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A Periodização do Desenvolvimento na Teoria Vigotskyana:

Infância e Adolescência

Adriana Moreira da Rocha Veiga

1 Desenvolvimento psicológico individual: perspectiva interacionista.

Ao seguirem a linha investigativa iniciada por Vigotsky, Leontiev e Elkonin desenvolveram as


bases de uma psicologia do desenvolvimento que superasse o enfoque maturacionista, tão forte
nesse campo de estudo. Buscaram, a exemplo do precursor, uma visão multidimensional e dialética,
coerente com o enfoque interacionista.

Figura 1. Visão multidimensional e dialética do desenvolvimento humano.

Desenvolvimento Desenvolvimento Desenvolvimento Desenvolvimento


físico/motor: socioemocional: cognitivo: espiritual

Agir no mundo. Sentir a si, ao Consciência de si e Consciência


outro e ao mundo. do mundo. transcendente

Fonte: autora (2019).

O desenvolvimento age em todas as dimensões, do físico-motor ao cognitivo, em que a


criança vai tomando consciência de si e do mundo.

Quanto aos conceitos aqui propostos, com base na perspectiva sociohistórica (sociocultural
ou ainda sociointeracionista), devem ser levados em consideração os seguintes pressupostos:

a) Cada período do desenvolvimento individual humano é caracterizado por uma atividade


principal, ou atividade dominante, a partir da qual se estruturam as relações do indivíduo
com a realidade social;

b) Os períodos no desenvolvimento dos indivíduos respondem às condições sociais da antiga


URSS (1922-1991), o que não invalida estudos em outras culturas, considerando-se as
devidas proporções.
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Cada estágio de desenvolvimento da pessoa é caracterizado em uma relação determinada


por uma atividade principal ou atividade diretora, desempenhando esta a função dominante como
forma de relacionamento do indivíduo com o ambiente.

A criança, por meio dessas atividades principais, relaciona-se com o mundo, e, em cada
estágio, formam-se nela necessidades específicas em termos psíquicos. O desenvolvimento da
atividade principal, ou diretora, condiciona as mudanças mais importantes nos processos psíquicos
na criança e nas particularidades psicológicas da sua personalidade.

É a sociedade que determina o conteúdo e a motivação na vida da criança, pois todas as


atividades dominantes aparecem como elementos da cultura humana.

Importante levar em conta que as atividades são dominantes em determinados períodos e,


no período seguinte, não deixam de existir, mas vão perdendo sua força, aspecto típico na
perspectiva dialética do desenvolvimento.

Após os períodos em que têm lugar o desenvolvimento preponderante afetivo, cognitivo e


biológico, seguem períodos com preponderância de formação de possibilidades operacionais
técnicas.

De acordo com as características dos seus objetos e dos conteúdos, as atividades, segundo
Elkonin (1987, p. 121), podem ser divididas em dois grupos:

1º. Primeiro grupo - atividades desenvolvidas no sistema criança-adulto social, as quais têm
orientação predominante na atividade humana e na assimilação de objetivos, motivos e
normas das relações entre as pessoas;

2º. Segundo grupo - as atividades desenvolvidas no sistema criança-objeto social, ocorrendo


a assimilação de procedimentos de ação com os objetos.

Os tipos de atividade principal/diretiva com relação aos grupos, de acordo com a sequência
da mesma, apresentam a seguinte série:

a) Primeira infância: comunicação emocional direta (1º grupo) e atividade objetal


manipulatória (2º grupo);

b) Segunda infância: jogo protagonizado ou de papéis (1º grupo) e atividade de estudo (2 o


grupo); e

c) Adolescência: comunicação íntima pessoal (1º grupo) e atividade profissional de estudo


(2o grupo).

Cada época consiste em dois períodos regularmente ligados entre si (1º grupo e 2º grupo).
Tem início com o período (1º grupo) em que predomina a assimilação dos objetivos, dos motivos e
das normas da atividade, sendo que essa etapa prepara para a passagem ao segundo período. No
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segundo período (2º grupo) ocorrem a assimilação dos procedimentos de ação com o objeto e a
formação de possibilidades técnicas e operacionais.

