forma-conteúdo um
pouco distinta do tempo em que o professor M. Santos o
concebeu como um subsistema do sistema urbano, na segunda
metade da década 1970.
Uma das referências mais antigas que podemos inferir
acerca da temática feira ou mercado encontra-se em Mumford
(1998, p. 85), quando constata que antes de Cristo ela já existia.
Assim, “[...] as duas formas clássicas de mercado, a praça

67
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

aberta ou o bazar coberto, e a rua de barracas ou de lojas,


possivelmente já tinham encontrado sua configuração urbana
por volta de 2000 a. C., a mais tarde”, sendo, nesse período
“[...] a ideia de mercado como ponto de junção das rotas de
comércio já [...] reconhecida”. Com efeito, tais formas foram
“[...] precedidas pela forma ainda mais antiga do supermer-
cado – dentro do recinto do templo”, pois, nesse período,
os templos serviam não somente de locais do deus e dos
sacerdotes, mas também onde os bens agrícolas e industriais
sofriam a tributação antes de circularem, semelhante ao que
ocorria no início da era cristã da sociedade humana, em que
o templo chegou a servir também de mercado.
Percebemos na Bíblia Sagrada que aquela passagem
bíblica do evangelista João, capítulo 2, do versículo 13 ao 17,
se constitui na primeira referência de feira depois de Cristo.
Citando a proximidade da páscoa dos judeus e a subida de
Jesus Cristo para a cidade de Jerusalém onde, ao entrar no
templo, “[...] os vendedores de bois, ovelhas e pombas, e os
cambistas sentados”, o narrador desse Evangelho dá elementos
de indução de que ali, naquele momento, se realizava uma
feira e/ou uma atividade comercial típica do mercado.
Essas duas referências (Mumford e a Bíblia Sagrada)
evidenciam a presença do mercado na espacialidade urbana

68
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

dos centros pretéritos. Conforme Léo Huberman (1986)10,


esses fenômenos econômicos, sociais e espaciais – as feiras
e os mercados – não são tão recentes nos espaços urbanos.
No entanto, com a revolução e/ou renascimento do comércio,
ocorrida nos séculos XI e XII, é que o seu papel se torna
verdadeiramente importante e crescente até o século XIII.
Não obstante, Braudel (1996, p. 7), procurando “[...] anali-
sar o conjunto dos jogos da troca, desde o escambo elementar
até, e inclusive, o mais sofisticado capitalismo”, coloca que
na cidade “a feira tornou-se uma das suas engrenagens”
(BRAUDEL, 1996, p. 14), pontuando que “esse antiquíssimo
tipo de troca” já era “[...] praticado em Pompeia, em Óstia
ou em Timgad, em Roma, e séculos, milênios antes: a Grécia
antiga teve suas feiras”. Afirma ainda que existiam “feiras na
China clássica, bem como no Egito faraônico, na Babilônia,
onde a troca foi tão precoce. Os europeus descreveram o

10 Para esse autor, além das cidades terem surgido em locais onde se
encontravam estradas, desembocadura de rios ou ainda em terra decli-
ves, elas surgiram também nos locais onde os mercadores se reuniam
periodicamente para negociar os seus produtos. Nos idos dos séculos XII
e XIII não existia o comércio permanente, com exceção da Inglaterra,
Bélgica, Alemanha e Itália, cuja existência de feiras periódicas se tor-
nara extremamente importante. Essas feiras eram imensas e ocorriam
anualmente, negociando produtos/mercadorias que eram originárias
de todas as partes do mundo conhecido, funcionando como centro de
distribuição de mercadorias, sendo de muito interesse para os senhores
feudais, pois proporcionavam-lhes riquezas, sendo realizadas de maneira
especial, com policiamento, guardas e tribunais (HUBERMAN, 1986,
p. 25-44).

69
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

esplendor colorido e a organização da feira ‘de Tlalteco que


fica perto de Tenochtitlan’ (México) e as feiras ‘regulamentadas
e policiadas’ da África” (BRAUDEL, 1996, p. 15).
De acordo com esse autor, há dois fatores pelos quais
as feiras e os mercados “se mantêm através dos séculos”,
quais sejam: “frescor dos gêneros perecíveis que fornece[m],
trazidos diretamente das hortas e dos campos das cercanias”,
e pelos “seus preços baixos, pois esse mercado elementar [...]
é a forma mais direta, mais transparente de troca”. Conclui
que, nesse sistema de comércio, ou seja, “em plena feira todos
podem tomar parte, o pobre e o rico”. É “o comércio de mão
na mão, olhos nos olhos [...], a troca imediata: o que se vende,
vende-se sem demora, o que se compra, leva-se logo e paga-
se no mesmo instante; o crédito é pouco utilizado, e só de
uma feira para outra” (BRAUDEL, 1996, p. 15). Em alguns
casos, as feiras livres chamam as autoridades urbanas a se
empenharem em sua organização e vigilância, pois é comum
a presença, muitas vezes, do fiscal da prefeitura, policiais, em
meio aos feirantes e consumidores etc. Com efeito, “seja como
for, intermitentes ou contínuos, esses mercados elementares
entre campo e cidade, pelo seu número e incansável repetição,
representam a mais volumosa de todas as trocas conhecidas”
(BRAUDEL, 1996, p. 16).
O geógrafo francês Paul Vidal de La Blache, quando fala
das relações dos grupos humanos entre si, aponta o mercado

70
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

como ponto de encontro ou de ligação. Segundo esse geógrafo,


isso se dá porque o mercado une “diversas famílias de grupos”.
E acrescentou que “[...] as grandes organizações pastoris
que gravitavam desde o Saara até à Mongólia” existiam em
função dos “mercados agrícolas que lhes permitiam trocar
os seus produtos” (LA BLACHE, 1954, p. 73). Vale ressaltar
que sempre encontramos na literatura a palavra mercado
designando feira. Porém em alguns casos, como o de Braudel
e La Blache, mercado aqui indica troca, relação de compra e
venda de mercadoria, produtos.
O principal elemento para o desenvolvimento das feiras
ocorreu a partir da expansão dos excedentes agrícolas produ-
zidos no contexto de uma economia de caráter feudal. Nessa
sociedade havia uma produção destinada quase que exclusi-
vamente para o consumo, tendo em vista o caráter autossu-
ficiente do feudo. Essa concepção é trazida por Huberman
(1986), ao afirmar que as deficientes relações de troca que se
realizavam nestes lugares se davam justamente na comercia-
lização da produção que, na sua totalidade, realizava-se nos
mercados semanais, as feiras. Le Goff (1998, p. 33) afirma que
“a feira e o mercado da Idade Média ofereciam as mesmas
ocasiões de trocas e de oportunidades de modernização”.
De igual modo, Sennett (2003, p. 138) evidencia que, nessa
época, “[...] os mercadores percorriam feiras e mercados, de
tal forma que [...] não se verá as mesmas faces negociando,

71
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

nem objetos e gêneros idênticos”. Afirma ainda que “[...] as


feiras estabeleceram os primeiros laços entre os mercados”
(SENNETT, 2003, p. 168). Em suma, “[...] foram as feiras
medievais e da antiguidade as que primeiramente foram
analisadas” (MOTT, 1975, p. 10).
A realização de feiras periódicas era um instrumento
de vida local e se constituiu numa forma de estabelecer um
comércio de caráter fixo. No entanto, o desenvolvimento do
“transporte tornou possível equilibrar os excedentes e dar
acesso a especialidades distantes: tais eram as funções de
uma nova instituição urbana – o mercado – em si mesmo
um produto das seguranças e realidades da vida urbana”
(MUMFORD, 1998, p. 84). O crescimento dos núcleos popu-
lacionais passou a ser estimulado pelo comércio. Assim, “as
primeiras cidades mercantis resultaram da transformação do
caráter destas aglomerações medievais sem função urbana”
(SPOSITO, 2001, p. 31).
Huberman (1986) chama a atenção para o fato de o renasci-
mento comercial ter permitido aos mercadores, provenientes de
vários territórios, se encontrarem e realizarem grandes feiras
em vários espaços urbanos. Tal fato evidencia já uma dinâmica
socioterritorial envolvendo pessoas de espaços diferentes.
Embora, nesse período, os meios de transporte não fossem
tão desenvolvidos, ao contrário do que ocorre hoje, dado o
sistema de objetos e ações atuais, cujo comércio é marcado

72
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

por meios de transportes aperfeiçoados e formas modernas11.


Mercadorias diversas originárias de vários pontos extremos,
em constantes fluxos, chegam a quase todos os espaços. O
maior desenvolvimento do comércio na transição do modo
de produção feudal para o modo de produção capitalista
foi um dos elementos principais para o desenvolvimento
dos mercados periódicos e, portanto, das feiras, que foram
posteriormente expandidas para os espaços colonizados,
inclusive para o Brasil, conforme Mott (1975).

As feiras livres no Brasil

No âmbito da geografia econômica urbana brasileira, as fei-


ras livres desempenharam e desempenham papel considerável,
conforme atestam Deffontaines (1945); Guimarães (1969); Mott

11 Como exemplos de formas modernas de comércio, podemos citar


os supermercados, os shopping centers, os hipermercados, as lojas de
conveniência, o comércio eletrônico, também conhecido como e-com-
merce (ORTIGOZA; RAMOS, 2003). Assim, “como o desenvolvimento
das técnicas e a melhor locação da produção industrial, a atividade
comercial inova-se, torna-se, inclusive, virtual” (CLEPS, 2004, p. 125).
Ver ainda Salgueiro (1989). Já com relação às formas antigas, como é o
caso das feiras, Santos (1979a, p. 42) assim se expressa: “as formas antigas
permanecem como heranças das divisões do trabalho no passado e as
formas novas surgem como exigência funcional da divisão do trabalho
atual ou recente. Elas são também uma condição, e não das menores,
de realização de uma nova divisão do trabalho”.

73
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

(1975) e Jesus (1992). Todos os trabalhos desenvolvidos acerca


do fenômeno feira no país têm por referência esses autores.
Analisando o Brasil do século XVII ao XIX, como um
espaço compreendido essencialmente de duas “zonas ativas”, a
zona “da Bahia a Santos”, onde se verificavam as “plantações,
[...] tais como o açúcar, o café, o cacau, o algodão” e a zona
interior, “mineradora” (DEFFONTAINES, 1945, p. 42), eviden-
cia a importância das feiras de burros12 da cidade paulista de
Sorocaba para a dinâmica desse espaço, no período estudado.
A feira de comercialização de animais organizada no sul da
província de São Paulo, aquela verificada em Sorocaba, era a
mais importante. No entorno dessa cidade, durante os meses
de maio a julho13, os negociantes de animais mantinham
suas tropas à espera dos compradores das províncias mais ao
norte. Assim, num período em que o transporte “[...] se fazia

12 Outro trabalho que traz contribuições sobre a feira de burros em


Sorocaba é o de Almeida (1945): Os caminhos do sul e a feira de Sorocaba,
publicado na Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Rio
de Janeiro, v. 186, p. 96-173, 1945. Para uma compreensão de novas
evidências desse mercado, ver Suprinyak (2008): O mercado de animais
de carga no Centro-Sul do Brasil Imperial: novas evidências, publicado
em Est. Econ., São Paulo, v. 38, n. 2, p. 319-347, abril-junho de 2008. O
livro de Baddini (2002): Sorocaba no Império: Comércio de Animais e
Desenvolvimento Urbano, também é plausível nessa discussão.
13 “As feiras se realizavam depois da estação das chuvas, em maio, junho
e julho. Não havia dias de feira, mas uma longa época que correspondia
à estação fria e seca, durante a qual era mais fácil aos compradores da
zona florestal do Norte viajarem a fim de se abastecerem em Sorocaba”
(DEFFONTAINES, 1945, p. 44).

74
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

por carga em razão do relevo muito acidentado que impedia


a instalação de estradas para viaturas; [...]14, e, além disso, os
produtos caros e pouco volumosos que se obtinham – o açúcar,
a aguardente, o café – se adaptavam bem a este transporte”,
os burros se tornaram peças fundamentais nesse processo,
sendo as trocas ou aquisições desses animais feitas nas feiras.
Era “[...] nas costas de burro que se levavam aos portos do
litoral os produtos do interior. Uma considerável circulação
de tropas ou muladas percorriam os numerosos caminhos
que desciam dos planaltos elevados” (DEFFONTAINES,
1945, p. 43).
Para ilustrar a importância dessa feira no referido período,
Deffontaines (1945, p. 44) afirma que, em Sorocaba, “[...] toda
atividade era comandada pelas feiras de burros, a principal
indústria era a dos objetos necessários aos tropeiros”. Segundo
ele, “fabricavam-se notadamente, selas, baixeiros (estofo
grosseiro que se colocava debaixo da sela), pelegos, cangalhas,
bruacas (sacos de couro para transporte do café), ligais (grades
cobertas de couro para proteger os carregamentos), laços”
(DEFFONTAINES, 1945, p. 44-45). Tal realidade evidencia
a dinâmica desempenhada pela feira, naquela cidade, nessa
época. Ainda conforme esse autor, “a última grande feira

14 Entendemos que o fato de o transporte, nessa época, se realizar por cargas


não se deveu ao fato apresentado pelo autor: “relevo muito acidentado
que impedia a instalação de estradas para viaturas”, mas sim à falta e/
ou insipiência técnica daquele momento.

75
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

se realizou em 1835”, e os fatores da decadência dessa ativi-


dade, em Sorocaba, são múltiplos: “nas regiões do Norte as
plantações foram muito afetadas pela supressão da escravi-
dão; [...] ruína das plantações de algodão, depois da grande
cultura norte-americana, decadência da cana-de-açúcar e
da aguardente [...]”. Acrescenta também que “a decadência
das estradas de burros foi completa quando se iniciaram as
primeiras estradas de ferro [...]” (DEFFONTAINES, 1945, p.
45). Essa leitura que o referido autor faz do espaço a partir
da feira é importante para se pensar não somente a dinâmica
que envolve essa atividade no espaço onde se realiza, mas a
técnica15 que se faz presente no meio social, num determi-
nado período da história dos homens, sendo componente da
produção de organização do espaço.
Já Olmária Guimarães, discutindo a importância das
feiras livres para o abastecimento de alimentos na cidade
de São Paulo, atesta a importância da “[...] participação das

15 Segundo Santos (2009a, p. 24), “a ideia de técnica como algo onde o


‘humano’ e o ‘não humano’ são inseparáveis, é central”. Compreender
a natureza humanizada, esse espaço geográfico é, em primeiro lugar
partir da noção de que, “desde, porém, que a natureza é uma natureza
humanizada, a explicação não é física, mas social. A geografia deixa de
ser uma parte da física, uma filosofia da natureza, para ser uma filosofia
das técnicas. As técnicas são aqui consideradas como o conjunto de
meios de toda a espécie de que o homem dispõe, em um dado momento,
e dentro de uma organização social, econômica e política, para modificar
a natureza, seja a natureza virgem, seja a natureza já alterada pelas
gerações anteriores” (SANTOS, 1988, p. 9).

76
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

feiras-livres na distribuição de gêneros alimentícios ao con-


sumidor, mesmo porque a sua clientela é das mais variadas,
no tocante às classes sociais” (GUIMARÃES, 1969, p. 15).
Essa autora chama a atenção ainda para o que seriam os
protótipos das feiras livres no Brasil. Segundo ela, as quitandas
seriam as formas embrionárias dessas atividades no país: “um
arremedo de feira já devia existir no século XVII visto haver
uma certa oficialização da mesma para a venda, em 1687, de
‘gêneros da terra, hortaliça e peixe no terreiro da Misericórdia’”
(GUIMARÃES, 1969, p. 21). Ao citar Santana (1944, p. 117,
apud GUIMARÃES, 1969, p. 21) afirma que a quitanda “seria
uma espécie de mercado ou feira, senão a própria praça, a
rua, o lugar determinado à venda de produtos da terra”. As
quitandas constituíam-se ainda em “aglomerações de negras
ao ar livre, ancoradas ou dispondo de tabuleiros, situadas
em pontos preestabelecidos, para a venda de produtos da
pequena lavoura, da pesca e da indústria doméstica” (JESUS,
2009, p. 165).
Segundo Mott (1975), antes dos europeus chegarem ao
Brasil, já existiam trocas entre os nativos, e, dissertando sobre
as trocas daqueles (europeus) com estes (nativos, indígenas),
afirma que os “produtos eram trazidos pelos silvícolas até
a praia e entregues nas mãos de particulares ou nas feito-
rias, a fim de serem embarcados para o Reino quando da
chegada das naus” (MOTT, 1975, p. 308). Evidentemente

77
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

que não podemos chamar essa forma de comércio de feira,


mas podemos pensar, a partir daí, no estabelecimento dessa
atividade comercial periódica no Brasil, implantada pelos
colonizadores portugueses.
Percebemos com isso que, no Brasil, as feiras livres existem
desde o tempo da colônia. Surgiram devido ao aumento da
população e da diversificação econômica. Para Mott (1975), a
primeira referência de uma feira no Brasil data de 1548, quando
no Regimento enviado ao Governador Geral, o rei Dom João
III, ordenava “que nas ditas vilas e povoados se faça em um dia
de cada semana, ou mais, se vos parecerem necessários, feira
[...]” (MOTT, 1975, p. 309). Vale ressaltar que, já tendo expe-
riência com feiras, não interessava aos portugueses abastecer
a população local, mas sim explorá-la, através da cooptação
dos produtos que eram expostos pelos nativos.
Outro aspecto relevante trazido por esse autor, é o reco-
nhecimento da importância do estudo de feira na perspectiva
de suas vinculações e conexões com as demais, bem como a
outros sistemas sociais que integram a economia e o mercado
nacional, embora acabe fazendo um estudo de caso, descre-
vendo minuciosamente todos os aspectos da feira estudada (a
Feira de Brejo Grande-SE). Entretanto, trata a atividade feira a
partir da seguinte perspectiva: campo de “interações sociais”,
existindo num determinado lugar e durante um tempo deter-
minado, envolvendo dois grupos sociais – os feirantes e os

78
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

consumidores –, cujo interesse é, respectivamente, vender


e comprar bens e mercadorias diversas que nesses locais se
encontram. Com efeito, o trabalho desse autor, ditado pela
Antropologia Econômica, prioriza a visão etnográfica. Assim,
“[...] embora o estudo etnográfico de uma feira constitua em si
um assunto pertinente numa pesquisa”, afirma ele, “estamos
mais interessados em descobrir a relação que existe entre a
morfologia da feira e os diversos tipos de interação social
que aí se cristalizam” (MOTT, 1975, p. 66-67). No entanto,
no que se refere à literatura sobre a temática feira no Brasil,
este trabalho é muito relevante, pois apresenta contribuições
históricas e documentais de grande significado.
Por último, Gilmar M. de Jesus, objetivando estudar o
lugar da feira livre na grande cidade capitalista, no caso o
Rio de Janeiro, do período de 1964 a 1989, mostra que essa
atividade já foi “responsável pela distribuição da maior parte
dos hortigranjeiros, frutas e pescado consumidos diariamente
pela população carioca, superando nestes setores todas as
demais formas de varejo somadas: supermercados, quitandas,
peixarias [...]” (JESUS, 1992, p. 95). Tal estudo reflete a impor-
tância dessa atividade periódica de comércio, sobretudo no
abastecimento hortifrutigranjeiro da “cidade maravilhosa”,
no período mencionado. Segundo esse autor, a importância
dessa forma de comércio começa a ser comprometida quando,
a partir dos anos 1950, surgiram “[...] os supermercados, um

79
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

grande adversário para as feiras no varejo da cidade” (JESUS,


1992, p. 96). Inserindo-se no circuito superior da economia
urbana, os supermercados logo começaram a ganhar o pres-
tígio e apoio governamental, mas também se expandiram
“rapidamente, formando extensas redes que atuam em nível
nacional e até internacional [...]” (Idem, ibidem). Diante disso,
o referido autor discute a relação da feira carioca frente às
modernizações, desvelando estratégias e fatores que as levaram
a permanecer na economia urbana daquela cidade.
Baseando-se em M. Santos (1979a), Jesus (1992) faz uma
discussão sobre esse respaldo teórico – a teoria dos circuitos da
economia urbana – e os elementos históricos concernentes à
presença da feira livre e sua importância no abastecimento da
cidade carioca. Destaca o seu embate com as formas modernas
de comercialização e abastecimento, como os supermerca-
dos, numa verdadeira luta no espaço intraurbano carioca,
fazendo uma listagem dos elementos que são responsáveis
pela resistência das feiras livres, na grande cidade, de forma
geral, dentre os quais: o fato de as feiras livres no espaço por
ele estudado se inserirem no circuito inferior da economia
urbana e, ao mesmo tempo, se articularem com o circuito
superior, sobretudo no que diz respeito ao abastecimento;
as vantagens de ser a feira uma atividade periódica, o que
“dota-a de uma forma muito singular de consumir espaço,
dele se apropriar por instantes, sem ter o ônus imobiliário de

80
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

uma ocupação permanente” (JESUS, 1992, p. 113); serviço de


qualidade prestado; e a importância sociocultural que só nelas
se encontram, cuja marca da sociabilidade é o forte, não se
encontrando nas formas modernas, como os supermercados.
Ainda sobre feiras livres no Brasil, merecem destaque os
trabalhos de Júlio M. Andrade (1968) e Manoel F. G. Seabra
(1977), intitulados, respectivamente Feiras livres e o espaço
urbano, e As cooperativas mistas do Estado de São Paulo.
Juntamente com os demais trabalhos, eles reforçam o sentido
de importância das feiras livres presentes no espaço brasileiro
para a população e para o espaço que delas depende, uma
vez que essas atividades desempenham relações contíguas,
de vizinhança, importantes no processo de distribuição e
consumo de atividades econômicas localizadas nos espaços
que as constituem e fundamentam. No entanto, ficou clara a
forma como o espaço urbano se organizou em determinados
momentos da história, sendo a feira importante fator nesse
processo, existindo e persistindo até os dias atuais, com os
produtos diversos da produção material técnica que constitui
a formação socioespacial dos lugares e regiões onde ocorrem.
Não somente o espaço urbano, mas também o regional tem
em sua dinâmica, a feira. O caso mais marcante é o da região

81
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

Nordeste, cujas atividades econômicas16 contribuíram sig-


nificativamente para o seu processo de formação territorial,
fazendo surgir as feiras livres, uma das formas de comércio
mais tradicionais17.

As feiras livres no Nordeste brasileiro

Entre todas as macrorregiões brasileiras, aquela onde as


feiras livres tiveram e têm um papel mais significativo é a região
Nordeste. Sendo uma formação socioespacial18, cuja história
se liga aos traços da colonização de exportação e que não con-
seguiu, com o transcurso espaçotemporal, modificar grande

16 Destaque para a pecuária bovina, que no caso da Região Nordeste foi


a responsável pelo início de sua ocupação interiorana, fazendo surgir
cidades (ANDRADE, 1986).
17 Além das feiras, outras formas de pequeno comércio, neste caso não
periódico, são as bodegas ainda presentes em algumas cidades inte-
rioranas nordestinas. A esse respeito ver Diniz (2009), que faz uma
discussão sobre as permanências e transformações do pequeno comércio
na cidade, destacando as bodegas e a sua dinâmica socioespacial em
Campina Grande (PB).
18 Para Santos (1979a, p. 14), o modo de produção, a formação social e o
espaço são três categorias interdependentes. Daí sugerir ao invés do
termo formação econômica e socioespacial, a formação espacial como
abarcadora desses três processos. Segundo ele, “todos os processos
que, juntos, formam o modo de produção (produção propriamente
dita, circulação, distribuição, consumo) são histórica e espacialmente
determinados num movimento de conjunto, e isto através de uma
formação social” (SANTOS, 1979a, p. 14).

82
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

parte das condições gerais da comercialização, a sociedade


nordestina ainda utiliza, no setor comercial, formas antigas
de venda de produtos diversos. Nesse contexto, inserem-se
vários lugares dessa região, onde é constatado grande número
de pessoas sobrevivendo à custa de atividades comerciais de
bens utilitários, com sistemas organizacionais semelhantes aos
verificados em remotos períodos, tradicionalmente denomi-
nados de feiras livres. Hoje são pejorativamente consideradas
rudimentares, em meio às formas modernas como os super
e hipermercados, lojas e vitrines dos diversos shopping cen-
ters etc., espalhadas por toda a região, embora concentradas
(parte dessas formas modernas), nas capitais e principais
cidades interioranas, em função da expansão do período e
meio técnico-científico-informacional, e de todo o processo
histórico-geográfico configurado nesse espaço regional.
No Nordeste, essa modalidade periódica de comércio
varejista (a feira livre) conseguiu maior êxito em função,
principalmente, da própria formação econômica e socioes-
pacial da região, que envolve, dentre outros, os meios de
comunicação existentes, o tipo de agricultura e pecuária
praticado (ANDRADE, 1986; 1987). Nessa região, a feira livre
desempenhou e desempenha uma grande importância por ser
uma das principais formas de comercialização da produção
agrícola e principal comércio varejista de abastecimento para

83
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

uma parcela considerável da população, como é representativo


a Feira da Pedra em São Bento, com seus produtos têxteis.
A relevância das feiras para a dinâmica de organização da
sociedade e do espaço está ainda a merecer uma investigação
mais acurada, que busque a identificação das formas e dos
processos pelos quais se dá sua participação no contexto geral
da comercialização econômica urbana e regional da reprodu-
ção da sociedade. Partindo desse pressuposto, analisaremos a
relação da região Nordeste com a atividade sistema feira livre,
buscando identificar a origem desse fenômeno nessa região e
sua importância para essa unidade geográfica, destacando o
papel de atividades econômicas fundamentais nesse processo,
como é o caso da pecuária, da agricultura de subsistência e
da cultura algodoeira, esta última a qual se liga a Feira da
Pedra de São Bento.

O Nordeste e a pecuária bovina:


“nascem” as feiras nordestinas

Antes de tudo é preciso salientar que não é intenção fazer


um longo esboço da pecuária enquanto atividade econômica
que propiciou a ocupação e a formação econômico-social da

84
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

região Nordeste19, mas apresentar alguns pontos condizentes


a esta atividade relacionados ao tema em estudo.
Na formação socioeconômica e espacial do Nordeste, as
feiras livres foram um dos elementos que desempenharam
e ainda desempenham uma grande importância, sobretudo
por serem fontes de comercialização da produção, princi-
palmente agrícola, e de outros produtos de abastecimento
geral de parcela20 significativa da população, que vive nessa
região. Isso é perceptível, em função de outros fatores, quando
observamos a dinâmica socioespacial que se configura na
cidade que realiza feira(s) livre(s).
Maia (2005, p. 5), ao analisar feiras brasileiras e portu-
guesas, afirma:

19 “Se fizermos um retrospecto histórico veremos que a pecuária foi


responsável pelo povoamento da maior parte da região, servindo de
suporte à expansão do povoamento por toda a área sertaneja e só à
proporção que a população crescia é que ia sendo substituída pela
agricultura, naquelas áreas mais favoráveis a esta atividade econômica.
Deu ainda notável contribuição ao desenvolvimento das duas culturas de
exportação que comandaram, através dos séculos, a evolução econômica
regional: a cana-de-açúcar, que das áreas de pecuária recebia os animais
de trabalho que moviam as almanjarras, conduziam os carros, os que
eram utilizados como animais de carga e que abasteciam de carne as
populações dos engenhos e fazendas, e o algodão, cuja cultura sempre foi
feita associada à pecuária, no conhecido complexo algodão-gado-cereais”
(ANDRADE, 1987, p. 98). Ainda sobre esse assunto, ver Andrade (1979;
1986; 1987; 2003).
20 Os dados exatos não temos, pois falta uma pesquisa detalhada sobre
esse sistema de comércio periódico e não é esta a pretensão deste estudo.
Afirmamos tal realidade em função da literatura pesquisada e da expe-
riência vivenciada nessa unidade espacial geográfica.

85
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

De um modo geral, em todo o território brasileiro as feiras


aconteciam como manifestação da atividade comercial, em
que pequenos agricultores vendiam os produtos por eles
cultivados ou pequenos comerciantes revendiam algumas
mercadorias de necessidade imediata.

E acrescenta ainda, baseada em Mott (1975), que “elas sur-


gem após a colonização enquanto ‘instituição copiada’ daquela
que os colonizadores já conheciam e praticavam secularmente
no Reino”. A presença da maioria desses comércios periódicos
no Nordeste originou-se do intenso comércio de gado verifi-
cado nessa região, nos séculos XVIII e XIX; justificado pelo
afastamento do gado das regiões litorâneas canavieiras, que,
nesse processo, fixava o homem no interior, fazendo surgir
cidades21 e relações comerciais, como as feiras que permane-
cem até os dias atuais. Esse afastamento se deu em função da
“[...] necessidade de prover a área açucareira de animais para
trabalho e alimento [...]” (ANDRADE, 1979, p. 37), bem como
ainda a presença dos holandeses no século XVII, que levaram
os criadores adentrarem pelo interior, temendo os invasores22.

21 Na Região Nordeste, “a fazenda de gado fixou a população no interior


[...]” (CASCUDO, 1956, p. 7). Foram os velhos “currais de gado” os
alicerces das cidades nordestinas (CASCUDO, 1956; 1976; 1984), onde
“as primeiras vilas e povoados surgiram somente no século XVIII, [...]”
(ANDRADE, 1979, p. 44), dentre os fatores, a criação de gado e uma
atividade comercial típica dos moldes das feiras livres.
22 Para mais detalhes, ver Souza (1946); Andrade (1979); Pazera Jr. (2003,
p. 31).

86
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

Diante disso, é oportuno refletirmos sobre as contribuições


de Souza (1946), que discute feira de gado; Strauch (1952), que
aborda algumas contribuições ao estudo das feiras de gado, a
partir das feiras de Feira de Santana (BA) e de Arcoverde (PE);
Barboza Leite (1956), que analisa as feiras nordestinas; Cardoso
(1965; 1967), que discute, respectivamente, a influência da
cidade de Caruaru (PE), citando a feira local como parte
desse processo, e um detalhe mais aprofundado dessa feira,
nessa década mencionada; Issler (1967), que traz a discussão
da função regional das feiras do Nordeste. Os trabalhos mais
atuais23 acerca desse tema, sobretudo aqueles referentes ao

23 A esse respeito, consultar algumas produções científicas, dentre as quais


listemos: Maia (2002; 2006), que aborda as feiras de gado na cidade e
as feiras em cidades brasileiras e portuguesas, respectivamente; Costa
(2003), que discute as sucessões e as coexistências no espaço de Campina
Grande (PB), nesse período técnico-científico-informacional, apresen-
tando a feira local na interface desse processo; Pazera Jr. (2003), que
analisa a feira agrestina de Itabaiana (PB), discutindo o que permaneceu
e o que mudou nessa feira; Porto (2005), quando analisa a configuração
socioespacial de Itapetinga (BA) e suas feiras a partir do circuito inferior
da economia urbana; Silva (2006), cuja análise monográfica da feira
livre de Pedras de Fogo (PB) é necessária se conhecer; Dantas (2007),
que trata das modificações socioespaciais da dinâmica da feira livre
de Macaíba (RN); Cardoso e Maia (2007), que relacionam as feiras e
festas em cidades médias nordestinas; Trevisan (2008), que discute a
convivência do formal e do informal, na análise que faz da feira livre
de Igarassu (PE), na perspectiva dos dois circuitos da economia urbana.
Ainda merece destaque o trabalho de Silva (2008), que traz a feira livre
de Cascavel (CE), como uma festa a céu aberto e o trabalho de Coêlho
(2009) ao discutir as feiras livres de Cascavel e de Ocara, no estado do
Maranhão, a partir de suas características, renda e formas de governança
dos feirantes. Todos esses trabalhos têm por base discussões envolvendo
as abordagens mais “antigas”, do ponto de vista do assunto feira livre
na região Nordeste brasileira.

87
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

Nordeste, têm por referências, ainda que históricas, esses


autores/trabalhos. Ou seja, as dinâmicas que envolvem as
feiras livres, com exceção de novos produtos que a elas foram
incrementados na comercialização, ainda encontram nessas
referências elementos significativos da sua realidade no atual
período geográfico.
Enfatizando a importância da pecuária na “história da
colonização de extensas regiões do Brasil”, Souza (1946, p.
389) aborda sobre a feira de gado24, que “apareceu desde os
primórdios do descobrimento, como um meio de conquista da
terra e de fixação das populações”. Esse trabalho é o primeiro,
de acordo com a literatura pesquisada, a tratar de feira no
Nordeste desvelando aspectos não somente relacionados a
essas formas de comércio, inicialmente de gado, mas também
referentes à produção do espaço.
Para Elza Coelho de Souza (1946, p. 389), “nos sertões da
Bahia, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará,
Piauí, as primeiras estradas foram os caminhos das boiadas”25.
Em função disso, “[...] numerosas povoações – núcleos de
futuras vilas e cidades – estabeleceram-se às margens de
rios, nos lugares onde estes ofereciam passagem mais fácil
aos animais, e à beira dos caminhos, nos pontos em que as

24 Sobre esse assunto, ver, também, Maia (2000; 2002; 2005) e Cardoso
e Maia (2007, p. 517-550).
25 Informação também encontrada em Andrade (1986).

88
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

boiadas paravam para descansar” (SOUZA, 1946, p. 389).


Nesse contexto, surgem as feiras também como atividade
comercial de sustentação e abastecimento de produtos agrí-
colas e outros, a esses povoados, vilas e cidades26, pois ao
passo que “as fazendas de criar conquistavam o sertão, certas
povoações e vilas, graças a sua posição, tornavam-se ativos
centros de comércio de gado. Deste modo, inúmeras cidades
do interior tiveram sua origem em primitivas feiras, como
Pedras de Fogo, na Paraíba” (SOUZA, 1946, p. 389), fato
também apontado por Ribeiro (1995, p. 197).
Comparando o modo como se dava a criação de gado,
naquela época, no Nordeste, mais extensiva, e no Sul do país,
de forma mais intensiva, é preciso ressaltar que essas práticas
ainda ocorrem. No Nordeste, ainda hoje são frequentes feiras
de gado, embora reduzidas. Já no Sul e Sudeste, a comercia-
lização “[...] do gado adquire aspecto diferente”, como, por
exemplo, por meio de leilões eletrônicos difundidos pela rede
mundial de computadores e canais de TV.

26 Nessas vilas, cidades e povoados, “suas principais edificações eram as


igrejas, conventos e fortalezas, que constituíam, também, seu principal
atrativo. Por ocasião das festas religiosas, a aristocracia rural deixava
as fazendas para viver ali um breve período de convívio urbano festivo.
Afora estas ocasiões, atravessavam uma existência pacata; só animada
pela feira semanal, pelas missas e novenas e pela chegada de algum veleiro
ao porto. A não ser isso, só se movimentavam com o trinar dos cincerros
das tropas de mulas que vinham do interior, ou com o rugido de atrito
dos carros de boi que chegavam dos sítios carregados de mantimentos
e de lenha” (RIBEIRO, 1995, p. 195, grifos nossos).

89
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

Evidenciando o desenvolvimento no sistema de trans-


porte, que cresceu consideravelmente na segunda metade do
século XX, Doralice S. Maia responsabiliza essas transfor-
mações pela “decadência” das feiras de gado no interior do
Nordeste. Para essa autora, com o advento dos transportes
mais sofisticados, “[...] o tempo de condução do gado, como
de todas as mercadorias, foi reduzido, aumentando o lucro
do fazendeiro e do negociante” (MAIA, 2006, p. 11). Nisso,
as feiras deixaram “[...] de ser o espaço do comércio de gado,
até mesmo porque a facilidade com que se traz a carne já
abatida em caminhões frigoríficos de terras mais longínquas
provocou uma queda no comércio de gado regional” (MAIA,
2006, p. 11). Entendemos essa dinâmica como manifestação
do meio técnico-científico-informacional, com o uso cada
vez mais constante de objetos e técnicas modernas no fazer
acontecer das atividades, acelerando umas e debilitando
outras, complexificando a geografia econômica urbana.
Uma contribuição mais operacional referente ao estudo
das feiras de gado encontra-se em Strauch (1952, p. 101), em
que afirma: “na região do Nordeste brasileiro, normalmente
no Nordeste Oriental, encontra-se ainda, uma sobrevivên-
cia dos tempos coloniais, um tipo de comércio tradicional
– as feiras”. Atentando-se para essa realidade, parte para
uma compreensão dessas feiras, em sua época, com base
nos seguintes aspectos, ainda válidos para a realidade atual

90
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

desse meio técnico-científico-informacional com relação a


essas atividades:
1) As feiras enquanto uma permanência. Segundo esse
autor, “as feiras são antes de tudo o reflexo deste espírito tradi-
cional. [...] elas guardam todos os processos comerciais, ainda
da época do Brasil colonial [...]” (STRAUCH, 1952, p. 101),
não sendo substituídas pelos modernos sistemas de compra
e venda, no caso a comercialização de animais, conforme já
mencionado. Nesse sentido, fica evidente a necessidade de
compreender a feira numa perspectiva temporal, processual.
2) As maiores feiras localizam-se em pontos estratégicos.
Para o mencionado autor, “[...] as maiores ‘feiras’ acham-se
situadas no contato do sertão com a zona da mata e do litoral”
(STRAUCH, 1952, p. 101), ou seja, no agreste nordestino27.
Cita o caso dessas atividades de comércio periódico em Feira
de Santana (BA), Arcoverde (PE), e Campina Grande (PB).
3) As feiras são uma exigência do(s) produto(s) de maior
amplitude de cada época. Para ele, as feiras de gado no
Nordeste brasileiro eram, na época de seu estudo, “[...] uma
exigência das condições da pecuária naquela região, sobretudo
no sertão” (STRAUCH, 1952, p. 101). Assim, é fundamental
o conhecimento da situação geográfica do local onde a feira
se situa, no que se refere à produção. Observando o meio

27 Essa constatação é também confirmada em trabalho mais atual; ver


o caso de Pazera Jr. (2003).

