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JC Franco; D Fernandes; H Sochodolak. VIII CIH.

626 - 633

VIOLÊNCIA E RIZOMA: CONSIDERAÇÕES TEÓRICAS PARA A


HISTÓRIA
Doi: 10.4025/8cih.pphuem.3678

Júlio César Franco, UNICENTRO


Dalvana Fernandes, UNICENTRO
Hélio Sochodolak, UNICENTRO

Resumo

As reflexões teóricas sobre a violência circundam um campo


amplo de perspectivas. Os estudos sobre este fenômeno não se fecham a
uma disciplina, transitam entre a História, Filosofia, Sociologia,
Criminologia, Psicologia, etc. A violência pode ser compreendida como
estrutural ou como meio, legítima, quando o Estado exerce um poder da
violência e ilegítima quando é praticada pelos sujeitos que não possuem esse
poder. Todavia, esta concepção não contempla discussões amplas sobre as
inumeráveis práticas da violência, seus efeitos e suas aparições. Entendemos
que é necessário buscar o aporte conceitual de outros autores para ampliar
a reflexão sobre a violência, de forma a compreender outros fenômenos
Palavras Chave:
adjacentes, transversais que a violência irrompe. Destarte, pensar a violência
teoria da história;
enquanto rizoma, modelo proposto por Deleuze e Guattari, permite
NUHVI; história da
compreender a positividade, a criatividade, não como simples decalcomania,
violência.
imagens já desenhadas no tecido social, a árvore-raiz, mas sim como rizoma
que incita, suscita, explode em linhas de fuga e constitui segmentaridades
improváveis e aleatórias. O objetivo aqui é contribuir com as reflexões sobre
a violência e suas relações com a história, admitindo que a violência pode
ser positiva. Não se resume apenas ao ato violento, a força física investida
em algo ou outrem, ela cria, produz, permite visibilidades.
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práticas sociais. Uma dinâmica da


Introdução
violência como afirma Maffesoli (1987),
Este trabalho faz parte das onde o fenômeno representa um papel
discussões sobre a História da violência, social e possui utilidade.
realizadas junto ao Núcleo de Estudos em Tendo essas concepções,
História da Violência – NUHVI.1 Os podemos pensar a partir do rizoma de
debates em torno das práticas de violência Deleuze e Guattari, um outro olhar sobre
e do próprio conceito são os objetivos das a violência. Está não precisa ser
pesquisas realizadas. Os temas em voga compreendida por estruturas, como uma
estão inseridos em cotidiano, espaços, árvore-raiz, decalcada em uma relação
práticas, tragicidade e sociabilidades binária. Aqui, a multiplicidade, permite
pensados a partir da violência. compreender a violência como um
Como parte de um projeto rizoma.
maior, este trabalho busca compreender Não afirmamos em momento
algumas concepções de violência, algum durante o texto que a violência deva
direcionando a uma análise desta a partir ser aceita ou pensá-la como inevitável, não
de um rizoma. Procuramos contribuir para faremos apologia e nem deve ser
as reflexões sobre a história da violência e entendida assim. Não compreender sua
pesquisas desenvolvidas pelo NUHVI. relação multifacetada nos limita enquanto
A violência geralmente atrelada sujeitos que podem (devem) provocar
ao exercício ou domínio do poder, de mudanças. Grande erro seria considerar a
forma negativa, perdurou nas pesquisas violência, a priori, como bom ou mau, essa
em História. Essas compreensões relação já está deturpada para nosso
respondem a questões pontuais de uma propósito.
demanda histórica e de um lugar social
específico como aponta Michel de Certeau
Violência e Estado: uma breve
(2015) com relação as operações constatação
historiográficas. Todavia, em nosso lugar
As pesquisas que envolvem a
social e demanda histórica nos permite
violência se dissipam por várias disciplinas
pensar outras formas de violência, não
como na História, Filosofia, Sociologia,
somente como negativa e destruidora, mas
Psicologia, entre outras. O ponto que
também como produtiva, positiva ou
converge entre ambas é seu aparecimento
criativa.
nas relações sociais, porém cada um com
Destarte, conduzimos a reflexão sua especificidade, seja como movimento
abordando alguns pressupostos sobre a histórico, conjuntural, estrutural,
violência que transitam na História, patológico, etc. Procuramos discutir neste
Filosofia e Sociologia, que à primeiro momento algumas concepções
compreendem frequentemente associada sobre a violência, para nos dar substância
ao poder de Estado, pensado num aspecto para a proposta de pensar a violência
macro. Pontuamos alguns autores que enquanto um rizoma.
pensaram desta forma, com as discussões
Para iniciarmos as reflexões,
sobre monopólio da violência, prática
analisemos brevemente algumas das
legítima e ilegítima, Estado e poder.
longas teses que trabalharam com a
Em outro momento procuramos violência e contribuíram para pensar
compreender a violência sob a outra face, vários pontos sobre esse tema. A História
a violência criativa e positiva presente nas da violência de Robert Muchembled

