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Temporalidades da imagem e corpo na arte interativa 1

Paulo Lucas Araújo Lebtag2

Introdução:

Existe uma questão temporal que perpassa a arte interativa, principalmente nas
suas relações com a imagem e o corpo. Na arte interativa, o corpo serve como
meio de input na interface de tempo psicológico do interator, enquanto que a
imagem é output da interface de tempo diegético da interface e de tempo
psicológico do interator. A interação entre usuário e sistema forma, portanto,
um diálogo, que é corporal. A interação é uma ação que ocorre no tempo, na
subjetividade psicológica do usuário manifestada na sua ação corporal de
interação e no tempo diegético da interface, quando esta possui uma narrativa.
E ambos fatores, ocorrem em função de um tempo, que é cronológico e
cronométrico.

Partindo da prática para a teoria

Para a apresentação dos conceitos abordados, foi desenvolvido uma arte


interativa, no modelo de uma interface gráfica, disponível em um website. Para
acessá-la, basta entrar no seguinte link:

http://www.lebtag.com/temporal

Esta interface inova também no sentido de que ela é uma arte interativa que
existe para aludir a um (ou mais) conceito(s). Por isso, ela é nome de
“Interface-conceito”, uma vez que é uma “interface com um conceito”. Esta
“interface-conceito” discorre sobre três conceitos de temporalidade:
cronológica, diegética e psicológica, que são advindas dos estudos da
cronologia (ROCHA, 2018).

1
Para a disciplina Tópicos especiais em Arte e visualidades: Imagem, corpo e paisagem,
ministrada pelo Prof. Dr. Samuel de Jesus
2
Mestrando em Arte e Cultura Visual (UFG), pós-graduando em Design Estratégico (UFG).
Graduado em Artes Visuais – Design Gráfico (UFG). Pesquisador na área projeto de interfaces
gráficas. Gerente de Design e Qualidade de software na Concretize Sistemas.
Na arte interativa as três temporalidades encontram-se de forma mensurável.
Enquanto que na arte cinematográfica, a temporalidade não se encontra no
objeto de arte, mas no fruidor da arte. E, na arte visual, há o tempo diegético. O
tempo cronológico não se encontra na arte visual enquanto intencionalidade
artística, mas sim enquanto possível intempérie histórico que ressignifica a
obra. É o caso da Vênus de Milo, sem os seus braços.

A análise da arte interativa, porém, enfrenta um desafio epistemológico


fenomenológico. Pois, uma vez que a obra de arte interativa necessita da
interação para existir, não se é possível analisar uma obra de arte interativa
sem se interagir com ela. Se eu analiso um vídeo de obra de arte interativa,
analiso um vídeo de obra de arte interativa, e não a obra de arte interativa.
Contudo, superando estes desafios e preenchendo os vazios com nossa
racionalidade, a temporalidade nas seguintes obras de arte e suas relações
imagem e corpo podem ser observadas da seguinte maneira:

Interface-ensaio sobre três temporalidades, Paulo Lebtag, 2019

Esta interface busca expressar de forma interativa os três conceitos de


temporalidade propostos por Rocha (2018): Cronológico, diegético e
psicológico. A marcação do tempo do relógio está presente em toda a
interação, sendo a referência constante da mesma. Com o tocar na área
esquerda, o interator pode imprimir em uma linha de tempo uma box
proporcional ao tempo em que ele toca a interface, como que escrevendo na
linha de tempo sua interação corporal. O interator pode ainda intervir na sua
linha do tempo, apagando uma ação passada e retornando-a quando desejado.
Cada box ainda é um “gif”, isto é, uma imagem em movimento de elementos
aleatórios da cultura popular digital, ou seja: memes, cenas de filmes, clipes.
Isto tudo cria situações imprevisíveis de diálogos psicológicos entre a interface
e o interator.

Life Writer, por Laurent Mignonneau e Christa Sommerer, 2006

A dimensão de diálogo é ainda mais destacada. Evidencia-se também os


caminhos prováveis, que formam uma sequência, da mesma forma provável. O
interator é passível de provocar ações previsíveis de resultados imprevisíveis.
Assim como é um diálogo. Tal dimensão da interação evidencia o caráter
metafórico de humanidade presente nesta interface. Além do mais, o tempo
diegético, isto é, o tempo interno da própria interface, ele é do tipo imersivo. É
um tempo ao qual se entra, se envolve e não se sai, sem um conflito. A
interação é uma negociação que ocorre por fases que somente possuem
sentido completos quando observadas dentro do próprio tempo da interface.

Atrator poético, do grupo SCIArts e Edson Zampronha, 2005

Tanto o seu corpo quanto a sua presença é uma presença de ação. Que gera
uma resposta, um diálogo. Nessa obra, a imagem vista não é uma reação
direta, mas uma reação indireta da interação. O interator age no ambiente, e
sua presença e interações de presença agenciam um ferro-fluido. A imagem
deste ferro-fluido é projetada na tela. Isto evidencia os interstícios possíveis em
uma comunicação/interação.

