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LLP2_2019.2_7.10.

2019
Pequena digressão métrica + I Juca Pirama

O ritmo comunica. Como entender essa afirmação? Como entendê-la quando pensamos na
vida, em geral, na literatura ou na poesia?
Num poema, não podemos nos fiar apenas do sentido das palavras, não podemos achar que
“entender” seja decodificar informações semânticas, estruturas gramaticais. Isso é claro? Vejam: não
resolve muito simplesmente dizer que os poemas fazem uso predominante de linguagem figurada;
isso pode, a depender da situação, levar a falas como “cada um vê o que quiser num poema”, “em
poesia vale só a sensibilidade”, “o poema sempre fala de outra coisa” etc. etc. Coisas assim poderiam
nos levar a um tipo de relativismo que, em algum momento, inviabilizaria a comunicação entre nós.
Mas isso dá pano pra manga e não temos esse tempo disponível. Por hora, basta que nos
concentremos/relembremos disso: num poema, as potencialidades expressivas da palavra são
amplificadas. Reflitam um pouco sobre essa frase anterior. Potencialidades expressivas;
amplificação. O que as palavras podem, em termos de criar imagens mentais e abstratas em nossa
mente? O que elas podem no que se refere a entortar nosso raciocínio para, como num quebra
cabeças, desvendarmos algo? o que elas podem, especialmente, em termos de poder encantatório,
hipnótico do ritmo? Retornemos a isso: o ritmo comunica. Se lermos com cuidado o “I Juca Pirama”,
perceberemos que há ali mais de uma voz interna, mais de um eu que fala, mais de um narrador.
Essas vozes se alternam porque se alternam as personas a falar. E quando isso acontece, acontece
também a alteração dos ritmos. Com isso, poderia sugerir a vocês que lançassem hipóteses sobre os
diferentes ritmos e metros utilizados no poema, que refletissem de modo a associar afetos, humores
e climas psicológicos das personas que falam a uma realização rítmica específica, escolhida pelo
poeta. Haveria algo a recuperar no poema nesse sentido? Por que será que no Canto IV, o Canto de
Morte, Gonçalves Dias escolheu a redondilha menor? Por que a fala irada do pai foi escrita/inscrita
num metro maior? Como nós podemos elaborar uma leitura, vocal inclusive, para isso? A busca por
essas respostas é coisa mais importante, para vocês, do que a resposta que eu daria, baseado no que
são minhas hipóteses. Não pretendemos descobrir a “verdade” do poema de Gonçalves Dias. A
pretensão é fazer uso do que o poema apresenta e elaborar nossas apostas. É óbvio que eu exporei
o modo como leio e vejo essas questões. Mas tão importante quanto (ou mais importante até!) é
vocês atentarem para a própria escuta, investigarem, honestamente, o que sentem e que impressão
têm ao dizer as palavras do poema em voz alta. Estou falando do I Juca Pirama mas esse exercício
pode ser feito (é muito aconselhável que seja feito) com qualquer poema.
Nenhum poema prescinde de ritmo. O mais quebrado dos mais quebrados dos poemas não
prescinde do ritmo. O ritmo pode ser fragmentado, com o primeiro verso de um poema tendo duas
sílabas e o segundo tendo 12, não importa: uma distribuição de acentos (tempos fortes) e emissões
mais fracas foi efetuada. Ao ler, ativamos isso. Uns poemas vão soar mais escorreitos, mais fluidos,
mais suaves, docinhos de dizer; outros vão parecer mais quebrados, dificultando a pronúncia,
bagunçando a respiração, deixando a gente com alguma angústia que pode nem vir do que as
palavras dizem, mas do modo como foram distribuídas na página e, obviamente, no tempo. Como se
consegue um e outro efeito?

Estamos começando um percurso de leitura, a partir do romantismo, com o apoio do texto


de Bandeira. Para além disso, juntos leremos nesta semana o I Juca Pirama, de Gonçalves Dias,
transcrito a partir da próxima página. Como já conversamos, questões de ordem sociológica e
conceitual acerca do período estão sendo levantadas; este material pretende que foquemos um
pouco a atenção em aspectos mais formais e estilísticos.