Sochodolak e Valter Martins, foi aprovado e


1O Núcleo de Estudo em História da Violência –
financiado pela CNPq em 2016.
NUHVI, coordenado pelos Professores Dr. Hélio

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(2012), é um bom exemplo para os costumes, pensamentos e sentimentos


iniciarmos. O autor levantou questões
sobre a história violência, onde indaga Mostrando como o controle
sobre o inatismo, suas aparições e efetuado através de terceiras
pessoas é convertido, de vários
modelos de controle na Europa que aspectos, em autocontrole, que as
evidenciariam sete séculos – fim da idade atividades humanas mais
média ao século XXI – de declínio da animalescas são progressivamente
violência homicida. excluídas do palco da vida comunal
Muchembled (2012), a partir da e investidas de sentimento de
vergonha, que a regulação de toda a
análise do fenômeno da violência,
vida instintiva e efetiva por um
encontrou elementos que permitiram firme autocontrole se cada vez mais
compreendê-la como algo potencialmente estável, uniforme e generalizada.
masculino. Através de um longo (ELIAS, 1993, p. 193-194)
levantamento quantitativo dos registros de
homicídio, constatou que a maior parte Concomitante, às ações do
dos crimes eram cometidos por homens Estado em controlar a violência institui
jovens entre 20-30 anos. Por via de regra, racionalmente um monopólio da
a violência homicida estava relacionada violência. O Estado possui o poder de
rituais de virilidade, honra e iniciação da utilizar a violência sob o pretexto de
vida adulta destes jovens “machos”. manutenção da ordem e controle da
sociedade, enquanto na esfera privada e
A violência para Muchembled cotidiana, as práticas de violência –
(2012), não afirma ser inata, pois não é consideradas ilegítimas – ainda ocorrem e
trabalho do historiador compreendê-la são reprimidas.
desta forma, ela é histórica e deve ser
analisada assim pela História. Para Elias (1993, p. 198) a força
Compreendê-la no espaço-tempo, física e a violência estão interligados.
possibilita entender as formas como ela é Todavia, com o processo civilizador,
tratada, praticada, reprimida e “criam-se espaços sociais pacificados”
transformada. onde essa relação de força e violência
estão separadas. “A violência física é
As várias formas identificadas confinada aos quartéis, de onde irrompe
pelo autor, pressupõem que a queda da apenas em casos extremos, em tempos de
violência homicida na Europa estava guerra ou sublevação, penetrando na vida
frequentemente associada a uma do indivíduo.” (ELIAS, 1993, p. 200)
transformação da mesma. Coloca-se o
homicídio como tabu maior, com Este processo civilizador,
intervenções do Estado, sacralizando a instituiu uma racionalidade para o controle
vida. São vários exemplos trabalhado por dessa violência (i)legítima, projetando-a
Muchembled (2012), como as práticas do no corpo social. Aqui a violência é
duelo, a literatura sanguinária, entre outras combatida pela vergonha e repugnância,
que compõem um fundo de práticas que assim como muitas outras práticas
surgem paralelas as técnicas de consideradas não-civilizadas.
domesticação e controle da violência na Destarte, podemos observar uma
Europa. relação binária da violência. Aqui o Estado
Na sociologia encontramos possui um poder pelo qual monopoliza a
Norbert Elias, que em seu magnum opus, O violência para sua manutenção em uma
processo civilizador (1993), discute um relação que reprime outras formas com
processo que buscou a civilização dos ferramentas específicas. Essas por sua vez
costumes, isso a partir da constituição dos já internalizadas socialmente e são
Estados-nação. Assim, dedicou-se a acionadas quando necessárias.
compreender um processo que agia sobre