91
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

técnico-científico-informacional em que vivemos, as feiras


são não apenas uma necessidade dos produtos do momento,
mas também de um sistema de comercialização que impõe aos
feirantes-vendedores a necessidade de comercializar determi-
nados produtos, para se permanecerem nessa atividade, como
ocorre com alguns feirantes na Feira da Pedra em relação aos
produtos têxteis de origem estrangeira, fato discutido mais
adiante neste livro.
Percebemos, assim, que os aspectos metodológicos elenca-
dos por Strauch (1952) ainda se constituem numa referência
para o estudo das feiras livres no atual período do espaço
geográfico.
Observando, na vida sertaneja, a importância que as feiras
exerciam no século passado, mais especificamente nos idos
de 1950, Barboza Leite (1956, p. 439) fala das feiras do sertão
do Nordeste, afirmando que esses comércios periódicos “[...]
são mostruários permanentes que rivalizam na variedade dos
aspectos, cada qual oferecendo provas das diferentes atividades
exercidas pelo homem nordestino no aproveitamento, embora
estrito, das riquezas da terra pela força do espírito”. Exemplo
desse mostruário, mas não somente isto, é a Feira da Pedra,
resultante do aproveitamento do saber fazer dos são-bentenses
e demais sertanejos paraibanos e seridoenses potiguares, no
tocante à produção têxtil de fabricação de redes de dormir e
outros produtos derivados dessa atividade industrial.

92
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

Não somente nos anos 1960, a Feira de Caruaru (PE)


era importante ao ponto de se sobressair como a maior feira
nordestina, mas também nos dias atuais. Em Caruaru, “se a
presença de brejos possibilitou a expansão do povoado inicial,
[...] foi sem dúvida a feira fator marcante para o seu desen-
volvimento [...]” (CARDOSO, 1965, p. 587), tal como ocorreu
em São Bento e nas demais cidades do Nordeste, quando de
suas primeiras ações que possibilitaram a construção de seu
meio geográfico construído e em construção.
Ainda hoje, Caruaru semanalmente “vê-se tomada de um
grande movimento, pois nela se realiza a famosa feira que
torna Caruaru conhecida em todo o Brasil” (CARDOSO, 1965,
p. 607). Esse comércio periódico exerce enorme influência
“em ampla área circunvizinha, devido em grande parte ao
seu dilatado caráter social”, aglutinando desde o seu início de
funcionamento28, pessoas do local e da região, que sobrevivem
dessa atividade, e até de outras partes do país, que fazem
turismo pela região nesse local, pois “muitos turistas que
chegam ao Recife procuram também conhecer a capital do

28 Na região Nordeste como um todo, as feiras começam “[...] a fun-


cionar com o raiar do dia. Quem tem algo a vender chega logo pala
madrugada, escolhe um bom lugar e aguarda a chegada do dia. Os
negócios duram até o meio dia e no começo da tarde terminam. [...].
Para quem não dispõe de condução própria o ‘misto’ representa uma
solução original. Trata-se de um caminhão comum, com cabine maior,
podendo transportar além da carga, uns dez passageiros, como se fosse
um ônibus” (ISSLER, 1967, p. 40).

93
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

agreste pernambucano [Caruaru] (preferindo os dias de feira)”


(CARDOSO, 1965, p. 608). A partir de 2007, essa feira passou
a ser considerada, pelo Instituto do Patrimônio Histórico
e Artístico Nacional (IPHAN), como Patrimônio Cultural
Imaterial Brasileiro, o que fez aumentar seu reconhecimento
e sua importância enquanto ponto turístico.
Por fim, outro trabalho importante quanto à discussão das
feiras do Nordeste é o de Issler (1967), que analisa a função
regional das feiras nessa região, mostrando alguns aspectos
que ainda hoje são extremamente presentes nessas atividades
socioeconômicas e culturais periódicas do circuito inferior
da economia urbana de diversas ou senão quase todas as
cidades nordestinas. Já nos idos dos anos 1960, esse autor
mostrava que as feiras, cujas realizações semanais se davam
nas cidades brasileiras, evidenciavam “[...] um fato comum
de vida urbana, uma das manifestações da função comer-
cial” (ISSLER, 1967, p. 37). Com efeito, olhando para o caso
nordestino, afirma que “[...] este fato deixa de ser rotineiro
para assumir importância local considerável. Assim sendo,
para determinadas localidades é difícil distinguir até que
ponto a feira depende da cidade ou a cidade da feira” (Idem,
ibidem). Isso fica claro quando percebemos que, em muitas
cidades nordestinas, é a feira semanal que ainda exerce função
comercial importante. Diante disso, é notório que “esta função
confere às feiras importante papel urbano e regional, na

94
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

medida em que desencadeia um processo de comercialização


e outro de trocas inter-regionais bem mais expressivos do que
o das formas de comércio estabelecido” (ISSLER, 1967, p. 37),
tal como constatamos com a Feira da Pedra.
Com relação aos tipos de feiras constatadas por esse autor
naquela época, ele afirma que “[...] existem as grandes feiras
dos centros urbanos maiores e as pequenas, espalhadas pelo
interior. No primeiro caso, temos um processo de comerciali-
zação com todas as características de um comércio regular [...]”
(ISSLER, 1967, p. 37); as segundas podem “[...] ser consideradas
como remanescentes das feiras tradicionais, onde o agricultor,
artesão e criador se transformam em comerciantes. Neste
tipo de feira, o comerciante esporádico vende o que possui
em excesso para adquirir os gêneros de sua necessidade”
(PAZERA JR., 2003, p. 27). Esse segundo tipo de feira é muito
comum nos povoados menores e mais rústicos, sobretudo no
Litoral e no Sertão nordestinos, que, de acordo com Issler
(1967, p. 37), “tomando por base o tipo de região em que
ocorrem é possível distinguir dois grupos”, quais sejam: feiras
de zonas de transição e feiras de zonas típicas.
1) As feiras de zonas de transição: são aquelas típicas do
Agreste, “ocorrem nas faixas de transição entre duas zonas
geograficamente diferentes. Entre a zona da mata e o sertão,
entre um brejo e um agreste, por exemplo” (ISSLER, 1967, p.
37). Com efeito, a existência dessas feiras liga-se à troca de

95
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

produtos característicos dessas zonas sendo, “[...] portanto,


feiras ricas em variedades [...]” (Idem, ibidem). Os feirantes-
comerciantes, sobretudo aqueles de artigos industrializados,
adquirem seus produtos nos centros urbanos maiores, em
atacadistas e lojas diversas, às vezes, no dizer de Pazera Jr.
(2003, p. 27), “com condições de pagamento futuro”, retornando
após a comercialização a esses fornecedores e quitando suas
dívidas, o que ocorre, em alguns casos, na Feira da Pedra. Por
fim, “em algumas áreas de transição, a presença de alguma
agricultura comercial próspera ou outra riqueza da terra pro-
picia o aparecimento de importante feira, que tende, cada vez
mais, a ampliar a sua zona de influência pelo interesse que
vai despertando” (ISSLER, 1967, p. 37). Como exemplos atuais
dessas feiras, citemos aquelas mencionadas por Pazera Jr.
(2003, p. 27), para quem a cidade “de Arapiraca, em Alagoas,
com todo o seu desenvolvimento voltado para a cultura do
fumo e consequentemente a feira, e Timbaúba, Pernambuco,
localizada na Zona da Mata e encravada entre os canaviais”.
2) As feiras de zonas típicas: “são as que ocorrem no interior
de zonas geográficas bem definidas. Comparativamente, são
mais pobres, menores do que as da zona de transição, ainda
que a região possa ser rica. Este tipo de feira [...] é [...] o mais
frequente” (ISSLER, 1967, p. 38), na região Nordeste. Nessa
tipologia de feira, a presença do feirante-comerciante enquanto
um produtor dos produtos comercializados é mais forte, ao

96
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

contrário daqueles das feiras de zonas de transição. Podemos


citar alguns exemplos: “Catolé do Rocha, no Sertão paraibano;
Mamanguape, na Zona da Mata paraibana; e Angicos, no
Sertão do Rio Grande do Norte” (PAZERA JR., 2003, p. 28).
Além disso, esse autor aborda em seu trabalho mais dois
aspectos sobre as feiras: a organização interna e o signifi-
cado desses comércios periódicos. É notório que nas feiras
nordestinas “não há necessariamente uma hierarquia na
distribuição espacial das mercadorias a comerciar” (ISSLER,
1967, p. 40). No entanto, alguns aspectos são semelhantes a
quase todas, conforme expressou Pazera Jr. (2003, p. 28): “o
mercado público29, geralmente de propriedade da Prefeitura
Municipal, é o local onde são comercializados os produ-
tos de maior consumo e que necessitem de proteção contra
mudanças no tempo, como farinha de mandioca e carne”.
Acrescenta ainda que “os demais produtos são dispostos em
torno do mercado e pelas ruas próximas ao mercado. Os
produtos que necessitam de maior espaço como a cerâmica
e os móveis dispõem-se pela periferia da feira” (PAZERA
JR., 2003, p. 28). De acordo com Issler (1967, p. 40), “ao lado
da comercialização de produtos encontram-se nas feiras
setores de prestação de serviços. O mais importante é aquele
29 Vale ressaltar que as feiras nordestinas antecedem a criação do mer-
cado público, sendo um fator decisivo para que este viesse a existir,
em função de uma necessidade maior de organização do comércio no
espaço urbano.

97
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

que se destina a servir os próprios feirantes. As barracas de


alimentação, atendidas por mulheres, funcionam desde a
madrugada”, como verificamos também na Feira da Pedra,
fato que aumenta as características dessas atividades (feiras)
como elementos constitutivos do circuito inferior da economia
urbana das cidades onde elas ocorrem.
Distante da vida urbana mais agitada, uma vez que a confi-
guração urbano-citadina do Sertão nordestino é caracterizada
por pequenas cidades, as feiras exercem “[...] significativamente
uma função social” (ISSLER, 1967, p. 41), ainda nesse meio e
período técnico-científico-informacional. O dia de feira é o
dia de se encontrar com amigos, vizinhos, comerciantes etc.
“Não só comprar ou vender, mas especular, pesquisar preços,
comentar o ‘inverno’ e a situação da lavoura”, mas também “o
dia das novidades, das boas ou más novas” (ISSLER, 1967, p. 41).
Vale ressaltar, ainda, que uma das características das
feiras no Nordeste era o artesanato, que constituía um ponto
fundamental desses comércios periódicos. Era muito “comum
encontrar o artesão em plena atividade, fabricando princi-
palmente os artefatos de couro, como sandálias, alpercatas
e calçados” (PAZERA JR., 2003, p. 29). Ainda segundo esse
autor, “no caso de Itabaiana, isso era válido até meados dos
anos oitenta” (Idem, ibidem) do século passado. Entretanto,
essa realidade é pouco presente, hoje, no meio dos objetos
e saberes técnicos, científicos e informacionais, dos quais a

98
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

presença se faz constante nos lugares, mas que percebemos


na Feira da Pedra ainda o artesão em plena atividade.
Todavia, um tipo específico de produto resultante da
atividade artesanal, a rede de dormir, hoje ainda se faz presente
nas feiras de algumas cidades nordestinas, como é o caso
de São Bento, na Paraíba. Produto este bastante aceito pela
clientela que a esta cidade se dirige em busca dessa mercadoria
e outros produtos têxteis, que são fabricados pela indústria
têxtil local e regional, encontrando na Feira da Pedra um local
para a aquisição dos mesmos. As redes de dormir possuem
preços mais acessíveis que as camas, bem como são mais
fáceis de serem transportadas, conforme já havia observado
Cascudo (2003) e, hoje, ainda são muito consumidas. Em São
Bento, a produção de redes de dormir é responsável, em parte,
pela sua configuração socioterritorial e pela permanência
da Feira da Pedra, que tem, na cultura algodoeira – embora
pouco expressiva no Nordeste, nesse meio e período técnico,

99
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

científico e informacional –, a matriz de uma geografia e


geograficidade30 ímpar, sobre a qual passaremos a refletir.

O Nordeste e a cultura algodoeira:


tecelagem e feiras de redes de dormir

Fazendo parte de uma atividade econômica bastante


desenvolvida no Nordeste – a fabricação de redes de dormir e
derivados –, a Feira da Pedra soma-se a outras feiras de redes
de dormir espalhadas por vários lugares dessa região, num
processo que aglutina produtores provenientes das áreas rurais
e urbanas, e de outras localidades circunvizinhas. Isso se dá
em função da necessidade dos produtores em comercializarem
sua produção e dos consumidores que desejam adquirir esses

30 Para Eduardo Marandola Jr., no Prefácio à Edição Brasileira da obra:


O homem e a terra: natureza da realidade geográfica, de Eric Dardel, a
geograficidade “[...] expressa a própria essência geográfica do ser-e-es-
tar-no-mundo.” (p. XII). Ser-e-estar-no-mundo, para muitos brasileiros
citadinos e/ou que mantém relações com este subespaço (a cidade) é
sobreviver diante de um meio técnico-científico-informacional cada
vez mais excludente, fato que nos faz vê-los, conforme Milton Santos,
integrados e integrantes de um circuito inferior da economia urbana,
no âmbito da geografia econômica urbana.

100
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

produtos de maneira mais barata, para revenderem31 em suas


cidades de origem, em contraste com o processo de expansão
e modificações das formas de comércio, atualmente presentes
nas cidades32.
Cinco dos nove estados nordestinos possuem feiras de
redes de dormir, em função da atividade industrial têxtil de
fabricação de redes de dormir e outros produtos diversos
(tapetes, panos de prato, bolsas etc.). São eles: Piauí (PI), na
cidade de Pedro II; Ceará (CE), na cidade de Jaguaruana; Rio
Grande do Norte (RN), em Jardim de Piranhas; Paraíba (PB),

31 É comum, nas cidades dos feirantes-consumidores dos produtos da Feira


da Pedra, encontrarmos pequenas unidades, onde esses sujeitos socioes-
paciais comercializam/revendem artigos de produção têxtil, adquiridos
nessa feira. No atual período, “nota-se a tendência para aumentarem os
estabelecimentos com grandes superfícies, mas também proliferam os
pontos de venda de dimensões exíguas” (SALGUEIRO, 1989, p. 161),
como são as repartições, no próprio recinto de moradia, destinadas ao
comércio de produtos têxteis por parte dos feirantes-consumidores da
Feira da Pedra.
32 Acerca das novas formas de comércio hoje presentes na cidade, com-
plexificando sua geografia econômica urbana, Salgueiro (1989, p. 155)
assim se expressou: “o aparecimento das novas formas de atividade
comercial é, no geral, visto no contexto das mudanças que afetam a
procura e no das alterações inerentes ao próprio processo empresarial e
de gestão das firmas. O planejamento do território desempenha depois
um papel variável consoante os países”. Ainda sobre esta questão, ver
Silvana Maria Pintaudi: A cidade e as formas do comércio. In: CARLOS,
Ana Fani Alessandri (Org.). Novos caminhos da geografia. São Paulo:
Contexto, 2010, p. 143-159. Para essa autora, “as formas de comércio
varejista nas cidades e também nos padrões de sua localização vêm
sofrendo modificações através do tempo” (PINTAUDI, 2010, p. 143),
o que entendemos serem essas modificações através do tempo, reflexos
desse meio e período técnicos, científicos e informacionais.

101
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

nas cidades de São Bento e Aparecida; e, Pernambuco (PE),


na cidade de Tacaratu. Em nenhum deles, com exceção da
Paraíba, essa atividade tem maior expressividade como aquela
verificada na cidade de São Bento, com sua Feira da Pedra. A
comercialização têxtil dos produtos adquiridos na Feira da
Pedra, por parte de feirantes-consumidores, que depois se
tornam revendedores em seus lares desses mesmos produtos,
parece, em certa medida, condicionar relações socioespaciais,
que organizam o espaço habitacional desses sujeitos, no sentido
de sua realidade do trabalho. Nesse sentido, parece haver uma
redefinição de tempos e espaços da vida cotidiana, influen-
ciando os revendedores a uma vivência marcada pela não
distinção de tempos nem de espaços de trabalho, em função do
trabalho acontecer dentro da vida do lar da família, conforme
será visto mais adiante, quando discutirmos a relação dessa
feira com os circuitos da economia urbana.
Na Feira da Pedra, comercializam-se redes de dormir,
panos de prato, tapetes, dentre outros produtos que têm na sua
base, de forma indireta, a matéria-prima algodão e, de forma
direta, a indústria têxtil, local e regional, de redes de dormir
e seus derivados. Desde quando o Brasil foi “descoberto”, o
cultivo do algodão já era praticado pela sociedade indígena
que nesse meio geográfico vivia. A região Nordeste constituiu-
se, e ainda constitui-se, em um dos lócus da tecelagem do
algodão exercida, inicialmente, pelos índios. No processo de

102
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

formação social, tal prática (a tecelagem do algodão) passou


a ser difundida, sendo muito usada entre os escravos e os
colonos. Conforme Silva (1980, p. 27), “além de servir para
confecção de peças de vestuário, a tecelagem do algodão se
destinava também à confecção de sacarias para os engenhos de
açúcar”, que eram muito presentes nessa região, sobretudo na
sua porção oriental conhecida como Zona da Mata. Durante
esse período, o cultivo do algodão se destinava ao consumo
interno. Mais tarde, por exigências da Revolução Industrial
no século XVIII, que desencadeou um intenso processo de
manufaturas têxteis, essa matéria-prima (o algodão) passou
a ser fundamental ao processo produtivo, que se iniciara. A
Inglaterra passou, então, a induzir o cultivo dessa cultura
em vários países, como por exemplo, “[...] a Índia, o Egito,
o Peru, os Estados Unidos e o Brasil (região Nordeste), pela
integração dos mesmos ao mercado mundial” (SILVA, 1980,
p. 28). O algodão, a partir desse momento, tornou-se um
produto de exportação, tendo a força de trabalho escravo
como sua alavanca. Várias áreas do Nordeste do Brasil cons-
tituíram-se em grandes fazendas de algodão, tornando essa
região, naquela época, o maior centro do país na produção
e exportação desse produto. De acordo com Silva (1980, p.
29), o algodão juntamente com a pecuária “[...] promoveu a
ocupação de quase todo o interior, proporcionando a forma-
ção de vilas e povoados, algumas das quais posteriormente

103
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

transformando-se em importantes cidades”, como é o caso de


Crato (CE), Icó (CE), Currais Novos (RN), Caicó (RN), Pau
dos Ferros (RN), Campina Grande (PB), Caruaru (PE), Patos
(PB), dentre outras, “[...] em razão do cultivo e comercialização
do algodão” (SILVA, 1980, p. 29), juntamente com a criação
de gado e a cultura de subsistência (ANDRADE, 1979; 1986;
1987; GOMES, 2001).
Com a expansão do desenvolvimento técnico-industrial
configurado em outros espaços, que levou a uma concorrência
acirrada, e com a falta de incentivo político, a região Nordeste
foi forçada a abandonar o mercado internacional, passando o
algodão a ser cultivado em menores escalas, destinado quase
que exclusivamente para um incipiente mercado interno, cuja
finalidade era fornecer matérias-primas para as atividades
domésticas e artesanais, como sacarias, fatos que contribuí-
ram para a redução de sua área de cultivo. Nesse sentido,
conforme Gomes (2001), o algodão vem sofrendo quedas
absolutas de produção e produção per capita, desde o início
da década de 1970 e, de certa forma, sendo substituído por
produtos sintéticos derivados da indústria, que têm na base o
petróleo como matéria-prima. Esse fato também é apontado
por Felipe (2010).
A expansão da cultura do algodão trouxe como consequên-
cia para a região as atividades de fiação e tecelagem em caráter
artesanal e semi-industrial, desenvolvendo-se e fazendo surgir

104
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

diversas atividades de produção em vários estados da região,


bem como cidades que, ao longo do tempo, passaram a surgir
e a ter sua economia centrada nessa atividade e, também, feiras
livres com uma presença muito intensa de produtos dessa
atividade, especificamente São Bento, no Estado da Paraíba.
É do elemento algodão o produto rede de dormir, objeto
têxtil pioneiro da Feira da Pedra de São Bento e de maior
quantidade. Esse produto da cultura material esteve presente
em quase todos os momentos da história do Brasil, sendo
usado por todas as classes sociais de diversas maneiras, até
como meio de transporte. Nesse sentido, são plausíveis ligeiras
referências de Freyre (1981), para quem os colonos, basica-
mente até o século XVIII, principalmente as senhoras, quando
saíam de suas casas, não iam em outro meio de transporte,
que não fosse dentro de redes. Não somente as senhoras,
mas também os nobres e ricos. Dessa forma, “nas redes e
palanquins, deixavam-se os senhores carregar pelos negros,
dias inteiros, uns viajando de um engenho a outro, outros
passeando pelas ruas das cidades: o mais das vezes sempre
deitados ou sentados nas almofadas pegando fogo” (FREYRE,
1981, p. 415) (Figura 1).

105
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

Figura1 – Palanquin de rede: nobre ou rico sendo transportando


por escravos, no Período Colonial

Fonte: Freyre (1981, p. 415).


Nota: autor desconhecido.

Esses palanquins se constituíam de uma rede de dormir


suspensa por um varão de madeira ou bambu, que a atra-
vessava de um punho a outro, e eram transportados por
dois escravos. Como meio de transporte, a rede de dormir
foi muito usada pela classe dominante do Brasil, em um
determinado momento da história, seja em viagens de passeio
ou de negócio. Essa prática era tanto usada no meio urbano
quanto na zona rural. No interior, o transporte de defuntos

106
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

também era feito em redes de dormir, como percebemos em


Cascudo (2003) e Melo Neto (1994, p. 30)33.
Esse produto têxtil, hoje fabricado em São Bento, Jardim
de Piranhas e outras cidades da Paraíba e do Rio Grande do
Norte, bem como outras localidades da região Nordeste do
Brasil, não apenas remonta à tradição indígena, como também
foi considerado um dos principais hábitos apropriados pelos
colonos, conforme as observações de Cascudo (2003), em sua
obra: Rede de dormir: uma pesquisa etnográfica. As redes de
dormir se tornaram símbolo da mobilidade, da ocupação e
também da adaptação ao Sertão nordestino. Nessa obra, o
folclorista reproduziu relatos de viajantes e manifestações acerca
desse produto presente na cultura popular. Segundo ele, “quem
viveu no sertão do Nordeste até 1910 sabe perfeitamente que
rara seria a fazenda onde a rede fosse objeto de compra. Era uma
indústria doméstica e tradicional” (CASCUDO, 2003, p. 25).
A produção de redes passou a ser a principal atividade
econômica de São Bento, abastecendo o mercado local e
regional, após a segunda metade do século XX. De acordo
com Faria (1989, p. 17-18), “a cidade de Caicó foi abastecida
por redes vindas de São Bento até o final da década de 70”

33 “Encontra dois homens carregando um defunto numa rede, aos gritos


de ‘ó irmãos das almas! Irmãos das almas! Não fui eu quem matei não!’”
(MELO NETO, 1994, p. 30, grifos nossos).

107
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

do século passado (séc. XX). Afirma que “no início dos anos
50, a cidade de São Bento (PB) começa a expandir seu parque
têxtil, passando por um processo de modernização, que já
no começo dos anos 1960 culmina com a substituição em
algumas tecelagens, dos teares manuais”, isto é, teares feitos
artesanalmente de madeira, “por teares movidos a motor
diesel e posteriormente elétrico. A partir daí a produção
de redes aumenta, enquanto que as formas mais primitivas
de produzir redes vão aos poucos sendo substituídas, ainda
que permaneçam até hoje”, sobretudo nas áreas rurais desse
município, com “o uso de antigos instrumentos de trabalho
em algumas tecelagens da região (como é o caso do tear
manual, apesar de ter passado por algumas modificações),
como também a fabricação de cordões feitos manualmente”
(FARIA, 1989, p. 18).
Atualmente, a maioria dessas tecelagens em São Bento,
sobretudo aquelas localizadas no espaço urbano, utilizam teares
elétricos – ora compondo o circuito superior marginal, ora o
circuito inferior da economia urbana dessa cidade. Esses objetos
técnicos mais “modernos” foram, aos poucos, substituindo os
teares manuais, embora estes ainda permaneçam em pequeno
número, em alguns locais da zona rural do município. Os
teares elétricos são provenientes da indústria têxtil paulista e,
devido ao processo de modernização do parque têxtil de São

108
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

Paulo, tornaram-se obsoletos34 para a produção que a partir daí


se configurava, mediante a intensidade de um meio técnico-
científico-informacional, mas que se adaptaram bem ao tecido
rústico das redes – conforme enfatizou Carneiro (2006) –,
fabricadas em cidades da Paraíba e do Rio Grande do Norte.
Tais antecedentes fornecem pistas sobre a produção de
redes na cidade de São Bento e na região do Seridó Potiguar,
que é responsável pelo acontecer da Feira da Pedra. No entanto,
não são suficientes para uma compreensão mais aprofundada
dessa atividade industrial nessa cidade. Sendo um produto
têxtil de largo consumo e, portanto, de necessidade, sobretudo
para muitos habitantes das regiões Norte e Nordeste do Brasil,
a rede de dormir se transformou “[...] em objeto de decoração e
lazer para a classe mais abastada da população em todo o País
e até do exterior” (ARAÚJO, 1996, p. 47). A produção desses
objetos, assim como dos demais derivados têxteis, se constitui
em importante atividade econômica regional, localizada em
algumas cidades nordestinas, pelo fato dessa região reunir as
condições propícias para o processo de comercialização desses
produtos, como, por exemplo: amplo mercado consumidor
em relação ao espaço rural e concentração populacional mais

34 Acerca dessa questão, ver os trabalhos de Faria (1989) e o de Carneiro


(2006), que tratam, respectivamente, das relações de trabalho nas tece-
lagens de redes de dormir de Caicó; e da produção do espaço e dos
circuitos de fluxos da indústria têxtil de São Bento (PB).

109
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

significativa, além de capital e interesse por parte daqueles que


empreitam essa atividade na região, além da herança cultural.
Por fim, em função das características que apresentam,
as feiras livres no âmbito da geografia econômica urbana
podem ser compreendidas por meio da teoria dos circuitos
da economia urbana, sendo incluídas no circuito inferior.
Isso porque, sendo atividades comerciais antigas, as feiras
livres apresentam uma grande relevância, sobretudo no
Nordeste brasileiro, no sentido de serem responsáveis pela
sobrevivência de inúmeras famílias, além de se articularem
com outras modalidades de atividades econômicas urbanas e
rurais, operando com trabalho intensivo, pouca tecnologia e
capital. Dessa forma, apresentam-se como uma manifestação
do circuito inferior bastante significativa, sobretudo nesse
contexto socioespacial de desemprego estrutural, decorrente
da passagem do modelo fordista para o modelo de acumulação
e produção flexível, iniciado a partir dos anos 1970, expresso
no meio e período técnico-científico-informacional.
Pudemos perceber que, tendo essas atividades surgidas
há muito tempo, quando o homem começou a produzir além
do necessário (excedentes), foram dinâmicos centros “[...] de
intercâmbio em grande escala, que se esforçavam em reunir
o maior número possível de homens e produtos” (PIRENNE,
1982, p. 102). Nesse sentido, fazendo parte do comércio,
encontram-se ligadas à história da humanidade e de suas

110
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

cidades. Isso significa que cidades surgiram e cresceram com o


processo de colonização, como foi o caso brasileiro, exercendo
importância econômica fundamental. No Nordeste, várias
delas se emanciparam em decorrência da importância de suas
feiras livres, o que se confirmou no caso de São Bento, onde
o surgimento da feira livre local está relacionado à fundação
do primeiro povoado que originou a cidade.

111
Capítulo 4
O SURGIMENTO DA
FEIRA DA PEDRA
A partir da metade dos anos 1990, algumas referências
foram feitas em quatro estudos desenvolvidos sobre a produção
têxtil de redes de dormir no Nordeste brasileiro, trazendo a
Feira da Pedra como uma dissipadora desses produtos. O pri-
meiro desses trabalhos é uma tese de doutorado, em Geografia,
de autoria de Araújo (1996), que discute as transformações na
produção artesanal de redes de dormir no nordeste brasileiro
e suas relações com a reprodução do espaço; o segundo é o
trabalho monográfico, também geográfico, de Carneiro (2001),
que discorre sobre a indústria têxtil de São Bento (PB): da
manufatura à maquinofatura; o terceiro, também de autoria
de Carneiro, é uma dissertação de mestrado, que versa sobre
produção do espaço e circuitos de fluxos da indústria têxtil de
São Bento (PB): do meio técnico ao meio técnico-científico-in-
formacional (CARNEIRO, 2006); o quarto e último, é uma
dissertação de mestrado com foco antropológico, tendo como
título Famílias do ramo de rede: tecelagem, negócio e viagem no
sertão da Paraíba e do Rio Grande do Norte (CUNHA, 2006).
Todos esses trabalhos acadêmico-científicos nos fornecem
um pouco de conhecimento sobre a Feira da Pedra, embora
com perspectiva diferente da proposta adotada neste livro.
Araújo (1996) faz uma análise das transformações da
produção artesanal de redes de dormir, localizada no Nordeste
brasileiro, buscando evidenciar as repercussões de tais trans-
formações nos locais onde essa atividade ocorre. Traz a Feira

113
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

da Pedra, juntamente com outras feiras de igual natureza,


por ele identificadas no Nordeste, como uma dissipadora
de parte dos produtos fabricados pela indústria têxtil de
redes de dormir de São Bento, além de ser uma atividade
que congrega comerciantes de outros territórios da Paraíba,
tais como Aparecida, Brejo do Cruz e Catolé do Rocha, e do
próprio estado do Rio Grande do Norte, como, por exemplo,
Jardim de Piranhas e Caicó. Destaca que, em São Bento, o
processo de comercialização da produção local, que é “[...]
caracterizada, sobretudo, pela confecção de redes populares,
embora também haja produção das redes consideradas de
luxo, dá-se, em parte, através de uma feira que se realiza às
segundas-feiras, denominada ‘Feira da Pedra’ [...]”, numa
dinâmica socioespacial, “para onde afluem compradores de
diversas origens” (ARAÚJO, 1996, p. 190). Ressalta ainda,
que “nessa feira, observa-se também a comercialização de
acessórios para redes, assim como fios de acabamento, já que a
demanda ali, para esses produtos, fez surgir, não só no próprio
município, mas também nos adjacentes” (ARAÚJO, 1996, p.
190), pessoas especializadas na produção ou comercializa-
ção desses acessórios e que moram na região circunvizinha,
de onde elas saem, semanalmente, com diversos produtos
para vender na Feira da Pedra. Este trabalho é importante,
não apenas por tratar da Feira da Pedra, mas por trazer,
em sua totalidade, uma análise das transformações pelas

114
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

quais passaram a produção artesanal de fabricação de redes


de dormir no Nordeste brasileiro, revelando geografias e
geograficidades, resultantes do processo técnico, econômico,
cultural e socioespacial, quando o referido autor enfocou suas
relações com a reprodução do espaço.
Já Carneiro (2001; 2006), também traz a Feira da Pedra
como uma das formas de distribuição e comercialização dos
produtos têxteis de São Bento. Segundo esse autor, tais formas
são variadas, compondo-se de venda direta na fábrica, da
fábrica para os “redeiros local e regional e a venda na feira da
pedra [...], para onde se dirigem principalmente os empresários
do circuito inferior informal de base familiar ou doméstica
existentes no circuito espacial da produção regional de São
Bento” (CARNEIRO, 2006, p. 132, grifos do autor). Aí, a
Feira da Pedra é apontada como um local de comercialização
têxtil, resultante da aglomeração de donos de tecelagens,
que fazem parte de um circuito inferior, do ponto de vista
da produção de redes de dormir e derivados dessa atividade
industrial existente nas cidades de São Bento, Brejo do Cruz,
Caicó e Jardim de Piranhas. Assim como em Araújo (1996),
o estudo de Carneiro (2001; 2006) vem somar-se às primeiras
referências sobre a Feira da Pedra, além de constituírem-se em
importantes fontes sobre a atividade têxtil, especificamente
em São Bento. Constituem-se como referências regionais

115
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

(em nível de Nordeste), no que se refere à indústria têxtil de


fabricação de redes de dormir e outros produtos.
Somado a esses trabalhos, tem-se o estudo de Cunha (2006),
cuja análise se volta para as famílias que sobrevivem da ativi-
dade têxtil em parte dos territórios do Rio Grande do Norte e
da Paraíba. Com base na análise feita, essa autora afirma que,
depois de terminada a confecção dos produtos têxteis, essas
famílias comercializam tais produtos na Feira da Pedra, em
São Bento. Segundo a autora, essa feira “[...] congrega diferentes
tipos de produtores, de donos de tecelagens ao pessoal que
apronta, passando pelas suas variações” (CUNHA, 2006, p. 43).
Afirma ainda que, nessa feira, “[...] também se pode observar
como cada produtor/comerciante lança mão de estratégias
diferencialmente combinadas” (Idem, ibidem), funcionando,
nesse sentido, como lócus de estudos antropológicos.
A Feira da Pedra enfatizada por esses autores como uma
manifestação de uma economia que tem na sua base a ativi-
dade de fabricação têxtil de redes de dormir, seria um local
de difusão da produção têxtil local e regional, constituindo-se
como um aglomerado de produtores e pessoas que realizam
serviços de acabamento em produtos comercializados. Mesmo
apresentando perspectivas diferentes, esses trabalhos contri-
buem para a necessidade de se conhecer melhor a geografia
dessa feira, no sentido de não serem suficientes na análise

116
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

dos aspectos constitutivos dessa atividade, até porque não


era foco desses trabalhos.
De acordo com Luiz Mott, qualquer pesquisa sobre feira
deve começar pela reconstituição da sua história, ou seja, “[...]
desde quando existe a feira, quem determinou sua instalação,
que documentos informam sobre suas origens e evolução, o
que os comerciantes ou compradores mais antigos podem
informar sobre como era a feira antigamente” (MOTT, 2000,
p. 22, grifo do autor).
A Feira da Pedra é a marca da ação humana no/do espaço
geográfico são-bentense ao longo dos anos da (re)produção
desse espaço, uma vez que, conforme Corrêa (1982, p. 32), “a
ação humana, que gera a organização do espaço, isto é, que
origina forma, movimento e conteúdo de natureza social
sobre o espaço”, se caracteriza, ainda, “pela ação de atores que,
ao se apropriarem e controlarem os recursos, sobretudo os
recursos escassos, natural ou socialmente produzidos, tornam-
se capazes de impor sua marca sobre o espaço” (CORRÊA,
1982, p. 32, grifo do autor). Tal marca, impressa no espaço
urbano de São Bento, reúne as experiências humanas ao longo
do tempo, numa dinâmica que está relacionada diretamente
à produção, distribuição e circulação dos produtos têxteis
fabricados pelo município, de uma forma geral, envolvendo
tecnologia, organização, capital, mão de obra e propaganda,

117
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

enfim, circuitos espaciais de produção35, desencadeados pelas


atividades do circuito inferior e superior marginal, presentes,
em sua grande maioria, na sede urbana municipal, da qual a
Feira da Pedra é parte.
Essa feira não tem por si mesma uma história, nem, por-
tanto, uma geografia. Isso implica ver os fatos que envolvem
essa atividade de forma relacionada. Significa entender que,
se tomada isoladamente em sua realidade corpórea, ela apre-
senta-se como portadora e/ou dependente “de sua inserção
numa série de eventos – uma ordem vertical – e sua existência
geográfica é dada pelas relações sociais a que” se subordina,
“e que determinam as relações técnicas ou de vizinhança
mantidas com outros objetos – uma ordem horizontal”
(SANTOS, 2009a, p. 102). Assim, a nossa concepção acerca
da Feira da Pedra aproxima-se da visão de Milton Santos, ao

35 Circuitos espaciais compreendem as “diversas etapas pelas quais passaria


um produto, desde o começo do processo de produção até chegar ao
consumo final”, conforme Santos (1988a, p. 49), sendo essa feira parte
desse circuito espacial produtivo. Entendemos a Feira da Pedra como
parte dos circuitos espaciais da produção têxtil de São Bento em função
daquilo que Santos e Silveira (2002), no âmbito do Brasil, apontam as
feiras como parte dos circuitos da distribuição e consumo no território
nacional, reunindo compradores e vendedores de diversas localidades,
tal como é a Feira da Pedra em São Bento. Para esses autores, os circuitos
espaciais da produção “[...] são definidos pela circulação de bens de
produtos e, por isso, oferecem uma visão dinâmica, apontando a maneira
como os fluxos perpassam o território” (SANTOS; SILVEIRA, 2002, p.
143). Ver, ainda, Santos (1986) e Castillo e Frederico (2010).

