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[Entendemos por conflitos socioambientais aqueles ligados ao acesso, à conservação e ao controle dos recursos

naturais, que supõem, por parte dos atores confrontados, interesses e valores divergentes em torno dos mesmos, em um
contexto de assimetria de poder. As linguagens de valoração divergentes em relação aos recursos naturais se referem ao
território (compartilhado ou a intervir) e, de maneira mais geral, ao meio ambiente, em relação à necessidade de sua
preservação ou proteção. Enfim, tais conflitos expressam diferentes concepções sobre a Natureza e, em última instância,
manifestam uma disputa sobre o que se entende por “desenvolvimento”. Em razão disso, a análise dos conflitos
socioambientais é uma janela privilegiada para abarcar duas questões tão imbricadas, tão complexas e tão intimamente
associadas, como são na atualidade o desenvolvimento e o meio ambiente. Nesse sentido, não é possível desestimar o
papel do Estado nacional na configuração sempre assimétrica que os conflitos socioambientais adquirem.
Extrativismo neodesenvolvimentista e movimentos sociais Um giro ecoterritorial rumo a novas alternativas? *
Maristella Svampa
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No Brasil, os grandes polos de desenvolvimento tem sido alvo de importantes investimentos tanto da iniciativa
privada, como do setor público, tendo como premissa o crescimento econômico. Contudo, esses polos têm originado
inúmeros impactos tanto no ambiente, como nas populações que tradicionalmente os ocupam, o que culmina nas injustiças
e nos conflitos socioambientais.
Ao longo das últimas décadas, o discurso do desenvolvimento sustentável vem sendo distorcido daquele
pretendido pelas comunidades tradicionais, ambientalistas e cientistas. Para estes, os modos de vida local e suas
respectivas formas de apropriação material e simbólica da natureza, concebem uma alternativa ao modo de vida da
sociedade urbano-industrial. Contudo, a política que se estabeleceu, fez surgir um modelo que pretende associar a questão
ambiental ao modelo progressista do crescimento econômico.
A realização de estudos nos chamados “polos de desenvolvimento”1 no Brasil tem apontado a presença de eixos
econômicos ambientalmente insustentáveis e socialmente injustos, fazendo com que surjam situações de injustiça
ambiental ou que se intensifiquem os conflitos socioambientais em outros casos. O surgimento e intensificação dessas
duas situações decorrem, principalmente, de uma visão economicista restrita de crescimento econômico, visto como a
única alternativa de progresso. Esse modelo tem desrespeitado não só a vida humana e dos ecossistemas, mas também os
valores e a cultura das populações tradicionais onde as cadeias produtivas se instalam (PORTO; MILANEZ, 2009).
Nesse sentido, as injustiças e os conflitos ambientais emergem a partir das disputas entre os interesses distintos
das comunidades tradicionais, organizações e movimentos sociais, contra agentes sociais (grupos empresariais e o próprio
Estado) favorecidos pelas atividades econômicas e produtivas, tais como: mineração, exploração e refino de petróleo,
produção de ferro e aço, construção de hidrelétricas o agronegócio e o uso intensivo de agroquímicos.
Associado a esse fato, a trajetória recente do crescimento econômico brasileiro tem culminado no direcionamento
da economia para a exportação de commodities, tendo como consequência a multiplicação dos impactos e conflitos
socioambientais destinando o passivo ambiental às populações mais vulneráveis (ZHOURI; LASCHEFSKI, 2010).
No entanto, quando existe disputa entre sentidos atribuídos à natureza por determinados grupos com
posições sociais desiguais, os impactos indesejáveis que comprometem a existência entre distintas práticas
socioespaciais estimulam a organização de membros de grupos sociais atingidos contra a atividade que os gera
(ACSELRAD, 2004).
O tema da justiça ambiental indica a necessidade de trabalharmos a questão do ambiente não apenas na
perspectiva da preservação e conservação, mas da distribuição e da justiça. Dessa forma, representa um marco
teórico conceitual para aproximar numa mesma dinâmica as lutas populares pelos direitos sociais e humanos,
pela qualidade de vida e pela sustentabilidade, tratando-se assim de uma questão de justiça socioambiental, pois
engloba as dimensões social, ambiental, da sustentabilidade e do desenvolvimento frequentemente fragmentados
nos discursos e práticas ambientais (MOURA, 2010).
