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brqsiliense

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Repensando a
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p€S'quisa participante

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Carlos Rodrigues Brandão (org.)

Repensando a
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participante

editora brasiliense
Copyrigfu e dos aurore\
J{enhuma parte desta publicação potle ser g.ravada,
armazenada em sistemas eletrônico.s. .loÍrtcopiada,
reproduzida por meios mecanicos ou outt'os cluoisquer
sern autori:ação previct da editoru.

CaTtu: Joào Baptista da Costa .\guiar

Revisão.' Jose W. S. Moraes


Nobuka Rachi

3" edição, I 98 7
3" reimpressão, 2008

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


tCàmara Brasileira do Livro SP Brasil)

Repensando a pesquisa participante / Carlos Rodrigues


Brandão (org.).-- São Paulo: Brasiliense, 1999.

Vários autores
da 3. ed. de 1987.
ISBN 85-11-0t0tt-7

I. Ciências sociais - Trabalho de campo


2. Observação participante 3. Pesquisa social -
Brasil L Brandão, Carlos Rodrigues , 1940.

99-5210 cDD-300-72081
Índices para catálogo sistemático:
I. Brasil: Pesquisa participante: Pesquisa
social: Ciências ocultas 30A.12081

editora e livraria brasiliense


Rua Mourato Coelho, I I I - Pinheiros
CEP 05417-010 - São Paulo - SP
www. e dit o rab ra s ili e n s e. c om. b r
Índice
Participar-pesquisar carlos Rodrigues Brandão..
Pesquisa participante: Propostas e projetos
Marcela Ga-
j ardo
15
Pesquisa participante: Propostas e reflexões metodológicas
Gry Le Boterf . .
51
\otas para o debate sobre pesquisa-ação Michel Thioilent . 82
Elementos metodológicos da pesquisa - .

participante pedro
Demo
104
Causa popular, ciência popular: Uma metodologia
do conheci-
mento científico através da ação Victor D. Bonilla.
- e Augus to Libreros.
Gonzalo Castillo. Orlando Fals B orda
I3 1

Pesquisa participante em um contexto de economia


campo-
Vera Gianotten e Ton de Wit
l5g
E m busca de uma metodologia de ação institucional
Manuel Alberto Argumedo l g9
-\ participação da pesquisa no trabalho popular carros
RodriguesBrandão.. ...... 223
P articip ar-p esquis ar i

Ciência sem conhecimento e a ruína da alma.


Rabelais, Pantagruel, VIII

Ja que cada um dos autores desta segunda coletânea sobre o


assunto vai de algum modo discutir teorias e práticas de modali-
dades de pesquisa participante, quero reservar para estas poucas
páginas de introduÇão uma questão que, por ser possivelmente
menos científica e menos política, em aparência, não tem sido abor-
dada em publico até aqui. Ela parece fazer parte daquilo que, sendo
sentido por todos, não deve ser falado entre ninguém, muito menos
em um livro.
Há segredos que se ocultam de teorias; assuntos do humano
que há no oficio do pesquisador e que somente o pensar sobre a
práttca pessoal revela. Durante anos aprendemos que boa parte de
uma metodologia científica adequada serve para proteger o sujeito
de si próprio, de sua propria pessoa, ou seja: de sua subjetividade.
Que entre quem pesquisa e quem é pesquisado não exista senão
uma proximidade policiada entre o metodo (o sujeito dissolvido em
ciência) e o objeto (o outro sujeito dissolvido em dado). Fora do
F
domínio de qualquer interesse que não o da propria ciência, tudo se
resolve com boa teoria no princípio, uma objetiva neutralidade no
nreio e uma rigorosa articulaçáo de ambas as coisas com os dados
obtidos, no final.
§
Mais tarde, tempos coletivos de militàncra que, €ffi sucessi\ os
momentos, tornaram humanos e próximos os "objetos de pesquisa" .
trouxeram experiências e crenças que , actedito, temos compartido.

r
8 cARLos R'DRIG,ES BRANDÃo ro.g'.) . ,

com variações, vários e diferentes cientistas


sociais. Uma delas: só se
conhece em profundidade alguma coisa
da vid a da sociedade ou da
cultura, quando através de um envolvimento
em alguns casos,
um comprometimento -
pessoal entre o pesquisador
- outra: não é p.opiiamente e aquilo, ou
aquele, 9ue ele investiga.
um método
objetivo de trabalho científico que determiru
opriori u qruli'6;;;,
relação entre os pólos da pesquisa, mas,
ao contrário; com freqüên-
cia e a intenção premeditada, ou a evidência
real izada de uma re-
lação pessoal e/ou política estabelecida, ou a estabelecer, que
sugere
a escolha dos modos concretos de realização
do trabalho de pensar a
pesquisa' uma última: em boa medida,
a logica, a técni ca e a estra-
tegia de uma pesquisa de campo dependem
tanto de pressupostos
teóricos quanto da maneira coÍno o pesquisador
se çoloca na pes-
quisa e através dela e, a partir d,aí, constitui
simbolicamente o outro
que investiga.
Uma das difuculdades fundamentais em uma
atividade cientí-
fica cujo "outro lado" é constituído também
por pessoas, sujeitos
sociais quase sempre diferentes do pesquisador
(índios, negros,
camponeses, "populações marginal izadas;,
operários, migrant..) é
a de como ttatar, pessoal e metodologicamente,
uma relação ante-
cedente de alteridade que se estabelecã
e que, na maioria dos casos?
e aprópriacondição da pesquisa.
Algumas relações de proximidade entre a prática
catequ etica
do passado, a do profestoi d. hoje e a do pesquisador
de campo,
ajudam a compreender, ora por opor um ao
outro , ora por apro-
ximá-los, a questão dificil da construção do
outro que antecede e
dirige o exercício d,a prática.
A missão do pregador catequista que um dia aportou da
Europa no país era a de fazet d,o outro um ,,como
eu,,, desde que
subalterno' Através de idéias inculcadas, de
hábitos mudados e de
ritos de mudança impostos, destruir aquilo
que separa na vida, na
consciência e na cultura , o outro de mi*
em meu mundo, a proximidade adquirida
, desde Que, ao ingressar
pelo ouÍro não venha a
abolir a diferença entre nos. o índio cristiànizad,o
e o negro bati-
zado, como resultado de um trabalho violento
e seguro de re-signi-
ficação da cultura (a morad,a dos símbolso)
e da identid ade (a mo-
tada dos significados culturais da diferen para ser finalmente
um cristão como eu, desde que ainda índio
ça),
ou negro, ou seja, desde
que nunca um outro eu. um ser agora
humano, porque cristão, mas
ainda índio ou negro e, portanto, um subalterno
legítimo a quem a
proximidade adquirida à custa de perdas forçaãas permita ate
REPE}ISANDO A PESQUISA PARTICIPANTE g

chamá-lo de "irmão", mas um próximo sobre quem a nova dife-


rença estabelecida autottza submeter,
reduztr ou escrav izar.
Nos livros de His tétria do Brasil
uma construção equivalente do
outro subalterno apârece de modo
exemp lar. os sujeitos nomidados,
através de cujas falas e flui o fio aa rristória, são os senhores
1eões
poder ou os seus emissários. do
são também, aqui e ali, um reduzido
repertório de sujeitos popula
índios, negros e brancos pobres,
quando não "mestiços" que
se destac am, seja por cumprirem
exemplarmente as ordens do senhor,
seja por se rebelarem, também
exemplarmente, a elas: Henrique Dias
e um cas o; zumbi, um outro.
Nomes, datas e bio-sraf-ias são um
direito legítimo de senhores
e mediadores, os primeiros. pero
que fazem, os últimos, pelo que
criam' os "outros" aparecem como geníes.
como povos ..nativos,,
sem nomes porque, imersos plenamente
em uma cultura, de que são
a face pitoresca, estão totalmente
fora da história, de que são su-
jeitos plenamente subjugados. Nos livros de..História pátria,,
inúmeras nações indígenas são "índios", as
na melhor hipótese, ..tu-
pis- e "tapuias"' Enquanto os da
minha geração tiveram de decorar
todos os nomes dos famigerados
donatáiios de capitanias heredi-
tárias até hoje as crianças das
' escolas não sabem de que po\ os.
que nações, vieram os nossos ,.negros de
escravos,,.
Assim, à margem da historia e presentes
no "lir-ro de Historia,,
por serem coletivamente a sua face
de silêncio. índios. negros. mes-
tiços e brancos pobres são, ali,
de pleno direito, os sujeitos da
cultura' Excluídos social e pessoalmente
do oficio de participar do
fazet a história; vazios da iàentidade
e, não raro, do próprio nome
da classe da "gente" de que são, são
puros ,.tipos culturais,,, se-
gundo a logic a da cultura escolar
que, há muitos anos, povoa o país
de eternos cangaceiros, mulatas,
cabrochas, vaqueiros do Nordeste,
gaúchos, capoeiras, seringueiros
e cantadores de cordel.
ora' também pafa o pesquisador social,
a existência do dife-
rente é a condição da prática.
Esta afirmação, QUe apenas parcial-
mente se aplica ao historiador e
ao cientista político, possui uma
validade crescente no caso do sociólogo
e,-para o antropólogo, é o
proprio começo do seu credo. Assim,
próprias ciências são um repertório
;rq;;nto as histórias de suas
erudito de nomes, escolas e refe-
rências de relações entre uns e
outras: segundo as suas idéias, se-
gundo as suas "contribuições",
numa análise onde sempre o resul-
tado coletivo da "escola" é um
somatorio de trabalhos nominados
sujeitos plenamente pessoais, quando de
de novo o outro ..popular,,
aparece' a sua pessoa some no
dado, ou se dissolve num discurso
l0 CARLOS RODRIGUES BRANDÃO
1org.;

QUe, de tanto pretender ser o da "classe" ou da "categoria,,, ameaça


não conter a fala nem o imaginário de ninguém. Não
é que o outro
"popular" não partic ipe da pesquisa, ele nao participa ,.qu.,
pes quis ado.
ao ,r,
Para serem constituídos como a substância das
ciências sociais:
"grupos sociais", "culturas". "mor-imentos,,,,,proc.rroil
r- ü;;;,,
ou "movimentos" populares, são igualmente reduzidos,
seja a um
anonimato de seus sujeitos (aquilo mesmo que
a ciência recusa com
horror quando fala de si própria), seja a um anonimato
de suas
próprias identidades sociais. Não custa refletir
a respeito d,a boa
intenção que levava cientistas sociais a ocultarem
cuidadosamente o
nome da comunidade onde faziam os seus
"estudos de comuni-
dade"' Não custa pensar a razão pela qual, durante
muito tempo,
uma das características universalmente mais
aceitas para definir o
que é "cultura popular" era justamente
o seu anonimato. Ou seja,
3ntre outras coisas- o que a distingue da nossa
é que, enquanto o
eruüiIr-r da cultura e a necessidade da identidade
pessoal do autor,
t. '{ue torne iegitima a popular é que nela ele
não exista, ou porque
toi esquecido no tempo. ou porque, não tendo
atores de história, o
po\ o não deve ter tambem autores de
sua própria cultura. Não custa
avaliar uma insistência do uso do questionário
gue, mais do que
tornar as coisas faceis e objetivas, estabelece,
também no momento
da pesquisa, uma máxima desigualdade na
relação entre um lado e
o outro' Entre ele e o catecismo há, uma curiosa
semelh ança: um
possui todas as perguntas e, o outro, todas
as respostas.
Entre os primeiros homens que constituíram
os ,,tempos mo-
dernos" de nossas ciências, a pesquisa do outro
mais simples,
mais distante, menos matreiro e resistente
servia a explicar-nos,
-
ou'a explicar totalidades: "o homem", " a religião,,, ,,os
da estágios
humanidade" (onde irredutivelmente as formas
primitivas eram
sempre as do ooúro e, as exemplares, as d,o
nós).A Hist oria e épica
e, por isso, não só o senhor cabe nela como
deve ser, mesmo quando
inimigo, o sujeito dos solos mais importantes
Ín-oior,^^;;*ros, sujei-
tos de mundo sem classes, ou sujeitos das
de baixo em nosso
mundo,
faziam momentos breves de um coral escondido,
mesmo quando
entoavam o hino do aliado. Mas a Sociologia
e a Antropologia
perguntam sobre relações que, cotidianas, podem
ser ate cômicas.
Então é melhor perguntar sobre nós atravás
do outro. Nada mais
simples: tomar para cad,a instituição ou fenômeno
cultural a sua
"forma mais simples" e pesquisar como funcio na
ali,- depois, com-
plicar a conclusão e tornar nobre a retórica, para
explicar como
REPENSANDO A PESQUISA
PARTICIPANTE
1l
aquilo funciona "em geral,
ou, em "nossa'f sociedade.
era ótima para isto. ,
A aus traria
- I tr' -'

"Foi dito muitasv:z'es que a sociedade


produzido etnografosj -J,jl ocidental era aúnica a ter
qu. ..riJiu ,ru grandeza
outras superioridades, e, à farta de
qr. estes lhe contestem, a unicaque
a inclinar-se perante .iu, os obriga
Poderia também' do
;;, yez gue , sem era, não existiriam.
..r,,o modo, pr.i.naer-se o contrário;
ocidente prod uziu etnógrafos, se o
e po.qre
um remorso muito poderoso
deveria atormentá-lo'
oúigundo-o u .o, frontar
de sociedades diferentes' a sua imagem com a
na esperança d. que elas
taras ou ajud arão a explicar refletirão idênticas
como e que as suas se desenvolveram
seu seio" (craude Levi-Strauss, no
Tristei Tropicos,pp. 3 g4_3g5).

Houve avanços importantes.


preensão ampla de que Hoje em dia existe uma
com-
,
produzir explicações tão
ainda que o objetivo
d,a ciência sociar seja
universais qrunto possíver,
pesquisa do outro em
primeiro lugar na verdade a
Malinowski desembarcou serve para expli cá-ro.
sozinho nas irhas de Trobriand, euando
apenas um método que
ia ser reinventado ari; era não era
mais reconstruir a explicação uma atitude. \ào
da sociedade e da curtura
através de fragmentos do ,,ourro,.
de relatos de
viver com o outro no seu 'iajantes e missionários. Ir.-on-
mundo, aprender a sua Iín gua: r ir er sua
vida; pensar através de sua rógica; sentir com
ere.

"Logo depois que me instalei


em omarak ana (Ilhas Trobriand).
mecei' de certa forma, a co-
tomar parte na vida da alde
os acontecimentos importantes ia, abuscar quais
ou festivos , a adquirir um
pessoal no diz-que -diz interesse
e no desenrolar dos acontecimentos
quena aldeia; a acordar da pe-
cada manhã para um
sentava mais ou menos dia que se me apre-
como se apresen ta parao
meu passeio matinal nativo... Durante o
aldeia, podia observar os
-pela
da vida famiriar, a higi.r. '"orinha, íntimos detarhes
preparativos para o dia ,u âs refeições; podia ver os
de trabalho, u, p.rroas
aos seus interesses, ou grupos saindo paraatender
de
algumas tarefas manuraúreiras. homens e mulheres ocupados em
Disputas, piuaur, cenas
familiares,
;::i,T:,:il:#;;§ jffi::r::"T,.' dramaiicos, mas sempre
signi_
deres rVÍais tardel no correr.:H,ro;Í:
seria facilmente acessível; i,ff;Í:T}:níi:
não hãvia quutffi possibilidade
escapasse à minha observação,, de que
(Bronisraw úarinowski, ,,objetivo,
y;:::; desta Pesquisa" Desvendando Máscaras,so_
iof"u"' -
t2 CARLOS RODRIGUES BRANDÃO 1org.;

E tudo isto por quê? Porque em todos os mundos sociais todas


as instituiçÔes da vida estão interligadas de tal sorte e de tal maneira
:c erplicam atraves da posição que ocupam e'da função que exercem
Ilt-) interior da r ida social total. que somente uma apreensão pessoal
: d:rrt-rr;ir de tu..Jo ptrssibilita a e\plicaÇão científica daquela socie-
dade. P,-1r::-.. i3:::em. r) primeirr- tltr de logica do pesquisador deve
ser nào o seu - § de sua ciencia. mas o da propria cultura que
investiga, tal como a expressarn os proprios sujeitos que a vivem.
Estava inventada a observação participante.
Este mergulho por inteiro no mundo do olttro não impediu
que uma ciência sociologicamente renovada se desobrigasse das
questões efetivamente sociais das condições de vida dos outros.
Assim, uma Antropologia, cujo método era enfim participante, nem
por isso tornou-se ela propria politicamente participat1a, a partir
do que começou a descobrir.
Pesquisando e escrevendo na mesma Inglaterra de onde o
polonês Malinowski saíra para Trobri and, o alemão Marx invertia
a
questão. Não é necess énio gue q pesquisador se faça operário
ou
como ele, para conhecê-lo. É necessário que o cientista e sua ciência
sejam, primeiro, um momento de compromisso e partic ipação com o
trabalho histórico e os projetos de luta do outro, a quem, mais do
que conhec er pata explicar, a pesquisa pretende compreender para
servir. A pattir daí uma nova coerência de trabalho científico se
instala e permite que, a serviço do metodo que a constitui, diferentes
técnicas sej am viáveis: o relato de outros observadores, ffiesmo
quando não cientistas, a leitura de documentos, a apycação de
questionários (Marx mesmo fez uffi, mas às avessas), a observação
da vida e do trabalho. Estava invent ad,a aparticipação da pesquisa.
Quando o outro se transforma em uma convivência, a relação
obriga a que o pesquisador participe de sua vida, de sua cultura.
Quando o outro me transforma em um compromisso, a relação
obriga a que o pesquisador participe de sua história. Antes da
relação pessoal da convivência e da relação pessoalmente política
do
compromisso, era facil e barato mandar que "auxiliares de pes-
quisa" aplicassem centenas de questionários apressados entre outros
QUe, escolhidos através de amostragens ao acaso "antes", seriam
reduzidos a porcentagens sem sujeitos "depois". Isto é bastante
mais difícil quando o pesquisador convive com pessoas reais e, atra-
vés delas, com culturas, grupos sociais e classes populares.
euando
comparte com elas momentos redutores da distância do outro no
interior do seu cotidiano. Então a observação participante, a entre-
REPENSANDO A PESQUISA
PARTICIPANTE
.
vista livre e a'i historia
de vida se impõem. o
com espanto que â ntraneira pesquisador descobre
espontânea de ,- entrevistado
sobre qualquer assunt farar
a"'i-àt ãie, de sua pessoa.
natural de uma pessoa
explicar alguma coisa eue amaneira
através de sua "história diante ào gravador, é
a'. ,iãa", ou através de
relações entre a sua um fragmento de
vida e aquilo a qu. ..sponde.
descobre que métodos Em boa medida
e técnicas de
àu. se armacom cuidado são
fr':riffiiil§,o*:H.Quais ; i;'.,tigador submete à sua a vonrade
redefinição a atteridade rem acontecido,
.ritoffi::i':da o
entre
u m ;,';, ffJ I :j,:,:?,
uj e i t o'
:1, : ;,H, {,
s

companheiro de um compromisso "o ;


,
:, :*,lfi" #f :
cuj a traj.rorii'';;;, "
balho político e luta popular, zid,aem tra_
obriga o p.rõuisador a
a posição de sua pesquisa, repensar não só
mas também a de sua própria
A relação de participação
da práticacientífica no truuurno pessoa.
das classes popula",
d., político
afiaü;rquisador a ver e compreender
classes' seus sujeitos tais
e seus mundoi , tanto através de suas pessoas
nominadas' quanto a partir
de um trabarho social e
classe Que' constituindo porítico cre
a razão d,a pratica., constitui
razão da pesquisa' Está igualmente a
invent ad,a a pes,quiro parÍic
i porque como querem tantos, tantas iparÍe. Nâo
t
E)
diente - de sujeitos populares
,.r., urna fraçâo
pa ,ri,pa subarternamente obe_
ã,
do pesquisador' mas da pesquisa
si porque uma pesquisa
camente coletiva participa organi-
de momentos do trabalhà
de classe, quando ela precisa
reconhecer no conhecimento se
da ciência.

Este segundo volume


de documentos delsobre
cipantes é pesquisas parti-
escritos de T.tlt
complicado q*
o primeiro. Aqui estão reunidos
diferentes pessoas, do
Europa' como acredito Biasir, da América Laünae
que pesquisa participante da
-muiro não provém de
:ffi.T:::lJTlih,1Í,1,,'-'!'?;;á,,ni.o e, menos, não deve
e " p e, q, i, u tra l?, xT
t
'1
rrópria' escolhi documentos
'assem aqui pessoas que
di. i
",i : u' :
"';T Deixei
regidos pela diferença. !:
;'*:',,::ffii?
que fa-
ff ff T: :
defendã* pontos de vista
Jt' teorias às vezes opostas. diversos, a partir
'dade de uma proposta e,
Permiti qr. variasse o grau de radica-
ao escolh...^.*fio. de pesquisas parti-
':pantes' não quis recorrerjustamente
a casos ,,exemplares,,, mas
t4 CARLOS RODRIGUES BRANDÃO 1org.;

selecionei algumas experiências possíveis. Reconheço que faz falta


na coletânea um tipo de documento, o da crítica cient ífica e da cn-
ttca política das diferentes propostas de pesquisa participante . Jâ
que, ou por falta de textos ou por falta de coragem, não o incluí
entre os que são apresentados aqui. deixo a unt o utro a sugestão de
que isto seja t-eito em um prorimo livro. se possír.el. breve.
Este é o momento. leitor. para anunciar em julho de Ig84 a
realizaçào, e ffi São Paulo. de um 3." Seminário Latino-americano de
Pesquisa Participante. Muito mais do que no caso dos dois pri-
meiros em Cartagena, na Colômbia, o outro em Pátzcuãro,
no México aquele será o momento de reunirmos, finalmente, à
-
euforia dos primeiros tempos da "experiênc ia" , uma crítica séria e
serena de sua prâtica.

Carlos Rodrigues Brandão


lesq uisa participante :
Propostas e projetos*
Marcela Gajardo**

Introdução

[Im estilo supõe a ideiade


Atrai' enquanto tal, diversas totalidade e possibilidade histórica.
manifestações que ocorrem
mesmo campo de atividade. em um
Este é, penru.or, o caso
que visuali
zam parti cipação, irrestigação das práticas
momentos de um mesmo e ação educativas como
processo. Pensamos que neras
o germe de um ou mais se encontra
estilos alternativos de trabarho junto
setores populares' Pensamos a
ainda que estes se inscrevem
perspectiva mais ampra, em uma
quar ,.-lu, a de contribuir,
por meio da pro-
ot conhecimentos, para a
iüil:;;*'nicaçãà criação de uma nova

Muitos são os esforços


desenvolvidos em torno
Grande é a experiência dessa idéia.
acumulada . várias as
que confluem para vertentes e propostas
dar corpo a um estiro
apropriação coletiva de trabarho que vê na
do , nu produção coretiva de
'ub., conheci-

(.) Este artigo


para Research Reviá' sustenta -se integrarmente em um traba
oia,Àà|,*yi"'ãrrro rho prepara do
sob o titulo "Éíoücion, ryyecl,do rDRc, canadá. pubri_
cado primeiramente
situacíón, q.tuar y perspectivas
',',i,,r"'ll?,1,""nJ de
("*) ,"lt -ca;ãioo,
Marcerar?!:'xgfii"J
f,xt.§;*á,"x ", América rátirã,,, FLA cso,
associada da Facultao eou"J;;;r,
M . A . em
_sociorogia .
pesqu isadora
rrab alha atuatme't" Lãtinoamericana de ciencias sociares
t"'ã
rericano de coopeta.ion especialista (FLAcso).
edu."çãà rurar no rnstituto chire
prrc ra .em
Agricrttur, rn tera-
1ilcei , escritorio do Brasir.
t6 CARLOS RODRIGUES BRANDÃO 1org.;

mentos a possibilidade de efetivar o direito que os diversos grupos e


movimentos sociais têm sobre a produção,, o poder e a cultura.
Quais são essas prâticas e como se têm desenvolvido, quais as teorias
subj acentes a elas? Qua is são suas estratégias metodologicas e suas
projeçÔes? Eis o que tentaremos abordar neste artigo. Para estes
f-tns. entendemos que nào eriste uma unica maneira de definir estas
atiridades. Elas sào. sobretudo. processos onde coexistem raízes
distintas, teorias diversas e estratégias metodologicas nem sempre
condizentes com os postulados gerais.
Muitas dessas práticas aparecem indistintamente como mé-
todo de ação e mecanismo de aprendizagem coletiva. Para alguns,
isto culmin a na transformação de por/o em sujeito político: sujeitos
que reivindicam de maneira consciente e organi zada uma presença
ativa e de real importânc ia na sociedade a que pertencem.
Outros r'êem nestas práticas um método geral para a elaboração
teorica. quer no campo da educação quer no das ciências sociais, con-
tribuindo com isso para a diminuição das fissuras geralmente existen-
tentes entre teoria e prática, sujeito e objeto nas prátrcas de investi-
gação social e educac ional.
Não faltam aqueles que vêem na pesquisa participante um
componente de processos de planejamento social que envolvem de-
terminados grupos de uma ou mais comunidades, os quais, devido à
maneira como se estrutura a sociedade, vivem em condições de
dominaçáo e pobreza. De fato, formas coletivas de planejamento
local proporcionaram nos últimos anos um contexto importante
pata a aplicação de estratégias participativas de pesquisa social e
açáo educacional.
. As alternativas anteriores são uma ilustração das diferentes
faces de uma mesma moeda. Embora estejam separadas por fins
puramente analiticos, é necessário reconhecer que a existência de
tradições de pensamento distintas e de práticas de pesquisa diversas
conferem alcances e significados diferenciados a atividades que se
desenvolvem sob o mesmo rótulo: pesquisa participante ou investi-
gaçáo participativa. A assertiva anterior não impede reconhecer, no
entanto, alguns traços comuns às diversas alternativas, os quais
permitem uma prime tra aproximação a estes processos. Entre eles,
cabe assinalar os seguintes:

1) explicitaçáo de uma intencionalidade política e uma opção


de trabalho junto aos grupos mais relegados da sociedade;
REPENSANDO A PESQUISA PARTICIPANTE I

2) integração de investigação, educação e participação social


como momentos de um processo centrado na análise daquelas con-
tradições que mostram com maior clareza os determinantes estru-
turais da realidade vivida e enfrentada como objeto de estudo;
3) incorporação dos setores populares como atores de um
processo de conhecimento, onde os problemas se definem em função
de uma realidade concreta e compartilhada, cabendo aos grupos
decidir a programação do estudo e as formas de enc ará-la;
4) sustentação das atividades de investigação e ação educatir a
sobre uma base (ou grupo) organizada de sorte que esta atir idade
não culmine em uma resposta de ordem teorica. ntas na geraçào de
propostas de ação e\pressadas enl uma perspectir a de mudança
social.

À maneira como essas experiências evoluíram e às projeções


possíveis farernos referência nas partes seguintes.

Origens e evolução dos estilos participativos


de investigação social e ação educativa

Da investigação temática à investigação-ação: os anos sessenta

Em um ensaio recente (Zurtrga, 1982), reivindica-se para


Paulo Freire o título de " criador" de um estilo alternativo de pes-
quisa e ação educativa.
Por trás de tal afirmação, está o conjunto de experiências que?
sustentadas pela concepção consci entizadora de educação, desenvol-
veram-se em fins da dec ada de sessenta, no âmbito das transfor-
maçõe s agrârias operadas em alguns países da região. Chile e Peru
são, talv ez, os casos mais significativos de ações orientadas paÍa
incrementar a partrcipação dos camponeses beneÍiciários de tais
mudanças a fim de tntegrér-los a novos modelos de produção, ao
consumo e às alternativas que os modelos vigentes apresentavam,
em termos de gerar uma maior participação social. Os processos de
moderntzaçã,o característicos desta époc à a, dentre eles, os processos
de reforma agrárta, provocaram novas articulações, oposições e
alianças que permitiram o desenvolvimento da capacidade de orga-
nizaçáo dos assalariados do campo , e à possibilidade de estes apre-
>entarem suas demandas e reivindicações sociais. Era, pois, uffi mo-
l&,
:.:
'
REPENSANDO A PESQUISA
PARTICIPANTE N
2) integração de investigação,
como momentos de um educação e participação
processo centrado na sociar
tradições que mostram anárise daqueras con-
com maior clareza os
turais da realidade vivida determinantes estru-
e enfrentada
3) incorporação dos setores como objeto de estudo;
processo de conhecimento, populares como atores
onde os problemas se
de um
de uma realidade concreta deÍinem em função
e cornpa rtilhada, cabendo
decidir a programação aos grupos
do estudo e as formas
4) sustentação das atividades de encará-ra;
de investigação e ac.-àtr e,Jucarii
sobre uma base (ou grupo)
não culmine em uma resposta
organ izada de sorre .ruc
elr. ri;i:dade"
de ordenr tctirrcJ. rnas
propostas de açào expressadas nJ se râr,, àtr ,re
v:rt,rrJ)..Lrds cm ,,rrr--:"
em uma perspectira de mudanca
social
À mu'eira como-essas experiências
possíveis faremos referência evoluíram e às projeções
ru"iurtes seguintes.

Origens e evolução dos


estilos p articipativos
de investigação social
e ação educativa

Da investigação tem áticaà


investigação-ação: os anos
sessenta
Em um ensaio recente (Zuf,iga,
_ rgg2), reivindica_se para
de um esrlo arternarivo
ilf;.T|}:'.:J:tJ,1ij'""i'dà," de pes-
Por trás de tal afirmação,
es.tá o conjunto de experiências
sustentadas pela concepção que,
consci
entizad,á.u de edu cação,desenvol-
i eram-se em fins
da decada de sessenta, no
:nações agtánas operadas âmbito das transfor-
em alguns países da região.
sio' talv ez' os casos mais ,igrfr.ativos chile e peru
:rcrementar a participação de ações orientadas
dos our,-
:udanças a Íim de integrá-ros camponeses beneficiários de tais
a novos modelos
de produção, ao
'-'nsumo e às alternativas que
os modelos vigentes apresentavam,
':r termos
:rd
de gerar uma.maior part
ernizaçã'o característicos
icipação sociar. os processos
de
a.rà época'e,
-: re tbrma agrária, provoc aram novas dentre eles, os processos
: rnças que permitiram o desenvolvimentoarticulações, oposições e
- -::''-ào dos assalariados do Ja capactdade de orga-
campo, e a possibilidàa.
:"r ^ ilrem suas demandas e reivinàicaçoes de estes apre_
sociais. Era, pois, uÍrl mo_
1! CARLOS RODRIGUES BRAITDAO (org')

nlenro que possibilitava a transformação do


fator educativo em
que ampliou o es-
ct-rr,ponente de um processo geral de mudança
paço de participação e mobrhzação popular '

Tal situação supunha o desãnvorvimento de uma estratégia


que possibilitasse tal participação. Supunha-se
então que os campo-
neses e os grupos mais rerãgados da sociedade
não poderiam ser
mantivessem como
sujeitos de um processo historico alternativo se se
somente aqueles setores
uma categoria social passiva e carente.
de seus interesses, prâtrca de org amzaçáo
e
dotados de consciência
reivindicações poderiam ter uma presença ativa
e de real signifi-
lg12). Dentro deste marco
caçáo social e política (Gomes de sousa,
percepção e o compor-
evoluíam as idéias a respeito de investi gar a
beneficiários
tamento dos grupos *ãno, privilegiados do campo,
dos processos de
potenciais de uma redistribuição da terra e atores
mobili zaçáo PoPular nesse meio'
a respeito da
Em tal contexto, desenvolviam-se também idéias
que permitissem
necessidade de delinear estratégias metodológicas
teoria-prâtica, presentes nos
superar as dicotomias sujeito-objeto,
possibilitando uma produção
processos de pesquisa .àrr.u.ional,
interesses e neces-
coletiva de conhecimentos em tomo de vivências,
histórica e socialmente. Isto é, aqueles
sidades dos grupos.situados
uma das
camponeses que vrviam na condição de arrendatários,
de exercício da dominaçã,o no meio rural'
formas mais clássicas
trabalho participa-
Junto a eles surgiram as primeiras propostas de
ger adaa investigação da tem átrca cultural campo-
tivo. com eles foi
gaçáo temática.
nesa, conhecida genericamente como investi
Esse trabalho inspirou-se originalmente nas idéias pedago-
pesquisa e a coor-
gicas de pauro Freire, gue foi quem idealizou a
denou em sua primeira fase. os camponeses de uma unidade eco-
foram convidados a parttcipar de
nômica reform ada (asentamiento)
atividades edu-
um estudo que possibilitaria uma pro gramação de
suas necessidades e interesses. Subj azia a esta
cativas de acordo com
proposição um pressuposto específico: o de que
qualquer açáo edu-
cativa deveria ser entendida como um ato de
produção de conheci-
do campesi-
mentos em consonância com a realidade e a situação
investigar o
nato. Como na tarefa de alfabetizaçáo, era necessário
,,universo vocabular" e as " palavras geradoras" para implementar
de consciência
um programa que permitissô aos sujeltos a tomada
sobre sua situação; a pós-alfabetizaçáo, em
sua dimensão técnica e
social, exigia o'conh.ôi*.rrto daquiÍo que Paulo Freire denominata
,,universo temático significativo" e rrtemas geradores". Para Freire,
REPEIVSANDO
í PESQUISA PARTICIPANTE
a apreensão de ambos Ig
os elementos, tanto
gadores como pelos
ptop'ià, camponeses, pela equipe de investi-
fundamento da tomada dàveria permitir o
de consciência e apro-
concretas de encontrar das possibiridades
caminhos de ,oirçao. reais e

d e,,,T:.i:,,.",:;í.Hff:,:Í**..
compreen dia a investigação :T,Tx# : f;, Í;;,,,T,ã
em suas fases de
codificação
TlH.Tfi
e decodi-
-'mf;"?":'f[Íl *ffi','f;; ;;,,0,, de prosraÍn aÇ ão e d esen -
As etapas de obrse^aç:ào
construçâo dos codigt-'s e ctrditrcar--àr-r se rrrieniar-rm
,.lue poss:::ir:ar.:: pf,r, a
situaçôes sociais o pt-rSte;-ior ana]rse ,cas
rormas peras quais':trit;r;;. cr)trrrtr char es para a compreensào
os camponeses das
cepção e comporramenro construíam arearidade;
É diante dela. A decodificaçào sua per_
análise conjunta enfaúzava a
de,tais situaçôes.
1;,1,
rlil

.ffi.
cessos e relações A hipótese subjacente
zariut
nelas ton'iãlr. com fur? , nãoapenas
a este pro-
código de perce;;;", se obteria o
:eu
e apoiados provocados p.tu'iragem
pela intervençãô uürizada
Neste sentiào' a de um coordenador
decodi Íicaçao resurtariá extr
para decompor e
analisar as'iaug.r,
em um ;H:r;".:iJrff;
cessos e relações e, conseqüentemente,
nelas contidàr. Co, os pro_
discurso popu lar'
forrna coÍno grupos
a
trq não apenas se obteria
o
interpretavam as e organ izações descreviam
mensagens, como também e
começ avama se produ-
;:#j::rffi;nffr.iã ae p.r..uer as esrrururas exisrenres, modi_
{ ssim, arravés de,;
apontar-se-ia para
::#:ff:'T:#,Í}: i:'r,:t; IfH,*:::,
uma
problemas' possibilitango compreensão cad,a vez;;,, grobar
u p.àg.rmação dos
adequadas aos níveis de atividades pedagógicas
de t*"}ência ' ut"unçados
erigências de sua própri pero grupo e às
a prática sociar e produtiva.
A experiência a que
Recurso' unidade aludimos rearizou-se
*ittlo no asentamientoEr
mero de famílias nada;;. base ;"; seguinres
estaberttiau., antecedentes critérios: nú_
dade' facilidade históricos da rocari-
at- utt"o e inexistência
à. investigações prévias
,;"1";';:1ff;ux#{.111*t}t}.. u,n i ãrd. o.-,,u u i_
estrutura gerar do
p.ljero, proãoeu_se
de visitas ao local
;fãram ã*
à;rrl,1ffi"T:rr;?
Jr:i:
eropósito: desvendar argurnas entrevistas
antecedentes soble com dupro
a propriedad. .tr"#
informar aos camponeses fi*
.::ilr: os objetivos e amerodorogia do
i
CARLOS RODRIGUES BMNDÃO 1org.;

Como resultado dessas observações iniciais, entrevista e


.jesvendamento dos dados gerais da area, reconstruíram-se as for-
mas de org amzaçáo dos membros da comunidade e foram selecio-
nadas, com base no marco teórico do estudo, as chamadas "situa-
ções existenciais" que tornavam possível a codific açáo, a inscrição
grâfica em imagens e a posterior análise coletiva nos chamados
"círculos de investigação". Dois critérios foram utilizados para a
seleção das diversas situações a partir das quais se organi zaria a
análise coletiva. De um lado, o grau de importância que estas situa-
ções aparentavam ter p ara o grupo camponês ou o significado que o
grupo dava a elas; de outro, o grau de significação que tais situáções
apresentavam com relação ao marco teórico da investigação.
Com respeito ao primeiro critério, foram utrlizados como indi-
cadores da importânc ia atrlbuída pelos camponeses a determinadas
situações atuais ou passadas tanto as expressões que estes revelaram
na etapa de entrevistas como a constância com que as situações
apareciam e a intensidade de sua referência. Com relação ao se-
gundo critério, considerou-se, com base nas observações realizadas
pela equipe de investi gaçáo, os principais processos desenvolvidos
no estabelecimento rural e o tipo de relações presentes no seu
interior. Tiveram prioridade aqueles processos que mantinham cor-
respondência com as situações concretas vividas pelos camponeses.
Em tais processos, foram distinguidos diversos tipos de relações
estruturadas a parttr de contradições que eram, ao mesmo tempo,
síntese das situações observadas e expressão da estrutura de p...àp-
ção a elas subjacente. Processos, relações e situações sociais consti-
tuíram os elementos básicos para a elabo raçáo de codigos e a inscri-
ção destes em grâficos (Gajardo, 1981:53-68). Os codigos estão sin-
tetizados no Quadro l, a fim de ilustrar o modo de operação nas
atividades de seleção de situações, determinação de .orrt.udições e
gráficos utilizados.
A cada conjunto de contradições postuladas paÍa a análise
coletiva correspondia um referente das diversas situàções próprias
da vida cotidiana dos camponeses dessa comunidade particu lar.
Estes apareceram a partn das primeiras observações. Assim, por
exemplo, àquelas contradições referidas aos processos e relaçOes de
produção correspondiam situações tais como: movimentos reivindi-
catórios no estabelecimento, as causas de tais movimentos, estrutura
de posse da terta, desemprego e produtividade no estabelecimento,
comerciahzação dos produtos e distribuição de excedentes, proble-
mas derivados da produção individual ou coletiv a na exploráção da
REPENSANDO
4 PESQUISA PARTICI
PA\TE
QUADRO-RESUMO
N.O í
Processos, re
,El".l
rtes Írâ inrro-jf!::s,,con_tradições.
*ecurso

Re/açôes
e situações ou Contradições
referentes ReferenÍes
camponeses

1. Processoser",rnõ".
de produção n,
ÀãIj I _- ::Trynê. x terra
I - lll?, ,
sítuação de trabalho
lade " no ;;;;_''='- situação oe conriito
tamiento I :rmp.oneses trabalhista
traba lho individual
x trabalho coletivo trabalho individual
trabalho x Oiversat da terra x trabalho
coletivo
situação de jogo
esportivo
gestação e estru_ diretiva x
asenÍados assembléia de
turação do poder
CORA x asenÍados asenÍados
3. Processos de
socialização pais x filhos
educação formal
x
educação informal-'
4. Processos de religio_
sidade camponesa Deus x crentes
sacerdotes x fiéis
Fonte:
#xffi,#"T,J:3,
terra' vantagens
e desvantagens,
para assegurar necessidades de
a comer ciaúzação uma
contradições referidas e o .or.u*o, entre";::#í:T:
aos processos de sociari zação tinham
referente em situações
familiares, na partici seu
da mulher nas paçãoescassa
atividades ao.rtJerecimento, ou nura
as artas taxas de
:5;k.Xi,:3j:Hr:1, Iu: uiío.o*o á1ã,u üva d,amigração, nata-
a
ün ic a,
M qu. ;?Til::àr#:,;:;.::;:TaiÍ*í
: r;

";;
:.;;ü'JT.Í:.:ii'?oro d;;ii*.,,;, ",, siruaçõ;-;. if,,,$i{
rereri am,
:
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, . ., e
i,".T
o enri dade
co m

I-*1",';J1"'J;,'.T, Íi{}l{} }::. : ;, :
r:T :
j: #Jil,H]
. =-s referidas
' -': j:de'
"*[,:iil:;,;rJil:l
à religioriauj.;;ü f],.lT#i
à, úiu^à*çao
de uma igleja que à presença. na
aparecia.oÀã^p.orongaràrto
da casa
patronal, a interferência do patrão na atividade religiosa e o papel
do sacerdote como sancionador dos atos dos camponeses , pattt-
cularmente diante das atividades que afetavam os interesses do
proprietário das terras. Junta-se a isso a importância atribuída pelos
camponeses à "ação divina" e seu conseqüente fatalismo.
Durante os meses de outubro e novembro de 1968, procedeu-
se à real rzaçào das decodi ficações nos círculos de investi gaçáo .

Nestas reuniões, o grupo debateu em torno dos filmes projetados,


exteriorizando a sua forma de visualizar ou perceber as diversas
situações. O debate foi gravado e transcrito, dando forma ao dis-
curso camponês, corpo de anétlise para a determinação do universo
temático e dos temas geradores, eixos do planejamento educativo e
da pro gramação de um ou mais cursos de açáo.
A seleção do caso anterior ilustra uma das propostas de enca-
rar aparticipação dos setores populares na investigação social e na
prâttca educativa. Sua resenha obedece ao fato de ter sido o pri-
meiro a engendrar outro conjunto de ações de características simi-
lares. Neste sentido, ele contribuiu para o desenvolvimento de uma
alternativa de trabalho neste campo. Embora esta experiência, efl-
quanto tal, seja pouco conhecida na América Latrna, é certo QUe,
como estratégia metodolo gtca, inspirou um número importante de
projetos desenvolvidos em nosso continente. Projetos onde a partr-
crpaçáo em seus diferentes níveis e a açáo organi zada para a geração
de ações de transformação social e econômica são duas idéias que
permaneceram constantes, tanto nos escritos de Freire como nos
projetos baseados em seu pensamento. Permaneceu constante tam-
bém a idéia de reverter a função reprodutora da educaç áo , rede-
finindo-a como instrumento de apoio aos processos de transfor-
mação sociopolítica.
A educação passou a ser entendrda, em tais projetos, como
uma atividade que possibilitava aos grupos menos privilegiados
compreender e interpr etar a racionalidade e o funcionamento dos
sistemas de dominação social e adquirir os conhecimentos apropria-
dos para melhorar seu nível de informação e capacidade de movi-
mento. Isso explica a ênfase especial posta na interpretação dos
processos sociais e das relações de produção vigentes, bem como a
tendência para elevar níveis de consciência e fortalecer o nível orga-
ntzactonal dos setores populares. Provém daí também o componente
"ativo", presente na investigação temáútca. Nesta proposta, a ativi-
dade de pesquisa não culminavaem uma resposta de ordem teórica,
mas na ger açáo de alternativas de açáo expressadas em uma pers-
REPENSANDO,{
PESQUISA PARTICIPANTE
a;
pecti'a de mudança
sociar. É isso que
exprica em parte sua
atuui' de invlsti incidên_
;;1,,1i;*l::ostas sação participariva e pesquisa

A investigação-ação
e a década de setenta:
mesmo conceito duas vertentes para
um

Embora
se reivindiqu
introdu zido um enfoque e para
paulo Freire
a pri maziade haver
política na educação ;.r;;;;"';";: *rrcada conotação socio_
p..qriru educativa. dos
canos' o conceito "
de in".rtigu
países latino_ameri_
setenta para caracte ção-ação, util izad,o a partir
rizar dos anos
provém de uma vertente os estitor'pa.ticipacionistu, de pesquisa,
mais sociológica do
cacional' Por trás que propriamente
desse ct ncei to, jaz edu-
método prevalecente umaforte .riti ,u aunidade
nas ciência, ,o.irii de
visão parcel ada e à preeminência de uma
unidimensionar da
radical entre ciência ,"uíi,daáe ,o.iur, à
e polít ica, à desvincuração separação
prática nos procedimentos totar entre teoria e
científicos
ar aparticipação .or.riru e à manipuração dainforma-
:::::;i:r', por parte das no, processos de gesrão
sociar
carnadas de dlstituídos
latino- ui'"?' das sociedades
ü: :':fi . jl:*;:,, #.r,?l;,ir"J;
denr e,,
da sociologia' como
reação aos paradigmas
ciais sociais' propondo
* :T::lfi: {
predominantes nas
caminhJs arternativos ciên-
;;
o trabalho mais tigniÍi.utiro
de ação.
nas experiências encabeçãaur dentro dessa proposta
acha-se
colombiano' ensaiaol' oo, orrando Fars bo.ãu, sociórogo
em funçao de estu
social dos setores
mais pobr., . urru.udos
dar asituação histórica
e
efetivar a vinculação
e de dasociedade corombiana
da pesquisa com as
desenvolvidas pelos
g'upo, . orgu nizaçõ., ações sociais e poríticas
"ir^ Àui, conscientes do país
::ff .*prriencias se susrentavam
il'j,:'^^::')-' em um con_
. :;il:?' i:'-
idade que privilegi; ff:[:'f. ;l*: ltllífu.J,;i.,i:
r o p u I ar
'' á'
a manutenção do sistema
'i e dependente, e a primeira
sta vigente , capita-
''r empírico, prático, de definida como o ,,conhecimen_
t::il t ,rnro-ro*r* que tem sido um bem
ideológic.o ancestral cur_
'-c) permttiu ctiar' ftabalhardas camadas da base ro.iut, o quar
e interpr etar- a rearidade
recur.o, q, e a naturezaorerece predomi_
=-J,:;Til;,,,";fi:rle ao homem,,
24 C.{RLOS RODRIGUES BRANDÃO (ore.)

P.:. F:. s B,.':,ii. a ciôncia e o trabalho científico têm uma


- I t: - :: :r: i. ;3 ;..s.s e. mesmo que se procure evitar a adje-
- , :,: - -: -: :'. "- :,ia. :1,-- :s rtrde deirar de precisar QUe, embora
j - :-- : :;.: -: :: .-í:: :,,:,:ji:zadOr e ConStante, expfesSadO pof
:.:-3:: ; ..::>3: ;:'. =t>.-': a:: üererminadas sociedades e conjunturas
hrsl{'naêi. cb .-rllthaa i:T:ünxt-rS. ciarjtrs. tatt-rs e tàtores se articulam
segundtr (x interesses das classes sociais que lutaram pelo predomí-
nio social,político e econômico. Assim. diante da existência de
paradigmas científicos que servem aos interesses dos grupos social e
economicamente dominantes, torna-se necessário contrapor paÍa-
digmas alternativos construídos a partir de uma aproximação aos
setores populares e às suas organi zações de base, com o intuito de
"entender de dentro a versão de sua propria ciêncraprática e de sua
reprimida extensão cultural, e buscar formas de incorporá-las a
necessidades coletivas mais gerais sem fazer com que percam sua
identidade e sabor específicos" (Fals Borda, 1981 : 155). Grande
parte dos postulados do autor, jâ resenhados nos parágrafos ante-
riores, deriva das experiências desenvolvidas com organizações po-
pulares no meio urbano e rural por grupos vinculados à Fundacion
Rosca de Investigacion y Acción (FUNDARCO), hoje desaparecida.
Para Fais Borda, são seis os princípios metodológicos que
devem ser respeitados com o objetivo de impulsionar práticas de
investi gaçáo vinculadas aos interesses do movimento popular: auten-
ticidade, antidogmatismo, devolução sistem áúica, retroalimentação
de intelectuais orgânicos, ritmo e equilíbrio entre açáo e reflexão e,
finalmente, desenvolvimento de uma ciência modesta basea em téc-
nicas dialogicas (Fals Borda, t982). Por trás desses princípios, ja,
toda uma postura que visa integrar os setores populares à determi-
nação dos conteúdos de pesquisa, bem como incorporá-los à inves-
tigação na qualidade de atores do processo.
O investigador aparece, em tais processos, como um intelec-
tual comprometido com os interesses do movimento popular, e a
investi gaçáo-ação surge como espaço de participação social e mé-
todo de ação política. Como uma forma renovada de fazer política e
uma forma alternativa de fazer educação, mesmo quando esta úl-
tima não chegue a ser explici tada. Neste contexto, não se pode
deixar de reconhecer que, effi muitas experiências baseadas na pro-
posta de investigação-açáo, subjaz uma tentativa de contribuir ao
desenvolvimento de novas teorias e estratégias metodologicas no
campo da investi gaçáo social e da prâtrca pedago gtc,a. De fato,
vários princípios que regem as estratégias e concepção presentes nos
REPENSANDO A PESQUISA
PARTICIPANTE
25
atuais estilos de investigação
pação crescente em
participativa evidenciam
avançar na consolidação uma preocu-
àqueles que tradicionalm.nt.lã;;;;dado de um estilo alternativo
tigação social e os processos as práticas de inves_
de ensino-upr., d,izagem.
FalsBordacolocaesSaassertiVanosseguintestermos: o próprio

"A crise do paradigma da 'conscie


pata transcendê-lo ("') l!.iruç?o' revou à procura de formas
A pedra filosofar
paradigma da transiendência de um
a outro radicou-se na
id,eiade que o conhecimento
transfotmaçãe social para a
não se radicava na formação
consciência' mas na prática libertadora da
dessa consciência.
passagem e desse AIém disso (...), dessa
sentir da práxis tambem
,. prodrzem um saber e
:##:"ru,'ll"#T,'*'.:l,tr;,r"xff ,ffi
prática' de outro' Havia i:";,;:,ir."ffJ":
uma
pura e aplicada' Reconhecia-setendênc ia paradefinir a ciência como
certa relação entre uma
sentido de que a teoria e outra, flo
permitiria maior efrcácia
prática se inspj taria
na ieoria e, desss
da prática, que a
fatia avança' " to'hecimento ryoo, que essa combin açã,o
r em minha opinião' permitiu científico. Foi_essa possibiridade Que,
políticas do patadigma superar as dificuldáai
ideorógicas e
da conscientiz ação. Durante
meiros anos d'a deiad'a aqueres pri-
de setenta, esta passagem foi denominada
investig açã,o_ação,, (Fals
Borda, 1gg2).

A investigação-ação na
vertente educativa

Paralelamente ao desenvolvimento
lógico' a decada de setenta assiste conceitual no campo socio-
estratégia ao desenvorvimento
Tetodológicl no-.u-fo das pratica educativas. de uma
tegia é também de'ãminada
nos seus traços gerais
.oiro processo cle investigaç Tal estra-
ão-açã,o e,
recolhe os momentos
dos por Paulo Freire ' , fases e etápas derinea-
para a inves tigação
proposta por João temátiça. A metodorogia,
Bosco Pinto, encontra
Paulo Freire os elementos na expe .iência
iniciar de
partir do qual constrói de um marco teórico-metodorógico
diversas a
com maior ou menor técnicas que vêm sendo
êxito em microprocessos apricadas
ridos gerarmente eÍn de planejamento inse-
programas de desenvotrirr.nto
Teoricamente' Baúo rurar.
conceito de educação Pinto sustenta sua propos
libertad;;;, entendendo-a ta apartir do
que tendem a recolocar .ô*o
h";;;;primido,tradicionarmenre os processos
L'ido como objeto "
da edutuçaol conce-
Dando prioridade à ,o centro do processo educativo.
ação junto a camponeses
bàneficiários de pro-
l- CARLOS RODRIGUES B}+NDÃo (ore .)
,'t

-:"ii'§::stitucionais de mudança agrârta, este autor defende a incor-


:, -i:lo da atividade educativa à transformação de uma estrutura
:--{r:l definida como capitalista e dependente. Concebe esta contri-
:*rüào em termos de uma redefinição da funcionalidade social da
educação eue, ao situar-se em urna perspectiva de classe, pode
contribvtÍ para apoiar os processos de mobili zaçáo e organi zaçã,o
popular. Nesse sentido, postula urna educação entendida como
"um processo permanente de formação da consciência crítica dos
setores populares, concebida esta como o desenvolvimento e o aper-
feiçoamento da capacidade de compreender criticamente a reali-
dade historico-cultural em que vivemos, p aÍa encontrar nela a expli-
cação de sua situação objetiva, assim como as formas e instrumentos
que the permitem superá-la mediante um esforço coletivo, sistemá-
tico e orgamzado, conduzindo-os a atingir a plena participação na
gestão e direção do processo produtivo e no desfrute da rrqueza,
bens e serviços gerados socialmente" (Bosco Pinto , 1977:8).
Em termos da investigação e das ações de desenvolvimento
coletivo, a definição anteri or traz as seguintes implicações para os
setores populares:

1) O acesso universal ao conhecimento científico e técnico,


que possibilita a participação no desvendamento (deside ologização)
da realidade concreta e sua efetiva transformação através do traba-
lho.
2) O desenvolvimento da criatividade, a fim de gerff novas
formas de participação em todos os níveis e aspectos que afetam o
desenvolvimento social e econômico.
3) A organi zaçáo dos grupos em núcleos de base sólidos e
autônomos, nos quais sejam o sujeito agente de sua própria liber-
taçáo.
4) O emprego de meios de comunicação dentro de um sistema
no qual os grupos organizados tenham acesso direto à gesrão, pro-
dução das mensagens e seus conteúdos (Bosco Pinto, 1977:8).
Os alinhamentos metodologicos para a açáo educativa se inse-
rem fia concepção anterior, e métodos e técnicas se adequam ao
mesmo, tomando como pontos de partida do processo educativo
tanto a reahdade quanto o diálogo. A seqüência metodologica pro-
posta, da mesma forma que a de Freire, compreende o momento de
investigação, o de temati zaçã,o e, por último, o da pro gramaçáo ,
cada um com seus instrumentos e técnicas correspondentes, con-
fbrme indica o Quadro-resumo n.o 2.
REPENSANDO A
:PESQUISA PARTICIPANTE
-: .-. 2:
QUADRO-RESUMO N.O 2
Seqüência
metodológica
da investigaçaô_à;;;.;;a
verrenre educa tiva
Momento Fase e seu objeto
lnstrumentat
Atividade e prática
selecionar uma
área específica rnapas
conta tos definição da
de trabalho para área de trabalho
aproximação pessoais
(local de desen-
aos grupos de volvimento,
camponeses por exemplo)
(definição peta
rn stitu içã o)

recolher infor-
mação básica documentação
contatos pes_ compilação de
sobre a área de dados (trabalhos
traba lho soais e insti-
a nteriores,
tucionais
monografias,
estatísticas,
metas etc. )
entrevistas
o estruturais
r{ trabalho em
o,' grupo interdisci-
Í
o observarG plinar
r( guias de per_
(-)" lizar investíga- elaboração de
guntas
ções individuais uma lista de
o diário de campo
perguntas. guia
F- ficha de desco-
U) de entrevistãs
TU brimento
com os campo_
z NESES
uso do diário de
campo, um
caderno de
informações das
entrevistas na
participação no
trabalho dos
camponeses
(fundamental)
execução de
fichas, formali_
zação e seleção
da informaçáo
compilada (par_
ticularmenté a
partir do diário
de campo); ati-
vídade a se rea_
lizarem grupo

contin ua
28 CARLOS RODRIGUES BRANDÃO (org')

Momento Fase e seu obieto ln§,rumental Atividade e Pratica

selecionar e os grupos estra-


treinar os gruPos tégicos são os
estrategicos grupos de pro-
dutores ligados
por interesses
comuns nas re-
laçÕes de Pro-
dução; gera-
dores diretos da
riqueza social,
assumem um
papel essencial
no processo
de mudança
estrutural

sistematizar a estrutura de construção de


informação relações estruturas que
são extremos
implementando
o
r(
os diversos
(.> elementos e
ío suas relações,
para começar a
r{
(-> entender qual é
a percepção que
(, têm os carriPo-
F neses da comu-
a
tU nidade e seu
funcionamento
= realização de
realizar a inves- cod igo de
tigação coletiva investigação codigos de
e devolver a círculo de investigação:
informação aos investigação são a represen-
grupos campo- tação gráfica ou
NESES gestual (teatro,
jogo de paPéis
etc. ) das si-
tuaçÕes rea is,
que permitem o
diálogo nos cír-
culos de investi-
gação
realização de
círculos de
investigação:
são reuniões nas
quais, a Partir da
discussão de um
continua
REPENSANDO A PESQUISA
PARTICIPANTE

Momento Fase e seu objeto


lnstrumental Atividade e prática

codigo, se
procura:
o
r(
o a verificação
e/ ou aumento
o^ de informação
í . detectar as
o
r( percepções
o^ que têm os
produtores da
(, realidade
F- representada
a
TU no cod igo
recompilar todas
z as informações
em forma de
notas, grava_
ções e sistema_
tizar com fichas
e estruturas
compatibilizar
marco teo_
os elementos de trabalho de
rico de refe-
informação com equipe para
rência
o marco com parara
teorico teoria com a
(teorização) percepção dos
g ru pos. para
d*
tectar os vazios
distorçÕes no
con hecimento
de sua realidade
buscar uma
ampla expli-
cação e uma
compreensão
dos p rocessos
reais de funcio_
namento da
sociedade (ana-
lisar os elemen_
tos, identificar
suas inter-
relações e a
dinâmica histo_
rica)
redução
t";;i;; temassera_
:_ identificar con_
juntos de ele_
mentos que con-
Íormam os te_
mas significa_
tivos na percep_
contin ua
30 CARLOS RODRIGUES BRANDÃO (org.)

