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EXCELENTISSIMA SENHORA DOUTORA JUIZA DE DIREITO DA 1ª VARA CRIMINAL

DA COMARCA DE VILHENA-RO

0002549-25.2018.8.22.0014

OSCAR EUGENIO ZOLINGER e APARECIDO RAMOS FILHO, já


qualificados nos autos em epígrafe, por seu advogado que esta subscreve,
vem respeitosamente perante V. Excª tempestivamente, em atenção a
interposição de recurso de apelação constante nos autos às fls. , e com
espeque no artigo 600, do Código de Processo Penal requerer a juntada das
RAZÕES DE APELAÇÃO.

Requer ainda, o seu recebimento, autuação e devido


processamento, oportunizando à parte apelada o fornecimento das
contrarrazões para que, ao final, sejam os mesmos encaminhados à Colenda
Corte Criminal do Egrégio Tribunal de Justiça de Rondônia.

Termos em que,
Pede deferimento.

Vilhena/RO, 13 de dezembro de 2019.

SAMUEL RIBEIRO MAZURECHEN


OAB/RO 4.461
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RAZÕES DE APELAÇÃO

0002549-25.2018.8.22.0014
Ação Penal
Origem 1ª Vara Criminal de Vilhena/RO
Apelantes: OSCAR EUGENIO ZOLINGER
APARECIDO RAMOS FILHO

Egrégio Tribunal de Justiça

Colenda 2ª Câmara Criminal

Douta Procuradoria de Justiça

Senhores Desembargadores

O Juízo a quo julgou parcialmente procedente a presente


ação, em consequência, condenou APARECIDO RAMOS FILHO como incurso
no artigo 250, caput, do Código Penal e OSCAR EUGÊNIO ZOLINGER como
incurso no artigo 250, caput, c/c artigo 29, do Código Penal ficando
imputando aos Apelantes as pena de 03 (três) anos de reclusão e 10 (dez) dias-

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multa para Antônio; e 03 (três) anos de reclusão e 10
(dez) dias-multa para Oscar.

Tal pena foi substituída por duas pena restritiva de direito,


consistente em prestação de serviços à comunidade à razão de uma hora de
tarefa por dia de condenação sem prejuízo da pena pecuniária.

De acordo com a sentença condenatória, não ficou


caracterizada a autoria, o laudo ficou inconclusivo sobre autoria, sendo a
materialidade do delito restaram comprovadas pelas provas produzidas.

Em que pese o conhecimento jurídico do Juízo prolator da


sentença, vê-se que não decidiu com acerto, fazendo-se necessária a
reforma da decisão de 1º Grau. É o que se passa a demonstrar.

1. DAS PROVAS PRODUZIDAS PELA DEFESA

As testemunhas de acusação relatam que avistaram sinal


de fumaça; que chegaram ao local que já estava queimado; que havia
indicio de autoria; que os elementos portavam bomba d’água costal para
apagar o fogo, contudo, não se podem afirmar que foram os mesmos que
atearam fogo.
Noutro ponto, as provas produzidas pela defesa apontam
pela absolvição dos acusados, vejamos breve relato dos citados:

A testemunha JOÃO CABRAL DE MEDEIROS, que reside no local,


declara: “passou no local antes do ocorrido e já estava pegando fogo, por
volta das cinco horas da tarde (17horas) já tinha fogo na estrada; que todo
ano pega fogo na beira da BR; inclusive na área do depoente; é comum
pegar fogo naquela região neste periodo de seca; que perto da sua área
pegou fogo até o local onde cruza uma estrada; afirma que lembra do fato

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e horário por que saiu para ligar para filho do telefone que fica no São
Lourenço; quando voltou do distrito São Lourenço já tinha queimado a lateral
inteira; também registra que não tinha fumaça na pista; que a primeira
providencia quando se detecta fogo na propriedade é apagar o fogo
usando borracha, ramo verde, máquina de água, atacando fogo.

Desta forma, resta claro pelo depoimento da testemunha


que já havia fogo no local antes da chegada dos réus, que todo período de
seca os proprietários sofrem com as queimadas, por ser em beira de estrada,
o incêndio é causado acidentalmente.

