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PRM-DOURADOS-MANIFESTAÇÃO-3313/2013 *00000000000000000000*

0000000-00.0000.0.00.0000

MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL


PROCURADORIA DA REPÚBLICA NO MUNICÍPIO DE DOURADOS/MS

EXCELENTÍSSIMO SENHOR JUIZ FEDERAL DA __ª VARA DA 2ª SUBSEÇÃO


JUDICIÁRIA DO ESTADO DE MATO GROSSO DO SUL – DOURADOS.

O MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL, pelo Procurador da


República signatário, nos termos do disposto no artigo 129, II e III da Constituição da República,
o artigo 5º, inciso III, alínea e, e inciso IV e artigo 6º, VII, alínea “c” da Lei Complementar no
75/93 (Lei Orgânica do Ministério Público da União), e os artigos 1º e 5º da Lei no 7.347/85,
vem, respeitosamente, à presença de Vossa Excelência, propor a presente

AÇÃO CIVIL PÚBLICA


com pedido liminar
em desfavor do

MUNICÍPIO DE DOURADOS, pessoa jurídica de direito público


representada pelo Prefeito Municipal Murilo Zauith, com sede na
Rua Coronel Ponciano, n. 1.700, Pq. do Jequitibas, CEP 79830-
220, Dourados-MS.

FUNASA- FUNDAÇÃO NACIONAL DA SAÚDE, fundação


pública federal vinculada ao Ministério da Saúde, criada pela Lei n.
8.029 de 12.04.1990 e instituída pelo Decreto 100 de 16.04.1991,
com o Estatuto aprovado pelo Decreto n. 4.727, de 9 de junho de
2003, inscrita no Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica – CNPJ/MF

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Procuradoria
da República no
Município de Dourados/MS

sob o n. 26.989.350/0001-16, representada pelo Superintendente


Estadual em Mato Grosso do Sul, Sr. Pedro Teruel, com sede
situada na Rua Jornalista Belizário Lima, n. 264, Centro – Campo
Grande/MS.

UNIÃO FEDERAL, pessoa jurídica de direito público,


representada pela Advocacia-Geral da União, cuja sede neste
Estado está localizada na Rua Rio Grande do Sul, n. 665, Jardim
dos Estados, Campo Grande/MS.

1. DOS FATOS

Consta do Inquérito Civil Público n. 1.21.000.000275/2005-81, em


trâmite perante perante esta Procuradoria da República, que no ano de 2007, através do
Convênio n. 527/2007 – Ministério da Saúde/PAC/FUNASA, os requeridos pactuaram com o
Ministério da Saúde a implantação do sistema de abastecimento de água na Comunidade
Quilombola Dezidério Felipe de Oliveira – Picadinha – situada no município de Dourados.

Aos 04 de novembro de 2011, instado, o MUNICÍPIO DE


DOURADOS, agente executor, informou por intermédio do Ofício n. 149/2011/GAB/PMD a
solicitação de prorrogação de prazo para execução do mencionado Convênio, “tendo em vista
que o Município de Dourados tem interesse em efetivamente executar o objeto do contrato”;

Posteriormente, aos 22 de março de 2012, verificada a


impossibilidade de prosseguimento do procedimento licitatório em razão da pendência de análise
da solicitação de repactuação do preço da obra pela FUNASA, o município informou o fato a
este Parquet Federal através do Ofício n. 091/2012/PGM.

Interpelada sobre a análise da repactuação do preço da obra, a


FUNASA, através do Ofício n. 616/GAB/SUEST-MS/FUNASA encaminhou o Parecer Técnico
n. 107/2012/DIESP/SUEST/FUNASA, remetido ao município de Dourados, com a análise
documental da solicitação de repactuação formulada pelo ente municipal e as correções
necessárias para a aprovação.

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Novamente provocada por este Órgão Ministerial, por intermédio


do Ofício n. 1528/GABINETE/FUNASA/MS/2012, a FUNASA encaminhou o Parecer Técnico
n. 313/2012/DIESP/SUEST/FUNASA, de 17 de agosto de 2012 o qual aponta que após
sucessivas remessas de documentos, ainda há pendências que precisam ser sanadas pelo
MUNICÍPIO DE DOURADOS para que se efetive a repactuação.

Por todo esse contexto que se arrasta ao longo de seis longos, no


dia 08 de abril de 2013 o MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL encaminhou aos requeridos a
Recomendação MPF/DRS/MS/MADA n. 02/2013 (anexa) com a seguinte disposição:
“(...)
CONSIDERANDO o decurso de 06 (seis) anos entre a pactuação
do Convênio n. 527/07 – Ministério da Saúde/PAC/FUNASA
tendo por objeto a “Implantação do sistema de abastecimento de
água da Comunidade Quilombola – Picadinha – Dourados – MS”;

CONSIDERANDO que o direito à água potável trata-se de direito


fundamental, dada sua essencialidade à vida e à saúde de todos os
indivíduos, independentemente do grupo a que pertencem;

CONSIDERANDO que o direito social de acesso à água é dever


do Estado, insculpido na Carta Magna de 1988 por força dos
artigos 6º, caput e 196.

CONSIDERANDO a premente necessidade da Comunidade


Quilombola Dezidério Felipe de Oliveira de ver implantado o
sistema de abastecimento de água apto a atender suficientemente
toda a Comunidade;

CONSIDERANDO que compete ao Parquet Federal expedir


recomendações visando à melhoria dos serviços públicos e de
relevância pública, bem como ao respeito dos interesses, direitos e
bens cuja defesa lhe cabe promover, fixando prazo razoável para a
adoção das providências cabíveis, nos termos do artigo 6º, inciso
XX, da Lei Complementar n. 75/93,

RESOLVO, com espeque no art. 5º, III, alínea “e”, art. 6º, VII,“c”,
XIII e XIV, todos da Lei Complementar n. 75/93, e nos arts. 127 e
129, III, da CF/88, RECOMENDAR ao Senhor PREFEITO
MUNICIPAL DE DOURADOS e ao Senhor
SUPERINTENDENTE ESTADUAL DA FUNASA/MS, cada
um no âmbito de suas atribuições, o seguinte:
1) Que tomem as providências necessárias para a efetiva
repactuação do preço da obra no prazo de 15 (quinze) dias;
2) Contados da efetiva repactuação, que sejam adotadas as medidas

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cabíveis para a licitação e execução da obra no prazo improrrogável


de 120 (cento e vinte) dias.

Nesses termos, o MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL, com


fulcro no art.6º, XX, c/c art. 8.º, §5.º, ambos da Lei Complementar
n. 75/93, fixa o prazo de 10 (dez) dias para que Vossas Senhorias
ofereçam resposta à presente Recomendação, apontando as
providências adotadas e prestando outras informações pertinentes.
Outrossim, adverte que a presente Recomendação dá ciência e
constitui em mora os destinatários quanto às providências
solicitadas, podendo a omissão na adoção das medidas
recomendadas implicar ao manejo de todas as medidas
administrativas e ações judiciais cabíveis, em sua máxima
extensão, contra os que se mantiverem inertes.”

