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ry Al sensibilidade a seu favor SS we fs Pasaem> SoS eA da Copyright © 1006 by Elaine N. Aron ‘Titulo original: The highly sensitive person alitora Rosey M. Boschini Assistente editorial losdngela Barbosa Capa Tilo Fagin Proparagio Maria Alayde Carvalho Projeto grafico « diagramago Marcelo S. Almeida impressio © acabaanento OESP gifica Dodos Inernacionais de Colelogagéo ne Publicagto (CIP) (Cémora Brasileira do liveo, 3 Bros Heve, Ba Use sensibildade o sou favor / Elaine N. Aron radugéo Helene Luz ~ Séo Paula Editor Gente, 2002, ‘Tivlo origina: The highly sensitive person Bibiograte ISBN: 85.7312.377% 1. Adminisrogdo do estreste. 2. Auto-oolizagbo (icologi) 9. Etesse (Psicologia). Sensibidode (rage da personalidede) 9. Tmides |. Tilo, 02.4599 cpb-155.232 Tadic pora catéloge sisemético: 1. Sensibilidade : Trogo da personalidade :Feicologia 155,292 “Todas os dteitos dats digo soo reservados 8 Biitora Gent. ‘Rus Pedro Soares de Almeida, 114. 50 Paulo, SP (CEP 05020-030. Telefix: (11) 3675-2505 Site: htps//woeditoragente.com.be email gontodditoragente.com be A Irene Bernadicou Pettit, Ph.D. Sendo poeta e camponesa, ela soube plantar esta semente e cuidar dela até que florescesse. A Art, que ama as flores de forma especial mais um amor que partilhamos. Eu acredito na aristocracia, no entanto — se essa for a palavra corta e se um democrata puder usd-la—, néo na aristocracia do po- der, mas dos sensiveis, dos atenciosos... Os membros dessa aristocra- cia podem ser encontrados em todas as nagées ¢ classes ¢ em todas as Gpocas, o hé entre eles um entendimento secreto quando se encon- tram. Representam a verdadeira tradi¢do humana, a vitéria perma- nente de nossa raga singular sobre a crueldade e 0 caos. Milhares perecem na obseuridade, alguns sGo grandes nomes. Sdo senstveis em relagdo aos outros tanto quanto em relagdo a si mesmos, atencio- sos sem ser piegas, e sua forca ndo estd na ostentagdo, mas no poder de suportar. E, M, Forster, “What I believe”, ‘om TWwo cheors for democracy Sumario io 6 altamente sensivel? Um teste fato de ser altamente sensivel: a (falsa) impres- do inferioridade 2 Who mais fundo: a compreensio de tudo ilo que essa caracteristica sua representa 3 uide goral eo estilo de vida das PAS: ame seu /bobd o aprenda com ele 4 Jura de sua infaincia e adolescéncia:apren- ou proprio tutor 19. 23 25, 49 67 95 Cartruio 5 Os relacionamentos sociais: recaida na “timidez” Capiruw 6 O sucesso no trabalho: expresse sua alegria permita que sua luz se espalhe Cariruto 7 Os relacionamentos intimos: 0 desafio do amor sensfvel Capiruvo 8 A cura das mégoas profundas: um processo diferente para as PAS Capron 9 Os médicos, os remédios ¢ as PAS: “Devo dar ou- vidos ao Prozac ou conversar com meu médico a respeito de meu temperamento?” Capiroto 10 A alma ¢ 0 espitito: onde os verdadeiros tesouros se encontram Dicas para profissionais de satide que trabalham com pessoas altamente sensfveis Dicas para professores de alunos altamente sensiveis Dicas para empregadores do pessoas altamente sensiveis Notas bibliograficas a21 149 205 229 251 277 279 281 283 Preféicio “Bebé chorio!” “Medroso!” “Nao soja um estraga-prazores!” Ecos do passado? E aquele alerta bem-intencionado: “Voce é sen- nivel demais, ¢ isso nao é bom para voc So vocé era como eu, ouviu muitas coisas assim, coisas que o fize- ram sentir que provavelmente era diferente. Eu estava convencida de que tinha um defeito enorme a esconder e que ele me condenava a uma vida de segunda classe. Pensava que alguma coisa estava errada om mim, Na verdade, existe algo muito certo em voce e em mim. Se respon- dor “verdadeiro” a doze ou mais das questées do teste do inicio deste livro ou se a descricao detalhada no capitulo 1 parece descrevé-lo (na vordade 0 melhor teste), entdo vocé 6 um tipo muito especial de ser humano, uma pessoa altamente sensivel — que daqui para a frente chamaromos de PAS. E este livro é para voce. ‘Tor um sistema nervoso sensivel 6 normal, uma caracteristica ba- #lcamente noutra, Vood provavelmente a herdou. Isso ocorre com cer- 10 Use A sousmupane a seu HavOR ca de 15% @ 20% da populacio ¢ significa que porcebe as sutilezas que o rodoiam, 0 que-é uma grande vantagom em manitas situacbes. Significa também que 6 mais facilmente perturbavel quando esti em ambientes altamente estimulantes por muito tempo, sob 0 bombar- deio de imagens ¢ sons, até sou sistema nervoso ficar exausto, Ser sonetvel, portanta, apresenta tanto vantagens quanto desvantagens. Ei nossa cultura, no entanto, possuir tal caracteristica nfo é com siderado ideal, « esse fato tem provavelmente causado grande impac- to sobre vac, E possivel que pais e professores bem-intencionados tenhum tentado ajudé-lo-a “superé-In", como se fosse um defeito. As outras crfangas nein sempre foram simpiticas, Ae tornarse adulto, provavelmente fot dificil encontrar a carteira @ as rolacionamentos certos © sentir-se seguro ¢ confiante em lermos ger: O queeste liveo oferece a voct ste livro aferoce as informagtex basicaly ¢ dotalhadas de que vacd precisa sobre sua caracteristica, dados que nfo existem om nenhum utro lugar. Ele é produto de cinco anos de pesquisa, entrevistas aprofundadas, expetiéncias clinicas,cursos, consultas individuals com centenas de PAS ¢ leituras cuidadosas, nas enteelinhas; daquilo que a psicologia jd sabo a respeito deseo trago de personalidad, mas ainda do descobriu que sabe. Nos tts primeiras capitulos voc’ conheceré ‘os fatos bésicos sobre sua personalidade ¢ as formas de lidar com a superestimulacao @ a hiperoxcitacao de seu sistema nervoso. Em soguida, o livre analisa o impacto dessa sensibilidade em sua histéria pessoal, carreira, seus relacionamentos ¢ sua vida interior, Enfoca as vantagens que vocé pode nao ler considerado e oferece con- salhos para os problemas tpicos enfrentados por algumas PAS, como timidez ou dificuldade de encontrar o tipo certo de trabalho. Horemos uma longa jornada, A maioria das PAS que tenho ajuda- do cam as infarmagées que esto neste liveo relata mudangas deeisi- vas em sua vida — ome pedliu que contasse isso a voce, Presser n Uma palavra aos sensiveis-mas-nem-tanto Em primero lugar, se vact oscolheu este livro porque é pai, mae, es- pasa, esposa ou amigo de uma PAS, 6 especialmente bem-vindo. relacionamento com sua PAS melhoraré muito, Em segundo lugar, uma pesquisa telefonica com trezentos indivé- duos de todas as idades escothidos ao acaso revelou que 20% exam ‘extremamente ou bastante sensiveis © aulzos 22% moderadamente sensfveis. Aqueles que se classificam na tltima catogork dom tirar proveito deste livra, ‘Aligs, 42% disseram nao ser de forma alguma sonsiveis — 0 que nos dé uma boa pista des motives por que os altamente sensiveis po: «lem sentirse tao completamente destacados com grande parte das pos- sous, Esse, é claro, é @ segmento da populagiio que esté sempre aumen: tando 0 volume do radio ¢ tacanda a tbuzina Indo mais longe. ¢ possivel dizer que todos se tornam altamente sensfveis em alguns mamentos — depois de passar um més a sds uma cabana na montanka, por exemplo, E todos ficam mais se com a idade. Na verdacle, a matoria das possoas, semi uma fageta altamente sensivel que se manifests também po- is im ou nfo, tem em certas situagdes, F algumas palaveas ds no-PAS Algumas vezes ndo-PAS sentem-se exclidas © magoaclas pela idéia de sormos diferentes delas, ¢ isso pode scar como se penstissamas ser de olguma forma melhores, Blas protestam: "Voet quer dizer que ei 180 sou sensivel?” Um dos problemas ¢ que “sensivel” significa também ser compreensivas escrupuloso, Tanto PAS quanto nao-PAS podem ter ossas qualidades, otimizadas quando estamos nos sentindo bem e aler= as as sutilezas, Quando estén calmas, as PAS podem até mesmo des- fritara vantagem de perceber as mais delicadas nuangas, mas se esto suporexcitadas, estado freqiiente nas PAS, nao sdo nem um pouea com preensivas nem sensiveis, Pela contxdrio, scus amigos ndo:PAS s vordade mais compreensives em situagées altamente cadticas, ” {Use a senLIOADE A SEONG Fensei muilo a respeito de como denominar essa caracteristica. Eu sabia que no queria repetir 0 engano de confundl-la com introversao. timideg, inibigdo e toda uma coleefia de rétules inadequados atribufdos por outros psicélogos. Nenlhum desses termos capta os aspectos neutros, muito menos os aspectos positives de tal caracteristica, “Sensibilidade” expressa o fato neutio de possuir maior receptividade A estimulacio. E achei que estava na hora de combater a visio pejorativa que se tem cas PAS adotando um termo quo pode ser usado a favor delas. Por outro lado, ser “allamente sonstvel” 6 tudo menos positivo para algumas pessoas, Sentada escravendo em minha casa, num mo- ‘mento em que ninguém esta falanda sobce 0 assunto, farei uma provi- Jo; este livro vai provocar mais que sua cota de piadas ®comentirios maldosos sobre as PAS. Existe uma anergia psicoldgica coletiva tre: manda cescando a iddia de sor sonsivel — quase tanto quanto a que core 0s papéis sexuais, com os qualsa sensibilidade ¢ froqiientemente confundida, (Os mesmos mémeros de bebés masculines ¢ femininos nascom sensfveis, mas nia se espera que os homens tenham tal carac- teristica, ¢.sim as mulheres. Os dois pagam alto prego por essa confi fo.) Portanto, prepare-se para enfrentar essa energia. Proteja sua sen ‘ava comprennsie dela e nfo toque no assunto quando sibilidadees nao parecer pradente. ‘Acimia de tudo, desfrute 0 conhacimento de que existem muitas pessoas como voeé. Nunca estivemos em contato, mas agara astamos, t isso serd bom para nds © para a sociedade, Nos capftulos 1, 6 ¢ 10 comentarei oi maiores detalhes a importante fungo social das PAS. O que voct precisa Esto livro utilizard uma abordagem de quatro etapas que descobri ser apropriada as PAS. 1. Autoconhecimento, Voce precisa compreender o que significa ser uma PAS, Na tatalidade. Como essa caracteristica interage com outros aspectas de sua personalidade e como aatitude negativa da sociedad afeta yoos. Dopois precisa conhecer também a sensibi Presto, 13 lidade de seu corpo, parar de ignoré-lo porque parece ser fraco @ no cooperar com vrs. Releitura, Voc8 deve fazer uma releitura ativa do passado a 1 desse nova canhecimento: vocd vein ao munde com alta sensibi- lidade. A matar parte do seus “fracassos” era inevitével porque nem voc8 nem seus pais, professores, amigos o preendiam, Reler sua experiéncia passada pade levar a uma sélida auto-estima, @ a auto-estima 6 especialmente importante para ag PAS, pois fax baixar a biperexcitagio em situagdes novas (¢ por tanto altamente estimulantes) No entanto, essa relettura na 6 automética. Por isso incluo “ativie dades” no final dos capitulos quo fiogiientemente a envolvem. eplogas a com- 3 Cure. Voct deve comogar @ Gurar as migoas mais profindas se ainda no o fez. Vocg foi uma erianga altamente sen.sfvel. Questées familia- res e escolares, doencas infantis e outros problemas semelhantes a afetaram mais que aos outros. Além disso, era diferente das outras crinngas, e com certeza sofreu com isso, As PAS, prevendo os sentimentos intensos que pocem sor desperta- dos, talvez.se afastem de maneira especial do trabalho interior neces+ sério & cura das mégoas do pasado. O cuidado ca lentidio sto justi- ficdveis, mas vord estaré enganando a si mesmo se demorar demais. 4. Ajuda para sentit-se bom quando se oxpée.ao mundo paraapren- der quando no se expor. Vocé pode, deve e precisa relacionarse com 0 mundo. Omundo com certeza precisa de vocs. Mas deve tor ahabilidade de evitar envalver-se demais ou omitirse, Este Livro, livre das mensagens confusas de uma cultura pouce sensivel, aj daa construir essa habitidade Eu the ensinarei também como sua caracteristica afeta os tolacionamontos intimos o discutirei a psicolerapia ¢ as PAS — que PAS precisam de terapia ¢ por qué, de que tipo, com quem e especial- mente como terapia 6 diferente paraas PAS, A seguir farei conside- mg6es sobre as PAS 0 os cuidados médicos mencionando vasta infor- “4 (Use a sexsimubane A Su FOR ji Ss. magdio sobre medicamentos como o Prozac, muito utitizado pelos PAS No final do livro, saborearemas nossa rica vida interior A mew respeito essora universitiria, psicoterapewte ¢ jd publiquei romances, © mais imporiante, no entanto, ne pine dima PAS como voet. Nido estou, definitivamente, escravendo 1 Tt alto, inclinando-me para ajudar voc8, pobrezinho, = mane eindrome”. Eu conheco pessoalmente essa nossa caractertslica, SR6 antagens ¢ seus desafios ; va ana ata ec, ex mo escondi par fut do nos da minha faraflia, Na exeola ovitava esportes, jogos © crianit A) goral. Que mistura de aliviae humilhagao aes quando minha estea ia dava certo ¢ eu era totalmente ignoradat . es ge we cologa extrovertida me-“adatou” como meee Mais tardo, essa amizade continuou, além disso eu estudava dss © a maior parte do tempo. Na faculdade minha vida fleow muito Init tifieil Depois de parar evecomesar vétias vores, o que envelvey casamento promaturo que durow quatro anos. Giaiaiats oe oe {o com louvor) pela Univorsidade.da California, em Berkeley, passel um bom tempo charando nos vastidrios ® ae spa seizek ficando louca. (Minha pesquisa demonstra que escondor-se as: freqtientemente para chorar é tfpico das PAS.) sumer {Em minha primoira tentaiva de pes-graduagio, ext nhs um o86r torio e-nele também me escondia para chorar tentando recuperar a us estucdos no esté tontar 0 douto- Sou psicéloga pesquisadora, pro! calma. Devido areacoes como essa, interrompi m gio de mestrado mesmno tendo sido muitoencorajadaa to vido, Level 25 anos para conseguir informagdes suficiontes sabre mi a personalidad e poder compreonder minhas reagies eentiio comp! numa vida bem protogida, escrevendo ¢ criando meu lho, Eu me jentia ap mesmo tempo deliciada e envergonhada por nfio estar mundo Ié fora”, Tinha a vaga percepeto do estar perdendo oportunic Prasrkco if dades de aprender, ganhar 0 reconhecimento price dle minkas habi- lidades, relacionar-me com todos os tipos cle pessoa. Mas as experién« clas amargas diziam que aquela era a melhor oseolla Cortos acontecimentos perturbadores, no entanto, nao podem ser evitados, Tive de submeterme a uma Intervengdo cintirgica e espera- va recuperar-me em poueas semanas. Mas por vérias meses meu cor po parece uma caixa de ressondncia de reagdes fisicas ¢ emocionais. Mais uma vez eu era obrigada a encarar aquele “defeite” que me fazin io diferente, Enléo tented a psicoterapia, ¢ tive sorte, Apds algumas sessdes, minha terapeuta disse: “Mas é natural que voeé tenha fieado tao abalada, ¢ uma pessoa extremamente sensivel Oque seri isso, pensei, alguma deseulpa? Ela respondent que nunca havia pensado muito a respetto, mas por sua vivencia parecinm ex tir reais diferengas entre as possoas quanto A tolerabilidade aos es muilose & abertura aos significacios mats profundos de uma experién: cla, boa ou rain, A sea ver, tal sensibilidade ndo seria de modo algum sinal de perturbagao mental, pelo menos ¢la assim esperava, j4 que também era altarn ‘ute sensivel, Eu me lembro deseu sarsiso ao dizer: “Assim como a maioria das pessoas que vale a pena conhecer”. Passei mauitos anos em terapia, enenhum foi perdido, trabalhando Virios aspectos de minha infineia. Mas o toma central feram os resul- tados de minka sensibilidade, Hava aquela minha impressao de ser inferior. Havia também o desojo de sor protegida em troca de minha imaginagio, empatia, eriatividade e visdo, coisas que eu mesma nfo upreciava devicamente, E havia ainda meu isolamento do munda, Mas com o entendimento pude reintegrarme ao mundo, ¢ Hoje sinte grande prazor om fazer parte dele como profissional, compartilhande 1» dom especial que é minha sensibilidade. A pesquisa por ts deste livro Quando o-conkecimento a respeito de minha persondlidade mudou minba vies, decidi lor mais sobre 9 assunto, mas nao havia prath monte nada dispon{vel. Pensei quo.o toma mais aproximado fosse a {ntrovorsito, O psiquiatra Gant Jung escroveu sobre ela com muita sa- 16 Use A srsimunane a seu oR hodoria, dosignando-a como a tendéncia dese voltar para o interior. O wabalho de Jung, ele mesmo uma PAS, tem sido degrande ajuda para inim, mas os textos mais cicntificos a respeito de introversio enfecam ‘9s introvertides como nao socidveis, e foi essa idéia que me levow a \quostionar sea intraversiio ea sensibilidade no cstariam sende erro- neamente igualadas ‘Com to pouca informagio para seguirem frente, decidi publicar um aniincio no boletim dirigide aos funcionérios da universidade em que trabalhava na época, Eu me propunha a entrevistar qualquer pessoa -que sentisso ser allamente sensivel a estimulas, imtrovertida ou de rea- ¢a0 emocional muito répica. Em pouco tempo tinka mais voluntérios do que precisava. ‘Em seguida, o jomal Local publicou um artigo sobre minha pesqui- sa; Mesmo nfo havendo ng artigo nenhunsa informagio a respeito de como entrar em contato comigo, mais de uma centena de pessoas me telefonaram.e escreveram agradecendo, pedinde ajuda cu apenas para dizer: “Eu também", Dois anos depois as pessoas ainda me procura: vam. {PAS fis vezes pensam durante bons tempo antes de agir!) Com base nas entrevistas (quarenta delas de duas ou tres horas cada uma), elaborei um questionérie que disteibuf a milhares de pes- sos om toda a América do Norte, Realizei também uma pesquisa por tolefone ligando para treventas pessoas escalhidas ao acaso, © panto que intoressa a voed é que tudo o que ha neste livre foi baseade em solidas pesquisas, minhas ou de outros. Nele utilizo também infor magio obtida através dle observagao sistemética de PAS — dos cursos que fiz, de conversas, consultas individuals @ sessdes terapéuticas. Tais aportunidades cle exploragao da vida pessoal de PAS alcangam os milhares, Mesmo assim, farei uso do “pravavelmente” e do “tale ve” mais freqiientemente do que vood esta acostumado a ver em li- vros de interesso geral, pois acredito que isso agrade as PAS. ‘A decisiio de realizar essa pesquisa, escrever sobre ela ¢ ensinar faz de mém uma espéoio de pionoira, Mas isso também faz parte da condigao de ser uma PAS. Nés somos com freqti@ncia os primeiros a ver o que procisa sor foito. A medida que for erescendo a confian 4. Foram incluidas no Livro algumas atividades que considlero sites 5. Qualquer das atividades poder Patric ” ‘om nossas virtudes, talvez um uiimero cada vez maior de nds venha a se manifestar —a nossa mancira sensivel. Instrucées ao leitor 1. Voltoa ressaltar que, apesar de me dirigir ao leitor como uma PAS, este livro foi igualmente escrito para aquele que deseja compreen- dor as PAS — amigo, parente, consetheiro, empregador, educador ‘ou profissional de-saiide, 2, Paz parte da leitura deste livraa postura de verse como ama pes~ soa que traz uma caracleristica comum a muitas outeas, ou soja, ele ocolaca dentro dle uma categoria, A vantagem é que voce pode sentir-se normal ¢ benelici sacia o das pesqyuisas de outros, Mas a todo rotulo falta aquilo que @ tinico. PAS sao extre- mamente diferentes mesmo tendo uma caracterfstica comum., Por favor, lembre-se disso ao prasseguir. se da-expor Ao ler este livro, voc provavelmente passard a enxergar todas as coisas da vida luz do fato de ser altamente sensivel. Isso ¢ espe~ rado, Na verdade, ¢ exatarnonte essa a idéla. A imetsdo total ajuda a aprender qualquer linguagem nova, inclusive uma maneira nova de falar de si mesma, Se as outros ficarem preocupades, chatea- dos ou exclufdos, peca que tenham paciéncia, Chegaré 0 momento em que 0 conceito se estabilizard e voc? jf nie falard tanto na as- sunt, para as PAS. Mas nao vou dizer. lhe que dove faz0-las para aprave' tar plonamente a leitura, Confie em sia intuigao de PAS @ faga 0 que Ihe parecer melhor. despertar fortes sentimentos, $ isso acontecer, aconselho enfaticamente que procure auxilio pro» fissional, So voct esté fazendo terapia no momiento, este livro de- veré ajudar no trabalho. As idéias aqui apresentadas poderta in= nito, Masa obsorvagiio silenciosa nfo 6 “normal”. A professora diz: “Os ‘outros estio brincando, por que vocd no?” Para ndio desagradar a pro- 112 USE A SENSIBILIDADE A SEU FAVOR fessora nem parecer esquisito, vocé talvez tenha superado a relutancia. Mas quem sabe simplesmente nao conseguiu. Nesse caso, recebia cada vez mais atengao — justamente aquilo de que no precisava. Jens Asendorpf, do Instituto de Psicologia Max Plank, de Munique, escreveu sobre quanto 6 normal™ algumas criangas preferirem brincar sozinhas. Em casa, os pais geralmente percebem que essa 6 apenas uma parte da personalidade de seu filho, mas na escola as coisas sao diferentes. Na segunda série, a crianga que brinca sozinha 6 rejeitada pelas outras e torna-se motivo de preocupagao para os professores, Para alguns, a hiperestimulagiio e a vergonha podem ter levado ao Comprometimento do desempenho escolar. A maioria, por gostar de leitura e estudo, deve no entanto ter tido aproveitamento excelente. Apenas o desenvolvimento das habilidades fisicas e sociais foi com- prometido pela hiperexcitagao. Para lidar com isso vocé pode ter es- colhido um amigo fntimo e talvez tenha ganhado reputagao por ser aquele que inventava os melhores jogos, escrevia as melhores histérias e fazia os melhores desenhos. Na verdade, se comegou a escola com confianga em si mesmo e em Sua caracterfstica sensivel, como aconteceu com Charles no capitulo 1, pode até ter sido um verdadeiro lider. Do contrério, como disse uma amiga médica que tenho: “Vocé sabe de alguém realmente gran- de que tenha passado pela escola sem problemas?” Os meninos e as meninas na escola Minha pesquisa revelou que na idade escolar a maioria das PAS do sexo masculino era introvertida. Isso faz sentido, j4 que os meninos sensfveis nao sao considerados “normais”. Eles precisam ter cuidado com grupos ¢ com estranhos para ver como serdo tratados, As meninas sensiveis, como os meninos, geralmente dependem de uma amiga ou duas durante toda a vida escolar. Mas sao na maioria das vezes razoavelmente extrovertidas. Ao contrério dos meninos, se de- monstrarem hiperexcitagao ou emogiio estardio apenas fazendo o que se espera delas. Isso pode até torné-las mais aceitas pelas outras meninas. O aspecto negativo dessa permissao para ser emotivas, no entanto, Pode ser o fato de as meninas jamais serem forcadas a vestir a arma. A RELEITURA DE SUA INFANCIA E ADOLESCENCIA 113 dura de que os meninos sensiveis precisam para sobreviver. As garo- tas podem adquirir pouca pratica de controle emocional, sentindo-se indefesas quando confrontadas com a hiperexcitagdo das emogées. Podem também vir a usar as emogoes para manipular outras pessoas, inclusive como protegao contra a hiperestimulagio: “Eu vou chorar se tiver de entrar naquele jogo de novo”. A firmeza honesta necessdria na idade adulta nao é esperada nem desejada nelas. A inteligéncia privilegiada Se vocé foi rotulado como dono de uma inteligéncia privilegiada, sua infancia pode ter sido mais facil. Sua sensibilidade foi compreendida como parte de uma caracterfstica mais abrangente e socialmente mais bem aceita. Existiam maiores informagées para professores e pais sobre criangas especialmente inteligentes. Um pesquisador™ lembra, por exem- plo, que nao se pode esperar que tais criangas se relacionem bem com as outras. Os pais nao estardio produzindo um esquisitinho mimado se de- rema seu filho um tratamento especial e oportunidades melhores. Acon- selha-se firmemente que pais e professores permitam que criangas assim. sejam elas mesmas. Esses sao bons conselhos para todas as criangas que fujam da “média ideal”, mas a inteligéncia privilegiada é valorizada 0 suficiente para permitir que se quebre qualquer norma. Todas as coisas tém porém seus lados bons e ruins. Seus pais e professores podem ter exercido pressio sobre vocé. Sua autovalorizagao deve ter ficado totalmente associada a seu desempenho. Além disso, quando nfo estava com os outros “inteligentes”, ficava sozinho e era provavelmente rejeitado. Hoje jé existem orientagdes melhores para a educagao de criangas de inteligéncia privilegiada’’. Eu as adaptei para que vocé as use na paternidade que esté assumindo de si mesmo. Renove a paternidade de sua inteligéncia privilegiada 1. Goste de si mesmo pelo que é, nao pelo que faz. 2. Elogie-se por correr riscos e aprender coisas novas, néo apenas pelos sucessos que alcanga. Isso o ajudaré a aceitar os fracassos. 114 USE A SENSIBILIDADE A SEU FAVOR 3. Tente nao se comparar constantemente aos outros. Isso leva a com- petigdo excessiva. Dé asi mesmo oportunidades de interagéo com outras inteligéncias privilegiadas. Nao se sobrecarregue. Dé-se tempo para pensar e sonhar acordado Mantenha suas expectativas em nfvel realista. Nao esconda suas habilidades. Seja seu préprio advogado. Defenda o direito de ser vocé mesmo. Aceite ter interesses estreitos tanto quanto amplos. > Senoe A respeito do ultimo ponto, talvez vocé deseje estudar apenas neutrinos e mais nada. Talvez sé deseje ler, viajar, estudar e conversar até descobrir o sentido da vida humana neste planeta. (Além disso, vocé vai provavelmente mudar em outro estagio da vida.) Falaremos mais sobre a inteligéncia privilegiada nos adultos (um assunto negli- genciado) no capitulo 6. O adolescente altamente sensivel A adolescéncia 6 um perfodo diffcil para qualquer pessoa. Mas minhas pesquisas demonstraram que a média das PAS relata seus anos de cole- gial como os mais dificeis de todos. Ha as mudangas bioldgicas, que causam confusdo mental, e o répido actimulo de uma responsabilidade adulta atras de outra: a habilitagdo para dirigir, a escolha da vocagao e da faculdade, 0 uso responsével de alcool e outras drogas, 0 risco de ter filhos, passar a ser responsdvel por criangas em empregos de baba e monitores de acampamento, além de coisas como cuidar de documen- tos, dinheiro e chaves. E 0 maior desafio de todos: o despertar dos sen- timentos sexuais e a dolorosa autoconsciéncia que isso traz. Jovens sen- siveis parecem sentir-se constrangidos com os papéis sexuais de vitima ou agressor que a midia sugere ser o que se espera deles. £ também possfvel colocar no sexo toda a energia e ansiedade, pois encarar a fonte real de angustia é mais diffcil. Pense na pressio que significa fazer escolhas que determinarao toda a sua vida sem idéia do resultado, na expectativa de saber que vai sair do tinico lar que sempre conheceu e ter de seguir contente ou pelo menos resoluta- A RELEITURA DE SUA INFANCIA E ADOLESCENCIA 115 tem a crise destruindo a semente para nao ter de enfrentar o fracasso de nao desabrochar “certo”. Existem intimeras formas de autodes- lo um pouco, Talvez. vocé tenha adiado o momento de sair de casa. Viveu com seus pais por alguns anos, trabalhando para eles, ou foi morar com amigos de sua cidade, com quem estudou. Caminhar Passo a passo até tornar-se 116 USE A SENSIBILIDADE A SEU FAVOR Mesmo quando o estudante sensivel prefere recolher-se e descan- sar, existe a pressio para fazer o que os outros fazem, ser normal, acompanhar o ritmo, fazer amigos, satisfazer as expectativas de todos, Qualquer problema que vocé tenha tido na faculdade deve ser revisto. Nao foi uma falha pessoal sua. Nao 6 surpresa que uma boa vida familiar seja de grande ajuda para todos os adolescentes mesmo no momento de deixar o ninho. A influéncia duradoura do ambiente de casa 6 especialmente forte nas PAS. Até a adolescéncia, sua familia j4 ensinou muito a respeito da maneira como vocé pode e deve se comportar no mundo real, Quando os meninos e as meninas sensiveis tornam-se homens e mulheres Quando os adolescentes altamente sensfveis se tornam adultos, a dife- renga entre os sexos aumenta. Assim como imperceptiveis variagdes de rumo no infcio de uma jornada, diferengas de criagao podem fazer com que homens e mulheres cheguem a destinos bem distintos, Os homens em geral tém maior auto-estima que as mulheres. Quan- do os pais valorizam o filho sensivel, como no caso de Charles, no capitulo 1, quando adulto ele tera autoconfianga muito maior, No extre- mo oposto, conheci muitos homens altamente sensiveis cheios de auto- desprezo — 0 que nao surpreende em vista da rejeigao que sofreram. Um estudo com homens timidos desde a infancia (acredito que eram na maioria PAS) revelou que se casaram em média trés anos mais tarde que os outros homens, tiveram filhos quatro anos mais tarde e inicia- ram uma Carreira estavel trés anos mais tarde, o que por sua vez tende aresultar em menor realizagao profissional". Isso pode refletir um pre- conceito social contra os homens timidos ou autoconfianga mais baixa. Pode indicar também um tipo de cautela e procrastinacaio saudével para uma PAS ou a valorizagiio de outras coisas além da familia e da carreira — talvez objetivos espirituais ou artisticos, De qualquer forma, se vocé demorou para dar esses Passos, estd em boa companhia. O mesmo estudo revelou que mulheres timidas, pelo contrario, Passaram pelos estagios tradicionais da vida na €poca certa. E bem ‘A RELEITURA DE SUA INFANCIA E ADOLESCENCIA, 117 menos provavel que a mulher timida tenha trabalhado ou tenha con- tinuado a trabalhar depois de casada, beneficiando-se da tradigao pa- triarcal de ir da casa do pai para a casa do marido sem ter de aprender a sustentar-se. Na escola, porém, essas mesmas mulheres costumam demonstrar “independéncia tranqitila”, interesse por coisas intelectuais, alto nivel de aspiragées e direcionamento intimo”. Dé para imaginar que tal “in- dependéncia tranqiiila” gerou na vida dessas mulheres uma tensio entre a necessidade de seguir seu “direcionamento {ntimo” e a sensa- Gao de que o tinico oasis calmo e seguro para elas era o casamento tradicional. Muitas das mulheres que entrevistei sentiam que seu casamento fora um engano, uma tentativa de lidar com a sensibilidade acrescen- tando uma pessoa a sua vida ou assumindo um papel seguro. Nao sei se a taxa de divércios 6 maior entre elas, mas as razoes do divércio podem ser diferentes das de outras mulheres. Parece que em algum momento sao igualmente forgadas a encarar 0 mundo sozinhas e en- contrar meios de dar vazao a sua forte intuigao, criatividade e outros talentos. Se 0 casamento nao lhes dé espago para esse crescimento, transforma-se no trampolim de uma independéncia maior quando fi- nalmente se sentem prontas. Marsha foi certamente uma mulher assim. Casou-se cedo e espe- rou até os 40 anos para desenvolver as habilidades criativas e intelec- tuais que eram tao evidentes na escola. Para ela (e para cerca de um tergo das mulheres que entrevistei) pode ter havido algo além de sim- ples sensibilidade nessa hesitagao em relagao ao mundo. Essas mu- Theres tiveram experiéncias sexuais perturbadoras — Marsha as teve com seus irmaos. Mesmo quando nao hé abuso sexual explicito, sabe- se que todas as mulheres jovens sofrem queda de auto-estima na pu- berdade, provavelmente por perceber seu papel de objeto sexual. A garota altamente sensivel sentir ainda mais essas implicagoes e fara da autoprotegao sua mais alta prioridade. Algumas se esforgam para parecer pouco atraentes, algumas estudam demais ou treinam demais para nao ter tempo livre e outras escolhem logo um namorado e ficam com ele para que as proteja. 118 USE A SENSIBILIDADE A SEU FAVOR Marsha contou-me que sua lideranga e seu prilhantismo na escola acabaram no primeiro ano de colégio, assim que seus seios se desen- volveram (com um volume acima da média). Ela estava de repente atraindo a atengao de todos os garotos. Passou a usar casaco para ira escola, qualquer que fosse o clima, e tentava ser 0 mais invisfvel que podia. Além disso, as lideres agora eram, em suas palavras, as “caga- doras de meninos, burras e cheias de risadinhas”. Ela nao podia e nao queria ser uma delas. Mas mesmo assim era sempre assediada pelos rapazes. Um dia dois deles a seguiram e lhe roubaram um beijo. Ela foi para casa horro- rizada e ao chegar viu um rato, real ou imaginario — ela nunca soube dizer —, descendo as escadas em sua diregdo. Por muitos anos viu ratos sempre que beijava um rapaz. ‘Aos 16 anos Marsha apaixonou-se pela primeira vez, mas terminou quando sentiu que estavam ficando intimos demais. Permaneceu vir- gem até os 23 anos, quando foi forgada por um namorado. Depois disso entregava-se a qualquer um que insistisse — “menos aos rapazes que eu realmente amava”. Em seguida vieram um casamento abusivo, a longa espera pela coragem de divorciar-se e 0 infcio da carreira artfstica. Em resumo, mais uma vez 0 sexo faz diferenga na forma de mani- festagado da sensibilidade. Quando os meninos sensiveis se tornam homens, podem nao conseguir manter 0 passo com os outros homens, no ritmo e no estilo de vida. Ser sensfvel nao é “normal” para os ho- mens, enquanto nas mulheres a sensibilidade 6 esperada. As meninas sens{veis acham facil aceitar o caminho dos valores tradicionais sem antes aprender a ser alguém no mundo. Uma concluséo a respeito da maturidade: nés crescemos em um mundo altamente social Estamos no final de um capftulo, mas possivelmente no infcio do tra- balho de toda uma vida: aprender a ver sua infancia a luz de sua ca- racteristica especial e a renovar sua paternidade quando necessario. Fazendo uma retrospectiva, vocé veré que boa parte deste capitulo a respeito do crescimento foi dedicada a seu relacionamento com os A RELEITURA DE SUA INFANCIA E ADOLESCENCIA 119 outros — pais, parentes, colegas, professores, estranhos, amigos, na- morados e namoradas, maridos e esposas. Os seres humanos sao ani- mais muito sociais, até mesmo as PAS! Parece que esta na hora de nos voltarmos para a vida social das PAS e para essa palavra que continua a aparecer, esse estado mental chamado “timidez”. TRABALHE COM 0 QUE APRENDEU A esséncia deste capitulo, e talvez deste livro, 6 a releitura de sua vida sob a perspectiva de sua sensibilidade. E a tarefa de ver seus fracassos, suas m4goas, sua timidez, os momentos embaragosos ¢ todo o resto de forma nova, uma forma ao mesmo tempo mais friamente precisa e mais calorosamente compreensiva. Liste os principais eventos de sua infancia e adolescéncia, recor- dagées que moldaram a pessoa que vocé é hoje. Podem ser momentos isolados — uma brincadeira na escola ou o dia em que seus pais con- taram que estavam se divorciando. Pode ser um conjunto de eventos — © primoiro dia de aula de todos os anos ou ter de ir para o acampa- mento de férias todos os verdes. Algumas lembrangas serao negativas, como ter sido intimidado, maltratado ou provocado, e talvez até trau- maticas e trégicas. Outras terdo sido positivas, mas mesmo assim perturbadoras: uma manha de Natal, férias com a familia, sucessos, premiagées. Escolha um acontecimento e Percorra os passos de reformulagao apresentados no capitulo 1: 1. Pense em sua reagao ao evento e como essa reagao foi vista. Voce sente que reagiu de maneira “errada” ou ndo como os outros teriam teagido? Os sentimentos duraram demais? Vocé achou que nao 120 USE A SENSIBILIDADE A SEU FAVOR agiu bem? Tentou esconder sua perturbagao ou as pessoas desco- briram como se sentia e Ihe disseram que “j4 era demais”? 2. Analise sua reagdo a luz do que agora sabe sobre as reagdes au- | tomdticas de seu corpo ou imagine que eu, a autora, estou expli- cando essas reagées a vocé. Decida se hd algo que possa ser feito agora. Se sentir que deve, compartilhe com alguém a nova visdo que agora tem da situagao —alguém que déa ela o devido valor. Talvez possa ser alguém que esteve presente naquela época e poderé ajudar a acrescentar deta- lhes a cena. Acredito também que ¢ util escrever a antiga experién- cia e a nova, conservando as anotagdes por algum tempo como lembrete. Caso sinta ser itil, reemoldure nos préximos dias outro evento infantil importante até sentir que passou toda a lista. Nao apresse © processo, Dé alguns dias para cada evento. Um acontecimento importante precisa de tempo para ser digerido. = : Capitulo 5 OS RELACIONAMENTOS SOCIAIS : Recaida na “timidez” “Vocé & TIMIDO DEMAIS.” Ouviu isso muitas vezes? Pois tera opi- nido muito diferente depois de ler este capitulo, que discute quando a timidez geralmente ocorre mais: nos relacionamentos sociais menos intimos. (Os relacionamentos fntimos serdo discutidos no capitulo 7.) E fato que muitos de vocés sao socialmente habeis, mas como nao faz sentido consertar 0 que nao esta quebrado focalizarei aqui um problema tfpico que pede solugaio — o que os outros chamam de “timidez”, “distanciamento” ou “fobia” social. Mas abordaremos esse assunto e alguns outros comuns as PAS de mancira bastante diferente. Repito que enfocar esses problemas nao significa dizer que as PAS tém necessariamente uma vida social dificil. Mas até mesmo 0 presi- dente dos Estados Unidos e a rainha da Inglaterra devem se preocupar as vezes com 0 que os outros pensam deles. Vocé provavelmente se preocupa também. E a preocupagao nos leva A perturbagao, nosso cal- canhar-de-aquiles, Muitas vezes nos dizem: “Nao se preocupe, ninguém esta julgan- do vocé”. Sendo senstvel, vocé percebe no entanto que as pessoas na verdade estado observando e julgando, elas normalmente fazem isso. na vida 6 bem mais dificil: conhecer aqueles olhares, aqueles julga mentos silenciosos, e nao se deixar afetar demais, Nao ¢ facil Se voc€ sempre se considerou timido Muitas pessoas confundem sensibilidade com timidoz. E por isso voc8 ouve tanto que 6 “timido demais”. Diz-se que um cao, ] cavalo nasceu “arredio” quando 0 animal tem um sistema norvos sensivel (a menos que tenha softido maus-tratos: nesse caso 0 mak apropriado 6 dizer que é um animal “medroso"), Ser imido é tome quo 08 outros no gostem de nds ou nao nos aprovem. Isso significa a Tesposta a uma situago, & um determinado estado, nao uma caractes ristica sompre presente, A timidez, mesmo a cronica, nao 6 hordade, sensibilidade sim. Embora a timidez crénica se manifaste mais entee 8 PAS, isso nfo acontece abrigatoriamente. Tanho conhecide muitne PAS que quase nunca se sentem timidas, a Se vocé se sente timido muitas vezes, 6 facil explicar com que qualquss posonfigu asin, nlasve a6 ats Pag gum momento do passado voeé esteve em alguma situagao social (os. Pecialmente hiperestimutante) ¢ sentin que incorren em falha, AL, suém disse que voct fez alguma coisa errada ou parocew nao gostar de voc# ou talvez vocd nao tenha satisfeito as préprias epocint a relagdo i situago, Quem sabe jé estava hiporexcitado, e sua excelente imaginagio previu tudo 0 que podoria dar errado. nq Um fracasso nfo é, em goral, suficiente para deixar ninguém cro: camento timido, mas isso pade acontecer. © que mais normalmenta bade tor ocorrido foi que na vor seguinte em quo se viu na mann. situagio voc® estava mais agitado, com medo de que os fatos se nerann som, Natarceia ver tento str conjoso,mas estes aha eee © padifo Tepetirse de novo @ de novo, numa espiral descondente cxindndoseparacutrsiadaapum epee ualquer ocasido que envolva a presenga de outras pessoas! Tire a“ ‘Os anLAGONAMATOS SOC ‘As PAS, por ser mais perturbdveis, tém maior chance de entrar ‘nossa espiral. Mas voc no nasceu timido, apenas sens‘vel, imidez” de seu auto-retrato Acoitar 0 rétulo de “timido” acarrota trOs problemas. Primeito, isso 6 totalmente incorreto, Nao descreve verdadeiramente vocé, sua sensi- bilidade as sutilezas e sua dificuldade do administrar a hiperexcitagao. Lembre que a hiperexcitagiio nem sempre 6 devida ao medo. Acreditar nisso pode fazer com que se sinta timido, quando nao 6, como vers. Confundir sua'garacteristica com o estado de espirito chamado de timidoz6 natural, uma vez que os socialmente extravertidos constituem 75% da populacao (pelo menos nos Estados Unidos). Quando perce- bem que vocé parece angustiado, os outros nao entendem que a causa disso pode ser a hiperestimulagio. Essa experiéncia nao 6 deles, é sua. Pensam que vocé tem medo de nao ser aceito. f um timido. Esta assus- tado coma rejei¢do. Que outro motivo vocd teria para nao Ser sociavel? Algumas vezes voc? tem medo da rejeigio. Por que nao? Afinal, sou ostilo ndo 6 culturalmente o ideal. Mas, sendo uma PAS, as vezes voct simplesmente no quer excitagio demais, Os outros o tratam. como se fosse timido e medroso porque ¢ dificil para eles, pelo menos a princfpio, perceber que apenas escolheu ficar a ss, Para eles, nin- gudm 0 esti rojoitando, vocé 6 que nesse caso parece rejeitar. (Além de nao compreender o que sente porque nasceram carentes de mais estimulo para sentir-se bem, as pessoas ndo-PAS podem também pro- © préprio medo de rejeigao, ou seja, atribuirthe 0 que jetar em v nao desejam admitir em si mesmas.) Caso conviva pouco com as demais pessoas, quando (everia fazer 50, saiba que sua atitude aumenta o risco de perder essa habilidade —a convivéncia, Ela nfio 6 sua especialidade, mas repito no ser correto concluir que vocd seja timido ou medroso, As pessoas que decidem ajudé-lo quase sempre partem de uma premissa equivocada. Acredi- tam, por exemplo, que Ihe falta conflanga e afirmam que voc! é agra- davel, Querem de fato dizer, porém, que voc tem um: problema — falta-Lhe auto-estima, Sem conhecer seu trago bisico, atribuem moti- Defini Infelizmente a palavra timidez tem algumas conotagées muito negal vas, Nao precisa ser assim. ‘TYmido pode querer dizer também disc to, controlado, atencioso ¢ sensivel. Mas estudos tem demonstra ue a matoria das pessoas, em seu primeiro contato com aquolas qt chamo de PAS, considerou.as timidas o escolhou como palavras equ valentes ansioso, esquisito, medroso, inibido e retrafdo® profissionais de satide mental as classificam a , coisas que '40 com timidez. Apenas as pessoas que jé conheciam bem timidos, como seus cOnjuges, escolheram termos positives. Outro ess tudo demonstrou que testes usados por psicélogos na mensuragao da timidez estao também repletos de termos negativos’. Nio haveria pro- blema se fossem testes de um estado de espirito, mas normalmer 80 usados pai u te i identificar “pessoas timidas", que passam entio a Carregar tn rétulo. Mantenha-se alerta em relagao ao preconceito ocul to na palavra “timido” Definir-se como “timido” leva d auto-sabotagem Uma oxperimentacio psicolégica bastante interessante sobre a timidex {oi realizada por Susan Brodt ¢ Philip Zimbardo‘, da Universidade Stanford. la demonstra por que vocé precisa reconhecer que nao é Umido, mas apenas uma PAS que ficou hiperexcitada, : Brodt e Zimbardo escotheram mogas estudantes que declararam Ser extromamente “timidas”, especialmente em relacdio aos homens, ¢ oultras que ndo eram “timidas” como grupo de comparagao, No estudo, Supostamente relativo aos efeitos do barulho excessivo, cada uma das Jovens passou algum tempo com um rapaz. Este, ignaranda se ajovem er4 ou nao “timida”, fora instrufdo a canversar com cada uma doles dda mesma maneira, Interessante foi o fato de que algumas das ostic do que a aj (io tanto quanto as ndo-timidas. Chegaram mesmo a tomar iniciativas ¢ontrolando o tema da conversa tanto quanto as outras. O outro grupo de mulheres timidas, que ndo tinha a que atribuir a agitagio, falou menos e permitin que o rapaz conduzisse a conversa, Apés o experi- mento, pedi las. Ele nao foi ¢apaz de distinguir as nio-th haviam acreditado que a causa de sua agitagao fora o barulho. 