Já o depoimento da informante JOSIANE DE SOUZA DELMIRO


relata que: APARECIDO saiu para apagar o fogo; que tinham avistados
fumaça da sede; que recorda que levaram bomba d’água; que APARECIDO
que foi chamar o patrão OSCAR para ir até o local do incêndio.

Pelo testemunho do Sr. JORGE ROBERTO RANZI o mesmo afirma


que: passou pelo local no dia do fato que avistou os acusados APARECIDO E
OSCAR apagando fogo; afirma que qualquer objeto é capaz de causar fogo
e cita os exemplos como alumínio, tampa de marmita, vidro, bituca de cigarro,
pode incendiar por várias maneiras, sem poder afirmar a causa; que recorda
que no dia especifico dos fatos passou para ir até a vila do Guaporé e viu os
acusados apagando fogo a tarde; que a área dele também corria risco de
pegar fogo; todos os anos queima a propriedade e inicio do incendio é na
marginal da BR; esclarece que a propriedade do OSCAR tem pasto após a
cerca que faz divisa com a rodovia BR; que o depoente nunca viu os autores
colocando fogo na propriedade; que viu os mesmo apagando fogo com
bomba costal.

Com isso, em suma, a testemunha afirma e reitera que viu


os réus apagando o fogo na propriedade de Oscar com uso de bomba costal,
desta feita, os elementos de prova produzidos pela defesa trazem de forma
robusta que os acusados estavam contendo fogo que já tinha iniciado as

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margens da BR de forma acidental, que de maneira alguma ficou
evidenciado o crime imputados aos réus.

Do interrogatório, o Réu APARECIDO RAMOS FILHO o


mesmo esclarece que viu pegar fogo na propriedade e em seguida se dirigiu
ao local com o fito de apagar o mesmo.

Da mesma forma o Réu OSCAR esclarece que nunca


colocaria fogo em sua propriedade, que estava na propriedade quando
avistou o fogo e diligenciaram para apagar o mesmo, muito embora não
tenha registrado em ata, esclareceu posteriormente ao juízo que é inclusive
perseguido por que não autoriza pesca ou caça em sua propriedade.

Superada a provas realizadas na fase de instrução a r.


sentença, ainda com todos os elementos que pactuam pela absolvição dos
Apelantes julgou procedente o pleito do Ministério Público condenando os
mesmos, desta forma, serve a presente para buscar a total reforma da
sentença condenatória nos termos que segue.

2. DA SENTENÇA COMBATIDA

A) Laudo inconclusivo e Ausência de Autoria

O primeiro grande erro da sentença recorrida diz respeito


a PRECLUSÃO DA DEFESA em relação o laudo ser inconclusivo sobre a causa
do incêndio, no ponto a seguir:

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A r. sentença merece ser reformada, fazendo-se
imperativa a absolvição dos réus.

De fato, a prática delitiva não restou comprovada, uma


vez que embora as testemunhas tenham apresentados as mesmas versões,
não há, contudo, prova material que sustente a autoria dos fatos imputados
aos réus, haja vista que mesmo sendo realizado perícia no local dos fatos, não
se configura qual a origem do incêndio OU MESMO SE ESTES FORAM OS
AGENTES.

Fundam-se as provas basilares da denúncia apenas em relatos


dos policiais.

Consta que no caso em comento, é de suma importância


a realização do exame pericial, afim de constatar o real motivo do fato, qual
seja a causa do incêndio, considerando que se trata de local as margens da
RODOVIA e todos os anos os incêndios na época das secas são incontroláveis.

O exame pericial, o mesmo não foi conclusivo, conforme


consta na fls. 16 dos autos, ausente justificativa E A PROPRIA SENTENÇA AFIRMA
DESTA FORMA.

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Com efeito, no caso em análise restou uma lacuna na
realização de provas que autentique a responsabilidade de autoria do crime
aos Réus, uma vez que não foram apresentados outros meios de provas
capazes de comprovar a autoria dos fatos.

