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UNIVERSIDADE FEDERAL DE MATO GROSSO DO SUL

FACULDADE DE CIÊNCIAS HUMANAS

LICENCIATURA EM FILOSOFIA

GABRIEL DE ARAÚJO MARTINS

A CONCEPÇÃO DE CAUSA FORMAL EM THOMAS KUHN: A FÍSICA SOB UMA


PERSPECTIVA DA METAFÍSICA ARISTOTÉLICA

CAMPO GRANDE

2018
GABRIEL DE ARAÚJO MARTINS

A CONCEPÇÃO DE CAUSA FORMAL EM THOMAS KUHN: A FÍSICA SOB UMA


PERSPECTIVA DA METAFÍSICA ARISTOTÉLICA

Monografia apresentada à Faculdade de


Ciências Humanas e Sociais, curso de
Licenciatura em Filosofia da
Universidade Federal de Mato Grosso do
Sul.

Orientador: Prof. Dr. Erickson dos


Santos

CAMPO GRANDE

2018
DEDICATÓRIA

Esta monografia é dedicada à memória de


minha mãe.
AGRADECIMENTOS

Agradeço primeiramente à minha filha Letícia Sayuri, que soube muito bem entender a
importância dessa graduação para mim, sendo compreensiva quanto à falta de tempo devido a
minha dupla jornada de trabalho e estudo. Ela é uma grande inspiração para minhas reflexões,
sua companhia e amor durante esses anos foram inestimáveis para minha formação. Agradeço
a minha amiga, correspondente e companheira de vida Aline, que durante toda minha
graduação me deu o apoio necessário para seguir esse caminho. Seja discutindo algumas
ideias, seja apenas me escutando, sou imensamente grato por ela estar presente na minha vida
nesse momento e por todo o amor que temos vivido.

Agradeço ao amigo e professor supervisor de meus estágios Fábio Amorim, pela


imensa ajuda e colaboração. Agradeço a todos os professores do curso de filosofia da
Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, que direta ou indiretamente me ajudaram a
moldar uma nova visão de mundo, e a perceber a complexidade das diferentes formas do
pensamento humano. Em especial, agradeço ao professor Erickson dos Santos pelas valiosas
orientações da minha monografia: pela paciência e pelo minucioso cuidado ao revisar cada
palavra; por me conduzir a um melhor desenvolvimento de minhas ideias e meus escritos.
EPÍGRAFE

“Visto que a natureza se concebe de duas


maneiras – a forma e a matéria –, é deste modo
que se deve estudar. [...] também à ciência
natural compete tomar conhecimento de ambas
as naturezas.”

“Uma vez que as causas são quatro, complete ao


estudioso da natureza conhecer todas, e ele há de
explicar o porquê de maneira própria à ciência
natural [...].”
ARISTÓTELES
FÍSICA

“Embora estejam longe de ser conclusivas, as


evidências sugerem que, com o desenvolvimento
de uma ciência, esta passa a empregar em suas
explicações um número cada vez maior de formas
irredutivelmente distintas.”

“[...] no século XIX, uma mudança que já havia


começado na mecânica propagou-se pouco a
pouco por toda a física. À medida que o campo se
matematizava, a explicação dependia cada vez
mais de apresentação de formas apropriadas e
da derivação de suas consequências. Com
relação à estrutura, mas não em substância, a
explicação ainda era a da física aristotélica.”

THOMAS S. KUHN

CONCEITOS DE CAUSA NO
DESENVOLVIMENTO DA FÍSICA (1971)
RESUMO

Nesta pesquisa analisamos o conceito de causalidade na filosofia da ciência de Thomas Kuhn


como uma nova concepção da causa formal de Aristóteles. Em seu artigo Conceito de causa
no desenvolvimento da física (1971) da obra A Tensão Essencial (2011), ele explica como a
física pode ser vista sob uma perspectiva da metafísica aristotélica. Vamos defender que nessa
concepção, Kuhn implicitamente pode estar promovendo um diálogo e aproximação entre
metafísica e ciência. Ao analisar algumas das questões sobre a causalidade discutidas por ele
neste artigo – como as noções de causa ampla e estrita, a causalidade de Aristóteles e as
implicações dessa teoria na filosofia moderna – sob a perspectiva de outros autores e do
próprio Kuhn, podemos indicar como é possível essa aproximação. Demonstraremos também,
que essa concepção (de causa formal) pode ser vista através de uma análise de sua relação
com outras das principais teses de Kuhn: o paradigma e a incomensurabilidade. Por fim,
discutiremos a questão da racionalidade científica em Kuhn, e, também debateremos sobre
suas possíveis relações com a causalidade, para desta forma, pensar a concepção discutida (a
causa formal) como um conceito que amplie o debate sobre o entendimento da racionalidade
científica nas obras de Kuhn.

Palavras-chave: Aristóteles - Metafísica – Causalidade – Paradigma – Incomensurabilidade –


Racionalidade Científica.
SUMÁRIO

1. INTRODUÇÃO ................................................................................................. 9
2. QUESTÕES CENTRAIS DA CAUSALIDADE PARA KUHN ................................... 21
2.1 As noções de causa estrita e causa ampla .......................................................................... 21
2.2 O hylemorfismo aristotélico ............................................................................................... 26
2.3 A causa eficiente na filosofia natural dos modernos .......................................................... 30
2.4 A física moderna e o problema da causa eficiente ............................................................. 34

3. A RELAÇÃO DA CAUSALIDADE COM A FILOSOFIA DA CIÊNCIA DE KUHN ...... 39


3.1 A abordagem externalista da história da ciência. ............................................................... 39
3.2 A questão da metafísica para Kuhn .................................................................................... 42
3.3 O paradigma e a causalidade .............................................................................................. 48
3.4 A incomensurabilidade e a causalidade ............................................................................. 54
3.4.1 O contato de Kuhn com a incomensurabilidade .................................................................. 55
3.4.2 A teoria da constituição do mundo ...................................................................................... 60
3.4.3 Conclusão: relação da causa formal para com a incomensurabilidade. .............................. 65

4. A RACIONALIDADE CIENTÍFICA EM THOMAS KUHN ..................................... 68


4.1 As críticas a Kuhn: definições e considerações.................................................................. 71
4.2 Crítica à ambiguidade: a racionalidade na matriz disciplinar. ........................................... 77
4.3 Crítica à racionalidade da ciência normal: a escolha de valores ........................................ 81
4.4 Crítica à incomensurabilidade: a racionalidade nas mudanças das teorias. ....................... 86
4.4.1 Racionalidade quanto à mudança nos problemas. .............................................................. 87
4.4.2 Racionalidade na mudança dos métodos e conceitos. ........................................................ 88
4.4.3 Racionalidade na concepção de mudança de mundo.......................................................... 90

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS ............................................................................... 97


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS....................................................................... 103
9

1. INTRODUÇÃO
Essa pesquisa tem o intuito de analisar a teoria da causalidade e a concepção de causa
formal em Thomas Kuhn, presente na obra A Tensão Essencial (2011), mais especificamente
no capítulo dois, o artigo: Conceitos de causa no desenvolvimento da física. Essa análise tem
como objetivo demonstrar uma perspectiva em que a teoria da causalidade esteja relacionada
com as principais teses de Kuhn, como o paradigma e a incomensurabilidade.

O significado mais geral sobre o termo causalidade, como descrito por Abbagnano,
está relacionado a um nexo entre duas coisas em virtude da qual a segunda é univocamente
previsível a partir da primeira (2012, p. 142). Sob uma perspectiva histórica, como afirma
Mario Vegetti, a idéia de que a natureza implique um nexo universal de causa e efeito torna-se
explícita ao longo da filosofia pré-socrática, e o conceito de causa é extraído da linguagem da
medicina, com sua origem no termo aítion que designa uma “queixa” ou “acusação” e
também pode ser entendido como simplesmente “causa” ou “explicação”. (2008, p. 334).

No pensamento filosófico, a causalidade estava de uma forma geral, relacionada ao


entendimento da regularidade e da ordem natural do mundo, como explica Vegetti: “Nos
sucessores imediatos de Anaximandro, encontramos a difundida idéia de que as coisas e os
processos dependem do ‘poder’ de um princípio originativo (arkhé).” (2008, p. 347). Ele
explica que os pré-socráticos, já possuíam princípios sobre a causalidade, mas sob uma
perspectiva diferente da que viria em Aristóteles, que concebia esses pensadores como
predecessores imperfeitos da investigação sobre a causalidade levada a efeito por ele. (2008,
p. 349).

No pensamento platônico, “causa” era tida como o princípio pelo qual uma coisa é ou
torna-se o que é (2012, p. 142). Abbagnano explica que Platão: “[...] afirma que a verdadeira
causa de uma coisa é aquilho que, para a coisa, é “o melhor”, isto é, a idéia ou o estado
perfeito da própria coisa [...]”. (2012, p. 142). Neste sentido, enquanto ligada a uma noção de
perfeição, Platão considerava as causas “divinas”, como explica Abbagnano. (2012, p. 142).
Após definir a noção de causalidade em Platão, ele explica que a análise verdadeira da noção
de causa encontra-se em Aristóteles, ela apareceria pela primeira vez na Física: “[...] este
afirma, pela primeira vez, que conhecimento e ciência consistem em dar-se conta das causas e
nada mais são além disso. Mas, ao mesmo tempo, nota que, se pergunta a causa significa
perguntar o porquê de uma coisa [...]”. (2012, p. 142).
10

Presente na Física e Metafísica, a causalidade está associada à teoria das quatro


causas. Aristóteles explica que, para todo o existente deve haver uma explicação através dos
quatro tipos de causa: material, formal, eficiente e final. O que define uma estátua como um
objeto existente, por exemplo, são esses quatro tipos de causa: a causa material é o mármore;
a causa formal é a essência1 desta estátua, nesse sentido, ela possui um formato que faz com
que ela seja uma estátua, um mármore sem forma é apenas um mármore, mas se adquirir o
formato de um homem ele se torna uma estátua, então a essência é a forma; a causa eficiente é
a força exercida pelo escultor no mármore para que ele se transforme em uma estátua; e a
causa final é a razão ou realização, ou seja, se uma estátua existe, é porque ela deve possuir
razão para tal, como por exemplo, ser apreciada esteticamente. (2013, p. 56; 1973, p. 216)

No período da filosofia medieval, segundo Abbagnano, pouco se inovou a respeito da


teoria da causalidade Aristotélica, e, a principal contribuição deste período é a elaboração do
conceito de causa primeira, mesmo tendo sido diferente do sentido aristotélico. (2012, p. 143).
Avicena e Tomás de Aquino contribuíram com essa concepção, onde as causas eram
concebidas por uma hierarquia divina e a causa primeira estaria no topo: “Avicena propõe a
ordenação hierárquica das causas, que remontam à Causa Primeira. [...]” (2012, p. 143)
Quanto a Tomás de Aquino, Abbagnano explica que: “O teorema fundamental que rege essa
concatenação universal causal e o seu caráter hierárquico é o que Tomás de Aquino exprime,
quanto mais alta é uma causa, tanto mais amplo o seu poder causal [...]” (2012, p. 143).

Na filosofia moderna, a causalidade foi influenciada pelos filósofos naturais


escolásticos que precederam o período. A idéia dos aristotélicos medievais, de uma ordem
causal divina no mundo, como assevera Abbagnano, foi importante para a noção moderna de
que a natureza necessariamente teria uma ordenação causal e fundamentou os primórdios da
organização da ciência, com Copérnico, Keppler e Galileu. (2012, p. 143). Diversos são os
modernos que trataram da causalidade, segundo Abbagnano, esse entendimento de uma
ordenação do mundo entendido por meio de suas causas, foi a base para o uso de termos
mecanicistas em Hobbes e teleológicos em Espinosa. Além desse, outros modernos como
Descartes, Leibniz, Hume também trataram da causalidade. (2012, p. 143-145).

1
O conceito de essência de Aristóteles está relacionado à noção de causa formal: é o que define o que
um ente realmente é. Na definição de Nicola Abbagnano: “Por este termo, entende-se em geral qualquer
resposta à pergunta: o quê? Por exemplo, nas expressões ‘quem foi Sócrates? Um filósofo’, ‘O que é o
açúcar? Uma coisa branca e doce’, ‘O que é o homem? Um animal racional’, as palavras ‘um filósofo’,
‘um animal racional’ exprimem a essência das coisas a que se faz referência nas respectivas perguntas.”
(2012, p. 416). A causa formal é a essência das coisas, afirma Abbagnano: “[...] a causa é forma ou
modelo, isto é, a essência necessária ou substância verdadeira de uma coisa.” (2012, p.142).
11

No século XIX e XX, a causalidade passou por crescentes limitações quanto ao seu uso
no pensamento científico. Para Abbagnano, a principal ruptura das noções de causalidade
neste período aconteceu com o progresso da física subatômica e com a descoberta do
princípio de indeterminação de Heisenberg em 1927. (2012, p. 146). Ele explica que este
principio estabelece a impossibilidade de medir com precisão uma grandeza, sem prejuízo da
precisão na medida de uma outra grandeza coligada, e, com isso:

[...] torna impossível predizer com certeza o comportamento futuro de uma


partícula subatômica [...] Em consequência disso, a física tende hoje a
considerar as mesmas relações de previsibilidade no campo dos objetos
macroscópicos [...] (Abbagnano, 2012, p. 146).

Foi com este princípio de incerteza que a causalidade sofreu um golpe decisivo (2012,
p. 146). Neste sentido, a explicação de fenômenos microscópicos em termos de causas
mecânicas, eram inadequadas e imprecisas.

Em Thomas Kuhn, pouco podemos encontrar acerca da teoria da causalidade, pelo


menos de forma explicita. O artigo Conceitos de causa no desenvolvimento da física foi
escrito em 1971 e posteriormente publicado na obra A Tensão Essencial. É o único de seus
escritos que trata essa teoria de forma mais direta. Assim como no princípio de
indeterminação de Heisenberg, Kuhn também reconhece o problema da causalidade em
sentido mecanicista. Como consequência da falibilidade dessa noção causal, ele mostra que as
explicações de algumas das teorias da física podem ser vistas como semelhantes às de
Aristóteles na análise das causas formais (2011 p. 45-54).

Este artigo de Kuhn é a nossa principal referência, e, temos duas intenções – que estão
relacionadas a ele – para essa pesquisa; 1) Analisar a interpretação da causalidade em Kuhn –
que pode ser entendida como uma nova concepção de causa formal – aproximando-a com
suas principais teses: o paradigma e a incomensurabilidade; 2) Demonstrar que essa
aproximação pode contribuir com a perspectiva de uma racionalidade científica em Kuhn.
Essas intenções se mostram problemáticas, na medida em que pouco se comentou acerca da
concepção de causalidade em Kuhn na filosofia da ciência. Entretanto, ao notarmos que
determinadas questões dessa teoria debatidas por ele, também sejam muito discutidas por
filósofos de outras áreas – como a filosofia natural, metafísica e história da filosofia –
podemos, através de uma análise da causalidade dessas áreas filosóficas, encontrar as
aproximações que consideramos.
12

Devido à impossibilidade de se analisar as diversas teorias da causalidade nesta


pesquisa, nos focaremos em algumas delas que, ao nosso ver, podem contribuir para a solução
dos problemas de nossas duas intenções citadas.

No capítulo 2, na seção 1, apresentaremos algumas questões da causalidade analisadas


por Kuhn, porém, também sob uma perspectiva de Aristóteles e de outros comentadores. Na
primeira seção, mostraremos que, na história da filosofia clássica, a causalidade é
interpretada2, em geral, como uma teoria que possui relação com diferentes áreas filosóficas
como a metafísica, física e a teleologia3. Explicaremos que para cada uma das quatro causas
podemos encontrar essas relações, entretanto, a metafísica prevalece como o conhecimento
filosófico mais importante para Aristóteles, uma vez que é o mais abstrato4, portanto com um
maior grau de alcance teórico. Por esse motivo é entendido que para Aristóteles, a metafísica
é a ciência livre por excelência ou a filosofia primeira5. Somente através da metafísica se pode
criar uma relação e dependência entre as quatro causas, como afirma Reale: “Dissemos que a
metafísica é, em primeiro lugar, apresentada por Aristóteles como pesquisa das causas
primeiras, devemos, pois, estabelecer quais e quantas são essas causas.” (2013, p. 32). Diante
disso, explicaremos os conceitos de causa ampla e causa estrita, o primeiro relacionado a uma
causalidade metafísica (a formal), o segundo relacionado a uma causalidade física (a
eficiente).

No sentido metafísico da causa ampla, explicaremos que ele não só atende ao conjunto
das quatro causas estabelecendo as relações entre elas, mas está fortemente associado à causa

2
Em algumas obras de história da filosofia é notório que a teoria das quatro causas seja relacionada a
algumas áreas da filosofia como a física, metafísica e teleologia. Utilizamos como referências nessa
pesquisa historiadores como: Nicola Abbagnano (2012), Jonathan Barnes (2013), Marilena Chauí
(2014), Giovanni Reale (2013), Bertrand Russel (1969) e Fillipo Selvaggi (1988). Tais autores tratam a
doutrina das quatro causas explicando essas relações com a física, metafísica e teleologia.
3
É importante explicar que, o conceito teleologia é diferente de teologia. O primeiro é um conceito da
filosofia natural que está relacionado ao finalismo, ou seja, explica os fins das coisas, como explicado
por Abbagnano: “[...] a parte da filosofia natural que explica os fins das coisas. O mesmo que
finalismo.” (2012, p. 1110). O segundo é o conhecimento que trata de Deus e das coisas divinas: “Em
geral, qualquer estudo, discurso ou pregação que trate de Deus ou das coisas divinas.” (2012, p. 1119).
4
Abordaremos a questão da abstração do conhecimento em Aristóteles na perspectiva de Filippo
Selvaggi nesta pesquisa. Para auxiliar o entendimento desta questão nesta introdução, podemos
comentar que há uma hierarquia do conhecimento em Aristóteles ditada pela abstração: quanto mais
abstrato é o conhecimento, mais superior ele é. As ciências teoréticas são superiores justamente por
serem conhecimentos com maior grau de abstração, como a física, a matemática e a metafísica. Dessas
ciências teoréticas, a física seria a menos abstrata, seguida pela matemática e pela metafísica, a mais
abstrata.
5
Para Giovanni Reale, a metafísica para Aristóteles era considerada como filosofia primeira, como
explica na passagem: “A metafísica é a ciência mais elevada, diz ele, justamente porque não está ligada
às necessidades materiais. A metafísica não é uma ciência dirigida a fins práticos ou empíricos. [...] a
metafísica é a ciência que vale em si e para si, porque tem em si mesma o seu fim e, neste sentido, é
ciência ‘livre’ por excelência.” (2013, p. 30-31).
13

formal, uma vez que pensa a essência. Com relação ao sentido físico da causa estrita,
explicaremos que ele está fortemente associado à causa eficiente, pois pensa a questão do
movimento.
Na segunda seção do capítulo 2 trataremos a teoria do hylemorfismo6 de Aristóteles.
Explicaremos que ela constitui a metafísica das causas material e formal, trataremos dela,
pois, a causa formal é o aspecto mais importante nesta pesquisa, uma vez que discutiremos a
interpretação de Kuhn sobre a mesma. Como analisaremos a questão da metafísica, é
importante ressaltar que trabalharemos com duas noções, a primeira é a definição que
Giovanni Reale apresenta de metafísica Aristotélica, e a segunda é uma noção metafísica de
Kuhn, corroborada através da análise que faremos de sua interpretação da causa formal. A
definição de Reale que utilizaremos como referência é a seguinte: “A metafísica aristotélica, é
com efeito, a ciência que se ocupa das realidades que estão acima das físicas, das realidades
transfísicas ou suprafísicas, e, como tal, opõe-se à física.” (2013, p. 27). A segunda noção de
metafísica é semelhante à de Aristóteles, mas está relacionada somente à forma como
entendemos que Kuhn interpreta alguns aspectos da ciência: as teorias científicas possuem
estruturas explicativas particulares7 na sua forma matemática e na sua linguagem, tais
estruturas são semelhantes às noções metafísicas de essência e forma em Aristóteles, então
nesse sentido, as teorias são explicações metafísicas8 (causais) para determinados fenômenos
da natureza.
Na terceira seção do capítulo 2, analisaremos a teoria das quatro causas na filosofia
moderna, explicaremos suas implicações para a nova filosofia natural, onde a transição da
física aristotélica para a filosofia moderna foi marcada por importantes rupturas: dentre as
quatro causas aristotélicas (causa material, formal, eficiente e final), as causas material e
formal se tornaram obsoletas, pois elas eram metafísicas (teoria do hylemorfismo), e a causa
final também se tornou desnecessária para a filosofia natural desse período, pois ela era

6
A teoria do Hylemorfismo afirma a existência de dois princípios básicos, a matéria e a forma. Em sua
etimologia Hylé significa matéria e morfismo significa forma, formato ou molde.
7
Quando falamos que estas estruturas são particulares, é que elas possuem características próprias,
determinados atributos particulares. Essa peculiaridade está relacionada à construção matemática e
conceitual dessas teorias. É importante ressaltar, que a classe de teorias científicas com o qual Kuhn
considera “peculiar” neste sentido, são algumas teorias da física contemporânea, bem como quaisquer
tipos de teorias separadas por revoluções científicas, como a astronomia ptolomaica e a copernicana,
que neste sentido, são particulares devido as fortes diferenças que possuem. Quando utilizarmos esse
termo nessa pesquisa, estaremos nos referindo somente a teorias científicas consideradas por Kuhn,
incompatíveis.
8
Entendemos que essa ideia de Kuhn, onde as estruturas explicativas de algumas teorias científicas
sejam incompatíveis, esteja relacionada à noção de essência e forma de Aristóteles, pois, neste sentido,
a estrutura de uma teoria é para Kuhn, como a essência ou forma de uma teoria, no sentido metafísico
de causa formal em Aristóteles. Portanto, entendemos que as teorias sejam explicações metafísicas (no
sentido de causalidade) de determinados fenômenos da natureza devido a essa incompatibilidade.
14

basicamente uma teoria teleológica, sendo assim, ainda metafísica. A causa eficiente foi a
única parte da teoria aristotélica que conseguiu se adaptar à filosofia moderna, pois, ela seria a
única das quatro causas livre de resquícios metafísicos, quando vista isoladamente das outras
três causas. Por condizer satisfatoriamente com o mecanicismo9 e a matemática10 da filosofia
moderna, a causa eficiente foi uma teoria aceita pela nova física11 em ascensão. Chamaremos
essa física através do termo “física pós-aristotélica”, pois consideramos prioritariamente a
questão da causalidade na revolução científica, embora consideremos, em determinados
momentos, tratar outros temas da física. Por esse motivo, também consideramos tratar a
filosofia moderna como uma nova filosofia natural.
Na última seção deste capítulo, abordaremos as implicações da causa eficiente na
física moderna dos séculos XIX e XX. Discutiremos que, embora a causa eficiente tenha sido
aceita nesta transição da física aristotélica para filosofia natural até o século XVIII, nota-se
uma nova fase da física a partir do século XIX onde há uma ruptura quanto ao entendimento
sobre temas como espaço, tempo, medidas e, como trataremos nesta pesquisa, a causa
eficiente. Tais mudanças demonstram a ineficiência da causa eficiente em se adaptar a essa
física, com isso, Kuhn faria uma nova interpretação à outra das quatro causalidades, a causa
formal. Para o filósofo, determinadas teorias da física moderna podem ser interpretadas sob o
viés da causa formal, o que representa um problema a ser tratado durante nossa pesquisa, pois
a causa formal é metafísica. Com isso, nos perguntaremos se é possível utilizar causalidade

9
Quando utilizarmos o termo “mecanicismo”, estaremos nos referindo a ele como um sistema filosófico
da modernidade, presente na nova física, que, como dito por Selvaggi: “[...] nega a existência de
qualidades sensíveis intrinsecamente variáveis e reduz toda a realidade material unicamente à
quantidade e movimento.” (1988, p. 284).
10
Quando nos referirmos à matemática nesta pesquisa, o sentido deste termo está vinculado a filosofia
moderna, e também ao mecanicismo. Neste período ela é determinante para o cientista, pois, como
enfatiza Selvaggi: “A redução da natureza a elementos matemáticos e mecânicos tem, não há dúvida,
favorecido, juntamente com outros fatores sociais, econômicos e técnicos, a intervenção ativa do
cientista na investigação da natureza, com a qual o cientista não se contenta com observar, mas
intervém ativamente para forçar a natureza a responder às suas perguntas.” (1988, p. 46). Selvaggi
esclarece que a geometria e o mecanicismo são características essenciais a ela: “A exigência de uma
ciência matemática do mundo é baseada por Galileu, o verdadeiro iniciador da ciência moderna, em
uma concepção platonizante da realidade, não estranha à própria linguagem bíblica, ou seja, em um
realismo matemático segundo o qual o mundo real e objetivo ‘é escrito em língua matemática, e os
caracteres são triângulos, círculos e outras figuras geométricas, sem as quais é impossível compreender
dela humanamente uma palavra.” (1988, p. 45). E explica também que essa perspectiva matemática da
filosofia moderna, se deu pela necessidade de a filosofia natural alcançar uma objetividade matemática:
“A matemática e a cinemática constituíram, assim, para todas aas outras ciências da natureza que se
achavam ainda em um estádio pouco menos que primitivo um modelo ideal, mas também,
consequentemente, fundaram a esperança de que todos os fenômenos naturais pudessem encontrar nelas
a sua explicação última e adequada.” (1988, p. 45).
11
A nova física que nos referimos trata-se de um conjunto de teorias da física que podem ser entendidas
como marcos importantes a partir do século XVI, como a astronomia copernicana, a física de Newton e
Galileu, além da nova filosofia que muito influenciara no desenvolvimento das ideias da física, como a
filosofia de Descartes e Bacon.
15

em seu aspecto metafísico (a causa formal) como ferramenta para entender a ciência e as
teorias físicas atuais.
No capítulo 3, temos a pretensão de discutir de que forma Kuhn aponta para uma nova
forma de se entender a causalidade, e, consequentemente, uma novo entendimento para
determinadas teorias da física. Explicaremos que o seu posicionamento quanto a essa teoria
demonstra uma nova concepção de causa formal, e abre possibilidades para uma possível
interpretação metafísica da ciência, mais especificamente da física moderna a partir do século
XIX. Desta forma, através do artigo Conceitos de causa no desenvolvimento da física, temos a
intenção de relacionar essa interpretação da causa formal com as outras questões importantes
da obra de Kuhn, como o paradigma12 e a incomensurabilidade13.
Na primeira seção deste capítulo, esclareceremos sobre a abordagem internalista14 e
externalista15 da história da ciência, e de que forma Kuhn se define como um externalista,
bem como considera um posicionamento intermediário entre essas duas posições. O
externalismo de Kuhn entende que, uma melhor compreensão da história da ciência se faz
através da análise das relações dos diferentes ramos de conhecimento não científicos com o
conhecimento científico, essa perspectiva nos apresenta margem à interpretação que temos de
Kuhn: se ele considera a influência de outros ramos de conhecimento em sua compreensão
historiográfica da ciência, certamente podemos considerar a relação da metafísica com a
ciência, uma vez que a causa formal de Aristóteles seja uma teoria metafísica.
Na segunda seção, vamos considerar, hipoteticamente, de que forma a metafísica pode
ser percebida na filosofia da ciência de Kuhn. Vamos analisar de modo breve: como a
metafísica se relaciona com a filosofia da ciência e com a própria ciência de uma maneira
geral; como ela pode ser entendida por essa concepção de causa formal, e de que forma tal
concepção pode se aproximar das teses centrais de Kuhn, considerando-as, assim, também
relacionadas com a metafísica. Consideramos nesta seção, introduzir alguns dados biográficos
que demonstrem como Kuhn foi influenciado pela Física de Aristóteles, para demonstrar de
forma sugestiva que se ele considera um diálogo entre filosofia e ciência, desta forma,
possivelmente também considere um diálogo entre metafísica e ciência. Em consequência

12
Paradigma na teoria de Kuhn é tudo aquilo que é praticado por membros de uma comunidade
científica, de forma isolada e distinta de outras teorias e conhecimentos.
13
Incomensurabilidade para Kuhn é a incompatibilidade teórica que existe entre duas teorias científicas
distintas.
14
A abordagem internalista da história da ciência, em suma, entende que a ciência é uma só, por isso o
termo “interno”, ou seja, entendemos o que é a ciência analisando somente a própria ciência.
15
A abordagem externalista entende que as ciências são várias, por isso o termo “externo”, ou seja,
entendemos o que é a ciência analisando as relações dela com outras áreas de conhecimento.
16

disso, discutiremos, o porquê podemos considerar Kuhn – mesmo hipoteticamente – um


aristotélico, quando analisamos a sua concepção de causa formal.
Na terceira e quarta seção do capítulo 3, apresentaremos a relação que a interpretação
da causa formal tem com outras questões Kuhnianas como o paradigma e a
incomensurabilidade, para com isso, enfatizar a importância de se pensar a causalidade.
Consideramos o artigo Reconsiderações acerca dos paradigmas, também presente no livro A
tensão essencial. Kuhn traz uma definição mais objetiva do paradigma: matriz disciplinar16.
Explicaremos de que forma a noção de causa formal pode se adequar nessa nova definição de
paradigma: através dos três tipos de matriz disciplinar, são eles, as generalizações simbólicas,
os modelos, e os exemplares. Tais tipos de matrizes são aspectos formais das teorias
científicas com o qual podemos encontrar semelhanças com as noções de essência e forma da
metafísica aristotélica. Analisaremos também as relações da incomensurabilidade com a causa
formal, primeiramente enfatizaremos que o conceito de matriz disciplinar esteja relacionado
com a incomensurabilidade: as teorias científicas possuem matrizes disciplinares, ou seja,
estruturas matemáticas e linguísticas explicativas, que, de uma teoria para outra, são
incomensuráveis.
A teoria da incomensurabilidade é bem discutida por Paul Hoyningen-Huene, um
filósofo alemão especialista da obra de Kuhn. Consideramos utilizar sua obra Kuhn,
Feyerabend e Incomensurabilidade (2012), nestas e em outras seções, pois ela muito tem a
dizer acerca dessa teoria. Explicaremos que, em sua relação com a matriz disciplinar, a
incomensurabilidade analisa a questão das mudanças das teorias científicas. Discutiremos
através dos seguintes questionamentos: quando muda um paradigma, o que muda exatamente
em uma teoria? De que forma tais mudanças influenciam na compreensão que os cientistas
têm de determinados aspectos da natureza? Essas mudanças científicas são mudanças
marcadas pela incomensurabilidade, Hoyningen-Huene as classificou em três tipos: mudanças
nos problemas, mudança nos métodos e conceitos e mudança de mundo. Explicaremos que
algumas teorias são incomensuráveis, pois passam por essas três mudanças.
Destacaremos a mudança de mundo como o aspecto mais importante da
incomensurabilidade na interpretação de Hoyningen-Huene. A teoria da constituição do
mundo deste autor trata este tipo de mudança, nela é analisada a seguinte afirmação de Kuhn:
“[...] quando mudam os paradigmas, muda com eles o próprio mundo.” (2013, p. 201). Para

