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INTRODUÇÃO AOS

ESTUDOS TEOLÓGICOS

autor
ERNANI JOSÉ ANTUNES

1ª edição
SESES
rio de janeiro  2019
Conselho editorial  roberto paes e gisele lima

Autor do original  ernani jose antunes

Projeto editorial  roberto paes

Coordenação de produção  andré lage, luís salgueiro e luana barbosa da silva

Projeto gráfico  paulo vitor bastos

Diagramação  bfs media

Revisão linguística  bfs media

Revisão de conteúdo  vandeia lúcio ramos, antonio sérgio giacomo macedo

Imagem de capa  ethiriel | shutterstock.com

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Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (cip)

A636i Antunes, Ernani José


Introdução aos estudos teológicos / Ernani José Antunes.
Rio de Janeiro: SESES, 2019.
136 p: il.

isbn: 978-85-5548-679-1.

1. Teologia. 2. bíblia. 3. Revelação. 4. Pluralidade. I. SESES. II. Estácio.

cdd 230.01

Diretoria de Ensino — Fábrica de Conhecimento


Rua do Bispo, 83, bloco F, Campus João Uchôa
Rio Comprido — Rio de Janeiro — rj — cep 20261-063
Sumário
Prefácio 7

1. Teologia como comunhão de vida 9


Introdução 11
Natureza do método teológico 12

A teologia como disciplina 13

A Teologia como ciência sagrada 17


Natureza Teológica: Apologética e teologia fundamental 21
Fundamentação histórica da apologética e teologia fundamental 23

Moderna 25
Concepção da Teologia Fundamental 28
A credibilidade como objeto da Teologia Fundamental 30
Pressupostos dogmáticos. 31
Consequências metodológicas 31

2. Breve história da teologia cristã 37


As primeiras comunidades 38

A cruz frente à perseguição do poder civil entre os séculos I e III 40

No período Patrístico 41

A igreja como oriental e ocidental 43

O poder religioso e político da Igreja na Idade Média 45

A relação entre Império e papado na Alta Idade Média 47


As tensões entre império e papado na Idade Média 47

A Reforma Protestante 49

De Nicéia ao Vaticano II: grandes concílios da Igreja 51


O Concílio de Trento (1545-1563) 54
O Concílio Vaticano I (1869-1870) 55
O Concílio Vaticano II (1962-1965) 55
Embates com a Modernidade e a Pós-Modernidade 56

O movimento ecumênico no século XX 57

3. As divisões da teologia cristã 61


A Teologia Bíblica / Exegética 62
Indícios e evidências históricas 63
A tradição oral e a tradição escrita 63
A nova tradição da era cristã 65
Teologia Histórica 66

Teologia Prática 70

Teologia Sistemática 73

Cristologia 75

Eclesiologia 76

Trindade 77
Antropologia Teológica 78

Escatologia 80

4. Principais temas da teologia cristã 83


Cristologia 84

Pneumatologia 88

Soteriologia 93

Eclesiologia 97
Conceito de Igreja
Escatologia 101

5. As diversas correntes teológicas


contemporâneas 107
Teologia da libertação 108

Teologia feminista 112


Teologia negra 114
Histórico da Teologia negra 115

Teologia indígena 118

Teologia das religiões 121


O caminho ecumênico, via de regeneração e unidade 121
Diálogo inter-religioso 122
O pluralismo 122
Respeito e tolerância religiosa 123
Proselitismo 123
Criação do Conselho Mundial de Igrejas - CMI 124
O diálogo como caminho da paz 125

Teologia do meio ambiente 126


Prefácio

Prezados(as) alunos(as),

A necessidade da teologia é uma questão da necessidade de comunicação de


Deus, visto que este é o universo de Deus, a fonte última de informação e inter-
pretação de tudo da vida e do pensamento é a revelação divina. A teologia cristã foi
influente na Europa Ocidental, especialmente na Europa pré-moderna e moderna.
A teologia cristã pode ser definida como as verdades fundamentais da Bíblia, em
diálogo com outras fontes, pois só a Escritura nos dá o que há de acordo quanto
a ser divinamente inspirada e sistematicamente apresentadas, ou mesmo, o modo
de pensar sobre o que vem ao nosso conhecimento de Deus e da relação do Todo-
-Poderoso Deus e do homem, percebendo que tudo se relaciona com Deus, a pala-
vra e os propósitos de Deus.
Abordaremos a Reforma Protestante como uma reação à Escolástica e uma
Teologia de estudo bíblico e de experiência da fé, analisando as demais reações
quanto ao questionamento. Identificaremos as principais características de cada
divisão da teologia cristã e suas devidas importâncias para a pesquisa e para a Igreja.
Abordaremos a Cristologia na pessoa e a obra de Cristo; a Pneumatologia, com a
vida no Espírito Santo; a Soteriologia, como dom gratuito de Deus e tarefa para a
humanidade; a Eclesiologia como projeto de vida de comunhão do Povo de Deus
em continuidade da missão de Jesus Cristo; veremos a Escatologia, em que o futuro
e o eterno fazem da morte um caminho de esperança.
Por fim, abordaremos as principais correntes teológicas contemporâneas, tais
como a Teologia da Libertação, Teologia Feminista, Teologia Negra, Teologia
Indígena e Teologia das Religiões. Além disso, faremos uma reflexão ampla da teo-
logia, sobre a atuação dialógica entre as diversas expressões religiosas em uma cami-
nhada histórica de encontro e busca de unidade e respeito à pluralidade.

Bons estudos!

7
1
Teologia como
comunhão de vida
Teologia como comunhão de vida
Prezado aluno, neste Capítulo teremos a oportunidade de aprofundar, através
do Método Teológico, a Revelação de Deus ao longo da história da humanidade
inserida nos contextos histórico, geográfico e cultural, reconhecendo a Teologia
como comunhão de Vida e a fé como caminho para o encontro com Verdade a
Teologia como comunhão de Vida. Vamos nos unir aos teólogos, no serviço de
sustentar e confirmar a fé dos discípulos do Senhor Jesus1. De modo que a fé deve
ser um caminho que leve o leitor a encontrar-se progressivamente com a Verdade2
e a confrontar-se com ela. No entanto, deve ser feito um caminho, que é baseado
em questões fundamentais sobre a existência humana e que nos conduz ao trans-
cendente: Quem sou eu? Donde venho e para onde vou? Porque existe o mal? O que
é que existirá depois desta vida? Estas perguntas estão inseridas na vida do povo de
Israel, mas que também estão inseridos nos tratados filosóficos. Deus se manifesta
por revelações, mas que não devem ser entendidas como “manifestações de segre-
dos dos quais, antes não se tinha consciência”3. A revelação divina deve ser enten-
dida como um ensinamento, uma exortação, uma instrução da parte de Deus que
se dá a conhecer, por meio de testemunhas acreditadas, conhecidas, chamadas por
Ele a ser portador de sua mensagem.
Apesar do avanço entre fé e ciência, ainda há um conflito que continua em nossa
atualidade. Deve-se entender que as duas realidades, não se divergem, mas que se
complementam na busca pela verdade. O método teológico deverá compreender o
que se crê, a saber a fé, pois a Teologia é precisamente a fé que deseja entender, por-
que sem o estudo essa realidade pode se tornar supersticiosa. O método Teológico
deverá compreender que os eventos da Revelação estão inseridos em um período
histórico, geográfico e cultural, e o estudo dessas realidades irá aprimorar o conheci-
mento teológico. Vamos, juntos, nesta busca fecunda unindo Fé e Vida!

OBJETIVOS
•  Aprofundar, através do Método Teológico, a Revelação de Deus ao longo da história da
humanidade inserida nos contextos histórico, geográfico e cultural, reconhecendo a Teologia
como comunhão de Vida, reconhecendo a fé como caminho para o encontro com Verdade;

1  Cf. Lc 22, 32
2  Cf. Jo 14,6
3  WICKS, INTRODUCAO AO MÉTODO TEOLÓGICO, P.9

capítulo 1 • 10
•  Compreender que as questões fundamentais sobre a existência humana, encontradas nos
tratados filosóficos e inseridas na vida do Povo de Israel, são canais de condução à trans-
cendência: Quem sou eu? Donde venho e para onde vou? Porque existe o mal? O que é que
existirá depois desta vida?

Introdução

Deus se comunica com o povo de Israel a respeito de seu plano de salvação


e para tal, utiliza de mensageiros, que estão inseridos em um tempo, com uma
cultura local e geografia. Não é uma Revelação individualizada ou que caiu pronta
do Céu, por isso faz-se necessário um estudo sistemático e ordenado, para não
se retirar do contexto a Revelação. A Sagrada Escritura é portadora dessa men-
sagem, onde Deus fala aos homens como amigos, gerando uma comunhão entre
Deus que se revela e os que creem. “O ápice da Revelação não é a instrução, mas
a comunhão de vida com Deus, a qual os crentes são conduzidos pela palavra
Divina”4. Cabe o homem, receptor desse anúncio que foi comunicado ao longo
da história da salvação, abrir seu coração e sua inteligência em busca dessa verda-
de, em conhecer e amar a Deus, pois Seu objetivo “é que os homens por meio de
Cristo, Verbo feiro carne, tenham acesso ao Pai, no Espírito Santo” (DV2).
O Método Teológico deve estar inserido na cultura contemporânea que é es-
sencialmente reflexiva, que não se contenta apenas com o recurso de uma autori-
dade que diz ou comunica, todavia, as questões atuais em relação à fé exigem uma
reflexão elaborada, reflexiva e fundamentada.
O método teológico deve conduzir ao estudante de teologia a dar respostas so-
bre a razão da esperança5, por uma capacidade reflexiva própria do intelecto humano
em busca de Deus, baseando na atividade filosófica para construir e elaborar sua res-
posta a respeito do que Deus transmitiu na Sagrada Escritura, que tem uma impli-
cância na vida do homem, em sua atividade social, cultural, econômica e ecológica.
Deve ser lembrado que o pressuposto para uma boa teologia que antes de falar
de Deus ou estudá-lo, cabe ao estudante pôr-se de joelhos e falar com Ele. Não
queira fazer teologia sem antes ter feito “experiência de Deus”, porque antes de ser
teologia racional, é teologia genuflexa e devota.6
O genial teólogo Duns Scotus, defendia que só Deus mesmo é o “teólogo ab-
soluto”, porque de fato só Deus conhece bem Deus. A teologia é um discurso
4  WICKS, INTRODUCAO AO METODO TEOLOGICO, P. 10.
5  1Pd 3,15
6  Pp129-156 Clodovis Boff

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nativo feito a partir de dentro da fé, como dizia a carta de Paulo7. Em nosso
estudo, não deverá se perder o ponto de vista que o tema central da Teologia é o
mistério de Deus. Seja a Sagrada Escritura o principal texto de referência no mé-
todo Teológico, pois ela é alma de toda a teologia, pois na verdade tanto do ponto
de vista histórico como estrutural, a teologia é um desdobramento da Palavra de
Deus, seja na forma de exegese (comentário), de dogma (reflexão aprofundada),
seja na moral (aplicação prática). Mas, sem antes esquecer que a Palavra de Deus
está inserida em um contexto histórico, político e econômico, e uma passagem
fora de seu contexto pode ser pretexto para qualquer fundamentação.

Natureza do método teológico

A Teologia nos apresenta como verdadeira ciência natural quanto sobrenatu-


ral. Num certo sentido, a teologia e a filosofia compõem as chamadas “ciências sa-
gradas”. Diferentemente das demais, que estudam apenas uma parte da realidade,
a teologia e a filosofia procuram contemplar o mundo de um ponto de vista mais
abrangente; os filósofos cristãos perceberam que são duas ciências onde o objeto
de estudo é encarado a luz de dois princípios complementares: a razão natural e a
fé sobrenatural.

A fé e a razão (fides et ratio) constituem como que as duas asas pelas quais o espírito
humano se eleva para a contemplação da verdade. Foi Deus quem colocou no coração
do homem o desejo de conhecer a verdade e, em última análise, de O conhecer a Ele,
para que, conhecendo-O e amando-O, possa chegar também à verdade plena sobre
si próprio8

Introdução ao método

Pode ser denominada a disciplina da teologia, como aquela que tem como
objetivo tratar de Deus e de Suas obras na medida em que a Ele se referem como
princípio e fim.9 A matéria de teologia pode ser dividida em partes, que nada mais
são de que modos de abordarem e perscrutarem a Revelação10. Pode ser dividida
7  Cf. Rm 1,17
8  JOAO PAULO II, Fides et Ratio, n.1
9  Cf. Tómas de Aquino, Summa Theologiae, I, q.1, a.3.
10  Cf. A. Tanquerey, Synopsis Theologiae Fundamentalis. Typis Societatis Sancti Joannis Evangelistae. Paris:
Descleé & Socii, 1943, t.2, p. 189, n. 331

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em diversas partes, no entanto iremos fundamentar em apenas três colunas, que
são essenciais para aquele que deseja construir seu pensamento teológico.
Aquela que chamamos de Teologia Fundamental, antigamente era denomi-
nada apologética. Esta área teológica tem como objetivo estudar a credibilidade
dos artigos dessa disciplina, pois se trata de um estudo preparatório, em que a
Revelação em contato com os dados revelados, procura razões, para que por meio
da fé (adesão pessoal e dom gratuito recebido por Deus) e sob a moção da vonta-
de (intelecto que busca conhecer as razões) em vista daquilo que o próprio Deus
quis revelar, Teologia dogmática (conhecida também como Sistemática) é a parte
reflexiva-teorética, onde os dogmas da fé são fundamentados em uma reflexão
filosófica, oriundas das dificuldades de compreensão que geraram polêmicas sobre
os artigos de fé na vida da Igreja11, e a Teologia moral, parte da Teologia, que quer
dizer “o estudo específico da atividade humana em relação, mediante os princípios
da fé e da razão, à consecução do fim último sobrenatural do homem”.12
Pode-se dizer que esses são os pilares para a construção de um bom estudo
da teologia, ainda mais que haja outros campos de pesquisa, tais como Teologia
pastoral, teologia bíblica...

A teologia como disciplina

O homem tem necessidade de ser iluminado pela Revelação de Deus para que
assim as verdades religiosas e morais possam ser conhecidas por todos sem difi-
culdade, com uma certeza firme e sem erro13. Os fundamentos da teologia como
disciplina serão:
a) Revelação: transmissão daquilo que Deus revelou dentro de um tem-
po, espaço, geografia, cultura e história do povo escolhido;
b) Fé: um dom, se Deus não “Ser”, o homem não pode crer. É uma virtude
sobrenatural infundida no coração do homem. A teologia parte do dado da
fé a partir do “eu pensante” começa a reflexão acerca dos pressupostos da fé;
c) Credibilidade: engloba a Revelação, Tradição e a Fé. Existem razões
suficientes para crer na Sagrada Escritura na pessoa de Cristo e da Igreja.

11  Cf. A. Knoll, Institutiones Theologiæ Theoreticæ seu Dogmatico-Polemicæ. Augustae Taurinorum, ex Pontificia
Typographia, Petri Marietti, 1865, vol. 1, p. 4, §1.
12  Teodoro da T. Del Greco, Teologia Moral. Trad. port. de Mons. J. Lafayette Álvares e Pe. Estêvão Bêntia. São
Paulo: Paulinas, 1959, p. 23.
13  Tomás de Aquino, S. Th. I, 1,1.

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Os objetos da Teologia:
a) Formal: Revelação, fé, credibilidade, são partes da estrutura funda-
mental de toda a teologia;
b) Material: a Revelação Divina e a Transmissão da Revelação, isto é a
Palavra de Deus transmitida e acolhida.

O homem foi criado à imagem de Deus, é por Ele chamado a conhecer, amar
e servir a Deus, o homem que deseja conhecer o seu fim último, procura, em úl-
tima instância, mesmo sem saber, a Deus. Existem vias naturais para ascender ao
conhecimento de Deus:
a) O mundo: a partir do movimento, do devir, da contingência, da or-
dem, da beleza;
b) O homem: sua abertura a verdade e a beleza, o seu sentido de morali-
dade, sua liberdade, sua consciência entre o bem e o mal, e sua inquietação
sobre o sentido da vida.

As próprias faculdades do homem, o torna capaz de conhecer a existência de


um Deus pessoal. No entanto, pela fé o homem pode ascender a Deus, porque
foi assim que Ele se revelou, e com essa ajuda, o homem pode ver que a fé não se
opõe a razão humana.
A partir do que Kant ensinou na Crítica da Razão Pura, tanto a fé como a
Razão produzem conhecimentos verdadeiros, quando a sua forma, sua eficiência,
sua causalidade e sua origem. Assim Hume14, ensinava que o sol há de nascer
amanhã é uma verdade habitual e não uma verdadeira realidade. A única que po-
deríamos admitir como uma verdadeira realidade é que Deus é o Senhor dos céus
e da terra, e isto, não que tenhamos descoberto, mas porque seu Filho Jesus Cristo
nos revelou, quando estava na terra, pois então é uma verdade revelada.
A diferença entre filosofia e teologia, está no fato de que a filosofia serve tão-só
das forças naturais da razão, ao passo que a segunda utiliza a razão ilustrada pela luz
sobrenatural da fé (sub lumine fidei supernatural), investiga as coisas na medida em
que se podem conhecer à luz da Revelação Divina15. Kantiana cita que:

14  HUME, David. Tratado da Natureza Humana. São Paulo: Ed. UNESP, 2001.
15  Cf. A. Tanquerey, op. cit., p. 189, n. 332; v. G. Lahousse, Summa Philosophica ad Mentem D. Thomæ in Usum
Alumnorum Seminariorum. Lovanii, Car. Peeters, 1892, vol. 1, p. 2, n. 2.

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todos os conhecimentos começam com a experiência. Porque a faculdade de conhe-
cer exercita-se pelos objetos que, exercitando os nossos sentidos, de uma parte produ-
zem por si mesmos, representações, e de outra parte, impulsionam a nossa inteligência
a compará-los entre si, a reuni-los ou separá-los16.

Assim sendo, a razão tem premissas que fundamentam o bom pensamento,


que em uma área da filosofia, denominada Gnosiologia (estudo do conhecimen-
to) ensina que para fundamentar o pensamento deve se ter o princípio da con-
tradição e os princípios racionais (analógico, dedutivo e indutivo), ora na fé as
premissas que fundamentam o pensamento teológico são os princípios baseados
na Revelação de Deus, a partir da lei de Moises e a graça de Nosso Senhor Jesus
Cristo, que podem ser resumidos no amar a Deus sobre todas as coisas e ao pró-
ximo como a si mesmo.
Teologia e filosofia, duas ciências que têm algo bem específico, assim como a
ciência da medicina é um recorte da realidade, vai falar da saúde, de como recu-
perar e proteger a vida, já a filosofia e teologia tem como objeto o Todo, enquanto
a Filosofia tem uma vertente do Todo a partir da razão humana, enquanto que a
Teologia fala do Todo enquanto Revelação Divina.
Os filósofos viram que era a mesma ciência a partir de perspectivas diferen-
tes, o filósofo Platão17, “a nós cabe refletir a respeito das coisas a partir das coisas
no frágil veículo da razão humana”, ele admite que se tivéssemos uma Revelação
compreenderia melhor o Todo.
O problema é que a Teologia e a Filosofia vem vindo de uma decadência,
baseada em uma ruptura entre vida e pensamento. Os filósofos antigos afirma-
vam que para fazer filosofia só poderia ser feita a partir de uma vida virtuosa. Os
filósofos Aristóteles, Platão e Sócrates afirmavam que era preciso uma autoanálise,
uma conversão. Será o que Platão irá dizer na República Perigagogé (voltar-se a si
mesmo), eu caminho, eu mudo de direção para obter o conhecimento da realidade.
Seria uma mudança do sujeito, uma introspecção do sujeito a partir do que ele
busca. O divórcio entre o que se pensa e o que se vive ocasiona uma ruptura na
busca por aquilo que a realidade é de fato18.

16  Secção 111, Crítica da Razão Pura.


17  PLATÃO. Banquete. Trad. José Cavalcante de Souza. São Paulo: Editora Nova Cultural. Ed. 5. 1991
18  Olavo de Carvalho, A filosofia e o seu inverso, e outros estudos, ed. Vide editorial

capítulo 1 • 15
Não é possível fazer filosofia sem moralidade, ver as coisas a partir da morte,
assim como não é possível fazer teologia sem uma profunda conversão, onde se
busca viver o Eu de Cristo, que veio para nos Revelar qual o projeto de Deus.
Podemos, portanto, definir o conhecimento teológico como a sabedoria que
“procede das verdades reveladas e conhecidas sob a luz sobrenatural da fé” 19.
A teologia como ciência atende às três condições que toda verdadeira ciência
deve cumprir. De fato, ela contém20:
a) princípios certos em que se possa basear, quer dizer, as verdades por
Deus reveladas fazem às vezes de premissas a partir das quais se podem in-
ferir outras verdades;
b) método adequado a tirar conclusões a partir desses princípios;
c) capacidade de coligir tais conclusões num corpo coeso e unitário.

A Teologia pode e deve ser considerada como uma ciência tanto natural quan-
to sobrenatural. Como ciência natural o hábito que se adquire por um esforço
humano, por isso o homem que se empenha em extrair suas conclusões a partir
dos dogmas da fé com apoio da razão e de um método conveniente21. Ela também
é chamada de ciência sobrenatural em vista de: a) objeto serão as verdades revela-
das; b) em razão de sua luz, que é a da fé; c) razão de adesão, auxiliada pela fé, para
assentir com firmeza aos resultados da busca.
A Filosofia e a Teologia se complementam totalmente, apesar de que cada
uma tem as suas especificações próprias. De modo que no início do cristianismo
o encontro entre a teologia e a filosofia abriu o cristianismo à sua dimensão de
universalidade, pois diante do mundo judeu, dos intelectuais romanos levantava
suspeitas, será com o encontro com a filosofia e a cultura grega que encontrará a
sua defesa, fundamentação em seus termos, que em alguns casos irá se apropriar,
para defender e expor a verdade revelada.

A filosofia teve a tarefa pedagógica de conduzir os gentios para Cristo. Ela compartilha
com os dois testamentos a tarefa de justificar os que levavam uma vida honesta e
conforme a verdade. O cristianismo é uma continuação da filosofia antiga. A filosofia
antiga desemboca no Novo Testamento. Não há, por certo, senão um caminho da ver-
dade, mas ele é como um rio inesgotável, para o qual correm os outros cursos d’água,

19  I. Gredt, Elementa Philosophiæ Aristotelico-Thomisticæ. 13.ª ed., Barcelona: Herder, 1961, vol. 1, p. 3, n. 1:
«Theologia procedit ex veritatibus revelatis, sub lumine supernaturali fidei cognitis.»
20  Cf. A. Tanquerey, op. cit., p. 190, n. 333.
21  Cf. Id., p. 191, n. 336.

capítulo 1 • 16
vindos um pouco de cada lugar. Daí estas palavras inspiradas: escuta, meu filho, e rece-
be as minhas palavras para teres muitos caminhos para a vida. Eu te ensino as vias da
sabedoria, para que não te faltem fontes, as fontes que jorram (todas) da mesma terra.
E não é somente para um único justo que ele diz haver vários caminhos de salvação;
faz com que se entenda assim: os atalhos dos justos brilham como a luz. Pois bem, os
preceitos e as instruções preparatórias são, sem dúvida, caminhos, impulsos de nossa
vida (...)22”

O cristianismo pode afirmar sua singularidade de forma não totalitária, ainda


que seja o portador da revelação final23. De modo que o cristianismo será o por-
tador de um caminho de salvação, mas sem absolutizar esse caminho, por ser a
religião da revelação final. Assim deve compreender e respeitar o engajamento e a
adesão que requer de cada religião, sem cair no relativismo.
A comunidade eclesial terá sempre protegida a sua função normativa. A co-
munidade eclesial será o ambiente onde Cristo, plena Revelação de Deus, será
acolhido, vivenciado e transmitido. A comunidade será “a síntese criativa” entre
o caminho concreto de salvação que ela propõe e os outros caminhos propostos
pelas outras religiões, exercitando um adequado discernimento24.

A Teologia como ciência sagrada

A ciência, como parte científica, levou durante o período da história, diversos


modo para entendê-la. Aqui, iremos entender a ciência como aquela disciplina
caracterizada por uma aproximação à verdade (com um método próprio de caráter
reflexivo), ligando a uma exatidão verificada por uma experimentação.
Deste modo, a teologia não seria ciência, já que, nessa perspectiva de ciência,
o científico seria apenas o verificável. A teologia vai objetivar a uma compreensão
e aprofundamento nas verdades reveladas à luz da razão pela fé.
A fé é uma virtude sobrenatural e infusa por Deus na alma. Com efeito, crer
“só é possível pela graça e pelos auxílios interiores do Espírito Santo25”; este dom
recebido por Deus nos faz prontos e dispostos a aquiescer firmemente a tudo quan-
do Ele nos revelou, não porque “as verdades reveladas apareçam como verdadeiras

22  Clemente de Alexandria, Stromata, I, 5, 28-29


23  GEFFRÈ, C. Crer e interpretar, op. Cit.in “O lugar das religiões no plano da salvação”, art.cit.p.129
24  “Révelátion, écriture et tradition dans la Dogmatique de 1925” art. Cit, p.213
25  Catecismo da Igreja Católica, n. 154

capítulo 1 • 17
e inteligíveis à luz de nossa razão26”, mas antes “por causa da autoridade de Deus
que revela e que não pode nem enganar-Se nem enganar-nos” 27.
Alguns pontos relevantes sobre a Teologia:
•  Muitas vezes é questionada por parte de outras ciências, como também da
parte de fiéis, se ela também é considerada uma ciência. No entanto, não se pode
esquecer que a teologia é uma reflexão metodológica para falar de Deus.
•  Uma ciência em busca de uma verdade, ainda que não a possa encontrar de
forma experimental e no âmbito absoluto. A dúvida é um importante motor desta
procura, desde que não destrua a fé num ceticismo28 sem fim29. Lutero afirmava
que todos somos chamados de teólogos, de modo que todos somos cristãos.30
•  A pessoa pode refletir sobre a fé, seja de forma próxima e apaixonada, ou de
forma crítica e distanciada. Por isso, um grande perigo em toda e qualquer ciência,
é enfrentar o ceticismo ou o dogmatismo. Pode-se cair na negação de uma dife-
rença sustentável entre a opinião e conhecimento ou restrição do conhecimento
científico a um tipo muito específico de conhecimento.··.
•  A fé é um pressuposto para que possa estudar e investigar a realidade da
Revelação. É necessário fazer uma conversão, uma mudança radical, como sujeito
do estudo da Teologia.
•  Uma palavra usada por Platão, e significa falar sobre Deus e falar de Deus31,
e só podemos falar de Deus de modo mediado. Desde o início do cristianismo,
a fé precisava de uma explicação, chamada de fides quarens intellectum, expressão
cunhada por Anselmo de Cantuaria.
•  Um termo de origem grega e que etimologicamente significa: tratado, ciên-
cia sobre Deus. Na história, percebemos o uso desse termo a partir de Eusébio de

26  Id., n. 156


27  DS 3008.
28  Ceticismo é a corrente filosófica, que o homem busca um constante questionamento. A sua origem é grega e
seu fundador foi Pirro, no Séc. IX a. C.
29  Cf. BARTH, Karl. Introdução à teologia evangélica. Trad. Lindolfo Weingärtner. 7. ed. São Leopoldo: Sinodal,
2002. p. 78-84; TILLICH, Paul. Dinâmica da fé. Trad. Walter O. Schlupp. 7. ed. São Leopoldo: Sinodal, 2002. p.
15-19.
30  . WA 41,11, cf. MOLTMANN, Jürgen. O que é teologia? In: ______. Experiências de reflexão teológica:
caminhos e formas da teologia cristã. Trad. Nélio Schneider. São Leopoldo: Unisinos, 2004. p. 17-78,
especialmente p. 23-26
31  BULTMANN, Rudolf. Que sentido faz falar de Deus? [1925]. In: ______. Crer e compreender: ensaios
selecionados. Ed. revista e ampliada. Trad. Walter Schlupp, Walter Altmann e Nélio Schneider. São Leopoldo:
Sinodal, 2001. p. 21.

capítulo 1 • 18
Cesárea32e a partir dele esse termo será entendido como uma exposição metódica
e estruturada da Revelação.
Como ciência, a teologia trata Deus do ponto de vista divino, sendo que:
a) objeto material: é Deus e todas as realidades criadas e governadas por
seu desígnio divino salvador. Objeto principal será Deus e o objeto secun-
dário são todas as coisas criadas enquanto ordenadas a Deus.
b) Objeto formal: será a perspectiva de um ponto de vista. Aqui o objeto
formal será o próprio Deus. Assim a, razão é iluminada e guiada pela fé.

Então o objeto da teologia como ciência, não é propriamente Deus, mas o


falar de Deus. Analisa como a fé está sendo explicada, com argumentos e métodos
que lhe são próprios, a fim de observar e analisar os diferentes modos de se fazer a
explicação da fé. Será o desenvolvimento da dimensão intelectual do ato de fé. A
fé deverá ser uma fé reflexiva, que pensa compreende, pergunta e busca, de modo
a elevar o crer ao inteligir.
Utiliza-se, como ciência, métodos que lhe são próprios, a fim de que junta-
mente com o aspecto histórico, a exegese bíblica e histórica para que a teologia
seja relevante no seu contexto de tempo e lugar e levar os homens a conhecer seu
infinito amor. A decadência da teologia como ciência, está relacionada ao contexto
de uma sociedade a cada dia mais pragmática e capitalista.
Podemos distinguir a teologia da fé sob três aspectos: (a) objeto sobre o qual
versam; (b) motivo por que fazem aderir à verdade; (c) modo por que apreendem
o seu objeto33
a) Objeto. A fé se ocupa de verdades divinamente reveladas; a teologia,
dessas mesmas verdades e das conclusões delas inferidas.
b) Motivo. A fé crê por força da autoridade de Deus, ao passo que a teo-
logia se baseia no valor e na coerência da ilação lógica.
c) Modo. A fé crê mediante um ato simples do intelecto; a teologia pro-
cede por meios discursivos (análise, síntese, comparação e dedução).

32  Considerado o “Pai da História Eclesiástica, foi bispo de Cesárea, e em seus escritos estão relatados a história
do cristianismo primitivo”. Esse livro não é um tratado sobre a História da Igreja como seria entendida hoje. A
motivação da obra é registrar a sucessão dos “santos apóstolos”, os grandes feitos realizados pelos mesmos. Nasceu
em 270 em Cesárea Marítima e morreu em 30 de maio de 339. Sua formação teológica foi baseada no estudo da
Obra de Orígenes, durante os debates contra a heresia ariana, tomou uma posição mediadora.
33  Cf. A. Tanquerey, op. cit., p. 191, n. 338.

capítulo 1 • 19
Assim, a Ciência Sagrada, tem por objeto a Deus a fé sobrenatural e as dispo-
sições morais necessárias ao estudioso da Teologia34.
a) Unidade de vida: a vida moral não pode divorciar-se da intelectual.
Com efeito, não é possível ser teólogo sem um sincero e constante esforço
por converter-se e configurar-se o Nosso Senhor, por guardar a fé por oca-
sião do batismo, por buscar aproximar-se de Deus e tornar-se Seu amigo.
O Cardeal Ratzinger lembra-nos que

a conversão é algo muito mais radical do que, digamos, a revisão de algumas opiniões e
atitudes, é um processo de morte. Dito com outras palavras é uma mudança de sujeito,
o eu deixa de ser um sujeito autônomo, um sujeito que subsiste em si mesmo; ele é
arrancado de si próprio e introduzido num novo sujeito. Não que o eu simplesmente
desapareça, mas, de fato, ele tem que deixar-se cair inteiramente para, em seguida, ser
concebido novamente num eu maior e juntamente com este.35

Trata-se, ademais, de

[...] um processo sacramental, isto é, de Igreja. O passivo de tornar-se cristão exige


o ativo da ação da Igreja, onde a unidade do sujeito do fiel se apresenta corporal e
historicamente e só a partir daqui é que pode ser adequadamente entendida a palavra
paulina da Igreja como corpo de Cristo, ela se identifica com o revestir-se de Cristo,
com o ser revestido de Cristo em que essa nova veste que ao mesmo tempo protege
e liberta o cristão é o corpo de Cristo ressuscitado. Isso só é possível pelo batismo36.

Deve-se evitar a cisão entre a vida e o pensamento, pois não é possível fazer
filosofia e nem teologia se não houver uma coerência entre o que se estuda e o que
se vive. Podemos ter clareza dessa sintonia nos seguintes pontos:
I. Reta intenção: a motivação precípua do teólogo não deve ser outra,
senão o desejo ardente de promover a glória de Deus e o zelo pela salvação
de todas as almas. Assim resume o comentário ao Cântico dos Cânticos
arrolado entre as obras de São Bernardo:

Há quem deseje saber simplesmente por saber, e isto é vã curiosidade; há os que


desejam conhecer apenas para serem conhecidos, e isto é vaidade; há os que querem
aprender a fim de vender sua ciência por dinheiro ou honrarias, e isto é ganância. Há,
porém os que desejam conhecer para edificar os outros: é a caridade; há também os
que buscam o conhecimento a fim de se edificarem a si próprios: é a prudência.

34  Cf. Id., pp. 219-221, nn. 379-382.


35  J. Ratzinger, Natureza e Missão da Teologia. Trad. port. de Carlos Almeida Pereira. Rio de Janeiro: Vozes, 2008, p. 44
36  Id., p. 45.

capítulo 1 • 20
II. Sincero amor pela verdade: ao defrontar-se com argumentos contrá-
rios à fé, o teólogo deve compreender e expô-los conforme o sentido que
os seus propugnadores lhes atribuem. Como adverte A. Tanquerey, “não
faltam teólogos que atenuam as objeções de seus contraditores a fim de
mais facilmente as poder dirimir; ou que distorcem o sentido de textos e
fatos com o fato de responder sem embaraço; ou mesmo que dão demasia-
do crédito a argumentos meramente prováveis. Ora, tudo isso é estranho à
perfeita sinceridade [...]. A verdade, para defender-se, não precisa de nossas
mentiras” 37.
III. Humildade: fundada sobre a autoridade de Deus, a teologia demanda
que obedeçamos a Deus e a sua Revelação, sem nunca querer compreender
toda a Realidade, pois se trata de um mistério de Salvação, e não se pode
querer dominar Deus por meio de um conhecimento.
IV. Perseverança: “a ninguém será possível progredir nos estudos teoló-
gicos, se não desejar aplicarem-lhes constante e ardentemente. Não se diga
que nada há de novo a descobrir em matéria teológica; ainda que as verda-
des de fé sejam perenes, podem sempre ser expostas e professadas de modos
novos, mais adequados à linguagem dos homens do nosso tempo”.·.