Neste ponto segue decisão oriunda do TJMS em caso


idêntico aos dos autos, cuja provas produzidas na inquisição não foram
confirmadas na instrução processual, ausente prova de autoria e inexistência
de provas para condenação, senão vejamos:

TJMS-0070455) RECURSO MINISTERIAL - APELAÇÃO -


INCÊNDIO - ARTIGO 250, I, ALÍNEA "B", DO CÓDIGO
PENAL - SENTENÇA ABSOLUTÓRIA - PROVAS DA FASE
POLICIAL QUE NÃO FORAM CONFIRMADAS EM JUÍZO -
AUSÊNCIA DE OUTROS ELEMENTOS A ENSEJAR O
DECRETO CONDENATÓRIO - INEXISTÊNCIA DE PROVAS
SUFICIENTES PARA A CONDENAÇÃO - ABSOLVIÇÃO
MANTIDA - RECURSO IMPROVIDO. I - O texto legal do
artigo 155 do Código de Processo Penal, demonstra
claramente que o convencimento do magistrado
deve ser formado, em regra, a partir da prova
produzida em contraditório judicial, sendo obrigatório
que a conclusão seja fundamentada. As provas
produzidas na fase de administrativa não foram
confirmadas em Juízo e fato é, não se justifica uma
decisão condenatória apoiada exclusivamente no
inquérito policial. Inexistem nos autos elementos de
convicção absoluta que evidenciem a participação
do apelado na empreitada criminosa, afinal,

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nenhuma prova material ou testemunhal aponta o réu
como autor do crime de incêndio analisado, portanto,
a sentença deve ser mantida em todos os seus termos.
Contra o parecer, nego provimento ao recurso
ministerial, para manter a sentença em todos os seus
termos. (Apelação nº 0001483-90.2012.8.12.0016, 2ª
Câmara Criminal do TJMS, Rel. José Ale Ahmad Netto.
j. 14.08.2017).

Sinale-se, que para referendar-se uma condenação na


esfera penal, mister que a autoria e a culpabilidade resultem incontroversas.
No entanto, restando dúvida sobre a Autoria, como é o presente caso, a
absolvição se impõe por critério de justiça, visto que, o ônus da acusação
recai sobre o artífice da peça portal.

Neste sentido, giza a jurisprudência:

APELAÇÃO CRIMINAL. INCÊNDIO. ABSOLVIÇÃO.


POSSIBILIDADE. AUSÊNCIA DE PROVAS. PRINCÍPIO DO
IN DUBIO PRO REO. RECURSO PROVIDO. Havendo
dúvidas quanto à autoria da conduta criminosa não
há que se falar em condenação, mas, sim, na
aplicação do princípio do in dubio pro reo e absolver
o acusado. (Apelação, Processo nº 1002340-
12.2017.822.0002, Tribunal de Justiça do Estado de
Rondônia, 2ª Câmara Criminal, Relator(a) do
Acórdão: Des. Valdeci Castellar Citon, Data de
julgamento: 22/08/2018)

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O Direito Penal não opera com conjecturas ou
probabilidades. Sem certeza total e plena da autoria
e da culpabilidade, não pode o Juiz criminal proferir
condenação (Ap. 162.055. TACrimSP, Rel. GOULART
SOBRINHO)

Sentença absolutória. Para a condenação do réu a


prova há de ser plena e convincente, ao passo que
para a absolvição basta a dúvida, consagrando-se o
princípio do ‘in dubio pro reo’, contido no artigo 386,
VI, do C.P.P” (JUTACRIM, 72:26, Rel. ÁLVARO CURY)

B) Da ausência de RISCO À INTEGRIDADE FISICA ou BEM

Pela narração da inicial, os Apelantes foram denunciados


pelo suposto cometimento do delito previsto no artigo 250 § 1, II, “h”, do
Código Penal, porque foram encontrados em meio ao fogo às margens da
rodovia BR 364, Km 80, pelos policiais da Policia Militar Ambiental.

O crime de incêndio, como descrito no Código Penal no


título dos crimes contra a incolumidade pública, trata-se de crime de perigo
comum, podendo ser inclusive o proprietário da coisa incendiada, que vem a
colocar em risco a incolumidade alheia. O sujeito passivo é a coletividade.

O incêndio, como conceitua Fabbrini Mirabete é a


“combustão de qualquer matéria com a sua destruição total ou parcial, que,
por sua proporção e condições, pode propagar-se, expondo a perigo a

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incolumidade pública”. Assim somente o fogo que acarreta risco pela
carbonização progressiva é que poderá ser considerado incêndio.