2. Período do desenvolvimento

2.1. Primeira infância

A comunicação emocional direta dos bebês com os adultos é a atividade principal desde as
primeiras semanas de vida até mais ou menos um ano, constituindo-se como base para a formação
de ações sensório-motoras de manipulação. Este período segue a seguinte disposição:

Figura 2. Atividade principal/diretora na primeira infância.

Comunicação
emocional direta
[1º grupo]

Atividade objetal
manipulatória
[2º grupo]

Fonte: Autora (2019).

 Características do período

O bebê utiliza vários recursos para se comunicar com os adultos, como o choro, por exemplo,
para demonstrar as sensações que está tendo e o sorriso para buscar uma forma de comunicação
social.

Conforme Zaporózhets (1987), o sentimento de amor filial, a simpatia por outras pessoas, o
afeto amistoso, entre outros aspectos presentes na relação do bebê com outras crianças e o adulto,
são enriquecidos e transformados no processo evolutivo da criança, tornando-se a base
indispensável para o surgimento de sentimentos sociais mais complexos.

Já no primeiro ano de vida, a conduta da criança começa a reestruturar-se e cada vez mais
aparecem processos de comportamento em virtude das condições sociais e da influência educativa
das pessoas que a rodeiam. Este período é marcado por uma sociabilidade totalmente específica e
peculiar em razão de uma situação social de desenvolvimento única, determinada por dois momentos
fundamentais.
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O primeiro momento consiste na total incapacidade biológica. São os adultos que cuidam do
bebê, e o caminho por intermédio dos adultos é a via principal de atividade da criança nessa idade.
Praticamente todo comportamento do bebê está inserido e entrelaçado com o fator social e o contato
da criança com a realidade é socialmente mediado. No segundo momento, o bebê depende do adulto
e ainda carece dos meios fundamentais de comunicação social em forma de linguagem. A forma
como a vida do bebê é organizada o obriga a manter uma comunicação emocional direta com os
adultos, porém essa comunicação é uma comunicação sem palavras, muitas vezes silenciosa, uma
comunicação singular. (FACCI, 2004).

Ainda na primeira infância, a atividade principal adquire a característica objetal-manipulatória.


A assimilação dos procedimentos elaborados socialmente de ação com os objetos e, para que ocorra
essa assimilação, é necessário que os adultos mostrem essas ações às crianças. A comunicação
emocional dá lugar a uma colaboração prática. Por meio da linguagem, a criança mantém contato
com o adulto e aprende a manipular os objetos criados pelos homens, organizando a comunicação
e a colaboração com os adultos.

A primeira função da linguagem é a comunicação, modo de compreensão e expressão


humana, permitindo o intercâmbio social. Até mais ou menos os 18 meses, a criança ainda não
consegue descobrir as funções simbólicas da linguagem como operação intelectual consciente e
altamente complexa.

Por volta dos dois anos, a criança apresenta grande evolução na linguagem, dando início a
uma forma totalmente nova de comportamento, acontecendo apenas com o ser humano. Inicia-se a
formação da consciência e a diferenciação entre o "eu" infantil e o “outro” social. Para Vigotsky
(1993), o “(...) pensamento da criança evolui em função do domínio dos meios sociais do
pensamento, quer dizer, em função da linguagem” (p.116). A sua função maior é auxiliar a criança a
compreender a ação dos objetos, é assimilar os procedimentos, socialmente elaborados, de ação
com os objetos.

2.2. Segunda infância

A segunda infância apresenta uma criança curiosa em apreender o mundo, a reconhecer o


seu ambiente e as outras pessoas que se encontram nele. Começa a perceber os diferentes papéis
sociais e busca apreendê-los pela imitação criativa. Brinca de casinha, protagonizando papel de
mamãe, de papai, os diferentes membros da família. Quem nunca viu as crianças viajando no
“ônibus” improvisado com cadeiras? Ao observar a criança protagonizando papéis, o adulto poderá
compreender o seu modo singular de construção do pensamento e linguagem, além da interação da
criança com o mundo social no seu entorno.

A figura 3, a seguir, ilustra a atividade principal na segunda infância.


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Figura 3. Atividade principal/diretora na segunda infância.

Jogo
protagonizado ou
de papéis
(1º grupo)

Atividade de
estudo
o
(2 grupo).

Fonte: Autora (2019).