125 duntos tmidas deixaram-se levar pela impressao de que sua agitagao = coragiio e pulso acelerados — era devida ao excesso de barulha resultado mostrou que as mocas “timidas” que haviam acredita- taco fora causada pelo barulho mantiveram a conversa se que 0 rapaz-tentasse adivinhar quais delas eram timi- las das timidas que jssas mogas comportaram-se de manoira menos timida por acreditar que nao havia um motivo social para sua hiperexcitagio. Elas declara- ram niio ter tido timideze também que gostaram genuinamente da expe De fato, quando Thes foi perguntado se prefeririam estar sozinhas par de um na préxima vez se fossem novamente convidadas a partic ‘experimento de bombardeamento de sons”, dois tergos afirmaram pre- forir nfo ficar a s6s contra apenas 14% das outras timidas e 25% das nilo-timidas. Aparentemente essas estudantes tiveram uma experié cia particularmente agradavel apenas porque pensaram que a hiperexci- taco tinha outra causa, diversa da timidez, Lembre-se desse experimento na proxima vez que se sentir hiperex- citado em uma situagdo social. Seu coragao pode ficar acelerado por grande numero de raz6es absolutamente nao relacionadas com as pessoas com quem esté. Pode haver barulho demais ou vocé pode estar preocupado com alguma outra coisa da qual tenha apenas cons- ciéncia parcial. Portanto, vé em frente, ignore as outras coisas (se pu- der) e divirta-se Apresentei aqui trés razdes para nao chamar mais asi mesmo de timido. & incorreto, negativo ¢ auto-sabotador. E nao deixe também que os outros o rotulem assim. Digamos que é um dever eivico erradicar esse preconceito social. Nao ¢ apenas injusto, como vimos no capitu- lo 1, mas perigoso porque ajuda as PAS pela diminuigao de sua autocont 126 Use A SENSIBILIDADE A SEU Favor Como encarar seu “desconforto social” O desconforto social (termo que considero melhor que “timidez”) 6 qua- se sempre devido a hiperexcitagao, que o faz agir, falar e parecer so- citado. Vocé teme fazer algo desastrado, nao ser capaz de pensar em nada para dizer. Mas essa antecipagiio, por si s6, jd 6 suficiente para criar a hiperexcitagao assim que se Vé na situagao, Lembre-se de que o desconforto 6 temporario, o que lhe oferece escolhas. Vocé pode suportd-lo. Imagine que esté sentindo um frio O mesmo raciocinio 6 valido em relagao ao desconforto social cau- sado pela hiperexcitagio. Vocé pode fazer frente a ele, sair da situa- ¢ao, mudar a atmosfera social, pedir a outros que o faga ou fazer algo para ficar mais confortavel, como assumir uma “persona” (discutire- mos isso mais tarde). Em qualquer dos casos, conscientemente se livraré do desconforto. Assim, esquega a idéia de que 6 avesso a situagées sociais, Cinco maneiras de administrar a hiperexcitagéio em situagées sociais Lembre que a hiperexcitagao nao significa necessariamente medo, Encontre outras PAS e converse com elas, uma de cada vez. Use técnicas para reduzir a excitagao. Crie uma “persona” e use-a conscientemente. Explique sua caracterfstica as pessoas. oe Bie Pessoas com quem esta. Se vocé for julgado, nao sera seu verdadeiro eu, mas aquele que est temporariamente alterado pela hiperexcitagao. Quando conhecerem 0 seu eu tranqitilo, aquele que é sutilmente cons- Os RELACIONAMENTOS SOCIAIS 127 ciente, ficardio bem impressionados. Vocé sabe que tem amigos que 0 admiram por isso. Quando voltei ao curso de pés-graduagiio, na meia-idade, no pri- meiro dia, na primeira hora, na sala do café, derramei um copo cheio de leite por todo o corpo e no chao, bem como em todos que estavam por perto. Ninguém havia esbarrado em mim. Eu esbarrei em alguma coisa. Isso aconteceu na frente de todos os meus futuros colegas ¢ professores, as pessoas que mais desejava impressionar. Ochoque somou-se 4 minha excitagao, j4 quase insuportavel. Mas, gracas 4 pesquisa que estava fazendo a respeito das outras PAS, como vocé e eu, jd sabia a razao de ter feito aquilo. Minha incapacidade de transportar aquele leite era previsivel. O dia foi dificil, mas eu nao deixei que o leite derramado piorasse meu desconforto social. No transcorrer do dia encontrei outras PAS, e isso ajudou muito. Todos nés estavamos derramando leite, por assim dizer. Em situagdes sociais médias espera-se encontrar cerca de 20% de PAS e outros 30% que se sentem moderadamente sensiveis. Estudos sobre a timidez de- monstram que, num questiondrio anénimo, 40% se declaram timi- dos*. Em uma sala cheia de gente, existe a possibilidade estatfstica de que pelo menos uma pessoa tenha o mesmo trago de sensibilidade ou esteja sentindo desconforto social, como vocé. Procure o olhar dessa pessoa ao tropegar, literal ou metaforicamente, e perceba a expresso de profunda compreensao. Vocé teré um amigo imediato. ‘Ao mesmo tempo, use todas as sugestées do capitulo 3 para redu- zir a agitacéio. Faga pausas ou uma caminhada, Respire fundo. Movi- mente-se. Analise as opgoes. Talvez esteja na hora de sair. Talvez haja um lugar melhor para se colocar, perto de uma janela aberta, um cor- redor ou uma porta. Pense nos abrigos — que pessoa ou objeto familiar e tranqiiilo poderia protegé-lo nesse momento? Naquele primeiro dia de curso de pés-graduagao houve momentos em que tive medo de que os professores pensassem que alguma coisa muito errada estava acontecendo comigo. Para as ndo-PAS tamanha agi- taco significa conflito sério e instabilidade. Por isso usei todos os meus truques — caminhar, meditar, dirigir fora do campus na hora do almo- 0, telefonar para casa pedindo uma palavra de apoio. E funcionou. 128 USE A SENSIBILIDADE A SEU FAVOR Freqiientemente pensamos que nossa agitagao 6 mais perceptivel do que realmente 6°. Vocé sabe que boa parte da vida social se da pelo encontro de uma “persona” com outra, nenhuma das pessoas olha muito além da superficie da outra. Se vocé se comporta de forma pre- visivel e diz o que todos dizem mesmo sem sentir vontade, ninguém vai perturbé-lo nem concluir que é arrogante, indiferente, fofoqueira © coisas assim, As pesquisas indicam, por exemplo, que estudantes “timidos” tendem a pensar que fazem o melhor que podem em termos sociais, mas seus colegas acham que nao se esforgam 0 bastante’, Tal- vez seja culpa de nossa cultura, que néo compreende as PAS, mas até que possamos mudar isso vocé tornaré sua vida mais fécil fingindo um pouco mais, como todo mundo faz. Assuma uma “persona” — 0 termo vem da palavra grega que significa mdscara. Por tras da masca- ra vocé pode ser quem quiser. Por outro lado, algumas vezes a melhor titica 6 explicar sua agita- ao. Eu muitas vezes fago isso ao dar aulas ou falar para um grupo de estranhos. Digo-lhes que minha voz vai soar um pouco estridente, mas em poucos minutos estarei bem. Quando estiver com um grupo, explicar sua caracterfstica conduz a uma conversa mais fntima a res- peito do desconforto social de todos, possibilita-lhe sair antes dos outros sem sentir-se culpado ou lhe da a liberdade de fazer uma pausa sem ficar “isolado” quando voltar. Talvez alguém possa reduzir os estimulos diminuindo a iluminagao ou 0 volume da misica ou dei- xando vocé “passar” no momento das apresentagoes. Quando mencionar que ¢ altamente sensivel, vocé despertaré um dos seguintes esterestipos, dependendo das palavras que usar: um, na verdade, 6 0 da vitima passiva, fraca e problematica. O outro 6 o da pessoa de inteligéncia privilegiada, profunda, de presenca marcante na sala. & preciso alguma prdtica para usar palavras que despertem o este- re6tipo positivo. ‘Trabalharemos com isso no capitulo 6. Quando tenho de ficar com um grupo por um dia inteiro ou todo 0 fim de semana, geralmente explico que preciso de muito tempo a sés. Muitas vezes outras pessoas também o fazem. Mesmo quando sou a tinica a ir cedo para o quarto ou a fazer longas caminhadas solitérias, aprendi a nao gerar compreensao nem pena, deixando apenas um ar (Os RELACIONAMENTOS SOCIAIS 129 de mistério para tras. Membros da classe dos “conselheiros reais” po- dem pensar nessa opgao. Crie um pouco de mistério em torno de vocé. Pessoas, estimulos e introversao Até aqui atacamos 0 “problema” livrando-nos do rétulo de timidez e aprendendo que o que acontece conosco é uma hiperexcitagao costu- meira. Igualmente importante 6 compreender que existe mais de uma maneira de ser socialmente correto. Sua forma social de ser vem de um fato basico: para a maioria, grande parte dos estimulos perturbadores do mundo externo vem de outras pessoas, em casa, no trabalho ou em piiblico. Somos todos seres sociais que apreciam companhia e precisam depender dos demais. Mas muitas PAS evitam as pessoas que vém em “pacotes” de hiperex- citagao — os estranhos, as grandes festas, as multidées. Para a maioria das PAS, essa é uma tragédia pungente. Em um mundo altamente es- timulante e exigente, todos temos de estabelecer prioridades. Naturalmente ninguém pode tornar-se um especialista em situa- goes que prefere evitar. Mas a maioria pode administré-las ou apren- der a lidar com elas. Administrar apenas é uma forma aceitdvel e inte- ligente de economizar energia para aquilo que realmente interessa. F também verdade que algumas PAS evitam estranhos, festas e ou- tras situag6es de grupo por ter sido rejeitadas no passado. Por nao se encaixar no ideal cultural da pessoa extrovertida, foram duramente julgadas e agora evitam as pessoas com as quais nao se sentem seguras. Isso parece razodvel, apesar de triste, e nao é motivo para se envergonhar. No cémputo geral, 70% das PAS tendem a ser socialmente “intro- vertidas”. Isso nao quer dizer que vocé nao goste de pessoas. Significa que prefere ter alguns poucos relacionamentos fntimos a um grande circulo de amigos e que geralmente nao gosta de grandes festas nem de multidées. Mesmo pessoas mais introvertidas podem as vezes ser expansivas e apreciar um estranho ou a multidao. E mesmo a pessoa mais extrovertida as vezes se introverte. Os introvertidos também sio seres sociais. O relacionamento social, na verdade, afeta seu bem-estar mais do que o dos extrovertidos*. Eles se importam com qualidade, néo com quantidade. ' SINSIRIDADE A SEU FAVOR APAS extrovertida Quoro enfatizar que ser uma PAS nao 6 0 mesma que ser socialment introvertido. Descobri com meus ostudos que os socialmente extro- vertidos entre as PAS somam 30%, Sendo extrovertido, vood tem grane dos circulos de amigos e aprecia estranhos e grupos. Talvez tenha sido criado em uma familia grande, socivel e amorosa ou em um bairra seguro onde aprendeu a ver as pessoas como fonte de seguranga, € nao como razao para se por om guarda. Apesar disso vocé ainda encontra outras fontes de pertubacao igualmente diffceis, como um longo dia de trabalho ou a permanéncia Por muito tempo no centro da cidade. Quando esta hiperexcitado, voc evita a vida social. (Extrovertidos nio-PAS relaxam melhor na companhia de outras pessoas.) Mesmo que nossa atengao aqui esteja voltada para os habitualmente introvertidos, os extrovertidos também encontrardo utilidade na leitura, Valorizagio do estilo introvertido Avril Thome, atualmente na Universidade da California, em Santa Cruz, propés-se observar como os introvertidos realmente interagem Usando testes para identificar estudantes universitérias altamente introvertidas e altamente extrovertidas, ola formou pares de pessoas do mesmo tipo ou de tipos opostos ¢ filmou as conversas. As estudantes altamente introvertidas eram sérias © concentradas. Conversavam principalmente a respeito de problemas e eram mais cautelosas. Demonstraram-se inclinadas a ouvir, entrevistar e dar con- selhos. Parociam concentrar-se profundamente na outra pessoa. No outro extremo, as mogas altamente extrovertidas tiveram con- versas mais “agradéveis”, buscaram concordancla, procuraram seme- (Os RHLACIONAMENTOS SAS ae thangas em seu passaclo e suas experiéncias eelogiaram-se mals, Eram ‘nimadas e expansivas e gostaram de formar par com ambos 0s tipos, ‘como se seu maior prazer fosse a prépria conversa Quando as extrovertidas formaram par com as altamente introver- tidas, consideraram agradével nio ter de ser tao animadas. E as intro- vertidas avaliaram a conversa com as extrovertidas como “um sapro do ar fresco”. A perspectiva que ganhamos do estudo de Thorne é ¢ada tipo dé a0 mundo uma contribuigao igualmente importante. Mas, dovido & pouca valorizagao do tipo introvertido, dodicaremos algum. tompo ao comentario de suas yirtudes Junge o estilo intovertido Carl Jung via a introversio como uma divisdo bisica entre os seres humanos, causa de grandes embates da filosofia e da psicologia. A maioria doles reduzia-se a discutir se seria os fatos exterioros ou @ ‘compreensio interior dosses fatos o fator mais importante do entendi mento de qualquer situagae ou assunto, ; Jung via as duas altitudes om relagio a vida, que a maioria das pessoas alterna, como uma respiragio ~ para dentro e para fora” Alguumas pessoas sao porém consideravelmente exteriores. Mais ainda, para ele nenhuma das duas atitudes api relagao dizeta com 0 fato de ser ou nao socidvel. A introver simplesmenteo ato de estar Vltado pare dentro, em diracio ao sujei- to, ao eu, mais do que para © objeto exterior, A introversao viria de uma necessidae ou preferéneia por prokger o aspecto interior, “sub- jetivo", da vida, dando-Lhe miior valor eparticularmente nao permi~ tindo perturbagies do mundo “objetivo”, ‘Nada serésuficiente para enfatizar ainportancia dos introvertidos na visio de Jung, Elessio a evidéncia viva de queesse mundo rico e varia- do, com sua exuberante vida inebiante, nao é puramente externo, mas que também existe nointerior (..) Sua vida en- sina mais que suas palavias (..) Suavida ensina a ontra pos sibilidade, a vida interior, que 6 tao pungentemente necossé- ria em nossa civilizagao", Jung conhecia o preconceito da cultura ocidental contra os intro- vertidos e podia toleré-lo quando vinha dos extrovertidos. Mas sentia que 0 introvertido que se subestima presta um desservico ao mundo, Todos siio necessdrios Algumas vozes s6 precisamos apreciar © mundo exterior como ele 6 Sor gratos aos que nos ajudam, os extrovertidos que conseguem fazer com que completos estranhos estabelecam um vinculo. Algumas vezes Precisamos de uma ancora interior, dos introvertidos que dedicam total atengio as nuangas mais profundas da experiéncia pessoal. A vida nao 6 apenas os filmes que jé vimos nem os restaurantes que conhecemos, Algumas vezes é essencial para a alma discutir quest6es mais suis, Linda Silverman, especializada em criangas de inteligéncia privi- legiada, descobriu que, quanto mais brilhante a crianga, maior 6 a possibilidade de ser introvertida”. Os introvertidos sio excepcional- mente criativos, até mesmo em coisas simples como o ntimero de res- Postas inesperadas a um bloco de testes Rorschach", $40 mais flexi veis também, de certa maneira, ja que muitas vezes tm de fazer coisas que 0s extrovertidos fazem todo o tempo — encontrar estranhos ¢ ir a festas. Mas os extrovertidos podem evitar a introversao, a reflexao interior, por anos a fio, Essa maior versatilidade apresentada por al guns introvertidos ¢ especialmente importante em um estégio mais avancado da vida, quando a pessoa comoga a desenvolver aquilo que Ihe faltou até ali, nesse estigio da vida, também, que a capacidade de reflexiio se torna importante para todos. Em resumo, os introvertidos podem amadurecer com maior sabedoria. ‘Voce esté, portanto, em boa companhia. Ignore as farpas a respeito de “animar-se”. Desfrute a frivolidade dos outros e abrace sua especia- lidade. Se nao 6 bom para bater papo, orgulhe-se de seu siléncio. Igual- mente importante 6 permitir, quando seu humor muda e sua parte ex- trovertida se manifesta, que sua conversa seja tao sem-graga e tola quanto tiver de ser. Todos nés nos atrapalhamos quando fazemos algo em que nijo somos especializados. Vocé possui uma parte daquilo que é “bom” Seria pura arrogdncia pensar que qualquer um de nés pudesse ter tudo. Fazer amigos ‘As pessoas introverticlas preferom relacionamentos intimos por muitas razdes. Os intimos compreendem-se ¢ apsiam-se. Um bom amigo ou um companheiro pode também perturhi-lo mais, mas isso forga ao crescimento interior, freqiientemente uma alta prioridade das PAS, Por causa de sua intui respeito de coisas complicadas como filosofia, sontimentos ¢ conilitos, E dificil fazer isso com um estranho ou em uma festa. Os introvertidos, finalmente, possuem um trago de personalidade que pode torné-los bons nos relacionamentos fntimos —com os {ntimos oles podem expe- rimentar 0 sucesso social Os extrovertidos estao certos, porém, quando dizem que “um es- tranho 6 s6 um amigo que eu ainda nao conheci”. Todos os sous amigos mais {ntimos foram estranhos um dia. Quando esses relacionamentos mudarem (ou terminarem) voce vai desejar encontrar novos possiveis amigos intimos. Entdo talvez deva lembrar como conheceu seus me- Ihores amigos. Jo voc) provavelmente gosta de conversar a As boas maneiras ¢ a persona Lembre-se, especialmente se for quase sempre introvertido, de que na maior parte das situagGes voce precisa satisfazor pelo menos as ex- pectativas sociais mnimas. As PAS podem reduair todas as regras de etiquota a uma regra de cinco palavras: minimize a hiperexcitagiio do outro, (Ou de duas palavras: seja gentil.) Um siléncio mortal, se ines- perado, pode causar desconforto a outra pessoa. Tanto quanto ser ex- cessivamente animado, esse 6 0 engano mais freqiiente dos extroverti- dos. O objetivo 6 dizor coisas agradaveis que nao causem surpresa. Isso pode, sim, entediar pessoas que nao sejam sensiveis gostem de muita estimulagao, Mas, quando voce conhece alguém, deseja que 134 ‘USE A SENSIBILIDADE A SEU FAVOR sua excitagao de curto prazo fique controlada mesmo que esse nao seja o problema do outro. Mais tarde poder ser tao criativo e surpreenden- te quanto queira. (Mas nesse ponto vocé ja estard correndo riscos calcu- lados, ¢ qualquer sucesso poderd ser contado como ponto positivo.) Agora vocé vai precisar de um curso mais avangado sobre personas ou papéis sociais. Ter uma boa persona obviamente significa demons- trar boas maneiras e um comportamento previsfvel e neutro. Mas a persona pode também ser um pouco mais elaborada, de acordo com a necessidade. Um banqueiro desejaré uma persona sdlida e pratica. Se houver um artista em seu interior, o banqueiro desejaré manté-lo em segredo. Artistas, por outro lado, procurarao manter sua sensibilidade de banqueiro escondida das vistas do publico. Estudantes serao es- pertos se parecerem um pouco humildes, professores precisam de- monstrar autoridade. A idéia da persona contradiz.a admiragio da cultura norte-america- na pela franqueza e pela autenticidade. Os europeus tém compreen- so muito maior do valor de nao dizer tudo o que se pensa. Existem, porém, pessoas que se identificam demais com a propria persona. Todos nés conhecemos 0 tipo. Como nao tém nada por dentro, é diff- cil afirmar se sao desonestas ou falsas. Mas a excessiva identificagao com a persona é rara entre as PAS. Caso ainda pense que estou Ihe pedindo para nAo ser sincero, en- care 0 processo como a escolha do nfvel apropriado de abertura ao momento ¢ ao lugar. Tome como exemplo a situagao em que mal co- nhece uma pessoa e ela procura uma amizade que vocé nao deseja iniciar. E pouco provavel que vocé recuse o convite para um almogo dizendo: “Sinto que nao quero ser seu amigo {ntimo”. Vocé acharé um. pretexto, como dizer que est4 muito ocupado no momento. A resposta 6 honesta até certo ponto — se seu tempo fosse infinito, talvez levasse essa amizade um pouco além. Dizer ao outro algo que 0 coloque no tiltimo lugar de sua lista de prioridades nao 6, em mew ponto de vista, moralmente correto. Boas maneiras e uma boa persona requerem esse tipo de honestidade, que demonstra consideragao e salva as aparéncias, principalmente em relagao as pessoas que nao conhece bem. ‘Os RELACIONAMENTOS SOCIAIS 135 COMO VOCE CONHECEU SEUS MELHORES AMIGOS? Escreva os nomes de seus melhores amigos, cada um em uma folha separada. Depois responda as seguintes perguntas a respeito do inicio da amizade: + As circunstancias forgaram vocé a falar? * Foi o outro que tomou a iniciativa? + Havia algo de incomum na maneira como se sentia? * Vocé estava especialmente extrovertido naquele dia? + Como estava vestido e como se sentia a respeito de sua aparéncia? + Onde vocé estava? Na escola, no trabalho, em férias, em uma festa? + Qual era a situagao? Quem os apresentou? Conheceram-se por aca- so? Um teve de falar com 0 outro a respeito de alguma coisa? 0 que aconteceu? + Como foram os primeiros momentos, horas e dias? + Quando e como ficou sabendo que aquela seria uma amizade? Agora procure o que as respostas tém em comum. Por exemplo: vocé nao gosta de festas, mas pode ter conhecido dois de seus melhores ami- gos em festas. Alguma das situagdes esta ausente de sua vida neste mo- mento, como freqientar uma escola ou trabalhar com outras pessoas? Ha algo que vocé queira fazer a respeito do que aprendeu? Prometer ir a uma festa por més? (Ou evitar festas de hoje em diante —festas nao sao o lugar ideal para fazer amigos.) Desenvolva maior habilidade social Existem dois tipos de informagio sobre habilidades sociais comumente acessiveis em livros, fitas, palestras, artigos ou cursos. Um tipo vem dos especialistas em extroversio, habilidades sociais, vendas, admi- nistragao de pessoal e etiqueta. Essas pessoas geralmente sao espiritu 10- sas e descontrafdas. Elas falam a respeito de aprender, e nao curar, e portanto néo diminuem sua auto-estima pressupondo que tem um problema. Se procurar esses profissionais, compreenda que seu ob je- 16 ‘Us 9 sensintipanr a sty VOR tivo no 6 ser como eles, mas aprender algumas dicas. Procure titulos Como sair-se bem na multiddo ¢ O que dizer em todos os siveis momentos de embaraco. (Eu inventei esses titulos, sempre aj recem novos.) O outro tipo de informagio vem de psicélogos que tentam aj as pessoas a lidar com a timidez. Sen estilo 6 primeiro deixé-lo preok pado, para que fique motivado, e depois levé-lo passo a passo atra do alguns métodos muito sofisticados e bem pesquisados de mud: de comportamento, Essa abordagem pode ser muito eficiente, mas bém apresenta alguns problemas para as PAS apesar de parecer adequada. Falar em “curar” sua timidez ou “vencer sua sindromo” vai despertar a sensagao de que vocd imperfeito, além de ignorar lado positivo de sua caracteristica inata. Quando ler ou ouvir qualquer conselho, lembre que nao p! aceitar a definigao que os extrovertidos de plantio tém das habilida: des sociais — manipular o ambiente, sempre conseguir uma boa re: Posta, nunca permitir siléncios “embaragosos”. Voce precisa conhes cer suas proprias habilidades —conversar com soriedade, saber ouvir, permitir siléncios durante os quais pensamentos mais profundos pos- sam ser elaborados, Outra possfvel verdade 6 que vocé ja saiba muito daquilo que es- ses especialistas vao dizer. Selecionei portanto os pontos principais @ 6s reuni em um pequeno teste para mostrar-Ihe 0 que jé sabe e lhe ensinar um pouco a respeito do restante, VOCE JA CONHECE AS ULTIMAS NOVIDADES PARA SUPERAR 0 DESCONFORTO SOCIAL? Responda verdadsiro ou falso, depois confira as respostas nas paginas 146, 147 e 148, 1. Edtiltentar controlar o “discurso interior” negative, comopor VF exemplo: “Ele provavelmente nao vai gostar de mim” ou "Eu provavelmente vou fracassar como sempre”. Osanisconauneas soos 2. Quando as pessoas ficam timidas, isso se torna dbvio para os que as rodeiam. 3. Vocé deve esperar alguma rejeicdo e nunca tomé-la como pessoal 4, E.dtilterum plano para superar o desconforto social, par exem- plo, tentar conecer pelo menos uma pessoa nova por semana. 5. Quando fizer seu plano, quanto maiores forem os passos mais dopressa alcancaré 0 objetivo. \_ 6. Emelhor ndo ensaiar o que vai dizer ao novo conhecido ou om uma situago nova. Isso ofaré parecer tenso e pouco es- ponténeo. 7. Tenha cuidado com a finguagem corporal: quanto menos ela revelar, melhor, 8. Quando estiver tentando iniciar ou continuar uma conversa, faca perguntas levemente pessoais que néo possam ser res- pondidas com uma palavra ou duas. 9. Uma forma de demonstrar que esté ouvindo é inclinar-se para tras, com bragos e pemas cruzados, o rosto impassivel, sem fiter os olhos da outra pessoa. 10. Nunca toque a outra pessoa. 11. Nao leia ojornal antes de sair para encontrar pessoas —isso 6 ira perturbé-lo. 12, Revelagdes pessoais néo so importantes para a conversa, uma vez que vocé fala sobre coisas interessantes. 13. Bons ouvintes repetem aquilo que acabaram de ouvir, refle- tem sobre 0 sentimenta da outra pessoa e reagem com os, préprios sentimentos, nunca com idéias. 14, Nao conte aos outros detalhes interessantes a seu respeito. {sso 86 fard com que sintam inveja. 15, Para aprofundar uma conversa ou torné-la mais interessante ppara ambos, algumas vezes 6 itil comentar os préprios defei- tos ou problemas. 16. Tente nao discordar da outra pessoa. VE WE VE VE VF VF VF VE VF VE ‘A SINSITDADE A St FAVOR 17, Quando a conversa faz com que deseje passar mais temy com a pessoa, vocé dave dizer isso a ela i Baseado em Jonathan Cheek, Conquering shyness New Yor Dell, 1989), € M. McKay, M. Dewis e P. Fanning, Messages: the crarteeon ‘book (Oakland, Califérnia: New Harbinger Press, Nao se sina mal se voc sabe o que deve fazer mas nem sempre faz Gretchon Hill, psicéloga di Psicéloga da Universidad s, inquisi soas timidas © nao-timidas a ae espeito do quo consideravay on timidas en sideravain um com Porlamento apropriado am 25 stuagdes socials diferentes, Verifica ue os timidos sabiam 0 que era esperado doles, mas dizism nito pen -lo. Ela conclui que falta autoconfianga aos timidos: intrinseco que normalmento nos éatribuiel do. Entto nos diz para ser mais confiantes.E, naturalmente, na val, .E, naturalmente, nao consoguimos, afi Ban et mle, nfo conseguimos, afina, f Hhamos mais uma vez. Talver. essa falta de confianga soja algumas ae justificada por tantas experiéncias de excessiva hiperexcitagdo ara agir apropriadamente, £ natural Saint £ natural que alguns prossuponham na ‘ser cay 2s i a 2 = \pazes i fazer aquilo que sabem ser socialmente correto, Acho. apenas que dizer a n6s mosmos que devemo: ifn 8 quo devemos sor mais confiantes r mente ajuda. Continue com ee abordagem dup io: ents " a lupla vista neste «: tre Dall a hiperexcitagao e valorize seu estilo intravertido, a rutra raziio da incapacidade de por em pritica aquilo que ji sabe @ respeito das habilidades sociais sio os velhos padres da inf a infincia, a podem prevalecer, ¢ precisam ser encarados, ou algum sontimen. '© que distrai sua atengfo, Um sinal disso? Vocs fica repetindo coisa como “nao sei por que fiz isso, Eu podi f rant 8 0 sol p isso, Eu podia ter evitado. Simplosment no era eu” ou “apesar de todo 0 esforco, nada est dando corto” O caso de Paula Paula decididamente nasceu altamente sonsivel. Seus pais com entam desde que nascou. Ela sempre esteve consciente de ser ‘Os acionamenTos socials nais sonsfvel que os amigos aos sons eA confusio. AO 30 anos, quando ‘entrevistei, era extremamente eficiente em sua profissio, que envol- ‘vin a organizagao dos bastidores de grandes eventos. Mas nao via ne- nhuma chance de progredir por ter horror a falar em paiblico ¢a mul- tiddes om geral, o que a limitava apenas 4 geréncia de um pequeno grupo de funcionérios, Paula, de fato, havia organizado sua vida em torno das poucas ocasides em que sou trabalho exigia que participasse das rounies administrativas. Elr precisava ensaiar horas antes dessas reuniGes e cumprir diversos rituais para preparar-se emocionalmente. a havia lido todos os livros sobre como vencer esses medos eempre- ado considerdvel forca de vontade no combate a essas emogGes. Quando percebeu que seu medo era incomum, decidiu tentar tima terapia mais longa e intensa. Foi quando descobriu as razées do medo e comegou a trabalhar na solugao do problem: Durante o crescimento de Paula, seu pai foi wm homem violento (atualmente ¢ alcodlatra também.) Sempre fora um homem inteligen- te, analitico, que ajudava os filhos com os deveres de escola, Na ver dade, era muito ligado a todos eles eum pouco menos cruel com Paula 1m o$ meninos, Mas parte dessa atengao pode ter tida um car mfundia que ter sexual, ela comegava a descobrir, e isso com cerleza a De qualquer forma, sua fiiria era 0 que mais a ‘A mie era muito proocupada com as outras pessoas e sua opini extremamente dependente da vontade de ferro do marido, Era tam: bém um tipo de mértir, concentrando sua vida nos fillhos. Por outro lado, tudo o que se referia A criagiio deles a desagradava, Suas historias de terror explicito a respeito de nascimentos e sua falta do gosto por bebés faziam parecer que a primeira ligagao de Paula fora tudo menos segura. Mais tarde, a mie fez dela sua confidente, contando-Ihe mais do que uma crianga podia administrar, inclusive um catilogo com pleto das razées pelas quais nao gostava de sexo. Na verdade, ambos os pais Ihe contavam os sentimentos que tinkam um pelo outro, in- 0, clusive suas intimidades sexuais. Com um passado assim, seu “medo de falar em piblico” relacio- nava-se principalmente a uma desconfianga baisica das pessoas. El havia, sim, nascido sensivel ¢ portanto facilmente hipetexcitével. Mas 140 {Ust sesinnnane a SEU MvOR fora também uma crianga de ligagao insegura, o que tornava mais fil encarar situacdes ameagadoras de forma confiante, Sua mae tia, e ensinow-the, um medo irracional das pessoas em geral (n Ihe passou confianga). Por fim, as primeiras tentativas de Paula manifestar opiniao foram recebidas com firia por seu pai. Talvez uma razao extra de seu medo de falar em publico ter sido sentir que sabia demais — a respeito dos possiveis sentiment incestuosos de seu pai por ela ¢ das intimidades dos pais. ‘Quostdes assim nio sao faceis de resolver, mas podem ser trazid 4 consciéncia e trabalhadas por um terapeuta competente. As voz¢ que tém medo de expressar-se so finalmente libertadas. Treinament especifico em habilidades sociais pode mais tarde ser necessdrio, mas. a partir de um ponto em que realmente funcione. Conselhos sociais basicos para PAS Aqui estio algumas sugestdes de situagdes que freqiientemente caus sam desconforto social as PAS. Quando vocé 86 precisa bater papo, Decida se prefere falar ou ouvir, ‘Se profere ouvir, muita gente vai ficar feliz por poder falar. Faga algue mas perguntas espectficas ou apenas pergunte: “O que vocd faz quando unio est em uma festa?” (ou conferéncia, casamento, concerto etc.) Se quisor falar (0 que 0 coloca no controle e evita que fique ente- diado), planeje com antecedéncia falar do assunto que Ihe agrada ea respeito do qual pode discorrer. Como: “Que tempo horrfvel, néio 6 mesmo? Mas pelo menos é melhor para ficar em casa e trabalhar no projeto que estou escrevendo”. A outra pessoa, naturalmente, vai per guntar o que vocé esté escrevendo, Ou entio: "Que tempo horrivel, ou nem pude treinar hoje”. Ou ainda: “Que tempo horrivel, minhas co- bras detestam tempo assim”, Para lembrar nomes. Voce pode vir a esquecer os nomes das pessoas porque estava distrafdo ou agitado quando foram apresentados. Tento transformar em habito dizer alguma frase que use o nome logo depois dle ouvi-lo: “Prazer em conhecé-lo, Arnold”, Depois use-o de novo nos dois minutos seguintes. ‘Tentar mais tarde uma retrospectiva das possoas que conheceu pode ajudar a lembrar seus nomes por mais tempo. Problemas com nomes, no entanto, sao relativos. Fazer pedidos. Os pedidos pequenos, como solicitar uma infor- magiio, doveriam ser faceis. Mas algumas vezes os colocamos em nossa lista de coisas por fazer e eles simplesmente ficam 14, como se fossem grandes ¢ dificels. Se for possivel, faga os pedidos no momento em que a necessidade surgir ou faga todos do uma vez. quando estiver em lum estado de espfrito arrojado. Para pedidos um pouco mais impor tantes, faga com que paregam pequenos. Pense como vai ser rapido e pouco trabalhoso para a pessoa a quem vai pedir. Para os mais impor tantes ainda, faga uma lista de tudo 0 que é necessdrio, Comece por ter certeza de que est falando com a pessoa certa, Ensaie antes com alguém, que deverd dar todas as respostas possiveis. Isso niio torna mais fécil, mas pelo menos vocé estaré mais bem preparado. ‘Vender. Francamente, a carreira de vendas nao é comum para uma PAS, Mas, mesmo que no se venda um produto comercial, existem na vida muitos momentos em que se quer vender uma idéia, a capaci- dade para um emprego ou talvez um trabalho criativo. E no caso de voc acreditar que algo pode realmente ajudar uma pessoa ou o mun- do om geral? De maneira mais suave, provavelmente a sua, vender é simplesmente compartilhar com outros aquilo que se sabe a respeito do alguma coisa. Quando compreenderem 0 valor daquilo em que voc acredita, poderé deixar que tomem a prépria decistio. Quando hé dinheiro envolvido, as PAS geralmente se sentem cul- padas por estar pedindo “demais” ou “muito pouco”. (E se nos senti- mos inferiores pensamos: “E que valor eu tenho, afinal?”) Normal- mente no podemos e no devemos simplesmente desperdigar nosso sorvigo nem a nés mesmos. Precisamos de dinheiro para continuar a dispor daquilo que oferecemos. As pessoas entendem isso, exatamen- te como voce, quando compram algo. Fazer reclamagées. Isso pode ser dificil para a PAS mesmo quan- do areclamaao 6 legitima, Mas vale a pena praticar. A atitude positi- va da forcas aos que freqiientemente se sentem diminufdos apenas ‘por ser quem sio (muito jovens, muito velhos, muito gordos, muito escuros, muito sensiveis etc) [A NATIDADE A SHU AVON Vocé deve, no entanto, estar pronto para as respostas. A raiva 6 a mais perturbadora das emogdes, e por boas razdes, Seu objetivo 6 mobi- lizar-nos para a luta. Ela é hiperexcitante, quer soja sua, quer deles, quer soja de alguém que vocé estoja observando a distancia, Fazer parte de um pequeno grupo. Grupos, classes e comités po- dom serassunto complicado para as PAS, Geralmente assimilam mui- to mais coisas que os outros, mas 0 desejo de no clovar o nivel de excitagdo pode fazer com que fiquem caladas, Gedo ou tarde, porém, alguém vai perguntar o que vocé acha. f um momento delicado, mas importante para o grupo. As PAS, habitualmente caladas, com freqiién- cia deixam de perceber que a possoa silenciosa ganha cada vez mais influéncia cam o tempo, Além de desojar dar-lhe uma chance de falar, © grupo pode ter uma preocupagiio inconsciente. Vocé faz parte do grupo ou nao? Vocé est sentado ali s6 julgando? Vocé esta insatisfei- toe quer deixar o grupo? Se safsse, eles ficariam com essas preocupa- ‘ses, ¢ 6 por isso que os membros silenciosos de um grupo recebom. tanta atengio. Talvez seja por boa educagao, mas 0 medo osté sempre 14, Sendo participar com o nivel exato de entusiasmo, receberd conside- ravel atengo. E algumas pessoas do grupo podem pensar que a mo- Ihor dofesa ¢ rejeiti-lo antes que vocé os rejeite. Se niio acredita, tente permanecer calado em um novo grupo pelo menos uma vez e vera como as coisas Considerando toda a energia dirigida ao membro silencioso, se desejar ser mais calado que os outros deve tranqiiilizé-los informando que nao o5 esté rejeitando nem planejando deixar o grupo. Diga que prefere participar apenas ouvindo, Comunique seus sentimentos posi- tivos em relacao ao grupo se os tiver. Avise que vai falar quando sontir que esta pronto ou pega que Ihe fagam perguntas. Vocé pode também preferir explicar sua sensibilidade. Mas isso significa um rotulo que paderd vir a ser auto-sabotador. Falar ou agir em pitblico. Isso 6 natural para as PAS — 6, sim. (Vou deixar por sua conta imaginar todas as razdes pelas quais é mais dificil Para nés,) Primeiro, muitas vezes sentimos ter alguma coisa importan- te para dizer que escapou aos outros. Quando os demais ficam gratos Por nossa contribuicHo, nos sentimos recompensados, ¢ na proxima lesenrolam, MUIASONAMENTON SOCAN ws ‘vox serd mais facil. Em segundo lugar, nés nos preparamos. Em algu- ‘mas situagdes, como quando voltamos para verilicar se desligamos a torradeira, podemos parecer “compulsivos” para aqueles que néo esto tiio determinados a evitar todas as surpresas desnecessérias (como uma asa incendiada). Mas qualquer um seria tolo se nfo se “superpropa- rasse” para a excitagdo incomum de ter uma platéia, Mais preparados, ‘leangamos maior sucesso. (Essas so duas razbes pelas quais todos os livros a respeito da timidez podem citar tantos politicos, atores ¢ come- diantes que “superaram sua timidez, ¢ vocé também pode!”) A chave, repito, 6 preparar-se, preparar-se, preparar-se. Vocd pro- vavelmente nao tem medo de ler em vor-alta, portanto escreva exata- mente o que quer dizer e, até que se sinta mais seguro, leia. Se isso for pouco comum para a situago, explique algumas boas razées de sua atitude. E faga-o com firmoza, Ler bem também requer preparo e pritica. E necessdrio usar a 6n- fase certa ¢ conhecer os limites do tempo para poder ler devagar. Mais tarde vocé pode passar a usar apenas anotagdes. Em grupos grandes eu sempre fago anotagdes antes de levantar a mao pedindo para falar ow fazer uma pergunta apenas para garantir que nao terei um “branco” quando me chamarem. (Fago 0 mesmo em qualquer si- tuagao que me deixe hiperagitada, inclusive em consultas médicas.) Acima de tudo, ensaie 6 maximo que puder com uma platéia, re- produzindo a situagaio om que vai estar. Use a mesma sala, no mesmo momento do dia, vista as roupas que vai usar, ligue o sistema de som e-assim por diante, de forma a criar 0 menor ntimero possivel de ele- ments novos na situagdo. Esse 0 maior sogredo do controle do nivel de excitagao. Feito isso, ¢ s6 desfrutar seu desempenho. Eu superei meu medo de falar em pablico ensinando — bom co- mego para uma PAS. Vocd esté oferecendo algo, vocd 6 necessério, @ por isso seu lado generoso assume o comando. A platéia nao espera ser entretida, portanto o que fizer para tornar a situagao mais prazerosa serj recebido com gratidiio. E vocé descobrira que tem verdadeiras inspiragdes quando tiver coragem suficiente para expressé-las. Alunos podem, porém, ser insensiveis as vezes, Bu tive a sorte de comegar em uma faculdade onde a polidez trangitila e as francas ex- a ‘Ue SinsiNITIDADE A sed FAVOR presses de gratidao so a norma. Se vocd puder estabelecer as mesmag normas, isso o ajudaré com suas classes. Alguns de seus alunos tam= ‘bém tém medo do falar. Todos podem aprender juntos. E s0 08 outros estiverem observando voce? Estardo realmente? Tal- vez voc® tenha criado uma platéia interior, a que teme. Talvez carre- ‘gue consigo essa platéia e a “projete” (vendo-a onde nio esté ou pelo menos nfo tanto quanto imagina), e 0s outros estiverem realmente observando, 6 posstvel pedit= Ihes que no o fagam? Vocé pode se recusar a ser observado ou tentar tirar prazer disso? Veja a hist6ria de minha tinica aula de danga do ventre, Aprender ‘uma habilidade fisica em grupo é quase impossivel para mim porque a hiperexcitacao de ser observada destréi minha capacidade de coorde- nacao. Eu logo fico para tras ¢ meu desempenho 6 cada vez pior. Nesse caso, porém, desemponhei um novo papel. Eu era a adord- vel e tena professora desligada (essa parte era importante) cuja cabe~ a estd sempre nas nuvens e que esqueceu completamente onde dei xou seu corpo. Ela foi posta nessa situacao hilariante e tenta aprender a danga do ventre —e todos aproveitam a aula principalmente para observar sous esforgos. Oresultado foi que eu sabia estar sendo observada, mas tudo bem. Eles riam, mas eu percebia que riam com carinho. A cada progresso que fazia, recebia reconhecimento e elogios imoderados. Para mim, funcionou. Quando se sentir observado novamente, tente enfrentar os olhares e dara si mesmo um rétulo que lhe traga prazer: “Nés, os poetas, no somos muito bons com célculos”. Ou: “O problema de ser um meca- nico nato é que nao se consegue desenhar nada que nao pareca 0 rior de um motor quebrado”. Algumas vezes a situagio é embaragosa para 0 padrao de qualquer Pessoa. Entdo vocé fica vermelho e sobrevive. Faz parte do ser humano. Nao acontece tanto assim, Uma ver eu estava na fila, om um evento for- mal, e meu filho de 3 anos arrancou minha saia. Vooé tem uma histéria melhor que essa? Contar 0 vexame depois 6 56 0 que nos resta fazer. to “Os tirAcioNAneTos socis TRABALHE COM 0 QUE APRENDEU eemoldure seus momentos de timidez Pense em trés ocasides emqué sentiu desconforto social. Se possi vel, escolha trés situagdes bem diferentes de cujos detalhes se lembre bem. Reemoldure uma de cada vez em relagao aos dois pontos princi- pais deste capitulo: a timidez nao 6 a sua caracterfstica, é um estado de espirito que qualquer um pode sentir, e o estilo social introvertido em todos os aspectos tao valioso quanto o estilo extrovertido. 1, Pense em sua reagdo ao acontecido e em como sempre o interpre- tou. Talvez, voc tenha ficado “timido” em uma festa recente. Era noite de sexta-foira, apés um longo dia de trabalho duro. Voce foi arrastado pelas possoas do escritdrio e esperava encontrar alguém, que pudesse tornar-se um verdadeiro amigo. Mas os outros sumi- ram e vocé acabou ficando em um canto, sentinde que chamavaa atengio por nfo estar conversando com ninguém, Entio foi embo- ra mais cedo e passou o resto da noite avaliando toda a sua perso- nalidade, sua vida inteira, e sentiu-se um lixo. 2. Analise sua reagao a luz do que agora sabe sobre as reagdes auto- méticas de seu corpo ou imagine que estou explicando a voc®: “Ei dé-se um tempo! A sala lotada e barulhenta depois de um dia can- sativo, ser deixado sozinho pelos amigos, todas as suas experién- cias passadas com esse tipo de festa — foi a gota que faltava. Voct gosta de ser introvertido. Va a festas, tudo bem, mas desde que sojam festas pequenas onde voce conhega as pessoas ou escolha alguém que parega tZo sensfvel ¢ interessante quanto voce e saiam, assim que for possivel. Esse 6 0 joito de uma PAS curtir uma festa, ‘Voce nfo 6 timido nem detestavel. Com certeza vai encontrar pes- sas interessantes ¢ ter relacionamentos fntimos — s6 deve esco- Iher bem as situagoes”. 146 USE A SENSIBILIDADE A SEU FAVOR 3. Existe algo que deseja fazer a respeito disso agora? Talvez haja um amigo a quem queira telefonar para combinar passar juntos algum tempo — a sua maneira. Respostas do quadro “Vocé jd conhece as tiltimas novidades para superar o desconforto social?” Se acertou doze ou mais, desculpe ter-lhe dado trabalho, Vocé de- veria escrever o proprio livro. Caso contrario, as respostas podem ofe- recer muita coisa que precisa saber! 1. Verdadeiro. O “discurso interior” negativo o mantém perturbado e torna dificil ouvir a outra pessoa. 2. Falso. Vocé, uma PAS, pode perceber a timidez dos outros, mas a maioria nao percebe. 3. Verdadeiro. As pessoas podem rejeité-lo por todos os motivos nao relacionados com vocé. Se isso o perturba, observe esse sentimen- to por alguns momentos. Depois tente deixar que passe. 4, Verdadeiro. Decida cumprir um numero determinado de passos especificos por dia, ou semana, por mais nervoso que fique na primeira vez. 5. Falso. Grandes saltos seriam excelentes se vocé pudesse dé-los. Mas como est com um pouco de medo, e com medo vocé pode falhar, deve prometer a sua parte assustada que ndo iré depressa demais mesmo tendo a certeza de que o medo serd superado mais cedo ou mais tarde. 6. Falso. Quanto mais ensaiar, menos nervoso ficar4, o que significa que vocé estard mais, e nao menos, relaxado e espontaneo. 7. Falso. A linguagem corporal esté sempre dizendo alguma coisa. Um corpo duro e parado pode ser interpretado de varias formas, na maioria negativas. I melhor deixar que seu corpo se movimente e mostre interesse, atengao, entusiasmo ou transparente vivacidade. 