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almeida garrett

frei luís
de sousa
8.2. Estrutura interna
A leitura integral da obra permitiu-nos ver que, a nível interno, Frei Luís de

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Sousa apresenta, à semelhança do que acontecia nas tragédias clássicas, três
grandes momentos:
• exposição (ato I, cenas 1 e 2) – apresentação das personagens e dos
acontecimentos passados que motivaram a situação em que as mesmas
se encontram;
• conflito (ato I, cena 3, a ato III, cena 9) – desenvolvimento da ação pro-
priamente dita, através das vivências das personagens;
• desenlace (ato III, cenas 10 a 12) – aniquilamento das personagens, ou
desfecho originado pelos dois momentos anteriores.
É interessante reparar que esta divisão tripartida que podemos ver na peça se
espelha ao nível de cada ato. Vejamos:
Ato I exposição (cenas 1 a 4) – informações sobre o passado das persona-
gens e os factos anteriores ao presente da ação.
conflito (cenas 5 a 8) – anúncio dos governadores e decisão de
Manuel de Sousa Coutinho de incendiar o palácio.
desenlace (9 a 12) – incêndio do palácio.

Ato II exposição (cenas 1 a 3) – informações sobre os acontecimentos ocor-


ridos desde o incêndio até ao presente da ação.
conflito (cenas 4 a 8) – ida de Manuel de Sousa Coutinho a Lisboa e
permanência de Madalena no palácio.
desenlace (cenas 9 a 15) – chegada do Romeiro e seu reconhecimento.

Ato III exposição (cena 1) – informações sobre os acontecimentos ocorridos


desde o final do ato anterior e sobre a decisão tomada.
conflito (cenas 2 a 9) – atuações de Manuel de Sousa Coutinho (reso-
lução da situação), Madalena (dúvidas quanto à veracidade das pala-
vras do Romeiro), Telmo e Romeiro (tentativa de remediar o “mal”
que, involuntariamente, causou).
desenlace (cenas 10 a 12) – apresentação da catástrofe: morte física
de Maria e morte moral dos pais (metaforicamente representada
pela tomada de hábito).

Ao falar da estrutura interna, pensamos também, como se depreende do exposto


acima, na ação dramática. E, uma vez que as personagens que dão vida a essa
ação estão localizadas num determinado tempo e num determinado espaço, é
sobre estes elementos que iremos refletir a seguir.

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8.3. Tempo
Para que ocorra o desenvolvimento da ação dramática, dos acontecimentos, há
um aspeto fundamental: o tempo. Os acontecimentos da ação estão ligados por
segmentos temporais que, independentemente da forma como estão articulados,
dão fluidez à ação.
Exposto isto, falemos de duas dimensões do tempo em Frei Luís de Sousa:
o tempo dramático e o tempo histórico.

8.3.1. Tempo dramático


Ao longo do texto de Frei Luís de Sousa, há inúmeras referências cronológicas
que nos permitem contextualizá-la num determinado período histórico – o sé-
culo XVI, mais concretamente em 1599, vinte e um anos após a batalha de Alcácer
Quibir, como se pode inferir pelas palavras de Madalena: “[…] a que se apega esta
vossa credulidade de sete… e hoje mais catorze… vinte e um anos?” (ato I, cena 2).
Podemos até apontar os dias – “[…] É um dia fatal para mim; faz hoje anos que… que
casei pela primeira vez, faz anos que se perdeu el-rei D. Sebastião, e faz anos também
que… vi pela primeira vez a Manuel de Sousa.” (ato II, cena 10) –, como a batalha de
Alcácer Quibir ocorreu no dia 4 de agosto de 1578, o ato II de Frei Luís de Sousa
decorre no dia 4 de agosto de 1599. Se atentarmos na fala de Maria logo no início
do ato II – “[…] Há oito dias que aqui estamos nesta casa […].”, não é difícil calcular
que o ato I decorre no dia 27 de julho, enquanto o ato III se desenrola na madru-
gada do dia 5 de agosto.
A ação dramática decorre, então, em pouco mais de uma semana. E é curioso notar
que as referências temporais em Frei Luís de Sousa se revestem de um forte
simbolismo. A ação começa a uma sexta-feira – “Ai que é sexta-feira!” (ato II, cena 5)
– e, talvez não por coincidência, vários acontecimentos marcantes na vida de Madalena
ocorrem neste dia da semana. É a uma sexta-feira (dia conotado com tragédia) que:
• Madalena se casa com D. João de Portugal;
• Madalena vê pela primeira vez Manuel de Sousa Coutinho;
• Manuel de Sousa Coutinho incendeia o seu palácio;
• D. João desaparece na batalha de Alcácer Quibir;
• D. João regressa na figura do Romeiro.
Grande parte dos acontecimentos ocorrem também num ambiente crepuscular
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ou noturno (aliás, característica do Romantismo): “É no fim da tarde.” (ato I, didas-


cália inicial); “É noite fechada.” (ato I, cena 7, didascália inicial); “É alta noite.” (ato III,
didascália inicial).