16
A matriz disciplinar enquanto uma nova definição de paradigma se limita a entender dois aspectos
estruturais das teorias científicas: o componente matemático e linguístico. Neste sentido, da mesma
forma que o paradigma, a matriz disciplinar também está relacionada a tudo aquilo que é praticado por
membros de uma comunidade científica.
17

explicar o que é exatamente esse “mundo”, Hoyningen-Huene explica que na verdade Kuhn
estaria implicitamente pensando em dois tipos de mundo para explicar o que são as mudanças
científicas: o mundo dado pelo sujeito, que é um mundo teórico criado através das estruturas
matemáticas e conceituais, e o mundo dado pelo objeto, que é o próprio mundo físico ou a
natureza. A discussão acerca da matriz disciplinar e da incomensurabilidade será apresentada
de forma a encontrarmos nelas, as relações com a noção de causa formal.
No capítulo 4 desta pesquisa, defenderemos que essa interpretação onde aproximamos
o paradigma e a incomensurabilidade com a noção de causa formal, é importante, pois,
através dela percebemos que a filosofia da ciência de Kuhn tem uma compreensão racional do
desenvolvimento científico. Com isso, temos a intenção de advogar que em sua filosofia da
ciência, podemos encontrar importantes conceitos de racionalidade científica17. Consideramos
que é importante discutir essas questões, pois, reconhecemos que após a publicação da
E.R.C18 Kuhn foi acusado, dentre outras coisas, de ser um irracionalista. O professor Daniel
Laskowski Tozzini comentou e sistematizou as críticas que Kuhn recebeu, com isso,
utilizaremos o seu livro Filosofia da Ciência de Thomas Kuhn, Conceitos de Racionalidade
Científica (2012) para discutir essas críticas e argumentar o porquê de considerarmos que
Kuhn tenha uma interpretação racionalista.
Na primeira seção, vamos explicar as críticas que Kuhn recebeu e fazer as
considerações sobre elas. Comentaremos a obra A Crítica e o Desenvolvimento do
Conhecimento, pois nelas estão centradas as principais acusações de irracionalismo que ele
sofreu por importantes autores da filosofia da ciência: Paul Feyerabend, Imre Lakatos,
Margaret Masterman, Karl Popper, Stephen Toulmin, John Watkins e L. Pearce Williams.
Enfatizaremos qual era a perspectiva de Kuhn diante tantas interpretações negativas sobre a
E.R.C, da mesma forma, mostraremos como ele se preocupou em se defender do que ele
considerou como equívocos interpretativos de suas teses.
Na segunda seção, vamos tratar a fundo uma dessas críticas: a de que o paradigma era
um conceito vago e ambíguo, portanto, irracional. Temos a intenção de demonstrar que nas

17
Enfatizamos que, o conceito de racionalidade que utilizaremos aqui, trata-se somente da racionalidade
científica. Tozzini tem uma definição do termo que se encaixa nessa pesquisa, por isso a utilizaremos:
“Tradicionalmente, a racionalidade científica está vinculada à utilização de critérios por cientistas para
sustentar suas deliberações. Esses critérios deveriam ditar o que deve e o que não deve ser feito. Por
meio deles, as escolhas de teorias converter-se-iam em procedimentos algorítmicos – um conjunto de
regras bem definidas e ordenadas que, se seguidas adequadamente, produzem um resultado único e
certo. Um impasse teórico, uma situação no qual um grupo de cientistas precisa decidir entre aceitar um
ou outro conjunto de crenças para resolver um problema científico, seria trivialmente solúvel.” (2014, p.
4).
18
Estrutura das Revoluções Científicas (2013). E.R.C. Utilizaremos essa abreviatura quando citarmos
essa obra.
18

explicações sobre os paradigmas em termos de matriz disciplinar – utilizadas por Kuhn em


alguns escritos19 posteriores a publicação da E.R.C em 1962 – mostram claramente o
contrário: uma racionalidade científica na forma como Kuhn entende que os paradigmas
funcionem.
Na terceira seção, vamos explicar que a compreensão de Kuhn sobre como é ciência
normal20, de uma forma geral foi aceita pelos seus críticos, sendo um dos seus conceitos
menos problematizados. Vamos esclarecer que os cientistas, antes de praticar um paradigma
específico, sabem escolher de forma racional qual é a melhor teoria a ser utilizada por uma
comunidade científica. As escolhas são norteadas por critérios bem definidos por Kuhn, como
explicaremos. Também vamos indicar que após essas deliberações, a prática de um paradigma
também depende de certa racionalidade de seus praticantes: manter uma teoria científica bem
estabelecida requer sempre a resolução de problemas que exijam perspicácia para serem
resolvidos.
Na quarta e última seção deste capítulo, vamos expor a crítica à incomensurabilidade.
Consideramos a principal seção, pois esta crítica está relacionada a questões centrais de nossa
pesquisa. Nela, relacionaremos as principais teorias de Kuhn – o paradigma e a
incomensurabilidade – com sua nova concepção de causa formal, e demonstraremos que a
discussão de Kuhn acerca da causalidade não possa ser vista de forma isolada de sua filosofia
da ciência. Ao defendermos que através dessa concepção podemos discutir aspectos de
racionalidade científica, temos a intenção de enfatizar mais ainda a importância de se pensar a
causalidade. Antes de caminharmos para a conclusão desta pesquisa, destacaremos que a
análise dessa nova concepção de causa formal em Kuhn pode muito enriquecer o debate
acerca da incomensurabilidade, em consequência disso, muito tem a acrescentar a história da
ciência, uma vez que se pensa enfaticamente em questões da mudança científica.
As contribuições de Kuhn para a compreensão do desenvolvimento das ciências são
inestimáveis. Através dele a história da ciência passou a ser considerada na filosofia da
ciência, ampliando desta forma, em muito o conhecimento da complexidade da natureza da
ciência. As revoluções ou mudanças científicas, sempre serão temas de grande importância
para essas áreas. A concepção de causa formal de Kuhn pode auxiliar a compreensão da
prática e das mudanças científicas, em consequência disso, ela também teria algo a dizer

19
As matrizes disciplinas são trabalhadas no Posfácio da edição de 1969 da E.R.C e também no artigo
Reconsiderações acerca dos paradigmas escrito em 1974 presente no livro A tensão essencial (2011).
20
A ciência normal é atividade exercida regularmente por um grupo de cientistas através de um
paradigma. Ela é caracterizada por um conjunto de crenças desenvolvidas como tradições por esses
grupos, e a prática da solução de problemas gerados pelo paradigma. (2013, p. 87-101).
19

acerca das teorias e explicações sobre mundo, demonstrando a quão vasta e complexa é
possibilidade do entendimento humano do mundo. A racionalidade científica pode aperfeiçoar
o empreendimento científico no alcance desse entendimento.
20
21

2. QUESTÕES CENTRAIS DA CAUSALIDADE PARA KUHN

2.1 As noções de causa estrita e causa ampla


Para o entendimento da interpretação de Thomas Kuhn com relação à causalidade
aristotélica, se faz necessário apresentar de forma objetiva as diferenças de causa ampla e
causa estrita na forma como apresenta Kuhn: causa ampla é aquela que possui relação com a
noção metafísica (a causa formal), e, a estrita é aquela que possui relação com a noção física
(causa eficiente) na teoria da causalidade. Kuhn esclarece essas noções de causa na seguinte
passagem:

Para que o historiador da física tenha sucesso na análise da noção de causa,


acredito que ele deva reconhecer dois aspectos relacionados, sobre os quais
esse conceito difere da maioria daqueles com que está acostumado a lidar.
Tal como em outras análises conceituais ele tem de partir das ocorrências de
palavras como “causa” e “porque” nas conversas e publicações dos cientistas.
Mas essas palavras, ao contrário de outras relacionadas a conceitos como
posição, movimento, peso, tempo, e assim por diante, não ocorrem
regularmente no discurso científico e, quando ocorrem, o discurso é de um
tipo muito especial. Somos tentados a dizer, conforme uma observação de M.
Grize motivada por outras razões, que o termo “causa” funciona muito
melhor no vocabulário metacientífico dos físicos do que no científico. [...]
Esse aspecto da análise das noções causais está intimamente relacionado com
um segundo, sobre o qual Piaget vem insistindo desde o início desta
conferência. Ele disse que temos de considerar o conceito de causa sob duas
rubricas, uma estrita e outra ampla. (Kuhn, 2011, p. 46- 47)

Tendo em vista esse posicionamento de Kuhn, e, podendo classificar essas noções de


causalidade como metafísica (causa ampla) e física (causa estrita), justificamos nossa
classificação de causa ampla em Kuhn como possuidora de sentido metafísico, pois, ela está
relacionada ao aspecto mais abrangente e filosófico da causalidade21, como dito por Kuhn na
passagem acima é aquela noção de causa que funciona melhor no vocabulário
“metacientífico” dos físicos; justificamos nossa classificação de causa estrita como possuidora
de sentido físico, pois, está restrita a noções de movimento. Analisaremos a seguir essas
relações para explicar melhor porque atribuímos sentido metafísico e físico para com as
causas ampla e estrita.

Inicialmente, podemos analisar os textos de Aristóteles22 para propor que há uma


diferença entre as quatro causas e o conceito de causalidade com o qual podemos encontrar

21
O aspecto mais abrangente e filosófico da causalidade é noção metafísica de causa formal, pois pensa
a questão da essência.
22
Suas obras analisadas aqui são: Física I-II (2013) e Metafísica (1973).
22

relações com a física e metafísica. A doutrina das quatro causas de Aristóteles apareceu
primeiro em sua obra Física, sendo retratada posteriormente em seus livros23 da Metafísica.
Na primeira obra citada, nos dois primeiros livros, Aristóteles aponta a necessidade do estudo
da causalidade como uma ferramenta filosófica para os estudos da física:

Delimitados esses pontos, devemos examinar, sobre as causas, quais e


quantas são. Dado que o estudo é em vista do conhecer, e dado que não
julgamos conhecer cada coisa antes de apreendermos o porquê de cada uma
(eis o que é apreender a causa primeira), é evidente que devemos fazer isso
também no que concerne a geração e corrupção e toda mudança natural, de
tal modo que, conhecendo seus princípios, tentemos reportar a eles cada um
dos itens que se investigam. (Aristóteles, 2013, p. 48).

Para Aristóteles, o conhecimento de causa era necessário ao estudo da física na medida


em que se deve entender “toda mudança natural”, o que implica a compreensão de causa com
relação ao movimento, sendo assim, causa em sentido estrito na medida em que está estrita ao
que entendemos como objetos de natureza física e o consequente movimento ou mudança dos
mesmos. Ainda na obra Física, Aristóteles apresenta uma noção geral da causalidade em que
são apresentados os sentidos das quatro causas:

Assim, de um modo, denomina-se ‘causa’ o item imanente de que algo


provém, por exemplo, o bronze da estátua e a prata da taça, bem como os
gêneros dessas coisas; de outro modo, denomina-se ‘causa’ a forma e o
modelo, e isso é a definição do ‘aquilo que o ser é’ e seus gêneros (por
exemplo; da oitava, o ‘dois para um’ e, em geral, a relação numérica), bem
como as partes contidas na definição. Além disso, denomina-se ‘causa’
aquilo de onde provém o começo primeiro da mudança ou do repouso, por
exemplo, é causa aquele que deliberou, assim como o pai é causa da criança
e, em geral, o produtor é causado produzido e aquilo que efetua a mudança é
causa daquilo que se muda. Além disso, denomina-se ‘causa’ como o fim, ou
seja, aquilo em vista de quê, por exemplo, do caminhar, a saúde; de fato, por
que caminha? Dizemos ‘a fim de que tenha saúde’ e, assim dizendo,
julgamos ter dado a causa. (Aristóteles, 2013, p. 48).

O conceito das quatro causas constitui a base para o estudo das ciências naturais,
entretanto, como na citação acima, Aristóteles ressalta que, a causalidade pode possuir
múltiplos sentidos. Com isso vamos expor aqui, segundo a concepção de causalidade de
Aristóteles e Kuhn, que o conceito das quatro causas possua diferença do conceito de
“causalidade”. Citemos novamente Aristóteles demonstrando a pluralidade da noção de
causalidade e a restrição da noção das quatro causas:

23
Expliquemos aqui que a Metafísica não se trata de uma só obra do filósofo, mas de um conjunto de
quatorze livros de Aristóteles que, posteriormente foram reunidos e organizados por Andrônico de
Rodes, que intitulou tal conjunto desses escritos aristotélicos como Metafísica.
23

Que há causas, e tantas quantas afirmamos, é evidente. De fato, o porquê


compreende tal número; o porquê último se reporta ao ‘o que é’, entre as
coisas não suscetíveis de movimento [...].Uma vez que as causas são quatro,
complete ao estudioso da natureza conhecer todas, e ele há de explicar o
porquê de maneira própria à ciência natural na medida em que se reportar a
todas elas, a matéria, a forma, aquilo que se moveu, aquilo em vista de quê.
(Aristóteles, 2013, p. 56).

Assim como Aristóteles, Kuhn reconhece que, para uma análise bem sucedida que
diferencie o conceito de causalidade para com o conceito das quatro causas, se faz necessário
compreendê-las por dois aspectos distintos entre si: a causa ampla e a causa estrita.
Explicando agora de forma mais completa, a causa ampla é entendida como uma noção mais
abrangente de explicação sobre determinado fenômeno, questionamos eventos da natureza
através de perguntas gerais como “por que o fenômeno ocorre?”, são explicações que
envolvem eventos causais, mas não necessariamente obedecem a um critério mecanicista que
obedeça a determinadas leis restritas. Já a causa estrita, diferente da ampla, se mostra muito
próxima à teoria das quatro causas em especial a causa eficiente, pois, se apresenta como uma
justificação mecânica que explica a eficiência dos fenômenos causais através do movimento,
como dito por Kuhn:

O conceito estrito, tal como o entendo, deriva da noção inicialmente


egocêntrica de um agente ativo, aquele que puxa ou empurrar, exerce uma
força ou manifesta um poder. É muito próximo do conceito de causa eficiente
em Aristóteles, uma noção que funcionou pela primeira vez de modo
significativo na física técnica, na análise dos problemas de colisão no século
XVII. (Kuhn, 2011, p. 47)

Ela é considerada estrita, conforme Kuhn, por ser estritamente relacionada a


determinadas leis da física, portanto adquirem o sentido e relação com a causa eficiente como
proposto na Física de Aristóteles. Portanto, delimita-se aqui a noção de causa estrita àquelas
causas que podem ser aplicadas ao modelo da física antiga aristotélica mais especificamente a
causa eficiente e o mecanicismo, e, causa ampla – que também pode ser aplicada ao modelo
da física antiga – àquelas causas que possuem um sentido mais abrangente como será
explicado a seguir.

Nota-se em Aristóteles que o sentido de causa ampla está mais explicitado na


Metafísica, pois, pode-se relacionar esse sentido na forma como ele define a filosofia: “a
[ciência] teorética dos primeiros princípios e das causas [...]” (1973, p. 214). Por essa
24

definição podemos perceber que um sentido metafísico24 é atribuído à sua concepção de


causalidade, na medida em que a filosofia também trata da busca teorética25 das causas. Desta
forma, a causalidade possui intrínseca relação com o que Aristóteles chamou de ciência 26. É
importante frisar que, Aristóteles classificou-a em três diferentes ramos27: as ciências
teoréticas (que buscam o conhecimento puro, um saber teórico superior), as práticas (as que
visam fundamentação ética, moral e política) e as produtivas (aquelas que visam a produção
material das necessidades humanas). A metafísica está no topo das ciências teoréticas, por
isso considera-se relacionar causalidade em sentido amplo com a metafísica.

Citemos uma de suas passagens com o qual é demonstrada sua tendência de


valorização do conhecimento teorético em detrimento do conhecimento prático e produtivo,
em suma, somente quem detém o domínio teórico das ciências pode conhecer de forma
satisfatória a causalidade das coisas na natureza:

[...] nós julgamos que há mais saber e conhecimento na arte do que na


experiência, e consideramos os homens de arte mais sábios que os empíricos,
visto a sabedoria acompanhar em todos, de preferência, o saber. Isto porque
uns conhecem a causa, e os outros não. Com efeito, os empíricos sabem o
‘que’, mas não o ‘porquê’; ao passo que os outros sabem o ‘porquê’ e a
causa. Por isso nós pensamos que os mestre-de-obra, em todas as coisas, são
mais apreciáveis e sabem mais que os operários, pois conhecem as causas do
que se faz, enquanto estes, à semelhança de certos seres inanimados, agem,
mas sem saberem o que fazem [...]. (Aristóteles, 1973, p. 212)

Entendendo sua concepção de superioridade do conhecimento teorético apresentado


sobre um sentido de causa ampla (metafísica), entende-se que, perguntar sobre a causa de algo
é simplesmente perguntar o porquê de algo em sentido mais amplo, adquirindo desta forma,
um sentido filosófico que esteja mais relacionado à ciência teorética aristotélica que

24
A causalidade enquanto conceito presente na definição de filosofia de Aristóteles está relacionada a
uma noção de causa ampla: a filosofia é uma busca pelas causas em sentido mais abrangente, não a
busca pelo entendimento da natureza através de suas causas mecânicas. Portanto, a concepção de
causalidade é entendida como metafísica.
25
A busca teorética das causas, para Aristóteles se dá através das próprias ciências teoréticas que ele
classificou, como explicaremos em nota a seguir.
26
É importante explicar aqui que o termo “arte” é utilizado por Aristóteles no mesmo sentido que
“ciência teorética”, como se pode notar na citação que segue no próximo paragrafo.
27
Utilizamos aqui a classificação de Giovanni Reale (2013, p. 27).
25

chamamos de metafísica28. Aristóteles faz referência ao próprio início da filosofia como o


exemplo de causa ampla. Os pré-socráticos29, ao se admirarem com a natureza, foram levados
a buscar novas respostas para as questões físicas e cosmológicas da natureza30 – foram
levados a buscar suas causas. Tais causas eram para satisfazer uma necessidade do intelecto,
não para resolver problemas práticos, como dito por Aristóteles:

Foi, com efeito, pela admiração que os homens, assim como no começo,
foram levados a filosofar, sendo primeiramente abalados pelas dificuldades
mais obvias, e progredindo em seguida pouco a pouco até resolverem
problemas maiores: por exemplo, as mudanças da Lua, as do Sol e dos astros
e a gênese do Universo. Ora, quem duvida e se admira julga ignorar: por isso,
também quem ama os mitos é, de certa maneira, filósofo, porque o mito
resulta do maravilhoso. Pelo que, se foi para fugir à ignorância que
filosofaram, claro está que procuraram a ciência pelo desejo de conhecer, e
não em vista de qualquer utilidade. (Aristóteles, 1973, p. 214)

Aristóteles enfatiza a importância de uma filosofia que busque o conhecimento apenas


por “um desejo de conhecer”, neste sentido, um conhecimento sem uma utilidade prática,
como nessa citação. O entendimento causal, neste sentido, então deve estar relacionado a uma
busca pelas causas mais teóricas, neste sentido, mais abrangentes. E por ser mais teórico, é
metafísico, pois é um conhecimento que cuida de uma realidade que está para além das
realidades físicas, como explicado por Reale: “A metafísica aristotélica, é, com efeito, a
ciência que se ocupa das realidades que estão acima das físicas, das realidades transfísicas ou
suprafísicas, e, como tal, opõe-se à física.” (2013, p. 27). Portanto, entendemos que causa
ampla denote um sentido metafísico, pois as suas indagações dizem respeito a essas
realidades, enquanto as da causa estrita, apenas às realidades físicas.

Ao notar que as causas podem ter sentido amplo e estrito, podemos analisar a teoria de
Aristóteles e também notar que, cada uma das quatro causas (material, formal, eficiente e

28
Como dito por Reale (2013, p. 27), as ciências teoréticas para Aristóteles eram três: metafísica, física
e matemática, sendo a metafísica a mais elevada de todas. Com isso, frisamos esta relação de causa
ampla com a metafísica, pois, para Aristóteles, a causalidade em sentido metafísico é superior a
causalidade em sentido físico. Na medida em que ela não se restringe somente a compreensão causal do
movimento dos objetos do mundo físico – como seria a compreensão causal através da causa eficiente
de forma isolada – mas se aplica a noções mais filosóficas causais que remetem a todas as quatro causas
sendo aplicadas de forma conjunta. Dessa forma, uma noção causal ampla (metafísica) é mais teorética,
por esse motivo superior as outras.
29
Na Metafísica Aristóteles cita alguns dos filósofos pré-socráticos que indagaram as causas: Tales de
Mileto, Anaxímenes, Diógenes, Hípaso Metapontino, Heráclito, Empédocles, Anaxágoras e
Parmênides. (1973, p. 216-218).
30
Segundo Aristóteles, essas questões físicas e cosmológicas indagadas pelos filósofos pré-socráticos
diziam respeito às causas da própria natureza: “A maior parte dos primeiros filósofos considerou como
princípios de todas as coisas unicamente os que são da natureza da matéria. E aquilo de que todos os
seres são constituídos [...]”. (1973, p. 216).
26

final) pode ser tratada distintamente com determinadas características filosóficas, como
exemplo: a causa final contém relação com o teleologismo, a causa eficiente contém relação
com a física. Entretanto, partimos do pressuposto de que as quatro causas, em conjunto
constituem a metafísica aristotélica. Essa aproximação entre metafísica e causalidade pode ser
entendida na seguinte passagem, onde Reale afirma:

[...] devemos caracterizar pontualmente as precisas valências que Aristóteles


deu àquela ciência, que ele chamou de “filosofia primeira” e os pósteros de
“metafísica”. As definições dadas pelo filósofo são pelo menos quatro: a) a
metafísica indaga as causas e os princípios primeiros ou supremos, b) a
metafísica indaga o ser enquanto ser, c) a metafísica indaga a substância, d)
a metafísica indaga Deus e a substância suprassensível. (REALE, 2013, p.
28)

Assim, fica clara a relação entre a causalidade e metafísica em pelo menos duas
definições dadas por Reale: a metafísica como indagação das causas e princípios primeiros e
supremos, e a metafísica enquanto a indagação da substância31. Ora, para se indagar quais são
as causas primeiras, bem como indagar o que é a substância, devemos primordialmente
pensar nas quatro causas em conjunto como uma ferramenta que possa responder a tais
indagações.

2.2 O hylemorfismo aristotélico


Através dessas noções que diferenciam o conceito geral de causalidade para as quatro
causas, de suas respectivas relações com a física e com a metafísica aristotélica, bem como as
noções de causa ampla e causa estrita, analisaremos a questão da matéria e forma das quatro
causas. De acordo com Reale, uma das quatro definições de Aristóteles para a metafísica que
citamos anteriormente é que ela serve para indagar: o que é a substância? O termo ousia
possui mesmo sentido que substância, portanto a usiologia se preocupa em determinar o que é

31
A metafísica enquanto indagação da substância tenta resolver o problema de determinar o que é a
própria substância, segundo Reale: “Os predecessores de Aristóteles deram à questão da substância
soluções antitéticas: alguns viram na matéria sensível a única substância; Platão, ao invés, indicou nos
entes suprassensíveis a verdadeira substância, enquanto o senso comum parecia indica-la nas coisas
concretas. Aristóteles afronta ex novo a questão, estruturando-a de maneira exemplar. Depois de ter
reduzido o problema ontológico geral ao seu núcleo central, isto é, à questão da ousia, diz, com toda
clareza, que o ponto de chegada consistirá em determinar que substâncias existem: se somente as
sensíveis (como querem os naturalistas) ou também as suprassensíveis (como querem os platônicos).”
(2013, 45). Reale chama de ousia essas indagações sobre a substância, ele completa: “O estagirita diz
que por ousia podem-se entender, a título diverso, seja 1) a forma, seja 2) a matéria, seja 3) o sínolo de
matéria e forma.” (2013, 46). Portanto, a relação entre causalidade e metafísica pode ser entendida da
seguinte forma: a metafísica indaga o que é a substância (ousia), determinando o aspecto material e
formal das coisas.
27

a substância. Dada essa questão, Reale aponta três sentidos para o termo: a forma, a matéria e
o sínolo de matéria e forma (2013, p. 46). A substância no sentido de forma “... não é
obviamente a forma extrínseca ou a figura exterior das coisas [...], mas é a natureza interior
das coisas, o que é ou essência íntima das mesmas.” (2013, p. 47). A substância no sentido de
matéria, ressalta Reale, por ser a forma dependente da mesma: “Neste sentido, também a
matéria resulta fundamental para a constituição das coisas e, portanto, poderá ser dita – pelo
menos dentro de certos limites – substância das coisas” (2013, p. 47). Na terceira definição de
substância, a matéria e a forma juntas podem ser consideradas substância:

Com base no que dissemos, resulta plenamente esclarecido também o terceiro


significado: o do sínolo. Composto é a concreta união de forma e matéria.
Todas as coisas concretas não são mais que sínolos de forma e matéria.
Portanto, todas as coisas sensíveis, sem distinção, podem ser consideradas na
sua forma, na sua matéria, no seu todo; e substância (ousía) são, a título
diverso (no sentido em que vimos), tanto a forma como matéria e o sínolo.
(Reale, 2013, p. 47).

Reale deixa claro que a indagação sobre a natureza da substância, requer tanto as
noções de matéria quanto de forma, com isso, podemos inferir que a teoria das quatro causas e
as causas material e formal, são ferramentas teóricas metafísicas que servem para responder a
indagação: o que é a substância? Tendo a metafísica como a indagação da substância, e
também a indagação das causas primeiras, temos como ponto de partida deste princípio a
teoria do hylemorfismo. Esta palavra em sua etimologia é entendida como união entre a
matéria (hylé) e a forma (morfismo). O hylemorfismo está relacionado com as causas material
e formal em sua etimologia, entretanto, Aristóteles aponta que essas duas causas, devem estar
necessariamente relacionadas com as outras duas, as causas eficiente e final. Citemos a
passagem da Física com o qual Aristóteles relaciona as causas material e formal com a causa
final:

Visto que a natureza se concebe de duas maneiras – a forma e a matéria –, é


deste modo que se deve estudar. [...] também à ciência natural compete tomar
conhecimento de ambas as naturezas. [...] Além disso, compete a uma mesma
ciência conhecer aquilo em vista de quê (isto é, o acabamento) e todas as
coisas que são em vista daquilo. E a natureza é acabamento e aquilo em vista
de quê [...] (Aristóteles, 2013, p. 46- 47).

Somente se conhece as causas material e formal de um ente da natureza em vista de


algo, ou seja, em vista de uma finalidade (através da causa final). As coisas existentes
possuem acabamento (possuem uma causa formal) por terem uma finalidade, um ente sem
forma é um ente sem finalidade. Com isso, para Aristóteles, tudo o que existe necessita de
28

uma justificação pela da causa final; essa causa implica não só uma finalidade no sentido
material como, por exemplo – uma estátua de mármore existe para ser apreciada
esteticamente em um museu – mas também finalidade no sentido de razão e de realização:
tudo o que existe tem uma razão para existir e a realização é o que completa essa existência.
Aristóteles demonstra também a relação da causa eficiente para com as causas
hylemorfísticas: “Naquilo que resulta da técnica, somos nós que fazemos a matéria ser em
vista de função, ao passo que, nos entes naturais, a matéria já se encontra em vista da função.”
(2013, p. 47).

A técnica, como descrito na citação acima, é a força exercida (causa eficiente) na


matéria (causa material) para constituir um acabamento (causa formal) em razão de algo
(causa final). Com isso, percebe-se que a causa final em Aristóteles exerce fundamento
central na teoria das quatro causas e nas suas ciências naturais, pois tudo na natureza é
necessário, e tem um porquê (causa). Sendo a causa final uma necessidade ontológica,
remetemos ao conceito do primeiro motor imóvel: é o que move sem ser movido. A pergunta
sobre a causa material de um ente (o que ele é?) nos remete ao movimento (quem o criou?).
Pensar no ente é pensar em sua finalidade (por que existe o ente?). Então o primeiro motor
imóvel seria o primeiro ente a causar um movimento criando assim o componente material, da
mesma forma como a própria finalidade da existência desse ente está relacionada com a
necessidade da natureza. Aristóteles enfatiza novamente a relação da causa final com as
outras na obra Física:

Mas, muitas vezes, estas três convergem para uma só coisa; o ‘o que é’ e
aquilo em vista de quê são uma só, e lhes é especificamente idêntico aquilo
de que procede primeiramente o movimento, pois é um homem que gera um
homem – e, em geral, tudo quanto move sendo movido (mas tudo quanto
move sem ser movido não mais compete à ciência natural, pois não é por
terem em si mesmo movimento ou princípio de movimento que movem, mas
sendo imóveis [...]) Por conseguinte, o porquê é explicado por alguém na
medida em que se reporta à matéria, na medida em que se reporta ao ‘o que
é’ e na medida em que se reporta àquilo que primeiramente moveu [...] Algo
é de tal tipo na medida em que move sem ser movido (como aquilo que é
inteiramente imóvel e primeiro entre todos, assim como o ‘o que é’ e a
forma): isso é acabamento e o em vista de quê. Por conseguinte, dado que a
natureza é em vista de algo, é preciso conhecer também essa causa, e deve-se
explicar o porquê de todos os modos [...]. (Aristóteles, 2013, p. 56).

Como dito pelo filósofo, ser “em vista de quê” significa ser por uma causa final, e,
como fica claro na citação supracitada, a causa final de todas as coisas, devido a uma
29

regressão necessária das causas, nos conduz ao conceito de um agente causador inicial de toda
a existência, que, por isso, seria necessariamente imóvel.

Embora a metafísica e a física, e de uma forma geral outros ramos filosóficos de


Aristóteles deem muita importância ao conceito de causa final, é notável que isso se deu por
sua relação com o teleologismo. Ao se pensar no período filosófico clássico, pouca
importância se dá a qualquer uma das outras três causas isoladamente, pois, na verdade, sob
essa perspectiva se pensava as quatro causas como cada uma delas sendo estritamente ligadas
as outras. Como trataremos na próxima seção deste capítulo, no período da filosofia moderna
e física pós-aristotélica há uma ruptura com relação às noções de causalidade, e, com isso,
diferente do período clássico, as causas podem ser pensadas isoladamente, sobressaindo-se a
causa eficiente entre as outras. Como nesta pesquisa daremos destaque a causa formal, é
importante encontrar um ponto de partida na obra de Aristóteles para demonstrar o que
consideramos como importante nessa noção causal:

“Por conseguinte, se há de existir uma casa, é necessário que tais e tais coisas
venham a ser ou estejam dadas, ou que, em suma, seja o caso a matéria que é
em vista de algo, por exemplo, tijolos e pedras, se há de existir uma casa. No
entanto, o acabamento não é devido a tais coisas (a não ser enquanto
matéria), tampouco é devido a tais coisas que ele viria a ser. Entretanto, se,
em suma tais coisas não forem o caso, nem a casa nem o serrote poderão ser
o caso – aquela, se não houver pedras, este, se não houver ferro; de fato,
tampouco lá seriam verdadeiros os princípios, se não fosse verdadeiro que o
triângulo tem dois ângulos retos.” (Aristóteles, 2013, p. 61).

Como dito por Aristóteles, o acabamento (causa formal) tem papel fundamental na
constituição dos entes, e, partindo desse pressuposto é que posteriormente analisaremos de
que forma determinados ramos científicos contemporâneos (século XIX e XX), em especial
na física, podem ser interpretados através dessa noção de causa formal como é proposto por
Kuhn em A Tensão Essencial (2011) no artigo Conceitos de Causa no Desenvolvimento da
Física (2011, p. 45-54).