8. Verdadeiro, Nao ha nada de errado em intrometer-se um pouquinho. A maioria das pessoas adora falar de si mesma e apreciara seu interesse e uma leve ousadia. {iA WRSICDADE ASU FAVOR 3. Bxiste algo que deseja fazer a respeito disso agora? Talvor. haja um ‘amigo a quem quoira telefonar para combinar passar juntos algum: tempo — a sua maneira. Respostas do quadro “Voce jd conhece as tiltimas novidades para superar o desconforto social?” Se acertou doze ou mais, desculpe ter-Ihe dado trabalho. Vocé de- veria escrever 0 prdprio livro. Caso contrario, as respostas podem ofe- rocer muita coisa que precisa saber! Verdadeiro, 0 “discurso interior” negativo o mantém perturbado e torna dificil ouvir a outra pessoa. 2. Falso. Vocé, uma PAS, pode percober a timidez dos outros, mas a maioria nao percebe. Verdadeiro. As pessoas podem rejeité-lo por todos os motivos no. relacionados com vocé. Se isso o perturba, observe esse sentimen- to por alguns momentos. Depois tente deixar que passe, 4, Verdadeiro. Decida cumprit um ntimero determinado de passos espectficos por dia, ou semana, por mais nervoso que fique na primeira vez, 5. Falso. Grandes saltos seriam excelentes so vooé pudesse dé-los. ‘Mas como esti com um pouco de medo, ¢ com medo vocé pode falhar, deve prometer a sua parte assustada que néo iri depressa demais mesmo tendo a certeza de que o medo sera superado mais cedo ou mais tarde, 6. Falso, Quanto mais ensaiar, menos nervoso ficaré, o que significa que voc® estar mais, ¢ néio menos, relaxado e espontineo. 7. Falso, A linguagem corporal esta sempre dizendo alguma coisa. Um corpo duro e parado pode ser interpretado de varias formas, na maioria negativas. If melhor deixar que seu corpo se movimente mostre interesse, atengio, entusiasmo ou transparente vivacidade. 4. Verdadeiro, Nao hé nada de errado em intrometer-se um pouquinho. A maioria das pessoas adora falar de si mesma e apreciar interesse e uma leve ousadia seu 10. uw 12. 14, 15, | Falso. Fique to perto da pessoa quanto as regras permitirem ¢ for Os ueianonanenos soci ur confortavel, incline-se paraa frente, descruze os bragos e as pernas © faca contatos visuais freqiientes. Se o contato visual for muito perturbador, vocé pode olhar para o nariz ou a orelha da pessoa — niio ¢ possfvel perceber a diferenga. Sorria e use outras expresses faciais (tendo naturalmente 9 cuidado de nao demonstrar mais interesse do que deseja). Falso, Dependendo da situagao, um ligeiro toque no ombro, brago ou mio, principalmente ao despedir-se, apenas transmite calor. Falso, Uma passada de olhos pelo jornal normalmente vai dar idéias para a conversa ¢ deixar vocd em dia com o mundo. Evite apenas as historias deprimentes. Falso. Revelagdes pessoais so importantes se for seu objetivo es tabelecer algum contato, ¢ nao apenas passar o tempo. Isso ndo significa que deva revelar segrodos intimas. Fazer revelagbes pes- soais muito depressa gera hiperexcitactio, além de ser pouco apro- priado. Voce deve perguntar a opiniao da outra pessoa também, & claro. Verdadeiro. Alguém diz, por exemplo, que est animado com seu novo projeto. Voce pode dizer: “Puxa, eu ouvi voce comentando animadamente, Deve ser timo”. Ao demonstrar seu sentimento antes de fazer pergunta hor ristica, a sensibilidade. Ao mesmo tempo, estara enco- rajando a pessoa a revelar mais sobre sua vida interior, assunto que alias voce prefere. Falso, Naturalmente vocd ndo quer se vangloriar, Mas qualquer um gosta de conversar com alguém que valha a pena. Reserve al- gum tempo para escrever as melhores coisas a seu respeito, as ma © imagine uma forma de introduzi-las em uma con- versa. Nao diga “eu me mudei para cé porque gosto de monta- nhas", mas “mudi-me para e4 porque comecei um curso de alpi- nismo” ou “cu gosto especialmente das encostas das montanhas como cendrio de minhas fotos de aves raras de rapina”. Verdadeiro — com alguns cuidados. Voc’ nao deseja revelar mui- tas limitagées ¢ falhas em seu primeiro contato com uma pessoa a respeito do projeto voc® revela sua me interessant 148 16. iv. Use A IBILIDADE A SEU FAVOR nem quer parecer autodepreciativo demonstrando ser submisso ou ignorando o comportamento apropriado. Mas ha certo charme em admitir sua natureza humana se conseguir ao mesmo tempo demonstrar que gosta de si mesmo assim. (O Capitado Picard, de Jornada nas Estrelas: a nova geragdo, tem wma fala que 6 a minha favorita: “Cometi alguns excelentes enganos em minha vida”. E téo humilde, sébio e autoconfiante ao mesmo tempo!) Se a outra pessoa revelou algo pungente ou embaragoso, fazer 0 mesmo cer- tamente tornaré a conversa bem mais profunda. Falso. As pessoas, na maioria, gostam de um pouco de conflito, Além disso, 0 motivo da discordancia pode ser importante para vocé ou talvez revele alguma coisa que deve saber a respeito da pessoa. Verdadeiro. Espere, naturalmente, estar certo do que sente e esteja pronto para uma possivel rejeigao. : Capitulo 6 -O SUCESSO -NO TRABALHO : Expresse sua alegria e permita que : sua luz se espalhe DENTRE TODOS OS TOPICOS QUE ABORDO em meus semindrios, as vo- cagGes e a forma de ganhar a vida e progredir na profissdo sao as preo- cupagées mais urgentes de muitas PAS, o que faz sentido se conside- rarmos que nao nos adaptamos bem a ambientes hiperexcitantes, a tensao e a longas horas de trabalho. Mas acredito que grande parte de nossa dificuldade esteja na falta de valorizagao de nosso papel, nosso estilo e nosso potencial de contribuigao. Este capitulo abordaré pri- meiro seu lugar na sociedade e 0 lugar da vocagao em sua vida pessoal. Conhecer sua vocagiio tem grande significado pratico, embora nao pa- reca. Uma vez que encontre sua verdadeira vocagao, a prépria intui- cao comegara a resolver seus problemas profissionais espectficos. (Ne- nhum livro pode fazer isso melhor que vocé, pois nenhum deles pode abordar sua situagao, que 6 tinica.) “Vocagao” nao é uma coisa vaga Uma vocagao, ou chamado, originalmente referia-se ao apelo da vida religiosa. Sem ele, na cultura ocidental, as pessoas faziam aquilo que 150 USE A SENSIBILIDADE A SEU FAVOR se faz em muitas culturas: 0 mesmo que os pais. Na Idade Média era posstvel ser nobre, servo, artesdo ¢ assim por diante. Como nos patses cristaos indo-europeus a classe dos “conselheiros reais religiosos” que mencionei no capitulo 1 era constitufda oficialmente por celibatérios, ninguém nascia nessa classe. Era um trabalho exclusivo daqueles que recebiam o chamado. Com a Renascenga e o crescimento da classe média nas cidades, as pessoas passaram a ser mais livres para escolher seu trabalho. A idéia de que existe um tipo de trabalho certo para cada pessoa 6, porém, bastante nova. (Ela surgiu mais ou menos na mesma €poca de outra idéia: a de que existe uma pessoa certa com quem se casar.) Ao mes- mo tempo, o ntimero de vocagées possiveis tem aumentado muito, assim como cresceram a importancia e a dificuldade de encontrar a pessoa certa para 0 trabalho adequado. A vocagao de todas as PAS Como mencionei no capitulo 1, as culturas mais agressivas do mun- do, inclusive todas as sociedades ocidentais, derivaram de uma orga- nizagao social original que dividia as pessoas em duas classes: os guer- reiros ¢ reis impulsivos e audazes de um lado e de outro os cultos e reflexivos jufzes, sacerdotes e conselheiros reais. Disse também que o equilfbrio dessas duas classes é importante para a sobrevivéncia de tais sociedades e que a maioria das PAS gravita naturalmente a classe dos conselheiros reais. Agora, falando de vocagao, nao pretendo afirmar que todas as PAS virao a ser intelectuais, telogos, psicoterapeutas, consultores ou juizes, apesar de serem essas as carreiras classicas da classe dos conselheiros reais. Qualquer que seja sua carreira, vocé provavelmente a desempe- nharé menos como guerreiro e mais como um sacerdote ou conselhei- ro real — de forma refletida em todos os sentidos. Sem PAS em posi- g6es-chave da sociedade ou da organizaciio, as pessoas de perfil guerreiro tendem a tomar decis usam abusivamente 0 poder ea forga e deixam de considerar os aspec- tos histéricos e as tendéncias futuras. Nao 6 um insulto a elas, apenas es impulsivas carentes de intuigdo, O SUCESSO NO TRABALHO 151 sua natureza. (Esse foi o papel de Merlin nas lendas do rei Artur, e personagens semelhantes sao encontradas na maioria dos épicos indo- europeus.) Uma implicagao pratica da condigao de pertencer a classe dos con- selheiros é 0 fato de que uma PAS poucas vezes considera que acumu- lou suficiente cultura e experiéncia. (Acrescento a experiéncia por- que algumas vezes as PAS buscam cultura através da experiéncia.) Quanto maior a variedade de nossas experiéncias, dentro do dmbito daquilo que é razodvel para nés (asa-delta nao 6 um requisito), mais sdbio seré nosso aconselhamento. A educacao das PAS 6 também muito importante para validar nos- so estilo mais suave e sutil. Acredito que precisamos continuar a ter boa representagio nas profiss6es tradicionais — magistério, medici- na, lei, artes, ciéncias, aconselhamento, religiio —, que estdo cada vez mais passando ao dominio das nao-PAS. Isso significa que essas necessidades sociais estao sendo tratadas no estilo guerreiro, que con- sidera apenas a expansao e o lucro. Nossa influéncia “sacerdotal” tem diminufdo parcialmente em decorréncia de nossa perda de autovalorizagio. Ao mesmo tempo, as profissdes em si tém perdido respeito sem nossa contribuigéo mais gentil e digna. Nada disso supée a existéncia de algum terrfvel complé dos néo- sensiveis. A medida que o mundo se torna mais dificil e estimulante, € natural que as nao-PAS sobressaiam pelo menos a princfpio. Mas elas no brilharao por muito tempo sem nés. A vocagio, a individuagdo e a PAS E quanto a sua vocagao particular? Seguindo o pensamento de Carl Jung, encaro cada vida como um processo de individuagdo, que é des- cobrir a questao particular que vocé veio responder na Terra. Essa questao pode ter sido deixada inacabada por um ancestral, mas vocé precisa proceder a maneira de sua geragao. E nao 6 uma questo facil, ou nao seria necessdria toda uma vida para respondé-la. O importante 6 que buscé-la satisfaz profundamente a alma. 152 USE & SENSIBILIDADE A SEU FAVOR Era a esse processo de individuagao que o estudioso de mitologia Joseph Campbell se referia quando exortava seus alunos em conflito vocacional a “buscar a felicidade”'. Ele sempre deixou claro que néo dizia que fizessem qualquer coisa facil ou divertida naquele momen- to, falava de se envolver com um trabalho que parecesse certo, que tivesse apelo. Ter um trabalho assim (e, com sorte, ser pago por isso) 6 uma das maiores béngios da vida. O proceso de individuagao exige enorme sensibilidade e intuigao de forma que vocé possa saber que est trabalhando a questi certa da maneira apropriada. Sendo uma PAS, vocé foi projetado para isso como um barco de corrida é projetado para aproveitar o vento. Em sentido amplo, a vocagao da PAS 6 ter 0 cuidado de exercer bem sua carreira do ponto de vista pessoal. Os empregos e a vocagao Existe, porém, o problema de quem pagard as PAS para que busquem a felicidade. Eu concordo com aquilo em que Jung sempre insistiu: é um grande erro sustentar financeiramente pessoas do nosso tipo. Se uma PAS nio for forgada a ser pratica, perderé todo 0 contato com 0 resto do mundo. Ficard vazia como um fole que ninguém ouve. Mas como ganhar dinheiro e ainda assim seguir o chamado? Uma forma é procurar o ponto em que o caminho que leva a felici- dade cruza o caminho das necessidades do mundo — ou seja, coisas pelas quais o mundo esteja disposto a pagar. Essa é a coordenada para vocé ganhar dinheiro fazendo aquilo que ama. Na verdade, a relagio entre a vocacéo da pessoa e seu trabalho remunerado pode variar muito e mudar durante a vida. Algumas ve- zes seu emprego 6 apenas uma forma de ganhar dinheiro, a vocagiio 6 exercida em seu tempo livre. Um bom exemplo foi Einstein, que de- senvolveu a Teoria da Relatividade enquanto trabalhava como escri- turério em um escritério de patentes, feliz por ter um emprego que nao Ihe dava preocupagées e permitia que ficasse com a mente livre para pensar no que realmente importava para ele. Em outros casos podemos encontrar ou criar um trabalho que satisfaga nossa vocaga9 ‘O SUCESSO NO TRABALHO 153 e seja pelo menos adequadamente remunerado. Devem existir muitos possiveis empregos assim ou 0 emprego satisfatério pode mudar con- forme a experiéncia aumenta e a vocagio se aprofunda. A vocacio e a PAS liberada A individuagio esté relacionada, acima de tudo, a capacidade de ou- vir sua voz interior ou as vozes que permeiam todo o rufdo interior ¢ exterior. Alguns se deixam aprisionar pelas exigéncias dos outros. Essas exigéncias podem ser responsabilidades reais ou idéias ditadas pelo senso comum a respeito do que é o sucesso — dinheiro, prestigio, seguranga. E existem as pressdes que passam a exercer sobre nés por estarmos tdo empenhados em desagradar a todos. Em dado momento muitas PAS, se nao todas, sao forgosamente levadas aquilo que chamo de “liberagéo” mesmo que isso s6 acontega na segunda metade da vida. Elas passam a viver em sintonia com sua questio particular e suas vozes interiores, e ndo mais com as quest6es que os outros lhes apresentam. Como temos Ansia de agradar, nado nos liberamos facilmente. Esta- mos excessivamente conscientes do que os outros precisam. Ao mes- mo tempo nossa intuigdo se prende a questo interior, que precisa ser respondida. Essas duas fortes correntes conflitantes podem nos sufo- car por anos. Nao se preocupe se seu progresso em diregdo a liberagao for lento, pois isso 6 quase inevitavel. Nao desejo, porém, alimentar uma imagem idealizada do tipo de PAS que vocé deve ser. Isso, precisamente, ndo 6 liberagao. Liberagao 6 descobrir quem vocé 6, e néo aquilo que vocé pensa que alguém deseja que venha a ser. Conhega sua vocagao Alguns podem estar lutando para descobrir sua vocagao e se sentindo frustrados pelo fato de sua intuigao nao ajudar um pouco mais. Infe- lizmente a intuigdo pode também atrapalhar, pois traz a consciéncia um ntimero muito grande de vozes que sugerem possibilidades de- mais. Sim, seria bom poder simplesmente servir aos outros sem pen- REEMOLDURE OS PONTOS CRITICOS DE SUA HISTORIA PROFISSIONAL E VOCACIONAL Este pode ser um bom momento para fazer uma pausa @ tentar um reemolduramento, como jé fez em capitulos anteriores. Faga uma lista de suas principais mudangas de emprego ou estagios vocacionais. Escreva coma sempre interpretou esses fatos. Talve? seus pais tenham desejado que fosse médico, mas vocé sabia que néo dava para isso. Sem uma ex- plicagao melhor, pode ter aceitado a idéia de que era “mole demais” ou “néo tinha motivagao”. Escreva 0 que campreende agora, @ luz de sua caracteristica, No caso deste exemplo, o enfoque desumano, infelizmen- te adotado por muitas escolas de Medicina, é profundamente inadequa- do para a maioria das PAS. Sua nova compreensdo sugere a necessidade de fazer algo? No exem- plo, essa nova visdo das escolas de Medicina pode precisar ser apresen- tada a alguns pais caso eles insistam em manter uma opinio negativa. Talvezo leve a procurar uma escola mais humana ou a estudarum assun- to similar, como fisiologia ou acupuntura, que dé espaco para um estilo diferente de educacao profissional sar em ganho material. Mas isso impediria que se tivesse um estilo de vida com tempo para buscar coisas mais importantes. Ambas as coi- sas excluem a realizagtio de meus dotes artisticos. E eu sempre admi- rei a vida calma, centrada na familia, ou seré que ela deveria ser centrada na espiritualidade? Mas isso 6 to elevado, ¢ eu gosto de uma vida mais préxima da terra, Talvez eu fosse mais feliz. trabalhan- do para as causas ecolégicas. Mas as necessidades humanas sio tio grandes. Todas as vozes sao fortes. Qual estard certa? Se voce se sente assim invadido por tantas vozes, provavelmente tera problemas com deci sdes de todos os tipos. Isso geralmente acontece com pessoas muito intuitivas. Mas voce precisaré desenvolver habilidades de tomada de decisdo qualquer que seja a carreira escolhida. Entio comece agora Oswensso No-TMANAINO. 155 reduzindo as opgdes a duas ou trés. Quem sabe usando uma lista racio. nal de prés e contras ou entao finja que jé tomou uma decisio defini tiva e viva com ela por um ou dois dias. Outro problema onfrentado por PAS muito intuitivas e/ou intro. vortidas 6 algumas vezes nao estar bem informadas dos fatos, Doixa- ‘mos que nossos palpites nos guiem, Nés nao gostamos de perguntar. Mas obter informagées concretas de pessoas reais 6 parte do proceso do individuacao, principalmente para os introvertidos ¢ intuitivos ‘Se sentir que “simplesmente ndo consegue”, estaré revelando o terceiro obsticulo a descoberta de sua vocagao: falta de autoconfianga, Bem no fundo voce provavelmente sabe o que de fato quer fazer. Talvez, tenha escolhido algo em que nao haja chance de sucesso para evitar ter de seguir em frente fazendo tudo 0 que for possfvel. Mas pode ser que ainda esteja confuso em relagao ao que ¢ ou nao capaz de fazer, Por ser uma PAS talvez encontre grande dificuldade em certas ta- refas cruciais, de acordo com seus padres culturais, para 0 sucesso na maioria das profissdes — talvez falar ou mostrar-se em publica, talvez suportar barulho, reunides, trabalho de equipe, politica empre- sarial, viagens. Mas agora jé conhece a causa especffica dessa dificul- dade e pode explorar formas de contornar a hiperexcitagiio que catisa, Entio, se encontrar uma maneira de fazer as coisas dentro do proprio estilo, existiré muito pouco que nao seja realmente capaz. de fazer. no entanto bastante compreensfvel que PAS demonstrem falta de autoconfianga, Muitas 4 sentiram ser imperfeitas. Podem ter se esforcado para agradar a ponto de sentir nao ser mais que uma ponte o caminho de outras pessoas ¢ foram tratadas exatamente assim, como, se estivessem sob os pés de alguém. Mas como vao so sentir se morre- rem sem tentar? Voce diz que tem medo de falhar. Que voz interior esta dizendo isso? Uma voz sabia que o protege ou uma voz erftica que o paralisa? Para comegar, acredite que ela esté certa e vacé vai falhar. Esqutega todas as pessoas que tentaram e conseguiram, tema, alids, de tantos filmes. Eu conhego pessoas que tentaram ¢ falharam, Muitas. Podem ler perdido muito tempo e dinheiro, mas mesmo assim estao felizes por tor tentado, Agora estao perseguindo outros objetivos, mais sébias 156 ‘Ust a siesitupane 4 sm PAYOR com aquilo que aprenderam a respeito de si mesmas e do mundo. E ns verdade, como nenhum esforco resulta em total fracasso, estilo muito mais confiantes em si mesmas do que quando ficavam sentadas a mar gom do caminho. Vocé pode recorrer a excelentes livros e servigos de escolha vocacional. Apenas considere sua sensibilidade, sempre consciente, um fator importante que a maioria dos conselheiros vocacionais leva em conta. O que outras PAS esta fazendo Pode ser titil saber os tipos de carreira que outras PAS escolherat Nos, naturalmente, levamos nosso toque a tudo, Em minha pesquis telefonica descobri, por exemplo, que nao havia muitas PAS traba- Ihando com vendas, mas havia uma que vendia vinhos finos. Out vendia iméveis @ disse que usava a intuigao para encontrar a casi certa para as pessoas. £ possfvel imaginar outras PAS transformando outros empregos — praticamente qualquer tipo de emprego — em trabalho tranqitilo, reflexive ¢ criterioso, como aquelas que me contaram ser professores, caboleireiros, corretores, pilotos, comissérios de bordo, médicos, en- fermeiros, agentes de seguro, atletas profissionais, cozinheiros consultores. Alguns oficios pareciam obviamente adequados para PAS: marce- neiro, acompanhante, psicoterapeuta, pastor, operador de equipamento pesado (muito barulho mas ninguém por perto), fazendeiro, escritor, artista (vérios), técnico do raios X, meteorologista, especialista das, cientista, encarregado de transcrigdes médicas, editor, da drea de humanidados, contador ¢ eletricista, Apesar de algumas pesquisas demonstrarem que as assim chama- das pessoas timidas ganham menos dinheiro, eu certamente encon- tei muitas PAS em cargos que pareciam bem remunerados — admi- nistradores, gerentes, banqueiros. Talvez. os outros estudos tenham conclufdo que 0s pesquisados designados como timidos eram mal remunerados devido a um desvio de dados semelhante ao que encon- em po- studioso Oweassono teamauno rei: um niimero de PAS duas vezes maior que de ndo-PAS doclarou- se pai ou mie em tempo integral, donas de casa ou administradores do lar, (Nem todos eram mulheres.) Se forem computados como pes- soas nao remuneradas, isso certamente abaixaré a média de renda de seu grupo. Mas essas pessoas naturalmente aumentam a renda da fa- milia ao realizar servicos cujo prego seria alto caso se fossem paga PAS “domésticas” encontram um bom nicho quando decidem ig- norar que a cultura subestima sou trabalho, A verdade é que a cultura se banoficia disso, Pesquisas demonstram continuamente, por exem- plo, que a indefinivel caracterfstica da sensibilidade é a chave da boa educagio dos filhos*. Transforme a vocacao em trabalho remunerado ‘em bons livros que tratam do tema de transformar aquilo que vocé ama em algo que Ihe dé um salério, portanto vou, como de costu- ‘me, concentrar-me nos aspectos especialmente relevantes para nds, ‘Transformar sua verdadeira vocagiio em trabalho remunerado muitas vezes exige a criagio de uma profissiio ou. de um servico totalmente novos, ¢ isso pode significar um negécio proprio ow a criagio de novo cargo no local onde ja trabalha, Pode parecer assustador, a menos que se lombro de fazor isso usando 0 estilo de uma PAS. Primeiro, livre-se da imagem de trabalho de equipe, de ter de co- nhecer as pessoas certas ¢ coisas assim. Algum trabalho de equipe sompre 6 necessério, mas existem formas bastante eficientes ¢ muito ‘mais prazerosas de uma PAS ails, contato com uma pessoa que tem contato com muitas outras, almogos de negocios fe “interrogar” sou colega extrovertido que vai a todas as conferénc Em segundo lugar, vocé precisa tirar proveito de algumas de suas vantagens. Com sua intuigio, pode estudar as tendéncias e perceber as necessidades do mercado antes dos outros. Se algo chama a sua atengio, existe a passibilidade de que também chame a atengao de outros depois de ouvirem suas razéés. Se seus interesses ndo forem muito incomuns, poderio levé-lo a empregos interessantes. Se sio incomuns, vocé serd provavelmente wn especialista de destaque 158 ‘Use SSIBIDNDE A S1U HOR alguém, em algum lugar, precisaré de seus servigos, especialment depois que divulgar seu ponto de vista, Anos atrds uma PAS que tinha paixio por cinema e video co gui emprego como bibliotecaria © convencen sua universidade que deveria ter um departamento de filmes ¢ videos de arte. Ela cobeu que essas formas de comunicacao se tornariam vanguarda educagio, especialmente da educagao continuada para o publico, dos compreendem isso hoje, e seu acervo de cinema e video 6 um di melhores do pais. Oauto-emprego (ou total autonomia dentro de uma organizagiio) ‘© rumo mais Idgico para as PAS. Vocd pode controlar 0 horério, estimulos, 0 tipo de pessoa com quem vai se relacionar, e nao exist atritos com supervisores nem colegas. Ao contrério de diversos outr empreendedores pequenos ou inexporiontes, vocé soré cuidadoso cor © o planejamento antes de assumir qualquer risco. eciso, porém, estar alerta a certas tendéncias. Caso seja wu PAS tipica, vocé pode ser adepto do perfeccionismo, o mais exigente gerente que jé teve. Pode também precisar superar certa falta de foco, Se sua criatividade e sua intuigtio Ihe derem um milhio de idéias, logo tord de deixar muitas delas de lado e precisaré tomar todos os lipos dificeis de decisao. So vocé for também introvertido, tord de fazer osforgo extra para manter-se em contato com o piblico ou o mercado. E sempre possfvel procurar uma pessoa extrovertida para ter como sécio ou assistente, Na verdade, ¢ uma boa idéia ter sécios ou contratar pessoas que absor- vam o excesso de estimulo. Mas se tiver alguém como amortecedor entre voce ¢ 0 mundo sua intuicao nao receberd informagdes diretas, @ menos que planoje algum contato real com seus clientes. A vocagdo para a arte Praticamente todas as PAS 1ém um lado artistico que gostam de ex- pressar ou apreciam profundamente alguma forma de arte, Algumas assumem a arte Como vocagiio ou mesmo como meio de vida. Quase todos os estudos a respeito da personalidade de artistas de destaque ir) ‘O sucesso No-TRANALNO, insistem na sensibilidade como ponto central, Infelizmente €85.sen- sibilidade 6 também associada com doenga mental. Acredito que a dificuldade esteja no fato de que nés, 08 artistas, normalmente trabalhamos sozinhos, depurando nosso talent© € Nossa sutil visio criativa, Qualquer tipo de distanciamento aument® @ sen- sibilidade — essa 6 uma parcela das raztes da distanciamento: E as- sim ficamos extra-sensiveis quando chega 0 momento de exPO Nosso trabalho, apresenté-lo, explicé-lo, vendé-lo, ler crfticas a resPeito dele © aceitar a rejeigtio ou os elogios. His uma sensagaio de perda © Confu- siio quando terminamos um trabalho ou uma apresentagio de vulto. O fluxo das idéias que brotam do inconsciente ja nao enconta vazio, Os artistas tom maior habilidade para desenvolver e expressat essa forca que para compreender sua origem ou seu impacto quando se manifesta io 6 de surpreender que artistas se voltem para droga flcool e medicamentos como forma de controlar sua excitagio ou reatat 0 con- {ato com sou interior. Mas 0 efeito de longo prazo 6 um €OFPO ainda mais desoquilibrado. Alm disso, hé 0 mito ou arquétipo de que qual- quer ajuda psicolégica destruiria a criatividade do artista pot tomné-lo normal dem: Mas os artistas altamente sonsivois, om particular, deveriam refle- tir profundamente sobre a mitologia que os cerca. O artista intens @ problemético ¢ uma das figuras mais romanticas de nossa cultura, agora que 0s santos, 0s fora-da-lei e os exploradores estao em extingjo, Lembro-me de que uma professora de redagao criativa listow cettavez, praticamente todos os autores famosos na lousa © perguntou 0 que tinham em comum, A resposta foi tontativa de suictdio. Nae estou corta do quo a classe entendeu a tragédia do fato tanto quanto © spec to romintico da carreira que havia escolhido, Mas, sondo igualimente psicéloga ¢ artista, eu enxerguei uma situag’o de seriodade fata, & freqiiente o aumento do valor do trabalho de artistas que s40 declara~ dos insanos ou cometem suicidio, E 0 fascinio que a vida do hexgi- aventureiro artistico exerce especialmente sobre a jovem PAS pode ser uma armadilha inconscientemente montada pelas pess0#s devida mundana que nao dao tempo ao artista que tém dentro de si & qusrem. 160 USE A SENSIBILIDADE A SEU FAVOR que outros sejam artistas por elas, vivendo toda a loucura que repri- mem, A compreensao do impacto dessa alternancia que descrevi en- tre o baixo nivel de estimulo proporcionado pelo isolamento criativo eo excesso de est{mulo da exposigao ao ptiblico pouparia aos artistas sensiveis muito sofrimento. A vocagéio para servir 0 proximo As PAS tendem a perceber enormemente 0 sofrimento das outras pes- soas. Muitas vezes sua intuigao lhes da a percepgao mais clara do que precisa ser feito. Sendo assim, muitas PAS escolhem carreiras assis- tenciais. E muitas “séo consumidas”. Para ajudar o proximo vocé nao precisa entregar-se a um trabalho que o consuma. Muitas PAS insistem em trabalhar nas frentes de guerra, por assim dizer, onde recebem excesso de estimulos. Elas se sentiriam culpadas se ficassem atrds, enviando outros para fazer aquilo que pa- rece to oneroso. Mas penso atualmente que ha pessoas que de fato so perfeitas para as linhas de frente e adoram isso. Entéo por que nao permitir que satisfagam seus desejos? £ necessdrio haver alguém nos bastidores, também, tragando estratégias de um ponto do qual tenham a perspectiva do campo de batalha. Em outras palavras, algumas pessoas gostam de cozinhar e outras gostam de lavar os pratos. Por muitos anos nao fui capaz de permitir que outras pessoas assumissem a tarefa de limpar depois de eu ter me divertido cozinhando, um de meus passatempos favoritos. Até que finalmente dei ouvidos a alguém que dizia gostar realmente de lavar a louga — e detestava cozinhar. Houve um verdo em que visitei o Rainbow Warrior, do Greenpeace, e conversei com alguns dos aventureiros da tripulagao, ouvindo casos em que ficaram na frente do arpao de enormes navios baleeiros ou na mira de torpedos e metralhadoras por dias a fio. Por maior que seja meu amor pelas baleias, eu causaria mais problemas do que daria aju- da nessa circunstancia. Mas sei que poderia dar apoio por outros meios. Resumindo, vocé nao precisa assumir tarefas que provoquem ex- cesso de tensio e excitagao. Outras pessoas se encarregarao delas, ¢ 0 ‘O SUCESSO NO TRABALHO 161 fardo com brilho. Nao é necessério que trabalhe por horas intermina- veis. Na verdade, trabalhar poucas horas pode ser um dever seu. E melhor nao fazer alarde disso, mas manter-se sauddvel e dentro do nivel apropriado de estimulagao é a primeira condigao para que voce possa ajudar outras pessoas. A ligdo de Greg Greg era um professor altamente sensivel muito amado e respeitado por seus alunos e colegas. Apesar disso procurou-me para falar da idéia de abandonar a tinica profissao que sempre desejara esperando que eu confirmasse que o magistério nao é atividade para PAS. Concordo que é diffcil, mas penso também que professores bons e sensfveis sdo essen- ciais para a felicidade e o progresso dos individuos e da sociedade. Nao pude suportar a idéia de ver aquela jéia abandonar o barco. Raciocinando comigo, ele concordou que ensinar era uma voca- cao bastante légica para uma pessoa sens{vel e amorosa. Os empregos relacionados a educagao deveriam ser adequados a essas pessoas, mas as pressdes na verdade estado tornando diffcil para as PAS permanecer no magistério. Ele percebeu que sua missio era mudar as exigéncias do trabalho. Esse era de fato seu dever ético. Faria um bem maior recusando-se a trabalhar excessivamente do que desistindo. A partir do dia seguinte, Greg nao trabalhou mais depois das qua- tro da tarde. A simples necessidade de organizar seu hordrio nesse sentido consumiu boa parte de sua criatividade. Algumas solugées nao eram ideais e perturbavam sua alma escrupulosa. Ele sentiu que tinha de esconder seus novos habitos dos colegas e do diretor, mas eles acabaram descobrindo. (O diretor aprovou, compreendendo que Greg realizava bem suas tarefas essenciais e sentia-se mais feliz.) Al- guns colegas 0 imitaram, outros ficaram com inveja e ressentiram-se, mas nao foram capazes de mudar. Dez anos depois, Greg ainda 6 um professor de grande sucesso, feliz e saudavel. & verdade que, mesmo exausto, vocé ainda presta bons servigos. Mas perde contato com suas fontes profundas de energia, assume um. comportamento autodestrutivo, martiriza-se e faz com que os outros 162 USE A SENSIBILIDADE A SEU FAVOR se sintam culpados. No final vai desejar desistir como Greg ou ser forgado a isso por seu corpo. As PAS e a responsabilidade social Nada do que foi dito acima tem a intengao de tirar ainda mais PAS da luta por justiga social e saneamento ambiental. Pelo contrdério, nés precisamos participar dessa luta, mas a nossa maneira. Talvez uma parcela do que esté errado no governo e na politica nao seja responsa- bilidade da direita nem da esquerda, mas da falta de PAS suficientes para fazer com que todos parem para refletir sobre as conseqtiéncias. Nos abdicamos e abandonamos as coisas nas maos dos que sao mais impulsivos e agressivos e conseguem eleger-se para os cargos admi- nistrativos e dali para todas as areas, Os romanos tiveram um grande general chamado Cincinato. A lenda conta que ele desejava viver tranqiiilamente em sua fazenda, mas foi por duas vezes convencido a voltar a vida publica para salvar seu povo de desastres militares. O mundo precisa persuadir mais pessoas assim a assumir cargos ptiblicos. Mas, se nao nos persuadirem, nds deveremos ser voluntrios de vez, em quando, As PAS no mundo dos negécios O mundo dos negécios sem dtivida subestima as PAS. Pessoas intuiti- vas e de inteligéncia privilegiada, e ainda escrupulosas e determinadas a ndo cometer erros, sao com certeza funciondrios valiosos. Mas 6 menos provavel sua adaptagdo ao mundo dos negécios enquanto as metéforas dos empreendimentos forem guerra, pioneirismo e expansao. Os negécios podem ser vistos também como uma obra que requer artistas, um exercicio de profecia que pede visionarios, uma respon- sabilidade social que demanda jufzes, uma tarefa de crescimento que exige as mesmas habilidades de um fazendeiro ou um pai, um desafio de educagao publica que precisa da capacidade de professores, ¢ as- sim por diante. Mas existem diferengas entre as empresas. Fique alerta a cultura da corporagao quando assumir um cargo ou tiver a chance de influen- O SUCESSO NO TRABALHO 163 ciar essa cultura. Ouga o que é dito, mas use também sua intuigdo. Quem é admirado, recompensado e promovido? Aqueles que demons- tram obstinagio, competitividade e insensibilidade? Criatividade e visto? Harmonia e moral? Atencio ao cliente? Cuidado com a quali- dade? As PAS estaréio vontade em todos os casos, exceto no primeiro. APAS de inteligéncia privilegiada no local de trabalho Em minha opinifo todas as PAS tém inteligéncia privilegiada pela pré- pria caracteristica. Mas algumas se destacam. Na verdade, uma razéio do surgimento da idéia de PAS “liberadas” foi a mistura aparentemente rara de tragos em adultos de inteligéncia privilegiada revelados estudo apés estudo: impulsividade, curiosidade, forte necessidade de inde- pendéncia, alto nfvel de energia aliado a introversio, intuigao, sensibi- lidade emocional e nao-conformismo’. A inteligéncia privilegiada 6, no entanto, uma caracterfstica com- plicada para administrar no local de trabalho. Primeiro, sua originali- dade pode tornar-se um problema nos momentos de sugerir idéias em situagées de trabalho de grupo. Muitas organizagoes enfatizam a solu- cao de problemas em equipe exatamente porque isso traz idéias de pes- soas como vocé equilibradas pelas dos outros. A dificuldade surge quan- do todos propéem idéias e as suas parecem obviamente melhores para voc, mas os outros simplesmente parecem nao perceber isso. Ao acei- tar a decistio do grupo vocé sente estar sendo desleal consigo mesmo e incapaz de assumir a responsabilidade pelos resultados. Se nao aceita, sente-se alienado e mal compreendido. Um bom supervisor ou gerente conheceré essa dinamica e protegerd o funciondrio brilhante, caso con- trdrio este poder oferecer sua inteligéncia a outro empregador. Em segundo lugar, vocé pode se deixar excitar intensamente por seu trabalho e suas idéias. Por causa dessa excitagdo pode parecer aos outros que vocé assume muitos riscos. Nao sao riscos grandes para vocé porque os resultados Ihe parecem claros. Mas vocé nao é infali- vel, e as pessoas a sua volta podem sentir prazer especial com suas falhas, mesmo raras. Além disso, os que nado compreendem sua inten- sidade dirao que vocé trabalha todo 0 tempo e poderio ficar ressenti- 164 ‘USE A SENSIBILIDADE A SEU FAVOR dos — isso prejudica a imagem deles. Para vocé, no entanto, trabalho 6 prazer. Nao trabalhar daria trabalho. Se esse for 0 seu caso, talvez deva manter suas horas extras em segredo, conhecidas apenas por um supervisor. O melhor seria nao trabalhar demais. Tente encarar inclusive a excitagao positiva como um estado de hiperexcitagiio e equilibrar tra- balho e recreagio. Isso beneficiard seu desempenho. Outra conseqiiéncia de sua intensidade é sua mente incansdvel acabar por conduzi-lo a outros projetos antes que complete os deta- lhes do anterior, permitindo que outros colham aquilo que plantou. A menos que se prepare para isso, 0 que normalmente nao é seu estilo, terd de aceitar o resultado. O terceiro aspecto da inteligéncia privilegiada, a sensibilidade emocional, pode envolvé-lo nas complicagées da vida particular de outras pessoas. Isso nao 6 bom, especialmente no local de trabalho. Vocé precisa estabelecer algumas fronteiras profissionais. Nesse am- biente, em particular, é melhor passar mais tempo com os menos sen- siveis, que podem oferecer-lhe equilfbrio, e vocé a eles. Estabelega fora do trabalho os relacionamentos mais intensos, que oferecem a profundidade emocional que procura. Os relacionamentos que oferecem o porto seguro que abriga das tempestades emocionais criadas por sua sensibilidade também de- vem ficar fora do ambiente profissional. Nao os procure entre seus colegas, menos ainda com supervisores. £ demais para eles, que po- dem acabar achando que “hd algo errado com vocé”. A quarta caracterfstica da inteligéncia privilegiada, a intuigao, tal- vez parega magica aos outros. Ninguém vé o que vocé vé — esse con- traste entre a superficie e “o que realmente se passa”. Por isso, assim como acontece em relagao a suas idéias incomuns, é preciso decidir entre ser honesto e aceitar as coisas como os outros as véem, sentin- do-se secretamente um pouco alienado. Por fim, sua inteligéncia especial pode lhe dar certo carisma. Os demais eventualmente esperardo que vocé os guie em vez de guiar a si mesmos. & uma tentacéo envaidecedora, mas talvez acabe parecendo que Ihes roubou a liberdade, o que ser de certa forma verdadeiro. O SUCESSO NO TRABALHO 165 Por seu lado, vocé talvez traga a impressio de que os outros tem pouco a oferecer em troca. Talvez uma sensagio de desapontamento tome o lugar da partilha inicial. Mas afastar-se levaria a maior aliena- Gao, e ha o fato de que vocé precisa dos outros. Uma possivel solugio é nao insistir em demonstrar todos os seus dons no local de trabalho. Expresse-se com projetos particulares, arte, planos de auto-emprego futuro ou paralelo e por sua maneira de viver, Em outras palavras, empregue sua inteligéncia privilegiada em cendrios mais amplos, além da produgio das idéias de destaque em seu emprego. Use-a para obter maior autoconhecimento e alcangar mais sabedoria a respeito do ser humano, de seus grupos e organiza- Gées. Quando esse for seu objetivo, poderd sentir-se bem apenas ob- servando ou participando como uma pessoa comum, nfo espe- cialmente dotada, para descobrir como é. Um tiltimo cuidado 6 permanecer em contato com todos os tipos de Pessoa, no trabalho e fora dele, accitando o fato de que ninguém pode relacionar-se com a totalidade de seu ser. Aceitar a solidéo que acompa- nha a inteligéncia privilegiada talvez seja o mais libertador e fortalecedor de todos os passos. Mas aceite também o oposto — que nao é necessdrio se sentir isolado, pois todos somos privilegiados de alguma maneira. E hé outra verdade: ninguém, nem mesmo vocé, 6 especial a ponto de estar isento do envelhecimento e da morte, que sao universais, Reconhega que sua caracteristica é valorizada Neste ponto espero que vocé jé possa imaginar as muitas razées pelas quais uma PAS ¢ valiosa em seu trabalho, quer esteja auto-empregada, quer trabalhe para alguém. Mas concluf que talvez seja necessdrio mui- to esforgo até que as PAS possam desfazer idéias negativas do passado arespeito do trago que tém e de seu verdadeiro valor, Seré imposstvel convencer alguém a aceitar esse valor se vocé mesmo nao estiver con- vencido dele. Entao, por favor, faca o que se segue, sem falta. Liste todas as caracterfsticas possivelmente relacionadas a uma PAS. Siga os procedimentos de uma brainstorm e aceite todas as idéias, sem criticas. Nao se preocupe se as naéo-PAS apresentam algumas 166 Use A SENSIBILIDADE A SEU FAVOR caracterfsticas iguais. 1 suficiente que nés as tenhamos igualmente ou mais. Utilize todas as estratégias: dedugao légica com origem no trago basico, reflexdo sobre a imagem tipica de uma PAS, andlise das PAS que vocé conhece ¢ admira, andlise de si mesmo, consulta a este livro. Sua lista deve ser longa. Ela fica bastante grande quando PAS a fazem em grupo — e eu as incentivo. Portanto, continue até que a sua esteja bastante substancial. Agora faga duas coisas: escreva um pequeno discurso que possa ser usado em uma entrevista e também uma carta mais formal apresentan- do em ambos um pouco de seu potencial e citando sua sensibilidade para informar gentilmente seu empregador. Veja parte de um roteiro possivel (um pouco informal para uma carta): Além de meus dez anos de experiéncia com criangas pe- quenas, possuo considerdvel conhecimento de artes graficas e experiéncia prdtica com layout. Vejo em tudo isso uma importante contribuigdo de minha personalidade e de meu temperamento — sou uma pessoa extremamente escrupulo- sa, perfeccionista e preocupada em realizar um bom trabalho. Ao mesmo tempo, acredito ter uma imaginagdo rica. Sem- pre fui considerado muito criativo (além de haver sempre obtido notas excelentes na escola e ter alto QI). A intuigao em relagao ao trabalho 6 um de meus pontos fortes, e sou capaz de avaliar a potencialidade de problemas e erros. Nao sou, porém, inclinado a criaralvorogo. Gosto de manter um ambiente calmo a minha volta. Na verdade, devo dizer que trabalho melhor quando estou calmo e as coisas em redor es- tdo trangiiilas. A maioria das pessoas acha agraddvel traba- Ihar comigo, apesar de particularmente gostar tanto de trabalhar sozinho quanto com um grupo pequeno. Minha independén- cia nesse sentido e minha competéncia para trabalhar bem iso- Jadamente tém sido outra constante entre minhas habilidades. ‘O SUCESSO NO TRABALHO. 