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MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE SÃO PAULO


GRUPO DE ATUAÇÃO ESPECIAL DE REPRESSÃO À FORMAÇÃO DE
CARTEL E À LAVAGEM DE DINHEIRO E DE RECUPERAÇÃO DE ATIVOS
Rua Riachuelo, 115 – 2º andar – sala 234 - Centro- CEP: 01007-904 -

.
tel:11 3119-7115 - fax:11 3119-7118 – gedec@mp.sp.gov.br

Para conferir o original, acesse o site https://esaj.tjsp.jus.br/pastadigital/pg/abrirConferenciaDocumento.do, informe o processo 0081822-31.2018.8.26.0050 e código CB2300.
Este documento é cópia do original, assinado digitalmente por MARCELO BATLOUNI MENDRONI, protocolado em 03/09/2018 às 22:05 , sob o número WBFU18701734890
EXMO. SR. DR. JUIZ DE DIREITO DA ª VARA CRIMINAL DA CAPITAL:

PIC n° 12/2018-GEDEC
(P.I. n° 38.0694.0000081/18)
IPL n° 0199/2016-11 DELECOR/SR/PF/SP

O representante do Ministério Público que esta subscreve, no uso de suas


atribuições legais, com fundamento nas provas e evidências contidas neste PIC-GEDEC/MP-
SP n° 12/2018, que decorreram da investigação realizada nos Inquéritos da Polícia Federal,
IPL n° 0199/2016-11 DELECOR/SR/PF/SP e IPL n° 414/2015-111 vem oferecer DENÚNCIA
CRIMINAL contra as pessoas abaixo relacionadas (qualificações em separado 2), pela prática
das infrações penais descritas:

Denunciados CPFs
Fernando Haddad 052.331.178-86
João Vaccari Neto 007.005.398-75
Francisco Carlos de Souza 376.586.978-34

Ricardo Ribeiro Pessoa3 063.870.395-68.


Walmir Pinheiro Santana4 261.405.005-91

Alberto Youssef5 532.050.659-72

Empresas Envolvidas:

Empresa CNPJ
LWC Editora Gráfica Ltda 04.711.421/0001-81
Candido e Oliveira Gráfica Ltda 12.064.476/0001-75
Francisco Carlos de Souza Eireli 19.846.350/0001-00

1
Operação “Custo Brasil”.
2
Fls. 428/433.
3
Sujeito às condições estabelecidas em Termo de Acordo de Colaboração Premiada firmado com o MPF-PGR.
4
Sujeito às condições estabelecidas em Termo de Acordo de Colaboração Premiada firmado com o MPF-PGR.
5
Sujeito às condições estabelecidas em Termo de Acordo de Colaboração Premiada firmado com o MPF-PGR.
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GRUPO DE ATUAÇÃO ESPECIAL DE REPRESSÃO À FORMAÇÃO DE
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Este documento é cópia do original, assinado digitalmente por MARCELO BATLOUNI MENDRONI, protocolado em 03/09/2018 às 22:05 , sob o número WBFU18701734890
I. Introdução. Descrição dos Fatos

Em dia incerto, entre os meses de abril e maio de 2013, Ricardo Ribeiro


Pessoa, Presidente da empreiteira UTC ENGENHARIA S.A., recebeu solicitação de pedido
especifico formulado por João Vaccari Neto, então tesoureiro nacional, representante do PT
– Partido dos Trabalhadores, da quantia de R$ 3.000.000,00 (três milhões de reais), para o
pagamento de uma dívida de campanha do recém eleito Prefeito de São Paulo, Fernando
Haddad; contraída com gráfica que pertencia a Francisco Carlos de Souza, vulgo “Chicão”,
ex-deputado estadual, também pelo PT - Partido dos Trabalhadores.6 Nestas condições, João
Vaccari Neto representava e falava em nome de Fernando Haddad.

Constou na agenda de Fernando Haddad – quando já no exercício do cargo de


Prefeito Municipal de São Paulo, que ele recebera Ricardo Pessoa da UTC Participações 7,
pessoalmente, no dia 28 de fevereiro de 2013.

Ricardo Pessoa, antes mesmo, mantinha uma espécie de “contabilidade


paralela” junto a João Vaccari, relativa a propinas pagas em decorrência de contratos de obras
da UTC Engenharia S.A. com a Petrobrás8, com uma “dívida” a saldar, em pagamentos
indevidos de propinas, da ordem de R$ 15.000.000,00 (quinze milhões de reais).9

Ricardo Pessoa e Fernando Haddad - enquanto candidato ao cargo de Prefeito


Municipal de São Paulo, haviam sido apresentados por José di Filippi Junior e se reuniram
algumas vezes durante a campanha eleitoral no decorrer de 2012.

A solicitação de R$ 3.000.000,00 foi atendida, e com ela Ricardo Pessoa a


ofereceu e prometeu diretamente para João Vaccari Neto, e indiretamente para Fernando
Haddad. Ricardo Pessoa e João Vaccari Neto trocaram informações a respeito dos números de
telefones dos seus prepostos.

Para operacionalizar aquele pagamento indevido, João Vaccari Neto indicou e


lhe passou o número de telefone celular de Francisco Carlos de Souza, (“Chicão”). Ricardo

6
A UTC Engenharia S.A., através de Ricardo Pessoa, já havia contribuído financeiramente com R$
1.000.000,00 (um milhão de reais) para a campanha do então candidato à Prefeitura de SP, Fernando Haddad.
7
A UTC Participações S.A. foi constituída em 1997, como Empresa Holding. Suas principais controladas são a
UTC Engenharia a Norteoleum Exploração e Produção, Constran, UTC Investimentos e UTC Desenvolvimento
imobiliario, Cliaporto, Cobrazil, Naval e Norteoleum. Fonte:
http://www.utcparticipacoes.com.br/insti.php?id=160
8
Nos Autos de n° 0011881-11.2015.4.03.6181 da 6ª Vara da Justiça Federal de São Paulo há uma planilha com
valores relativos à contabilidade da campanha eleitoral de 2012 ao cargo de Prefeito de São Paulo. Foi objeto de
análise na Informação n° 03/2016 no IPL 0199/2016-11. Em algumas doações, não há referência à origem dos
valores. Em uma delas consta R$ 1.900.000,00 em nome de “doador” – “Vaccari”.
9
Depoimento prestado pelo próprio Ricardo Pessoa nos Autos n° PJPP-CAP n° 14.0695.0000502/2017: “O
depoente questionou sobre o valor alto da mesma e ele disse que tal importância poderia ser abatida da conta
corrente de propinas que Vaccari tinha com a UTC. Ele disse que a UTC teria que fazer ainda um repasse de
aproximadamente 15 milhões de reais ao Partido, e que essa quitação da dívida da companha do Haddad
poderia ser abatida desse montante”.
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Pessoa também orientou João Vaccari Neto no sentido de que os contatos para o pagamento
deveriam ser realizados através de seu diretor financeiro, Walmir Pinheiro Santana; que
negociou o valor para diminuí-lo para R$ 2.600.000,00 (dois milhões e seiscentos mil reais).

A captação e distribuição de recursos ilícitos se desenvolveram através de um


esquema montado pela própria UTC ENGENHARIA S.A., primeiramente por contratos de
prestação de serviços fictícios e/ou superfaturados10, de forma que os valores ou a diferença
retornassem à UTC ENGENHARIA S.A., mas para “uma conta de Caixa 2” que detinham
com Alberto Youssef. Depois Alberto Youssef entregaria parte do valor em dinheiro espécie;
e em relação à outra parte utilizaria PFs e PJs para receberem os valores e os remeterem a
outras PFs e/ou PJs para, finalmente os valores serem transferidos, destas, para gráficas
indicadas por Chicão.

