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O PODER MUNDIAL E A CHINA

28/05/2001

Aparentemente, os governantes chineses estão se transformando em ameaça para a


manutenção do status quo

JORGE BOAVENTURA

PENSAMOS que mesmo os mais distraídos observadores já terão começado a dar-se


conta da existência de um poder mundial exercitando-se de maneira frequentemente
brutal, na tentativa de impor ao mundo inteiro os seus próprios interesses.

Esse poder mundial vem se formando, não de hoje ou de ontem, mas desde há muitos
séculos _ao menos no que toca à civilização a que pertencemos e que, há poucas
décadas, era denominada de "civilização ocidental cristã", em cujo nome e para cuja
salvação dezenas de milhões de jovens do mundo inteiro derramaram o seu sangue nos
campos de batalha da Segunda Guerra Mundial.

Ele é integrado pelos controladores do que temos designado como "motor de eficácia
histórica", representados pelos grandes grupos financeiros que se foram formando ao
longo do tempo, a partir da oposição feita, nos primórdios do cristianismo, ao exercício
da atividade econômica visando essencial e prioritariamente o lucro. A ética do
cristianismo _e não somente dele_ implica na visão daquela atividade tendo como
finalidade essencial o seu sujeito, isto é, o ser humano que a exercita.

Daí a Idade Média ser designada como de trevas, enquanto o paganismo anterior a ela é
designado como antiguidade clássica. O fato é que, com a oposição referida, foi sempre
possível, ao longo do tempo, promover os interesses ditados pela ambição, em nome da
liberdade. Sim, porque a ética do cristianismo não condenava somente a avareza mas,
também, outros impulsos e reclamos, nem sempre compatíveis com as virtudes de
exercício recomendado pelos que, sendo religiosos, acreditam na transcendência da
realidade humana e na eternidade do espírito.

São essas rapidíssimas considerações quanto à gênese de uma luta multissecular.


Deixemo-las, entretanto, de lado para concentrar a atenção no que está acontecendo em
nossos dias. Para surpresa da maioria dos leitores, queremos dizer que a primeira
tentativa do poder mundial de que estamos falando de se concretizar no plano político
foi o financiamento e o apoio por ele dado e que tornou possível a vitória da revolução
bolchevique e a pujança que alcançou a Terceira Internacional.

Reparem os leitores: internacional. Hoje ela aparece, tendo o mesmo poder por trás,
como globalização. É que o projeto do domínio do mundo por intermédio de um partido
devidamente controlado fracassou. E fracassou por obsolescência e porque Stálin,
aparentemente, saiu do controle. Reparem os leitores que talvez estejam achando tudo
isso absurdo, como são muito mais frequentes as críticas a Stálin do que à doutrina
marxista propriamente dita. Aquele, que era descrito como um grande líder _aliás, um
dos que teriam ajudado a salvação da civilização cristã_, subitamente transformou-se no
talvez mais sanguinário ditador da história...
Daí o desmantelamento, pelo poder a que nos estamos referindo, da União Soviética que
havia ajudado a construir; desmantelamento rápido e surpreendente, reatando em seu
lugar, principalmente, uma Rússia endividada até o pescoço e entregue a níveis abjetos
de corrupção. Tudo, é claro, em nome da liberdade e com a utilização do "motor de
eficácia histórica".

Mas a capacidade de ambicionar é, no homem, praticamente infinita, embora a de


possuir efetivamente seja muito limitada _e o mercado de mais de 1,2 bilhão de
consumidores chineses levou o poder mundial a uma nova tentativa, ainda que de riscos
maiores do que os existentes ao tempo da construção da União Soviética. E,
aparentemente, os governantes chineses estão saindo de controle e se transformando em
ameaça que pode se tornar intolerável para a manutenção do status quo, duramente
construído ao longo de tantos séculos.

Daí, também _e agora estamos especulando_, a possibilidade de uma trágica opção pela
guerra, "antes que seja tarde demais". Daí, igualmente, a intensificação de outros
conflitos _como o do Oriente Médio _e estamos novamente especulando_ e de pressões
diplomáticas francamente desabusadas em outras áreas do mundo.

Afinal, financistas que podem impor ao planeta como referencial monetário uma moeda
emitida por 12 bancos particulares, como é o caso do dólar americano, a partir de 1971
oficialmente declarado sem qualquer lastro, além, dizemos nós, de manobras e pressões
econômicas ou do uso direto da força militar, podem, realmente, muita coisa.

O resto, quem no ar bateu em quem, se o choque foi em espaço aéreo internacional ou


não, são dados insignificantes, que distraem mas não informam.

De nossa parte, respeitando, como nos cumpre, quem nos honra com a sua leitura,
estamos oferecendo a sua análise uma hipótese da dimensão estratégica que gostaríamos
não se concretizasse, pela tragédia que ela pode significar.