167 Treinamento SituagGes de treinamento podem ser muito perturbadoras porque vocé tende a apresentar desempenho pior quando est4 sob observacao ou se sente hiperexcitado por outro motivo — por exemplo, quando re- cebe muitas informagées de uma sé vez, quando existe muita gente em volta falando ou esforgando-se para aprender, quando imagina todas as terriveis conseqiiéncias de esquecer algo. Se for possivel, tente o autotreinamento. Leve para casa os manuais de instrugao ou fique até mais tarde e trabalhe sozinho. Verifique ain- da a possibilidade de treinamento individual, realizado de preferén- cia por alguém que o deixe & vontade. Pega que The ensinem cada passo e entio o deixem sozinho para praticar. A seguir, permita ser observado por alguém que nfo seja um supervisor, alguém que nao o deixe tao nervoso. Conforto Vocé nao precisa de nenhum desconforto nem de pressao extra por- que ja é mais senstvel. Uma situagao pode ser classificada de segura, mas ainda assim seré estressante para vocé. Da mesma forma, outros podem nao ter problemas com lampadas fluorescentes, baixo nivel de tufdo de maquinas ou odores quimicos, mas vocé tem. Essa 6 uma questio bastante individual mesmo entre PAS. Se for necessério reclamar, pese realisticamente o que estd enfren- tando. Caso ainda queira seguir em frente, mencione os esforgos pes- soais que tem feito para resolver o problema. Enfatize sua produtivi- dade e suas realizagées, mostrando que pode fazer mais ainda quando a situagdo for resolvida (se for realista). Progresso na organizacao Pesquisas sobre os “‘tfmidos” sugerem que essas pessoas recebem me- nores saldrios e trabalham abaixo de seu nivel de competéncia‘. Sus- peito que isso seja verdade no caso de muitas PAS, embora algumas vezes por escolha propria. Mas, se voce deseja uma promogiio e nao a 168 USE A SENSIBILIDADE A SEU FAVOR esta conseguindo ou se a empresa planeja fazer demissées e vocé nao quer ser inclufdo, é preciso dar atengao a algumas estratégias. ‘As PAS geralmente nao gostam de “fazer politica”. Mas eventual- mente isso pode nos tornar objeto de suspeita. Passamos despercebi- dos com facilidade em todos os tipos de situagdo, especialmente se ficarmos pouco tempo com colegas de trabalho ou nao compartilhar- mos com eles nossas idéias. Podemos parecer inatingfveis, arrogan- tes, diferentes. Se nado formos arrojados, daremos a impressao de fracos ou desinteressados. Essas impressdes quase nunca tém fundamento, mas vocé deve ficar atento a tais dinamicas e tragar estratégias para desfazer essas imagens. Quando for adequado, deixe que conhegam casualmente (ou for- malmente) seus sentimentos positivos em relagao a eles ou a organi- zagao. Vocé talvez pense que esses sentimentos sao ébvios, mas nem tanto, sendo vocé discreto e os outros pouco perspicazes. Reflita na necessidade de falar mais abertamente das contribuigdes que consi- dera ostar fazendo, da posigao que gostaria de alcangar dentro da or- ganizagao um dia e do tempo que espera por isso. Esteja certo, no entanto, de que nao serd considerado nas proximas promogées por escrever todas as semanas a respeito de suas contri- buigdes a empresa, somadas a realizagGes profissionais ou pessoais alcangadas em outros momentos. Mas, se for possfvel, mostre um re- sumo dessas conquistas em sua préxima avaliagio de desempenho. Seja detalhista. Vocé, pelo menos, estard consciente disso. Se tem resisténcia a essa idéia ou se daqui a um més ainda nao tiver conseguido fazer isso, analise profundamente as razGes. Parece exibicionismo? Entdo considere a possibilidade de prestar um desser- vigo & empresa se nao lembrar a eles seu valor. Cedo ou tarde voce ficard insatisfeito e desejaré ir mais longe, sera seduzido pelos con- correntes ou demitido e substitufdo por alguém menos competente. E preferfvel que os outros percebam seu valor sem que vocé tenha de lembré-los? Esse 6 um desejo comum que vem da infancia e 6 rara- mente satisfeito pelo mundo. Vocé na verdade esté realizando muito pouco? Isso incomoda vocé? Pode ser que precise manter um registro das conquistas que realmen- O SUCESSO NO TRABALHO 169 te Ihe importam — trilhas de bicicross que venceu, livros que leu, conversas que teve com os amigos. Se outra coisa, e nao o trabalho, consome a maior parte de sua energia, talvez seja por lhe dar maior prazer. Existe alguma forma de ser pago para fazer 0 que gosta? Seéa responsabilidade por um filho ou parente idoso que consome seu tem- po, sinta orgulho de cumpri-la. Anote-a como mais uma conquista mesmo que nao possa compartilhé-la com seu empregador. E, por tiltimo, se nao estd fazendo progressos e sente que “alguém 0 persegue”, 6 bem possivel que nao tenha entendido nada. Bete encontra Maquiavel Bete, uma PAS, foi minha cliente em psicoterapia. Um dos assuntos de que falava com regularidade era sua frustragéo no trabalho. Terapeutas nunca sabem com certeza 0 que acontece em situagdes das quais s6 conhecem uma versao. Mas parecia que Bete estava realizan- do bons servigos e nunca era promovida. Entiio, em uma avaliagio de desempenho, foi criticada exatamente por comportamentos que pareciam ser os mais valorizados pela maio- ria dos supervisores. Bete comegou a imaginar que sua chefe “a perse- guia”. A chefe tinha uma vida pessoal complicada, e a encarregada anterior alertara que ela poderia “apunhalar pelas costas”. ‘A maior parte dos outros funciondrios nao tinha problemas com a nova supervisora, mas a intuigao de Bete dizia-Ihe que estavam fazen- do concessdes para agradé-la porque tinham medo dela. Minha pacien- te, sendo bem mais velha, a via apenas como imatura, nado como uma ameaga. Por ser também dedicada e escrupulosa, Bete recebia com freqiiéncia elogios dos visitantes, que a consideravam a pessoa mais competente do departamento. Ela pensava nada ter a temer, mas su- bestimou a inveja da supervisora. Afinal, nao gostava de pensar mal de ninguém. Um dia Bete tomou a iniciativa de pedir a alguém do departamen- to de pessoal para ver sua ficha (0 que era permitido naquela empre- sa) e descobriu que a chefe vinha registrando ali anotagées simples- mente falsas, omitindo as informagoes positivas. 170 USE A SENSIBILIDADE A SEU FAVOR Ela finalmente teve de admitir que estava em uma guerra, mas néio sabia o que fazer. Repetia, particularmente, que nao desejava descer ao nfvel daquela injusta. Para mim, o ponto importante era ajudar Bete a enxergar os moti- vos de ter sido visada. Ela admitiu nao ser a primeira vez em sua hist6ria profissional. Eu suspeitei que nesse caso a razao fosse a im- pressiio, mesmo infundada, de indiferenga e superioridade, ameaga- dora para uma pessoa mais nova e insegura. Mas na raiz de tudo esta- vaa falha, a verdadeira recusa de admitir 0 conflito que se aproximava. Nessa empresa e em outras onde havia trabalhado no passado, Bete tornara-se um alvo facil por preferir ficar “separada da turma”. Como muitas PAS introvertidas, ela ia para o trabalho, fazia bem seu servigo e voltava para casa, evitando contatos que aumentassem os estimulos. Ela me dizia sempre: “Eu nao gosto de fofocar com os outros”. Uma conseqiiéncia desse estilo era manter-se pouco informada em relagao ao que acontecia em um patamar mais informal. Ela precisaria proje- tar mais sua persona e bater papo simplesmente para proteger-se, para saber 0 que se passava, para “ter amigos na corte”. A segunda conse- qiiéncia era o fato de, de certa maneira, rejeitar os outros — pelo me- nos era o que eles achavam. De qualquer forma, ninguém tinha ne- nhuma motivagao para ajudé-la, e assim a supervisora soube que aquele seria um alvo seguro para atacar. Outro engano compreenstvel, tfpico de uma PAS, foi ignorar total- mente o lado “escuro” ou as facetas menos desejaveis de sua chefe. Bete tinha na verdade uma tendéncia para idealizar os superiores. Esperava apenas bondade e protegio das pessoas em comando. Quan- do nao recebeu de sua chefe o que esperava, dirigiu-se ao superior dela para pedir ajuda. Mas achou que era “apenas justo” deixar que a moga soubesse que faria isso! Esta, naturalmente, passou-lhe frente e pos o gerente contra ela. A outra autoridade superidealizada agiu, previsivelmente, como um simples mortal. Quando pedi a Bete que fosse mais esperta, mais “politica”, elaa princfpio achou que estava lhe pedindo que se “sujasse”. Mas eu sa- bia que toda essa pureza devia estar escondendo uma grande sombra, e com 0 tempo ela encontrou em seus sonhos uma cabra enraivecida O SUCESSO NO TRABALHO 171 presa por uma cerca, depois uma pequena “lutadora de rua” e final- mente uma sofisticada mulher de negécios. Cada uma dessas figuras de sonho revelou problemas que ela de fato ja trazia, mas nunca havia admitido e reprimia veementemente como inaceitaveis. Ensinaram- lhe como suspeitar pelo menos um pouco de todos, especialmente das pessoas que idealizava (inclusive eu). Ao avangar em sua auto-andlise — grande parte obviamente exi- giu considerdvel coragem e inteligéncia —, Bete admitiu ter diividas profundas a respeito da motivagdo de todas as pessoas, mas tentava sempre suprimir essas suspeitas como repugnantes. Quando tomou consciéncia disso e checou suas desconfiangas, descobriu que poderia confiar mais, e ndo menos, em algumas pessoas, principalmente em sua intuigdo, agora menos conflituosa. Vocé tera a oportunidade de conhecer o agente de seu poder interior no final deste capitulo. Remorsos: evitdveis e inevitdveis f diffcil aceitar todas as coisas que nao conseguiremos fazer duran- te a vida. Mas isso faz parte de ser mortal. Como seré maravilhoso se conseguirmos fazer algum progresso, ainda que pequeno, na diregao da questéo que a vida tem para nés. Mais maravilhoso ainda sera conse- guir ser pagos para fazer isso. E serd quase um milagre fazer isso na companhia de outras pessoas, em harmonia e com respeito mutuo. Se vocé recebeu essas béngaos, valorize-as como merecem. Se ainda nao conseguiu, espero que tenha agora a percepgao de que isso é possfvel. Por outro lado, vocé pode estar lutando para exercer uma vocagao freqiientemente impedida por outras responsabilidades ou pela inca- pacidade de nossa cultura de lhe dar o devido valor. Se conseguir alcangar um ponto de paz nessa luta, provavelmente sera 0 mais sébio entre nds. ‘Use a Sensmtibnoe 4 StU FAVOR TRABALHE COM 0 QUE APRENDEU Encontre seu Maquiavel Maquiavel, 0 conselheiro de principes italianos da Renascenga, escreveu com brutal franqueza a respeito de chegar na frente e mans ter-se lé. Seu nome ¢ associado, talvez excessivamente, a manipulac do, mentira, traigdo ¢ todas as outras conspiragées que ocorrem “na corte”, Nao recomendo que se tone maquiavélico, mas asseguro que, quanto maior repulsa sentir polas qualidades dole, maior a necessidade de estar consciente de que elas estao a espreita dentro de vocé e dos outros. Quanto mais alegar que nada sabe de coisas assim, mais pers turbado ficard pelas conspiracées secretas de seu interior. Em resumo, existe um Maquiavel em algum lugar dentro de vood, Sim, ele 6 um manipulador sem escritpulos, mas nenhum principe, especialmente se for gentil, manteria 0 poder por muito tempo sem. pelo menos um conselheiro de visdo tdo impiedosa quanto a dos ini- esse principe som diivida tem. O truque é ouvir Maquiavel, jo. em seu lugar. Talvez vocd jé conhega essa sua faceta, mas dé corpo a cla. Tente iginar sua aparéncia, o que diz, que nome tem. (Provavelmente ndo seré Maquiavel.) Entéo bata um papo com ela. Deixe que Ihe fale sobre o lugar onde trabalha. Pergunte quem esté agindo para chegar na frente © quem estd perseguindo vocd. Pergunte o que vocé pode fazer para progredir. Deixe que essa voz the fale por algum tempo. Mais tarde, com muito cuidado para mantor seus valores ¢ seu bom carter intactos, pense naquilo que aprendou. Seré que ficou sabendo, Por exemplo, que alguém esté usando téticas injustas e prejudicando com isso vot ¢ a empresa? Sua voz interior estard parandica ow isso 6 algo que voce jé sabia ¢ nao queria admitir? Existe alguma atitude que possa tomar para coibir isso ou pelo menos proteger-se? Capitulo 7 os OS RELACIONAMENTOS INTIMOS O desafio do amor sensivel ESTE CAPFTULO f UMA HISTORIA DE AMOR. Ele comega contando como as PAS se apaixonam ¢ iniciam amizades profundas. Depois ajuda a fazer o gratificante trabalho de manter vivo esse amor, no estilo das PAS. A intimidade com uma PAS: todas as maneiras de conseguir isso Cora tem 64 anos, é dona de casa e autora de livros inkintis, Casou- se apenas uma vez, com seu “iinico parceiro sexual”, ¢ informou- me com firmoza que esta “muito contente com esse aspecto de mi- nha vida". Dick, sou marido, é “tudo menos wna PAS* Mas ambos preciam 0 que 0 outro oferece ao casamento, especiamente agora que as arestas foram aparadas. Ela aprendeu ao longo jos anos, por exemplo, a resistir aos desejos dele de partilhar 0 ptazr dos filmes de aventura, da pritica de esqui e de campeonatos esportivos. Ele vai com os amigos. Mark, com cerca de 50 anos, 6 professor universitirio © poata, um especialista em TS, Eliot. Nao ¢ casado e vive na Suécia, onde 174 ‘USE A SENSIBILIDADE A SEU FAVOR ensina Literatura Inglesa. As amizades so essenciais na vida de Mark. Ele desenvolveu a habilidade de encontrar no mundo as pou- cas almas como a sua e cultiva um relacionamento profundo com elas. Suspeito que todos se consideram muito afortunados. Quanto ao romance, Mark recorda paixdes intensas desde a infancia. Adulto, seus relacionamentos tém sido “raros mas pertur- badores. Dois ainda persistem. Dolorosos. Nao ha fim apesar de a porta estar fechada”. Mas lembro que entao sua voz assumiu um tom malicioso: “Mas minha vida é rica em fantasias”. Ann também se lembra de paixées intensas na infancia. “Sem- pre havia alguém, era uma cruzada, uma busca constante.” Ela ca- sou-se aos 20 e teve trés filhos em sete anos. Nunca havia dinheiro suficiente, e as tensdes cresciam proporcionais aos abusos do mari- do. Depois de ter sido espancada duramente algumas vezes, ela sou- be que tinha de partir, crescer e aprender a sustentar-se. Ao longo dos anos existiram outros homens em sua vida, mas nunca se casou de novo. Aos 50, Ann afirma que sua busca do “principe encantado” finalmente terminou. Na verdade, quando perguntei se organizava a vida de alguma forma especial para acomodar sua sen- sibilidade, a primeira resposta foi: “Eu finalmente deixei os homens fora de minha vida, entdo isso nado me perturba mais”. Amigas inti- mas e profundos lagos com os filhos e as irmas proporcionam grande felicidade a Ann. Kristen, a estudante que apresentei no capitulo 1, é mais uma que amou intensamente durante a infancia. “A cada ano eu escolhia um. Mas, quando fiquei mais velha e as coisas foram ficando mais sérias, quando estava com eles eu queria que me deixassem em paz. Entéo houve aquele que acompanhei ao Japao. Ele foi muito importante para mim, mas jd terminou, gragas a Deus. Agora, que estou com 20 anos, ndo me preocupo muito com os rapazes. Quero primeiro saber quem eu sou.” Para quem estava tio preocupada com a propria sanidade mental, ela parece definitivamente sa. Lily, de 30 anos, teve uma juventude promfscua para afrontar sua severa mae chinesa. Hé dois anos, porém, quando a satide sucum- OsRELACIONAMENTOs iNTIMOS 175 biu aos efeitos de sua vida dissipada, ela percebeu afinal que era infeliz, Durante nossas entrevistas comegou a perguntar-se se teria escolhido uma vida téo hiperestimulante para distanciar-se da fa- mflia, que via como tediosa e sem o vigor americano. De qualquer forma, quando recuperou a satide, Lily iniciou um relacionamento com um homem que considerava ainda mais sensfvel que ela. A principio eram apenas amigos: ele parecia ser tedioso como sua fa- mflia. Mas alguma coisa terna e carinhosa surgiu entre eles. Esto morando juntos, mas ela nfo se apressa em casar. Lynn esté na casa dos 20 e casou-se ha pouco tempo com Craig, que compartilha com ela a busca espiritual e um profundo amor. Mas hd o problema do sexo: quanto cada um deseja? Para seguir a tradigao espiritual que ele escolhera, e ela abragou ao conhecé-lo, Craig vinha se abstendo de sexo. Na época de nossa entrevista, ele havia mudado de idéia, e era ela quem agora queria seguir a tradi- cdo da abstinéncia. O acordo que até 0 momento tem satisfeito a ambos 6 de fazer amor “com pouca freqiiéncia” (uma ou duas vezes por més), mas de forma “muito especial”. Esses exemplos ilustram as maneiras ricamente diversas pelas quais as PAS satisfazem seu desejo muito humano de estar préximas de outras pessoas. Apesar de ainda nao ter dados estatisticos de lar- ga escala para confirmar isso, obtive através das entrevistas a im- pressio de que as PAS encontram formas mais variadas de resolver os assuntos dessa drea. Elas escolhem com maior freqiiéncia que a populagao em geral a vida de solteiras, a firme monogamia ou ami- zades e relacionamentos familiares profundos em lugar de romance. £ possivelmente verdade que dancem ao som dessa cangao de amor diferente por ter histéria de vida e necessidades diferentes. A neces- sidade é a mae da invengao. Com toda essa diversidade, nés, PAS, ainda temos de considerar alguns pontos em comum nos relacionamentos {ntimos, todos eles com origem em nossa habilidade especial de perceber as sutilezas e em nossa maior tendéncia para a hiperexcitagaio. 176 USE A SENSIBILIDADE A SEU FAVOR As PAS ea paixdo Minhas pesquisas sugerem que, quando 0 assunto é amor, n6s, PAS. nos apaixonamos com maior intensidade. Isso pode ser bom. Estu- dos comprovam que a visto da propria competéncia e a auto-esti- ma’ ampliam-se marcadamente na pessoa apaixonada, Quando ama a pessoa sente-se maior e melhor. Por outro lado, 6 bom conhecer algumas das razGes pelas quais nos apaixonamos e que nao estao, ou pouco estao, relacionadas ao objeto desse amor. Antes de comegarmos, porém, escreva 0 que aconteceu em uma ou mais vezes em que vocé esteve profundamente apaixonado, En- tao poderd verificar se 0 que descrevo aconteceu em seu caso. Reconhe¢o que algumas PAS parecem nio se apaixonar jamais. (Em geral possuem 0 estilo de ligagao esquivo que descrevi anteriom mente.) Mas dizer “nunca amarei” 6 como dizer que jamais chovera no deserto. Qualquer um que conhega o deserto Ihe diré que, quan- do chega a chover 14, 6 melhor tomar cuidado. Portanto, se vocé acredita que nao ama intensamente, deveria ler assim mesmo — em caso de chuva. Quando 0 amor é intenso demais Antes de abordarmos 0 poderoso tipo de amor ou amizade que leva a um relacionamento maravilhoso, talvez esteja interessado no tipo mais raro, porém mais famoso ¢ perturbador, do amor imposstvel. Pode acontecer com qualquer um, mas parece acontecer com fre- giiéncia um pouco maior entre as PAS. Como quase sempre essa uma experiéncia muito sofrida para ambos os envolvidos, um pouco de informagao pode ser util no caso de vir a encontrar-se em uma situagao assim. Esse tipo de amor geralmente-nao 6 correspondido. A propria falta de reciprocidade pode ser a causa da intensidade. Se um relacionamento real fosse possivel, a idealizagaio absurda esfriaria a medida que a pessoa passasse a conhecer melhor o ser amado, com todas as suas limitagdes, Mas a intensidade pode também des. Os RELACIONAMENTOS iNTIMOS 177 truir o relacionamento. Um amor excessivamente intenso 6 muitas vezes rejeitado por ser muito exigente e pouco realista. Aquele que 6 amado freqiientemente sente-se sufocado, e nao realmente ama- do, ao perceber que seus sentimentos nao sao levados em conta. E como se aquele que ama nao tivesse compreensao real do ser ama- do, mas apenas uma visdo imposstvel de perfeigdo. E pode vir a aban- donar tudo em nome do sonho da felicidade perfeita, que apenas o outro 6 capaz de realizar. Por que ocorre um amor assim? Nao ha resposta, mas algumas fortes possibilidades. Carl Jung sustentava que os habitualmente introvertidos (na maioria PAS) voltam toda a energia para dentro de si mesmos para proteger sua preciosa vida interior contra as pertur- bagdes do mundo. Mas ele alertava que, quanto mais bem-sucedi- dos somos em nossa introversio, maior se torna a pressio do in- consciente para compensar esse direcionamento interior. £ como se a casa estivesse cheia de criangas entediadas (mas provavelmente de inteligéncia superior) que em determinado momento encontras- sem safda pela porta dos fundos. Essa energia antes reprimida que desperta geralmente se deposita em alguma pessoa (ou lugar ou coisa) que passa a significar tudo para o pobre introvertido liberta- do. Vocé se apaixona perdidamente, e isso na verdade tem pouca relacdo com a outra pessoa e mais com 0 tempo que vocé demorou para se expor. Muitos filmes e romances retrataram esse tipo de amor. Um clas- sico do cinema poderia ser O anjo azul, sobre um professor universi- tario que se apaixona por uma dangarina. Um livro cldssico seria O Jobo da estepe, de Herman Hesse, a respeito de um homem de certa idade altamente introvertido que conhece uma provocante e jovem dangarina e seus amigos apaixonados e sensuais. Em ambos os casos os protagonistas mergulham em um desesperangado mundo de amor, sexo, drogas, citime e violéncia — todo o estimulo e a satisfagao dos sentidos que seu eu intuitivo e introvertido sempre rejeitou e com que nao souberam lidar. Mas as mulheres também passam por isso, como em alguns romances de Jane Austen ou Charlotte Bronté que 178 ‘USE A SENSIBILIDADE A SEU FAVOR mostram mulheres controladas e introvertidas que sofrem por um amor avassalador. Nao importa quao introvertido seja, vocé ainda 6 um ser social. Vocé nao pode fugir a necessidade e ao desejo espontaneo de rela- cionar-se mesmo que o conflitante impulso de proteger-se seja forte. Felizmente, depois de se expor um pouco e se apaixonar algumas vezes, perceberd que ninguém é perfeito. Como dizem por af, exis- tem outros peixes no mar. A melhor protegao contra a paixdo exces- sivamente intensa é estar aberto ao mundo, nada mais, nada menos. Quando vocé encontra 0 equilfbrio, pode chegar inclusive a encon- trar certas pessoas que o ajudam verdadeiramente a permanecer calmo e seguro. Portanto, j4 que vai de qualquer forma ser conquis- tado um dia, pode muito bem misturar-se conosco desde ja. Reveja suas histérias de amor e amizade. Elas vieram apés um longo perfodo de isolamento? O amor humano e divino Outra forma de apaixonar-se intensamente 6 projetar no outro seus anseios espirituais. Novamente a confusio do ser amado humano com um amado divino seria evitada se vocé pudesse conviver com a pessoa por algum tempo. Do contrario, a projecao pode ser surpre- endentemente persistente. A fonte de um amor assim tem necessariamente de ser muito importante, e acredito que seja. Como dizem os junguianos, cada um de nés possui um companheiro interior cuja missio 6 nos levar aos reinos fntimos mais profundos. Mas 6 possivel que nao conhe- Gamos bem esse companheiro interior ou que muitas vezes, em nos- so desesperado desejo de encontrar aquele de quem precisamos tan- to, cometamos o engano de projeté-lo em alguém. Queremos que o companheiro seja real, e é dificil aprender que também aquilo que é exclusivamente interior pode ser inteiramente real, A tradigdo junguiana sustenta que em geral 0 companheiro interior de um homem 6 uma alma ou uma figura animica feminina e de uma mulher 6 um guia espiritual ou anfmico masculino, Quan- do nos apaixonamos, portanto, estamos na verdade amando a anima OS RELACIONAMENTOS INTIMOS 179 uo animus que nos levaré aonde tanto desejamos ir, ao Pparafso. N6s os vemos em pessoas de carne e osso com as quais desejamos partilhar um parafso terreno e sensual (que geralmente significa um eruzeiro por ilhas tropicais ou um fim de semana em uma estagado ‘de esqui — os publicitérios adoram Nos ajudar a projetar esses ar- guétipos no mundo exterior). Nao me entenda mal, carne ¢ osso e Sensualidade sao coisas 6timas, mas nao irdo substituir uma figura s amores dificeis e a ligagao insegura mo jé discutimos, os relacionamentos das PAS com tudo e todos 40 fortemente influenciados pela natureza das ligagdes que tive- na infancia com seus tutores. Como cerca de apenas 50% ou % da populagao teve na infancia uma ligagdo segura? (um dado mente chocante), aqueles que tém tendéncia a relacionamentos utelosos (ou evasivos) ou muito intensos (de ambivaléncia ansio- ) podem considerar-se bastante normais. Mas suas reagées a es- relacionamentos sio muito fortes porque existem nesse Ambito uitos assuntos inacabados. Freqiientemente os que tiveram ligagdes inseguras tentam com penho evitar o amor, pois nao querem ferir-se, ou talvez parega ito de forma tao diferente do resto do mundo. Ainda assim, nao porta quanto esforco custe, um dia se véem tentando fazer nova- 180 ‘USE A SENSIBILIDADE A SEU FAVOR Apesar de nunca ter se sentido tio préxima de seu marido quanto ele gostaria, Ellen acreditava ter um casamento razoavelmente feliz na 6poca em que terminou sua primeira grande escultura. Mas, de- pois que o projeto de todo um ano ficou pronto e foi entregue, ela se sentiu estranhamente vazia. Raramente compartilhava esses senti- mentos, mas um dia percebeu-se falando deles com uma mulher mais velha, corpulenta, que usava os longos cabelos grisalhos presos em: um coque. Nunca, antes de tal conversa, ela havia prestado atengao naque- la mulher, considerada meio excéntrica pela comunidade. Mas @ senhora grisalha recebera treinamento de conselheira e sabia ouvir com empatia. No dia seguinte, Ellen descobriu-se pensando todo o tempo na nova conhecida. Queria estar novamente com ela. A mu- Iher sentiu-se envaidecida por ter uma artista tio especial como amiga, e o relacionamento vicejou. Mas para a escultora aquela era mais que uma amizade, Era uma necessidade estranha e desesperada. Para sua surpresa, 0 relacio- namento logo assumiu um caréter sexual, e seu casamento fico turbulento. Por consideragéo ao marido e aos filhos, decidiu qui queria romper, mas nao conseguiu, Era totalmente imposstvel. Ap6s um ano de cenas tempestuosas entre os trés, Ellen come cou a perceber na amiga defeitos insuportaveis — principalmente @ temperamento violento. O relacionamento terminou e o casamento sobreviveu, mas ela nao entendeu o que havia acontecido a nao s anos depois, com a psicoterapia. Quando comegou a explorar sua infancia, Ellen ficou sabendo por sua irma mais velha que a mae, sempre muito ocupada, nao tinha tem- po nem inclinagdo para bebés. Tendo sido criada por uma série de ba- bas, ela lembrava-se de uma, a senhora North, que mais tarde foi sua professora na escola dominical. Essa mulher era extraordinariamente. boa e calorosa. A pequena Ellen na verdade pensava que ela fosse Deus. E era uma mulher corpulenta e rtstica que usava os cabelos grisalhos: presos em coque. Ellen crescera com uma programagao inconsciente. Primeiro, para evitar ligar-se a qualquer pessoa, uma vez que as babés mudavam OSRELACIONAMENTOS INTIMOS 181 tanto. Em nivel mais profundo estava programada para aguardar aten- tamente alguém como a senhora North e entao arriscar qualquer coisa para sentir-se novamente Segura como se sentira por algumas horas de alguns dias de sua infancia com a verdadeira senhora North. Nos todos estamos programados de alguma forma: para agradar e tentar nos agarrar ao primeiro tipo de pessoa que prometa amor e Seguran¢a, para encontrar os pais perfeitos e os adorar totalmente, para ser altamente cautelosos nas ligagdes com alguém, para nos ligar a alguém exatamente igual a quem ndo nos quis (e ver se pode- mos mudar a histéria agora) ou nao quis que crescéssemos e para encontrar outro porto seguro igual ao que tinhamos quando éramos criangas. Reveja suas hist6rias de amor. Vocé pode compreendé-las a luz de sua ligagdo infantil? Teré trazido para elas as grandes necessida- des nao satisfeitas na infancia? Ter algumas dessas necessidades sig- nifica apenas ter quantidade de “cola” suficiente para as ligacdes adultas. Mas 6 0 maximo que podemos pedir, Alguém que deseje um adulto com necessidades infantis (por exemplo, nunca perder 0 outro psicoterapia 6 praticamente o unico reftigio onde podemos despertar Para as coisas perdidas, chorar por elas e aprender a controlar os sentimentos perturbadores, Mas e quanto ao amor roméantico normal, que faz com que nossa vida fique durante certo tempo tao maravilhosamente anormal? Dois ingredientes do amor reciproco 182 Use A SENSIBILIDADE A SEU FAVOR Esses dois fatores — gostar de algo em alguém e descobrir que a outra pessoa também gosta de vocé — revelam-me a imagem de um mundo onde as pessoas transitam admirando-se mutuamente, a es- pera apenas de que alguém declare seu amor, Essa 6 uma imagem: importante para as PAS terem em mente porque um dos momentos mais exaltantes da vida é fazer ou receber uma declaragao de afeto. Se desejamos intimidade com alguém, precisamos fazer isso! Preci- samos aceitar todos os riscos da aproximagao, inclusive o risco de uma declaragéo. Cyrano de Bergerac aprendeu essa ligéio. Como a excitagéo pode fazer qualquer um apaixonar-se Um homem encontra uma mulher atraente sobre uma ponte suspensa que oscila com o vento no alto de uma garganta entre montanhas ou se encontra com a mesma mulher sobre uma firme ponte de madeira poucos metros acima de um ribeirao. Em qual desses locais é mais provavel que o homem se sinta romanticamente atrafdo pela mulher? De acordo com os resultados de um experimento realizado por meu marido e um colega (hoje famoso psicélogo social), muito mais pai- x6es nascerao na ponte suspensa*. Outra pesquisa demonstrou que existe maior probabilidade de nos sentirmos atrafdos romanticamente se estivermos sob qualquer tipo de excitagdo, mesmo que seja ter uma discussfio ou ouvir a gravagdo de um mondlogo humoristico®. Existem diversas teorias a respeito das razdes pelas quais a ex- citagdo de qualquer tipo pode levar a atrago caso haja uma pessoa adequada por perto. Uma razdo pode ser a tentativa de sempre atri- buir a excitagdo a alguma coisa e, se possivel, especialmente a atragéio. Outra razao: os nfveis altos mas tolerdveis de agitagiio es- tao associados, em nossa mente, com expansao e excitagio, e esses estados, por sua vez, associados a atragdo por alguém. Essa desco- berta tem implicagées interessantes para as PAS. Se somos mais facilmente excitéveis que outros, na média estaremos mais inclina- dos a nos apaixonar (¢ talvez mais intensamente) na companhia de alguma pessoa atraente. Reveja suas hist6rias de amor. Vocé havia passado por uma expe- riéncia excitante antes de conhecer ou ao conhecer a pessoa por quem OSRELACIONAMENTOs inIMOs 183 se apaixonou? Apés passar por uma dificuldade, j4 se sentiu fortemen- te ligado a pessoa que esteve a seu lado? Ja se sentiu assim por médi- Cos, terapeutas, membros da familia ou amigos que o ajudaram a lidar com uma crise ou dor? Analise todas as amizades que teve no colégio ena faculdade, época em que todos experimentam muitas situagdes novas e excitantes. Agora vocé pode compreender 0 porqué. Duas outras razées que explicam por que as PAS esto mais inclinadas a se apaixonar Outra fonte de grandes amores sao as dtividas a respeito do prérpio valor. Uma pequisa revelou, por emeplo, que estudantes cuja auto- estima estava abalada (por algo que lhes foi dito durante o experi- mento) sentiam-se mais atrafdas por um parceiro potencial do que aquelas cuja auto-estima nao fora comprometida®. Existe também maior probabilidade de que as pessoas se apaixonem logo apés um rompimento, Como ja enfatizei, as PAS tendem a apresentar baixa auto-estima porque nao se identificam com 0 ideal cultural e portanto algumas vezes se consideram felizes simplesmente por conseguir encontrar alguém que as deseje. Mas o amor construfdo sobre essa base pode ter um desfecho infeliz. Talvez venham a perceber mais tarde que a pessoa por quem se apaixonaram era muito inferior a elas ou nao correspondia de forma alguma a seu tipo. Reveja suas historias de amor. A auto-estima abalada desempe- nha nelas algum Papel? A melhor solucao, naturalmente, 6 fortalecer a auto-estima refor- 184 USE A SENSIBILIDADE A SEU FAVOR 0 principal motivo pelo qual as pesquisas verificam que um tergo dos estudantes universitarios se apaixona durante o primeiro ano passa- do fora de casa’. Somos animais sociais que se sentem mais seguros com companhia. Mas vocé nao deseja aceitar qualquer um s6 porque tem medo de ficar sozinho. O outro, cedo ou tarde, perceberd isso ficaré magoado ou poder, tirar vantagem da situagao. Ambos mere- cem algo melhor que isso. Reexamine suas historias de amor, Vocé j4 se apaixonou apenas Por ter medo de ficar s6? Acredito que as PAS precisam sentir que podem sobreviver pelo menos por algum tempo sem um relaciona- mento roméntico forte. Caso contrério nao estarao livres para espe- tar pela pessoa de quem gostardo realmente, Se vocé ainda nao é capaz de viver sozinho, nao hé do que se se existir possibilidade pratica, faga um esforgo para tentar viver de forma independente. Caso parega dificil demais, desenvolva um tra- balho com um terapeuta que lhe dé apoio ou aconselhamento — al- guém que nao vd abusar de vocé nem abandoné-lo e que nao tenha interesse no desfecho exceto o de vé-lo auto-suficiente, Nem 6 preciso que fique totalmente s6. Existem intimeras Possibi- lidades a disposigao, como bons amigos, parentes leais, uma pessoa para dividir 0 apartamento e que esteja no momento em casa, disposta a ir ao cinema com vocé, caes amorosos e gatos gostosos de abragar. Aprofundamento da amizade Os RELACIONAMENTOs INTIMOS 185 seja rejeitado ou decida rejeitd-la. Ocasionalmente, um telaciona- mento romantico pode nascer daquilo que comegou como amizade. Para aprofundar uma amizade (ou um relacionamento familiar), use um pouco daquilo que ja sabe sobre os motivos saudaveis que levam ao amor. Diga a outra pessoa que gosta dela. Nao hesite em partilhar expe- téricos de sua religiao, aulas de arte, palestras sobre psicologia jun- guiana, leitura de Poesias, concertos sinfonicos, apresentagées de Opera e balé, debates que se seguem a essas apresentagoes e retiros 186 ‘USE A SENSIBILIDADE A SEU FAVOR A danca das PAS Tenho dito e direi novamente que as PAS precisam de relaciona- mentos fntimos e podem ser muito habilidosas nisso. Mas precisam estar atentas & parte que deseja introverter-se e proteger-se. Pode- mos freqiientemente recair na seguinte danga: Primeiro desejamos ficar fntimos e enviamos todos os tipos de sinal convidando a intimidade. Alguém corresponde. Quer nos ver mais, nos conhecer, talvez tocar. E nés nos retraimos. A outra pessoa espe- ra pacientemente por algum tempo, depois se afasta também. Sentimo- nos sozinhos e enviamos novamente os sinais. A mesma pessoa, ou outra, tenta outra vez. Ficamos felizes — por algum tempo. Mas de- pois nos afastamos. Passo a frente, passo atrés, passo a frente, passo atras — até que ambos ficam cansados da danga. Conseguir 0 equilfbrio entre distanciamento e intimidade pode parecer impossivel. Se vocé tenta agradar os outros, nao atende as préprias necessidades. Se tenta agradar apenas a si mesmo, freqiien- temente deixa de expressar um grande amor e no assume todos os compromissos que o relacionamento requer. Relacionar-se com alguém semelhante a vocé 6 uma solugdo, mas podem acabar os dois sem contato entre si, dangando em extremos opostos da sala. Por outro lado, o relacionamento com alguém que deseja estar mais envolvido e estimulado pode transformar a danga em verdadeiro suplfcio. Nao sei qual 6 a resposta para vocé. Mas sei que as PAS devem continuar na danga e nao desistir nem desejar que ela termine. Ela 6 um fluxo que equilibra as necessidades de cada um e ensina que os sentimentos variam. Vocé adquire graga com o tempo, pisando cada vez menos nos pés dos outros. Vamos, olhar de perto seus relacionamentos mais {ntimos. O relacionamento entre duas PAS A intimidade com outra PAS pode oferecer grandes vantagens. Ambas se sentem, no minimo, compreendidas. Provavelmente havera menos ‘Os RELACIONAMENTOS INTIMOS, 187 conflito a respeito de privacidade. Vocés certamente teréo passatem- pos semelhantes. As desvantagens esto no fato de ambos terem dificuldade com o mesmo tipo de tarefa, seja perguntar 0 caminho a estranhos, seja fazer compras. E essas coisas acabam nao sendo feitas. Ocorre que, se ambos tém tendéncia para se afastar das pessoas, nao haveré nin- guém por perto para forgé-los a maior intimidade e a encarar a inse- guranga. Um relacionamento distanciado pode satisfazer os dois, mas apresenta uma qualidade drida que nao surgiria se a outra pes- soa solicitasse maior intimidade. Mas isso, na verdade, é assunto de vocés. A despeito do que diz a psicologia popular, se estiverem feli- zes nao existe lei, natural ou humana, que os obrigue a intimidade nem 8 partilha intensa para que se satisfagam. Minha impressdo 6: sempre que as duas pessoas tém personali- dades semelhantes a compreensio entre elas é forte e os conflitos sao minimos. Isso pode ser tedioso, mas pode também oferecer um porto seguro e tranqiiilo de onde zarpem rumo ao mundo exterior ou interior. Ao voltar um para o outro, compartilharéo as emogées de suas experiéncias individuais. Quando 0 outro nao é altamente senstvel Qualquer diferenga entre duas pessoas que passam muito tempo juntas tende a crescer. Se vocé for um pouco melhor na leitura de mapas ou em assuntos bancdrios, sempre far4 isso por ambos e se tornard o especialista. O problema 6 que, ao se ver sozinho com um mapa ou precisar saber 0 que se passa com sua conta bancdria, aque- le que “nao sabe” sente-se tolo e desamparado. (Apesar de algumas vezes descobrir, surpreso, que, gragas 4 observagio, sabe mais do que pensava.) Todos tém de decidir por si mesmos as éreas em que aceitam ser indbeis ao lado do especialista e aquelas em que nfo querem abso- lutamente ser incapazes. O respeito préprio é uma necessidade, e nos casais heterossexuais os esteredtipos costumam imperar. Vocé talvez nao se sinta bem fazendo as coisas que as pessoas de seu TURE SNGiNLIADE A SEUTAVOR sexo geralmente fazem, Talvez, como no caso de meu marido e no ‘meu préprio, sinta-se mal permitindo que os esterestipos se cristae lizem, (Eu gosto de saber como trocar um pneu, ele gosta de saber | como trocar uma fralda,) Essa especializagio 6 mais problemética e dificil de ignore quando se dé em relagio ao “trabalho” psicologico. Um cénjuge ser ‘emogao pelos dois, 0 outro permanece frio. Um lida apenas com sentimentos bons, néo desenvolvendo resisténcia ao pesar e ao med © outro arca com toda a ansiedade e depressio Quando se trata de PAS, aquele que um pouco menos sensive torna-se especialista nas situacdes que possam descompensar demais o cOnjuge mais sensivel. (Se ambos sio igualmente sensf veis, podem vir a se especializar om dreas diferentes.) Isso traz van- tagens para os dois. Existe mais calma — uma pessoa sonte que aju- dae a outra sente que é ajudada. A possoa um pouco menos sensivel pode saber-se indispensdvel © considerar essa sensagao bastante gratificante, Enquanto isso, aquele que ¢ mais sonsivel percebe as sutilezas pelos dois. Parte desse trabalho pode parecer menos valiosa — ter as idéias criativas, saber por que vivemos, aprofundar as comunica- apreciar a beleza, Mas, se existir entre os dois um lago forte, Provavelmente serd porque @ pessoa menos sensfvel roalmente pre- cisa e valoriza aquilo que vocé, o mais sensivel, oferece, Sem isso, todas as coisas oficientes que faz nao serviriam de nada e seriam também menos eficientes, Algumas vezes a pessoa mais sensfvel pode percober isso ¢ considerar-se indispensdvel © até superior. Em um relacionamento de muitos anos, os parceiros podem ficar bastante satisfeitos com sua distribuigio de tarefas. Entretanto, ¢ em especial na segunda metade da vida, um dos dois ou ambos podem desenvolver alguma insatisfagio. O desejo de ser inteiro, de expe- timentar a parte da vida em que nio se especializou, oventualmente se torna mais forte que o dosojo de sor eficiente ou evitar falhas, Se a especializagio for extrema, como é possivel om casamentos longos, um dos dois pode tornar-se dependente a ponto pacidade do escolha em relagio permanéncia no relacionamento, Osnacionsaaeras eras 189, No caso dos sensfveis, a pessoa pode sentir-se incapaz de viver no mundo exterior, @ a outra, incapaz de encontrar o caminho interior, Nosse ponto 0 que as une jf ndo ¢ amor, mas a falta de alternativa, A solugio 6 dbvia, mas ndo 6 facil, Ambos devem concordar que a situagdo deve mudar mesmo que durante algum tempo as coisas ndo corram de forma eficiente como antes. O mais sensivel deve tentar novas tarefas, assumir mais responsabilidades, arranjar-se so- zinho um pouco, O menos sensfvel deve experimentar a vida sem a Contribuicdo “espiritual” do companheiro e fazer contato com as coisas sutis na forma como surgirem em sua percepgdo, Um pode oriontar 0 outro so consoguir evitar tomar a frente @ assumir 0 comando. Caso nao consiga, é mais Gtil apoiar a distancia ou alé fingir que esquece totalmente o outro por algum tempo para que 0 “amador” jogue na propria categoria, sem sor observado nem sentir vergonha pelos esforcos débeis. Ele saberd quando pedir a ajuda amorosa e especializada se precisar, teza maravi- Ihosa e, na situagao, talvez seja o maior dos presentes. Diferencas no nivel ideal de excitagio Acabamos de analisar uma situagdo em que o casamento torna as coisas quase confortéveis demais para vocé, o “sensfvel”. Mas existi- Hio também casos em quo o outro no aprociaré sua hipersensi bilidade aos estfmulos. Ocasides em que ambos continuam fazendo exatamente a mesma coisa, e para o outro tudo esta muito bem. Qual 60 problema com vocs, afinal? Como responder a um pedido bom-intencionado para “pelo me- nos tentar” © nao ser “estraga-prazeres”? E um dilema de meu pré- prio passado — primeiro na infincia, com minha familia, mais tar- de com meu marido, Se eu dizia nao poder participar, os outros no iam por minha causa, e eu me sentia culpada, ou iam sem mim, e eu sentia que estava perdendo alguma coisa. Que escolha! Por nio com- proender minha prépria caracteristica, a sohucao geralmente era fazer © que fora planejado. As vezes dava certo, outras vezes era uma agonia, e em algumas acabei doente. Nao 6 de espantar que muitas PAS percam contato com sou “eu auténtic 0 ‘Us sointipabe 4 StU FAVOR Em certo ano que passamos na Europa, quando nosso filho era bebé, viajamos por algumas semanas com amigos no veriio. No pri- meiro dia fomos de catro de Paris até a costa do Mediterraneo @ dopois seguimos pela costa da Riviera até a Itélia, Nao haviamos previsto que estariamos fazendo © mesmo que os europous em féri= todos passando ao mesmo tempo de vilarejo em vilarejo, um lome bada apés a outra, as buzinas tocando, motocicletas cortando. Ene quanto isso, n6s cinco tentévamos decidir que cidadezinha e hotel da Riviera transformariam nossa fantasia om realidade apesar dé nao termos reservas nem muito dinheiro. Meu filho mantivera-s feliz por horas me usando como trampolim, mas a certa altura fick cansado ¢ comegou a chorar e a fazer manha, depois passou a bere rar. O final da tarde nao foi muito divertido. Quando chegamos ao quarto do hotel eu estava ansiosa para pi © menino na cama e poder descansar. Naquela 6poca eu nao sabi que tinha uma caracterfstica especial, s6 sabia do que ou ¢ ele pi cistivamos. Imediatamente. Meu marido ¢ nossos amigos, porém, estavam prontos para co- nhecer os cassinos de Monte Carlo. Como muitas PAS, eu nao gost de jogar, mas apesar de tudo 0 programa parecia glamouroso. Sabia que nao suportaria mais aquele esforgo, mas se fosse posstvel en- contrar uma babi... Eu odiava ficar para trés Mas fiquei, afinal, Meu filho dormiu bem, eu fiquei acordada — triste, solitéria, com inveja nervosa por estar sozinha em um lugar estranho, Quando os outros voltaram, 6 claro que num excelente estado de humor, me encheram de hist6rias engragadas ¢ todos os “vocd-devia-estar-ld". Eu nao estava nem tinha dormido © nao con- soguia dormir porque estava irritada porque nJo tinha dormido! Como eu gostaria de saber entao 0 que sei agora. A hiperexcitagéo manifesta-se facilmente como preocupagiio e arrependimento — qual quer coisa que esteja A mao —, e ir para a cama nio faz vocé dormir, perturbagdo nao deixa. Mas mesmo assim 6 0 melhor lugar para estar, E sempre haverd outra chance de visitar Monte Carlo. Acima de tudo, ficar em casa pode ser maravilhoso, uma vez que vocé aceite quo om. Certos momentos esse 60 melhor higar para voce, ‘OsnnAconaunerosémwos 1 Em situagdes assim seu par fica em um verdadeiro impasse, De- soja que voc8 v4 e, como jé deu certo algumas vezes no pasado, oxiste @ tontagdo de insistir. Além de sentir sua falta caso v4 som voc®, 0 outro poder achar-se profundamente culpado. Estou convencida de que a PAS deve assumir a responsabilida- do nessas ocasi6es para que ninguém se sinta culpado depots. Afi- nal, 6 vocé que melhor sabe como se sente ¢ o que pode aproveitar. Se esta hesitando por med da hiperestimulagao — ¢ nao devido a0 presente estado de fadiga —, deve pesar esse risco considerando também quanto pode se divertir. (Se voc® traz da infancia um medo excessivo de situagées desconhecidas, acrescente um pouco mais de peso a balanga para ir.) Vocé deve tomar a decisio e agir. Se sua acdo mais tarde se revelar um engano, foi vocé quem decidiu. Pelo menos tentou. Quando souber que ja esté superestimulado e precisa ficar em casa, comunique sua decisio com charme o tente no de- monstrar que lamonta, Insista para que todos se divirtam sem voo8. A solidéio no dia-a-dia Outro problema fregiiente no relacionamento com uma pessoa me- ‘nos sensivel 6 sua grande necessidade de solidao simplesmente para poder pensar e digerir os acontecimentos. O outro pade sentit rejeitado ou apenas precisar de sua companhia. Esclarega por que precisa daquele momento pessoal. Estabeleca quando estaré dispo- nivel, e cumpra a promessa. E voces podem ficar juntos, apenas des- ansando em siléncio. Caso encontre resistencia a sua necessidade de solidao (ou a qualquer outra necessidade especial), serd necessirio discutir a questéo profundamente. Vocé tem direito a necossidades ¢ experién- clas diferentes. Mas compreenda que elas no sio as mesmas para seu companheiro ou amigo nem para a maioria das pessoas que co- nhece. Talvez 0 outro quoira ignorar a existéncia de uma diferenga ‘Go grande entre vocds. Existe o medo de haver alguma coisa errada com voc, um defeito ou uma doenga. ‘Talvez: se manifeste uma sen- sagio de perda por causa das experiéncias que sua caracteristica se 192 [UST A SNSIIDADUA EU FAVOR parece tornar impossiveis para ambos. Eventualmente pode surgit raiva ou a suposigto de que voct estd inventando tudo isso. £ bom lembrar, com simplicidade muito tato, todas as coisas {que esse trago de sua personalidade traz para casal. E voce deve ter cuidado de nao usar a sensibilidade como desculpa para sempre soguir as coisas & sua maneira. Voc? pode tolerar nfveis altos de mulo, especialmente quando est com alguém que o faz relaxar @ mite seguranga. Um esforgo sincero para acompanhar algumas vezes amigo ou amado sera bastante apreciado e dara bons frutos. no der certo, vocé tera demonstrado a veracidade de seus limites de preferéncia evitando o “eu ndo disse?”