Para concluir a noção das quatro causas com o qual trabalharemos posteriormente
neste trabalho, e, para esclarecer essas relações entre as quatro causas, podemos explicar de
forma mais sucinta as quatro causas da seguinte forma:

1) Causa material: a constituição ou o substrato geral da natureza física, possuidora de


caráter individual, ou seja, uma matéria passiva e pura.
30

2) Causa formal: aquela que determina as coisas, um princípio formador e determinante


da realidade das coisas físicas, àquela que “transforma” a matéria sem forma em uma
coisa determinada.
3) Causa eficiente: o movimento que transforma os objetos, ou seja, uma causa
“motivadora” com poder de causação.
4) Causa final: causa primeira e causa última, pois, tem a implicação de uma razão que
antecede a realização, e, implica também uma determinada finalidade através desta
realização.

2.3 A causa eficiente na filosofia natural dos modernos


A causalidade na filosofia moderna passou por algumas importantes modificações.
Vale ressaltar que o fundamento das noções causais modernas teve como influência, além da
teoria de Aristóteles, o pensamento neoplatônico e medieval. Como escreve Abbagnano: “A
noção de uma ordem causal do mundo (às vezes remetida a Deus como primeira causa),
segundo o conceito neoplatônico e medieval, forma ainda o pressuposto e o fundamento dos
primórdios da organização da ciência, com Copérnico, Kepler e Galileu.” (2012, p. 143). Essa
noção influenciou ideias causais em Hobbes e Espinosa, segue Abbagnano: “Essas bases são
expressas em termos mecanicistas por Hobbes e, em termos teológicos, por Espinosa, mas são
sempre as mesmas.” (2012, p. 143). Através desse entendimento de uma ordem causal no
mundo, uma visão mecanicista é estabelecida.

Marilena Chauí, em seu artigo Filosofia Moderna (2014) enfatiza a mudança que a
causalidade aristotélica sofreu na filosofia moderna, e de que forma ela se adaptou à nova
filosofia natural dos modernos. Das quatro causas (material, formal, eficiente e final), apenas
duas foram aceitas: a eficiente e a final. A causa eficiente foi aceita por condizer com o
mecanicismo em ascensão da física pós-aristotélica, como coloca Selvaggi: “A atividade da
natureza, ao invés, deve ser despojada de todo e qualquer caráter antropomórfico e reduzida a
uma força cega, pura causa eficiente e de modo algum intencional dos seus efeitos.” (1988, p.
47). Selvaggi enfatiza que, esse novo modo de compreensão da natureza através da causa
eficiente estaria vinculado às exigências de uma visão mais determinista32 do mundo, uma
visão matemática e mecanicista: “Unido ao caráter mecanicista, em parte raiz, em parte

32
Essa visão determinista está relacionada a um determinismo causal dos fenômenos no mundo.
Abbagnano, da mesma forma que Selvaggi, também a relaciona ao mecanicismo: “[...] a palavra
determinismo foi utilizada para designar o reconhecimento e o alcance universal da necessidade causal
[...] O determinismo vincula-se, por isso, ao mecanicismo [...]” (2012, p. 287).
31

consequência dele, está o caráter matemático da nova ciência e da nova visão do mundo: a
física qualitativa e descritiva das idades precedentes é substituída por uma física puramente
quantitativa e matemática” (1988, p. 46). Da mesma forma, afirma a importância de um
determinismo das questões causais para a ciência: “O rígido determinismo da concatenação
causal dos eventos do mundo é um outro aspecto fundamental, característico da concepção da
ciência moderna, diretamente vinculado à concepção matemática e mecanicista” (1988, p. 47).

A causa final, embora distinta do que era chamado de ciência na época, estaria
presente, pois, toda a tradição cristã ainda era permeada por uma noção de causa final
enquanto causa divina. É importante ressaltar que, nota-se no período moderno, o início de
uma distinção entre ciência e filosofia. Pensemos com isso a questão da causalidade, e, como
dito por Selvaggi, podemos inferir que a causa final, na filosofia moderna, seria tratada
somente no âmbito da filosofia, uma vez que ela não possuía uma visão determinista
matemática e mecanicista, diferente da causa eficiente, que por possuir essa visão seria tratada
somente no âmbito da ciência:

A revolução operada na época moderna no que respeita à ciência do mundo


não podia deixar de repercutir também na concepção do homem. Diante dos
progressos da ciência da natureza parecia não restar outra escolha a não ser
ou a redução pura e simples do homem a um assunto particular da ciência da
natureza ou a proclamação de um dualismo absoluto e radical entre matéria e
espírito, deixando ao domínio da ciência toda a realidade material, nela
incluído o corpo humano, e reservando à filosofia somente o espírito. [...] O
espirito é reconduzido a ser puro sujeito pensante na sua interioridade
imanente [...] A matéria, reduzida apenas aos elementos de quantidade e
movimento segundo as exigências do mecanicismo, é objeto de uma ciência
completamente desumanizada, objetivada, racionalizada e matematizada. [...]
(Selvaggi, 1988, p. 49).

Como se percebe na citação de Selvaggi, inferimos que a causa final seria pensada
agora no âmbito da filosofia, ou seja, no âmbito do “espírito”, e, a causa eficiente seria
reduzida ao âmbito da ciência, ou seja, no âmbito da “matéria”. Com relação às causas
material e formal, elas também foram rejeitadas devido ao seu indeterminismo33 e por serem
causas com aspectos teoréticos34 sem um caráter experimental. Como dito por Selvaggi, se

33
As causas material e formal eram consideradas indeterministas para a filosofia, pois não podiam
estabelecer uma concatenação causal precisa dos fenômenos do mundo natural. Nesse sentido, não
podiam determinar com precisão matemática as próprias causas. Selvaggi escreve: “A esses caracteres
mais gerais prendem-se diretamente ainda outros dois aspectos mais particulares da ciência moderna, o
antifinalismo e o rígido determinismo, também estes em nítido contraste com a visão do mundo antiga e
medieval, essencialmente finalista e, em certo grau, indeterminista.” (1988, p. 47).
34
Selvaggi explica que: “Ao caráter matemático liga-se também o caráter operativo ou experimental da
ciência moderna, que se contrapõe ao caráter prevalente, senão exclusivamente teorético e observadora
da ciência antiga e medieval.” (1988, p. 45). As causas material e formal não possuem esse caráter
32

torna desnecessário buscar princípios metafísicos causais para justificar a existência de


quaisquer substâncias materiais:

Esta é a concepção do hylemorfismo que é atacada e repelida por toda a


filosofia moderna a partir de Descartes, que acusa explicitamente o
hylemorfismo de querer compor o corpo natural de matéria e forma como
duas verdadeiras substâncias em si completas e por si subsistentes. Perde na
filosofia moderna todo sentido e valor a busca dos princípios metafísicos da
substância material; e a busca se restringe aos princípios físicos, substâncias
por si subsistentes e imutáveis, que se unem para formar os compostos por
pura agregação e sem transformações substanciais. (Selvaggi, 1988, p. 403)

Como dito por Selvaggi, as causas material e formal se tornaram obsoletas por
possuírem princípios metafísicos, ora, contraditórios à física mecanicista. Com isso, a causa
eficiente seria a única ferramenta teórica das quatro causas que poderia relacionar-se com o
novo mecanicismo. O entendimento do funcionamento da natureza e do movimento tornaria
desnecessária a existência de uma essência35 da matéria. A causa eficiente seria suficiente
para explicar toda a ordem fenomenológica da natureza, tanto o devir da ordem cosmológica
da nova astronomia, como o da existência de fenômenos mais simples, como o movimento de
um objeto.

Como exemplo para se compreender a causa eficiente enquanto única causa necessária
ao mecanicismo, podemos analisar a seguinte questão: qual é a causa do movimento dos
planetas? Não é mais necessário pensar que os planetas possuam uma causa material, muito
menos uma essência (uma causa formal). Bastaria justificar toda a força mecânica causal
através de uma ordem de eficiência, ou seja, a gravidade, a expansão cósmica, a rotação e a
translação são a causa do movimento dos planetas. Selvaggi destaca o mecanicismo como
uma grande influência na reformulação da filosofia e física moderna:

O racionalismo e o mecanicismo são como dissemos, atitudes fundamentais


do espírito que inspiram uma visão própria do mundo e podem ter diversas
especificações e aplicações [...]. Na época moderna, o mecanicismo ressurge
e em breve se torna a posição mais espalhada entre os filósofos da natureza e
os cientistas. Galileu, o verdadeiro fundador da física moderna, nega a
realidade objetiva das qualidades sensíveis, considerando-as puras
impressões subjetivas dos sentidos. As razões desta negação são sobretudo de

operativo e experimental, neste sentido, essas noções de causa não podem “operar” nem “experimentar”
os fenômenos do mundo. Por exemplo: a causa material não pode explicar de forma objetiva o
movimento dos planetas da nova concepção astronômica de Copérnico, da mesma forma, a causa
formal não pode explicar o mesmo fenômeno pensando em um aspecto “formal” intrínseco ao
movimento dos planetas, ou seja, uma “essência” que descreva esses movimentos.
35
Na filosofia natural dos modernos era desnecessária a ideia de uma “essência” que explicasse a ordem
da natureza. Somente a compreensão do aspecto mecânico desses fenômenos traria uma visão com
suficiente poder explicativo.
33

caráter epistemológico: as sensações qualitativas são variáveis de sujeito para


sujeito e a inteligência não se sente necessitada de pensar o corpo dotado de
qualidades sensíveis, enquanto que necessita pensá-lo como dotado de
quantidade e movimento. Quantidade e movimento são, por conseguinte, os
únicos elementos reais dos corpos e bastam eles para excitar em nós as várias
sensações. Além disso a própria natureza é escrita em caracteres matemáticos
e geométricos: são, portanto, reais quantidades e movimentos, que se podem
tratar matematicamente, ao passo que não o são as qualidades sensíveis que
não são suscetíveis de tratamento matemático. (Selvaggi, 1988, p. 284)

Desta forma, a determinação da causalidade em um entendimento cosmológico, físico


e matemático na modernidade, tornaria nulo o entendimento das causas material e formal.
Uma vez que a substância material era interpretada como uma possibilidade pura e que
necessita da substância formal para caracterizar essa possibilidade, isso contradiria o método
mecanicista que demonstraria desnecessária e contraditória a existência dessas causas
(material e formal), pois elas não descrevem a natureza com o rigor científico da geometria e
da matemática, não beneficiando em nada a nova filosofia natural.

A causa eficiente como detentora da explicação do movimento seria mantida no


período moderno, pois todas as ciências deveriam ser explicadas por esse mecanicismo que
acarretou uma simplificação na ideia de substância de Aristóteles. Toda a compreensão dos
fenômenos da natureza podem ser explicados pela eficiência, pelo mecanicismo:

[...] Quando com esforço muscular arrasto ou empurro um móvel pesado no


pavimento do quarto, tenho a clara e evidente percepção de que o movimento
do móvel depende ontologicamente do meu esforço muscular; também neste
caso não percebo apenas uma simples sucessão de movimentos. E sobre a
realidade deste influxo causal se funda toda ação humana, quer na vida
cotidiana quer na produção artística e técnica do pintor, do escultor, do
carpinteiro, do pedreiro, do engenheiro etc. Em todos esses casos. (Selvaggi,
1988, p. 313)

Da mesma forma, Selvaggi completa o raciocínio da causa eficiente como objeto da


ciência explicitando de que forma a causa eficiente estava estritamente presente no período
moderno:

A causalidade do ente material não é só uma exigência da razão e um objeto


da filosofia, mas é também uma exigência de um objeto da ciência, entendida
no seu significado moderno como distinta da filosofia. A ciência, com efeito,
no seu significado moderno, não se limita unicamente a descrição dos
fenômenos e à busca das leis de sucessão para previsão dos fenômenos
futuros, e tampouco tem somente um escopo e um valor teorético, mas tem
também um escopo e um valor prático: ela quer influir no ser e no devir dos
fenômenos, produzir e reproduzir método experimental, dominar as forças da
natureza para as necessidades da vida e o progresso da indústria, da
34

agricultura, do comércio, das comunicações, da medicina etc. (Selvaggi,


1988, p. 315).

Como citado, o mecanicismo teria valor prático para outras áreas do conhecimento,
uma vez que, como dito por Selvaggi, o homem poderia prever fenômenos naturais e
influenciar toda a ordem da natureza em favor de si próprio, ocasionando o progresso em
diversas áreas essenciais a vida do homem, como a industrialização, a tecnologia, a medicina
e outros. Essa nova filosofia natural determinista e mecanicista, serviria ao progresso não só
das clássicas áreas de conhecimento filosófico mais teóricas como a física, a matemática, mas
também seria útil para as áreas de conhecimento mais práticas do próprio homem como as
citadas anteriormente. Com isso, a física e matemática deixam de ser apenas o que Aristóteles
chamava de ciências teoréticas para compor essa nova filosofia natural, aquela que passou a
ser dotada de um novo conhecimento físico e matemático mais prático, como citado acima,
que pode influenciar na vida do homem.

2.4 A física moderna e o problema da causa eficiente


Como destacado na seção anterior, a adaptação da causa eficiente a essa nova filosofia
natural e física pós-aristotélica ocorreu com certo vigor. Entretanto, até certo ponto encontrou
dificuldade em permanecer compatível com as teorias da física do período moderno. É neste
ponto que podemos adentrar na obra A tensão essencial (2011), mais especificamente no
segundo capítulo: Conceitos de causa no desenvolvimento da física de Thomas Kuhn, e com
isso, descrever como esse filósofo da ciência compreende o problema do mecanicismo e da
causa eficiente a partir da física moderna. Kuhn afirma: “Durante o século XVIII, em
particular nas novas áreas da física (eletricidade, magnetismo, calor), a explicação foi
amplamente conduzida em termos de causas eficientes.” (2011, p. 50), ele segue apontando a
mudança quanto ao mecanicismo: “Entretanto, no século XIX, uma mudança que já havia
começado na mecânica propagou-se pouco a pouco por toda a física. À medida que o campo
se matematizava, a explicação dependia cada vez mais da apresentação de formas apropriadas
e da derivação de suas consequências.” (2011, p. 50).

Kuhn aponta que a causa eficiente viria a se tornar cada vez mais insuficiente para
explicar determinadas teorias surgidas a partir do século XIX. Com o mecanicismo da
filosofia natural dos modernos, na medida em que a física se matematizava, cada vez mais as
35

explicações passaram a obter um caráter subjetivo, com isso, esse determinismo causal passou
a se apresentar como um problema para a justificação de determinadas teorias:

Com relação à estrutura, mas não em substância, a explicação ainda era a da


física aristotélica. Impelido a explicar um fenômeno natural específico, o
físico escrevia uma equação diferencial apropriada e dela deduzia, talvez em
conjunto com condições de contorno especificadas, o fenômeno em questão.
Seguramente podia ter de justificar a escolha das equações diferenciais, mas
o que podia ser contestado era a formulação empregada, e não o tipo de
explicação oferecida. Tivesse ou não escolhido a correta, era uma equação
diferencial, uma forma que dava a explicação para o ocorrido. Na condição
de explicação, a equação não é divisível para além disso. Não se poderia
extrair dela, sem graves distorções, um agente ativo ou uma causa isolável
temporalmente anterior ao efeito. (Kuhn, 2011, p. 50)

Kuhn explica que, devido às particularidades de tais teorias da física, cada uma delas
deveria possuir uma estrutura explicativa própria, distintas de uma explicação mecanicista
causal. Citando exemplos da astronomia, Kuhn afirma que o problema do mecanicismo pode
ser representado através das anomalias cosmológicas. A ordem natural de tais fenômenos
cosmológicos, para Kuhn, é um claro exemplo de lacuna causal36, ou seja, há fenômenos
físicos que não podem ser explicados em termos físicos da causa estrita, por isso possuem
lacunas explicativas com relação as suas causas. Não há causa eficiente para fenômenos
astronômicos com o qual não se pode concluir dedutivamente que haja uma causa inicial e
uma causa eficiente:

Considerem, por exemplo, por que Marte se move numa órbita elíptica. A
resposta apresenta as leis de Newton aplicadas a um sistema isolado
composto de dois corpos maciços, interagindo segundo uma atração
inversamente proporcional aos quadrados das distâncias entre eles. Cada um
desses elementos é essencial à explicação, mas nenhum é a causa do
fenômeno. Também não são anteriores, mais do que simultâneos ou
posteriores, ao fenômeno que deve ser explicado. Ou então considerem a
questão mais limitada de Marte estar numa dada posição no céu num instante
particular. A resposta é obtida com base na anterior, incluindo na solução da
equação a posição e a velocidade de Marte num instante prévio qualquer.
Mas é despropositado chamar o evento anterior- que pode ser substituído por
uma infinidade de outros de causa da posição de Marte no instante
especificado pela questão. Se as condições de contorno fornecem a causa,
esta deixa de ser explicativa. (Kuhn, 2011, p. 50)

36
O termo lacuna causal é utilizado por Kuhn para mostrar que em algumas teorias científicas, não há
explicações causais (em termos de causa eficiente): “Hoje existem perguntas bem formuladas acerca de
fenômenos observáveis – por exemplo, o instante em que uma partícula alfa deixa o núcleo – que os
físicos declaram por princípio que não podem ser respondidas pela ciência. Como eventos particulares,
a emissão de uma partícula alfa e diversos fenômenos similares são não causados.” (2011, p. 52). Esses
fenômenos que não podem ser explicados por meio da causa eficiente, possuem lacunas causais.
36

Esse exemplo de uma lacuna causal com relação às explicações sobre o movimento
dos planetas, como citado por Kuhn, demonstra a restrição da causa eficiente. Ao tentar
explicar um fenômeno natural como o movimento do planeta Marte, nota-se que os elementos
explicativos, como por exemplo – as leis de Newton aplicadas a um sistema isolado composto
de dois corpos maciços, interagindo segundo uma atração inversamente proporcional aos
quadrados das distâncias entre eles – não demonstram que tal fenômeno tenha uma causa.
Kuhn entende que as teorias científicas (a partir do século XIX) utilizam uma nova forma de
explicação: as estruturas formais37.

A ordem natural dos fenômenos do mundo, como descrita por Kuhn, não podendo
mais ser justificada por uma causa eficiente, pode ser explicada através de sua própria
estrutura formal com o qual tais teorias da física podem ser descritas: “O que pode exigir mais
ênfase, talvez, é que a semelhança com a explicação aristotélica apresentada pelas explicações
nesses campos é apenas estrutural.” (2011, p.51). Sendo que tais teorias são dotadas de tais
estruturas, então essa própria estrutura teórica representa para Kuhn, em sentido aristotélico, a
causa formal de um fenômeno. Com isso, Kuhn está explicitamente propondo que o problema
do mecanicismo como ferramenta teórica para justificar as teorias modernas da física, poderia
ser resolvido através da aplicação da causa formal aristotélica:

A partir de então, com a aceitação das equações de Maxwell no campo


eletromagnético e com o reconhecimento de que essas equações não
poderiam ser derivadas da estrutura de um éter mecânico, a lista de formas
que o físico podia utilizar começou a crescer. [...] A matéria também adquiriu
propriedades formais mecanicamente inimagináveis – spin, paridade,
estranheza, e assim por diante -, que só podiam ser descritas em termos
matemáticos. Por último, a inclusão na física de um elemento probabilístico
aparentemente inextirpável produziu outra alteração radical nos cânones da
explicação. Hoje existem perguntas bem formuladas acerca de fenômenos
observáveis – por exemplo, o instante em que uma partícula alfa deixa o
núcleo – que os físicos declaram por princípio que não podem ser
respondidas pela ciência. Como eventos particulares, a emissão de uma
partícula alfa e diversos fenômenos similares são não causados. (Kuhn, 2011,
p. 51-52)

Kuhn explica que fenômenos naturais “não causados” demonstram a falibilidade do


entendimento causal em sentido estrito, como nas teorias citadas, por exemplo. Com isso, ele
demonstra claramente a intenção de interpretar essas teorias através de uma abordagem
aristotélica metafísica, no sentido de causa ampla. As teorias passam a se preocupar com as
37
São estruturas explicativas para fenômenos da natureza, que, segundo Kuhn, se assemelham as
noções de causa formal de Aristóteles. Ele afirma com relação a explicação de determinadas teorias da
física contemporânea: “[...] a estrutura da explicação física é muito semelhante à desenvolvida por
Aristóteles na análise das causas formais.” (2011, p. 52)
37

explicações formais ou estruturas explicativas dos fenômenos, não mais com as causas
eficientes. Explicitaremos nos capítulos a seguir o porquê de um retorno a uma causalidade
em sentido metafísico e de que forma isso estaria relacionado com as principais teorias da
filosofia da ciência de ciência de Kuhn, como a teoria do paradigma e da
incomensurabilidade.
38
39

3. A RELAÇÃO DA CAUSALIDADE COM A FILOSOFIA DA CIÊNCIA DE KUHN

3.1 A abordagem externalista da história da ciência.


Para Kuhn há dois tipos de abordagens para se tratar a história da ciência: a
externalista e a internalista. Entendemos que é importante tratar essas abordagens, pois, como
demonstraremos, na filosofia da ciência de Kuhn e nas suas principais teorias é notável a
presença de uma abordagem externalista da história da ciência, além dele se dizer claramente
adepto da mesma. Para Kuhn: “Qualquer um que estude a história do desenvolvimento
científico depara constantemente com uma questão. Uma de suas versões poderia ser: ‘As
ciências são muitas ou uma só?’.” (2011, p. 55). Segundo sua definição, a abordagem
externalista da história ciência é aquela no qual, se acredita que as ciências são muitas. A
abordagem internalista é aquela no qual se acredita que a ciência é única. (2011, p. 55-56).
Assim, podemos retornar a Selvaggi, que, na discussão sobre revoluções científicas, tem a
pretensão de demonstrar que a ciência é um ramo de conhecimento complexo, e que tal
complexidade acontece pela relação da ciência para com outras áreas não científicas. Fazendo
uma análise a partir das ideias centrais de filósofos da ciência como o próprio Kuhn, Popper,
Feyerabend e Lakatos, Selvaggi destaca a importância da abordagem externalista:

Na discussão entre Kuhn e Popper sobre a natureza da ciência e, em


particular, das revoluções científicas, interveio, entre outros, Imre Lakatos
com algumas observações muito valiosas que, ao nosso ver, põem em plena
luz o que Kuhn e Feyerabend haviam feito entrever, a saber, toda a
complexidade da ciência moderna e contemporânea, cuja avaliação não pode
ser efetuada à base de um critério simplista, tal como o falsificacionismo
ingênuo de Popper, que não está em condições de interpretar, nem do ponto
de vista negativo nem, muito menos, do ponto de vista positivo, o fato
histórico e a realidade presente da ciência. Pelo contrário, a avaliação da
ciência deve ter em conta todos os elementos que nela concorrem, racionais e
experimentais, objetivos e psicológicos e, em última análise, requer uma
clara impostação fundamental gnosiológica e metafísica. Só deste modo é
possível julgar a ciência [...]. (Selvaggi, 1988, p. 135).

Na avaliação da ciência, levar em conta todos os elementos que nela concorrem, como
os racionais e experimentais, objetivos, psicológicos, seria para Kuhn, de forma semelhante a
Selvaggi, levar em conta os fatores internos e externos da ciência. Kuhn trabalhou com esses
termos nos textos Tradição matemática versus tradição experimental no desenvolvimento das
ciências físicas e A história da ciência em A tensão essencial (2011). Ele explica o problema
de uma abordagem internalista da historia da ciência: seria possível reduzir todos os campos
do conhecimento científico humano a uma só ciência? Quanto a isso, Kuhn afirma:
40

Deveria tomar as ciências uma a uma, começando, por exemplo, pela


matemática, passando pela astronomia, em seguida para a física, a química, a
anatomia, a psicologia, e a botânica e assim por diante? Ou deveria rejeitar a
noção de que seu objetivo é um relato composto de campos individuais e
considera-los antes conhecimento da natureza tout court? Nesse caso, ele
seria forçado, na medida do possível, a considerar todos os objetos científicos
de estudo, examinar o que as pessoas sabem acerca da natureza em cada
época e delinear o modo como as mudanças no método, no ambiente
filosófico ou na sociedade como um todo afetaram o corpo do conhecimento
científico concebido como único. (Kuhn, 2011, p. 55-56).

Para a abordagem externalista as ciências são várias. Podemos notar que o


desenvolvimento científico depende de diversos fatores além dos científicos, como fatores
culturais, comportamentais e de uma forma geral sociais. Além dessa percepção desses fatores
externos que interferem no desenvolvimento das ciências, o historiador externalista também
entende que as ciências podem diferir muito uma das outras quanto ao método científico, e
por isso existem tantas especialidades científicas. Desse modo, entende-se que cada uma
possua sua própria estrutura lógica interna que difira das outras. Em suma, o historiador
externalista defende que não há uma só estrutura lógica que envolva todas as áreas de
conhecimento denominadas científicas. Ainda sobre os fatores sociais, o estudo das
instituições científicas é um exemplo de externalismo que Kuhn denota certa importância:

As tentativas de ambientar a ciência num contexto social que possa aprimorar


a compreensão tanto do seu desenvolvimento como de seus efeitos têm
apresentado três formas características, das quais a mais antiga é o estudo das
instituições científicas. [...] O interesse pelas instituições e pelas ideias funde-
se naturalmente numa terceira abordagem do desenvolvimento científico.
Trata-se do estudo da ciência em áreas geográficas demasiado pequenas para
permitir uma concentração no desenvolvimento de qualquer especialidade
técnica particular, mas homogêneas o bastante para aprimorar a compreensão
da ambientação e do papel social da ciência. (Kuhn, 2011, p. 135-136).

Quanto à abordagem internalista, afirma-se que a ciência é única. Os historiadores


internalistas julgam que, embora as diferentes áreas científicas difiram quanto ao método, há
uma estrutura interna lógica para todas elas, ainda que não tenha sido perfeitamente
estabelecida. O desenvolvimento científico só pode levar em consideração fatores diretamente
ligados à ciência, como a pesquisa, o método e o experimento científico. Pensar que a
compreensão do desenvolvimento científico ocorra como na citação acima – através da
análise do contexto social com o qual determinadas ciências particulares ou grupo de
cientistas estejam envolvidos – para o internalismo não é válido. Para Kuhn: “Não podemos
dirigir críticas do mesmo tipo à segunda das duas principais tradições historiográficas, a que
trata a ciência como uma única empreitada.” (2011, p. 57). Isso ocorre, pois, segundo Kuhn:
41

“[...] o tema de estudo dessa suposta empreitada mostra-se demasiado vasto, demasiado
dependente de detalhes técnicos e demasiado difuso coletivamente para ser esclarecido pela
análise histórica.” (2011, p. 57).

Por isso, o internalismo é considerado a-histórico38 por Kuhn, pois tem a pretensão de
se focar em conteúdos técnicos do desenvolvimento, bem como tem a tendência a se restringir
em um período histórico ou uma nação em particular: “Se o historiador tem de trabalhar com
empreitadas que ocorreram nos períodos que lhe dizem respeito, então os relatos tradicionais
do desenvolvimento das ciências individuais são muitas vezes profundamente a-históricos.”
(2011, p.57). Na seguinte passagem Kuhn deixa claro sua crítica a respeito da abordagem
internalista da história da ciência:

Apesar da solene reverência a clássicos como o Principia, de Newton, ou a


Origem das espécies, de Darwin, os historiadores que veem a ciência como
uma só dispensaram, por isso mesmo, pouca atenção ao próprio conteúdo em
desenvolvimento, e concentraram-se, em vez disso, na mudança da matriz
intelectual, ideológica e institucional no âmbito da qual a ciência se
desenvolve. [...] As relações entre o ambiente metacientífico, de um lado, e o
desenvolvimento de teorias e experimentações científicas particulares, de
outro, têm se mostrado indiretas, obscuras e controversas. Em princípio, a
tradição que considera a ciência uma só não pode contribuir para a
compreensão dessas relações, pois nega por pressuposição o acesso aos
fenômenos dos quais depende o desenvolvimento dessa compreensão.
(Kuhn, 2011, pág. 57-58)

Como citado, para Kuhn a abordagem internalista é a-histórica, pois, não contribui
para a compreensão das relações que os próprios campos particulares da ciência possuem com
outras áreas de conhecimento, bem como não relaciona de forma satisfatória a relação
histórica entre esses diversos campos particulares e distintos, como ciências separadas por
revoluções. Em suma, é como se o historiador internalista negasse que o ambiente religioso
em que um cientista viveu o influenciou em sua própria teoria, ou negar que a forma como
uma determinada comunidade estabelece seus compromissos sociais também possa
influenciar na criação científica de um teórico dessa mesma comunidade: “Compromissos
sociais e filosóficos que promoveram o desenvolvimento de um campo específico em
determinada época dificultaram-no em outra.” (2011, p. 58). Da mesma forma, Kuhn reitera
que: “Se especificarmos o período considerado, as condições que promovem avanços em uma
ciência parecem com frequência adversas a outras.” (2011, p. 58).

38
Por este termo podemos entender “a” como uma negação ou disjunção, portanto, “a-histórico”
significa estar separado ou ser distinto da história.
42

Embora Kuhn tenha sido declaradamente um externalista, ele nunca tentou descrever a
história externalista como a correta, ambas as abordagens são dependentes, ou seja, para uma
correta historiografia se faz necessário tanto o entendimento de que o internalismo é muito
estreito e restrito, bem como o externalismo por si só seja insuficiente para a compreensão da
ciência como um todo. Quanto a essa dependência dessas abordagens, ele explica que elas
sejam: “[...] de fato, vieses complementares. Até que sejam praticadas desse modo, cada uma
extraindo elementos da outra, é improvável que certos aspectos importantes do
desenvolvimento científico sejam compreendidos.” (2011, p. 142). Com isso, fica claro que,
embora Kuhn se assuma como um historiador externalista, ele entende a importância de um
posicionamento intermediário entre as duas:

[...] Em tais circunstâncias, os historiadores que pretenderem esclarecer o


desenvolvimento científico efetivo precisarão ocupar um difícil terreno
intermediário entre as duas alternativas tradicionais. Ou seja, não podem
supor que a Ciência seja uma só, pois é evidente que não é. Mas tampouco
podem pressupor as subdivisões de temas de estudo tipificadas nos manuais
contemporâneos e na atual organização departamental das universidades.
(Kuhn, 2011, p. 58).

Mesmo denotando que a visão internalista tenha que estar conectada a externalista,
nessa pesquisa, nos interessa mais os aspectos externalistas presentes na historia da ciência de
Kuhn. Retornamos assim a um questionamento central desta pesquisa: a causa formal como
um aspecto metafísico presente na ciência moderna, segundo a interpretação de Kuhn. A
análise de que a ciência contenha aspectos metafísicos é um exemplo claro de abordagem
externalista da ciência. Retomamos uma citação que utilizamos anteriormente onde Kuhn
afirma: “[...] a estrutura da explicação física é muito semelhante à desenvolvida por
Aristóteles na análise das causas formais.” (2011, p. 52). Também citamos que, para Kuhn:
“[...] a ideia de que explicação formal funciona hoje de modo muito eficaz na física.” (2011,
p. 49). Com isso, esclareceremos que, em sua abordagem externalista, é possível aproximar a
metafísica em sua filosofia da ciência, como demonstraremos na próxima seção.