Para começar os trabalhos, leiam EM VOZ ALTA e ritmadamente as estrofes abaixo, tentando
entender o que significam os sinais em vermelho colocados imediatamente antes de cada uma delas.
Deixem o ouvido ligado durante a execução da leitura.

|_
boca, bela, casa, topa, tapa
beira, lua, chega, puxa, livro,
negro, branco, negra, ducha, litro
poço, dente, chato, bico, falha

_|
amor, além, caju, vovô, papai
vovó, exu, tição, calor, tambor
papão, café, alô, Benin, favor
Japão, furor, cadê, licor, atrás

|__
Pássaro, trôpego, fétido,
épico, córrego, úrsula
Nítido, último, méxico
Cérebro, métrica, Pústula

__|
Aimoré, Sabará, Jericó
Cavucar, exprimir, esconder
Amanhã, exemplar, cabrobó
Satanás, emoção, cererê
I-Juca Pirama | Gonçalves Dias Caminha o Timbira, que a turba rodeia,
Garboso nas plumas de vário matiz.
I
Em tanto as mulheres com leda trigança,
Afeitas ao rito da bárbara usança,
No meio das tabas de amenos verdores,
índio já querem cativo acabar:
Cercadas de troncos - cobertos de flores,
A coma lhe cortam, os membros lhe tingem,
Alteiam-se os tetos d’altiva nação;
Brilhante enduape no corpo lhe cingem,
São muitos seus filhos, nos ânimos fortes,
Sombreia-lhe a fronte gentil canitar,
Temíveis na guerra, que em densas coortes
Assombram das matas a imensa extensão.
São rudos, severos, sedentos de glória,
II
Já prélios incitam, já cantam vitória,
Já meigos atendem à voz do cantor: Em fundos vasos d’alvacenta argila
São todos Timbiras, guerreiros valentes! Ferve o cauim;
Seu nome lá voa na boca das gentes, Enchem-se as copas, o prazer começa,
Condão de prodígios, de glória e terror! Reina o festim.
As tribos vizinhas, sem forças, sem brio, O prisioneiro, cuja morte anseiam,
As armas quebrando, lançando-as ao rio, Sentado está,
O incenso aspiraram dos seus maracás: O prisioneiro, que outro sol no ocaso
Medrosos das guerras que os fortes acendem, Jamais verá!
Custosos tributos ignavos lá rendem,
Aos duros guerreiros sujeitos na paz. A dura corda, que lhe enlaça o colo,
Mostra-lhe o fim
No centro da taba se estende um terreiro, Da vida escura, que será mais breve
Onde ora se aduna o concílio guerreiro Do que o festim!
Da tribo senhora, das tribos servis:
Contudo os olhos d’ignóbil pranto
Os velhos sentados praticam d’outrora,
E os moços inquietos, que a festa enamora, Secos estão;
Derramam-se em torno dum índio infeliz. Mudos os lábios não descerram queixas
Do coração.
Quem é? - ninguém sabe: seu nome é ignoto,
Sua tribo não diz: - de um povo remoto Mas um martírio , que encobrir não pode,
Em rugas faz
Descende por certo - dum povo gentil;
Assim lá na Grécia ao escravo insulano A mentirosa placidez do rosto
Tornavam distinto do vil muçulmano Na fronte audaz!
As linhas corretas do nobre perfil. Que tens, guerreiro? Que temor te assalta
Por casos de guerra caiu prisioneiro No passo horrendo?
Nas mãos dos Timbiras: - no extenso terreiro Honra das tabas que nascer te viram,
Assola-se o teto, que o teve em prisão; Folga morrendo.
Convidam-se as tribos dos seus arredores, Folga morrendo; porque além dos Andes
Cuidosos se incubem do vaso das cores, Revive o forte,
Dos vários aprestos da honrosa função. Que soube ufano contrastar os medos
Acerva-se a lenha da vasta fogueira Da fria morte.
Entesa-se a corda da embira ligeira, Rasteira grama, exposta ao sol, à chuva,
Adorna-se a maça com penas gentis: Lá murcha e pende:
A custo, entre as vagas do povo da aldeia Somente ao tronco, que devassa os ares,
O raio ofende!
Que foi? Tupã mandou que ele caísse, Por fado inconstante,
Como viveu; Guerreiros, nasci;
E o caçador que o avistou prostrado Sou bravo, sou forte,
Esmoreceu! Sou filho do Norte;
Que temes, ó guerreiro? Além dos Andes Meu canto de morte,
Revive o forte, Guerreiros, ouvi.
Que soube ufano contrastar os medos Já vi cruas brigas,
Da fria morte. De tribos imigas,