Natureza Teológica: Apologética e teologia fundamental

A natureza teológica deve ser entendida como uma busca em conhecer e fun-
damentar a Revelação de Deus, em uma perspectiva de fé, mas com o uso de uma
razão participativa desse processo. Deve-se ter o cuidado com o fundamentalismo
que propõem doutrinas inquestionáveis, a fim de levar a uma certeza tal que su-
pere a crise criada pelo modernismo38, quando colocou o homem no centro do
universo, e a partir daí o mesmo passa a ser o critério de uma verdade relativista.
O aprofundamento do pensamento teológico deve ter em vista uma articu-
lação entre a fé e a razão, evitando todo e qualquer radicalismo (fideísmo e racio-
nalismo). A fé cristã deve buscar compreender, questionar o caminho da salvação,
sempre em uma perspectiva da fé, no caminho inaugurado por Jesus Cristo, que
é a plenitude da Revelação, onde encontraremos a revelação final de Deus sobre o
mundo, sobre o ser humano.

37  A. Tanquerey, op. cit., p. 220, n. 380.


38  C.f. J. Wicks, “Fundamentalismo”, in R. Latourelle – R. Fisichella, Dicionario de Teologia Fundamental,
Petropolis – Aparecida, 1994, p.332

capítulo 1 • 21
O homem, desde a antiguidade, busca o sentido último de sua vida, e será
mediante a fé, como resposta do homem a Deus que se revela que ele encontrará
a finalidade de sua vida sobre essa terra.

O aspecto mais sublime da dignidade humana está nessa vocação do homem à comu-
nhão com Deus. Este convite que Deus dirige ao homem, de dialogar com ele, começa
com a existência humana. Pois se homem existe, é porque Deus o criou por amor, e por
amor, não cessa de dar-lhe o ser, e o homem só vive plenamente, segundo a verdade,
se reconhecer livremente esse amor e se entregar ao seu criador39.

Desse modo, todos os fiéis de Cristo devem ser chamados a transmiti-lo de


geração em geração, anunciando a fé, vivenciando-a em sua comunidade eclesial40,
porém essa afirmação também precisa deixar em aberto a questão de saber se essa
revelação final pode ser estendida às outras religiões41.
O cristianismo como a religião da manifestação definitiva de Deus em Jesus
Cristo, precisou de um amadurecer do conteúdo da revelação, não de forma to-
talitária, mas como um projeto de salvação diante do mundo. E essa proposta
receberá críticas externas e internas, baseada em um questionamento sobre aquilo
que era transmitido. Por isso faz-se necessário que os argumentos do cristianismo
sejam sólidos e fundamentados, mostrando assim que o cristianismo é essencial-
mente estruturado e aberto ao diálogo.
O método teológico será o resultado da pergunta do crente por seu próprio
ser, diante de tantos questionamentos pertinentes a sua situação existencial. Em
sua história, os homens têm expressado de muitas formas a sua busca pelo fim
último da vida. O método teológico será fundamentado na Teologia fundamental
que será uma reflexão sistemática e científica a partir da atitude espontânea que
surge em todo fiel: a fé que procura entender (fides quaerens intellectum).
A Teologia fundamental nasce a partir da apologética. Este nome substituiu o
de apologética, como uma nova orientação de sua tarefa, motivada pela evolução
da ciência, a cultura e o pensamento filosófico e teológico. A justificativa da teo-
logia fundamental será a de fundamentar o conteúdo da Revelação Divina diante
dos questionamentos que vão surgindo durante os séculos vindouros.

39  GS 19,1
40  Cf. At 2,42
41  GEFFRÉ, C. “Paul Tillich et l’avenir de l’oecuménisme interreligieux” , art. Cit. P.13

capítulo 1 • 22
Fundamentação histórica da apologética e teologia fundamental

Novo Testamento

No Novo Testamento fica evidente a intenção de dar razão à fé, já que tendem
a demonstrar aos judeus e pagãos que Cristo é Messias. No livro de João (10, 37):
Jesus apela para suas obras como prova de sua origem no pai.
Nos quatro Evangelhos apresentam a história de Jesus como o desígnio claro
de levar à fé nele como Messias. Após a Ressurreição, conforme At 2,32 acentua-se
o valor demonstrativo das aparições do Cristo Ressuscitado diante da comunidade
eclesial. Fato que leva Paulo, que era judeu, da escola Gamaliel, perseguidor da
Igreja Nascente, a caminho de Damasco ter seu encontro pessoal com Cristo. Ele
faz um itinerário de conversão, e a partir desse momento, conforme, At 17, esta-
belece uma relação entre a religião dos atenienses e sua pregação.
Podemos afirmar que a Carta Magna da Apologética (teologia fundamental),
é 1 Pd 3,15: “Sempre dispostos a dar razão da esperança a quem vos peça contas
dela”. No NT o anúncio de Jesus é um anúncio situado que tem em conta os
ouvintes concretos, cuja racionalidade apela como caminho para chegar à fé.
Desde o princípio, os cristãos tiveram que dar o fundamento acerca de sua
fé e de sua esperança, principalmente mediante as acusações dos romanos, que
chamavam os cristãos de ateus e diante dos judeus que os acusavam como idóla-
tras. A primeira realidade que os cristãos (Igreja nascente) tiveram que fazer para
defender a fé foi fundamentar o que eles acreditavam, a saber, o conteúdo da
Revelação Divina.

Idade Antiga

Chamamos de “Padres da Igreja” (Patrística), aqueles grandes homens da


Igreja, aproximadamente do Século II ao Século VI que foram no Oriente e no
Ocidente como que “Pais” da Igreja, no sentido de que foram eles que fundamen-
taram os conceitos da fé, enfrentaram muitas heresias, e de certa forma foram
responsáveis pelo que se chama de Tradição da Igreja.
No Século II e seguintes, foi fundamental para a expansão do cristianismo o
trabalho desses padres que escreveram as Apologias em defesa da fé e dos cristãos
perseguidos. Eles escreveram a fim de explicar a fé cristã de modo compreensível,

capítulo 1 • 23
porque os mártires entregavam a sua vida pela Revelação Divina. Seus escritos
tinham três destinatários:
1. Os imperadores e autoridades civis, em defesa das acusações contra os
cristãos;
2. Os judeus e pagãos para convencê-los de seus erros;
3. Os mesmos cristãos para confirmá-los na fé no meio das provas.

Nesse período, teremos os apologetas que, com suas obras irão demonstrar e
fundamentar a fé cristã mediante a questão cultural por meio da filosofia, que tem
uma busca pela verdade, e os padres irão demonstrar que no mundo, na filosofia
existia “o germem de Cristo”.
No século V, temos o Agostinho, com as obras: De Vera Religione, De
Utilitate Credendi e De Civitate Dei. Ele é o iniciador de uma linha apologética
que procura, no interior do homem, no coração inquieto, o ponto de conexão
para levar o outro à fé.

Idade Média

Na sociedade medieval, depois da queda do Império Romano, a maior parte


dos habitantes encontram-se na área rural. Com a gradativa expansão do cristia-
nismo, o medievo vai se constituir em uma societatis christianus. Com isso o im-
pulso apologético decai, porque não se pensa mais na fé, mas deixa-se apenas crer.
No entanto, com a entrada dos povos bárbaros, começa uma nova necessidade de
defender a fé frente aos costumes pagãos.
O Feudalismo, é um sistema que vai se desenvolver no período posterior a
Carlos Magno, que entra em recessão com o renascimento. No sistema feudal, no
reino franco que, em substituição ao período apologético, temos a expansão do
desenvolvimento dos mosteiros, com a regra ora et labora, apresentando a Teologia
na transcrição e aprofundamento de manuscritos, bem como a construção de uma
cultura a partir da fé. Este movimento possibilita o desenvolvimento das ordens
mendicantes e da Teologia escolástica, na qual localizamos Tomás de Aquino.
A força da obra de Tomás só será considerada quando Trento buscar argu-
mentação para a defesa da relação entre fé e razão. Suas obras que se destacam são
Summa contra gentis, Summa Theologiae. Na Summa contra gentis distingue as ver-
dades sobre Deus que são acessíveis à razão e as reveladas por Deus que excedem o
alcance do entendimento humano. Há que mostrar que as verdades de fé não são
opostas à razão natural.

capítulo 1 • 24
Moderna

Com o impulso das grandes navegações, surgiram novas descobertas geográfi-


cas (s. XIV e XV), uma nova valoração de épocas pré-cristãs como as civilizações
romana e grega. Isto propõe a elaboração de tratados De Vera Religione: Marsilio
Ficino (1433-1499). Com o iluminismo e a reforma protestante como uma alter-
nativa eclesial, busca-se pensar qual seria a verdadeira religião.
Nesse momento a razão vai sendo um princípio que atua independentemente
da fé. Temos as Influências da Reforma protestante:
a) A pergunta pela verdadeira religião se prolonga agora na pergunta pela
verdadeira Igreja de Cristo.
b) A diferente importância dada à relação da razão com a fé.

Surge o Princípio “sola Scriptura”: ensina que só a Escritura é fonte de co-


nhecimento teológico, não o Magistério nem a Tradição. A razão se desenvolve
autonomamente, e adquire fortes características: (a) interpretação pessoal distinta
da instituição, (b) fundamentação bíblica.
A Reforma Protestante elaborou três argumentos, que identificam a força que
a Reforma tomou no período:
Sola fide: Somente a Fé
Sola scriptura: Somente a Escritura
Sola gratia: somente a graça
Os três princípios serão aprofundados posteriormente, mas vamos agora nos centrar
no Sola fide que afirma que somente a fé é capaz de salvar. Não há intermediação
ou interferência das boas obras. A fé salvadora somente é declarada e justificada por
Deus. Para os reformadores esse sola é o resumo da fórmula “fé produz justificação e
boas obras”. Ficou conhecida como a Doutrina da Justificação pela Fé. Quem crê
que Jesus Cristo, recebeu de Deus essa graça e por ela é salvo dos pecados e da
condenação que receberia por causa dos pecados.
Estrutura-se então um Esquema Apologético (teologia fundamental) com três
argumentos para demonstrar três verdades:
1. Religiosa: para demonstrar que Deus existe (De Religione), contra os
céticos;
2. Cristã: para demonstrar que Deus falou através de Cristo (De Vera
Religione), contra judeus e mulçumanos;

capítulo 1 • 25
3. Institucional: para demonstrar qual Igreja Jesus fundou (De Vera
Ecclesia Christi).

Este esquema está vigente mais ou menos assim até hoje.

A necessidade de afirmar a fé católica a partir da quebra da unidade que se fez, levou a


Igreja Católica a convocar o Concílio de Trento. Neste, Tradição e Magistério são com-
preendidos como “lugares” (fontes) dos que a Teologia podia extrair seu conhecimento
da revelação, vão consolidando os pressupostos e os argumentos da fé.

A Escritura deve ter na teologia o “primado hermenêutico” é o locus theologi-


cus, daí resultam dois testemunhos:

Quem quiser aprender teologia, busque a ciência na sua fonte: a Sagrada Escritura.
Pois junto aos Filósofos não existe a ‘ciência da salvação para a remissão dos nossos
pecados’; nem mesmo junto aos Santos Padres e nem junto aos Doutores. O discípulo
de Cristo deve estudar em primeiro lugar a Sagrada Escritura. É mister, pois, que o teó-
logo tenha ao alcance da mão o texto completo da Sagrada Escritura, de outro modo,
nunca será um expositor preparado da Escritura42

O segundo testemunho é de Barth:

O teólogo não será nenhum ‘doutorzinho’ que tivesse o direito de conceder ou de tirar
a palavra aos Profetas e Apóstolos, como se fossem colegas de faculdade. Menos
ainda será como um professor ginasial, com a tarefa de olhar por sobre os ombros
dos autores bíblicos, para lhes corrigir os cadernos e dar-lhes nota. Mesmo o menor, o
mais esquisito entre essas primeiras testemunhas da Revelação se acha à dianteira de
qualquer teólogo, por mais piedoso, douto ou perspicaz que seja. O lugar da teologia
é definitivamente abaixo dos escritos bíblicos. O teólogo, sim, terá de permitir, de bom
grado, que os hagiógrafos lhe olhem sobre os ombros e lhe corrijam os cadernos43.

A razão teológica é também compreendida como “razão crucificada”, onde


aos olhos da racionalidade mundana é uma “desrazão” como viu muito bem Paulo
(1Cor 1-2). Por causa da transcendência do Mistério sobre todo o pensamento e

42  SÃO BOAVENTURA. Redução das ciências à Teologia. In: Obras Escolhidas. Org. Luis A. De Boni. Trad. De
Luis A. De Boni, Jerônimo Jerkovic e Frei S. Schneider. Porto Alegre, Editora da Universidade de Caxias do Sul:
1983p.235
43  Cit. P.206

capítulo 1 • 26
toda linguagem, o teólogo terá a incumbência de pensar e de falar sem medo acer-
ca do Mistério Divino, reforçando, neste caso, que a Teologia é uma ciência de fé.

Idade Contemporânea

A apologética, ou teologia fundamental, agora se encontra com um mundo


de religiões diversificadas, passando a ter uma busca por responder qual seria a
verdadeira religião.
A mudança de ponto de partida na filosofia (separação fé-razão) acabou afe-
tando diretamente à teologia. A filosofia vai considerando progressivamente injus-
tificável racionalmente a teologia. A Ilustração (só o que se apoia na razão vale)
polarizou a apologética fazendo que se orientasse a demonstrar o caráter veritativo
da fé, isto é, que a revelação é verdade.
Depois de Kant, o racionalismo da Ilustração começa a ser idealismo, isto é,
uma filosofia do sujeito e do espírito. A fé numa revelação não pode ser já resposta
a algo objetivo que vem de fora do sujeito. As possibilidades são:
1. Agnosticismo: não se pode afirmar nem que Deus existe nem que não
existe;
2. Panteísmo: tudo é Deus.
3. Redução da revelação: filosofia da fé reduzida a conhecimento racional.

Será o século da teologia fundamental, atravessado pelo problema da rela-


ção fé-razão. O teólogo M. Blondel, começa a ensinar o “método de imanência”:
o verdadeiramente importante não é uma demonstração intelectual da origem
divina do cristianismo, sobre a base de argumentos extrínsecos, mas dar atenção
ao conjunto de disposições interiores do sujeito. Cultiva-se a apologética clássica:
Gardeil, Garrigou-Lagrange, Bainvel, Tanqueray, Nicolau.

Concepção da Teologia Fundamental

Ao defender que a capacidade humana pode conhecer a Deus, agora passasse


a ver a possibilidade de falar de Deus a todos os homens e com todos os homens,
tendo em vista que o conhecimento de Deus é limitado, consequentemente será
limitada a linguagem sobre Deus.

capítulo 1 • 27
A teologia fundamental terá como objeto de estudo fazer o possível para que a
revelação chegue ao coração do homem, por meio do método:
a) Apologético: racional, mas sem prescindir da fé.
b) Dogmático: a partir da fé, tomando a Escritura, a Revelação e os docu-
mentos da Igreja e aqueles que foram escritos nesse período.
c) Credibilidade: A partir do aspecto apologético, adquire relevo esta
propriedade da revelação.
d) Duas “formas” essenciais de Teologia Fundamental

Na certeza de que Deus se revela ao homem, tanto pela fé como pela sua
criação, a partir de suas obras, assim no aspecto cognitivo na psicologia do ato de
crer, apoiado em Deus o homem faz afirmações novas sobre aquilo que Deus se
revelou.
Por isso, o teólogo deve entender que a teologia é uma atividade intelectual
que investiga acerca da revelação, sempre atento ao que veio dos apóstolos e foi
recebido no coração, como conteúdo e estrutura da fé.

No exame cuidadoso de tudo o que foi dito em parábolas, relacionando-o com o con-
teúdo essencial da fé; e na exposição no modo de agir de Deus e da disposição a
respeito da humanidade; (...) na compreensão do motivo por que Deus, que é invisível,
apareceu aos profetas, e não sob uma única forma, mas a um de modo, a outro de
outro; na explicação das várias alianças havidas para a humanidade, e no ensino sobre
o caráter de cada uma das alianças; na pesquisa da razão pela qual Deus ‘encerrou
a todos na desobediência para a todos fazer misericórdia’ (Rm 11,32); na declaração
agradecida do motivo porque o Logos de Deus se fez carne e padeceu; na explicação
da razão de a vinda do Filho de Deus ocorrer nos últimos tempos, ou seja, porque o
princípio apareceu no fim; na descoberta de tudo o que está contido nas Escrituras,
acerca do fim e das coisas futuras.

A teologia somente será fundamentada e sólida quando ela oscilar entre a es-
cuta da Palavra e a construção do significado do que se escutou. Por isso, pode-se
dizer que a teologia deve ser rítmica, uma vez que o teólogo avança e recua entre a
consulta das fontes e a explicação do significado das mesmas.
Deve ter como lugar teológico a meditação da Palavra de Deus, daí a teologia
extrai testemunhos da verdade de Deus revelada. Por isso, na teologia fundamental
deve ter duas fases fundamentais: escuta receptiva da tradição e a construção ativa
de configurações do sentido para o próprio tempo44.
44  B. Lonergan, II método in teologia, Brescia, 1975, 152.

capítulo 1 • 28
A teologia consiste na escuta atenta dos testemunhos e a consideração crítica
da palavra revelada. Ela é tudo isso porque a fé é a escuta de uma mensagem que
contém uma boa nova e profissão de fé na obra do Pai, do Filho e do Espírito
Santo; uma obra salvífica a que envolve e ilumina aquele que crê de forma:
a) Teologal: considera como elemento fundamental o fato da revelação
divina entendida como mistério e dom de Deus. A fé como resposta é
necessária. Atende primeiramente à Sagrada Escritura e à Tradição. A me-
diação eclesial tem lugar através do Magistério e do sensus fidei. Estuda
também a credibilidade, considerando o espírito humano em sua dimensão
cognoscitiva. Na linha de Dei Verbum. Teologia Fundamental desde acima,
da ação de Deus à recepção humana.
b) Antropocêntrica: enfrenta a análise do espírito humano chamado a
acreditar na revelação de Deus. Reflete sobre as formas e categorias que
determinam a atividade-receptividade do sujeito.
c) O objeto da Teologia Fundamental: A revelação como objeto
primário.

Objeto primário da teologia fundamental será a REVELAÇÃO em quanto


tal, constituída pela revelação da pessoa, as obras e palavras de Jesus Cristo. Seu
objetivo é que os “homens, por meio de Cristo, Verbo feito carne, tenham acesso
ao Pai, no Espírito Santo45”.
Não é só um conceito que se determina formalmente, senão que é a auto-
comunicação pessoal e livre de Deus aos homens; é Deus que vai ao encontro do
homem para salvar-lhe e introduzir lhe em sua vida divina. A revelação não supõe
o desaparecimento do mistério de Deus, senão que representa ao mesmo tempo a
máxima aproximação a Deus e a máxima transcendência. A revelação é sobrenatu-
ral, dom gratuito de Deus, realidade divina.
O ponto máximo da Revelação não é a instrução, mas a comunhão de vida
com Deus, a qual os que creem são conduzidos pela Palavra divina. Jesus levará
o crente a uma nova relação com o Pai, no Espírito Santo. O conhecimento fun-
damentado é de suma importância, mas antes o coração do homem vai dar o seu
consentimento alegre, mediante aquilo que Deus o revela.
A teologia deve ajudar o homem a se tornar uma pessoa melhor para si, para o
irmão e para o próprio Deus, de modo que leve o homem a compreender o projeto

45  Dei Verbum 2

capítulo 1 • 29
Salvifico de Deus para si e para a humanidade. Assim, a teologia deve estar voltada para
a fé, devendo alimentar, e fortalecer aquilo que se crê como revelado pelo próprio Deus.
Entre os argumentos para a reforma, encontramos também o Sola gratia “Graça
somente”, que é mais uma justificativa resumindo as crenças fundamentais do cris-
tianismo. A doutrina católica também se fundamenta na ideia de que as boas obras
ajudam na salvação do homem. Os reformadores entendiam que doutrina da Igreja
Católica retirava de Deus a condição plena da salvação colocando também no ho-
mem essa condição. A posição dos que queriam a reforma é de que a salvação é inteira-
mente condicionada à ação da graça de Deus e não há neste processo a participação hu-
mana. Somente Deus, através do Espírito Santo e com a misericórdia de Jesus pode salvar.

A credibilidade como objeto da Teologia Fundamental

A revelação apela ao homem histórico com vocação sobrenatural, diante do qual


se apresenta como uma oferta e uma resposta perfeitamente adequada ao que ele preci-
sa. A teologia fundamental irá interrogar ao nível de sua razão, de sua existência pessoal
e de sua vida em sociedade. Apresenta-se como credível (digna de fé porque responde à
busca da verdade plena). A revelação exige que o homem saia de si mesmo e responda
com a entrega da fé, entrega orientada não só ao futuro, mas também ao presente.
Assim a teologia fundamental deve levar o homem a desenvolver sua inteli-
gência diante do Mistério de Deus, compreendendo que Deus criou e colocou o
universo com alguma finalidade. No entanto, a credibilidade teológica irá procu-
rar interpretar a revelação alimentando-se do avanço da hermenêutica.

Pressupostos dogmáticos.

O Deus que se revela é o Deus absconditus a quem ninguém viu jamais, Deus
misterioso que se manifesta como Pai através de seu Filho encarnado por meio do
Espírito Santo. Esta revelação de Deus só tem lugar pelo amor e a misericórdia. O
destinatário da Revelação será o homem, caído e necessitado, está chamado com
uma vocação sobrenatural à vida divina.
A revelação não está no mesmo plano que a criação. A revelação não se situa na
ordem do devido e sim do gratuito, não vem limitar a natureza ou corrigi-la, mas dar
a conhecer o amor de Deus a suas criaturas e o âmbito divino ao que foram elevadas.

capítulo 1 • 30
Consequências metodológicas

O Método teológico será dogmático: aquele proceder que considera como fon-
tes do conhecimento teológico da revelação a Sagrada Escritura e a Tradição rece-
bidas e interpretadas na fé da Igreja. O método teologia fundamental se caracteriza
por procurar um discurso da fé, que seja válido ao ser dirigido a quem não têm fé.
Também se adiciona uma verdadeira análise fenomenológica do espírito humano.
Com o modernismo surge uma dicotomia entre fé e razão (como também fé
e cultura) e esse fato torna a interpretação de um mundo ideário radial, o que vai
afetar também a questão teológica, principalmente na teologia, na área da Sagrada
Escritura, onde pequenos grupos sociológicos inseridos nas denominações religio-
sas passam a questionar a Revelação, tornando a interpretação teológica perigosa,
pois ela passa a ter uma base fundamentalista.

A abordagem fundamentalista é perigosa, pois ela é atraente para as pessoas que


procuram respostas bíblicas para seus problemas de vida. Ela pode enganá-las, ofe-
recendo-lhes interpretações piedosas, mas ilusórias, ao invés de lhe dizer que a Bíblia
não contém necessariamente uma resposta imediata para cada um de seus problemas.
Fundamentalismo convida, sem dizê-lo, a uma forma de suicídio do pensamento. Ele
coloca na vida uma falsa certeza, pois confunde inconscientemente as limitações hu-
manas da mensagem bíblica com a substância divina dessa mensagem····.

A teologia deve estar voltada para a fé, que deve levar o homem a abrir-se à
revelação divina. Por isso deve ser comunicada. O mistério da revelação deve ser
entendido não apenas como uma forma de obter conhecimento, mas para uma
experiência onde deve se crer, amar e obedecer, de modo que as verdades salvificas
e não meramente verdades teóricas.
A comunhão com Deus continua a ser a pérola do tesouro que a teologia
possui, não sendo apenas um modo de obter conhecimento, como já foi dito, mas
para ser encarada na vida prática.
Caberá ao teólogo buscar a harmonia entre a Palavra de Deus e a realidade,
respeitando o tempo, lugar e momento histórico em que determinado texto bíbli-
co foi escrito. Por isso, a teologia deverá percorrer as etapas da Salvação, desde a
origem, onde Deus se dá a conhecer, na Aliança com Noé, na eleição de Abraão.
Nos tempos e espaços ao longo da história, Deus vai formando o seu povo
e manifestando a sua sabedoria e selando uma aliança de vida com este povo,

capítulo 1 • 31
corrigindo-o mediante os juízes e profetas até chegar ao ápice da Revelação que é
o Cristo Jesus, mediador e plenitude da Revelação.
No Cristo, Deus disse tudo, pois Ele é a Palavra única e perfeita do Pai e
depois dEle não haverá nenhuma outra Revelação, pois nEle foi selada a nova e
definitiva aliança, entre Deus e a humanidade.
Na certeza de que Deus “quer que todos os homens sejam salvos e cheguem ao
conhecimento da verdade” 46 faz-se necessário que o Cristo seja anunciado a todos os
povos, por esse motivo a pregação apostólica foi realizada de forma oral e por escrito.
A primeira foi feita pelos próprios apóstolos, que transmitiram de forma oral
o que aprenderam ou conviveram com o senhor por meio do Espírito Santo. Já na
segunda forma, os apóstolos e os varões apostólicos (que conviveram com os após-
tolos) sob a inspiração por escrito puseram por escrito a mensagem da Salvação
para que não corresse em perigo de heresia ou esquecimento.
No primeiro momento foi a fase do ouvir (auditus fidei) a Sagrada escritura e
compreender que a teologia fundamental deve nortear a busca para se aproximar
do Deus inefável, caberá o estudante, a ter o intelellectus fidei, onde irá buscar as
principais fontes teológicas e as consequências metodológicas para sua caminhada,
de forma ordenada e intensa, buscando o fundamento da mensagem revelada no
ato de sua fé. De modo a apresentar as contribuições para que a mensagem reve-
lada possa contribuir para uma comunhão maior entre Deus e o povo por meio de
uma vida integra e justa.

ATIVIDADES
01. Como o Método Teológico pode contribuir para a superação dessa dicotomia: fé e ciên-
cia?

02. Justifique a frase: “A Teologia como ciência sagrada”.

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capítulo 1 • 35
capítulo 1 • 36
2
Breve história da
teologia cristã
Breve história da teologia cristã
O que mais impressiona nas primeiras comunidades era o fervor e a coragem
dos cristãos. Diante das autoridades e dos líderes religiosos do seu tempo, os fiéis
não temem confessar que Jesus é o Messias. A presença do Espírito Santo era mui-
to viva. Cada igreja local tinha seus ministros, apóstolos e profetas. Em Cristo não
há diferença de dignidade entre grego e judeu, homem e mulher, escravo (a socie-
dade romana era escravocrata) e livre. Todos se reuniam para celebrar a eucaristia
(ou fração do pão) especialmente no domingo, que substituiu o sábado como o
sétimo dia dos cristãos, por causa da ressurreição do Senhor.
Oravam em comum, partilhavam seus bens e ajudavam os pobres. A iniciação
cristã era uma unidade entre o Batismo, a Unção e a Partilha do Pão no qual os
efeitos da morte redentora de Cristo eram aplicados sobre o crente. Pelo Batismo,
o fiel passava a participar da comunidade dos fiéis. Pela Unção, ele era sagrado
para a missão de testemunhar a fé. Na Partilha do Pão, a comunidade partilha
a própria vida e fazia memória a Cristo. Uma fonte importante sobre a vida das
comunidades cristãs do final do século I e início do século II, é a Didaqué, ou
Instrução dos Doze Apóstolos. A primeira parte da Didaqué apresenta os dois
caminhos que o homem pode escolher: o da vida e o da morte.

OBJETIVOS
•  Observar as diversas matrizes culturais presentes nos períodos históricos da teologia;
•  Identificar as primeiras comunidades cristãs;
•  Conhecer as peculiaridades na teologia na idade Média.

As primeiras comunidades

À frente de cada comunidade havia epíscopos, ou um colégio de presbíteros


e também diáconos, que cuidavam da administração e da distribuição dos bens
entre os necessitados. Tanto os epíscopos como os presbíteros e os diáconos eram
ordenados através da imposição de mãos. Esta estrutura ministerial, ainda não era
muito precisa pela simplicidade da vida das primeiras comunidades.

capítulo 2 • 38
Durante a vida de Jesus, inicia-se o processo de formação de seus seguidores
em comunidade. Elege os que lhe acompanha de perto, escolhe os que recebem
diretamente os seus ensinamentos, orientações e vocação, presenciando aconteci-
mentos pascais e recebendo a autoridade do Cristo Ressuscitado.
Jerusalém, Antioquia, Alexandria, Roma, Éfeso, Corinto, novas comunidades
se formam a partir dos ensinamentos dos apóstolos, na vida em comum, no partir
o pão e nas orações.
De acordo com as necessidades das comunidades, os apóstolos começavam a
escrever seus ensinamentos, como a carta de São Paulo aos Tessalonicenses. Assim,
animavam a fé, orientavam e respondiam as dúvidas. Desde o início, estes escritos
eram para partilha de todos, sendo colocados entre as comunidades, ou seja, a
importância do conteúdo e da autoridade de quem escreve.
Observa se que Jerusalém cai sob o Império Romano (70 d.C.), os diferentes
grupos de hebreus perdem a proeminência. Sem Templo, precisam organizar sua
fé e ainda considerar o grupo de cristãos que cresce. Novos escritos circulam,
sendo considerados Palavra de Deus reunindo-se em Jamnia para debaterem sobre
sua nova situação.
São dois livros discutidos: Eclesiastes; e Cântico dos Cânticos (poesia de amor
com tom realista, espelho da relação entre Deus e Israel).
Sem o Templo, onde os sacrifícios a Deus eram oferecidos, os cristãos sentem
necessidade de uma linguagem e uma leitura frente ao contexto. A escrita dos
Evangelhos reflete esta preocupação com a organização dos apóstolos, na convic-
ção de que a Igreja continua depois deles. Nesta referência que são referidos aos
bispos e presbíteros. Sua autoridade provém direto de Cristo. Também trazem a
consciência do Espírito Santo como princípio de unidade na diversidade.
Com a expansão no mundo helênico e a inculturação do Evangelho na nova
cultura, desenvolve-se o gnosticismo, doutrina desenvolvida a partir do dualismo
entre alma e corpo. A alma, neste pensamento, é proveniente de uma realidade
divina, e está presa ao corpo, só podendo ser libertada pela gnose. Este é o conhe-
cimento profundo e reservado a poucos, considerada pelos seus adeptos superior
ao Cristianismo.
Relacione o gnosticismo com o combate de muitos padres já no início das
primeiras comunidades, como Justino (100-165), Irineu (130-202), Tertuliano
(160-220) e Hipólito de Roma (160-235), marcando o início da apologia e da
apologética cristã.

capítulo 2 • 39
Desde o início, estas comunidades compreendem o batismo como entrada na
vida cristã, no assumir uma vida pura, piedosa e justa, que configura a pessoa a Cristo.
Outra marca do cristão é o martírio, ideal de associação a Cristo e comunhão
com Deus. Frente aos períodos de perseguição, a escatologia configura a vida da
comunidade, como graça que conduz a Deus.
É no encontro entre as necessidades das comunidades, o respaldo da autorida-
de dos apóstolos e o início da apologia cristã que os primeiros padres identificam
os livros inspirados pelo Espírito Santo, utilizando-os na vida da Igreja, no culto
e na catequese. Neste processo, começa a definição dos livros canônicos, ou seja,
dos livros reconhecidos pela Igreja como inspirados pelo Espírito Santo, expressão
de norma de fé e de vida evangélica.
Compreenda que, como não há um cânon hebraico, os padres recolhem a
Tradição e identificam os livros que expressam a canonicidade da fé cristã, iniciada
com o Antigo Testamento. A Septuaginta (LXX) é a versão grega com os livros
deuterocanônicos inclusos, usada nos escritos do Novo Testamento, (são cerca de
300 referências, das 350 citações). Os sínodos de Laodiceia (Ca. 360), de Hipona
(393) e IV de Cartago (397-419) se referem a um cânon completo.
No Novo Testamento, alguns livros são discutidos antes de serem aceitos
como sagrados: Hebreus e 2Carta de Pedro (dúvidas quanto à autenticidade);
Apocalipse (autenticidade e uso por seitas); 2 e 3 Carta de João (brevidade da
doutrina); Tiago e Judas (autenticidade e doutrina).
Com a Reforma Protestante, as Igrejas a ela ligadas definem o cânon sem
os deuterocanônicos (no Antigo Testamento) e sem as cartas de Tiago, Judas,
Hebreus e Apocalipse. Algumas denominações voltam depois ao cânon tradicio-
nal. Estudos bíblicos entre católicos e protestantes têm auxiliado na proximidade
de compreensão teológica e diálogo sobre a Escritura.

A cruz frente à perseguição do poder civil entre os séculos I e III

A perseguição romana ocorre em períodos pontuais, alternando com outros de


tolerância. Faz parte de projetos de Império que envolvem o culto ao Imperador e
ao fortalecimento de Roma.
De perseguição limitada à capital, com Nero (54-69), a todo o Império,
com Diocleciano (284-305), cada período tem características específicas e se in-
tensificam à medida que o Império entra em crise e é preciso reforçar a adesão
dos cidadãos.

capítulo 2 • 40
A dinastia dos Severos (193-235), por exemplo, tem uma política que tende
ao sincretismo. Alexandre Severo (222-235), o último Imperador romano da di-
nastia, permite até o acesso a bens. Os editos têm característica mais de limitar a
expansão cristã que seu combate.
É nesta situação que o Império obriga o sacrifício público ao Imperador, sob
pena de confisco de bens, exílio, trabalhos forçados e martírio. Os bispos, como
lideranças, são o alvo principal. Muitos cristãos fraquejam.
O período de maior perseguição é o reinado de Diocleciano (284-305), quando
o número de cristãos é expressivo. O exército participa da administração, com cresci-
mento do efetivo, de impostos, regulamentação das pessoas às suas fazendas e cidades,
ampliando a burocracia e o controle. O Império é dividido em Ocidente e Oriente.
Assinala assim o início de uma Teologia da Cruz, na leitura do contexto de
perseguição e de martírio.
Uma expressão deste contexto é o momento de um sacrifício, em que alguns
servos fazem o sinal da cruz para afugentar demônios, inutilizando os ritos pagãos.
Galério (260-311), um dos Césares, exaltado e considerando o gesto como afron-
ta, proclama uma série de editos ordenando a “Grande Perseguição”.
O Cristianismo não se apresenta como ameaça ao poder do Império. No en-
tanto, a relação entre o poder civil e o religioso, além da associação das lideranças
com a imagem religiosa pagã, são fatores que desencadeiam a ação.
As catacumbas, cemitérios registrados pelo poder civil, são utilizadas a partir
do século III pelos cristãos. Neste período tornam-se lugar de encontro para o
culto, pois o corpo dos mortos afastava os demais.
Critique a política do pão e circo, para acalmar a agitação das massas com a crise
crescente, marca o processo de intimidação, no qual os cristãos participam nas arenas.
A permanência e o crescimento dos cristãos pressionam o Império para uma
decisão: o extermínio ou a incorporação.