Devidamente encaminhada a Recomendação, o MUNICÍPIO DE


DOURADOS ofereceu resposta informando que a responsabilidade da FUNASA na
implementação do Convênio e a FUNASA sequer encaminhou resposta aos termos da
Recomendação.

Enquanto isso, os indivíduos da Comunidade Quilombola


captam água de poços caseiros, perfurados pelas próprias famílias, sem qualquer sistema
de tratamento da água que consomem. E a situação é agravada pela ausência de coleta de
lixo no local e ausência de sistema de saneamento.

A comprovação dessa condição dá-se através da Ficha Cadastral de


Saneamento da Comunidade (anexa) de onde também se constata a queima dos lixos
domiciliares por ausência de coleta e a ausência de redes de esgoto no local.

Por tudo, sendo premente a necessidade da Comunidade


Quilombola em ter acesso à água potável, tendo em vista o longo período transcorrido para a
implementação do sistema de abastecimento de água e a inércia recalcitrante dos requeridos, não
resta outra alternativa senão a propositura da presente ação civil pública.

2. DOS FUNDAMENTOS JURÍDICOS

2.1 DO CABIMENTO DA AÇÃO CIVIL PÚBLICA

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A ação civil pública é o instrumento processual destinado à tutela


de direitos transindividuais, dentre os quais estão os direitos das populações quilombolas.

Com efeito, a ação civil pública é o meio adequado para provocar o


Poder Judiciário a preservar os direitos fundamentais garantidos a essa comunidade, entre os
quais o direito ao acesso à água potável, eis que constitui necessidade básica e primária do ser
humano, seja para a própria ingestão, seja para uso na alimentação, higiene pessoal e doméstica,
preservando-se, assim, a dignidade da pessoa humana e promovendo-se a saúde.

Do mesmo modo, a Ação Civil Pública é o veículo processual


idôneo para obrigar os requeridos na implementação do Convênio n. 527/2007 para o efetivo
fornecimento de água potável à Comunidade Quilombola Dezidério Felipe de Oliveira. Isto
porque o sistema processual da tutela coletiva, conjugando a Lei n. 7.347/85, o Código de
Processo Civil e a Lei n. 8.078/90 (Código de Defesa do Consumidor), permite ao Juiz fixar
prazo para o cumprimento de obrigação de fazer, sob pena de multa, ou até determinar a
execução de medidas adequadas à obtenção de resultado prático equivalente (art. 11 da Lei n.
7.347/85, art. 461 do CPC e art. 84 do CDC) bem como as astreintes que se façam necessárias.

2.2 DA LEGITIMIDADE DO MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL E


COMPETÊNCIA DA JUSTIÇA FEDERAL

Cuida-se, através da presente Ação Civil Pública, de tutelar direitos


coletivos malferidos em face da absoluta ineficiência da Administração Pública que, ao não
promover o abastecimento de água potável minimamente aceitável à Comunidade Quilombola,
lesa de forma frontal os direitos fundamentais à vida e à saúde.

A Constituição Federal definiu o Ministério Público como


instituição permanente e essencial à função jurisdicional do Estado e estabeleceu as suas linhas
de atuação ao incumbir-lhe a defesa da ordem jurídica, do regime democrático e dos interesses
sociais e individuais indisponíveis (artigos 127, caput, e 129, incisos III) inclusive “a proteção
dos interesses individuais indisponíveis, difusos e coletivos, relativos às comunidades
indígenas, à família, à criança, ao adolescente, ao idoso, às minorias étnicas e ao consumidor”,
nos termos da Lei Complementar n. 75/93 (artigos 5º, incisos I, III, “c” e “e”, e 6°, inciso VII,
“c” e “d”);

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Por sua vez, a competência da Justiça Federal para julgar a presente


ação, por sua vez, se dá por uma série de fatores, incidindo no caso os incisos I do art. 109 da
Constituição, em razão da presença de autarquia federal no polo passivo. Ademais, existe a
presença do Ministério Público Federal no polo ativo, defendendo legitimamente direitos e
interesses coletivos, o que já seria suficiente para ensejar a vis atractiva da Justiça Federal,
conforme reconheceu o Superior Tribunal de Justiça1.

2.3. DA LEGITIMIDADE PASSIVA

A FUNASA é o órgão a quem incumbe a promoção e execução de


ações direcionadas à saúde pública dos povos quilombolas. A citada Fundação Pública é
vinculada ao Ministério da Saúde, criada pela Lei n. 8.029, de 12 de abril de 1990 com a função
precípua de promover e executar ações e serviços de saúde pública, sendo uma de suas principais
finalidades, conforme dispõe o Decreto n. 7.335/2010 – Anexo I – Artigo 11, inciso IV–
assegurar a saúde e o abastecimento das populações socialmente vulneráveis, como são os povos
quilombolas.

Ainda, essa Fundação Pública e o MUNICÍPIO DE DOURADOS


são os agentes responsáveis pela implementação do Convênio n.
527/2007/MINSAÚDE/PAC/FUNASA firmado com o Ministério da Saúde, órgão da UNIÃO
FEDERAL, que tem por objeto a “Implantação do sistema de abastecimento de água da
comunidade quilombola – Picadinha – Dourados-MS”.

Em virtude do exposto, é clara a legitimidade dos requeridos para


responderem aos termos desta exordial e suportarem os efeitos de decisão porventura tomada
nestes autos.

2.4. DO DIREITO HUMANO FUNDAMENTAL À ÀGUA POTÁVEL

Como dito no tópico supra, o acesso à água potável constitui


necessidade básica e primária do ser humano. A falta de acesso à água potável, direito humano
fundamental, representa um retrocesso a uma construção histórica de afirmação dos mais
1
STJ, 1ª Turma, Resp nº 440002, Rel. Min. Teori Albino Zavascki, DJU 06.12.2004, pág 195

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elementares direitos do ser humano, inclusive e principalmente dos direitos clássicos de


primeira geração, como o direito à vida.

A Organização das Nações Unidas – ONU, reconhece o direito à


água potável como direito fundamental, visto que “negar água ao ser humano é negar-lhe o
direito à vida, ou em outras palavras, é condená-lo à morte. O direito à vida antecede os outros
direitos2.

Viver sem o devido e adequado acesso à água potável representa


não somente uma afronta à dignidade do ser humano como, em última instância, ao próprio
direito à vida, considerando como o direito de todos viverem com o mínimo de condições
dignas de existência. Várias esferas da vida humana são atingidas em caso da negação do acesso
à água potável, com inevitável conexão com uma série de direitos, tais como à alimentação, à
saúde, à sadia qualidade de vida, à dignidade e à própria vida.

Tais direitos estão consagrados não somente na ordem


internacional, como também estão assegurados constitucionalmente, conforme art. 1º, III e art.
5º, caput, da Constituição Federal.