O conceito de justiça ambiental surge entre as décadas de 1960 e 1970 através de movimentos sociais
nos Estados Unidos, especialmente das organizações nas lutas pelos direitos civis das populações
afrodescendentes, hispânicas e asiáticas que em sua maioria eram grupos pobres e socialmente discriminados em
relação à maior exposição a riscos ambientais (ACSELRAD, 2010). Esse conceito decorre da percepção de que
depósitos de lixo químicos, incineradores, estações de tratamento de esgoto, indústrias altamente poluidoras, se
instalavam de forma desproporcional em áreas habitadas por esses grupos, especialmente em comunidades
negras ou de baixa renda, que viviam em condições inadequadas de saneamento. A partir desse cenário, surge a
expressão "racismo ambiental" para designar a imposição desproporcional intencional ou não de rejeitos
perigosos às comunidades de cor (ACSELRAD, 2002). Dentre os fatores explicativos de tal fato, foram alinhados
alguns fatos, como:
(...) A disponibilidade de terras baratas em comunidades de minorias e suas vizinhanças, a falta de
oposição da população local por fraqueza organizativa e carência de recursos políticos típicas das comunidades
de minorias, a ausência de mobilidade espacial das minorias em razão de discriminação residencial e, por fim, a
sub-representação das minorias nas agências governamentais responsáveis por decisões de localização dos
rejeitos (BULLARD, 1994).
Isto significa dizer que as áreas onde há populações de baixa renda e com menor poder de decisão sobre
o próprio território podem favorecer a implantação de atividades industriais potencialmente impactantes. Além
disso, observa-se nestas áreas a compactuação das decisões de localização de instalações ambientalmente
danosas com a presença de agentes políticos e econômicos empenhados em atrair para o local investimentos de
todo tipo, qualquer que seja seu custo social e ambiental. Estes dois processos revelam, assim, que a disparidade
de poder é determinante para uma distribuição espacial desigual dos impactos ambientais, produzindo situações
de injustiça ambientais que se refletem nos índices de saúde, educação, renda e qualidade de vida dos mais
vulneráveis (ZBOROWSKI; LOUREIRO, 2008).
A distribuição do bônus gerados pelos processos produtivos industriais para os atores empresariais e
estatais e camadas mais ricas e do ônus para as comunidades do entorno dos empreendimentos e no geral mais
pobres configuram as injustiças ambientais e a luta por justiça ambiental.
Bullard (2004) apresenta o conceito de justiça ambiental nos seguintes termos: (...) A condição de
existência social configurada através da busca do tratamento justo e do envolvimento significativo de todas
as pessoas, independentemente de sua raça, cor, origem ou renda no que diz respeito à elaboração,
desenvolvimento, implementação e reforço de políticas, leis e regulações ambientais. Por tratamento justo
entenda-se que nenhum grupo de pessoas, incluindo-se aí grupos étnicos, raciais ou de classe, deva
suportar uma parcela desproporcional das consequências ambientais negativas resultantes de operações
industriais, comerciais e municipais, da execução de políticas e programas federais, estaduais, locais ou
tribais, bem como das consequências resultantes da ausência ou omissão destas políticas (BULLARD, 2004
p.9).
Por injustiça ambiental entende-se:
(...) A condição de existência coletiva própria a sociedades desiguais onde operam mecanismos
sociopolíticos que destinam a maior carga dos danos ambientais do desenvolvimento a grupos sociais de
trabalhadores, populações de baixa renda, segmentos raciais discriminados, parcelas marginalizadas e
mais vulneráveis da cidadania (ACSELRAD, 2009, p. 16).
Portanto, não há como chamar de progresso e desenvolvimento o processo de empobrecimento e
envenenamento dos que já são pobres. Os propósitos da justiça ambiental não podem admitir que a prosperidade
dos ricos se faça através da expropriação ambiental dos pobres. Este tem sido o mecanismo pelo qual o Brasil
tem ganhado os recordes em desigualdades social no mundo: concentra-se a renda e concentram-se também os
espaços e recursos ambientais nas mãos dos poderosos (ACSELRAD et al., 2004).
Os casos de conflitos socioambientais no Brasil revelam diversas situações em que grupos sociais
afetados por diferentes projetos econômicos rejeitam o estado de privação e/ou risco a que estão submetidos,
enfrentando seu problema a partir da mobilização social com vistas à denúncia. Dessa forma, pode-se dizer que
os conflitos ambientais surgem das diferentes práticas de apropriação técnica, social e cultural do mundo material
e que a base cognitiva para os discursos e as ações dos sujeitos neles envolvidos configura-se de acordo com
suas visões sobre a utilização do espaço (ZHOURI; LASCHEFSKI, 2010). Os conflitos se materializam quando
essas concepções de espaço são transferidas para o espaço vivido, pois, quando há disputa entre sentidos
atribuídos aos recursos naturais por determinados grupos com posições sociais desiguais, os impactos
indesejáveis que comprometem a existência entre diferentes práticas socioespaciais estimulam a organização de
membros de grupos sociais atingidos contra a atividade que os gera (MARTINS, 1997).