Após as simulações dos contratos de prestações de serviços11, os pagamentos,


foram efetivados de duas formas:

1. Alberto Youssef mandava o seu funcionário Rafael Angulo Lopes entregar os valores,
normalmente aos sábados de manhã, na garagem do edifício do seu escritório12 em
dinheiro espécie diretamente a Chicão;
2. Alberto Youssef realizou sucessivas transferências bancárias por empresas e pessoas
até o destino final, a(s) Grafica(s) indicadas por Chicão, de forma a dissimular a
origem dos valores.

A solicitação ocorreu entre abril/maio de 2013. Os pagamentos –


sintomaticamente - foram efetuados entre maio/junho de 2013. Assim foram realizados os
pagamentos daquela dívida, contraídas especialmente durante o ano de 2012, de campanha
para o cargo de Prefeito Municipal de SP, por Fernando Haddad.

II. Corrupção. Crime Antecedente.

O esquema de captação e transferências de dinheiro para a dissimulação da sua


origem foi estruturado, portanto, através de gráficas. No caso destes Autos, para as gráficas
LWC Editora Gráfica Ltda, e Candido e Oliveira Gráfica Ltda. Havia, na verdade, ainda
outras gráficas (“Célula de Gráficas”). Algumas eram empresas verdadeiras e outras tinham
evidências de serem empresas de fachada; funcionando tanto para o giro de financiamento de
campanhas eleitorais em Caixa 2; como também para a dissimulação da origem de recursos
ilícitos decorrentes de pagamentos de vantagens indevidas (propinas), dentre elas, o caso
destes Autos.

Nesse contexto de dissimulação, ocorreu o pagamento, em parcelas, da


vantagem indevida no valor de R$ 2.600.000,00; de forma direta em favor do PT – Partido

10
Fls. 480 e segs. Do IPL 0199/2016-11 (PF)
11
Realizados através de Roberto Trombeta.
12
Situado na Av. Paes de Barros, n° 700 ou 770; em São Paulo/SP
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dos Trabalhadores e de forma indireta em favor do ex-Prefeito da cidade de São Paulo
Fernando Haddad (mandato exercido de 2013 a 2016), que foi o beneficiário final dos
pagamentos e quem, exercendo o cargo de Prefeito Municipal de São Paulo, e em razão desta
função, detinha domínio a respeito de fatos que poderiam resultar em benefícios de
contraprestação à Empreiteira UTC ENGENHARIA S.A.

O esquema de corrupção engendrado pelos representantes do PT – Partido dos


Trabalhadores com os representantes da empresa UTC Engenharia S.A. pode ser assim
contextualizado:

 Fernando Haddad já era Prefeito Municipal de São Paulo empossado, quando recebeu
os valores referentes ao pagamento da vantagem indevida de R$ 2.600.000,00 para
saldar dívidas de campanha;
 Solicitou e recebeu, para si e/ou para outrem, direta e/ou indiretamente, em razão da
função pública que exercia de Prefeito Municipal de São Paulo, esta vantagem
indevida;
 Ele foi beneficiário final do pagamento da dívida;
 A UTC ENGENHARIA S.A. não entregaria R$ 2.600.000,00 ao PT, partido político
do Prefeito, se não soubesse que poderia contar com alguma contrapartida, ainda que
em perspectiva e ainda que indeterminada ou incerta naquele momento;
 Não haveria razão para que os pagamentos fossem simulados – operacionalizados
através de doleiro - se não houvesse expectativa da UTC ENGENHARIA S.A. em
relação a qualquer favorecimento ilícito, em contrapartidas quaisquer, mais
especialmente de contratos de obras que viessem ser viabilizados em decorrência do
exercício do cargo de Prefeito Municipal já empossado. Houvesse puro e simples
pagamento de uma dívida de campanha, a UTC ENGENHARIA S.A. efetuaria os
pagamentos diretamente à Gráfica credora;
 Não é possível interpretar que tesoureiro do partido ou funcionário pudesse ter
autonomia para representar o Prefeito Municipal em relação a qualquer futuro
benefício de contrapartida sem que ele pessoalmente soubesse, admitisse, permitisse
e/ou autorizasse;
 Empresa do porte da UTC ENGENHARIA S.A. poderia pagar todo o montante de R$
2.600.000,00 de uma só vez. Pagou em parcelas, em estruturação (smurfing);
 Alberto Youssef emitiu NFs frias a mando de Ricardo Pessoa, para dar “ares de
legalidade” a pagamentos de “propina”, feitos a partidos políticos (MO Consultoria e
Empreiteira Rigidez). Ex. Transferência de 160.765,00 em 10/06/2013 da Empreiteira
Rigidez para a LWC Artes Gráficas – EPP, como parte do valor de R$ 2.500.000,00
conforme combinado entre Ricardo Pessoa e João Vaccari Neto.13
 Fernando Haddad declarou nos Autos do I.P.14que: “Com periodicidade semanal
realizava reuniões com Chico Mecena na época da campanha eleitoral para tomar
conhecimento de receitas e despesas que eram realizadas”.

13
Fonte: I.P. n° 3.989 STF. Termo de Declarações n° 06 de Alberto Youssef – fls. 358/362.
14
I.P. n° 0199/2016-11-SR/DPF/SP; fls. 682
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 Investigação da Polícia Federal em ferramentas abertas da internet localizou um vídeo
produzido por Fernando Haddad, logo após o Pleito de 2016, no qual ele demonstra
conhecimento e envolvimento a respeito das despesas realizadas durante essa
campanha eleitoral, no qual solicita a internautas contribuições para honrar
compromissos com prestadores de serviço. Fernando Haddad:

“Aí moçada, a eleição acabou, mas a campanha ainda não. E pra gente continuar defendendo as
nossas propostas pra educação, pra cidade e pro País, a gente precisa encerrar a campanha. E
essa campanha foi muito diferente do ponto de vista de financiamento. E nós temos ainda alguns
profissionais que precisam receber pelo trabalho que fizeram, trabalho dedicado ao longo da
campanha. E pra isso eu conto muito com a tua colaboração. Nós temos um link aqui embaixo do
vídeo que é doações.haddadsp.com.br que permite a você colaborar com o quanto você puder.
Isso vai nos ajudar muito a quitar esses compromissos com esses profissionais e seguir a vida, que
a vida pública não para. Muito importante a tua, a sua participação. É vencer essa etapa, virar
essa página, é importante pra gente recobrar energia, pra voltar a debater aquilo que interessa,
que é continuar transformando São Paulo, continuar transformando o Brasil. Conto com a tua
colaboração. Obrigado por tudo até aqui. Tamo junto!”15

De se notar a diferença de abordagens nas duas situações:

 No Pleito de 2016, Fernando Haddad perdeu a eleição para o cargo de Prefeito


Municipal de São Paulo. Já não dispunha dos poderes inerentes às funções do cargo de
Prefeito Municipal. Então a solicitação de dinheiro para o pagamento de despesas de
campanha ocorreu por meio da internet, para populares indeterminados e
desconhecidos;
 No Pleito de 2012, Fernando Haddad foi eleito Prefeito Municipal de SP: A
solicitação de dinheiro para o pagamento de despesas de campanha ocorreu direta e/ou
indiretamente (por João Vaccari Neto) a empresários, evidenciando que se valia do
cargo e das respectivas funções para “negociar” o pagamento – evidentemente com
promessa, ainda que implícita e indireta de alguma contrapartida.

Houve solicitação e efetivo recebimento, direta/indiretamente para o PT –


Partido dos Trabalhadores e para, João Vaccari Neto, Francisco Carlos de Souza e Fernando
Haddad, em razão da função decorrente do exercício do cargo de Prefeito Municipal de São
Paulo/SP, de vantagem indevida em dinheiro; ainda que sem efetiva prática de ato de ofício.