Momento Fase e seu obieto lnslr"umental Atividade e Prática

ção dos gruPos


(temas gera-
dores) e Permi-
tem a iniciação
de um processo
pedagogico de
desenvolvi-
mento da cons-
ciência
detectar os tiPos
de explicação
que os campo-
neses dão aos
fe nô me nos,
fatos ou Proces-
SOS
identificar as
debilidades e
distorções da
relação Per-
percepção/
teorização
elaborar um unidades peda- ordenamento de
o
r{ programa gogicas, mate- temas em uni-
(-}. pedagog ico dades, partindo
ria I d idático
N do mais simPles
F ao mais com-
plexo, do con-
tU creto ao
F abstrato etc.
elaboração do
material didático
que representa a
expressão vi-
sual, oral ou
audiovisual dos
elementos ou
temas que vão
servir no codigo.
Utilizado para
os círculos de
cultura (codigo
que combina
elementos da
percepção/ reali-
dade com um
guia pedagog ico
para facilitar o
d ialogo)
co ntin u a
REPENSANDO A PESQUISA
PARTICIPANTE

Momento Fase e seu objeto lnstru mental Atividade e prática


:-
cÍrculos de realização de cír-
'q.uttura culos de cultura,
que são reuniões
de grupos não
o
r{
maiores do que
(-)^ 15 pessoas, nas
quais se busca,
N
F a partir do ma_
terial d idático ,

l.rl elevar o nível de


F consciência dos
participantes em
um processo de
redescobri-
mento de sua
propria reali-
dade.
realização dos
círculos de orientação dos
círcu los de
cultura círculos em dire_
cultura
ção ao questio-
namento crítico
da s in te rp re-
tações que cá c
grupo Ce s..,a
realiCaCe
avaliaçÕes e tra_
tamentoem
equipe Cos cír_
culos de cultura
organização de
o
r{ peguenas as_
()^ sembléias e reu_
N niões dos g ru _
pos estratégicos
trabalho em
É.
C)
grupos e em cír_
o cu los de cu ttu ra
É. classificar os
À grupos de
problemas
trabalho
detectados
ordem de prio_
ridade
elabore e sele_
cionar projetos
de ação
difundir a ação
meios de di- realização de
ed ucativa
fusão escritos, assembléia geral
audiovisuais para apresentar
contin ua
32 CARLOS RODRIGUES BRANDÃO (ore')

Atividade e pratica
Momentc Fase e seu objeto L lnstrumental
a problematica
e os projetos de
ação

elaboraçãc ce analisar os re-


proletos deftni- cursos hu ma nos
tivos e materiais
programar as
ações

estabelecer estrut uras de criação de estru-


mecanismos de controle turas de con-
controle dos avaliação trole pela poPu-
projetos pela permanente lação, discussão
população de mecanism os
o
r{
executar os pro- est rutura is
jetos e avaliá-los execução dos
(->
de f orma perma-
projetas esPecí-
nente f icas
avaliação Per-
É. manente é ação
(,
o crítica que os
É. executores exer-
ÍL cem sobre sua
propria ação,
period ica e siste-
maticamente;
os resu ltados
devem ser su b-
metidos a PoPu-
lação atraves de
mecanismos de
con trol e (trab a-
lho em comuni-
dade)

J . B. "Metodologia de la investigación-acción, momentos


y
Fonte: pinto,
fases", in: Preparacion y evaluacion de proyecfos, Quito, Junta Nacio-
nal de Preinversion , 1976, mimeo '

Como pode apreciar no Qua dro 2 e será visto em outros es-


se
quemas, e ste estilo de investigação não utíltza uma seqüência meto-
áologica como a que se propõe para a investi gaçáo científico-aca-
dêmica. De fato, a maioria das propostas neste campo sugerem
estratégias metodológicas que contemplam uma sucessão de passos
e etapas compartilhados por aqueles que investigam. Essas passa-
gens adquirem denominações distintas de acordo com as propostas,
ãpur...rrdo como as mais difundidas as que se inserem no âmbito de
REPE\SANDO
A PESQUISA
-- r'\r\rr\-lrANl'E
PARTICIPANTE
'
projeros )^ t '-
'- de pranificação coretiva
33

: nos mo"'i::t:j
de diversos cursos de ação.A
d:.devoruÇão sisremátic parti_
;'áti" iterativr' a d,arearidade estu_
traburhf J.'J,.::l;'" .;;;;;;;;r.
esras merodorogias
de
f,:::l t'?ffi: ;ü*Íl;1*
:ffil,H:j,# Í$
ill {.::ff ;fi
açõe s
;ffi ": iffi? T:, ;,: 3{k :* í*}lIIí,.
qu e co n tr i

para
3 ,,, toenas ir,i"fr;;;;;osro acima,aprese nta.
seqüên.fJ #i":ftHr
empre gada ff Jf ffi:l:1*l
em projetos de T:J,lnflllil
outro, invesrigaçâo clentifi.o-u.àdêmica
a
mp,
e, de
a iua upiH ;x": ,l,L iJ H::. i:: :ri};ltÍÉ:;
#":.1i:ti,T,'j:âs
etapas ár
o- sramação,execução effi:T ?r,,r;
avatiaçãode
Tec
cipariv",l.';;#.'#?.iHi;ff
ciais' pattit'lu'mtnit :fài:.i jff ,Í:ffi fi
:,.:i:T:,íJ:::
fase
a obrenção e/ou 'u de de pesquisa desses processos. De fàto.
proárção
e a ação não é, .orÀ..fu;;medianre
em nenhuma d a
_Tt'iante rnte^ ençào
a
modo de se obter
inrormações
para o estudo
,alillJ"ffi'T;::::l;1_:"{:{ii
de um probrema
üi::;íl' j';, particurar ,usrrarn
"
r en re
",,
volvimento
s,
;; ::;: ã T j1l"J. :,r, ; *.; t f il l* :: :..;.:
de urna at]u''
rindo-se ao tipo Assin ala opesquisador
a. irrt.urnento empregados, em questão, retb-
Que:
também necessitei
de técnicas normais

;J:.1J::fl t:'ji
da ciência sociar
comunidade). ri, uma vez
.,q,i,., sobre a siruação
ardeia (...rlur,. da

mais
r,r';f:ffi::r: #:l,I;:i;,,.rd
idosa) (".) po. meio desre
enfo^oue
1
a.lu.ricipação, Hffi Í,
o"rítico-eeonâmi.u ro.ur fui defron_
ó#L:T;;::'lx:?
atdeã se 0.,..u,
da .o.i.auo. campo-
;;.:ilj;::.fj' :.TT,X1[:tHr,,"rrr,ÍrÍ,
+T;
"u ,,llo,de'a
;ffi:il"J,L"::'L:j"'quanto ttu
;;.r. de baixo,,
com meus
poder, cofiio parte
da
j
lottivei r a .strutura rocar de
Minha

contradições do
rn
avida,,i'ii*j:-t,i]:#'::',tH
poder.',
jt[t*{:fii*;;;i*
assuntos básicos
rrrrir..l"irrr,rrrs . ,,
34 CARLOS RODRIGUES BRANDÃO (org')

QUADRO.RE.SUMO N.O 3
Comparação de seqüências metodologicas
em dois estilos'de investigação social

ica tnvestígação -ação


t n ve stig ação ci e ntífi co- ac adê m

1. Formulação do Problema '1


. Etapa previa: formação da equipe I

1.1. Antecedentes e elaboração de diretrizes básicas I


1.2. Justificação sobre a sociedade na qual se dá I

1.3. Definição de conceitos o trabalho de investigação e I

1 .4. Conteúdos e/ou alternativas realidade a ser abordada, dire- I


1.5. Limitações trizes gerais sobre o manejo de I

técnicas e instrumentos de inves


tis ação I

Passo 1:formação da equipe investi I

gadora com representantes I

de setores Populares
Passo 2'. autocapacitação e inte- I

gração de d iversas I

PercePções e exPeriências
assim como distintas
orientaçÕes a resPeito de
teorias sobre o modo como
se organiza a sociedade e o
PaPel da investigação social

2. Objetivos 2. Momento 1'. lnvestigação


2.1 . Gerais
2.2 . Específicos Fase 1'. construção de um marco
de referência
Fase 2: seleção de áreas e uni-
dades ou grupos estra-
teg icos
Fase 3: observação ParticiPante
ou aProximação às uni-
dades esPecificas
Fase 4: investigação da Proble-
mática das unidades
esPecíficas. Cod if icação/
decod if icação

3. Marcos de referência conceitual 3. Momento 2: Tem alização


(quadro teorico)
Fase 1. redução teorica
Fase 2'. redução temática e deter-
m inação de temas gera-
dores
Fase 3: elaboração de um Pro-
grama Pedagogico

co ntin ua
REPE\SANDO A PESQUISA
PARTICIPANTE

'l
n ve st i g a ç ã o c ie ntífi co-acadê m i ca
lnvestigação-ação
4. fuletodologia (ou marcos
metodo_
log icos ) Momento 3: programaçã olação
4.1 .
Formulação de hipoteses Fase 1: realizaçãó Oe cíiculos
de
4 .2. Seteção e operàüonati estu do
zação Fase irradiação da ação edu_
de variáveis
4.3. Es_boço de instrumentos ca t iva
4.3.1. Seleção da amostra Fase ela bo ração d e p rojeto s
4,3.2. lnstrumentos propria_ e determinação de neces_
mente ditos (en_ sidades ediJCe: ,,as
Fase 4 exe:-;ã_ a
4 4 Ap =,= =-Z.:-
r ica ç?§l:,';,: T'"",::I:jl ='a.e::s:zz:.à:
mentos e controle Ce varta_
veis
4.5. Coleta de dados
4.6. Processamento e análises
de
dados
codificação
análise estatística
construção de tabelas
etc.
?^ lnterpretação dos dados
1
4 .8 . Relatorio fJnat

Fonte: Gajardo, op. cit., p. 32.

Nenhuma das propostas que


dão forma a este estilo de tra-
balho emprega técnicas estatísticas
sofisticadas. As experiências que
se orientam com base
numa compreensão dapercepção
tamento dos setores populares e compor_
utrlizam, em geral, análises
teúdo ' Em nenhum caso de con-
estas experiências se valem
análise multiv ariada que permitam de técnicas de
a valid açãoe a gen erarização
conhecimentos ptoduzidos dos
nos termos classicamente programa
pela investigação científica, nem tampouco esse dos
tipo de técnicas empregadas é seu objetivo. o
e a escassa ou nula sistem attzação
avaliaçã'o destas experiências e
têm levado alguns críticos a
que o propósito deste tipo assinalar
de estudos diferà fundamentarmente
da investi gação científica. do
Não há tentativas de construir
experiência e o trabalho acumulados, sobre a
e seus impulsos em geral não
levam em conta a contribuição
de outros estudos realizados
campo' Muitos desses estudos no
não explici tamo quadro conceituai
o enfoque teórico que os susten e
tam, nem formulam hipóteses
serem comprovadas' os a
" porquês" da falta de
avaliação das experiências sistem atização e
e, .r, muitos casos, da farta de
encontram-se nas exigências rigor
colocadas pera ação em face
do tra-
-ró CARLOS RODRIGUES BRANDAO (org')

consti-
b,aiho de pesquisa. euestionar essa relação e seu equilíbrio
ruem aspectos para reflexão, tendo em vista o desenvolvimento
de

erperiências futuras nesse camPo


A observação acima ganha realce na medida em que um dos
pressupostos básicos dos estilos participativos de investi gaçáo
e ação
educacional é o trabalho com grupos em geral, e com organizações
populares em particular. Isso constitui elemento comum às distintas
prápostas já resenhadas. As diferenças radicam no tipo de
grupos
uti hzada e na comp aração entre as técnicas
atendidos, na estratégia
de investigação e as ações desenvolvidas.
De modo geral, tanto a estrategia postul ada pela investigaçáo
temática como a investigaç áo-açáo privilegiam o trabalho com orga-
mzaçóes econômicas e sociais. os movimentos de base de
operários,
camponeses e indígenas, assim como os grupos vicinais e as popu-
lações foram os atores aos quais se deu prioridade em termos do

desenvolvimento de projetos de investigaçáo ativa, particularmente


um
durante os anos sessenÍa e setenta. Nos últimos anos, verifica-se
deslocamento das experiências em direção às organizações margi-
nais urbanas e grupos heterogêneos, nos quais se percebe algum
potencial organi zat1o. No meio rural, os programas de apoio ao
movimento *op..ativo e sindical, proprios das décadas anteriores,
tenderam a ser recolocados em uma perspectiva de ttabalho com
adultos em geral, e comunidades camponesas em particular, trans-
formando-se em componentes de microprocessos de planificação
parao desenvolvimento rural. Isso fica evidente ao se observar o tipo
imple-
de base orga mzatla com a qual se trabalha ou se buscam
mentar no meio rural.
para a década de oitenta, é notória a transferência dos pro-
jetos do meio rural para o meio urbano, do trabalho com campo-
neses e indígenas paf a com operários e populações marginais urba-
nas, cobrindo as mais distintas áreas de atividade e conteudo.
Isso

pode ser explicado, em parte, pelos efeitos da reversão das tendên-


países e
cias de dem ocratrzação social em um número importante de
pela conseqüente mudança nas estratégias de investigação e ação
educativas, eue passaram a considerar prioritário um trabalho orga-
ntzativo sustàntádo pela atençáo às necessidades rnínimas de subsis-
tência (trabalho, moradia e saude) dos grupos que vivem em condi-
ções de pob reza çtitrça.
Nesse sentido, é necessário destacar um aspecto adicional.
qual seja, a maior participação no trabalho com organizações de
entidades não-governamentais e da Igrej a. Isso é válido
para a
REPENSANDO A PESQUISA
vr.,Ã ran r IUIPANTE
PARTICIPANTE
37
maioria dos países' com
exceção
-.ri.ortradaqueres
cativo em seu conjunto se .em que o sistema edu-
de dem ocratização submetido a uÍn
e/ou irrrfi.-enração
de políri.;
Pode-se expl icar
a característica upàrirda fiffli;:riJJ3]
chama atuarmente em funçao do que se
de mudança na.rnterlocução.
cura ressaltar o fato co m lsso, se pro_
de gue, nas décadas
passadas, o interrocutor
ffi'ffl:tlillrsido ã;;;1r..
o prtuao,
cenrrar da invesrigação
educarivas Na u,,'Ír,ffi::::i[it
Iares Ti:::,Í::.i*1,,.,,,o.iui, e
e suas organi zaçõesrepresentarivas
para a formuração
de ações coraborati\-as.
como inrerr":irti:J:t illJ;
Dadas as poucas possibilidadesd.
partir do aparerho influir massivarnente
es tatal, os focos - a
ferir em direção de atençâo começam a se
à busca de mec trans-
cia social e/ou' g"ruçao
riências sustentadas
de rn;::'[frffil'fiffiJffi*,:ffi
em estilos participativos
para um interlocutor de pesquisa apontam
distinto do Estado e
lam' embora existam dos grupos que o contro_
ainda em alguns pu1r.,
dos pelo aparelho est atal' Todos processos impursiona-
mar a atenção para eles têm em comum
aqueles grupos- a atitude de cha-
Que, pero fato de estarem or-sa-
#::3:JJi:i:fi:T ;f.::,','JJlr de o.;;; in n u i r e n,
tintas ::;^lo,podern
das oficiais. Isso diz
campo, a qrtal discutiremo.
reso.;"*;'ffi:';::H:il :l§:l,tJ;i;
u r.guir.

Da investigaç ão-ação
à investigação m,itante
As alternativas
r Bosco pinro ;.;;f;flTil,lffJ#,J
político-partidáttio:
:scritos (Fals Borda'
isso, pelos menos,
;,.ill;
é o que aparece
i fÀ,"Tll;
em um de seus
lg77)' outras es trategi,urs
:eríodo colocam talcompromisso surgidas neste mesmo
:eórico-metodológica como eixo centrar de
no campo da investiguiuo sua proposta
S uas origens sociar
provêm tanto do campo -.ién.iu, e educativa.
s d u cação das sociais
' recebendo ate agora como da
-inrestigação
àuu, a.roÀinaçõer,
:i I T:: H' t',ffi T.Tl,Jilt*11fl;})rop o ra roi i*pír.,
s
ã-
';rda em t-'foqut sócio-eau.utiuo,
: roS Miguel'Te Rosista Darcy foi ;H',r.u;rT:l#i;l?-
: :er-relacionar os J. óri, e'ira. x.rtu úrtima, procura-se
princípios' au-.àu ruçao iiuà.tudora
proposta por
38 CARLOS RODRIGUES BRANDÃO (org.)

P aulo Freire e as obj eções levantadas à sociologia positivista pela

chamada sociologia critrca. Como esta proposta reproduz os obje-


tivos gerais e a seqüência de passos e etapas da investigaçáo temâ-
ttca, não a Íesenharemos neste artigo. Apresentaremos, flo entanto,
os traços metodológicos centrais do chamado paradigma da inves-
tigação militante, visto que nele aparecem dois elementos não expli-
citados nas propostas anteriores : os partidos políticos e o papel do
intelectual orgânico. Acosta, Briceno e Lenz caracterrzam o pata-
digma da investigação militante como um modelo que compreende
uma diversidade de etapas, âs quais ocorrem sempre vinculadas a
uma prâttca político-partrdâria, de acordo com o Quadro 4.

QUADRO -RESUMO N.'4


Paradig ma da investigação militante

Passos da investigação I nstruções operacionais

1. Posição do investigador no pro- em que e onde se trabalha (zona


cesso global de produção e empresas)
Objetivos : condições objetivas do trabalho
a) identificação da classe social orga nizaçáo dos trabalhadores
b) identificação do proprio con- relação com outros ramos da
texto de t rabalho no contexto produção
sociotemporal mais amplo conflitos locais imediatos, quem
c) identificação da conjuntura participa (indivíduos , gruPos,
política das práticas sociais instituições, sindicatos, asso-
ciações, câmaras etc . )

2. ldent ificação das contradições relação entre os conflitos ime-


em determinada conjuntura diatos e outros percebidos como
Objetivos : exterio res
traçar lin has de ação política a quais são estes Últimos
curto e méd io prazos instituições, individuos, gruPos,
partidos etc. aos quais se Possa
identificar como antagÔnicos
discussões sobre o tratamento
a ser dado aos conflitos

3. Posição da informação quem é afetado diretamente Pela


Objetivos: situação e que tipo de informação
ai treinar a coleta de informações pode prestar
através de diferentes técnicas identificar informação oficial
b) identificar as linhas relativas sobre a situação
a tomada de decisões, seus imprensa e opinião pública, em
agentes , áreas de ação etc. especial a proveniente de auto-
rid ades

continua
REPE\SANDO A PESQUISA
PARTICIPANTE

Passos da investigação

4. Primeira fase da organização


da
informaÇão apresentação da informação
Objetivos: obtida, organ izada segundo:
a) treinar a sistematização das a) caso gue se investióa
informações l b) fontes de inforrrção
b) elaboração de modelos c) interesse potítico iinediato do
analíticos caso (hierarquizar com outros
c) fundamentação teórica e
casos )
pol Ítica desses modelos discussão de todo o item anterior,
ísto é.
a) da emergência do caso
bl da validade das fontes
5. §qgunda fase da organização da
informação apresentação dos informes perti_
Objetivos: nentes aos objetivos do passo
4
treinar algo que se poderia estes informes políticos deveriam
chamar ser discutidos em outras ins-
desagregação dos modelos de
análise a fim de obter subprodutos tâncias do partido
de uma investigação este informe deveria ser
a) para a ação política tática na comissão gue promove a
b) para a ação política estratégica investigação militante
c) para a formação teorica em
investigação mil ita nte

Fonte:

Pesquisa participante e investigação


participativa:
primórdios dos anos oitenta

Até aqui procuramos resenhar


as principais propostas pre-
sentes nos estilos participativos
de investigaçao sociaf e prática
cativa' com o objetivo de chegarmos edu-
investi gação participa tr.va.o,
ao que se conhece hoje como
p"..qrisa participante
A
pesquisa participanie surge, .

mente' no início da déc ada conceitual e metodologica-


de oitenta, quurdo a realidade
número importante de sociedades de um
latino-americanas se caracteriza
pela presença de regimes
autoritários e modelos de desenvolvimento
manifestamente excludentes,
flo aspecto porítico, e concentradores.
no aspecto econômico' As
tendências democ ratrzantes;;;r*.-
tivas próprias dos estilos
modernizantes e integradores
sessenta' que defendiam dos anos
a incorporação de amplos
lação à vida social e pol ítica, setores da popu-
..à.ru. lugar às exigências impostas
40 CARLOS RODRIGUES BRANDAO (org.)

por uma reestruturação autorit ârta eue, reduzindo as margens da


heterogeneidade, substituíram as fronteiras difusas do populismo
por classes de perfil mais definido.
Nesse âmbito, continuam se desenvolvendo alternativas de
trabalho com os setores populares e continua também o delinea-
mento de estratégias visando incorporar os setores populares aos
processos de produção e comunicação de conhecimentos. É1, assim
que surge uma proposta hoje como tendência emergente: a inves-
tigação participativa ou pesquisa participante. Nela se sintetizam as
propostas anteriormente resenhadas e se incorpora a experiência
acumulada na AmértcaLatina durante as décadas passadas. Nesse
sentido, pode-se dtzer que as diversas experiências se adequam a
momentos particulares e conjunturas as quais atravessa cada socie-
dade e) com isso, emergem novas estratégias metodológicas e novas
denominações para prâticas que comp artrlham um objetivo comum.
Se se procura uma caracterízação de tais processos a partir da
perspectiva da estratégia de investigação que utilizam hoje, deve-se
reconhecer gue, como nas décadas passadas, a maioria das expe-
riências tenta partir da realidade concreta dos grupos com que tra-
balham , e defendem o estabelecimento de relações horizontais e
antiautoritárias. Propõe-se a utrhzação de mecanismos democrá-
ticos na divisão do trabalho e o implemento de processos de apren-
dizagem coletivos através de práticas grupais. Como as anteriores,
esta proposta reconhece as implicações políticas e ideológicas subja-
centes a qualquer prátrca social, seja ela de pesquisa ou de finali-
dades educativas, e propugna pela mobili zaçáo de grupos e organi-
zações para a transformação da realidade social ou pata o desen-
volvimento de ações que redundem em benefício coletivo.
Metodologicamente , tal enfoque, enfatizando a produção e
comunicação de conhecimentos, propõe os seguintes objetivos:
1) promover a produção coletiva de conhecimentos. rompendo
com o monopolio do saber e da inform açáo e permitindo que ambos
se transformem em patrimânio dos grupos subalternos;
2) promover a anáúrse coletiva do ordenamento da informaçáo
e da utllização que dela se pode fazer;
3) promoyer a análise críttca, utthzando a informaçáo orde-
nada e classifi cada a fim de determinar as raizes e as causas dos
problemas e as possibilidades de solução;
4) estabelecer relações entre os problemas individuais e cole'
tivos, funcionais e estruturais, como parte da busca de soluções
coletivas aos problemas enfrentados (ICAE, 1981 : 16- 18).
REPENSANDO A PESQUISA
PARTICIPANT E {]
o
Quadro-resumo n'o 5 ilustra a forma
processos iterativos como se estruturam os
de ida e volta da informação
-
estratégias metodorógicas em uma das
de pesquisa participante. -

QUADRO.RESUMO N9 5
seqüência metodorógica
da pesquisa participante
a) montasem institucionat e
;:#:i;ZntZt"' metodotosica dapesqulsa
Nesta primeira fase' a equipe promotora da pesquisa participante
nizaçõe'' Àp,"" entativas da poputação con-
'::f ::::;,;?3,::"?:* reari-
informação e discussão
do projeto ce pesquisa participante
poprlação e seus representantes com a
formulação do qrrdro teorico -Ja
pesquisa participante (objetivos,
conceitos, hipoteses, métodos) r
delimitação da zona a estudar
orga nização do processo
de pesquisa participante (instituições
grupos envolvidos, distribuiçào e
são... )
i* tarefas, estruturas de deci-
seleção e capacitação dos pesquisadores
elaboração do pr"jrrposto
elaboração do catenàãiio
pante
or. principais etapas da pesquisa
partici-

b)Segundafase.,estudopreliminareprovisorioo,
em estudo
o trabalho de conhecimento da rearidade
longo de todo o processo,da deve ser permanente ao
pesquisa- participante.
ài',"J,acionai ãs i,es tipos
|ffiiffi?,::::.:?;;;ü;J, de inrorma.
a estrutura social da população
o ponto de vista dos habitantes-em estudo
sociais em estudo, e os principais
ár, ar"as geográficas e estruturas
uma informa ção sÓcio-economicaeventos de sua historia
sócio-económicos e tecnologicos e técnica, ut:ilizando indicadores
A retroalimentação da primeira
fase
os objetivos oeóta entrãga
e discussão dos resurtados
promover nos envorvidos são os seguintes:
e o"rri,
mais objetivo da sua situação -. -"'ur habitant"r- u, conhecimento
identificar, com os pesquisados,
prioritários e que qr"i", os probremas gue consideram
estudar para sorucioná_ros
conhecer a reação da população
diante dos resultados do
orientar as rasel ,úrintes diagnós-
Hi,:,Jfl,j" do óro."rro de pesquisa
As atividades de retroa,,r:!!roão
supõem não apenas a eraboração
de
i:::"J�Jfi.ff;."x:i:::::
tar os resurtadosoe uma r;:ü; il-:r:s,
ffi;:l:"r'JJ:iff,"r',l,,i;l ,;:X?ilffi-
cartazes etc ) para apresen-
,

uma "dinâmica de grupo " para


pontos de vista, prõpor discutir esses resurtados, comparar
noy€s orientações de inràriigação, os
e discutir probremas,' serecionar
rormrl* novas hipoteses etc.
42 CARLOS RODRIGUES BRANDÃO 1org.;

c) Terceira fase; anátise crítica dos problemas considerados prioritarios


e que os pesguisados deseiam estudar
Constituição dos "círculos de estudo"
Esta terceira fase do processo de pesquisa participante está dedicada
a um primeiro trabalho de análise crítica dos problemas por parte dos
"círculos de estudo" que desejam se organizar em tomo desses pro-
blemas
O treinamento do "animador" dos circulos de estudo, a respeito de:
metodologia de investigação socio-econômica
- sociologia do conhecimento
- dinâmica dos grupos
- tecnologia (por exemplo agrícola, se trabalha no meio rural)
- métodos e técnicas de educação popular
-
Além disso, este animador deve ter conhecimento e experiência do
meio social, econômico e cultural ao qual pertencem os membros do
círculo de estudo.
Analise crítica dos problemas
Trata-se de partir dos fenômenos para buscar o essencial, por trás das
€xperrêncras e das relaçÕes cotidianas imediatas. lsto é, não sÓ se deve
:es3reve: cs gl,cblemas como tambem explicá-los e buscar estratégias
3.3SS vs S de açãO
Q. mcfilenlo fazer a'representação" cotidiana do problema
Segundo momento: questionamento da representação do problema
'Limitar-se a estudar o 'concreto percebido' para descrevê-lo, acu-
mular observações empíricas para explicá-lo levaria a agregar uma
série de pontos de vista, a reforçar condicionamentos ideologicos,
determinando a percepção dos participantes, a confundir causas
aparentes com os fatores determinantes e estruturais que produzem
o problema e geram a situação enfrentada."
Terceiro momento: recolocação do problema
Procura-se uma reformulação mais objetiva do problema através de:
a descrição do problema (identificação dos "pontos de vista" e dos
"aspectos": enumeração, classificação e comparaçáo das informa-
ções; identificação das contradiçÕes entre vários elementos da si-
tuação: localização do problema no tempo)
explicação do problema, isto é, determinação de suas causas não
somente imediatas como também estruturais
A necessidade de soluções coletivas a longo prazo não elimina a pos-
sibilidade de tratar de melhorar a situação localmente e a curto prazo.
O que vale é identificar claramente as limitações destas ações.
Atividades de retroalimentação desfa terceira fase
Cada "círculo de estudo" pode comun icar os resultados de seu traba-
lho aos outros círculos e ao conjunto da "comunidade".

d) Quarta fase; programação e execução de um plano de ação (incluindo


ações educativas) para contribuir para enfrentar os problemas colo-
cados
O plano de ação inclui:
atividades educativas que permitam analisar melhor os problemas e
as situações vividas
REPE\SA\DO A PESQUISA
PARTICIPANTE

medidas que possam


merhorai, a situação a níver
rocar
r ::3::
açÕes ""1::"1,y:::.y:.031*t3, _;;prir essas medidas
para promover as sotuçoeJ",t';;;;,txiT."1olio,"
prazos, em nível local _ _:
e tonso
ou ,rirlÃplo
Retroalimentação do plano
de ação
o plano de açâo túãlmpLemJntãçao
" deve também dar rugar
-
ntes oe sua orientaçãL,
a uma
::Xi:'r'.X
""0:
:iliij:ffíi;'oã##f de seu
A pesquisa participante:
o processo ''"umprocess o permanente
de pátq'iI p,rticipantã "não
anteriormente descrita' terminL com aquarta fase
A análise crítica da rearidade,
aexecução ";" das
: :' ff ,?::1XTJ,T ;,,. J.:'o.: e,,:,
ff * :ffi'.,#."Jr
; r o b,
T :i,, : :,1 A ação
pode
nnrla ê^F rr.^-
ser um" r ront;;;;:.1;':i;":'I;J;:?:,'fi0:?':1i1"
Fonte: Boterf , Schutter,, /-\. , ()p. ctt., pp
. 235_236.

A seqüênc ia anterior foi predominantemente


ticas de investigação
e ação educativas inscritas noapli cadaem prá-
cessos de mudança impulsionados à.bito de pro-
camente é possível pensar gelo upu..lho estatal. Hipoteti-
'
les que ocupam posições
que um clima favoráver
por parte daque-

grande parte o desenvolvimento
aparelho de Estado condicionam
em
do trabalho de pesquisa,
de tempo e recursos' Para em termos
muitos, a metodologia anteriormente
descrita pode aparecer
como um processo ampro
sobretudo pela perspectiva e de arto custo,
de implementar projetos
comunidades pequenas visando atender
com escassas ou nulas possibilidades
irradiação ou de influência de
social e política. Ao cántrário,
jetos' como microprocessos tais pro-
de experimen taçãoe planificação
e educativa' valorizam-se social
positivamente à medida
tados' diante de eventuais que seus resul-
mudanças de por íticana
puderem ser gen etalizados Am erica Latina,
para o conjunto da
No sociedade.
o'
o apoio estatal a essas práticas
entant
Améri ca Latina' Isto,
somado às urgências enfrentadas
é escasso na
populares na satisfação peros setores
de suas mínimas necessidades
cia' levou muitos investigadores e de subsistên-
alternativos que' tendtnão educadores a formurar
puru o mesmo fim, métodos
teiam estes processos, encurtam e bara-
numa tentat.a de atenuar
necessidades mais urgentes ou solucio naras
dos grupos
subarternos.
Dentre essas altetnativas,
tegi as metodológicas
ãub, destacar o surgimento de estra-
que adotaram ou delinearam
consonância com a realidade caminhos
países e os grupos
e a conjuntura que atravessamem
com os quais os
trabarham. Dentre eras, podemos
44 CARLOS RODRIGUES BRANDÃO (oTg.;

menc ion a r: as práticas desenvo h'idas sob a denominação de enquete


conscientizadora. metodo surgido como resultado do trabalho reali-
zado por I\ODEP com dirersos grupos de base (Lopez de Ceballos,
l9-9 ): o autodiagntistict-r resultante das erperiências de investi gaçáo
e capacitaçào camponese no meio rural mexicano (Sotelo & Schmel-
kes. 1980 t; a enquere parricipatir a (UNESCO, 1978); a observação
militante (Oliveira & Oliveira. 1980) à qual já se fez referência em
item anterior; a investigação na ação, da qual dào conta os projetos
desenvolvidos no Chile depois do golpe militar de 1973.
Nessas alternativas, difundidas em vários escritos esclare-
cendo os princípios que as sustentam, pode-se constatar uma ten-
dência manifesta para incorporar os grupos com que se trabalha à
tarefa de definir o problema e/ou objeto de investigação, e de parti-
cipar ativamente da coleta, sistem atizaçáo e análise de dados. As
diferenças radicam no grau de participação atribuído aos setores
populares durante as distintas fases do projeto e no posterior plane-
jamento, execução e avaliação dos projetos de açáo. A tipologia
elaborada por Ema Rubín de Celis (1982) ajuda a entender os níveis
distintos de participação dos setores populares na i*plementação
destes projetos. Define a autora cinco tipos possíveis de participação
nesses processos, a saber: 1) participação a pafiir da devolução de
inform açáo; 2) participação a partir da coleta de dados; 3) parti-
cipação em todo o processo sobre o tema proposto pelo cientista;
4) participação em todo o processo sobre um tema proposto pelo
próprio grupo; 5) participação na pesquisa a partir da açáo educa-
tiva.
A participação popular varia efetivamente nas diferentes pro-
postas de investigação e seus projetos, podendo-se perceber inclusive
algumas contradições entre os níveis de participação implícitos nas
metodologias e os pressupostos subj acentes a estas estratégias de
trabalho com movimentos populares.

Considerações finais

Uma râpida mirada sobre as realizações neste campo permite


constatar certa heterogeneidade de propostas e de proj etos, cuj o
elemento unificador é dado por sua inserção determinada em uma
perspectiva de mudança social e por se voltarem prioritariamente
para os pólos dominados da sociedade. Qualquer que seja a deno-
minação utrlizada para çaracterizar estas práticas sociais, elas po-
REPENSANDO A
PARTICIPANTE
:ESAUISA 45
dem ser entendidas como uma'atividade
onde se procura mod ifrcar a
realidade circundante e o comportamento
dos grupos, derivando daí
alinhamentos teóricos e metodológicos
suscetíveis de serem generali-
zados para o conjunto da sociedade.
E por isso àu. não se pod e farar
em um novo paradigffiâ, nem
numa proposta representativa
de um estilo participativo de inves-
tigação' mas sim em definições diversas e
segundo os propósitos que se
experiências distintas
diz perseguir. Isso
já foi r.isto ao se
analisar os diversos enfoques propostas
e presentes neste campo
fato' se se observar os proj etos à luz De
desies en toq ue S pt-r,Je-sc assi-
nalar que' dependendo de determinados
momenros e conlunturas.
surgem alternativas di'ersas de
aplicaçào deste tipo de açôes. Assim.
por exemplo' segundo seus propositos
e impacto, podem ser l.isua-
lizados alguns tipos de práticas
i
àr

àr. enumeramos a seguir.


A primeira vincula-se à planificação
do desenvolvirnento local,
que proporciona um contexto de apli.caçã,o de estratégias
quisa participante, sejam estas de pes-
implemántadas como projetos
investigação temática, investigação- de
ação, pesquisa participante ou
investigação participativa. eqli
se inscrev. u* número importante
de projetos de desenvolvimento
comunitário em ger al, ede desenvol-
vimento rural em particular. Embora
geralmente contemplem
avaliação dos seus resultados, a
os proj etos existentes raramente
proporcionam antecedentes a
respeito de seus resultados. um
balho recente avaliando resultados tra-
obtidos no desenvolvimento des-
tas experiências assinala, dentre
as vantagens do método, a de
produzido efeitos imediatos na ter
compreensão e no comportamento
grupos camponeses diante da de
mudança social, e o fato de ter con-
tribuíd o para o desenvolvimento
de uma pedagogia social que possi-
bilitou aos grupos o surgimento de
uma organ ização capaz de pôr
em marcha projetos de desenvolvimento
processos de mudança social.
.ã*unitário e de apoiar
Nesse sentido, destaca-se a importân-
cia de um tipo de experiências
que, tanto em décadas passadas
na atualidade' se desenvolvem como
como componentes de políticas
cionais de desenvolvimento, particularmente na-
naquelas sociedades
onde se dão processos de abertura
social e política. Muitos ele-
mentos desse tipo de projetos
foram incorporados corno parte inte-
srante de políticas de cooper ação
técnica internacional (rrcy/
SEEC, 1983; Rahman, l9g0).
um segundo grupo obedece aos propósitos
de desenvolvimento
de estilos alternativos de org
anu,ação social e desenvolvimento
edu_
'-ativo' Neste caso, se inclui a maioria dos proietos de investigação
CARLOS RODRIGUES BRANDÁO (org.)

na ação, onde a pesquisa adquire a conotação de ':r{nl icada" , na


medida em que procede à devolução do conhecimentb obtido junto
aos grupos com que trabalha e, ao mesmo tempo, evidençia a facti-
bilidade operacional do modelo experimentado. Essa visão. situa o
investigador à margem dos acontecimentos, visto que sua função
não se orienta para atuar sobre uma realidade, modificand o-à, mas
a uma observaçáo participante da atuação de outros.
Sobre esta atividade, existem algumas avaliações que se so-
mam aos resultados produzidos na investi gaçáo ocorrida no interior
do processo. Todas elas coincidem em assinalar as vantagens de se
intro duzir formas de organi zaçáo e de trabalho coletivo através da
açáo desenvolvida por pequenos grupos, os quais incorporam rapi-
damente novas idéias e valores, modificando também seus padrões
de comportamento. No entanto, na medida em que se trata de
microexperiências de desenvolvimento educativo e organi zativo, é
escassa ou nula sua influência ou massificação, particularmente
quando são desenvolvidos por organismos não-governamentais. Essa
prática alternativa permite réplicas em diversas áreas, mas seus
resultados não se generalizam o suficiente a ponto de constituir uma
açáo alternativa aos modelos dominantes.
A terceira alternativa e a linha de trabalho que aparece vin-
culada à luta pela democratizaçáo das estruturas sociais ou altera-
ção profunda nas bases da sociedade a fim de superar as desigual-
dades sociais e econômicas. Nela se inscrevem as experiências de
investigação-ação vinculadas aos esforços de formular um novo
paradigma nas ciências sociais, e aquelas vinculadas diretamente
às práticas político-partidárias. Cuba e Nicarágua são os casos mais
evidentes onde não ocorreram projetos isolados de investi gaçáo e
educação partrcipativa, mas sim ambos os elementos se subordi-
naram às políticas concebidas, executadas e avaliadas pelos apa-
relhos de Estado e pelas alianças populares no seu interior. Por
outra parte, também em países onde existem processos de abertura
política ou condições mínimas para o desenvolvimento da capaci-
dade de mobilizaçã,o popular, é possível detectar experiências inse-
ridas em políticas concebidas pelo movimento operário e pelos seto-
res populares em geral. Este também é, atualmente,, um dos traços
da proposta de investigaçáo participativa ou pesquisa parttcipante,
mesmo que não se disponha de elementos avaliadores que permitam
dar conta de seu impacto em termos de melhorar os níveis de infor-
mação e capacidade mobili zadora do movimento operário e campo-
nês. Um grande vazto gera, além disso, muitas interrogações a res-
REPENSANDO A PESQUISA
PARTICIPANTE
peito de seu igrpacto:
a ausência de testemunhos
operários' camponeses
e indígelu, ;;. tenham e opiniões de
tipo de experiência' participado deste
Isto e particularmànte
que a pesquisa social importunt. se pensarmos
e educ ativa tem u,n
em que se vincula ou impacto maior na medida
é soli citada il organismos
decisão' e quando com poder de
os resultados .oin.iaem
que estes promovem' com as tendências gerais
Este não
participativos de investigação é, evidentemente, o caso dos estiros
muito particulares onde e ação educat iva,exceto em
situações
estes processos coincidem
redistributivas ou onde com poríticas
existe. a decisão porítica
cessos de_mob irização de irpursionar pro-
e participaçào sociar.
ofenômeno indicado
acima é um dos mais
implantação de experiências perceptíveis na
de pesquisa participante. Em certa
medida' poder-se-ia dizer que as mudanças
estratégias refletem em sua conceituação
as variàções das poiiri.u, e
vigentes na América
Latina, âs mudanças
a. á.renvorvimento
mentais que nos aparerhos
governa-
por desempenharem
de apoio ao-desenvolvimànto as agências oo estado
um papel
organi zativo dos setores
popurares,
;HL;,::"1'JT:
ram' em um número
ff:jfí:-,:* - não apenas rimitàram
as

movimentos e de suas
import.r;lf,H?r:1"í1ff:,,::il;rrT*;
organizações. se se observar
riências desenvolvidas o tipo de expe-
e sua base organi zativa,é
em alguns casos elas cabíver pensar que
aparecem onde existe
tanto' e se reconstituíram espaço porítico para
a partir da ."p.riêncla
dos movimentos sociais, de participação
perfii*oo-r. ,o*o uma atividade
segue a criação de que per-
novos espaços onde possam
se desenvorver core-
arrernatiros de trabarho
Irff:::r}:deros sociar, porírico, econô-
Nesse sentido' seria
sente nesses estilos
possív el dizer que. a heterogeneidade
de trabalho pre-
Iidades de açã'ojunto reflete*, u.i,,u de tuão,
a setores populares as possibi_
politicamente restritos, dentro de rimites sociar
com vistas
a erevar os níveis de e
apoiar o fortalecimento consciência e
organi zativo. os moderos
indagação e criação arternativos de
cult uruí
paradigma" de produção ia não aparecem então como um ,,novo
como
e comunicação de conhecimentos,
um conjunto de ações mas
que contêm em germe
se propõem como os erementos que
alternativa ,uiio" pu;;'
educativa quanto para u educação e pesquisa
a sociedade em seu
Gómez de §ouza,,aol'uções conjunto . Nas paravras
urr.ripado.as, 1*r.riências de
do futuro' que podem portadoras
chegar a ser laboratórios
sociais e lugares de
48 CARLOS RODRIGUES BRANDÃO (org.)
' ;r'

experimentação, Embora muitas não dêem resultados positivos (...)


outras poderão ter um efeito multiplicador e de irradiação. O desa-
fio é saber detectar, em situações concretas, quais as que têm
realmente dinamismo criador" (G om ez de Souza , 1982). ,

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Pesquisa participante :
Propostas e reflexões
metodológicas*
9,y Le Botef *

o artigo que aqui apresentamos é o resultado


número de reflexões críticas realizadas de um certo
sobre diversas experiências
de "pesquisa participante " (ou e_nquete-participação)
autor colaborou ou que vem estudaia, já' nas quais o
há quinze anos.
É particularmente apos a experiência
de três anos de trabalho
na América central como
funcionario da UIvESco, que o autor
propõe uma orientaÇão metodorogica
para o tipo de ,,pesquisa
ativa" quu constitui a pesquisa participante.

Em uma pesquisa tradicional a população


pesquisada é consi-
derada passiva, enquanto simples reservatório
capaz de analisar a sua propria situação
á. infor-ações, in-
e de procurar soluções para
seus problemas' Nesse caso, a pesquisa
ftca exclusivamente a catgo
de "especialistas" (sociólogos, l.oromistas
etc.), pois somente estes
possuiriam a capacidade de formular
os problemas e de encontrar

(.) "La recherch".


.p"rticipative: propositions et réftexions metodoto-
ii.,*ar7ê,t1tê, s3:21_46, 1eB0 rradução
il::i:';à #f*:,Snil ii:::,,:Zi, de
(** ) Guy Le Boterf foi educador
mação' pesquisa e organização de na Africa, orientou trabalhos de for-
sistemas educacionais
-Real na cutture et Deve-
loppemente mais tarãe na Quaternri"
sultoria para a ocDE e para a uNEsco. Education. izoutrabarhos de con-
Foi, durànte três anos. especiarista
uNESco na America central. Trabalhos publicados: da
Enquete-participation et
,
Animation 19TO; Formation
91 Àítà,grriior,
esÉ_eME, 1974; Formation et
1e75; Metiers "de Formateurs (em
Ç{:::í:i;,1?5; coraboração com F
:: CARLOS RODRIG UES BRANDÃO (org') 1'"
; ..
: -- ::ras de os resolver. Desse modo, os resultados da pesquisa ficam
:ise,.',-ados aos pesquisadores , a &população não é levada a conhecer
lais resultados e menos ainda a discuti-l0s.
Essas várias características explicam a pouca eftcâcra que
podem alcançar as medidas decidida§ a partir de tais pesquisas. De
fato, essas medidas deparam com a resistência da população, QUe
não faz questão de se ãngajar num projeto em cuja elaboraçáo ela
não teve possibilidade de participar.
Considerando as limitações da pesquisa tradicional , a pes-
quisa participante vai, ao contrário, procurar auxiliar a população
envolvtda a identificar por si mesma os seus problemas ) a Íealizar a
análise crítica destes e a buscar as soluções adequadas. Deste modo,
a seleção dos problemas a serem estudados emerge da população
envolvida, que os discute com especialistas apropriados, não emer-
gindo apenas da simples decisão dos pesquisadores '

Proposta de um modelo de pesquisa participante

Não existe um modelo único de "pesquisa participante", pois


trata-se, na verdade, de ada ptar em cada caso o processo às condi-
(os recursos, as limita-
ções particulares de cada situação concreta
perseguidos etc')'
ções, o contexto sociopolítico, os objetivos
O método que se prop orâ aqui deve, portanto, ser adaptado a
cada projeto espãcífi.o., Também não apresentaremos os instru-
mentos (roteiros de entrevista, questionário, fichas de coleta de
dados estatísticos etc.) que correspondem a cada etapa do método
exposto. Esses instrumentos não podem, com efeito, ser elaborados
antecipadamente e sem estarem relacionados a cada projeto parti-
cular de pesquisa participante e às condições específicas de sua
reahzação.
Assentadas essas considerações preliminares, o modelo de
pesquisa participante que propomos neste artigo comporta as quatro
fases seguintes:

(1) Esses projetos podem ser, por exempto: a elaboração de um plane-


jamento educacional regional; a elaboração de um currículo escolar baseado
extra-es-
nos problemas da comunioaoe ; a programação de ações educativas
colares para adultos; a programação de um sistema de formação agrícola;
a seleção de tecnologias a[ropriadas em resposta a problemas específicos;
(saÚde, educa-
a organ izaçáo de uma consulta popular em determinada área
ção, habitação); etc
.
REPENSANDO A PESQUISA
PARTICIPA\TE
Primeira fase A montagem institucional
pesq u I sa "
participante. e metodolosrca ür.

estudo preliminar e provisório


o"or,iíu'r'!ir,#i,íor: da região e da
' a identifi caçã,o da
estrutura sociar da população;
' o conhecimento do
ponto de vista oos indivíáro,
envolvidas' bem como e dos grupos das
dos principais evenros
,Tfiltt de sua his-
' o recenseamento
dos dados sócio-econômicos
zando para isso e tecnológicos, utili-
"indi.uào..s,, apropriados.
Ao final desta etapa,
são organi zad,os ofeedback
dos resultados desse e a discussão
diagnostico com a popu
raçãoenvorvida.
Terceira fase" Aanálise
críticados probremas
que a popuração
;:l Ij ::?,'#;::::]::"'.ffi s (or
.1i :',T,*:T'ro
guii.uo o s ô-
;.-
Ao final desta etapa, também
resultados do trabalho é organi zad,o o feedback
dà cadagrupo de .rtudo, dos
aos demais grupos e Que é comunicado
ao conjunto da popuração.

QuarÍa íos"" A programação


e a aplicação de um plano
ação(incluindo atividades de
educacionais)
ção dos problemas encontrados. ou. contribua paraa solu-
Após a apresentação geral
deter-nos-emos em cad,ar.úeras das principais fases do método,
em particular.

Primeira fase: a montagem


institucionar e metodorógica
da pesquisa participante

No decorrer desta primeira


pesquisa participante, fase, aqueles que promovem
em associação estrelta a
representativas da população, com as organi záçõcs
devem realizar as seguintes
' o' pesquisa participante
tarefas:
com apopulação
+'i.l'i3irir".flHj:,
' definição do quadro teórico
da pesquisa participante,
tivos, conceitos, hipóteses, isto é, obje-
. delimitação da regi ão
metoOos etc.;
aser estudada;
CARLOS RODRIGUES BRANDAO (org.)

. ?; rr tzação do processo de pesquisa participante (instituições e

-:-rpos a serem associados, distribuição das tarefas, procedimen-


ItrS e partilha das decisões etc.);
. seleção e form açáo dos pesquisadores ou de grupos de pesquisa;
. elaboração do cronograma de operações a serem realizadas.
Essas diferentes tarefas supõem o estabelecimento de uma
estrutura de orientação do projeto que assegure estes objetivos e que
seja representativa das suas diferentes partes. Ela deve trabalhar em
estreita relação com uma equipe de intervenção e de pesquisa,
encarr egada de promover as várias atividades científicas e técnicas
do processo a ser encaminhado.

Segunda fase: o estudo preliminar da região


e da população envolvidas

Esta segunda fase da pesquisa participante o diagnostico


preliminar e provisório inclui três partes:
-
. a identificação da estrutura social da população pesquisada;
. a descoberta do universo vivido pela população de pesquisados e

dos principais acontecimentos de sua história;


o o recenseamento dos dados sócio-econômicos e tecnológicos.

Estes três tipos de info rmaçáo não são independentes entre si.
E necessário estudar as suas relações: as necessidades experimen-
tadas e exprimidas, por exemplo, não são independentes da posição
ocupada no processo de produção por aqueles que as experimentam.
Trata-se? na verdade, de três momentos complementares na unidade
do diagnóstico.

Identificação da estrutura social da população


envolvida
Uma das tarefas essenciais a ser efetuada durante esta fase é a
identifi caçáo da estrutura social da população pesquisada. Esse tra-
balho se mostra fundamental na medida em que permite:
. diferenciar as necessidades e os problemas da população estudad a
segundo as categorias ou as classes sociais que a compõem;
. selecionar a população para a qual e com a qual se deseja inter-
vir;
' preparar uma efetiva descentralização
ao nível dos grupos sociais !: pesquisa participante
mais oprimidos
poder, de modo geral. e mais afastados do

Nessa perspectiva, toma-se


grupos sociais existentes,
importante assinalar os diferentes
as relações
sua função social, as ações il; estes mantêm entre si, a
efetiv;s quá-.rr., conduzem
tivos que perseg"T. Esse ou os obje_
tipo de ánálise põe em xeque
abstrata de "comunidade" anoção
serem esfudados' o proprio
1r'o**unity, comunidad) e de ,,meio,, a
'faz
termo "comunidade,, referência a
um conjunto de indivíduos
relati'arnenre homo-eêneo.
próprio fato da diferenciaçâo EIe oculta o
social interna, âs posições
até mesmo as relações dos grupos e
conflituosas existentes entre
comunidades aldeãs, os estes últimos: em
vizinhos são freqüentemente
"comunidade" mascara os interesses rivais. o termo
grupos sociais porque opostos que existem entre os
estes ocupam posições
de produção' E necessário, diferentes no processo
portanto,
identifi caros segmentos ou as
frações de classe que constitu.- ,,comunidade,,.
a
Como escreve Eric Wolf:

"o antropólogo' com sua experiência


em comunidades restritas, sabe
9u€' por sua maneira de pensar e por
seu comportamento, o arren-
datátio se distingue do práprietário,
o camponês pobre do camponês
rico' o agricultor artesão do
simples lavrador, o camponês
vel por todas as operações responsá-
agrícolas, em sua fazeida
comprada' do trabalhador alugada ou
assalariado que trabalha por
a tutela de outros' Ele sabe dinheiro sob
também qr. convém distinguir
camponês que vive perto entre o
de uma cidade e que participa
do mercado urbanos e aquele dos assuntos e
que vive numa aldeia isolada,
camponês que começa a entre o
enviar seus filhos e filhas paraas
aquele que continu a trabalhando fábricas e
rural' As distinções entre propriedadelimites do seu pequeno universo
nos
e farticipação na propriedade
em relação tanto com os
mercados quunio com os sistemas de comu-
,ffi:ÍtJilil:? ,,p;""'-lhe importante quando ere observa popu-

Por outro lado, se tomamos


o caso de arguns países da
rica Latina' a "comunidade Amé-
indígena" também não constitui
grupo homogêneo, com um
relações sociais harmoniosas,
onde predo-

(2) Eric wol{, Les guerres paysannes du 20e.


1974. siêcle, paris, Maspero,
:i- C.{RLOS RODRIGUES BRANDÃO (org.)
i.

-À-:i: reiações de coordenação entre os membros que a consti-


-
-ÉT E sta também não é um conjunto de indivíduos ou de famílias
:3':é-i por um consenso socialou por um sistema de valores comuns
i-3 lhes permitisse
afirmar uma identidade e se opor às diversas
:gressões exteriores (econômicas, culturais etc.). As
" comunidades
rndígenâs", tais como existem hoje, são um produto
da his toria. A
sua origem pode ser procurada ao mesmo tempo
em um certo direito
consuetudinário pré-hispânico e na política colonial de
"reagru pa-
mento" dos índios em encomiendas ou nos pueblos de reduccion.
Em todo caso, elas constituem hoje um espaço social onde se
dão e
se desenvolvem relações de poder, de domin ação
e de explor ação. A
estrutura dessas últimas é extremamente complexa, na medida
em
que se entreçÍuzam as estruturas tradicionais e as provenientes
da
penetraçáo de estruturas capitalistas e "modernas'l
Nos "municí-
pios" coexiglem freqüentemente estruturas tradicionais
de poder, de
tipo civil-religioso, e estruturas oficiais. Podem existir, assim,
duas
prefeituras. Também não pode passar sem referência
a oposição
entre os "indígenas" e os " ladinos" (os que não são índi,os),
âs
verdadeiras guerras de religião entre as igrejàs'e as rivalidades
entre
os partidos políticos.
Todo este estudo da situação social da " comunidade
"populaçáo", do "meio" estudado é da mais alta importância para
", da
diferen çiar os problemas e as necessidades em função
daquela.
Os interesses, problemas e necessidades dos camponeses pro-
letarrzados não serão os mesmos do artesão, dos comerciantes
ou do
camponês médio, proprietário de uma extensão de terra
que lhe
permite a sobrevivên cia da família. As " representações
" das situa-
ções vividas ou as aspirações podem vaúar segundo as caracterís-
ticas religiosas e ideologicas. Vê-se, portanto, a utilidade dessas
precisões quando se trata de organi zar, por exemplo,
ações educati-
vas baseadas nas necessidades experimentadas àu nos problemas
percebidos.
Por outro lado, se a pesquixa participante quer se colocar
a
serviço dos oprimidos e ter um impacto *oCirl importante,
é indis-
pensável que se possa escolher, com conhecimento de
causa, junto a
quem e com quem ela deve intervir. Assim, diversas estratégias
podem ser cogitadas. De acordo com algumas destas, os p.rq,riru-

(3) Cf. Carlos Rafaet Cabarus, La cosmovision k'ekchi en proceso


de
cambio, São Salvador, UCA Editores , 1g7g.
REPENSANDO A PESQUISA PARTICIPA\TE :*
dores der em trabalhul junto às categorias sociais
mais exploradas Ê
mais proletarizadas. De acordo com outras, será preferível
e scrltrher
como grupos privilegiados aqueles que dispõem de ,,cerra
uma
margem de manobra" frente ao poder.
Todas essas informações são igualmente pertinentes
para or-
ganizat depois, no processo de pesquisa participante,
a atribuição
ou divisão da orientação da pesquisa e da intervenção.
Da escolha
dos grupos que se encarregarão da descen trahzação
da pesquisa
participante dependerá a orien taçã"o política desta.
Isto não significa
que somente os grupos formalmente constituídos
(associações, sindi-
catos, cooperativas, grupos religiosos etc.) intervirão
na direção ou
co-direção da pesquisa. outros grupos, constituídos
no momento de
tal intervenção, poderão igualmente tomar parte dela. podemos
também levantar a hipotese de que estes últimos refletirão
as divi-
sões ou fragmentações sociais existentes ao
nível do conjunto da
população' Essa tipologia dos grupos deve ser
tra tad,a com prudên-
cia' os pesquisadores, com efeito, correm o risco de
se deixarem
influen ciar demasiadamente pelas proprias concepções
gias pessoais. Daí podem resultar clàssiricaçoes
ou ideolo-
simplistas ou mani-
queístas: os bons e os maus, oS reacionários
e os progressistas, os
exploradores e os explorados etc. Trabalhos de
análise institucional
de grupos e organi zaçõesa têm demonstrado a complexidade
da
estruturação e da dinâmica interna de tais,_erupos.

Descob erta do universo vivido pelos pesquisados

o momento da pesquisa qualitativa merece ser examinado de


perto. Em que ele consiste?
Num primeiro momento, é importante compreender,
numa
perspectiva "interna", qual é o ponto de
vista dos indivíduos ou
grupos sociais acerca das situações que vivem.
eual a percepção
destes sobre tais situações? Como eles as interpretam?
sistema de valores? Quais os seus problemas? eual o seu
euais as suas preocu-
pações? É necessário aí apreender qual
e a logica dos pesquisados ,
mesmo 9ue, a primeira vista, as suas inferências
e raciocínios pos-
sam par ecer irracionais. Não nos esqueçamos que
uma das princi-
pais catacterísticas da pesquisa participante que
é ela parte dos

(4) Cf', na FranÇa, os trabalhos de J. Guigou, G. Lapassade,


R. Lourau.
CARLOS RODRIGUES BRANDÃO (ore.)

:- : 3:.rs colocados pelos pesquisados, problemas que eles estão


- i3-',iios a estudar. Ela parte do mundo cotidiano do povo e escuta
- i \ oz. Importa igualmente cornpreender a tristoria vivida,
: reve-
.ria pela memória individual e coletiva: quais são os conflitos, as

,iesconfianças, âs ahanças e as lutas pela terra? A historia cotidiana


de um povo é a da luta cotidiana contra a opressão. Em toda essa
pesquisa, supomos que existe uma certa "filosofia espontânea" que
se exprime no senso comum, flo sistema de crenças e de conheci-
mentos empíricos, e que tudo isso é fundamental para relacionar a
práxis com o saber e com a cultura popular. Na linguagem de
MichelCrozter, poderíamos dizer que o objetivo desta análise quali-
tativa é identificar e explicar as "estratégias" de diferentes tipos de
agentes nas situações com as quais eles se defrontam. Como eles
compreendem essas situações? Quais as oportunidades que elas lhe
parecem oferecer? Quais as suas capacidades de as apreender e
utilizar?
Esta análise qualitativa do ponto de vista dos indivíduos e
grupos que compõem a "comunidade" olt o "meio social" a ser
estudado é, pois, um momento importante do processo do diagnós-
tico. Não se trata, pois, de um simples contato com a população
pesquisada ou da pura "ambientação" por parte dos pesquisadores.
Um trabalho de pesquisa como este não é facrl, sem duvida.
Ele exige do pesquisador uma postura muito aberta em relação à
pesquisa, um a grande capacidade de se "descentrat" para "se colo-
car no lugar do outro", do interlocutor. Nesse estágio, o pesquisador
deve "colocar entre parênteses" o seu próprio quadro de análise
paÍa compreender o do pesquisado . Trata-se, portanto, de identi-
ficar na população os diferentes grupos sociais que a compõem.
Trabalhando ao nível das "representações", o pesquisador deve
aceitar igualmente (o que não significa aprovar ou adotar) a ideo-
logia dominante e seu impacto. Essa "aceitação" supõe uma atitude
positiva de escuta e de emp atta, tão longamente descrita pela cor-
rente de psicologia social derivada de Carl Rogers. Ela também
implica "viver junto" com a coletividade estudada, em partllhar o
seu cotidiano, a sua utthzação do tempo e do espaço: ouvir, effi vez
de tomar notas ou fazer registros; ver e observar, em vez de filmar;
sentir, tocar em yezde estudar; "viverjunto" emvez de visitar. É em
geral preferível deixar de lado os cadernos de notas, os gravadores e
os questionários. A pesquisa nesse ponto não é estruturada. Nessa
situação de pesquisa, o pesquisador se "colocará como um diapa-
são" dos pesquisados. Assim, no meio rural, é fundamental poder
RL Pt\SA\DO A PESQUISA PARTICIPA\TE

compreender e discutir os problemas relativos aos


cultivos, às colhei-
tas, ao regime de chuvas, à erosão do solo etc.
O percurso nesse ponto é muito próximo ao do etnólogo,
ao
das pesquisas "em ritmo lento". Ele poa., com
efeito, levar tempo
paÍa ser completado. Freqüentemente é necessário
, longo tempo
para que se adquira confiança, sobretudo nos
contextos em que as
relações de manipulação, de domin ação e
de explor ação se fazem
sentir, por vezes fortemente, durante ou depois
das ações ditas
sociais ou de pesquisa. Este" abandoÍro" pelos
pesquisadores de seus
próprios critérios, neste momento da pesquisa. põe
em questão
muitas das concepções "científicas". De certo nrodo.
uma corrente
contestadora de numerosos antropologos denuncia
as práricas do
etnocídio generalizado. Escrevem Miguel Chase Sardi
e Marilv,n
Rhenfeldt: J

"No Paraguai, nós, QUe tínhamos mais de dezanos de cantato


com as
etnias do país. abandonamos as 'notas' e as
'questões,, os ,métodos, e
as 'orientações em campo' para pesquisar a partrr do interior, de
categorias internas da cultlJta,. ,o. i*pr.gnamos que é mais
dificil a partir de uma perspectiva exterior de seus fundamentos
axiológicos. Começamos então a notar gue, -entre
as sociedades e as
populações das etnias oprimidas, existiam aspectos
positivos integra-
dores que eram desintegrados pela atividaàe 'intógracionista,
dos
dominadores,'. s

Esta abordagem qual rtativa e não-estrutu rada, o contato


di-
reto com a "realidade" vai no sentido da redução,
des ejada por
Gramsci, da distância entre os intelectuais e o povo. Ela
não está,
entretanto, isenta do perigo de um certo romantismo pequeno-bur-
guês, segundo o qual o povo ou as massas
têm ,.*pr. razã,o e não
podem se enganat. Junto a isso, altás, se encontra
freqüentemente o
que o sociólogo colombiano Fals Borda chama
de ,,masoquismo
populista", segundo o qual o pesquisador ou intelectual
deve viver
penosamente, pôr as mãos na sujeira etc. E
isso não conduz itra, do
mesmo modo, âo perigo de afundar no "subjetivismo,,,
no aban-
dono da pesquisa "sobre fatos objetivos"? O risco existe,
mas não é

(5) Miguel Chase Sardi & Marilyn Rehnfeldt, "Marandu,


experiencia informativa", Asociacion de parcialidad
resena de una
índigenas , 1gTT. Docu -
mento preparado para a reunião de especialistas nas
modalidades e conteudos
das entidades coletivas na perspectiva da educação permanente.
caracas,
U N ESCO, 1977 .

,l-.rv,!§§üffir:
60CARLOSRODRIGUESBRANDAO(org.)
inicial-
inevitável. Isso, ao menos, pelas duas razóes que seguem:
não
mente, não vemos por que a subj etividade dos pesquisados
poderia ser um dado objetivo a ser estudado. 'Além disso, essa
I

pesquisa do ponto de vista subjetivo dos pesquisados deve se combi-


nar e articular com a análise das situações vividas, mas desta vez
a

part ir de um quadro teorico de análise, juntamente com instru-


mentos estruturados.