3.2 A questão da metafísica para Kuhn


Analisar a questão da metafísica em Kuhn é um exercício um pouco sutil, pois se
entende que ele não deixaria explicitada uma noção tão clara de sua visão sobre a metafísica.
No capítulo anterior demonstramos que a causalidade possui sentido físico e metafísico, e,
advogamos que a noção de causa estrita possua relação direta com a física, bem como a causa
43

ampla possua relação direta com a metafísica, sendo isso percebido tanto pela concepção de
causalidade de Kuhn como diretamente nas obras Física e Metafísica do Aristóteles nas
citações presentes nesta pesquisa. Demonstramos também que, na teoria das quatro causas
aristotélica, todas as causas estavam estritamente ligadas e dependentes entre si, por esse
motivo pode-se considerá-las, a rigor, como uma teoria metafísica, ainda que a causa eficiente
tivesse um componente mecanicista (físico), e, mesmo a causa final um componente
teleológico. Por fim explicamos que a separação entre ciência e filosofia no período da
filosofia moderna, fez com que os componentes metafísicos da doutrina das quatro causas
fossem isolados da física moderna em ascensão na época, sobrevivendo apenas a causa
eficiente de forma isolada por ter sentido mecanicista. E que este mecanicismo ou causa
eficiente tornou-se ineficaz com o aparecimento da física moderna dos séculos XIX e XX.

Com essas noções que propomos da causalidade, queremos desde o início defender que
Kuhn possua indiretamente um posicionamento metafísico, embora ele não deixe isso
explicito em suas obras. Por esse motivo tentemos explorar um pouco o que consideramos um
conteúdo metafísico de sua obra. De início, é oportuno demonstrar que na filosofia da ciência,
a percepção da relação entre ciência e metafísica não é única. Abraham Moles, no início de
sua obra A criação científica (1971), diferente de Kuhn, deixa bem clara esta relação entre
ciência e metafísica na seguinte passagem:

Há pois de fato uma aproximação entre pensamento filosófico e pensamento


científico que convergem de novo. O cientista deu-se conta, não somente de
que o desenvolvimento mais recente da ciência não trazia nenhum apoio ao
materialismo mecanicista tradicional que, sob o nome de cientificismo, lhe
parecera a secreção natural da experiência científica [...] Diante dessa
multiplicidade nascente, esboça-se um retorno para uma troca de idéias com
o filósofo, o que deve levar a uma certa colaboração com ele na construção
da imagem do mundo. Foi o desenvolvimento da teoria da Relatividade e da
Microfísica, o enunciado do princípio da incerteza de Heisenberg e do
princípio de complementaridade de Bohr que encetaram de maneira nítida
essa reunião da ciência e da metafísica [...]. (Moles, 1971, p. 5).

Essa distinção entre filosofia e ciência com início na filosofia moderna, a partir da
física pós-aristotélica e mecanicista, como já tratamos anteriormente, está relacionada com a
distinção entre matéria e espírito, como dito por Selvaggi em citações anteriores (capítulo 2,
seção 3, p. 25). O retorno para uma troca de ideias entre o cientista e o filósofo citado por
Moles, seria semelhante ao retorno de uma união entre matéria e espírito citado por Selvaggi.
Como já dito, Selvaggi explica que na filosofia dos modernos a matéria seria tratada no
âmbito da ciência, e o espírito no âmbito da filosofia (1988, p. 49). Podemos supor com isso,
44

que Kuhn, de forma semelhante a Moles e Selvaggi, também propõe uma forma de diálogo
entre a filosofia e ciência, mais especificamente a física moderna que Moles cita. Tal diálogo
pode se dar através dessa nova concepção de causa formal proposta por Kuhn. Da mesma
forma que Moles, podemos retornar a Selvaggi que demonstra um aspecto positivo desta
relação entre ciência e metafísica, afirmando-a como consequência da própria restrição
mecanicista imposta a ciência do período moderno:

Finalmente, o reconhecimento consciente dos limites da ciência traz como


consequência lógica o reconhecimento de um para além da ciência. A ciência
não é a totalidade do saber e do conhecimento humano, uma vez que é
possível e necessário um discurso sobre a ciência, que enquanto tal não é
ciência, mas ‘metaciência’. Esse reconhecimento pode, por sua vez, estender-
se legitimamente a outros níveis de conhecimento – filosófico, metafísico,
moral, religioso –, cada um dos quais terá um método próprio, diferente do da
ciência, mas não menos legítimo do que ele, dado que são esses níveis
superiores que fundamentam, em última análise, a legitimidade da própria
ciência. (Selvaggi, 1988, p. 54).

De que forma então, Kuhn estabeleceria um diálogo entre ciência e metafísica com a
sua concepção da causa formal? Entendemos que, se para Kuhn há uma semelhança entre as
estruturas explicativas na física atual com as explicações aristotélicas de causa formal (2011,
p. 52), então para ele a metafísica deve estar presente nas mesmas, pois, não só a teoria das
quatro causas é uma teoria metafísica, mas a causa formal de modo isolado – como nas
explicações sobre o hylemorfismo – é um componente metafísico da causalidade. Propomos
45

com isso, que Kuhn seja um aristotélico39, na medida em que encontra semelhanças entre
essas explicações, embora as interprete de seu modo particular. Tal modo consiste em pensar
a causa formal de modo isolado, diferente de Aristóteles que entendia que as quatro causas
são dependentes entre si.

39
Quando nos referirmos a Kuhn como um aristotélico, o fazemos de forma hipotética. Como tratamos
nessa seção, a metafísica na obra de Kuhn está presente de forma implícita, e somente através de uma
leitura atenta e até um pouco conjectural podemos perceber a relação de sua teoria com a metafísica, e
em que sentido Kuhn seja um aristotélico. Pela sua concepção de causa formal podemos entender um
certo aristotelismo. O estudo da Física de Aristóteles exerceu uma influência na teoria de Kuhn, na
medida em que ele passou a se interessar pelas revoluções científicas, e, também a refletir sobre a
própria teoria aristotélica. Desta forma, em Conceitos de causa no desenvolvimento da física ele
demonstra o que entendemos como uma maneira “aristotélica” de se analisar as teorias da física:
comparando a teoria de Aristóteles – e forma como ele explicava os fenômenos pelas causas formais, ou
essências – com as próprias explicações das teorias da física contemporânea: “[...] a explicação formal
funciona hoje de modo muito eficaz na física.” (2011, p. 49). Continua explicando que: “[...] no século
XIX, uma mudança que já havia começado na mecânica propagou-se a pouco por toda a física. À
medida que o campo se matematizava, a explicação dependia cada vez mais da apresentação de formas
apropriadas e da derivação de suas consequências. Com relação à estrutura, mas não em substância, a
explicação ainda era a da física aristotélica.” (2011, p. 50). Kuhn termina a explicação, mostrando de
que forma as explicações das teorias físicas a partir do século XIX se tornaram, em sua perspectiva,
aristotélicas: “Impelido a explicar um fenômeno natural, o físico escrevia uma equação diferencial
apropriada e dela deduzia, talvez em conjunto com condições de contorno especificadas, o fenômeno
em questão. Seguramente podia ter de justificar a escolha das equações diferenciais, mas o que podia
ser contestado era a formulação empregada, e não o tipo de explicação oferecida. Tivesse ou não
escolhido a correta, era uma equação diferencial, uma forma que dava a explicação para o ocorrido.”
(2011, p. 50). Kuhn entende que o aspecto “aristotélico” das teorias físicas que ele cita, está na
explicação que os cientistas utilizam para descrever os fenômenos da natureza, que é semelhante à
forma utilizada por Aristóteles pelas causas formais. Ao analisarmos o termo “aristotelismo”, também
podemos entender que Kuhn em certo sentido (em sua concepção de causa formal) seja um aristotélico,
Abbagnano o define da seguinte forma: “Por esse termo entendem-se alguns fundamentos da doutrina
de Aristóteles que passaram à tradição filosófica ou que inspiraram as escolas ou os movimentos que se
reportam mais diretamente ao próprio Aristóteles [...].” (2012, p. 90). Nesse sentido, em sua concepção
de causa formal, Thomas Kuhn se reporta diretamente a Aristóteles para analisar as teorias físicas
contemporâneas e utiliza o próprio pensamento aristotélico para isso. Abbagnano delimita os tipos de
“fundamentos da doutrina de Aristóteles” que estão relacionados ao conceito de “aristotelismo” em seis
tipos, em um deles ele escreve: “Importância atribuída por Aristóteles à natureza e o valor e a dignidade
das indagações a ela dirigidas. [...]. Aristóteles considerava que nada há na natureza tão insignificante
que não valha a pena ser estudado, visto que, em todos os casos, o verdadeiro objeto da pesquisa é a
substância das coisas.” (2012, p. 90). Embora Kuhn não atribua – pelo menos diretamente – certo valor
as indagações da natureza, e também não entenda que o “verdadeiro objeto de pesquisa” seja a
substância, sua concepção de causa formal, em certo sentido contém relação com esses conceitos. O
termo “ousia” diz respeito à indagação da substância como explicamos anteriormente (capítulo 2,
seções 2 e 3): qual é a matéria e a forma das coisas? Em outro tipo de pensamento ou teoria de
Aristóteles, fica mais clara a nossa afirmação que Kuhn possa, em certo sentido, ser um aristotélico.
Segundo Abbaganano, a teoria das quatro causas é outro exemplo de fundamento da doutrina de
Aristóteles tradicionalmente discutido por pensadores “aristotélicos” (2012, p. 90). Portanto, por Kuhn
se reportar a essa teoria, e mais especificamente dar importância à causa formal, de alguma forma
podemos atribuir certo “aristotelismo” em sua concepção de causalidade. Abbagnano entende que, com
relação a esses tipos de fundamentos presentes nesse “aristotelismo” – das quais, dois deles explicamos
e relacionamos com a concepção de Kuhn – as várias correntes de pensamento “aristotélicas” se
reportam, habitualmente a alguns deles. (2012, p. 91). Neste sentido, podemos pensar que, se Kuhn
utiliza tais fundamentos da teoria de Aristóteles para discutir sobre algumas teorias físicas
contemporâneas, então a sua concepção de causa formal é de alguma forma um “aristotelismo”.
46

Propomos que Kuhn seja um aristotélico, não apenas pela relação que ele encontra
entre dois conhecimentos distintos – a física aristotélica e a moderna – mas também pela obra
aristotélica ter exercido grande influência em seu modo de pensar, além de influenciar os
próprios rumos que Kuhn seguiu após sua formação acadêmica, como ressalta Hoyningen-
Huene (2012, p. 50-51), podemos entender que a gênese da filosofia da ciência de Kuhn
acontece com o primeiro contato com a física de Aristóteles: “Em 1947, refletindo sobre a
obra de Aristóteles, Kuhn fez uma observação que definiu a agenda de muitos dos seus
estudos posteriores.” (2012, p. 50). Tal aspecto biográfico, é enfatizado por Hoyningen-Huene
para compreender a formação do pensamento de Kuhn, em seguida, ele explica sobre a
observação:

Quando leu a Física, tendo conceitos contemporâneos em mente, muito


daquilo lhe apareceu completamente equivocado ou simplesmente sem
cabimento. Todavia, mudando o significado de alguns conceitos-chave (em
alguns casos, sutilmente; em outros, mais radicalmente), a obra passou a
fazer sentido. Um mundo totalmente novo saltou aos olhos de Kuhn – o
persuasivo e coerente mundo da física aristotélica, que havia dominado o
pensamento ocidental por mais de 1500 anos. (Hoyningen-Huene, 2012, p.
50).

O interesse pela física Aristotélica fez com que Kuhn muito refletisse acerca das
mudanças científicas, sendo a passagem da física aristotélica para a física moderna seu
principal tema de interesse, tanto que, em 1957 publicou sua primeira obra: A Revolução
Copernicana (2002). Essa obra era sobre a marcante mudança da física antiga aristotélica e
ptolomaica para a física copernicana. Em uma análise do texto de Kuhn40, percebemos que a
sua compreensão sobre as mudanças científicas ele utiliza os termos “forma” e “formal” da
causalidade, assim como Aristóteles, em sentido metafísico da causa formal, que remete ao
termo essência. Com isso, fica claro que pra nós que sua interpretação sobre as mudanças
científicas seja metafísica, em sentido causal:

Desde que as pessoas fossem capazes de explicar, como o foram os


aristotélicos, um domínio relativamente amplo de fenômenos naturais com
base num número relativamente restrito de formas, as explicações em termos
de formas eram inteiramente satisfatórias. Estas se tornaram tautologias
somente quando cada fenômeno distinto pareceu necessitar da invenção de
uma forma distinta. Explicações de tipo exatamente paralelo ainda são
bastante frequentes na maioria das ciências sociais. Caso se mostrem menos
poderosas do que se desejaria, a dificuldade não está em sua lógica, mas em
suas formas particulares de utilização. (Kuhn, 2011, p. 49)

40
Conceito de causa no desenvolvimento da física. (2011)
47

Quanto à questão das mudanças científicas, Kuhn muito fala sobre as mudanças de
forma, como na citação anterior. Cada ciência particular pode ser explicada por termos de
causa formal, neste sentido, cada uma possui uma “forma”. Kuhn prossegue: “Aventarei, em
breve, a ideia de que explicação formal funciona hoje de modo muito eficaz na física.” (2011,
p. 49). Com isso podemos explicar o seguinte: de que forma as explicações de teorias em
termos de causa formal seriam explicações metafísicas sobre as ciências para Kuhn? O que
podemos supor de metafísico nessas explicações?

Explicações em termos de causa formal podem ser interpretadas como metafísicas,


pois, em sentido aristotélico, Kuhn pretende demonstrar que as teorias científicas possuem
estruturas explicativas particulares. Tais particularidades consistem na matemática das teorias,
bem como no uso da linguagem das mesmas. Com relação à primeira:

À medida que o campo se matematizava, a explicação dependia cada vez


mais da apresentação de formas apropriadas e da derivação de suas
consequências. [...] Impelido a explicar um fenômeno natural específico, o
físico escrevia uma equação diferencial apropriada e dela deduzia, talvez em
conjunto com condições de contorno especificadas, o fenômeno em questão.
Seguramente podia ter de justificar a escolha das equações diferenciais, mas
o que podia ser contestado era a formulação empregada, e não o tipo de
explicação oferecida. Tivesse ou não escolhido a correta, era uma equação
diferencial, uma forma que dava a explicação para o ocorrido. (Kuhn, 2011,
p. 50)

Com relação a essa matematização, Kuhn pretende demonstrar que, cada teoria, possua
sua própria lógica interna criada através de equações ou fórmulas matemáticas. Uma teoria é
diferente ou particular, pois possui ferramentas teóricas matemáticas com poder explicativo
que é apropriado a ela mesma. Em suma, é como se um cientista criasse fórmulas explicativas
que só podem ser aplicadas à própria teoria. Assim, entendemos que essas explicações são
metafísicas, pois essas formalizações representam o que é a essência de cada teoria científica.
Mas com relação ao uso da linguagem como estrutura explicativa particular, Kuhn as entende
como ferramenta para entender as mudanças científicas, como diz Hoyningen-Huene:

Kuhn notou que tais tipos de diferenças conceituais eram indicadores de


rupturas entre diferentes modos de pensar e suspeitou que elas fossem
relevantes, tanto para a natureza do conhecimento como para o modo pelo
qual é possível relacionar conhecimento e progresso. (Hoyningen-Huene,
2012, p. 51)

Nesse sentido, entendemos que explicações das teorias em termos de causa formal,
quando relacionadas ao uso da linguagem, seriam metafísicas, pois, a linguagem que o
48

cientista utiliza para explicar sua teoria também é dotada de uma essência, pois, ela possui
conceitos próprios, apropriáveis à sua própria teoria. Entender a linguagem particular de uma
teoria é entendê-la através da causa formal, esse entendimento é metafísico em sentido causal.

Podemos concluir que, mesmo que o termo metafísica não esteja tão presente na obra
de Kuhn, entendemos que sua interpretação das mudanças e da própria natureza das teorias
científicas seja metafísica, em sua uma intepretação de causa formal. Entretanto, queremos
ressaltar que o significado de metafísica na obra de Kuhn se limita ao que tratamos aqui até
agora, e ao que será tratado a seguir.

Apresentamos na introdução desse trabalho que utilizaríamos duas noções para o termo
metafísica, a definição aristotélica como descrito por Reale: “A metafísica aristotélica é, com
efeito, como logo veremos, a ciência que se ocupa das realidades que estão acima das físicas.”
(2013, p. 27). Porém, a noção de metafísica que interpretamos na obra de Kuhn está
relacionado à forma como uma teoria pode ser compreendida, podemos descrevê-lo de forma
objetiva do seguinte modo: a interpretação metafísica de Kuhn é aquela que entende que as
teorias científicas sejam dotadas de estruturas explicativas particulares em seu conteúdo
matemático e linguagem, que denotem sentido de “essência” ou “forma” de maneira
semelhante à metafísica aristotélica.

3.3 O paradigma e a causalidade


Como apresentado anteriormente, a filosofia da ciência de Kuhn tem uma abordagem
metafísica quando pensada através da interpretação da causalidade do autor. Com isso, para
destacar a importância quanto a essa questão da causalidade, entendemos que é necessário
relacioná-la com os temas mais presentes e importantes na obra de Kuhn: o paradigma. Este é
o tema mais tratado em suas obras. Como é de conhecimento, a E.R.C teve grande
repercussão no meio filosófico e científico, foi um marco para a filosofia da ciência. Entre os
temas de Kuhn, o paradigma se tornou o centro dos debates após a publicação da obra em
1962. Podemos mostrar a definição desse conceito pelas palavras do próprio autor: “Um
paradigma é aquilo que os membros de uma comunidade científica, e apenas eles,
compartilham.” (2011, p. 312-313).

A repercussão e os debates em torno do paradigma consistiram em criticá-lo como um


termo vago e subjetivo: sujeito a várias interpretações e sem um sentido objetivo. Insatisfeito
49

com seus críticos41 e com as interpretações que recebeu após a publicação da E.R.C, Kuhn
voltou a escrever e debater o paradigma em escritos posteriores. O texto Reconsiderações
acerca dos paradigmas presente na obra A tensão essencial (2011), foi uma das respostas que
Kuhn dera aos seus críticos publicada, originalmente em 1974. Como dito pelo próprio título,
o texto é uma resposta e uma reconsideração das noções sobre o paradigma. No texto, o termo
paradigma é intitulado com um novo conceito: matriz disciplinar. Para Kuhn, esse conceito
pode explicar, objetivar e resumir o paradigma em suas noções mais importantes:

Eu poderia agora adotar a notação “paradigma” para ele, mas será menos
confuso se, em vez disso, eu o substituir pela expressão “matriz disciplinar” –
“disciplinar” porque é de posse comum dos praticantes de uma disciplina
profissional, e “matriz” porque é composta de elementos ordenados de vários
tipos, cada um com especificações adicionais. Os constituintes da matriz
disciplinar incluem a maioria ou todos aqueles objetos do compromisso do
grupo descritos no livro como paradigmas, partes de paradigmas ou
paradigmáticos. (Kuhn, 2011, p. 315).

Ao substituir a expressão paradigma por matriz disciplinar como resposta as


constantes críticas que recebeu pelo sentido vago do termo paradigma, ele identifica três tipos
de matriz disciplinar que: “[...] por serem centrais para a operação cognitiva do grupo, devem
ser de particular interesse para os filósofos da ciência.” (2011, p. 315). Kuhn os define como:
“[...] generalizações simbólicas, modelos e exemplares.” (2011, p. 315). A partir desses três
tipos de matriz disciplinar é que podemos encontrar relações com a causalidade.

As generalizações simbólicas, como se pode presumir pelo próprio nome, está


caracterizada pela presença de símbolos que generalizam determinados conceitos nas
comunidades científicas. Kuhn demonstra que há aspectos particulares nas estruturas
explicativas presentes nas teorias, um deles é matematização e a logicização desse tipo de
matriz disciplinar:

As generalizações simbólicas, em particular, são aquelas expressões,


empregadas sem questionamento pelo grupo, que podem ser formuladas sem
grande esforço em alguma forma lógica como (x) (y) (z) (|) (x, y, z). São os
componentes formais, ou prontamente formalizáveis, da matriz disciplinar.
(Kuhn, 2011, p. 316).

41
Quando nos referimos aos críticos de Kuhn nesta pesquisa, queremos nos referir exclusivamente aos
autores que debateram sua obra no Colóquio Internacional sobre Filosofia da Ciência em 1965, esses
debates estão presentes na obra A critica e o desenvolvimento do conhecimento. Os autores são: Paul
Feyerabend, Imre Lakatos, Margaret Masterman, Karl Popper, Stephen Toulmin, John Watkins e L.
Pearce Williams.
50

Pensamos que Kuhn demonstra um aspecto que consideramos peculiar nas


generalizações simbólicas, pois, ao se pensar nessa matematização e logicização presentes
neste tipo de matriz, podemos relacioná-la com a metafísica em sentido causal. Como
tratamos anteriormente, Kuhn no texto Conceitos de causa no desenvolvimento da física
(2011), relata que, a matematização em determinadas áreas da física pode ser entendida como
um aspecto formal no sentido aristotélico, e que esse aspecto pode ser visto como uma
interpretação metafísica de Kuhn. Com isso, percebemos que as generalizações simbólicas
também denotem esse sentido metafísico. Para completar a análise de Kuhn podemos também
retornar a Selvaggi para perceber que, a matematização e logicização das teorias científicas
denotam aspectos abstrativos que, embora possuam aplicação para as ciências naturais, se
aproximam dos aspectos metafísicos:

Qual é o fundamento da possibilidade da aplicação da matemática ao objeto


das outras ciências naturais? O fundamento direto desta possibilidade se acha
na própria natureza do processo abstrativo, mediante o qual são formados
todos os nossos conceitos e, em particular, os conceitos científicos. As
noções abstratas, o que delas se afirma, as suas mútuas relações, embora
abstratas e por isso universais e simples, são, no entanto, objetivas, isto é,
verificam-se concretamente no objeto sensível de que são abstraídas e podem
ser predicadas com verdade do objeto concreto. [...] Em consequência, a
matemática, pela sua mesma abstração, é aplicável à física, mas não vice-
versa; e, por isso a física pressupõe a matemática, e não vice-versa.
(Selvaggi, 1988, p. 114).

É importante ressaltar que, em sua interpretação aristotélica, Selvaggi divide a


abstração do conhecimento em três graus: o conhecimento físico, matemático e metafísico. O
conhecimento físico é o que: “[...] define o seu objeto mediante as qualidades sensíveis da
matéria, abstraindo somente das condições materiais individualizantes.” (1988). O
conhecimento matemático: “[...] mediante as propriedades inteligíveis da matéria, abstraindo
de todas as qualidades materiais sensíveis”. (1988). E o conhecimento metafísico: “[...] define
o seu objeto independentemente de qualquer matéria como o ser positivamente ou ao menos
negativamente imaterial.” (1988).

Portanto, podemos pensar que a própria concepção da abstração do conhecimento de


Aristóteles não fuja muito a ideia da abstração do conhecimento científico em Kuhn, e com
isso, também podemos considerar Kuhn um aristotélico neste sentido. Selvaggi ainda ressalta
um importante aspecto relacionado a essa forma de abstração matemática: segundo alguns
epistemólogos, o conteúdo abstrativo matemático das teorias físicas negam os aspectos
ontológicos destas teorias. Como dito a seguir:
51

A consideração da física matemática nos oferece o ensejo de examinar mais a


fundo o significado e o alcance ontológico das teorias físicas da ciência
moderna e contemporânea, seja porque estas são pela maior parte formuladas
em termos matemáticos, seja porque justamente o aspecto matemático das
teorias é um dos principais argumentos que induzem muitos epistemólogos
contemporâneos a negar todo e qualquer valor ontológico às teorias
científicas, reputando-as puros entes lógicos e de razão, simples fórmulas
abstratas, destituídas de conteúdo ontológico, mas úteis para a previsão dos
fenômenos. (Selvaggi, 1988, p. 116).

Esse aspecto matemático das teorias da ciência moderna e contemporânea, que,


segundo Selvaggi, leva os epistemólogos contemporâneos a negar o valor ontológico de tais
teorias, faz com que analisemos em que sentido a matemática de uma teoria pode ser
considerada abstrata. Podemos presumir através dessa citação, que as estruturas explicativas
de algumas teorias científicas, por possuírem um grau de abstração matemático, podem, dessa
forma, ser consideradas metafísicas em um sentido casal que estamos analisando em Kuhn.

A matemática de algumas teorias – sob uma perspectiva aristotélica de Selvaggi – é


abstrata, por isso podemos considerar que ela se aproxime de uma metafísica em sentido
causal. O tipo de paradigma de Kuhn chamado “generalizações simbólicas” tem relação com
a matemática das teorias científicas: “Nas ciências, em particular na física, as generalizações
já são encontradas de hábito em forma simbólica: f = ma, I = V/R [...]” (2011, p. 316).
Completa Kuhn: “[...] Nesse sentido, as generalizações simbólicas compartilhadas funcionam,
por ora, como expressões num sistema puramente matemático.” (2011, p. 317). A estrutura
explicativa de uma teoria, vista sob a perspectiva das generalizações simbólicas, se aproxima
da noção de causa formal em Kuhn, uma vez que nessa concepção ele afirma que: “[...] a
estrutura da explicação física é muito semelhante à desenvolvida por Aristóteles na análise
das causas formais.” (2011, p. 52). Explicando de forma objetiva: para Kuhn as estruturas
teóricas de algumas teorias tentam descrever um fenômeno do mundo de maneira semelhante
como a causa formal de Aristóteles descreve: através de uma essência42.

Com isso, Selvaggi aponta para outro fator importante com o qual Kuhn também
discutiu: a base formal para uma teoria nunca deve ser meramente pura, ou seja, mesmo sendo
abstrata e metafísica em sentido causal, ela deve possuir alguma relação com a realidade
física, ou seja, mesmo que a matematização possa tornar as teorias abstratas, a negação dos
seus aspectos ontológicos não pode ocasionar a negação da relação entre as realidades física e
metafísica de uma teoria:

42
Como já explicamos na introdução em nota de rodapé, a causa formal busca a essência das coisas.
52

[...] devemos salientar que a concepção agnóstica e fenomenista no tocante ao


valor das teorias científicas e a sua redução ao puro formalismo matemático
são abertamente contraditas pelo desenvolvimento histórico da ciência, a qual
nunca se contentou com a legalidade matemática da natureza, isto é,
unicamente com a síntese teórica de leis experimentais mediante conceitos
abstratos matematicamente definidos, mas foi sempre além em busca das
causas e da estrutura interna da realidade; além da descrição matemática do
‘como’, procurou sempre o ‘porquê’ dos fenômenos e com esse
procedimento obteve os mais grandiosos e inegáveis êxitos no plano
científico. (Selvaggi, 1988, p. 126).

Em Kuhn, também notamos a discussão sobre o problema da matematização através da


noção de correspondência entre as bases empíricas e as bases formais. Kuhn demonstra que
tais formalizações podem surgir antes ou depois das bases empíricas das teorias, desta forma,
as generalizações simbólicas não podem ser consideradas meros entes matemáticos que não
possuem relação ou contato com a realidade física. Para Kuhn, os filósofos que apresentam as
teorias científicas como sistemas formais: “[...] comentam muitas vezes que a referência
empírica nessas teorias ingressa da base para o topo, passando de um vocabulário básico
empiricamente significativo para os termos teóricos”. (2011, p. 318). Com isso, ele completa
o raciocínio afirmando que a relação entre essas formalidades matemáticas ou generalizações
simbólicas, ocorre através da capacidade de previsão:

Antes de poder iniciar as manipulações lógicas e matemáticas que deságuam


em previsões específicas para leituras experimentais, o cientista tem de
escrever a forma particular de f = ma que se aplica, digamos, às cordas
vibrantes, ou a forma particular da equação de Schödinger que se aplica,
digamos, ao átomo de hélio num campo magnético. Seja qual for o
procedimento que empregue ao fazê-lo, não pode ser puramente sintático. O
conteúdo empírico tem de ingressar nas teorias científicas formalizadas a
partir tanto do topo quanto da base. (Kuhn, 2011, p. 318- 319).

Portanto, as generalizações simbólicas podem ser vistas como metafísicas, pois, são
estruturas explicativas particulares dotadas de uma matematica em um determinado grau de
abstração que nos remeta a uma “essência” ou “forma”, que, como afirmamos anteriormente,
se assemelha as noções metafísicas de causa formal aristotélica. Podemos analisar agora o
segundo tipo de matriz disciplinar denominado modelos e de que forma, também podemos
relacionar ele à metafísica.

Os modelos podem ser definidos como crenças fundamentadas criadas pelos cientistas
através de metáforas ou analogias. Há dois subtipos: os modelos heurísticos e os objetos de
compromisso metafísico. Pelo fato de Kuhn possuir mais interesse sobre o terceiro tipo de
matriz disciplinar, pouco se comenta sobre os modelos, entretanto, citemos o comentário de
53

Kuhn justamente por um dos subtipos de modelos utilizar o termo metafísico. Por modelos
heurísticos, entende-se como aqueles aspectos mais intuitivos em determinadas teorias. E no
extremo oposto estão os modelos enquanto objetos de compromisso metafísico, esses são os
que fornecem um conteúdo formalmente mais análogo à própria teoria:

O modelos, sobre os quais não terei mais nada a dizer neste artigo, são os que
fornecem ao grupo suas analogias preferidas ou, quando profundamente
mantidas, sua ontologia. Num extremo, são heurísticos: o circuito elétrico
pode ser visto, de maneira proveitosa, como um sistema hidrodinâmico em
estado estacionário, ou um gás, como uma coleção de bolas de bilhar
microscópicas em movimento aleatório. No outro extremo, são objetos de
compromisso metafísico: o calor de um corpo é a energia cinética de suas
partículas constituintes ou, mais obviamente metafísico, todos os fenômenos
perceptíveis são devidos ao movimento e à interação de átomos
qualitativamente neutros no vazio. (Kuhn, 2011, p. 316).

Os modelos podem ser entendidos como aspectos formais da matriz disciplinar, pois, o
uso de metáforas e analogias como ferramenta dos cientistas para explicação interna da
funcionalidade da própria teoria, depende de uma ontologia. Cremos que, através do uso das
metáforas e analogias só se pode alcançar essa ontologização da funcionalidade científica
quando elas possuam uma estrutura bem formalizada. As metáforas e analogias científicas
presentes na matriz disciplinar de uma comunidade científica destoam de meras metáforas e
analogias não científicas, justamente por possuírem um aspecto formal bem estruturado. Por
exemplo: a gravidade como consequência da curvatura espaço-tempo sendo demonstrada
através de um objeto redondo e pesado sendo colocado em um lençol esticado e dependurado.
Em outro exemplo Tozzini fala sobre um modelo de explicação do físico J.J Thompson: “Os
elétrons estariam mergulhados em uma massa homogênea, como ameixas em um pudim.”
(2014, p. 68).