III. Domínio do Fato. Fernando Haddad.


.
A doutrina do chamado “Domínio do Fato” surgiu na Alemanha, tendo sido
desenvolvida através de várias obras em face das questões relativas à autoria/participação, até
o trabalho mais específico do Prof. Claus Roxin – “Autoria e Domínio do Fato” (Täterschaft
und Tatherrschaft16). A teoria, já difundida e amplamente aplicada na Europa e em diversos
Países civilizados pelo mundo afora, fundamenta a responsabilização penal para a pessoa do

15
Fonte: Polícia Federal. Informação n° 01/2017 – fls. 449/453. Laudo Pericial n° 845/2017 –
Nucrim/Setec/SR/PF/SP.
16
ROXIN, Claus. Täterschaft und Tatherrschaft. Editora De Gruyter Recht/Berlin, 8a edição- 2006.
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mandante do crime na condição pré-estabelecida de “senhor da situação”, ou aquele que
detém o “domínio do fato”.

A ação típica não se entende unicamente como uma atuação com determinada
atitude pessoal, nem como mera consequência do mundo exterior, mas como unidade de
sentido objetivo-subjetiva. O fato aparece assim como obra de uma vontade que se dirige ao
sucesso. Não é só determinante para a autoria, a vontade de direção, mas também o peso
objetivo da parte do fato, assumida por cada interveniente. Resulta que pode ser autor quem,
segundo a importância da sua contribuição objetiva, comparta o domínio do curso do fato. Por
isso, o tipo, em certas condições, pode ser realizado também por aqueles instrumentos que,
apesar de não executarem uma ação típica no sentido formal, possuem o domínio do fato e o
compartilham. 17

A aplicação do domínio do fato encontra respaldo na interpretação da teoria


subjetiva da autoria (autoria/participação), sendo responsáveis pelo resultado típico, tanto o
autor imediato (executor) como o seu mandante, este pela autoria mediata.

No caso dos autos, o pagamento da propina existiu. É fato demonstrado por


provas diretas, como documentos de anotações e depoimentos; e por provas indiretas,
dinâmica do pagamento, conversas, funcionário da empresa etc. e ainda foi confessada por
colaboradores e descrita por testemunhas.18

III.1 Máxima de Experiência:

O Juiz criminal, ao avaliar o contexto probatório, de forma mais especial em


casos de criminalidade organizada, econômica, ou complexa, deve elaborar análise crítica das
provas em face do seu contexto objetivo, mas também no seu “interior”, no respectivo
subjetivismo, nas suas entrelinhas, nas “informações ocultas”, nas referências, na
compreensão da representação e do significado do fato; nas circunstâncias que ele, como ser
humano com capacidade analítica e interpretativa, consegue abstrair daquilo que não é claro,
não é visível e nem aparente, que não está escrito, mas sabe existir, e pode fundamentá-lo.

A partir deste entendimento, no contexto dos fatos expostos cujas provas


constam em abundância nos autos, não é possível interpretar nem acreditar que uma
Empreiteira se prontifique a entregar R$ 2.600.000,00 em benefício de um Prefeito Municipal
de São Paulo – ratione officii - apenas por mera liberalidade, sem esperar absolutamente nada

17
JESCHECK, Hans-Heinrich; WEIGEND, Thomas: Lerhbuch des Strafrechts. Algemeiner Teil. Ed. Duncker &
Humblot/Berlin, 1996.
18
http://www.stf.jus.br/portal/cms/verNoticiaDetalhe.asp?idConteudo=219783- AP 470 STF: Ministro Celso de
Melo: “Não se exige a prática efetiva de um determinado ato de ofício. É possível até que este ato nem venha a
ocorrer. E se ocorrer a prática efetiva do ato de ofício em troca de vantagem indevida, aí estaremos em face de
uma causa especial de aumento de pena”. [...] Na decisão, o Ministro Celso de Melo enfatizou que “o Estado
brasileiro não tolera o poder que corrompe nem admite o poder que se deixa corromper” e quem transgride tais
mandamentos, não importando sua posição, expõe-se à severidade das leis penais. “Por tais atos, corruptores e
corruptos devem ser punidos na forma da lei.
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em troca, em contrapartida. Tampouco é possível interpretar que um Prefeito Municipal de
São Paulo, recém-eleito, receba R$ 2.600.000,00 de uma Empreiteira que tem ou pode ter
negócios com a Prefeitura Municipal de São Paulo, por mera liberalidade, sem que a
Empreiteira espere absolutamente nada em troca – em contrapartida.

Elaborado pelo GEDEC

IV. Plano Objetivo do Delito. Corrupção e Lavagem de Dinheiro

No âmbito da caracterização do plano objetivo do delito, são possíveis as


aplicações de duas formas: A caracterização real ou presumida:

Pela caracterização Real

Estabelece-se todo o ‘link’ da origem até o destino. Demonstra-se a trilha


percorrida pelos ativos ilícitos, mas, considerando as incontáveis formas e mecanismos de
lavagem disponíveis aos criminosos na atualidade, é também o de mais rara constatação. Isto
porque poucos serão os “lavadores” que utilizam formas simples a ponto de serem
perfeitamente rastreadas e identificadas. O crime de lavagem de dinheiro configura-se, por
sua própria natureza, através de formas complexas e variadas. O criminoso que usualmente
pratica este delito costuma utilizar os mais variados artifícios, falsificações e os mais diversos
mecanismos em conjugação, exatamente para dificultar o seu rastreamento, a ponto que, na
prática, poucos serão os casos em que será possível ou viável a demonstração de todo o
traçado percorrido pelos valores ou bens de origem ilícita.

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A prova “direta”, “representativa”, ou “histórica”, decorre do “ato
comunicativo”, compreensível em decorrência da mera comunicação visual (ou verbal). O
entendimento acerca do objeto (situação) é imediato, e decorre de uma dedução direta. Ao
contrário das provas indiretas, ou “críticas”, cuja percepção não é instantânea ao contato
visual, nas diretas não existe uma lacuna a ser preenchida através de um raciocínio que
explique a lógica da demonstração. Nas provas diretas, o fato indicativo se colega com o fato
indicado através de mera percepção, dispensando exercício de maior esforço de raciocínio.

Pela caracterização Presumida

Em contraponto à real, a caracterização presumida forma-se através de um


nexo de derivação entre objeto material da lavagem e o crime. Decorre da presunção, ou
melhor, da dedução indireta de que os valores ou bens que tiveram destino de incorporação no
patrimônio do suspeito (ou de seu testa-de-ferro) procederam de sua prática criminosa, no
mais das vezes em função da visível ausência de correlação entre os ganhos lícitos, reais e/ou
potenciais, e a quantidade do patrimônio. Parte-se de contraindícios, elementos de prova e/ou
provas indiretas, que devem ser conjugados com a situação real da pessoa investigada ou
suspeita, formando-se um contexto probatório que tenha por conclusão uma situação
processual tal que permita deduzir a prática do(s) crime(s) antecedente(s).

Nestes casos as acusações nos processos devem estabelecer vínculos entre as


ações criminosas. Isto significa, desnecessidade de indicação da “trilha” do dinheiro, valor ou
bem. Significa a desnecessidade de demonstração direta da sua obtenção e posterior ocultação
ou dissimulação. A prova indireta, ou “crítica” decorre do exame crítico do objeto, da
percepção e da correlação de conhecimentos, segundo a lógica e a experiência, provocando
reação de entendimento lógico. Exige análise de ligação entre o fato indicativo e o fato
indicado, em exercício de raciocínio em relação ao factum probandum cuja análise, por assim
dizer, não é “automática”.

