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ANÁLISE DE CUSTO DO PREPARO DE CENTRAIS DE

COGERAÇÃO DE ENERGIA DISTRIBUÍDA PARA SISTEMA DE


ARMAZENAMENTO DE ENERGIA TÉRMICA ASSOCIADO AO
SEU USO NA INDÚSTRIA ANIMAL

Rafael Gonsales Neto


FZEA USP – Pirassununga - SP
rgneto@usp.br

Prof. Dr. Celso da Costa Carrer


FZEA USP – Pirassununga - SP
celsocarrer@usp.br

RESUMO
O agronegócio, como relação comercial e industrial envolvendo a cadeia produtiva, entre outros, de produtos de origem
animal, percebe que o insumo “energia” tem se tornado cada dia mais importante ocupando lugar de destaque na avaliação
de custos de produção. Neste contexto as energias renováveis ganham lugar de destaque como alternativas sustentáveis de
geração distribuída com possibilidades de aproveitamento múltiplo de energéticos por parte da agroindústria.
Especificamente no caso da energia solar com tecnologia de concentração, o processo de cogeração de eletricidade e
calor torna a produção distribuída bastante atrativa no sentido de melhor aproveitamento dos energéticos produzidos em
conjunto com as possibilidades de utilização da biomassa oriunda dos processos produtivos da própria indústria animal.
Como outro atrativo, na tecnologia de geração de energia a partir do sol, está a possibilidade de armazenagem térmica
desta energia. Já se considera, atualmente, que a condição de armazenagem térmica, em plantas de geração por concentração
solar, é necessária para que estas sejam comercialmente competitivas frente à geração fotovoltaica e à geração eólica.
Aqui analisamos os custos envolvidos em preparar o campo de heliostatos (espelhos refletores da radiação solar), e o
receptor solar (elemento captador da radiação dirigia pelos heliostatos), para a combinação com um sistema de
armazenamento de energia térmica.
Para isto compararemos os custos de uma planta com múltiplo solar igual a 1,0 e outra, idêntica em seus componentes,
mas de múltiplo solar igual a 1,5. Uma vez que as características do bloco de potência de ambas as plantas são idênticas,
levantamos os custos do campo solar, variando seu múltiplo solar, e a adequação do receptor para receber toda a radiação
do campo solar.

PALAVRAS-CHAVE

Concentração de energia solar, Planejamento energético, CSP, Armazenamento de energia térmica, Múltiplo solar

1. INTRODUÇÃO
Nas últimas décadas as agroindústrias sofreram um processo de migração para novas fronteiras agrícolas e,
em função desse movimento, tem-se, cada vez mais, um parque agroindustrial com características de
descentralização e com natureza dispersa no espaço produtivo do país. De um lado crescem, para o futuro, os
problemas de atendimento de demandas de energia elétrica para a agroindústria nessa situação descentralizada.
Por outro lado, alternativas que possam gerar energia elétrica de forma distribuída devem ser vistas como
soluções inteligentes desde que viáveis do ponto de vista de custos.
No sentido de se aproveitar as características das agroindústrias, que têm como energéticos principais a
eletricidade e o calor, a tecnologia das plantas de Energia Solar Concentrada, CSP (Concentrated Solar Power)
como são conhecidas internacionalmente, é perfeitamente aplicável.
Esta tecnologia compreende, de maneira bem genérica, na conversão da energia solar em energia elétrica
de maneira semelhante à geração termelétrica convencional só que, no caso das plantas CSP, utilizam-se
conjuntos de espelhos que, posicionados sobre o solo, formam um campo solar capaz de coletar a componente
solar direta e refleti-la para um receptor por dentro do qual circula um fluido de trabalho que, quando aquecido
a temperaturas elevadas, obtidas através da concentração solar, converte a energia térmica em energia
mecânica, impulsionando uma turbina, ou um motor. Posteriormente esta energia mecânica é convertida em
energia elétrica acoplando-se um gerador ao conjunto mecânico.
No entanto, a falta de continuidade da radiação solar e o elevado custo da eletricidade produzida por centrais
CSP são duas barreiras significativas que comprometem uma maior implantação comercial, havendo muitos
fatores que podem contribuir para alcançar a redução do custo exigido, enquanto a aplicação da relação custo-
benefício de sistemas de armazenamento de energia térmica ainda é o ponto chave para superar tal
descontinuidade.
Este trabalho visa estudar, e verificar, os custos envolvidos no preparo de plantas CSP para receberem
sistemas de armazenamento de energia térmica. Estes custos são, basicamente, o aumento no campo solar, isto
é, na quantidade de espelhos que refletem a radiação solar, e a adequação do receptor solar a uma maior
radiação de energia vinda dos heliostatos.