Na discussão sobre a temática dos conflitos socioambientais, é importante frisar que existem não um,
mas diferentes tipos de conflitos e disputas. Segundo Little, um conflito pode ter várias dimensões, movimentos
ou fenômenos complexos, mas ao começar a identificar os pontos críticos, já é um progresso para o entendimento
da dinâmica do conflito. Para ele, há três grandes tipos de conflitos: o primeiro está ligado ao controle sobre os
recursos naturais, tais como disputas sobre a exploração ou não de um minério, sobre a pesca, sobre o uso dos
recursos florestais etc.; o segundo diz respeito aos conflitos em torno dos impactos (sociais ou ambientais)
gerados pela ação humana, tais como a contaminação dos rios e do ar, o desmatamento, a construção de grandes
barragens hidrelétricas etc.; O último está relacionado aos conflitos em torno dos valores e modo de vida, isto é,
conflitos envolvendo o uso da natureza cujo núcleo central reside num choque de valores ou ideologias. Essa
tipologia serve, em parte, para tratar o foco central do conflito para melhor entendê-lo e resolvê-lo (LITTLE,
2001).
Os autores Zhouri e Laschefski, também propõem três modalidades de conflitos ambientais, são esses:
Conflitos ambientais distributivos: são aqueles relacionados à distribuição desigual dos recursos naturais;/
Conflitos ambientais territoriais: os conflitos ambientais territoriais marcam situações em que existe
sobreposição de reivindicações de diversos grupos sociais, portadores de identidades e padrões culturais
diferenciadas, sobre o mesmo recorte espacial, (por exemplo, área para a implementação de um complexo
industrial portuário versus territorialidades da população afetada).....O deslocamento ou a remoção desses grupos
significa, não apenas a perda da terra, mas uma verdadeira desterritorialização, pois muitas vezes a nova
localidade, possuirá condições físicas diferentes, impedindo a retomada dos modos de vida que antes possuíam,
sem contar a perda da memória e da identidade centradas nos lugares. Assim, as comunidades perdem
literalmente a base material e simbólica dos seus modos de socialização com a consequência da sua
desestruturação (ZHOURI; LASCHEFSKI, 2010).;/ Conflitos ambientais espaciais: O caráter espacial dos
conflitos ambientais evidencia os conflitos causados por efeitos ou impactos ambientais que perpassam os limites
entre os territórios de diversos agentes ou grupos sociais, tais como emissões gasosas e poluição da água. Dessa
forma, trata-se de conflitos que não surgem necessariamente em torno de disputas territoriais entre grupos com
modos distintos de apropriação ou produção do espaço (ZHOURI; LASCHEFSKI, 2010).
perceber os conflitos ambientais como sendo de natureza antagônica (capital versus ambiente e grupos
vulnerados) implica em buscar sua solução no fim do sistema que privilegia as classes mais ricas e da ideologia
de crescimento econômico exponencial e a qualquer custo. Estudar os conflitos ambientais nesta perspectiva
busca fortalecer o lado vulnerável da disputa e aumentar sua capacidade de resistência, ou seja, envolve
conscientização, identificação dos contendores e da situação e escolha de estratégias (HERCULANO, 2006).
Logo, o conflito socioambiental é, então, um dos instrumentos de construção de uma sociedade que prime pela
justiça ambiental, tendo como estratégia de resistência o estabelecimento de redes e alianças entre os
protagonistas desses casos.
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Questão 3 – O desafio da superação


O modo como a ciência geográfica tratava os temas relacionados à natureza, ou mais especificamente, à relação
sociedade e natureza, reflete essa base epistemológica comum, isto é, baseada no pensamento cartesiano e
kantiano. Daí se fortalece uma marcante característica da ciência geográfica: sua divisão em dois subcampos de
conhecimento – a Geografia Física e a Geografia Humana.
Entretanto, as tentativas de mudança no tratamento da questão ecológica a partir da década de 70 transparecem
uma possibilidade de alteração paradigmática em relação à natureza. Com o conceito de “desenvolvimento
sustentável” que aparece e ganha força na ECO-92, valoriza-se a natureza em prol das gerações futuras,
demonstrando que o centro do debate ainda é o ser humano, isto é, deve-se conservar a natureza para os próximos
seres humanos que virão. A natureza ainda é, nessa abordagem, pensada em forma de habitat e não em valor em
si mesma. Essa será, sem dúvida, um guia para os novos trabalhos da ciência geográfica a partir de então. A
Geografia, ciência crivada por dois subcampos que parecem, muitas vezes, não dialogar, encontra grandes
dificuldades em trabalhar com a problemática ecológica a partir dessa nova concepção de natureza e sociedade.
Livros importantes de geógrafos como Geomorfologia Ambiental (2006) e Geomorfologia Urbana (2012),
ambos assinados por Antônio Teixeira Guerra (em parceria ou como organizador), pretenderam lançar luz sobre
formas como o tema da questão ecológica poderia colaborar com as sociedades que vivem em cidades. Segundo
o autor, a participação conjunta e integrada de geógrafos, geólogos, engenheiros, arquitetos e outros profissionais
seria de grande relevância para que os objetivos fossem alcançados. O autor discute temas como a ocupação
urbana desorganizada, a favelização e suas consequências e o licenciamento ambiental, além de outros assuntos
ligados a essa problemática.