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Outro autor que destacamos é social vai se organizar a partir da


Michel Maffesoli com A dinâmica da institucionalização da violência
violência (1987). Este autor propôs (Estado), de sua repressão (prisão-
pensar alguns aspectos da violência que justiça), de sua utilização (Trabalho
fogem das recorrentes análises, como por social), de sua parcelarização (meio),
etc. (MAFFESOLI, 1987, p. 36)
exemplo, o papel criativo da violência,
como forma social e o fenômeno da Michel Foucault é outro autor
dissidência como destruição útil. Tudo que consideramos pelo modo como
isso interligado ao propósito de pensou e analisou a violência. A forma
manutenção e catarse social. Lançando como trabalhou com a violência – não
uma metáfora que exemplifica seu remetendo estritamente a isso –, permitiu
objetivo ao pensar a violência: compreender como o fenômeno aparece
quando imerso nas relações de
[...] podemos dizer que ela pertence
poder/saber, nos micropoderes dentro
a essa parte sombria como o
costado pertence a um navio: ela
dos dispositivos disciplinares e no poder
está escondida, importante, é o de punir. Suas concepções, já não
lugar onde o maquinário é ativado, remetem a uma estrutura, essas relações
numa palavra, é graças a ela que a permitem movimentações e rupturas
embarcação (social) resiste e drásticas no decorrer histórico.
navega.” (MAFFESOLI, 1987, p.
Em Vigiar e punir (2013)
41)
Foucault, pegamos como exemplo, onde
Indagar a violência como papel demonstrou como no século XVII2 ocorre
social, em sua sociologia especulativa, um fenômeno onde os crimes se tornam
Maffesoli aponta algumas características menos violentos assim como as punições,
de sua análise. A primeira é o fenômeno só que está “...à custa de múltiplas
da dissidência onde apontou uma utilidade intervenções”. (FOUCAULT, 2013, p. 73)
da violência como efeito catártico e No século XVIII a uma mudança na
renovador da estrutura social. Este efeito organização da delinquência com a
converte a violência original em ritos que formação dos grandes bandos, onde era
buscam purgar os efeitos produzindo um poupado as manifestações de forças mais
aspecto positivo, a manutenção da drásticas e coléricas a fins de tornarem
estrutura social. (MAFFESOLI, 1987, desapercebidos perante o poder de punir,
p.25) no mesmo período os reformadores do
direito propunham punições mais
Nesta relação, o autor aponta
“humanistas”. Uma criminalidade das
uma ambiguidade da violência, ela é útil e
margens onde há uma passagem dos
destrutível. Todavia, a funcionalidade
crimes de sangue para crimes de fraude
ocorre por um equilíbrio que promove a
que
manutenção, há uma racionalidade na
violência. [...] figuram o desenvolvimento da
produção, o aumento das riquezas,
O que mais está em questão é a uma valorização jurídica e moral
racionalização dessa violência maior das relações de propriedade,
criadora, renovadora, da qual o mito métodos de vigilância mais
e as estórias nos falam, em uma rigorosos, um policiamento mais
violência estritamente utilitária, o estreito da população [...]
que significa que uma estruturação

partir da violência corporal ritualizada e assistida


2 O século XVII e XVIII representam um
pela população, servindo de exemplo aos demais.
período francês onde os crimes contra o rei eram
Um dos pontos levantados por Foucault, é que
punidos com o suplício. O efeito desta punição
nesse período quase todo crimes era um crime
remetia a uma ostentação do poder do monarca a
contra o rei. (Cf. FOUCAULT, 2013, p. 9-67)

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(FOUCAULT, 2013, p. 75) linhas de multiplicidades, é o oposto a