Pesquisa dos dados sócio-econômicos e tecnológicos

A penetração, sem a no universo vivido pela população


priori,
pesquisada não deve dispensar a pesquisa de dados objetivos sobre
a

,ituuçao dela. A pesquisa participante, effi seu trabalho de diag-


nostico permanente da situação, deve associar ou relacionar os
dois
momentos inseparáveis da pesquisa "não-estruturada", do ponto de

r-ista dos pesquisados e da coleta de informações sócio-econômicas e

técnicas. ut ilizando um conj unto coerente de indicadores sócio-eco-


nômicos e tecnologicos.
Trata-se, então, de uma "pesquisa estruturada", fund ada
num quadro teórico (conceitos e hipoteses) envolvendo os aspectos
perti-
sociais, econômicos, políticos e tecnológicos que se mostrem
nentes para a reahzaÇão do diagnostico da situação da região a
estudar, localtzando tudo em seu contexto regional e nacional.
Num diagnostico desse tipo, os principais domínios a estudar,
no que concerne a uma comunidade rural, seriam:
. os aspectos biofísicos (clima, regime de chuvas, uso potencial
do
solo, regime de águas);
o os aspectos demográficos (distribuição da população, correntes
migratorias);
o os aspectos econômicos (atividades econômicas, produção agrí-
cola, distribuição e aplic açáo dos créditos, comerçtahzação etc.);
o os aspectos sociais (saude, habit açáo, comunicações e transpor-
tes, organi zaçóes existentes, tradições culturais etc.);
o os aspectos educativos (perfil educativo da aldeia, educação esco-
lare extra-escolar);
. aanálise da situ açáo e da atividade econômica das famílias.
Esta "pesquisa estruturada" poderá se apoiar em diferentes
fontes de inform açáo e ltrhzar procedimentos variados. Assinala-
mos., entre outros: a análise documentada de estudos
já reahzados
REPENSANDO A PESQUISA
PARTICIPANTE
sobre a região e dos arquivos,
as entrevistas realizadas
de diferentes instituiçoes com
pJuti.u, ou priruou, (técnicos técnicos
médicos, enfermeiros, engenheiros agrícoras.
etc.;, bem como com autori_
ji:?lm;J,*",:f]., [.upos orsanizados, agências de pesquisa

Nesse momento, é necessário


cos" (sobre a economia, observar que os estudos ,,técni-
a come rcializaçãot,o
situação alimentar etc') estado da hab itaçã,o, a
são normalmente marcados
dominante' ou estão ligados pela ideologia
a inreresses pur:ri;;i;r. Deveríamos
ignorá-los por isso? certamente
nao. ilr constituem de fato
apreciáweis de informação. fontes
não apenas peros dados
fornecer (n atureza dos úteis que podem
solos. estruturas demo gráficas,
larização etc')' mas tambem nível de esco-
pelos interesses e posições
refletir' Eles constituem que podem
, então, preciosos ,,reveradores,,.
Muitas vezes não é possível
nem mesmo desejável efetuar
diagnóstico muito elaboruào um
e completo durante
recursos disponíveis (tempo, a primeira fase. os
pessoal, meios financeiros
permitem' Além disso, etc.) não o
âs "populações pesquisadas,,
vezes cansadas de diagnóstico, estão muitas
sos após os quais não
,.. conseqüências, de estudos diver-
surgem resultados nem ações conseqüentes.
Por essas diferentes razões,
é muitas vezes preferíver rear
"diagnóstico provisório", izar um
limitado, Dâ primeira fase. por
conse-
-Quinte' é ao longo de todo o processo de pesquisa
participante que
compl etar o diagnóstico',
que rom ara
;:ll'rffi:l enrào um carárer

Difusão dos resultados junto


à população

Ao final desta segunda fase,


junto à população envolv os resultados obtidos são difun-
didos
ida, que terá assim ocasião
cuti-los, aprová-los, questioná-ros de dis-
ou completá_los.
No decorrer destefeedbock,
a discussão aceÍca do confronto são particularmente importantes
entre os resultados do diagnóstico
sócio -econômico e
técnico, por um rado, e
tos de vista exprimidos as opiniões ou os pon_
diretamente peros pesquisados,
I ado. por outro
os objetivos dessas atividades
' prolrlover entre os participantes de feedbock são os seguinres:
d,a pesquisa um conhecimento
mais objerivo de suaiitruçáo;
CARLOS RODRIGUES BRANDÃO lorg';

: ;.i: r fi carjuntamente com aqueles os problemas que consideram


lrirrritários e que querem estudar, a fim de Procurar as suas
>t-rluções i
. conhecer a reação da PoPulação frente aos resultados do diag-
nostico, e isto a fim de orientar as fases seguintes da Pesquisa
participante.
Tais atividades defeedback supõem não apenas a elaboraçáo
de meios de comunicação simples (painéis desenhados, quadros
etc.) para apresentar os resultados de um modo facilmente com-
pr..rrível, mas também a animação de uma "dinâmica de grupo"
,r...r, âria para a discussão dos resultados, a comp ataçáo dos pon-
tos de vista, as propostas de novas orientações da pesquisa, a seleção
e a discussão dos problemas, a fomulação de novas hipóteses etc.
No que respeita à importâncrae à prioridade dos problemas, é
muito importante intro duzir a reflexão sobre a diferença entre um
problema "prioritário" (isto é, um problema-chave do qual depen-
dem outros problemas), e um problema " imediato" (que pode ne-
cessitar ser resolr,,ido a curto prazo mas que não constitui um fator
dec isir o para a compreensão e solução de outros problemas).

Terceira fase anâlise crítica dos problemas considerados


-
e que os participantes da pesquisa deseiam estudar
prioritários

Esta terceira fase é consagrada a um primeiro trabalho de


anâyse crítica dos problemas considerados prioritários na fase pre-
cedente. Para isso, formamos "grupos de estudo", que podem ser
compostos de alunos (se, por exemplo, o processo de pesquisa p artr-
cipante se reahza como uma atividade educativa no quadro do sis-
tema escolar propriamente dito), ou de habitantes (se, por exemplo,
a pesquisa participante se re ahza diretamente ao nível de uma loca-
lidade ou região).
E importante assinalar que se trata aqui de um "primeiro"
trabalho de análise crítrca, pois tal análise não pode ser concluída
numa eÍapa anterior à própria açáo. As ações e os seus resultados
poderiam igualmente ser estudados. A ação torn a tgnalmente possí-
vel tal análise. Não se trata somente de compreender a realidade,
mas de transformá-la.
Além disso, por razões sociopedagogicas, é importante levar
em consideração que aqueles que participam no estudo de um pro-
blema não podem alcançar os resultados de uma long a aná,-lrrse antes
REPENSANDO A PESQUISA PARTICIPANTE

de agirem. Assim, é necessário iniciar o processo


de análise e aprü-
fundá-lo durante a própri a realizaçáo da açã,o.

As características desejáveis do orientador


dos ttgrupos de estudott

os grupos de estudo necess itam, fla maioria dos casos,


da
intervenção de um orientador que auxilie na
realização do trabalho
de análise dos problemas . É, pois, i-portante
que este orientador
tenha uma formação adequadá para.riu função.
Entre os principais
elementos que devem compor a sua form açã,o
destacaremos:
o o método da pesquisa participante;
. a sociologia do conhecimento;
. a dinâmica de grupos;
. a tecnologia (tecnolog ia agrícola, por exemplo,
se ele trabalha no
meio rural);
. os métodos e técnicas de educação popular.

Além disso, este orientador deverá possuir um bom


conheci-
nrento e uma experiência concreta do meio
social, econômico e cul-
tural a que pertencem os membros do grupo de estudo.

A anáIise crítica dos problemas

o objetivo das atividades de análise críttca e o de promover,


los 'grupos de estudo, ufi1 conhecimento mais
objetivo dos proble-
:nas e da realidade. Deve-se partir dos
fenôm.rt, para o bus car
:ssencial, além das aparências e das relações
cotidianas imediatas.
t)s problemas não devem somente
ser descritos,
: tlm de se procurar as estratégias possíveis de ação.mas explicados,
Nesses grupos de estudo, o orientador
estimula e desenvolve
-IT'r processo de análise que pode se articular
em três momentos:6

(6 ) Trata-se antes de "momentos" que de "etapas,,,


pois
o processo
se retornará várias vezes durante esses de
=-
- ' : s estudados e de sua evolução, dos
momentos, êrn função dos proble-
obstácutos encontrados,
z:cos e das caracterfsticas do grupo de estudo propriamente dos métodos
z- 2 se não se realiza segundo u, ditas. A
tinear e preestabelecido.
"rqirema
& CARLOS RODRIGUES BRANDÃO lorg';

primeiro momento: A expressão da "representação" cotidiana do


problema.
Nesse momento, os participantes dos grupos de estudo expri-
mem como "Se representam", fOrmulam Ou cOlocam O problema
que querem estudar e resolver. O papel do orientador consiste, desse
modo, effi auxiliar os participantes a mostrar como eles percebem o
problema, como eles o explicam, como analisam a situação e que
tipo de solução eles vislumbram.
para execut ar tal função, o orientador pode utilrzat üm feixe
de questões que ele tetâ de adaptat, evidentemente, a cada pro-
blema tratado e açada tipo de grupo. A título de exemplo, podemos
citar as seguintes:
' de que problema se trata?
o o que já sabemos dele?
. quais são os fatos que o determinam?
o como se manifesta o problema?
. onde ele existe?
. quando ele surgiu?
. quem e afetado Pelo Problema?
. quais as conseqüências do problema?
. houve ações que tentaram resolver esse problema e fracassaram?
por quê?
o o que poderíamos fazer para contribuir p ara a resolução do pro-
blema?
. quâis são as ações e os meios ao nosso alcance? quais aqueles
fora de nosso alcance? etc.

Segundo momento: colocar em questão a representação do pro-


blema. O papel do orientador consiste assim em auxiliar os parti-
cipantes do "grupo de estudo" a questionar as suas "representa-
para o desenvol-
ções" do problema. Este momento é fundamental
vimento á. u* processo de "análise crítica" do conhecimento coti-
diano de um fenômeno (problema. situação etc.).
Neste caso, a "matéria-prima" sobre a qual se exercerá o
questionamento é a formulação dos problemas e suas representações
tal como foi exprimida pelos participantes no momento precedente.
De fato, limitar-se apenas a estudar o "concreto familiar"
para descrevê-lo e a acumular observações empíricas para explicá-
las resultaria no acúmulo de uma série de pontos de vista, no reforço
dos condicionamentos ideologicos que determinam a percepção dos
participantes, e na confusão das causas aparentes com os fatores
REPENSANDO A PESQUISA PARTICIPANTE 65

determinantes e estruturais que produzem


o problema e engendram
a situação a ser enfrentada. Isso
resultaria em limitar a análise a
uma simples de§crição das manifestações
externas de um problema,
ao invés de procurar as causas
fundamentais deste. Em relação
problema de subnutrição, por a um
exemplo, consistiria erro considerar
que suas causas seriam essencialmente
educativas, julgando-se assim
que a vítima seria a culpada.
Assim' uma abordagem empírica
red uziria o problema da
subnutrição a um probl.*u de
preparação e conser'ação dos ali-
mentos' sem analisar as causas
deteiminantes de um tal prob,lema.
tais como o sistema de propriedade
e de distriL,uiçào,Jas rerras.
o sistema de credito e de comercializaçào.
as esrrate-eias das empre-
sas multinacionais na indústria
agrícola, a di'isão internacional do
trabalho etc.
Nesse trabalho de questionamento
da representação do pro-
blema' é muito importante levar
em consideração as contradições do
conhecimento cotidiano. com
efeito, este compreende simultanea-
mente fragmentos de conhecimento
cientíÍico, dados objetivos, uma
consciência parcial das causas
do problema e conhecimentos
ricos úteis. No meio rural, existe, empí-
por exemplo, todo um ,,saber
popular" sobre plantas medicinais,
,àb.. o tratamento empírico das
doenças comuns, sobre o meio
ambiente, sobre a cri açãode animais
etc' que responde a necessidades
reais e possui, sem dúvida alguma,
uma eficácia real' Esse ".up ital
popular" de conhecimentos não
pode ser subestimado. Entreianto,
esses conhecimentos são também
limitados pelo próprio fato de que
não se fundamentam numa abor-
dagem científica' Para retomar
o mesmo exemplo da subnutrição,
os camponeses que participam
de um grupo de estudo estarão
mente conscientes de que esse probl.Ãu certa-
,ao pode ser resolvido por
uma ação educativa de tipo
"culinário", pois que envolve outros
fatores como o da produçaà
agrícola e do sistema fundiário.
tanto' talvez eles não analisem No en-
bem o papel da alimen tação na
reprodução da força de trabalho,
os mecanismos de crédito, o
sistema nacional e internacional
de comerc ializaçã,o dos produtos,
os mecanismos de fixação dos preços
agrícolas, as características de
um regime alimentar, o papel,
as possibilidades, as condições
limites das cooperativas de produção e os
etc.
Por isso, interessa-nos deixar
claro que a ação individual fun-
dada somente em conhecimentos
empíri.o, não é suficiente para
resolver um problema' Faz-se
necessária uma açãocoletiva
num conhecimento crítico e científico. fund ada
66 CARLOS RODRIGUES BRANDÃO (org.)

Nesse segundo momento, uma das principais tarefas do orien-


tador é fazer com que os membros do grupo de estudo tomem
consciência do modo pelo qual eles próprios analisam um problema.
Para isso, ele deverá visualizar e conceituar a prâtrca dos partici-
pantes. Da mesma forma que no primeiro momento, ele poderá
dispor de um conjunto de questões que auxiliem a refletir de ma-
neira crítica sobre as "representações" exprimidas. Essas questões
podem nos ajudar a levar em consideração, por exemplo, o fato de
que o problema pode ser estudado segundo diferentes pontos de
vista, que ele apresenta diversos aspectos, que vários tipos de açào
podem ser vislumbrados, que a simples descrição do problema é
insuficiente eÍn seus dados objetivos, que tal problema não existe
apenas ao nível de uma aldeia mas tambem ao nível de toda uma
categoria social da população etc. O tipo de questionamento a ser
enrpreendido depende. pois. de cada grlrpo de estudo. O essencial é
que os participanles. ao flnal desse trabalho. tenham consciência de
que sãt-r possir eis ,iir ersas tbt-rrdagens. que as ações j á cogitadas
Ct-rntpt-rrrsrrr de tato hipr-rteses intplícitas. que a Sua colocação como
problema é lintitada. que é possír'el aprofundar a análise e que
é possir el completar e estruturar os dados objetivos que já pos-
suem.

Terceiro momento: a reformulação do problema


Apos o questionamento do momento precedente, chega então
o momento de reformular mais objetivamente o problema a partn de
sua primeira configuração. Esse trabalho de obj etiv açáo com-
preende:

A descrição do problema: a identificação dos "pontos de vista" e dos


"aspectos"; a enumeraçáo, classificação e comparaçáo das infor-
mações; a identificaçáo de contradições entre diferentes elementos
da situação; a localização do problema no tempo e no espaço; a
relação deste com outros problemas; as dimensões regionais e na-
cionais etc.7

A explicaÇão do problema: a investigação das causas não apenas


imediatas, mas estruturais, bem como as leis, as relações entre

(7) Cf . Jean-François Chosson, L'Entrainement mental, Paris, Le Seuil ,

1975. (Col. "Peuple et Culture").


REPENSANDO A PESQUISA
PARTICIPANTE I -

a indi cação das "variáveis,,


,H[,l:"blemas, nas quais é poss;\ü.

est,ategias possíveis de
'4s ação.' a formulação das
e a at'aliação dos seus hipóteses de açào
resultados; ;if;;;nciação
de tipo imediato e as que " ,rtr. as soluções
rt; cogitadas a prazo mais longo, bem
como entre as que estão
ao alcance dos participantes
e as que exigem
-do,
:,TJ,:'J:.::rX#"::jervenção; a análise das ações corerivas .
Se damos por verdadeiro
que a maior parte dos problemas
pode ser resolvida num não
nível individual e local, e
tanto' delimitar com precisão import ante,por-
os níveis possíveis de açã,o.
coletivas necessárias a longo As ações
pÍazo não devem, entretanto,
possibilidade de tentar exclu ir a
melhorar a situação rocarmente
prazo' os limites dessas e a curto
ações a curto prazo devem
neados para que estejamos ser bem deri-
conscientes àu, condições necessárias e
das ações a serem empreendidas
numa escala mais import ante,onde
influir sobre os fatores estrururais
::ffi["j;X.o"' que dererminam
No decorrer deste terceiro
momento, é necessário que
:icipantes compreendam os par-
que o processo de análise
:ttin a aí' Ttata-se tão-somente crítica não ter-
de estimurar e desenvor'er
:rica e uma capacldade de uma dinâ-
análise crítica p...anente.
r'lrlpreendimento de ações o próprio
destinadas a
::solver os problemas deve -.thorar a situaçào ou a
também
l:trblemas, de novas informaçoer, resul tar nacolocação de no\.os
.'\ p I icações,
de novos obstáculos, de novas
de novos conceitos etc.

{s atividades de feedboclr desta terceira fase

Nesta terceira fase, as atividades


defeedback
consistem em
- -e cada grupo de estudo possa comun
:'balho aos demais grupos icar os resurtados de seu
e ao conjunto da popuração
A finalidade desta comunicação envorvida.
-' existentes
é a de pôr em evidência
as
"cÔes entre os problemas estudados
- ::lecimento que o conjunto e a de aprimorar o
d,a população dispõe da
situação.

(8) cf' Guy Le Boterf,


(9) Moema wiezzer, Formation ?t prevision, Edições ESF-EME, 1g7s.
-= -r]er de las §i ,, i;;;ibn naoai...' Testimonio de Domitira.
minas de Boli viaiu Érãno, Aires,
Editorial Siglo XXl, rcn.
68 CARLOS RODRIGUES BRANDAO (org.)

Quarta fase - programaÇão e realizaÇão de ,um plano de ação


(inclusive ações educacionais) para contribuir para a solução dos
pt'oblemas
O plano de ação elaborado a partir dos problemas analisados
deve comportar:
. atir idades educatir as que permitam analisar os problemas e as si-
tuações vividas;
o medidas que possam melhoÍaÍ a situação a nível local;
. ações educativas que tomem possível a execução de tais medidas;
. ações que encaminhem soluções a curto, médio ou longo ptazo,
a nível local ou numa escala mais ampla.

Este plano de ação bem como a sua rcahzação devem por sua
vez dar lugar a um processo defeedback, isto é, a uma discussão e
avaliação permanente de sua orientação, de seu conteúdo e de sua
reahzação.
O objetivo visado nesse momento é o da participação da popu-
lação na esfera das decisões, do mesmo modo que ela esteve presente
nas etapas anteriores do diagnostico e da análise dos problemas.

A pesquisa participante: o processo permanente

O processo da pesquisa participante não termina nesta quarta


fase que acabamos de descrever. A análise critica da realidade e a
realtzação de ações pro gramadas conduzem à descoberta de outras
necessidades e de outras dimensões da realidade. A açáo é uma
fonte de conhecimentos e de novas hipóteses. O diagnostico, a anâ-
lise crítica e a açã,o constituern, assim, três momentos de um pro-
cesso permanente de estudo, de reflexão e de transformação da
realidade, os quais se nutrem mutuamente.

Algumas reflexões sobre a pesquisa participante

A "retroalimentação" ou feedback

O feedback consiste numa atividade de "retorno " das infor-


mações colhidas no decorrer de uma pesquisa àqueles que foram
REPENSANDO A PESQUISA
PARTICIPANTE 69
pesquisados' os resultados da pesquisa
serão então colocados em
discussão' As modificações alcançadas
pan tes serão introdu zid,as
e as reações dos partici-
no proprio processo da pesquisa. Tal
atir idade não pode ser neutra ou
desprouiau de inte..rr.r, visto que
o rerorno da inform açáo é
sempre uÍ,'ato político.
Na maior parte pesquisas, os .esultados em geral
nam exclusivarnente .das à "comuniaua. científi retor-
ca,,. os pesquisados
seriam "cobaias" que não têm
o direito de conhecer a conclusão
trabalho de que são objeto. Por do
serem consi,cerados entes passir
Ilca implícito que não se osjulga os.
aptos à discussào rlç. sua prtrpria
situação, ou então que e perigoso
rue isso \ enha a âcr)ntecer. coorde-
nada pelos poderes instituídos.
a pesquisa
social é treqüenremenre
manipulada pelos grupos dominantes.
Nessas condições, o
aos pesquisados pode constituir feedback
um meio de reforçar as
de análise e de açã'o dos dominados. Na introduçãoc apacidades
mento que faz das condições de ao depoi-
vida, de trabalho, das lutas operá-
:ras e da repressão nas minas
dos Andes, Dom itila,uma mulher
* :iasse operária boliviana, insiste da
em sua propria linguagem sobre
:ecessidade de retorno da inform a
açã,o e sobre o engajamento das
r es q ui sas a serviço dos explorados:

"Eu fui entrevistada por centenas de jornalistas,


historiadores, mui-
tas pessoas da televisão e do cinema,
de diferentes partes do mundo.
E da mesma forma, eu sei que
antropólogos, sociólogos e economistas
vêm visitar o restante do páir
e estud á-lo. Mas, de todo esse
que eles obtêm, muito pouco material
retoma ao seio do povo, não e? por
eu gostaria de dizer a todas essas isso,
pessoas gue, se pensam em
borar conosco, façam com que esse cora-
material que eles conseguem
retorne a nós (' " ) paru que iirru
,o estudo de nossa propria reali-
dade' si me permiten habiar... deve serviráo poro porque
proprio seio do povo. Do mesmo retorna ao
modo, eu acho que os filmes, os
documentos e os esfudos que são
feitos sobre a realidàd. do povo
r iano devem regressu. urri* boli-
ao próprio seio do povo uoiiriano,
serem analisados para
e criticados".
r0

'{ difusão das informações não deve, no entanto,


' : - r'nte valorizada' As atividades d,efeedback ser demasia-
: - : i 3ssário constatar inicialmente que têm suas limitações.
:'r;:jm os grupos oprimidos não
- felizmente - pela pesquisa partic'ipánte cám seus./e ed_

Traduzido da versão em francês


feita pero autor. (N T
)
7C C.\RLOS RODRIGL ES BR{\DÀO (ore.)

,à..;. ^;., organtzarem, lutarem ou reir indicarem. Adifusão dos


pera se
:-esultados de uma pesquisa que lhes diga respeito pode reforçar as
sues capacidades de anâlise, de org anrzaÇào e de ação, mas de modo
algum pode criá-las. Além disso, o feedback nào se limita a uma
questão de linguageffi, de tradução dos resultados em termos com-
preensíveis e adaptados aos pesquisados. Se os pesquisados não têm
acesso ao saber, é sobretudo porque eles não participam na elabo-
raçáo desse saber. Este ultimo thes é estranho, ele vem de fora. Esta
é fundamentalmente a razáo pela qual umfeedback único ao final
da pesquisa não teria efeito. Os resultados apresentados são o ponto
de õhegada de todo o percurso da pesquisa, que foi reahzada por
especialistas. Não tendo participado no processo de sua elaboraçáo,
os pesquisados não podem se apropriar dela. A pesquisa partici-
pante não deve ser definida essencialmente pelo feedback, mas
acima de tudo pelo fato de os próprios pesquisados se encarregarem
do processo dé pesquisa. Qual é, aftnal, a validade científica do
de um resul-
,feectback'? Qual o valor da elaboração e apresentação
tado global, de um discurso geral elaborado a partir de discursos
particulares? A propria estruturação desse resultado (apresentaçáo
àa média das opiniões, escolha entre posições contraditórias, seleção
dos exemplos "significativos", eliminação das informações conside-
radas "insignificantes" etc.), assim como a escolha da linguagem
(oral, grâfi,ca, audiovisual etc.) são atos de poder, isto é, à imposição
de um determinado codigo. A principal questão a ser colocada aqui
ainda é a mesma: quem decide sobre este codigo? quem seleciona as
informações? Tais questões não devem condu ztr à demissão dos téc-
nicos da pesquisa. O import ante e que reconheçamos a existência
desse poder, que o submetamos à discussão e assim nos precave-
nhamos de acreditar que a operação de feedback é uma operação
neutra.
A comunicação de informações a outros é também revelar-se
concor dar em compartilhar o poder de que esses dispõem, orientar e
guiar estes outros numa problemáúica determinada. Em certa me-
áidu, as atividades defeedback obrigam o grupo a ouvir e levar em
consideração o ponto de vista do outro. Isso não significa que essas
atividades irão preparar o grupo para ag:r em favor dos interesses
alheios. Tomemos um exemplo: numfeedback reahzado numa al-
deia rural, os habitantes conhecerão a opinião dos técnicos agrícolas
sobre os problemas de fertilizaçáo dos solos, ou a dos técnicos da
habitação sobre as possibilidades técnicas de aprimoramento das
moradias. Eles obterão também informações técnicas e conhecerão
REPENSANDO A PESQUISA
PARTICIPANTE
7I
outras alternativas além
daquelas
\ías' uma ,ez que essas infoimaçõesde que dispõem ateo momento.
nào se de'e pensar que lhes tenham sido comunicadas,
eles as ignoram, nem
ignorassem. Tudo se passa que agem como se as
como num jogo, pois existe
dado' Nesse mesmo aíum novo
acontece' os técnicos
feedback, contrariamente ao que
gerarmente
da administraçáo pribrica
pontos de vista dos deverão ouvir os
aldeões' Esta comunicação
pressão no sentido pode constituir uma
de uma melhor
traçào pública às necessidades ^à:;;;^ção da ação da adminis_
ou problemas
pode permitir também uma dos aldeões.
\Ías. ela
forrna merhor de manipurá-ros.
back não é a no man,s
lartcl da o t.eed-
espaço de connitos
: d. ..ruço.f:'J
todos os atores implicados. ;:[.:iT;j:::,;jH,T#:.#
Á.o.posição sociar dos grupos
cutem os resultados que dis-
da pesquisa também não
c iada' Freqüentemente, deve ser negrigen-
encàntramos nesses grupos aqueles
sempre participam de que
tais ativid,ades e associações
representatividade destes diversas, mas a
pode ser colocada em
Essas dúvida.
característitu' do
rnteressante para a pesquisa.feedbock tornam-no ariás bastante
quando ela intervém pode-se
Não sendo neutra a inform
açã"o,
levantar hipóteses sobre
ele provoca' podendo-se as reações que
assim cercar melhor as
f, re s entes. estratégias que estão
Em todo caso, o
feedback não pode ser assimilado
simples regulação de
tipo cibernetico. a uma
As atividades de
feedback podem também ser uti rizadasnuma
rerspectiva reac ionária'
E este é o caso em que o
rl ensagem pode tão_somente que recebe a
reagir, d,ar sua opinião,
:t-rder de modificar
o próprio conteúdo da sem ter o
'ttuação' o " receptor" naà pode mensagem. Em uma tar
d3 mooo utgum contror
't)Irlunicação' permanecendo limitado ar omeio de
: sse tipo de retroalimentaçào ao .., papel de ,,receptor,,.
:':n que os "ouvintes" é comum nas emissões
são consultados. Do
radiofônicas
:ssit,, chamada "democ mesmo modo, ocorre
racia por sondagem,,, na
' 'mado de improviso' sem efl1 que o o.squisado,
ter acesso a fontes de
::ticadas e sem participarde informações diver-
debates, deve darsua
:'a entre como input opinião p araque
no cômputo das opinio.,
. râl uma opinião maj oritárià e indiviáuais, graças ao
-:da "demo crática,, se el aboraria.conce-
desta forma, a à..o
cracia é apenas ,Àu palavra
'ira' outro risco ainda não deve ser esquecido, e uma más_
ou seja, o da utiri-
72 CARLOS RODRIGUES BRANDÃO 1org.;

Como situar a "pesquisa participante,


(ou "enquete-participação,) ?

Normalmente. se associa a pesquisa participante à "pesquisa-


ação" (ou "pesquisa ativa" ). Entre os principais critérios que a
caracteri zam. destacamos os se,quintes:
o d escolha dos problemas a serem estudados não
se efetua a partir
de um conjunto de hipoteses previamente estabelecidas pelos
pesquisadores, mas tem sua origem nas situações sociais concre-
tas que os pesquisados que participam do processo de pesquisa
querem estudar e resolver. A tarefa dos pesquisadores consiste em
auxiliar os grupos interessados a formul ar e analisar os problemas
que estes mesmos desejam estudar.
o [xiste entre a pesquisa e a ação uma interação
permanente. A
produção do conhecimento se realiza através da transformação da
realidade social. A ação e a fonte ,Co conhecimento e a pesquisa
c0nstitur. ela propria. unta açào transformadora. A pesquisa-
açào é uma práris. isto é. ela reahza a unidade dialética entre a
teoria e a prática. Atrar'és da pesquisa, produzem-se conheci-
mentos que são úteis e relevantes para a prática social e polí-
t ica.
o { pesquisa-ação intervém em situação reais
e não em situações
de laboratório. Trata-se de um trabalho com grupos reais, com
as
limitações e recursos existentes, "Íla sua real grande za,, e não
,
nas condições artificiais em que se dá, por exemplo, a maioria das
experiências de "dinâmica de grupos" oriundas da corrente psi-
cossociológica.
o I intervenção se dâ numa escala relativamente
restrita (uma
"coletividade rural", região, oÍgantzação, ou um bairro etc.).
Essa limi taçáo volunt ána da área de ação deve permitir um con-
trole melhor do processo e uma avaliação mais rigorosa dos resul-
tados obtidos. Esta característica e acompanhad,a, aliás da hipo-
,
tese (implícrta ou explícita) e da possibilidade da generalizaçao
dos resultados e do processo a uma escala mais amplá.
o d pesquisa participante se coloca a serviço
dos grupos ou cate-
gorias sociais mais desprovidos e explorados. Ela busca não
so-
mente desencadear ações suscetíveis de melhorar as suas condi-
ções de vida, mas também desenvolver a capacidade de análise
e resolução dos problemas que enfren tam ou convivem cotidia-
namente. Torna-se pois importante que a pesquisa participante
ou a pesquisa ativa esclarcça "para quem" se trab alha. O peiqui-
REPENSANDO A PESQUISA PARTICIPANTE 73

sador não é neutro, pois se coloca a serviço dos mais


oprimi-
dos e "desfavorecidos". Esta "tom ada de posição',, longe
de ser
fácLL, necessita de um trabalho permanente
de reflexão crítica do
pesquisador sobre as implicações teoricas e metodologicas
de sua
intervenção e do processo de pesquisa-ação. Essa função
que o
pesquisador desempenha .onrtitui determinado poder
que não
deve ser mascarado por uma ideologia de orientaçã;
neutra e não-
diretiva. rl

o I pesquisa-ação consiste num processo


educatir o. {o participar
do próprio processo da pesquisa e da ,Jiscussào pcrnrspefltc.
6os
resultados obtidos, os pesquisados po,Jem a,Jquirir
um conheci-
mento mais objetivo de sua situaçào. assim como analisar
com
maior precisão os seus problemas, descobrir os recursos
de que
dispõem e formular ações pertinentes.
' Os "pesquisados" participam não apenas da discussão
dos resul-
tados da pesquisa, mas sobretudo do processo desta.
A função
da pesquisa não é a de ser "propriedade privada,, dos
especia-
listas' Ela deve ser compartilhada, sendo possível traçar
aqui al-
gumas analogias com a distribuição da função de intelectual
dese-
jada por Gramsci.

Outro modo de situar a pesquisa participante consistiria em


fazet referência à class ificaçã,o r.uii zadi por Marcel
Lesne n sobre
Js "formas de trabalho pedagogico". Este constitui,
com efeito, um
tnstrumento de análise bastante útil. Lembremos,
de início, que
\Íarcel Lesne distingue três grandes "formas de trabalho pedago-
jlico" :

' " A forma de trabalho pedagógico de tipo transmissiva, de orien-


tação norma tiva, através d; qual se tránsmitem saberes,
valores
ou normas, modos de pensar, de perceber e de agir, ou
seja,
bens culturais e ao mesmo tempo uma organi zaçã,o
social corres-
pondente. (FTP l)
r -\ forma de trabalho pedagogico de tipo incitativa,
de orientação
pessoal, que opera principalmente ao nível
das intenções, dos

(11) Nos nos juntamos atualmente às críticas formuladas


3a'bier e M ' Lesne sobre a concepção do orientador que ,,recusa por J.-M.
o poder,,,
::^forme expusemos em Enquêtdp-articipation et animation,
: I3ement, 1970.
Culture et Déve-
(12) Marcel Lesne, Travail pedagogique et formation
d,adultes, paris,
='- =" 1977.
74 CARLOS RODRIGUES BRANDÃO (ore.)

motivos e das disposições dos indir'íduos, procurando desenvolver


um apren dizado pessoal do saber. (FTp 2)
o { tbrma de trabalho pedagogico de tipo aproprrativa,
centrada
sobre a insercàtr social do indir'íduo. considerada enquanto me-
diação pela qual - e\erce o ato de formação. como ponto de
partida e ponto de che-eada da apropriação cognitiva do real.
(FTP 3;"ts
Segundo nos parece, a pesquisa participante, pelo menos do
modo como a concebemos, oscila entre a FTP 2 e a FTP3. Ela nunca
é completamente assimil á.vel a um desses modelos e isto porque,
definitivamente, não é a vontade dos seus promotres que a orienta, e
sim as determinações sociais nas quais ela se situa.
Entre as principais características da FTP2 podemos citar as
seguintes:

' Uma pedagogia do "educando", que concebe a educação como


um processo de apropriação do conhecimento por parte das pes-
soas em formação. e não uma "pedago
Eià", que concebe os indi-
r'íduos como receptores passivos do conhecimento.
' Uma concepção daquele que intervém (seja o professor, o orien-
tador, ou o pesquisador) enquanto uma fonte de saber dentre
outras, de modo 9ue, numa situação defeedback dos resultados
da pesquisa ou em uma de suas fases, o agente interventor infor-
ma mas evita orientar os resultados da discussão.
o { organizaçáo das "situações-estímulo", de modo
a se referirem
aos problemas vividos pelas pessoas ou grupos em formação.
Este tipo de situação é buscado pelos formadores para aí desen-
volverem as ações educativas.
o { utilização sistem âtica do saber do grupo,
de suas potenciali-
dades e dos recursos de que este dispõe.
o Q interesse privilegiado que os formadores dirigem para
os pro-
gressos (de pensamento, de análise, de raciocínio) dos
"edu-
candos ".
' IJma concepção de avaliação que dispõe de um a atenção especial
em relação aos aspectos quaritativos do processo da pesquisa
participante e de seus resultados.
o I importância do grupo, e do pequeno grupo, como sustentá-
culo da form ação.

(1 3) Marcel Lesne, op. cit.


REPENSANDO A PESQUISA PARTICIPANTE 75

' um perfil daquele que intervém como possuidor sobretudo de


capacidades de orientação, condução . unálir. de grupos. A per-
sonalidade do formador seria aqui como que um dos principais
in strumentos da intervenção.

Por outro lado , a pesquisa p articipante se aproxima da FTp 3


nos seguintes pontos:
o d pessoa em formação (o "pesquisado
ativo" da pesquisa parti-
cipante) é considerado um agente social, e não upr indir ídutr iso-
lado do meio social e privado das relações sociars ,Je pro,JuÇào
nas
quais se situa. Isto é particularnrenre manitestt-r na análise das
necessidades- na articulaçào entre o conhecimento do ponto
de
vista dos pesquisados e o diagnostico socio-econômico de sua
situação, bem como nas atividades de análise crítica dos proble-
mas a serem estudados pelos "grupos de estudo".
' A existência de uma alternância entre o "meio social reali, e o
"meio de forrnação" . O processo da pesquisa participante, por
suas atividades educativas, suas comissões de trabalhá e grupo,
de estudo, busca constituir uma certa "proteção necessária
" puru
a expressão e anâhse das situações.
o A busca de uma estreita relação
entre as atividades educativas
e as atividades concretas das pessoas "pesquisadas " e em forma-
ção.
' O fato de levarem consideração, como ponto de partida das ativi-
dades educacionais, o "concreto familiar" dos p.rquisados
a fim
de con duzir à análise crítica das situações vividas e cheg
ar a um
"concreto construído". Este constitui o eixo principal da análise
crítica dos problemas identificados na pesquiru pu.licipante e es-
tudados pelos "grupos de estudo".
o A "apropriação" do real através
do conhecimento e da açáo, a
fim de real tzaÍ a unidade dialéti ca d,a teoria e da prática.

Essas diferentes características concernentes à pesquisa parti-


;ipante que acabamos de enumerar não formam uma lista
exaus-
::\'a' Foi nossa intenção escolher apenas algumas
as
:rincipais -provavelmente
a fim de tentar situar o método da pesquisa-ação
:elação às -,
em
"formas de trabalho pedagógico" propostas por Marcel
' esne' E importante assinalar que, apenas respeitando as profundas
:iterenÇâs, podemos situar a pesquisa participante em rel
açã,o àque-
's modelos. É,, aliás, demonstrando intereise por esses modelos
;re podemos saber melhor em que "ponto" estamos, quais avanços
:6 CARLOS RODRIGUES BRANDÃO (org.)

já fizemos, quais os "desvios possíveis", quais as tendências em ação


etc.

A pesquisa participante: seus códigos e técnicas

A pesquisa consiste num instrumento, ou antes, num conjunto


de instrurnentos. Os questionários, as amostragens, os relatorios,
os
roteiros de entrevista, os quadros de análise, os cronogramas,
âs
fichas de informações, a formul açáo de hipóteses, as técnicas
de
análise do conteúdo etc. são os inúmeros instrumentos encarregados
da coleta, do tratamento e da transmissão de informações.
Esta é a
função formal desse instrumental,
Mas qual é realmente a signifi caçáo e o efeito desse arsenal
tecnológico? Poderíamos analisá-lo na perspectiva de uma pesquisa
participante?
Envolvidas em sua objetividade, as técnicas de pesquisa
se
desejam científicas, visto que existem paraconstruir obj.iiru*ente
a
verdade. Sem querer negar esse rigor científico, é r...r, ârto
notar
também que a objetividade mas carao mais das vezes
sempre direcionamento da pesquisa. As técnicas - embora não
de pesquisa
não somente recolhem os dizeres, mas também forçam a drzer.
Essa
linguagem tecnológica dos sociólogos, metodólogos e orienta-
dores impõe seu codigo. Os pesquisadores temem sempre deixar
escapar- uma inform açã,o pertinente. Bastaria apenas um turu.o na
rede para que a pesca de dados fosse infru tífera, senão desastrosa.
O
que mais tememos, no entanto, é menos o problema da perda
de
informações que o da seleção ou sobretudo o da inform açáo forçada.
Ern última instância, poderíamos falar aqui em um totalitarismo
da
pesquisa, exatamente como Roland Barthes fala de um totalitarismo
da linguâgem; r+

"A linguagem é uma legislaçáo, a língua seu código. Nós não vemos o
poder que reside na língua porque nos esquecemos de que
toda língua
é uma classificação e toda classificação e opressiva (
) Falar, e com
maior razáo discorrer, não é comunicar, como se repete com
dema-
siada freqüência, é sujeitar. Toda língua é uma reição general
izada
("')' A língua, como desempenho de toda linguagem;não é nem

(14) Roland Barthes, Aula inaugural no Cotlege de France,


São paulo,
Ed. cultrix,1980, pp. 12-14, trad. Leyla perrone-Moisàs.
REPENSANDO A PESQUISA
PARTICIPANTE 77

[fi :"JÍ H # il,ffiff .r,,ry: i s ra ;p oi s o


:'J r,?;,,.:uo ;, ü ]rJ
)
*,.
A denúncia pode parecer
brutal, mas, em todo caso, ela
à reflexão' Esta "o-brigiçã,o incita
de dtzer",-encontramo-la bem
justamente a propósito analisada
dos métodos de pesquisa
na reflexão desenvolvida por interro gativa
-gação Michel Morin rs icerca d,a,,interro-
":

"A pesquisa' com efeito, qualquer


que seja^a forma que ela
discursi"". 'ú1; forma
possui uma orientação assu ma,
orientação imp lica, enquanto -ui, simpres, esta
fundamento sintático, a transformação
interrog ativa das sentenças
afirmativas. ora, tar transformação
de modo algum inocentl, não e
e se nos divertimos em desmon
reconstituí-la' temos rapidamente tá-lapara
a sensação de que essa transti-rr-
mação no inverso vai bem
além, porque diz muito mais
jeito do enunciado qreria do quÊ r-r S;-
iirrr, isto à, vai muito além das concr.-ões
de produção de seu enunciado
transformação interrog ativa
(...).'s. ua,nl,imos então que rtnüJ
impiica a manutençào dos presiuo.r!rtrS
que o interlocutor deve
aceitar em sua resposta. pdoeren:os
reciprocamente que as sentenÇas Drtllr-)!,
interrogatir-as r eicu iar: p:,.-,Fr>rçces
que são passíveis de ser
det..*inadar. ]na.., ai;iia
-.aj>
demos levantar a hipotese irrr{3. F\-
a. qra esses pressuposrt-is SStr r;emer:ros ,Je
Ar.

[: um sistema de representações
:'b
sociais Y"\'
que Lsr
caraclsrzam
st tsI I Ldrn Ufne COnCep-
r çãOde mgndOtt.
I
Í

o que está em
.questão aqui não é a utilização da pesquisa
pata fins de exploração,
dominaçao ou manipulaçáo,
mas a pro-
.,;;;nto instrumento, o que eraeimpõe,
flT,1X',T1.,íX,r,Xl?::H1
Diante de tais análises, é necessário
Nos não pensamos assim.
rejeitar esse instrumento?
ou, então, seria ,r...r, ário açabarcom
logica e refut ar tod'a a linguaâ.rr, a
toda comun icaçãobaseada
codigo' se a pesquisa socio-lógi".u, num
do mes*o àodo que a pedagogia,
é uma "violência simbólica"Jo
então ela emerge, como toda
cia, da "dialéti ca d,a coerção violên-
e do consentimerit á,, . ri- Ér.rr.
que o sentido da pesquisa ponto
participante deve ser reencontrado
tudado' A participação dôs e rees-
p.rq'uisados ou propria
eraboração do

cautniJli},,,Yr§l?5#:''t' L'imasinaire dans reducation permanente, paris,


(16) No sentido usado por
Bourdieu passeron.
(17) "La question de ra viorãnã";, e
Echange et projets, 12, 1977.
', I'ARLOS RODRIGUES BRANIDAO (org,)

: >:,: s:rir t-r (problemáttca metodologia, instrumento, tratamento


r:-s cedos ) da pesquisa deve permitir amentzar o que foi imposto
r:r-r aumentar o espaço daquilo que se institui. A participação na
e orientação do dispositivo não deve ser um "nível a
;. ab,oração
n'rais", ou um "grau a mais" na participação dos pesquisados, pois
ele constitui o núcleo essencial da participação, na ausência do qual
essa participação permanece apenas um refinamento da domin açáo
objetiva dos tecnologos das ciências sociais (sejam quais forem, bem
entendido, os seus objetivos ou fantasmas pessoais).
A pretensão da pesquisa participante não e a de suprimir os
códigos, mas fazer com que estes sejam analisados, e favorecer ao
máximo a expressão e a emergência do codigo dos pesquisados.
Mas, onde se pode tomar apoio na pesquisa para transformâ-
la? Seria isso uma aposta, uffi desafio ou simplesmente uma hipo-
tese?
E necessâtto, aliás, reverrnos o papel ou, sobretudo, o poder
da escritura no trabalho de pesquisa. Quer se trate da elaboração de
um roteiro de entrevista, da redação de um questionano, da redaçáo
de um relatório ou de tomar anotações, é sempre a cultura da
linguagem escrita, da escritura e da redaçáo que predomina, que se
impõe. A pesquisa sociológica está nas mãos dos que monop ohzam e
dominam a escritura. Podemos considerar a pesquisa como o con-
fronto entre os mestres da escritura (os técnicos, sociólogos etc.) e a
expressão oral dos pesquisados. O mundo dos sociólogos é com
efeito muito cinzento. Diferentemente do mundo dos etnólogos ou
dos geógrafos, ele contém poucas imagens, fotos ou desenhos. À
força de lidar com conceitos, esquecemos o sabor do concreto.

"Os sociólogos acabaram por impor uma imagem bastante triste da


sociologia. A sociologia tendia a se tornar uma espécie de ciência
bastante pomposa e loquaz; o fato de que os sociólogos não empre-
guem nunca uma imagem é por si mesmo um indício. Os etnólogos
tinham pelo menos o recurso da fotografia (mesmo que fosse para
mostrar o eterno indígena com o aparelho genital coberto diante do
fotógrafo), faziam desenhos, esquemas, mapas; relatavam documen-
tos, objetos. A sociologia tornou-se uma espécie de ciência sem con-
ceito concreto." 18

(18) "Les intellectuels sont-ils hors jeu?", entrevista de Pierre Bourdieu


a François Hincker, La Nouvelle Critique, 1111112, fev.-mar. 1978.
REPENSANDO A PESQUISA
PARTICIPANTE 79
As palavras substituíram as
coisas. curiosa ciência do real
em que os sons' os odores,
âs imagens,
----ov'^v' os relevos (i
\-'L' rwrvvu§ e us
os gostos est
muito pouco presentes. estão
1 -
"Uma vaca, não se escreve,
se vê,, Triste saber que
gaio saber dos sociólogos.zo éo
Qual é pois o efeito produzrdo pela
falada? o que o sociólogo ganha ou perde, transcrição da palavra
escrevend o-a?
Dar prioridade à escritura
é àa. poder àqueles que aprende-
ram o seu código particularmente
, os que freqüentaram escoras
universidades' Aquele que e
escreve, Que transcre\-e é o
escola' que foi instruído. que fbi
o pesquisuáo. que toma noras ou que à
apresenta aparece ao pesquisado as
analfabeto, ou pertencente a
cultura essencialmente oral, uma
como um ser que pertence
cultura' A pal avra faladaque a uma outra
foi dada não pertence mais ao pesqui-
sado' ela vai passar pelo
.riuo dos instrum.nto, da esc rita(quadros,
modelos' relatórios, esquemas
etc.). Diante de hl monopólio,
participação dos pesquisados a
na elaboração da pesquisa ou
cussão de seus resultados na dis-
torna-se bastante diÍícil, e
possível. por vezes im-
sob este ânguro, a "reração pesquisador-pesquisado,,
parável à do analistae écom_
analisando. o cliente e o pesquisado
o analista e o pesquisador falam;
tomam notas e interpretam.
social e a pesquisa-particip A pesquisa
ação não estão comprornetidas
modelo psicoterapêutico implícito? com um
Nos dois casos, é o que escreve
quem interpreta, ou seja,
aquele que possui
a,,chave,,. Nos dois
casos também, trata-se
de resolver os "problemas,,
um indivíduo ou um grupo. do cliente, seja
É possível ultrapassar est a relaçã,o? podemos
pesquisa que utilize apenas imaginar uma
os meios de expressão ou o
proprios pesquisados? codigo dos

À medida que caminham nossas


stit'a' aparece-nos como necessário experiências de pesquisa
rscrita' e favorecer a emergência
.o*p., com a domin ação da
e a util izàçã,odos próprios
i\pressão dos pesquisados. meios de
se a cultura é oral, utilizemos
:euniões' os debates ou mais as
as narrativas. euando se tratarde
a-i necessidades percebidas, exprimir
por que não tornar possíver
o uso da

(19) Título de um artigo


da revista Education permanente
(20) para retomar o títúto
de uma obra de R. Lourau, , 37, I g77.
s::tologues, Edições UGE, 1gT7. Le gai savoir des
80 CARLOS RODRIGUES BRANDÃO (ore.)

expressão grâfrca, da fotografra, da exposição de objetos, da dança,


dos passeios, das experiências com plantas medicinais etc.? Pedir aos
aldeões pesquisados que façam uma exposição sobre a sua situação
vivida pode ser um excelente meio em vista desse objetivo.
A pesquisa participante necessita do uso de um grande nú-
mero de codigos. E apenas na medida em que essa variedade seja
suficientemente grande e rica que os pesquisados poderão realmente
intervir ativamente, e participar da criação de instrumentos de pes-
quisa cuja linguagem será deles próprios.

A pesquisa participante: um equílibrio difícil

Pela transposição aqui de determinados conceitos utilizados


por Ivan Illich e seus colaboradores, zt podemos considerar a pes-
quisa participante como um processo de interação entre um "modo
de produção autônoma" e um "modo de produção heterônoma" das
informações. J.-P. Dupuy e J. Robert ilustram por alguns exemplos
significatir,'os esses dois conceitos:

"Podemos'aprender observando, agindo, trabalhando para os outros


e para o nosso meio: este é o modo de produção autônoma. Podemos
também ser educados, isto é, receber uma inform açáo obrigatória da
parte de pessoas que existem para isso: este é o modo de produção
heterônoma. Podemos nos deslocar de um lugar a outro por nossos
próprios meios, utilizando nossa própria energia metabólica. Pode-
mos ser deslocados de um lugar a outro como um pacote, num veículo
qualquer. "

Poderíamos acrescentar: Podemos efetuar nós mesmos uma


pesquisa sobre nossa própria situação, identificar e analisar coleti-
vamente os problemas que se colocam à coletividade à qual pertence-
mos: este é o modo de produção autônoma. Podemos ser pesquisados,
ser informados sobre nossa própria situação por especialistas da pes-
quisa social: este é o modo de produção heterônoma. Como escrevem
J.-P. Dupuye J. Robert, esses dois modos de produção são "tipos
ideais" e não existem nunca "em estado puro" numa determinada

(21) Notadamente lvan lllich , Nemesis médicale, Paris, Le Seuil, 1975;


J.-P. Dupuy & J. Robert, La trahison de l'opulence, Paris, PUF, 1976. (Col.
Economie en Liberté. )
REPENSANDO A PESQUISA
PARTICIPANTE
8I
sociedade' Existem pontos de equilíbrio, uma
modos de produção àgindo sinergia entre os dois
em interação. o mínimo de
e muitas I'ezes indispensável heteronomia
Inrersamente' o excesso
à realizaçã,o das atrvid,ades autônomas.
de heteronomia além de
reta uma efeito "contraproducente certo ponto acar-
r idades autônomas: " e destrói a realização das ati_
este é notadamente
sistemas educativos, o caso da maioria dos
médicos e de transportes.
pante' esta sinergia é Na pesquisa partici-
bus cad,apermanentemente.
equilibrar as intervenções como combinar e
dos.rp..iaristas dapesquisa e da popu-
lação? Quais são os pontos
de equilíbrio e os princípios
nír-el de intervenção reratir os ao
da orga nizaÇào predeterminada e indispensár.er
da pesquisa e da iniciatii
a .rflrtânea e or-san izada
sados? o excesso de dos pesqui-
inter'enção dos "in'estigadores,,constitui
táculo a toda capacidade obs-
de inic iativados pesquisados
desempenhar um papel e os limita a
passivo. A ausência total
por sua vez' atribui ao de pesquisadores,
processo um espontaneísmo
deixa-o à domin ação improdutivo,
dos grupos mais poderosos
ausência de rigor científitol e sob o risco da
xà p.rquisa participant., esta
de p'odrçao dia retica
:lH;J;r3ff"modos é p.i-unenre. o equlíbrio é
Notas para o debate
sobre pesquisa-ação*
Michel Thiollent*x

\as presentes notas tentamos esclarecer diversos problemas


teoricos e metodologicos relacionados com a concepção da pesquisa-
açào. \a situaçào atual. achamos que ninguém pode pretender ter
tbrmulado uma concepção definitiva, acabada ou comprovada. Pre-
cisamos acumular os resultados de muitas experiências, avaliações e
críticas e, também, suscitar uma ampla discussão. Apresentaremos
aqui um trabalho de "reconhecimento" e de reflexão acerca de
alguns aspectos problemáticos da pesquisa- açáo, inclusive seu envol-
vimento no plano valorativo e a questão dos fundamentos teóricos
desse tipo de pesquisa.

Distinção entre pesquisa participante e pesquisa-ação

Muitas vezes as expressões "pesquisa participante" (PP) e


"pesquisa-ação" (PA) são dadas como sinônimas ou quase sinô-
nimas. A partir do exame dos seus princípios, tais como aparecem
na literatura disponível, podemos consid eÍar que existem diversos

(*) Documento apresentado na lll Conferência Brasileira de Educação,


Belo Horizonte, junho de 1982.
(**) Doutor em Sociologia pela Universidade de Paris. Atualmente é
professor e pesquisador da COPPE/Universidade Federal do Rio de Janeiro.
E autor e organizador do livro: Crítica Metodologica, lnvestigação Social e
Enquete Operária, São Paulo, Polis, 1980. Trabalha atualmente sobre pro-
blemas de metodologia voltada para estudos de tecnologia, organização e
comunicação.
REPE\SANDO A PESQUISA
PARTICIPANTE 83
tipos de PP e diversos
tipos de PA. uma craradistinç
A PA é uma forma de pp, ão enecessária.
mas nem todas as pp são pA.
A PP se preocupou sobretudo
dentro da situação.in'ulstigada com o papel do investigador
pesquis adot/pesquisado e chegou aprobr ematizar arelação
;o
outras condições favoráveis
sentido de estabelecer
a confia nça e
a uma melho r captação
No entanto' os pattidários de inform ação.
da Pp não concen traramsuas
pações em torno preocu-
d'a re.laÇão entre investigação
tuação consi detad'a' e ação dentro da si-
É tamente esse tipo de reraçào
pecificamente destacadoius q ue é es-
em r,árias
é apenas pp, é um tipo -;;rr,r;;" concepçôes da p.{ . .{ p.{
n ào
d. centrada
agir. na questào do
Diversos autores concebem
a PP como uma técnica
patticipante" que foi de ,,obser-
'ação elaborada prir.ipalmente
da pesquisa antropológica no contexto
ou etnogr afi-ca. Trata-se
uma adequ ada participação de estabelecer
observados de modo
dos pesquisadores dentro
a reduzir a estranhe za recíproca. dos grupos
dores são levados a
com partilhar, pelo menos os pesquisa-
papéis e os hábitos superficialmente, os
dos grupo, obs.ruuao,
de óbservar fatos' I araestarem em condição
situações e comportamentos
ou que seriam altetados que não ocorreriam
napresença de estranhos.
de pesquisa seJa, Embora esse tipo
muitas u.r.r, condu zid,o
sistematicidade' ele pode de modo intuitivo e sem
também seguir regras
nrento de formul ação do crássico procedi-
de hipóter.;, ;;;; de dados e comprova_
.--ào. 1

Na PP a preocupação participativa
'
:tilo pesquisador est á mais concentrada
no
do que no pólo pesquisado.
::ata de "ação" na medida Arém disso, não se
em que os grupos investigados
:obilizados em torno de não são
objetivos específicos e
'iâS atívidades comuns' o sim são deixados às
fato de à, pesquisadores
:-.s situações observadas participarem
não é uma condiçãà suficiente
;n PA' Pois, além d,a participação parase farar
-Ea participação dos interessados dos investigadores, ÍI pA supõe
na própria pesquisa organi
.l:,j:rTl.o' uma determ inad,a r?l?. zad,a
du.iipo de ação? Em gerar,
,
ro o u,lffç;:',",i*i,?;ff
:.: r

i ' i'-'r não corresponde apenas


S.;,T
ao
Uf I*lH*Í
,;pi;*ou3.tiro de merhorar
il::ffi
a

1) Veja descrição dos procedimentos


da observação participante,
', ho
.:-J'?, ;l:ffi:i:?i *"T,,,lXffi [;::,,,xH:,,?^r:, rpant-i o íi,, a, i o n, rvo,ã
84 CARLOS RODRIGUES BRANDÃO 1org.;

qualidade da obs ervaçáo. As expressões PA e PP não são sinônimas,


embora na práúrca a PA requeira uma forma de observaçáo parti-
c ipante assoc tada à açáocultura 1, e duc ac i o nal, orga nrzactonal, polí-
tica ou outra. Ao recoÍrermos a metodos de PA, e preciso definir
melhor o conteúdo da proposta. Pois PA poderia designar qualquer
forma de pesquisa ligada a qualquer forma de ação. Se fosse o caso,
seria uma proposta indeterminadâ e ,, logo, inutil.

Variedade dos objetos da PA

Uma das caracteristicas da PA consiste no fato de que seu


dispositivo. concebido de acordo com a sua dimensão social, esta-
belece uma rede de comunicação ao nivel da captação de informação
e de dirulgação. A PA faz parte de um projeto de ação social ou da
resoluçào de problemas coletivos. Em ambos os casos os investi-
gados precisam de um certo nír'el de informação.
A PA supõe que haja apoio, pelo menos em termos relativos,
do movimento, da org amzaçáo social, cultural, educacional, sindi-
calou política na qual está concentrada. Muitas vezes, não se trata
de um completo apoio institucional por parte da organizaçáo, e
sim de um apoio limitado oferecido por alguns grupos ou ele-
mentos.
A variedade das propostas de PA é proporcional à variedade
de projetos sociais inscritos em diversas conjunturas e sociedades.
No contexto da Am értça Latina a pesquisa-ação é sobretudo ligada
à visão emanc ipatótta, tanto no meio rural como no urbano e espe-
cialmente aplicada em projetos de educação popular ou de comu-
mcaçáo social.2
Quando a PA é centrada num movimento popular dotado de
autonomia, a investigação relativ a à açáo pode consistir na eluci-
dação da estrategia, da tâtica, das decisões e dos atos efetivos. Mas
nem sempre é assim. Pois existe toda uma tradição de PA instru-
mentalizada dentro de práticas sociais ou orgafirzacionais sem preo-
cupação popular. Desde as suas origens, nos anos 40, um tipo de PA
e utílizado no contexto da psicossociologia norte-americana de uma

(2) Maria Cristina Mata, "La investigacion asociada a la educación


popular", Cultura Popular, 2:114-121, 1981.
REPENSANDO A PESQUISA
PARTICIPANTE 85
maneira que não é autocentrada
nem emanc ipatoria. por meio
PA' grupos pretendem estuda da
r e transformar as atitudes de
grupos e pessoas para outros
com determinados fatos sociais
consumo' formas de autoridade, (hábitos de
etc')' Muitas vezes, essa práúrca comporru*.ntos organizacionais
leva u ,*u psicolo gização
dade social e não a uma dareali-
consci entizaçaã-'so.iopolítica
quela que é procu radapela do tipo da-
concepção críttcada pA.
de "mudança controlada", Dentro de uma
'isâo a psicossociorogia das
organ izaçôes
e a chamada sociotécnica
propõem programas de p.A
tivamente empenhados que são respec-
no "ó.sen\ olr
imento o.g anizacit-rnaI e ne ,
melhoria da organizaçào do
trabalho ou,Ja qualr,Ja,Je,Je rr*la
trabalho' 3 os objeti\ os dessas nü
práticas são basranre limitados
função dos interesses empresariais em
relativos à modernizaçào.
tização e hum anização eÍicien-
do trabalho e das
organizações. Na Europa
do Norte' existem propostas
de PA no contexto da sociotécnica
associadas à visão reformista
de democ ratizaç,ã,o ,,rerações
das
dustriais" (relações entre trabalhadores in-
e empresários). Essas expe-
riências não podem ser consideradas
como verdadeiras alternativas
de conhecimento social.
Todavia, merecem ser estudadas
liadas' e podem sugerir novot
iipos de inform açãoe novos
e ava-
intervenção no meio industrial. estiros de
existe tambem no contexto
um tipo de pA instrumental izad,a
da análise de sistemas. Trata-se
metodologia de resolução de uma
de problemas de nat urezainformacional
técnico-organizacional com e
r
$l rios dentro de uma estrutura
i participação
dos analistas e dos usuá-
f
dà aprend izagemconjunta. a
É prováwel que certos tipos
de pA
rito das tecnologias e das metàdologias vãnham participar do espí-
filosofia alternativas.
Isto é, de uma
a partir da qual se pretende adequar
mesmo certas as investigações e
técnicas produtivas, habitaciÀais,
educacionais e higiênicas às comunicacionais,
condições concretas de uma
popular' São métodos e técnicas atuaçã,o
populações ou coletividades. "apropriados,, às necessidades das
Nesta perspe ctiva, são procuradas
maior autonomia ou independênci
tas pelo "sistema dominante".
a paracom as tecnorogias impos-
Reduz-se assim a,,importação,,
técnicas e aparelhagens de
custosas e as correspondentes
concepções

o's
"
i:?ç
(4)ü'
;;"!ii:ü:!. I;,?',::r;.,:: lsl: o " o s a ", i n : v ár o s a u t o re s,
r i
i

Paul Jobim Filho, (Jma


meto,àologià para o ptanejamento
de inrorm'çii saã É;ro,- e o desen-
izii{;i[ffi;Stemas Brücher, MEc/sEpLAN,
\-ô.I\fJ\-,rJ l\\JLrr\l\J L-/ LJ DI\..1 i\ l-,r.1 \-, \OfB./

tecnoburocráticas. Além disso, evita-se parte da dependência finan-


ceira e seu decorrente controle burocráti co-po I íti co.

