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Questão I: "Tal foi ou deve ter sido a origem da sociedade e das leis, que deram novos entraves ao fraco

e novas
forças ao rico, destruíram irremediavelmente a liberdade natural, fixaram para sempre a lei da propriedade e
da desigualdade, fizeram de uma usurpação sagaz um direito irrevogável e, para lucro de alguns ambiciosos,
daí por diante sujeitaram todo o gênero humano ao trabalho, à servidão e à miséria."

Rousseau, ao contrário de outros filósofos iluministas, tece uma visão negativa sobre a história humana.
Compare sua visão com as de Bossuet e Vico, traçando o desenvolvimento da noção de Providencialismo nesses
três pensadores.

A concepção de uma linearidade histórica é inquestionavelmente aceita hodiernamente, fato esse que
aparentemente criou a equívoca noção de que a historiografia sempre encarou a história como um processo. No
entanto, tal concepção possui origens relativamente recentes e diretamente ligadas ao desenvolvimento da noção de
providencialismo. Rompendo com a concepção cíclica aceita durante o renascimento o conceito de providência foi
utilizado para buscar sentidos, explicar a ordem e descobrir as intenções ocultas por trás do suposto ordenamento que
conduzia uma história que passava por transformações radicais e inéditas.

Surgido no século XVII, o providencialismo teve suas origens pautadas na crença cristã. A ordem por trás dos
“negócios humanos”, os sentidos e intenções definidos por tal força e a condução dos eventos históricos seriam todos
definidos pela vontade divina. Partindo desse pressuposto, Bossuet defenderá a tese de que o único e verdadeiro
agente histórico deveria ser Deus, cabendo aos homens tão somente o papel de ferramentas nesse processo. Seguindo
tal raciocínio e apresentando uma ideia muito parecida à pax deorum romana, Bossuet aproxima tal poder divino ao
governo absolutista, que cercearia a pouca liberdade individual, garantindo o status quo e a ordem.

Tal determinismo divino do conceito de providencia perderia força ao longo do século XVIII. Conforme o
iluminismo ganhava força, o providencialismo se afastava do divino e cada vez mais se aproximava da razão por trás
da “ordem natural” dos acontecimentos humanos. Localizado no início do processo de laicização da providência, Vico
transforma a concepção religiosa em um raciocínio filosófico, aproximando o intelecto à vontade e definindo o
homem não mais como uma ferramenta, mas também como agente histórico. A história passa a ser vista como
“ciência nova”, tendo uma notável vantagem sobre as ciências da natureza, uma vez que o próprio homem seria seu
objeto e sujeito. A valorização da razão na busca pelos sentidos definidos pela ordem natural daria origem a uma
noção de progresso inerente ao providencialismo além de um crescente otimismo em relação a tal progresso.

No entanto, tal otimismo em relação ao progresso e ao providencialismo seria questionado. Embora


concordasse com o papel fundamental do ordenamento dos fatos pela providência e assumisse existência de uma força
divina (mesmo essa não tendo um papel tão decisivo na ação dos homens como propôs Bossuet) Rousseau discordaria
das posições defendidas por Vico e outros iluministas, onde o progresso seria compreendido como sendo um sinônimo
de harmonia e o homem teria uma posição privilegiada e benéfica em relação à natureza e ao próprio mundo.

Crendo na existência hegemônica e benigna da providência sobre o mundo, Rousseau, assim como Voltaire,
não conseguia compreender a existência do mal em tal realidade. Assim sendo, Rousseau teoriza que a existência
benigna da providência é tão somente manifestada na natureza, a desordem, o caos e principalmente a maldade, seriam
frutos do progresso humano. Em uma realidade onde os avanços trazidos pela razão distanciavam cada vez mais o
homem de seu estado de natureza (definido pela providência, portanto, benigno e harmonioso) e o faziam usufruir
desmedidamente da própria natureza, a propriedade privada seria criada, dela surgindo a desigualdade, a exploração, a
injustiça, e, consequentemente, a maldade.

Rousseau define a história como sendo nada mais do que declínio, um processo que traria o progresso e
consequentemente a desnaturação do homem, distanciando-o do estado de natureza e da bondade.