V. Lavagem de Dinheiro. Ciclos (Fases).

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fls. 495

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Para conferir o original, acesse o site https://esaj.tjsp.jus.br/pastadigital/pg/abrirConferenciaDocumento.do, informe o processo 0081822-31.2018.8.26.0050 e código CB2300.
Este documento é cópia do original, assinado digitalmente por MARCELO BATLOUNI MENDRONI, protocolado em 03/09/2018 às 22:05 , sob o número WBFU18701734890
Os delitos de lavagem de dinheiro consumam-se já no momento em que o
agente pratica uma ação que envolva “ocultar” ou “dissimular” a natureza, origem,
localização, disposição, movimentação ou propriedade do bem, direito ou valor. Segue-se, em
termos gerais, a regra do Código Penal. Evidentemente não é possível se exigir, para
configurar a consumação, que o agente cumpra todas as etapas da lavagem – “colocação,
ocultação/acomodação e integração”. Não será somente com a “integração” que o crime será
consumado, mas, simplesmente, já através de qualquer primeiro ato de “colocação”. 19 Em
outras palavras, não é possível exigir-se a demonstração de toda a trilha do dinheiro, bastando
apresentar uma transação financeira; até porque isso seria tornar a lei inaplicável, tanto em
razão da complexidade de determinados mecanismos de lavagem, envolvendo inúmeras e
variadas etapas, como também exigiria mais tempo do que o possível para a apuração
completa. E não é esse o espírito da lei. A lei pretende, especialmente, que não deixem de ser
punidos, exatamente os agentes mais graduados e de maior periculosidade dos processos de
lavagem, justamente os que desenvolvem a atividade de forma mais complexa; e não só
aqueles que executam simples operações, mas que também podem configurar os crimes.

V.1. Técnicas utilizadas:

I. A UTC Engenharia S.A. realizou, contratos simulados de prestações de


serviços com Roberto Trombeta20;
II. Roberto Trombeta remeteu os valores recebidos pelos contratos simulados a
Alberto Youssef – para integrarem a conta de Caixa 2 da UTC Engenharia
S.A.
III. Alberto Youssef efetuou os pagamentos:
1. Mediante a entrega de valores em dinheiro espécie a Chicão;
2. Por sucessivas transferências bancárias de valores:
a. Para empresas de fachada de contato dele - operador (doleiro);
b. destas para outras PJs e/ou PFs;
c. destas para as Gráficas de controle de Francisco Carlos de Souza
(Chicão).

1. A realização de contratos simulados configura, desde logo, técnica de lavagem de


dinheiro. O transporte físico de dinheiro também configurou, por si só, a prática de
lavagem de dinheiro. Em regra, não existe explicação lógica e plausível para o
transporte de grandes quantias em dinheiro, considerando o atual estágio tecnológico
que permite a transferência de dinheiro de outras formas mais rápidas e seguras. Quem
entrega e quem carrega grandes quantias em dinheiro espécie, sem que haja um
motivo claro de sua justificativa, pode estar - só pela entrega e pelo transporte, agindo
para ocultar ou dissimular a sua origem, localização, disposição, movimentação e/ou
propriedade. Francisco Carlos de Souza (Chicão) foi pessoalmente, por diversas vezes,

19
Nesses termos, uma só, ou a primeira transferência de valores obtidos p. ex. pelo tráfico de entorpecentes, será
ação criminosa suficiente à configuração do crime, ainda que venha seguida de inúmeras outras transações
bancárias.
20
Cf. declarações em fls. 73
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fls. 496

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buscar relevantes quantias de dinheiro em espécie na garagem do edifício do escritório
do doleiro Alberto Youssef, que referiam infração penal de pagamento de propina em
parcelas.

2. Mescla (Commingling). Através desse procedimento, o agente de lavagem mistura


seus recursos ilícitos com os recursos legítimos. 21 Vale-se de uma empresa verdadeira,
e depois apresenta o volume total como a receita proveniente da sua atividade lícita.
Utiliza desde logo os recursos obtidos ilegalmente na própria empresa, p. ex. com o
pagamento de pessoal, compra de matéria-prima etc., de forma a dificultar o
rastreamento.22 Os agentes lavadores sabem como fazê-lo. Abrem um negócio,
observam quanto os concorrentes podem ganhar e movimentar de dinheiro, e
procuram fazer “girar” na empresa aberta o volume que seja viável para não despertar
a atenção das autoridades, ainda que com lucro maior, maquiando-o sempre através de
falsificações documentais diversas, e nela injetam o dinheiro obtido através das
infrações penais praticadas.23 Esse mecanismo é um dos mais utilizados pelos agentes
que querem lavar dinheiro, exatamente pela sua facilidade de ocultação ou
dissimulação dos valores, lícitos e ilícitos, que se misturam, no mais das vezes
utilizando “manipulações financeiras”, que trazem a reboque simulações e

21
Veja-se o comentário de TURNER, Jonathan E. Money laundering prevention: deterring, detecting and
resolving financial fraud. Haboken/New Jersey: John Wiley, 2011. p. 7: “While a small portion of laundered
funds are intended to be hidden for some period of time, the eventual purpose will be the initiator to publicly use
the funds. The mechanisms, therefore, must use otherwise legitimate types of transactions, otherwise legitimate
entities, and involve otherwise legitimate intermediary purchases to create the appearance of legitimacy. This
concept, renting credibility, is often why and how ordinary organizations are involved in money laundering
transactions. And since they provide a vital service to the money launderer, they are often compensated for their
roles, which is an incentive to ask limited questions or to look the other way entirely. This ability, and often
willingness, to compensate people and organizations for their involvement creates a subtle encouragement for
both participation and silence”. P. 168: “[...] and in contrast to cash, smart cards are small, light, innocuous-
looking devices that are highly efficient for trafficking currency. Assume that criminal obtains what will soon be
readily available transfer equipment; these tools will provide fast and efficient transfer of illicit funds to
consolidation accounts. Once the capital is commingled into the nonfinancial system, it is not realistic to
distinguish legitimate funds from illicit payments”.
22
MANES, Vittorio. Il Riciclaggio dei proventi illeciti: Teoria e prassi dell’intervento penale. Rivista
Trimestrali di Diritto Penale dell’economia, anno XVII, nº 1-2, Gennaio-Gigno 2004, Ed. Cedam, p. 76, refere
que acredita ser a “punição” da empresa a medida de maior eficácia ao combate à lavagem de dinheiro: “Il
coinvolgimento degli enti è razionale dal punto di vista criminologico perché è proprio attraverso lo schermo
societario che si nascondono spesso le operazioni di riciclaggio, specie nell’attuale orizonte che vede sempre
più consorziate criminalità organizzata ed impresa; ed è oportuno dal punto di vista strategico perché la
minaccia della sanzione (una sanzione che sul piano patrimoniale può essere anche molto severa, e può persino
consistere in drastiche misure interdittive) spingerebbe gli enti maggiormente ‘a rischio’ (gli instituti di reddito
e gli protagonisti dell’intermediazione finanziaria o comunque svolgentei ‘attività sensibili’) ad adottare dei
protocolli preventivi idonei a minimizzare il pericolo di perpetuazione del reato, per fugare, in ultima istanza, il
rischio di incorrere nell relative sanzioni amministrative”.
23
Veja-se, a respeito, o comentário de TURNER, Jonathan E. Money laundering prevention: deterring,
detecting and resolving financial fraud. Haboken/New Jersey: John Wiley, 2011. p. 88: “This is the essence of
the successful money laundering scheme: Find businesses that deal in comparable columns of sach and mimic
their activities”.
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falsificações de dados e documentos.24 No caso dos Autos, os valores que seriam
destinados ao pagamento da solicitada propina de R$ 2.600.000,00 foram
dissimulados através de algumas etapas – transferências de fundos. Primeiro foram
objeto de contratos falsos de prestações de serviços. Em seguida foram entregues a
interposta pessoa, Alberto Youssef, doleiro, que operacionalizou os pagamentos:

a) Entregando dinheiro espécie a Chicão no estacionamento do edifício do seu


escritório;
b) Através de transferências bancárias:
i. Cujas contas de empresas (de fachada e/ou verdadeiras) utilizava
como “de passagem”.
ii. Novas transferências bancárias eram efetivadas para as contas de
outras PJs e PFs ;
iii. Outras transferências, finais, para as Gráficas de controle de Chicão.

V.2. Estratagema de Lavagem de Dinheiro: Fases.