Aspectos valorativos

Todos os metodos e técnicas de pesquisa são utilizados em


determinadas concepções da investigação de pretensão científica
mais ou menos acentu ada. De acordo com o ideal científico, pre-
tende-se que seja necess arta a demarcaçã,o entre os aspectos cognos-
citivos das exigências científicas e os aspectos valorativos. No en-
tanto, devemos reconhecer que esses últimos não podem ser tão
facilmente descartados. Sempre estão relacionados, de algum a ma-
neira, com a orientaçáo e a seleção dos procedimentos utilizados. Na
aplicação de uma determinada linha metodológica, sempre hâ al-
gum pressuposto filosófico, valorativo, moral ou político. Não pre-
tendemos que a investigação seja possível de modo totalmente sepa-
rado dos valores, o que, flo caso, seria mais uma afirmação de
cunho positivista e paradoxal, na medida em que ela mesma corres-
ponde a certos princípios valorativos.
A PP e a PA entretêm relações com certas posições filosóficas e
valorativas. Lendo diversas contribuições à PP, podemos rep arar
que há' uma relação predileta com a concepção humanista, mais
freqüentemente cristã do que marxista, embora haja, em certos
casos, uma afinidade entre certos aspectos da filosofia cristã e
elementos de marxismo ou de gramscismo. PP é uma proposta que
suscita muita simpatia entre aqueles que, ideológica ou ate religio-
samente, enfatizam certos valores comunitários. Podemos identifi-
car vários princípios gerais. A idéia de participação ou de ação
coletiva relacionada com a pesquisa evoca, para certos pesquisa-
dores, a possibilidade de "comungar", de estabelecer uma comuni-
caçáo efetiva, cultural e social que é transponível com bastante
facilidade nos planos simbólico, afetivo ou até místico. Outras idéias
valorizadas seriam as de estar do lado dos humildes, fazer participar
os humildades da geração do conhecimento de que precisam, co-
nhecer sua própria situação etc. O comprometimento com os humil-
des, a comunhão com o povo e outras expressões semelhantes têm a
ver também com o fato de mintmtzaÍ a relação dirigentes/dirigidos.
Na mesma linha, é desejado que a ação seja a expressão da comu-
nidade, desenvolva o sentimento de solidariedade, de autodefesa, de
compreensão mútua etc.
REPENSANDO A PESQUISA PARTICIPA\TE

Há ainda outros aspectos favoráveis ao


encaminhamento das
propostas de tipo PP ou PA. Principalmente
no tocante aos valores
associados ao modo de utilização
dos resultados e do conhecimento
em geral' A pesquisa acadêmica e suas convencionais
pesquisa predispõem a uma forma técnicas de
de conhecimento codiÍicado de
acordo com regras do mundo universitário
sem retorno em direção
ao povo'5 De acordo com esse
tipo de crít ica, a pesquisa acadêm ica
pouco utilizada concretamente, e
só serve para a obtenção de títulos
entre uma pequena minoria privilegiada.
formas de PP seriam um meio
A pA e também certas
de melhor adequar apesquisa aos
temas e problemas encontráveis
no seio do povo. Além disso, graças
aos canais de comunicação estabelecidos
pela própria pesquisa,
i3:i Nsi:r ei dir ulgar imediatamente os resultados
-ll- considerados
*i*ize\
'r, r "
ers dentro do meio social que
os gerou.
Da nossa parte, abordaremos a questão
da seleção ou da justi-
i'-açào da pA distinguindo duas posturas:
a) A primeira consiste em propor especialmente pp
estar de acordo com uma ideolo gia a por
,riri
.tl§.
;?- -
daparticipação popular, ou a pA
:i-
por estar de acordo com uma ideol,ogia
d,a ação coletiva ou da
"comunhão" de espíritos.
b) A segu nda faz decorrer a PA de uma alternativa metodo-
lógica diferente das convencionais
técnicas de pesquisa e a ser cienti-
Íicamente contro rada, mesmo dentro
de uma concepção geral da
cientificidade que seja diferente do padrão
positivista.
A primeira postura se situa principalmente
no plano dos valo-
res e a segunda no plano metodológico
é espistemológico. Nós opta-
mos exclusivamente pela segunda.
o
que requer, de um lado, uma
reflexão crítica a respeito dos envolvimentos
valorativos da pp e da
PA (mesmo quando nos parecem
"simpáticos,,) e, por outro lado:
rr'\'v'
uma melhor fundamentação no plano
metodológico e ,.orirà.
Do ponto de vista científico, a PA não
nos parece menos
exigente do que outros procedimentos
e, sem dúvida, exige muito
mais disciplina intelectual do que
os pacotes de perguntas da co-
mum pesquisa de opinião. Parà seu
próprio fortaleclmento, apA
deveria ser objeto de muitas experiências
práticas como também de
um amplo programa de pesquisa
metodológica e de crítica de even-
tuais desvios ideológicos.

(5) Esse aspecto é enfati zado no livro


participante, são Paulo. giàsiriense,por carlos Rodrigues
Brandão organ izado
' Pesquisa
1gg1 , 211 paginas.
88 CARLOS RODRIGUES BRANDAO (ore.)

Contra o "ideologismo"

Certt-s 3utr-rreS encarem e PA como sendo uma proposta de


caráter ideol.-rgico. Sc'ria apenas um tipo de atir idade de agrtaçáo
ditusa no seio de uma ,--oletir idade sem que haja requisitos ou pos-
cionamento cientit-rcos. Der e-se reconhecer que. em certos casos,
a PA e tambem a PP podem estar abson.idas por uma proposta
ideologica. No caso, seria sobretudo uma maneira de atuar dentro
de uma coletividade e de captar acrrtiçamente a informação ideo-
logica gerada por ela. O aspecto "atuação" pode inclusive consistir
num tipo de prop aganda dos pesquisadores em direção aos mem-
bros da coletividade considerada. Certos partrdáxios da PP recusam
esse tipo de atuação e dão privilégio a uma atitude de "escuta" do
pessoal observado. A PP é algumas vezes apresentada como sendo
uma maneira de desconfiar das pretensões científicas proclamadas
pelos con\ encionais modos de investi-eação e como maneira de ex-
pressar o saber popular. o folclore. as crenças, a cultura e as téc-
nicas populares. enfim. tudo o que se manifesta espontaneamente
no seio do povo.
A negação do "cientificismo" deve ser cuidadosa para que não
nos leve a negar a propria idéia de pesquisa científica, o que é
sempre perigoso porque a deixa aberta a qualquer manobra ideo-
logica. Além disso tal posição pode levar à negação do papel decisivo
da teoria dentro da investigação social. Deve-se; então, evitar o
regresso às posturas anticientíficas, "espontaneístas" ou "populis-
tas". Uma adequada compreensão do saber popular não deve ali-
mentar as posições antiteóricas e antiintelectuais.
A participação dos investigadores em sistemas de PA ou de
"intervenção" dentro de organizações ou de movimentos sociais não
significa que haja adesão aos valores ou ideologias dessas entidades.
Esse ponto é sublinhado por A. Touraine: "O sociólogo deve reco-
nhecer sua solidariedade com as ações coletivas sem as quais the
seria impossível captar o seu objeto de pesquisa. Mas este princípio
não exige que o sociólogo adira a uma organi zaçáo política ou sindi-
cal porque esta possui objetivos diferentes dos objetivos de conheci-
mento, produz necessariamente uma ideologia e submete-se a exi-
gências táticas e estratégicas, deixando no segundo plano as exi-
gências do conhecimento e da pesquisa".6

(6) Alain Touraine, La voix et le regard, Paris, Seui!. 1978, p. 251.


REPENSANDO A PESQUISA PARTICIPANTE 5v

Nesse quadro, a situação dos investigadores, aparentemente


paradoxal, supõe uma constante avaltaçã,o dos seus envolvimentos
na açã,o observada.
Outros aspectos de um eventual "ideologismo" têm a ver com
as condições de participação dos investigadores e dos investigados
nos procedimentos da PP e da PA. A nosso ver, um dos riscos que
apresenta a noção de PP consiste no fato de referir-se à noção de
"participação", sempre bastante ideolog rzada. Desde os anos 60.
em vários países, as ideologias da participaÇão se espalham n(rs dis-
cursos do poder como forte arsumento de manipul&ç-ào e Ce esc3-
moteamento das relações sociais e especialmente das rela..-ões r3e
poder. O uso da noçào de "participaçào" é sempre suteito a inter-
pretações equivocadas. Esse uso pode trazer para dentro do campo
da investigação as manipulações que ocorrem na concepção da polí-
tica. O pesquisador deve ficar atento aos riscos associados as ideo-
logias de participação. Ao criticarmos o participacionismo, isto não
quer dizer que estejamos a favor de um relacionamento sem parti-
cipação, unilateral, exclusivo ou autoritário. Trata-se sobretudo de
impedir a reprodução de certas ambigüidades ou ate paradoxos
- no fundo, muitos
contidos nas propostas de participação quando,
-elementos da situação
se opõem a ela. Em cad,a pesquisa, as condi-
ções da participação devem ser cuidadosamente esclarecidas.
Como qualquer técnica de pesquisa, os procedimentos da pA
são utrlizados dentro de um campo social cujas dimensões ideolo-
gicas e políticas devem ser avaliadas por parte dos investigadores
e
usuários. Pelo fato de estar organi zada em torno de uma açã,o,
a PA supõe que todos tomem posição. O problema é delicado,
sobretudo nas situações conflitivas. A PA não pode deixar de consi-
derar as oposições entre os grupos investigados. Mesmo quando não
há conflito aparente, os membros das instituições nas quais a pes-
quisa ocorre sãe divididos por rígidas relações de autoridade
o, p.r-
tencem a classes distintas.
A configuração da PA é variável em função do contexto da
aplicação. Não são idênticas as aplicações feitas em instituições
divididas em classes e as aplicações org anizad,as por grupos homogê-
neos com autonomia de decisão e ação.
No primeiro caso, há sempre risco de envolvimento das rela-
ções heterônomas, especialmente entre dirigentes e dirigidos. É pre-
ciso questionar o que significa a açáo (ou á participaçáo) dos diri-
gidos quando, flo fundo, todas as decisões são monopolizadas
e
90 CARLOS RODRIGUES BRANDÃO 1org.;

tomadas por dirigentes. Isto e patente nas organizações industriais


educacionais ou outras.
No segundo caso, o problema principal consiste na elucidação
da açáo do grupo animado por um objetivo consensualmente defi-
nido. No contexto sindical e político ou em associações volunt ánias,
as relações dicotômicas também existem, o que deve ser levado em
consideração na concepção da pesquisa. Talvez a PA possa contri-
buir para evidenciar os fenômenos de monop olizaçã,o de informação
e de poder e, também, as condições de execução da ação.
Dentro do molde empresarial ou organi zacional, eue remete
ao primeiro caso, o tipo de PA utrltzad,a em "desenvolvimento
organizacional" e em análises "sociotécnicas" encontra certas limi-
tações devido à heteronomia das relações sociais. Em certos casos,
a açã"o se limita ao nível dos executivos ou chefes de nível interme-
diário que estão inseridos no processo de PA para que, conjunta-
mente com os analistas, possam formular a solução de problemas
ligados à gerência e sobre os quais eles têm uma "parcela" de poder.
Procedimentos semelhantes podem envolver também os trabalha-
dores, so que sua ação é filtrada e canahzad,a no sentido de se
conformarem aos objetivos da empresa: lucratividade, produtivi-
dade, qualidade dos produtos etc. A PA aplic ada nesse contexto
estabelece, ao nível da investi gaçáo, uma forma de participação
possuindo todas as ambigüidades da participação dos dirigidos no
plano político.

A questão do "misticismo"

As propostas de PP e) em alguns casos, de PA, são conside-


radas como "místicas" por parte de certos sociologos. É o caso, em
particulat, de P. Bourdieu, que é conhecido por tel criticado as téc-
nicas de pesquisa convencional sem considerar que a PP ou outras
formas semelhantes sejam uma alternativa válida. Segundo esse
autor, a PP teria mais a ver com uma "participação mística na
prâtica". A idéia de PP não satisfaria às exigências da ciência social,
segundo as quais é necessária a "análise teórica" da préúica de
investigaçáo e de sua relação com o objeto investigado. 7

(7) Pierre Bourdieu. Questions de Sociologie. Paris, Minuit, 1g80, p. 69.


'{ respeito do risco de misticismo, podemos observar que
esre
:'lt-r e inerente às propostas de PP ou
PA. certas formas de misti-
-:smo e\istem em obras positivistas, por definição
contrárias a tudo
'lue e metafísico ou místico, e também se manifesta até mesmo de
-'c"jo paradoxalmente associado ao espírito de rigor
logico. 8
\lesmo quando certos autores ou pesquisadores
possuem cer-
i> :nclinações místicas, isto não é suficlente
; ir 3 a PA são p ara considerar que a
essencialmente místicas. É necessário in'estigar
con-r
-.i:s cuidados formas de misticismo que possam
interterir na crir-
-;lçào da investigaçã,o social, especialmente quando sào uriliza,Jos
:'':trdos participativos e ativos, por exemplo.
nos setores de estudr-r
.t -: ç- r) rn ufl icação ou da educação.
Transportada pata o plano místico, a relaçào
comun icat ir a
estabelecida pela pesquisa rámete aos
fantasmas do vivido comuni-
tário e ao espírito de comunhão. Não se
trata de criti car o sentido
humanista que anima certos pesquisadores
nessas áreas. Não se
trata de negar as razões de ser dessas
concepções . É il.ir" ."i-
denciar melhor certas i*plicações extracientíficas.
propor uma PP como se fosse mero seria perigoso
instrumento de pesquisa cientí-
ftca' neutra no plano valorativo, ou como
mera altetnativa meto-
dologica auto-suficiente. sem pano de
fundo metafísico ou metasso-
cial' Esse pano de fundo tem a ver com normas
e valores humanos e
é também relacionado com visões reli.-eiosas
da sociedade. Não se
deve confundir o nível d,a análise
das relações inter-humanas com o
metanível da significação ideolo gizada
ou "mistific ada,, do mundo
social' Qualquer confusão entre esses planos
prejudi ca a clarezados
projetos de investi gaçã,o e d,á argumentos
às pessoas que, por di_
versos motivos políticos e ideológicos,
são hostis à pp e à pA.

Filosofia da Ciência
De acordo com as nossas avaliações precedentes,
que o desenvolvimento da PA não pensamos
deva recair necessariamente nas
posturas espontaneístas e ideológicas
e que é possível manter a idéia
de PA dentro de uma concepção da
investi gação socioló gtça, da
pesquisa edu cacional e da pesquisa
em comunicação embasadas em
elementos teórico-cientificos .

(B) o tema é abordado por Bertrand


Zahar. 1977 et passim. Russer, Misticismo e Logica. Rio,
92 C.{RLOS RODRIGUES BRANDÃO (ors.)

A da PA existe e ia foi especifi-


po srura c ientit'ica a respeito
camente iormula,Ja u-onte\to das chamadas "ciências da organi-
nt-\
zaçào" tais como Sãtr crrflcebidas pela corrente sociotecnica. E formu-
lada. entre ourros. por \Í. Liu. que j ustihcou a PA dentro desse
e
campo de estudo corno sendo urna erigência científica. O catater
atir-o da investigaçào j á eriste no proprio campo das ciências da
natureza corno condiçào de observação. No campo socioorgafirza-
cional, a PA possui um aspecto "catalisador" objetivamente neces-
sário paraobservar os fenômenos significativos.
De acordo com atuais discussões da filosofia da ciên cta, a PA
pode ser vista como uma orientação adaptada às especificidades do
campo social, organizacronal e comunicacional. Trata-se de insistir
na elucidação de processos complexos e não-seqüenciais nos quais
está contida urna capacidade de inovação ou de criatividade. São
processos nrarcados por urna srande diversidade qualitativa.
Hoje em dia. ranto no canlpo das ciências da natureza quanto
no campo das ciências sociais. essas ideias estão ganhando mais
agdiência e opõern-se ao padrão da fisica clássica que foi transpor-
tado pelos positivistas à aÍea das ciências sociais. Essas idéias, é
claro, não são objeto de unanimidade, mas são discutidas por um
crescente número de cientistas, sobretudo entre aqueles que ainda
possuem sentido crítico e independência intelectual para com as
ideologias dominantes.
Do ponto de vista sociologico, podemos salientar a irreversi-
bilidade dos fenômenos sociais, seu çarâter holístico, não-repetitivo,
emergente etc. Os fenômenos comunicativos e educacionais apre-
sentam aspectos comumente chamados "cons çtenÍtzaçáo", "criati-
vidade", "inovação" etc. Quando adequadamente concebida, a PA
insere-se num processo social e pretende dar conta dessas diversas
qualidades que os investigadores tradicionais costumam negligen-
ciar. Especialmente quando as pessoas ou grupos estão em situação
de agtr, de tornar decisões , manifestam-se fenômenos qualitativos,
inclusive no plano da significação e da elucidação que os instru-
mentos não apreendem. Entre outros aspectos, a presença do polo
investigador faz parte da situ açáo investi gada e interfere na signifi-
cação e nas possíveis interpretações . Na concepção dominante dos
métodos de pesquisa, as propriedades emergentes e significativas

(g ) M ichel Liu , Reftexions sur la Recherche -Action en tant que démar-


che de recherche. mimeo., s.d., 17 pâginas'
REPENSANDO A PESQUISA PARTICIPANTE Qi

das situações de investi gação são mal equacionadas,


ou até mesmo
negadas.
No campo da investigação social, qualquer ação, manipulação
ou medida exerce um efeito tornando ambíguo ; significado
dos
resultados, o qual está relacionado tanto com o fato
observado
quanto com as características do instrumento de
observ ação. No
tocante a fenômenos essencialmente qualitativos, fatos
de signifi-
cação cultural e política, não podemos frcar apegados
ao quadro
quantitativista dos positivistas.
Apesar dos adestramentos escolásticos. ,Jer emt s re.lprr-irtrer
i
estudar a vida social na sLra "dir ersi,Ja,Je quJliratir.r". Isrr-,
suptle
que o padrão de quantiflcaçào de pefiornttntL €.t (pesos.
rieqüen.ir..
intensidades etc.) não seja considerado como nec pltts
ttltr-a da cien-
tificidade.
É possível estudar o social a partir de modelos de natu reza
mais qualitativa e dando conta das transformações que
ocorrem nas
situações de observ açã,o. Os fatos evoluem. Nesta evolução,
não se
trata apenas de fenômenos cumulativos ou aditivos. Há também
mudança na significação que adquirem os fatos observados
pelos
pesquisadores. Essa significação A, em parte atribuída
quisadores em função das teorias e métodos que
, pelos pes-
lhes são disponí-
veis' Não se pode entender esse tipo de complexidade somente
a
partir de um procedimento de medição de variáveis isoladas inde-
pendentemente dos fatos de significação no qual interfere
o próprio
dispositivo de pesquisa.
De acordo com o espírito da "Nova Aliança" de prigogine
e
Stengers, precisamos superar o padrão da ciên cia clâssica
no qual o
observador é eliminado e a observ açã,o concebida de um ponto
de
vista exterior ao mundo.r0 Segundo esses autores, particularmente
qualificados nas ciências da natnreza, até mesmo as
ciências ditas
"exatas" devem sair dos laboratórios. "As situações idealizadas
não
vão nos entregat a chave universal." O diálogo é necessário
entre as
ciências da
natureza, as ciências sociais , a filosofia e as outras
formas de saber. Segundo Prigogine, não é mais privilégio
das ciên-
cias da sociedade o fato de reconhecer como necess éxio ,,diálogo
o
como os saberes preexistentes a respeito de situações familiares
de
cada um"' Continua o autor: "Como já acontece nas ciências da

(1 0) llya Prigogine & lsabelle Stengers, La Nouvelle Attiance. Méta-


morphose de la science. paris, Gallimard. lõ1g,305 paginas.
94 CARLOS RODRIGUES BRANDÃO (ore.)

sociedade, as ciências da natureza não poderão mais esquecer o


enratzamento social e histórico que supõe a famitiaridade necess ixra
paÍa a modelagem teórica de uma situação concreta. Mais do que
nunca, importa que não façamos deste enraizamento um obstá-
culo. ..'» 11
A disposição ativa do observador na situação observ ada, seu
diálogo com as formas de conhecimento familiar e outros temas
semelhantes são de maior relevância na concepção da metodologia
das ciências sociais e adquirem respeitabilidade dentro das ciências
da natutreza, embora tenham nelas significações e implicações dife-
rentes . É da maior importância também o fato de conóeber-o diálogo
com o conhecimento familiar, não como "capitulação teórica" ou
como "diluição" no senso comum e sim como condição de uma
modelagem ou de uma teori zaçã,o mais adequadas.
A nosso ver, independentemente das sugestões específicas dos
referidos autores, mas de acordo com uma orientação convergente,
a formulação de propostas alternativas em metodologia das ciências
sociais pode apoiar-se em certos princípios discutidos na filosofia da
ciência ativa, segundo a qual é possível enco ntrar um caminho
passando pelo diálogo com diversos interlocutores e diversos tipos de
saber, inclusive a respeito das situações familiares e abrindo novos
espaços para a teorizaçã,o. Esta concepçáo, diferente da visão unila-
teral e antidialógica dos pesquisadores adestrados em moldes con-
vencionais, adquire particular relevo no contexto educacional e co-
municacional. As suas diferenças encontram maior significação
entre os próprios interessados.
Essa concepção nos parece bastante sugestiva no contexto d,a
discussão acerca de novos métodos de pesquisa de tipo PA. Uma yez
afastadas as confusões relativas à visão ideológica ou mística , trata-
se de pensar a PA como sistema de expressão e de "escuta" inserida
no movimento ou na práúrca social. Trata-se de captar expressões
ou discursos que se manifestam em diversos momentos ou em diver-
sas situações sociais. Os atores dessas situações não seriam mantidos
em posição de simples informantes e sim interessados na própria
conduta da pesquisa. Nesse sentido, mais do que uma técnica parti-
cular, a PA seria uma visão de conjunto contrária à reificante obser-
vação passiva que oferece possibilidades de utilização de tipo buro-
crático. Em lugar deste tipo de util izaçáo prevalecente, a PA oferece

(11) lbidem. p. 280.


REPENSANDO A PESQUISA
PARTICIPANTE vi
outras possibilidades que são
principalmente relacionadas com
interesses das os
popurações consideradas.
De acordo com a nossa concepção
geral da metodologia, a pA
é uma proposta de investi ga,ção a .., ãrticulada
ampla visão da açã'o e da inteiaçao dentro de uma
social. A investigação não pode
mais ser concebida de modo
indiferente aos aspectos de interação
entre investigadores e investigados
expressivo' interativo, inovado-r.
.
. A pA inseie-se num processo
consci entizador. É;; a orientação
de metodologia socioló gica, podendo
ser estendida a outras disci-
plinas e concretizad'a no contexto
particular das pesquisas em edu-
cação, comun icação e organ
ização. \ uma certa medida.
proposta de ruptura com as é uma
concepçôes e adestramentos
sadores convencionais, embora dos pesqui-
haja muitas possibilidades de ,,con-
vivência" entre diversas tendências.
É f...iro sublinhar que não é
uma proposta anticientífica
e sim uma proposta apenas
padrão "cientificista" diferente do
Que, hoje em dia, está sendo contestado,
inclusive por parte de grandes
cientistas da natureza.

Sociologia da ação

Mais do que uma simples tecnica


de pesquisa, a pA pode ser
abordada como tema metoàológico
dentro do conhecimento socio-
lógico' No estudo da sociologia, -rão existe
ponte interm ed,iáriaentre
as teorias gerais e as técnicas de p.rqriru
E' verón: "A grande teoria traduz-se ao nívelempírica. como diz
aa tecnica pelo mé-
todo de entrevista".12
como tema metodológico, a PA remete
a uma série de proble-
mas com respeito à questão da relação
entre elaborações teóricas e
captaçã"o de inform açáo empírica,
o que situaria pA no
território intermed iánio entre teoria e pesquisa o tem a d,a
de campo. Ao lado
desta delimitaçã'o, é preciso também
.rp..in car aquestão da açã,o,
ou da
1elação entre pesquisa social e uçio.
É bom lembràt q.r., independente de
uma preocupação estri-
tamente metodológico-emp ínci, existe na tradição
plas proble mattzações d,a açáo social, sociológica am-
uma das mais conhecidas
sendo a de Max weber. A ação
social é central na sociologia

(12) Eliseo Veron, A produção do sentido, São paulo,


r vvrv, Cultrix/EDUSp
vL.rlrt'\,r-r.-r\J\)r,
1981 . p.4g. ' -YY
96 CARLOS RODRIGUES BRANDAO (org.)

\\'eberiana e permanece central em diversas propostas sociológicas


recentes, tal como, por exemplo, a tendência acionalista de A. Tou-
raine, eue desembocou numa metodologia de "intervenção socio-
logica" intimamente relacionada com a PA. 13
Além disso, é bom lembrar que o tema da ação é também
central em discursos de cunho positivista ou neopositivista, como é o
caso dos discursos influenciados pelo funcionalismo, o sistemismo e
a cibernética. Noutros casos, a análise da açáo é sistematrzada na
ârea organi zacional sob forma de praxiologia e, nos estudos de
comunióação, sob forma de "pragmâtica da comunicação". É inte-
ressante notar que certos autores influenciados por essas diversas
tendências chegam a formular propostas relacionadas com a PA sem
reproduzirem, é claro, a radicalidade da PA, quando concebida a
partir de orientações críticas. A referência à noção de PA, por si só,
não estabelece uma ruptura com certas formas de positivismo ou de
instrumentali smo.
Em estudos recentes, pode-se notar uma nítida preocupação
teórica em torno da açáo e também uma preocupação observacional,
Apesar da diversidade das abordagens, vê-se a possibilidade de um
novo espaço de problematizaçáo da relação entre teoria sociológica e
procedimentos de investi gaçáo empírica. O dispositivo de pesquisa
associado à ação seria um meio importante para levar a cabo essa
proble matização.
O que precede pode ser discutido ao nível geral da sociologia e
também nos contextos específicos da pesquisa em educação, comu-
nicação e org antzaçáo. Os aspectos educativos, comunicativos e or-
gantzativos teriam a ver com formas de açáo social a serem anali-
sadas como tais. São aspectos qualitativamente diversos, mas pos-
suem fortes analogias a parttr das quais delineia-se a aplicação de
uma metodologia relativamente homogênea relacionando teoria e
açáo e pesquisa sobre a açáo. Em todos eles, a forma de açáo envolve
inform açáo e direção.

Capacidade de apren dizagem

Na PA, uma capacidade de aprendrzagem é associada ao


processo de investigação. Isto pode ser pensado no contexto das

(13) A. Touraine , op. cit.


REPENSANDO A PESQUISA
PARTICIPANTE 9-
pesquisas em educação,
comunicação e organi zação.
associar PA e apren dizagem o fato de
sem dúvida possui maior relevância
pesquisa educacion al, mas na
é também váliào nos outros
As pesquisas em educação, casos.
comunicação e organ izaçãoacom-
panham as ações de educar,
sempre
.o*rnicar e organi zar. os ,,atores,,
têm de gerar,
utili zar informaçoes à tu*uém
tomar decisões etc' Islo faz ori entar a açã,o,
parte tanto da atividade planej
quanto da atividade cotidiaru, ada
observado dentro da pA.
I não pode deixar de ser diretamente
As ações investigadas envol,em
produção e circulaçào de in-
formação' elucidação e tom ada
de dàcisão e ourros aspectos su-
pondo uma capacidade
de aprendizagem dos parricipanres.
possuem essa capacidade Estes já
adquiridalu atividade ,;;;1.
cunstâncias particulares da
PA, essa capacidade tem de ser
il.i.-
e enriquecida em função apro-
'eitada das e*igôncias d,a ação em
torno da
qual se desenrola a investigação.
o processo de pesquisa insere-se na ação. sua orientação
remete a considerações estratégicas
decisões são tomadas sua
e
táticas, a partir das quais
' efetivação consiste na geração
mação adequ ada, a ser divulgada de infor-
e aprove itada em determinadas
capacidades de apr end,izagem
ão. atores da situ ação.ta
Numa relação de investigação
convencional pretende-se, em
nome da objetividade, fechar
aJ máximo o mecanismo de
para que as respostas das pessoas cap tação,
interrogadas sejam emitidas
et-eito de apendi zagem e sem
sejam diretam.ãt.,,encaixáveis,,
que o investigador deseja naquilo
mostrar ou justificar. Assim, perde-se
ista a questão da aprendizageme de
" da criação ao nível das pessoas
irupos implicados na situação. ou
Se fosse àp.or. itada, a capacidade
Je aprend iz-agem permit iria
produzi, umâ inform açã,o muito
rrr--â e significativa'
Seriu porrivel sup erar o caráter mais
istereotipado individual izado e
das respostas e possibilitar
irabalhada" uma inform ação mais
e direcionada .* frrção das condições
da ação.
No campo da comunicaçã,o,
a PA ftata de inform açãocomu-
I i''-âda no senti'do d'a captação
e também no sentido da divulgação.
)s efeitos de apr end'izagem podem
ser observados em ambos
: it'rS ' Entreos objetivos da lnvestigação, os sen-
poJ.*os considerar que o

(14) Em outro contexto,


a interligação desses aspectos
' -'ã: sistêmica
tar como é sugerida pera
pá; Jacqr""-ú9te.se, ,,L,approche
: -e Une transitio n?",",^di.:rtiã,
in ; La renõontre àá-iiiàenieur syste_
r x r paris, Editionsd'organization, et du phirosophe,
1g80, pp.Bg-103.
; : REPENSANDO A PESQUISA
PARTICIPANTE J-

' princípio de identidade: quem


age? como o autor de autodefine.,
' princípio de oposição , uçào
contra quem? como é definido o
versário? ad-
' princípio de totalidade : ação sobre o quê? ação em que
terreno?
Independente de alguns de seus pressupostos
cípios podem orientar, numa teóricos, esses prin-
fase descritiuu,o repertório
sÔes da linguagem dos das expres-
atores em função dos elementos
designados na situação inves significativos
tigad,a.
Há' também todo um Équ. de outras
relativas à radicalidade, novidade, expressões da açã,o,
extensâo ou intensidade etc. Em
um nível superior ao de unt
simples repertorio, as expressões
podem ser analisadas pelo, d,a ação
p.rquisaáores dentro a^. .onsiderações
pragmáticas' o estudo da comunicação
e, especialmente, da passa-
-qem da expressão ao ato remetem à pragmática,
inclusive com o
os freqüentes paradoxos que
H:X:.Í;.:yidenciar se manirestam
o estudo da açã'o é muito diversificado.
portamentos conscientes ou Abrange ele os com-
não, flo nível das pessoas ou dos
a ação planej ada e decidida em grupos,
grupo ou instituições. No campo
educativo e comunicativo há.
, também aspectos simbolicos d,a ação
ou, até mesmo, formas de ação
simb olica.
De modo geral, atos, comportamentos,
projetos,, decisões, ação
simbolica são aspectos a serem
considerados e analisados a partir
das expressões da linguagem
da açã,o em situação. certas discussões
de ordem sociologic a, liÃgüística
e epistemológica são aproveitáveis
para quem quiser conceber
procedimentos de pA.

Aspectos metodológicos

A PA pode ser concebida como procedimento


3\ploratória, com objetivos a de natureza
serem detàrminados pelos
pesquisa-
'lt)l'eS conjuntamente com os interessados.
:ação são úteis pata eluci os resultados daexplo-
dar a ação e paradesenc
;uisas' Na sua função elucidativa, pA ad,earoutras pes-
a pode contribuir à formu_

(17) M. Thiollent, ,,A captação


social: problemas de distorção
de informaçã9 nos dispositivos de pes-
e relevância" , Cadernos
Ceru, l6:g1_'105,
100 CARLOS RODRIGUES BRANDÃO 1org.;

lação de objetivos, de reivindicações e outros meios de açáo. Ela


pode funcionar conjuntamente com outras técnicas, mais convencio-
nais, de menor profundidade e de maior extensão.
Numa concepção de c arâter mais instrumental do que crítico,
a PA pode serorientada em função da resolução de problemas com a
participação de analistas e usuários. Nesse caso, trata-se de: 1) iden-
tificar problemas relevantes dentro da situação investi gada; 2) estru-
turar a explicaçã,o dos problemas; 3) definir um pro grama de ação
para a resolução dos problemas escolhidos como prioritários ; 4)
acompanhar os resultados da açáo por intermédio de diversos meios
de controle (ver até que ponto o problema está sendo "resolvido" ou
apenas "deslocado"); e 5) fazer uma síntese dos resultados obtidos
em todas as fases. A compar açáo de várias sínteses pode chegar a
favorecer uma generahzaçã,o do conhecimento alcançado em todas
elas. Esse procedimento de PA, ou algum semelhante, é formal-
mente utlhzado por especialistas em sociotécnica e análise de siste-
mas e, nesse caso, não é incompatível com o prevalecente positi-
vismo.
A PA pode ser orientada especificamente para o contexto da
tomada de decisão. Nesse caso é necessário detectar todos os grupos,
os fatores e os critérios interferindo na decisão de uma ação. Esse
caso possui analogias com o precedente.
A PA não é unidisciplinar. Embora seja ela de origem socio-
logica ou psicossociológica, a PA abre um espaço de investigação no
qual podem se entrosar especialistas de várias disciplinas (ciências
sociais, economia, educação, comunicação, organ izaçáo e tecnolo-
gia). Nos casos que nos interessam, a PA pode agrupar as disciplinas
de base, de modo a privilegiar, em diversas situações, o equacio-
namento dos aspectos educacionais, comunicacionais e organiza-
cionais.
A interpretação dos fatos observados e dos dados colhidos não
deve ser deixada ao senso comum nem aos impulsos dos partici-
pantes. Os pesquisadores profissionais envolvidos na PA trazem a
bagagem teórica que possuem para estabelecer explicações e inter-
pretações adequadas. Estas são expressadas sob forma popular para
serem, pelo menos aproximadamente, entendidas pelos não-cientis-
tas que, eventualmente, possam enriquecê-las. A interpretação é
praticadapelos especialistas, mas não é monopolizada por eles, pois
é constantemente submetida ao entendimento dos membros dos
grupos implicados. Todas as sugestões destes últimos são levadas em
c onsideração.
I (-,1 cARLos RoDRIGUES BRANoÃo (org.)

Conclusão
:1

Sem retomarmos todos os aspectos abordados nas precedentes


notas, concluiremos com um posicionamento favorável à pA.
Embora essa concepção da pesquisa, a ser distinguida da pp,
possa ser invocada por pesquisadores pouco escrupulosos,
conside-
ramos 9ue, pelo menos no plano ideal, ela possui certas qualidades
metodológicas a serem devidamente exploradas. A eventual
incon-
sistência de certas pesquisas não está ligada à presença ou
à au-
sência de uma preocupação de tipo PA. Pois, nos meios
contrários a
esta orientação, é facil encontrarmos numerosos relatórios
de pes-
quisa de opinião e de atitudes que, no seu gênero,
são obras-primas
de inconsistência metodoló gicae sociologicá.
A PA não consiste na adoção de uma simples participação dos
pesquisadores no meio investigado e não significa o abandono
das
preocupações teoricas da sociologia ou das outras disciplinas
envol-
vidas no estudo da educação, da comunicação ou d,a organi
zaçáo.
Boa parte da teoria sociologica está centrada na análiú
da açáo
social' O desenvolvimento da PA não pode ignorar os princípios
da
teoria da açã"o. Quando adequadamente direcionada no plano
teó-
rico, a PA pode contribuir para o estudo de situações, instituições,
movimentos ou processos sociais nos quais está em jogo uma
açáo
coletiva. Além disso, a inform açáo captada nessas circunstâncias
pode ser objeto de diversos procedimentos cujos resultados
seriam
cotejados com as interpretações teóricas. Parece-nos necess
ário evi-
tar os riscos de uma eventual "demissão teóri ca" que faria recarr
a
investigação Ílo "espontaneísmo" e noutras formas de desvio.
Mesmo reconhecendo QUe, em certos contextos, a PA é asso-
ciada a valores, ideologias ou até mesmo formas de misticismo,
não
podemos condenar as tentativas de tipo PA, na medida
em que são
portadoras de possibilidades metodologicas diferentes
da orien tação
convencional. A exploração dessas possibilidades pode ser encami-
nhada de modo relativamente independente da quástão dos
valores.
Algumas dela_s são de grande relevância do ponto de vista das
atuais
discussões sobre a filosofia d,a ciência, .rpLrialmente no
tocante à
diversidade qualitativa no real e as exigên.iu, de diálogo entre
diver-
sas formas de saber que não se deixam mais enquadrar
num padrão
úrnico de abordagem.
Nos campos da edu caçáo, comunicação e organi zação, a pA
exige dos pesquisadores uma grande dedicação e o simultâneo
do-
mínio das questões teóricas e práticas da investi gação. A pA é
o
,' REPENSANDO A PESQUISA PARTICIPANTE
. .. , rr,,:

contrário de uma "receita" ou de uma"panacéia". E sobretudo


uma
orientação de pesquisa cuja aplicação, experime ntação ou
interven-
ção não exclui outros recursos técnicos mais convencionais que per-
manecem necessários em determinadas circunstâncias.re
O papei da
metodologia consiste em descrever e avaliar as propriedades,
quali-
dades, insuficiências e distorções que são inerentes
a cada tecnica.
A lA não pretende substituir todas as outras. Em particular. ela 5e
aplica a grupos de pequena ou média dimensão: recnicas
n:sis
abtangentes sempre serão necessárias. No entanttr. o
D:rn; rr j. ü..-
safio da PA consiste em produzir no\as torrn:s üe J.\:i.e;r:rií::.-,
social e novos relacionamentos entre pesÇ u:sadrre e
= lesy;:,=.j.,i-
e novos relacionamentos de ambos ç-orrr r) saL,er. para
enfrentar tai
desafio, é claro que a PA precisa ser utilizadadentro ,Je uma
prob,ie-
mática teorica de orientação crítica e não apenas instrumental.

(19) Tema anteriormente abordado no nosso artigo: "lnvestigacion-


AcciÓn", in Chasqui. Revista Latinoamericana de Comúnicacion, 1:TGTB,
1981.
E,lementos metodológicos
d a pesquis a particiPante*
Pedro Demo**

Tentaremos fazer uma aproximação metodológica da Pes-


quisa Participante (PP), tro sentido de elaborar algumas referências
fundamentais para se constituir como gênero de pesquisa. Preocupa
na pp, entre outras coisas, até que ponto é mais participação do que
pesquisa e em que medida participação pode ser uma maneira de
descobrff arealidade e de a manipular.
A crítica feita aos métodos tradicionais de pesquisa deve vir
acompanhada de uma contraproposta. Diríamos QUe, pelo menos
sob forma latente, existe na PP uma contraproposta. Mas existem
igualmente sérias fragilidades metodológicas, desde a pretensão vã
de se constituir na única forma válida de pesquisa, ate posturas
meramente ativistas que banalizarn não só a idéia de pesquisa, mas
também a idéia de particiPação.
A PP tem tudo para ser apenas a próxima farsa. Em Yez de
superar a decepção hist orrca com respeito à utilidade das ciências
roôiuir paraos dominados, pode refinar os controles sociais vigentes
e, num pacote bonito, esconder um "presente de grego". A farsa
não seria, de modo algum, peculiaridade de instituições oficiais ou

(*) Cap. Ill de: Pesquisa Participante: mito e realidade, Brasília, U nB/
|NEP, 1982. _
(**i'O autor é sociologo; foi secretário-geral do MEC na gestão do
Ministro Eduardo Portella. E prôtessor do Departamento de Ciências Sociais da
UnB e sociologo do lnstituto Nacional de Estudos Pedagogicos - INEP.
REPENSANDO A PESQUISA PARTICIPANI"E

governamentais, sempre muito comprometidas com a ordem vi-


gente. Ela não é menos possível entre os pesquisadores que se
querem de "esquerda", quando, por exemplo, não problematizam
sua identidade com os dominados. Ao mesmo tempo, banqueteiam-
se na PP, por vezes, precisamente aqueles pesquisadores mal for-
mados e medíocres, que alimentam a esperança à. ,., reconhecidos
pela fumaça que levantâffi, porque na verdade não possuem fogo.
Ademais, a PP ainda vive, de modo geral, mais do entusiasmo
do que da fundamentaçáo teórica. Alguns simplesmente se retusiam
no materialismo histórico. transformando-o numa "receita cuiina-
ria", ou seja, precisamente naqurlo que se re_ieitar a ne F,esüu:s3
tradicional. outros manipulam a ideia raga,J. que a*i esrruturas de
poder precisam ser superadas. tendo em vista a presenr,-a maciça de
marginalizados, mas não refletem sobre a questâo vital. a de que
nenhuma sociedade sobrevive e se orga nrza sem estruturas do poder.
A participação não elimina o poder, mas busca uma alternativ'a
democ úfitca dele.
As questões são inúmeras. Não podemos pretender exauri-las
mas tão-somente levantar alguns elementos metedologicos para
aclar ar a problemá tica.

Teoria e pr ática

"Para as ciências sociais, uma teoria desligada da prâtrcanão


chega sequer a ser uma teoria. E é neste sentido que muitos diriam
ser a prâtica o critério da verdade teórica. " 1

No entanto, não se pod e dizer que a prâttca seja o critério da


verdade, pura e simplesmente. E um critério da verdade porque o
simples fato de uma teoria chegar à préttica não a faz necess aria-
mente verdadeira. Porquanto de uma mesma teoria podemos dedu-
zit várias práticas opcionais, inclusive contraditórias. Assim , da
teoria marxista existem muitas práÍrcas, até mesmo contraditorias,
e
se a mera ptáttca tornasse todas verdadeiras, teríamos verdades
contraditórias.
Neste sentido , para estabelecermos a verdade sempre rela-
tiva precisamos de outros critérios -mais, como sua
- teóricateoria,
de uma
solidez e lógica, sua capacidade de objetiv ação, sua ade-

(1) P. Demo, lntrodução à metodotogia da ciência, op. cit., cap. ,,Teo-


ria e Prática".
106 CARLOS RODRTGUES BRANDÃO (org.)

quação histórica e assim por diante. Mas é correto afirmar que, se


uma teoria não leva à prática. nunca foi sequer teoria, porque será
um discurso irreal ou alienante. de outro mundo.
Ai ia temos uma característica fundamental da prâtica: é
sempre uma opção da teoria que a fundamenta por trás. Da mesma
bíblia pro duzem-se muitas seitas. Não é possível imaginar que de
uma mesma teoria se derive uma unic a prâtica, a não ser sob o peso
do dogmatismo e do fanatismo. O fanatismo é precisamente isto:
parte da necessidade de interpr etaçã,o única, da qual derivam uma
prática exclusiva, fora da qual não há salvação.
A partir daí, outra característica da prática é seu traço con-
creto, ao contrário da teoria, que é generahzante. Assim, não se
pratica toda a teoria, mas versões concretas dela, o que quer tam-
bem dizer que a prâtica tende a ser exclusivista, porque opcional. A
teoria usa conceitos universalizantes, mesmo porque esta é uma
marca propria de qualquer conceito em sentido logico. É uma abs-
tração e que, Por isto mesmo. diz respeito a todos os casos concretos
cobertos por ele. mas não é em particular nenhum deles.
O conceito de democracia aplica-se a todos os casos concretos
historicos, aos quais imaginamos poder ajustar seu conteúdo teó-
rico, mas não se esgota nos momentos particulares subsumidos.
Assim, podemos dizer que a democ racia americ ana é tão-somente
um caso possível do conceito geral de democ racia. S eria obtuso
pretender mostrar que o caso concreto da democ racia americ ana
esgote a potencialidade do conceito geral de democ racia.
Quando, porém, optamos pela democracia, não praticamos o
democtacia, pois isto seria mera abstração ou fuga teórica, mas uma
versão historicamente condicionada dela, ou seja, a versão gÍega,
suíça, brasileira, do capitalismo liberal, ou outra qualquer, e assim
por diante. Que cada democraçia em particular levante a pretensão
de ser a unica possível, isto já é uma questão ideologica de auto-
justificação, buscando manter-se e impor-se.
À sombra desta característica aparece outra que é o caráter
limitonte da prática, €ffi face da teoria. Toda prátiôa apequena a
teoria, porquanto não ultrapassa a condição histórica de uma versão
dela. E é neste sentido qu e a prâtica sempre também trar a teoria. É
comum ouvirmos que na prática a teoria é outra. Uma coisa é a
realidade teoricamente estruturada e sistemat izad,a, outra é a reali-
dade como se dá efetivamente no mundo real.
Assim, toda prâtica, âo mesmo tempo que realtza a teoria,
também a limita, no sentido de que não consegue esgotar todas as
REPENSANDO A PESQUISA PARTICIPANTE
.:
potencialidades teóricas. A teoria
contém geralmente elementos utó-
picos, quer dizer, irtealizáveis historicamente.
a democracia é o "governo do povo, pero povo euando dizemos que
ttata-se de uma afirmação teóricá
e para o povo,,,
, iá qu. na préttica não se constata
que o povo' e111 pessoa, chegue
ao governo. Chega somen te através
de representantes
9Ue, pretensamente, o representam. Na prática,
pois' a democ rucia não é governo
do povo, mas de seus possír,eis
representantes, o que introduz tnitrr..à,
limitações conhecidas dos
processos democráticos .

[Jma coisa, para tomarmos outro exemplo.


seria o sLrcia]ism,-.,
como se desej a nateoria; outra coisa
e o socialismLr conlo e r jar ei ni.l
ptática' A ditadura do proletariado
nào passou ate hoje de uma pre-
tensão teórica; na prática a ditadura
e do parrido. E interessanre
notar, por esta otica, a evolução do socialismo
ao tempo de Lenin.
Em teoria, o socialismo deveria ser
universal, o partido de'eria ser
apenas orgão da massa ) a superação
das necessidades materiais
através da produção ilimitada dev eria
ser condição previa e assim
por diante' Na ptática. Lenin introdu
ziu a modifi cação do ,,socia-
lismo num só país", abandonou a rd,eiade
espontaneidade da massa
(desentendeu-se, por exemplo,
com Rosa Luxemburgo) e teve de se
virar num país subdesenvolvido. Por isso
mesmo, o socialismo sovié-
tico é somente uma versão possível.
A idéia de que a única interpre-
tação possível do socialismo deva
ser a soviéti ca e dogmatismo pri-
mário e excrescência ideologica.
Ademais, toda ptática e necessariamente
ideologica, porque
se realrza dentro de uma opçãopolítica. Nã;; á;;;t".oriu não seja
também ideológica, porquanto o próprio
prática significa um tipó de compromisso
distanciament;il;; ,
ideologico. Mas a teoria
pode imaginar-se pura, isenta, objetiva,
enquanto a prática sequer
se real iza sem a imissão ideologica. Na verdade,
assume diretamente
a ideologia e e a reali zação de uma
ideologia. por isso é um traço
típico das ciências sociais, que possivelmerie
não se aplica às ciên-
cias naturais ' A fisica, por exemplo,
tem o problema de sua utili-
zação social, mas não é uma práiica
intrínseca. Embora façaparte
do projeto de socied ade, poryu. é
um produto também social, a
ideologia aparece no tratamento
dado à realidade Íísica, não nela
mesma ào passo que a realidade
' social é fundamentalmente
tica, e por isso intrinsecamente ideológica. WáL-
A ideologia não aparece
somente na opção de ttatamento
científico dado a rãalidade social,
mas na próptia constituição da realidade
social, porque está inevi-
tavelmente polarizad,a entre opções
históricas e políticas possíveis.
108 cARLos RoDRTGUES BRANDÃo (org.)

Não é somente dada, como a realidade fisica e; é


também produ-
zida, interpr etada, conflituosa e potencial.
A prâtica é condição de historiciclctcle da teoria; caso con-
ttâtio, não acontece. A mera teoria é uma fuga da realidade.
Mesmo
que aptática limite a teori a. atraia e a deturpe.
não há hist óriareal
precisamente sem limitações. sem traiçôes
e sem deturpações. Ãi
está toda a gran deza da prática: a de ser real
ização histórica con-
creta.
Recompõe-se nisto a qualidade dialetica do
relacionamento
entre teoria e prátrca. Ambos os termos se necessitam
e se repelem,
numa identidade de contrários.
Quer dizer, um não existe sem o
outro, mas cada um possui densidade própria, que
o possibilita um
relacionamento dinâmico. De um lado ternos
a propensão absolu-
tizante da teoria. Somente em teoria podemos
imaginar uma ciência
totalmente evidente, verdadeira, acabada.
Na prá tica, e um produto
historico. ou seja. limitado. relativo. processual,
infindável. A teoria
pode ser absoluta' abstrata. utopica, universal;
vez, é relativa. concreta, real izada, particular.
a prática, por sua
O conteudo fundamental da historia e sua incompleição,
não
como defeito, mas como marca propria. A
tradução mais concreta
desta incompleição é o conflito, entendido
como fenômeno intrín-
seco e normal' A historia é dinâmica, produtiva,
criativa, nova por-
que é contraditória. O factual nunca esgota
o possível. O rcayzado
não consome a utopia.
Dizemos que é mister "sujar as mãos com a prática,,
porque se
usa a idéia de que a ptática nos leva a compromissos
atacáveis. Mas
isto não é um defeito; é característica da historicidade dialética.
Porque não há outra maneira de se fazer história,
a não ser compro-
metendo-se com opções políticas concretas.
Como, porém, toda his-
tótra é intrinsecamente defeitu e é por isso que se mantém
histórica -, os Çompromissos históricos porru.m
conseqüentemente
defeitos' Toda prática histórica pode i., conden
ada, diante de
outras opções adversas. Porquanto a prática
não esgota a história,
mas a realiza relativamente.
O teórico foge muitas vezes da prártrca, porque tem
medo da
condenação histórica, do compromisso atacáwel. prefere
criticar
a
propor, porque toda proposta, se for prá ttca,
é também atacável,
qois não repres entará" a perfeição histórica, mas uma versão
dela.
Todavia, a fugu da prática é, à revelia, uma práúrca,
uffi tipo de
compromisso político, geralmente conservador.
Assim , &o querer-
mos não sujar as mãos, sujamo-las mais ainda,
ou por malandra-
gem, quando escamoteamos compromissos escusos
e que não gos-
tamos de revelar, ou por inocência útil, quando
não .h.gu*ú a
tomar consciência do compromisso latente qu e é a
falta de óompro-
misso.
Não existe verdade absoluta. Na prática, ela é
relat tva, histó-
rica; quer dizer, superável. Nem por isso o conceito
de verdade
absoluta perde seu sentido. Ao contrário, faz parte
integrante do
processo científico, sem o qual nos satisfaríamos
com os produtos
relativos' Para não recairmos no simplismo de que
uma determi-
nada versão científica se erua em parâmetro final,
é mister voltar à
teoria que, effi sua pretensão absoluta, encontra
sempre suficientes
defeitos históricos paÍa a declarar superável. É preciru*.rrte
este o
papel da utopia; não é historicamente realizâvel,
mas faz parte da
história' onde não há utopr&, sacrali za-se uma situação dada, como
sejá não houvesse alternativa.
Assim, não podemos sacrifi çar a teoria em nome
da prátrca,
nem a ptática em nome da teoria. Nada faz
tão bem à teoria como
sua ptática, e vice-versa. A prátrca, por estar
exposta a todas as
fragilidades históricas naturais, não deixa de
ser importante, assim
como a teoria, por ser uma construção abstrata,
não é inutilidade
YAZta.
A discussão em torno da consciência verdadeira coloca ade-
quadamente este problema. Como sabemos que
uma consciência é
ou não verdad eira? Por exemplo, ao atribuir ao proletariado
cons-
ciência verdadeira, e aos burgueses consciência
falsa, eue argumen-
tosse usam?
Esta questão não tem solução fech ada, porque
na prática não
existe a consciência absolutamente verdadeira,
mas uma consciência
relativamente verd ad,eira, dentro do espaço e
do tempo em conside-
ração' Não temos argumentos cabais, mas há
os relativos. por exem-
plo, o proletariado per faz a maiori a da sociedade;
é quem realmente
produz, embora não tenha a posse da produção;
é quem representa
a contradição da sociedade capitalistà e a potencialidade
da mu-
dança; são os excluídos do proã.rro; e assim
por diante. Tudo isto
não é argumento cabal, porque a maioria não
precisa ter razáo,
porque os marginalizados também sofrem
de alienação social, por-
que o burguês também pode apreender criticamen
te arealidade etc.
relativamente válidos e que possuem sua ver-
Ytt ?i".
oaoe lt$u*entos
hrstorrca.
Se a questão for fechada, perde-se a tônica
do argumento e
passa-se à submissão à autoridade. No
socialismo, atribui-se nor-
110 CARLOS RODRIGUES BRANDAO (org.)

malmente consciência \ erdadeira ao partido, que a define em seu


conteudo concreto. Isto pode serjustiflcado. em nome de uma práL-
tica historica. no sentido de autodetesa ideologica. Mas é claro que
pre\ alece o "argunleÍrtt-)" ,Je autoridade. Tal característica pode
tacilmente ser apreendida nos momentos em que se põe em questão
a condição do parrido como representante le-qítimo do proletariado.
No caso da Polônia,, quem tem consciência r.erdadeira: o partido ou
o povo contrário à condução partidária?
Assim, parece claro que: 1) pelo simples fato de ser ptâtica,
uma teoria não precisa ser verdadeir a; 2) não se define a consciência
verdadetra fora de uma prática ideologrca, ou seja, não hâ somente
argumentos, mas opções políticas concretas. Quando se assume
uma prâtica, opta-se por ela, com virtudes e defeitos. Lança-se mão
da ideologia para justificar a pratrca, para enaltecer as virtudes e
para encobrir os def-eitos. Tudo isso e simplesmente historico. Quem
nào tir er corasenr de assumir tambem os defeitos da prâttca,jamais
chegará a prática.
Prrr r)urra parre. tlca patente que toda prática possui tendência
it'isra. porque é uma marca propria da ideologia, a busca de
e-rc/rrs
autodefesa. Duas dimensões são aqui vitais: em teoria defendemos
facilmente o pluralismo ideologico; na prátrca, pratrcamos nossa
ideologia. Por ser opção polítrca, excluímos as demais; caso contrá-
rio, seria indiferente assumir qualquer pratrca. Assim, náo hâ deci-
são histórica práúrc4 sobretudo aquelas mais ostensivas e contes-
tadoras, sem pelo menos um pouco de fanatismo, porque é em nome
dele que se chega a dar a vida por um projeto político determinado.
Quem passa a vida "em cima do muro", não faz história, ou é

tragado por ela. Por medo do compromisso, inutiliza sua passagem


pela história, ou serve a compromissos escusos. Isto significa, de
novo, que não hâ como fazer história, sem "srrjar-se" com ela.
Todavia, por causa disso, é importante demais sempre voltar à
teoria, paru aperceber-se do fanatisffio, para aprender de outras
prâtrcas e para, se for o caso, até mu dar de prática. Quem não volta
à teoria, deixa de ser crítico e autocrítico, submergindo no ativismo
fechado e obtuso, e passa a condenar tudo que não esteja de acordo
com sua teoria ou com sua prâttca.
Em ciências sociais, a dialética entre teoria e práútca é condi-
ção fundamental da pesquisa e da intervenção na realidade social.
Se admitimos que estamos de qualquer maneira comprometidos, já
não levantamos a pretensão tola de nos isentarmos de qualquer

1llqmll"
REPENSANDO A PESQUISA PARTICIPANTE

compromlsso, mas vamos logo àquilo de que se trata de fato: que


tipo de compromisso vamos justifi car?
Ao mesmo tempo, a prâtrca é elemento metodológico inte-
grante do processo científico, tanto no sentido de servir de constante
leste para a validade da teo ria, quanto no sentido de assumir que
a
propria pesquisa é uma intervenção na realidade. Assim, effi ciên-
cias sociais , a prática é uma forma de conhecimento, porque
através
dela testamos o conhecimento vigente e produzimos o noyo. bem
como dialogamos dinamicamente com a realidade e conosco mes-
mos, na medida em que também fazemos parte da realitJa,Je socrai.
Sem o componente da prática. nossa reoria nào tlca hisrorica:
produzimos a típica alienação acadêmica de r er o mundo arra\ és da
sala de aulas. Ao mesmo tempo, recebemos uma tbrmação alienada.
porque não nos serve na manipulação da realidade, nem temos
noção clara daquilo que é viável, daquilo que é possível, daquilo que
é realizável.
O senso de relativa inutilidade que assola hoje as ciências
sociais se deriva em grande parte do absenteísmo prático. A título de
rigor lógico e de objetividade, montamos a farsa à. .*pectadores de
um estranho circo, do qual, contudo, somos necessariamente atores.
Não adianta escamotear a ideologia. E melhor discutir qual é a
preferencial.
A prâtica ttaz novas dimensões ao conhecimento científico
social, que são essenciais para sua construção. Em primeiro lugar,
obriga à revisão teórica, porque na prática toda teoria é outra. Em
segundo lugar, leva o cientista a "sujar" as mãos, tornando-o con-
cretamente histórico, ou seja, ao mesmo tempo aproveitável e con-
denável. Em terceiro lugar, assume a opção ideoiogica e pratica a
se dá ao escamoteamento de suas justificações políticas. Em quarto
lugar, pode colaborar no controle ideológico, na medida em que não
se da ao escamoteamento de suas justificações políticas. Em quinto
lugor, torna a teoria muito mais produtiva, porque a obriga à ade-
quar-se a uma realidade processual, inquieta, conflituosa, que pou-
co tem a ver com uma visão muito arrumada e estereotipadà da
realidade sociai. Em sexto lugar, submete a teoria ao teste saudável
da modéstia, porque em contato com a realidade concreta e política
descobre-se facilmente que uma coisa é o discurso, outra a práttrca.
Não esgotamos a realidade, nem temos toda a verdade na mão;
somos apenas pesquisadores, ou seja, gente que duvida,
Que erra,
que deturpa, mas que, sabendo disso, quer redu zir o desacerto. Em
sétimo lugar, leva ao questionamento constante da formação aca-
CARLOS RODRIGUES BRANDÃO (org.)

dêmica, centr ada em superficialidades e irrelevâncias, que divertem


a alien açáo universitária mas que não conseguem tornar as ciências
sociais baluartes concretos de realizaçáo humana, de salvaguarda da
democracta, de vigilância indomável contra as desigualdades sociais.
Em oitavo lugar, repõe a importância do componente político da
realidade, a qual não somente acontece, mas pode, pelo menos em
parte, ser conduzida, influen crada, redirecionada; a prática traz a
oportunidade histórica de construirmos, até onde é possível, nossa
propria historta, para que o projeto político seja expressão da socie-
dade desej ada, ou pelo menos tolerada.
Não conseguimos, a pretexto de objetividade e isenção ana-
lítrca, nos colocar fora da história, actma dela, ou ao lado dela,
imaginando que isto nos daria condições melhores de a conhecer.
Nos mesmos somos produto histórico. Por isso estamos imersos na
práúrca, também quando desejássemos fazer pura teoria. Porquanto
a alienaçáo é uma maneira de fazer historia, mas é péssima, porque
sequer sabe disso. Não conseguimos ser meros observadores de uma
trama que é necessariamente nossa.
Por outro lado , a pratica não pode ser a porta escanc arada da
devassidão ideologica. Se for prâttca no contexto científico, há de
predominar o argumento sobre a ideologia. Ao dtzermos que a prá-
ttça é necessariamente ideologica, não quer dtzer que seja só ideolo-
gta cientificamente apreendida e controlada. Se não perdermos o
relacionamento dialético entre teoria e práttca, fica mais fácil evitar
o ativismo e o fanatismo de uma prâtica quejá desfez a sensibilidade
pela teoria crítica.2

Postura dialética

E praticamente impossível a PP fora de uma postura dialética.