árvore que formam raízes, troncos e
A relação apontada por Foucault,
galhos sempre retornando a um centro. O
permite refletir a violência exercida e o
rizoma como afirma Deleuze e Guattari.
poder de punir em uma outra relação a de
crime/punição. Essa relação a partir do “[...] nele mesmo tem formas
século XIX, parece funcionar de modo diversas, desde sua extensão
onde a violência perde intensidade superficial ramificada em todos os
colérica, fazendo com que a punição perca sentidos até suas concreções em
intensidade também. Isso se dá, como bulbos e tubérculos. Há rizoma
afirma Deleuze (2013) uma vez que o quando os ratos deslizam um sobre
poder “[...] não opera necessariamente os outros. Há o melhor e o pior no
rizoma: a batata e a grama, a erva
através da violência e da repressão quando
daninha. (DELEUZE;
se dirige aos corpos. Ou melhor, a GUATTARI, 2011, p. 22).
violência exprime o efeito de uma força
sobre qualquer coisa, objeto ou ser.” Para deixar mais claro o
(DELEUZE, 2013, p. 38) Se a violência conceito, os autores numeraram alguns
dos crimes se abrandam o poder de punir princípios característicos do rizoma. E
abranda as punições e vice-versa. para a reflexão utilizemos os autores
anteriormente citado e alguns exemplos
Esse breve levantamento sobre a
hipotéticos.
violência, sem uma delimitação espaço-
temporal, se justifica pela hipótese que Princípios de conexão e
lançamos, pensar a violência a partir do heterogeneidade onde qualquer linha do
rizoma. A análise teórica que foi proposta rizoma pode ser rompida e reconectada a
busca compreender as ideias da violência qualquer outra em qualquer momento sem
sem rejeitá-las. Na reflexão que segue, uma ordem. Pensando isso no campo
procuremos observar como o rizoma de social “Um rizoma não cessaria de
Deleuze e Guattari, permite lançar um conectar cadeias semióticas, organizações
olhar sobre essas ideias e como pode de poder, ocorrências que remetem às
contribuir para pensar a história da artes, às ciências, às lutas sociais.”
violência. (DELEUZE; GUATTARI, 2011, p. 22-
23).
A violência e o rizoma Princípio de multiplicidade –
Pensar a violência como rizoma como afirmam no texto deve ser
ou partir de um, certamente torna uma compreendido como substantivo – onde o
reflexão abstrata, mas não irreal. O que compete é as “[...] determinações,
rizoma, conceito utilizado por Deleuze e grandezas, dimensões que não podem
Guattari, Mil Platôs3, principalmente em crescer sem que mude de natureza [...]”
sua introdução no primeiro volume (DELEUZE, GUATTARI, 2011, p. 22)
Essas transmutações ocorrem por meio de
Antes de adentrar à reflexão mais agenciamentos. Para Deleuze e Guattari:
densa, procuremos compreender o rizoma
em Deleuze e Guattari. A própria Um agenciamento é precisamente
produção de Mil Platôs, é afirmada pelos este crescimento das dimensões
autores como um rizoma, no qual as teses numa multiplicidade que muda
necessariamente de natureza à
podem ser lidas independente da ordem
medida que ela aumenta suas
pública – exceto a conclusão. Essa é uma conexões. Não existem pontos ou
das características de um rizoma, não ser posições num rizoma como se
estrutural e pontuado, um rizoma são encontra numa estrutura, numa

3 Teses que dão sequência a Anti-Édipo (1972).

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árvore, numa raiz. Existem somente ou antipatia e reterritorializar em outro