Uma das funções dos diretos fundamentais é a de prestação social,


e os direitos a prestações significam, em sentido estrito, o direito dos indivíduos a obter algo do
Estado, como saúde, educação, segurança3 saneamento, que compreende o acesso à água
potável e rede de esgoto adequada, o que é uma extensão do direito à saúde4 5.

2
- MACHADO, Paulo Affonso Leme. In Água, direito de todos. www.estadao.com.br , internet, v. 1, p.1-2,
2003.
3
- Cf. ALEXY, Robert. Teoría de los Derechos Fundamentales (Theorie der grundrechte). Madrid: Centro
de Estudios Políticos y Constitucionales, 2002, p. 482.
4
- “Art. 6 São direitos sociais a educação, a saúde, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social,
a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição.”(Constituição
Federal de 1988)
5
- “Quanto ao direito à saúde, importa reconhecer que na maior parte das cidades brasileiras o saneamento básico
(uma das extensões do direito à saúde) não atende à totalidade da planta urbana, devendo o poder público levar o
sistema de esgotamento sanitário (com tratamento, exigência de natureza constitucional-ambiental) e de água
tratada às residências não atendidas.” CLÉVE, Clémerson Merlin. A eficácia dos direitos fundamentais sociais .
In: Revista de Direito Constitucional e Internacional nº 54, jan/mar 2006, pp. 28-39, Ed. Revista dos Tribunais.

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O reconhecimento desses direitos deve demandar uma atuação


positiva por parte do Estado, que tem a responsabilidade de assegurar aos cidadãos uma condição
mínima de dignidade, sob pena de grave violação dos direitos humanos. Nesse sentido:
“Em outras palavras – aqui considerando a dignidade como
tarefa -, o princípio da dignidade da pessoa humana impõe ao
Estado, além do dever de respeito e proteção, a obrigação de
promover as condições que viabilizem e removam toda sorte de
obstáculos que estejam a impedir às pessoas de viverem com
dignidade”.6

Deve-se considerar, também, que a saúde é direito de todos e dever


do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de
doença e de outros agravos e ao acesso universal igualitário às ações e serviços para sua
promoção, proteção e recuperação (art. 196, CF), e que sem água potável não existe saúde.

Das disposições legais específicas sobre recursos hídricos,


depreende-se como prioridade o abastecimento de água à população, sendo uma atividade
vinculada e obrigatória do Estado, de conformidade com o art. 2º da Lei nº 9.433/97, verbis:
“Art. 2º São objetivos da Política Nacional de Recursos Hídricos:
I - assegurar à atual e às futuras gerações a necessária
disponibilidade de água, em padrões de qualidade adequados aos
respectivos usos;

Art. 11. O regime de outorga de direitos de uso de recursos hídricos


tem como objetivos assegurar o controle quantitativo e qualitativo
dos usos da água e o efetivo exercício dos direitos de acesso à
água.”

O dever do Estado não se restringe a assegurar um mínimo de


dignidade aos cidadãos mas também assegurar a igual distribuição dessas prestações. O
fornecimento de água potável é uma das mais elementares prestações de serviços públicos
do Estado, o que se traduz na exigência da garantia que a doutrina denomina como do “mínimo
existencial”, segundo a qual não haveria dignidade humana sem um mínimo necessário e
indispensável para a existência.

“Os direitos sociais, o princípio da dignidade humana, o


princípio da socialidade (dedutível da Constituição Federal de
1988 que quer erigir um Estado Democrático de Direito)

6
- SARLET, Ingo Wolfgang. Dignidade da pessoa humana e Direitos Fundamentais na Constituição de 1988. Porto
Alegre: Livraria do Advogado, 2001, p. 109.

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autorizam a compreensão do mínimo existencial como


obrigação estatal a cumprir e, pois, como responsabilidade dos
poderes públicos.”7

Não existem dúvidas quanto a esse dever de prestação de serviços


públicos essenciais, como o abastecimento de água potável à Comunidade Quilombola no
presente caso. No entanto, há uma segunda variável, considerando que é negada essa prestação a
uma pequena parcela da sociedade, o que revela a desigualdade no acesso aos serviços públicos.

Nesse sentido, adverte Canotillho:


“Os poderes públicos têm uma significativa 'quota' de
responsabilidade no desempenho de tarefas econômicas, sociais e
culturais, incumbindo-lhes pôr à disposição dos cidadãos
prestações de várias espécie, como instituições de ensino, saúde,
segurança, transportes, telecomunicações, etc. À medida que o
Estado vai concretizando as suas responsabilidades no sentido de
assegurar prestações existenciais dos cidadãos (...), resulta, de
forma imediata, para os cidadãos: (1) o direito de igual acesso,
obtenção e utilização de todas as instituições públicas criadas pelos
poderes públicos (exs: igual acesso às instituições de ensino, igual
acesso aos serviços de saúde, igual acesso à utilização das vias e
transportes públicos); (2) o direito de igual quota-parte
(participação) nas prestações fornecidas por estes serviços ou
instituições à comunidade (ex.: direito de quota parte às prestações
de saúde, às prestações escolares, às prestações de reforma e
invalidez). Com base nestes pressupostos, alude a doutrina a
direitos derivados a prestações ('derivative Teilhaberecht')
entendidos como direito dos cidadãos a uma participação igual
nas prestações estaduais concretizadas por lei segundo a
medida das capacidades existentes. Os direitos derivados a
prestações, naquilo que constituem a densificação de direitos
fundamentais, passam a desempenhar uma função de 'guarda de
flanco' (J.P. Müller) desses direitos garantindo o grau de
concretização já obtido.8 (grifou-se).

Negar a uma determinada parcela da população a prestação de


serviço público tão essencial quanto o fornecimento de água potável, o que no caso é mais grave
tendo em vista as condições a que estão submetidos as famílias negras atingidas, é negar a
própria cidadania aos mesmos. É uma grave violação de direitos humanos, entendendo a

7
- CLÉVE, Clémerson Merlin. A eficácia dos direitos fundamentais sociais. In: Revista de Direito Constitucional e
Internacional nº 54, jan/mar 2006, pp. 28-39, Editora Revista dos Tribunais.
8
- CANOTILHO, J.J. Gomes. Direito Constitucional e Teoria da Constituição. Coimbra: Livraria Almedina, 2000,
pp. 468-469.

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cidadania como direito a ter direitos. Os membros da Comunidade Quilombola Dezidério Felipe
de Oliveira estão sendo considerados como à margem da sociedade.9

A conclusão inarredável é que não se pode deixar de prestar


um serviço público que se consubstancia, em última análise, em um direito humano
fundamental, em virtude de um comportamento negligente da ré, considerando ser de seu
conhecimento a deficiência da prestação de água potável.