E as duras fadigas
Da guerra provei;
III Nas ondas mendaces
Senti pelas faces
Em larga roda de novéis guerreiros Os silvos fugaces
Ledo caminha o festival Timbira, Dos ventos que amei.
A quem do sacrifício cabe as honras, Andei longes terras
Na fronte o canitar sacode em ondas, Lidei cruas guerras,
O enduape na cinta se embalança, Vaguei pelas serras
Na destra mão sopesa a iverapeme, Dos vis Aimoréis;
Orgulhoso e pujante. - Ao menor passo Vi lutas de bravos,
Colar d’alvo marfim, insígnia d’honra, Vi fortes - escravos!
Que lhe orna o colo e o peito, ruge e freme, De estranhos ignavos
Como que por feitiço não sabido Calcados aos pés.
Encantadas ali as almas grandes
E os campos talados,
Dos vencidos Tapuias, inda chorem
E os arcos quebrados,
Serem glória e brasão d’imigos feros.
E os piagas coitados
"Eis-me aqui", diz ao índio prisioneiro; Já sem maracás;
"Pois que fraco, e sem tribo, e sem família, E os meigos cantores,
"As nossas matas devassaste ousado, Servindo a senhores,
"Morrerás morte vil da mão de um forte." Que vinham traidores,
Vem a terreiro o mísero contrário; Com mostras de paz.
Do colo à cinta a muçurana desce: Aos golpes do imigo,
"Dize-nos quem és, teus feitos canta, Meu último amigo,
"Ou se mais te apraz, defende-te." Começa Sem lar, sem abrigo
O índio, que ao redor derrama os olhos, Caiu junto a mi!
Com triste voz que os ânimos comove. Com plácido rosto,
Sereno e composto,
IV O acerbo desgosto
Comigo sofri.
Meu canto de morte,
Guerreiros, ouvi: Meu pai a meu lado
Sou filho das selvas, Já cego e quebrado,
Nas selvas cresci; De penas ralado,
Guerreiros, descendo Firmava-se em mi:
Da tribo tupi. Nós ambos, mesquinhos,
Por ínvios caminhos,
Da tribo pujante,
Que agora anda errante
Cobertos d’espinhos V
Chegamos aqui!
Soltai-o! - diz o chefe. Pasma a turba;
O velho no entanto
Os guerreiros murmuram: mal ouviram,
Sofrendo já tanto
Nem pode nunca um chefe dar tal ordem!
De fome e quebranto,
Brada segunda vez com voz mais alta,
Só qu’ria morrer!
Afrouxam-se as prisões, a embira cede,
Não mais me contenho,
A custo, sim; mas cede: o estranho é salvo.
Nas matas me embrenho,
Das frechas que tenho Timbira, diz o índio enternecido,
Me quero valer. Solto apenas dos nós que o seguravam:
És um guerreiro ilustre, um grande chefe,
Então, forasteiro,
Tu que assim do meu mal te comoveste,
Caí prisioneiro
Nem sofres que, transposta a natureza,
De um troço guerreiro
Com olhos onde a luz já não cintila,
Com que me encontrei:
Chore a morte do filho o pai cansado,
O cru dessossêgo
Que somente por seu na voz conhece.
Do pai fraco e cego,
- És livre; parte.
Enquanto não chego
- E voltarei.
Qual seja, - dizei!
- Debalde.
Eu era o seu guia - Sim, voltarei, morto meu pai.
Na noite sombria, - Não voltes!
A só alegria É bem feliz, se existe, em que não veja,
Que Deus lhe deixou: Que filho tem, qual chora: és livre; parte!
Em mim se apoiava, - Acaso tu supões que me acobardo,
Em mim se firmava, Que receio morrer!
Em mim descansava, - És livre; parte!
Que filho lhe sou. - Ora não partirei; quero provar-te
Ao velho coitado Que um filho dos Tupis vive com honra,
De penas ralado, E com honra maior, se acaso o vencem,
Já cego e quebrado, Da morte o passo glorioso afronta.
Que resta? - Morrer. - Mentiste, que um Tupi não chora nunca,
Enquanto descreve E tu choraste!... parte; não queremos
O giro tão breve Com carne vil enfraquecer os fortes.
Da vida que teve,
Sobresteve o Tupi: - arfando em ondas
Deixai-me viver!
O rebater do coração se ouvia
Não vil, não ignavo, Precípite. - Do rosto afogueado
Mas forte, mas bravo, Gélidas bagas de suor corriam:
Serei vosso escravo: Talvez que o assaltava um pensamento...
Aqui virei ter. Já não... que na enlutada fantasia,
Guerreiros, não coro Um pesar, um martírio ao mesmo tempo,
Do pranto que choro: Do velho pai a moribunda imagem