1. UTC ENGENHARIA S.A. entregava dinheiro a suposto prestador de serviços – de


forma dissimulada (Fase da Colocação: Placement);
2. Valor total deveria ser de R$ 2.600.00,00;
3. Simulava contratos de prestações de serviços;25
4. Descontada a comissão do “prestador de serviços”, o valor era reencaminhado ao
operador doleiro, Alberto Youssef, que mantinha uma espécie de “conta da propina”
em nome da UTC ENGENHARIA S.A., para pagar os valores determinados pela
empresa.
5. O doleiro operador Alberto Youssef:
i. Por seu empregado Rafael Angulo Lopez entregava quantias em dinheiro
espécie a um preposto de Fernando Haddad e do PT – Francisco Carlos de
Souza “Chicão”, - proprietário ou representante da Gráfica. (Fase da
Acomodação ou Ocultação: Layering)
ii. Ou então passava o dinheiro primeiro por empresas de “Laranjas” 26 que
mantinha em sua “Carteira” – Leonardo Meirelles; Waldomiro de Oliveira e

24
Sobre manipulações financeiras, veja-se o comentário de SUTHERLAND, Edwin H. White Collar Crime.
Binghamton/N.Y.: Yale University Press – Vail-Ballou Press, 1983. p. 153: “The term ‘financial manipulation’
is used here to refer practices of corporations or their executives which involve fraud or violation of trust. These
practices include embezzlement, extortionate salaries and bonuses, and other misapplications of corporate funds
in the interest of executives or of the holders of certain securities; they include public misrepresentation in the
form of stock market manipulations, fraud in sale securities, enormous inflation of capital, inadequate and
misleading financial reports, and other manipulations”.
25
Cf. fls. 73 do PIC 12/2018-GEDEC
26
Cf.em https://oglobo.globo.com/brasil/doleiro-usava-empreiteira-para-fazer-saques-em-especie-12233559 “A
Empreiteira Rigidez está registrada no nome de duas mulheres: Soraia Lima da Silva e Andrea dos Anjos
Bastião. Foi passada para o nome delas depois que Waldomiro de Oliveira, também apontado como laranja do
doleiro pela PF, passou a atuar em outras empresas. Num processo de execução movido por uma instituição
financeira contra a empreiteira, Oliveira não chegou sequer a ser citado: o oficial de Justiça informou que, ao
tentar cumprir o mandado, em fevereiro, foi informado pelo zelador que a empresa e seus donos não iam ao
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Meire Poza27; (Empresas de Fachada) e/ou Empresas Verdadeiras em Mescla
(Commingling). (Fase da Acomodação ou Ocultação: Layering)
iii. Depois repassava o dinheiro para outras PJs e PFs: Empreiteira Rigidez Ltda, Marcelo
Miranda Candido, Laboratório Farmacêutico Elofar, Phisical Comércio Importação
Exportação, Ronaldo Candido de Jesus. Mescla (Commingling). (Fase da
Acomodação ou Ocultação: Layering)
6. Estas empresas de Laranjas depositavam o valor na conta das Gráficas controladas por
“Chicão”. (Fase da Integração: Integration).
 LWC Editora Gráfica Ltda
 Candido e Oliveira Gráfica Ltda
 (Francisco Carlos de Souza Eireli)

V.3. Transferências bancárias28:

No SIMBA 002-PF-002574-20 foram encontrados depósitos finais em favor


das empresas LWC Editora Gráfica Ltda e Candido & Oliveira Gráfica Eireli; ambas
controladas de fato por Francisco Carlos de Souza que denotam a fase da integração no ciclo
da lavagem de dinheiro. Trata-se da fase final do ciclo da lavagem do dinheiro – a integração
ao patrimônio dos agentes que praticaram o delito capaz de gerar os recursos ilícitos.

No caso destes Autos, há referência expressa de Alberto Youssef, no sentido de


que utilizava as contas-correntes de “Laranjas” de sua confiança: Leonardo Meireles ou
Waldomiro de Oliveira, ou Meire Poza (Empresa Arbor).29

Depósitos realizados para a empresa LWC Editora Gráfica Ltda


Origem Valor Data
Marcelo Miranda Candido30 R$ 100.000,00 22/05/2013
31
Marcelo Miranda Candido R$ 125.000,00 27/05/2013
Marcelo Miranda Candido32 R$ 100.000,00 06/06/2013
Laboratório Farmacêutico Elofar33 R$ 800.000,00 10/06/2013

local havia três anos. Em depoimento à PF, Leonardo Meirelles, um dos sócios da Labogen e subordinado ao
doleiro, afirmou que Oliveira era quem controlava as operações da RCI e da Rigidez”.
27
À época, contadora de Alberto Youssef.
28
Cf, além das transações descritas, aquelas referidas na análise da Polícia Federal, Lab-LD –
Delecor/SR/DPF/SP – SIMBA 002-PF-002574-20; especialmente item 5.2 (Apenso I – Movimentações
Financeiras);
29
Depoimento de Alberto Youssef em 16/09/2016 no IPL 0199/2016-11-SR/PF/SP.
30
Ligado a Alberto Youssef
31
Ligado a Alberto Youssef
32
Ligado a Alberto Youssef
33
Francisco Carlos de Souza (Chicão), declarou no IPL 0199/2016-11-SR/PF/SP – fls. 590/592; que o doleiro
Alberto Youssef “trabalhava com algumas empresas em parceria, as quais poderiam fazer o pagamento via
sistema bancário”. Além da Rigidez e da Phisical, havia um “Laboratório em Santa Catarina, cujo nome não se
recordava. O Laboratório Farmacêutico Elofar situa-se exatamente em Florianópolis/SC:
http://www.elofar.com.br/ Laboratório Farmacêutico Elofar Ltda. Rua Aracy Vaz Callado, 612 - Estreito -
Florianópolis-SC Cep: 88070-750. Fone: (48) 3027-1344 Fax: (48) 3027-1099 Sac: 0800-600-1344.
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Empreiteira Rigidez Ltda R$ 160.750,00 10/06/2013
Phisical Comércio Importação Exportação34 R$ 200.000,00 25/06/2013
Depósitos realizados para a empresa Candido & Oliveira Gráfica Eireli
Origem Valor Data
Ronaldo Candido de Jesus R$ 50.000,0035 22/05/2013
Marcelo Miranda Candido R$ 100.000,00 31/05/2013

Elaborado pelo GEDEC

V.4 As empresas utilizadas.

As empresas LWC Editora gráfica Ltda, Candido e Oliveira Gráfica Ltda e


Francisco Carlos de Souza Eireli eram todas controladas, na prática por Francisco Carlos de
Souza (Chicão), especialmente através de interpostas pessoas (“Laranjas”).

Foram estas as empresas utilizadas para o final recebimento de parte da propina


de R$ 2.600.000,00; sendo que outra parte foi recebida diretamente por ele, nas dependências
da própria empresa UTC Engenharia S.A., em dinheiro espécie.

Segundo a investigação da Polícia Federal no âmbito da Informação n°


04/2016 – IPL 0199/2016-11, a partir de dados obtidos no site do TSE da campanha do então
candidato Fernando Haddad; a empresa LWC Editora Gráfica Ltda teria recebido a quantia de
R$ 354.450,00 pelo fornecimento de publicidade por materiais impressos.
34
Empresa ligada a Alberto Youssef – através de Valdomiro de Oliveira
35
Referência de Ronaldo Candido de Jesus – fls. 60 do PIC 12/2018-GEDEC
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Empresa CNPJ Endereços 2012/2013 Sócios 2012/201336
LWC Editora Gráfica 04.711.421/0001-81 - R. Dr. Oscar de Barros, 165. - Zuleica Lopes Maranhão de
Ltda Diadema/SP Souza
- Av. Piraporinha, 1789, Sala - Gilberto Queiroz de Souza
5. Diadema/SP
Candido e Oliveira 12.064.476/0001-75 R. Rio Grande, do Sul, 335. - Ronaldo Candido de Jesus
Gráfica Ltda S. Caetano do Sul/SP37 - Danilo Pires de Oliveira
Candido
- Cauã Polichetti Lopes
Maranhão
Axis Gráfica Ltda - 17.800.639/0001-54 R. Rio Grande, do Sul, 339. - Edi Gonçalves de Oliveira
ME S. Caetano, do Sul/SP38 - Danilo Pires de Oliveira
Candido