. Estard claro que voce ger mente fica mais feliz, saudvel e menos ressentido quando ambos conhecom e respeitam o nfvel ideal de estimulagao um do outro. Vi se encorajardo mutuamente quando necessério — saia ¢ divirta-se fiquo e descanse — para que 0 nivel de conforto seja proservado. Naturalmente outras quest6es emergirdo quando voce afirm: suas necessidados. Se o relacionamento jé estiver abalado, apresent sua caracterfstiea como uma coisa com a qual seu amigo ou pare ro tem de conviver pode produzir um terremoto mais sério. Mas, © fator de risco j4 estava ali, no culpe sua sensibilidade nem a fesa dela, nao importa quanto venham a ser razao de conflito. © medo da comunicagao honesta A sensibilidade pode, acima de tudo, aumentar a intimidade da c municagio, Vocé assimila muito bem as pistas sutis, as nuangas, o paradoxos e as ambivaléncias e os proces compreende que esse tipo de comunicagdo exige paciéncia. Vocé leal, escrupuloso ¢ considera o valor da relagao grande bastante p: desejar dedicar a ola o tempo que for necessério, O principal problema 6, como sempre, a hiperexcitagao. Quan= do estamos nesse estado podemos ser extremamente insensiveis a tudo 0 que nos rodeia, inclusive aqueles que amamos. Podemos res ponsabilizar nossa caracterfstica especial: “Eu estava cansado de mais, perturbado demais”, Mas ainda assim é responsabilidade nossa VMHLACIONAMENTOSFMIOS 195 fazer 0 que for necessdrio para nos comunicar da melhor maneira e fazer com que 0 outro saiba, se possivel com antecedéncia, quando impraticdvel fazer nossa parte. As PAS provavelmente cometem seus principais erros de comu- nicagio por tentar evitar a exaltagao causada pelas situagdes desa- gradaveis. Acredito que a maioria das pessoas, mas principalmente as PAS, tom horror a raiva, confronts, lagrimas, ansiedade, “ce- nas”, mudancas (que sempre significa porda), julgamento e ver- gonha por nossos erros ou pelos erros de outras pessoas. Por certo racionalmente voc6 ja sabe — através de loituras, experién- cia e talvez. de aconselamento profissional — quo 6 necessério enfren- tar tudo isso para que 0 relacionamento permanega vivo ¢ renovado. Mas esse conhecimento racional, por algum motivo, nao ajuda quando chega o momento de mergulhar ¢ trazer a tona os sentimentos. Alem disso, sua intuicto est4 sempre a frente, Em seu mundo imaginério semiconsciente, que para vocé é muito real e perturbador, jé explorou os vérios rumos que a conversa pade tomar, ¢ eles sao quase todos angustiantes. Existem duas formas de aplacar seus modos. Primeiro, trazer a consciéncia o que esté imaginando e imaginar também varias alter- nativas, por exemplo, como as coisas ficario depois que 0 contlito for resolvido ou como sera caso vocé nio lide com 0 problema, Em sogundo lugar, ¢ possivel discutir com sou amigo ou companheiro aquilo que sup®e ser 0 motivo de nio se abrir mais. Ha uma inevité- vel manipulagdo em frases do tipo “eu gostaria de conversar sobre tal coisa, mas nto vou conseguir se vocé reagir dessa ou daquela . mas isso pode lovar a andlises mais profundas do modo se comunicam. neira como vo A necessidade de afastamento durante os conflitos Casais em que uma das pessoas ou ambas so PAS precisam estabe- lecer algumas regras espectais para as situagGes mais exaltadas em que normalmente se transformam suas discussées. Presumo que voces jé tenham banido o uso de palavras ofensivas, das confidéncias 194 USE A SENSIBILIDADE A SEU FAVOR compartilhadas quando se sentiam intimos e seguros e da mencao 4 agravos passados na discussdo atual. Mas talvez devam estabelecer outras regras com 0 objetivo tinico de administrar a perturbacao ex: cessiva. Uma delas seria 0 afastamento. Em geral nao se deve sair no meio de uma discussdo (nem sugerir que “6 melhor parar por aqui”). Mas, quando alguém tem uma grande necessidade de se afastar daquilo por sentir-se acuado e desespera- do, as palavras j4 nao adiantam. Algumas vezes isso acontece como conseqiiéncia da culpa de enxergar em si mesmo algo muito desagra- davel. Esse 6 um momento em que o outro deve recuar e demonstrar consideracdo, sem levar aquilo em frente para envergonhar ainda mais o companheiro. Existem situagdes em que aquele que esté acuado ainda sente que est certo, mas esgotou seus argumentos. As pala- vras sao répidas demais, agudas demais, nao ha revide possfvel. Sur- ge a firia, e afastar-se 6 a tmica maneira segura de expressé-la. Em todos os casos vocé, uma PAS, provavelmente se perturba apenas por entender que a discussao rapidamente se transforma em um dos piores momentos de sua vida. Como um relacionamento pode ficar amargo e distante sem a expressio ocasional de reclamagées legitimas, vocé deseja preservar esses momentos de debate como momentos que valem a pena, mesmo dolorosos quando ocorrem. Isso 6 ser civilizado. Nesse caso, afaste-se. Procure uma valvula de escape mesmo que apenas por cinco minutos, uma hora, uma noite. Ninguém esta desistindo, sé adiando. Buscar o fim da discussao pode ser duro para os dois envolvidos, portanto ambos devem concordar em fazer uma pausa. Combinem antecipadamente essa regra como boa e segura, e nao como fuga. Na verdade, essa técnica pode mostrar-se téo boa que vocés a adotaréo novamente no futuro. As coisas sempre assumem outro aspecto de- pois de um afastamento. O poder da metacomunicagio positiva e de ouvir reflexivamente Metacomunicagao significa conversar sobre 0 modo como vocé con- versa ou como se sente de maneira geral, néo em momentos estan- Os RELACIONAMENTOS iNTIMOS 195 ques”. A metacomunicagao negativa usa frases como: “S6 espero que saiba que, apesar de estar discutindo isso com vocé, vou fazer o que quiser depois” ou “Vocé j4 percebeu que sempre que discuti- mos fica irracional?” Frases assim levam a discussdo para um nivel muito baixo. Evite-as, pois sio armas poderosas. A metacomunicagao positiva, por sua vez, faz o contrério, construin- do uma protegao segura contra o dano que pode advir. Ela diz, por exem- plo: “Eu sei que a discussao esta séria e pesada agora, mas quero que saiba que desejo realmente resolver isso. & importante para mim, e 6 bom saber que vocé esté se esforgando para encontrar a solugiio comigo”. Esse tipo de comunicagio 6 importante em todos os momentos tensos entre as pessoas. Ela diminui a excitagio e a ansiedade, fa- zendo com que os envolvidos lembrem que se preocupam um com 0 outro @ as coisas provavelmente se resolverao. Em especial os ca- sais em que um ou ambos s4o PAS devem procurar incluf-la em sua caixa de ferramentas. Sugiro também que experimentem “ouvir reflexivamente”. Essa valiosa ferramenta vem sendo usada desde os anos 1960, e vocé pro- vavelmente a conhece bem. Inclui aqui esse lembrete porque ela ja salvou meu casamento duas vezes, sem exagero. Como poderia dei- xar de mencioné-la? Ela 6 0 curinga do amor e da amizade. Ouvir reflexivamente significa simplesmente ouvir a outra pes- soa, e em especial ouvir seus sentimentos. Para ter a certeza de que ouviu, vocé nomeia os sentimentos em sua resposta. S6 isso. Mas 6 mais dificil do que parece. A principio vocé diré que soa meio afeta- do ou “parece um terapeuta”. E parece quando feito isoladamente. Mas essa impressao pode também ser devida ao desconforto que os sentimentos causam, particularmente em nossa cultura. Acredite, parece bem menos artificial para a pessoa que recebe a atengao. Assim como bons jogadores de basquete algumas vezes tém de prati- car arremessos e dribles, vocé precisa de pratica para exclusiva- mente ouvir até poder fazer “passes” quando for necessério. Expe- rimente ouvir exclusivamente, puramente, reflexivamente, pelo menos uma vez, de preferéncia alguém que lhe seja fntimo. 196 ‘USE A SENSIBILIDADE A SEU FAVOR, Ainda nao est4 convencido? Outra razao para se concentrar nos sentimentos 6 que eles raramente séo mencionados no mundo exterior. Queremos que recebam o devido respeito pelo menos em nossos rela- cionamentos mais fntimos. Os sentimentos sao mais profundos que as idéias e os fatos na medida em que freqiientemente dao o tom, contro- lam e confundem tais idéias e fatos. Se os sentimentos estiverem claros, as idéias e os fatos ficarao mais claros também. Ao ouvir reflexivamente durante uma ocasido de conflito vocé seré forgado a perceber quando esta sendo injusto e qual é o momento de superar certas necessidades e abandonar determinados habitos. Tera de reconhecer o impacto negativo que esté causando sem bus- car a defensiva, sem se fechar para o que nao quer ouvir e sem ficar mais exaltado do que pode suportar, obrigando o outro a cuidar de vocé, Isso nos leva a um t6pico mais profundo. OUVIR REFLEXIVAMENTE Quando estiverem fazendo este exercicio, estabelegam um limite de tempo (dez minutos no minimo, 45 no maximo). Depois troquem de papéis, dando o mesmo tempo ao outro, sem fazer a troca imediatamen- te. Esperem uma hora ou um dia inteiro. Se o assunto for algum conflito ou magoa entre vocés, também esperem antes de discutir 0 que foi dito. Podem tomar notas do que pretendem dizer se quiserem. Mas a melhor alternativa nesse caso é expressar as reagdes que tiveram durante sua vez de ouvir. 0 QUE FAZER 1. Assuma a postura corporal de quem esta realmente ouvindo. Sen- te-se com 0 corpo ereto, bragos e pernas descruzados. Incline-se para a frente talvez. Olhe para a outra pessoa. Nao confira 0 reldgio. 2. Explicite com palavras ou tom de voz os reais sentimentos que foram expressos. Os fatos séo secundarios e serao esclarecidos a seu tempo — seja paciente. Se suspeitar que ha outros senti- ‘Os RELACIONAMENTOS [NTIMOS 197 mentos presentes, espere até que eles se manifestem em pala- vras ou fiquem 6bvios pelo tom de voz. Para iniciar com um exemplo de certa maneira tolo e demonstrar a idéia de enfatizar o reflexo dos sentimentos, seu companheiro pode dizer “eu nao gosto do casaco que vocé esta usando”. Nesse exercicio, cujo propésito é enfatizar os sentimentos, vocé diria “vocé realmente nao gosta deste casaco”, e nao “vocé realmente nao gosta deste casaco”, 0 que enfatizaria 0 casaco, como se perguntasse o que ha de errado com ele. E também nao diria “vocé realmente nao gosta que eu use este casaco” porque o foco estaria em vocé (geralmente na defensiva). Mas exemplos tolos podem levar bem longe. Seu companheiro responde dizendo “é, esse casaco me faz lembrar 0 Ultimo inverno”. Aqui nao ha nenhum sentimento — ainda. Mas espere. Seu parceiro diz “eu detestei morar naquela casa”. Vocé enfatiza 0 sentimento novamente dizendo “as coisas foram muito ruins para vocé 4”, e nao “por qué?” nem “eu fiz o que pude para a gente poder sair de 14 o mais cedo possivel”. Logo vocé estara ouvindo coisas a respeito do tltimo inverno que nunca soube antes. “Eu nunca tinha percebido antes quanto me sentia so mesmo quando vocé estava na sala." Coisas que precisam ser discutidas. E é nessa diregao que o reflexo dos sentimentos pode levar, ao contrario da discussdo dos fatos ou de seus proprios sentimentos. 0 QUE NAO FAZER Nao faga perguntas. Nao dé conselhos. Nao mencione uma experiéncia semelhante. N&o analise nem interprete. Nao faga nada que distraia ou nao reflita o sentimento da outra pessoa. Nao recaia em longos siléncios, deixando que o outro faga um mondlogo. Seu siléncio é a metade “ouvinte”. No ritmo correto, 0 siléncio da ao outro espago para ir mais fundo. Mas continue fa- PM Pens 198 ‘USE A SENSIBILIDADE A SEU FAVOR zendo eco ao que ouve. Use sua intuicgéo para equilibrar o ritmo entre os dois aspectos. 7. Nao importa o que o outro diga, nao se defenda nem apresente sua interpretagéo do assunto, Se considerar necessario, esclareca em outro momento que o fato de ouvir nao significou ter concordado. Apesar de a interpretagao de um sentimento poder estar errada (e de fazermos coisas erradas por causa do que sentimos), emogdes nunca sao em si mesmas certas nem erradas. Quando ouvidas com respeito normalmente levam a diminuigao dos problemas, nunca ao aumento. Os relacionamentos fntimos como caminho da individuagao Descrevi no capitulo 6 0 que os psicdlogos junguianos denominam de processo de individuagao, ou seja, seguir 0 préprio caminho de vida ouvindo a voz interior. Outro aspecto do proceso 6 ouvir especi- ficamente as vozes ou partes de nés que evitamos, desprezamos, ignoramos ou negamos. Essas partes de “sombra”, como os junguia- nos as chamam, sempre sao necessdrias para nos tornar pessoas fortes e inteiras mesmo quando vivemos metade da vida acreditan- do que reconhecé-las poderia nos matar. Uma pessoa pode, por exemplo, estar tio convencida de que é sempre forte que jamais seria capaz de admitir nenhuma fraqueza. A Histéria e a ficgdo estdo cheias de ligdes a respeito desse perigo- So ponto cego, que a seu tempo leva A queda. Todos nés ja presencia- mos também o oposto — pessoas sempre convencidas de que sao fracas, vitimas inocentes que se privam de poder pessoal mas ga- nham o direito de pensar em si mesmas como totalmente boas ¢ nos outros como maus. Algumas pessoas negam em si mesmas a parte que ama, outras negam a parte que odeia. E assim por diante. A melhor maneira de lidar com os aspectos sombrios é conhecé-los @ fazer alianga com eles. Até este ponto tenho sido elogiosa em relagao as PAS dizendo que sao conscientes, leais, intuitivas e tém visdo, mas estaria prestando um desservigo a vocé se nao dissesse que PAS tém ‘Os RELACIONAMENTOS INTIMOS. 199 tantos ou mais motivos que as outras pessoas para rejeitar e negar al- guns aspectos proprios. Algumas PAS negam sua forga, seu poder e sua capacidade de ser duras e insensfveis. Algumas negam suas par- tes irresponsdveis e pouco amorosas. Outras negam precisar das pes- soas, a necessidade de estar sds e até sua raiva — ou tudo isso junto. Saber de nossas partes rejeitadas é dificil porque normalmente te- mos bons motivos para rejeité-las, Apesar de seus amigos casuais pro- vavelmente conhecerem bastante bem seu lado escuro, com certeza evitam falar disso. Mas em um relacionamento intimo, principalmente quando as pessoas moram juntas ou dependem uma da outra nas coi- sas bdsicas da vida, 6 impossfvel deixar de ver e discutir — as vezes acaloradamente — as respectivas sombras. Na verdade, dizem que um relacionamento fntimo nao comega até que ambos conhecam esses as- pectos um do outro e decidam como conviver com eles ou mudé-los. f doloroso e vergonhoso ver seu pior lado revelar-se. Vocé sé permite que isso acontega quando é forgado pela pessoa a quem mais ama e sabe que nao serd abandonado por possuir ou falar dessas “hor- riveis” partes secretas. O relacionamento intimo é, portanto, o me- Thor meio de apropriar-se de seu lado escuro e ganhar a energia po- sitiva perdida com 0 negativo e o individual ao longo do caminho que leva a sabedoria e a plenitude. A auto-expansao nos relacionamentos intimos Nés, os humanos, temos aparentemente forte necessidade de cres- cer, nos expandir — nao apenas ter mais territdrio, posses ou poder, mas expandir o conhecimento, a consciéncia e a identidade. Uma das maneiras que encontramos é somar outros ao nosso eu. Deixa- mos de ser “eu” para ser algo maior: “nés”". Quando nos apaixonamos pela primeira vez, a expansdo con- seguida com a inclusto de outro em nossa vida é répida. Pesquisas a respeito do casamento, no entanto, mostram que apés alguns anos o relacionamento se torna muito menos satisfatério™, mas a boa co- municagao reduz esse declinio™. Com o processo de individuagio que acaba de ser descrito, esse declinio pode ser ainda mais reduzi- 200 ‘USE A SENSIBILIDADE A SEU FAVOR do ou até mesmo neutralizado. Meu marido e eu realizamos uma pesquisa que revelou outra forma de aumentar a satisfagdo. Em di- versos estudos com casais casados ou em fase de namoro, descobri- mos que os pares sentiam-se mais satisfeitos com o relacionamento quando faziam juntos coisas que definiram de “excitantes” (nao ape- nas “agradéveis”)", Isso parece l6égico: se vocé nao pode se expan- dir mais incorporando coisas novas do outro, ainda assim pode criar uma associagao entre o relacionamento e a auto-expansiio fazendo coisas novas juntos. A vida pode ser agitada demais, em especial para uma PAS, ¢ quando chega em casa vocé deseja ficar tranqitilo. Mas tenha cuidado para nado permitir que a vida fique tranqiiila a ponto de vocés nao fazerem nada juntos. Para isso, talvez seja necessdrio reservar algum tempo para coisas menos estressantes. Vocé tera de procurar algo que o expanda sem excité-lo — um concerto de misica trangiiila e especialmente bela, uma conversa sobre os sonhos da tiltima noite, a leitura conjunta de um novo livro de poesia ao pé do fogo. Nao é ne- cessdrio irem juntos 4 montanha-russa. Se o relacionamento tem sido uma fonte de conforto para vocé, merece que se empenhe em torné-lo uma fonte de auto-expansdo satisfatéria. As PAS ea sexualidade Este 6 um t6pico que merece uma boa pesquisa e um livro inteiro. Nossa cultura nos alimenta com informagao excessiva a respeito do que 6 ideal e do que 6 anormal. Mas isso vem daqueles 80% que nao sao PAS. O que é ideal e normal para nés? Nao posso dizer com certeza, mas parece fazer sentido a premissa de que, se somos mais sensiveis aos est{mulos, talvez sejamos mais sensiveis aos estimu- los sexuais. Isso pode tornar nossa vida sexual mais satisfatoria. Pode também fazer com que precisemos de menor variedade. E os momen- tos em que estamos perturbados pelos estfmulos gerais podem afetar o funcionamento sexual e o prazer. Vocé sabe o suficiente sobre sua caracterfstica, em teoria e na pratica, para avaliar como sua sexua- Os RELACIONAMENTOS {NTIMOS. 201 lidade 6 afetada por ela. Se essa drea de sua vida estiver confusa e tensa, seré bom realizar um exercicio de reformulagao de algumas de suas experiéncias ou emogées sexuais. As PAS e as criangas As criangas parecem florescer quando seus tutores sao sensfveis"’. Conhego muitas PAS que alcangaram grande felicidade cuidando de criangas, seus filhos ou nao. Mas conhego também algumas que escolheram no ter filhos ou limitaram-se a ter apenas um exclusiva- mente por causa de sua sensibilidade. Nao nos surpreende que essa escolha reflita em parte a experiéncia com criangas no passado — foi agraddvel ou nao? Quando refletir sobre se deseja ou nao ter filhos, 6 bom lembrar que os filhos e sua futura famflia serao mais adaptados a vocé do que os outros. Eles teréo seus genes e sua influéncia. Quando as famflias sao barulhentas, tumultuadas e cheias de desentendimen- tos, quase sempre 6 porque seus membros consideram bom assim ou pelo menos aceitavel. Sua vida familiar pode ser diferente. Por outro lado, nao se pode negar que criangas aumentam muito os estimulos da vida. Para uma PAS consciente, significam respon- sabilidade tanto quanto prazer. Vocé tem de estar no mundo com elas — na pré-escola, durante o ensino fundamental e depois. £ pre- ciso ter contato com outras familias, dentistas, ortodontistas, pro- fessores de piano. E uma lista sem fim. Os filhos trazem 0 mundo inteiro até vocé — assuntos como sexo, drogas, 0 carro que come- cam a dirigir, a formagao universitéria, um emprego, namorados. E muita coisa para lidar (e nao se pode ter a certeza de um compa- nheiro durante todo o processo). Torna-se necessdrio abdicar de outras coisas para criar filhos — essa é uma certeza. Nao ha nada de errado em escolher nao té-los. Nao se pode ter tudo na vida. Enxergar os limites 6 prova de inteligéncia. Quando o assunto séo criangas, eu costumo dizer que é maravilhoso nao ter filhos. E é maravilhoso té-los. Cada escolha tem seu tipo de ma- ravilha. 02 ‘Tach anaTICADTAMOTANOR A sensibilidade enriquece seus relacionamentos Seja vocé uma PAS extrovertida, seja introvertida, sua realizagi social mais gratificante sao os relacionamentos intimos. Essa 6 uni area da vida em que quase todas as pessoas aprendem mais profun- damente, a0 mesmo tempo alcancando grande satisfacao, e ¢ ond voc pode brilhar. ff possivel ajudar o outro ¢ a si mesmo dedican sua sensibilidade a esses relacionamentos, TRABALHE COM 0 QUE APRENDEU vocé, et e minha (ou no ae cL Este exercicio deve ser realizado com a pessoa com a qual yoo tem um relacionamento fntimo no momento. Se nao tem ninguém para fazé-lo, imagine que o responde com alguém com quem teve um relacionamento no pasado ou espera ter no futuro, Nesse caso também poderé aprender muito. Se existe a oulra pessoa e cla nfo leu este Livro, pega-lhe que leia pelo menos o primeiro capftulo e este, tomando notas de tudo aquilo que parecer excepcionalmente relevante para o relaciona- mento, Ler algumas partes em voz alta, juntos, pode ser wtil tam= bém, Entdo programem um momento para discutir as quests adian- te, (Se 08 dois forem PAS, discutam primeiro as respostas de um e depois as do outro.) 1. Quais de suas caracterfsticas que agradam ao outro sao devidas a0 fato de ser uma PAS? 2, Que caracteristicas devidas a sua sensibilidade o outro gostaria de mudar? Tenha em mente que isso nao significa que sejam “ru- ins”, mas dificeis em determinadas situacdes ou em relagio as caracteristicas ou aos habitos que o outro apresenta. 6. OsnnLAconanieros nos Que conflitos vocts jé tiveram em decorréncia de sua ristica de alta sensibilidado? Discutam situagdes em que o outro desejaria que vocé levasse em conta o fato de ser uma PAS para se proteger melhor. Discutam situagées em que vocd usou sua sensibilidade como dosculpa para niio fazer algo ou como arma em um desentendi- ‘mento. Se essa discussiio se tornar acalorada, use 0 que aprondew sobre “ouvir reflexivamente” para conté-la. Existiu alguma outra pessoa altamente sensivel na familia de um dos dois? De que maneira esse relacionamento pode estar afetando o atual? Imagine, por exemplo, uma mulher altamente sensivel casada com um homem cuja mae era altamente senst- vel. © marido pode ter algumas atitudes predeterminadas em relagio 4 sensibilidade. Ter consciéncia disso pode trazer molhorias ao relacionamento entre os trés — ele, sua esposa e sua mie. Jutam 0 que ambos podem lucrar com a especial endo um mais senstvel e 0 outro menos. Além da eficiét dos benoficios especificos, cada um de voces gosta de ser neces- sério polos talentos que tem? Sente-se indispensavel ao outro? Sento-so bom quando faz. algo que o outro nfo ¢ capaz de fazer? Discutam 0 que cada um perde com a especializagio. O que gos- taria de fazer por si mesmo que o outro atualmente faz, por voce? Cansa-se da dependéncia do outro quando esti envolvido com sua especialidade? Sente menos respeito por seu companheiro por fazer essas coisas melhor que ele? Isso diminui a auto-esti- ma do outro? : Capitulo 8 - ACURA DAS MAGOAS PROFUNDAS : Um processo diferente para as PAS Lembranga de um amigo sensivel do passado Eu conheci no colégio um garoto chamado Drake. Naquela época ele era o nerd da classe. Hoje eu diria que era uma PAS. Drake tinha muito mais com que se preocupar, no entanto, Ele trazia um problema cardfaco congénito, opilepsia, uma série de alor- gias ¢ uma pole tio clara que nao podia suportar o sol. Incapaz de praticar esportes ou mesmo de ficar ao ar livre, foi completamente excluido da inféncia normal de um menino de nossa cultura. Natu- ralmente, tornou-se um amante dos livros e na adolescéncia era to- talmente apaixonado pelas idéias. E apaixonou-se também pelas me- ninas, como a maioria dos garotos de sua idade. ‘As meninas, 6 claro, nao queriam nada com ele. Acredito que néio ousdvamos receber suas atengoes — sua necessidade de aceita- Gio 0 tornava intenso demais. E seria a morte social para qualquer uma, Mas ele amava uma depois da outra, de qualquer forma, de um jeito imido e sedento que fazia dele uma piada. O ponto alto do ano para alguns de seus colegas de classe foi consoguir pegar um dos 206 Us A SENSIBILIDADE A SEU FAVOR rejeitados poemas de amor de Drake e o ler em voz alta para toda a escola. Felizmente, ele fazia parte do programa para alunos de inteligén- cia privilegiada, e em nosso grupo era mais bem aceito. Admirdva- mos suas dissertagdes e seus comentdrios em classe. E ficamos or- gulhosos quando ele recebeu uma bolsa de estudo integral de uma das melhores universidades. Ir para a faculdade deve ter assustado Drake mais do que todos n6s. Significava viver noite e dia com pessoas da propria idade, aque- las que haviam tornado sua vida impossfvel durante todo 0 tempo de escola. £ claro que nao podia recusar aquela honra, mas como seria Para ele? Como seria deixar 0 abrigo do lar ¢ todo 0 apoio médico? A resposta chegou logo apés o primeiro feriado de Natal, Na noite seguinte aos feriados, de volta a seu dormitério na faculdade, Drake se enforcou. As PAS e a cura das feridas Psicolégicas Nao 6 minha intengao assusté-los com essa histéria — repito que Drake tinha muitas dificuldades. A vida das PAS raramente tem desfecho assim tao tragico. Mas, para que este capftulo seja util, precisa servir como aviso, assim como conforto. Os resultados de minhas pesquisas deixam claro que as PAS que passaram por difi- culdades extremas na infancia e na adolescéncia apresentam muito maior possibilidade de ansiedade, depressao e suicfdio até se conscientizar do passado e de sua caracterfstica e comegar a curar as feridas. PAS com problemas atuais sérios também precisam dar a si mesmas atengao especial. As nao-PAS simplesmente nao captam todos os aspectos sutis e perturbadores dessas situagdes. Seu traco de personalidade nao 6, em si, um defeito. Mas assim como um ins- trumento ou uma méquina de precisio ou um animal puro-sangue vocés precisam de tratamento especial. E muitos receberam trata- mento medfocre ou até prejudicial na infancia. Neste capitulo discutiremos as varias formas de lidar com as dificuldades passadas e presentes, principalmente pela psicoterapia A CURA DAS MAGOAS PROFUNDAS 207 em sentido amplo. Analisarei os prés e os contras da psicoterapia para PAS com sérios problemas, as diferentes abordagens, como es- colher um terapeuta e coisas semelhantes. Mas comegarei com 0 tema das feridas da infancia. Quanta énfase devemos dar a nossa infancia? Acredito sinceramente que nossa vida psicolégica nao pode ser re- duzida ao que aconteceu conosco durante o perfodo de crescimen- to. Existe o presente — as pessoas que nos influenciam, nossa satide fisica, o ambiente — e existe algo dentro de nds que nos incita a seguir em frente. Como disse no capftulo 6, a respeito da vocagao, acredito que cada um de nés tem pelo menos parte de uma questio para responder por nossa geragiio, a tarefa de fazer nossa 6poca avan- car um pouco. Embora parega que um passado diffcil pode atrapalhar a realizagéo desse propdsito de vida, algumas vezes pode também servir ao propésito ou ser 0 propésito — experimentar e compreen- der totalmente certo tipo de problema humano. Desejo também enfatizar um engano comum cometido por muitos psicoterapeutas, aqueles que ndo compreenderam ainda as PAS. Esses terapeutas, naturalmente, procuram algo na infancia das PAS que ex- plique os “sintomas” que podem ser normais para elas. Consideram que a PAS se resguarda “demais”, relatando sentimentos de distancia- mento “infundados” e demonstrando ansiedade “excessiva” ou “neu- rotica” e problemas “incomuns” no trabalho, nos relacionamentos ¢ com a sexualidade. Encontrar uma explicagao 6 sempre um alfvio tan- to para o terapeuta quanto para o cliente, mesmo que seja algo ruim que alguém nos fez e depois esquecemos ou subestimamos. Penso que as pessoas cujas dificuldades reais comegam por seu trago de personalidade (quem sabe mal compreendido ou mal admi- nistrado) ficam bastante aliviadas e apresentam melhora quando co- nhecem os fatos basicos da sensibilidade. Pode ainda restar um traba- lho significativo a ser feito em terapia, como reformular experiéncias e aprender a conviver com a caracterfstica, mas 0 foco naturalmen- te se altera. 208 ‘USE A SENSIBILIDADE A SEU FAVOR Considero também que as pessoas nao sabem do que estado falan- do quando dizem: “Ora, vamos! A infancia é dificil para todo mun- do. Nenhuma familia é perfeita. Todos tém esqueletos no armério. E totalmente infantil isso de ficar anos a fio em terapia. Veja seus ir- maos e irmas — os mesmos problemas e nao estao fazendo um bi- cho-de-sete-cabegas. Eles esto levando a vida em frente”. ‘A infancia nao é igual para todos. Para alguns é realmente horrf- vel. E podem existir diferengas dentro da mesma familia. Andlises estatfsticas da influéncia do ambiente familiar sobre criangas da mesma famflia néo demonstram coincidéncias’. Seus irmaos e suas irmas tiveram uma infancia totalmente diferente da sua. Vocé teve uma posigdo diferente, experiéncias diferentes e até uma visao di- ferente de seus pais, pois os adultos mudam de acordo com as cir cunstancias e a idade. E, acima de tudo, vocé era altamente sens{vel. Quem nasce altamente sensfvel 6 mais afetado por todas as coi- sas. Mais que isso, 0 membro da fam{lia mais sensfvel geralmente 6 também o foco. Principalmente em uma familia conturbada, torna- se o profeta, por exemplo, ou 0 harmonizador, 0 prodfgio, 0 alvo, - martir, preceptor, aquele que é paciente, ou o fraco, cuja protegio passa a ser 0 propésito da vida de todos. Enquanto isso a principal necessidade da crianga sensfvel, que é sentir-se segura no mundo, geralmente 6 ignorada. Em resumo, se a “mesma” infancia ou uma infancia “normal” pa- rece ter sido mais dificil para vocé que para outros membros de sua famflia ou para outras pessoas de passado similar, acredite. E, se sen- te que precisa de terapia para curar as feridas da infancia, procure-a. Cada infancia é uma histéria tinica, que merece ser ouvida. Como Dan sobreviveu A principio, as respostas de Dan a minhas perguntas foram, ainda que extremas, bastante tipicas de uma PAS. Ele se considerava alta- mente introvertido e sempre precisara de muito tempo a s6s. Vio- Iéncia de qualquer tipo Ihe desagradava. Contou-me que gerenciava 0 escritério de contabilidade de uma grande organizagao nao-lucra- A CURA DAS MAGOAS PROFUNDAS 209 tiva, onde acreditava ser apreciado por ser gentil e “diplomatico”. Ele considerava a maioria das outras situagdes sociais muito des- gastante. E por fim a entrevista voltou-se para o assunto de sua re- pulsa a violéncia. Dan lembrou as brigas freqiientes com seu irmao, que 0 segurava no chao, esmurrava e chutava. (As brigas entre irmaos continuam sendo uma das formas de violéncia familiar menos estudadas.) Eu me perguntava 0 que mais estaria errado na famflia e por que esse briguento era tolerado. Perguntei a Dan se a mae o considerava uma crianga sensfvel. “Nao sei. Ela nao nos dava muita atengao.” Bandeira vermelha. Como se estivesse lendo meus pensamen- tos, ele disse: “Minha mae e meu pai nao eram muito afetivos”. Assenti. “Na verdade, eram bastante esquisitos. Nao lembro nada positi- vo a respeito deles. Carinho e coisas assim.” Nesse ponto o estoi- cismo cedeu. A histéria da doenga mental da mae, que nunca fora tratada, veio a tona. “Depressao crénica. Esquizofrenia. As pessoas da televisio falavam com ela.” Alcoolismo — s6bria de segunda a sexta-feira, “bébada e ausente” da noite de sexta-feira até a manha de domingo. “Meu pai era alcodlatra também. Batia nela. Espancava. As coisas sempre ficavam fora de controle.” Quando estava bébada, a mae sempre contava a ele a mesma histéria — a respeito de a mae dela ser uma invdlida fria e distante, de ter sido criada por uma série de empregadas e babés, da doenga do pai e de ter sido forgada a ficar sozinha com ele dia apés dia enquanto ele morria lentamente. (A histéria é assim tantas vezes — falta de carinho uma geracao apés a outra.) “Ela solugava sem parar quando contava essas histérias. Era uma boa mulher. Ela era sensfvel. Muito mais que eu.” E continuava no mesmo félego: “Mas muito cruel. Sempre encontrava meu calca- nhar-de-aquiles. Tinha um talento especial para isso”. (PAS nem sempre sao santas.) Dan lutava com a terrfvel ambivaléncia que surge quando o tni- co protetor de uma crianga é uma pessoa perigosa. 210 USE A SENSIBILIDADE A SEU FAVOR Ele descreveu como se escondia quando era crianga — em armé- tios, embaixo da pia do banheiro, no carro da familia, atrés de algu- ma janela. Mas, como em muitas histérias assim, houve uma pessoa que fez diferenga, salvando sua alma. A av6 paterna, uma mulher rigida, “fandtica por limpeza”. Depois que o marido morreu, ela tor nou-se a companheira do pequeno Dan, “Uma de minhas lembrangas mais remotas 6 estar sentado com trés mulheres, todas na casa dos 60, jogando canastra. Eu tinha 6 anos © mal conseguia segurar as cartas, mas elas precisavam do quarto Parceiro. Quando estava jogando canastra, eu era um adulto impor tante e podia dizer a elas coisas que nao diria a mais ninguém,” Essa avo foi a provedora da estabilidade indispens4vel para que aquela crianga altamente senstvel desenvolvesse estratégias de so- brevivéncia, Dan tinha também uma formidével resisténcia. “Minha mae cos- tumava sentar e me passar sermoes do tipo: ‘Por que vocé se esforca tanto? Nunca vai conseguir ser nada, Nao tem nenhuma chance’. E eu decidi desafid-la,” Ser altamente sensfvel nao exclui de forma alguma a capacidade de sobreviver tenazmente, E Dan precisou dessa tenacidade, a jul- gar pelo resto da historia que me contou. Aos 14 anos conseguiu um emprego. Ele admirava homem para quem trabalhava por ser culto e traté-lo como adulto. “Eu confiava nele, ¢ acabei sendo molestado por ele,” (Aqui novamente o problema nao é apenas 0 abuso em si, mas a situagao de vida que o potencializou. Devido a infancia que tivera, a ansia de Dan por carinho deve ter feito com que ignorasse os sinais Sutis de porigo. Além disso, deve ter demorado a se proteger por nunca ter tido ninguém por quem se pautar — ninguém jamais 0 protegera.) Ele estremeceu. “Entao eu aprendi que, se fosse capaz de passar por isso, poderiam fazer qualquer coisa comigo. Nao sentiria a mi- nima diferenga. Se Conseguisse passar,” Dan casou-se com uma namorada de infancia que tinha uma fa- milia téo conturbada e ca6tica quanto a dele. Decidiram fazer com que sua unido desse certo — e deu por vinte anos. Parte do sucesso A CURA DAS MAGOAS PROFUNDAS 211 deveu-se aos limites firmes que tragaram para a familia, tanto dele quanto dela, "Eu sei como me cuidar agora.” Parte desse aprendizado fora conseguida em trés meses de psicoterapia no ano anterior, quando havia entrado em depressao pro- funda. Lera também muitos livros a respeito da psicologia da co- dependéncia e para filhos adultos de alcodlatras. Nunca freqiientou grupos, no entanto. Assim como muitas PAS, ele preferia nao reve- lar sua vida em uma sala cheia de estranhos. “Permitir-me fazer o que preciso fazer tem sido o mais importan- te. Reconhecer minha sensibilidade e respeité-la. Projetar no trabalho uma calma positiva, direcionada para solug6es. E ficar alerta para nao demonstrar exteriomente uma pessoa que nao sou no fntimo. Porque dentro de mim hé um buraco negro. Algumas vezes nao con- sigo encontrar uma tinica razdo para continuar vivendo. Simples- mente nao faz diferenga se eu viver ou morrer.” Depois, no mesmo tom de voz, contou-me que tinha um amigo, um psiquiatra, que 0 ajudava e dois outros amigos que eram seus conselheiros. Disse também saber que da combinagao de sua sensi- bilidade com sua hist6ria de vida resultava uma grande riqueza. “Eu fico profundamente emocionado com tudo. Detestaria perder 0 intenso prazer que isso traz.” E sorriu com coragem. “Apesar da gran- de solidao. Aprender a apreciar a dor da vida leva mais tempo, mas a vida 6 formada das duas coisas. Eu busco uma resposta espiritual.” E assim Dan sobreviveu. Eo seu passado? No final deste capitulo vocé tera a chance de avaliar sua infancia e pensar no que aconteceu na época. Volto a mencionar a conclusao de minha pesquisa discutida no capitulo 4: as PAS séo mais afeta- das por uma infancia problematica e manifestam mais depressio e ansiedade quando adultas. Tenha também em mente que, quanto mais cedo o problema ocorreu ou comegou e quanto mais enraizado estava no comportamento de seu tutor principal, geralmente a mae, mais profundos e duradouros serao os efeitos. Vocé deve ter muita 212 USE A SENSIBILIDADE A SEU FAVOR paciéncia consigo mesmo ao longo da vida. As feridas vao ser cura- das, mas 4 sua maneira e fazendo uso de qualidades que vocé nao teria se nao enfrentasse problemas. Por exemplo: sua maior conscién- cia, complexidade e compreensao em relagiio aos outros. Nao devemos nos esquecer das vantagens de ser sens{veis na infancia, mesmo em uma famflia problemdtica. Vocé tinha maior tendéncia para isolar-se e refletir em vez de se deixar envolver to- talmente. Como Dan com a avé, vocé pode ter sabido intuitivamente onde procurar ajuda. Talvez tenha desenvolvido amplos recursos interiores e espirituais como compensagao. Meu entrevistado mais velho chega mesmo a acreditar que in- fancias diffceis sao escolhas feitas por almas destinadas a uma vida espiritual. Isso as manteria trabalhando em sua vida interior, en- quanto outros estao voltados para uma existéncia mais comum. Como diz um amigo meu, “nos primeiros vinte anos de vida nés montamos nosso curriculo e nos vinte anos seguintes o estudamos”, Para al- guns esse currfculo equivale ao de um curso de graduagio em Oxford! Quando adultas, as PAS costumam ter a personalidade adequada para uma vida de trabalho interior e cura. Falando de maneira geral, sua intuigéo incomum ajuda a revelar os fatores ocultos mais impor- tantes. Vocé tem maior acesso ao préprio inconsciente e portanto melhor percepcao do inconsciente dos outros e de como isso 0 afetou. Pode também adquirir bom conhecimento do préprio processo — quan- do avangar, quando retroceder. Talvez tenha curiosidade sobre a vida interior. Acima de tudo, tem integridade. Mantém-se comprometido com 0 processo de individuagao, nao importa quio dificil seja enfren- tar certos momentos, certas feridas, certos fatos. Presumindo que vocé seja uma das muitas PAS que tiveram in- fancia dificil ou um dificil presente, vamos explorar suas opgées. As quatro abordagens E posstvel “partir o bolo” dos métodos de cura de muitas formas — longos ou curtos, de auto-ajuda ou com ajuda profissional, em tera- pia individual ou em grupo, tratamento pessoal ou de toda a familia. A CURA DAS MAGOAS PROFUNDAS 213 Mas pode-se cobrir todas as opgGes cortando quatro grandes fatias: cognitivo-comportamental, interpessoal, ffsica e espiritual. Existem terapeutas que usam todas as quatro, e provavelmente sao os melhores. Mas pergunte-lhes qual é sua favorita mencionando especificamente essas quatro. E um desperdicio gastar tempo de te- rapia com alguém cuja filosofia basica nao é aquela que vocé prefere. Cognitivo-comportamental A terapia cognitivo-comportamental de curto prazo, cujo objetivo é aliviar sintomas especfficos, é a mais acess{vel nos planos de satide. Essa abordagem 6 “cognitiva” porque trabalha com o que vocé pensa e é “comportamental” porque trabalha a forma como vocé se compor- ta. Geralmente ignora os sentimentos e os motivos inconscientes. Tudo é organizado para ser pratico, racional e claro. Perguntarao 0 que vocé deseja resolver. Se sua queixa for ansieda- de, ensinarao as tiltimas técnicas de relaxamento ou biorregeneracao. Se teme coisas especfficas, vocé sera exposto a elas gradualmente até que o medo desaparega. Caso esteja deprimido lhe ensinarao a and- lise de suas crengas irracionais de que nao ha esperanga, ninguém o ama, vocé nao deveria cometer tantos erros etc. Se os pensamen- tos persistirem, ensinaréo formas de estanca-los. Quando vocé nao realiza as tarefas especfficas que podem aju- dar psicologicamente, como vestir-se e sair todos os dias ou fazer amigos, serd auxiliado a estabelecer objetivos. Aprenderé as habili- dades necessérias para alcangar esses objetivos e como recompen- sar-se por consegui-los. Se vocé estiver lutando contra o esgotamento causado pelo traba- Tho, por um divércio ou problemas familiares, seré instrufdo a reformular as situagGes de forma a incorporar mais fatos e uma visio mais ampla, que o ajudardo a fortalecer-se. Esses métodos podem nao parecer muito profundos nem glamou- rosos, mas geralmente funcionam, e sempre vale a pena tentar. As habilidades aprendidas serao titeis mesmo que nao resolvam tudo. E o aumento da autoconfianga por ter solucionado uma dificuldade faz a vida melhorar. qualquer, © profissional deve compreender os préprios problemas profundamente, Podem ser necessdrios vérios anos para trabalhar sous relacionamentos com 0 terapeuta ¢ todos os outros. Mas algu- mas vezes se alcanga grande progresso em poucos meses, como faconteceu com Dan. ‘Voce pode aprender essi téenicas nilo apenas em psicote mas também em livros. No entanto, sempre é bom ter um nhamento cuidadoso que ajude a vencer as etapas. Voce e um podem fazer isso um pelo outro, mas os profissionais tém exp cia consideravelmente maior. E devem, principalmente, saber quant abandonar uma abordagem e tentar outra, Fisica Interpessoal Abordagens fisicas incluem exercfcios, melhoramento nutricional ou cuidados com alergias alimentares, acupuntura, suplementos de ervas, massagem, tai-chi-chuan, ioga, rolfing, bioenergética, tera. pia pela danga e naturalmente medicagio, espectalmente com drogas antidepressivas e ansioliticas, Na verdade, a abordagem fisica atual- mente se refere principalmente medicagio prescrita por psiquia- tras, 0 que sera discutido no capftulo 9. Qualquer coisa feita ao corpo mudaré a mente. Esperamos que esse soja 0 caso das drogas desenvolvidas especificamente para esse propésito, Mas esquecemos que nosso eérebro, portanto n0550s pen- samentos, também pode ser modificado pelo sono, por exercicios, alimentagio, ambiente ¢ pelo estado de nossos hormOnios sexuais, mencionar apenas alguns fatores que geralmente podemos con. trolar. £ igualmente verdade que qualquer coisa feita & mente tam. bém mudaré 0 corpo — meditagdio, contar os problemas pan um migo ou mesmo colocé-los no papel*. Cada sesso de “terapia fala. da” pode mudar o corpo. Nao 6 surpreondente que as trés formas de terapia discutidas — cognitivo-comportamental, interpessoal « fisi- ca — sojam igualmente boas para curar a depressao®. Vocé reaknen- te tem escolha. A psicoterapia de orientagio interpessoal 6 0 que a maioria d pessoas pensa ser a “terapia” propriamente dita. Alguns exem| siio a terapia freudiana, junguiana, de relagio com o objeto, ge: tiana, rogeriana ow centrada no cliente, andlise transacional, & tencial ¢ a maioria das terapias ecléticas. Todas requerem falar fazer uso do relacionamento entre voce ¢ ontra pessoa ou pesso — geralmente um terapeuta, mas as vezes um grupo ou aconse mento em pares. (© mimero de teorias ¢ técnicas dessa fatia chega provavelmente centenas, portanto terei de falar em termos gerais, Além disso, a mai ria dos terapeutas usa uma combinagio que atenda as necessidades cliente. hé ainda a diferenga de Onfase. Alguns fazom da terapia ‘espago seguro para explorar tudo © qualquer coisa, Outros a véem come © espaco especffico para Ihes oferecer uma nova experiéncia em rel io as ligagdes passadas, uma nova programagao mental do que espi rar dos relacionamentos futuros. Alguns dizem que 6 um lugar pat chorar 0 passado @ libertar-se dele, dando-Ihe sontido, outros que 6 espago para observar ¢ tentar noves comportamentos ou ainda explo rar seu inconsciente até estar em harmonia com ele. Vocé ¢ seu terapeuta trabalham juntos com seus sentimentos et relagiio a ele (0 terapeuta), outros relacionamentos, sua hist6ri soal, seus Espiritual ‘As abordagens espirituais abrangem todas as coisas que a pes: sonhos (talvez) ¢ qualquer outra coisa que possa surgin Voctinfio aprenderd-apenie comayidio qusctar dieeutias sansa soas fazom para explorar os aspectos imateriais de si mesmas e do hénive faeer'yoe ol mesmumieste tipo dattetalbo iatstion mundo. Elas nos confortam dizendo que realmente hd algo mis na Desvantagens? Pode-se falar @ falar e nao chegar a lugar algum_ vida além daquilo que vemos. Elas curam ou tornam mais tolerjyeis se 0 terapeuta nao for hdbil ou seu verdadeiro problema for outro. as feridas causadas pelo mundo, afirmam que nao estamos prsos a 216 USE A SENSIBILIDADE A SEU FAVOR esta situagdo, que existe algo além. Talvez exista uma ordem ou um plano em tudo, um propésito. Soma-se 0 fato de que, quando nos abrimos para uma abordagem espiritual, quase sempre passamos a ter experiéncias que nos con- vencem de que realmente existe aqui algo mais a saber. Por isso desejamos uma abordagem espiritual da terapia, qualquer outra coisa pareceria deixar de considerar um aspecto importante da vida. Alguns terapeutas adotam uma orientagdo particularmente espiri- tual. Pergunte antes de comegar a terapia e verifique se tem compatibi- lidade com essa opgao espiritual espectfica. Vocé pode procurar tam- bém a ajuda de membros do clero, lideres espirituais ou outras pessoas diretamente associadas com uma religido ou prética espiritual, Nesse caso, pesquise cuidadosamente se existe treinamento adequado em psicologia para realizar o trabalho que concordarem fazer juntos. As PAS e a abordagem cognitivo-comportamental Se saber que essas quatro abordagens so boas para as PAS é relevan- te, sem chivida bem mais importante 6 que sejam adequadas a vocé. Fagamos algumas consideragées. Talvez todas as PAS devessem ser expostas a alguns pontos dos métodos cognitivo-comportamentais. Como foi discutido no capitulo 2, essas pessoas auferem grande pro- veito do desenvolvimento pleno das capacidades cerebrais que nos garantem controle entre os sistemas de ativagao e de pausa para veri- ficagaio. Como acontece com os muisculos, um desses sistemas de aten- cao provavelmente é mais forte que o outro. Mas nés podemos fortale- cer aquele que desejarmos, e a abordagem cognitivo-comportamental 6a melhor gindstica dispontvel, Ela 6, no entanto, uma abordagem bastante racional, em geral de- senvolvida por ndo-PAS que secretamente acreditam, em minha opi- nido, que as pessoas sensiveis sao tolas e irracionais. Essa atitude, vin- da de um terapeuta ou de um autor de livros especializados, pode diminuir a auto-estima e aumentar a agitacado, especialmente quando nao se consegue alcancar o nivel dos objetivos tragados. Ficaré impli- cito que esses objetivos sao “normais”, no entanto serdo na verdade os ‘A CURA DAS MAGOAS PROFUNDAS 217 objetivos deles ou da maioria das pessaos. O erro est em ignorar as diferengas de temperamento. Um bom terapeuta cognitivo-comporta- mental, porém, estard atento as diferengas individuais, bem como a importancia da auto-estima e da autoconfianga em todo trabalho psi- col6gico. Considere-se também que as PAS com freqiiéncia preferem uma abordagem mais “profunda” ou mais intuitiva a uma visdo focada nos sintomas superficiais. Esse tipo de resisténcia que alguns sen- tem pelo que 6 pratico e realista pode, em si mesmo, ser um bom motivo para adotar essa abordagem. As PAS ¢ a abordagem interpessoal A psicoterapia interpessoal apresenta 4s PAS um largo apelo, ¢ se pode aprender muito com ela. Descobrimos nossas habilidades intuiti- vas e nossa profundidade. Aperfeigoamos nossa capacidade de manter telacionamentos fntimos. Com alguns métodos interpessoais nosso inconsciente torna-se nosso aliado em vez de uma fonte de sintomas. A desvantagem 6 que as PAS podem ficar tempo demais em tera- pia interpessoal exatamente porque so muito boas no trabalho com detalhes. Um bom terapeuta, porém, insistird que vocé deve fazer o proprio trabalho interior quando estiver pronto. As PAS podem usar esse tipo de terapia para evitar 0 contato com 0 mundo exterior, e um bom terapeuta tampouco permitiré isso. E ha, finalmente, a forte atragio pelo terapeuta com quem sao feitas essas exploragdes — chamada transferéncia positiva ou idealizagao. Para as PAS essa atragdo 6, em geral, especialmente forte, o que pode tornar dispendioso continuar e quase impossivel deixar a terapia. Algo mais a respeito da transferéncia Na verdade, uma forte transferéncia positiva, ou ligagdo com o terapeuta, pode ocorrer em qualquer das abordagens, e isso merece mais comentérios. 