À luz das considerações destacadas, os Apelantes fazem


jus á absolvição sumária porquanto a sua conduta não encontra guarida ao
crime de incêndio qualificado, pela inexistência do núcleo do tipo.

Portanto, referente ao delito do art. 250 do CP, “para a


caracterização deste crime é necessário que a vida, a integridade física ou o
patrimônio de um número de pessoas indeterminadas sejam expostos a
perigo”.

Segundo Cezar Roberto Bittencourt, “para o crime de


incêndio, não basta a potencialidade do perigo, sendo necessário que este
seja concreto e efetivo”, pois “o incêndio é fogo perigoso, potencialmente
lesivo à vida, à integridade corporal ou ao patrimônio de um número
indeterminado de pessoas”.

Acrescenta o autor que o crime de incêndio, “é de perigo,


caracterizando-se pela exposição a um número indeterminado de pessoas a
perigo. Somente haverá o crime em análise se o incêndio acarretar perigo
para um número indeterminado de pessoas ou de bens” (Cezar Roberto
Bittencourt, Tratado de Direito Penal, Parte Especial, v. IV, 2ª ed., Ed. Saraiva,
2006, p. 178).

Da mesma forma assevera Guilherme de Souza Nucci


sobre o delito de incêndio: “...o tipo penal está exigindo a prova de situação
de perigo, não se contentando com mera presunção, nem simplesmente com
a conduta (“causar incêndio”), razão pela qual cuida-se de perigo concreto”.

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E, acrescenta que: “...o crime de perigo concreto é de
resultado (material), sendo indispensável, para sua consumação, a prova do
risco iminente de dano surgido para alguém, ainda que não seja pessoa
identificada” (Guilherme de Souza Nucci, Código Penal Comentado, 10ª Ed.,
Ed. Revista dos Tribunais, 2010, p. 993/994).

No entanto, nos autos, não houve prova


contundente de exposição da vida, da integridade física e
do patrimônio de um número indeterminado de pessoas a
perigo concreto, portanto, não há que se falar em crime
de incêndio.

Segundo perícia realizada no local, que fica as margens


da rodovia BR, inclusive pelas fotos acostadas ao relatório, não há residência,
não tem pessoas, não tem patrimônio capaz de correr dano ou perigo de vida.

O elemento subjetivo do tipo é a vontade consciente de


causar perigo à vida, à integridade física e ao patrimônio de um número
indeterminado de pessoas, que não é o caso dos Apelantes.

O que se pode verificar na hipótese em discussão, é o


trabalho do proprietário e seu funcionário às margens da rodovia para apagar
o fogo em época da seca.

Sinale-se, que para referendar-se uma condenação na


esfera penal, mister que a autoria e a culpabilidade resultem incontroversas.

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Contrário senso, a absolvição se impõe por critério de justiça, visto que, o ônus
da acusação recai sobre o artífice da peça portal.

Neste sentido, giza a jurisprudência:

O Direito Penal não opera com conjecturas ou


probabilidades. Sem certeza total e plena da autoria
e da culpabilidade, não pode o Juiz criminal proferir
condenação (Ap. 162.055. TACrimSP, Rel. GOULART
SOBRINHO)

Sentença absolutória. Para a condenação do réu a


prova há de ser plena e convincente, ao passo que
para a absolvição basta a dúvida, consagrando-se o
princípio do ‘in dubio pro reo’, contido no artigo 386,
VI, do C.P.P” (JUTACRIM, 72:26, Rel. ÁLVARO CURY)

As provas colhidas na instrução, não registram a causa do


incêndio nem mesmo a AUTORIA, portanto não são hábeis, claras no sentido
de evidenciar que os Apelantes, agiram dolosamente, ateando fogo em
determinado local, causando incêndio que expôs a perigo a vida e o
patrimônio de outrem, conduta que se amolda no tipo definido no artigo 250
do CP, razão pela qual a sentença merece ser reformada.

APELAÇÃO. INCÊNDIO MAJORADO. AUTORIA NÃO

COMPROVADA. ABSOLVIÇÃO. Ausente prova


segura da autoria do incêndio, bem
como da origem desse, a absolvição é

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medida que se impõe. Apelo defensivo provido para
absolvição por falta de provas. (Apelação Crime Nº
70039604137, Quarta Câmara Criminal, Tribunal de
Justiça do RS, Relator: Marcelo Bandeira Pereira,
Julgado em 17/02/2011)

C) Da desclassificação para crime de DANO.