Sua forte crittca à pesquisa tradicional acaba coincidindo com a
reivindicação de uma metodologia própria para as ciências sociais,
que não tenta imitar tacanhamente as ciências naturais. Tal postura
pode vir macul ada pelos excessos mais ingênuos, desde imaginar
que a dialétrca acabe com a logica e a experimentação, até imaginar

(2) A . S. Vasq uez, Filosofia da Práxis, Rio de Janeiro, Paz e Terra ,

1977; F. Chatelet, Logos e Práxis, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1972; K. Kosik,
Dialetica do Concreto, Rio de Janeiro, Paz e Terra , 1976.
REPENSANDO A PESQUISA PARTICIPANTE 113

que a dialética seja a tábua de salvação das ciências sociais e da


humanidade. 3
De todos os modos é preciso visu alizar algo da dialéti ca para
entender muitas das pretensões da PP. Todavia, temos aqui um
problema logo de partida: a draletica, como qualquer outra meto-
dologia, não é unitária. É um erro primário r.rpo. que a única
dialética possível ou aceitável seja o materialismo dialético. por isso,
torna-se difícil compor elementos gerais da d,raletica, no sentido de
serem bem comum de todas as versões praticadas, mesmo porque há
as antagônicas. Seja como for, levantamos aqLli alguns elementos
pata início de discussão e que são necessárir-rs para aprec'fldermos
certos rumos da PP.
Num primeiro momento, r'ale dizer que a dialetica é r'ista
como a metodologia propria das ciências sociais. Isto nào precisa
coincidir com exclusivismos, como se as ciências sociais não pudes-
sem lançar mão das metodologias das ciências naturais. Porquanto
não há pureza metodológica, mas relativa especificidade. O que
permite uma definição própria, mas igualmente a convivência com
outras , ainda que conflitos também.
Não e fácil mostrar que as ciências sociais trabalham com uma
realidade tão específica que merecem ser tratadas especificamente
do ponto de vista metodologico. Mas não é problema muito dife-
rente aceitar que a realidade é unitá rta, devendo-se, pois, aplicar a
ela metodologia unttária, retirada dos cânones das ciências naturais.
Na verdade, isto depende da concepção de realidade,
Que pode ser
explicitada, mas não propriamente demonstrada. Não dá para mos-
trar dialeticamente que a realidade é dialética. Temos ài, pois, uffi
ponto de parttda, já que não há partida sem ponto, mas que é um
pressuposto no sentido lídimo do termo: supomos que seja assim,
pelo menos como hipótese de trabalho. Em todo caso, a Pp supõe
que assim seja e por isso lança mão da metodologia díaletica. a
Ao mesmo tempo, desiste-se da idéia de que a dialética seja
metodologia unitári a paÍa todas as realidades. Ela serve para captar

(3) H. Lefebvre. Logica formal /logica dialetica, Rio de Janeiro, Civili-


zação Brasileira, 1975; J.-P. Sartre, QuesÍão de método, São paulo, DIFEL,
1972; M . Harnecker, Los conceptos elementales det materialismo historico,
Buenos Aires, Siglo XXt, 1972; A. Cheptulin, A diatetica materialista, São
Paulo, Alfa -Omega, 1982; B. M. Lakatos e M. de A. Marconi, Metodotogia
científica, São Paulo, Ailas , 1982.
(4) H. Marcuse, "Zum Probleme der Dialektik", in Die Gese/schaft,
7 (1930); H . Frey, Socio logia, ciencia de ta reatidad, Buenos Aires , 1944.
tt4 CARLOS RODRIGUES BRANDÃO (org.)

fenômenos historicos , caractertzados pelo constante devir, não paÍa


'
captar fenômenos naturais, que são dados.s
Caracterrza profundamente a dialética a idéia de que toda
formação social é suficientemente contraditoria para ser historica-
mente superável. Embora nem todas aceitem isto, serve como ponto
de partida. Privilegia-se na realidade seu lado conflituoso, não como
defeito, mas como característica historica natural. No fundo, en-
tende-se o histórico como conflituoso. A superação histórica é um
fenômeno natural, porque predominam conflitos, não somente con-
flitos de menor porte, mas igualmente conflitos que não consegui-
mos resolver e que decretam o término de um sistema dado. Tais
contradições não são extrínsecas, embora possa haver; são intrín-
secas, no sentido de que fazem parte constituinte da realidade.
A historra é irrequieta, inacab ada, superável, porque é contra-
ditória. Uma historia não contraditoria coincidiria com uma história
parada, tranqüila, onde jâ nada acontece. Ou seja, não é um fenô-
meno histórico.
A pedra de toque da dialética e o conceito de antítese. Do seu
entendimento surgem as mais variadas versões dialéticas, inclusive
contraditórias. De modo geral, antítese signifi ca a vigência de con-
tradições dentro de determinada formação social, ou seja, a convi-
vência num só todo de polos contrários, o que resulta na identidade
de contrários. Se a antitese for radical, leva à superaçáo do sistema,
porque reflete um conflito que o sistema j â náo consegue absorver ou
resolver. Se a antítese não for radical, determina a manutenção do
sistema, ainda que introduz modificações internas.
Simplificando as coisas, as superações históricas são traba-
lhadas por antíteses radicais que levam a mudanças do sistema.
Antíteses não radicais induzem mudanças dentro do sistema ou a
relativa manutenção da situ açáo dada. De todos os modos, a reali-
dade histórica é uma polarizaçáo intríns eca e nisto exercita sua
dinâmica própria de uma totalidade em infindável processo de mu-
dança. A histona é uma sucessão de fases. O conceito de fase intro-
duz os dois movimentos típicos da antítese: existe a persistência his-
tórica relativa, sem a qual a fase não se institu cionaliza; mas não

(5) Assim, a idéia clássica de Engels de construir uma "dialética da


natureza" estaria em decadência. A natureza possui talvez cronologia, mas não
propriamente historia; está estruturalmente dada, e por isso não é propriamen-
te produzida na e pela história.
REPENSANDO A PESQUISA PARTICIPANTE I15
passa de fase, ou seja, é provisória,
porque nahistória tudo nasce.
cresce, vive e morre.
Embora seja correto que a dialé trca privilegia
o fenômeno da
tran sição historica, ela faz parte
da visão metodológica da ciência
ocidental, ou sej a, também é no*o tettca. concebe-se como esquema
explicativo de mudanças historicas,
mas não desaparece com o
desaparecimento dos sistemas. contem,
pois, formalizações e é, no
fundo' um tipo de logica. Elabora, senão
leis do devir. pelo rrenos
regularidades do acontecer. Ao aplicarmos
a certo tipo ,Je tentr*Ê.r,.r
histórico o conceito de revolução. suponros
grr.- e ilr rt-rrj jL, rr-:r; de
mudanÇas radicais, muita coisa aí sc re pi--id.
iJrir, c-!, >.. :1.:;"
L-
mesmo conceito.
Ao mesmo tempo- se aceitamos que a histrrns
ptrrJe tambem
ser feita e planejada- isto somente é possír
el >e a adnritimos pelo
menos regular, para ser previsível e manipulár'el
Decididamenre.
não sabemos trabalhar com uma realidade
que fosse irregular.
imprevisível, caótica ou totalmente subjetiva. pelo
menos um lairo
de determinismo é típico de nosso modo
de fazer ciência. Mesmo a
história não acontece de qualquer maneira,
mas é
tal sorte que tudo o que acontece na história condicionada, de
é historicamente
explicável' Por mais que o salto seja qualitativo
sado por fatores antecedentes. Não
e radrcal, foi cau-
cai do céu, nem é puramente
decidido pela vontade humana.
Há também um modo próprio de ver o relacionamento
sujeito e objeto derivado da concepção entre
específica de realidade social,
não apenas fisicamente d,ada, mas também
construída na história.
A consciência históri ca e a possibilidade
de intervenção humana são
constituintes centrais deste processo.
Entre sujeito e objeto não há
mera observaçã'o por parte do primeiro,
nem imposição evidente
por parte do segundo, mas interação
dinâmica e dialetica. Acabam-
se identificando, sobretudo quando
os objetos são sujeitos sociais
também, o que permite desfazer a
idéia de objeto, Que caberia
somente em ciências naturais.
Ao mesmo tempo, dentro do quadro d,a
teoria e d,a prátrca,
admite-se como central o componente
político, definido como a
participação e intervenção do homem
nos acontecimentos históricos,
o que determina a ideologia intrínseca da realidade social,
nunca é apenas dada objetivamente, que
mas também construída social-
mente' Embora objetivamente condicionada,
história se desenrole da maneira que aí
o fato de que nossa
está é uma das opções
políticas pos síveis .
i i6 CARLOS RODRTGUES BRANDÃO (ore.)

Colocados tais elementos esparsos. surgem já


algumas diver-
gências, o que ocasiona versões diversificadas
na prática. Algumas
dialéticas são mais "objetivistâs", porque acentuam
os condiciona-
mentos objetivos' E o caso do materialismo
historico. que admite a
intervenção política humaLà, mas determinada
em última ins tància
pela infra-estrutura econôm tca. Outras
são mais subjetivistas, do
tipo hegeliano, que vêem a história mais feita
pelo homem do que
acontecida objetivamente. E outras procuram
um meio termo, atri-
buindo ao elemento político o mesmo peso
dos elementos ditos
infra- e struturai s .

Ademais, a visão da antítese historica e variada.


No materia-
lismo histórico predomina a tendência
de considerar o capitalismo o
último modo contraditório de produção, que
baseia a idéia cons-
tante de entender a históri a até ao capitalisrno
como pré-história. É
incisivo este texto da contribuição à crítica
da uroio*ia política;
"A traços largos, os modos de produção asiático anti.go,
burguês moderno podem ser qualificados , feudal e
como épocas progressivas
da form ação econômica da sociedade. As
relações de produção bur-
guesas são a última forma contraditória
do pro..rro de produção
social, contraditória não no sentido de
uma contradição individual
^r"rt.i
mas de uma contradição que nasce das
condições de existê;;;
dos indivíduos' No entanto, as forças produtivas
que se desenvolvem
no seio da sociedade burguesa criam ao
mesmo tempo as condições
materiais para resolver esta contradição. com
esta organização social
termina, assim, a pré-história da sociedade
human a,, . 6

Destarte, depois do capitalismo teríamos


outra
tese,já não mais rad,ical, porque não contraditória. ótica d,a antí-
A idéia
toda formação social seria suficientemente contraditória de que
para ser
historicamente superável valeria ate ao capitalismo.
As condições
econômicas novas , capazes de satisfazer
; todas as necessidades
materiais superando o reino da necessidade,
produziriam as condi-
ções suficientes do reino da liberdade, radicalmente
diverso.
Parece muito discutível esta postura, porque
tende a camu flar
os conflitos do socialismo ou de qualqu.i
fur. que venha após o
capitalismo' Não seria o socialismo simplesmente
uma fase histórica
como qualquer outra, também conflitroru,
também superável? se
superarmos o conflito de classes caprtalista,
superamos tão-somente

(6) K' Marx, Contribuição para a crítica da


economia política, Lisboa,
Estam pa,1973, pp. 2g-2g.
REPENSANDO A PESQUISA PARTICIPANTE Tn
a maneira histórica própria do capitalismo de o conflito acontecer.
mas não se supera a catacterística
específica conflituosa da historia.
se o dinamismo dela provém de
suas contradições, que história seria
esta já sem contradições radicais?
Neste desdobramento, os soviéticos
invent aram
não-antagônica", correspondente precisamente a ,,dialética
a uma situação his-
tori ca já sem conflitos radicais,
porque não apresentaria o conflito
de classes' certamente não apresenta
o conflito de classes como no
capitalismo, porque não existiria
mais-valia. Mas apresenta o con-
flito da desigualdade, instrument alizad,o não
mais pela posse ou
não-posse dos meios de produção.,
mas pelo acesso à elite burocrá-
tica e parti dária' Por isso mesmo,
continua histórica, ou seja, con-
flituosa e superável. 7
o conflito, teoricamente considerado, não é um
capitalista, mas da história como tal; problema
é problema do capitalismo o
conflito de classes, somente.
Trava-se, então, uma polêmica forte entre
dialéticas de inspi-
ração marxista e outras ditas histórico-estruturais.
Estas admitem
que a história tenha estruturas dadas, como
a própria infra-estrutu-
ra econômica' Sobretudo, porém, a desigualdade
social é uma estru-
tura histórica, no sentido de que não há história
que não contenha
esta característica. E mais: são historicas por
causa desta caracte-
rística' Tais estruturas, porém , nã,o esfriama histó
ria, como no caso
da metodologia estruturalista, mas são precisamente
a fonte do
dinamismo histórico.8
Assuperações históricas se concentram sobre
a questão da
desigualdade social, que é um conflito tipicamente
insuperável:
conseguimos teduzit, não eliminar. Por causa
dela, continua a
sociedade inquieta, pre cária, problemática,
superável. por mais que
a sociedade possa sonhar com a utopia d,a iguald
ade, a realidade,
por ser histótica, teahza formas concretas
de desigualdade. O fenô-
meno da desigualdade seria, assim, âo mesmo
tempo , à,desgra ça,,
e o dinamismo historico.
o materialismo histórico, por conter a noção de que a história
contraditóri a vai até ao capitalismo, imagina
uma historia posterior

(7) Ch. Bettetheim, A tuta de c/asses na tJnião


neiro, Paz e Terra , 1gT6; R. Bahro, Die AJternative Soviética , Rio de Ja_
tierenden Sozialismus, Rororo , 1gTO. : Zur Kritik des rear exis-
(8) Cf' sobre a questão historico-estrutural, p.
introdução crítica, Aflas, 1gg3. Demo, Socio/ ogia: uma
cARLos RoDRIGUES BRANDÃo (org.)

não-contraditlrra, sem a "dominação do homem pelo homem";


embora persistam conflitos, estes seriam não-antagônicos.e Jâ não
se colocaria a superação histórica. Pode-se pergun tar; como pode
uma historia contraditoria gerar outra não-contraditoria? E claro
gue, apelando-se para as potencialidades historicas,, consideradas
praticamente inesgotáveis e nunca totalmente conhecidas, é permi-
tido levantar a hipotese de uma historia profundamente diferente da
conhecida. Mesmo porque a historia passada não e parâmetro defi-
nitivo para a futura. Mas a hipotese conffârta, de que a desigual-
dade social é estrutural e disto a histona retira seu dinamismo social
próprio, também é válida e tem a seu favor a história conhecida. A
hipótese anterior está mais próxima do mito do que a segunda.
Por estas razões, existem divergências sobre a profundidade
das superações históricas. Não parece possível defender a revolução
total, no sentido de que o conseqüente já não seria explicável pelo
antecedente. Retomando o texto anteriormente citado por Marx, dtz
ele :

"Assim como não jul*ea um indir'íduo pela idéia que ele faz de sl
se
proprio, não se poderájulgar uma tal época de transformação pela
sua consciência de si; é preciso, pelo contrário, explicar esta cons-
ciência pelas contradições da vida material, pelo conflito que existe
entre as forças produtivas sociais e as relações de produção. Uma
organizaçáo social nunca desaparece antes que se desenvolvam todas
as forças produtivas que ela é capaz de conter; nunca relações de
produção novas e superiores se the substituem antes que as condições
materiais de existência destas relações se produzam no próprio seio
da velha sociedade. E por isso que a humanidade só levanta os
problemas que é capaz de resolver e assim, numa observação atenta,
descobrir-se-á que o próprio problema só surgiu quando as condições
materiais para o resolver jâ existiam ou estavam, pelo menos, em via
de aparecer" .lo

À luz deste texto, paÍece claro que a superação histórica não


produz o novo total, mas o novo relativo, ou seja, predomina o novo
sobre o velho. Seria uma colocação a-histórica aquela que previsse

(9) Visão típica de F. Engels, Do socialismo utopico ao socialismo


científico. Lisboa, Estampa, 1972, p.98. "O governo sobre as pessoas é subs-
tituido pela administração das coisas e pela duração dos processos de produ-
ção. O Estado não será 'abolido', extingue-se" .

(10) K. Marx, op . cit.


REPE\SA\DO A PESQUISA PARTICIPANTE 119

um salto de tal ordem , que jâ não fosse historicamente explicável.


Por isso, a ideia de que a historia futura, pós-capitalista, jâ náo seria
antagônica, nos parece uma expect ativa possível, na ordem da uto-
pia, mas praticamente infund ada e) no fundo, uma concessão mí-
tica.
O materialismo histórico pode igualmente exceder-se em sua
acentuaçáo objetivista, secundarizando o lado da intervenção hu-
mana. A questão do poder não nos parece supra-estrutural,, embora
seja facilmente condicionada pela infra-estrutura mareria I . Dificil-
mente a mudança nas estruturas da desigualdade se Íazem sem 3
intervenção dos desiguais. Para a PP. que insiste murro nesra pt-'ssr-
bilidade de participação historica. o "objetir ismo" e.\cessr\ o âu-âLr&
desestimulando, mesmo porque não há re\ olução sem ideoloeia
revolucionária.
Não se trata, por outro lado, de privilegiar aspectos políticos
da intervenção humana na história sobre condições materiais. Nossa
posição tenderia a ver os dois fatores no mesmo pé de igualdade. O
lado material circunscreve precisamente os limites e possibilidades
da açáo humana. Concretamente falando: mera consci entização
política não adianta, porque não interessa mera pobreza partici-
pada. É mister a produção, na mesma importância. Todavia, a
capacidade de assumir, pelo menos em parte, seu destino historico,
elaborando a opção política que mais pareça conveniente à comuni-
dade , é a fonte da energia humana, que não se contenta em esperar,
em observar, e muito menos em se conformar. Porquanto historia
humana é aquela feita pelo homem a serviço do homem, não aquela
que acontece à sua revelia. O equilíbrio entre o objetivo material e o
subjetivo político é complicado, mas é preciso obtê-lo.
Não cremos que a questão do poder seja uma questãg
Capi-
talista e que, superando-se o capitalismo, supera-se
o problema do
poder' o fato de podermos consid erar o caprtalismo
como a fase
histórica mais perversa jamais conhecida é
outra coisa. É uma uirào
curta descrever o capitalismo como o resumo
de todos os males,
tanto porque superv alotizamos a impor tància
apenas relativa de
uma fase histórica, como porque faciimente isentamos
fases poste-
riores da ctítica, como se fossem necessariamente
melhores.
Temos de reconhecer a complexidade desta
discussão, bem
como seus reflexos ideológicos. E é uma pena
que a pp não a tome a
sério, supondo-se muitas vezes ingenuamente dialética,
ou imagi-
nando que a única dialética possivet seja a versão
do materialismo
histórico' Em nossa concepção, preferimos uma visão
de tipo maoís-
r20 CARLOS RODRIGUES BRANDÃO (org')

tà, de estilo historico-estrutural. e que é a mais próxima das pre-


tensões da pp.11 Em primeiro lugar. ao aceitar-se uma revolução
cultural e não somente ao nír'el da mudança do modo de produção,
fica superado o esquenta tendencialmente monocausal de uma única
infra-estrurura que derermina em ultima instância. Abre-se o espaço
para o político. nào para substituir o econômico, mas na mesma
ordem de importância. Se conservássemos a linguagem da infra-
estrutura, nela colocaríamos pelo menos mais a questão do poder,
que é certamente condicionada pelo econômico, mas que existe em
qualquer sociedade, mesmo quando não havia um modo organi zado
12
de produção.
Ao mesmo tempo , ào aceitar-se a revolução permanente,
monta-se a idéia mais realista de que é preciso abalar a história de
forma permanente, de tempos em tempos, jâ que não existe uma
historia não-antagônica. Por eremplo. é estrutural na história a
tendência de o partido distanciar-se da massa e tornar-se uma buro-
cracia prir ilegiada. \ào é uma problemática capitalista, mas sim-
plesmente social: em roda sociedade existe poder e ele caractettza-se
principalmente pela desigualdade entre grupo dominante e maioria
dominada. Para recompor a transição na rota de uma organizaçáo
cada vez mais demo cratrca da sociedade, é preciso, de tempos em
tempos, conclamar uma revolução para restabelecer a oportunidade
dos dominados e submeter a seu juizo o processo social.
Esta ótica, que pode ferir crenças do materialismo histórico,
parece-nos muito mais realista. E facil demais mostrar que o revo-
lucion ário de hoje po derâ ser o reacionano de amanhã. Se chegar ao
poder, verá a sociedade de cima para baixo, e pro cutatá instaurar
uma ordem social, que esperamos seja preferível, mas será certa-
mente uma ordem institucionali zada. E isto é profundamente histo-
rico, porque não hâ somente transição, mas também institucio-

(1 1) O. Weggel . "Der ideologische Konflikt zwischen Moskau und Pe-


king, Beilag e zur Wúnenzeitung " , Das Parlament, 3.28-70, 11.7 -1970.
Wf As sociedades ditas "primitivas" conheciam o fenÔmeno do poder,
embora não possuíssem um modo organizado de produção. E claro que havia o
condicionamento da sobrevivência material, mas o acesso ao poder era instru-
mental tzado fundamentalmente pelas crenças míticas. Ao mesmo tempo, não
é possível imaginar que a desigualdade política possa ser extinta pela supe-
ração da carestia material. Ela existe na carestia e na abundância, porque
possui raízes no proprio relacionamento social entre os homens, grupos, comu-
nidades e sociedades, e não apenas no relacionamento dos homens com sua
realidade externa. Assim , se, por hipotese, pudéssemos dominar os condic io-
namentos objetivos da desigualdade, restariam ainda os subjetivos.
RE PENSANDO A PE SQUISA PART ICIPANT E I2I
nalízação historica. uma revolução que
se institu cionaliza, ao mes-
mo tempo se realiza e envelhece. O conceito
de antítese prevê as
duas modalidades: o movimento radical
que leva à transição histó-
rica e o movimento não -antagônico que produz
h istorica.
a permanência
Assim, é uma ótica apressada imaginar que pp
a deva somente
produzir efeitos transformadores, porque
pode produzir efeitos re-
formistas , quando não pro d,uz efeitos
conservadores e ate reac ioná-
rios. Depende da ideolo_eia política.

Como se entende a pp

Tentaremos agora fazer um rápido percurso


sobre a autode_
finição da PP , pàra posteriormente avaliarmos
sua adequação como
pesquisa.
Segundo Hall , " a pp é descrita de modo
mais comum como
uma atividade inte gtad,a que combina investigação
social , trabalho
educacional e ação. A combinação destes
elementos num processo
inter-relacionado ocasionou tanto estímulo
quanto dificuldade para
quem se engajou na PP ou experimentou
entendê-la. Algumas das
cataçterísticas do processo incluem :

"a) o problema se origina na comunidade ou no proprio


local de
trabal ho;
b) A finalidade última da pesquisa é a transformação
estru-
tural fundamental e a melhoria de vida dos envolvidos.
os benefi-
ciários são os trabalhadores ou o povo atingido;
c) A PP envolve o povo no local de trabalho ou a comunidade
no controle do processo inteiro de pesquisa;
d) A ênfase da PP está no trabalho com uma larga
camada de
grupos explorados ou oprimidos: migrantes,
trabalhadores, popula-
ções indígena s, mul heres ;
e) a central pata a PP o papel de reforço à consc
tentização
no
povo de suas próprias habilidades
e recursos, e o apoio à mobil rzaçã,o
e à organização;
0 O te rmo "pes qu isador" pode referir-se tanto à
comunidade
ou às pessoas envolvidas no local de trabal ho como àqueles com
treinamento espec ialtzado;
g) Embo ra aque les com saber/ trei namento especia
hzado mui -
tas vezes provenham de fora da situação,
são participantes compro-

%,
t22 CARLOS RODRIGUES BRANDÃO (org.)

metidos e aprendizes num processo que conduz mais a militância do


que ao distanciamento" . 13

Este texto é bastante ilustratir,o porque procura combinar o


problema daparticipação com o da pesquisa. acentuando que é
típico compromisso político talvez mais do que o compromisso
com a pesquisa. Mas existe consciência da descoberta da realidade,
o que pode ser visto, por exemplo, na ideia de "transferir poder ao
povo através do processo de conhecimefltorr,t+ preocupando-se mui-
to com o problema de que o pesquisador treinado não substitua o
povo. Ao mesmo tempo, a PP signifi ça a repulsa contra a manLpu-
laçáo das comunidades, buscando produzir o sab er através da aná-
lise coletiva e mantendo o controle nas suas mãos. Assim, criar saber
popular é um dos objetivos da PP, porque acredita-se que o domínio
do saber é uma fonte de poder, o que colabo raria no projeto de
transtormação social. r:
Hall ret'lete uma posição crítica em fàce do materialismo his-
torico. reconhecendo sua utilização possível mas de forma não-dog-
mática. para respeitar a criatividade propria da PP, que pode út
gerada dentro de outras versões dialéticas, e ainda usando outros
métodos possíveis. Todavia, é clara a insistência sobre o problema
do poder, no sentido de compromisso transformador.

"A PP pode somente ser julgada a longo prazo se não possui a


habilidade de servir aos interesses específicos e reais da classe traba-
thadora ou das populações oprimidas." 16

Daí a import ància da criação do poder popular, que Fals


Borda chega a denominar "ciência do povo",17 dentro de um novo
paradigma de conhecimento, cujos traços poderiam ser:

(13) Budd, Hall, " Participatory Research, Popular Knowledge and po-
wer: a personal reflectio n" ,
convergence, 14 (3):7-g, 1gg1 .

(14) lbidem, p. 11 ; Rajesh Tandon, "Pârticipatory Research in the Em-


powerment of People", Convergence, 14 (31, 1981 usa-se o termo ,,empower-
;
ment of people" .

(15) R. Tandon , op. cit., p.21 . " Knowledge has been and will continue
to be a source of power. Participatory research has been an attempt to shift
this balance of power in favour of the have-nots."
(16) B. Halt, op. cit., p. 13.
(17) lbid., p. 14; O. Fals Borda, " Science of the Common people".
lnternational Forum of participatory Research, lugoslávia, 1gg0.
REPENSANDO A PESQUISA PARTICIPANTE

" a) retomar a informação ao povo


na ringuagem e na forma culturai
na qual, foi originada;
b) estabelecer o controle do trabarho pero povo
e pelos movi-
mentos de base;
c) popular izar técnicas de pesqui sa;
d) integrar a informação como base do ,interectual
orgânico,;
e) manter um esforç o consciente no
trúalho; ritmo ação / reflexão do
0 reconhecer a ciência como parte do dia-a-dia de
população ;
toda a

g) aprender a escutar".l8

Em trabalho anterior.Hall desen'ol'eu uma serie de


na ática da pesquisa' Segundo pontos,
sua visão, os princípios
todos os métodos de pesquisa da pp seriam:
estão impregnados de implicações
ideológicas; o processo
de pesquisa não
duto acadêmico, mas ,.p..'r;;;rr iod-? se esgotar num pro-
benefíclo direto e imediato
munidade'- ou seja, dever à co_
ter alguma utilidade prática
comunidade ou a população sociar; a
deve ser envorvida ,"
até à busca de soluções ;r;cesso inteiro,
e à interpretação dos achaàos;
mudança deve haver envolvimento se a meta é
'
processo de de todos os interessados
nela; ..o
pesquisa deveria ser
visto como parte de uma
cia educacional total, experiên-
Que serve para estabelecer as necessidades
comunidade' e aume ntar da
a cons cientizaçãoe o compromisso
da comunidade"; "o processo dentro
de pesquisa deveria
processo dialético ser visto como um
' um diálogo através do tempo, e não
desenho estático a partir como um
d; urn ponto no tempo,,; a
criativo meta é a
:l$::ii:#r5tencial ea mobli zaçãono senrido de
resorver
momento , àeentuava, ao farar do
.o*rrlã;J"" envolvimento da

ponto ma is radical de diferença


pesquisa' como dos tanto dos enfoques ortodoxos
enfoques teóricos melhorados. de
tigativo deve estar baseado.* o processo inves-
e análise' em que
r* sistema de discr..ãã, investigação
os investigados formrm
nível do investigador'
As teãrias
; artedo processo ao mesmo
não se desenvolvem
de antemão para

(íB) B
Lrtl , op. cit. , p. 14.
u"rnrnlJ,'à,?, !,,i'1'r-t'iiitip'torv Research: an approach ror chanse,,,
con_
t24 CARLOS RODRIGUES BRANDAO (org.)

serem comprovadas nem esboçadas pelo investigador a partrr de seu


contacto com a realidad e. A realidade se descreve mediante o pro-
cesso pelo qual uma comunidade desenvolve suas próprias teorias e
soluções sobre ai mesm utt 2o

Tandon constroi as seguintes caÍacterísticas da PP:

a)E um processo de "conhecer e agt. A população engaj ada


na PP simultaneamente aumenta seu entendimento e conhecimento
de uma situação particular, bem como parte para uma açáo de
mudança em seu benefício".
b) É iniciada na realidade concreta que os marginalizados
pretendem mudar. Gira em torno de um problema existente. Caso
haja consciência suficiente, a propria população inicia o processo e
pode até mesmo dispensar o perito externo. Mas,, ainda começando
pelo perito, o envolvimento da população e essencial.
c) Variam a extensão e a naÍureza da participação. No caso
ideal, a população participa do processo inteiro: proposta de pes-
quisa, coleta de dados, análise, planej amento, e intervenção fla
real idade.
d) A população deve ter o controle do processo.
e) Tenta-se eliminar ou pelo menos reduzir as limitações da
pesquisa tradicional. Pode empre gar métodos tradicionais na coleta
de dados, mas enfatrza posturas qualitativas e hermenêuticas, e a
comunicação interpessoal.
f) É um processo coletivo.
g) É uma experiência educattva.zl
O elemento educativo é muito acentuado, talvez porque o
movimento da PP tenha sido profundamente marcado por educa-
dores, principalmente no campo da educaçã,o de adultos.22 MacCall
une a trilogia: pesquisa, educação I tretnamento e organtzaçáo, o que

(20) B. Hall, "La creación de conoc imiento : la ruptura del monopolio,


métodos de investigacion, participacion y desarrollo", in Critica y Política en
Ciências Socia/es, Simposio Mundial de Cartagena, v. l, Bogotá, Ed. Punta de
Lanza, 1978; Idem, " Participatory Research: expanding the base of analysis",
in lnternational Development Review, 4:23-26, 1977 .

(21) Rajesh Tandon. op. cit., pp. 24-26-


(22) Um dos veículos mais importantes de divulgação tem sido a revista
Convergence, que traz o subtítulo I " An lnternational Journal of Adult Edu-
cation".
ü . .,,.-n iPESQLIS.{ PARTICIPANTE
!:' 125
" ,,- :r:jJs entàtiza aligação
'
,;,,,X. - : í',-: :,:- ; 3: : :n tgff-if . entre teori a e práttica, entre
23
conhecer e

i - - i-etorno da pesquisa ao povo é um elemento cons-


i:''f *ni

h *r: r {
'i-u: : Jenominado
freqüentemente de retroalime ntação. De
õoterr vrsuali za a PP lig ada a ôerto
"processo experimental,,, que é
assim montado: formul ação da problemá
tica provis oria(conceitos,
objetivos, hipóteses); escoiha das variáveis
a observar e dos instru-
mentos de pesquisa; observ ação das
variáveis; análise e síntese dos
dados; elaboraçã,o (afinação, transformação)
de uma pe\ â prob,le-
mâtica' A PP utiliza-se destes passos e é con.truíd:
.:r ::.s i:>es
1) la -fase ; "r.rploruç.rir) !t:t.tii cirt. 1,,irlj,r i..../.j.i,c
a) fixação dos objerir os
b) seleção de variár eis e dos instrumenros de pesquisa
c) realização da pesquisa
d) síntese;
2) 2" fase: identfficação das necessidades basicas 2a
a) elaboração da problemá ticada pesquisa
b) nova seleção das variáveis e dos lnstrumentos
c) realização
d) análise e síntese;
3) 3" faset elaboração de uma esÍrategia educativa
a) elabor ação de estratégias hipotéticas
b) elabor açã,o de dispositivo de comprovação
c) discussão com a população
d) comunidade assume estra tegia
e) execução.
Neste processo de três fases há também
momentos de retro-
alimentação: ao terminar a primeira fase;
ao terminar a segunda
fase; e na altura da discussão da 3a
fase com a população. com este
processo consegue-se: identificar
as necessidadàs;
gia de ataque; levantar os recursos estraté- fo.*ular
2s
disponíveis; partir para solu-
ções' Le Boterf é um dos autores que *uis carac teiizamo aspecto de

(23) Brian, MacCall,-.'P-opular


ces". Convergence, 14 (3):61_T8, f gAf Participation, Research and New Altian-
.
(24) o autor fala de necessidades educativas
básicas (NEB), porgue se
:""rffi Â:*J,J:,."J3;rlffir.ionar;
,ã, poderia
ser apricado a.q;tquer projeto
(25) Guy Le Boterf., " Descripcion del
pativa' utilizado ' una investigación método de ,encuesta partici-
ràur" necesidades educativas básicas de la
populacion de seis comunidaáes rura
les en una área centroamericana,,. project
INMUD / UNESCO, Brasítia, 1gTB, p.
12_18.
t26 CARLOS RODRIGUES BRANDAO (org.)

pesquisa da PP. Une pesquisa, com formação e ação, effi cima de


alguns postulados: potencialidade do grupo; para se chegat à açáo e
preciso a participação do interessado: é necessária a confrontação
crítica com os resultados (retroalimentaçào ): o técnico é educador;
e pesquisa e é aÇào: 3 pt-rpulaÇào tem e\pectatir as. recursos, reàções.
\um encoorrtr em Toronto. em 1977. toi formul ada uma
definição de PP, que Grossi assim e\pressa:

"É um processo de pesquisa no qual a comunidade participa na aná-


lise da sua própria realidade, com vistas a promover uma transfor-
mação social em benefício dos participantes, que são oprimidos. Por-
tanto, é uma atividade de pesquisa, educacional e orientada para a
ação. Em certa medida, a tentatla da PP foi vista como uma abor-
dagem que poderia resolver a tensão continua entre o processo de
geração do conhecimento e o uso deste conhecimento, entre o mundo
'acadêmico' e o 'irreal', entre intelectuais e trabalhadores, entre
ciência e vida". 26

Embora com possíveis exageros, a PP constitui-se num ato de


fé na potencialidade da comunidade. Por mais pobres que possam
ser as comunidades e ainda que nunca tenharn todos os recursos
necessários, são dotadas de criatividade, que as torna capazes de
visualizar o desenvolvimento que lhes convém.27 Busca-se, ademais,
fundamentar a tdeta de que o "conhecimento não nasce nos cérebros
de uma parte da sociedade, mas é socialmente produzido através de
um processo compartido por todas as partes. Não hâ diferença
qualitativa entre conhecimento teórico e prático; pertencem a dife-
rentes finalidades do mesmo contínuo.
Himmelstrand, ao lado de críticas relevantes, conota a PP

"como uma combin açáo inseparável de teoria, pesquisa e prâtica,


caracterrzadas pelo diálogo entre atores e pesquisadores, iluminando
os atores , bem como os pesquisadores acerça do significado da açáo
pretendida, e resultando eventualmente numa autonomia aumentada
dos atores em relação aos pesquisadores e à em ancip açáo de crenças
questionáveis e res tritivas na inevitabilidade da ordem dada das
coisas" .

(26) P. V. Grossi , "Socio-political implications of participatory re-


search" . Convergence,l4 (3):43, 1 981.
(21) Nat J. Coletta, ;'Participatory research or participatory putdown?
Reflections on the research phase of an lndonesian experiment in non-formal
education": Convergence, 9 (3) :43 et passim.
REPE\S.{\DO A PESQUISA PARTICIPA\TE

Retomando um esquema de Moser, orga nrza três passos üi


PP: coleta de informação no contexto da açã,o; discussão da infor-
mação entre atores e entre atores e pesquisadores, para clariticar
problemas e intenções, e para trabalhar diretivas da açáo social;
açáo social. Estes três passos são vistos, ademais, dentro da circu-
laridade sistêmiça da retroalimentação , jâ que o terceiro passo pode
engatar no primeiro.
A postura mais interessante talvez seja a apreensão de que a
PP une os enfoques objetivista e hermenêutico. De certa forma, o
paradigma científico tradicional preocupa-se mais em "entender
como somos produzidos pela sociedade, mas tem pouco ou nada a
dizet como produzimos ou poderíamos produzir a sociedadett.28
Entende que o materialismo historico perfa z esta combinação:

"O enfoque objetivista indaga pelas características objetivas inerentes


aos diferentes modos de produção, e o enfoque hermenêutico ilumina
as implicações destas características objetivas para a formação da
consciência de classe e para a auto-realtzaçáo humana". 2s

Por vezes parece que Himmelstrand confunde o enfoque obje-


tivista com a pesquisa tradicional e, por outra, esquece que paÍa o
materialismo historico clássico, por mais que se unam os enfoques,
prevalece o primeiro, já que a determinação econômtca e mais fun-
damental. Mas é pertinente a ideia em si: a PP combina o trata-
mento de condições objetivas dadas com nossa c apacidade histórica
de intervir nelas, recolocando a importânc ia da participação politica
humana na história.
Da ótica do educador, acentua-se persistentemente a idéia de
'napren dizagem co letiva" .

"Em seus traços gerais, tal estrategia se desenvolve com base na reali-
dade. Vivências, experiências e interesses dos membros de um grupo,
se sustenta sobre uma horizontalidade e diálogo entre os que parti-
cipam do ato de aprender , Se operaci onaliza através de métodos de
trabalho grupal e aprendi zagem coletiva e se orienta para o forta-

(28) lbidem, p. 60; Heinz Moser, " La tnvestigacion -Accion como nuevo
paradigma en las ciencias sociales", in: Crítica y Potitica en Ciencias Sociales.
Simposio Mundial de Cartagena, vol. l. Bogotá, Ed. Punta de Lanza. 1g7B
p.117 et passim.
(29) U. Himmelstrand, "lnvestigacion-Accion y Ciencia Social aplicaca:
valor cientifico, beneficios practicos y abusos". ln: Ciitica y Política en Ciencias
Sociales, op. cit. , p. 174-175.
CARLOS RODRIGUES BRANDÃO
(org')
128
recimento orga nizacional dos grupos menos
privilegiados. Portanto,
com u, uço.s que têm por objetivo estabele-
se vincula estreitamente
em benefício
cer linhas de trabalho e arganização que redundem
30
coletivo."

Emergeffi, assim, três passos fundamentais: o diagnóstico


co-
;,primeira fase de um trabalho de educação participa-
munitário,
a anáitse dos
"aretroalimentação no processo de PP ou seja'
tiva" ;
zaçáo de grupos
dados com participação comun rtaÍra" , e a organi
que as
instrumentais que assumem a ação.31 É, mister reconhecer
e desejam isto, ao
comunidades podem assumir responsabilidade
do governo não
mesmo tempo que se constata que a açáo exclusiva
De *ódo geral o diagnóstico
32 inicial prevê
resolve os p.oui.mas.
três coisas importantes: o levantamento dos principais problemas
recursos humanos e
que a comunidade enfrenta; a espec tfi,caçáo dos
possíveis; a detecção
materiais disponíveis e o provimento de outros
não formais já existentes
de componentes organiza'cronais formais e
33
para a solução de Problemas '
força o obje-
Tambem na ótica do educador, acentua-se com
qual se liga o nome de Paulo Freire'
tivo da consci entizaçáo, ao mobi-
da ..álidud. social vigente;
Inclui passos tais como: "crítica
social; revisão crittca da ação
Itzaçáo coletiv a para a transformação
da açáo futura; reavaliação do diag-
implementada, replanejamento
nostico prévio da realidade social" '34
Também e uttltzada a expressão "observação"
ou "pesquisa
clássico de
militante,,, seja no sentido de distinguir do conceito
,,observação participante", típico da antropologia, mas que signi-
ftca somente a convivência de perto com o
objeto de pesquisa,
seja sobretudo no sentido de " instrumento
e estratégia da pes-

alter-
(30) Marcela Gajardo e Jorge Wertheim, Educação Participativa:
nativas, (a sair pela Editora Paz e Terra)'
(31) lbidem, P- 20 eÍ Passim'
i'participatory Research by lndian women in Ner-
(32) Graee Hudson,
of Participatory Research,
thern ontario Remote communities ", in' Forumunsatisfaetory
zs, "Th" key to changíng this situation is for
lugoslávia,"ióao,-p have the capa-
government to recognize that indian peõptã and. communíties
and to make available the
city and the desire tô provide for theii own needs, people are free to deve-
necessary responsabirity and resourees so that rndian
lop and provid'e the services that thei themselves choose"'
(33) M. Gajardo eJorge Wertheim'' op ' cit''p'20'
,,põpular Education: concept and implications", in:
(34) F. F. Grossi ,
rnternationar cauncít for Adutt Education, Trinidad, maio 1981 , p'71 '
REPENSANDO A PESQUISA PARTICIPANTE Dg
quisa-ação",i5 ou da insistência sobre
o aspecto do envolvimento
político.
A tônica bás ica, todavia, do ponto de r ista metodologico
união entre conhecimento e ação. é a

"conhecimento e ação são dois aspectos


inseparár eis da ati'idade
humana' o conhecimento não é mera
contemplação. nem a prática
mera atividade; separada d,a práfiica,
a teoria se rec uz
a meros
enunciados verbais; separad a d,a
teoria, a prática não e nla:s que um
ativismo inconducente. Não há, pois,
autêntico conhecirn.nrc e .1u-
têntica ação, se não se expressam numa
permanente
^vrrl\' inrer-relacào
unitári a.,,36

A autodefinição d,a PP insiste em certos_ traços


longo desta sumária revisão catacrerísricos.- -;;1;;r. que são. ao
,
educativa, a idéia de superação dos
É a filiaçào
procedimentos tradicionais de
conhecimento, a opção critica e política,
práttca' o envolvimento comunitário.
a união entre teoria e
Em certos autores, a preocu-
pação com o aspecto da pesquisa
mantém-se vivo e, de modo geral
não chega a ser abandonado. Porquanto
sempre resta pelo menos
interesse em diagnósticos, avaliações,
planejamento, levantamento
de dados preexistentes etc., mesmo
no maior ativismo. Mas é pa-
tente também que a teoria é freqüentemente
sacrificada em favor da
prática' ttatando-se já de questàes
mais propriamente educati'as e
participatlas do que de pesquisa.
se aceitarmos o relacionamento dialetico
tica' não seria possível negar que
entre teoria e prá-
a práttica é componente essencial
também do processo de conhecimento
e de intervenção na realidade.
Ao mesmo tempo, a metodologia que
cabe à pp é certamente a
dialetica, porque é a que assume o
contexto histórico, privilegia a
apreensão e o tratamento dos conflitos
sociais, propug na atransição
historica e acredita no fator humano
como capaz de interferir em
condições objetivas dadas . É essencial
à pp o reencontro com a
capacidade criativa humana, sobretudo
dos humildes, dos opri-
midos' dos carentes,
9ue, à primeira vista, tendemos a estigm atizar
como impotentes.

(35) M ' Gajardo, "Evolucion, situacion actuat y perspectivas


estratégias de investigacion particip"iir" en América Latina, santiago, de las
FLAC-
i.?i,,Ti T'X?i, J; âliJ3"?::UÍiT p ,g,fJ%,','.1ióí0. revistã ó,0,i-."0a peio
(36) Luis Rigal, "sobre ól sentiáo,
crítica y potítica en-cienciats socialãs uso de ra lnvestigacion-Accion ,,
, in
, õ0. cit., p. 3.
130 CARLOS RODRIGUES BRANDÃO (org.)

Do que tbi r isto. pode-se igualmente concluir que a funda-


menraçàt'r ,Jialerica ,Ja PP é incipiente. Isto já denota que é impul-
sionatJa por pesquissrJtrrÊS marcados ou pela saturação teórica e
empirica tie esri,o lra,Jicional. rru pela desralori zaçáo da atividade
acadêmica. Lru mesmo pela ilusào do atir ismo. Cremos que vai nisto
tieqüentemente o equí\ oco de querer superar um erro com o erro
oposto. A crítica, muitas vezes brilhante , contra a ciência clássica
não é seguida da necessária fundamentação do novo paradigma.
É disto qr. resulta a constante insinuaçáo de que a PP já seria o
único gênero válido de Pesquisa.
É preciso entender que a PE, por maiores limitações que
tenha, tem elaborado uma fundamentação extensiva e frutificou
uma plêiade de tecnicas dignas de nota. Assim, não resta duvida de
que o discurso sobre quantificação está mais adiantado que o dis-
curso sobre propostas qualitativas. Nestas prolifera ainda a "con-
\-ersa fiada". por vezes como refugio de pesquisadores que não
teriam condições de entrenrar o mínimo rigor logico e empírico.
Assim. embora devendo-se reconhecer que a PP seja um gê-
nero r-álido de pesquisa. criativo. potencial e promissor, está cercada
de ban ayzações excessivas, que o simples entusiasmo não pode
supe ÍaÍ .
Causa popula r)
.l\
crencia popul ar
o

uma metodologia do conhecimento


científico através da ação*
K:l:::
ort lyrilta,
ando Fats ,Gonzato castiilo,
B orrú u;
*;Z' íií;rros * *
PróIogo

o presente texto é um esforço


riências acumuladas pelos de sistem atizaralgumas
autores durante mais expe-
balhos de campo em de um ano de tra-
várias regiões corombianas,
realidade das populações eÍD contato com a
toruÃ, seus problemas,
e aspirações' Além suas preocupações
disso, trata-se de um trabarho
senta a culminação de
um intenso processo de
."[]"o que repre-
por parte de cientistas críticae autocrítica
sociais de diversas disciplinas,
que a presente obra pode de tal forma
ser considerada um verdadeiro
interdisciplinar' A reáação esforço
é igualmente fruto de um
equipe. trabarho em
como resurtado, acreditamos
método especialmente que há bases para propor
adequado que aqui denominamos um
tudo-ação" e que leva ,,es_
à "investigação militante"
cientistas sociais responderem que permite aos
sem detrimento da ciên
-
úiticamente às exigências
cia, colocando-a a serviço
históricas
lares. dà camadas popu-

p-oputay: una metodotogia


y"ry,,,!J) r'ián:"i:'i: '!??9i' det conocimiento
rraduçao ;" Jutio Ass,, r,Xíá::: Bosotá, Pubtiããtior"r" J""rã' Rosca
, 1srz.
("*) os auto'"t táo cientistas
tificados com movimentos sociais corombianos intensamente
e lutas o-opr,rres em iden-
,
I:'ffiX?iJl",_jfirr: inicúoor oã
;ri,iÀà seu país. orrando Fars
Borda é
sociorosú;,, da pesquisa participante
132 cARLos RoDRIGUES BRANDÃo (org.)

Ninguém negarâ a necessidade e a urgência desta atitude crí-


tíca diante da ciência social e da sociedade. com todas as conse-
qüências práticas que ela traz. Por isso. esperamos receber dos
leitores observações concretas sobre o método de estudo-açáo aqui
proposto, que ajudem não apenas a conhecer melhor a realidade
mas também a transform á-la.

Ciências sociais e neocolonialismo


A vinculação entre a ciência social e o compromisso político
volta a ser colocada hoje com urgência. Este problema antigo ad-
quire nova vigência especialmente por circunstâncias históricas que
contribuíram pata modificar o panorama político internacional,
sobretudo após o término da Segunda Guerra Mundial. De um lado,
a onda de movimentos antiimperialistas e de libertação nacional,
que abal aram o poder colonial em vastas regiões da Asia, Africa e,
mais recentemente , da América Latina: a tentativa de revolução
socialista na Bolívia em 1952, âs medidas antiimperialistas do go-
verno de Jacobo Arb enz na Guatemala em 1954, a revolução cubana
em 1959, o movimento constitucionalista na Republica Dominrcana
em 1965, o triunfo da Unidade Popular no Chile em 1970, movi-
mentos guerrilheiros em vários países como Y enezuela, Colômbia,
Peru, Bolívia, República Dominicana e Guatem ala. De outro lado,
a ascensão dos Estados unidos à posição de vanguarda do sistema
capitalista-imperialista e dos interesses das grandes corporações
espalhadas pelo mundo, buscando por todos os meios impor sua
domin açáo hegemônica nos campos econômico, financeiro, comer-
cial, tecnológico, político e militar, como também no cultural e
no educativo. Estas pretensões expansionistas do império norte-
americano entraram em conflito aberto com os movimentos de liber-
taçáo nacional e também com os países socialistas, principalmente a
URSS e, a parttr de 1948, a Republica Popular da China.
Neste cenário de conflitos de classe, de luta pelo controle do
poder político tanto no plano nacional como internacional, as ciên-
cias em geral, e as ciências sociais em particular, não poderiam ficar
à margem da contenda. Elas se converteram efetivamente em uma
arma do imperialismo não apenas através de investigações sociais de
çarâter contra-revolucionano,l como também mediante a difusão de

(1) Com a guerra do Vietnã, os Estados Unidos se interessaram cada


vez mais em determinar as caracterfsticas sociologicas e psicologicas das orga-
REPENSANDO A PESQUISA PARTICIPANTE .:.:
uma ideologra'guepretende mostrar
as sociedades capitalistas domi-
nantes -- principalmente os Estados
unidos e seus procuradores ou
estandartes como metas de desenvolvimento
- cracta para
progresso e demo ou modelos de
os países do chamado Terceiro
do. Mun_
Em conseqüência, o mundo acadêmico
acordo com as novas necessidades foi reestruturado de
d,a administração e manutenção
do império' As universidades, por exemplo, experimenrara*
rápido processo de moder niru,,çào, un.r
,qraças ao respaldo tl nance:r._ e
político das grandes corporações
e das agen,,-ias go\ er:ri:-..:.ir;i
Muitas universidades que. dLrranre
trS irtrS d; Seiurd: G
Mundial, tinham-se lieado ao Deparramenro -er:.,
de De :esa para r pes-
quisa belica' ficaram entào encarregadas
de ohter e rnterprerer
informações sobre sociedades pouco
conhecidas. especialmenre
aquelas onde os interesses do imperio
estavam ameaçados pela in-
surreição popular' Isto explica por
gue, nas últimas decadas. se
incrementaram notavelmente os
àstudos de história, sociologia, an-
tropologia e economia bem como
os departamentos de estudos la-
tino-americanos, africanos e asiáticos. 2

nizações guerrilheiras' Em particular,


fatores que conduzem os camponeses
o pentágono procurou identificar os
prestarem lealdade a uma orga em sociedades ,,subdesenvolvidas,,
a
nização política clandestina, pondo
suas proprias vidas' A orga niiação em risco
(soRo) e o centro de lnvástigrçao oe lnvestigaçães para operações Especiais
o" sistemãs'sàciais (cRESs) promoveram
estudos sobre as organizações revolucionárias
Dong (Partido Revólucionário do pàvo), no Vietnã do sul, tais como Lao
vietnã do sul e suas org.anizações a rràÀte Nacionar àã Libertação do
de massa associadas. Também a corpo-
ração RAND realizou vaiios esiuoos
cong" e mantém contratos de i1r"tl,gaçãosobre "a máral e a motivação do viet-
Desde 1966' os grupos minoritários" social fin-anciados pelo pentágono.
conjuntamente por soRo-cREss-nnrvo do sudeste Asiático fo ram estudados
americanas' A cREss efetuou e-p;;rárias universidades norte-
estudos semelhantes também na
cluindo a pesquisa de minoriat Africa, in-
f;úàilsas, etnicas e sociais. o objetivo deste
estudo foi a mobitização e a.utilizJção
programas norte-americanos de grúá;; minoritários por parte dos
de conira-revolução
(2) A universidade do Estadô'ã" .

Mión-iõã-n orgutha-se de ter centros


estudo de três continentes: um de de
Estudos Asi-áticos, outro de Estudos
Americanos e outro de Estudos Latino-
vem vastas áreas acadêmicas tais
Afriãàno.. outros programas parareros
como as comunicações internacionais.envor-
cação' desenvolvimento econômico, agricultura edu-
internacional (baseado nas experiênciaõ g nutrição, administração
mundo) e administração e política no arasir e em outras partes do
de dásenvolvimento dentro de Íaculdades
ciências sociais, respãldadas finãnããi/rmente de
mento de Estado dos EuA peta Fundação Ford. o Departa-
Àtó. fooos estudos
", ãte* de estudos
pologia, a economia, a sociorogia, "à."i ringüísticosenvorvem a antro-
134 CARLOS RODRIGUES BRANDAO 1org.)

De lg45 a 1960, as investigações em todos os campos da ciên-


cia refletiram a preocupação com a defesa nuclear eotlra'a'URSS
com vistas a um eventual confronto armado no contexto da chamada
"guerra fria". De 1950 em diante, a atenção do imperialismo diri-
giu-se para o Terceiro Mundo, e as universidades norte-americanas
se adequaram mais uma vez à tarefa de ministrar o conhecimento e
o pessoal necessários aos fins perseguidos. A situação latino-ameri-
cana foi o principal foco de atenção do imperialismo durante o
governo de J. F. Kennedy, quando as universidades foram convo-
cadas a canalizar e controlar a direção da mudança induzida de
forma a não tocar nos interesses das classes dominantes.3
Para tratar de ocultar esse compromisso aberto com o sistema
imperialista, promoveu-se o desenvolvimento de uma ciência social
livre de valores. Seus mais notórios expoentes (como Knorr, Bell ,
Lipset, Rostow, Silvert e outros) pretendiam transcender o nível das
ideologias que se achariam em plena confrontação, afirmando que
estas haviam morrido e que. por conseguinte, eta possível uma
explicação "neutra" e "objetiva" de qualquer sistema social. Não
obstante, os cientistas sociais desta corrente acreditam na sociedade
capitalista e apóiam-se no pressuposto de que o desenvolvimento
social, econômico e político dos países dominados segue um roteiro
previamente determinado pelos Estados Unidos.
Ao mesmo tempo, flo Terceiro Mundo, floresceram como
nunca as faculdades de ciências sociais, com o respaldo de funda-
ções norte-americanas e de programas internacionais de desenvolvi-
mento: edifícios, bibliotecas, becas , pesquisas e professores-visi-
tantes foram financiados generosamente.
Desses centros acadêmicos saíram os sociólogos, os econo-
mistas e os cientistas políticos que depois de incorporaram aos

(3) O exemplo mais conhecido na América Latina é o chamado Projeto


Camelot e seu afilhado, o famoso "Plan Simpático", referente à Colômbia.
Tratava-se basicamente de um projeto para medir e prever as causas das
revoluções e insurreições nas áreas subdesenvolvidas do mundo. Procurava-se
também encont rar os meios para eliminar essas causas ou para enfrentar revo-
luções e insurreições . O Camelot era patrocinado pelo exercito nort e-ameri-
cano mediante um contrato de quatro a seis milhões de dólares com o SORO,
uma agência da American University de Washington, D. C. As investigações
do SORO incluem: Ievantamentos analíticos de áreas estrangeiras; preservação
de informações atua!ízadas sob re complexos militares, politicas e sociais da-
quelas áreas; preservação de uma lista de informação rápida para o exército
com respeito a qualqu er situação considerada importante do ponto de vista
militar.
REPENSANDO A PESQUISA PARTICIPANTE
135

: :: -1> .governamentais de desenvolvimento nacionais e interna-


- " : rI s . \{as, ao- contrfuio do esperado pelas agências financiadoras,
- 3§>3> mesmos centros se formaram muitas \ ezes professores e
: -ilt)s que, âo tornarem consciência do papel das ciências sociais, se
: -seram a serviço dos verdadeiros interesses nJcitrnais e populares.
?:e.'-isamente no auge dos estudos e pesquisas So.-rais.
a ciência
T'lr\ista põe um pe na universidade latino-ame nr-anl. trÍerecendo
-:rl parâmetro teórico e metodolo-eico alternatir .. DJri r-) c stu..Jo e a
:ransformação da sociedade. Esse desenr rrlr in:in:.. jrr':re::,Jo
das
escolas de ciências sociais ler ou as fundaçôe> esr:engili-Js
e rrS go-
\ ernos nacionais a modiÍ-rcar seu apoit-r. \o
Brasil. com ur etrlpe
militar de 1964, a sociologia torna-se proibida e muitos cientistas
sociais são expulsos da universidade, encarcerados ou
exilados. Na
Argentina, com o golpe de Estado militar de Onganía em 1966, as
ciências sociais são duramente reprimidas. Na Colômbia, se instau-
raram os famosos "conselhos de gue rra" contra estudantes acusados
de "crime de subversão". Essa repressão foi dirigida particular-
mente às escolas de ciências sociais, onde os estudantes, sob a in-
fluência de cientistas como Camilo Torres, conseguiram deter em
patte o controle que as fundações norte-americanas haviam
exercido
sobre aquelas escolas, especialmente a partir de 1960.
Pode-se dizer que as ciências sociais, apesar do controle que
sobre elas quiseram exercer de forma absoluta as classes domi-
nantes, continuam abertas ao serviço de propósitos populares. Isso
se evidenciou claramente em diferentes pronunciamentos como
os
tirados do congresso cultural de Havan a (4-12 de janeiro de 196g),
do congresso latino-americano de economistas reunido no México
em junho de 1965, do congresso cultural de Cabimas, Vene
zuela,
em dezembro de 1970, e do simpósio de antropólogos de Barbados,
em j aneiro de 197 0 .
Hoje, mais do que nunca, os cientistas sociais se vêem na
contingência de tomar partido, de colocarem com urgência a que
interesses sociais e políticos servem. Como nos tempos
de Hitler, os
cientistas que guardam silêncio ou pretendem ser neutros estão
ptâtrca, tão comprometidos com as atrocidades do sistema vigente , frà
como aqueles que o fazem conscientemente.
Na Colômbia, diversos grupos de cientistas sociais e intelec-
tuais têm colocado estes dilemas sobre a relação entre política e
ciência e, em alguns casos, foram postos à prova princípios
_perais
pertinentes. Desejou-se verificar as possibilidades reais de uma
ciên-
cia social comprometida com as classes populares e suas lutas. o que
,
campos d,t:t:
De lg45 a 1960, as investigações em todos os eonl'ra a'uRs,s
nuclear
cia refletiram a preocupação com a defesa
confronto armado no contexto da chama.da
com vistas a um eventuál
,,guerra fria". De 1950 em diante, a atenção do imperialismo diri-
norte-americanas
giu_se para o Terceiro Mundo, e as universidades
de ministrar conhecimento e
o
se adequaram mais uma vez à tarefa
o pessoar necessários aos fins perseguidos.
A situação latino-ameri-
durante o
caÍtafoi o principar foco de atenção do imperialismo
foram convo-
governo de J. F. Kennedy, quando as universidades
da mudança induzida de
cadas a canartzar e controrar a direção
dominantes.3
forma a não tocar nos interesses das classes
p ara tratar de ocurtar esse compromisso aberto com o sistema
de uma ciência social
imperialista, promoveu-se o desenvolvimento
(como Knorr, Bell ,
livre de valores. Seus mais notórios expoentes
transcender o nível das
Lipset, Rostow, Silvert e outros) pretenáiu-
confrontação, afirmando que
ideorogias que se achariam em plena
era possível uma
estas haviam morrido e gue, por conseguinte, social. Não
,,neutra,, e "objetiva" de qualquer sistema
explicação
acreditam na sociedade
obstante, os cientistas sociais desta corrente
de. que o desenvolvimento
capitalista e apóiam-se no pressuposto
econômico e porítico ào, puir., dominados segue um roteiro
sociar,
previamente determinado pelos Estados unidos' como
Ao mesmo tempo, flo Terceiro Mundo, floresceram de funda-
com o respaldo
nunca as faculdades á. ciências sociais, desenvolvi-
e de programas internacionais de
ções norte-americanas
mento: edificios, bibliot.rár, becas , pesQuisas e professores-visi-
tantes foram financiados generosamente.
Desses centros acadêmicos saíram
os sociól0gos, os econo-
de incorporaram aos
mistas e os cientistas políticos que depois

(3)oexemplomaisconhecidonaAméricaLatinaéochamadoProjeto
,,pran simpático", referente à colÔmbia '
camerot e seu afirhado, o famoso
para medir e prever as causas das
Tratava-se basicamente de um projeto do mundo' Procurava-se
revoluçÕes e insurreições nas áreas subdesenvolvidas
para eriminar essas causas ou para enfrentar revo-
tambem encontrar os meios pelo exercito nort e-ameri-
ruções e insurreições . o camerot era fatrocinado
milhões de dolares com o soRo'
cano mediante um contrato de quatro ã sers
de washington, D. c. As investigações
uma agência da American university de áieas estrangeiras; preservação
do soRO incluem: levantamLntos aáalíticos politicas e sociais da-
de informações atuar ízadas sob re ,orpr"*o: -militares, rápida para o exército
queras áreas; preservação de uma rista de informação
importante do ponto de vista
com respeito a quarqu er situação considerada
militar.
REPENSANDO A PESQUISA PARTICIPANTE
135

planos .$overll4mentais de desenvolvimento


nacionais e interna-
cionais ao con trário do esperado pelas agências
'1t, centros se formaram m u itas vezesfinanciadoras,
nesses mesmos
professores e
alunos 9ue, ao tomarem consciência do papel
,Jes ciênclas sociais, se
puseram a serviço dos verdadeiros interesses
il.1,.'ionais e populares.
Precisamente no auge dos estudos e pesq
i-rr s3s st'rciais. a ciência
marxista põe um pé na uni'ersidade latrno-.r,nei:.-3:f
um parâmetro teórico e metodologico alremJ::-.,
. t-rÍerecendo
transformação da sociedade. Esse desu.n\
ri:j , esru,Jrr e a
trl..::3-.:, .tr..tr,r: j, J j>
escolas de ciências sociais ler ou as f uniaJi,ii
vernos nacionais a mttdiÍlcar seu 3poit-r. \*
ci::i:.:i r:: c r.: rta-
Bras:.- it.)rr \_-,, ::,:,lle
militar de 1964' a socioloeia torna-se prtriL,rrJa
L' ffrurltr: crenirsr3s
sociais são expulsos da universidade. encarcera,Jos
ou e.rila,Jos. \a
Argentina, com o golpe de Estado militar de
onganía em 1966. as
ciências sociais são duramente reprimidas.
Na colômbia. se instau-
taram os famosos "conselhos de gue rra"
contra estudantes acusados
de "crime de subversão". Essa repressão
foi dirigida particular-
mente às escolas de ciências sociais, onde
os estudantes, sob a in-
fluência de cientistas como camilo Torres,
conseguiram deter em
parte o controle que as fundações norte-americunu,
haviam exercido
sobre aquelas escolas, especialmente
a partir de 1960.
Pode-se dizer que as ciências roóiais,
apesar do controle que
sobre elas quiseram exercer de forma
absoluta as classes domi-
nantes, continuam abertas ao serviço
de propósitos populares. Isso
se evidenciou claramente em diferentes
prorrurciamentos como os
tirados do congresso cultural de Havan (4-r2
a de janeiro de 196g),
do congresso latino-americano de economistas
reunido no México
em junho de 1965, do congresso cultural
de cabimas, yenezuela,
em dezembro de 1970, e do simpósio de
antropologos
r--- de
vv Barbados
,"..LLL'ct\r\-'ü,
emjaneirode 1970
Hoje, mais do que nunca, os cientistas sociais
se vêem na
contingência de tomar partido, de colocarem
com urgência a que
interesses sociais e políticos servem.
como nos tempos de Hitler, os
cientistas que guardam silêncio ou pretendem
ser
ptática, tão comprometidos com as atrocidades neutros estão, na
do sistema vigente
como aqueles que o fazem conscientemente.
Na Colômbia, diversos grupos de cientistas
sociais e intelec-
tuais têm colocado estes dilemas sobre
a relação entre política e
ciência e, em alguns casos, foram postos
à prova princípios gerais
pertinentes' Desejou-se verificar as possibilidades
reais de urna ciên-
cia social comprometid,acom as classes populares
e suas lutas, o que
136 CARLOS RODRIGUES BRANDÃO (oTg.1

levou naturalmen te a um reexame da teoria social e dos métodor'


d.
investi gação que têm vigorado no país. Os autores do presente
texto
chegaram, por diferentes caminhos, a um encontrolq,r., de uma
forma ou de outra, expressa a busca por dar a seu compromisso
social maior eficácia no contexto da mudança, ou protoc oltza a
insatisfação que sentem ante o desenvolvimento político atual,
ou
ainda trata de descobrir formas de renovação acadêmica e científica
dentro do mesmo contexto.
É evidente que esforços como este têm implicações teóricas e
prâticas que levam a conseqüências políticas. Fundamental
em todo
processo é determinar um método adequado que responda
às neces-
sidades colocadas e dele derivar as técnicas de trabalho de campo
eficazes pata os fins da mudança que se persegue e que os tempos
demandam. O presente inventário pode seivir a este objetivo.