218 USE A SENSIBILIDADE A SEU FAVOR As transferéncias nao sao sempre positivas. Acredita-se que se- jam a “migragdo” dos sentimentos reprimidos um dia existentes em relagao a outras pessoas importantes em sua vida, portanto a raiva e 0 medo (e todo o resto) so possiveis. Mas os sentimentos positivos geralmente predominam, intensificados pela gratidao, esperanga de ajuda e demonstragio de todo tipo de emogao direcionada a pessoa do terapeuta. Uma transferéncia positiva forte traz muitos beneficios. Ao de- sejar ser como o terapeuta ou querido por ele, vocé mudaré de ma- neira tal como nao tentaria em outras circunstancias. Ao encarar 0 fato de que o terapeuta nao pode ser sua mae nem a pessoa amada, nem 0 amigo querido, vocé enfrenta a amarga realidade e aprende a lidar com ela. Ao perceber a natureza de seus sentimentos — essa pessoa parece perfeita, estar com ela seria o parafso — vocé pode pensar num direcionamento mais apropriado para eles. E, finalmen- te, 6 bom desfrutar o prazer da ajuda e da companhia de alguém que lhe agrada tanto. A transferéncia pode ainda ser 0 equivalente a um intenso caso de amor com uma pessoa que nao pode corresponder a ele. (Se seu terapeuta o fizer, esse seré um comportamento antiético. Vocé esta- rd se tratando com a pessoa errada e precisard de mais ajuda profis- sional para sair da situagao, j4 que provavelmente nao o conseguird sozinho.) A experiéncia em si pode ser inesperada, indesejavel dura. Uma transferéncia forte interfere em sua auto-estima, fazen- do com que se sinta profundamente dependente e envergonhado. Ela afeta aqueles que Ihe séo préximos e sentem sua profunda liga- G&o com essa nova pessoa. Se a transferéncia prolongar o tempo de terapia, seu orgamento também seré afetado. E algo a considerar, & isso deve ser feito antes do infcio do tratamento. Sao muitas as razes pelas quais a transferéncia pode ser mais forte quando se trata de PAS. Primeiro, ela 6 mais forte quando o inconsciente deseja grandes mudangas, mas o ego nao é capaz ou nao deseja fazer essas mudangas. As PAS freqiientemente precisam fazer grandes mudangas para conseguir um contato maior com o mundo, ou menor, ou para se “libertar” do excesso de socializagao ‘A CURA DAS MAGOAS PROFUNDAS- 219 ou ainda para aceitar o preconceito que a cultura tem contra elas e simplesmente encarar melhor os aspectos de sua personalidade. Em segundo lugar, a psicoterapia contém todos os elementos, descritos no capftulo 7, que levam as pessoas a se apaixonar, e as PAS a se apaixonar mais intensamente. O terapeuta escolhido por voce obvia- mente pareceré desejavel, sdbio e capaz. Voce se sentir apreciado. F iré compartilhar coisas que temia nao ser ouvidas nem aceitas por ninguém — coisas a respeito das quais vocé mesmo tinha medo de pensar. Isso torna a situagéo muito perturbadora. Nao estou sugerindo que deva evitar a terapia pelo risco de surgimento de uma forte transferéncia. Na verdade, esse pode ser um sinal da necessidade de terapia. Nas mos de um terapeuta competen- te a transferéncia serd a maior forga da mudanga. Mas esteja alerta para nao se ligar prematuramente ao primeiro terapeuta que encontrar nem permanecer ligado a seu terapeuta apés o final do tratamento. As PAS e a abordagem fisica ‘As PAS podem beneficiar-se especialmente das abordagens fisicas quando precisam deter uma situagao psicoldgica que ameaga sair de controle fisica e mentalmente. Talvez vocé esteja perdendo 0 sono, sinta-se cansado e deprimido ou terrivelmente ansioso — ou tudo isso. As causas dessa espiral descendente podem variar enorme- mente. Eu tenho visto solugées fisicas, normalmente medicagao, atuarem com eficd4cia em depressées causadas por virus, falha no trabalho, pela morte de um amigo intimo e pela abordagem de questdes penosas em psicoterapia. Em todos os casos fez sentido deter a espiral fisicamente porque no havia outra maneira de a pessoa mudar até que 0 corpo estivesse mais calmo. O método mais usual 6 a medicagao. Mas também vi uma PAS interromper a mesma espiral tirando férias em algum lugar dos tr6- picos e esquecendo os problemas por certo tempo. Ao retornar, a pessoa discutia as velhas questdes com nova perspectiva e fisiolo- gia. Em outro caso, em vez de fazer uma viagem, a pessoa teve de retornar das férias para interromper a espiral de ansiedade. O ne- 220 ‘USE A SENSIBILIDADE A SEU FAVOR cessdrio era menos estimulagao. Sua intuigdo pode ser um excelente guia para saber o que vocé precisa fazer fisicamente para mudar sua quimica mental. Um terceiro caso foi resolvido com cuidadosa orientagao nutri- cional. Todos os seres humanos variam grandemente em suas ne- cessidades nutricionais e nos alimentos que precisam evitar, e as PAS parecem variar ainda mais. Quando nos tornamos cronicamen- te excitados, precisamos de nutrientes corretos, e 6 justamente nesses momentos que prestamos menos atengdo em tais coisas. Nés pode- mos até perder o apetite ou ter uma digestao ruim por retirar do que comemos muito pouco do que necessitamos. Bom aconselhamento nutricional é¢ muito importante para as PAS. Em um ponto parecemos variar menos: desabamos rapidamente quando famintos. Entao faga refeigdes leves e regulares, ndo impor- ta quao ocupado ou distraido esteja. Se vocé 6 uma PAS com desor- dem alimentar, certamente est4 no caminho de sérios problemas até resolver isso. Ha muitos recursos para apoid-lo. Quero também mencionar a poderosa influéncia das flutuagdes do nivel dos horménios reprodutores, que suspeito afetem mais as PAS. Isso também é verdade na produgio dos horménios da tiredide. Todos esses sistemas estdo ligados, afetando dramaticamente os neurotransmissores cerebrais e a hidrocortisona. Um indicio de que horménios sao o problema 6 um tipo inexplicavel de alteragao de humor em que vocé se sente bem em um momento e, em seguida, tudo parece intitil, sem valor. Ocorrem também enormes variagdes de energia ou clareza mental. Em todas as abordagens fisicas, da medicagéo a massagem, lem- bre-se de que vocé é muito sensfvel! Nos cuidados com a medicagio, pega para iniciar com a dosagem mais baixa. Escolha seu terapeuta corporal cuidadosamente e converse de antemfo com ele sobre sua sensibilidade, Essa meng4o normalmente lembraré a pessoa de uma série de experiéncias com outros como vocé, e ela saber4 exatamen- te o que fazer. (Se isso nao acontecer, vocé provavelmente nao pode- r4 trabalhar com esse profissional.) A CURA DAS MAGOAS PROFUNDAS 221 Fique consciente de que podem ocorrer fortes transferéncias com os terapeutas corporais, exatamente como no caso dos psicotera- peutas. Isso é especialmente verdadeiro se eles trabalham suas ques- tées psicolégicas também. Essa combinagiio pode de fato ser téo in- tensa que a julgo quase sempre imprudente, pelo menos para as PAS. O desejo de ser apoiado, confortado e entendido pode ser explorado e, até certo ponto, atendido tanto através de palavras quanto de to- ques. Se ambos vém da mesma pessoa, porém, 6 mais do que vocé pode desejar, tornando-se muito confuso ou perturbador. Se seu terapeuta trabalha tanto com sua mente quanto com seu corpo, seja especialmente cuidadoso ao verificar as credenciais e re- feréncias dele. Deve ter anos de treinamento em psicologia inter- pessoal, ndo apenas em trabalho corporal. As PAS e¢ as abordagens espirituais Abordagens espirituais costumam atrair muito as PAS. Entre as que entrevistei, quase todas as que tinham necessidade de alguma espécie de trabalho de cura interior haviam usado recursos espirituais. Uma razdo pela qual as PAS sao atrafdas para o espiritual 6 0 fato de serem inclinadas a olhar seu interior. Outra ¢ sentir que controlariam situagdes estressantes se pudessem acalmar a excitagdo vendo as coisas de ou- tra forma — transcendéncia, amor, confianca. Muitas praticas espirituais tém como objetivo atingir exatamente essa espécie de perspectiva, E muitos tiveram experiéncias espirituais realmente reconfortantes, Ainda assim, ha desvantagens, ou pelo menos perigos, em uma abor- dagem espiritual, especialmente se for individual. Primeiro, talvez as- sim se evitem outras ligdes, como aprender a dar-se bem com outras pessoas ou entender o proprio corpo, os pensamentos e sentimentos, Segundo, podem ocorrer transferéncias positivas para movimentos ou lideres espirituais, e freqiientemente esses Iideres ¢ movimentos nao sao qualificados para ajudé-lo a crescer além desse tipo de superidealizagio. Eles podem até alimentar isso, jé que tais sentimen- tos o deixam pronto a fazer qualquer coisa que venham a sugerir, ¢ eles esto sempre certos de que isso é bom para vocé. Eu nao estou falando 222 ‘USE A SENSIBILIDADE A SEU FAVOR apenas de “cultos”. Alguém pode desenvolver a mesma espécie de superidealizacao pelo simpdtico ministro de uma das igrejas mais orto- doxas, sendo manipulado da mesma forma. Em terceiro lugar, muitos caminhos espirituais falam da neces- sidade de sacrificar a si mesmo, 0 ego, os desejos pessoais. Algu- mas vezes alguém abandona seu eu por Deus, algumas vezes pelo lider (geralmente mais facil, mas muito mais questiondvel). Penso que ha uma época na vida em que alguma espécie de sacrificio do ego 6 bastante correta. Hd alguma verdade na visio oriental de que os desejos do ego sao a fonte do sofrimento e concentrar-se no pas- sado, nos problemas pessoais, desvia a atengaio do presente, das res- ponsabilidades reais, e impede que nos preparemos para o que esté a frente, além do pessoal. Entretanto, tenho visto muitas PAS abandonarem seus egos cedo demais. E um sacrificio facil se vocé pensar que seu ego nao vale muito. Se conhece alguém que tenha verdadeiramente conseguido abandonar 0 ego, tal pessoa irradia tanta espiritualidade que nao se pode deixar de fazer 0 mesmo. Mas um brilho carismAtico nado é garantia. Pode simplesmente refletir uma vida calma, bem discipli- nada, livre de tensao — bastante rara nestes tempos. A radiante alma iluminada pode ser confusa psicoldgica, social algumas vezes até moralmente. Como se houvesse luzes brilhantes no andar de cima, enquanto o térreo 6 escuro e malcuidado. Redengao e iluminagio reais, tanto quanto podem ser encontradas neste mundo, vém através de trabalho 4rduo que néo se esquiva das diffceis questdes pessoais. Para as PAS, a mais dura de todas as tarefas nao é de forma alguma renunciar ao mundo, mas sair para o mundo e mergulhar nele. A psicoterapia é titil para PAS sem problemas especificos da idade adulta ou da infancia? Se vocé nao tem traumas sérios nem feridas antigas para curar, pode decidir que, com o conhecimento que este livro prové, nao precisa- r4 de nenhuma outra ajuda na vida, pelo menos agora. A CURA DAS MAGOAS PROFUNDAS 223 A psicoterapia, entretanto, no est4 necessariamente restrita & solugaio de problemas nem ao alivio de sintomas. Ela pode estar tam- bém associada ao desenvolvimento da autocompreensao, da sabe- doria e da parceria com seu inconsciente. Vocé pode, naturalmente, aprender muito a respeito do desenvolvimento interior por outros meios — livros, palestras, conversas. Muitos terapeutas respeité- veis esto escrevendo livros e dando cursos. Mas as PAS, por ter uma mente especialmente arguta, intuigao e rica vida intima, cos- tumam ganhar muito com a psicoterapia. Ela confirma essas quali- dades e Ihes dé polimento. Com o desenvolvimento do tesouro que essa parte de nés representa, a psicoterapia se torna um espago sa- grado. Nao hé nada igual. Especialmente para as PAS: analistas junguianos e psicoterapia de orientagao junguiana ‘A forma de psicoterapia que mais recomendo para as PAS 6 a tera- pia de orientagao junguiana, ou andlise junguiana, que segue os mé- todos e os objetivos de Carl Jung. (Se existem traumas de infancia a ser trabalhados, pode estar certo de que os junguianos também tém treinamento nessa rea.) A abordagem de Jung enfatiza o inconsciente, assim como todas as “psicologias profundas”, quer a psicandlise freudiana, quer as abordagens de relagéo com 0 objeto, todas elas inclufdas na catego- ria “interpessoal”. A visdo junguiana, no entanto, acrescenta a di- mensio espiritual por entender que o inconsciente esté tentando nos levar a algum lugar, expandir nossa consciéncia além da visdo estreita do ego. Estamos constantemente recebendo mensagens, como sonhos, sintomas e comportamentos que nosso ego considera pro- blematicos. Precisamos apenas ficar atentos. O objetivo da terapia ou andlise junguiana é, primeiramente, ofe- recer um reftigio onde o material rejeitado ou assustador possa ser examinado em seguranga. O terapeuta 6 como um experiente guia das selvas. Em segundo lugar, ela ensina o paciente a também se sentir em seguranga na selva. Os junguianos néo buscam a cura, mas um 224 ‘USE A SENSIBILIDADE A SEU FAVOR compromisso de vida inteira com o processo de individuagao atra- vés da comunicagéo com os reinos interiores. As PAS, que tém contato téo fntimo com o inconsciente, sonhos: tio vividos e uma atragio tao forte pelo imagindrio e pelo espiritual, néo conseguem desabrochar enquanto nao se especializam nessa sua faceta. De certa forma os trabalhos junguianos profundos séo como um campo de treinamento da atual classe dos conselheiros reais. Vocé esté em “andlise junguiana” quando é cliente de um analis- ta junguiano, uma pessoa treinada por um dos institutos junguianos. Esses analistas, em geral, sao também terapeutas competentes que podem fazer uso de qualquer abordagem que parega benéfica, mas naturalmente preferem a de Jung. Esse profissional espera poder trabalhar com vocé por varios anos, se possivel duas vezes por se- mana. E cobra mais caro por ter formagao especializada. Vocé pode escolher um psicoterapeuta de orientagao junguiana que nao seja analista. Procure, porém, informar-se sobre o tipo de treinamento que sustenta ser “junguiano”. Alguns profissionais realizaram lei- turas extensivas, cursos, residéncia e um longo trabalho de anélise pessoal. A andlise pessoal é particularmente importante. Ha institutos junguianos de treinamento que oferecem a possibili- dade de honorérios mais baixos caso vocé esteja interessado em traba~ lhar com um profissional ainda em treinamento — um “analista estagidrio” ou “psicoterapeuta interno”. Sao pessoas habilitadas e entusidsticas, e vocé pode estar fazendo um bom negocio. O tinico problema 6 encontrar alguém de personalidade adequada a sua, 0 que 6 considerado essencial para o trabalho junguiano e talvez dificil de conseguir. Esteja também alerta em relagdo aos junguianos ultrapassados, sexistas ou homof6bicos. A maioria dos junguianos tem atitudes mais sintonizadas com as de sua cultura do que com as da Suiga vitoriana de Jung. Eles séo encorajados a pensar de forma independente. O proprio Jung uma vez disse: “Gragas a Deus eu sou Jung, e nao junguiano”. Alguns, porém, seguem as idéias bastante estreitas de Jung a respeito de sexo e preferéncias sexuais. A CURA DAS MAGOAS PROFUNDAS 225 Algumas observacées finais a respeito das PAS e da psicoterapia Em primeiro lugar, nao tente agradar as pessoas aceitando um terapeuta que faz de si proprio 0 centro do processo. O terapeuta deve ser um reftigio grande o suficiente para que vocé nao fique sempre em choque com seu ego. Em segundo lugar, nao se deixe encantar demais pela intensa atengao pessoal (dada pela maioria dos bons terapoutas) durante as primeiras sessdes, Dé tempo a si mesmo antes de criar um envolvimento. Quando tiver iniciado o processo, compreenda que o trabalho sera duro e nem sempre agradavel. Uma transferéncia forte 6 apenas um dos exemplos das forgas inexplicaveis libertadas quando vocé diz ao inconsciente que est4 agora livre para expressar-se. As vezes a psicoterapia se torna extremamente intensa, hiperex- citante demais — mais parecida com um caldeirdo fervente do que com um calmo reftigio. Se isso acontecer, vocé e seu terapeuta de- vem discutir como controlar o fato. Talvez se faga necessdrio um intervalo, algumas sessdes mais calmas, superficiais, de apoio. Essa pausa pode inclusive acelerar seu progresso mesmo que haja apa- rente desaceleragao. A psicoterapia, no sentido mais amplo, 6 um conjunto de cami- nhos em diregéio & sabedoria e a plenitude. Se vocé for uma PAS que teve infancia problemdtica, tomar esse caminho 6 quase essencial. O trabalho profundo, em especial, pode ser também uma espécie de parque de diversdes para uma PAS. Enquanto outros se sentem per- didos, nés nos sentimos mais em casa do que alguém ousaria decla- rar, Essa grande e bela selva nos permite viajar através de todos os tipos de terreno. Por algum tempo, acampamos alegremente com qualquer coisa que nos seja titil — livros, cursos e relacionamentos. Tornamo-nos companheiros de amadores e especialistas encontra- dos ao longo do caminho. £ uma boa terra. Nao permita que as atitudes da sociedade o afastem do caminho transformando-o na tiltima moda ou em motivo de piada. Existe nele alguma coisa para as PAS que os demais nem sempre sao capazes de apreciar totalmente. csr “Unt a SistiMiuDADE A se TAVON TRABALHE COM 0 QUE APRENDEU Avaliagao das feridas dair Se vocé sabe que sua infiincia foi razoavelmente feliz e sem acon| cimentos mais sérios, pode pular essa avaliagio ou usé-la para d valor a sua boa sorte e aumentar a compaixdo pelos outros. Pade ptt lar também caso jé tena trabalhado o assunto de forma satisfat Para os outros, a tarefa pode sor dificil © deve ser ovitada se pi Tecer que nao chegou © momento dessa busca de sua histéria. Me ‘mo que a intuico Ihe diga para seguir em frente, prepare-se p alguns efeitos posteriores. E, como sempre, se ficar mais perturba do que puder controlar, considere a necessidade de terapia. Se vocd seguir em frente deve ler a lista e verificar o que se apli- ca a seu caso, Além disso, marque com um asterisco os eventos dos cinco primeiros anos de vida ¢ com dois o que aconteceu antes que’ completasse 2 anos. Se a situagao se estendeu por muito tempo (de- fina “muito” de acordo com 0 que Ihe parecer correto), faga um cir culo em redor das marcas. Faga também um cixculo se 0 evento par rece influenciar toda a sua vida até hoje. Essas marcas, asteriscos ou circulos, Ihe dariio uma idéia de onde estdo os principais problemas sem Ihes conferir valor numérico. Sous pais sentiam-se infelizes por causa de sous sinais de sensi- bilidade ou geralmento nao sabiam como lidar com eles. Vocé foi uma crianga claramente indesejada. Muitas pessoas diferentes cuidaram de vocé, ¢ nao seus pai outros parentes préximos, * Voce foi superprotegido de forma invasiva Voc8 foi forcado a fazer coisas de que tinha medo, desconside- rando a intuigio do que era bom. + Seus pais achavam que havia algo basicamente errado com vacé fisica ou mentalmente. nem ‘AAAS WAGONS rOrUNDAS aT ocd foi dominado por um dos pais, irma, irmAo, vizinho, colega de escola etc. Voce sofren abuso sexual. Vocé sofreu maus-tratos fisicos. Voce sofreu maus-tratos verbais — foi ameagado, provocado, cri- ticado e recebeu gritos constantemente — ow a auto-imagem que as pessoas préximas Ihe devolviam era extremamente negativa do alguma maneira Vocé nao foi bem-cuidado do ponto de vista fisico (nao tinha co- mida sulicionte etc.) Vocé recebou pouca atengio ou a atengio recebida se devia to- talmente a oxpressivas conquistas que fizesse. Um de sous pais ou algum parente proximo era alcadlatra, vi do em drogas ou mentalmente insano. Um de seus pais era fisicamente doente ou incapacitado @ nio estava disponfvol na maior parte do tempo. Vocé teve de cuidar de um de sous pais, ou de ambos, fisica ou emocionalmente. Um de seus pais foi comprovadamente narcisista, sidico ou de dificil convivencia por qualquer motivo. mhanga vocé era a vitima — alvo de maus- ete Na escola ou na vi tratos, provocagé Vocé sofreu outros traumas infantis niio devidos a maus-tratos (doonga cronica séria, acidente, deficiéncia fisica, pobreza, ca- laclismo ou seus pais estiveram sob tensio incomum devida a desemprego ou outras causas). Seu ambiente social limitava suas oportunidades ou o tratava como inferior por ser pobre, pertoncer a uma minoria ete. Houve em sua vida tansformagdes importantes sobre as quais, niio teve nenhum controle (mudangas, mortes, divércio, abando- ‘no ete.), Vocé tinha um forte sentimento de culpa por alguma coisa da qual nao podia falar com ninguém, Voc desejava morrer. ‘Vocé perdeu seu pai (por morte ou divércio), Ele ndlo era pros de voce ow nao se envolveu com sua educagiio, * Voc® perden sua mae (por morte ou divércio). Ela nio era ma de vocé ou no se envolveu com sua educagio, * Um dos dois eventos acima foi um caso claro de abandono rejeigiio especifica a sua pessoa ou voce acreditava que al; falha de comportamento sua levou a essa perda. * Um irmio, uma irmi ou outro parente préximo morreu ou se pi deu de alguma forma, Seus pais brigavam continuamente on eram divorciados e vam por sua causa, * Durante a adolescéncia vacé foi particularmente problemat ou suicida ou abusou do dlcool e de outras drogas. * Durante a adolescéncia voce teve problemas freqiientes com autoridades. Agora que terminou observe o padrao de suas marcas, asterisc ou circulos. Se nfo houver muitos, comemore e demonstre sua tidao a quem a merece. O registro de algumas marcas provavelmens te provocou o recrudescimento da dor ou do medo de ser profundae mente afotado e prejudicado, Deixe que a cena completa de sua histéria se revele. Depois volte a atengio para suas melhores carac« lerfsticas, talentos e realizagbes © para todas as pessoas solicilas @ todos os acontecimentos que suavizaram as coisas negativas. Dedi- que entdo alguns momentos (quem sabe fazendo uma caminhada) de reveréncia 4 erianga que suportou ¢ colaborou tanto. E pense no que ela precisa agora, Capitulo 9 - OS MEDICOS, - OS REMEDIOS E AS PAS “Devo dar ouvidos ao Prozac ou conversar * com meu médico a respeito de meu > temperamento?” NESTE CAPITULO DISGUTIREMOS COMO sua caracteristica afeta sua reagZo aos cuidados médicos em geral. Vocd aprender entdo um pou- co sobre os medicamentos especificos que pode utilizar ou que Ihe podem ser prescritos considerando-se sua sonsibilidade. Como sua caracteristica influencia os cuidados médicos * Vocé é mais sensfvel a sinais e sintomas fisicos. + Se nao levar uma vida adequada a sua caracteristica, poderd di senvolver mais doengas relacionadas com o estresse ou “psicosso- miticas”, + Vocé é mais sensfvel aos medicamentos*, + Voct é mais sensivel a dor. + Voct 6 mais perturbavel, geralmente hiperexcitével, por ambien- tes médicos, intervengdes, exames ¢ tratamentos. + Em ambientes de “tratamento de satide” sua intuigio profunda nao 6 capaz.de ignorar a presenga sombria do sofrimento e da morte, a condigao humana, [Ust 4 SENSLIDADH A St + Considerando-se todos esses fatos e também a promissa de que a maioria dos profissionais de satide de orientagiio ortodoxa é com- posta de nfo-PAS, seu relacionamento com eles 6, em geral, pro- blemitico. © aspecto positive disso tudo 6 sua capacidade de perceber os problemas antes que se tornem mais sérios ¢ ser maravilhosamente consciente do que lhe faz bem. Como jé foi mencionado no capitulo 4, as criangas altamente sensiveis que nao vivem sob tensdo tém satide invulgarmente boa. Um estudo de longa duracdo com adultos auto- conscientes na infancia — trago verdadeiro na maioria das PAS — revelou tratar-se de adultos excepcionalmente saudéveis. 0 mesmo nao se aplicava aos adultos timidos. Isso sugere que as PAS podem ter excelente satide, mas precisam resolver sua vida social e minimizar os desconfortos nessa drea para ter uma vida sem tensdo e encorajadora, ‘Mas vamos explorar os problemas impli ta, pois eles © preocupam. Ser especialmente sensivel aos sinais fisicos mais sutis, significa que vocé demonstra propensao a muitos alarmes falsos. Isso nao é problema, vocé vai ao médico e checa, Se ainda nao tiver certe- za, procura uma segunda opiniao. Nem sempre é assim to simples, niio é mesmo? Os médicos hoje em dia podem ser pessoas ocupadas ¢ insensiveis. Vocé geralmente chega ao consult6rio um pouco nervoso ¢ hiperexcitado. O que sente ¢ insignificante, mas 0 preocupa ou vocé niio teria marcado a consul- ta, Sabe que provavelmente Ihe diréio que aquilo nao é nada eo médico vai achar que esti fazendo alvorogo por uma ninharia, E est conscionte de que sua sensibilidade as coisas sutis ¢ a hiperexcitacao causada pelo desconforto social sto ébvias. O médico, por sua vez, partilha a opinido cultural e confunde sua caracteristica com timidez.¢ introversio, vendo nisso um sintoma de satide mental fraca, Além disso, para alguns médicos em especial, a sensibilidade 6 uma temfvel fraqueza que tiveram de reprimir para poder sobreviver na faculdade de Medicina. Entao projetam esse tra- 0 (@ a fraqueza que associam a ele) nos pacientes que demonstram qualquer sinal de sensibilidade. Em resumo, existom iniimeras razdes pelas quais o médico pode co- megar supondo quo, om sou caso particular, aquele pequeno sintoma est 56 na sua cabega”” e demonstrar essa suposigao, (A mente e 0 corpo estdo obviamente tio intimamente ligados que o problema pode ter sido causado por um fator psicolégico estressante, mas os médicos néo esto treinados para lidar com isso.) Vooé nfo quer parecer neurético por pro- testar, mas passa a questionar se foi ouvido, se foi bem examinado, se tudo esté realmente bem, Sente-se embaracado e nao quer causar problo- ‘mas. Mas vai embora preocupado e comega a pensar se nao estaria real- ‘mente neurético. Na préxima vez talvez.decida ignorar seus sintomas até {que fiquem 6bvios o suficiente para que qualquer médico possa ver. 'A solugao 6 encontrar um médico que compreenda perfeitamente seu trago de personalidade— uma pessoa que leve a sério sua capaci- dade de perceber os aspectos sutis de sua satide ¢ de suas reagdes a0 tratamento, Um sistema de alarme tao bom deveria encantar qualquer médico. Ao mesmo tempo, conhecendo sua sensibilidade, ele pode agir como 0 especialista tranqiiilo que Ihe assegura néo haver real- ‘mente nada errado, Ele 0 acalma com respeito, sem partir do pressu- posto de que hé algo errado com vocé no aspecto psicolégico. Deve ser possivel encontrar um médico assim, principalmente se vocd estiver equipado com este livro para que ele o leia, Sua sensibilidade aos medicamentos ¢ bastante real. E pode ser intensificada pela hiperexcitagao causada pela preocupagio com os efeitos colaterais (que a maioria das drogas realmente causa, voc® no cesté sendo neurdtico & toa). Talvez vocé estivesse perturbado por al- guma coisa quando tomou a primeira dose ¢ prefira esperar para ver como reage depois que se acalmar. Quando tiver a certeza de uma reagio errada a um medicamento, acredite nisso. Existem variagbes considerdveis na sensibilidade as drogas. Exija que os profissionais médicos o tratom de forma respeito- sa em relagiio a isso, Se nfo conseguir esse respeito, lembre-se de que vocé é o cliente — procure outro lugar. Em relagio & hiperexcitago causada por outros tratamentos ¢ proce- dimentos, considere que depara com sensagdes novas e intensas, freqiientemente invasbes ameagadoras a seu corpo. A solugéo, em pri- ‘meiro lugar, 6 explicar pessoa responsével pelo procedimento que voce 6 altamente sons{vel. Demonstrando auto-respeito em sua explicagiio, voce conseguiré ser tratado com respeito. Essa revelagiio, na verdad geralmente € bem recebida. O responsavel pelo procedimento poderd tomar medidas especiais para tornar a situagao mais fécil para voce. £ voce, na verdade, quem deve saber a melhor forma de reduzir a tensiio. Alguns preferem que tudo seja explicado, outros preferem 0 si- lencio, Alguns preferem ter um amigo por companhia, outros preferem estar s6s, Alguns se do bem com medicamentos para reduzir a dor ou a ansiedade, outros consideram a perda de controle provocada pela medi- cagio ainda mais pertuzbadora. E h4 muita coisa que vocé mesmo pode fazer previamente: familiarizar-se com 0 maior ntimero possivel de fato~ res envolvidos na situagao, acalmar-se, centrar-se e trangiiilizar-se usan- do os meios que conhece ¢ consolar-se apés 0 procedimento com amo- rosa compreensiio, aceitando todas as reagdes intensas que teve. A sensibilidade a dor também apresenta grandes variagées. Algu- mas mulheres, por exemplo, quase no tom dor ao dar luz, e pesqui- sas com essas mulheres revelam que raramente tiveram dor em algum. momento da vida*. O oposto com certeza também 6 verdade — algu- mas tém muita dor durante toda a vida, Minhas pesquisas demonstra- ram que as PAS geralmente sofrem mais com a dor. Nosso estado mental afeta a percepgao da dor, portanto sempre 6 bom ser um tutor gentil, amoroso, compreensivo e calmo de seu cor- po/bebé quando ele sentir dor. & também essencial que aqueles que podem ajudé-lo sejam avisados de sua sensibilidade maior & dor. Se estiverem bem informados sobre o assunto, perceberdio que sua rea- iio é uma variagiio normal na psicologia humana e a tratario adequa- damente, (Lembre-se porém de que voc® pode ser também mais sensi- vel aos medicamentos que aliviam a dor.) Obviamente 0 ponto-chave esté no fato de voce ser mais perturbivel que o paciente médio. Mesmo que o profissional de satide seja suficien- temente sibio para nao tratar sua caracterfstica como um disturbio desagradavel, de qualquer forma ele tornaré as coisas mais dificeis. Sua capacidade de comunicar os pensamentos com clareza, por exem- plo, ficaré diminuida. jo muitas. Voce pode fazer uma lista de perguntas @ anotar as respostas. Pode levar alguém consigo para ouvir fe fazer as perguntas que nfo Ihe ocorrerem. (Dessa maneira haverd também outra memGria a ser consultada depois.) E pode ainda expli- car sua dificuldade. Deixe que o profissional o acalme conversando sobre assuntos gerais ou usando outro método que prefira. E possivel reduzir 0 nervosismo pedindo & pessoa que o atende que repita as instrugdes @ so disponha a atender seus telefonemas para responder a perguntas que Ihe ocorram depois. ‘Tonha em mente também que ¢ comum criar uma ligagio com a pessoa que esteve com voc® durante uma experiéncia perturbadora, especialmente se for dolorosa ou emocionalmente desafiadora, No cam- po da medicina ocorre bastante esse tipo de sentimento em relagio a um cirurgizo ou obstetra (apés um parto dificil). A hiperexcitagio 6 um estado doloroso. Nao ha como contorné-Lo. Em situagGes médicas, a dor, 0 envelhecimento ¢ a morte ali ao seu aleance, fica mais diffcil ainda. Viver com a consciéncia da morte, no entanto, faz sentido para mim se isso servir para aumentar o valor que damos ao momento. Quando essa consciéncia se tornar intensa de- mais, sempre se pode fazer uso da defesa universal, muito ttil, cha- mada negacdo. E permita que seus amigos e sua famflia reunam-se em volta para ajudar. Eles também jé enfrentaram essa questo ou a en- frentardio um dia. O momento néo é para sentir-se uma carga. Estamos todos no mesmo barco. Reescreva sua histéria médica Este pode ser um bom momento para fazer, a luz de sua caracteristica, a reformulagio de suas experiéncias com tratamentos médicos. Escolha de uma a trés experiéncias significativas de doenga ¢ tra- tamento médico, de preferéncia com hospitalizago na infancia. Siga entio os trés passos que jé Ihe sio familiares. Primeiro, pense na for- ma como sempre compreendeu ossas experiéncias, talvez levado po- las atitudes dos profissionais médicos — vocé ora “sensivel demais”, um paciente dificil, neurético, que imaginava a dor. Depois avalic as 2 Use sintibann A experiéncias a luz do que hoje conhece sobre sua caracteristica. Por fim, reflita se hé algo que precisa ser feito em decorréncia desse novo conhecimento, como procurar outro médico ou dar este livro a seu médico atual. Se esse tem sido um aspecto dificil de sua vida, veja também 0 quadro abaixo, ADOTE NOVA FORMA DE LIDAR COM PROFISSIONAIS MEDICOS 1, Imagine uma situagao médica que para voc8 é perturbadora, social- ‘mente desconfortével ou problemitica por qualquer razao. Talvezessa reagao se deva ao fato de estar despido, apenas com a camisola do hospital, a certos tipos de exame, & perspectiva de tirar sangue ou obturar os dentes, ou porque um diagndstico ou resultado esté demo- rando ou foi pouco claro. 2. Veja a situagao a luz de sua caracteristica, inclusive o papel potencial- ‘mente positivo que ela pode desempenhar, Por exemplo: vocé perce- beré mais depressa se houver algum problema e seguiré as instru- ‘GGes de maneira mais cuidadosa, Mas, acima de tudo, pense em sua necessidade (e no direito que tem) de que a situagao seja 0 menos estressante possivel. Lembre-se de que todos devem cuidar para que seu corpo no receba excesso de hidrocortisona, uma vez que os re- sultados médicos sero melhores se vocé estiver mais calmo. 3. Pense na maneira de conseguir 0 que precisa. Talver seja algo que voce mesmo possa fazer. Mas provavelmente teré de falar pelo me- nos um pouco de sua sensibilidade aos profissionais médicos. Escre- va um roteiro. Certifique-se de que transmitiré auto-respeito e des- pertaré atengao, sem ser rude nem arrogante. Peca a uma pessoa que voce respeita que leia 0 roteiro. 