O terceiro tipo de matriz disciplinar foi denominado exemplares. Por esse tipo de
matriz, embora Kuhn a considere como a mais importante, não se têm muito interesse em
tratá-la nesta pesquisa, pois, mesmo que Kuhn a trate como uma matriz semelhante aos
modelos, poucas relações com a causalidade podemos nela encontrar. Com isso, ao
analisarmos as relações que encontramos entre a causalidade e esses três tipos de matrizes, os
exemplares são as matrizes com uma análise mais hipotética dessa relação. Os exemplares são
as soluções bem estabelecidas dos problemas, são as ferramentas responsáveis pela própria
manutenção de uma prática científica naquela matriz disciplinar
54

Por estarem relacionados com resolução dos problemas presentes nas matrizes, a sua
estrita relação com uma causalidade formal pode se atribuída apenas a relação desses
exemplares para com os modelos. No caso, os exemplares são as soluções encontradas para
resolver os problemas ditados pelo modelo. Como exemplo: cálculos matemáticos para
precisar como se dá a curvatura espaço-tempo ou a gravidade. Kuhn escreve:

“Os exemplares, por fim, são soluções de problemas aceitas pelo grupo
como, no sentido causal do termo, paradigmáticas. Muitos de meus leitores já
descobriram que o termo “exemplar” é outro nome para o segundo, e mais
fundamental, sentido de “paradigma” no livro.” (Kuhn, 2011, pág. 316).

Por fim, conclui-se que a relação do paradigma com a causalidade, pode ser
reconhecida através das noções de causa formal presentes na noção de matriz disciplinar e nos
seus três tipos destacados por Kuhn. Entretanto, como comentamos anteriormente, está
presente principalmente nas generalizações simbólicas, ainda que possamos encontrar
determinadas relações nos outros tipos de matrizes, os modelos e os exemplares.

3.4 A incomensurabilidade e a causalidade


A incomensurabilidade é um dos conceitos mais importantes na obra de Kuhn, não só
por estar diretamente relacionada com o paradigma como por ser um termo que se relaciona
com toda a teoria kuhniana. É também um dos conceitos mais utilizados pelos críticos de
Kuhn que afirmaram sua irracionalidade científica, como trataremos no próximo capítulo. Ele
explica a incomensurabilidade em E.R.C como uma incompatibilidade entre duas teorias
científicas com paradigmas diferentes, ou seja, separadas por revoluções43. Portanto,
podemos analisar o que a incomensurabilidade através dessa perspectiva das diferenças entre
dois paradigmas distintos, como ele explica nas passagens: “A tradição científica normal que
emerge de uma revolução científica é não apenas incompatível, mas muitas vezes

43
Na E.R.C Kuhn entende que as revoluções científicas sejam diferentes, ele afirma: “[...] A introdução
deste ensaio sugere a existência de revoluções grandes e pequenas [...]” (2013, p. 122-123). Os grupos
afetados por elas é que determina se a revolução é “grande” ou “pequena”, ele continua: “[...] algumas
afetando apenas os estudiosos de uma subdivisão de um campo de estudos. Para tais grupos até mesmo
a descoberta de um fenômeno novo e inesperado pode ser revolucionária. [...]” (2013, p. 123). Também
explica em outra passagem que as revoluções são validas: “[...] não apenas para as mudanças
importantes de paradigma, tais como as que podemos atribuir a Copérnico e Lavoisier, mas também
para as bem menos importantes, associadas com a assimilação de um novo tipo de fenômeno [...] as
revoluções científicas precisam parecer revolucionárias somente para aqueles cujos paradigmas sejam
afetados por elas.” (2013, p. 178).
55

verdadeiramente incomensurável com aquela que precedeu.” (2013, p. 191). Com vários
exemplos ele explica a incomensurabilidade, vale citar o seguinte:

Antes do nascimento de Newton, a “ciência nova” do século conseguira


finalmente rejeitara as explicações aristotélicas e escolásticas expressas em
termos das essências dos corpos materiais. Afirmar que uma pedra cai porque
sua “natureza” a impulsiona na direção do centro do universo convertera-se
em um simples jogo de palavras tautológico [...] A partir daí todo o fluxo de
percepções sensoriais, incluindo cor, gosto e mesmo peso seria explicado em
termos de tamanho, forma e movimento dos corpúsculos elementares da
matéria fundamental. (Kuhn, 2013, p. 191-192).

A incomensurabilidade, como na citação, pode ser entendida como as diferenças das


estruturas explicativas das teorias científicas. Com isso, podemos entender melhor essa teoria
através da própria análise dessas diferenças dos paradigmas. Como vimos anteriormente
(capítulo 3, seção 3), uma noção mais madura de paradigma é a matriz disciplinar, dentre as
características presentes na matriz disciplinar estão as generalizações simbólicas, os modelos
e os exemplares. Quando há certa incompatibilidade entre esses três itens de uma teoria para
com outra teoria rival, dizemos que elas são incomensuráveis. A relação da
incomensurabilidade com a matriz disciplinar é direta: uma ciência normal é a praticante de
uma matriz disciplinar, e, uma teoria rival é aquela que luta para a mudança dessa matriz
disciplinar. Neste sentido, há caminhos ou uma estrutura com o qual ocorre o processo de
mudança de uma teoria a outra. O mais importante é a presença de anomalias ou problemas
sem resolução na prática de uma ciência normal; entretanto, isso não é o suficiente para que
ocorra uma revolução. Para Kuhn, uma teoria só pode morrer ou ser demarcada como não
científica quando há outra que possa substituí-la. Portanto, mesmo com a presença de
problemas não resolutíveis, o paradigma necessita de outro paradigma para que ocorra a
revolução. Negar um paradigma sem existir outro paradigma que possa substituí-lo é a mesma
coisa que negar a própria ciência para Kuhn. Essa relação demonstra que só pode haver
incomensurabilidade se houver paradigmas e vice-versa, se não houvesse paradigmas não
haveria a possibilidade de teorias serem incomensuráveis e a prática da ciência nunca
mudaria, seria em todo o percurso histórico uma ciência objetiva e uniforme.

3.4.1 O contato de Kuhn com a incomensurabilidade


Por tratarmos de uma abordagem de Kuhn sobre metafísica aristotélica no sentido
causal, e por interpretarmos ela em relação as suas teorias principais, para a apresentação
56

desse conceito nesta pesquisa se mostra de suma importância introduzir alguns


acontecimentos biográficos de Kuhn que nos remetam a origem da incomensurabilidade em
sua obra. Para que possamos demonstrar melhor esse aristotelismo Kuhniano citemos Paul
Hoynigen-Huene, um especialista em incomensurabilidade. Na sua obra Kuhn, Feyerabend e
incomensurabilidade (2012), ele destaca que os primórdios do desenvolvimento da teoria da
incomensurabilidade se iniciou com o contato de Kuhn com a Física de Aristóteles:

Em 1947, refletindo sobre a obra de Aristóteles, Kuhn fez uma observação


que definiu a agenda de muitos dos seus estudos posteriores Quando leu a
Física, tendo conceitos contemporâneos em mente, muito daquilo lhe
apareceu completamente equivocado ou simplesmente sem cabimento.
Todavia, mudando o significado de alguns conceitos-chave (em alguns casos,
sutilmente; em outros, mais radicalmente), a obra passou a fazer sentido. Um
mundo totalmente novo saltou aos olhos de Kuhn – o persuasivo e coerente
mundo da física aristotélica, que havia dominado o pensamento ocidental por
mais de 1500 anos. (Hoyningen-Huene, 2012, p. 50)

Hoyningen-Huene nota que o contato de Kuhn com a física de Aristóteles seria


decisivo em sua vida acadêmica e para seu interesse pela história da ciência: “O caminho de
Kuhn até a incomensurabilidade começou, segundo seu próprio testemunho, com o encontro
semanticamente mediado com a física aristotélica.” (2012, p. 51). A Física teria despertado
um grande interesse de Kuhn em estudar o progresso do conhecimento científico, e, ao se
deparar com um conhecimento mais profundo sobre a forte ruptura entre a física aristotélica e
a moderna, seu conceito de incomensurabilidade estaria em processo de germinação, mas só
viria a aparecer explicitamente em 1962 com a publicação de E.R.C. É importante lembrar
que, antes da publicação dessa que é considerada sua principal obra, Kuhn publicara A
Revolução Copernicana em 1957, onde também é demonstrado um estudo sobre uma das
principais revoluções na ciência, a mudança da astronomia ptolomaica para a astronomia
copernicana.

Paul Feyerabend foi outro filósofo da ciência que tratou a incomensurabilidade, como
afirma Hoyningen-Huene, ele teve notoriedade antes mesmo de Kuhn e foi uma importante
ferramenta para auxiliar na difusão das ideias de Kuhn entre os filósofos (2012, p. 35). No
início dos anos 60, Feyerabend e Kuhn eram professores da mesma universidade, e
Feyerabend havia lido os manuscritos da E.R.C chegando citar em algumas de suas palestras
que um livro seria lançado que reforçaria e sustentaria, mediante exemplos extraídos da
história da ciência, as próprias opiniões formuladas anteriormente por ele (2012, p.35).
57

Portanto, é importante a incomensurabilidade já havia sido discutida por Feyerabend, embora


as noções dessa teoria possuíssem semelhanças e diferenças com as de Kuhn:

A incomensurabilidade teve dois pais, algo incomum até em termos


filosóficos, e a paternidade conjunto por Thomas S. Kuhn e Paul K.
Feyerabend contribuiu sobremaneira para o surgimento de vários
desentendimentos ulteriores. Embora o significante seja o mesmo para
ambos, cada progenitor atribuiu a ele um significado distinto, conduzindo a
metáfora matemática a destinos bastante sobrepostos, embora sutilmente
desiguais. (Hoyningen-Huene, 2012, p. 49)

Para uma análise sobre a diferença entre essas concepções seria necessário um estudo
mais profundo, que não cabe realizar nessa pesquisa, com isso, podemos explicar que a
incomensurabilidade para Feyerabend: “[...] caracteriza a relação que existe entre duas teorias
sucessivas abrangentes. [...] Duas teorias serão ditas incomensuráveis quando o significado
dos seus principais termos descritivos dependerem de princípios mutuamente inconsistentes”
(2012, p. 54).

Com relação à incomensurabilidade em Kuhn, Hoyningen-Huene explica que a


mudança – marcada pela incompatibilidade entre teorias rivais separadas por uma revolução –
é perceptível em três aspectos: mudança nos problemas científicos, nos métodos e conceitos
científicos, e por final, uma mudança no próprio mundo. (2012, p. 52). Os três aspectos de
mudança são importantes para Hoyningen-Huene, entretanto destaca-se a mudança de mundo
como a mais importante conforme trataremos a seguir.

1 – Mudança nos problemas: em uma tradição científica pré-revolucionária existem


problemas a serem constantemente resolvidos pelos cientistas desse grupo, esses problemas
não existirão mais quando tal teoria for substituída. Exemplo: a astronomia ptolomaica estava
relacionada com um modelo também astrológico, um dos problemas era a predição dos
padrões de comportamento, e esse problema foi extinto com a astronomia copernicana, pois a
astrologia foi distinta do novo modelo astronômico.

2 – Mudança nos métodos e conceitos: os métodos e conceitos antigos são modificados


em uma ciência revolucionária, pois o método antigo não pode assimilar totalmente a nova
teoria, bem como os conceitos podem ser insuficientes ou contraditórios. Exemplo: método de
explicação de Ptolomeu para o movimento dos corpos celestes a partir de movimentos
uniformes e circulares, explicados através de epiciclos.
58

3 – Mudança do mundo após a revolução: esse tipo de mudança seria um dos conceitos
mais problemáticos em Kuhn, não só Hoyningen-Huene como diversos outros comentadores
de Kuhn apontaram ambiguidade a este termo presente no capítulo nove da E.R.C a intitulado
as revoluções como mudanças de concepções de mundo, logo de início Kuhn afirma: “O
historiador da ciência que examinar as pesquisas do passado a partir da perspectiva da
historiografia contemporânea pode sentir-se tentado a proclamar que, quando mudam os
paradigmas, muda com eles o próprio mundo.” (2013 p. 201).

Fica evidente a ambiguidade quanto ao conceito de mudança de mundo em Kuhn, ele


mesmo assumira que a mudança de mundo seria uma proposição em certo sentido provisória,
uma vez que não há um termo melhor que possa expressar esse tipo de mudança.
Posteriormente, ainda neste capítulo trataremos a questão da mudança de mundo continuando
com Hoyningen-Huene como referência. Por enquanto, para explicar de forma objetiva,
podemos propor uma expressão provisória sob o viés de nossa interpretação kuhniana: a
mudança de mundo é a mudança metafísica44 do mundo.

Tratar esses conceitos de mudança científica em Kuhn faz com que inevitavelmente
pensemos também em Feyerabend, afinal, a obra de Hoyningen-Huene é mais um ensaio
comparativo entre esses autores do que uma obra apenas sobre Kuhn. Embora aqui seja um
trabalho voltado para a filosofia da ciência de Kuhn, é impossível tratar a
incomensurabilidade sem falar de Feyerabend. Com relação à diferença entre as concepções
Hoyningen-Huene destaca:

44
A mudança de mundo é metafísica no sentido de causal. Nossa interpretação de concepção de causa
formal em Thomas Kuhn caminha para a ideia de que as mudanças de mundo são mudanças
metafísicas: nas teorias científicas separadas por uma revolução ou distintas, os “mundos” são
incomensuráveis, pois suas estruturas explicativas são distintas em seu conteúdo matemático e
linguagem. Essas estruturas explicativas, para Kuhn são semelhantes à desenvolvida por Aristóteles na
análise das causas formais. (2011, p. 52). Kuhn, com isso pretende afirmar que as explicações são
aspectos formais das teorias em um sentido semelhante à essência de Aristóteles, que se aproxima da
causa formal, como na definição de Reale: “A causa formal é, como dissemos, a forma ou essência das
coisas. A alma para os animais, as relações formais determinadas para as diferentes figuras geométricas
[...] (2013, p. 33). A essência ou causa formal, neste sentido, compreende uma concepção metafísica de
determinados aspectos da natureza com o qual os cientistas concebem suas estruturas explicativas,
através de paradigmas, como por exemplo: f = ma. Em que sentido Kuhn entende que paradigmas como
esse sejam explicações sobre fenômenos semelhantes à forma desenvolvida por Aristóteles na análise
das causas formais? São semelhantes, pois, diante um fenômeno da natureza, Aristóteles concebia a
causa formal para determinar a sua essência, e, de forma análoga, os cientistas também concebem
estruturas matemáticas e conceituais que explicam tais fenômenos. Para Kuhn, portanto, é neste sentido
é que as explicações por causas formais se aproximam das explicações dos cientistas. Ao afirmar que,
quando mudam os paradigmas, muda com eles o próprio mundo, o conceito “mundo” não esse refere ao
mundo físico ou a natureza, mas a forma como o cientista interpreta a natureza: “[...] embora o mundo
não mude com uma mudança de paradigma, depois dela o cientista trabalha em um mundo diferente.”
(2013, p. 214) Nas próximas seções explicaremos mais sobre as mudanças de mundo, nesta perspectiva
de causa formal.
59

Com relação ao domínio da incomensurabilidade, o conceito de Feyerabend é


muito mais restrito do que o de Kuhn. Para este, prima facie, a
incomensurabilidade apresentava três domínios heterogêneos: uma mudança
de âmbito dos problemas; uma mudança de procedimentos e conceitos; e uma
mudança de visão do mundo, incluindo mudanças de percepção. Por seu lado,
o foco daquele autor é estritamente relacionado a conceitos presentes em
teorias fundamentais, em conjunção às implicações ontológicas deles.
(Hoyningen-Huene, 2012, p. 58)

Ademais, com o intuito de esclarecer melhor a incomensurabilidade para corroborar a


perspectiva que proporemos mais adiante neste capítulo, cabe retomar a noções gerais que são
compatíveis com a noção de incomensurabilidade dos dois autores colocadas por Hoyningen-
Huene, sendo uma delas, a noção de que a relação entre teorias incomensuráveis não pode ser
explicada de forma satisfatória por uma análise lógica:

Teorias incomensuráveis são incompatíveis, mas esta incompatibilidade não


pode ser convertida em uma contradição lógica. Pode ser que essa afirmação
não cause assombro hoje, mas foi extremamente provocadora para o
programa filosófico positivista aceito até então. Esse programa sustentava
que uma ideia filosófica somente poderia ser desenvolvida mediante análise
lógica. Entretanto, segundo Feyerabend e Kuhn, a incomensurabilidade não
pode ser plenamente caracterizada a partir das ferramentas da lógica – ao
menos não com as ferramentas da lógica disponíveis. Isso levou os autores a
criticá-las – como a única ferramenta da filosofia da ciência – e a promover
os métodos hermenêuticos e antropológicos também na filosofia da ciência.
(Hoyningen-Huene, 2012, p. 37)

Da afirmação de que a incomensurabilidade não pode ser percebida por ferramentas da


logica, podemos explicar acrescentando o seguinte: a incomensurabilidade não pode ser
percebida plenamente pelas ferramentas da lógica, pois cada teoria possui sua própria lógica,
válida integralmente apenas para a sua matriz disciplinar. Portanto, não há um modo de
comparação entre teorias incomensuráveis que seja neutro. Em sua interpretação de Kuhn,
Hoyningen-Huene faz uma analogia explicativa para demonstrar que, avaliar o processo
lógico interno entre teorias incomensuráveis é semelhante a saber falar línguas diferentes:

Teorias incomensuráveis não são literalmente traduzíveis entre si. Isso


significa que com os conceitos de uma teoria não é possível formular
completamente a outra teoria é preciso aprender uma nova linguagem para
entender a nova teoria – pelo menos um grupo de conceitos estabelecidos é
alterado de maneira incomum e inusual. Para dominar ambas as teorias, é
preciso, em certo sentido, tornar-se bilíngue. E, mesmo assim, não somos
capazes de traduzir uma teoria na linguagem de outra teoria, pois ser bilíngue
não é o mesmo que o possuir a habilidade de traduzir. (Hoyningen-Huene,
2012, p. 37)
60

Afirmar que teorias incomensuráveis são intraduzíveis entre si, significa que elas
possuem linguagens distintas, com isso, a afirmação de que elas estão em “mundos
diferentes” está relacionada ao processo de mudança de linguagem em sentido mais profundo.
Isso significa que o uso da linguagem na constituição das teorias científicas é importante na
medida em que Kuhn trata as mudanças linguísticas como mudanças de mundo, então caberia
a pergunta: por que as mudanças de linguagem seriam tão importantes no processo de
mudança de uma teoria? A linguagem é a ferramenta com o qual os cientistas conseguem
mudar a visão de mundo, no sentido de que com as revoluções científicas mudam o mundo:

Teorias incomensuráveis fazem afirmações diferentes sobre o que existe no


mundo, ou, mais precisamente, sobre o que é o mundo. Do mesmo modo,
pode-se também dizer, tal como Feyerabend e Kuhn, que o mundo muda com
as revoluções científicas. (Hoyningen-Huene, 2012, p. 37)

Para o conceito de mudança da visão de mundo em Kuhn, Hoyningen-Huene traz


especial atenção, com isso, voltaremos a destacar na próxima seção esse que é o aspecto mais
obscuro da incomensurabilidade para o autor. Para entender o que Kuhn queria dizer com
mudança de mundo ele explica a teoria da constituição do mundo, presente implicitamente na
obra de Kuhn. Através da análise dessa teoria, por fim explicaremos de que forma a teoria da
incomensurabilidade está relacionada à metafísica aristotélica no sentido de causa formal.

3.4.2 A teoria da constituição do mundo


A teoria da constituição do mundo é uma teoria hueniana e kuhniana, como falamos
anteriormente, trata-se de uma interpretação de Hoyningen-Huene acerca a ideia da
constituição do mundo dos paradigmas para Kuhn. Toma-se como ponto de partida a
afirmação de Kuhn na E.R.C citada anteriormente em que, os paradigmas incomensuráveis
fazem com que o mundo mude para os cientistas. Citemos novamente para enfatizar nossas
próximas explicações: “O historiador da ciência que examinar as pesquisas do passado a partir
da perspectiva da historiografia contemporânea pode sentir-se tentado a proclamar que,
quando mudam os paradigmas, muda com eles o próprio mundo.” (2013, p. 201). Hoyningen-
Huene percebe uma ambiguidade quanto ao sentido do termo “mundo”, segundo ele:

Mas essa afirmação – que os mundos mudam com uma revolução – é o


aspecto menos inteligível da incomensurabilidade no Kuhn de 1962. O que
quer dizer o mundo muda com uma revolução? O uso do termo ‘mundo’ aqui
é apenas metafórico? Ou neste caso ‘mundo’ significa, de fato, realidade, no
sentido de uma realidade objetiva? Mas como uma realidade poderia mudar
61

com e através de algo que acontece exclusivamente nas cabeças de um grupo


de cientistas? Essas questões não são respondidas no ERC; todavia Kuhn viu
claramente a urgência delas naquele escrito. (Hoyningen-Huene, 2012, p. 76)

Pode-se supor que tal aspecto denote uma questão ontológica referente ao que
percebemos como mundo físico, através de uma metáfora, entretanto, como perceberemos nas
próximas explicações desta teoria, advogamos que se trata de uma questão metafísica. Ao
notar dois mundos diferentes na proposição de Kuhn, fica claro que podemos interpretar que
os dois mundos possuem aspectos diferentes em um sentido metafísico. O próprio Kuhn seria
incapaz de explicar o que queria dizer com essa proposição acerca da mudança dos mundos,
para Hoyningen-Huene ele afirma que: “[...] é incapaz de explicar o sentido da afirmação de
que após uma revolução praticam suas atividades em mundos diferentes, mas assevera ‘que
devemos aprender a compreender o sentido de proposições semelhantes a essas’.” (2012, p.
76). Hoyingen-Huene fez sua própria interpretação quanto a essa questão, para ele, tais
mundos kuhnianos podem denominados: o mundo dado pelo sujeito e o mundo dado pelo
objeto:

1 – Mundo dado pelo sujeito: o sujeito é quem cria o mundo. É definido também como
o mundo das aparências, pois depende do sujeito que cria tais aparências quando percebe o
mundo, com isso, o sujeito percebe o mundo e cria o mundo através de suas percepções. Tal
premissa de um mundo dado pelo sujeito impõe a ideia de que não podemos acessar
plenamente o mundo dado pelos objetos, acessamos parcialmente tal mundo pelos conceitos
que criamos dos objetos. Dado esse conceito de que o homem “cria” esse mundo, logo, as
mudanças de paradigma implicam a “mudança de um mundo” em um sentido mais humano:

No primeiro sentido, o termo ‘mundo’ significa um mundo ‘já subdivido


perceptual e conceitualmente de acordo com uma certa maneira’ (ERC, p.
165). É um mundo ao qual efetivamente temos acesso, seja na vida cotidiana,
seja na ciência. Podemos perceber e descrever tal mundo, e neste mundo
existem patos, salas de aula e elétrons, por exemplo. Esse mundo possui uma
certa estrutura conceitual, por exemplo, as categorias mencionadas acima:
patos, salas de aula, elétrons. Pois bem, Kuhn teve a impressão – no curso de
suas pesquisas sobre história da ciência – de que esses conceitos são de
origem humana, ou seja, nós impomos uma estrutura ao mundo por meio
desses conceitos, e que nós não retiramos esses conceitos do próprio mundo,
como uma descrição difundida nos faz crer. (Hoyningen-Huene, 2012, pág.
77)

Para Hoyningen-Huene, Kuhn teria a percepção de que a ciência seria uma criação
humana, as teorias são criações humanas, bem como mudanças científicas ocasionadas por
62

mudanças de paradigmas também são humanas e, portanto, a mudança de mundo nesse caso
seria a mudança de mundo em um sentido humano: “[...] Kuhn teve a impressão – no curso de
suas pesquisas sobre história da ciência – de que esses conceitos são de origem humana, ou
seja, nós impomos uma estrutura ao mundo [...]” (2012, p. 77). Com isso, ao se analisar a
ideia de um mundo dado pelo sujeito, pensa-se em mudança de mundo através da mudança de
paradigmas como mudanças de conceitos humanos. Propomos aqui que se trata de uma
mudança metafísica de conceitos, pois, como conceituamos anteriormente, a interpretação
metafísica da ciência em Kuhn é aquela que entende que as teorias científicas sejam dotadas
de estruturas explicativas particulares em seu sentido matemático e linguagem, que denotem
sentido de “essência” ou “forma” de maneira semelhante à metafísica aristotélica em sentido
causal. Portanto, essa mudança de mundo implica relação com as estruturas explicativas
relacionadas especificamente ao sentido linguístico: o cientista cria um mundo, cria uma
linguagem e, portanto, podemos perceber que cada mudança de paradigmas está relacionada à
mudança de uma “essência” ou “forma” em sentido linguístico.

2 – Mundo dado pelos objetos: o mundo existe independente do homem, ou seja,


independente do sujeito. Existir “independente” do homem significa que o mundo independe
das relações com homem para ser o mundo. Sobre este termo Hoyningen-Huene afirma: “O
segundo sentido do termo ‘mundo’ no E.R.C é obtido indagando o que resta se todas essas
contribuições humanas forem subtraídas – ou seja, toda aquela estruturação perceptiva e
conceitual do mundo no primeiro sentido.” (2012, p. 77). Com isso, o autor pretende afirmar
que, sendo essa relação do homem com o mundo uma criação humana, se subtrairmos tais
relações teremos um mundo dado pelos objetos: “[...] Então, resta um mundo que é
completamente independente de nossas percepções e concepções, um mundo – podemos dizer
– dado pelos objetos [...]” (2012, p. 77). Hoyningen-Huene pretende afirmar com isso que,
para Kuhn, o mundo é inacessível ao homem: “Entretanto, segundo Kuhn, não temos acesso a
esse mundo dado pelos objetos.” (2012, p. 77).

A interpretação de que não temos acesso ao mundo dado pelos objetos, parece
metafísica ao nosso ver. Pensar que os objetos desse mundo sejam inacessíveis é como pensar
que eles exitem “em si” em um sentido metafísico. Da mesma forma, essa inacessibilidade do
mundo dado pelos objetos faz com que pensemos no seguinte problema: se o homem não
pode acessar ao mundo dado pelos objetos, então o conhecimento científico que o homem tem
do mundo diz respeito ao mundo ou ao próprio homem? A teoria da constituição do mundo
63

seria então uma demonstração do ceticismo45 do Kuhn quanto ao conhecimento científico do


mundo. Para Hoyningen-Huene, a existência de um mundo dados pelos objetos significa que
o próprio conhecimento do mundo seja inacessível ao homem. Embora esse ceticismo de
Kuhn seja um tema oportuno para nossa pesquisa, deixaremos para tratar essa questão em
outra oportunidade, pelo ceticismo se tratar de outro vasto campo de conhecimento filosófico.
Voltemos a pensar a questão da ambiguidade da mudança de mundo em Kuhn, tendo em
mente que, tal ambiguidade é relativa à existência desses dois mundos.

Hoyningen-Huene afirma a ambiguidade na concepção de mundo em Kuhn, pois só se


pode pensar nas revoluções científicas através de um desses mundos, o mundo dado pelo
sujeito ou o mundo das aparências. O mundo dado pelo sujeito pode mudar conforme as
revoluções, mas o mundo dado pelos objetos é fixo, as revoluções não o mudam. Fica claro
para Hoyningen-Huene que, embora mundo seja um termo ambíguo, a mudança de mundo
não seria para Kuhn uma mudança do mundo físico com o qual o conhecemos, seria absurdo
pensar nessa mudança em um sentido literal, por isso a necessidade de interpretar Kuhn pela
concepção de dois mundos. Para tornar claros esses conceitos, podemos tratar os dois mundos
através de conceitos genéricos: o mundo dado pelo sujeito é o mundo do conhecimento
humano, e o mundo dado pelo objeto é a própria natureza do mundo existindo independente
do homem.

Com isso, o cerne de tal teoria é a seguinte pergunta: como o homem enquanto sujeito
racional cria o mundo das aparências? Ou nas palavras do autor: “[...] como os sujeitos do
conhecimento constituem seu mundo de aparências?” (2012, p. 78). Para a resposta de tal
pergunta deve-se retomar ao conceito de comunidade científica em Kuhn, e pensar no acesso
ao mundo das aparências através da visão de um cientista. Desse modo podemos substituir o
termo sujeito de conhecimento por cientista. A pergunta com essa modificação necessária à
análise ficaria então: como o cientista cria o seu mundo das aparências? Através das relações
de similaridade entre o mundo das aparências (mundo dado pelo sujeito), e o mundo dos
objetos. Hoyningen-Huene explica:

Kuhn investiga a constituição do mundo considerando o processo pelo qual


um membro de uma dada cultura acessa ao mundo das aparências que é
característico daquela cultura. Essa cultura pode ser uma dada tradição de

45
Entendemos que esse ceticismo de Kuhn quanto ao conhecimento científico do mundo, pode ser
pontualmente explicado: a ciência pode explicar de forma satisfatória o próprio mundo físico? A
interpretação kuhniana apresentada por Hoyningen-Huene entende que não: o mundo dado pelos
objetos é distinto do mundo dado pelo sujeito, portanto, o conhecimento científico é uma criação
ocasionada pelas relações de similaridade que o cientista encontra entre esses dois mundos.
64

ciência normal, por exemplo. Em outros termos, a questão é: como se


aprende uma estrutura do mundo das aparências historicamente contingente?
O elemento nuclear a ser aprendido para a constituição do mundo consiste em
relações de similaridade que se estabelecem, nos respectivos mundos, entre
os objetos ou as situações que são classificados como similares. (Hoyningen-
Huene, p. 78, 2012).

Hoyningen-Huene classifica em três as formas como se dão as relações de similaridade


entre os dois mundos: a percepção; os conceitos empíricos; e a região respectiva do mundo
das aparências. Em suas palavras: “Tais relações de similaridade são, ao mesmo tempo,
constitutivas para a percepção, constitutivas para alguns conceitos empíricos e constitutivas
para a região respectiva do mundo das aparências.” (2012, p. 78). A percepção está
relacionada à forma como percebemos as coisas pelos dos sentidos, os conceitos empíricos
estão relacionados à forma como conceituamos as classes dos objetos pela experiência, e, a
região respectiva do mundo das aparências é a forma como estruturamos um conceito com a
união entre a percepção e os conceitos empíricos:

Para usar um exemplo de Kuhn: quando se aprende as relações de


similaridade e diferença entre os patos, gansos e cisnes, três coisas
aconteceram de uma só vez. Primeiro, a percepção foi treinada de modo que,
na presença desses seres, patos, gansos e cisnes são efetivamente vistos, e
não somente aves aquáticas indistintas. Se simultaneamente foram
aprendidos os designadores das classes de similaridades respectivas, ou seja,
os termos ‘pato’, ‘ganso’ e ‘cisne’ (em português), então, também foi
aprendido o uso daqueles conceitos. Finalmente, essa região do mundo de
aparências – as aves aquáticas – adquiriu uma certa estrutura; a saber, as
classificações mencionadas. [...] (Hoyningen-Huene, 2012, p. 78)

O exemplo mencionado acima, embora possa parecer simples, pode funcionar da


mesma maneira nas ciências. Entender como criamos o mundo das aparências, a saber – como
“criamos” pato, ganso e cisne sendo eles pertencentes ao outro mundo (mundo dado pelos
objetos) – seria como entender, por exemplo, como criamos determinados conceitos
científicos através das relações de similaridade:

A situação dos conceitos mais teóricos, como os conceitos fundamentais da


ciência, é fortemente análoga à situação mencionada a pouco. Aqueles
conceitos também são aprendidos via certas relações de similaridade,
tipicamente entre situações-problema, e, também neste caso, a respectiva
região do mundo das aparência adquire sua estrutura mediante relações de
similaridade. (HOYNINGEN-HUENE, p. 78, 2012).

