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Logo no início da vida, as crianças aprendem que tocar um fogão

quente ou mesmo chegar perto do fogo pode queimá-las. Sejam


transmitidas por contato direto ou por raios de luz que viajam pelo
espaço, as dolorosas lições sobre a transferência de calor são tão
intuitivas quanto inesquecíveis. Agora, no entanto, os cientistas
descobriram uma nova maneira inusitada que o calor pode usar para ir
de um ponto A ao B. Através das propriedades bizarras da mecânica
quântica do espaço vazio, o calor pode viajar de um lugar para outro
sem a ajuda de nenhuma luz.

De modo geral, o calor é a energia que surge dos movimentos das


partículas — quanto mais rápido elas se movem, mais quentes são.
Nas escalas cósmicas, a maioria das transferências de calor ocorre no
vácuo por meio fótons, as partículas de luz emitidas pelas estrelas — é
assim que o Sol aquece nosso planeta, mesmo estando a cerca de 150
milhões de quilômetros de distância. Aqui na Terra, o fluxo de calor é
geralmente mais íntimo, ocorrendo através do contato direto entre
materiais e auxiliado pela vibração coletiva de átomos conhecidos como
fônons.

Por muito tempo pensou-se que os fônons não conseguiam transferir


energia térmica através do espaço vazio; eles exigem que dois objetos
toquem ou, pelo menos, entrem em contato mútuo com um meio
adequado, como o ar. Esse princípio explica como as garrafas térmicas
mantêm seu conteúdo quente ou frio: elas usam uma parede com um
vácuo para isolar a câmara interna. No entanto, cientistas especulam
há anos sobre a possibilidade de os fônons transmitirem calor através
do vácuo, com base no fato de que a mecânica quântica dita que um
espaço nunca pode estar verdadeiramente vazio.

A mecânica quântica sugere que o Universo é inerentemente confuso —


por exemplo, por mais que se tente, nunca é possível determinar o
momento e a posição de uma partícula subatômica ao mesmo tempo.
Uma consequência dessa incerteza é que o vácuo nunca está
completamente vazio, mas está sempre vibrando com flutuações
quânticas — as chamadas partículas virtuais que constantemente
surgem e desaparecem da existência. “O vácuo nunca é totalmente
vazio”, diz Xiang Zhang, físico da Universidade da Califórnia em
Berkeley, e autor sênior do novo estudo sobre transferência de calor
por fônon, publicado na revista Nature em 11 de dezembro.

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Décadas atrás, os cientistas descobriram que as partículas virtuais não
eram apenas possibilidades teóricas, mas que podiam sim gerar forças
detectáveis. O efeito Casimir, por exemplo, é uma força de atração
observada entre certos objetos próximos, como dois espelhos
colocados juntos no vácuo. Essas superfícies se movem devido à força
gerada pelos fótons virtuais que alternam entre a existência e a
inexistência.

Se essas flutuações quânticas efêmeras pudessem dar origem a forças


reais, ponderaram os teóricos, talvez elas também pudessem fazer
outras coisas — como transferir calor sem radiação térmica. Para
visualizar como o aquecimento por flutuações quânticas pode
funcionar, imagine dois objetos com temperaturas diferentes,
separados um do outro por um vácuo. Os fônons no objeto mais
quente poderiam transmitir energia térmica aos fótons virtuais no
vácuo, que poderiam então transferir essa energia para o objeto mais
frio. Se ambos os objetos são, essencialmente, grandes quantidades de
átomos agitados, as partículas virtuais podem agir como molas para
ajudar a transportar vibrações de um para o outro.

A dúvida sobre se as flutuações quânticas poderiam realmente ajudar


os fônons a transferir calor através do vácuo “havia sido discutida pelos
teóricos por mais ou menos uma década, às vezes com estimativas
muito diferentes para a força do efeito — os cálculos são bastante
complicados”, diz o físico John Pendry, do Imperial College London, que
não participou do novo estudo. Em geral, trabalhos anteriores previram
que os pesquisadores só podiam observar o efeito entre objetos
separados por alguns nanômetros (bilionésimos de metro) ou menos,
explica ele. Em distâncias tão pequenas, interações elétricas ou outros
fenômenos em nanoescala entre objetos podem facilmente obscurecer
esse efeito fônon, diz Pendry — o que dificulta o experimento.