 Atividade lúdica

No período pré-escolar, a atividade principal/diretora passa a ser o jogo e a brincadeira,


traduzindo na atividade lúdica o modo próprio de apreender e organizar o mundo. A criança apropria-
se do mundo concreto dos objetos humanos, por meio da reprodução das ações realizadas pelos
adultos com esses objetos. As brincadeiras das crianças não são instintivas e o que determina seu
conteúdo é a percepção que a criança tem do mundo dos objetos humanos. A criança opera com os
objetos que utilizados pelos adultos e, dessa forma, toma consciência deles e das ações humanas
realizadas com eles.

A criança, durante o seu desenvolvimento, constrói a consciência do mundo objetivo, por


meio da brincadeira, como esclarece Leontiev (1998b), a criança "(...) tenta integrar uma relação
ativa não apenas com as coisas diretamente acessíveis a ela, mas também com o mundo mais
amplo, isto é, ela se esforça para agir como um adulto" (p. 121). Ela ainda não dominou e não pode
dominar as operações exigidas pelas condições objetivas reais da ação dada, como, por exemplo,
dirigir de verdade o “ônibus” idealizado do exemplo anterior, ou dirigir o carro, andar de motocicleta,
pilotar um avião. Mas, na brincadeira, na atividade lúdica, ela pode realizar essa ação e resolve a
contradição entre a necessidade de agir, por um lado, e a impossibilidade de executar as operações
exigidas pela ação, de outro.

Para Elkonin (1987), o principal significado do jogo é criar a oportunidade para a criança
modelar as interações com/entre as pessoas. O jogo é influenciado pelas atividades humanas e pelas
relações entre as pessoas e o conteúdo fundamental é o ser humano - a atividade do homem e as
relações com os adultos. Ao mesmo tempo, o lúdico exerce influência sobre o desenvolvimento
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psíquico da criança e sobre a formação de sua personalidade. Seguindo com Elkonin (1998),
compreende-se que "(...) a evolução do jogo prepara a transição para uma fase nova e superior do
desenvolvimento psíquico, a transição para um novo período evolutivo" (p. 421). No período pré-
escolar, o que se constata, é que as necessidades básicas da criança são supridas pelos adultos e
as crianças sentem esta dependência com relação a eles.

O seu mundo divide-se em dois círculos: um criado pelos pais ou pelas pessoas que convivem
com elas, sendo que essas relações determinam as relações com todas as demais pessoas; o outro
grupo é formado pelos demais membros da sociedade. Portanto, a vida da criança muda muito
quando ela entra na escola, onde a relação com os professores faz parte do pequeno e íntimo círculo
dos seus contatos. (FACCI, 2004).

A passagem da criança da infância pré-escolar à fase seguinte está condicionada, então, pela
entrada da criança na escola e a atividade principal passa a ser o estudo. Conforme Leontiev (1978),
o próprio lugar que a criança ocupa com relação ao adulto se torna diferente. Na escola, a criança
tem deveres a cumprir, tarefas a executar e, pela primeira vez em seu desenvolvimento, tem a
impressão de estar realizando atividades verdadeiramente importantes. A criança normalmente
sente-se estimulada com a escola – um novo “mundo” a desvendar.

 Atividade de estudo

A atividade de estudo como principal/diretiva, ao ingressar na escola, caracteriza-se como


intermediária de todo o sistema de relações da criança com os adultos que a cercam, incluindo a
comunicação pessoal com a família. Podem ser observadas várias mudanças que se operam ao
redor da criança, dentro mesmo da própria família. Os parentes dirigem-se a ela sempre perguntando
pela escola e pelos seus estudos; em casa, a criança não pode ser importunada pelos irmãos quando
está fazendo tarefa etc. Na atividade de estudo ocorrerá a apropriação de novos conhecimentos,
cuja direção constitui o objetivo fundamental do ensino. (FACCI, 2004).

