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Polícia Civil tentou comprar


confissão de miliciano em caso
Marielle, diz Dodge
D.H., G.A.
6-9 minutes

Um documento obtido nesta quarta-feira pelo EL PAÍS detalha


acusações de falhas e fraudes feitas pela ex-procuradora-
geral da República Raquel Dodge contra as investigações do
caso Marielle desenvolvidas pela Polícia Civil do Rio. As
acusações foram feitas no pedido de federalização do caso,
protocolado por ela no Superior Tribunal de Justiça no último
dia em que ocupou o cargo, em setembro, e que está sob
sigilo. O Tribunal ainda não decidiu sobre o caso e,
questionada, a atual Procuradoria Geral, comanda por
Augusto Aras, não respondeu se manterá o pedido de
federalização, dizendo não adiantar "posicionamentos em
temas que podem vir a ser objeto de manifestação de seus
membros."

Mesmo poupando o Ministério Público Estadual do Rio das


críticas de falhas e fraudes, Dodge colocou mais peso nas
diferenças entre policiais civis, promotores, policiais federais e

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Ministério Público Federal sobre as linhas de investigação dos


possíveis mandantes do crime, que seguem desconhecidos
após mais de um ano e meio de investigações, com
mudanças de comando e sobressaltos e divergências de
versões.

O último capítulo foi a iniciativa de policiais civis e promotores


de verificar se havia o envolvimento do presidente Jair
Bolsonaro com os supostos assassinos, porque um porteiro
do condomínio afirmou em depoimento que no dia do crime
um dos envolvidos, o ex-policial Elcio Queiroz , tinha pedido e
obtido autorização do presidente para entrar no seu
condomínio, num desdobramento revelado pelo Jornal
Nacional na terça-feira. O próprio Ministério Público do Rio,
no entanto, disse, nesta quarta, que as declarações do
funcionários se contradizem com as gravações em poder das
autoridades, ainda que restem dúvidas a respeito.

MAIS INFORMAÇÕES

O imbróglio sobre o depoimento do porteiro — e o vazamento


dele à imprensa— não são exatamente uma novidade em
uma investigação marcada por idas e vindas, onde já foram
suspeitos um vereador, um miliciano encarcerado no período
do assassinato. Do “perdão judicial” para milicianos em troca
de confissões mentirosas ao delegado que teria orientado
falsa testemunha, estes seriam sintomas de um quadro de
“contaminação” quase generalizada do aparato policial, diz

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Dodge no documento.

Com base nesta situação de descalabro, ela solicitou a


federalização de parte do caso do assassinato da vereadora e
de seu motorista Anderson Gomes. Para a ex-PGR há no Rio
uma “relação de promiscuidade” entre as forças de segurança
e os milicianos que impede que se chegue aos mandantes do
crime. “Tal contaminação, além de gerar óbvia ineficiência (...)
indica que existirão com absoluta certeza atividades
deletérias [prejudiciais] feitas por criminosos infiltrados na
Polícia”, escreveu.

O objetivo dos criminosos seria atrasar a investigação e


prejudicar a coleta de provas. “Houve falha e insuficiência do
serviço de investigação, e mantém-se ambiente
comprometido e desfavorável à apuração isenta dos fatos
relativos aos mandantes”, afirma Dodge. Essas supostas
irregularidades cometidas pelos policiais fluminenses ao longo
das investigações do caso vieram à tona após a Polícia
Federal, a pedido da PGR, instaurar inquérito para apurar
eventuais obstruções e fraudes no processo.

Boa parte desse material serviu para embasar o pedido de


federalização feito por Dodge, que caso aceito pelo Superior
Tribunal de Justiça se limitará a apurar quem são os
mandantes: ela denunciou Domingos Brazão, conselheiro
afastado do Tribunal de Contas do Rio de Janeiro e ex-líder
do PMDB na Assembleia Legislativa do Rio, por obstrução
das investigações e pediu que ele seja investigado como

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“arquiteto intelectual” dos assassinatos. No entanto, nesta


quarta-feira a promotora Letícia Emily, responsável pelo caso
Marielle no Ministério Público do Rio, afirmou que “não há
nenhuma prova concreta” da participação de Brazão no crime.

Guerra de versões à parte, Dodge traça um cenário sombrio


da situação do Rio de Janeiro. Segundo ela, a investigação
da PF é “uma das provas mais contundentes de tal
contaminação [das polícias estaduais]”. Neste documento
constam “diversas menções ao Escritório do Crime [grupo
suspeito de ter assassinado Marielle e Anderson], às milícias
espalhadas na cidade, seus homicídios mediante pagamento,
participação de policiais ou ex-policiais, em um cenário de
plena impunidade”. Mais adiante Dodge afirma que “nem a
intervenção federal no Estado do Rio em 2018 conseguiu
reverter” este problema.

Em um dos trechos mais emblemáticos do documento, a


então PGR afirma que o delegado Giniton Lages, primeiro
responsável pelas investigações que apontou Lessa e Elcio
como executores, tentou pressionar o miliciano Orlando
Oliveira de Araújo, o Orlando Curicica, preso em Bangu I,
para que este assumisse ter sido contratado pelo vereador
Marcelo Siciliano para matar Marielle. O miliciano teria se
recusado. O delegado então teria feito uma contraproposta:
se Araújo assumisse apenas ter sido sondado pelo
parlamentar para cometer o crime, ele receberia “perdão
judicial” e ainda teria dito que em outro processo no qual

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Curicica era acusado de homicídio ele seria “possivelmente


impronunciado”, isto é, não iria a júri.

Segundo o miliciano, Lages teria dito que foi ao presídio


“sonhando com sua confissão”. Em maio de 2018 foi ventilada
na imprensa a possibilidade de que Araújo firmasse acordo de
delação premiada. A proposta do delegado para que o
miliciano mentisse para incriminar o vereador Siciliano, no
entanto, veio à tona apenas em depoimentos feitos à PF.

Dodge também critica o agente da Delegacia de Homicídios


que chefiava as investigações da especializada, porque ele
“teria, inclusive, orientado Rodrigo Ferreira, que nitidamente
mentiu e atrasou a apuração dos citados homicídios” e
“corrigiu detalhes” do falso depoimento que ele prestou.

Os vazamentos de informação, tão comuns em investigações


como a Operação Lava Jato, também são criticados por
Dodge, e vistos como entraves às investigações do caso
Marielle. “A apuração da Polícia Federal atestou a quebra de
sigilo das investigações da Polícia Civil, com vazamentos à
imprensa de informações cruciais para a busca da verdade
sobre os assassinatos”, escreveu a PGR.

Adere a

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