Devido a esses temas, muitos reivindicam o caráter intrínseco da geografia como aquela ciência que poderia unir
de modo mais satisfatório as relações entre a sociedade e a natureza. A definição do objeto de estudo da ciência
geográfica é uma questão que perpassa toda a história do pensamento geográfico. Gomes (1997) apresenta, por
exemplo, algumas “ilusões” que foram perdidas pelos geógrafos no que diz respeito à Geografia. Uma delas se
refere a sua definição como ciência de síntese, isto é, ela seria responsável por entender a superfície terrestre em
toda sua complexidade, juntando informações de outras ciências como Geologia, Sociologia, Climatologia, etc.
Sem dúvida, a ligação com a ideia kantiana do espaço como uma categoria a priori, assim como o tempo, ajudou
na formação dessa “ilusão” na Geografia.
Outra ilusão destruída para o autor seria que o objeto da Geografia é a relação entre sociedade e natureza. No
seio dessa discussão, o conhecimento geográfico seria definido pela síntese produzida pelo encontro de suas duas
principais parcelas: Geografia Humana e Geografia Física. Sem dúvida, esse embate é antigo na Geografia, com
raízes antes mesmo da Geografia Tradicional (GOMES, 1996). Apesar de o referido trabalho apontar para o fim
dessa ilusão, percebe-se, ainda hoje, a tentativa de muitos geógrafos em buscar na relação sociedade e natureza
o seu objeto de pesquisa. Ross (2009, p.15) aponta, por exemplo, a partir da visão do geógrafo russo Grigoriev,
que as análises integradas entre “as informações físicas, bióticas e socioeconômicas de um determinado espaço
territorial, que, ao serem analisadas conjuntamente, possibilitam a compreensão da totalidade no contexto da
relação sociedade-natureza”. Para ele, o melhor modo de integrar satisfatoriamente os dois lados, sociedade e
natureza, estaria nos estudos ambientais.
Essa aproximação só seria possível com uma mudança na própria concepção de natureza e de sociedade, como
foi apontado na introdução desse trabalho. Moreira (2011, p.48) aponta que o conceito de natureza dentro da
Geografia, apesar de estar em mutação, possui ainda referências no Tratado de Geografia Física, um clássico de
Emanuel De Martonne, isto é, “no qual a natureza é retratada em capítulos sempre na mesma ordem de sucessão,
começando-se ora pelo relevo ora pelo clima”. Desse modo, é um conceito restrito à esfera do inorgânico,
fragmentário e físico-matemático do entorno natural. Essa visão, segundo o autor, está ligada à constituição da
ciência moderna que, a partir das teorias de Copérnico e Galileu, levaram à dessacralização da natureza, isto é,
“a passagem para a naturalização absoluta da natureza, sinônimo de desumanização” (op. cit. p.57).
Assim, relaciona-se a dissociação entre o homem e a natureza a partir da construção da ciência moderna. Como
apontado na introdução, para Descartes (CASTORIADIS; COHN-BENDIT, 1981), atingir o saber e a verdade
nos tornaria senhores e possuidores da natureza. Desse modo, com o intuito de incluir a Geografia no hall das
ciências, o conceito de natureza também seria visto como exterior ao Homem e, por isso, passível de modificação
e dominação.
Os trabalhos de Carl Sauer sobre o conceito de paisagem irão refletir essa concepção de natureza e sociedade
(muitas vezes confundida com cultura).
Percebe-se que a relação existente entre o conceito de natureza e sociedade desenvolvido não apenas na
Geografia, como na filosofia e na epistemologia da ciência de uma maneira geral, possui modelo da física que
se ergue como um paradigma geral, referenciado pelas mãos do sistema de ciências do positivismo. Sua base é
o método experimental-matemático: consiste em isolar o fenômeno do seu meio, para analisá-lo no ambiente
fechado do laboratório. Primeiro influenciando a química e a biologia, logo se estenderia à economia e à
psicologia, entrando pelas ciências do homem (MOREIRA, 2011). A separação, na Geografia, da natureza do
Homem, e a análise da paisagem em duas categorias (natural e humanizada) segue essa tendência.
Algumas tentativas contemporâneas no sentido de tentar quebrar essa concepção parecem ter sido feitas, como
em Corrêa (2010). O autor incorpora a discussão do homem inserido na natureza e não como duas coisas
dicotômicas. Para ele, “o meio ambiente é o resultado material da ação humana, tratando-se da segunda natureza,
da natureza transformada pelo trabalho social” (CORRÊA, 2010, p.153). Se, portanto, o meio ambiente
pressupõe o homem, logo, os conflitos sociais e as forças produtivas, que geram novas tecnologias, são
importantes na análise sobre o tema. O autor relaciona ainda o próprio conceito de espaço geográfico como
definido por Santos (2007) – conjunto inseparável de fixos e fluxos – com o meio ambiente. Para ele, o ambiente
não é constituído apenas pelos objetos materiais fixos, ele agrega, assim, também os fluxos. Dessa maneira, o
meio ambiente também é fruto do trabalho, ou, em outras palavras, sua conceituação não pode excluir o homem
em toda sua complexidade, incluindo aí, suas relações sociais, sua cultura, seu ideário, mitos, símbolos, utopias
e conflitos.