No período Patrístico

Chamamos de “Padres da Igreja” (Patrística), aqueles grandes homens da


Igreja, aproximadamente do século I ao século VII, que foram no Oriente e no
Ocidente como que “Pais” da Igreja, no sentido de que foram eles que firmaram
os conceitos da nossa fé, enfrentaram muitas heresias e, de certa forma foram res-
ponsáveis pelo que chamamos hoje de Tradição da Igreja; sem dúvida, são a sua
fonte mais rica.

capítulo 2 • 41
Padre ou Pai da Igreja, refere-se a um escritor leigo, sacerdote ou bispo, da
Igreja antiga, considerado pela Tradição como uma testemunha da fé.
Normalmente se considera o período da Patrística o que vai dos Apóstolos
até Santo Isidoro de Sevilha (560-536), no Ocidente; e até a morte de São João
Damasceno (675-749), no Oriente, o gigante que corajosamente combateu o ico-
noclasmo. Esses gigantes da fé cristã, ao longo desses sete séculos, defenderam e for-
mularam a fé, a liturgia, a catequese, a moral, a disciplina, os costumes e os dogmas
cristãos; por isso são chamados de “Pais da Igreja”, porque lhes traçaram o caminho.
Há uma reflexão sobre todo o trabalho que realizaram estes homens, nas áreas
dogmática, doutrinária, exegética, filosófica e teológica. Os Padres da Igreja en-
contram-se entre as mais importantes figuras da Igreja, pelo notável empenho que
tiveram além de suas colaborações as perspectivas doutrinárias da Teologia. No pe-
ríodo Patrístico, consolida-se a doutrina da Igreja em seus aspectos fundamentais,
vencem-se as heresias e as controvérsias doutrinárias que ameaçavam a integridade
da fé e a continuidade da Igreja.
Esta era é cultivada por homens movidos pela providência Divina, para au-
xílio da Igreja em momentos difíceis, e foram os verdadeiros guardas do depósito
de fé, a tradição. Existiam teses complexas que versavam sobre questões como: a
divindade plena de Cristo, as duas naturezas de sua pessoa, sua união hipostática,
a maternidade divina de Maria, a sua virgindade perpétua, o primado de Pedro, o
primado da Sé Romana, a necessidade universal da graça, a Santíssima Trindade,
nas quais brilhou a luz dos Padres Capadócios, os santíssimos sacramentos, entre
muitas outras questões, que as Escrituras em sua base não respondem explicita-
mente, foram eles que repercutiram, durante séculos, essas questões, iluminados
pelas Escrituras e pela Tradição Apostólica, exerceram também muita referência
nas futuras resoluções quanto a escolha e na comprovação dos escritos neo-testa-
mentários canônicos que hoje compõem a Bíblia.
A Patrística divide-se basicamente em três períodos:
Período ante-niceno - Corresponde ao período anterior ao Concílio
Ecumênico de Nicéia (324 d.C). Geralmente compreende os escritos surgidos
entre o século I e início do século IV.
Período niceno - Corresponde ao período entre os anos anteriores até alguns
imediatamente posteriores ao Concílio Ecumênico de Nicéia (324 d.C). Geralmente
compreende os escritos surgidos entre o início do século IV até o final deste.
Período pós-niceno - Corresponde ao período compreendido entre os sécu-
los V e VIII.

capítulo 2 • 42
A igreja como oriental e ocidental

Com a divisão do Império Romano por Diocleciano, o Oriente se apresenta


mais rico, mais populoso e com as riquezas melhor distribuídas. Sua população é
formada de mais camponeses e menos aristocratas, com renda do governo limita-
da, maior enfrentamento dos bárbaros e maior controle das migrações.
O Ocidente é dominado pela aristocracia abastarda e influente, com gover-
nantes de alta carga fiscal e maior pressão externa às invasões. A vida é ameaçada
na destruição das terras de cultivo e violência dos bárbaros, diminuindo a popu-
lação e a mão de obra, gerando fome, impostos crescentes, pragas, burocracia,
marginalidade e corrupção.
A crise do Império acelera a polarização social e surgem novas doutrinas filo-
sóficas, cultos domésticos na área rural e cultos orientais nas massas urbanas. Os
padres ainda precisam superar a percepção cristã enquanto seita judaica ou mesmo
um culto oriental de mistério.
Os bizantinos trazem a diversidade greco-romana como herança em sua prá-
tica de reflexão. O amor ao conhecimento e à beleza desenvolve o gosto pelo
pensamento intelectual e a concepção da educação como ingresso na sociedade.
O Império é formado por diferentes povos e culturas que, além de exigirem
aparato administrativo amplo, fornece elementos religiosos que influenciam a vida
cotidiana, bem como fomenta a prática de superstições.
Suas reflexões passam por diversas áreas, como a compreensão da história de
Roma a partir da centralidade de Cristo, como na História Eclesiástica, de Eusébio
de Cesareia. É o Cristianismo que abarca o Império, e não o contrário. Eles têm
uma concepção descendente de poder: Jesus delega sua representação à Igreja que,
através do bispo, a transmite ao Imperador.
Também aqui temos o campesinado e a aristocracia remanescente, que con-
servam práticas não-cristãs; e judeus, compreendidos como os que cometeram o
crime de deicídio, com pena eterna e salvação pela conversão. Monges e eremitas
abandonam as cidades para sujeitarem a carne, além da prática de punições e mu-
tilações para salvar a alma. Eles têm influência moral e política.
Desenvolvem-se temas como dos santos e imagens como representação mate-
rial da fé. Os orientais se apropriam das imagens construídas por Paulo, como sím-
bolos, identidades e valores. Acredita-se que as relíquias dos santos são miraculosas.
A expansão desta mentalidade é uma das questões que suscita questionamentos.

capítulo 2 • 43
O Oriente desenvolve tolerância de cada cristão com seu próprio caminho
para a salvação, limitado pela fé e pelos concílios, com a Teologia a partir do estu-
do da filosofia grega, em oposição ao Ocidente, que desenvolve uma Teologia de
reflexão prática do aprofundamento oriental. Os bizantinos consideram-se orgu-
lhosos e herdeiros do Império Romano.
Contraponha ao Ocidente que, em 378, tem os germanos se estabelecendo
no Império através de Tratados de Federação (foedus, feudos), legitimando sua
entrada no Ocidente com pagamento de impostos. Estes movimentos migratórios
pressionam a Igreja romana contra o Oriente.
Frente ao contexto ocidental, os bispos assumem a organização e a defe-
sa da população, destacando-se em importância. Com isso, a Teologia no oci-
dente desenvolve-se a partir das reflexões no Oriente e em sua aplicação frente
às dificuldades.
No Ocidente, os cristãos desenvolvem uma relação de cooperação com o po-
der civil, entre trono e altar, sobretudo na Idade Média, com a unção dos reis. Na
Idade Moderna serão conhecidos como Estados Confessionais ou Antigo Regime.
Independente da cooperação, não há perda da identidade civil ou religiosa. Ambas
as esferas permanecem e lutam entre si.
No exército, os cristãos se negam a participar de simbolismos, pela defesa da
fé. O processo de resistência auxilia na construção de uma identidade própria e de
unidade, que permanece no desmoronamento do Império no Ocidente e auxilia
nos laços com o Oriente.
Uma das saídas encontradas é o processo missionário para expansão geográfica
do cristianismo, por toda a Europa, incorporando os bárbaros ao cristianismo.
Outra é a evangelização das lideranças dos reinos.
A diretriz que tomam é de acentuar o papel redentor de Cristo na salvação
dos homens e a forte atividade caritativa das comunidades como testemunho.
Salvação é entendida como sendo de toda a humanidade.
Destaque que o batismo do rei franco Clóvis (498-499), na noite de Natal é
decisivo para o futuro do Ocidente. Os bispos, tendo um monarca no ocidente
convertido, assumem atitude hostil aos reis arianos no território onde se encon-
tram. O fortalecimento do cristianismo com o apoio dos reis coopera com o en-
fraquecimento da figura do Imperador do Oriente. Surgem novas autoridades,
tanto o fortalecimento da figura religiosa do Papa quanto nos reinos que estão
se organizando e fortalecendo. A associação entre poderes civil e religioso vai
se distinguindo.

capítulo 2 • 44
Em 755, o rei franco Pepino estabelece a obrigação dominical de abstenção do
trabalho para o ofício de culto. A participação torna-se obrigatória, como ato civil.
O latim é assumido como língua litúrgica e o ritualismo se desenvolve. A Igreja
ora pelo rei, participa da administração civil e educa os súditos.
Em 800, Carlos Magno é coroado como Imperador do Ocidente, na perspec-
tiva de um Império Universal Cristão, o que causa uma situação de constrangi-
mento com o Oriente. Este projeto termina com sua morte, a partir da qual as li-
deranças locais assumem o poder e começa o período feudal. O Ocidente passa da
escravidão do final do Império Romano para o colonato, e agora tem a servidão.
Com a pulverização do poder, a ordem clerical encontra-se em indisciplina e
desordem. Os presbíteros são escolhidos entre os servos pelo senhor, sem formação
específica. Os bispos, individualmente, mantêm a tradição Patrística.
O clero desorganizado, praticante de simonia e nicolaísmo é causa de escândalo.
Com a prática da especulação filosófica nas universidades ocidentais, critica-se o poder
religioso em suas contradições. Muitos nomes se manifestam, com posições diversas.

O poder religioso e político da Igreja na Idade Média

Durante a Idade Média (século V ao XV), a Igreja Católica centralizou e ex-


pandiu o cristianismo na Europa, atuando em diversos campos, como o político
(presente em decisões políticas importantes), econômico (administração de recur-
sos), jurídico (desenvolvimento de legislação para solução de conflitos) e social (o
cristianismo convoca a um padrão moral-ético na sociedade).
O cristianismo não é a única religião e é oficial à medida que alguns líderes se
convertem, e em seus reinos. A associação entre os poderes civil e religioso levou o
primeiro a recorrer ao segundo em diversas questões. Tanto o sincretismo religioso
com os cultos rurais como o dualismo que retornam sem a mesma estrutura do
final do Império Romano, contribuíram para desenvolver a prática jurídica dos
tribunais inquisidores, em perfis distintos, de acordo com a associação local entre
líderes civis e religiosos. Considerando a proeminência dos senhores na escolha de
clérigos, muito se discute sobre o perfil da Inquisição, considerando-a na herança
cultural que recebida de diferentes grupos sociais envolvidos.
O islamismo domina a Península Ibérica por 700 anos; os reinos bárbaros
eram de religiosidades próprias; o arianismo tinha raízes em vários lugares, bem
como o judaísmo; no Oriente, ainda que no Império Romano seja oficial, o cris-
tianismo convivia com diferentes religiosidades e o sincretismo era comum.

capítulo 2 • 45
A condenação de heresias estava muito mais próxima a ligações com o poder
civil, principalmente no oriente, onde predominavam os concílios, e quando ofe-
reciam confrontação com o poder instituído. Os monges copistas dedicavam-se
a copiar e guardar os conhecimentos das civilizações antigas, principalmente dos
sábios gregos. Graças aos monges, esta cultura se preservou, sendo retomada a
época do Renascimento Cultural.
Enquanto parte do alto clero (bispos, arcebispos e cardeais), preocupava-se em
administrar as relações com os setores civis, outros dedicavam-se ao desenvolvi-
mento e aprofundamento da espiritualidade e da doutrina. Os monges francisca-
nos, por exemplo, deixaram de lado a vida material para dedicarem-se aos pobres.
Com os dominicanos fundaram as ordens mendicantes.
A organização em um império vem sendo desenvolvida na história, com pro-
jetos crescentes, sendo o romano seu ápice na Antiguidade. A compreensão de se
ter uma alma a ser salva em sua história é própria do cristianismo, que desenvolve
esta escatologia pela patrística. No entanto, não é a única com a compreensão de
vida pós-morte; demais religiões trazem perspectivas escatológicas específicas.
O Império Romano, dividido em duas organizações administrativas distintas,
o oriente e o ocidente, tem sua. A parte ocidental sob as invasões bárbaras em
476. Também não são duas Igrejas cristãs. O que há é que, por ter uma unidade
política forte, onde as lideranças religiosas do oriente tendem a crescer em auto-
confiança e desejo de autonomia, o que só ocorre com o cisma de Acácio (484-
519) e com o Grande Cisma (1054 até os dias atuais).
A oposição entre império e papado no decurso da Idade Média, bem como
suas interações várias, desenvolveu-se de maneira particularmente complexa sob
o signo de dois grandes projetos que se postulavam como universais: o de uma
Igreja Romana, que passaria a se apresentar na Europa Medieval como o grande
fator da unidade da cristandade ocidental, e o de um Império do Ocidente, que
já não existia mais a partir da deposição de Rômulo Augusto em 476 d.C., mas
que, a partir daí, nunca deixaria de pairar sobre o imaginário político dos novos
reinos que, nessa parte ocidental do antigo Império Romano, dava agora origem
aos inúmeros reinos europeus.
Esta história deve ser recuperada a partir de seus primórdios, que remon-
tam à Antiguidade Romana. Impérios e domínios imperiais foram frequentes na
história do mundo: do Império Persa ao domínio dos antigos atenienses sobre
inúmeras cidades-estados na Grécia Antiga. Com o desenvolvimento histórico do
Império Romano, contudo, e particularmente quando este adota o Cristianismo

capítulo 2 • 46
como religião oficial a partir de Constantino, aqui se reforçando o projeto impe-
rial, pelo contraponto de um segundo projeto totalizador, o de uma religião que
se compreendia como a única capaz de conduzir à salvação da alma.
Adicionalmente, a divisão entre um Império Ocidental e um Império Oriental
produzira também a emergência de duas Igrejas cristãs: uma que passava a estar
sediada em Roma, outra que passava a estar sediada em Bizâncio.

A relação entre Império e papado na Alta Idade Média

A ascensão do reino Franco no cenário Europeu veio se combinar a um con-


texto em que a Igreja Romana, organizada também territorialmente em igrejas
particulares com relativa autonomia, via-se afrontada por duas grandes ameaças
que eram os povos lombardos, recém-chegados à península, e o Império Bizantino,
que controlava a chamada Igreja Cristã Oriental.
A resistência da Igreja Romana era ameaçada, neste contexto, de muitas ma-
neiras – tanto territorialmente como doutrinariamente – e por isto o projeto de se
projetar como força cristã universal, no âmbito do ocidente, poderia se combinar
perfeitamente com o projeto de expansão do povo franco, já cristianizado.
A passagem da dinastia Merovíngia para a dinastia Carolíngia, através de
Pepino, o Breve, é precisamente assinalada por uma aliança entre o reino franco e
a Igreja Romana, que ficou selada, simbolicamente, pela unção recebida pelo Papa
Pepino das mãos de Estevão II. Vinte anos depois, Carlos Magno firmaria uma
aliança similar com o Papa Adriano I (772-775), a partir de um contexto de alian-
ças e oposições que estão registrados em diversos anais da época, como o Liber
Pontificalis. Fonte singular para uma compreensão dos aspectos políticos e sim-
bólicos envolvidos nesses acontecimentos é a Carta de Doação de Constantino,
documento elaborado nas oficinas do próprio papado de Adriano I como se fosse
uma antiga carta em que o Imperador Constantino havia doado terras da Itália
Central ao Papa Silvestre (285-335).

As tensões entre império e papado na Idade Média

Em que pese toda uma situação que procurava reunir o imaginário imperial e
o simbolismo cristão através de uma aliança entre o império e o papado, a verdade
é que a questão da sagração imperial oferecia um profícuo terreno para que come-
çassem a surgir conflitos entre o poder temporal e o poder espiritual.

capítulo 2 • 47
Era o Imperador que fazia o Papa – como ocorrera com Oto III, ao impor
a Roma o Papa Clemente II, que logo depois o consagraria – ou era o Papa que
deveria fazer o Imperador, como declararia Gregório VII, já em 1076, em um
documento denominado Dictatus Papae.
Em 1059, A Reforma da Igreja Medieval, já tinha produzido, em 1059, o decreto
que instituía a eleição do papa pelos cardeais, assinado pelo Papa Nicolau II, e que,
para a sua elaboração, tivera precisamente a influência do reformador Hidelbrando,
futuro Gregório VII, ligado à abadia de Cluny. Mas pode-se imaginar como a questão
era complexa, já que, nos diversos reinos da cristandade, os reis e também o impe-
rador, tentavam impor o direito de indicar autoridades eclesiásticas nos territórios
que governavam. Para entender este ponto, será útil tentar compreender as relações
concretas da Igreja com o mundo feudal que a cercava por todos os lados.
Nesse contexto, os bispos estavam inteiramente sujeitos ao imperador ou a
outros governantes temporais, que lhes concediam a investidura através de dois
instrumentos simbólicos importantes, o báculo e o anel, imagens em torno dos
quais, logo iria se desenvolver uma verdadeira guerra de representações entre o
papado e o império. O “báculo”, era o símbolo da jurisdição; o “anel” o símbolo
da união mística com a Igreja.
Em 1073, quando Gregório VII ascende a papa, a Igreja estava em pleno de-
senrolar de uma reforma religiosa que começara a tomar forma a partir de 1050.
Seu período de pontificado, entre 1073 e 1085, é particularmente intenso em
termos de novas propostas que visavam discutir a posição da Igreja no mundo.
Entre Oriente e Ocidente desenvolveu-se crescente rivalidade, do abu-
so de poder dos Imperadores, das disputas teológicas e políticas entre Roma e
Constantinopla. São heresias, antipatias pessoais e desentendimentos diversos.
A Coroação de Carlos Magno (800), pela Igreja Romana é entendida como traição.
A sagração de um bárbaro como Imperador, em posição semelhante ao
Romano no Oriente, é uma cisma moral. Os excelentes pontífices vindos da aba-
dia de Cluny levam os orientais a se enrijecer.
Percebe-se que a pretensão de Roma quanto à jurisdição e o desejo dos
Patriarcas de autonomia levam à excomunhão mútua, e a um crescente abismo
nas relações religiosas.
Sem grandes discussões teológicas, o choque entre os ritos unificados no
Oriente e a diversidade no Ocidente, as divergências entre a cultura intelectual,
bem como o patriotismo oriental frente à barbárie sangrenta e agitada ocidental,
fazia com que qualquer pormenor tornasse motivo de escândalo.

capítulo 2 • 48
A Reforma Protestante

Um dos pensamentos que antecede a Reforma Protestante e que a influência


é o nominalismo. Nominalismo é uma doutrina defendida por Guilherme de
Ockham (1288-1347), que afirma a descrença na Verdade absoluta, sem certezas
e sem confiança em ninguém. Para os nominalistas, não podemos ter acesso às
coisas, pois elas não existem, somente ao nome.
Muitas de suas defesas se propagam no pensamento europeu e são incorpora-
das às estruturas de pensamento, como a participação dos fiéis na vida eclesiástica,
a posição da mulher, a separação entre Estado e Igreja (cf. Oliveira: 2014, p. 195).
A Reforma empreendida por Lutero, Calvino e Zwínglio, é marcada por esta
doutrina, como a defesa da leitura e da educação (escola primária pública, sem
vínculos com instituição religiosa, para as massas) e a separação entre o Estado (a
carne) e a Igreja (o espírito).
Partindo da compreensão de que o pecado não pode ser vencido, pois é ineren-
te à natureza humana, a salvação é impossível, assim como a purificação completa
do pecado. Deste modo, indulgências e obras são incoerentes neste pensamento. A
salvação é somente pela fé, Sola Fidei. Inicia-se uma discussão teológica acirrada.
Observe que Lutero apoia-se somente na Escritura, rejeitando concílios e a
autoridade do Papa, sendo apoiado por humanistas hostis à Roma.
Em 1 de agosto de 1520, publica o manifesto “À nobreza cristã da Alemanha
para a Reforma do Estado Cristão”, descrevendo a Teologia do sacerdócio univer-
sal, que todos têm direito de recorrer à Igreja, pois a interpretação não lhe está
reservada. Assim, Imperadores e Príncipes têm o mesmo direito que o Papa em um
Concílio Geral (cesaropapismo).
Em outubro de 1521, publica “O prelúdio do cativeiro da Babilônia da Igreja”,
atacando a doutrina dos sacramentos e reduzindo-os a Batismo e Eucaristia. Em
novembro de 1521, “Liberdade do Cristão”.
Acompanhe os escritos de Lutero:
1925 – De Servo Arbítrio, refutando Erasmo, que defendia o livre arbítrio sem
o qual não se pode conceber a moral e, consequentemente, nenhuma religião.
1929 – O Pequeno e, depois, O Grande Catecismo.
1937 – Os Artigos de Esmalcalda, completa exposição da doutrina protestante.
1545 – Depois da convocação do Concílio de Trento (1545-1563), escreve
Contra o Papado, em Roma, fundado pelo Diabo.

capítulo 2 • 49
Lutero começa a organizar uma Igreja regional, ordenada, regular e hostil à
Roma. Conta com a proteção do Príncipe.
O princípio da Sola Scriptura, só a Escritura, e seu livre exame, se relaciona
com o princípio da fé, como sua fonte nos ensinamentos de Jesus. Sola Gratia, só
a graça, completa com a adesão a Deus, sem instrumentos de mediação, ou ações.
Confirma-se assim as ideias de Lutero e declara-se guerra às indulgências
(1519 a 1530), ao jejum na quaresma, ao celibato eclesiástico e a à autoridade dos
concílios e do papa. Sua ruptura com Roma é apoiada pelo Concílio de Zurique,
com emprego de medidas radicais anticatólicas. Em 1525, a partir do princípio
Sola Scriptura, Lutero discute sobre a Eucaristia em relação à presença real de
consubstanciação: Lutero afirma a presença de Jesus na Eucaristia durante a cele-
bração e Zwingli defende que é simbólica, negando-a.
Veja que Calvino estreita a relação com o Estado, resguardando a direção
teológica em nome da ciência da Bíblia. Sua direção é submeter o Estado à Igreja.
Assim, apresenta-se como representante de Deus.
Ele defende o princípio da inutilidade das obras e da salvação pela fé. Para ele,
a necessidade das obras é sinal de fé, de sua afirmação, não de mediação. Deste
princípio vem o puritanismo, com o rigor moral. Defende também a eleição divi-
na dos que são salvos, tornada possível pela pureza da vida pessoal.
Publica as ordenanças eclesiásticas, como regulação das organizações da Igreja,
definindo os ofícios de pastores, doutores, anciãos e diáconos. Estes se reúnem no
Consistório, para vigilância disciplinar dos fiéis.
Define o dogma da predestinação, de que Deus não criou a todos em condi-
ções iguais, e sim uns para a vida eterna e outros para a condenação eterna.
Henrique VIII (1509-1531), rei da Inglaterra, é inicialmente hostil, mas assu-
me o rompimento com Roma através do cisma anglicano (1534), com inúmeros
mártires. Em 1563, a Carta Magna da Igreja Anglicana é promulgada com 39
artigos, entre eles a doutrina da Santíssima Trindade, dos Concílios de Niceia
e o Credo de Atanásio; outros com a doutrina luterana da Sola Scriptura, pecado
original, a fé sem obras, os sacramentos do Batismo e da Ceia, presença de Cristo
unicamente no momento da comunhão, abolição do celibato eclesiástico e artigos
anti-católicos.
Identifique, no século XVII, os quakers, que exaltam a prática da oração e a
inspiração pessoal – Deus fala diretamente à alma para que lhe devamos fé. No
século XIX, os mórmons, com o Livro dos Mórmons como nova revelação, junto
com a Bíblia.

capítulo 2 • 50
Com o Iluminismo, surgem muitas formas de Igrejas Protestantes, como o
Ressurgimento ou Renascimento. Aqui, você pode confirmar o Pietismo (século
XVII), movimento luterano contra o excesso de formalismo da religião e reuniões
para leitura da Bíblia e vida de verdadeiro cristianismo; e o Metodismo (século
XVIII), vindos do anglicanismo, com leitura Bíblica, exercícios de piedade, obras
de caridade e jejuns como método de santidade, com doutrina calvinista de pre-
gação – George Whitefield (1714-1770), organiza a Igreja presbiteriana e Carlos
Wesley (1707-1788) faz ordenações, rompendo com o anglicanismo.
Percebe-se que não há uma unidade na reforma, e sim múltiplas formas de
compreender a teologia e sua relação com o mundo. No entanto, você pode iden-
tificar alguns princípios em comum. Entre eles a concepção de salvação. O prin-
cípio do Sola Fidei, só a fé, situa a riqueza cristã no próprio Deus, levando ao
conceito de justificação da fé – todos são justificados pela fé em Cristo, nosso
único mediador junto ao Pai.
Deste modo, a Reforma Protestante possibilita outra interpretação do mundo,
na liberdade da argumentação, na ciência distinta da Igreja, na autonomia da fé
frente à razão, de uma consciência de si nova e mesmo de independência de Roma.

De Nicéia ao Vaticano II: grandes concílios da Igreja

Saiba que o primeiro Concílio de Niceia (325) ocorre no combate ao arianis-


mo, em que a plena divindade de Cristo é negada. No Concílio de Constantinopla
(361), a controvérsia cristológica é resolvida na consubstancialidade do Filho e
do Pai.
A partir de 360 difunde-se a negação da divindade do Espírito Santo. O II
Concílio de Constantinopla (381), a partir da controvérsia pneumatológica, ela-
bora o conceito de pessoa para responder à realidade da Santíssima Trindade. A
Teologia volta-se para conceitos fundamentais, como homoousios, a mesma subs-
tância, a liberdade e a razão humanas, a divindade como essência da Santíssima
Trindade e a criação pela abundância de amor de Deus.
Este Concílio elabora o Credo Niceno-Constantopolitano, confirmando o de
Niceia e expandindo na compreensão do Espírito Santo. Ele é o Teólogo por ex-
celência, que ilumina a cristologia. Fazer Teologia é pensar racionalmente sobre o
mistério de Deus.
Observe que a Teologia da Cruz ganha novo vigor. A partir do mistério pascal
podemos afirmar que Jesus é Deus, conforme sua vida revelada no Evangelho.

capítulo 2 • 51
Que Deus é este que morre na cruz? Deus é amor (cf. 1Jo 4, 8), que olha o
sofrimento humano e responde do alto da cruz para chegar ao coração e aos sen-
timentos humanos.
Deus Pai é o mistério fontal. É conhecido através de Jesus Cristo, que nos faz
filhos nascidos em seu desejo de amor. Ele nos ensina a falar com, a falar sobre, a
ter a intimidade de uma criança.
Nestório (381-451), começa a questionar o culto aos santos e à Virgem Maria,
defendendo que esta teria gerado somente o homem, e não a Deus, reacendendo
a questão das naturezas de Jesus. Cirilo de Alexandria (378-444), é um dos princi-
pais combatentes, com cartas e junto ao Papa Celestino I (422-432), condenando
a tese e o intimando a retratar-se.
Não satisfeito, Nestório leva o caso ao Imperador Teodósio II (408-450), que
convoca o Concílio de Éfeso (431). Depois de três meses de discussão, as escolas
de Alexandria e de Antioquia, através de Cirilo e João (m. 441), respectivamente,
chegam à fórmula Theótokos, a Mãe de Deus.
A declaração da maternidade de Maria garante as duas naturezas de Jesus, a
humana, por ser Filho de mulher (cf. Gl 4, 4) e a divina, concebido pelo poder do
Espírito Santo (cf. Mt 1, 18). Para o Oriente, Maria é toda santa, pois nela repousa
a graça de Deus, o Espírito Santo. Condena-se formalmente os monofisismos.
Igrejas são dedicadas à Maria após a construção da Basílica Santa Maria Maior,
bem como festas marianas. A devoção inibe e toma espaço das superstições, cen-
trando, na pessoa da Mãe de Deus, as naturezas de Jesus Cristo, verdadeiro ho-
mem, por ter uma mãe, e verdadeiro Deus, gerado sem participação de varão, pelo
Espírito Santo.
A proclamação das duas naturezas da pessoa do Filho cresce de modo que se
tornam equivalentes, retomando a doutrina de Apolinário no monofisismo, na
defesa da “natureza única” de Cristo. Marciano (450-457), convoca o Concílio de
Calcedônia (451), que confirma a carta a Flaviano (m. 449) sobre as duas nature-
zas de Cristo, indistintas, indivisíveis e inseparáveis.
Ao final, os orientais aproveitam-se da ausência de delegados romanos e vo-
tam que Constantinopla deve ser a Nova Roma, com os mesmos privilégios que
Roma, conforme descrito no cânon 28. Mesmo sob protestos dos delegados re-
gistrados em ata. A indignação do Papa Leão (440-461) não encontra resposta
do Imperador.

capítulo 2 • 52
Acompanhe que, nesta época desenvolve-se o culto litúrgico ao Filho, com a
celebração de diversas fases da vida de Jesus, primeiro no Oriente, seguido pelo
Ocidente. Neste contexto, a origem do crucifixo.
Em 482, Zenão I (474-475, 475-491), querendo reconciliar os súditos, orto-
doxos e monofisistas, emite o Édito de Henótico, afirmando o Credo de Niceia
como expressão final da fé cristã, o que suspende as decisões de Calcedônia. Os
Papas Simplício (468-483) e Félix III (483-492), protestam e o último excomunga
Acácio, patriarca de Constantinopla, pela sua participação e negação da autorida-
de papal.
O II e III Concílios de Constantinopla (553 e 680), retomam a dupla nature-
za de Cristo. A obra de Agostinho de Hipona (354-430) repercute nas reflexões.
Se Jesus sofre e não é Deus, Deus não é tocado nem atingido, não redimindo a
morte; se a humanidade de Jesus é aparência e sua identidade é divina, Ele não
assume totalmente a humanidade e o sofrimento não o atinge.
Pelo Batismo, compreenda que você vive do mesmo modo que Jesus vive
com o Pai, capazes de amar e viver em comunhão, base da Trindade. O amor é
tão grande que derrama sobre nós, dentro de nós, através do Espírito que clama
“Abbá”.
A ação política cresce em desordem moral, com crueldade aos criminosos, ini-
migos políticos e adversários teológicos. Retorna-se a práticas pagãs, como magia
e exploração da crendice popular. Em contraponto, as práticas de ascese tornam-se
cada vez mais rigorosas.
O culto às imagens, superando o simbolismo, evoca altas realidades e modelos,
na mentalidade de que “a vista conduz à fé”. O estímulo mercantil deforma pelo
excesso, pretexto para conflito entre Império do Oriente, monges e Ocidente, em
vestígio de monofisismo, com hostilidade ao que pudesse encarnar o espiritual.
Em 726, o Imperador Leão III (717-741), em desejo de preeminência religio-
sa manda retirar o que era de culto exagerado, com derramamento de sangue. Os
monges querem se opor ao autoritarismo imperial. Compreenda que a crise é do
diálogo entre espiritual e temporal.
O II Concílio de Niceia (787), trata da supressão da veneração às imagens sa-
gradas e aos ícones. Ele declara que a legitimidade da veneração, em culto relativo,
em relação à graça divina que repousa na pessoa retratada, não na imagem em si.

capítulo 2 • 53
O Concílio de Trento (1545-1563)

Acompanhe que o Concílio leva reformadores diocesanos e de movimentos


eclesiais a Trento, como Tomás de Vilanova (1488-1555) e Marcello Cervini
(1501-1555), que vinham afirmando a doutrina católica frente às posições
que circulavam na Europa. Também colhiam as elaborações humanistas que se
desenvolviam.
Ou seja, as discussões do Concílio já vinham amadurecendo nos diversos con-
textos de seus participantes, sendo fruto de um período anterior de reflexão.
Assim é a formação dos seminários, já sendo questionada na atuação incoe-
rente do clero e uma preocupação antiga da Igreja. Aqui, a responsabilidade dos
bispos na formação de seus presbíteros. A novidade está na formação humanística.
Na reforma da vida religiosa, conventos e abadias assumem regras que mui-
tas ordens já reelaboram, antecipando o espírito conciliar, como os barnabitas,
de Antonio Zaccaria (1502-1539), e os hospitaleiros, de Jerônimo Emiliano
(1481-1537).
Observe que a Tradição é confirmada com a Escritura, fontes legítimas da
Revelação (em contraposição ao Sola Scriptura da Reforma). A Vulgata, tradução
da Escritura para o latim no século V, é confirmada. O Magistério da Igreja con-
tinua no direito da interpretação bíblica.
Trento diferencia pecado original de concupiscência. O pecado de Adão é
transmitido ao gênero humano, mas a pessoa tem a liberdade e pode colaborar na
salvação através das obras (contrapondo ao Sola Gratia reformada).
O Concílio confirma a presença de Cristo na Eucaristia e o termo da tran-
substanciação (ainda que com a aparência de pão e de vinho, estes se tran-
substanciam no Corpo e Sangue de Cristo). Também confirma a Missa, como
atualização do sacrifício do Calvário, unifica o rito latino, confirma a confissão
auricular como sacramental e sete sacramentos, além de ampliar competências da
Inquisição Romana.
Deste modo, o Concílio de Trento unifica movimentos correntes na Igreja,
tornando-os uma identidade de pensamento e ação frente ao contexto históri-
co. Suas posições sustentam a Igreja Católica pelos três séculos seguintes, fren-
te a abertura teológica das Teologias independentes, ao contexto missionário na
América, na África e na Ásia, aos confrontos na Europa e nos movimentos ilumi-
nistas, burguês e industrial.

capítulo 2 • 54
O Concílio Vaticano I (1869-1870)

Conheça a formação dos Estados Nacionais, a Revolução Industrial (1780-


1840) e a Revolução Francesa (1789), com novas doutrinas circulando no mundo
europeu. A monarquia deixa de ser considerada como direito divino e vigora a
eleição do governante pelo voto.
A vestimenta eclesiástica é proibida, o casamento é secularizado, a burguesia
ocupa lugar proeminente, a liberdade de pensamento, culto e imprensa são valores
invioláveis, como a igualdade e a política. O nacionalismo é o elemento agregador,
não mais o cristianismo. O socialismo apresenta-se como nova força.
O Vaticano I é uma das mais expressivas afirmações da Igreja Católica frente
aos acontecimentos, mas não é a única.
Reações diversas são assumidas progressivamente, como a reafirmação da es-
colástica, o restabelecimento da Companhia de Jesus (1814), a condenação dos
movimentos na Encíclica Quanta Cura e do Sílabo de Erros (1864).
Assim, o Concílio enfrenta não somente questões espirituais e religio-
sas, mas também a ação temporal da Igreja no mundo. São aprovadas duas
Constituições Dogmáticas:
- Dei Filius, exposição sucinta da doutrina católica e a condenação do raciona-
lismo ateu, ratificando o Sílabo dos Erros e penalizando com excomunhão os que
se posicionam de modo contrário;
- Pastor Aeternuns, com a exposição da instituição e perpetuidade da autori-
dade do Papa, em sucessão direta de Pedro até o Papa de então, Pio IX (1846-
1878), no primado papal em pronunciamentos ex-cathedra, centralizando a Igreja
Católica em torno do Pontífice. Para reforçar tal posição, declara-se a infabilidade
papal, princípio de unificação da doutrina católica.
Devido à guerra franco-alemã, o Concílio é interrompido, pois Roma é ocu-
pada em 20 de setembro de 1870. As duas Constituições influenciam os pontifi-
cados a partir de então.