0 ideal seria alguém envolvido nna érea de saiide. Ensaie com essa pessoa a conversa que quer ter. Solicite que the diga depois como se saiu. 4, Imagine como aplicar o que praticou na préxima vez que precisar de assisténcia médica, Seria recomendavel voltar a esses pontos na oca- sido e praticar mais um pouco para transformar em realidade aquilo que imaginou, Um cuidado em relasao aos rétulos médicos Como voc sabe, os médicos percebem rapidamente quanto nossas atitudes mentais afetam o sistema imunoldgico e a doenca. Eles esto também conscientes de que algumas pessoas, mais que outras, pare- ‘cem ter pensamentos e sentimentos que afetam 0 quadro da doenca. Mas, por estar focados na moléstia, freqtientemente deixam de consi- derar a posstvel existéncia de aspectos positivos de um tipo de perso- nalidade que parece acompanhar determinadas doengas. Digo “pare- ce” porque eles ignoram também os preconceitos culturais contra alguns tipos de personalidade que podem na verdade estar causando 6 mal. Talvez inadvertidamente perpetuem esse preconceito ao pro- lamar, com toda a sua autoridade profissional, que determinados tipos de personalidade ou caracteristica sao negativos ou pouco saudéveis. (Os sinais de preconceito contra a sensibilidade sao facilmente per coptiveis quando se comega a ler nas entrelinhas, localizando descri- Oes dela como “s{ndrome” ou préprias de pessoas “desequilibradas”, que “perdem freqtiontemente 0 controle” ou “super-reagem” ou sto “incapazes de ver claramente” em decorréncia de alguma coisa “ex- cessiva” ou “anormal”. Lembri geralmente partem de uma perspectiva de rei-guerreiro do que esté cerrado, perdido, excessivo, adequado ou anormal Nao esquega, porém, que existem momentos em que voce mesmo sente que perdeu o equilfbrio, esta fora de controle devido a uma super- reagio. Em um mundo altamente estimulante, as PAS demonstram essa tendéncia, especialmente aquelas que tiveram uma infincia ou hist6ria pessoal estressante. Nesses momentos, por favor, permita que os profissionais de satide o ajudem com medicacao mesmo que o fa- am no estilo rei-guerreiro. (Insista apenas em comegar com doses se de que esses julgamentos médicos 236 ‘A INSIMLIOADE ABU pequenas.) E lombre também que néo deve culpar sua caracterfstica de sensibilidade, mas 0 mundo onde nasceu, que constantemente desafia a adaptar-se ou mudar, Por que tomar Prozac e outras drogas? ‘Tenho sugerido muitas vezes que converse com os profissionais ql cuidam de sua satide sobre sua caracterfstica, No entanto, se fal mais cedo ou mais tarde alguém lhe oferecerd alguma medicagi “psicoativa” como solugdo permanente — talvez. um antidepressiv como 0 Prozac ou alguma droga ansiolitica como 0 Valium. Tal muitos jé tonham tentado medicamentos como esses. Eles podem. iileis se vocd estiver em crise ou precisar de uma ferramenta pi controlar temporariamente a hiperexcitagiio ou seus efeitos, como dormir ou nao comer bem. A questo mais profunda é se deve tomar algo mais ou menos permanente para “curar” seu trago especial. Mui= tos médicos acreditam que sim. Quando eu, por exemplo, falei a meu médico deste livro, ele ficou bastante animado. “Esse é realmente um problema pouco abordado pela medicina. uma pena. Mas gragas Deus é facilmente curdvel, como o diabetes.” E foi logo pegando 0 receituéio. Soi que s6 desejava ajudar. Mas eu The disse, receio que com al- gum sarcasmo, que tentaria me agiientar mais um pouco sem remédios, Eno entanto possivel que vocé sinta que as desvantagens de sua caracteristica estao superando as vantagens ou que gostaria de experi- mentar para ver se algum remédio mudaria as expressdes de sua sen- sibilidade, Poderd entio tentar o uso de alguma medicagio de longo prazo com o propésito de mudar a forma bésica de funcionamento de sou cérebro. Eu, particularmente, acredito que uma PAS deve estar muito bem informada antes de tomar essa decisao. Jé ficou provavelmente bem claro que o resto deste capitulo ndio ird Ihe dizer o que fazer —o objetivo ¢ informé-lo e ajudé-lo a analisar todos os aspectos desse assunto. A medicagéo durante a crise Existe uma importante diferenga entre tomar medicagio psicoativa durante uma crise @ usd-la para conseguir alteragao de personalidade ‘a longo prazo, Algumas vezes a medicagao 6 a forma mais facil, ou ‘mesmo tinica, de sair de um cfrculo vicioso de hiperexcitagao e im- possibilidade de atividade normal durante o dia e sono adequado & noite, Em casos assim vocé certamente encontrar um médico, como © de minha familia, ansioso por Ihe dar uma receita. Talvez encontre © extremo oposto, um médico que considere que os estados mentais dolorosos devem ser suportados, especialmente se a causa for “exter- na”, como o luto ou a ansiedade que precede algum compromisso importante. A melhor solugao 6 decidir antecipadamente o que gosta- ria de fazer em uma crise, Poderd entao encontrar um médico cuja filosofia de medicagio seja igual a sua. Se esperar até entrar em crise, voce e os outros poderio sentir que ndo hé condigdes de tomar tal decisao, e provavelmente haverd pressio para fazer qualquer coisa decidida pelo médico que estiver a mao, Medicamentos para interrupgio imediata da hiperexcitagao Sao incontiv 's as drogas psicoativas existentes, mas dois tipos sio mais freqiientemente prescritos para as PAS. O primeiro tipo é o dos ansioliticos de agao répida como Librium, Valium e Xanex (a maioria provoca sono — algumas vezes uma vantagem, outras no —, mas 0 Xanex nao o faz). Todos detém a hiperexcitagao em poucos minutos. (Como vocé agora ja sabe, hiperexcitacio nao 6 0 mesmo que ansieda- de, portanto nao aceite o rétulo de “propenso a ansiedade”. A excita- ilo pode ser apenas efeito da hiperestimulagio.) Muitas pessoas garantem que esses remédios fazem dormir ou aju- dam 0 desempenho em momentos estressantes da vida. Entretanto, se por um lado seus efeitos so de curta duragao, quando tomadas durante longos perfodos essas drogas viciam. Sempre que um novo ansiolitico é langado, seus fabricantes alegam causar menos dependéncia que os pre- cedentes. Mas se presume que todas as drogas que levam rapidamente do estado de hiperexcitagao ou apatia para o nivel ideal de equilfbrio oferecem algum risco de gerar dependéncia, 0 Alcool ¢ os opiiceos nos. tiram da hiporexcitagdo, a cafefna e as anfotaminas nos tiram da apatia, ‘Todos geram dependéncia. O fato 6 que qualquer coisa que solucione facilmente um problema seré consumida repetidas vezes, a menos que. 05 efeitos colaterais superem os benoficios. O cérebro, entretanto, adapta-se as substancias que afetam o nivel de excitagao, e vocé precisaré de uma quantidade cada vez. maior para. obter o mesmo resultado. Ha um momento em que elas comegam a prejudicar vérias partes do corpo, como o figado e os rins, Além dis- 50, sou sistema natural de equilibrio de excitagio ficard atrofiado, F claro que se vocé est constantemente hiperexcitado esse siste- ‘ma jé esté desequilibrado. Uma pausa esporddica obtida com medica io para conter a ansiedade pode ser o descanso de que vocé precisa, Mas existem outras maneiras de mudar a quimica corporal — ca- minhadas, respiragdo profunda, massagem, um lanche saudavel, o abra- 0 de alguém que vocé ama, boa miisica, danga. A lista vai longe. Agentes calmantes “ tom sido usados desde que moravae ‘mos em cavernas. O ché de camomila é um bom exemplo, assim como. chés de lavanda, flor de maracujé, lipulo e aveia. As lojas de produ tos alimenticios naturais podem oferecer sugestées e vendem esses produtos em preparados para chés ou em cépsulas, Sua individuali- dade se manifestaré também em relagao a isso — alguns chés funcio- nardo melhor do que outros em seu caso. Usado antes de dormir, 0 ché correto proporcionaré um perfodo de sono que geralmente é 0 que: vocé precisa. Se sua dieta esta pobre em eélcio ou magnésio, um su- plemento desses minerais poderd igualmente acalmé-lo, Mas tenha cuidado, drogas “naturais” também sio poderosas. O fato ¢ que seu médico talvez. nfo mencione esses tratamentos mais antigos e mais simples. Os representantes das emprosas farma- cCuticas os visitam regularmente, mas ninguém vai aos consult6rios insistir que se prescrovam caminhadas ou uma xicara de ché de ca- momila, atu Os medicamentos que amenizam os efeitos da hiperexcitagiio prolongada Os antidepressivos constituem a outra abordagem que costuma ser aconselhada para ajudar as PAS a lidar com as supostas ou reais des- vantagens de sua caracterfstica. Durante uma crise eles realmente evi- tam sofrimento e podem até mesmo salvar sua vida. (A taxa de morta- lidade por suicfdio e acidentes entre as pessoas deprimidas ¢ alta.) E podem ajudar também a economizar dinheiro, jé que lhe permitem continuar trabalhando, quando sem eles nao conseguiria. Essas drogas nao eliminam necessariamente todas as emogées. Elas, sio capazes de simplesmente restaurar uma espécie de rede de segu- ranga, evitando que vocé caia tio fundo quanto antes. Como essas \s podem ser resultado do esgotamento do cérebro, e nao “natu- rais” em vocé, seré sensato tomé-las para ajudé-lo a voltar ao normal. Quando estiver dormindo e comendo melhor nao precisaré mais delas. (Os antidepressivos levam de duas a trés semanas para fazer efeito, portanto ndo geram muita dependéncia, Nao hé satisfagao imediata. Mesmo assim, algumas pessoas acham dificil desistir deles, e ndo 6 possfvel deixé-los subitamonte sem alguma dificuldade. Nao conhe- go ninguém que tenha vendido seu tiltimo bem material para comprar mais uma dose de antidepressivo, mas de forma subjetiva eles podem se tornar um vicio. Caso voce decida tomar antidepressivos, consulte um psiquiatra com experiéncia na prescrigao desse tipo de medicamento, alguém que desenvolveu sua intuigaio observando ao longo dos anos como pessoas diferentes e seus sintomas reagem a diferentes drogas—outra prova da enorme variedade humana, Um especialista, porém, natu ralmente acredita no valor de sua especialidade, portanto vocé s6 deve procurar esse tipo de ajuda apés se decidir por essa opcao. (O que fazem os antidepressivos Seu cérebro ¢ feito de milhdes de células, chamadas neurdnios, que se comunicam umas com as outras enviando mensagens através de ra- mificagbes. Mas essas ramificagdes nfo se tocam proprlamente, As: sim, quando a mensagem chega ao extremo de uma ramificagio, tem. de atravessar pequenos espagos na diregio de outra, como se estives- se tomando uma balsa. Essa 6 uma das raztes por que o cérebro é uma. maquina magnifica. Para que as mensagens possam saltar 0 espaco entre uma ramifica io © outza, os neurdnios fabricam pequenos barcos quimicos chama- dos nourotransmissores, mimisculas porgées de substéncias liberadas. nesse espago. Os neurOnios também recolhem seus barcos neurotrans- missores quando jf ndo siio necessérios. Liberando-os e depois reco- Ihendo-0s, cles mantém disponiveis as quantidades certas de neuro- transmissores. A dopressao parece ser causada pela falta de disponibilidade de certos neurotransmissores. Os antidepressivos fazem com que seu. niimero aumente, Mas ndo os acrescentam simplesmente. O eérebro é lacrado contra esse tipo de engano. £ necessério algo que consiga pe- netrar no cérebro e engane os neurdnios fazendo com que recolham a. medicagao em vez de recolher o neurotransmissor. Isso permite que mais neurotransmissores permanegam em circulagio. Na verdade, 6 um pouco mais complicado que isso. O que prova- velmente acontece é que alguns produzem uma quantidade “excessiva” de neurotransmissores receptores (0 que talvez. explique por que as PAS siio tao sensiveis a estimulos), ficando portanto sem eles mais deprossa. Talvez sejam produzidos mais receptores em momentos de esgotamento nervoso ou hiperexcitagao duradoura, Outro efeito dos antidepressivos ¢ a redugo do niimero de receptores, provavel razo pela qual esses medicamentos s6 fazem efeito ap6s duas ou trés sema- nas. Esse 6 0 tempo necessério para a eliminagao dos receptores. Tal- vvez nao seja isso que acontece. Na verdade, ninguém conhece os deta- thes. Voltaremos a isso brevemente. Vocé est se perguntando por que a hiperexcitagao prolongada leva- ria & depressio ou seria minimizada por antidepressivos? Quando as pessoas ficam tensas durante longos perfodos— hiperexcitadas —, apa- rontomente acusam baixa quantidade de certos neurotransmissores. (Ou- tras coisas, como certos virus, também reduzem esses importantes flui- dos cerebrais.) Quanclo ssa quantidade 6 baixa, algumas pessoas ficam abatidas: deprimidas, Mas isso nvio acontece com todos, e a raziio ainda 6 desconhecida, © fato de ser uma PAS nio significa estar automatica- mente inclinado A depressio. A culpa é da hiperexcitagdo prolongada. Existe grande mimero de substancias neurotransmissoras, ¢ todos 05 anos mais so descobertas. Durante muito tempo os antidepressivos dispontveis atuavam sobre varios neurotransmissores. Uma das ra- zOes da grande agitagao em tomno do Prozac 6 por que atua especifica- mente sobre um tinico neurotransmissor, a serotonina. O Prozac e seus similares — Paxil, Zoloft etc. — so chamados de “inibidores seleti- vos dos receptores de serotonina”, ou SSRI (sigla em inglés). Nin- guém sabe por que essa selotividade representa uma vantagem tao grande no tratamento de certas dificuldades. Mas os clentistas esto atualmente tentando conhecer melhor a serotonina. A serotonina e a personalidade © que transformou 0 livro Listening to Prozac’ em best-seller hi al- guns anos foi o fato de Peter Kramer, 0 autor, expressar a preocupagiio de todos os psiquiatras que haviam descoberto que algumas pessoas medicadas com SSRI “curaram-se” do que pareciam caracterfsticas de personalidade bem estabelecidas. Uma dessas caracteristicas era uma tendéncia inata a “hiper-reagir ao estresse’ nosso, hiperexcitar-se facilmente. Como jé disse, entretanto, acredito que devemos ser muito cuida- dosos ao permitir que médicos usem a expressio “hiper-reagao ao estresse” como descrigiio de nossa caracteristica basica. Quem decide o que 6 “hiper”? (Eu uso 0 termo hiperexcitagao em relagio ao nivel ideal de excitagao.) Mas e quanto aos aspectos positivos dessa carac- terfstica e os aspectos nogativos de uma cultura em que nfveis altos de estresse so normais? Nés nao nascemos realmente com a tendéncia a “hiper-reagir ao estresse”". Nascem De qualquer forma, Kramer levantou uma fascinante questio social discutindo o fato de uma droga ser capaz de mudar totalmente a perso- nalidade de alguém. Como voc? se sente em relagdo ao fato de tornar- Usando um termo ensiveis, 242 Use A SENSIBILIDADE A SEU FAVOR se um dia capaz de mudar de personalidade como muda suas roupas? O que aconteceria a nossa compreensio do eu se este pudesse ser tao facilmente alterado? Se alguém toma um medicamento sem que haja necessidade — apenas para sentir-se “de certa maneira” —, qual 6 a diferenga em relagiio as “drogas de rua"? Sera que todos terdo de to- mar Prozac, e depois Super Prozac, apenas para alcangar o melhor nivel de competitividade na “érea” de alta tolerancia as tensdes? Ea pergunta a qual Kramer retorna uma diizia de vezes: 0 que perderia uma sociedade em que todos optassem por tomar drogas assim? Estou insistindo no livro de Kramer e nas reagées a ele porque foi amplamente lido pela classe médica, que hoje iguala a sensibilidade & necessidade de Prozac, e também porque Kramer discutiu muito bem quest6es sociais e filoséficas. Se vocé 6 uma PAS tipica, desejaré con- siderar essas questdes, tanto quanto as pessoais, quando lhe oferece- rem um SSRI e tiver de decidir como reagir. A serotonina e as PAS E dificil abranger todos os detalhes das razdes por que a serotonina 6 importante, j4 que ela 6 0 “neurotransmissor de eleigdo” em catorze diferentes reas do cérebro, Peter Kramer pensa que a serotonina 6 um pouco como a policia. Quando hé bastante serotonina, assim como quando a polfcia esté em patrulha, tudo fica mais seguro e tranqiiilo em toda parte. Mas os beneficios sio diferentes, conforme o tipo de problema de cada Area. A policia controla o trafego se houver conges- tionamento e fica alerta ao crime se esse for 0 problema. De forma semelhante, a serotonina interrompe a depressio se alguma area do cérebro estiver causando depressio e evita os comportamentos com- pulsivos e perfeccionistas se outra area os causar. Forgando a analo- gia, com tantos policiais em ronda, uma sombra em uma viela escura pareceria menos perigosa. Essa seria a principal mudanga para as PAS, com seu forte sistema de pausa para verificagao. Mas isso s6 seria verdade com mais serotonina — mais policia na érea — para ajudar. Ao ler os casos relatados em Listening to Prozac, nao pude evitar surpreender-me ao constatar quantos dos pacientes de Kramer eram Os MEDICOS, OS REMEDIOS E AS PAS 243 PAS que simplesmente nao sabiam como respeitar sua caracteristica e cuidar de si mesmos em uma sociedade pouco sensfvel. Como resulta- do, eram cronicamente hiperexcitados, seus niveis de serotonina um pouco baixos, e o Prozac ajudou. Reflita nos outros problemas que Kramer considerou resolvidos pelo Prozac — compulsao (excessivo zelo na tentativa de controlar a ansiedade e a hiperexcitagao?), baixa auto- estima e sensibilidade a criticas (por ser parte de uma minoria levada a sentir-se inferior’). Ent&o quando uma PAS deve, se é que deve, tomar um SSRI para mudar caracterfsticas de personalidade firmemente estabelecidas? Muito depende da exata relagdo da serotonina e da caracteristica. In- felizmente, ainda é cedo para ter certeza. (Quando existirem mais res- postas, fique alerta ao que for simples demais ou aplicar-se a todos.) Enquanto isso, existem indicagées de que tudo depende de quao cro- nicamente hiperexcitado vocé 6. Alguns macacos nascem com tendéncia‘ a fazer pausas para veri- ficar novas imagens e sons. Essa é a nossa caracterfstica, exceto pelas vantagens humanas da compreensao profunda do passado e do futuro e nossa maior habilidade de controlar as pausas para verificagaio de acordo com nossa escolha. Esses macacos comportam-se como outros macacos durante a maior parte do tempo. Mas quando jovens sao mais lentos em suas exploragdes e demonstram niveis de batimentos cardfa- cos mais altos e varidveis e taxas mais altas de horm6nios de estresse. Eles sao muito semelhantes as criangas descritas por Jerome Kagan, como foi discutido no capitulo 2, Note que nesse ponto ainda nao apresentam menos serotonina. A maior diferenga manifesta-se quando esses macacos ficam alta- mente estressados (hiperexcitados) por longos perfodos. Nesses mo- mentos, quando comparados a outros macacos, os mais reativos pare- cem ansiosos, deprimidos e compulsivos. Se forem perturbados repetidamente, mostrarao tal comportamento com maior freqiiéncia, e 6 entdo que os neurotransmissores diminuem. Tais comportamentos e mudangas fisicas também se manifestam em qualquer macaco traumatizado na infancia pela separagao da mae’. interessante que, ao ser traumatizados pela primeira vez, o que aumenta 244 ‘USE A SENSIBILIDADE A SEU FAVOR stio os horménios de estresse, como a hidrocortisona. Mas com o tem- po, especialmente na presenca de outros fatores estressantes como 0 isolamento, o nfvel de serotonina cai e os macacos passam a mostrar-se permanentemente mais reativos. O que se pode concluir desses dois estudos 6: 0 que gera 0 problema 6 a hiperexcitagio crénica, o estresse ou o trauma infantil — nao a caracterfstica inata. Vimos isso também no capftulo 2. Criangas sensf- veis passam por maior ntimero de excitagdes breves, com aumento de adrenalina, mas permanecem bem se contarem com o sentimento de seguranga. Quando, porém, uma crianga sensfvel (ou qualquer crianga) se sente insegura, a excitagdo breve torna-se afligéo duradoura, com aumento de hidrocortisona. Eventualmente a serotonina também atua (segundo 0 estudo com macacos.) Essa pesquisa é importante para as PAS. Ela demonstra de forma bastante concreta por que devemos evitar a hiperexcitagdo crénica. Se na infancia fomos programados para nos sentir ameacados por tudo, 6 necessério fazer um trabalho interior, geralmente com terapia, que mude essa programagao, ainda que isso leve anos. Kramer cita evidén- cias de que a permanente suscetibilidade a hiperexcitagao e a depres- sao pode desenvolver-se e causar sérios danos se os niveis de serotonina nao voltarem ao normal. Queremos entao permanecer seguros, des- cansados e com fortes niveis de serotonina. Isso nos manterd prontos: para desfrutar a vantagem de nossa caracterfstica, a apreciagdo das sutilezas. Os momentos inevitdveis de hiperexcitagéo nao conduzem) antveis elevados de hidrocortisona por varios dias nem a diminuigdo de serotonina por meses e anos. Se nos livrarmos disso, ainda podere- mos corrigir a situagao. Mas isso leva tempo, e talvez possamos usar medicamentos por algum tempo como apoio a essa corregao. A serotonina e a sensacao de ser vitima Outro fato a mencionar: macacos dominantes, ou pelo menos algumas espécies muito voltadas para a dominancia, tém mais serotonina®. O simples aumento de serotonina em um macaco desse tipo torna-o domi- nante em relagaio aqueles que receberam uma droga para diminuir essa Os MEDICOS, OS REMEDIOS E AS PAS 245 substancia. Colocar um macaco assim no topo da hierarquia de domi- nagéio faz aumentar a serotonina em seu cérebro. Tird-lo dessa posigdo faz a serotonina diminuir’. Essa é outra possivel razio de os médicos desejarem aumentar sua serotonina — para ajudé-lo a ser mais domi- nante e bem-sucedido em uma sociedade voltada para a dominancia. Eu na verdade nao gosto de comparar macacos “timidos” com hu- manos altamente sensfveis, que sao diferentes justamente por ter mais aquilo que torna os humanos tao humanos (previsdo, intuigdo, imagi- nagéio). Mas, se as PAS esto sujeitas a sofrer falta de serotonina, pre- ciso me perguntar a causa disso. Parece existir a possibilidade de ser- mos menos dominantes por ter niveis mais baixos de serotonina. Pelo menos em alguns casos, porém, a sensagaio de inferioridade ou 0 fato de estar em posigao inferior na hierarquia de dominancia podem ser a razao da diminuigio do nivel desse horménio. Sera que o baixo nivel de serotonina e a depressio e todo o resto poderiam ser causados pelo estresse de sermos “diminufdos” por nossa cultura? Pergunte-se qual seria 0 nfvel de serotonina de criangas chinesas “timidas e sens{veis” que sto os lideres admirados por seus colegas de classe (de acordo com os estudos descritos no capitulo 1). Imagine os niveis de serotonina de seus correspondentes do Canada, que esto na posigao mais baixa da hierarquia da classe. Talvez nés nao precise- mos de Prozac. Talvez precisemos de respeito! Devemos tentar mudar nossa caracteristica com um SSRI? Gostaria de dispor de dados sobre o efeito desses medicamentos em PAS nao-deprimidas. Mas 0 efeito sobre a PAS média ainda nao diria nada quanto ao efeito que teria sobre vocé. E fato amplamente conhe- cido que o antidepressivo que acaba com a depressdo de uma pessoa pode nao ter nenhum efeito em outra. O mesmo deve aplicar-se a me- dicamentos que alteram a personalidade. Como foi explicado no capt- tulo 2, existem indubitavelmente intimeras formas de ser altamente sensivel. Essa é uma razio para ter cautela com explicagées simplistas sobre todos os modismos, como a serotonina, quando pensar sobre sua caracteristica. Eis aqui alguns dos pontos que eu consideraria para tomar uma de- cisio assim, Primeiro, quanto voc® esté insatisfeito por ser como 6? Em segundo lugar, voce esta disposto a tomar um medicamento pelo resto da vida para manter as mudangas que deseja? E uma decisao que exige oestudo cuidadoso dos efeitos colaterais potenciais e das conseqiiénci de longo prazo, nenhuma delas ainda conhecida, dessa nova droga. Oprincipal efeito colateral é que, em pelo menos 10% ou 15% das pessoas, esses novos medicamentos agem de forma semelhante a esti= mulantes como as anfetaminas (fato pouco divulgado pelo fabricante do Prozac, a Eli Lilly®). Algumas pessoas sob a aco do Prozac relatae_ ram falta de sono, sonhos intensos, desassossego incontrolavel, tre~ mores, nausea ou diarréia, perda de peso, dores de cabega, ansiedade, transpiragio excessiva’ ¢ rilhar dos dentes enquanto dormem', Uma. solugiio tem sido a prescrigdo de drogas ansioliticas, geralmente a noite, para contrabalangar a agitagao. Eu, particularmente, sentiria certa re- sisténcia ao descobrir que agora preciso de dois medicamentos con- trolados. E que o segundo causa dependéncia, Muitas das PAS que conhego ¢ tomaram Prozac ou drogas simila- res pararam porque o remédio nao estava ajudando muito ou porque nao gostaram dos efeitos estimulantes, Uma possibilidade 6 o sistema de ativagio comportamental descrito no capitulo 2 estar sendo ativa- do para equilibrar o sistema de pausa para verificaciio. A medicagio, portanto, talvez funcione melhor se seu “problema” for um sistema de ativagio fraco. Os que ficam muito agitados podem ter os dois sis- temas fortes. Esses modicamentos as vezes interferem com o desempenho sexual, especialmente dos homens. Um estudo revelou que 0 Prozac afota a meméria, outro demonstrou quo ndo, Um estudo com animais parece ter revelado que antidepressivos promovem o desenvolvimento de tumores, mas estudos anteriores ndo demonstraram isso". Seré ne- ssério algum tempo para saber se esse 6 um problema sério para 03 humanos. Os SSRI também so muito perigosos quando associados a outras drogas, especialmente outros antidepressivos, porque o exces- so de serotonina 6 muito prejudicial, podendo inclusive levar a morte. Quando a esmola ¢ demais 0 santo desconfia, néo ¢ mesmo? Nada disso tom a intenglio do assusté-lo nem de impedir que tome. ‘antidepressivos, especialmente em uma crise. (Os antidepressivos antigos, xno entanto, iio em média igualmente eficientos no combate a depressio. s efeitos colaterais sfio mais desagradaveis, mas essas drogas tém sido usadas por mais tempo e parecem nao ter demonstrado efeitos sérios de comprometimento da satide.) Meu objetivo é fazer com que voce seja um consumidor bem informado. Vocd nao conhecers toda a histéria com 0 livro Listening to Prozac. Kramer, deliberadamente, nfo discutiu os efeitos colaterais, demonstrando-se mais interessado no impacto social de uma classe de medicamentos que acredita estardo cedo ou tarde isentos de efoitos colaterais significativos. Ele minimiza também as diferengas indi- viduais, que podem levar algumas pessoas a ter reagdes bastante sérias, E certamente nao se pode esperar obter todas as informagies dos fabrican- tes que esto fazendo dinheiro com esses medicamentos enormemente lucrativos nem com os médicos que, conforme as pesquisas provam, su- perestimam os medicamentos do grande campanha publicitéria’?, Mes- mo as pequenas folhas de bula com os avisos de efeitos colaterais so produzidas pelas empresas farmacOuticas, que obviamente nao se preo- ‘cupam com os consumidores além do absolutamente necessério, O lado escuro do Prozac Para saber mais a respeito do lado escuro do Prozac, vocé pode ler Talking back to Prozac, do Poter © Ginger Breggin. Eles mostram uma perspectiva diferente, ainda que algumas vezes superalarmista, da indiistria farmacéutica e de seu papel de intimidade excessiva com os processos de aprovacao de medicamentos nos Estados Unidos. 0 De- partamento de Medicamentos ¢ Alimentagao (FDA) nao realiza pes- quisas sobre as novas drogas — apenas as supervisiona, Os estudos sio feitos por pesquisadores com freqiiéncia financeiramente ligados aos fabricantes. Ap6s a aprovagéo, se surgirem novos efeitos colaterais, aempresa naturalmente os minimiza. Caso surja alguma ago juridica, seré resolvida em siléncio, fora dos tribunais, A Eli Lilly tem, de fato, se oferecido para pagar as despesas legais de qualquer médico proces- sado por impericia enquanto prescrever Prozac adequadamente™. Os Broggin informam também que todas as pesqquisas rolativas a esses novos medicamentos foram baseadas em sous primeiros meses de uso tratamento de depressio séria, Nesse caso o cérebro obviamente nio comporta de forma normal, ¢ 0 objetivo é voltar ao normal. Ningu conhece 0s efeitos se os tomar com 0 objetivo de eliminar uma caracl tica inata indesejada, mas basicamente normal, de uma pessoa saudi Os antidepressivos nao acrescontam simplesmente 0 que esta faltant Bles demoram semanas para fazer efeito porque mudam dramaticament ‘a estrutura dos neurOnios. Tampouco foram realizadas pesquisas s seu efeito em pessoas jovens apesar de ser prescritos para elas. A primeira droga de todas as familias de antidepressivos, inclusi © Prozac, foi descoberta por acaso. Nao se sabe exatamente como funci nam. E esses produtos certamente (como se supée) interforem todos dias com atividades normais do cérebro. Os Broggin escarnecem ‘metéforas animadoras que afirmam que o Prozac possibilita a seu mé= dico conseguir “sintonia fina” ou “restaurar 0 equilfbrio” do cérebro “fortalecendo os neurotransmissores”. Na opiniio dos autores, o médi co, ao fazer a prescrigao, age “mais como um desajeitado colega de escritério que derrama café no computador, excetuando-se 0 fato de @ Prozac ser muito mais potente que a cafeina e seu cérebro extremamen+ te mais vulnerdvel e suscetivel a danos que seu computador”,"* i Os Breggin aparentemente emprestam condigdes demoniacas a0 Prozac, mas hé um pouco de demonio em todos nés, e 6 melhor ‘conhecé-lo do que fingir que nao existe. Um psicopatologista que ganha a vida fazendo pesquisas em ani- mais com essas drogas para laboratérios farmacéuticos disse-me estar convencido de que as empresas esto capitalizando nosso desejo de uma solugio magica que simplesmente niio existe. De acordo com ele, ‘a maioria de nossos problemas exige autoconhecimento, em geral ob= tido com muita psicoterapia. Peter Kramer, na verdade, concorda: A psicoterapia continua sendo a técnica mais itil no tra- tamento das depresses menores o da ansiedade. (..) A crenca — niio raro abragada pela politica de redugdo de custos do “tratamento gorenclado” da industria da satide — de que a medicagio pode substituir a psicoterapia esconde, acredito, um desejo efnico de permitir que as pessoas sofram (..) (e) serve como pretexto para negar psicoterapia aos pacientes" Eu parei de anotar as paginas de referéncia quando chegou a 20 0 niimero em que Kramer expressa sua preocupagio com uma socieda- dena qual o Prozac fosse usado com excessiva liberdade, tornando as pessoas mais submissas, egocéntricas ¢ insensfveis. Ele 6 ao mesmo tempo bastante critico em relagio ao “calvinismo farmacol6gico” que argumenta que, se um remédio faz. com que se sinta bem, deve ser moralmente errado. Que a dor 6 um estado privilegiado. Que a arte sempre é produto de uma mente torturada e sofredora, Que s6 os mi serdveis tém pensamentos profundos. Que a ansiedade 6 necesséi para uma existncia aut@ntica, Essas sdo questdes sociais importantes a ser consideradas pelas PAS quando se decidirem por um medica- ‘mento que nao seja para ajudar a atravessar uma crise, mas para mu- dar seu estilo basico de vida — sua personalidade. Caso vocé decida seguir em frente (ou ja tenha feito isso) Sei que alguns, ou talvez muitos de voces, jé estio tomando algum SSRI. Outros decidirdo fazé-lo. Além dos beneficios que esto auferindo, vocés também podem fazer importantes contribuigdes para nosso conhecimento a respeito deles, e 05 que nao os utilizam serao 0 “grupo de controle”. Kramer questiona se esses medicamentos nao levarao consigo nossa compreensio do que seja um eu estvel. Nao tenho certeza. Todos os ‘meses muitas mulheres passam por drésticas mudangas de humor e fisio- logia basica e continuam sabendo quem sao. Elas simplesmente sabe que so complicadas. Talvez compreendam que tém diversos “eus” so- brepostos, que variam de acordo com 0 momento, No caso de usar uma medicagao vocé estaré decidindo que pessoa quer ser. E quem decide? ‘Alguma s6lida testemunha interior. A percepgao de que essa parte de seu eu cresceré como nunca antes. Voc# faré consideragées a respeito da pessoa que quer sere estard mais livre para escolher do que jamais esteve. Para uma PAS 6 um momento excitante para viver. Quando p te livro voce talvez. nem soubesse quem realmente 6. Agora, quai conversar com profissionais da drea médica sobre sua caractoristi¢, fizer experimentos com a fisiologia que a explica (ou se recusar a los), seré um pioneiro, Entio que importéncia tem ficar um hiperexcitado de vez em quando? Mantenha a afligao sob contro siga em frente. TRABALHE COM 0 QUE APRENDEU eaten Pegue uma folha de papel e trace uma linha no centro. A esquerd liste todas as coisas relacionadas, mesmo que vagamente, a sua sen bilidade que gostaria de eliminar se tivesse uma pilula magica p isso. ff sua chance de dar vazito a todas as desvantagens de ser un PAS que incomodam voce. f também a oportunidade de sonhar com: pilula perfeita de mudanga de personalidade. (Este exercicio ndo d respeito ao uso de medicamentos em momentos de crise, depressao sentimontos suicidas.) Agora, para cada tépico que escreveu a esquerda, anote o que per deria se esse aspecto negativo de sua sensibilidade fosse climinado pela pflula miraculosa, (Como todas as pflulas, a sua nfo pode manter um paradoxo,) Um exemplo niio relacionado & caracteristica: “teimoe sia” ficaria a esquerda, mas som ela vocé poderia perder a “persistén- ia”, que fica a direita. Se desejar, atribua 1, 2 ou 3 a cada t6pico da esquerda, de acordo, com a intensidade de seu desejo de se ver livre dele (3 para o quo mais deseja). Faga o mesmo a direita, de acordo com seu desejo de conser- var 0 t6pico, Um total muito mais alto a esquerda sugere quo talvex_ dosoje continuar procurando por uma medicagao que o ajude (ou que ainda tem dificuldade de aceitar-se como é). : Capitulo 10 “A ALMA EOESPIRITO + Onde os verdadeiros tesouros . Se€ encontram HA NAS PAS ALGO DE MAIS ANIMICO e espiritual. Ao dizer alma refiro-me a alguma coisa mais sutil que 0 corpo fisico, mas ainda cor. porificada, como os sonhos @ a imaginagdo. O espirito transcende ¢ engloba a alma, 0 corpo e o mundo. Que papel a alma e o espfrito devem desempenhar em sua Vida? Diversas possibilidades se ontrelagam nestas tiltimas paginas, incy sive a visdo psicolégica de que estamos destinados a desonvolver a plenitude tio necessdria conseiéncia humana, Afinal, tem0s pro. fundo talento para perceber conscientemente 0 que os demais igno. ram ou negam, ¢ 6 a ignorincia que osté sempre e repetidamente cau, do danos. Esto capitulo, entretanto, tem também uma parcela de outtas vo. ‘20s, menos psicolégicas e mais angélicas e divinas. Quatro sinais reveladores Ao buscar essa lembranca, vejo que foi quase tm momento hist6rico, a primeira reunido de PAS no campus da Universidade da California, em Santa Cruz, em 12 de margo de 1992, Bu tinha anuneii palestra a respeito dos resultados de minhas entrevistas posquisas e convidara todos os que haviam participado, além. dantos ¢ terapeutas interessados, que acabaram revelando também, PAS. A primeira coisa que percebi foi o sildncio que havia na sala que eu iniciasse a palesira. Nao havia pensado no que deveria ‘mas essa tranqiiilidade bem-educada fazia todo 0 sentido. Mas pouco mais que tranqiiilidade. Era um siléncio palpével, pro! como 0 de uma floresta, Um ambiente puiblico comum se tr ra pela presenga daquelas pessoas, Quando fiquei pronta para comegar, pude sentir a atengao c O assunto interessava a eles, 6 claro, mas senti que estavam de uma maneira que agora associo a todas as platéias compost PAS, Costumamos ser pessoas muito interossadas em idéias, a vendo todos os conceitos e ponderando todas as possibilidades. mos também pessoas que oferecem apoio, Com corteza tentamos estragar o momento do outro com cochichos, bocejos, nem ent ou saindo da sala em momentos pouco apropriados. Minha terceira observagao vem de meus cursos para PAS. de fazer varios intervalos, inclusive um em que todos ficam junt em siléncio, para descansar, meditar, rezar ou pensar, como cada escolher. Sei, por experiéncia, que certa porcentagem do piiblico dio fica confusa ¢ até mesmo desassossegada em uma situagio assi Com PAS nunea percebi uma hesitacaio sequer. ‘A quarta observagao: cerca de metade das pessoas que entrevi falou principalmente de sua vida anfmico-espiritual, como se cla definisse. Com as demais, quando perguntava a respeito de vida int rior, filosofia ¢ relacionamento com religito ou praticas espirituais, vozes adquiriam subitamente nova energia, como se eu finalment tivesse chegado ao ponte. Os sentimentos de “religitio organizada” eram muito fortes. Ale guns poucos estavam bastante envolvidos, outros mostravam-se insae tisfeitos e até desdenhosos. Mas a religiao nao organizada imporava; ‘corea do motade deles seguia alguma pratica diria que os levava {eriorizagio, rumo a um contato com a dimensdo espiritual. ‘Voja 0 que tinham a dizer. Reduzido a pequenos trechos, torna-se ‘Tem meditado durante anos, mas “deixa as exporiéncias passarem”, ‘quase um poema. Faz oragoes diarlamente: “Voc® consegue as coisas pelas quais rena “Bu me exercito, tento viver de forma honesta com minha nature za humana e animal.” Modita diariamente. Nao tem nenhuma “fé” a ndo ser de que tudo vai dar certo. Sabe que existe um espirito, um poder maior, uma forga que guia Se eu fosse homem, teria sido josuit “Tudo o que vive ¢ importante, existe algo maior, ou sei “Nos somos da forma como tratamos 0s outros, Religido? Seria confortante conseguir acreditar.” “Taofsmo, a forga em ago no universo: libertar-se da luta.” Comegowa falar com Deus aos 5 anos, do alto das érvores, 6 guia- do por uma voz em suas crises, é visitado por anjos. Rolaxamento profundo duas vezes por dia. “Bstamos aqui para proteger o planeta,” Medita duas vezes por dia, teve “experiéncias ocednicas, alguns dias de euforia constante, mas a vida espiritual ¢ desenvolvimen- toe exige também compreensio.” “Bu era ateu até conhecer 0 Alanon." “Eu penso em Jesus e nos santos. Sou invadida por ondas de sen- timentos espirituais." Medita, tem visbes, seus sonhos a enchem de “energia radiante”, “Muitos de meus dias sio repletos de graga e jibilo irrosistiveis.” {ual e percepeiio de tudo isso, Essas slo para mim quatro fortes evidincias do que nés, a classe dos consolheiros reais, somos a classe "clerical", que oferece A sociedado um tipo inefiivel de sustentagao, Nao tenho a presun- (glo de defini-la, mas posso arriscar algumas observagdes. ‘Aos 4 anos de idade ouviu uma voz prometer que sempre dela. Diz. quea vida éboa, em geral, mas nao 6 confortivel. A vida 6 aprender a respeito de Deus. Ela forma o carater. “Sinto atracao e rejeigdo pela religiao de minha infancia, mas A criagdo de um espaco sagrado pre me vi tocada pela transcendéncia, pelos mistérios, ¢ no que fazer a respeito disso.” Gosto da maneira como os antropélogos falam de lideranga ritual e ospago ritual’, Os Ifderes rituais criam para 08 outros as experiéncins que s6 podem ocorrer em um espago ritual, sagrado ou de transicio, a parte do mundo, Experiéncias nesse tipo de espago so transformadoras oferocem sentido. Sem elas a vida torna-se vazia e banal. O Ifderritual dlemarca e protege esse espaco, prepara os demais para que nele en- trom, guia-os enquanto esto lé ¢ ajuda-os a voltar para a sociedade compreendendo o sentido correto da experiéncia, Elas tém tradiciona Inente sido de iniciagao e marcam as grandes transicdes da vida—para idade adulta, o casamento, a paternidade ou a maternidade, a velhice © a morte. Outras stio dedicadas & cura, a visio ou revelagiio que dé direcionamento ou conduz.a pessoa a mator harmonia com o divino. (Os espagas sagraclos hoje em dia tornam-se rapidamente mundanos Para sobreviver, necessitam de muita privacidade e cuidados. Podem sor criados tanto em consult6rios de psicoterapia como em igrejas, junto em reunides de homens e mulheres insatisfeitos com sua rel ido como em uma commnidade que celebre sua tradigao. Padem sor jgualmente sinalizados por uma ligeira mudanga de assunto ou tom do conversa como pelo ato de vestir um paramento xaménico oudese- hhar um circulo cerimonial. As fronteiras dos espagos sagrados so atualmente mutdveis, simbélicas e raramente visiveis. Enquanto certas experiéncias negativas fazem com que algumas cejeitem qualquer coisa que tente parecer Sagrada, a maioria sen- se em casa nesses espagos. Algumas 0 geram espontaneamente em 1edor. Por isso, com freqtiéncia assumem a vocagio de crid-lo para os outros, @ isso faz das PAS uma classe sacerdotal no sentido de ser os que criam e mantém os lugares sagrados nostes agressivos tempos dos uerreiros seculares. Muitas experiéncias religiosas. A mais pura foi quando seu nasceu. Ultrapassou a religifo, foi direto a Deus (através da meditag © aos necessitados. Pratica com um grupo um método espiritual da Indonésia, cando e cantando para alcangar um “estado natural de exist profundamente bem-aventurado”. Reza todas as manhas por meia hora, refletindo sobre o dia ant © 0 que comega: “O Senhor nos dé compreensio, nos mostra 0 caminho”, “Acredito que quando renascemos em Cristo nos so dadas hal dades para desenvolver, para poder viver na gléria de Deus.” — “As verdadeiras experiéncias religiosas manifestam-se na vida ria sob a forma de confianga em que tados os eventos virao ps bem.” “Sou budista-hindu-pantefsta: tudo acontece como deve ser, vemos ser alegres a todo custo e caminhar cercados de beleza. “Freqiientemente sinto-me unido ao universo.” Aquilo em que somos bons: para o que serve? Mencionei quatro experiéncias que tenho tido repetidamente com siléncio profundo e espontineo que ria uma espécie de sagrada pr ca coletiva, comportamento atencioso, direcionamento animi A pratica da profecia Outra forma de encarar as PAS como “sacerdotes” ver da pi Marie-Louise von Franz, que colaborou intimamente com Ela escroveu a respetto daqueles que os junguianos denomit pos intuitivos introvertidos®, na maioria PAS. (Desculpo-me cluir por alguns momentos aqueles que sabem nao pertencer a sos grupos ou a nenhum deles.) Otipo intnitivo introvertido toma mesma capacidade qi 6s intuitivos extravertidos cle farojar o futuro. (...) Mas s ‘intuigao 6 voltada para o interior, ¢ ele é principalmente: tipo de profeta religioso ou vidente, Em nivel primitivo, 6 xama que conhece os planos dos deuses, dos fantasmas @ dos espfritos ancestrais e transmite suas mensagens para a tribo. (...) Ele conhece os lentos processos que ocorrem no inconscionte coletivo, Hoje muitos sao artistas ¢ poetas, ¢ nfo profetas e videntes, ¢ p zem um tipo de arte que Von Franz diz. ser “geralmente compree! apenas pelas geragies futuras como representagao do que se proce: no inconsciente coletivo de seu tempo”. Mas os profetas tradici mente dao forma a religido, ndo arte, ¢ todos podemos ver que muito estranho esté acontecendo com a religiao em nossos dias. Pergunte a si mesmo se o sol nasce no leste. Veja como se sent respeito de sua resposta “errada”, Porque, afinal, voc’ esté errado. O no nasco. E a Terra que gira. E 6 isso que vale a experiencia pessoal ‘nao podemos confiarnela, ou assim parece. S6 podemes confiarna cié A ciéncia tem triunfado como “a melhor forma de saber todas coisas”, Mas nao esté preparada para responder as grandes quest espirituais, filos6ficas e morais. E assim nos comportamos como elas nao fossem importantes. Mas sao. E esto sempre sendo respot didas, implicitamente, pelos valores ¢ comportamentos da sociedad — que a cidncia respoita, ama, tome @ abandona para definhar se teto nem pao. Quando alguém aborda esas questos explicitamente, 6 quase sempre wma PAS. ‘Atualmente, porém, nem mesmo as PAS sabem com certeza como vivenciar ou acreditar em coisas que ndio podem ser vistas, principal- mente considerando tudo em que um dia acreditaram ea ciéncia pro- vou ndo ser verdade. Dificilmente podemos acreditar em nossos sen- tidos, que diré em nossas intuigdes, quando 0 proprio fato de que o sol nasce 6 um tolo engano humano. Vejam todos os dogmas sobre os quais 0s sacordotes o clero sempre insistiram. Quantos deles estao *“comprovadamente errados” e—pior ainda —revelaram-se a sorvigo apenas de interesses préprios? ; ‘Nem tudo aquilo que abalou a fé veio diretamente da igreja, H4 também a comunicagio ¢ as viagens. Se eu acredito no paraiso ¢ al- guns bilhdes de pessoas do outro lado do mundo acreditam em reen- ‘carnagdo, como podemos estar todos corretos? Se uma parte de minha religifo estiver errada, o resto estaré também? Os estuclos comparati- vos das religides nilo provam que tudo 6 s6 uma tentativa de encon- trar explicagdes para os fendmenos naturais? Além disso, ndo hé a necessidade do consolo em face da morte? Entio por que nio viver sem essas suporstig&es e muletas emocionais? Além disso, se existe tum Deus, como explicar todos os problemas do mundo? Jé que ostamos falando nisso, explique por que tantos desses problemas foram e sto causados pola religiio. Assim falam as vozes otticas, Existem muitos motivos para afastar-se da religiso. Algims con- cordam com os eéticos. Alguns se mantém ligados a algum tipo de forga abstrata ou divindade. Alguns agarram-se mais firmemente que nunca a suas tradigées, tornando-se fundamontalistas. Outros rejei- tam os dogmas como a origem dos grandes problemas domundo, mas aprociam os rituais ¢ alguns preceitos tradicionals de sua religigo, ha finalmente a nova geragiio de seros religiosos que buscam a exporién- cia direta om vez dos ensinamentos das autoridades. Ao mesmo tem- po, sabem que por alguma razdio outros tem experiéncias diferentes, portanto nfo proclamam a sua como a verdade. Podem ser os primei ros humanos a viver com um conhecimento espiritual direto que re- conhecem fundamentalmente incerto. Existem PAS em todas as categorias. Mas acredito, baseada em minhas entrevistas ¢ meus cursos, que a maioria esteja no dtimo geu- po. Como exploradores e cientistas, cada um experimenta uma regiaio desconhecida e volta para relatar. No entanto, muitos hesitam em relatar. Todo esse assunto de reli- giilo, conversao, cultos, gurus e crengas na Nova Era pode ser tio con- fuso, Todos nés jé nos sentimos constrangidos por alguns seres huma- nos, nossos semelhantes, que carregam panfletos © t@m um brilho fanético nos olhos. Tememos ser vistos dessa maneira também. As PAS jé tem sido suficientemente marginalizadas por uma cultura que valoriza mais 0 fisico do que a alma ¢ o espirito. Mas a Hist6ria precisa de n6s. O desequilfbrio entre os segmentos dos conselheiros reais ¢ dos reis guerreiros sempre foi perigoso, mas 0 perigo ¢ maior quando a ciéncia nega a intuigao as "grandes ques- t6es” so respondidas sem reflexao, de acordo apenas com o que é conveniente no momento, Sua contribuicao nessa drea ¢ mais necesséria do que em qualquer outra, Escreva os preceitos de sua religiio Quer sua religido seja organizada, quer nao, tem alguns preceitos. Su- giro que vocé os escreva imediatamente se possfvel. O que vocé acei- ta, em que acredita ou 0 que sabe por experiéncia? Como membro da classe dos conselheiros reais, 6 importante ser capaz. de expressar isso ‘em suas palavras, Depois, se sentir que alguém pode ser benoficiado, comunique a pessoa o que escreveu. Caso ndo deseje comprometer-se nem ser dogmético, faga de sua incerteza e de seu desejo de nao ser um pregador o primeiro dos preceitos. Ter crengas nao significa que elas sejam imutaveis nem absolutas, muito menos que devam ser im- postas a alguém, Como inspiramos os outros na busca do sentido da vida Se voc® considera o papel de profeta pouco confortével, eu néio 0 cul- po. Mesmo assim, om uma “crise existencial", poderd se ver levado a subir em um caixote ou até mesmo a um ptlpito. Isso aconteceu com Victor Frankl, um psiquiatra judeu aprisionado em um campo de con- centrago nazista, Em seu livro Man's search for meaning, Frankl (obviamente uma PAS) descreve como era com freqiiéncia chamado a inspirar sous com- panheiros de campo, como compreendia intuitivamente suas neces- sidades e quéo desesperadamente procisavam dele. Observa também que sob aquelas circunstncias terrfveis os prisioneiros que conseguiam apreender uns com os outros algum sentido na vida sobreviviam me- Ihor psicologicamente e, por conseqiiéncia, fisicamente também: ‘As pessoas sensiveis que estavam acostumadas a uma vida intelectual rica podem ter sofrido grande dor (muitas tinham constituigéo delicada), mas o dano a vida interior foi menor, Elas eram capazos de fugir de seu terrivel ambiente para uma vida interior de riquezas ¢ liberdade espiritual. $6 assim 6 possivel explicar o aparente paradoxo de alguns prisionei- 10s fisicamente menos resistentes torem sobrevivido melhor a0 campo que os de natureza mais robusta’. Para Frankl, o sentido nem sempre é religioso. Nos campos, des- cobriu que algumas vezes sua raziio de viver era ajudar os demais. Em outros momentos, era o livro que estava escrevendo em retalhos de papel ou sou profundo amor pela vida. Etty Hillesum 6 outro exemplo de PAS que descobriu um sentido e 0 compartilhou com outros naqueles mesmos tempos dificeis. Em seu did- riot, escrito em 1941 © 1942 em Amsterda, podemos vé-la lutando para compreender ¢ transformar sua experiéncia histérica ¢ espiritualmente — mas sempre no fntimo, Uma suave e trangiiila vit6ria pessoal do espi- rito lentamente cresce de seu medo e suas dtividas. Pode-se também per- ccber em sua narrativa que muitas pessoas nela encontraram um profun- do conforto. Suas dltimas palavras, escritas em um pedago de papel Jangado de um caminhao de transporte de gado que se dirigia a Auschwitz, io talvez minhas favoritas: “Deixamos os campos cantando”. Etty Hillesum tinha forte inclinagao pela psicologia de Jung ¢ pela de Rilke (ambos PAS). A respeito de Rilke ela escreveu: Bestranho pensar que (...) (Rilke) seria alquebrado pelas circunst@ncias em que vivemos agora. E isso nao seria mais um testemunho de que a vida ¢ equilibrada com precisio? No 6a evidéncia de que, em tempos de paz e sob circunstin- cias favoraveis, os artistas sensiveis podem buscar entre seus pensamentos mais profundos as expressées mais puras adequadas para que em tempos mais turbulentos e desafiado- res outros tenham a possibilidade de buscar neles apoio ¢ Prontas respostas para suas questdes perturbadoras? Uma resposta que jé no podem formular, uma vez que toda a sua conergia esta voltada para a satisfagao das necessidades bi cas. Infelizmente, nos tempos dificeis, nos inclinamos a me- nosprezar a heranga espiritual de artistas de uma época “mais facil" perguntando: “Que utilidade esse tipo de coisa tem para nés agora?” Essa 6 uma reagao compreensfvel, mas de limitada visao. E extremamente empobrecedora®. Em qualquer época o sofrimento toca, em algum momento, a vida de todos. Como vivemos esse momento, ¢ como ajudamos os outros a vivé-lo, torna-se uma das grandes oportunidades criativas e éticas para as PAS. Nés, as PAS, fazemos a nés mesmos @ aos outros um grande des- servico quando nos julgamos fracos em comparagio com os guerreiros. Nossa forga 6 diferente, mas quase sempre mais poderosa. Muitas ve- zes 6 0 tnico tipo de forga que consegue lidar com o softimento eo mal. Isso certamente exige igual coragem ¢ cresce com um tipo proprio de treinamento. Enso esta sempre relacionado a tolerdncia, a accitagio eA descoberta de sentido no sofrimento, Hi momentos em que agdes de grande habilidade e estratégia se fazem necessérias Em uma gelada noite de inverno, durante um blecaute, num barra- roploto, prisioneiros desesperados pediram que Frankl Ihes falas- @ na escuriddo. Sabia-se que muitos planejavam suicidar-se. (Além da desmoralizagio trazida pelo suicidio, todos no barracio eram pu- nidos quando isso acontecia.) Ele recorreu a toda a sua habilidade de psicélogo para encontrar ax palavras adequadas, e falou, Quando as luzes voltaram, 08 homens 0 cercaram para agradecer, com légrimas nos olhos. Uma PAS havia ganhado seu proprio tipo de batalha. és lideramos a busca da plenitude Nos capitulos 6 e 7 descrevi o processo de individuagao em termos do conhecimento das vozes interiores, Dessa forma voc8 encontra o proprio sentido da vida, sua vocagio. Como escreveu Marsha Sinetar em seu livro Ordinary people as monks and mystics: “O segredo da persona- lidade plena (..) 