Quando há uma mudança de paradigma, ou seja, quando há uma ruptura teórica de


matrizes disciplinares de uma ciência para outra, o cientista faz uma mudança metafísica do
65

mundo dado pelo sujeito, ele altera tais relações de similaridade entre esse mundo e o mundo
dado pelo objeto. Em que sentido podemos perceber as relações de similaridade com relação
à mudança metafísica de mundo dos cientistas? Sendo que o mundo dado pelos objetos não
muda, então somente o mundo dado pelo sujeito pode mudar. Podemos fazer um resumo
dessas noções para facilitar a compreensão dessas mudanças da seguinte forma:

Os dois mundos podem ser pensados metafisicamente em um sentido causal, entretanto


a mudança metafísica de mundo só ocorre no mundo dado pelo sujeito: não alcançamos
conhecimento pleno do mundo (dado pelo objeto), ao tentarmos compreender seus
fenômenos, criamos um mundo (dado pelo sujeito) na medida em que estruturamos os
conceitos referentes a ele. Pela incapacidade de compreendê-lo em sua totalidade criamos um
mundo metafísico – o mundo dado pelo objeto existe “em si”, com isso sugere-se uma
natureza pura com o qual podemos pensá-lo metafisicamente – o cientista cria o
conhecimento científico somente através das relações de similaridade entre esses dois
mundos. Com base nessas conclusões, e, de forma talvez conjectural podemos propor que
essa constituição metafísica desses dois mundos, muito tem a dizer com relação ao
aristotelismo de Kuhn e com relação a causa formal que tratamos interiormente. A mudança
de mundo é uma mudança metafísica em sentido causal, pois, para o cientista, o mundo
adquire outra “essência” ou “forma” no sentido aristotélico que Kuhn empregou em Conceitos
de causa no desenvolvimento da física.

3.4.3 Conclusão: relação da causa formal para com a incomensurabilidade.


Segundo a interpretação kuhniana de Hoyningen-Huene, o cientista é o sujeito que cria
o mundo das aparências, ele busca entender algum fenômeno da natureza através das relações
de similaridade entre o mundo dos objetos e o mundo dado pelo sujeito. As teorias científicas
são criações humanas, e, na medida em que buscam a compreensão de aspectos da natureza,
dizem mais respeito ao “mundo” do homem que à natureza. As mudanças científicas ou
revoluções também são mudanças que dizem respeito a esse “mundo” do homem – o mundo
dado pelo sujeito. A afirmação de Kuhn que quando mudam os paradigmas, muda com eles o
próprio mundo, trata-se ao nosso ver de uma mudança metafísica do mundo, pois, nesse
sentido, a mudança está relacionada a uma “essência” ou “forma” no sentido aristotélico que
Kuhn interpreta. Com isso podemos afirmar que, dentre duas teorias incomensuráveis
separadas por uma mudança ou revolução científica, o cientista cria uma nova estrutura
66

explicativa, com o qual, Kuhn afirma ser possível uma compreensão através das noções
metafísicas de causa formal.

Ao defendermos que, o sentido de metafísica na obra de Kuhn está relacionado à forma


como uma teoria pode ser compreendida, e que sua intepretação metafísica é aquela que
entende que as teorias científicas sejam dotadas de estruturas explicativas particulares em seu
conteúdo matemático e linguístico, que denotem sentido de “essência” ou “forma” de maneira
semelhante à metafísica aristotélica – estamos também, desta forma, interpretando que as
mudanças ou revoluções científicas de Kuhn são mudanças de mundo no sentido de mudanças
de forma: uma mudança metafísica do mundo.

Podemos dizer que a incomensurabilidade entre teorias ocorre, pois, os cientistas de


teorias rivais encontram similaridades diferentes entre os dois mundos. Voltamos à pergunta
central da teoria da constituição do mundo: como o cientista cria seu mundo das aparências
(mundo dado pelo sujeito)? Para Hoyningen-Huene, o exemplo citado na seção anterior (p.
64) dos patos, gansos e cisnes, é análogo à forma como o cientista cria o mundo das
aparências (mundo dado pelo sujeito), a saber, através das relações de similaridade. Neste
sentido, ao observar algo do mundo como um pato, podemos entendê-lo pelas três relações de
similaridade: 1 – Pela nossa percepção podemos vê-lo; 2 – Pelos conceitos empíricos temos
memórias de animais com semelhanças ao pato; 3 – Pela região respectiva do mundo das
aparências associamos nossa percepção (estar vendo o pato) com os conceitos empíricos em
nossa memória, para, desta forma, atribuir a esse ente o conceito “pato”. Como seria então, a
mudança de mundo dos cientistas, de forma a mudar as relações de similaridade?

Poderíamos pensar a partir de outro exemplo: como o cientista pode criar um mundo
“quântico”? Através das relações de similaridade entre o ‘objeto’ quântico (mundo dos
objetos), o cientista cria um mundo (dado pelo sujeito). Tais relações de similaridade
poderiam mudar, por exemplo, se um cientista surgisse com uma teoria rival à teoria quântica,
caso o paradigma desta nova teoria substituísse a vigente, então o cientista estaria em outro
mundo. Para cada diferente “mundo” da ciência, com base nesta pesquisa temos a hipótese de
que cada um deles possa ser explicado por uma causa formal. Portanto, através desses
argumentos ousamos em criar um conceito correspondente: incomensurabilidade formal. As
teorias são incomensuráveis, pois possuem “formas” diferentes no sentido de causa formal
aristotélica.
67
68

4. A RACIONALIDADE CIENTÍFICA EM THOMAS KUHN


Consideramos falar sobre o que entendemos como a racionalidade científica46 em
Thomas Kuhn, pois, entendemos que qualquer análise externalista sobre a ciência como a
nossa possa ter como consequência críticas de irracionalidade científica. Tais pontos de vistas
não condizem com a interpretação que temos da historiografia de Kuhn: entendemos que ela
seja dotada de racionalidade científica. Alberto Cupani comenta: “Ao se defender da acusação
de sustentar uma visão irracionalista da ciência, nosso autor defendeu-se afirmando que as
teorias da racionalidade existentes à época ‘não eram totalmente corretas’[...]” (2013, p. 18).
Nesta perspectiva, Kuhn entendia que o conhecimento acerca da racionalidade é que poderia
estar errado, com isso, Cupani completa: “Necessitava-se ‘reajustá-las ou modifica-las para
explicar por que a ciência opera como opera’. Ou seja: Kuhn reafirmou implicitamente a
convicção de ser a ciência um empreendimento racional.” (2013, p. 18).

Mesmo que concordemos com Cupani, não temos a intenção de neutralizar ou esvaziar
o filósofo da ciência norte-americano de suas críticas debatidas ao longo dos cinquentas anos
da publicação da E.R.C. Tais críticas e debates, a nosso ver, não só foram essenciais47 ao
aperfeiçoamento do sistema filosófico de Kuhn, como também ajudaram a tornar mais clara a
sua visão de racionalidade científica.

Como falamos anteriormente, Kuhn era assumidamente um externalista. Entretanto,


podemos considerar sua abordagem uma posição intermediária entre o internalismo e o
externalismo: “Embora tenham certa autonomia natural, as abordagens interna e externa à
História da Ciência são, de fato, vieses complementares.” (2011, p. 142). Para ele, a
compreensão que a história da ciência deve ter sobre uma ciência deve levar em conta tanto os
aspectos técnicos (internos) como os aspectos que não estejam ligados diretamente a área da
ciência (os externos): a sociologia, a psicologia, a teologia são exemplos. Kuhn completa:
“Até que sejam praticadas desse modo, cada uma extraindo elementos da outra, é improvável
que certos aspectos importantes do desenvolvimento científico sejam compreendidos.” (2011,
p. 142). Ao tratarmos o externalismo de Kuhn – diferente de seus críticos que o acusaram de

46
Conforme explicamos em nota de rodapé na introdução, a racionalidade científica está vinculada à
utilização de critérios por cientistas para sustentar suas deliberações. (2014, p. 4). Tais critérios servem
para ditar escolha de teorias, escolha de valores para as teorias, escolha de procedimentos no
empreendimento científico e determinação de regras para o que seria uma boa ciência.
47
Dizemos que as críticas e debates foram essenciais ao desenvolvimento do sistema filosófico de
Kuhn, pois, muito do que Kuhn escrevera após a publicação da E.R.C foi para responder os seus
críticos. Da mesma forma, ele sempre considerou reformular e aperfeiçoar o que escrevera nessa obra,
pois reconheceu que certo descuido e imprecisão de seus termos foram responsáveis pelos vários
equívocos interpretativos e acusações de irracionalismo.
69

tal abordagem ser irracional48 – temos a intenção de defendê-lo como um conhecimento com
racionalidade científica. Como esclarecemos, entendemos que Kuhn tenha uma interpretação
metafísica (em sentido causal) de algumas ciências, pois, ele demonstra que algumas teorias
como as da física contemporânea49 podem ser entendidas de forma semelhante ao sistema de
causa formal de Aristóteles: elas possuem uma “essência” ou “forma” no sentido aristotélico.
Vale citar novamente Kuhn se referindo a essas teorias: “[...] a estrutura da explicação física é
muito semelhante à desenvolvida por Aristóteles na análise das causas formais. [...]” (2011, p.
52). Queremos demonstrar que essa interpretação de causalidade é um exemplo de
externalismo em Kuhn, pois pensa a relação da ciência com um conhecimento externo à
ciência: um conhecimento metafísico (em sentido causal). Com isso, entendemos que esse
tipo de interpretação possa ser visto como um conhecimento com racionalidade científica,
conforme defenderemos.

Para advogar sobre tal racionalidade a partir dessa relação, antes de tudo, podemos
destacar porque a abordagem externalista, é importante para a compreensão do conhecimento
científico. Kuhn faz uma importante comparação para argumentar que, enquanto internalismo

48
Quanto a essa acusação dos críticos de Kuhn, trata-se de uma irracionalidade científica. Segundo
Tozzini, é uma crítica geral, que está relacionada aos possíveis problemas na E.R.C: ambiguidade,
descritividade, existência de revoluções, incomensurabilidade, base empírica, dogmatismo e referencial
comum e método científico. As críticas à Kuhn mostram que esses possíveis problemas demonstram,
segundo os críticos de Kuhn, uma irracionalidade científica. (2014, p. 51). É oportuno também pensar o
que é irracionalidade sob outra perspectiva, para pensar por que esses possíveis problemas na E.R.C
sejam vistos como uma irracionalidade em Kuhn. Gilles Gaston Granger divide a irracionalidade em
três tipos: o irracional como obstáculo, irracional como recurso e irracional por renúncia. Quanto ao
primeiro: “É no objeto criado – tomado “objeto” no sentido amplo – que aparece então uma oposição às
regras da própria criação, cuja aplicação se torna contraditória e impossível. Mas o cientista jamais se
contenta com essa prova de fracasso; ele continua sua obra [...]” (2002, p. 14). O segundo tipo de
“irracional” Granger explica: “Ele manifesta-se na criação, particularmente na criação artística, quando
as regras são deliberadamente violadas ou abandonadas [...]” (2002, p. 14) O terceiro tipo de
“irracional”, Granger explica: “[...] o irracional por renúncia, ou se quisermos por abandono, é pelo
contrário uma verdadeira recusa do racional. Neste caso, o produtor da obra renega de certo modo o
sistema originário de enquadramento do seu pensamento, e, adotando a contrapartida, dá, sem controle,
livre curso a sua fantasia. Exemplos notórios desse irracional nos serão fornecidos por certas alterações
de um pensamento originariamente criador de saber científico que, em determinado momento, liberta-se
de qualquer controle [...]” (2002, p. 14)
49
Kuhn em Conceitos de causa no desenvolvimento da física cita algumas teorias da física que possam
ser vistas sob uma perspectiva aristotélica de causa formal. Um dos exemplos conforme explicamos em
citação (p. 35) é a mecânica celeste, onde Kuhn considera o movimento de Marte para mostrar que a
explicação de tal fenômeno possui semelhança com as explicações pelas causas formais de Aristóteles.
(2011, p. 50-51) Ele segue citando outras áreas da física com situação semelhante: “Esses exemplos da
mecânica celeste podem ser repetidos em outras áreas da mecânica, na acústica, na eletricidade, na
óptica ou na termodinâmica, tal como se desenvolveram no fim do século XVIII e início do século
XIX.” (2011, p. 51). Também fala sobre o eletromagnetismo: “O campo eletromagnético, como uma
entidade física não mecânica fundamental, cujas propriedades formais são passíveis de descrição apenas
em equações matemáticas [...]” (2011, p. 51).
70

traz uma compreensão reducionista, o externalismo tem a capacidade de ampliar o


entendimento do desenvolvimento científico:

Num grau sem paralelos em outros campos, pode-se compreender o


desenvolvimento de uma especialidade técnica individual sem ir além da
própria literatura da especialidade e da de alguns vizinhos próximos. [...] Não
obstante, a aparente autonomia da abordagem interna é enganadora quanto a
elementos essenciais, e o entusiasmo às vezes empregado em sua defesa
obscureceu alguns problemas importantes. [...] Existem, contudo, outros
aspectos do avanço científico, como sua ocorrência no tempo. Esses aspectos
dependem em nível crítico de fatores salientados pela abordagem externa ao
desenvolvimento científico. Em particular quando as ciências são percebidas
como um grupo que interage, e não como uma coleção de especialidades, os
efeitos cumulativos de fatores externos podem ser decisivos. (Kuhn, 2011,
p.141).

Kuhn fala em ampliação do entendimento do desenvolvimento científico, pois, na


medida em a ciência é percebida por sua relação com outros tipos de conhecimento – ao invés
de ser entendida somente através da análise de “especialidades técnicas individuais” – a
história da ciência é muito mais crítica e ampla. Entendemos dessa forma, que essa ligação
entre a ciência e a metafísica em um sentido causal, que propomos através de nossa
intepretação kuhniana seja possível, na medida em que o próprio Kuhn defende esse
externalismo. Da mesma forma, por ser uma abordagem mais crítica e ampla, nesse sentido
ela também é racional.

Com isso, entendemos que um dos quesitos para uma ciência racional, sob a
perspectiva de Kuhn: para melhor entender a natureza da ciência deve existir um diálogo entre
as ciências e outras áreas de conhecimento não-científicos. O próprio desenvolvimento de
uma ciência é influenciado por fatores externos, como Kuhn afirma: “Tanto o fascínio da
ciência como carreira quanto os diferenciados atrativos dos diversos campos são
condicionados significativamente, por exemplo, por fatores externos a ciência.” (2011 p. 142).
Portanto, se uma área científica tem seu desenvolvimento influenciado por fatores externos,
fica claro que a história da ciência tem que entender de que forma tais fatores influenciam. O
conhecimento científico tem origem e relação com outras áreas de conhecimento, portanto há
como desliga-lo epistemologicamente. Negar a relação do conhecimento metafísico com a
ciência, por exemplo, a nosso ver é negar a própria compreensão das ciências, portanto se há
uma busca da compreensão da natureza da ciência, deve haver necessariamente a busca da
compreensão das outras formas de conhecimento não científicos ligados a ela.
71

4.1 As críticas a Kuhn: definições e considerações


Demonstramos que nossa perspectiva quanto à filosofia da ciência em Kuhn é que ela
possibilite uma visão racional da ciência, bem como tenta demonstrar que Kuhn jamais teve a
intenção de criar um sistema irracional, relativo e subjetivo como alguns de seus críticos
consideraram. Então, após esses resultados, trataremos de discutir alguns dos aspectos com os
quais consideramos racionais na historiografia de Kuhn.

Como citado anteriormente, ao tentarmos advogar certo racionalismo em Kuhn não


temos a intenção de esvaziar ou neutralizar as críticas que o autor recebeu, mas pretendemos
debate-las50, pois, através das próprias críticas podemos seguir um caminho que melhor
demonstre nosso posicionamento. Acreditamos que sem as críticas e sem toda a repercussão e
polêmica envolvidas na publicação da E.R.C, Kuhn não teria sofisticado seu sistema em suas
obras posteriores.

Daniel Lakowski Tozzini soube sistematizar muito bem as principais críticas que Kuhn
recebeu, elaborando através delas o que ele considera ser a racionalidade de Kuhn. Como já
deixamos claro, compartilhamos esse posicionamento de Tozzini e com isso temos a intenção
de debater através de sua obra: Filosofia da ciência de Thomas Kuhn. Conceitos de
racionalidade científica (2014). Logo no capitulo introdutório é comentada a recepção que
Kuhn obteve com a publicação da E.R.C:

[...] O ceticismo em relação à objetividade científica parecia prosperar como


chave de leitura de sua obra. Nela, a impregnação dos fatos pelas teorias é
evidente; a possibilidade de uma linguagem teoricamente neutra para
comparação de teorias é descartada; teorias rivais diferentes são tidas como
incompatíveis e incomensuráveis; na escolha entre teorias rivais, entram em
jogo interesses comunitários; e o poder de persuasão passa a ser um
ingrediente para influenciar a escolha dos demais cientistas. Suas teses lhe
renderam a fama de sustentar uma concepção de ciência interpretada por seus
pares como relativista, irracionalista e subjetivista. (Tozzini, 2014, p. 3)

Tozzini relata biograficamente a insatisfação de Kuhn quanto à recepção da E.R.C:


“Em meio a tantas acusações, Kuhn mostrou-se completamente insatisfeito.” (2014, p. 3). A

50
Debateremos algumas críticas de forma rápida e objetiva, enquanto outras que consideramos
importantes nesse trabalho debateremos de forma mais detalhada, pois tal debate ocuparia muito espaço
nessa pesquisa, nos desviando de nosso foco principal, que é a questão da causalidade em Kuhn.
Portanto, temos a intenção de demonstrar que essa abordagem externalista na filosofia da ciência de
Kuhn, e mais especificamente a interpretação de causalidade de Kuhn seja racional. Nas apresentações
das críticas não detalharemos os autores das mesmas, pois, como foi dito, temos a intenção de tratá-las
de forma rápida e objetiva. Com isso, como já dissemos anteriormente, as críticas de Kuhn tratadas aqui
são as presentes da obra A Crítica e o Crítica e o Desenvolvimento do Conhecimento (1979), através
dos autores: Popper, Feyerabend, Toulmin, Lakatos, Masterman, Watkins e Willians.
72

obra passou a ser amplamente discutida e os críticos o acusavam de irracionalismo científico,


diante essas acusações, Kuhn escreveu em um artigo: "[...] não entendo agora o que meus
críticos querem dizer quando empregam termos como ‘irracional’ e ‘irracionalidade’ para
caracterizar meus pontos de vista.” (1979, p. 325). Ele segue demonstrando sua insatisfação:
“Esses rótulos me parecem meras relíquias, barreiras que impedem uma atividade conjunta,
seja para a discussão, seja para a pesquisa.” (1979, p. 325). Em 1965, no Colóquio
Internacional de Filosofia da Ciência em Londres, as ideias de Kuhn foram ainda mais
debatidas, posteriormente uma das atas deste colóquio viria a ser publicada como A Crítica e
o Desenvolvimento do Conhecimento (1979), obra organizada por dois dos participantes do
colóquio e críticos de Kuhn: Lakatos e Musgrave. Essa obra demonstrou claramente que
Kuhn era tido como um irracionalista51, e que, sua obra seria de certa forma perigosa para a
uma imagem científica tradicionalmente cultivada por autores da filosofia da ciência
internalistas. Entre os principais autores do colóquio, além de Lakatos e Musgrave, Tozzini
cita como os principais: Watkins, Toulmin, Popper, e Feyerabend.

Tozzini sistematizou as críticas a Kuhn presentes nessa obra, de uma forma geral,
como acusações de irracionalidade e subjetivismo científico. Entretanto, ele faz uma
subclassificação em oito tipos de críticas, são elas: a ambiguidade, descritividade,
dogmatismo, método científico, base empírica, existência de revoluções, incomensurabilidade
e racionalidade na ciência normal. Temos a necessidade de expor essas críticas, pois,
necessitaremos delas para utilizar um ponto de defesa sob o que consideramos ser a
racionalidade de Kuhn, bem como demonstrar que através de nossa interpretação desse
aristotelismo Kuhniano podemos encontrar uma perspectiva de racionalidade, e, finalmente,

51
Em diversas passagens do A Crítica encontramos acusação de Kuhn ser um “irracional”. Em um
comentário de John Watkins, por exemplo, ele discute a questão da ciência normal, de modo pejorativo
ele afirma: “[...] por que um autor de um livro excelente sobre a revolução copernicana e de outro livro,
ainda mais famoso, sobre as revoluções científicas em geral, veio a ter uma espécie de aversão
filosófica pelas revoluções científicas? Por que está tão enamorado da laboriosa e não-crítica Ciência
Normal?” (1979, p. 41). Imre Lakatos crítica muitos conceitos da E.R.C, por exemplo as revoluções
como espécie de “conversão”, de forma contundente, também critica Kuhn: “O que me interessa é que
Kuhn, tendo reconhecido o fracasso do justificacionismo e do falseacionismo no proporcionar
explicações racionais do desenvolvimento científico, parece agora recair no irracionalismo. [...] Para
Kuhn a mudança científica – de um ‘paradigma’ a outro – é uma conversão mítica, que não é, nem pode
ser, governada por regras da razão e cai totalmente no reino da psicologia (social) da descoberta. A
mudança científica é uma espécie de mudança religiosa.” (1979, p. 112). Stephen Toulmin crítica
também a questão do “dogma” na prática da ciência normal, da mesma forma que os outros críticos de
Kuhn, afirma de forma provocativa: “[...] embora a sua escolha da palavra ‘dogma’ servisse
perfeitamente no título de um trabalho muito interessante na reunião do Worcester College, bastou um
exame um pouco mais atento para revelar que sua própria efetividade provinha de certo exagero retórico
implícito ou de um jogo de palavras. (Dizer que ‘toda a ciência normal repousa numa base de dogma’
equivalia a dizer ‘somos todos realmente loucos’; o que talvez funcione numa ou noutra ocasião,
mas...)” (1979, p. 50). Comentaremos nas próximas páginas essas críticas.
73

demonstrarmos o conceito de causa formal como uma ferramenta racional de interpretação


científica em Kuhn. Antes analisar as críticas citadas por Tozzini, faremos breves definições
sobre as mesmas, para posteriormente focar nossa análise nas três que consideramos mais
importantes para nossa pesquisa: crítica à ambiguidade, à racionalidade da ciência normal e à
incomensurabilidade.

Crítica à ambiguidade: essa crítica está relacionada ao termo paradigma. Para os


críticos de Kuhn, ele possui múltiplos sentidos: falta objetividade no uso do termo. Trata-se
de uma das críticas mais amplamente produzidas após a publicação da E.R.C. Em
consequência disso, Kuhn foi acusado de irracionalismo. (2014, p. 52). Debateremos mais a
seguir essa crítica na seção crítica à ambiguidade: a racionalidade na matriz disciplinar.

Crítica à descritividade: esta crítica diz respeito à questão dos objetivos da filosofia da
ciência de Kuhn. Antes da publicação da E.R.C, a visão mais tradicionalista era a de que a
filosofia da ciência teria o objetivo de encontrar a normatização das atividades científicas, ou
seja, existem regras que regem o mundo científico, portanto os filósofos da ciência teriam que
se preocupar em entendê-las. Para seus críticos, Kuhn encontraria um grande obstáculo à
imposição de regras na compreensão do desenvolvimento das ciências, portanto sua filosofia
da ciência teria o objetivo de apenas descrever a atividade científica. Pelo fato de Kuhn não
acreditar que haja normas tão claras para o empreendimento científico, logo a própria ciência
supostamente seria interpretada por ele como uma atividade subjetiva e irracional. (2014, p.
52).

As respostas de Kuhn apontadas por Tozzini quanto à crítica da descritividade


consistem no seguinte: a normatização da ciência pretende dizer como a ciência funciona,
enquanto a descritividade pretende dizer apenas como ela é, e não há como separar as duas. A
descrição e o entendimento das regras científicas funcionam melhor quando o filósofo da
ciência sabe unir tais abordagens. O fato de Kuhn não normatizar diretamente as atividades
científicas não significa que ele negue que haja ou que deva existir normatização das ciências.
O seu trabalho consistiu em demonstrar a dificuldade em obter tal normatização diante de
alguns fatores, como a incomensurabilidade entre algumas teorias. A dificuldade que Kuhn
demonstra em se obter uma normatização, a nosso ver não pode ser interpretada com a ideia
de que a ciência seja subjetiva e irracional, mas sim como a demonstração de uma
perplexidade diante da própria complexidade das atividades científicas. Em suma, Kuhn não
74

tinha a intenção de demonstrar que a ciência é subjetiva e irracional, mas sim demonstrar que
a ciência é complexa. (2014, p. 64–68).

Crítica ao dogmatismo: tal crítica incide sobre a questão da prática científica na


ciência normal. Para Kuhn, a prática da ciência normal está marcada por um dogmatismo,
que, em certo sentido foi entendido pelos seus críticos como um dogmatismo que desabone a
objetividade da prática científica, tornando-a praticamente mística ou teológica. Em seu artigo
A função do dogma da investigação científica Kuhn tratara o conceito dogma de forma
abusiva, tendo como consequência a crítica de que descrever a prática científica como
dogmática significaria tratá-la como irracional. (2014, p. 54–55).

As respostas de Kuhn a essas acusações consistem em dizer que, embora o cientista,


enquanto praticante de uma ciência normal esteja rigidamente treinado a seguir certas regras
de seu grupo de forma quase religiosa, o que leva o cientista a segui-las não é como a crença
da atividade religiosa. As matrizes disciplinares estão bem estabelecidas por um grupo
justamente por passarem por um processo de escolha dessas matrizes, portanto, a necessidade
de praticar tais matrizes seria a única forma de tornar as teorias fortes e produtivas. (2014, p.
76–80).

Crítica ao método científico: a visão externalista da história da ciência de Kuhn é


interpretada como irracional, por ele crer que há diferentes métodos para a prática de
diferentes ciências, neste sentido, o entendimento desse aspecto pluralista quanto à
metodologia é visto por seus críticos como um subjetivismo: eles entendem que essa
abordagem é subjetiva por entenderem que o método científico é único, enquanto Kuhn
afirma que, em suma, não há método científico único. (2014, p. 55–56).

Para expor o que é entendido como um equívoco dessa crítica, Tozzini afirma: “[...]
não é verdade que não há método em sentido algum na concepção de ciência de Thomas
Kuhn. Depois de estabelecido o primeiro paradigma há regras e padrões a serem seguidos
pelos membros de comunidade que o detêm [...]” (2014, p. 84). Neste sentido, a crítica quanto
à inexistência de um método em Kuhn, como é demostrado por este comentador, não procede.
A começar pela própria análise do comportamento do cientista na ciência normal, onde Kuhn
supõe haver uma metodologia tão forte, que, por esse motivo os paradigmas podem ser
considerados dogmáticos. Portanto, em nosso entendimento, claramente não procede não
haver metodologia científica na compreensão de Kuhn: ele apresenta extrema importância a
analise da metodologia da ciência normal. Ao afirmar que as metodologias mudam conforme
75

mudam os paradigmas, em nenhuma hipótese Kuhn nega a inexistência da metodologia.


(2014, p. 80–85).

Crítica à base empírica: na visão tradicional da filosofia da ciência, os testes e as


escolhas das teorias são feitos de modo racional, tal racionalidade consiste em que estes testes
e escolhas sejam fundamentados na relação entre teoria e experiência. Kuhn nega que a base
empírica seja um critério definitivo para escolha e testes de teorias, pois, com claros exemplos
na história da ciência ele percebe que em alguns casos, determinadas teorias não possuem
uma base empírica, e, ainda assim, isso não torna tais teorias descartáveis. O mesmo ocorre
com relação à distinção entre uma teoria de uma ciência normal, e sua rival, à que propõe uma
revolução: para Kuhn não há uma base empírica comum entre elas. Não havendo uma relação
objetiva entre teoria e base empírica, logo, trata-se de um subjetivismo e irracionalismo
quanto ao critério de escolhas de teorias. (2014, p. 57–58).

A resposta de Kuhn que podemos apontar, com base nos argumentos de Tozzini, é a
seguinte: entre duas teorias distintas separadas por uma revolução científica, uma única base
empírica é insuficiente para escolha. Neste sentido, a teoria revolucionária não
necessariamente deve ter sua base empírica como critério último para os cientistas optarem
por ela. A afirmação de que as bases empíricas não sejam o suficiente para o cientista escolher
entre duas teorias, para Kuhn não significa que não exista racionalidade nesta escolha. Há
diversos outros fatores para a escolha de teorias com os quais podemos considerar plenamente
racionais, como por exemplo, a opção que os cientistas têm por alguns valores da matriz
disciplinar: precisão, consistência, alcance, simplicidade e fecundidade. (2014, p. 85-93).
Deixaremos para tratar esses valores a seguir na crítica da racionalidade da ciência normal,
então, em suma, como na afirmação de Tozzini: “Não significa, contudo, tal como em outros
casos, que não haja bons motivos para que cientistas escolham entre um e outro paradigma. A
base empírica é somente um deles, e não o único. Isso de maneira alguma torna a ciência um
empreendimento irracional.” (2014, p. 93).

Crítica à existência de revoluções: a existência de revoluções Kuhnianas também foi


criticada, pois, ela supostamente impõe uma mudança radical de uma teoria científica para
outra substituta. Embora as teorias científicas sejam substituídas ou se modifiquem, na visão
dos críticos de Kuhn não há uma ruptura tão drástica, o que ocorre é um aperfeiçoamento
científico, não uma revolução. Portanto, as revoluções como foram propostas por Kuhn
seriam subjetivas, pois, na medida em que as tradições científicas separadas por uma
76

revolução sejam tão distintas, logo não há uma objetividade no progresso das ciências. Deve
haver um critério universal e objetivo que delimite de que forma as ciências mudam. Kuhn
não pode descrevê-lo, com isso, ele estaria entendendo o progresso científico de forma
irracional. (2014, p. 58–59).

Para respondermos a essa crítica, primeiro podemos dizer que Kuhn aborda diversos
tipos de mudanças científicas com as quais ele considera revolucionária, entretanto,
claramente umas podem ser revoluções maiores que as outras. A dificuldade em perceber até
que ponto uma teoria pode ser considerada revolucionária para Kuhn, seria respondida: há
graus de revolução, há diferentes crises, e as revoluções tem significados distintos para aquele
que participa. Ele esclarece:

A essência do problema é que para responder à pergunta ‘normal ou


revolucionária?’ precisamos perguntar primeiro, ‘para quem?’ Às vezes, a
resposta é fácil: a astronomia coperniciana foi uma revolução para todos; o
oxigênio foi uma revolução para químicos, mas não o foi, digamos, para
astrônomos matemáticos, a menos que eles estivessem também interessados
[...] (Kuhn, 1979, p. 311).