O Concílio Vaticano II (1962-1965)

Lembre-se que o movimento do aggiornamento do Vaticano II repercute ad


intra (na Igreja) e ad extra (na sociedade), promovendo uma nova compreensão do
mundo, do ser humano e da própria Igreja.

capítulo 2 • 55
Também se compreende pela dinâmica da continuidade, na fidelidade à
Tradição, e descontinuidade, na profunda reforma na leitura da história e suas
múltiplas relações. O Concílio propõe a superação do clericalismo e a ação leiga
a partir da compreensão de Povo de Deus, em novo modo de entender a própria
Igreja em sua inserção no mundo.
A Igreja-instituição rompe na Igreja-comunidade, local, preocupada com os
que mais precisam, com a celebração litúrgica a partir dos participantes, em no-
vas relações entre Papa e Bispos, do leigo com o clero, com pessoa inteira em sua
formação educativa.

Embates com a Modernidade e a Pós-Modernidade

A Modernidade desenvolve um processo de mudança de mentalidades, rom-


pendo com a tradição medieval, do teocentrismo para o antropocentrismo. Aqui
você tem o início do individualismo moderno e o primado da liberdade.
O movimento iluminista utiliza a metáfora da luz para explicar o primado da
razão, no poder do pensamento para combater e vencer a ignorância religiosa e
confiar na leitura da realidade a partir do conhecimento científico.
Tudo precisa passar pelo crivo da razão, da legitimidade do poder político
às concepções dogmáticas. A religião é colocada como secundária, pois cuida do
transcendente, não passível de explicação racional. Ou então é tratada como ideo-
logia, exposta à crítica.
O Modernismo considera o cristianismo como repressor das tendências na-
turais humanas, tornando-os infelizes e submissos a reis absolutos, legitimando a
repressão e a corrupção.
Assim, questiona não só a religião como também a consciência religiosa, em
uma interpretação secular de Deus. Ele aspira a um comportamento racional a
partir da ciência e da técnica. O processo de desmitologização proporciona um
afastamento de posições tradicionais e uma deificação da natureza.
A falta de unidade religiosa, bem como a relação conflituosa entre as diferentes
denominações, com a divisão das pessoas, não ajuda muito. Compreenda os con-
teúdos doutrinais mais no campo da subjetividade que da objetividade, tornando
a religião como algo privado, de identidade pessoal e de função terapêutica.
O princípio metódico da ciência impõe a limitação de Deus à capacidade
humana, com Teologias independentes e seculares. Deste modo, as religiões são

capítulo 2 • 56
indiferenciadas e se desenvolve um sistema de intolerância religiosa, independente
da que prevalece na região em questão.
A situação indica o estado da pessoa anterior ao Estado, em que a liberdade
está vinculada ao dever moral do cidadão. O contrato social que garante a paz,
fundando o Estado de Direito, com leis coercitivas impostas.
Você pode acompanhar uma reação entre os séculos XIX e XX, seja com posi-
ções fideístas, seja na busca de uma nova relação com a ciência.
É no século XX que a conjunção de fatores coloca a modernidade em crise e
interpela a novas respostas à conjuntura de então. É tempo de crise, de mudança
de época, de pós-modernidade.
Sem critérios sólidos, a pessoa moderna tem acesso a todas as informações que
precisa, mas não consegue fazer uma síntese, um projeto de vida e, por isso, precisa
conviver com um vazio interior. Busca respostas em ideologias às suas questões
fundamentais, como o materialismo, o hedonismo, o relativismo e o consumismo.
No entanto, você pode encontrar outros pontos, como a pluralidade, a novi-
dade, a secularidade e a racionalidade. O direito de cada pessoa se torna bandeira,
marcada pela inovação técnica, científica e mudança social, como a consciência
progressiva da igualdade entre as pessoas.
A experiência e a subjetividade trazem para a pessoa a responsabilidade con-
sigo e com o social. O protagonismo torna cada um sujeito de sua consciência. A
moral é influenciada e o sagrado revalorizado, com nova roupagem, na escolha de
itens religiosos, sem necessariamente uma religião.

O movimento ecumênico no século XX

Lembre-se que ecumênico vem do grego oikoumene, a terra habitada, o mun-


do todo, a humanidade unificada. O termo também pode ser utilizado no sentido
das sedes patriarcais mais importantes do Oriente.
A pós-modernidade interpela a cada um à abertura ao outro, à subjetividade
e ao diálogo. Questionar e deixar-se questionar, no conhecimento da doutrina
enraizado na vida. O respeito, o sentimento de igualdade, na humanidade, na
dignidade, coloca as pessoas na descoberta dos caminhos de unidade, da expe-
riência de Deus, no amor à verdade, à caridade, à humildade, ao estudo para
melhor argumentar.
O cenário de pluralidade religiosa torna-se um fator positivo, próprio da liber-
dade da pessoa humana em busca de uma resposta para sua consciência. Também

capítulo 2 • 57
coloca cada pessoa em estado de prudência e amadurecimento, convidando-a a
uma hierarquia das verdades, na busca do que temos em comum, nas questões
que são mais centrais.
Compreenda que a migração religiosa, fenômeno atual, exige reflexão sobre a
pastoral das instituições, sobre a superação do fechamento em si mesmas.
No cenário nacional podemos identificar o CONIC (Conselho Nacional das
Igrejas Cristãs) como expressão do diálogo inter-religioso. A Semana de Oração
pela Unidade e as Campanhas da Fraternidade Ecumênicas oferecem oportunida-
de de testemunho conjunto da comunhão em Cristo, defendendo a integralidade
da criação e promovendo a justiça e a paz.
Também a elaboração de documentos doutrinais em conjunto e ações só-
cio-políticas auxiliam nas práticas e discursos teológicos mais coerentes, em um
contexto marcadamente religioso. A comunhão de fé supera os eventos de massa
e os interesses corporativos.
Na comunhão de vida, não há espaço para a ignorância religiosa, passando a
conhecer a história das religiões e suas contribuições para a identidade nacional,
rompendo o exclusivismo que nega o outro.
Vivencie iniciativas para a unidade dos cristãos, como participação em ativida-
des, vocabulário apropriado para a relação fraterna, partilha de doutrina, aquisição
de conhecimentos que favoreçam à comunhão, consciência da fidelidade a Cristo
a partir da Igreja, promoção da concórdia e colaboração, oração conjunta, teste-
munho fiel e luminoso dos ensinamentos dos Apóstolos, empenho na humildade
e mortificação, reconhecimento do patrimônio comum, consciência da graça do
Espírito Santo nos batizados.
Assim, alguns princípios podem ser enumerados:
- o Reino de Deus não é deste mundo;
- Igreja não se reduz a partidarismos e tendências sociais;
- a mensagem da Igreja é uma mensagem de salvação, de conversão do cora-
ção, de santidade pessoal;
- o homem é feito à imagem de Deus, para Deus e, por isso, só pode se realizar
plenamente em Deus (Agostinho);
- a felicidade e a salvação só podem estar no transcendente.

ATIVIDADES
01. Faça uma linha do tempo com os principais avanços do cristianismo no Império Romano,
a partir dos seus Editos.

capítulo 2 • 58
02. Pense nas diferenças entre Ocidente e Oriente e separe-as no quadro a seguir:

OCIDENTE ORIENTE
CARACTERÍSTICA DA
TEOLOGIA

SALVAÇÃO
LITURGIA
IDENTIDADE
PODER
RELAÇÃO COM OS
BÁRBAROS
ATIVIDADE
INTELECTUAL

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BOFF, Clodovis. Teoria do método teológico: versão didática. 5. Petrópolis: Vozes,2004.
CARIAS, Celso. Teologia para todos: manual de iniciação teológica a partir de seus principais
temas. Petrópolis: Vozes, 2009.
LIBÂNIO, João Batista; MURAD, Afonso. Introdução à teologia: perfil, enfoques, tarefas. São
Paulo: Loyola, 2006
BINGEMER, Maria Clara. Teologia latino-americana: raízes e ramos. Petrópolis: Vozes, 2017.
FERREIRA, Franklin. Teologia cristã: uma introdução à sistematização das
doutrinas. São Paulo: Vida Nova, 2015.
GONÇALVES, Paulo Sérgio Lopes; TRANSFERETTI, José. Teologia na pós modernidade:
abordagens epistemológica, sistemática e teórico-prática. São Paulo: Paulinas, 2003.
LACOSTE, Jean-Yves. Dicionário crítico de teologia. São Paulo: Paulinas; Loyola, 2014.

capítulo 2 • 59
capítulo 2 • 60
3
As divisões da
teologia cristã
As divisões da teologia cristã
A partir deste capítulo, iremos distinguir os ramos e temas da Teologia, com
suas diferentes sistematizações e objetos de estudo. No entanto, mesmo que dis-
tintos, vamos perceber que são interligados e complementares.
Neste capítulo, aprenderemos os primeiros fundamentos da Teologia Bíblico-
Exegética e suas peculiaridades. Seguiremos com as Teologias Histórica, Prática
e Sistemática, como organização metodológica específica e em diálogo com ou-
tros saberes.

OBJETIVOS
•  Assimilar as nuances individuais e as relações entre as divisões da teologia;
•  Identificar as características de cada divisão da teologia cristã;
•  Analisar as peculiaridades de cada divisão da teologia cristã.

A Teologia Bíblica / Exegética

A Teologia tem na Teologia Bíblica sua principal fonte primária, pois a


Escritura é referência para fundamentar. Neste contexto teológico, as ciências hu-
manas são reputadas em seu valor, pois auxiliam na melhor compreensão do tema
estudado. Podemos ter como exemplo a história para melhor compreender a época
em que o texto foi escrito, a língua (hebraico, aramaico ou grego), a geografia.
Hoje também temos a grande contribuição da psicologia e da sociologia em outros
campos de estudo.
Segundo o Concílio Vaticano II (Constituição Dogmática Dei Verbum –
DV 9), podemos entender a Escritura como: “uma coleção de pequenos livros”.
Quem primeiro aplicou este vocábulo às Sagradas Escrituras foi João Crisóstomo,
que exerceu o patriarcado de Constantinopla no século IV.
A Bíblia, pois, é a revelação de Deus à humanidade. Não é um mero reposi-
tório das palavras de Deus. A Bíblia contém a Palavra de Deus. Divide-se basica-
mente no Antigo Testamento (AT) e Novo Testamento (NT).

capítulo 3 • 62
Indícios e evidências históricas

Quando os hebreus chegaram a Canaã, já havia, na terra, um certo desenvol-


vimento literário, como, por exemplo, o alfabeto fenício (do qual se derivou o
hebraico) e que já existia no século XIV a. C. Os judeus chegaram lá por volta do
século XIII a.C. Outro documento desta época é o calendário de Gezér, que data
mais ou menos do ano 1000 a.C. É uma indicação de datas para uso dos agricul-
tores. É o documento mais antigo encontrado na Palestina.
Outro documento também muito antigo é o sarcófago do Rei Airam, que
contém uma inscrição e foi encontrado nos séculos XIV ou XV a. C., em Biblos.
Há ainda umas tabuletas encontradas em Ugarit (em 1929), onde estão escritos
poemas semelhantes aos salmos, datando dos séculos XIV ou XV a. C.
Além destes, há outros documentos provando que já havia uma escrita na
Palestina, antes dos hebreus chegarem lá. A inscrição do túmulo de Siloé (700 a.
C.), explicando como foi feito; os “óstracon”, de Samaria, onde há uma espécie de
carta diplomática, são documentos que provam a continuidade de uma atividade
literária. Em Juízes 8,14, o autor descreve um acontecimento ocorrido mais ou
menos em 1100 a.C. E em que língua foi escrito este fato pela primeira vez, na
época em que aconteceu? Provavelmente no alfabeto fenício (pré-hebraico).

A tradição oral e a tradição escrita

A escrita da Palavra expõe o testemunho da comunidade de fé da Antiga e da


Nova Aliança, da herança recebida em sua história. É dom do hagiógrafo discernir
a Palavra nos eventos históricos, transmitindo-a através das palavras humanas de
modo fiel. Sabemos que é o Espírito Santo que ilumina a mente do hagiógrafo
com o dom da inspiração divina para a escrita do texto sagrado.
As páginas das Escrituras são escritas humanas, pois é uma pessoa que vive em
determinado contexto sociocultural, escrevendo a Revelação com palavras acessí-
veis a todos, a partir do dom recebido; e divinas, pois é o próprio Deus que guia a
compreensão e a escrita do autor sagrado.
O objetivo desta escrita é religioso, de transmitir a Palavra de Deus para o
povo, a partir de determinado grupo, apresentando-o a partir do modo como
recebe a mensagem e as consequências desde modo. Assim, Deus se revela e, ao
revelar-se, revela-nos em nossa humanidade.

capítulo 3 • 63
Como Revelação, escrita em palavras humanas, no contexto humano, ultra-
passa a razão. Revela o sentido da vida, o plano de salvação para que a humanidade
supere suas limitações e se compreenda como imagem de Deus. É nesta realidade
que a Teologia Bíblica atua. Daí o trabalho exegético ser tão importante.
A inspiração bíblica é diretamente relacionada aos escritos originais. Portanto,
a tradução e sua leitura precisam respeitar os conhecimentos linguísticos. A men-
sagem utiliza gêneros literários que melhor expressam o é revelado. Precisamos
conhecê-los para melhor compreender a Escritura.
A tradição oral existiu até os tempos de Davi, quando foi organizada a tra-
dição Javista; meio século depois, também a Eloísta. Por volta de 721 a.C., na
época, da divisão dos reinos, quando Samaria foi destruída pelos assírios, muitos
sacerdotes do norte fugiram para o sul e levaram consigo a sua tradição. A partir
de então, as duas foram compiladas num só escrito.
Falamos das duas tradições: uma do norte e outra do sul. Mas não existiam
apenas estas duas, que são as principais. Há ainda a DEUTERONOMISTA (D),
encontrada casualmente em 622 a. C. por pedreiros, que trabalhavam num tem-
plo. Corresponde ao livro Deuteronômio da Bíblia atual. Após esta, organizou-se
a SACERDOTAL (P), nova compilação das catequeses antigas de Israel, datada do
século VI a.C. Ao fim, estas quatro tradições foram combinadas entre si e compi-
ladas em 5 volumes, dando origem ao Pentateuco da Bíblia atual.
Na tradição Javista, Deus é antropomórfico. Na Sacerdotal, Deus é poderoso,
está acima do tempo, o que significa um progresso no conceito de Deus que o
povo tinha. A redação final do Pentateuco se deu pelo ano 398 a.C. e compreende
a primeira parte da Bíblia judaica. Portanto, Pentateuco é o conjunto dos primei-
ros cinco livros da Bíblia, tradicionalmente atribuídos a Moisés, mas que, como
vimos, foram compostos em um longo período.
A partir de Josué, a tradição continuou oral, para ser organizada somente por
volta de 550 a.C. E foram escritas do modo como o povo contava. Por isso não se
pode dar a mesma importância histórica aos fatos descritos nestes livros em relação
a outros posteriores, pois alguns fatos narrados foram baseados na tradição popu-
lar, enquanto que outros foram baseados em documentos de arquivos (anais do
Reino). A importância para nós é teológica. A partir desta centralidade que lemos
toda a Escritura, considerando suas tradições e os estudos de história.
Este é um grande desafio para os estudiosos e também uma fonte de divergên-
cias. A importância da interdisciplinaridade, ou seja, o auxílio de outros campos
de saber, auxiliam de modo particular, como o acesso a fontes históricas deste lon-
go período e o conhecimento da organização dos reinos com que Israel convivia.

capítulo 3 • 64
A nova tradição da era cristã

O NT não foi escrito com a finalidade de ser acrescentado à Bíblia. No tempo


de Cristo e dos Apóstolos, o livro sagrado era apenas o AT. O próprio Jesus Cristo
cumpre em si o AT e ele mandou anunciar a Boa Nova, sem dizer o modo. Foi
quando uma nova tradição oral foi se formando. E após a morte de Cristo, os
apóstolos saíram anunciando. Outras pessoas se uniram a este anúncio, em vista
do grande número de comunidades existentes. Então, começaram a escrever. Mais
tarde, com a aceitação também de cidadãos estrangeiros nas comunidades, a men-
sagem precisou ser traduzida e encarnada na vida destas comunidades.
Além disso, o próprio povo necessitava de uma escrita (doutrina escrita) para
se conservar una, após a morte dos Apóstolos. Esta redação, no início, era apenas
de alguns escritos esparsos, que só depois de algum tempo foram juntos em livros.
Exemplo disso está em Mc 2, uma série de disputas de JC com os judeus, onde
se vê claramente que foi recolhida de escritos separados. Também em João se lê:
“Muitas outras coisas Jesus fez que não foram escritas...” (Jo 21, 24).
Isto significa que só foram escritas aquelas mensagens que teriam utilidade,
conforme as necessidades momentâneas.
O evangelho de Marcos, o primeiro a ser escrito, data dos anos 60 ou 70 d.C.;
os de Lucas e Mateus, é de 70 ou 80, o que significa que somente após uns 40 anos
da morte de Jesus Cristo que sua palavra começou a ser compilada em um livro.
O Evangelho de João só foi escrito em torno do ano 100 d.C.
Antigamente, se acreditava ser Mateus o autor do primeiro Evangelho. Mas a
crítica histórica mostra que o de Marcos foi anterior. Aliás, a respeito deste evan-
gelho de Mateus, não se sabe ao certo se ele é o seu autor (alguns exegetas susten-
tam que foi). Segundo os críticos, este livro teria sido atribuído a Mateus, apenas
por uma tradição e também por uma praxe da época de se atribuir um escrito a
alguém mais conhecido e famoso, para que a obra tivesse mais autoridade, como
os apóstolos.

Teologia Histórica

A Teologia Histórica segue o desenvolvimento das diferentes doutrinas do


cristianismo desde o tempo dos apóstolos até os nossos dias, registrando os efeitos
e resultados destas doutrinas na vida cristã e nas organizações do Reino de Deus
no mundo. As fontes da teologia histórica são aquelas que fornecem informações
para melhor compreensão de como o cristianismo se desenvolveu historicamente.

capítulo 3 • 65
Como o próprio nome indica, a teologia histórica é um estudo do desenvolvi-
mento e formação da essencial da doutrina cristã ao longo da história da Igreja do
Novo Testamento. A teologia histórica também pode ser definida como o estudo
de como os cristãos em diferentes períodos históricos compreenderam diferentes
temas ou temas teológicos como a natureza de Deus, a natureza de Jesus Cristo, a
natureza e obra do Espírito Santo, a doutrina da salvação etc.
O estudo da teologia histórica abrange assuntos como o desenvolvimento
de credos e confissões, conselhos eclesiásticos e heresias que surgiram e foram
eliminadas durante toda a história da Igreja. Um teólogo histórico estuda o de-
senvolvimento das doutrinas essenciais que separam o Cristianismo de interpre-
tações incoerentes.
Os teólogos muitas vezes dividem o estudo da teologia histórica em quatro
períodos principais de tempo:
1. O Período Patrístico de 100 a 400 a.C.;
2. A Idade Média e o Renascimento de 500-1500 a.C.;
3. Os Períodos da Reforma e Pós-Reforma de 1500 a 1750. a.C.; e
4. O Período Moderno de 1750 a.C. até o presente dia. A teologia histó-
rica examina como as pessoas entenderam diferentes doutrinas ao longo da
história e tenta entender o seu desenvolvimento, reconhecendo as mudan-
ças e como têm afetado as diferentes doutrinas.

A base para estudar a teologia histórica é encontrada no livro de Atos.


Lucas registra o início da Igreja cristã enquanto continua em direção ao seu
objetivo de relatar “todas as coisas que Jesus começou a fazer e a ensinar Jesus”
(Atos 1, 1). A obra de Cristo não terminou com o capítulo final de Atos. Na ver-
dade, Cristo está trabalhando até hoje em Sua igreja, e isso pode ser visto através
do estudo da teologia histórica e da história da Igreja, ambas as quais nos ajudam a
entender como as doutrinas bíblicas essenciais para a fé cristã foram reconhecidas
e proclamadas em toda a história da Igreja.
Paulo advertiu os anciãos de Efésios em Atos 20, 29-30 para esperar “lobos
vorazes” que ensinariam falsa doutrina. É através do estudo da teologia histórica
que vemos quão verdadeira a advertência de Paulo acabou sendo, à medida que
entendemos como as doutrinas essenciais da fé cristã foram atacadas e defendidas
ao longo dos quase 2.000 anos da história da igreja.
Como qualquer área da teologia, a teologia histórica também é usada por estu-
diosos liberais e não-cristãos para pôr em dúvida ou atacar as doutrinas essenciais

capítulo 3 • 66
à fé cristã. Eles acusam a Bíblia de ser uma invenção humana em vez do que real-
mente é, ou seja, a verdade bíblica divinamente revelada. Um exemplo disso é a
discussão da natureza trinitária de Deus. A teologia histórica irá estudar e traçar o
desenvolvimento desta doutrina ao longo da história da Igreja, sabendo que esta
verdade é claramente revelada nas Escrituras.
No entanto, durante a história da Igreja, houve momentos em que a fé foi ata-
cada e, portanto, foi necessário que a Igreja definisse, desenvolvesse e defendesse
a doutrina. A verdade da doutrina vem diretamente da Revelação. No entanto, a
compreensão e a proclamação da doutrina da Igreja foram clarificadas ao longo
dos anos, muitas vezes nos tempos em que a natureza de Deus havia sido questio-
nada por aquelas controvérsias que Paulo advertiu que viriam.
Alguns cristãos bem intencionados, mas equivocados, querem descartar a im-
portância da teologia histórica, citando a promessa de que o Espírito Santo que
habita em todos os cristãos renascidos “vos guiará a toda a verdade” (João 16, 13).
O que esses cristãos não conseguem reconhecer é que o Espírito Santo tem habi-
tado nos cristãos em toda a história da Igreja, e é o próprio Jesus Cristo que deu
“uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para
pastores e mestres, com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho
do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo” (Efésios 4, 11-12).
Isso inclui não apenas aqueles dados nesta geração, mas também aqueles que
Cristo ordenou durante a história da Igreja. É tolo acreditar que não precisamos
aprender de muitos homens talentosos que nos precederam. Um correto estudo e
aplicação da teologia histórica nos ajudam a reconhecer e aprender com mestres e
líderes cristãos de séculos passados.
Através do estudo da história da igreja e da teologia histórica, o cristão renas-
cido é encorajado a ver como Deus tem trabalhado ao longo da história. Nele, ve-
mos a soberania de Deus sobre todas as coisas exibidas e a verdade de que a Palavra
de Deus permanece para sempre (Salmo 119, 160). Estudar a teologia histórica
realmente é nada mais do que estudar Deus trabalhando.
Uma perspectiva de leitura bíblica é que a teologia histórica nos ajuda a lem-
brar da sempre presente batalha espiritual entre Satanás e a verdade da Palavra de
Deus. A história nos mostra os muitos caminhos e formas que Satanás usa para es-
palhar falsas doutrinas na igreja, assim como Paulo advertiu os anciãos de Efésios.
O estudo da teologia histórica e da história da Igreja também mostra que a
verdade da Palavra de Deus continua triunfante. Se pastores, igrejas e cristãos não
estiverem cientes da história da Igreja e da teologia histórica, então estarão mais

capítulo 3 • 67
propensos a caírem ao mesmo tipo de leituras incoerentes ao cristianismo como
no passado.
A teologia histórica, quando corretamente compreendida e aplicada, não di-
minui a autoridade ou a suficiência da Escritura.
A Sagrada Escritura é isenta de erros onde tal afirmação é teológica. A Escritura
não tem a pretensão de afirmações científicas como compreendemos hoje o que é
ciência. Ela afirma verdades religiosas a partir do contexto em que foram escritas e
com os conhecimentos que o hagiógrafo dispõe ao redigir.
A teologia histórica é um aspecto importante do estudo da teologia, mas,
como qualquer outro método de estudo, também tem os seus perigos e armadi-
lhas. O desafio para todos os cristãos e para todos os estudantes de teologia é não
forçar nosso sistema teológico ou de pensamento na Bíblia, mas sempre verificar
que nossa teologia vem da Escritura e não de algum sistema que possa até ser po-
pular. Nós que precisamos compreender a Escritura e não esta se adequar a nosso
modo de pensar.
A teologia histórica é primordialmente história ou teologia? Qual das duas
ênfases é predominante? Variam as posições dos autores sobre essa questão, mas
não seria incorreto dizer que ela tem estreita e igual conexão com essas duas áreas
correlatas.
Inicialmente, é necessário considerar como a teologia histórica se encaixa nas
subdivisões dos estudos históricos do cristianismo.
A história da Igreja é a mais ampla das disciplinas que tratam do passado
cristão. É o estudo da caminhada e do desenvolvimento da Igreja através dos sé-
culos, em muitas áreas diferentes: missões e expansão geográfica; culto, liturgia e
sacramentos; espiritualidade e vida cristã prática; organização, estrutura e forma
de governo; pregação, arquitetura e arte sacra; relacionamento com a sociedade, a
cultura e o Estado.
Enfim, pode-se afirmar que a história da Igreja ou do cristianismo inclui tudo
o que a Igreja faz no mundo, sendo essencialmente um estudo e uma narrativa
de eventos, personagens e movimentos, bem como o modo como se compreende
e compreende o mundo. Inclui o que hoje se denomina história institucional e
história social.
Todavia, a história da Igreja, além de analisar sua prática, também aborda seu
pensamento, aquilo que ela ensina. Isto se relaciona mais concretamente com a
teologia histórica. Os tópicos anteriores podem ser considerados com base em
duas perspectivas. Por exemplo: a prática da Igreja na área de missões (história da

capítulo 3 • 68
Igreja) e a reflexão que ela faz sobre sua missão (história da teologia), ou a evolução
de suas práticas litúrgicas (história da Igreja) e a reflexão sobre o significado do
culto e da liturgia (teologia histórica). Esse estudo do pensamento e do ensino da
Igreja pode ter várias abordagens.
A história do dogma, por exemplo, é a análise de certos temas doutrinários
particulares que receberam uma definição oficial e normativa da Igreja. Alguns
historiadores entendem que apenas três áreas de doutrina se inserem na histó-
ria do dogma: a doutrina da Trindade (definida nos Concílios de Nicéia e de
Constantinopla), a doutrina da pessoa divino-humana de Cristo (Concílio de
Calcedônia) e a doutrina da graça ou, mais especificamente, a relação entre a graça
divina e a vontade humana no que se refere à salvação.
No outro extremo está a história do pensamento cristão, que identifica um vas-
to campo de investigação, incluindo tópicos que estão além dos limites da teologia
clássica, como certas questões filosóficas, éticas, políticas e sociais. Os estudiosos
também empregam os termos “história das ideias” e “história intelectual” para se
referir a esse contexto mais amplo dentro do qual se insere a teologia histórica.
A história da teologia não tem um campo tão limitado como a história do
dogma, nem tão amplo como a história do pensamento cristão, mas envolve am-
bas as áreas em sua elaboração. Seu objetivo é considerar o corpo de doutrinas
existentes na vida da Igreja em cada período da história.
Em contrapartida, é necessário verificar como a teologia histórica se posiciona
no outro campo de estudo com o qual está relacionada: a teologia cristã.
Finalmente, a teologia histórica pode nos lembrar do perigo sempre presente
de interpretar as Escrituras à luz dos pressupostos culturais e filosóficos de nossos
tempos, ainda que estes precisem ser considerados, já que a Palavra é viva e nos
fala hoje. Vemos esse perigo tanto hoje em dia quando o pecado é redefinido
como uma doença a ser curada por drogas em vez de uma condição espiritual.
Também vemos tantas denominações em posições conflituosas sobre diversos as-
pectos da doutrina.

Teologia Prática

Teologia Prática é a divisão da teologia resultante da influência na vida do homem,


ajudando-o a levar adiante o Reino de Deus no mundo. Ela se expressa pela homilética,
pela prática eclesiástica e fundamentalmente pela hermenêutica.

capítulo 3 • 69
A teologia prática ocupa-se com a reflexão teológica e análise sobre a ação
da Igreja, compreendendo a prática das comunidades eclesiais e das pessoas que
professam a fé cristã, na perspectiva maior do povo de Deus e da vocação batismal
comum a todos os seus membros, a serviço da missão evangelizadora da Igreja.
Contempla tanto as práticas que afetam a vida interna da Igreja quanto a presença
da Igreja no mundo.
A dupla denominação prática e pastoral adotada nesta divisão da Teologia,
tem presente o esforço das últimas décadas, tanto no mundo protestante quanto
no mundo católico (nesse último especialmente a partir do Concílio Vaticano
II), em esclarecer o estatuto epistemológico e o objeto desta área de conhe-
cimento e estudo teológico, bem como em definir a melhor nomenclatura a
ser adotada.
Envolvendo-se com temas, situações, demandas e desafios atuais que reque-
rem uma tomada de posição por parte da teologia e da Igreja, é uma área de
produção de saber teológico que promove a interação entre diferentes disciplinas
teológicas e a práxis da fé cristã, numa mútua fecundação. Pode ser considerada
também uma teoria da ação e para a ação da Igreja nos mais diversos contextos de
sua presença, à luz da revelação e do magistério da Igreja, em diálogo com outras
áreas de conhecimento. Ao mesmo tempo em que promove uma reflexão crítica
que objetiva iluminar a ação da Igreja, busca também aprofundar e explicitar a
relevância da teologia e da ação eclesial no mundo de hoje.

Fazendo Teologia prática


A Teologia Prática reconhece a tensão que existe entre o contexto divino e os
contextos vividos, através:
Reflexão teológica que deve focalizar a experiência concreta
Ajudar a entender a experiência e guiar a ação
Modelos teológicos devem ser influenciados pela experiência e ação concretas.

Funções da teologia prática para a teologia


•  Premissa para a teologia: observa a atualidade para o fazer teológico
•  Consciência crítica: salvaguarda a relevância da teologia
Áreas da teologia prática
Poimeia – Pastoral/Aconselhamento
Didaskalia – Ensino
Kerygma – Proclamação / Homilética

capítulo 3 • 70
Leiturgia/ Koinonia – Culto Diakonia/ Evangelizo
– Serviço – Evangelização

A Teologia Prática não é “sistematicamente articulada à superstição, que é prá-


tica”. A raiz da palavra “prática” é práxis, a ação. Porém, entendimentos modernos
de “práxis” geralmente integram dois elementos: a ação e a reflexão.
A Teologia Prática é uma teologia de ação e reflexão sobre aquela ação. Outras
disciplinas teológicas focalizam as interpretações verbais da mensagem Cristã, po-
rém a Teologia Prática estuda como o Evangelho é interpretado, ou expresso, na
ação. Essa ação é individual e institucional. Esse foco na ação também indica a
importância central da experiência vivida, a situação contemporânea.
Nesse sentido, a Teologia Prática é a interpretação de, ou reflexão crítica sobre
a mensagem Cristã em ação. Historicamente, isso foi limitado ao trabalho do pas-
tor ou à ação pastoral. Como já mencionado, a Teologia Prática frequentemente
foi, e continua sendo, chamada Teologia Pastoral.
Porém, a ação pastoral não só se refere ao trabalho do pastor. A ação pastoral
é crescentemente compreendida como a ação da comunidade da Igreja, ou os atos
dos crentes. A Teologia Prática é a interpretação da mensagem cristã na ação da co-
munidade da Igreja. Há um problema com a palavra “ação”. No momento em que
nós limitamos a Teologia Prática à “interpretação da mensagem cristã na ação da
comunidade da Igreja”, nós limitamos nossa reflexão ao “fazer” em contraste com
o “ser”. Isso resulta em um retorno ao estudo das “práticas” do aconselhamento,
da educação, da missão e assim sucessivamente.
A comunidade da Igreja é mais que sua ação. A comunidade da Igreja, ou a
vida de solidariedade da Igreja, é a koinonia. Nesse sentido, o objeto da Teologia
Prática não é exclusivamente a ação da Igreja, mas sua vida. A koinonia da Igreja.
A vida da comunidade da Igreja envolve receber, ser e agir. Entende-se que esses
três aspectos em termos da adoração, da solidariedade e do serviço são inseparáveis
A Teologia Prática tem a ver com a vida inteira da congregação, a adoração,
a solidariedade e o serviço. Essa é uma ideia intrigante, que está relacionada in-
timamente com o conceito de que todo o entendimento humano é um diálogo.
O entendimento humano é sempre contextualizado. Nós começamos com nossa
experiência, nós a testamos contra a nova informação e formulamos outras ideias
ou entendimentos. Isso é bem parecido com receber, ser e agir.
A ideia central é que a Igreja não está isolada. Por isso, uma das tarefas fun-
damentais da Teologia Prática é trazer o elemento da revelação, o divino, para

capítulo 3 • 71
diálogo com os desafios presentes, em contextos culturais diferentes. A Teologia
Prática tem que reconhecer a tensão que existe entre o contexto divino e os contex-
tos vividos. Os elementos fundamentais da solidariedade, da adoração e do serviço
existem dentro de uma miríade de contextos. A vida da Igreja envolve escutar,
respeitar e entrar em diálogo.
Não existe nenhum consenso, histórico ou atual, em termos de uma “defini-
ção” da Teologia Prática. Porém, existem temas compartilhados. No meio dessa di-
versidade de perspectivas, é possível identificar três preocupações compartilhadas
que permeiam a Teologia Prática.
A primeira é que a reflexão teológica deveria ser focalizada na experiência e
ação concretas. A segunda é que a reflexão teológica deveria ajudar a entender a
experiência e guiar a ação. A terceira é que os modelos teológicos deveriam ser in-
fluenciados pela experiência e ação concretas. Para clarificar esses temas comparti-
lhados, nós temos que examinar algumas definições recentes da Teologia Prática. A
perspectiva básica é que a Teologia Prática é a interpretação da, ou reflexão crítica
na, mensagem cristã em ação e na vida total da Igreja. Essa definição identifica
vários temas fundamentais:
1. A Interpretação e reflexão crítica;
2. A mensagem cristã em ação, e
3. A vida da Igreja.