Francisco Carlos de 19.846.350/0001-00 Rua Sebastião de Castro, 46. Francisco Carlos de Souza
Souza Eireli São Paulo/SP

 Zuleica Lopes Maranhão de Souza: Ex-esposa de Francisco Carlos de Souza


 Gilberto Queiróz de Souza: Irmão de Francisco Carlos de Souza
 Ronaldo Candido de Jesus: Amigo pessoal de Francisco Carlos de Souza
 Danilo Pires de Oliveira: Filho de Ronaldo Candido de Jesus
 Cauã Polichetti Lopes Maranhão: Sobrinho de Francisco Carlos de Souza
o Edi Gonçalves de Oliveira: Esposa de Francisco Carlos de Souza
o Danilo Pires de Oliveira: Filho de Ronaldo Candido de Jesus

36
Período das tratativas e dos pagamentos – objeto dos Autos.
37
Endereço da sede alterado em 7/3/2013 para Vila Vinte e um de Abril, 1515, Brás. São Paulo.
38
Mesmo endereço da Candido e Oliveira Gráfica Ltda
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(Imagens Google Maps)

Empresa: LWC Editora Gráfica Ltda. Endereço: Em 06/08/2007. Rua Dr. Oscar de Barros,
n° 165. Jd Vila Madalena. Diadema/SP. O número 165 aparentemente não existe. O número
160 é “Aliança Eterna das Nações”...
CNPJ: 04.711.421/0001-81

Endereço alterado em 19/07/2013 para Avenida Piraporinha, n° 1789, Sala 5, Diadema/SP.

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Empresa Cândido Oliveira Gráfica Ltda: Rua Rio Grande do Sul, n° 335. São Caetano do
Sul/SP. (Imagem Google Maps – Julho/2017)
Trata-se do mesmo endereço da empresa Axis Gráfica Ltda – ME: Rua Rio Grande do Sul,
n° 339. São Caetano do Sul/SP.

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Empresa: Francisco Carlos de Souza Eireli. Rua Sebastião de Castro, n° 46. Belenzinho.
São Paulo/SP. (Imagem Google Maps. Agosto/2017).39 CNPJ: 19.846.350/0001-00.
Constituição: 10/09/2001.

39
Imóvel desocupado segundo levantamento da Polícia Federal: Relatório Circunstanciado n° 4949/16
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Endereço: Rua Vinte e um de abril, n° 1515, Brás. São Paulo/SP (Imagem Google maps
Agosto/2017)
Mesmo Endereço para as empresas:
Candido & Oliveira Gráfica Ltda: 07/03/2013 - Atualmente
Francisco Carlos de Souza Eireli : 04/07/2016 - Atualmente

A Polícia Federal cumpriu mandado judicial de busca e apreensão na


residência de Francisco Carlos de Souza, onde apreendeu documentos societários e contábeis
das empresas LWC Editora Gráfica Ltda e Cândido & Oliveira Gráfica Ltda; revelando que:
a) Havia confusão entre ambas as pessoas jurídicas
b) Francisco Carlos de Souza (“Chicão”) era o controlador de ambas

A Polícia Federal também realizou análise das movimentações financeiras das


empresas envolvidas (SIMBA 002-PF-002574-20), obtendo resultado de relevante quantidade
de transações, bem como de valores muito elevados. 40

Movimentação Financeira das Empresas Gráficas


Empresa Créditos Total em valores Débitos Total em valores
LW Artes Gráficas Eireli 1758 R$ 42.862.364,51 6860 R$ 43.062.366,39
Candido & Oliveira Gráfica 702 R$ 13.946.260,09 4850 R$ 13.823.437,63
TOTAL 2460 R$ 56.808.624,60 11710 R$ 56.885.804,02

Estas empresas, exatamente pelo tamanho, porte e mesmo localização, não


teriam capacidade de movimentar grande quantidade de dinheiro em pouco tempo – período
da quebra de sigilos bancários: De 01/07/2012 a 31/12/2013, ou seja, em 18 meses.

40
Apenso I – Fls. 24.
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Para conferir o original, acesse o site https://esaj.tjsp.jus.br/pastadigital/pg/abrirConferenciaDocumento.do, informe o processo 0081822-31.2018.8.26.0050 e código CB2300.
Este documento é cópia do original, assinado digitalmente por MARCELO BATLOUNI MENDRONI, protocolado em 03/09/2018 às 22:05 , sob o número WBFU18701734890
V.5. Chamadas telefônicas:

Quando Ricardo Pessoa aceitou pagar a quantia de R$ 2.600.000,00 –


conforme solicitação de João Vaccari Neto, ficou decidido que a operacionalização dos
pagamentos seria entabulada através de Walmir Pinheiro Santana – diretor financeiro da UTC
Engenharia S.A. e o próprio Francisco Carlos de Souza – Chicão. O número que o próprio
Chicão lhe indicou para os contatos foi da linha 11 975798538 (Operadora VIVO) –
registrada em nome de Ronaldo Candido de Jesus; e o número da UTC indicado a Chicão era
da linha 11 981935677 (Operadora TIM).
 Número: 11 975798538 (Proprietário da linha: Ronaldo Candido de Jesus – sócio da
Candido Oliveira Gráfica Eireli – controlada pelo próprio Francisco Carlos de Souza -
Chicão)
 Número: 11 981935677 (Proprietário da linha: UTC ENGENHARIA S.A. Engenharia
S.A.)

Foram detectadas 11 chamadas entre estas linhas, entre os dias 23/04/2013 e


22/05/2013. Todas partiram do número 11 975798538.41

Data Horário Chamador Chamado


23/04/2013 10:35h 11 975798538 11 981935677
25/04/2013 09:27h 11 975798538 11 981935677
25/04/2013 10:31h 11 975798538 11 981935677
30/04/2013 09:40h 11 975798538 11 981935677
30/04/2013 15:52h 11 975798538 11 981935677
02/05/2013 10:22h 11 975798538 11 981935677
03/05/2013 09:35h 11 975798538 11 981935677
06/05/2013 09:26h 11 975798538 11 981935677
17/05/2013 08:47h 11 975798538 11 981935677
20/05/2013 15:28h 11 975798538 11 981935677
22/05/2013 08:53h 11 975798538 11 981935677

Segundo a informação 02/2016 da Polícia Federal, o tempo total de ligações


soma 8 minutos e 55 segundos.

A maior parte das ligações foi realizada em momentos nos quais a linha
número 11 975798538 estava próxima ao endereço do próprio Francisco Carlos de Souza.
Em outras duas ligações, as chamadas foram realizadas em locais próximos aos endereços
da empresa Francisco Carlos de Souza Eireli.

Em relação à linha que recebeu as chamadas, 11 981935677, a maioria delas


ocorreu quando o chip se encontrava próxima do escritório central da empresa UTC
Engenharia S.A.

41
Fonte. Informação 02/2016. IPL 0199/2016 da Polícia Federal
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Desta análise resulta dedução de que a linha n° 11 975798538, embora
registrada em nome de Ronaldo Candido de Jesus, era de fato utilizada por Francisco
Carlos de Souza – Chicão, e no período das tratativas do pagamento da propina, ele
realizou chamadas para o telefone indicado pelo diretor financeiro Walmir Pinheiro
Santana, que com ele conversou quando se encontrava próximo ou nas dependências da
UTC Engenharia S.A – para receber os valores em espécie e/ou combinar sobre os
depósitos que ocorreram no mesmo período, maio-junho/2013.