118
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

falar do espaço geográfico como um híbrido, apontando a


inseparabilidade entre os objetos e as ações.
A fim de sabermos a origem dessa atividade, mostrou-se
necessário abordarmos sobre eventos com os quais ela se liga,
como é o caso da presença da feira livre comum existente em
São Bento, desde a origem dessa cidade, na época do povoado e,
principalmente, o surgimento da tecelagem de redes de dormir
e derivados dessa indústria, ligado aos fatores responsáveis
pela origem dessa atividade industrial (tecelagem de redes),
eventos primeiros com os quais a história e geografia da Feira
da Pedra está relacionada. É preciso entender as transformações
pelas quais São Bento passou, sobretudo em termos de técnica
de produção industrial têxtil e as repercussões disso na Feira
da Pedra. Isso se fará mediante uma periodização36 dessa
atividade (a atividade têxtil de fabricação de redes de dormir
e derivados), destacando: a caracterização do município e da
cidade onde essa feira está localizada; o período de inicialização
da atividade de tecelagem de redes de dormir e derivados; os
fatores importantes que contribuíram para o desenvolvimento
dessa economia na cidade, bem como as principais formas de
produção e comercialização, apontando a ordem vertical, isto

36 Para Santos (1988a, p. 83), a periodização nos “autoriza a empirização


do tempo e do espaço em conjunto. [...] Tal empirização é impossível
sem a periodização”. Essa noção é fundamental neste estudo, uma vez
que a feira em tela sofreu alterações ao longo do processo de evolução
técnica de fabricação de redes de dormir, em São Bento.

119
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

é, a produção têxtil, que é pensada enquanto tal, resultante


da imaginação técnica de confecção desses produtos/objetos,
além da ordem horizontal, fruto das relações econômicas,
sociogeográficas e culturais mantidas pelos sujeitos por meio
dessa prática cotidiana e periódica (a Feira da Pedra). São
destacadas, ainda, as experiências dos sujeitos desse espaço (São
Bento), com a atividade têxtil e comercial, relacionando essas
práticas ao contexto histórico da feira em estudo, concluindo,
assim, esse percurso metodológico.

A Feira da Pedra e sua relação com


a feira livre, em São Bento

A feira livre existente na cidade de São Bento (PB) data do


surgimento do primeiro povoado que originou o município
e, na época, se deu em função das distâncias desse povoado
em relação a outros, dos excedentes da produção local pro-
venientes sobremaneira da agricultura37, que se desenvolvia

37 Em seu livro A acumulação do Capital, Rosa Luxemburg afirma que


“[...] é somente com a agricultura, com a domesticação de animais e
com o pastoreio visando o suprimento de carne que se torna possível o
ciclo regular de consumo e reprodução, característico da reprodução”
(LUXEMBURG, 1985, p. 8). Tal evidência pode ser observada no início
de toda construção territorial, tal como entendemos ter ocorrido em São
Bento, fato que contribuiu para o surgimento de sua feira livre, mediante
os excedentes e necessidades de troca e consumos construídos social e
espacialmente por seus habitantes em interação entre si e com as outras
sociedades.

120
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

juntamente com a atividade de criação de gado, e das necessi-


dades de troca que o próprio meio oferecia, mantendo-se até
os dias atuais. A respeito disso, José Bolívar V. Rocha nos fala
que, no final do século XIX, ano do surgimento do primeiro
povoado que deu origem à cidade de São Bento atual,

a pequena vila passou a ter uma feira mensal e, posterior-


mente, semanal. Elevada à condição de distrito do vizinho
município de Brejo do Cruz por volta de 1930, obteve sua
emancipação a 29 de abril de 1959, com a instalação da
prefeitura a 30 de novembro do mesmo ano. O primeiro
prefeito, nomeado pelo Governo do Estado, era o maior
comerciante de fio da localidade (ROCHA, 1983, p. 62,
grifos nossos).

Desde a origem do povoado e da vila de São Bento, a


atividade feira livre (e não a Feira da Pedra propriamente
dita) se faz presente em seu território, comercializando, pro-
vavelmente, produtos excedentes das atividades artesanais e
agropecuárias. O processo de formação das cidades, tal qual
ocorreu em São Bento, deu-se por meio do trabalho do homem
na agricultura, uma vez que o trabalho no campo, sobretudo
com o domínio de algumas técnicas menos rudimentares,
proporcionou e/ou possibilitou a criação de um excedente
agrícola. Esse excedente foi responsável pelo processo de troca,

121
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

sendo uma característica inerente ao ser humano e, portanto,


impresso na cidade. Quando falamos em troca, não nos refe-
rimos apenas à troca capitalista, pois a cidade não se resume
apenas ao espaço de troca capitalista, mas trocas diversas e
em todos os sentidos. A cidade surge como um lugar em que
podemos realizar troca. Troca das mercadorias, de valores, de
relações culturais, dons etc., podendo ser entendidas quando
se busca compreender a totalidade em totalização. Essas trocas
resultantes dos excedentes que se produziam, ocorriam em
certos locais, que, com o passar do tempo, se transformaram
em feiras livres e mercados públicos.
Como dizia La Blache (1954, p. 180), “a origem das cidades,
por muito longe que seja necessário remontar, é um fato essen-
cialmente histórico”. Fundada às margens do rio Piranhas, São
Bento se originou de uma organização socioespacial muito
comum nessa época no Nordeste e no Brasil, de uma forma
geral, que é a fazenda, a Fazenda Cascavel (IBGE, 2010b).
De caráter quase autossuficiente, a fazenda impunha aos
sujeitos a condição de fabricação própria de quase tudo aquilo
de que necessitavam, sendo a feira a atividade de aquisição
daquilo que não era produzido e/ou confeccionado, pois a
agricultura de subsistência e a criação de animais, atrelados
à existência do rio Piranhas, e posteriormente o artesanato
de redes de dormir, foram os principais fatores responsáveis
pela fixação e/ou retenção da população no município de

122
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

São Bento (ROCHA, 1983, p. 65-66; CARNEIRO, 2006, p.


43), possibilitando aos excedentes dessas atividades serem
comercializados em sua feira local.
A feira livre de São Bento, a exemplo de outras feiras
livres nordestinas, é formada por diversos segmentos comer-
ciais, que vão dos mais tradicionais aos mais “modernos”:
frutas, legumes, verduras, confecções, carnes, artesanatos,
utensílios para o lar, ferramentas para a construção civil
e agricultura, cereais, bijuterias, venda de gado (galinhas),
calçados, alimentos, mídias digitais (CDs e DVDs) “piratas”,
dentre outros atraindo pessoas da zona rural e urbana desse
município e de sua região de entorno. Funciona desde o raiar
do sol até por volta das treze horas, sendo o horário de maior
movimentação o intervalo de tempo das sete horas e trinta
minutos às dez horas. Ou seja, participam da sua materialidade
constitucional objetos tradicionais e modernos. O segmento
das frutas, por exemplo, mantém relação com Limoeiro do
Norte (CE) e com o polo agroindustrial Petrolina-Juazeiro
(BA); o das confecções, com Santa Cruz do Capibaribe (PE)
e Fortaleza (CE); o dos cereais, com municípios circunvizi-
nhos, pois geralmente as pessoas que vendem esses produtos,
nessa feira, costumam comprá-los dos produtores agrícolas

123
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

da região, quando de um “bom inverno”38, vendem alguns


excedentes a essas pessoas que os comercializam na feira;
o das ferramentas para a agricultura provêm em parte de
Caruaru (PE); já o segmento dos CDs e DVDs “piratas”39,
fruto desse meio técnico-científico-informacional, relaciona-se
mais com o próprio local, sendo esses objetos produzidos e
distribuídos por são-bentenses, embora sua dinâmica se ligue
a uma compreensão espacial mais ampla, resultante do sistema
de informação e comunicação do espaço atual, atrelado a um
circuito superior marginal (SILVEIRA, 2004; 2007; 2009). Isso
acontece porque a população busca encontrar uma atividade
e um lugar na cidade (SILVEIRA, 2004), o que contribui cada
vez mais para a multiplicação do circuito inferior da economia
urbana, com atividades realizadas com capital reduzido, como
é o caso dos segmentos comerciais da feira.

38 Informação dada por um feirante-vendedor da feira livre de São Bento,


quando questionado da procedência dos produtos que comercializava
(Pesquisa de Campo, 2010).
39 Os produtos piratas, isto é, os produtos semelhantes aos originais,
resultante de um comércio de produtos imitativos de marcas origi-
nais, é um fato presente não somente nas feiras livres, mas também no
comércio ambulante de rua, resultante de uma massa de pessoas que
não encontram alternativas de geração de renda, nesse meio e período
técnico-científico-informacional, configurando a geografia econômica
urbana. Sobre a presença desses produtos em nível de Brasil, mais
especificamente em São Paulo, ver o trabalho de Silva (2011), quando
discute A Feira da Madrugada e os conflitos pelo uso do território na
cidade de São Paulo. Sobre uma abordagem geográfica do assunto
pirataria, consultar o trabalho de Tozi (2010).

124
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

Por se constituir em uma atividade geradora de renda, a


feira livre de São Bento é importante para a manutenção de
famílias e para a proliferação de outros comércios típicos do
circuito inferior da economia urbana, os quais, principal-
mente nos dias de realização da feira, ganham amplitude de
interações socioespaciais, políticas, culturais e econômicas. É
um lugar onde ocorrem inúmeras atividades paralelas, como,
por exemplo, o movimento intenso de pessoas, de conversas,
de encontros, de manifestações populares, enfim um local
de contínuas interações socioespaciais. Nesse sentido, sua
importância para o circuito superior e inferior da cidade de São
Bento, juntamente com a Feira da Pedra, configura-se como um
centro importante para o comércio e sociedade a ela ligados.
Em função da Feira da Pedra ocorrer às segundas-feiras,
percebemos sua ligação inicial com a feira livre comum que
se realiza em São Bento. Isso significa que, como a feira livre
é mais antiga que a Feira da Pedra, é provável que sua origem
(a da Feira da Pedra), enquanto espaço reservado/exclusivo
de comercialização de produtos têxteis, tenha se dado em
decorrência e necessidade de se comercializarem esses pro-
dutos em um espaço reservado, mas contíguo à feira livre,
configurando-se, a priori, como um segmento da feira livre
de São Bento, resultante diretamente da fabricação de redes
de dormir e derivados da indústria têxtil local e regional,
presente no município e região de entorno. Além disso, a

125
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

permanência de uma feira livre fez com que o excedente


da produção industrial têxtil local fosse comercializado em
uma rua territorializada por produtores de diferentes tipos
(grandes, médios e pequenos) e pelo pessoal que apronta, isto
é, faz o serviço de acabamento nesses produtos.

A Feira da Pedra e sua relação com


a indústria têxtil de fabricação de
redes de dormir, em São Bento

O segundo fator, ao qual se liga a origem da Feira da


Pedra, é o surgimento da fabricação têxtil de redes de dor-
mir e derivados dessa indústria, quando a cidade passou a
produzi-los significativamente e a dissipar a sua influência às
outras cidades circunvizinhas. Tal fato ocorreu, sobretudo,
no contexto de meio e período técnico-científico-informa-
cional, verificado em nível de Brasil, principalmente a partir
da década de 1970 em diante, em que a presença de objetos
técnicos, científicos e, mais tarde, informacionais, passaram
a se fazer presentes no processo produtivo industrial têxtil
em São Bento e região de entorno.
Esse período traz para a cidade de São Bento um con-
junto de sistemas de objetos técnicos, científicos, e não
raros informacionais, além de sistemas de ações atrelados

126
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

à indústria têxtil, ainda que de forma incompleta, o que


vai configurar outra dinâmica a esse espaço, como se pode
perceber de forma pontual na obra de Carneiro (2006). Nesse
sentido, a Feira da Pedra, com produtos, sujeitos, forma,
função e dinâmicas tem sua origem ligada à industria têxtil
local, configurando-se distintamente em relação à feira livre
comum de São Bento (Figura2).

Figura 2 – Aspecto geral da Feira da Pedra em São Bento (PB)

Fonte: pesquisa de campo, 2010.


Foto: o autor, 2010.

127
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

Localizando-se aos arredores da Capela de São Sebastião,


na avenida mais central de comércio na cidade, a Avenida
Francisco de Paula Saldanha, a Feira da Pedra é certamente
a que atrai o maior número de pessoas vindas de outros
municípios e estados. Percebemos as territorialidades partici-
pativas desse fenômeno comercial e sociocultural do circuito
inferior da economia urbana de São Bento, a partir de um
espaço físico localizado mais especificamente às margens da
feira livre de São Bento, tradicionalmente realizada, perio-
dicamente, a cada semana, reservada exclusivamente para a
comercialização de redes de dormir, panos de pratos, tapetes,
bolsas, colchas de cama, conjuntos para cozinha e banheiro,
mantas, dentre outros produtos, fabricados pela indústria
têxtil local e regional.
Desde 1927, com o início da fabricação de redes (ROCHA,
1983; MARTINS; VASCONCELOS; CÂNDIDO, 2007), a
indústria têxtil vem se expandindo, de modo que é possível
perceber alguns eventos importantes, direta ou indireta-
mente resultantes dessa atividade e atrelados ao processo de
surgimento da Feira da Pedra, nessa cidade. Segundo Santos
(2009a, p. 95), “um evento é o resultado de um feixe de vetores,

128
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

conduzido por um processo, levando uma nova função ao


meio preexistente”40.
Estudando o Arranjo Produtivo Local (APL) em São
Bento, Martins, Vasconcelos e Cândido (2007, p. 8) apontam
que alguns eventos, os quais chamam de “momentos”, foram
fundamentais para a economia de São Bento, quais sejam:

A instalação em 1940 da primeira usina de beneficiamento


do algodão; a fábrica de redes São José construída em 1961 e
instalação em 1964 dos primeiros teares elétricos e o início
da comercialização em 1970 com a venda de redes para
outros estados, transportadas através de um caminhão.
A partir desse momento, as empresas têxteis de São Bento
passam a explorar novos mercados, vislumbrando novas
perspectivas para ampliação do setor. A comercialização foi
ampliada em 1986 a partir da construção da BR PB 110 e da

40 Esse autor acrescenta ainda que “[...] os eventos mudam as coisas, transfor-
mam os objetos, dando-lhes, ali mesmo onde estão, novas características”
(SANTOS, 2009a, p. 146). “Uma primeira distinção a estabelecer separaria
os eventos naturais (a queda de um raio, o começo de uma chuva, um
terremoto) dos eventos sociais ou históricos (a chegada de um trem,
um comício, um acidente de automóvel). Os primeiros resultam do
próprio movimento da natureza, isto é, da manifestação diversificada da
energia natural. É assim que a natureza muda pela sua própria dinâmica.
Já os eventos sociais resultam da ação humana, da interação entre os
homens, dos seus efeitos sobre os dados naturais. Aqui, é o movimento
da sociedade que comanda, através do uso diversificado do trabalho e da
informação” (Idem, p. 147). Por fim, acrescenta que “os eventos não se
dão isoladamente, mas em conjuntos sistêmicos – verdadeiras ‘situações’”
(SANTOS, 2009a, p. 149).

129
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

“feira da pedra” para a comercialização de redes (compra,


troca e venda). Em 1992 houve a instalação da Fiação São
Bento Têxtil facilitando o acesso da matéria-prima aos
fabricantes de redes e no mesmo ano a construção de
uma usina de reciclagem de lixo para absorver parte dos
resíduos sólidos produzidos pelo município.

Todos esses eventos, apontados pelos autores, contribuíram


significativamente para a expansão econômica de São Bento,
que passou a exercer forte influência regional, bem como a
criar, em seu meio geográfico urbano, a Feira da Pedra. Esses
eventos tiveram, portanto, o sistema técnico e de engenharia,
implantados sobre o território são-bentense, configurando o
conjunto de eventos mais importantes do qual essa feira se
originou. Como podemos constatar, por mais local que seja,
a técnica divide a história em períodos, a partir dos eventos
ou fenômenos que constituem espacialmente os lugares. Com
base em Santos (2009a), Silveira (2000, p. 131) afirma que:

[...] cada lugar, em sua singularidade, recria historicamente


sua materialidade a partir de sucessivas combinações de
elementos técnicos, objetos, detentores de temporalidades
e funcionalidades diferentes, mas que correspondem a
ações que sempre são presentes. [...] progressiva presença
nos lugares das diferentes e variadas criações do homem

130
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

permite diferenciá-los segundo o nível de artifício presente


em cada um deles (densidade técnica). Por sua vez, este
fato define sua capacidade real ou potencial de relação
com outros lugares (densidade informacional), processo
que privilegia setores e atores [...].

As “sucessivas combinações de elementos técnicos” atre-


lados à indústria têxtil de fabricação de redes de dormir, em
São Bento, constituem um ponto crucial para pensarmos
a origem da Feira da Pedra relacionada a essa atividade. A
criação da primeira fiação, bem como do uso posterior de
novos equipamentos técnicos mais modernos no processo de
confecção de redes de dormir e outros artefatos são exemplos
de combinações técnicas usadas por são-bentenses, detentoras
de temporalidades e funcionalidades distintas. Nesse sentido,
compreender o espaço e os fenômenos que ocorrem é atentar-
se para os eventos que transcorrem no tempo.
Assim, considerando que as sistematizações espaciais
se dão por meio das diferentes fases históricas verificadas
territorialmente, organizando os objetos e as ações, é que
se liga a origem da Feira da Pedra. Isso significa falar em
verdadeiros sistemas temporais (SANTOS, 2008c) para a
atividade industrial têxtil existente em São Bento, podendo
ser pensados ainda como sistemas de eventos, aos quais essa
feira se liga. Dessa forma, é preciso ver a Feira da Pedra nos

131
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

períodos técnicos da produção têxtil, uma vez que existem


diferenças quanto: a) à quantidade de comerciantes e con-
sumidores a ela atrelados, b) à configuração espacial por ela
desempenhada, c) à intensidade do poder público municipal,
d) à natureza dos produtos comercializados.
Em cada período, as variáveis do espaço geográfico mudam
de valor e significado, por isso torna-se fundamental levar em
conta uma periodização, seja qual for o tipo de análise que
se faça, pois, em caso contrário, correr-se-á o risco de uma
interpretação equivocada da realidade, conforme ressalta
Santos (2008a, p. 13, grifos do autor), para quem:

[...] a análise qualquer que seja, exige uma periodização,


sob pena de errarmos frequentemente em nosso esforço
interpretativo. Tal periodização é tanto mais simples
quanto maior a escala do estudo (os modos de produção
existem à escala mundial), e tanto mais complexa e capaz
de subdivisões quando mais reduzida é a escala. Quanto
mais pequeno o lugar examinado, tanto maior o número
de níveis e determinações externas que incidem sobre ele.
Daí a complexidade do estudo do mais pequeno.

O número de níveis e determinações externas que incidem


sobre a Feira da Pedra é considerado fato que resulta do meio
e período técnico vigente, que articula o sistema econômico

132
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

local a outros. Detendo-nos ao sistema econômico local,


priorizando o estudo da Feira da Pedra, lembremos Mott
(1975, p. 15), quando nos ensina que, no estudo de feira, é
preciso mostrar “sua vinculação e dependência face ao sistema
econômico local (produção e consumo) do qual ela é parte
integrante”. No caso da Feira da Pedra, essa economia a qual
ela se liga deriva da fabricação têxtil de redes de dormir e
derivados. Em busca de um entendimento mais consistente
sobre a relação dessa feira com essa atividade econômica,
abordaremos a sua origem mediante os períodos41 técni-
cos concernentes ao sistema produtivo de fabricação têxtil
de São Bento, apontados inicialmente por Rocha (1983) e
ampliados por Carneiro (2006), que tomou por base esse
primeiro autor, e Santos (2009a), como sendo subdividido em
três, semelhante ao que se sucedeu com aqueles da atividade
industrial: período artesanal, período manufatureiro e período
maquinofatureiro42.

41 Para Santos (2009a, p. 19), “ideia de período e de periodização constitui


um avanço na busca [da] união espaço-tempo”.
42 Para um conhecimento sobre geral essas três fases, atreladas sobrema-
neira aos processos da Revolução Industrial, ver Cultura Brasil, disponível
em: <http://www.culturabrasil.pro.br/revolucaoindustrial.htm>. Acesso
em: 16 maio 2011. Para um conhecimento mais aprofundado ver, dentre
outros, Deane (1973); Rioux (1975); Arruda (1988) e Iannone (1992). Para
o caso específico de São Bento, ver Rocha (1983) e, sobretudo Carneiro
(2006).

133
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

Uma proposta de periodização

Afirma M. Santos (1988a, p. 9), que “nenhuma sociedade


utiliza técnicas que sejam exclusivamente originárias de
um só momento histórico” (SANTOS, 1988a, p. 9). Assim,
é a fabricação têxtil de redes de dormir, e derivados dessa
atividade industrial, resultantes de técnicas de diferentes
momentos históricos, tanto no Sertão Paraibano, quanto no
Seridó Potiguar, e especialmente em São Bento, pois “[...] as
técnicas presentes em uma dada situação não são homogêneas”
(SANTOS, 2010, p. 127). Daí, falamos de:
1) um momento da Feira da Pedra e de uma fase da indús-
tria têxtil de fabricação de redes de dormir e outros derivados,
conhecida como artesanal;
2) um segundo momento, no qual essa atividade (a indús-
tria têxtil) adentra na confecção de produtos mais sofisticados,
conhecida essa fase como manufatureira, e
3) um terceiro momento, que constitui a produção mais
intensa e articulação com outros espaços nacionais e inter-
nacionais, conhecido como maquinofatureiro.
Em todos esses períodos, procuraremos evidenciá-los em
relação com a Feira da Pedra.

134
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

A Feira da Pedra e o período artesanal


da indústria têxtil de redes de dormir
são-bentense: (1927 – 1958)

O artesanato foi a primeira fase técnica de produção indus-


trial de fabricação de redes de dormir em São Bento, sendo
definido pela produção familiar, ocorrida nas residências
dos próprios são-bentenses, sobretudo pelas mulheres, em
que sozinhas, ou com a ajuda da família, realizavam todas as
etapas43 da confecção do produto. Foi “a fase de produção de
bens de consumo imediato”, como disse Brum (1998, p. 214),
quando analisava “as fases da industrialização brasileira” (p.
213), caracterizada por uma produção que tinha a finalidade
de atender às necessidades mais imediatas dos são-bentenses,
de acordo com os padrões da época – final das décadas de
1920 e 1950.
Já vimos neste livro que o artesanato de redes de dor-
mir foi, desde o período colonial até o início do século XX,
uma atividade bastante disseminada em grande parte do
país, sobretudo no Nordeste brasileiro (CASCUDO, 2003;

43 Não é nossa pretensão descrever todo o processo de fabricação industrial


de redes de dormir, pois isso já foi feito. A esse respeito, ver, por exemplo:
os trabalhos de Rocha (1983); Egler (1984); Araújo (1996) e Carneiro
(2001; 2006). Interessa-nos, pois, ressaltar essa atividade como fator
primordial, senão o principal ao qual a Feira da Pedra deve sua origem.

135
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

ARAÚJO, 1996), sendo, no início, uma produção voltada para


o próprio consumo daqueles que viviam na fazenda. Acerca
desse caráter de produção doméstica, confeccionado em São
Bento, principalmente por mulheres, Rocha (1983, p. 36)
afirma que: “[...] se pensarmos agora no sertão nordestino da
década de 20, [1920], com suas escassas redes de comunicações
e sua economia em grande parte não monetarizada, pode-se
entender melhor a produção desse artigo, juntamente com
pano grosseiro para vestimenta”.
A indústria têxtil de fabricação de redes de dormir surgiu
em São Bento, nos idos de 1920, de acordo com relatos de
Pedro Alcântara, citado por Rocha (1983, p. 39-40):

Meus conterranos velhos como também a mocidade. Já


com minha idade avançada 69. Vou contar minha história
que fui o primeiro fundador de tiá em São Bento, digo tiá
de um pano só, em criança com a idade de dez a doze anos,
conheci os tiazinhos de três panos, o pente era feito de
palitos de folha de palemeira ou de tabocas, as canelas era
feita das folhas da carrapateira (mamona) fio era fiado em
fuso o algodão criolo, era próprio para a fiação das redes,
como também fazer roupas os cordões das redes eram
turcidos em um fuso 3 fusos com 3 pessoas para fazer um
cordão, cada uma com um fuso, torcendo o fuso na cocha,
esta fabricação era sempre feita pelas mulheres, não havia

136
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

tinturaria para tingir o fio, depois foi descoberta, coassu,


botava as cascas em grandes tigelas de barro – com água e
fogo, depois de ferver, o fio botava-se na dicuada distilada
da cinza, o fio chamava-se fio de mão, depois com anos
apareceu fio das fiações, o primeiro foi de Natal R. G. N.,
depois de Campina Grande, de Marques de Almeida, de
Recife Cunha Rego, depois apareceu as tintas de todas as
cores, assim foi se evoluindo a fabricação com grandes
números de tiares de três panos a fabricação feita toda
em casa com a família (Depoimento de Pedro Alcântara,
em 1959) (ROCHA, 1983, p. 39-40).

Nessa época, o pouco excedente dessa produção já era


comercializado na feira livre do povoado que originou
São Bento. Nesse sentido, “[...] as mulheres que produziam
alguma rede além do consumo doméstico, ou trocavam na
vizinhança, ou mandavam para alguma feira para troca ou
venda” (ROCHA, 1983, p. 40). A venda desse objeto também
se dava em outras feiras, tendo em vista haver diversas feiras
na região, nos diversos povoados do Sertão Paraibano e do
Nordeste de uma forma geral, conforme já percebemos, sendo
responsáveis pela criação, funcionamento e evolução de várias
cidades. Em São Bento, nessa época, os fluxos de pessoas para
outros aglomerados populacionais da região próxima eram
“[...] limitados aos caminhos naturais e ao uso de animais”

137
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

(CARNEIRO, 2006, p. 50). Segundo esse autor, “a distância


que unia dois pontos, porém, não era um entrave aos fluxos
socioeconômicos” (Idem, ibidem), já que a participação nas
feiras regionais representava uma necessidade da população.
No que concerne à circulação, à distribuição e ao con-
sumo, o período artesanal da indústria têxtil de São Bento
se caracterizou, sobretudo, a partir de: 1º) um acontecer
homólogo em que a conquista do mercado local se apresentava
como primeira característica dessa racionalidade e 2º) de um
acontecer complementar, por uma conquista de uma área
maior, em que participavam principalmente as regiões Norte
e Nordeste do Brasil. A maioria das cidades da região Norte
do Brasil, até a década de 1960, eram caracterizadas por serem
de pequenas dimensões (característica que ainda se observa,
hoje, em algumas delas), e associadas, frequentemente, à
circulação fluvial, ligadas à dinâmica da natureza, “[...] com
vida rural não moderna e com o ritmo da floresta ainda
pouco explorada” (TRINDADE JR., 2010, p. 118). Algumas
dessas cidades tornaram-se, mais tarde, “[...] bases logísticas
para relações econômicas voltadas para uma racionalidade
extrarregional [...]” (Idem, ibidem), servindo de apoio aos
interesses econômicos que passaram a se instalar na região
e atraindo um grande contingente de trabalhadores, que,
na segunda metade do século XX, passaram a se deslocar
de outras regiões em busca de trabalho, sendo a rede de

138
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

dormir um item bastante consumido, nesse contexto, vindo


sobremaneira da cidade paraibana de São Bento. Assim, os
empreendimentos econômicos da região Norte ajudam a
entender a venda de redes fabricadas em São Bento para essa
região do país, sobretudo na segunda metade do século XX,
fato que aumenta a produção dessa mercadoria e consequen-
temente contribui para que se constituísse a Feira da Pedra.
Além da venda de redes de dormir na feira local e nas
feiras regionais, no início de 1950 iniciaram-se as viagens para
outros estados, sobretudo para o Rio Grande do Norte, Ceará,
Maranhão, Piauí e Pará, bem como para uma maior área do
estado da Paraíba, conforme nos mostram Rocha (1983, p.
43-48) e Carneiro (2006, p. 64). “Os Estados do Piauí, Maranhão
e Pará, desde a década de 50 representavam um mercado para
as redes de São Bento” (ROCHA, 1983, p. 48). Percebemos, já
nessa época, a comercialização de redes de dormir na feira livre
local e nas feiras da região, além de outros espaços brasileiros,
Norte e Nordeste, por vendedores aventureiros.
Essa atividade econômica – a industrial têxtil de fabricação
de redes de dormir –, surgiu no início do século XX de forma
bastante rudimentar, sendo caracterizada como uma ativi-
dade eminentemente familiar. Todos os membros da família
estavam envolvidos nessa atividade, de tal forma que uns
fiavam, outros torciam o fio no fuzil, outros, enfim, teciam.
Em outras palavras, a atividade têxtil tinha uma dimensão

139
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

totalmente artesanal. Com efeito, no período artesanal da


indústria têxtil são-bentense, ainda não havia a Feira da Pedra
propriamente dita configurada no espaço urbano dessa urbe
sertaneja. Conforme percebido, havia a venda do produto rede
de dormir na feira livre local e nas da região, mas não com
uma expressividade tal qual essa atividade passou a ganhar
a partir do período manufatureiro dessa indústria têxtil.

A Feira da Pedra e o período manufatureiro


da indústria têxtil de redes de dormir
são-bentense: (1958-1964)

A manufatura foi a segunda fase técnica da indústria têxtil


de São Bento. Foi decorrência de eventos locais e nacionais e,
também, causa e consequência da ampliação do consumo das
redes de dormir, levando empresários locais a aumentarem a
produção e comerciantes a dedicarem-se à comercialização
têxtil. Na década de 1950, São Bento emancipa-se politica-
mente de Brejo do Cruz. Esse evento garantiu a consolidação
de um território que passou a ser palco de uma série de eventos
posteriores, que contribuíram para o surgimento da Feira da
Pedra. O primeiro desses eventos foi a criação da primeira
manufatura, em 1958, um ano antes da emancipação política

140
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

do município. Baseado em depoimentos de pessoas do local,


Rocha (1983, p. 46) afirma que:

A criação da primeira manufatura na região é um marco


importante para a história da atividade e, sobretudo, para
explicar o dinamismo que assumiu posteriormente. O
responsável pelo empreendimento que é atualmente a
maior fábrica local foi um filho da cidade, o Sr. Manoel
Lúcio, em sociedade com um irmão; de uma família de
agricultores, mas que praticavam também a tecelagem, ele
havia deixado a região há mais de 10 anos e, na época em
que retornou, já era proprietário de uma fábrica de redes
de dormir na cidade de Mossoró, no Rio Grande do Norte.

Com o passar do tempo, essa atividade foi se tornando mais


racionalizada, sobretudo, com a implantação de máquinas
industriais adquiridas em São Paulo, tendo na pessoa do Sr.
Manuel Lúcio da Silva o primeiro empresário a compor uma
Indústria têxtil e, portanto, a utilizar técnicas mais elaboradas
nesse território. Essa fábrica se constituiu numa verdadeira
revolução no setor têxtil. A dinâmica configurada nessa cidade,
a partir da manufatura de redes, expressou-se em vários seto-
res. Primeiro, nas relações de trabalho, já que “[...] começou
utilizando apenas trabalho assalariado, com produção em
grande escala, pois eram cerca de 20 teares, algo realmente

141
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

grande em relação ao tipo de produção atomizada até então


vigente” (ROCHA, 1983, p. 46). Segundo, nos tipos diferentes
de redes de dormir confeccionadas, uma vez que eram

[...] mais bem elaboradas, a partir de técnicas mais eficien-


tes. Entre essas técnicas pode-se citar: o alvejamento do
fio a partir do cloro (que dá uma rede de melhor aspecto),
o uso sistemático de anilinas industriais para tingimento;
a introdução da técnica de estampagem (semelhante à
técnica de silkscreen); a mecanização da tecelagem (antes
mesmo que a cidade possuísse energia elétrica), adquirindo
inicialmente teares novos em São Paulo, apropriados para
tecer pano comum, e adaptado-os para pano de rede; a
confecção de redes a partir de pano industrializado –
a ‘rede montada’, e outras. Além disso, iniciou a venda
regular para outros estados através de veículo próprio,
inaugurando um sistema de comercialização que iria se
vulgarizar depois (ROCHA, 1983, p. 46-47).

Nesse sentido, um novo caráter foi impresso/configurado


no lugar, uma vez que a atividade têxtil passou a se expandir
e concentrar, criando um conjunto de atividades, das quais
merece destaque “[...] a instalação de uma infraestrutura
formada pela concentração de comércio de fio; de fabricação
de teares manuais e acessórios; da mão de obra treinada e,

142
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

finalmente, de comércio para as redes, que em tudo facilitavam


a concentração espacial da atividade” (ROCHA, 1983, p. 47).
A manufatura de redes foi o fator que permitiu uma con-
figuração mais dinâmica aos sistemas de ações do espaço
urbano são-bentense. Com isso, passou a haver um “[...] cres-
cimento da feira e do comércio em geral, com a instalação
de filiais de cadeias de lojas de eletrodomésticos e móveis
de Natal e Recife” (ROCHA, 1983, p. 63, grifos nossos). Esse
crescimento da feira coincide com a origem da Feira da Pedra,
ou seja, com a comercialização da produção industrial têxtil
em um espaço reservado, em relação à feira livre existente em
São Bento, que passou a ocorrer no mesmo dia de realização
dessa feira livre local comum – às segundas-feiras – realizada
em torno da Igreja Matriz de São Sebastião e do Mercado
Público Municipal. Nesse sentido, ainda de acordo com Rocha
(1983, p. 115):

Para comercializar toda a produção, as mais diversas


formas de venda são utilizadas: existem fabricantes que
‘fazem feiras’ em outras cidades; vende-se em grosso para
proprietários de redes localizados no Maranhão, Pará, Rio
Grande do Norte etc.; vende-se para cadeias de lojas como
as populares ‘Lojas Pernambucanas’, que possuem filiais em
todo o país, como também para cadeias de supermercados;
vende-se através de representantes etc. Entretanto, a forma

143
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

que mais tem evoluído e que respondeu em grande parte


pela expansão de crescente competitividade da indústria
local é a venda direta, a varejo, efetuada com o uso de
veículos das próprias fábricas ou de autônomos da própria
cidade ou de cidades próximas (como Brejo do Cruz e Patos),
que saem como ambulantes, oferecendo o produto em
feiras, fazendas, postos de gasolina, reservas indígenas etc.

Essas diversas formas de comercializar a produção têxtil


em São Bento também se relacionam com a Feira da Pedra,
no sentido de que pessoas do local, que vendiam na condição
de ambulantes em vários territórios do Nordeste e Norte do
país, também contribuíram com o processo de origem dessa
atividade, o que torna sua gênese permeada de controvérsias,
diante dos agentes e fontes pesquisados.
Por um lado, segundo feirantes mais antigos, essa feira
tem sua origem com o gênero feminino, ou seja, foi uma
mulher quem fundou essa atividade periódica no município.
No contexto de início da fabricação de redes na cidade, por
volta da década de 1920, mais especificamente a partir do
ano de 1927, quando começa a haver uma priorização do
trabalho dos homens nas fábricas, passa-se, por outro lado, a
existir, concomitantemente, o trabalho das mulheres em suas
próprias casas, trabalho esse ligado ao acabamento das redes:
atividade de trançar, fazer varanda, dentre outros.

144
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

De acordo com o senhor Paulo Aureliano Lopes, de 50 anos


de idade, feirante em São Bento desde 1978, quem fundou a
Feira da Pedra foi a senhora Erlinda de Nego Pescador. Esta
era uma feiteira do lugar que prestava serviços de acabamento
a donos de tecelagem da cidade e que, em certa ocasião, nos
idos de 1960, resolveu vender redes de dormir, ao ar livre,
naquela rua calçada com pedra de paralelepípedo, onde, com
o transcurso do tempo, se tornou local de aglomeração de
vendedores têxteis locais e regionais, configurando a Feira da
Pedra de hoje. Daí a denominação de Feira da Pedra, pois os
produtos comercializados são colocados sobre o paralelepípedo
(pedra) que reveste a Avenida Francisco de Paula Saldanha,
espaço-território dessa feira.
Por outro lado, há feirantes que afirmam que foi um
homem quem fundou a Feira da Pedra, um comerciante de
tecidos da cidade, o senhor João da Mata. Este comprava redes
e revendia-as, juntamente com tecidos, em sua loja, localizada
ainda hoje na avenida anteriormente citada, atualmente de
posse de seu filho Nonato da Mata. Alguns feirantes relatam
que, certo dia, o senhor João da Mata resolveu colocar, na
calçada de sua loja, essas mercadorias e percebeu que as vendas
passaram a aumentar. Imitando a ação desse comerciante,
mais pessoas foram colocando também os produtos em cal-
çadas e no próprio calçamento dessa avenida, configurando,
assim, a Feira da Pedra.

145
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

Já Araújo (1996) constatou que o fundador da Feira da


Pedra foi o senhor José Cosme, um produtor local de redes
de dormir, na década de 1960. Na época, fevereiro de 1995,
esse autor o havia encontrado na Feira da Pedra vendendo
redes de dormir, com idade de 77 anos, acompanhado de
familiares, já que toda sua família encontrava-se envolvida
com a atividade de confecção e comercialização de redes de
dormir. O senhor José Cosme era residente no Sítio44 Barra
de Cima, Município de São Bento (PB) e já havia viajado com
redes de dormir para outros estados45 desde a década de 1960
e, segundo esse autor, tal comerciante e produtor de redes de
dormir fundou a Feira da Pedra, “mais ou menos em 1964”
(ARAÚJO, 1996, p. 286).
Posto isto, em função da ausência de referências sobre a
referida feira, consideramos que as três versões são verídicas
e, pois, evidentes quando observamos a estrutura dessa feira,
composta por essas categorias de sujeitos sociais que fazem
parte da sua dinâmica, funcionamento e permanência na
cidade. A confluência, num só local dos produtos das feiteiras

44 Denominação local de povoado, ou seja, de áreas rurais de um município.


Essa expressão é muito comum na Região Nordeste do Brasil, sobretudo
no Sertão nordestino.
45 De acordo com informações colhidas em campo, seu José Cosme
também foi vendedor ambulante de redes de dormir, e, assim como
muitos são-bentenses, “fazia feiras” em outras localidades da região, e
se aventurava por outros estados da Região Norte e Nordeste do Brasil.