Essa definição entende a Teologia Prática como começando e terminando com


a vida e a ação da Igreja no meio de culturas. A Teologia Prática oferece a pos-
sibilidade de criar pontes entre diferentes perspectivas dentro da Igreja e entre a
Igreja e a cultura. Entretanto, a Teologia Prática oferece mais que um espaço para
o diálogo entre perspectivas diferentes. Seu propósito original era formar a Mente
de Cristo.
Por essa razão, a Teologia Prática oferece mais que uma zona neutra onde as
opiniões diversas podem ser formuladas, podem ser expressas e podem ser critica-
das. Esse diálogo crítico é fundamental, mas não é um fim em si mesmo. A meta
da Teologia Prática é descrever, analisar, interpretar e propor ação com a meta de
contribuir para a vinda do Reino de Deus, ou para a formação da Mente de Cristo.
Embora esses dois conceitos tenham muitas interpretações que frequentemen-
te entram em conflito, eles continuam a ser valiosos porque indicam metas e cren-
ças, ou metáforas, compartilhadas pela comunidade Cristã.

capítulo 3 • 72
Teologia Sistemática

Teologia Sistemática é a sistematização do conhecimento teológico com o ob-


jetivo de melhor aprofundar seu conhecimento, levando-o a analisar, de forma
equilibrada e coerente, as verdades que constituem os fundamentos da fé cristã.
A Teologia Sistemática que encontramos na escritura sagrada, no conheci-
mento desenvolvido pela Igreja na história e tem apoio nas ciências psicológi-
cas, na história e em outros campos do conhecimento com o fim de encontrar
um organismo completo no qual todas as partes estejam sistematicamente re-
lacionadas com o que conhecemos de Deus, e com as relações entre Deus e a
pessoa humana.
A história, principalmente, do desenvolvimento e aprofundamento do conhe-
cimento cristão, é consultada, pois em muitos aspectos ajudam na compreensão
de como o cristianismo se realiza na experiência humana. Para tanto, estudaremos
as doutrinas de Deus conforme itens a seguir.
Conceito de doutrina:
É o conjunto de princípios do cristianismo, compreendendo desde o
ensinamento, pregação, e atualização pelas lideranças religiosas, como Regra de fé,
princípios de comportamento e norma de conduta.

Quanto às falsas doutrinas da época de Jesus Cristo e o alerta à Igreja cristã:

“Os judeus se maravilhavam da doutrina de Jesus, pois ele ensinava com autoridade,
mas eram advertidos contra a doutrina dos Fariseus e dos Saduceus: Mas quem ultra-
passa a doutrina, não tem Deus” (2Jo 1,9-10).

Doutrina dos Fariseus (Chamados Separados)

Reconheciam na tradição oral um padrão de fé e vida. Procuravam reconhe-


cimento e mérito pela observância externa de ritos e formas de piedade, como
lavagens cerimoniais, jejuns, orações e esmolas, e também orgulhavam-se em suas
boas obras. Mas negligenciavam a genuína piedade.
Mantinham de forma persistente a fé na existência de anjos bons e maus, e
na vinda do Messias; e tinham esperança de que os mortos, após uma experiência
preliminar de recompensa ou penalidade no Hades, seriam novamente chama-
dos à vida por ele, e seriam recompensados, cada um de acordo com suas obras
individuais.

capítulo 3 • 73
Em oposição à dominação de Herodes e do governo romano, eles de forma
decisiva sustentavam a teocracia e a causa do seu país, e tinham grande influência
entre o povo comum.

Doutrina dos Saduceus (Chamados Justos)

Partido religioso judeu da época de Cristo, que negava que a lei oral fosse re-
velação de Deus aos israelitas, e que cria, que somente a lei escrita era obrigatória
para a nação como autoridade divina. Negavam a ressurreição do corpo, a imor-
talidade da alma, a existência de espíritos e anjos, mas afirmavam o livre arbítrio.

Necessidade da Teologia:
A) Verdade precisa: Todas as pessoas têm uma teologia e os seus atos demons-
tram suas crenças, pois a vida humana é uma viagem e as pessoas precisam estar
certas do que Deus lhes acompanha. Pode-se ser teólogo sem ser religioso e ser
religioso sem o conhecimento teológico da doutrina.

B) Essencial para desenvolver o caráter cristão: Sem uma crença firme e


bem definida, que é parte da religião, não haverá crescimento correto, pois pode-
mos viver a vida dita cristã, sem saber dar razão da fé (2Pd 3, 15); mas não haverá
experiências cristãs possíveis de serem defendidas de acordo.

C) Abrigo erros de interpretação: Deus é eterno; homens criaram conceitos


controversos, originando distorções na consciência. Uma Teologia que tenha re-
ferência boa fundamentação e referências bíblicas inibem ideias que conduzem os
homens a incoerências cristãs.

D) Necessária para ensinar a Palavra Divina: A Teologia Sistemática


oferece diversas chaves de leitura como identificação de temas que perpassam a
Escritura. É necessário relacionar os diversos temas e organizá-los de maneira a
facilitar o seu estudo.
A Teologia estuda a fé Cristã, sobre a verdade da realidade espiritual, única,
envolvendo a existência de Deus, a confiabilidade das escrituras, a divindade de
Jesus Cristo, sua encarnação e a verdade na Palavra de Deus.
A Teologia Sistemática compreende uma série de disciplinas estudadas pela
Igreja, como cristologia (Jesus), eclesiologia (Igreja), trindade, antropologia

capítulo 3 • 74
teológica (vendo o homem quanto à criação, pecado, graça e salvação) e escato-
logia (últimas coisas)
Assim, podemos analisar algumas disciplinas que envolvem a
Teologia Sistemática:

Cristologia

A fé ensina que Jesus é divino e humano. Todavia, esta formulação muito sim-
ples exigiu longas reflexões para ser devidamente expressa. Eis as etapas principais
dessas reflexões.
1. A Divindade de Cristo foi questionada por parecer contradizer ao
monoteísmo.
2. E a Encarnação do próprio Deus em Jesus Cristo como se explicaria?
Registram-se controversas teológicas que defendiam afirmações insuficientes
da humanidade de Jesus, como também afirmações exageradas.
O docetismo professava que Jesus era uma entidade superior que assumira
um corpo aparente ou fantasmagórico, de passagem pela terra. É o que foi comba-
tido já pelos Apóstolos em CI 2, 9; 1Jo 4, 2; 2Jo 7. Alguns sistemas do gnosticismo
adotaram concepções docetistas.
Os ebionitas e adopcionistas admitiam Jesus como mero homem sobre o qual
descera a força da Divindade, à semelhança do que acontecera com os Profetas.
O apolinarismo (de Apolinário, bispo de Leodicéia, 300-390), professava que
Jesus era Deus, sim, mas tinha uma natureza humana mutilada, isto é, carente de
alma racional; esta teria sido substituída pela presença imediata do Logos à carne.
Tal doutrina foi condenada por um sínodo em 377, na base do seguinte princípio:
“O que não foi assumido, não foi remido”; donde a alma humana, não tendo
sido assumida pelo Filho de Deus, não terá sido redimida.
O nestorianismo (de Nestório, Patriarca de Constantinopla), afirmava, a par-
tir de 428, que em Jesus havia duas pessoas (a divina e a humana), a cada qual com
a sua natureza. Parecia ressalvar assim tanto a realidade divina quanto a humana
de Jesus. Maria, tendo gerado o homem Jesus (com o seu eu humano), não deveria
ser dita Theotókos ou Mãe de Deus, título este que já se tornara caro aos cristãos.
O monofisismo, proposto por Eutiques de Constantinopla e Dióscoro de
Alexandria, proclamava que em Jesus a natureza humana fora absorvida pela divi-
na como uma gotícula no oceano da Divindade.

capítulo 3 • 75
Eclesiologia

A Cristologia apresenta Jesus Cristo como centro da história e fonte da salva-


ção. Todo esse tratado pode ser compendiado nas palavras de São Paulo: “Há um
só Deus e um só Mediador entre Deus e os homens: um homem, Cristo Jesus, que
se deu em resgate por todos” (1Tm 2, 5). “Não há sob o céu outro nome dado aos
homens pelo qual possamos ser salvos” (At 4, 12).
A obra de Cristo, porém, não nos salva automaticamente. Ao contrário, Jesus
se apresenta a todo homem (Mt 25, 31-46) e lhe pede uma opção. Pergunta-se
então: como se realiza o encontro entre Jesus e os homens através do tempo e
do espaço?
Distinguimos duas respostas:
1. A resposta intelectualista ou psicológica:
O nosso encontro com Jesus se daria pelo estudo e pelo afeto, que levam
a conhecer e a amar determinado personagem. Tal é o que ocorre em todas as
sociedades filosóficas fundadas por um grande mestre, os discípulos, através dos
tempos, se unem a este, lendo e admirando os seus escritos. Não é, porém, deste
modo tênue que entendemos o nosso encontro com Cristo;

2. A Igreja
Dizemos que, além de nos deixar a sua Palavra, Jesus nos deixou a sua pre-
sença. Assim, Cristo nos vem por palavras e por sinais que comunicam a vida do
Senhor. A palavra é uma realidade que nos comunica Cristo. Em sua vida pública,
Ele nos indicou sinais pelos quais se comunica
Assim, palavra e sinal constituem comunidade, e supõem alguns que falam ou
apresentam e outros que ouçam e apreendam. Tal comunidade é a Igreja. Como se
vê, esta não é sociedade meramente humana, mas vem a ser o Cristo: que se torna
presente na comunidade que constitui em torno de sua Palavra.

Trindade

A trindade é o mistério de um só Deus em três pessoas, o Pai (P), o Filho (F)


e o Espírito Santo (ES), reconhecidas como distintas na unidade, na natureza
e na essência ou substância (símbolo Quicumque, DS 75; Latrão IV, DS 800;
Dumeige, 9 e 29). Do ponto de vista deste “monoteísmo” paradoxal, dois er-
ros devem ser evitados: privilegiando o número, pensar em um Deus com três

capítulo 3 • 76
consciências distintas, três centros de atividade, três seres concretos: seria o tri-
teísmo; ver no Pai, no Filho e no Espírito Santo somente três maneiras de Deus se
apresentar a nós: seria o modalismo.
O mistério trinitário só é conhecido por revelação. Ele distingue o cris-
tianismo das duas grandes religiões monoteístas que são o judaísmo e o islã.
A Trindade está na origem da noção de pessoa, distinta da de natureza. Leva a
pensar que em sua forma mais elevada, o ser (ou seu além) é dom, troca, relação,
amor. O Antigo Testamento constitui, para todo cristão, um dado fundamental
de sua fé.
As pessoas divinas são realmente distintas entre si. “Deus é único, mas não
solitário” (Fides Damasi: DS 71). “Pai”, “Filho”, Espírito Santo” não são sim-
plesmente nomes que designam modalidades do ser divino, pois são realmente
distintos entre si: “Aquele que é o Pai não é o Filho, e aquele que é o Filho não é o
Pai, nem o Espírito Santo é aquele que é o Pai ou o Filho”.
São distintos entre si pelas suas relações de origem: “É o Pai que gera, o Filho
que é gerado, o Espírito Santo que procede” (Latrão IV, ano 1215: DS 804). A
Unidade divina é Trina. As pessoas divinas são relativas umas às outras.
Por não dividir a unidade divina, a distinção real das pessoas entre si reside
unicamente nas relações que as referem umas às outras; “nos nomes relativos das
pessoas, o Pai é referido ao Filho, o Filho ao Pai, o Espírito Santo aos dois; quan-
do se fala destas três pessoas considerando as relações, crê-se todavia em uma só
natureza ou substância” (Cc. de Toledo XI, ano 675: DS 528). Pois “todo é uno
(neles) lá onde não se encontra a oposição de relação” (Cc. de Florença, ano 1442:
DS 1330). “Por causa desta unidade, o Pai está todo inteiro no Filho, todo inteiro
no Espírito Santo; o Filho está todo inteiro no Pai, todo inteiro no Espírito Santo;
o Espírito Santo está todo inteiro no Pai, todo inteiro no Filho”.

Antropologia Teológica

1. Origens bíblicas
a) Antigo Testamento. As principais fontes de uma antropologia bíblica
são as passagens de Gênesis sobre a criação do homem.
b) Na narrativa sacerdotal, a criação do homem. “à imagem e semelhança
de Deus” (Gn 1, 26) é o resultado de uma decisão divina sem equivalente
na história das religiões, como é também o caso da declaração de que o ser
humano ser homem e mulher.

capítulo 3 • 77
O homem é o auge da criação, e recebe a dominação da terra (a partir daqui
temos a concepção de homem conforme o ser humano, sem distinção). A narra-
ção javista (Gn 2, 4b-25) o descreve como feito de barro, o que sublinha seu lado
terrestre e seu parentesco com o resto da criação e, ao mesmo tempo, animado
pelo sopro divino: é então um “vivente” que tem relação com Deus. Sobre a cria-
ção é expressa pelo fato de que ele dá nome aos animais.
Gn 3 é igualmente importante: nele se descrevem a queda, a aparição da mor-
te, as túnicas de pele para o homem e para a mulher, e a expulsão deles do paraíso
com todas as suas consequências. O AT está a todo o momento aludindo à depen-
dência do homem em relação a Deus e a seu Espírito, particularmente nos Salmos
(p. ex., Sl 104, 29-30). A literatura sapiencial exprime a ideia nova de que o h. foi
criado à imagem da eternidade divina e para essa imortalidade e incorruptibilida-
de é que foi criado (Sb 2, 23).
c) Novo Testamento. Os evangelhos valorizam, decerto, a dignidade do
ser humano, mas é em Paulo que se encontram os elementos melhor or-
ganizados de uma verdadeira antropologia. Esta é essencialmente cristoló-
gica: o primeiro Adão era um ser “psíquico”, animado pelo sopro divino,
enquanto o segundo Adão, Cristo ressuscitado, é um ser espiritual, um
espírito vivificante que dá ao homem a vida espiritual.

Participando da vida do primeiro Adão, terrestre, os homens vão poder, na


ressurreição, participar da vida celeste e espiritual do segundo Adão (1Cor 15, 42-
50). O primeiro Adão era a “figura daquele que havia de vir” (Rm 5, 14): ser Jesus
não é “à imagem de Deus”, Ele é Deus. (2 Cor 4, 4; Cl 1, 15).
Assim, o corpo (soma), é a dimensão essencial da existência humana (cf.
1Ts 5,23: o homem corpo/alma/espírito), que garante, para Paulo, a permanên-
cia e a identidade do ser humano, de sua criação original até sua futura existên-
cia espiritual.

Definição de Antropologia Teológica


A doutrina que estuda o homem chama-se “Antropologia”. Deriva-se do grego
“Antropos” (Homem) + “Logos” = Ensino, estudo, doutrina. É o estudo da pessoa
humana a partir da Revelação, compreendendo-a em sua existência pessoal e so-
cial, e em sua relação com Deus.

capítulo 3 • 78
A origem do homem:
O homem é um ser que se distingue de todos os outros seres criados. A ma-
neira como foi planejado e formado, segundo a imagem e semelhança do Criador,
revela que como é amado e considerado especial por Deus.
As escrituras oferecem um duplo relato da criação do homem, um em Gênesis
1, 26-27 e outro em Gênesis 2, 7.21-23. A primeira narrativa apresenta a com-
preensão do homem em relação à Criação. A segunda narrativa tem o ser humano
como princípio da obra divina. Considerando a organização de ambas no Gênesis,
podemos considerá-las como complementares.
Podemos ver que a criação do homem se distingue de tudo o mais que
foi criado:
1. A criação do homem é situada em um solene conselho divino (Gênesis 1, 26);
2. O homem foi criado conforme um tipo divino (Gênesis 1, 27);
3. O homem é imediatamente colocado em posição de governo (Gênesis 1, 28);
4. O homem foi criado com dois elementos: o corpo e o sopro divino (Gênesis 2, 7).

O homem como imagem e semelhança de Deus:


As palavras “imagem” e “semelhança” são empregadas como próximas, mas
têm sentidos próprios. Em Gênesis 1, 26 são usadas as duas palavras, em 1, 27
somente a primeira. Em Gênesis 5, 1 só aparece a segunda e em 5, 3 novamente
as duas. Em Gênesis 9, 6 somente a primeira novamente. Os principais aspectos
dessa imagem e semelhança são:
1. Moral – Deus criou o homem com “Justiça original” e verdadeiro co-
nhecimento, justiça e santidade (Gênesis 1, 31; Eclesiastes 7, 29);
2. Racional – Não são apenas os atributos morais que fazem do homem
imagem e semelhança de Deus. Também devem ser considerados as facul-
dades intelectuais, os sentimentos e a liberdade. Mesmo depois da que-
da, o homem continuou sendo chamado “Imagem e semelhança de Deus”
(Gênesis 9, 6)
3. Espiritual – Deus é Espírito (João 4, 24). Portanto é natural que a
espiritualidade do homem expresse a imagem de Deus (Gênesis 2, 7);
4. Imortal – A bíblia diz que só Deus tem imortalidade (1Timóteo 6, 16).
Mas é evidente que Deus concedeu essa capacidade ao homem que, após
ser criado, nunca mais deixa de existir, vivendo para sempre após a morte
(João 3, 16; Apocalipse 20, 10; 14,15)

capítulo 3 • 79
O homem é considerado como uma unidade:
A Teologia nos indica o homem como uma unidade e não dois ou três elemen-
tos movendo-se paralelamente. Cada ato de qualquer elemento do homem é visto
como um ato do homem todo. Esta unidade está clara desde o momento da sua
formação (Gênesis 2, 4).
Deus formou a pessoa de tal forma que, pelo sopro do seu Espírito, o homem
se tornou imediatamente alma vivente.

O homem é composto por um elemento material e espiritual:


Apesar de ser uma unidade, a distinção dos elementos do homem é cla-
ra. A parte material é chamada de “Corpo”, “Carne”, “Pó”, “Barro”, “Ossos”,
“Entranhas”, “Rins” etc. A parte espiritual é chamada de “Espírito”, “Alma”,
“Coração”, “Mente” etc. (Jó 4, 19; 27, 3; 32, 8; Eclesiastes 12, 7; Mateus 26, 41;
Marcos 12, 30; 2Coríntios 3, 7)

Escatologia

1. A noção
O termo “escatologia” literalmente: “doutrinas da coisa última” (eschaton) apa-
rece no século XVII, mas somente depois de Schleiermacher (1768-1834) é que
serve cada vez mais correntemente para designar a problemática (o “tratado”) que
era abordado por último no curso teológico e que se tinha antes o costume de
intitular de novissimis (novíssimos), “das coisas últimas”.
De maneira geral, a escatologia trata do fim e do cumprimento da criação e da
história (individual e universal) da salvação. Quanto ao cumprimento universal,
aqui não significa apenas um acabamento (no tempo) e um termo (no espaço),
mas tematiza a esperança cristã: tudo o que Deus criou para chamar a uma “pleni-
tude de vida” não só não volta para o nada, mas acede em sua totalidade e em cada
uma de suas partes à plenitude interior é durável de sua essência.
Porém isso pressupõe que o mundo, tal como o apreendemos, tenha acabado
de existir no tempo e no espaço, ou melhor: que nosso mundo atual seja libertado
da fragilidade na ordem espacial e temporal.
Com feito, é impossível pensar o cumprimento, da escatologia, a plenitude in-
tegral e durável de um todo com a totalidade de seus componentes, nas condições
do espaço e do tempo.

capítulo 3 • 80
Quanto ao cumprimento individual, os acontecimentos inerentes ao homem
são os seguintes: Morte, Juízo Particular, período intermediário, Inferno e Céu.
A Escatologia universal trata dos acontecimentos relacionado com o fim dos
tempos, a saber: Parusia (2a vinda de Cristo), Ressurreição da Carne, Juízo Final
ou Universal e os “Novos Céus e Nova Terra”.
A morte é considerada de três formas: morte física (falecimento), morte
espiritual (rompimento com Deus) e morte eterna (após o juízo particular, o
rompimento definitivo com Deus). Deus não é o autor da morte. Foi o homem
que, usando mal a liberdade que Deus lhe deu, pecou, e ao pecar, permitiu que a
morte entrasse no mundo.
O juízo particular ocorre imediatamente após a morte, e define para onde a
alma vai. Não há uma ação violenta de Deus, mas simplesmente a pessoa terá a
nítida consciência do que foi sua vida terrestre, e assim, se sentirá irresistivelmente
impelida para junto de Deus (céu), ou para longe da presença de Deus (Inferno)
ou ainda para um estado intermediário.
O estado intermediário é mais comumente denominado purgatório, mas
também há outros desenvolvimentos. É o estado em que pessoas fiéis que morrem
no amor a Deus, mas ainda com tendências pecaminosas, se libertam delas através
de uma purificação do seu amor. Ou seja, são pessoas justificadas, mas que ainda
precisam ser santificadas. Este estado fortalecerá o amor de Deus no seu íntimo,
de forma que estas pessoas, posteriormente irão para o céu.
O inferno é um estado de total negação de Deus. É viver eternamente sem
Deus, sem amar, sem ser amado. A pessoa percebe que Deus é o Bem Maior, mas
sua livre vontade o rejeita e sabe que estará para sempre incompatibilizada com
Deus. Isso gera um imenso vazio na pessoa que passa a odiar a Deus e às suas
criaturas. Só vai para o inferno quem faz uma recusa a Deus consciente, livre
e voluntária.
O céu é um estado de total felicidade capaz de realizar todas as mais íntimas
aspirações do ser humano. No céu participamos da vida de Deus. E quanto maior
for o amor que a pessoa desenvolveu neste mundo, mais penetrante será a parti-
cipação na Vida de Deus. Assim, no céu todos são felizes, mas em graus variados,
pois cada um é correspondido na medida exata do seu amor. Deus é amor, amor
que se dá a conhecer a quem ama. Não há monotonia no céu, mas sim, uma in-
tensa atividade de conhecer e amar.

capítulo 3 • 81
ATIVIDADE
01. A partir da metodologia da Teologia Prática e tendo como referência a formação de um
grupo jovem um uma confissão religiosa, identifique:
•  Desafios na formação deste grupo (formulação de perguntas):
•  Fontes bíblicas e confessionais que ajudem nesta formação:
•  Três ciências humanas e de que modo estas podem ajudar na formação:
•  De que modo, a partir dos dados colhidos, os encontros podem ser organizados:

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BINGEMER, Maria Clara. Teologia latino-americana: raízes e ramos. Petrópolis: Vozes, 2017.
BOFF, Clodovis. Teoria do método teológico: versão didática. 5.ed. Petrópolis: Vozes, 2004.
CARIAS, Celso. Teologia para todos: manual de iniciação teológica a partir de seus principais
temas. Petrópolis: Vozes, 2009.
FERREIRA, Franklin. Teologia cristã: uma introdução à sistematização das doutrinas. São Paulo:
Vida Nova, 2015.
GONÇALVES, Paulo Sérgio Lopes; TRANSFERETTI, José. Teologia na pós-modernidade:
abordagens epistemológica, sistemática e teórico-prática. São Paulo: Paulinas, 2003.
LACOSTE, Jean-Yves. Dicionário crítico de teologia. São Paulo: Paulinas; Loyola, 2014.
LIBÂNIO, João Batista; MURAD, Afonso. Introdução à teologia: perfil, enfoques, tarefas. São
Paulo: Loyola, 2006

capítulo 3 • 82
4
Principais temas da
teologia cristã
Principais temas da teologia cristã
Vamos começar a estudar os principais temas teológicos, neste capítulo,
onde destacaremos a Cristologia, a Pneumatologia e a Soteriologia. Estes três te-
mas são inter-relacionados, ou seja, um ajuda a compreender melhor o outro.
Começaremos com a Cristologia, na ação de Jesus a partir de suas naturezas, hu-
mana e a divina, tornando-se mediador entre nós e o Pai.
Continuaremos estudando sobre o Espírito Santo, de como a afirmação de sua
divindade confirma a de Jesus, no desenvolvimento da doutrina da Trindade. E
terminaremos este capítulo, com a Eclesiologia e a Escatologia, o estudo das últi-
mas coisas. Este último tema é dividido em duas partes: a escatologia individual,
do fim da Criação; e a escatologia universal, na relação com o Reino de Deus,
o que envolve morte, ressurreição, purgatório e estado intermediário, inferno e
vida eterna.

OBJETIVOS
•  Conhecer os principais eixos temáticos da teologia;
•  Identificar as características de cada eixo temático da teologia.

Cristologia

O Cristianismo não é uma mera religião, e sim o relacionamento pessoal com


Deus, através do Filho, Jesus Cristo. Assim, a Cristologia é o estudo da Segunda
Pessoa da Trindade, em suas naturezas e em sua ação salvadora e de mediação
da humanidade junto ao Pai. Sigamos as afirmações cristológicas do Credo dos
Apóstolos utilizando os conceitos importantes a seguir:

Conceitos importantes:
O nome “Filho”: A segunda pessoa da trindade é chamada Filho ou Filho de
Deus nos seguintes sentidos:
no sentido metafísico: A bíblia diz que o Filho é assim mencionado mesmo
antes da encarnação (João 1, 14-18; Gálatas 4, 4). Ele é chamado “Unigênito
de Deus” (João 3, 16-18; 1João 4, 9). Embora Jesus ensine seus discípulos a se

capítulo 4 • 84
dirigirem a Deus como o “Pai nosso”, Ele mesmo dirige-se a Deus como “Meu
Pai” (Mateus 6, 9; 7, 21; João 20; 17). Jesus requer para si um conhecimento de
Deus que ninguém mais tem (Mateus 11, 27).
no sentido natalício: Jesus também é chamado Filho de Deus tendo em vista
o seu nascimento. De acordo com as escrituras, Ele foi gerado pela operação so-
brenatural do Espírito Santo (Lucas 1, 32-35; João 1, 13).

A subsistência pessoal do Filho:


Os argumentos bíblicos de que o Filho é uma pessoa, tal como o Pai, são
os seguintes:
1. A bíblia fala de um ao lado do outro (Mateus 3, 17);
2. O emprego dos adjetivos “Unigênito” e “Primogênito” mostra Jesus
como o Filho de Deus (João 3,16; Colossenses 1, 15; Hebreus 1, 6);
3. O emprego do termo “logos” mostra a relação do Filho com o Pai tal
qual a relação entre o orador e a palavra (João 1, 1);
4. A bíblia descreve o Filho como a expressa imagem do Pai (2Coríntios
4, 4; Hebreus 1, 3).

A geração eterna do Filho:


1. É um ato necessário de Deus - Se a geração do Filho dependesse da
vontade facultativa de Deus, haveria a possibilidade dele não ter sido gera-
do, o que seria impossível.
2. É um ato eterno de Deus – Não significa que Ele foi gerado num
passado distante, mas que é um ato atemporal, o ato de um eterno presen-
te, um ato que se realiza continuadamente e, todavia, sempre de maneira
completa. São várias as passagens bíblicas que atestam a preexistência do
Filho ou a sua igualdade com o Pai: Miquéias 5, 2; Atos 13, 33; João 17,
5; Colossenses 1, 16). Em Salmos 2, 7, o termo “hoje” é um hoje eterno,
citado desta forma para provar a geração do Filho.
3. A geração é da subsistência e não da essência – Quando o Pai gerou
a subsistência do Filho também lhe comunicou a essência divina em sua
inteireza. Foi um ato indivisível, e, em virtude dessa comunicação, o Filho
também tem vida em si mesmo (João 5, 26).
4. Foi uma geração espiritual - Não se deve entender essa geração de
maneira física ou que lembre o processo de geração das criaturas, mas como
um ato eterno e necessário da Primeira Pessoa da Trindade, pelo qual Ele,

capítulo 4 • 85
dentro do ser divino, é a base de uma Segunda subsistência pessoal, seme-
lhante à sua própria, e dá a esta Segunda Pessoa posse da essência divina
completa, sem nenhuma divisão, alienação ou mudança.

A divindade do Filho:
Os argumentos bíblicos a favor da divindade do Filho são:
1. Assevera explicitamente (João 1, 1; 20, 28; Romanos 9, 5; Filipenses 2, 6;
Tito 2, 13; IJoão 5, 20);
2. Aplica a Ele nomes divinos (Isaías 9, 6; 40, 3; Jeremias 23, 5-6; Joel 2, 32;
1Timóteo 3,16);
3. Atribui perfeições divinas, tais como:
Existência eterna: Apocalipse 1, 8; 22, 13
Onipresença: Mateus 18, 20; 28, 20; João 3,13
Onisciência: João 2,24-25; 21, 17; Apocalipse 2, 23
Onipotência: Filipenses 3, 21
Imutabilidade: Hebreus 1, 10-12; 13, 8
4. Fala dele realizando obras divinas, tais como:
- Criação: João 1, 3-10; Colossenses 1, 16; Hebreus 1, 2-10
- Providência: Lucas 10 22; João 3, 35; 17, 2; Efésios 1, 22;
Colossenses 1,17
- Perdão de pecados: Mateus 9, 2-7; Marcos 2, 7-10; Colossenses 3, 13
- Ressurreição e juízo: Mateus 25, 31-32; Atos 10, 42; 17, 31;
2Timóteo 4,1

As obras atribuídas particularmente ao Filho:


1. A mediação, não só na esfera espiritual como na esfera natural. Todas as
coisas são mantidas por meio do Filho: 1Coríntios 8, 6;
2. Atributos de misericórdia e graça são dados especialmente a Ele:
2Coríntios 13,13; Efésios 5, 2-25.

A pessoa teantrópica de Cristo


Também chamado de “união hipostática na pessoa de Jesus”. O cristianismo
ensina que Jesus é tanto verdadeiro homem quanto verdadeiro Deus, duas natu-
rezas em uma única pessoa.

capítulo 4 • 86
A natureza humana de Cristo
Jesus foi concebido por obra do Espírito Santo em Maria: Mateus 1, 18; Lucas
1, 35;
Jesus possuía um corpo, mente e emoções humanas: Lucas 2, 40; Mateus 4, 2;
Lucas 23, 46; Marcos 13, 32; João 11, 35; João 13, 21;
Jesus não possuía o pecado original, nunca pecou e, sendo verdadeiro Deus
também, não era sujeito a pecar: Hebreus 4, 15; 7, 26; 1Pedro 1, 16; 2, 22; 1João
3, 5;
Jesus precisava ser verdadeiro homem para:
a) Obedecer à lei em nosso lugar: Romanos 5, 18-19;
b) Se oferecer como sacrifício por nós: Hebreus 2, 16-17;
c) Compadecer-se como Sumo Sacerdote: Hebreus 2, 8;
Jesus será Homem para sempre: João 20, 25-27; Atos 1, 11; 7, 56.

A natureza divina de Cristo


Jesus é chamado diretamente de Deus na bíblia: cf. Isaías 9, 6; João 1, 1; 20,
28; Romanos 9, 5; Tito 2, 13; Hebreus 1, 8; 2Pedro 1, 1;
Jesus possuía atributos divinos: João 5, 58; Apocalipse 22, 13; João 21, 17;
Mateus 18, 21; 28, 20;
Jesus recebe adoração: Filipenses 2, 9-11; Hebreus 1, 6; Apocalipse 5, 12-13;
Jesus precisava ser verdadeiro Deus:
a) Para arcar com toda a pena de todos os pecados;
b) Porque, como a salvação vem do Senhor (Jonas 2, 9), só Deus poderia
salvar o homem;
c) Porque só alguém que fosse verdadeiro Deus e verdadeiro Homem po-
deria ser mediador entre Deus e os homens (1Timóteo 2, 50).

A união das duas naturezas na pessoa única de Cristo


Jesus assumiu uma natureza humana em sua encarnação e, desde então pos-
suiu uma perfeita humanidade (corpo e alma) e uma perfeita divindade, duas
naturezas completas que, unidas, preservam suas propriedades, formando uma
única pessoa, Jesus Cristo.
a) Uma natureza faz coisas que a outra não faz: João 16, 28; Mateus 28, 20;
b) Tudo o que uma das naturezas faz, a pessoa de Cristo faz: 1Coríntios 15, 3;
c) Títulos que nos lembram de uma natureza podem ser empregados em
referência à outra: Lucas 1, 43; 1Coríntios 2, 8;

capítulo 4 • 87
Enfim, a Cristologia elabora seu saber a partir do caráter histórico da
Encarnação-Morte-Ressurreição do Cristo, na confiança de que Deus confronta
as diferentes realidades de seu povo. Pela cruz e ressurreição, toda a vida humana,
sua cultura e história, são plasmadas pelo evangelho.