V.6. Consumo de energia das gráficas

Informação da empresa AES Eletropaulo revelaram que a empresa Candido &


Oliveira Gráfica Ltda passou a apresentar consumo de energia elétrica apenas a partir do final
do mês de junho de 201342; o que significa que esta empresa, que movimentou grandes
quantias em dinheiro e supostamente teria produzido material para a campanha para Fernando
Haddad, - e por isso restaria “dívida” de campanha - não estava operante durante o período de
campanha em 2012 – situação impensável para uma gráfica que – teoricamente – se prestou
ou deveria ter se prestado à produção de material gráfico impresso – com a intenso trabalho
de maquinário e de alta movimentação financeira constatada, que ensejaria a necessidade de
considerável consumo de energia elétrica.

V.7. Relatório de Inteligência Financeira - RIF-COAF n° 25.737-DPF43

Através da sistemática de obrigatoriedade de comunicação de operações


suspeitas,44 o COAF (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) forma uma rede de
informações hábeis a detectar situações suspeitas que podem configurar delitos de lavagem de
dinheiro.

Posteriormente, de posse das informações, o COAF realiza a sua análise e


elabora um documento denominado de RIF − Relatório de Inteligência Financeira. Este
relatório pode ser oficialmente registrado de duas formas: Em resumo, segundo disposição
na própria web page do COAF:45

O resultado das análises de inteligência financeira decorrentes de comunicações


recebidas, de intercâmbio de informações ou de denúncias, é registrado em
documento denominado Relatório de Inteligência Financeira – RIF.
O Relatório de Inteligência Financeira pode ser:

42
I.P. n° 0199/2016-11-SR/DPF/SP; fls. 665/666
43
A análise preliminar contida no RIF-COAF foi realizada em período de tempo diferente daquele contido no
afastamento dos sigilos bancários dos Autos.
44
Comunicação de Operações Suspeitas (COS). Disponível diretamente ao COAF através do seu site.
45
Disponível em: <http://www.coaf.fazenda.gov.br/a-inteligencia-financeira/relatorio-de-inteligencia-
financeira-rif>.

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 Espontâneo (de ofício): RIF elaborado por iniciativa do COAF, resultante da análise
de comunicações recebidas ou de denúncia; ou
 De intercâmbio: RIF elaborado para atendimento a solicitação de intercâmbio de
informações, por autoridades nacionais ou por Unidades de Inteligência Financeira.

Quando o resultado das análises indicar a existência de fundados indícios de


lavagem de dinheiro, ou qualquer outro ilícito, os Relatórios de Inteligência
Financeira são encaminhados às autoridades competentes, nos termos do previsto
no artigo 15 da Lei nº 9.613, de 1998: “O COAF comunicará às autoridades
competentes para a instauração dos procedimentos cabíveis, quando concluir pela
existência de crimes previstos nesta Lei, de fundados indícios de sua prática, ou de
qualquer outro ilícito.

No caso dos Autos, a Polícia Federal recebeu do COAF o RIF-COAF n°


25.737, cujos dados e relatos mais relevantes aos fatos aqui tratados podem ser assim
sintetizados:

- Recebedores de recursos: Janeiro/2014 – Fevereiro/2016


- Francisco Carlos de Souza Eireli - EPP: R$ 1.646.020,79
- LWC Artes Gráficas Eireli: R$ 1.646.020,04
- Axis Gráfica Ltda: R$ 914.192.34

Empresa Cândido Oliveira Gráfica Ltda.


Sócios: Ronaldo Candido de Jesus
Cauã Polichetti Lopes Maranhão, que é sócio da empresa Candido e Oliveira Gráfica
Ltda, recebe “auxílio financeiro a estudantes” da USP de R$ 586,00).
Mas a empresa movimentou R$ 43.319.965,00 entre 10/01/2014 e 29/02/2016
+ R$ 21.635.728,00 (créditos)
- R$ 21.684.237,00 (débitos)
Endereço: Loja de Pequenas Proporções.
Constituição: 23/04/2010

RIF46: “Não foram encontrados fundamentos econômicos ou legais para a movimentação


financeira, podendo configurar a existência de indícios do crime de lavagem de dinheiro”.

Até 12/2012 a movimentação do titular baseava-se no recebimento de depósitos em


cheques, algumas TEDs emitidas por outras gráficas e pagamentos de fornecedores e
cobrança/desconto com utilização de recursos, sobretudo, saques em espécie e
transferências/depósitos em favor de LWC Artes Gráficas Eireli.

A partir de julho/2014 houve uma série de recebimentos da empresa Francisco Carlos de


Souza Eireli. Entre julho e novembro/2014 efetuou 51 transferências para a conta de
Cândido, de aproximadamente R$ 1.805.000,00.
46
Fls. 3/32 do RIF
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Em novembro de 2014 e a partir de fevereiro/2015 a Cândido passou a transferir valores
para Francisco, em total de R$ 1.048.600,00, em 73 transferências de origem, sobretudo
das empresas:
a) Francisco Carlos de Souza Eireli
b) LWC Artes Gráficas Eireli
c) Axis Gráfica Ltda – ME
d) Forma Certa Gráfica Digital Ltda

----------------------------------------------------------------------------------------------------------------
VI. Resumo esquemático dos Fatos

Crime de Corrupção:

1. No início de 2013 Fernando Haddad do PT – Partido dos Trabalhadores, tomou posse


como Prefeito Municipal de São Paulo;
2. Havia uma dívida de sua campanha, de R$ 3.000.000,00 (três milhões de reais) que
deveria, segundo referiram, ser paga a Gráficas;
3. Representando Fernando Haddad, e em seu nome, João Vaccari Neto, tesoureiro
nacional do PT, em abril ou maio de 2013, procurou Ricardo Pessoa, dono da UTC
Engenharia S.A. e lhe pediu que efetuasse o pagamento daquela dívida;
4. Ricardo Pessoa concordou em efetuar o pagamento, considerando uma perspectiva de
favorecimentos em contratos da UTC Engenharia S.A. com a Prefeitura de São Paulo;
5. A UTC Engenharia S.A. já havia sido beneficiada antes, pelo Governo Federal do
mesmo PT - Partido dos Trabalhadores, em contratos da Petrobrás S.A.;
a) Existia, portanto, a promessa, ainda que implícita do Governo Municipal de SP,
através do seu Prefeito, de possível favorecimento da UTC Engenharia S.A.;
b) Também existia, por parte da UTC Engenharia S.A., a perspectiva de receber
favorecimento por parte do Governo Municipal de SP, através do seu Prefeito;
6. Ricardo Pessoa indicou a João Vaccari Neto, o diretor financeiro da UTC Engenharia
S.A., Walmir Pinheiro Santana; enquanto João Vaccari Neto indicou Francisco Carlos
de Souza (vulgo “Chicão”) – para ambos conversarem a respeito da forma do
pagamento;
7. Walmir Pinheiro Santana conseguiu abaixar o valor prometido para R$ 2.600.000,00
ao invés dos R$ 3.000.000,00 solicitados;
8. Ambos acertam as formas do pagamento:
a) Entrega de dinheiro espécie da UTC Engenharia para Chicão;
b) Através de transferências bancárias

Crimes de Lavagem de Dinheiro:

9. A UTC Engenharia S.A. simulou contratos de prestações de serviços com Ricardo


Trombeta;

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10. A UTC Engenharia S.A. entregou, através do doleiro Alberto Youssef, em datas
diversas, dinheiro em espécie para Chicão, que ia buscar os valores na garagem da
empresa do doleiro;
11. Dos contratos de prestações de serviços simulados, Ricardo Trombeta retirava para si
um valor percentual e repassava o restante a Alberto Youssef, doleiro utilizado pela
UTC Engenharia S.A. para manter uma espécie de “conta” de Caixa 2, para
pagamento de valores não declarados e também para valores de propinas;
12. Alberto Youssef utilizou empresas de “Laranjas” para transferir os valores, de forma a
ocultar e dissimular a sua origem;
13. Estas empresas, por fim, transferiram os valores para as Gráficas que eram controladas
por Chicão.