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GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

(sobretudo varandas), dos comerciantes e dos produtores


(redes de dormir, mantas, fios para acabamento de redes etc.)
foi a causa da origem da Feira da Pedra, no início da década
de 1960. Nessa época, a comercialização da produção local,
caracterizada, sobretudo, pela venda de redes de dormir, e
certos acessórios para redes, como era o caso muito frequente
de fios para acabamento e varandas, já que a demanda ali, para
esses produtos, se tornou muito grande, fez surgir, não só no
próprio município, mas também nas adjacências, pessoas que
se especializaram na produção e na comercialização desses
produtos, saindo semanalmente de suas residências com
dezenas e centenas desses produtos para vender naquilo que
ficou conhecida como Feira da Pedra. Entendemos não ter sido
a ação apenas de um sujeito social que levou ao surgimento
dessa feira, mas a união dessas categorias de trabalhadores
da indústria têxtil são-bentense, atrelado a um conjunto de
eventos e circunstâncias locais desse período.
A primeira usina de beneficiamento do algodão instalada
na década de 1940, ainda na fase artesanal de confecção
têxtil, possibilitou, posteriormente, a criação/implantação de
fábricas de redes com equipamentos mais sofisticados – teares
elétricos, como foi o caso do uso, a partir da década de 1960,
dos primeiros teares elétricos, configurando um período
misto (maquinários de madeira e maquinários elétricos) de
fabricação de redes de dormir e derivados, fazendo surgir uma

147
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

nova técnica de produção têxtil no município de São Bento – a


técnica maquinofatureira, que passou a configurar um novo
período técnico dessa atividade industrial no município e na
cidade. Isso aumentou a produção do objeto rede de dormir,
bem como uma demanda por serviços e acessórios ligados à
confecção desse produto, e também a necessidade de aumentar
a comercialização, já que passou a haver mais demanda e mais
excedente, levando, nessa mesma época, década de 1960, ao
surgimento da Feira da Pedra.

A Feira da Pedra e o período maquinofatureiro


da indústria têxtil de redes de dormir
são-bentense: (1964 aos dias atuais)

A maquinofatura é a terceira fase técnica de produção


industrial têxtil de fabricação de redes de dormir e deriva-
dos dessa indústria em São Bento. Nesta fase, o trabalhador
(artesão) encontra-se mais condicionado ao regime de fun-
cionamento da máquina, e os comerciantes locais se dedicam
mais ainda à comercialização dessa produção, sendo a fase
em que mais a Feira da Pedra se desenvolveu. Esse período
é marcado também pelas inovações técnicas aplicadas ao
desenvolvimento da produção industrial têxtil de redes de
dormir e derivados, fato que fez aumentar o consumo e os

148
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

circuitos e fluxos comerciais desses produtos, bem como


ainda a generalização, em São Bento, dos serviços ligados a
essa atividade industrial, pois se intensificaram os processos
de produção e de trocas.
A tecelagem São José, mecanizada em 1964, foi a pri-
meira maquinofatura de São Bento. Sua maquinização foi
responsável pela produção maquinizada que esse espaço
passou a comportar, bem como de uma nova fase da circu-
lação configurada. Nesse sentido, alguns eventos passaram
a ocorrer no lugar, contribuindo para o aumento da Feira da
Pedra e, consequentemente, para o aumento da distribuição/
comercialização dessa nova produção têxtil. A maquinização
dessa tecelagem possibilitou, posteriormente, a construção
do Mercado Público Municipal, em 1971, e a implantação de
um sistema de engenharia no território são-bentense, como
é o exemplo da construção da ponte sobre o rio Piranhas,
nesse mesmo ano (ROCHA, 1983, p. 63). Dessa forma, a
construção desses objetos materializada na sua paisagem e
entendidos como eventos locais configuram-se no “[...] reflexo
da importância econômica e política que São Bento passou a
ter no cenário regional do semiárido paraibano” (CARNEIRO,
2006, p. 81), a partir dos idos de 1960 em diante.
A construção da ponte sob o rio Piranhas possibilitou
o aumento de fluxos de fatores e agentes externos, dentre
os quais se destaca o acesso mais rápido que os produtores

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GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

têxteis do Rio Grande do Norte (Caicó e Jardim de Piranhas)


passaram a ter a São Bento, levando sua produção e comerciali-
zando-a na Feira da Pedra. A construção dessa ponte permitiu
ainda aumentar o mercado através do interior paraibano e
da região Norte do Brasil46, “[...] uma vez que até então a
travessia do rio era problemática, notadamente nos períodos
de chuva, concentrada entre novembro e março, época que
os produtores locais sempre relacionam como a melhor para
as vendas das redes de dormir” (CARNEIRO, 2006, p. 81).
Vale ressaltar, também, que a mecanização da indús-
tria têxtil de São Bento está ligada às dinâmicas nacionais47,
sobretudo a uma verificada na região Concentrada (SANTOS;
SILVEIRA, 2002). Na década de 1970, o parque fabril têxtil de
São Paulo, sobretudo o de Americana, passou a se modernizar,
substituindo as máquinas antigas, as quais foram adquiridas
por produtores e comerciantes de São Bento. Estes passaram,
então, a revendê-las localmente e adaptá-las para a tecela-
gem de redes de dormir, aumentando com isso a produção

46 No início da segunda metade do século XX, a região Norte do Brasil


passou a ser um grande mercado consumidor dos produtos têxteis
fabricados em São Bento, sobretudo redes de dormir.
47 Não somente a história de um evento local, mas também “[...] a histó-
ria de um dado lugar é construída a partir tanto de elementos locais,
desenvolvidos ali mesmo, como de elementos extralocais, resultantes
da difusão; e que a definição de um lugar pressupõe uma análise de um
impacto seletivo, em diferentes épocas, das variáveis correspondentes”
(SANTOS, 2007, p. 42).

150
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

e a circulação (ROCHA, 1983, p. 46-47; CARNEIRO, 2006,


p. 82-83)48. Tal evento deu a São Bento uma característica
peculiar, marcada por uma dinâmica e paisagem específicas,
tal qual já observou Egler (1984, p. 61)49, nos idos da década
de 1980. Nesse sentido, é oportuno refletirmos um pouco
sobre esse fato mediante o contexto técnico-científico-in-
formacional enquanto uma possibilidade de compreensão
do espaço geográfico, cuja temática, para o entendimento
do caso da mecanização da indústria têxtil de São Bento,
envolve substituição de tecnologia atrelada às questões de
escala em nível nacional.
A região Concentrada, dentro da proposta de Santos e
Silveira (2002), refere-se, em nível nacional, à escala geográ-
fica onde as modificações impulsionadas pela expansão do
meio técnico-científico-informacional se dão de maneira
mais intensa e rapidamente, sendo formada pelas regiões

48 Vale ressaltar que o processo de mecanização industrial têxtil de São


Bento não está deslocado da política de desconcentração industrial,
verificada em nível de Brasil nos idos de 1960 em diante, cujo resultado,
dentre outros, foi a industrialização do Nordeste. A esse respeito, ver os
trabalhos de: Oliveira (1993); Andrade (1981; 1987); Araújo (1984); Smith
(1985); Moreira (1979); Cardoso (2004); Lencioni (1991), dentre outros.
49 No final da década de 1970, “a primeira observação que se faz ao entrar
[em São Bento] é que apesar de seu relativo isolamento, ligada apenas por
3 estradas de terra, [essa cidade] apresenta um movimento de pessoas
e veículos peculiar, diferente das demais cidades do mesmo tamanho
na Paraíba” (EGLER, 1984, p. 61). Parte desse movimento de pessoas e
veículos é instigada pela Feira da Pedra.

151
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

Sudeste e Sul. No entanto, entendemos que, em função dos


avanços cada vez maiores dos sistemas produtivos pautados
na ciência, tecnologia e informação, seguidos de áreas cada
vez mais configuradas em infraestruturas técnicas, científicas
e informacionais, essa região, atualmente, abrange, além dos
estados do Sudeste (Espírito Santo, Rio de Janeiro, Minas
Gerais e São Paulo), e os do Sul (Paraná, Santa Catarina e Rio
Grande do Sul), os dois estados da região Centro-Oeste, quais
sejam: Goiás e Mato Grosso do Sul, uma vez que nesses dois
estados há uma presença muito forte da agricultura moderna
brasileira amparada na ciência, tecnologia e informação e
numa rede de infraestrutura com essas mesmas características
para atender a essa demanda. Ademais, a região Concentrada
continua tendo como polo as metrópoles de São Paulo e do
Rio de Janeiro, se sobressaindo essa primeira.
Essa região é a pioneira em termos de inovação no território
brasileiro. Nela, o meio técnico-científico-informacional é mais
evidente, uma vez que atinge os territórios que a formam (São
Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Minas Gerais, Paraná,
Santa Catarina e Rio Grande do Sul), sobretudo esse primeiro
e o segundo, de maneira mais incisiva e direta, ao passo que
as demais regiões: Nordeste, Centro-Oeste e Amazônia se
modernizam, em parte a partir dessa região, como ocorreu com
o Nordeste na segunda metade do século XX, e, em especial com
São Bento, a partir de máquinas têxteis consideradas obsoletas

152
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

pela indústria têxtil paulista, mas modernas para o caso de São


Bento. Era da cidade paulista Americana que provinham as
máquinas que modernizaram a indústria têxtil de São Bento na
década de 1970. Ademais, isso mostra que o território, mediante
os eventos que o “modernizam”, não pode ser considerado
como homogêneo, uma vez que as modernizações se dão em
escalas espaciais e temporais distintas.
Assim sendo, esses eventos contribuíram, portanto, para
o aumento e a consolidação da Feira da Pedra. A partir de
1995, passa a se verificar, segundo Carneiro (2001, p. 93; nota),
modificações na indústria têxtil de São Bento “[...], pois desse
período em diante, [...] os próprios teares de madeira não são
encontrados, nem mesmo na zona rural distante”, passando
o parque têxtil são-bentense a comportar somente teares elé-
tricos e alguns com sistemas de informações computacionais,
frutos desse período e meio técnico-científico-informacional.
Ademais, a instalação da agência do Banco do Brasil, no
final da década de 1970, contribuiu igualmente para aumen-
tar a dinâmica da Feira da Pedra: por um lado, financiou
alguns produtores locais; e, por outro, serviu de ponto de
comercialização de produtos têxteis, uma vez que as portas
dessa agência passaram a ser palco de vendedores de redes
de dormir e motivo para que mais feirantes e comerciantes
colocassem na “pedra” mais e mais produtos, na tentativa de

153
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

atrair as pessoas que tinham negócios naquele fixo bancário


e financeiro, elemento do circuito superior.
Em suma, a partir do período maquinofatureiro, São Bento
passou a representar o mais importante centro de comer-
cialização de redes do Nordeste, “[...] sendo constantemente
visitada por compradores de outras cidades e concentrando
muitos comerciantes autônomos, isto é, proprietários de
caminhões que se dedicam apenas ao comércio de redes”
(ROCHA, 1983, p. 55).
A mecanização industrial local percebida a partir dessa
periodização mostra um processo de substituição dos objetos
técnicos menos elaborados de fabricação têxtil por obje-
tos técnico-científicos e técnico-científico-informacionais
(CARNEIRO, 2006, p. 101), cuja visibilidade pode ser per-
cebida no espaço urbano dessa cidade, no cotidiano dos
são-bentenses e na própria Feira da Pedra, com seus produtos
diversos. Daí lembrarmos o que Santos (2009a, p. 176) alertou
sobre a técnica: “conjuntos de técnicas aparecem em um dado
momento, mantêm-se como hegemônicas durante um certo
período [...] até que outro sistema de técnicas tome o lugar”.
Assim, observando a periodização da indústria têxtil de São
Bento, na tentativa de percebermos os processos configura-
tivos da Feira da Pedra nesse processo maior, é notório que
as técnicas, num “[...] primeiro momento, são um produto
da história e, em um segundo momento, elas são produtoras

154
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

da história, já que diretamente participam desse processo”


(SANTOS, 2009a, p. 181).
Vale ressaltar, por fim, que a origem e a existência da Feira
da Pedra no espaço urbano de São Bento devem-se a diversos
fatores, quais sejam: a) o potencial do lugar (diz respeito ao
volume de mercadorias têxteis que são produzidas no lugar);
b) a acessibilidade (rodovias, pontes, e os diferentes meios de
transportes – moto, carros, bicicleta etc.); c) o crescimento
da atividade industrial têxtil (presença cada vez mais intensa
de equipamentos técnicos mais sofisticados para o fabrico de
mercadorias têxteis); d) a interseção de produtos têxteis (nas
vizinhanças de São Bento se localizam cidades que produzem
mercadorias têxteis e levam até essa cidade suas mercadorias
para comercializarem na Feira da Pedra); e, ainda, e) a ausência
de pagamento de imposto ao poder público local pelos fei-
rantes-vendedores que constituem essas prática socioespacial.
Tudo isso, somando-se e sendo consequência sobremaneira
do surgimento da atividade industrial têxtil nessa cidade e
das mudanças sociais, políticas, culturais e técnicas, resulta
na permanência e no esplendor da Feira da Pedra.
Dadas essas premissas, passemos a compreender melhor
a Feira da Pedra tendo por base a teoria dos dois circuitos
da economia urbana, no sentido de desvelarmos a geografia
gerada por essa atividade, importante para a sobrevivência de
muitos nordestinos, no atual período do espaço geográfico,

155
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

de economia internacionalizada e se internacionalizando, de


formação de redes diversas, (re)produzindo o espaço geográ-
fico, já que este é uma totalização em curso (SARTRE, 2002).

156
Capítulo 5
A FEIRA DA PEDRA
E OS CIRCUITOS DA
ECONOMIA URBANA
Neste capítulo buscamos discutir a relação da Feira da
Pedra com os circuitos da economia urbana, presentes em
São Bento. É importante salientar que os dados são prove-
nientes de pesquisa de campo, constituindo-se, nesse sentido,
de dados primários; as interpretações resultantes da análise
de cada uma dessas formas gráficas resultam da pesquisa
secundária e empírica. Nesse sentido, partimos daquilo que
a sua paisagem apresenta, já que manifesta o fenômeno, para,
em seguida, debruçarmo-nos numa análise mais estrutural
e dialética, daquilo que ela pode ser do ponto de vista da
análise teórica aqui trabalhada. Para tanto, é oportuno des-
tacar, sobremaneira, as características dos dois circuitos, já
apresentadas anteriormente no Quadro 1, manifestada na
dinâmica organizacional e estrutural da Feira da Pedra: 1)
a tecnologia empregada; 2) a organização dessa atividade;
3) os capitais empregados pelos feirantes na manutenção da
atividade; 4) o emprego de mão de obra; 5) o tipo de relação
entre patrão e empregado (assalariamento); 6) o estoque dos
produtos nesta atividade; 7) o funcionamento dos preços; 8)
o uso de crédito; 9) a margem do lucro; 10) a relação entre o
feirante-vendedor e os consumidores; 11) os custos fixos; 12) a
publicidade; 13) a reutilização de bens; 14) overhead capital; 15)
a ajuda governamental; 16) a dependência direta do exterior.
Na Feira da Pedra há uma homogeneização de feirantes
propriamente ditos, donos de lojas existentes no local e donos

158
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

e/ou funcionários de tecelagens local e regional, a fim de


venderem suas mercadorias neste lugar. Os donos de lojas
expõem os produtos nas calçadas de seus estabelecimen-
tos comerciais, disputando com os feirantes a atenção dos
compradores. Essas lojas, no dia de realização da Feira da
Pedra, perdem sua evidência, misturando-se, formando uma
única paisagem de muito colorido e relações socioespaciais,
embora sejam diferentes os feirantes propriamente ditos e os
comerciantes das lojas. Assim, a Feira da Pedra é, portanto,
estruturada por uma dimensão, do ponto de vista simbólico
cultural, ao passo que as lojas que participam de seu acontecer,
juntamente com os proprietários de tecelagens são a expressão
da modernização, como é notória na paisagem dessa feira.
No entanto, não podemos ficar apenas no aspecto visível
da paisagem, tomando por base H. C. Darby e Pierre George,
Milton Santos nos adverte que a Geografia não pode se limitar
ao que a dimensão do visível determina. Ou seja, “se o objetivo
do geógrafo é a explicação da paisagem”, [...] “está claro que ele
não pode confiar somente no que vê. A cena visível não nos
pode oferecer a soma total dos fatores que a afetam” (DARBY,
1953 apud SANTOS, M., 1988a, p. 13). Referenciando Pierre
George, destaca que, “hoje, o invisível, muito mais que o
visível, questiona a estabilidade das construções dos séculos
passados” (Idem, ibidem). Nesse sentido, com relação a essa
paisagem aparentemente homogênea que forma a Feira da

159
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

Pedra, é preciso explicar a relação que essa atividade mantém


com a geografia econômica urbana da cidade, tomando por
base os circuitos da economia urbana, identificando processos,
formas, funções e sua natureza estrutural.
Milton Santos mostra que são muitos os aspectos que
diferem os dois circuitos. No entanto, a distinção básica,
quando se relaciona o circuito superior ao circuito inferior,
é o padrão tecnológico e organizacional. Assim, no circuito
inferior, “o sistema dos negócios frequentemente é arcaico.
[...] O transporte animal ou nas costas do homem é muito
frequente” (SANTOS, M., 1979a, p. 156) (Figura 3). A mão
de obra em condição temporária é, sobretudo, usada pelo
circuito inferior, embora também seja usada pelo circuito
superior, que por sua vez usa tecnologia de ponta, importada,
com o uso intensivo de capital e mão de obra assalariada.
Em outras palavras, “[...] no circuito inferior, trabalha-se
principalmente para viver [...]” (SANTOS, M., 1979a, p. 279),
ao passo que no circuito superior há uma busca desenfreada
pelo acúmulo de riquezas. Nesse sentido, o que se tem é
um espaço dividido, construído e desenvolvido desigual e
combinadamente (SANTOS, M., 1979a; SMITH, 1988), misto,
miscigenado, fato que somente o aspecto do visível, dado pela
paisagem, não nos revela.

160
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

Figura 3 – Feira da Pedra: transporte de mercadorias têxteis


nas costas de homem

Fonte: pesquisa de campo, 2010.


Foto: o autor, 2010.

Nessa feira, pessoas transportando mercadorias têxteis


sobre os ombros, num intenso processo de ida e vinda em
relação ao seu ponto de venda e o veículo que conduz a mer-
cadoria a ser comercializada, bem como esse mesmo processo
é verificado por parte dos consumidores, é uma dinâmica
da paisagem.

161
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

O circuito inferior tem, em suas unidades produtivas ou


comerciais, capital reduzido, assim como também a escala de
suas atividades e, por conseguinte, o nível dos seus estoques.
Essas atividades, por se darem em escala reduzida em espaço
pequeno, muitas vezes se confundem com o próprio espaço
residencial dos agentes envolvidos (SANTOS, M., 1979a),
como ocorre com a maioria dos feirantes-consumidores da
Feira da Pedra, que revendem essas mercadorias adquiridas
nessa feira, em suas próprias residências, seja num cantinho
na sala de estar, seja em um pequeno cômodo improvisado.
Isso ocorre porque no atual período técnico, nas cidades
brasileiras “[...] o mercado de trabalho deteriora-se e uma
porcentagem elevada de pessoas não tem atividades nem
rendas permanentes” (SANTOS, M., 1979a, p. 29), onde a luta
pela sobrevivência se faz com mais expressividade, embora
tenha havido por parte do Estado brasileiro esforço no sentido
de conter/amenizar essa realidade, com programas sociais de
transferência de renda. Consequentemente, criam-se ativida-
des de pequenas dimensões. No que se refere ao âmbito da
geografia econômica urbana, essas atividades ocupam desde

162
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

calçadas até ruas, mas nunca excedendo a escala do local, já


que se dão em espaços físicos reduzidos50.
Esse modo autônomo de se comercializar produtos têxteis
nas próprias casas acaba desfazendo formas e funções espaciais
estabelecidas tradicional e comumente, como é o caso dos até
então distintos espaços de trabalho e de moradia/residência,
agora, neste período técnico-científico-informacional apresen-
tados de modo misto, isto é, espaços de moradia e trabalho,
concomitantemente. Embora o circuito inferior tenha uma
grande margem de serviços e negócios por unidade de produto,
movimenta individualmente volumes pequenos. Assim, por
ser pequeno o volume total de negócios e serviços, consequen-
temente o lucro total, por vezes, é insignificante, dando quase
sempre apenas para a sobrevivência dos agentes socioespaciais
envolvidos. Por fim, na acepção capitalista, dentro do circuito
inferior, o lucro não é o objetivo exclusivo para esse circuito,

50 Santos (1979, p. 167) fala que o circuito inferior é formado por ativida-
des de pequenas dimensões. Nesse sentido, enfatiza que “seu capital é
reduzido, assim como seu volume de negócios; os estoques são pequenos
e o número de pessoas ocupadas em cada estabelecimento também é
pequeno. As pequenas atividades têm necessidade de pouco espaço
e podem até ser alojadas nas casas dos agentes”, como é o exemplo
dos consumidores da Feira da Pedra, onde parte deles adquire essas
mercadorias têxteis no intuito de revenderem em suas próprias casas, na
cidade e/ou município onde residem. Vale ressaltar que no atual período
técnico, essa característica não é exclusiva do circuito inferior, mas
também parte dela está presente no circuito superior, pois dado o alto
grau de tecnologia, opera com reduzido número de pessoas ocupadas,
já que as máquinas ocupam o trabalho de dezenas de trabalhadores.

163
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

mas sim a necessidade simultânea de subsistência dos sujeitos


sociais envolvidos nesse sistema em processo, em que, na
maioria das vezes, tais sujeitos compõem famílias quase que
completas, numa atividade que tem como finalidade buscar
a sobrevivência ou o ganha-pão cotidiano.
A estrutura organizacional pequena do circuito inferior
nos chama a atenção para o fato de tanto as relações de tra-
balho bem como as de troca se darem de forma diretas e
pessoais51, o que confere um caráter de proximidade entre
vendedor e comprador, frequentemente íntimo e direto em
suas relações, que em muitos casos passam a transcender
aquela relação econômica, se desdobrando em outras mais de
âmbito socioafetiva, típicas do lugar52. Entendemos ser essa
uma das características marcantes das atividades do circuito

51 A troca é uma atividade social. Ora, não foi Vargas (2001, p. 19) ao
afirmar que “o caráter social da atividade de troca está nela implícito,
pois para a troca se realizar existe a necessidade do encontro: encontro
de pessoas com bens e serviços para serem trocados”? Essa peculiaridade
é a marca principal da feira, pressupondo ainda “a conversa para que o
negócio seja efetivado”.
52 Conforme Santos (2008a, p. 33; grifo do autor), o lugar seria definido
“como a extensão do acontecer homogêneo ou do acontecer solidário
e que se caracteriza por dois gêneros de constituição: uma é a própria
configuração territorial, outra é a norma, a organização, os regimes de
regulação”, dados pelas esferas: econômica e política, mas também pelo
transcurso histórico que, ao longo das gerações, foi se configurando
mediante as ideias e conceitos construídos a partir de subjetividades
em constantes interações com o meio físico e social, pois o lugar
“[...] não é apenas um quadro da vida, mas um espaço vivido, isto é,
de experiência sempre renovada, o que permite, ao mesmo tempo, a
reavaliação das heranças e a indagação sobre o presente e o futuro”
(SANTOS, 2010, p. 114).

164
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

inferior, a pessoalidade, que influencia inclusive o preço


dos produtos. Assim, outra característica dos circuitos da
economia urbana é aquela relacionada ao funcionamento dos
preços. Para M. Santos (1979a, p. 35), “no circuito superior os
preços são geralmente fixos”, o que não ocorre com o circuito
inferior, pois estes dependem de alguns fatores, dentre eles o
abastecimento e as formas de relações estabelecidas entre o
vendedor e o comprador. Essa relação entre feirante-vendedor
e feirante-consumidor é quase sempre baseada no recurso
conhecido como pechinchar, prática essa presente na Feira da
Pedra e em outras feiras do Nordeste e do Brasil, entendida,
neste estudo, a partir da definição de M. Santos (1979a, p. 196)
como “[...] a discussão que se estabelece entre o comprador e
o vendedor sobre o preço de uma mercadoria”. Trata-se, pois,
de um dos aspectos mais característicos da formação dos
preços no circuito inferior, revelando uma dimensão desse
mundo vivido, cuja base é a comunicação entre os sujeitos
participantes da ação (HABERMAS, 2001), ou seja, compra
e venda de mercadorias têxteis, relação que poderá surgir o
que M. Santos (1979a, p. 195) chama de “preços de ocasião”,
satisfazendo ambas as partes, ou seja, vendedor e consumidor.
Característica esta muito presente na Feira da Pedra.
Os preços dos produtos têxteis comercializados na Feira da
Pedra dependem muito das relações que se estabelecem entre
aquele que vai comprar e o vendedor, muito embora vendedores

165
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

e compradores afirmem que os preços dos produtos nesta feira


são mais baixos que nas lojas. No entanto, o comportamento
daqueles é mutável, podendo, mediante a discussão entre o
feirante-vendedor e o feirante-comprador/consumidor – a
pechincha –, mudar, baixar. Tal realidade possibilita aos
compradores, portanto, a afirmarem que na feira os preços
são mais baixos, passando essa concepção a constituir-se
no imaginário daqueles que a esse espaço se dirigem para
comprar. Assim, mais de 50% dos feirantes apontaram, como
uma das razões de comprarem na feira analisada, o fato dos
preços serem mais baixos que em outros locais, como lojas,
por exemplo. Geralmente a variação de preço entre um ponto
de venda e outro, na Feira da Pedra, é mínima, chegando
essa diferença em média a R$ 2,00 (dois reais), o que é muito
para o consumidor que compra para revender. Dessa forma,
pechinchar significa economizar.
Para a feira analisada, a qualidade inferior das mercadorias
(SANTOS, M., 1979a) não se aplica, no sentido de ser uma
das razões pelas quais os feirantes-consumidores buscam
comprar neste local (Tabela 1).

166
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

Tabela 1 – Feira da Pedra: razões pelas quais consumidores


compram na feira

Consumidores Motivos de comprar


(%) na Feira da Pedra
57,38% Melhor preço e qualidade dos produtos
29,51% Variedade de produtos em um só lugar
4,92% Pechincha
4,92% Costume, hábito, gosta
1,64% Local mais popular
1,64% Indicação de alguém conhecido
Fonte: pesquisa de campo, 2011.

A maior preferência para comprar na Feira da Pedra


deve-se ao fato desse local apresentar qualidade satisfatória
dos produtos aos consumidores, além de preços favoráveis.
Assim, 57,38%, dos consumidores pesquisados, destinam-se
a essa feira, devido a essa razão; 42,62% encontram-se dividi-
dos nas seguintes preferências e/ou razões/motivos: 29,51%,
devido à variedade de produtos, sendo ela, por excelência,
concentrada em um só lugar; seguida da pechincha, 4,92%;
costume – hábito, gosto – somam também 4,92%; local mais
popular para se fazer compras e indicação de alguém conhe-
cido, respectivamente, 1,64%. Assim, a qualidade inferior dos
produtos comercializados nesse segmento do circuito inferior
não se aplica ao mesmo.

1 67
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

É com dinheiro líquido que as operações no circuito


inferior são feitas, ou seja, “[...] enquanto as trocas são feitas
cada vez mais por intermédio de papéis à medida que se vai
para o circuito superior, no circuito inferior, ao contrário,
as operações são feitas com dinheiro líquido” (SANTOS,
M., 1979a, p. 181). Isso acontece em função dos seguintes
fatores: 1) pelo fato do circuito inferior funcionar de forma
incompatível com as normas do sistema financeiro. Essa
realidade leva o circuito inferior, através das suas unidades,
a recorrer aos intermediários para obtenção de capital, ou
seja, crédito na forma de cash; 2) devido ao circuito inferior
estar se abastecendo de mercadorias em intervalo de tempo
menor que o circuito superior, necessitando do cash (dinheiro
líquido) para fazer-se funcionar. No entanto, diante do atual
período técnico, os bancos com seus artifícios e estratégias, se
configuram num intermediário muito significativo no sentido
de obtenção de crédito na forma de cash. Nesse sentido, é
comum, entre os consumidores que revendem produtos têxteis
adquiridos na Feira da Pedra, terem conseguido capital, por
meio de empréstimos bancários.
Essa primeira situação leva à dependência por endivi-
damento, muitas vezes do “tomador” de crédito ao inter-
mediário, já que se dá na forma de usura. Esta realidade é
muito presente nas cidades brasileiras, ou seja, “[...] as pessoas
verdadeiramente pobres só dispõem do crédito pessoal, direto

168
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

e usurário, que caracteriza a maior parte das operações do


sistema econômico ao qual pertencem e que eles contribuem
para nutrir” (SANTOS, M., 1979a, p. 58). Além disso, existe
o fato de os indivíduos do circuito inferior, usuários dessa
forma de concessão de crédito “organizem-se para encon-
trar soluções engenhosas para a dependência em relação aos
intermediários e a carência de numerário” (SANTOS, M.,
1979a, p. 180), fato que culmina na criação de associações e
cooperativas de diversas categorias.
A Feira da Pedra mantém forte relação com o circuito
superior da economia, ou seja, com bancos (Banco do Brasil
e Bradesco existentes na cidade de São Bento); comércios,
dos quais podemos citar as lojas de produtos têxteis e super-
mercados e até loja da Honda. Estes estabelecimentos carac-
terizam-se principalmente, mas não exclusivamente, pelo
capital intensivo e a organização burocrática, sendo muito
comum nos espaços urbanos brasileiros de hoje. Muitos
consumidores provenientes de São Bento, Brejo do Cruz e
outras cidades circunvizinhas a essa primeira efetuam saques
bancários nos referidos bancos localizados naquela cidade,
para realizarem as compras na Feira da Pedra. Isso se dá
em função do risco de assaltos muito frequentes na região,
no dia de realização desta feira, sendo um perigo para os
consumidores transitarem, principalmente de uma cidade
para outra, com o dinheiro líquido. Dessa forma, existem
para os consumidores provenientes desses municípios os

169
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

bancos como a possibilidade de conseguir o dinheiro líquido,


que é indispensável ao consumidor, sobretudo àqueles que
compram em grandes volumes, diretamente dos produtores
que nessa feira se fazem presentes.
No entorno da Feira da Pedra, há um grande número de
lojas de produto têxteis (redes de dormir, mantas, toalhas etc.),
ligadas diretamente a essa feira. Todas as segundas-feiras, essas
lojas colocam parte de suas mercadorias nas calçadas (Figura 4),
no sentido de disputarem com a feira os clientes e, ao mesmo
tempo, contribuindo para sua dinâmica e acontecimento.

Figura 4 – Feira da Pedra: lojas com seus produtos têxteis nas


calçadas

Fonte: pesquisa de campo, 2010.


Foto: o autor, 2010.

170
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

Supermercados, a exemplo do Supermercado Ideal, que


vende em grosso e a varejo, localizado nas proximidades da
Feira da Pedra, articula-se indiretamente a essa feira, fazendo
parte de sua dinâmica, pois no dia da realização dessa ativi-
dade, as vendas neste fixo do circuito superior aumentam,
em função do movimento de pessoas que consomem deter-
minados produtos nele comercializado. Juntamente com os
bancos e lojas diversas localizadas no centro de São Bento, os
supermercados participam do acontecer desta feira. Para M.
Santos (1979a, p. 68), “as grandes lojas e os supermercados
representam um fenômeno em expansão [...]”. Se isso já era
uma realidade nos idos de 1970, tanto mais é nesse período e
meio técnico-científico-informacional, em que os ditames do
Mercado Econômico se fazem mais presentes na organização
do comércio e todos os seus segmentos, com o uso cada vez
mais intenso de cadeias de parcerias e associações.
Outro segmento do circuito superior o qual se faz presente
na Feira da Pedra é a loja da Honda Motors. Essa loja encontra-se
localizada numa extremidade da cidade, na saída para Paulista
(PB), mas, aproveitando o dia de realização da feira, pontua-se
no meio desta, no sentido de fisgar clientes, que transitam pra
lá e pra cá, e vender e/ou fazer consórcios de seus produtos
com esses sujeitos socioespaciais presentes na Feira da Pedra.
Tal característica da paisagem desta feira nos faz pensar o

171
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

caráter complementar e miscigenado, no atual período, dos


circuitos da economia urbana, fato que complexifica ainda
mais a geografia econômica urbana da cidade.
Os empreendimentos e/ou segmentos do circuito superior
presentes na Feira da Pedra buscam beneficiar-se do acontecer
dessa atividade. Na década de 1970, eram os segmentos do
circuito inferior, que tiravam proveito de setores do circuito
superior. No atual período técnico, acontece o contrário.
O circuito superior cria estratégias de lucrar em cima da
dinâmica do circuito inferior, usando as mesmas formas
organizacionais que aquele circuito dispõe e utiliza para se
reproduzir, mostrando, dessa forma, que a lógica que rege os
circuitos da economia urbana nesse período técnico-científico
-informacional é a complementaridade entre ambos – circuito
superior e circuito inferior. Dessa forma, conforme M. Santos
(1979a, p. 68), “o comércio moderno realiza-se através de
uma gama de estabelecimentos, que vão das grandes lojas,
supermercados e mesmo hipermercados, englobando um
número considerável de produtos e uma massa importante de
consumidores”, mas também usando os mesmos mecanismos
reprodutivos do comércio não moderno. Nesse processo, par-
ticipam uma teia complexa de estabelecimentos, instituições
e pessoas, organizando o espaço urbano, naquilo que esse
mesmo autor chamou de circuito superior e circuito inferior e
que nós estamos chamando de geografia econômica urbana.

172
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

Apesar disso, observando o espaço da Feira da Pedra, fica


evidente que ela se relaciona mais com o circuito inferior da
economia urbana, bem como tem mais características deste
circuito, em sua feição técnica, científica, informacional e
financeira, do que do circuito superior, ou seja, os elementos,
estrutura e organização dessa atividade associam-se mais ao
circuito inferior, enquanto existência de parte da geografia
econômica urbana da cidade de São Bento. Entre suas carac-
terísticas mais importantes podemos citar, em primeiro lugar,
o trabalho intensivo, sendo os vendedores, em sua maioria,
donos dos produtos que comercializam, empregando, quando
necessário, a mão de obra familiar. O trabalho familiar é muito
importante na realização da Feira da Pedra. Envolve, desde
os filhos dos feirantes-vendedores, que não têm uma idade
certa para começar na atividade, até parentes, cunhados(as),
genro, nora etc. Essa possibilidade permite que se aumen-
tem as vendas, sem que haja necessidade de mobilizar mais
estratégias, como é o caso de assalariados, pois apelar para
assalariados tornaria pequena a renda faturada a cada feira,
tendo em vista os gastos com a sua remuneração, ou imporia
ao feirante-vendedor até mesmo a pagar encargos sociais e
impostos, tais quais demanda o Estado. Assim, o feirante-
vendedor deixa de empregar o assalariado e aumenta a renda
mensal usando a mão de obra familiar na realização da feira.

173
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

Como segunda característica, podemos apontar a forma da


sua organização. Enquanto no circuito superior a organização
do trabalho se dá de forma burocrática, no inferior e, no
caso da Feira da Pedra, ela se realiza de maneira primitiva,
isto é, não oficial. Enquanto os bancos e algumas das lojas
presentes no espaço urbano de São Bento, como é o caso da
Honda Motors, pertencentes ao circuito superior, necessi-
tam, para o seu estabelecimento e funcionamento, de todo
um conjunto de regras, seguidas de taxação de diferentes
impostos; na Feira da Pedra, seus feirantes-vendedores se
organizam desprovidos de fiscalização e de taxação. Entre
outras características, não há um controle rígido de quem
pode ou não ali comercializar seus produtos têxteis, conforme
já deixamos claro anteriormente, neste livro. No meio da
rua, em cima do calçamento de paralelepípedo, os feirantes
espalham suas mercadorias/objetos têxteis (Figura 5), suportes
de madeira ou ainda no próprio transporte que conduz essas
mercadorias, para que seus produtos sejam comercializados.
Os poucos que utilizam barracas fazem isso de forma simples/
rudimentar, no sentido de que estas não estão cadastradas em
nenhum órgão municipal, estadual ou federal. Isso demonstra
que a dinâmica desta feira é negligenciada por parte dos
órgãos públicos municipais, que não fazem fiscalização, nem
tampouco administram adequadamente os pontos de vendas
dos feirantes, que se organizam nesse subespaço conforme

1 74
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

ordem de chegada. Essa característica contribui para que


a Feira da Pedra, por um lado, não receba os cuidados que
lhes são necessários, no sentido de que é um bem coletivo,
e, por outro, favorecendo a quem, sem empecilhos, queira
comercializar seus produtos, uma vez que não há qualquer
obstáculo para que qualquer pessoa possa comercializar suas
mercadorias têxteis nesse espaço-território.