Pneumatologia

Pneumatologia é a parte da Teologia Sistemática que estuda a doutrina do


Espírito Santo. O termo pneumatologia vem do grego pneuma, respiração. A raiz
grega (pnéo) da qual se deriva o conceito neotestamentario de espírito, expressa
movimento de ar carregado de energia. Entre seus derivados, pnéo significa soprar,
insuflar (referido a vento e a ar em geral); respirar (também no sentido de estar
vivo); exalar um aroma ou algo semelhante (também se diz de fogo); irradiar ira,
valentia, mas, também bondade. Com alento se encontra o mesmo fenômeno no
homem (Ez 37, 8.10) como nos animais (Ecl 3, 19.21). É expressão de energia
vital (tanto individual: Jz 15,19 como coletiva: Nm 16,22).
O Ruah temos o exemplo em:
•  Energia – Esd 1,1 •  Impaciência – Prov 14,29
•  Propósito – Is 19,3 •  Lealdade – Prov 11,23
•  Humildade – Prov 16,19 •  Sinceridade – Sal 32,2
•  Orgulho – Ecl 7,8 •  Perseverança – Sal 51,12; 78,8
•  Ira – Ecl 7,8

Sob influência helenística, o espírito enviado por Deus ao homem como for-
ça vital tem sido contraposto com a compreensão de corpo no judaísmo, e tem
sido considerado como parte autônoma do homem (terminologicamente a alma
não se distingue do corpo, o espírito procede do céu (Sb 15, 11). No judaísmo
palestinense o corpo não é compreendido como prisão da alma, nem no que in-
duz ao pecado. Nos escritos de Qumran, o espírito é aquele que se manifesta no
conhecimento e na conduta do homem diante de Deus. Renegar o espírito levaria
o homem a ser pecaminoso e, por conseguinte, o espírito se refere à orientação
fundamental que determina o homem.
O termo ruah, aplicado a Deus, ocorre aproximadamente 107 vezes no Antigo
Testamento. É o Espírito de Deus que exerceu atividade na criação, na libertação
do povo de Deus, que inspirou a liderança do povo eleito e que conduziu os pro-
fetas a testemunhar a revelação de Deus. A reflexão sobre a divindade do Espírito

capítulo 4 • 88
Santo surge no movimento do debate sobre a divindade de Jesus, em que a cris-
tologia de Ário (256-336) implica sobre a natureza divina de Jesus e, portanto, na
Trindade. Assim, a controvérsia cristológica de Niceia iluminada pela doutrina do
Espírito, demonstrando a relação entre elas. Até então, a divindade do Espírito
não tinha um discurso formal e reconhecido pela Igreja.

Água- Símbolo do Espírito


O simbolismo da água com o Espírito está na dimensão do dar a vida. Em
Jeremias 2,13 refere-se metaforicamente a Deus como uma “fonte de água viva”,
indicando a habilidade divina para dar e manter a vida. No Antigo Testamento, a
água é uma das bênçãos cruciais providas por Deus para sustentar a vida. A benção
de Deus é necessária para que o gênero humano cumpra as instruções de Deus
para “ser frutíferos e multiplicar”. Deus confere poder para reproduzir, multiplicar
e encher a terra por meio de sua benção (Gn 1,22. 28; 9,1, 2).

O Espírito e o povo de Deus


Deus estabelece Israel quando diz: “eu o resgatei; eu o chamei pelo nome;
você é meu” (Is 43,1). Os israelitas sempre relembravam o evento da libertação
do Egito que o constituiu como nação. A libertação de Israel pelo mar vermelho é
considerada para os israelitas como uma intervenção sobrenatural de Deus em seu
favor (Sl 78,13; 136,13ss; 114,1s; Ne 9,11). O Êxodo é o paradigma da salvação
e a presença do ruah é vital para expor a ação de YHWH em benefício do povo
de Deus. Na narrativa, Moisés estende sua mão em obediência a YHWH e o mar
vermelho é dividido pela metade. Isto é realizado por um forte vento do qual
YHWH afasta o mar e traz a libertação da nação (Ex 13-14). Portanto, o ruah
de Deus que concede a vida e vitalidade ao gênero humano pode ser retirado de
acordo com a vontade de Deus, resultando como perda da vida “Se ele pensasse
apenas em si, concentrando em si mesmo o espírito e o sopro, toda carne a um
só tempo definharia, e o ser humano voltaria ao pó” (Jó 34,14-15), então Deus
formou o ser humano com o pó do solo, soprou-lhe nas narinas o sopro da vida,
e ele tornou-se um ser vivente” (Gn 2,7).

O Espírito como pessoa no Antigo Testamento


A divindade do Espírito no Antigo Testamento não é negada, no entanto, a
personificação do Espírito é questionável. A ação do Espírito de Deus no Antigo
Testamento ainda aparece ofuscada, por isso, temos dificuldade em apresentá–lo

capítulo 4 • 89
como pessoa. Importante enfatizar que o Antigo Testamento não mencionava uma
atribuição a uma revelação trinitária para não cair no politeísmo. Não obstante, a
ação do Espírito de Deus, no Antigo Testamento, era representada por fenômenos
naturais e não como uma pessoa.
O estudo sobre o Espírito Santo no Novo Testamento faz com que apreciemos
o Espírito no Antigo Testamento. No entanto, para compreendermos o sentido
de Espírito no Novo Testamento temos que estar atento a evolução do termo ruah
(espírito) no Antigo Testamento. No Antigo Testamento se tinha a ideia de que os
patriarcas, todos os justos e fiéis a Deus possuíam o Espírito de Deus. A idolatria
de Israel ao bezerro de ouro limitou o Espírito de Deus aos profetas, sacerdotes e
reis. Com a morte dos últimos profetas Ageu, Zacarias e Malaquias, o Espírito se
apagara. Desta forma, podemos destacar no Antigo Testamento os seguintes itens:
•  Ação do ruah na criação;
•  yahweh liberta seu povo pela ação do ruah;
•  Os líderes são conduzidos pelo ruah na administração e seguimento das Leis
no Antigo Testamento (por liderança se entende – reis e profetas);
•  Após a morte dos últimos profetas (Ageu, Malaquias e Zacarias) o Espírito
se apagara.

O Espírito no Novo Testamento


O batismo de Jesus é designado como dom messiânico. Jesus é concebido
como Filho de Deus. É pelo batismo que Jesus exerce seu ministério profético pelo
Espírito. Jesus é o ungido de Deus que traz a salvação para a humanidade. Jesus é
o Bem-Amado (Mc 1,1), é o Filho de Deus porque o Espírito está com Ele. Após
o batismo Jesus inicia sua missão (Mt 4,12ss) sendo obediente a Deus até mesmo
na tentação, momento este em que o próprio demônio o declara “Filho de Deus”
por duas vezes (Mt 4,1ss). O Espírito em Jesus permite afastar o poder do mal e
realizar diversas curas e milagres (Mt 12,15-21).
Os Atos dos Apóstolos se limita apenas em ressaltar o Espírito enquanto que
em Paulo nos remete a um ensinamento que nos diz:
a) Paulo é testemunha de Cristo, sendo este estabelecido, segundo o
Espírito, “Filho de Deus” (Rm 1,3-4). Para Paulo a experiência do Espírito
está associada com o evento da Páscoa;
b) O Espírito está associado à redenção na cruz em que alcança todos os
pagãos na economia da fé e não pela lei (Gl 3,14);
c) A ação do Espírito começa no anúncio do Evangelho (1Ts 1,5-6);

capítulo 4 • 90
d) É pela fé e pelo batismo que o fiel começa uma vida no Espírito (Rm
12,13) e é pelo Espírito que nos tornamos filhos de Deus (Rm 8,14-17);
e) O Espírito contribui na formação da Igreja (1Cor 12,13) e aos diversos
dons notáveis na Igreja (1Cor 12,4s);
f ) Os dons do Espírito estão vinculados ao bem comum (1Cor 12,7).

A ação do Espírito aos discípulos tem um caráter profético-missionário, con-


sistindo em ser porta voz da mensagem divina. Em At 1,5 Jesus já anunciara que
com a vinda do Espírito faria testemunhas pelo batismo, porém, não pela água,
mas sim, pelo Espírito “João batizou com água; vós, porém, dentro de poucos dias
sereis batizados com o Espírito Santo”. Em Lucas não se enfatiza os efeitos e frutos
do Espírito, pois, ressalta o crescimento e a expansão da Igreja. Todo o Evangelho
de Lucas tem um caráter profético e missionário.

Pneumatologia Patrística
Tem-se uma decadência ou retrocesso sobre o ponto de partida na pneumato-
logia. O tratado pneumatológico é fragmentado sem permitir conclusão.
Não há estado de reflexão profunda. Nos séculos II e III o pneuma pertence
aos símbolos batismais (confissões trinitárias batismais) de Mt 28,19. Os represen-
tantes de tal referência é Justino, Tertuliano, Novaciano, Clemente de Alexandria
e Orígenes. A crise de identidade no século IV no cristianismo também refletiu na
pneumatologia. O Espírito estava relacionado com o Pai e com o Filho, mas, não
pertencia ao âmbito da criação e das criaturas. Esta crise levou a refletir sobre a ta-
refa e a atuação do Espírito. Desta forma entram em ação os pneumatômacos que
afirmavam ser o Espírito uma criatura. Os pneumatômacos foram condenados em
381 no Concílio de Constantinopla.

Divindade do espírito e Concílio de Constantinopla (381)


O Espírito era considerado divino. O sopro que dá a vida, o sopro que planava
sobre as águas no momento da criação. Este sopro fora enviado aos profetas já bem
antes de Cristo. Mesmo assim, a origem do Espírito não levantava problema, porém,
a “pessoa” do Espírito não estava bem elucidada. A especulação sobre o Espírito
começou após a legitimidade da afirmação nicena sobre o Filho. As especulações
sobre o Espírito desencadeavam em perguntas tais como: era Ele uma força divina
não pessoal? Uma criatura? Ele é gerado ou não gerado? Consequentemente, surgem
heresias contra o Espírito Santo chamadas de pneumatistas.

capítulo 4 • 91
O grande defensor da pneumatologia foi Basílio de Cesaréia (329-379) que
diz: “a pneumatologia pertence a teologia, isto é, a profissão de fé no Deus trinitá-
rio. Assim, como a Trindade está pneumatologicamente determinada. Argumenta
a divindade do Espírito na ordem batismal (Mt 28,19). É Basílio de Cesaréia
que associa a vida monástica, a recepção do Espírito e o aperfeiçoamento moral
que vão estreitamente unidos, pois, o Espírito leva a perfeição da alma. Santo
Agostinho (354-430), foi considerado um grande pneumatólogo. Defendia que
o essencial do Espírito é expressado no conceito de “communio”. O Espírito é o
amor. O amor de Deus para a humanidade que se manifesta nos dons. Com a
comunhão e os dons, a pneumatologia se estende até a Igreja.

No período Medieval
A pneumatologia na Idade média teve outras reflexões, tais como: o pecado
contra o Espírito, cáritas (amor) e os dons do Espírito.
•  Pecado contra o Espírito - difamação contra a bondade de Deus;
•  Amor (caritas) - o Espírito Santo é o amor (é o amor que amamos Deus e
o próximo);
•  Dons do Espírito - a teologia medieval compreendeu os dons como uma
forma de “aperfeiçoar” o homem, tendo os dons como uma expressão da presença
do Espírito na humanidade. O fundamento dos dons está em Is 11,2.

A paz interior é a perfeição do Espírito. No lugar da sucessão apostólica dos


bispos se instaurará a ordem dos pneumáticos. A Igreja seria transformada na po-
breza e humildade, sem Papa, nem hierarquia sacerdotal, nem sacramentos, nem
Escritura e nem teologia.
A Igreja vive pelo Espírito porque ele é a sua alma. Esta relação é desenvolvida
com maestria por Santo Agostinho ao comparar a atuação do Espírito com a alma
humana ao dizer: “Vedes o que a alma faz no corpo. Ela anima todos os membros.
A alma é para o corpo do ser humano, isso o Espírito Santo é na Igreja toda”. Como
em Paulo, segue-se a transposição da pneumatologia para a vida presente dos cris-
tãos: “Se, pois, quiseres viver do Espírito santo, mantende o amor, amai a verdade,
ansiai pela unidade, para que alcanceis a eternidade!” (Agostinho, Ser 276, 4,4).
Quanto a sua orientação para o Espírito, a reflexão mais escatológica nos leva
a afirmar que a Igreja deve conduzir seus filhos, em comunidade, para a pátria
definitiva. Isso só pode acontecer pela ação do Paráclito. Em outras palavras, o fim

capítulo 4 • 92
da Igreja não é ela mesma, mas ser a com comunidade triunfante na presença da
Trindade Santa. Este processo deve começar no tempo com a santificação dos seus
filhos, o que só pode acontecer com a condução do Espírito.
Em síntese, a pneumatologia justifica-se teologicamente a Igreja tendo sua
origem, vida e orientação para o Espírito.

Soteriologia

Conceito:
A doutrina que estuda o pecado chama-se “soteriologia”. Deriva-se do grego
“soteria” = cura, remédio, salvação, bem-estar + “logos” = ensino, estudo, doutrina.
A soteriologia significa que é um estudo sistemático acerca da salvação. Significa
salvação, libertação de um perigo iminente, livramento do poder da maldição do
pecado, restituição do homem à plena comunhão com Deus.

A necessidade da salvação:
A necessidade desta iniciativa vem do fato do homem estar morto espiritual-
mente e não poder operar a sua própria salvação (Efésios 2,1-3, 5, 6).
Então, como poderia Deus manter a perfeição da sua justiça e ainda assim sal-
var pecadores? A resposta está no fato de que Deus não desculpa o nosso pecado,
ele pune os pecadores pelos seus pecados, provendo um substituto qualificado,
sobre o qual recaiu todo o pecado e a culpa imputados à humanidade por causa
do pecado de Adão (Isaías 53, 4-7; 1Coríntios 5, 7).
Assim, como o cordeiro para o uso nos sacrifícios da Antiga Aliança devia ser
um animal sem nenhum defeito, ou mancha, de igual modo Deus requeria um
Cordeiro substituto perfeito, capaz de oferecer um único sacrifício suficiente para
salvar (João 1, 29; Hebreus 9, 14).

O autor da salvação:
Cristo é tanto o autor como o consumador da fé (Hebreus 12, 2). A salvação é
iniciativa de Deus (1João 4,19). Isto significa que o homem depende inteiramente
de Deus para ser salvo (Efésios 2,1).
O pecador, sozinho, não poderia buscar a graça de Deus (1Coríntios 2, 14;
2Coríntios 4, 4). Por isto, Deus toma a iniciativa na salvação do homem.

capítulo 4 • 93
O alcance da salvação:
Observe a seguinte indagação: “por quem Cristo morreu?” Se a resposta for
“Pelo mundo inteiro”, alguém dirá: “Porque então nem todas as pessoas são sal-
vas?” Se a resposta for “Pelos eleitos”, outro articulará: “Deus é injusto, pois a
salvação é limitada”.
A salvação é para o mundo inteiro (Hebreus 2, 9; 1João 2, 2);
A salvação é para os que creem (1Timóteo 4, 10; Atos 16, 31).

A presciência de Deus:
“Presciência é o aspecto da onisciência relacionado com o fato de Deus conhe-
cer todos os eventos e possibilidades futuros”. Este atributo divino não interfere
nas decisões do homem, nem do seu livre arbítrio. As ações do homem não são
permitidas ou impedidas simplesmente porque são previamente conhecidas por
Deus (Atos 2, 23; 26, 5; Romanos 3, 25; 8, 29; 11, 2; 2Pedro 3, 17).

A eleição divina:
Eleição é o ato de eleger, escolha. É o diploma divino com que é agraciado
todo o que recebe a Cristo Jesus como seu único e suficiente salvador. A eleição
subentende que a pessoa, mediante o sacrifício de Cristo, já atendeu a todos os re-
quisitos exigidos pela justiça de Deus quanto ao perdão de seus pecados. Baseado
no seu conhecimento quanto à decisão que o crente tomaria, Deus o elegeu, antes
mesmo de lançados os fundamentos da Terra (1Pd 1, 2-20).

A responsabilidade do homem:
Não obstante a eleição, o homem ainda fica livre e responsável por suas deci-
sões. Deus trabalha no homem: a mente, as emoções, a vontade, a consciência são
trabalhadas (e não substituídas) por Deus, através do Espírito Santo e pela Palavra,
de maneira que o homem possa aceitar, ele mesmo, e com a responsabilidade e
vontade própria, a oferta de Deus (Lucas 9, 23; Apocalipse 22, 17).

Requisitos para a salvação:


Arrependimento – Foi o ponto alto na pregação de João, o Batista (Mateus
3, 2; Marcos 1, 15), de Jesus (Mateus 4, 17; Lucas 13, 3-5), dos Apóstolos (Marcos
6, 12) e da Igreja (Atos 2, 38).
O arrependimento é essencialmente uma mudança na mente em relação ao
pecado e a Deus. Envolve uma completa mudança de pensamento sobre o pecado

capítulo 4 • 94
e a percepção da necessidade de um salvador. Esses são os passos que levam o ho-
mem ao arrependimento operado por Deus:
Reconhecimento do pecado: Salmos 51, 3-7
Tristeza pelo pecado: Salmos 51, 1-2; 2Coríntios 7, 9-10
Abandono do pecado: 1João 3, 9
A pessoa arrependida quer fazer a vontade de Deus. Decide deixar o pecado
e seguir a Cristo.

Fé em Jesus Cristo – Junto com a exigência do arrependimento para a sal-


vação vem a fé em Cristo. A fé é o elemento essencial na salvação cristã. É por
meio dela que a graça divina opera em nós. É pela fé em Cristo que somos salvos
(Atos 16, 31; Efésios 2, 8; Romanos 5,1). A fé salvadora nasce no coração humano
através da pregação do evangelho. Sem a mensagem da cruz, não pode haver fé
salvadora (Romanos 10, 13-17).

Conversão – O termo grego para conversão é metanóia, ou seja, mudança de


mente e transformação. O vocabulário conversão, literalmente, significa voltar ou
mudar de direção. A conversão está intimamente ligada ao arrependimento. O ar-
rependimento produz tristeza pelo pecado, já a conversão produz alegria por causa
do perdão. O arrependimento nos leva à cruz, já a conversão nos leva ao túmulo
vazio e ao Cristo ressurreto (Atos 3, 19).

Efeitos da salvação:
Regeneração ou novo nascimento – A palavra regeneração do vocábulo gre-
go paliggenesia e significa “novo nascimento” ou “nascer de novo”. Refere-se à uma
nova criação.
Regeneração é uma mudança sobrenatural e instantânea operada pelo Espírito
Santo na natureza da pessoa que recebe Jesus Cristo como Salvador (João 3, 3-8).

Justificação – A palavra justificação vem do verbo grego dikaioo e significa de-


clarar que uma pessoa é justa, tornar justo. É o ato da graça divina pelo qual Deus
declara justa a pessoa que põe sua fé em Jesus Cristo como seu Salvador.
Na justificação, Jesus literalmente assumiu as nossas dívidas e as pagou por nós
(Romanos 5, 1; 8, 1).

capítulo 4 • 95
Adoção de filho – Adoção é o ato da graça de Deus que toma como filhos
aqueles que aceitaram a Jesus Cristo, concedendo-lhes os direitos e privilégios de
Jesus. A adoção é uma mudança de nossa ordem e posição de mera criatura para
filho. Todo ser humano pode fazer parte da família divina através de Jesus Cristo.
É fundamental aceitá-lo como único e suficiente Salvador e Senhor de sua vida.
Aqueles que já tomaram essa decisão são filhos de Deus (João 1, 12-13; Romanos
8, 15-17).

Santificação – É a obra contínua do Espírito Santo pela qual Ele vai confor-
mando o crente à imagem de Cristo, tornando-o separado do pecado e simulta-
neamente preservado e estimulado para a santidade e serviço a Deus. O Espírito
Santo continua trabalhando na vida do cristão regenerado, a fim de que ele de-
senvolva o seu caráter e a sua personalidade, à luz do padrão perfeito, que é Cristo
(2Coríntios 3, 18). Além disso, somos exortados a também buscar a santificação
(1Tessalonicenses 5, 23; Hebreus 12, 14).

Uma nova vida em Deus


A salvação não é prêmio por méritos adquiridos. É dom gratuito de Deus
através de Jesus Cristo. Ela começa no ventre da mãe e segue no ver as pessoas
como irmãos de caminhada em direção ao Reino, no amor misericordioso de
Deus desde agora, na espera da plenitude da vida eterna. É viver o amor que se
concretiza no cotidiano.
As relações são restabelecidas na filiação divina, pois estamos diante de Deus,
em casa, e podemos falar com Ele. Para nós, Ele é Pai. A oração cristã é dirigida ao
Pai, no Filho, através do Espírito Santo. Assim, crer um Deus único, Pai de todos,
é entendê-lo como Criador da família humana.
Viver o mistério da Salvação é uma experiência teológica, em uma visão de
mundo que envolve o relacionamento com Deus. A partir desta experiência, como
filho herdeiro e participante da vida do Pai, o cristão organiza seu mundo e esta-
belece a confiança na vida como condição fundamental.
A vida de Deus circula entre nós e permeia os relacionamentos com as pessoas.
Estas, enquanto irmãos de uma mesma família, tornam-se nosso compromisso, no
cuidado, no alívio do sofrimento, no serviço em prol de uma estrutura social que
afirme a dignidade humana.
Portanto, a história da salvação manifesta-se na responsabilidade que assumi-
mos uns pelos outros.

capítulo 4 • 96
Eclesiologia

Definição:
A teologia chama essa doutrina de “Eclesiologia”, em razão dos termos gregos
“ekklesia” = Igreja (chamados para fora) + “logos” = Estudo. Sendo assim, eclesio-
logia é um estudo sistemático sobre a Igreja.
A Igreja é composta de número ilimitado de pessoas, denominadas membros,
sem distinção de sexo, nacionalidade ou condição social. Estes membros são pes-
soas batizadas, após pública profissão de fé, ou crestes recebidos de outras Igrejas.

Conceito de Igreja

Designativos bíblicos para a Igreja:


Corpo de Cristo Relacionado à Igreja universal, que alcança a todos os fiéis
(Efésios 1, 23; Colossenses 1, 18; 1Coríntios 12, 27);
Templo do Espírito Santo – Lugar onde Deus habita (1Coríntios 3, 16;
Efésios 2, 21-22; 1Pedro 2, 5);
Jerusalém celestial – A Igreja é considerada a realização da Jerusalém do
Antigo Testamento (Gálatas 4, 26; Hebreus 11, 22);
Coluna e baluarte da verdade – Expressa o fato que a Igreja é a guardiã da
verdade contra todos os inimigos de Deus (1Timóteo 3, 15).

Distinções necessárias sobre a Igreja:


Igreja militante – É a Igreja que ainda está no mundo, envolvida em uma
grande batalha espiritual (Efésios 6, 11-13);
Igreja triunfante – É a Igreja que entra vitoriosa no céu, depois de resistir e
perseverar na sua luta (Apocalipse 7, 13-14).
Igreja visível – É aquela que podemos ver com nossos olhos, composta por
aqueles que são recebidos como membros na Igreja local (Atos 2, 41);
Igreja invisível – É aquela que só Deus pode ver, composta pelos verdadeiros
crentes em Jesus Cristo (Mateus 7, 21-23).
Igreja local – É um grupo de pessoas batizadas, que confessam crer em Cristo
e que se reúnem em uma localidade definida (Romanos 16, 5; 1Coríntios 1, 2;
Hebreus 10, 25);
Igreja universal – São todos os crentes, em qualquer época ou lugar, inde-
pendente da denominação, sendo que uns já estão no céu, e outros aqui na Terra
(Efésios 1, 22-23; Colossenses 1, 18- 24).

capítulo 4 • 97
Igreja como organismo – É a Igreja como Corpo de Cristo, regida pelas leis
celestiais expressadas na palavra de Deus (Atos 5, 29);
Igreja como instituição – É a organização humana, expressa em sua or-
ganização hierárquica e no conjunto de fiéis, com sua tradição e presença
pública (Lucas 20, 25).
O Documento de Lima, também conhecido pela sua abreviação BEM
(Batismo, Eucaristia, Ministério), é concluído em 1982 e aprovado pela Comissão
de Fé e Constituição do Conselho Mundial de Igrejas (CMI). É continuidade do
processo ecumênico da formação do CMI, iniciado em 1927, em Lausana, Suíça,
já com 400 delegados de 108 denominações cristãs. O Documento de Lima é
expressão de um diálogo na busca da unidade visível da Igreja de Cristo enquanto
Corpo místico

As marcas da Igreja:
Adoração ao Deus vivo – Deus procura adoradores sinceros e a Igreja existe
para a glória de Deus (João 4, 23-24; Efésios 1, 5-6);
Pregação da Palavra de Deus – A proclamação do evangelho ao mundo in-
teiro foi uma ordem dada à Igreja por intermédio de Jesus Cristos (Marcos 16,15;
Atos 1, 8; 2Timóteo 4, 2);
Comunhão e edificação – Os membros da Igreja devem edificar uns aos ou-
tros com o dom que cada um recebeu do Senhor e cooperar uns com os outros no
serviço de Cristo (1Pedro 4, 10; Hebreus 10, 25);
Ministração dos sacramentos (Batismo e Partilha do Pão) – Não devem ser
ministrados separados da Palavra, como se tivessem poder por si só (Marcos 16,
15-16; Atos 2, 42; 1Coríntios 11, 17-20);
Exercício da disciplina – É essencial para a manutenção da coerência da
doutrina e santidade. A Igreja que quiser permanecer fiel deverá ser criteriosa no
exercício da disciplina cristã (Mateus 18, 15-18; 1Coríntios 5, 1-5).

A liderança da Igreja
Em primeiro lugar precisamos deixar bem claro que cada crente é um sacer-
dote de Deus (1Pedro 2, 9). Como tal, tem condições de assumir, pessoalmente,
decisões que glorifiquem ao nome do Senhor. Entretanto, como Deus é um Deus
de ordem, Ele estabeleceu lideranças no meio do seu povo para que tudo caminhe
em perfeita ordem (Juízes 21, 25; 1Coríntios 14, 33). Como hierarquia de serviço
eclesial temos os epíscopos (faróis), presbíteros e diáconos.

capítulo 4 • 98
Vejamos a existência de como a Igreja se confugira no Novo Testamento:
A Igreja (todos os fiéis reunidos) do Novo Testamento recebeu seus próprios
membros. A comunidade toda da Igreja em Roma foi mandada receber os no-
vos convertidos (Romanos 14, 1). Também, a comunidade toda da Igreja em
Corinto recebeu de volta o homem incestuoso que se arrependeu do seu pecado
(2Coríntios 2, 6-8).
A exclusão do homem incestuoso da Igreja em Corinto foi feita pela votação
da maioria da Igreja reunida (1Coríntios 5, 1-5; 2Coríntios 2, 6-8). Jesus Cristo
mandou seu povo: “Dize-o à Igreja”, em Mateus 18, 17, acerca da disciplina da
sua Igreja.
As Igrejas do Novo Testamento escolheram seus próprios oficiais:
Lucas indica que a Igreja inteira participou na escolha de Matias para tomar o
lugar de Judas Iscariotes (Atos 1, 23-26).
A Igreja em Jerusalém escolheu seus Diáconos (Atos 6, 1-6).
A Igreja em Antioquia escolheu e mandou seus próprios missionários, Paulo
e Barnabé (Atos 13, 1-4).
A Igreja em Jerusalém fez a mesma coisa: enviou Barnabé à Antioquia para
organizar uma Igreja. Foi a Igreja que fez isto (Atos 11, 22).
As Igrejas no livro dos Atos dos Apóstolos elegeram seus próprios pastores.
“Por comum consentimento” significa eleger pelo estender ou levantar a mão
(Atos 14, 23).

Os oficiais da Igreja:
Apóstolo – Estritamente falando, este nome só aplicável aos doze escolhidos
por Jesus e a Paulo. As credenciais apostólicas eram:
Escolhidos diretamente por Jesus (Lucas 6, 13; Gálatas 1, 1);
Testemunhas da vida e da ressurreição de Cristo (João 15, 27; Atos 1, 21-22;
1Coríntios 9, 1);
Poder para realizar milagres (2Coríntios 12, 12; Hebreus 2, 4).
Esse título também foi aplicado a outras pessoas na bíblia, como Barnabé e
Tiago, irmão de Jesus (Atos 14, 14 e Gálatas 1, 19).

Profeta – O Novo Testamento fala daqueles que tinham o dom de falar para
edificação da Igreja, ocasionalmente usados para revelação de mistérios e predição
do futuro. Esse dom é reconhecido pelas Igrejas reformadas como um dom per-
manente e atual (Atos 11, 28; 15, 32; 1Coríntios 12, 10).

capítulo 4 • 99
Evangelista – Os evangelistas acompanhavam e assistiam os Apóstolos e, às
vezes, eram enviados com missões especiais. Seu trabalho era, na maioria das vezes,
pregar e batizar (Atos 21, 8; 2Timóteo 4, 5).

Presbítero – O nome vem do grego “presbyteroi”, que pode significar “ancião,


mais velho” ou ainda “supervisor ou superintendente”. O nome é mencionado
pela primeira vez em Atos 11, 30, mas parece evidente que já era bastante conhe-
cido, talvez existindo antes mesmo dos diáconos, que surgiram em Atos 6. Suas
funções se confundem com o de pastor e bispo.

Pastor – Traduzido do grego “poimenas”, que significa aquele que detém a res-
ponsabilidade de cuidar. É o presbítero que guarda ao rebanho, precisando abas-
tecê-lo, governá-lo e protegê-lo, como sendo a própria família de Deus (1Pedro 5,
1-4; Hebreus 13, 17).

Mestre – Vem do grego “didaskoi”. São os pastores ou presbíteros que


tem a função de ensinar a Igreja (1Timóteo 5, 17; 2Timóteo 2, 2; Tito 1, 9).
Provavelmente, os anjos (anggeloi) a quem foram dirigidas as cartas às sete Igrejas
da Ásia menor eram os mestres, responsáveis pelo ensino daquelas Igrejas.

Diácono – É o servo (diakonoi) da Igreja e auxiliador do pastor no cuidado


das coisas temporais da Igreja. Este ofício começou quando a Igreja em Jerusalém
escolheu estes homens para aliviar os apóstolos para que pudessem dedicar-se mais
livremente à Palavra de Deus e oração (Atos 6, 1-6).

Relação entre Igreja e mundo


É importante que os crentes saibam que todos são responsáveis pelo bom
andamento da obra de Cristo na Terra. Cada crente é um ministro e cada casa
é uma Igreja. Cada um deve buscar descobrir e desenvolver o seu dom, respeitan-
do a liderança que Deus instituiu sobre a sua vida.

Escatologia

Conceito
A teologia chama essa doutrina de “Escatologia”, em razão dos termos gregos
“eskatos” = últimas coisas + «logos» = estudo. Sendo assim, Escatologia é um
estudo sistemático sobre a doutrina dos últimos tempos.

capítulo 4 • 100
Um nome mais popular que pode estar ligado a Escatologia é a Esperança,
porque sobre a vida após a morte, tudo o que sabemos, o sabemos pela esperança.
A esperança brota da fé e a fé nasce de uma experiência pessoal de Deus. Logo,
quem não teve uma experiência pessoal com Deus não poderá alimentar a espe-
rança, e não terá nada a dizer sobre a vida após a morte, a não ser negar ou temer.
As respostas para a esperança estão na esfera da fé. Não é algo que possa ser
provado. A esperança também é diferente de expectativa. As expectativas perten-
cem ao universo da história, e podem ser frustradas. A esperança vai além: é eter-
na, consoladora, nos chama para o futuro, é fruto da nossa fé. O ser humano,
antropologicamente, é um ser aberto a transcendência, um ser de esperança. A
modernidade cientificista e racionalista ignorou o eterno, porém a humanidade
sempre buscou na fé aquilo que a razão não pode explicar. Quando a razão não en-
contra mais respostas, entramos no universo da fé. As diversas respostas com res-
peito ao fim último do homem e do mundo, chamamos de respostas escatológicas.

A salvação no Antigo Testamento


A Bíblia, no Antigo Testamento, conta a história da aliança que se deu entre
Deus e o povo hebreu, em função da salvação da humanidade (Gn 17,1-20). Deus
se revela comprometido com a salvação dos homens, e escolhe um povo para se
mostrar ao mundo inteiro como Deus salvador
A confiança em Deus salvador é relatada nos salmos, e nos livros proféticos
e a aliança é sempre renovada. Isaías afirma com força o plano salvífico de Deus.
Mostra em (Is 11,6-9) que Deus sonha com a possibilidade da salvação de cada
um e de todos, e convida incessantemente a isso. Promete redenção, glória no
lugar do desespero, alegria ao invés do luto, alegria eterna aos que aceitam seu
projeto salvífico (Is 61,1-9). Promete “um novo céu e uma nova terra” aos que
permanecerem na aliança (Is 66,2).

A salvação em Jesus no Novo Testamento


No Novo Testamento Jesus se apresenta como o Deus da vida. Ele veio para
trazer vida em plenitude, e abominou tudo que era sinal de morte em seu tempo.
Jesus é salvador. Morreu numa cruz para salvação da humanidade. Sua morte e
ressurreição, segundo a fé cristã, trouxeram a salvação ao mundo
Na carta aos Romanos o apóstolo diz que a ressurreição de Jesus é a maior garan-
tia da ressurreição dos batizados (Rm 6,3-11). Nenhuma espécie de morte poderá
nos separar do amor de Cristo (Rm 8,33-35), e a misericórdia de Deus é para todos

capítulo 4 • 101
que aceitam a salvação (Rm 11,30-32). Jesus morreu pela nossa salvação, e por isso
está afastado o perigo da condenação: a morte foi tragada pela vida (1Cor 15,55), o
inimigo está derrotado (1Cor 15,26). É a vida eterna que conta e não a condenação.
O Novo Testamento deixa claro: Deus salva e perdoa porque Deus é amor (1Jo 3,16-
17), amor que é capaz de suportar tudo, desculpar tudo, perdoar tudo (1Cor 13,7).

Escatologia Universal
O fim do mundo é a salvação do mundo em Cristo, salvação que avança pela
história. É a redenção do mundo em Cristo, a construção do Reino de Deus pre-
gado por Jesus. Utilizando um conceito bastante genérico, o Reino de Deus é a
felicidade do homem. Esta felicidade, no mundo e além do mundo, é viver na gra-
ça de Deus, enfim tudo o que dignifica o homem. Assim, o fim do mundo não é
fim: é finalidade. E é responsabilidade do cristão acelerar a parusia. O documento
Gaudium et Spes do Concílio Vaticano Il, incentiva tal redação que visa investigar
os sinais dos tempos.
A morte é um fato da vida. O problema não é a morte, mas como lidamos
com ela. A ideia da morte, que deveria ser a mais inteligente e elaborada, porque
é a mais certa é, no entanto, a mais instintiva e associada a enfermidades. A com-
preensão da morte é tema da teologia. Para a escatologia cristã, a vida não é um
estado do corpo, mas está além do corpo, e o corpo é um fenômeno onde a vida
se manifesta, de maneira misteriosa, cuja compreensão ultrapassa a ciência e a
filosofia. E o cristão espera a ressurreição final que acontece quando morremos de-
finitivamente para esta dimensão da vida. A morte enquanto final da vida terrena,
para o cristão, é uma etapa no caminho da salvação. A morte é meio e não fim.