O desenvolvimento da criança será estimulado pelas aprendizagens: ao apropriar-se de um


novo conhecimento e vivenciar zonas proximais, novas oportunidades de aprender surgirão, como
estímulos que são motores desses processos [desenvolvimento e aprendizagem] que para Vigotsky
(1993) são diferentes, porém interdependentes. A assimilação ou apropriação dos conhecimentos é
o processo de reprodução, pelo indivíduo, dos procedimentos historicamente construídos, de
transformação dos objetos da realidade, dos tipos de relação com a natureza e do processo de
conversão de padrões, socialmente elaborados, nas formas singulares de internalização que
caracterizam o aprendizado humano. A internalização ocorrerá dialeticamente, pois o indivíduo é
sujeito da experiência que assimila e incorpora cognitivamente, cujo conteúdo lhe possibilita novas
oportunidades, em processo permanente de desenvolvimento e aprendizagem.
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O ensino escolar deve, portanto, nesse estágio, introduzir a criança na atividade de estudo,
de forma que se aproprie dos conhecimentos científicos. Sobre a base dos estudos, conforme
Davidov (1988), surgem a consciência e o pensamento teórico e desenvolvem-se, entre outras
funções, as capacidades de reflexão, análise e planificação mental.

2.3. Adolescência

Uma nova transição se anuncia com a chegada da adolescência, com outros desafios e outra
atividade principal/diretora: a comunicação íntima pessoal entre os jovens e a atividade profissional
de estudo.

Figura 3. Atividade principal/diretora na adolescência.

Comunicação
íntima pessoal (1º
grupo)

Atividade
profissional de
estudo (2o grupo)

Fonte: Autora (2019).

Nesse período, ocorrerá uma mudança na posição que o jovem ocupa com relação ao adulto
e as suas forças físicas, juntamente com seus conhecimentos e capacidades, podendo colocá-lo em
pé de igualdade com as gerações anteriores, e, muitas vezes, até superior em dados aspectos
particulares. Atualmente, por exemplo, é comum observar jovens ensinando seus avós a
manusearem os artefatos das novas tecnologias, como notebook ou smartphone, convencendo-os
das vantagens de ingressarem “cognitivamente” na nova Era Digital.

É esperado que o adolescente se torne crítico em face das exigências que lhe são impostas,
das maneiras de agir, das qualidades pessoais dos adultos e também dos conhecimentos teóricos.
Busca, na relação com o grupo, uma forma de posicionamento pessoal diante das questões que a
realidade impõe à sua vida pessoal e social. Este é um momento importante do processo educativo,
em que os valores humanos que foram sendo apreendidos na relação com os adultos mostram o
seu efeito nas relações familiares e sociais. Também um período importante em que pode se
manifestar a curiosidade e fascínio pelo transcendente, pelos mistérios antes da vida e além da
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morte, pelo que existe além do céu e das estrelas, encarando o desafio do desconhecido e buscando
respostas. Pode ser um momento importante para o desenvolvimento da espiritualidade como
dimensão humana de valor inestimável diante das crises e conflitos do crescimento, em que a
resiliência pessoal vai constituindo-se como modo ativo de enfrentamento das diversidades.

 Características

A adolescência é o período de desenvolvimento mais crítico e, nessa idade, o


estabelecimento de relações pessoais íntimas entre os adolescentes é uma forma de reproduzir, com
os companheiros, as relações existentes entre as pessoas adultas. A interação com os companheiros
é mediatizada por determinadas normas morais e éticas (regras de grupo).

A atividade de estudo ainda continua sendo considerada importante para os jovens e ocorre,
por parte dos estudantes, o domínio da sua estrutura geral, a formação do seu caráter voluntário, a
tomada de consciência das particularidades individuais de trabalho e a utilização desta atividade
como meio para organizar as interações sociais com os companheiros de estudo.

Segundo Vigotsky (1996), nessa fase de desenvolvimento se produz no adolescente um


importante avanço no desenvolvimento intelectual, formando-se os verdadeiros conceitos. O
pensamento por conceito abre para o jovem o mundo da consciência social e do conhecimento da
ciência, da arte e apresenta as diversas esferas da vida cultural, podendo estas serem corretamente
assimiladas.

Por meio do pensamento conceitual ele chega a compreender a realidade, as pessoas ao seu
redor e a si mesmo. O pensamento abstrato desenvolve-se cada vez mais e o pensamento concreto
começa a pertencer ao passado. O conteúdo do pensamento do jovem converte-se em convicção
interna, em orientações dos seus interesses, em normas de conduta, no sentido ético, em seus
desejos e seus propósitos.