Figura 5 – Feira da Pedra: mercadorias têxteis sobre o


calçamento/pedra

Fonte: pesquisa de campo, 2010.


Foto: o autor, 2010.

A forma como são organizadas as mercadorias têxteis, à


venda na Feira da Pedra, não permite classificá-la como não

175
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

pertencente ao circuito inferior da economia urbana. Isso


reforça ainda mais a sua importância para a população local e
regional, como um espaço fácil de se comercializar produtos
têxteis. Assim, na Avenida Francisco de Paula Saldanha, em
São Bento, quem deseja vender produtos têxteis nas segun-
das-feiras, nenhuma inscrição em órgão público municipal é
necessária, basta chegar pela madrugada ou pela manhã bem
cedo, estender sobre o calçamento (pedra) suas mercadorias
e, ali, territorializar um ponto de venda temporário e/ou
provisório, nesse espaço público.
Outra característica, do ponto de vista organizacional,
presente na Feira da Pedra, diz respeito ao transporte das
mercadorias. Os feirantes da Feira da Pedra transportam suas
mercadorias em caminhões, caminhonetes e motos, e destes,
até o local de venda, nas costas dos próprios vendedores/
feirantes. Além dessas formas de transportes das mercadorias
têxteis, mistas do ponto de vista da apropriação, pois nem
sempre esses veículos são de propriedades dos feirantes-ven-
dedores, há ainda aquele feito por bicicleta e carrinho demão,
ficando esses meios mais a cargo dos feirantes-vendedores
locais. Os transportes que se dão por meio de caminhões
e caminhonetes são característicos dos feirantes mais lon-
gínquos e se inserem, pois, num circuito superior marginal.
Aquele transporte realizado por motos, bicicletas e carrinhos
de mão é típico de moradores da zona urbana e rural de São

1 76
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

Bento. Vale ressaltar ainda que o uso do caminhão pode se


dar tanto por quem está inserido no circuito superior, tanto
pelos que estão no circuito inferior. Entendemos que não
há um limite rígido acerca desse meio de transporte entre
os dois circuitos, sendo, nesse sentido, o fato de o circuito
inferior depender do circuito superior, necessitando e utili-
zando-se de alguns dos elementos. A presença de carrinhos
de mão, de motocicletas, e do transporte feito nos ombros do
carregador-feirante e com bicicletas, trata-se, sem sobras de
dúvidas, de uma organização dinâmica do circuito inferior
da economia urbana.
Com relação à terceira característica, ou seja, ao capital
empregado pelos feirantes-vendedores para manter o funcio-
namento da atividade, percebemos que este é reduzido e/ou
limitado. Para M. Santos (1979a, p. 34), no circuito superior
empregam-se valores altos, sendo isso muito importante para
o funcionamento da atividade comercial, ao passo que, no cir-
cuito inferior, esse valor é reduzido. Embora alguns feirantes já
tenham realizado empréstimos para manter o funcionamento
da atividade, sobretudo aqueles que são produtores do que
comercializam, o valor de capital empregado para manter o
funcionamento da atividade feira ainda é pequeno em relação
aquele que se necessita para uma atividade considerada do
circuito superior. Assim, buscando saber mais sobre essa
questão, percebemos que 86% dos feirantes pesquisados não

177
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

realizaram empréstimos para investir na atividade feira.


Dos 14% restantes, 9% realizaram empréstimo no Banco do
Nordeste e 6% no Banco do Brasil. Os feirantes não quise-
ram, nem souberam informar o investimento que fazem na
feira. No entanto, em conversas informais com alguns deles,
constatamos que esses valores chegam, em média, perto dos
R$ 6.000,000 (seis mil reais). Tal realidade nos impõe incluir
essa feira no circuito inferior, uma vez que consideramos
esse valor ainda reduzido para a manutenção do negócio,
já que esse capital engloba a compra de matérias-primas e a
manutenção dos equipamentos (teares) para a fabricação dos
produtos, por parte daqueles que produzem as mercadorias
que na Feira da Pedra comercializam. Embora alguns fei-
rantes-vendedores tenham realizado empréstimo, isso não
nos impede de classificar essa feira, com relação ao capital
empregado por seus sujeitos para manter a atividade, fora do
circuito inferior. Primeiro, porque o número que realizou
empréstimo é pequeno, 14%; segundo, pelas características
anteriormente já comentadas: tecnologia e organização, que
são, respectivamente, trabalho intensivo e organização não
oficial. Por fim, constatamos que parte do dinheiro obtido
na venda dos produtos têxteis comercializados nessa feira se
destina: 1) à compra de matérias-primas (caso dos feirantes-
vendedores que produzem as mercadorias que comercializam);
2) à compra de mercadorias (caso dos feirantes-vendedores

178
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

que revendem esses produtos têxteis), valor esse conhecido


como capital de giro; 3) à subsistência cotidiana a partir da
compra de alimentos e suprimentos de outras necessidades
diárias dos feirantes-vendedores e de suas famílias.
No circuito superior as relações trabalhistas entre patrão e
empregado se estabelecem mediante o uso da carteira assinada,
ou seja, a partir daquilo que se chamam de formalidade,
segundo a legislação trabalhista, ao passo que no circuito
inferior essas mesmas relações resultam, quase que exclu-
sivamente, num contrato pessoal firmado e/ou estabelecido
entre aquele que é o trabalhador e aquele que é o patrão,
sendo ainda uma das principais características o trabalho
familiar, conforme já mencionamos, diferentemente do cir-
cuito superior, cuja presença dos membros da família nos
estabelecimentos é quase insignificante ou ausente. Cerca de
60% dos feirantes-vendedores pesquisados possuem alguém
trabalhando consigo na feira, ao passo que os outros 40% não
possuem. Os que afirmaram, apresentaram esses empregados
como alguém da família, ou seja, usam mão de obra familiar.
Assim, os vínculos existentes entre eles, nesse caso entre o
feirante-vendedor e o empregado, não são firmados conforme
legislação trabalhista e, pois, não de maneira formal. Os outros
40% trabalham sozinhos ou para terceiros. A utilização de
membros da família nas atividades comerciais substitui o
trabalho assalariado, que obrigaria o comerciante a pagar

179
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

encargos sociais e impostos, o que poderia inviabilizar a


atividade. Atividade essa, no caso da feira, que é flutuante,
no sentido de depender muito de épocas do ano, quais sejam,
para o caso da Feira da Pedra: após o carnaval, meio e fim
de ano. Além do mais, a escolha de familiares para o auxílio
nos pontos de comercialização na feira possibilita ao fei-
rante-vendedor não ter prejuízos, sendo todo o lucro obtido
destinado à sobrevivência dele e de toda sua família. “Trata-se,
antes de tudo, de sobreviver e assegurar a vida cotidiana da
família, bem como tomar parte, em certa medida do possível,
de certas formas de consumo particulares à vida moderna”
(SANTOS, M., 1979a, p. 36), que, aliás, é demasiadamente
forte esse consumo particular, conforme expressa Baudrillard
(2010). Diante disso, tanto os feirantes-vendedores, que pos-
suem empregados, quanto os que não os possuem, podem
ser caracterizados como pertencentes ao circuito inferior,
em função dessas especificidades elencadas.
Outra característica, com relação ao circuito superior e
circuito inferior, e que está presente na Feira da Pedra como
referente a esse último circuito, é o estoque dos produtos.
Para M. Santos (1979a, p. 34), no circuito superior o estoque
se caracteriza pela grande quantidade apresentada, seguida de
alta qualidade dos produtos/objetos/mercadorias comerciali-
zados. Diz ainda que, no circuito inferior, o volume estocado
apresenta-se pequeno, sendo as mercadorias de “qualidade

180
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

inferior” (SANTOS, M., 1979a, p. 82) se comparadas às do


circuito maior. Acreditamos que o menor estoque apresentado
no circuito inferior deve-se ao consumo, ao próprio fraciona-
mento desse circuito, isso para o caso da atividade feira, cujo
funcionamento é temporário, e ainda ao fato dos feirantes-
vendedores não disporem de condições que os possibilitem
estocar produtos, exceção para aqueles que possuem carro
próprio, sobretudo caminhão e caminhonete, e para aqueles
que são de São Bento, os quais, quando faltam determinados
produtos, vão até o carro, ou mandam um ajudante que está
trabalhando buscar na fábrica ou em casa. Assim, no âmbito
da feira, esses produtos são de pequena quantidade em relação
àqueles que não dispõem dessas condições, embora, à pri-
meira vista, a impressão que se tenha é de um local de grande
estoque de mercadorias têxteis, realidade que é válida para a
Feira da Pedra como um todo, mas que quando percebida e
analisada por unidades de cada feirante-vendedor, evidencia
suas especificidades, cuja inserção, em relação à característica
estoque, se faz no circuito inferior da economia urbana.
No que diz respeito ao uso do crédito, M. Santos (1979a,
p. 187) afirma que, para o caso do uso de crédito, sobretudo
institucional, “as pequenas atividades do circuito inferior
não oferecem garantias suficientes para obter esse tipo de
crédito, e o próprio princípio de seu funcionamento lhe veda
qualquer pagamento de títulos em datas fixas”. Enquanto no

181
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

circuito superior seus agentes têm acesso e, portanto, fazem


uso dessa possibilidade, o circuito inferior pouco dela desfruta
ou tem acesso, o que se deve, a priori, à organização de cada
um desses subsistemas no âmbito da geografia econômica
urbana, apesar de essa tendência estar mudando.
Em função de o lucro ser pequeno, o circuito inferior fica
quase impossibilitado de ter acesso ao crédito institucional,
ou seja, tomar empréstimo. O uso do crédito institucional
é uma possibilidade quase descartada pelos feirantes-ven-
dedores da Feira da Pedra, muito embora hoje os agentes
financeiros, no caso, os bancos, “facilitem” essa possibilidade
à parte da população, como é o caso de formas diversas de
empréstimos oferecidas por essas instituições. Existem, por
parte do banco, a fim de obter mais lucros, planos de conces-
são de empréstimos a segmentos do circuito inferior, coisa
não muito verificada há algumas décadas, sobretudo no
Nordeste, quando a concessão de empréstimos restringia-se
à oligarquia agrária que quisesse implantar algum segmento
industrial na região, como podemos perceber em Oliveira
(1993); Andrade (1981; 1987); Araújo (1984); Smith (1985) e
Moreira (1979), dentre outros. Assim, no que diz respeito à
margem do lucro, M. Santos (1979a, p. 193), afirma que “se,
em princípio, o lucro é o motor da atividade comercial, nos
escalões inferiores do circuito inferior a maior preocupação
é, antes de tudo, a sobrevivência”. Afirma ainda que não

182
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

devemos confundir lucro global com lucro unitário, uma vez


que, no circuito superior, o montante de lucro é alto, porém
baixo por unidade vendida, ao passo que, no circuito inferior,
o lucro obtido pelas vendas é baixo, ainda que alto em relação
à unidade que comercializa. Exemplo é o vendedor de rua,
que tem menor lucro global pelo fato de seu comércio ser
mais aleatório e ter uma clientela menor, passando “dias sem
ganhar nada” (SANTOS, M., 1979a, p. 194), o obrigando, em
certos casos, a aumentar o preço das mercadorias que vende,
cuja intenção é assegurar a sobrevivência, a vida imediata, o
que pode ser observado com relação às feiras livres.
Na Feira da Pedra, embora o lucro seja alto por unidade
de venda, em alguns casos, decorre dos seguintes fatos: 1) em
função desse comércio ser periódico, no sentido de que ocorre
uma vez por semana (às segundas-feiras); 2) em função de
uma menor clientela em certos dias de feira, pois o número de
feirantes-consumidores não é o mesmo em todas as segundas-
feiras; 3) em decorrência da insipiente comercialização de
produtos têxteis durante a semana, exceção para os poucos
que “fazem outras feiras” e para os feirantes-vendedores
que são donos de lojas e/ou fábricas; 4) em função da indis-
ponibilidade de técnicas e sistemas de distribuição, muito
embora isso seja uma prática bastante significativa em São
Bento (a distribuição dos produtos têxteis feita por pessoas
a vários espaços do Nordeste, Brasil e países da América do

183
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

Sul, através de caminhões, por agentes chamados de redeiros


e corretores), conforme já mostrou Carneiro (2006), mas não
muito praticada por parte dos feirantes-vendedores da Feira da
Pedra, exceto para os que nela são esses sujeitos socioespaciais.
Os dados obtidos sobre a distribuição da renda global
dos feirantes-vendedores da Feira da Pedra evidenciam uma
informação que entendemos não ser verdadeira, pois houve
uma resistência por parte dos mesmos em responder essa
indagação. No entanto, as informações desveladas permitiram
afirmar que esse faturamento varia de R$ 150,00 (cento e
cinquenta reais) a R$ 12.000,00 (doze mil reais), sendo esse
primeiro valor pertencente aos pequenos feirantes-vende-
dores e o segundo aos grandes, que são, sobretudo, grandes
produtores têxteis localizados em São Bento. Entre esses
sujeitos socioespaciais poderíamos incluir um terceiro grupo
que são os feirantes-produtores intermediários, aqueles que
conseguem faturar mensalmente entre R$ 200,00 (duzentos
reais) e R$ 1.000,00 (mil reais). Não obstante, duvidamos
dessas informações devido às resistências dos feirantes-ven-
dedores em respondê-la.
Outra característica que nos faz apontar a Feira da Pedra
como uma manifestação do circuito inferior da economia
urbana de São Bento é aquela concernente à relação entre os
feirantes-vendedores e os feirantes-consumidores. Sendo essa
relação marcada muito mais pelo entendimento, consenso, do

184
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

que mesmo pela ação estratégica (HABERMAS, 1996, 2001),


esta última típica de uma relação econômica propriamente
dita. Na Feira da Pedra, essa relação se destaca por ser a
menos impessoal possível, como é notória, também, em outras
feiras nordestinas e brasileiras. Os feirantes-consumidores,
além de quase sempre comprarem em determinado ponto
de venda, antes de terem pesquisado os preços nos outros
pontos, conversam, discutem com o comerciante sobre o
produto e o preço, extrapolando essa conversa quase sempre
para questões outras, relacionadas aos fatos locais (aconte-
cimentos políticos, invernos, relações estabelecidas entre as
pessoas, fofocas, notícias policiais, novelas etc.). Esse tipo de
relação que se configura entre os feirantes e os consumidores
é mais evidente naqueles municípios que têm uma população
menor, sendo a feira, espaço-território, agora caracterizada,
em parte, por esse tipo de comportamento, cujo desvelamento
é a manifestação do lugar, ou seja, dessa “[...] categoria da
existência [que] presta-se a um tratamento geográfico do
mundo vivido que [leva] em conta as variáveis de que nos
estamos ocupando: os objetos, as ações, a técnica, o tempo”
(SANTOS, 2009a, p. 315).
Na Feira da Pedra, os habitantes/produtores/feirantes da
cidade encontram-se com habitantes/produtores/feirantes,
não somente no sentido de estabelecerem relações de negó-
cios, embora o intuito seja este, a priori, uma vez que eles

185
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

vendem, trocam, compram; mas também conversam sobre


assuntos que giram em torno do cotidiano da cidade e da
região, mostrando, portanto, outra dimensão da feira – espaço
de encontro e de conversa, funcionando, pois, como local de
conversas entre conhecidos, amigos, parentes ou vizinhos,
seja simplesmente também ponto para observar a vida que
se faz, que passa na rua, um costume que alguns conseguem
ainda manter nesse meio e período técnico-científico-in-
formacional, sendo fácil de ser visto na Feira da Pedra, a
exemplo de outras feiras nordestinas. Tal fato (a conversa,
essa relação intersubjetiva) foi constante quando realizávamos
nossa pesquisa de campo. A conversa fluía com naturalidade,
o que resultou, em parte, numa conjugação da entrevista com
o depoimento oral, enquanto técnicas de pesquisa, sobretudo
com os feirantes-vendedores, uma vez que não ficavam se
mobilizando tanto de um lado para o outro, como ocorreu
com os feirantes-consumidores, que buscavam, no espaço de
tempo cabível, realizar suas compras.
Nos idos da década de 1970, no circuito inferior, o controle
de custos e do lucro era muito raro, muito embora observamos
que isso não impedia que os atores compreendessem os “traços
gerais da sua situação econômica” (SANTOS, M., 1979a, p.
156), uma vez que o objetivo principal não era o lucro, fato que
não ocorre no atual período técnico, em que o lucro é visado
na atividade desenvolvida pelos sujeitos do circuito inferior.

186
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

Nesse sentido, no que diz respeito aos custos fixos para manter
a atividade de feirante na Feira da Pedra, constatamos que
estes não são totalmente desprezíveis, uma vez que os feirantes
se utilizam de equipamentos, embora técnicos, científicos e
informacionais, em alguns casos, a exemplo de calculadora
digital, celulares, balanças digitais, visando um controle
dos custos na realização da atividade. O aparelho celular
, por exemplo, é demasiadamente usado tanto pelos feirantes-
vendedores dessa feira, como pelos feirantes-consumidores
dela, uma vez que constatamos, em conversas com os fei-
rantes-consumidores, que estes geralmente costumam ligar
para os feirantes-vendedores, os quais costumam comprar
suas mercadorias têxteis, no sentido de quererem se informar
sobre preço de determinados produtos. Isso mostra um pouco
da amplitude da componente informação como elemento das
relações socioespaciais dessa geografia econômica urbana do
presente, fato que acaba se somando à redução de custos e
contribuindo para o aumento do lucro.
Com relação à publicidade, a relação direta, ou seja, o
contato sociocomunicacional entre o feirante-vendedor e
o feirante-consumidor é a estratégia mais usada. Quando
a propaganda aparece, esta se faz por meio dos gritos dos
feirantes-vendedores, percebidos quando caminhamos por
meio da feira. Assim, a publicidade, ao invés de um recurso
necessário, é nula, ou quase nula, na feira em tela.

187
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

Outras características que merecem ser ressaltadas, refe-


rentes ao comportamento da Feira da Pedra, em relação ao
circuito inferior, diz respeito a) à reutilização de bens; b) ao
overhead capital (capital de giro); c) à ajuda governamental
e d) à dependência direta do exterior.
A reutilização dos bens é muito frequente nessa feira.
A esse respeito, M. Santos (1979a, p. 36) afirma que “[...] no
circuito inferior, uma das bases de atividade é justamente a
reutilização desses bens”. Isso é facilmente verificável na Feira
da Pedra, uma vez que os feirantes-vendedores utilizam-se, a
exemplo das embalagens de produtos e/ou matérias-primas,
para guardarem/transportarem seus produtos têxteis e algu-
mas barracas de praia. Uma das bases do circuito inferior está,
pois, na reutilização de certas mercadorias ou objetos. Assim,
enquanto um segmento do circuito inferior, a Feira da Pedra
assemelha-se a outras feiras nordestinas, no tocante ao que
M. Santos (1979a, p. 156-157) expressou sobre esse circuito:

O circuito inferior também poderia ser bem definido


segundo a fórmula de Lavoisier: ‘Nada se perde, nada se
cria, tudo se transforma...’ O jornal usado torna-se emba-
lagem, o pedaço de madeira se transforma em cadeira, as
latas, em reservatórios de água ou em vasos de flores etc.
Isso ocorre também com as roupas que passam do pai para
o filho, do irmão mais velho para o irmão mais novo, se já

188
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

não foi comprada de segunda mão; na construção das casas


aproveitam-se todos os tipos de materiais abandonados
ou vendidos a baixo preço. Muitos utensílios comerciais
e domésticos são produtos de recuperações e a vida de
uma peça, aparelho ou motor pode ser prolongada pela
engenhosidade dos artesãos. A idade média tão elevada
dos veículos talvez seja o exemplo mais surpreendente
dessa miraculosa capacidade de recuperação que é uma
das maiores características das economias pobres, em
oposição ao desperdício das economias ricas e modernas.

No circuito inferior, como fica evidente na feira em estudo,


a reutilização de certos bens materiais é uma constante, o que
evita desperdício e consumo exagerado de certos produtos,
sendo essa engenhosidade uma característica desse local de
comercialização têxtil.
Já no que concerne ao capital de giro, vimos que este provém,
em sua maioria, do lucro que é obtido nessa atividade, sendo,
pois, um recurso necessário a essa atividade, no entanto, não
adquirido sobremaneira nas instituições financeiras, tal qual
ocorre geralmente com o circuito superior. A ajuda governa-
mental e a dependência direta do exterior são características
que não se encontram na Feira da Pedra, isto é, são nulas neste
segmento do circuito inferior. Indagados se possuíam ajuda
governamental, todos os feirantes-vendedores pesquisados,

189
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

nessa feira, afirmaram que não possuíam e nunca tiveram.


Tais características nos fazem apontar a Feira da Pedra como
uma extensão do circuito inferior da economia urbana da
cidade de São Bento, sobretudo ainda quando notamos outras
especificidades, como é o caso das múltiplas funções exercidas
pelos feirantes-vendedores. A esse respeito, M. Santos (1979a,
p. 176) afirma que no circuito inferior “às vezes, o proprietário
é sozinho, e assume ao mesmo tempo a direção, o capital
e o trabalho”. Na Feira da Pedra, os feirantes-vendedores
vendem, administram o ponto de comercialização, quando
não ajudados por um familiar, sobretudo na época em que
as vendas aumentam: depois do carnaval e fim de ano. Há
ainda aqueles que se dedicam a diferentes funções durante a
semana, cerca de 24%, embora não sejam a maioria, de acordo
com a pesquisa realizada.
Conforme a pesquisa, 73% desses sujeitos socioespaciais
não possuem outra ocupação além da atividade de feirante,
ao passo que os outros 24% as possuem. Estes últimos encon-
tram-se distribuídos da seguinte forma: um grupo de 3%
pratica a atividade de agricultura; outro grupo de 2% exerce
atividade de comerciante, lojista e funcionário público; e um
último grupo, formado por 1%, ocupa-se, respectivamente
em: produzir cordões, tecer em fábrica de redes, cortar tecidos
em fábrica, estudar, vender em fábrica, trabalhar em depósito
de produtos e matéria-prima concernentes à atividade têxtil

190
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

em São Bento, entregar materiais têxteis em lojas, bordar,


trabalhar em escritório de fábrica de redes de dormir, tercei-
rização de calças, fazer redes de dormir e, por fim, realizar a
atividade de mecânico. Como fica evidente, a maioria dessas
ocupações referem-se à atividade têxtil do local, revelando,
com isso, nessa pequena amostra, o peso que a indústria
têxtil de fabricação de redes de dormir e derivados tem no
lugar, ocupando, direta ou indiretamente, a maioria de sua
população. Assim, observando mais detalhadamente essas
constatações, podemos inferir que os baixos salários, típicos
do circuito inferior, levam as pessoas, no caso, parte dos fei-
rantes-vendedores da Feira da Pedra, a buscarem alternativas
de complementação da renda mensal, ou seria, talvez, a feira
essa opção/complementação? Numa escala maior, ou seja, em
nível de cidade e município, com certeza sim.
Temos de falar, ainda, do fato de que os produtos comer-
cializados na Feira da Pedra são, em sua maioria, provenientes
do local e de municípios do entorno de São Bento, havendo
também alguns produtos de proveniência externa, fato que
resulta da relação do lugar com o mundo, nesse período e
meio técnico-científico-informacional, já que, na condição
espacial do presente, “cada lugar é, à sua maneira, o mundo.
[...] Mas também, cada lugar, irrecusavelmente imerso numa
comunhão com o mundo, torna-se exponencialmente diferente
dos demais” (SANTOS, 2009a, p. 314). Nesse sentido, esse fato

191
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

nos permite tecer algumas análises e comentários através do


subitem que segue.

Produtos comercializados na Feira da Pedra


e sua relação com o meio técnico-científico-
informacional local, regional e internacional

A dinâmica dialética entre a configuração espacial e as


relações socioespaciais são as responsáveis pelo processo
de (re)produção do espaço. Isso significa que o espaço não
pode ser explicado e entendido como uma máquina, ou
seja, a partir do seu funcionamento, pois ele simplesmente
existe, cabendo ao geógrafo entender e explicar sua dinâmica
manifestada nos fenômenos. A partir do entendimento e da
premissa de que a ciência, a tecnologia e a informação são
as principais responsáveis pela caracterização dos espaços
atuais, buscaremos compreender um pouco dessa dinâmica
a partir dessa feira, enfatizando os produtos comercializados
e sua relação com o meio técnico-científico-informacional
local, regional e internacional. Essas três características
do meio apresentam-se em todos os aspectos da sociedade
contemporânea. Assim, temos a caracterização de um meio
técnico-científico-informacional diante de uma sociedade,
chamada por muitos estudiosos de sociedade global.

192
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

Quando discute o atual momento histórico, denominado


de período técnico-científico-informacional, Santos (2009a)
busca caracterizá-lo a partir de análises dos processos de
modernização da sociedade e seus rebatimentos no plano
territorial e no lugar. Evidencia, nesse sentido, que, cada vez
mais, os novos objetos geográficos tornam-se não apenas
mais técnicos, mas também carregados de conhecimentos
científicos e informações, que articulam frações diferenciadas
e distantes do próprio território de origem, como percebemos,
atualmente, na Feira da Pedra, cuja análise de sua paisagem
revela a relação que esta tem com o meio local, regional e inter-
nacional. Por essa razão, os objetos têxteis comercializados
nesta feira são locais e universais, uma vez que representam
o local (São Bento), o regional (Jardim de Piranhas (RN),
Caicó (RN) e Brejo do Cruz (PB)) e universais (China e Chile),
como é o caso de certos produtos chineses e chilenos encon-
trados nesta feira.
Sendo o espaço composto de sistemas (sistemas de objetos
e sistemas de ações), a sua totalidade, percebida no lugar, é
tributária de relações dialéticas. Existe um sistema de obje-
tos condicionando a maneira como as ações se realizam e,
também, um sistema de ações que caracteriza a criação de
novos objetos ou a recaracterização de objetos preexistentes.
Na Feira da Pedra, sua paisagem se configura por objetos dis-
tintos de década atrás, uma vez que essa paisagem é formada

193
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

por objetos locais mesclados aos objetos extralocais. Tal rea-


lidade, portanto, é fruto de uma nova ordem mundial que,
neste período técnico-científico-informacional, relaciona o
global e o local. A ordem global produz uma ordem rígida,
que vem de fora (as verticalidades), servindo a uma população
esparsa de objetos, ao passo que a ordem local diz respeito a
uma população contígua de objetos, reunidos pelo território,
regidos por horizontalidades, ou seja, pela interação, pela
contiguidade. Assim sendo, não podemos pensar o território,
tal como é São Bento, sem ser formado, como nos ensina
Santos (2009a), por lugares contíguos e lugares em rede. No
atual período, podemos afirmar, tal como disse Habermas
(1968, p. 65), quando fala das tendências a uma racionaliza-
ção por parte do Estado e do sistema de Mercado, que “[...]
surge uma permanente pressão adaptativa logo que, com a
instrumentalização de um intercâmbio territorial de bens e
da força de trabalho, por um lado, e da empresa capitalista,
por outro, se impõe a nova forma de produção” e também
de comercialização, como percebemos na Feira da Pedra.
Dessa forma, as coisas, e inclusive nós, dependem do ritmo e
também da sucessão dos objetos, que se dá permanentemente
(BAUDRILLARD, 2008), juntamente com as ações deles e
para eles decorrentes. Segundo Santos (2008b, p. 121),

194
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

Com a globalização das diversas etapas do processo produ-


tivo (produção propriamente dita, circulação, distribuição,
consumo) pode doravante ser dissociada e autônoma,
aumentando a necessidade de complementação entre luga-
res, gerando circuitos produtivos e fluxos cuja natureza,
direção, intensidade e força variam segundo os produtos,
segundo as formas produtivas, segundo a organização do
espaço preexistente e os impulsos políticos.

A complementação entre os lugares é um fato hoje extre-


mamente intenso, fazendo com que os lugares mantenham
relações diversas com outros. Isso é notório quando percebe-
mos a paisagem da Feira da Pedra, cuja heterogeneidade de
produtos, endógenos à região e exógenos a esta se faz presente,
o que nos faz pensar naquilo que Harvey (2005, p. 270-271,
grifos nossos) afirma:

[...] por meio da experiência de tudo – comida, hábitos


culinários, música, televisão, espetáculos e cinema –, hoje
é possível vivenciar a geografia do mundo vicariamente,
como um simulacro. O entrelaçamento de simulacros da
vida diária reúne no mesmo espaço e no mesmo tempo dife-
rentes mundos (de mercadorias). Mas ele o faz de tal modo
que oculta de maneira quase perfeita quaisquer vestígios
de origem, dos processos de trabalhos que os produziram
ou das relações sociais implicadas em sua produção.

195
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

No início, a Feira da Pedra tinha uma paisagem, no que se


refere aos produtos comercializados, formada essencialmente
por redes de dormir e fios para confecção de varandas, ou
seja, pelo objeto rede de dormir e seus artefatos e/ou maté-
rias-primas do seu processo de acabamento ou confecção.
Atualmente, e cada vez mais, os objetos (formas artificiais,
intencionais) resultantes de uma intencionalidade externa ao
lugar parecem tomar o lugar desses objetos locais, uma vez
que concorrem com estes, neste espaço de comercialização
têxtil. A paisagem dessa feira torna-se cada vez mais repleta
de objetos estranhos ao lugar, mas que fazem parte de sua
configuração enquanto um verdadeiro sistema de objetos e
ações, tal qual é o próprio espaço geográfico, sendo que as
ações, o conjunto sucessivo de atos, não são quaisquer com-
portamentos, mas comportamentos orientados, para atingirem
fins e objetivos específicos, carregadas de intencionalidade.
Assim, mesmo que a Feira da Pedra abrigue, ao mesmo tempo,
objetos diferentemente datados, as ações atuais os delegam
novas funções adequando-os à dinâmica da atualidade. São,
por essa mesma razão, objetos que respondem à necessidade
de modernização da sociedade, atreladas às novas demandas
de mercado pensadas e construídas para atender às novas
necessidades técnicas de produção, de circulação e de con-
sumo, típicas do período técnico vigente. Diferenciam-se,
portanto, esses objetos chilenos e chineses (toalhas, colcha

196
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

de cama, capas de sofá e cortinas), dos objetos típicos dessa


feira (redes de dormir, redes garimpeiras, tapetes, toalhas,
mantas, panos de prato, bolsas, fios e cordões para confecção
de varandas, tecidos para fazer redes, chapéus e bonés), que
são produtos locais e de municípios do entorno de São Bento.
Esses primeiros produtos também são diferentes em relação
aos sistemas técnicos envolvidos no processo de sua produção,
bem como em razão da qualidade de confecção, o que é marca
das dinâmicas do referido período e meio geográfico e dos
processos que envolvem a geografia econômica urbana.
Os produtos têxteis de São Bento e de municípios de seu
entorno, que têm nessa feira um espaço de comercializa-
ção de seus produtos fabricados localmente, vêm perdendo
posição para os produtos chilenos e chineses, que, por causa
do dólar barato, chegam por importação formal ou não ao
mercado chileno, se misturando a estes, e daí chegando a
atravessadores são-bentenses, que trazem esses produtos até
os feirantes da Feira da Pedra, onde se misturam aos produtos
fabricados localmente, hibridizando a paisagem desta feira,
antes composta genuinamente por produtos fabricados em
São Bento, Jardim de Piranhas, Caicó e Brejo do Cruz. Tal
fato nos faz perceber, portanto, diferenciações entre os locais
de proveniência dos produtos/objetos comercializados, bem
como nos tipos de produtos de vendas dos feirantes na feira
em tela. Isso contribui para uma diferenciação de tipos de

197
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

feirantes, devido a estas variações dos objetos, e também


para perceber as variadas reações locais às ações que regem
a lógica global, o que quer dizer, em outras palavras, que
cada lugar reage de uma forma ao processo de globalização
gerando, assim, especificidades locais (SANTOS, 2008a),
muito embora “os lugares, deste ponto de vista, podem ser
vistos como um intermédio entre o Mundo e o Indivíduo [...]”
(SANTOS, 2009a, p. 314). Essas especificidades locais, reflexo
do que se chama globalização, se expressam nos arranjos
espaciais, dos quais o mundo no período atual encontra-se
organizado para atender a essa lógica do capital, portanto
do Mercado Econômico que aí está. Assim, esses arranjos
espaciais nas condições da globalização “[...] não se dão apenas
como no passado, figuras formadas de pontos contínuos.
Hoje, também, ao lado dessas manchas, ou por sobre essas
manchas, há, também, constelações de pontos descontínuos,
mas interligados, que definem um espaço de fluxos regula-
dores” (SANTOS, 2008b, p. 99). Esse arranjo espacial e/ou
essa nova lógica territorial visível a partir da Feira da Pedra
combina horizontalidades e verticalidades, continuidade e
descontinuidade, complementaridade, comando e obediência,
que define também os novos papéis dos seus feirantes face ao
atual período técnico-científico-informacional. Trata-se de
uma feira cada vez mais se articulando a uma ordem global.

198
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

Os tipos de feirantes-vendedores presentes na Feira da


Pedra se dão em função dos produtos comercializados e da
situação de feirante. Assim, 42% desses trabalhadores são
produtores do que comercializam nesta feira, aqui chamados
de feirantes-produtores; ao passo que um segundo grupo
apenas revende a mercadoria que comercializa neste mesmo
espaço, sendo chamados por nós de feirantes-revendedores,
que correspondem a 34% do total dos feirantes. Há ainda um
grupo de porcentagem de 21%, que produz o que comercializa
e revende outros produtos, cuja fabricação não é feita pelo
mesmo, são os feirantes-produtores-revendedores. Por fim, 3%
dos feirantes dessa feira vendem mercadorias de um patrão,
ou seja, são feirantes-funcionários.
A presença de feirantes-produtores, e ao mesmo tempo
revendedores, cria uma forma ativa de atuação nessa feira
que é cada vez mais buscada por alguns desses trabalhadores,
ao passo que os que não se enquadram nessa categoria de
feirantes, ou seja, os que não buscam adicionar aos produtos
que produzem e comercializam, aqueles produtos estranhos
ao seu saber-fazer, principalmente os produtos chilenos, que
estão ganhando espaço na referida feira, correm o risco de
serem engolidos pela concorrência com esses novos produtos
extrarregionais, assumindo uma forma passiva, ganhando um
papel subalterno dentro da feira, podendo ser sucumbidos
pela dinamicidade do período técnico atual. Dessa forma,

199
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

a feira enquanto uma “[...] herança do passado é temperada


pelo sentimento de urgência, essa consciência do novo que
é, também, um motor do conhecimento” (SANTOS 2010, p.
132), nesse período técnico-científico-informacional.
Apontando as formas de distribuição e comercialização
dos produtos têxteis de São Bento, dentre elas: a venda direta
realizada na fábrica, a venda feita pelos redeiros do local e
da região de entorno a esta cidade e aquela comercialização
feita por meio da Feira da Pedra, Carneiro (2006) já falava
de uma divisão dos feirantes desta feira. Segundo esse autor,

Os feirantes da ‘feira da pedra’ se dividem em comerciantes-


funcionários de micro, pequenas e médias manufaturas
que não têm meios para fazer sua produção circular exter-
namente, os comerciantes-autônomos, que aprontam redes
de dormir para vender e os comerciantes-produtores ou
empresários de maquinofaturas do circuito inferior, parti-
cularmente informal, que também fazem a comercialização
direta (CARNEIRO, 2006, p. 132-133).

Entendemos essa divisão apresentada pelo autor válida


para uma tipologia de feirantes concebida de forma geral, uma
vez que conseguimos evidenciar outras, conforme a tabela 3.
Nesse sentido, os produtos e/ou objetos presentes na Feira da
Pedra, nesse período técnico-científico-informacional são, mais

200
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

do que em tempos passados, criados com intencionalidades


precisas, isto é, com um objetivo claramente estabelecido de
antemão pelas indústrias têxteis locais e regionais, o que é causa
dos tipos de trabalhadores que formam tal feira. No passado,
a dinâmica dessa feira obedecia ao lugar. Hoje, essa dinâmica
não mais obedece aos feirantes, porque são instalados novos
objetos que obedecem a uma lógica estranha a esses sujeitos,
uma nova fonte de alienação, mas feita a partir do lugar, que
aceita e reproduz através da escolha dos atores sociais. Essa
intencionalidade é mercantil, mas também, simbólica, uma
vez que “[...] para ser mercantil, frequentemente necessita ser
simbólica antes” (SANTOS, 1995, p. 15).
Os produtos têxteis da Feira da Pedra são resultantes,
não somente do local, como também de um espaço mais
amplo, ou seja, regional e extrarregional, enfim, de uma
solidariedade cada vez mais complementar. Essas formas
de complementaridades geradas pelo processo de consumo
cada vez mais intenso e organizado num circuito inferior
típico do meio técnico-científico-informacional, miscigenado
com elementos do circuito superior, resultam na tipologia de
feirantes e na diversidade de mercadorias presentes nesta feira.
Os produtos mais comercializados na Feira da Pedra são
as redes de dormir (18,55%), fabricadas em sua maioria em
São Bento; em seguida, aparecem os conjuntos para cozinha
(13,31%), seguidos dos conjuntos para banheiro (12,90%);

201
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

as toalhas e os tapetes aparecem, respectivamente, com


uma porcentagem de 11,69%, acompanhados das mantas/
cobertores (10,48%), das colchas de cama (10,08%) e dos
panos de prato (6,85%); os cordões para confecção de varan-
das aparecem em 1,21% dos produtos comercializados; as
cortinas aparecem como 0,81% dos produtos vendidos; e os
chapéus, os fios, as capas de sofá, panos para fazer redes e
encerados (toalhas de mesa) aparecem numa percentagem
de 0,40%. A variedade de produtos dessa feira, destinados,
sobretudo, ao cotidiano do lar, inseridos nos itens de cama,
mesa e banho, representam, pois, a diversidade dos produtos
comercializados nesse local, bem como ainda uma das formas
de atividades do circuito inferior (a feira), das quais muitos
nordestinos encontram-se inseridos.
O ingresso nas atividades do circuito inferior, em espacial
na atividade feira, aparece como uma possibilidade de adquirir
o mínimo para a sobrevivência, como é notório na Feira da
Pedra em relação à parte de seus feirantes-vendedores e os
produtos comercializados. Esse subsistema da economia
urbana torna-se uma estrutura de abrigo para muitos citadinos
e camponeses novos e até mesmo antigos, que geralmente são
desprovidos de capital e qualificação. A respeito dessas ques-
tões, discutiremos no subitem seguinte, destacando alguns
aspectos e/ou perfil dos feirantes-vendedores, dentro do rol

202
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

da atividade têxtil presente no Sertão Paraibano e no Seridó


Potiguar, percebidas na Feira da Pedra.