Para Moreira (2011), há, então, uma espécie de inversão:
Se o paradigma cartesiano-newtoniano unifica a natureza a partir do movimento físico, excluindo e
hierarquizando a partir dele, o paradigma ecológico unifica-a e a diversifica a partir do movimento da
vida. É um paradigma, portanto, mais aberto e plural em mediações que o primeiro. Ele converte o
processo da natureza num movimento no sentido das ressintetizações. Cada forma de movimento participa
da produção/reprodução da vida, sem que uma elimine a outra [...]. (MOREIRA, 2011, p.72).
Dessa forma, tanto os aspectos inorgânicos (abióticos) quanto os orgânicos (bióticos), como também os aspectos
sociais (mais que uma pura relação sociedade-natureza), participam da composição do movimento. O autor segue
afirmando que nessa concepção a natureza não se reduz a um paradigma de movimento, mas a uma face múltipla
de que participam tanto o movimento físico (como um todo inorgânico, fragmentário e mecânico) quanto o
biológico (como um todo orgânico, unitário e vivo) e o humano (como um todo centrado no metabolismo
homem-natureza), porque a natureza, para ele, é antes de tudo história.
Sem dúvida, podemos destacar grandes influências na concepção ecológica apresentada acima. Apesar de Marx
não ter defendido a proteção da natureza (como muitos da concepção ecológica vão fazer), sem dúvida, uma das
influências é a visão marxista de natureza. Massimo Quaiani, em Marxismo e Geografia (1979), aponta para o
fato de que o materialismo histórico instaurou uma nova relação entre natureza e homem, colocando em “um
plano decididamente humanista e integralmente historicista e, enquanto tal, não perde de vista nem a
historicidade da natureza nem a naturalidade da história” (QUAIANI, 1979, p.43). Assim, a natureza tomada
separada do homem é nada para ele. Apesar de a distinção entre primeira natureza e segunda natureza não ser
exclusiva do marxismo, é a partir dele que ela vai ganhar força, pois Marx aponta que não mais existem “eco-
sistemas naturais que não sejam já de algum modo modificados pelo homem” (op. cit. p.49). Dessa maneira,
torna-se complicado pensar o homem fora da natureza, pois “o homem mesmo, considerado como mera
existência e força de trabalho, é um objeto da natureza, uma coisa, embora seja uma coisa viva e autoconsciente,
e o trabalho mesmo é a expressão nas coisas daquela força2” (SCHMIDT, 1976, p.73).
A interpretação do conceito de natureza em Marx de Schmidt (1976, p.74) ainda aponta para uma dialética
existente entre trabalho e natureza. O mundo dos valores de uso são compostos do trabalho mais a substância
natural (uma jaqueta, uma tela, etc, são corpos de mercadorias, “são combinações de dois elementos, a substância
natural e o trabalho”), porém natureza humanizada. Essa relação não está formalmente fixada, pois justamente
os processos são de caráter dialético.
Essa concepção gerará consequências diretas na maneira da Geografia definir seu objeto de estudo. Coelho
(1998) aponta, por exemplo, que a natureza “natural” é mais um mito criado pela ideologia civilizatória e, mais
ainda, muitos dos discursos do ecoturismo são veiculadores da visão da natureza destituída da sociedade. Castro
(2001) demonstra, a partir de outro ponto de vista, como a noção de “natureza natural” pode ser utilizada,
inclusive, para fins políticos.
Portanto, uma nova concepção de síntese é então o ponto central da nova abordagem. Uma síntese que não é a
“soma de todas as partes”, mas “reprodução, transfiguração, diferenciação, ressinterização, recombinação,
recambiação, categorias de movimento” (MOREIRA, 2011, p.73) que levam a natureza a unificar-se e
diversificar-se, reiterativamente.