Em busca de um método

A primeira tealização e aceitar a origem intelectual pequeno-


burguesa de empreendimentos dessa espécie. Mas, nos casos que
nos interessam, surge uma característica que não ocorre em
outros:
a de se haver adquirido a consciência maior de que não basta
conhecer a realidade, mas é preciso transfo rmá-la, o que se torna
imperativo historico em situações como a da Colômbia. para tanto,
é necessário adotar mente aberta para o que se há de aprender
com
as novas experiências e trabalhar com técnicas às vezes modestas
mas igualmente eftcazes nos procedimentos científicos.
Esta atitude básica de busca e descobrimento simultâneos era
o 9ue, nesse momento e ia antes, se denominava "compromisso".
Este conceito amplamente debatido em muitos círculos literários
e científicos4 - serviu como impulso p ara tentarmos nos
- libertar dos
moldes "científicos" e dos parâmetros teóricos que se impunham
sobre nós como camisas-de-força. O compromisso também nessa
época levava a recolocar em pauta o problema do método de
inves-
tigação e a orientação do conhecimento científico. Estes não mais

(4) Ver inventário em Fals Borda, Ciencia propia y colonialismo intelec-


tual, México, Nuestro Tiempo, 24 ed., 1971. n poteri., estendeu-se
da socio-
logia a quase todas as ciências sociais, especialmente a antropologia
e a ciência
política. Desenvolve-se hoje em muitos países ocidentais, e
com particular
intensidade nos Estados unidos, Alemanha e França.
REPENSANDO A PESQUISA PARTICIPANTE I3'7
:

seriam objeto de simples curiosidade erudita que implica uma


atitude ingênua da parte do cientista social
nem mais seriam
trombetas apocalípticas -; dirigentes
para despertar as classes e in-
'Juzi-las a serem mais responsáveis uma atitude moralista
nem permitiriam sua utilização para que
as classes dirigentes-;se
perpetuassem no poder, por meio
de mudanças graduais e revira-
r oltas calculadas "cientificamente"
uma
comprometida com o sistema. Agora, - essas atitude conscientemente
ciências seriam postas a
sen'iço da causa popular, como um esforço
de conter a dominacào
imperialista e a exploração oligárquica tradicronal.
ptrr uffi la,Jo. e.
por outro, como um meio de afiançar
e dinamizar as or_qanizações
autenticamente populares- equipando-as
ainda melhor paÍa atin-
girem seus objetir os.
Nesse momento de reorien taçã,o intelectual
e política as tec-
nicas conhecidas de investigação que
estariam mais próximas do que
se pretendia realizar eram as gue,
em antropologia e sociolo gia, são
chamadas de "observação participante" iobservação
e por experi-
mentação" (participação-intervenção), âs quais
imptic am, sem dú-
vida, o envolvimento pessoal do investigaao.
nas situações reais e a
sua interferência nos processos sociais
locais. Mas logo se viu que
estas técnicastinham efetivamente pouco a dizer em face
das exi-
gências de vincular o pensamento
à ação fundamental necess âria.
Depois, por volta de 1969, apareceu o conceito
de ,,inserção,,
que fez avançar o nível de compreensão
teórica do cientista social (e
natural) sobre o novo compromisso político
vislumbrado. Serviu
então como um desaÍio para i*plementar
o compromisso e impul-
sionar os intelectuais à linha de ação com
um quadro metodologico
já um pouco mais claro. A maioria dos
cientistas sociais, todavia,
captados e incorporados pela ofensiva
imperialista da década atra-
vés de seus inumeráveis projetos e planás
"de desenvolvimento,,,
centros de investigação, agências de pianejamento,
missões técnicas,
e de seus burocratas reformistas ou intimidados
pela repressão,
enconttaram-se psíquica e praticamente
impossibilitados de acertar
conceito de inserção constituiu o que
às vezes se define como um
"salto adiante", ou o impulso definido. que
abre novas perspectivas.
Inicialmente, a inserção foi .or.àbidu como
um passo que
implica não apenas a combinação das duas
técnicas clássicas de
observação já mencionadas, e rirr, ,,ir
mais além , para obter uma
visão interior completa das situações e processos
estudados com
vistas à ação presente e futura. Isto implica
que o cientista se
138 CARLOS RODRIGUES BRANDÃo (oTg.)

envolva como agente do processo que estuda, porque tomou uma


posição a favor de determinadas alternativas, aprendendo assim não
só a pattir da obs ervaçã,o que faz como tambem do proprio trabalho
que executajunto às pessoas com quem se identifica".5
Em outras palavras. a inserção era concebida como uma téc-
nica de observaçào e análise de processos e fatores que inclui, em seu
esboço, â Írlilitância r oltada a alcançar determinadas metas sociais,
políticas e econômicas.Hoje ela continua a ser aplicada por investi-
gadores a fim de realizar, com maior ou menor eficácia e entendi-
mento, mudanças necessárias na sociedade. Ao mesmo tempo, a
inserção, como técnica, incorpora o investigador aos grupos popu-
lares, não mais de acordo com a antiga relação .*plo.adora de
"sujeito e objeto", mas valorizando a parcela de contribuição dos
grupos quanto à informação e interpretação, bem como seu direito
ao uso dos dados e de outros elementos adquiridos na investi gação.
Como se pode observar, esta concepção de inserção carrega
consigo dois determinantes: 1) constituem uma experiência de anét-
lise, síntese e sistem attzação realizada por pessoas envolvidas nos
processos como quadros comprometidos em vários níveis de estudo e
ação; 2) incluem diversos modos de aplicação local segundo várias
alternativas historicamente determinadas. Em essência, estas técni-
cas o outras que possam ser desenvolvidas mais adiante
constituem assim um método especial, o método de estudo-ação,
cujo objetivo é aumentar a eficácia da prática política e prover
fundamentos para enriquecer as ciências sociais que cooperam no
processo.
Houve alguma convergênc ra na aplicação destes princípios em
vários países (conforme foi parcialmente coletado), mas falta muito
ainda pata se cheg ar à sistem atização das técnicas de inserção e ao
aperfeiçoamento do método de estudo -açáo. Não obstante, todos
aqueles que o experimentaram concordam conosco quanto a sua
importância teórico -práúrca.

Inserção desfocada

Segundo a modalidade de aplicaçáo, a inserção pode produzir


determinados resultados, como se deduz dos casos observados na

(5) lbidem, p. 58.


REPENSANDO A PESQUISA PARTICIPANTE N9
colômbia' Existem pelo menos duas
tecnicas de inserção que podem
ser assimiladas pelo sistema
vigente e postas a seu serviço, contradi-
zendo assim a tese do comprãmirro
conseqüente que leva à ação
válida e ao estudo pertinente e necessário
da atual conj untura. Essas
técnicas desfocadas são: a inserção
para man ipu lar e a inserção para
agitar, tal como são deÍinidas a seguir.
Inserção para manipular. Nas
màos ce l:t-,.-ur-3,Jr-rres do sis-
tema vigente, ou praticada por
aqueles que ren: j= r,-. j:i'icá-ltr
sem
o compromisso conseqüente com
os'erdac.ir,-.s ::r:3:3ssei J3 classe
popular' a tecnica da inserçào pode
Frt-r*Juzr: ,r::Ji:.::. Jei,--,rrnf,-
ções e resultados ne-Qatir os. {lguns ,Jt-} resui:a,Jos
observar diretamente sào: qu. Fudr:,üs
lr a detormaçàtr pror'issronal. pela rna-
neira como são empregados' remunerados
e manipulados os pesqui-
sadores' geralmente dentro de programas
oficiais ou semi-oficiais.
2) o estabelecimento de novas fármas
de dependência e neocolonia-
lismo intelectual, quando se real
iza a inserção com o proposito de
"impor uma linha" ou ensinar uma "doutrina
correta,,; 3) o refor_
mismo ou desenvolvimentismo pela
busca consciente ou incons-
ciente de fórmulas de continuidade
do sistema,ou paraprevenir ou
neutralizar a insurreição popular.
Nos três casos, falta o respeito
pelaautenticidade do conhecimento e pelos
próprios grupos em cujo
benefício se diz atuar. o conhecimento
adquirido dessa maneira
revela-se falso e deformado por
ser unicamente um reflexo dos pre-
conceitos próprios da sociedade
vigente, ou de seus pesquisadores,
não da realidade mesma que se e
deseja conhecer. Tal ,,conheci-
mento" conduz apenas à evolução da
ordem injusta, âo paliativo
calculado para subtrair forças a pressão
popular e, ocasionalmente,
à mod ificaçã'o parcial de instituiç0.,
que deveriam sofrer uma mu-
dança tadical, práticas que não
erradicam as causas da injustiça,
não corrigem seus efeitos nem
enriquecem a ciência social, criando
antes confusões e frustrações
ao nívú popular.
Essa técnica é parecida com
a que os antropólogos clássicos
chamaram " intervtnção" (participação-intervenção)
pode ser o que de mais próximo e, com efeito,
à inserção bem feita poderia
cer a antropologia tradicional. ofere-
Na colômbia foi aplicada em regiões
rurais por assistentes sociais agrícolas
e indigenistas; nos bairros das
grandes cidades, por comunidades
religiosas e alguns grupos de
esquerda desorientados. Aqui
se colocam também as atividades
"ação comun&1" , os projetos de desenvolvimento da
da comunidade, a
"ação cívico-militar" inspirada por
ideólogos do pentágono e ado-
tada pelas Forças Armadas do país,
os trabalhos do cãrpo de paz
140 CARLOS RODRIGUES BRANDÃO (org.)

patrocinado pela Agência de Desenvolvimento Internacional dos


Estados Unidos, e as atividades mission arias de entidades católicas e
protestantes (tais como o Instituto Lingüístico de Verão, Plano do
Noroeste de Evangelizaçáo e Desenvolrimento da Igreja Presbite-
riana, Plano de Desenvolvimento do Catatumbo da Fundação Me-
nino de Deus. Ação Cultural Popular e suas Escolas Radiofônicas
etc.) entre fàr elados. camponeses e indígenas.
Inserção para agitar. Outra tecnica de inserção é a chamada
"ativação", cuj a aplicação até o momento teve efeitos duvidosos na
articulaçáo real das massas ao processo de sua propria libertaÇão,
embora tenha sido esta sua intenção. A ativaçáo se baseia fia hipo-
tese de que quanto mais estratégica seja a mudança proposta em
uma sociedade, maior será o conflito gerado. Daí que o ativista
investigue contradições específicas em uma comunidade e nela se
insira esperando acirrar conflitos e acentuar contradições , adotando
o papel de mecânico das forças sociais, as quais acredita com-
preender, sem no entanto se certificar de que as proprias massas
estejam em condiçoes de produzir as ações necessárias no momento
oportuno.
Ate agora, os acontecimentos indicam (como nos casos pro-
movidos por alguns grupos políticos na Colômbia) que o ativista, na
verdade, consegue fomentar alguns dos conflitos postulados teori-
camente, mas não consegue projetá-los sobre a estrutura de classes
existente devido às limitações dos marcos de referência empregados
(muito confuso, às vezes), nem consegue fazer com que as popu-
lações alcancem o nível adequado de consciência políttca paÍa asse-
gurar a continuidade autônoma do processo iniciado. Muitas vezes o
quadro acaba expulso da comunidade sem que esta se tivesse orga-
nizado realmente para a luta, alertando o inimigo e provocando sua
reação da qual a comunidade será a única vítima fazendo
-
com que as populações retrocedam em nível político. Por isso, esse
tipo de inserção nas circunstâncias descritas tem-se revelado contra-
producente.

A investigação militante

A inserção como técnica de aproximação da realidade se ba-


seia em uma combin açáo de atitudes e de conceitos teórico-práticos
que põem em xeque muitos dos mitos entre os quais se formaram os
intelectuais e gue, precisamente por não corresponderem à reali-
REPENSANDO A PESQUISA PARTIC
IPA\TE l-il
dade' interferem na ação produzindo
desfocagens. No caso colom-
biano, alguns profissionais têm
sentido a necessidade de inserção
processo historico em vários no
níveis, especiatmente local ou regional,
como forma de romper com modelos
inadequados de explicação e
ação' Pata tanto, alguns de nos
abandonaram os recintos univer-
sitários (reconhecendã serem,
em geral, f;íbricas de quadros para
imperialismo capitalista) ou pusemos o
em quarentena os marcos de
referência da ciência ortodo^à
. parcel adairunr*itida pela univer-
sidade tradicional (a que se inspira
em scheler e nos foi transpor-
tada mais tarde, especi alizada
á a.purtamental izadasegundo inte-
resses ideológicos e políticos
.r.oú.rtos pelo manto acadêmico).
Saímos então a campo para experir.ntui
u interdir.r;;;'ü;;á,
reformular conceitos e trabalhar
com as populações à base da socie-
dade' descartando as três atitudes
anteriormente assinaladas como
caraçterísticas do intelectual alienado:
a ingenuidade, o moralismo
o compromisso consciente com e
o sistema. b ,orceito-guia foi o
colocar o conhecimento a serviço de
dos interesses populares, como
detalh ará mais adiante. se

Naturalmente, como modalidade teórico -prátrca de trabalho,


esta forma de focalizar o compromisso
e experimentar a inserção
não constitui nenhuma novidaà
e, iáL que tem sido recomendada e
aphcada por diversos marxistas,
notadamente por Lenin. Mao e
Giap em seus próprios termosl
- ao se referirem ao ,,obse^.ador
militante"'6 o - ou quadro adestrado
obseivador militante
nicas de investigação social e nas téc-
compromeiiàú.á;;;;;r. popular
ttaduz em realidade o compromisio,
reconhecendo todas as suas
conseqüências ' o resultado
é u*u técnica de inserção muito
decidida e efic az do que as mencionadas mais
anteriormente. Esta técnica
pode ser denomina da investigação
miritante.

(6) Em Mao Tsé-tung, esta técni..,


conhecimento ,- que contribui pa ra a teoria do
- se express?
especialmente aplicada
em seu princípio i d*
massas
na etapa de Hunan: ver suas obras às massas,, e foi
Pequim' Ediciones en tenguas escogidas, t. ,r,
Extranjeras,_196g, p. r rg. De
consultadas diversas obras, especialmênte Lenin podem ser
eue fazer? (Trad. Oras., São paulo,
HuclrEc' 19JP) e o enfo!ue oãoôãor probtemas
operário na RÚssia ' outro autor ãá articuração do movimento
notável, antijã p-roFessor de historia,
Nguyen Giap, o atual estrategista
norte-vietnaõritá Oe quem se pode
e Vo
quisa sobre camponeses ler pes_
e ouúos onde se combina a observação com
"n.rio.,
com a seriedade necessária às tareras historicas a
;rilffili'Sàr"ffX sue se
t42 CARLOS RODRIGUES BRANDÃO (OTg.)

Pressupostos teóricos

O cientista que penetra na realidade como investigador mili-


tante tem uma forma de conceber a si mesmo e à sua própria arte,
isto é, baseia-se em uma série de pressupostos teoricos que orientam
sua atividade e que podem ser resumidos como se segue:

1) a metodologia e o investigador não são duas coisas sepa-


radas. Assim, a metodologia de aproximação não pode ser utilizada
ou manipulada ate as últimas conseqüências por um pesquisador
não-militante, porque apenas este pode extraí-la da teoria e de sua
própri a prâtica, aphcâ-la, critrcát-la e assegurar-se de que é ou não
válida e eficaz no que diz respeito aos fins perseguidos, se é ade-
quada para tal região ou tais circunstâncias. Assim, o investigador
militante imprime um caráter dinâmico ao método de aproximação.
Somente ele está habilitado a descobrir quais são suas aptidões e de
que maneira pode ser mais utilpara a causa do setorpopular em que
está inserido. Um cientista social não comprometido com a causa
popular nunca conseguiria isso, mesmo se soubesse de cor alguns
conselhos práticos sobre metodologia de aproximação;
2) a metodologia é inseparâvel dos grupos sociais com os
quais o investigador trabalha . A metodologia não será a mesma
conforme se trate de um grupo camponês ou operário urbano, con-
forme se trate de um grupo de trabalhadores predominantemente
negros ou mulatos, brancos ou mestiços, ou de camponeses indí-
genas;
3) a metodologia yarta, evolui e se transforma segundo as
ou a correlação das forças sociais, effi
condições políticas locais
conflito velado ou aberto. Assim, se as forças reais do advers âno
social forem mais poderosas que as dos explorados será então desa-
conselhável um tipo de metodologia que faça abstração de tais con-
dições;
4) a metodologia depende, em grande medida, da estratégia
global de mudança social adotada e das táticas a curto e médio
prazo. Assim, a metodologia não é uma enumeração pura e simples
de certas regras ou princípios sem referência a uma compreensão
global do processo de mudança tal como foi coloc ada pela organi-
zaçáo popular que o persegue.
, REPENSANDO A PESQUISA PARTICIPANTE
t43
.;

Coordenadas metodológicas

l) IVÍodo de aproximação

A) Antes de vir à região, sindicato ou bairro, é necess ârio


infbrmar-se o suficiente sobre esses lugares ou grupos
sociais. Ler
livros, recortes de jornal , relatórios, documentos
com pessoas que conheçam esses lugares mesmo
, fazer entrevistas
de maneira super-
ficial ou oficial.
B) Ir ao local a fim de tàzer ume rnspeçào ou reconhecimento
inicial, pode consistir em:
Que
a) visitas aos cenrros de trabalho:
b) consultas a instituições do gor'erno ou da empresa prir-ada
que possuam documentos sobre a região, estatísticas,
planos de
desenvolvimento, ruas , mapas, custo de vida e empresas comerciais,
industriais, extrativas ou financeiras que operam na região.
Exem-
plos de instituições: c àmara de comêrcio, INDERENA,
IDEMA,
Agência Regional do DANE, Arquivos Municipais,
INCORA, ICA
etc. ;
c) conversas com profissionais que trabalham na região para
saber quais são, no seu modo de entender, os principais
problemas e
a importância da regiã,o, as atividades culturais
e o modo de ser das
pessoas, quais forma foram os conflitos mais relevantes
ali ocorridos
etc.;
d) visitas a sedes sindicais, de usuários ou cooperativas, a fim
de solicitar seus periódicos ou boletins ou informar-se
de suas ati-
vidades e filiações em nível nacional, do número de
operários sindi-
calizados e em quais ramos da economia, enfim, sobie
a existência
ou não de operários por empre itada ou outros tipos de
trabalha-
dores;
e) entrevistas com sacerdotes, professores e outras personali-
dades do campo religioso ou educativo.

C) Identificar as classes, grupos sociais ou pessoas da região


que podem vir a ser aliados a curto ou médio piuro (autoridades
simpatizantes, membros do clero, funcionários públicos,
médicos
etc.).

D) Averiguar quais grupos políticos existem na região e que


forma de pressão ou de controle exercem sobre grupos
sociais orga-
nizados, sejam estes preservadores do sistema social
vigente, ques-
IM CARLOS RODRIGUES BRANDÃO (org.)

tionadores do mesmo ou simplesmente opositores alternados do go-


verno, analisando os resultados reais obtidos por uns e outros.
E) Com as informações prévias ou com os dados obtidos do
"reconhecimento inicial". tentar uma análise primária e provisória
a:: ;.*a:iõ í :n I-.:'-::-i í :i:*:3zr .le >CuS COnt-litOS COm baSe nO
;r:lcrjo cie pro.lliçàrr pre,jt-rrnlnanle e as relaçÕes de produção e troca
existentes.

F) Identificar o tipo e a natureza das lutas registradas na


região ou promovidas no passado por grupos sociais determinados,
ou que estão se produzindo no presente (dentro do sistema, contra o
governo, contra o patrão ou corporativas, lutas cívicas ou reivindi-
cativas que interessam a toda uma gama de grupos sociais inclusive
opostos entre si, "fora da lei" e outras); analisar os resultados de
uma e de outras lutas, o tipo e o nível de consciência que as move-
ram ou movem (consciência corporativa, cívica ou regionalista, de
classe ou política) e o papel que desempenharam ou desempenham
os srLrpos populares em tais lutas.

G) Analisar os planos de desenvolvimento sócio-econômicos


que podem afetar a curto e médi o prazo o futuro dos grupos popu-
lares, tais como deslocamento de bairros, automatizaçáo da produ-
ção, construção de vias de comunicação, instalaçáo de novas indús-
trias ou de fontes de emprego reais ou fictícias.
H) Fazer um inventário das formas de controle social diretas
ou indiretas exercidas pelo sistema vigente, em aplicação ou em
estudo fiuntas, comitês, movimentos etc.).

D Estudar as çaracterísticas culturais e étnicas da região, e


determinar provisoriamente quais são os elementos etnoculturais
que parecem ter desempenhado ali um papel relevante nas lutas
sociais e reivindicativas.

Uma vez realizados os estudos anteriores, o investigador terá


em seu poder um conhecimento provisório, não definitivo nem com-
pleto. O passo mais importante ainda está para ser dado: o conhe-
ciment o de dentro, através de contatos e relações políticas que ex-
pressem seu compromisso com a causa dos grupos sociais identifi-
cados como "chaves". Como drzram alguns investigadores militan-
tes do PRP do Vietná: "Nossa estimativa não se baseia nos livros,
mas na prártica, não é feita de fora, mas de dentro, e se baseia nas
experiências e na luta cotidianas. Não poderíarnos drzer se nossas
REPENSANDO A PESQUISA PARTICIPANTE
145

conclusões serão validadas em outras


partes, mas estamos efetiva_
mente convencidos de que, flo que se
refere ao Vietnã, elas são
corretas". T

2) Conhecimento através da ação


o objetivo
do investigador militante é colocar suas
os conhecimentos adquiridos
técnicas e
a serviço de uma causa. Esta causa é,
por definição, uma transformação
fundamental da sociedade enrol-
vente da qual o grupo, a região
' ou a comunidade estudada tazem
parte' Do ponto de vista da inr estigaçào.
esre conlpi-trnr:>>ü rirplrcr
metodologicamente o segui nte itinerárc,.

A)
Analisar a estrutura de classes ,Ja regiãrr
tru zona para
determinar os setores e que desempenham
-qrupos ari um paper_
chave.
B) Tomar desses setores ou grupos-chave os
temas e entoques
que devem ser estudados com prioridà0.,
de acordo com o nír.el de
consciência ou de ação dos próprios grupos.
C) Buscar as taízes históricas das contradições
que dinami-
zam a luta de classes na região .
D) Devolver a esses setores ou grupos-chave os resultados
investi gação da
com vistas a atingirem maior c lareza e eficácia em sua
ação.

Este último ponto (a devolução do conhecimento)


afeta e con-
diciona toda a técnica do investigador
militante. Baseia-se em um
sentido ético distinto do usual nas investigações
sociais correntes e
fornece as bases para julgar a validade
áo, dados recolhidos em
campo ' Impli ca fazer com que o próprio
pesquisador seja objeto de
investi gaçáo: sua ideologia, seus conhecimentos
e sua prática estão
submetidos ao julgamento da experiência
popular. Rej eita a explo-
tação das populações (um verdaãeiro
,uqr. a seu acervo cultural e
ao tesouro de sua experiência) quando
àstas são estudadas como
"objetos de investigação", e ind'uz ao respeito
às pessoas, à sua
contribuição direta, sua críticae sua inteligéncia.
o investigador militante se impõe de
a necessidade que
devolver às bases populares o
conhecimento adquirido repousa, além
do mais, no pressuposto de
que a classe popular campesinato, por exemplo embora
)

(7) W ilfred G. Bu rchet , El nf o de


1969, p.
tri u Viet-nam, Ed. Ancho Mundo,
18S.
146 CARLOS RODRIGUES BRANDÃO (org')

analfab eta, não é por causa disso ignorante: pelo


contrário, é dona
inúmeros modos e manei-
de uma rica .^p..iência de luta, -.orh.ce
ras de aprender, sobreviver e se defender: participa amiúde dê'uma
memoria coletir-a. que torma uma base ideologica e cultural
respei-
que qualquer passo adiante que se
tár.e[ e. portanro. compreende
pretenda dar der-e esrar afiançado por este conhecimento
j á exis-
da classe popu-
tente. Em conseqüência. os setores ou grupos-chave
aqueles que
Lar aparecem como grupos de referência que deslocam
do país e nos centros
haviàm sido adotados nos meios universitários
acadêmicos europeus e norte-americanos (de direita
ou de es-
de ser as autoridades
querda), cujas figuras ou pensadores deixam
finais ou inaPeláveis.
Tudo isso, na Ptártrca, imPlica:
1) que os trabalhos são concebidos com os setores ou grupos-
chave de base e seus órgãos de açáo;
Z) que a produçáo das técnicas de pesquisa está primordial-
mente voltada aos setores da classe popular em seus
próprios ter-
com eles (no caso do cientista, ele se
mos, isto é, escritajuntamente
deixa ,,expropriar" de seus conhecimentos técnicos e seu instru-
seu processo
mento pelos setores-chave com o intuito de dinamizar
histórico);
que formas adequadas de comunicação dos resultados são
3)
mais claro e
requeridas, estabelecendo-se um novo "idioma", muito
tradicionais;
honesto do que o costumeiramente usado por cientistas
hipoteses emergentes encon-
4) finalmente, que os conceitos e
e ime-
tram sua confirmaçao ou rejeição através do contato direto
ter nas mãos
diato com a realidade e pela utilidade que demonstrem
de setores e grupos-chave , para a formação e desenvolvimento
de
organizativa que
sua consciência de classe, . ãr acordo com a força
de engendrar. Em conseqüência, não se busca essa
sejam capazes
confirm açáo nos .rqrr.*u, teóricos de "grandes pensadores" da
,,ciência universal" a qual, nesse sentido, não pode existir, por-
que aquela que assim se considera é apenas parte do aparato
de

domin açáo imposto sobre nós pelas metrópoles'


Os setores-chave majoritariamente estratégicos para a
trans-
na colômbia (como os de vanguarda) encon-
formação fundamental
tram-se entre as classes expl0radas urbanas e rurais,
isto é, as
que trabalham no processo de pro-
camadas formadas por aqueles
concretamente depende das cir-
dução. Saber que setores são esses
regionais ou históricas (modos de produção e relações
cunstâncias
REPENSANDO A pESQL-ts.{ p {RTir.ip {\TE

A incentivação

Munidos destes conceitos e pressuposições, e com


mento obtido por um modo correto o conheci-
de ãproximação, o metodo de
estudo -ação leva-nos geralmente
ao que se tem chamado de incen_
tivação' Esta se dá quando o p.rqrisador
uma região ou comunidade, .orr.gue
militante, inserido em
determinar pontos de partida
reais (níveis de consciência) para
reivindicações que podem levar
esforços sucessivos na luta p.tu justiça a
(lutas cívicas, salariais, pela
posse da tetra, por serviços
priuíicos, escolas, postos de saúde
até chegar a conflitos de classe etc.),
orientados para mudanças mais
fundamentais e estratégicas.
Neste processo, a investigação
segue determinar os incentivos con-
parciais que mobili zam o maior
número de elementos da localidade,
tanto humanos quanto mate-
riais e historicos' os incentivos provêm
do tipo de problemas que as
comunidades experimentam,
segundo a forma específica de
ração à qual as populações explo-
se acham mais sensibi lizadas,
formas institucionais ou grupais, sejam tais
econômicas ou culturais.
uma modalidade dessa te;cnica e a
que se poderia denominar
recuperação crítica' A recuperaç
ão crítica é feita quando a partir
uma inform ação histórica e de , de
um reconhecimento efetivo adequa-
dos' os investigadores militantes
chegam às comunidades para es-
tudar e aprender criticamente a partir
da base cultural tradicional,
prestando atençã,o preferencialmente
àqueles elementos ou institui_
ções que fo.ram úteis para enfren tar, no
passado, os inimigos das
classes exploradas' uma vez
determinadàs esses elementos, pro-
cede-se à sua reativação, para
utilizá-los de maneira similar nas
lutas de classe do presente. Exemplos
de práticas tradicionais ou
I4SCARL0SRODRIGUESBRANDÃo(org.)
são: o resguardo dos indí-
instituições recuperáveis dessa categoria
a guachinga' a tiradeira e a
genas, o cabildo, u ttotu á. Útu:or,
ão *.io rural colombiano) '
mina(expressões culturais e econômicas
de base e outras pessoas infor-
Nesta técnica, o papel dos quadros
(que souberam resistir à ideologia
madas dentre as crasses populares
dos valores populares)
das classes estrangeirizantes, depráciadora
e prodvztraÍn conhe-
foi fundamental pela forma como responderam
As comunidades incen-
cimentos dentro do processo de estudo-ação.
um considerável salto adiante
tivadas dessa forma conseguiram dar
no nível de consciência Potítica'
simplista ao primitivo
Esta técnica não persegue um retorno
aspectos passivos da tradição,
ou bucólico, nem fecha os olhos aos
Trata-se simplesmente de uma
nem pretende ide altzar o passado.8
recursos que a memória coletiva
utirização dinâmica e realista dos
antzattuu qr. as classes populares
oferece, e da infra-estrutura org
mais aperfeiçoados de orga-
produziram para poder pass ar a níveis
da luta. lsso obriga os investi-
nização de acordo com a natureza
gadores militantes a começar seu
trabalho ao nível real de consciên-
nível que os próprios quadros
cia política das populações e não ao
reflete uma atitude dogmática
rêm, já que esta uú;;possibilidade
geral, conduziu a lamentáveis fra'
de superioridade QUe, por regra
cassos na práttica' ,se às comunidades para
^ô Ão inr.en
Comastécnicasdeincentivaçãoval.
contribuindo com diversos projetos
de
aprender suas realidades,
descobre-se a ampla gama de
colaboração local. Nestes projetos,
ou grupos de base, expressados '
recursos com que contam os setores

a " merancolia da raça indí-


(g) os ideorogos do sistema fararam sobre Juán c- Hernández, Luis
gena,,como argo dado ei*rirr"r (Arnranào 'u*,
sorano,
deformação cultural
ser ãi,
López de Mesa, entre oúiros1, ocurtando abençoada pela reli-
causada por sucessrvas ãnoas oe eiproração
com a ".óÀo*ica
questão de o que fazer com as
gião coroniar. Hoje defrontamo-nos país que se encontram na vanguarda da
massas de camponeses indígenas
dó den-
buscam "introd uzir inovações"
luta em muitas partes. os conservadores permita a esses grupos avançar dentro
tro de uma margem de segurança orá dírecionaãas"' sua filosofia se
do sistema capitaustal õü;d;'fi;ir;;à; e intrinsecamente resistente à mudança'
baseia em acreditar que o camponês
resiste áã qu" Àao tnã convém, àquilo qu9 vem de
rsso não é certo, ;a quã ere só vêem obstáculos na
cima para baixo.
poróutro rado, *üIoê r"rótr.ionários
"á tãâ* as sociedades e a historia
tradição, esquecenoo-ãà ã" que
Àirtoria'de
evidências
nistoria é a que nos proporciona
de uma ruta de crasses,, , e que "rrá atcàÀçao" p_"1:: classes populares
e indícios a respeito of hiver de conscicncia
em uma rerigião, sobre a quar e
pàó"o afiançár-." paia atingir o desenvolvi-
de consciência e ação.
mento em direção a niráir'*ais eievados
REPENSANDO A PESQUISA
PARTICIPANTE I

por exemplo' em sua história,


seu folclore, seus líderes (lidera:go
em sua "malícia" e experiência t

- o que os leva a aglutinar_se em "

torno de interesses, acererando


situafoes críticas ,;.;;;;;i;r';.
conduzem a um nível mais
elevado de consciência social
e política.

Esforço próprio e ajuda externa


o investigador militante precisa comer
sidades' e o desenvolvimento e atender a suas neces-
da investigação científica demanda
gastos em todas as suas
etapas, desa. o prime iro des locamento
(transporte) ate a devorução
áo conhecimenio adquirido (os
de comunicação). meios
Este problema financeiro
deve ser colocado no grupo
com que se faz a investigação. de base
grupos, embora seja mínimo,
o apoio financ;;;;; parte desses
é o mais importante porque lhes
permite considerar diretam.ri.
o custo i-plicado pela defesa de
seus interesses' ao mesmo
tempo que tempera o caráter através de
maior interesse e necessidade
de àrr.gu*, um bom manejo
fundos disponíveis, quando dos
estes representam esforço próprio:
leva-os também a cuidar que isso
o dinheiro seja empregado correta-
mente a serviço dos grupos populares
e não em benefício de pessoas
oportunistas; ensina, além disso,
que embora o dinheiro seja
sário' o principal neces-
- aquilo que impri me razão de ser ao
utilidade e prestação de serviços
financia-
,H:n**ff.?3i:,tinde que rem a
A importância de obter o apoio financeiro
nacional é assinalada pela Frente popular local ou
pRp do do vietnã do sul
seguinte forma: da

"Nossa luta é feita exclusivamente


pelo povo:
Íls forças constituídas
por nós mesmos (" A ajuda
') externa nos poderia ser útil,
mas os
do povo sul-vietnãmita devem continuar
:i*iTs sendo o fator deci-

Quanto à "ajuda externa" (a que provém


grupos ou pessoas, de instituições de fora, de outros
naciônais ou estrangeiras), ela
coloca dificuldades e implica
riscos que os investigadores
e as organizações de base militantes
deverão considerar ein cada
caso particu-

(9) Burche t. op. cit., p. 1gS.


150 CARLOS RODRIGUES BRANDÃO'(org.)

lar, com vistas a superá-los. A decisão de aceitar ou não a ajuda


externa não ,Ceverá ser tomada com base em um falso puritanismo
financeiro que rejeite todo au\ílio econômico proveniente de insti-
tuições. pessoas e entidades pela unic a razão de não estarem aber-
tamente comprometidas com a causa popular. Tal rejeição pode
resultar simplesmente em deirar o campo da investigação científica
entregue apenas aos inimigos da causa. O investigador militante e as
organizações populares interessadas no conhecimento científico fa-
rão bem em recordar que mesmo movimentos de carâter indubi-
tavelmente popular e antiimperialista, como o iâ citado PRP do
Vietnã, declaram a respeito que "aceitamos toda ajuda incondicio-
nal, venha de onde vier, dos países ocidentais , da França , da Ingla-
terra e ate dos Estados Unidos, desde que reconheçam uma inde-
pendência verdadeira ao Vietnã do Sul, retirem suas tropas e nos
ofereçam ajuda politicamente desinteressada".r0 De forma seme-
lhante. toda org anização popular e toda instituição que leve a cabo a
investigação militante der-erá impor condições à ajuda externa, com
respeito nào à sua origem. mas à sua absoluta incondicionalidade.
lsto quer dizer: l) que se respeite a política traçada pelos grupos
receptores da ajuda no que se refere à concepção e ao desenvolvi-
mento da investigaçáo, bem como sua aplicação ou reserva; 2) que
os doadores não intervenham nem antes, nem durante , nem depois
na investi gaçáo militante; 3) que não haja nenhum tipo de super-
visão contábil sobre o manejo dos recursos recebidos.
Todavia, é preciso enumerar os seguintes riscos que pode
acarretar a "ajuda externa" :

1) A tendênci a a gerar nos grupos populares que a recebem


uma atitude de dependência que castra ou desestimula suas verda-
deiras potencialidades de auto -susten taçáo, chegando às vezes a
produzir uma atitude de menosprezo a seus próprios esforços;
2) O risco de permitir que o trabalho de base seja determi-
nado pelos interesses, inclinações ou preferências dos doadores. Isso
às vezes se produz por ingerência direta, a qual deve ser repelida
imediata e energicamente. Outras vezes é feita de forma mais sutil,
por meio da oportunidade calcul ada com que são oferecidos os
recursos ou pela destinação dos mesmos para certos aspectos da
investigação, que passam a ter prioridade porque "há fundos pata
isso";

(1 0) lbidem, p. 1Bg .
REPENSANDO A PESQUISA PARTICIPANTE 15I

3) A corrupção que sempre espreita os responsáveis


organização, quando é possívelo gurio de toda
de recursos som uma estrita
disciplina dit ada pela cànsciência
de sua causa.
mais eler Ess
ada da .l;;; p"p";, e
\rc{' vr

Esses perigos podem e devem


ser mantirJt-rS sempre presentes
confrontados por meio de contínua e
atitude de r igilância. Se a orga-
nização popular e os investigadores
militantes nàc esràtr seguros de
poder dominá-los, é melhor não
aceitar a aj uda .\re:-n3 \Ías se o
não aceitá-la não seria uma talta gra\
e con:ri i c3!sa
,Tj:"' F.-pu-

Resumindo

As técnicas de investigação militante


vão
mas clássicas de observ uçao participante, mais além das for-
entrevista diplom ática ou equilibrada
survey, camuflagem,
ulterior' todas as quais funàam-se
i empatia sem compromisso
em uma busca de consenso ou
acordo entre as partes. Por isso,
essa modalidade de estudo -ação
não serve para o mero administrador
de projetos, nem para o mani-
pulador da ação comun rtária, nem
pata o erudito que persegue os
louros da academia.
Nesta forma, consegue-se passar
do que tem sido, na prática,
uma metodologia do consenso para
o que chamaríamos uma meto_
dologia da contradição, ern cànformidade
com os postulados da
teoria do conflito, com a qual se
trata de expl icar a atual proble-
mática colombiana(ver mais adiante).
A atitude decisiva do investi-
gador militante é o respeito para
com as populações imersas nos
processos sociais que se deseja
estudar. Esse respeito se expressa
particularmente através da dwolução
do conhecimento aos setores-
chave da classe popular, cujos
interesses são assumidos pelo pesqui-
sador' Sua tarefa específica como
cientista social é devolver às
massas com maior clareza e
de forma sistem atizad,ao conhecimento
que delas recolheu difusamente.

Implicações científicas e teóricas

o método de estudo-ação tem o mérito de


interação permanente entre a reflexão colocar e buscar a
e a prártica diária. por isso, os
|52CARLOSRODRIGUESBRANpÃo(org.)
nas tec-
investigadores militantes se
definem como pessoas treinadas
e política'
e formadas na prática social
nicas de observação científica os seus princípios se
todos
trabalho se desvirtuaria e iria
contra
o
um empirismo rimitado a constatar
os
estas pessoas praticassem
suas causas, ou um aventureirismo
fenômenos sem indagar por se no plano da
o ensaio-e-erro, ou ainda
irresponsável onde primasse o tta-
conceitos centrais que guiam
reflexão fizessem abstração dos
teóricos prévios e emergentes'
balho de campo e dos marcos
perigo: o de enganarem a si
No caso dos empiristas , hâ;";t;
originais, pois neste domí-
próprios pensando serem absolutamente com
que o pesquisador chega a campo
nio não se parte do nad a, iir por
técnicas que foram reunidas
algumas iáeias básicas e certas produto
investigadores ou cientistas
que o precederam ou que são
esta continuidade
do ambiente onde cresceram. Nã;
reconhecer
tt mãos e que possuem
signit-ica desperdiçar os recursos eul -ttT-em
muito menos erráticos do que
o nlerittr de tazer os ?'ot:::-"^t-::tiais
militante. em duas diversas moda-
parecenl. ptrr issr.. a in\ esrigação
de técnicas de investigaçáo com-
li,Ja,Jes. nãtr implica tr abandono de grupos sociais' a
prt-rr adamenre uteis. como a pesquisa atual todas
anárise historica. a pesquisa
urquiro, a medição estatística'
de
ampl0s e ágeis. Deve-se partir
inseridas em marcos óonceituais um vazio
então do fato de que não se
trabalhou nem se trabalha em
roteiros técnicos e teóricos prévios
conceitual: pelo contrário, existem
ou inconsciente'
uttltzados dã maneira consciente que o capitatismo tem sua
Não se deve esquecer tampouco
própria maneira de cómbi rrar a
ieoria com a prâtrca, para formar
conhe-
e criar as formas de exploração
suas instituições imperialistas em
impérios modernos foi possível'
cidas. Assim, a construção dos ade-
científico e tecnológico
grande medida, pelo desenvorvimánto
quadoaosfinsperseguidosporseuspropriosinteresses.
científica imperialista, os
Em contraste com essa corrente mili-
a si mesmos como investigadores
cientistas sociais que colocam
do método de estudo- açáo visam
tantes e seguem as pautas próprias explorados e
dos grupos
pôr o conheci*.nio aaquirido a serviço fundamental. Em con-
de transformação
oprimidos, effi uma causa
tendência (obsárvad a iiL em
vários cientis-
seqüên cra,continuamos a como se menciona
anteriores,
tas sociais colombianos de décadas que
mais adiante) de não se deixar
dominar por escolas sociológicas
o poder das classes opressoras '
serviram na prátic a para afiançar cientíÍi ca da
os modelos de explicação
Assim, seguimos desôartando por refletirem os
tradição positivista,
sociedade provenientes da
REPENSANDO A PESQUISA PARTICIPANTE
...
153

interesses de uma aristoc racia(pos-napoleônica


identificou com o surgimento aà capitalismo , rrà Europa) que se
e cujas tendências par-
ticulares persistem até hoje.11 Tambem
conn.-u'Ãor-rorru rejeição
anterior' por inadequaçaó, dos parâmetros
do estruturalismo fun-
cional'l2 que descreve a sociedade como
o produto de um ,,equilí-
brio" baseado em um or'denamento interno
e no princípio da inte-
gração social' Não consideramos
satisfatoria tampouco a escola
formalista, por encont rá-la reduzi,Ja
3 rnedicões
e\ternas e nrecâni-
cas dos fenômenos sociais ou e e\p::ce..-,jes
,:nr:a,i:s da cu!tura
manifesta.r3
Não é tarefa f,ácil para o crentrste
Strclê. Iürrn-tio ness.?,s ::id:-
ções burguesas descartar seus marcos de retlréfir,-râ-
mas ie atrngiu
esse ponto por meio de diferentes
itinerários. cabe recordar a ot,ra ,Je
rebeldes como camilo Torres Restrepo,
que, partindo de um pr-,si-
tivismo algo ingênuo, culmina sua
vida ,o interior do mar\ismo.
plenamente identificado com
a luta popular. Teóricos como RaÍàel
uribe uribe e Luis E. Nieto Arteta deram
contribuições igualmenre
importantes' Ignacio Torres Giraldo
soube combi nara teoria com a
ação revolucionária em sua época.
Todos eles procur aram enraizar-
u. realidaà., terrígenas para chegarem
iljJJ:ffi,fl;JJ,i a postu-

(11) o fundador dessa escola, Auguste


modo a uma religião da sociedade qú" comte, deu origem do mesmo
Latina ' Foram seguidores do positivismo, muitos adeptos na America
"ncontrou
Arturo Torres, salvador camacho Roidán, entre nós, escritores como carlos
Luis-r-àõ". de Mesa, Rafaer Bernar
Jiménez e outros sociologos.
(12) Esta escola se origina a pr.t-t]r
como Bronislaw Malinowski, Á nadcliffe-Brown'e de proposições de cientistas sociais
sociologia por Talcott Parsons, Robert Max weber, retomadas na
cana. Muitos antroporogos na corômbia Merton e outros da escora norte-ameri-
seguiram essa tendência.
(13) contribuições importantes
austríaco Moreno e de geógrafos oeúro dessa escora são as do sociorogo
trabalhos (especialmente-tesõs) da nrrrno, como A. Demangeon. Arguns
sidad Nacionar podem ser ctassíficado,
àntig, racúitãã o" sociorog)a da Univer-
(14) Encontra-se maioii;;pffiã.o n"r., categoria .

rebeldes nacionais que, por regra no exeripro e nas obras de diversos


geial, os nistoiãdores da colômbia,
tindo somente os int'eresses oaé refle-
cla-sses dominantes, ignoraram.
pertinentes existem e um, dos
ooi"tirãs da Rosca-9" Investigacion os materiais
social tem sido descobri-los, r;;üó;;ã-ro, y Accion
projeto de publicar as memorias .9 qirrrgà-ror. Rearizou-se assim o
oo exiraordinário
culo XX, Manuel Quintín Lame, in-dài"r* ãàrbatente
-r"rr, inãigena do sé-
castillo cárdenas (Bogotá, pubricrãion., de mi editado por Go nzalo
publicar também a biografia política de ra Rosca , 1gr1); acaba-se de
de
lmpõe-se a busca da lúeratura sobre Maria caÃo, por lgnacio Torres Giraldo.
a tuta poputai oesoe fins do século
XVlll:
BRANDÃO (OTg')
t54 CARLOS RODRIGUES

intelectual q":, se nutre


da confron-
Esta esquecida corrente de
que busca a rarz das contradições
taçáopopular com o sisteÍrâ,
cadaépoca,QUedestacaoSantagonismoSeoSinteressesdasc1asses a escola socio-
dissimulada con'erge para
sociais, el,r luta abertaou são
logica do conflito social.
Dentro dessa escora, evidentemente' seus
e de
sua principal figura -
pertinentes as obras de Marr a vertente
que aqueles que seguiram
seguidores, muito mais do de construrr
aparen Íadade Bagehot
Gumpro*i.r. Trata-se agora natural-
antigos que desembocam
sobre fundamentos intelectuais 15
da luta de classes'
mente na conhecida teoria por
concre ttzaconceitos e hipóteses desenvolvidos
Esta teoria não constitui
observadores da sociedade,
dentr;.;fora 1:,1"t' o que
equivalha a uma tomada de
embora
no'idade de maneira algu rna, não é
posição ou a uma n..ãr, a,a
clarific açáo
::::1:'' ^':tu*'
a essa teoria, e sim tratar de
con\ eniente aderir dogrnaticamente quadros de
er idência recolhida
redet-rnir cLrnceitos à ruz.da l"^i,
ciência social.e
E necessário recordar que
a
inr estigaç.-ões militanres. cuJo
um sistema hipotetico-dedutivo
areoria sociar não constituem eternas, mas são' no dtzet
e
obietir o seta formurar dogmas 'erdades soctal aparece
,,julgamentos sáciais da prática". A ciência
de \1ar\. do movimento
então como deve ser na
realidade, "COmo o produto ao
que chega a ser revolucionária
historico e como uma ciência

a revolução de 1852''
a frente; os artesãos duranteos
os com uneroscom Garán oo-lrt à, nntiãquiu; .lideres
operários e
os camponeses antitaiiiunáirt* ;;;, tradição guerrilheira do
u p"riii de 1g1g;
camponeses da costa Ailântica índios levantiscos etc'
negros cimarron", á dos
país; a tradição-rebelde dos do conflito sociar encontram-se
em
(15) os fundamentos da escola *"no, sistemalizada' No caso do
maneira mais ou
todos os continentes de lbn Khaldun' Hob-
ocidente, como se sabe,
sobresrr"* Heráclitoã Éoríbio, Lumumba' Nkrumah'
,lorrecgT tr',tao' Giap'
bes, Hegel e Marx. ultimamen," e Mariátesui'
Nyerere 'ã' irnãn . ua'Ãmerica çi'il'r'^yfl,I'-i";t'Éonifácio
sociais é útil paru ilustrar o quadro
;políticos -
A leitura desses autoi"='- nã'cotoÃbia, não prrrl*plica-la' Entre os autores
generic; ã rrtã o" ctaêes vt'nuel Ancízar e Eugenio
do ,áóuro xrx,
corombianos mais p"rtin"ntes Emiro Kastos, "tião
que colocou em 1851 a ameaça
Diaz,sobre o probrernã iriãr; óár seu estuqo sobre
Miguel samper,
a miseria
imperiarista norte-am"ri"un"; em diversas
ü"àrroó"n,rás e'Died-o Mendoza Pérez'
urbana; Aníbar carinão,
ateri-oos ja mgncionados no texto:
passagens de seus
Neste'rà*ro, Hernández Rodriguez'
"r.ritôr. i.-ôoràr, cuiitermo
Arejandro Lopez .r. õ., Êugenio úrtimos piimeiras fases); Antonio
g.:j^ rrà-r
rndatecio L. Aguirre (estesprimeiã;';b*ri, "* rtnáiôArrubla' Francisco Friede
Posada'
Garcia (especiarmente suas
e
õ*rr ar, r=üniriro zurera' Juan
ru.gntgr" representa a culmi-
Rafaer Baquero, Diego Torres Restrepo,' àúrà obra
outros, assim .oro-"õr*ito e polfticas '
nação'0"úr tendêÁcús intelectuais
REPENSANDO A PESQUISA
PARTICIPANTE 155
deixar de ser doutrin ária,, ,portanto,
não se faz aqui nenhum
decalque de teorias tal como
foram formuladas em outras latitudes
epaíses' nem se incorre no colonialismo
intelecir;i-de
esquerda que
castrou tantos grupos revolucionários
método de estudo-ação procura
e universitários, porque o
afiançur-o^n;;;;iidades colom-
bianas' nutrir-se delas uo mesmo
tempo que exige uma resposta
autêntica a estas realidades em
termos de atos e evidências, e
apenas de paravras ou debates não
meramente ideorogicos.
Tudo isso leva a recolocar a sociolo-eia
termos de especificidades historicas
mar\ista do contlito enr
e.oldicionamenrosregronais e
locais' Esta recolocaçãojá se acha
implícita nas reses aruajmenre ern
voga sobre "dtpendência" e "subversào"
que analisam ao macro-
nível "latino-americano" as formas
concretas de e\proração externa
e interna que se verificam no
continente, bem como as formas
pressão popular e suas expressões de
organizativas em termos da luta
antiimperialista e antioligârquica.
Entretanto, essas teorias necessi-
tam ainda ser enriquecidas
nadores econômicos, históricos
, matizad,as e coloridas pelos
condicio-
e culturais de cadaregião e locali-
dade colombianas, o que viria
a ser uma manei ra propria de
entender' em seu conjunto, nossos ver e
atuais conflitos e a naturezade
nossa sociedade dependente
e expl orada. É
Torres Giraldo ao falar em ;;;i; ; ;r. se referia
"nacio naltzar o marxismo,, segundo
situações concretas do país.17 as
Em nossa própria experiência de
campo este esforço significou
' primordialmente um a grande flexibi-
lidade e abertura, no aspecto
metodológico, e uma sensibilidade
especial aos modos e maneiras
historicaÃente assumidos pela luta
de classes em cad'aregião,
tendo em vis ta não somente as
econômicas e reivindicativas expressões
como também as culturais e sociais.
Pôde-se assim identifi car zonas sócio-econômicas
etnica indígena ou negra onde de predomin ància
a consciênc ia etnrca tende a
com a consciência de classe e coincidir
onde a histó ria daluta de classes
intimamente ligada à afirm ação esteve
da etnia e de seu patrimônio
rico '18 Nessa mesma linha ganharam histo-
importância diferencial diver-
sos fatores que poucas vezes são valoriiados do ponto
de vista da

(16) K' Marx, La miseria de la


filosofia , Buenos Aires, siglo
p.1 09. XX l, 1gr1,

(17) lgnacio Torres Gira ldo, Maria


caciones de ta Rosc cano, muier
ter reoetde,
rebelde, tBogotá, publi-
a,1g72, pp .ll'l_liz.
(18) ver estudos sgorô etnia;
proximamente por Roscade ;rltu ra e classe sociar, a ser pub ricado
r*ãriiJá"]o, y Accion sociar.
156 CARLOS RODRIGUES BRANDAO (org.)

luta pela mudança radical, tais como a arte popular, o folclore, o


sentimentoregiona1ea1gumasinstituiçõeS.comoaSmencionadaSem
outra parte deste estudo (ver p. 147) que são proprias da tradição
específica de alguns setores da classe popular colombiana e que
podem ser recuperados para sua luta atual. A sorna de interpretações
dessas realidades daria un'ra teoria propria e adequada da luta de
classes e o contlito social na Colômbia. mais util ainda paÍa a
determinação dos grupos-chave regionais e em termos das mudan-
ças perseguidas por eles.
Naturalmente, esta teoria propria encontra-se ainda em germe
e sua elabor açáo constitui um desafio a todos aqueles que estão
atuando e estudando como investigadores militantes ou em outras
capacidades dentro do processo histórico colombiano.
Em conseqüência, contorna-se agora a exigência de maior
rigor na tarefa do investigador militante. Deverão ser desenvolvidas
e ensaiadas técnicas de estudo e ação além das já conhecidas, que
sejam adequadas, e outras novas - que permitam apreender a
complexa realidade em sua propria função, sem distorcê-la. Isto
implica também a prâtica de uma verdadeira ciência social interdis-
ciplinar, na qual a sociologia, a historta, a antropologia, a economia
e a geografia se combinem na figura do investigador militante de
maneira simultânea, tratando de romper os compartimentos estan-
ques em que estas ciências se encontram , para pro duzrr uma ação
mais efrcaz e uma teoria mais ág1l e realista.
Além disso, o investigador militante deverá saber dirigir a
atençáo para os fatos mais pertinentes e significativos de cada região
para fins de org antzação, educação e açáo sobre ela; deverá combi-
nar o estudo do "macro" com as análises do "micro"; e ttatatâ de
antecipar um determinado nível de síntese e sistemattzaçáo de con-
ceitos que revertam depois em inform açáo aos grupos de base para a
constataçáo final da realidade. Este tipo de constataçáo pode ser
suficiente para ir acumulando o conhecimento do ponto de vista
científico, sem necessidade de recorr er a computadores eletrônicos
ou referir-se a parâmetros "universais" de pensadores ilustres de
outras latitudes com esse mesmo fim; e para ir construindo assim
uma ciência propria e popular que parece conver gt paÍa dimensões
igualmente universais, através de sua constataçáo na experiência de
'
todas as classes exploradas do mundo.
Em resumo: p aÍa que a ciência possa continuar existindo
como tal nas condições impostas pelo neocolonialismo econômico e
cultural como as prevalecentes na Colômbia, o cientista não pode
REPENSANDO A PESQUISA PARTICIPANTE $7
desconhecer nem passarpor alto dessas
realidades, mas enfrentá-las
de forma efrcaz, d.u. ir se enriquecendo
'
com a passagem das gera-
ções que experimentam o conflito e r'ào em busca
da justiça social e
econômica' Assim concebida e praticada.
a ciencia é uma ferra-
menta crítica para a mudança social
especialmenre
alguns de seus marcos gerais se rompem
util quando
e dàcr pessagem a esquemas
mais adequados de explicação. os
marcos des.-an3\.rs sào aqueres
que refletem valores sociais conse^
adores e Ser-,, r,= :: .-..s.es erplo-
radoras e às sociedades imperialistas.
outros já demonstraranr comtr Ljr-nj i\1.:;r.r;
quada da realidade facilita a acào :í,--:r-; ,de-
pt-rllr:ca i. sr:Tulr"x.:ia=.nxe.
como o processo chega a ser uma
contrib.,uicào J ciei:cia E
que as ciências sociais na colombia F\.ssrr e,
sejam mais claras e et'icazes ao
cabo de esforços de busca autônoma
como o que se procura promo-
ver através do método de estudo -ação
que aqui propomos. Sobre-
viverão e serão acumulados aqueles
conceitos e técnicas que passa-
rem pela prova de fogo da experiência
das massas erguidas em
defesa de seus interesses de classe.
Estes serão seguramente os
mesmos que futuras gerações de
investigadores militantes aplicarão
nas tarefas subseqüentes de reconstrução
nacio nal, quando as clas-
ses populares terão o pode r para decidir sobre seus próprios desti-
nos.
Pesquisa participante
em um contexto
de economia camponesa*
Vera Gianotten e Ton de Wit**

Introdução

A p.tquisa participante, como novo enfoque nas ciências so-


ciais, foi objeto de crescente interesse nos últimos anos em diferentes
âmbitos de trabalho: programas de desenvolvimento rural, políticas
de planificação partici pativq educ ação não-formal, capaci taçáo
camponesa etc. A partir do reconhecimento de que os programas de
desenvolvimento não tiveram o êxito esperado, planejava-se um
conjunto de idéias e princípios que permitiriam reduztr os proble-
mas encontrados: por exemplo, basear-se nas necessidades funda-
mentais da população, buscar a participação ativa dela nos dife-
rentes programas e projetos, usar métodos e técnicas de educação
e/ ou investigação mais simples etc.
Desse modo, a pesquisa participante se situa entre as corren-
tes das ciências sociais que rejeitam a chamada neutralidade cien-
tifica e partem do princípio de que a investi gaçáo deve servir a
determinados setores sociais, buscando uma resposta coerente que
permita, por um lado, socializar o conhecimento e, por outro,

(*) "lnvestigacion participativa en un contexto de economia campe-


sina", México, ll Semina rio Latinoamericano de lnvestigacion Participativa,
maio de 1982.
(* *) Cientistas sociais e educadores holandeses com muitos anos de
trabalho junto a comunidades camponesas na América Latina. Junto a Univer-
sidade Nacional de San Cristobal de Huamango, realizaram em Ayacucho, ro
Peru, uffi programa de capacitação de camponeses. Residem e trabalham
atualmente na Nicarágua.
REPENSANDO A PESQUISA PARTICIPANTE
ts9

democratizat os processos de investigação


e educação. A pesquisa
participante sustenta acertadamente
que os métodos e técnicas con-
vencionais tgmam o grupo investigado
como objeto de pesquisa e
não como sujeito principal e que
não existe uma separação
jável entre a teori a e a prática, .indese-
Lntre pesquisa
A pesquisa participante revela-se umsocial e ação concreta.
;ãq;;t; ;;;;il"
abrangente que aparentemente elimina
um conjunto de problemas
que haviam sido encontrados
na pratica, por
popular' promoção camponesa ou qualquerexemplo, da educação
outro prograrna
de
desenvolvimento rural iniegrado.
Todar ia. pode-se Ctrr-rsrer3r que.
em que pese o fato de partilharent a nresm3
diferentes programas que utili zant parcialmenre
trpCàt-r r3et iogic:.
trS
es i,Jeias cia pes-
quisaparticipante têm em comum
apenas o uso de meios rjidaricos e
técnicos de investigação não-convencionais,
e alguma tbrnra de par-
ticipaçã'o da população no trabalho
de campo e no planejarnento de
ações concretas.
Não é demais
reiterar que a pesquisa participante e
junto de procedimentos op..à.ionais um con-
e de técnicas que podem ser
implem entadas no interior de diferentes
corpos teóricos e ideologi-
cos; entretanto, suas características
específicas fazem dela uma fer_
ramenta necess ária para todos aqueles programas
partictpaçáo de setores populares
que buscam a
na produção de novos conheci-
mentos (científicos) e em um a prática
àrientada a uma ação trans-
formad ora da sociedade
Nos últimos anos, aumentou consideravelmente
a bibliografia
sobre pesquisa participante, e e de
suma importância que hajainte-
resse cada vez mais crescente pela
util iraçào desse ,àuo enfoque.
No entanto, não basta deÍinir a pesquisa
participante como
um processo de investi gação, educ ação
pação da comunidade juntamente
e açáo onde há, a partici-
com um compromisso intelectual
apontando para a transformação
social. consideramos que se fi-
carmos por aqui, sem precisar melhor
os diferentes conceitos e
opções (ideologicas e metodologicas)
da pesquisa participante, esta
pode correr o risco de se converter
em uma nova ,,onda passageira,,
das ciências sociais. Pensamos que já
se conseguiu determinar e
precisar as catacterísticas necessárias
a serem cumpridas para defi-
nir uma pesquisa social como pesquisa
participante; tod avta,chegou
o momento de reconhecer que
essas características por si sos não
suficientes para entender o processo são
de pesquisa participante em
todas as suas dimensões políticas,
econômicas, ideologicas e cientí-
ficas .
160 CARLOS RODRTGUES BRANDÃO (org.)

É nossa intenção, no presente trabalho, tentar esclarecer a


'diferença entre as condições necessárias e suficientes que definem
uma pesquisa participante como tal. Uma vez que a maior parte de
nossas apteciações e especificações é fruto de experiências concretas
acumuladas durante um programa de capacitação camponesa e
desenvolvimento rural integrado que a Universidad Nacional de San
Cristobal de Huamanga realiza na zona andina do Departamento de
Ayacucho (Peru), pensamos ser necessário incluir algumas idéias
sobre a cham ada educação popular e sobre a economia camponesa
(o contexto específico em que se desenvolve a experiência).
A primeira parte deste estudo trata de form a geral e teórica a
educação popular e a pesquisa participante, buscando uma relação
adequada entre uma opção ideologica e uma opção metodologica,
ou seja, buscando a organicidade de ambos os processos. As idéias
expostas na primeira parte serão sustentadas a seguir, onde se
oferece alguns exemplos de um caso específico de pesquisa parti-
cipante em um contexto de economia camponesa. Nessa experiência
concreta de pesquisa participante, esta e entendida como um traba-
lho organico de assessoria em um processo no qual a investigação e a
educação tradicionais espontâneas se convertem em investigação e
educação orgânicas.