Para enfrentar esse desafio, Zhang e seus colegas passaram por quatro
anos de meticulosas tentativas e erros na tentativa de elaborar e
aperfeiçoar experimentos que conseguisssem obter transferência de
calor por fônons em distâncias maiores no vácuo, na escala de
centenas de nanômetros. Por exemplo, os experimentos envolveram
duas membranas de nitreto de silício, cada uma com aproximadamente
100 nanômetros de espessura. A natureza extraordinariamente fina e
leve dessas placas facilita a visualização de quando a energia de uma
afeta os movimentos da outra. Átomos vibrantes fazem com que cada
membrana se flexione para frente e para trás em frequências que
dependem de sua temperatura.

A equipe percebeu que se as placas tivessem o mesmo tamanho, mas


temperaturas diferentes, elas vibrariam em diferentes frequências.
Com todos esses detalhes em mente, os cientistas adaptaram os
tamanhos das membranas para que, apesar de começarem a
temperaturas diferentes (13,85 e 39,35 graus Celsius,
respectivamente), ambas vibrassem cerca de 191,600 vezes por
segundo. Dois objetos que ressoam na mesma frequência tendem a
trocar energia com eficiência — um exemplo bem conhecido de
ressonância pode ser visto quando um cantor de ópera emite a nota
exata para fazer com que uma taça de champanhe ressoe e se quebre.

Além disso, os pesquisadores se certificaram de que as membranas


estavam a alguns nanômetros de estar perfeitamente paralelas entre
si, tudo para ajudar a medir com precisão as forças que uma poderia
exercer sobre a outra. Eles também trabalharam para que as
membranas fossem extremamente lisas, com variações de superfície
de tamanho não superior a 1,5 nanômetros. Presas a uma superfície
em uma câmara de vácuo, uma membrana foi acoplada a um
aquecedor, enquanto a outra foi conectada a um resfriador. Ambas
foram revestidas com uma fina camada de ouro para adquirir
refletividade e banhadas em fracos raios laser para detectar suas
oscilações — e, portanto, suas temperaturas. Teste após teste, os
cientistas checavam o sistema para garantir que as membranas não
trocassem calor através da superfície em que estavam fixadas ou
através de qualquer emissão de luz visível ou outra radiação
eletromagnética no vácuo.

“Este experimento exigiu um controle muito sensível da temperatura,


distância e alinhamento”, diz Zhang. “Certa vez, tivemos problemas
para executar o experimento no verão por causa do calor do
aquecimento do laboratório. Além disso, a medição em si leva um
tempo muito longo para eliminar o ruído — cada ponto de dados levou
quatro horas para ser obtido.”

Eventualmente, Zhang e seus colegas descobriram que quando as


membranas estavam separadas por menos de 600 nanômetros, elas
começaram a exibir mudanças inexplicáveis de temperatura. Abaixo de
400 nanômetros, a taxa de troca de calor era suficiente para as
membranas terem uma temperatura quase idêntica, demonstrando a
eficiência do efeito (ou a falta dele). Com resultados bem-sucedidos em
mãos, os pesquisadores conseguiram calcular a taxa máxima de
energia que viram transferida pelos fônons no vácuo: cerca de 6,5 ×
10–21 joules por segundo. Nesse ritmo, levaria cerca de 50 segundos
para transferir a quantidade de energia em um fóton de luz visível.
Esse número pode parecer insignificante, mas Zhang observa que ele
ainda representa “um novo mecanismo de como o calor é transferido
entre os objetos”.
“É bom ver alguns dados experimentais que confirmam que os fônons
podem superar essa lacuna”, diz Pendry. “Este é um ótimo
experimento — um pioneiro, acredito eu.”

Em princípio, as estrelas podem até aquecer seus planetas através


desse novo mecanismo. Dadas as distâncias envolvidas, no entanto, a
magnitude desse efeito seria “extremamente pequena”, a ponto de
uma insignificância absoluta, diz Zhang.

Já aqui na Terra, a medida que a eletrônica de smartphones, laptops e


outros fica cada vez menor, essas descobertas podem permitir que os
engenheiros gerenciem melhor o calor nas tecnologias em escala nano.
“Por exemplo, em discos rígidos, a cabeça magnética de
leitura/gravação se move acima da superfície do disco com uma
separação de apenas três nanômetros”, diz Zhang. “A uma distância
tão curta, espera-se que o novo efeito de transferência de calor tenha
um papel significativo e, portanto, deve ser considerado no design de
dispositivos de gravação magnética”.

Zhang observa que as flutuações quânticas não incluem apenas fótons


virtuais. Existem muitos outros tipos de partículas virtuais, incluindo
grávitons virtuais ou pacotes de energia gravitacional. “Saber as
flutuações quânticas dos campos gravitacionais podem dar origem a
um mecanismo de transferência de calor que desempenha um papel
em escalas cosmológicas é uma questão ainda em aberto e muito
interessante”, diz Zhang.

Charles Q. Choi