linhas. (DELEUZE; GUATTARI, momento e em outro espaço. Aqui por sua
2011, p. 24) vez pode conectar a uma aleatoriedade de
Essas linhas são definidas pelo desfechos, onde pode ocorrer a
princípio de exterioridade “[...] pela linha rememoração do fato, a transformação da
abstrata, linha de fuga ou de violência em um outro tipo como a
desterritorialização segundo a qual ela exclusão, rejeição que atuara pelo estigma,
mudam de natureza ao se conectarem às ou um desfecho fatal onde ocorre a
outras.” (DELEUZE; GUATTARI, 2011, violência novamente com mais
p. 24). intensidade. Quando ocorre novas
conexões ela não se reporta ao mesmo
Um outro princípio, o de ruptura significado anterior, é heterogêneo, estas
assignificante, nos cabe também neste linhas podem se conectar de onde se
texto com relação a reflexão sobre a desconectaram, porém, como no ditado
violência onde: de Heráclito, “O homem que volta ao
mesmo rio, nem o rio é o mesmo rio, nem
Um rizoma pode ser rompido,
quebrado em algum lugar e segundo o homem é o mesmo homem”.
outras linhas. É impossível Estes princípios também permite
exterminar formigas, porque elas refletir sobre a questão do processo
formam um rizoma animal do qual civilizador de controle dos costumes e da
a maior parte pode ser destruída violência, ao estratificar determinando
sem que deixe de se construir. Todo
tipos de violência legítima e ilegítima.
rizoma compreende linhas de
segmentaridades segundo as quais é Porém, pode observá-la mais a fundo,
estratificado, territorializado, onde a prática da violência ilegítima, pode
organizado, significado, atribuído, ocorrer o que Michel de Certeau (1998, p.
etc.; mas compreende também 46-47) afirmava em A invenção do
linhas de desterritorialização pelas cotidiano como tática, a artimanha onde
quais fogem sem parar. os sujeitos confrontam as estratégias
(DELEUZE; GUATTARI, 2011, produzindo e praticando de forma
p. 25) fragmentada: “a tática depende do tempo,
Como na metáfora de Maffesoli vigiando para ‘captar no vôo’
(1987, p. 41), a violência está na sociedade possibilidades de ganho”. (CERTEAU,
como o maquinário está na embarcação 1998, p. 46-47) Essas táticas causam
fazendo-o navegar. Essa máquina desterritorialização, elas rompem com a
depende de todo um conjunto para que segmentaridade das estratégias, explodem
funcione e se algum incidente acontece, em linhas de fuga onde, nesta reflexão, a
muda as formas de navegação. Assim na violência vai tomar outro caráter e
sociedade a violência aparece e transita em podendo mudar até mesmo de natureza.
um conjunto, mas não impede que altere a Como exemplo, o que
rota por conveniência ou necessidade Muchembled (2012) e Elias (1993)
tomando novas formas para que não cesse trabalharam sobre um processo de
de se conectar, desterritorializar, controle, as práticas violentas de sangue
reterritorializar, estar em fuga. não cessam pela repressão e controle,
Essas linhas são possíveis de agora se tornam patológicas. As práticas
observar quando a violência podem diminuir, mas também, podem ser
“territorializada”, como por exemplo uma convertidas em outras formas. Se
briga de bar é rompida por outra força – transformam seguindo outras linhas, são
policial, pessoal, ou outra qualquer. Ela produzidos bodes expiatórios, para usar o
pode promover uma desterritorialização, termo de René Girard (1990), onde a
podendo transformar a violência em riso violência muda seu foco para animais ou

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humanos e agora também sob outras são aplicados juntos a este, é a cartografia
práticas como esportes, ou em níveis mais que torna possível uma reflexão mais
fictícios como literatura, cinema e arte. apurada e visível. É aqui que o rizoma faz
sentido e contribuem para um olhar sobre
O ponto é, a contenção, os meios
diversos objetos de pesquisa, no caso aqui
e técnicas não significam a extinção da
a violência. Esse mapa, que é possível com
violência, ela formam novas linhas de fuga
o rizoma permite compreender um
que traduzem em outras formas que estão
movimento na história que não é levado
em constante devir. Foucault em Vigiar e
em consideração muitas vezes. Para a
punir (2013), permite compreender essa
História, utilizar este conceito não é uma
transformação da violência, onde ela não
tarefa muito fácil, perigoso cair em
se encontra estática, mas sim se
fundamentos que não condizem nem com
transforma junto com o poder de punir e
a historiografia e nem com o conceito.
ao poder disciplinar que atua como
Observar violência como rizoma é uma
máquina abstrata que causam essas
tarefa de cartografá-la.
transformações.
Todavia, para uma História da
Até que ponto a transmutação da
violência, o método e teoria de Deleuze e
violência física aleatória para uma
Guattari podem contribuem
controlada não seria um ponto positivo?
O seu efeito seria catártico também? Uma substancialmente para a escrita da história.
Como Graebin e Viegas (2012),
coisa é certa, as formas como a violência é
reprimida somente se tornam combustível coadunamos com uma história rizomática,
permitindo que “Percebemos que as
para explodir em outras formas, sejam elas
controladas ou não, mais ou menos linhas, para além de como cortam o
intensas e/ou significativas. Todavia, território, fazem conexões entre si. [...] um
também ocorre a possibilidade de resolver historiador pode explicar de que modo os
mapas que ele monta no tempo podem ser
a violência.
agenciados [...]” (GRAEBIN, VIEGAS,
Um último princípio do rizoma, 2012, p.138)
a cartografia, nos dá a chave para a
reflexão ser mais concisa que “[...] não Considerações Finais
pode ser justificado por nenhum modelo
estrutural ou gerativo.” (DELEUZE, Pensar a violência a partir do
GUATTARI, 2011, p.29) O rizoma não é rizoma, não produz fins puramente
determinado por pontos estruturais, ele é acadêmicos científicos. A tarefa de discutir
um mapa, não um decalque já traçado que as concepções de violência a partir de
liga pontos. Esse mapa proposto, ao produções intelectuais e propor outras
modelo cartográfico é complexo porém formas que complementem ou abram
inteligível e possui características que são novos caminhos, caminham conforme e
válidas para nossa reflexão. nos serve de metáfora, o que Deleuze e
Guattari (2012, p. 192) apontaram “[...]
O mapa é aberto, é conectável em devemos lembrar que os dois espaços só
todas as suas dimensões, existem de fato graças a misturas entre si
desmontável, reversível, suscetível a
[...]. São esses espaços lisos (conhecimento
receber modificações
constantemente. Ele pode ser acadêmico) que se transformam em
rasgado, revertido, adaptar-se a espaços estriados (busca pessoal, novos
montagens de qualquer natureza, olhares, novos métodos e perspectivas), e
ser preparado por um indivíduo, vice versa, que traduzem o objetivo deste
grupo, uma formação social. trabalho.
(DELEUZE, GUATTARI, 2011,
p. 30)
Cartografar, observar o rizoma e
perceber o movimento da violência são
Todos os princípios anteriores formas que podem contribuir para pensar