Educação popular e pesquisa participante

Nos últimos anos, a chamada "educação de adultos" não se


situa mais entre os enfoques tradicionais de educação, inscrevendo-
se na perspectiva da educação permanente . Dentre os novos princí-
pios da educação de adultos, o que mais se sobressai é a partici-
pação, Por meio da qual o indivíduo não é mais objeto e sim sujeito
comprometido em seu processo educativo.
Foi precisamente o conceito de participação que significou
uma superação substancial nos programas de educação de adultos,
especialmente aqueles destinados ao desenvolvimento (rural) inte-
grado; contudo, o mesmo conceito, por outro lado, deu lugar a
muita confusã,o arespeito da finalidade da educação de adultos até o
momento em que foi apropriado por vários profissionais para legi-
timar de modo geral seu "compromisso" com os setores popula..r.
Vejamos, em primeiro lugar, como se entende de modo geral a
participação da população nos programas de educação e/ou inves-
REPENSANDO A PESQUISA
PARTICIPA\TE
:
tigação para em seguida ver
'
cação popular d,a pesquisa
em que se distingue achamada
edu_
participante. í
Pata ser um instrurnento
efetivo de desenvolvimento,
cação deve abandonar
u' .olocações acadêmi.us truai.ionais aedu-
centrar-se na hrefa de e con-
oat ,espostas às necessidades
reais) do campesinato' (sentidas e
A realioade ,oriru que as
por funcionários respostas dadas
especialistas poucas vezes
e
resses e problemas correspondem aos inte-
reais da população rurar
não se deve identifi , cat : daí, sustenta-se que
a pri'ort as necessidades,
cação há de surgir a partir pois essa identifi-
da realidade das comunidades.
populações pesquisarão
com a assessoria dos profissionais. cujas
perspectiva, a investigação \essa
não é um instrumento empregado
especialistas para averiguar por
se estes estão corretos
apriori das necessidades, na identificação
mas um instrumento para
xão da comunidade sobre susc itara refle-
sua situação e seus probremas. por
investigação não é uma atividade anterior isso. a
à atividade educati'a.
educarivo, do q,ãr a popuração
ffi:,::ü'Jfff.'#i:1"J,::o"'so
Em gerar, pode-se d,izer
influir direta ou indiretamente que o objetivo d,a participação é
cial, nos aspectos econômicos, na transformação d,arealidade so-
políticos e sociais ora,
r idade humana
está dirigida ; um objeto, toda ati_
objeto pode ser uma para transformá-ro. o
determ inada m-atér'ia-pri
:solado' classes sociais ma, um indivíduo
e ate mesmo uma sociedade
:lema' pois' não reside tanto inteira. o pro-
em buscar a transformação
:ade social' já que qualquer da reari-
. questão é com que objetivo atividade humana tem esse objetivo;
e como.
Muitos educadores e investigadores
Jr;ias de transformação se entusiasma ram com
as
social e participação. De
: '> supõem que certo modo,
mui-
a aceitação de ambos os
conceitos implica auto-
a uma posição comprometida
;::::ffifi.:.rt"'"ersão com os
Existe um conceito específico
: f o popular que sustenta
de mudança social e partici-
" que o objetivo final é
alcançar uma

'1) Façamos constar gue o trabalho


,*: -:.,catívas está fundamentado em
com adultos experiên-
: : -' s3 e comunidades camponeses em um
"q-:-: :'abalho camponesas de população contexto de economia cam_
se baseiam.em experiências úàig"nr. Á, ijeias
expostas
,drÃriao* em um programa
;: de
;: l:?ji?::ffi,Ê:,:"çaã^ã#[on",, na,ãiiao,rto_,iáj,, oo Depar_
16: cARLos RoDRIGUES BRANDÃo (org') :

a mudafiça so-
distribuição mais eqüitativa do poder. promovendo
organizando-
cial em favor das populações opii*idas e exploradas,
poiiti.a e econômica. Essas ações devem conduzir"'à
as como força
a
pobreza' dependên-
mudança das condições últimas que geram a
cia e a exPloração

Educação PoPular

Dentro desta última perspectiva de mudança e participação


e pesquísa
popular se situam os programas de educação popular
considerando seus dis-
participante; ou melhor, deveriam situar-se,
cursos teóricos. No entanto, a prâtrca educ atla e de investigaçáo
aplicáveis a
não superam as características comuns e correntes
qualquer tipo de educação de adultos.2 como critrca inicial aos
programas de educação popular podemos mencionar:
não-
1) O característico so está dado no processo educativo
e instrumentos não-convencionais'
tradicional e no uso de meios
Assim, limita-se a açáo educat Lva a um processo
de aprendtzagem
a tarefa de oferecer uma educaçáo
dirigida,3 acreditando-se cumprir

(2) Na reunlão de diretores nacionais dos Programasemde Educação de


América Latina e caribe, acontecida 1973, haviam
Adultos na região da
da educação de
sido mencionadas, entre outras, as seguintes características
adultos (CREFAL, 1976): permanente;
1) a educação de adultos é uma modalidade de educação para o desen-
estrutural da sociedade e
2) aponta para a transformação
volvimento integral dos Povos;
3) coadjuva uma ação mÚltipla, a qual pressupõe a participação dos
átravés de suas instituições e organizações de base;
membros da comunidade criadoras do
4) reconhece expressamente o valor das potencialidades
individual e social;
homem para ser o construtor de seu destino dos
s) aproveita ao máximo o cabedal de conhecimentos e experiências
adultos e da interação educativa dentro da comunidade;
facilita a
6) considera o papel de educador nato que todo homem tem;
auto-educação Permanente; e trata de
'ação da escolaridade
7) esforça-se por superar a rigidez propria
novas e diversas formàs de ed ucativa não-escolarizada'
implementar
(3) Distinguimos três processos de aprend izagem (Ludojoski,
1972.98.
1 10):
1) um Processo de aPrendizag.em espontâneo: o sujeito.
aPrende sem
estímulo é o am-
que ninguem se proponha a ensinar-lhe algôespecífico. O
biente sócial e físico e as necessidades do sujeito; se segue uma ordem
2) um Processo de aPrendizagem oiasional: não não é Preestabelecido,
estabelecida cje antemão pelo educador, o conteÚdo
surge das circunstâncias substanciais ;
REPENSANDO A PESQUISA PARTICIPANTE
163

alternativa adequada para os setores


populares. No entanto, é ingê-
nuo pensar que o uso de meios
edu.utit o, nào-convencionais como
teatro' sociodramas, bonecos etc. o
é proprio ,Ja educação popular
conseqüentemeRte, a definem e,
como tal. r isro que os mesmos instru-
mentos podem ser usados pela
instrução escLr Iar .- rl c ia I
2) Muitas vezes, procura-se superar .

es sa i i:r:
ào atra\.es de
rau-
discursos teóricos que caem num
teoricismo ron;,r::.,,-,. no sentido
de que explicam somente ao
nír'el teórico que i ec;;f,;i.. pu-Fular
deve ser entendida como educaçâo
poritica orrer:ici ri:3 i cisei:_
volvimento da consciência de classe
das rnessàs p" r:.":es. rr,> dir-
tintos níveis e campos em que
se da a lura i; .r;*.:.-;*ii:caric
a educ ação popular constitui ; -.
um grande proJero ilrsrorcü aire*.ri.
ao sistema dominante, a fim o
de se atingiia
e-- no'a hegemonia
política das massas v culttrral
e populares.
conseqüências da abismal distância
entre
teoricamente e o que se faz na práticaeducativa o que se susrenra
paternalismo ou, ainda, um romantismo podem ser um no\ o
extremado.
os dois perigos, o paternalismo e o
romantismo, provêm da
interpretação e da análise feitas
do conceito de ,,saber popular,,.
Por um lado, os que sustentam
que aeducação popular deve
proporcionar a passagem de
uma forma "oprim id,a,, de consciência
a um reconhecimento da verdadeira
.orr.iência de classe podem
ser' na ptática, tã,o paternalistas
quanto os tradicionais assisten-
cialistas dos anos 50 e 60. uma
descrição rápida de ambas as
prâticas mostra-o claramente :

o o assistencialista (rural)
tradicional: "os camponeses são conser-
vadores, fatalistas e tradicionalistas;
eu sei o que é bom para
eles' como podem e como devem
partici par do processo de desen-
volvimento-moderni zaçã,o; vou
motivá-los a participar,,.
' educador popular: "os camponeses têm uma consciência
o
e imediata' um saber popular falsa
demasiadamente influenciado pela
ideologia dominantel .y sei o gu-e
é bom pata eres, como podem
e devem participar d,a luta de
classes; portanto, vou motivá-los
a participar"

3) Um processo de aprendizagemdirigido: o conteúdo já foi progra-


mado de antemão' assim como
os meús e instfumentos. Deve-se
por um tem, qr" despertar no
ó-r"r,.no não escoiheu mas roi proposto
;:,T'J.:J::"j:tse
l6t cARLoS RoDRIGUES BRANDÃo (org.)

Por outro lado, temos o perigo do romantismo, gue sustenta


que o povo tem todas as respostas porque dispõe do verdadeiro
conhecimento, sacralizando-se assim o saber popular. Certas cor-
rentes da chamada "tecnologia adequada" situam-se nesta prâttca
educativa para o desenvolvimento, prátrcas que, em ultima análise,
revelam-se conservadoras, considerando o campesinato como um
agrupamento humano que atua econômica, política e culturalmente
de forma isolada da sociedade global.
Agora, depois de ter analisado alguns problemas iniciais da
educação popular, é necessário defini-la mais precisamente.
A educ açáo popular parte das seguintes premissas:
o a educação oficial é uma conseqüência superestrutural do que
ocorre na base econômica;
o na base econômica, se dá o desenvolvimento das forças produtivas
com base na unidade dialetica de contradições,
' estas contradiçÔes se ret'letem de uma forma ou de outra na esfera
ideologica e. por consesuinte. rambem na educ açã,o.

Se é em nír'el da ideologia que se manifestam as relações e


contradições que ocorrem na base econômica, qual é, no caso da
educação oficial, o equivalente antagônico? Ele deve ser a educação
popular, que não reflete os interesses da classe dominante mas os
das classes exploradas. A educação popular sempre existiu ao lado
da educação oficial como equivalente antagônico da mesma unidade
dialética, em forma espontânea ou estrutur ada.
A educ açáo popular não se situa somente no plano ideologico.
Nas formas espontâneas de educação popular, ela sempre esteve
relacionada com ações econômicas e políticas concretas.
As formas estruturadas, ou seja, os programas de educação
popular têm de se adequar ao funcionamento da educação popular
espontânea, paÍa que ela se converta em uma verdadeira educação
de classe, organicamente relacionada com a educação popular es-
pontânea, em todas as suas dimensões e ações.
Dai seguem as características fundamentais d,a educação po-
pular estrutu rada:
1) A educ ação popular parte de prâttca concreta dos setores
populares e retorna a ela, buscando cientificamente as causas estru-
turais para transformar a sociedade de acordo com os interesses
imediatos e históricos dos setores populares, integrando a teoria e a
prática em um a prâxis social definida.
REPENSANDO A PESQUISA PARTICIPANTE 165

2) A educação :popular recupera criticamente as di stin tas


manifestações .culturais proprias dos setores populares; recupera
criticamente a histo na.
3) A educação popular situa o conteúdo da educação no con-
texto sócio-historico em que ocorrem as relações de poder e os inte-
resses de classe.
4) A educ ação popular concebe a si mesma como uma tarefa
de sist ematização permanente da experiência econôm tea, política e
ideologica dos setores populares para colocar ações concretas no
plano econômico, político e ideologico.
5) A educação popular converte-se em uma tareta de classe.
isto é, uma educação real da experiência de classe. o que significa
preparar as condições para que sejam os setores populares que
assumam, como tarefa de classe, sua propria educ ação.

Em síntese, os programas de educação popular ajudam a


educação de classe espontânea a se converter em educação de classe
orgânica.o A estrategia da educação popular é, pois, contribuir para
a organrzaçã,o político-econômica dos setores populares.
Ora , diante do problema de possíveis opções políticas, deve-se
levar em conta diferentes variáveis que diferem de um país paÍa
outro, de uma região paÍa outra, de acordo com as características
específicas do lugar onde se trab alha, o setor social, o tipo de lutas
políticas a seu alcance, as orgamzações políticas e econômicas exis-
tentes e, em geral, diversos aspectos conjunturais que devem ser
reflexionados amplamente .

Em um contexto de economia camponesa e de organi zação


comunal (tradicional), a opção da organi zaçáo intercomunal per-
mite ao campesinato relacionar-se com a sociedade abrangónte
como classe social. O papel da educação e a investigação aponta
para esta opção político-econômica na qual ambas se convertem
em instâncias populares orgânicas.

(4) Carlos Brandão, êIÍl palestra não publicada (Punta de Tralca, Chile,
março-abril 1982), fala em conv erter a educação de classe tradicional em
educação de classe orgân ica. Preferimos empregar o termo " espontâneo,, em
lugar de " tradicional", tanto pelas conotaçóes -negativas que aãquiriu o con-
ceito " tradicional" como porque o conceito " espontâneo", no sentido grams-
ciano, é uma categoria anatítica q ue nos ajuda a visualizar melhor a relação
entre educação popular e pesqu isa participante, assim com o entender com
maior clareza a relação entre senso comum e bom senso, ou seja, entre saber
popu lar espontân eo e saber popu lar orgânico
(org';
166 CARLOS RODRIGUES BRANDÃO

eOY:.ução popular pode-


No entanto, dentro dos programas de
- 1977) que não chegaram
mos encontrar duas concepções tÕ.^'antes
no processo de transição de uma
a entender o papel da educaçào
popular orgânica'
educação espontànea a uma educaçào
como um processo
I ) .1 cotlcepÇão €tttpiricisro. Apresenta-se
descuidando da dimensão
pedagogico fundamentalmenre empírico.
a ser uma simplificação da
analítica e reflexiva do processo. Tende
sistemático da reali-
realidade social e a desvincular o conhecimento
reduzindo esta a suas
dade, reratrvizando o valor da teoria ou
trabalha-se com uma
expressões mais simples. como resultado,
a açáo pela ação "em
visão emotiva e romântic a La qual se coloca
dos problemas exis-
nome do povo,, . ou então se reduz a solução
a pedido da comunidade e
tentes à execução de projetos concretos
vinculados a uma organi-
com a,,participação" dela, Sem estarem
interesses das forças sociais'
zaçáopolítico-econômica que integre os
2)AconcepÇãopedagogista.Apresenta-Secomoumaconcep- pedago-
aplicação rígiáa de certos esquemas
ção caract ertzadã pelá extraídos basicamente da
gicos e metodologicos pr..rrubeleõidos,
colocação de Freire, descuidando de
tudo o que se refere à ação
Nesta corrente se
política como saída logica do processo educativo.
situam os programas anteriormente mencionados que , ào nível teó-
quase obsessiva da "verdadeira
rico, se encerram em uma busca que
programas educativos
consciência de classes,,, assim como os
pensam que ao uttltzarem meios didáticos
e comunicativos não -
audiovisuais, fotogra-
convencionais (bonecos, teatro, sociodrama,
educação popular" '
fias etc.) se está desenvolvendo uma "autênttca
autoprocla-
Mais adiante, veremos como muitas investigações
madas
,,participantes" cometem oS mesmos erros que aS correntes

de edu caçãopopular acima mencionadas.


relação dial etica entre o
Estas não chegaram a compreender a
saber e a ação, carecendo pois ã. uma
crara definição e aplicação
do que podemos chamar práxis social'
dados, fenômenos e
Na educação popular, reflexiona-se sobre
como parte de uma realidade em movi-
processos, analisando-os
ser passivo. o saber, por si
mento dentro da qual o hom.* não é um
mesmo, não traniforma a rearidade: é indispensável que o saber
que o reflita e vice-versa'
esteja relacionado a uma açáo organizada
e organi zar formas
Na educação popurar , deve-se então estruturar que através da
de açáo que dêem vida às idéias . É errado gerais da realidade:
supor
das leis
reflexão se chegará ao descobrimento
REPENSANDO A PESQUISA PARTICIPANTE r67

o problema da dominação, por exemplo, está presente na realidade


objetiva, não na reflexão sobre ela. Por outro lado, uma açáo em
reflexão resulta em uma açáo "cega" (ação pela ação). Por conse-
guintes, o saber e a açã,o formam p arte da mesma unidade diale,trca,
a práxis, corio processo contínuo de reflexão-ação e ação-reflexão.
Somente a açáo política reflexionada tende à transformação social,
ou à, à uma açáo organi zada.
sej
Sustentamos, então, que a mera proclamação (teorica) de que
"a educaçáo popular aponta para a transformação social" nào sen e
pata definir a educação popular. assinr conro r imos gu.' a ideia de
participaçáo em si não signitlca automaticamente educaçào ptr-
pular. Tampouco sen'e dizer que a educaçào popular se caracteriza
por ser educação políti ca, ja que toda educaçào é política: apenas
ocorre que a educação oficial e muitas outras formas de educação
não-formal ocultam suas dimensões políticas, ao passo que a edu-
cação popular procl ama explicitamente sua orientação política.
O trabalho da educação popular estruturada e dos programas
de educ açáo popular deve ser um trabalho orgânico de assessoria
para que a educ açáo popular espontânea se converta em uma edu-
caçáo popular orgânica: s

. trafisformar o saber popular espontâneo em saber popular orgâ-


nico (dimensão ideologica e científi ca);
. transformar a organi zaçáo popular espontânea (tradicional) em
uma organi zaçáo popular orgânica (dimensão política e econô-
mica).

E nesse processo de mudança da educação popular espontâ-


nea para educ açáo popular orgânica que se deve situar não apenas o
programa de educação popular como também a pesquisa partici-
pante e todos os demais programas de promoção e desenvolvimento
integrado, que partam do princípio de "participação da população
na transformação social e estrutural da realidade", jâ que é justa-
mente nesse processo que a parttcipação se converte em uma açáo
reflexionada, onde se inter-relacionam continuamente o político, o

(5) Deve ficar claro também que a educação oficial e as outras moda-
lidades de educação não-formal influem na educação popular espontânea; da
mesma maneira, a ideologia dominante influencia o saber popular espontâneo
mas não com o objetivo de transformá -lo em educação popular orgânica ou
saber popular orgânico.
168 CARLOS RODRIGUES BRANDAO (org.)

econômico, o ideológico e o científico, ou seja, em um a prárxis social


determinada.

Pesquisa Participante

Não só sustentamos que a educação popular deve ser um tra-


balho orgânico de assessoria no processo de mudança da educação
popular espontânea para uma educação popular orgânica, mas
também que o trabalho de investigação deve se situar nesse processo
de mud ança para poder converter-se em uma investigação orgânica.
Denominamos, então, pesquisa participante àquela investigação em
que existe um trabalho orgânico de assessoÍta para que a investi-
gação se converta em uma investi gaçáo orgânica; em outras pala-
vras, quando a partrcipação se situa no processo orgânico de pro-
dução de conhecimentos, no qual o conhecimento popular espontâ-
neo transforma-se em conhecimento popular orgânico (conhecida-
mento científico).
A pesquisa participante6 em poucos anos ganhou certo prestí-
gio no mundo das ciências sociais e graças a valiosas experiências
concretas; sobretudo no campo da educação, os entusiastas da
pesquisa participante puderam delinear as suas características, não
só para distingui-la de outros tipos de investigação social mas tam-
bém para dar-lhe seu próprio conteúdo e definição. A pesquisa
participante ganha cada vez mais reconhecimento oficial no mundo
científico.
Muitas características específicas da pesquisa participante,
hoje em dia, jâ não são discutíveis, e os que reahzam um trabalho
nesse estilo consideram-nas indispensáveis. Estas características se
referem tanto a opção ideológica como à metodologia, no sentido de
que prima a opçáo metodologica que, poÍ sua vez, encontra funda-
mentação em uma opção ideologica.
Podemos resumir brevemente as características principais
encontradas em documentos de trabalho que propõem, descrevem ou
avaliam um projeto de pesquisa participante. Uma definição geral e
bastante acertad a já foi formul ada em 1977 em uma reunião inter-

(6) Neste trabalho, empregamos o termo "pesquisa participante" para


nos referirmos à investigação-ação, à auto-investigação, à enquete partici-
pativa e à pesquisa participante , já que entendemos por participação "a ação
reflexionada em um processo orgânico de mudança".
REPENSANDO A PESQUISA PARTICIPANTE
169

nacional sobre pesquisa participante convocada pelo Consejo


Inter-
nacional de Educación de Adultos:

Nesta definiçào estàrr presenles irrü3S jS p:a,;.r:J.,-=i> ;-..


:.--
transcorrer dos anos. foram esclarecirJas cr-rrr rrlilr trí cetaihe.
.r;i: i
sej am:

1) A investi gação não pode aceitar a distância tradicional


entre sujeito e objeto da pesquisa, por isso deve-se buscar
a parti-
cipação ativa da comunidade em todo o processo de investigaçào.
2) A comunidade tem um acúmulo de experiências vividas e
de conhecimentos; existe, portanto, um saber popular que
deve
servir de base para qualquer atividade de investigação
em beneficio
dela' É a comunidade que deve ser o sujeito da investigação
sobre
sua própri a realidade.
3) A pesquisa participante estabelece assim uma nova relação
entre teoria e prátrca, entendida esta última como a ação para a
transformação.
4) o processo de pesquisa partic ipante considera a si mesmo
como parte de uma experiência educativa que serve para
determinar
as necessidades da comunidade e para aumentar a consciência.
5) A pesquisa participante é um processo permanente de
investigação e ação.A ação cria necessidade de investigação. A pes-
quisa participante nunca estará isolada da ação,
dado que não se
trata de conhecer por conhecer.
6) A participação não pode ser efetiva sem um nível adequado
de organizaçã,o, ou seja, as ações devem ser
org antzadas.
Essas catacterísticas já foram amplamente discutidas nos úl-
timos anos.
Já é chegado o momento de analisar criticamente
se as últimas
tentativas de pesquisa participante conseguiram pro
duzir novas
idéias e maior precisão, ou ainda se nos contentamos
com estas
catacterísticas para definir a especificidade da pesquisa
partici-
I ^0 cARLos RoDRTGUES BRANDÃo (org.)

pante. Como foi feito com relação aos programas de educação


populat, é oportuno mencionar algumas críticas àqueles projetos de
pesquisa participante que consideram as características menciona-
das acima como suficientes para se falar em pesquisa participante.
Sustentaremos que as condições mencionadas são necessárias mas
não suficientes para especifi car a pesquisa participante. Não é nossa
intenção expor neste trabalho todos os pormenores da pesquisa
participante. Neste estudo, analisaremos algumas de suas caracte-
rísticas específicas para depois expor como entendemos, na prártica,
o seu processo.

Opção metodológica da pesquisa participante

A idéia de participação em si não implica que a investi gação


seja pesquisa participante. Para diminufi a distância entre objeto e
sujeito e para assegurar que a pesquisa participante se baseie nas
experiências e conhecimentos populares, elaborou-se um esquema
de como assegurar a participação ativa da população no processo de
investi gação (sintet izado em De Schurter, I 9g l:246).
A participação ativa da população se expressa através de:
. formulação dos objetivos da investi gaçã,o;
' definição dos temas e problemas a inves tigar;
. coleta de dados (uma parte ou o total);
. anâlise dos dados;
' interpretação do significado da nova informação;
. formulação das prioridades;
' identificação de recursos internos e externos à comunidade;
. programação das ações;
. avaliação permanente das ações;
' colocaçáo de novas exigências de informação, formação e ação.
Lamentavelmente, em que pese este esquema manipulado por
todos, muitas vezes a participação atla da população só se reduz
àquelas etapas no processo de investi gaçáo que tradicionalmente se
denomina trabalho de campo. Sem a intenção de menos prezaÍ a
validade daquelas investigações que buscam a participação crítica
da comunidade no trabalho de campo, elas não podem ser conside-
radas como um trabalho orgânico de assessoria parc que a inves-
tigação se converta em um a pesquisa orgônica.
REPENSANDO A PESQUISA PARTICIPANTE t7 I

Como os programas de educação popular, muitas investiga-


ções sociais se contentam quando há participação da população na
coleta de dados. Além disso, para prosseguir a comp aração com a
educação popular, pensa-se cumprir as exigências de uma pesquisa
participante quando se emprega técnicas simples no trabalho de
campo, rejeitando as técnicas tradicionais. A respeito disso, podem
ser feitas as seguintes observações:

a) E ingênuo pensar que a pesquisa participante. por ser uma


pesquisa qualitativa, não pode fazer uso em determ inados momen-
tos de instrumentos típicos de unra pesquisa quanritarir a. ctrrlo. por
exemplo, o questionário tradicional preestabelecido. Se a pesquisa
for orgânica, suas técnicas e instrumentos, quaisquer que sejam,
terão uma característica orgânica, isto é, " paÍa e pela comuni-
dade". É errado pensar que a opçáo ideológica de uma investi gaçáo
é definida pelas técnicas e instrumentos que são empregados.
b) Ao rejeitar as técnicas tradicionais enfatiza-se a necessi-
dade de técnicas simples: fotografias, audiovisuais, historietas, pro-
gramas radiofônicos, graYações etc. Longe de querer rejeitar essas
técnicas, nossa pergunta e: por que elas são consideradas simples?
São simples porque o pesquisador está convencido de que as técnicas
que ele aprendeu na universidade são demasiado complexas para
serem utihzadas pelo "povo". Isso é correto, mas no dia em que um
grupo de pesquisadores profissionais se reunir paÍa analisar um
problema de sua própri a realidade (por exemplo, a autonomia uni-
versitária) e só empregarem historietas, audiovisuais etc. se darão
conta de que a técnica de escrever uma historieta ou o guia de uma
fotomontagem e tã,o complicada quanto a elabo raçã,o de um ques-
tionário preestabelecido.
Em resumo, âs técnicas e instrumentos de investi gaçáo não-
convencionais por si mesmas não garantem que a investi gação seja
pesquisa participante e constitui equívoco dar-lhes a conotação de
"simples".
c) Um método muito empregado é o da devolução; muitas
técnicas não-convencionais servem para que haja devolução de co-
nhecimentos adquiridos . Há momentos na investigação em que se
deve devolver certos resultados ao grupo que está pesquisando,
porém essa exigência não é feita somente ao pesquisaàor profissio-
nal, mas a qualquer pessoa envolvida na investigação. Quando em
uma comunidade um grupo de idosos e jovens está sistem atizand,o os
conhecimentos existentes sobre, por exemplo, plantas e ervas medi-
t74 CARLOS RODRIGUES BRANDÃO (org.)

implica uma seqüência de relações específicas, qual seja, a "neces-


sidade de um compromisso de participação por parte da comuni-
dade durante um período mais amplo do que ocorre com outros
métodos de pesquisa. A unica coisa que pode justific ar tol solicitude
e fazê-la bem-sucedi da e a perspectiva de obter maiores benefícios
diretos... " (De Schutter, 1981:262: grifo nosso). Sustentarnos que
esta afirmação e a propria negação da legitimidade de um projeto de
pesquisa participante.

Investigação-ação

Como a participação, a açáo em si mesma não garante auto-


maticamente que a pesquisa estej a relacionada adequadamente com
a açáo, ou seja, que possaÍnos falar de uma ação reflexionada.
No que se refere à relação investi gaçáo-ação, esta ultima pode
ser empregada como nova forma de manipulação:

Ao executar um proj eto de pesquisa participante, a equipe se


propõe também a apoiar ações concretas da comunidade. E assim
que o pesquisador profissional executa seu projeto de pesquisa
e, ao mesmo tempo, a equipe promotora apoia a execução de
pequenos projetos (por exemplo, granjas comunitárias de peque-
nos animais, oficinas de artesanato, baruacas comunais etc.)
ou desenvolve projetos de alfabetizaçáo. Fica claro que essas ações
nada têm a ver com a pesquisa, jâ que não há, uma relação dia-
letrca entre reflexão e açáo, ou seja, de maneira alguma pode-se
falar em práxis social. Podemos nos perguntar, em outros termos,
se a equipe promove a comunidade ou o pesquisador profissio-
nal, ao motivar o grupo camponês a participar na pesquisa do
profissional através de uma técnica manipuladora de apoio a
ações concretas. Mais adiante, retomaremos a relação entre pes-
quisador profissional, equipe promotora e comunidade.
Outra técnica manipulativa é utthzar uma açáo concreta paÍa
que a comunidade faça, por exemplo, seu autodiagnóstico cum-
prindo os diferentes passos da pesquisa participante (ver acima),
enquanto os resultados dessa pesquisa servem a um tema de inves-
tigaçáo que não tem nada a ver com a açáo concreta, mas é o
tema proposto pelo profissional a si mesmo (por exemplo: a açáo
visa estabelecer na comunidade um posto médico, enquanto o
tema de investigaçáo é estudar a relação entre as formas de orga-
REPENSANDO A PESQUISA PARTICIP.{\TE 175

nlzação social da comunidade e as atividades


de produção e co-
me rc ialização) .
' Tambem a investigação pode ser empregada
como meio para ob-
ter a participação ativa da comunidade
nas ações do progra.ma de
,cesen'olvimento, que em si não é
discutível

os três exemplos carecem de duas condições


necessárias para
.c pode r falar em investigação-ação:

1) não há presença da org anização que guia


a ação, uma yez
:ue a ação, em úrtima instânc ia, é uma açã,o política;
2) não se trata de uma açã,o reflexionada, mas
de ações sepa-
radas do trabalho de pesquisa, que
neste caso é somente uma prá-
Irca teórica diferente da práxis sociar.

Pata que haja uma relação adequada entre pesquisa e ação,


onde a ação não se reduza a uma mera
táttica (manipulativa), nem a
investigação se conv erta numa nova prática
teórica, deve haver uma
instância mediadora , qual seja, a organi
zaçã,o. É a organi zaçã,o
(político-econômica) que dá garantia
para que:

l) a pesquisa científica seja uma investigação própria


dos se-
tores popul ares, inserida e não
apenas ,,baseada,, na sua
realidade social; em suma, uma invãsti gação
orgânica (a opção
ideológica como objetivo final dos profiJsionais
comprometidos);
2) o trabalho do pesquisador profissional seja um
trabalho de
assessoria que permite ao saber popular
espontâneo converter-se em
saber popular orgânico; isto é, urnu investi
gação-ação com um tra-
balho orgânico de ação reflexionada (opção
áetodológica).
Essa instância de organização, onde o
esforço da pesquisa é
um trabalho de assessotia, supera as características
iniciais da pes-
quisa participante, as que chamamos
necessárias mas não suficien-
tes' F azia falta à nossa afirmação a condição
de organi zação que
garantirá uma pesquisa orgânica.

Intelectual orgânico

Para terminar esta primeira parte, resta-nos


uma observ ação:
a relação entre pesquisador e grupo popular
no processo de trans-
176 cARLos RoDRIGUES BRANDÃo (org.)

formar o senso comum em bom senso.e A pesquisa.participante é


conhecida como a primeira corrente de pesquisa social que procura
diminuir a abismal distância entre pesquisador profissional e comu-
nidade. À parte o fato de a pesquisa participante conter um con-
junto de técnicas para fazer com que a população participe da pes-
quisa (ver acima), tambem deu a esta tarefa um conteúdo ideo-
logico.
Foi Gramsci quem esclareceu de maneira bastante acertada o
conceito de intelectual empregado amplamente na educação popu-
lar. No entanto, nota-se em vários trabalhos uma interpretação
equivo cada do que Gramsci chama "intelectual orgânico".
De acordo com as colocações de Gramsci, a relação pesqui-
sador profissional-comunidade pode-se dar, consciente ou incons-
cientemente, de duas formas distintas.
A primeira forma é aquela que tenta criar uma unidade ideo-
logica entre "os de cinra e os de bairo". entre o "povo" e os inte-
lectuais. nào para que o po\ o produza o mesmo nível de conheci-
menro cientítlco. mas para manter os subalternos em sua filosofia de
senso contum. erigindo dos intelectuais que não ultrapassem os li-
mites desse senso comum e se adaptem ao saber popular espontâ-
neo.
Reduzindo a pesquisa participante a um simples método,
justificando a participação pelo uso de técnicas simples, pode-se cair
facilmente no erro de impedir o progresso intelectual dos setores
populares, ou seja, impedir uma pesquisa orgânica, o QUe, por sua
yez, permite ao pesquisador profissional continuar investigando
como sempre. Esse tipo de pesquisa participante pode ser criticado
da mesma forma como Gramsci criticou a Igrej a Catolica: "A Igreja
Romana sempre foi tenaz em seus esforços para impedir que se
formem 'oficialmente' duas religiões: a dos 'intelectuais' e a das
'almas simples', mantendo os 'simples' em sua primária filosofia de
senso comum" (Gramsci, 1967:70).
A outra forma é a antítese da mencionada acima: orienta-se
para guiar os "simples" paÍa uma concepção superior de vida.
" S e se afirma a necessidade do contato entre intelectuais e
simples, não e para limitar a atividade científica e manter a unidade
ao nível baixo da massa, mas precisamente para crtar um bloco

(9) Os conceitos "saber popular espontâneorr e rr saber popular orgâ-


nico" têm semelhança com o que Gramsci chama de " senso comum" e "bom
senso" .
REPENSANDO A PESQUISA PARTICIPANTE 177

':ielectual-moral que torne possível um progresso


:'jssa e não unicamente dos grupos reduzidos intelectual da
de intelectuais,,
ú:-amsci, 1967:73). No *o*.nio em que
esse "progresso intelec-
:-'il" se constitui em um processo orgânico no qual
o saber popular
-u
:lpontâneo torna-se um saber orgânico, podemos
:'i estigação é uma pesquisa partlcipuni.,
afirmar q'*
que aponta para sua
: :insformação em pesquisa orgânica.
Desta segunda forma de relação entre pesquisador
:'i e comunidade pode-s e d,izer que se trata de um trabalhoprofissio-
perma-
:'nte de assesso tia para "elevar constantemente
o nír el intelectual
ias c amadas populares mais amplas. o que
signitica trabalhar para
f romover 'elites' de intelectuais de um no\
o tipo. surgidos direta-
rnente daqueles que permanecem em
contato para se transforrnarem
no núcleo expressivo básico " (Gramsci,
1967:g I ).
Com isso, tocamos no conceito mais conhecido
de Gramsci,
que é também o mais mal interpretado:
o intelectual orgânico.
Partimos da premissa de Gramsci, segundo
a qual todos os
homens são intelectuais embora nem todos
desempenhem na socie-
dade a função de intelectuais. E necess
ario, então, criar um novo
tipo de intelectual, ligado organicamente ao
desenvolvimento da
organi zaçã'o político-econômica do setor
popu lar. Ao criar esse novo
tipo de intelectual, o problema essencial vai
ser a relação entre o
intelectual como categoria orgânica, o intelectual
tradicional e a
comunidade em geral. Deve ficar claro que
o intelectual tradicional
não é um intelectual orgânico do setor popular
por mais que se
autoproclame como " pesquisador consciente
de seu papel de inte-
lectual orgânico" (De Schutter, 198 l:259).
A tarefaprimordial do
setor populat é, por um lado, criar intelectuais
próprios, orgânicos,
e, por outro , assimilar intelectuais tradicionais.
o segundo, o intelectual tradicional, tem como tarefa
asses-
sorar o trabalho de pesquisa para que o
setor popular produza
conhecimentos científicos "o rgânicos" (saber
popular orgânico) .
Este trabalho deve ser obrigatoriamente
uma pesquisa participante.
o intelectual orgânico tem como tarefa levar adiante
uma verda-
deira investigação orgânica. Ambos têm
uma tarefa crítica e cria-
tiva' crítica no sentido de apropriação da ciência
e tecnologia exis-
tentes, e cri ativa no sentido de responder
cient ífica e tecnicamente
às necessidades e interesses do próprio
setor popular.
Para terminar esta parte, é oportuno
filar sobre o papel da
equipe promotora. Em todos os programas
de educação popular.
desenvolvimento rural e pesquisa participante,
conta-se com equipes
178 cARLos RoDRIGUES BRANDÃo (org.)

promotoras. Lamenta\ elmente. o pesquisador profissional ou o teó-


rico da educação popular muitas \ ezes subestima o papel suma-
mente i-portante dessas pessoas. Se há um grupo de intelectuais
que pode se apropriar do títulr-r de " intelectual orgânico", é este.
Porem. pelo tàto de trabalhar sempre em conjunto com o setor
popular e para ele. essas pessoas não têm tempo de "estudar" as
obras de Gramsci, de modo que o pesquisador profissional acaba
sendo-lhes superior: e este se sente muito feliz e engaj ado com seu
novo título de "intelectual orgânico". Por isso, é urgente criar
oportunidades para que as equipes promotoras tenham tempo e
possibilidades de sistematizarcm suas próprias experiências. Se di-
zemos que os setores populares podem e devem sistematizar suas
experiências, conhecimentos e vivências, deve-se sustentar o mesmo
com respeito às equipes promotoras, os representantes mais nítidos
tanto de intelectuais orgânicos quanto de intelectuais tradicionais
assimilados pelo povo.

Pesquisa participante em um contexto


de economia camponesa: um caso

Nesta parte, analisaremos brevemente um caso concreto de


pesquisa participante nos Andes peruanos, em um contexto de eco-
nomia camponesa, para visualizaÍ as idéias expostas anteriormente.
Mostramos que não basta a mera proclamação ideologica de
que a educ açáo popular ou a pesquisa participante devem apontar
para a transformação da sociedade. Do mesmo modo, vimos que a
participação em si não significa automaticamente educação popular
ou pesquisa participante, tampouco é suficiente drzer que ambas se
caracterizam pelo uso de meios educativos e/ou técnicas de investi-
gação simples e não-convencionais. Consideramos tudo isso como
condições necessárias porém não suficientes. É importante, além
disso, conceber a educação popular e a pesquisa participante como
um trabalho orgânico de assessoria para que:
. a educação popular espontânea se converta em educação popu-
lar orgânica;
. a pesquisa popular espontânea se converta em uma pesquisa po-
pular orgânica.
Além disso, esse processo deve ocorrer em quatro níveis:
RE PE\SANDO A PESQUISA PARTICIPANTE 179

i-,-rntimicO e o político (a organização popular orgâni ca);


-.eniltlco e o ideológico (o saber popular orgânico).

Somente assim podemos falar de uma participação da popu-


-.- l,-' ç-trrrlo uma açáo reflexionada, como uma práxis social.
Essa interação entre o econômico, o político, o ideológico e o
- :::t tlco deve encontrar sua concreção no trabalho orgânico de
:. iÊSsoria, daí que , flà prâtica concreta, não existe um processo
:..ritamente seqüencial , tampouco é possível isolar ações de uma
: :llensão das de outras. No que se ret-ere a ações educati\ as. eco-
políticas, já.é amplamente aceita sua inter-relaçào perma -
:. -inticas e
rr'Irt€. Lamentavelmente , a ação de pesquisa ainda nào se integrou
It'rtâlmente a este processo multidimensional de ação reflexionada,
no qual também a pesquisa participante deve ser um trabalho
rrrgânico de assessoria.
Nas linhas seguintes se descreve, então , um caso concreto que
husca permanentemente fazer todas as suas ações constituírem um
trabalho de assessoria nos planos educativo, econômico, político e
científico. Os exemplos mostram claramente a inter-relação entre
essas esferas.
O Centro de Capacrtación Campesina (designado de ora em
diante como Centro) iniciou suas atividades em 1977 na zona andina
do D epartamento de Ayacucho, como um programa da Universidad
Nacional de San Cristobal de Huamanga.
Como já dissemos, é difícil isolar uma ação concreta da outra;
apenas por razões estritamente prâtrcâs, podemos dizer que o Cen-
tro trabalha com:

1) capacitaçáoleducação popular;
2) investigação social e tecnologica;
3) assessoria a projetos comunitánios e intercomunitários;
4) organi zação comunitária e intercomunitária.

Atualmente , trabalham quatro equipes multidisciplinares em


quatro ambientes geográficos (núcleos intercomunitários) que de-
senvolvem as atividades assinaladas. Um núcleo consiste em várias
comunidades, cada qual com sua organizaçã,o comunitánia, onde
existe um comitê intercomunitánto eleito por cada uma das comuni-
dades na assembléia comunitária que controla e fiscaliza suas ações.
A descrição anterior mostra que a comunidade camponesa
continua sendo a base da organi zaçáo intercomunitá ria, porque a
180 cARLos RoDRIGUEs BRANDÃo (org.)

este nível é que se controla os recursos da terra, água e força de

trabalho.
E fundamental compreender a base econômica da organizaçáo
comun rtârra porque é ela que determina, em ultima instância, as
possibilidades e limitações da economia familiar camponesa
As comunidades na zona de trabalho sào muito bem organi-
zadas e ainda pouco diferenciadas. O isolamento geográfico e os
conflitos entre as comunidades parecem influir na coesão da organi-
zaçáo comun ttarta.
As comunidades são extremamente pobres e a região é das
mais oprimidas do país: não existem serviços de saúde, água potâ-
vel, assistência técnica, infra-estrutura de irrigaçáo, estradas; a pro-
dução agrope çlarta é muito baixa e, juntamente com a produção
artesanal doméstica, continua sendo destinada principalmente ao
uso da unidade doméstica.
O conjunto de fatores faz com que o nível de vida da popu-
lação seja muito baixo.
Em Víctor Fajardo, província onde está situada a maior parte
das comunidades com as quais trabalha o Centro, a esperança de
vida é de 40 anos e a taxa de mortalidade infantil,24,3o/o (Amat &
Leon, 1981:42).
Encontramos o fenômeno da migração em todas as comuni-
dades, apesar de se encontrarem geograficamente isoladas. A mi-
gração sazoflal não é tão recente, como muitas vezes se afirma, pois
há muitas décadas a migr açáo é uma atividade elementar na região
para completar a renda familiar. No princípio deste século, os
camponeses caminhavam para a Costa, numa viagem de até 8 dias,
puri trabalhar nas grandes fazendas. Eram fazendas de monocul-
tura (principalmente algodão) destinada à exportaçáo que, effi época
de colh etta, requeriam muita mão-de-obra (Zervalos, 1982). Na dé-
cada de 60, diminui a demanda de mão-de-obra nas fazendas cos-
teiras e cresce a necessidade de mão-de-obra b arata para a indus-
tÍra, motivo pelo qual aumenta a migração temporária.
Na dec ada de 70, retoma importância a migração sazonal,
desta vez paÍa a Selva, onde o auge da produção de café e cacau
requer mão-de-obra barata para a colheita.
E o desenvolvimento do mercado interno que, juntamente com
os termos desiguais de troca, aumenta a necessidade de dinheiro,
obtido principalmente por meio da migraçáo sazonal, iâ que não há
maiores excedentes agropecuárias ou artesanais que possam ser
oferecidos no mercado.
REPENSANDO A PESQUISA PARTICIPANTE
18r

Embtrra o sistema de troca por escambo (intercâmbio


de va-
:r: Ji L^rSt) entre diferentes territórios ecológicos) persista ainda,
i, s pode negar os amplos contatos com o mercado.
'\ produção é organi zad,a pela unidade dornéstica em um
' -:I3\to de economia camponesa no interior da organi
zação comu-
:.:rria.
Esta organizaçáo tem uma logica própria de funcionamento
'lue denominamos "racionalidade camponesa": essa racionalidade e
'r conj unto de arranj os sociais, econômicos, tecnológicos. políticos
e
:deologicos que asseguram a estrategia de sobrer
ir ência. qLle enrranl
'-ada Yez mais em contradição com a racionalidade do mercado.
Com base em um reconhecimento global da região (indispen-
sár'el para o profissional que ali trabalha) confrontam-se
as dife-
rentes visões sobre a realidade em assembléias
comunitárias, peque-
nos cursos de capacitação, grupos de discussão
com autoridades
comunitárias, dirigentes e comuneiros em geral. planeja-se
um con-
j unto de ações alternativas que podem
.*[i. trabalhos específicos:
pesquisa, capacitação, execução de algum projeto
etc. Até aqui,
o profissional continua sendo o promotor ou organi
zador do pro-
cesso' Reconhecendo que a comunidade cumpre
funções econômicas
(controle da terra, água e força de trabalho), políticas
(defesa dos
recursos coletivos e individuais) e culturais (oferece
uma ,,identi-
dade" ao grupo humano), as atividades educacionais,
de pesquisa e
de promoção giram em torno destas funções. Embora
o camponês
usufrua da tetta agrícola individualmente, a comunidade
lhe ga-
rante o acesso aos diferentes terrenos ecológicos da
comunidade, e
todas as áreas de pastagem pertencem à comunidade.
No entanto, a organizaçã,o comunitánia se encontra por
sua
vez limitada no "enfrentamento" com a sociedade
maior, e é assim
9ue, a pafitr de 1979, se chega a coloc ar a organi zaçã,o intercomu-
nitéma como eixo central do trabalho. Na reflexão
inicial sobre a
organi zaçáo intercomunitária perfilam-s e razões
e motivações orga-
nizat|as e administrativas internas (eficiência de trabalho)
mas a
perspectiva é clata desde o início: enco ntrar
uma resposta adequada
pata a defesa dos interesses de todos os camponeses.
Essa dimensão
de classe se vem perfilando no trabalho p.r*unente
com a comu-
nidade nas diferentes ações que se desenvolve; é
o momento em que
as atividades do Centro começam a adquirir
as características de um
trabalho orgânico de assessoria .

Na região não existiam fatores "externos" que gerassem


uma
experiência de luta coletiva, pois não houve ali prár.nlu
importante
r82 CARLOS RODRIGUES BRANDÃO (org.)

de latifundios, o que fez com que não se tenha conhecido a expro-


priação de terras por latifundiários (embora existam algumas e''ni-
dências históricas em Quispillaqta, onde parte dos comuneiros rê
estabeleceram em caráter permanente na a\ta da comunidade
4000 m sobre o nível do mar -
paÍa defender as teruas comunais
-
contra as invasões de latifundiários)
Na epoca pre-colonial, a região foi controlada pelos incas sob
o princípio de "dividir para governàÍ", colocando em uma região
relativamente pequena diferentes etnias tradicionalmente inimigas e
de dificil controle. Estas Çomeç aram a lutar entre si para recuperar
identidade coletiva e as lutas entre as diferentes comunidades se
mantiveram durante séculos, até a atualidade.
Essas lutas asseguraram a "pa, social" e ftzetam com que a
região fosse abando nada todo o tempo por qualquer espécie de ser-
viços, já que não existia a necessidade de "apadrinhamento estatal"
(Scott, I976:215) para suavizar os conflitos sociais estruturais.
Aparentemente, esse contexto não é precisamente um terreno
fértil para uma organizaçã,o intercomunal; no entanto, é a partir do
desenvolvimento do mercado interno, que se expressa em problemas
concretos e imediatos, que as comunidades começ aram a colocar a
dimensão intercomunal como forma de luta contra a contradição
primária. As comunidades estão se dando conta de que as contradi-
ções litigiosas thes fazem perder seus fundos (comunais) , para pagaÍ
juízes etc., sem que haja sequer as mínimas condições para melho-
rar os níveis de vida. Ora, nem as comunidades nem o Centro optam
por negar simplesmente essas contradições secundárias, effi seu afã,
de trabalhar somente em função da contradição primária. O que
está claro é que ambos estão em um processo no qual a orga ntzaçã,o
tradicional está se superando em direção a uma organi zaçáo orgâ-
nica de classes.
Nos encontros e reuniões intercomunais, se observa quais tipos
de problemas vão sendo dimensionados como problemas de inte-
resse comum. A necessidade priorit ária colocada de encontrar for-
mas coletivas de defesa contra o roubo de gado mostra que a
organi zação comun itárta de defesa contra um problema com
QUe, se perdura, põe em perigo os frágeis níveis de subsistência
pode ser mais efetiva se estiver liga da a uma organi zaçáo maior -de
defesa, como uma forma de obter maior forç a na negoci açáo com a
sociedade global para conseguir a homogeneidade dos interesses e,
assim, a identidade de classe.
REPENSANDO A PESQUISA PARTICIPANTE
Para evitar o iminente perigo de um apadrinhamento
.,,,
assis-
tencialista para a orgamzação
1i"t.r)comunrtâriapelo centro, este
optou em 1980 por não ter fundos para
a conc retização de projetos,
destinando à organização intercomun
itária recursos que podem ser
usados autonomamente pelas comunidades
e de acordo com as
necessidades e interesses; o manejo desse fundo ajuda também as
comunidades a procurar e exigir recursos
tgovernamentais e não-governamentais).
de or1.u, instituições
Tanto no manejo do fundo
rntercomunitário como na dificílima tarefa
de consesuir outros fun-
dos, o centro tem um paper de intermediador
e assessor.
Nesse contexto de org anizaçâo comunrraria
e lnrercomuni-
tária, realizam-se atir idades de capacitaçào
e inr estigação que po-
dern ou não ser desenvolvidas ao redor
de algum projeto concreto.
mas de qualquer maneira sempre estão
ligadas a ações concretas
9ue' por sua vez, estão em relação com a organi zaçã,o (inter)co-
munal.
Já que todas as comunidades se encontram entre 3 000 e 4000
metros sobre o nível do mar, uma atividade
importante é a crtação
de gado, motivo pelo qual a saúde
anim al etema de discussão e ação
sempre presente.
Uma das alternativas de solução pode ser um
serviço veteri-
nário' Atualmente, três núcleos intercomunitários
estão implemen-
tando um posto veterinário e discutindo
a forma de administrá-lo e
organizá'lo, para que seu funcionamento seja
coerente com a orga-
nizaçã'o comunitária existente e com
a orga nizaçã,o intercomun itária
(o posto tem uma função intercomunitárú).
Evita-se qualquer imposição de uma nova
forma organi zativa
para o posto sem relação com a organi
zação (inter)comun itánia.
Ao mesmo tempo, o posto torna necessária
a reali zação de um
censo pelas comunidades para se conhecer
o número de cabeças de
gado e estão sendo pesquisadas diferentes
formas de cura tradicio-
nal em compataçã,o com tratamentos
"modernos,, para se verificar
qual é o mais adequado segundo uma
lógica dupla: a da economia
camponesa e a da dinâmica da economiá
capitâlista. os comunei-
ros' conscientes de que vale mais se basearem
em seus próprios
recursos em Yez de comprar remédios
modernos sem maior conhe-
cimento sobre sua eficácia e conseqüências,
manifestaram também
a necessidade de saberem se seus conhecimentos
empíricos, acumu-
lados durante séculos, sobre ervas e plantas
medicinais são corretos
e verdadeiros; exigiram então uma pesquisa
sobre a eficácia e as
conseqüências do uso de remédios tradicionais.
Colocaram clara-
184 CARLOS RODRTGUES BRANDÃO (org.)

mente que não lhes ajuda em nada um romantismo


cego no sentido
de fundamentarem-se indiscriminadamente nos remédios
tradicio-
nais: dever-se-ia investi gar ambos os tipos de remédios
quanto à
eficácia e à utilidade, para se poder escolher adequadamente
entre a
as diferentes alternativas. "Adequadamente " refere-se,
então, à
dupla lógica econômica: adequados à economia camponesa
relações que o campesinato mantém com o mercado.
e às
Ora, qual
é a relação entre Centro e comunidades durante
toda essa problemâtrca de sanidade animal, especificamente
no que
toca ao censo da posse do gado e à investigação
sobre remédios
adequados?
Deve ficar claro que a atual maneira de trabalhar
entre o
Centro e as comunidades camponesas é fruto de
todo um processo
conjunto' Ao iniciar suas atividades na reg iã,o, o Centro
estava longe
de seu papel assessor; o alcance está no fato
de todos terem experi-
mentado esse processo, no qual a relação entre
Centro e comuni-
dades tem sofrido mudanças continuamente.
Deve ficar claro tam-
bém que aquilo que chamamos de elementos minimamente
neces-
sários de uma pesquisa p artrcipant e já estão presentes
nesta fase,
como, por exemplo:

' a partici paçáo da população se expressa em todas


as fases da
investi gação, desde a definição do tema e a formul
açáo dos obje-
tivos ate a interpretação da nova inform ação e a programação
de ações e novos temas de investigação;
o o uso de métodos e técnicas
adequados ao tema de pesquisa,
entre os quais a devolução permanente.

O que queremos mostrar com esse exemplo é como o


saber
popular espontâneo passa a ser um saber popular
orgânico, através
de um processo de pesquisa participante
àr., por sua vez, ajuda a
tornar também orgâni ca a investi gação. o trabalho
da equipe pro-
motora é um trabalho de assessoria em um processo
de açã,o refle-
xionad a da própria população.
Yuraq Ctuz é uma aldeia na região Pun a (4000
m de altitude);
a atividade principal, condicionada pelo fator
climático, é o gado.
Todos os comuneiros tamb ém têm acesso
ao terreno ecológico eue-
chua (2000-3500 m de altitude), onde se pro
duz principalmente
milho' A aldeia faz parte da comunidade camponesa
que lhe assegura o acesso aos diferentes terrenos euispillaq pel o
ta,
ecológicos. o
fato de a atividade produtiva principal ser a criação
de gado, o
centro intensifica seu trabalho nessa área.
REPENSANDO A PESQUISA PARTICIPANTE }-.

Para o Centro, é importante conhecer


o número e a posse dos
::lerentes tipos de gado, como também
da posse da terraparatraçar
:€l trabalho futuro' Quando os profissionais
iniciaram seu trabalho
f i' '--omunidade de Quispillaqta, da qual
faz parte yu raq Cruz, foi
::rro um reconhecimento gtouat da regiao,
mas apenas com fins
::3ticos, iá que eles deveriam saber
d; existência e das possír,,eis
: r;lseqüências de uma diferenciação
camponesa no interior da co-
:unidade (distribuição de riqu eza. poder
etc.). Mesmo assim. era
:3cessário pata eles conhec.i os problemas
relatir os ao gadc. trS
:lis importantes da região. Sabíamos de antenràt-r
que a intorma"-ào
:tida estava distorcida. já que não hou\ era
parricipacào ,Ja p..pu-
':ção na pesquisa. Tampouco essa parricipaçào
::'lottvada, o que resultal'a numa tecnica
toi buscada
t-ru
de manipulação muito sutil.
-'á que a população naquele momento não sentia a necessidade
de tal
Fesquisa, e o centro não poderia justificar
ainda por que pensa\
a
que a pesquisa era útil e importante
para ela. ó que se fez foi
devolver o resultado do estuáo de
basà, através de um folheto e
audiovisual para começar uma discussão
com a comunidade sobre a
r isão que os profissionais
obtiveram d,a realidade e sua proble má-
t ica.
A pesquisa
logo se tornou útil e importante para a
comuni-
dade, quando se apresentou um problema
agudo que afetou a pre-
'-ária situação econâmica de todos os comuneiros: tratava-se de uma
enfermidade animal bastante generalizada
e de conseqüências fa-
tais' o alicuya (fascíola hepática) . os profissioanis
conseguiram
explicar aos comuneiros que somente
um tratamento coletivo pode-
ria solucioÍrar o problema ,
iá que o alicuya era contagioso. Desse
modo' a população se deu cónta de que
,rá i*portante e útil conhe-
cer o número e a posse dos diferentes
tipos de gado. A assemb leia
comun itátia concordou em executar um censo pecuário,
gando sua organi zação às autoridades encarre-
locais assessoradas pelos pro-
t-issionais' As autoridades locais
decidiram formar um grupo de
"pesquisadores " constituído
por eles mesmos, jovens da comuni-
dade e os profissionais . Foram incluídos
os jovens porque são os que
sabem ler e escrever; as próprias
autoridadãs parti ctparam porque a
assembleia declarou que não se obteria
um bom censo se apenas os
jovens se encarregassem dele,
pois sendo estes pessoas sem maior
autoridade junto à comunidadà, nem todas as
famílias poderiam
Ihes passar as informações verdadeiras.
Foi assim que um problema
real e sensível deu início a todo
um processo de investigação sobre a
ati'idade econômica principal : a criação
de gado.
186 CARLOS RODRIGUES BRANDÃO (org.)

Mais adiante, a enfermidade provocou uma discussão'sobre


suas origens e as diferentes alternativas paÍa sua solução. Con-
cordou-se também em real izar uma investigação ampla sobre a
medicina popular e a medicina moderna em pecuária. A assembléia
concordou que a equipe encarregada da pesquisa incluísse mulhe-
res, jovens e profissionais: as mulheres porque se dedicam principal-
mente a trato do gado e. portanto. têm maiores conhecimentos
acumulados sobre formas tradicionais de tratamento de doenças;
os jovens, para que aprendessem os conhecimentos existentes dos
anciãos; os profissionais, para auxiliar os diversos passos da pes-
quisa, especialmente na análise química dos tratamentos.
Os passos da investi gaçáo foram os seguintes:
. sistemat tzaçáo das principais doenças do gado na região ;
. coleta de dados relativos ao conhecimento existente sobre ervas
e plantas medicinais adequadas para tratar de doenças do gado;
. coleta de dados relativos ao conhecimento existente sobre a forma
de prep aÍação dos remedios;
. análise das causas das doenças; os profissionais, de um lado,
argumentavam que o alicuya era conseqüência da contaminação
da âgua, enquanto os comuneiros afirmavam ser um castigo de
Wamani (o deus da colina). As duas explicações são levadas em
consideração; através de provas empíricas se procura a resposta
adequada;
. análise dos tratamentos caseiros: essa análise se realtza tanto no
próprio camp o, através de provas empíricas (na comunidade exis-
te um "laboratório de campo") como em laboratórios reconheci-
dos, paÍa definir os elementos ativos de uma planta ou erva, isto
é, também fazem parte da investigação algumas técnicas compli-
cadas;
. depois de saber quais tratamentos serviriam para comb ater o
alicuya (devolução dos resultados a todos os comuneiros), analisa-
se qual das alternativas é mais adequada economicamente, par-
tindo da ja explicada dupla logica de racionalidade econômica.
Esse exemplo mostra como o saber popular espontâneo (co-
nhecimento empírico, crenças, mitos etc.) passa a ser saber popular
orgânico (conhecimento científico surgido em função da realidade
política e econômica da comunidade).
A pesquisa é participante não apenas no sentido de que a
população dela participa, nem só pelo fato de a investi gaçáo estar
baseada no saber popular e na realidade sócio-econômrca, mas
REPENSANDO A PESQUISA PARTICIPANTE 187

tambem por tornar-se uma investi gaçã,o orgânica.


Tanto os comu-
neiros como os profissionais desempenham
uma tarefa críttca e
criatir.a' buscando criticamente quais avanços da
ciênc ta e da tecno-
iogia existentes podem ser úteis e geram criativamente
novos conhe-
cimentos, aceitando ou rejeitando conhecimentos
existentes.
A ação reflexionada mostra-se mais claramente no último
passo, onde se deve definir qual e a
açã,o mais adequada no interior
'Ja economia camponesa e das relações existentes com a sociedade
mais ampla; por exemplo, um remédio caseiro pode
ter rentabili-
dade econômica se se considera o gado como
mercadoria. mas o
mesmo remédio não é rentável se o gado tem
apenas yalor de uso.
Eristem também, naturalmente. casos inr-ersos.
Em todo esse processo de investigação se observa claramente
que o papel dos profissionais já é o de assesso
rra; nesta fase do
programa, é a comunidade que se encarrega
da investi gaçã,o, sem
subestimar o papel importante dos profissionais;
com isso se está
criando sobretudo intelectuais próprios, orgânicos,
e assimilando
in telectuais tradicionais.
A experiência demonstra que não é a simplicidade
da técnica o
que determina a pesquisa como participante.
São os camponeses,
por meio de um processo de reflexão conjunta,
que estão sistem ati-
zando suas experiências e gerando novas opções,
criando assim, em
um processo de educ açã,o orgânica, seus proprios
intelectuais. O
papel do profissional tradicional é fundamentalmente
distinto e,
apenas na medida em que se assimila a este processo,
é de asses-
soria.

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Em busca de uma
metodologia de ação
institucional
uma experiência de pesquisa
e planeiamento participatiyo nos sertões
do Canindé*
Manuel Albe rÍo Argumedo**

Definição participativa de um convênio


de cooperação técnica

Ett fevereiro de 1980, iniciou-se a execução do convênio de


cooperação técnica entre a Secretaúa de Educação
do Estado do
Ceará e o Instituto Interamericano de Coope ração para
a Agricul-
tura (IICA), visando apoiar o desenvolvimento a. programas
de
educação integrada na zona rural do estado. Apesar
de incluir o
texto do convênio algumas definições mínimas com relação
aos
objetivos e metas da cooper açáo técnica, considerou-se
necess ário
começar o trabalho a partir de uma reflexão conjunta
de todo o
pessoal da Secretarta envolvido na execução de
açoãs educativas na
zona rural, procurando delimitar as principais
dificuldades enfren-
tadas ' O plano de trabalho do convênio deveria
surgir desse diálogo,
como um esforço por encontrar
iuntos caminhos alternativos pãru
superar essas dificuldades .