Cabe destacar ainda que ao relacionarmos a natureza à sociedade, não estou aqui defendendo uma
determinação dos elementos naturais sobre os seres humanos – ideia tão rejeitada pela geografia. O
determinismo geográfico serviu para legitimar ações, inclusive, de dominação de povos que eram
considerados atrasados devido ao seu clima árido e quente. Entretanto, esse “sentimento de culpa”
perseguiu a Geografia durante muito tempo e, para tentar se dissociar dessa relação, por muitas vezes, ela
negou por completo qualquer influência do meio sobre o Homem. Nesse sentido Egler (2008, p.148) aponta
que “qualquer referência aos possíveis efeitos das condições naturais sobre o desenvolvimento social
produz entre os geógrafos a imediata sensação de repulsa como manifestação ideológica, desprovida de
fundamento cientifico”. Por essa razão, o autor se questiona
será que a dicotomia entre determinismo e possibilismo não se transformou em ortodoxia no pensamento
geográfico, que o impede de considerar que as diferenças ambientais tem alguma relevância e que o mito
do Prometeu desacorrentado também tem seus limites? (EGLER, 2008, p.149).
Cabe destacar ainda que ao relacionarmos a natureza à sociedade, não estou aqui defendendo uma determinação
dos elementos naturais sobre os seres humanos – ideia tão rejeitada pela geografia. O determinismo geográfico
serviu para legitimar ações, inclusive, de dominação de povos que eram considerados atrasados devido ao seu
clima árido e quente. Entretanto, esse “sentimento de culpa” perseguiu a Geografia durante muito tempo e, para
tentar se dissociar dessa relação, por muitas vezes, ela negou por completo qualquer influência do meio sobre o
Homem. Nesse sentido Egler (2008, p.148) aponta que “qualquer referência aos possíveis efeitos das condições
naturais sobre o desenvolvimento social produz entre os geógrafos a imediata sensação de repulsa como
manifestação ideológica, desprovida de fundamento cientifico”. Por essa razão, o autor se questiona
será que a dicotomia entre determinismo e possibilismo não se transformou em ortodoxia no pensamento
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VITTE, A. C. Contribuições à história e à epistemologia da Geografia. São Paulo: Bertrand Brasil, 2007.

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Questão 4 – Sociedade natureza educação escolar

O pensamento geográfico contemporâneo está profundamente associado a análises da relação sociedade-


natureza, cujas matrizes de pensamento encontram-se assentadas em diferentes concepções teórico-
epistemológicas do pensamento ocidental, principalmente do grego (PORTO-GONÇALVES, 2011). Tais
perspectivas influenciaram, de maneira significativa, a construção do pensamento geográfico de Humboldt,
Ritter, Brunhes, Vidal, Ratzel, Tricart e George (MOREIRA, 2011).
Do mundo grego antigo ao mundo medieval, do período iluminista à sociedade ocidental contemporânea, é
possível evidenciar diversas interpretações a respeito do termo “natureza” e da “relação sociedade-natureza”,
que vão desde a condição de categoria ontológica abstrata até reflexões teórico-metodológicas cujas bases
filosóficas remontam a perspectivas que articulam historicidade e teoria-prática, e que hoje contribuem na
compreensão de algumas manifestações e contradições da produção capitalista do espaço.
Considerando tal discussão, o objetivo do ensaio é tecer considerações epistemológicas acerca do debate da
relação sociedade-natureza no pensamento geográfico. Para tanto, retomou-se às matrizes teórico-
epistemológicas clássicas, a saber, as concepções kantiana, hegeliana e marxista, bem como a interlocução com
algumas perspectivas do pensamento geográfico de Quiani, Vitte e Moreira, a respeito da relação sociedade-
natureza, enquanto possibilidade analítica para se pensar o objeto de estudo da geografia.
A separação homem-natureza (cultura-natureza, história-natureza) é uma característica marcante e inerente ao
pensamento da sociedade ocidental. Essa matriz filosófica se encontra principalmente na Grécia antiga, segundo
a qual o universo (natureza) constituir-se-ia como ser único, imutável, não caótico e imóvel (Tales, Permênides
e Zenão) (RANGEL JUNIOR, 2006).
Tales, Permênides e Zenão são precursores da ideia de disjunção entre homem e natureza (RANGEL JUNIOR,
2006) e contribuidores do pensamento contemporâneo, sobretudo, do “mundo ocidental”, já que como enfatiza
Morin (2008, p.79): “[...] nós somos herdeiros deste pensamento dissociador [...]”; de divisão, de separação, e
cuja natureza seria compreendida enquanto materialidade objetiva, que supostamente se contrapõe ao psíquico,
ao anímico, ao espiritual, da Physis (PORTO-GONÇALVES, 2006a, 2006b; MORIN, 2003).
Para Bornheim (1985), a palavra physis indica aquilo que brota por si, num desabrochar que se manifesta neste
desdobramento, apresentando-se como realidade totalizante. Segundo Porto-Gonçalves (2011), é no século V
a.C. que se tem a construção de uma perspectiva geral da ideia de natureza. É notadamente com Platão e
Aristóteles, segundo Porto-Gonçalves, que se começa a assistir a um desprezo e mudança da noção de natureza
enquanto elemento natural, espiritual, psíquico, de característica totalizante, cuja perspectiva tendeu a ideia de
separação entre homem e natureza (OLIVEIRA, 2002; VITTE; SPRINGER, 2010).