No mérito, restou comprovado nos autos que, no dia 20 de


JUNHO de 2019, por volta das 18h, na Fazenda Rio Vermelho, zona rural de
Vilhena, houve a queimada às margens da BR 364. Neste mês é a seca intensa
na região e as margens da BR ocorre em toda sua extensão fogo.

Dúvida não há quanto à materialidade, suficientemente


provada pelo laudo pericial, sendo controversa, a autoria, pois os Apelantes
estavam apagando o fogo, assim como registrado por todas as testemunhas
de defesa.

O laudo acostado às f. 16, como já mencionado,


comprova a materialidade, mas é inconclusivo sobre a causa do incêndio e
sua autoria.

Ainda, pelos peritos foi consignado que “todas as áreas


atingidas eram paralelas a rodovia BR.

Resta, pois, de forma cristalina que o fato narrado na


denúncia e pelo qual os Apelante foram condenados encontra tipificação

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nas disposições do art. 250, § 1º, h, do Código Penal, que passa analisar a
diante.

Causar incêndio é provocar, motivar, produzir combustão.


Todavia, acrescenta a lei: expondo a perigo a vida, a integridade física ou o
patrimônio de outrem.

Constitui, pois, condição indeclinável que haja perigo no


fogo, pois o incêndio, em sua significação penal, é tão somente o fogo que,
por sua expressividade ou condições, ocasiona risco efetivo a pessoas ou
coisas.

Deve haver perigo concreto, e não presumido, para


número indeterminado de pessoas ou bens, pois “é indispensável a efetiva
situação de perigo para a vida, a incolumidade física ou o patrimônio de
outrem” (FRAGOSO, H. Lições de direito penal. Parte Especial. 1965, v. Ill, p.
772).

Portanto, não basta que o agente tenha ateado fogo em


uma propriedade ou local determinado, provocando a destruição de parte
do patrimônio lá existente.

Tal infração penal pressupõe a existência de perigo efetivo


ou concreto para pessoas ou coisas indeterminadas. Sem essa potencialidade
de dano comum, não se pode falar em delito de incêndio, embora se admita
a existência de outro crime.

É como ensina Damásio de Jesus:

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O incêndio deve expor a perigo a vida, a integridade
física ou o patrimônio de um número indeterminado
de pessoas (perigo comum). Se o fogo não tiver
nenhuma potencialidade lesiva à vida, à integridade
física ou ao patrimônio de um número indeterminado
de pessoas, o delito não estará caracterizado,
podendo configurar-se o dano, se presentes as suas
elementares. (Código Penal anotado. 8. ed. Saraiva,
1998, p. 738.)

Segundo Nelson Hungria, o crime em exame pode ser


assim definido:

é a voluntária causação de fogo relevante, que,


investindo uma coisa individuada, subsiste por si
mesmo e pode propagar-se, expondo a perigo coisas
outras ou pessoas, não determinadas ou
indetermináveis de antemão. A exigência do perigo
efetivo ou concreto (que deve ser comum, como
acentua a epígrafe da subclasse a que pertence o
crime em exame) é expressa no artigo 250, que assim
dispõe: ‘Causar incêndio, expondo a perigo a vida, a
integridade física ou o patrimônio de outrem’, etc.
Antes de tudo, a coisa a que se põe fogo deve achar-
se em lugar no qual o incêndio possa difundir-se,
ameaçando coisas outras ou pessoas,
indeterminadamente. (Comentários. v. IX, p. 23/25.)

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No caso, o incêndio ocorreu na zona rural, em área de
aproximadamente 300 metros, destinada a margem da rodovia sob guarda
do DNTT. Pelo que se infere das fotografias de f. 16 e ss, no local, não há
residências ou aglomerado de pessoas, não havendo, assim, comprovação
de que o crime colocou em risco uma coletividade, pelo que não há falar em
crime de incêndio.