As mudanças científicas podem ser consideradas, dentre outras formas, de mudanças


moderadas ou mudanças quase completas, jamais mudanças extremas como os críticos de
Kuhn o interpretaram. Tozzini atribui responsabilidade dessa crítica ao próprio Kuhn, que
utilizou termos fortes como revolução e incomensurabilidade para expressar sua teoria, ele
explica a crítica de Toulmin onde: “[...] se as revoluções fossem rupturas tão completas, não
restaria fundamento racional para avaliar teorias ou para saber se ocorreu ou não evolução do
conhecimento científico.” (2014, p.75). Tozzini entende que o entendimento a revolução
científica em Kuhn não seja uma forma de substituição total de uma ciência para outra, mas
sim uma reconstrução de uma ciência, como afirma Tozzini: “Uma revolução é uma
reconstrução, diferente da visão tradicional que representa somente o acréscimo do
conhecimento.” (2014, p. 76). E é importante frisar que a reconstrução científica não implica
o progresso científico através da acumulação de conhecimento, com o qual Kuhn fora
assumidamente contra: a reconstrução significa uma mudança racional e positiva, tanto que
uma das características da revolução científica foi entendida como mudança de mundo. (2014,
p. 71–76).

Crítica à incomensurabilidade: os críticos de Kuhn defendem que não há


incomensurabilidade entre teorias, pois, mesmo que determinadas teorias sejam um tanto
77

diferentes (como as teorias separadas por uma revolução), ainda assim tem que haver algo
comum entre elas. Como na crítica a existência de revoluções é explicado que não há
mudanças drásticas como as propostas por Kuhn, logo por isso, as teorias rivais não podem
ser tão incomparáveis, sempre haverá algum tipo de comunicação entre elas. Afirmar que as
teorias sejam tão distintas é o mesmo que afirmar que existem várias ciências, o que por si só
foi entendido como um subjetivismo e irracionalismo. (2014, p. 59–61).

Crítica à racionalidade na ciência normal: essa crítica diz respeito à prática da ciência
normal. Os críticos de Kuhn concordaram com sua análise sobre o comportamento do
cientista praticante de uma ciência normal, tal comportamento consiste em estar numa
constante batalha na resolução dos problemas do paradigma de sua comunidade. Sempre
haverá anomalias em teorias científicas, e é racional o cientista estar envolto nas resoluções
destas anomalias. Tais resoluções promovem o aperfeiçoamento das teorias, por isso tal
perspectiva da prática da ciência normal em Kuhn foi entendida como racional. Discutiremos
essa crítica com mais detalhes em uma seção posterior. (2014, p. 61–62).

Tozzini demonstra que, como pano de fundo de todas essas críticas, estão o
irracionalismo e o subjetivismo científico, como tentamos expor acima. É importante ressaltar
que após a publicação da E.R.C, a maior parte dos escritos de Kuhn visava debater essas
críticas através de reformulações de sua própria teoria, como por exemplo, o notável posfácio
escrito e publicado em posteriores edições da E.R.C a partir de 1969. Este posfácio visava
basicamente tratar a crítica à ambiguidade do termo paradigma. As obras A tensão essencial
(2011) e O caminho desde a estrutura (2006) também contém diversos escritos do autor que
tratam essas e outras críticas. Passemos agora a discutir as críticas que consideramos mais
importantes para esta pesquisa.

4.2 Crítica à ambiguidade: a racionalidade na matriz disciplinar.


Consideraremos a seguir crítica à ambiguidade, uma das que mais nos interessa, pois,
como tratamos anteriormente na seção O paradigma e a causalidade, ela indica sobre o
porquê considerarmos a noção de causa formal em Kuhn como um exemplo de abordagem
metafísica em sentido causal, que contenha racionalidade. Kuhn assumidamente reserva parte
da responsabilidade quanto ao conceito de paradigma ser tão ambíguo, logo no início do
posfácio escrito em 1969 ele diz:
78

Este livro foi publicado pela primeira vez há quase sete anos. Nesse intervalo,
graças às reações dos críticos e ao meu trabalho adicional, passei a
compreender melhor numerosas questões que ele apresenta. Quanto ao
fundamental, meu ponto de vista permanece quase sem modificações, mas
agora reconheço aspectos de minha formulação inicial que criaram
dificuldades e mal-entendidos gratuitos. Já que sou responsável por alguns
desses mal-entendidos, sua eliminação me possibilita conquistar um terreno
que servirá de base para uma nova versão do livro. (Kuhn, 2013, p. 279).

Em todo o posfácio, ele tenta reconstruir o paradigma em conceitos mais claros. Ele o
fizera também no artigo Reconsiderações acerca dos paradigmas presente na obra A tensão
essencial, que tratamos anteriormente. Como esclarecemos, neste artigo, ele renomeia o termo
paradigma por matriz disciplinar, e especifica três características da matriz disciplinar que
tornam mais racional e objetivo o conceito de paradigma: as generalizações simbólicas, os
modelos e os exemplares. Tozzini acrescenta outra característica que ele interpretou como
sendo da matriz disciplinar, que também discutiremos posteriormente: os valores.

Quanto às generalizações simbólicas, argumentamos que encontramos um aspecto


metafísico condizente com a noção de causa formal, por esse motivo, por vezes52 nos
referimos a Kuhn como um aristotélico: argumentamos que essas generalizações são
metafísicas, pois, requerem o uso de certas abstrações; podemos considera-las racionais, pois,
elas requerem o uso de símbolos que necessariamente sejam lógicos ou matematizados. Como
explicamos, elas generalizam certos fenômenos da natureza em entes matemáticos e lógicos,
e, ao analisar essas “generalizações”, Kuhn entende que elas sejam semelhantes às
explicações em termos de essência ou causa formal de Aristóteles. Citamos Tozzini para
demonstrar de que forma a causa formal pode estar relacionada com as generalizações
simbólicas:

As generalizações simbólicas são aquelas expressões empregadas sem


discussão ou dissensão, que podem ser facilmente expressas numa forma
lógica. São os componentes mais formais ou mais facilmente formalizados da
matriz disciplinar. (Tozzini, 2014, p. 67).

Fica claro que a expressão “componentes mais formais” ou “mais facilmente


formalizados” empregada por Tozzini e também utilizada por Kuhn, condiz perfeitamente
com a noção de causa formal em Conceitos de causa no desenvolvimento da física. Às

52
Falamos que por vezes podemos nos referir a Kuhn como um aristotélico, pois, ele tem uma
interpretação aristotélica quando analisamos sua concepção de causa formal em Conceitos de causa no
desenvolvimento da física. Portanto, esse “aristotelismo” está restrito a semelhança dessa concepção
com a noção de causa formal e essência de Aristóteles.
79

generalizações simbólicas acreditamos ser improvável não atribuir conceito de racionalidade


científica: determinados exemplos como f=ma são amplamente vistos como racionais no meio
científico. Eles são necessários, na medida em que várias ciências necessitam de determinados
componentes formais que generalizem determinadas normas lógicas de sua comunidade.
Acreditamos que até certo ponto a crítica à ambiguidade a Kuhn foi válida, na medida em que
ele se descuidou em delimitar certos aspectos do paradigma na E.R.C. É claro que ele não
considerava o conceito de paradigma subjetivo e irracional, tanto que se preocupou em se
defender de tais críticas e de explicar novamente o conceito em artigos53 posteriores.

Aos modelos, também compreendemos os aspectos formais da matriz disciplinar que


podem ser interpretados através da causa formal. Eles têm a intenção de formar determinadas
analogias ou metáforas que auxiliem os cientistas nas explicações ou solução de problemas.
Os modelos devem ser considerados racionais, pois, toda comunidade científica necessita de
determinados princípios ou compromissos para a prática da ciência normal. Os princípios e
compromissos para Kuhn são metafísicos, pois necessitam de uma ontologização de
determinados conceitos; são racionais, pois, a exigência para a existência de um modelo é que
ele possua uma estrutura lógica bem formalizada, como o exemplo que citamos (capítulo 3,
seção 3, p. 53) anteriormente: a demonstração da gravidade como consequência da curvatura
espaço-tempo sendo feita com pequenos objetos.

Os exemplares são o tipo de matriz disciplinar que para Kuhn mais se encaixam no
conceito de paradigma, embora não consigamos encaixá-los em um conceito de causalidade
mais objetivo, podemos afirmar o seguinte: eles são ferramentas necessárias para a prática
científica na medida em que servem para a resolução dos problemas de uma comunidade
científica. Ao se pensar em um exemplo de modelo como o que citamos da demonstração da
curvatura espaço-tempo, obrigatoriamente, tais modelos necessitam de exemplares. Os
exemplares neste caso seriam as fórmulas matemáticas ou lógicas que demonstrem
seguramente como justificar ou comprovar a existência de um modelo, então nesse caso, os
exemplares desse exemplo seriam as próprias fórmulas matemáticas que comprovem ou
assegurem a existência da curvatura espaço-tempo como um modelo racional. Portanto,
concluímos disso que os modelos possuem uma relação direta com os exemplares e são
totalmente dependentes.

53
Podemos encontrar uma defesa as acusações de subjetivismo e irracionalidade em alguns artigos de
Kuhn: Posfácio (1969); Lógica da descoberta ou psicologia da pesquisa? (1979); Reflexões sobre os
meus críticos (1979); Reconsiderações acerca dos paradigmas (2011); Racionalidade e escolha de
teorias (2006).
80

Para os exemplares estarem relacionados à solução de problemas concretos, podemos


atribuir o conceito de causa formal a eles na medida em que a sua própria matematização
demonstre certo nível de abstração teórica. Dizemos abstração, pois, determinados aspectos
teóricos de certas teorias científicas só podem ser resolvidos através de sua própria fórmula
matemática, nesse sentido, a solução dos problemas ou os exemplares de uma teoria científica
podem não funcionar em outra teoria, por esse motivo, até certo ponto eles são abstratos.
Retomamos a filosofia de Kuhn para enfatizar essa peculiaridade quanto à matematização dos
exemplares, um pouco das citações a seguir foi utilizado anteriormente, mas vale ressaltar
novamente para demonstrar os aspectos formais dos modelos e exemplares que pretendemos:

O campo eletromagnético, como uma entidade física não mecânica


fundamental, cujas propriedades formais são passíveis de descrição apenas
em equações matemáticas, foi apenas o ponto de entrada para o conceito de
campo na física. O físico contemporâneo reconhece outros campos além
desse, e o número continua rescendo. Na maioria das vezes, são empregados
para explicar fenômenos que ainda não eram reconhecidos no século XIX,
mas em algumas áreas também substituíram as forças a elas reservadas, como
ocorreu no eletromagnetismo. Assim como aconteceu no século XVII, o que
antes era uma explicação deixou de ser. Mas as mudanças não afetaram
apenas os campos, um novo tipo de entidade. A matéria adquiriu
propriedades formais inimagináveis – spin, paridade, estranheza, e assim por
diante -, que só podiam ser descritas em termos matemáticos. (Kuhn, 2011, p.
51-52)

Certos aspectos das teorias científicas como, a forma com o qual os seus problemas são
resolvidos, só podem ser descritos em termos matemáticos próprios. Kuhn entendeu com isso,
que as explicações dos físicos contemporâneos se assemelham muito a noção de causa formal
de Aristóteles:

Todavia, exceto nesses casos, a estrutura da explicação física é muito


semelhante à desenvolvida por Aristóteles na análise das causas formais.
Efeitos são deduzidos de umas poucas propriedades inatas, determinadas nas
entidades de que trata a explicação. O Status lógico dessas propriedades e das
explicações delas deduzidas é o mesmo das formas aristotélicas. Muito uma
vez, a causa na física se tornou causa no sentido amplo, ou seja, na
explicação. (Kuhn, 2011, p. 52)

Ao lermos a obra de Kuhn podemos notar que neste sentido ele é um aristotélico, com
isso, advogamos que seu entendimento acerca da natureza da ciência seja metafísico em
sentido causal. Ao pensarmos nas generalizações simbólicas, modelos e exemplares como
características da matriz disciplinar que possam ser entendidas pela noção de causa formal,
podemos assim afirmar uma visão metafísica de Kuhn. Com base nesses argumentos que
criamos podemos concluir que: as propriedades formais das teorias cientificas são aquelas que
81

só podem ser explicadas metafisicamente. Tais características da matriz disciplinar – as


generalizações simbólicas, os modelos e os exemplares – são ferramentas metafísicas que
criam determinadas propriedades formais das teorias científicas de forma racional, o caráter
lógico e matemático que explicamos anteriormente denota tal racionalidade.

4.3 Crítica à racionalidade da ciência normal: a escolha de valores


Explicamos anteriormente (capítulo 4, seção 1, p. 77) que o entendimento de Kuhn
quanto à ciência normal, de uma forma geral foi bem recebido pelos seus críticos. Portanto,
consideramos tratá-la aqui justamente para potencializar nossa defesa de uma visão racional
da ciência em Kuhn. É explicito que em sua obra que, na prática da ciência normal o cientista
esteja envolto em uma rígida metodologia, tão fechada que Kuhn a considera dogmática 54.
Devemos levar em conta a grande dificuldade no processo de estabelecimento de uma ciência
normal: o progresso científico não é um fenômeno simples para a comunidade científica, não
é qualquer teoria que tenha o potencial para substituição de outra bem estabelecida. Por isso,
devido a grande dificuldade em se obter revoluções científicas, é totalmente justificável que
os cientistas estabeleçam um forte rigor na prática dessa ciência quando ela passar a ser
considerada normal.

Podemos retornar a Hoyningen-Huene para justificar que, o critério de escolha de


teorias justificaria por si só a necessidade de se estabelecer a prática rígida da ciência normal,
afinal, a escolha de teorias é racional:

Para Kuhn, mesmo que uma completa comparação ponto-a-ponto seja


impossível, e mesmo que a comparação teórica jamais atinja a força de uma
prova matemática, ainda é possível uma avaliação de teorias incomensuráveis
no que diz respeito a seus méritos. [...] Ademais, o tipo de avaliação teórico-
comparativa que Kuhn tinha em mente pode ser chamada “racional”, um
modelo de racionalidade meio/fins. É racional escolher teorias com mais
resultados porque elas atendem melhor os objetivos científicos. Essa
propriedade da seleção teórica torna todo o processo da ciência racional e
progressivo. (Hoyningen-Huene, 2012, p. 62)

Hoyningen-Huene entende que a escolha de teorias determina certo grau de


racionalidade em Kuhn e, essa é uma consequência positiva de seu sistema de pensamento

54
Em A Função do Dogma na Investigação científica (2012) Kuhn aborda esta questão. Embora seus
críticos de uma forma geral concordassem com Kuhn quanto à racionalidade na ciência normal, eles
discordavam quanto ao uso do termo “dogmático” que ele utilizava para definir a prática da ciência
normal.
82

referente às comparações entre teorias. Ou seja, se há racionalidade na escolha de uma teoria,


necessariamente a prática dessa teoria deverá ser racional. Embora possamos considerar que a
prática de uma ciência normal – devido à própria dificuldade e critérios racionais de escolha
teórica – seja racional, todas as teorias científicas bem estabelecidas possuem problemas.
Dizer que uma teoria não seja racional por possuir problemas, para Kuhn não faz sentido, pois
a rigidez com o qual a ciência normal estabelece na sua prática científica a fortalece para
resolver tais problemas que a teoria vier a apresentar. Tozzini classificou esse comportamento
do cientista na prática da ciência normal como “Racionalidade científica como resistência do
cientista perante dificuldades” (2014, p. 61). Os problemas ou anomalias estão sempre
presentes na ciência normal, por vezes eles podem ser solucionados, por vezes não. A não
resolução de um problema pode ocasionar o fim da teoria ou não; os problemas nunca são
suficientes para o fim de uma teoria, portanto, mesmo com a existência das anomalias não
resolvidas, a resistência do cientista é racional, como dito por Tozzini:

Dentre todos esses ataques à concepção kuhniana de racionalidade científica,


há também algumas defesas das características do empreendimento científico
defendidas por Kuhn. Elas foram protagonizadas por Lakatos e por
Feyerabend. Lakatos acreditava que o problema da teoria kuhniana estava em
não explicar racionalmente uma revolução. Mas, segundo ele, o
comportamento do cientista normal ao não rejeitar suas teorias frente as
primeiras dificuldades é perfeitamente racional. [...] Os programas de
pesquisa respondem aos resultados negativos em testes de teorias
direcionando-os ao seu cinturão protetor. É uma atitude racional do cientista
tentar preservar seu referencial teórico comum. Afinal, são comuns situações
em que cientistas passem por dificuldades momentâneas e consigam, adiante,
resolver os problemas antes insolúveis. (TOZZINI, 2014, p. 61).

A resistência do cientista perante as dificuldades confere mais uma vez um conceito de


racionalidade científica presente na teoria da ciência normal em Kuhn. Cabe agora acrescentar
outro argumento que tenha relação com o cerne do nosso trabalho, que é a interpretação de
Kuhn quanto à causa formal. Abordamos anteriormente a crítica à ambiguidade (capítulo 4,
seção 2, p. 77-81), e a essa crítica, respondemos com base nos argumentos de Kuhn e de
Tozzini, que, a delimitação de paradigma através do termo matriz disciplinar torna o conceito
de paradigma racional. Relacionamos agora a matriz disciplinar com a prática da ciência
normal.

Dentre as características da matriz disciplinar, Kuhn classifica em três principais que


tratamos anteriormente: generalizações simbólicas, modelos e exemplares. Para essas três
características, vale lembrar que Tozzini acrescenta uma quarta com o qual ele também
considera: os valores. Os valores também são ferramentas dos cientistas, eles têm o intuito de
83

estabelecer preceitos consensuais entre os cientistas de uma determinada teoria científica,


servem para distinguir as características de uma boa teoria científica para uma má, nas
palavras de Kuhn:

Pergunto, antes de tudo: quais são as características de uma boa teoria


científica? Selecionei cinco dentre uma variedade de respostas bastante
comuns, não porque sejam as mais abrangentes, mas porque são
individualmente importantes e, do ponto de vista coletivo, suficientemente
variadas para indicar o que está em questão. (Kuhn, 2011, p. 340)

Uma boa teoria tem que possuir valores, os principais referidos por Kuhn são cinco:
precisão, consistência, alcance, simplicidade e fecundidade. Uma teoria que não contenha
nenhum desses valores, dificilmente pode ser considerada para uma comunidade científica.
Com isso, os valores são importantes por auxiliarem na escolha de teorias, além de delimitar
quais são os critérios teóricos necessários para se manter aquela ciência normal. Kuhn explica
cada um deles da seguinte forma:

Primeiro, uma teoria deve se conformar com precisão à experiência: em seu


domínio, as consequências dedutíveis da teoria devem estar em clara
concordância com os resultados da experiência e da observação existentes.
Segundo, uma teoria deve ser consistente, não apenas internamente ou
autoconsistente, mas também com outras teorias correntes aplicáveis a
aspectos da natureza que lhe são afins. Terceiro, ela deve ter uma extensa
abrangência; em particular, as consequências da teoria devem ir muito além
das observações, leis ou subteorias particulares cuja explicação motivou sua
formulação. Quarto, e fortemente relacionado, ela deve ser simples, levando
ordem a fenômenos que, em sua ausência, permaneceriam individualmente
isolados e coletivamente confusos. Quinto – um item um pouco incomum,
mas de importância crucial para as decisões científicas efetivas –, uma teoria
deve ser fértil em novos achados de pesquisa, deve abrir portas para novos
fenômenos ou relações antes ignoradas entre fenômenos já conhecidos.
(Kuhn, 2011, p. 340- 341)

Se Kuhn classifica os valores em cinco, pensa-se nos seguintes problemas: pode uma
teoria possuir todos esses valores simultaneamente? Apenas um só valor pode sustentar a
racionalidade de uma teoria? A resposta para as duas perguntas é claramente não. Tozzini
comenta sobre tais problemas quanto aos valores:

Em primeiro lugar, quando aplicados individualmente, são imprecisos. Cada


indivíduo que os aplica pode interpretá-los de maneiras distintas. O que é
simples para um cientista pode não ser para outro. Um pode preferir
simplicidade quantitativa, e outro, qualitativa, por exemplo. Em segundo
lugar, quando os valores são aplicados em conjunto, eles podem entrar em
conflito. Uma teoria pode ter maior precisão e ser menos abrangente. No
mesmo momento, sua rival pode ter características opostas. Ela pode ter
menor precisão e ser mais abrangente. Dependendo de cada área do
conhecimento um ou outro valor tem maior importância ou maior peso.
84

Alguns cientistas tem preferência pela originalidade, outros preferem teorias


mais compreensivas, por exemplo. (Tozzini, 2014, p.106).

Por que a escolha de valores para uma teoria científica é tão complexa? Em nossa
perspectiva isso ocorre, pois, os valores são metafísicos em sentido causal. Dizemos que são
metafísicos, pois, não há como todos eles serem compatíveis com todas as ciências possíveis.
Caso os valores fossem tão objetivos, todas as teorias possuiriam os mesmos valores.
Percebemos com isso, que em alguns casos, os valores podem ser subjetivos, na medida em
que podem ser diferentes de uma teoria para outra. E também podem ser objetivos, na medida
em que são determinantes para a prática de uma ciência normal. Pensemos em um exemplo: a
teoria da evolução de Darwin possui o valor de abrangência, a aplicação da teoria atinge uma
enorme quantidade de fenômenos evolutivos na natureza, portanto tal valor confere
objetivismo à prática dessa teoria enquanto ciência normal. O valor de abrangência para a
teoria da evolução de Darwin confere objetivismo científico na medida em que, enquanto
aplicada, é fértil, ou seja, traz sempre o fortalecimento da teoria através de novas pesquisas
com base nesse valor.

Analisemos assim o porquê dos valores poderem ser considerados metafísicos em


sentido causal. Nas atividades de ciência normal, os cientistas necessitam estabelecer uma
certa formalidade para prática da ciência normal. Essa formalidade é a criação de um
paradigma, dizemos que esse paradigma é uma estrutura formal condizente com a noção de
causa formal de Aristóteles. Através da compreensão das generalizações simbólicas, modelos,
exemplares e valores, explicamos de que forma elas podem se encaixar nessa interpretação
aristotélica de Kuhn. Propomos que os paradigmas também podem ser considerados
metafísicos por possuírem valores metafísicos no sentido de causa formal. Como os valores
são diferentes de uma teoria para outra, eles demonstram também a incomensurabilidade
dessas teorias.

Como argumentamos (capítulo 3) sobre as relações da incomensurabilidade com a


causalidade, as estruturas explicativas das teorias se tornam incomensuráveis na medida em
que possuem paradigmas diferentes. Os valores (precisão, consistência, alcance, simplicidade,
fecundidade) podem ser entendidos como um tipo de matriz disciplinar, ou seja, como um
paradigma. Portanto, podem determinar, também, a incomensurabilidade de teorias. Quanto
às estruturas explicativas dessas teorias, Kuhn afirma ser possível entendermos elas como
explicações semelhantes às de Aristóteles na análise das causas formais, neste sentido, a causa
85

formal de uma teoria mostra como é a “essência” de um fenômeno da natureza através das
explicações. Com isso, os valores também podem denominar as essências: Aristóteles
concebia a causa formal para determinar a essência das coisas, e, de forma análoga, os
cientistas concebem as explicações (também através dos valores) em estruturas matemáticas e
conceituais que explicam tais coisas (fenômenos).

Na metafísica de Aristóteles temos a clássica definição de que a filosofia é a busca dos


princípios e causas (1973, p. 211-213). A compreensão da natureza e das coisas é causal para
Aristóteles, da mesma forma que a compreensão das explicações nas ciências físicas também
é causal para Kuhn, mas em um sentido restrito à causa formal: “[...] a estrutura da explicação
física é muito semelhante à desenvolvida por Aristóteles na análise das causas formais.”
(2011, p. 52). Completa explicando essa “formalização” sobre as explicações científicas:
“Efeitos são deduzidos de umas poucas propriedades inatas, determinadas nas entidades de
que trata a explicação. O status lógico dessas propriedades e das explicações delas deduzidas
é o mesmo das formas aristotélicas.” (2011, p. 52). Vale relembrar algo dito por Aristóteles
que nos remeta a causa formal: “E esta – a forma – é a natureza mais do que a matéria, pois
cada coisa encontra sua denominação quando é efetivamente, mais do que quando é em
potência.” (2013, p. 45).

Ao afirmar que a natureza é definida mais pela forma do que pela matéria, Aristóteles
estava na verdade enfatizando o que comentamos anteriormente: as ciências teoréticas são as
superiores. Explicando de forma mais clara: as melhores ciências são aquelas mais vinculadas
à teoria do que a prática, ou seja, a melhor forma de se entender a natureza é através de seu
aspecto mais prontamente formalizável (teorético). Embora em nossas ciências atuais, essa
ideia aristotélica de que as ciências teóricas são superiores não seja aceita, entendemos que
Kuhn oferece clara importância aos aspectos formais das teorias. Então, mesmo entendendo
que o aspecto formal para se compreender a natureza em Aristóteles seja um pouco diferente
do aspecto formal para se compreender a natureza da ciência em Kuhn, ambas as ideias de
causalidade são metafísicas em sentido causal. Portanto, que o paradigma de uma teoria possa
ser visto como a causa formal de uma teoria se torna claro para nós, também, na medida em
que os valores (precisão, consistência, alcance, simplicidade, fecundidade) das matrizes
disciplinares sejam formais, ou seja, metafísicos quando pensados sob a perspectiva de uma
essência.
86

A metafísica em sentido causal que interpretamos em Kuhn pode ser considerada


racional, pois dá importância ao sistema de escolha de valores da ciência normal. Podemos
entender que as teorias científicas sejam dotadas de estruturas explicativas particulares em seu
conteúdo matemático e linguagem, e que elas denotam sentido de “essência” ou “forma” da
maneira semelhante à metafísica causal aristotélica, e que são escolhidas ou criadas de acordo
com a escolha racional dos cientistas através dos valores.

4.4 Crítica à incomensurabilidade: a racionalidade nas mudanças das teorias.


Em um dos capítulos anteriores (capítulo 3, seção 4) apresentamos o conceito de
incomensurabilidade em Kuhn como a incompatibilidade entre duas teorias científicas com
paradigmas diferentes, ou seja, separadas por uma revolução científica. Enfatizamos que a
noção de incomensurabilidade é importante na filosofia da ciência de Kuhn, pois está ligada
ao conceito de paradigma, portanto, para uma melhor compreensão de sua historiografia, é
necessário entender a relação entre esses dois conceitos.

Kuhn utiliza o termo matriz disciplinar para tornar mais claro e objetivo o conceito de
paradigma, são as matrizes disciplinares: generalizações simbólicas, modelos, exemplares e
valores. Entendemos que elas contenham relação com a interpretação que Kuhn tem com a
causa formal: elas apresentam sentido metafísico, pois são interpretadas em sentido
semelhante às noções de essência e forma de Aristóteles. Defendemos essa semelhança, pois,
na intepretação de Kuhn da causa formal, ele entende que as teorias científicas sejam dotadas
de estruturas explicativas particulares quanto ao seu conteúdo matemático e linguístico: essa
matematização, bem como a formação de um sistema linguístico (conceitual), são
particulares, pois são incompatíveis de uma teoria para outra, ou seja, são incomensuráveis.
Para ser claro: as fórmulas ou explicações matemáticas de uma teoria, não podem ser
totalmente aplicáveis à outra teoria incomensurável, da mesma forma, através dos conceitos
de uma teoria, não é possível formular completamente a outra. Explica Hoyningen-Huene
que: “Kuhn notou que tais tipos de diferenças conceituais eram indicadores de rupturas entre
diferentes modos de pensar [...]” (2012, p. 51). Completa afirmando: “[...] a
incomensurabilidade caracteriza a relação entre duas tradições científicas separadas por uma
revolução científica [...]” (2012, p. 51).

Na medida em que teorias científicas são incomensuráveis, Kuhn propôs entendê-las


através da noção de causa formal de Aristóteles. Hoyningen-Huene reconhece a influência de
87

Aristóteles na teoria de Kuhn. Ele afirmou que o contato de Kuhn com a física de Aristóteles
fez com que ele despertasse um interesse pela história da ciência, onde o foco maior seria a
questão dos progressos ou mudanças nas teorias científicas. A sua visão sobre a ruptura entre
a física aristotélica e a moderna, teria influenciado a criação de seus conceitos, sendo
paradigma e incomensurabilidade os principais deles. Ao notar a incompatibilidade entre a
física aristotélica e a moderna, Kuhn se interessou em entendê-la melhor, e posteriormente
enfatizou que os progressos ou mudanças das teorias são marcados por essa incompatibilidade
que ele chamou de incomensurabilidade, e, entender a natureza dessas mudanças nos ajuda a
demonstrar porque consideramos a incomensurabilidade de Kuhn uma teoria racional.
Hoyningen-Huene classificou essas mudanças em três: mudança nos problemas, mudança nos
métodos e conceitos e mudança do mundo. Através da compreensão de que as teorias sejam
incomensuráveis, podemos argumentar que esses três tipos de mudanças marcados pela
incomensurabilidade demonstrem essa racionalidade.

4.4.1 Racionalidade quanto à mudança nos problemas.


Quando ocorre a substituição de uma teoria científica, é perceptível que ocorram esses
três tipos de mudança. Em uma teoria é normal a prática da resolução de problemas, os
cientistas se ocupam em solucionar imprecisões, anomalias ou contradições. Essa resolução é
uma das características que marcam a prática da ciência normal, ela indica que, quanto mais
os cientistas conseguem resolver os problemas de sua teoria, mais o seu paradigma é racional.
Quando ocorre a substituição dessa teoria, essas imprecisões, anomalias ou contradições não
mais existirão. Portanto, a teoria substituta tem uma mudança nos problemas neste sentido:
ela terá problemas diferentes a serem resolvidos. (Hoyningen-Huene, 2012, p. 52).

Argumentamos assim, que a concepção de Kuhn quanto ao processo de mudança dos


problemas e a substituição das teorias, indique uma compreensão racional do autor em sua
filosofia da ciência: a mudança de paradigma. A escolha de um novo paradigma ocasionará a
capacidade do cientista em resolver novos problemas, portanto, a exigência de Kuhn quanto a
essa escolha, está relacionada à racionalidade: a criação de uma nova teoria substituta e a
capacidade de resolução de novos problemas exige racionalidade do cientista. Tozzini afirma:
“Em ‘A resolução das Revoluções’, Kuhn sugere quatro itens principais que levam um
cientista ao que ele chama de conversão. Os três primeiros são baseados, principalmente, na
comparação entre a habilidade dos competidores para resolver problemas.” (2014, p. 104).
88

Ao tratar as respostas de Kuhn quanto às criticas de irracionalismo na


incomensurabilidade, Tozzini escreve que a ideia sobre a habilidade dos cientistas na
resolução dos problemas indique justamente o contrário: uma compreensão racionalista. Sobre
os argumentos de Kuhn que enfatizem essa racionalidade Tozzini coloca:

Em primeiro lugar, segundo Kuhn, resolver o problema que gerou a crise é o


argumento, normalmente mais eficaz de todos. Em segundo lugar, apesar de
eficaz, raramente somente o fato de resolver o problema que gerou a crise é
suficiente por si só. Desse modo, solucionar mais e melhor os mesmos
problemas que o rival também é um desiderato, ou seja, ter maior precisão
quantitativa é um fator influenciador. Em terceiro lugar, Kuhn sustenta que a
capacidade de predizer fenômenos totalmente insuspeitados é outro ponto
relacionado à habilidade de resolver problemas que influenciam na decisão
de um cientista. (Tozzini, 2014, p. 104)

Em decorrência da mudança dos problemas, quando há substituição de uma teoria para


outra, também deve haver mudança nos métodos e conceitos: a partir do momento em que o
cientista passa a se preocupar com resolução de novos problemas, é necessária a utilização de
novos métodos e conceitos para resolvê-los.