A interpretação aristotélico-platônica sobre natureza basilará os ʺdogmasʺ do cristianismo durante a idade média,
pautada na separação entre espírito e matéria. Se por um lado Platão estabelecia uma oposição entre o plano da
ideia, vista como perfeita e a realidade mundana, evidenciada com inferior, de maneira similar o cristianismo
operará a sua própria leitura, opondo a perfeição de Deus à imperfeição do mundo material (PORTO-
GONÇALVES, 2011; 2006b).
Todavia, é com Descartes que essa oposição homem-natureza, mente e corpo, espírito-matéria, sujeito-objeto
tornar-se-á mais densa, constituindo-se como centro do pensamento moderno e contemporâneo (MOREIRA,
2004, 2006; VITTE, 2007a). A esse respeito, dois aspectos da filosofia cartesiana, aqui expressos, vão marcar a
modernidade, quais sejam: 1) o caráter pragmático que o conhecimento adquire enquanto elemento útil para a
vida, compreendendo a natureza como um recurso, um meio para se atingir um fim; e 2) o antropocentrismo,
perspectiva em que o homem passa a ser visto como o centro do mundo, sujeito em relação ao objeto, à natureza
(MOREIRA, 2003; 2006; 2011; PORTO-GONÇALVES, 2011; SOUZA; SUERTEGARAY, 2007).
O século XIX constituirá momento de triunfo desse pragmatismo, com a ciência e a técnica adquirindo um
significado central na vida dos homens (SANTOS, 1996; MOREIRA, 1992; 2011). Nesse sentido, a natureza
torna-se cada vez mais um objeto a ser possuído, dominado, subdividido e fragmentado (SANTOS, 1996).
Qualquer tentativa de pensar o homem e a natureza de uma forma orgânica e integrada torna-se cada vez mais
difícil, uma vez que tal divisão não se dá apenas no campo do pensamento, mas também na realidade objetiva
construída pelos homens.

A relação sociedade-natureza e o pensamento geográfico contemporâneo


O marxismo exerceu influência significativa na construção do pensamento geográfico contemporâneo,
sobretudo a partir dos anos de 1970, quando a sociedade capitalista insere-se num período marcado por crises
sistêmicas (crises políticas, sociais, econômicas e mesmo ambientais) relacionadas ao sociometabolismo do
capital. No plano do campo acadêmico, as perspectivas explicativas na geografia, pautadas em matrizes
positivistas e historicistas não apresentavam inteligibilidade para analisar as contradições, rupturas e
transformações sociais, econômicas, políticas que afloravam. É dentro desse contexto que os estudos marxistas
foram “retomados” enquanto nexos explicativos de base teórico-epistemológica para análise da realidade social.
Ao seu modo, Harvey (1993) aduz que a “teoria marxista” pode ser entendida dialeticamente como
compreendedora da produção de espaço-tempo - atributos fundamentais da "natureza".
Quaini (1979) retoma as reflexões marxistas a respeito do método para investigar a realidade, seja
enquanto perspectiva teórica seja enquanto contribuição crítico-epistemológica à natureza da produção
capitalista, suas implicações na produção da natureza e na reprodução desigual do espaço. Para Quaini (1979), o
discurso acerca da suposta “missão civilizadora do capital” contribuiu para a naturalização da lógica capitalista
pautada no consumo e na criação de novos valores de uso e de troca. Dentro dessas circunstâncias de
racionalidade instrumental capitalista, a natureza se torna uma coisa para o homem, um objeto de utilidade e, ao
mesmo tempo, um meio de produção.
Na geografia, desde o século XVIII, quando essa se constituiu como ciência, já se deparava com o
problema da relação natureza e o homem. A geografia na época ainda acreditava na influência do meio biofísico
sobre o homem, e essas discussões de arrastaram até a primeira metade do século XX (PONTUSCHKA,
PAGANELLI e CACETE, 2007, s. p.).
Fato é que o tema relação sociedade natureza sempre esteve presente academicamente nas discussões
da geografia, sendo por vezes tratada em análises de forma dissociadas, hora sobressaindo, sociedade/homem,
outra, natureza/meio natural.
Vesentini (1997, p.9) aborda que “[...] um dos mais velhos e irresolvidos problemas da ciência
geográfica diz respeito à dicotomia entre geografia física e humana, entre estudo geográfico da natureza e
da sociedade”. Em um contexto clássico,a geografia como ciência sintetizaria a natureza e o homem, no estudo
das relações sociais com o meio.
Nessa concepção, a natureza já emergiria como matéria prima, por meio das práticas de exploração e
alteração da natureza produto do capitalismo que, ao priorizar o capital, caminha para o colapso da degradação
dos recursos pelas sociedades, que apropria destes recursos e causam as alterações no meio.