6 esse: aquele que encontra o que é bom para ele mesmo ‘ea isso se agarra torna-se pleno”. Eu acrescentaria apenas que aquilo a que nos agarramos niio ¢ um objetivo fixo, mas um processo. O que preci- sa ser ouvido muda de dia para dia, de ano para ano, De forma semelhanto, Frankl sempre se recusou a comentar um tinico sentido da vida. Porque o sentido da vida difere de um homem para ou tro, de dia para dia e de hora em hora (...) Entender essa questiio em termos gerais seria como perguntar ao campedio de xadrez: “Diga, mestro, qual 6 a melhor jogada do mun- do?” Simplesmente nao existe nenhuma jogada melhor, nem mesmo boa, isolada de uma situagdo particular do jogo (..) Nao se deve procurar um sentido abstrato para a vida’. Buscar a plenitude 6 como seguir em cfrculos cada vez menores através de sentidos diferentes, diferentes vozes. Nunca se chega apesar de haver uma idéia cada vez mais clara do que esta no centro. Mas se realmente andarmos em circulos haveré pouca chance para a arrogéin- cia, pois estaremos passando por todos os tipos de experiéncia. B a busca da plenitude, nao da perfoigao, ea plenitude deve, por definigiio, abranger o que 6 imperfeito, No capitulo 7 referi-me a tais imperfeigoes como o lado escuro, aquele que contém tudo o que reprimimos, rejeita- ‘mos, negamos ¢ no gostamos em nés. As escrupulosas PAS sio tio cheias de tragos desagradaveis ¢ impulsos pouco éticos quanto qui quer um. Quando preferimos nao obedecd-los, como devemos, eles n se vido completamente, Alguns apenas se escondem nos pordes. A idéia, quando procuramos conhecer nosso lado oscuro, 6 de me Ihor reconhecer nossos aspectos desagradaveis ou pouco éticos @ manté-los sob vigilncia em vez. de langé-los porta afora, “para sem- pre”, para que depois se insinuem pelos fundos quando nao estiver- mos olhando. Geralmente as pessoas mais perigosas e em maior perigo, moralmente falando, sao aquelas que tém certeza de que munca fariio nada errado, que se consideram totalmente virtuosas e nfo tém a me- nor idéia de possuir um lado escuro nem de como ele 6. Oconhecimento do lado escuro garante mais do que maiores chances de comportamento ético — sua onergia traz vitalidade ¢ profundidade 4 personalidade quando integrado de forma consciente. No capitulo 6 falei a respeito das PAS “liberadas”, ndo-conformistas e altamente cria- tivas. Aprender um pouco sobre o lado escuro (nunca sabemos muito nom o suficiente) é a melhor, ¢ talvez tinica, maneira de nos libertar- mos da camisa-de-forga da super-socializagio em que as PAS muitas vezes recaem na infiincia, A PAS atenciosa ¢ ansiosa em agradar que existe em voce conhece © conquista a contribuigao da PAS poderosa, manipuladora, auto-enaltecedora e confiantemente impulsiva. Como lum time em que cada um respeita ¢ controla as inclinagées do outro, ambas — vocé — so algo muito bom para ter no mundo, ‘Tudo isso faz parte da busca da plenitude, ¢ as PAS podem liderar esse importante trabalho humano. A plenitude representa um apelo especial para as PAS porque nasceram no extremo de uma dimensio —a dimensio da sensibilidade. Além disso, em nossa cultura nao apenas somos minoria, mas também considerados longe do ideal. Pode parecer que deveriamos migrar para 0 outro extremo, deixando de hos sentir fracos, inferiores e prejudicados e passando a ser fortes ¢ res. E este livro encorajou um pouco essa mudanga até agora, que era uma compensagiio necesséria. Mas para muitas PAS 0 'safio real 6 alcangar 0 meio. Nao mais “timido demais” nem “sensi- vel demais", nada demais. Apenas normal. A plenitude 6 um assunto central para as PAS também em relagio & vida espiritual e psicolégica porque muitas vezes jé somos bons nisso, Mas se persistirmos nisso excluindo todo o resto estaremos sendo uni- laterais. Para n6s 6 dificil enxergar que a coisa mais espiritual a fazer 6 ser menos espiritual, aatitude psicol6gica mais perspicaz pode ser uma proecupagio menor com as percepdes psicol6gicas. Buscar a plenitu- do, e niio a perfeigilo, talvez soja a tinica forma de compreender essa m. rievalém dossas duas considoragtos geras,o caminho da plenitude ¢ muito pessoal mesmo para as PAS. Se nos mantemos interiorizados, seremos tentados ou forgados a buscar o exterior, Se temos vivido no mundo exterior, teremos de nos interiorizar. Se nos protegemos com armaduras, teremos finalmente de admitir nossa vulnerabilidade. Mas se temos sido timidos comegaremos a nos sentir mal intimamente até conseguir ser mais incisivos. Com respeito as atitudes junguianas de introversio ¢ extroversio, :muitas PAS precisam ser mais extrovertidas para tornar-se mais plenas. Eu ouvi dizer que Martin Buber, que escreveu com tanta elogiiéncia a respeito do relacionamento “eu-tu”, teria dito que sua vida mudou no dia em que um jovem o procurou pedindo ajuda. Buber estava ocupado domais, meditando e sentindo-se santo, para dar ouvidos ao jovem. Pou- co tempo depois, o visitante morreu em uma batalha. A devogdo de Buber aatitude “eu-tu” nasceu no momento em que ficou sabendo da noticia e percebeu a unilateralidade de sua solidao espiritual introvertida. ‘A busca da plenitude pelas quatro funges Ninguém, repito, alcanga a plenitude. A vida incorporada do ser hu- mano tem limites, ndo podemos ser completos, ao mesmo tempo luz e sombra, macho e fémea, conscientes e inconscientes. Acredito que as pessoas podem experimentar relances de plenitude. Muitas tradi- ‘goes descrevem experiéncias de consciéncia pura que ultrapassam 0 pensamento e sua polarizagao. Ela pode ser alcangada através da me- ditagdo, e uma conscientizagao permeada desse sentimento pode ser o fundamento de nossa vida. Mas quando atuamos no mundo imperfeito, usando nosso corpo imperfeito, somos simultaneamente perfeitos ¢ imperfeitos. Como se- res imperfeitos, estamos sempre vivendo apenas uma metade de qual- quer polaridade. Por algum tempo somos introvertidos, e entéo precisa- ‘mos nos tornar extrovertidos para alcangar o equilibrio, Por algum tem+ PO somos fortes, depois precisamos ser fracos ¢ descansar. O mundo nos obriga a ser de uma tinica forma limitada a cada momento. “Voc8 niio pode ser vaqueiro e bombeiro.” Nosso corpo também impée seus limites. Tudo o que podemos fazer 6 tentar voltar sempre ao equilfbrio, Com freqiiéncia a segunda metade da vida equilibra a primeira, Como se tivéssemos ficado cansados e entediados com certa forma de ser e tentassemos 0 oposto. A pessoa timida transforma-se em come- diante, Aquele que se devotava a servir esgota-se e passa a questionar ‘como se tornou tao “co-dependente”, Em geral, qualquer que seja nossa especialidade particular, 6 preci- ‘80 equilibré-la pelo oposto, aquilo em que néo somos bons ou temos medo de tentar, Uma polaridade que os junguianos mencionam séo as dluas formas de assimilar informagao, através dos sentidos (apenas os fatos) ou da intuigio (o significado sutil dos fatos). Outra polaridade sio as duas formas de decidir sobre as informagdes que assimilamos, através do pensamento (com base na Igica ou no que parece ser a ver- dade universal) ou dos sentimentos (com base na experiéncia pessoal ¢ no que parece ser bom para nds e para aqueles que nos importam). Cada um de nés tem sua especialidade entre essas quatro “fun- ‘GGes” — sensagio, intuigao, pensamento ¢ sentimento®. A das PAS geralmente é a intuigao (0 pensamento e os sentimentos também so comuns). No entanto, se vocé for introvertido — como so 70% das PAS —, usaré sua especialidade principalmente na vida interior. Apesar de existirem testes para determinar a especialidade, Jung acreditava que a observagio cuidadosa era melhor para detectar om que fungio somos piores. Essa 6 a fungio que geralmente nos humi- Iha, Voc se sente como um amador quando tenta pensar logicamento? Quando deseja determinar seus sentimentos pessoais em relagio a alguma coisa? Quando precisa intuir o que se passa em um nfvel su- lil? Quando precisa ater-se aos fatos ¢ dotalhes sem claborar, criar nem viajar por reinos imaginérios? Ninguém consegue ser igualmente habilidoso no uso de todas as «quatro fung6es. Mas, de acordo com Marie-Louise von Franz, que es- creveu um longo ensaio sobre o desenvolvimento da “fungao inferior”, 6 trabalho de fortalocimonto dossa parte fraca 6 um caminho particu- Jarmente valioso om directo & plenitude. Ele nos poe em contato com aquilo que esté entorrado no inconsciente, ¢ assim conseguimos maior sintonia com a totalidade. Gomo os irmaos mais novos e tolos dos contos infantis, essa 6 a fungo que traz.o ouro para casa. Se voc® for do tipo intuitivo (mais comum entre as PAS), sua fun- fio inferior pode ser a dos sentidos — ater-se aos fatos, lidar com os detalhes. Os limites dessa fungdo rovelam-se de forma individualiza- da, Eu, por exemplo, me considero bastante arttstica, mas de maneira intuitiva. Tenho facilidade com as palavras, embora tenha idéias de- mais e fale muito. Acho dificil ser artistica de forma mais concreta, limitada — decorar uma sala ou um consult6rio, decidir o que vestir. Gosto de me vestir bem, mas geralmente acabo usando 0 que outras pessoas compraram para mim. Em ambos os casos o verdadeiro pro- blema est no fato de ser avessa a fazer compras. Existem tantas coi- sas que me estimulam e confundem, além de ter de tomar uma deci- io, Tudo isso—o estimulo sensorial, as questdes préticas eas decisbes —goralmente 6 muito dificil para um intuitivo introvertido, Por outro lado, alguns intuitivos sfio excelentes consumidores. Eles conseguem ver as possibilidades que outros ignoram — como certo objeto vai ficar em determinado ambiente. I dificil fazer generaliza- (GBes a respeito das coisas em que os intuitivos sio bons, Mais facil 6 pensar no estilo, Matemética, culindria, leitura de mapas e adminis- tragio de negécios — cada uma dessas coisas pode ser feita intuitiva- mente ou “de acordo com o manual” Von Franz, comenta que os intuitivos sio levados com maior fre- qiiéncia pelas experiéncias sensoriais — musica, comida, élcool ou drogas ¢ sexo", So pessoas que perdem todo o bom senso em relagio a essas coisas, Mas so intuitivas também a esse respeito, enxergando © sentido além da superficie. Na verdade, o problema de tentar entrar em contato com a fungao inferior, nese caso os sentidos, est no fato de que a fungao dominan- to muitas vezes se sobrepde. Von Franz. dé o exemplo de um intuitivo que comoga a trabalhar com argila (uma boa escolha para o desenvol- vimento dos sentidos por ser to concrota), mas se deixa levar pela ‘A RENGINLIDADE A BHU AVG idéia de como seria bom'" se o trabalho com argila fosse ensinado. todas as escolas, como o mundo inteiro seria diferente se todos m: lassem a argila todos os dias e como ali no microcosmo da argila pode ver tao bem 0 universo inteiro, o sentido da vidal Talvez devéssemos trabalhar nossa funcao inferior princip. to na imaginago ou como uma brincadeira muito particular, Mas, acordo com Jung e Von Franz, dedicar tempo a esse trabalho 6 verdadeiro imperativo ético. Grande parte do comportamento col vo irracional que vemos envolve pessoas que projetam suas func inferiores nos outros ow ficam vulnerdveis aos apelos que a midia e Ifderes manipuladores fazem a essa fungao inferior para exploré-l Quando Hitler incentivou o ddio dos alemaes contra os judeus, isso apelando para a fungao inferior do grupo particular para 0 qui falava’*, Quando falava para os intuitivas, aqueles com fungao senso= rial inferior, descrevia os judeus como magnatas das financas e cruéis. manipuladores de mercados. Os intuitivos so em geral pouco priti« 0s ¢ inoficientes para fazer dinheiro (inclusive os intuitivos judous) © podem facilmente sentir-se inferiores © envergonhados por seu fra co senso para nogécios — a um curto passo de sentir-se vitimas de qualquer wm que soja melhor nisso do que eles. Como 6 conveniente culpar alguém pela prépria falha! Para os tipos sentimentais, com o pensamento como fungao inferior, Hitler retratava os jucleus como intelectuais insensiveis. Para o grupo voltado para 0 pensamento, com fungao sentimental inferior, ele dix zia que os judeus estavam buscando de forma egofsta os proprios inter tesses, sem ética racional universal. E, para os tipos sensoriais, coma intuicdo como funcao inferior, os judeus eram acusados de deter co- nhecimentos e poderes intuitivas secretos e mégicos. Quando conseguimos identificar as reagées inferiores da fungao inferior — 0 “complexo de inferioridade”—, somos capazes de por fim a esse tipo de acusagio, Assim, 6 parte de nosso dever moral reco- nhecer exatamente que néio somos inteiros. E as PAS, repito, podem sobrossair nesse tipo de trabalho interior. Aan eo esritero 267 Os sonhos, a imaginagéo ativa e as vozes interiores A busca da plenitude no sentido junguiano encontra também ajuda nos sonhos e na “imaginagao ativa” aliada a esses sonhos, ¢ ambos por sua ‘yez.nos ajudam a dialogar com nossas vozos interiores e nossas partes rejeitadas. Em meu caso os sonhos tém sido mais que meras informa: ‘ges vindas dos inconsciente. Alguns literalmente me salvaram em tem pos de extrema dificuldade. Outros forneceram informagdes que eu, meu ego, simplesmente nao podria ter. Outros ainda predisseram ou coincidiram com certos acontecimentos de maneira inexplicvel. Eu toria de ser uma pessoa muito teimosa e cética para nao aceitar (por mim mesma e por mais ninguém) que alguma coisa me guia. ‘Os naskapis so nativos americanos que vivern em pequenas fa~ inflias espalhadas por toda a regiao do Labrador’. Assim, ndo desen= volveram rituais coletivos. Em lugar disso, acreditam em wm Grande Amigo que entra em cada pessoa que nasce para Ihe dar sonhos titeis, Quanto mais virtuosa a pessoa (e a virlude engloba o respeito pelos sonhos), maior ajuda receberé do Amigo. Quando perguntam qual 6 minha religido, creio que algumas vezes deveria responder: “ naskapi”, Anjos e milagres, guias espirituais e sincronismo ‘Até aqui discuti a espiritualidade das PAS em relagao a lideranga es- pecial na busca humana do espago ritual, a compreensio religiosa, a0 sentido existencial ea plenitude. Alguns de voces podem estar imagi- nando quando irei falar a respeito de suas experiéncias espirituais mais significativas — visdes, vozes, milagres ¢ relacionamento pessoal intimo com Deus, anjos, santos ou guias espirituais. As PAS tém essas experiéncias em abundancia. Parecemos ser espe- cialmente receptivos a elas. E essa receptividade parece crescer em cer tos momentos da vida — quando fazemos psicoterapia profunda, por exemplo. Jung c! \s experiéncias de sincronismos, posstveis por um “princfpio de relagiio nao causal", Ele defendia o fato de que, além das relagdes que conhecemo’ (0 objeto A exerce forga sobre 0 objeto B), alguma forga (ainda) no mensurdvel também faz, relagdes amava essa entre as coisas. Elas podem, portanto, influenciar umas ds outras tancia. Podem estar préximas, mas de outra forma, nao fisica. Quando objetos, situacées ou pessoas estéo ligados virtualm« porque se harmonizam, isso implica uma organizagio invisivel — guma inteligéncia, plano ou talvez uma ocasional intervengao di compassiva. Quando meus clientes relatam um acontecimento assi tento gontilmente indicar que algo muito significativo aconteceu (ay sar de deixar que a pessoa decida o seu sentido). Aconsolho taml que registrem tais fatos para dar corpo a um acorvo de evidéncias merecom atengiio menos ortodoxa. Sem isso, tais fatos serdo sot ddos pelas coisas mundanas, ridicularizados polo ceticismo interior abandonados & orfandade por falta do “explicagdes lgicas”, Esses so, repito, momentos essenciais que as PAS estdo especi mente aparelhadas para desfrutar e dominar. Nos processos de luto ¢ de cura, que podem ser um amplo aspecto da vida conscientizada, eles apon« tam o que esté além do sofrimento pessoal ou o sentido que isso carrega, lum sentido que algumas vezes perdemos a esperanga de encontrar. ASSUMA A TAREFA DE PREPARAR O TERRENO ANiMICO-ESPIRITUAL Convido vocé a manter, por apenas um més, um diério espiritual, um testemunho de todos os pensamentos e experiéncias relacionados ao ter- ‘eno imaterial. Registre, todos os dias, intuigdes, humores, sonhos, pre= 08 ¢ todos os pequenos milagres e “estranhas coincidéncias”. Nao pre- isa ser nada elaborado nem elogiente. Deve apenas tomnd-lo uma testemunha do sagrado — parte de uma longa tradigdo de escritores de diérios que abrange Vietor Frankl, Ety Hillesum, Rilke, Buber, Jung, Von Franz e tantas outras PAS, seus semelhantes, ss Niwa vo srinto 0s visitantes de Deborah ‘Uma série de sincronismos comegou para Deborah com uma tem pestade de neve, rara nas montanhas de Santa Cruz. Durante nossa entrevista ela recordou que na época estava “deprimida, morta, presa ‘um casamento ruim". Por causa da neve, seu marido nfo conseguitt voltar para casa, A noite, pela primeira vez desde 0 casamento, Em lugar disso, um estranho bateu a porta pedindo abrigo. Por alguma’ razao ela nfo hesitou em deixar que entrasse, ¢ eles se sentaram em frente ao fogo conversando sobre assuntos esotéricos até tarde. Bla escreveu 0 que aconteceu depois: Ouvi um silvo muito alio e senti wm grande vazio na ca- bega, entéo soube que ole estava fazendo alguma coisa co- ‘igo, mas ndo senti medo nenhum. Depois de um perfodo indeterminado de tempo (provavelmente alguns segundos ou minutos), tudo voltou ao lugar em minha mente, eo zum- bido parou. Bla no comentou nada com o estranho. Mais tarde um vizinho veio e convidou o homem para passar a noite em sua casa, O estranho aparentemente partiu no meio da noite — nfo havia sinal dele ao amanhecer. ‘Mas, depois que a tempestade passou e as estradas fo- ram abertas, rompi 0 casamento e tomei o longo caminho, tolalmente diferente, em que estou agora. Minha terrivel de- pressdo terminou naquela noite e minha antiga energia eo bom-astral voltaram. Por isso sempre acreditei que ele devia ser um anjo. Dois anos depois ela recebeu a visita de uma eriatura ainda mais peculiar. Uma noite meu gato miou e pulou das minhas pernas para a porta, ¢ eu abri os olhos alarmada, instantaneamente desperta. Ali aos pés da cama estava uma “crialura” de cer a de um metro e vinte, sem cabelos, vestida com uina espé- cie de segunda pele e de feicées minimalistas: fondas em lugar dos olhos, buracos em vez de nariz, nenhuma orelha. A sua volta havia uma estranha luz feita de cores que eu nao reconheci. Eu no senti nenhum medo. Ble transmitiu-me o ensamento: “Néo tenha medo. Estou aqui apenas para observé-la”. E eu respondi: “Bem, néo sei se sou capaz de lidar com isso, entdo vou voltar a dormir”. E, surpreenden- temente, foi o que fiz. Pela manha Deborah ainda se sentia perturbada e nao comentou a experiéncia com ninguém. Mas depois disso sua vida sofreu uma pro- funda guinada espiritual ¢ “uma série de eventos misteriosos © mara~ vilhosos passou a ocorrer, s6 parando depois de varios anos”. Parte dessa fase mais mfstica levou ao envolvimento com um pro- fessor espiritual carismético mas instével — um dos que descrevi no capftulo 8 que, tendo evolufdo de forma irregular, brilhava muito “no andar de cima”, mas era sombrio “no térreo", onde os aspectos prati- cos ¢ espirituais devem cooperar nas decisées éticas da vida real. Per- cobendo claramente o poder dele, e apenas vagamente as fraquezas que tinha ¢ o perigo em que ela mesma se encontrava, Deborah rezou pedindo para ser guiada: “Se realmente existem anjos da guarda e eu tiver um, por favor, faga-me saber que esta por perto”. B foi para o trabalho, em um livraria. Ao cruzar a porta de entrada da loja ela vin no chao um livro que havia cafdo de uma das mesas. Quando pegou o livro sentiu o impulso de abri-lo e o que viu foi um Poema chamado “O anjo da guarda”, que comegava assim: “Sim, vocé tem um anjo da guarda, ele..." Ainda assim ela continuow a seguir o lider espiritual durante bom tempo, mesmo quando ele pediu quo todos os seguidores Ihe dessem tudo o que possufam, Depois disso, sentiu muitas vezes que queria partir, mas nao tinha forgas nem vontade de comegar tudo de novo financeiramente. Mas o anjo da guarda pareceu lembrar-se dela. Um dia, estando sozinha, resmungou para si mesma: “Nem um rédio-re- logio eu tenho mais!” No dia seguinte, enquanto 0 grupo fazia um ‘passeio no carro quo um dia fora seu, ela observou um besouro subin- do uma colina, Pensou tristemente como aquele inseto era mais livre que ela, Mas, em soguida, quanto mais olhava mais percebia que po- deria ser igualmente livre e seguiu o besouro. Depois 0 deixou para tris e foi para seu carro, pois tinham Ihe pedido que dirigisse naquele dia, assim ela estava com as chaves. ‘Quando entrou no carro para “ir embora em liberdade”, deu uma olhada no banco de trés ¢ vin um rédio-reldgio do tipo “besouro ne- gro”, exatamente igual ao que doara ao grupo. Quando chegou a casa de uma amiga, perceben que era seu préprio velho relégio, com os arranhdes que conhecia. Ela nao conseguia imaginar como ele tinha ido parar dentro do carro, Parecia que aquilo, como todo aquele dia, fora obra de sou anjo da guarda, l £ facil pensar que vocé jamais se envolveria em uma situagio como a de Deborah, mas isso acontece com freqiiéncia, especialmente com pessoas de forte motivacao espiritual. Nés procuramos respostas, cer tezas. E alguns possuem esse tipo de certeza, sabem irradié-la ¢ acre- ditam que sua missio é partilhé-la, Eles tém carisma, um ar inegével em redor. O problema ¢ que todos os seres humanos sao falfveis, mais ainda quando os outros acreditam que nao sao. Deborah sentiu-se tontada a voltar para esse homem mais de uma vez. Uma amiga avisou que seria “louca” se fizesse isso. E Deborah rezou pedindo luz. “Se eu estiver pensando de maneira louca, faga me saber.” E ligou a televisao. Apareceu na tela uma cena muda — absolutamente ne- nhum som — de um filme antigo, o tipo de filme dos anos 1950, de um “asilo de loucos” cheio de pacientes obviamen- te pirados! Bu ri alto. Entdo me deitei, pedi ajuda e adorme- ci. Quando acordei, “vi” ou senti que estava cercada por um circulo de rosas, cada uma delas protegia uma parte dife- rente de mim, e senti a presenga de Cristo. Foi a mais tran- qiiila felicidade... ‘Na 6poca em que entrevistei Deborah suas experiéncias espirituais vinham acontecendo cada voz mais em sonhos — talvez uma indica- glo de que seus visitantes encontraram uma forma do entrar em con- {ato com ela sem ter de projetar-se como pessoas. Minha experiéncia com sonhos indica que, quanto mais trabalhamos com eles, menor é a possibilidade de nos encontrarmos om situagées bizarras, seja em so- nos, seja na vida Quando sua vida espiritual varia como as marés ‘Tenho falado algumas vezes a respeito da vida anfmico-espiritual como um consolo, acredito que o seja. Mas ela pode ser também extrema- mente perturbadora pelo menos até aprendermos a p6r os pés no chao, Por assim dizor. Nao é fécil quando as ondas crescem sobre nés. E as PAS costumam estar no caminho das maiores ondas, talvez. porque silo dificeis de convencer. Lembra-se de Jonas? Terminarei este capi- tulo eo livro com a historia de uma PAS muito parecida com ele. Na época desse incidente, Harper, uma PAS altamente inte- Jectualizada (sua fungio dominante era o pensamento), vivia cronica- mente hiperexcitado. Ele havia passado por quatro anos de psicoterapia junguiana e realmente sabia como falar a lingua: “Sim, Deus bastante real, pois tudo o que é psicolégico 6 real. Deus 6 nossa projecaio psico- 6gica reconfortante do ‘pai imaginério”. Harper tinha todas as respos- tas, ainda que com a pitada corta de duivida. Durante o dia, Anoito ele acordava freqtientemente em depressao profunda, pron- to para suicidar-se. J4 nao havia incertezas. A luz do dia ele descon- siderava as noites como “nada além do produto de um complexo ma- ternal negativo” que resultara de uma infincia dolorosa e portanto “niio era uma ameaga real”. Mas entdo vinha outra “daquelas noites trazendo tanto desespero que sua légica e intuigio s6 eram capazes de imaginar a morte como solugao. Alguma coisa dentro dele tentava adiar a execugao da solugdo imaginada até que chegasse a luz do dia, quando a pior parte do desespero sempre o deixava. Uma noite, porém, acordou em tal desespero que teve a certeza de ndo conseguir resistir até a madrugada, Deitado ali, teve o pensamen- to muito espontaneo de que a tinica forma de continuar vivendo seria ter a certeza de que Deus realmente existia e se importava com ele. Nilo como uma projegiio, mas como alguém real. O que, naturalmen- te, era impossivol. Era impossivel acreditar porque era impossivel ter corteza. ‘ (O que ele desojava era algum “sinal divino”. O pensamento surgiu to espontaneamente quanto o grito de uma pessoa que se afoga. Ele sabia que era uma estupidez. Mas bem diante de seus olhos, ele me disse, surgiu a imagem totalmente espontanea de um acidente de car- ro, um acidente pequeno com algumas pessoas paradas em volta, sem ferimentos. Esse era o sinal, e aconteceria no dia seguinte. Harper ficou imediatamente desgostoso consigo mesmo por dese- jar de forma tio piegas um sinal de Deus e ter uma idéia caracteristi- camente negativa do que viria. Sendo uma PAS, ele tinha aversio a situagdes como um acidente, que hiperexcitavam seu corpo e interfe- riam com a rotina, Depois, semi-adormecido e perdido em rumina- des sombrias, ele esqueceu aquilo. No dia seguinte o carro que estava na sua frente na rampa de aces- so a autopista freou subitamente, e ele também. O carro que vinha atras seguia-o muito de perto e bateu na traseira, Foi um acidente sobre 0 qual néo teve nenhuma possibilidade de controle “Mas houve aquela stibita inundagao de sentimento intenso. Nao foi o acidente. Eu me lembrei da noite anterior.” Ficou maravilhado e cheio de medo, como se estivesse “olhando diretamente para 0 rosto de Deus”. Oacidente foi sem importancia, ninguém se feriu, e apenas 0 esca- pamento eo silenciador teriam de ser trocados. Ele, 0 outro motorista © 08 passageiros ficaram parados em volta dos carros, recuperando-se @ trocando informagdes a respeito das empresas de seguros, exa mente como na imagem da noite anterior, Cético como era, Harper nao acreditava que desejos conscientes ou inconscientes pudessem: ter causado aquilo. Ali estava algo que pertencia a uma categoria to- talmente nova de experiéncias. Um novo mundo. Mas desejaria ele um mundo novo? Sendo uma PAS, nao tinha certeza. Por uma semana ficou mais deprimido do que nunca. Durante 0 dia, porém, e nao a noite. A noite ele dormia bem. Até perceber que inconscientemente estava pensando que teria de fizor algo por Deus om troca, Talvez abandonar a carreira e ficar nas esquinas progando sua 6, B viu que sempre pensara em Deus como alguém que espera que voce se humilhe em nome Dele, que pague um alto prego por qualquer consolo recebido, que mude toda a sua vida imediatamente. Percebeu também que coergio e culpa no pareciam ser a intengio de quem quer que tivesse feito aquilo. ‘Tendo vindo, como viera, em resposta a sua nogra noite de desespero, o incidente parecia ser uma espécie de con- solo. E Harper comegou a encarar assim o que acontecera. Um conforto, Entao percebeu que, para ser coerente com sua nova experiéncia, teria de deixar de ser téo desesperado e cético. Isso poderia ser muito dificil. Uma responsabilidade acompanhava, afinal, aquela experiéncia. Nesse ponto, totalmente confuso, tentou discutir 0 incidente com algumas pessoas, e uma delas ficou tao perturbada quanto ele. Mas os dois amigos que ele mais respeitava disseram-Ihe que fora apenas uma coincidencia, “Aquilo me enfureceu. Pelo amor de Deus! Quero dizer, Deus me faz um favor e supSe-se que eu responda: ‘Foi legal, mas na préxima vex quero um sinal que néo tenha nenhuma possibilidade de ser ape- nas coincidéncia’? Ele estava convencido de que encarar 0 acidente como coincidén- cia era profundamente errado. E decidiu que teria de crescer no ambi- to daquela experiéncia mesmo que levasse toda a vida, Teria de lom- brar-se. Ponderar. Valorizar ao maximo. E maravilhar-se porque ele, que tio pouco consolo recebera durante toda a vida, repentinamente fora brindado com um sinal definitivo de amor maior do que a maio- ria dos santos jamais recebera. “Que coisa para acontecer a um sujeito como eu”, concluiu, rindo de si mesmo. E, leombrando o interesse de minha pesquisa, comple- tou: “Que divina confustio para um sujeito sensfvel como eu”, Nosso valor e nossa parceria Os reis guerreiros nos dizem froqiientemente que ter {6 na realidade do reino an{mico-espiritual é sinal de fraqueza, Eles temem qualquer coisa que enfraquoga sua coragem @ seu poder fisico, portanto s6 po- dem ver essas coisas como fraqueza dos outros. Mas nés possuimos um tipo diferente de poder, talento e coragem. Chamar nosso talento para a vida animico-espiritual de fraquoza ou de qualquer coisa nas- cida do modo ou da necessidade de ser consolados é como dizer que 0 peixe nada por ser muito fraco para andar, que tem uma lamentavel necessidade de viver na égua porque 6 medroso demais para voar. Talvez devamos simplesmente inverter 0 jogo: os reis guerreiros tom medo da vida animico-espiritual, sfo fracos demais para ela e nao so capazes de sobreviver sem o conforto da propria visio da realidade. Mas niio temos necessidade de lancar insultos se sabemos nosso valor. Sempre chega o dia em que os reis guerreiros ficam felizes por- que temos vida interior suficiente para partilhar com eles, assim como ha dias em que nos sentimos felizes pela especialidade deles. Um brinde a nossa parceria. Que a sensibilidade soja uma béngio para voce e para os outros. Que vocé desfrute toda a paz e prazer possiveis neste mundo. E que cada vez mais novos mundos possam se abrir para vocé com o passar dos dias. TRABALHE COM 0 QUE APRENDEU Pelee com sua funcao inferior Escolha para fazer algo que exija o emprego de sua fungao inferior — de preferéncia nunca experimontado antes ¢ que nao parega diffcil. Se vocé for do tipo sentimental pode ler um livro de filosofia, fazer um curso de Matematica teérica ou de Fisica, desde que adequado ao seu nivel. Se for do tipo voltado para o pensamento, pode ir a um museu de arte ¢ forcar-se a pelo menos uma vez ignorar o nome da obra e do artista, arriscando apenas uma reacao pessoal perante cada obra, Caso seja do tipo sensorial, pode tentar basoar-se na aparéncia das pessoas que observa nas ruas para imaginar a experiéncia interior, @histéria ¢ o futuro de cada uma. Sendo do tipo intuitivo, pode pla- nojaras férias colecionando informagGes detalhadas sobre o lugar para ‘onde vai e decidindo antecipadamente tudo o que vai levar ¢ fazer, Caso isso soja muito fécil para vocd, compre um equipamento eletro- nico novo — um computador ou um videocassete —, siga 0 manual de instrugdes para instal4-lo e explore todas as operagées. Nao vale chamar ninguém para ajudar, Enquanto se prepara gradualmente para a atividade, observe seus sentimentos, suas resisténcias, as imagens que emergem. Nao impor- ta quanto se sinta burro e humilhado por “essas coisas simples que eu nilo sou capaz de fazer". Leve sua tarefa a sério. De acordo com Von Franz, isso é equivalente a uma disciplina mondstica, mas personali- zada. Voce estaré sacrificando a funcao dominante ¢ trilhando esse outro caminho, mais dificil Fique especialmente alerta a tentagao de deixar a fungao domi- nante assumir 0 comando. Se for do tipo intuitivo, uma vez decidido o local das férias, mantenha-se firme, Nao deixe que sua decisao frégil mas concreta seja ameagada por sua tendéncia a imaginar todas as outras viagens que poderia fazer. Quanto aos aparelhos eletronicos, fique alerta a tentagao de ignorar 0 manual de instrugées ¢ comecar a fazer com os botées e fios aquilo que parece “ébvio". Essa seria a in- tuigo, mas vocé deve ir devagar e compreender cada detalhe antes de passar para a préxima etapa. Dicas para profissionais de satide que trabalham com pessoas altamente sensiveis ‘As PAS intensificam os estimulos, isto 6, assimilam as sutilezas. Mas experimentam também maior perturbagio em situagdes que outros consideram moderadamente excitantes. Podem portanto, em um contexto médico, parecer mais ansiosas ou mesmo “neurdtica Apressar essas pessoas ou mostrar impaciéncia s6 exacerbaré sua oxcitagao psicoldgica, e naturalmente 0 aumento da tensio nao as ajudaré a comunicar-se bem nem a sarar. As PAS geralmente so muito escrupulosas ¢ cooperam sempre que podem. Pergunte as PAS de que precisam para ficar calmas — siléncio, uma distragio, como uma conversa, ser informadas do que esté acontecendo passo a passo ou alguma medicagao. Use a grande intuigdo e consciéncia corporal das PAS —seu pacien- te pode ter informagdes importantes. Ninguém ouve nem se comunica bem quando esté agitado, Enco- raje as PAS a trazer companhia que as ajude, a se preparar para a consulta anotando as perguntas ¢ os sintomas, a escrever as instru- ‘ses recebidas ¢ ler para voc® no final da consulta, a tolefonar caso Jombrom mais tarde outros pontos, (Poucas dessas pessoas abus lo disso, ¢ essa “sogunda chance” vai diminuir a tensio das pro- ximas consultas.) Nao se surpreenda nem se aborreca pelo fato de as PAS terom baixo Patamar de tolerdncia a dor, melhor resposta a doses “subclinicas” de medicagao ou apresentarem mais efeitos colaterais, Isso faz parte de suas diforencas fisiolégicas, e nio psicolégicas. ij ts Caracteristica ndo precisa necessariamente ser medicada, As °AS quo tiveram infiincia problemstica realmente sofrem maior ansiedade ¢ depressio, mas o mesmo ndo se aplica as PAS que jé tabalharam essa questo ou tiveram uma boa infancia. Dicas para professores de alunos altamente sensiveis Ensinar PAS requer estratégias diferentes das usadas para ensinar outros alunos. As PAS amplificam a estimulacao, 0 que significa que captam as sutilezas de uma situagao de aprendizado, mas 6 facil hiperexcité-las psicologicamente. As PAS sio geralmente escrupulosas ¢ fazem 0 melhor que po- dem. Muitas so especialmente dotadas. Mas ninguém se desem- penha bem quando hiperexcitado, ¢ as PAS sao mais excitaveis que os demais, Quando esto sendo observadas ou sob qualquer tipo de pressio, quanto mais se esforgam maiores so as probabili- dades de falhar, o que pode ser bastante desmoralizante para elas. Os alunos PAS ficam perturbados ¢ cansados com niveis altos de estimulacao (por exemplo, uma sala barulhenta) em menos tempo que os demais, Enquanto alguns se retraem, um mimero significa- tivo, especialmente entre os meninos, se mostra hiperativo. Nao superproteja o estudante sensfvel, mas quando insistir para que tente coisas diffceis certifique-se de que a experiéncia seja bem-sucedida. ‘aga concessées enquanto o aluno estiver conquistando sou espa- Go social. No caso de uma apresentagio, procure garantir um en- saio ou que possa consultar anotagdes ou ler em vox alta — algo que baixe a ansiedade e permita que a experiéncia tenha éxito, Nao pressuponha que um aluno que apenas observa seja timido ou esteja com medo. Essa pode ser a explicagio errada, mas ainda assim pode se transformar em rotulo. Procure conscientizar-se da conotagao cultural que vocé dé para a timidez, a introversiio, o siléncio ¢ comportamentos semelhantes, Esteja alerta a isso em suas proprias atitudes e nas dos outros alunos, Ensine o respeito as diferencas de temperamento tanto quanto as outras diferencas. Estoja alerta e encoraje a criatividade e a intuigdo tipicas das PAS. Para aumentar sua toleriincia as atividades de grupo e sua posigao social perante os colegas, experimente realizar atividades de dramatizacao ou de leitura dramética de textos que os sensibili- zem ou leia seus textos para a classe. Tenha cuidado para nao os embaragar. Dicas para empregadores de pessoas altamente sensiveis ‘As PAS sii tipicamente muito escrupulosas, leais, vigilantes em relagio & qualidade, boas com os detalhes, de visdo intuitiva geralmente tém intelig6ncia privilegiada. Sao atenciosas em rela- ‘Gao as necessidades dos clientes ¢ exercem boa influéncia sobre 0 lima social do local de trabalho. Em resumo, sao os funciondrios ideais. Toda organizagao precisa de algumas PAS. ‘As PAS intensificam os estimulos. Isso significa que assimilam as sutilezas, mas também ficam facilmente hiperexcitadas. Portanto, trabalham melhor com menor quantidade de estimulos exteriores. Devem poder contar com siléncio e tranqitilidade. ‘As PAS nao apresentam bom desempenho quando sio observadas ‘com 0 propésito de avaliagao. Procure outras formas de avaliar seu desempenho. ‘As PAS geralmente so menos sociéveis durante os intervalos ou ap6s 0 trabalho, pois necessitam desse tempo para digerir em par- ticular as experiéncias do dia. Isso pode torné-las menos visiveis ou nao to bem relacionadas dentro da equipe e deve ser levado em conta na avaliago de seu desempenho. As PAS nfo costumam apreciar a autopromogiio agressiva e espe- ram ser notadas por sua honesta dedicagio ao trabalho. Nao per- ita que isso o leve a ignorar um funcionario valioso, Uma PAS podo ser a primeira a se perturbar por uma situagiio poue co saudavel no local de trabalho, ¢ isso talvez a faga vista como fonte de problemas, Os demais, porém, também serao afetados com o decorrer do tempo, ¢ a sensibilidade da PAS pode portanto ajudé- Jo a evitar problemas futuros, Notas bibliograficas Capitulo 1 1 Srmmtav, J. “The concepts of arousal and arousability as used in temperament studies”. In: Temperament: individual differences. Ed. J. Bates eT. Wachs (Washington, D.C.: Associagao Americana do Psicologia, 1994), 117-41. Prom, R. Development, genetics and psychology (Hillsdale, NJ: Erlbaum, 1986). Epwunp, G.; ScHALUNG, D. ; Rissusx, A. “Interaction effects of oxtraversion and neuroticism on direct thresholds”. Biological Psychology 9 (1979), Sruimack, R. “Biological bases of extraversion: psychophysiological evidence”. Journal of Personality 58 (1990), 293-811. Quando nao houver referencias, o ponto apresentado seré oriundo do minhas proprias descobertas. Quando me referir a estudos so- bro introversio ou timidez, estarei presumindo que os sujeitos se- jam em maioria PAS. Koruzca, H. “Extraversion and vigilance performance: thirty years of inconsistencies”. Psychological Bulletin 112 (1992), 239-58, Para quem tem um filho que chora por qualquer coisa. Para quem que se sente ameacado por pessoas intensas. Para quem sente timidez na frente da pessoa que ama. Para quem se sente sensivel demais. Para professores e terapeutas que tém de ajudar pessoas USER Cal. Este livro apresenta algumas opcées para vocé usar a a) sensibilidade. O mundo esta sendo destruido por pessoas - robotizadas. O mundo quer pessoas com afeto e sensibili- dade para ser felizes e criarem felicidade para todos. Ho- mens sensiveis sao valorizados pelas mulheres. Mulheres sensiveis sao valorizadas pelo mercado de trabalho. Pais — re Cue a emul cu loatele ule [ol As pessoas sensiveis estao em boa companhia, pois um quinto da populacao nasce com sensibilidade exacerbada, e muitos dos grandes artistas e pensadores da Historia eram pessoas altamente sensiveis (PASs). Aqui esta o pri- meiro livro para ajuda-lo a identificar essa caracteristica e mostrar como tirar vantagem dela. A doutora Elaine N. Aron Diem enode MM Uc Ue MMe ul Cee recedora. Uma viagem direcionada por nosso interior.