Condições contemporâneas da atividade têxtil


no Sertão Paraibano e no Seridó Potiguar

Percebemos, até aqui, que a Feira da Pedra tem, em sua


dinâmica, elementos do Sertão Paraibano e do Seridó Potiguar,
elementos estes agrupados nos trabalhadores feirantes desses
dois espaços regionais e nos produtos ali comercializados.
Antes de nos determos a esses trabalhadores, pois sobre os
produtos já traçamos discussões anteriores, abordaremos
algumas características da forma organizacional da atividade
industrial têxtil desses recortes espaciais, uma vez que é do
Sertão Paraibano e do Seridó Potiguar a proveniência, em
peso, dos elementos da dinâmica da Feira da Pedra – feirantes
e consumidores, e produtos comercializados, no sentido de
percebermos sua relação com os circuitos da economia urbana,
nesse período e meio técnico.
A partir da Feira da Pedra, percebemos que existe uma
implantação de eficientes espaços de produção e gestão que,
articulados ao mercado global e a interesses frente ao mundo
da concorrência, comanda o fazer da atividade industrial têxtil
presente no Sertão Paraibano e no Seridó Potiguar. Estamos

203
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

falando dos Arranjos Produtivos Locais referentes à indústria


têxtil nesses espaços regionais.
Nesse âmbito regional, destacam-se, como lugares “forne-
cedores” e/ou participativos nos produtos têxteis que compõem
a Feira da Pedra, as seguintes unidades geográficas: do Sertão
Paraibano, encontram-se os seguintes municípios: São Bento,
Brejo do Cruz e Catolé do Rocha; do Seridó Potiguar, destacam-
se: Jardim de Piranhas, Caicó e Messias Targino, este último
entra nessa composição não como produtor têxtil, mas como
um município, cujo feirante revende, nesta feira, produtos
que não são fabricados pelo mesmo. É um município em que
feirantes-revendedores fazem feira em São Bento (Mapa 1).

Mapa 1 – Feira da Pedra: feirantes por municípios de origem

Fonte: pesquisa de campo, 2011.


Elaboração: o autor, 2012.

204
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

A maioria dos feirantes-vendedores da Feira da Pedra (78%)


pertence ao município de São Bento, sendo em sua maioria do
sexo masculino, cerca de 46%, contra 31% do sexo feminino.
Os 16% dos feirantes-vendedores de Jardim de Piranhas, repre-
sentando o segundo grupo de feirantes em maior quantidade
nessa feira, 67% são do sexo masculino e 9% são do sexo
feminino. Já os 3% dos feirantes-vendedores de Brejo do Cruz,
o que corresponde a 2% da estrutura sexual desses trabalha-
dores, são do sexo feminino. Por último, os outros 3% dos
feirantes-vendedores da feira em estudo distribuem-se entre
os municípios de Caicó (1%), Messias Targino (1%) e Catolé
do Rocha (1%), todos do sexo masculino, conforme a pesquisa
de campo. Podemos tirar desses dados duas conclusões: 1) a
presença masculina em relação aos feirantes-vendedores da
Feira da Pedra se faz em maior parte para o caso de São Bento
e Jardim de Piranhas, na medida em que, para Brejo do Cruz,
se sobressai a presença feminina; 2) os municípios de Jardim
de Piranhas e Caicó são os lugares do Seridó Potiguar que
se articulam à Feira da Pedra no que se refere a produtores
têxteis e locais de feirantes-vendedores dessa atividade (a
feira), articulados a ela por meio de sua produção têxtil; já São
Bento, Brejo do Cruz e Catolé do Rocha dizem respeito aos
municípios do Sertão Paraibano “fornecedores” de produtos
têxteis e feirantes-vendedores a essa feira.

205
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

As aglomerações geográficas referentes às indústrias


têxteis presentes nos referidos recortes espaciais: regiões
(Sertão Paraibano e Seridó Potiguar) –, os chamados Arranjos
Produtivos Locais (APLs) – têm se destacado, ocupando
um amplo espaço, onde são explorados pelas instituições de
incentivo à construção desses arranjos espaciais, das quais
se destaca o Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas
(SEBRAE), bem como ainda as experiências de sucesso no
setor dessa atividade industrial.
Para Haddad (2004b, p. 30, grifos do autor), “um arranjo
produtivo local é uma concentração microespacial de empre-
sas de qualquer porte com grau diferenciado de coesão e
características comuns [...]”. De acordo com Leal (2007, p. 17)
, essa forma de organização empresarial têxtil, presente em
Jardim de Piranhas, por exemplo, é composta “[...] por Micro
e Pequenas Empresas [...]”, presentes nesse lugar desde 2004.
Já consultando autores como Haddad (2004a) e Carneiro
(2006), fica evidente que o APL têxtil de São Bento é formado
por Micro, Pequenas e Médias Empresas, fundado desde
2001. Tal fato permite pensar na forma como se encontram
as condições contemporâneas da atividade industrial têxtil
presente no Sertão Paraibano e no Seridó Potiguar. Os feiran-
tes-vendedores provenientes dessas duas regiões, na condição
de produtores do que comercializam na Feira da Pedra, se
encontram organizados em associativismo empresarial, como

206
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

é o caso dos APLs, no sentido de se estabelecerem e se fir-


marem enquanto produtores têxteis, neste meio e período
técnico, no qual cada vez mais “a incorporação da ciência,
da técnica e da informação ao processo de produção sob a
égide do Estado e de suas agências e órgãos, como o SEBRAE
[...], aparecem agora como verticalidades obrigatórias para o
desenvolvimento dessa atividade” (CARNEIRO, 2006, p. 126).
Isso faz com que esses segmentos industriais caminhem cada
vez mais para uma organização típica de um circuito superior,
em que nas unidades geográficas referidas, já são percebidas
verticalidades e/ou normas criadas externamente (SANTOS,
2009a), se fazendo em ações nos lugares dessas regiões.
Essa forma organizacional de parte da atividade têxtil,
hoje presente no Sertão Paraibano e no Seridó Potiguar, nos
faz lembrar Kosik (1995, p. 55), quando afirma, acerca da
cotidianidade e da história, que “o homem é antes de tudo
aquilo que o seu mundo é. Este ser que não lhe é próprio
determina a sua consciência e lhe dita o modo de interpretar
a sua própria existência”. A presença da égide do Estado
e de suas instituições, a exemplo do SEBRAE, a serviço,
sobretudo, das necessidades do Mercado Capitalista, força
parte dos produtores têxteis, que comercializam na Feira
da Pedra, a assumirem uma consciência e um modo de ser
e existir, como é o caso do associativismo APL, com fins
de se manterem e/ou sobreviverem no atual período e meio

207
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

técnico-científico-informacional. Ademais, esse é um pouco


do retrato de como se organizam, do ponto de vista da produ-
ção industrial têxtil, parte dos feirantes da Feira da Pedra. Não
sendo esta uma característica abrangente dos trabalhadores
vendedores desta feira, é necessária uma compreensão mais
ampla deles, no sentido de conhecimento social e econômico
desses agentes do espaço geográfico.

Perfil socioeconômico dos


feirantes da Feira da Pedra

A maioria dos agentes envolvidos no processo de venda, no


circuito da Feira da Pedra, não tem qualificação profissional,
do ponto de vista da educação convencional, uma vez que a
maior parte deles não concluiu o Ensino Fundamental, pois
62%, não possui o Ensino Fundamental completo, o que
implica dizer que a maioria desses sujeitos socioespaciais apre-
senta baixo nível de escolaridade. Aqueles que conseguiram
terminar o Ensino Médio somam 15%, seguido daqueles que
chegaram a concluir o Ensino Fundamental, que correspon-
dem a 7%. Já 5% dos feirantes-vendedores não chegaram a
concluir o Ensino Médio, ao passo que 4% conseguiram
ingressar no Ensino Superior, mas não chegaram a concluir
e/ou encontram-se em fase de conclusão. Por fim, 3% desses

208
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

trabalhadores se consideraram analfabetos, e 1%, alfabeti-


zado. Ou seja, do ponto de vista do nível de escolaridade,
esses sujeitos apresentam-se configurados de forma diversa,
representando bem o circuito inferior na contemporaneidade
e a realidade de muitos brasileiros.
Sobre o fato de não terem terminado e/ou continuado com
os estudos, constatamos que há uma tendência extremamente
negativa, por parte dos mesmos, em relação a esse problema,
sobretudo em detrimento do processo educacional conven-
cional em vigor. Assim, é muito comum, por parte de alguns
deles, demonstrarem as seguintes atitudes e/ou pensamentos
com relação à escolarização: 1) o repúdio ao ensino oferecido
nas escolas, sob a alegação de que se pode ganhar dinheiro
sem “quebrar a cabeça” com estudos, o que entendemos ser
um grande equívoco, que demonstra um grande grau de
alienação, no sentido de que a pessoa encontra-se acomodada
a sua condição social, ao ponto de não lutar por uma melhor
condição e/ou qualidade de vida, através dos estudos escolares
e sequenciais. Além do mais, a aprendizagem adquirida no
processo educacional convencional não se destina apenas à
prática profissional, mas, possibilita, sobretudo, a autonomia
crítica (FREIRE, 2006), tão essencial diante dos acontecimentos
que nos envolvem e dinamizam o espaço no atual período
do espaço; 2) para outros foi a falta de oportunidade, uma
vez que tiveram de abandonar os estudos para se dedicar ao

209
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

trabalho e toda a labuta cotidiana pela sobrevivência imposta


pela sociedade capitalista. Isso mostra que, dentre os principais
problemas disseminados no município de São Bento, bem como
aqueles ligados à Feira da Pedra, a situação do baixo nível de
escolaridade de parte de seus habitantes merece atenção espe-
cial, para que futuramente se possa constatar uma realidade
diferente dessa apresentada pela Feira da Pedra, pois isso é
um reflexo de um passado que pouco valorizou a Educação.
Essa sintética caracterização mapeia o nível de escolari-
zação dos feirantes-vendedores da Feira da Pedra entrevis-
tados, além de evidenciar o que assegura M. Santos (1979a)
acerca do baixo nível de profissionalização e/ou escolarização
dos que estão ou fazem parte do trabalho do circuito inferior.
Esse circuito, por conter um grande número de atividades,
dentre elas a atividade feira, acaba comportando também
tanto participantes e/ou profissionais qualificados, quanto
abrindo espaço para pessoas com menor qualificação profis-
sional, e sua expansão tende a se dar de forma desordenada
ou inflacionada, conforme já afirmou Santos (1982, p. 43):
“nos países não desenvolvidos”, muito embora sabemos que
tal situação também ocorre, sobretudo de maneira menos
perceptível e/ou menos visível, nos países ditos desenvolvi-
dos industrializados, como o Brasil, “o chamado terciário
é inflacionado, porque as pessoas em idade de trabalhar se
veem obrigadas a aceitar qualquer emprego, mesmo abaixo

210
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

dos níveis legais mínimos de remuneração” e qualificação


profissional possibilitado pela Educação.
A atividade feira proporciona ao trabalhador feirante,
sobretudo aquele(s) que se encontra com baixa escolaridade,
uma remuneração condizente com o baixo nível de recursos
profissionais disponíveis, no sentido de que esses sujeitos
socioespaciais, pelo menos na Feira da Pedra, encontram-se
satisfeitos com o que conseguem faturar mensalmente. Tal
fato mostra uma das importâncias dessa atividade dentro do
rol da geografia econômica urbana, em que a faixa etária e o
gênero dos sujeitos envolvidos são diversos.
O maior número de feirantes-vendedores da Feira da Pedra
se agrupa na faixa etária dos 30 aos 35 anos, o que representa
16% do total pesquisado, sendo este total na sua maioria (10%)
do sexo feminino; em segundo lugar, aparece aquele grupo
composto pelos que têm idade entre 40 e 45 anos, ou seja,
um grupo representado por 15%, cuja maioria são homens
(9%), seguido daqueles feirantes-vendedores que têm idade
entre 45 e 50 anos (13%), que também são, em sua maioria,
feirantes-vendedores do sexo masculino. Os feirantes que têm
idade entre os 25 e 30 anos, e aqueles que estão na faixa etária
dos 35 aos 40 anos, correspondem, respectivamente, a 12%,
sendo a maioria do sexo masculino. Já 9% desses trabalhadores
encontram-se entre os 50 e 55 anos de idade, sendo a maioria
homens. Um grupo de jovens, cerca de 8% desses sujeitos

211
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

socioespaciais pesquisados, encontra-se entre os 15 e 20 anos


de idade, sobressaindo-se as mulheres, seguido daqueles que
se encontram entre os 20 e 25 anos de idade, cerca de 7%. Os
demais feirantes-vendedores distribuem-se num grupo que vai
daqueles que têm idade entre os 55 e os 80 anos (5%). De uma
forma geral, esses dados e informações mostram que a feira,
enquanto uma manifestação do circuito inferior da economia
urbana, congrega grupos de trabalhadores diversos, tanto no
que se refere à idade, quanto ao sexo, sobretudo nesse período
e meio técnico-científico-informacional, cujas problemáticas
correspondentes ao mercado de trabalho e sua estrutura são
uma constante, sendo o circuito inferior o destino daqueles que
não conseguem se inserir em ocupações do circuito superior.
Isso mostra também a presença muito forte da mulher nesse
subsistema, uma vez que, “na vida de cada dia” (KOSIK,
1995, p. 81), sobretudo no meio geográfico atual, participam
homens e mulheres da luta pela sobrevivência cotidiana, ou
ainda como disse Valkiria Trindade de A. Santos (2009, p.
91) “a mulher muitas vezes, assume o papel de responsável
pela busca das provisões [...]”, fato comum no contexto atual
e representado em parte por esses sujeitos socioespaciais de
diferentes origens, que fazem/frequentam a Feira da Pedra.
No espaço geográfico atual, o cotidiano, ou seja, “essa
categoria da existência presta-se a um tratamento do mundo
vivido que leve em conta as variáveis”, isto é, “[...] os objetos,

212
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

as ações, a técnica, o tempo” (SANTOS, 2009a, p. 315). No


âmbito do circuito inferior, o cotidiano é uma dimensão
que deve ser levada em consideração, no sentido de que, no
atual período, os objetos e as ações, relacionados à técnica e
ao tempo, apresentam-se com dinâmica distinta de tempos
passados, e, cada vez mais complexos, dão uma nova confi-
guração ao circuito inferior, de modo que as respostas a uma
compreensão mais aprofundada desse subsistema da economia
urbana (o circuito inferior), não deverão passar despercebidas
das relações e da concepção de cotidiano.
Esses sujeitos socioespaciais, homens e mulheres feiran-
tes-vendedores da Feira da Pedra, iniciaram suas atividades
desde a década de 1960, muito embora a maior parte desses
comerciantes tenha iniciado suas atividades entre 2005 e
2010, cerca de 38%. Uma segunda parte desses trabalhadores
iniciou suas atividades entre 2010 e 2011, cerca de 19%. É
notório ainda que uma terceira parte começou sua atividade
de feirante-vendedor entre 1995 e 2000, ou seja, 16%, como
também 12% iniciaram entre os anos de 2000 e 2005. Uma
quinta parte dos feirantes-vendedores começou entre os anos
de 1985 e 1990, isto é, 7%. Apenas uma pequena parte desses
trabalhadores, 2%, iniciou entre 1970 e 1975; os outros 2%
começaram nos intervalos de tempos compreendidos entre
1975 e 1980, e 1960 e 1965, respectivamente, 1%. Em suma,
é entre os anos de 1985 e 2011 que surge o maior número

213
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

de feirantes-vendedores na Feira da Pedra, 95%, intervalo


de tempo este caracterizado pela produção têxtil cada vez
mais maquinizada, sobretudo com elementos do período
técnico-científico-informacional, como o uso do sistema
informacional, baseado em programas de computadores,
sites destinados à venda dos produtos, vendas por telefones
etc., fato que contribuiu para um aumento da produção e
consolidação cada vez mais da posição de São Bento enquanto
produtor têxtil de redes de dormir e derivados dessa indústria,
no âmbito da região Nordeste e Brasil, de uma forma geral.
Dessa forma, sendo esse período maquinofatureiro
caracterizado, sobretudo, por objetos técnicos, científicos
e carregados de informações, não somente na atividade de
fabricação têxtil, mas também no espaço são-bentense como
um todo – principalmente no urbano, a partir da década de
1990, como é o caso de torres de celulares, e do uso cada vez
mais frequente de sistemas de informações nos comércios da
cidade – levou Carneiro (2006, p. 133), baseado em Santos
(2009a), a chamar essa realidade presenciada nesse município
e cidade de “período técnico-científico-informacional de São
Bento”, fato que permite identificarmos que os eventos não
se dão sincronicamente nos espaços, muito embora sejam
resultantes de uma mesma datação histórica. Esse fato con-
tribui não somente para o aumento dos feirantes-vendedores,

214
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

mas também dos feirantes-consumidores, sobre cujo perfil


socioeconômico é preciso tecer algumas notas.

Perfil socioeconômico dos consumidores

A partir da etapa atual do fenômeno chamado globa-


lização da economia, decorrente de um processo muito
antigo (SANTOS, 2010; SENE, 2004), cujo marco maior foi
a mundialização do espaço geográfico, dada sobremaneira
com o fenômeno das grandes navegações do século XV e XVI,
contribuiu para uma contínua e progressiva disseminação
de uma cultura mundial capitalista e transfronteirística,
gerando uma sociedade de consumo (BAUDRILLARD,
2010) de massa. Paulatinamente, as inovações tecnológicas
engendradas pela Revolução Industrial (DEANE, 1973;
RIOUX, 1975; ARRUDA, 1988; IANNONE, 1992), sobretudo
nos setores de transportes, e comunicações, foram apro-
priadas e fundamentais ao aprimoramento desse consumo
desenfreado, tendo seu ponto máximo e/ou clímax após a
Segunda Guerra Mundial, acelerando-se na década de1970,
dando um salto elevado nas décadas de 1980 e 1990. Esse
processo de globalização, cuja expressividade maior é esse
espaço geográfico técnico-científico-informacional, causa
e condicionante desse fenômeno, percebido no lugar, nos

215
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

impõe fazer parte de uma sociedade de consumo, em que


sobremaneira as relações se dão mediadas, por um lado
pelas mercadorias, conforme já observou Touraine (1995,
p. 151-154); e, por outro, pelos sinais, imagens e signos
(LEFEBVRE, 1991), em que a combinação dessas relações
se expressa na vida dos homens e mulheres que fazem o
espaço geográfico, fazendo surgir novos valores sociais,
cuja base é o consumo, evidenciado no lugar e no cotidiano.
De acordo com Henri Lefebvre, na vida cotidiana da
sociedade, nesse “mundo moderno”, o mercado das imagens
domina setores da economia, apagando as imagens do homem
ativo, “[...] colocando em seu lugar a imagem do consumi-
dor como razão de felicidade [...]” (LEFEBVRE, 1991, p. 64).
Nessa sociedade, não se consome apenas o objeto em si, mas
também a carga de valores de signos que eles (os objetos)
carregam. Assim, “não é o consumidor nem tampouco o
objeto consumido que tem importância nesse mercado de
imagens, é a representação do consumidor e do ato de con-
sumir, transformado em arte de consumir” (LEFEBVRE,
1991, p. 64). Esse processo é marcado por substituição de
ideologias, chegando “até apagar a consciência da alienação”
(Idem, ibidem), acrescentando alienações novas.
Concordamos com Wilson I. Godoy, quando, estudando
as feiras-livres de Pelotas, no Rio Grande do Sul, enfatiza a

216
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

dimensão socioeconômica dessas atividades, chamadas por


esse autor de sistemas locais de comercialização. Para ele,

Conhecer o perfil do consumidor das feiras-livres é algo


complexo e instigante e que, toda tentativa de delinear
seus traços essenciais é sempre incompleta, em que pese
escapar o componente simbólico no uso dos instrumentos
usuais de coleta de dados, especialmente no que tange às
representações sobre a feira (GODOY, 2005, p. 132).

Quanto a sua distribuição por idade e sexo, os consumi-


dores da Feira da Pedra assim se encontram: a maior parte
desses sujeitos sociais compõe-se de pessoas do sexo feminino,
(61%), bem como ainda a maioria situa-se entre os 40 e 45
anos de idade (15%), também se sobressaindo aqueles do sexo
feminino, para esse grupo de idade. Um segundo grupo é
composto por 11% destes, distribuídos, respectivamente, nos
seguintes grupos de idade: 25 a 30, 30 a 35, 55 a 60 e 65 a 70
anos, sendo o primeiro e o terceiro grupos de idade, em sua
maioria, formados por mulheres. Isso demonstra, pois, que
a maioria desses sujeitos socioespaciais são mulheres, que
buscam produtos têxteis para o lar e/ou para revender em
suas próprias casas, aumentando, com isso, a renda familiar.
Elas representam, nesse sentido, o fato que hoje ocorre com
a sociedade brasileira de uma forma geral, ou seja, a renda

217
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

familiar não é proveniente apenas do trabalho do chefe da


família, no caso o homem, mas também da mulher, que a cada
dia se faz mais presente na labuta cotidiana das atividades
constituintes do circuito inferior da economia urbana.
Sabendo que o circuito inferior abriga uma vasta hete-
rogeneidade de atividades, cujo destaque hoje talvez seja
o comércio, seguido dos serviços de reparação/concertos,
dentre outros, o fato de haver uma maior presença do sexo
feminino comprando produtos têxteis na Feira da Pedra
se liga também a outras questões, como o peso da idade
como fator limitante para a permanência prolongada no
circuito inferior, falta de domínio, por parte desses sujeitos,
seguida de uma ausência de experiência profissional para
trabalhar em outras atividades; e, ainda, a questão do grau
de escolaridade desses consumidores.
A maioria dos homens e mulheres envolvidos no processo
de compra na Feira da Pedra apresenta grau de escolaridade
compreendido aqui como Ensino Fundamental incompleto,
cerca de 39% dos consumidores. Um segundo grupo desses
agentes possui Ensino Médio completo, 31%. Em escalas
menores, esses sujeitos encontram-se assim distribuídos: 10%
possuem Ensino Fundamental completo; 8% possui Ensino
Superior; 5% afirmaram considerarem-se analfabetos, uma
vez que não sabiam ler, nem escrever; 3%, respectivamente,
afirmaram ser alfabetizados (uma vez que não possuíam

218
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

conhecimentos para assinarem o próprio nome e “ler alguma


coisinha”) e possuir Ensino Médio incompleto.
Os feirantes-consumidores que afirmaram ter Ensino
Superior formam um grupo de professores (Licenciados em
Pedagogia), que buscam, nessa feira, produtos têxteis para o
lar e também para revender, no sentido de aumentar a renda
familiar. Quanto aos demais, lembremos M. Santos (1979a),
quando afirma que é o circuito inferior o local de abrigo
não apenas dos desempregados, mas também dos “desqua-
lificados” profissionalmente. Leia-se por desqualificados,
aquelas pessoas que não possuem uma profissão do ponto de
vista dos mecanismos formais institucionais convencionais,
como por exemplo, curso superior. Isso não significa que
esses “desqualificados” não tenham qualificação, uma vez
que entendemos serem homens e mulheres extremamente
qualificados, sobretudo quando olhamos a vida de cada dia
dessas pessoas, cuja batalha e característica maior são as
múltiplas maneiras de buscarem a sobrevivência em seu
mundo vivido, cada vez mais marcado pelas verticalidades da
globalização, ou seja, a racionalidade do Mercado Econômico
e do Sistema Político, dentro do subsistema circuito inferior
da geografia econômica urbana. No entanto, esse circuito não
comporta apenas os desprovidos de capital e qualificação,
tal qual enfatizou M. Santos (1979a, p. 159), mas também
aqueles que passaram pela universidade e que se encontram

219
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

desprovidos de meios de sobrevivência suficientes, tendo nesse


circuito, representado aqui pela Feira da Pedra, um abrigo e/
ou complementaridade da renda mensal familiar.
Nesse contexto, os feirantes-consumidores da Feira da Pedra
se agrupam em várias categorias de profissões, indo de comer-
ciantes, agricultores, professores, aposentados, crediaristas,
estudantes, militares, tecelões, balconistas, feiteiras, costureiras,
agentes de saúde, motoristas, dentre outros (Gráfico 1).

Gráfico 1 – Feira da Pedra: profissões dos consumidores

Fonte: pesquisa de campo, 2011.

Desses grupos de feirantes-consumidores, o que mais se


destaca é aquele constituído por comerciantes, 34%, ou seja,
pelas pessoas que buscam, nessa feira, artigos têxteis para
comercializarem em suas cidades. Em seguida, aparecem

220
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

os agricultores, 25%, que também poderíamos juntá-los


ao primeiro grupo, uma vez que adquirem esses produtos
na feira, não apenas para o consumo, mas também para
comercializarem em suas próprias casas ou de porta em
porta, buscando, com isso, aumentar a renda da família.
Em terceiro lugar, aparece um grupo formado por mulheres
que se denominam “donas de casa”, representando 10% dos
consumidores pesquisados. Em seguida, aparecem professores
(7%), aposentados (5%) e crediaristas (3%).
Olhando para os tipos de profissionais que frequentam
esta feira e ajudam a realizá-la, constatamos ainda sua expres-
sividade enquanto parte do circuito inferior da economia
urbana de São Bento, no sentido de que dela fazem parte
sujeitos que, a priori, buscam se abastecer dessas mercadorias
têxteis, para, a partir da comercialização das mesmas em
suas casas, complementar a renda familiar e sobreviverem
nessa sociedade técnica, científica e informacional, marcada
cada vez mais por formas de inacessibilidade e/ou restrições,
dificuldades de acesso a condições materiais de existência,
isto é, empregos, sendo o desenvolvimento de outras ativi-
dades (comércio), a forma encontrada por muitos e muitos
brasileiros para complementarem a função trabalhista que
exercem. Vale ressaltar ainda que os feirantes-consumidores
que frequentam a Feira da Pedra buscam mercadorias tanto
para o consumo, quanto para a comercialização.

221
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

Isso significa que 18% dos consumidores buscam produtos


têxteis para o próprio consumo, ao passo que quase 80% o
faz apenas para revender e, revender e consumir, 5% desses
sujeitos. Tal fato demonstra a importância que esse local
tem, para, neste caso, os sujeitos que com ele se relacionam
na condição de consumidores, isso porque parte da renda
familiar desses sujeitos depende, inicialmente, desse centro
comercial de produtos têxteis.
A quantia gasta por parte dos consumidores na Feira da
Pedra varia. A maioria, cerca de quase 20% desses sujeitos
socioespaciais pesquisados, gasta, em média, R$ 1.000,00 nas
compras. Esse grupo de consumidores é formado principal-
mente por comerciantes, pessoas que vivem de atividades
agropastoris e donas de casa, que se dedicam também a
revenderem esses produtos em suas residências de origem.
Já um segundo grupo, cerca de 18,03%, gasta R$ 2.000,00. É
um grupo formado por comerciantes propriamente ditos. Há
também aqueles que gastam uma quantia menor e aqueles
que gastam uma quantia maior que esses valores. Dentre os
primeiros, destacam-se os consumidores que gastam cerca
de R$ 800,00 e R$ 600,00, formando um grupo representado
por 6,56%, respectivamente; além daqueles que gastam: R$
300,00; R$ 400,00; R$ 500,00, e até cerca de R$ 1.500,00,
representados, cada um, por 4,92%. Existem aqueles consu-
midores que gastam cerca de R$ 30,00; R$ 50,00; R$ 100,00

222
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

e R$ 1.200,00, representados, respectivamente, cada um por


1,64%. Esse grupo é mais representativo das donas de casa,
originalmente de São Bento e cidades de entorno, que buscam
produtos têxteis para o próprio consumo, nas suas atividades
cotidianas, principalmente aqueles produtos relacionados aos
afazeres domésticos, como, por exemplo: panos de prato, con-
juntos para banheiro, conjuntos para cozinha, tapetes e bolsas.
Já aqueles feirantes-consumidores que gastam uma quantia
maior (R$ 2.500,00; R$ 4.000,00; R$ 8.000,00; 11.000,00 e R$
15.000,00), representados por pouco mais de um e meio por
cento (1,64%), formam um grupo constituído genuinamente
por consumidores que vivem do comércio desses produtos.
São geralmente de cidades mais distantes de São Bento, que
vêm, mensalmente, ou de dois em dois meses se abastecerem
na Feira da Pedra.
A partir dessa característica, podemos agrupar os consu-
midores desta feira entre aqueles que gastam pouco (entre R$
30,00 a R$ 1.000,00), aqueles que gastam uma quantia média
(entre R$ 1.000,00 a R$ 1.500,00) e aqueles que compram,
em mercadorias têxteis, valores altos (entre R$ 2.500,00 e
15.000,00). Tal fato reflete um pouco da sociedade do atual
meio geográfico, no sentido de que a atividade comercial,
juntamente com aquelas atividades dos serviços, constitui-se
numa das formas de sobrevivência da população brasileira,
ligando-se, parte dessa atividade, ao circuito inferior da

223
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

economia urbana, cuja geografia é uma realidade socioes-


pacial marcada por intenso fluxo (de pessoas, mercadorias,
transportes, informação etc.).
A frequência com que esses consumidores vão a essa feira
também é variável. Em nossa pesquisa, encontramos aqueles
que tinham ido pela primeira vez, até aqueles que mensal-
mente vão a este local se abastecer de mercadorias têxteis.
No entanto, a maioria vai à Feira da Pedra mensalmente,
cerca de 77%, seguido de um grupo, representativo de 11%,
que semanalmente se dirige a esta feira para comprar seus
produtos têxteis. Já um terceiro grupo por nós identificado
tinham ido à Feira da Pedra pela primeira vez, 7%. Por fim,
há aqueles que quinzenalmente se fazem presentes nesse
lugar, 5%. Esses dados nos mostram, portanto, que aqueles
consumidores que vão à Feira da Pedra mensalmente são
os que residem mais distantes de São Bento ou até mesmo
em outros estados no Nordeste e do Brasil; os que se fazem
presentes quinzenalmente são originários de municípios
de entorno a esta cidade, juntamente com os que semanal-
mente ali estão comprando e tecendo relações econômicas e
socioculturais com os outros sujeitos que compõem esta feira
(feirantes-vendedores, feirantes-consumidores, transeuntes,
amigos, parentes etc.).
Buscando saber qual(is) a(s) forma(s) de pagamento
por parte dos consumidores, questionamos, a priori, os

224
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

feirantes-vendedores, sobre qual(is) o(s) tipo(s) de venda(s)


realizada(s) pelos mesmos. Isso se deu em função de querermos
comparar as respostas de ambos em relação a essa questão
e primarmos por um resultado mais consistente, sobretudo
ainda em relação à quantia gasta pelos consumidores, já dis-
cutida anteriormente. Constatamos, portanto, que a maioria
dos feirantes-vendedores, 67%, realiza a venda de suas mer-
cadorias têxteis à vista, ou seja, a dinheiro líquido; ao passo
que 33% vendem a prazo. Isso mostra a predominância do
dinheiro líquido sobre as outras formas de pagamento, o que
é também uma característica do circuito inferior. Segundo
M. Santos (1979a, p. 181), “[...] enquanto as trocas são feitas
cada vez mais por intermédio de papéis à medida que se vai
para o circuito superior; no circuito inferior, ao contrário, as
operações são feitas com dinheiro líquido”. Assim, “dispor de
dinheiro líquido significa, portanto, escapar do intermediário
financeiro e poder obter um lucro maior” (SANTOS, M.,
1979a, p. 184). Já as vendas a prazo se dão mediante o crédito
pessoal, ou seja, na confiança que os feirantes-vendedores
têm em relação aos seus fregueses, dadas, sobremaneira, por
meio de cheques pré-datados, ou fiado mesmo, para pagar
com trinta dias. Sobre os cheques pré-datados, alegam os
vendedores que têm muitos prejuízos, no sentido de que já
deixaram de receber pagamentos, uma vez que foram enga-
nados por feirantes-consumidores com cheques sem fundo.

225
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

Assim, como os feirantes-vendedores vendem mais à


vista, os feirantes-consumidores não poderiam pagar senão
em dinheiro líquido as mercadorias adquiridas na Feira da
Pedra. A maioria dos consumidores, 87%, paga os produtos
têxteis à vista; ao passo que outra parte paga à vista e a cheque
pré-datado, cerca de 10%. De maneira geral, não deixando
de fazer parte de uma atividade cujas características em sua
maioria são típicas daquelas definidas como sendo do circuito
inferior da economia urbana, a Feira da Pedra e os produtos
nela comercializados, configuraram significados ao meio
geográfico onde se encontram. Dentre eles podemos citar:
a) um novo padrão de objetos, até então pouco presente
na paisagem urbana são-bentense, como, por exemplo, as
toalhas chinesas e outros produtos extras locais;
b) uma nova racionalidade configurada à comercialização,
associada, nesse sentido, à lógica da acumulação flexível que
comanda a reprodução contemporânea do sistema capita-
lista (BOTELHO, 2000). Exemplo disso é o fato de existir,
anualmente, na Feira da Pedra, produtos diversos não con-
feccionados no local, nem regionalmente, mas provenientes
de outras localidades, mas dentro desse espaço de fluxos
(SANTOS, 2009a; grifos nossos);
c) a Feira da Pedra desempenha um importante papel de
apoio comercial às indústrias têxteis são-bentenses, já que a

226
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

feira cresceu em tamanho e volume de mercadorias dos anos


1960 aos dias atuais;
d) a inserção de uma nova categoria de feirante até então
pouco presente nessa feira, como é o caso dos feirantes-produ-
tores-revendedores, isto é, aqueles comerciantes vendedores que
produzem o que comercializam e ao mesmo tempo revendem
produtos por eles não fabricados;
e) aumento da dinâmica regional, a partir da conexão
regional com os novos circuitos globais de comercialização,
uma vez que muitos consumidores vão a São Bento, às segun-
das-feiras, comprar mercadorias têxteis na Feira da Pedra,
dentre elas aqueles produtos fabricados não localmente, fato
que aumentou a dinâmica regional;
f) ao mesmo tempo, esses novos objetos presentes na Feira
da Pedra difundem novos hábitos de consumo e novas formas
de sociabilidade, como percebemos em alguns municípios de
alguns consumidores dessa feira, através do discurso desses
comerciantes, discurso de sedução na hora de os comercia-
lizarem, enfatizando certas características, o que nos faz
lembrar aquilo que Santos (2008b, p. 98) nos fala quando
discorre sobre os objetos do espaço geográfico:

[...] têm um discurso, um discurso que vem de sua estrutura


interna e revela sua funcionalidade. É o discurso do uso,
mas também, o da sedução. E há o discurso das ações,

227
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

do qual depende sua legitimação. As ações necessitam


de legitimação prévia para ser mais docilmente aceitas e
ativas na vida social e assim mais rapidamente repetidas
e multiplicadas.

Em suma, diante de todos esses fatos tratados, fica cada


vez mais evidente que devemos, assim, entender a totalidade
do espaço, e compreender também que certas porções desse
espaço apresentam (como é o caso de São Bento por meio
da Feira da Pedra, para citar um exemplo) características
localizadas, próprias e específicas, mas em concordância com
o movimento do todo, num processo de complementaridade
de atividades e também de processos, em que a geografia
econômica urbana torna-se cada vez mais complexa em função
da implicação, miscigenação dos subsistemas: circuito superior
e circuito inferior.

228
Capítulo 6
FIXOS, FLUXOS, CIRCUITOS
E RACIONALIDADES NA
FEIRA DA PEDRA

O nosso objetivo neste capítulo é refletir sobre as interações
socioespaciais que a Feira da Pedra configura a partir de seus
fixos, fluxos, circuitos e racionalidades. Nas proximidades
da Feira da Pedra, observamos muitos transportes de idades
distintas (mercedinhas, veraneios, F10, D20, mototáxi, rural,
hilux, crossfox etc.), cujos donos e/ou consumidores buscam
mercadorias têxteis na feira comercializados. Observamos
também transportes de passageiros/consumidores para o
Rio Grande do Norte e cidades da Paraíba. Isso possibilita
inferir a dinâmica socioespacial que a Feira da Pedra gera
em face da movimentação de pessoas que se deslocam, seja
de suas residências locais, de uma comunidade próxima, de
outro município, seja de outros estados, nela se aglutinando
e fazendo o seu acontecer.
Na Feira da Pedra, há uma solidariedade estratégica,
sobretudo do ponto de vista da globalização dos proces-
sos econômicos, que é responsável por conectar os diversos
lugares do espaço unificado pela técnica, criando nexos e
deteriorando a solidariedade orgânica que essa atividade
apresentava em tempos passados, criada pelo lugar. Isso se
dá em função de o território ser constituído, atualmente,
por lugares contíguos e por pontos, isto é, lugares em redes.
Embora apresentando funcionalizações simultaneamente
diferentes e muitas vezes opostas, essa organização do espaço,
percebida ainda que minimamente nessa feira, dá origem

230
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

a novas formas de solidariedades espaciais expressas em


três tipos de aconteceres: o acontecer homólogo, o acontecer
complementar e o acontecer hierárquico (SANTOS, 2009a;
SANTOS, SOUZA, SILVEIRA, 1998).