Escatologia Individual
Nós nos salvamos juntos, somos interdependentes com todas as criaturas do
universo e a ressurreição é o caminho que o mundo inteiro trilha junto, na história
(Escatologia Universal). Cada gesto de amor é um avanço para a ressurreição da
humanidade, mas cada guerra, cada injustiça social, cada pecado, atrapalha a res-
surreição. Ressurreição não é a simples revivificação de um cadáver. O cadáver é o
final de um processo biológico. É como a semente que morre e ressuscita na planta;
a árvore que nasce será diferente da semente que morreu, embora exista uma relação
de essência entre a planta e a semente. Como será o nosso corpo ressuscitado, não
sabemos. São Paulo diz que é insensato falar sobre isto. (1Cor 15, 35-44).

capítulo 4 • 102
Sobre o momento da ressurreição, a doutrina da Igreja diz que, ao morrermos,
a nossa alma vai para junto de Deus e vive lá num estado intermediário até que
aconteça a parusia no final dos tempos, para então assumir um corpo glorioso e
ressuscitar junto com o mundo todo. Uma outra maneira de interpretar, que é
defendida por outros teólogos, dentre eles os teólogos brasileiros Leonardo Boff e
João Batista Libânio (1932-2014), é a teoria da ressurreição na morte, que argu-
menta que o corpo e a alma não podem ser separados. É a pessoa humana, inteira,
que ressuscita, e o ser humano não é duas coisas, corpo e alma, mas uma só coisa:
pessoa.

Estado intermediário
É a oportunidade de amadurecimento para o bem, para Deus. O bom pastor
não quer que se perca nenhuma das suas ovelhas e faz questão que a síntese final
da nossa vida seja uma decisão gloriosa para o bem. Não há como participar da
pura felicidade eterna, junto com Deus, se não estivermos totalmente purificados,
porque em Deus não há espaço para o mal. A doutrina da Igreja é bem clara: o
estado intermediário não é um lugar específico. É um estado de purificação para
entrarmos livres e limpos para a glória eterna e também não é castigo. É graça. Este
estado intermediário poderá ser antecipado na vida antes da morte. Isto acontece
quando gradativamente ao libertamos do pecado.
No entanto, há na Bíblia perícopes, como a prática de orar pelos mortos, con-
forme livro de Macabeus (2Mc 12,39-46). Havia, já no Antigo Testamento, a crença
na necessidade de purificação após a morte. Interceder pelos já falecidos é uma prá-
tica incentivada pela Igreja, é próprio da comunhão dos santos. Ninguém deverá ser
abandonado a enfrentar sozinho o momento de decisão. É preciso a oração da Igreja.

Inferno
O povo hebreu tinha uma concepção do universo muito diferente do que a
ciência tem hoje, baseada nos mitos, lendas e concepções das mais diversas. Eles
entendiam que o universo possui três níveis: o Firmamento, a Terra e o Xeol. O
firmamento era o céu onde estaria Deus rodeado de querubins e serafins. A Terra
era entendida plana, estava no nível intermediário e era considerada a morada dos
homens e das criaturas. Embaixo da terra, acreditavam eles, existia o Xeol, ou a
mansão dos mortos, lugar escuro onde não se louvava a Deus. O Xeol, mais tarde,
passou a significar o inferno, lugar embaixo da terra, temido em nossa cultura
popular e instrumento de intimidação.

capítulo 4 • 103
Outra confusão sobre o inferno é a palavra geena. Este sim era um lugar geo-
gráfico, considerado maldito, semelhante a uma cratera, onde eram jogados os
corpos dos prisioneiros de guerra. O fogo também é uma imagem. “Fogo” (Mc
9,43; Mt 18,8; Lc 3,7; Hb 10,27) é o símbolo da destruição daquilo que não
presta, daquilo que nada se aproveita, então se transforma em cinza; “Ranger de
dentes” (Mt 8,12; Lc 13,28) é símbolo de desespero.

Juízo Final
Os cristãos precisam de escatologia porque o mundo precisa de esperança.
Uma missão dos cristãos é reavivar a esperança no mundo de modo a acelerar o
processo histórico que leva, segundo a nossa fé, ao definitivo encontro do mundo
com Cristo, a parusia. Temos a missão de romper com os medos e as ameaças de
condenação. Precisamos recuperar a promessa de salvação do Antigo Testamento
e a salvação de Jesus Cristo. A igreja nos lembra ainda que na segunda vinda de
Cristo, a Parusia, que ninguém sabe quando será, haverá o Juízo final ou geral.
Quanto a este grande dia da volta gloriosa do Senhor, a Igreja não quer que
se faça especulações sobre ele; pois o próprio Cristo o proibiu. Muitos foram en-
ganados e a fé desacreditada por muitos que ao longo dos séculos ousaram marcar
a hora da volta do Filho de Deus. “chegará a hora em que todos os que repousam
nos sepulcros ouvirão sua voz e sairão: os que tiverem feito o bem, para uma
ressurreição de vida; os que tiverem praticado o mal, para uma ressurreição de
julgamento” (Jo 5, 28-29)”.

ATIVIDADES
01. Com base nos dois textos relacionados a Santo Agostinho e São Tomás de Aquino,
como você vê a evolução do espírito segundo estes autores:

Texto de Santo Agostinho


“O Pai não é senão do Filho; o Filho não é senão do Pai; mas o Espírito é Espírito dos
dois: ele é Espírito do Pai, segundo Mt 10,20 e Rm 8,11, e o Espírito do Filho em Gl 4,6
e Rm 8,9. O Espírito seria, então, sempre mantendo-se distinto, aquele que é comum
ao Pai e ao Filho, a santidade comum deles, o amor deles, a unidade do Espírito pelo
laço da paz.” Y. CONGAR, p. 110

capítulo 4 • 104
Texto de São Tomás de Aquino
“Podemos considerar três aspectos no homem: o homem existindo em sua natureza,
o homem existindo em seu intelecto e o homem existindo em seu amor. Entretanto,
esses três não são um, pois aqui pensar não é ser, nem amar; e um só dos três é uma
realidade subsistente, ou seja, o homem existindo em sua própria natureza. Em Deus,
porém, ser, conhecer e amar são um só; portanto, Deus existindo em seu próprio ser
natural, Deus existindo em seu intelecto e Deus existindo em seu amor são um só,
cada um dos três, porém, sendo uma realidade subsistente”.

02. Como se deve entender a processão do Espírito Santo a partir do Pai e do Filho?

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BINGEMER, Maria Clara. Teologia latino-americana: raízes e ramos. Petrópolis: Vozes, 2017.
BOFF, Clodovis. Teoria do método teológico: versão didática. 5.ed. Petrópolis: Vozes, 2004.
CARIAS, Celso. Teologia para todos: manual de iniciação teológica a partir de seus principais
temas. Petrópolis: Vozes, 2009.
FERREIRA, Franklin. Teologia cristã: uma introdução à sistematização das doutrinas. São Paulo:
Vida Nova, 2015.
GONÇALVES, Paulo Sérgio Lopes; TRANSFERETTI, José. Teologia na pós-modernidade:
abordagens epistemológica, sistemática e teórico-prática. São Paulo: Paulinas, 2003.
LACOSTE, Jean-Yves. Dicionário crítico de teologia. São Paulo: Paulinas; Loyola, 2014.
LIBÂNIO, João Batista; MURAD, Afonso. Introdução à teologia: perfil, enfoques, tarefas. São
Paulo: Loyola, 2006

capítulo 4 • 105
capítulo 4 • 106
5
As diversas
correntes
teológicas
contemporâneas
As diversas correntes teológicas
contemporâneas

Vamos começar a estudar os principais temas teológicos, neste capítulo,


onde destacaremos a Cristologia, a Pneumatologia e a Soteriologia. Estes três te-
mas são inter-relacionados, ou seja, um ajuda a compreender melhor o outro.
Começaremos com a Cristologia, na ação de Jesus a partir de suas naturezas, hu-
mana e a divina, tornando-se mediador entre nós e o Pai.
Continuaremos estudando sobre o Espírito Santo, de como a afirmação de sua
divindade confirma a de Jesus, no desenvolvimento da doutrina da Trindade. E
terminaremos este capítulo, com a Eclesiologia e a Escatologia, o estudo das últimas
coisas. Este último tema é dividido em duas partes: a escatologia individual, do fim
da Criação; e a escatologia universal, na relação com o Reino de Deus, o que envolve
morte, ressurreição, purgatório e estado intermediário, inferno e vida eterna

OBJETIVOS
•  Identificar as principais correntes teológicas contemporâneas em diálogo com a pós-mo-
dernidade;
•  Identificar as principais características das correntes teológicas;
•  Refletir sobre os desafios para o estudo teológico das diversas correntes teológicas exis-
tentes;
•  Conhecer os principais eixos temáticos da teologia.

Teologia da libertação

A teologia da libertação é um fenômeno extraordinariamente complexo que


pode abranger desde as posições mais radicalmente marxistas até aquelas que pro-
põem o lugar apropriado da necessária responsabilidade do cristão para com os
pobres e os oprimidos no contexto de uma correta teologia eclesial. O conceito
“teologia da libertação” traz um sentido mais restrito; um sentido que compreende
apenas aqueles teólogos que de algum modo fazem própria a opção fundamental
marxista. Mesmo aqui existem muitas diferenças entre uns e outros, e é impossível

capítulo 5 • 108
aprofundá-las nesta reflexão geral. Neste contexto, posso apenas tentar pôr em evi-
dência algumas linhas fundamentais que, sem desconhecer suas diversas origens,
são muito difundidas, exercendo uma certa influência mesmo onde não existe
uma teologia da libertação em sentido estrito.
A teologia da libertação é um fenômeno universal sob três pontos de vista:
a) Essa teologia não pretende constituir um novo tratado teológico ao
lado dos outros já existentes, como, por exemplo, elaborar novos aspectos
da ética social da Igreja. Ela se concede antes como uma nova hermenêutica
da fé cristã, isto é, como uma nova forma de compreensão e de realização
do cristianismo em sua totalidade. Por isso mesmo muda todas as formas
da vida eclesial: a constituição eclesiástica, a liturgia, a catequese, as opções
morais.
b) A teologia da libertação tem certamente o seu centro de gravidade na
América Latina. Mas não é de modo algum um fenômeno exclusivamente
latino-americano. Não se pode concebê-la sem a influência determinante
de teólogos europeus e também norte-americanos.
c) A teologia da libertação supera os limites confessionais. Ela procura
criar, já, desde as suas premissas, uma nova universalidade, pela qual as
separações clássicas entre as igrejas devem perder a sua importância.

Podemos dizer que a teologia da libertação pretende dar uma nova interpreta-
ção global do cristianismo; explicar o cristianismo como uma práxis de libertação
e constituir-se, ela mesma, num guia para tal práxis. Mas, uma vez que, segundo
esta teologia, toda realidade é política, também a libertação é um conceito político
e o guia rumo à libertação deve ser um guia para a ação política. A seguir vejamos,
principalmente, três fatores que a tornaram possível.
Após o Concílio, produziu-se uma situação teológica nova:
a) Surgiu a opinião de que a tradição teológica existente até então não era
mais aceitável e que, por conseguinte, se devia procurar, a partir da Escritura
e dos sinais dos tempos, orientações teológicas e espirituais totalmente novas.
b) A ideia de abertura ao mundo e de compromisso com ele transfor-
mou-se em uma fé ingênua nas ciências; uma fé que acolheu as ciências
humanas como um novo evangelho, sem querer reconhecer os seus limites
e problemas próprios. A psicologia, a sociologia e a interpretação marxista
da história foram consideradas como cientificamente seguras e, portanto,
como instâncias não mais contestáveis do pensamento cristão.

capítulo 5 • 109
c) A crítica da tradição por parte da exegese evangélica moderna, especial-
mente a de Rudolf Bultmann (1844-1976) e da sua escola, tornou-se uma
instância teológica inamovível, que obstruiu a estrada às formas até então
válidas da teologia, encorajando assim também novas construções.

2. Essa modificação da situação teológica coincidiu com uma modificação


também na história espiritual. Ao final da fase de reconstrução após a II Guerra
Mundial, fase que coincidiu pouco mais ou menos com o término do Concílio,
produziu-se no mundo ocidental uma sensível falta de significado, à qual a fi-
losofia existencialista, ainda em voga, não estava em condições de dar alguma
resposta. Nesta situação, as diferentes formas do neomarxismo transformaram-se
em um impulso moral e, ao mesmo tempo, em uma promessa de significado que
se mostrava quase irresistível para a juventude universitária. O marxismo, com os
acentos religiosos de Bloch e as filosofias providas de “rigor científico”, ofereceu
modelos de ação com os quais se acreditou poder responder ao desafio da miséria
no mundo e, ao mesmo tempo, atualizar o sentido correto da mensagem bíblica.
3. O desafio moral da pobreza e da opressão não podia mais ser ignorado no mo-
mento em que a Europa e a América do Norte atingiam uma opulência até então
desconhecida. Esse desafio exigia evidentemente novas respostas, que não podiam
ser encontradas na tradição existente até aquele momento. A situação teológica e
filosófica transformada convidava expressamente a buscar a resposta em um cris-
tianismo que se deixasse guiar pelos modelos de esperança das filosofias marxistas,
fundados, na aparência, cientificamente.

Conceitos fundamentais da teologia da libertação


Chegamos aos conceitos fundamentais do conteúdo da nova interpretação
do cristianismo. Uma vez que os contextos nos quais aparecem os diversos con-
ceitos são diferentes, gostaria, sem prejuízo da sistemática, de citar alguns deles.
Comecemos pela nova interpretação da fé, da esperança e da caridade.
Com relação à fé, por exemplo, afirma-se que: “A experiência que Jesus tem
de Deus é radicalmente histórica. Sua fé converte-se em fidelidade” (J.Sobrinho
1938). Dessa forma, substitui-se fundamentalmente a fé pela “fidelidade à histó-
ria”. Aqui se produz aquela fusão entre Deus e a história que possibilita conservar
para Jesus a fórmula de Calcedônia (451), que fora convocado para discutir sobre
as duas naturezas de Jesus Cristo e para corrigir os erros e abusos do Concílio de
Éfeso (449). Pode-se ver como os critérios clássicos da ortodoxia não são aplicáveis

capítulo 5 • 110
à análise dessa teologia. Afirma-se que Jesus é Deus, porém acrescenta-se imedia-
tamente que “o Deus verdadeiro é somente Aquele que se revela histórica e escan-
dalosamente em Jesus e nos pobres que continuam a sua presença”.
A esperança é interpretada como confiança no futuro e como trabalho para o fu-
turo; com isso ela é subordinada novamente ao predomínio da história das classes.
O amor consiste na “opção pelos pobres”; isto é, coincide com a opção pela
luta de classes. Os teólogos da libertação sublinham fortemente, diante do “falso
universalismo”, a parcialidade e o caráter partidário da opção cristã; tomar partido
é, segundo eles, requisito fundamental de uma correta hermenêutica dos teste-
munhos bíblicos. Não se pode reconhecer muito claramente a mistura entre uma
verdade fundamental do cristianismo e uma opção fundamental não-cristã, que
torna o conjunto tão sedutor: o Sermão da Montanha seria, na verdade, a opção
pelos pobres feita por Deus (Mt 5,4).
Aqui, deve-se mencionar também uma ideia fundamental de certa teologia
pós-conciliar que se impulsionou nessa direção. Foi defendido que, segundo o
Concílio, se deveria superar todas as formas de dualismo: o dualismo de corpo
e alma, de natural e sobrenatural, de imanência e transcendência, de presente e
futuro. Após o desmantelamento desses presumidos dualismos, resta apenas a pos-
sibilidade de trabalhar por um reino que se realize nesta história e em sua realidade
política-econômica.
Deste modo, uma das críticas que precisam ser respondidas é que deixou-se
de trabalhar pelo homem de hoje e se começou a destruir o presente em favor de
um futuro hipotético, assim, produziu-se imediatamente o verdadeiro dualismo.
Neste contexto, vale mencionar também a interpretação da morte e da ressur-
reição contra concepções “universalistas. Ela estabelece que a ressurreição é, em
primeiro lugar, uma esperança para aqueles que são crucificados e que constituem
a maioria dos homens: todos aqueles milhões para os quais a injustiça estrutural
se impõe como uma lenta crucificação. O crente, no entanto, participa também
do senhorio de Jesus sobre a história através da edificação do reino, isto é, na luta
pela justiça e pela libertação integral, na transformação das estruturas injustas em
estruturas mais humanas. Esse senhorio sobre a história é exercitado ao se repetir
o gesto de Deus que ressuscita Jesus, isto é, dando novamente vida aos crucificados
da história.
Para esta proposta da Teologia da Libertação, o compromisso com os pobres
é o ato segundo de sua teologia,. Tendo a experiência de fé como o seu ato pri-
meiro é, portanto, classificada como uma autêntica teologia, já que é característica

capítulo 5 • 111
de toda autêntica teologia a experiência de fé como ato primeiro. A Teologia da
Libertação percebe que amar a Deus não significa somente contemplá-lo. O amor
a Deus é demonstrado através do serviço aos pobres. “O serviço solidário ao opri-
mido significa então um ato de amor ao Cristo sofredor, uma liturgia que agrada
a Deus” (BOFF, 2004, p. 15).
Devemos citar algumas interpretações dos conceitos bíblicos: o êxodo é uma
imagem central da “história da salvação”; o mistério pascal é lido como um símbolo
revolucionário e, portanto, a eucaristia é interpretada como uma festa da libertação. A
palavra redenção é relacionada à libertação, que, por sua vez, é compreendida no
contexto da história e da luta de classes, como processo de libertação em marcha.
Por fim, é fundamental também a acentuação da práxis: a verdade não deve ser
compreendida em sentido metafísico, pois tratar-se-ia de “idealismo”: A verdade
realiza-se na história e na práxis. Por conseguinte, também as ideias que levam à
ação são, em última instância, intercambiáveis. A única coisa decisiva é a práxis.
Dessa forma, corre-se o risco de um enorme afastamento dos textos bíbli-
cos: a crítica histórica liberta da interpretação tradicional. Com relação à tradi-
ção, atribui-se importância ao “máximo rigor científico”. Mas os conteúdos da
bíblia, determinados historicamente, não podem, por sua vez, ser vinculantes de
um modo absoluto. O instrumento para a interpretação da fé não é, em última
análise, a pesquisa histórica, mas sim a hermenêutica da história, experimentá-la
na comunidade.
A Teologia da Libertação tem como base o próprio evangelho, ela é fruto
do confronto existente entre a fé e a realidade de milhões de pessoas que vivem
em uma situação de miséria profunda. É uma teologia popular, realizada a partir
do povo.

Teologia feminista

A Teologia Feminista surge com encontros entre mulheres teólogas e agentes


de pastoral, em face coletiva de compaixão e comprometimento pela justiça, inse-
parável na construção do Reino de Deus.
É um processo ecumênico com aliança entre católicos e protestantes, em en-
riquecimento mútuo e base sólida para o futuro. Ajuda às mulheres latino-ameri-
canas a viver. É uma corrente de pensamento que propõe uma reflexão a respeito
do papel e da visão da mulher na Bíblia. Tem como fundamento, a interpretação
sociológica das escrituras em detrimento de uma leitura literal e fundamentalista.

capítulo 5 • 112
A LXX, com os seus 73 livros, é cada vez mais corrente entre os evangélicos e
protestantes. Ratzinger, lembra que, ao lado de todo patriarca, há uma matriarca,
propondo outra leitura da Sagrada Escritura.
O avanço da teologia feminista e na reflexão de gênero altera a direção da
teologia latino-americana. As questões do feminismo e do direito das mulheres
entrelaçadas com a questão da Terra e da ecologia (ecofeminismo), empodera-
mento das mulheres, com temas da vida corporificada com direitos produtivos e
ministério da ordem.
Ivone Gebara (1944), filósofa, ex-freira da  Congregação Irmãs de Nossa
Senhora milita na teologia feminista e é uma das expoentes da teologia feminis-
ta na América Latina.
Em um de seus textos, faz questionamentos teológicos a respeito da imagem
de Deus, da função das mulheres na Igreja, dos conteúdos dogmáticos ou de te-
mas como o casamento gay e a descriminalização e legalização do aborto, além de
críticas à estrutura patriarcal da Igreja.
Para essa corrente teológica, utiliza se a Bíblia para  desconstruir a imagem
negativa da mulher pecadora, redescobrir o papel das mulheres heroínas nos livros
bíblicos e reivindicar a feminização de conceitos teológicos com a ideia de incluir
um princípio feminino também na noção de Deus e da Santíssima Trindade.
A teologia feminista mostra que as mulheres são oprimidas em nossa socieda-
de pela cultura machista e pelo sistema patriarcal. A luta das mulheres acontece
desde o século XIX, quando elas se organizam com a finalidade de conquistar a
igualdade com os homens. Luta que vem acrescida pelos últimos vinte anos pela
diferença sexual e pela diferença de gênero (BOFF, 2004, p. 65)
A valorização do papel das mulheres não deve ser vista como restrita e sub-
missa à família, mas como protagonista na história do cristianismo. Questionar a
misoginia dentro da tradição cristã é dar visibilidade às questões contemporâneas
e legítimas das mulheres na Igreja. 
Essa teologia define a imagem de uma Igreja não democrática, que não reco-
nhece o espaço que devem ter as mulheres como batizadas, só pelo fato de serem
do sexo feminino, relegando-as a uma situação de inferioridade em relação aos
homens da hierarquia não somente católica.
Parte da diversidade de olhares sobre o divino, sobre os mistérios humanos,
enfim, sobre a realidade na qual nos encontramos inseridos.
Gebara agora nos deleita pelo mundo para uma reflexão teológica laica, con-
vidando-nos a recuperar outras fontes de inspiração e reflexão sobre nossa vida.

capítulo 5 • 113
Em uma outra etapa da teologia feminista, verificamos a feminização dos
conceitos teológicos a partir da experiência e sentimentos femininos, como o eco-
feminismo, termo criado pela feminista francesa Françoise d’Eaubonne (1920-
2005), que em 1974 simboliza a síntese entre o pensamento ambientalista eco-
lógico e o feminino identificados por diversas interconexões entre a dominação
das mulheres, dos animais e da natureza: histórica, conceitual, empírica, socioe-
conômica, linguística, simbólica e literária, espiritual e religiosa, epistemológica,
política e ética.
Para a teologia feminista existe o resgate da igualdade de gênero que havia nas
primeiras comunidades cristãs, deixada de lado no processo de institucionalização
da Igreja ainda nos primeiros séculos, o que resultou em afastamento das mulheres
as posições institucionais de poder.
A teologia feminista elaborada é uma teologia política, porque seu horizonte
último é desconstruir e construir, a partir das experiências das mulheres, novas refle-
xões, novos argumentos que as fortalecem e abram espaço no lugar do mundo não
somente na Igreja para que desfrutem, em igualdade de condições, as realidades que
este mundo oferece. É uma aposta em um mundo diferente para mulheres e homens

Teologia negra

A Teologia negra é um movimento teológico que surgiu entre os cristãos ne-


gros nos Estados Unidos da América na segunda metade da década dos anos 60.
Ela se concentra na reflexão teológica sobre a luta dos negros norte americanos, li-
derados no princípio pelo pastor batista Martin Luther King Jr (1929-1968), para
conseguirem a justiça e libertação sociais, políticas e econômicas numa sociedade
dominada pelos brancos.
Ela se baseia na Bíblia e nas características singulares da experiência religiosa
dos negros americanos. Ele encontra na Bíblia uma base para o sentido político
da libertação, isto é, o êxodo do Egito. E ele encontra na experiência religiosa dos
escravos negros, manifestada nos seus cânticos, sermões e orações que destacam a
ressurreição de Jesus, a base para o sentido escatológico ou futurista da libertação.
A teologia negra pode ser classificada como um tipo de teologia de libertação,
pois ela se preocupa basicamente com a libertação de um grupo de oprimidos.
Os líderes da teologia negra americana têm mantido um diálogo com os líderes
da teologia da libertação latino-americana e asiática, da teologia feminista e da
teologia Africana, especialmente na África do Sul.

capítulo 5 • 114
Histórico da Teologia negra

As condições históricas é que geraram a necessidade para uma teologia es-


pecificamente negra nas Américas. Portanto, consideraremos os dois séculos da
escravidão dos negros e o período subsequente de racismo institucionalizado. Os
duzentos anos da escravidão racista (1600-1865). Vale a pena mencionar que,
diferente da maioria dos pensadores negros nos Estados Unidos da América, o
influente filósofo cristão negro, Cornel West (1953), utiliza a análise econômico
marxista como um de seus métodos para compreender e criticar a civilização eu-
ropeia-norte americana.
A escravidão não foi inventada no início do período moderno quando tantos
africanos foram compelidos a deixar sua terra natural como escravos do homem
branco. A escravidão floresceu na região mediterrânea e Europa por mil anos,
antes do princípio da modernidade. Todavia, as pessoas não foram escravizadas
neste período por causa de sua raça, mas, sim, por causa de conquistas militares e
motivos econômicos.
O chamado “tráfico de negros” foi iniciado em meados do século XV pelos
portugueses que, ao procurarem ouro no literal ocidental da África, descobriram
outra fonte de riqueza material, a saber, a venda de escravos negros primeiro na
Europa e subsequentemente nas recém-descobertas terras do novo mundo.
Do século XVI até quase o final do século XIX, os europeus trouxeram, sob
condições cruéis a bordo dos navios negreiros, entre 10 e 20 milhões de escravos
da África para o hemisfério ocidental..
Só o Brasil recebeu em torno de 38% de todos estes escravos para labutar em
suas minas e plantações e engenhos de açúcar.
Guardar suas crenças e tradições religiosas torna-se uma atitude de afirmação
do passado. A cultura afro-negra-brasileira de “diáspora” forma uma nova família,
a família de santo, unida na procura de seu axé, sua força vital.
O Batismo era à força pelos colonizadores. Existia uma estratégia de resis-
tência para manterem relações relativamente pacíficas, sem realmente adotar sua
religião: praticar a sua própria, disfarçada de cristianismo.
Cultos religiosos de matriz africana tornam-se espaço privilegiado para salva-
guardar a identidade cultural dos afro-brasileiros. Religiões africanas tradicionais
mantiveram suas próprias culturas através da reinterpretação de suas formas, reno-
meando seus deuses locais anteriormente e simplificando seus rituais. Processo de
sincretismo assume novas circunstâncias sócio-históricas.

capítulo 5 • 115
Criação de nova identidade negra é vinculada à identidade africana. Cor como
característica essencial, denota origem racial e, no Brasil, história de escravidão.
Processo de mestiço como visível síntese cultural. Perseguições são associadas a ques-
tões raciais. Maioria à classe pobre da sociedade, com obstáculos em todos os âmbitos.
Cultura e tradição religiosa profundamente ligadas à pobreza, em conexão de
interesse crescente da Teologia da Libertação.
O movimento teológico de cristãos negros nos Estados Unidos da América,
na segunda metade da década de 60, liderado pelo pastor batista Martin Luther
King Jr, nasce na luta por direitos civis (justiça e libertação sociais, políticas e
econômicas). Baseia-se na Bíblia, no princípio político de libertação do êxodo do
Egito. Um Deus Pai que guiou o povo negro na diáspora, como fez com os israe-
litas, em um modo de compreender o cristianismo relevante para situações atuais.
Importância da identidade como lente adequada para entender o direito divino e
supremo do povo para a autodeterminação.
Experiência religiosa de escravos negros, manifestada nos seus cantos, sermões
e orações que destacam a ressurreição de Jesus, são base para o sentido escatológico
ou futurista de libertação.
Este tipo de Teologia da libertação se preocupa com a libertação de um grupo
específico de oprimidos, a raça negra, ao invés de classe social-econômica, evi-
tando o uso da análise social-econômica marxista. Também promove o diálogo
com lideranças da Teologia da Libertação latino-americana e asiática, da Teologia
Feminista e da Teologia Africana, especialmente na África do Sul.
Preocupação é em reconstituir a história do africano, feito escravo e trazido
para a América, com a distinção dos demais sistemas escravagistas até então pela
raça, e não por conquista militar ou motivo econômico.
Distingue se os grupos entre a América do Norte e a América Latina, quanto
à tendo a preservação de aspectos da cultura e tradição religiosa africana nesta úl-
tima. Na primeira, há assimilação maior da cultura dominante, o Protestantismo,
predominando batistas e metodistas.
Há distinção também dos movimentos de resistência. A Teologia Negra come-
ça como Teologia de protesto nos Estados Unidos, tão violento e injusto e o preço
ainda sendo pago.
Distinção também no modo como a escravidão foi abolida, em guerra civil
nos Estados Unidos, com marcas ainda hoje. Seguem 100 anos de opressão ins-
titucionalizada, com instituições separadas, o que deflagra o movimento pelos
Direitos Civis, em 1964.

capítulo 5 • 116
Movimento pelos Direitos Civis
Movimento popular dos próprios negros, por métodos não violentos, dos ple-
nos direitos de cidadão. Organizado pela “Associação Nacional para o Progresso
das Pessoas de Cor”, Martin Luther King Jr (1929-1968).
Este líder principal foi o pastor negro batista que se tornou o profeta carismá-
tico do movimento e a consciência ética da nação no que tange às questões sociais,
até que ele foi assassinado em 1968.

O Livro “Religião Negra” de Joseph Washington (1964)


Congregações negras não seriam igrejas genuínas e sim sociedades religiosas
sem teologias cristãs. As “verdadeiras” igrejas brancas excluem estas sociedades do
verdadeiro Protestantismo. “Igrejas brancas”, além da cor de pele, teriam como
projeto sócio-político de discriminação.
Considera-se este livro como investida contra a Igreja Negra e a Teologia é
criada, em parte, para responder às questões levantadas. Admite-se como objetivo,
a religião negra como cristã e portadora de Teologia cristã; e de um evangelho
diretamente relacionado com a luta pela justiça na sociedade.
Em 1966, o Comitê Nacional do Clero Negro publica na revista New York
Times uma declaração “O Poder Negro”, com pastores apoiando o projeto, em
uma compreensão negra do evangelho e identificação com as lutas dos pobres
negros para a justiça. Denominam o racismo branco como anticristo e definem
como demoníaca a presença em denominações eclesiásticas brancas.
Os jovens levam a luta para seminários teológicos e universidades dos Estados
Unidos, com publicações de elementos libertadores do movimento “poder negro”,
expressos como encarnação histórica autêntica do cristianismo, enquanto religião
de libertação com crítica.

O Movimento “Poder Negro”


A nova geração de ativistas desafia seus irmãos negros a ganharem o controle
político e econômico de suas próprias comunidades e estabelecerem seus próprios
valores, tal como a afirmação que “negro é bonito”.
Afirma-se que o princípio do desenvolvimento consciente de uma teologia
negra em que os ministros negros conscientemente distinguiram seu próprio en-
tendimento do Evangelho de Jesus do Cristianismo branco e o identificaram com
as lutas dos pobres negros para a justiça.

capítulo 5 • 117
Teologia indígena

Eleazar López, é um sacerdote indígena zapoteca, do México, e um dos prin-


cipais formuladores da Teologia indígena na América Central. Junto com ele po-
de-se mencionar o sacerdote Aiban Wagua, do povo Kuna do Panamá, o pastor
presbiteriano Antonio Otzoy, de origem mayakaqchikel da Guatemala e tantos
outros. É significativo que nesta lista incompleta não encontremos teólogos indí-
genas brasileiros.
A teologia indígena deu o seu pontapé inicial através do reconhecimento dos
povos indígenas “como sujeitos da vida social e política e também da vida e da
organização da Igreja, da leitura da Bíblia, do diálogo que prepara o anúncio do
Evangelho” (BOFF, 2004 p. 73). É importante entendermos que a teologia é uma
reflexão crítica sobre a experiência com Deus e do mundo, vivida pelas comunida-
des e pelos indivíduos animados na fé. Cada cultura tem uma maneira particular
de manifestar a fé, precisamos reconhecer e aceitar as diferenças de cada um. Boff
declara que é necessário “pedir perdão aos indígenas por todos os séculos de evan-
gelização colonizadora e conquistadora” (BOFF, 2004, p. 73).
A Teologia Indígena como a conhecemos nas últimas décadas, faz parte da
emergência dos povos postergados, das classes oprimidas, dos movimentos dos
pobres no mundo e é importante destacar que tal emergência aparece de duas
formas: como protesto dos excluídos do sistema dominante atual, mas também
como proposta dos pobres na construção de um novo mundo em que estes povos
tenham vez, voz e superem a invisibilidade que os torna descartáveis no atual
momento da história.
Quanto ao conceito recente de Teologia Índia ou Indígena, cabe observar que
se trata, na verdade, de uma reflexão da teologia cristã feita por indígenas ou a par-
tir dos povos indígenas, em diálogo com as tradições religiosas ou espirituais destes
povos. Desde o Primeiro Encontro Latino Americano de Teologia Indígena, reali-
zado na Cidade do México, em setembro de 1990, a expressão tem sido utilizada
para designar a busca de religiosos, irmãs, padres e pastores evangélicos indígenas
por espaço e reflexão autóctone no interior das igrejas cristãs e, seguidamente, em
conflito com as hierarquias e estruturas eclesiásticas monoculturais.
Assim, ao adentrar no terreno da Teologia Indígena e das tradições religiosas
indígenas, faz-se necessário um segundo cuidado. De um lado, não existe, nos
termos como o entendemos, uma instituição religiosa tradicional eminentemen-
te indígena. Isto, porém, não significa que estes povos não possuam sistemas de

capítulo 5 • 118
pensamento teológico próprios, como o estudo da tradição religiosa Guarani e de
outras etnias tem demonstrado à exaustão. Um outro aspecto é dar-se conta da
pluralidade de povos com suas diversas línguas, cosmovisões e sistemas de vida, o
que inviabiliza uma padronização. Assim, cada povo indígena deveria ser estudado
de maneira específica de tal modo que se pudesse compreender a particularidade
de seu sistema teológico-religioso. Talvez se possa afirmar, em síntese, que os povos
indígenas compartilham entre si não uma religião, mas religiosidade, uma cosmo-
visão (sagrada) do mundo que é ritualmente socializada em festas, rituais de cura,
iniciações, fenômenos recorrentes e que envolvem os diferentes membros de cada
etnia ou são compartilhados com outros povos num sentido mais amplo.
Pode-se afirmar, então, que possuem um pensamento teológico-mítico, mas
não instituições religiosas formais como as conhecemos em outras sociedades.
Um primeiro elemento estruturante que chama a atenção é a figura de uma
liderança religiosa, identificada na literatura com os termos xamã ou pajé. Entre
os diferentes povos, o pajé, geralmente homem, mas em alguns casos também mu-
lheres podem assumir esta função, é aquela pessoa que transita entre o mundo dos
animais, o mundo dos espíritos e o mundo dos seres humanos. É a figura máxima
de uma estrutura religiosa e tem por função orientar a tribo sobre sua vida e fu-
turo, descobrir a causa das enfermidades, providenciar a cura ou, em certos casos,
provocar o mal em pessoas desafetas, geralmente, de outras comunidades. Entre os
Tupis, ele era considerado o médico, o curandeiro ou o vidente.
Em alguns casos, como entre os Xavantes, é também o sonhador. Há casos em
que um pajé identifica, através do ritual, um feitiço como causa da doença que
afeta a pessoa “enfeitiçada”.
Outra noção central da cosmovisão indígena é a de que todas as coisas pos-
suem dono ou, mais precisamente, um chefe que as protege. Este “dono” seria
uma espécie de guardião ao qual é necessário respeitar e, muitas vezes, pedir licen-
ça ou perdão quando se pretende utilizar ou consumir determinado bem natural.
Em virtude do desrespeito a estas entidades, os chefes dos diferentes grupos de
animais e das plantas podem ser causa de “feitiço” ou de morte.
Outra estrutura mítico-teológica que encontramos em diferentes culturas
ameríndias é a noção de que os conhecimentos e a domesticação de plantas advêm
do sacrifício pessoal de alguém, geralmente de uma divindade ou herói mítico.
Assim, como o cultivo de um vegetal implica trabalho e desgaste físico, a primeira
domesticação de uma planta é narrada com o sacrifício máximo de uma pessoa ou
entidade em função do grupo ou etnia.

capítulo 5 • 119
Para um diálogo profícuo com os povos e culturas indígenas, caberia rever
alguns dos principais dogmas do credo cristão. Existe uma referência ao Cristo
cósmico entendido como aquele encarnado que se torna libertador como uma
possibilidade aberta e rica para o diálogo com as comunidades indígenas e suas
espiritualidades.
A religiosidade indígena tem sua forma própria de interpretar o sobrenatural.
Não está apoiada em uma sistematização teológica ou em uma estrutura eclesial.
Sua relação com o divino ou Grande Espírito é aberta e inclusiva. É de fato, uma
religiosidade includente e “ecumênica”. Os indígenas ouvem o outro, cultuam
com o outro, e aceitam o outro, seja esse outro índio, padre, pastor ou místico.
Em suma, a vida do índio está impregnada de religiosidade.