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na História. Contudo, não deixar que Referências


somente flores façam um jardim, não
podemos simplesmente abandonar as CERTEAU, Michel de. A escrita da história.
outras concepções sobre a violência, pois Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2015. 3ª ed.
essas já fazem parte deste mapa. Saber __________. A invenção do cotidiano: artes de
como utilizar ambas as concepções e fazer. Petrópolis: Editora vozes, 1998. 3ª ed.
métodos aqui discutidos sem MAFFESOLI, Michel. Dinâmica da violência.
comprometer o saber, se torna essencial São Paulo: Editora Revista do Tribunais; Edições
para não produzir narrativas fantasiosas e Vértice, 1987.
irreais. MUCHEMBLED, Robert. História da
violência: do fim da Idade Média aos nosso dias.
Mas para além, também Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2012.
promove formas de observar e refletir as
DELEUZE, Gilles. Foucault. São Paulo
próprias experiências e identificar a Brasiliense, 2013.
multifaces da violência em nosso
DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil
cotidiano. As linhas que estão em fuga e
Platôs: capitalismo e esquizofrenia 2. Vol 1. São
que são agenciadas em várias práticas que Paulo: Editora 34, 2011. 2ª ed. (Coleção TRANS).
muitas vezes desapercebidas.
__________. Mil Platôs: capitalismo e
A filosofia de Deleuze e Guattari esquizofrenia 2. Vol 5. São Paulo: Editora 34,
nos permite um outro olhar sobre a 2012. 2ª ed. (Coleção TRANS).
violência assim como outras concepções. ELIAS, Norbert. O Processo Civilizador:
É um processo de reconhecimento e de Formação do Estado e Civilização. Vol. 2. Rio de
desterritorialização de si mesmo, assim Janeiro: Zahar, 1993.
compreender e observar a violência como FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir. Rio de
o proposto, também é observar como Janeiro: Vozes, 2013.
praticamos a violência sob outras faces GIRARD, René. A violência e o sagrado. São
que não a física. Assim, procurar repensar Paulo: Editora Universidade Estadual Paulista,
as próprias concepções que muitas vezes 1990.
estão tão enraizadas quanto uma árvore GRAEBIN, Cleusa Maria Gomes; VIEGAS,
velha. Danielle Heberle. Por uma história rizomática:
apontamentos teórico-metodológicos sobre a
prática de uma cartografia. História Revista,
Goiânia, v. 17, n. 1, p. 123-142, jan./jun. 2012.

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