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9. As personagens
As personagens de Frei Luís de Sousa são seres deste mundo que, vergados

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pela força do destino, vão caminhando inexoravelmente para um fim trágico. Nesta
obra

[…] não existem personagens supérfluas ou tautológicas […], sob o


ponto de vista da lógica da ação dramática: cada personagem ocupa
uma posição definida e desempenha uma função necessária na ação e a
ausência de qualquer delas afetaria gravemente o desenvolvimento
desta […].

Vítor Manuel Aguiar e Silva. Teoria e Metodologia Literárias. Lisboa: Universidade


Aberta, 1990, p. 207. [Grafia atualizada.]

9.1. Quando as coisas e os objetos atuam como personagens


O mundo exterior contemplado em Frei Luís de Sousa (paisagens, quadros, re-
tratos) não tem em si uma existência independente de quem o assinala: as coisas
e os objetos observados sofrem, em determinado momento da contemplação, uma
“interpretação” que simultaneamente os carrega de força trágica e os insere no
drama. Essa interpretação só é possível através da intuição permanente de uma
fatalidade desastrosa a cair sobre Madalena e a sua família. É essa intuição que
relaciona o objeto observado com a situação psicológica do observador, tornando-o
vivo e atuante como se de uma personagem se tratasse. De facto, na primeira fase
da contemplação, é passivo o objeto observado e ativo o observador; na segunda
fase, pelo contrário, é passivo o observador e ativo o objeto observado. Na primeira
fase, o mundo exterior é neutro de significação dramática; na segunda, uma certa
intuição de desgraça iminente atribui-lhe uma ação reveladora de um desfecho
trágico.

Maria contempla o retrato do pai (ato I, cena 4)


“Como ele era bonito, meu pai! Como lhe ficava bem o preto… e aquela  mundo exterior
O
1.ª FASE:

independente
cruz tão alva em cima!” do drama

Elemento de interpretação: intuição do malogro do casamento dos pais.


“Para que deixou ele o hábito, minha mãe, porque não ficou naquela santa  mundo exterior
O
2.ª FASE:

inserido no drama
religião, a vogar em suas nobres galeras por esses mares e a afugentar os
infiéis diante da bandeira da cruz?”

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Maria contempla o retrato de D. Sebastião (ato II, cena 1)
“Que majestade! que testa aquela tão austera, mesmo dum rei moço  O
 mundo exterior
independente
e sincero ainda leal, verdadeiro, que tomou a sério o cargo de reinar, e do drama
jurou que há de engrandecer e cobrir de glória o seu reino! Ele ali está… E
1.ª FASE:

pensar que havia de morrer às mãos de mouros no meio de um deserto,


que numa hora se havia de apagar toda a ousadia refletida que está
naqueles olhos rasgados, no apertar daquela boca!…”
Elemento de interpretação: intuição de que D. Sebastião poderá
regressar [aqui o rei é uma personagem dupla (D. Sebastião – D. João)
e o sebastianismo de Maria traduz a crença intuitiva no regresso do
primeiro marido de D. Madalena, sua mãe.]
 mundo exterior
O
2.ª FASE:

“Não pode ser, não pode ser. Deus não podia consentir em tal.” inserido no drama

Maria contempla o retrato de D. João (ato II, cena 1)


“Aquele aspeto tão triste, aquela expressão de melancolia tão profunda…  O
 mundo exterior
1.ª FASE:

independente
aquelas barbas tão negras e cerradas…” do drama

Elemento de interpretação: intuição de que ninguém amara D. João de


Portugal (nem mesmo a esposa, sua mãe?)
“[…] e aquela mão que descansa na espada, como quem não tem outro  mundo exterior
O
2.ª FASE:

inserido no drama
arrimo, nem outro amor nesta vida…”

Manuel e Maria contemplam a capela (ato II, cena 3)


“Ainda não viste daqui a igreja? É uma devota capela esta. E todo o tem-  O
 mundo exterior
1.ª FASE:

independente
plo tão grave! Dá consolação vê-lo.” do drama

Elemento de interpretação: intuição de que essa consolação não


perdurará.
2.ª FASE:

 mundo exterior
O
“Deus nos deixe gozar em paz de tão boa vizinhança.” inserido no drama

Madalena contempla o Tejo (ato II, cena 10)


“Não há vento e o dia está lindo. Ao menos não tenho sustos com a via-  O
 mundo exterior
1.ª FASE:

independente
gem.” do drama

Elemento de interpretação: intuição de que uma “mudança” poderia


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separá-la de Manuel de Sousa Coutinho.


2.ª FASE:

 mundo exterior
O
“Mas a volta… quem sabe? o tempo muda tão depressa…” inserido no drama

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