Características das Religiões Indígenas


As principais características das religiões indígenas são:
a) anti-monopolistas, anti-ortodoxistas, caracterizadas por uma enorme
margem de liberdade aos seus praticantes;
b) não são religiões escritas, de sociedades que possuem tradição escrita.
Essa é uma das razões porque ali não há possibilidade do dogma;
c) a falta do livro com normas escritas, imutáveis, códigos de leis;
d) devido a dificuldade do idioma gera equívocos de tradução;
e) a aproximação à religião indígena é essencialmente indireta;
f ) estreita relação com a natureza: o homem é parte da natureza e a natu-
reza é parte do homem. Na sociedade industrial o homem é tratado como
objeto. Nas indígenas, os objetos como se fossem humanos;
g) a religião de cada grupo tende a ser hegemônica, pois geralmente são
pouco numerosos em relação a nossas sociedades e vivem isolados entre si;
h) a divindade é politeísta, enoteístas (acreditam nas suas próprias divin-
dades), pluralistas (reconhecem as divindades de outros grupos) e raras são
as que têm a noção de uma entidade superior individual;
i) é um mundo invisível composto de várias entidades espirituais, sem
uma entidade hierarquicamente suprema ou responsável pela criação das
demais;
j) O culto apresenta reificação do sagrado em objetos ou cultos, pouca
objetivação do sagrado.

capítulo 5 • 120
Teologia das religiões

É o ramo da Teologia que estuda as religiões em sua dinâmica, como se apre-


sentam e interagem entre si e com o mundo. Ela inicia a partir do quadro próprio
da pós-modernidade, em que identificamos o pluralismo religioso acentuado. A
teologia ecumênica das religiões vem ganhando destaque no debate atual. As raí-
zes dessa vertente teológica ganharam densidade ainda no século XIX, quando
os esforços missionários do mundo protestante na Ásia, África e América Latina,
motivados pela teologia liberal, descortinaram as questões ecumênicas e, mesmo
em meio às propostas verticalistas de missão, suscitaram oportunidades de diá-
logo inter-religioso, processos de aprendizagem e a fermentação de uma teolo-
gia ecumênica.

O caminho ecumênico, via de regeneração e unidade

A perspectiva ecumênica, tanto na dimensão intracristã como na inter-reli-


giosa, ganhou nas últimas décadas forte destaque nos ambientes teológicos. A
pressuposição é que ela é fundamental para toda e qualquer experiência religiosa
ou esforço teológico ou hermenêutico. Esta visão, quando vivenciada existencial-
mente é assumida como elemento básico entre os objetivos, altera profundamente
o desenvolvimento de qualquer projeto, iniciativa ou movimento religioso.
Daí o interesse pelos estudos ecumênicos. No tocante à teologia, em todos
os seus campos, o dado ecumênico suscita novas e desafiantes questões. Outro
aspecto da prática ecumênica é a fragmentação das experiências. Não há, ainda,
elementos de articulação destas iniciativas, tanto no âmbito intracristão como no
inter-religioso. No Brasil, elas têm sido vividas por todos os cantos do país, toda-
via de forma diversa, modesta, por vezes embrionária, outras vezes com dimen-
são política mais acentuada, outras vezes, não. Algumas experiências conseguem
continuidade, outras se fragilizam com a mudança da liderança religiosa. Umas
têm caráter mais eclesial/comunitário e gratuito, muitas estão em torno de grupos
para estudo da bíblia, no caso cristão, ou de formas mais espontâneas de espiri-
tualidade. Em alguns lugares, têm-se implementado projetos comuns de formação
religiosa e, em outros, projetos sociais e econômicos, construindo parcerias com
agências ecumênicas, comunidades cristãs e de outras tradições religiosas, na busca
por uma fé que incida publicamente na sociedade diante de suas questões, proble-
mas e propostas de transformação.

capítulo 5 • 121
Diálogo inter-religioso

Trata-se de um diálogo para discernir como a graça de Deus opera no coração


destes homens e mulheres de outras tradições; como eles e nós, de algum modo,
podemos atuar juntos no testemunho da verdade, da justiça, da paz, da promoção
humana; como nós podemos atuar juntos, como homens e mulheres religiosos, na
construção de uma cidadania, de uma sociedade justa. O diálogo inter-religioso
constitui-se de uma ferramenta de aproximação com as diversas religiões do mun-
do, cristãs ou não. É uma maneira de anunciar nossa fé, transformando o espaço
de “diálogo” em algo muito mais profundo do que a mera troca de informações
entre as religiões: trata-se de um espaço de anúncio evangélico.
É importante deixar claro, desde já, que o diálogo inter-religioso não é es-
paço para tentarmos “converter” outras pessoas à nossa fé, ou seja, tentar trazer
o outro para a nossa Igreja. Fazemos essa tarefa por vivência de nossa fé, e não
por imposição.

O pluralismo

O pluralismo religioso apresenta-se, hoje, com uma das questões decisivas


para a teologia cristã, a ponto de delinear uma fisionomia nova para a reflexão em
curso. Não há como fazer teologia, no século XXI, fora da interlocução criativa
com os diversos caminhos religiosos que vão se apresentando no tempo atual.
A novidade está em reconhecer a dignidade da diferença, acolhendo esse plu-
ralismo como um dado positivo no desígnio misterioso de Deus. O pluralismo
deixa de ser visto como expressão negativa, como dado conjuntural ou expressão
da cegueira dos humanos, para ser reconhecido como um fenômeno rico e fecun-
do. E a questão que se coloca para o cristianismo é o desafio de manter viva a sua
identidade própria colocando-se à disposição para a escuta e o diálogo construtivo
com as outras expressões religiosas.
Podemos dizer que o pluralismo é consequência do diálogo ecumênico e in-
ter-religioso. Neste diálogo, os envolvidos comprovam que a violência atual não é
parte da essência da religião, e sim uma contradição em relação ao que é próprio
da humanidade em sua relação com o que é absoluto.
O ambiente intelectual acolhedor do pluralismo religioso foi sendo progres-
sivamente gestado ao longo dos últimos três séculos, com a afirmação da moder-
nidade plural. É neste contexto que se dá uma nova percepção da comunidade

capítulo 5 • 122
global e do desafio da diferença: o crescimento do nível de informação sobre as ou-
tras tradições religiosas, de abertura de novos canais de conhecimento sobre a sua
realidade, a inédita proximidade com o mundo do outro, a crescente afirmação
do dinamismo de certas tradições religiosas e o fenômeno das imigrações em mas-
sa. Os primeiros sinais de uma perspectiva de abertura às religiões no campo da
teologia cristã ocorrem no âmbito da teologia liberal protestante, no século XIX.

Respeito e tolerância religiosa

A religião, a nossa, a do outro, enfim, todas devem ser mecanismos de inclu-


são, de busca do outro, de transcender as barreiras do individualismo. Quando a
religião vira instrumento de perpetuação de interesses pessoais, de egoísmo, passa
a ser mais uma ferramenta de guerra e divisões.
Em casos extremos, esse tipo de intolerância torna-se uma perseguição, sendo
definida como um crime de ódio que fere a liberdade e a dignidade humana. A
perseguição religiosa é de extrema gravidade e costuma ser caracterizada pela ofen-
sa, discriminação e até mesmo atos que atentam à vida de um determinado grupo
que tem em comum certas crenças. Enquanto “bons cristãos e honestos cidadãos
devemos também estar atentos às ferramentas sociais para inclusão e promoção do
respeito e da tolerância religiosa.
A grande questão não é a qual a religião correta a seguir, mas sim, o respeito
que deve existir entre os adeptos de cada crença. É preciso respeitar as diferenças,
seja em ambiente doméstico ou escolar. É preciso respeitar as escolhas do outro
individuo, seja ela semelhante ou diferente da sua. Respeitar o próximo, indepen-
dente de atitude, opinião ou crença. 

Proselitismo

Observamos, ainda, que podem confundir diálogo com proselitismo, ou seja,


fazer tudo para “trazer o outro para a minha Igreja”. O prosélito atua justamente
por falta de diálogo ecumênico. Segundo ele, quando os cristãos não dialogam,
não rezam juntos, não se unem para ouvir a palavra de Deus, criam distâncias.
Essa distância acaba atravessada por relações de mercado, de oposição. Então,
sem uma perspectiva de fé, de caridade entre cristãos, nós mesmos nos vendemos,
barganhamos essa perspectiva por outra. Esta tem sido invadida, sobretudo no

capítulo 5 • 123
Brasil, por um comportamento mercadológico. A fé se torna uma mercadoria e o
fiel se torna um cliente.
Infelizmente, é justamente por falta de um diálogo ecumênico sério que não
compromete, que não aproxima a gente na oração, que temos nos distanciado e
dado espaço, não para uma relação de comunhão, de cristãos, mas infelizmente,
para uma relação de concorrência .
O objetivo do diálogo ecumênico não é praticar o proselitismo, mas sim en-
tender que a essência da fé é a mesma e que a experiência vivida na fé do filho
de Deus pode corroborar com a propagação da mensagem de esperança nessa
sociedade tão tecnológica e plural, porém sofrida. Assim, o objetivo deste estudo é
tentar expor, com profundidade, a essência da fé e, assim, revelar a profundidade
bíblica do mistério de amar a Deus e ao próximo, cumprindo, dessa forma, o pri-
meiro grande mandamento

Criação do Conselho Mundial de Igrejas - CMI

É o principal instrumento de trabalho para a unidade dos cristãos. Necessidade


esa de comunhão e solidariedade apresentada pelos cristãos europeus após notar
como o ser humano, na civilização moderna, teve a capacidade de criar situações
destrutivas e belicosas para si mesmo.
O CMI, juntamente com os movimentos compostos pela Conferência
Mundial do Cristianismo Prático, Comissão de Fé e Ordem, Aliança Mundial
para a Amizade Internacional Através das Igrejas, Associação Cristã de Moços
e Moças e Federação Mundial de Estudantes Cristãos, iniciaram, na década de
trinta, um desejo de reunir todas as instituições em um único organismo. Esse
objetivo passou a ter forma quando o Movimento de Vida e Trabalho e a Aliança
para a Amizade Internacional passaram a ter um secretário-geral, a partir de 1932.
Em 1933, o Movimento de Vida e Trabalho propôs a criação de um grupo
especial que fizesse ponte entre eles e a Comissão de Fé e Ordem. Desde a primeira
Assembleia de Fundação do CMI, o número de delegados e igrejas-membro só
cresceu, e, a cada assembleia, os temas foram embasados no contexto contem-
porâneo da sociedade, para que, assim, revelasse para que veio e para que serve o
Conselho Mundial de Igrejas - CMI. Abaixo, possuímos os seguintes conselhos
de igrejas:
CMI - Conselho Mundial de Igrejas
KEK - Conselho Europeu de Igrejas

capítulo 5 • 124
CLAI - Conselho Latino-Americano de Igrejas
CONIC - Conselho Nacional de Igrejas Cristãs
Conselhos estaduais ou Regionais de Igrejas

O diálogo como caminho da paz

Desde os tempos das discussões sobre a Tese de Ário, a Igreja entendeu que era
necessário o diálogo e, nesse sentido, ocorreu o primeiro Concílio Ecumênico em
325, na cidade de Niceia, sob a liderança do imperador Constantino. As igrejas
cristãs, tanto do Oriente como do Ocidente, compareceram, representadas pelos
bispos, o que culminou na condenação das ideias arianas.
A partir dessa experiência, a Igreja experimentou o caminho do diálogo como
uma via que dá acesso à paz e à unidade. Isso perdurou até o primeiro cisma em
1054 e, após, com a Reforma Protestante, levando a uma experiência amarga da
separação e do não diálogo.
O diálogo não deve se abster do seu objetivo, ainda que o ambiente seja hostil
ao propósito, pois existem inúmeras tradições que são contrárias ao diálogo ecu-
mênico, pois desconhecem o histórico da proposta ecumênica..
O que sabemos é de uma parceria de boa vizinhança política e não de coope-
ração, comunhão e de unidade, conforme desejou o Senhor Jesus. A prática do
diálogo inter-religioso, no contexto atual, ainda soa como um ato subjetivo para
uma busca superficial de convivência em um mundo tão globalizado e plural,
porém essa necessidade de diálogo precisa ser aprofundada, para que, realmente,
possamos desfrutar da paz justa, pois, sem justiça, não há paz.
O século XX foi inaugurado com o seu Primeiro Conflito Mundial, herança
produzida pela falta de diálogo e de compreensão na sociedade humana, produ-
zindo uma dor incalculável naquela geração e, com o seu final, a triste realidade
da ganância dos vitoriosos do conflito, desencadeando o segundo embate e, dessa
vez, a perda humana foi incalculável.
Diante da pluralidade, surge a necessidade de superar, neste mundo globali-
zado, a partir do Capitalismo, uma cultura de conquista que impera e quer do-
minar todas as sociedades. Deparamo-nos, então, com o desafio de ver o diálogo
inter-religioso como ferramenta para conhecer o outro, porém necessitamos de
maturidade para realizar a abertura.
O diálogo irá visar uma prática de conhecimento, interação e experiência a
partir daquele que se dispuser a dialogar entre as comunidades religiosas que se

capítulo 5 • 125
propõem a essa abertura dialogal. A busca por essa prática só será possível quando
todos buscarem por uma ética comum a todos os homens, assim, a sociedade plu-
ralista vivenciará tempos dignos da sociedade humana, criação do próprio Deus.
O diálogo inter-religioso, nesse mundo plural, é um fato inevitável para a
produção de justiça e paz, pois a presença crescente de diversidade religiosa no
mundo é uma realidade incontestável e, com o avanço da tecnologia, as culturas,
os costumes e as religiosidades, outrora desconhecidas, tornaram-se expostas a
todos. O século XXI está sendo construído pela diversidade, isso traz uma res-
ponsabilidade ainda maior para a promoção da paz, pois, diante de tão grande
pluralismo, o desafio é desconstruir a manutenção de posicionamento de teoria e
expandir a compreensão religiosa. O caminho a percorrer não é um acesso livre,
mas de obstáculos e desafios que, ao final, proporcionará uma convivência de
compreensão e de paz.
Por esse motivo é que a prática do diálogo inter-religioso, como objeto de produ-
ção da paz, de convívio e harmonia é necessária e importante, principalmente após os
conflitos mundiais, pois a sociedade busca incessantemente caminhos para a paz.

Teologia do meio ambiente

A ecologia é uma tendência ou um assunto politicamente correto. Está em


questão a manutenção da vida sobre a Terra, incluindo a própria sobrevivência
humana que depende do meio ambiente. Os termos ecologia e meio ambiente são
conceitos mais recentes, que não são encontrados na Bíblia, não querendo dizer
que não haja menção ao tema, mas se houver aparece um tanto velado, não explí-
cito, de maneira discreta, indireta, ou ainda inserido em outro contexto
A Bíblia nos apresenta várias passagens nas quais encontramos Deus se repor-
tando à questão do cuidado com a natureza. Uma delas está em Gênesis (2, 15),
“Tomou, pois, Deus deu ao homem e o colocou no Jardim do Éden para o culti-
var e guardar”. Nesse mesmo versículo, o Senhor acrescenta: “... para o cultivar e
guardar”. Quando desrespeitamos a natureza, não utilizamos de forma sustentável
os rios, as florestas, o solo, o ar, aquilo que é necessário para a vida do planeta,
demonstramos a falta de importância dada às gerações futuras.
Há vários momentos na Bíblia em que Deus nos ensina claramente a respeito
do cuidado com a natureza. Ainda no Pentateuco, na elaboração da Constituição
do povo judeu, ele nos chama a cuidar do meio ambiente. Em Deuteronômio 22,
6, nos ensina a cuidar dos animais, quando diz: “Se de caminho encontrares algum

capítulo 5 • 126
ninho de ave, n’alguma árvore ou no chão, com passarinhos, ou ovos, não tomarás
a mãe com os filhotes”.

A influência da modernidade no abuso da natureza


O resultado destes anos de modernidade foi a retirada da boa energia da na-
tureza, o consequente empobrecimento da biodiversidade ecológica e a extinção
de muitas espécies de vida. A natureza vem sendo vista como objeto pelo homem
moderno, que ao mesmo tempo é manipulado e manipulador do sistema vigente.
O que temos na atualidade é a mudança do poder via interesses particulares.
No decorrer da história pode-se perceber a mudança de autonomia em relação
ao meio ambiente, que passa do estado e seu consequente poder para as empresas
internacionais, que ganharam cada vez mais terreno no espaço livre do mercado.
É impressionante o poder que tais empresas têm, vistos claramente na in-
fluência das políticas locais e no impedimento frente aos governos dos países, com
relação à proteção do meio ambiente.

Bíblia, meio ambiente e ecologia


A busca da compreensão de si é algo inato no homem. Este é o único ser vi-
vente que questiona por sua própria natureza e se põe a si mesmo como problema.
As narrativas bíblicas da criação são as principais, dentre as inúmeras formas de
compreensão da realidade, para se compreender o real significado do mundo e da
relação de interação deste com o homem.
Assim o texto sagrado, também, nos permite argumentar diante da realidade
de crise ambiental em que o mundo se depara. A Bíblia apresenta o conceito de
criação como vínculo com um ser único, com dignidade e nobreza para todos os
outros seres. Sendo um único ser criador, a orientação é igual para todas as criatu-
ras, sem diferença de cor, raça, sexo ou cultura (Gl 3, 28).
O meio ambiente não pode ser cuidado com critérios utilitaristas. Cultivar
a terra é a missão do ser humano, podemos afirmar que a relação da bíblia com
a ecologia e meio ambiente obedece a uma máxima inexorável: “Lembra-te que
és pó e ao pó voltarás!” (Gn 2, 7). A morte é a sentença mais justa que acontece
a todos os mortais, nivelando ricos e pobres, magnatas e beduínos, inteligentes e
incultos, crentes ou ateus.
Respeitar a natureza, como criação, não é apenas uma questão de religião, mas
consciência da relacionalidade, da transitoriedade da vida e de que nus viemos e
nus voltaremos, portanto, a simplicidade é o melhor caminho para a felicidade.

capítulo 5 • 127
O materialismo para a crise ecológica
O marketing é um dos elementos deste materialismo, onde o consumo é in-
centivado pela propaganda que propõe felicidade como fruto de satisfação rea-
lizada. A realidade é que o desejo humano é insaciável e requer mais e mais no-
vidades e o marketing potencializa este fato e gera no sistema vigente a exaustão
da natureza. A questão crítica do incentivo do materialismo incontrolável é que
vivemos no finito, e nunca devemos perder isto de vista. É certo que o crescimen-
to populacional e suas implicações ocorrem dentro de uma geografia finita. O
capitalismo se aproveita disto e, na busca pelo lucro a qualquer preço, alimenta
o pragmatismo, onde o fim justifica os meios, gerando esta gigantesca crise de
recursos e de energias.
A crise encontra espaço em todas as áreas da atuação humana e em cada uma
delas faz-se necessário uma reflexão que contemple a integralidade global diante
da perspectiva da exaustão e má qualidade que o meio ambiente afeta a tudo e
também a todos.

Desequilíbrio ecológico
As atuais ameaças ao meio ambiente, tais como o aquecimento global e as
mudanças no clima, a preocupação ecológica vem crescendo a cada dia. Essas
questões são ameaças, principalmente, à vida na superfície do planeta onde se
situa a vida humana, animal e vegetal. O planeta já passou por várias catástrofes
de ordem natural, dentre as quais podemos citar a extinção de espécies, desequilí-
brio ecológico e a degradação ambiental colocam em movimento certas forças da
natureza, cujo poder e magnitude são enormes e fogem ao controle humano. De
forma significativa, está em risco a sobrevivência dos seres humanos e seu modo de
vida, uma vez que é a espécie mais dependente da vasta gama de recursos naturais
que o planeta oferece.

Ecoteologia
Boff se baseia na moderna cosmologia que ensina que tudo tem a ver com
tudo em todos os momentos e em todas as circunstâncias. Assim, o ser humano
não pode considerar-se independente sem precisar dos demais, afastando-se e se
colocando sobre as coisas. Este deve sentir-se junto e com elas, numa imensa co-
munidade planetária e cósmica. O alvo é a recuperação da atitude de respeito e
veneração para com a Terra. O sagrado impõe sempre limites à manipulação do

capítulo 5 • 128
mundo, pois ele dá origem à veneração e ao respeito fundamentais para a salva-
guarda da Terra.
Cria a capacidade de religar todas as coisas à sua fonte criadora que é o criador
e o ordenador do universo desta capacidade religadora nascem todas as religiões.
Boff, argumenta que parte as causas do déficit da Terra se encontram no tipo
de mentalidade que revigora, cujas raízes alcançam épocas anteriores à nossa his-
tória moderna. Isto porque há, em nós, instintos de violência, vontade de domi-
nação, sombrios que nos afastam da benevolência em relação à vida e à natureza.
Dentro da mente humana se iniciam os mecanismos que nos levam a uma
guerra contra a Terra. Ele denuncia que nossa cultura é antropocêntrica, pois con-
sidera o ser humano rei ou rainha do universo.
Da perspectiva da ecologia integral, Boff propõe a Terra e os seres humanos
emergindo como uma única entidade. A saber, o ser humano é a própria Terra
enquanto sente, pensa, ama, chora e venera.
Leonardo Boff, propõe em seus ensinamentos sobre ecologia, articular o grito
do oprimido com o grito da terra, compreendendo que este tem sido o centro do
cristianismo na atualidade na América Latina.

Papel do ser humano


Segundo a bíblia, aqueles que destroem a Terra serão destruídos. “Iraram-se,
na verdade, as nações; então veio a tua ira, e o tempo de serem julgados os mortos, e o
tempo de dares recompensa aos teus servos, os profetas, e aos santos, e aos que temem o
teu nome, a pequenos e a grandes, e o tempo de destruíres os que destroem a terra. (Ap
11,18)
O Cristão deve estar informado e informar ao mundo acerca dos males que
causam por falta da educação ambiental na sociedade, isso porque Deus quer que
sejamos dignos de confiança, pois somos a sua imagem e semelhança conforme
Gn 1, 2. 
Nestas considerações é claro e notório que o povo de Deus está diretamente
compromissado com a preservação do meio ambiente. Portanto, o homem está
neste reflexo criador, ordenador e zelador dos bens de Deus.

Necessidade ética da Teologia do meio ambiente


Dentre as inúmeras instituições que se preocupam em destacar a atual situação
em que se encontra nosso planeta, existem relatos de esgotamento dos recursos
naturais em consequência da destruição do meio ambiente pelo seu colonizador,

capítulo 5 • 129
chamado homem. É certo que os resultados da ação destruidora do humano so-
bre a natureza se mostram na vida do próprio homem ou na ausência desta vida.
É cada vez mais normal assistir, por meio da mídia, às notícias frequentes sobre
o tema.
O objetivo jamais é radicalizar, partindo de uma visão pessimista. O intuito
é refletir sobre a necessidade de um equilíbrio da vida entre o homem e seu meio
ambiente, de modo que ambos possam sobreviver numa perspectiva cristã.
A dimensão ética cristã a respeito da criação poderá oferecer aos cristãos um
conjunto de princípios e condutas normativas que pode melhorar os relaciona-
mentos entre o cidadão, a sociedade e o espaço ambiental. Porém, o melhor de
tudo isso é a ação poderosa do amor que, em ação, rege e une perfeitamente todas
as coisas.
É dever de todos os cristãos, refletir não apenas no resgate dos perdidos, mas
também nos posicionarmos diante desse assunto que nos afeta direta e indireta-
mente, o qual terá repercussões sérias para as futuras gerações. Estar bem informa-
do sobre os dados publicados a respeito da situação de nosso planeta faz parte da
responsabilidade de cada cidadão para uma tomada de posição efetiva.

ATIVIDADES
01. Para a realização de um bom trabalho ecumênico e inter-religioso, qual a necessidade
de formar agentes para tal processo?

02. Podemos dizer que a teologia da libertação supera os limites confessionais?

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BINGEMER, Maria Clara. Teologia latino-americana: raízes e ramos. Petrópolis: Vozes, 2017.
BOFF, Clodovis. Teoria do método teológico: versão didática. 5.ed. Petrópolis: Vozes, 2004.
CARIAS, Celso. Teologia para todos: manual de iniciação teológica a partir de seus principais
temas. Petrópolis: Vozes, 2009.
FERREIRA, Franklin. Teologia cristã: uma introdução à sistematização das doutrinas. São Paulo:
Vida Nova, 2015.

capítulo 5 • 130
GONÇALVES, Paulo Sérgio Lopes; TRANSFERETTI, José. Teologia na pós-modernidade:
abordagens epistemológica, sistemática e teórico-prática. São Paulo: Paulinas, 2003.
LACOSTE, Jean-Yves. Dicionário crítico de teologia. São Paulo: Paulinas; Loyola, 2014.
LIBÂNIO, João Batista; MURAD, Afonso. Introdução à teologia: perfil, enfoques, tarefas. São
Paulo: Loyola, 2006

GABARITO
Capítulo 1

01. O método Teológico contribui para a compreensão de que os eventos da Revelação


estão inseridos em um período histórico, geográfico e cultural, e o estudo dessas realidades
irá aprimorar o conhecimento teológico. O método teológico promove a compreensão do que
se crê, a saber, a fé, pois a Teologia é precisamente a fé que deseja entender, porque sem o
estudo essa realidade pode se tornar supersticiosa. O método teológico deve conduzir ao es-
tudante de teologia a dar respostas sobre a razão da esperança por uma capacidade reflexiva
própria do intelecto humano em busca de Deus, baseando na atividade filosófica para cons-
truir e elaborar sua resposta a respeito do que Deus transmitiu na Sagrada Escritura, que tem
uma implicância na vida do homem, em sua atividade social, cultural, econômica e ecológica.

02. A teologia objetiva uma compreensão e aprofundamento nas verdades reveladas à luz
da razão pela fé. A fé é uma virtude sobrenatural e infusa por Deus na alma. Com efeito,
crer só é possível pela graça e pelos auxílios interiores do Espírito Santo. A teologia está
sempre em busca de uma verdade, ainda que não a possa encontrar de forma experimental
e no âmbito absoluto. A dúvida é um importante motor desta procura, desde que não destrua
a fé. Assim sendo, a pessoa pode refletir sobre a fé, seja de forma próxima e apaixonada,
ou de forma crítica e distanciada. Por isso, um grande perigo em toda e qualquer ciência, é
enfrentar o ceticismo ou o dogmatismo. Por isso, pode-se cair na negação de uma diferença
sustentável entre a opinião e conhecimento ou restrição do conhecimento científico a um
tipo muito específico de conhecimento.··.Para estudar a teologia a fé é um pressuposto para
que possa estudar e investigar a realidade da Revelação. É necessário fazer uma conversão,
uma mudança radical, como sujeito do estudo da Teologia.

capítulo 5 • 131
Capítulo 2

01.

OCIDENTE ORIENTE
CARACTERÍSTICA DA Reflexão prática
Reflexão especulativa-
TEOLOGIA -filosófica

Cada cristão segue seu


SALVAÇÃO De toda a humanidade
caminho de salvação

LITURGIA Diversificada Único rito

IDENTIDADE Construção gradual Herança grega

Pulverizado em reinos e
PODER feudos
Centralizado no Imperador

Evangelização e incor-
RELAÇÃO COM OS poração ao cristianismo,
Combate aos bárbaros e
BÁRBAROS inculturação
controle dos bizantinos

Amor ao conhecimento
ATIVIDADE Processo missionário de
e à beleza, debates
INTELECTUAL evangelização
filosóficos

Capítulo 3

01. Desafios na formação deste grupo (formulação de perguntas): há um número limite de


integrantes para o grupo? Há local e horário disponíveis para os encontros? Qual o objetivo
do grupo? Qual o interesse dos participantes? Como é o envolvimento entre os participantes
e a Igreja?
Fontes bíblicas e confessionais que ajudem nesta formação: Jr 1, 4-10; Mt 19, 16-22; Gl
1, 15-20; publicações de fundamentação do trabalho evangelizador da confissão.
Três ciências humanas e de que modo estas podem ajudar na formação: psicologia, com
informações sobre características da faixa etária; história, com o desenvolvimento dos con-
teúdos no tempo; sociologia, com a formação do grupo no lugar de sua origem.

capítulo 5 • 132
De que modo, a partir dos dados colhidos, os encontros podem ser organizados: encon-
tros semanais, em forma de módulos, envolvendo estudo bíblico, experiências pessoais e
momentos de convivência social.

Capítulo 4

01. Percebe-se que existe uma evolução pneumatológica em relação aos dois teólogos,
a partir de uma leitura do pequeno texto retirado de Congar, no que diz respeito ao campo
moral. Santo Agostinho reflete em vista de suas inquietações sobre o Espírito Santo e pelo
fato de pouco ter se falado até sua época sobre o assunto. Santo Tomás fundamentando-se
numa vasta reflexão pneumatológica já existente, orienta-se para a prática moral iluminada
pelo Espírito Santo por meio dos dons. Congar, afirma que Tomás se aplica em estabelecer a
função dos dons no exercício das virtudes teologais e morais. Ele vê, nas bem-aventuranças,
o ato perfeito das virtudes e dos dons.

02. O amor é o princípio de uma operação “apetitiva’. Se o amor for subtraído, não haverá
gozo nem tristeza, e, consequentemente, serão também subtraídas todas as outras opera-
ções apetitivas, que, de certo modo, referem-se ao gozo e à tristeza. Existindo, pois, em Deus
perfeito conhecimento, importa que nele haja também perfeito amor, cuja processão se ex-
prime por operação apetitiva, ao passo que a do verbo, por operação do intelecto.
Deve-se, contudo, considerar certas diferenças entre a operação intelectual e a apetitiva,
pois a operação intelectual, e absolutamente toda operação cognitiva, completa-se pelo fato
de o cognoscível existir de certo modo no cognoscente, a saber, o sensível nos sentidos e o
inteligível no intelecto.
Já a operação apetitiva completa-se segundo certa ordem ou movimento do apetente
ao objeto do apetite. Aquilo cujo princípio do próprio movimento é oculto recebe o nome de
espírito, assim como o vento é dito espírito, uma vez que o sopro não aparece. Também a res-
piração e o movimento das artérias, procedendo de um princípio intrínseco oculto, recebem
o nome de espírito. Daí que, convenientemente, na medida em que as coisas divinas podem
ser significadas por palavras humanas, o amor divino procedente recebe o nome de Espírito.
Entretanto, nas três pessoas divinas não existem três divindades diferentes em número,
mas é necessário que haja uma única e simples divindade, já que a essência do verbo e do
amor não é outra que a essência de Deus; e, assim, confessamos, não três deuses, mas um
único Deus, por causa da única e simples divindade em três pessoas.

capítulo 5 • 133
Capítulo 5

01. Há a necessidade de formar agentes qualificados de diálogo, entre clero, religiosos e lai-
cato. Nem sempre verificamos o devido cuidado a este respeito. No campo formativo, em que
atuam faculdades, Institutos e Centros teológico-pastorais, devemos superar a impressão
de que os responsáveis pelo diálogo sejam os professores de ecumenismo. É sempre bom
lembrar que os primeiros responsáveis são as lideranças, seguidas por pessoas qualificadas.
A decisão de cumprir esta solicitação, aliada à formação qualificada oferecida pelos Institutos
e Faculdades teológicas, é primordial para que o ecumenismo se torne parte integrante do
cotidiano das igrejas.

02. Sim, pois procura criar, já, desde as suas premissas, uma práxis comum, pela qual as
separações clássicas entre as igrejas devem perder a sua importância são superadas pelo
objeto da ação. Um teólogo da libertação afirma: “A luta de classes é um dado da realidade
e a neutralidade nesse ponto é absolutamente impossível”. É uma teologia da práxis no sen-
tido de reflexão sobre a própria ação concreta de libertação, iluminando com a luz da fé os
compromissos nessa práxis. Ela se deixa criticar pela própria práxis que ela ilumina e sobre
a qual ela reflete

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