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COMEÇAR DE NOVO DESDE OS PRIMEIROS FUNDAMENTOS

Ponto de partida: colocar nossas crenças em dúvida:

• Descartes não pensa que todas as nossas opiniões sejam falsas. Ele admite
que muitas das nossas crenças de que é possível duvidar sejam
verdadeiras. Mas como o seu objetivo é encontrar verdades indubitáveis,
qualquer opinião da qual haja razões para duvidar, por insignificantes que
sejam, pode ser abandonada como se fosse falsa. Também não pensa que
seja necessário percorrer todas as opiniões uma a uma e mostrar que são
duvidosas ou falsas, o que seria, evidentemente, impossível de fazer. Ele
pensa que basta atacar os fundamentos ou princípios dos quais as nossas
opiniões derivam para pôr em questão todas essas opiniões.

PRIMEIRO NÍVEL DA DÚVIDA: O ARGUMENTO DAS ILUSÕES DOS SENTIDOS

• A maioria das pessoas pensa que o conhecimento tem origem nos sentidos e que os
sentidos são absolutamente fiáveis. Os filósofos costumam chamar a este ponto de
vista muito popular realismo de senso comum. O realismo de senso comum é
constituído por duas teses fundamentais:

a) a realidade existe de forma contínua e independente de nós;


b) conhecemos a realidade tal como ela é diretamente pelos sentidos.

• A teoria do conhecimento medieval, como já vimos, está de


acordo com esta crença de senso comum, segundo a qual os
sentidos são fiáveis e, portanto, uma fonte adequada de
conhecimento. Dado isto, é natural que Descartes comece a
investigação sistemática das nossas crenças pelas que têm
origem nos sentidos e que o primeiro argumento a que
recorre, o argumento das ilusões dos sentidos, tanto vá pôr
em questão o realismo de senso comum como a tradição filosófica vigente.
• O argumento das ilusões dos sentidos tem por objetivo duvidar da
fiabilidade dos sentidos, isto é, pôr em causa que os sentidos são
fiáveis e que nos mostrem os objetos físicos como eles efetivamente
são, e, como nos mostra o texto de Descartes, consiste em afirmar
que os sentidos enganam-nos, para daí concluir que os sentidos não
são fiáveis.

• “Com efeito, algumas vezes, mostravam-se de perto como quadradas


torres que de longe me parecem redondas, e enormes estátuas que
se elevam nos seus terraços não me pareciam grandes, vistas do rés do-chão”.
• Nestes e em outros casos semelhantes, os sentidos dão-nos
informações contraditórias. A conclusão a tirar destes casos, pensa Descartes, é que
nenhuma crença com origem nos sentidos é indubitável, uma vez que, mesmo quando
os sentidos não nos enganam, o facto de às vezes nos enganarem impede-nos de ter a
certeza da sua verdade. Por outras palavras, os sentidos não são uma fonte de
conhecimento acerca da natureza dos objectos físicos, porque nenhuma crença com
origem nos sentidos, mesmo quando verdadeira, está infalivelmente justificada.

SEGUNDO NÍVEL DA DÚVIDA: O ARGUMENTO DOS SONHOS

• O argumento das ilusões dos sentidos levanta dúvidas quanto à fiabilidade


das nossas percepções em algumas ocasiões especiais.
• Afirma Descartes: “Com efeito, quantas vezes me acontece que, durante o
repouso noturno, me deixo persuadir de coisas tão habituais como que
estou aqui, com o roupão vestido, sentado à lareira, quando, todavia, estou
estendido na cama e despido! Mas agora, observo este papel seguramente
com os olhos abertos, esta cabeça que movo não está a dormir, voluntária
e conscientemente estendo esta mão e sinto-a; o que acontece quando se
dorme não parece tão distinto. Como se não me recordasse de já ter sido
enganado em sonhos por pensamentos semelhantes! Por isso, se reflito
mais atentamente, vejo com clareza que vigília e sono nunca se podem
distinguir por sinais seguros” […].