É assente na doutrina que o direito á saúde tal como assegurado na


Constituição de 1988, consubstancia direito fundamental de segunda dimensão compreendendo-
se nesta os direitos sociais, culturais e econômicos, caracterizados por exigirem prestações
positivas do Estado, ou seja, este deve agir operativamente para a consecução dos fins
perfilhados na Constituição Federal. Aqui não se trata, como nos direitos de primeira dimensão,
de apenas impedir a intervenção do Estado em desfavor das liberdades individuais,mas exige do
mesmo prestações positivas.

Neste sentido Alexandre de Moraes, trazendo excerto de Acórdão


do STF, preleciona:
“Modernamente, a doutrina apresenta-nos a classificação de
direitos fundamentais de primeira, segunda e terceira gerações,
baseando-se na ordem histórica cronológica em que passaram a ser
constitucionalmente reconhecidos. Assim destaca o Min Celso de
Mello: “enquanto os direitos de primeira geração (direitos
civis e políticos)- que compreendem as liberdades clássicas,
negativas ou formais – realçam o princípio da liberdade e os
direitos de segunda geração (direitos econômicos, sociais e
culturais) – que se identificam com as liberdades positivas,
reais ou concretas – acentuam o princípio da igualdade, os
direitos de terceira geração, que materializam poderes de
titularidade coletiva atribuídos genericamente a todas as formações
sociais, consagram o princípio da solidariedade e constituem um
momento importante no processo de desenvolvimento, expansão e
reconhecimento dos direitos humanos, caracterizados, enquanto
valores fundamentais indisponíveis, pela nota de uma essencial

9
- A concepção é da filósofa Hannah Arendt:“O que Hannah Arendt estabelece é que o processo de asserção dos
direitos humanos, enquanto invenção para a convivência coletiva, exige um espaço público. Este é kantianamente
uma dimensão transcendental, que fixa as bases e traça os limites da interação política. A esse espaço só se tem
acesso pleno por meio da cidadania. É por essa razão que, para ela, o primeiro direito humano, do qual derivam
todos os demais, é o direito a ter direitos, direitos que a experiência totalitária mostrou que só podem ser exigidos
através do pleno acesso à ordem jurídica que apenas a cidadania oferece.” LAFER, Celso. A reconstrução dos
direitos humanos. São Paulo: Companhia das Letras, 1999, p. 166.

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inexauribilidade” 10

Como podemos verificar, a essência dos direitos fundamentais de


segunda geração é o direito a prestações positivas. “Não se cuida mais, de liberdade do cidadão
perante o Estado, e sim de liberdade por intermédio do Estado”.11 Os direitos a prestações
positivas, na lição de Robert Alexy,12 podem se dividir em dois grupos: a) Direitos a prestações
fáticas - consistem na efetiva ação estatal no mundo dos fatos como, por exemplo, a construção
de uma escola ou o pagamento de um auxílio social; e b) Direitos a prestações normativas -
consistem na produção normativa que possibilite o exercício de determinado direito.

No caso em tela, a omissão do Estado impede a plena


efetividade dos Direitos Constitucionais. O não fazer dos requeridos na prestação desse
direito quando devia agir está ferindo, a um só tempo, o direito de acesso à água potável e o
principal fundamento da Carta Magna que é a dignidade da pessoa humana.

Sustenta Daniel Sarmento, com percuciência, acerca do tema o


seguinte:
“Na verdade, o princípio da dignidade da pessoa humana exprime,
em termos jurídicos, a máxima kantiana, segundo a qual o Homem
deve sempre ser tratado como um fim em si mesmo e nunca como
um meio. O ser Humano precede o Direito e o Estado, que
apenas se justificam em razão dele. Nesse sentido, a pessoa
humana deve ser concebida e tratada como valor-fonte do
ordenamento jurídico, como assevera Miguel Reale, sendo a
defesa e promoção da sua dignidade, em todas as suas
dimensões, a tarefa primordial do Estado Democrático de
Direito. Como afirma José Castan Tobena, el postulado primario
del Derecho es el valor próprio del hombre como valor superior e
absoluto, o lo que es igual, el imperativo de respecto a la persona
humana. Nesta linha, o princípio da dignidade da pessoa humana
representa o epicentro axiológico da ordem constitucional,
irradiando efeitos sobre todo o ordenamento jurídico e balizando
não apenas os atos estatais, mas também toda a miríade de relações
privadas que se desenvolvem no seio da sociedade civil e do
mercado. A despeito do caráter compromissário da Constituição,
pode ser dito que o princípio em questão é o que confere unidade
de sentido e valor ao sistema constitucional, que repousa na ideia
10
(STF – Pleno – MS nº 22164/SP – rel. Min. Celso de Mello, Diário da Justiça, Seção I, 17-11-1995, p. 39.206)”
11
SARLET, Ingo Wolfgang. A eficácia dos direitos fundamentais. 3. ed. Porto Alegre: Livraria do Advogado,
2003. p. 52.
12
ALEXY, Robert. Teoria de los Derechos Fundamentales. Madrid: Centro de Estúdios Constitucionales, 1997.
p. 195.

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de respeito irrestrito ao ser humano – razão última do Direito e do


Estado” 13

Neste ponto, cabe salientar que o nosso ordenamento jurídico


apresenta o princípio da dignidade da pessoa humana, insculpido no art. 1º, inciso III, da
Constituição Federal, como fundamento do Estado Democrático de Direito.

O pleno exercício dos direitos fundamentais é a própria razão


do Estado Democrático de Direito. É um modelo que visa, fundamentalmente, a proteção
do cidadão em face do Estado. O Estado, enquanto coletividade, existe para a obtenção de
uma finalidade: o bem comum. É indissociável da ideia de bem comum à possibilidade de livre
exercício dos Direitos Fundamentais. É indissociável do conceito de Estado Democrático de
Direito a vida humana digna. A dignidade da pessoa humana, fundamento do Estado
Democrático de Direito, é o núcleo em torno de qual gravitam todos os Direitos e garantias
fundamentais. Todos os Direitos visam, de alguma forma, permitir ao cidadão uma existência
digna.

Sobre a questão aqui debatida, no tocante aos direitos violados,


necessidade de se primar pela dignidade da pessoa humana, ato ilícito decorrente da violação de
direitos e consequente necessidade do pagamento dos danos morais coletivos, de ínfima
importância se mostra destacar sentença proferida pela Justiça Federal do Rio Grande do Sul na
Ação Civil Pública nº 2009.71.00.027569-0/RS em 28 de fevereiro de 2011 nos seguintes termos
14
:
A fundamentação desta sentença poderia ser singela. Afinal, é
evidente que um direito fundamental está sendo negado pela
atuação (omissiva) da Funasa porque, como resumido pelo
Ministério Público Federal (e apenas isso já seria suficiente para
fundamentar essa sentença), "não é juridicamente admissível que a
administração pública deixe vencer o contrato de prestação de
serviço para o fornecimento de água para mais de 100 pessoas,
entre elas muitas crianças e idosos, e permaneça omissa por mais
de oito meses, sem adotar qualquer medida alternativa e
emergencial que garanta aos indígenas o acesso à água potável" (fls
200).