Text Rain, de Camille Utterback e Romy Achituv, 1999

A interação é uma ação corpórea. O corpo conversa com o sistema pelo seu
corpo. Este é o poder da cibernética. O usuário ganha uma presença virtual
onde o seu ser adquire uma expansão em relação aquele universo
informacional. Seu próprio ser, por existir naquele espaço, afeta o mundo,
dialoga com o mundo. Esta dinâmica do ser-dialogar através do corpo revela o
corpo como meio de dialogar com o mundo, através da sua presença em um
espaço. Esta sua presença que dialoga provoca uma ação no tempo. Sua ação
no tempo provoca reações, isto quando ela mesmo já não é uma reação de um
tempo.

Isto reflete a própria fenomenologia da percepção proposta por Merleau-Ponty


em que o corpo não é pensado como um objeto fruto de causalidades, ou
objeto da biologia, psicologia ou sociologia. Mas o próprio corpo é um próprio
meio que dá sentido aos outros tipos de conhecimentos que se tem do mundo,
das outras ciências (MERLEAU-PONTY, 1999). O corpo é um meio de diálogo,
portanto.

Apresentação no San Francisco Auditorium de Doug Engelbart em 1968


Doug Engelbart, considerado o “pai da interface”, é quem realizou o primeiro
vislumbre do espaço-informação com suas primeiras experiências de interfaces
gráficas:
No outono de 1968 um homem de meia-idade e poucos encantos
chamado Doug Engelbart se postou diante de uma platéia
heterogênea de matemáticos, diletantes e hippies no San Francisco
Civic Auditorium e fez uma demonstração de produto que mudou o
curso da história (JOHNSON, 2001, p. 21).

No que diz respeito às interfaces gráficas, elas tomaram tal proporção dentro
da cultura contemporânea que “o design de interfaces, mais do que a
programação computacional, torna-se o centro da produção simbólica da
cultura contemporânea. O design de interfaces passa a ser, em definitivo, a
pele da cultura” (ROCHA, 2014, p. 99). E isto impacta diretamente no contexto
da arte, que cada vez mais torna-se uma arte das mídias e das interfaces
(RÖLLER, 2001).

“Trabalhos de arte das interfaces há algum tempo corrigem um


problema da concepção de interface, eliminando uma pretensa
distinção entre o espaço atual e o espaço virtual tecnológico,
concebendo interfaces afetivas, no sentido de ultrapassarem a
realização da tarefa e promover uma experiência estética” (ROCHA,
2014, p. 77).

A interface espaço-informação é um meio do interator poder estar no mundo


cibernético. Essa presença é por vezes considerada apenas espacialmente.

Conclusão

A interação com o digital é uma ação corporal que ocorre no tempo e este é o
meio de dialogar com o digital. O corpo é uma linguagem de comunicação com
o ciberespaço. E essa linguagem ocorre em um tempo. Este tempo pode ser
interno ao sujeito, interno ao objeto (interface), mas também um tempo ao qual
ambos se encontram e tomam por referência. A interação e comunicação no
tempo que ocorre entre sujeito e interface, no entanto, existe na interseção dos
dois tempos. O tempo da interação é, portanto um tempo que encontra sua
existência na relação usuário-sistema através da interação, que é, de certa
forma, um diálogo.

Referências
ENGELBART, Doug et. al. 1968 “Mother of All Demos”. Disponível em:
https://www.youtube.com/watch?v=B6rKUf9DWRI. 2018. Acessado em 06 de
dezembro de 2019.

JOHNSON, Steven. Cultura da interface: como o computador transforma


nossa maneira de criar e comunicar. Trad. Maria Luísa X. de A. Borges. Rio
de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.

LEBTAG, Paulo. Interface-ensaio sobre três temporalidades. 2019.


Disponível em: https://www.lebtag.com/temporal

MERLEAU-PONTY, Maurice. Fenomenologia da Percepção. 2. ed. São


Paulo: Martins Fontes, 1999.

ROCHA, Cleomar. Pontes, janelas e peles: cultura, poéticas e perspectivas


das interfaces computacionais / Cleomar Rocha. 1. Ed: Goiânia: FUNAPE:
Media Lab/Ciar/UFG, 2014.

______. Temporalidades da arte interativa. Goiânia-GO, Diário da Manhã,


2018.

RÖLLER, Nils; ZIELINSKY, Siegfried. On the difficulty to think twofold in


one. In: DIEBNER, Hans H.; DRUCKREY, Timothy; WEIBEL, Peter (eds.).
Sciences of the Interface. Tübingen: Genista. SANTAELLA, Lucia.
Comunicação e Pesquisa: projetos para mestrado e doutorado. São Paulo:
Hacker, 2001.

SCIARTS; ZAMPROGNA, Edson. Atrator poético. Disponível em:


https://www.youtube.com/watch?v=3PNqTe9WMAc. 2005. Acessado em 06 de
Dezembro de 2019.

UTTERBACK, Camille; ACHITUV, Romy. Text rain. 1999. Disponível em:


https://www.youtube.com/watch?v=f_u3sSffS78.1999. Acessado em 06 de
Dezembro de 2019.