Se a vida deploro, Quase bradar-lhe ouvia: - Ingrato! Ingrato!
Também sei morrer. Curvado o colo, taciturno e frio.
Espectro d’homem, penetrou no bosque!
VI Inteira e tão cruel qual tinha sido;
Mas que funesto azar correra o filho,
- Filho meu, onde estás? Ele o via; ele o tinha ali presente;
- Ao vosso lado; E era de repetir-se a cada instante.
Aqui vos trago provisões; tomai-as, A dor passada, a previsão futura
As vossas forças restaurai perdidas, E o presente tão negro, ali os tinha;
E a caminho, e já! Ali no coração se concentrava,
- Tardaste muito! Era num ponto só, mas era a morte!
Não era nado o sol, quando partiste,
- Tu prisioneiro, tu?
E frouxo o seu calor já sinto agora!
- Vós o dissestes.
- Sim demorei-me a divagar sem rumo,
- Dos índios?
Perdi-me nestas matas intrincadas,
- Sim.
Reaviei-me e tornei; mas urge o tempo;
- De que nação?
Convém partir, e já!
- Timbiras.
- Que novos males
- E a muçurana funeral rompeste,
Nos resta de sofrer? - que novas dores,
Dos falsos manitôs quebrastes maça...
Que outro fado pior Tupã nos guarda?
- Nada fiz... aqui estou.
- As setas da aflição já se esgotaram,
- Nada! -
Nem para novo golpe espaço intacto
Emudecem;
Em nossos corpos resta.
Curto instante depois prossegue o velho:
- Mas tu tremes!
- Tu és valente, bem o sei; confessa,
- Talvez do afã da caça....
Fizeste-o, certo, ou já não fôras vivo!
- Oh filho caro!
- Nada fiz; mas souberam da existência
Um quê misterioso aqui me fala,
De um pobre velho, que em mim só vivia....
Aqui no coração; piedosa fraude
- E depois?...
Será por certo, que não mentes nunca!
- Eis-me aqui.
Não conheces temor, e agora temes?
- Fica essa taba?
Vejo e sei: é Tupã que nos aflige,
E contra o seu querer não valem brios. - Na direção do sol, quando transmonta.
Partamos!... - - Longe?
E com mão trêmula, incerta - Não muito.
Procura o filho, tateando as trevas - Tens razão: partamos.
Da sua noite lúgubre e medonha. - E quereis ir?...
Sentindo o acre odor das frescas tintas, - Na direção do acaso.
Uma ideia fatal ocorreu-lhe à mente...
Do filho os membros gélidos apalpa, VII
E a dolorosa maciez das plumas
"Por amor de um triste velho,
Conhece estremecendo: - foge, volta,
Que ao termo fatal já chega,
Encontra sob as mãos o duro crânio,
Vós, guerreiros, concedestes
Despido então do natural ornato!...
A vida a um prisioneiro.
Recua aflito e pávido, cobrindo
Ação tão nobre vos honra,
Às mãos ambas os olhos fulminados,
Nem tão alta cortesia
Como que teme ainda o triste velho
Vi eu jamais praticada
De ver, não mais cruel, porém mais clara,
Entre os Tupis, - e mas foram
Daquele exício grande a imagem viva
Senhores em gentileza.
Ante os olhos do corpo afigurada.
Não era que a verdade conhecesse
"Eu porém nunca vencido, "Possas tu, isolado na terra,
Nem nos combates por armas, Sem arrimo e sem pátria vagando,
Nem por nobreza nos atos; Rejeitado da morte na guerra,
Aqui venho, e o filho trago. Rejeitado dos homens na paz,
Vós o dizeis prisioneiro, Ser das gentes o espectro execrado;
Seja assim como dizeis; Não encontres amor nas mulheres,
Mandai vir a lenha, o fogo, Teus amigos, se amigos tiveres,
A maça do sacrifício Tenham alma inconstante e falaz!
E a muçurana ligeira: "Não encontres doçura no dia,
Em tudo o rito se cumpra! Nem as cores da aurora te ameiguem,
E quando eu for só na terra, E entre as larvas da noite sombria
Certo acharei entre os vossos, Nunca possas descanso gozar:
Que tão gentis se revelam, Não encontres um tronco, uma pedra,
Alguém que meus passos guie; Posta ao sol, posta às chuvas e aos ventos,
Alguém, que vendo o meu peito Padecendo os maiores tormentos,
Coberto de cicatrizes, Onde possas a fronte pousar.
Tomando a vez de meu filho,
De haver-me por se ufane!" "Que a teus passos a relva se torre;
Mas o chefe dos Timbiras, Murchem prados, a flor desfaleça,