Assim, a primeira atividade dos técnicos do IICA foi


conhecer
a realidade: situação da educação rural no estado,
principais pro-

(-) Relatorio de experiência de um sistema de educação rural


projeto de desenvolvimento. rurat integrado realizado em um
, pela §ããr"trria de Edu-
cação do Ceará e pelo lnstituto lnteramericano de Cooperação
cultura llcA' Autor agradece as inrormàçoãã e os materiaispara a Agri-
nados por- Beatrizo Feitosa proporcio-
oê Carvalho, que acompanhou o traba lho desen-
volvido.pgla gomunidade de Bonitinho, canindé, cE.
(**) Peruano, educador, técnióo oo rrcÁ nõ arasit.
leO cARLos RODRIGUES BRANDÃo (org.;

blemas, ações em execução e programadas pela Secret artae outros


órgãos. A seguir, realizou-se um seminário com a partrcipação de
todos os técnicos da Secretaria que direta ou indiretamente tinham
relação com os projetos de educação rural. O seminário teve, como
tema central, "Educação Rural: uma estrategia de ação,, e desen-
,
volveu-se em uma série de debates em pequenos grupos e plenárias
sobre um conjunto de parágrafos brevôs qr. pr.i.nàiu* subsidiar
as definições estratégicas esperadas como resultado das discussões.
Como apoio para os trabalhos de grupo, foi elabor ada uma coletâ-
nea de textos de diferentes autores que discutiam afrcmações conti-
das nos diversos parágrafos do texto-base.
O resultado desse seminário foi um documento que definia as
diretrizes a serem seguidas para que a educação rural pudesse
assumir seu papel em um programa de desenvolvimento integral,
concebido como "um processo sócio-econômico, político e cultural
das populações rurais cont vistas a melhorar suas condições de
Vida"- que der erá necessariamente realizar-se " através da partici-
pacào consciente e crítica dessas populações na análise de seis pro-
blemas- de suas necessidades e interesses, no encaminhamentô de
soluçÕes. na tom ada de decisões e na ação orienta da a transformar
sua situação e superar os problemas de suas comunidades no con-
texto global da sociedade" (LTNIESCO, l97g:14).
A educação foi definida como uma dimensão do processo
global de desenvolvimento, como uma interação entre os sujeitos
desse processo visando atingir determinados aprend izados conside-
rados necessários com relação ao projeto social do grupo. As ativi-
dades educativas são assim "integradas", de modo que contribuem
pata estender certas formaS de compreender e agir súre a realidade
que facilitam o alcance dos objetivos estabelecidos pelos próprios
atores do processo. Além do rnais, considera-se a eãucação ôo*o
uma dimensão do desenvolvimento com capacidade "integradora,,,
na medida em que constitui a dimensão reflexiva do processo, o
momento em que os atores pensam o processo e chegam a com-
preendê-lo como integral.
Partindo dessas definições, estabeleceram-se três diretrizes
fundamentais parauma educação inte grada. parti cipação da comu-
nidade, desenvolvimento da consciência e vinculaçãã Our atividades
educativas com as ações sócio-econômicas da comunidade. Com
base nas conclusões do seminário e respeitando as diretrizes defi-
nidas, o documento estimava que a cooper ação técnica do IICA
devia centrar-se na reahzação de experiências de planejamento par-
ticipativo que possibilitassem a construçào progressiva de uma
metodologia de trabalho dos agentes educacionais junto às comuni-
dades rurais.
A experiência permittrta concentrar as açcies. ate o momento
dispersas, da Secretaria de Educação e. alem .io nrais. integrá-las às
ações desenvolvidas por outros orgãos do e=reic n J Zt-rDâ rural. As
próprias comunidades, com a cooperaçàr-r dr, *:r : r'ü .i ipe interdis-
ciplinar de técnicos, real izariam um diagDt'rS!r.-,,, :i::,-,lanre ct-rpo
ponto de parttda pata formular unr plano .je :;, - ,: \r>:J> a
trabalhar em conjunto para sLlperar t-rS pr:r.::-:.s ::,. i.r:-.:s rí--n-tr-
nhecidos. Tratava-se de unt estudtr ,.je re:i:ü3Jo, \ r.r rú; pe.;, jtar.
.:i
através de sua percepçào dessa realrdade. qLie >;'rii, 1) ptriii,-, .je
patttda, a matéria-prima de um processo "dinâmictr e perrnanente
de conhecimento centrado na descoberta. análise e rranstormaçào
da realidade pelos que a vivem" (Oliveira 8{ Olir eira. 198 I : l9 ).

Algumas palavras mais sobre as diretrizes

As três diretrizes gue, segundo as conclusões do seminário,


orientariam a experiência de edu caçáo rural integrada nasceram da
dificuldade que os técnicos da Secret arta consideravam mais com-
plexa: como integrar as ações educacionais entre elas e com as ações
das outras instituições que atuam nas zonas rurai s ? A respo sta a
essa questão encontra-se evidentemente nas diretrizes e foi apare-
cendo cada Yez com maior clareza ao longo do trabalho nas comu-
nidades. Eta a propria situação problem atrca onde se manifesta a
integração, na realidade vivenciada e compreendida pela população
rural. As ações de apoio institucional so poderão atingir um ade-
quado nível de articulaçáo se são planejadas e executadas a partir
dessa situação problemática.
As instituições surgem delimitando seu campo de atuaçã,o,
recortando uma realidade glob al para determinar sua função especí-
ftca. Cada uma reivindica depois paÍa si aquela parte da realidade
como sua propriedade, e procura que ninguém interfira no que
considera de sua competência específica. Uma vez separadas
e
distribuídas as diversas dimensões da realidade social, procura-se
integrar as ações institucionais . Ora, a verd ad,etra integração deverá
ser procurada na realidade, perguntando-se sobre a relação
orgâ-
nica das diferentes dimensões em uma situação social .on...1u,
historica e geograficamente loc ahzada.
§

192 cARLos RoDRIGUES BRANDÃo (org.)

E as diretrizes apontavam jâ nessa direção: afirmava-se gue


eÍa a participação da propria comunidade, o crescimento da cons-
ciência dos sujeitos e a vinculação da educação com a situação
concreta vivida por eles o que poderi a garantir uma açáo educativa
integrada.
A participação define-se como o momento em que a comuni-
dade assume a ação educativa como propria, interferindo no seu
planejamento, execução e avaliação. Essa definição se fundamenta
em uma compreensão global da ação como o conjunto dos mo-
mentos em que se progtama, se executa e se avalia o realizado. A
separação desses três elementos só pode ser analitica, mas eles
existem na realidade como uma síntese: a ação. Quando se fala de
"participação" para designaÍ a interferência dos sujeitos em alguns
desses três momentos, trata-se só de uma paródia da participação
autênttca. Um momento aparece definido como supostamente parti-
cipativo com relação aos outros que devem ser não-participativos.
Porém, quem determina finalmente o conteúdo é aquele que con-
serva a visão global dos três momentos, e só ele é o sujeito da açáo,
em um sentido pleno.
Deve-se ainda salientar outr a çaracterística fundamental nesta
concepção de participação: entende-se a comunidade como sujeito
das ações. A comunidade define-se como "um grupo social com
interesses comuns, com uma historia e um projeto comuffi, situado
em um espaço geográfico determinado" (Secretaria de Educação do
Ceará, 1980:31). Ao mesmo tempo se afirma que essa participação
deve ser permanente, como elemento necessariamente constitutivo
do processo, e não meramente circunstancial. Em conseqüência, de
ambas as características coletiva e permanente deriva uma
terceira: a participação deve ser orgânica, ou seja, desenvolvida
através de organizações democráticas que façam possível sua con-
çrettzação.
A segunda dtretrrz implica entender que toda açáo educativa
deverá contribuir para incrementar os níveis de compreensão crítica
da realidade , a partn da consciênci a real e possível do grupo social.
Visando esse progressivo desenvolvimento da consciência, o ato de
educar deve ser considerado como facilitaÍ a apropriação de instru-
mentos que permitam construir uma metodologia para analisar a
realidade e pôr à disposição da comunidade as informações neces-
sárias e suficientes para conhecer a inter-relação entre sua situação
particular e o contexto social global no qual ela está inserida.
REPENSANDO A PESQUISA PARTICIPANTE -:
E neste âmbito da consciência que se manifesta o porencrl.
integrador das ações educativas. O grupo toma consciência
da reali-
dade como totalidade em um contexto teórico, visualizando
as inter-
relações entre os diferentes problemas. Esse processo
de passagem
da consciência de um contexto concreto a um contexto teórico
éo
que Freire considera um processo de conscienti zação
,
(Freire lgTg).
A terceira dtretriz indica a necessidade da aprend tzagem se
produzir nas ações que a comunidade realiza para satisfazer
suas
necessidades- No andamento InÊStntr,Ja e\periência. esra
detlnicão
foi se tornando cada vez mais clara. Inicialmenre.
Frerriu-se de
entender que toda ação educatir a der eria esrrr lisada ou r inculada
às atividades econômicas e sociais da com unidade. tundamenrar-se
na experiência de trabalho dos sujeitos, r'alorizando suas práticas
sociais e incrementando sua capacidade paÍa produzir mais
e me-
lhorar suas condições de vida. Entendia-se esta terceira d,iretriz
como a proposta de integração de estudo e trabalho, de teoria
e
prática.
As sucessivas discussões e a avaliação final do trabalho aju-
daram a construir uma definição mais clara: a validade das uçá.,
educativas demonstra-se na prátrca, fl& capacidade que
delas resulte
para modificar as condições objetivas de vida da comunidade
e não
apenas sua consciência. Esta terceira d,iretriz refere-se portanto
à
tbrça potencial da edu caçáo como instrumento para transformar
a
realidade objetiva; em ordem aos interesses do grupo social prota-
gonista da açã,o. Exige-se que as ações educativas proporcionem
elementos úteis pata modificar a qualidade de vida das comuni-
dades rurais e, especialmente, sua capacidade econômica que
con-
diciona essa qualidade.

A região experimental

Junto aos técnicos da Assessoria de Planejamento e Coorde-


nação da Secretaria de Educação, foram definidos alguns
critérios
para escolher a região na qual se reahzaria a experiêncú. p*bora
os
criterios atendessem aspectos econômicos . ,o.iuir, na préttrca pre-
dominaram considerações de caréúer político-institucional no
mo-
:r ento da escolha da região. Em conseqüência, foi selecionada
a
nticrorregião homogênea dos Sertões de Caninde e, dentro dela, os
rnunicípios de Canindé e Caridade.
REPENSANDO A PESQUISA PARTICIPA\TE *&

Nos municípios onde se desenvolveu


a experiência canrn.je
: Caridade -
predominam os pequenos estabelecimentos:
ru'rtâl tinham- em 1975 uma extensão
93oio do
de até menos de 50
ha. A maio-
:3 dos pequeno§ produtores é de parceiros ou
ocupantes: 72% em
f.aridade e 69,2o/o em Canindé .
os serviços estão concentrados na sede dos
municípios, espe-
::'rlmente na cidade de canindé,
Que constitui o centro comercial e
: ':itural da região, cidade-santuário
e local de romarias. A Igreja
j:senvolve uma ação
comun itária signifi cativa, voltad a para
:intos religiosos. A assistência médi ca os as-
é mínima ao nível das comu-
: i'Jades rurais, obrigando o pessoal
a deslocar-se ate a sede do
=unicípio de canindé, em turo de doença grave. o consumo de
rgua poluída e a desnutrição, resultante
de uma alimen tação insu-
:lciente e inadequada, são fontes permanentes
de doenças que afe-
:am especialmente as crianças.
Na zona rural dos dois municípios onde
se realizou a expe-
:iência, a população sem instrução
supera 7 5%. E essa situação
:ende a reproduzir-se:
de cada 100 alunós matriculados na primeira
serie, so 3 conseguem completar
a quarta série em Canindé
e ne-
:hum deles em caridade. Além do mais,
o índice de repetência
i;lpera 50% em ambos os municípios e nove
de cada dezprofessoras
:.ào têm primeiro grau completo.

sobre os fundamentos da experiência

Qual deveria ser a experiência que possibilitasse levar


"''-â o que
o seminário sobre estratégias de ação para
à prá-
:-ral tinha definido como uma "açã,o educativa a educação
integra da,,? Era
:'r'-essário respeitar as diretrizes
definidas em comum: participação
:: comunidade, vincul ação com as atividades
econômicas e sociais
: 's sujeitos e desenvolvimento da consciência. pensou-se
:'*-rmpanhamento de algumas comunidades que o
rurais no processo de
= :boração de seu plano educativo, visand" l;;;;ãto,
: inicipal, aos planos dos órgãos educativos, em nível
;i sas diretrizes. permitiria atender
Porém, a elabor ação participativa
do plano educativo devia
:''dentemente ser precedida por uma
ação reflexiva que levasse as
- : :rl unidades a identificar suas reais
necessidades. perguntar sim-
: esmente que atividade educ ativa
"
queriam só podia resultar em
196 CARLOS RODRIGUES BRANDÃO (org.)

uma resposta alienada. Antes de refletir, é comum que as comuni-


dades rurais, como resultado de uma longa experiência de imposi-
ções e desvalo rrzaçáo de sua própria cultura, escolham o que os
mesmos técnicos colocaram dentro dela. Uma escolha verdadeira-
mente livre só existe depois de uma reflexão que permita superar as
respostas do senso comum e da ideologia.
Esse momento de reflexão inicial consistiria em um diagnós-
tico participativo. O diagnostico seria uma pesquisa realizada pela
mesma comunidade, uffi processo de obtenção, sistematizaçáo e
análise das informações que configuraram sua situação problemá-
tica e um ponto de partida para formular um plano de açáo com
vistas a superar essa situação. Seria, portanto, uma pesquisa parti-
cipante, mas o que deve entender-se por pesquisa partrcipante?
Como diferen crar a pesquisa participante do que se denomina às
vezes como "pesquisa tradicional"?
A linha demarcatória não está nem na c apacidade de pro duzrr
mudanças, o que poderíamos chamar "compromisso político" da
pesquisa. nem na capac idade de pro duzrr conhecimento, sua vali-
dade "científica".
A pesquisa participante não é necessariamente progressista
nem revolucionária, assim como outras modalidades de pesquisa
não são também necessariamente reacionárias. "A pesquisa social
como ciência, quer dizer, effi sua capacidade explicativa, relativa-
mente preditiva e crittca, proverá sempre a mudança, deixando de
lado os exercícios descritivos do experimentalismo. " (Batallán,
re82)
Quanto à capacidade da pesquisa participante para produzir
conhecimentos, sua "cientificidade", acredita-se que o conheci-
mento se justifica por referência a uma práxis social concreta, se
baseia na sua utilidade para colaborar na solução "de problemas de
grupos sociais específicos em conjunturas históricas determinadas"
(Oquist, 1978:2). Segundo esse critério, uma prâtica pode ser consi-
derada não-científica , nà medida em que não tenha capaçidade para
resolver alguma necessidade social específica. "A produção do co-
nhecimento, como qualquer outro problema, deve ser abordada em
relação a contextos historicos e sociais específicos, na busca de res-
postas." (Oquist, 1978:19)
Nem os defensores da pesquisa participante, gue a definem
por sua capacidade de comprometimento político, nem seus detra-
tores, que a rejeitam como não-científica, conseguem descobrir sua
especificidade. Essa caraçteristica que define a pesqu isa partici-
REPENSANDO A PESQUISA PARTICIPANTE t-
pante encontra-se na determinação do sujeito,
QUe pesquisa sua
propria realidade apafttr d,a compreensão que tem
dela. A pesquisa
participante "fundamenta-se na concepção da
realidade como uni-
dade de aparência e essência, de modo e estrutura,
de forma que
entender o modo particular de compreensão da
realidade do próprio
grupo envolvido no processo de pesquisa signific
a avançar na com-
preensão e explicitaçáo dessa mesma realidade"
(Batal lém, 19g2:6).
Assim definida a especificidade da pesquisa participante,
é
possível des cattar falsas propostas.
Quando se fala, por exemplo,
em enfoques que "i*pliquem a participação das pessoas
a serem
beneficiárias da pesquisa",, ou se propõe basear o processo
da pes-
quisa "em sistemas de discussão, investigação
e análise, nos quais os
pesquisados sejam incorporados ao processo
do mesmo modo que o
pesquisador" (Hall , 1978:7), quando se fala nestes
termos, enfim,
é evidente que se trata mais de uma pesquisa ,,participada,,
e não
"participante ", que conserva as diferenf as e as distâncias
entre destinador e destinatário, entre sujeito e
objeto da pesquisa.
Podemos distinguir, basicamente, três dimensões
em uma
pesquisa autenticamente participante: a produção
de conhecimento,
a educ ação e a ori entaçáo para a açáo. entendida
esta última como
modifi cação intencional da realidade (Beca, l9g2:l).
Assim, pode-
ríamos defini-la como "produção de conhecimento
para orientar a
prâtica, que inclui ou abrange como parte do mesmo
processo de
pesquisa, a modificação da realidade" (Oquist.
l97g:6t. nela r-)
conhecimento se pro duz simultaneamente à modificaçào
da reali-
dade' Ao mesmo tempo "adquirir conhecimento é construir.
criar:
ou seja: pesquisar. O conhecimento e reprodução
da realidade pelo
pensamento e s6 é possível aceder a ele no
ato de pro duzr-Io,,
(Batallán, 1982:6). Daí que é impossível "devolver"
resultados da
pesquisa a grupos que não participaram de
sua produção, do pro-
cesso de criação de conhecimento.

Esta concepção de pesquisa participante orientou


o diagnos-
tico, a seleção das técnicas a serem utrlizadas e as
discussões na
equipe que cooperatiacom as comunidades no processo. permanen-
temente, procurou-se ter presente que era necessário
deixar o espaço
para que o grupo começasse a partictpat, renunc
iar a fazer. aceitar
os silêncios, superar as angústicas originadas na
ideologia do ,,efi-
cientismo" dos técnicos. A participaçáo não é algo que
possa ser
dado, porém, é indispensável abrii .rpuço, para que
era se mani_
feste.
Desenvolvimento da experiência

A primeira dificuldade foi integrar uma equipe na qual patnti-


ciparam técnicos de diferentes instiúições. Entendida
a educação
como uma dimensão do processo, essa integração
da equipe L.u
necess ária para gatantir uma reflexão sobre
a situação da comuni-
dade como totalidade pluridimensional e evitar
cair em uma pers-
pectiva "educacionista". Mas, foi impossível
conseguir a partici-
paçáo de outras instituições; embora se interessassem
pelo trabalho,
estavam demasiado ocupadas com suas tarefas
específicas, não dis-
punham de pessoal ou desconfiavam do resultado
final
da expe-
riência' Mesmo ao interior da Secret aúa foi trabalhoso
constituir
uma equipe integrada por técnicos dos diferentes
departamentos e
coordenações, especialmente de nível central. Depois
de sucessivas
negociações, ficou integra da a equipel com quatro
técnicos da secre-
taria estadual de Edu cação, dois do Instituto Interamericano
de
Cooperação para a Agricultura, e mais seis dos órgãos
municipais de
Educação de Caninde e Caridade. Posteriormente,
um dos técnicos
do IICA foi solicitado para cooperar em outros projetos
da Secre-
tarra de Educação e afastou-se da equipe. Além
disso, outros tec-
nicos prestaram sua colaboração em alguns momentos
do anda-
mento da experiência. 2
Os técnicos seriam capacitados através de sua participação
no
trabalho, para estender a experiência ao nível da microrregião
e do
Estado' Partiu-se do pressuposto de que só a prática
poderia contri-
buir para desenvolver no técnico as atitude, à. .o-promisso
dogmatismo e renúncia a qualquer papel de protagonista,
, anti-
as quais
constituem condições essenciais para dásempenha, pupel
ã de ,,faci-
litador de um processo de autoconhecimento, organ ização
comun itárta" (Beca , l9g2: l g) .
e ação

(1) os tecnicos que integraram a equipe durante


pesquisa foram: Beatriz Feitosa de carvalho todo o andamento da
(Coordenação de Estudos e pes-
quisas, Departamento de Apoio Tecnlóo,
sEDUC), Maria José Barbosa costa
(Primeira Delegacia Regional de Educação,
SEDU'C), Maria Marilene pinheiro
Jucás (Primeira Delegaóia Regional de Educação),
(Programa de Educaçáo naZoÁa Rural, pRonÜnÁL,Maria Luzia Alves Jesuino
sEDuct,
llg'medo (convênio sEDUc/ llcA), Elga Martins ioorigues Manuet Alberto
Magalhães Braga (Departamento t\4unicipal de e Maria de Jesus
Educação canindé), Mariaci
Ferreira Braga e Maria simone Martins Bittencourt -
(óô;" nr'üicipal de Edu-
cação Caridade).
-(2) Rolando Pinto
Contreras (llCA), Maria Nobre Damasceno (UFC)
etc.
- REPENSANDO A PESQUISA PARTICIPANTE I99

A primeira tarefa consistiu na discussão do projeto


:'luipe tecnica, em nível central e municipal. chegando com a
i3i-lso sobre os resultados
a um con-
esperados, que poderiam ser assim sinte-
: zados:

' Formulação de uma metodologia de p.,.J*is3


L- planejamento
participativos que pudesse ser utilizada
lel:i :r.inres com,ni-
Jades rurais, incentivando desse modo
seLr ür,:i:.. ,.., ::riirtt-r .;;;
nomo e autoconfiante e incrementando Sr.L
pendência do exterior (Fars Borda. I 9\ : :-l_:
l.-. _,. :.- :;.:::.. r ::dr._

' crescimento do nível de orga,izau.-ào ,i;= -,,\r-,*:-.;=üs..


sultado das ações de pesquisar e planeie' - :.
e;, c"rii-._rr,,-,. í.
r,-oltseqüência, um aumento do seu poder
de barg.nh, ,Jianre
instituições públicas , para negociar sen-iços que respondam a s
reais interesses.
' Compreensão por parte dos funcionários
e técnicos das institui-
educativas de nível central, regional e municipal,
u,-ões
das \.anta,
gens de uma açáo mais parttcipativa
e integrada, articu lada
também com órgãos que apoiam o desenvolvimento
rural agindo
em outros segmentos do processo.

A seguir iniciou-se a etapa que se denominou pré-diagnostico


-' que consistiu em uma caracterização geral dos principais proble-
:las dos municípios e suas inter-relações com
a situação do Estado e
Jt) Brasil' Este trabalho realizou-se a partrr
de informações secun-
:arias, contatos com instituições que desenvolvem
ações em nível
'rcal e regional, visitas aos aglomerados rurais e conversas informais
-trlr] pessoas dessas comunidades . o pré-diagnóstico
visava uma
omada de consciência dos próprios técnicos
sobre as relações da
.'ducação com as outras dimensões da
realidade social, compreen-
:endo a situação global na qual se encontravam
inseridas as comu-
:idades' Era importante evitar tanto o
"reducionismo,, educacional
''trlno a tendência a considerar isolada a situação de cada
:ade. comuni-
Além do mais, as informações coletadas subsidi
a seleçãoaram
ias comunidades às quais seria proposto participar
na experiência.
Para esta escolha, considerou-r. .rp.cialmente
a existência de um
;erto grau de homogeneidade na população
e a ausência de conflitos
rolíticos internos graves,
Que poderiam ter tornado demasiado com-
rlexa a iniciação dos técnicos locais na metodologia
de pesquisa e
rlanejamento participativo. Atendendo a
esses critérios foram sele-
;ionadas as seguintes comunidades: Bonito,
Ipueiras dos Gomes e
Monte Alegre, ro município de canindé, e São Domingos,
no
município de Caridade, todas sedes do distrito do mesmo
nome,
sendo que no caso das três últimas incluíram-se também
povoados
vizinhos, praticamente integrados econômica e socialmente
à sede.
Tanto em Ipueiras dos Gomes como em Bonito participaram
da
experiência aproximadamente 60 famílias o que signifiôa
aproxi-
madamente umas 300 pessoas. Em São Domingos
e Monte Alegre
participaram ao redor de 500 pessoas, quer dizei, quase
100 famílias
em cada local. Em Monte Alegre, finalmente, o trabalho
ficou
centrado em uma comunidade viztnha da sede, yazantes,
que mos-
trou maior interesse e comprometimento durante todo
o processo.
Como resultado do pré-diagnóstico, a equipe técnica passou
a
dispor de um certo referencial que facilitaria o início
do diálogo com
as pessoas da comunidade e proporcion ava
elementos para motivar
a participação da maioria na primeira reunião geral
onde seria pro-
posto o trabalho a comunidade.
A segunda etapa começou com a constituição de equipes
inte-
gradas por um técnico da Secretaria e outro
do muniôíplo, para
cooperar com o desenvoh'imento do trabalho em
cada comunidade.
Procurava-se evitar um número excessivo de pessoas
estranhas na
comunidade, considerando que isso poderi a atrapalhar
o desenvol-
vimento autônomo do grupo interno de trabalho. Sendo
poucos os
técnicos, diminuiriam as possibilidades de eles assumirem
tarefas,
procurando demonstrar sua eficiên cia, ou de que
as pessoas da
comunidade se encostassem nos técnicos, provocando
respostas pa-
ternalistas. Escolhidas essas equipes, deslàcaram-se
até as comuni-
dades para conviver um certo tempo com elas.
Esse momento de convivência teve por objetivo que
a comu-
nidade reconhecesse os técnicos como pessoas estranhas
e os acei-
tasse como alguém que tenta colabo rar na
realização de um trabalho
que será útil para ela mesma. Os técnicos teriam
oportunidade de
conhecer as pessoas da comunidade, experimentar
como viviam seu
dia-a-dra, como se comunicav am, quais eram seus
hábitos e costu-
mes, qual o papel que cada uma dessas pessoas poderia
desempe-
nhar no momento da pesquisa e d,a elaboração do plano
de açáo.
Durante sua permanência no lugar, os técnicos reayzavam
visitas domiciliares, convidando todas as famílias
a assistirem a uma
reunião geral na qual seria apresentada a proposta
de trabalho e,
sempre que a comunidade aceitasse p articipar na
experiência, seria
escolhido um grupo de pessoas que coordenasse as
atividades. No
momento final desta etapa foi rcaltzada em cad,a comunidade
a
REPENSANDO A PESQUISA PARTICIPANTE

reunião, contando em todos os casos com uma participação maciça


\essas reuniões, os técnicos propuseram às pessoas da comunidade
a participação em um processo de reflexão sobre seus principais
problemas, o qual culmin arta com a elabor açáo de um plano de
ação para fazer frente aos problemas por elas mesmas detectados.
Os participantes ace itaram a proposta e falaram do que considera-
\ am seus principais problemas, que iam sendo registrados
em um
carÍaz à frente da assembleia. Finalmente, foram escolhidas as pes-
soas pata integrar o grupo de trabalho, que se denominou grupo-
diagnostico. Inicialmente, os grupos estavam constituídos por cinco
pessoas, mas no decorrer da experiência foram se incorporando ao
grupo outras pessoas interessadas no trabalho. Ern geral, cada
srupo contava com um agricultor, jovens ligados ao trabalho da
Igreja, professoras, comerciantes e artesãos.
A partir desse momento, desenvolveram-se as diferentes eta-
pas previstas no projeto, enriquecidas pela troca de experiências
entre as pessoas da comunidade e, no interior da equipe técnica,
entre os grupos que cooperavam mais diretamente com o trabalho
em c ada uma das comunidades. Esses momentos de trabalho junto
às comunidades, envolvendo a cooperaçã,o com o grupo-diagnóstico
que coordenaYa a partrcipação ampla da comunidade no processo,
foram: a capacitaçáo dos grupos, a pesquisa e a elabor açáo do
plano. Porém, a capacitação não foi apenas um momento inicial:
desenvolveu-se ao longo de todo o processo, como conteúdo das
atividades de acompanhamento dos técnicos ao trabalho comun itáL-
rio. Tentar-se-á resumirbrevemente as atividades real rzad,as em
cada um desses três momentos.

l) Capacitação dos grupos-diagnóstico

Esta etapa começou por uma reflexão sobre as técnicas a serem


utilizadas- Era necessário escolher procedimentos que estivessem ao
alcance das comunidades para evitar que o técnico fosse o aplicador
principal, desempenhando as pessoas do grupo o papel de auxilia-
res. Porém, entendida a pesquisa como um processo educativo, esses
procedimentos deveriam implicar um avanço para a comunidade
quanto à compreensão de sua realidade. Também era necessário
evitar um saber fazet que se transformasse com facilidade em fator
de poder, pelo fato de ser pouco comum entre as pessoas da loca-
lidade.
:u2 cARLos RoDRIGuES BRANDÃo (org.)

Considerou-se que a tecnica mais adequ ad,a para


o processo de
pesquisa participante era a entrevista aberta.
porque permitiria que
os sujeitos participassem de sua estruturação.
sem se transformarem
em meros intermediários entre entrevistador
e informação. Ora, era
preciso capacitar o grupo na pro gramação
e aplicação de entrevistas
e também em outras habilidades que deveria assumir
durante o
processo da experiência: sistem atizar
as informações. elaborar men-
sagens para as reuniões com a comunidade,
coordenar essas reu-
niões, registrar o processo etc. Antes de
tudo era necessário discutir
novamente com o grupo o projeto da experiência e seu papel
na
comunidade promovendo e coordenando particrpação
a das pessoas.
A equipe resolveu reahzar a capacitação numa
série de encon-
tros breves, próximos do momento em que
as técnicas deviam ser
utrlizadas' Deste modo, os membros do grrpo-diagnóstico
estariam
de posse de todos os elementos necessários
para recriaras propostas.
A metodologia utilizada foi a de "aprendei a fazer
fazendo,,. mas a
partir de um fazer real e não simulado.
Durante o primeiro encontro, os grupos elabor
aram as hipo-
teses da pesquisa, com base na inform ação
coletada na primeira
reunião da comunidade. No processo de elabor
açã,o das hipóteses -
que os grupos chamaram "suposições",
como expressão dáquilo que
a comunidade " acha" sobre sua situação
trevistas e ordenadas as informações surgidas
) foram realizadas en-
dessas entrevistas.
cada um dos grupos colaborou com outro,
entrevistando-o para
esclarecer suas suposições sobre os principais
problemas ,,sentidos,,
pela comunidade e devolvendo-lhe ordenadamen
te a informação co-
lhida nessa entrevista. Finalmente, os grupos
refletiram sobre o
processo vivido e planejaram seu trabalho
de pesquisa na comuni-
dade.

2) A pesquisa participante

o tipo de pesquisa a ser realizad,o pela comunidade


objeti-
vaYa delimitar os principais problemas
em função de interesses e
necessidades comuns; procurava-se
atingir um consenso, no sentido
que especifica Laing (1974), de "achai
com os outros um senso
comum' compartilhado, do mundo circundante".
Durante esse tra-
balho' a comunidade terát reahzado um processo
educativo: desco-
berta e reflexão de contradições na leitura
de sua realidade, com-
preensão de algumas dificuldades
como "emergências,, de proble-
REPENSANDO A PESQUISA PARTICIPANTE
203

*"r:
=als lmportantes, explicitação das relações entre problemas
r:r.stemente "isolados'r . Ja definidos por ela mesma seus "nú-
'r'

' ir > rroblemáticosrf , a comunidade poderá desenvolver pesquisas


rr ::i-no desses núcleos, com metodologias e instrumentos adequa-
Ir "- ; .-3da problema.
O tecnico so participou como facilitador. colocando seu saber
: : istrSição da comunidade , pàra que ela reelahorasse slra propria
- : ' ..dologia, segundo sua racionalidade. Assim. as arriculações
i"-:a internas: entre o grupo-diagnostico e o resto tJa ct'rrtunidade.
!*':§'§ sentido, procurou-se
questionar constantemente sr grupcr para
- *: não substituísse a comunidade em nenhuma decisào e manri-
5s um estreito contato com ela, obrigando-a a acompanhar todo o
: - _ cesso.
O grupo-diagnóstico elaborou um roteiro para real izar entre-
"sles com as farnílias da comunidade e determinou a forma como
';:ia registrada a inform açã,o. C ada um dos grupos-diagnostico
:: tre vistou, em média, umas 40 ou 5 0 famílias. As informações
'rtidas nessas entrevistas foram ordenadas em um primeiro nível e
:3rtiu-se para a realização de entrevistas grupais, visando compl etar
§ dados que permitiriam confirmar ou não as suposições e a com-
rro\-ar a existência real de algumas contradições registradas durante
:: entrevistas familiares .

Reunidas todas as informações, os grupos começ aram um


processo de reflexão, agrupando-as por
suposição, diferenciando
"-aracterísticas de causas e soluções propostas, explicitando as múl-
iiplas inter-relações entre os diferentes grupos problemáticos. Este
processo de análise concluiu com a elabo raçáo de pequenos
textos,
cartazes e, na comunidade de Monte Alegre, de uma peça teatral,
que representava um momento de síntese. Este exercício preparou
os membros dos grupos-diagnóstico para a reafizaçáo de
uma série
de pequenas reuniões nas quais eram novamente discutidas
as infor-
mações e o próprio trabalho de sistem atizaçáo realizad,o,
introdu-
zindo-se todas as modificações sugeridas pelos participantes.

3) A elaboração dos planos

Nesta etapa, os grupos-diagnóstico elaboraram, a partir das


informações das pesquisas, um plano ger al d,a comunidade.
O plano
geral foi concebido como a explici tação do projeto de desenvolvi-
mento da comunidade: registrava a solução ace ita para cad,a um dos
problemas sentidos como entraves para seu avanço. A partir deste
244 CARLOS RODRIGUES BRANDAO (org.)

plano, effi reuniões comunitárias, foram determinadas as priori-


dades de açáo a curto e medio prazo e elaborou-se o plano educa-
tivo, como relação das ações educativas g ue, a júzo da mesma
comunidade, poderiam contribuir para atin-qir as metas definidas
como prioritárias.
O plano educatir o comunitário é um instrumento que au-
menta o poder de negociaçào da comunidade: quando ela sabe o que
necessita e por que necessita disso, está em condições de dialogar
com os órgãos técnicos, políticos ou financeiros que venham ofere-
cer-lhe colaboração. A comunidade jéL compreende que as ações
educativas se justificam e têm sentido paÍa ela, na medida em que
contribuem para apoiar as soluções que integram seu plano geral.

A continuidade do processo e o nascimento


de uma nova experiência

Na perspectiva das quatro comunidades que tinham partici-


pado da experiência, o resultado final não podia reduzt-se a uma
compreensão mais crítica da sua realidade. Era importante "tanto a
participação no processo de geraçáo de conhecimentos sobre qual o
planejamento repousa, como no processo de tomada de decisões que
ele implica" (Cohen , 1981 :90). O processo deveria ter contribuído
também para gerar uma organi zaçáo çapaz de coordenar a parti-
cipação da comunidade na execução do plano, frà avaliação e no
replanejamento. Assim, o grupo-diagnóstico, por decisão das mes-
mas comunidades, foi ampliado e convertido em grupo de trabalho
para coordenar as atividades a serem realizadas internamente e
negociar o apoio necessârio das instituições, visando atingir as solu-
ções propostas no plano geral e no plano educativo.
Para colaborar com essa etapa do processo, a equipe técnica
organizout um seminário que foi realizado na cidade de Canindé,
com a participação dos membros dos grupos-diagnóstico e outras
pessoas representativas das quatro comunidades. Os obj etivos do
seminário eram facilitar a troca de experiências entre as comuni-
dades e estabelecer um primeiro contato entre elas e as instituições
responsáveis por outras dimensões ou' áreas do desenvolvimento
rural. Visando possibilitar esses cantatas foram convidados a partt-
cipar do seminário e ouvirem os planos elaborados pelas comuni-
dades, funcionários da Prefeitura, de EMAIER-CE, Secretarta de
Saúde, Comissão Estadual de Planej amento Agrícola, Fundação
REPENSANDO A PESQUISA PARTICIPANTE 205
,, .

SESP, MOBRAL, Igreja etc. Durante a realizaçã,o deste seminário


surgiu uma nova experiência.
[Jm grupo de: pessoas da comunida,Je de Bonitinho, aglome-
rado rural vizinho à sede do distrito de \Íonre .{ legre. apresentou-se
no momento final do seminário, solicitando ;ri;-r enrrer ista
com ,,os
técnicos da Secret atia" . Eles tinham noticia c.', ::rbalho real
izad,o
na sede do distrito, particularmente em Vazirir,:. i -lue riam que
a equipe colaborasse para desenvolrerem ele. :r:.r;r-.
-i:r.l e\pc-
riência na sua comunidade. Eles mesmos. em j:: :.\:. _; ::::..r-
i
laram "Histórico da comunidade". resuma:r c!:; s.:-:;1,: .:.-:"."

"A comunidade de Bonitinho era uma cornunldade ptrLrre e mai-


organtzada. Com tantos problemas que serts propnos morar3ores eram
desinteressados e incapazes de sequer chegarem a conclusào de que
rx
problemas comunitários em parte seriam organizados e solucionados
pela própria comunidade.
Não tínhamos condições de nos reunir para uma palestra, um
debate, pois não conseguíamos juntar os nossos amigos . Fazíamos
convites, mas nada! Tudo era em vão.
Depois surgiu nas nossas comunidades viziúas com a ajuda da
Secretaria de Educação do Estado do Ceará, na qual vimos partici-
paçáo e bom desenvolvimento na comunidade. §ohcitamos que
os
técnicos do orgão trabalhassem conosco a fim de que pudéssemos
pelo menos nos organizar e fazer alguma coisa".

Os técnicos de nível central e regional atravessavam nesse


momento uma etapa difícil, com muitas exigências de trabalho
e
discussão interna. Estava próximo já o momento de finahzação
do
convênio Secret arta da Educaç ão I IICA, e era necess ário definir
as
ações que a própria secretaria desenvolveria para garantir
a conti-
nuidade do trabalho nas quatro comunidades, o apoio institucional
aos planos comunitários na área de educação. Além do
mais, devia
ser programada uma série de encontros de capacttaçáo, visando
transferir aos outros técnicos do Programa de Educação Rural
a
metodologia de acompanhamento sistem atizad,a ao longo d,a
expe-
riência, e também os relatórios do trabalho reahzado tinham
de ser
revisados e preparados para sua edição. Em conseqüência,
ftcava
difícil comprometer-se a cooperar com o processo de pesquisa e
planejamento de outra comunidade.
Porém, também não era possível deixar passar a solicitação:
tanto pelo fato de serem as pessoas da comunidade que solicitavam
a
cooperaçáo quanto pela possibilidade de testar uma série de
"supo-
206 cARLos RoDRTGUES BRANDÃo (org.)

sições" da propria equipe técnica. Acreditava-se que os centror''d.


Educação Rural. que as prefeituras municipais instalavam na sede
dos distritos com a assessoria e a cooperação da secretaria estadual
de Educação. poderiant utiltzar a metodologia de pesquisa e plane-
jamento participatir o nas comunidades rurais do dlstriio. pensou-se
tambem que o processo todo. ate a tbrmulação do'plano, podia ser
desenvoh'ido em menos tempo: a realização da primeira experiência
demorou quase um ano. Seria possível abreviar esse tempo dimi-
nuindo a "distância" cultural entre técnico cooperador e comuni-
dade e afastando o processo da burocr acia das instituições esta-
duais?
Dessas reflexões nasceu o novo projeto: algumas pessoas do
grupo-diagnostico de Yazantes comunidade mais próxima a
Bonitinho que tinham vivenciado todo o processo de pesquisa e
planejamento- cooperariam com a comunidade
de Bonitinho na rea-
lização da "experiência" e uma das técnicas da equipe central
Beatriz Feitosa de Can alho outra do município de Canind é -
lvÍaria de Jesus \Íagalhães Brag -
ficariam à disposição da nova
equipe para acompanhar e apoiar o trabalho. As pessoas d,e yazan-
tes que colaboraram com a comunidade de Bonitinho foram princi-
palmente Dona Railda (professora, tigad,a ao trabalho da lgreja),
Lourdes (professora, de famiha de artesãos), Noel e Bosco Uovens
filhos de agricultores da região). Assim começou a nova experiência,
uma comunidade cooperando com outra pata realtzar sua pesquisa
e elaborar seu plano de ação.

O trabalho em Bonitinho

Algumas informações sobre a comunidade de Bonitinho são


necessárias, antes de rclatar como se desenvolveu lá a experiência.
Trata-se de um aglomerado rural distante apenas uns quatro ou
cinco quilômetros de Y azantes, por uma estrada de terra. A popu-
lação trabalha na agricultura, cultivando algodão, milho e ferjaó, e
algumas famílias têm pequenas bodegas. A maioria dos agricultores
são minifundistas, com problemas de regulaúzaçáo, e existe um
proprietário médio, Seu Joel. Ele foi uma das pessoas que solicitou
que a experiência fosse realizada em Bonitinho, e colaborou ativa-
mente durante todo o trabalho, dado que era um líder na comuni-
dade.
REPENSANDO A PESQUISA PARTICIPANTE 207

Essa situaçã a diferença entre Seu Joel e o resto da comu-


nidade, agricultore§ minifundistas, e seu papel de líder foi discu-
tida na equipe. Seu Joel tinha a única casa de tijolos de- Bonitinho,
uma camion eta e um velho ônibus que ele coloca\ a sempre à dispo-
sição da comunidade, e uma ârea r'izinha à sua casa. aberta e com
piso, que era utiÍtzada para as festas e reuniões ctrrrlunitárias. inclu-
sive para o ofício religioso. Porém, trabalha\ a so umr pequena e\-
tensão da sua propriedade e só tinha condiçÕes ,ic rs=:I.rrier epenas
a uns poucos camponeses das redondezas. Tambc::: rirr ::nha rela-
ção com as lideranças políticas do municipio e r>st, :nes:-nü .-ofirn-
buía a que a comunidade tosse desatendida. Eni ct-rnseqüencia. a
equipe estimou que os interesses de Seu Joel nào eram opostos aos
da comunidade e que a diferenciação encontrar a-se dentro de li-
mites aceitáveis para continuar falando de "comunidade". O grau
de heterogeneidade não era táo grande a ponto de atrapalhar o
trabalho.
O trabalho começou com a assembleia da comunidade, coor-
denada por Dona Railda com a colabo raçáo de outras pessoas de
Yazantes. Participaram da reunião aproximadamente 200 pessoas,
e depois de conversar sobre os principais problemas da comunidade,
escolheram seis pessoas da comunidade para integrar o grupo-diag-
nóstico: duas professoras, uma catequista e três agricultores, dois
deles pequenos proprietários e outro posseiro e semi-assalariado de
Seu Joel. Posteriomente, o grupo realizou um encontro em Vazantes
para formular as suposições e capacttar-se para realtzar as entre-
vistas. Os técnicos que acompanhavam o trabalho participaram
tanto do encontro de çapacitação como da reunião inicial, mas
procurando interferir só quando solicitada sua participaçáo.
Nesta primeira etapa revelava-se surpreendente para os téc-
nicos a . facrlidade de comunicação entre os membros do grupo -
diagnostico de Y azantes com as pessoas de Bonitinho. A linguagem
" simplificada" dos técnicos nas etapas iniciais do trabalho fluía
convertida em linguagem "simples" no diálogo entre as duas popu-
lações rurais. Em vários momentos, os técnicos tiveram de conter
sua preocupação pela "eficiência" e pela "perfeição", aceitando o
nível real de consciência dos grupos que estavam desenvolvendo o
trabalho. Embora questionassem algumas asseverações, quando
esse questionamento não era aceito, não ficavam insistindo. Procu-
rava-se entender que essa consciência "falseada", com uma mistura
de elementos culturais próprios e ideologia imposta, não é um
demônio que deve ser exorcizado, mas a consciência real dos cam-
t

208 CARLOS RODRIGL ES BRANDAO (oig')

o ponto de
poneses no momento de iniciar um processo de reflexão,
partida do trabalho. I
I

sobre os I

O grupo-diagnóstico elaborou as seguintes suposições


problemas da comunidade, com base nos registros da assembléia: i

1) muitas crianças ficam fora da escola. por falta de prédio


escolar;
2) faltam catequistas e evan gehzadores, por falta de interesse
da comunidade;
3) falta de cuidados com a âgua, por falta de interesse da

comunidade;
4) falta uma capelinha, por falta de condições da comunidade
e incentivo;
5) falta energia elétrica, por falta de assistência das autori-
dade s:

6) falta de assistência a saude:


-) o GESCAP não toi suficiente'
8 t falta educação Para os adultos ' p or falta de interesse da
comunidade:
9) má situação financeira e a gente não pode fazer nada fia
parte de saneamento;
10) falta trabalho para as mulheres'
Formuladas as suposições, o grupo programou a reahzação
pessoas : um a fr-
das entrevistas. Resolveu-se formar grupos de duas
cafla atendendo a conversação e procurando fazet com que se
falasse de todos os temas incluídos no roteiro, e outra registraria as

não foi suficientemente flexível , conver-


respostas. De fato, o roteiro
tendo-se quase em uma série de perguntas que devem
ter contri-
a ttansformar a entrevista aberta em ques-
buído, effi muitos casos ,
tionário.
A seguir, o grupo realtzou mais ou menos 40 entrevistas fami-
respostas
liares e sistem atizou as informações coletadas, reunindo as
a cada pergunta, com indicação da freqüência quando a resposta
Nos exemplos incluídos a seguir, pode-se observar
era semelhante.
como foi sist ematizada a informação pelo grupo-diagnóstico:
tt
lo Como anda a situação do prédio escolarpor aqui ?
l) A situação do prédio anda mal, estragado piso até telhado'
2)Achoqueestáfaltandoprédioescolar./
3) Está uma coisa demais! Muito estragado. IIII
4) Anda um pouco fracassada. Que o prédio está quase desprezado,
faltando carteiras e a reformaçáo'
REPENSANDO A PESQUISA PARTICIPANTE
209

5) A situação de prédio escolar por aqui é falta de professoras


e
falta de condições do povo da comunidade para
reformar o pré-
dio.
6) Não está boa porque é muito pequen o. I I I
7) Está ruim porque precisa ajeitaíe não ajeitaram.
II
8) A situação de prédio escolar é que está pequeno,
foi construído não foi feito
-
da data que
mais ràou nele.^só prometimentos e a
comunidade só fica esperando chegue este
benefício.
9) o prédio escolar está precisando de uma reforma geral para
me-
lhorar nossa comun idade .

l0) Está muito estiorado causando ate medo de se ciar aul:


.l.i-ridir
está chovendo. Tudo é perigo tanto para rs prt-rrc::ür;S j,.r3i,
alunos.
I1) A situação está rnal: só temos um predio e rneSrrrtr assim esra
quase todo caído.
t2) o prédio foi construído em 1968. E as condições
de conse^.ação
do mesmo é das piores, muradas ao chão farta
fossas; existe apenas uma sala de aula e
, de sanitários,
a mesma não oferece
condições para suportar o número de alunos
existentes.
l3) Não tem respeito e está muito ruim a situação
dele.
t4) Está muito sem respeito. A maíor parte dos
moradores fazem é
acabar de derrubar, fazem o que querem . I
II
l5) Está muito feio, muito estragado, não tá com
nada.
t6) Andapéssimo, anda mall ll//l
t7) Das piores. o prédio existente não oferece
condições de uso de-
vido à falta de conserv ação, por falta das autoridades
compe-
tentes.
18) A situação do prédio se encontra em péssimas
condições, haja
visto a falta de manutenção e conservação do
mesmo,, .

"12'0 O que acha do atendimento do GESCAp a


menores e agricul-
tores sem terra?
1) o GESCAP vai muito mal, não atende nem
os menores. il r
2) O GESCAP não tá com nada!
3) Eu acho que vai mar. Devia ajudar mais dar mais
4) Não é bom não! Émuito fraco I I I I I
, apoio. r r 1
5) o atendimento é péssimo ate para os maiores, quanto mais a
menores. I ll
6) Seria muito bom se realmente o atendimento
fosse estendido aos
menores e aos que não têm terras . I I I I
7) Acho um problema sério; porque não beneficia
a todos! só aos
maiores de idade.
8) Muito importante atualmente e de grande valia
neste lugar!
Mas no último alistamento não foram atendidos
os menores e
nem os maiores solteiros.
2t0 cARLos RoDRIGUES BRANDÃo (org )

para merhor atendimento do GEscAp: era necessário


que todos
9) os agricultores Sem
trabalhassem, menores e solteiros: quanto
ainda. pois os mesmos trabalham nas
terra é mais complicado
para os mesmos apronta-
propriedades alheias,, não sobra tempo
roçados. mesÍt1o trab alhando em
rem terras para fazer os seus
terras alugadas'
alendimentos seJam prrincipalmente for-
ipq 3ren.1ime
10) E, mais r iár el que esses
necidos a esses elementos. em r irtude dos
proprios serem pes-
soas desalojadas financeiramente '
querem, porque
11) Se não têm terras para trabalhar e porque não
folga têm! o diário não é direito, só trabalham 3 dias para o
patráo, o resto é deles !
para
É muito fraco ! o ganho é muito pouco que mal dáL esca-
12)
par ' / / '
Á^ êFqí-'ap
^-an do GESCAP aos âôq rr
menores preJtrdica muito,
13) O não atendimento
tanta gente de menor que precisa comer! os
pais de família só
faltam é morrer paÍa dar o sustento com uma mixaria desta '
por que não
14) i péssimo o atendimento,, se e um beneficiamento,
beneficia a todos os necessitados?"

A infomação coletada nas entrevistas familiares e sistem atr-


zadaspelo grupo-diagnostico foi util rzadacomo
material p aÍa orien-
grupais, que
tar o diálogo nas entrevistas grupais. Essas entrevistas
de alguns pro -
tinham sido utthzadas paf a aprofundar o tratamento
aqui mais
blemas nas outras quatro comunidades, desempenharam
nas entrevistas
o papel de reflexão sobre as respostas registradas
sistem atr'
familiares, e de revisão da maneira como o grupo tinha
zado essas resPostas.
inter-
Neste momento, o grupo-diagnostico passou a ordenar,
pretar e orga ntzar todas as informações coletadas. o primeiro
tra-
em uma
balho foi cJpia, cadaopinião surgida durante as entrevistas
com as
folha de papel-jornal, indicando se procedia da conversação
famílias ou das reuniões grupais (EF ou eg). Por outro
lado, pre-
param-se dez envelopes tamanho ofício, çada um deles identificado
com o número e o texto de uma das suposições'
jornada, flo
O trabalho de sist ematrzaçáo reafizou-se em uma
grupo escolar de Yazantes, com participação dos membros
dos
comunidades e dos técnicos que acom-
lr"pos-diagnóstico das duas a cada
panhavam a experiência. uma pessoa do grupo dava leitura
folha e se dialogava sobre o conteúdo da informaçáo procurando
Depois
definir sobre qrrát ou quais das suposições trazta inform açáo.
.rrrelope correspondente. Quando o grupo
a folha ..u g.ràrdada ,ro
REPENSANDO A PESQUISA PARTICIPANTE 211

achava que o conteúdo se refe rta avárias suposições,


copiava-se em
outras folhas para colocar uma copia em cadà um
dos envelopes que
o grupo considerava necessários, indicando
na folha com que outras
suposições se estim avaque a infonnação esta
va relacionada.
Concluída ess a tarefa, o grupo passou a trabalhar
com cada
um dos envelopes, analisando as iáFormações que
tinham sido colo-
cadas dentro deles. Por exemplo, no envelope
identificado com o
texto: "Falta um poço profunáo. faltam cuidados
com a água. por
falta de interesse da comunidade". tinharn sido colocadas
as se-
guintes informações, uma em cada tolha ,Je pepel__r
trr-rJl .

" Porque nunca pensaram nrsso. Sc per>3:::-. : _:a j :i:: j:-1:. :a-
solver o problema. EF
Ter mais cuidado, tornar á*eua pelo menos flltrada e zelar por
ela. eg
Nossa âgua não tá com nada! eg
A gente bebe mais porcaria do que água. eg
A água não é boa. EF
Devemos procurar as autoridades no sentido de que
construam
um poço profundo. EF
A solução e cayar um poço. eg
Cercar o cacimbão. eg
Só se tampasse o cacimbão! eg
E limpar o cacimbão e só quem tira água dele e gente grande,
pegar os meninos e amarrá -los. eg
Um chafariz resolvia o problema. EF
Para melhorar nossa água, antes fazer limpeza para
termos
uma água bem tratada. EF
Falta de uma pessoa quejunte homem pra limpar o
cacimbão e
também de uma autoridade que faça alguma coisa.
EF
Se tivesse um local que a âgua pudesse ser
evitada a sujeira. EF
Construir um poço e conservar. EF
Um poço profundo. EF
E termos mais cuidado na higiene com a água. EF
Não temos âgua tratada por farta de condiçao. EF
Juntar a comunidade e pedir ajuda a algumas entidades.
í
E muito difícil, porque paÍa nós porruirmos
EF
átgua mais ou
menos é preciso cavar cacimba todo dia. EF
Não tem higiene. EF
se todos os cacimbões fossem limpos, era mais
boa. EF
Maior interesse da comunidade junto das autoridades que
nos
pudessem ajudar. EF
Como falamos nos itens anteriores, a falta de professores, a
falta de energia elétrica e a pouca formação dos moradores,
fica
2r2 cARLos RoDRIGUEs BRANDÃo'(ors')

impossibilitado parcialmente um bom aproveitamento


na parte de

saneamento. EF
o sis-
Anda em péssimas condições, visto que ainda é adotado
de cada ingeridor. EF".
tema cacimba, que é prejudiciar à saude

cada informação, descobrindo


o grupo procurou refletir sobre
em que confirmava ou negava a suposição, se indicava só
*.âioà
uma catacterística do problema, se se tratava de uma causa ou
de
ou proposta para o
uma soluçã oiáL experimentada pela comunidade
futuro. Este constitui o momento mais importante de reflexão do
dos
grupo e permitiu avançff significativamente no conhecimento
problemas pesquisados , taspeitando a percepção dos membros das
limites de sua consciência
comunidades, sem puxar puru além dos
possível.
o trabalho de sistem atrzaçáo concluiu com a elabor açáo de

mapas onde eram apresentadas em forma resumida as


caraçterísti-
cas, causas e soluções dos diferentes problemas da comunidade.
Apresentam-se em seguida alguns exemplos:

6o Falta de assistência à saude

Características Soluçõ es

Falta de assistência a Falta miniPosto. Cuidar da saÚde.


saúde. Falta de reunião Para Médico ao menos uma
discutir os Problemas vez por mês.
Falta médico
da comunidade ' Miniposto.
Falta remédio.
Alimentação.
go Falta educação para os adultos, por íolt, de interesse da comunidade

Falta escola Para Desinteresse da Arranjar Professores.


os ad ultos. cornunidade. lnteresse da comu-
Falta de Professores nidade.
para adultos.
Ajuda das autoridades
Falta de formação da co m Pete ntes .

com u n idade.

O passo seguinte foi procurar faiet com que os membros


do
e ilus-
grupo tentassem escrever pequenos textos sobre os problemas
trá-10s. A mesma tarefa tinha sido reahzada nas outras
comuni-
dades, revelando-se uma atividade importante para
interiofizar a
compreensão do problema. o esforço por traduztr
as reflexões do
REPENSANDO A PESQUISA PARTICIPANTE lr3

grupo em um texto pessoal e em um desenho contribui a esclarecer


ainda mais tudo o que se tinha falado e ouvido sobre cad,a um dos

Citam-se a seguir alguns textos elaborados por elementos do


grupo-diagnóstico:

I. "Jâ falamos em todos os nossos problemas: falta de energia ele-


tnca, que falta prédio escolar , falta de professores para adultos. que
falta capela, falamos sobre o GESCAP, e por fim vanros talar' :.: ::i
situação financeira.
Que é o problema maior dos prob'ler:r:.. \Íe.:..' - -í i :=-..:
tenha boa-vontade e interesse de trab,rl::: l-i:i tr-::i -.:-:..J,i;í.
não temos condições. .\ srtuaçàt-r flna:i.'a:rJ üe :a,>st, ..rr -::i:ie :f .,
é boa! Não temos condiçÕes de constFUlrrrrr-rS trrssas e nem de ct)rn-
prarmos filtros para bebermos á*9ua limpa. \Ías interesse temos
demais"' M.E.R.B.
II. "Aqui em Bonitinho está faltando assistência para a saúde do
povo de nossa comunidade.
Primeiramente, nossa saúde e precária em termos de alimenta-
ção. Não temos uma boa alimentação, as crianças não são bem
alimentadas. o que causa pior o problema de saúde.
Precisamos de assistência médica ao menos uma yez por mês,
assistência dentánia, remédios e de reunião para vermos a possibili-
dade da construção de um miniposto de saúde." M.T.
III. "As mulheres de nossa comunidade precisam trabalhar profis-
sional para ajudarem financeirarnente seus maridos nas despesas de
casa. Primeiro vamos pensar na falta de incentivo, pois elas não são
incentivadas a trabalhar, a exercer uma profissão que lhes renda
algum dinheiro. Depois vamos pensar no salário, que é pouco. Mas
tão pouco que não lhes propõe o interesse de trabalhar, mesmo sendo
qualquer tipo de trabalho. Como: fazercm crochê, tranças de palha,
costuras. Os lucros seriam aquela mixaria que nem chegariam a
compensar. " M.I. F. S .

Após esse momento de sistem atizaçáo das informações, o


grupo planejou a reahzaçáo de reuniões com a comunidade objeti-
vando discutir a proposta de sistemattzação das informações, refletir
sobre os núcleos problemáticos e definir prioridades para a elabo-
taçáo do plano de açã,o comunttária e do plano educativo. Para
alcançar esses objetivos, optou-se neste caso- por um processo em
duas etapas : a primeira consistiria na organi zaçáo de pequenos
grupos de estudo com as pessoas da comunidade, e a segunda,
como momento final, seria a apresentação de uma peça dramati-
zando os problemas da comunidade.
214 CARLOS RODRIGUES BRANDÃ0 (org.)

O texto da peça resume os resultados da pesquisa em forma


integradâ e, sempre que foi encenado. motivou novas discussões e
conversas sobre os problemas da comunidade:

,,DRAMA DOS PROBLEMAS DA COMU\-ID.4DE

Boa tarde, comadre Maria.


Boa tarde, compadre Chico, tudo bem por lá?
Comadre, só não está melhor, porque estou muito preocupado
com os meninos que estão sem estudar.
Ói co-padre, este problema está mexendo com todo mundo,
aqui em casa ficaram 3 meninos sem estudar, e eu não sei o que
fazer, se aqui tivesse escola de noite, até eu estudava; mas é um pro-
blema, se tem quem ensine, não tem local. Você já viu o grupo, está
em tempo de cair, se chove fica cheio d'agua, não tem carteira sufi-
ciente, se aquele grupo fosse reformado, fizessem duas salas de aula e
completasse de carteira ficaria muito bom,, daí podia ser que tivesse
escola suficiente pelo menos até a 4u serie.
Comadre, a situação está preta, acho que todas as famílias
estão sofrendo muito, pense bem: lá em casa somos 4 homens,2 tra-
balham no GESCAP, e 2 náo trabalham porque não têm idade, mas
eles comem ate mais que eu que sou mais velho, agora o pagamento
falta e não sai mais, e quando sai não dá pra comprar nada, é so pra
pagar, e o tempo é pouco para GESCAP e cuidar da roça da gente.
É,, compadre, se o governo desse uma olhadinha pra este povo
que sofre e tivesse dó, e fizesse alguma coisa, além da situação ser
feia, aqui não temos nada, deveri a ter aqui ao menos uma Yez por mês
médico, dentista pra cuidar da saúde destas crianÇâs, uma consulta,
uma vacina, a gente tem que andar a pe ou mesmo de carro, mas
precisa de dinheiro para as passagens e é aquela confusão! Um lugar
como este, grande, de muita gente deveria ter era um minip osto.
Olha, comadre, aqui é como diz, fala-se de uma coisa e puxa
outra, quando falamos em miniposto vem ài, você já viu aquele
cacimbão do Sr. Joaquim? Que a água está podre de tanta porcaria,
este povo daqui também é demais, este ano o inverno está fraco, e se
faltar água? Ninguém tem cuidado com aquele cacimbão, se a comu-
nidade se reunisse e limpasse, será que valia a pena?
Claro, compadre, eu tenho muita fe em Deus que estes pro-
blemas sejam solucionados, nós é que devemos ter cuidado com a
âgua que bebemos, depois de limpa, se as autoridades fizessem logo
um poço profundo , era uma boa.
Sabe o que está faltando? Uma pessoa pra fazer campanhas de
saúde, por exemplo: campanha de filtros, fossas, farmâcia comuni-
tíria, melhoraria cem por cento.
R.EPE\S {\DO A PESQL ISA PARTIC IP.{\TE . ;

Mudando de pau pra cacete, o que o compadre


--..^r*v^v acha \I(f rerls:i:
g\,Ircl da
daqui?

Está mais ou menos, ô compadre,


se aqui tivesse uma capera.
era muito bom.
Mas, compadre chico, pra ter uma capela
é preciso de muita
coisa, em primeiro lugar catequistas,
eu sei, uma capela aqui seria
muito bom, motivava mais o pàuo, o que
está faltando é uma pessoa
que se encarregue, quer dizer,
interesse da comunidade, e tambem
as
condições são poucas.
Bom, com isso vou te contar uma coisa,
sábado passado eu fui
matricular meus meninos no catecismo.
tir.e foi pena de D. Rita. sahe
quantos meninos tinha matriculados.
cem crianças de 6 anos acima
só pra uma catequista.
Agora, compadre, eu pergunto, cadê
o povo dessa comuni-
dade? As moças, os rapazes, e ttl primeiro rugar, o que estão
fazendo?
Mas é assim mesmo, não tem quem queira
se respons abrlizar por
nada' dar uma aura aos sábados acham
demais.
olha' comadre Maria , se tivesse a capelinha,
uma
pessoa encar-
regada' depois viesse a energia elétrica,
melhorava muito o nosso
lugar.
você acha, comp adre, que nós temos
alguma possibilidade de
termos energia aqui?
Sim, por que não?
É, quem espera sempre arcança, pode
ser que pero meio de
tanta coisa sobre alguma coisa pras
mulheres, já pensou só quem
ganha é professora e é pouco que faz
vergonha, devia ter assim um
trabalho que as mulheres pudessem trabalhar
pra ajudar a seus mari-
dos.
É, eu também achal,abom. mas de todo feito é ruim, tem
mulheres que sabem fazer alguma coisa,