Em casos semelhantes, decidiram nossos tribunais:

TJMS-0123710) APELAÇÃO CRIMINAL - INCÊNDIO -


AUTORIA E MATERIALIDADE COMPROVADAS -
AUSENTES ELEMENTARES DO TIPO - DESCLASSIFICAÇÃO
DE OFÍCIO PARA O CRIME DE DANO QUALIFICADO -
PRESCRIÇÃO DA PRETENSÃO PUNITIVA - MATÉRIA DE
ORDEM PÚBLICA - LAPSO TEMPORAL DECORRIDO -
EXTINÇÃO DA PUNIBILIDADE - RECURSO DESPROVIDO.
I - A tipificação do crime do artigo 250 do CP exige o
dolo específico de colocar em risco a vida,
integridade física ou patrimônio alheio. Comprovado
que a conduta dos agentes visava apenas a
destruição de objetos específicos, a fim de
provocarem uma desordem, sem que tenha ficado
demonstrado perigo de propagação do fogo,
impositiva a desclassificação para o crime previsto no
artigo 163, § único, II, b, do CP. II - Se entre a data do
recebimento da denúncia e a data da publicação
da sentença decorreu prazo superior ao previsto em
lei para fins de prescrição, deve-se declarar extinta a
punibilidade dos acusados. III - Em parte com o

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parecer. Recurso desprovido. (Apelação nº 0000058-
55.2009.8.12.0041, 3ª Câmara Criminal do TJMS, Rel.
Luiz Cláudio Bonassini da Silva. j. 13.12.2018).

TJMT-0100305) PENAL E PROCESSO PENAL - APELAÇÃO


CRIMINAL - INCÊNDIO - ARTIGO 250, § 1º, INCISO II,
ALÍNEA "A", DO CÓDIGO PENAL - 1 PRETENDIDA
ABSOLVIÇÃO - IMPOSSIBILIDADE - MATERIALIDADE E
AUTORIA COMPROVADAS - 2. PEDIDO SUBSIDIÁRIO DE
DESCLASSIFICAÇÃO PARA DANO QUALIFICADO,
CRIME PREVISTO NO ARTIGO 163, CAPUT, DO DIPLOMA
PENAL - PERTINÊNCIA - AUSÊNCIA DE PERIGO COMUM
- SENTENÇA REFORMADA - DE OFÍCIO
RECONHECIMENTO DA DECADÊNCIA DO DIREITO DE
AÇÃO - INTELIGÊNCIA DO ARTIGO 107, IV, DO
CÓDIGO PENAL - RECURSO PARCIALMENTE PROVIDO
- EXTINÇÃO DA PUNIBILIDADE DECLARADA. 1. Não há
falar em absolvição, se a autoria e materialidade do
incêndio restam cabalmente comprovadas nos autos.
2. Se o dolo da agente era o de destruir ou danificar
coisa alheia, sua conduta, ante a inexistência de
perigo comum, deve ser reenquadrada ao tipo
previsto no artigo 163, caput, do Código Penal. 3. Na
hipótese do crime de dano simples contra bens
patrimoniais de particular, carece o Ministério Público
de legitimidade para dar início à ação penal, que é
privativa do ofendido, nos termos do artigo 167 do
Código Penal. (Apelação nº 0012319-

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70.2007.8.11.0002, 3ª Câmara Criminal do TJMT, Rel.
Juvenal Pereira da Silva. j. 30.11.2016, DJe 06.12.2016).

Portanto, não restando comprovado que o delito colocou


em risco uma coletividade, não havendo prova do perigo comum, há de se
desclassificar o crime em testilha para aquele previsto no art. 163 do Código
Penal - crime de dano -, que não poderá ser apreciado, nos termos do art. 167
do Código Penal, ante a ausência de queixa-crime formalizada pelo ofendido
no prazo legal.

3. DOS PEDIDOS

Ante o exposto, requer seja o presente recurso


CONHECIDO e PROVIDO para o fim de inocentar os Apelante em relação aos
crimes imputados pela falta de provas suficientes para a sua condenação na
forma do art. 386, V e VII do CPP, haja vista a ausência de comprovação da
Autoria, ausência de perigo de dano a vida ou patrimônio; e

Subsidiariamente, requer a desclassificação do crime de


incêndio (art. 250 CP) para crime de dano (art. 163 CP) por ser medida da
mais lídima justiça.

Termos em que,
Pede deferimento.

Vilhena/RO, 13 de dezembro de 2019.

SAMUEL RIBEIRO MAZURECHEN


OAB/RO 4.461

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