A questão é singela e o direito é evidente.

13
SARMENTO, Daniel. A Ponderação de Interesses na Constituição. Rio de Janeiro: Lúmen Júris, 2000. p. 59.
14
- ACP – Nº 2009.71.00.027569-0/RS. Porto Alegre, 28 de fevereiro de 2011. CÂNDIDO ALFREDO SILVA
LEAL JUNIOR – Juiz Federal.

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Entretanto, como é possível que ao réu não pareça tão claro e


transparente o direito daquelas comunidades indígenas à água
clara e transparente, convém que este juízo explicite nesta
sentença os fundamentos de fato e de direito que justificam
decisão favorável às pretensões do Ministério Público Federal e
condenação da Funasa.

2.2- Fornecimento de água potável:

Julgo procedente o pedido relativo ao fornecimento de água potável


para aquelas comunidades indígenas porque:

(a) o réu Funasa tem obrigação de prestar serviço de abastecimento


de água potável àquelas comunidades indígenas porque os arts 2º,
3º- e 19-F da Lei 8.080/90 impõe à União Federal aquela obrigação
de garantir a saúde das populações, e os arts 11-I e IV e 12-I, II, III
e IV do Decreto 4.727/03 atribuem à Funasa aquelas obrigações,
cabendo-lhe as providências necessárias para assegurar a saúde das
populações indígenas;

(b) a Constituição Federal assegura a todos direitos relativos à


saúde e à dignidade humana, e a disponibilidade de água
potável e o recebimento desse serviço público de forma eficiente
e saudável integram aqueles direitos de todos os brasileiros,
inclusive das populações indígenas;

(c) ainda que o direito específico à água potável não esteja


expressamente discriminado no texto constitucional, esse
direito decorre da própria dignidade da pessoa humana e das
exigências de ser assegurado a todos o direito à saúde, não se
podendo imaginar vida saudável de determinada população -
indígena ou não-indígena - se não tiver acesso à água potável
enquanto serviço público essencial e indispensável à vida
humana;

(d) a prova documental trazida no curso do processo dá conta das


dificuldades burocráticas e administrativas para regularização do
serviço de fornecimento de água potável às comunidades indígenas
atingidas, não podendo essas serem privadas do direito e da água
potável por conta de dificuldades administrativa ou da omissão do
órgão federal competente em adotar providências para evitar ou
minorar as consequências da falta de água potável. Por exemplo,
vamos imaginar que este prédio-sede da Justiça Federal de
Porto Alegre ficasse sem fornecimento de água potável durante
8 meses. O que aconteceria nesses 8 meses, enquanto se busca
regularizar a situação do abastecimento de água? Não haveria
condição de trabalhar no prédio, seja pela falta de água, seja
pela falta de condições de higiene, seja pela impossibilidade
fática que isso acarretaria aos servidores, aos juízes, às partes e

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todos aqueles cidadãos que diária ou eventualmente precisam


comparecer ao prédio. Com aquelas comunidades indígenas
ocorreu algo semelhante, com a agravante que não foi apenas
seu local de trabalho que ficou sem água potável: foi também
sua vida privada que foi atingida, dificultando a vida daquelas
pessoas na sua própria casa ou aldeia. Nesse período de falta de
água potável, precisaram recorrer a açudes, a rios, a vizinhos, a
outras fontes de abastecimento para que pudessem continuar a
sobreviver. O que foi feito para minorar esse problema pelo órgão
responsável durante aqueles 8 meses? Do órgão federal responsável
se esperava mais do que aguardar a regularização da situação no
âmbito administrativo-burocrático, cabendo-lhe adotar emergencial
e urgentemente providências que minorassem os riscos e
diminuíssem os prejuízos àquelas populações indígenas atingidas.
Os documentos juntados aos autos, dando conta do calvário
administrativo-burocrático, não servem para eximir o réu de
responsabilidade, mas apenas reforçam a convicção deste juízo que
mais uma vez as populações indígenas sofreram com a falta de
serviços públicos essenciais que deveriam primar por atender o
mínimo existencial básico daquelas populações, fazendo suas vidas
menos miseráveis. Obrigar essas populações, durante 8 meses, a
recorrer a água de rios e açudes, ou a favor de vizinhos
distantes, agride o senso comum e o sentimento de justiça
relativamente à dignidade da pessoa humana e justifica adoção
de providências judiciais para responsabilização e indenização;

(...)”

Em razão de todos os argumentos apresentados, se mostra evidente


o direito dessa comunidade à água potável, no caso, a mera implementação de um Convênio já
existente e em trâmite há mais de 06 anos.

A GRAVIDADE SE RESUME DO SEGUINTE MODO:


COMO CONCILIAR A EXISTÊNCIA DO ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO,
DESTINADO A ASSEGURAR O PLENO EXERCÍCIO DOS DIREITOS
FUNDAMENTAIS, E CONSENTIR QUE TODOS OS INDIVÍDUOS DE UMA
COMUNIDADE QUILOMBOLA SE OBRIGUE A SACIAR SUA SEDE E SUPRIR SUAS
NECESSIDADES BÁSICAS COM ÁGUA CAPTADA DE POÇOS CASEIROS, SEM
QUALQUER TRATAMENTO OU ANÁLISE DE POTABILIDADE, EM CUJA
LOCALIDADE INEXISTE COLETA DE LIXO OU SISTEMA DE ESGOTO? E COMO
PERMITIR QUE FRENTE A ISSO O ESTADO PERMANEÇA INERTE?

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2.5 DA SINDICÂNCIA JUDICIAL DAS POLÍTICAS PÚBLICAS

Por óbvio, a omissão apontada não pode ser justificada pela


ausência de recursos públicos ou pela destinação a outras obras igualmente prioritárias.

No caso, existe um Convênio pactuado com o Ministério da


Saúde que ainda não se encontra implementado por demora injustificada e desarrazoada
dos entes requeridos em prover um serviço básico e essencial à Comunidade Quilombola
Dezidério Felipe de Oliveira.

Logo, existem recursos disponíveis, basta que os requeridos


executem os trâmites administrativos para a implementação do sistema.