 Atividade profissional/de estudo

Por meio da comunicação pessoal com seus iguais, o adolescente forma os pontos de vista
gerais sobre o mundo, sobre as relações entre as pessoas, sobre o próprio futuro e estrutura o
sentido pessoal da vida. Esse comportamento em grupo ainda dá origem a novas tarefas e motivos
de atividade dirigida ao futuro, adquirindo o caráter de prospectar a vida profissional no bojo do seu
projeto de vida.

Na idade escolar avançada a atividade de estudo passa a ser utilizada como meio para a
orientação e preparação profissional, ocorrendo o domínio dos meios de atividade de estudo
autônomo, com atividade cognoscitiva e investigativa criadora. A etapa final do desenvolvimento
acontece quando o indivíduo se torna trabalhador, ocupando um novo lugar na sociedade.
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Neste período será observado o/a estudante e/ou trabalhador/a autônomo/a, cujas
competências humanas traçam as bases para a sua trajetória pessoal/profissional. A importância
dos processos educativos nas diferentes fases adquire aqui o maior efeito sobre a personalidade
individual. As competências humanas englobam tanto àqueles traços delineados no início deste
artigo. O homem é um ser multidimensional, biopsicossocial, portanto a sua capacidade cognitiva
está imbricada na sua afetividade. Adultos maduros afetivamente serão capacitados às decisões
inteligentes não apenas para a prosperidade material, mas sobretudo à prosperidade espiritual, à
verdadeira evolução humana, à alteridade, à aceitação das diferenças e à consciência planetária,
cuidando do outro como seu semelhante e da Terra como sua casa. Deste ser espera-se uma
consciência bioecológica, pois sente-se e sabe-se parte essencial da natureza. Sabe que carrega
em si o que aprendeu com o outro, o que a terra gentilmente lhe ofereceu para constituir-se
fisicamente.

3. Como ocorre, então, a passagem de uma etapa de desenvolvimento à seguinte?

No decorrer do seu desenvolvimento, a criança começa a se dar conta de que o lugar que
ocupava no mundo das relações humanas que a circundava não corresponde às suas
potencialidades e se esforça para modificá-lo, surgindo uma contradição explícita entre esses dois
fatores. Ela torna-se consciente das relações sociais estabelecidas, e essa conscientização a leva a
uma mudança na motivação de sua atividade; nascem novos motivos, conduzindo-a a uma
reinterpretação de suas ações anteriores.

A atividade principal em determinado momento passa a um segundo plano, e uma nova


atividade principal surge, dando início a um novo estágio de desenvolvimento. Essas transições
provocam mudanças em ações, operações e funções que, por sua vez, conduzem a mudanças de
atividades como um todo.

As mudanças observadas nos processos de vida psíquica da criança (percepção, memória,


pensamento, entre outras funções psíquicas), dentro do limite de cada estágio, estão ligadas entre
si e não são independentes umas das outras. No caso da memória, por exemplo, no período pré-
escolar, ela apresentava determinada função, mas quando chega à fase dos estudos, a memória
ocupa novo lugar na estrutura da atividade psíquica da criança; a memorização torna-se voluntária
e consciente.

Já foi mencionada a importância da resiliência humana diante das crises e estas


surgem no limite entre duas idades e assinalam o fim de uma etapa precedente de desenvolvimento
e o começo da seguinte. Na periodização de Elkonin (1998) as primeiras crises do indivíduo no seu
crescimento e desenvolvimento, do nascimento à adolescência, são dispostas de acordo com a
figura 5, a seguir, lembrando que a transição se dá sempre de um modo dinâmico, ou seja, dialético,
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uma crise, ao passo que vai sendo solucionada, abarca movimentos da crise seguinte, cujos efeitos
têm origem no plano sociocultural do indivíduo.

Figura 5. Crises individuais de crescimento e desenvolvimento.

Crise dos 17 anos

Crise dos 13 anos: puberdade


(13 anos-17 anos)

Crise dos 7 anos: idade escolar


(7 anos-13 anos)
Crise de 3 anos: idade pré-escolar
(3 anos-7 anos)

Crise de 1 ano: infância precoce


(1 ano-3 anos)

Fonte: Autora (2019).

4. Apontamentos finais

Encaminhando o estudo para a sistematização das principais evidências no comportamento


individual durante o crescimento e desenvolvimento do nascimento à adolescência, são
apresentados alguns aspectos pontuais.