2. REFERENCIAL TEÓRICO
Segundo Madaeni, Sioshansi, e Denholm (2012b), são muitos, e importantes, os benefícios associados à
implementação de sistemas rentáveis de Armazenamento de Energia Térmica, ou TES (Thermal Energy
Storage) e, por isso, atividades de P, D & l relacionadas a esse tema são essenciais para alcançar uma grande
contribuição de centrais CSP para a produção de eletricidade do mundo (Philibert et.al, 2010).
Desta forma, o desafio é assegurar que o material de TES seja suficientemente seguro e com propriedades
de armazenamento dessa energia de maneira a dar continuidade ao processo de geração de eletricidade a partir
da energia solar de concentração (Tamme, 2010). Ao se construir uma planta CSP com TES, diversas opções
de dimensionamento são possíveis e, uma vez que a planta consiste essencialmente em três componentes
independentes, mas inter-relacionados, é possível dimensionarmos a planta de maneiras diferentes (Sioshansi
e Denholm, 2010).
O bloco de potência é dimensionado pela capacidade de potência nominal da turbina a gás, a qual é
normalmente definida pelo valor nominal de entrada do bloco de potência em megawatts de energia térmica
(MW-t) ou pelo valor nominal de saída do bloco de potência em megawatts de energia elétrica (MW-e). O
campo de heliostatos, em conjunto com irradiação solar, determina a quantidade de energia térmica que estará
disponível para a bloco de potência. Seu correto dimensionamento é importante uma vez que o tamanho relativo
do campo e o dimensionamento do bloco de potência determinam o fator de capacidade da planta CSP e a
quantidade da energia térmica que será descartada.
Subdimensionar o campo de heliostatos resulta em um bloco de potência subutilizada e um baixo fator de
capacidade da usina CSP fazendo com que o fornecimento de energia elétrica seja prejudicado nos períodos de
baixa radiação solar, só fornecendo a potência máxima nos horários de maior radiação. Campo de heliostatos
de dimensões muito grandes, por outro lado, resultam em desperdício de energia térmica pois a bloco de
potência pode não ter capacidade suficiente de utilização desta energia térmica recebida do campo de
heliostatos durante boa parte do tempo.
A medida do campo de heliostatos costumeiramente é igual à área geométrica dos espelhos ou é medida a
partir de um múltiplo solar, o qual normaliza o tamanho do campo de heliostatos em função do tamanho do
bloco de potência. Um campo solar com um múltiplo solar 1,0 está dimensionado para fornecer energia
suficiente para operar a bloco de potência em sua capacidade nominal. Um campo de heliostatos de múltiplo
solar maior ou menor terá sua área dimensionada de forma linear, o que significa dizer que um campo com
múltiplo solar 2,0 cobrirá o dobro da área de um campo solar com múltiplo 1,0 (Sioshansi e Denholm, 2010).
Um múltiplo solar maior implica em um campo solar de área maior. Por exemplo, a Figura 1 mostra uma
planta CSP com um bloco de potência de 300 MW e um múltiplo solar de 2. Neste caso, qualquer energia
elétrica produzida a partir do campo solar que exceda a máxima capacidade térmica do bloco de potência deverá
ser armazenada, ou descartada, em sistemas sem armazenamento.
Como o diagrama indica, o excesso de energia (em amarelo) a partir de um campo solar de grandes
dimensões (maiores do que um múltiplo solar 1) pode ser enviado para armazenamento térmico e
posteriormente convertido em energia elétrica na bloco de potência, resultando em um maior fator de
capacidade da planta, que é a razão entre produção efetiva de energia no bloco de potência e a máxima energia
possível de se produzir caso seja utilizada a capacidade do bloco de potência durante um certo tempo.
Figura 1. Impacto do múltiplo solar sobre o fluxo de energia de uma planta CSP
Fonte: Jorgenson et al., (2013, 2014).

Estas abordagens são simuladas com o uso do software SAM (System Advisor Model), desenvolvido pelo
National Renewable Energy Laboratory (NREL) e Sandia National Laboratory, localizados nos Estados Unidos
e utilizado por inúmeros pesquisadores de tecnologias CSP (Lodi, 2011). O software SAM tem sido atualizado
constantemente com informações, cada vez mais precisas, dos modelos desenvolvidos, em todo o mundo, de
plantas já construídas, em construção e em desenvolvimento (NREL, 2014).
Na análise de valores envolvidos na execução de uma planta de energia solar por concentração (CSP) o
custo nivelado da energia produzida, ou LCOE (do inglês “levelized cost of energy”), recebe o impacto direto
da armazenagem térmica, pois ao se armazenar o calor excedente para uso em horários de maior valor para
despacho de energia elétrica, os custos de capital aumentam com o tamanho do campo solar e do sistema
armazenagem de calor adicional, mas ao mesmo tempo aumenta o fator de capacidade de geração da planta e
sua produtividade anual de eletricidade (Philibert et.al, 2010). A figura 2 fornece um exemplo para a
configuração de planta CSP de torre, padrão, com acumulação térmica através de tanques de sal fundido, padrão
do software SAM.