VII. Configuração:

Com a análise jurídica das ações descritas, torna-se evidenciado que nos
Inquéritos da Polícia Federal - IPL n° 0199/2016-11 DELECOR/SR/PF/SP e IPL n°
414/2015-11 há conteúdo de vasto material contendo evidências, elementos de provas e
provas da prática de crime eleitoral além de atos de improbidade administrativa 47.

Em relação aos fatos específicos aqui descritos, que também fazem parte dos
mesmos Inquéritos Policiais; afiguram-se práticas dos delitos:

Corrupção passiva
Código Penal. Art. 317 - Solicitar ou receber, para si ou para outrem, direta ou
indiretamente, ainda que fora da função ou antes de assumi-la, mas em razão dela, vantagem
indevida, ou aceitar promessa de tal vantagem:
Pena – reclusão, de 2 (dois) a 12 (doze) anos, e multa.

Corrupção ativa
Código Penal. Art. 333 - Oferecer ou prometer vantagem indevida a funcionário público,
para determiná-lo a praticar, omitir ou retardar ato de ofício:
Pena – reclusão, de 2 (dois) a 12 (doze) anos, e multa.

Associação Criminosa
Código Penal. Art. 288. Associarem-se 3 (três) ou mais pessoas, para o fim específico
de cometer crimes:
Pena - reclusão, de 1 (um) a 3 (três) anos.

Lavagem de dinheiro
Lei 9.613/98.
Art. 1o Ocultar ou dissimular a natureza, origem, localização, disposição,
movimentação ou propriedade de bens, direitos ou valores provenientes, direta ou
indiretamente, de infração penal.
47
Objetos de Ações judiciais próprias e específicas.
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Pena: reclusão, de 3 (três) a 10 (dez) anos, e multa.
§ 1o Incorre na mesma pena quem, para ocultar ou dissimular a utilização de bens,
direitos ou valores provenientes de infração penal: [...]
II - os adquire, recebe, troca, negocia, dá ou recebe em garantia, guarda, tem em
depósito, movimenta ou transfere

VII.1. Condutas.

Fernando Haddad: Prefeito da cidade de São Paulo, recém-eleito (2013), em início


de um mandato de quatro anos, detendo o poder de, em razão de suas funções, ainda que em
perspectiva de hipótese e mesmo que não se concretizasse, qualquer contrapartida para a
empresa UTC Empreiteira S.A.; solicitou e recebeu indiretamente, vantagem indevida de R$
2.600.000,00.
Depois, agiu por interpostas pessoas de forma a dissimular a natureza, a origem, a
localização e a movimentação dos valores provenientes, direta e indiretamente, daquela
infração penal.

João Vaccari Neto: Então tesoureiro nacional do PT – Partido dos Trabalhadores,


mesmo partido do Prefeito da cidade de São Paulo, recém-eleito, em início de um mandato de
quatro anos Fernando Haddad; agiu em nome dele e nos mesmos termos, solicitou e recebeu
indiretamente, vantagem indevida de R$ 2.600.000,00.
Depois, agiu por interpostas pessoas de forma a dissimular a natureza, a origem, a
localização e a movimentação dos valores provenientes, direta e indiretamente, daquela
infração penal.

Francisco Carlos de Souza: Interposta Pessoa, controlador das Gráficas para onde os
recursos foram ao final destinados. Recebeu, em nome de Fernando Haddad e de João Vaccari
Neto, direta e indiretamente, vantagem indevida de R$ 2.600.000,00.
Depois, agiu por si e por interpostas pessoas de forma a dissimular a natureza, a
origem, a localização e a movimentação dos valores provenientes, direta e indiretamente,
daquela infração penal.

Ricardo Ribeiro Pessoa: Acionista controlador da Holding UTC Participações, da


qual pertence a UTC Engenharia S.A.; ofereceu, prometeu e entregou efetivamente ao PT –
Partido dos Trabalhadores, e a Fernando Haddad, João Vaccari Neto e Francisco Carlos de
Souza, direta/indiretamente, vantagem indevida de R$ 2.600.000,00; para, ainda que em mera
perspectiva, determiná-lo a praticar, omitir ou retardar ato de ofício.
Depois, agiu, por interpostas pessoas para ocultar ou dissimular a utilização de bens,
direitos ou valores provenientes daquela infração penal.

Walmir Pinheiro Santana: Diretor Financeiro da UTC Engenharia S.A., negociou,


em nome de Ricardo Ribeiro Pessoa, oferta, promessa e entrega, efetivamente ao PT – Partido
dos Trabalhadores, e a Fernando Haddad, João Vaccari Neto e Francisco Carlos de Souza,

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indiretamente, vantagem indevida de R$ 2.600.000,00; para, ainda que em mera perspectiva,
determiná-lo a praticar, omitir ou retardar ato de ofício.
Depois, agiu, por interpostas pessoas para ocultar ou dissimular a utilização de bens,
direitos ou valores provenientes daquela infração penal.

Alberto Youssef: Interposta Pessoa - operador dos pagamentos das vantagens


indevidas de R$ 2.600.000,00; para dissimular a utilização daqueles valores provenientes de
infração penal, os recebeu, teve em guarda, em depósito, os movimentou e transferiu.

Nesse contexto, cada qual dos denunciados exercendo uma função definida e
planejada, ainda com terceiras pessoas cujas condutas serão apuradas de forma mais detalhada
em outra investigação, todos associaram-se informalmente, para o fim específico de praticar
crimes de corrupção – passiva e ativa, e lavagem de dinheiro.

VIII. Capitulação Penal:

Em face de todo o exposto, DENUNCIO:

Fernando Haddad: Como incurso nas penas dos artigos 317 caput e 288 caput,
ambos do Código Penal; c.c. artigo 1° caput da Lei 9.613/98 c.c. artigo 71 caput do Código
Penal; todos c.c. artigo 69 caput do Código Penal.
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João Vaccari Neto: Como incurso nas penas dos artigos 317 caput e 288 caput,
ambos do Código Penal; c.c. artigo 1° caput da Lei 9.613/98 c.c. artigo 71 caput do Código
Penal; todos c.c. artigo 69 caput do Código Penal.

Francisco Carlos de Souza: Como incurso nas penas dos artigos 317 caput e 288
caput, ambos do Código Penal; c.c. artigo 1° caput da Lei 9.613/98 por duas vezes (transporte
de dinheiro e recebimento pelas gráficas) c.c. artigo 71 caput do Código Penal; todos c.c.
artigo 69 caput do Código Penal.

Ricardo Ribeiro Pessoa: Como incurso nas penas dos artigos 333 caput e 288 caput,
ambos do Código Penal; c.c. artigo 1° caput da Lei 9.613/98 c.c. artigo 71 caput do Código
Penal; todos c.c. artigo 69 caput do Código Penal.

Walmir Pinheiro Santana: Como incurso nas penas dos artigos 333 caput e 288
caput, ambos do Código Penal; c.c. artigo 1° caput da Lei 9.613/98 c.c. artigo 71 caput do
Código Penal; todos c.c. artigo 69 caput do Código Penal.

Alberto Youssef: Como incurso nas penas do artigo 288 caput do Código Penal; c.c.
artigo 1° § 1° II da Lei 9.613/98 por duas vezes (entrega para transporte de dinheiro e
pagamento pelas gráficas) c.c. artigo 71 caput do Código Penal; ambos c.c. artigo 69 caput do
Código Penal.

Requeiro que sejam todos citados e processados nos termos da Lei até final
condenação, ouvindo-se oportunamente, durante a instrução criminal, as pessoas abaixo
arroladas:

ROL:

- Dr. João Luiz Moraes Rosa: Delegado Polícia Federal


- Felipe de Lanna Sette Fiuza Lima: Escrivão Polícia Federal
- Paulo Victor Mann Habirian Baker: Agente Polícia Federal
- Roberto Trombeta (fls. 73)
- Zuleica Lopes Maranhão de Souza (fls.66)
- Cauã Polichetti Lopes Maranhão (fls. 70)

São Paulo, 3 de setembro de 2018

Marcelo Batlouni Mendroni


Promotor de Justiça – GEDEC

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