Ainda que assim não fosse, ainda que não houvesse Convênio
pactuado, condenar os requeridos no fornecimento de água potável àquela comunidade
quilombola seria medida de direito, como já decidiram nossos tribunais:
“Ementa: CONSTITUCIONAL. DIREITO FUNDAMENTAL.
DIREITO À SAÚDE. ART. 196 DA CF/88. POSSIBILIDADE E
DEVER DE O PODER JUDICIÁRIO CONFERIR MÁXIMA
EFETIVIDADE À NORMA CONSTITUCIONAL.
1. A Constituição Federal de 1988 reservou um lugar de destaque
para a saúde, tratando-a, de modo inédito no constitucionalismo
pátrio, como um verdadeiro direito fundamental social.
2. O cumprimento dos direitos fundamentais sociais pelo Poder
Público pode ser exigido judicialmente, cabendo ao Judiciário,
diante da inércia governamental na realização de um dever
imposto constitucionalmente, proporcionar as medidas
necessárias ao cumprimento do direito fundamental em jogo,
com vistas à máxima efetividade da Constituição.
Feliz será o dia em que não for mais necessária a intervenção
judicial na concretização do direito à saúde. Enquanto esse dia
não chegar, esta decisão terá algum sentido”.15

Vale extrairmos excertos deste julgado, pela percepção acurada do


grave problema social, e pela proveitosa e judiciosa solução do caso:
“Atualmente, é reconhecida uma eficácia jurídica máxima a todas
as normas definidoras de direito fundamental, inclusive aos direitos
sociais, como a saúde. Desse modo, dentro da chamada “reserva
do possível”, o cumprimento dos direitos sociais pelo Poder
Público pode ser exigido judicialmente, cabendo ao Judiciário,
15
Ação Civil Pública nº 2003.81.00.009206-7. Juízo da 3ª Vara da Justiça Federal da Seção Judiciária do Ceará.

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diante da inércia governamental na realização de um dever


imposto constitucionalmente, proporcionar as medidas
necessárias ao cumprimento do direito fundamental em jogo,
com vistas à máxima efetividade da Constituição.
Tem-se entendido, de forma quase pacífica na jurisprudência, que o
direito à saúde, consagrado no art. 196, da CF/88, confere ao seu
titular (ou seja, a todos) a pretensão de exigir diretamente do
Estado que providencie os meios materiais para o gozo desse
direito, como, por exemplo, forneça os medicamentos necessários
ao tratamento ou arque como os custos de uma operação cirúrgica
específica.
(...)
A postura das autoridades públicas no presente caso é, no mínimo,
desumana. Em menos de duas semanas, já morreram 16 pessoas
por falta de um tratamento médico adequado.
É preciso, portanto, encontrar soluções criativas. Confiram-se
algumas.
Inicialmente, o Poder Judiciário, a fim de proteger o direito à
saúde, pode determinar o remanejamento ou a transferência de
recursos de uma categoria orçamentária de programação
menos importante – por exemplo, os recursos destinados à
propaganda institucional do governo – para custear o tratamento
dos pacientes. Defendendo o mesmo entendimento, GOUVÊA
explica:
“Afigura-se assim ilegítima a conduta administrativa que,
deixando de ter em conta a prioridade dos direitos
fundamentais (dentre os quais ora se destaca o direito aos
medicamentos), prefira prover projetos sujeitos a exame de
conveniência e oportunidade. A alocação de recursos nestes
projetos, inclusive, serve de evidência para que o magistrado possa
refutar exceção, fundada no argumento da reserva do possível, que
viesse a ser suscitada pelo Estado em ação envolvendo direito a
medicamentos essenciais. Não seria absurdo, outrossim, que o
magistrado, com prudência, declarasse a nulidade dos atos
administrativos que não houvessem observado a necessária
prevalência dos direitos fundamentais, de modo a que os recursos
recuperados pelo Erário, em virtude da nulificação do ato
administrativo ilegítimo, pudessem ser canalizados para a produção
da prestação amparada em imperativo jusfundamental, inicialmente
negligenciada” (GOUVÊA, Marcos Masseli. O Direito ao
Fornecimento Estatal de Medicamentos. Rio de Janeiro: Slaib
Filho. [on-line] Disponível na Internet via WWW. URL:
http://www.nagib.net/texto/varied_16.doc - Consultado em
10.9.2002)”

O Excelso Supremo Tribunal Federal, já rechaçou a escusa da


escassez de recursos como óbice à concretização dos direitos fundamentais, conferindo
interpretação da cláusula da reserva do possível conforme a Constituição, in verbis:

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"Não deixo de conferir ... significativo relevo ao tema pertinente à


‘reserva do possível'(STEPHEN HOLMES/CASS R. SUNSTEIN,
“The Cost of Righs”, 1999, Norton, New York), notadamente em
sede de efetivação e implementação (sempre onerosas) dos direitos
de segunda geração (direitos econômicos, sociais e culturais), cujo
adimplemento, pelo Poder Público, impõe e exige, deste, prestações
estatais positivas concretizadas de tais prerrogativas individuais
e/ou coletivas.
É que a realização dos direitos econômicos, sociais e culturais -
além de caracterizar-se pela gradualidade de seu processo de
concretização - depende, em grande medida, de um inescapável
vínculo financeiro subordinado às possibilidades orçamentárias
do Estado, de tal modo que, comprovada, objetivamente, a
incapacidade econômico-financeira da pessoa estatal, desta não
se poderá razoavelmente exigir, considerada a limitação
material referida, a imediata efetivação do comando fundado
no texto da Carta Política.
Não se mostrará lícito, no entanto, ao Poder Público, em tal
hipótese - mediante indevida manipulação de sua atividade
financeira e/ou político-administrativa - criar obstáculo
artificial que revele o ilegítimo, arbitrário e censurável
propósito de fraudar, de frustrar e de inviabilizar o
estabelecimento e a preservação, em favor da pessoa e dos
cidadãos, de condições materiais mínimas de existência.
Cumpre advertir, desse modo, que a cláusula da "reserva do
possível" - ressalvada a ocorrência de justo motivo objetivamente
aferível - não pode ser invocada, pelo Estado, com a finalidade de
exonerar-se do cumprimento de suas obrigações constitucionais,
notadamente quando, dessa conduta governamental negativa,
puder resultar nulificação ou, até mesmo, aniquilação de
direitos constitucionais impregnados de um sentido de essencial
fundamentalidade.”16

De outro tanto, é evidente que, sendo a saúde direito subjetivo


público de cada cidadão, e consequentemente, de toda a coletividade, o é, igualmente, dos índios.
Nesse ponto, com percuciência, sustentou o D. Magistrado na citada decisão que proferiu no
bojo da ACP Nº 2009.71.00.027569-0/RS:
“(...)
Finalmente, (g) invocar teorias sofisticadas e institutos estrangeiros
como "reserva do possível" para justificar a falta de água potável
para aquelas comunidades indígenas naquele período não
sensibiliza esse juízo. A ideia de reserva do possível fica bem
num livro de teoria do direito ou em palestras acadêmicas, mas
não mata a sede daquelas populações. Não estamos falando
aqui de obras sofisticadas de engenharia ou de despesas
extraordinárias e elevadas para satisfação da necessidade

16
(ADPF 45 MC/DF – Informativo do STF nº 345)