Figura 2 - Calculado ao longo da vida da planta, o LCOE de um projeto CSP depende do tamanho relativo e
do custo do campo solar e do bloco de potência
Fonte: Jorgenson et al., (2013, 2014).

3. MATERIAL E MÉTODOS
Como comentado anteriormente, este trabalho usa o modelo System Advisor Model (SAM), como principal
ferramenta de análise, tanto para os parâmetros climatológicos, quanto para os parâmetros comparativos.
O software SAM possibilita a entrada de dados de maneira a obter-se um comparativo bastante real de
duas plantas com mesmo bloco de potência, ambas sem sistema de acumulação térmica, mas uma com múltiplo
solar igual a 1 e outra com múltiplo solar igual a 1,5. Ë possível, também, comparar as mesmas plantas com
sistema de acumulação térmica para se ter a ideia da situação econômica de CSP com TES. Todos os dados
serão obtidos de caso real aplicado às plantas do Projeto SMILE, implantados nas cidades de Caiçara do Rio
dos Ventos, RN, e de Pirassununga, SP.

4. RESULTADOS ESPERADOS
A análise proposta trará subsídios para embasar a tese de que plantas solares CSP podem ser viabilizadas
técnica e economicamente a partir da previsão inicial de um múltiplo solar maior capaz de abrigar um sistema
de acumulação térmica futuro, quando esta tecnologia estiver mais barata e acessível. Pretende-se propor
métricas para o correto dimensionamento do campo solar prevendo a capacidade do mesmo em gerar excesso
de radiação com vistas à armazenagem térmica e consequente melhoria na despachabilidade da planta com
redução no custo nivelado da energia produzida.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Dentre os sistemas instalados e em instalação pelo mundo afora, o de torre solar, por sua peculiaridade ao
utilizar a concentração de maiores áreas reflexivas dirigidas a uma menor área de recepção, possibilita atingir
maiores temperaturas e, consequentemente, tem maior possibilidade de desenvolver utilizações com produtos
finais de maior valor agregado, como por exemplo, produzir gás de síntese ou hidrogênio a partir de biomassa.
O preparo de plantas, com campo solar maior, permite o acoplamento de diversas tecnologias em
desenvolvimento, além da acumulação térmica, que farão com que a diversidade de produtos e serviços obtidos
a partir da radiação solar deixem estas plantas mais interessantes do ponto de vista comercial e tecnológico.

REFERÊNCIAS
Jorgenson, J., P. Denholm, M. Mehos, and C. Turchi, Estimating the Performance and Economic Value of Multiple
Concentrating Solar Power Technologies in a Production Cost Model, Technical Report, NREL/TP-6A20-58645,
December 2013.

Lodi, C. Perspectivas para a Geração de Energia Elétrica no Brasil utilizando a Tecnologia Solar Térmica Concentrada.
Rio de Janeiro: Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2011.

Madaeni, S.H., R. Sioshansi, and P. Denholm, How Thermal Energy Storage Enhances the Economic Viability of
Concentrating Solar Power, Proceedings of the IEEE, Vol 100, No 2, pp 335-347, February, 2012b

National Renewable Energy Laboratory (NREL). System Advisor Model, SAM 2014.1.14: General Description,
Disponível em: < http://www.nrel.gov/docs/fy14osti/61019.pdf>. Acesso em: 06 nov. 2014.

Philibert, C., Frankl, P., Dobrotkova, Z..Technology roadmap: Concentrating Solar Power. Internacional Energy Agency
(IEA), 2010. Disponível em: http://www.iea.org/publications/freepublications/publication/csp_roadmap.pdf.

Sioshansi, R.; Denholm, P. (2010). The Value of Concentrating Solar Power and Thermal Energy Storage. NREL Report
No. TP-6A20-45833. Golden, CO: National Renewable Energy Laboratory.

Tamme, R, Optimised Industrial Process Heat and Power Generation with Thermal Energy Storage FINAL REPORT - IEA
ECES Annex 19, July 2010. Disponível em: http://www.iea-eces.org/annexes/completed-annexes/annex19.html.

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