• Já todos sonhámos que algo está a acontecer, para depois


descobrirmos tratar-se apenas de um sonho. As imagens mentais que
temos em certos sonhos são tão idênticas às com origem nos objetos
que somos levados a pensar que aquilo que estamos a sonhar é real.
Só quando acordamos é que, retrospectivamente, percebemos ter-se
tratado apenas de um sonho. Descartes pensa que esta semelhança
entre as percepções sonhadas e as reais mostra que, com base nos
sentidos, não é possível distinguir de forma absolutamente segura o
sono da vigília e, consequentemente, estarmos certos de que as
percepções que estamos agora a ter representam adequadamente à
realidade.
• Aquilo que o argumento de Descartes pretende mostrar é que os
nossos pensamentos em alguns sonhos são tão semelhantes aos
pensamentos que temos quando acordados, que, se compararmos
apenas esses pensamentos uns com os outros, não podemos ter a
certeza absoluta de que uns são sonhos e os outros são reais. E se
não podemos ter a certeza absoluta de que os nossos pensamentos
atuais são reais, então não podemos dizer que sabemos ou
conhecemos, porque, como já vimos, para Descartes, só aquilo de
que estamos absolutamente certos é saber ou conhecimento
• O argumento das ilusões dos sentidos põe em causa a nossa
confiança nos sentidos, porque estes às vezes enganam-nos. No
entanto, o próprio Descartes reconhece que isso acontece apenas em
alguns casos muito especiais e que, portanto, o argumento das
ilusões dos sentidos não é suficiente para mostrar que os sentidos
não são a origem de verdades indubitáveis. O argumento dos sonhos
responde a esta dificuldade, levando a dúvida mais longe ao chamar a
atenção para que não existe nenhum critério que permita distinguir
com absoluta certeza quando estamos acordados de quando estamos
a sonhar, o mesmo é dizer, as nossas percepções reais das nossas
percepções ilusórias dos sonhos.

TERCEIRO NÍVEL DA DÚVIDA: O ARGUMENTO DO DEUS ENGANADOR OU DO


GÊNIO MALIGNO

• O argumento das ilusões dos sentidos e o argumento dos sonhos


levam o mais longe possível as dúvidas acerca das nossas opiniões
com origem nos sentidos. Se Descartes tivesse apenas por objetivo
mostrar que nenhuma crença com origem nos sentidos é uma
verdade indubitável, não precisaria de recorrer a nenhum outro
argumento. Uma vez admitida a possibilidade de estarmos a sonhar,
todas as nossas crenças com origem nos sentidos podem ser ilusórias.
Mas Descartes não quer apenas mostrar que os sentidos não são uma
fonte de verdades indubitáveis; ele quer também estender a dúvida
às crenças com origem na razão, que são, para muitas pessoas, a
fonte de verdades indubitáveis.

• O exemplo mais óbvio de crenças com origem na razão é o das


Matemáticas. A verdade de proposições, como, por exemplo, 2 + 2 =
4, não é determinada através da experiência e, portanto, estas
proposições não são postas em questão pelo argumento dos sonhos.
Como o próprio Descartes diz, quer estejamos acordados quer
estejamos a dormir, dois mais três são sempre cinco e um quadrado
tem sempre apenas quatro lados. Assim, para duvidar das
proposições da Matemática, e em particular, da Aritmética e da
Geometria, Descartes vai recorrer a um outro argumento: o argumento do Deus
enganador ou do génio maligno.

• Descartes coloca agora a possibilidade de um Deus que é ao mesmo tempo


criador, sumamente poderoso e enganador. Um Deus assim pode ter-nos
criado de forma a que nos enganemos sempre que raciocinemos mesmo
em relação àquilo que nos parece completamente evidente.
• Descartes usa este argumento com dois objetivos distintos. Em primeiro
lugar, estender a dúvida à existência das realidades físicas exteriores, uma
vez que um Deus sumamente poderoso e enganador tem a capacidade de
fazer com que toda a existência seja uma espécie de sonho ou criação
nossa; e, em segundo lugar e principalmente, mostrar que as proposições
com origem na razão, como as da Matemática, não são verdades
indubitáveis, uma vez que Deus pode ter-nos criado de modo a que nos
enganemos sempre que façamos uma operação matemática simples.
• Este é um argumento muito forte, uma vez que consiste em colocar a
hipótese da existência de um deus, ou génio maligno, capaz de fazer o
que quer que seja. É evidente que Descartes nunca acreditou que um
deus com estas caraterísticas pudesse existir, mas, uma vez mais, a
mera possibilidade é tudo aquilo de que necessita. Se não podemos
mostrar que a hipótese do Deus enganador é falsa, então não
podemos estar absolutamente certos da verdade de nenhuma das
nossas opiniões, seja das que têm origem na experiência, como a
existência do mundo, seja das que têm origem na razão, como as
verdades da Aritmética e da Geometria.