Racionalidades da Geografia Econômica Urbana:


acontecer homólogo, acontecer complementar
e acontecer hierárquico – inter-relações
entre os circuitos da economia urbana

A geografia econômica urbana tem uma racionalidade eco-


nômica e uma racionalidade ligada mais à dimensão simbólica
cultural, pois a existência do homem na Terra não se dá apenas
pela produção material, mas também por todo um sistema de
ações ligado ao plano subjetivo e intersubjetivo, presente até
mesmo em relações comerciais, a exemplo das feiras e demais
atividades do circuito inferior. Diante da intensa aceleração a
que assistimos hoje, fruto da evolução da ciência, da técnica e da
informação, uma questão precisa ser levada em conta quando se
discute sistemas de comércio, como é o caso da feira. É preciso
que os momentos da divisão do trabalho sejam levados em conta,
uma vez que estes se tornaram muito mais numerosos na consti-
tuição do espaço geográfico, implicando a noção de solidariedade
entre os subespaços que formam um evento. A solidariedade

231
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

apresenta-se na constituição do território sob três formas: aconte-


cer homólogo, acontecer complementar e acontecer hierárquico.
Tratando das formas de solidariedade espacial, ou acon-
tecer solidário, Santos (2009a, p. 166) afirma que o acontecer
homólogo se refere às atividades/produções, que ocorrem num
mesmo subespaço, seja ele a cidade ou o campo. Assim, “numa
região agrícola, esse acontecer solidário é homólogo. Mas,
numa mesma cidade, dominada por uma mesma produção
industrial, é possível identificar esse acontecer homólogo”
(SANTOS, 2009a, p. 166). O acontecer homólogo se refere
às atividades que acontecem delimitadas no espaço urbano
(relações intraurbanas), ou no espaço rural. Como exemplo,
podemos citar as dinâmicas referentes às atividades do comér-
cio, sobretudo no âmbito do espaço urbano e das atividades
localizadas no campo, como a agricultura de subsistência. No
entanto, quando essas solidariedades espaciais se intercruzam,
tem-se um outro acontecer – o complementar.
Nos tipos de interações entre a cidade e o campo, “[...]
como também, nas relações interurbanas” (SANTOS, 2009a,
p. 166), esse acontecer é do tipo complementar. É o caso, por
exemplo, dos donos de tecelagens que residem na cidade, mas
que têm nas áreas rurais do município as pessoas que fazem
o acabamento de produtos têxteis, como é o caso das feiteiras
, isto é, as mulheres que realizam o trabalho de acabamento
das redes de dormir, mão de obra fundamental nessa atividade

232
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

industrial. Podemos citar ainda, como exemplo de acontecer


complementar, as pessoas que residem na área rural e buscam
na cidade, serviços (saúde, educação, bancários, necessidades
básicas etc.), bem como aqueles, tanto do campo como da
cidade, que buscam, em outros centros urbanos, satisfazer
necessidades, abastecer-se de matérias-primas para a atividade
industrial têxtil etc., em cidades e estados vizinhos. Essas
interações fazem parte da organização do espaço, sendo elas
responsáveis pelo fenômeno de crescimento das cidades, bem
como dessa massa que povoa esse subespaço e ainda pela
modernização do campo. Assim, o acontecer complementar
é muito presente em São Bento, desencadeado, sobremaneira
pela atividade de fabricação têxtil que se realiza tanto na cidade
como no campo, num intenso processo de relações entre esses
subespaços, formando circuitos de fluxos (SANTOS, 2009a;
2010; grifos nossos) diversos.
Por fim, o acontecer hierárquico, se refere às ordens e à
informação “[...] provenientes de um lugar e realizando-se
em um outro, como trabalho” (SANTOS, 2009a, p. 166). Esse
acontecer, isto é, essa interação socioespacial não diz respeito
somente aos eventos que vêm de fora e se implantam no
lugar, mas, nesse contexto de mundialização do capital e das
atividades econômicas, há uma direção do lugar para a escala
global. Em São Bento podemos citar, como exemplo desse
acontecer as normas locais que se impuseram às instâncias,

233
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

do acontecer homólogo, sobretudo a partir do segmento


que exporta esses produtos têxteis. Na Feira da Pedra, esse
acontecer é percebido por meio dos produtos chineses e chi-
lenos, que impõem aos feirantes-vendedores locais o fato de
aderirem a esses produtos, no sentido de não ficarem para
trás na concorrência, uma vez que, se não revenderem esses
objetos, outros passam a revender.
Acontecer homólogo e acontecer complementar são, pois,
relações espaciais que “supõem uma extensão contínua, na
cidade e no campo sendo a contiguidade o fundamento da
solidariedade” (SANTOS, 2009a, p. 167); ao passo que acon-
tecer hierárquico é também um tipo de relação espacial em
que as características principais são as relações pontuais, em
rede. Assim, para o primeiro caso temos as horizontalida-
des e, para o segundo, as verticalidades, “[...] novos recortes
territoriais, na era da globalização” (SANTOS, 2009a, p.
168), ou seja, horizontalidades e verticalidades expressam,
respectivamente, relações espaciais ligadas ao local ou regio-
nal e relações associadas às grandes distâncias, envolvendo
interesses extraregionais.
No que se refere às racionalidades de cada um desses acon-
teceres solidários, é preciso fazer algumas considerações: 1) a
racionalidade do acontecer homólogo delimita os espaços onde
tal acontecer ocorre, produzindo o que se conhece por urbano
ou rural, prevalecendo uma racionalidade configurada e/ou

234
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

estruturada a partir do lugar; 2) já o acontecer complementar


é comandado pela racionalidade das necessidades modernas
da produção e do jogo das trocas que criam necessidades entre
campo e cidade, fazendo-os interagir, num processo cujo
resultado produz uma região; 3) por último, a racionalidade
do acontecer hierárquico é fruto da associação do Mercado
Econômico e do Estado; é aquela resultante dos monopólios,
de uma organização hegemônica, cuja característica marcante
é a concentração de comandos localizados em pontos do
espaço, produzindo um território.
Com exceção à racionalidade do acontecer homólogo, a
racionalidade do acontecer complementar e a do acontecer
hierárquico são comandadas em relevância pelas normas
do Mercado e do Estado, que hoje andam cada vez mais
juntas, num processo de configuração e organização espacial
típico de um espaço marcado demasiadamente pelos produtos
resultantes da associação entre técnica, ciência e informação;
economia e política. Evidentemente que dada essa complexi-
dade do espaço geográfico de hoje, há lugares que podem ser
considerados regiões, como, por exemplo, as grandes cidades,
e regiões que podem ser consideradas como lugares, “[...]
desde que a regra da unidade, e da continuidade do acontecer
histórico se verifique” (SANTOS, 2009a, p. 166). É partindo
dessa complexidade, que elencamos a Feira da Pedra, uma

235
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

vez que esse sistema de comércio se realiza mediante esses


aconteceres, que solidarizam o espaço.
De São Bento se dirigem, para essa feira, produtores têxteis
com suas mercadorias, nos fazendo perceber o acontecer
homólogo. Do entorno dessa cidade se deslocam os produtores
provenientes de Aparecida (PB), Brejo do Cruz (PB), Jardim
de Piranhas (RN), Caicó (RN) etc., configurando aqui o que
conhecemos como acontecer complementar; e, do Brasil e do
resto do mundo, de uma forma geral, por meio dos diversos
mecanismos de dissipação de produtos do sistema capitalista,
vêm as normas e as informações que interagem com aquelas
do acontecer homólogo e complementar, configurando o que
ressaltamos como acontecer hierárquico. De maneira quase
que uniforme, o que percebemos no espaço geográfico é uma
sociedade abandonando, definitivamente, as velhas formas
de viver baseadas na labuta tradicional, presas essas formas
de viver ao campo ou à cidade, e, caminhando para um novo
estilo de vida, mais pautado no convívio público social, cuja
racionalidade é aquela ditada pelo Mercado Econômico e
pelo Estado, naquilo que Habermas (2001) chama de ação
estratégica. Vale ressaltar, porém, que as ações do lugar não
são apenas econômicas, mas também simbólicas e culturais.
Entender as solidariedades que configuram o espaço hoje é
perceber também outras ações que não são puramente de
cunho econômico, conforme nos ensina Santos (2009a, p.

236
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

318), quando afirma que a totalidade das relações é que deve


ser apreendida, em estudo como no nosso caso, de situação
de vizinhança: a feira.
Neste período técnico, a racionalização da vida moderna
favorece a expansão das atividades econômicas e políticas,
num processo de racionalização colonizadora da esfera socio-
comunicativa, na qual se realiza a produção e a reprodução
cultural e simbólica da sociedade, percebida no acontecer
homólogo, no lugar, percebida no sistema de comércio feira,
dando-lhe uma nova racionalidade, a racionalidade cada vez
mais marcada pelas rédeas do Mercado Econômico, cujos
sistemas congregadores podem ser percebidos na lógica dos
circuitos econômicos urbanos, quando percebemos as dinâmi-
cas da geografia econômica urbana. Os feirantes e os estabe-
lecimentos comerciais de São Bento, por exemplo, sobrevivem
por meio da desigual distribuição do poder aquisitivo – dis-
tribuição desigual e combinada – (SMITH, 1988, p. 149-151),
da qual a sociedade brasileira, em particular a nordestina, é
formada. A feira é, do ponto de vista econômico, o local que
beneficia todos que fazem parte do seu acontecer. Nela, ganha
o pequeno e o grande feirante-vendedor. Daí a necessidade
de serem mais valorizados esses locais de comércio, cultura
e (re)existência humana, por órgãos cabíveis.
Dentro do processo de organização da Feira da Pedra
enquanto um sistema dinâmico e de fluxos, o colorido dos

237
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

produtos têxteis que enfeitam a paisagem constituída por


essa feira só é percebido ao amanhecer. A formação dessa
paisagem começa a se transformar, já pela madrugada, com
a chegada dos feirantes que vêm de outras cidades, acomo-
dando-se e/ou territorializando aquele pedaço do espaço
público (sobretudo, a Avenida Francisco de Paula Saldanha),
que será seu ponto para comercialização. Grande parte dos
comerciantes desta feira amanhece no local com seus objetos
e instrumentos de trabalho. Durante o seu processo de rea-
lização, a feira transforma a paisagem urbana de São Bento.
A grande concentração de produtos têxteis faz com que,
semanalmente, São Bento, por meio da Feira da Pedra, receba
diversas pessoas, da zona urbana e rural do seu município, dos
demais municípios do Sertão Paraibano e até mesmo de outros
estados, diversificando-se, portanto, os feirantes-vendedores,
e os feirantes-consumidores, mas não somente esses sujeitos
sociais, num processo que impulsiona significativamente o
comércio local.
Dentre os sujeitos sociais, sem ser feirantes-vendedores,
nem feirantes-consumidores, destacam-se: visitantes, turistas;
pessoas do local que ali se encontram apenas para conversar
com amigos, passear; outros que aproveitam a feira para
vender produtos que conseguem transportar ao andar de
um lado para outro, como é o caso de vendedoras de doces
caseiros, concertadores de relógios, vendedores de estofados

238
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

para carros, vendedores de castanhas de caju, e outros que


resolvem implantar um ponto de venda, a partir de seus
trailers, sobretudo vendedores de lanches, beneficiando-se da
atividade feira. Tudo isso faz parte do sistema de fluxos que
esta feira gera a partir desses fixos territoriais constitutivos
da mesma.
Todas essas formas de comércio constitutivas da realiza-
ção da Feira da Pedra no âmbito das atividades do circuito
inferior da economia urbana de São Bento, não somente se
apresentam como alternativas de geração de renda. Assim, a
feira é, antes de tudo, para esses sujeitos, uma possibilidade.
No que concerne ainda ao acontecer complementar,
vale ressaltar a origem dos feirantes-vendedores da Feira
da Pedra, que assim se encontram distribuídos, conforme
pesquisa de campo realizada em 2011: 94% moram na área
urbana de seus respectivos municípios, enquanto apenas o
restante, 6%, residem na área rural desses mesmos municípios.
Esses primeiros são produtores do que comercializam e/ou
produtores e revendedores ao mesmo tempo, assumindo a
posição de comerciantes de produtos têxteis; já os segundos
são sujeitos socioespaciais ligados à realização de serviços
de acabamento de produtos têxteis e, ao mesmo tempo, agri-
cultores que buscam complementar sua renda mensal (ou
melhor, diária/semanal), revendendo esses mesmos artigos
têxteis. Essa realidade decorre do avanço da técnica no espaço

239
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

geográfico de uma maneira geral e em particular no Brasil


e Nordeste, sendo essa modernização tecnológica produtora
de transformações socioespaciais na estrutura do trabalho,
que se reproduz diferentemente em regiões e países. Isso nos
faz lembrar o que M. Santos (1979a, p. 29), ao discutir essa
transformação, afirma que “essa é uma das explicações do
êxodo rural e da urbanização terciária; [...] o mercado de
trabalho deteriora-se e uma porcentagem elevada de pessoas
não tem atividades nem rendas permanentes”, vendo nas feiras
e demais atividades do circuito inferior, uma possibilidade
das condições materiais de sua existência.
Um pouco do que vem a ser essa urbanização terciária
pode ser percebida na Feira da Pedra, em São Bento, quando
identificamos os espaços consumidores dos produtos têxteis
ali comercializados, espaços estes, sobretudo, formados por
diversas cidades espalhadas pelo Rio Grande do Norte e
Paraíba, a priori, e pelo Nordeste e Brasil de uma forma geral
(SANTOS, 2012, p. 227-230). A dimensão espacial resultante
dos locais consumidores dos produtos têxteis da Feira da
Pedra ultrapassa a escala da unidade federativa onde ela se
encontra, espalhando-se pelo Nordeste e Brasil em geral, sendo
a maioria desses municípios e respectivas cidades pertencentes
aos estados da Paraíba e do Rio Grande do Norte (Mapas 2
e 3). Além desses, identificamos também consumidores dos

240
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

seguintes estados e cidades brasileiras: Rio de Janeiro (Itatiaia),


Espírito Santo (Vila Velha) e Pará (Belém).

Mapa 2 – Feira da Pedra: consumidores por estados da região


Nordeste

Fonte: pesquisa de campo, 2011


Elaboração: o autor, 2014

241
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

Mapa 3 – Feira da Pedra: consumidores por municípios de


origem – destaque para os estados da Paraíba e do Rio Grande
do Norte

Fonte: pesquisa de campo, 2011


Elaboração: o autor, 2014

Segundo feirantes-vendedores dessa feira, sobretudo


alguns daqueles que são produtores do que comercializam,
seus produtos são também consumidos pelos seguintes países:
Argentina, Bolívia, Canadá, Uruguai e Paraguai, por meio
da cadeia de exportação dos produtos têxteis de São Bento,

242
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

feita por um segmento do circuito superior atuante na cidade.


Assim, esses países, embora sejam consumidores dos produtos
comercializados na Feira da Pedra, a sua aquisição não se dá
diretamente nesta feira. Isto ocorre, além da exportação, por
meio dos agentes socioespaciais conhecidos como redeiros
(vendedores de redes de dormir), que se configuram, por-
tanto, numa outra forma de distribuição das mercadorias
têxteis produzidas pela indústria têxtil de São Bento, fato já
identificado e trabalhado por Carneiro (2006).
Com realidade parecida a dos feirantes-vendedores, quanto
ao espaço de moradia, os consumidores pesquisados residem
na zona urbana de seus respectivos municípios, representando
um percentual de 84%; ao passo que 16% são domiciliados na
zona rural de seus municípios. A explicação para tal evidência
está no fato de que os municípios de origem dos feirantes-
consumidores não possuem feira livre de redes de dormir e
demais artigos têxteis como é notado no município e cidade
de São Bento. Assim, a população desses municípios, em
espacial a urbana, se utiliza dessa atividade para satisfazer,
ora suas necessidades de compra e consumo doméstico, ora
para aumentar sua renda mensal através da comercialização
desses produtos em suas respectivas cidades de origem.
No processo de aquisição dessas mercadorias têxteis na
Feira da Pedra, os consumidores utilizam-se de diversas
formas de locomoção de suas residências em seus próprios

243
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

municípios até São Bento, dentre elas o transporte a pé, através


de mototáxi, moto própria, carro próprio, carro fretado e o
uso de carro de linha. Assim, cerca de 49%, a maioria desses
consumidores se deslocam até à Feira da Pedra por meio de
carros de linha que se dirigem de seus respectivos municípios
até a cidade de São Bento, seguida daqueles que a esta feira vão
com carro próprio, cuja soma percentual é 38%. Em seguida
encontram-se aqueles que vão a pé (7%), os que se deslocam
por meio de moto própria (3%), de mototáxi (2%) e de carro
fretado (2%). Os que se locomovem até a Feira da Pedra a pé
são geralmente aqueles feirantes-consumidores residentes na
própria cidade de São Bento, juntamente com parte daqueles
que a esta feira vão por meio de mototáxi e moto própria. Já
aqueles feirantes-consumidores que se locomovem até esta
feira por meio de carro de linha, carro próprio e carro fretado
compõem o grupo dos sujeitos socioespaciais residentes em
lugares mais afastados de São Bento, sendo provenientes do
Sertão Paraibano e do Seridó Potiguar. Os que se agrupam
nas formas de locomoção – carro próprio e carro fretado –
são representativos daqueles consumidores provenientes de
outras áreas mais afastadas de São Bento, localizadas tanto
na Paraíba quanto no Rio Grande do Norte e no Nordeste
brasileiro, em geral.
Quanto aos fluxos referentes aos principais produtos
adquiridos por esses consumidores, há uma diversidade de

244
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

dinâmicas, mas sendo a rede de dormir o principal produto


têxtil adquirido, somando aproximadamente 18%, seguido
de panos de prato, que representa aproximadamente 15% de
todos os produtos adquiridos nessa feira. A rede de dormir é
o principal produto têxtil fabricado por São Bento e o pano
de prato, o principal produto têxtil produzido por Jardim de
Piranhas (Gráfico 2).

Gráfico 2 – Feira da Pedra: principais produtos adquiridos


pelos consumidores

Fonte: pesquisa de campo, 2011

Em seguida, aparecem como produtos mais adquiridos


as toalhas e os conjuntos para cozinha, somando, respectiva-
mente, um pouco mais de 14%, acompanhado do consumo
de tapetes (13,38%), dos conjuntos para banheiro (10,83%) e

245
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

das mantas (9,55%). Somando uma porcentagem de aproxi-


madamente 2%, aparecem, respectivamente, os consumos de
cordões para confecção de varandas e a aquisição dos chapéus
e bonés, esses últimos produzidos na cidade potiguar de Caicó.
Os fios, capas para sofá e as colchas de cama são também
produtos adquiridos pelos consumidores, somando, respec-
tivamente, 0,32% do total de mercadorias têxteis adquiridas,
na Feira da Pedra. Tal fato demonstra o peso que São Bento e
Jardim de Piranhas têm na composição dos produtos encon-
trados na Feira da Pedra, bem como a importância que essas
duas cidades possuem no âmbito regional quanto à produção
industrial têxtil em seus respectivos estados, Paraíba e Rio
Grande do Norte.
É importante ressaltar que tais produtos comercializados
nessa feira, atualmente, penetram o Rio Grande do Norte,
sem complicações nos postos fiscais, pois não há fiscalização
quanto à entrada e/ou saída desses produtos na fronteira
dos territórios.
Quanto ao volume da produção local, tem-se difi-
culdade de uma avaliação, pois não há dados oficiais
sobre o assunto, nem mesmo do número de feirantes
que dela fazem parte, já que eles não são cadastrados, o que
forma um cenário típico do circuito inferior, cujas caracterís-
ticas, além das já enfocadas neste livro, são uma multiplici-
dade de microterritórios. De acordo com Foucault (2007), os

246
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

poderes se organizam em formas locais e instantâneas, o que


é característico nas feiras livres. Na Feira da Pedra, é notório
o poder apresentando-se nos fragmentos de ruas e avenidas
da cidade, nas diferentes atividades parcelares que formam
essa feira, possibilitando perceber o meio urbano atual tam-
bém como uma multiplicidade de pequenos microterritórios,
cujas relações coletivas humanas acontecem numa rápida
dinâmica no que diz respeito à construção e desconstrução
de espaços de sobrevivência, de convivência e da transitorie-
dade dos indivíduos. Essas microterritorializações urbanas
evidenciadas na Feira da Pedra aproximam indivíduos, uma
vez que fundamentam concretamente formas e conteúdos e
relações coletivas socioespaciais, fazendo com que durem certos
processos entre feirantes-vendedores e feirantes-consumidores,
que, movidos por uma vontade frenética de experimentação e
consumo de produtos têxteis diversos comercializados nesta
feira, a vivificam/dinamizam, dando forma, função, processo
e estrutura. Vale ressaltar ainda que o poder exercido nesses
microterritórios se configura também a partir do ponto de
vista simbólico, no sentido de “poder quase mágico que permite
obter o equivalente daquilo que é obtido pela força (física ou
econômica), graças ao efeito específico de mobilização, só se
exerce se for reconhecido, quer dizer ignorado como arbitrário”
(BOURDIEU, 2006, p. 14), já que existe um respeito e reco-
nhecimento, por parte dos feirantes-vendedores, de cada canto

247
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

(microterritório), como um subespaço do outro. Quando isso


é transgredido têm-se conflitos, hostilidades e animosidades.
Com relação aos comércios fixos (sobretudo aqueles de
venda de mercadorias têxteis), que se localizam ou não nas
imediações da feira, a sua dinâmica é significativa, no sentido
de que praticamente todos os estabelecimentos comerciais,
de produtos têxteis ou não, se voltam para a realização da
Feira da Pedra. Tal fato altera, por horas, o cotidiano urbano
de São Bento, cuja paisagem passa a ser marcada por intenso
movimento de transportes e pessoas. Assim, os fluxos gerados
e/ou relacionados por essa feira dinamizam a paisagem em
circuitos econômicos e circuitos de fluxos de pessoas, de
mercadorias, de transportes etc., sobretudo mediante ações
e interações socioespaciais de sujeitos paraibanos e norte-rio-
grandenses que se relacionam com a Feira da Pedra.
A Feira da Pedra desempenha uma importância não
apenas no âmbito local, mas também em nível regional,
no que diz respeito aos serviços gerados e aos produtos
comercializados. Localmente, ao ar livre, é comercializada
grande parte dos produtos têxteis fabricados em São Bento,
os quais são produzidos pelos pequenos, médios e grandes
produtores têxteis locais, que veem nesta feira uma oportu-
nidade de comercializarem suas mercadorias, aumentando
assim o mercado dos seus produtos, os fluxos e as dinâmicas
socioespaciais. Regionalmente, sua importância advém do

248
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

fato de os produtores de artigos têxteis das demais cidades da


região, tanto do Sertão Paraibano quanto do Seridó Potiguar,
venderem seus produtos têxteis neste sistema de comércio
urbano, disputando o mercado local, conforme já percebeu
Carneiro (2006).
Os territórios do Sertão Paraibano e do Seridó Potiguar
que têm indústria têxtil de fabricação de redes de dormir e
outros produtos têxteis que se ligam à Feira da Pedra, desve-
lando a especificidade dos mesmos nesta atividade industrial,
são representativos principalmente por Jardim de Piranhas
e Caicó. Já os territórios do Sertão Paraibano, destacam-se
Aparecida, Catolé do Rocha e Brejo do Cruz (Mapa 4). Nesse
sentido, a Feira da Pedra forma uma região do ponto de
vista dos espaços produtores de artigos têxteis que a ela se
somam, juntamente aos demais sujeitos socioespaciais que a
constroem, produzindo-a e reproduzindo-a em seu processo
configurativo, materializado na sua forma e função.

249
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

Mapa 4 – Sertão Paraibano e Seridó Potiguar: municípios de


onde provêm produtores e produtos têxteis à Feira da Pedra

Fonte: pesquisa de campo, 2011


Elaboração: o autor, 2014

Jardim de Piranhas destaca-se na atividade industrial


têxtil por suas fábricas e/ou tecelagens de panos de prato,
redes de dormir, toalhas, mantas, conjuntos para cozinha,
dentre outros artefatos, conforme Santos e Carneiro (2009).
Essas fábricas são a base de uma atividade econômica que
sustenta grande parte da população desse município, gerando
em potencial emprego e renda. Essas fábricas formam um
segmento bastante expressivo, em cujo processo, materializado

250
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

em sua paisagem, é representativo da forma das residências


se convertendo, cada vez mais em unidades fabris.
Possuindo fábricas de redes de dormir, bonelarias, chape-
larias, Caicó tem uma relação menos intensa do que Jardim
de Piranhas com a Feira da Pedra, no sentido de a essa ativi-
dade se articular por meio de bonés e chapéus. No entanto,
é sabido que no Seridó Potiguar, “a confecção dos bonés e
as outras atividades produtivas como chapelaria, facções,
malharias, tecelagens de redes, fábricas de panos de prato,
confecção de bordados confirmam a existência de uma voca-
ção têxtil [...]” (LINS, 2011, p. 191) nessa região.
Aparecida e Catolé do Rocha fazem parte dessa feira, arti-
culando-se a ela, sobretudo por meio de venda de cobertores,
redes, cordões, fios e varandas. Brejo do Cruz se destaca pela
participação, nessa feira, com a comercialização de suas redes
de dormir e de cobertas. Assim sendo, não somente através
dos agentes produtores dos produtos comercializados na Feira
da Pedra conseguimos identificar uma região, mas também
através dos produtos comercializados nessa feira, que não se
restringem apenas ao local, mas às suas adjacências, formando
uma região de consumo, cuja representação configura-se em
diversas cidades do estado da Paraíba e do Rio Grande do
Norte, no sentido de que se encontra nesses dois estados do
Nordeste brasileiro uma quantidade significativa de cidades,
em que a presença de diversos pontos de comercialização de

251
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

produtos têxteis adquiridos na Feira da Pedra é uma marca


da paisagem. Exemplo disso são os municípios norte-rio-
grandenses e paraibanos identificados no Mapa 3, dentre
outros. Nesse sentido, a Feira da Pedra é resultado não apenas
da produção local, mas também “[...] do que é produzido no
conjunto de lugares de um espaço dado, e envolve lugares
próximos, e também longínquos, graças ao alargamento dos
contextos tornado possível com os progressos nos transportes
e nas comunicações e com a estandardização da produção”
(SANTOS, 2009a, p. 59).
Isso demonstra que as condições do meio geográfico, tais
como se encontram atualmente, possibilitam os fenômenos
espaciais em função dos avanços da técnica de transporte
e de comunicação acontecerem e se realizarem mediante
relações e interações socioespaciais, o que nos fez perceber
que, em São Bento, há um processo tal qual aquele verificado
por Santos (2009a, p. 324):

uma variedade infinita de ofícios, uma multiplicidade de


combinações em movimento permanente, dotadas de grande
capacidade de adaptação, e sustentadas no seu próprio meio
geográfico, este sendo tomado como uma forma-conteúdo,
um híbrido de materialidade e relações sociais.

252
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

Esse fatocomplexifica a geografia econômica urbana ainda


mais no atual período técnico, sobretudo o circuito inferior,
que, de acordo com Silveira (2004, p. 20), “[...] es la forma de
supervivencia de la mayor parte de la población brasileña”,
comportando atividades “[...] vistas como irracionales, como
formas de atraso, como economía tradicional”, dos quais o
sistema feira é constitutivo.
Em São Bento, por meio da comercialização têxtil na Feira
da Pedra, renda significativa na cidade e região é gerada, no
sentido do consumo das mercadorias têxteis e também do
consumo verificado em restaurantes, postos de gasolina e
outros estabelecimentos comerciais, o que gera e aumenta
a economia. Assim, a importância dessa feira para a região
do Sertão Paraibano e do Seridó Potiguar, nesse contexto em
que o circuito inferior encontra-se com mais expressividade
nos espaços urbanos, principalmente abarcando as cidades
onde antes sua presença era quase insignificante, como é o
caso das pequenas e médias cidades, se justifica por esses
motivos, pois num local onde as pessoas fazem a feira – seja
pelo fato de a economia local se ligar à indústria têxtil, seja
em função da falta de outra oportunidade de trabalho, seja
ainda pelo prazer e gosto em realizar essa atividade – esses
apontamentos reforçam o papel econômico e socioespacial
da Feira da Pedra no âmbito regional e local.

253
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

O pensador francês Edgar Morin, em seu livro Introdução


ao Pensamento Complexo (2011), discorre sobre o conceito de
racionalidade, buscando também esclarecer os significados
dos conceitos de razão e racionalização. A razão diz respeito
à “[...] vontade de ter uma visão coerente dos fenômenos, das
coisas e do universo. A razão tem um aspecto incontesta-
velmente lógico” (MORIN, 2011, p. 70). A racionalidade “é
o jogo, é o diálogo incessante entre a nossa mente, que cria
estruturas lógicas, que as aplica ao mundo e que dialoga com
este mundo real” (Idem, ibidem). Por fim, a racionalização “[...]
consiste em querer prender a realidade num sistema coerente.
E tudo o que, na realidade, contradiz este sistema coerente
é afastado, esquecido, posto de lado, visto como ilusão ou
aparência” (MORIN, 2011, p. 70). A racionalização, pelo fato
de não estabelecer nítida fronteira com a racionalidade, se
confunde com a mesma. No entanto, são conceitos distintos.
Os aconteceres: homólogo, complementar e hierárquico,
bem como suas diferentes racionalidades, que são respectiva-
mente: local, regional/nacional e global, foram, sobretudo, a
partir da atividade industrial têxtil de fabricação de redes de
dormir e derivados, os vetores da formação e/ou constituição
do “[...] meio técnico-científico-informacional incompleto
de São Bento” (CARNEIRO, 2006, p. 126) e responsáveis
pela característica de alguns aspectos do circuito inferior
presentes na Feira da Pedra, como, por exemplo, conversar

254
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

e ouvir, que são ações que envolvem o ato de negociar, cuja


prática criada, apropriada e partilhada pelos feirantes tem
um destino comum: a lógica de sobrevivência – no caso dos
pequenos feirantes-vendedores – e a lógica do vender para o
ter – caso dos feirantes-vendedores de maior barganha. Ou
seja, racionalidades distintas. Assim, do ponto de vista das
racionalidades que a constitui, a Feira da Pedra, pode ser
também entendida como um espaço simbólico no sentido de
que feirantes e consumidores estabelecem relações de trocas
materiais e simbólicas. Desse modo, a feira não se constitui
apenas como um local de compra e venda de mercadorias
têxteis, mas também em um lugar de reciprocidade, onde
as trocas que ocorrem entre feirantes e consumidores se
fundamentam nas afinidades, nos laços de amizade e nos
vínculos afetivos. As relações de confiança e reciprocidade
são uma marca significativa, marcando o sistema de ações
econômicas estabelecidas por esses sujeitos socioespaciais.
Grande parte dos consumidores da feira não busca apenas
a compra de produtos têxteis, mas sim realizar encontros,
conversas, passeios etc. Os consumidores fregueses se dirigiam
à barracas/pontos específicos de feirantes em que, ao longo do
tempo de idas a essa feira, construíram relações de amizade
com eles, passando a comercialização dos produtos têxteis
realizada na Feira da Pedra a ser impregnada de sentimentos
de dádiva e consideração (Figura 6).