Os autores, Pontuschka, Paganelli e Cacete (2007, p. 37) defendem que, A geografia como ciência da
sociedade e da natureza ou como ciência humana, pesquisa o espaço produzido pelas sociedades humanas,
considerando-o como resultado do movimento de uma sociedade em suas contradições e nas relações
estabelecidas entre os grupos sociais e a natureza em diversos tempos históricos.
Ao trabalhar com esta temática, é importante compreendermos como é conceituado o livro didático por
várias concepções diferentes, como exemplo para o Ministério da Educação, o material constitui:
uma ferramenta de apoio no desenvolvimento do processo educativo, com vista a assegurar tanto
o trabalho com os eixos cognitivos comuns às áreas do conhecimento quanto a inserção e articulação das
dimensões ciência, cultura, trabalho e tecnologia no currículo dessa etapa da educação básica (BRASIL,
2015, p.39).
Para Vesentini (2008, p. 54) o autor destaca que: “O livro didático constitui um elo importante na
corrente do discurso da competência: é o lugar do saber definido, pronto, acabado, correto e, dessa forma, fonte
única de referência e contrapartida dos erros das experiências”.
É importante salientar o significado da Geografia no currículo escolar, e, conforme menciona o PCN, a
relação desta área aos temas transversais. Além da importância em formar o aluno, enquanto cidadão, construindo
sua capacidade em analisar e articular as ações e relações da sociedade e da natureza.
Estudar os lugares, territórios, paisagens e regiões pressupõe lançar mão de uma ampla base de
conhecimentos que não se restringem àqueles produzidos dentro do corpo teórico e metodológico apenas
da Geografia. Muitas são as interfaces com outras ciências. Alguns temas que são por natureza de interface
(tais como a questão ambiental, a pluriculturalidade brasileira, relações de trabalho e de consumo, entre
outros) requerem um tratamento para além das áreas de conhecimento. (BRASIL, 1996, p.41)
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Paradigma do desenvolvimento
CRÍTICA AO CONCEITO DE DESENVOLVIMENTO*
Jorge Montenegro Gómez
Como acontece com muitas das categorias e conceitos associados à ideologia do capital, a operacionalização do
conceito de desenvolvimento, como estratégia de reprodução do capital, é recente. Apenas nos últimos cinqüenta
anos vem se trabalhando com a idéia de desenvolvimento. Não se trata, portanto, de uma categoria de profundo
conteúdo histórico, tampouco de uma categoria ontologicamente atrelada ao devir da sociedade, como poderia
deduzir-se da consideração e às vezes, veneração, com que esta idéia é apresentada e trabalhada. Se bem o tema
do desenvolvimento teve certa importância nas preocupações dos economistas clássicos na forma de crescimento
da produção, o auge das metrópoles industriais até o início do século XX fez considerar o crescimento da riqueza
como algo substancial ao capitalismo, como um processo automático associado ao devir capitalista, portanto, o
desenvolvimento foi
ficando como uma questão secundária. Não era necessário pensar em programas que desencadearam esse
desenvolvimento. A proposta do desenvolvimento local se inscreve nesta linha, atualizando, também, os
mecanismos de controle social. O bojo da promoção do desenvolvimento teria como base a “comunhão” entre
os diferentes atores sociais (políticos, empresários, trabalhadores), mas num contexto onde qualquer alternativa
antagônica ao sistema capitalista foi simplesmente banida. Uma cidadania reificada pelo esvaziamento das
possibilidades além do capital assumiria a direção do processo desenvolvimentista, apontando quais seriam
aqueles caminhos mais adequados às possibilidades do território onde moram.
“Maximizar potencialidades e reduzir fraquezas”, esta seria a orientação principal de qualquer estratégia de
desenvolvimento local, com a finalidade de dotar o local de melhores vantagens competitivas em comparação
com outros territórios da mesma escala. Com isto, não queremos dizer que o enfoque do desenvolvimento local
seja homogêneo. Na literatura que trata deste tema podem ser observadas tendências diferentes. A partir do
denominador comum da escala local e da articulação entre os aspectos econômicos e sociais encontramos um
leque muito amplo do que é considerado como desenvolvimento local.
Crer na possibilidade de controlar o capital. Esse é o limite das propostas que vêem no desenvolvimento local
uma via de transformação do sistema socioeconômico capaz de estabelecer uma relação capital x trabalho
equilibrada, não hierarquizada, nem fundamentada na dominação, que seria a situação que marcaria uma
verdadeira melhora na qualidade de vida da classe-que-vivedo- trabalho.
Recorremos a I. Mészáros para apreender essa a (im)possibilidade do controle do capital. Segundo este autor:
“(...) o capital não pode ser controlado: ele é o próprio controlador e regulador do processo de metabolismo
social” (Mészáros, 1997, p. 145). Só conseguiremos livrar-nos dele “por meio da transformação de todo o
complexo de relações metabólicas da sociedade” (Mészáros, 1996, p.131).