CARACTERIZAÇÃO DA DÚVIDA

A dúvida metódica corresponde à parte negativa, ou destrutiva, do pensamento de


Descartes. Esta parte tem um papel absolutamente essencial no seu projeto. Segundo
Descartes, a dúvida tem três vantagens principais:

• libertar-nos dos preconceitos;

• desviar o espírito dos sentidos;

• impedir-nos de duvidar do que reconhecemos ser verdadeiro

• Descartes pensava que em criança adquirimos muitos preconceitos —


como, por exemplo, que os sentidos nos permitem conhecer a
realidade tal como ela é — que, se não forem corrigidos, manter-se-ão na idade adulta.
A dúvida metódica liberta-nos desses preconceitos, ao mostrar que, ao contrário do
que pensamos, os sentidos não são um fundamento adequado para as nossas
crenças.
• Um segundo benefício que Descartes atribui à dúvida metódica é o de
afastar a mente dos sentidos. Se refletirmos um pouco nos três
argumentos que constituem o essencial da dúvida, perceberemos que
eles têm, de facto, este efeito ao apresentarem razões cada vez mais
fortes para que duvidemos da verdade das percepções sensoriais.
• Por último, diz Descartes, a dúvida prepara-nos para reconhecer a
verdade. A dúvida, ao libertar-nos dos preconceitos e ao afastar-nos
dos sentidos, cria as condições para que o espírito descubra em si
próprio as verdades indubitáveis que não foi capaz de encontrar fora
de si, na realidade que o rodeia.

• Deste modo, a dúvida metódica prepara o caminho para a parte


construtiva da filosofia de Descartes, em que os seus aparentes
resultados céticos, como veremos, são superados. Dada a sua
relevância no pensamento de Descartes é frequente dizer-se que a
dúvida é:

• metódica, porque procede de forma organizada e sistemática à


investigação das nossas crenças, baseada no princípio que só é
verdadeiro aquilo de que não houver nenhuma razão para duvidar;
• hiperbólica, ou exagerada, porque considera como falso aquilo de que
há razões para duvidar e inventa razões para duvidar, como os
argumentos dos sonhos e do Deus enganador;

• radical, porque põe em causa os princípios ou fundamentos do


pensamento tradicional (os sentidos e a razão) e incide, em princípio,
sobre todas as nossas crenças;

• provisória, porque não é um fim em si mesmo, como a dúvida cética,


mas um meio para alcançar a primeira certeza.

O COGITO

EU PENSO, LOGO EXISTO

• Como acabámos de ver, a dúvida põe em questão as crenças que têm


por base seja os sentidos seja a razão. Nem a razão nem os sentidos,
portanto, são capazes de fornecer verdades indubitáveis. A conclusão
a tirar parece ser óbvia: o conhecimento não é possível. O projeto de
investigação das nossas crenças, aparentemente, em vez de descobrir
verdades indubitáveis que fundem as nossas convicções acerca do
mundo e garantam a sua verdade, mergulha-nos no mais profundo
ceticismo. Descartes — parece daí resultar — não é apenas um cético,
mas o mais extremo e radical dos céticos.
• Mas é Descartes, de facto, um cético? Não. O objetivo dos céticos é mostrar que
não existe conhecimento. O objetivo de Descartes é o oposto: provar que existe
conhecimento, isto é, crenças de cuja verdade estamos completamente seguros.
O ceticismo é, portanto, apenas aparente, o resultado provisório da estratégia de
Descartes para mostrar que existem verdades indubitáveis.
• O raciocínio de Descartes é o seguinte: mesmo que tudo aquilo em que acredita
seja duvidoso ou falso, como a dúvida sugere, há pelo menos uma coisa que tem
de ser verdadeira para que possa duvidar, a saber, a sua própria existência e,
portanto, a sua existência é uma verdade indubitável. Isto é, Descartes está
convencido de que o pensamento não pode existir por si só, e como o
pensamento existe — uma vez que a dúvida é uma forma de pensamento —, tem
de existir necessariamente uma entidade em que o pensamento ocorra. Essa
entidade é o «eu», cuja existência é, portanto, uma verdade indubitável.
• É por isso que Descartes pode afirmar «Eu penso, logo, existo».
Descartes não é, portanto, um cético. Ao contrário dos céticos, que,
como vimos anteriormente, constroem argumentos com o objetivo
de mostrar que não é possível justificar racionalmente nenhuma das
nossas crenças, Descartes usa a dúvida com o objetivo contrário, isto
é, como um meio para certeza. Ao levar a dúvida ao extremo,
tornando-a hiperbólica, a impossibilidade da dúvida torna-se
evidente, pois no próprio ato da dúvida descobrimos a verdade
indubitável da nossa existência. Esta descoberta vai ser usada por
Descartes como o ponto de partida do seu projeto filosófico científico.

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