 Algumas características estão presentes nesses períodos:

− Os limites entre o começo e o final da crise e as idades contíguas são totalmente


indefinidos, uma vez que as crises se originam de forma imperceptível e é difícil determinar
o momento de seu começo e fim;

− Muitas crianças são difíceis de educar quando se encontram em uma fase crítica, isto
porque elas podem entrar em conflito consigo mesmas e com outras pessoas; no entanto,
nem sempre é assim, pois os períodos críticos apresentam-se de modo distinto nas
diferentes crianças;

− O negativismo é uma característica marcante. Esses períodos, portanto, são


caracterizados por uma atitude de negativismo com relação às exigências antes
cumpridas: as crianças tornam-se desobedientes, caprichosas, contestadoras e, muitas
vezes, entram em conflito com os adultos que as cercam, geralmente com os pais e
professores.
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 Qual a importância da análise evolutiva do desenvolvimento?

Esta parece ser uma questão principal para estudiosos, educadores e pais/cuidadores, por
diferentes interesses e motivações. Dentre essas possibilidades, algumas são indicadas a seguir:

− Esclarecer como a situação sociocultural influencia as novas estruturas de consciência nos


diversos períodos evolutivos;

− Estudar a gênese das novas formações centrais de determinada idade;

− Identificar as consequências advindas dessas novas estruturas de idades, pois a nova


estrutura da consciência adquirida significa que a criança percebe distintas maneiras em
sua vida interior, assim como o mecanismo interno de suas funções psíquicas;

− Observar, além das transformações internas, a mudança de comportamento na relação


com outras pessoas, pois essa reestruturação da dimensão social do desenvolvimento
constitui o conteúdo principal das idades críticas.

Enfim, para a constituição dos saberes docentes na perspectiva das ciências pedagógicas,
esses conhecimentos ajudam a solucionar a questão acerca dos motivos de as crianças, em alguns
períodos do seu desenvolvimento, reagirem de modo diferente a determinadas influências do ensino
e mesmo sobre a forma como o ensino é organizado na nossa sociedade. O que dizer das novas
gerações de aprendentes na atualidade digital, na qual os conhecimentos apresentam-se sem que
professores os ensinem? É bem verdade que predominam informações, nem sempre dignas de
crédito pelo aprendente perspicaz, cujo interesse cognitivo direciona-se para objetos de
conhecimento cuja cientificidade e criticidade possam ser postas à prova.

Conhecido por ter desenvolvido a Teoria da Atividade, Alexei Leontiev (1978) afirma que as
próprias crises, em cada etapa de desenvolvimento, podem ser superadas, ou mesmo podem deixar
de existir, se o processo educativo for racionalmente conduzido, se houver diretividade no sentido
delevar em consideração, desde o início da experiência escolar, as estruturas mentais que estão
sendo elaboradas no período de transição de um estágio para o outro.

Na perspectiva sociointeracionista, conduzir o desenvolvimento por meio da educação tem


um significado crucial, pois significa organizar esta interação, dirigir a atividade da criança para o
conhecimento da realidade e para o domínio, por meio da palavra, do saber e da cultura humana,
desenvolver concepções sociais, convicções e normas de comportamento moral. Este significado
está relacionado ao fato de que a aprendizagem ocorre em uma interação interpessoal, este traço
social esclarece que o ser humano é social, não só depende do outro para a sua evolução como
também para a sua humanização, aspecto amplamente apresentado na Teoria Vigotskyana. Esta é
afirmativa, ao postular que o ensino é desenvolvente e contribui parao processo evolutivo do
indivíduo ou não é ensino. Com isto, designa o papel de mediação ao professor ensinante,
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perspectiva a ser ressignificada em uma sociedade que vem gradativamente desrespeitando o lugar
do professor junto às novas gerações.

Referências

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Leontiev, Elkonin e Vigostski Cad. CEDES vol. 24 no.62 Campinas, Apr. 2004.

LEONTIEV, A.N. O desenvolvimento do psiquismo. Lisboa: Livros Horizonte, 1978.

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LEONTIEV, A. N.; VIGOTSKY, L. S.; LURIA, A. R. Psicologia e pedagogia: bases psicológicas da


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ZAPORÓZHETS, A. Importancia de los períodos iniciales de la vida en la formación de la


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la URSS (antologia). Moscou: Progresso, 1987. p. 228-249.