4.4.2 Racionalidade na mudança dos métodos e conceitos.


Nas mudanças de teorias incomensuráveis, os métodos e conceitos antigos não podem
assimilar totalmente a nova teoria, eles serão insuficientes ou contraditórios, com isso, uma
nova teoria requer o desenvolvimento de novas habilidades do cientista. O uso da linguagem e
a matematização estão relacionados a essas mudanças de método e conceito, quanto ao
processo de mudança de linguagem, podemos repetir o comentário de Hoyningen-Huene:
“Para dominar ambas as teorias, é preciso, em certo sentido, tornar-se bilíngue. E, mesmo
assim, não somos capazes de traduzir uma teoria na linguagem de outra teoria, pois ser
bilíngue não é o mesmo que o possuir a habilidade de traduzir.” (2014, p. 37). Neste sentido, a
incomensurabilidade relacionada ao uso da linguagem é análoga a essa situação de duas
línguas intraduzíveis: aprender uma nova teoria é como aprender uma nova língua.

Se a mudança de conceito está relacionada ao uso da linguagem, a mudança de método


está mais relacionada à matematização que ocorre entre teorias incomensuráveis. Na medida
em que as fórmulas ou explicações matemáticas de uma teoria não podem ser totalmente
aplicáveis à outra, elas se tornam incomensuráveis. Kuhn explica que isso passou a ser
comum a partir da física do séc. XIX, onde ele afirma que: “À medida que o campo se
89

matematizava, a explicação dependia cada vez mais da apresentação de formas apropriadas e


da derivação de suas consequências.” (2011, p. 50). As estruturas explicativas se tornavam
incomensuráveis, pois, cada teoria possuía uma matemática diferente, Kuhn completa:
“Impelido a explicar um fenômeno natural específico, o físico escrevia uma equação
diferencial apropriada e dela deduzia, talvez em conjunto com condições de contorno
especificadas, o fenômeno em questão.” (2011, p. 50).

Por notar que a mudança de métodos e conceitos esteja relacionada à criação de uma
nova estrutura matemática e linguística (conceitual), nesse sentido, particulares pela sua
incomensurabilidade para com um paradigma anterior, podemos perguntar: onde encontrar
racionalidade científica quanto a questão de mudança? A racionalidade está relacionada à
escolha de valores: a utilização de valores é uma escolha racional. O conceito de
incomensurabilidade foi entendido como irracionalista, pois os críticos de Kuhn entenderam
que ele implique total incompatibilidade conceitual e matemática entre teorias rivais, o que
demonstra um entendimento de que há subjetividade entre teorias científicas. Tozzini
comenta:

“De acordo com Toulmin, a ideia de revolução científica de Kuhn sugere


rupturas completas com a tradição. Não há um mecanismo racional nessa
transição. A diferença entre um e outro paradigma é tão grande que cientistas
defensores de teorias rivais não podem dialogar.” (Tozzini, 2014, p.60).

Da mesma forma que Toulmin, Watkins e Scheffler também entenderam que a


incomensurabilidade de Kuhn fosse total, Tozzini comenta: “De acordo com Watkins, se dois
paradigmas são incompatíveis, além de incomensuráveis, como defende Kuhn, eles deveriam
possuir algo em comum.” (2014, p. 60). Continua Tozzini: “[...] Scheffler diz que só se pode
falar em rivalidade caso se assuma algo em comum entre as partes em competição. Caso
fossem irrestritamente diversos, não estariam em competição.” (2014, p. 60). Tozzini
argumenta que o conceito da incomensurabilidade não pode ser considerado irracional, pois
Kuhn não descreve uma incomensurabilidade total como afirmaram seus críticos, mas sim
uma incompatibilidade parcial entre teorias separadas por revoluções: elas são incompatíveis
parcialmente quanto ao uso da linguagem e quanto a sua estrutura matemática. Da mesma
forma, Tozzini entende que a incomensurabilidade de Kuhn denote aspectos de racionalidade
científica, pois a mudança dos métodos e conceitos requer um exercício de racionalidade
científica, o cientista tem critérios para a escolha dos novos métodos e conceitos, que como
90

escrevemos, são os valores: um novo paradigma deve possuir valores bem estabelecidos que
sirvam para explicar satisfatoriamente a nova teoria.

Como escrevemos anteriormente, os valores para a escolha de teorias são cinco:


precisão, consistência, alcance, simplicidade e fecundidade. Com isso, entendemos que a
mudança de métodos e conceitos e a relação com a mudança das estruturas explicativas
matemáticas e linguagem esteja relacionada à racionalidade da escolha desses valores.
Tozzini escreve, por exemplo, sobre a escolha do valor de precisão: “Um exemplo é a
crescente importância da precisão quantitativa que houve durante os séculos XVII e XVIII,
antes pouco estimada.” (2014, p. 107). Nas teorias desse período, quanto à estrutura
matemática, boa parte dos cientistas optou pelo valor de precisão quantitativa, e essa escolha
se torna racional, pois é amplamente discutida entre os cientistas, como afirma Tozzini:

[...] cientistas não discutem sobre gostos pessoais ao decidirem sobre a


escolha entre paradigmas. Eles julgam sobre as razões que os levam a preferir
um ou outro. É uma diferença, segundo Kuhn, que vem desde Kant. Os
motivos ou juízos que levam um cientista a preferir um paradigma a outro
podem e devem ser discutidos. Segundo Kuhn, “esses juízos são
eminentemente discutíveis, e quem se recusar a discutir o seu próprio juízo
não pode esperar ser levado a sério”. (Tozzini, 2014, p. 107)

Das razões que levam os cientistas a escolha de paradigmas, em suma, de valores,


podemos entender que estejam relacionadas a um julgamento racional das escolhas. Os
cientistas podem optar pelo valor do alcance, por exemplo, na medida em que os conceitos
científicos devam se estender para além das observações; e na consistência, na medida em que
devem ser aplicáveis a aspectos relacionados da natureza. Essas são escolhas racionais, pois
dificilmente um conceito fraco ou mal elaborado atingiria uma abrangência explicativa sobre
a natureza daquela teoria, além de não conseguir essa aplicabilidade aos aspectos da natureza.
Então nesse sentido, escolher um valor requer escolher uma boa teoria, na medida em que ela
funcione de acordo com os critérios desses valores.

4.4.3 Racionalidade na concepção de mudança de mundo.


Chegamos assim nas considerações quanto ao último tipo de mudança marcada pela
incomensurabilidade, a mudança de mundo. Dedicamos as subseções 4.2 e 4.3 do capítulo 3 à
questão da interpretação que Hoyningen-Huene tem de Kuhn quanto à mudança de mundo, o
autor cria uma teoria explicativa sobre essa questão: teoria da constituição do mundo. Na
91

E.R.C Kuhn afirmou que, quando mudam os paradigmas, muda com eles o próprio mundo
(2013, p. 201). Essa afirmação foi descrita por Hoyningen-Huene como controversa, uma vez
que não fica claro o significado do termo “mundo”, ocasionando assim uma impressão de
subjetivismo, uma vez que essa afirmação pode ser interpretada como uma metáfora. Ele se
pergunta: “O que quer dizer o mundo muda com uma revolução? O uso do termo ‘mundo’
aqui é apenas metafórico? Ou neste caso ‘mundo’ significa, de fato, realidade, no sentido de
uma realidade objetiva?” (2012, p. 76).

Embora tenha admitido a controvérsia dessa afirmação, Hoyningen-Huene reconhece


que Kuhn não pretendia afirmar que as mudanças de mundo fossem um aspecto obscuro em
sua compreensão da história da ciência, mas sim que há uma urgência em analisa-las.
Portanto, em sua interpretação, quando mudam os paradigmas, mudam, na verdade, essas
concepções. Ele afirma:

“Mas como uma realidade poderia mudar com e através de algo que acontece
exclusivamente nas cabeças de um grupo de cientistas? Essas questões não
são respondidas no ERC; todavia Kuhn viu claramente a urgência delas
naquele escrito.” (Hoyningen-Huene, 2012, p. 76).

Para entender em que sentido Kuhn entende a mudança nas concepções de mundo dos
cientistas, Hoynigen-Huene explica a teoria da constituição do mundo. Nessa teoria, “mundo”
é dividido sob dois tipos: o mundo dado pelo sujeito e o mundo dado pelos objetos. No
mundo dado pelo sujeito, o próprio cientista é sujeito, nesse sentido, é ele quem cria o mundo.
Através de suas explicações, concepções e teorias, o cientista tem a capacidade de criar,
portanto, o novo “mundo”, que neste sentido é um novo conhecimento: os cientistas criam
novas estruturas explicativas através de novos conceitos ou explicações matemáticas.
Podemos repetir a seguinte passagem onde Hoyningen-Huene explica esse tipo de mundo:

“Podemos perceber e descrever tal mundo [...] Esse mundo possui uma certa
estrutura conceitual [...] Kuhn teve a impressão – no curso de suas pesquisas
sobre história da ciência – de que esses conceitos são de origem humana ou
seja, nós impomos uma estrutura ao mundo por meio desses conceitos, e que
nós não retiramos esses conceitos do próprio mundo [...].” (Hoyningen-
Huene, 2012, p. 77).

Quanto ao outro – o mundo dado pelos objetos – é o mundo físico e natural que existe
independente do homem, neste sentido, ele não é totalmente acessível ao homem. Nas
revoluções científicas, a mudança de mundo está relacionada somente ao mundo dado pelo
sujeito, o mundo dado pelo objeto – que é a própria natureza – não muda. Hoyningen-Huene
92

explica que: “[...] se todas as contribuições humanas forem subtraídas – ou seja, toda aquela
estruturação perceptiva e conceitual do mundo no primeiro sentido. Então, resta um mundo
que é completamente independente de nossas percepções e concepções [...].” (2012, p. 77). A
divisão de mundo em dois tipos implica que as teorias científicas sejam criações humanas:
uma teoria científica tem mais a ver com o homem do que com a natureza, pois é a própria
forma como o cientista interpreta a natureza, ou seja, sua visão de mundo. Hoyningen-Huene
entende que essa interpretação se dá através das relações de similaridade55 entre o mundo
dado pelo sujeito com o dado pelos objetos. O cientista tem que encontrar tais similaridades
entre os dois mundos, pois através delas é que se pode construir uma estrutura teórica racional
para a teoria. Sobre isso, Hoyningen-Huene coloca:

Ainda que não seja possível impor toda e qualquer estrutura ao mundo, é
certo que mais de uma é possível. A mudança histórica dessas estruturas
conceituais mostra isso. Portanto, conforme Kuhn frisa em ERC, paradigmas
– independemente do que sejam – são constitutivos de um mundo perpectual
e conceitualmente subdividido. (ERC, p. 145, 161). Dito com uma
terminologia mais tradicional: os sujeitos do conhecimento contribuem para a
constituição dos objetos do conhecimento (por meio dos paradigmas –
independentemente do que sejam), na medida em que eles estruturam o
mundo desses objetos. (Hoyningen-Huene, 2012, p 77).

Como explicado na citação, não é possível “impor toda e qualquer estrutura” ao


mundo, com isso, entende-se que há uma exigência para a constituição do conhecimento uma
vez que o cientista não pode impor qualquer estrutura teórica que explique os fenômenos da
natureza. Podemos encontrar assim, mais um aspecto de racionalidade científica, no que diz
respeito à forma como Kuhn interpreta as mudanças de teorias científicas marcadas pela
incomensurabilidade: a criação de um novo conhecimento através das relações de
similaridade entre os dois mundos. Como enfatiza Hoyningen-Huene:

É um traço característico da revolução científica mudar algumas relações de


similaridade e diferença constitutivas dos vocabulários relevantes. Pense, por
exemplo, na revolução copernicana, na qual a similaridade ptolomaica entre
Marte e Sol – ambos planetas orbitando a Terra – é substituída por uma
enorme diferença entre eles. (Hoyningen-Huene, 2012, p. 80).

55
Explicamos anteriormente que para Hoyningen-Huene, a forma como os cientistas encontram as
relações de similaridade entre os dois mundos são três: através da percepção, dos conceitos empíricos e
da região respectiva do mundo das aparências. No processo de mudança de paradigma, o cientista muda
o mundo dado pelo sujeito: através da forma como ele utiliza os sentidos para entender a teoria
(percepção), através da forma como ele cria as classes de conceitos da teoria pela experiência (conceitos
empíricos), e, através da forma como ele estrutura a teoria pela união entre a percepção e os conceitos
empíricos (região respectiva do mundo das aparências). (2012, p. 77-80).
93

Sendo que o mundo dado pelos objetos é inacessível, e que não é possível “impor”
qualquer tipo de estrutura ao mundo, o cientista deve criar de forma satisfatória, ou seja,
racional, o estabelecimento da conexão entre os dois mundos: na mudança do mundo dado
pelo sujeito, ocasionada pela mudança de paradigma, o cientista deve estabelecer uma
estrutura formal para a nova teoria científica, como escreve Kuhn:

[...] em períodos de revolução, quando a tradição científica normal muda, a


percepção que o cientista tem de seu meio ambiente deve ser reeducada –
deve aprendera ver uma nova forma (gestalt) em algumas situações com as
quais já está familiarizado. (Kuhn, 2013, p. 202).

Isso significa que a matriz disciplinar, ou seja, toda a estrutura conceitual e


matemática, só é racional se tiver um ponto de contato (similaridade) entre os dois mundos, de
forma mais clara: uma equação matemática de uma teoria, por exemplo, é satisfatória quando
seu alcance teórico tenha algo concreto a dizer sobre a natureza. Em suma, uma matriz
disciplinar deve ser elaborada através de teoria, mas essa teoria necessariamente deve estar
relacionada à natureza, seja através de seu poder explicativo, sua previsibilidade ou
fecundidade.

As relações de similaridade entre esses dois mundos podem ajudar na compreensão da


importância dos valores científicos para as teorias: precisão, consistência, alcance,
simplicidade e fecundidade, para Kuhn devem ser considerados, pois, através deles se podem
estabelecer as relações de similaridade. No valor de precisão, as relações se dão, pois, as
consequências dedutíveis da teoria devem estar de acordo com as experimentações, como por
exemplo: da equação matemática de uma teoria se deve deduzir como se movimenta um
objeto da natureza. Da mesma forma, a teoria possui previsibilidade, pois sua estrutura teórica
pode prever fenômenos da natureza; possui fecundidade, pois tem a capacidade de ampliar os
horizontes da pesquisa científica, entendendo questões antes não explicadas, descobrindo
novos fenômenos da natureza. Fica claro que os valores científicos são características de uma
boa teoria científica, pois estabelecem esse contato entre a teoria com a natureza, ou seja,
entre o mundo dado pelo sujeito e o mundo dado pelo objeto.

A mudança de mundo significa uma mudança na forma como o cientista estabelece


essas relações de similaridade entre natureza e teoria. Quando muda um paradigma, também
muda a forma como o cientista explica o mundo em seus aspectos teóricos, sejam eles
matemáticos ou conceituais. Essa concepção de Kuhn é racional, pois, ele entende que uma
nova teoria só será aceita se o cientista souber estruturar de forma satisfatória as novas
94

relações de similaridade entre esses mundos. Essa estruturação também implica uma escolha
racional entre as teorias: mudar sua visão de mundo é a consequência da própria mudança de
paradigma, pois, se os cientistas escolhem os melhores paradigmas, o “novo” mundo é uma
consequência dessa escolha, como escreveu Kuhn: “[...] as mudanças de paradigma realmente
levam os cientistas a ver o mundo definido por seus compromissos de pesquisa de uma
maneira diferente.” (2013, p. 202). E consequência dessa maneira diferente de ver o mundo,
os cientistas coletam diferentes dados, como afirma Kuhn: “[...] os dados que os cientistas
coletam a partir desses diversos objetos são, como veremos em breve, diferentes em si
mesmos.” (2013, p. 214). Kuhn explica as diferenças estruturais das mudanças de mundo pelo
exemplo do pêndulo56:

Para aprendermos mais a respeito do que podem ser essas diferenças,


retornemos por um momento a Aristóteles, Galileu e o pêndulo. Que dados
foram colocados ao alcance de cada um deles para interação de seus
diferentes paradigmas e seu ambiente comum? Ao ver uma queda forçada, o
aristotélico mediria (ou pelo menos discutiria – o aristotélico raramente
media) o peso da pedra, a altura vertical à qual ela forma elevada e o tempo
necessário para alcançar o repouso. [...] Galileu viu a pedra oscilante de
forma absolutamente diversa. [...] Por isso, ele media apenas o peso, o raio, o
deslocamento angular e o tempo por oscilação [...]. (Kuhn, 2013, p. 216-217).

Quanto a esses dados, percebem-se diferenças matemáticas ou conceituais, portanto


estão relacionados às matrizes disciplinares: as generalizações simbólicas, modelos,
exemplares são construídos ou escolhidos de acordo com os valores, e uma boa teoria
científica é aquela em que sua estrutura matemática e conceitual estabeleça de forma
satisfatória essas relações entre a natureza e a teoria. Somente quando fundamentada por
valores uma matriz disciplinar pode ser racional. Como no exemplo acima citado por Kuhn, a
teoria dos pêndulos do Galileu mostra em que sentido a escolha de um paradigma entre teorias
incomensuráveis é racional, e consequentemente, a mudança de mundo também é uma
consequência dessa racionalidade. Em suma, podemos concluir afirmando que a racionalidade
quanto à mudança de mundo está relacionada à modificação dos paradigmas, e a forma como
ele é constituído: através da construção teórica (matemática ou conceitual) de uma teoria
científica – que é construída pelos valores (precisão, consistência, alcance, simplicidade e

56
Kuhn utiliza como exemplo de mudança de mundo a teoria do pêndulo de Galileu, para demonstrar
como a explicação de Aristóteles para esse fenômeno é diferente o suficiente, para se crer que, o mundo
de alguma forma mudou após a transição da física aristotélica para a moderna, Kuhn explica que:
“Estou, por exemplo, profundamente consciente das dificuldades criadas pela afirmação de que, quando
Aristóteles e Galileu olharam para as pedras oscilantes, o primeiro viu uma queda constrangida e o
segundo um pêndulo. As mesmas dificuldades estão presentes de uma forma ainda mais fundamental
nas frases iniciais deste capítulo: embora o mundo não mude com uma mudança de paradigma, depois
dela o cientista trabalha em um mundo diferente.” (2013, p. 214).
95

fecundidade) – os cientistas escolhem a melhor teoria e “mudam o mundo”, ou seja, passam a


viver em um “mundo diferente”.
96
97

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Entendemos que a causalidade é um importante conceito para se pensar como o
conhecimento se apresenta, em especial para o desenvolvimento do que hoje chamamos de
ciência, e do que em outros períodos históricos foi conhecido por filosofia natural. Ao
analisarmos algumas questões sobre a causalidade, notamos que dentre todos os sentidos e
conceitos filosóficos a ela relacionados, a metafísica se mostra como o que mais pode ampliar
o conhecimento e as ideias dessa teoria. Pensamos que a ciência não pode estar livre do
conhecimento metafísico, e, além disso, defendemos que a metafísica é uma ferramenta que
pode ajudar a compreender melhor o desenvolvimento das ideias científicas. Entretanto, é
necessário delimitar que tipo de compreensão metafísica que propusemos: embora
semelhante, não se trata de uma metafísica exatamente como a de Aristóteles, mas uma
metafísica em sentido causal reformulada e fundamentada na racionalidade científica.

Em Conceitos de Causa no Desenvolvimento da Física (2011), Kuhn propõe que nas


teorias modernas da física, as explicações podem muito bem ser entendidas através da noção
metafísica de causa formal de Aristóteles: uma teoria científica pretende compreender um
fenômeno da natureza, suas estruturas explicativas são uma causa formal para tal fenômeno,
ou seja, demonstram como é tal aspecto da natureza, em sua essência ou forma. Fica claro que
essa reformulação da noção causal está permeada por critérios de racionalidade científica,
pois, essa essência ou forma está relacionada à construção matemática e linguística das
teorias. Em suma, entendemos que a compreensão metafísica de Kuhn quanto ao
desenvolvimento científico seja a seguinte: as teorias científicas possuem estruturas
explicativas particulares em seu sentido matemático e linguístico, elas podem ser entendidas
através de noções de essência ou forma semelhantes às da metafísica aristotélica.

Entendemos essas semelhanças através de uma análise de algumas noções da


causalidade. As quatro causas de Aristóteles, embora cada uma delas (material, formal,
eficiente e final) possua um sentido, é uma teoria que se apresenta de uma forma geral
metafísica. Nesse sentido, ela é um conhecimento superior para Aristóteles, como afirma
Selvaggi, está em um grau maior de abstração57. Com isso, colocamos que a causalidade pode
ser vista sobre duas formas: a noção de causa estrita e a de causa ampla. A estrita está limitada

57
Como explicamos anteriormente (Introdução: capítulo 3, seção 3), Selvaggi mostra que a hierarquia
do conhecimento para Aristóteles acontece pelos seus graus de abstração: o conhecimento físico, o
matemático e o metafísico são considerados de acordo com o seu grau de abstração. Quanto mais
abstrato ou teórico um conhecimento é, mais superior ele deve ser considerado, por esse motivo, a
metafísica era superior para Aristóteles.
98

as noções de movimento, a ampla está ligada a noções mais generalistas, nesse sentido, mais
metafísicas.

Ao pensar essa noção de causa ampla em Kuhn, entendemos que a teoria


hylemorfística de Aristóteles trata as causas material e formal através desse aspecto
metafísico abordado por esse sentido de causa (ampla). Ao buscar a causa material de um
ente, compreende-se que seu componente material é mais do que simples matéria, a matéria
por si só não tem significado, ela depende de uma forma para ser esse ente. A causa formal
define o ente como ele é, as coisas precisam de uma forma para serem o que são, ou seja, a
forma é a essência das coisas. Essa noção de causalidade em sentido amplo foi subtraída na
filosofia moderna, as noções metafísicas de causalidade não atingiriam o rigor matemático e
mecanicista desse período. Mas ainda assim, a doutrina das quatro causas de Aristóteles não
seria totalmente esquecida, as noções de causa eficiente compactuavam com a nova filosofia
natural dos modernos e as novas teorias da física. Entretanto, no período da ciência moderna,
em especial na física contemporânea a partir do séc. XIX, essas noções de causa eficiente e o
mecanicismo também se tornaram cada vez mais deficientes: insuficientes para as estruturas
explicativas das novas teorias.

Diante de tal insuficiência explicativa e enfraquecimento histórico, por que Kuhn


pretendia reconsiderar a teoria da causalidade? A essa altura do desenvolvimento científico a
partir do século XIX, a princípio, a causalidade seria um conceito que em nada auxiliaria a
história da ciência na compreensão do desenvolvimento científico, Bertrand Russell afirmara
que ela: “[...] está tão inextricavelmente vinculada a associações enganosas que se torna
desejável sua completa extrusão do vocabulário filosófico.” (1977). Longe de pensar que a
causalidade tenha que ser banida da filosofia, a análise que fazemos da obra de Kuhn mostra
um caminho diferente do que afirmou Russell: ela está vinculada a importantes conceitos do
desenvolvimento científico e merecem ser devidamente consideradas na filosofia da ciência,
por esse motivo Kuhn reconsiderou essa teoria. Advogamos que, possivelmente, o motivo
pelo qual Kuhn estaria vinculando a causalidade a importantes conceitos do desenvolvimento
científico é: a noção de causa formal pode ajudar a compreender alguns aspectos de suas
principais teses, como o paradigma e a incomensurabilidade. Da mesma forma, também pode
demonstrar que através dessas teses é possível compreender determinados aspectos de
racionalidade na atividade científica.
99

O paradigma foi definido por Kuhn como aquilo que os membros de uma comunidade
científica, e apenas eles, compartilham. (2011, p. 312-313). O conceito tem estrita relação
com a prática das comunidades científicas: uma vez que elas estabelecem regras ou normas
que ditam como deve ser a atividade de um grupo de cientistas, o paradigma demonstra que
isso ocorre de forma isolada, por isso um paradigma é praticado apenas por um grupo. Em
suma, o entendimento de um determinado fenômeno da natureza é submetido a determinadas
normas fechadas que são praticadas somente por um grupo de cientistas. Ao analisar o
conceito de paradigma e delimitar suas principais aplicações, Kuhn utilizou o termo matriz
disciplinar para explicar três aspectos do paradigma: as generalizações simbólicas, os modelos
e os exemplares.

Essas matrizes delimitam o entendimento dos aspectos formais das teorias científicas
em Kuhn; os três tipos mostram de que forma os cientistas estabelecem as estruturas teóricas:
as generalizações simbólicas são estruturas matemáticas e lógicas com certo grau de abstração
que servem para generalizar os conceitos da teoria, como o exemplo citado Kuhn: f = m.a; os
modelos são as demonstrações teóricas feitas através de analogias ou metáforas em que se
fornecem os conceitos ou ideias de uma teoria, como no exemplo que citamos (capítulo 3,
seção 3; capítulo 4 seção 2): a gravidade como consequência da curvatura espaço-tempo
sendo demonstrada através de um objeto redondo e pesado sendo colocado em um lençol
esticado e dependurado; e os exemplares estão relacionados à solução concreta dos problemas
nos modelos: enquanto os modelos fornecem a metáfora ou analogia explicativa da teoria, os
exemplares fornecem os cálculos matemáticos.

Ao percebermos que a aplicação da noção de causa formal ao conceito de matriz


disciplinar pode ser entendida como uma interpretação metafísica em sentido causal de Kuhn,
e que dessa interpretação é possível entender que o desenvolvimento da ciência se comporta
de maneira racional, defendemos com isso, que o resultado de nossa análise indique que a
causalidade sob a perspectiva da metafísica a de Kuhn mereça importante lugar nas discussões
na área da filosofia da ciência. Uma vez que é necessário pensar como a ciência se comporta,
e, uma vez que, a nosso ver, também é importante discutir de que forma a atividade científica
pode ser racional, nossa conclusão caminha para outro tema que deve ser amplamente
discutido: a diferença entre uma boa e uma má teoria científica está relacionada a prática
racional da ciência. A análise de interpretações metafísicas da ciência como a de Kuhn, bem
como novas discussões acerca da causalidade, podem contribuir muito para compreensão da
prática de uma ciência racional.
100

O que podemos concluir de forma breve, sobre a importância de se pensar como é a


atividade racional de uma ciência, também está relacionado à nossa interpretação de Thomas
Kuhn e sua tese da incomensurabilidade. No entendimento sobre o progresso das teorias
científicas, segundo Hoyningen-Huene, a incomensurabilidade de Kuhn mostra que há três
tipos de mudanças, conforme mudam as matrizes disciplinares: a mudança nos problemas,
mudança nos método e conceitos, e mudança de mundo. A incompatibilidade teórica entre
teorias incomensuráveis está relacionada a esses tipos de mudança, elas também estão
relacionadas às estruturas formais das matrizes disciplinares: diante uma revolução científica,
as teorias separadas por uma revolução se tornam incomensuráveis, pois, criam uma nova
forma de interpretar o mundo através das estruturas matemáticas e conceituais escolhidas ou
criadas pelos cientistas. Essas criações ou escolhas dependem da habilidade teórica, por isso,
possuem valores: precisão, consistência, alcance, simplicidade e fecundidade.

Através das generalizações simbólicas, modelos e exemplares das matrizes


disciplinares, a mudança ocorrida entre teorias incomensuráveis demonstra o entendimento da
racionalidade científica de Kuhn. A mudança de paradigmas é uma atividade racional, pois as
matrizes são estruturas matemáticas e linguísticas escolhidas ou construídas por valores
científicos, que estabelecem de forma satisfatória a relação entre a natureza e a teoria. Na
mudança dos problemas, a substituição de uma teoria por outra exige racionalidade, pois
requer habilidade do cientista em resolver novos problemas; na mudança dos métodos e
conceitos, a racionalidade também é uma exigência, pois a criação de novos métodos e
conceitos só pode ser aceita caso se tenha uma estrutura explicativa satisfatória; e por fim, na
mudança de mundo encontramos o que há de mais racional nos conceitos da
incomensurabilidade em Kuhn: estabelecer relações de similaridade entre o mundo dado pelo
objeto e o dado pelo sujeito, ou seja, entre natureza e teoria, é a atividade mais complexa para
o cientista. A natureza em si58 é complexa e inacessível, as teorias científicas são
aproximações do entendimento dessa natureza, devido a essa inacessibilidade entendemos que
as estruturas explicativas das teorias podem ser interpretadas como causas formais. O sentido
que Kuhn tentou interpretar da causa formal é esse: as explicações que os cientistas dão para
um fenômeno da natureza são semelhantes à noção de essência ou forma de Aristóteles.

58
Explicamos anteriormente (capítulo 3, seção 4.2; capítulo 4, seção 4.3) que na teoria da constituição
do mundo, Paul Hoyningen-Huene entende que o mundo dado pelo objeto, ou seja, a própria natureza
não seja totalmente acessível ao homem. Por isso, uma de suas característica, segundo o autor, é que
existe “em si”.
101

A conclusão de nossa pesquisa aponta naturalmente a ideia de que Kuhn tem uma
compreensão metafísica da ciência, e essa ideia é importante, pois nos leva a entender sua
diferente perspectiva sobre a causalidade, uma compreensão que muito pode contribuir para a
filosofia da ciência; ela demonstra a importância de se pensar a ciência a partir de uma
concepção filosófica. Pensamos que essa nova concepção de causa formal seja importante
para as áreas da física moderna e da filosofia da ciência, uma vez que a causalidade foi e é
pouco tratada e estudada nessas áreas. Temos os seguintes motivos para atribuir essa
importância: a possibilidade de uma retomada sobre os estudos da causalidade; uma nova
perspectiva sobre uma nova interpretação de um sistema filosófico antigo, o aristotélico; a
possibilidade de uma maior conexão entre o conhecimento científico com outras áreas do
conhecimento, como a psicologia, a sociologia, a história, entre outros; uma maior
compreensão sobre os critérios de cientificidade nessas áreas, ou seja, uma psicologia
científica, uma história ou uma sociologia científica; o entendimento de que empreendimento
científico pode muito bem ser fundamentado pela filosofia da ciência, ou seja, que as ciências
devem ser interpretadas filosoficamente; e a compreensão sobre a complexidade do próprio
desenvolvimento científico.

As contribuições de Kuhn para a compreensão do desenvolvimento das ciências são


inestimáveis. A partir dele a história da ciência se tornou um importante conhecimento, tanto
para a filosofia da ciência como para a própria ciência, enriquecendo muito os debates dessas
áreas. A suas teses centradas nas revoluções científicas como o paradigma e a
incomensurabilidade são temas muito debatidos, da mesma forma, acreditamos que a
causalidade e a sua concepção de causa formal também deveriam ser. Como diria Kuhn em
uma passagem do posfácio na E.R.C, temos muito a aprender sobre todas essas características
da ciência. (2013, p. 322.). A nosso ver, isso também significa que devemos conhecer a
ciência em diferentes perspectivas possíveis, a causalidade e a metafísica são algumas delas.
102
103

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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