Os sobrolhos encrespando, E o regato que límpido corre,
Ao velho Tupi guerreiro Mais te acenda o vesano furor;
Suas águas depressa se tornem,
Responde com torvo acento:
Ao contacto dos lábios sedentos,
- Nada farei do que dizes: Lago impuro de vermes nojentos,
É teu filho imbele e fraco! Donde fujas com asco e terror!
Aviltaria o triunfo
Da mais guerreira das tribos "Sempre o céu, como um teto incendido,
Derramar seu ignóbil sangue: Creste e punja teus membros malditos
E oceano de pó denegrido
Ele chorou de cobarde;
Nós outros, fortes Timbiras, Seja a terra ao ignavo tupi!
Só de heróis fazemos pasto. - Miserável, faminto, sedento,
Manitôs lhe não falem nos sonhos,
Do velho Tupi guerreiro E do horror os espectros medonhos
A surda voz na garganta Traga sempre o cobarde após si.
Faz ouvir uns sons confusos,
Como os rugidos de um tigre, "Um amigo não tenhas piedoso
Que pouco a pouco se assanha! Que o teu corpo na terra embalsame,
Pondo em vaso d’argila cuidoso
VIII Arco e frecha e tacape a teus pés!
Sê maldito, e sozinho na terra;
"Tu choraste em presença da morte? Pois que a tanta vileza chegaste,
Na presença de estranhos choraste? Que em presença da morte choraste,
Não descende o cobarde do forte; Tu, cobarde, meu filho não és."
Pois choraste, meu filho não és!
Possas tu, descendente maldito IX
De uma tribo de nobres guerreiros,
Implorando cruéis forasteiros, Isto dizendo, o miserando velho
Seres presa de via Aimorés. A quem Tupã tamanha dor, tal fado
Já nos confins da vida reservada,
Vai com trêmulo pé, com as mãos já frias O guerreiro parou, caiu nos braços
Da sua noite escura as densas trevas Do velho pai, que o cinge contra o peito,
Palpando. - Alarma! alarma! - O velho para! Com lágrimas de júbilo bradando:
O grito que escutou é voz do filho, "Este, sim, que é meu filho muito amado!
Voz de guerra que ouviu já tantas vezes "E pois que o acho enfim, qual sempre o tive,
Noutra quadra melhor. - Alarma! alarma! "Corram livres as lágrimas que choro,
- Esse momento só vale a pagar-lhe "Estas lágrimas, sim, que não desonram."
Os tão compridos trances, as angústias,
Que o frio coração lhe atormentaram X
De guerreiro e de pai: - vale, e de sobra.
Ele que em tanta dor se contivera, Um velho Timbira, coberto de glória,
Tomado pelo súbito contraste, Guardou a memória
Desfaz-se agora em pranto copioso, Do moço guerreiro, do velho Tupi!
Que o exaurido coração remoça. E à noite, nas tabas, se alguém duvidava
Do que ele contava,
A taba se alborota, os golpes descem,
Dizia prudente: - "Meninos, eu vi!
Gritos, imprecações profundas soam,
Emaranhada a multidão braveja, "Eu vi o brioso no largo terreiro
Revolve-se, enovela-se confusa, Cantar prisioneiro
E mais revolta em mor furor se acende. Seu canto de morte, que nunca esqueci:
E os sons dos golpes que incessantes fervem, Valente, como era, chorou sem ter pejo;
Vozes, gemidos, estertor de morte Parece que o vejo,
Vão longe pelas ermas serranias Que o tenho nest’hora diante de mi.
Da humana tempestade propagando "Eu disse comigo: Que infâmia d’escravo!
Quantas vagas de povo enfurecido Pois não, era um bravo;
Contra um rochedo vivo se quebravam. Valente e brioso, como ele, não vi!
Era ele, o Tupi; nem fora justo E à fé que vos digo: parece-me encanto
Que a fama dos Tupis - o nome, a glória, Que quem chorou tanto,
Aturado labor de tantos anos, Tivesse a coragem que tinha o Tupi!"
Derradeiro brasão da raça extinta, Assim o Timbira, coberto de glória,
De um jacto e por um só se aniquilasse. Guardava a memória
- Basta! Clama o chefe dos Timbiras, Do moço guerreiro, do velho Tupi.
- Basta, guerreiro ilustre! Assaz lutaste, E à noite nas tabas, se alguém duvidava
E para o sacrifício é mister forças. - Do que ele contava,
Tornava prudente: "Meninos, eu vi!".

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