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básica (mínima) daquelas comunidades. Talvez se as


comunidades indígenas estivessem pleiteando a construção de uma
gigantesca represa ou sofisticada estação de tratamento da água se
pudesse recorrer aos conceitos de "reserva do possível", com
algumas citações de doutrina estrangeira para justificar o
indeferimento administrativo da pretensão. Mas não é disso que
tratamos aqui. Aquelas comunidades indígenas precisavam (e
durante vários meses foram privadas) apenas de um caminhão-pipa
rudimentar (mas que fosse limpo) que periodicamente despejasse
alguns litros de água naqueles reservatórios rudimentares montados
para servir aquelas populações. Este juízo poderia ter feito uma
inspeção judicial para documentar a situação daquelas
comunidades, mas isso não foi preciso porque os fatos falam por si:
as fotografias de fls. 89-94 mostram que a tal "reserva do possível"
está muito distante do que as comunidades precisavam e pediam.
Nas fotos de fls. 89, por exemplo, vemos algumas pessoas com
uma vassoura e um balde lavando um reservatório de 10.000 litros
no Petim. Nas fotos de fls. 90, uma camionete despeja bombonas
de água num dos acampamentos indígenas de Barra do Ribeiro. E
assim por diante. O que as comunidades indígenas precisavam não
era algo que fosse sofisticado ou extraordinário ou excessivamente
oneroso para os cofres públicos. O que eles pediam era muito
pouco para ser alcançado pelos conceitos de "reserva do possível"
invocados pela Funasa para justificar sua omissão naquele período.
As comunidades queriam apenas água limpa, potável e
transparente para atender suas necessidades básicas, evitar as
doenças que afetam crianças e idosos, e não precisar atravessar
rodovias em busca de favores de vizinho ou da boa vontade de
terceiros.

Tendo dever constitucional de fundamentar suas decisões e


examinar os argumentos das partes, este juízo precisa considerar o
que foi alegado na contestação da Funasa: "A teoria do alcunhado
princípio da reserva do possível, é cediço, tem como berço as
decisões proferidas pela Corte Constitucional Federal da
Alemanha. Pelas quais se sustentou que as limitações de ordem
econômica podem comprometer sobremaneira à plena
implementação dos ditos direitos sociais. Ficando a satisfação
destes direitos, assim, na pendência da existência de condições
materiais - especialmente econômicas - que permitam sua
atendibilidade" (item 28 de fls 129, contestação da Funasa).

Dito isso, este juízo olha para as fotos de fls 89-94 e vê as pessoas
de calção, com vassouras, mangueiras, bombonas d'água, limpando
reservatórios de 10.000 litros de água, e percebe a distância (quase
intransponível) que existe entre teoria e prática, entre petições e
fatos. Será que algum cidadão alemão ou jurista germânico
aceitaria beber água daqueles reservatórios azulados que aparecem
nas fotos? Será que algum desses cidadãos que vivem sob as
exigências da teoria da "reserva do possível" aceitaria banhar-se

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num açude poluído? Ou contar com a boa vontade dos vizinhos


para conseguir água em garrafas pets para crianças e idosos
beberem? A teoria da "reserva do possível" está longe de fazer
sentido no caso dos autos, onde existiu simplesmente descaso e
omissão em relação às comunidades indígenas durante o período
em que ficaram sem água. Estão sem água potável? Esperem a
licitação. Estão tendo de beber água morna em garrafas pet?
Esperem a contratação. Será que aquelas pessoas, por serem
indígenas, não eram cidadãos? Decididamente, este juízo não vê
como o princípio da "reserva do possível" e os sábios ensinamentos
da Corte Constitucional Federal da Alemanha possam fazer algum
sentido para aqueles cidadãos que tinham de beber água suja no
Petim, no Passo Grande ou no Passo da Estância.”(grifou-se).

Como se observa, o direito à saúde implica para o Poder Público o


dever inescusável de adotar todas as providências necessárias e indispensáveis para a sua
promoção. Nesse contexto jurídico, se o poder público negligencia no atendimento de seu
dever, cumpre ao Poder Judiciário intervir, exercendo verdadeiro controle judicial de
política pública, para conferir efetividade ao correspondente preceito constitucional.

Ante o descaso com que as autoridades competentes vem tratando o


presente caso, resta, portanto, a via judicial para que o direito à saúde dos quilombolas seja
resguardado por ordem desse Juízo Federal.

2.6 DA NECESSIDADE DE ANTECIPAÇÃO DOS EFEITOS DA TUTELA

Busca-se, em face da gravidade da lesão aos direitos


constitucionais, um provimento jurisdicional que assegure initio litis um atuar positivo da
UNIÃO FEDERAL, FUNDAÇÃO NACIONAL DA SAÚDE – FUNASA e MUNICÍPIO DE
DOURADOS no sentido de implementar o Convênio n. 527/2007 –
MINSAUDE/PAC/FUNASA, que se arrasta há 06 (seis) anos sem qualquer providência concreta
no sentido de executar as obras necessárias.

Resta evidente a verossimilhança das alegações. Em face do teor


expresso nos inúmeros dispositivos constitucionais e legais já citados e violados pelos
requeridos, tem-se, desde logo, como incontestável o direito à prestação imediata do serviço de
fornecimento de água potável à Comunidade Quilombola Dezidério Felipe de Oliveira.

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Os fatos relatados estão a sedimentar, também, a existência de


dano irreparável prolongando-se de forma contínua e indefinida, caso não sejam tomadas
providências que assegurem o imediato e suficiente fornecimento de água potável à comunidade
atingida pela atitude negligente e ineficiente dos réus.

No caso, deve-se aplicar o disposto no art. 461 do CPC, com a


determinação que adote medidas voltadas ao imediato abastecimento de água potável à
Comunidade Quilombola.

A respeito da preferência da tutela específica sobre as demais, vale


a leitura da lição de Luiz Guilherme Marinoni:
“A tutela na forma específica, como é óbvio, é a tutela ideal do
direito material, já que confere à parte lesada o bem ou o
direito em si, e não o seu equivalente. É apenas mediante a tutela
específica que o ordenamento jurídico pode assegurar a prestação
devida àquele que possui a expectativa de receber um bem. Não é
por outra razão que os arts. 461 do CPC e 84 do CDC,
demonstrando uma verdadeira obsessão pela tutela específica,
afirmam que a obrigação somente se converterá em perdas e
danos se o autor o requerer ou se impossível a tutela específica
ou a obtenção do resultado correspondente.”17

Presentes, portanto, os requisitos para a antecipação de tutela,


requer o Ministério Público Federal, com fundamento no art. 461, § 3º, do CPC e art. 84, § 3º, da
Lei n. 8.078/90, seja deferida, liminarmente, a tutela pleiteada.

O periculum in mora é notório e reside no “fundado receio de dano


irreparável ou de difícil reparação” (art. 11 e 12, da Lei nº 7347/85), em decorrência da demora,
por parte dos entes públicos na adoção de providências efetivas, tendentes a evitar o
prosseguimento da aniquilação dos direitos constitucionais da população diretamente envolvida
uma vez que não lhes é disponibilizada água potável para o consumo humano e a situação é
agravada pela ausência de sistema de esgoto e coleta de lixo na localidade. Frise-se ainda que
tal situação, longínqua, já mostra-se insustentável.