255
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

Figura 6 – Feira da Pedra: relações de afetividade/sociabilidade


entre feirante e consumidor

Fonte: pesquisa de campo, 2011


Foto: o autor, 2011

Esse tipo de relação é construída ao longo do tempo,


resultante, em parte, das conversas que ambos estabelecem
durante o ato da compra e venda das mercadorias têxteis, bem
como da propaganda verbal feita pelos feirantes e do toque e
“teste” que os consumidores fazem nos produtos antes de os

256
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

comprarem. Tais relações não são possíveis em outras formas


de comércio, como aquelas típicas do circuito superior, a exem-
plo dos supermercados, em compras realizadas em shopping
centers e pela internet. Esta última, com a intensificação do
sistema informacional, sobretudo a partir dos anos de 1990,
cresceu consideravelmente, se tornando uma realidade e
afetando, de certa forma, a configuração do circuito inferior,
dando-lhe um caráter miscigenado, permeado por elementos
antes típicos do circuito superior.
Vale ressaltar com isso que a escolha dos produtos têxteis
por parte dos consumidores, já elencada anteriormente, não
se dá apenas mediante o preço ou a qualidade do produto,
mas também pela relação comunicativa e/ou comunicacional
que se trava com os feirantes, ocorrendo, além da troca de
bens materiais, troca de palavras, fato que culmina quase
sempre na venda de um determinado produto têxtil por um
preço mais barato ou na aquisição por parte do consumidor
de quantidades maiores de mercadoria com descontos e/ou
facilidades de pagamento, tudo em troca da amizade e/ou da
confiabilidade que se constrói com aquele feirante.
Buscando entender um pouco mais essa relação, debru-
çamo-nos em alguns pensadores antropológicos, dos quais
destacamos Sahlins (1979): Cultura e Razão Prática e Marcel
Mauss a partir de Lévi-Strauss (1974), em seu livro: Introdução
à obra de Marcel Mauss, que destacam e/ou dão ênfase às

257
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

múltiplas racionalidades presentes nas relações de troca


realizadas por povos passados, das quais enfatizam prin-
cipalmente certos hábitos, sentimentos de dádiva, rotinas,
e reciprocidade, presentes no ato da troca, de certa forma,
ainda presentes nas feiras livres. Para esses autores, em locais
de troca como as feiras livres, não ocorrem apenas as rela-
ções econômicas. Os ditames econômicos não são os únicos
vetores de realização da feira. Apesar de no atual período a
racionalidade econômica ser dominante nas ações e interações
socioespaciais, percebemos, não apenas na Feira da Pedra,
outras racionalidades, determinadas pelos feirantes e consu-
midores, que não são pautadas exclusivamente pelos valores
econômicos, cuja racionalidade é a materialidade. Assim,
existem as relações afetivas, subjetivas, o que entendemos
também serem fatores válidos para outros setores do circuito
inferior da economia urbana, fazendo com que sua vitalidade
permaneça com vigor e expressão significativa na sociedade
do presente. Nas feiras e nos mercados públicos, essa racio-
nalidade se faz presente desde o início de suas origens, no
sentido de que “[...] tornaram-se locais que, além de fornecer
mercadorias para os consumidores, proporcionavam também
distração e divertimento” (CLEPS, 2004, p. 120). Assim, “as
feiras e os mercados públicos, realizados nas áreas centrais
das cidades, transformaram-se em lugares de encontros, de
festas, de liberdade, de acordos, de contratos e de negócios”

258
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

(CLEPS, 2004, p. 122). A feira é um lugar que se apresenta


como uma construção histórica e singular, embora relacional,
carregada de simbolismo e significados para aqueles que dela
participam, apresentando-se com um conteúdo muito forte de
experiências, sentimentos de identidade e de pertencimento
individual. Assim, as trocas materiais são correlacionadas
também às distintas formas simbólicas do cotidiano e aos
sentimentos de confiança e afetividade tecidas pelos sujeitos
socioespaciais que a realizam, fato já identificado no passado
pelos antropólogos Marcel Mauss, Sahlins (1979) e Lévi-
Strauss (1974), que destacaram a importância das múltiplas
racionalidades presentes nas relações de troca em sociedades
por eles estudadas.
De acordo com Lévi-Strauss, as relações de dádiva
e reciprocidade, que foram estudadas por Malinowski
(1984), em seu estudo etnográfico acerca dos argonautas
do pacífico ocidental, não foram características e tipos
de relações apenas típicas da sociedade moderna, mas
encontradas primeiramente naquelas sociedades primi-
tivas. A esse respeito, afirma que “[...] os próprios indíge-
nas melanésios [povos estudados por Malinowski (1984),
em especial nas páginas 71-86; 260-270, foram os] verda-
deiros autores da teoria moderna da reciprocidade” (LÉVI-
STRAUSS, 1974, p. 20). Nas relações de trocas, sobretudo
naquelas típicas do circuito inferior da economia urbana, as

259
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

relações econômicas encontram-se misturadas às relações sub-


jetivas, afetivas, que são desenvolvidas pelos sujeitos durante
o ato de compra e venda das mercadorias. Assim, de acordo
com Sahlins (1979), até mesmo as relações econômicas estão
baseadas nas relações culturais, fato que percebemos na Feira
da Pedra e no circuito inferior de uma forma geral. Isso
significa que a objetividade, a compra e a venda dos produtos
têxteis comercializados na Feira da Pedra não é exclusiva,
no sentido de que outras relações de configuram, marcadas
pela subjetividade e práticas simbólicas, afetivas, sendo essa
talvez uma dimensão forte do circuito inferior nesse meio
e período técnico, já que esse circuito é formado, em parte,
pelos homens lentos (SANTOS, 2008b; grifos nossos), que na
cidade vivem e fazem dela uma possibilidade.
Na Feira da Pedra, feirantes dos mesmos produtos têxteis,
quando um colega precisa ir lanchar ou ir ao banheiro, tomam
de conta do ponto de venda do colega. Ou seja, as trocas de
favores entre esses sujeitos socioespaciais é uma constante.
O fato de um feirante “tomar de conta” do ponto de venda
do outro é um tipo de racionalidade que na sua concretude é
também responsável pelo acontecimento/realização da feira,
pois, as relações afetivas, de amizade criam uma obrigatorie-
dade moral de oferecer auxílio e/ou favores entre os feirantes.
Nesse sentido, a racionalidade econômica, poderíamos cha-
mar de racionalização, uma vez que quer se impor por meio

260
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

dos mecanismos do poder e do dinheiro. As feiras podem


ser analisadas enquanto materialidade, mas são passíveis
também de serem compreendidas em seus conteúdos social,
econômico e cultural-ideológico, fato que revela, portanto,
suas racionalidades e racionalização. Nesse sentido, é preciso
“[...] levar em conta o fenômeno estudado e a sua significação
em um dado momento, de modo que as instâncias econô-
mica, institucional, cultural e espacial, sejam adequadamente
consideradas” (SANTOS, 2008a, p. 14; grifos do autor). Daí
Santos (2009a) ter proposto que, na análise do espaço ou
do território, fosse compreendida a indissociabilidade entre
espaço e tempo, no sentido de que existe a indissociabilidade
entre forma e conteúdo, processos e funções, sendo, nesse
sentido, reduzidos os riscos de objetivação das ações, que não
se dão apenas por um viés, mas por múltiplos.
Nesse contexto, parafraseando Santos (2005b, p. 126), “[...]
nem todos reza[m] pela mesma cartilha [...]” é que destacamos
que “cada teoria tem o método que lhe é adequado, mas que,
ainda assim, aproveitando a ciência passada [e presente] como
material de reflexão, não pode deixar de ser constantemente
submetida à crítica” (CARDOSO, 1971, p. 10), nem deixar de
destacar novos elementos que a história do presente revela
tal qual é a dimensão cultural da feira, que revela outras
racionalidades e enriquece a abordagem. Isso parte de uma
preocupação, a priori, com o método enquanto lógica de

261
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

investigação, no sentido de que sabemos que não existe uma


lógica definida da descoberta, uma vez que a sociedade e o
espaço são dinâmicos, no tempo, assim como a própria ciência.
Não queremos dizer que o método e a teoria aqui adotados não
serviram, mas destacar que o olhar a partir de outras espe-
cificidades, que não sejam aquelas típicas da racionalização
econômica, facilita a abertura do pensamento e a flexibilidade
de raciocínio e de percepção de outras dimensões inerentes ao
fenômeno estudado, de modo que aprendemos a nos deixar
guiar pela teoria e pelo método, no entanto sem se escravizar
a ele, dadas as especificidades dos objetos e das ações que
constituem o espaço. “Neste sentido, fica claro que não é
uma lógica que dá validade à pesquisa, mas ao contrário. O
compromisso do cientista é, em última instância, sempre com
a realidade e não com uma lógica” (CARDOSO, 1971, p. 11).
O fato de, na Feira da Pedra, estar muito presente os
elementos cultura e sociedade, além do econômico, reve-
lando outras racionalidades, deve-se ao período do pre-
sente que configura lugares e pessoas e os (des)organizam
configurando realidades que não se explicam apenas por
uma lógica, mas por complementaridades tal qual é esse
amálgama de sistemas de objetos e sistemas de ações que
constituem o espaço geográfico, do qual os fenômenos
socioespaciais são formados, a exemplo das feiras livres.
Assim, como dizia Bachelard (1978, p. 196), se o espaço é

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GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

compreendido nessa perspectiva, “[...] não pode ficar sendo o


espaço indiferente abandonado”, pois ele “é vivido. E é vivido
não em sua positividade, mas com todas as parcialidades [...]”,
o que é visível no circuito inferior da economia urbana, a
partir das feiras livres. Essa concepção de Bachelard parece
aproximar-se da de Milton Santos quando discute o uso do
território, afirmando que este uso se dá pela dinâmica dos
lugares. Para esse autor, o lugar é compreendido como sendo
o espaço do acontecer solidário (SANTOS, 2009a; 2010). O
que resulta dessa solidariedade (relação socioespacial) são
usos com valores de natureza: econômica, política, cultural,
social dentre outras, o que são responsáveis por múltiplas
racionalidades e racionalizações resultantes das coexistên-
cias, uma vez que são constitutivas dos territórios, do espaço
geográfico. É no lugar onde as coisas existem e coexistem,
uma vez que é nessa categoria que percebemos os impactos
do mundo e, de certa forma, o controle deste em relação
aquele. A Feira da Pedra é, nessa perspectiva, o lugar do
mais autêntico mostruário da cultura de fabricação de redes
de dormir e derivados dessa indústria presente na região
Nordeste brasileiro. É um meio apropriado à mostra des-
ses produtos e luta pela sobrevivência, não deixando de ser
também retrato das diversidades sociais e das interatividades
entre circuito superior e circuito inferior da economia urbana,
num processo de coexistência e permeabilidade marcado

263
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

pela rigidez e flexibilidade frente às inovações capitalistas,


assumindo, nesse período técnico-científico-informacional,
novas funções, embora limitadas pela sua estrutura, como
é o caso da comercialização de produtos têxteis exógenos,
mostrando que mundo e lugar, neste período, constituem um
par indissociável, sendo o lugar a concretude desse processo
marcado por múltiplas racionalidades.
A esse respeito cabe mencionar Richard Hartshorne,
quando explica que a multiplicidade das inter-relações dos
fenômenos que compõem a Terra, não se realizam com o
mesmo grau de aproximação, no sentido de alguns fenômenos
estarem muito próximos e outros interligados, apresentando
influência sutil na determinação de um espaço. Segundo
este autor,

Qualquer que seja a extensão da área estudada interessa-


nos analisar uma integração de fenômenos extremamente
complexa. Para decompor essa dupla complexidade de
maneira mais viável, é necessário, em qualquer pesquisa
geográfica, empregar dois diferentes métodos de análises:
segmento de integração e seções de áreas (HARTSHORNE,
1978, p. 120, grifos nossos).

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GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

É essa “integração de fenômenos extremamente complexa”


que tentamos apontar como sendo a responsável por diversas
racionalidades que a Feira da Pedra apresenta. Dessa forma,
enquanto um segmento de integração de racionalidades que
é, ela não deixa de ser também entendida como seções de
dimensões diversas, seja a dimensão econômica, cultural e
social das quais o circuito inferior é constituído.
Não entendendo isso como um fenômeno e/ou um pro-
cesso separado, dividido, mas inter-relacionando buscando
compreender os contrários e/ou as diferenças, pois a feira
é também uma unidade com diversas faces em constante
movimento, cuja marca se enquadra nas contradições que
se negam, mas que se combinam e a realizam e se misturam
na trama socioespacial.
É dentro desse campo de diferentes racionalidades que
podemos comparar a Feira da Pedra ao próprio espaço geo-
gráfico, no sentido de que “há, de um lado, uma economia
explicitamente globalizada, produzida de cima, e um setor
produzido de baixo [...]” (SANTOS, 2009a, p. 323; grifos
do autor), o qual podemos chamar de “um setor popular”,
no âmbito dos países pobres, representativo de um circuito
inferior e, um “setor desprivilegiado” nos países ricos, embora
com menos intensidade que aquele, mas constituindo uma
mesma realidade que é esse subsistema da geografia econô-
mica urbana – circuito inferior. Assim sendo, entendendo

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GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

esse período técnico, científico e informacional, necessário


se faz compreender também as dinâmicas inerentes a sua
oposição, ou seja, a um período popular, que, nas palavras
de M. A. Aparecida de Souza (2003, p. 13; grifos da autora):

Milton [Santos] cansou-se de afirmar em seus textos,


conferências e palestras que o futuro agora é a âncora e
que, por isso mesmo, poderia garantir que era promissor
e que sua construção seria feita pela maioria dos povos
da Terra. Era o que ele denominou, mas não teve muito
tempo para elaborar, de período popular da história. E ia
mais além, chamando a atenção para que observássemos
os homens pobres e lentos do planeta que, sem se deixar
levar pela volúpia do tempo presente, estavam, lenta-
mente, construindo o seu futuro. Estes são a maioria,
cuja existência se fundamenta na cotidiana batalha pela
sobrevivência que se consolida a cada dia com a argamassa
da solidariedade e a busca pela liberdade [percebida no
circuito inferior da economia urbana].

Lembremos também Ribeiro (2004), quando discute


Oriente integrado: cultura, mercado e lugar, destacando a
negação da dor e dos conflitos que geraram as formas urbanas
do presente, cuja racionalização é aquela tecnocultural se
impondo sobre o mercado e suas racionalidades. A Feira da

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GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

Pedra produz um movimento espontâneo e efetivo de sujeitos


socioespaciais com a finalidade do consumo, mas que, no pro-
cesso de sua realização, outras ações são tecidas. Embora sendo
um comércio popular, essa feira representa também a força do
mercado hegemônico, que não busca, senão outra coisa, o valor
de troca, negando a todo instante a força criativa do homem
lento que se sustenta não apenas na racionalização do mercado,
mas na sociabilidade (RIBEIRO, 2004), na racionalidade das
geograficidades do lugar. Nesse sentido,

O mercado socialmente necessário, como memória e pro-


jeto, possui raízes ancestrais, ainda anteriores àquelas
que alimentam a concepção hegemônica de mercado. O
ator proposto-pensado literalmente de baixo para cima,
corporificado e territorializado – corresponde, potencial-
mente, ao circuito inferior [...] (RIBEIRO, 2005, p. 12468).

Quando trazemos alguns elementos da dimensão cultural


da Feira da Pedra, cuja marca principal centra-se na dinâmica
da cotidianidade, de uma geograficidade dos sujeitos que
dela participam, estamos falando dessa marca de homens e
mulheres que lutam pela sobrevivência, em cujas práticas e
ações carregam elementos diversos, tanto econômicos, quanto
sociais, afetivos e culturais, em que o resultado compõe as
múltiplas racionalidades frente à racionalização econômica,

2 67
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

pois a Feira da Pedra é também, na realidade, uma manifes-


tação cultural de uma sociedade que se relaciona de diversas
formas em seu mundo vivido e/ou espaço de sobrevivência,
em cuja base explicativa está a existência humana. Assim,
fica evidente que as cidades são compostas de espaços, que
não são formadas por dimensões meramente econômicas,
mas também por fatores políticos e culturais, numa dialética
constante. Daí ser oportuno lembrarmos o que disse Silva
(1989, p. 5, grifos do autor):

Precisamos perder a preocupação com separação e divisões.


Marx ensinou: ‘tudo tem a ver com tudo’. É necessário que
aprendamos a raciocinar em espiral, acompanhando o
movimento da matéria social, refletindo, isto é, dando uma
volta completa sobre o fato e dentro dele, relacionando o não
com o sim e vice-versa, quer dizer, inter-relacionando os
contrários, as diferenças. Essa é a lógica da dialética, da qual
a lógica formal constitui apenas um momento – a aparência.

Em seu trabalho, Em Direção a uma Geografia Cultural


Radical: problemas da teoria, publicado originalmente no
ano de 1983, Cosgrove (2007) já propunha uma análise dos
fenômenos que envolviam a cultura, a partir de uma análise
que levasse em conta um diálogo entre “Geografia marxista” e
“humanista”. Nesse sentido, “[...] toda atividade humana é, ao

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GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

mesmo tempo, material e simbólica, produção e comunicação”


(COSGROVE, 2007, p. 3), tendo em vista ser uma construção
que se dá socialmente. Reforçamos, pois, a necessidade de
se levar em consideração a dimensão simbólica quando se
discute o circuito inferior, uma vez que pouco se ganha,
dentro desse meio e período técnico-científico-informacional,
quando não se leva em consideração essa realidade, bem
como o seu caráter complementar e miscigenado. Excluir esse
conteúdo da definição do que é o circuito inferior atualmente,
extremamente percebido empiricamente, implica reduzir o
circuito inferior “[...] a uma categoria objetiva, negando sua
subjetividade essencial” (COSGROVE, 2007, p. 3), resultante
da ininterrupta (re)produção e (re)organização do espaço,
nesse período técnico-histórico-geográfico. Nessa perspectiva,
com base em Cosgrove (2007), é preciso uma cooperação entre
os estudiosos da “geografia cultural humanista” e aqueles da
“geografia social marxista”, para que, em conjunto, se possa
explorar o mundo do homem (a existência humana) e sua
geograficidade, haja vista tudo ser uma construção social,
com forte carga de conteúdo objetivo e subjetivo.
Diante disso, é notório que o pressuposto básico da
dialética está no sentido de que as coisas não estão na sua
individualidade, mas na totalidade, que, segundo Kosik (1995),
se centra em primeiro lugar em saber o que é e qual a impres-
são que temos da realidade. Isso significa que o ponto de

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GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

partida, os fatos empíricos, bem como o ponto de chegada a


sua compreensão, requer que apreendamos um pouco de sua
concretude processual, interpretando os opostos, no sentido de
que tudo tem a ver com tudo, num movimento que é causado
por elementos contraditórios coexistindo numa totalidade
estruturada. Só assim, a dialética não é apenas um método
que busca chegar a uma “verdade”, mas uma concepção de
homem e de espaço geográfico, cujos resultados são as diversas
racionalidades oriundas do existir humano.
O fato de a população pobre não dispor de meios eficazes
para participar plenamente de formas mais modernas de
comércio, sobretudo no Nordeste brasileiro, faz com que haja
e permaneça a modalidade de comercialização e troca – a
feira –, representando não apenas essa dimensão de racio-
nalização econômica, mas também o lugar aproximativo,
da convivência e da solidariedade, que se configura como
condição que permite a construção de uma cultura que vai
de encontro às racionalizações, embora convivendo e comple-
mentando-se. Dessa forma, tanto a feira quanto as modernas
formas de comércio hoje existentes têm a mesma origem: o
processo de (re)produção do capitalismo que é ao mesmo
tempo materialidade e subjetividade, pois é uma construção
social, aproveitando-se dessas duas lógicas para se manter e
se reproduzir territorialmente, no trabalho, no cotidiano e
ganhando formas diversas ao longo do tempo, num processo

270
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

de confrontação de racionalidade e racionalização, expressas


na cultura, na geografia econômica urbana. Assim sendo,

Gente junta cria cultura e, paralelamente, cria uma eco-


nomia territorializada, uma cultura territorializada, um
discurso territorializado, uma política territorializada.
Essa cultura da vizinhança valoriza, ao mesmo tempo, a
experiência da escassez e a experiência da convivência e
da solidariedade (SANTOS, 2010, p. 144).

É dessa maneira que a feira enquanto manifestação do


circuito inferior, nesse período e meio técnico, afirma-se como
alternativa/possibilidade para os pobres. A feira enquanto
uma contrarracionalidade em relação à racionalização hege-
mônica do mercado possibilita uma alternativa e um novo
significado e importância às centenas de cidades espalhadas
pelo Nordeste, sendo, portanto, de grande importância a uma
parcela considerável da população brasileira.
Diante de tudo isso, é preciso levar em consideração as
diversas racionalidades que o fenômeno estudado envolve, pro-
curando pensar abordagens teórico-metodológicas que bus-
quem uma aproximação mais fidedigna de sua manifestação,
sobretudo no âmbito da geografia econômica urbana, marcada
por racionalidades diversas, como percebemos nos circuitos
econômicos, já que: 1) o circuito superior é originado e voltado

271
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

unicamente para fora, ou seja, ele quase não desenvolve outra


dinâmica nesses países pobres, não passando, nesse sentido,
de mera imitação do setor moderno dos países desenvolvidos;
2) as características dos dois setores não são mutuamente
exclusivas. Hoje, o processo de distribuição torna possível
uma equiparidade dos produtos vendidos nas grandes lojas e
nas pequenas lojas, e até mesmo nos ambulantes e nas feiras
livres. Em outras palavras, os produtos comercializados pelo
circuito superior e inferior não são voltados exclusivamente
para uma parcela da população. Dessa forma, muitas carac-
terísticas dos dois circuitos não podem mais ser empregadas
em uma análise atual da economia urbana, sem que se levem
em consideração as dinâmicas do momento atual. Exemplo
disso seriam os estoques, que, segundo M. Santos (1979a),
quando em grandes quantidades, são atribuídos ao circuito
superior e, em pequenas quantidades, são característicos do
circuito inferior. Tal afirmação foi condizente com a década
de 1970, caracterizada pela predominância, sobretudo nos
países subdesenvolvidos, do modelo fordista. No período
atual, a flexibilidade e a adaptabilidade são condições cada
vez mais importantes da economia, e têm como consequências
a redução, e até mesmo ausência dos estoques em segmentos
do circuito superior.
É com essa concepção concreta do mundo sensível que
devemos pensar o fenômeno socioespacial e econômico feira

272
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

enquanto uma manifestação do circuito inferior, uma vez que


é preciso, dentro do período técnico que vivemos, sabermos
das várias racionalidades que o fenômeno apresenta, o que
nos leva a concordar com Cardoso (1971, p. 16), para quem
“[...] fazer ciência transforma incessantemente o método. E
é essa capacidade de transformação sempre presente que dá
caráter de científico. Ele só permanece intacto, fechado, se
não for posto em prática ou se o for, mas de forma contrária
ao progresso da ciência”. Assim, é preciso levar em conta no
estudo das feiras livres essa premissa, percebendo as múltiplas
racionalidades do espaço, uma vez que há sempre, e em todos
os graus, diferenciações a apreender e analisar, partindo do
lugar. Não obstante, a utilização, neste estudo, da proposta
de M. Santos (1979a) de entender a geografia econômica
urbana a partir da modernização tecnológica, que engendra
dois circuitos econômicos na cidade, o circuito superior ou
moderno e o circuito inferior, se fez relevante pela necessi-
dade, mais uma vez reforçamos, de compreender o fenômeno
feira no período histórico atual, com sua dinâmica e marca
impressa nos lugares, cada vez mais complexa, dada sua
forma-conteúdo.

273
Capítulo 7
ASPECTOS
SOCIOESPACIAIS
DESVELADOS
Conforme Cardoso (1971, p. 11), “as conclusões da ciência,
diversamente das crenças do senso comum, são produtos do
método científico”. Este, por sua vez,

[...] não é único nem permanece exatamente o mesmo,


porque reflete as condições históricas concretas (as neces-
sidades, a organização social para satisfazê-las, o nível
de desenvolvimento técnico, as ideias, os conhecimentos
já produzidos) do momento em que o conhecimento foi
elaborado” (ANDERY, 2006, p. 14, grifos nossos).

No sentido de que “é indispensável tomar como referência


aqueles elementos de construção do novo oferecidos pela his-
tória do presente e ainda não utilizados” (SANTOS, 1998, p. 8).
A feira é um fenômeno adequado para se estudar geografia,
sobretudo a geografia econômica urbana, pois é Espaço que se
transforma em Território, que forma uma Região, cuja Paisagem
é a cara do Lugar. Configura-se como “teatro de acumulação”
e “centro de difusão”, no dizer de Marcelo L. de Souza (2003,
p. 151). Teatro de acumulação porque há um armazenamento,
concentração de excedentes resultantes da atividade industrial
têxtil; centro de difusão porque existe uma disseminação dessas
mercadorias têxteis para o Nordeste e Brasil.
Mediante sua dinâmica interna, pautada numa raciona-
lidade local, o circuito inferior cria condições (visíveis em

275
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

diferentes atividades espalhadas pelos espaços urbanos das


cidades brasileiras) de sobrevivência à população que a ele se
liga e que o constrói, quando não raro uma vida melhor diante
desse contexto cada vez mais técnico-científico-informacional,
cuja racionalização do Estado e do Mercado Econômico é
cada vez mais forte e imperiosa. O fato de muitos brasileiros
e brasileiras, nas condições atuais da organização espacial,
terem a possibilidade de se alimentar e de possuírem um
“teto” para morar deve-se em parte à labuta que desenvolvem
no âmbito do circuito inferior, manifestação essa humana,
histórica, econômica, espacial e cultural.
A Feira da Pedra é produto-produtora de dinâmicas
regionais, que têm em seu cerne, a priori, a atividade têxtil
de fabricação de redes de dormir da Paraíba e do Rio Grande
do Norte. Apresenta um nível de articulação mais amplo
com outros espaços, no sentido de que o mundo encontra-se
articulado-desarticulado, fragmentado-desfragmentado, o que
faz com que os lugares e os fenômenos neles/deles constitutivos
se encontrem num âmbito de compreensão mais amplo.
Desde sua constituição a Feira da Pedra não apresentou
um processo de declínio, embora ainda sua dinâmica de
maior fluxo esteja ligada ao calendário das festas (carnaval),
das estações do ano (inverno) e de outros eventos anuais,
apresentando maior movimento de feirantes e de consumi-
dores, juntamente com uma maior variedade de produtos

2 76
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

têxteis no tocante à quantidade, à diversidade e também à


qualidade. Existe aí uma capacidade para se expandir e se
renovar. Isso evidencia as novas interações entre o capital e o
trabalho nesse período técnico-científico-informacional. Para
o caso da Feira da Pedra enquanto um pequeno comércio,
algumas de suas características, materializadas na sua forma
e no seu processo, são válidas para as feiras livres de uma
forma geral, quais sejam:
1) As feiras livres são atividades comerciais que utilizam
intensamente mão de obra familiar, já que são pequenos negó-
cios sem uma estrutura organizacional mais ampla;
2) Não dispõe de uma divulgação dos produtos comercia-
lizados, exceto os gritos dos feirantes na hora de realização
dessa atividade, nem também uma entidade que represente
os seus interesses;
3) O capital que necessita para o seu desempenho é pouco
ou até nenhum, bastando, na maioria dos casos, a força de tra-
balho daquele que se disponibiliza a esta atividade comercial;
4) Fixar os custos ou os preços não é relevante nesta ati-
vidade, sendo os custos fixos desprezíveis, como é notório
quando observamos os instrumentos utilizados, geralmente
rudimentares; já com relação aos preços, é comum a “pechin-
cha”, inexistente no comércio pertencente ao circuito superior,
a exemplo dos supermercados;

277
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

5) O Estado, representado geralmente pelo poder público


municipal, não ajuda, salvo o serviço de segurança (pre-
sença de policiais) em certos pontos e na organização do
trânsito com sinalização. Isso ocorre em algumas cidades,
pois dependendo da dimensão que possuem, esses serviços
públicos não aparecem;
6) Os feirantes geralmente lidam com pequenos estoques,
em função da mobilidade e periodicidade desse comércio;
7) A relação comercial é direta entre feirante-comerciante/
vendedor e feirante-consumidor.
É sabido que as dinâmicas atuais e/ou recentes da eco-
nomia, não apenas brasileira, mas mundial, reconfiguram
os circuitos da economia. Esse fato é verificado não apenas
nas grandes cidades, mas também naquelas de menor porte,
em que o circuito superior, o circuito superior marginal e o
circuito inferior mostram evolução. Nesse processo, uma
relação mais próxima do circuito superior com o circuito
inferior é configurada, como é o exemplo de lojas do circuito
inferior, a exemplo da Honda Motors, que usa o espaço Feira
da Pedra para vender seus produtos (motos), mostrando cada
vez mais o caráter dual, mas não dualista e, sim, miscigenado
desses circuitos e, portanto, uma necessidade de revisão desses
subsistemas da geografia econômica urbana. Os circuitos da
economia globalizada, dada pelos novos e diferentes grupos
hegemônicos e não hegemônicos, ensejam nos lugares novas

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GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

e renovadas racionalizações, que por sua vez afetam as racio-


nalidades. Exemplos dessas novas e complexas dinâmicas
são: o aumento da concorrência entre empresas e segmentos
comerciais, as novas tecnologias, as mudanças na vida urbana,
o aumento do consumo; em que todas, direta e indiretamente,
remodelam os circuitos da economia urbana, uma vez que
as solidariedades entre esses subsistemas se tornam cada vez
mais intensas e complexas.
Como pudemos constatar, nesse período técnico existe
uma simbiose organizacional em que o circuito superior,
também chamado de setor formal e institucionalizado,
apesar de crescer mediante ações do governo, também se
“alimenta”, se nutre das relações de produção e de trabalho,
conhecidas como informais, precárias, num intenso processo
de transformação, cuja característica principal agrupa-se
no que poderíamos chamar de sistema capitalista-flexível-
técnico-científico-informacional. Exemplo disso são ações
de empresas e/ou segmentos formais da economia urbana
de São Bento, presentes na Feira da Pedra, como foi o caso
citado da Honda Motors, que nos faz ratificar que as formas
tradicionais do setor informal (a exemplo das feiras livres)
estão sendo reconfiguradas, fazendo perceber, em sua pai-
sagem, processos, funções e estruturas, além do fato de essa
“informalidade” poder existir em novos padrões inovadores
e modernos, gerada pelas formas formais da economia. Nessa

279
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

relação, é notório um domínio exacerbado das variáveis-chave


do período técnico-científico-informacional sobre os grupos
não hegemônicos, forçando-os a participar dos processos
que definem o período atual, uma vez que os agentes dessa
economia lugarizada, para não dizer globalizada, lhes confere
novos significados, racionalidades, usos e ações, como é o
caso da tipologia dos feirantes presentes nessa feira.
Os processos de renovação de acumulação capitalista,
que visa a sustentabilidade do sistema, encontra-se nesse
período atrelada à criação de condições apropriadas, cuja
marca principal são os processos de flexibilização da produ-
ção e do trabalho. Nesse sentido, o fato de um segmento do
circuito superior, tal qual é a Honda, se encontrar em intensas
relações com segmentos do circuito inferior, como é a Feira
da Pedra, pode ser entendido como uma forma de renovação
da acumulação por meio da reformulação de formas arcaicas
de trabalho, de comercialização, de produção etc.
No que diz respeito à parte dos consumidores da feira
analisada, o lugar de residência deles se transforma em local
de moradia e trabalho ao mesmo tempo, uma vez que esses
revendem os produtos têxteis em suas residências, em locais
improvisados para esta finalidade. Isso faz parte das novas
formas de comércio desse período que agora não são mais
“atrasadas” e sim “modernas”, no sentido de que se tornam
viáveis como parte da labuta pela sobrevivência face às

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GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

inconveniências e à falta de acesso ao trabalho da sociedade


moderna. Assim sendo, o espaço privado de reprodução da
vida cotidiana agora se torna espaço misto de moradia e
comércio, cuja expressão é uma nova lógica para a obtenção
da existência nessa sociedade.
Para a compreensão desse processo e das articulações
que se formam, é preciso destacar a existência combinada e
concomitante de diferentes formas de trabalho, resultante de
diversos estágios tecnológicos no interior do mesmo conjunto
de processos de comercialização, de luta pela sobrevivência,
presentes nas atividades do circuito inferior da geografia
econômica urbana. Na Feira da Pedra, em função das recen-
tes transformações configuradas pelas forças do período
técnico-científico-informacional, é possível perceber que as
modernizações do território que se dão no lugar são plurais
e complexas, sendo o consumo, em todos os níveis, uma das
molas de remodelagem dos conceitos que definem a Teoria dos
Circuitos da Economia Urbana. Consumo este carregado da
racionalização resultante do conteúdo socioespacial da ciência,
da técnica e da informação, presentes, direta ou indireta-
mente, nos objetos que se consomem, nas ações, nos processos
comportamentais etc. Novas formas de empobrecimento
surgiram, em especial a partir dos anos 1990, pois o projeto
neoliberal imprimiu várias modificações nas relações de (re)
produção urbana. Nesse sentido, os circuitos da economia

281
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

urbana também se revestiram de especial conteúdo, já que


passaram a ser mais intensas a precarização do trabalho e
a vulnerabilidade da população. Para o caso de São Bento,
houve um aumento de pessoas fazendo a Feira da Pedra,
uma vez que essa passa a ser a alternativa encontrada por
muitos sujeitos do Sertão Paraibano e do Seridó Potiguar
para proverem a renda semanal/mensal.
Os aspectos de solidariedades, sinergias, intencionalidades,
racionalidades e antagonismos dos circuitos, nesse período
técnico, evidenciados a partir da Feira da Pedra, só podem ser
explicados mediante a relação dialética do circuito superior e
inferior, num intenso processo de investigação do modo como
as diversas atividades taxadas de precárias são incorporadas
pelo circuito superior. A expansão do circuito inferior nas
cidades brasileiras é típica dessa relação entre esses dois subsis-
temas da economia urbana, pois o circuito superior encontra
no circuito inferior massa de trabalhadores e de pessoas com
enormes carências não atendidas, se reproduzindo em cima
disso e (re)organizando os lugares e as atividades.
É o encontro dos diversos produtos têxteis modernos e
tradicionais reunidos e comercializados na Feira da Pedra, que
o capital industrial têxtil de redes de dormir da Paraíba e do
Rio Grande do Norte amplia a sua esfera de atuação, uma vez
que se envolve diretamente na distribuição e comercialização
de sua produção (feirantes-produtores), criando, de certa forma,

282
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

um circuito produtivo do qual faz parte. Dessa forma, o enten-


dimento do sistema de venda direta na Feira da Pedra pode ser
considerado como uma dessas tendências organizacionais da
economia urbana, num contexto de meio e período técnico,
científico e informacional, cuja marca intensa de parte das
dinâmicas é a reestruturação produtiva capitalista.
Embora se configure como uma estratégia de sobrevi-
vência, tanto para parte dos feirantes, quanto para parte dos
consumidores, a Feira da Pedra está submetida às estratégias e
às racionalizações das dinâmicas do capitalismo, como forma
de garantir a exigência da circulação fluida nesse espaço
regional da produção têxtil, possibilitando a realização do
trabalho e do consumo ampliado na região Nordeste e no
território nacional. De forma geral, constitui-se numa relação
tênue entre o tradicional/arcaico e o moderno, em que a ati-
vidade feira insere-se como uma prática econômica, cultural
e socioespacial da vida moderna, atingindo a racionalidade
e a subjetividade do trabalho, sendo lugar da construção de
alternativas e complementaridade de sobrevivência de vários
sujeitos nordestinos, já que reúne pessoas de origens, níveis
de instrução e ocupações distintos. Esse amálgama induz a
um questionamento sobre as diferenças de uso de parte do
espaço urbano, cuja natureza é, portanto, política. As diversas
feiras livres espalhadas pelo Nordeste, a exemplo da Feira da
Pedra, configuram-se como manifestações cujo movimento é

283
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

de baixo para cima, uma ação política, portanto, em que suas


organizações e práticas seguem uma outra racionalidade que
não a hegemônica. Deve ser incluída na discussão política
sobre a cidade e na construção de propostas de novas formas
de uso do território e de organização da vida nesse período
técnico. Por meio da feira é possível apreender que ela constrói
outros saberes, formas de trabalho, novas racionalidades e
temporalidades presentes na cidade.
As inter-relações construídas nessa feira são influencia-
das por uma racionalidade econômica e, também, por uma
racionalidade cuja solidariedade e as relações afetivas e de
amizade dadas internamente no âmbito da feira, se misturam
às relações de troca. O entendimento das trocas realizadas na
Feira da Pedra perpassa a compreensão da lógica das trocas
econômicas indo até aquelas que são responsáveis também
pela reprodução, em geral, dos feirantes que dela participam
e realizam-na. A Feira da Pedra, além de ser um local de
trabalho para a maioria dos sujeitos socioespaciais nela pre-
sentes no dia de sua realização, é também uma manifestação
do circuito inferior, no sentido de lugar simbólico recoberto
de diversas relações e dinâmicas.
O saber construído pela feira é nutrido pelo cotidiano
semanal, se fundamentando nas experiências concretas das
pessoas que dela participam e realizam, pois, dentro desse
cotidiano, embora instrumentalizado pelas ações dos agentes

284
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

hegemônicos (Poder Público local e Mercado Econômico),


esses sujeitos sociais (feirantes e consumidores) vão se apode-
rando desse mesmo instrumental e vão adaptando de forma
flexível, criando nas ruas e avenidas da cidade onde ocorre,
um novo dinamismo. A convivência de uns com os outros
que ali se aglutinam semanalmente, a experiência da escassez,
a proximidade e a necessidade a cada dia de sobrevivência
familiar reforçam a importância do circuito inferior para a
população que a ele se liga. A feira é a evidência de um mundo
em que as desigualdades se reproduzem contraditoriamente
à tendência à racionalização contida no discurso do Estado e
do Mercado Econômico, em que as outras formas de uso do
espaço e do tempo são características dessas outras configu-
rações territoriais, delineadas nesse período técnico.
A Feira da Pedra é um lugar onde se aproximam e se
associam saberes cotidianos, passados de pais para filhos e
apreendidos na luta pela sobrevivência, a exemplo de outras
formas de atividades do circuito inferior. No diálogo com os
feirantes e consumidores se revelam as muitas manifestações
de insatisfação e desconforto com a realidade seletiva e com a
rigidez das normas férreas desse período técnico, exclusivas
da racionalização econômica e política ora em curso, que
tem no centro a racionalidade instrumental ou estratégica
(HABERMAS, 1968), diferente de épocas passadas, em que
predominavam as ações de consenso, a que esse mesmo autor

285
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

chama de ações comunicativas. Assim, “a ação estratégica


distingue-se das ações comunicativas que ocorrem sob tra-
dições comuns, em virtude de a decisão entre possibilidades
alternativas de escolha, poder e ter de tornar-se de forma
fundamentalmente monológica, isto é, sem um entendimento
[...]” (HABERMAS, 1968, p. 22). A racionalidade instrumental
ou estratégica, típica desse meio e período técnico-científi-
co-informacional, encontra-se cada vez mais presente nas
formações socioespaciais. Isso significa inferir que:

[...] as formas tradicionais [a exemplo das feiras] sujeitam-se


cada vez mais às condições da racionalidade instrumental
ou estratégica: a organização do trabalho e do tráfico
econômico, a rede de transportes, de notícias e da comu-
nicação, as instituições do direito privado e, partindo da
administração das finanças, a burocracia estatal. Surge,
deste modo, a infraestrutura de uma sociedade sob a coação
à modernização. Ela apodera-se, pouco a pouco de todas
as esferas vitais: da defesa, do sistema escolar, da saúde e
até da família; e impõe tanto na cidade como no campo
uma urbanização da forma de vida, isto é, subculturas que
ensinam o indivíduo a poder ‘deslocar-se’ em qualquer
momento de um contexto de interação para a ação racional
teleológica (HABERMAS, 1968, p. 65-66; grifo do autor).

286
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

Essa racionalização que rege os princípios da Economia


e do Estado, centrada no dinheiro e no poder, baseia-se no
princípio da eficácia, em que os meios são ajustados aos fins
(HABERMAS, 1968; FREITAG, 1993). Essa racionalização é
destrutiva das relações interpessoais e afetivas (racionalidades)
antes mais presentes na Feira da Pedra. No entanto, é signifi-
cativo que nesse período, “[...] a população em seus diferentes
níveis, os pobres e os que vivem longe dos grandes mercados
obrigam a combinações de formas e níveis de capitalismo”
(SANTOS, 2010, p. 123), sendo o circuito inferior esse refúgio
e a feira uma das representações dessa forma da geografia
econômica urbana.
As mudanças sucedidas na estrutura socioterritorial da
Feira da Pedra, no âmbito das metamorfoses ocorridas no
espaço urbano de São Bento, mediante sua indústria têxtil
como um dos elementos de produção desse espaço, conforme
apontou Carneiro (2006), resultam da evolução socioespacial
e técnica que o espaço são-bentense passou a configurar
mediante suas relações com outros lugares. Tais mudanças,
conforme demonstramos na discussão sobre a Feira da Pedra
e sua relação com a indústria têxtil de fabricação de redes
de dormir e derivados, constituíram-se como mudanças
técnicas que levaram ao fortalecimento do sistema capitalista,
o seu principal sistema de ações e objetos, cujo resultado
foi a maquinofaturização da atividade têxtil no lugar e,

287
GEOGRAFIA ECONÔMICA URBANA

consequentemente, o aumento dessa feira. Nesse contexto,


dinâmicas e estratégias têm sido utilizadas pelos feirantes
dessa modalidade de comércio (feira) para a continuidade de
seu funcionamento frente ao avanço das novas estruturas de
comercialização típicas da “globalização”, como é o caso da
adesão dos feirantes-vendedores a produtos têxteis extralocais,
o que fez aumentar a feira.
Atualmente, além de ocupar espaços junto ao Mercado
Público Municipal e das áreas ao redor da feira livre, num
intenso processo de disputa pelos espaços, os feirantes-
vendedores expõem seus produtos no calçamento, espaços
usualmente destinados à passagem de pedestres e carros.
Sendo assim, é urgente a utilização de estratégias para se
pensar a melhor forma de realização da Feira da Pedra. Tal
fato nos faz lembrar Castells (1983), para quem a concepção
de planejamento urbano dentro do sistema capitalista não
privilegia os aspectos sociais na maioria das vezes, e sim os
aspectos econômicos. Isso faz surgir cada vez mais formas
de sobrevivência econômicas e socioespaciais materializadas
no circuito inferior, sobre as quais este livro buscou refletir e
discutir a partir da Feira da Pedra de São Bento.

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Este livro foi projetado pela equipe


da EDUFRN - Editora da Universidade
Federal do Rio Grande do Norte.
Novembro de 2017

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