A água, como é sabido, é o elemento mais importante para a


sobrevivência humana – compõe de 60 a 70% de nosso peso corporal, regula a temperatura
17
- Marinoni, Luiz Guilherme, Técnica processual e tutela dos direitos, São Paulo, Editora Revistas dos
Tribunais, 2004, pág. 385.

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interna do corpo humano e é essencial para todas as funções orgânicas realizadas por nossos
organismos –, além de ser imprescindível às necessidades mais básicas relacionadas à
alimentação e higiene do ser humano.

Desta feita, a água destinada ao consumo humano pode tornar-se


um poderoso veículo de transmissão de doenças quando não submetida a tratamento e
distribuição adequados. Apenas a título de informação, como já asseverado alhures, a água
contaminada ou precariamente tratada e a ausência de condições mínimas de saneamento podem
transmitir doenças como cólera, amebíase, hepatite, poliomielite, febre tifoide, ascaridíase,
esquistossomose, dengue, febre amarela, dentre outras. Daí decorre o perigo de dano irreparável
a que estarão submetidos os indígenas se não for concedida a antecipação tutelar ora concedida.

O fumus boni iuris se mostra presente quando se observa o plano


fático a que submeteram e se submetem os cidadãos residentes na Comunidade Quilombola
Dezidério Felipe de Oliveira e a decorrência de 06 (seis) anos sem providências dos requeridos
no sentido de implementar um serviço público essencial.

Como se vê, Excelência, esta Ação Civil Pública trata de fatos


incontroversos, porquanto não remanesce dúvida sobre a existência do direito, tampouco, do
risco de que tal direito sofra um dano de difícil ou impossível reparação.

Também é salutar, numa interpretação adequada do art. 798 do


Código de Processo Civil, trazer à colação o seguinte ensinamento doutrinário:
"O poder geral de cautela permite ao juiz, que é o seu titular, tome
as providências de índole cautelar (isto é, com função cautelar) que
não estejam previstas expressamente (tipificadas) e que não tenham
sido requeridas.
A existência desse poder é consequência da impossibilidade de se
tipificar todos os perigos possíveis. Isto porque as cautelares
nominadas (a que a lei deu nome), como arresto ou Sequestro, são
tipificadas em função de um tipo específico de perigo descrito na
lei. Claro que é impossível ao legislador pensar em todos os perigos
possíveis.
Impossível também preverem-se todas as possíveis correlatas
soluções”. 18

18
WAMBIER,Luiz Rodrigues et alli: Curso Avançado de Processo Civil. Vol. 3, Processo Cautelar e
Procedimentos Especiais; RT, São Paulo, 1988, pp. 34 e 35).

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Não menos importante para o caso é fazermos referência aos novos


conceitos e diretrizes aplicados ao Direito Processual Civil, que empreendem um caráter
moderno da Ação Civil Pública, eis que a inovadora doutrina e a jurisprudência têm firmado o
entendimento que o Juiz atua nas Ações que visam a defesa da coletividade (direitos difusos – o
ora em discussão, por se tratar de meio ambiente; coletivos e individuais homogêneos
indisponíveis) com ampla discricionariedade. Porém, é evidente, dentro da prudência,
razoabilidade e racionalidade, a fim de não afastar e não ferir o princípio da imparcialidade,
princípio informador de fundamental importância para a garantia da prestação jurisdicional.

Nesta linha de raciocínio, e alicerçado em outras grandes


expressões do direito processual brasileiro, descreve, em feliz síntese, MANCUSO que:
"Um interessante contraponto, evidenciador do caráter moderno da
ação civil pública, reside na comparação que se pode fazer entre o
art. 128 do CPC (consagrador do princípio da proibição da justiça
ex officio) e o disposto no art. 11 da Lei 7.347/85, autorizando o
juiz a aplicar a astreinte) – multa diária – independentemente de
requerimento do autor”. E sendo o sistema processual do Código de
Defesa do Consumidor aplicável à ação civil pública (cf. 117 desse
Código), o juiz desta última poderá, tanto na obtenção da prestação
específica como para seu eventual sucedâneo, “determinar as
medidas necessárias, tais como busca e apreensão, remoção de
coisas e pessoas, desfazimento de obra, impedimento de atividade
nociva, além de requisição de força policial” (parágrafo 5º. do art.
84). V. parágrafo 5º. do art. 461 do CPC, acrescentado pela Lei
“8.952/94”. 19

Assim sendo, tendo em vista a urgência demonstrada, impõe-se a


determinação das medidas necessárias e, felizmente, disponíveis na sistemática do direito
processual civil brasileiro, ou seja, a efetivação da medida liminar específica para a obtenção do
resultado prático, tendente a proporcionar o fornecimento de água a tais comunidades para que
supram suas necessidades básicas.

Assim, o MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL requer a Vossa


Excelência que conceda a medida liminar, determinando aos requeridos que: a) No prazo
improrrogável de 10 DIAS diligenciem, cada qual no seu âmbito de atribuições, para a efetiva
repactuação do preço da obra; b) Contados da efetiva repactuação, que sejam adotadas as
medidas cabíveis para a licitação e execução da obra no prazo improrrogável de 90 DIAS.
19
MANCUSO, Rodolfo de Camargo. Ação Civil Pública: em defesa do meio ambiente, do patrimônio cultural e
dos consumidores. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2001, p. 87).

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3. DO PEDIDO FINAL

Diante de todo o exposto, estando comprovados os fatos e sendo


inequívoco o direito postulado, o MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL requer, em sede de
tutela antecipada inaudita altera pars, que seja determinado aos requeridos que:
a) No prazo improrrogável de 10 (dez) dias diligenciem, cada qual
no seu âmbito de atribuições, para a efetiva repactuação dos preços;
b) Contados da efetiva repactuação, que sejam adotadas as medidas
cabíveis para a licitação e execução da obra no prazo improrrogável
de 90 (noventa) dias, exaurindo-se, assim, o objeto do Convênio n.
527/2007/MINSAÚDE/PAC/FUNASA.

2) a citação dos requeridos, para, querendo, apresentar resposta no prazo legal, sob pena da
incidência dos efeitos da revelia;
3) a condenação, em caráter definitivo, dos entes públicos demandado, nos termos acima
formulados;
4) a produção de todas as provas admitidas, em especial a oitiva de testemunhas, juntada de
novos documentos, além de outras que se mostrarem necessárias após o transcurso do prazo de
resposta.
5) a condenação do requerido no pagamento das custas e despesas processuais.

Dá-se à causa o valor de R$ 1.000,00 (um mil reais), para os efeitos


legais.

Dourados/MS, 10 de maio de 2013.

MARCO ANTONIO DELFINO DE ALMEIDA


PROCURADOR DA REPÚBLICA

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